Perdição e salvação estão atreladas aos caminhos, e não aos homens

O termo ‘conduz’ utilizado na parábola dos caminhos apresenta a função que o caminho desempenha, ou seja, conduzir a um destino àquele que entra pela porta. A perdição é o destino do caminho espaçoso, e a salvação é o destino do caminho estreito. Como são os caminhos que possuem destinos (salvação e perdição), através da parábola Jesus exclui qualquer conceito de sina, determinismo ou fatalismo quando ao futuro dos homens.


Após analisar a parábola das duas portas e dos dois caminhos, o leitor será capaz de dizer se verdadeiramente Deus predestinou alguns homens à salvação e o restante à danação eterna.

“Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela; E porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem” ( Mt 7:13 -14)

 

Quando anunciou o reino dos céus no Sermão da montanha, Jesus instruiu os seus ouvintes a ‘entrarem pela porta estreita’ “Entrai pela porta estreita” ( Mt 7:13 ). Jesus é a porta estreita pela qual os justos haveriam de entrar, pois Ele mesmo disse: “Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens” ( Jo 10:9 ).

O salmo 118 é messiânico e apresenta Cristo como a porta dos justos, assim como Ele é a pedra angular, a pedra de esquina, o servo ferido, a destra do Altíssimo, a Luz que veio ao mundo, o Bendito que vem em nome do Senhor e a vítima da festa “Esta é a porta do SENHOR, pela qual os justos entrarão” ( Sl 118:15 -27 )

Mas, por que é necessário entrar por Cristo? Como entrar por Cristo?

Jesus apresentou três motivos pelos quais é imprescindível entrar pela porta estreita:

“… porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela” ( Mt 7:13 )

  • A porta é larga;
  • Dá acesso ao caminho de perdição, e;
  • Muitos entram por ela.

 

Identificando a porta larga

A parábola apresenta somente duas portas e, com relação às portas, Jesus se apresenta como a porta estreita “Porfiai por entrar pela porta estreita; porque eu vos digo que muitos procurarão entrar, e não poderão” ( Lc 13:24 -25; Jo 10:9 ).

A Bíblia não contém uma definição explícita da porta larga, porém através de Cristo, que é a porta estreita, é possível determinar o que é, ou quem é a porta larga.

Há várias concepções que apresentam alguns candidatos para ocupar o ‘cargo’ de porta larga, entretanto, devemos considerar que há uma justa posição entre a figura da porta larga e a figura da porta estreita, de modo que, há quesitos a serem satisfeitos para que um ‘candidato’ à porta larga se enquadre perfeitamente na figura.

Se a porta estreita, que é Cristo, é um homem, segue-se que a figura da porta larga deve fazer referência a um homem. Se a porta estreita é cabeça de uma nova geração, a porta larga também deve fazer referência à cabeça de uma geração.

Muitos indicam o diabo para o cargo de porta larga, entretanto, ele é um anjo caído (não é um homem), e como não pode trazer a existência seres semelhantes a ele, logo, não pode ser cabeça de uma geração. O diabo não se enquadra na justa posição que há entre as figuras da porta larga e da porta estreita ( Lc 20:35 -36).

O pecado, por sua vez, diz de uma condição a que o homem está sujeito, ou seja, alienado de Deus, portanto, não é um ser, não é anjo e nem homem. O pecado não se enquadra no cargo de porta larga, além de ser impossível o pecado assumir a posição de cabeça de uma geração ( Is 59:2 ).

As instituições humanas também são, muitas vezes, indicadas como porta larga, porém, uma instituição é composta de vários homens reunidos em torno de um objetivo. Não passa de uma assembleia de pessoas, de modo que não se ajusta à figura de porta larga.

O mundo não é a porta larga, visto que o mundo, na bíblia, diz dos homens alienados de Deus regidos por suas paixões, pela concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e pela soberba da vida ( Ef 2:2 ; Cl 2:8 ). Logo, não podemos considerar que a porta larga é o diabo, o pecado, o mundo ou uma instituição religiosa.

Resta-nos considerar que, se a porta estreita é um homem, a porta larga necessariamente deve ser um homem. Como Cristo, a porta estreita, veio ao mundo sem pecado, o candidato à porta larga também deve ser um homem que veio ao mundo sem pecado. Como Cristo é a cabeça de uma nova geração de homens espiritais, a porta larga refere-se à cabeça de uma geração de homens. O único homem que se encaixa na figura da porta larga é Adão, pois veio ao mundo sem pecado e é a cabeça de uma geração de homens carnais.

Como pode ser isso? Ora, na bíblia a porta é figura que possui diversos significados, porém, as figuras das portas que Jesus apresentou no Sermão da montanha dizem de nascimento, de modo que Adão é a porta larga por quem todos os homens entram no mundo. Todos os homens quando vem ao mundo (abrem a madre) são gerados segundo a semente de Adão. Todos os homens, exceto Cristo, entraram no mundo através de Adão, que é a porta larga.

Cristo foi lançado pelo Espírito Santo no ventre de Maria, ou seja, desassociado da semente corruptível de Adão. Por ter sido introduzido no mundo por Deus, Cristo é o último Adão, a cabeça de uma geração de homens espirituais ( 1Co 15:45 ). Em outras palavras, Adão é o tipo e Cristo é o antítipo. Adão a figura e Cristo a realidade “… Adão, o qual é figura (tipo) daquele que havia de vir (antítipo)” ( Rm 5:14 ).

Para estar sujeito à paixão da morte, Cristo teve que vir ao mundo à semelhança dos homens (carne do pecado), porém, sem pecado ( Hb 2:9 ). Para isso foi introduzido pelo Espírito Santo no ventre de Maria, pois se fosse gerado segundo a carne, estaria sob a mesma condenação que se abateu sobre a humanidade ( Gl 4:4 ; 1Jo 3:9 ). Já no Éden foi anunciado que o descendente viria da descendência da mulher, em vista da oposição que haveria entre as duas sementes ( Gn 3:15 ).

Vale destacar que, quando Cristo criou o homem no Éden ( Hb 2:10 ), Adão foi criado à imagem e semelhança do Cristo-homem, e não à semelhança do Deus invisível e em glória ( Hb 2:9 ). Adão foi criado à imagem e semelhança do Cristo-homem que havia de vir ao mundo, sendo gerado no ventre de Maria ( Rm 5:14 ), ou seja, não a semelhança do Cristo glorificado, pois tal condição Cristo somente alçou após ressurgir dentre os mortos “Quanto a mim, contemplarei a tua face na justiça; eu me satisfarei da tua semelhança quando acordar” ( Sl 17:15 ).

 

A porta é larga

A porta é designada larga porque todos os homens, para virem ao mundo, necessariamente tem que entrar por Adão ( 1Co 15:46 ). Jesus deixa claro que são muitos que entram pela porta larga, e não todos, isto porque Cristo foi exceção à regra. Enquanto os homens naturais foram lançados na madre através de uma semente corruptível, Jesus foi lançado na madre através da operação sobrenatural do Espírito Santo ( Sl 22:10 ).

Antes de Adão não havia desobediência, pecado ou morte para a humanidade. Com a transgressão de Adão, entrou no mundo o pecado e a morte ( 1Co 15:21 -22 ). Por causa da ofensa de Adão todos os seus descendentes juntamente alienaram-se de Deus ( Sl 53:3 ).

A bíblia é clara quando demonstra que todos os homens juntamente se desviaram, alienaram de Deus. Como foi possível aos homens alienarem-se de Deus juntamente? Ora, existiu um único evento no qual todos os homens estavam ‘juntamente’ reunidos. Por interpretação ( Hb 7:2 ), no Éden todos os homens estavam reunidos na ‘coxa’ de Adão ( Hb 7:10 ). Quando Ele transgrediu, todos se tornaram transgressores. Quando Adão tornou-se imundo, contaminou toda a sua linhagem, pois do imundo não há como vir o puro ( Sl 53:3 ).

Quando os homens alienaram-se de Deus? Alienaram-se de Deus no Éden. Lá no Éden pereceu o homem piedoso e todos os seus descendentes tornaram-se imundos “Já pereceu da terra o homem piedoso, e não há entre os homens um que seja justo; todos armam ciladas para sangue; cada um caça a seu irmão com a rede” ( Mq 7:2 ). É em função da transgressão no Éden que os homens alienam-se de Deus desde a madre, são gerados de uma semente corruptível, a semente de Adão. Como consequência, andam errantes desde que nascem, pois estão em um caminho que os conduz à perdição ( Sl 58:3 ).

 

O caminho de perdição

Após abrir a madre (nascer), ou seja, ‘entrar pela porta larga’ o homem trilha um caminho específico atrelado à perdição. A parábola mostra que a figura do caminho é funcional, pois demonstra que o caminho leva, ou seja, conduz todos os homens que nele se encontram a um único lugar: perdição. De igual modo, a parábola demonstra que o caminho estreito conduz todos os homens que nele se encontram à vida, ou seja, o caminho estreito possui como destino um lugar específico: salvação ( M 7:13 -14).

O termo ‘conduz’ utilizado na parábola dos caminhos apresenta a função que o caminho desempenha, ou seja, conduzir a um destino àqueles que entram pelas portas. A perdição é o destino do caminho espaçoso, e a salvação é o destino do caminho estreito. Como são os caminhos que possuem destinos (salvação e perdição), através da parábola Jesus exclui qualquer conceito de sina, determinismo ou fatalismo quando ao futuro dos homens.

O termo ‘conduz’ evidência a função do caminho, e nada mais. O caminho conduz a um destino específico e certo. Por exemplo: a perdição é o destino do caminho espaçoso, e a vida é o destino do caminho estreito. Ora, a parábola não apresenta a salvação ou a perdição atreladas aos homens, antes a salvação e a perdição foram apresentadas atrelados aos caminhos.

Ninguém vem a Deus se não por Cristo, pois Ele é o caminho que conduz o homem a vida. De igual modo, ninguém vai à perdição se não pelo caminho espaçoso, que conduz à perdição. Enquanto os judeus e os gregos possuíam uma visão fatalista e determinista de mundo, Jesus demonstra que a sua doutrina não segue a concepção da humanidade. Jesus não apresenta a salvação e nem a perdição com destino dos homens, antes como destino dos caminhos, de modo que o evangelho não segue as bases de correntes filosóficas como o fatalismo e determinismo.

Por que é necessário evidenciar esta peculiaridade dos caminhos? Para desmistificar algumas concepções, pois em algumas civilizações antigas, como a dos gregos, o mundo e os seus eventos cotidianos eram regidos por uma sucessão de eventos inevitáveis e preordenados por uma determinada ordem cósmica ou divindade. Tal doutrina afirma que todos os acontecimentos ocorrem de acordo com um destino fixo e inexorável, sem que os homens não podem controla-los ou influenciá-los.

Na mitologia grega têm-se as Moiras, três irmãs que, através da Roda da Fortuna, determinavam o destino, tanto dos deuses, quanto dos seres humanos, portanto, o destino submetia os deuses, que por sua vez, deveriam resignar-se à sua sorte, sina, fado.

Além da cultura greco-romana, temos o fatalismo regendo o estoicismo romano e grego, que por fim, influenciou a doutrina dita cristã da Divina Providência. Divina Providência tornou-se um pensamento teológico que confere à onipotência de Deus controle absoluto sobre todos os eventos nas vidas das pessoas e na história da humanidade. Tal concepção afirma que Deus decidiu e preordenou todos os eventos e nada acontece sem que Deus permita.

Outra corrente filosófica, o determinismo, afirma que todo acontecimento (inclusive o mental) é explicado por relações de causalidade (causa e efeito).

Na bíblia tais pensamentos, sejam mitológicos ou filosóficos, não encontram eco, pois o ‘destino’ é apresentado única e especificamente como o local que se chegará após trilhar um caminho. Na bíblia o termo ‘destino’ é empregado no sentido de local, lugar, porém, não envolve a ideia de preordenação “Como também trezentos escudos de ouro batido; para cada escudo destinou trezentos siclos de ouro; e Salomão os pôs na casa do bosque do Líbano” ( 2Cr 9:16 ).

Quando se lê: “E eu vos destino o reino, como meu Pai mo destinou” ( Lc 22:29 ), não há nada de determinismo no sentido filosófico ou mitológico, antes Jesus indicou que, da mesma forma que Deus reservou o reino para o seu Filho, certo é que o reino pertence aos que creem, pois herdarão com Cristo todas as coisas.

Ora, os dois versos acima possuem o mesmo princípio: assim como o ouro foi preparado em função do escudo, o reino foi preparado para os que creem em Cristo. Isto não quer dizer que algumas pessoas foram destinadas ao reino, e outra não, antes que o reino foi preparado para os que creem. O equivoco de alguns se dá em função da linguagem, pois deixam de considerar que, na antiguidade, as coisas eram definidas pela sua função, serventia “Todas as coisas se definem pelas suas funções” (Aristóteles, A Política. Tradução Nestor Silveira Chaves. Rio de janeiro: Nova Fronteira, 2011, p. 22).

Quando lemos: “Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para a aquisição da salvação, por nosso Senhor Jesus Cristo” ( 1Ts 5:9 ), temos que considerar que o apóstolo apresenta a figura do caminho estreito: ‘por nosso Senhor Jesus Cristo’. No verso em comento, o termo ‘destinar’ não foi empregado no sentido de preordenar, e sim, no sentido de reservar.

Como o apóstolo está tratando com os cristãos e trazendo a memória deles a atual condição em Cristo: filhos da luz ( 1Ts 5:5 ), recomenda que deveriam permanecer vigilantes e sóbrios ( 1Ts 5:7 ), revestindo-se do poder de Deus, que é o evangelho ( 1Ts 5:8 ). Pois agora, diferente do tempo em que estavam nas trevas e eram filhos da ira, os cristãos, em função do caminho que conduz à vida (Jesus Cristo nosso Senhor), alcançaram, adquiriram salvação. Ou seja, o apóstolo não diz que os cristãos foram predestinados a salvação, antes que, por estarem no caminho estreito, o destino agora é de salvação, diferente do caminho espaçoso, que é de ira.

Qual a função de um caminho? Conduzir a um lugar, ou seja, destino certo. O lugar vincula-se ao caminho sem qualquer conotação de ‘predestinação’, ‘previsão’, ‘preordenação’. O destino do caminho ligado à porta larga é de perdição, assim como o destino da Rodovia Presidente Dutra é o Rio de Janeiro para quem sai de São Paulo.

Devemos considerar que o Senhor Jesus afirmou que quem tem destino é o caminho ao exortar as pessoas que porfiassem por entrar pela porta estreita. Deste modo, Jesus demonstra que o viajante não está preordenado, predestinado, etc., à perdição, antes é o caminho que dá em um lugar de perdição.

Diante do alerta de Cristo, verifica-se que o viajante pode trocar de caminho, assim como é possível a alguém que está em São Paulo a caminho do Rio de Janeiro pela Rodovia Presidente Dutra pegar a Rodovia Raposo Tavares com destino ao estado do Paraná.

  • “Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela” ( Mt 7:13 );
  • “Mas ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que fechais aos homens o reino dos céus; e nem vós entrais nem deixais entrar aos que estão entrando” ( Mt 23:13 );
  • “Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens” ( Jo 10:9 );

 

A porta é espaçosa porque muitos entram por Adão, e o caminho é espaçoso porque todos que são gerados de Adão são conduzidos à perdição. Jesus vinculou a perdição ao caminho, e não aos homens. Através da parábola fica evidente que o destino vincula-se ao caminho. O caminho e o destino são fixos e atrelados, porém, o homem é atrelado à porta (nascimento), o que significa que é possível deixar o caminho em que está e passar para o outro.

 

O caminho é espaçoso

A porta é espaçosa porque todos os homens, exceto Cristo, entram por Adão e o caminho é espaçoso porque muitos homens são conduzidos à perdição.

Na parábola dos dois caminhos Jesus vinculou a perdição ao caminho, e não aos homens. Através de uma leitura atenta da parábola é evidenciado que o destino está atrelado ao caminho.

O homem nasce pela primeira vez segundo a carne, o sangue e a vontade do varão, ou seja, nasce vinculado à porta larga. Não foi Deus quem estabeleceu que o homem seria gerado em pecado, antes quando Adão desobedeceu, sujeitou-se à condição de alienado de Deus (pecado) e arrastou todos os seus descendentes para a mesma condição. A porta larga surgiu em Adão, que pecou e vendeu todos os seus descendentes ao pecado, de modo que, ao vir ao mundo, nenhum homem é livre do pecado.

A entrada dos homens ao mundo pela porta larga ficou vinculada ao primeiro pai da humanidade, pois nascer da carne é o único meio de o homem entrar no mundo “Teu primeiro pai pecou, e os teus intérpretes prevaricaram contra mim” ( Is 43:27 ; Os 6:7 ). Para entrar pela porta larga o homem não exerce escolha, assim como os que descendiam (filhos) dos escravos não escolhiam a condição social quando viam ao mundo. Ou seja, ninguém que entra pela porta larga escolheu entrar por ela.

A figura é completa em si mesma, pois os caminhos possuem um destino certo e imutável, porém, os homens não estão atrelados a um destino, quer seja perdição ou salvação.

No dia a dia, se um homem quiser chegar a um destino, necessariamente terá que escolher qual caminho tomar, pois o destino está atrelado ao caminho. Se um viajante deseja sair de São Paulo com destino ao Rio de Janeiro, terá de percorrer a Rodovia Presidente Dutra.

Através da parábola dos dois caminhos é patente que Deus não predestinou ninguém à salvação eterna ou a danação eterna. Quando um novo homem vem ao mundo, necessariamente entra pela porta larga e estará em um caminho largo que o conduz á perdição.

Ninguém que entra no mundo por Adão está predestinado à perdição, pois é o caminho que conduz à perdição. O caminho espaçoso possui um destino, ou seja, está atrelado a um lugar. O lugar que o caminho espaçoso conduz é de perdição, diferente do caminho estreito, que conduz à salvação.

Semelhantemente, ninguém que entra por Adão está predestinado à salvação, visto que, por ter entrado no mundo através da porta larga, está em um caminho largo que o conduz à perdição. A concepção de que há homens que veem ao mundo predestinados à salvação deixa de considerar que todos são formados em iniquidade e concebidos em pecado, portanto, nascem pecadores e no caminho de perdição.

Ora, se houvesse predestinação para salvação, necessariamente o indivíduo predestinado não poderia vir ao mundo por Adão. Teria que entrar por outra porta, à parte de Cristo ou de Adão, porém, tal porta não existe. Para entrar por Cristo, primeiro o homem tem que entrar por Adão, e após entrar por Adão, somente é possível entrar no reino dos céus fazendo obra que exceda a dos escribas e fariseus: crer em Cristo, ou seja, nascendo de novo ( Mt 5:20 ; Jo 3:3 e Jo 6:29 ).

Quem nasce apenas uma vez permanece no caminho espaçoso, quem nasce de novo, ou seja, a segunda vez, sai do caminho de perdição e passa para o caminho que conduz à salvação, que é Cristo.

Salvação e perdição não são destinos preordenados aos homens antes de nascerem, pelo contrário, salvação e perdição estão vinculadas ao caminho que os homens trilham após entrarem pelas portas. Os homens acessam as portas uma por vez e na seguinte ordem: primeiro a porta larga, depois a estreita. Se entrar por Adão, estará em um caminho de perdição, se por Cristo, em um caminho de salvação.

 

Muitos entram pela porta larga

Quando nascem, os homens estão em um caminho de perdição (exceto Cristo), porém, lhes é concedido a oportunidade de entrarem pela porta estreita. Todos os homens entram pela porta larga e, para receber salvação, precisam entrar por mais uma porta, de modo que, para alcançar vida eterna, os homens devem passar por duas portas, ou seja, por dois nascimentos.

Como já afirmamos, o destino de um caminho é imutável, ou seja, se há alguma espécie de fatalismo ou determinismo expresso no cristianismo, ele recai única e exclusivamente sobre o caminho, jamais sobre os viajantes.

Todos os homens entram neste mundo por Adão, e nenhum deles está predestinado à salvação. O que a bíblia demonstra é que todos que entram por Adão percorrerem um caminho largo que os conduz à perdição. Os dois caminhos estão atrelados a lugares específicos (destinos) e imutáveis.

Como a perdição (destino, lugar) está atrelada ao caminho espaçoso, e não aos homens, Jesus faz um convite solene, verdadeiro e real a todos os homens nascidos de Adão: “Entrai pela porta estreita” ( Mt 7:13 ). Tal convite demonstra que é possível mudar do caminho com destino à perdição para o novo e vivo caminho cujo destino é a vida eterna.

A porta larga é figura de nascimento natural e a porta estreita do novo nascimento. A porta larga trás ao mundo almas viventes e a porta estreita trás homens espirituais. O novo nascimento diz de uma nova geração proveniente da semente incorruptível (palavra de Deus), diferente do nascimento natural, que é decorrente da semente corruptível ( 1Pe 1:23 ).

Nesta parábola, porta é o mesmo que nascimento, de modo que, todos quantos são nascidos de Adão, são carnais e seguem por um caminho que conduz à perdição. Semelhantemente, todos quantos entram por Cristo, nascem de novo, estão em um caminho estreito que os conduz a Deus.

Jesus disse: – “Eu sou a porta”! “Eu sou o caminho”! Primeiro o homem entra neste mundo por Adão, depois é necessário entrar por Cristo, nascendo de novo da água e do Espírito. Cristo é o caminho que conduz o homem a Deus. Cristo é o caminho que possui salvação como destino. Qualquer que entra por Ele está no caminho que o conduz única e especificamente a Deus.

O caminho é estreito porque poucos entram por Cristo, e o caminho é largo porque são muitos que entram por Ele. Não é comportamento, moral ou caráter que qualifica a largura do caminho, e sim a quantidade de acesso.

 

Mudança de caminho

Como sair do caminho largo e entrar no caminho estreito?

Para o homem nascer de novo, primeiro é necessário tomar sobre si a sua própria cruz e seguir após Cristo, ou seja, para nascer de novo primeiro é necessário morrer ( Cl 3:3 ). Sem morrer é impossível nascer de novo “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” ( Gl 2:20 ; Rm 6:6 ).

Fica evidente que dentre os nascidos de Adão não há ninguém predestinado à salvação, visto que, se não nascer de novo, não entrará no reino dos céus. Ora, quem entra nos céus é a nova criatura, porque a velha gerada em Adão é crucificada e morta, evidenciando que é impossível aos gerados em Adão herdarem a salvação.

Se alguém gerado da semente de Adão fosse predestinado à salvação, não necessitaria morrer com Cristo. Mas, se é necessário morrer com Cristo, evidentemente ninguém é predestinado à salvação. Se houvesse predestinação para salvação, certo é que o homem não seria sujeito à morte: nem a física, nem a morte com Cristo.

O homem que herda a salvação não é o mesmo que veio ao mundo, visto que do homem que veio ao mundo só é aproveitado o barro, a massa, porém, é dado um novo coração e um novo espírito. Quando o homem morre com Cristo, o vaso de desonra é quebrado e feito um novo vaso de honra da mesma massa. É por está peculiaridade que é impossível ao homem gerado de Adão ter sido predestinado à salvação, pois é necessário um novo nascimento, uma nova criação, um novo pai de família, um novo coração e um novo espírito “Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” ( Rm 9:21 ).

O homem pode assumir duas condições: a de perdido, pois quando nasce segundo a carne é homem natural, velha criatura, velho homem, velho ‘eu’, carnal, terreno, etc., e: a de salvo, pois quando nasce de novo, crucificou a velha natureza e foi de novo criado em verdadeira justiça e santidade. Se a velha criatura é crucificada e morre, certo é que tal indivíduo não foi predestinado à salvação.

Volto a repetir, se o homem fosse predestinado à salvação não seria necessário morrer para ser gerado um novo homem.

O novo homem é criado em verdadeira justiça e santidade, diferente do velho homem que foi gerado em iniquidade e em pecado ( Sl 51:5 ). O novo homem possui um novo coração e um novo espírito, portanto, não possui vínculo com o velho homem que herdou um coração de pedra. O velho homem não foi predestinando à salvação, pois é necessário a todos que se salvam crucificarem a velha natureza com as suas concupiscências ( Gl 5:24 ).

A ideia de que Deus predestinou alguns homens à salvação e outros à danação eterna antes mesmo de virem ao mundo, não coaduna com o posicionamento da bíblia, pois se assim fosse, os homens gerados de Adão predestinados à salvação não teriam que ser crucificados “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” ( Gl 2:20 ). Como é imprescindível a crucificação com Cristo, certamente não há predestinação de indivíduos à salvação. Como é imprescindível morrer e renascer, certamente o homem salvo não é o mesmo que nasceu segundo a carne e o sangue ( Jo 1:12 -13).

A predestinação que a bíblia apresenta é para ser filho por adoção, difere muito da ideia de predestinação para salvação ( Ef 1:5 ).

O que isso significa ser predestinado para filho por adoção? Que qualquer que entrar por Cristo e perseverar n’Ele não terá outro destino: será um dos filhos de Deus ( Rm 8:29 ).

Todos que entram pela porta estreita, que é Cristo, conhecem a Deus, ou antes, foram conhecidos d’Ele (conhecer=tornar-se um só corpo, comunhão íntima). Para que Cristo fosse alçado à posição de primogênito entre muitos irmãos após morrer e ressurgir (uma vez que fora introduzido no mundo sendo o Unigênito de Deus), todos os que entraram por Cristo foram predestinados a serem filhos de Deus “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” ( Rm 8:29 ).

Sem a igreja, a assembleia dos primogênitos, não haveria como Jesus ser primogênito entre muitos irmãos. Em função do propósito de tornar Cristo preeminente em tudo, Deus criou uma nova categoria de homens semelhantes a Cristo, sendo Ele a cabeça. Para o primogênito ser preeminente, há a necessidade de irmãos semelhantes a Ele em tudo. Entre sublimes, Cristo é mui sublime. É neste sentido que Deus predestinou os que conheceram a Cristo para serem filhos por adoção, assunto diverso da ideia de predestinação para salvação ( Ef 1:5 ).

Todas as vezes que o apóstolo Paulo aborda a questão da predestinação, o faz em conexão com a filiação divina, de modo que, qualquer que entrar por Cristo, inexoravelmente será filho de Deus. Não há outro destino, ou destinação para aqueles que entram por Cristo: são filhos por adoção, portanto, santos e irrepreensíveis.

