A parábola dos gafanhotos do profeta Joel

O estrago descrito pela ação de gafanhotos, remete aos grandes males decorrentes da guerra com as nações estrangeiras e não a legiões de demônios. É uma mentira sem precedentes dizer que cada tipo de gafanhoto representa legiões de demônios, que agem sobre a vida dos homens.

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O mito do renovo da águia

O mesmo Senhor que anuncia que ‘todo vale será exaltado’ (Is 40:4), também, anuncia que os que confiam n’Ele renovarão as forças, de modo que subirão com asas como de águias, ou seja, plenos de força, de vigor. A força proporcionada por Deus fará com que os que confiam n’Ele corram e não se cansem, caminhem e não se fatiguem.


Introdução

À época do apóstolo Paulo a exposição de fábulas[1] em meio aos cristãos já ganhava notoriedade, tanto que ele alertou os irmãos Timóteo e Tito, a quem incumbia o cuidado de algumas igrejas, acerca dos ‘mitos’ que circulavam entre os primeiros cristãos.

“Nem se deem a fábulas ou a genealogias intermináveis, que mais produzem questões do que edificação de Deus, que consiste na fé; assim o faço agora (…) Mas rejeita as fábulas profanas e de velhas e exercita-te a ti mesmo em piedade” (1 Tm 1:4 e 4:7);

“Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências; e desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas” (2 Tm 4:4);

“Não dando ouvidos às fábulas judaicas, nem aos mandamentos de homens, que se desviam da verdade” (Tt 1:14).

A questão é seríssima, pois, o apóstolo Pedro lembra que o poder de Cristo e a sua vinda não foi anunciado aos irmãos através de estórias inventadas (fábulas artificialmente compostas), antes, os apóstolos viram a majestade de Cristo e, por isso, tornaram notório aos homens quem era Jesus de Nazaré: o Filho de Deus (2 Pe 1:17).

“Porque não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas artificialmente compostas; mas, nós mesmos vimos a sua majestade” (2 Pe 1:16; 1Jo 1:3).

Vale destacar que, lá pelos idos do século VI a. C., viveu entre os gregos um escravo que foi liberto pelo seu senhor: Esopo, um hábil contador de estórias, cujos personagens eram animais[2] e que se encerrava com uma deixa de cunho moral. Esopo foi citado por vários escritores como Heródoto, Aristófanes e Platão e várias de suas estórias foram editadas e citadas por diversos autores.

Muitos escritos judaicos sofreram forte influência das filosofias e dos ensinos pagãos que, pela tradição dos anciãos, foram incorporados à chamada lei oral e, por fim, ao Talmude. Os escritos apócrifos possuem inúmeras estórias fictícias, produto da imaginação humana, mas que utilizam personagens bíblicos como Moisés, Daniel, etc.

Os apóstolos Paulo e Pedro alertam os cristãos contra os mitos judaicos, ou seja, as suas invenções, que tinham por base genealogias, filosofias, mandamentos de homens, misticismo, etc., mas, apesar do alerta, a quantidade de fábulas que, em nossos dias, circulam em meio aos cristãos, é surpreendente.

Dentre elas, destaco a estória da renovação da águia, de autoria desconhecida e muito divulgada nos círculos cristãos, em redes sociais, e, até mesmo, em sermões.

 

O renovo da águia

A primeira informação que o mito da renovação da águia apresenta é acerca da longevidade desse predador: de que a águia possui a maior longevidade entre as aves e, que a média de expectativa de vida de uma águia é de 70 anos. Fontes mais confiáveis afirmam que a média de expectativa de vida da maioria das águias, dependendo da espécie, é de 30 anos, e que grandes águias e abutres podem viver em cativeiro até 60 anos[3].

As asserções seguintes, acerca do renovo da águia, são mais absurdas ainda, pois dá conta que, para atingir a casa dos 70 anos, primeiro a águia precisa tomar uma difícil decisão. Ora, sabemos que os animais, em determinadas fases do seu desenvolvimento, adotam comportamento instintivo[4], portanto, é temeroso o argumento de que um animal deve tomar uma decisão e com um complicador: uma decisão séria e difícil.

A descrição que fazem de uma águia quando envelhece é descabida, pois as unhas de qualquer animal, quando na natureza, são afiadas pelo uso, e, com o passar do tempo, se fortalecem ainda mais. O mesmo principio se aplica ao bico, uma estrutura de queratina com crescimento continuo durante a vida da ave.

Se uma ave de rapina, pela velhice, não consegue agarrar uma presa, não é porque suas unhas se tornaram flexíveis, antes a causa está na falta de agilidade decorrente da debilidade muscular que é próprio à velhice.

As considerações acerca das asas, de que elas se tornam pesadas, em função das penas envelhecidas pelo tempo, também são descabidas, pelas imprecisões terminológicas. Ave alguma arranca as suas penas para renová-las, o que pode ocorrer em função de alguma patologia como o estresse, o que pode ocorrer quando uma ave está em cativeiro.

A águia, como todas as aves, troca as suas penas ao longo da vida, num processo denominado ‘muda’, o que depende do clima, alimentação, período de reprodução, etc., nunca por uma decisão que envolva intencionalidade ou instinto.

A descrição do processo de renovação que o mito da águia apresenta, não encontra paralelo na natureza. Não há achados de penas, bicos ou unhas de águias que comprovem que elas se renovam quando se refugiam no alto dos picos das montanhas, em ninhos construídos próximos a um paredão de pedras.

As aves, geralmente, afiam seus bicos nas pedras, mas a estória do renovo da águia diz que ela arranca o bico batendo na parede de pedra e que espera um novo bico crescer para arrancar as unhas. Ora, bicos e unhas são irrigados com sangue e possuem terminações nervosas, o que impossibilita um animal sadio de se automutilar.

A estória do renovo da água diz que a águia, quando decide não morrer aos 40 anos, arranca as penas com as unhas e a sua restauração se dá através de um processo que dura míseros 150 dias. Vale destacar que uma pena arrancada do seu folículo, se não for naturalmente durante a ‘muda’, demora no mínimo um ano para nascer e o mito do renascimento da águia diz que, após cinco meses, a águia está renascida para o seu ‘famoso’ voo de renovação, quando viverá por mais 30 anos.

 

As Escrituras

Questões da natureza à parte, ou até mesmo referências à mitologia grega, de um pássaro, a fênix, que, quando morria, entrava em autocombustão e, depois de um tempo, renascia das próprias cinzas, voltemos às Escrituras para analisar a figura da águia.

No Pentateuco, ao falar aos filhos de Israel, Deus utiliza as asas da águia para indicar que eles estavam sob a proteção de Deus:

“Vós tendes visto o que fiz aos egípcios, como vos levei sobre asas de águias e vos trouxe a mim” (Êx 19:4);

“Como a águia desperta a sua ninhada, move-se sobre os seus filhos, estende as suas asas, toma-os e os leva sobre as suas asas (Dt 32:11).

A passagem de Deuteronômio evidencia qual a ideia que a frase: ‘levei sobre asas de águia’ evidencia. Os filhos de Israel, ao serem resgatados do Egito, eram uma nação que havia acabado de alcançar a liberdade, portanto, sem experiência e sem condições de se defender, de modo que precisaram da proteção de Deus, assim como um filho necessita do cuidado do pai, ou uma ninhada necessita do cuidado da águia.

