Romanos 7 – Miserável homem que eu sou!

Para quem ainda julga que o apóstolo Paulo continuava sendo ‘carnal’ após ter um encontro com Cristo, ou que, por momentos breves se deixava levar pela ‘carne’, ou que, em certos momentos era dominado por ela, já temos o veredicto: “Rogo-vos que, quando estiver presente, não me veja obrigado a usar com confiança da ousadia que espero ter com alguns que nos julgam, como se andássemos segundo a carne. Pois embora andando na carne, não militamos segundo a carne” ( 2Co 10:2 -3). Ter um corpo carnal não é o mesmo que ‘viver segundo a carne’. Somente quem não é nascido de novo (da água e do Espírito), ou seja, da semente incorruptível, ‘militar’ segundo a carne.


Quem ‘conheceu’ o pecado?

“Mas eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás. Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda a concupiscência; porquanto sem a lei estava morto o pecado” ( Rm 7:7 – 8).

A resposta é simples: ‘Eu’!

Uma análise da carta aos Gálatas é essencial à compreensão do ‘eu’ que ‘conheceu’ o pecado através da lei. Compare os elementos presentes nestes dois versos:

“Mas eu não conheci o pecado senão pela lei ( Rm 7:7 );

“Pois eu pela lei estou morto para a lei, a fim de viver para Deus” ( Gl 2:19 )

Quais são os elementos comuns aos dois versos?

Se não fizermos uma leitura apurada destes dois versos, perceberemos somente dois elementos em comum: o “Eu” e a “Lei”. Porém, ao observar melhor, verifica-se um terceiro elemento implícito nos versículos: ‘conhecer o pecado’ é o mesmo que ‘estar morto para Deus’ ou ‘estar vivo para a lei’.

Na carta aos Romanos o apóstolo Paulo deixa claro que “pela lei o ‘eu’ conheceu o pecado”, ou seja, morreu, distanciou-se do Criador, passando a ‘viver’ no pecado e para a lei. Aos cristãos da Galácia, Paulo demonstra que, para viver para Deus é necessário o ‘eu’ morrer para a lei.

Precisamente o apóstolo Paulo diz: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais ‘eu’, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” ( Gl 2:20 ).

Para chegar a conclusão expressa em Gl 2:20, o apóstolo dos gentios demonstrou que:

  • Os cristãos judeus estavam se distanciando do evangelho de Cristo e Paulo se ocupou em escrever aos Judeus por natureza, ou seja, aos descendentes de Abraão segundo a carne. Ao utilizar o pronome na primeira pessoa do plural (nós), Paulo estava demonstrando que os judeus eram pecadores, e não somente os gentios. Ser descendente da carne de Abraão não tornava os judeus melhores que os gentios! ( Gl 2:15 );
  • Os cristãos judeus sabiam que eram justificados pela fé em Cristo, e não pela obras da lei ( Gl 2:16 );
  • Paulo demonstra que, tanto ele, quanto os cristãos judeus, procuraram ser justificados em Cristo “Se nós, que procuramos ser justificados em Cristo…” ( Gl 2:17 ), e que eles (Paulo e o cristãos judeus) já não eram mais pecadores, pois Cristo não é ministro do pecado. Ora, se eles ainda estavam buscando justificação na lei, isto instava contra eles de que ainda eram pecadores, e teriam de admitir que Cristo era ministro do pecado ( Gl 2:17 – 18).
  • Paulo apresenta sua nova condição e compreensão em Cristo, destacando-se dos demais cristãos judeus, visto que eles não precisavam da lei: “Pois eu pela lei estou morto para a lei, a fim de viver para Deus” ( Gl 2:19 ). Quem estava morto para lei? Paulo responde: ‘eu’! ‘Eu’ quem?

Ora, o Paulo que escreveu aos Gálatas estava ‘vivo para Deus’, porém, o ‘eu’ que ele faz referência foi crucificado com Cristo e morreu. Para que ele alcançasse a condição de ‘vivo para Deus’, antes precisou morrer com Cristo. O ‘eu’ que, pela lei está morto, diz de Saulo, e quem realmente vivia para Deus diz de Paulo, o apóstolo dos gentios.

Ao falar aos Gálatas da sua antiga condição em pecado (condição de vivo para o pecado e vivo para a lei), Paulo utilizou o pronome na primeira pessoa do singular: ‘eu’. Paulo não estava morto, antes o seu ‘velho homem’ é quem estava crucificado com Cristo, e já não vivia o seu ‘eu’, antes Cristo vivia em Paulo. A vida de Paulo na carne já não era segundo a descendência de Abraão (carne), antes, por ter sido gerado de novo, segundo a mesma fé que teve o crente Abraão, Paulo passou a viver para Deus ( Gl 2:20 ).

Através da Carta aos Gálatas é possível determinar que o ‘eu’ que Paulo fez referência diz da antiga natureza pecaminosa herdada de Adão. Paulo demonstra aos Gálatas que o ‘eu’ sujeito ao pecado e que nele habitava, não mais vivia, contrastando com a nova vida em Cristo, quando Cristo passa a habitar o homem.

Surge a pergunta: Quando Paulo escreveu aos cristãos Romanos, ‘eu não conheci pecado’, ele escreveu acerca da sua nova condição em Cristo, ou fez referência a sua antiga condição, quando ele ainda era escravo do pecado e sujeito à lei?

Seria possível o apóstolo ter morrido para o pecado e para a lei e continuar ‘conhecendo’ o pecado através da lei? ( Rm 6:2 ) Ou melhor, seria possível ao apóstolo estar liberto do pecado, livre da lei e depender da lei para ter ‘conhecimento’ do pecado? ( Rm 6:22 e Rm 7:6 ) De que ‘eu’ Paulo escreveu no verso 7, do capítulo 7?

No capítulo 5 de Romanos, verso 12 à 13, vemos que o pecado entrou no mundo por causa da transgressão de Adão, e, por ele, o pecado alcançou todos os homens ( Rm 5: 12 – 13). O pecado estava no mundo bem antes da lei, pois desde Adão até Moisés a morte estabeleceu o seu reino ( Rm 5:14 ).

Alguém poderia argumentar que sem a lei o pecado não é imputado, porém, a realidade demonstra que todos os homens, desde Adão até Moisés, morreram, e isto demonstra nitidamente que o pecado é imputado, mesmo sobre quem não peca à semelhança da transgressão de Adão.

Através da lei instituída no Éden o homem carnal (eu) conheceu o pecado “Mas eu não conheci o pecado senão pela lei” ( Rm 7:7 ). Enquanto escrevia aos cristãos Romanos, Paulo não mais conhecia o pecado, antes o seu ‘eu’ noutro tempo conheceu o pecado por intermédio da lei ( Ef 2:2 e Ef 2:3 ). Observe que o verbo ‘conhecer’ está no passado, o que indica uma situação remota e diversa da nova vida que Paulo alcançou em Cristo.

O ‘eu’ de Paulo é o mesmo que ‘ser carnal’. Ele mesmo declarou: “Eu sou carnal”, ou seja, se ele deixa de ser carnal, deixa de existir o ‘eu’. Todos os homens são carnais, e, portanto, possuem um ‘eu’ segundo a natureza de Adão. Para serem salvos necessariamente precisam ser gerados de novo, para deixarem de ser carnais, aniquilando o ‘eu’.

O ‘eu’ define o homem carnal, ou seja, o homem que ainda não nasceu de novo. Ser carnal é essencial à existência do ‘eu’. Basta crucificar a carne com Cristo para não mais existir o ‘eu’.

É por isso que Paulo demonstra que todos que são de Cristo precisam despojar-se da carne, pois através dela o ‘eu’ proveniente de Adão vive para o pecado “E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” ( Gl 5:24 ). A natureza pecaminosa herdada de Adão, representada pelo ‘eu’ é que produziu a morte (condenação), e para a morte (iniqüidades).

Em Cristo, Paulo crucificou o ‘eu’, e desta forma, as concupiscências que foram conhecidas através da lei, também foram crucificadas ( Gl 5:24 ). Todos cristãos já crucificaram a carne, o que demonstra que todos os homens sem Cristo possuem um ‘eu’ que deve ser crucificado.

 

Carne ‘versus’ Espírito

Paulo faz referência a carne e o Espírito como senhores que lutam (cobiçam) entre si para ter domínio sobre o homem. Ora, por que lutam (cobiçam)? A resposta é clara: eles se opõem um ao outro para que o homem não faça o seu querer, antes façam o desejo daquele a quem se sujeitarem “Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis” ( Gl 5:17 ).

Quando gerado segundo Adão, o homem é sujeito ao pecado, e não faz a sua própria vontade, antes, por ser escravo, serve o pecado para morte ( Rm 6:16 ). O corpo do homem sujeito ao pecado é instrumento de iniqüidade, ou seja, quem faz uso do corpo é o pecado. O homem não passa de um instrumento a serviço do seu senhor ( Rm 6:13 ; Rm 6:19 ).

Quando o homem é gerado de novo segundo o Espírito, é sujeito à obediência, e não faz a sua própria vontade, antes, como escravo da obediência para a justiça. O corpo do homem regenerado passa a condição de instrumento de justiça, ou seja, a justiça faz uso do corpo daquele que lhe é sujeito. O homem é instrumento nas mãos de Deus.

Não há como o homem lutar contra a carne por ser sujeito à carne como escravo. Quem luta contra a carne é o Espírito, e não o homem.

As obras da carne são próprias à carne por ela fazer o papel de senhor, da mesma forma que, o fruto do Espírito é próprio do Espírito, e somente o Espírito Eterno pode produzi-los naqueles que são servos da obediência. É por isso que Jesus disse: “Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” ( Jo 15:5 ).

Observe que Jesus refere-se ao fruto que as varas ligadas n’Ele produzem no singular (o fruto), do mesmo modo que Paulo anunciou aos Gálatas. O fruto é único porque pertence ao Espírito, que o produz naqueles que estão ligados a Cristo, a videira verdadeira.

Mesmo após o seu ‘eu’ morrer com Cristo, Paulo continuou vivendo socialmente como qualquer outro homem, pois ainda dependia do seu trabalho ( At 18:3 ), tinha pertences pessoais ( 2Tm 4:13 ), fazia uso da tecnologia da época ( At 20:38 ), tinha sonhos e desejos ( 1Co 9:4 e 1Co 9:5 ) e opinião própria ( At 15:39 ).

O homem desejar ter uma esposa ou a mulher ter um marido não é ser carnal. O homem ter uma esposa ou a mulher ter um esposo não é carnalidade ( 1Co 9:5 ). Ter opinião diferente, ou discordar de outro irmão não é algo proveniente da carne ( At 15:39 ). Ser repreensível não e o mesmo que ser carnal ( Gl 2:11 ).

Jesus expulsou os que vendiam no templo, derrubou as mesas e espalhou o dinheiro dos cambistas, porém, não era carnal. Jesus possuía sentimentos, emoções, tais como alegria, tristeza, angustia, medo, coragem, etc., e não era sujeito a carne e as suas paixões.

Ter um corpo feito de matéria (carne e sangue) não é o que vincula o homem ao pecado. Jesus veio em carne, homem espiritual e espírito vivificante “Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante” (1Co 15:45). Paulo crucificou a carne, o ‘eu’ sujeito ao pecado, mas continuou de posse do seu tabernáculo terrestre ( 2Co 5:4 ).

Considerar que o cristão continua de posse da natureza pecaminosa após ter sido justificado ‘em Cristo’ é depor contra as Escrituras. Deus declara o homem justo porque Ele cria o novo homem justo e santo com um novo coração e um novo espírito. A justificação em Cristo é justificação de vida, e não judicial, como alguns pensam “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida” ( Rm 5:18 ).

J. Sidlow Baxter disse que: “Permanece, no entanto, um problema sério que precisa ser resolvido para mim, pelo evangelho. O que desejo agora, além da retidão judicial, é alcançar a retidão prática de motivo e conduta em minha vida diária, através de um poder que irá libertar-me da escravidão deste tirano, o ‘pecado que habita em mim’” Baxter, J Sidlow, Examinai as Escrituras – Atos a Apocalipse, edição. 1989, Ed. Edições Vida Nova, pág. 87.

Para Baxter, o homem desventurado diz de alguém que obteve libertação, porém, a libertação não é plena, total. Falta ao homem desventurado poder para uma quarta libertação, ou seja, ele segue a mesma linha de raciocínio que critica (velha escola puritana), a de que o velho ‘eu’ há de seguir o homem regenerado até o amargo fim.

Ora, Jesus libertou os que crêem para que sejam livres de fato ( Gl 5:1 ). O poder que Deus concedeu aos seus é suficiente para que sejam criados filhos de Deus ( Jo 1:12 ). Cristo afirmou que Ele e o Pai estariam com os seus todos os dias, porque viriam e fariam neles morada. Diante da declaração de Jesus, fica impossível conceber que o pecado continue a habitar o crente, ou pior, que a casa fique dividida entre dois senhores: a obediência e o pecado.

O que se percebe através da exposição de Baxter, é que há uma confusão quanto às questões relativas à conduta do cristão. Ele esquece que todos os cristãos tropeçam em muitas coisas ( Tg 3:2 ), porém, aquele que não tropeça quanto a exposição do evangelho, este é perfeito, visto que é participante da natureza divina ( Cl 2:10 ), sendo como Cristo aqui neste mundo ( 1Jo 4:17 ).

Tiago avisou do perigo que ronda aqueles que desejam ser mestres: o duro juízo de Deus reservado para aqueles que prevaricarem quanto ao oficio de ensinar o evangelho. O aviso é solene: todos tropeçamos. Ou seja, somos passíveis de erros, mas aqueles que exercem o ministério como mestres não podem cometer erros quanto a palavra da verdade.

Só os perfeitos, ou seja, aqueles que estão em Cristo não tropeçam na palavra que lhes concedeu a perfeição. Além de se tornar perfeito em Cristo, o cristão tem poder para exercer domínio próprio “MEUS irmãos, muitos de vós não sejam mestres, sabendo que receberemos mais duro juízo. Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça em palavra, o tal é perfeito, e poderoso para também refrear todo o corpo” ( Tg 3:1 – 2).

 

 

Tudo que você queria saber sobre o ‘Eu’

Quando Paulo disse: “Eu sou carnal” ( Rm 7:14 ), ou: “…e vivo, não mais eu…” ( Gl 2:20 ), a qual ‘eu’ ele se referia? Seu eu psíquico? Histórico? Social?

Quando lemos: “Porque eu sou o menor dos apóstolos, que não sou digno de ser chamado apóstolo, pois que persegui a igreja de Deus” ( 1Co 15:9 ), verifica-se que o ‘eu’ a que Paulo se refere não é o ‘eu’ que foi morto com Cristo, mas sim ao ‘eu’ histórico do apóstolo. Tudo que Paulo realizou no passado enquanto era chamado de Saulo, foi realizado por ele mesmo, ou seja, o apóstolo dos gentios não nega o seu passado, ou seja, sua história de vida.

Isto porque o mesmo homem que perseguiu a igreja de Deus passou a anunciar o evangelho de Cristo, ou seja, o perseguidor agora é perseguido ( Gl 1:23 ; 1Tm 1:13 ).

Paulo também não renega o seu ‘eu’ social, visto que, quando preso, apresentou-se como cidadão romano, e se defende com base nas leis vigentes: “E, quando o estavam atando com correias, disse Paulo ao centurião que ali estava: É-vos lícito açoitar um romano, sem ser condenado?” ( At 22:25 ; At 25:16 ).

Paulo trazia na lembrança a sua origem, visto que fora circuncidado ao oitavo dia, pertencente a linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreu, fariseu, cidadão romano, etc ( Fl 3:5 -6 ; At 22:28 ), tais relatos demonstram que, o ‘eu’ que morre com Cristo não se refere a questões socioculturais.

Então, qual ‘eu’ foi crucificado com Cristo? O ‘ego’? (‘Ego’ diz da consciência inferior do indivíduo. Resulta da soma total dos pensamentos, ideias, sentimentos, lembranças e percepções sensoriais que tem por funções a comprovação da realidade e a aceitação, mediante seleção e controle, de parte dos desejos e exigências procedentes dos impulsos que emanam do indivíduo).

Quando lemos as cartas paulinas fica evidente que os seus pensamentos, lembranças, sentimentos, percepção sensoriais, desejos, etc., permaneceram inalterados. Qual era o sentimento de Paulo acerca dos seus compatriotas? Ele mesmo demonstra que desejaria ser separado de Cristo por amor aos seus irmãos segundo a carne ( Rm 9:3 ).

O que isto quer dizer? Este amor pelos seus compatriotas demonstra que os sentimentos, as lembranças e as emoções do apóstolo dos gentios não foram alteradas após o seu ‘eu’ deixar de existir. O desejo de Paulo permaneceu inalterado, mesmo após o seu ‘eu’ não mais viver ( Rm 10:1 ).

Isto significa que ‘morrer com Cristo’ não é o mesmo que ignorar as percepções sensoriais do corpo, da existência e dos registros que possuimos na memória ( ‘Ego’ por Jung).

O ‘eu’ carnal, ou o ‘eu’ que ‘não mais vive’ não diz do “centro da consciência superior do individuo, que é a soma total dos pensamentos, idéias, sentimentos, lembranças e percepções sensoriais, extra-sensorial, e não-sensorial, que também é nomeado pela psicologia moderna de ‘eu’”.

Paulo não estava renegando os impulsos instintivos da sua personalidade, ou estinguindo o seu reservatório inicial da energia psíquica como indivíduo.

O ‘eu’ que Paulo faz referência não tem relação com o ‘ego’, o ‘id’ e o ‘superego’ da psicanálise freudiana.

O ‘eu’ descrito pela psicanálise compõe-se do ‘id’, que é “instintos, impulsos orgânicos e desejos inconscientes e regido pelo princípio do prazer”. Exige satisfação imediata, é a energia dos instintos e dos desejos em busca da realização desse ‘princípio do prazer’, e do ‘superego’, que representa a “censura das pulsões que a sociedade e a cultura impõem ao ‘id’, impedindo-o de satisfazer plenamente os seus instintos e desejos, e se manifesta indiretamente na conciência, sob forma da moral, como um conjunto de interdições e deveres, e por meio da educação, pela produção do “eu ideal”, isto é, da pessoa moral, boa e virtuosa”.