Uma má leitura das Escrituras que despreza o fato de que salvação não é o mesmo que filiação divina levará o leitor a considerar que o termo predestinação se aplica à salvação e à perdição, porém, o equivoco ocorre pode alcançar a salvação sem, contudo alcançar a condição de semelhante a Cristo, condição exclusiva para os que compõe o corpo de Cristo: a igreja.

Os homens salvos no milênio não farão parte da igreja, não serão filhos por adoção e nem serão semelhantes a Cristo. A bíblia demonstra que, além de serem salvos da condenação estabelecida em Adão, por ser o corpo de Cristo, os que creem alcançaram a posição de semelhantes a Cristo, filhos de Deus, participantes da assembleia dos primogênitos, para que Cristo seja o primogênito e tenha a preeminência entre muitos irmãos.

A condição dos membros do corpo de Cristo na plenitude dos tempos ( Gl 4:4 ), a igreja, é completamente distinta dos salvos em outras épocas. O grande diferencial está no quesito filiação. Enquanto os salvos à parte da igreja são contados como filhos de Israel, os cristãos são contados como filhos de Deus, pois assim como Cristo é, os cristãos hão de vê-Lo e serão semelhantes a Ele. Por causa desta condição, à saber: a de semelhantes a Cristo, será dado à igreja a autonomia de julgar os anjos ( 1Co 6:2 -3).

 

O equilíbrio entre as figuras

Há equilíbrio entre os elementos que compõem as figuras das duas portas e dos dois caminhos. Por exemplo: Como Cristo é a cabeça de uma geração de homens espirituais (servos da justiça), e é a porta estreita; a porta larga também se refere à cabeça de uma geração de homens, porém, de homens carnais, servos do pecado.

Para compreender melhor a figura das duas portas, é essencial compreender que em Cristo, Deus estabelece a sua justiça, de modo que, pela desobediência do primeiro Adão a penalidade da morte foi imposta e todos morreram e, pela obediência do último Adão, a ressurreição veio, portanto, todos que creem são vivificados ( 2Co 15:21 -22).

Ora, se a justiça está na obediência de Cristo e a injustiça na desobediência de Adão, a justiça de Deus é substituição de ato: obediência em lugar da desobediência.

Ora, os nascidos da desobediência são filhos da ira, da perdição; já os filhos da obediência são filhos de Deus.

A relação que há entre Jesus e Adão é nítida em Romanos 5, versos 14 à 19: “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir. Mas não é assim o dom gratuito como a ofensa. Porque, se pela ofensa de um morreram muitos, muito mais a graça de Deus, e o dom pela graça, que é de um só homem, Jesus Cristo, abundou sobre muitos. E não foi assim o dom como a ofensa, por um só que pecou. Porque o juízo veio de uma só ofensa, na verdade, para condenação, mas o dom gratuito veio de muitas ofensas para justificação. Porque, se pela ofensa de um só, a morte reinou por esse, muito mais os que recebem a abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo. Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida. Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos”.

Quando observamos os homens: Adão e Cristo, respectivamente, temos a figura e a imagem exata. Enquanto este trouxe a morte, aquele a vida. Enquanto Adão é o primeiro homem, Jesus é o último Adão. Enquanto Adão, que estava vivo, trouxe a condenação na morte, Jesus morreu e trouxe a redenção ( 1Co 15:45 -47).

 

O destino é atrelado ao caminho, e não aos homens

Através das figuras dos dois caminhos, constata-se que os caminhos permanentemente estão atrelados a um lugar, um destino. Através da figura das duas portas, que os homens estão atrelados a uma condição decorrente do seu nascimento: terreno ou espiritual.

Deus não mudará o destino dos caminhos (salvação e perdição) e nem a condição decorrente do nascimento (pecado e justiça), ou seja, há lugar de perdição e lugar de descanso e, perdidos e salvos. Mas, como a condição de nascimento pode ser alterada, Deus roga, pelos seus embaixadores, que os homens porfiem por entrar pela porta estreita “Porfiai por entrar pela porta estreita; porque eu vos digo que muitos procurarão entrar, e não poderão” ( Lc 13:24 ); “De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo, como se Deus por nós rogasse. Rogamos-vos, pois, da parte de Cristo, que vos reconcilieis com Deus” ( 2Co 5:20 ).

A mensagem dos embaixadores de Cristo é de reconciliação ( 2Co 5:18 ). Na reconciliação há oportunidade, e não preordenação. Em Deus há liberdade, pois liberdade é pertinente ao Espírito de Deus. Se há liberdade diante do espírito que concede vida, certo é que nada foi preordenado quanto ao futuro dos homens, evidenciando assim a soberania e a justiça de Deus que a ninguém oprime “Ao Todo-Poderoso não podemos alcançar; grande é em poder; porém a ninguém oprime em juízo e grandeza de justiça” ( Jó 37:23 ).

O homem sem Cristo está separado de Deus em função do caminho, e não em função de um destino, sina, fado, preordenação, etc. “Porque o SENHOR conhece o caminho dos justos; porém o caminho dos ímpios perecerá” ( Sl 1:6 ); “E os teus ouvidos ouvirão a palavra do que está por detrás de ti, dizendo: Este é o caminho, andai nele, sem vos desviardes nem para a direita nem para a esquerda” ( Is 30:21 ).

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Deus endurece a quem quer?

Deus não fica impassível diante de um coração contrito (Sl 51:17; Sl 34:18; Is 57:15), de modo que Ele demonstra misericórdia aos que O obedecem. Deus ama os que O amam (Dt 30:20; Pv 8:17), pois, guardar o mandamento, é o amor de Deus.


Deus endurece a quem quer?

“Logo, pois, compadece-se de quem quer e endurece a quem quer.” (Rm 9:18)

Como compreender a conclusão do apóstolo Paulo: “Logo, pois, compadece-se de quem quer e endurece a quem quer”, que teve por base a passagem do Êxodo, em referência à palavra de Deus, anunciada a Faraó? (Rm 9:18)

“Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra.” (Rm 9:17)

Unilateralmente, Deus salva a quem quer e condena a quem quer? O apóstolo Paulo estava tratando da salvação da humanidade, ao concluir que Deus endurece a quem quer?

Esse exercício é necessário por causa de ‘como lemos’ as Escrituras! Certa vez, um doutor da lei questionou Jesus, acerca do direito à vida eterna e Jesus respondeu:

“E ele lhe disse: Que está escrito na lei? Como lês?” (Lc 10:26)

Há uma grande diferença entre o que está escrito e como se interpreta. O doutor da lei sabia o que estava escrito, porém, ao tentar justificar a si mesmo, demonstrou que desconhecia quem era o seu próximo. (Lc 10:29).

Como esse doutor da lei poderia ler, compreender e ensinar acerca da lei, se desconhecia quem era o seu próximo? Como alcançar a justiça da lei, sem saber quem é o próximo?

 

A chave

“Com o benigno te mostrarás benigno; e com o homem sincero te mostrarás sincero; com o puro te mostrarás puro; e com o perverso te mostrarás indomável.” (Sl 18:25)

O rei Davi, no Salmo 18, demonstra que Deus se mostra misericordioso com quem é misericordioso. Davi utilizou o adjetivo [1]חָסִיד (chaciyd), para descrever o homem que se sujeita a Deus como servo, obedecendo aos seus mandamentos e o verbo [2]חסד(chacad), para fazer referência a Deus, que demonstra misericórdia.

O profeta Davi bem sabia a quem Deus demonstra misericórdia, assim como o exposto no Deuteronômio:

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos.” (Dt 5:10)

Semelhantemente, com o homem perfeito,[3] Deus se mostra perfeito[4]. Como é possível ao homem ser perfeito? Ao falar com Abraão, Deus instruiu o patriarca a andar na Sua presença para alcançar tal posição:

“SENDO, pois, Abrão da idade de noventa e nove anos, apareceu o SENHOR a Abrão e disse-lhe: Eu sou o Deus Todo-Poderoso, anda em minha presença e sê perfeito.” (Gn 17:1; Dt 18:13).

Abraão tinha consciência de sua perfeição, pois, ele mesmo declara que andava na presença de Deus. (Gn 24:40).

“Porquanto, Abraão obedeceu à minha voz e guardou o meu mandado, os meus preceitos, os meus estatutos e as minhas leis.” (Gn 26:5)

Basta sujeitar-se a Deus, obedecendo ao que Ele já declarou na Sua palavra, que o homem é perfeito: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o SENHOR pede de ti, senão que pratiques a justiça, ames a benignidade e andes, humildemente, com o teu Deus?” (Mq 6:8)

“Sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso.” (Lc 6:36);

“Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus.” (Mt 5:48);

“Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; vem e segue-me.” (Mt 19:21)

Tiago declara que todos os cristãos tropeçam em muitas coisas, mas aquele que não tropeça na palavra da verdade é perfeito. (Tg 3:2)

Deus se evidencia justo, verdadeiro, sem mistura, ou seja, perfeito, para o homem que anda em sua presença, ou seja, que é perfeito. Com relação ao puro, Deus, também, se evidencia puro[5], ou seja, justo, bondoso.

No entanto, Deus se revela impossível[6], indomável, no sentido de não demonstrar a sua misericórdia, benignidade, ao homem que não se sujeita a Ele (perverso)[7].

Essa abordagem do Salmista é semelhante ao exposto pelo apóstolo Paulo:

“Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também, com ele viveremos; Se sofrermos, também, com ele reinaremos; se o negarmos, também, ele nos negará; Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo. (2 Tm 2:11)

Deus não fica impassível diante de um coração contrito (Sl 51:17; Sl 34:18; Is 57:15), de modo que Ele demonstra misericórdia aos que O obedecem. Deus ama os que O amam (Dt 30:20; Pv 8:17), pois, guardar o mandamento, é o amor de Deus.

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados.” (1 Jo 5:3).

O apóstolo João, ao dar essa declaração, interpreta Deuteronômio 30, verso 11:

“Porque este mandamento, que hoje te ordeno, não te é difícil de mais e, tampouco, está longe de ti.” (Dt 30:11)

Dependendo de como o homem se posiciona diante do mandamento de Deus, há promessa de vida ou, de expectação de morte:

“Vês aqui, hoje te tenho proposto a vida e o bem, a morte e o mal; Porquanto, te ordeno hoje que ames ao SENHOR teu Deus, que andes nos seus caminhos, e que guardes os seus mandamentos, os seus estatutos e os seus juízos, para que vivas, e te multipliques e o SENHOR teu Deus te abençoe na terra, a qual entras a possuir. Porém, se o teu coração se desviar e não quiseres dar ouvidos e fores seduzido para te inclinares a outros deuses e os servires, Então, eu vos declaro hoje que, certamente, perecereis; não prolongareis os dias na terra a que vais, passando o Jordão, para que, entrando nela, a possuas.” (Dt 30:15-18)

A palavra do evangelho tem essa mesma característica:

“E em nada vos espanteis dos que resistem, o que para eles, na verdade, é indício de perdição, mas, para vós, de salvação e isto, de Deus.” (Fl 1:28)

Isso porque aprouve a Deus salvar os que creem em Sua palavra, pois, Ele demonstra misericórdia aos que O amam, ou seja, lhe obedecem, no entanto, Deus, também, se revela zeloso, inflexível, ante os que não aquiescem à sua palavra:

“Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia, até mil gerações, aos que o amam e guardam os seus mandamentos. E retribui no rosto a qualquer dos que o odeiam, fazendo-o perecer; não será tardio ao que o odeia; em seu rosto, lhe pagará.” (Dt 7:9-10);

“Não te encurvarás a elas, nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até à terceira e à quarta geração daqueles que me odeiam. E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos.” (Dt 5:9-10);

“Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não conheceu a Deus, pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes, pela loucura da pregação.” (1 Co 1:21).

Deus é zeloso, ao retribuir a iniquidade sobre o ímpio e fiel, ao demonstrar a sua salvação aos que O amam.

Por causa dessa verdade exarada na lei, o Salmista, poeticamente, utilizando-se de paralelismos e figuras, faz uma descrição profética de como Deus age para com os homens: Ele é fiel, benigno e justo com os que lhe obedecem, porém, zeloso, ou seja, indomável, inflexível com aqueles que rejeitam a sua palavra.

“Com o benigno, te mostrarás benigno; e com o homem sincero, te mostrarás sincero; Com o puro, te mostrarás puro; e com o perverso, te mostrarás indomável.” (Sl 18:25).

Daí a máxima:

“Porém, ele disse: Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti e proclamarei o nome do SENHOR diante de ti; e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer.” (Êx 33:19).

De quem Deus tem misericórdia e se compadece? Do benigno, do sincero, do puro!

Qualquer pedido do homem, semelhante ao feito por Moisés, que tente mudar a fidelidade (amor) e o zelo (retribuição) de Deus, será inócuo (Dt32:32), pois Ele terá misericórdia de quem lhe apraz, ou seja, dos que O amam e se compadece de quem lhe apraz, dos que guardam o seu mandamento!

 

Endurece a quem quer

Todos os versos que analisamos, até agora, demonstram a natureza de Deus e como Ele age para com os homens: misericórdia aos que O amam e retribuição aos que O odeiam.

É, através da análise desses textos, que o apóstolo Paulo chega à conclusão de que Deus se compadece de quem quer, logo, após, fazer alusão a Faraó:

“Logo, pois, compadece-se de quem quer e endurece a quem quer.” (Rm 9:18)

Após afirmar que não há injustiça em Deus, apontando para Esaú e Jacó, o apóstolo cita o que foi dito a Moisés: compadecer-me-ei de quem me compadecer (Rm 9:13), porque Deus se compadeceu de Jacó, que havia adquirido o direito de primogenitura e rejeitou a Esaú como primogênito, visto ter desprezado o direito de primogenitura, vendendo-o, por um prato de lentilhas. (Gn 25:34)

De nada adiantou Esaú correr atrás da caça e querer a bênção, rogando a José, seu pai, se a benção estava atrelada à primogenitura e ao primogênito. Deus exerce a sua misericórdia (Rm 9:16). Em Esaú e Jacó evidencia-se que o propósito de Deus, segundo a eleição, fica firme, não por causa das obras, mas pelo que chama.

Deus chamou o primogênito para o seu propósito e a bênção estava reservada para o primogênito. Embora as obras de Esaú, ao sair à caça de um animal cevado, tinha o viés de alcançar a benção, o direito à benção já havia sido decidido quando ele desprezou a primogenitura por um prato de lentilhas.

“Mas, ao filho da desprezada, reconhecerá por primogênito, dando-lhe dobrada porção de tudo quanto tiver; porquanto, aquele é o princípio da sua força, o direito da primogenitura é dele.” (Dt 21:17).

Torna-se evidente o motivo pelo qual a eleição de Deus repousou sobre Jacó: o direto de primogenitura, porém, muitos alegam que não há como saber, como Deus elege alguém para o seu propósito. Esses alegam que o propósito de Deus se dá pela sua soberania, ou que a mente humana é pequena demais para compreendê-lo.

“Ora, todos sabem que o amor e a ira de Deus não se assemelham às paixões humanas; porém, a questão com que ora nos defrontamos não requer que perguntemos como Deus ama ou odeia, mas, por que Deus ama ou odeia (…) O amor e a ira de Deus não estão sujeitos a alterações, conforme ocorre conosco. Em Deus, ambos são eternos e imutáveis. Foram fixados muito antes que o “livre-arbítrio” fosse possível. Vemos nisso, que nem o amor nem a ira de Deus esperam pela reação humana, mas antecedem à mesma. […] O que poderia ter feito Deus amar a Jacó ou odiar a Esaú? Certamente, não por qualquer coisa que eles tivessem feito, pois a atitude de Deus para com eles foi estabelecida e declarada, antes mesmo de terem nascido e não havia muita atuação do “livre-arbítrio” naquela ocasião!” Martinho Lutero, Nascido Escravo, pág. 81.

A Bíblia apresenta resposta às duas perguntas: a) como Deus ama e odeia, e; b) por que Deus ama e odeia. O amor de Deus se evidencia em conceder o que é de direito ao homem e o seu ódio, em negar o que não é de direito ao homem. No caso de Jacó, Deus o amou, porque ele buscou para si o direito de primogenitura e odiou a Esaú, ou seja, não lhe concedeu o que não lhe era de direito.

Quando Deus tirou os filhos de Israel do Egito, não o fez por que eram melhores e mais justos que os povos que habitavam a terra prometida (Dt 9:4-6), antes, porque Deus os amava, ou seja, para guardar o juramento que fizera a Abraão, Isaque e Jacó.

“O SENHOR não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos, em número, do que eles; Mas, porque o SENHOR vos amava, e para guardar o juramento que fizera a vossos pais, o SENHOR vos tirou com mão forte e vos resgatou da casa da servidão, da mão de Faraó, rei do Egito. Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos. E retribui no rosto qualquer dos que o odeiam, fazendo-o perecer; não será tardio ao que o odeia; em seu rosto lho pagará.” (Dt 7:7-10)

O termo ‘amor’ denota ‘honra’, não sentimento, de modo que Deus ama o que O honra e odeia aos que O desprezam.

“Portanto, diz o SENHOR Deus de Israel: Na verdade, tinha falado eu que a tua casa e a casa de teu pai andariam diante de mim, perpetuamente; porém, agora, diz o SENHOR: Longe de mim tal coisa, porque, aos que me honram honrarei, porém, aos que me desprezam, serão desprezados. (1 Sm 2:30)

No caso de Esaú e de Jacó, pelo amor de Deus, já estava estabelecido para quem seria a bênção, antes mesmo que as crianças tivessem nascido ou, feito bem ou, mal: a bênção era para o primogênito. Esaú, de livre-vontade, desprezou o direito e Jacó, de livre vontade, buscou o direito para si, de modo que o amor de Deus não está atrelado ao arbítrio do homem, mas à sua palavra, que estabeleceu o direito do primogênito.

Deus se compadeceu de Jacó, porque ele buscou para si o direto de primogênito e Deus, sendo zeloso, não deu o que não era de direito a Esaú, rejeitando-o, por não ser o primogênito. A bênção da primogenitura não se dá por misericórdia, mas, por eleição, pois, na eleição, o propósito de Deus fica firme, não por causa das obras, mas pelo que chama.

O apóstolo cita as Escrituras, especificamente, com relação ao que foi dito a Faraó:

“Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra.” (Rm 9:17).

Ora, faraó[8] foi levantado para Deus mostrar o Seu poder e o seu Nome ser anunciado sobre a face da terra. O propósito de Deus era anunciar o seu nome e declarar o seu poder e escolheu um dos reis do Egito para isso. Como o propósito de Deus é firme e imutável, não importava o posicionamento de Faraó: Deus anunciaria o seu nome e declararia o seu poder.

Deus não elegeu uma pessoa especifica, mas, um faraó, ou seja, o escolhido poderia ser qualquer rei do Egito. É significativo o fato de a Bíblia não trazer o nome do faraó à época do êxodo, o que demonstra que Deus não elegeu uma pessoa, mas, um rei.

Isso não significa que Deus havia rejeitado faraó, ao levantá-lo. Pelo contrário, se faraó se inclinasse em terra e reconhecesse que Deus é Deus, deixando o povo ir, o poder de Deus seria revelado e anunciado o seu nome em toda a terra. Do mesmo modo, como o propósito é firme, quando faraó não aquiesceu à ordem de Deus, Deus mostrou o seu poder e anunciou o seu nome sobre a face da terra, arrancando o povo com mão forte.

O que o apóstolo Paulo evidencia, ao citar a Faraó, não é a pessoa do rei do Egito, mas, a eleição de Deus, que é firme, por causa do propósito de Deus. Faraó, deixando ou não o povo ir, o propósito de Deus se efetivaria. Observe que o que está em análise não é o coração de Faraó, mas, o fato de Deus se compadecer de quem lhe apraz.

A longanimidade de Deus vem expressa em sua palavra, de modo que falou a faraó por dez vezes, sendo Deus longânime, como o foi nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca. A mesma água do mar vermelho que se abriu para os filhos de Israel, significando salvação, fechou-se sobre Faraó, significando, perdição, assim como nos dias de Noé, em que o mundo inteiro pereceu pela água e somente oito almas se salvaram pela água.

“…quando a longanimidade de Deus esperava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca; na qual poucas (isto é, oito) almas se salvaram pela água; Que, também, como uma verdadeira figura, agora vos salva, o batismo, não do despojamento da imundícia da carne, mas, da indagação de uma boa consciência para com Deus, pela ressurreição de Jesus Cristo.” (1 Pe 3:20-21).

Quando o apóstolo Paulo conclui, com base na palavra dita a faraó, que Deus se compadece de quem quer, evidencia que Deus exerce misericórdia àqueles que Lhe obedecem. O verso trata de como Deus se porta, não do homem.

“Logo, pois, Ele se compadece de quem quer…” (Rm 9:18)

Deus se compadece dos que O obedecem, ou seja, dos que O amam e para Deus exercer a sua misericórdia, Ele não faz acepção de pessoas.

Mas, com relação ao propósito de Deus, opera a eleição, pois o propósito de Deus permanece firme, independentemente, das pessoas envolvidas. Não importava se Esaú ou, Jacó, seriam abençoados, mas, sim, o propósito de Deus, segundo a eleição, que estabeleceu a primogenitura, como critério para conceder a bênção, tendo em vista a linhagem do descendente prometido a Abraão.

Semelhantemente, não importava quem era o faraó à época ou, se ele iria obedecer ou, não, o propósito pelo qual o faraó foi levantado, foi levado a efeito: Deus anunciou o seu nome ao mundo e mostrou o poder de Deus.

Isso significa que Deus ‘endureceu’[9] a faraó?

“Logo, pois Ele se compadece de quem quer e endurece a quem quer. (Rm 9:18).

Definitivamente não! Deus não agiu sobre a vontade, influenciando a decisão de faraó, de modo a torná-lo recalcitrante. O verso não aponta uma pessoa que era o faraó, à época, e nem para os homens, mas, sim, para Deus, descrevendo-O como zeloso (indomável, impossível), quando o homem é perverso, desobediente.

Do mesmo modo que Deus é compassivo com quem quer, Deus é indomável com quem quer:

“ἄρα οὖνὃνθέλειἐλεεῖὃνδὲθέλεισκληρύνει” Westcott/HortwithDiacritics.

“Assim, pois (de) quem (ele) quer tem misericórdia, (a) quem [2] mas[1] quer endurece”. Novo Testamento Interlinear Grego-Português (SBB).

Os termos gregos ἐλεεῖ e σκληρύνει estão na terceira pessoa do singular, do tempo presente, modo indicativo e voz ativa. Os verbos na frase não contém outro sujeito além de Deus. É Deus que tem misericórdia de quem quer, e é Ele que é inflexível, ou seja, zeloso, com quem quer.

Através da língua grega, o apóstolo Paulo reproduz uma premissa imortalizada no Livro do Êxodo, através de um paralelismo, que, em essência, é a repetição de uma ideia, recurso essencial às poesias hebraicas. Fazendo uma releitura do exposto no Êxodo a Moisés, Deus evidencia a verdade da sua misericórdia, através de um paralelismo sinômico:

“Porém, ele disse: Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti e proclamarei o nome do SENHOR diante de ti; e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer.” (Êx 33:19)

Se Deus tem misericórdia de quem lhe apraz, segue-se que Ele não se compadece de quem não lhe apraz, ou seja, Deus se endurece. Deus é fiel, ao ter misericórdia dos que O amam e guardam o seu mandamento (Dt 7:9-10) e Deus é zeloso, inflexível, se endurece, com aqueles que O odeiam (Dt 5:9-10). Essa ideia vem sendo desenvolvida nos versos 15 e 16, do capítulo 9 de Romanos e conclui-se no verso 18:

“Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece (…) Logo, pois, compadece-se de quem quer e endurece quem quer.” (Rm 9:15-16 e 18).

Em relação a Esaú e Jacó, Deus amou Jacó e odiou a Esaú. O termo ‘amor’ foi empregado no sentido de compadecer e o termo ‘ódio’, no sentido de endurecer, ou seja, com o perverso Deus se mostra indomável, duro, inflexível, o que se deu com Faraó.

“Eu vos tenho amado, diz o SENHOR. Mas vós dizeis: Em que nos tem amado? Não era Esaú irmão de Jacó? disse o SENHOR; todavia amei a Jacó e odiei a Esaú; fiz dos seus montes uma desolação e dei a sua herança aos chacais do deserto.” (Ml 1:2-3)

Devemos considerar que Faraó se mostrou perverso ante a palavra de Deus, ou seja, endureceu[10] o seu coração. A Bíblia demonstra que “o coração de Faraó se endureceu.” (Êx.7:13-14 e Êx 8:19) e que Faraó “continuou de coração endurecido” (Êx 8:15). Quando Faraó se propunha a deixar o povo ir, Deus desviava a praga, mas, quando ele se endurecia, novamente, Deus enviava nova praga.

“E Faraó chamou a Moisés e a Arão e disse: Rogai ao SENHOR, que tire as rãs de mim e do meu povo; depois, deixarei ir o povo, para que sacrifiquem ao SENHOR (…) Vendo, porém, Faraó que havia alívio, continuou de coração endurecido e não os ouviu, como o Senhor tinha dito.” (Êx 8:8 e 15)

O termo hebraico קשה (qashah), traduzido por ‘endurecer’, em Êxodo 7, verso 3, não diz de uma ação sobrenatural de Deus, influenciando as decisões de Faraó, antes, a palavra que foi dita a Faraó: ‘Deixa ir o meu povo, para que me celebre uma festa no deserto” (Êx 5:1), fez de Faraó um obstinado.

Ao dar ordem a Faraó, por intermédio de um mensageiro: ‘Deixa ir o meu povo…’, Deus endureceu o coração de Faraó e como Faraó não aquiesceu, Deus se mostrou zeloso, indomável, impossível.

Antes da palavra de Deus, o coração de Faraó não tinha disposição alguma, em relação a deixar ou, não, o povo de Israel ir a qualquer lugar que seja, mas quando ouviu que era necessário deixar ir o povo que pertencia a Deus, Faraó se endureceu pela proposta.