Em algumas passagens, a águia é utilizada como figura para fazer referência à rapidez, à velocidade desse predador:

“O SENHOR levantará contra ti uma nação de longe, da extremidade da terra, que voa como a águia, nação cuja língua não entenderás” (Dt 28:49; Jr 4:13; Hc 1:8);

“Saul e Jônatas, tão amados e queridos na sua vida, também na sua morte não se separaram; eram mais ligeiros do que as águias, mais fortes do que os leões” (2 Sm 1:23; Jó 9:26).

Outras passagens apontam para a força de destruição dessa ave de rapina:

“Porque assim diz o SENHOR: Eis que voará como a águia e estenderá as suas asas sobre Moabe” (Jr 48:40);

“Eis que ele, como águia subirá, e voará, e estenderá as suas asas contra Bozra; e o coração dos valentes de Edom, naquele dia, será como o coração da mulher que está com dores de parto” (Jr 49:22).

O contexto demonstra que nestes dois versos de Jeremias ‘estender a asa’ significa as nações estão ao alcance da destruição, ou seja, não há escape.

Mas, há dois versos em que a figura da águia aparece em um mesmo verso, com a ideia de renovo:

“Que farta a tua boca de bens, de sorte que a tua mocidade se renova como a da águia” (Sl 103:5);

“Mas os que esperam no SENHOR renovarão as forças, subirão com asas como águias; correrão e não se cansarão; caminharão e não se fatigarão” (Is 40:31).

 

Subirão com asas

O profeta Isaias utiliza a figura da águia para descrever aqueles que confiam em Deus: eles renovarão as forças. O verso não diz que os que esperam em Deus se renovarão como águias, antes, que renovarão as forças, pois Deus é o que concede força ao cansado: “Dá força ao cansado e multiplica as forças ao que não tem nenhum vigor” (Is 40:29).

A abordagem de Isaías deixa evidente que o renovo proposto por Deus é da força e do vigor dos que confiam, o que difere do equivoco de considerar que os que confiam em Deus se renovam como uma águia se renova, o que poderia dar supedâneo à má ideia expressa no mito do renovo da águia.

 

A mocidade renovada

O que entender do Salmo 103, verso 5?

“Que farta a tua boca de bens, de sorte que a tua mocidade se renova como a da águia” (Sl 103:5);

Como a águia não se renova, certo é que a mocidade não se renova como a da águia, antes, o que se renova é o vigor, a força, segundo o que expressa a tradução do Rei Tiago:

“Ele sacia de bens a tua existência, de maneira que a tua juventude se renova como o vigor de uma águia(Sl 103:5) KJA.

O renovo da águia não possui comprovação cientifica e, muito menos, decorre ou fundamenta-se em alguma asserção das Escrituras. Há farto material na internet que denuncia a farsa que o mito da águia promove, mas poucos se detém a comentar o Salmo 103, verso 5.

O entendimento equivocado acerca da águia, que muitos depreendem e atribuem ao Salmo 103, verso 5, essencialmente decorre de má leitura. A má leitura e a falta de compreensão de alguns, permeia todo o verso.

 

Boca plena de bens

Considerando que a vida de um homem não consiste nos bens materiais que possui (Lc 12:15), para que o homem tenha a boca cheia de bens, Deus troca o seu coração, arrancando o coração de pedra herdado de Adão e concede um novo, pois do que há no coração, disso fala a boca: “E dar-vos-ei um coração novo e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra e vos darei um coração de carne” (Ez 36:26); “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” (Mt 12:34).

Ciente dessa verdade, o Salmista roga a Deus que lhe dê um novo coração. Como? Que Deus crie um coração puro, o que contrasta com o antigo coração (Sl 51:10). Os bens, dos quais a boca se torna cheia (plena), referem-se ao louvor que essa boca entoará (Sl 51:15).

A boca plena de bens não diz de riquezas materiais, até porque o êxito de um homem de Deus está em guardar a fé e não em seu poder aquisitivo, para comprar roupas e alimentos: “A bênção do SENHOR é que enriquece; e não traz consigo dores” (Pv 10:22; Hb 13:7).

Um coração enganoso não pode dizer boas coisas, antes produz engano, mentira, pois uma árvore não produz duas qualidades de frutos: bons e maus: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas e perverso; quem o conhecerá?” (Jr 17:9); “Por seus frutos os conhecereis. Porventura, colhem-se uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos? Assim, toda a árvore boa produz bons frutos e toda a árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons. Toda a árvore que não dá bom fruto, corta-se e lança-se no fogo. Portanto, pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7:16).

Os bens os quais Deus farta a boca, diz de um cântico novo, que só pode entoar aqueles que são gerados de uma semente incorruptível, pois os lábios passam a produzir sacríficio de louvor, o fruto de lábios que confessam que Jesus Cristo é o Senhor (Hb 13:15; Sl 51:14).

Somente aqueles que são plantados por Deus, são árvores de justiça, para que Ele seja glorificado (Jo 15:8; Mt 15:13; Is 60:21 e Is 61:3). Ter a boca cheia de bens só é possível ao novo homem gerado da água e do espírito, pois o novo homem possui o vigor próprio à águia: nunca se cansa e nem se fatiga (Is 40:31).

Jesus convida os cansados e oprimidos, pois Ele diz: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei” (Mt 11:28).

Vale destacar que Deus não reformula o velho homem, antes é criado um novo homem, em verdadeira justiça e santidade (Ef 4:24). Deus não transforma o velho coração, antes cria um novo (Sl 51:10). O corpo do velho homem é desfeito quando crucificado com Cristo, pois é sepultado (Rm 6:4 -6; Cl 2:12; ). Com Cristo, ressurge um novo homem, portanto, não há um renovar mas,  um novo nascimento, uma nova criação (Cl 2:12).

“No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão, no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo; sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos. E, quando vós estáveis mortos nos pecados, e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-vos de todas as ofensas” (Cl 2:11-13).

O mito do renovo da águia é uma entre milhares de mensagens que circulam nas redes sociais, com viés de autoajuda. Geralmente, ganham versões ilustradas, trilha sonora e voz atraente para capturar a atenção e a credibilidade do ouvinte.

Mas, o alerta é claro:

“Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores, conforme as suas próprias concupiscências; e desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas” (2Tm 4:4).

O poder do evangelho decorre da cruz de Cristo, e não de estórias, fábulas e mitos. É por isso que o apóstolo Paulo lembra:

“Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos” (1Co 1:23);

“Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado (1 Co 2:2);

“A minha palavra e a minha pregação, não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas, em demonstração de Espírito e de poder” (1 Co 2:4).

Fica o alerta: o evangelho de Cristo não é filosofia de autoajuda, não segue e nem depende da moral humana, porque os caminhos de Deus não seguem o curso deste mundo!

“Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o SENHOR. Porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos e os meus pensamentos, mais altos do que os vossos pensamentos” (Is 55:8-9).

 


[1] Da palavra grega μῦθος (mýthos), uma estória, uma ficção, um mito, uma invenção.