Quando Paulo anuncia que seu ‘eu’ morreu com Cristo, não se ocupa dos instintos e nem dos impulsos orgânicos do homem. Ele também não escreveu acerca da moral e do conjunto das interdições e deveres que tem o fito de tornar o homem virtuoso de ‘per si’.

As obras da carne que Paulo enumera aos cristão da Galácia não guardam relação alguma com os instintos e desejos do ‘id’ freudiano. Da mesma forma, o fruto do Espírito não tem relação alguma com o ‘eu ideal’ proveniente do ‘superego’ (Leia carne versus Espírito).

O ‘eu’ a qual Paulo faz referência, que é carnal ( Rm 7:14 ), não se refere a uma pessoa específica e nem diz de uma personalidade com sentimentos e emoções. O ‘eu’ a que ele se refere aponta uma condição. Como falar de uma condição? Ora, para falar de uma condição é essencial associá-la a um objeto ou pessoa.

Para falar acerca da condição do ‘eu’, ou da condição de sujeição ao pecado, o apóstolo fez referência ao seu passado, utilizando o ‘eu’ como figura. Através do ‘eu’, Paulo ilustra, ou melhor, demonstra a condição de todos os homens que não ‘conheceram’ a Cristo. Desta forma, temos na argumentação paulina a condição do homem carnal desempenhando o ‘papel’ principal.

Através de uma análise da frase (proposição): ‘Eu sou carnal’, utilizando ferramentas pertinentes à lógica, é possível identificar três componentes distintos:

a) denotação: o estado de coisas que a frase afirma ser o caso;
b) conotação: os sentimentos, idéias ou emoções provocadas pela frase no auditor, e;
c) ênfase: a importância relativa que o autor atribui aos diferentes elementos da frase.

O componente de maior importância para a análise está na importância relativa que Paulo atribuiu aos diferentes elementos da frase (ênfase): ‘Eu sou carnal’. O estado do ‘eu’ na frase é a ‘carnalidade’ – denotação. A idéia que Paulo enfatiza é a sujeição do homem ao pecado como escravo – conotação. Quando afirmou a condição do ‘eu’, Paulo atribui maior importância ao predicativo (carnal) do sujeito (eu) – ênfase.

Portanto, durante a interpretação do verso: “Eu sou carnal”, devemos atentar para o elemento de maior importância na preposição, o predicativo ‘carnal’, e considerar o ‘eu’ como elemento coadjuvante ou como figura, algo essencial para se demonstrar a condição do homem sem Deus.

Para explicar a condição daqueles que estão divorciados do Criador, o apóstolo Paulo lançou mão de uma figura, o ‘eu’, onde fosse possível demonstrar a realidade do homem sem Deus. Como ele estava tratando diretamente com os cristãos judeus, havendo entre eles alguns judaizantes, não era de bom alvitre dizer: ‘Vocês são carnais, vendidos como escravos ao pecado’ ( Jo 8:33 ). Por amor aos seus compatriotas, Paulo fez referência a sua antiga condição utilizando o ‘eu’ como figura ( 1Co 4:6 ).

Após afirmar qual era a sua antiga condição sob a égide do pecado (Eu sou carnal), os compatriotas do apóstolo dos gentios teriam elementos para concluir que, ser descendente de Abraão, israelita, hebreu de hebreu ou pertencente à alguma tribo de Israel não livra o homem do jugo do pecado.

A proposição (afirmação) ‘Eu sou carnal’ tem a finalidade de apresentar a condição pertinente à natureza gerada segundo o pecado, ou seja, a condição do homem vendido como escravo ao pecado em decorrência da ofensa de Adão ( Rm 7:14 ).

Todos os descendentes de Adão são carnais, visto que, ser carnal é condição proveniente do nascimento natural. Para ser espiritual é necessário nascer de novo segundo o último Adão, que é Cristo.

A carne não é aniquilada através do ascetismo pessoal. Para o homem livrar-se da carne é necessário ter um encontro com a cruz de Cristo, diferente do ascetismo, que consiste na negação de desejos físicos e psíquicos em busca da espiritualidade.

Já reunimos os elementos necessários para analisar Romanos 7, versos 7 à 12.

 

 

A Lei é Santa

Partindo da argumentação paulina temos uma pergunta e uma resposta: “Que diremos, pois? É a lei pecado? De modo nenhum! Logo após uma pequena exposição, vem a seguinte conclusão: “Portanto, a lei é santa e o mandamento santo, justo e bom” ( Rm 7:12 ).

Foi a lei quem causou a separação entre Deus e os homens? Não! A lei não causou a barreira de separação erguida entre Deus e os homens. Foi a desobediência à lei dada no Éden que ergueu a barreira de separação.

O que causou a separação entre Deus e os homens? A desobediência de Adão à lei de Deus! Ora, a lei de Deus é especifica: “De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás, pois no dia em que dela comeres, certamente, morrerás” ( Gn 2:16 – 17).

A desobediência (ofensa) à lei dada no Éden trouxe o juízo de Deus e a condenação: separação, morte, alienação da glória de Deus ( Rm 5:16 ). O pecado surgiu da desobediência à lei divina que distanciou a humanidade de Deus. Por intermédio da lei o homem conheceu (uniu-se) o pecado quando desobedeceu a Deus.

Por que Paulo utiliza o pronome na primeira pessoa do singular para falar do pecado? “Mas eu não conheci o pecado senão por intermédio da lei”. Para demonstrar que foi através da desobediência à lei dada no Éden que todos os homens, inclusive o Paulo, tornaram-se pecadores. Através da lei concedida o pecado achou ocasião, visto que Adão a desobedeceu.

É costume do apóstolo Paulo fazer uso de figuras quando o tema é complexo e envolve aspectos pertinentes ao velho homem. O apóstolo Paulo usou de modo figurado a sua pessoa e a pessoa de Apolo quando precisou demonstrar que os cristãos de Corintos estavam envoltos em dissensões “Ora, irmãos, apliquei estas coisas figuradamente a mim e a Apolo, por amor de vós…” ( 1Co 4:6 ). O que foi aplicado figuradamente? Uma suposta divisão entre Paulo e Apolo para ilustrar as questões partidárias existentes entre os cristãos de Corintos ( 1Co 3:4 ).

De qual ‘eu’ o apóstolo fez referência? Ao ‘eu’ pertencente ao pecado, ou ao ‘eu’ que pertence a justiça?

No capítulo 3, verso 7, Paulo faz referência ao ‘eu’, observe: “Mas, se por causa da minha mentira sobressai a verdade de Deus para sua glória, por que sou eu ainda julgado como pecado?” ( Rm 3:7 ).

Perceba que, enquanto argumenta, o apóstolo dos gentios transita facilmente entre passado e presente, o que indica que ele só pode estar fazendo uso de uma figura. Ele afirma que Deus é verdadeiro e todo homem mentiroso ( Rm 3:4 ), isto significa que, todos os homens se desviaram da verdade que há em Deus, e passaram a condição de mentirosos em Adão ( Rm 3:23 ).

A barreira de separação alienou o homem da verdade que há em Deus, o que levou todos os homens a condição de ‘mentira’.

Ora, quando o apóstolo Paulo argumenta que a sua mentira (minha mentira) faz sobressair a verdade de Deus, ele destacou sua antiga condição herdada de Adão (condição de todos os homens sem Cristo). Em Adão os homens tornaram-se mentirosos, ímpios, injustos, maus, inúteis, etc ( Rm 3:10 – 18).

Por intermédio da lei dada no Éden ‘Saulo’ conheceu o pecado, ou seja, foi gerado na condição de pecador. E não somente Saulo, mas todos os homens foram gerados pecadores por intermédio da mesma lei, pois a sentença da lei é irrevogável: ‘…certamente morrerás’. A condição ‘em pecado’ é proveniente da pena imposta: a morte.

Do mesmo modo que, por intermédio da lei perfeita o homem conheceu (separação de Deus) o pecado, por intermédio da lei mosaica o homem conheceu (soube) a cobiça e outras concupiscências.

Além da sujeição ao pecado estabelecida em Adão, o pecado passou a operar toda sorte de concupiscência no velho ‘eu’ de Paulo. Do mesmo modo que o pecado tomou ocasião na lei e o homem foi destituído da glória de Deus, agora o pecado opera sobre os homens sem Deus a concupiscência através do mandamento. Ex: não cobiçarás ( Ex 20:17 ).

Como foi possível o pecado tomar ocasião pelo mandamento? A obediência ao mandamento preservaria o homem participante da vida que há em Deus, porém, através da desobediência, o mandamento que era para preservar a vida, operou a morte. A morte surgiu da penalidade incrustada na lei. A força do pecado é proveniente da lei, que é santa, justa e boa.

Todos os homens sem Cristo estão debaixo do pecado ( Rm 3:9 ), e se estão debaixo do pecado, segue-se que não há quem faça o bem, não há nem um só ( Rm 3:12 ). Ora, se não há quem faça o bem, isto demonstra o quanto a lei de Moisés (mandamento) é inócua sobre os que estão debaixo do pecado ( Rm 3:20 ).

Os homens são transgressores diante de Deus mesmo quando não descumprem prescrições legais. São transgressores porque foram gerados em pecado, ou seja, mesmo sem transgredirem as leis existentes são transgressores diante de Deus, e não porque transgridem leis ou regras morais ( Sl 25:3 ).

Para o homem ver-se livre da concupiscência é preciso estar em Deus, pois somente morto para o pecado por intermédio do corpo de Cristo o homem vive sem lei “Pois sem a lei estava morto o pecado” ( Rm 7:8 b). Pelo mandamento o pecado opera sobre os homens toda sorte de concupiscência, porém, como sabemos que sem a lei o pecado está morto, basta morrer com Cristo para o homem ver-se livre da lei que disse: “…certamente morrerás”, e da concupiscência ( Gl 5:24 ).

Conclui-se que através da lei o pecado passou a existir, pois onde a lei de Deus diz: “…Certamente morrerás”, o pecado tomou ocasião e força. Como a lei de Deus é irrevogável, para o homem ver-se livre da lei é preciso morrer, como ela estipula.

 

 

O ‘Bom’ transformou-se em morte?

“Logo tornou-se-me o bom em morte? De modo nenhum; mas o pecado, para que se mostrasse pecado, operou em mim a morte pelo bem; a fim de que pelo mandamento o pecado se fizesse excessivamente maligno” ( Rm 7:13 )

O apóstolo dos gentios novamente se antecipa e faz a pergunta que certamente os seus interlocutores fariam: “Logo tornou-se o bom em morte?”. Após explicar que a lei não era o mesmo que pecado, Paulo estava diante de uma nova questão que teve origem na seguinte conclusão: A lei é santa, justa e boa.

Do mesmo modo que a ‘lei’ não é ‘pecado’, o ‘bom’ não se tornou em ‘morte’. Novamente o apóstolo põe-se a explicar o que ocorreu: mas o pecado, para que se mostrasse pecado, operou no homem a morte (separação de Deus) através do mandamento.

Através do que é bom (mandamento) o pecado se mostrou excessivamente maligno, ou seja, mau. Deus é bom e o pecado é o mau. Deus é santo e o pecado maligno. Estes elementos demonstram que o pecado estabelece e nomeia a separação que há entre Deus e suas criaturas que foram destituídas de sua glória.

Quando foi que o pecado operou a morte sobre os homens pelo bem? O único evento que aponta esta realidade deu-se em Adão, pois através da ofensa (pecado) de Adão entrou a morte no mundo, e por ele todos pecaram (morreram) ( Rm 5:12 ).

 

A Escravidão como figura

“Porque bem sabemos que a lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido sob o pecado. Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço. E, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim” ( Rm 7:14 -17).

Afirmar que a lei é espiritual não foi problema para o apóstolo Paulo, pois este era um conhecimento comum a todos “Porque bem sabemos que a lei é espiritual…” ( Rm 7:14 ). Falar positivamente da lei era bem-vindo aos judaizantes, porém, demonstrar que um descendente de Abraão (judeu) e seguidor da lei mosaica era carnal porque foi vendido como escravo ao pecado era uma tarefa difícil.

Para realizar tamanha tarefa, Paulo utiliza a figura do ‘eu’, demonstrando que todos os homens, sejam judeus ou gentios, são carnais (gerado segundo a carne de Adão), vendidos como escravo ao pecado.

Definitivamente Paulo não estava falando da sua nova condição em Cristo, o ‘eu’ foi interposto como figura para representar o velho homem (Saulo).

Para quem ainda julga que Paulo continuava sendo ‘carnal’ após ter um encontro com Cristo, ou que, por momentos breves, ele se deixava levar pela ‘carne’ ou que em certos momentos era dominado por ela, já temos o veredicto: “Rogo-vos que, quando estiver presente, não me veja obrigado a usar com confiança da ousadia que espero ter com alguns que nos julgam, como se andássemos segundo a carne. Pois embora andando na carne, não militamos segundo a carne” ( 2Co 10:2 – 3).

Ter um corpo carnal não é o mesmo que ‘viver segundo a carne’. Somente quem não é nascido de novo (da água e do Espírito), ou seja, da semente incorruptível, que consegue ‘militar’ segundo a carne.

Para melhor compreender o que é ser carnal, ou seja, estar vendido ao pecado como escravo faz-se necessário conhecer os elementos que se aplica a figura da escravidão.

Qual era a condição do apóstolo Paulo diante de Deus?

  • Reconciliado com Deus ( Rm 5:10 );
  • Morto para o pecado ( Rm 6:2 );
  • Batizado na morte de Cristo ( Rm 6:2 );
  • O pecado não mais reinava sobre o seu corpo mortal ( Rm 6:12 );
  • Liberto do pecado e escravo da justiça ( Rm 6:18 );
  • Morto para lei e livre da lei ( Rm 7:4 ).

Qual era a condição do apóstolo Paulo antes de conhecer a Cristo?

  • Inimigo de Deus ( Rm 5:10 );
  • Vivo para o pecado ( Rm 6:2 );
  • O pecado reinava sobre o seu corpo mortal ( Rm 6:12 );
  • Escravo do pecado ( Rm 6:18 );
  • Retido pela lei ( Rm 7:6 ).

Paulo apresenta a figura do seu ‘eu’ carnal (natureza escrava do pecado), tornando evidente o contraste com a lei, que é espiritual. O que Paulo quis enfatizar ao utilizar o ‘eu’ como figura: “Eu sou carnal”? Ele estava demonstrando que o ‘eu’, que agora não mais vivia ( Gl 2:20 ), foi gerado segundo o sangue, a vontade da carne e vontade do varão ( Jo 1:13 ). Ora, o que é gerado da carne é carne, ou seja, carnal, sujeito ao pecado como escravo ( Jo 3:6 ).

Ser descendente de Adão é o que sujeita o homem representado pelo ‘eu’ (velha criatura) à condenação. O ‘eu’ é gerado em iniqüidade e concebido em pecado ( Sl 51:5 ). Adão é a porta larga que conduz os homens à perdição ( Mt 7:13 ). Em Adão todos os homens tornaram-se culpáveis e destituídos de Deus.

Adão vendeu todos os homens como escravos ao pecado! Qual a condição de um escravo? O que a figura da escravidão interpõe? No que implicava ser escravo na época de Paulo?

Da figura ‘escravidão’ podemos tirar os seguintes elementos:

  • Um escravo serve um único senhor ( Rm 6:20 );
  • Para ser livre de um senhor precisa ser adquirido por outro ( Rm 6:22 );
  • Tudo que um escravo produz pertence por direito ao seu senhor ( Rm 6:19 );
  • Somente a morte do escravo livra-o do senhorio ( Rm 6:6 );
  • A força da escravidão era proveniente das leis da época ( Rm 7:4 );
  • As pessoas eram escravas quando eram conquistadas na guerra, por dívida (em última instância quando se vendiam) ou quando nasciam escravas ( Rm 7:14 ).

Ora, Adão vendeu-se ao pecado quando desobedeceu ao Criador e pela ‘força’ da lei (certamente morrerás) foi escravizado. Por causa da força da lei, o pecado, embora não seja uma pessoa, passou a ser personificado (existir) como ‘senhor’. A existência do pecado se dá na separação que se estabeleceu entre o Criador e as suas criaturas que se rebelaram.

A força da lei é tamanha que dá uma personificação à condição de destituído da glória de Deus, o que é nomeado de ‘pecado’.

Adão vendeu-se ao pecado e todos os seus descendentes vêem ao mundo na condição de escravos do pecado. Todos os homens, antes mesmo que façam o bem ou o mal, já nascem sob a égide do pecado. Após nascer, se fizer bem ou mal, não importa, o homem continuará sob o jugo do pecado.

Ora, quando Paulo afirmou que foi vendido ao pecado como escravo, ele destaca algumas peculiaridades pertinentes ao regime escravocrata que existia à época para ilustrar a condição do homem sob a égide do pecado. E para entender a ilustração proveniente da figura da escravidão é necessário observar que existem somente dois senhores: a justiça e o pecado ( Rm 6:16 ; Rm 6:18 ).

A bíblia é clara: é impossível ao homem servir dois senhores. Ou o homem é escravo da justiça ou é escravo do pecado. É impossível servir o pecado e a justiça simultaneamente.

Todos os homens estão sob domínio: ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça ( Rm 6:16 ). É impossível aos homens existirem ‘livres’ destes dois senhores simultaneamente, ou servirem aos dois simultaneamente.

Ao homem só é possível produzir para um senhor. Os servos do pecado não podem produzir para a justiça e nem os servos da justiça produzir para o pecado. Não há como os servos de Deus produzirem para o pecado, do mesmo modo que é impossível os servos do pecado produzirem para Deus.

Todos os homens por serem descendentes de Adão eram ou continuam sendo escravos do pecado. Para deixar de servir o pecado e passar a servir à justiça é necessário ao homem nascer de novo obedecendo de coração à forma de doutrina que foi entregue por Cristo ( Rm 6:17 ).

Após a desobediência de Adão os homens passaram a existir divorciados do Criador, escravos do pecado. Após crer em Cristo, o homem é de novo gerado segundo Deus em verdadeira justiça e santidade e torna-se escravo da justiça, libertos do pecado ( Rm 6:18 ).

