Jesus veio por água e sangue

Jesus ter vindo por ‘água’, decorre do fato de Ele ter sido gerado por Deus, de modo sobrenatural, ou seja, o ente Santo que foi concebido no ventre de Maria, formado pelo Espírito Santo, segundo o poder incompreensível (sombra) de Deus.


Jesus veio por água e sangue

“Este é aquele que veio por água e sangue, isto é, Jesus Cristo; não só por água, mas por água e por sangue. E o Espírito é o que testifica, porque o Espírito é a verdade.” (1 Jo 5:6)

 

Introdução

Da asserção ‘Este é aquele que veio por água e sangue’, depreende-se do texto que o apóstolo João fez referência ao Verbo de Deus que, na plenitude dos tempos, se fez carne e habitou entre os homens. (Lc 2:27-32; Jo 1:9-10; Hb 10:5; 1 Jo 1:1)

Mas, qual verdade o discípulo amado queria evidenciar, quando destacou o fato de Jesus não ter vindo somente por ‘água’, mas por ‘água’ e ‘sangue’? Que posicionamento doutrinário o apóstolo amado estava defendendo, ao rechaçar o ataque dos anticristos? O que representam as figuras ‘água’ e ‘sangue’, em conexão com a vinda de Jesus, em carne?

A abordagem do evangelista João tem por objetivo combater algumas heresias que surgiram no seio das primeiras comunidades cristãs, já no primeiro século. Devemos lembrar que as primeiras heresias que os apóstolos enfrentaram, foram introduzidas nas igrejas por judeus que se diziam convertidos ao cristianismo, pseudocrístãos, que exigiam que os novos  convertidos, dentre os gentios, se submetessem ao rito da circuncisão. (At 15:1-5).

Dentre os judaizantes, surgiram os ‘ebionitas’, grupo essencialmente farisaico, pois insistia em guardar a lei de Moisés, através de ritos como circuncisão, guarda do sábado e vegetarianismo. Esse grupo de judaizantes negava a divindade de Cristo e o seu nascimento virginal e que Jesus se distinguia dos outros homens, somente pela observância da lei.

Havia o segmento judaizante oriundo dos saduceus, que negava a ressurreição dos mortos, o que foi fortemente combatido pelo apóstolo Paulo. (1 Co 15:12)

“Porque os saduceus dizem que não há ressurreição, nem anjo, nem espírito; mas os fariseus reconhecem uma e outra coisa.” (At 23:8)

Surgiram, também, os elquesaítas, outro tipo de judaísmo que misturava especulações teosóficas e ascetismo. Eles rejeitavam o nascimento virginal de Cristo e alegavam que Jesus seria um mensageiro, profeta, espírito ou ser angelical, sem falar na prática da circuncisão e do sábado.

Por influencia de algumas filosofias, surgiram movimentos que desaguaram no gnosticismo e passaram a fazer distinção entre o Jesus humano e o Messias; que este seria um espírito, que se apossou daquele, no evento do batismo de João Batista e deixou o seu corpo antes da crucificação.

A filosofia gnóstica acredita que toda matéria é essencialmente má e somente o espiritual é bom, na essência. Dai a ideia de que o corpo físico é mal, o que contrasta com o espírito, o que levava tais ‘pseudos’ cristãos ao ascetismo, a fim de subjugarem o corpo, para ascensão espiritual.

Daí surgiu alguns questionamentos acerca da natureza do Cristo homem: Como Jesus poderia ser santo, se possuía um corpo constituído de matéria orgânica?

 

A ‘mensagem’ do evangelho versus o ‘espírito’ do anticristo

“TODO aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que o gerou, também ama ao que dele é nascido.” (1 Jo 5:1)

Antes de analisar a asserção joanina de que Jesus não veio somente por água, mas por água e sangue, se faz necessário entender o contexto que levou o apóstolo João a fazer tal declaração.

No primeiro verso do capítulo 4, da primeira epístola do apóstolo João, o apóstolo amado recomenda aos cristãos que provem os espíritos, pois, muitos falsos profetas haviam surgido no mundo.

“AMADOS, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo.” (1 Jo 4:1)

Como se ‘prova’ os espíritos? Que espíritos são esses, passiveis de serem julgados?

No versículo em análise, ‘espíritos’ referem-se a toda e qualquer mensagem, palavra, ensinamento, doutrina, etc. ‘Provar’ um ‘espírito’ é o mesmo que julgar uma mensagem, uma doutrina ou, um ensinamento, etc.

Da mesma forma que o paladar prova a comida, os ouvidos provam as palavras, de modo que, quando os cristãos ouvem uma mensagem, devem analisar se o que está sendo ensinado é de Deus ou, não. (Jó 12:11)

O motivo de se provar ‘os espíritos’ foi destacado: muitos falsos profetas haviam surgido no mundo. Para analisar se os espíritos são provenientes de Deus ou, não, o apóstolo João apresenta aos cristãos dois parâmetros objetivos:

  1. Nisto conhecereis o Espírito de Deus: Todo o espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus, e;
  2. E todo[1] o espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne não é de Deus; mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e eis que já está no mundo. (1 Jo 4:2-3).

Admitir (confessar) que Jesus é o Filho de Deus, e que Ele veio em carne, é o selo de autenticidade da mensagem (espírito) para o cristão saber se ela (mensagem) procede de Deus ou, não. Mas, se a mensagem do profeta (espírito) diz que Jesus não veio em carne, tal espírito é proveniente do anticristo.

A verificação da mensagem é objetiva, ou seja, o cristão deve provar se a mensagem (espírito) do preletor (profeta) está em conformidade com as Escrituras ou, não. Mensagens que neguem que Jesus é o Filho de Deus ou, que neguem que Ele veio em carne ou, que neguem que Ele ressuscitou ou, que neguem que Ele é Deus, etc., peremptoriamente devem ser rejeitadas: “Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre”. (Jo 7:38)

O espírito (mensagem) do anticristo, à época do apóstolo, possuía duas vertentes principais:

a) negava que Jesus era o Filho de Deus (1 Jo 2:22) e;

b) que Jesus veio em carne. (1 Jo 4:3 )

As negativas do espírito do anticristo nos fazem compreender o motivo pelo qual o evangelista João, já no início da carta, foi enfático, ao dizer que ‘viu’, ‘ouviu’ e ‘tocou’ em Jesus e, em seguida, fez a seguinte confissão: ‘… nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo’, ou seja, Jesus é o Filho de Deus.

“O QUE era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado e as nossas mãos tocaram, da Palavra da vida (Porque a vida foi manifestada e nós a vimos e testificamos dela e vos anunciamos a vida eterna, que estava com o Pai e nos foi manifestada); O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que, também, tenhais comunhão conosco; e a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo.(1 Jo 1:1-3)

Após expor a essência mentirosa da mensagem do anticristo, o evangelista João enfatiza que todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é gerado de Deus e todo aquele que obedece (ama) a Deus, também, obedece (ama) a Cristo: “TODO aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que o gerou, também, ama ao que dele é nascido.” (1 Jo 5:1; 1 Jo 2:22)

Uma pregação que anuncia que Jesus não veio em carne, não é de Deus, e o evangelista destaca que muitos anticristos haviam surgido no mundo, anunciando que Jesus não veio em carne (1 Jo 2:18). Os anticristos eram pessoas que tinham frequentado as comunidades cristãs primitivas, mas que se distanciaram da mensagem dos apóstolos e negavam a pessoa de Cristo. (1 Jo 2:22).

 

Conhecendo a Deus

Se uma pessoa não crê em Cristo, mas diz que ‘conhece[2]’ a Deus, tal declaração é mentirosa, pois só conhece a Deus quem guarda os seus mandamentos (1 Jo 1:3-5). Os anticristos diziam que ‘conheciam’ a Deus, mas, como não obedeciam ao mandamento de Deus, que é crer em Cristo, eram mentirosos. (1 Jo 2:4)

Quando afirmamos que é necessário crer em Cristo, ‘crer’ consiste em admitir, intelectualmente que:

  1. Jesus veio ao mundo em carne;
  2. nasceu na casa de Abraão e de Davi;
  3. foi gerado de Deus, no ventre de uma virgem;
  4. habitou as regiões da Galileia;
  5. foi morto por mãos de pecadores;
  6. ressurgiu ao terceiro dia e;
  7. está assentado à destra de Deus, tudo, conforme o previsto nas Escrituras. (Jo 7:38)

Observe que o apóstolo João fez uso da exortação do profeta Isaias, quando recomendou aos cristãos a não amarem somente de palavra e por língua (Mt 15:7-9). Os falsos cristãos diziam amar a Deus, porém, tal declaração era somente de palavra e de língua, visto que negavam a Deus, por não obedecerem ao mandamento de Deus, que é crer em Cristo.

“Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade.” (1 Jo 3:18; Is 29:13)

Ora, por certo que aqueles que saíram do meio dos cristãos diziam amar a Deus, pois, se assim não afirmassem, não havia motivo para o apóstolo João fazer esta colocação. O apóstolo destaca algumas implicações que decorrem da confissão: – ‘Eu amo a Deus’, pois se alguém ‘ama’ a Deus, também deve ‘amar’ a Cristo, pois se não ‘amar’ a Cristo, na verdade, não ama a Deus: “Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai. Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou.” (Jo 5:23) Compare: “… e todo aquele que ama ao que o gerou, também, ama ao que dele é nascido.” (1 Jo 5:1)

Como Cristo era o enviado de Deus, quem cresse em Cristo, na verdade, estava crendo em Deus, que O enviou.

“E Jesus clamou e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas, naquele que me enviou.” (Jo 12:44)

Antes de prosseguirmos, vale destacar que ‘amar a Deus’ é ‘cumprir o seu mandamento’ (1 Jo 5:3 ) e o mandamento de Deus é especifico: que os homens creiam em seu Filho Jesus Cristo. (1 Jo 3:23 ) Quem crê que Jesus é o Cristo, é gerado de Deus, pois amou a Deus. Amar a Deus consiste em obedecê-Lo, do mesmo modo que amar a Cristo é obedecê-Lo. O amor em comento não diz de um sentimento, mas de obediência, sujeição.

“Se me amais, guardais os meus mandamentos.” (Jo 14:15);

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele.” (Jo 14:21)

O apóstolo João demonstra que é sem valor algum, se dizer que crê em Deus, se não crê que Jesus é o Filho de Deus. Não crer em Cristo, é o mesmo que considerar Deus mentiroso, pois não crê no testemunho que Deus deu acerca do seu Filho ou, que Ele é o enviado de DEUS: “Quem crê no Filho de Deus, em si mesmo tem o testemunho; quem a Deus não crê, mentiroso o fez, porquanto, não creu no testemunho que Deus de seu Filho deu.” (1 Jo 5:10)

Jesus lembrou aos seus discípulos sobre crerem em Deus, mas, destaca que, também, era necessário crer n’Ele, pois, só crendo em Cristo é que o homem ‘obedece’ (ama) a Deus.

“NÃO se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim.” (Jo 14:1);

“E é por Cristo que temos tal confiança em Deus.” (2 Co 3:4)

Nesse sentido, o irmão Tiago censurou aqueles que diziam crer que havia somente um Deus, pois, é sem valor dizer que crê em um só Deus, se não obedece ao mandamento de Deus, que é crer em Cristo: “Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o creem e estremecem.” (Tg 2:19 )

É por intermédio da confiança em Cristo, como o enviado de Deus, que o homem, verdadeiramente, crê em Deus. Crer que Jesus é o Cristo e que Deus o ressuscitou dentre os mortos, efetivamente, é crer em Deus, pois as Escrituras são o testemunho que Deus deu, acerca do seu Filho: “E por ele credes em Deus, que o ressuscitou dentre os mortos e lhe deu glória, para que a vossa fé e esperança estivessem em Deus.” (1 Pe 1:21)

Seguindo o raciocínio do evangelista João, qualquer que diz ‘conhecer’ a Deus, mas não guarda o que Ele determinou, é mentiroso. E como se conhece a Deus? Crendo em Cristo, pois este é o mandamento de Deus: “Aquele que diz: Eu o conheço, mas, não guarda os seus mandamentos, é mentiroso e nele não está a verdade.” (1 Jo 2:4); “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento. E aquele que guarda os seus mandamentos, nele está e ele, nele. E nisto conhecemos que ele está em nós, pelo Espírito que nos tem dado.” (1 Jo 3:23-24)

 

Os nascidos de Deus

“Porque, todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé.” (1 Jo 5:4)

O evangelista João demonstra que, qualquer pessoa (judeu ou grego) que crê que Jesus é o Cristo, é nascida de Deus (1 Jo 5:1), portanto, essa pessoa, por crer em Cristo, venceu o mundo, isso porque recebeu poder de ser feito filho de Deus. (Rm 8:37) Por que essa pessoa venceu o mundo? Porque os filhos de Deus são participantes da natureza divina e escaparam da corrupção que há no mundo: “Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que, por elas, fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que, pela concupiscência, há no mundo.” (2 Pe 1:4)

Em Cristo, o crente é mais que vencedor, pois, é uma nova criatura, gerada segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade. (Ef 4:24) A vitória do crente resume-se em ser uma nova criatura, pois, em Cristo, o homem vence o mundo. (Gl 3:23; Jo 16:33; 1 Jo 4:4; 2 Pe 2:20)

Por estar em Cristo, o crente é uma nova criatura, pois, morreu e ressurgiu com Cristo. Sobre o crente não pesa nenhuma condenação, pois, as coisas velhas passaram e tudo se fez novo. (2 Co 5:17).