Onde está o espírito de Deus, ai há liberdade! (2 Co 3:17) Para o propósito que Faraó foi levantado, não era necessário Deus endurecer o coração de Faraó, pois o propósito de Deus seria levado a efeito se Faraó obedecesse, ou não. Desse modo, se Deus ‘endureceu’ o coração de Faraó para ser glorificado, de certo seria melhor ‘amolecer’ o coração de Faraó, pois assim também seria glorificado.

Mas, Deus não faz nenhuma ou, nem outra coisa, antes, dá liberdade ao homem e, por isso, Deus é longânime e espera que Israel se converta, quando o véu será tirado (2 Co 3:16). Deus apresenta ao homem a sua palavra e Deus agirá conforme a resposta que o homem der a ela.

Muitos, por não compreenderem a eleição de faraó, para explicá-la, se focam na ideia de que faraó não é uma pessoa boa e nem temente a Deus; que a sociedade egípcia era comandada por faraós que se achavam deuses, que escravizaram os filhos de Israel, que foram responsáveis por inúmeras mortes de criancinhas, etc.

“A minha resposta é que, à parte da graça da eleição, Deus trata com os homens em consonância com a natureza deles. Visto que a natureza deles é maligna e pervertida, quando Deus os impulsiona para que entrem em ação, seus atos são malignos e pervertidos.” Martinho Lutero, Nascido Escravo, pág. 73.

“Deus não cria uma nova maldade no coração dos homens. Antes, Ele se utiliza do mal que já se encontra no coração deles, visando aos seus próprios, bons e sábios desígnios.” Martinho Lutero, Nascido Escravo, pág. 74.

Deus não trata o homem em consonância com a índole ou moral, antes trata com os homens, através do estabelecido na sua palavra. A palavra de Deus é a medida e a ferramenta de Deus, de modo que Ele zela da sua palavra para cumpri-la. (Jr 1:12) É um equívoco achar que Deus utiliza o mal que há no coração do homem, para levar a efeito o Seu propósito.

Ora, a eleição de Deus é firme e não tem em vista se a pessoa fez bem ou mal, mas tem em vista a glória de Deus. O mesmo critério utilizado na eleição de Esaú e Jacó, quando Raquel concebeu de Isaque, sendo que as criancinhas nem tinham nascido e nem feito bem ou, mal, é o mesmo critério estabelecido sobre faraó, portanto, não tem em vista se ele era bom ou mal, ou se fez algum bem ou muitos males.

Pelo fato de desconhecerem que Deus tem misericórdia daqueles que O obedecem, ao lerem em Romanos 9, verso 18, que Deus “tem misericórdia de quem ele quer e endurece a quem ele quer”, muitos argumentam que faraó não tinha desculpa e era responsável por seu próprio pecado, quando Deus o ‘endureceu’.

Pelo fato de não compreenderem que Deus se apraz em exercer misericórdia aos que O amam, e que Deus disse que ‘tem misericórdia de quem quer’, para evidenciarem a Moisés o que já havia sido apregoado, anteriormente (Êx 33:19), compare-se com (Êx 20:6), em que não conseguem aceitar o que foi dito, acerca de faraó.

“Por que Deus não altera a vontade perversa de pessoas como Faraó? Essa questão toca na vontade secreta de Deus, cujos caminhos são inescrutáveis. (Rm 11:33) Se alguém, que é orientado por sua razão humana, fica ofendido por causa disso, que assim seja. As queixas nada mudarão e os eleitos de Deus permanecerão inabaláveis. Poderíamos, também, perguntar por que Deus deixou que Adão caísse! Não devemos tentar estabelecer regras para Deus. Aquilo que Deus faz, não é correto porque o aprovamos, mas porque Deus assim o desejou”. Idem.

Por que Deus deixou que Adão caísse? Resposta: – Porque Deus o orientou e lhe deu plena liberdade! Foi uma escolha deliberada de Adão, por ser livre. E, por que Deus não altera a vontade (perversa ou não) das pessoas? Por que os dons de Deus são irrevogáveis! Como Deus lida com a liberdade do homem não é segredo, ou, algo que as suas criaturas não possam compreender.

Com relação a Deus, o homem sempre é livre, sendo servo de Deus ou, não! Isso não significa que o homem não esteja livre de um senhor, pois, os que não estão sujeitos a Deus, estão sujeitos ao pecado.

A abordagem do capítulo 9 de Romanos, não tem em vista a salvação ou, a condenação do homem, mas, sim, a demonstração de que palavra de Deus não havia falhado (Rm 9:6). Agostinho, Lutero, Calvino, e muitos outros, com base em Romanos 9, debatem, acerca da salvação e da condenação, porém, o apóstolo Paulo estava demonstrando que, apesar de haverem muitas pessoas pertencentes a Israel, de fato elas não eram israelitas.

O fato de serem descendentes de Abraão não significava que eram filhos de Abraão (Rm 9:7), pois, em Isaque a descendência de Abraão AINDA seria chamada. Mas, se os filhos de Isaque fossem descendência de Abraão, não seria necessária a palavra de Deus a Rebeca: ‘o maior servirá o menor’, o que significa que Jacó e Esaú ainda não eram a descendência de Abraão, antes, que em Jacó seria chamada a descendência de Abraão (Rm9:12).

“Porém, Deus disse a Abraão: Não te pareça mal aos teus olhos acerca do moço e acerca da tua serva; em tudo o que Sara te diz, ouve a sua voz; porque, em Isaque será chamada a tua descendência.” (Gn21:12)

Há uma grande diferença, entre interpretar que Isaque era a descendência de Abraão e, assim, todos os seus filhos seriam bem-aventurados, entre interpretar que, em Isaque a descendência de Abraão seria chamada.

“Nem por serem descendência de Abraão, são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência.” (Rm 9:7)

O apóstolo Paulo não estava dizendo que Deus, unilateralmente, salva quem quer e condena quem quer, por ser soberano, antes, que a palavra de Deus, com relação à descendência prometida a Abraão, não havia falhado. Deus prometeu um descendente a Abraão, que viria por Isaque, o Cristo, e cumpriu a sua palavra a Abraão, quando disse: ‘Por esse tempo virei e Sara terá um filho’. (Rm 9:9)

Mas, de Isaque nasceram dois filhos: Esaú e Jacó e, de ambos, não seria chamada a descendência de Abraão, pelo que foi dito a Rebeca: ‘o maior servirá o menor’, pois havia dois povos no ventre de Rebeca. Neste caso, Deus elegeu a casa de Jacó e rejeitou a casa de Esaú, para chamar a descendência prometida a Abraão.

E qual o critério que Deus utilizou para escolher entre Esaú e Jacó? O direito de primogenitura, estabelecido conforme a sua soberania. Conclui-se que não há injustiça da parte de Deus (Rm 9:14) e que a palavra de Deus não havia falhado (Rm 9:6).

Há injustiça da parte de Deus, por ter amado a Jacó e aborrecido Esaú? De modo nenhum! Primeiro, Deus deu o que era de direito a Jacó, e, segundo, Deus manteve a sua palavra dada a Abraão, acerca do descendente!

Em momento algum, no capítulo 9 da carta aos Romanos, o apóstolo Paulo tratou de salvação ou, de perdição, antes destacou: a) como veio ao mundo o Salvador e; b) como Deus cumpriu a palavra anunciada a Abraão, acerca da descendência, que seria chamada em Isaque e que passou por Jacó.

A palavra de Deus não falhou para com Israel, visto que, no tempo presente, há um remanescente, mas segundo a eleição da graça:

“Assim, pois, também, agora, neste tempo, ficou um remanescente, segundo a eleição da graça” (Rm 11:5)

“Também, Isaías clama acerca de Israel: Ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, o remanescente é que será salvo. Porque ele completará a obra e abreviá-la-á em justiça; porque o Senhor fará breve a obra sobre a terra.” (Rm 9:27 -28).

Deus salva o homem por intermédio da mensagem do evangelho (loucura da pregação, fé), e não através da eleição, predestinação ou presciência. Os que creem (crentes) na mensagem do evangelho (loucura da pregação) são salvos, pois o evangelho é o poder de Deus para salvação dos que creem (Rm 1:16).

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1] “02623  חסיד  (chaciyd) procedente de 2616; DITAT – 698b; adj 1) fiel, bondoso, piedoso, santo 1a) bondoso 1b) piedoso, devoto 1c) os fiéis (substantivo)”, Dicionário Bíblico Strong.

[2] 02616″ חסד (chacaduma) raiz primitiva; DITAT – 698, 699; v1) ser bom, ser gentil 2a) (Hitpael), mostrar bondade para 2) ser reprovado, ser envergonhado 1a) (Piel) ser envergonhado, ser reprovado”, Dicionário Bíblico Strong.

[3] תמים 08549 (tamiym) procedente de 8552; DITAT – 2522d; adj. 1) completo, total, inteiro, são 1a) completo, total, inteiro 1b) total, são, saudável 1c) completo, integral (referindo-se ao tempo) 1d) são, saudável, sem defeito, inocente, íntegro fig. Figuradamente 1e) que está completa ou inteiramente de acordo com a verdade e os fatos (adj./subst. neutro)”, Dicionário Bíblico Strong.

[4]תמם 08552 (tamam) uma raiz primitiva; DITAT – 2522; v. 1) ser completo, estar terminado, acabar 1a) (Qal), 1a1) estar terminado, estar completo, 1a1a) completamente, totalmente, inteiramente (como auxiliar de outro verbo), 1a2) estar terminado, acabar, cessar, 1a3) estar completo (referindo-se a número), 1a4) ser consumido, estar exausto, estar esgotado, 1a5) estar terminado, ser consumido, ser destruído, 1a6) ser íntegro, ser idôneo, ser sem defeito, ser justo (eticamente), 1a7) completar, terminar 1a8) ser atravessado, completamente, 1b) (Nifal) ser consumido, 1c) (Hifil)”, Dicionário Bíblico Strong.

[5] ברר 01305 (barar) uma raiz primitiva; DITAT – 288; v 1) purificar, selecionar, polir, escolher, depurar, limpar ou, tornar brilhante, testar ou, provar, 1a) (Qal), 1a1) depurar, purificar, 1a2) escolher, selecionar, 1a3) limpar, deixar brilhante, polir, 1a4) testar, provar, 1b) (Nifal) purifi/car-se, 1c) (Piel) purificar, 1d) (Hifil), 1d1) purificar, 1d2) polir flechas, 1e) (Hitpael), 1e1) purificar-se, 1e2) mostrar-se puro, justo, bondoso”, Dicionário Bíblico Strong.

[6] פתל 06617 (pathal) uma raiz primitiva; DITAT – 1857; v. 1) torcer, 1a) (Nifal), 1a1) ser torcido, 1a2) lutar, 1b) (Hitpael), ser torcido”, Dicionário Bíblico Strong.

[7] עקש 06141 (iqqesh) procedente de 6140; DITAT – 1684a; adj. 1) torcido, deformado, torto, perverso, pervertido”, Dicionário Bíblico Strong.

[8]Faraó é a designação (título) que se atribuí aos reis (com estatuto de deuses) no Antigo Egito, porém, à época o povo os chamava por nesu (“rei”) ou neb (“senhor”). Faraó decorre da tradução grega da Bíblia, que deriva da expressão egípcia per-aá, “a grande casa”, que a tradição entende como sendo referência ao palácio real, à sede do poder, mas a expressão pode fazer referência à linhagem dos faraós.

[9] “4645 σκληρυνωs (kleruno) de 4642; TDNT – 5:1030, 816; v 1) tornar duro, endurecer 2) metáf. 2a) tornar obstinado, teimoso, 2b) ser endurecido, 2c) tornar-se obstinado ou, teimoso”, Dicionário Bíblico Strong.

[10] “07185 קשה (qashah uma raiz primitiva; DITAT – 2085; v. 1) ser duro, ser severo, ser feroz, ser cruel 1a) (Qal), 1a1) ser duro, ser difícil, 1a2) ser rude, ser severo, 1b) (Nifal), 1b1) ser maltratado 1b2) ser oprimido 1c) (Piel), ter grandes dores de parto (referindo-se a mulheres), 1d) (Hifil), 1d1) tornar difícil, criar dificuldade, 1d2) tornar rigoroso, tornar fatigante, 1d3) endurecer, tornar obstinado, tornar teimoso, 1d3a) referindo-se a obstinação (fig.), 1d4) demonstrar teimosia”, Dicionário Bíblico Strong.

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Eleição e Predestinação

Pela onisciência Deus conhece (saber) todos os salvos e todos os perdidos em todos os tempos. Entretanto, há aqueles que Deus nunca conheceu (nunca foram um com Ele) e estes irão para o fogo eterno (Mt 7:23) e há aqueles que conhecem a Deus, ou antes, são conhecidos d’Ele, ou seja, são um com Ele e são salvos (Gl 4:9).


“Porquanto, aos que de antemão conheceu, também, os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Romanos 8:29 -30)

Os fins da predestinação

É consenso entre os estudiosos pensar a predestinação tendo o homem como fim imediato, isso porque, na sua grande maioria, entendem que, através da predestinação, Deus concede salvação aos homens.

Apesar de inúmeros textos bíblicos rezarem que Deus salva o homem por meio  do evangelho, que é poder de Deus para salvação de todo que crê (Rm 1:16), simplesmente, ignoram a verdade e se agarram a algumas teorias teológicas.

Sem embargo, os apóstolos afirmam, com todas as letras, que Deus, segundo a sua misericórdia, salva o homem pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo, ou seja, pela semente incorruptível, que é a palavra de Deus (Tt 3:5).

Mesmo diante de declarações contundentes, de que Cristo Jesus aboliu a morte e trouxe à luz a vida e a incorrupção, pelo evangelho, (2 Tm 1:10; Ef 1:13; 1 Co 1:21), muitos insistem em afirmar que a salvação se dá através da predestinação.

 

O fim imediato da predestinação está vinculado a Cristo

Na Antiga Aliança, os primogênitos tinham direito a vários privilégios, em relação aos demais irmãos, pois, a eles, pertencia a bênção, o principado, o sacerdócio, porção dobrada da herança, etc. Em virtude de ter nascido primeiro, em relação aos demais irmãos, o primogênito detinha a preeminência em tudo.

Semelhantemente, Cristo é o primeiro a ressurgir dentre os mortos e, por isso, foi declarado primogênito dentre os mortos (Cl 1:18; Ap 1:5). Ao ressurgir dentre os mortos, Cristo conduziu muitos filhos à glória de Deus (Hb 2:10), de modo que Aquele que foi introduzido no mundo, na condição de Unigênito, agora é primogênito entre muitos irmãos.

Mas, para Cristo ser primogênito entre muitos irmãos, cada irmão, necessariamente, deve ser semelhante a Ele, pois, só é irmão aquele que participa das mesmas coisas (Hb 2:14). Cristo, para chamar os homens de irmãos, teve de participar da carne e do sangue (Hb 2:11-14), semelhantemente, os homens, para chamarem o Cristo glorificado de irmão, necessitam ser participantes de Sua glória.

A solução dessa equação está na predestinação! Na eternidade, antes de haver mundo, Deus estabeleceu que todos os homens salvos por intermédio do evangelho estão predestinados a serem conforme a imagem de Cristo, com o único objetivo de Ele ser o primogênito entre muitos irmãos.

Ao ser gerado de novo, através da semente incorruptível, o novo homem em Cristo faz parte da geração eleita, ou seja, eleito antes da fundação do mundo, para ser santo e irrepreensível diante de Deus (Ef 1:3).

Isso significa que Deus não elegeu indivíduos para serem santos e irrepreensíveis, mas, elegeu a geração de Cristo. Se Deus tivesse elegido indivíduos a escolher, a escolha recairia sobre os descendentes da geração imunda e culpável, segundo a semente corruptível de Adão. Entretanto, Deus elegeu a descendência de Cristo, o último Adão, pois os homens gerados segundo Cristo, são criados em verdadeira justiça e santidade, ou seja, santos e irrepreensíveis.

Como a geração de Cristo é eleita, significa que todos os que são gerados de novo, pela verdade do evangelho, sem exceção, também são predestinados a serem semelhantes a Cristo (1 Jo 3:1-2). Através da predestinação, todos os salvos pela misericórdia de Deus, demonstrada por intermédio do evangelho, terão a mesma imagem do homem celestial: Cristo (1 Co 15:49).

O evangelho foi anunciado para a salvação e a predestinação estabelecida para a imagem. O evangelho é semente incorruptível que trás à existência novas criaturas e são eleitos por terem sido de novo gerados segundo o último Adão, o eleito de Deus.

A eleição e a predestinação estão em conexão com a aprovação régia que Deus propusera em Si mesmo na pessoa de Cristo de, na plenitude dos tempos, tornar a congregar em Cristo todas as coisas, tanto as do céu quanto as da terra (Ef 2:9-10).

Nos céus, Cristo foi elevado à posição de cabeça da Igreja (Ef 1:22), e na terra à posição de mais sublime (Sl 89:27). Ao eleger Abraão, Deus congregou as coisas da terra em Cristo, e no Descendente prometido a Abraão, Cristo, Deus congregou as coisas dos céus.

“E sujeitou todas as coisas a seus pés e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja” (Ef 1:22);

“Também o farei meu primogênito mais elevado do que os reis da terra” (Sl 89:27)

Segundo o conselho da Sua vontade, o propósito de Deus estabelecido em Cristo foi levado a efeito quando Ele se assentou à destra da Majestade nas Alturas, na posição de cabeça da Igreja, Primogênito entre muitos irmãos.

Agora, Cristo está aguardando que todos os seus inimigos sejam postos por escabelo dos seus pés (Sl 110:1), quando Ele se levantará para reger as nações da terra, assentado sobre o trono de Davi, seu pai, como o mais elevado do que os reis da terra.

Mas, como é ser semelhante a Cristo? Segundo o apóstolo João, ainda não é manifesto como haveremos de ser, mas uma coisa é certa: quando Cristo se manifestar seremos semelhantes a Ele! (1 Jo 3:2)

 

O fim mediato da predestinação em relação aos homens

Na eternidade, Deus decretou que a geração de Cristo, além de ser santa e irrepreensível, visto que nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, todos os gerados d’Ele serão conformes à imagem de seu Filho.

É impossível Deus escolher os descendentes da carne de Adão, pois todos, juntamente, se desviaram e se fizeram imundos. Mas, por intermédio de Cristo, o homem, segundo Adão, que ouve a mensagem do evangelho e crê, morre e é sepultado com Cristo e, em seguida, ressurge uma nova criatura, santa e inculpável, predestinada a ser conforme a imagem de Cristo.

Tanto a eleição quanto a predestinação, estão relacionados à nova criatura, ou seja, àquele que está em Cristo. Por conseguinte, aquele que está em Cristo conhece a Deus e é conhecido d’Ele. É ‘conhecido’ de Deus, por estar intimamente ligado a Ele, ou seja, se fez um só corpo com Ele.

O fim imediato da eleição e da predestinação é a preeminência de Cristo, sendo que, na eternidade, a geração de Cristo foi eleita e predestinada a ser conforme a imagem de Cristo, segundo a vontade de Deus. Tanto a eleição, quanto a predestinação, foram levadas a efeito, quando da vinda da existência ao mundo das novas criaturas, que são criadas segundo o mesmo poder de Deus, manifesto em Cristo.

As benesses da eleição e da predestinação são herdadas no nascimento do cristão, de modo que, ser santo e irrepreensível  conforme a imagem de Cristo, não resulta de obras realizadas pelo crente, antes, tais benesses foram concedidas em Cristo, antes dos tempos dos séculos, segundo o próprio propósito de Deus: fazer Cristo preeminente em todas as coisas.

“Que nos salvou e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça, que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos dos séculos” (2 Tm 1:9).

Quanto à salvação, a eleição e a predestinação não têm um fim, e sim, a misericórdia e a graça de Deus, concedidas pelo evangelho.

A misericórdia de Deus é manifesta à humanidade na encarnação de Cristo, que concede salvação a todos que n’Ele creem. O evangelho que concede salvação aos que creem foi anunciado, primeiramente, a Abraão (Gl 3:8) e hoje o evangelho é anunciado como o mandamento de Deus.

“Mas a seu tempo manifestou a sua palavra pela pregação que me foi confiada, segundo o mandamento de Deus, nosso Salvador” (Tt 1:3);

“Mas que se manifestou agora e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações, para obediência da fé” (Rm 16:26).

O mandamento de Deus é dado a todas as nações, para que obedeçam ao evangelho, a fé que uma vez foi dada aos santos (Jd 1:3).

“Mas nem todos têm obedecido ao evangelho; pois Isaías diz: SENHOR, quem creu na nossa pregação?” (Rm 10:16);

“Porque já é tempo que comece o julgamento pela casa de Deus; e, se primeiro começa por nós, qual será o fim daqueles que são desobedientes ao evangelho de Deus?” (1 Pd 4:17).

“Como labareda de fogo, tomando vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo” (2 Ts 1:8).

O mandamento do evangelho é crer em Cristo (1 Jo 3:23), a obra que o homem precisa realizar para se tornar servo de Deus (Jo 6:29). Só ama a Deus quem cumpre o seu mandamento, de modo que quem crê em Cristo, verdadeiramente amou a Deus.

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai,  eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21);

“Pois o mesmo Pai vos ama, visto como vós me amastes e crestes que saí de Deus (Jo 16:27).

O evangelho é mandamento de Deus que demanda obediência. Quem obedece ao evangelho de Cristo não tem medo, pois o medo decorre da penalidade imposta ao desobediente (1 Jo 4:18).

Diante do evangelho de Cristo, o homem não pode ficar passivo. A ordem é: – “Entrai pela porta estreita” (Lc 13:24); “Operai a vossa salvação com temor e tremor” (Fl 2:12).

Com o homem efetua a própria salvação? O homem é salvador de si mesmo? É claro que não! Deus providenciou salvação poderosa a todos os homens na casa de Davi quando enviou Cristo ao mundo.

Quem obedece a Cristo ‘salvar-se-á’, pois o ‘temor’ diz do mandamento de Deus e o ‘tremor’ da obediência à sua palavra.

“Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á,  entrará, sairá e achará pastagens” (Jo 10:9).

O fim da fé, ou seja, o objetivo do evangelho é a salvação do homem:

“Alcançando o fim da vossa fé, a salvação das vossas almas” (1 Pd 1:9).

O fim da predestinação é a primogenitura de Cristo, pois, por ela, os homens são constituídos conforme a imagem de Cristo, portanto, o fim da predestinação não é a salvação.

O termo grego τελος, transliterado telos e traduzido por ‘fim’, no contexto, tem o sentido de propósito, objetivo. O termo πιστις, transliterado pistis e traduzido por ‘fé’, no contexto significa ‘verdade’, ‘fidelidade’, ‘lealdade’, em substituição ao termo ‘evangelho’, que é a ‘fé’ anunciada em todo o mundo (Rm 1:8).

A ‘fé’ deve ser anunciada a todas as gentes e obedecida (Rm 1:5), pois ela é o dom de Deus, por meio da qual o homem é salvo.

“Porque, pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Ef 2:8);

“Pelo qual, recebemos a graça e o apostolado, para a obediência da entre todas as gentes pelo seu nome (…) Primeiramente, dou graças ao meu Deus por Jesus Cristo, acerca de vós todos, porque, em todo o mundo, é anunciada a vossa (Rm 1:5 e 8).

É por meio do evangelho de Cristo que o homem é salvo, de modo que, aos não crentes não se prega eleição ou predestinação mas, sim, o evangelho, a palavra da redenção, que é poder de Deus para salvação.

“E nos impedem de pregar aos gentios as palavras da salvação, a fim de encherem sempre a medida de seus pecados; mas a ira de Deus caiu sobre eles até ao fim” (1 Ts 2:16).

“E os que estão junto do caminho, estes são os que ouvem; depois vem o diabo e tira-lhes do coração a palavra, para que não se salvem, crendo (Lc 8:12).

Deus não escolheu e nem predestinou indivíduos para a salvação, pois é contraditória a concepção de que Deus deseja que todos se salvem e, no entanto, escolhe e predestina somente alguns para a salvação. Salvar a humanidade é desejo de Deus por sua graça e misericórdia, tanto que deu o Seu Filho Unigênito, no entanto, para ser salvo o homem precisa se tornar um com a verdade, crendo.

“Que quer que todos os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade” (1 Tm 2:4);

“Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que o Filho e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6:40).

É imprescindível ao homem ‘conhecer’ a verdade, por dois motivos:

  1. Primeiro, para ser salvo, e;
  2. Em segundo lugar, para ser eleito e predestinado.

Pois só é predestinado a ‘serem conformes à imagem’ de Cristo, para que Ele seja o Primogênito entre muitos irmãos, aqueles que O conheceram, ou seja, que se fizeram um corpo com Cristo, a verdade que liberta (Jo 8:32). Mesmo Deus querendo salvar todos os homens, o meio de salvá-los não é através da Sua soberania, e sim, através da palavra da verdade!

Há um equívoco que perdura entre os teólogos, de que o termo grego προγινοσκω (proginosko), traduzido por ‘dantes conheceu’ significa ‘ter conhecimento de antemão’, ‘prever’, ‘predestinar’.

Entretanto, o termo, no contexto, foi utilizado como expressão idiomática judaica, indicando comunhão intima, quando o homem e a mulher se tornam uma só carne. São predestinados somente os que se tornaram um com o Pai e o Filho, ou seja, que ‘conhecem’ a Deus (Jo 17:21).

Somente os que se tornam uma só carne com Cristo, ou seja, os que amam a Deus, crendo que Jesus é o Cristo, também foram predestinados para serem conformes à imagem de seu Filho (Rm 8:29).

Deus é onisciente, ou seja, igualmente conhecedor de todas as coisas, quer seja do passado, quer do presente ou, do futuro. Ao dizermos que Deus é presciente, estabelecemos uma subdivisão da onisciência, que tolhe a compreensão acerca desse atributo de Deus. Deus anuncia de antemão, por intermédio dos seus profetas, eventos futuros, o que se dá pela sua onisciência e não pela sua presciência.

Pela onisciência Deus conhece (saber) todos os salvos e todos os perdidos em todos os tempos. Entretanto, há aqueles que Deus nunca conheceu (nunca foram um com Ele) e estes irão para o fogo eterno (Mt 7:23) e há aqueles que conhecem a Deus, ou antes, são conhecidos d’Ele, ou seja, são um com Ele e são salvos (Gl 4:9).

A má leitura de alguns versos impera, quando homens torcem a verdade exposta pelos apóstolos, com o objetivo de exporem uma doutrina contrária ao evangelho.