Por que o apóstolo Paulo conclui que o seu ‘eu’ fora vendido como escravo ao pecado? Porque o seu ‘eu’ não aprovava o que fazia! “Porque o que faço não o aprovo” ( Rm 7:15 ).

O que o ‘eu’ de Paulo fazia e não era aprovado? O que o ‘eu’ de Paulo queria fazer e não fazia? Ora, através da declaração anterior de que ele fora vendido como escravo ao pecado verifica-se que o ‘eu’ de Paulo desejava servir a Deus, porém, isso ele não fazia. Concomitantemente, fazia justamente o que aborrecia: servia ao pecado.

Novamente! O que alguém vendido como escravo ao pecado faz? Serve ao pecado. Por mais que queira deixar de servir ao pecado, não consegue. Por mais que aborreça servir ao pecado, inexoravelmente continuará sob o jugo do pecado. Por mais que intente servir a Deus, isso não faz porque é impossível fazê-lo.

Das impossibilidades destacadas acima surge mais uma prova de que a lei é boa ( Rm 7:16 ). Através da realidade pertinente a quem foi vendido como escravo ao pecado, Paulo apresenta uma nova argumentação em favor da natureza da lei: se o ‘eu’ vendido como escravo ao pecado faz o que não quer, segue-se que a lei é boa.

O versículo dezesseis do capítulo sete encerra a questão que teve início no verso sete: É a lei pecado? ( Rm 7:7 ) Não! A lei é boa ( Rm 7:16 ).

 

 

Como realizar o bem?

“De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço. Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. Acho então esta lei em mim, que, quando quero fazer o bem, o mal está comigo” ( Rm 7:17 – 21).

Sabemos que o apóstolo Paulo quando escreveu aos cristãos em Roma era templo e morada do Espírito ( 1Co 3:16 e 1Co 3:17 ). Como o Espírito de Deus é luz e não há n’Ele trevas alguma, segue-se que o pecado não mais habitava em Paulo ( 1Jo 1:5 ; Rm 7:17).

É possível co-existirem dois senhores em uma mesma casa? Ora, se o apóstolo dos gentios era uma ‘casa’ pertencente ao Filho por conservar firme a confiança e a gloria da esperança, é factível que o pecado continue a exercer domínio sobre a ‘casa’ do Senhor? Não! “Mas Cristo, como Filho, sobre a sua própria casa; a qual casa somos nós, se tão somente conservarmos firme a confiança e a glória da esperança até ao fim” ( Hb 3:6 ).

Através desta pequena análise conclui-se novamente que o ‘eu’ utilizado por Paulo no capítulo sete não se refere a sua atual condição em Cristo, antes aponta para um outro tempo em que o apóstolo Paulo era chamado ‘Saulo’ (trevas), e que tinha o pecado como senhor sobre a sua casa ( Ef 2:1 ).

No verso 14 do capítulo 7 Paulo utiliza a figura da escravidão para ilustrar a sua antiga condição sob o jugo do pecado. Já no verso 17 do capítulo 7, ele passa a destacar uma nova figura, a do senhor regendo a sua própria casa.

Estas duas figuras destacam elementos distintos pertinentes à condição do homem sob a égide do pecado. A figura da escravidão destaca as impossibilidades do servo “Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço” ( Rm 7:15 ), e a casa (habitação) destaca o senhorio do dono da casa “De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim” ( Rm 7:17 ).

Se o leitor não perceber a transição sutil entre as duas figuras cometerá erros gravíssimos na interpretação deste capítulo.

O que o pecado que habitava em ‘Saulo’ (eu) fazia? Ou melhor, o que o ‘eu’ de Paulo não fazia? “…não sou eu que faço isto…” ( Rm 7:17 ). A resposta depreende-se dos versos 14 e 15 do capítulo 7.

Habitação ou casa = “De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim” ( Rm 7:17 );

Escravidão = “Porque bem sabemos que a lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido sob o pecado” ( Rm 7:14 );

Impossibilidade do escravo = “Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço ( Rm 7:15 ).

O ‘eu’ de Paulo, por ter sido vendido ao pecado como escravo, não fazia o seu próprio querer, antes fazia o desejo do seu senhor, o pecado. O desejo do ‘eu’ de Paulo e da grande maioria dos homens é servir a Deus, porém, por terem sido vendidos como escravos ao pecado é impossível servir a Deus, ou seja, sob domínio do pecado é impossível ao homem fazer o que deseja.

O ‘eu’ de Paulo, que fora vendido como escravo ao pecado, desejava servir a Deus ( Rm 7:22 ), mas, por causa do seu senhor, o pecado, servir a Deus era impossível. Através da figura da escravidão Paulo destaca o desejo do escravo e a sua impossibilidade diante da sujeição ao seu senhor. Através da figura da ‘casa’ ou ‘habitação’, Paulo destaca que, como senhor, o pecado tem total autonomia sobre a vida do escravo. Compare:

“De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim ( Rm 7:17 );

“Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” ( Gl 2:20 ).

Na carta aos Romanos o apóstolo Paulo ao falar do ‘eu’ sob sujeição ao pecado demonstra que o pecado habitava nele como senhor. Já na carta aos Gálatas, o apóstolo Paulo demonstra que o seu ‘eu’ foi crucificado com Cristo, e que, portanto, o seu ‘eu’ não mais vive.

O pecado habitava no ‘eu’ de Saulo, agora, após ter sido crucificado, Cristo passou a habitar (viver) em Paulo. Observe que as palavras ‘habitar’ e ‘viver’ expressão ideias similares. Dentro deste contexto verifica-se que os cristãos são templos e moradas de Deus ( 1Co 3:16 ), visto que Deus vive e habita neles ( Hb 3:6 ; Gl 2:20 ; Ef 2:22 ; Jo 14:23 ).

Através da análise acima, é possível inferir que os incrédulos são casas e moradas do pecado, visto que, há um senhor habitando neles: o pecado. Através da análise anterior é possível fazer a seguinte leitura dos versos 14 ao 17 do capítulo 7 de Romanos:

Todos os cristãos em Roma sabiam que a lei é espiritual, porém, o ‘eu’ de Paulo era carnal, ou seja, havia sido vendido ao pecado por causa da desobediência de Adão ( Rm 7:14 ). Uma evidência de que o ‘eu’ de Paulo era sujeito ao pecado estava no fato de ele concordar com as prescrições da lei ( Rm 7:16 ; Rm 7:22 ), porém, não aprovava o que fazia. O ‘eu’ queria servir a Deus, mas, mesmo aborrecendo o pecado, servia ao pecado, uma vez que fora vendido ao pecado ( Rm 7:15 ).

O verso 17 demonstra que após ter sido vendido ao pecado como escravo, tudo o que o ‘eu’ de Paulo propusesse fazer seria realizado pelo pecado que nele habitava, ou seja, o pecado fez nele morada. Os desejos do escravo são para o seu senhor, as realizações do escravo pertence ao seu senhor, em suma, o escravo pertence ao seu senhor.

Como entender a declaração paulina: “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum”? Para uma melhor compreensão, analisaremos alguns versículos do capítulo 3.

Após declarar que Deus é verdadeiro e que todo homem é mentiroso ( Rm 3:4 ), Paulo aplica esta declaração a sua pessoa, contrastando a sua antiga natureza (eu, mentira) com a natureza divina (Jesus, verdade) ( Rm 3:7 ). Ora, sabemos que o apóstolo Paulo não era um homem dado à mentira (faltoso com a verdade).

Também sabemos que, por natureza, Deus é verdadeiro e que o apóstolo Paulo compartilhava da natureza divina, visto que, naquele que é verdadeiro ele estava “E sabemos que já o Filho de Deus é vindo, e nos deu entendimento para conhecermos o que é verdadeiro; e no que é verdadeiro estamos, isto é, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna” ( 1Jo 5:20 ).

Quando Paulo escreveu aos Romanos ele era ‘verdadeiro’, visto que compartilhava da natureza divina. Ele estava em Cristo porque recebeu poder e foi de novo criado em verdadeira justiça e santidade ( Jo 1:12 ; Ef 4:24 ). Ao dizer: ‘minha mentira’, Paulo faz referência a sua antiga condição em pecado (mentira), ou, à sua condição antes de ser crucificado com Cristo, contrastando-a com a natureza divina.

Por que Paulo usou este recurso no seu argumento? Porque ele estava escrevendo diretamente aos judeus, seus irmãos na carne ( Rm 9:3 ).

Observe este versículo: “Pois que? Somos melhores do que eles? De maneira nenhuma, pois já demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado” ( Rm 3:9 ). Paulo estava debaixo do pecado quando escreveu aos Romanos? Por certo que não. Porém, caso alguém queira distorcer a sua argumentação, pode inferir erroneamente que o apóstolo estava debaixo do pecado porque ele está incluso na pergunta: Somos melhores do que eles?

Quando Paulo diz que na sua carne não habita bem algum, não podemos esquecer que ele está abordando questões pertinentes à condição do ‘eu’ que fora vendido como escravo ao pecado. Nesta abordagem o apóstolo Paulo demonstra total conhecimento acerca da carne subjugada ao pecado, porém, a argumentação pode causar confusão entre a figura utilizada (eu) e a pessoa do apóstolo.

Como sanar estas dúvidas? Fazendo algumas perguntas para o texto considerando as análises que foram feitas até este ponto. Ex: Como Paulo soube que na sua carne não habitava bem algum? Ele sabia desta verdade antes de conhecer o evangelho?

Paulo sabia que no seu ‘eu’, o ‘eu’ que fora crucificado com Cristo, não habitava bem algum “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne…”. Para não causar confusão, Paulo especificou que, o ‘eu’ (mim) é o mesmo que ‘minha carne’.

Por que Paulo sabia que na sua carne não habitava o bem? Porque ele observou nos profetas e nos salmos que dentre os homens sem Deus não havia quem fizesse o bem ( Rm 3:10 à 18). Na ignorância o apóstolo desconhecia esta realidade, porém, agora, em Cristo, ele passou a conhecer que à parte de Deus é impossível fazer o bem.

(Para compreender melhor o problema do bem e do mau, leia o ensaio: Deus, o bem e o mau)

Na condição de apóstolo, Paulo demonstra que na carne não há bem algum (ele não se refere a corpo físico).

Antes de ter um encontro com Cristo Paulo desconhecia que não havia como fazer o bem, visto que buscava guiar-se na lei visando fazê-lo. Descobriu não haver bem algum na sua carne (eu) somente após converter-se ao evangelho de Cristo.

Perceba que as argumentações de Paulo acerca do ‘eu’ confunde-se com a sua nova condição em Cristo porque somente como nova criatura teve entendimento para dissertar acerca de sua antiga condição.

Como o apóstolo Paulo soube que em sua carne não havia bem algum?

O apóstolo dos gentios já havia demonstrado que todos os homens, sem exceção, estavam debaixo do pecado ( Rm 3:9 ). Todos eram escravos do pecado porque assim diz as Escrituras: “Não há um justo se quer” ( Rm 3:10 ). Todos os homens se perderam e juntamente se fizeram inúteis. Conseqüentemente, por estarem debaixo do pecado, não há quem faça o bem, nem se quer um só ( Rm 3:12 ).

No capítulo 7, verso 14, novamente o apóstolo faz referência à sujeição (escravidão, jugo) ao pecado e a seguir apresenta as conseqüências provenientes desta sujeição: não é possível realizar o bem ( Rm 7:18 ).

O que impedia o apóstolo de realizar o bem? A sua vontade? NÃO! Embora o seu desejo fosse realizar o bem, ele não achava como realizar o bem “Porque eu tenho sabido que em mim (isto é, na minha carne) não habita bem algum; porque o querer está presente em mim, mas eu não acho como realizar o bem” ( Rm 7:18 ) Bíblia Literal do Texto Tradicional – LTT.

Por que ele não achava como realizar o bem? Porque ele era mau na natureza por causa da sujeição ao pecado (mau). Deus é bom e todos quantos são participantes da sua natureza são bons e capacitados a produzir o bem. O Senhor Jesus chamou seus ouvintes de maus, embora eles soubessem realizar coisas boas ( Lc 11:13 ). Isto porque, dar boas dádivas não é o mesmo que fazer o bem. Caridade, sacrifício, esmola, compaixão, companheirismo, etc., são boas dádivas, porém, não transforma os homens maus em homens bons.

Somente a sujeição a Cristo transforma os homens maus em bons, da mesma forma que a sujeição ao pecado por causa da condenação de Adão tornou os homens maus. Fazer o bem não é uma questão de vontade, antes decorre da natureza herdada no nascimento. Se nascido da carne, o homem é carnal, vendido ao pecado como escravo e não consegue realizar o bem. Se nascido do Espírito é espiritual, comprado pela justiça e não consegue realizar o mau.

Quem habitava o ‘eu’ do apóstolo Paulo? O pecado ( Rm 7:17 ). Ora, se o pecado (mau) habitava o ‘eu’ que era pertinente a Saulo, segue-se que, nele não habitava bem algum. Porém, após receber a Cristo como Senhor em sua casa “… essa casa somos nós…” ( Hb 3:6 ), o Pai e o Filho fez nele morada ( Jo 14:23 ). Conseqüentemente, o bem passou a residir em Paulo, capacitando-o a realizar o bem.

A figura da árvore demonstra melhor a questão acerca do bem e do mau: “E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo” ( Mt 3:10 ). Quais são as árvores que serão cortadas e lançadas no fogo? As árvores que o Pai não plantou ( Mt 15:13 ).

Quais são as árvores que dão bons frutos? As árvores plantadas por Deus, que não serão arrancadas, pois nasceram de semente incorruptível, que é a palavra de Deus. “As árvores” nascidas da vontade da carne, da vontade do varão e do sangue serão arrancadas, pois não foram plantas por Deus e não podem dar bons frutos ( Mt 7:17 ).

Embora os pecadores desejam fazer o bem, as suas obras não passam de trapos de imundície. As suas obras e retidão não são aproveitáveis diante de Deus ( Is 57:12 ). As obras realizadas pelos pecadores são obras de iniquidade, comparadas a teias que não prestam para se vestir. Não se podem cobrir com as suas obras ( Is 59:6 ).

Por que não? Porque as suas obras não são feitas em Deus, antes na carne, no ‘eu’ onde o pecado habita e reina ( Jo 3:21 ). Apesar do desejo de realizar o bem ser pertinente a todos os homens, não conseguem realizar. Os judeus são exemplos desta verdade, visto que tinham zelo de Deus, porém, sem o entendimento que decorre do evangelho. No afã de servir a Deus, os judeus estabeleceram a sua própria justiça e rejeitaram a justiça de Deus ( Rm 10:3 ).

Diante da impossibilidade do ‘eu’ realizar o bem (porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço), Paulo conclui que fazer o que não se quer é proveniente do pecado que habita o ‘eu’ “Ora, se o que não quero isto eu faço, não sou mais eu que faço isto, mas o pecado que está habitando em mim” ( Rm 7:18 ) LTT.

Ora, o pecado como senhor em sua própria casa, que é o ‘eu’ gerado em Adão, tem total autonomia sobre o homem e impede-o de servir a Deus. Mas, Jesus sendo Senhor sobre a sua própria casa, e a casa somos nós, passamos da morte para a vida e reinamos com Cristo Jesus, nosso Senhor ( 2Tm 2:12 ).

 

 

O Mau

“Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. Acho então esta lei em mim, que, quando quero fazer o bem, o mal está comigo. Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; Mas vejo nos meus membros outra lei, que batalha contra a lei do meu entendimento, e me prende debaixo da lei do pecado que está nos meus membros” ( Rm 7:20 -23 ).

Novamente o apóstolo Paulo enfatiza a sujeição ao pecado como impedimento para se realizar o bem.

O que impede o homem sem Deus de realizar o bem é o pecado, porém, a vontade do homem é livre para desejar servir a Deus. Observe que em momento algum o apóstolo Paulo demonstra que a vontade do homem está sob o jugo do pecado. Embora deseje fazer o bem, o homem é impedido pelo seu senhor, que habita nele.

Por que o ‘eu’ escravo do pecado possui uma lei que o impede de fazer o bem? Porque o mau está atrelado ao ‘eu’, ou seja, o pecado habita o homem carnal.

Paulo não estava tratando de comportamento, visto que é possível a todos os homens fazerem coisas boas ou ruins. Observe que é plenamente possível aos homens maus dar boas dádivas aos seus filhos, porém, eles não podem fazer o bem, porque o mau reside neles.

Sabemos que Deus é bom e todos que são moradas do Espírito Eterno são bons, visto que Deus não habita templo imundo ( 1Co 3:17 ). Deus não habita onde há trevas, visto que, Ele é luz e não há nele trevas nenhuma. Para estar em Deus o homem precisa ser de novo gerado, passando a ser luz no Senhor, ou seja, o pecado perde o seu domínio e o mau não habita o novo homem gerado em Cristo ( 1Jo 1:5 ; Ef 5:8 ).

Há uma lei que prende o ‘eu’ sob o pecado. Que lei é está? Refere-se à lei estabelecida no Éden: “…dela não comerás, pois no dia em que comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:17 ). A morte (separação de Deus) ou o pecado se estabeleceu por intermédio da lei, e não importa as ações dos homens, se boas ou más, se não nascer de novo, continuará sob o domínio do mau.

O ‘eu’ se deleita na lei de Deus, mas não pode servir a Deus. Isto ocorria com o povo de Israel, que ‘servia’ a Deus com os lábios, porém, a barreira de separação persistia “Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” ( Is 29:13 ).

O povo de Israel não via que a lei do pecado estava sobre os seus membros, e que os conduzia para longe do objetivo que traçaram. Eles pensavam que estavam se aproximando de Deus e com a boca prestava honras, porém, o coração deles era o que os afastava de Deus.

Como? Ter zelo de Deus não é o mesmo que tê-lo habitando no coração ( Rm 10:2 ). Para que Deus pudesse habitar neles era preciso que eles circuncidassem os corações conforme Moisés apregoara “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz” ( Dt 10:16 ).