[2] “As fábulas (do Latim fabula: história, jogo ou narrativa), são composições literárias curtas, escritas em prosa ou versos, em que os personagens são animais, que apresentam características antropomórficas, muito presente na literatura infantil. As fábulas possuem caráter educativo e fazem analogia entre o cotidiano humano, com as histórias vivenciadas pelos personagens, essa analogia é chamada de moral e geralmente, é apresentada no fim da narrativa (…) provérbios sumérios, escritos cerca de 1500 a.C., já compartilhavam semelhanças com as fábulas gregas. Esses provérbios já incluíam em suas narrativas animais antropomórficos e uma lição moral”, cf. Wikipédia.

[3] Kirschbaum, Kari (2004). «EOL Encyclopedia of Life: Accipitridae: Life Expectancy» [S.l.: s.n.] Referência citada na Wikipédia – Consultado em 2016-06-26.

[4] “Instintos são típicos do comportamento animal, sobretudo com relação a comportamentos que favorecem a sobrevivência da espécie (acasalamento, busca de alimento, construção de ninhos, fuga). Os comportamentos instintivos podem assumir formas muito complexas, com longas sequências de ações especializadas para determinados fins (por exemplo, a reprodução e a alimentação de insetos)” Wikipédia.

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Cristo – O dom de Deus para salvação

Quando Deus disse a Moisés, que tem misericórdia de quem Ele tiver, Moisés estava querendo e correndo atrás do perdão de Israel. Ora, Moisés não alcançou a misericórdia de Deus para o povo de Israel, pois todos que saíram do Egito, exceto dois, morreram no deserto. Não dependia de Moisés querer ou correr, mas de Deus, que tem misericórdia dos que O amam.


O Dr. Arthur W. Pink ao argumentar em defesa da doutrina calvinista, especificamente com relação à soberania divina na reprovação, reitera o seu posicionamento defendido em seu livro, dizendo:

“Novamente; fé é um dom de Deus e o propósito de dá-la somente a alguns, envolve o propósito de não dá-la a outros. Sem fé não há salvação — “Quem crê nele não é condenado” — portanto, se há alguns descendentes de Adão aos quais Ele propôs não dar fé, deve ser porque Ele ordenou que eles deveriam ser condenados” – Arthur W. Pink, A Soberania de Deus na Reprovação[1].

O Dr. Pink argumenta que a ‘fé é um dom de Deus’. Sem problema algum, pois neste ponto ele cita o apóstolo Paulo aos Efésios, quando diz: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Ef 2:8).

O erro surge quando ele diz que Deus dá a fé somente a alguns[2], e que, por conseguinte, Deus se resignou a não dar a fé a outros. Está correto o argumento do Dr. Pink?

O problema do Dr. Pink é de interpretação de texto, pois no verso 5, o apóstolo Paulo afirma que, quando os agora cristãos estavam mortos em ofensas, foram vivificados por Cristo. Neste ponto o apóstolo argumenta: “Pela graça sois salvos”.

Ora, o ato de dar vida ao homem é ação graciosa de Deus, pois quando morto em ofensas, o velho homem foi crucificado com Cristo e sepultado. Neste quesito a justiça de Deus é estabelecida, pois a pena não passa do transgressor, visto que a alma que pecar, essa mesma morrerá.

Quando o homem no pecado morre com Cristo, Deus é justo e não tinha nenhuma obrigação para com os que são crucificados com Cristo, mortos no batismo com Cristo e sepultados. Mas, graciosamente, Deus faz ressurgir da sepultura um novo homem, criado, segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade, portanto, na nova criação, Deus é justificador, pois declara o novo homem em Cristo, justo e santo.

Na ressurreição com Cristo, está a graça de Deus, visto que, na morte com Cristo, se opera a justiça de Deus:

“Ou não sabeis que, todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte? De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também, em novidade de vida. Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição; sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado. Porque aquele que está morto está justificado do pecado. Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos” (Rm 6:3 -8).

Foi cravado na cruz o escrito de dívida que era contra os incircuncisos de coração, sendo que, na cruz, a circuncisão de Cristo foi feita, pois, nela, o corpo do pecado da carne foi desfeito. Após ser sepultado com Cristo, no batismo de sua morte, os que creem foram ressuscitados, de modo que todas as ofensas foram perdoadas.

“No qual também estais circuncidados com a circuncisão, não feita por mão, no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo; sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé, no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos.  E, quando vós estáveis mortos nos pecados e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-vos todas as ofensas, havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual, de alguma maneira, nos era contrária e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz” (Cl 2:11-14).

Além dos cristãos terem sido ressuscitados com Cristo, Deus os fez assentar nas regiões celestiais em Cristo, ou seja, agora entram no descanso. Ora, este evento de vivificar os que creram e fazê-los assentar-se nas regiões celestiais, será notificado nos séculos vindouros, o quão abundantes são as riquezas da graça, por intermédio de Cristo (Ef 2:7).

Após apontar a benignidade de Deus, em Cristo, o apóstolo Paulo enfatiza, novamente, que, pela graça, os cristãos são salvos. Ora, os cristãos são salvos pela graça, pois a benignidade de Deus em Cristo, nada exige do homem para ser salvo, vez que é impossível ao homem salvar-se a si mesmo.

Mas, apesar de o homem ser salvo pela graça, a salvação é operada por meio da fé, ou seja, algo definido como não proveniente dos homens (não vem de vós), antes diz do dom de Deus.

“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Ef 2:8).

O Dr. Pink confunde o ‘dom de Deus’ com a ‘crença’ do homem pela má leitura que faz do texto.

O dom de Deus é Cristo e não a crença do homem, conforme se lê:

“Jesus respondeu e disse-lhe: Se tu conheceras o dom de Deus e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias e ele te daria água viva” (Jo 4:10).

Se a mulher samaritana conhecesse o dom de Deus e se conhecesse aquele que lhe estava pedindo água, reconheceria, de pronto, que aquele homem à beira do poço de Jacó era o Cristo, o dom inefável de Deus dado aos homens. Cristo é o dom de Deus dado a todos os homens: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16).

Sem Cristo não há salvação, pois não há entre os homens nenhum outro nome dado pelo qual devamos ser salvos: “E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” (At 4:12); “Sempre dou graças ao meu Deus por vós, pela graça de Deus que vos foi dada em Jesus Cristo” (1Co 1:4).

Isso significa que, pela graça de Deus o homem é salvo, por meio de Cristo, ou como vem expresso no verso: por meio da fé. Ora, quando é dito que o homem é salvo por meio da fé, fé não tem o significado de crença, mas, sim, o significado de O enviado de Deus, pois Cristo é a fé que havia de se manifestar:

“Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar (Gl 3:23).

Quando lemos: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Ef 2:8), temos que ter a perspicácia de substituir a frase: ‘por meio da fé’, pela frase: ‘por meio daquela fé que se havia de manifestar, que é Cristo, o dom de Deus.

