1 Corintios 7 – Tristeza para arrependimento

Porém, a despeito da disparidade comportamental existente no seio da comunidade cristã primitiva em decorrência das múltiplas questões de ordem sociocultural pertinentes à época, o apóstolo teve que dar um norte, apontando quais eram os princípios gerais a serem seguidos por todos: judeus, gentios, servos, livres, bárbaros, gregos, etc.


Os termos abatido: oprimidos, quebrantados, perturbados, cansados, tristes, aflito, necessitado, pobre, etc., são utilizados para fazer referencia aos homens que reconhecem as suas impossibilidades diante da condição de sujeição ao pecado “Perto está o SENHOR dos que têm o coração quebrantado, e salva os contritos de espírito” ( Sl 34:18 ).

Para analisar o capítulo 7 da segunda epístola do apóstolo Paulo aos Corintos se faz necessário lembrar algumas peculiaridades pertinentes a uma carta.

Normalmente, tanto os remetentes quanto os destinatários possuem um conhecimento comum, sendo que o conhecimento prévio que compartilham determinará a linguagem empregada na carta.

Uma carta surge da necessidade de comunicação entre pessoas que se conhecem, ou que no mínimo possuem afinidade acerca de um tema específico, portanto, a linguagem empregada na carta terá uma peculiaridade específica, o que torna uma carta completamente diferente de um livro quanto à linguagem.

A linguagem de quem escreve uma carta vai além dos linguísticos pertinente a gramática, visto que há uma carga de impressões ou emoções pessoais que realça a troca de informações entre destinatário e remetente.

Este fenômeno linguístico ocorre com as cartas paulinas, embora o apóstolo Paulo tenha utilizado vários recursos pertinentes à retórica nas suas argumentações. Os conhecimentos prévios que o apóstolo e seus destinatários possuíam acerca da matéria abordada, que é o evangelho de Cristo, possuem nuances que, se o leitor não prestar a devida atenção, não fará uma boa leitura do texto.

 

1 ORA, amados, pois que temos tais promessas, purifiquemo-nos de toda a imundícia da carne e do espírito, aperfeiçoando a santificação no temor de Deus.

Após fazer alusão às promessas de Deus exaradas no Antigo Testamento: “E eu serei para vós Pai, E vós sereis para mim filhos e filhas, Diz o Senhor Todo-Poderoso”, o apóstolo Paulo reitera aos cristãos a necessidade de todos os cristãos, ele próprio não se exclui da necessidade, ‘purificarem-se’ de toda a imundícia da carne e do espírito.

Da declaração do apóstolo surgem as perguntas: quais são as imundícies da carne e do espírito? É possível ao homem purificar a si mesmo?

Jesus demonstra que a santificação ocorre por intermédio da palavra de Deus: “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” ( Jo 17:17 ), ou seja, pela crença em Cristo: “Para lhes abrires os olhos, e das trevas os converteres à luz, e do poder de Satanás a Deus; a fim de que recebam a remissão de pecados, e herança entre os que são santificados pela fé em mim” ( At 26:18 ).

Ou seja, todos os cristãos, pela fé em Cristo, são remidos do pecado e recebem uma herança imarcescível nos céus, pois todos quantos morrem com Cristo estão justificados do pecado ( Rm 6:7 ), pois são gerados de novo em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ).

Ou seja, a santificação é uma obra exclusiva de Deus, como se lê: “Então aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei. E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis” ( Ez 36:25 -27).

É Deus quem promete e se encarrega de santificar o homem, pois somente Ele pode dar um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ). Quando se lê uma ordem para o homem santificar-se, certo é que o homem deve refugiar-se em Deus, que o santificará: “Lançai de vós todas as vossas transgressões com que transgredistes, e fazei-vos um coração novo e um espírito novo; pois, por que razão morreríeis, ó casa de Israel?” ( Ez 18:31 ; Ez 11:19 ).

Porém, após o novo nascimento, há um único elemento que não é renovado na nova criatura que demanda sua volitividade : a mente. Daí advém as determinações: transformai-vos pela renovação do vosso entendimento.

Crer em Cristo concede salvação da condenação pertinente à transgressão de Adão, porém, com relação às questões conceituais e comportamentais existe a necessidade de ocorrer uma renovação na mente dos que foram gerados de novo “E vos renoveis no espírito da vossa mente” ( Ef 4:23 ; Rm 12:2 ).

É neste contexto que cabe ao homem regenerado purificar-se a si mesmo. Esta mesma recomendação foi passada a Timóteo pelo apóstolo Paulo, o que dá elementos suficientes para uma interpretação mais segura: “Assim, pois, se alguém a si mesmo se purificar destes erros, será utensílio para honra, santificado e útil ao seu possuidor, estando preparado para toda boa obra” ( 2Tm 2:21 ).

Enquanto Deus santifica, purifica o homem do pecado (hamartia) de Adão, de onde adveio a condenação de toda a humanidade, a determinação do apóstolo Paulo refere-se a erros a que todos os cristãos estão sujeitos “Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça em palavra, o tal é perfeito, e poderoso para também refrear todo o corpo” ( Tg 3:2 ).

Ou seja, deve ser o objetivo dos cristãos o portar-se honestamente em tudo, embora seja passível de erros conceituais e comportamentais “Orai por nós, porque confiamos que temos boa consciência, como aqueles que em tudo querem portar-se honestamente” ( Hb 13:18 ).

E qual é o objetivo do cristão? portar-se honestamente? O portar-se honestamente é um elemento humano e não visa a salvação, pois a salvação é providencia de Deus. A honestidade dos cristãos tem em vista os não crentes para que não haja qualquer entrave quanto ao anuncio da mensagem do evangelho “Para que andeis honestamente para com os que estão de fora, e não necessiteis de coisa alguma” ( 1Ts 4:12 ).