O problema do povo de Israel e de toda a humanidade estava no coração que receberam através do nascimento natural. Por causa da desobediência de Adão o mau passou a residir nos corações dos homens, afastando-os de Deus. Somente após circuncidar o ‘prepúcio’ do coração, algo que somente Deus pode realizar pelo homem, a barreira de separação é desfeita.

Não basta ao homem deleitar-se na lei. Não basta honrar a Deus com os lábios. Há uma lei que prende o homem debaixo do jugo do pecado “Porque, conforme o homem interior, juntamente me deleito na lei de Deus; Mas vejo nos meus membros uma lei diferente, batalhando contra a lei do meu entendimento e me levando cativo para a lei do pecado, aquela estando nos meus membros” Bíblia Literal do Texto Tradicional – LTT.

Quando o homem aceita a Cristo, ele se apresenta a Deus como vivo dentre os mortos: uma nova criatura. A nova criatura gerada em Cristo agora precisa apresentar os seus membros, ou seja, o seu corpo físico como instrumento de justiça, uma vez que este mesmo corpo era instrumento de iniqüidade “Nem tampouco apresenteis os vossos membros ao pecado por instrumentos de iniqüidade; mas apresentai-vos a Deus, como vivos dentre mortos, e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça” ( Rm 6:13 ).

Quando o homem nasce segundo Adão, ele é apresentado ao pecado na condição de vivo para o pecado e morto para Deus. Os seus membros (corpo carnal) são instrumentos de iniqüidade, mesmo quando executam boas ações aos seus semelhantes “Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte” ( Rm 7:5 ; Rm 6:19 ).

O Mau é pertinente ao homem carnal, ou seja, gerado segundo Adão. Quando Paulo disse ‘eu sou carnal’, ele estava referindo à sua condição no passado que é pertinente a todos os homens que ainda não aceitaram a Cristo. ‘Eu sou carnal’ não era a condição do apóstolo após ter um encontro com Cristo, visto que a sua atual condição é expressa logo a seguir: não andamos segundo a carne ( Rm 8:4 ; Rm 8:9 ).

 

 

O Miserável

“Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor. Assim que eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do pecado” ( Rm 7:24 – 25).

O homem ‘miserável’ é um problema para muitos expositores bíblicos. Seria o homem gerado de novo o desventurado por ainda estar ligado ao pecado? Ou refere-se a condição do pecador?

Alguns dizem que o homem miserável é o regenerado que ainda está ligado ao pecado, e utiliza a ordem dos assuntos que o apóstolo Paulo apresentou em favor dos seus argumentos. Alegam que Paulo já havia tratado da santificação do crente e morte para o pecado no capítulo 6, e que não é plausível o apóstolo voltar repentinamente a tratar no capitulo 7 da escravidão do pecado.

Porém, é próprio ao apóstolo dos gentios apresentar, em primeiro lugar, a nova condição dos cristãos em Cristo para depois fazer alusão à antiga condição no pecado. Esquecem de observar que o apóstolo Paulo não volta a tratar no capítulo 7 da santificação do crente através da morte para o pecado, antes, procura demonstrar a verdadeira natureza da lei contrastando-a com a condição do homem miserável.

Na carta de Paulo aos Efésios a nova condição dos cristãos é apresentada primeiro ( Ef 1:3 à 14), para depois ser lembrada a antiga condição dos cristãos quando ainda estavam em sujeição ao pecado ( Ef 2:2 à 6).

Na carta aos Colossenses o apóstolo Paulo apresenta a nova condição daqueles que estão em Cristo ( Cl 2:10 – 11), para depois relembrar da antiga condição de sujeição ao pecado ( Cl 2:12 – 15).

Na carta aos Gálatas a abordagem é semelhante. Paulo aborda a justificação em Cristo primeiro ( Gl 2:16 ), para depois fazer alusão ao seu ‘eu’ “Pois eu pela lei estou morto para a lei, a fim de viver para Deus” ( Gl 2:19 ).

Além do mais, o apóstolo Paulo descarta a possibilidade dos cristãos estarem unido

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Romanos 7 – Mortos para a lei

Quando os cristãos estavam na carne produziam frutos para a morte, agora, ‘em Cristo’, os cristãos servem a Deus em novidade de espírito, e, portanto, produzem frutos para Deus “Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto” ( Sl 51:10 ). Só é ´possível servir a Deus após adquirir um novo espírito. O mesmo Deus que cria a paz é o Deus que vivifica o coração e o espírito dos abatidos ( Is 57:15 -19). O Deus que cria um novo coração é o mesmo que produz o fruto dos lábios (Is 57:19). É próprio à carne produzir frutos para a morte, assim como é próprio do Espírito produzir frutos para a vida eterna ( Rm 6:16 ).


Epístola aos Romanos – Capítulo 7

Introdução e Conteúdo

Devido a complexidade do tema abordado nesta exposição, indico aos leitores e estudantes que façam um estudo sistemático e progressivo de alguns textos essenciais à compreensão deste capítulo, e que estão à disposição neste portal.

Leia atentamente os comentários aos capítulos anteriores, principalmente aqueles pontos que apresentam a metodologia de interpretação da carta paulina.

O leitor precisa conhecer e distinguir no que implica o caminho largo e o caminho estreito. Necessita conhecer quais são as plantas plantadas por Deus, e as que não são. É de suma importância saber quais são os vasos para honra e os vasos para desonra, etc. Todas estas questões foram abordadas neste portal e continua à disposição.

O estudo sobre Romanos 7 não passou por revisão ortográfica, e, desde já pedimos desculpar por possíveis erros de ortografia e gramática.

Agradeço a minha esposa (Jussara) por colaborar na elaboração deste estudo.

Tenha uma boa leitura, e que Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo ilumine os olhos do nosso entendimento ( Ef 1:18 ).

 

Prefácio

Este é um dos capítulos de maior complexidade para se interpretar de toda a bíblia. Ao longo dos séculos o capítulo sete da carta aos Romanos tem desafiado inúmeros teólogos e estudiosos quanto à sua real interpretação.

Uma correta interpretação deste capítulo é essencial à compreensão de toda carta, e, para interpretá-lo, precisaremos de todos os elementos que foram realçados através das análises feitas nos capítulos anteriores.

Antes de ler este capítulo, recomendo que seja feita uma leitura minuciosa de todos os comentários aos capítulos anterior da carta aos Romanos.

Além de observar os comentários versículo a versículo, é preciso observar também todas as introduções feitas aos capítulos, pois eles contêm elementos essenciais à interpretação deste capítulo em particular.

O primeiro ponto a se considerar na leitura deste capítulo é: Paulo escreveu uma carta, e ela originalmente não foi redigida em capítulos e versículos. Ao ler uma carta, o leitor não pode ater-se às divisões em versículos e capítulos, pois tal divisão interfere na interpretação do texto.

Para um maior proveito na leitura da carta que está sendo estudada, recomendo a quem tem um computador, que imprima a carta de Paulo aos Romanos sem as divisões em capítulos e versículos, pois a leitura do texto sem estes divisores será muito mais proveitosa para a interpretação.

Quem analisa qualquer texto bíblico precisa de algumas premissas centrais para não perder o foco durante a interpretação, uma vez que surgirão inúmeras perguntas, porém, dependendo da pergunta ela não vem ao caso no momento da análise.

Um exemplo claro de perca de foco, e que algumas pessoas incorrem ao ler a bíblia, verifica-se na passagem acerca da vida de Caim. Há vários aspectos a serem analisados e compreendidos na vida de Caim, porém, muitos restringem a análise e não progridem por se fixarem em questionar quem foi a mulher de Caim.

Diante de um texto bíblico surgirão inúmeras questões, porém, é necessário estar resolvido somente levantar questões que focam o texto. Antes de prosseguir em certas questões é preciso ter em mente as seguintes questões: É pertinente tal pergunta? É necessária no momento? Tem relação direta com a idéia do texto em análise?

Estas são algumas perguntas que devem ser feitas durante a análise do texto bíblico para evitar divagações desnecessárias quando da interpretação de um texto complexo.

Exemplo: Questionar quem foi a mulher de Caim é plausível? Há na bíblia qualquer referência à mulher de Caim? É possível encontrar uma resposta bíblica acerca da mulher de Caim que não seja mera especulação? Se não há nenhuma referência direta sobre a mulher de Caim, como descobrir quem foi sua mulher? De que adiantaria descobrir quem foi a mulher de Caim?

Paulo recomendou a Tito: “Mas não entres em questões loucas, genealogias e contendas, e nos debates acerca da lei; porque são coisas inúteis e vãs” ( Tt 3:9 ). Muitos há que procuram demonstrar conhecimento bíblico, e que, em qualquer conversa interpõe perguntas semelhantes: Quem foi a mulher de Caim? Quem eram os Nefilins? Qual o sexo dos anjos?

 

 

Convite ao Raciocínio

“NÃO sabeis vós, irmãos (pois que falo aos que sabem a lei), que a lei tem domínio sobre o homem por todo o tempo que vive? Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido. De sorte que, vivendo o marido, será chamada adúltera se for de outro marido; mas, morto o marido, livre está da lei, e assim não será adúltera, se for de outro marido” ( Rm 7:1 – 3).

1 NÃO sabeis vós, irmãos (pois que falo aos que sabem a lei), que a lei tem domínio sobre o homem por todo o tempo que vive?

Após demonstrar que todos os cristãos foram batizados em Cristo, ou seja, tornaram-se participantes da Sua morte, e que, por estarem mortos, não havia como viverem no pecado, Paulo convoca os seus interlocutores ao raciocínio.

Se os cristãos em Roma desconheciam que todos que foram batizados em Cristo ( Rm 6:3 ), destruíram de uma vez por todas o corpo do pecado ( Rm 6:6 ), e que não mais serviam ao pecado, este ponto em específico foi esclarecido no capítulo seis. Porém, caso alguém permanecesse agarrado à ignorância, Paulo propõe os mesmos argumentos aos seus leitores, só que agora, através de figuras.

Este modo de exposição foi utilizado anteriormente nesta mesma carta. Basta analisar os elementos do texto que Paulo escreveu após falar da justificação por meio da fé ( Rm 3:21 – 26), para compreendermos o modo e porque Paulo introduziu os argumentos que há no capítulo 7.

Para ilustrar a doutrina do evangelho no capítulo 3, que foi exposta em poucas linhas, Paulo apresentou Abraão, o homem que foi justificado por Deus pela fé na promessa divina ( Rm 4:1 – 5). Em seguida o apóstolo Paulo apresenta alguns versos do salmista Davi para dar sustentação aos seus argumentos ( Rm 4:6 – 8).

Novamente ele fala da justificação pela fé em Cristo ( Rm 5:1 ), e, somente então, Paulo apresenta a primeira figura na carta aos Romanos: a escravidão, para dirimir qualquer ignorância da parte dos cristãos acerca da justificação: “Ou, porventura, ignorais que (…) e não sirvamos o pecado como escravos” ( Rm 6:6 ).

Diante da ignorância dos cristãos “Porventura ignorais, irmãos…” ( Rm 7:1 ), Paulo apresenta uma nova figura: a mulher ligada ao marido pelo matrimônio ( Rm 7:1 – 3).

Paulo geralmente introduz uma figura ou uma alegoria através da expressão interrogativa: “… não sabeis…?”:

  1. “Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só leva o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis” ( 1Co 9:24 );
  2. “Não é boa a vossa jactância. Não sabeis que um pouco de fermento faz levedar toda a massa?” ( 1Co 5:6 ), e;
  3. “Deus não rejeitou o seu povo, que antes conheceu. Ou não sabeis o que a Escritura diz de Elias, como fala a Deus contra Israel, dizendo:” ( Rm 11:2 );

Paulo conhecia bem a sua ‘platéia’, o que é próprio à retórica (arte do bem falar), uma vez que ele estava escrevendo a quem conhecia à lei. A quem Paulo estava escrevendo? Ora, sabemos que ele escreveu aos cristãos em Roma, porém, a carta do capítulo dois ao doze tinha como público alvo um grupo mais específico: os cristãos judeus.

Como aos cristãos judeus? A resposta a esta pergunta encontra-se no início da carta, isto porque, ao registrar que estava falando a quem conhecia a lei, é possível demonstrar que Paulo estava tratando especificamente com os cristãos de origem judaica e que agora pertenciam à igreja que estava em Roma.

Por ser uma carta intitulada: ‘Epístola de Paulo aos Romanos’, muitos são levados a entender que Paulo escreveu especificamente aos cristãos chamados dentre os gentios que habitavam em Roma. Porém, ao observar alguns versos desde o início da carta, veremos que Paulo escreveu focado em dois grupos de cristãos: cristãos chamados dentre os judeus e cristãos chamados dentre os gentios. Observe:

  • “Que diremos, pois, ter alcançado Abraão, nosso Pai segundo a carne?” ( Rm 4:1 ) – Com base neste versículo, Paulo estava escrevendo aos cristãos judeus ou aos cristãos gentios? De quem Abraão é pai segundo a carne? Dos Judeus ou dos gentios? Observe que Paulo está tratando especificamente com os judeus desde o capítulo 2;
  • “… mas também à que é da fé que teve Abraão, o qual é Pai de todos nós” ( Rm 4:16 ) – Através deste verso, Paulo procura convencer os filhos de Abraão segundo a carne (os judeus) que todos os cristãos, tanto gentios quanto judeus, efetivamente são filhos de Abraão segundo a fé. Ora, segundo a fé Abraão é pai de todos os que creem, sem distinção alguma, tanto de judeus quanto gregos;
  • “… porque não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça” ( Rm 6:14 ) – Ora, quem esteve debaixo da lei a não ser os cristãos chamados dentre os judeus? Perceba que o público alvo da carta aos Romanos inicialmente eram os judeus convertidos, embora os cristãos gentios também pudessem se beneficiar da exposição de Paulo;
  • “Convosco falo, gentios” ( Rm 11:13 ) – Observe que, após tratar diretamente com os judeus, Paulo direciona o seu discurso aos cristãos chamados dentre os gentios, para que eles não se ensoberbecem contra os cristãos que foram chamados dentre os judeus.
  • “Mas tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus” ( Rm 2:17 ) – Paulo direcionou o seu discurso especificamente aos cristãos judeus a partir deste ponto em diante, embora, o alvo da mensagem do evangelho seja todos os homens sem distinção alguma ( Rm 2:3 ).

 

Quem eram os irmãos que conheciam a lei? Os cristãos judeus ou os gentios? É certo que Paulo diz dos cristãos judeus ( Rm 7:1 ).

O que os cristãos estavam aparentando desconhecer? Eles demonstravam desconhecer que a lei tem domínio sobre o homem por todo o tempo que viver ( Rm 7:1 ).

Paulo questiona os seus interlocutores se eles desconheciam que a lei só tem domínio enquanto o homem está vivo. Ora, se eles morreram com Cristo (foram batizados), como era possível questionarem a possibilidade de permanecerem no pecado para que a graça aumentasse ( Rm 6:1 ).

Ora, como é possível a alguém que morreu para o pecado estar sob o domínio do pecado? (Romanos 6: 2). Para quem não compreendeu que a lei não mais tinha domínio sobre os cristãos, visto que todos morreram com Cristo, Paulo apresenta a figura da mulher ligada à lei do marido, para ilustrar a verdade exposta no capítulo 6.

 

 

A Figura da Mulher ligada ao Marido

2 Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido.

Um exemplo claro de que é impossível a alguém que morreu para o pecado permanecer no pecado é apresentado através da figura da mulher sujeita a lei do marido (lei estabelecida no matrimonio).

Enquanto o marido viver, a mulher estará ligada ao marido pela lei. Porém, morto o marido, qual o papel da lei? A viúva deveria continuar submissa à lei mesmo após a morte do marido?

É certo que, morto o marido, a lei continuará a existir, porém, a viúva não mais será alcançada pela lei, por mais que a mesma lei continue a submeter outras mulheres casadas a seus maridos, ela não submeterá a viúva.

Os leitores da carta de Paulo deviam construir um paralelo entre eles, que morreram para o pecado, e os não crentes, que permaneciam vivos para o pecado.

Quem não foi batizado (morreu) em Cristo, e que, portanto, não morreu com Cristo, permanece vivo para o pecado e sob a égide da lei. Quem não é batizado em Cristo, mesmo sem causa é transgressor “Na verdade, não serão confundidos os que esperam em ti; confundidos serão os que transgridem sem causa” ( Sl 25:3 ).

Quem crê em Cristo, ou seja, quem espera na salvação providenciada por Deus (esperam em ti), jamais serão confundidos. Porém, todos os que não confiam em Deus serão confundidos, pois mesmo sem causa são transgressores ( Sl 25:3 ).

O que isto quer dizer? Ora, todos os nascidos em Adão são transgressores por natureza, sem qualquer relação direta com questões comportamentais ou morais. Mesmo quando não transgridem leis sociais, morais e comportamentais, são transgressores diante de Deus.

Quem confia no Senhor, morre para o pecado e ressurge uma nova criatura, que jamais será confundida, pois a salvação providenciada por Deus não advém das regras sociais, morais ou comportamentais, antes, é salvo por ter sido novamente criado na condição de filhos de Deus.

A lei do marido só tem razão de ser enquanto o marido estiver vivo, pois tal lei estabelece a sujeição da mulher ao marido, porém, após a morte do marido, a viúva está livre da lei do marido.

 

3 De sorte que, vivendo o marido, será chamada adúltera se for de outro marido; mas, morto o marido, livre está da lei, e assim não será adúltera, se for de outro marido.

Paulo convida os seus interlocutores a pensarem e a chegarem a uma conclusão. Enquanto o marido viver, a mulher será chamada adúltera se for de outro homem, porém, após morrer o marido, a mulher estará livre da lei, e não mais será adultera se for de outro homem.

As figuras utilizadas por Paulo, tanto da escravidão quanto da mulher ligada ao marido pela lei são simples de entender.

Diante da lei jamais um escravo seria livre sem a aquiescência do seu senhor. Caso o senhor viesse a falecer, o escravo simplesmente fazia parte dos espólios do seu antigo senhor, porém, não seria livre.

Somente a morte do escravo é que o tornava livre do seu senhor, uma vez que a lei e o antigo senhor nada representavam para o escravo após a sua morte. Como é sabido, o pecado é um senhor tirano que não concede liberdade a seus escravos. Somente a morte deixa livre o pecador do seu tirano senhor, no entanto, seguirá para a eternidade sob condenação eterna.