No afã de enfatizar o seu credo, o Dr. Pink não teve o cuidado de observar que o termo traduzido por fé, não se trata de um verbo, mas do substantivo grego πίστις, transliterado pistis. Sem πίστις (fé) não há salvação, mas com πιστεύω (pisteúo=fé, crer, acreditar) ou sem πιστεύω  há salvação, pois Deus é fiel e não pode negar a si mesmo: “Pois quê? Se alguns foram incrédulos, a sua incredulidade aniquilará a fidelidade de Deus?” (Rm 3:3; 2Tm 2:13).

Quando o apóstolo Paulo faz referência à fé, que por meio dela o homem é salvo, faz menção da fé, que a incredulidade do homem jamais pode aniquilar.

O termo fé foi empregado pelo apóstolo Paulo, no verso 8, do capítulo 2, de Efésios, como figura de linguagem, a metonímia[3] onde, no caso, temos a substituição do autor pela obra: Cristo é o autor e consumador da fé: “Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta e assentou-se à destra do trono de Deus” (Hb 12:2).

Quando Cristo, o dom de Deus, foi concedido, Deus não fez distinção entre homens. Deus amou o mundo, ou seja, todos os povos, nações, tribos e de todas as línguas, pois, sobre isso, vaticinou o profeta:

“Disse mais: Pouco é que sejas o meu servo, para restaurares as tribos de Jacó e tornares a trazer os preservados de Israel; também te dei para luz dos gentios, para seres a minha salvação até a extremidade da terra” (Is 49:6);

“E toda a carne verá a salvação de Deus” (Lc 3:6);

“Porque o Senhor assim no-lo mandou: Eu te pus para luz dos gentios, a fim de que sejas para salvação, até os confins da terra” (At 13:47);

“Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens” (Tt 2:11).

Segundo o profeta Isaías, Deus se propôs a conceder salvação a todos os descendentes de Adão, ou seja, Deus se propôs a dar fé a todos os homens, do que se conclui que a assertiva do Dr. Pink é equivocada.

A fé foi dada, primeiramente, aos judeus (Jo 1:11), mas, como eles a rejeitaram, ela foi transferida aos gentios:

“Seja-vos, pois, notório que esta salvação de Deus é enviada aos gentios e eles a ouvirão” (At 28:28).

Além de ‘fé’, Cristo também é nomeado de ‘poder de Deus’, ‘sabedoria de Deus’, etc. Sem Cristo não há salvação, o que nos leva a considerar que, sem o poder de Deus, ou sem a sabedoria de Deus, não há como ser salvo.

Daí a máxima:

“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu e, também, do grego” (Rm 1:16).

Ora, o apóstolo Paulo não se envergonhava do evangelho de Cristo, ou seja, da palavra da cruz (1 Co 1:18), da pregação da fé (Gl 3:2), da loucura da pregação (1Co 1:21), pois é poder de Deus para salvação de todo aquele que crer.

A pregação está intimamente ligada à fé, ou seja, a Cristo, de modo que, se a mensagem apregoada não é segundo Cristo, tanto a pregação, quanto aquele que é anunciado, se faz vão. Sabemos que Cristo ressuscitou dentre os mortos, mas se alguém apregoa que Jesus não ressuscitou, a pregação é inútil, bem como o próprio Cristo, se Ele não houvesse ressuscitado: “E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação e também é vã a vossa fé” (1 Co 15:14 e 17).

Quando lemos: “Que mediante a fé estais guardados na virtude de Deus para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo” (1 Pd 1:5), temos que entender que é mediante o evangelho (fé) que os cristãos são guardados para a salvação.

Observe que, pregar com base em sabedoria de palavras e não com base na mensagem da cruz, torna inócua a cruz de Cristo, para quem é anunciado somente em sabedoria de palavras: “Porque Cristo enviou-me, não para batizar, mas para evangelizar; não em sabedoria de palavras, para que a cruz de Cristo se não faça vã” (1 Co 1:17).

Embora Deus tenha enviado o seu Filho ao mundo para salvação, aprouve a Deus salvar aqueles que dão crédito à pregação, ou seja, Deus só salva os crentes, não os ouvintes da pregação: “Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação” (1 Co 1:21).

Daí a pergunta: “Quem deu crédito à nossa pregação? E a quem se manifestou o braço do SENHOR?” (Is 53:1). Embora os filhos de Israel não dessem crédito à pregação, contudo, o braço do Senhor – Cristo – foi manifesto a todos os povos: “O SENHOR desnudou o seu santo braço perante os olhos de todas as nações; e todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus” (Is 52:10).

A πιστεύω (pisteúo=crença) jamais precede a πίστις (pistis=fé). A πιστεύω (crença) decorre da πίστις (fé), pois a πίστις remete à verdade, à fidelidade, à lealdade e à imutabilidade de Deus. Tanto que o termo grego πίστις, decorre da raiz de um termo, que significa fidelidade. Segundo o Dicionário Bíblico Strong, o termo fé (πιστις, pistis), entre outras coisas, significa fidelidade, lealdade.

Quando deparamos com a definição: “Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que não se veem” (Hb 11:1), a fé é objetiva, ou seja, é o firme fundamento, algo imutável. O que se espera, diz respeito à crença do homem, que é algo subjetivo, de foro íntimo. A fé é prova, ou seja, algo objetivo, mesmo quando não conseguimos contemplar, ver.

Ora, as Escrituras deixam claro que o firme fundamento é Cristo, pois Ele é a pedra de esquina, no qual aquele que crê não é confundido: “Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, do qual Jesus Cristo é a principal pedra da esquina” (Ef 2:20); “Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo” (1 Co 3:11).

Sem Cristo (fé) é impossível agradar a Deus: “Ora, sem fé é impossível agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que é galardoador dos que o buscam” (Hb 11:6).

Mas, para que alguém creia, primeiro é necessário pregar, pois crer decorre da palavra da fé: “Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos” (Rm 10:8); “Então, ou seja eu, ou sejam eles, assim pregamos e assim haveis crido” (1 Co 15:11).

Só é possível ‘estar em Cristo’, ou seja, ‘ser uma nova criatura’, após ouvir a palavra da verdade, o evangelho da salvação e crer: “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” (Ef 1:13).

Daí a exposição paulina aos cristãos em Roma:

“Mas, a justiça que é pela fé, diz assim: Não digas em teu coração: Quem subirá ao céu? (isto é, a trazer do alto a Cristo) Ou: Quem descerá ao abismo? (isto é, a tornar a trazer dentre os mortos a Cristo.)” (Rm 10:6-7).

A justiça de Deus não é pela crença do homem, mas pela palavra de Deus, que é firme e fiel: a FÉ. Ou seja, a justiça, que é pela palavra de Deus, protesta contra os homens para não dizerem em seus corações: quem subirá ao céu? Quem descerá ao abismo?

Esta é a palavra firme e fiel, digna de toda aceitação:

“Porque este mandamento, que hoje te ordeno, não te é encoberto e tampouco está longe de ti. Não está nos céus, para dizeres: Quem subirá por nós aos céus, que no-lo traga e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Nem, tampouco, está além do mar, para dizeres: Quem passará por nós, além do mar, para que no-lo traga e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Porque esta palavra está mui perto de ti, na tua boca e no teu coração, para a cumprires” (Dt 30:11-14).

Não crer nesta palavra é injustiça!