O crente escapou da corrupção que há no mundo, ou seja, foi liberto do pecado e do engano, que mantém os homens entenebrecidos no entendimento: “Porquanto, se, depois de terem escapado das corrupções do mundo, pelo conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, forem outra vez envolvidos nelas e vencidos, tornou-se-lhes o último estado pior do que o primeiro.” (2 Pe 2:20; Ef 4:18)

Após crer que Jesus é o Filho de Deus (1 Jo 5:5), o homem é participante da natureza divina, portanto, escapou da corrupção, decorrente da ofensa de Adão, pela qual os homens foram feitos pecadores: “Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre.” (1 Pe 1:23; 2 Pe 1:4; 1 Co 15:50; Rm 8:17; 1 Jo 4:3) Se o homem abandona a Palavra de Cristo, renega a sua fé e volta ao status quo anterior, porque não perseverou, uma vez que a perseverança é a obra perfeita da fé!

 

Aquele que veio por água e sangue

Após demonstrar que, por intermédio do evangelho, os cristãos são filhos de Deus e venceram o mundo (1 Jo 5:1-4), o apóstolo, novamente, enfatiza a vitória dos que creem em Cristo, e aproveita para afirmar, novamente, que Jesus é o Filho de Deus, através da seguinte pergunta:

“Quem é que vence o mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?” (1 Jo 5:5)

É, em função da essência do evangelho, de que Jesus Cristo é o Filho de Deus, que o apóstolo João enfatiza que Cristo Jesus veio por ‘água’ e ‘sangue’, o que para ele era prova suficientemente contundente para demonstrar que: a) Jesus é o Filho de Deus e; b) veio ao mundo, em carne.

“Este é aquele que veio por água e sangue, isto é, Jesus Cristo; não só por água, mas por água e por sangue. E o Espírito é o que testifica, porque o Espírito é a verdade.” (1 Jo 5:6)

Na asserção ‘Jesus veio em carne’, o termo ‘carne’ foi utilizado pelo apóstolo João para destacar a humanidade de Cristo, conforme o escritor aos Hebreus aponta:

“E, visto como os filhos participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas, para que, pela morte, aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo.” (Hb 2:14)

O fato de Jesus Cristo ter tido um corpo constituído de material orgânico (carne, sangue e ossos), como todos os outros homens que vem ao mundo, demonstra que Ele, em tudo foi semelhante aos homens: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.” (Jo 1:14)

O fato de Jesus ter vindo em carne, é de total relevância para o evangelho, tanto que o apóstolo João dá testemunho de que os seus olhos contemplaram e que ele pode tocar o Cristo (inclusive reclinou em seu peito). (Jo 13:23):

“O QUE era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida.” (1 Jo 1:1); “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.” (Jo 1:14)

Por qual motivo João enfatiza o fato de Jesus ter vindo por água e sangue e porque destaca que ele não veio somente por água, mas por água e sangue?

 

Água e Espírito

“Jesus respondeu e disse-lhe: Na verdade, na verdade, te digo que, aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.” (Jo 3:3)

No diálogo entre Jesus e Nicodemos, é evidenciado que o reino dos céus está vetado a qualquer homem que não nascer de novo. (Jo 3:3)

Nicodemos não entendeu a exposição de Jesus e quis saber como poderia um homem, sendo velho, nascer de novo:

‘Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, tornar a entrar no ventre de sua mãe e nascer?’ (Jo 3:4)

Foi, quando Jesus apresentou a essência do novo nascimento, evento que Nicodemos – na condição de mestre, em Israel – deveria conhecer: – “Na verdade, na verdade te digo que, aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus.” (Jo 3:5 e 9 a 10)

Nicodemos não podia entrar no reino dos céus porque não tinha nascido da água e do Espírito. Ele era nascido da carne e do sangue, portanto, descendente da semente corruptível de Adão. Sobre Nicodemos pesava uma condenação decorrente da ofensa de Adão e como os demais homens, que não conhecem a Cristo, estava alienado da glória de Deus. (Rm3:23)

Ora, a condenação do pecado está vinculada ao nascimento natural, ou seja, ao nascimento segundo a vontade do varão, vontade da carne e do sangue (Jo 1:13). É por isso que o apóstolo João demonstra que, aquele que crê em Cristo, é gerado de Deus e venceu o mundo, ou seja, não está mais sujeito à condenação que pesa sobre os descendentes da carne e do sangue de Adão, por haver nascido de novo, por intermédio do evangelho.

O apóstolo Pedro demonstra que o crente tem direito a uma herança incorruptível e incontaminável, após ser de novo gerado, ou seja, está livre da condenação e adquiriu o direito a herdar o reino de Deus:

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo, para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, Para uma herança incorruptível, incontaminável e que não se pode murchar, guardada nos céus para vós.” (1 Pe 1:3-4);

“De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós, também, em novidade de vida.” (Rm 6:4);

“Mas, agora temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito e não na velhice da letra.” (Rm 7:6)

Para nascer da água e do Espírito, basta crer que Jesus é o Cristo, conforme explica o apóstolo João:

“TODO aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus.” (1 Jo 4:1);

“… qualquer que ama, é nascido de Deus e conhece a Deus.” (1 Jo 4:7)

Qualquer pessoa que recebe o Filho de Deus como Senhor, ou seja, que crê em Jesus, recebe poder para ser feito filho de Deus. Ora, nascer de Deus, não ocorre por meio da vontade da carne, nem da vontade do varão e nem do sangue, mas, sim pela vontade de Deus. “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.” (Jo 1:12-13)

O evangelista João teve de explicar, detalhadamente, como o homem é feito filho de Deus, porque os seus concidadãos (judeus) entendiam, equivocadamente, que eram filhos de Deus, por serem descendentes da carne e do sangue de Abraão. Os judeus entendiam que bastavam ter o sangue e a carne de Abraão, que já tinham direito à salvação: “E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão.” (Mt 3:9)

Aquele que crê em Cristo é crucificado com Cristo, morre e é sepultado com Ele (Rm 6:4), ou seja, é ‘batizado’ na morte de Cristo (Rm 6:3), de sorte que o crente ressurge com Cristo uma nova criatura. É pela ressurreição de Cristo, dentre os mortos, que o crente é de novo gerado, da água e do Espírito: “Sepultados com ele no batismo, nele, também, ressuscitastes, pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos.” (Cl 2:12)

O apóstolo Pedro, ao falar do novo nascimento, aponta para o lavar regenerador da Palavra:

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo, dentre os mortos (…) Purificando as vossas almas, pelo Espírito, na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingido; amai-vos, ardentemente, uns aos outros, com um coração puro; Sendo, de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva e que permanece para sempre,” (1 Pe 1:3 e 22 a 23);

“Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade.” (Jo 17:17);

“Esta é, pois, a parábola: A semente é a palavra de Deus.” (Lc 8:11 );

“Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado.” (Jo 15:3.

Cada indivíduo, em particular, que crê em Cristo, é purificado, limpo pela palavra da verdade, que é viva e eficaz, ou seja, ao crer em Cristo, ocorre a lavagem pela água (palavra): “Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra.(Ef 5:26); “Cheguemo-nos com verdadeiro coração, em inteira certeza de fé, tendo os corações purificados da má consciência e o corpo lavado com água limpa.” (Hb 10:22; Hb 4:2)

O novo nascimento foi previsto pelo profeta Ezequiel, nos seguintes termos:

“Então aspergirei água pura sobre vós e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos, vos purificarei. E dar-vos-ei um coração novo e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra e vos darei um coração de carne.” ( Ez 36:25-26)

Qual o significado de ‘água’ e ‘Espírito’ em João 3, verso 5?

A ‘água’ é a palavra de Deus, o mesmo que a semente, que concede a natureza divina aos que creem: “Qualquer que é nascido de Deus não comete pecado; porque a sua semente permanece nele; e não pode pecar, porque é nascido de Deus.” (1 Jo 3:9); “Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou pela sua glória e virtude; Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que, por elas, fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo.” (2 Pe 1:3-4)

“Espírito” diz do próprio Deus que, por meio da sua palavra, concede vida ao homem. É por isso que o Espírito diz: “Então aspergirei água pura sobre vós…” ( Ez 36:25).O Espírito é o Deus eterno que cria (bara), por intermédio da sua palavra, concedendo, ao homem que crê, um novo coração e um novo espírito, ou seja, o Espírito promove o novo nascimento, por intermédio da Sua palavra. (Sl 51:10)

Uma lição que todos os homens precisam aprender é que o homem viverá da palavra de Deus e não só de pão. Se Deus alerta que o homem ‘viverá’, é porque está morto, diante de Deus, por causa da ofensa de Adão, e só por intermédio da Sua palavra terá vida. “E te humilhou e te deixou ter fome e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem.(Dt 8:3)

 

Carne e sangue

“E agora digo isto, irmãos: que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção.” (1 Co 15:50)

Há um paralelo entre a fala de Jesus e a abordagem paulina, nos seguintes versos:

“Jesus respondeu e disse-lhe: Na verdade, na verdade, te digo que, aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.(Jo 3:3)

“E agora digo isto, irmãos: que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção.” (1 Co 15:50)

Nicodemos era judeu, juiz, mestre e fariseu, portanto, alguém que entendia que era digno do reino dos céus, por ser descendente da carne e do sangue de Abraão.  O discurso: – ‘Temos por pai a Abraão’; –‘Nosso pai é Abraão’; – ‘Temos um pai, que é Deus’, não foi aceito por Cristo, portanto, Nicodemos precisava nascer de novo, para se tornar filho de Deus: “Responderam e disseram-lhe: Nosso pai é Abraão. Jesus disse-lhes: Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão.” (Jo 8:39); “Vós fazeis as obras de vosso pai. Disseram-lhe, pois: Nós não somos nascidos de prostituição; temos um Pai, que é Deus.” (Jo 8:41)

Gerados pela carne e pelo sangue, não podem herdar o reino de Deus, mas, tão somente os gerados da água e do Espírito, os que nasceram de novo.

Os judeus leram nas Escrituras a promessa que Deus fez a Abraão, de que em Abraão seriam benditas todas as famílias da terra, mas os descendentes de Abraão se equivocaram, em não observar que, em Isaque, a descendência de Abraão, ainda, seria chamada e não que eles eram essa descendência.

A descendência que seria chamada não falava dos israelitas (muitos), mas, de Cristo (uma só):

“Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo.” (Gl 3:16);

Nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência.” (Rm 9:7)

Se a descendência de Abraão seria chamada em Isaque e não em Abraão, segue-se que a filiação de Abraão é pela promessa e não por ‘carne’ e ‘sangue’. Cristo Jesus é o descendente prometido a Abraão, em quem todas as famílias da terra são benditas, o que demonstra que ‘carne’ e ‘sangue’ não possuem valor algum para dar direito à promessa.

“Porque todos sois filhos de Deus, pela fé, em Cristo Jesus. Porque todos quantos fostes batizados em Cristo, já vos revestistes de Cristo. Nisto, não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque, todos vós sois um em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão e herdeiros, conforme a promessa.” (Gl 3:26-29).

O apóstolo Paulo afirmou, aos irmãos de Corinto, durante uma explanação, acerca da ressurreição dos mortos, que ‘carne’ e ‘sangue’ não podem herdar o reino dos céus. A explicação paulina se fez necessária, porque algumas pessoas passaram a apregoar aos cristãos que os mortos não ressuscitavam (1 Co 15:12) e o apóstolo combateu, veementemente, essa doutrina, através de vários argumentos. (1 Co 15:13-20)

Durante a defesa desse aspecto importante do evangelho, o apóstolo fez um paralelo entre Adão e Cristo, demonstrando que: a) por Adão veio a morte (condenação) e todos os seus descendentes morreram, porém; b) por Cristo Jesus veio a ressurreição dos mortos e todos são vivificados n’Ele. (1 Co 15:21-22)

O alerta do apóstolo era para que os cristãos não se enganassem, portanto, deveriam ficar atentos para o fato de que as más conversações corrompem a doutrina do evangelho. Ele apela aos cristãos de Corinto que voltassem à sobriedade, ou seja, a ‘sobriedade’ é figura que contrapõe outra figura, o ‘vinho da contenda’, ou seja, a doutrina dos judaizantes. (1 Co 15:33)

Após defender a doutrina da ressurreição dos mortos, o apóstolo se antecipa e formula algumas perguntas que os contradizentes, possivelmente, fariam para contrapor à exposição do apóstolo dos gentios. Dai a pergunta: – “Como ressurgirão os mortos? E com que corpo virão?” (1 Co 15:35)

A resposta do apóstolo visava um grupo específico de pessoas: os judaizantes. O ensinamento do apóstolo visava desfazer um entendimento equivocado, pois é salutar à Igreja de Cristo, que é formada de indivíduos, provenientes de todos os povos, em todas as épocas, que compreendam que os mortos hão de ressuscitar.

A resposta do apóstolo Paulo foi dada para contrapor ao ensinamento dos ‘loucos’, ou seja, dos judeus ‘insensatos’, que, nesse quesito doutrinário, diziam, especificamente, dos saduceus: “Porque os saduceus dizem que não há ressurreição, nem anjo, nem espírito; mas os fariseus reconhecem uma e outra coisa.” (At 23:8)

Após explicar como há de ser os corpos dos que ressurgirem dentre os mortos, o apóstolo faz um paralelo entre Jesus e Adão, demonstrando que:

  1. Jesus é o último Adão, espírito vivificante;
  2. Adão, o primeiro homem, criado alma vivente. (1 Co 15:45)

Aproveitando o que estava explicando que, como Adão, assim, eram os seus descendentes terrenos e como Cristo, também, há de ser os celestiais (da mesma forma que todos herdaram a imagem de Adão, os que creem herdarão a imagem de Cristo) (1 Co 15:48-49), o apóstolo Paulo esclarece que ‘carne’ e ‘sangue’ não podem herdar o reino dos céus, nem a corrupção herdar a incorrupção. (1 Co 15:50)

Quando o apóstolo diz que ‘carne’ e ‘sangue’ não podem herdar o reino dos céus, ele está enfatizando que tais elementos não dão direito aos homens (quem quer que seja, judeu ou gentio) de entrar no reino dos céus. Ser descendente da carne e do sangue de Abraão, ou de qualquer outra personalidade, não dá direito ao reino dos céus.