O cristão efetivamente morre com Cristo, e é por isso que o pecado deixa de exercer domínio como senhor sobre ele.

Quem morre (a morte natural) como servo do pecado seguirá para a eternidade sob condenação, porém, aquele que morre com Cristo, é julgado em Cristo para não ser condenados com o mundo. Quem morre para o pecado em Cristo, ressurge uma nova criatura, e passa a viver para Deus.

O ponto principal que Paulo demonstra neste verso é que, após morrer o marido a mulher está livre da lei do marido. Do mesmo modo, após o escravo morrer, livre está do seu senhor.

Por certo, ao morrer para o pecado e para a lei, o cristão é livre da lei e do pecado. A figura da escravidão demonstra que o cristão é livre do pecado ( Rm 6:6 ), e a figura da mulher ligada ao marido pela lei, que o cristão é livre da lei ( Rm 7:4 ).

 

 

Argumentos Conclusivos

A figura da mulher ligada a lei do marido ( Rm 7:2 ) e a figura da escravidão ( Rm 6:18 ) que Paulo apresentou anteriormente conduz o leitor à conclusão que é apresentada nestes três versos a seguir.

Paulo novamente enfatiza que os cristãos estão mortos ( Rm 7:4 ), o que foi demonstrado nos capítulos anteriores exaustivamente “Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?” ( Rm 6:2 ). Todos cristãos estão efetivamente mortos para o pecado.

Paulo descreve de modo retroativo os eventos pertinentes àqueles que morreram em Cristo:

  • “Nós, que estamos mortos…” ( Rm 6:2 ) – diz do agora (presente), diz da nova condição pertinente a vida dos cristãos. Para alcançar esta posição (mortos para o pecado), os cristãos ressurgiram com Cristo (vivos para Deus);
  • “…todos quantos fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte?” (v. 3) – Antes de ressurgir com Cristo, os cristãos foram sepultados pelo batismo na morte de Cristo, ou seja, o batismo que Paulo faz referência não é o batismo em águas, antes ao batismo na morte;
  • “…fomos sepultados com ele pelo batismo na morte…” (v. 4) – o sepultamento se dá efetivamente no batismo na morte, o que não dá vazão a doutrina da regeneração batismal;
  • “…fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte…” (v. 5) – a semelhança não é um faz de conta, antes a semelhança que os cristãos foram plantados é conforme a morte de Cristo;
  • “Pois sabemos isto, que o nosso velho homem foi com ele crucificado…” (v. 6) – antes de estar efetivamente morto, antes de ser batizado, ou seja, ser plantado com Cristo, em primeiro lugar o ‘velho homem’ foi crucificado com Cristo.

É pertinente ao modo literário do apóstolo Paulo, apresentar inicialmente a condição efetiva dos cristãos “É também nele que vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade,…” ( Ef 1:13 ), para depois demonstrar como alcançaram tal condição “Ele vos vivificou, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados…” ( Ef 2:1 ). Geralmente o apóstolo dos gentios apresenta aos cristãos a nova condição em Cristo, para depois demonstrar como se alcançou tamanha graça. Para tanto, ele demonstra qual era a condição do homem sem Cristo.

Paulo faz alusão a um princípio doutrinário do evangelho nos versos três a cinco do capítulo 7, mas para compreendê-los é preciso relembrar o que Jesus disse aos discípulos através da figura da árvore e seus frutos: “Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus” ( Mt 7:17 ).

Através da figura da árvore e seus frutos Jesus demonstrou que é impossível uma árvore boa produzir frutos maus, e que é impossível uma árvore má produzir frutos bons. Ora, este princípio é observável na natureza, porém, que aplicação há com relação às questões espirituais?

Jesus demonstrou que é impossível um falso profeta (lembre-se que eles têm aparência de ovelha), produzir frutos bons, ou seja, dizer o que é verdadeiro. Ora, nem todo o que diz: ‘Senhor, Senhor’ entrará no reino dos céus, porque produzem frutos maus, ou seja, não professam a Cristo segundo a verdade do evangelho (não produzem bons frutos).

Qual é o fruto bom? O fruto dos lábios que professam a Cristo! ( Hb 13:15 ). Quem professa a Cristo, conforme diz a Escritura, é porque nasceu da semente incorruptível. É plantação do Senhor, árvores de Justiça ( Is 61:3 ).

Os nascidos em Adão são árvores más, plantas que o Pai não plantou, e todos os seus frutos são maus. Porém, aqueles que crêem na palavra da verdade são plantação do Senhor, árvores de Justiça, e produzem frutos bons, ou seja, professam a Cristo, pois este é o fruto que Deus criou Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz, para o que está longe; e para o que está perto, diz o SENHOR, e eu o sararei” ( Is 57:19 ).

É preciso relacionar Rm 6:19 e Rm6:22 com Rm 7:4 sem esquecer que, antes de serem libertos do pecado, os cristãos eram escravos do pecado, e, portanto, só podiam produzir para o seu senhor.

Lembrando que um servo não pode servir a dois senhores e esta mesma impossibilidade é encontrada na figura da árvore, pois do mesmo modo que um servo do pecado não pode servir à justiça, uma árvore má não pode produzir frutos bons.

Como pode um servo da justiça servir ao pecado, se é impossível servir a dois senhores? ( Rm 6:20 ). Ou melhor, como pode alguém que está morto para o pecado, viver ainda nele? ( Rm 6:2 ). Como é possível a uma árvore que germinou de uma semente incorruptível produzir frutos maus? ( 1Pe 1:23 ). Como ser achado ainda pecador, quem já se refugiou em Cristo? ( Gl 2:17 ).

O capítulo 7 da carta aos Romanos apresenta uma resposta a estas perguntas.

 

 

Os Frutos

“Assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo, para que sejais de outro, daquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de que demos fruto para Deus. Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte. Mas agora temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra” ( Rm 7:4 – 6).

 

4 Assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo, para que sejais de outro, daquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de que demos fruto para Deus.

O comparativo é estabelecido entre os cristãos e a figura da mulher que estava ligada ao marido através da lei “Assim, meus irmãos, também vós…” (v. 4).

Observe a similaridade entre este verso e Efésios 1: 13:

“É também nele que vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade…” ( Ef 1:13 );

“Assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo…” ( Rm 7:4 ).

‘Estar em Cristo’ e ‘estar morto para a lei’ aponta para uma mesma condição diante de Deus: uma nova criatura. Dizer que o cristão está ‘em Cristo’ é dizer que ele é uma nova criatura. Dizer que o cristão está ‘morto para a lei’ é o mesmo que dizer: você é uma nova criatura “Portanto, se alguém está em Cristo, nova criatura é…” ( 2Co 5:17 ).

Por que os cristãos estavam mortos para a lei pelo corpo de Cristo? Porque através do evangelho conclui-se que, se um morreu por todos, logo todos morreram ( 2Co 5:14 ). Ora, foi através da oferta do corpo de Cristo que os cristãos deixaram a condição de velha criatura e passaram à condição de nova criatura ( Hb 10:10 ).

A oferta diz do corpo de Cristo, do corpo que o Verbo encarnou. Foi através do corpo humano que Deus preparou para o seu Filho ( Hb 10:5 ), que os cristãos passaram a estar mortos para a lei.

Quando Paulo faz referência ao corpo de Cristo, ele está fazendo referência à morte de Cristo, ou seja, ao corpo que foi apresentado imaculado como oferta a Deus. Deste modo, por causa do corpo de Cristo, que foi entregue aos pecadores, os cristãos estão mortos para a lei.

Como? Ao apresentar um paralelo entre a figura da mulher que estava ligada ao marido pela lei, e que após a morte do marido não mais estava sujeita à lei, Paulo demonstra que a lei só teve alcance sobre os cristãos pelo tempo que em que viveram na carne ( 2Co 5:15 ).

Uma vez que todos que creram em Cristo foram crucificados, mortos com Cristo, e sepultados com Cristo, que relação há entre a lei e o cristão?

Da morte com Cristo surge uma nova condição: livres da lei e do pecado.

Enquanto filhos de Adão, gerados da semente corruptível, o homem está sob o domínio da lei e da escravidão do pecado, através do corpo de Cristo, o homem efetivamente morre, e passa a compartilhar da natureza divina através da ressurreição com Cristo.

Antes de morrer com Cristo, a quem os cristãos pertenciam? Ao pecado, ao mundo, às trevas, à ira, à perdição e estavam debaixo da lei (certamente morrerás). Agora, por estarem em Cristo, os cristãos passaram a pertencer àquele que ressurgiu dentre os mortos.

Os cristãos não pertencem ao Cristo que veio em carne, antes pertencem àquele que ressurgiu dentre os mortos para louvor da glória e graça de Deus ( 2Co 5:16 ).

Por que os cristãos estão mortos para a lei? Por que eles passaram a pertencer àquele que ressurgiu dentre os mortos? A resposta é simples: “… a fim de darmos fruto para Deus”.

Como é possível dar fruto para Deus? Assim como é próprio a árvores produzir frutos segundo a sua espécie é próprio à natureza daqueles que estão mortos para a lei produzirem frutos para Deus! Não depende do esforço do homem.

Como os cristãos são árvores de justiça, plantação do Senhor é próprio da nova natureza produzir fruto para Deus.

Repassando:

  1. Os cristãos estão mortos para o pecado e não podem viver nele. Paulo não fez uma recomendação aos cristãos: – Vocês não devem viver no pecado! Antes, ele demonstrou que é impossível viver no pecado, quando se está morto para o pecado ( Rm 6:2 ). Paulo demonstra que é impossível viver no pecado, o que difere completamente da concepção de que ele tenha ordenado a que não vivessem em pecado. Ou o homem vive para a justiça ou vive para o pecado. É impossível o homem viver para ambos;
  2. Os cristãos andam em novidade de vida porque ressurgiram com Cristo, ou seja, só é possível ‘andar em novidade de vida’ quando se vive no Espírito, ou seja, após morrer e ressurgir com Cristo ( Rm 6:4 ; Gl 5:25 );
  3. Os cristãos foram plantados juntamente com Cristo, na semelhança da sua morte, e, portanto, são semelhantes a Ele na ressurreição: a morte não tem mais domínio ( Rm 6:5 e Rm 6:9 ; “…qual ele é, somos nós também aqui neste mundo” 1Jo 4:17 );
  4. O pecado não mais tem domínio sobre os cristãos, pois não estão debaixo da lei (morreram), ou seja, o pecado não reina sobre os cristãos de modo que venham a produzir frutos que tenham do que se envergonhar ( Rm 6:14 e Rm 6:21 ).

É próprio à natureza daqueles que foram gerados de novo produzirem frutos de justiça, e que o comportamento humano não se vincula ao fruto que Deus cria Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz, para o que está longe; e para o que está perto, diz o SENHOR, e eu o sararei” ( Is 57:19 ).

Os frutos que os cristãos produzem para Deus são provenientes do próprio Deus sem qualquer relação com o esforço humano. Quem é nascido da semente incorruptível, que é a palavra de Deus ( 1Pe 1:23 ), é plantação do Senhor, ou melhor, plantas que o Pai plantou ( Mt 15:13 ). Ora, as plantas que o Pai plantou produzem frutos segundo a sua espécie: frutos bons.

É por isso que o profeta Isaias registrou: “Eu crio o fruto dos lábios…”. Por quê? Ora, se a boca fala do que o coração está cheio “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” ( Mt 12:34 ), um coração mal só fala malignidade, mas de um coração novo, que é criado por Deus ( Sl 51:10 ), só é possível produzir fruto bom.

Somente Deus pode conceder um novo coração e um novo espírito. Tudo que é proveniente do novo coração foi criado por Deus, e, por isso mesmo, Ele criou o fruto dos lábios.

Quem vive de acordo com a verdade do evangelho é porque está em Cristo, de modo que todos podem ver claramente que as suas obras são feitas em Deus, pois quem vive em trevas e nela anda, não vem para Cristo, porque amam mais as trevas do que a luz para preservarem as suas próprias obras ( Jo 3:19 – 21 ).

 

 

A Carne e o seu Fruto

5 Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte.

Paulo neste verso faz referência à antiga condição dos cristãos, quando estavam vivos para o pecado e mortos para Deus.

Naquele tempo específico, quando os cristãos estavam na carne, eles davam frutos para a morte. Hoje, em Cristo, os cristãos servem a Deus em novidade de espírito, e, portanto, produzem frutos para Deus Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto” ( Sl 51:10 ).

O mesmo Deus que cria a paz é o Deus que vivifica o coração e o espírito dos abatidos ( Is 57:15 e Is 57:19 ). O Deus que cria um novo coração é o mesmo que produz o fruto dos lábios ( Is 57:19 ).

É próprio à carne produzir frutos para a morte, assim como é próprio do Espírito produzir frutos para a vida eterna ( Rm 6:16 ). Os cristãos estão livres do pecado e os seus frutos são para Deus e por fim herdarão a vida eterna ( Rm 6:22 ), porém, antes de aceitarem a Cristo eram servos do pecado, os seus frutos eram para o pecado, e por fim herdariam a morte eterna.

As paixões pertinentes ao corpo do pecado existem pela lei e operam nos membros do corpo do pecado. Quem morre com Cristo, crucifica o corpo do pecado e as suas paixões “E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” ( Gl 5:24 ).

Não são as paixões da carne e suas concupiscências que produzem fruto para a morte, antes é a natureza carnal que produz tal fruto, pois, a inclinação da carne é morte, mesmo para aqueles que não se entregam com avidez às paixões e concupiscência da carne.

Analisando a seguinte tradução com base em outros versículos: “Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte” ( Rm 7:5 ), chega-se à seguinte conclusão: não são as paixões dos pecados que produzem fruto para a morte. Como? Ora, dizer que as paixões e as concupiscências produzem fruto para morte é o mesmo que dizer que o comportamento humano é que produz a morte (separação de Deus).

Porém, como é de conhecimento geral, a natureza pecaminosa herdada de Adão, designada carne, é que estabeleceu a morte (condenação) e produz para a morte (iniqüidades). É por isso que quando os cristãos crucificam a carne, crucificam também as paixões e as concupiscências ( Gl 5:24 ).

Não são as paixões e as concupiscências que se inclinam para a morte, antes é a carne. A carne é sujeita à lei, e a lei realça as paixões e as concupiscências nos membros (corpo) que pertencem à carne.

Assim sendo, o versículo é melhor traduzido quando evidencia a condição da carne (sujeição ao pecado), e para quem ela produz o seu fruto (para a morte). Ou seja: “… quando estávamos na carne (…), frutificávamos para a morte”. Com relação às paixões, Paulo somente evidenciou que elas são (realçadas) através da lei, e que efetivamente tais paixões operavam nos membros da carne.

Sugestão de emenda a tradução: “Porque, quando estávamos na carne (as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros) frutificávamos para a morte”.

Basta comparar os versos ( Rm 7:4 e Rm 7:5 com o verso 16: “… sóis servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça” ( Rm 6:16 ).

É possível o homem escolher não obedecer ao pecado sem ter obedecido a Cristo? É possível ao homem abandonar o pecado sem ser adquirido por Cristo? Não!

Ora, a humanidade sem Cristo (escravos) obedece ao pecado (senhor) porque foram introduzidos no mundo sob o domínio do pecado. Em Adão a humanidade ‘obedeceu’ ao pecado! Adão é a porta larga pela qual todos os homens entraram, e seguem por um caminho largo que os conduz à perdição.

Embora muitos procurem realizar boas ações, as suas obras não passam de trapos de imundície. Por serem servos do pecado todas as obras dos homens são más, ou seja, os servos do pecado frutificam para a morte.

Em Cristo, o último Adão, os homens são novamente criados segundo Deus, livre do poder do pecado, e sob o jugo da justiça. Ao entrar pela porta estreita, o homem deixa de produzir para a morte e passa a produzir para a justiça, pois se inclinam para a vida que há em Deus e para a paz que excede a todo entendimento.

 

 

 

Em Espírito e em Verdade

6 Mas agora temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra.

Paulo apresenta uma conclusão à sua exposição: agora, após serem libertos da lei, ou seja, mortos para aquilo que estavam retidos (a lei), os cristãos servem a Deus em novidade de espírito.

Por que em novidade de espírito? Porque após crer em Cristo o homem adquire um novo coração e um novo espírito, criados segundo Deus em verdadeira justiça e santidade ( Sl 51:10 ; Ef 4:24 ).

Paulo demonstra que os judeus não serviam a Deus, antes, só tinham zelo, porém, sem entendimento ( Rm 10:2 ). Por quê? Porque só é possível servir a Deus em espírito e em verdade, ou seja, quando o homem é gerado do Espírito, o mesmo que ser circuncidado no coração. Somente em Cristo é possível ao homem alcançar a condição de servir a Deus em espírito ( Jo 4:23 ).

A condição ‘em espírito’ só é possível quando o homem é gerado de Deus. É por isso que Jesus disse a Nicodemos: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” ( Jo 3:6 ). Somente após o homem ser gerado de novo através da fé em Cristo torna-se possível servir a Deus (o Espírito Eterno) em espírito.

Os judeus pensavam servir a Deus, porém, a qualquer homem nascido de Adão (nascido da carne) é impossível servir a Deus. Deus somente ‘conhece’ aqueles que o adoram em espírito e em verdade ( Jo 4:24 ; Gl 4:9 ).

Paulo estava tratando diretamente com os judeus convertidos, como foi demonstrado anteriormente, e aqui temos outra evidência: somente os cristãos judeus tentaram servir a Deus através da velhice da letra (lei de Moisés), ponto abordado por Paulo que não tem relação com os gentios.

Só é possível servir a Deus em novidade de espírito, e, somente Ele, é quem ‘renova’ (cria) no homem um espírito reto ( Sl 51:10 ). Só é possível ter novo coração e um novo espírito quando o homem está livre da lei, ou melhor, quando morre para aquilo em que se estava retido.

Como é possível ao homem morrer para o que estava retido (lei)? Através da circuncisão do coração! Quando Moisés apregoou a circuncisão do coração ao povo de Israel, tal circuncisão só era possível através da fé em Deus, Aquele que tem o poder de circuncidar o coração, ou seja, Ele mata o homem gerado em Adão e concede um novo coração “E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao SENHOR teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas” ( Dt 30:6 ).

