O Livro de Jó – A artimanha do acusador

Ao tirar os bens, a família e a saúde de Jó, a estratégia de Satanás era fazer com que Jó, em defesa da sua integridade, substituísse a genuína justificação de Deus, que se alcança pela confiança na palavra de Deus, por uma justiça humana, baseada na moral e no comportamento ilibado do patriarca.


A artimanha do acusador

Parte V

Jó havia alcançado de Deus a condição de justo, pela confiança que depositava em Deus, não pela sua integridade moral.

Através do exarado nas Escrituras, sabemos que Deus só justifica o homem quando este confia na sua palavra. Por isso, é dito que Abraão creu em Deus e isso lhe foi imputado como justiça (Gn 15:6).

A justificação de Jó se deu, assim, como a justificação de Abraão, pois, este cria em Deus, que prometeu que o patriarca de Ur dos Caldeus seria pai de muitas nações e, aquele, por crer que o Seu Redentor vivia.

Por causa da confiança que Jó nutria em Deus, Satanás nada podia contra Jó, mesmo quando tirou todos os seus bens. Observe a maneira como o escritor do Livro de Jó narra o seu comportamento, quando ele perdeu tudo:

“Em tudo isso Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma!”

Quando Jó perdeu a sua saúde, o autor também deixou consignado:

“Em tudo isso não pecou Jó com os seus lábios!”

Satanás sabia que Jó não pecaria com os seus lábios, mesmo com a perda repentina dos seus bens, filhos e saúde, pois este era o testemunho do próprio Criador.

Os eventos que sucederam, repentinamente, na vida de Jó, foram fomentados por Satanás, com a única finalidade de reunir os amigos de Jó para uma visita, quando, efetivamente, iniciaria o principal ataque do adversário.

Todo o sofrimento imposto sobre Jó tinha, por objetivo, estabelecer um equivoco, quanto à verdadeira condição de Jó, diante de Deus.  Com base no julgamento que os amigos de Jó fariam, sobre a condição dele diante de Deus, atacariam, deliberadamente, a integridade que, por sua vez, se defenderia a si mesmo.

A integridade, a retidão, a honra e a reputação eram o maior patrimônio de Jó, tanto que ele compara a sua justiça com um manto e um diadema (Jo 29:14). Atingir os bens, a família e a saúde de Jó, só foi um meio de Satanás alcançar um fim: atacar o que era mais caro a Jó!

Sem se aperceberem, os amigos de Jó estavam a serviço de Satanás, lançando setas e armando laços, que levariam Jó a justificar-se a si mesmo. A finalidade de Satanás era fazer com que Jó lançasse mão de uma justiça própria, agarrando-se à sua integridade, em detrimento da justiça de Deus.

Ao tirar os bens, a família e a saúde de Jó, a estratégia de Satanás era fazer com que Jó, em defesa da sua integridade, substituísse a genuína justificação de Deus, que se alcança pela confiança na palavra de Deus, por uma justiça humana, baseada na moral e no comportamento ilibado do patriarca.

Acima da integridade e da retidão de Jó, está a justiça de Deus, que o homem só alcança, por meio da palavra de Deus. A confiança de Jó, expressa nas seguintes palavras: – “Porque eu sei que o meu Redentor vive e que, por fim, se levantará sobre a terra” (Jó 19:25), que nos remete à pessoa de Cristo – o autor e consumador da fé – demonstra que, assim como o crente Abraão (Gl 3:6), a sua crença é que era imputada por justiça, não a sua integridade e retidão.

Assim como Deus revelou a Abraão que, no Seu Descendente, seriam benditas todas as famílias da terra (Gl 3:16), Deus havia revelado a Jó que o Seu Redentor haveria de andar na terra dos viventes e, por ele, confessar: – “…eu sei …”, foi declarado justo por Deus, ou seja, justificado (Jo 1:1 e 2:3).

Satanás não atribuiu, diante de Deus, nenhum erro a Jó! E por que não o fez? Porque Satanás não podia fazê-lo, pois Deus mesmo declarou Jó justo. Sendo, pois, justificado por Deus, nenhuma condenação pesava contra Jó (Rm 8:1). Assim como os crentes em Cristo estão livres de toda condenação, por andarem segundo o espírito (evangelho), também, não pesava nenhuma condenação sobre Jó, por ele andar segundo a premissa de que o seu Redentor vivia.

Satanás alegou que a devoção de Jó era em função dos bens e da família que possuía, logo, ele não tinha opção, a não ser reverenciar a Deus. Satanás não acusa Jó e nem ataca o Criador, antes, faz alegações de que havia certa ‘cumplicidade’ entre Deus e Jó.

Esse argumento de Satanás, visava reunir os elementos necessários para um ataque ardiloso e não somente retirar os bens e a saúde de Jó. Satanás sabia que a vida de um homem não consiste na abundancia de bens e que o homem vive da palavra que sai da boca de Deus: “E disse-lhes: Acautelai-vos e guardai-vos da avareza; porque a vida de qualquer não consiste na abundância do que possui” (Lc 12:15); “…para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” (Dt 8:3).

As ciladas de Satanás são engendradas, a partir da ignorância do homem, acerca das coisas de Deus. Um dos elementos essenciais ao ataque de Satanás estava na repentina retirada dos bens, família e saúde de Jó, criando uma falsa aparência acerca da condição de Jó diante de Deus: “Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça” (Jo 7:24; Jo 8:15).

Satanás atuou em cima da ignorância dos amigos de Jó, que acreditavam que a justiça de Deus era retributiva, tendo por base a moral e o comportamento humano e, por isso, julgaram, falaram e acusaram, segundo os padrões humanos, não segundo a reta justiça.

“Lembra-te agora qual é o inocente que jamais pereceu? E onde foram os sinceros destruídos? Segundo eu tenho visto, os que lavram iniquidade e semeiam mal, segam o mesmo” (Jó 4:7-8).

Satanás não deixou de atuar e nem desapareceu, logo após tirar os bens, a família e a saúde de Jó, como se satisfizesse em infligir sofrimento atroz a Jó. Restava algo de maior importância para Satanás roubar: a salvação:

“Eis que venho sem demora; guarda o que tens, para que ninguém tome a tua coroa” (Ap 3:11).

Além de armar a cilada, Satanás animou a discussão dos quatro amigos, ao, em sonho, fazer algumas perguntas despretensiosas acerca da justiça de Deus, que Elifaz contou logo no início da discussão (Jó 4:15-17). Em certo ponto da discussão, Jó desconfia da irritabilidade dos seus amigos ao acusá-lo (Jó 16:3).

Trazer os amigos foi uma tática, pois Satanás esperava que Jó se defendesse das acusações e das provocações de seus amigos. Durante o debate, Jó percebe que havia algo de errado na animosidade de seus amigos, no entanto, só no último discurso ele questionou:

“E de quem é o espírito que saiu de ti?” (Jó 26.4)

Satanás só deixou de atuar quando viu que Jó está prestes a lançar mão do pecado de rejeitar a justiça de Deus, agarrando-se à sua integridade. Quando faz o seu discurso, evidenciando o seu ‘eu’: Eu livrava os pobres, eu fazia rejubilar o coração das viúvas, eu era o olho do cego, etc., Jó esteve próximo da ruina (Jó 29:12-17). Quando propôs que Deus o pesasse em uma balança fiel, e assim, aferisse a sua integridade, quase os pés do patriarca se resvalaram (Jó 31:6).

Como nem a morte, nem os anjos ou, alguma outra criatura, podem separar o homem do amor de Deus (Rm 8:38 -39), a cilada de Satanás consiste em fazer com que o homem rejeite a justiça de Deus. Como? Naqueles que tem moral elevado, Satanás busca meios de evidenciá-lo, em detrimento da justiça de Deus. Já os de comportamento reprovável, Satanás fomenta o sentimento de que não são merecedores da misericórdia divina.

Evidenciar no coração do homem uma justiça própria, através de um sentimento de que é merecedor de boas dádivas, é uma das artimanhas que Satanás se utiliza para fazer com que o homem se afaste de Deus. Estabelecer no coração do homem um sentimento de comiseração pelas falhas, é outra estratégia de Satanás para fazer com que o homem rejeite o perdão de Deus.

Satanás nada tem, portanto, nada pode oferecer ao homem, entretanto, ele utiliza a tática de fazer o homem lançar mão, antecipadamente, do que lhe foi reservado. Foi dessa maneira com Eva. Deus havia reservado o conhecimento do bem e do mal para o homem, para quando alcançasse a semelhança do Altíssimo, mas Satanás enganou Eva que, antecipou-se e comeu do fruto. Eva, juntamente com Adão, alcançou o conhecimento do bem e do mal, mas perdeu, junto com o seu marido, a comunhão com o Criador.

Satanás usou essa mesma tática com Jesus, a quem Deus prometeu as nações por herança e os fins da terra por possessão (Sl 2:8), quando prometeu dar os reinos do mundo, se prostrado o adorasse (Mt 4:8). Os reinos do mundo pertencem ao Pai e ao seu Filho, portanto, Satanás ofereceu o que não tinha:

“E o reino, o domínio e a majestade dos reinos, debaixo de todo o céu, serão dados ao povo dos santos do Altíssimo; o seu reino será um reino eterno e todos os domínios o servirão e lhe obedecerão” (Dn 7:27).

Outra artimanha de Satanás engendrada, em função da falta de conhecimento do homem, está em fomentar a busca por algo que já possui. Ao crer em Cristo, o crente é circuncidado com a circuncisão de Cristo, que consiste em lançar fora toda a carne,  não somente o prepúcio do corpo (Cl 2:11). Satanás, por sua vez, oferece a circuncisão do prepúcio da carne, como meio de se alcançar a salvação (At 15:1).

Em nossos dias, uma das artimanhas de Satanás consiste em negar a eficácia do evangelho, através de um evangelho de aparências, firmado em preceitos de homens:

“Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te” (2 Tm 3:5; Cl 2:22-23).

O homem de sã consciência não rejeita a justiça de Deus, simplesmente, dizendo ‘não’. Na verdade, Satanás utiliza-se de homens que não estão ligados à cabeça, que é Cristo (Cl 2:19), engana os incautos com palavras persuasivas, segundo os rudimentos do mundo e as suas vãs filosofias.

As acusações ferrenhas dos amigos de Jó evidenciaram, no coração, a sua integridade, o que levou Jó a se comparar aos demais homens, a ponto de achar que era merecedor de uma sorte melhor, em função da sua integridade (Jó 30:26).

Se Jó continuasse só e na cinza, sem a visita de seus amigos, não teria a sua própria justiça evidenciada. Vieram os seus amigos, julgando segundo a aparência, o que despertou em Jó a necessidade de provar a sua integridade.

“À minha justiça me apegarei e não a largarei; não me reprovará o meu coração, em toda a minha vida” (Jó 27:6).

Se tivesse desprezado a afronta de ser taxado de pecador, Jó não se agarraria à sua integridade e nem acusaria a Deus, de ter negado justiça a ele (Jó 27:1). Cristo, sendo justo, deu-nos exemplo, ao desprezar a afronta:

“Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta e assentou-se à destra do trono de Deus” (Hb 12:2).

 

Não podemos ignorar os ardis de Satanás

Além de conhecer a pessoa de Jó, por observá-lo, constantemente, Satanás conhece os atributos de Deus. O conhecimento que detém, decorrente da sua constante observação, é a fonte do poder que dá força à atuação de Satanás.

Satanás desejava separar Jó da comunhão com Deus, por isso, escolheu um ponto vulnerável, a fim de desferir o seu ataque. Sabedor de que Jó prezava mais a sua integridade do que a sua própria vida e bens, e que tanto Jó quanto os seus amigos não conheciam plenamente, como se dá a justificação, Satanás estava de posse dos ingredientes necessários para fomentar a queda de Jó.

No ataque, Satanás, geralmente, se utiliza daquilo que o homem mais preza nesta vida, para fazer o homem demover da sua esperança e de Deus e, por conseguinte, abrir mão da salvação.

  • Era de conhecimento de Satanás que Jó amava a Deus e que a sua integridade ocupava uma posição de destaque em seu coração;
  • Ele, também, sabia que o conhecimento que Jó detinha, a respeito da justiça de Deus, era distorcido;
  • Satanás sabia da religiosidade dos amigos de Jó, que eram propensos a julgar pela aparência.

Através do conhecimento que possuía, simplesmente, por observar continuamente a Jó, Satanás reuniu os elementos necessários para montar uma estratégia, a fim de tentar derrubar a Jó. A brecha para a ação de Satanás estava na falta de conhecimento dos quatro amigos, acerca das coisas de Deus!