A palavra da fé, ou seja, a palavra de Deus é esta:

“Esta é uma palavra fiel e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” (1 Tm 1:15).

Sobre a palavra da fé, orientou o apóstolo Paulo a Timóteo:

“Propondo estas coisas aos irmãos, serás bom ministro de Jesus Cristo, criado com as palavras da fé e da boa doutrina que tens seguido. Mas rejeita as fábulas profanas e de velhas e exercita-te a ti mesmo em piedade; porque o exercício corporal para pouco aproveita, mas a piedade para tudo é proveitosa, tendo a promessa da vida presente e da que há de vir. Esta palavra é fiel e digna de toda a aceitação” (1 Tm 4:6-9).

Por que foi dada esta orientação? Porque muitos apostatariam da fé, ou seja, da verdade, da palavra digna de total aceitação! Deixariam a Cristo e seguiriam fábulas de homens corruptos de entendimento.

O termo grego πιστεύω (pisteúo), traduzido por crença, quando empregado nas Escrituras, tem o sentido de obediência. A palavra da fé é que Cristo é o enviado de Deus, que foi morto e ressurgiu ao terceiro dia. Crer nesta mensagem é o mandamento de Deus para que o homem não pereça. A obediência da fé (evangelho) é crer que Jesus é o Senhor e que Deus o ressuscitou entre os mortos.

“Mas, que se manifestou agora e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações, para obediência da fé” (Rm 16:26).

“A saber: se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que, com o coração se crê para a justiça e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido. Porquanto, não há diferença entre judeu e grego; porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam” (Rm 10:9-12).

Quem crê em Cristo não perece, antes alcança a vida eterna: “Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê, já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo 3:18). Por que? Porque, quem crê em Jesus, crê no testemunho que Deus deu acerca do seu Filho nas Escrituras: “Quem crê no Filho de Deus, em si mesmo tem o testemunho; quem a Deus não crê, mentiroso o fez, porquanto não creu no testemunho que Deus de seu Filho deu. E o testemunho é este: que Deus nos deu a vida eterna; e essa vida está em seu Filho” (1 Jo 5:10 -11).

A mensagem apregoada pelos profetas apontava para o Cristo, mas, quando Jesus veio, os homens O rejeitaram; por conseguinte, rejeitaram as Escrituras, pois elas testificam de Cristo: “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna e são elas que de mim testificam” (Jo 5:39).

Crer em Cristo é obedecer ao mandamento de Deus, ou, segundo uma linguagem própria aos judeus, realizar a obra de Deus: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1 Jo 3:23); “Jesus respondeu e disse-lhes: a obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” (Jo 6:29).

Deus só é favorável a quem obedece, ou seja, a quem O ama, a quem realiza a obra, a quem cumpre o mandamento, pois assim está escrito:

“Eu amo aos que me amam e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17).

A benevolência de Deus está em Cristo, porém, para alcançá-la, o homem tem que obedecer a Deus, como está escrito:

“Portanto, diz o SENHOR Deus de Israel: Na verdade tinha falado eu que a tua casa e a casa de teu pai andariam diante de mim perpetuamente; porém agora diz o SENHOR: Longe de mim tal coisa, porque aos que me honram honrarei, porém os que me desprezam, serão desprezados” (1 Sm 2:30);

“Com o benigno te mostrarás benigno e com o homem sincero te mostrarás sincero; Com o puro te mostrarás puro e com o perverso te mostrarás indomável” (Sl 18:25-26).

A mensagem da salvação é direcionada a todos os homens, porém, a salvação é só para os que obedecem, ou seja, para os que creem em Cristo: “E, sendo ele consumado, veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem(Hb 5:9).

O Dr. Pink apregoa que Deus salva e reprova os homens segundo a sua Soberania, porém, as Escrituras não dizem assim. Observe:

“Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos. E retribui no rosto qualquer dos que o odeiam, fazendo-o perecer; não será tardio ao que o odeia; em seu rosto lho pagará. Guarda, pois, os mandamentos e os estatutos e os juízos que hoje te mando cumprir” (Dt 7:7-11).

Embora Deus seja Deus, ou seja, exerça soberania, contudo, a relação dele com suas criaturas se dá através do amor e do ódio. Quando a Bíblia fala de amor e ódio, não fala de sentimentos, mas, de obediência e desobediência, como se lê:

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Mt 6:24).

Desde sempre, Deus se propôs a exercer misericórdia aos que O amam, ou seja, aos que guardam os seus mandamentos e faz perecerem os que O odeiam, ou seja, aos que não guardam os seus mandamentos. Daí a ordem: Guarda, pois os mandamentos!

Deus é fiel à Sua palavra: Ele guarda a aliança e concede a sua misericórdia aos que O amam. Esta lição é incontestável! Mas, quando o povo de Israel não guardou a aliança e desobedeceu a Deus, fazendo um bezerro de ouro, Moisés se interpôs diante de Deus e fez a seguinte oração:

“Agora, pois, perdoa o seu pecado, se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito” (Êx 32:32).

Ora, Deus só risca do livro aquele que pecar, portanto, a oração de Moisés foi descabida e atentatória à justiça de Deus, pelo que Deus respondeu:

“Então, disse o SENHOR a Moisés: Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro” (Ex 32:33).

Em outras palavras, a alma que pecar essa mesma morrerá, ou seja, Moisés não podia perecer no lugar do povo que pecou: “A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai levará a iniquidade do filho. A justiça do justo ficará sobre ele e a impiedade do ímpio cairá sobre ele” (Ez 18:20).

Deus concedeu a Moisés que continuasse conduzindo aquele povo, porém, o mal já estava estabelecido: visitarei neles o seu pecado! “Vai, pois, agora, conduze este povo para onde te tenho dito; eis que o meu anjo irá adiante de ti; porém, no dia da minha visitação, visitarei neles o seu pecado” (Ex 18:34).

Mas, ao dar prosseguimento em sua missão, Moisés roga pela presença de Deus e que considere o povo de Israel, que havia pecado, como o Seu povo (Ex 33:12-13). Deus concede o desejo de Moisés, de mostrar a sua glória, fazendo passar a bondade de Deus e anunciar o nome de Deus perante Moisés (Ex 33:19).

Mas, apesar de Deus conceder o desejo de Moisés, reitera a sua palavra: “… e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer” (Ex 33:19). Onde os calvinistas veem soberania, na verdade é a reiteração de um mandamento: “Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos” (Ex 7:7).

De quem Deus tem misericórdia? Deus tem misericórdia dos que O amam, ou seja, dos que guardam o seu mandamento. Quando é dito: ‘terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia’, ocorre uma figura de linguagem conhecida por ‘elipse’, que consiste na supressão de parte da frase, geralmente utilizada por bons escritores, pois intensifica e valoriza a porção restante do discurso.

Deus não utiliza dois pesos e duas medidas: “E orei ao SENHOR meu Deus, confessei e disse: Ah! Senhor! Deus grande e tremendo, que guardas a aliança e a misericórdia para com os que te amam e guardam os teus mandamentos” (Dn 9:4).

Jesus mesmo disse que aquele que ama é o que guarda os seus mandamentos: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21). Ora, se tudo concorre para o bem dos que amam a Deus, certo é que tudo concorre para o bem dos que obedecem a Deus (Rm 8:28).