Por exemplo, leem 1 Pedro 1, verso 2 (“Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas.”), como se Deus elegeu alguns segundo a sua ‘presciência’. No entanto, o apóstolo Pedro estava enfatizando que os cristãos são eleitos segundo o anunciado de antemão pelos profetas (presciência), conforme expresso nos versos 10 a 12 do mesmo capítulo (1Pe 1:10 -12).

Os cristãos são designados ‘eleitos’, segundo o anunciado de antemão pelos profetas, santificados pela palavra de Cristo, vez que as palavras de Cristo são espírito e vida, sendo necessária aos cristãos a obediência, para serem purificados:

“… eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo” (1 Pe 1:2).

Ao escrever aos Tessalonicensses, o apóstolo Paulo expressa a mesma verdade:

“… porque Deus vos escolheu[1], desde o princípio, para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade” (2 Ts 2:13).

O verso não trata de uma ‘escolha’ para ser salvo, antes pela santificação do evangelho (vez que o crente é ministro do espírito) e pela crença (fé) na verdade, os cristãos foram tomados como propriedade (herança) de Deus, desde o princípio, para a salvação (Ef 1:11 e 14), pois a salvação é o fim da fé (verdade).

O objetivo fim da predestinação é a preeminência de Cristo, mas, só os que se fizeram um corpo com Cristo (conheceram), são predestinados (Rm 8:29). Porém, os predestinados também foram eleitos, ou seja, foram feitos santos e irrepreensíveis (Ef 1:3).

Contudo, para ser predestinado e eleito, primeiro Deus declara justo o novo homem que ressurge com Cristo, porque, para ser justificado, é necessário ao homem morrer com Cristo, quando por intermédio do evangelho, o homem torna-se participante da carne e do sangue de Cristo (Rm 4:25; Rm 6:7; Jo 6:55).

Mas, para o crente ser justificado, eleito e predestinado, primeiro teve que ser glorificado, tornando-se um só corpo com Cristo, ou seja, conhecendo a Cristo. O crente é glorificado quando ressurge dentre os mortos com Cristo, pois, sofreu com Cristo, para ser participante da glória da sua ressurreição (Rm 8:17; Cl 2:12; Cl 3:1).

Os que estão em Cristo são templos de Deus, ou seja, conhecidos de Deus, membros do Seu corpo, concomitantemente, também, estão destinados a serem conforme a imagem de Cristo, quando se revelarem os filhos de Deus (Rm 8:19).

Mas, para fazerem parte do propósito eterno que Deus estabeleceu em Cristo, de fazê-Lo preeminente em todas as coisas, através do poder que há no evangelho, para salvação do que crê, Deus glorificou os que creram, ressuscitando-os com Cristo e os declarou justos, livres de condenação!

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1] “138 αιρεομαι haireomai provavelmente semelhante a 142; TDNT – 1:180,27; v 1) tomar para si, preferir, escolher 2) escolher pelo voto, eleger para governar um cargo público”, cf. Dicionário Bíblico Strong.

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A essência da doutrina da predestinação

Deus nunca vinculou a perdição ou a salvação como destino dos homens, antes vinculou a salvação e o destino ao caminho no qual estão, por isso ninguém está predestinado à salvação ou à perdição.


“E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial” (1 Co 15:49)

Ao abrir a madre todos os homens estão predestinados a serem conforme a expressa imagem de seus pais, daí a base da premissa do apóstolo Paulo: ‘… trouxemos a imagem do terreno…’ (1 Co 15:49).

Antes de todos os homens nascerem, já estava determinado qual imagem teriam: a imagem dos seus pais! Ninguém escapa ao que está preordenado, acerca da imagem que os pais transmitem aos seus filhos.

Semelhantemente, assim como todos estão predestinados a herdarem a expressa imagem dos seus pais, em Cristo, também estão predestinados a serem conforme a expressa imagem de Cristo.

Sobre esta verdade, declara o apóstolo Paulo, que Deus predestinou ‘para serem conforme a imagem de seu Filho’, todos   os que creem em Cristo, através da mensagem do evangelho  (Rm 8:29), de modo que todos os que são de novo nascidos, passam a ter a imagem do homem celestial, que é Cristo.

A afirmação de que todos quantos abrem a madre estão predestinados a serem conforme a imagem dos seus pais, remete a Adão, o primeiro homem. Quando Deus criou Adão, ele foi feito alma vivente e, por serem descendentes dele, todos os homens foram feitos almas viventes, de posse da imagem que Adão foi criado.

De Jesus Cristo, o Senhor, é dito que Ele é o último Adão, espírito vivificante e homem celestial. Por intermédio do evangelho, a semente incorruptível, todos os que são de novo gerados, são celestiais e conforme a imagem de Cristo.

A essência da predestinação bíblica vem expressa nestes versos:

“Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante. Mas não é primeiro o espiritual, senão o natural; depois o espiritual. O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o SENHOR, é do céu. Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais, também, os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial” (1 Co 15:45-49).

Da mesma forma que é impossível os filhos não compartilharem da mesma imagem dos pais, essa impossibilidade se estende aos homens ‘celestiais’. Por causa desta impossibilidade, de ‘terrenos’ e ‘celestiais’ não se desvincularem da imagem que herdam ao nascer, é dito que estão ‘predestinados’.

O verbo grego traduzido por ‘predestinar’ é προορίζω (proorizó), que significa predeterminar, decidir de antemão e foi utilizado nas seguintes passagens bíblicas: Atos 4:28, 1 Corintios 2:7, Romanos 8:29 e Efésios 1:5 e 11.

Ao criar o homem, Deus estabeleceu que os descendentes de Adão seriam conforme a imagem de Adão. Neste quesito, diz-se que Deus ‘προορίζω’, ou seja, deixou estabelecido, preordenou, traçou limites, antes de os descendentes de Adão virem à existência, qual imagem teriam: a imagem do homem terreno.

Por que Deus estabeleceu, de antemão, que a imagem dos celestiais seria conforme a imagem de Cristo, o homem celestial?

O motivo pelo qual os celestiais são conforme a imagem dos celestiais é claro e especifico: para que Jesus Cristo seja o primogênito de Deus entre muitos irmãos!

“Porque os que dantes conheceu, também, os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Rm 8:29).

 Jesus foi introduzido no mundo na condição de unigênito de Deus, mas, ao ressurgir dentre os mortos, tornou-se o primogênito de Deus. Por quê? Porque, com Cristo, ressurge uma nova criatura todo aquele que crê na verdade do evangelho. Ao crer em Cristo, o homem morre, é sepultado e ressurge uma nova criatura, criada segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade, conforme a imagem de Cristo, para que Ele seja primogênito entre muitos irmãos.

Por intermédio de Cristo, o homem alcança a imagem e semelhança de Deus (Gn 1:26), pois, Cristo é a expressa imagem do Deus invisível, o primogênito de toda Criação e os que creem são feitos à sua expressa imagem e semelhança: “O qual é a imagem do Deus invisível, o primogênitos de toda a criação” (Cl 1:15).

“Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que haveremos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é, o veremos” (1 Jo 3:2).

A predestinação dos que creem, para serem semelhantes a Cristo, visa satisfazer o propósito eterno que Deus estabeleceu em Cristo: a preeminência de Cristo em tudo.

O mistério da vontade Deus, diz do beneplácito proposto em Si mesmo, que é tornar a reunir em Cristo todas as coisas!

“E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência” (Cl 1:18);

“Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo, de tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus, como as que estão na terra” (Ef 1:9-10).

A predestinação bíblica é funcional, pois visa o propósito eterno de Deus estabelecido em Cristo: exaltá-lo soberanamente!

“Por isso, também, Deus o exaltou soberanamente e lhe deu um nome que é sobre todo o nome” (Fl 2:9).

Na cultura greco-romana encontramos a concepção fatalista e na cultura grega antiga, temos os mitos, como as Moiras e o estoicismo entre os gregos e romanos.

Essa concepção fatalista acabou por influenciar pensadores cristãos, de modo a pensar que todos os eventos são arquitetados por Deus, ao que nomeiam predestinação, diferenciando do fatalismo, pelo fato de não recorrer a nenhuma ordem natural.

Vale destacar que as correntes filosóficas como o ‘fatalismo’ e a ‘predestinação’ diferem do determinismo, ‘teoria filosófica de que todo acontecimento (inclusive o mental) é explicado pela determinação, ou seja, por relações de causalidade’ Wikipédia.

Enquanto a Bíblia apresenta a predestinação, relacionada com o propósito eterno que Deus estabeleceu na pessoa de Cristo, alguns teólogos, como Agostinho de Hipona e João Calvino, influenciados pelo pensamento greco-romano,  entenderam que a predestinação é doutrina que trata da salvação de alguns e da condenação eterna de outros.

Em nenhuma passagem bíblica, encontramos expresso que Deus predestinou alguém à salvação, antes encontramos que Deus predestinou aqueles que foram de novo gerados pela palavra da verdade, para serem conforme a imagem de Cristo (Rm 8:29). O novo homem, por ser gerado de Deus, alcança a mesma imagem de Cristo, além de ser herdeiro com Ele de todas as coisas.

Quando escreveu aos cristãos de Éfeso, o apóstolo Paulo enfatiza que Deus havia predestinado os cristãos a serem filhos por adoção, o que indica qual é a condição e natureza dos cristãos (Ef 1:5). O objetivo da predestinação, na qual os cristãos são feitos herança, visa o louvor da glória de Deus (Ef 1:11-12), não a salvação.

Uma má leitura do versículo 5, do capítulo 1, da carta de Paulo aos Efésios, dá conta que Deus predestinou os não crentes a serem salvos, porém, o apóstolo diz que Deus predestinou por adoção os santos e fiéis em Cristo, que estavam na cidade de Éfeso, a serem filhos (Ef 1:1).

Quando disse: ‘E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo…’, o apóstolo Paulo utilizou o pronome na primeira pessoa do plural: ‘nos’ (ἡμᾶς), indicando que tanto ele quanto os cristãos estavam predestinados, uma das bênçãos espirituais com que foram abençoados.

“E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor e glória da sua graça” (Ef 1:5-6)

É em Cristo que os cristãos são santos e fiéis. É em Cristo que os crentes foram abençoados, com todas as bênçãos espirituais. É em Cristo que os cristãos são eleitos e predestinados! Mas, como os cristãos passaram a estar em Cristo? Quando creram, ao ouvirem “a palavra da verdade, o evangelho da ‘vossa’ salvação” (Ef 1:13).

Os calvinistas e arminianistas erram o público alvo da predestinação, ao entenderem que esta se refere a não crentes em Cristo, sendo que o apóstolo Paulo aponta para a condição dos que creram em Cristo, em decorrência de uma das bênçãos concedidas: a predestinação.

Esperar de antemão (προελπιζω) em Cristo é o mesmo que ser conhecido (προέγνω) de Deus. O único modo de alcançar a salvação em Cristo é crendo no evangelho. Os que esperam em Cristo é porque creram no evangelho. Os que são conhecidos de Deus são aqueles que cumprem o seu mandamento, que é crer em Cristo (1 Co 8:3; 1 Jo 2:3).

Observe:

“Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido dele” (1 Co 8:3);

“E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8:28).

O que concede salvação ao homem é crer no evangelho, que é poder de Deus para salvação (Rm 1:16) e não a predestinação, que concede a imagem de Cristo aos que são salvos pelo evangelho.

“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu e também do grego” (Rm 1:16);

“Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” (Ef 1:13).

A fórmula para a salvação em Cristo, está expressa nos seguintes termos:

“Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, a saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que, com o coração se crê para a justiça e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido” (Rm 10:8-11).

A Bíblia deixa claro que quem invocar a Cristo será salvo! A salvação em Cristo não segue o viés fatalista que é próprio ao pensamento greco-romano! Ninguém abre a madre predestinado à salvação, antes, ao nascer, entra por uma porta larga, que dá acesso a um caminho largo, cujo destino é a perdição.

O caminho que os homens trilham, quando vem ao mundo, está atrelado à perdição, pois entraram por uma porta larga quando nasceram: Adão. Já o caminho que os gerados de novo trilham está atrelado à salvação, por isso a necessidade de entrar por Cristo, a porta estreita.

Deus nunca vinculou a perdição ou a salvação como destino dos homens, antes vinculou a salvação e o destino ao caminho no qual estão, por isso ninguém está predestinado à salvação ou à perdição.

Todos os homens, quando vêm ao mundo, estão predestinados a serem conforme a imagem de Adão e essa verdade não podem mudar. Entretanto, todos os homens que entrarem no mundo estão em um caminho de perdição e essa condição só pode ser alterada, desde que os homens nasçam novamente.

Nenhum homem escolhe entrar pela porta larga, visto que todos os homens, ao virem ao mundo, entram por ela. A todos que entraram no mundo por Adão e que estão seguindo para a perdição, através do evangelho é ofertada a oportunidade de serem gerados de novo, entrando por Cristo, a porta estreita e o último Adão.

Ao nascer de novo, o homem se livra da condenação, que é próprio ao caminho largo, e atrelado à salvação em Cristo, torna-se participante da natureza divina, predestinado a ser conforme a expressa imagem de Cristo.

Embora ainda não seja manifesto o que haveremos de ser, contudo sabemos que seremos semelhantes a Cristo (1 Jo 3:2), pois o motivo da predestinação bíblica repousa no fato de que Cristo é o primogênito entre muitos irmãos semelhantes a Ele:

“O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o SENHOR, é do céu. Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais também os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial” (1 Co 15:45-49).

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Predestinação e Livre-Arbítrio

Vincular indivíduos a destinos, antes mesmo de nascerem, é pensamento contrário às Escrituras, pois a Bíblia evidencia que os destinos estão vinculados aos caminhos. Se alguém nascido da carne e do sangue (Adão) não tomar a decisão de acatar o convite de Deus, será conduzido pelo caminho largo à perdição, mas qualquer que nascer do espírito (último Adão), acatando o convite de Deus, estará no caminho estreito (Cristo), que conduz o homem a Deus.


Predestinação e Livre-Arbítrio

“Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais também os celestiais” (1 Coríntios 15:48 ).

Introdução

É tão espantosa a quantidade de textos sobre predestinação e livre-arbítrio,[1] que o argumento inicial se restringe em afirmar que o tema é de difícil explicação ou é um problema insolúvel.

Invariavelmente, os artigos sobre predestinação e livre-arbítrio, quando começam com as razões acima, somente conduzirão o leitor a rever posições doutrinárias de alguns teólogos do período da reforma protestante e, ao final, não apresentará uma resposta segura ao tema, além de introduzir muitas dúvidas.

É recorrente afirmar que o assunto tem sido objeto de inúmeras discussões ao longo da história do cristianismo, porém, o que se vê não é discussão, mas a imposição de ideias que se sagraram sob o rótulo de ‘escriturísticas’, ou seja, não podem ser questionadas.

No entanto, vale destacar que, se determinado assunto das Escrituras possui duas correntes doutrinárias, certamente uma delas é anti-bíblica ou, ambas são anti-bíblicas, pois o modelo das sãs palavras do evangelho não comportam duas vertentes sobre o mesmo tema: Conserva o modelo das sãs palavras que de mim tens ouvido, na fé e no amor, que há em Cristo Jesus” (2Tm 1:13) .

Considerar que a Bíblia comporta duas doutrinas contraditórias e que ambas possuem fundamento bíblico é tendência de cunho humanista[2], portanto, contraria as Escrituras, pois o próprio Senhor Jesus não teve tal autonomia: “E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai me tem dito (Jo 12:50).

O evangelho de Cristo não possui várias vertentes e nem comporta várias interpretações. O substantivo grego πίστις, transliterado pistis e traduzido por ‘fé’, foi utilizado pelo apóstolo Paulo para fazer referência ao evangelho como ‘unidade’, um corpo de doutrina que não comporta várias vertentes: “Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo” (Ef 4:13).

Qualquer doutrina à margem do evangelho de Cristo é anátema. Nenhuma celebridade, pastor, teólogo, etc., mesmo sendo uma personalidade histórica, não detém autoridade para postular uma doutrina ou uma interpretação que assuma o valor de doutrina bíblica, nem mesmo o apóstolo Paulo: “Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho, além do que já vos tenho anunciado, seja anátema. Assim, como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo. Se alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema” (Gl 1:8 -9).

Aos que contestavam a ressurreição dentre o mortos, argumentou o apóstolo Paulo: “Se, como homem, combati em Éfeso contra as bestas, que me aproveita isso, se os mortos não ressuscitam? Comamos e bebamos, que amanhã morreremos” (1Co 15:32). Essa argumentação também serve para muitos seguimentos doutrinários, pois se há predestinação para salvação, que aproveita o combate em defesa do evangelho?

“Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos” (Jd 1:3).

 

Calvinismo versus Arminianismo

O maior obstáculo à compreensão da doutrina da predestinação e do livre-arbítrio, foi estabelecido por dois teólogos: João Calvino e Jacob Armínio.

Diante das doutrinas de Calvino e de Armínio, alguns teólogos afirmam que a doutrina calvinista é antagônica à doutrina arminianista, entretanto, quando analisadas, ambas as doutrinas derivam do mesmo erro: entender que Deus escolhe e predestina quem vai ser salvo ou não.

A discussão sobre a soberania de Deus e o livre-arbítrio do homem, mediante perspectivas arminianistas e calvinistas, realmente demonstra que tais correntes são inconciliáveis, para não dizermos, paradoxais.

A Bíblia ensina que qualquer que invocar o Senhor será salvo (Jl 2:32; At 2:21; Rm 10:13), e não faz referência à soberania de Deus e nem à sua onisciência. O profeta Isaias destaca que as mãos de Deus não estão encolhidas para que não possa salvar e nem agravados os seus ouvidos (Is 59:1). Por que não encontramos um texto bíblico onde é enfatizado que Deus é soberano para salvar? Por que não é enfatizado que Deus salva por sua onisciência? Por que a Bíblia enfatiza o perdão, a misericórdia e a benignidade de Deus, em vez da soberania e da onisciência?

“Mas contigo está o perdão, para que sejas temido” (Sl 130:4);

“TEM misericórdia de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; apaga as minhas transgressões, segundo a multidão das tuas misericórdias” (Sl 51:1).

É incrível o empenho de muitos em propagar o calvinismo e o arminianismo, mesmo quando se reconhece várias discrepâncias de tais sistemas doutrinários com as Escrituras. Por que enfatizar que essas doutrinas são escrituristicas, se ambas são inconciliáveis e, como alguns dizem, cercadas de riscos, pois podem levar os seus seguidores ao extremismo?

 

Pensamento dos gregos

É notório que a filosofia grega influenciou largamente teólogos, padres e pastores ao longo da história da igreja.

O platonismo tornou-se referência de pensadores como Agostinho, Boécio, João Escoto Erígena e Boaventura de Bagnoregio e o aristotelismo, de pensadores da estirpe de Tomás de Aquino.

Sem nos atermos às influências do pensamento grego no cristianismo, vale lembrar que, na mitologia grega, havia uma entidade cega, Moros, em grego Μόρος, o deus da sorte e do destino. Esse deus não via a quem reservava o futuro, porém, o futuro reservado, quer dos deuses ou dos mortais, era inescapável.

A mitologia grega vinculava deuses e mortais a um destino, pois o deus ‘Destino’ ditava os acontecimentos, e até mesmo Zeus não podia evitar o seu destino. Vários mitos gregos evidenciam o caráter fatalista[3] da cultura grega antiga, fatalismo que se vê também entre os filósofos estoicos e os romanos.

O pensamento da cultura grega e os seus mitos, destoam completamente do pensamento bíblico, pois vinculam deuses e homens a um destino.

Através da parábola dos dois caminhos, Jesus evidencia que os homens não tem um destino pré-estabelecido, pois a parábola apresenta os caminhos atrelados a um destino, e não homens atrelados a determinados destinos.

“Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição e muitos são os que entram por ela; E porque estreita é a porta e apertado o caminho que leva à vida, poucos há que a encontram” (Mt 7:13-14)

Existem somente dois caminhos e cada qual está vinculado a um destino: o caminho largo está vinculado à perdição e o caminho estreito vinculado à salvação. Segundo essa perspectiva, nenhum homem está diretamente vinculado a um destino, mas, sim, à porta por onde entrou.

Há duas portas, sendo uma larga e a outra estreita. Para entrar pela porta estreita, é necessário nascer de novo; de modo semelhante, é através do nascimento natural que o homem entra pela porta larga.

Jesus é a porta estreita – o último Adão -, semelhantemente Adão, o primeiro homem, é a porta larga, por quem os homens entram no mundo.

Quando os homens nascem (vêm ao mundo), entraram por Adão (a porta larga) que os deixa em um caminho largo, que conduz à perdição. Todos os homens, ao nascerem, entram no mundo por Adão (nascidos do sangue, da vontade da carne e da vontade do varão), uma porta larga que não lhes foi dada a oportunidade de escolher entrar, mas que dá acesso a um caminho de perdição.

A escolha que trouxe o caminho de perdição acessível a toda humanidade foi realizada por Adão, quando comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Adão fez uma escolha que afetou a condição de todos os seus descendentes, desde o nascimento: portanto, os homens nascem de uma porta larga (Adão) e trilham um caminho que, apesar de não terem escolhido, os conduzirá à perdição (Sl 58:3).

Os ensinamentos bíblicos e o pensamento grego são antagônicos, pois este se pauta pelo fatalismo, enquanto que, aquele, pelo propósito eterno de Deus. Nenhum homem veio ao mundo (nasceu) destinado ao céu ou ao inferno. Enquanto a cultura grega tinha um pensamento fatalista, Jesus esclarece que todos os homens não possuem um destino pré-estabelecido.

Longe de Deus destinar alguém à perdição, sob o argumento de sua soberania. Ninguém que entra por Adão no mundo está, ou esteve, predestinado à perdição, no sentido grego (fatalismo). Quando Adão pecou e afetou todos os seus descendentes com a sua decisão, Deus anunciou ao casal, que estava sendo expulso do Éden, redenção, através da semente da mulher, a todos os homens.

Os homens entram no mundo sem exercerem uma escolha, ou seja, ninguém que nasceu ou nascerá no mundo, escolheu entrar pela porta larga, mas, uma vez no mundo, é anunciada uma oportunidade de redenção, o que torna possível uma decisão por parte do homem que o livrará da condenação.

Não cabe ao homem no mundo uma escolha para decidir o seu destino, pois essa escolha já foi realizada por Adão. Agora, cabe ao homem, uma decisão, pois já está em um caminho que o conduz a perdição. Daí a ordem: “Entrai pela porta estreita…” (Mt 7:13).

O homem entra por Cristo (porta estreita) quando nasce de novo.  Para nascer de novo, basta crer com o coração, que Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos e confessar que Ele é o Filho do Deus vivo:

“A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça e com a boca se faz confissão para a salvação” (Rm 10:9-10).

Na Bíblia, a visão grega fatalista não existe, assim como qualquer outro princípio filosófico/teológico semelhante, como o determinismo.

O posicionamento bíblico acerca da salvação e da perdição, está bem delineado nas palavras que Deus disse a Ezequiel:

“Filho do homem: Eu te dei por atalaia sobre a casa de Israel; e tu, da minha boca, ouvirás a palavra e avisá-los-ás da minha parte. Quando eu disser ao ímpio: Certamente morrerás; e tu não o avisares, nem falares para avisar o ímpio acerca do seu mau caminho, para salvar a sua vida, aquele ímpio morrerá na sua iniquidade, mas o seu sangue, da tua mão o requererei. Mas, se avisares ao ímpio e ele não se converter da sua impiedade e do seu mau caminho, ele morrerá na sua iniquidade, mas tu livraste a tua alma. Semelhantemente, quando o justo se desviar da sua justiça e cometer iniquidade, e eu puser diante dele um tropeço, ele morrerá: porque tu não o avisaste, no seu pecado morrerá; e suas justiças, que tiver praticado, não serão lembradas, mas o seu sangue, da tua mão o requererei. Mas, avisando tu o justo, para que não peque, e ele não pecar, certamente viverá; porque foi avisado; e tu livraste a tua alma” (Ez 3:17-21).

 

Perdição e salvação

A Bíblia apresenta dois caminhos, com dois destinos: salvação e perdição. De onde surgiu a concepção, eivada de malignidade, de que Deus destinou alguns homens à salvação e outros à perdição, antes mesmo de nascerem?

Vincular indivíduos a destinos, antes mesmo de nascerem, é pensamento contrário às Escrituras, pois a Bíblia evidencia que os destinos estão vinculados aos caminhos. Se alguém nascido da carne e do sangue (Adão) não tomar a decisão de acatar o convite de Deus, será conduzido pelo caminho largo à perdição, mas qualquer que nascer do espírito (último Adão), acatando o convite de Deus, estará no caminho estreito (Cristo), que conduz o homem a Deus.

O homem, por si só, não vai à perdição ou à salvação, antes é conduzido pelos caminhos, no qual se encontra:

“Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição e muitos são os que entram por ela; E porque estreita é a porta e apertado o caminho que leva à vida, poucos há que a encontrem” (Mt 7:13-14)

Se Deus determinasse, de antemão, quem seria salvo ou não, não haveria a necessidade de Cristo vir ao mundo e morrer pela humanidade. Seria contrassenso a necessidade de haver quem pregue o evangelho. Também, não seria exigível crer em Cristo.

Teríamos que considerar que os destinados à salvação nunca se perderam de fato, ou seja, nunca estiveram sujeitos ao pecado e à morte. Esses destinados à salvação, não precisariam morrer e serem sepultados com Cristo, para ressurgirem uma nova criatura.

A parábola dos dois caminhos contém um princípio cristalino, acerca da salvação, em Cristo, e da perdição, em Adão, que não deve ser ignorado, quando da leitura de outras passagens bíblicas que tratam de temas como salvação e perdição.

 

Os terrenos e os espirituais

Certo é que ‘… a morte veio por um homem, também, a ressurreição dos mortos, veio por um homem’, pois ‘… assim como todos morrem em Adão, assim, também, todos serão vivificados em Cristo’ (1Co 15:21-22).

O primeiro Adão, foi criado alma vivente e o último Adão, estabelecido como espirito que dá vida. Há uma ordem natural: primeiro é criado o homem natural, através da carne e do sangue de Adão e só então, é criado o homem espiritual, segundo a palavra do último Adão, que é espirito e vida (Jo 6:63).