Todos os elementos que Satanás utilizou contra Jó, também foram utilizados contra Adão e Eva.

Eva detinha plena liberdade, por ter pleno acesso à árvore do conhecimento do bem e do mal. A liberdade plena foi dada pelo Espírito de Deus, que disse: “De toda árvore do jardim poderás comer livremente…” (Gn 2:16).

O livre arbítrio é um dom irrevogável que Deus deu aos homens, pela liberdade de decidir-se por obedecer a Deus ou, não.

Através de uma pergunta, aparentemente, inocente, Satanás apresentou-se a Eva, evidenciando, astutamente, uma dura restrição: “É assim que Deus disse: ‘Não comereis de toda a árvore do Jardim?’” (Gn 3:1).

Deus falou ao homem, dando-lhe plena liberdade, e Satanás, através de uma pergunta,  evidencia uma proibição total. O aparente desconhecimento de Satanás, acerca do que Deus disse, deu confiança à mulher, de modo que ela passou a ensiná-lo.

Satanás introduz a troca, a negar o que Deus disse. O homem tinha plena liberdade e Satanás evidenciou a possibilidade ser como Deus, conhecendo o bem e o mal. A comunhão com Deus é a essência da liberdade e o homem abriu mão da liberdade, para ter conhecimento do bem e do mal.

Após comer o fruto, o homem adquiriu conhecimento do bem e do mal, tornando-se como Deus, mas perdeu a comunhão, por conseguinte, a liberdade. Satanás enganou o homem, tirando a vida decorrente da comunhão com o Criador, substituindo pelo conhecimento, que nada agrega, se não tiver comunhão com Deus.

O homem deixou de confiar no aviso de Deus: “… porque no dia em que comeres do fruto, certamente morrerás”. Rejeitar a palavra de Deus é o maior erro que o homem pode incorrer. Deixar de crer em seu Senhor, para acreditar em seus próprios sentimentos e percepções.

A mulher viu que a árvore era boa para comer, agradável aos olhos e desejável para dar entendimento e deixou de confiar em Deus, para confiar em seus sentidos, sentimentos e desejos.

Na história de Jó são demonstrados todos os elementos das artimanhas satânicas, que é fazer o homem substituir o que é concedido por Deus, por algo que o homem tem em alta conta.

O apóstolo Paulo alerta, ao argumentar que, para os cristãos não serem vencidos, que não podiam ignorar os seus ardis. Quem ignora, desconhece ou não compreende a ação de Satanás, estará fadado à derrota.

A intenção de Satanás, era fazer Jó atribuir a Deus uma falta (Jó 1:22), tanto que uma das notícias das calamidades chegou a Jó como sendo fogo de Deus, que havia atingido os seus servos e gados.

Não seria injustiça da parte de Deus deixar uma pessoa correta sofrer? Satanás sabia que Jó não se deixaria levar por um argumento tão simplório, mas ele também sabia que o ataque dos amigos de Jó poderia minar a sua confiança em Deus, pois, para defender-se, teria que lançar mão de uma justiça própria:

“Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira, porque está escrito: Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor” (Rm 12:19).

Satanás procurou minar a confiança que Jó nutria em Deus, através das considerações implacáveis dos seus amigos.

“As tuas palavras firmaram os que tropeçavam e os joelhos desfalecentes tens fortalecido. Mas agora, que se trata de ti, te enfadas; e tocando-te a ti, te perturbas” (Jó 4:4-5)

Satanás arquitetou uma armadilha para fazer Jó se sentir desamparado por Deus, e assim, em sua defesa, recorreria à sua integridade, negligenciando a justiça de Deus.

Após compreender do que trata o Livro de Jó, analisaremos, detalhadamente, as queixas de Jó e as recriminações dos seus amigos.

 

Continua….

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O Livro de Jó – A cilada de Satanás

Fazer um paralelo entre a história de Jó e as literaturas antigas produzidas na Grécia, com base nas queixas dos personagens, em decorrência do sofrimento, é temerário, pois, a dor, o sofrimento e a angústia são sensações físicas ou psíquicas iguais em todos os homens, portanto, quando descritas, as perspectivas são equivalentes.


 

Considerações sobre o sofrimento de Jó

Parte III

As riquezas, a família e a saúde foram arrancadas abruptamente de Jó sem um motivo aparente. E o que relata a Bíblia? Em tudo isso Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma.

O sofrimento afetou o equilíbrio emocional de Jó, mas não tirou a sua confiança em Deus.

A compreensão que Jó tinha a respeito da existência do homem neste mundo e das dádivas que Deus concede pelo fruto do trabalho, era firme. Para Jó, tudo pertence a Deus e, se alguém tem alguma coisa, é porque recebeu de Deus.

“O Senhor o deu e o Senhor o tomou, bendito seja o nome do Senhor!” (Jó 1. 21).

Jó se posiciona como servo diante do senhorio de Deus, quando diz que o Senhor deu e o Senhor tomou, e o louva por tudo.

O sofrimento e a perda de bens materiais não afetou a confiança de Jó em Deus, porém, o mal que sobreveio sobre ele, afetou sobremaneira os seus amigos. Quando avistaram a condição de Jó, lamentaram e choraram, em alta voz, e permaneceram sete dias, sem dizer uma palavra sequer, sentados em cinzas e com os mantos rasgados (Jó 2:12). Era evidente a má sorte de Jó, entretanto, os consoladores não conseguiram segurar a emoção que a tristeza provocou.

Satanás vive observando, diuturnamente, os homens e identificou o bem mais precioso na vida de Jó. O sofrimento foi somente uma distração, enquanto o ponto principal seria atacado com todas as forças pelo adversário.

O sofrimento impressionou muito mais os amigos de Jó, do que o próprio Jó. Por quê? Porque o sofrimento de Jó foi um quadro meticulosamente arranjado por Satanás, para a contemplação e a estupefação dos amigos de Jó. Eles avistaram Jó, de longe, e não o reconheceram. Eles viram que a dor de Jó era muito grande e isso os tocou, profundamente.

O quadro aflitivo de Jó foi delineado para estabelecer uma cilada, que tragou primeiro os amigos de Jó pela estupefação e, posteriormente, se voltaram contra Jó para justificar a Deus. O sofrimento foi uma cilada que enlaçou, sentimentalmente, os amigos de Jó e, assim, guiados pelos sentimentos e emoções, foram conduzidos a fazer julgamentos segundo padrões humanos.

Satanás já aguardava um julgamento precipitado dos três amigos, ao exibir um justo sofrendo. Diante daquele quadro aflitivo, os amigos de Jó só tinham duas opções viáveis a considerar:

a) Deus é justo e Jó está em pecado;

b) Jó não está em pecado e Deus não estava sendo justo.

Ora, sem mais delongas, os amigos de Jó se posicionaram em defesa de Deus e emitiram um juízo, segundo o que era aparente. Eles julgaram, precipitadamente, a condição de Jó e foram unânimes ao concluir que Jó estava em pecado.

A conclusão equivocada dos amigos de Jó era o elemento que Satanás precisava para iniciar um ataque à integridade de Jó. Após Jó manifestar a intensidade da sua dor, o primeiro amigo dele deixa de considerar a aflição de Jó e passa a fazer considerações acerca da justiça de Deus.

É admirável como a grande maioria dos leitores do Livro de Jó se identifica com os sofrimentos desse homem, mesmo não tendo passado por nada parecido. Muitos questionam: – Como um homem pode suportar tanto sofrimento e continuar integro diante de seu Deus?

É próprio dos homens se identificarem com os problemas alheios, principalmente diante de alguém que mantém um comportamento altruísta. O sentimento de empatia leva os homens a analisarem e se compararem com o outro, imaginando qual seria o seu comportamento, frente aos mesmos sofrimentos.

O sofrimento toca profundamente os homens e causa uma espécie de fixação. O homem se detém, geralmente, no que pode ver, ouvir e sentir pela empatia e deixa de considerar a questão segundo a revelação das Escrituras.

O sofrimento de Cristo na cruz comove multidões, entretanto, as pessoas, na sua grande maioria, não conseguem visualizar o amor de Deus e a justiça que Deus proporcionou para a humanidade.

O elemento mais importante para a humanidade na cruz é a obediência de Cristo e o sofrimento, a maior provação para o Cristo, que teve que desprezar a afronta, pelo prémio que lhe estava proposto.

A visão humana só alcança o que é temporal, passageiro e efêmero, e o sofrimento é uma das principais impressões que fixa, privilegiadamente, uma ideia na mente do homem. Uma má leitura do livro de Jó deixa a impressão de que o livro trata do sofrimento de um homem que, em última análise, não era merecedor.

Entretanto, no Livro de Jó Deus revela algo grandioso, que diz respeito às coisas eternas, às quais o pensamento do homem não poderia alcançar, se Deus não o revelasse, pela sua palavra. O sofrimento de Jó serve a um propósito infinitamente superior!

Por mais que o homem seja diligente em suas realizações, Deus nada deve ao homem. A única exigência de Deus para com o homem é que confie, ou seja, descanse n’Ele.

A exigência de Deus para se alcançar a sua justiça está bem ilustrada em Abraão, que creu em Deus e isso foi lhe imputado por justiça.

Vale destacar, aqui, algumas considerações acerca do sofrimento, em vista do que contém o livro ‘Jó: O Problema do Sofrimento do Justo e o seu Propósito’[1], do Pr. Claudionor de Andrade, que cita outros autores.

  1. O sofrimento que Satanás impingiu sobre Jó não pode ser considerado uma forma de Deus se ‘justificar’ frente às acuações de Satanás. Deus não se justifica com ninguém, pois todas as suas obras são, juntamente, justas e boas. Deus permitiu o sofrimento na vida de Jó para deixar uma lição valiosa para a humanidade, que é muito superior ao sofrimento de um homem. Jó estava à disposição de Deus na condição de servo.
  2. O sofrimento na vida de Jó é detalhe, portanto, jamais o leitor do Livro de Jó pode se deixar levar pelo pensamento de que o sofrimento serve para purificar o homem. É uma ideia equivocada entender que a mente humana finita, frente ao propósito de Deus, torna impossível saber o motivo de um justo sofrer. O sofrimento não transforma e nem aperfeiçoa ninguém. Não há poder transformador ou regenerador no sofrimento, como alguns alegam. A redenção e purificação do homem estão no evangelho de Cristo, que é poder para salvação do que crê.
  3. A grandeza do evangelho é infinitamente vasta, se comparado este com o sofrimento de um justo. Ora, se o homem está apto a compreender o evangelho, não estaria apto a entender o sofrimento de um justo? O sofrimento é plenamente compreensível!
  4. Há quem diga que Deus confiou em Jó e que, por isso, submeteu Jó a uma prova. Sabemos que Deus requer dos homens, que confiem em sua palavra, que é fiel e justa, jamais o contrário. Porém, como alguém onisciente pode confiar num homem, se é sabedor de todas as coisas?
  5. Deus não usou o sofrimento de Jó para derrotar Satanás, antes para deixar uma lição para a humanidade. O sofrimento que sobreveio sobre Jó não é resultado de um duelo entre Deus e Satanás. O Criador jamais se opõe às suas criaturas, mesmo contra Satanás. Em Cristo, a vitória da Igreja já estava estabelecida, pois Ele é o cordeiro de Deus morto, desde a fundação do mundo, antes da fundação do mundo.

 

A história de Jó e outros textos do Oriente Antigo

Para alguns estudiosos, o tema do Livro de Jó não é genuinamente israelita, mas uma reprodução de uma ideia comum a todo o Oriente.[2] [3] Esses eruditos partem da premissa de que outros textos antigos trabalharam, a seu modo, o problema do sofrimento humano, vez que Jó poderia ser um não israelita oriundo de Us.

Ora, Abrão não era israelita quando foi chamado por Deus, pois era um caldeu da cidade de Ur e tal fato não pode ser tomado como evidência de que as instruções que o gentio Abrão recebeu de Deus tem raízes ou paralelo com qualquer pensamento produzido na caldeia.

Atribuir ao Livro de Jó semelhanças, até mesmo com as tragédias gregas,[4] por entenderem que o tema do Livro de Jó é o sofrimento humano, só evidencia a gana dos estudiosos em estabelecer um paralelo entre o personagem bíblico Jó e alguns personagens das tragédias gregas, como exemplo: Prometeu, Ésquilo e Édipo rei, de Sófocles.

Considerando que as tragédias gregas não possuem finalidade didática e que, apesar de poder causar a ‘catarse’[5] das emoções dos espectadores, este não era o seu objetivo; portanto, já temos um contra ponto à tentativa de se estabelecer semelhanças entre a história de Jó e as tragédias gregas.

