O justo viverá da fé

O justo viverá da ‘fé’ ou viverá de toda palavra que sai da boca de Deus? Ora, Cristo é a fé que havia de se manifestar ( Gl 3:24 ), o verbo encarnado, portanto, o justo viverá por Cristo ( Rm 10:8 ). Todos que ressurgiram com Cristo é porque vivem da fé, e o profeta Habacuque dá testemunho de que os que vivem pela fé são justos.


“Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça” ( Rm 4:5 )

 

É contundente a exposição do apóstolo Paulo quando afirma, contrariando o que expunha a lei, que “Deus justifica o ímpio” ( Rm 4:5 ). Baseado em quê Deus justifica o ímpios? Como é que Deus sendo justo pode declarar justo o injusto? Como fazê-lo sem comprometer a sua própria justiça?

A resposta é simples: Deus justifica gratuitamente os pecadores por sua maravilhosa graça! Apesar de a resposta ser simples, a pergunta persiste: como Ele faz isso? A resposta também é simples: pela fé “… para nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos justificados” ( Gl 3:24 ).

Além de Deus justificar o ímpio, certo é que o homem é justificado pela fé “Sendo, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus por nosso Senhor Jesus Cristo; pelo qual também temos entrada pela fé a esta graça na qual estamos firmes; e nos gloriamos na esperança da glória de Deus” ( Rm 5:1 -2).

Deus justifica por causa da confiança que o homem deposita n’Ele? Seria a crença do homem o ente justificador?

A resposta encontra-se em Romanos 1, versos 16 e 17: “Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego. Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá da fé” ( Rm 1:16 -17).

Embora no Antigo Testamento, repetidas vezes Deus diz aos juízes israelitas que eles deveriam justificar os íntegros e condenar os ímpios, e declara acerca de si mesmo: “… não justificarei o ímpio” ( Ex 23:7 ), o apóstolo Paulo se socorre de Habacuque que diz: ‘O justo viverá da fé’, para demonstrar que Deus justifica o ímpio!

Através da observação que o apóstolo Paulo faz de Habacuque, fica evidente que a fé não refere-se à confiança do homem, antes diz de Cristo, a fé que havia de se manifestar “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” ( Gl 3:23 ).

Qual a fé que haveria de se manifestar? O evangelho de Cristo, que é o poder de Deus, é a fé manifesta aos homens. O evangelho é a fé pela qual os cristãos devem batalhar ( Jd1:3 ). A mensagem do evangelho é a pregação da fé ( Gl 3:2 e 5). O evangelho é fé, por meio do qual a graça foi revelada “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus ( Ef 2:8 ). O evangelho não procedeu de homem algum, antes é dom de Deus “Se conheceras o dom de Deus e quem é o que te pede: dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva” ( Jo 4:10 ).

Cristo é o dom de Deus, o tema da pregação da fé, por quem o homem tem entrada a esta graça. Por isso, quando a bíblia diz que sem fé é impossível agradar a Deus, tem-se que, a fé que agrada a Deus é Cristo, a fé havia de ser revelada, e não, como muitos pensam, que é a confiança do homem ( Hb 11:6 ).

O escritor aos hebreus, no verso 26 do capítulo 10 demonstra que não há sacrifício após o recebimento do conhecimento da verdade (evangelho) e, que, portanto, os cristãos não podiam rejeitar a confiança que possuíam, que é produto da fé (evangelho) ( Hb 10:35 ), visto que, após fazerem a vontade de Deus (que é crer em Cristo), deviam ter paciência para alcançar a promessa ( Hb 10:36 ; 1Jo 3:24 ).

Após citar Habacuque, o escritor aos Hebreus passa a falar daqueles que viveram pela fé ( Hb 10:38 ), ou seja, homens como Abraão que foram justificados pela fé que havia de se manifestar Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti” ( Gl 3:8 ).

Abraão foi justificado porque creu que Deus haveria de prover-lhe o Descendente, algo impossível aos seus olhos, assim como o é aos olhos dos homens o fato de Deus justificar o ímpio “Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo” ( Gl 3:16 ).

Cristo é o firme fundamento das coisas que se esperam e prova das coisa que se não veem, sendo que por Ele os antigos alcançaram bom testemunho “Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não veem. Porque por ela os antigos alcançaram testemunho” ( Hb 11:1 -2), pois o justo vive e recebe testemunho de que agradara a Deus por intermédio de Cristo ( Tt 3:7 ).

A palavra que Abraão ouviu é o que produziu a crença do patriarca, pois “Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos…” ( Rm 10:8 ), visto que “De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” ( Rm 10:17 ). Sem ouvir a palavra que procede de Deus jamais haveria confiança do homem para com Deus.

O ente justificador é a palavra de Cristo, pois nela está contido o poder que torna possível Deus justificar o ímpio “A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação” ( Rm 10:9 -10).

Quando o homem ouve o evangelho e crê, recebe poder para salvação ( Rm 1:16 ; Jo 1:12 ), e descobre a justificação, pois passa da morte para a vida por que creu na fé ( Rm 1:17 ), É pelo evangelho que o homem torna-se filho de Deus “Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus” ( Gl 3:26 ; Jo 1:12 ).

Por que o apóstolo Paulo teve coragem de afirmar que Deus faz aquilo que Ele mesmo proibiu aos juízes de Israel fazerem? Porque eles não dispunham do poder necessário! Para fazer um injusto justo é necessário poder idêntico aquele que Jesus demonstrou ao curar um paralítico após perdoar-lhe os pecados “Ora, para que saibais que o Filho do homem tem sobre a terra poder de perdoar pecados (disse ao paralítico), a ti te digo: Levanta-te, toma a tua cama, e vai para tua casa” ( Lc 5:24 ).

A fé que justifica é poder de Deus “… para que pela fé fôssemos justificados” ( Gl 3:24 ), pois quando o homem crê é batizado na morte de Cristo ( Gl 3:27 ), ou seja, toma a sua própria cruz, morre e é sepultado “Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte?” ( Rm 6:3 ). Ora, aquele que está morto, justificado está do pecado! ( Rm 6:7 )

Mas, todos que creem e morrem com Cristo, também confessam a Cristo conforme o que ouviu e e aprendeu “Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação” ( Rm 10:9 -10).

Ora, aquele que confessa a Cristo é porque, além de ter sido batizado em Cristo, já se revestiu de Cristo. A confissão é o fruto dos lábios que só produz quem está ligado a Oliveira verdadeira “Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo” ( Gl 3:27 ); “Portanto, ofereçamos sempre por ele a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome” ( Hb 13:15 ); “Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer (…) Nisto é glorificado meu Pai, que deis muito fruto; e assim sereis meus discípulos” ( Jo 15:6 e 8).

O testemunho que Deus dá de que o homem é justo só recai sobre aqueles que, após serem sepultados, se revestem de Cristo, ou seja, somente os que já ressurgiram com Cristo são declarados justos diante de Deus. Somente aqueles que são gerados de novo, ou seja, que vivem por intermédio da fé (evangelho) são justos diante de Deus “O justo viverá da fé” ( Hc 2:4 ).

O justo viverá da fé, ou seja, a fé que havia de se manifestar e, que agora pregamos ( Rm 10:8 ). Todos que ressurgiram com Cristo é porque vivem da fé, e o profeta Habacuque dá testemunho de que os que vivem pela fé são justos.

Portanto, qualquer que não confia em suas próprias ações, antes descansa em Deus que justifica, a sua crença lhe é imputada como justiça “Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça” ( Rm 4:5 ); “E creu ele no SENHOR, e imputou-lhe isto por justiça” ( Gn 15:6 ), porque ao crer o homem se conforma com Cristo na sua morte e ressurge pelo poder de Deus, sendo que o novo homem é criado e declarado justo por Deus.

A palavra do Senhor é a fé manifesta, e todos que nele creem não serão confundidos “Como está escrito: Eis que eu ponho em Sião uma pedra de tropeço, e uma rocha de escândalo; E todo aquele que crer nela não será confundido” ( Rm 9:33 ), ou seja, no evangelho, que é poder de Deus se descobre a justiça de Deus, que é de fé (evangelho) em fé (crer) ( Rm 1:16 -17).

O justo viverá de Cristo, pois de toda a palavra que sai da boca de Deus viverá o homem, ou seja, sem Cristo, que é o pão vivo que desceu dos céus, o homem não tem vida em si mesmo ( Jo 3:36 ; Jo 5:24 ; Mt 4:4 ; Hb 2:4 ).

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Cristo e a sua Igreja

Há só uma fé, a fé que foi entregue aos santos (Jd 1:3; Fl 1:27). Através dessa fé, que é dom de Deus, há um só batismo: o batismo na morte de Cristo (Rm 6:4; Cl 2:12). A Igreja de Cristo subsiste perfeita em unidade com Cristo e com o Pai (Jo 17:21-23) e cada membro, em particular, é constituído ministro do espírito (2 Co 3:6).


A Igreja é o corpo de Cristo. Ela veio à existência quando Cristo ressurgiu dentre os mortos. Todos os homens, quantos creem em Cristo, morrem com Ele e ressurgem novas criaturas, membros da sua carne e dos seus ossos (Ef 5:30). A Igreja é constituída de homens de todos os povos, línguas e nações que creem, conforme as Escrituras, que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus bendito.

Os membros do corpo de Cristo tem a missão de anunciar ao mundo as virtudes de Deus, ensinando a todos os povos que Cristo é o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (Mt 28:20). A Igreja de Cristo é vitoriosa, pois os poderes do inferno não prevalecem contra ela.

Da mesma forma que o marido é a cabeça da mulher, Cristo é a cabeça da Igreja, ou seja, exerce autoridade sobre ela. É Cristo quem salva o seu corpo e o sustem. É por isso que o apóstolo Paulo utiliza a relação do marido com a esposa para ilustrar a relação de Cristo com o seu corpo (Ef 5:23 e 29).

Cristo amou a Igreja, por isso se entregou por ela, para santificá-la e, pela palavra a purificou, possibilitando que ela se apresente a Ele gloriosa, sem mácula, nem ruga. A Igreja é santa e irrepreensível por Aquele que se entregou por ela (Ef 5:25-27).

A importância da Igreja é inegável, pois, por meio dela, Cristo alçou a mais alta posição na criação: a primogenitura entre muitos irmãos e abaixo dos seus pés, ou seja, abaixo da Igreja, está todo principado, autoridade, poder, domínio, não só deste século, mas, também, do vindouro (Ef 1:22).