O homem nascido da carne e do sangue de Adão é terreno, assim como foi Adão. Adão é da terra, portanto, carne e sangue não concedem direito aos homens de entrar no reino dos céus: “E agora digo isto, irmãos: que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdarem a incorrupção” (1Co 15:50).

É por isso que Jesus disse que os nascidos da carne é carne e os nascidos do espírito é espirito, ao evidenciarem ser necessário nascer de novo.

Os nascidos da carne e do sangue de Adão são carnais e terrenos, portanto, não podem herdar o Reino dos céus. Mas, os gerados segundo a semente incorruptível, são herdeiros do reino dos céus, pois são celestiais tal qual o Senhor, que é do céu.

Adão é a porta larga, porque todos os homens que vem ao mundo têm que entrar pela carne e o sangue de Adão. É através de Adão que entrou a morte no mundo e todos os seus descendentes morreram em Adão. Cristo é a porta estreita, porque é o último Adão e são poucos os que estão mortos em delitos e pecados que O encontram, ou seja, tornam-se participantes da sua carne e sangue.

O apóstolo Paulo, em poucas palavras, resume como, através de Adão, se deu a perdição e, como através de Cristo, o último Adão, se dá a salvação:

“Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente; o último Adão, em espírito vivificante. Mas, não é primeiro o espiritual, senão o natural; depois, o espiritual. O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o SENHOR, é do céu. Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais também os celestiais” (1Co 15:45-48).

Para salvar o que efetivamente havia se perdido, Deus enviou o Seu Filho unigênito ao mundo, conforme estabelecido nas Escrituras. É em função da promessa de que Cristo viria ao mundo, que os patriarcas e os crentes da Antiga Aliança foram salvos, pois creram que Deus haveria de enviar ao mundo o Descendente, em quem todas as famílias da terra seriam benditas.

No mundo, o Unigênito do Pai revelou o Pai aos homens e, através d’Ele, os homens puderam comprovar que Deus é fiel e verdadeiro. Cristo prosperou naquilo para o qual foi enviado (Is 53:10; Is 55:11), pois, como servo, foi obediente em tudo ao Pai, portanto, foi estabelecido como luz para os gentios: “Disse mais: Pouco é que sejas o meu servo, para restaurares as tribos de Jacó e tornares a trazer os preservados de Israel; também te dei para luz dos gentios, para seres a minha salvação até à extremidade da terra” (Is 49:6).

Para ser salvo, eis a receita:

“E há de ser que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” (Jl 2:32; Rm 10:13).

Salvação se obtém única e exclusivamente desta forma:

“… esta é a palavra da fé, que pregamos, a saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que, com o coração, se crê para a justiça e com a boca, se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido” (Rm 10:8-11).

Se houver dúvidas, observe como os cristãos de Éfeso foram salvos:

“Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” (Ef 1:13).

Para que houvesse salvação, primeiro Deus providenciou a palavra da fé e por isso foi anunciado o evangelho, primeiramente a Abraão (Gl 3:8). Na plenitude dos tempos, a ‘fé’ foi manifesta aos homens, pois sem ‘ela’ seria impossível ao homem agradar a Deus: “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” (Gl 3:23; Hb 11:6).

É através da fé – Cristo – o firme fundamento, que os homens são enviados a pregar, anunciando boas novas de salvação, pois como ouvirão se não há quem anuncie as boas novas? E, como invocarão aquele em quem não creram? (Rm 10:14-15)

É nesse sentido que a ‘fé’ precede a ‘conversão’ e o ‘novo nascimento’. Primeiro foi dada a palavra da fé – o evangelho de Cristo, que deve ser anunciado para, depois, haver arrependimento e o novo nascimento.

Não encontramos nas Escrituras Deus dizendo: – “Eu sou soberano para salvar”, ou – “Estou antevendo quem vou salvar”, antes é anunciado: – “EIS que a mão do SENHOR não está encolhida, para que não possa salvar; nem agravado o seu ouvido, para não poder ouvir” (Is 59:1), pois a mensagem é simples: “Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” (Rm 10:13).

O pronome ‘todo’ é inclusivo, ou seja, ‘qualquer’ que invocar o nome do Senhor será salvo, pois as suas mãos não estão encolhidas (Ele é poderoso para salvar) e os seus ouvidos não estão agravados.

Em momento algum Deus declara que escolherá aqueles que Ele há de salvar. Quando o tema é salvação, Deus é poderoso e está pronto para salvar a qualquer que o invocar. A salvação nem mesmo aparece na Bíblia, em conexão com a soberania e a onisciência divinas.

“O SENHOR teu Deus, o poderoso, está no meio de ti, ele salvará; ele se deleitará em ti com alegria; calar-se-á por seu amor, regozijar-se-á em ti com júbilo” (Sf 3:17).

Predestinação

Após explicar que a morte entrou no mundo e todos morreram por causa da ofensa de Adão e que a ressureição veio por meio de Cristo e por Ele serão vivificados todos os que creem (1Co 15:21-22), o apóstolo Paulo demonstra que não há diferença alguma entre Adão e os seus descendentes e que não haverá diferença nenhuma entre Cristo e os seus muitos irmãos.

Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais também os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial” (1Co 15:49).

Adão foi criado pelo Verbo eterno, assim como todas as coisas (Hb 1:10-12; Sl 102:25-27). Quando Adão foi criado, o Verbo eterno, teofanicamente, manifestou-se e formou o homem do pó da terra e, ao soprar em suas narinas, o homem tornou-se alma vivente.

Mas, qual foi a imagem que foi dada a Adão, quando formado do pó da terra? Resposta: foi concedida a Adão a imagem que Cristo deveria ter quando viesse ao mundo “… o qual (Adão) é a figura daquele que havia de vir (Cristo)” (Rm 5:14). Uma questão de lógica, pois se fosse dada outra imagem a Adão, quando Cristo viesse ao mundo, teria a mesma imagem, segundo a imagem concedida a Adão.

Nesta abordagem, não estamos evidenciando a perdição, decorrente da ofensa de Adão, mas, sim, como seria a imagem de Cristo na plenitude dos tempos, se fosse concedida outra imagem a Adão diversa da que foi dada no Éden.

Quando Deus criou Adão, todos os descendentes de Adão foram preordenados a serem tal qual Adão, pois qual o terreno, tais são, também, os terrestres.

O apóstolo Paulo explica que, assim como todos os homens são como o terreno Adão, os nascidos de novo em Cristo Jesus, quando revestidos da imortalidade, serão semelhantes a Ele (traremos também a imagem do celestial):

“Amados, agora somos filhos de Deus e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos” (1Jo 3:2).

Quando Cristo se manifestar em glória (1Jo 3:2), será possível aos nascidos de novo trazerem uma imagem diferente da imagem que Cristo, glorificado, agora possui à destra da Majestade nas alturas?

Se os crentes hão de ser semelhantes a Cristo, é impossível que os que creem em Cristo venham a ter uma imagem diversa da imagem de Cristo glorificado, e o motivo é bem claro: “… pois assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial” (1Co 15:49). A questão que o evangelista João aborda neste verso não diz da salvação em Cristo, mas da imagem que os salvos em Cristo haverão de ter quando Ele se manifestar.

Por causa de uma má leitura das Escrituras, ao longo da história da igreja, acreditou-se que a predestinação era para a salvação, porém, a predestinação é garantia de que o crente em Cristo, quando for revestido da imortalidade e incorrupção, há de ser conforme a imagem de Cristo.

Todas as vezes que o termo predestinação é utilizado na Bíblia, não aponta para a salvação em Cristo, antes aponta para a imagem, à semelhança de Cristo:

“Porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Rm 8:29).

A predestinação tem um objetivo e atende a um propósito específico: a primogenitura de Cristo! Para o propósito de Deus ser levado a efeito, se fez necessário estabelecer de antemão qual imagem seria dada aos de novo gerados, os irmãos de Cristo.

O objetivo da predestinação é que todos os que creem em Cristo sejam conforme a imagem (semelhança) de Cristo. Os irmãos de Cristo não serão como os homens e nem como os anjos, antes, todos serão tal qual Cristo é.

O propósito da predestinação foi estabelecido por Deus em Cristo (Ef 3:11), pois, quando os cristãos foram predestinados a serem semelhantes a Cristo, por sua vez, Cristo é elevado à condição de primogênito entre muitos irmãos (semelhantes).

Romanos 8, verso 29 primeiro, trata da salvação em Cristo, depois aborda a predestinação. Primeiro o apóstolo Paulo escreve acerca da salvação: “Porque os que dantes conheceu…”, e, em seguida, escreve acerca da predestinação: “… também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (v. 29).

Que erro grosseiro ler que Deus predestinou para ser salvo, sendo que está escrito que Deus predestinou para ser conforme a imagem de Cristo, ou seja, que os cristãos serão semelhantes a Ele.

O verbo grego προγινώσκω transliterado proginóskó traduzido por ‘dantes conheceu’ não se refere a ‘saber de antemão’, ‘saber previamente’, ‘ter conhecimento de antemão’. Ora, Deus é onisciente, portanto, sabedor de todas as coisas, quer seja os eventos do passado, quer seja os eventos do presente e igualmente os eventos do futuro.

É sem sentido afirmar que Deus é presciente, se Ele é onisciente. Presciência é reducionismo do atributo divino da onisciência.

O verbo grego προγινώσκω empregado no verso 29, de Romanos 8, não significa ‘saber de antemão’, antes foi utilizado para evidenciar a comunhão do crente com Deus. O termo foi utilizado para evidenciar comunhão intima com Deus, semelhante ao conhecimento que une homem e mulher em um só corpo.

O termo προγινώσκω contrapõe a ideia evidenciada pelo termo γινώσκω, quando utilizado por Cristo, ao dizer: “E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mt 7:23). Apesar de onisciente, conhecedor de todas as coisas, os praticantes da iniquidade nunca se fizeram um corpo com Cristo: “Porque somos membros do seu corpo, da sua carne e dos seus ossos” (Ef 5:30).

O apóstolo evidenciou que Deus só predestina a ser conforme a semelhança de Cristo, apenas aqueles que passaram (dantes) a ter comunhão intima (conhecer) com Deus: “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um” (Jo 17:22).

Só é conhecido de Deus aquele que ama a Deus, pois Ele mesmo disse que ‘ama aos que me amam’. “Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido dele” (1Co 8:3); “Eu amo aos que me amam, e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17). Dantes conhecer é o mesmo que, de antemão esperar em Cristo (Ef 1:12).

O sentido do termo grego amor (ágape), utilizado nestes versos, é honrar, obedecer. Portanto, só é conhecido de Deus, ou antes, Deus é conhecido de alguém, quando se guarda o seu mandamento, ou seja, quando O ama: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21); “Mas, agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” (Gl 4:9).

Só os que amam a Deus, ou seja, aqueles que se tornaram um com Ele, em Cristo estão predestinados a serem conforme a semelhança de Cristo (Jo 17:21).

Primeiro, a salvação, depois, a predestinação! Primeiro, a salvação, depois, a eleição, como se lê:

“Portanto, não te envergonhes do testemunho de nosso SENHOR, nem de mim, que sou prisioneiro seu; antes participa das aflições do evangelho segundo o poder de Deus, que nos salvou  e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça, que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos dos séculos” (2Tm 1:9).

O apóstolo Paulo destaca o evangelho, ou seja, o testemunho de nosso Senhor, que é o poder de Deus (Rm 1:16). Ora, é através do evangelho que o homem é salvo e, para isso, é necessário que haja quem pregue, para que os homens possam crer, pois como crerão se não há quem pregue?

O apóstolo Paulo recomenda a Timóteo que participe das aflições do evangelho, o poder de Deus que ‘nos salvou’, ou seja, salvou tanto o apóstolo Paulo, quanto a Timóteo (Ef 1:13).

Após salvo por intermédio do evangelho, os crentes são chamados com uma santa vocação. Assim como a predestinação, o chamado, segundo a santa vocação, tem um objetivo e atende a um propósito. O objetivo da vocação é para ser santo e irrepreensível diante de Deus (Ef 1:4). O proposito é o louvor e glória da graça que propôs convergir em Cristo todas coisas, para que em tudo Ele tenha a preeminência (Ef 1:10).

Os crentes em Cristo foram eleitos para serem santos e irrepreensíveis, porque constituem o corpo de Cristo. Como a cabeça é santa, o corpo também tem de ser, por isso, Deus elegeu os crentes em Cristo, a fim de serem santos e irrepreensíveis e Cristo alcança a preeminência, como a cabeça do corpo: “E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência” (Cl 1:18).

Ora, antes da fundação do mundo Deus elegeu a Cristo e a sua geração, dai o predicativo: geração eleita: “Mas, vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1Pd 2:9).

 

Má leitura

Muitos, quando leem: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn 1:26), entendem que Deus criou o homem para ser adorado e louvado, no entanto, Deus criou o homem, segundo o propósito que fez em Cristo, para que em tudo Cristo tivesse a preeminência e assim, os homens em Cristo, fossem louvor e glória para a sua graça.

A imagem e semelhança anunciadas no Éden, não foram dadas a Adão, antes, o que foi concedido a Adão, foi a imagem daquele que haveria de vir: a imagem de Jesus Cristo-homem.

Quando Cristo ressurgiu dentre os mortos, alcançou a imagem e a semelhança de Deus (Sl 17:15), tornando-se a expressa imagem do Deus invisível (Hb 1:3), quando a vontade de Deus, anunciada antes da criação, cumpriu-se: Cristo, o Descendente de Davi, tornou-se à imagem e semelhança do Deus invisível.

A semelhança que Cristo alcançou, quando ressurgiu dentre os mortos, diz da semelhança que Satanás intentou alcançar, quando pensou: “Subirei sobre as alturas das nuvens e serei semelhante ao Altíssimo” (Is 14:14). É consenso, em meio aos cristãos, que Satanás quis ser Deus, no entanto, o que ele queria mesmo, era ser semelhante ao Altíssimo, posição que Cristo alcançou quando ressurgiu dentre os mortos e todos os que n’Ele creem, estão predestinados a receber.

Os calvinistas dizem que na Bíblia há uma coleção de versículos afirmando que Deus é soberano para escolher quem Ele quer para salvar. Tremendo engano, pois as Escrituras enfatizam o poder de Deus, mas, não a sua soberania: “Ao Todo-Poderoso não podemos alcançar; grande é em poder; porém a ninguém oprime em juízo e grandeza de justiça” (Jó 37:23).

A soberania está relacionada à posição de maioral entre semelhantes e o rei Davi, neste sentido, era soberano em Israel. Deus é criador de todas as coisas, portanto, não há ninguém que se compare ou iguale a Ele. Dizemos que Deus é soberano, porque Ele é inatingível e inigualável, porém, as Escrituras não enfatizam a soberania de Deus, mas, o poder, a justiça, a fidelidade, o amor, etc.

A Bíblia apresenta Jesus Cristo como soberano, pois Ele é da casa de Davi, seu Pai, e se assentará para reinar sobre os seus irmãos e sobre toda a terra. Soberano é um titulo que pertence a Cristo, pois regerá as nações com vara de ferro: “Porque Judá foi poderoso entre seus irmãos e dele veio o soberano; porém, a primogenitura foi de José)” (1Cr 5:2).

A maioria dos Salmos que apontam para o Senhor Altíssimo, diz respeito a Cristo, o Rei grande, visto que o principado está sobre Cristo: “Porque o SENHOR Altíssimo é tremendo e Rei grande sobre toda a terra. Ele nos subjugará os povos e as nações debaixo dos nossos pés” (Sl 47:2-3); “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Is 9:6).

Ao longo da história da igreja, textos bíblicos como: Rm 8:29, Ef 1:4-5 e11, Rm 9:6-29, 1Pe 2:8, Jd 4 e 1Pe 1:2 e 20 são mal interpretados, para afirmarem o fatalismo calvinista. É uma aberração, afirmar, com base em Romanos 8, verso 29, que Deus predestinou alguns para a salvação, se o texto bíblico afirma claramente que Deus predestinou os que se fizeram um corpo com Cristo, para serem conforme a imagem do seu Filho.

O apóstolo Paulo não afirmou que o homem é predestinado para ser salvo e nem que é predestinado para ser filho, pois a filiação divina é alcançada através do poder que Deus concede aos que creem em Cristo: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1:12-13).

Para ser salvo e ser um dos filhos de Deus, só é possível por meio da fé em Cristo, portanto, a salvação e a filiação não vêm pela predestinação. A predestinação é para ser conforme a imagem de Cristo, para que Ele seja primogênito entre muitos irmãos. A predestinação visa o propósito de Deus em Cristo, que é a preeminência de Cristo em todas as coisas.

Ao escapar do erro calvinista, há a igualmente perigosa e equivocada doutrina dos arminianistas, que aponta algumas verdades, como a necessidade de arrependimento para a salvação e que o homem pode rejeitar a oferta de salvação em Cristo, mas enfatizam que Deus, prevendo quem haveria de crer, predestina alguns à salvação.

Previsão e premonição, são termos que se aplicam aos homens que desconhecem o futuro. Deus não prevê o futuro e nem tem premonição, visto que Ele é onisciente e onipresente. Prever e antever são verbos que não se aplicam a Deus, pois todas as coisas estão nuas e patentes aos seus olhos.

Assim como Deus não pode mentir, Ele não pode escolher alguns e desprezar outros, pois Ele não faz acepção de pessoas. O que Deus escolheu foi salvar os que O amam, ou seja, os que guardam os seus mandamentos. Somente aqueles que O honram, serão honrados por Ele: “Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos” (Dt 7:9); “Portanto, diz o SENHOR Deus de Israel: Na verdade tinha falado eu que a tua casa e a casa de teu pai andariam diante de mim perpetuamente; porém, agora, diz o SENHOR: Longe de mim tal coisa, porque aos que me honram honrarei, porém os que me desprezam serão desprezados” (1Sm 2:30); “Se alguém me serve, siga-me, e onde eu estiver, ali estará também o meu servo. E, se alguém me servir, meu Pai o honrará” (Jo 12:26); “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21).

Só amam a Deus aqueles que guardam o seu mandamento, portanto, só ama a Deus aquele que crê em Cristo, pois este é o mandamento: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho, Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1Jo 3:23).

Segundo a teologia, diante das doutrinas calvinista e arminianista, não há outro caminho a trilhar, se não o do equilíbrio. O termo paradoxo, tão utilizado na filosofia passou a ser utilizado pela teologia para explicar os erros teológicos inexplicáveis.

O entendimento com viés grego fatalista, de que Deus traçou um plano para a vida dos homens que é impossível de escapar e sem oferta real de salvação, contaminou a leitura bíblica de muitos.

Tornou-se consenso que os homens são autômatos, desempenhando um papel previamente estabelecido por Deus, assim como os gregos conceberam o mitológico deus Destino.

Em resumo, a verdade bíblica cristalina descreve todos os nascidos da vontade da carne, da vontade do varão e do sangue como perdidos, alienados de Deus por causa da ofensa de Adão. Para ser salvo, é necessário crer que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para isso são anunciadas as boas novas de salvação, que descrevem o Cristo como o Filho de Davi, portanto, o Filho de Deus.

Após crer em Cristo, o homem se torna um com Ele, e, de agora em diante, na condição de salvo e filho de Deus, não lhe resta alternativa: será semelhante a Cristo, pois Ele é o primogênito entre muitos irmãos!

 


[1] Análise do artigo “A Relação entre Predestinação e Livre-Arbítrio”, de Marcos Aurélio dos Santos, disponível na Web < http://www.teologiaevida.com.br/2012/06/relacao-entre-predestinacao-e-livre.html > Consulta realizada em 01/03/16.

[2] “Humanismo é a filosofia moral que coloca os humanos como principais, numa escala de importância. É uma perspectiva comum a uma grande variedade de posturas éticas que atribuem a maior importância à dignidade, aspirações e capacidades humanas, particularmente a racionalidade” Wikipédia.

[3] Fatalismo – “Concepção que considera serem o mundo e os acontecimentos produzidos de modo irrevogável. E também, a crença de que uma ordem cósmica, dita Logos, preside a vida quotidiana. Mas, em geral, é uma corrente aceita por quem se põe de maneira impassível diante dos acontecimentos, não tendo a crença de que pode exercer um papel na sua modificação. É, assim, uma doutrina que afirma que todos os acontecimentos ocorrem de acordo com um destino fixo e inexorável, não controlado ou influenciado pela vontade humana e que, embora aceite um poder sobrenatural preexistente, não recorre a nenhuma ordem natural, recusando, assim, a predestinação. Também, costuma ser confundido com determinismo. Exerceu influência, especialmente, sobre os antigos hebreus e alguns pensadores gregos”. (Wikipédia).

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Predestinação

Deus salva os homens em todos os tempos, mas nenhum deles pode tomar para si a honra de ser conforme a imagem de Cristo senão os que foram vocacionados por Deus: a igreja. É no corpo de Cristo que a multiforme sabedoria de Deus é manifesta aos principados e potestades nos céus, pois o propósito estabelecido em fazer o Cristo preeminente entre muitos irmãos semelhantes a Ele se revela na igreja ( Ef 3:10 -11).


“Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 )

 

O verbo grego traduzido por ‘predestinar’ é προορίζω (proorizó), e significa “decidir de antemão”, “demarcar de antemão”, “preordenar”.

O termo serve para apontar a condição do salvo estabelecida por Deus na eternidade. Todos os que creem em Cristo conforme a verdade do evangelho são de novo gerados através da semente incorruptível ( 1Pd 1:23 ), e quando revestidos da incorruptibilidade serão conforme a imagem expressa do Cristo glorificado “Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos” ( 1Jo 3:2 ).

O homem vem ao mundo pela vontade da carne, vontade do varão e do sangue trazendo em si a imagem de Adão, o homem terreno ( Jo 1:12 ; 1Co 15:48 ), e somente quando creem em Cristo são gerados de novo da vontade de Deus segundo a verdade do evangelho, portanto, novas criaturas e, quando se der o revestimento da incorruptibilidade, todas as novas criaturas terão a imagem do homem espiritual, que é Cristo, o último Adão ( 1Co 15:48 -49).

O termo predestinar é utilizado no Novo Testamento para fazer referencia ao destino que é exclusivo aos homens espirituais. Os cristãos estão predestinados por Deus a serem conforme a expressa imagem de Cristo.

Deus estabeleceu de antemão que Cristo teria a posição de primogênito entre muitos irmãos, condição mais excelente que a de Unigênito, destinando aqueles que fazem parte do corpo de Cristo para este propósito “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” ( Rm 8:29 ).

Cristo homem foi o Unigênito de Deus introduzido no mundo em tudo semelhante aos homens para que fosse misericordioso sumo sacerdote ( Hb 2:17 ) e pudesse experimentar a morte por todos ( Hb 2:14 ).

Ao ser morto e resurgir, Jesus foi glorificado à posição de primogênito dentre os mortos, e assumiu a posição de primogênito entre muitos irmãos, pois conduziu à gloria de Deus muitos irmãos ( Hb 2:10 ).

Cristo glorificado é a expressa imagem de Deus ( Hb 1:3 ; Cl 1:15 ), e herdou excelente nome que é acima de todos os nomes ( Fl 2:9 ), sendo Ele a cabeça do corpo, ou seja, da igreja, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos ( Ef 1:23 ). Os cristãos por sua vez, ressurgiram com Cristo e são membros do seu corpo, que é a igreja ( Cl 3:1 ).

Ainda não é manifesto como os salvos hão de ser ( 1Jo 3:2), contudo sabemos que todos os salvos serão conforme a imagem do Cristo glorificado, de modo que esta gloria que se revelará nos cristãos faz a criação gemer como se estivesse com dores de parto devido a expectativa no aguardando da manifestação dos filhos de Deus ( Rm 8:19 -21)

Quando revestidos da imortalidade e incorruptibilidade ( Rm 8:23), ou seja, quando se der a redenção do corpo no arrebatamento da igreja, os salvos em Cristo alcançarão a condição expressa por Deus registrada lá no Livro do Gênesis: – “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” ( Gn 1:26 ), pois juntamente todos os gerados de Deus segundo a verdade do evangelho serão semelhantes ao Cristo glorificado, sendo Ele, por sua vez, a expressa imagem do Deus invisível ( Cl 1:19 ).

O propósito de Deus é eterno, e o seu propósito por ser eterno repousa sobre Ele mesmo, e não nas suas criaturas, que foram criadas, portanto, não são eternas “Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo…” ( Ef 1:9 ).

E qual foi este propósito estabelecido ‘em Si mesmo’? Fazer o Filho Unigênito Primogênito entre muitos irmãos semelhantes a Ele para que em tudo tenha preeminência “Segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor” ( Ef 3:11 ); “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” ( Rm 8:29 ; Cl 1:18 ).

Embora muitos filhos tenham sido conduzidos por Cristo à glória para levar a efeito o propósito eterno ( Hb 2:10 ), o cetro do propósito de Deus é o Cristo, ou seja, o Seu propósito foi estabelecido em Si mesmo ( Ef 1:9 ).

No corpo da carne do Filho Deus congregou todas as coisas ( Cl 1:20 -22), e Deus o exaltou soberanamente ( Fl 2:9 ), sujeitando todas as coisas aos seus pés e, acima de toda as coisas ( Cl 1:23 ), também foi constituindo como cabeça da igreja, o primogênito entre muitos irmãos ( Ef 1:22 ).

É necessário compreender qual a extensão da glória da igreja como corpo de Cristo, visto que Cristo foi posto acima de todo principado, domínio, autoridade, poder, etc., e acima de tudo, foi constituído cabeça da igreja, portanto, a igreja estará acima de todo principado, domínio, autoridade, poder, etc. “Tendo iluminados os olhos do vosso entendimento, para que saibais qual seja a esperança da sua vocação, e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos; e qual a sobre-excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder, que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus, acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro; e sujeitou todas as coisas a seus pés, e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos” ( Ef 1:18-23).

Na eternidade, antes que houvesse mundo, Deus estabeleceu que a sua palavra fosse exaltada acima de todas as coisas ( Sl 138:2 ), e Cristo foi exaltado, pois ao ser introduzido na sua gloria se fez elevado e mui sublime ( Is 52:14 ).