A história de Jó possui viés didático, ou seja, introduz questionamentos acerca da justiça de Deus, para apresentar ao leitor um conhecimento impar, que somente Deus pode revelar, pois, o conhecimento que há no Livro de Jó, não tem paralelo com qualquer elucubração da mente humana.

Analisando a história de Jó, apesar do caráter irretocável do personagem, a mensagem do livro não é de cunho moralizante ou prescritivo de comportamento, como se observa na arte renascentista, pela má leitura que fizeram das tragédias gregas, malogro que se repete nas ‘tragédias’ shakespearianas[6].

Enquanto os artistas literários[7] da Grécia produziam as suas obras trágicas centradas na imitação, ou mímēsis[8], séria, completa e de certa magnitude, tendo a forma da composição artística a ação e não a narração, de modo a evocar emoções, como a piedade e o terror dos espectadores, os artistas Renascentistas, com destaque para os trabalhos de Shakespeare, tinham o viés de apresentar o protagonista da estória, confrontado com sua própria culpa.

Colocar Jó e Édipo, lado a lado, é um despautério, pois, apesar de, nas tragédias gregas, os heróis serem homens de elevada reputação ou, posição social, Jó é descrito como inigualável, pelo testemunho dado por Deus:

“Porque ninguém há na terra semelhante a ele” (Jó 1:8).

Enquanto o personagem e a história de Édipo são fruto da imaginação do homem, Jó é um personagem histórico que habitou na terra de Uz. Este é um personagem histórico, aquele um personagem literário fictício que idealiza homens da vida real.

A prosa no Livro de Jó, que introduz o diálogo entre Jó e seus amigos, redigido em forma de poesia, não depõe contra a literalidade da história – embora há quem lance mão dessa peculiaridade, para dizer que sim – antes reveste de importância a história de Jó.

Os discursos em forma de poema são uma ferramenta de proteção e preservação das ideias que são apresentadas pois, as poesias hebraicas, através dos seus paralelismos, estabelecem travas lógicas que favorecem a preservação do texto.

O Livro de Jó tem, como pano de fundo, o sofrimento, assim como muitas outras estórias oriundas do imaginário humano. As estórias trazem no seu bojo o sofrimento, pelas emoções que evocam aos espectadores.

Já, o sofrimento de Jó, foi utilizado para fins didáticos e não para impingir o terror ou a piedade pois, tudo que as Escrituras contêm, para o nosso ensino foi escrito:

“Porque tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que, pela paciência e consolação das Escrituras, tenhamos esperança” (Romanos 15:4).

Estabelecer um paralelo entre a história de Jó e as literaturas antigas produzidas na Grécia, com base nas queixas dos personagens, em decorrência do sofrimento, é temerário, pois, a dor, o sofrimento e a angústia são sensações físicas ou psíquicas iguais em todos os homens, portanto, quando descritas, as perspectivas são equivalentes.

No entanto, diferente de Édipo, a história de Jó não foi engendrada, tendo as Moiras como pano de fundo, e nem evoca os meandros do fatalismo. O Deus do Livro de Jó não se sujeita ao Destino, um dos deuses da mitologia grega que sobrepuja todos os outros deuses e perante o qual os outros se curvam. Diferentemente, dos deuses da mitologia Grega, o Deus de Jó não se compraz em fazer a humanidade sofrer.

Édipo, ao descobrir a trama que estava envolto, rende-se[9] diante da sua impotência e miserabilidade traçada pelo Destino[10]. Diferentemente, ao contemplar a grandeza de Deus e ser instruído, Jó se arrepende de ter tecido comentário desairoso sem o conhecimento necessário (Jó 42:3-4).

Deus, no Livro de Jó, é o mesmo Deus que se revela por todas as Escrituras, e nada tem a ver com os deuses da mitologia grega e o fatalismo, concepção tão cara àquela sociedade.

O Livro de Jó deve ser visto a partir da seguinte premissa:

“Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam. Ninguém, sendo tentado, diga: de Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta. Mas, cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência” (Tiago 1:12-14).

 

Continua…


[1] “William W. Orr resume, assim, o assunto central de Jó: “Satanás acusou Deus de não ser correto na sua maneira de tratar o homem. Para justificar-se, Deus permitiu que Satanás afligisse esse abastado homem do Oriente”. Gleason L. Archer, Jr. faz uma interessante análise do tema de Jó: “Este livro trata com o problema teórico da dor na vida dos fiéis. Procura responder à pergunta: Por que os justos sofrem? Esta resposta chega de forma tríplice; I) Deus merece nosso amor à parte das bênçãos que concede; 2) Deus pode permitir o sofrimento como meio de purificar e fortalecer a alma em piedade; 3) os pensamentos e os caminhos de Deus são movidos por considerações vastas demais para a mente fraca do homem compreender, já que o homem não pode ver os grandes assuntos da vida com a mesma visão ampla do Onipotente. Mesmo assim, Deus realmente sabe o que é o melhor para sua própria glória e para nosso bem final. Esta resposta é dada em contraste aos conceitos limitados dos três consoladores de Jó: Elifaz, Bildade e Zofar”. Escreve Henry Hampton Hailey: “Ao lermos o livro de Jó, do começo ao fim, devemos nos lembrar de que Jó nunca soube por que sofria —nem qual seria o desfecho. Os dois primeiros capítulos de Jó nos explicam por que isso aconteceu e deixam claro que a causa de seus sofrimentos não era algum castigo por pecados, mas, sim, a provação de sua fé —Deus tinha plena confiança dê que Jó seria aprovado”. Andrade, Claudionor de, Jó: O Problema do Sofrimento do Justo e o seu Propósito, Rio de Janeiro, Editora CPAD, 2ª edição, 2003, pág. 14. (Grifo nosso).

[2] “De uma série de textos paralelos do antigo Oriente se depreende que o livro de Jó não trata de um tema genuinamente israelita, mas comum ao Oriente. Há, hoje documentos, textos do 3º milênio ao séc. V a. C. que abordam o ‘problema de Jó’, de formas diferentes e com ênfases temáticas distintas (…) De maneira similar ao procedimento dos trágicos gregos ou dos poetas modernos (p. ex., Goethe, Fausto), o autor da forma mais antiga da narrativa de Jó deve ter recolhido uma lenda popular para trabalhar seu tema”. Zenger, Erich e outros, Introdução ao Antigo Testamento, Edições Loyola, São Paulo, 2003, págs. 296 e 297.

[3] “O presente artigo analisa o Livro de Jó, enquanto expressão do conjunto maior da tradição sapiencial do antigo oriente próximo. Pretendemos demonstrar a sua intimidade com fontes literárias egípcias e mesopotâmicas”. Leite, Edgard, O silêncio de Jó: O Livro de Jó e a crítica sapiencial à teologia sacerdotal. Revista Brasileira de História das Religiões. ANPUH, Ano IV, n. 10, Maio 2011 – ISSN 1983-2850 < http://www.dhi.uem.br/gtreligiao /index.html >.

[4] “Se alguma novidade existe neste meu trabalho, é a tentativa de esboçar, na presente introdução, um pouco mais extensivamente, certa semelhança que existe entre o Livro de Jó e a Tragédia Grega, sublinhado, de modo especial, um impressionante paralelismo entre Jó e o Prometeu de Ésquilo, fazendo também algumas referências ao Édipo Rei de Sófocles (…) Não se trata de uma obra histórica: Jó é o nome fictício do personagem central de uma parábola, este gênero literário oriental tão ao gosto de Jesus, que o empregou no episódio do Filho Pródigo e em outras narrativas suas”. Lima, Héber S., Jó… quando o espinho floresce, Edições Loyola: São Paulo, 1995, pág. 10.

[5] “É fundamentalmente não-grego, atribuir qualquer impulso específico, didático ou terapêutico à criação artística, em geral ou, a algum artista em particular. A Poética pode falar da catarse de emoções, mas este é o (possível) efeito da tragédia e não seu propósito intrínseco” McLeish, Kenneth, Aristóteles: a Poética de Aristóteles, tradução de Raul Fiker. – São Paulo, Editora UNESP, 2000, pág. 12.

[6] “Os conceitos de Aristóteles de anagnorisis (‘reconhecimento’) e peripeteia (‘reversão’) foram tão mal compreendidos na época do Renascimento, quanto sua concepção de hamartia – de fato, numa sequência partindo e se desenvolvendo da má compreensão anterior”. McLeish, Kenneth, Aristóteles: a Poética de Aristóteles, tradução de Raul Fiker. – São Paulo: Editora UNESP, 2000, pág. 32.

[7] “A tragédia é a imitação de uma ação importante e completa, de certa extensão; deve ser composta num estilo tornado agradável pelo emprego separado de cada uma de suas formas; na tragédia, a ação é apresentada, não com a ajuda de uma narrativa, mas por atores. Suscitando a compaixão e o terror, a tragédia tem por efeito obter a purgação dessas emoções” Aristóteles, A arte Poética, capítulo VI.

[8] “A mimesis, o processo principal das artes, era uma questão menos de doutrinação moral que de imitação (seletiva) da realidade (…) As ‘lições’ de literatura, na época de Aristóteles, não menos do que hoje, são oblíquas em vez de diretas e não prescritivas; não há mais obrigação de alguém tentar, na vida diária, viver à altura das excelências ou, evitar os excessos ali descritos, do que há a emular as qualidades ‘ideais’ representadas por (digamos) escultores como Fídias ou Canova. Esta é a luz sob a qual todas as afirmações de Aristóteles, na Poética, devem ser tomadas. A tragédia não é dogmática; a saúde moral da audiência não é sua preocupação primeira”. McLeish, Kenneth, Aristóteles: a Poética de Aristóteles, tradução de Raul Fiker. – São Paulo, Editora UNESP, 2000, pág. 13.

[9] “A anagnorisis, na tragédia antiga, assume duas formas. A primeira é uma simples admissão de que os personagens na peça reconhecem a verdade quando ela lhes é mostrada, revelando uma compreensão do padrão universal que eles nunca tiveram antes. As peças são salpicadas com expressões como ‘Finalmente, compreendo’ ou ‘Eu que estava cego, agora vejo’ ou ‘Ouvimos e obedecemos’ …” McLeish, Kenneth, Aristóteles: a Poética de Aristóteles, tradução de Raul Fiker. – São Paulo, Editora UNESP, 2000, pág. 32.

[10] “Édipo, em Édipo, Rei de Sófocles, frequentemente tomando como o arquétipo de um herói, cuja hamartia moral deriva da hybris (‘ele deliberadamente zomba do Destino’) é, na verdade, inocente: ele é cego para quem ele é, e a harmonia pode ser restaurada, apenas quando ele finalmente compreende”, McLeish, Kenneth, Aristóteles: a Poética de Aristóteles, tradução de Raul Fiker. – São Paulo, Editora UNESP, 2000, pág. 30.

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O Livro de Jó – Um homem sincero, reto, temente e que se desviava do mal

O caráter e o comportamento de Jó eram superiores ao dos seus semelhantes, mas não foi este quesito que o fez aceitável diante de Deus. Com efeito, sem fé é impossível agradar a Deus (Hebreus 11:6), de modo que, mesmo na aflição, Jó mantinha a sua esperança firme: que o seu Redentor vivia e que haveria de estar sobre a terra!


Quem conduz a trama no Livro de Jó?

Parte IV

Para compreendermos o Livro de Jó é imprescindível responder, com segurança, à pergunta: É Deus ou, Satanás, quem conduz a trama do Livro de Jó?

Várias releituras da história de Jó têm início, descrevendo-o como um próspero fazendeiro, possuidor de diversos rebanhos, de variados animais, com muitos escravos e uma grande família. Em seguida, em algumas dessas releituras, o termo ‘repentinamente’[1] surge focando Satanás, um inimigo que, sem ser convidado, comparece diante de Deus acusando Jó de ser submisso a Deus, somente por estar cercado de bens.

Não foi obra do acaso[2] ou, em decorrência de uma intromissão do acusador, que Jó passou à condição de protagonista da história, cujo livro leva o seu nome.

Quem estabelece Jó como protagonista é o próprio Criador que introduz Jó no drama, ao notificar o acusador de que não havia ninguém sobre a terra que fosse semelhante a ele, quanto à sinceridade, à retidão e ao temor a Deus.

Como personagem da história, Deus está presente, muito antes, da narrativa do escritor. Deus se faz presente na narrativa, muito antes dos filhos de Deus se apresentarem perante Ele (Jó 1:8).

O leitor deve visualizar que Deus permeia o enredo da história de Jó, antes mesmo da fundação do mundo (Jó 38:4) ou, até mesmo, antes da criação dos anjos (Jó 38:7), sendo certo que todas as coisas estão nuas e patentes aos Seus olhos (Hebreus 4:13).