Somente após alcançar novo coração (novo nascimento) o homem compreende a palavra de Deus “Porém não vos tem dado o SENHOR um coração para entender, nem olhos para ver, nem ouvidos para ouvir, até ao dia de hoje” ( Dt 29:4 ).

Em resumo: Os cristãos morrerem com Cristo, portanto, estavam livres da lei. Qual o objetivo de os cristãos terem morrido para a lei, ou antes, morrido com Cristo? Para servirem a Deus com um novo espírito e um novo coração ( Ez 36:25 – 27 ). Ora, o novo coração e o novo espírito só são possíveis alcançar através da regeneração em Cristo.

A lei de Moisés (velhice da letra) não poderia proporcionar o novo nascimento. Somente o evangelho de Cristo, que é a água limpa aspergida pelo Espírito Eterno, faz nascer o novo homem para louvor de sua glória ( Jo 3:5 ; Ez 36:26 ). É através do evangelho que o homem recebe poder para ser criado em verdadeira justiça e santidade ( Jo 1:12 ; Ef 4:24 ).

Após declarar que os cristãos eram livres da lei ( Rm 7:6 ), do mesmo modo que eram livres do pecado ( Rm 6:6 ), poderia surgir um entrave na mente de alguns cristãos: acharem que Paulo estava equiparando a lei ao pecado ( Rm 7:7 ).

 

 

Verbos, flexões e Interpretação

Como interpretar este versículo:

“Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado” ( Mc 16:16 ).

Quem crê em Cristo é (presente) salvo ou será salvo (futuro)? Por que Jesus disse: quem crer será salvo? Você é salvo ou ainda será salvo no futuro?

Há pessoas que dizem que ainda não estão salvas, mas que serão salvas. Ao serem indagadas, citam o seguinte versículo: “quem crer será salvo”, ou seja, porque o verbo salvar está no futuro essas pessoas entendem que somente estarão salvas no futuro.

O argumento anterior é válido? Não! Por quê?

Porque a frase: ‘quem crer será salvo’ está corretíssima, porém, ‘quem crê está salvo’, também é correta e não contradiz a afirmação anterior.

No verso 16, do capítulo 16, do evangelho de Marcos (Mc 16:16 ), o verbo ‘crer’ está no infinitivo, ou seja, neste caso o verbo conserva a forma não flexionada: ‘crer’.

A frase ‘Quem crer…’ é impessoal, ou seja, o verbo ‘crer’ não faz referência a nenhum sujeito específico. Qualquer homem que ouvir a mensagem do evangelho e crer assumirá a condição de salvo, ou seja, assumirá a condição de sujeito desta frase.

Como o verbo ‘crer’ está no infinitivo, e neste caso o infinitivo não é flexionado, o verbo ‘ser’ é conjugado no futuro simples. Porém, se colocarmos o verbo ‘crer’ no presente ‘crê’, o verbo ‘ser’ é posto no presente: ‘é’. Compare:

Quem crer será salvo;
Quem crê é (está) salvo.

É só substituir o pronome indefinido ‘Quem’ por um substantivo, que a frase apresenta os verbos em tempos flexionados: João crê, portanto, é salvo.

Por que o verbo ‘crer’ foi colocado no infinitivo? Porque a mensagem do evangelho destina-se a todas as pessoas em todos os tempos. A mesma mensagem apregoada por Cristo e os apóstolos continua atual, e destina-se a todos os homens, em todos os tempos e lugares.

Esta primeira análise é gramatical, porém, é possível analisar o mesmo versículo através de outros recursos.

Ao escrever aos cristãos de Coríntios, Paulo disse: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ). Paulo aponta a nova condição dos cristãos efetiva no presente. Ora, se alguém (sujeito indeterminado) está (presente) em Cristo é uma nova criatura, ou seja, a salvação é efetiva hoje: “(Porque diz: Ouvi-te em tempo aceitável E socorri-te no dia da salvação; Eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação)” ( 2Co 6:2 ).

Paulo utiliza neste verso todos os verbos no presente para falar de uma condição pertinente a todos quantos crêem em Cristo.

João, ao falar da salvação, registrou: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome” ( Jo 1:12 ). João fala da salvação como sendo um evento do passado. Todos quantos creram no nome de Jesus receberam poder para serem feitos filhos de Deus. Quem creu, recebeu poder, o que nos leva a seguinte conclusão: quem crê está salvo.

Os tempos verbais podem causar muitos problemas na hora de interpretar um versículo específico ou uma carta. Erros podem surgir da má compreensão dos tempos verbais, principalmente quando há regras para se estabelecer a correta correlação verbal proveniente de questões gramaticais.

O capítulo 6 da carta aos Romanos contém alguns versículos que podem causar alguns problemas na hora da interpretação. Observe:

  • “Se formos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição?” ( Rm 6:5 ) – O versículo é argumentativo, ou seja, o apóstolo não fez uma afirmação. Por causa desta peculiaridade do argumento apresentado por Paulo é preciso estabelecer uma correlação verbal entre as orações, que é ‘a articulação temporal entre duas formas verbais’. No argumento apresentado por Paulo, ‘se formos plantados’ surge a correlação com o verbo ‘ser’ no futuro (seremos). Porém, é assente que os cristãos já morreram com Cristo ( Cl 3:3 ), e, portanto, são semelhantes a Cristo na sua ressurreição ( Cl 3:1 ; 1Jo 4:17 ), pois assim como Jesus é, são os cristãos aqui neste mundo;
  • “Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos” ( Rm 6:8 ) – Neste verso o apóstolo baseia-se na premissa de que os cristãos já morreram com Cristo (para morrer com Cristo é preciso crer), segue-se que os cristãos creram, morreram, ressurgiram, e que também esperam que viverão para sempre com Cristo. O fato de Paulo ter colocado o verbo ‘viver’ no futuro, o que dá uma idéia de algo que será alcançado, é proveniente do argumento introduzido pela partícula ‘se’. Caso o apóstolo tivesse apontado a morte efetiva dos cristãos, a conclusão seria: com ele vivemos.

 

 

É a Lei Pecado?

“Que diremos, pois? É a lei pecado? De modo nenhum. Mas eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás. Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda a concupiscência; porquanto sem a lei estava morto o pecado” ( Rm 7:7 – 8).

Diante do que foi exposto, Paulo convoca os cristãos ao raciocínio: “Que diremos, pois?”.

Com base no que já foi demonstrado anteriormente, qual a conclusão que os cristãos deveriam abraçar? Que a lei é pecado? A resposta é clara: De modo nenhum! A lei não é pecado!

Embora o apóstolo não tenha afirmado no decurso da carta que a lei é pecado, alguns judaizantes poderiam distorcer os argumentos e afirmar que Paulo anunciou que a lei é pecado. Como Paulo anunciava que os cristãos eram livres do pecado e da lei, alguém mal intencionado poderia anunciar que Paulo estava equiparando a lei com o pecado, distorcendo o que o apóstolo dos gentios procurou evidenciar.

Paulo demonstra incisivamente que a lei não é pecado para desfazer qualquer conclusão diferente da verdade do evangelho. Ele apregoou a necessidade dos cristãos livrarem-se da lei, porém, nunca disse que a lei é pecado.

Este deve ser um dos cuidados de quem interpreta as escrituras: não concluir por si só algo que não foi afirmado categoricamente. É necessário saber diferenciar argumentação, asserção e conclusão. Uma argumentação é construída com premissas, porém, as premissas e as argumentações não podem ser consideradas como sendo uma asserção (afirmação).

Do mesmo modo, uma conclusão não tem o mesmo valor de uma asserção, pois a asserção deriva da conclusão ou da argumentação. Isto porque, as premissas utilizadas em uma argumentação que levará a uma conclusão geralmente foram retiradas de asserções. Exemplo:

  • Uma asserção: “Nós, que estamos mortos…” ( Rm 6:2 );
  • Uma argumentação: “…como viveremos ainda nele?” ( Rm 6:2 );
  • Uma conclusão: “Pois o pecado não terá domínio sobre vós…” ( Rm 6:14 );
  • Duas premissas: “…porque não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça ( Rm 6:14 ).

Observe que as duas premissas apresentadas em Romanos 6: 14b são excludentes ( Rm 6:14 ). Ora, quem está debaixo da graça não pode estar sob a lei, e vice-versa.

Deste ponto em diante, o leitor deve estar atento as peculiaridades apresentadas acima, sabendo divisar bem o que é argumento, premissa, asserção e conclusão.

Quando questionou os seus interlocutores acerca da lei (É a lei pecado?), Paulo esperava ter como resposta uma negativa (De modo nenhum!). Em seguida, ele apresenta argumentos que desfaz qualquer argumentação dos judaizantes que vincule a lei ao pecado (versos 7b a 11), para que seus leitores possam chegar à seguinte conclusão: “Portanto, a lei é santa e o mandamento santo, justo e bom” ( Rm 7:12 ).

Agora analisaremos os versos 7b a 11 de Romanos 7, para que possamos chegar à mesma conclusão que Paulo estabeleceu: a lei é santa e o mandamento também ( Rm 7:12 ). Qualquer conclusão que destoe da conclusão que Paulo apresenta no verso 12 de Romanos 7, demonstra que o interprete ‘prevaricou’ na sua atribuição.

Para chegar à conclusão de que ‘a lei é santa e o mandamento santo, justo e bom’, é necessário analisar criteriosamente os cincos versículos ( Rm 7:7 -11) e algumas questões pertinentes à linguística.

 

 

Figuras de Linguagem

Durante a leitura da carta aos Romanos é fácil perceber que Paulo utiliza um recurso linguístico (figura de linguagem) ao falar do evangelho de Cristo. Observe:

  • “… para a obediência da fé entre todos os gentios…” ( Rm 1:5 );
  • “… porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé ( Rm 1:8 );
  • “… seja consolado pela fé mutua, assim vossa como minha” ( Rm 1:12 ).

Tal figura de linguagem é denominada perífrase, onde temos a palavra ‘fé’ substituindo a palavra ‘evangelho’, assumindo a ideia da palavra substituída. O evangelho foi anunciado aos gentios para obediência. Do mesmo modo, em todo mundo era anunciado o evangelho, ou seja, a vossa fé. Paulo e os cristãos seriam consolados mutuamente através do evangelho (fé mutua).

Perceba que, para não repetir várias vezes a palavra ‘evangelho’ e dar maior graciosidade a escrita da carta, Paulo substitui alguns termos por outros, utilizando-se de alguns recursos pertinentes à linguagem.

Após descobrir este uso de uma figura semântica, faz-se necessário observar com acuidade toda a carta, visto que, algumas ‘figuras de linguagem’ ou ‘recurso de estilística’ pode interferir na interpretação do texto.

Desta forma, analisemos a seguinte afirmação de Paulo: Bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade…” ( Rm 2:2 ). O que o ‘apóstolo dos gentios’ expõe neste verso era de conhecimento geral dos cristãos, uma vez que eles ‘bem sabiam’ do que Paulo estava tratando.

Percebe-se através do contexto que a palavra ‘verdade’ em Romanos 2: 2, substitui a palavra ‘evangelho’, como se verifica no verso 16.

  • “Bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade…” ( Rm 2:2 );
  • “Isto sucederá no dia em que Deus há de julgar os segredos dos homens, por meio de Jesus Cristo, segundo o meu evangelho” ( Rm 2:16 ).

Ora, se o julgamento de Deus é segundo a verdade do evangelho, fica claro que o julgamento de Deus não é segundo a lei. Perceba também que o juízo é segundo a verdade (presente), e que há um dia preordenado para ser manifesto este juízo ( Rm 2:5 ), o que indica que o juízo segundo a verdade já ocorreu e está estabelecido.

Porém, ‘segundo o evangelho (de Paulo)’, Deus também julgará os segredos dos homens. Isto demonstra que o juízo de Deus foi estabelecido no passado em Adão “O Juízo veio de uma ofensa (…) Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo…” ( Rm 5:16 e Rm 5:18 ), e, que, Deus julgará todos os homens segundo as suas obras no futuro (Grande Trono Branco) ( Ap 20:11 ).

Procuramos demonstrar que é similar a idéia entre ‘evangelho’ e ‘verdade’, ‘fé’ e ‘evangelho’, porque recursos literários semelhantes a este foram utilizados diversas vezes pelos apóstolos.

 

 

Qual a relação entre Pecado, Lei e Conhecimento?

“Mas eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás. Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda a concupiscência; porquanto sem a lei estava morto o pecado” ( Rm 7:7 – 8).

Para compreender a declaração: “Mas eu não conheci o pecado senão pela lei”, é necessário saber:

a) de qual lei o apóstolo estava falando;
b) o que é pecado, e;
c) o que é ‘conhecer’. Após responder as questões acima, será possível verificar de que ‘eu’ o apóstolo estava falando.

A primeira citação da palavra ‘lei’ Paulo fez na carta aos Romanos no capítulo 2, verso 12: “Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados” ( Rm 2:12 ).

Já analisamos este verso, porém, faz-se necessário aprofundar a análise.

É possível inferir de Rm 2:12 que os que sob a lei pecaram são os judeus, do mesmo modo, que os gentios pecaram sem lei. Isto demonstra que Paulo estava escrevendo acerca da lei de Moisés, visto que, desde Adão até Moisés todos pecaram, mesmo não tendo uma lei específica.

Não é porque os gentios não possuíam uma lei que não estavam sob condenação. Do mesmo modo, não é porque os judeus possuíam uma lei, que não haveriam de perecer. Ou seja, todos pecaram e estavam debaixo de condenação, e seguiam para a perdição ( Rm 3:9 ).

Isto demonstra que a transgressão à lei mosaica não é o que subjugou a humanidade ao pecado. Porém, Paulo demonstra que o homem ‘conheceu’ o pecado, ou seja, passou a ter comunhão intima com o pecado através da lei ( Rm 7:7 ), o que indica que em Rm 7:7 ele não está se referindo a Lei de Moisés, antes fez referência a lei perfeita da liberdade concedida ao homem no Éden ( Gn 2:16 – 17).

Ora, Adão perdeu a comunhão com o criador quando desobedeceu a ordenança divina que foi dada no Éden, e por causa da ofensa dele, todos pecaram, tanto gentios quanto judeus. Todos ficaram alienados da glória de Deus, ou seja, ‘conheceram’ o pecado.

O pecado subjugou a humanidade por causa da desobediência à lei dada no Éden. Ora, tanto os que estavam sob a lei de Moisés quanto os gentios, ambos pecaram, o que demonstra que o pecado decorre da desobediência de Adão.

Desta análise é possível concluir que Paulo faz referência a dois tipos de lei na sua carta. Uma refere-se à lei de Moisés, e a outra à lei de Deus outorgada no Éden. Desta última decorre a penalidade eterna: ‘certamente morrerás’, ou seja, o homem ‘conheceu’ a separação da vida que há em Deus através da ofensa no Éden.

Ora, se o pecado decorre da desobediência à lei dada no Éden, logo, o ‘eu’ da qual o apóstolo faz alusão refere-se a algo proveniente de Adão, e que é comum a todos os homens destituídos da glória de Deus.

 

 

O que é pecado?

Se uma das definições de pecado é a transgressão da lei ( 1Jo 3:4 ), como é possível pecar sem lei? ( Rm 2:14 ) Qual lei transgredida é pecado: a lei de Moisés ou a lei dada no Éden?

Paulo afirma categoricamente que a lei não é pecado ( Rm 7:7 ). Também afirmou que os gentios pecaram mesmo sem lei. Estas afirmações levam-nos a concluir que, o pecado surgiu da transgressão à lei dada no Éden, e não da transgressão das prescrições de Moisés.

Uma das definições de pecado geralmente é extraída da I carta do apóstolo João, que diz: “Todo aquele que comente pecado, transgride a lei, pois o pecado é a transgressão da lei” ( 1Jo 3:4 ) Bíblia Sagrada, Edição Contemporânea, Ed. Vida. Se adotarmos este verso da carta de João como sendo a definição de pecado, como é possível aos gentios pecarem, se eles não têm lei?

Observando a carta de João, perceba que apenas neste verso a palavra ‘lei’ foi utilizada. No decurso da carta de João a palavra que foi utilizada diversas vezes é ‘mandamento’, porém, 1Jo 3:4 destoa da carta. A palavra “lei” também não é utilizada nas outras cartas do apóstolo João.

Já a versão João Ferreira Corrigida não utiliza a palavra lei em I João 3: 4, observe: “Qualquer que comete pecado, também comete iniquidade; porque o pecado é iniquidade” ( 1Jo 3:4 ). Versão Corrigida e fiel.

Ora, surge a dúvida: o pecado é ‘iniquidade’ ou o pecado é a ‘transgressão da lei’?

Pois bem, dúvidas a parte, segue-se que, ao ler os versículos nestas traduções, faz-se necessário analisar o seu contexto para chegarmos a um entendimento acerca das palavras utilizadas pelos tradutores, e qual a ideia que os apóstolos procuram evidenciar.

Ora, inferimos de Rm 2:12 que é plenamente possível pecar mesmo sem lei. Bem antes da lei de Moisés a morte reinou sobre todos os homens ( Rm 5:13 ). Desde Adão até Moisés a morte reinou sobre os homens o que significa que todos pecaram ( Rm 5:14 ). Daí, vale destacar que, o pecado impera aparte da lei mosaica.

Como? Um homem pecou, todos pecaram ( Rm 5:18 ). Ora, se um só homem pecou e todos pecaram, segue-se que o pecado que subjugou a humanidade não decorre da desobediência à lei de Moisés, visto que, após a desobediência de Adão, Deus não instituiu de imediato leis, porém, mesmo assim, todos morreram, o que demonstra que todos estavam em pecado.

O homem peca porque foi vendido como escravo ao pecado, e isto através da ofensa de Adão. Jesus é claro ao afirmar: “Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado” ( Jo 8:34 ). O homem peca porque é escravo do pecado, e não porque transgride a lei de Moisés.

Resta a pergunta: O que é pecado? ‘Pecado’ diz da condição da criatura quando divorciada do Criador.