Para fazer o Cristo primogênito, seria necessário gerar muitos irmãos. Para torná-lo cabeça, seria necessário um corpo, a igreja.

Foi em vista do propósito estabelecido em Cristo que Deus salva os descendentes de Adão por intermédio da pregação do evangelho, pois aos que creem é dado o poder de serem feitos filhos de Deus ( Jo 1:12).

Aos perdidos no pecado é anunciado salvação no nome de Cristo, visto que os que comem da carne e bebem do sangue de Cristo tornam-se participantes de Cristo, ou seja, são constituídos membros do corpo de Cristo.

Os que são salvos por intermédio do evangelho são chamados com uma vocação santa, ou seja, segundo o propósito estabelecido em Cristo antes dos tempos dos séculos “Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” ( 2Tm 1:9 ).

Por estar em Cristo, ou seja, ser uma nova criatura, o cristão está predestinado a ser conforme a imagem de Cristo, o que efetiva o propósito de Deus em Cristo, de torná-lo primogênito entre muitos irmãos, a mui sublime cabeça do corpo.

A vocação em Cristo foi estabelecida na eternidade com base no propósito estabelecido em Cristo, de modo que conceder à nova criatura a graça de ser participante deste propósito na condição de filhos ou de membros do corpo é graça que não decorre das nossas obras.

O apóstolo Paulo demonstra que, no corpo de Cristo quem planta e quem rega não há diferença, apesar de que cada um receberá individualmente o seu galardão conforme o seu trabalho “Ora, o que planta e o que rega são um; mas cada um receberá o seu galardão segundo o seu trabalho” ( 1Co 3:8 ).

Isso significa que cada cristão será galardoado segundo o bem e o mal que houver feito por meio do corpo ( 1Co 3:13 -14; 1Co 9:17 ; 2Co 5:10 ; Cl 3:24 ), porém, a graça de ser contado como filho de Deus por estar em Cristo Jesus é graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos em virtude do propósito que Deus estabeleceu em Cristo.

A vocação segundo o propósito de Deus estabelecido em Cristo antes dos tempos eternos é premio que só é dado aos que estão em Cristo, ou seja, às novas criaturas geradas de novo segundo a palavra da verdade “Prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” ( Fl 3:14 ).

Não se pode confundir o chamado do evangelho com a vocação segundo o propósito eterno, pois a vocação segundo o eterno propósito é para um conjunto específico de pessoas (todos os que creram em Cristo), enquanto o chamado do evangelho é universal (muitos), e tem por alvo todos os perdidos em decorrência da desobediência de Adão, mas os perdidos que atendem o convite são poucos ( Mt 7:14 ), dai o fato de poucos na condição de escolhidos “Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos” ( Mt 22:14 ).

Acerca do chamado universal do evangelho diz o apóstolo Paulo: “Pelo qual recebemos a graça e o apostolado, para a obediência da fé entre todas as gentes pelo seu nome, entre as quais sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo” ( Rm 1:5 ).

A necessidade de obediência à palavra da fé é anunciada a todas as gentes ( At 15:14 -17), e entre todas as gentes os cristãos foram chamados para pertencerem a Jesus Cristo. Depois que ouviram a mensagem do evangelho de salvação e creram em Cristo, os cristãos passaram a ‘estar em Cristo’, ou seja, foram feitos novas criaturas “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” ( Ef 1:13 ).

A salvação em Cristo é convite que se estende a todos os homens em todos os povos e durante o tempo que se chama hoje “Olhai para mim, e sereis salvos, vós, todos os termos da terra; porque eu sou Deus, e não há outro” ( Is 45:22 ); “Inclinai os vossos ouvidos, e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, dando-vos as firmes beneficências de Davi” ( Is 55:3 ); “(Porque diz: Ouvi-te em tempo aceitável E socorri-te no dia da salvação; Eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação)” ( 2Co 6:2 ).

Já a vocação segundo o propósito eterno se deu na eternidade, antes que houvesse mundo ( 2Tm 1:9 ). Na eternidade foi estabelecido Cristo preeminente entre muitos irmãos, acima de todas as coisas a cabeça da Igreja “E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência ( Cl 1:18 ).

Para levar a efeito o Seu propósito, Deus criou Adão, o primeiro homem, segundo a imagem daquele que havia de vir, Jesus Cristo homem ( Rm 5:14 ).

Satanás, por sua vez, percebeu que Deus haveria de dar ao homem uma posição superior à dos anjos, a posição de semelhante ao Altíssimo, ao que intentou alcança-la para estar numa posição acima dos outros anjos ( Is 14:14 ).

A posição que Satanás cobiçou, Jesus Cristo ao ressurgir dentre os mortos alcançou, pois se satisfez da semelhança do Altíssimo, a expressa imagem de Deus ( Sl 17:15 ).

Todos que creem em Cristo, morrem, são sepultados e ressurgem com Cristo uma nova criatura na semelhança da sua ressurreição ( Rm 6:5 ),  e não possuem outro destino que não seja ser conforme a expressa imagem de Cristo para que Ele seja primogênito entre muitos irmãos e, sobre todas as coisas a cabeça da igreja.

Todos os cristãos já são glorificados ( Jo 7:22 ; Rm 8:17 ; Rm 6:4 -5), pois já ressuscitaram com Cristo ( Cl 3:1 ) e estão assentados com Cristo nas regiões celestiais ( Ef 1:3 ; Ef 2:6 ; Hb 4:3 ).

Durante o tempo da peregrinação do crente, todos são concitados a permanecerem nesta graça e crescerem no conhecimento do evangelho, para que através do conhecimento chegue à medida da estatura de Cristo – homem perfeito – embora todos em Cristo sejam idôneos para a herança dos santos na luz “Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo” ( Ef 4:13 ; Cl 1:12 ).

É na redenção do corpo que o crente se conformará com a imagem de Cristo ressurreto. Só se dará no momento em que o que é mortal se revestir da imortalidade e o que é incorruptível se revestir da incorruptibilidade, o que se dará com o arrebatamento da igreja ( Rm 8:23 ).

O termo grego traduzido por ‘predestinar’ é utilizado pelo apóstolo Paulo na carta aos Romanos em conexão com a semelhança com Cristo, o que faz Cristo primogênito entre muitos irmãos ( Rm 8:29 ).

Na carta aos Efésios, o apóstolo Paulo utiliza o mesmo termo para lembrar os cristãos que eles foram abençoados com bênçãos espirituais por estarem em Cristo, ou seja, por serem novas criaturas.

Uma destas bênçãos é a ‘predestinação’ dos cristãos pelo fato de estarem em Cristo, o que os torna filhos de Deus por adoção ( Ef 1:4 ). Por serem novas criaturas, os cristãos foram feitos herança, pois a condição de semelhantes ao Filho de Deus a que foram predestinados redunda em louvor à glória de Deus ( Ef 1:11 -12).

A vocação que repousa sobre os membros do corpo de Cristo de serem conforme a imagem de Cristo é soberana e irrevogável, pois na eternidade Deus estabeleceu antes de todas as coisas que, para que Cristo fosse preeminente, a cabeça do corpo, todos os que fossem conduzidos á gloria por intermédio de Cristo seriam semelhantes a Ele.

Deus salva os homens em todos os tempos, mas nenhum deles foi predestinado a ser conforme a imagem de Cristo senão os que foram vocacionados por Deus: a igreja. É no corpo de Cristo que a multiforme sabedoria de Deus é manifesta aos principados e potestades nos céus, pois o propósito estabelecido em fazer o Cristo preeminente entre muitos irmãos semelhantes a Ele se revela na igreja ( Ef 3:10 -11).

Enquanto na eternidade Deus soberanamente e irrevogavelmente predestinou os que no tempo em que se chama hoje aceitassem a salvação que Cristo oferece a serem conforme a expressa imagem do Cristo glorificado, no tempo presente, que se chama hoje, por intermédio dos seus embaixadores, que é a igreja, Deus roga aos perdidos que reconciliem com Ele “De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo, como se Deus por nós rogasse. Rogamo-vos, pois, da parte de Cristo, que vos reconcilieis com Deus” ( 2Co 5:20 ); “(Porque diz: Ouvi-te em tempo aceitável E socorri-te no dia da salvação; Eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação)” ( 2Co 6:2 ).

Os que perseveram em Cristo estão predestinados a serem conforme a imagem do Cristo glorificado “Se, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé, e não vos moverdes da esperança do evangelho que tendes ouvido, o qual foi pregado a toda criatura que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, estou feito ministro” ( Cl 1:23 ).

Enquanto os que estão ‘em Cristo’ (novas criaturas) serão conforme a imagem do Filho de Deus ressurreto, para estar ‘em Cristo’ é necessário ao perdido alcançar a salvação obedecendo a Cristo hoje “E, sendo ele consumado, veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem” ( Hb 5:9 ).

Enquanto a bênção de ser conforme a imagem de Cristo é irrevogável aos que estão em Cristo, a graça da salvação por meio da obediência ao evangelho pode ser impedido “Corríeis bem; quem vos impediu, para que não obedeçais à verdade?” ( Gl 5:7 ).

Diferente da ideia prolata pelos calvinistas e arminianistas, a Bíblia demonstra que ninguém vem ao mundo predestinado à salvação, pois todos são concebidos em pecado ( Sl 51:5 ), e precisam obedecer a forma de doutrina anunciada por Cristo e os apóstolos “Mas graças a Deus que, tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues” ( Rm 6:17 ; Rm 10:8 ).

Somente após ouvir a palavra da verdade, o evangelho da salvação, e tendo crido em Cristo é que o homem é salvo “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” ( Ef 1:13 ); “A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” ( Rm 10:9 ).

Ninguém nasce segundo a carne predestinado a salvação, antes é necessário ouvir a mensagem de salvação e crer em Cristo como diz as Escrituras, decidindo-se por Cristo durante o tempo aceitável: hoje, perseverando até o fim crendo “Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado” ( Mc 16:16 ; Hb 3:6 e 14).

Só é predestinado aqueles que amam a Deus, ou seja, aqueles que obedeceram ao evangelho, pois só os que cumprem o mandamento de Deus que é crer em Cristo são chamados para serem  conforme a expressa imagem de Cristo, pois o propósito desta vocação é que o Cristo seja primogênito entre muitos irmãos semelhantes a Ele “E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” ( Rm 8:28 ); “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” ( Jo 14:21 ; 1Jo 3:23 ).

Somente aqueles que previamente se tornam um com Cristo (conheceu) por intermédio do evangelho são predestinados a serem conforme a imagem de Cristo “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” ( Rm 8:29 ); “Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor” ( 1Co 1:9 ).

O verbo grego traduzido por ‘conhecer’ não diz de ‘saber acerca de’, antes fala de comunhão intima, de ser um só corpo com Cristo “Assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros” ( Rm 12:5 ); “E aquele que guarda os seus mandamentos nele está, e ele nele. E nisto conhecemos que ele está em nós, pelo Espírito que nos tem dado” ( 1Jo 3:24 ).

O chamado à comunhão do Filho promove a salvação no tempo que se chama hoje, já a vocação para ser conforme a imagem de Cristo se deu na eternidade segundo o propósito que Deus estabeleceu em Si mesmo, de tornar o Cristo glorioso e mui sublime entre muitos irmãos semelhantes a Ele.

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Qual a medida da depravação da humanidade?

Ao dirigir a palavra aos escribas e fariseus, Jesus os chamava de condutores cegos e insensatos ( Mt 23:16 -17). A figura da cegueira e da surdez aplica-se aos judeus, portanto, utilizá-las para descrever a humanidade sem Deus estabelece um entendimento equivocado de que a humanidade é cega e surda. Pelo fato de a humanidade estar morta em delitos e pecados, aplicam à humanidade as figuras da ‘cegueira’ e ‘surdez’, sendo que tais figuras apontam para Israel. Dai surge a ideia de que, para ver e ouvir a palavra de Deus, é necessário uma graça especial dada somente a alguns.


Alienação ou depravação

Após ler o artigo ‘Os cinco pontos’ do Rev. Alderi Souza de Matos, especificamente o subtítulo ‘Depravação Total’, fez-se necessário comentar o evento da criação do homem e analisar o que chamam de depravação total.

Assim se expressou o Ver. Alderi:

“A Bíblia diz que Deus criou o primeiro homem, Adão, à Sua imagem e semelhança. Deus fez um pacto com esse homem a fim de que, através da obediência aos Seus mandamentos, este pudesse obter vida. Contudo, o homem falhou desobedecendo a Deus deliberadamente, fazendo uso do seu livre-arbítrio, rebelando-se contra o seu Criador. Este pecado inicial de desobediência (conhecido como a Queda do Homem) resultou em morte espiritual e ruptura na ligação de sua alma com Deus, o que mais tarde trouxe também sua morte física. Sendo Adão o representante de toda a raça humana, todos caímos com ele e fomos afetados pela mesma corrupção do pecado. Tornamo-nos objetos da justa ira de Deus e a morte passou a todos os homens” Os Cinco Pontos, Alderi Souza de Matos < http://ipbo.org.br/cincopontos.html > Consulta realizada em 23/09/13.

O Rev. Alderi diz que Deus criou o homem à Sua imagem e semelhança, no entanto, o apóstolo Paulo esclarece a exposição acerca da criação do homem que consta do Gênesis dizendo que Adão foi criado à imagem de Cristo, e não a imagem e semelhança do Deus invisível “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” ( Rm 5:14 ).

O apóstolo Paulo deixa claro que Adão é a figura daquele que havia de vir, ou seja, através das Escrituras sabemos que Cristo homem é o que veio na plenitude dos tempos, portanto, a imagem que foi dada ao primeiro homem é a imagem do Cristo que haveria de vir ao mundo.

Quando Cisto foi manifesto aos homens na terra, manifestou-se em carne, e não em glória. A imagem que Adão recebeu foi a de Jesus Cristo homem, e não a imagem de Deus, visto que Deus é espírito. Para saber mais, acesse o artigo A criação do homem e a encarnação de Cristo .

Através do mandamento: “E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:16 -17), Deus alertou que havia a possibilidade de o homem abrir mão da comunhão que possuía com o Criador.

O fim da comunhão com Deus seria tão funesto que foi nomeada morte. Separação que o homem não pode remediar, e que emprestou o nome ao evento ‘descer ao pó da terra’. O homem se preocupa com o ‘descer ao pó’ como se fosse o mais grave evento para a existência do homem, e muitos não sabem que a separação de Deus pode perdurar pela eternidade.

Enquanto possuía comunhão com Deus não havia nenhuma obrigação para o homem, mas se decidisse comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, a comunhão com Deus estaria cortada (morte).

Deus é vida, e a comunhão com Ele é vida, portanto, estar alienado d’Ele é morte. A ideia de morte no mandamento que foi dado no Éden significa separação de Deus, alienação, consequência muito mais gravosa e danosa para o homem do que o término das funções vitais, que é o descer ao pó (separação dos entes queridos) “E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:16- 17); “No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” ( Gn 3:19 ).

A ofensa de Adão (conhecida como a Queda do Homem) resultou em separação (morte), ruptura entre o Criador e a criatura. A criatura continuou existindo, no entanto, após a ofensa, uma parede de separação foi erguida. O homem tornou-se separado de Deus, perdeu a liberdade que havia na comunhão “Porque, quando éreis servos do pecado, estáveis livres da justiça” ( Rm 6:20 ).

Por causa da ofensa a terra foi amaldiçoada, a mulher foi apenada a ter filho com dores e o homem a comer do suor do seu rosto até tornar para o pó da terra, isto porque o homem foi tomado do pó da terra. É neste ponto que surge o conceito de morte física, que não pode ser confundida com a morte espiritual que é alienação de Deus ( Gn 3:19 ).

Adão é a cabeça da raça humana e, através da desobediência dele toda a humanidade foi afetada. Por causa da ofensa de Adão a humanidade tornou-se filha da ira e da desobediência, e a alienação passou a todos os homens. Toda a humanidade herdou as consequências da ofensa de Adão e, por isso, todos os homens nascem alienados da Vida.

A queda de Adão escancarou uma porta larga pela qual todos os homens entram quando nascem. Esta porta larga dá acesso a um caminho largo que conduz os homens à perdição ( Mt 7:13 ). Por causa da ofensa de Adão todos os homens que veem ao mundo são ímpios, pois se desviam de Deus desde a madre. Andam errado desde que nascem, pois estão em um caminho largo que os conduz à perdição ( Sl 58:3 ).

Em Adão desviaram-se todos e juntamente se fizeram imundos, pois toda a humanidade estava na coxa de Adão ( Hb 7:9 -10), e neste quesito não há distinção de carne e sangue. Tanto judeus quanto gentios tornaram-se impróprios para a glória de Deus ( Sl 53:3 ; Rm 3:9 ).

Com a queda, os homens passaram a ser descritos como escravos do pecado, portanto, filhos da desobediência, herdeiros da ira.

Ser escravo do pecado não é ser escravo da própria natureza. É equivocada a concepção de que alguém é escravo de si mesmo, antes um escravo é aquele que, mesmo contra a sua vontade está sob domínio de outrem.

O pecado alcançou o senhorio por intermédio do mandamento santo, justo e bom que foi dado no Éden. Foi através do mandamento dado no Éden que o pecado tem força para dominar a humanidade, pois sem o mandamento não existiria o pecado “Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda a concupiscência; porquanto sem a lei estava morto o pecado” ( Rm 7:8 ).

Sem o mandamento que diz: “Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás”, não haveria alienação, morte, separação entre Deus e os homens, mas por causa da ofensa, veio a morte por força do mandamento divino que não pode ser invalidado “Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei” ( 1Co 15:56 ).

Ora, toda a humanidade herdou as consequências da ofensa de Adão, ou seja, a morte. Não existe nada mais grave do que a alienação de Deus. Mas, me surpreende a concepção de que os homens nascem ‘totalmente depravados’, ou seja, a concepção e o conceito ‘extensivamente maus’.

“Toda a humanidade herdou a culpa do pecado de Adão e por isso todos nascemos totalmente depravados e espiritualmente mortos. A morte espiritual não quer dizer que o espírito humano esteja inativo, mas sim que o homem é culpado (tem um passado manchado) e corrupto (possui uma natureza má). A depravação total não quer dizer que os homens são intensivamente maus (que somos tão maus quanto poderíamos ser), mas sim que somos extensivamente maus (todo o nosso ser, intelecto, emoções e vontade estão corrompidos pelo pecado)” Os Cinco Pontos, Alderi Souza de Matos.

A colocação do Rev. Alderi começa com o equivoco de afirmar que a humanidade herdou a culpa do pecado de Adão, sendo que a bíblia demonstra que o homem herdou a condenação: alienação, separação de Deus. No Novo Testamento, o termo grego traduzido por culpa.

(1777 ενοχος enochos de 1758; TDNT – 2:828,286; adj 1) constrangido, sob obrigação, sujeito a, responsável por 1a) usado de alguém que está nas mãos de, possuído pelo amor, e zelo por algo 1b) num sentido forense, denotando a conexão de uma pessoa seja com o seu crime ou com penalidade ou julgamento, ou com aquilo contra quem ou o que ele tem ofendido 1b1) culpado, digno de punição 1b2) culpado de algo 1b3) do crime 1b4) da penalidade 1b5) sujeito a este ou aquele tribunal i.e. a punição a ser imposta por este ou aquele tribunal 1b6) do lugar onde a punição é para ser sofrida) Dicionário Strong, aparece em conexão com a ideia de punição, o que difere do conceito jurídico recente de culpa, que deriva das intenções.

Quando encontramos na bíblia que o homem é culpado, não significa que a Bíblia está levando em conta as questões de foro íntimo do indivíduo como certo e errado, conhecedor ou ignorante, motivos e intenções, etc. O termo culpado aponta somente para a penalidade imposta.

Um jurista entende que a humanidade herdou a culpa de Adão, mas a Bíblia demonstra que o homem herdou a condenação “Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” ( Jo 3:18 ).

Mas, no que consiste a condenação? Alienação, separação, morte. Ora, todos os homens nascem separados da vida que há em Deus, portanto, mortos. A penalidade da desobediência é única: certamente morrerás. Na penalidade não está inclusa a ideia de depravação.

O que querem dizer com ‘depravado’? Por que a necessidade de enfatizar a ‘depravação’ com o termo ‘totalmente’. Por que a necessidade de inserir um novo termo para ilustrar a condição da humanidade se o termo morte demonstra com clareza a condição do homem?

O homem não possui um passado manchado, antes, segundo a Bíblia, é o homem que está manchado, ou seja, maculado, impróprio para comunhão com Deus. O homem não possui uma natureza má, antes o homem é apresentado na Bíblia como sendo mau “Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos…” ( Mt 7:11 ).

Surpreende-me a colocação de que os homens não são ‘intensivamente’ maus, e sim, extensivamente maus. Quando comparo com o que Jesus disse: “Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos…” (Mateus 7 : 11), verifico que nenhuma das duas premissas resistem à verdade.

Quando Jesus diz: “Se vós, sendo maus…”, indica que a plenitude do ser é má, ou seja, está comprometida. Se houvesse como mensurar o mau que decorre da ofensa, e esse mau fosse mínimo, mesmo assim o homem estaria aquém da gloria de Deus. Por que? Porque Deus é luz e não há n’Ele trevas nenhuma ( 1Jo 1:5 ).

A morte não comporta intensidade de modo que dizer que o homem é totalmente depravado é sem significado. O homem está morto em delitos e pecados e é mau, o que contraria a assertiva do Rev. Alderi.

Por outro lado, Jesus demonstra que, apesar de os seus interlocutores serem maus, sabiam dar boas coisas aos seus filhos ( Mt 7:11 ), o que demonstra que os homens não são extensivamente maus, como afirma o Rev. Alderi.

Ora, apesar de serem inteiramente maus, o intelecto dos fariseus não foi afetado, pois davam aos seus filhos boas dádivas. A emoção não foi afeta, pois o ato de dar boas dadivas aos filhos demonstra que o pecado não tolhe o forte vínculo emocional entre pai e filho.

Observe que, apesar de os fariseus serem maus, caso o filho deles pedisse pão, jamais dariam uma pedra. Ou, se o filho pedisse um peixe, jamais dariam uma serpente, o que evidencia que a vontade do homem não foi comprometida após a queda.

O que foi comprometida foi a relação do homem com Deus. Antes da queda havia comunhão, liberdade e vida, após a queda instalou-se a morte, perdeu-se a comunhão e o homem tornou-se escravo do pecado.

No instante após comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, Adão passou à condição de morto para Deus, alienado, separado, etc. A morte foi a penalidade estabelecida na lei: certamente morrerás. O homem não ficou extensivamente mau após a queda visto que não há no mandamento dado no Éden a penalidade ‘certamente ficarás extensivamente mau’.

Após a queda Adão não praticou nenhuma maldade que pudéssemos indicar que ele tornou-se tão mau quanto poderia ser, e nenhuma atitude dele após a queda indica que o seu intelecto, emoções e vontade foram corrompidos, porém, uma coisa é certa: ele estava completamente separado de Deus.

A morte espiritual é alienação de Deus, mas isto não significa que, por estar ‘separado de Deus’ o homem é ‘extensivamente mau’, ou seja, que o intelecto, as emoções e a vontade do homem estão corrompidos pelo pecado.

Há o mau proveniente da ofensa de Adão e o mau proveniente do fruto da árvore do conhecimento. Temos que divisar bem o que é ser mau por causa da ofensa de Adão, e o que é ter o conhecimento do bem e do mal proveniente do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal que estava no meio do jardim.

Através do seu intelecto, sentimento, emoções e vontade o homem pode executar intentos nobres e bons, como também pode executar ações reprováveis e más. Tanto o que faz boas ações quanto o que faz más ações estão alienados de Deus e, diante de Deus estão em pé de igualdade, pois o mais reto dos homens diante de Deus é como um espinho, e o mais justo como uma cerca de espinho ( Mq 7:4 ).

Quando a Bíblia afirma que o homem é mau, temos que entender o conceito de mau assim como entendemos o conceito de trevas.  Deus é luz, e o homem sem Deus é trevas. Dentro do mesmo princípio, Deus é bom e o homem sem Deus é mau.

Quando dizemos que Deus é bom, temos que entender o conceito ‘bom’ segundo a concepção do homem da antiguidade, e não com o olhar e o sentimento do homem moderno. Na Bíblia ‘bom’ (aghatos) vincula-se à nobreza, e o conceito de mau que se aplica ao homem é o de vil, baixo, ralé. Ou seja, há uma barreira de separação entre Deus e os homens, não porque o homem é maldoso e Deus é bondoso, antes porque a natureza de Deus é distinta da do homem, este inferior e aquele superior.

Quando a bíblia diz que o homem está separado, alienado de Deus, estabelece um conceito de totalidade. Não há como estar ‘parcialmente’ alienado. Não há como apor uma adjetivação na condição do homem, como ‘totalmente’ morto, ‘plenamente’ morto, ‘incomparavelmente’ morto, etc.

Mas, muitos adeptos da reforma protestante apresentaram o conceito da depravação total, dizendo que os homens são extensivamente maus, ou seja, que o pecado afetou o intelecto, as emoções e a vontade do homem.

A ofensa afetou a relação entre o homem e Deus, já o intelecto do homem, bem como as emoções e vontade adquiriram um novo ingrediente: o conhecimento do bem e do mal. O evento negativo que afetou o homem foi a alienação de Deus, porém, adquirir o conhecimento do bem e do mal não pode ser considerado como algo negativo, visto que o próprio Criador é detentor deste conhecimento.

O fato de o homem desprezar a palavra de Deus o deixa entregue a um sentimento perverso de modo que praticam coisas inconvenientes ( Rm 1:28 ), porém, as coisas inconvenientes que praticam não é o que os tornam escusáveis diante de Deus.

O pecado está na desobediência de ter comido do fruto, e não no conhecimento do bem e do mal que o homem adquiriu por ter comido do fruto do conhecimento do bem e do mal. Conhecer o bem e o mal não é pecado, visto que Deus é conhecedor (saber)do bem e do mal (Gn 3.22) e n’Ele não há trevas nenhumas. Pecado é a condição do homem após a ofensa.

O pecado é a condição imposta pela lei em função da ofensa, condição que impossibilita que o homem restaure a comunhão com seu Criador. Por causa da morte que mantém o homem preso ao pecado, o homem natural por si mesmo é incapaz de reatar a comunhão com Deus.