Deus é o primeiro personagem em cena, quando questiona uma de suas criaturas: – “De onde vens?” Diante d’Aquele que todas as coisas estão nuas e patentes, Satanás respondeu: – “De rodear a terra e passear por ela”.

De tudo o que Satanás observou ao rodear e passear pela terra, Deus destaca um homem ímpar: Jó.  Deus convocou o seu servo Jó para evidenciar a sua Justiça, quando perguntou: – “Viste o meu servo Jó?”. Quando Deus introduziu o nome de Jó na conversa, o Seu servo foi escolhido para evidenciar uma verdade que não se compara com o seu sofrimento.

“Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada”. (Romanos 8:18)

A resposta evasiva dada pelo inimigo à pergunta ‘De onde vens’, complementada pela pergunta: ‘Observaste a meu servo Jó?’, revela o quanto Satanás estava à espreita de Jó. Deus, que tudo sabe, demonstrou, através da segunda pergunta, que Satanás estava observando os passos de Jó.

Quando Deus faz uma pergunta às suas criaturas, não é porque desconhece algo, antes a pergunta tem por objetivo evidenciar as intenções do coração. Satanás estava ao derredor de Jó, mas a pergunta de Deus deixa claro que nada escapa aos seus olhos e que estava velando pelo seu servo: “Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar” (I Pedro 5:8).

Os eventos na narrativa do Livro de Jó são conduzidos com maestria por Deus e, em momento algum, Satanás tem o controle. O propósito de Deus em conduzir todos os eventos que afetaram a vida e trouxe sofrimento ao patriarca Jó, teve o condão de deixar uma lição para que a humanidade compreendesse a Sua justiça.

Um homem sincero e reto

Quem era Jó, o personagem principal dessa história maravilhosa?

Geralmente, os estudiosos definem Jó com duas palavras: rico e justo e enfatizam o fato de ele ter perdido tudo, repentinamente. A preocupação maior de muitos eruditos se fixa em estabelecer a localização da cidade de Uz, onde Jó viveu e, em seguida, mensurar sua riqueza.[3]

Mas, se considerarmos a exortação de Cristo, de que a vida do homem não consiste na abundância de bens que ele possui (Lucas 12:15), percebe-se que a sinceridade, retidão, integridade e temor a Deus era a verdadeira riqueza de Jó.

Deus deu testemunho de Jó:

  1. Sincero e reto: os termos hebraicos רשיו םת traduzidos por ‘sincero’ e ‘reto’ identificam Jó como ‘perfeitamente correto’, ou seja, reto, honesto, direito;
  2. Temente: o termo hebraico ארֵיָ , transliterado ‘yare’, significa reverente, respeitoso, obediente;
  3. Desvia-se do mal: o termo hebraico רסוּ, transliterado ‘sur’ é o mesmo que afastar e, nesse caso especifico, do mal.

Deus deu testemunho do caráter de Jó, o que envolve a condição moral, comportamento correto para com os seus semelhantes, ou seja, reto e sincero.

O quesito ‘temente’, refere-se à submissão de Jó a Deus, na qualidade de servo e no que implica ser temente a Deus? Implica na imputação da justiça divina sobre Jó, ou seja, Jó era justo diante de Deus!

Jó era um homem perfeitamente correto nas relações com os seus semelhantes e justo diante de Deus. A condição ‘justo’, pertinente a Jó, depreende-se de outras passagens bíblicas. Por exemplo, os Salmos:

“O SENHOR se agrada dos que o temem e

dos que esperam na sua misericórdia”.  (Salmos 147:11)

O homem que teme ao Senhor lhe é agradável, ou seja, é aceito por Deus. Através do paralelismo ‘sintético’, no qual o verso do Salmo em comento foi construído, verifica-se que ‘temer’ ao Senhor é o mesmo que aguardar pela Sua misericórdia.

“Eis que os olhos do SENHOR estão sobre os que o temem,

sobre os que esperam na sua misericórdia”. (Salmos 33:18)

‘Temer’ a Deus é o mesmo que ‘esperar’ n’Ele. ‘Temor’ a Deus não é sentimento, é ensinamento, doutrina que demanda obediência. É equivoco entender que ‘temer’ a Deus é decorrente de ‘medo santo’ e ‘respeitoso’. Entender o termo ‘temor’, tradução do termo hebraico yará, como medo é má leitura de uma composição literária repleta de figuras, paralelismos e metáforas.

“Vinde, filhos, e escutai-me;

eu vos ensinarei o temor do Senhor”. (Salmos 34:11)

“Companheiro sou de todos os que te temem e

dos que guardam os teus preceitos”. (Salmos 119:63);

“BEM-AVENTURADO aquele que teme ao SENHOR e

anda nos seus caminhos” (Salmos 128:1).

Deus deve ser temido (obedecido) porque, com Ele, está o perdão, não porque devemos ficar aterrorizados com a Sua majestade e infinito poder:

“Mas, contigo está o perdão, para que sejas temido” (Salmos 130:4);

“Por isso, o SENHOR esperará, para ter misericórdia de vós; e por isso se levantará, para se compadecer de vós, porque o SENHOR é um Deus de equidade; bem-aventurados todos os que nele esperam” (Isaías 30:18);

“Seja a tua misericórdia, SENHOR, sobre nós, como em ti esperamos” (Salmos 33:22).

Através dessa análise, podemos afirmar, categoricamente, que Jó era justo diante de Deus, mas não pelo seu correto e perfeito comportamento para com os seus semelhantes, mas, porque esperava em Deus.

Jó era justo porque confiava em Deus, assim como Abraão confiava, não porque o seu comportamento era irrepreensível. Foi através de ‘esperar’ em Deus, o mesmo que ‘temer’, que a justiça de Deus foi atribuída a Jó (Romanos 4:2-3), não por causa de suas ações ‘irrepreensíveis’.

Sabemos que Deus ‘justifica’, tanto o que trabalha, quanto o que não trabalha ou, que Deus justifica tanto a judeus, quanto a gregos, pois, a justiça de Deus é creditada a qualquer que crê em Deus, já que Ele justifica a todo e qualquer que O obedece (Romanos 4:5).

Abraão creu em Deus quando lhe foi anunciado o evangelho, que diz: “Em ti serão benditas todas as nações” (Gálatas 3:8) e Jó demonstrou crer em Deus, quando confessou:

“Porque eu sei que o meu Redentor vive e que por fim se levantará sobre a terra. E depois de consumida a minha pele, contudo, ainda, em minha carne verei a Deus” (Jó 19:25-26).

Jó possuía um comportamento inigualável perante os homens, mas o bom testemunho que ele alcançou é decorrente da confiança que nutria em Deus, assim como muitos outros antigos alcançaram bom testemunho (Hebreus 11:2).

Apesar de o comportamento de Jó ser superior até mesmo às exigências que constam da lei de Moisés, o testemunho que Deus lhe dera não tinha por base o seu comportamento, mas, a promessa de Deus.

Percebe-se que a promessa de que Jó tinha conhecimento é anterior aos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó. A promessa que Jó conhecia não foi posterior ao reinado de Davi, se não a confissão dele seria: – “Eu sei que o meu redentor vive e que por fim se levantará na casa de Davi”.

A confiança que Jó nutria em Deus, decorre de uma promessa, antiquíssima, feita lá no Éden, quando Deus deu um veredicto à serpente: – “E porei inimizade entre ti e a mulher e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gênesis 3:15).

Abraão creu em Deus que teria um filho de suas entranhas e isso lhe foi justo (Gênesis 15:6) e quando Deus pediu Isaque, em holocausto, Deus reitera a promessa a Abraão, por ele ter obedecido ao mandado de Deus (Gênesis 22:18). De modo que as Escrituras dão testemunho de que Abraão obedeceu às leis de Deus, muito antes de ter sido dada a lei de Moisés (Gênesis 26:5).

O caráter e o comportamento de Jó eram superiores ao dos seus semelhantes, mas não foi este quesito que o fez aceitável diante de Deus. Com efeito, sem fé é impossível agradar a Deus (Hebreus 11:6), de modo que, mesmo na aflição, Jó mantinha a sua esperança firme: que o seu Redentor vivia e que haveria de estar sobre a terra!

Quando Jó expressa a sua confiança em Deus, temos reunido os elementos pelo qual Deus declara Jó justo: “Ainda que estivessem no meio dela estes três homens, Noé, Daniel e Jó, eles, pela sua justiça, livrariam apenas as suas almas, diz o Senhor DEUS” (Ezequiel 14:14).

O termo justo aplicado a Jó não se refere ao seu comportamento ou, ao seu caráter, antes remete a sua condição diante de Deus. E essa condição não se alcança por meio de boas ações ou, por bom comportamento, mas, somente sendo obediente a Deus.

A obediência a Deus dava a condição de justo, mas a palavra do Senhor era a causa de Jó desviar-se do mal. Diante de Deus, Jó era inculpável. Nenhuma condenação pesava sobre Jó, porque Deus é misericórdia e verdade, de modo que Jó teve expiado o seu pecado: “Pela misericórdia e pela verdade se expia a culpa e pelo temor do SENHOR os homens evitam o mal” (Provérbios 16:6).

‘Desviar-se do mal’ era o objetivo de Jó, visto que Ele era obediente. Mas, como ser temente, se não haver o mando de Deus? Sem o temor do Senhor, é impossível ao homem desviar-se do mal, pois a palavra de Deus é água que lava o pecador e o orienta na difícil tarefa de rejeitar o mal e apegar-se ao bem.

 

Satanás é posto em cena

A narrativa introduz Satanás na história de Jó como um ente pessoal, que se apresenta diante de Deus, quando os ‘filhos de Deus’ vieram adorá-Lo. Satanás é, assim, chamado, não por ser um título ou um nome específico, mas, pela função que desempenha na história: adversário.

Satanás é um ente pessoal que, ao comparecer, juntamente, com os filhos de Deus, é interpelado, diretamente, por Deus: – “De onde vens?” A resposta do adversário não é fruto de uma composição folclórica de um personagem irreal, inventada pelo narrador.

Quando o Livro de Jó introduz a figura do ‘acusador’, não estamos falando de um emissário de Satanás como o foi Hamã, em que as Escrituras nomeiam como ‘adversário’ (Ester 7:4). O adversário de Jó não é um homem, pois, além de estar à espreita de Jó, era capaz de mensurar e comparar a integridade de Jó com a dos demais homens.

O adversário de Jó não pertence à corte de Deus, como o anjo da matança dos primogênitos do Egito.

Enquanto os anjos são mensageiros que cumprem o mando de Deus, o acusador do Livro de Jó se insurge contra Jó, o que demonstra claramente que se trata de um ser que se opõe aos homens: “Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar” (I Pedro 5:8).

O diálogo entre Deus e Satanás tem, de um lado, o Criador e, do outro, uma criatura, ou seja, não há que se dar vazão à ideia de que Satanás é o arqui-inimigo de Deus ou, ao pensamento dualista, do bem versus o mal, pois a criatura jamais pode se igualar ao Criador, para que possa fazer frente a Ele, como seu arqui-inimigo.

Mas, onde e quando Satanás apresentou-se diante de Deus?

A Bíblia é clara ao nos informar que Deus habita a eternidade, ou seja, diz de uma singularidade que não se mensura, através de unidades de medida como tempo e espaço.

Deus é o ‘Já’, o ‘agora’, pois todas as coisas que hão de ser, são como se já fossem: “O que é, já foi; e o que há de ser, também já foi; e Deus pede conta do que passou” (Eclesiastes 3:15); “Porque mil anos são aos teus olhos como o dia de ontem, que passou, e como a vigília da noite” (Salmos 90:4).

Satanás apresentou-se diante de Deus um em certo dia, especificamente, quando os ‘filhos de Deus’ vieram apresentar-se diante d’Ele, ou seja, ‘certo dia’ não diz da eternidade, o que se conclui que tal evento não se deu nos céus, pois os céus são o trono de Deus e Deus abriga a própria eternidade. Nos céus não há elementos como dia e noite, pois, lá o que está estabelecido é a própria eternidade: “Porque, assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como, também, com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e para vivificar o coração dos contritos” (Isaías 57:15).

O evento descrito no Livro de Jó foi plotado no espaço/tempo, através de um evento que é próprio ao nosso espaço/tempo: certo dia. O local foi, especificamente, a cidade de Uz, cidade próxima o bastante dos povos caldeus e sabeus, pois, foi gente desses povos vizinhos, os que atacaram os filhos de Jó. O tempo aponta para um dia em que os filhos de Deus apresentaram-se diante de Deus.