Aquele que não obedece (ama), não conhece a Deus: “Aquele que não ama, não conhece a Deus; porque Deus é amor” (1 Jo 4:8); “Aquele que diz: Eu o conheço e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso e nele não está a verdade” (1 Jo 2:4); “Confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras, sendo abomináveis e desobedientes e reprovados para toda a boa obra” (Tt 1:16).

De nada adianta o homem dizer que crê em Deus, mas não crê em Cristo, pois a boa obra, segundo o mandamento de Deus, é crer naquele que Ele enviou e, concomitantemente, está crendo em Deus: “E Jesus clamou e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas nAquele que me enviou” (Jo 12:44); “E a sua palavra não permanece em vós, porque naquele que Ele enviou não credes vós” (Jo 5:38).

Observe o seguinte verso:

“Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido dele” (1Co 8:3).

Como o homem se torna ‘conhecido’ de Deus? Obedecendo-o! Amando-o!

Essa abordagem se faz necessária, pelos equívocos apresentado pelo Dr. Pink no seguinte parágrafo:

“E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mateus 7:23). No capítulo anterior foi demonstrado que as palavras “conhecer” e “pré-conhecimento”, quando aplicadas a Deus nas Escrituras, têm referência não, simplesmente, à Sua presciência (isto é, a Seu conhecimento desnudo, de antemão), mas, ao Seu conhecimento de aprovação. Quando Deus disse a Israel: “De todas as famílias da terra, somente a vós (Israel) vos tenho conhecido” (Amós 3:2), é evidente que Ele quis dizer: “Somente vocês têm o meu favor”. Quando lemos em Romanos 11:2: “Deus não rejeitou o seu povo (Israel), o qual de antemão conheceu”, é óbvio que o significado é: “Deus não rejeitou, finalmente, aquele povo que Ele escolheu como objeto de Seu amor — conforme Deuteronômio 7:7,8. Da mesma forma (e é a única forma possível) devemos entender Mateus 7:23. No Dia do Julgamento o Senhor dirá a muitos: “Eu nunca vos conheci”. Observe, é mais do que simplesmente “Eu não vos conheço”. Sua declaração solene será: “Eu nunca vos conheci” — vocês nunca foram os objetos da Minha aprovação. Contraste isto com o “Eu conheço (amo) as Minhas ovelhas e das Minhas sou conhecido (amado)” (João 10:14). As “ovelhas”, Seus eleitos, os “poucos”, Ele “conhece”; mas os réprobos, os não-eleitos, os muitos, Ele não conhece — não, nem mesmo antes da fundação do mundo Ele os conheceu — Ele “NUNCA” os conheceu!” Arthur W. Pink, A Soberania de Deus na Reprovação.

Para o Dr. Pink, ‘conhecer’ é o mesmo que ‘aprovação’, porém, o termo não possui este significado. Na verdade, o termo ‘conhecer’ aplica-se aos que obedecem, aos que amam, no sentido de que se tornaram um com Ele: “Como labareda de fogo, tomando vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo” (2Ts 1:8); “E nisto sabemos que o conhecemos: se guardarmos os seus mandamentos. Aquele que diz: Eu conheço-o, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e nele não está a verdade” (1Jo 2:3 -4).

Deus tomará vingança dos que não obedecem ao evangelho de Cristo, ou seja, em sentido contrário, os que obedecem ao evangelho se tornam um com o Pai e o Filho, isto é, conheceram a Deus, ou antes, foram conhecidos d’Ele: “Mas, agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” (Gl 4:9); “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um” (Jo 17:22).

‘Conhecer’ a Deus é se tornar membro do corpo de Cristo, é pertencer à Sua Igreja. ‘Conhecer’ a Deus, ou antes, Deus ‘conhecer’ ao homem, não possui relação com “pré-conhecimento”, “presciência”, “conhecimento desnudo, de antemão”, e nem com “conhecimento de aprovação”, definições utilizadas pelo Dr. Pink para explicar o que não compreende.

Assim, como Adão ‘conheceu’ à sua mulher e se fez uma só carne, um só corpo com ela, aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus, se faz uma só carne, um só corpo com Cristo. “Porque somos membros do seu corpo, da sua carne e dos seus ossos. Por isso, deixará o homem a seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher e serão dois numa carne. Grande é este mistério; digo-o, porém, a respeito de Cristo e da igreja” (Ef 5:30-32).

Quando é dito: “Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Co 5:21), significa que Cristo nunca foi participante do pecado, ou seja, que nunca esteve unido ao pecado.

A doutrina calvinista da reprovação, ou como alguns dizem, preterição, surge da má leitura de alguns termos bíblicos. Na sua grande maioria, os estudiosos leem os termos com a mente do nosso tempo e se esquecem de que os termos têm que ser compreendidos com a mente do homem da época em que o termo foi empregado.

O absurdo de tentar embasar a preterição em passagens bíblicas como Romanos 9, verso 13: “Como está escrito: amei Jacó e aborreci a Esaú”, decorre da má leitura de termos como ‘amar’ e ‘aborrecer’ e de não observar o contexto.

O apóstolo Paulo estava demonstrando que a palavra de Deus não falhou, embora nem todos os pertencentes à comunidade de Israel fossem israelitas, ou seja, não é porque os filhos de Jacó descendiam de Abraão que eram, de fato, filhos de Abraão (Rm 9:6-7).

Como foi dito a Abraão que, em Isaque seria chamada a descendência de Abraão, isso significava que não eram os filhos da carne, que eram filhos de Abraão, mas, sim, os filhos da promessa (Rm 9:8). Em seguida, o apóstolo cita a palavra da promessa que não falhou: “Pois a palavra da promessa é esta: Por este tempo virei e Sara terá um filho” (Rm 9:9).

Seguindo o raciocínio de que a palavra de Deus não falhou (Rm 9:6), o apóstolo Paulo cita outra promessa, a palavra que foi dita a Rebeca quando concebeu de um só, Isaque (Rm 9:10). Mas, antes de Esaú e Jacó terem nascido, ou feito bem ou mal, Deus disse a Rebeca: “O maior servirá o menor” (Rm 9:12).

Por que foi dita esta palavra a Rebeca? Deus tinha preferência entre os filhos de Rebeca e de Isaque? Não! Foi dito que o ‘maior serviria o menor’ para evidenciar que o propósito de Deus, segundo a eleição, é firme, não por obra, mas pelo que chama.

O propósito de Deus, segundo a eleição, era abençoar o primogênito. Mas, como Esaú desprezou o direito de primogenitura por um prato de lentilhas, Jacó adquiriu esse direito. Deus deu o que era de direito a Jacó, ou seja, amou a Jacó. Jacó buscou o direito de primogenitura, ou seja, a bênção de Deus e Deus lhe concedeu, enquanto que negou o mesmo direito a Esaú, pois este o desprezara e o vendera a seu irmão mais novo.

A primogenitura era o parametro para a eleição de Deus, e não a sua soberania. Soberanamente, antes de Esaú e Jacó terem nascido, Deus já havia estabelecido abençoar o primogênito.