Porém, apesar de a Igreja ser edificada com pedras vivas, tal qual Cristo é (1 Pd 2:4 -5), há quem veja problemas na composição humana da Igreja. Pela má leitura de algumas parábolas e passagens bíblicas, julgam que a Igreja é composta de trigo e de joio, de virgens prudentes e de virgens loucas, de crentes carnais e de crentes espirituais, etc.

Tal entendimento equivocado se dá, por confundirem o ajuntamento solene de cristãos, onde é possível ao homem ímpio comparecer (Jd 1:12), com a verdadeira Igreja de Cristo, que não comporta aqueles que não estão em comunhão com o Pai e o Filho.

É um erro pensar a Igreja de Cristo do ponto de vista histórico, porque, analisar a Igreja de Cristo, através de subsídios gerados a partir de fatos gerados no tempo, trará a ideia de que a Igreja de Cristo carece de reforma e de avivamento ou, que a Igreja de Cristo, ao longo de dois mil, passou por bons e maus momentos.

O que precisou de reforma, ao longo das eras, foram instituições humanas que os homens nomearam por igreja. A ideia de avivamento surgiu atrelada a algumas denominações cristãs, o que não passam de especulações e de apelos, atrelados às instituições humanas.

A Igreja de Cristo, jamais precisou de reforma ou, de ser corrigida. Na Igreja, jamais existiram desvios ou, carência de avivamento. A Igreja de Cristo está fundamentada sobre Cristo, a pedra angular (Ef 2:20). É Deus quem edifica a Sua Igreja (Cl 2:19), por meio de Cristo, para a morada de Deus em Espírito (Ef 2:22).

A Igreja tem por base a Cristo, o fundamento dos apóstolos e dos profetas. Apesar de haver muitos membros no corpo de Cristo, contudo há um só corpo, ou seja, uma só Igreja (1 Co 10:17). De igual modo, há muitos membros, porém um só espírito, ou seja, uma só mensagem que foi anunciada por Cristo (Ef 4:4).

Há só uma fé, a fé que foi entregue aos santos (Jd 1:3; Fl 1:27). Através dessa fé, que é dom de Deus, há um só batismo: o batismo na morte de Cristo (Rm 6:4; Cl 2:12). A Igreja de Cristo subsiste perfeita em unidade com Cristo e com o Pai (Jo 17:21-23) e cada membro, em particular, é constituído ministro do espírito (2 Co 3:6).

Cristo é a verdade de Deus revelada ao mundo e nenhuma instituição humana foi comissionada como guardiã desta verdade. A verdade de Deus foi confiada a homens fiéis que, após crerem em Cristo e nascerem de novo, anunciam a verdade do Evangelho (Cristo), que é universal e permanece para sempre.

“E o que de mim, entre muitas testemunhas, ouviste, confia-o a homens fiéis, que sejam idôneos para, também, ensinarem os outros” (2 Tm 2:2).

A Igreja de Cristo se sustem sob a pessoa de Cristo, e através da confissão: Jesus é o Cristo, assim como o apóstolo Pedro admitiu, o crente passa a compor a Igreja:

“E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16:16).

Basta crer em Cristo que o homem torna-se membro do seu corpo, ou seja, torna-se Igreja, portanto, não é necessário crer em uma instituição, como guardiã da verdade, como encontramos no Credo Niceno ou, na Confissão de Augsburgo ou, na Confissão Helvética, etc.

O crente em Cristo não pode se socorrer de instituições humanas ou de qualquer seguimento religioso, como se tais instituições tivessem autoridade apostólica.

Somente os apóstolos de Cristo possuíram tal autoridade e eles mesmos reputavam como mais firme as palavras dos profetas e recomendaram aos cristãos atentarem para o que está registrado nas Escrituras (Pd 1:19).

Os apóstolos, quando instruíam os cristãos, se apresentavam como ministros de Cristo e membros da Igreja, demonstrando que, em Cristo, ninguém é superior ou inferior pela função que desempenha no corpo, antes, todos são igualmente servos de Cristo.

“Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o SENHOR; e nós mesmos somos vossos servos, por amor de Jesus” (2 Co 4:5).

A razão de ser da Igreja é a preeminência de Cristo, o primogênito entre muitos irmãos (Rm 8:29), e, por isso mesmo, a Igreja é uma assembleia de iguais (ecclesia), pois, em Cristo, não há macho nem fêmea, servo ou livre, judeu ou grego, antes, todos são um, em Cristo Jesus (Gl 3:28).

A glória de Cristo foi dada aos homens que creram (Jo 17:22) e não a uma instituição. Jesus Cristo estabeleceu a Sua Igreja e não uma instituição humana. A Igreja de Cristo é o templo que Deus prometeu a Davi (2 Sm 7:13-14) e não uma instituição humana.

O primeiro ajuntamento solene de cristãos se deu em Jerusalém e de lá o evangelho se propagou pelo mundo. Quando o evangelho passou a ser anunciado a todas as gentes, os apóstolos não estavam preocupados em estabelecer uma organização humana e nem consideraram estabelecer um centro administrativo da Igreja.

Se a Igreja de Cristo não se vincula a um lugar, antes, é formada por verdadeiros adoradores, que adoram o Pai em espírito e em verdade, como poderia ter um centro administrativo? Se adorar a Deus se dá em espírito e em verdade, questões como lugar e hora foram abolidas, portanto, não se sustenta a ideia de uma santa sé ou um centro administrativo eclesiástico, sob a anuência de Deus!

Inicialmente, os membros do corpo de Cristo se reuniam em Jerusalém, mas, com a perseguição e a dispersão, surgiram novos núcleos de reunião, no entanto, à época, não havia instituições ditas cristãs. Cada ajuntamento solene de cristãos ao redor do mundo estava vinculado somente pela doutrina que professavam, não por estarem sujeitos a uma liderança humana ou, a um centro administrativo eclesiástico.

Após a morte dos apóstolos, inúmeras instituições humanas surgiram, sob o pseudônimo ‘igreja’. Cada instituição que surgiu e se estabeleceu, acabou avocando para si, na figura do seu líder, autoridade de representantes de Deus na terra.

Em nossos dias, é incalculável o número de ajuntamento de pessoas que se dizem cristãs e a gama de instituições criadas para acolher seguidores de diferentes correntes doutrinárias. Muitas dessas instituições tornaram-se agremiações que mais promovem reuniões de caráter recreativo, cultural, artístico, político, social, etc., do que o evangelho de Cristo.

Em nossos dias, as instituições humanas são tantas que, quando alguém diz ser cristão, não se questiona se tal pessoa é seguidora de Cristo, tal qual estabelecido nas Escrituras, mas, a qual denominação, instituição, agremiação, comunidade, etc., que o tal pertence.

Somente quem conhece as Escrituras não se deixa levar pelos equívocos que uma instituição promove, pois, a instituição humana acaba suplantando a condição do individuo como Igreja, no afã de se estabelecer e crescer como organização.

As instituições humanas facilitam o congraçamento entre os cristãos, porém, quando há um ajuntamento solene, o cristão deve verificar se a mensagem anunciada naquele local é conforme o anunciado pelos apóstolos e profetas. A verdade do evangelho, em um ajuntamento solene, tem de falar mais alto que os interesses da instituição.

 

Corretor ortográfico: Pr. Carlos Gasparotto

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O arrebatamento da Igreja

A orientação paulina é para que os cristãos não fiquem preocupados ou, assustados com o arrebatamento da Igreja, pois o dia do Senhor só surpreenderá quem está nas trevas.

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Perdição e salvação estão atreladas aos caminhos, e não aos homens

O termo ‘conduz’ utilizado na parábola dos caminhos apresenta a função que o caminho desempenha, ou seja, conduzir a um destino àquele que entra pela porta. A perdição é o destino do caminho espaçoso, e a salvação é o destino do caminho estreito. Como são os caminhos que possuem destinos (salvação e perdição), através da parábola Jesus exclui qualquer conceito de sina, determinismo ou fatalismo quando ao futuro dos homens.


Após analisar a parábola das duas portas e dos dois caminhos, o leitor será capaz de dizer se verdadeiramente Deus predestinou alguns homens à salvação e o restante à danação eterna.

“Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela; E porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem” ( Mt 7:13 -14)

 

Quando anunciou o reino dos céus no Sermão da montanha, Jesus instruiu os seus ouvintes a ‘entrarem pela porta estreita’ “Entrai pela porta estreita” ( Mt 7:13 ). Jesus é a porta estreita pela qual os justos haveriam de entrar, pois Ele mesmo disse: “Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens” ( Jo 10:9 ).

O salmo 118 é messiânico e apresenta Cristo como a porta dos justos, assim como Ele é a pedra angular, a pedra de esquina, o servo ferido, a destra do Altíssimo, a Luz que veio ao mundo, o Bendito que vem em nome do Senhor e a vítima da festa “Esta é a porta do SENHOR, pela qual os justos entrarão” ( Sl 118:15 -27 )

Mas, por que é necessário entrar por Cristo? Como entrar por Cristo?

Jesus apresentou três motivos pelos quais é imprescindível entrar pela porta estreita:

“… porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela” ( Mt 7:13 )

  • A porta é larga;
  • Dá acesso ao caminho de perdição, e;
  • Muitos entram por ela.

 

Identificando a porta larga

A parábola apresenta somente duas portas e, com relação às portas, Jesus se apresenta como a porta estreita “Porfiai por entrar pela porta estreita; porque eu vos digo que muitos procurarão entrar, e não poderão” ( Lc 13:24 -25; Jo 10:9 ).

A Bíblia não contém uma definição explícita da porta larga, porém através de Cristo, que é a porta estreita, é possível determinar o que é, ou quem é a porta larga.

Há várias concepções que apresentam alguns candidatos para ocupar o ‘cargo’ de porta larga, entretanto, devemos considerar que há uma justa posição entre a figura da porta larga e a figura da porta estreita, de modo que, há quesitos a serem satisfeitos para que um ‘candidato’ à porta larga se enquadre perfeitamente na figura.

Se a porta estreita, que é Cristo, é um homem, segue-se que a figura da porta larga deve fazer referência a um homem. Se a porta estreita é cabeça de uma nova geração, a porta larga também deve fazer referência à cabeça de uma geração.

Muitos indicam o diabo para o cargo de porta larga, entretanto, ele é um anjo caído (não é um homem), e como não pode trazer a existência seres semelhantes a ele, logo, não pode ser cabeça de uma geração. O diabo não se enquadra na justa posição que há entre as figuras da porta larga e da porta estreita ( Lc 20:35 -36).