Ir à presença do Senhor não significa que Satanás subiu aos céus, mas, que ele estava no evento em que os ‘filhos de Deus’ compareceram diante de um representante de Deus. Sabemos que os sacerdotes são representantes de Deus e que as Escrituras fazem referência a quem se apresenta diante do sacerdote, como se apresentado diante do Senhor (Deuteronômio 19:17).

Caim, também, foi descrito como alguém que esteve em contato com Deus, mas, que fugiu de diante do Senhor, ou seja, Caim não subiu aos céus para Deus conversar ou estar perante Ele (Gênesis 4:16).

Quem eram os ‘filhos de Deus’, que vieram perante Deus?

Os ‘filhos de Deus’, que vieram perante o Senhor, faziam tal prática com regularidade, ou seja, de tempos em tempos, compareciam, em determinado lugar, em função de um representante de Deus, o que indica uma cerimônia, algo que é próprio aos homens,  não aos seres celestes.

Um ser celestial sabe que não há lugar de adoração e nem tempo propício à adoração, antes, que Deus é adorado em espírito e, nem mesmo, estão sujeitos à limitação humana de espaço/tempo.

Quando Satanás se apresenta em meio aos filhos de Deus, homens que foram prestar o seu culto, foi interpelado: – “Donde vens?”

Do diálogo entre Deus e Satanás, é possível extrairmos alguns elementos que nos permitem uma melhor compreensão, de como o adversário é ardiloso, como tem as suas artimanhas e como ele constrói as suas ciladas.

Jesus afirmou que Satanás nunca se firmou na verdade e que, quando fala, fala do que lhe é próprio, proferindo mentiras, pois é mentiroso e pai da mentira. Esta é a natureza do adversário (João 8:44).

Deus não precisava perguntar a Satanás e nem de sua resposta, pois todas as coisas estão nuas e patentes aos seus olhos. Não podemos ignorar a onipresença e a onisciência de Deus nessa passagem bíblica, o que nos leva a concluir que Deus não estava interessado em nos revelar onde o opositor estava, mas, sim, a natureza de Satanás: astuto e mentiroso.

Satanás mentiu: “De rodear a terra e passear por ela”! Para quem o tempo urge, a resposta foi evasiva, pois rodear e passear pela terra não são atribuições de Satanás. Na verdade Satanás observava os filhos de Deus e respondeu de forma evasiva. O inimigo sempre está atento aos filhos dos homens, porém, espreita os fiéis para tentar dissuadi-los de sua fé.

Para quem somente passeava e rodeava a terra, não sendo onisciente ou, onipresente, Satanás sabia de tudo, a respeito de Jó. Satanás sabia que Jó era temente, protegido de Deus por todos os lados, abençoado e os seus bens se multiplicavam sobremaneira na face da terra.

É evidente que Satanás tinha interesse na vida de Jó, vez que, sempre espera um momento oportuno para atacar. Satanás sabia de tudo a respeito de Jó: medos, fé, conhecimento, comportamento, moral, integridade, etc.

Satanás só não tinha acesso aos pensamentos de Jó, pois os pensamentos só são conhecidos por Deus, mas, através do seu comportamento e integridade, o maligno fazia uma leitura do que ocupava a mente de Jó.

Somente Deus conhece o pensamento de suas criaturas, muito antes de pronunciarem qualquer palavra.

Conhecer a vida e os sentimentos de um oponente em uma guerra, é poder e Satanás se vale desse conhecimento, através da observação constante da vida do homem. É, a partir do conhecimento que o homem detém sobre a natureza de Deus, que o nosso inimigo, ardilosamente, monta as suas ciladas.

Satanás monta as suas teias com astúcia e Ele é conhecedor desta verdade: qualquer ser que lutar contra Deus sairá derrotado, pois Deus é todo poder e conhecimento.

Conhecedor dessa verdade, Satanás sabia que era impossível lutar e vencer Jó, pois era Deus quem o justificava e pelejava por Jó. Lutar contra Deus, diretamente, ou lutar contra os seus servos é perder.

“Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica (…) Mas, em todas estas coisas, somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou. Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor” (Rm 8:33 e 37-39).

Como é impossível Satanás vencer aqueles que são declarados justos por Deus, a tática ardilosa dele, é tentar jogar o próprio homem contra Deus, pois, somente o homem, pode se lançar da presença de Deus.

Satanás possui pleno conhecimento sobre a natureza de Deus e seus atributos. Ele também conhece a natureza humana e os seus sentimentos. Satanás também conhece a verdade de Deus contida nas Escrituras.

Deus interpela o acusador se este havia observado Jó durante as suas andanças pela terra, se havia constatado a integridade de Jó. Satanás não contesta o fato de que Jó era temente a Deus, pois como poderia acusá-lo, se o próprio Deus é quem deu testemunho de Jó?[4]

Satanás se mostra habilidoso no seu argumento, quando responde: – “Teme Jó a Deus em vão?”. Satanás não acusa Jó de pecado e a pergunta sugere, ainda, que Jó é verdadeiramente temente, porém, o acusador aponta o cuidado de Deus, como motivo da sujeição de Jó a Deus.

O acusador pode constatar durante as suas andanças que Jó estava sob a proteção de Deus, assim como, os seus descendentes e os seus bens materiais. Para alguém que desconhece a promessa de Deus para os que O temem, talvez pareça que Deus favorecia Jó, no entanto, a promessa de Deus é especifica e imutável para os que obedecem a Deus:

“O anjo do SENHOR acampa-se ao redor dos que o temem e os livra.

Provai e vede que o SENHOR é bom;

Bem-aventurado o homem que nele confia. 

Temei ao SENHOR, vós, os seus santos, pois nada falta aos que o temem”. (Salmos 34:7-9)

Depreende-se da fala do acusador, que Jó era trabalhador, visto que, o que as mãos de Jó produziam, Deus abençoava, de modo que os seus bens se multiplicavam.

“Então, respondeu Satanás ao SENHOR, e disse: Porventura teme Jó a Deus debalde? Porventura tu não cercaste de sebe, a ele, à sua casa e a tudo quanto tem? A obra de suas mãos abençoaste e o seu gado se tem aumentado na terra”. (Jó 1:9-10)

Satanás sugere, em sua argumentação, que, caso Deus retirasse todos os bens de Jó, seria o suficiente para Jó blasfemar. Mas, seria este o principal objetivo de Satanás? A adversidade seria capaz de afastar Jó de Deus?

Segundo o exposto pelo apóstolo Paulo, ao propor aos cristãos de Corinto que perdoassem um dos irmãos em Cristo, nós, como imitadores do apóstolo Paulo, não podemos ignorar os ardis de Satanás.

O que é um ardil? Respondo: uma estratégia, meticulosamente elaborada, para se atingir um objetivo.

Trazer adversidade faria com que Jó se demovesse do seu temor a Deus? Não! A adversidade não possui força suficiente sobre um servo de Deus, principalmente, com as qualidades de Jó, para demovê-lo da sua fé, porém, a adversidade fazia parte da estratégia elaborada por Satanás. Como?

A ação de Satanás foi, estrategicamente, coordenada para dar a entender, a qualquer que conhecesse a vida de Jó, que todos os eventos adversos que sobre ele se abateram, foram impingidos por Deus.

Os ataques dos sabeus e dos caldeus, cada qual, por sua vez, ao matarem os escravos de Jó e saquearem os camelos, os bois e as jumentas, dá a entender que os bens de Jó estavam desamparados.

Somente um ataque poderia dar a entender ser obra do acaso, mas, dois eventos semelhantes, em locais distintos, no mesmo dia, deixam de ser acaso e passam a ser coincidentes, portanto, o evento, em si, evoca que se considere a causa.

As mortes dos servos de Jó e o saque dos bens, foram decorrentes da ação humana, o que poderia levar quem investigasse os eventos à conclusão de que não houve nada de sobrenatural. Entretanto, outros mensageiros, no mesmo dia, trouxeram notícia de que fogo caiu do céu e consumiu parte do rebanho e os escravos e que, um vento vindo da banda do deserto, derrubou a casa do filho primogênito de Jó e matou a todos os filhos do patriarca, que ali estavam reunidos.

Quando as péssimas notícias terminaram, Jó levantou-se, rasgou o seu manto, raspou a cabeça, jogou na terra e adorou a Deus!

Satanás ficou surpreso com a atitude de Jó? Não! Tal atitude já era esperada, porém, o ardil de Satanás, ainda estava em curso.

Após o inimigo tirar todos os bens e exterminar todos os filhos de Jó, em outra ocasião, novamente, o diabo se fez presente, no meio dos filhos de Deus. Ao ser interpelado, como da primeira vez, deu prosseguimento na sua estratégia.

O adversário argumenta que a atitude de Jó, ao adorar a Deus, era uma questão de troca (pele por pele), sobre o pretexto de que o homem abre mão de tudo o que possui para preservar a sua própria vida (Jo 2:5).

A argumentação sugere que Jó não havia sido demovido das suas convicções pelo medo de, ao blasfemar, ser punido com a perda da própria vida.

Vale destacar que, apesar de Deus conhecer o ardil de Satanás, tal empreitada estava dentro do propósito de Deus. Como era necessário à humanidade compreender a justiça de Deus, o Senhor chamou a Jó, segundo o seu propósito, e permitiu que Satanás tirasse todos os bens do patriarca, para que, hoje, pudéssemos aprender, além da lição da perseverança e consolação, como se dá a justificação do homem (Romanos 15:4).

Em função do propósito de evidenciar como se dá a justificação, é que Deus permite que Satanás toque em Jó. Imediatamente, Satanás saiu da presença de Deus e feriu o corpo de Jó com chagas malignas, o que obrigava Jó a raspar as feridas com cacos de telhas, enquanto que, o único tratamento medicinal, era permanecer assentado nas cinzas.

Diante do quadro aflitivo, a mulher de Jó esbravejou: – “Ainda retém a tua sinceridade? Amaldiçoe a Deus e morra”.  Argumento que acrescentou dor ao coração aflito do servo de Deus.

Jó contra argumenta com sua mulher e deixa claro que a fala dela equipara-se a de qualquer desvairada. Perseverante, Jó não transgrediu com os seus lábios!

Depois dessas investidas ardilosas, os elementos necessários para o ataque principal do maligno estavam prontos. O quadro necessário para a investida de Satanás estava emoldurado, bastando ao acusador permanecer, aguardando, até que a notícia, sobre as adversidades que se abateram sobre Jó, se espalhasse pelo oriente.

Após Satanás tocar na pele de Jó, a ideia que se tem, é que o acusador sai de cena, porém, mesmo não atuando, diretamente, a visita dos amigos de Jó era o evento, meticulosamente preparado, para o verdadeiro embate entre Jó e o acusador.

A cilada preparada para fazer com que Jó se insurgisse contra o Seu Criador é o elemento principal das batalhas que Satanás trava com os homens.

Tirar os bens, a família e a saúde de Jó não era o principal objetivo de Satanás. O diabo sabia que a ação de retirar tudo, até mesmo a saúde de Jó, não faria com que ele pecasse contra Deus. Tirar tudo o que Jó possuía, era somente uma estratégia, para,  com astucia, fazer com que Jó se insurgisse contra Deus.

Continua…


[1] “Jó era um próspero fazendeiro, que vivia na terra de Uz. Possuía milhares de ovelhas, camelos e outros rebanhos, uma grande família e muitos servos. De repente, Satanás, o acusador, compareceu diante de Deus alegando que Jó só confiava nEle porque era rico e tudo lhe corria bem. E, assim, teve início o teste de fé daquele homem”. Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal, versão Almeida Revista e Corrigida, Edição de 1995 – Ed. CPAD, pág. 699; “Como se sabe, é ele (Satanás) o mentor da trama que conduz Jó ao encontro com Deus. A partir da proposta do “adversário”, Jó tem sua estabilidade de vida destruída e, na sua desgraça, dialoga com amigos que buscam explicar as razões da tragédia da condição humana”. Leite, Edgard, O silêncio de Jó: O Livro de Jó e a crítica sapiencial à teologia sacerdotal. Revista Brasileira de História das Religiões. ANPUH, ano IV, n. 10, maio 2011 – ISSN 1983-2850 < http://www.dhi.uem.br/gtreligiao /index.html >.

[2] Acaso (do latim a casu, sem causa) é algo que surge ou acontece a esmo, sem motivo ou, sem explicação aparente. Wikipédia < http://pt.wikipedia.org/wiki/Acaso > Consulta realizada em 06/06/15.