Devemos considerar que, apesar de estar escrevendo a uma igreja, que ficava em uma cidade gentílica – Corinto – na igreja de corinto havia judeus e gentios. O conhecimento transmitido era para toda a igreja, pois deveriam compreender que, na ressurreição o corpo mortal será transformado em um corpo glorioso.

Isso significa que o corpo constituído de matéria orgânica não pode herdar o reino dos céus, sem, antes, ser revestido de imortalidade e incorruptibilidade. Nos céus não entrarão judeus, gregos, romanos, bárbaros, servos, livres, homens, mulheres, etc. Só tem direito à salvação os gerados de novo pela fé em Cristo Jesus (Gl 3:26-29), portanto, se algum cristão na igreja de corinto se gloriava (jactância) de ser descendente da carne e do sangue de Abraão, diante desta exposição paulina deveria compreender que carne e sangue não dão direito a entrar nos céus.

Além do mais, a corrupção não herda a incorrupção, de modo que, mesmo um crente em Cristo, descendente da carne de Abraão, para entrar nos céus, tal corpo deverá ser transformado. A corrupção que o apóstolo Paulo faz referência, diz da existência fugaz dos homens gerados da semente corruptível de Adão, o que contrapõe à condição daqueles que permanecem para sempre. (1 Jo 2:17; 1 Pe 1:23-25).

Pela ofensa de Adão entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte. Como a morte é penalidade imposta a todos os descendentes de Adão e é isso que os tornam escravos do pecado, por isso é dito que todos os homens pecaram. (Rm 5:12)

O termo ‘pecado’, no verso acima, não tem conteúdo de ordem moral. O termo deve ser compreendido, segundo a linguagem do camponês, quando vê um fruto impróprio para o consumo e diz: – ‘O fruto pecou’. Ora, isso não significa que o fruto fez alguma coisa inconveniente ou, moralmente, reprovável, antes, que ele é impróprio para o consumo.

De igual modo, é dito que todos pecaram, porque ficaram impróprios para o propósito de Deus, em manifestar a sua glória nos homens, quando a morte passou a todos os homens, por causa da ofensa de Adão.

O corpo gerado a partir da semente corruptível de Adão é sujeito ao pecado, portanto para entrar no reino dos céus, precisa morrer para o que estava retido e nascer de novo: “Mas, agora, temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito e não na velhice da letra.” (Rm 7:6)

Após crer em Cristo, para ser gerado de novo, o crente serve a Deus, segundo o evangelho (novidade de espírito), diferente daqueles que, por estarem entenebrecidos no entendimento, procuram servir a Deus na velhice da letra: “O qual nos fez, também, capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica.” (2 Co 3:6)

Os judeus serviam a Deus sem entendimento, ou seja, na velhice da letra. (Rm 10:2) E como serviam? Gloriavam-se na ‘carne’ e no ‘sangue’ de Abraão e não consideraram que as Escrituras protestavam contra eles, dizendo:

“Porque Toda a carne é como a erva e toda a glória do homem como a flor da erva. Secou-se a erva, e caiu a sua flor” (1 Pe 1:24)

Se toda carne é como a flor da erva, não se excetua a carne dos judeus, daí o alerta de Jeremias:

“Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, que faz da carne o seu braço e aparta o seu coração do SENHOR!” (Jr 17:5)

É nesse sentido que o apóstolo Paulo escreveu dizendo:

“E Deus escolheu as coisas vis deste mundo, as desprezíveis e as que não são, para aniquilar as que são; Para que nenhuma carne se glorie perante ele. Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, justiça,  santificação e redenção; Para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor.” (1 Co 1:28-31)

Os judeus se gloriavam no fato de serem descendentes da carne de Abraão e por serem circuncidados, conforme o rito da lei mosaica, porém, a verdadeira circuncisão pertence aos cristãos, que circuncidaram o coração, ao morrerem com Cristo: “Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus, em espírito, e nos gloriamos em Jesus Cristo e não confiamos na carne.” (Fl 3:3); “Pois que muitos se gloriam segundo a carne, eu também me gloriarei.” (2 Co 11:18); “Aquele, porém, que se gloria, glorie-se no SENHOR.” (2 Co 10:17); “Porque, nem ainda esses mesmos que se circuncidam guardam a lei, mas querem que vos circuncideis, para se gloriarem na vossa carne.” (Gl 6:13)

Após nascer de novo, o crente tem direito ao reino dos céus, conforme a promessa, mas só entrará no reino, quando for transformado, de modo que, o que é mortal e corruptível, seja revestido da imortalidade e da incorruptibilidade: “Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva e que permanece para sempre.” (1 Pe 1:23)

Agora, analisando sistemicamente, o Novo Testamento, os termos ‘carne’ e ‘sangue’ possuem vários significados, conforme o contexto em que são empregados.

‘Carne’ e ‘sangue’ podem fazer referência:

  1. à natureza pecaminosa herdada de Adão;
  2. aos descendentes de Adão;
  3. à natureza humana;
  4. ao vínculo familiar;
  5. à nacionalidade (judeu e gentio);
  6. ao corpo constituído de matéria orgânica, etc.

Demanda ao leitor, muita atenção, ao se deparar com os termos ‘carne’ e ‘sangue’, pois, podem ser utilizados para fazer referência ao nascimento natural, como lemos:

“Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.” (Jo 1:13)

O nascimento natural decorre da vontade do varão, da vontade da carne e do ‘sangue’, já o novo nascimento decorre da ‘água’ e do ‘Espírito’. Primeiro, é o nascimento, segundo a ‘carne’ e o ‘sangue’, depois, o nascimento, segundo a ‘água’ e o ‘Espírito’, por isso é dito que o nascimento, segundo o último Adão, é um ‘novo’ nascimento: “Mas não é primeiro o espiritual, senão o natural; depois, o espiritual.” (1 Co 15:46).

“Carne” e “sangue” referem-se à geração natural, ou seja, ao nascimento, segundo Adão, daí a máxima: ‘o que é nascido da carne, é carne’, portanto, terreno e herda a corrupção, proveniente da ofensa de Adão. (Jo 3:6; 1 Co 15:47). Essencialmente, “carne” e “sangue” são elementos que vinculam os homens ao primeiro pai, Adão.

Agora, quando lemos que o apóstolo Paulo não consultou ‘carne’ e ‘sangue’, quando saiu a evangelizar os gentios, os termos são empregados no sentido de ‘concidadãos’, o que remete ao vínculo familiar, nacionalidade ou, etnia: “Revelar seu Filho em mim, para que o pregasse entre os gentios, não consultei a carne, nem o sangue.(Gl 1:16)

Quando é dito que os cristãos não têm que lutar contra ‘carne’ e ‘sangue’, o apóstolo demonstra que os cristãos não lutam contra os homens (carne) e nem contra determinada etnia (sangue), quer sejam eles judeus, gregos, romanos ou, bárbaros. “Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais.” (Ef 6:12)

O escritor aos Hebreus enfatizou que Jesus participou da ‘carne’ e do ‘sangue’ para que, pela morte, aniquilasse o diabo. Por causa da paixão da morte, quando se fez ‘carne’, em tudo Cristo se fez semelhante aos homens: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós…” (Jo 1:14)

Quando é dito que Jesus participou da ‘carne’ e do ‘sangue’, significa que Ele teve um corpo de matéria orgânica, assim, como todos os homens, porém, sem vinculo com o pecado, por não ter entrado no mundo por Adão, mas, por Deus. (Sl 22:10)

A ênfase da abordagem do escritor aos Hebreus é a natureza humana, da qual Cristo foi participante e, por participar das mesmas coisas que todos os homens, foi possível a Cristo provar a morte por todos: “Vemos, porém, coroado de glória e de honra, aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos (…) E, visto como os filhos participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas, para que, pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo.” (Hb 2:9 e 14)

Agora, no paralelo que o apóstolo Paulo construiu entre Adão e Cristo, apresentando ambos como cabeças de gerações (primeiro e último Adão, respectivamente), há algumas questões que envolvem os termos ‘carne’ e ‘sangue’: Adão foi criado alma vivente e Cristo, o último Adão, foi feito espírito que dá vida: “Assim está, também, escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão, em espírito vivificante.” (1 Co 15:45).

Quando os homens vêm ao mundo, são participantes da carne e do sangue de Adão, de modo que possuem a mesma imagem do homem terreno e a mesma natureza. Por compartilhar a mesma natureza de Adão, os descendentes da carne e do sangue estão sujeito à morte, mesma condenação que pesou sobre Adão.

Para nascerem de novo, é necessário aos homens nascidos segundo a carne e o sangue de Adão, participarem da ‘carne’ e do ‘sangue’ de Cristo. Como? Comendo e bebendo, pois a carne de Cristo, verdadeiramente, é comida e o sangue de Cristo, verdadeiramente, é bebida.

“Jesus, pois, lhes disse: Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne, verdadeiramente, é comida e o meu sangue, verdadeiramente, é bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu, nele. Assim, como o Pai, que vive, me enviou e eu vivo pelo Pai, assim, quem de mim se alimenta, também viverá por mim.” (Jo 6:53-57)

Enquanto o homem gerado segundo a semente de Adão é participante da corrupção, decorrente da condenação, pela ofensa, o homem participante da carne e do sangue de Cristo, é participante da bem-aventurança, pelo dom gratuito de Deus. (Rm 5:15-19)

O apóstolo Paulo demonstra que a filiação de Abraão se adquire pela fé em Cristo, ou seja, só é filho de Deus aquele que se alimenta da carne e do sangue de Cristo. Somente, através da carne e do sangue de Cristo, que o homem alcança a natureza divina, escapa da corrupção que há no mundo e é herdeiro de Deus: “Porque todos sois filhos de Deus, pela fé em Cristo Jesus. Porque todos quantos fostes batizados em Cristo, já vos revestistes de Cristo. Nisto não há judeu, nem grego; não há servo, nem livre; não há macho, nem fêmea; porque todos vós sois um, em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, então, sois descendência de Abraão e herdeiros conforme a promessa.” (Gl 3:26-29).

 

Água e sangue

A asserção contida no capítulo 5, da primeira epístola de João, de que Jesus Cristo ‘veio por água e sangue’, tem por objetivo combater os seguintes erros doutrinários, que haviam surgido nas comunidades cristãs:

a) De que Jesus não era o Messias, o Filho de Deus, e;

b) De que Jesus não veio em carne.

Daí a assertiva joanina:

“Quem é que vence o mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?” (1 Jo 5:5);

“E todo o espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne, não é de Deus; mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes, que há de vir e eis que já está no mundo.” (1 Jo 4:3)

Negar o fato de que Jesus é o Ungido de Deus e que Ele veio em carne, são posicionamentos doutrinários contrários às Escrituras e, para prevenir os cristãos do engano dos falsos mestres, o evangelista João enfatizou que Jesus veio por ‘água’ e ‘sangue’.

Pela relevância que o tema possui, o discípulo amado destaca que Jesus Cristo não veio somente por ‘água’, mas que Ele veio por ‘água’ e ‘sangue’, como evidência inequívoca de que Jesus é o Filho Bendito de Deus.

Ao identificar algumas falsas doutrinas que surgiram nas comunidades cristãs, acerca da pessoa de Jesus, depreende-se do texto da sua primeira epístola que o evangelista combateu tais erros, ao enfatizar que Jesus ‘veio’, tanto por ‘água’, quanto por ‘sangue’.

Além de afirmar que Jesus veio por ‘água’ e ‘sangue’, o apóstolo destaca que Jesus não veio somente por ‘água’, mas por ‘água’ e por ‘sangue’, demonstrando que é de suma importância para a compreensão do evangelho, entender o fato de que Jesus, também, veio por ‘sangue’.

Quando se compreende que tudo o que o apóstolo João escreveu, na sua primeira epístola e no seu evangelho, teve o condão de demonstrar que Jesus Cristo é o Filho de Deus, os elementos para compreender o motivo pelo qual Jesus veio, não somente por água, mas por água e por sangue, tornam-se evidentes: a defesa do evangelho.

“Estas coisas vos escrevi a vós, os que credes no nome do Filho de Deus, para que saibais que tendes a vida eterna e para que creiais no nome do Filho de Deus.” (1 Jo 5:13; Jo 20:31)

Demonstrar que Jesus é o Cristo, era um cuidado constante do apóstolo João, tanto que, no início do seu evangelho, ele enfatiza que o Verbo se fez carne e que Ele pode ver a glória do Unigênito Filho de Deus: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.” (Jo 1:14)

A defesa constante dessa verdade, era em função da oposição do espírito do anticristo, ou seja, da doutrina divulgada pelos falsos profetas, de que Jesus não era o Filho de Deus e de que Ele não veio em carne.

Como a análise desse texto centra-se na primeira Epístola do evangelista João, percebe-se que ele é enfático, ao evidenciar que, todo aquele que crê que Jesus é o Cristo, é gerado (filho) de Deus e complementa, confessando que Jesus veio por ‘água’ e por ‘sangue’.

Jesus ter vindo por ‘água’ e por ‘sangue’, é apresentado como prova contundente de que Cristo é o Filho de Deus e a ênfase no ‘sangue’, quando o apóstolo diz que Cristo não veio somente por ‘água’, mas por ‘água’ e por ‘sangue’, é prova de que Jesus também veio em carne.