O pecado, por sua vez, diz de uma condição a que o homem está sujeito, ou seja, alienado de Deus, portanto, não é um ser, não é anjo e nem homem. O pecado não se enquadra no cargo de porta larga, além de ser impossível o pecado assumir a posição de cabeça de uma geração ( Is 59:2 ).

As instituições humanas também são, muitas vezes, indicadas como porta larga, porém, uma instituição é composta de vários homens reunidos em torno de um objetivo. Não passa de uma assembleia de pessoas, de modo que não se ajusta à figura de porta larga.

O mundo não é a porta larga, visto que o mundo, na bíblia, diz dos homens alienados de Deus regidos por suas paixões, pela concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e pela soberba da vida ( Ef 2:2 ; Cl 2:8 ). Logo, não podemos considerar que a porta larga é o diabo, o pecado, o mundo ou uma instituição religiosa.

Resta-nos considerar que, se a porta estreita é um homem, a porta larga necessariamente deve ser um homem. Como Cristo, a porta estreita, veio ao mundo sem pecado, o candidato à porta larga também deve ser um homem que veio ao mundo sem pecado. Como Cristo é a cabeça de uma nova geração de homens espiritais, a porta larga refere-se à cabeça de uma geração de homens. O único homem que se encaixa na figura da porta larga é Adão, pois veio ao mundo sem pecado e é a cabeça de uma geração de homens carnais.

Como pode ser isso? Ora, na bíblia a porta é figura que possui diversos significados, porém, as figuras das portas que Jesus apresentou no Sermão da montanha dizem de nascimento, de modo que Adão é a porta larga por quem todos os homens entram no mundo. Todos os homens quando vem ao mundo (abrem a madre) são gerados segundo a semente de Adão. Todos os homens, exceto Cristo, entraram no mundo através de Adão, que é a porta larga.

Cristo foi lançado pelo Espírito Santo no ventre de Maria, ou seja, desassociado da semente corruptível de Adão. Por ter sido introduzido no mundo por Deus, Cristo é o último Adão, a cabeça de uma geração de homens espirituais ( 1Co 15:45 ). Em outras palavras, Adão é o tipo e Cristo é o antítipo. Adão a figura e Cristo a realidade “… Adão, o qual é figura (tipo) daquele que havia de vir (antítipo)” ( Rm 5:14 ).

Para estar sujeito à paixão da morte, Cristo teve que vir ao mundo à semelhança dos homens (carne do pecado), porém, sem pecado ( Hb 2:9 ). Para isso foi introduzido pelo Espírito Santo no ventre de Maria, pois se fosse gerado segundo a carne, estaria sob a mesma condenação que se abateu sobre a humanidade ( Gl 4:4 ; 1Jo 3:9 ). Já no Éden foi anunciado que o descendente viria da descendência da mulher, em vista da oposição que haveria entre as duas sementes ( Gn 3:15 ).

Vale destacar que, quando Cristo criou o homem no Éden ( Hb 2:10 ), Adão foi criado à imagem e semelhança do Cristo-homem, e não à semelhança do Deus invisível e em glória ( Hb 2:9 ). Adão foi criado à imagem e semelhança do Cristo-homem que havia de vir ao mundo, sendo gerado no ventre de Maria ( Rm 5:14 ), ou seja, não a semelhança do Cristo glorificado, pois tal condição Cristo somente alçou após ressurgir dentre os mortos “Quanto a mim, contemplarei a tua face na justiça; eu me satisfarei da tua semelhança quando acordar” ( Sl 17:15 ).

 

A porta é larga

A porta é designada larga porque todos os homens, para virem ao mundo, necessariamente tem que entrar por Adão ( 1Co 15:46 ). Jesus deixa claro que são muitos que entram pela porta larga, e não todos, isto porque Cristo foi exceção à regra. Enquanto os homens naturais foram lançados na madre através de uma semente corruptível, Jesus foi lançado na madre através da operação sobrenatural do Espírito Santo ( Sl 22:10 ).

Antes de Adão não havia desobediência, pecado ou morte para a humanidade. Com a transgressão de Adão, entrou no mundo o pecado e a morte ( 1Co 15:21 -22 ). Por causa da ofensa de Adão todos os seus descendentes juntamente alienaram-se de Deus ( Sl 53:3 ).

A bíblia é clara quando demonstra que todos os homens juntamente se desviaram, alienaram de Deus. Como foi possível aos homens alienarem-se de Deus juntamente? Ora, existiu um único evento no qual todos os homens estavam ‘juntamente’ reunidos. Por interpretação ( Hb 7:2 ), no Éden todos os homens estavam reunidos na ‘coxa’ de Adão ( Hb 7:10 ). Quando Ele transgrediu, todos se tornaram transgressores. Quando Adão tornou-se imundo, contaminou toda a sua linhagem, pois do imundo não há como vir o puro ( Sl 53:3 ).

Quando os homens alienaram-se de Deus? Alienaram-se de Deus no Éden. Lá no Éden pereceu o homem piedoso e todos os seus descendentes tornaram-se imundos “Já pereceu da terra o homem piedoso, e não há entre os homens um que seja justo; todos armam ciladas para sangue; cada um caça a seu irmão com a rede” ( Mq 7:2 ). É em função da transgressão no Éden que os homens alienam-se de Deus desde a madre, são gerados de uma semente corruptível, a semente de Adão. Como consequência, andam errantes desde que nascem, pois estão em um caminho que os conduz à perdição ( Sl 58:3 ).

 

O caminho de perdição

Após abrir a madre (nascer), ou seja, ‘entrar pela porta larga’ o homem trilha um caminho específico atrelado à perdição. A parábola mostra que a figura do caminho é funcional, pois demonstra que o caminho leva, ou seja, conduz todos os homens que nele se encontram a um único lugar: perdição. De igual modo, a parábola demonstra que o caminho estreito conduz todos os homens que nele se encontram à vida, ou seja, o caminho estreito possui como destino um lugar específico: salvação ( M 7:13 -14).

O termo ‘conduz’ utilizado na parábola dos caminhos apresenta a função que o caminho desempenha, ou seja, conduzir a um destino àqueles que entram pelas portas. A perdição é o destino do caminho espaçoso, e a salvação é o destino do caminho estreito. Como são os caminhos que possuem destinos (salvação e perdição), através da parábola Jesus exclui qualquer conceito de sina, determinismo ou fatalismo quando ao futuro dos homens.

O termo ‘conduz’ evidência a função do caminho, e nada mais. O caminho conduz a um destino específico e certo. Por exemplo: a perdição é o destino do caminho espaçoso, e a vida é o destino do caminho estreito. Ora, a parábola não apresenta a salvação ou a perdição atreladas aos homens, antes a salvação e a perdição foram apresentadas atrelados aos caminhos.

Ninguém vem a Deus se não por Cristo, pois Ele é o caminho que conduz o homem a vida. De igual modo, ninguém vai à perdição se não pelo caminho espaçoso, que conduz à perdição. Enquanto os judeus e os gregos possuíam uma visão fatalista e determinista de mundo, Jesus demonstra que a sua doutrina não segue a concepção da humanidade. Jesus não apresenta a salvação e nem a perdição com destino dos homens, antes como destino dos caminhos, de modo que o evangelho não segue as bases de correntes filosóficas como o fatalismo e determinismo.

Por que é necessário evidenciar esta peculiaridade dos caminhos? Para desmistificar algumas concepções, pois em algumas civilizações antigas, como a dos gregos, o mundo e os seus eventos cotidianos eram regidos por uma sucessão de eventos inevitáveis e preordenados por uma determinada ordem cósmica ou divindade. Tal doutrina afirma que todos os acontecimentos ocorrem de acordo com um destino fixo e inexorável, sem que os homens não podem controla-los ou influenciá-los.

Na mitologia grega têm-se as Moiras, três irmãs que, através da Roda da Fortuna, determinavam o destino, tanto dos deuses, quanto dos seres humanos, portanto, o destino submetia os deuses, que por sua vez, deveriam resignar-se à sua sorte, sina, fado.

Além da cultura greco-romana, temos o fatalismo regendo o estoicismo romano e grego, que por fim, influenciou a doutrina dita cristã da Divina Providência. Divina Providência tornou-se um pensamento teológico que confere à onipotência de Deus controle absoluto sobre todos os eventos nas vidas das pessoas e na história da humanidade. Tal concepção afirma que Deus decidiu e preordenou todos os eventos e nada acontece sem que Deus permita.

Outra corrente filosófica, o determinismo, afirma que todo acontecimento (inclusive o mental) é explicado por relações de causalidade (causa e efeito).

Na bíblia tais pensamentos, sejam mitológicos ou filosóficos, não encontram eco, pois o ‘destino’ é apresentado única e especificamente como o local que se chegará após trilhar um caminho. Na bíblia o termo ‘destino’ é empregado no sentido de local, lugar, porém, não envolve a ideia de preordenação “Como também trezentos escudos de ouro batido; para cada escudo destinou trezentos siclos de ouro; e Salomão os pôs na casa do bosque do Líbano” ( 2Cr 9:16 ).

Quando se lê: “E eu vos destino o reino, como meu Pai mo destinou” ( Lc 22:29 ), não há nada de determinismo no sentido filosófico ou mitológico, antes Jesus indicou que, da mesma forma que Deus reservou o reino para o seu Filho, certo é que o reino pertence aos que creem, pois herdarão com Cristo todas as coisas.

Ora, os dois versos acima possuem o mesmo princípio: assim como o ouro foi preparado em função do escudo, o reino foi preparado para os que creem em Cristo. Isto não quer dizer que algumas pessoas foram destinadas ao reino, e outra não, antes que o reino foi preparado para os que creem. O equivoco de alguns se dá em função da linguagem, pois deixam de considerar que, na antiguidade, as coisas eram definidas pela sua função, serventia “Todas as coisas se definem pelas suas funções” (Aristóteles, A Política. Tradução Nestor Silveira Chaves. Rio de janeiro: Nova Fronteira, 2011, p. 22).

Quando lemos: “Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para a aquisição da salvação, por nosso Senhor Jesus Cristo” ( 1Ts 5:9 ), temos que considerar que o apóstolo apresenta a figura do caminho estreito: ‘por nosso Senhor Jesus Cristo’. No verso em comento, o termo ‘destinar’ não foi empregado no sentido de preordenar, e sim, no sentido de reservar.