[3] Riqueza e posição social jamais podem ser vistas como sinal de aprovação divina. Não podemos consentir com pensamentos que seguem essa linha de raciocínio: “Se levarmos em conta a sua riqueza; se lhe considerarmos a posição social; e se lhe pesarmos a influência política, concluiremos ter sido Jó um perfeito reflexo da santidade de Deus”. Andrade, Claudionor de, Jó: O Problema do Sofrimento do Justo e o seu Propósito., Rio de Janeiro, Editora CPAD, 2ª Edição, 2003, pág. 32.

[4] O testemunho de Deus isentou Jó de qualquer injustiça, de modo que se Deus declarou Jó integro, reto e temente a Deus, o acusador jamais poderia intentar acusá-lo.

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O Livro de Jó – Transcendendo a problemática do sofrimento

O íntegro Jó serve para demonstrar a triste condição da humanidade, em sujeição ao pecado, pois, o mais justo dos homens, não consegue satisfazer os reclamos da justiça divina! Mesmo a justiça, a integridade e a retidão de Jó são apresentadas como aquém do padrão de justiça de Deus, tanto que Jó foi repreendido e se arrependeu no pó e na cinza.


A justiça dos escribas e fariseus

Parte II

Talvez você já tenha imaginado a quantidade de pessoas que compunham a grande multidão, ao pé do monte, quando Jesus se posicionou diante dos seus discípulos para ensiná-los (Mateus 5:1). É imprescindível imaginarmos a quantidade de pessoas que formavam aquela multidão e a infinidade de problemas, frustrações, alegrias, esperanças, dúvidas, religiosidades, temores, que atormentavam os componentes da plateia, para a qual Jesus fez o seu grandioso discurso.

Enquanto as bem-aventuranças estavam sendo anunciadas, vejo esperança nos olhos dos ouvintes de Jesus, mesmo naqueles que não compreendiam a mensagem (Mateus 5:3-12).

Mas, quando foi dito que a justiça deles teria de ser superior à dos seus líderes religiosos, para obterem direito ao reino dos céus, vejo os semblantes decaírem pelo espanto e estupefação! Vejo no rosto daquelas pessoas o mesmo espanto que tomou de sobressalto os discípulos, quando perguntaram: – “Quem poderá, pois, salvar-se?” (Mateus 19:25), quando informados de quão difícil é entrar um rico no reino dos céus (Mateus 19:23).

Ora, se é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino dos céus, lembrando que Jesus proferiu tal discurso, após um rico retirar-se triste, mesmo ele tendo dito que guardava a lei desde a sua mocidade, como é possível ao comum do povo entrar no reino dos céus? (Mateus 19:20 e 23).

O que fazer para alcançar justiça superior por alguém que não mata, não rouba, não comete adultério, não furta, não diz falso testemunho, dá o dizimo de tudo? O que fazer para sobrepujar a justiça dos escribas e fariseus, religiosos que, aos olhos dos homens, pareciam justos? (Lc 18:11)

“Assim, também, vós, exteriormente, pareceis justos aos homens, mas, interiormente, estais cheios de hipocrisia e de iniquidade”. (Mateus 23:28)

O que fazer para alcançar justiça, de modo a ter direito ao reino de Deus? As pessoas que compunham aquela multidão precisavam ter um caráter ou uma moral semelhante ao caráter e à moral de Jó?

 

O sofrimento de Jesus

A história de Jó e a história de Cristo têm como pano de fundo o sofrimento, daí a pergunta: Porque o Filho de Deus sofreu, apesar de justo?

Quando os artistas narram a história de Cristo, o sofrimento que envolve a cruz é indispensável. As agruras que se iniciaram no monte das Oliveiras e culminaram com a morte de Jesus na cruz, são exploradas em minúcias.

Quando se narra a história de Cristo, o beijo da traição não pode ser ignorado. O sofrimento impingido pela traição de um amigo é umas das dores de ordem psíquica das mais cruentas, portanto, em nenhuma narrativa que se preze, o beijo da traição fica sem ser destacado (Mateus 26:50).

A condenação perpetrada durante a noite com o uso de falsas testemunhas, por líderes dos concidadãos do Cristo, bem como a sessão de espancamento e os vitupérios que se seguiram à revelia da lei, são elementos imprescindíveis para retratar, sob diversos ângulos, o sofrimento de um homem que só fez o bem.

Um artista consegue retratar com maestria uma multidão enfurecida, após ser incitada por líderes religiosos invejosos, bem como o escárnio dos soldados romanos, quando despiram Jesus e colocaram uma coroa de espinhos sobre a sua cabeça!

Entretanto, habilidade e perícia com palavras, películas, encenação, figurino, efeitos especiais, etc., não habilitam ninguém a compreender que, pela cruz, passou a redenção da humanidade.

Somente conhecendo as Escrituras, é possível ver, através do sofrimento doloroso na cruz, a obediência de Cristo à vontade do Pai, que resultou na redenção da humanidade.

Mas, para um homem natural, na história de Cristo, somente salta aos olhos o sofrimento de um homem bom, injustiçado por seus compatriotas.

O sofrimento é elemento intrínseco nas histórias de Cristo e de Jó, mas, ambas, não têm o sofrimento como elemento central, antes, revelam aspectos relevantes, acerca da justiça de Deus. Em ambas as histórias, o sofrimento é pano de fundo, que emoldura os eventos, que revelam a justiça de Deus.

 

A justiça de Deus contrastada com a justiça dos homens

A história de Jó possui um ingrediente essencial que evidencia a justiça de Deus: a integridade de Jó.

O autor do Livro de Jó dá testemunho de que Jó era um homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do mal (Jó 1:1). Após inúmeras releituras do Livro de Jó, saltou-me aos olhos que o motivo de Jó figurar como protagonista da história estava, especificamente, relacionado à sua integridade e não ao seu sofrimento.

A integridade de Jó serve de contraste para evidenciar o quanto a justiça de Deus é superior à justiça do homem ou, o quanto a justiça do homem está aquém da justiça de Deus.

O íntegro Jó serve para demonstrar a triste condição da humanidade, em sujeição ao pecado, pois, o mais justo dos homens, não consegue satisfazer os reclamos da justiça divina!  Mesmo a justiça, a integridade e a retidão de Jó são apresentadas como aquém do padrão de justiça de Deus, tanto que Jó foi repreendido e se arrependeu no pó e na cinza.

O padrão moral e a retidão de Jó são evidenciados na história com o condão de facilitar a distinção entre a justiça de Deus e a justiça dos homens, esta designada pelo profeta Isaías como ‘trapo de imundície’ e aquela como ‘veste de louvor’ (Is 64:6).

O sofrimento é questão de somenos importância, diante da necessidade de salvação, pertinente a todos os homens. A integridade de Jó destaca que o homem só é aceito por Deus por sua maravilhosa graça e não por suas memoráveis virtudes e qualidades morais.

Se Jó tivesse sido aceito com base na sua integridade, restaria somente desesperança para o restante da humanidade, mas, como o Livro de Jó demonstra que é impossível ao homem justificar-se a si mesmo, através de sua conduta e moral ilibada, vislumbra-se um conhecimento que produz alívio e paz aos homens.

Temos paz quando compreendermos que a justificação do homem independe de suas ações, pois Jó, mesmo inspirando o mais alto ideal de justiça humana, igualmente a todos os outros homens, teve que aguardar em Deus a sua salvação.

A temática do Livro de Jó tem relação direta com a pergunta que abriu o debate entre Jó e os seus amigos:

“Mas, como se justificaria o homem para com Deus?” (Jó 9:2b).

A resposta de Deus contida no Livro de Jó é objetiva e contém todos os elementos pertinentes à justificação do homem.

Somente uma má leitura conduz alguém a considerar que no Livro de Jó Deus mais pergunta que responde, ou que Jó esperou por uma resposta, onde sobrevieram somente perguntas.

 

Por que tinha que ser Jó?

– “Por que eu”?

Está é a primeira pergunta que formulamos quando ocorre um infortúnio em nossas vidas!

Embora o Pregador assevere que ‘tudo acontece igualmente ao justo e ao injusto’, qualquer adversidade é motivo para questionarmos: – “Mas, como pode ter ocorrido isso comigo, que sou dizimista fiel”? – “Eu não entendo como Deus permitiu esta mazela, se eu busco a Deus nas madrugadas”?

Quando atingidos por infortúnios, de pronto subimos em uma balança em que o ponteiro está atrelado aos nossos méritos, reputação, religiosidade, sentimentos, amarguras e questionamos a Deus sobre o motivo daquela adversidade!

Esse tipo de questionamento, quando parte de um não cristão é até compreensível. Se um não cristão vocifera e esbraveja contra os céus, não podemos censurá-lo. Mas, quando ouvimos tais queixas de um cristão, temos de nos perguntar, se alguma vez leu a seguinte passagem bíblica:

“Tudo sucede, igualmente, a todos; o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao puro, como ao impuro; assim, ao que sacrifica, como ao que não sacrifica; assim, ao bom, como ao pecador; ao que jura, como ao que teme o juramento. Este é o mal que há entre tudo quanto se faz debaixo do sol; a todos sucede o mesmo” (Eclesiastes 9:2-3)

Infortúnios ocorrem igualmente a todos! E sabe o porquê é exatamente assim? Porque Deus é justo!

Mas, se nós, mesmos carregados de tantos tropeços[1], como assevera Tiago, em sua epístola, questionamos o porquê passamos por reveses, que se dirá de alguém como Jó: “… homem íntegro, reto e temente a Deus que desviava-se do mal” (Jó 1:1)?

Com o seu currículo irrepreensível, mais que qualquer um, Jó poderia questionar: – “Por que eu”?

Na verdade, pela sua sujeição a Deus, Jó acabou declarando a mesma verdade que o Pregador, quando reconheceu que Deus dá e tira:

“Nu saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; o SENHOR o deu e o SENHOR o tomou: bendito seja o nome do SENHOR” (Jó 1:21).

“Como saiu do ventre de sua mãe, assim nu tornará, indo-se como veio; e nada tomará do seu trabalho, que possa levar na sua mão” (Eclesiastes 5:15)

O senso de justiça social e a conduta irrepreensível de Jó para com os seus semelhantes deveria fazê-lo questionar, de pronto, o motivo de tantas mazelas, no entanto, ele nos surpreende quando bendiz a Deus: – “Bendito seja o nome do Senhor”! (Jó 1:21)

Jó surpreende quando bendiz a Deus, após os infortúnios que lhe sobrevieram, o que nos faz perceber que, dentre tantos personagens bíblicos, o patriarca se destaca pela sua integridade e firmeza moral. Analisando, panoramicamente, as Escrituras, verifica-se que os demais personagens, geralmente, eram insignificantes (o menor), repreensíveis do ponto de vista moral e cometeram alguns desvios comportamentais.

O elemento a ser considerado no Livro de Jó é a sua integridade e retidão, pois não é possível apontarmos falhas de cunho moral nesse herói da fé, diferentemente de outros personagens como Abraão, Isaque, Jacó, Moisés, Davi, Jonas, Gideão, etc.

As histórias dos personagens bíblicos nos faz contemplar a graça e a misericórdia de Deus e nos identificamos com eles, pois, fica patente que somos sujeitos às mesmas paixões que eles, de modo que a graça de Deus foi superabundante sobre eles, da mesma forma que é sobre nós: “Elias era homem sujeito às mesmas paixões que nós e, orando, pediu que não chovesse e, por três anos e seis meses, não choveu sobre a terra” (Tiago 5:17).

Quando o rei Davi se deitou com Bate-Seba, mulher de Urias, e mandou matá-lo (2 Sm 11:4), vemos, de imediato, a misericórdia de Deus ao perdoá-lo, entretanto, quando analisamos a vida de Jó, o que nos salta aos olhos é o testemunho de Deus:

“Observaste a meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele; homem íntegro, reto e temente a Deus, e que se desvia do mal” (Jó 1:8).

Considerando que tudo o que foi escrito nas Escrituras tem o condão de ensinar (Romanos 15:4), e que foi Deus que apontou a integridade de Jó, resta concluir que Jó foi escolhido por Deus para figurar como personagem de uma das mais belas histórias da Bíblia, única e exclusivamente, pela sua integridade.

A lição que Deus ensina no Livro de Jó não dá para ser transmitida através da vida de heroínas da fé como Raabe e Tamar. Através da vida de homens como Gideão, Sansão, Jefté, Salomão, etc., não é possível transmitir com tamanha propriedade um conhecimento impar acerca da justiça de Deus e, por isso mesmo, o Livro evidencia a integridade de Jó e o torna personagem principal dessa trama maravilhosa.

Que conhecimento ou, que lição é esta? Evidenciar a justiça de Deus, contrastando com a justiça do homem mais justo e integro que já existiu! Através do melhor homem, somos convidados a considerar o quão impossível é ao homem justificar-se a si mesmo.