Geralmente quando se lê a recomendação para se ‘purificar da imundície da carne e do espírito’, é comum que os leitores abstraiam a ideia que há tipos distintos de imundície e, que estas se subdividem em imundícies pertinentes a carne, e outras, pertinentes ao espírito, mas não é assim.

Carne e espírito são entes distintos na essência, porém, ambos são utilizados pelo apóstolo Paulo para fazer referência a completude humana que o torna indivíduo “Ora, amados, pois que temos tais promessas, purifiquemo-nos de toda a imundícia da carne e do espírito, aperfeiçoando a santificação no temor de Deus” ( 2Co 7:1 ). Compare: “Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus” ( 1Co 6:20 ).

Portanto, o cristão, como indivíduo, deve purificar-se de toda imundície. O que se entende por imundície na abordagem paulina?

Imundície é tudo o que foge de um viver sossegado, moderado; quem se intrometa no alheio, quem foge do trabalho “Porque não nos chamou Deus para a imundícia, mas para a santificação (…) Porque também já assim o fazeis para com todos os irmãos que estão por toda a Macedônia. Exortamo-vos, porém, a que ainda nisto aumenteis cada vez mais. E procureis viver quietos, e tratar dos vossos próprios negócios, e trabalhar com vossas próprias mãos, como já vo-lo temos mandado” ( 2Ts 4:7- 12).

A imundice, ou mancha, está relacionado a comportamentos inconvenientes, o que é distinto do pecado, que é a própria existência separada de Deus por ter sido gerado segundo a carne de Adão.

A salvação do pecado é obra de Deus que, através de Cristo, concede ao homem um novo coração e um novo espírito, ou seja, é o resultado do novo nascimento, e a imundície diz de comportamento reprovável, inconveniente, no seio da comunidade cristã.

A salvação do pecado torna o homem membro do corpo de Cristo, por meio da fé, que é dom de Deus, ou seja, não se dá por questões morais ou comportamentais. Mas, concomitantemente com o surgimento da igreja (corpo de Cristo) surge a comunidade cristã, que é um misto de povos de todas as nações e línguas, cujo comportamento difere de indivíduo para indivíduo, o que demanda por parte dos seus integrantes o recomendado pelo apóstolo Pedro: “Mas o homem encoberto no coração; no incorruptível traje de um espírito manso e quieto, que é precioso diante de Deus” ( 1Pe 3:4 ).

Não se pode confundir a aludida ‘carne’ e ‘espírito’ do verso 1 deste capítulo com a carne que é despojada através da circuncisão de Cristo e sepultada no batismo com Cristo, pois a carne despojada através da circuncisão diz da natureza pecaminosa herdada de Adão (natureza de filho da ira, filho da desobediência) e, a carne que trata este capítulo, refere-se ao comportamento reprovável dos homens sob domínio do pecado “Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também“ ( Ef 2:3 ); “No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo; Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos” ( Cl 2:10 -11).

“A vontade do pensamento” de Efésios 2, verso 3 refere-se ao ‘espírito’ de 2 Coríntios 7, verso 1, ou seja, em ambos o sentido de espírito e pensamento remete apenas à psique do homem, e este elemento humano demanda ao próprio homem controlar “… e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar” ( Gn 4:7 ).

Observe que o apóstolo Paulo não se apresenta como legalista impondo ou delineando regras comportamentais, pois tudo é abordado do ponto de vista da recomendação e da exortação, como inicialmente foi acordado no primeiro concílio em Jerusalém “Na verdade pareceu bem ao Espírito Santo e a nós, não vos impor mais encargo algum, senão estas coisas necessárias: Que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da prostituição, das quais coisas bem fazeis se vos guardardes. Bem vos vá” ( At 15:28 -29).

É necessário notar que em todas as cartas paulinas não é imposto lei, regras ou normas, pois o apóstolo tinha em vista a necessidade de se deixar claro que o evangelho de Cristo não se constituía e nem possuía elementos normatizadores, legalistas ou prescritivos de comportamento humano, seja em questões legais, éticas ou morais “ROGO-VOS, pois, eu, o preso do Senhor, que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados” ( Ef 4:1 ).

Porém, a despeito da disparidade comportamental existente no seio da comunidade cristã primitiva em decorrência das múltiplas questões de ordem sociocultural pertinentes à época, o apóstolo teve que dar um norte, apontando quais eram os princípios gerais a serem seguidos por todos: judeus, gentios, servos, livres, bárbaros, gregos, etc.

A palavra grega traduzida como ‘aperfeiçoar’ aqui, tem vários significados, destacando entre as principais a ideia de: a) ajustar e por em ordem; b) equipar ou habilitar algo para um propósito determinado. Portanto, a ideia do verso não é ‘aperfeiçoar’ a santificação, antes diz de algo acessório, de um ornamento, de se ‘equipar’ o que foi concedido por Deus “Não defraudando, antes mostrando toda a boa lealdade, para que em tudo sejam ornamento da doutrina de Deus, nosso Salvador” ( Tt 2:10 ).

Ao escrever a Tito o apóstolo Paulo apresenta algumas questões comportamentais, e enfatiza que tais ações são um ‘ornamento da doutrina de Deus’, de igual modo, ao fazer a mesma abordagem com os cristãos de corintos, ele recomenda o ‘aperfeiçoamento’ (ornar) da santificação no temor do Senhor ( 2Co 6:3 ).

Como a ‘palavra de Deus’ é o mesmo que ‘o temor do Senhor’ “Confirma a tua palavra ao teu servo, que é dedicado ao teu temor” ( Sl 119:38 ), e a santificação decorre da palavra de Deus, segue-se que o que o apóstolo recomenda é um comportamento que sirva de ornamento ao temor (doutrina, palavra) do Senhor ( Jo 17:17 ; Sl 34:11 ; Sl 19:9 ).