Como o apóstolo está tratando com os cristãos e trazendo a memória deles a atual condição em Cristo: filhos da luz ( 1Ts 5:5 ), recomenda que deveriam permanecer vigilantes e sóbrios ( 1Ts 5:7 ), revestindo-se do poder de Deus, que é o evangelho ( 1Ts 5:8 ). Pois agora, diferente do tempo em que estavam nas trevas e eram filhos da ira, os cristãos, em função do caminho que conduz à vida (Jesus Cristo nosso Senhor), alcançaram, adquiriram salvação. Ou seja, o apóstolo não diz que os cristãos foram predestinados a salvação, antes que, por estarem no caminho estreito, o destino agora é de salvação, diferente do caminho espaçoso, que é de ira.

Qual a função de um caminho? Conduzir a um lugar, ou seja, destino certo. O lugar vincula-se ao caminho sem qualquer conotação de ‘predestinação’, ‘previsão’, ‘preordenação’. O destino do caminho ligado à porta larga é de perdição, assim como o destino da Rodovia Presidente Dutra é o Rio de Janeiro para quem sai de São Paulo.

Devemos considerar que o Senhor Jesus afirmou que quem tem destino é o caminho ao exortar as pessoas que porfiassem por entrar pela porta estreita. Deste modo, Jesus demonstra que o viajante não está preordenado, predestinado, etc., à perdição, antes é o caminho que dá em um lugar de perdição.

Diante do alerta de Cristo, verifica-se que o viajante pode trocar de caminho, assim como é possível a alguém que está em São Paulo a caminho do Rio de Janeiro pela Rodovia Presidente Dutra pegar a Rodovia Raposo Tavares com destino ao estado do Paraná.

  • “Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela” ( Mt 7:13 );
  • “Mas ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que fechais aos homens o reino dos céus; e nem vós entrais nem deixais entrar aos que estão entrando” ( Mt 23:13 );
  • “Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens” ( Jo 10:9 );

 

A porta é espaçosa porque muitos entram por Adão, e o caminho é espaçoso porque todos que são gerados de Adão são conduzidos à perdição. Jesus vinculou a perdição ao caminho, e não aos homens. Através da parábola fica evidente que o destino vincula-se ao caminho. O caminho e o destino são fixos e atrelados, porém, o homem é atrelado à porta (nascimento), o que significa que é possível deixar o caminho em que está e passar para o outro.

 

O caminho é espaçoso

A porta é espaçosa porque todos os homens, exceto Cristo, entram por Adão e o caminho é espaçoso porque muitos homens são conduzidos à perdição.

Na parábola dos dois caminhos Jesus vinculou a perdição ao caminho, e não aos homens. Através de uma leitura atenta da parábola é evidenciado que o destino está atrelado ao caminho.

O homem nasce pela primeira vez segundo a carne, o sangue e a vontade do varão, ou seja, nasce vinculado à porta larga. Não foi Deus quem estabeleceu que o homem seria gerado em pecado, antes quando Adão desobedeceu, sujeitou-se à condição de alienado de Deus (pecado) e arrastou todos os seus descendentes para a mesma condição. A porta larga surgiu em Adão, que pecou e vendeu todos os seus descendentes ao pecado, de modo que, ao vir ao mundo, nenhum homem é livre do pecado.

A entrada dos homens ao mundo pela porta larga ficou vinculada ao primeiro pai da humanidade, pois nascer da carne é o único meio de o homem entrar no mundo “Teu primeiro pai pecou, e os teus intérpretes prevaricaram contra mim” ( Is 43:27 ; Os 6:7 ). Para entrar pela porta larga o homem não exerce escolha, assim como os que descendiam (filhos) dos escravos não escolhiam a condição social quando viam ao mundo. Ou seja, ninguém que entra pela porta larga escolheu entrar por ela.

A figura é completa em si mesma, pois os caminhos possuem um destino certo e imutável, porém, os homens não estão atrelados a um destino, quer seja perdição ou salvação.

No dia a dia, se um homem quiser chegar a um destino, necessariamente terá que escolher qual caminho tomar, pois o destino está atrelado ao caminho. Se um viajante deseja sair de São Paulo com destino ao Rio de Janeiro, terá de percorrer a Rodovia Presidente Dutra.

Através da parábola dos dois caminhos é patente que Deus não predestinou ninguém à salvação eterna ou a danação eterna. Quando um novo homem vem ao mundo, necessariamente entra pela porta larga e estará em um caminho largo que o conduz á perdição.

Ninguém que entra no mundo por Adão está predestinado à perdição, pois é o caminho que conduz à perdição. O caminho espaçoso possui um destino, ou seja, está atrelado a um lugar. O lugar que o caminho espaçoso conduz é de perdição, diferente do caminho estreito, que conduz à salvação.

Semelhantemente, ninguém que entra por Adão está predestinado à salvação, visto que, por ter entrado no mundo através da porta larga, está em um caminho largo que o conduz à perdição. A concepção de que há homens que veem ao mundo predestinados à salvação deixa de considerar que todos são formados em iniquidade e concebidos em pecado, portanto, nascem pecadores e no caminho de perdição.

Ora, se houvesse predestinação para salvação, necessariamente o indivíduo predestinado não poderia vir ao mundo por Adão. Teria que entrar por outra porta, à parte de Cristo ou de Adão, porém, tal porta não existe. Para entrar por Cristo, primeiro o homem tem que entrar por Adão, e após entrar por Adão, somente é possível entrar no reino dos céus fazendo obra que exceda a dos escribas e fariseus: crer em Cristo, ou seja, nascendo de novo ( Mt 5:20 ; Jo 3:3 e Jo 6:29 ).

Quem nasce apenas uma vez permanece no caminho espaçoso, quem nasce de novo, ou seja, a segunda vez, sai do caminho de perdição e passa para o caminho que conduz à salvação, que é Cristo.

Salvação e perdição não são destinos preordenados aos homens antes de nascerem, pelo contrário, salvação e perdição estão vinculadas ao caminho que os homens trilham após entrarem pelas portas. Os homens acessam as portas uma por vez e na seguinte ordem: primeiro a porta larga, depois a estreita. Se entrar por Adão, estará em um caminho de perdição, se por Cristo, em um caminho de salvação.

 

Muitos entram pela porta larga

Quando nascem, os homens estão em um caminho de perdição (exceto Cristo), porém, lhes é concedido a oportunidade de entrarem pela porta estreita. Todos os homens entram pela porta larga e, para receber salvação, precisam entrar por mais uma porta, de modo que, para alcançar vida eterna, os homens devem passar por duas portas, ou seja, por dois nascimentos.

Como já afirmamos, o destino de um caminho é imutável, ou seja, se há alguma espécie de fatalismo ou determinismo expresso no cristianismo, ele recai única e exclusivamente sobre o caminho, jamais sobre os viajantes.

Todos os homens entram neste mundo por Adão, e nenhum deles está predestinado à salvação. O que a bíblia demonstra é que todos que entram por Adão percorrerem um caminho largo que os conduz à perdição. Os dois caminhos estão atrelados a lugares específicos (destinos) e imutáveis.

Como a perdição (destino, lugar) está atrelada ao caminho espaçoso, e não aos homens, Jesus faz um convite solene, verdadeiro e real a todos os homens nascidos de Adão: “Entrai pela porta estreita” ( Mt 7:13 ). Tal convite demonstra que é possível mudar do caminho com destino à perdição para o novo e vivo caminho cujo destino é a vida eterna.

A porta larga é figura de nascimento natural e a porta estreita do novo nascimento. A porta larga trás ao mundo almas viventes e a porta estreita trás homens espirituais. O novo nascimento diz de uma nova geração proveniente da semente incorruptível (palavra de Deus), diferente do nascimento natural, que é decorrente da semente corruptível ( 1Pe 1:23 ).

Nesta parábola, porta é o mesmo que nascimento, de modo que, todos quantos são nascidos de Adão, são carnais e seguem por um caminho que conduz à perdição. Semelhantemente, todos quantos entram por Cristo, nascem de novo, estão em um caminho estreito que os conduz a Deus.

Jesus disse: – “Eu sou a porta”! “Eu sou o caminho”! Primeiro o homem entra neste mundo por Adão, depois é necessário entrar por Cristo, nascendo de novo da água e do Espírito. Cristo é o caminho que conduz o homem a Deus. Cristo é o caminho que possui salvação como destino. Qualquer que entra por Ele está no caminho que o conduz única e especificamente a Deus.

O caminho é estreito porque poucos entram por Cristo, e o caminho é largo porque são muitos que entram por Ele. Não é comportamento, moral ou caráter que qualifica a largura do caminho, e sim a quantidade de acesso.

 

Mudança de caminho

Como sair do caminho largo e entrar no caminho estreito?

Para o homem nascer de novo, primeiro é necessário tomar sobre si a sua própria cruz e seguir após Cristo, ou seja, para nascer de novo primeiro é necessário morrer ( Cl 3:3 ). Sem morrer é impossível nascer de novo “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” ( Gl 2:20 ; Rm 6:6 ).

Fica evidente que dentre os nascidos de Adão não há ninguém predestinado à salvação, visto que, se não nascer de novo, não entrará no reino dos céus. Ora, quem entra nos céus é a nova criatura, porque a velha gerada em Adão é crucificada e morta, evidenciando que é impossível aos gerados em Adão herdarem a salvação.

Se alguém gerado da semente de Adão fosse predestinado à salvação, não necessitaria morrer com Cristo. Mas, se é necessário morrer com Cristo, evidentemente ninguém é predestinado à salvação. Se houvesse predestinação para salvação, certo é que o homem não seria sujeito à morte: nem a física, nem a morte com Cristo.

O homem que herda a salvação não é o mesmo que veio ao mundo, visto que do homem que veio ao mundo só é aproveitado o barro, a massa, porém, é dado um novo coração e um novo espírito. Quando o homem morre com Cristo, o vaso de desonra é quebrado e feito um novo vaso de honra da mesma massa. É por está peculiaridade que é impossível ao homem gerado de Adão ter sido predestinado à salvação, pois é necessário um novo nascimento, uma nova criação, um novo pai de família, um novo coração e um novo espírito “Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” ( Rm 9:21 ).

O homem pode assumir duas condições: a de perdido, pois quando nasce segundo a carne é homem natural, velha criatura, velho homem, velho ‘eu’, carnal, terreno, etc., e: a de salvo, pois quando nasce de novo, crucificou a velha natureza e foi de novo criado em verdadeira justiça e santidade. Se a velha criatura é crucificada e morre, certo é que tal indivíduo não foi predestinado à salvação.