Mas, diante da impossibilidade do homem, Deus tomou a iniciativa de salvar a humanidade. Por intermédio de Cristo Jesus, Deus tomou a providência necessária para que o homem volte a ter comunhão com Deus.

No Éden Deus deu um mandamento que preservaria a condição do homem em comunhão com Deus, com o advento de Cristo, o último Adão, Deus deu um novo mandamento que restaura a comunhão com Deus.

E qual é este mandamento? Encontramos o mandamento de Deus estampado nas Escrituras: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ).

Em todos os tempos Jesus é o único caminho que reata a comunhão dos homens com Deus, pois Jesus foi dado para este fim “E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” ( At 4:12 ). No entanto, a humanidade, no afã de se salvar promovem inúmeras religiões na tentativa de que Deus lhes seja propício, porém, essas tentativas são inócuas, pois o homem natural por si mesmo não pode agradar a Deus. Somente a justiça agrada a Deus.

Além de dizerem que a ‘depravação total’ significa que ‘o pecado afetou o intelecto, as emoções e a vontade do homem’, muitos que seguem a doutrina produzida na reforma protestante alegam que o homem natural é totalmente incapaz de crer em Deus, pois está morto, cego e surdo para as coisas espirituais.

Ora, primeiro analisaremos esta alegação sob o prisma da nação de Israel, lembrando que Deus anunciou através do profeta Isaías que estendeu a suas mãos o dia todo a um povo rebelde “Estendi as minhas mãos o dia todo a um povo rebelde, que anda por caminho, que não é bom, após os seus pensamentos” ( Is 65:2 ).

Como pode ser isto? Apesar de Deus saber que o povo de Israel era totalmente incapaz de crer por estarem mortos, cegos, surdos e com o intelecto, as emoções e a vontade comprometida pelo pecado, estendeu a mão aos filhos de Jacó? Seria um tremendo contra censo! Apesar de Deus saber que o homem é completamente inabilitado para atendê-Lo, faz um convite de salvação e estende a mão? “Porque Deus não é Deus de confusão, senão de paz, como em todas as igrejas dos santos” ( 1Co 14:33 ).

Como Deus pode acusar o povo de Israel de não querer ouvi-Lo, se, na verdade, o povo era completamente surdo e cego? “Porque este é um povo rebelde, filhos mentirosos, filhos que não querem ouvir a lei do SENHOR” ( Is 30:9 ).

Não querer ouvir é completamente diferente de ser surdo, ou seja, impossibilitado de ouvir. Estar morto é uma condição, não querer ouvir é atitude rebelde.

Como é possível Deus clamar ao povo que volte, se o povo era surdo? “Vai, pois, e apregoa estas palavras para o lado norte, e dize: Volta, ó rebelde Israel, diz o SENHOR, e não farei cair a minha ira sobre ti; porque misericordioso sou, diz o SENHOR, e não conservarei para sempre a minha ira” ( Jr 3:12 ).

Ora, a Bíblia é clara em demonstrar que os filhos de Israel podiam ouvir. Primeiro porque Deus lhes dirigiu a palavra. Segundo porque eles podiam ouvir ou deixar de ouvir “Mas tu lhes dirás as minhas palavras, quer ouçam quer deixem de ouvir, pois são rebeldes” ( Ez 2:7 ); “Mas, quando eu falar contigo, abrirei a tua boca, e lhes dirás: Assim diz o Senhor DEUS: Quem ouvir ouça, e quem deixar de ouvir, deixe; porque eles são casa rebelde” ( Ez 3:27 ).

Já no Novo Testamento, quando Jesus conversa com Marta, irmã de Lazaro, disse: “Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá ( Jo 11:25 ). Mesmo os ‘mortos’ podem ouvir e crer, e se crerem, viverão, ou seja, voltarão a ter comunhão com Deus “Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão” ( Jo 5:25 ); “Ouvi, e a vossa alma viverá” ( Is 53:3 ).

Isaias profetizou que o povo que andava em trevas e que habitava nas regiões da morte viu uma grande luz, demonstrando que os homens, apesar de estarem mortos (alienados de Deus), pode ver “O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz” ( Is 9:2 ).

Deus estendeu as suas mãos todos os dias anunciando a seguinte mensagem aos ‘mortos’: “Inclinai os vossos ouvidos, e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, dando-vos as firmes beneficências de Davi” ( Is 55:3 ). Como posso afirmar que a mensagem era para os ‘mortos’? Porque se desse ouvidos (inclinar os ouvidos) e viesse a quem anuncia a mensagem alcançaria vida.

Só é possível passar a viver quem está morto, portanto, é anunciado aos mortos a possibilidade de viverem se derem ouvidos a voz de Deus.

Primeiro é necessário que o autor da mensagem tenha poder para dar vida. Em segundo lugar é necessário que a mensagem seja anunciada, pois se não há quem pregue, não há como crer. Em terceiro lugar é necessário ao homem morto inclinar os ouvidos, o que conduzirá o homem a Deus (vinde a mim). Quando o homem dá ouvidos, ou seja, ouve, volta à comunhão com Deus, terá vida dentre os mortos.

O que dissemos acima, o apóstolo Paulo escreveu aos Romanos:

“Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido. Porquanto não há diferença entre judeu e grego; porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam. Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo. Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? como está escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam o evangelho de paz; dos que trazem alegres novas de boas coisas. Mas nem todos têm obedecido ao evangelho; pois Isaías diz: SENHOR, quem creu na nossa pregação? De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus. Mas digo: Porventura não ouviram? Sim, por certo, pois Por toda a terra saiu a voz deles, E as suas palavras até aos confins do mundo. Mas digo: Porventura Israel não o soube? Primeiramente diz Moisés: Eu vos porei em ciúmes com aqueles que não são povo, Com gente insensata vos provocarei à ira. E Isaías ousadamente diz: Fui achado pelos que não me buscavam, Fui manifestado aos que por mim não perguntavam. Mas para Israel diz: Todo o dia estendi as minhas mãos a um povo rebelde e contradizente” ( Rm 10:8 -21).

Como havia uma barreira de separação entre Deus e os homens, o homem não podia aproximar-se de Deus e nem Deus do homem. Se Deus se aproximasse do homem após a queda, violaria a sua própria palavra e comprometeria a sua justiça e santidade. Já o homem não podia aproximar-se pela falta do conhecimento necessário, o que foi satisfeito quando Deus enviou o seu Único Filho como mediador “Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles levará sobre si” ( Is 53:11 ).

Para ser justo e justificar o homem, Deus enviou ao mundo Jesus Cristo homem na condição de mediador entre Deus e os homens. Por intermédio de Cristo, o Verbo de Deus, foi estabelecido um novo e vivo caminho para que o homem volte à comunhão com Deus.

O homem não é cego e nem surdo. A surdez e a cegueira são figuras especificas utilizadas pelos profetas para fazer referencia ao povo de Israel “Surdos, ouvi, e vós, cegos, olhai, para que possais ver” ( Is 42:18 ).

Como é possível o apóstolo Paulo afirmar que é possível entender a divindade pelas coisas criadas se o homem está impossibilitado de ver? “Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se veem pelas coisas que estão criadas…” ( Rm 1:20 ).

Na Bíblia você encontrará os termos ‘surdo’ e ‘cego’ utilizados como figuras para fazer referencia aos filhos de Jacó. O povo de Israel acreditava que via e ouvia ( Jo 9:39 -41), ou seja, entendia que eram guia dos cegos e dos que estavam em trevas ( Rm 2:19 ), porém, se admitissem que eram cegos, seriam como o servo do Senhor: perfeitos! “Quem é cego, senão o meu servo, ou surdo como o meu mensageiro, a quem envio? E quem é cego como o que é perfeito, e cego como o servo do SENHOR? Tu vês muitas coisas, mas não as guardas; ainda que tenhas os ouvidos abertos, nada ouves ( Is 42:19 -20).

O povo de Israel era tido por cego e surdo não porque eram portadores de deficiência visual e auditiva, antes porque ouviam e viam, mas não obedeciam “Tu vês muitas coisas, mas não as guardas; ainda que tenhas os ouvidos abertos, nada ouves” ( Is 42:20 ).

Ao dirigir a palavra aos escribas e fariseus, Jesus os chamava de condutores cegos e insensatos ( Mt 23:16 -17). A figura da cegueira e da surdez aplica-se aos judeus, portanto, utilizá-las para descrever a humanidade sem Deus estabelece um entendimento equivocado de que a humanidade é cega e surda. Pelo fato de a humanidade estar morta em delitos e pecados, aplicam à humanidade as figuras da ‘cegueira’ e ‘surdez’, sendo que tais figuras apontam para Israel. Dai surge a ideia de que, para ver e ouvir a palavra de Deus, é necessário uma graça especial dada somente a alguns.

Após a queda Adão morreu. Estava separado de Deus em função da ofensa. No entanto, quando Deus chamou Adão dizendo: – “Onde estás?”, apesar de morto, Adão disse: “Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me” ( Gn 3:10 ). Os ouvidos do primeiro homem que morreu estava em pleno funcionamento.

Mas, para quem os profetas disseram estas palavras: “Todos os seus atalaias são cegos, nada sabem; todos são cães mudos, não podem ladrar; andam adormecidos, estão deitados, e gostam do sono” ( Is 56:10 ); “Apalpamos as paredes como cegos, e como os que não têm olhos andamos apalpando; tropeçamos ao meio-dia como nas trevas, e nos lugares escuros como mortos ( Is 59:10 ). Não era para os judeus?

Observe o que diz o Rer. Alderi:

“A depravação total também significa que o homem possui uma inabilidade total para restaurar o relacionamento com seu Criador. Por causa da depravação, o homem natural, por si mesmo, é totalmente incapaz de crer verdadeiramente em Deus. O pecador está morto, cego e surdo para as coisas espirituais. Desde a Queda o homem perdeu o seu livre-arbítrio e passou a ser escravo de sua natureza corrompida e por isso ele é incapaz de escolher o bem em questões espirituais. Todas as falsas religiões são tentativas do homem de construir para si um deus que lhe seja propício. Porém, todas essas tentativas erram o alvo, pois o homem natural por si mesmo não quer buscar o verdadeiro Deus” Idem.

A cegueira e a surdez espiritual são figuras que se aplicam ao povo de Israel, porém, a doutrina calvinista da ‘depravação total’ utilizam figuras que tratam do povo de Israel para descrever a humanidade, e por isso dizem: ‘O pecador está morto, cego e surdo para as coisas espirituais’.

No entanto, quando as Escrituras diz: “Trazei o povo cego, que tem olhos; e os surdos, que têm ouvidos” ( Is 43:8 ); “Surdos, ouvi, e vós, cegos, olhai, para que possais ver” ( Is 42:18 ), ela aponta para os que receberam a lei, e não aos gentios “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” ( Rm 3:19 ).

 

 

Os Cânones de Dort (1618-1619)

Os Cânones de Dort, ou cânones de Dordrech, intitulados formalmente como ‘A Decisão do Sínodo de Dort sobre os Cinco Pontos Principais de Doutrina’ em disputa na cidade holandesa de Dordrech, em 1618/19, conhecida também como os Cinco pontos contra os Remonstrantes, registra a seguinte ideia no primeiro ponto:

“1. Todos os homens pecaram em Adão, estão debaixo da maldição de Deus e são condenados à morte eterna. Por isso Deus não teria feito injustiça a ninguém se Ele tivesse resolvido deixar toda a raça humana no pecado e sob a maldição e condená-la por causa do seu pecado, de acordo com estas palavras do apóstolo:  ‘… para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus… pois todos pecaram e carecem da glória de Deus…’, e: ‘…o salário do pecado é a morte…’ ( Rm 3:19- 23; Rm 6:23 )”.

Os autores do Cânones de Dort no afã de rebater a doutrina arminianista cometeram o equivoco de não observar que a assertiva paulina: ‘… para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus’, tinha por alvo os judeus, e não  a humanidade. É certo que todos pecaram em Adão. É certo que todos estão debaixo de maldição e condenados à morte eterna. Também é certo que se Deus não houvesse resgatado o homem não haveria injustiça n’Ele.

O erro está em utilizar a passagem bíblica de Romanos 3, verso 19 para embasar a assertivas acima, visto que o apóstolo Paulo estava incluindo o povo judeu sob o pecado e a condenação. Que todos pecaram e carecem da glória de Deus é fato, porém, os judeus se consideravam privilegiados por serem descendentes da carne de Abraão.

Censurando os judeus, o apóstolo Paulo diz: “Eis que tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus” ( Rm 2:17 ), demonstrando que, o que exporia a seguir depunha contra os judeus, incluindo-os debaixo da maldição do pecado.

Após apresentar a vantagem e a utilidade do povo judeu ( Rm 3:1 -2), o apóstolo Paulo demonstra que em nada eram diferente dos gentios ( Rm 3:9 ). Neste contexto, todas as afirmações do apóstolo Paulo são absolutas no sentido de demonstrar a inutilidade da circuncisão para ser salvo.

Dai a conclusão: “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” ( Rm 3:19 ).

Se a lei foi escrita para os que estavam debaixo da lei, significa que o povo de Israel também estava sob condenação, de modo que todo mundo é condenável diante de Deus por causa da ofensa de Adão.

Quando é dito: “… pois todos pecaram e carecem da glória de Deus…’, devemos considerar a inclusão dos judeus sob a maldição do pecado e, subsidiariamente, subentende-se que os gentios são pecadores. A ênfase do texto, porém, está nos judeus.

A exposição do apóstolo Paulo foi necessária para conscientizar o povo de Israel da sua real condição. Israel era nomeado povo de Deus, o que dava a entender que era uma nação constituída de homens que não eram pecadores.

Ler a carta de Paulo aos Romanos como se fosse uma carta direcionada apenas aos gentios é ficar alijado do sentido exato do texto, e a compreensão ficara distorcida. O apóstolo Paulo só fala aos gentios a partir do capítulo 11 da carta aos Romanos “Porque convosco falo, gentios, que, enquanto for apóstolo dos gentios, exalto o meu ministério” ( Rm 11:13 ), enquanto os capítulos iniciais foram escritos para os cristãos judeus “Eis que tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus…” ( Rm 2:17 ).

No segundo ponto do Cânones de Dort, fica demonstrado que Deus manifestou seu amor ao enviar o seu Filho, Jesus Cristo:

“2. Mas ‘Nisto se manifestou o amor de Deus em nós, em haver Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo…’, ‘…para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” ( 1Jo 4:9 ; Jo 3:16 ).

No ponto três do Canones de Dort tem-se algumas distorções que decorre de uma má leitura que já demonstramos no ponto um:

“3. Para que os homens sejam conduzidos à fé, Deus envia, em sua misericórdia, mensageiros desta mensagem muito alegre a quem e quando Ele quer. Pelo ministério deles, os homens são chamados ao arrependimento e à fé no Cristo crucificado. Porque ‘…como crerão naquele de quem nada ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão se não forem enviados?…’ ( Rm 10:14- 15)”.

A Bíblia demonstra que os homens necessitam de comunhão com Deus, e não que os homens devam ser conduzidos à ‘fé’.

A Bíblia demonstra que há uma barreira entre Deus e os homens, e não uma barreira entre os homens e Cristo, que é a ‘fé’ manifesta. Seria um contra senso Deus enviar um mediador e haver uma barreira entre os homens e o mediador.

É um absurdo entender que há uma barreira entre o pecador (homens) e o mediador (Cristo), ou que há uma barreira entre o pecador e o sacerdote como sugere a asserção:

‘Para que os homens sejam conduzidos à fé, Deus envia, em sua misericórdia, mensageiros desta mensagem…’.  Idem

Se entendemos que Cristo é a fé manifesta ( Gl 3:23 ), é sem sentido afirmar que os homens devam ser conduzidos à fé. Ora, foi Deus que enviou o seu Filho ao mundo.

Se entendemos que a ‘fé’ é a mensagem anunciada que tem por tema o Cristo ( Jd 1:3 ; Rm 1:5 ), o mensageiro é porta-voz da fé aos homens para que eles possam por intermédio de Cristo serem conduzidos a Deus.

Ora, Deus em sua misericórdia, enviou o seu Filho amado ao mundo, ou seja, a todos os homens, e não ‘a quem e quando Ele quer’. O apóstolo Paulo é claro: “Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” ( 1Tm 2:4 ; Jo 3:16 ).

O homem precisa ser conduzido a Deus, e para isto Cristo veio. O homem não precisa ser conduzido a Cristo, antes a Deus, e Cristo é o mediador. Cristo foi posto como um novo e vivo caminho, e pelo seu corpo o homem tem acesso a Deus.

O Canones de Dort faz distinção entre ‘arrependimento’ e ‘fé’ por causa do conceito deturpado de arrependimento oriundo da concepção católica que decorre do termo ‘penitência’.

Arrependimento é mudança de concepção, abandono de uma ideia para abraçar uma nova, de modo que, quando ocorre o arrependimento, consequentemente, o homem abraça a fé. Se abraçou a fé, significa que se arrependeu, e vice-versa, pois arrependimento é ‘metanoia’, mudança de concepção, conversão.

No ponto 4 temos a seguinte assertiva:

“4. A ira de Deus permanece sobre aqueles que não creem neste Evangelho. Mas aqueles que o aceitam e abraçam Jesus, o Salvador, com uma fé verdadeira e viva, são redimidos por Ele da ira de Deus e da perdição, e presenteados com a vida eterna ( Jo 3:36 ; Mc 16:16 )”.

Basta ao homem crer em Cristo segundo as Escrituras que aceitaram a Jesus como salvador com uma fé verdadeira e viva. A fé verdadeira e viva é a verdade do evangelho, e aquele que crê no evangelho tem uma fé verdadeira e viva.

O ponto cinco possui duas incongruências com as Escrituras:

“5. Em Deus não está, de forma alguma, a causa ou culpa desta incredulidade. O homem tem a culpa dela, tal como de todos os demais pecados. Mas a fé em Jesus Cristo e também a salvação por meio d’Ele são dons gratuitos de Deus, como está escrito: ‘Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus…’ ( Ef 2:8 ). Semelhantemente, ‘Porque vos foi concedida a graça de…’ crer em Cristo ( Fp 1:29 )”.

Deus não trata com a humanidade a questão da culpa, antes da condenação. Foi um só homem que pecou, e todos pecaram. Um só homem ofendeu, e a condenação veio sobre todos os homens, mesmo a humanidade não tendo transgredido à semelhança da transgressão de Adão ( Rm 5:14 ).

A humanidade está condenada por causa da ofensa de Adão, e este é o pecado que alienou o homem de Deus. Sobre a humanidade pesa a condenação por causa da ofensa de Adão, portanto, não há que se falar que ‘o homem tem a culpa dela, tal como de todos os demais pecados’.

A segunda incongruência se dá pela má leitura do texto de Efésios 2, verso 8: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus…” ( Ef 2:8 ). O apóstolo Paulo estava explicando que os cristãos são salvos graciosamente mediante a fé, ou seja, mediante Cristo, pois Ele é a fé que ‘havia de se manifestar’. O termo ‘fé’ no versículo não é o que os tradutores vertem por ‘crer’. Não se trata do verbo ‘fé’, antes é a forma substantivada, um recurso linguístico (figura de linguagem) para fazer referência à pessoa do Cristo  ( Gl 3:23 ).

A salvação em Cristo, a ‘fé’ manifesta não vem dos homens, é dom de Deus, pois Jesus mesmo disse a mulher samaritana: “Jesus respondeu, e disse-lhe: Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva” ( Jo 4:10 ). Cristo é o dom de Deus, a fé que havia de se manifestar e foi manifesta na plenitude dos tempos.

Já o que foi escrito aos Filipenses diz respeito a batalhar pela fé ( Jd 1:3 ), pois além de terem crido em Cristo, a eles foi concedido defender a mensagem do evangelho “Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele” ( Fp 1:29 ).

No ponto 6 do Canones de Dort, ao afirmar a doutrina da eleição e da reprovação calvinistas, é enfatizado que Deus faz distinção entre homens:

“6. Deus dá nesta vida a fé a alguns enquanto não dá a fé a outros. Isto procede do eterno decreto de Deus. Porque as Escrituras dizem que Ele “…faz estas cousas conhecidas desde séculos.” e que Ele “faz todas as cousas conforme o conselho da sua vontade…” ( At 15:18 ; Ef 1:11 ). De acordo com este decreto, Ele graciosamente quebranta os corações dos eleitos, por duros que sejam, e os inclina a crer. Pelo mesmo decreto, entretanto, segundo seu justo juízo, Ele deixa os não-eleitos em sua própria maldade e dureza. E aqui especialmente nos é manifesta a profunda, misericordiosa e ao mesmo tempo justa distinção entre os homens que estão na mesma condição de perdição. Este é o decreto da eleição e reprovação revelado na Palavra de Deus. Ainda que os homens perversos, impuros e instáveis o deturpem, para sua própria perdição, ele dá um inexprimível conforto para as pessoas santas e tementes a Deus”.

Quando afirmam que ‘Deus dá nesta vida a fé a alguns enquanto não dá a fé a outros’, contrariam a bíblia, visto que Cristo é a fé manifesta que Deus deu a todos os homens. Cristo é descrito como o Sol nascente das alturas, e o sol nasce sobre todos sem distinção, pois Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito para todo aquele que crê seja salvo ( Lc 2:32 ).

A fé foi manifesta salvadora a todos os homens, pois Deus deseja que todos se salvem “Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” ( 1Tm 2:4 ); “Porque para isto trabalhamos e lutamos, pois esperamos no Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens, principalmente dos fiéis” ( 1Tm 4:10 ); “Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam” ( At 17:30 ).

Deus não faz distinção entre homens e homens, pois todos entram neste mundo por uma mesma porta, a porta larga (Adão) e alienados estão de Deus “Quanto menos àquele, que não faz acepção das pessoas de príncipes, nem estima o rico mais do que o pobre; porque todos são obras de suas mãos” ( Jó 34:19 ; Dt 10:17 ; Dt 16:19 ). Todos entram por Adão, ou seja, todos são filhos da desobediência, para que Deus use igualmente de misericórdia para com todos “Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia” ( Rm 11:32 ).

Por causa da separação, Deus estabeleceu Jesus Cristo homem como mediador entre Deus e os homens, de modo que não há ninguém que seja especial diante da mensagem do evangelho, e ninguém que seja preterido ao ouvi-lo “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem” ( 1Tm 2:5 ).

Ao escrever aos Gálatas, o apóstolo Paulo deixou claro o motivo pelo qual todos foram encerrados debaixo do pecado: “Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos crentes ( Gl 3:22 ). Não importa se judeus ou gregos, a promessa que e segundo a fé é para os que creem.

Deus faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade ( Ef 1:11 ), e é da vontade de Deus salvar os crentes, ou seja, os que creem na mensagem do evangelho, que é poder de Deus. Na pregação está o poder de Deus e, todos quantos creem recebem poder para serem feitos filhos de Deus “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação” ( 1Co 1:21 ; Jo 1:12- 13).

A salvação é para os que creem na pregação, pois na mensagem anunciada por Cristo e os apóstolos está o poder de Deus para salvação ( Rm 1:16 ; Hb 5:9 ).

A salvação não é segundo o que propõe a predestinação calvinista, de que o homem é salvo antes mesmo de ouvir a palavra da verdade, o evangelho da salvação. Ao ouvir e crer em Cristo o homem é salvo, e após ser salvo é designado eleito de Deus para ser santo e irrepreensível, predestinado a ser conforme a imagem de Cristo Jesus “Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos” ( 1Jo 3:2 ).

 

Alienados

Como já verificamos, a força da lei dada no Éden somada a ofensa de Adão fez surgir a parede de separação (pecado) entre Deus e os homens. O termo utilizado para descrever esta separação é alienação, diferente da ideia que o termo ‘depravação total’ transmite.

O termo depravação tem relação com o que o homem realiza do ponto de vista moral, já a alienação demonstra a quebra da comunhão com Deus. Do ponto de vista da moral é possível mudarmos o nome ‘depravado’ através do adjunto ‘totalmente’, mas se falarmos da relação entre Deus e os homens sob o domínio do pecado, o termo ‘alienado’ não comporta o adjunto ‘totalmente’.

O pecador está separado de Deus, e ponto. Nem mais nem menos. Utilizarmos o adverbio totalmente, ou completamente, é sem valor, pois o termo alienado encerra uma ideia.

O equivoco de tentar demonstrar que o homem está totalmente depravado surge da má leitura que fizeram da explicação de várias passagens do Antigo Testamento que o apóstolo Paulo citou na carta aos Romanos.

Quando o apóstolo Paulo explicou aos cristãos convertidos dentre os judeus que eles não eram melhores que os gentios, porque ambos os povos estavam debaixo do pecado ( Rm 3:9 ), citou os Salmos: “Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só ( Rm 3:10 -12).

Os judeus, por serem descendentes da carne de Abraão, terem a lei e a circuncisão, consideravam que eram melhores que os gentios, porém, o apóstolo Paulo utilizou os Salmos para demonstrar que as Escrituras protestavam contra os judeus e não contra os gentios.

Apesar de os gentios serem pecadores, o alvo das Escrituras era os judeus. Apesar dos judeus comparecerem continuamente no templo para orar e oferecer sacrifícios, Deus protestava continuamente contra eles de que não eram justos, não entendiam a vontade de Deus, não buscavam a Deus. Juntamente judeus e gentios se extraviaram em Adão, são imundos e não fazem o bem.

Após citar outras passagens bíblicas, o apóstolo Paulo enfatiza a essência da sua abordagem: “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” ( Rm 3:19 ). Os únicos que possuíam uma boca dilatada eram os judeus, pois confiavam na lei, mas a própria lei foi dada para que eles também estivessem de bocas fechadas, pois eram condenáveis diante da lei e estavam alienados de Deus “Não vos deu Moisés a lei? e nenhum de vós observa a lei. Por que procurais matar-me?” ( Jo 7:19 ; Rm 2:27 ;  ).

A alienação da humanidade é igual para judeus e gregos. Ambos os povos carecem da glória de Deus. A única diferença entre judeus e gentios é que foi dado aos judeus a lei para conduzi-los a Cristo ( Rm 3:2 ). Não existe uma alienação maior ou uma menor. Não existe alienação total ou parcial. O homem quando no pecado está separado, alienado, e ponto!