A integridade de Jó funciona como contraste[2], evidenciando o quão discrepante é a natureza da justiça humana, quando comparada à natureza da justiça de Deus.

As Escrituras dão conta de que não há homem que seja justo, nem sequer um (Eclesiastes 7:20; Salmos 53:3; Miqueias 7:2) e por não existir homem justo sobre a terra, Deus escolheu alguém inigualável entre os homens: Jó, para evidenciar a Sua justiça.

“E disse o SENHOR a Satanás: Observaste tu a meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desvia do mal” (Jó 1:8).

O termo hebraico traduzido por semelhante é כָּמֹ֙הוּ֙, transliterado kêmow ou kamow, segundo o Dicionário Strong, que significa: ‘como, assim como, semelhante a, quando, de acordo com, segundo’.

Não havia quem fosse semelhante a Jó no quesito integridade, retidão e temor a Deus, e esse foi o motivo de Jó ter sido selecionado por Deus para figurar como protagonista desse livro singular.

Diante da pergunta: – “Por que Jó”? A resposta é inequívoca: Jó foi escolhido por Deus por ser um homem de índole e comportamento ímpar.

 

O sofrimento de Noemi

A história de Noemi, assim como a história de Jó é dramática, no entanto, o questionamento acerca do sofrimento não ocorre. Por quê?

Embora o narrador do Livro de Rute não dê um testemunho direto acerca da índole e do caráter de Noemi, percebe-se nuances que apontam o quão virtuosa era essa mulher.

O Livro de Rute é do gênero narrativo e conta a história de uma moça moabita que se casou com um israelita, filho de Noemi. Para muitos, a história é um ‘ode’ à lealdade de Rute, uma mulher de grande caráter, para com sua sogra, Noemi.

Mas, o leitor deve atentar para o fato de que a história de Rute teve início com Elimeleque, um efrateu de Belém de Judá, à época em que os juízes julgavam.

O drama teve início com uma grande fome na terra de Israel, de modo que Elimeleque, juntamente com sua esposa, Noemi, e seus dois filhos, Malom e Quiliom, saíram a peregrinar nos campos de Moabe.

Durante a peregrinação, Elimeleque faleceu e Noemi ficou só, em terras estrangeiras, com os seus dois filhos. Com o passar do tempo, os filhos de Noemi se casaram com mulheres moabitas: Orfa e Rute. Em um período de dez anos, os dois filhos de Noemi faleceram, restando as três mulheres viúvas: Noemi, Orfa e Rute.

Noemi soube que, em Israel, havia pão e resolveu sair de Moabe e voltar a Belém. Porém, antes de retornar, resolveu despedir as suas noras, cada qual para os seus familiares. Orfa resolveu voltar para a casa de sua mãe, mas Rute resolveu seguir a Noemi.

Quando Noemi e Rute adentraram a cidade de Belém, os moradores se comoveram com o infortúnio que abatera sobre Noemi. Os habitantes de Belém ainda guardavam na lembrança Noemi, quando casada e com os seus dois filhos. Como os moradores de Belém ainda continuavam chamando Noemi pelo seu nome, que evocava um tempo de bonança e esperança, Noemi, em função da grande amargura e dor que sentia, pediu para que a chamassem de Mara.

Estas são as palavras do lamento de Noemi:

“Cheia parti, porém vazia o Senhor me fez tornar; porque, pois, me chamareis Noemi? Pois o Senhor testifica contra mim e o Todo-poderoso me tem afligido muito” (Rute 1:21).

Além da dor e da aflição pela perda do marido, Noemi, também, perdeu o bom nome que possuía, quando perdeu os seus dois filhos. O bom nome de Noemi estava vinculado ao fato dela ter dado dois filhos ao seu marido Elimeleque, pois, em Israel, todos tinham por bem-aventurada a casa que tivesse filhos, pela esperança da vinda do Messias.

Ora, mesmo em dor e aflição, assim como Jó, Noemi não infamou ao Senhor. Ela demonstrou ter consciência de que as aflições que lhe sobrevieram eram decorrentes da mão do Senhor, assim como Jó (Rute 1:13).

Jó perdeu os filhos, a saúde e foi acusado de pecado e Noemi perdeu a família, o bom nome, pois estava velha e não tinha condições de cumprir o seu papel: dar descendência ao seu marido.

Assim como Jó teve sete filhos e três filhas, quando recompensado por Deus, Noemi foi recompensada com o nascimento de Obede, filho de Boaz, com Rute. Através de Rute, Noemi ganhou boa fama entre os seus compatriotas e tornou-se bendita, como se a sua nora valesse por sete filhos (Rute 4:14-15).

Comparando a história de Jó com a história de Noemi, percebe-se que ambos sofreram um intenso revés na vida, no entanto, a história desta sofrida velha senhora não desperta questionamentos acerca da justiça de Deus frente às mazelas e tragédias[3] que acometem os justos.

Diferentemente da história de Noemi, que evidencia o cuidado de Deus para com a sua serva, a história de Jó foi redigida com o propósito de estimular o leitor a uma mudança de entendimento acerca da justificação do homem.

O essencial para compreender a justiça de Deus não é o sofrimento do personagem Jó, mas, os seus predicativos.  Já o sofrimento de Noemi evidencia o cuidado de Deus para com os que confiam, sem questionamentos, acerca da justiça de Deus.

 

Continua…


[1] “Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça em palavra, o tal é perfeito e poderoso para também refrear todo o corpo”. (Tiago 3:2)

[2] Para a nossa análise, adotaremos o conceito de contraste, como algo ou, alguém, diferente, único, que se distingue pelo valor maior, porque a oposição ou, a discrepância, nos permite distinguir um do outro.

[3] “O livro explora o velho, eterno e insolúvel problema da presença do mal no mundo, sobretudo na vida dos inocentes, dos que parecem sofrer sem razão alguma”. Lima, Héber S., Jó… Quando o Espinho Floresce, Edições Loyola, São Paulo, 1995, pág. 10.

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O Livro de Jó – Prefácio

Em função da verdade incrustada nas páginas desse livro tão magnifico, esta é a minha oração: que o Senhor continue a se revelar, através da pessoa bendita do seu Filho Jesus Cristo, e que possamos compreender plenamente o seu propósito e graça, pois, o que de Deus se pode conhecer, já foi revelado em graça e bondade, através da manifestação em carne de Cristo Jesus, nosso Senhor. Amém!


Livro de Jó: Objetivo

Parte I

Prefácio

O Livro de Jó compõe o Cânon sagrado, juntamente com os Livros de Provérbios e de Eclesiastes, conjunto que se nomeia Livros de Sabedoria.

Do ponto de vista literário muitos autores classificam o Livro de Jó como drama e, em função dos diálogos, monólogos, provérbios e ditados que contém, interpretam o livro do ponto de vista das experiências humanas.

Não se pode negar que o Livro de Jó é de riqueza incalculável do ponto de vista literário, mas, também, pelo seu valor como poesia, sem falar do seu conteúdo histórico. Entretanto, o tesouro que há no Livro de Jó não é de ordem literária, filosófica, histórica, sociológica e nem psicológica.

A finalidade deste ensaio é trazer a lume uma questão que passa despercebida por muitos leitores do Livro de Jó:

– “Como o pecador pode ser justo diante de Deus?”

Na sua grande maioria, os livros e estudos acerca do Livro de Jó, destaca o sofrimento do patriarca, o que fomenta inúmeras discussões de viés filosófico, antropológico e, até mesmo, ontológico.

Poucos se apercebem de que a temática do Livro de Jó não é o sofrimento. Poucos conseguem visualizar, que o conteúdo do Livro de Jó dá corpo a uma parábola, através de uma história enigmática e que demanda interpretação.

O Livro de Jó funciona como um espelho, ao refletir que a justiça do homem mais íntegro que já viveu, está aquém da justiça de Deus. A integridade de Jó estabelece um contraste que evidencia a justiça de Deus, de modo que o sofrimento torna-se mero pano de fundo para revelar uma verdade imprescindível ao homem.

A finalidade deste ensaio, não necessariamente nesta ordem, é:

  • Evidenciar a justiça de Deus, em contraste com as qualidades de Jó;
  • Identificar o motivo pelo qual Jó foi escolhido como protagonista dessa história;
  • Trazer a lume o papel desempenhado pelos amigos de Jó e a visão superficial que tinham da justiça de Deus;
  • Extrair alguns elementos pertinentes à atuação de Satanás e como se dá a sua investida contra os servos de Deus;
  • Demonstrar a superioridade do conhecimento de Eliú, em relação aos outros amigos de Jó;
  • Explicar a diferença entre a Justiça Divina e a “justiça” humana;
  • Esclarecer os motivos pelos quais Jó foi repreendido por Deus e qual a lição que precisamos aprender, através da vida do seu servo!

Em função da verdade incrustrada nas páginas desse livro tão magnifico, esta é a minha oração: que o Senhor continue a se revelar, através da pessoa bendita do seu Filho Jesus Cristo, e que possamos compreender plenamente o seu propósito e graça, pois, o que de Deus se pode conhecer, já foi revelado em graça e bondade, através da manifestação em carne de Cristo Jesus, nosso Senhor. Amém!

 

Notas do autor.

 

Qual o objetivo do livro de Jó?

 

O livro

O Livro de Jó é classificado como poético, assim como, os cinco Livros dos Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cantares de Salomão e Lamentações. Os eruditos classificam, também, o Livro de Jó como Livro de Sabedoria, assim como o Livro de Provérbios e de Eclesiastes.

Por que classificam o Livro de Jó como poético e de sabedoria? Por causa da estrutura dos diálogos entre Jó e seus amigos, construída através de muitos ‘paralelismos’.

Por paralelismo, o que dá sustentabilidade à poesia hebraica, temos a valoração do pensamento, através da ênfase, da repetição, do contraste e da elaboração de ideias, sem levar em conta elementos como ritmos, rimas e métricas, elementos essenciais às poesias ocidentais.

Como a estrutura da poesia hebraica repousa no desenvolvimento de ideias, a tradução do texto para outras línguas permite que se tenha maior precisão e preservação da ideia do texto, o que não ocorre nas poesias ocidentais pela impossibilidade de se transpor ritmo, rima e métrica para qualquer tradução.

O poema ‘Canção do exílio’, de Gonçalves Dias, por exemplo, é primoroso pelo ritmo, rima e métrica, de modo que a melodia, pelo encadeamento do ritmo, como a rima, permite descrever a beleza da terra do autor com leveza ímpar, do ponto de vista patriótico e nacionalista.

Observe:

“Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá”.

Dias, Gonçalves, Canção do exílio, De Primeiros cantos (1847).

A versão em Inglês, fica assim:

“My land has palm trees
Where the thrush sings.
The birds that sing here
Do not sing as they do there”

O ritmo e a rima que dá graciosidade ao texto se perdem na tradução e somente as expressões figurativas permanecem intocadas.

Já, o paralelismo, a base da poesia hebraica, trabalha analogias através de comparações, de modo a fazer com que o leitor conclua uma ideia por deduções simples, induzidas por figuras de linguagem, como personificações, hipérboles, metáforas, símiles e aliterações.

Destacamos alguns tipos de paralelismos importantes para exemplificar:

O paralelismo sintético (ou, formal, construtivo) trabalha um pensamento na primeira linha do poema e a segunda linha desenvolve e enriquece a ideia que está na primeira linha, que compõe a estrofe, através de uma relação de causa e efeito. Observe:

“Os céus declaram a glória de Deus e

o firmamento anuncia a obra das suas mãos”  (Salmo 19:1)

O paralelismo sintético divide-se em outros três, a saber:

  1. Conclusão: “Eu, porém, ungi o meu Rei sobre o meu santo monte de Sião” (Salmos 2:6);
  2. Comparação: “É melhor confiar no SENHOR, do que confiar nos príncipes” (Salmos 118:9) e;
  3. Razão: “Beijai o Filho, para que se não ire, e pereçais no caminho, quando em breve se acender a sua ira; bem-aventurados todos aqueles que nele confiam” (Salmos 2:12).

Por outro lado, o paralelismo antitético trabalha um pensamento em duas linhas, através da oposição de ideias, onde a segunda linha do poema expressa uma ideia oposta à ideia da primeira linha:

“Porque o SENHOR conhece o caminho dos justos;

porém o caminho dos ímpios perecerá” (Salmos 1:6)

Já, o paralelismo sinonímico trabalha uma ideia expressa duas vezes, com termos diferentes, em duas linhas:

“Levanta o pobre do pó e

do monturo levanta o necessitado” (Salmos 113:7)

Ter domínio das peculiaridades do paralelismo, na composição da poesia hebraica, muito auxilia na leitura e na análise do Livro de Jó.