 

2 Recebei-nos em vossos corações; a ninguém agravamos, a ninguém corrompemos, de ninguém buscamos o nosso proveito.

Neste verso ele retoma uma questão que estava tolhendo a relação de confiança que havia entre o apóstolo e os cristãos de corintos “Não estais estreitados em nós; mas estais estreitados nos vossos próprios afetos” ( 2Co 6:12 ).

O apóstolo roga que o aceitem, não somente por amizade, mas que aceitassem como verdadeiras as suas palavras em seus corações, e apresenta seus motivos: ele não tinha ofendido ninguém, não havia corrompido ninguém e, muito menos, buscava o seu próprio proveito ( 2Co 12:14 ).

 

3 Não digo isto para vossa condenação; pois já antes tinha dito que estais em nossos corações para juntamente morrer e viver.

O apóstolo deixa claro que, com o pedido anterior não estava emitindo um juízo de valor negativo acerca do sentimento dos corintos. Ele não estava censurando, antes buscava demonstrar o quanto os amava.

 

4 Grande é a ousadia da minha fala para convosco, e grande a minha jactância a respeito de vós; estou cheio de consolação; transbordo de gozo em todas as nossas tribulações.

Devido ser o pai quanto a fé que os cristãos de corintos professavam, o apóstolo dos gentios era ousado quando se dirigia àquela comunidade cristã “Porque ainda que tivésseis dez mil aios em Cristo, não teríeis, contudo, muitos pais; porque eu pelo evangelho vos gerei em Jesus Cristo” ( 1Co 4:15 ).

O apóstolo dos gentios demonstra que, quando fazia qualquer alusão acerca dos cristãos de Corintos, o fazia com ousadia e, não tinha receio de se gabar, de se gloriar deles. A consolação do apóstolo resumia-se no fato de os cristãos de corintos suportarem as mesmas aflições que o ele “Mas, se somos atribulados, é para vossa consolação e salvação; ou, se somos consolados, para vossa consolação e salvação é, a qual se opera suportando com paciência as mesmas aflições que nós também padecemos; E a nossa esperança acerca de vós é firme, sabendo que, como sois participantes das aflições, assim o sereis também da consolação” ( 2Co 1:6 -7).

O apóstolo tinha grande alegria pelo fato de dividirem as mesmas tribulações, visto que esta era uma prova de que estavam firmes no evangelho.

 

5 Porque, mesmo quando chegamos à Macedônia, a nossa carne não teve repouso algum; antes em tudo fomos atribulados: por fora combates, temores por dentro.

Embora a Macedônia parecesse representar um local de descanso, o apóstolo Paulo e os que com ele estavam não puderam descansar, visto que tiveram que defender o evangelho (combate), e suportar o receio e os temores quanto a não terem encontrado Tito em Trôade “Não tive descanso no meu espírito, porque não achei ali meu irmão Tito; mas, despedindo-me deles, parti para a Macedônia” ( 2Co 2:13 ; 1Ts 2:2 ).

 

6 Mas Deus, que consola os abatidos, nos consolou com a vinda de Tito. 7 E não somente com a sua vinda, mas também pela consolação com que foi consolado por vós, contando-nos as vossas saudades, o vosso choro, o vosso zelo por mim, de maneira que muito me regozijei.

Esta é a frase mais importante deste capítulo: “Mas Deus, que consola os abatidos (tristes)…”, pois nela está o supedâneo necessário para se interpretar o restante do capítulo.

Quem são os ‘abatidos’ que Deus consola e, que o apóstolo faz referência ?

Certo é que são os pobres de espírito e os tristes do qual Jesus também faz alusão no sermão do monte ( Mt 5:3 -4). Também é uma referência aos tristes e abatidos que Isaías profetizou: “A apregoar o ano aceitável do SENHOR e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes” ( Is 61:2 ); “A ordenar acerca dos tristes de Sião que se lhes dê glória em vez de cinza, óleo de gozo em vez de tristeza, vestes de louvor em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem árvores de justiça, plantações do SENHOR, para que ele seja glorificado” ( Is 61:3 ).

Com base nos versículos em destaques conclui-se que consolar os tristes, os que choram, ou os abatidos é ação exclusiva de Deus através da pessoa de Cristo “Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade, e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e para vivificar o coração dos contritos” ( Is 57:15 ).

Os termos abatido: oprimidos, quebrantados, perturbados, cansados, tristes, aflito, necessitado, pobre, etc., são utilizados para fazer referencia aos homens que reconhecem as suas impossibilidades diante da condição de sujeição ao pecado “Perto está o SENHOR dos que têm o coração quebrantado, e salva os contritos de espírito” ( Sl 34:18 ).

Somente Deus sara os abatidos de espírito e, os abatidos são aqueles que se refugiam em Deus, que por sua vez serão consolados, instruídos, etc. “Sara os quebrantados de coração, e lhes ata as suas feridas” ( Sl 147:3 ); “E os errados de espírito virão a ter entendimento, e os murmuradores aprenderão doutrina” ( Is 29:24 ).

Neste verso o apóstolo Paulo enfatiza que é Deus que consola os abatidos, ou seja, esta é a obra que Deus realiza: salvação, porém, ele atribui a Deus o consolo com a vinda de Tito, que era algo que, anteriormente, o deixou contristado.

E não somente isto, o apóstolo também considera um consolo saber que os irmãos sentiram saudades, que prantearam e que zelavam dele, o que o levou a estar regozijado.

Porém, o consolo com a vinda de Tito e com a alegria decorrente do apreço demonstrado pelos irmãos é totalmente diferente do consolo que só Deus opera, visto que este é concernente à salvação e aquele diz de relações interpessoais.

 

8 Porquanto, ainda que vos contristei com a minha carta, não me arrependo, embora já me tivesse arrependido por ver que aquela carta vos contristou, ainda que por pouco tempo.