Volto a repetir, se o homem fosse predestinado à salvação não seria necessário morrer para ser gerado um novo homem.

O novo homem é criado em verdadeira justiça e santidade, diferente do velho homem que foi gerado em iniquidade e em pecado ( Sl 51:5 ). O novo homem possui um novo coração e um novo espírito, portanto, não possui vínculo com o velho homem que herdou um coração de pedra. O velho homem não foi predestinando à salvação, pois é necessário a todos que se salvam crucificarem a velha natureza com as suas concupiscências ( Gl 5:24 ).

A ideia de que Deus predestinou alguns homens à salvação e outros à danação eterna antes mesmo de virem ao mundo, não coaduna com o posicionamento da bíblia, pois se assim fosse, os homens gerados de Adão predestinados à salvação não teriam que ser crucificados “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” ( Gl 2:20 ). Como é imprescindível a crucificação com Cristo, certamente não há predestinação de indivíduos à salvação. Como é imprescindível morrer e renascer, certamente o homem salvo não é o mesmo que nasceu segundo a carne e o sangue ( Jo 1:12 -13).

A predestinação que a bíblia apresenta é para ser filho por adoção, difere muito da ideia de predestinação para salvação ( Ef 1:5 ).

O que isso significa ser predestinado para filho por adoção? Que qualquer que entrar por Cristo e perseverar n’Ele não terá outro destino: será um dos filhos de Deus ( Rm 8:29 ).

Todos que entram pela porta estreita, que é Cristo, conhecem a Deus, ou antes, foram conhecidos d’Ele (conhecer=tornar-se um só corpo, comunhão íntima). Para que Cristo fosse alçado à posição de primogênito entre muitos irmãos após morrer e ressurgir (uma vez que fora introduzido no mundo sendo o Unigênito de Deus), todos os que entraram por Cristo foram predestinados a serem filhos de Deus “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” ( Rm 8:29 ).

Sem a igreja, a assembleia dos primogênitos, não haveria como Jesus ser primogênito entre muitos irmãos. Em função do propósito de tornar Cristo preeminente em tudo, Deus criou uma nova categoria de homens semelhantes a Cristo, sendo Ele a cabeça. Para o primogênito ser preeminente, há a necessidade de irmãos semelhantes a Ele em tudo. Entre sublimes, Cristo é mui sublime. É neste sentido que Deus predestinou os que conheceram a Cristo para serem filhos por adoção, assunto diverso da ideia de predestinação para salvação ( Ef 1:5 ).

Todas as vezes que o apóstolo Paulo aborda a questão da predestinação, o faz em conexão com a filiação divina, de modo que, qualquer que entrar por Cristo, inexoravelmente será filho de Deus. Não há outro destino, ou destinação para aqueles que entram por Cristo: são filhos por adoção, portanto, santos e irrepreensíveis.

Uma má leitura das Escrituras que despreza o fato de que salvação não é o mesmo que filiação divina levará o leitor a considerar que o termo predestinação se aplica à salvação e à perdição, porém, o equivoco ocorre pode alcançar a salvação sem, contudo alcançar a condição de semelhante a Cristo, condição exclusiva para os que compõe o corpo de Cristo: a igreja.

Os homens salvos no milênio não farão parte da igreja, não serão filhos por adoção e nem serão semelhantes a Cristo. A bíblia demonstra que, além de serem salvos da condenação estabelecida em Adão, por ser o corpo de Cristo, os que creem alcançaram a posição de semelhantes a Cristo, filhos de Deus, participantes da assembleia dos primogênitos, para que Cristo seja o primogênito e tenha a preeminência entre muitos irmãos.

A condição dos membros do corpo de Cristo na plenitude dos tempos ( Gl 4:4 ), a igreja, é completamente distinta dos salvos em outras épocas. O grande diferencial está no quesito filiação. Enquanto os salvos à parte da igreja são contados como filhos de Israel, os cristãos são contados como filhos de Deus, pois assim como Cristo é, os cristãos hão de vê-Lo e serão semelhantes a Ele. Por causa desta condição, à saber: a de semelhantes a Cristo, será dado à igreja a autonomia de julgar os anjos ( 1Co 6:2 -3).

 

O equilíbrio entre as figuras

Há equilíbrio entre os elementos que compõem as figuras das duas portas e dos dois caminhos. Por exemplo: Como Cristo é a cabeça de uma geração de homens espirituais (servos da justiça), e é a porta estreita; a porta larga também se refere à cabeça de uma geração de homens, porém, de homens carnais, servos do pecado.

Para compreender melhor a figura das duas portas, é essencial compreender que em Cristo, Deus estabelece a sua justiça, de modo que, pela desobediência do primeiro Adão a penalidade da morte foi imposta e todos morreram e, pela obediência do último Adão, a ressurreição veio, portanto, todos que creem são vivificados ( 2Co 15:21 -22).

Ora, se a justiça está na obediência de Cristo e a injustiça na desobediência de Adão, a justiça de Deus é substituição de ato: obediência em lugar da desobediência.

Ora, os nascidos da desobediência são filhos da ira, da perdição; já os filhos da obediência são filhos de Deus.

A relação que há entre Jesus e Adão é nítida em Romanos 5, versos 14 à 19: “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir. Mas não é assim o dom gratuito como a ofensa. Porque, se pela ofensa de um morreram muitos, muito mais a graça de Deus, e o dom pela graça, que é de um só homem, Jesus Cristo, abundou sobre muitos. E não foi assim o dom como a ofensa, por um só que pecou. Porque o juízo veio de uma só ofensa, na verdade, para condenação, mas o dom gratuito veio de muitas ofensas para justificação. Porque, se pela ofensa de um só, a morte reinou por esse, muito mais os que recebem a abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo. Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida. Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos”.

Quando observamos os homens: Adão e Cristo, respectivamente, temos a figura e a imagem exata. Enquanto este trouxe a morte, aquele a vida. Enquanto Adão é o primeiro homem, Jesus é o último Adão. Enquanto Adão, que estava vivo, trouxe a condenação na morte, Jesus morreu e trouxe a redenção ( 1Co 15:45 -47).

 

O destino é atrelado ao caminho, e não aos homens

Através das figuras dos dois caminhos, constata-se que os caminhos permanentemente estão atrelados a um lugar, um destino. Através da figura das duas portas, que os homens estão atrelados a uma condição decorrente do seu nascimento: terreno ou espiritual.

Deus não mudará o destino dos caminhos (salvação e perdição) e nem a condição decorrente do nascimento (pecado e justiça), ou seja, há lugar de perdição e lugar de descanso e, perdidos e salvos. Mas, como a condição de nascimento pode ser alterada, Deus roga, pelos seus embaixadores, que os homens porfiem por entrar pela porta estreita “Porfiai por entrar pela porta estreita; porque eu vos digo que muitos procurarão entrar, e não poderão” ( Lc 13:24 ); “De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo, como se Deus por nós rogasse. Rogamos-vos, pois, da parte de Cristo, que vos reconcilieis com Deus” ( 2Co 5:20 ).

A mensagem dos embaixadores de Cristo é de reconciliação ( 2Co 5:18 ). Na reconciliação há oportunidade, e não preordenação. Em Deus há liberdade, pois liberdade é pertinente ao Espírito de Deus. Se há liberdade diante do espírito que concede vida, certo é que nada foi preordenado quanto ao futuro dos homens, evidenciando assim a soberania e a justiça de Deus que a ninguém oprime “Ao Todo-Poderoso não podemos alcançar; grande é em poder; porém a ninguém oprime em juízo e grandeza de justiça” ( Jó 37:23 ).

O homem sem Cristo está separado de Deus em função do caminho, e não em função de um destino, sina, fado, preordenação, etc. “Porque o SENHOR conhece o caminho dos justos; porém o caminho dos ímpios perecerá” ( Sl 1:6 ); “E os teus ouvidos ouvirão a palavra do que está por detrás de ti, dizendo: Este é o caminho, andai nele, sem vos desviardes nem para a direita nem para a esquerda” ( Is 30:21 ).

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Deus endurece a quem quer?

Deus não fica impassível diante de um coração contrito (Sl 51:17; Sl 34:18; Is 57:15), de modo que Ele demonstra misericórdia aos que O obedecem. Deus ama os que O amam (Dt 30:20; Pv 8:17), pois, guardar o mandamento, é o amor de Deus.


Deus endurece a quem quer?

“Logo, pois, compadece-se de quem quer e endurece a quem quer.” (Rm 9:18)

Como compreender a conclusão do apóstolo Paulo: “Logo, pois, compadece-se de quem quer e endurece a quem quer”, que teve por base a passagem do Êxodo, em referência à palavra de Deus, anunciada a Faraó? (Rm 9:18)

“Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra.” (Rm 9:17)

Unilateralmente, Deus salva a quem quer e condena a quem quer? O apóstolo Paulo estava tratando da salvação da humanidade, ao concluir que Deus endurece a quem quer?

Esse exercício é necessário por causa de ‘como lemos’ as Escrituras! Certa vez, um doutor da lei questionou Jesus, acerca do direito à vida eterna e Jesus respondeu:

“E ele lhe disse: Que está escrito na lei? Como lês?” (Lc 10:26)

Há uma grande diferença entre o que está escrito e como se interpreta. O doutor da lei sabia o que estava escrito, porém, ao tentar justificar a si mesmo, demonstrou que desconhecia quem era o seu próximo. (Lc 10:29).

Como esse doutor da lei poderia ler, compreender e ensinar acerca da lei, se desconhecia quem era o seu próximo? Como alcançar a justiça da lei, sem saber quem é o próximo?

 

A chave

“Com o benigno te mostrarás benigno; e com o homem sincero te mostrarás sincero; com o puro te mostrarás puro; e com o perverso te mostrarás indomável.” (Sl 18:25)

O rei Davi, no Salmo 18, demonstra que Deus se mostra misericordioso com quem é misericordioso. Davi utilizou o adjetivo [1]חָסִיד (chaciyd), para descrever o homem que se sujeita a Deus como servo, obedecendo aos seus mandamentos e o verbo [2]חסד(chacad), para fazer referência a Deus, que demonstra misericórdia.