Quando a criatura se distancia do Criador, a condição ‘em pecado’ se manifesta. Ou seja, pecado é o mesmo que estar destituído da glória de Deus (morto para Deus e vivo para o mundo).

Se pecado fosse a transgressão da lei de Moisés ( 1Jo 3:4 ), não haveria como o homem ser formado em iniquidade e nem gerado em pecado, pois como poderia alguém transgredir no ventre materno? ( Sl 51:5 ).

Verifica-se nas Escrituras que um homem transgrediu e que todos transgrediram. Um pecou e todos vêem ao mundo separados de Deus, destituído da Sua Glória, porque todos pecaram pelo simples fato de serem descendentes de Adão.

O que toda humanidade passou a compartilhar após a ofensa de Adão? A mesma condenação! Como o apóstolo Paulo demonstrou que através da lei o ‘eu’ ‘conheceu’

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Romanos 6 – O homem velho foi crucificado com Cristo

Há homens que, por causa da condenação em Adão permanecem sob condenação e em inimizade com Deus, e homens que, pela redenção em Cristo, o último Adão, estão justificados e em paz com Deus. Mas, para demonstrar a consistência do que expôs, Paulo retroage no tempo para demonstrar onde e como se deu a condenação de todos os homens, contrastando com a redenção em Cristo ( Rm 5:12 -21).


Introdução ao Capítulo 6

“Pois assim está escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente. O último Adão, porém, é espírito vivificante” ( 1Co 15:45 )

 

Para compreendermos a exposição de Paulo nos capítulos 6 e 7 é preciso entendermos as comparações que Paulo faz entre Cristo e Adão.

No capítulo 5 Paulo demonstrou que Adão e Cristo constituem-se ‘os cabeças’ de duas famílias distintas. Este trouxe à vida (existência) os filhos de Deus, e àquele traz à existência na condição de mortos e em inimizade com Deus os filhos da ira, filhos da desobediência, filhos do diabo, ou filhos de Adão.

Comparando Adão e Cristo, os contrastes são evidentes:

  • Em Adão a transgressão e em Cristo o dom gratuito ( Rm 5:15 );
  • Em Adão a condenação e em Cristo a justificação ( Rm 5:16 );
  • Em Adão morte e inimizade, e em Cristo vida e paz ( Rm 5:17 );
  • Em Adão ofensa e em Cristo justiça ( Rm 5:18 );
  • Adão desobedeceu e Cristo obedeceu ( Rm 5:19 );

Em Adão todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus e são justificados em Cristo (o último Adão), gratuitamente pela sua graça por meio da fé ( Rm 3:23 -24).

Paulo iniciou a exposição do livro de Romanos demonstrando o comportamento dos homens destituídos de Deus, e que, todos sem exceção serão trazidos a juízo por causa de suas obras no dia da retribuição de Deus (dia da ira), quando também será manifesto o juízo de Deus que se deu em Adão a todos os homens ( Rm 2:5 -11).

Paulo aponta questões futuras, demonstrando que Deus recompensará a cada um segundo as suas obras ( Rm 2:7 -8), quando forem estabelecidos o Tribunal do Trono Branco para os ímpios ( Rm 2:6 ), e o Tribunal de Cristo para os justos ( 2Co 5:10 ).

Depois, Paulo passou a demonstrar qual a condição dos homens que hoje estão sem Cristo: todos pecaram e juntamente se extraviaram, sem que houvesse um único homem que fizesse o bem ( Rm 3:10 -20). Concomitantemente, ele demonstra a condição daqueles que estão em Cristo: justificados gratuitamente pela graça de Deus por meio da fé em Cristo!

Desta forma, há homens que, por causa da condenação em Adão permanecem sob condenação e em inimizade com Deus, e homens que, pela redenção em Cristo, o último Adão, estão justificados e em paz com Deus.

Mas, para demonstrar a consistência do que expôs, Paulo retroage no tempo para demonstrar onde e como se deu a condenação de todos os homens, contrastando com a redenção em Cristo ( Rm 5:12 -21).

A exposição que Paulo faz aos cristãos Romanos é argumentativa e principalmente teológica, diferente da exposição de Cristo, que é por parábolas e ilustrativa.

Desta forma temos que as parábolas como os dois caminhos, as duas portas, as árvores boas e as árvores más, as plantas que o Pai não plantou, etc, fazem referência a Adão e a Cristo.

Depois de fazer uma exposição teológica, Paulo também apresenta uma figura para ilustrar as considerações teológicas: os vasos para honra e os vasos para desonra ( Rm 9:21 ).

Isto posto, verifica-se que, para estudarmos o capítulo 6 e 7 e chegarmos a uma conclusão plausível, é preciso analisados segundo a ótica do primeiro e do último Adão.

 

1 QUE diremos pois? Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde?

A pergunta deste versículo decorre do versículo 20 do capítulo anterior.

“Veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse. Mas onde o pecado abundou, superabundou a graça (…) Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que a graça aumente?” ( Rm 5:20 e Rm 6:1 ).

Após demonstrar que ‘onde o pecado abundou, superabundou a graça’, Paulo antecipa-se àqueles que poderiam argumentar que permaneceriam no pecado visando aumentar a graça.

‘Que diremos…’, ou seja, qual deve ser o entendimento do cristão? Permanecer no pecado (em Adão), para que a graça aumente? Não! Este não deve ser o entendimento do cristão.

Não é porque a graça superabundou onde o pecado abundou que o comportamento do cristão deva ser de devassidão.

O pecado reinou pela morte (pena decorrente da transgressão de Adão), e a lei somente fomentou a ofensa ( Rm 5:20 ). Mas, a graça de Deus se há manifestado para que, da mesma forma que o pecado reinou por meio da natureza decaída do homem (carne) e em obediência as suas concupiscências (conduta aquém da lei de Deus), a graça também reine pela justiça através da nova natureza (espiritual) e em obediência à justiça (conduta segundo a lei da liberdade).

 

2 De modo nenhum. Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?

De modo nenhum! Os cristãos em Roma e o próprio escritor da carta não permanecem no pecado.

Paulo espera que os cristãos raciocinem e cheguem a uma conclusão sobre o ‘permanecer no pecado’ através do parâmetro estabelecido neste verso: Se os cristãos ‘Estão mortos para o pecado’, como é possível permanecer nele? Para os que estão mortos para o pecado não há como viver ou permanecer no pecado.

Da mesma forma que Cristo, quanto a ter morrido, ‘de uma vez morreu para o pecado’ ( Rm 6:10 ), os que morreram com Cristo também de uma vez estão mortos para o pecado ( Rm 6:8 e 10).

 

3 Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte?

Para os leitores da carta que argumentassem que permaneceriam no pecado para que a graça aumentasse, Paulo demonstra que quem assim pensa desconhece o real significado do batismo.

Tanto Paulo quanto os leitores da sua carta havia sido batizados na morte de Cristo por meio da fé “…fomos batizados em Jesus…”, ou seja, todos os que creem são batizado na morte de Cristo Jesus “…um morreu por todos, logo todos morreram” ( 2Co 5:14 ).

Se todos morreram porque Cristo morreu, isto demonstra que ‘de uma vez morreram para o pecado’ conforme Paulo demonstra no verso 10.

 

4 De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida.

É pela fé que o cristão torna-se participante da morte e da ressurreição de Cristo. O batismo nas águas somente simboliza o que o cristão já alcançou pela fé em Cristo: o verdadeiro batismo do homem efetivasse na morte com Cristo.

O cristão é batizado na morte de Cristo e sepultado juntamente com ele. Isto porque, da mesma forma que Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória e poder de Deus, os que com ele ressurgem obtenham nova vida (espírito) e andem conforme ele andou (comportamento).

Neste ponto está o grande mistério revelado: Da mesma maneira que através do primeiro Adão todos os homens pecaram e destituídos estão da glória de Deus, sendo que não há nenhum deles que pratique o bem (embora pratiquem boas ações) ( Rm 3:10 -18 e 23), por meio de Cristo, o último Adão, os homens são justificados e conduzidos à glória dos filhos de Deus, e estes por sua vez não praticam o mau (embora sejam suscetíveis de praticar más ações).

Como isto é possível? Este versículo é uma explicação teológica da figura da árvore que Cristo apresentou aos seus discípulos: “Do mesmo modo, toda árvore boa produz bons frutos, e toda árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa produzir maus frutos, nem a árvore má produzir frutos bons” ( Mt 7:17 -18).

Ou seja, os homens nascidos segundo a semente corruptível de Adão não fazem o bem, e jamais poderão fazer o bem. Eles são plantas que o Pai não plantou ( Mt 15:13 ), nascidos da semente corruptível, e portanto, árvores más, e só podem produzir frutos maus.

Da mesma forma, os homens nascidos da semente incorruptível, que é a palavra de Deus, estes fazem o bem, visto que as suas obras foram preparadas por Deus de ante mão para que andassem nelas. Estes são plantas que o Pai plantou, árvores boas, e que só produzem frutos bons.

Como Deus fez (plantou) os cristãos novas criaturas para as boas obras (bons frutos), resta que não há como andar segundo o pecado, pois Deus já preparou para as suas criaturas para que andassem em boas obras ( Ef 2:10 ).

Resta que, é impossível àqueles que creem em Cristo, e que, portanto, são boas árvores (participantes da videira verdadeira), pratiquem más obras ou dêem maus frutos ( Tg 3:11 -12).

Com base no princípio demonstrado anteriormente é que Paulo demonstra que é impossível aos que foram agraciados com nova vida por meio a fé em Cristo permanecer (v. 1), viver (v. 2) ou andar segundo a velha natureza que foi crucificada com Cristo (v. 4).

 

5 Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição;

Este versículo apresentada a mesma ideia que o apóstolo João apresenta em uma de suas carta: “Nisto é aperfeiçoado em nós o amor, para que no da do juízo tenhamos confiança, porque, qual ele é, somos nós também neste mundo ( 1Jo 4:17 ).

A exposição de João é declarativa, enquanto a de Paulo argumentativa. João afirma categoricamente que os cristãos são como Cristo é, e aqui e agora, neste mundo. João não aponta o mundo vindouro, quando os cristãos serão revestidos da imortalidade, mas que, neste sistema de coisas (mundo) o Cristão já alcançou a mesma posição do Filho de Deus.

É a maneira de João dizer que os cristãos já estão assentados nas regiões celestiais em Cristo Jesus ( Ef 2:6 ).

Como a exposição de Paulo é argumentativa, ele conduz o leitor para chegar a uma conclusão. ‘Se fomos…’ é o mesmo que ‘fomos’ plantados juntamente com Cristo na semelhança da sua morte, uma vez que com ele morremos.

Por terem sido plantados na semelhança da sua morte, os cristãos também ressurgem dentre os mortos à semelhança de Cristo. Desta maneira, da mesma forma que Cristo é, os cristãos também são aqui neste mundo. Estão assentados nas regiões celestiais em Cristo.

 

6 Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado.

Não há como um cristão dizer que permanecerá no pecado com a ideia de que aumentará a graça de Deus, visto que:

  • O velho homem (nosso) foi crucificado com Cristo;
  • O corpo do pecado (carne) é desfeito, e;
  • Não serve mais ao pecado.

Como seria possível a alguém que crê em Cristo permanecer no pecado, visto que os que creem são crucificado com Cristo e tiveram o corpo do pecado desfeito? Se o corpo do pecado foi desfeito, como viver ou andar no pecado?

O crente é crucificado e sepultado com Cristo para que não mais sirva ao pecado, e segundo este saber, as possíveis argumentações do verso 1 são inconsistentes.

 

7 Porque aquele que está morto está justificado do pecado.

Ou seja, aquele que morreu com Cristo (que está morto) justificado está do pecado. Por assim dizer, também cessou do pecado.

Aquele que está morto para o pecado, não permanece inerte, antes ressurge dentre os mortos para a glória de Deus Pai. O novo homem que ressurge com Cristo, este é declarado justo diante de Deus (justificado).

Aquele que está morto para o pecado é o mesmo que vive para Deus. Por viver para Deus é que o homem recebe a declaração de que é justo.

Os que vivem para o pecado jamais serão justificados por Deus, uma vez que os vivos para o pecado estão mortos para Deus. Paulo disse que, quem está morto para o pecado está justificado, isto por causa do versículo seguinte, onde ele demonstra que quem morre com Cristo, vivem para Deus (v. 8).

A declaração de justo (justificação) é concernente a nova vida adquirida de Deus. Para receber a nova vida é preciso morrer (ter um encontro com a cruz de Cristo). Segue-se que a graça de Deus veio sobre todos os homens, “… para justificação e vida” ( Rm 5:18 ).

 

 

Abordagem Histórica das Transformações Lingüística

Antes de prosseguirmos o estudo da Carta de Paulo aos Romanos, faz-se necessário nos deter em observar as transformações que ocorreram ao longo da história recente sobre o modo de exposição e argumentação do pensamento humano.

A abrangência interlocutiva da linguagem é um fenômeno de todos os tempos e de todas as sociedades, porém, o estudo cientifico deste fenômeno (Pragmática) é recente.

A tendência da metafísica ocidental a partir de Platão (428 – 427 a.c), salvo exceções, tendeu privilegiar a dimensão apofântica (lógica do verdadeiro e falso), declarativa e locutória da linguagem. Perseguiam um ideal de linguagem (lógico-matemático).

O que a metafísica não alcançou, a ciência moderna se declarou herdeira. Para os da ciência moderna (Kepler, Galileu, Descartes e Newton), fazer ciência consiste em matematizar e formalizar, eliminando da linguagem as considerações implícitas, tendo estes elementos da linguagem natural como equívocos ou inadequadas ao discurso científico.

Veja o que Perelman diz da metafísica e da ciência moderna sobre o discurso declarativo como única forma de descrição da linguagem: “Negar as outras formas de discurso, ou a desvalorizá-las como fazia Platão, acusando de sofístico todo o uso linguístico não apoiado na essência, na definição, na clareza a priori” (Perelman, citado em Meyer, 1992: 120).

Apesar do ostracismo imposto pelas regras da metafísica quando realçadas pela ‘linguagem’ adotada pela ciência moderna, temos na história um outro tipo de abordagem linguística do discurso: a retórica.

A primeira referência a retórica remonta ao século V a.C, tendo em dois sicilianos (Corax e Tisia) os seus idealizadores, por causa de Hiéron, um certo tirano de Siracusa, que, segundo a lenda, teria proibido os seus súdito de utilizar a fala.

A Retórica cresceu em importância na democracia ateniense, visto que, saber falar para persuadir e convencer nas assembleias, tribunais, praças públicas, etc transformou-se em necessidade.

Era preciso a quem fizesse o uso da fala saber convencer o interlocutor da pertinência de sua abordagem. Por fim, os Sofistas, que se auto intitulavam ‘mestres de Retórica’ os seus principais representantes.

Aristóteles ao abordar a Retórica, transforma a ‘técnica de persuasão’ em ciência quando dedica três livros a Retórica, ao compor um conjunto de conhecimentos, categorias e regras.

Essencialmente, Aristóteles demonstrou que a Retórica visa criar meios de persuadir um auditório acerca de uma determinada matéria. Sem fixar-se naquilo que é demonstrável ou analítico, a Retórica tem o que é verossímil ou provável como seu objeto, através de uma natureza puramente discursal (dialética).

O declínio da Retórica teve início no final do século XVI num processo que estendeu-se até o século XIX, que marca o seu desaparecimento. Ela perdeu a influência e sofreu modificações: perdeu o seu objetivo pragmático, deixando de aplicar-se ao persuadir para aplicar-se ao ensino de ‘belos’ discursos.

Tal declínio deve-se a ascensão do pensamento burguês através da evidência pessoal do protestantismo, racional do cartesianismo ou sensível do empirismo (Perelman 1993: 26). Este processo é marcado pelo racionalismo de Descartes, quando erigiu a evidência em critério de verdade. Ele excluiu a argumentação do campo do saber geral e da filosofia em particular. Para ele evidência só através da demonstração, e nunca através da discussão (Perelman 1987: 264).

Mas, qual a relação entre a Retórica, a Metafísica e a linguagem da ciência moderna com a abordagem a Carta de Paulo aos Romanos? A Retórica como uma ‘ciência’ da argumentação de modo a persuadir e convencer o interlocutor teve o seu ápice entre os Gregos e Romanos, sociedade que Paulo, como cidadão Romano fazia parte, e que acabou por influenciar o estilo de composição de suas cartas.

Para uma melhor compreensão dos escritos de Paulo, é preciso utilizar como ferramenta de interpretação de texto e contexto elementos da Retórica. É plenamente verificável que o método de ensino de Paulo é segundo a arte do bem falar, de modo que ele procurava persuadir e convencer os seus interlocutores

As várias condições que Perelman enumera como sendo necessárias a argumentação (Retórica) são plenamente observáveis nas Cartas de Paulo. Paulo sempre:

  • Situa e insere- o seu discurso em um contexto determinado e dirige-se a um auditório determinado;
  • Paulo como orador, através do seu discurso procurava exercer uma ação (de persuasão ou convicção) sobre o auditório;
  • Os interlocutores precisam estar dispostos a escutar, ou seja, a sofrer (aceitar)a ação do orador;
  • Querer persuadir implica renúncia por parte do orador em dar ordens ao auditório, procurando antes, a sua adesão intelectual;
  • Paulo, além do estilo argumentativo, que nada tem a ver com a verdade do evangelho, aponta e defende a verdade do evangelho desvinculado do seu conhecimento humano ou do próprio uso da Retórica;
  • Ao argumentar, Paulo demonstra que é tão possível defender uma tese como a sua contrária. Aplicação prática do exposto por: (Perelman, 1987: 234).

 

A argumentação (Retórica) de Paulo é distinta da demonstração (lógica), visto que, a concepção da argumentação insere a noção de auditório “O conjunto daqueles que o orador quer influenciar mediante o seu discurso” (Perelman, 1987: 237). O ‘auditório’ de Paulo é os cristãos, e ele conhecia os valores e as teses do seu auditório em especial.