“Este é aquele que veio por água e por sangue, isto é, Jesus Cristo; não só por água, mas por água e por sangue. E o Espírito é o que testifica, porque o Espírito é a verdade.” (1 Jo 5:6)

O apóstolo João faz uma defesa da verdade do evangelho, estampando provas, de modo a preservar a mesma mensagem anunciada pelo apóstolo Paulo, no início da sua epístola aos cristãos de Roma:

“Acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi, segundo a carne, declarado Filho de Deus, em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor.” (Rm 1:3-4)

Cristo é apresentado pelo evangelista João como ‘aquele’ que ‘veio’ por ‘água’ e por ‘sangue’. Quando é dito que Jesus ‘veio’, o verbo grego ‘ἐλθὼν’ no aoristo foi o modo que o apóstolo utilizou para descrever a encarnação do Verbo eterno. O evento sobrenatural, em que o Verbo eterno, despido de sua glória, se fez carne e passou a habitar entre os homens, foi resumido no verbo ‘vir’. (Jo 1:4; Fl 2:7)

Devemos ter em mente que Cristo Jesus, que nasceu de uma virgem, lá em Belém da Judeia, há pelo menos dois mil anos, é uma das pessoas da divindade, portanto, o Criador de todas as coisas: “No princípio era o Verbo, o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele e sem ele, nada do que foi feito se fez.” (Jo 1:1-3; Hb 1:8 e 10)

Jesus ter vindo por ‘água’, decorre do fato de Ele ter sido gerado por Deus, de modo sobrenatural, ou seja, o ente Santo que foi concebido no ventre de Maria, formado pelo Espírito Santo, segundo o poder incompreensível (sombra) de Deus.

“E, respondendo o anjo, disse-lhe: Descerá sobre ti o Espírito Santo e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso, também, o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus.” (Lc 1:35)

A concepção de Cristo se deu através da operação divina, segundo a sua própria vontade e poder, em cumprimento ao predito nas Escrituras:

“Mas tu és o que me tiraste do ventre; fizeste-me confiar, estando aos seios de minha mãe. Sobre ti fui lançado, desde a madre; tu és o meu Deus, desde o ventre de minha mãe.” (Sl 22:9-10; Sl 71:6; Sl 139:13)

Quando o anjo explicou para Maria que ela estava grávida e que o menino que haveria de nascer teria o nome Jesus (Lc 1:31), foi dito que ela conceberia e daria à luz um filho. A narrativa do médico Lucas, demonstra que Jesus, efetivamente seria filho de Maria, pois ela haveria de conceber e dar à luz um filho.

Essa narrativa é conforme a exposição das linhagens que constam nas Escrituras, sendo certo que o homem gera filhos e a mulher concebe e dá a luz. Nunca é dito nas genealogias que uma mulher gera filhos, antes, é próprio de uma mulher conceber e dar à luz, como se lê:

“E CONHECEU Adão a Eva, sua mulher e ela concebeu e deu à luz a Caim e disse: Alcancei do SENHOR um homem.” (Gn 4:1);

“E Adão viveu cento e trinta anos e gerou um filho, à sua semelhança, conforme a sua imagem e pôs-lhe o nome de Sete. E foram os dias de Adão, depois que gerou a Sete, oitocentos anos e gerou filhos e filhas.” (Gn 5:3-4)

Maria ficou surpresa com a notícia e, ao questionar o anjo, foi dito a ela:

“Descerá sobre ti o Espírito Santo e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso, também, o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus.” (Lc 1:35)

Por ação sobrenatural do Espírito, Maria esteve envolta em um mistério (sombra), segundo o poder de Deus, de modo que o Santo que haveria de nascer, através de Maria, seria chamado de “o Filho de Deus”.

No início da proclamação do evangelho por Cristo, as pessoas eram céticas quanto ao senhorio de Cristo, tanto que o reconheceram somente como profeta (Mt 16:14). Só vemos uma crença firme, com relação à pessoa de Cristo, quando o apóstolo Pedro confessou que Jesus era o Filho de Deus: “E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.” (Mt 16:16)

A confissão do apóstolo Pedro não se deu por um conhecimento transmitido de pai para filho (carne e sangue), ou seja, o fato de Pedro ser descendente da carne e do sangue de Abraão, não lhe conferiu tal conhecimento, antes, tal conhecimento se deu pela revelação do Pai, através do evangelho anunciado por Cristo. (Mt 16:17)

Devemos ter em mente que muitos cristãos da igreja primitiva não conseguiam ver (entender) que, aquele Jesus com um corpo de matéria (carne e sangue) e que esteve sujeito à paixão da morte, na verdade, é sublime e glorioso e todas as coisas estão sujeitas a Ele. (Hb 2:8) Muitos, ainda, tinham em mente o Cristo, segundo a carne e se focavam na aparência dele. (2 Co 5:12)

“Assim que, daqui por diante, a ninguém conhecemos, segundo a carne e, ainda, que também, tenhamos conhecido a Cristo, segundo a carne, contudo agora já não o conhecemos desse modo. (2 Co 5:16)

Vários desvios doutrinários surgiam quando se dava ênfase demasiada a algum aspecto da vida do Senhor Jesus, e até mesmo com relação aos demais irmãos, de modo que o apóstolo Paulo teve que alertá-los que, após estar em Cristo (ser uma nova criatura), nenhum dos irmãos seriam conhecidos, segundo as questões da carne, como tribo, circuncisão, nação, ritos, etc.

Jesus era o Cristo, não porque foi circuncidado ao oitavo dia, apresentado ao sacerdote, oriundo da tribo de Judá, hebreu de uma hebreia, etc. (Fl 3:4-6) Na verdade, todas essas questões, somente serviam para que os homens pudessem identificar quem era o Cristo, enquanto esteve entre os homens.

Os apóstolos Mateus, Marcos e Lucas, ao abordarem a questão da deidade de Cristo, o fazem de forma velada, até porque, não queriam evocar, de pronto, a rejeição dos seus concidadãos, quando lessem os evangelhos. O apóstolo João, por sua vez, aborda a questão, abertamente, até porque, não tinha por objetivo convencer os judeus, mas, sim, instruir a igreja de Deus.

Diferentemente de Mateus e Lucas, que iniciam o relato da vida e do ministério de Cristo, apresentando sua genealogia ou, de Mateus e Marcos, que fazem referência aos Profetas e aos Salmos, o evangelista João é direto, quando aponta a deidade de Cristo:

“No princípio era o Verbo, o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus.” (Jo 1:1-2)

Por que essa diferença? A diferença decorre da estratégia utilizada para alcançar o leitor, pois o evangelho de João foi escrito por volta de 90 a 100 d.C., quando a igreja já havia florescido no mundo e começaram a surgir às heresias e os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas são datados de 60 a 100 d. C., quando ainda se anunciava a vinda, morte e ressurreição do Messias. Esses evangelhos tinham por objetivo anunciar a vida e o ministério de Cristo e aquele apresentar, apologeticamente, quem era o Cristo – o Filho de Deus.

Quando o apóstolo João diz que Jesus veio por ‘água’, ele está enfatizando que o Verbo eterno se fez carne, segundo as Escrituras, única e exclusivamente, pela virtude (poder) do Pai. Jesus veio ao mundo, segundo a palavra de Deus e pelo poder de Deus, ou seja, ao despir-se da sua glória e poder, Cristo foi introduzido no mundo como homem.

A partir do momento em que o Verbo eterno despiu-se da sua glória e passou a habitar um tabernáculo terrestre, durante o tempo que se chama HOJE, o Verbo deixou de sustentar todas as coisas pelo seu poder e passou a existir na dependência do Pai, assim, como todos os demais seres: “Proclamarei o decreto: o SENHOR me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei.” (Sl 2:7); “AQUELE que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará.” (Sl 91:1)

O Verbo, na eternidade, habitava no esconderijo do Altíssimo e, ao despir-se da sua glória, passou ao abrigo da sombra do Onipotente. Essa é a descrição de Cristo, na eternidade:

“O qual, sendo o resplendor da sua glória e a expressa imagem da sua pessoa e sustentando todas as coisas, pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas” (Hb 1:3).

O Salmo 121 é uma descrição precisa da proteção do Pai sobre o seu Filho, que guardou, tanto a sua entrada no mundo (nascimento), quanto a sua saída (morte):

“O SENHOR é quem te guarda; o SENHOR é a tua sombra à tua direita. O sol não te molestará de dia, nem a lua de noite. O SENHOR te guardará de todo o mal; guardará a tua alma. O SENHOR guardará a tua entrada e a tua saída, desde agora e para sempre.” (Sl 121:5– 8)

Na criação no Éden, Deus formou o homem do pó da terra e, quando soprou nas narinas o fôlego de vida, veio à existência o primeiro homem: Adão, uma alma vivente (Gn 2:7). Já, com relação ao último Adão – Cristo – Deus preparou um corpo no ventre de Maria, que veio à existência por ‘água’ e ‘sangue’ para que o Espírito eterno, despido de sua glória e poder pudesse, habitar entre os homens.

Adão não era pré-existente, quando foi feito alma vivente e de Cristo é dito que Ele entrou no mundo, o que demonstra a sua pré-existência. (Hb 10:5) A água remete a palavra de Deus que ‘bara’ (cria) e, nesse sentido, fica evidente a natureza divina de Cristo, que embora na carne, era o Filho de Deus, segundo a palavra de Deus (por água).

“E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre os milhares de Judá, de ti me sairá o que governará em Israel e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade. (Mq 5:2)

Quando é dito que Jesus veio por ‘água’, enfatiza que o Verbo eterno, voluntariamente, despiu-se da sua gloria e se fez carne, para habitar entre os homens. A vontade da carne, mais a vontade do varão e o sangue, trazem à existência um novo ser ao mundo; já o fato de Jesus vir por água, além de apontar a pré-existência de Cristo, demonstra que Ele foi gerado pela vontade e pelo poder de Deus: “E outra vez, quando introduz no mundo o primogênito, diz: E todos os anjos de Deus o adorem.” (Hb 1:6)

Jesus apresentou a seguinte relação: “O que é nascido da carne, é carne e o que é nascido do Espírito, é espirito” (Jo 3:6), de modo que, aquele que veio por ‘água’, é ‘água’ que concede vida. Cristo é a água que dá vida, a semente incorruptível, a palavra de Deus que é viva e permanente, porque veio por água. (1 Pe 1:23-25; Hb 13:8; Jo 6:63: Jo 15:3).

Voluntariamente, o Verbo eterno despiu-se da sua glória e se fez homem, sendo introduzido no mundo dos homens pelo poder sobrenatural de Deus, por isso é dito que Ele veio por água, diferente dos descendentes de Adão, que vem por carne e sangue.

Como Cristo foi gerado pelo Espírito no ventre de Maria, também veio por sangue e por meio do sangue, é descendente de Davi e descendente de Abraão.

“Este é aquele que veio por água e sangue, isto é, Jesus Cristo; não só por água, mas por água e por sangue. E o Espírito é o que testifica, porque o Espírito é a verdade.” (v. 6)

Sobre os bens futuros, Deus é enfático:

“Então aspergirei água pura sobre vós e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei” ( Ez 36:25 ).

A ação divina de aspergir água pura concede ao homem um novo coração e um novo espírito, o que remete a uma nova criação, como disse o profeta Davi: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto.”(Sl 51:10); “E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne” ( Ez 36:26)

Sobre esse aspecto da redenção, disse o apóstolo Pedro:

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos (…) Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre” (1 Pe 1:3 e 23).

Observando a lei de Moisés, verifica-se que, tanto as sementes, quanto as águas, possuem a mesma função, quanto à purificação:

“Porém a fonte ou cisterna, em que se recolhem águas, será limpa, mas quem tocar no seu cadáver, será imundo. E, se dos seus cadáveres cair alguma coisa sobre alguma semente que se vai semear, será limpa.” (Lv 11:36-37)

Observe que Cristo é sumo sacerdote dos bens futuros, onde há um tabernáculo maior e mais perfeito, que não é desta criação:

“Mas, vindo Cristo, o sumo sacerdote dos bens futuros, por um maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, isto é, não desta criação.” (Hb 9:11)

Cristo veio por água, porque foi ‘lançado’ por Deus no ventre de Maria, portanto, o vínculo de carne com Adão não existiu. Com Cristo vindo por água, foi estabelecido vinculo com a humanidade, de modo que passou a ter vínculo de sangue com a descendência de Abraão e de Davi. (Sl 22:10).

É em razão do pecado de Adão que Jesus não possui vínculo de carne com a humanidade, pois se assim fosse, teria vinculo direto com Adão e sua semente corruptível, portanto, estaria sujeito ao pecado, como todos os homens. O vínculo de Cristo com a humanidade só é de sangue, pois Ele veio por água, introduzido no mundo pelo poder de Deus, no ventre de Maria!

Como esteve no ventre de Maria, ali se efetivou o vínculo de sangue com a humanidade e assim firmou-se o vinculo de sangue com Abraão e com Davi.

Como a palavra de Deus é representada pela ‘água’, a semente incorruptível, temos uma referência à pré-existência de Cristo, o Verbo eterno. O Verbo eterno despiu-se da sua glória para ser introduzido no mundo, por meio do poder de Deus, para compartilhar da natureza humana, por meio do vínculo de sangue com Davi e Abraão, e não pelo vínculo da carne de Davi e de Abraão.

Observe que o evangelista João atribui vontade à carne e ao varão, menos ao sangue:

“Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.” (Jo 1:13)

Maria era da linhagem (casa) de Davi e Jesus não foi gerado da semente de homem algum, antes, o próprio Deus obrou maravilhosamente e fez com que ela concebesse o Seu Filho, que durante a gestação, compartilhou do sangue de Maria, por conseguinte, foi estabelecido somente vínculo de sangue com Davi, o que o tornou isento da morte, caso compartilhasse da carne de Adão.

Quando foi dito a Maria que o filho dela haveria de ser o Filho de Deus, a palavra de Deus predita a Davi estava se cumprindo:

“Quando teus dias forem completos e vieres a dormir com teus pais, então, farei levantar depois de ti um, dentre a tua descendência, o qual sairá das tuas entranhas, e estabelecerei o seu reino. Este edificará uma casa ao meu nome e confirmarei o trono do seu reino para sempre. Eu lhe serei por pai e ele me será por filho,” (2 Sm 7:12-14)

O vínculo de Davi com Cristo, aquele que saiu das entranhas de Davi, se deu somente por ‘sangue’ e não por ‘carne’. Hipoteticamente, se Cristo viesse de Davi, por carne, ou seja, por meio de uma relação sexual, onde a semente do homem é lançada no ventre da mulher, na verdade, o filho de Maria seria, apenas, mais um filho de Adão, portanto, sujeito ao pecado, assim, como, foram os outros filhos de Maria, que nasceram da relação dela com José.