A escolha do povo de Israel não se deu porque Deus tinha preferência por Israel, em detrimento dos outros povos, pois, em nada Israel era diferente dos outros povos (Dt 9:6), antes, a escolha se deu para que Deus guardasse o juramento feito a Abraão (Dt 9:5).

Quando Deus disse, por intermédio de Malaquias: “Amei a Jacó, mas odiei a Esaú” (v. 13), foi uma resposta ao povo, que questionava de que forma foram amados (Ml 1:2). Deus ‘amou’ Israel, porque guardou o juramento que fizera aos pais, o que significa que a palavra de Deus não falhou (Sl 44:3).

“O SENHOR não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos em número do que todos os povos; Mas, porque o SENHOR vos amava e para guardar o juramento que fizera a vossos pais, o SENHOR vos tirou, com mão forte e vos resgatou da casa da servidão, da mão de Faraó, rei do Egito” (Dt 7:7-8).

“Será, pois, que, se ouvindo estes juízos, os guardardes e os cumprirdes, o SENHOR teu Deus te guardará a aliança e a misericórdia que jurou a teus pais; E amar-te-á,  abençoar-te-á e te fará multiplicar; abençoará o fruto do teu ventre e o fruto da tua terra, o teu grão e o teu mosto, o teu azeite, a criação das tuas vacas e o rebanho do teu gado miúdo, na terra que jurou a teus pais te dar” (Dt 7:12-13).

Por causa da promessa feita aos pais, Israel foi preservado e Edom, por não ter direito segundo a promessa, tornou-se uma desolação, morada de chacais. A citação de Malaquias evidencia que a palavra de Deus não falhou e não que Deus escolhe alguns para serem salvos e outros destinou à danação.

Há injustiça da parte de Deus, por ter dado a sua palavra aos pais? Não! Pois Deus mesmo disse a Moisés: “Compadecer-me-ei de quem me compadecer e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” (Rm 9:15).

Deus teve misericórdia da humanidade, quando anunciou o evangelho, primeiramente, a Abraão: “Em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gl 3:8). Alguém assim quis, ou correu atrás desta promessa? Não! Conclui-se que a promessa não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus, que se compadeceu da humanidade (Rm 9:16).

Quando Deus disse a Moisés, que tem misericórdia de quem Ele tiver, Moisés estava querendo e correndo atrás do perdão de Israel. Ora, Moisés não alcançou a misericórdia de Deus para o povo de Israel, pois todos que saíram do Egito, exceto dois, morreram no deserto. Não dependia de Moisés querer ou correr, mas de Deus, que tem misericórdia dos que O amam.

O capítulo 9, de Romanos, foi escrito para demonstrar que a palavra de Deus não falha, mas por má leitura, utilizam-no para endossar doutrinas que não tem por base a fé, que foi dada aos santos.

De cinco termos bíblicos que analisamos: fé, crença, misericórdia, amor e conhecimento, percebe-se que a doutrina anunciada pelo Dr. Pink é resultado de má leitura e de má compreensão de algums termos, ou, de algumas figuras de linguagem, quando empregadas nas Escrituras.

 


[1] O livro “A Soberania de Deus”, de Arthur Pink foi traduzido para o português e publicado pela Editora Fiel, com o título “Deus é Soberano”, contudo, não consta na versão brasileira o capítulo sobre “A Soberania de Deus na Reprovação”.

[2] “Ele concede o dom da fé para que as pessoas possam crer. Deus dá esta fé só àqueles que Ele tem escolhido e sem dúvidas tem o direito de atuar como e quando quer neste assunto” Pink A. W. Deus é Soberano, Tradução do espanhol para o português realizada por Daniela Raffo, 2007. Arquivo disponível na Web < http://www.ipitatiaia.com.br/documentos/280613-A.%20W.%20Pink%20-%20Deus%20e%20soberano.pdf > Consulta realizada em 17/10/15.

[3] “Metonímia ou transnominação é uma figura de linguagem que consiste no emprego de um termo por outro, dada a relação de semelhança entre o segundo e o termo entre as orações, ou a possibilidade de associação entre cinco ou mais figuras de linguagem destes. Por exemplo: “Palácio do Planalto” é usado como um metônimo (uma instância de metonímia) para representar a presidência do Brasil, por ser esse o nome do edifício do governo federal” (Wikipédia).

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Aprendendo o temor do Senhor

Temer ao Senhor não consiste em regras do tipo: “Não toques, não proves, não manuseies” ( Cl 2:21 ), antes é obedece-Lo crendo que Jesus é o Cristo, pois este é o Seu mandamento, e obedecer tudo o que Jesus ordenou “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ).


“Vinde, meninos, e escutai-me; eu vos ensinarei o temor do Senhor” ( Sl 34:11)

O salmista Davi pelo Espírito Eterno fez o seguinte convite:

Vinde, meninos, e escutai-me; eu vos ensinarei o temor do Senhor” ( Sl 34:11).

Na plenitude dos tempos Jesus diz:

Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” ( Mt 11:29 ).

Somente aqueles que se sujeitam como servos tomando sobre si o jugo de Jesus estão aptos a aprender e encontrar descanso para a alma.

Quando Jesus se apresou aos filhos de Israel, deixou claro que as profecias, a lei e os salmos falavam acerca d’Ele. Os filhos de Israel continuamente examinavam as Escrituras, pois pensavam ter nelas vida eterna, porém, eram essas mesmas Escrituras que testificavam de Cristo e não perceberam, isto conforme o predito pelo Salmista: “Então disse: Eis aqui venho; no rolo do livro de mim está escrito” ( Sl 40:7 ); “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam” (João 5 : 39); “E disse-lhes: São estas as palavras que vos disse estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, e nos profetas e nos Salmos” ( Lc 24:44 ).

Mas, o que Jesus ensinaria quando em meio aos filhos que Deus lhe concedeu? O temor do Senhor!

“Eis-me aqui a mim, e aos filhos que Deus me deu” ( Hb 2:13 ; Is 8:18 ).

No que consiste o ‘temor do Senhor’ que Cristo ensinaria aos filhos (meninos) que Deus lhe deu? A Bíblia dá a resposta:

“O temor do SENHOR é limpo, e permanece eternamente;

os juízos do SENHOR são verdadeiros e justos juntamente” ( Sl 19:9 ).

Através do paralelismo que há no Salmo 19, verso 9, conclui-se que o temor do Senhor é o mesmo que juízos, mandamentos, testemunho, lei, etc.

A Bíblia define o ‘temor’ do Senhor como ‘limpo’ e que ‘permanece para sempre’, o que remete à palavra de Deus, que é pura e permanece para sempre:

“Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre” ( 1Pd 1:23 ).

Ora, apesar de as Escrituras anunciarem que a palavra de Deus é o princípio da sabedoria, há quem define o ‘temor do Senhor’ segundo uma concepção própria e ignora a ênfase que o paralelismo na poesia hebraica evidencia.

O profeta Jeremias vaticinou em nome do Senhor: “Porei o meu temor no seu coração, para que nunca se apartem de mim” ( Jr 32:40 ), e o Salmista destaca a mesma verdade dizendo: “Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti” ( Sl 119:11 ), tais versos demonstram efetivamente que ‘temor’ é o mesmo que a ‘palavra’, a ‘doutrina’ de Deus.