O profeta Davi bem sabia a quem Deus demonstra misericórdia, assim como o exposto no Deuteronômio:

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos.” (Dt 5:10)

Semelhantemente, com o homem perfeito,[3] Deus se mostra perfeito[4]. Como é possível ao homem ser perfeito? Ao falar com Abraão, Deus instruiu o patriarca a andar na Sua presença para alcançar tal posição:

“SENDO, pois, Abrão da idade de noventa e nove anos, apareceu o SENHOR a Abrão e disse-lhe: Eu sou o Deus Todo-Poderoso, anda em minha presença e sê perfeito.” (Gn 17:1; Dt 18:13).

Abraão tinha consciência de sua perfeição, pois, ele mesmo declara que andava na presença de Deus. (Gn 24:40).

“Porquanto, Abraão obedeceu à minha voz e guardou o meu mandado, os meus preceitos, os meus estatutos e as minhas leis.” (Gn 26:5)

Basta sujeitar-se a Deus, obedecendo ao que Ele já declarou na Sua palavra, que o homem é perfeito: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o SENHOR pede de ti, senão que pratiques a justiça, ames a benignidade e andes, humildemente, com o teu Deus?” (Mq 6:8)

“Sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso.” (Lc 6:36);

“Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus.” (Mt 5:48);

“Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; vem e segue-me.” (Mt 19:21)

Tiago declara que todos os cristãos tropeçam em muitas coisas, mas aquele que não tropeça na palavra da verdade é perfeito. (Tg 3:2)

Deus se evidencia justo, verdadeiro, sem mistura, ou seja, perfeito, para o homem que anda em sua presença, ou seja, que é perfeito. Com relação ao puro, Deus, também, se evidencia puro[5], ou seja, justo, bondoso.

No entanto, Deus se revela impossível[6], indomável, no sentido de não demonstrar a sua misericórdia, benignidade, ao homem que não se sujeita a Ele (perverso)[7].

Essa abordagem do Salmista é semelhante ao exposto pelo apóstolo Paulo:

“Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também, com ele viveremos; Se sofrermos, também, com ele reinaremos; se o negarmos, também, ele nos negará; Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo. (2 Tm 2:11)

Deus não fica impassível diante de um coração contrito (Sl 51:17; Sl 34:18; Is 57:15), de modo que Ele demonstra misericórdia aos que O obedecem. Deus ama os que O amam (Dt 30:20; Pv 8:17), pois, guardar o mandamento, é o amor de Deus.

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados.” (1 Jo 5:3).

O apóstolo João, ao dar essa declaração, interpreta Deuteronômio 30, verso 11:

“Porque este mandamento, que hoje te ordeno, não te é difícil de mais e, tampouco, está longe de ti.” (Dt 30:11)

Dependendo de como o homem se posiciona diante do mandamento de Deus, há promessa de vida ou, de expectação de morte:

“Vês aqui, hoje te tenho proposto a vida e o bem, a morte e o mal; Porquanto, te ordeno hoje que ames ao SENHOR teu Deus, que andes nos seus caminhos, e que guardes os seus mandamentos, os seus estatutos e os seus juízos, para que vivas, e te multipliques e o SENHOR teu Deus te abençoe na terra, a qual entras a possuir. Porém, se o teu coração se desviar e não quiseres dar ouvidos e fores seduzido para te inclinares a outros deuses e os servires, Então, eu vos declaro hoje que, certamente, perecereis; não prolongareis os dias na terra a que vais, passando o Jordão, para que, entrando nela, a possuas.” (Dt 30:15-18)

A palavra do evangelho tem essa mesma característica:

“E em nada vos espanteis dos que resistem, o que para eles, na verdade, é indício de perdição, mas, para vós, de salvação e isto, de Deus.” (Fl 1:28)

Isso porque aprouve a Deus salvar os que creem em Sua palavra, pois, Ele demonstra misericórdia aos que O amam, ou seja, lhe obedecem, no entanto, Deus, também, se revela zeloso, inflexível, ante os que não aquiescem à sua palavra:

“Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia, até mil gerações, aos que o amam e guardam os seus mandamentos. E retribui no rosto a qualquer dos que o odeiam, fazendo-o perecer; não será tardio ao que o odeia; em seu rosto, lhe pagará.” (Dt 7:9-10);

“Não te encurvarás a elas, nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até à terceira e à quarta geração daqueles que me odeiam. E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos.” (Dt 5:9-10);

“Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não conheceu a Deus, pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes, pela loucura da pregação.” (1 Co 1:21).

Deus é zeloso, ao retribuir a iniquidade sobre o ímpio e fiel, ao demonstrar a sua salvação aos que O amam.

Por causa dessa verdade exarada na lei, o Salmista, poeticamente, utilizando-se de paralelismos e figuras, faz uma descrição profética de como Deus age para com os homens: Ele é fiel, benigno e justo com os que lhe obedecem, porém, zeloso, ou seja, indomável, inflexível com aqueles que rejeitam a sua palavra.

“Com o benigno, te mostrarás benigno; e com o homem sincero, te mostrarás sincero; Com o puro, te mostrarás puro; e com o perverso, te mostrarás indomável.” (Sl 18:25).

Daí a máxima:

“Porém, ele disse: Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti e proclamarei o nome do SENHOR diante de ti; e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer.” (Êx 33:19).

De quem Deus tem misericórdia e se compadece? Do benigno, do sincero, do puro!

Qualquer pedido do homem, semelhante ao feito por Moisés, que tente mudar a fidelidade (amor) e o zelo (retribuição) de Deus, será inócuo (Dt32:32), pois Ele terá misericórdia de quem lhe apraz, ou seja, dos que O amam e se compadece de quem lhe apraz, dos que guardam o seu mandamento!

 

Endurece a quem quer

Todos os versos que analisamos, até agora, demonstram a natureza de Deus e como Ele age para com os homens: misericórdia aos que O amam e retribuição aos que O odeiam.

É, através da análise desses textos, que o apóstolo Paulo chega à conclusão de que Deus se compadece de quem quer, logo, após, fazer alusão a Faraó:

“Logo, pois, compadece-se de quem quer e endurece a quem quer.” (Rm 9:18)

Após afirmar que não há injustiça em Deus, apontando para Esaú e Jacó, o apóstolo cita o que foi dito a Moisés: compadecer-me-ei de quem me compadecer (Rm 9:13), porque Deus se compadeceu de Jacó, que havia adquirido o direito de primogenitura e rejeitou a Esaú como primogênito, visto ter desprezado o direito de primogenitura, vendendo-o, por um prato de lentilhas. (Gn 25:34)

De nada adiantou Esaú correr atrás da caça e querer a bênção, rogando a José, seu pai, se a benção estava atrelada à primogenitura e ao primogênito. Deus exerce a sua misericórdia (Rm 9:16). Em Esaú e Jacó evidencia-se que o propósito de Deus, segundo a eleição, fica firme, não por causa das obras, mas pelo que chama.

Deus chamou o primogênito para o seu propósito e a bênção estava reservada para o primogênito. Embora as obras de Esaú, ao sair à caça de um animal cevado, tinha o viés de alcançar a benção, o direito à benção já havia sido decidido quando ele desprezou a primogenitura por um prato de lentilhas.

“Mas, ao filho da desprezada, reconhecerá por primogênito, dando-lhe dobrada porção de tudo quanto tiver; porquanto, aquele é o princípio da sua força, o direito da primogenitura é dele.” (Dt 21:17).

Torna-se evidente o motivo pelo qual a eleição de Deus repousou sobre Jacó: o direto de primogenitura, porém, muitos alegam que não há como saber, como Deus elege alguém para o seu propósito. Esses alegam que o propósito de Deus se dá pela sua soberania, ou que a mente humana é pequena demais para compreendê-lo.

“Ora, todos sabem que o amor e a ira de Deus não se assemelham às paixões humanas; porém, a questão com que ora nos defrontamos não requer que perguntemos como Deus ama ou odeia, mas, por que Deus ama ou odeia (…) O amor e a ira de Deus não estão sujeitos a alterações, conforme ocorre conosco. Em Deus, ambos são eternos e imutáveis. Foram fixados muito antes que o “livre-arbítrio” fosse possível. Vemos nisso, que nem o amor nem a ira de Deus esperam pela reação humana, mas antecedem à mesma. […] O que poderia ter feito Deus amar a Jacó ou odiar a Esaú? Certamente, não por qualquer coisa que eles tivessem feito, pois a atitude de Deus para com eles foi estabelecida e declarada, antes mesmo de terem nascido e não havia muita atuação do “livre-arbítrio” naquela ocasião!” Martinho Lutero, Nascido Escravo, pág. 81.

A Bíblia apresenta resposta às duas perguntas: a) como Deus ama e odeia, e; b) por que Deus ama e odeia. O amor de Deus se evidencia em conceder o que é de direito ao homem e o seu ódio, em negar o que não é de direito ao homem. No caso de Jacó, Deus o amou, porque ele buscou para si o direito de primogenitura e odiou a Esaú, ou seja, não lhe concedeu o que não lhe era de direito.

Quando Deus tirou os filhos de Israel do Egito, não o fez por que eram melhores e mais justos que os povos que habitavam a terra prometida (Dt 9:4-6), antes, porque Deus os amava, ou seja, para guardar o juramento que fizera a Abraão, Isaque e Jacó.

“O SENHOR não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos, em número, do que eles; Mas, porque o SENHOR vos amava, e para guardar o juramento que fizera a vossos pais, o SENHOR vos tirou com mão forte e vos resgatou da casa da servidão, da mão de Faraó, rei do Egito. Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos. E retribui no rosto qualquer dos que o odeiam, fazendo-o perecer; não será tardio ao que o odeia; em seu rosto lho pagará.” (Dt 7:7-10)

O termo ‘amor’ denota ‘honra’, não sentimento, de modo que Deus ama o que O honra e odeia aos que O desprezam.

“Portanto, diz o SENHOR Deus de Israel: Na verdade, tinha falado eu que a tua casa e a casa de teu pai andariam diante de mim, perpetuamente; porém, agora, diz o SENHOR: Longe de mim tal coisa, porque, aos que me honram honrarei, porém, aos que me desprezam, serão desprezados. (1 Sm 2:30)

No caso de Esaú e de Jacó, pelo amor de Deus, já estava estabelecido para quem seria a bênção, antes mesmo que as crianças tivessem nascido ou, feito bem ou, mal: a bênção era para o primogênito. Esaú, de livre-vontade, desprezou o direito e Jacó, de livre vontade, buscou o direito para si, de modo que o amor de Deus não está atrelado ao arbítrio do homem, mas à sua palavra, que estabeleceu o direito do primogênito.