Dai a explicação joanina, que Cristo veio por ‘sangue’, ou seja, Ele compartilhou da natureza humana, por vínculo de sangue, com seu pai Davi, através de Maria, por conseguinte, Cristo também era descendente de Abraão. Isso significa que a descendência (sangue) de Abraão foi escolhida, para que Deus se fizesse carne e viesse ao mundo dos homens. (Hb 2:16)

Quando Adão foi criado, Deus concedeu a Adão, a imagem  do Verbo eterno, que a tudo criou e que haveria de vir ao mundo. Com a queda, a imagem que Deus concedeu ao homem, não se perdeu, pois os dons de Deus são irrevogáveis, de modo que, quando o Verbo eterno, que a tudo criou, veio ao mundo, veio por ‘água’, segundo a mesma imagem que Ele concedeu ao homem, feito do pó da terra.

“No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir. (Rm 5:14)

Ao ser introduzido no mundo, o Verbo eterno teve um corpo constituído de matéria orgânica (carne, sangue e ossos), assim, como todos os homens. O escritor aos Hebreus explica que era necessário Cristo ser participante de ‘carne’ e de ‘sangue’, por causa da paixão na morte, o que é completamente, diferente de ter vindo por ‘água’ e por ‘sangue’.

Quando é dito que Jesus veio por ‘água’ e por ‘sangue’, isso significa que, apesar de ter tido um corpo constituído (participante) de ‘carne’ e de ‘sangue’, Cristo não entrou no mundo, pela mesma porta que todos os homens entram: Adão.

Adão é a porta larga, pela qual todos os homens vêm ao mundo, mas, Cristo foi introduzido no mundo, pelo poder de Deus.

Cristo, como o último Adão, foi estabelecido como a porta estreita, portanto, não poderia vir ao mundo por ‘carne’ e por ‘sangue’, ou seja, através da semente de Adão. Se Cristo entrasse no mundo, segundo a ‘carne’ e o ‘sangue’, estaria em um caminho largo, como todos os homens, e também, seguiria para a perdição.

Como Cristo não veio por Adão, entrou no mundo sem pecado. Por não ter vindo, através da semente de Adão, veio ao mundo pelo poder (virtude) de Deus, ou seja, por ‘água’. Adão, o primeiro homem, foi feito do pó da terra, portanto, é terreno; Cristo, o último Adão, sendo do céu, veio por água, ou seja, por intermédio do poder de Deus. (1 Co 15:47-48)

Todos os que vêm ao mundo por ‘carne’ e por ‘sangue’, não são pré-existentes, assim, como Adão não era pré-existente. Adão foi feito, a partir do pó da terra e veio à existência, quando Deus soprou em suas narinas o fôlego da vida e os demais descendentes de Adão vem à existência, quando são gerados, segundo a carne e o sangue.

É preciso divisar bem a questão de Cristo ter vindo em carne, pois, Cristo possuiu um corpo constituído de carne e de sangue, o que se verifica, quando Jesus foi circuncidado, ao oitavo dia (Lc1:59), quando sentiu fome, sede, cansaço (Mt 4:2; Jo 4:6), foi crucificado, morto e os seus ossos foram preservados, para não serem quebrados, sepultaram o seu corpo em uma sepultura que nunca foi utilizada e, ao terceiro dia, ressuscitou.

Cristo foi introduzido no mundo, na mesma condição de Adão, quando criado: livre de pecado. Mesmo com um corpo constituído de ‘carne’ e de ‘sangue’, Cristo não foi gerado, segundo a carne do pecado.

O vínculo do corpo de Cristo com a humanidade se deu somente por ‘sangue’, não por carne, para não ter vínculo com o pecado. Por causa da ação sobrenatural do Espírito Santo, o vinculo de Cristo com a humanidade se deu por sangue, não por carne, visto que Ele veio por ‘água’.

O fato de Jesus ter sido gerado no ventre de Maria conferiu a Cristo, pelo vínculo de sangue:

  1. O direito de se assentar no trono de Davi, seu pai, por conseguinte, conforme a profecia, depois de morto, ao terceiro dia, tendo ressurgido e foi declarado o Filho de Deus com poder. (2 Sm 7:14; Rm 1:3-4);
  2. Compartilhou da natureza humana, reunindo em si mesmo as condições necessárias para ser mediador entre Deus e os homens e, assim, provasse a morte por todos.

Dependendo do contexto em que o termo ‘carne’ é utilizado, com relação a Cristo, temos que compreender o emprego do termo, dentro do contexto do Novo Testamento. Por exemplo: Quando o apóstolo Paulo diz que Jesus Cristo nasceu ‘segundo a carne’, estava enfatizando, através do termo grego σάρκα (carne) o vínculo de sangue que há entre Davi e Cristo, como o descendente prometido e não que Ele seja oriundo da semente de Davi e de Abraão.

“Acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi, segundo a carne.” (Rm 1:3)

Há uma grande diferença, entre dizer, que Jesus nasceu segundo a carne e dizer que Ele é da descendência de Davi, segundo a carne. A assertiva de que Cristo é da descendência de Davi, remete à promessa que Deus fez a Davi, de modo que o corpo de matéria orgânica de Cristo teve vínculo de sangue com Davi, sem ser da semente de homem algum.

Cristo ter vindo por ‘água’ e por ‘sangue’, é diferente do argumento que demonstra que Cristo foi participante de ‘carne’ e de ‘sangue’. Sabemos que Jesus foi participante de carne e de sangue, ou seja, com um corpo constituído de carne e de sangue, porém, não teve vínculo com Adão, pois veio por água e por sangue. Apesar de ter um corpo de carne e de sangue, Cristo não foi gerado de ‘carne’ e de ‘sangue’, mas, sim, de ‘água’ e de ‘sangue’.

Essa é a grande diferença que há entre o nascimento de Cristo e o restante da humanidade: o modo que vieram ao mundo. Quando é dito que os filhos participam da carne e do sangue, no contexto, significa que os filhos são provenientes de uma semente que lhes confere a natureza dos pais, bem como a condenação oriunda da ofensa de Adão.

O intérprete das Escrituras precisa identificar, durante a leitura, qual é a defesa do evangelho que os escritores das epístolas fizeram. Por Exemplo, o escritor aos Hebreus combateu o desvio teológico de alguns, que diziam que Jesus era um dos profetas (anjo, mensageiro) ou, um ser angelical. O evangelista João combateu o desvio teológico de que Jesus não veio em carne e o apóstolo Paulo, por sua vez, demonstrou o cumprimento da profecia que Deus fez a Davi.

O escritor aos Hebreus precisou enfatizar a humanidade de Cristo, para desfazer a ideia equivocada de que Cristo seria somente um dos profetas ou, um ser angelical. Essa ideia equivocada de que um anjo se fez carne ou, que era somente mais um profeta, comprometia a essência do evangelho.

A alegação de que Jesus é um ser angelical e que se fez carne, nega que o Cristo é pré-existente, ou seja, que Ele é o Deus eterno que estava junto ao Pai e se esvaziou da sua glória, para habitar entre os homens: “Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens.” (Fl 2:7); “No princípio era o Verbo,  o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus.” (Jo 1:1-2 )

Nas Escrituras está registrado o seguinte, acerca do Filho de Deus:

“Mas, do Filho, diz: Ó Deus, o teu trono subsiste pelos séculos dos séculos; Cetro de equidade é o cetro do teu reino. Amaste a justiça e odiaste a iniquidade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com óleo de alegria, mais do que a teus companheiros.” (Hb 1:8-9; Sl 45:6-7);

“E Tu, Senhor, no princípio fundaste a terra, E os céus são obra de tuas mãos. Eles perecerão, mas tu permanecerás; E todos eles, como roupa, envelhecerão e, como um manto, os enrolarás e serão mudados. Mas tu és o mesmo, E os teus anos não acabarão.” (Hb 1:10-12; Sl 102:25-27)

Nas Escrituras não tem registro nenhum, de que algum profeta (anjo, mensageiro), fora chamado de Filho ou de Deus, do mesmo modo que tais nomes: Deus e Filho, não apontam para seres angelicais.

O evangelista João enfatiza que Cristo veio por ‘água’ e por ‘sangue’, o que significa que Ele não veio por ‘carne’ e por ‘sangue’. Ele precisava demonstrar que Jesus teve um corpo de carne, por causa dos anticristos, que diziam que Jesus não veio em carne, o que comprometeria a verdade da morte de Cristo e da sua ressurreição, porém, a verdade de que Cristo não teve vínculo com o pecado, também, deveria ser enfatizado.

A carne, como matéria, é sempre vinculada ao pecado, entretanto, não é um corpo constituído de carne que vincula o homem ao pecado, mas, sim, a herança de Adão transmitida pela semente corruptível. É a condenação, em decorrência da ofensa que ocorreu no Éden, que vincula o homem ao pecado, não a matéria constitutiva do corpo.

É imprescindível destacar que todos os homens, quando vêm ao mundo, exceto Adão e Cristo, possuem vinculo de ‘carne’ e de ‘sangue’. Adão é o único homem que veio ao mundo sem vínculo de carne e de sangue, pois foi criado por Deus, a partir do barro. Já o Filho de Deus veio ao mundo tendo vínculo de sangue, para compartilhar da natureza humana e, assim ser participante das fraquezas e sujeito à morte, porém, por ter vindo por água, nunca esteve sujeito ao pecado.

Exceto Adão e Cristo, todos os homens vêm ao mundo por carne e por sangue, ou seja, são gerados da vontade da carne, da vontade do varão e do sangue. Adão e Cristo tinham corpos constituídos de ‘carne’ e de ‘sangue’, no entanto, ambos não vieram ao mundo, conforme a vontade da carne, vontade do varão e do sangue.

A Palavra que é viva e permanece para sempre, se fez semelhante aos homens, portanto, significa que Jesus veio por água e, ao mesmo tempo, pertenceu à linhagem de Abraão e de Davi, pelo vinculo de sangue:

“… mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens.” (Fl 2:7)

É por causa dos opositores do evangelho, que diziam que Jesus não veio em carne, que o evangelista João demonstra que Jesus veio ao mundo, ao despir-se da sua glória, por ‘água’ e por ‘sangue’. (1 Jo 5:6).

Em seguida, o apóstolo enfatiza que as Escrituras (espírito) confirmam que Jesus veio em carne, ou seja, que Jesus detinha um corpo de carne e de sangue. Ora, como as Escrituras são a verdade e dão testemunho de Cristo, certo é que as Escrituras dão testemunho de Cristo:

“Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna e são elas que de mim testificam.” (Jo 5:39)

“Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade.” (Jo 17:17);

“A tua palavra é a verdade, desde o princípio, e cada um dos teus juízos dura para sempre.” (Sl 119:160)

O apóstolo João demonstra que o próprio Deus é quem dá testemunho, acerca do Cristo, através das Escrituras. A palavra de Deus é a verdade e Cristo, na condição de Verbo eterno encarnado, identificou-se como o caminho, a verdade e a vida: “Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho,  a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.” (Jo 14:6)

A palavra do evangelho é a unidade do Espírito, pois só há uma igreja (corpo) e um evangelho (evangelho): “Procurando guardar a unidade do Espírito, pelo vínculo da paz. Há um só corpo e um só Espírito, como, também, fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação.” (Ef 4:3-4)

Como a palavra de Deus é a verdade e o evangelista João enfatiza que o Espírito é a verdade, segue-se que o que testifica é a palavra, pois o testemunho de Cristo é o espírito da profecia.

“E eu lancei-me a seus pés para o adorar; mas, ele disse-me: Olha, não faças tal; sou teu conservo e de teus irmãos, que têm o testemunho de Jesus. Adora a Deus; porque o testemunho de Jesus é o espírito da profecia.(Ap 19:10; Jo 8:26)

Ao retirar a interpolação: “…no céu: o Pai, a Palavra e o Espírito Santo; e estes três são um. E três são os que testificam na terra:” (1 Jo 5:7-8), que não há nos melhores manuscritos, o que sugere um acréscimo tardio, teremos a seguinte assertiva:

“Porque três são os que testificam: o Espírito, a água e o sangue; e estes três concordam num.” (1 Jo 5:7-8)

Embora o Deus eterno seja constituído de três pessoas sempiternas e unas, e a diferenciação de pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo tenham surgido somente na plenitude dos tempos, quando o Unigênito de Deus foi introduzido no mundo, e a relação Pai/Filho passou a viger, conforme o acordado na eternidade: “Eu lhe serei por Pai e tu me será por Filho.” (2 Sm 7:14), a unidade do testemunho, acerca de Cristo como o Filho de Deus é o das Escrituras, ou seja, do espírito e não ‘do Pai, do Verbo e do Espírito Santo’, como sugere a interpolação.

Sobre o testemunho do Espírito, ou seja, da palavra que dá vida, temos a seguinte declaração de Jesus:

“Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna e são elas que de mim testificam.” (Jo 5:39);

Jesus balizou o seu ministério no testemunho de Deus, que está expresso nas Escrituras somente:

“E na vossa lei está, também, escrito que o testemunho de dois homens é verdadeiro. Eu sou o que testifico de mim mesmo e de mim testifica, também, o Pai que me enviou.(Jo 8:17-18)

O testemunho das Escrituras, conforme o anunciado pelos profetas (Jo 5:39), é o testemunho do Espírito ou, da Palavra ou, de Deus.

A água remete ao nascimento sobrenatural de Cristo, pois, além de Ele ser a água proveniente da pedra que os filhos de Israel beberam, pois era Ele quem os seguia (1 Co 10:4; Jo5:31-36; Jo 8:14), ação sobrenatural de Deus que atuou no ventre da virgem, concedendo a Cristo a natureza humana, constituiu o Cristo por testemunho a todos os povos.