Sem abordar as questões especulativas da existência de uma carta extraviada que não chegou em nossas mãos, ou sobre o tema que levou os cristãos de corintos a ficarem tristes, o certo é que apóstolo Paulo enfatiza que, com sua carta, havia entristecido os cristãos.

Quando o apóstolo Paulo soube que os cristãos de Corintos ficaram tristes com o conteúdo da carta que enviara, arrependeu-se de ter escrito aquela carta, mas ao verificar que a carta produziu nos cristãos uma mudança de concepção, de entendimento, mudou de postura.

 

9 Agora folgo, não porque fostes contristados, mas porque fostes contristados para arrependimento; pois fostes contristados segundo Deus; de maneira que por nós não padecestes dano em coisa alguma.

Mas, apesar de ter deixado os cristãos entristecidos (contristados) por causa do conteúdo da carta, naquele momento o apóstolo demonstra estar regozijado, pois todos eles foram contristados de modo que mudaram de concepção (metanóia) acerca da matéria abordada.

A palavra grega ‘metanoeo’ empregada pelo apóstolo Paulo e por outros apóstolos, significa ‘mudança de mente’, ‘mudança de concepção’, ‘mudança de ideia acerca de uma matéria’, o que difere da concepção que foi utilizada ao longo dos séculos, que inicialmente foi adotada na ‘vulgata latina’ por ‘penitencia’ e, até mesmo, difere do que se abstrai da palavra arrependimento em nossos dias, que muitos entendem como ‘abandono do pecado’, ‘tristeza em vista dos erros de conduta’, ‘remorso’, ou ‘mudança de comportamento’.

O apóstolo Paulo deixa claro que não havia ficado contente ao saber que os cristãos se entristeceram (metanoeo), mas que o seu contentamento se dera em função da mudança de pensamento que ocorreu. Ou seja, se a tristeza fosse elemento essencial ao arrependimento segundo Deus, certo é que, em momento algum o apóstolo teria demonstrado arrependimento pelo fato de tê-los contristado “Porque, se eu vos entristeço, quem é que me alegrará, senão aquele que por mim foi contristado?” ( 2Co 2:2 ).

Pelo fato de terem mudado de concepção, o apóstolo enfatiza: “… pois fostes contristados segundo Deus; de maneira que por nós não padecestes dano em coisa alguma” (v. 9). Este verso deve ser analisado com base no verso 6: “Mas Deus, que consola os abatidos…” (v. 6).

A tristeza ou a contrição aqui não é algo visível aos olhos dos homens, pois mesmo o apóstolo Paulo diante da tristeza dos cristãos não soube, inicialmente, discernir se a tristeza era segundo Deus ou segundo o mundo, como se observa no verso 10.

Ser contristado segundo Deus ocorre quando se tem contato com a sua palavra “Foi-me bom ter sido afligido, para que aprendesse os teus estatutos” ( Sl 119:71 e 81 -82). A contrição, a tristeza diz da conscientização que o homem adquire da condição que está após ter contato com o que é anunciado por Deus.

Ser contristado segundo Deus é garantia de que o homem será consolado por Ele, pois é Ele que consola os abatidos e rejeita os altivos “Isto é a minha consolação na minha aflição, porque a tua palavra me vivificou” ( Sl 119:50 ). A tristeza segundo Deus está intimamente ligada à salvação, sendo que o consolo de Deus é salvação.

Ora, se houve a mudança de pensamento após a carta que os contristou, certo é que foram contristados segundo Deus, pois ele corrige a quem recebe por filho “Porque o Senhor corrige o que ama, E açoita a qualquer que recebe por filho (…) para sermos participantes da sua santidade. E, na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela” ( Hb 12:6 -11).

Com este argumento o apóstolo Paulo demonstra que os cristãos não haviam sofrido nenhum agravo por parte dele, antes que foram devidamente instruídos segundo Deus, o que promoveu a mudança de pensamento.

A tristeza segundo Deus não é promovida por decepção, desilusão, necessidades materiais, desgosto, etc. , ou seja, não deriva de um sentimento que é intrínseco ao homem. Antes possui conexão direta com o jejum estipulado por Deus: o afligir da alma, e não do corpo ( Is 58:5 ).

 

10 Porque a tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação, da qual ninguém se arrepende; mas a tristeza do mundo opera a morte.

Se os cristãos foram entristecidos por causa da carta, como não sofreram agravo? A resposta esta no verso 10.

Qual é a tristeza segundo Deus que opera a mudança de concepção (metanoeo) para a salvação? É a tristeza abordada no verso 6: “Mas Deus, que consola os ‘abatidos’…” (v. 6).

A ‘tristeza’ segundo Deus que promove a mudança de concepção e produz salvação é uma referência específica acerca dos abatidos de espíritos, dos tristes, dos contritos, etc., que são apresentados nos Salmos, Profetas e na Lei, pois Deus só salva os contritos e abatidos de espírito “Perto está o SENHOR dos que têm o coração quebrantado, e salva os contritos de espírito” ( Sl 34:18 ).

Qualquer um que seja altivo, farto, abastado, rico, que segue seu coração enganoso, pois se estriba na carne, não será salvo por Deus “Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do SENHOR!” ( Jr 17:9 ).

A ‘tristeza’ provocada pela carta do apóstolo Paulo operou arrependimento nos cristãos, mas tal arrependimento não tinha em vista a salvação da condenação eterna. Eles foram contristados e se arrependeram de algo que não estava diretamente atrelado à salvação, mas que poderia comprometê-los.

O apóstolo deixa claro neste verso que a contrição, o espírito abatido, a tristeza segundo Deus opera uma mudança de concepção para que o homem possa ser salvo, mas da salvação ninguém se arrepende.

Enquanto a tristeza segundo Deus opera a salvação, a tristeza segundo o mundo opera a morte, pois tal tristeza diz de um sentimento promovido pelo ódio, inveja, contenda, porfia, etc.