Deus se compadeceu de Jacó, porque ele buscou para si o direto de primogênito e Deus, sendo zeloso, não deu o que não era de direito a Esaú, rejeitando-o, por não ser o primogênito. A bênção da primogenitura não se dá por misericórdia, mas, por eleição, pois, na eleição, o propósito de Deus fica firme, não por causa das obras, mas pelo que chama.

O apóstolo cita as Escrituras, especificamente, com relação ao que foi dito a Faraó:

“Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra.” (Rm 9:17).

Ora, faraó[8] foi levantado para Deus mostrar o Seu poder e o seu Nome ser anunciado sobre a face da terra. O propósito de Deus era anunciar o seu nome e declarar o seu poder e escolheu um dos reis do Egito para isso. Como o propósito de Deus é firme e imutável, não importava o posicionamento de Faraó: Deus anunciaria o seu nome e declararia o seu poder.

Deus não elegeu uma pessoa especifica, mas, um faraó, ou seja, o escolhido poderia ser qualquer rei do Egito. É significativo o fato de a Bíblia não trazer o nome do faraó à época do êxodo, o que demonstra que Deus não elegeu uma pessoa, mas, um rei.

Isso não significa que Deus havia rejeitado faraó, ao levantá-lo. Pelo contrário, se faraó se inclinasse em terra e reconhecesse que Deus é Deus, deixando o povo ir, o poder de Deus seria revelado e anunciado o seu nome em toda a terra. Do mesmo modo, como o propósito é firme, quando faraó não aquiesceu à ordem de Deus, Deus mostrou o seu poder e anunciou o seu nome sobre a face da terra, arrancando o povo com mão forte.

O que o apóstolo Paulo evidencia, ao citar a Faraó, não é a pessoa do rei do Egito, mas, a eleição de Deus, que é firme, por causa do propósito de Deus. Faraó, deixando ou não o povo ir, o propósito de Deus se efetivaria. Observe que o que está em análise não é o coração de Faraó, mas, o fato de Deus se compadecer de quem lhe apraz.

A longanimidade de Deus vem expressa em sua palavra, de modo que falou a faraó por dez vezes, sendo Deus longânime, como o foi nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca. A mesma água do mar vermelho que se abriu para os filhos de Israel, significando salvação, fechou-se sobre Faraó, significando, perdição, assim como nos dias de Noé, em que o mundo inteiro pereceu pela água e somente oito almas se salvaram pela água.

“…quando a longanimidade de Deus esperava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca; na qual poucas (isto é, oito) almas se salvaram pela água; Que, também, como uma verdadeira figura, agora vos salva, o batismo, não do despojamento da imundícia da carne, mas, da indagação de uma boa consciência para com Deus, pela ressurreição de Jesus Cristo.” (1 Pe 3:20-21).

Quando o apóstolo Paulo conclui, com base na palavra dita a faraó, que Deus se compadece de quem quer, evidencia que Deus exerce misericórdia àqueles que Lhe obedecem. O verso trata de como Deus se porta, não do homem.

“Logo, pois, Ele se compadece de quem quer…” (Rm 9:18)

Deus se compadece dos que O obedecem, ou seja, dos que O amam e para Deus exercer a sua misericórdia, Ele não faz acepção de pessoas.

Mas, com relação ao propósito de Deus, opera a eleição, pois o propósito de Deus permanece firme, independentemente, das pessoas envolvidas. Não importava se Esaú ou, Jacó, seriam abençoados, mas, sim, o propósito de Deus, segundo a eleição, que estabeleceu a primogenitura, como critério para conceder a bênção, tendo em vista a linhagem do descendente prometido a Abraão.

Semelhantemente, não importava quem era o faraó à época ou, se ele iria obedecer ou, não, o propósito pelo qual o faraó foi levantado, foi levado a efeito: Deus anunciou o seu nome ao mundo e mostrou o poder de Deus.

Isso significa que Deus ‘endureceu’[9] a faraó?

“Logo, pois Ele se compadece de quem quer e endurece a quem quer. (Rm 9:18).

Definitivamente não! Deus não agiu sobre a vontade, influenciando a decisão de faraó, de modo a torná-lo recalcitrante. O verso não aponta uma pessoa que era o faraó, à época, e nem para os homens, mas, sim, para Deus, descrevendo-O como zeloso (indomável, impossível), quando o homem é perverso, desobediente.

Do mesmo modo que Deus é compassivo com quem quer, Deus é indomável com quem quer:

“ἄρα οὖνὃνθέλειἐλεεῖὃνδὲθέλεισκληρύνει” Westcott/HortwithDiacritics.

“Assim, pois (de) quem (ele) quer tem misericórdia, (a) quem [2] mas[1] quer endurece”. Novo Testamento Interlinear Grego-Português (SBB).

Os termos gregos ἐλεεῖ e σκληρύνει estão na terceira pessoa do singular, do tempo presente, modo indicativo e voz ativa. Os verbos na frase não contém outro sujeito além de Deus. É Deus que tem misericórdia de quem quer, e é Ele que é inflexível, ou seja, zeloso, com quem quer.

Através da língua grega, o apóstolo Paulo reproduz uma premissa imortalizada no Livro do Êxodo, através de um paralelismo, que, em essência, é a repetição de uma ideia, recurso essencial às poesias hebraicas. Fazendo uma releitura do exposto no Êxodo a Moisés, Deus evidencia a verdade da sua misericórdia, através de um paralelismo sinômico:

“Porém, ele disse: Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti e proclamarei o nome do SENHOR diante de ti; e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer.” (Êx 33:19)

Se Deus tem misericórdia de quem lhe apraz, segue-se que Ele não se compadece de quem não lhe apraz, ou seja, Deus se endurece. Deus é fiel, ao ter misericórdia dos que O amam e guardam o seu mandamento (Dt 7:9-10) e Deus é zeloso, inflexível, se endurece, com aqueles que O odeiam (Dt 5:9-10). Essa ideia vem sendo desenvolvida nos versos 15 e 16, do capítulo 9 de Romanos e conclui-se no verso 18:

“Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece (…) Logo, pois, compadece-se de quem quer e endurece quem quer.” (Rm 9:15-16 e 18).

Em relação a Esaú e Jacó, Deus amou Jacó e odiou a Esaú. O termo ‘amor’ foi empregado no sentido de compadecer e o termo ‘ódio’, no sentido de endurecer, ou seja, com o perverso Deus se mostra indomável, duro, inflexível, o que se deu com Faraó.

“Eu vos tenho amado, diz o SENHOR. Mas vós dizeis: Em que nos tem amado? Não era Esaú irmão de Jacó? disse o SENHOR; todavia amei a Jacó e odiei a Esaú; fiz dos seus montes uma desolação e dei a sua herança aos chacais do deserto.” (Ml 1:2-3)

Devemos considerar que Faraó se mostrou perverso ante a palavra de Deus, ou seja, endureceu[10] o seu coração. A Bíblia demonstra que “o coração de Faraó se endureceu.” (Êx.7:13-14 e Êx 8:19) e que Faraó “continuou de coração endurecido” (Êx 8:15). Quando Faraó se propunha a deixar o povo ir, Deus desviava a praga, mas, quando ele se endurecia, novamente, Deus enviava nova praga.

“E Faraó chamou a Moisés e a Arão e disse: Rogai ao SENHOR, que tire as rãs de mim e do meu povo; depois, deixarei ir o povo, para que sacrifiquem ao SENHOR (…) Vendo, porém, Faraó que havia alívio, continuou de coração endurecido e não os ouviu, como o Senhor tinha dito.” (Êx 8:8 e 15)

O termo hebraico קשה (qashah), traduzido por ‘endurecer’, em Êxodo 7, verso 3, não diz de uma ação sobrenatural de Deus, influenciando as decisões de Faraó, antes, a palavra que foi dita a Faraó: ‘Deixa ir o meu povo, para que me celebre uma festa no deserto” (Êx 5:1), fez de Faraó um obstinado.

Ao dar ordem a Faraó, por intermédio de um mensageiro: ‘Deixa ir o meu povo…’, Deus endureceu o coração de Faraó e como Faraó não aquiesceu, Deus se mostrou zeloso, indomável, impossível.

Antes da palavra de Deus, o coração de Faraó não tinha disposição alguma, em relação a deixar ou, não, o povo de Israel ir a qualquer lugar que seja, mas quando ouviu que era necessário deixar ir o povo que pertencia a Deus, Faraó se endureceu pela proposta.

Onde está o espírito de Deus, ai há liberdade! (2 Co 3:17) Para o propósito que Faraó foi levantado, não era necessário Deus endurecer o coração de Faraó, pois o propósito de Deus seria levado a efeito se Faraó obedecesse, ou não. Desse modo, se Deus ‘endureceu’ o coração de Faraó para ser glorificado, de certo seria melhor ‘amolecer’ o coração de Faraó, pois assim também seria glorificado.

Mas, Deus não faz nenhuma ou, nem outra coisa, antes, dá liberdade ao homem e, por isso, Deus é longânime e espera que Israel se converta, quando o véu será tirado (2 Co 3:16). Deus apresenta ao homem a sua palavra e Deus agirá conforme a resposta que o homem der a ela.

Muitos, por não compreenderem a eleição de faraó, para explicá-la, se focam na ideia de que faraó não é uma pessoa boa e nem temente a Deus; que a sociedade egípcia era comandada por faraós que se achavam deuses, que escravizaram os filhos de Israel, que foram responsáveis por inúmeras mortes de criancinhas, etc.

“A minha resposta é que, à parte da graça da eleição, Deus trata com os homens em consonância com a natureza deles. Visto que a natureza deles é maligna e pervertida, quando Deus os impulsiona para que entrem em ação, seus atos são malignos e pervertidos.” Martinho Lutero, Nascido Escravo, pág. 73.

“Deus não cria uma nova maldade no coração dos homens. Antes, Ele se utiliza do mal que já se encontra no coração deles, visando aos seus próprios, bons e sábios desígnios.” Martinho Lutero, Nascido Escravo, pág. 74.

Deus não trata o homem em consonância com a índole ou moral, antes trata com os homens, através do estabelecido na sua palavra. A palavra de Deus é a medida e a ferramenta de Deus, de modo que Ele zela da sua palavra para cumpri-la. (Jr 1:12) É um equívoco achar que Deus utiliza o mal que há no coração do homem, para levar a efeito o Seu propósito.