É de se estranhar que a doutrina calvinista utilize termos como ‘totalmente’, ‘completamente’, para enfatizar a condição do homem separado de Deus. No entanto, desconsideram o fato de que Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito para que TODO aquele que crê não pereça, ou o fato de que Deus quer que TODOS os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade. Nosso Deus é Deus de paz e não de confusão.

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O livro do Cordeiro do Apocalipse

A supressão da figura do proprietário do livro da vida no capítulo 17 do Livro do Apocalipse foi suficiente para que algumas pessoas se utilizassem do texto para introduzirem encobertamente a sua doutrina, enfatizando que, ‘desde a fundação do mundo’ há um livro que contém registrado o nome dos salvos, sugerindo a doutrina calvinista da eleição e predestinação.

 

“… cujos nomes não estão escritos no livro da vida, desde a fundação do mundo” ( Ap 17:8 )

Introdução

A abordagem de Apocalipse 17, verso 8 não se centra em um livro, antes na figura do Cordeiro de Deus. Cristo, o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo é o tema central do verso ( Jo 1:29 ; Ap 21:27 ).

A leitura do verso 8 do capítulo 17 de Apocalipse é simples: Ora, a bíblia só faz referência a um livro da vida, e este livro, por sua vez, pertence ao Cordeiro de Deus. É o ‘Cordeiro de Deus’ que foi morto desde a fundação do mundo, e não o ‘livro da vida’ que foi escrito desde a fundação do mundo.

Quando lemos: “… cujos nomes não estão escritos no livro da vida, desde a fundação do mundo” ( Ap 17:8 ), basta incluir no versículo a figura do proprietário do livro para desfazer a confusão que produz muitas interpretações equivocadas e falaciosas: o livro da vida do (pertence ao) Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo.

Observe: “… cujos nomes não estão escritos no livro da vida (do cordeiro que foi morto), desde a fundação do mundo” ( Ap 17:8 ). Este verso faz a mesma abordagem do verso 8 do capítulo 13: “E adoraram-na todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo”.

Na língua grega, aquilo que é evidente no texto, ou o que já foi abordado anteriormente, ou, o que é facilmente subtendido, por uma questão de estilo de redação, geralmente é suprimido. No verso 8 do capítulo 17 houve uma supressão da figura do proprietário do livro (cordeiro), o que é facilmente deduzido, pois o livro pertence ao cordeiro “E não entrará nela coisa alguma que contamine, e cometa abominação e mentira; mas só os que estão inscritos no livro da vida do Cordeiro” ( Ap 21:27 ).

Mas, a supressão da figura do proprietário do livro foi suficiente para que algumas pessoas se utilizassem do texto para introduzirem encobertamente a sua doutrina, enfatizando que, ‘desde a fundação do mundo’ há um livro que contém registrado o nome dos salvos, sugerindo a doutrina calvinista da eleição e predestinação.

Através desta passagem bíblica, há quem procure dar sustentação à doutrina calvinista da predestinação e eleição sob o argumento de que Deus registrou os nomes dos salvos em um livro ‘desde a fundação do mundo’, determinando quem são os salvos, mas se esquecem de considerar que o próprio Deus assevera que apagará o nome daqueles que pecarem, apesar de já estarem inscritos no seu livro, o que depõe contra tal concepção doutrinária fatalista, determinista e mecanicista “Então disse o SENHOR a Moisés: Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro ( Êx 32:33 ).

 

Aplicando princípios de interpretação

A primeira questão a se considerar ao interpretar Apocalipse 17 verso 8 é que se está analisando figuras. No aprendizado de uma nova matéria, a cognição do homem se dá por associação e acomodação, de modo que, Deus, ao transmitir uma ideia espiritual – que é completamente nova para o homem – utiliza figuradamente coisas pertinentes a este mundo dos para apresentar.

Ao observar o versículo 8 do capítulo 17 de Apocalipse, verifica-se que ele faz referência à ‘besta’, uma figura que representa o oitavo rei que pertence ao conjunto de sete reis e que vai a perdição ( Ap 17:11 ), de modo que a figura apresentada é para trazer à compreensão um mistério ( Ap 17:7 ).

Como a besta deste contexto é uma figura para fazer referencia a um rei, o livro que consta do mesmo verso também é uma figura, visto que é improvável que Deus possua ou necessite de um livro para conferir de nomes. Deus não precisa de livros ou de caneta para anotar informações.

Deus é onisciente, ou seja, todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos d’Ele. Todas as coisas Ele conhece igualmente bem, quer seja no passado, no presente ou no futuro, tanto as que consideramos simples quanto as que consideramos complexas.

Ora, a visão de um livro remete o vidente à ideia de que todas as coisas são conhecidas por Deus, de modo que é impossível aos homens, ou a qualquer outro ser criado escapar da percepção dos ‘olhos’ de Deus.

Na bíblia não há em outras passagens bíblicas que faça referencia a um livro redigido antes da fundação do mundo. O que encontramos é referencias a Cristo, apresentado como o cordeiro de Deus, e que ele foi morto desde a fundação do mundo ( Ap 13:8 ).

As verdades bíblicas permeiam e ecoam por todas as Escrituras, de modo que as verdades bíblicas são repetidas de diversas maneiras em seus vários livros. Ora. Não há em outros livros qualquer alusão a um livro escrito na fundação do mundo, mas com relação ao Cordeiro foi anunciado por Moisés (Lei), pelos profetas, confirmado pelos apóstolos que Ele foi morto desde a fundação do mundo.

Embora a bíblia faça menção de um livro como figura, não há menção de um tempo ou de uma época em que tenha sido escrito, antes a referência é quanto à natureza do livro: livro da vida.

Para analisar o verso 8 de Apocalipse 17, o interprete tem que evitar certas ‘armadilhas’ na construção de um argumento dedutivo para não compor uma falácia.

Quando da análise de uma frase é imprescindível considerar:

a) denotação: sentido real, literal da frase, ou o estado de coisas que a frase afirma ser o caso;

b) conotação: a associação subjetiva, cultural e/ou emocional, que está para além do significado estrito ou literal de uma palavra, frase ou conceito, ou seja, diz dos sentimentos, ideias ou emoções provocadas pela frase no auditor, e;

c) ênfase: refere-se ao grau de importância que o autor atribui aos diferentes elementos constitutivos da frase.

Ora, se o interprete desloca o grau de importância que o autor atribuiu a um elemento da frase, no caso em comento o cordeiro, para outro elemento constitutivo da frase que o interprete quer estabelecer, produzirá uma falácia.

Quando lemos: “A besta que viste era e já não é, e subirá do abismo, e irá à sua destruição. Os que habitam na terra (cujos nomes não estão escritos no livro da vida desde a fundação do mundo) se admirarão, vendo a besta que era e já não é, mas que virá”,  duas figuras se destacam: a besta e o livro.

Apesar do verso 8 apontar estas duas figuras, vale destacar que o tema central do livro do Apocalipse é o Cordeiro de Deus, Jesus Cristo-homem. A besta possui no texto uma importância relativa que contrasta com a importância maior, a do Cordeiro, por se opor a Ele ( Ap 17:14 ).

Se não fosse a figura central do Cordeiro, não haveria a necessidade de se fazer referencia a besta. De igual modo, se não fosse o Cordeiro de Deus, a quem pertence o livro da vida, não haveria razão de se fazer menção do livro.

O que o verso apresenta:

  • Um estado de coisas que o versículo afirma ser o caso – o versículo afirma tão somente que o livro da vida pertence ao Cordeiro – denotação. Qualquer suposição que vá além desta ideia é espúria;
  • Os sentimentos, ideias ou emoções provocadas pelo versículo – somente informa que os que não fazem parte do livro do Cordeiro são os que se admirarão ao verem a besta – conotação. Qualquer suposição que vá além deste núcleo de informação é espúria, e;
  • A importância que o autor atribui aos diferentes elementos da frase – o evangelista João enfatiza o Cordeiro de Deus, e não da besta ou do livro, que dirá do tempo em que o livro foi escrito – ênfase.

Após as figuras e a ênfase, há um terceiro ponto a se destacar quando da interpretação deste versículo: na língua grega, aquilo que é evidente, ou o que já foi abordado no texto, o que é facilmente subtendido, por uma questão de estilo de redação, geralmente é suprimido.

A leitura do verso 8 do capítulo 17 de Apocalipse é simples, pois basta incluir no versículo a figura do proprietário do livro – o cordeiro de Deus – para desfazer a confusão que produz muitas interpretações equivocadas e as falácias.

Ora, a bíblia faz referencia a um único livro da vida, e este livro, por sua vez, pertence ao Cordeiro de Deus, de modo que o que ocorreu desde a fundação do mundo foi a morte do proprietário do livro, e não a escrita dos nomes no livro.

Quando lemos: “… cujos nomes não estão escritos no livro da vida, desde a fundação do mundo” ( Ap 17:8 ), temos que considerar que, as pessoas que habitam sobre a terra e que se admirarão vendo a besta são aquelas que não possuem o nome no livro da vida que pertence ao Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo.

O evangelista estava destacando as mesmas coisas abordadas anteriormente:

a) que os que habitam sobre a terra se admirarão vendo a besta;

b) que os que admiram a besta não estão inscrito no livro da vida, e;

c) que o livro da vida pertence ao Cordeiro morto desde a fundação do mundo “E adoraram-na todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” ( Ap 13:8 ).

Enquanto o vidente estava demonstrando que os que não estão escritos no Livro do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo se admirarão ao ver a besta, há quem considere que é o livro da vida que foi escrito desde a fundação do mundo.

 

Como um falácia é construída

Após ler o verso 8 do capítulo 17 do Livro das Revelações, que diz: “cujos nomes não estão escritos no livro da vida, desde a fundação do mundo” ( Ap 17:8 ), o Sr. Clóvis Gonçalves concluiu no artigo intitulado ‘Quando o livro da vida foi escrito?’ disponível na web, que “a expressão desde a fundação do mundo não significa ‘começando lá e continuando até o último convertido’. Mas se refere a algo que estava concluindo quando Deus lançou os fundamentos da terra, antes de criar o primeiro homem” Gonçalves, Clovis, Quando o Livro da vida foi escrito?, Artigo disponível na web.

Através deste artigo do Sr. Clóvis, demonstraremos como é pernicioso, alguém, com uma opinião formada, se achegar ao texto bíblico somente para afirmá-la. É um empenho sem valor ler e analisar um texto bíblico na língua grega somente com foco na gramatica, sem que o estudioso esteja disposto a abrir mão dos seus conceitos para absorver a ideia que o texto transmite.

Quando inicia a análise do versículo, o autor, de pronto estabeleceu que só existem duas possibilidades de se interpretar a passagem bíblica: “Há duas possibilidades aqui, interpretar a expressão como significando que os nomes de todos os salvos estavam registrados no Livro da Vida desde a fundação do mundo ou que o nome de cada pessoa é escrito quando o evangelista ora pelo decidido, pedindo a Deus que escreva o seu nome no livro da vida” Idem.

Por que ele vê somente estas duas possibilidades? Porque a visão dele é de que a doutrina calvinista e arminianista encerram qualquer discussão sobre o tema. Vale salientar que o autor do artigo citado é calvinista.

O Sr. Clovis inicia a sua argumentação, em prol do seu ponto de vista, dizendo que é significativo o fato do verso em comento abordar a questão dos que não tiveram os seus nomes registrados no livro da vida, contrastando com aqueles que possuem esse privilégio.

Em seguida, fez uma análise gramatical da frase em grego: “apo kataboles kosmou”, que significa “desde a fundação do mundo”, subdividindo os elementos do aposto, em preposição (desde), seguido de um substantivo (fundação) e o seu complemento (do mundo). Esta informação é verdadeira, porém, não é esta informação que torna válida a conclusão que ele fez no final do artigo.

Não é o fato de conhecer a língua grega e a hebraica que torna uma pessoa autoridade na interpretação das Escrituras, pois os escribas e fariseus conheciam as duas línguas e, mesmo inseridos no contexto cultural da época, foram inquiridos por Cristo por não entenderem a linguagem d’Ele “Por que não entendeis a minha linguagem? Por não poderdes ouvir a minha palavra” ( Jo 8:43 ).

Ser versado na língua grega ou hebraica não torna ninguém mestre e nem confere autoridade para expor a verdade do evangelho.

Embora a expressão ἀπὸ καταβολῆς κόσμου (apo kataboles kosmou – desde a fundação do mundo) seja comum no Novo Testamento e ocorre exatamente como em Apocalipse 17, verso 8 em outras seis passagens bíblicas, ela pode assumir valor distinto em função do contexto no qual ela foi inserida ( Mt 13:35 ; Mt 25:34 ; Lc 11:50 ; Hb 4:3 ; Hb 9:26 ; Ap 13:8 ).

A expressão ἀπὸ καταβολῆς κόσμου indica que algo está consumado, estabelecido, desde a fundação do mundo, mas, também pode, como em Lucas 11, verso 50, ser lida como uma realização gradual, sucessiva, progressiva, continua “Para que desta geração seja requerido o sangue de todos os profetas que, desde a fundação do mundo, foi derramado” ( Lc 11:50 ). A frase é inclusiva, demonstrando que será requerido o sangue de todos os profetas das mãos de uma geração específica: a geração má.

Vale salientar que, quando Jesus especifica: ‘desta geração’, a primeira ideia que vem a mente do interprete é de que Jesus estava fazendo referência ao espaço de tempo que separa cada grau de filiação, por causa do entendimento de que cada século compreende cerca de três gerações, porém, seria sem propósito Deus requerer o sangue dos profetas que fora derramados pelos pais das mãos dos filhos, sendo que o sangue dos profetas foi derramado sucessivamente desde os pais até os dias de Cristo.

Carece verificar que, quando Jesus diz ‘desta geração’, ele diz de uma ‘geração má’, ‘geração perversa’, ‘geração de Adão’, que contrasta com a geração dos filhos de Deus, com a geração dos que nasceram de novo, provenientes de uma semente incorruptível, que é a palavra de Deus, geração de Cristo.

A fala de Jesus era para tornar evidente que os filhos de Israel eram geração contumaz, rebelde, geração de Adão, contrastando com a semente que foi vaticinada pelos profetas que serviria a Deus, a geração proveniente da palavra de Deus “Uma semente o servirá; será declarada ao Senhor a cada geração” ( Sl 22:30 ); “Esta é a geração daqueles que buscam, daqueles que buscam a tua face, ó Deus de Jacó. (Selá.)” ( Sl 24:6 ).

A argumentação com relação às outras passagens bíblicas quanto ao uso da frase ἀπὸ καταβολῆς κόσμου são pertinentes e encera a ideia de algo concluso, porém, não é causa determinante do significado da passagem de Apocalipse 17, verso 8.

O contraponto que o Sr. Clovis faz ao Pr. Ciro é pertinente, quando diz: “O pastor Ciro faz a sua tese depender da preposição ‘apo’ e não da expressão completa. Porém, a classe de palavra que tem tempo e modo é o verbo, e é para ele que devemos nos voltar se quisermos saber quando e de que forma algo ocorre. Devemos perguntar ao texto ‘o que [não] ocorreu antes da fundação do mundo?’ e a resposta é ‘nomes [não] foram escritos’” Idem.

Embora a leitura do Sr. Clovis tenha por base um dicionário de um lexicógrafo famosíssimo como o é o do Dr. Strong, não significa que a interpretação do contexto do capítulo 17 de Apocalipse seja a correta “O verbo ‘gegraptai’ está no tempo Perfeito e no modo Indicativo. O modo Indicativo, nos informa o Léxico Grego de Strong ‘é uma simples afirmação de fato. Se uma ação realmente ocorre, ocorreu ou ocorrerá, será expressa no modo indicativo’. Já o ‘Perfeito grego corresponde ao Perfeito na língua portuguesa, e descreve uma ação que é vista como tendo sido completada no passado, uma vez por todas, não necessitando ser repetida’” Idem.

Mas, como ler e interpretar Apocalipse 17, verso 8?

“A besta que viste era e já não é, e subirá do abismo, e irá à sua destruição. Os que habitam na terra (cujos nomes não estão escritos no livro da vida desde a fundação do mundo) se admirarão, vendo a besta que era e já não é, mas que virá” ( Ap 17:8 ).

Para compreender Apocalipse 17 é necessário conhecer todo o livro das Revelações. O evangelista João não escreveu o livro de Apocalipse fracionado, pois o livro foi fracionado em capítulos e versículo muito tempo depois. Com isso quero enfatizar que o capítulo 17 deve ser interpretado dentro do contexto do livro, pois se a interpretação for feita a partir da análise de um único verso, resultará em erros.

Ao ler o livro de Apocalipse, verifica-se que os eventos narrados no capítulo 17 de Apocalipse, remetem a ideia que consta em Apocalipse 13, porém, o capítulo 17 sobressai em detalhes, nuances, sendo que o capítulo 13 é resumido, enxuto.

Outro ponto a destacar é que o evangelista viu uma visão. Ora, uma visão trabalha com figuras que podem ser interpretadas e descritas segundo a compreensão humana. Portanto, quando lemos que João viu o Livro da vida, não significa que nos céus há um livro de registro semelhante aos que há nos hotéis, ou semelhante a um livro de contabilidade de uma empresa.

A visão de um livro com nomes inscritos é um modo de o vidente ter acesso à ideia do que é a onisciência de Deus, pois não há outro modo cognoscível de se fazer referencia ao conhecimento de Deus. Se a visão fosse dada em nossos dias, possivelmente o vidente veria um computador, e não um livro. Por meio da visão do livro o apóstolo João demonstra que os que ficaram admirados ao ver a besta possuem um destino diferente dos que creem no Cordeiro de Deus.

A visão do Livro da vida foi um modo de o homem tomar conhecimento de algo que vai além da compreensão humana, permitindo ao homem um meio de considerar a onisciência de Deus, pois Deus não depende de livros, ou de consultar manuscritos para inteirar-se de algo.

Se o leitor atentar para o verso 8 de Apocalipse 13, verá que a frase ἀπὸ καταβολῆς κόσμου (desde a fundação do mundo) é idêntica:

“E todos os que habitam sobre a terra adorarão, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” ( Ap 13:8 )

“A besta que viste era e já não é, e subirá do abismo, e irá à sua destruição. Os que habitam na terra (cujos nomes não estão escritos no livro da vida desde a fundação do mundo) se admirarão, vendo a besta que era e já não é, mas que virá” ( Ap 17:8 )

Sabemos também que o Cordeiro de Deus, que é Cristo, foi conhecido antes da fundação do mundo e manifesto aos homens na plenitude dos tempos “O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós” ( 1Pe 1:20 ).

Sabemos que o dia de salvação sobremodo oportuno é ‘hoje’, de modo que a salvação do indivíduo ocorre “hoje”, ou seja, no tempo dos homens, e não na eternidade, quando o Cordeiro foi conhecido ( 1Pe 1:20 ; Hb 9:26 ; Jo 17:24 ). A exortação deve ocorrer durante o tempo que se chama ‘hoje’ ( Hb 3:13 ), e é isto que o apóstolo Paulo fazia: “E NÓS, cooperando também com ele, vos exortamos a que não recebais a graça de Deus em vão  (Porque diz: Ouvi-te em tempo aceitável E socorri-te no dia da salvação; Eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação)” ( 2Co 6:1 -2). Os termos ‘aqui’, ‘agora’ é o mesmo que ‘hoje’, ou seja, a salvação não se deu ou foi determinada na eternidade, pois se assim não fosse, não seria necessário à exortação.

O Cordeiro de Deus é uma figura que remete a pessoa do ‘Eu Sou’ quando encarnado. Cristo, o Verbo encarnado, é preexistente, de modo que, Ele foi anunciado de antemão (verbo: προγινώσκω – proginóskó: pré-conhecimento, pré-ciência), porque é antes da fundação do mundo “Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou” ( Jo 8:58 ).

Cristo foi ‘pré-conhecido’ não no sentido de ‘saber acerca de’, e sim no sentido de ter sido anunciado de antemão pelos santos profetas “Em esperança da vida eterna, a qual Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos dos séculos” ( Tt 1:2 ) compare com: “O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós” ( 1Pe 1:20 ).

A ‘promessa’ que o apóstolo Paulo faz alusão a Tito diz do ‘conhecimento’ que o apóstolo Pedro anunciou aos cristãos da dispersão. O que foi anunciado de antemão pelos profetas acerca do Filho de Deus, que nasceu na casa de Davi, diz da ‘promessa’, do ‘conhecimento’ de Deus enquanto doutrina, e não da sua onisciência, que é saber plenamente bem acerca de todas as coisas “O qual antes prometeu pelos seus profetas nas santas escrituras, acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne” ( Rm 1:2 -3).

No verso 8 de Apocalipse 13, o evangelista João especifica que o Livro da Vida pertence ao Cordeiro “… no livro da vida do Cordeiro que foi morto…” ( Ap 13:8 ). Ele não trata de outro livro a não ser o Livro que pertence ao Cordeiro, Cordeiro este que foi morto desde a fundação do mundo.

Quando o mundo foi fundado por Deus, pelos eventos que haviam de suceder (queda da humanidade e redenção), a morte de Cristo foi estabelecida, daí a exposição de que o cordeiro foi morto na fundação do mundo, porém, Cristo foi manifesto na plenitude dos tempos.

A construção do texto de Apocalipse 17, verso 8 é semelhante a de Apocalipse 13, verso 8, porém, é mais rica em detalhes. No capítulo 13 o vidente aponta a admiração dos que residem na terra, já no capítulo 17 ele aponta a adoração destas mesmas pessoas. No capítulo 17 fica delineado que a destruição da besta está estabelecida, porém, apesar de prevista, a besta ainda não existia (não é), mas está para subir do abismo e será destruída.

Como o apóstolo escreveu anteriormente que o livro pertence ao Cordeiro de Deus e que Ele foi morto desde a fundação do mundo ( Ap 13:8 ), ao escrever no verso 8 do capítulo 17, ele deixou de mencionar expressamente o nome do Cordeiro de Deus, a quem o Livro da Vida pertence.

A visão doutrinária determinista, fatalista e mecanicista que o Sr. Clovis possui transtornou lhe a leitura, pois é comum na escrita grega a supressão de palavras e frases quando à lógica ou estrutura da frase permite.

Por exemplo: “ἐν τούτῳ γινώσκετε τὸ πνεῦμα τοῦ θεοῦ· πᾶν πνεῦμα ὁ ὁμολογεῖ Ἰησοῦν Χριστὸν ἐν σαρκὶ ἐληλυθότα ἐκ τοῦ θεοῦ ἐστιν, καὶ πᾶν πνεῦμα ὁ μὴ ὁμολογεῖ τὸν Ἰησοῦν ἐκ τοῦ θεοῦ οὐκ ἐστιν· καὶ τοῦτο ἐστιν τὸ τοῦ ἀντίχριστου, ὃ ἀκηκόατε ὅτι ἔρχεται, καὶ νῦν ἐν τῷ κόσμῳ ἐστὶν ἤδη – Nisto conhecereis o Espírito de Deus: Todo o espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; E todo o espírito que não confessa que Jesus (Cristo veio em carne – suprimido) não é de Deus; mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e eis que já está no mundo” ( 1Jo 4:2 -3).

No texto em grego o evangelista e apóstolo João demonstra que todo aquele que confessar que Jesus ‘o Cristo veio em carne’, pertence a Deus, mas, ao fazer referência àqueles que não professam a verdade demonstrada anteriormente, que o ‘Cristo veio em carne’, no grego ficam suprimidos o nome ‘Cristo’ e a frase ‘veio em carne’ (Χριστὸν ἐν σαρκὶ). A supressão de uma frase que ocorreu em Apocalipse 13, verso 8 é uma figura de construção por omissão (zeugma: consiste na omissão de um ou mais elementos de uma oração, já expressos anteriormente. A zeugma é uma forma de elipse), o mesmo tipo de supressão que ocorreu em 1João 4, verso 3.

A construção do Sr. Clovis é descabida por não ter considerado as nuances que envolvem as figuras de linguagem, construção e estilo que é próprio a todos os idiomas e as normas de interpretação que a própria bíblia apresenta.

Ao dizer que só há a possibilidade de duas interpretações de Apocalipse 17, verso 8, sendo a possibilidade que ele apoia a de ‘interpretar a expressão como significando que os nomes de todos os salvos estavam registrados no Livro da Vida desde a fundação do mundo’, ele desconsidera o que Deus diz:  “E, se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte do livro da vida, e da cidade santa, e das coisas que estão escritas neste livro” ( Ap 22:19 ).

Se ele observasse as Escrituras, veria que afirmar a doutrina calvinista da predestinação e eleição através da figura apocalíptica do livro que pertence ao cordeiro é descabido, visto que outras passagens bíblicas deixam claro que Deus altera o conteúdo do livro conforme a resposta que o homens dá a sua palavra “MAS o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios” ( 1Tm 4:1 ).

O profeta Moises rogou a Deus que riscasse o seu nome do Livro da Vida, ou usasse de misericórdia para com o povo de Israel ( Ex 32:33 ), porém Deus instruiu Moisés dizendo que não riscaria o nome de Moisés e nem favoreceria os pecadores dentre o povo, pois Deus jamais transtornaria a sua natureza, santidade, justiça, equidade, para satisfazer o pedido de quem quer que fosse.

Todos os homens são pecadores, ímpios, por terem sido gerados segundo a semente corruptível de Adão ( Sl 58:3 ), o nome deles não se misturam com o daqueles que nasceram de novo ( Rm 5:18 ). Todos os homens quando abrem a madre, entram por uma porta larga (Adão), que dá para o caminho largo que os conduzirá a perdição, o que significa que ninguém que entra no mundo está predestinado ou foi eleito para salvação. Todos os homens se desviam de Deus desde a madre, e falam mentira desde que nascem, pois foram julgados e condenados em Adão, apenados com alienação de Deus e herdaram um coração mentiroso segundo o coração de Adão ( Rm 3:4 ).

Daí a acusação do apóstolo Paulo de que todos os homens são mentirosos, pois a boca dos homens fala segundo o coração que herdaram de Adão. Somente quando o homem nasce de novo é que há alegria nos céus por um pecador que se arrepende ( Ap 20:12 ).

Mas, com relação aos descrentes, a leitura correta da bíblia é que todos morreram porque pecaram, e pecaram porque um só pecou, portanto, são gerados e concebidos em pecado, iniquidade, sendo certo que ninguém nasce predestinado à salvação.

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