 

11 Porque, quanto cuidado não produziu isto mesmo em vós que, segundo Deus, fostes contristados! que apologia, que indignação, que temor, que saudades, que zelo, que vingança! Em tudo mostrastes estar puros neste negócio.

O fato de eles terem sido contristados em decorrência da carta, segundo a contrição proveniente de Deus, tornou-os cuidadosos, diligentes, atenciosos. A mudança de concepção fez com que propagassem a discussão. Ficaram inflamados. Temeram. Foram invadidos pelo sentimento saudosista. Defenderam o proposto.

Ou seja, a atitude deles demonstrou que, naquela questão abordada na carta não estavam envolvidos!

 

12 Portanto, ainda que vos escrevi, não foi por causa do que fez o agravo, nem por causa do que sofreu o agravo, mas para que o vosso grande cuidado por nós fosse manifesto diante de Deus. 13 Por isso fomos consolados pela vossa consolação, e muito mais nos alegramos pela alegria de Tito, porque o seu espírito foi recreado por vós todos.

O apóstolo Paulo destaca que fora mal compreendido, pois a carta não tinha em vista quem fez ou quem sofreu o dano. Ele corrige a distorção causada pela carta anterior demonstrando que o foco era evidenciar o cuidado que possuíam pelos apóstolos, especialmente pelo apóstolo Paulo e os que acompanhavam-no em seu ministério.

Que diante de Deus fosse manifesto e os irmãos pudessem visualizar o quanto tinham em conta os apóstolos de Cristo.

Em vista da apologia, indignação, temor, saudades, etc., o apóstolo sentiu-se revigorado, consolado, sem falar na alegria de Tito, que alem de contagiante, demonstrava o cuidado que tiveram por Ele.

 

14 Porque, se nalguma coisa me gloriei de vós para com ele, não fiquei envergonhado; mas, como vos dissemos tudo com verdade, também a nossa glória para com Tito se achou verdadeira. 15 E o seu entranhável afeto para convosco é mais abundante, lembrando-se da obediência de vós todos, e de como o recebestes com temor e tremor. 16 Regozijo-me de em tudo poder confiar em vós.

O apóstolo Paulo enfatiza que havia dito a Tito boas coisas a respeito dos corintos, e que eles, por sua vez, não o decepcionaram. De tudo que o apóstolo gloriou-se acerca deles, Tito confirmou ser verdadeiro, o que prendeu afetivamente Tito.

Tito destacou que os irmos eram obedientes e como o receberam, o que promoveu alegria e a satisfação do apóstolo dos gentios.

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O que entender por ‘jugo desigual’?

Embora o jugo seja termo utilizado para denominar a canga posta sobre animais de parelhas, o termo também foi utilizado para fazer alusão à condição de sujeição dos escravos aos seus senhores ( Jr 28:2 ) e, subsidiariamente, como figura, é utilizado para fazer referência à condição do homem sob a égide do pecado (Rm 7:14 ).


A servidão na antiguidade também era denominada de jugo. Vemos que Hesíodo, citado por Aristóteles, já dizia que uma família era formada de uma casa, uma mulher e um boi, visto que o boi (animal sobre o qual a canga é colocada) é o escravo do pobre (Aristóteles, A Política, Tradução Nestor Silveira Chaves, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011, pág. 20, § 6).

“Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis; porque, que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas? E que concórdia há entre Cristo e Belial? Ou que parte tem o fiel com o infiel? E que consenso tem o templo de Deus com os ídolos? Porque vós sois o templo do Deus vivente, como Deus disse: Neles habitarei, e entre eles andarei; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo. Por isso saí do meio deles, e apartai-vos, diz o Senhor; E não toqueis nada imundo, E eu vos receberei; E eu serei para vós Pai, E vós sereis para mim filhos e filhas, Diz o Senhor Todo-Poderoso”  ( 2Co 6:14 -18)

Certo dia minha esposa fez a seguinte pergunta: o jugo desigual que o apóstolo Paulo vetou aos cristãos de Corintos refere-se a casamento? Após a pergunta não pude descansar enquanto não analisei a questão.

É consenso entre os evangélicos, protestantes e católicos que o jugo desigual do qual o apóstolo Paulo fez referência na sua carta aos cristãos de Corintos refere-se a casamento, ou seja, que o apóstolo estaria orientando aos cristãos a não se casarem com pessoas não cristãs. Em função da má leitura deste verso o casamento entre crente e não crente tornou-se amplamente divulgado como jugo desigual!

Ao ler a segunda carta do apóstolo Paulo aos Corintos foi surpreendente verificar que o apóstolo dos gentios não trata de questões relativas a casamento.

Na primeira carta aos Corintos o apóstolo aborda questões matrimoniais, porém, quando ele analisa o assunto e passa aos cristãos, o apóstolo Paulo tem o cuidado de informar que não estava impondo mandamento algum, antes como por permissão, estava dando o seu parecer sobre a questão em pauta ( 1Co 7:6 e 40).

No versículo 14 de 2Co 6, a questão é de outra ordem, pois temos um mandamento específico: “Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis”, que se aplicado a casamento, contrariaria completamente o posicionamento inicial do apóstolo de expor somente o seu parecer, ou seja, o de não impor aos cristãos mandamento algum.

Outro aspecto do verso é que a mensagem tem como público alvo a igreja como um todo, ou seja, não visa somente os solteiros, pois o alerta para os casados foi específica na primeira carta ( 1Co 7:12 ). Também chama a atenção o fato de que, se fosse uma questão de matrimônio, porque o apóstolo faz alusão ao suposto pretendente utilizando se do plural? – infiéis -, se a regra social é ter um só cônjuge o correto seria: ‘não vos prendais a um jugo desigual com um infiel’ ( 1Tm 3:2 ; 3:12 ; 5:9 e Tt 1:6 ).