Ora, a eleição de Deus é firme e não tem em vista se a pessoa fez bem ou mal, mas tem em vista a glória de Deus. O mesmo critério utilizado na eleição de Esaú e Jacó, quando Raquel concebeu de Isaque, sendo que as criancinhas nem tinham nascido e nem feito bem ou, mal, é o mesmo critério estabelecido sobre faraó, portanto, não tem em vista se ele era bom ou mal, ou se fez algum bem ou muitos males.

Pelo fato de desconhecerem que Deus tem misericórdia daqueles que O obedecem, ao lerem em Romanos 9, verso 18, que Deus “tem misericórdia de quem ele quer e endurece a quem ele quer”, muitos argumentam que faraó não tinha desculpa e era responsável por seu próprio pecado, quando Deus o ‘endureceu’.

Pelo fato de não compreenderem que Deus se apraz em exercer misericórdia aos que O amam, e que Deus disse que ‘tem misericórdia de quem quer’, para evidenciarem a Moisés o que já havia sido apregoado, anteriormente (Êx 33:19), compare-se com (Êx 20:6), em que não conseguem aceitar o que foi dito, acerca de faraó.

“Por que Deus não altera a vontade perversa de pessoas como Faraó? Essa questão toca na vontade secreta de Deus, cujos caminhos são inescrutáveis. (Rm 11:33) Se alguém, que é orientado por sua razão humana, fica ofendido por causa disso, que assim seja. As queixas nada mudarão e os eleitos de Deus permanecerão inabaláveis. Poderíamos, também, perguntar por que Deus deixou que Adão caísse! Não devemos tentar estabelecer regras para Deus. Aquilo que Deus faz, não é correto porque o aprovamos, mas porque Deus assim o desejou”. Idem.

Por que Deus deixou que Adão caísse? Resposta: – Porque Deus o orientou e lhe deu plena liberdade! Foi uma escolha deliberada de Adão, por ser livre. E, por que Deus não altera a vontade (perversa ou não) das pessoas? Por que os dons de Deus são irrevogáveis! Como Deus lida com a liberdade do homem não é segredo, ou, algo que as suas criaturas não possam compreender.

Com relação a Deus, o homem sempre é livre, sendo servo de Deus ou, não! Isso não significa que o homem não esteja livre de um senhor, pois, os que não estão sujeitos a Deus, estão sujeitos ao pecado.

A abordagem do capítulo 9 de Romanos, não tem em vista a salvação ou, a condenação do homem, mas, sim, a demonstração de que palavra de Deus não havia falhado (Rm 9:6). Agostinho, Lutero, Calvino, e muitos outros, com base em Romanos 9, debatem, acerca da salvação e da condenação, porém, o apóstolo Paulo estava demonstrando que, apesar de haverem muitas pessoas pertencentes a Israel, de fato elas não eram israelitas.

O fato de serem descendentes de Abraão não significava que eram filhos de Abraão (Rm 9:7), pois, em Isaque a descendência de Abraão AINDA seria chamada. Mas, se os filhos de Isaque fossem descendência de Abraão, não seria necessária a palavra de Deus a Rebeca: ‘o maior servirá o menor’, o que significa que Jacó e Esaú ainda não eram a descendência de Abraão, antes, que em Jacó seria chamada a descendência de Abraão (Rm9:12).

“Porém, Deus disse a Abraão: Não te pareça mal aos teus olhos acerca do moço e acerca da tua serva; em tudo o que Sara te diz, ouve a sua voz; porque, em Isaque será chamada a tua descendência.” (Gn21:12)

Há uma grande diferença, entre interpretar que Isaque era a descendência de Abraão e, assim, todos os seus filhos seriam bem-aventurados, entre interpretar que, em Isaque a descendência de Abraão seria chamada.

“Nem por serem descendência de Abraão, são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência.” (Rm 9:7)

O apóstolo Paulo não estava dizendo que Deus, unilateralmente, salva quem quer e condena quem quer, por ser soberano, antes, que a palavra de Deus, com relação à descendência prometida a Abraão, não havia falhado. Deus prometeu um descendente a Abraão, que viria por Isaque, o Cristo, e cumpriu a sua palavra a Abraão, quando disse: ‘Por esse tempo virei e Sara terá um filho’. (Rm 9:9)

Mas, de Isaque nasceram dois filhos: Esaú e Jacó e, de ambos, não seria chamada a descendência de Abraão, pelo que foi dito a Rebeca: ‘o maior servirá o menor’, pois havia dois povos no ventre de Rebeca. Neste caso, Deus elegeu a casa de Jacó e rejeitou a casa de Esaú, para chamar a descendência prometida a Abraão.

E qual o critério que Deus utilizou para escolher entre Esaú e Jacó? O direito de primogenitura, estabelecido conforme a sua soberania. Conclui-se que não há injustiça da parte de Deus (Rm 9:14) e que a palavra de Deus não havia falhado (Rm 9:6).

Há injustiça da parte de Deus, por ter amado a Jacó e aborrecido Esaú? De modo nenhum! Primeiro, Deus deu o que era de direito a Jacó, e, segundo, Deus manteve a sua palavra dada a Abraão, acerca do descendente!

Em momento algum, no capítulo 9 da carta aos Romanos, o apóstolo Paulo tratou de salvação ou, de perdição, antes destacou: a) como veio ao mundo o Salvador e; b) como Deus cumpriu a palavra anunciada a Abraão, acerca da descendência, que seria chamada em Isaque e que passou por Jacó.

A palavra de Deus não falhou para com Israel, visto que, no tempo presente, há um remanescente, mas segundo a eleição da graça:

“Assim, pois, também, agora, neste tempo, ficou um remanescente, segundo a eleição da graça” (Rm 11:5)

“Também, Isaías clama acerca de Israel: Ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, o remanescente é que será salvo. Porque ele completará a obra e abreviá-la-á em justiça; porque o Senhor fará breve a obra sobre a terra.” (Rm 9:27 -28).

Deus salva o homem por intermédio da mensagem do evangelho (loucura da pregação, fé), e não através da eleição, predestinação ou presciência. Os que creem (crentes) na mensagem do evangelho (loucura da pregação) são salvos, pois o evangelho é o poder de Deus para salvação dos que creem (Rm 1:16).

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1] “02623  חסיד  (chaciyd) procedente de 2616; DITAT – 698b; adj 1) fiel, bondoso, piedoso, santo 1a) bondoso 1b) piedoso, devoto 1c) os fiéis (substantivo)”, Dicionário Bíblico Strong.

[2] 02616″ חסד (chacaduma) raiz primitiva; DITAT – 698, 699; v1) ser bom, ser gentil 2a) (Hitpael), mostrar bondade para 2) ser reprovado, ser envergonhado 1a) (Piel) ser envergonhado, ser reprovado”, Dicionário Bíblico Strong.

[3] תמים 08549 (tamiym) procedente de 8552; DITAT – 2522d; adj. 1) completo, total, inteiro, são 1a) completo, total, inteiro 1b) total, são, saudável 1c) completo, integral (referindo-se ao tempo) 1d) são, saudável, sem defeito, inocente, íntegro fig. Figuradamente 1e) que está completa ou inteiramente de acordo com a verdade e os fatos (adj./subst. neutro)”, Dicionário Bíblico Strong.

[4]תמם 08552 (tamam) uma raiz primitiva; DITAT – 2522; v. 1) ser completo, estar terminado, acabar 1a) (Qal), 1a1) estar terminado, estar completo, 1a1a) completamente, totalmente, inteiramente (como auxiliar de outro verbo), 1a2) estar terminado, acabar, cessar, 1a3) estar completo (referindo-se a número), 1a4) ser consumido, estar exausto, estar esgotado, 1a5) estar terminado, ser consumido, ser destruído, 1a6) ser íntegro, ser idôneo, ser sem defeito, ser justo (eticamente), 1a7) completar, terminar 1a8) ser atravessado, completamente, 1b) (Nifal) ser consumido, 1c) (Hifil)”, Dicionário Bíblico Strong.

[5] ברר 01305 (barar) uma raiz primitiva; DITAT – 288; v 1) purificar, selecionar, polir, escolher, depurar, limpar ou, tornar brilhante, testar ou, provar, 1a) (Qal), 1a1) depurar, purificar, 1a2) escolher, selecionar, 1a3) limpar, deixar brilhante, polir, 1a4) testar, provar, 1b) (Nifal) purifi/car-se, 1c) (Piel) purificar, 1d) (Hifil), 1d1) purificar, 1d2) polir flechas, 1e) (Hitpael), 1e1) purificar-se, 1e2) mostrar-se puro, justo, bondoso”, Dicionário Bíblico Strong.

[6] פתל 06617 (pathal) uma raiz primitiva; DITAT – 1857; v. 1) torcer, 1a) (Nifal), 1a1) ser torcido, 1a2) lutar, 1b) (Hitpael), ser torcido”, Dicionário Bíblico Strong.

[7] עקש 06141 (iqqesh) procedente de 6140; DITAT – 1684a; adj. 1) torcido, deformado, torto, perverso, pervertido”, Dicionário Bíblico Strong.

[8]Faraó é a designação (título) que se atribuí aos reis (com estatuto de deuses) no Antigo Egito, porém, à época o povo os chamava por nesu (“rei”) ou neb (“senhor”). Faraó decorre da tradução grega da Bíblia, que deriva da expressão egípcia per-aá, “a grande casa”, que a tradição entende como sendo referência ao palácio real, à sede do poder, mas a expressão pode fazer referência à linhagem dos faraós.

[9] “4645 σκληρυνωs (kleruno) de 4642; TDNT – 5:1030, 816; v 1) tornar duro, endurecer 2) metáf. 2a) tornar obstinado, teimoso, 2b) ser endurecido, 2c) tornar-se obstinado ou, teimoso”, Dicionário Bíblico Strong.

[10] “07185 קשה (qashah uma raiz primitiva; DITAT – 2085; v. 1) ser duro, ser severo, ser feroz, ser cruel 1a) (Qal), 1a1) ser duro, ser difícil, 1a2) ser rude, ser severo, 1b) (Nifal), 1b1) ser maltratado 1b2) ser oprimido 1c) (Piel), ter grandes dores de parto (referindo-se a mulheres), 1d) (Hifil), 1d1) tornar difícil, criar dificuldade, 1d2) tornar rigoroso, tornar fatigante, 1d3) endurecer, tornar obstinado, tornar teimoso, 1d3a) referindo-se a obstinação (fig.), 1d4) demonstrar teimosia”, Dicionário Bíblico Strong.

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