“Mas eu tenho maior testemunho do que o de João; porque as obras que o Pai me deu para realizar, as mesmas obras que eu faço, testificam de mim, que o Pai me enviou.” (Jo 5:36)

O próprio sangue (parente) de Cristo testificou d’Ele, o seu primo, João Batista:

“João testificou dele e clamou, dizendo: Este era aquele de quem eu dizia: O que vem após mim é antes de mim, porque foi primeiro do que eu.” (Jo 1:15).

Quando Cristo é ressurreto pelo poder de Deus o testemunho do Espírito, da água e do sangue se confirmam, pois, Ele foi declarado filho de Deus com poder, pela ressurreição dentre os mortos:

“O qual, antes prometeu, pelos seus profetas, nas santas escrituras, acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi, segundo a carne, declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor.” (Rm 1:2-4).

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1] “3956 πας pas que incluem todas as formas de declinação; TDNT – 5:886,795; adj 1) individualmente 1a) cada, todo, algum, tudo, o todo, qualquer um, todas as coisas, qualquer coisa 2) coletivamente 2a) algo de todos os tipos, Dicionário Bíblico Strong.

[2] “1097 γινωσκωginoskoforma prolongada de um verbo primário; TDNT – 1:689,119; v 1) chegar a saber, vir a conhecer, obter conhecimento de, perceber, sentir 1a) tornar-se conhecido 2) conhecer, entender, perceber, ter conhecimento de 2a) entender 2b) saber 3) expressão idiomática judaica para relação sexual entre homem e mulher 4) tornar-se conhecido de, conhecer” Dicionário Bíblico Strong.

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O que é a circuncisão?

Por causa do sinal que Deus deu, equivocaram-se, pois passaram a entender que eram filhos de Deus, por serem descendentes da carne de Abraão. Passaram a acreditar que a justiça de Deus só era dada aos descendentes da carne de Abraão, esquecendo-se de que Abraão foi justificado quando, ainda, na incircuncisão.


A circuncisão é um sinal estabelecido por Deus na carne dos descendentes de Abraão, em função da aliança deste com Deus. Esse sinal consistia em uma incisão cirúrgica na carne do prepúcio (remoção da pele que cobre a glande do órgão genital) de todas as crianças do sexo masculino, devendo ser realizada ao oitavo dia de nascimento (Gn 17:11-12).

A aliança de Deus com Abraão consistiu em estabelecê-lo como pai de muitas nações, de modo que Deus é o Deus de Abraão e dos seus descendentes (Gn 17:7) e eles, herdeiros das terras das peregrinações do patriarca (Gn 17:8).

Em função do sinal que Deus estabeleceu, Abraão circuncidou toda a sua casa e a si mesmo:

“Então tomou Abraão a seu filho Ismael, a todos os nascidos na sua casa e a todos os comprados por seu dinheiro, todo o homem, entre os da casa de Abraão, e circuncidou a carne do seu prepúcio, naquele mesmo dia, como Deus falara com ele” (Gn 17:23).

O sinal na carne dos homens em Israel servia para lembrá-los de que eram descendentes de Abraão e da promessa que Deus havia feito ao pai da fé. O sinal da circuncisão, também, seria para distingui-los das nações em redor.

No entanto, por causa do sinal que Deus deu, equivocaram-se, pois passaram a entender que eram filhos de Deus, por serem descendentes da carne de Abraão. Passaram a acreditar que a justiça de Deus só era dada aos descendentes da carne de Abraão, esquecendo-se de que Abraão foi justificado quando, ainda, na incircuncisão.

“E recebeu o sinal da circuncisão, selo da justiça da fé, quando estava na incircuncisão, para que fosse pai de todos os que creem, estando eles também na incircuncisão; a fim de que, também, a justiça lhes seja imputada” (Rm 4:11).

Em lugar de confiarem em Deus, os descendentes da carne de Abraão passaram a confiar na carne, fazendo dela a sua ‘força’, e deste modo, se esqueceram de confiar em Deus.

“Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, faz da carne o seu braço e aparta o seu coração do SENHOR!” (Jr 17:5).

Em função do desvio dos filhos de Israel, que consideravam que eram salvos por serem descendentes da carne de Abraão, Deus passou a protestar contra eles, dizendo:

Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração e não mais endureçais a vossa cerviz” (Dt 10:16; Jr 4:4).

Por intermédio de Moisés, Deus falou, abertamente, que eles não eram justos, antes povo rebelde (Dt 9:4-6). Que eles não eram filhos de Deus, mas, uma mancha, geração perversa e depravada (Dt 32:5).

Por serem transgressores, Deus deu-lhes a lei para que compreendessem que não eram melhores do que os gentios e, igualmente, condenáveis diante de Deus: “Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que castigarei a todo o circuncidado com o incircunciso” (Jr 9:25; Rm 3:9 e 19).

“Logo, para que é a lei? Foi ordenada por causa das transgressões, até que viesse a posteridade a quem a promessa tinha sido feita; e foi posta pelos anjos na mão de um medianeiro” (Gl 3:19; 1 Tm 1:9).

Com o passar do tempo, o termo ‘circuncisão’ acabou sendo utilizado para designar os judeus e o termo incircuncisão para designar os gentios. Em função disso, Pedro, por evangelizar os judeus, passou a ser denominado apóstolo da circuncisão e Paulo, de apóstolo da incircuncisão ou, apóstolo dos gentios.

“Antes, pelo contrário, quando viram que o evangelho da incircuncisão me estava confiado, como a Pedro o da circuncisão (porque aquele que operou, eficazmente, em Pedro para o apostolado da circuncisão, esse operou, também, em mim com eficácia para com os gentios) e conhecendo Tiago, Cefas e João, que eram considerados como as colunas, a graça que me havia sido dada, deram-nos a destra, em comunhão comigo e com Barnabé, para que nós fôssemos aos gentios e eles, à circuncisão” (Gl 2:7-9).

A circuncisão era venerada entre os judeus, tanto que alguns se convenceram de que eram cristãos e passaram a anunciar aos irmãos que, para se salvarem tinham de se circuncidar, segundo o rito de Moisés (At 15:1).

Por causa da doutrina que anunciavam, que era contrária à verdade do evangelho, o apóstolo Paulo os denominava de desordenados, faladores, enganadores, vãos (Tt 1:10). As discussões dos judaizantes eram em torno de questões como alimentos, dias, festas, purificação, linhagem, circuncisão, genealogias, etc., tudo questões segundo mandamentos de homens.

Na Antiga Aliança, Deus havia instruído os filhos de Israel a se purificarem, lavando-se com água limpa. Ora, a água limpa simbolizava a palavra de Deus, de modo que ao se lavarem com água limpa, deveriam confiar que é Deus quem os purificava, através da sua palavra, porém, eles passaram a confiar que a purificação estava nas questões rituais e formais de se lavarem.

Os filhos de Israel, para serem filhos de Deus, deveriam ser circuncidados por Deus, não por seus pais, segundo a carne e o sangue. Quando Deus deu a ordem: ‘circuncidai, pois, os vossos corações’, era uma incisão impossível para os homens realizá-la, por isso, deveriam se sujeitar a Deus, obedecendo ao seu mandamento, pois aí Deus haveria de circuncidá-los:

“E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração e o coração de tua descendência, para amares ao SENHOR teu Deus, com todo o coração e com toda a tua alma, para que vivas” (Dt 30:6).

Os filhos de Israel estavam todos mortos em delitos e pecados, assim como todos os gentios, por serem descendentes da carne de Abraão, e não da mesma fé que teve Abraão. Para viverem, precisavam ser circuncidados por Deus, isto é, serem participantes da palavra que sai da boca de Deus (Dt 30:6; Dt 8:3).

Da mesma forma que os pais circuncidam os filhos, é Deus quem circuncida os seus filhos, aqueles nascidos não da carne, nem do sangue e nem da vontade do homem, mas da vontade de Deus (Jo 1:12).

Na Nova Aliança, o crente em Cristo é verdadeiramente circuncidado, a circuncisão não feita por mão dos homens, mas pela circuncisão que lança fora o corpo da carne, a circuncisão de Cristo (Cl 2:11). A circuncisão em Cristo se dá através da crucificação do corpo da carne na cruz, onde o velho homem é crucificado com Cristo, morto e sepultado (Cl 2:12).

A circuncisão do coração é a verdadeira circuncisão, pois é feita pelo espírito, ou seja, pela Palavra de Deus, que é mais penetrante que qualquer espada de dois gumes. A circuncisão, segundo a letra, ou seja, segundo a lei do mandamento carnal (homens) é louvada pelos homens, porque é feita por eles mesmos no prepúcio da carne, mas a circuncisão pelo evangelho é louvada por Deus, pois é Deus quem realiza a circuncisão do coração.

“Mas é judeu o que o é no interior e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus” (Rm 2:29).

O apóstolo Paulo enfatiza que a circuncisão são os cristãos, por servirem a Deus segundo a sua palavra (espírito), diferentemente dos judeus, que confiavam na carne.

“Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus em espírito e nos gloriamos em Jesus Cristo e não confiamos na carne” (Fl 3:3).

Por isso, o apóstolo Paulo disse:

“A circuncisão de nada vale e a incircuncisão de nada vale, o que importa é a observância dos mandamentos de Deus (1 Co 7:19).

A circuncisão, como sinal da aliança feita com Abraão, é sem valor, diante do mandamento da Nova Aliança, que é crer em Cristo (1 Jo 3:23).

Abraão era incircunciso, quando Deus lhe anunciou a palavra da promessa e ele creu nessa promessa, sendo concedido, em seguida, o sinal da circuncisão, como um selo da justiça da fé (Rm 4:11). O selo da circuncisão servia para evidenciar que, de fato, Abraão se fez servo de Deus (humilhou-se), crendo na promessa.

“Eu, também, andei para com eles, contrariamente, e os fiz entrar na terra dos seus inimigos; se, então, o seu coração incircunciso se humilhar e tomarem por bem o castigo da sua iniquidade” (Lv 26:41).

O que levou Abraão a receber o selo da circuncisão foi a obediência à promessa de Deus. Na promessa, não há um mandamento explicito, mas, implicitamente, se faz necessário descansar n’Aquele que prometeu.

O que Abraão poderia fazer diante da seguinte palavra?

“E eis que veio a palavra do SENHOR a ele dizendo: Este não será o teu herdeiro; mas aquele que de tuas entranhas sair, este será o teu herdeiro. Então, o levou fora e disse: Olha, agora, para os céus e conta as estrelas, se as puderes contar. E disse-lhe: Assim será a tua descendência” (Gn 15:4-5).

Nada!

Diante da palavra de Deus, mesmo com o seu corpo amortecido pela idade (cem anos) e Sara, também, de idade avançada, Abraão estava plenamente convicto de que Deus era poderoso para cumprir o que prometera (Rm 4:20-21). Ao crer, Abraão se humilhou, ou seja, se fez servo, tornando-se circunciso de coração!

Os filhos de Israel, por sua vez, apesar de terem votado que fariam tudo o que o Senhor Deus havia ordenado, por intermédio de Moisés (Êx 19:8), não obedeceram, sendo declarados, portanto, homens de dura cerviz, incircuncisos de coração e de ouvidos.

“Homens de dura cerviz e incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim vós sois como vossos pais” (At 7:51).

A verdadeira circuncisão se alcança através da obediência aos mandamentos de Deus!

“A circuncisão é nada e a incircuncisão nada é, mas, sim, a observância dos mandamentos de Deus” (1Co 7:19).

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto

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Terei misericórdia de quem me aprouver!

Perdoar o pecado do povo já era um pedido descabido por parte de Moisés, quanto mais a condição que estabeleceu: “…se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito” (Êx 32:32). Ao fazer essa oração, Moisés desconsiderou completamente o que foi dito por Deus aos filhos de Israel, quando estavam acampados ao pé do monte Sinai.


“Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e terei compaixão de quem me aprouver ter compaixão. Assim, pois, não depende de quem quer, nem do que corre, mas de Deus, que usa de misericórdia” (Romanos 9:15-16)

 

Para compreender a palavra de Deus: “… terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer” (Êx 33:19), quando revelou a Sua glória a Moisés, temos de voltar alguns dias no tempo, no dia em que Deus anunciou a Lei aos filhos de Israel.

Três meses, após saírem do Egito, os filhos de Israel chegaram ao deserto do Sinai e acamparam diante do monte (Êx 19:1). No terceiro dia, após o povo se santificar, Moisés subiu ao cume do monte, quando Deus lhe disse, abertamente:

“Não te encurvarás a elas, nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” (Êx 20:6).

Deus deixou muito claro ao povo de Israel que é Deus zeloso, ou seja, que vela sobre a sua palavra para cumpri-la (Jr 1:12). Isto posto, Deus dá a sua palavra de que não justifica o pecado daqueles que O odeiam, mas, que faz misericórdia aos que O amam, ou seja, aos que guardam os seus mandamentos.

Tomando por base a palavra de Deus dita a Moisés, no capítulo 20, verso 6, pergunta-se: – de quem Deus tem misericórdia? Deus tem misericórdia, única e exclusivamente, daqueles que O amam!

Essa verdade é inconspurcável e enfatizada repetidas vezes:

“Mas a misericórdia do SENHOR é desde a eternidade e até a eternidade sobre aqueles que o temem e a sua justiça sobre os filhos dos filhos; Sobre aqueles que guardam a sua aliança e sobre os que se lembram dos seus mandamentos, para os cumprir” (Sl 103:17-18);

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos” (Dt 5:10);

“Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia, até mil gerações, aos que o amam e guardam os seus mandamentos” (Dt 7:9);

“E orei ao SENHOR meu Deus, confessei e disse: Ah! Senhor! Deus grande e tremendo, que guardas a aliança e a misericórdia para com os que te amam e guardam os teus mandamentos” (Dn 9:4).