Caso o apóstolo estivesse determinando aos solteiros que não se casassem com descrentes (a ordem não incluiria os casados), ao menos o suposto pretendente seria descrito como infiel, e não como se apresenta: com os infiéis.

Por outro lado, faz-se necessário considerar se o instituto do casamento é tido por jugo ou prisão, pois a ordem é clara: “Não vos prendais a um jugo desigual…”.

O jugo diz de uma espécie de canga que se coloca em uma junta de animais que passam a andar conjugado um ao outro. Ou seja, para labutar com apenas um animal não é necessário o jugo.

A servidão na antiguidade também era denominada de jugo. Vemos que Hesíodo, citado por Aristóteles, já dizia que uma família era formada de uma casa, uma mulher e um boi, visto que o boi (animal sobre o qual a canga é colocada) é o escravo do pobre (Aristóteles, A Política, Tradução Nestor Silveira Chaves, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011, pág. 20, § 6).

Seria o casamento uma espécie de jugo, de escravidão?

Analisando algumas passagens bíblicas do Antigo Testamento que abordam questões relativas a jugo (servidão), vê-se que em nenhuma delas o matrimônio é abordado.

Certa feita o apóstolo Paulo citou a lei ao defender o seu direito de apóstolo dizendo: “Porque na lei de Moisés está escrito: Não atarás a boca ao boi que trilha o grão. Porventura tem Deus cuidado dos bois?” ( 1Co 9:9 ; Dt 25:4 ). Ou seja, o adágio que consta na lei foi expresso de modo a indicar que Deus estava cuidando dos homens, mesmo dos transgressores, pois era vetado ao juiz lesar o culpado ( Dt 25:3 ), de modo que o provérbio que consta da lei visava proteger os homens, e não os animais (bois).

Tratando da honra devida aos presbíteros, o apóstolo escreve a Timóteo e, novamente cita a mesma passagem da lei que cita animais: “Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina; Porque diz a Escritura: Não ligarás a boca ao boi que debulha. E: Digno é o obreiro do seu salário” ( 1Tm 5:17 -18), de modo que as citações da Escritura aplicam-se estritamente às questões de honra e mérito, pois o apóstolo Paulo utiliza as passagem para defender o seu apostolado e a honra dos presbíteros “Ai daquele que edifica a sua casa com injustiça, e os seus aposentos sem direito, que se serve do serviço do seu próximo sem remunerá-lo, e não lhe dá o salário do seu trabalho” ( Jr 22:13 ).

Quando foi dito: “Com boi e com jumento não lavrarás juntamente” ( Dt 22:10), a lei expressa um cuidado para com quem havia de utilizar os animais para realizar um trabalho e, subsidiariamente, os animais também eram beneficiados, porém, o cuidado não era específico para com os ‘bois’.

Tais textos do Antigo Testamento aplicam-se ao casamento? Não! Porque o instituto, ou o contrato de casamento, segundo a visão do homem da antiguidade, não comportava dois iguais, antes por causa da autoridade que possuía sobre a mulher, o homem exercia o cuidado e a mulher, por sua vez, lhe devia obediência.

Esta era a visão das sociedades antigas acerca do matrimônio:

“Cada um, senhor absoluto de seus filhos e de suas mulheres, distribui leis a todos…”  (Homero apud Aristóteles, A Política, 2011, pág. 21).

Na mesma obra, Aristóteles complementa:

“O pai de família governa sua mulher e seus filhos como a seres livres, mas cada um de um modo diferente: sua mulher como cidadã, seus filhos como súditos (…) Quanto ao sexo, a diferença é indelével: qualquer que seja a idade da mulher, o homem deve conservar sua superioridade”  (Idem).

Ora, se o marido é a cabeça da mulher, não há como considerar o casamento como jugo, pois no matrimônio as funções são distintas, e a condição de ambos na relação também. Assim como Cristo em relação à igreja é a cabeça por exercer o cuidado, o marido em relação à mulher é a cabeça, pois tem a função de cuidado do corpo “Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo” ( Ef 5:23 ).

Dentro deste mesmo aspecto, caso a mulher compartilhasse com o marido de um jugo, ser-lhe-ia impossível submeter-se ao cuidado de seu marido “Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor” ( Ef 5:22 ).

Diante das objeções acima poderíamos continuar afirmando que a determinação do apóstolo em 2co 6.14 tem referência a casamento?

Se a determinação paulina da segunda carta aos Coríntios 6, verso 14 não possui relação com casamento, do que trata, então?

Embora o jugo seja termo utilizado para denominar a canga posta sobre animais de parelhas, o termo também foi utilizado para fazer alusão à condição de sujeição dos escravos aos seus senhores ( Jr 28:2 ) e, subsidiariamente, como figura, é utilizado para fazer referência à condição do homem sob a égide do pecado (Rm 7:14 ).

Todos os homens em função da transgressão e filiação de Adão tornaram-se pecadores, ou seja, passaram a ser servos, escravos do pecado ( Rm 3:23 ). Por descenderem de Adão, um escravo do pecado, todos os homens passaram a servir ao pecado de modo que estava posto sobre os ombros de todos os homens um jugo. O pecado exercia domínio sobre todos os homens, logo, ser pecador diz de uma condição semelhante à condição de escravo.

O domínio do pecado é um jugo de opressão e a humanidade sem Deus é descrita como oprimida, cansada, sobrecarregada, etc. Entretanto, os profetas anunciaram que haveria um tempo de refrigério. O profeta Isaías anunciou que: “O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz (…) Porque tu quebraste o jugo da sua carga, e o bordão do seu ombro, e a vara do seu opressor, como no dia dos midianitas” ( Is 9:2 -4).