O Livro de Jó, também, é classificado como Livro de Sabedoria, porque os eruditos entendem que o livro trata de questões práticas, pertinentes à existência humana, tais como fatalismo, materialismo, espiritualidade, sofrimento, moralidade, etc.

Outra questão acadêmica que orbita o Livro de Jó, é acerca da sua autoria e possível data em que foi escrito. Não há uma resposta segura para ambos e quando se parte para o campo das especulações, sobram opiniões! Aqui não opinaremos.

O significado do nome ‘Jó’, do hebraico בוֹיּאּ, transliterado “Iyyõb”, provavelmente, deriva de uma raiz que significa ‘voltar’ ou, ‘arrepender-se’ ou, o ‘perseguido’, do hebraico ‘ãyeb’.

Podemos traçar o seguinte esboço do Livro de Jó:

  1. Jó é provado e o sofrimento passa a ser o pano de fundo da história: (Jó 1:1 a 2:13);
  2. Três amigos de Jó procuram confortá-lo, porém, diante da reclamação de Jó, inicia-se um ciclo de discursos, em defesa de Deus, apontando a condição de Jó como resultado dos seus erros (Jó 3:1 a 31:40);
    1. Lamentação de Jó (Jó 3:1-26);
    2. Posicionamento de Elifaz (Jó 4:1 a 5:27) e réplica de Jó (Jó 6:1 a 7:21);
    3. Posicionamento de Bildade (Jó 8:1-22) e réplica de Jó (Jó 9:1 a 10:22);
    4. Posicionamento de Zofar (Jó 11:1-20) e réplica de Jó (Jó 12:1 a 14:22).
    5. Posicionamento de Elifaz (Jó 15:1-35) e réplica de Jó (Jó 16:1 a 17:16);
    6. Posicionamento de Bildade (Jó 18:1-21) e réplica de Jó (Jó 19:1-29);
    7. Posicionamento de Zofar (Jó 20:1-29) e réplica de Jó (Jó 21:1-34).
    8. Posicionamento de Elifaz (Jó 22:1-30)  e  réplica de Jó (Jó 23:1 a 24:25);
    9. Posicionamento de Bildade (Jó 25:1-6) e réplica de Jó (Jó 26:1 a 31:40).
  3. Exposição de Eliú (Jó 32:1 a 37:24);
  4. Perguntas de Deus (Jó 38:1 a 42:6);
  5. Epílogo (Jó 42:7-17).

Por que o justo sofre?

Ao pesquisar vários livros e comentários sobre o livro de Jó, as considerações sempre orbitam o sofrimento e, quase unanimemente, dão como tema do livro o sofrimento do justo[1].

Os comentaristas, geralmente, destacam, em letras garrafais, a seguinte pergunta:

“Por que o justo sofre?”

As considerações dos eruditos, que giram sobre o sofrimento, são diversas e, dentre elas, destacamos as principais:

  • Deus permitiu o sofrimento de Jó para justificar-se diante da acusação de Satanás;
  • A providência e o governo ético de Deus frente ao problema do sofrimento de um homem justo;
  • Deus permite o sofrimento do justo como meio de purifica-lo[2];
  • A mente do homem é muito ínfima, para que possa entender os motivos de Deus no sofrimento do justo;
  • Deus tinha plena confiança de que Jó sairia da provação, plenamente aprovado;
  • Deus derrotou Satanás, através do sofrimento de Jó;
  • Jó foi o homem mais integro que atendeu aos altos reclames da justiça divina, etc.

Se o tema do Livro de Jó é o sofrimento do justo[3], por inferência, se faz necessário concluir que o sofrimento do ímpio é plenamente aceitável. Através da leitura do Livro de Jó, somos levados a entender que o ímpio deve sofrer?

Ao estudar o Livro de Jó, desconsiderei as abordagens teóricas que constam das Bíblias de Estudos e dos livros de teologia. Li e reli diversas vezes o Livro de Jó, para chegar à seguinte conclusão: é impossível achar no Livro de Jó uma resposta para o sofrimento do justo, vez que o sofrimento ou, a problemática dos infortúnios que acometem o justo, não é o tema do livro.

Apesar do consenso de que o sofrimento do justo é o tema do Livro de Jó, não há entre os acadêmicos, uma resposta plausível que apresente um motivo[4], que dê resposta à pergunta: – ‘Por que o justo sofre?’[5].

Na verdade, o Livro de Jó não busca dar uma resposta à questão do sofrimento dos justos e nem foi escrito com o fito de apresentar uma teoria geral do sofrimento da humanidade[6].

O mote do Livro de Jó é pedagógico e o sofrimento é somente o pano de fundo, pois o tema do livro decorre de uma verdade imprescindível ao homem: a justiça do homem está aquém da justiça de Deus.

O propósito do livro é revelar uma verdade superior à ideia da problemática do sofrimento: como se dá a justificação do homem. O sofrimento é um dos elementos que fomentou os questionamentos, acerca da justiça de Deus e de que modo o homem poderia ser justo diante d’Ele.

Caro leitor, não quero desestimular a leitura do Livro de Jó, como um geólogo que desencoraja um visionário a não procurar petróleo em um terreno onde se suspeita que não haja o precioso ouro negro, mas deixa de avisar que há diamantes de grande valor naquela terra.

O nosso objetivo é que o leitor encontre a essência do Livro de Jó e, para isso, é necessário que o objeto seja substituído, para que o leitor tenha como encontrar o grande tesouro incrustado nessa história.

O leitor da Bíblia já observou que a história de Jó descreve alguém que sobrepuja qualquer ideário humano de justiça? Que a conduta, o caráter, a honradez e as práticas de Jó, estão muito além das nossas práticas cotidianas de justiça?

Ora, se Jó, de posse de um caráter que, a nosso ver, beira a perfeição; se as ações cotidianas do patriarca testemunhavam a favor da sua retidão e integridade[7] e; se Jó, ao ver o Criador, sentiu-se abominável e arrependido, imagine se eu ou você contemplássemos a Deus?

“Com os ouvidos eu ouvira falar de ti, mas agora te veem os meus olhos. Por isso me abomino e me arrependo no pó e na cinza” (Jó 42:5-6).

Após abrir mão de considerar o sofrimento dos justos como tema do Livro de Jó, fiquei sem um norte. Fez-se necessário fincar uma estaca, marcando um ponto ‘zero’, e voltar às minhas considerações e à releitura do livro, considerando os demais livros da Bíblia. Foi quando me deparei com o seguinte verso:

“Porque tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que, pela paciência e consolação das Escrituras, tenhamos esperança”. (Romanos 15:4)

Se tudo o que foi escrito, anteriormente, tem o objetivo de nos ensinar, o que Deus quer ensinar, através do Livro de Jó? O que há no livro de Jó, que nos concede esperança? Há ‘paciência’ e ‘consolação’ na história de Jó?

Tive que retornar aos evangelhos, às epístolas, aos profetas e à lei e, se o leitor deseja desvendar o objetivo do Livro de Jó, venha comigo. É essencial uma digressão[8] para compreender o ensinamento que está incrustado na trama de Jó, da mesma forma que é necessário garimpar o ouro oculto nas rochas, no seio da terra.

 

O mal debaixo do Sol

Não encontraremos, na Bíblia, uma resposta à pergunta: – ‘Porque o justo sofre?’, no entanto, ela nos informa que há um mal, em relação a tudo o que se faz debaixo do sol: tudo sucede, de igual forma, a todos!

“Tudo sucede, igualmente, a todos; o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao puro, como ao impuro; assim ao que sacrifica, como ao que não sacrifica; assim, ao bom, como ao pecador; ao que jura, como ao que teme o juramento. Este é o mal que há entre tudo quanto se faz debaixo do sol; a todos sucede o mesmo (Eclesiastes 9:2-3).

O Pregador aponta que há um mal em tudo o que se faz neste mundo: tudo sucede, igualmente, a todos. Os eventos neste mundo, quer sejam bons, quer sejam maus, não tem preferência em atingir a justos ou ímpios!

Se, somente, os justos sofressem, haveria motivo para indagar acerca do sofrimento dos justos. Semelhantemente, se tão somente os ímpios sofressem[9], poderíamos dissertar a respeito. Mas, como tudo sucede, igualmente, a todos, um mal que há entre tudo quanto se faz debaixo do sol, torna-se evidente que não há motivo para questionar o sofrimento, quando acomete os justos.

Mesmo os justos, tropeçam em muitas coisas (Tg 3:2) e se queixam dos seus próprios erros (Lm 3:39). O trabalho e a dor são pertinentes ao mundo dos homens, para exercitá-los, portanto, não há motivo para questionar acerca do sofrimento dos justos. “Tenho visto o trabalho que Deus deu aos filhos dos homens, para com ele os exercitar” (Ec 3:10;  Gn 3:17).

O Pregador dá um conselho aos homens, quer sejam justos, quer ímpios, e apresenta o motivo pelo qual há o dia da adversidade: para que o homem nada descubra do que há de vir depois dele.

“No dia da prosperidade goza do bem, mas, no dia da adversidade, considera; porque, também, Deus fez a este, em oposição àquele, para que o homem nada descubra do que há de vir depois dele” (Ec 7:14).

Continua…

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1] “Este livro trata com o problema teórico da dor na vida dos fiéis. Procura responder à pergunta: Por que os justos sofrem? Essa resposta chega de forma tríplice: Deus merece nosso amor à parte das bênçãos que concede; 2) Deus pode permitir o sofrimento como meio de purificar e fortalecer a alma em piedade; 3) os pensamentos e os caminhos de Deus são movidos por considerações vastas demais para a mente fraca do homem compreender, já que o homem não pode ver os grandes assuntos da vida com a mesma visão ampla do onipotente”. Archer, Gleason L., Merece confiança o Antigo Testamento? Traduzido por Gordon Chown. – São Paulo: Edições Vida Nova, Reimpressões 1998. Pág. 407.

[2] “Deus, por meio do sofrimento, pode levar o pecador à conversão e à salvação”. Bíblia de Estudo Almeida. Barueri – SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2000. Pág. 549.

[3] “O livro de Jó é uma obra-prima da literatura sapiencial. É uma dramática ficção histórica sobre o homem justo, sempre fiel às leis e tradições. O autor ou, autores, entrelaçam prosas e poemas, com os mais variados temas teológicos e sociais, como o sofrimento humano, a transformação  humana e social, o  bem e  o mal, a doutrina da retribuição, entre outros”. Nova Bíblia Pastoral, Editora Paulus, 2014 (Nota de rodapé), pg. 628.

[4] “O assunto do livro tem sido dado como ‘O problema do sofrimento, A relação entre o sofrimento e o pecado, ou Quais são as leis governo moral de Deus no mundo?’ Tudo isso é discutido de vários pontos de vista; e, mediante a discussão, somos levados a uma compreensão mais sábia destes perpétuos mistérios; mas, o livro termina sem que o problema tenha sido resolvido”. McNair, S. E. A Bíblia explicada, 4ª Edição, RJ: CPAD, 1983. Pág. 167 (Citação de Scroggie).

[5] “Existe apenas uma questão que realmente importa: Por que coisas ruins acontecem a pessoas boas? (…) Trata-se de um livro de difícil compreensão, um livro profundo e belo sobre o mais profundo dos temas, o problema do sofrimento dos bons”. Kushner, Harold S. “Quando coisas ruins acontecem às pessoas boas”, tradução Francisco de Castro Azevedo. – São Paulo: Nobel, 1988.  Págs. 15 e 38.

[6] “O assunto do livro é a providência e o governo ético de Deus à luz do muito antigo problema do sofrimento de um homem justo. Para esse problema, nem Jó se justificando, nem os seus três amigos acusando-o de pecado, encontraram a solução”. Scofield, C. I., Bíblia de Scofield, com referências (Nota de rodapé).

[7] Integridade – significa que Jó era honrado; integro no sentido de ‘completo’, resignado a não violar o que era de direito do outro.

[8] Em Literatura, digressão é um recurso utilizado pelo narrador, a fim de afastar a atenção sobre alguma ação da história principal. Dessa forma, o narrador pode iniciar um tema secundário pouco importante para a trama ou, refletir sobre um assunto que foge da narrativa principal.

[9] “Transcendendo o drama humano, centra-se o Livro de Jó nesta pergunta: ‘Por que sofre o justo?’ Que o pecador sofra, todos entendemos! Mas o justo? Aquele que tudo faz por agradar a Deus?” Andrade, Claudionor de, Jó: O Problema do Sofrimento do Justo e o seu Propósito., Rio de Janeiro: Editora CPAD, 2ª Edição, 2003, pág. 14.

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