Deus deixou estabelecido nas Escrituras que somente demonstra misericórdia aos que obedecem ao Seu mandamento, pois a misericórdia (amor) de Deus é que guardemos os seus mandamentos.

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” (1 Jo 5:3).

Após Moisés anunciar estas palavras ao ouvido dos filhos de Israel e eles votarem a uma só voz que obedeceriam tudo o que o Senhor ordenou (Êx 24:7), bastou Moisés se ausentar por quarenta dias e quarenta noites para os filhos de Israel transgredirem o mandamento, adorando um bezerro de ouro (Êx 32:1).

“Então disse o SENHOR a Moisés: Vai, desce; porque o teu povo, que fizeste subir do Egito, se tem corrompido e depressa se tem desviado do caminho que eu lhe tinha ordenado; eles fizeram para si um bezerro de fundição e perante ele se inclinaram, ofereceram-lhe sacrifícios e disseram: Este é o teu deus, ó Israel, que te tirou da terra do Egito” (Êx 32:7-8).

No dia seguinte, após destruir o bezerro de ouro, Moisés subiu ao Senhor para rogar pelo povo e disse:

“Ora, este povo cometeu grande pecado fazendo para si deuses de ouro. Agora, pois, perdoa o seu pecado, se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito” (Êx 32:31-32).

Ora, segundo o que Deus já havia estabelecido: a) Deus visita a iniquidade dos que O odeiam, e; b) faz misericórdia aos que O amam, portanto, por esses dois motivos, a oração de Moisés, para perdoar o povo, não tinha como prosperar.

Em primeiro lugar Deus é Deus zeloso e a sua palavra não volta vazia. Em segundo lugar, Deus é justo, portanto, Ele não pode justificar o ímpio (Êx 23:7; Êx 34:7). Em terceiro lugar, a alma que pecar, essa mesma morrerá (Êx 32:33).

Perdoar o pecado do povo já era um pedido descabido por parte de Moisés, quanto mais a condição que estabeleceu: “…se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito” (Êx 32:32). Ao fazer essa oração, Moisés desconsiderou completamente o que foi dito por Deus aos filhos de Israel, quando estavam acampados ao pé do monte Sinai.

Como os filhos de Israel pecaram contra o Senhor odiando-O, Deus determinou a Moisés que conduzisse o povo como o ordenado, porém, ficou estabelecido que, no dia da visitação, Deus haveria de dar aos filhos de Israel a paga pela ofensa no deserto (Êx 32:34-35).

Em seguida, Moisés roga a Deus que ande com os filhos de Israel (Êx 33:15), ao que Deus aquiesceu (Êx 33:17). Moisés roga a Deus que mostre a Sua gloria, Deus atende ao pedido e avisa:

“Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti e proclamarei o nome do SENHOR diante de ti; terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer” (Êx 33:19).

Embora Deus tenha concedido a Moisés ver a Sua glória, Moisés precisava compreender que Deus teria misericórdia de quem Lhe aprouvesse! Para Moisés não se esquecer da palavra que havia sido anunciada ao povo, quando acampado ao pé do monte Sinai, evidenciar a Sua vontade e evitar equívocos, Deus utiliza um espécie de trocadilho.

De quem Deus tem misericórdia? Daqueles que O amam! Deus tem misericórdia dos que O obedecem! Aprouve a Deus ter misericórdia dos que O amam! Quando é dito: ‘Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia’, Deus está trazendo à memoria a sua vontade expressa: aprouve-me ter misericórdia dos que me amam!

De quem aprouve a Deus ter compaixão? Dos que O amam, ou seja, daqueles que Lhe obedecem! Lembrando que, nas Escrituras, os termos amor e ódio, dependendo do contexto, estão respectivamente para obediência e desobediência, dedicação e desprezo.

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar a um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Mt 6:24).

Com base na ideia de que Deus tem misericórdia de quem ele quer, e de que Ele tem misericórdia dos que O amam, o apóstolo Paulo citou essa passagem, para enfatizar que Deus cumpriu a sua palavra anunciada a Abraão, mesmo que nem todos os pertencentes à nação de Israel sejam, de fato, israelitas (Rm 9:6-8).

“Não que a palavra de Deus haja faltado, porque nem todos os que são de Israel são israelitas; Nem por serem descendência de Abraão, são todos filhos” (Rm 9:6-7).

O apóstolo destaca, desde o verso 7, que a palavra de Deus é firme e que, portanto, deve ser interpretada corretamente.

Por que é necessária a interpretação? Porque, não basta ser descendente da carne de Abraão, para ser considerado filho de Abraão, pois, a palavra de Deus indicava que, em Isaque, seria chamada a descendência de Abraão, não, propriamente, em Abraão.

O apóstolo cita as Escrituras: ‘mas: em Isaque será chamada a tua descendência’ e, em seguida, dá a interpretação: ‘Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas, os filhos da promessa é que são contados como descendência’. Deus não afirmou que Isaque seria a descendência de Abraão, mas, que, em Isaque, a descendência seria chamada!

A palavra da promessa era: ‘Por este tempo virei e Sara terá um filho’, no entanto, essa não era a única palavra, pois, também, foi dito a Rebeca: ‘O maior servirá o menor’.  E por que Deus disse a Rebeca que o maior serviria o menor? Resposta: – Porque Deus amou a Jacó e odiou a Esaú!

Dai a pergunta: há injustiça da parte de Deus, por que Ele disse que amou a Jacó e que odiou a Esaú? Ou, porque o maior servirá o menor? Ou, porque nem todos os que são de Israel são israelitas? Ou, porque, mesmo sendo descendência de Abraão, não eram todos seus filhos?

Para demonstrar que não há injustiça em Deus, nas perguntas formuladas acima (Rm 9:14), antes, que a palavra de Deus não falhou, o apóstolo Paulo cita a palavra de Deus a Moisés, demonstrando que Deus é Deus zeloso:

“Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” (Rm 9:15).

Deus tem misericórdia, especificamente, dos que O amam, pois Ele teve misericórdia de Abraão, porque cumpriu todos os Seus mandamentos e, por isso, foi chamado de amigo de Deus.

“Porquanto, Abraão obedeceu à minha voz e guardou o meu mandado, os meus preceitos, os meus estatutos e as minhas leis” (Gn 26:5; Is 41:8).

Deus elegeu Abraão para ordenar a sua descendência (casa), a fim de que os seus descendentes guardem os mandamentos do Senhor e, em contra partida, o Senhor faria vir sobre Abraão, o que acerca dele havia falado, demonstrando, assim, que Deus tem misericórdia dos que obedecem à sua palavra.

“E disse o SENHOR: Ocultarei eu a Abraão o que faço, visto que Abraão, certamente, virá a ser uma grande e poderosa nação, e nele serão benditas todas as nações da terra? Porque eu o tenho conhecido e sei que ele há de ordenar a seus filhos e à sua casa depois dele, para que guardem o caminho do SENHOR, para agir com justiça e juízo; para que o SENHOR faça vir sobre Abraão o que acerca dele tem falado” (Gn 18:17-19).

Se a promessa de Deus, dada a Abraão, tivesse se cumprido na palavra: “Por este tempo virei e Sara terá um filho”, seria desnecessária a palavra de Deus anunciada a Rebeca: “O maior servirá o menor”, que concebeu de Isaque, também, pai dos judeus (Rm 9:10).

O apóstolo Paulo também demonstra que a perspicácia de Rebeca em obedecer a Deus é semelhante à de Abraão e, por isso, foi dada a palavra a Rebeca: “O maior servirá ao menor”.

Ora, quando foi dito que o maior servirá ao menor, Deus não estava escolhendo entre indivíduos: Esaú e Jacó, mas, sim, entre dois povos, o que contraria o pensamento calvinista e arminianista da eleição e da predestinação. Deus não estava escolhendo Jacó para a salvação, mas, determinando que o Cristo viria da sua descendência.

“E o SENHOR lhe disse: Duas nações há no teu ventre e dois povos se dividirão das tuas entranhas e um povo será mais forte do que o outro povo, e o maior servirá ao menor (Gn 25:23).

Pela palavra que ouviu, Rebeca não ficou passiva, mas, abordou o seu filho Jacó e o orientou a enganar seu próprio pai e, diante do medo que Jacó teve de uma possível maldição, ela se interpôs: “Meu filho, sobre mim seja a tua maldição; somente obedece à minha voz, vá e traze-os” (Gn 27:13) e, assim, garantiu que a bênção prometida a Abraão ficasse na casa de Jacó e não na casa de Esaú (Ml 1:1-3).

Haveria injustiça em Deus, ao amar a Jacó e,  em aborrecer a Esaú? Não! Pelo fato de Esaú ter desprezado o direito de primogenitura, ele não alcançou misericórdia, pois a misericórdia é para os que obedecem. Diferentemente, de Esaú, Jacó alcançou misericórdia, porque buscou para si o direito de primogenitura. Esaú não achou lugar de arrependimento porque só existe um primogênito, direito que ele vendeu a Jacó.

“E ninguém seja devasso ou, profano, como Esaú, que, por uma refeição, vendeu o seu direito de primogenitura. Porque bem sabeis que, querendo ele, ainda, depois de herdar a bênção, foi rejeitado, porque não achou lugar de arrependimento, ainda que, com lágrimas o buscasse” (Hb 12:16-17).

Deus não teve misericórdia de Esaú porque ele foi devasso, vez que profanou o estabelecido por Deus, quanto ao direito de primogenitura. Jacó, por sua vez, amou o estabelecido por Deus no direito de primogenitura e buscou o direito para si, comprando-o. E, por isso, foi recompensado pela sua diligência!

O apóstolo Paulo disse que desejava ser separado de Cristo, por amor aos seus irmãos, mas, o desejo do apóstolo não muda a palavra de Deus, de que Ele tem misericórdia dos que O amam (Rm 9:3). Esaú desejou herdar a bênção e, com lágrimas a buscou, mas, não achou lugar de arrependimento. Moisés queria que Deus exercesse misericórdia sobre os filhos de Israel, mas, o exercício da misericórdia de Deus, não dependia de Moises querer ou correr, mas de Deus, que usa de misericórdia para os que O amam, ou, seja, aos que guardam o seu mandamento.

“Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e terei compaixão de quem me aprouver ter compaixão. Assim, pois, não depende de quem quer, nem do que corre, mas de Deus, que usa de misericórdia” (Rm 9:15-16).

Da mesma forma que Deus tem misericórdia de quem Ele aprouver, aprouve a Deus salvar os crentes, pela loucura da pregação:

“Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve, a Deus, salvar os crentes, pela loucura da pregação (1 Co 1:21).

Não aprouve a Deus salvar a quem Ele quisesse, pelo fato de ser soberano, antes, soberanamente, aprouve a Ele salvar os crentes, por meio do evangelho. O evangelho é a graça de Deus, segundo a sua misericórdia, e para o homem ser salvo, é necessário amar a Deus, crendo em Cristo.

Ao crer em Cristo, o homem ama a Deus, portanto, Deus terá misericórdia deste, pois, ele obedeceu ao mandamento de Deus:

“Pois o mesmo Pai vos ama, visto como vós me amastes e crestes que saí de Deus” (Jo 16:27).

A misericórdia de Deus é manifesta no seu mandamento, possibilitando ao homem obedecer e ser salvo. Obediência ao mandamento resulta na perfeita obra de Deus.

“Jesus respondeu e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” (Jo 6:29);

“Sê tu a minha habitação forte, à qual possa recorrer continuamente. Deste um mandamento que me salva, pois tu és a minha rocha e a minha fortaleza” (Sl 71:3).

Quando Deus disse a Faraó: “Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra” (Rm 9:18; Êx 9:16). Assim, Deus já tinha demonstrado a sua misericórdia, ao ordenar: – “Deixa o meu povo ir”, mas, Faraó se recusou a obedecer.

Através da palavra do Senhor dada a Faraó, conclui-se que Ele compadece de quem quer, ou seja, dos que obedecem à sua palavra. Logo, Ele endurece, ou, resiste a quem quer, ou seja, aos soberbos, aos desobedientes, etc.

“Logo, pois, compadece-se de quem quer (quem lhe apraz) e endurece a quem quer (quem não lhe apraz)” (Rm 9:18);

“Antes, ele dá maior graça. Portanto diz: Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes” (Tg 4:6; 1 Pe 5:5).

A palavra de Deus, para alguns, é salvação e para outros, perdição:

“E, em nada vos espanteis dos que resistem, o que para eles, na verdade, é indício de perdição, mas, para vós, de salvação, e isto de Deus” (Fl 1:28).

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto

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O lobo morará com o cordeiro?

O leão, o lobo e o leopardo, neste contexto, são bestas do campo utilizadas como figura para fazer referência às nações inimigas de Israel, que invadiriam as cidades e levaria o povo (ovelhas) de Israel como presa.


“E morará o lobo com o cordeiro, o leopardo com o cabrito se deitará, o bezerro e o filho de leão e o animal cevado andarão juntos e um menino pequeno os guiará” (Is 11:6).

 

Introdução

As Testemunhas de Jeová e os Adventistas do Sétimo dia utilizam a passagem de Isaias 11, verso 6, para falar das bênçãos de um futuro novo mundo, como se as Escrituras afirmassem que, um dia, a natureza dos lobos seria transformada para tornar possível conviverem em harmonia com carneiros.

Eles afirmam, com base nessa passagem de Isaias, que uma das características desse paraíso será os humanos e os animais coexistindo em paz, de modo que um cordeiro não correrá risco de ser devorado, se ficar próximo de um lobo ou, um bezerro, próximo de um leopardo.

Dai, surge a indagação: está correto esse ensinamento disseminado pelas Testemunhas de Jeová[1], conforme o que estabelece o seu Corpo Governante[2]? Está correto o ensinamento de Ellen White[3] quanto a essa passagem das Escrituras?