Isaias profetizou acerca dos gentios que, apesar de andarem em trevas e habitarem nas regiões da morte, resplandeceu-lhes a luz, de modo que o jugo da carga, o bordão que estava sobre o ombro e a vara do opressor foi quebrado. Para quem vivia sem Deus e sem esperança no mundo ( Ef 2:12 ), raiou a luz da vida, de modo que, os que crêem em Cristo, são transportados do domínio das trevas para o domínio da luz “O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” ( Cl 1:12 ).

Quando Jesus oferece aos seus ouvintes o seu jugo e o seu fardo, ele se identificou como Senhor, e qualquer que O obedece se sujeita a um jugo suave e toma sobre si um fardo leve. Basta aos ouvintes de Jesus reconhecer que está cansado e oprimido em decorrência do jugo do pecado, que há de ser aliviado do cansaço e da opressão: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” ( Mt 11:28 -30).

A proposta de Cristo é conforme as promessas preditas pelos profetas: “Julgará os aflitos do povo, salvará os filhos do necessitado, e quebrantará o opressor” ( Sl 72:4 ), portanto, para ser alcançado pela promessa, os ouvintes de Cristo devem reconhecer a sua condição e confiar em Cristo como o Senhor que resgata o homem do pecado “Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus” ( Sl 51:17 ).

Ao crer em Cristo, dá-se o explicado pelo apóstolo Paulo: “Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça? Mas graças a Deus que, tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues. E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça” ( Rm 6:16 -18).

Ora, através da leitura, fica patente que há somente dois senhores, dois jugos. Há os servos da obediência e os servos do pecado. Os servos da obediência são aqueles que foram gerados de novo segundo a vontade de Deus segundo o último Adão, que é Cristo, e os servos do pecado, que vem ao mundo sob o jugo decorrente da desobediência de Adão ( 1Co 15:22 -23 e 1Co 15:45 ).

Aos homens só é possível estar em uma destas condições: ou se é servo da justiça ou se é servo do pecado, ou se está sob o jugo da justiça ou sob o jugo do pecado, conforme declarou Jesus: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” ( Mt 6:24 ).

Há apenas dois senhores e o nascimento determina a quem o homem servirá. Se nascidos da carne de Adão são servos do pecado, se nascidos de novo, servem a justiça ( Sl 58:3 ; Sl 51:5 ).

Todos os homens estavam em igual condição diante de Deus por serem descendentes de Adão, mas os judeus consideravam que haviam deixado tal condição por serem descendentes da carne de Abraão. Não consideraram que para serem filhos de Abraão era essencial que tivessem a mesma fé que Abraão, pois ser gerado da carne de Abraão, em última instância era o mesmo que ser descendente de Adão “Teu primeiro pai pecou, e os teus intérpretes prevaricaram contra mim” ( Is 43:27 ); “Mas eles transgrediram a aliança, como Adão; eles se portaram aleivosamente contra mim” ( Os 6:7 ).

O maior problema de Israel estava em não reconhecer que estavam sob a mesma maldição que todos os homens “Deus olhou desde os céus para os filhos dos homens, para ver se havia algum que tivesse entendimento e buscasse a Deus. Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um. Acaso não têm conhecimento os que praticam a iniquidade, os quais comem o meu povo como se comessem pão? Eles não invocaram a Deus” ( Sl 53:2 -4).

Por ser descendente da carne de Abraão, Deus deu ao povo de Israel a lei como aio para conduzi-los a Cristo, porém, quando Cristo veio, os judeus se apegaram a letra da lei e rejeitaram a mensagem de Cristo. Era necessário que mudassem de concepção (metanóia=arrependimento), pois Cristo era o descendente prometido a Abraão em quem todas as famílias da terra seriam benditas.

Por causa desta condição de Israel foi que o apóstolo Paulo escreveu: “Nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência. Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência” ( Rm 9:7 -8).

Tanto judeus quanto gentios estavam alienados de Deus em virtude de serem descendentes de Adão, portanto, filhos da ira e da desobediência. Ao desobedecer, Adão tornou-se escravo do pecado e todos os seus descendentes passaram a compartilhar de igual condição.

Com a vinda de Cristo, Ele obedeceu ao Pai em tudo, de modo que ao ser crucificado, morto e sepultado, ressurgiu dentre os mortos pelo poder de Deus. Ora, todos que creem em Cristo, tornam-se participantes da sua carne e sangue, ou seja, são crucificados, mortos, sepultados e, pelo poder de Deus ressurgem uma nova criatura.

Em virtude de estarem em uma nova condição diante de Deus: servos da justiça, é que o apóstolo Paulo ordena: “Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis; porque, que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas? E que concórdia há entre Cristo e Belial? Ou que parte tem o fiel com o infiel? E que consenso tem o templo de Deus com os ídolos?” ( 2Co 6:14 -).

A mensagem à igreja em Corintos é a mesma anunciada aos Gálatas: “Cristo nos libertou para que sejamos de fato livres. Estai, pois, firmes e não torneis a colocar-vos debaixo do jugo da escravidão” ( Gl 5:1 ).

O jugo dos infiéis é o jugo do pecado, e o jugo dos fiéis é o jugo da justiça. Se o cristão é liberto do Senhor, deve permanecer livre, firme, e não mais retornar a submeter-se ao jugo da escravidão. Como é possível a um homem liberto do Senhor, conforme na carta aos gálatas, voltar a se sujeitar ao jugo da servidão? Buscar ser justificado pelas obras da lei, como o submeter-se à circuncisão do prepúcio da carne.

Antes de dar a determinação aos cristãos de Corintos, o apóstolo Paulo relembra que o ministério de Cristo é segundo a misericórdia ( 2Co 4:1 ) e que ele, o apóstolo, não era falsificador da palavra de Deus como alguns faziam ( 2Co 4:2; 2Co 2:12 ), para tanto, o apóstolo Paulo contrasta a lei com o evangelho ( 2Co 3:6 ), de modo similar ao que foi feito com os cristãos da Galácia.