Por causa das Escrituras não posso aceitar que o temor do Senhor é conforme o expresso nas palavras de A. W. Pink:

“Deus está tão acima de nós que o simples pensamento de Sua majestade nos deveria fazer estremecer. O Seu poder é tão grande que a percepção dele deveria aterrorizar-nos. E Ele é tão inefavelmente Santo, e Seu ódio ao pecado é tão infinito, que o próprio pensamento de atos errados nos deveria encher de horror” Pink. A. W. Enriquecendo-se com a Bíblia, São Paulo: Editora Fiel, 1973.

Deus estabeleceu o amor como base do seu relacionamento com os homens quando entregou o seu único Filho. Como seria possível Deus estabelecer o horror à sua majestade como base de um relacionamento em que o homem necessita confiar n’Ele?

Os homens são ímpios não por não possuírem uma percepção[1] da grandeza de Deus, ou porque não se preocupam com Ele. Os homens são ímpios porque não obedecem a palavra de Deus. Ora, os céus anunciam a gloria de Deus ( Sl 19:1 ), e seu eterno poder e sua divindade se entendem e se veem pelas coisas criadas ( Rm 1:20 ), ou seja, pela natureza é possível ao ímpio uma percepção da grandeza de Deus, no entanto, para salvação é imprescindível que o homem O obedeça.

Os judeus possuíam uma percepção de Deus e até tinham zelo de Deus, porém, não tinham o conhecimento necessário para agradá-Lo ( Rm 10:2 ),

A. W. Tozer escreveu que “… ninguém pode conhecer a verdadeira graça de Deus, se antes não conhecer o temor de Deus”, no entanto, é justamente o contrário: é no temor do Senhor que a graça de Deus é revelada.

Outra frase perigosa diz: “Aquele que sabe o que é ter prazer em Deus temerá sua perda. Aquele que viu sua face, terá medo de suas costas” Richard Alleine. Se o crente tem prazer em Deus, nunca terá medo, pois sabe que nada poderá separá-lo de Cristo e do amor de Deus ( Rm 8:35 -39).

‘Temor’ e ‘temer’ não possuem conotação de medo[2], antes o ‘temor’ refere-se a doutrina de Deus e o ‘temer’ a obediência que lhe é devida. Dizer que o crente não pode ‘temer’ o inimigo porque o ‘temor’ é devido a Deus, é dizer que o ‘medo’ e o ‘temor’ são equivalentes. É admitir que se deve ter medo de Deus. Ao confundir ‘temor’ com ‘medo’ evocam o medo sórdido de Deus, sob a alegação de que Ele é soberano ou porque desconhece os seus desígnios.

Temer ao Senhor não consiste em regras do tipo: “Não toques, não proves, não manuseies” ( Cl 2:21 ), antes é obedece-Lo crendo que Jesus é o Cristo, pois este é o Seu mandamento, e obedecer tudo o que Jesus ordenou “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ).

Ora, o temor a Deus não é dogmatismo religioso, antes o temor a Deus é o que nos torna fiéis[3]. Permanecer no mandamento de Deus é o que torna o homem fiel, ou seja, perseverar até o fim crendo em Cristo.

O que se observa em muitos ensinamentos é que se deve ter medo de Deus, e por fim, apelam para um argumento sutil, mas falho: – “O temor do Senhor não se trata do medo d’Ele, mas de uma reverência piedosa à Sua pessoa e aos Seus mandamentos”[4], que destila medo nos cristãos.

Amados, ouçamos a recomendação do Pregador:

“De tudo o que se tem ouvido, a suma é:

Teme a Deus, e

guarda os seus mandamentos;

porque isto é o dever de todo homem” (Ec 12:13).

 

A construção da ideia utiliza paralelismo, de modo que ‘teme a Deus’ é equivalente a ‘guardar os seus mandamentos’, o dever de todos os homens!

Ora, o mandamento do Senhor não é penoso, e o apóstolo amado evoca a lei mosaica para declarar esta verdade no advento da Nova Aliança:

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados ( 1Jo 5:3 );

“Ora, este mandamento, que hoje te ordeno, não te é difícil demais, nem está longe de ti” ( Dt 30:11).

O apóstolo Paulo cita aos cristãos de Éfeso essa passagem de Deuteronômio demonstrando que não é necessário subir aos céus e nem descer ao abismo para alcançar a justiça da fé, pois a palavra está junto de nós, no coração: e a palavra é Cristo.

“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 );

“Mas a justiça que é pela fé diz assim: Não digas em teu coração: Quem subirá ao céu? (isto é, a trazer do alto a Cristo.) Ou: Quem descerá ao abismo? (isto é, a tornar a trazer dentre os mortos a Cristo.) Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação” ( Rm 10:6 -10).

 

Quem obedece (teme) a Deus não tem medo (receio), antes aquele que teme (obedece) lança fora o temor (receio), pois o temor (receio) decorre da pena, e o que teme (tem receio) não é obediente (1Jo 4:18).

Não podemos confundir ‘temor’ a Deus com medo de Deus. A ordem para o povo de Deus é não ter medo: “E disse Moisés ao povo: Não temais, Deus veio para vos provar, e para que o seu temor esteja diante de vós, afim de que não pequeis” ( Êx 20:20 ).

Quando Deus revela a sua palavra (temor), o objetivo é para que não pequemos “Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti” ( Sl 119:11 ).

 

Para saber mais: Temor e tremor

 


[1] “Esses homens não têm qualquer percepção acerca da majestade de Deus, não tem nenhuma preocupação com a Sua autoridade, não tem qualquer respeito pelos Seus mandamentos, não se alarmam ante o fato de que Ele os julgará” Pink. A. W. Enriquecendo-se com a Bíblia, São Paulo: Editora Fiel, 1973.

[2] Cândido, Levi. Aprendendo o temor do Senhor, artigo disponível na Web < http://filhovarao.blogspot.com.br/2008/11/aprendendo-o-temor-do-senhor-levi.html > Consulta realizada em 16/06/2015.

[3] “O temor reverente de Deus é a chave para a fidelidade em qualquer situação” Redpath, Alan.

[4] “Muitos têm a tendência de minimizar o temor de Deus dos crentes a apenas “respeito” por Ele. Embora respeito faça parte do conceito, temer a Deus na verdade significa mais do que isso. O bíblico temor de Deus, para o crente, inclui a compreensão do quanto Deus odeia o pecado, assim como temer Seu julgamento do pecado – mesmo na vida de um crente. Hebreus 12:5-11 descreve a disciplina de Deus na vida de um crente. Embora sua disciplina seja feita em amor (Hebreus 12:6), ainda é algo atemorizante. Quando crianças, o medo da disciplina de nossos pais preveniu, assim esperamos, algumas ações perversas. Assim também deve ser com o nosso relacionamento com Deus. Devemos temer Sua disciplina e, portanto, procurar viver nossas vidas de uma forma que O agrade” O que significa ter temor a Deus? Artigo disponível na web < http://www.gotquestions.org/Portugues/temor-de-Deus.html > consulta realizada em 22/06/15.

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