 

Interpretando uma parábola

Assim como o profeta Isaias, o profeta Ezequiel, também, anunciou aos filhos de Israel um tempo de paz, em que os descendentes de Jacó habitariam em segurança, nas terras que foram prometidas ao patriarca Abraão, pois o Filho de Davi – Jesus Cristo – regerá as nações do mundo com vara de ferro (Ap 19:15).

“E eu, o SENHOR, lhes serei por Deus, e o meu servo Davi será príncipe no meio delas; eu, o SENHOR, o disse. E farei com elas uma aliança de paz e acabarei com as feras da terra, habitarão em segurança no deserto e dormirão nos bosques. E delas e dos lugares ao redor do meu outeiro, farei uma bênção; e farei descer a chuva a seu tempo; chuvas de bênção serão. E as árvores do campo darão o seu fruto, a terra dará a sua novidade, estarão seguras na sua terra; e saberão que eu sou, o SENHOR, quando eu quebrar as ataduras do seu jugo e as livrar da mão dos que se serviam delas. E não servirão mais de rapina aos gentios, as feras da terra nunca mais as devorarão; e habitarão seguramente e ninguém haverá que as espante” (Ez 34:24-28).

Ezequiel profetizou que Deus haveria de fazer uma aliança de paz com os filhos de Israel e que acabaria com as feras da terra. Ora, diante dessa profecia, o leitor tem que entender que Deus falava aos filhos de Israel, utilizando-se de figuras, enigmas e parábolas (Sl 78:2; Ez 20:49).

Já, no inicio do capítulo 34, do Livro de Ezequiel, temos uma parábola, em que Deus retrata os líderes de Israel como ‘pastores’ e o povo como ‘ovelhas’ (Ez 34:2).

Os líderes de Israel eram pastores que apascentavam a si mesmos, pois se alimentavam do rebanho, mas não cuidavam dele (Ez 34:3). Por causa da desídia dos ‘pastores’, as ‘ovelhas’ da casa de Israel se dispersaram, tornando-se presas fáceis das feras do campo (nações gentílicas) e foram dispersas entre todas as nações (montes, outeiros).

“Assim se espalharam, por não haver pastor e tornaram-se pasto para todas as feras do campo, porquanto se espalharam.As minhas ovelhas andaram desgarradas por todos os montes e por todo o alto outeiro; sim, as minhas ovelhas andaram espalhadas por toda a face da terra, sem haver quem perguntasse por elas, nem quem as buscasse” (Ez 34:5-6)

No capítulo 34, o profeta Ezequiel estava protestando contra os líderes (pastores) do povo, vez que não cuidaram dos filhos de Israel (ovelhas). O cuidado dos líderes estava em ensinar, corretamente, ao povo os mandamentos de Deus, mas, como o povo não foi ensinado, os filhos de Israel ficaram como ovelhas que não tem pastor, presas fáceis às bestas feras do campo, ou seja, foram levados em cativeiro pelas nações inimigas.

A expressão ‘bestas’ feras do campo é uma figura da parábola, que remete às nações inimigas de Israel, que conquistaram e levaram os israelitas em cativeiro. ‘Montes’ e ‘outeiros’, também, são figuras que representam as nações onde os fugitivos de Israel se refugiaram, quando do aperto dos inimigos.

Por causa da apostasia dos filhos de Israel foi previsto, pelos profetas, que eles seriam conquistados por povos inimigos e levados em cativeiro e, para descrever esta triste realidade, os profetas se utilizaram dessas figuras:

“Por isso, um leão do bosque os feriu, um lobo dos desertos os assolará; um leopardo vigia contra as suas cidades; qualquer que sair delas será despedaçado; porque as suas transgressões se avolumam, multiplicaram-se as suas apostasias” (Jr 5:6).

O profeta Jeremias, ao prever o cativeiro dos filhos de Israel, utilizou a figura de três animais do campo: leão, representando a Babilônia; o lobo, representando os Medos-Persas e o leopardo, representando a Grécia, nações que subjugariam os filhos de Israel.

O leão, o lobo e o leopardo, neste contexto, são bestas do campo utilizadas como figura para fazer referência às nações inimigas de Israel, que invadiriam as cidades e levaria o povo (ovelhas) de Israel como presa.

Semelhantemente, montes e outeiros são figuras utilizadas para fazer referência às nações, comparando-as:

“E acontecerá, nos últimos dias, que se firmará o monte da casa do SENHOR no cume dos montes e se elevará por cima dos outeiros; e concorrerão a ele todas as nações” (Is 2:2).

Quando Isaias profetizou que, ‘nos últimos dias, se firmará o monte da casa do Senhor no cume dos montes’, ele utilizou as montanhas como figura, para demonstrar que a nação de Israel se estabelecerá acima das demais nações (se elevará por cima dos outeiros).

A Bíblia apresenta inúmeras figuras para ilustrar a relação entre Israel e os povos em redor.

Outro exemplo de aplicabilidade da figura do ‘monte’ encontra-se nos Salmos, quando o salmista apresenta as águas como figura, para representar os povos e as montanhas, as nações, como se lê:

“Ainda que as águas rujam e se perturbem, ainda que os montes se abalem pela sua braveza. (Selá.) Há um rio, cujas correntes, alegram a cidade de Deus, o santuário das moradas do Altíssimo.Deus está no meio dela; não se abalará. Deus a ajudará, já ao romper da manhã.Os gentios se embraveceram; os reinos se moveram; ele levantou a sua voz e a terra se derreteu” (Sl 46:3-6).

Utilizando a mesma temática, Isaias profetizou, acerca das nações:

“Ai do bramido dos grandes povos, que bramam como bramam os mares e do rugido das nações, que rugem como rugem as impetuosas águas. Rugirão as nações, como rugem as muitas águas, mas Deus as repreenderá e elas fugirão para longe; e serão afugentadas como a pragana dos montes diante do vento e como o que rola, levado pelo tufão” (Is17:12-13).

Voltando à abordagem do profeta Ezequiel, na qual ele destaca que Deus fará uma aliança de paz com Israel e que acabará com as feras da terra, para que os filhos de Jacó possam habitar em segurança no deserto ou, no bosque, o que entender?

Significa que, no reino milenar  de Cristo, não haverá na terra leão, pantera, lobo, urso ou, qualquer outro animal selvagem? Absolutamente, não! Ezequiel fez uso de figuras, para demonstrar que a cidade que os israelitas habitarão será segura, por causa da aliança de paz que Cristo estabelecerá com eles.

A cidade não necessitará de muros, assim como os desertos e os bosques não necessitam. “E disse-lhe: Corre, fala a este jovem, dizendo: Jerusalém será habitada como as aldeias sem muros, por causa da multidão dos homens e dos animais que haverá nela” (Zc 2:4).

O profeta estava anunciando, através dessa previsão, que, no futuro de paz, decorrente do governo de Cristo, os filhos de Israel (ovelhas) não mais servirão de rapina (presa) aos gentios, ou seja, no contexto os gentios são sublinhados como feras que devoram os filhos de Israel.

É, em função da paz que haverá no reino milenar de Cristo, que o profeta Isaias anunciou:

“Ali não haverá leão, nem animal feroz subirá a ele, nem se achará nele; porém, só os remidos andarão por ele” (Is 35:9);

“O lobo e o cordeiro se apascentarão juntos e o leão comerá palha como o boi; e pó será a comida da serpente. Não farão mal, nem dano algum, em todo o meu santo monte, diz o SENHOR” (Is 65:25).

Considerando o verso 9, de Isaias 35, poderíamos concluir que não haverá leão no reino milenar de Cristo? Evidente que não!

Quando é dito que o lobo e o cordeiro se apascentarão juntos, significa que Cristo estará regendo todas as nações da terra (Ap 2:27), de modo que Israel (cordeiros) coexistirá, pacificamente, com as demais nações (lobo), uma paz que nunca se viu ao longo da história da humanidade.

Para compreender essas figuras bíblicas, se faz necessário ter em mente a seguinte regra de interpretação:

“Porque na lei de Moisés está escrito: Não atarás a boca ao boi que trilha o grão. Porventura tem Deus cuidado de bois?” (1 Co 9:9).

Na lei, a figura do boi foi utilizada para fazer referência ao direito de um condenado, demonstrando que Deus tem cuidado dos homens, mas há quem entenda que Deus está cuidando dos animais (Dt 25:1-4).

De igual modo, Deus se utiliza da figura de animais para fazer referência às nações, conforme se vê, nas visões de Daniel:

“Falou Daniel e disse: Eu estava olhando, na minha visão da noite, e eis que os quatro ventos do céu agitavam o mar grande.E quatro animais grandes, diferentes uns dos outros, subiam do mar. O primeiro era como leão e tinha asas de águia; enquanto eu olhava, foram-lhe arrancadas as asas, foi levantado da terra e posto, em pé, como um homem e foi-lhe dado um coração de homem. Continuei olhando e eis aqui o segundo animal, semelhante a um urso, o qual se levantou de um lado, tendo na boca três costelas entre os seus dentes; e foi-lhe dito assim: Levanta-te, devora muita carne” (Dn 7:2-5).

O mar agitado pelo vento refere-se às nações da terra (quatro ventos) e os animais simbólicos do leão, do urso e do leopardo, são as três grandes civilizações conhecidas na história da humanidade: babilônia, medos-persas e gregos, respectivamente. Essas nações foram simbolizadas por animais selváticos, ou seja, através de bestas do campo, para demonstrar a hegemonia delas no mundo e o poder de Deus em estabelecê-las.

O profeta Oséias falou desse tempo de paz, em que Deus fará uma aliança de paz com os israelitas, findando, assim, as guerras no mundo:

“E naquele dia farei por eles aliança com as feras do campo e com as aves do céu,  com os répteis da terra; e da terra quebrarei o arco, a espada e a guerra e os farei deitar em segurança. E desposar-te-ei comigo para sempre; desposar-te-ei comigo em justiça, em juízo, em benignidade e em misericórdias. E desposar-te-ei comigo em fidelidade e conhecerás ao SENHOR” (Os 2:18-20).

O que entender? ao ler:

“E morará o lobo com o cordeiro, o leopardo com o cabrito se deitará, o bezerro e o filho de leão e o animal cevado andarão juntos, e um menino pequeno os guiará. A vaca e a ursa pastarão juntas, seus filhos se deitarão juntos, e o leão comerá palha como o boi” (Is 11:6-7).

O crente deve ter em mente que figuras como: lobo e cordeiro, leopardo e cabrito, bezerro e leãozinho, vaca e ursa e leão e boi, no contexto da profecia de Isaias, trata da convivência pacífica entre as nações, quando do governo do Leão da Tribo de Judá, o rebento de Jessé.

Entender que a profecia de Isaias trata de um futuro ecossistema terrestre, ou que a natureza das bestas feras do campo serão mudadas, quando do advento do reino de Cristo, no mínimo, é um equivoco oriundo da má leitura das figuras e das parábolas bíblicas.

Resta-nos a seguinte dúvida: Se uma organização humana que se diz conhecedora e divulgadora da verdade bíblica não consegue interpretar figuras bíblicas tão simples como essas apresentadas por Isaias, tal organização é digna de confiança, com relação à interpretação do restante das Escrituras?

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1]“No novo mundo de Jeová, as pessoas poderão tocar a juba fofinha de um leão, acariciar o pêlo listrado dum tigre e, até mesmo, dormir na floresta, sem temerem ser atacadas por um animal. Veja a seguinte promessa de Deus: “Hei de fazer cessar no país a fera nociva, e [os humanos] realmente morarão no ermo em segurança e dormirão nas florestas.” — Ezequiel 34:25; Oséias 2:18. Os animais selvagens estarão em sujeição, até mesmo a crianças pequenas. A Bíblia diz: “O lobo, de fato, residirá por um tempo com o cordeiro e o próprio leopardo se deitará com o cabritinho e o bezerro, o leão novo jubado e o animal cevado, todos juntos; e um pequeno rapaz é que será o condutor deles.” Mas isso não é tudo! O texto bíblico continua: “A própria vaca e a ursa pastarão; juntas se deitarão as suas crias. E até mesmo o leão comerá palha como o touro. E a criança de peito há de brincar sobre a toca da naja; e a criança desmamada porá realmente sua própria mão sobre a fresta de luz da cobra venenosa. Não se fará dano, nem se causará ruína em todo o meu santo monte; porque a terra há de encher-se do conhecimento de Jeová, assim como as águas cobrem o próprio mar.” — Isaías 11:6-9.” Animais — eternos companheiros do homem, Revista Despertai! — 2004, pág. 10 -11 <http://wol.jw.org/pt/wol/d/r5/lp-t/102004123>consulta realizada em 08/01/2017.

[2]Segundo as literaturas distribuídas pelas Testemunhas de Jeová, o Corpo Governante refere-se a um grupo de pessoas que supervisiona as Testemunhas de Jeová, em todo o mundo.

[3] “Vi outro campo repleto de todas as espécies de flores; e, quando as apanhei, exclamei: “Elas nunca murcharão.” Em seguida, vi um campo de relva alta, cujo belíssimo aspecto causava admiração; era uma vegetação viva e tinha reflexos de prata e de ouro, quando magnificamente se agitava para a glória do Rei Jesus. Entramos, então, num campo cheio de todas as espécies de animais: o leão, o cordeiro, o leopardo, o lobo, todos juntos, em perfeita união. Passamos pelo meio deles e, pacificamente, nos acompanharam”. White, Ellen, Eventos Finais, Casa Publicadora Brasileira, pág. 288. <http://ellenwhite.cpb.com.br/livro/index/7/283/306/a-heranca-dos-santos> consulta realizada em 08/01/2017.

“Os animais deixarão de ser carnívoros e ferozes: “O lobo e o cordeiro pastarão juntos e o leão comerá palha como o boi; pó será a comida da serpente. Não se fará ma,l nem dano algum, em todo o meu santo monte, diz o SENHOR.” Artigo: O que é a morte?, de Leandro Soares de Quadros, consultor bíblico e conselheiro, disponível na web: <http://www.novoapetite.com.br/?p=66>consulta realizada em 08/01/2017.

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