Em razão de haver obreiros fraudulentos entre os Corintos e, que se impunham sobre os cristãos apresentando como base da autoridade deles o serem descendentes da carne de Abraão, o apóstolo Paulo replica demonstrando a inutilidade da base da autoridade que eles invocavam, porque em Cristo todos morreram ( 2Co 5:14 ). Como Cristo morreu, segue-se que todos morreram e, se todos morreram e ressurgiram com Ele, certo é que ninguém mais deve ser conhecido ou honrado segundo a carne (descendência, nação, povo, sangue, etc), pois todos em Cristo são novas criaturas.

De modo que o alerta imperativo do verso 14 do capítulo 6 tem por foco alertá-los de jamais se submeterem as prescrições daqueles que se apresentavam como apóstolos de Cristo, porém, eram falsificadores da palavra ( 2Co 2:17 ). Compartilhar da doutrina e das práticas dos obreiros fraudulentos, que se louvavam a si mesmos, eram astuciosos e gloriavam-se da aparência, da carne 2Co 4:2 e 5; 2Co 5:12 e, 2Co 10:2 à 12 ).

Qualquer que aderisse à doutrina dos falsos apóstolos ( 2Co 11:11 -15), estava se prendendo a um ‘jugo desigual’, o jugo que é pertinente aos infiéis. Do mesmo modo que o apóstolo Paulo questiona aos Gálatas se eles não caíram da fé por se deixarem circuncidar, o apóstolo questiona aos Corintos se não havia caído da fé ( 2Co 13:5 ), em função de terem aderido ao ensinamento dos aproveitadores do evangelho, homens que não cuidava do rebanho, antes cuidava de arrematar os bens do rebanho para si ( 2Co 12:13 -15).

Da mesma forma que é descabido a um liberto do Senhor voltar às práticas da lei apregoadas pelos judaizantes, é descabido aos cristãos tolerarem os insensatos que os induzia a submeterem-se a um jugo para devorá-los “Porque, sendo vós sensatos, de boa mente tolerais os insensatos. Pois sois sofredores, se alguém vos põe em servidão, se alguém vos devora, se alguém vos apanha, se alguém se exalta, se alguém vos fere no rosto” ( 2Co 11:19 -20).

Se não há sociedade entre a justiça e a injustiça; Se não há sociedade entre a luz e as trevas; Se não há acordo entre Cristo e o inimigo; Se os fiéis não hão de herdar juntamente com os infiéis; Se o templo de Deus, que eram os cristãos, não possuía consenso com a rebelião ( 2Co 6:14 -), porque deveriam se prender ao jugo de apóstolos infiéis? Tal comunhão é proibida, vetado, ou seja, um jugo desigual.

O apóstolo não estava vetando os cristãos de negociarem, conviverem ou relacionarem com os infiéis, antes vetou que comungassem das mesmas práticas em virtude da divergência que há entre a doutrina e vaidade dos falsos apóstolos e o zelo do que é honesto e da doutrina do evangelho de Cristo ( 2Co 8:21 ).

O ensino do apóstolo Paulo visava o estipulado na primeira epístola: “Alimpai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa, assim como estais sem fermento. Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós. Por isso façamos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da malícia, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade” ( 1Co 5:7 -8).

De modo que, quando ele aponta que é jugo desigual (proibido) os fiéis prenderem-se aos infiéis, não tinha em vista os devassos do mundo, antes aos que se diziam irmãos, porém, eram falsificadores da palavra de Deus “Isto não quer dizer absolutamente com os devassos deste mundo, ou com os avarentos, ou com os roubadores, ou com os idólatras; porque então vos seria necessário sair do mundo. Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais” ( 1Co 5:10 -11).

Observe que o foco principal do alerta do apóstolo Paulo na primeira carta não é o comportamento moral desregrado (embora seja salutar um bom proceder social), antes a doutrina daquelas pessoas que estavam levedadas pelo fermento da maldade e da malícia, que contrasta com os asmos da sinceridade e da verdade ( 1Co 5:8 ).

Quando o apóstolo veta: não vos associeis com os que se prostituem, ele se refere às pessoas como aquelas que Tiago tratou: Adúlteros e adúlteras, não sabeis que a amizade do mundo é inimizade com Deus ( Tg 4:4 ; 1Co 5:9 ). Enquanto o público de Tiago diz daqueles que faziam festas com o fermento velho (lei), o apóstolo trata de alguns que faziam festa com o fermento da maldade e da malícia, pois eram astuciosamente falsificadores da palavra de Deus.

Portanto, a determinação paulina não tem relação com casamento, união conjugal entre crentes e descrentes, pois ao tratar de casamento, o apostolo falou por permissão, não impondo mandamento.

Há equívocos nos seguintes pensamentos que têm por base 2Co 6:14:

“É impossível que a pureza do cristão e a contaminação do pagão sejam postas num mesmo jugo”, e ainda: “A passagem em sua totalidade é uma intimação para que não exista nenhum tipo de comunhão com os não crentes” (Barclay, William, Comentário do Novo Testamento, Tradução Carlos Biagini, 2 Coríntios 6:14-18—7:1), ou:

“A ordem pode ser traduzida assim; “parem de se ligar heterogeneamente com os incrédulos. O princípio reverte à legislação mosaica (cons. Lv. 19:19; Dt. 22:10). Os cristãos são “novas criaturas” (II Co. 5:17); não devem se ligar espiritualmente com os incrédulos mortos (cons. Ef. 2:1)” (Moody, Comentário Bíblico Moody, Moody Bible Institute of Chicago; 2Co 6:14-16).

O que o apóstolo Paulo trata no verso em comento não impôs aos cristãos abandonarem os seus empregos, sociedades, vida social, laços de família ou casamentos que tinham com descrentes, antes tratou de alertá-los dos falsos obreiros que queriam prende-los a um jugo que lhes desse ocasião para devorá-los ( 2Co 11:12 compare com 2Co 11:21).

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