Paulo era versado na Retórica, uma vez que ele não apresenta erros como orador, que é a petição de princípio, que segundo Perelman é: “Supor admitida uma tese que se desejaria fazer admitir pelo auditório” (Perelman, 1987: 239-240). Durante as suas exposições, Paulo trabalha as teses e valores do seu auditório (cristãos), mesmo quando constituído de apenas uma ou algumas pessoas (cartas pastorais e cartas as igrejas), através do questionamento, técnica muito utilizada por Sócrates em seus diálogos platônicos. (Perelman, 1987: 240).

O Capítulo 6 é composto por frases argumentativas, e, portanto, elas não devem ser consideradas ou confundidas com frases conclusivas ou afirmativas.

Quais as diferenças entre frases argumentativas, conclusivas e afirmativas? Como interpretá-las?

Um exemplo claro de frase afirmativa é: “E esta é a mensagem que dele ouvimos, e vos anunciamos: que Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas” ( 1Jo 1:5 ). O apóstolo João é quem trabalha muito com frase afirmativas, ou por vezes declarativas.

Ao relembrar a mensagem anunciada por Cristo, João faz menção de uma frase declarativa e afirmativa: Deus é luz! Tais frases são utilizadas para evidenciar uma verdade inconteste, ou para declarar algo acerca de alguém.

Por exemplo: “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, e hoje e eternamente” ( Hb 13:8 ). Temos uma verdade e uma declaração acerca de Cristo Jesus. Estas frases podem ser tomadas de maneira isolada do texto e contexto que não trarão grande prejuízo ao leitor.

Ao citar Hb 13:8 é quase impossível alguém intentar negar a imutabilidade de Cristo, embora há quem intente.

As frases afirmativas, declarativas constituem-se premissas que dão sustentabilidade às frases argumentativas e conclusivas.

O apóstolo Paulo é dado a linguagem argumentativa, visto que, o seu discurso visa convencer ou persuadir, seja qual for os seus interlocutores (judeus ou gentios). Argumentar é fornecer argumentos e razões a favor ou contra uma determinada tese ou matéria.

A linguagem de Paulo é segundo a retórica dos Gregos e dos Romanos, que foi concebida como a arte do bem falar, embora a doutrina apregoada por Paulo não tenha se firmado em sublimidade de palavras ou de sabedoria ( 1Co 2:1 ). A arte do bem falar é o falar de modo a persuadir e a convencer através da dialética e tópica, ou seja, uma arte no conduzir o diálogo e a exposição de temas controversos.

A arte do bem falar trabalha com operadores argumentativos que a língua dispõe. Estes dispositivos são designados operadores e conectivos argumentativos. Por causa destes operadores argumentativos, os enunciados de uma frase ou oração, embora tenha uma significação própria do ponto de vista lógico, acaba por divergir quando analisadas do ponto de vista argumentativo.

Vejamos o seguinte exemplo:

a) “Ora, a qual dos anjos disse jamais: Assenta-te à minha destra até que ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés?”;

B) “Não são todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor dos que hão de herdar a salvação?” ( Hb 1:13 -14).

Temos dois enunciados que se analisados do ponto de vista lógico e argumentativo, somente o ponto de vista argumentativo faz com que o segundo enunciado complemente o primeiro. Observe: a pergunta ‘b’ quando tida como um enunciado de cunho lógico somente carece de respostas: Os anjos são ou não ministros enviados a servir em favor dos santos?

Porém, quando analisadas argumentativamente, os operadores argumentativos transformam simples premissas que conduzem a uma única conclusão, diferente do que é próprio a abordagem lógica (verdadeiro – falso).

Desta forma, verifica-se que o enunciado ‘b’ exerce somente a função de enfatizar a divindade de Cristo, sem a pretensão de especificar qual o ‘serviço’ desenvolvido pelos anjos.

Os operadores argumentativos aplicados aos enunciados transforma-os em premissas que conduzem a uma única conclusão, posicionando o enunciado numa certa direção que implicam em conclusões específicas.

Já os conectores argumentativos são dispositivos (advérbios, conjunções e locuções de subordinação ou de conjunção, etc.) que permitem a conexão ou a ligação recíproca de dois ou mais enunciados. Numa argumentação, os conectores podem ligar as premissas entre si, as premissas com a conclusão e a conclusão com as premissas.

Bibliografia: Retórica e Argumentação, Paulo Cesar, Universidade da Beira Interior, 95/96.

 

 

As argumentações deste capítulo devem ser analisadas segundo o que Paulo demonstrou nos versos 12 à 19 do capítulo 5, da mesma forma que o capítulo 3, versos 23 ao capítulo 5, verso 11, deveriam ser analisados com base no exposto nos versos 21 à 22 do capítulo 3.

Ao declarar que a justiça de Deus é pela fé em Cristo ( Rm 3:21 -22), Paulo apresenta um vasto repertório de argumentos no intuito de demonstrar e convencer alguns dos cristãos da validade do exposto, e, para demonstrar que os seus argumentos não comportam mais que uma conclusão, ele apresenta a seguinte conclusão: “Sendo, pois, justificados pela fé…” ( Rm 5:1 ), e no que ela implica: “… temos paz com Deus…” ( Rm 5:1 ).

A exposição do verso 1 do capítulo 6 segue o mesmo molde do exposto acima. Neste verso o apóstolo simplesmente antecipa-se a possíveis ‘contradizentes’, demonstrando que, qualquer argumento contrário ao que ele haveria de expor, não chegaria a uma conclusão válida segundo a verdade do evangelho, que é conforme o exposto acerca de Adão e Cristo ( Rm 5:12 -19).

O verso 1 deste capítulo fundamenta-se no verso 20 do capítulo 5, onde fica claro que ‘onde o pecado abundou, superabundou a graça’, ou seja, a graça já foi demonstrada abundante (passado) em Cristo (na sua morte), não sendo mais necessário que alguém procurasse ‘promover’ a graça (para que a graça aumente).

O pecado abundou sobre os nascidos em Adão, porém, a graça de Deus demonstrou-se superabundante por intermédio de Cristo, nosso Senhor. Qualquer tentativa humana em promover a graça, é inócua, visto que, ela já foi demonstrada em plenitude (superabundou), quando Cristo morreu pelos homens, sendo eles ainda pecadores ( Rm 5:8 -10).

 

8 Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos;

Os versos 1 à 6 traz o leitor a seguinte conclusão: o cristão já morreu com Cristo (juntamente). Observe que Paulo inclui-se na narrativa ao demonstrar que, ele e os destinatários da carta, morreram com Cristo.

Até o verso 2 deste capítulo o apóstolo tão somente fez referência à morte de Cristo, demonstrando que, Ele foi entregue e morto por causa dos pecados dos homens que foram gerados em Adão ( Rm 4:25 ). As questões acerca da morte de Cristo, que reconciliou os que crêem com Deus, são plenamente respondidas ( Rm 5:10 ), porém, como se deu a justificação dos que crêem, está questão é respondida através dos versículos que demonstram que os cristãos também morreram com Cristo.

O verso 8 é um enunciado argumentativo por causa dos conectores argumentativos (ora, se e que), porém, o enunciado apresenta o seguinte pressuposto: Já morremos (os cristãos) com Cristo.

Em primeiro lugar, o apóstolo demonstrou que Cristo morreu ( Rm 5:8 ) (argumentação segundo valores intrínsecos a ele e seus interlocutores: a fé no evangelho). Todos os cristãos sabiam que Cristo havia morrido na cruz do calvário! Temos na argumentação uma premissa: Cristo morreu.

Logo em seguida, Paulo apresenta outro enunciado argumentativo, do qual podemos extrair a seguinte premissa: todos os cristãos estão mortos para o pecado ( Rm 6:2 ). Após apresentar um novo enunciado argumentativo, Paulo procura certificar-se de que todos possuíam o mesmo conhecimento: “Ou não sabeis que…” ( Rm 6:3 ), de que o batismo do cristão representa a sua morte com Cristo.

Dai segue-se o seguinte raciocínio:

a) Cristo morreu (premissa 1);

b) Os que crêem morreram com ele para o pecado (premissa 2 – é o que o batismo representa);

c) surge a conclusão ao relacionar a premissa 1 com a premissa 2: Como Cristo morreu e os cristãos também morreram, logo, assim como Cristo ressurgiu dentre os mortos, os cristãos também ressurgiram com Ele ( Cl 3:1 ).

Mas, por que o versículo aponta que com Cristo viveremos (futuro), e não que com ele vivemos (presente)? Por causa do exposto no verso 5, onde o apóstolo destaca a semelhança com Cristo. Ou seja, os cristãos foram plantados juntamente com Cristo na semelhança da sua morte para que os cristãos alcancem a semelhança do Cristo ressurreto, o que ocorrerá quando o que é mortal se revestir da imortalidade (futuro).

Hoje o cristão vive e anda em Espírito, pois o corpo do pecado foi desfeito na cruz do calvário, porém, só alcançará a semelhança da ressurreição de Cristo, quando da manifestação dos filhos de Deus ( Rm 8:19 ), que serão semelhantes a Cristo.

Desde o momento em que o homem crê, ele passa a viver e andar segundo a vida concedida por Deus, porém, este versículo destaca que a vida com Deus é sempiterna (viveremos = habitaremos para sempre). “Ora se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos”, ou seja, o viveremos indica a eficácia da salvação poderosa providenciada por Deus e manifesta na morte de Cristo (graça superabundante).

 

9 Sabendo que, tendo sido Cristo ressuscitado dentre os mortos, já não morre; a morte não mais tem domínio sobre ele.

No verso três Paulo, lembra os cristãos que todos foram batizados na morte de Cristo “Ou não sabeis que…” (v. 3), e nos versos 6 e 9, ele demonstra que todos tinham um conhecimento em comum “Pois sabemos isso (…) Pois sabemos que…” (vs. 6 e 9).

Os cristãos sabiam que Cristo morreu (v. 3), e que havia ressuscitado dentre os mortos, e que Ele jamais voltaria a morrer novamente. Cristo jamais voltará a se sujeitar a passar pela paixão da morte, uma vez que ela foi vencida na cruz do calvário.

 

10 Pois, quanto a ter morrido, de uma vez morreu para o pecado; mas, quanto a viver, vive para Deus.

O verso 10 complementa o verso anterior. Paulo reafirma que, quanto a ter morrido, Cristo morreu uma só vez por causa do pecado da humanidade decorrente de Adão. Porém, com relação a vida decorrente da ressurreição, Ele vive para sempre à destra de Deus.

Este verso demonstra que, se os cristãos realmente criam que efetivamente morreram à semelhança de Cristo, isto significava que eles também morreram de uma vez (não é preciso morrer outra vez) e para sempre para o pecado. Da mesma forma, quanto a viver, viverão para sempre com Deus à semelhança de Cristo “…cremos que também com ele viveremos” (v. 9).

 

11 Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor.

Paulo procura conscientizar os seus leitores a considerarem (Retórica perfeita) que estavam mortos para o pecado e vivos para Deus. “Assim também…” remete as considerações apresentadas anteriormente.

Ou seja, da mesma maneira que ‘conheciam’ que Cristo morreu uma única vez por causa do pecado e foi sepultado, os cristãos deveriam considerar estarem mortos para o pecado e vivos para Deus em Cristo Jesus.

Esta relação entre a morte de Cristo e a morte dos cristãos, e a vida de Cristo e a nova vida dos cristãos Paulo Já havia estabelecido no verso 8, porém, discorre de forma a não deixar dúvidas quando a morte dos cristãos para o pecado, e ressurreição deles para vida, por meio de Cristo Jesus.

Considerar é ter em conta, ou seja, é andar conforme a nova vida alcançada “…assim andemos nós também em novidade de vida” (v. 4). Paulo não recomenda um faz de conta ao pedir que os cristãos considerassem estarem mortos para o pecado e vivos para Deus. Eles deviam contar com a nova vida e descansar por estarem de posse dela (regeneração), porém, andarem de modo digno da nova condição alcançada graciosamente (comportamento).

 

 

12 Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, para lhe obedecerdes em suas concupiscências;

Os versos 12 e 13 não devem ser considerados como uma determinação (ordem), pois é próprio à retórica a renúncia, pelo orador, a dar ordens ao auditório.

A conjunção coordenativa conclusiva (portanto) demonstra que todo o enunciado (vs 12 e 13) depende das considerações expostas anteriormente (vs 9- 12), ou seja, o verso 12 não é uma ordem direta e inflexível (Não reine.), como se o homem possuísse domínio sobre o pecado (isto considerando o pecado quanto a figura de senhor).

A partir do momento que o cristão considera que está morto para o pecado (v. 11), automaticamente estará cônscio de que o pecado não exerce domínio sobre ele (reinado), e que já não cumpre com as obrigações do pecado.

O pecado não exerce domínio (reine) sobre o corpo mortal dos que crêem, de maneira que o cristão ‘deva’ se submeter as suas concupiscências (do pecado).

Este verso apresenta a mesma idéia do verso 14: a partir do momento que o homem passa a estar debaixo da graça, é porque o corpo do pecado foi desfeito (v. 6) e a lei não exerce qualquer influência sobre ele. O pecado deixa de ter domínio, e portanto, já não reina o pecado sobre o corpo mortal dos que crêem.

Este versículo apresenta uma nova realidade aos cristãos, e não uma determinação do apóstolo aos cristãos.

 

13 Nem tampouco apresenteis os vossos membros ao pecado por instrumentos de iniqüidade; mas apresentai-vos a Deus, como vivos dentre mortos, e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça.

A nova condição em Cristo permite aos cristãos não apresentar os seus membros (corpo mortal) ao pecado (antigo senhor) por instrumento de iniqüidade. Diante da nova realidade decorrente da morte com Cristo que é a do pecado não exercer domínio (não reine) sobre os seus ouvintes, Paulo apresenta argumentos que demonstram ser possível também andar em novidade de vida.

Os que morreram com Cristo passaram à condição de vivos para Deus, uma vez que rejeitaram o pecado através da fé em Cristo, e podiam apresentarem-se a Deus, visto que estavam de posse da nova condição: vivos dentre mortos.

Apresentar-se a Deus refere-se ao serviço voluntário do servo ao seu novo Senhor, ou seja, é estar consciente de que os seus membros (corpo) deve estar a serviço do seu Senhor como instrumento de justiça.

Observe que a função de instrumento é estabelecida através de um comparativo: ‘como’ instrumento. Os homens não são instrumentos, porém, podem entregar-se ‘como’ instrumento de iniqüidade ou de justiça. Um instrumento não tem iniciativa própria, ficando na dependência de quem o usa. Este comparativo nos remete à carta de Paulo aos Gálatas: “Estes se opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis” ( Gl 5:17 ).

Um instrumento não possui vontade própria, e por isso carne, e Espírito se põem, para terem os homens como instrumentos. Desta forma os homens como instrumento não fazem o que desejam, antes, são utilizados como instrumento, ou da carne para a iniqüidade, ou do Espírito para a justiça.

Um instrumento não possui vontade própria, da mesma forma se estabelecermos este comparativo a pessoa de um escravo. Apesar de um escravo possuir ‘vontade’ por ser um ser humano reduzido a servidão, a condição de servidão faz com que o escravo não passe da condição de um objeto.

Um escravo era tido como um instrumento de produção (máquina), e a sua vontade não era levado em conta, visto que:

a) um escravo não podia possuir propriedades (bens);

b) tudo quanto produz pertence por direito ao seu Senhor, e;

c) em última instância, o escravo não passa da condição de propriedade do seu senhor.

A única certeza de um escravo quanto a receber alguma coisa desta vida era a morte, que o tornaria livre do seu senhor. Desta forma, a morte seria o único salário (recompensa) que um escravo teria direito, pois, como ‘coisa’ que era, um escravo não podia ter posses ou herdades.

 

14 Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça.

Após saber ou conhecer que Cristo ressurgiu dentre os mortos e que a morte não tem domínio sobre Ele, resta que o pecado não tem domínio sobre os cristãos, uma vez que ressurgiram com Cristo (v. 9) “Portanto, se fostes ressuscitados com Cristo…” ( Cl 3:1 ).

O fato de os cristãos terem sido batizados com Cristo na sua morte, e ressurgido dentre mos mortos para a glória do Pai (v. 4), tirou-os da condição de sujeição a lei, para estabelecê-los debaixo da graça de Deus.

A premissa é: o pecado não tem domínio sobre o cristão. Mas, tal premissa é introduzida por um operador e conectivo argumentativo: porque – conjunção coordenativa explicativa. Ou seja, a premissa (o pecado não terá domínio sobre vós) do verso 14 é introduzida como uma explicação sobre porque o cristão deve considerar-se morto para o pecado e vivo para Deus.

 

 

Jesus Cristo Crucificado

Paulo foi instruído (versado) na arte do bem falar, porém, as suas mensagens não estavam apoiadas e nem consistiam em conhecimento humano (retórica). O tema das suas mensagens era e é a cruz de Cristo “E EU, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não fui com sublimidade de palavras ou de sabedoria. Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado ( 1Co 2:1 -2).

Demonstramos anteriormente que (pág. 17), através da arte do bem falar, Paulo trabalhava a concepção dos ouvintes através da persuasão, porém, em momento algum ele esteve apoiado em elementos provenientes da sabedoria humana (retórica) “A minha palavra, e a minha pregação, não consistiam em palavras persuasivas de sabedoria humana…” ( 1Co 2:4 ).

Ao expor o evangelho de Cristo, Paulo não estava confiado na Retórica (sublimidade de palavras ou palavras persuasivas de sabedoria humana), antes estava cônscio de que a mensagem do evangelho é poder de Deus ( 1Co 2:5 ; Rm 1:16 ).

Paulo demonstrava efusivamente que a mensagem do evangelho é Espírito e poder (vida), para que os cristãos não depositassem confiança em meras palavras de conhecimento humano “O Espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são Espírito e vida ( Jo 6:63 ) compare: “A minha palavra, e a minha pregação, não consistiam em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de poder ( 1Co 2:5 ).

Observe a relação entre ‘poder’ e ‘vida’: a vida eterna decorre do poder que emana de Deus por meio da fé em Cristo, o Verbo de Deus, que é a vida de Deus concedida graciosamente aos homens ( Jo 1:4 ).

Jesus, ao falar de si mesmo, apresentou-se como a vida de Deus concedida aos homens ( Jo 14:6 ), e Paulo ao testificar d’Ele, apresenta-O como ‘poder de Deus’, visto que, somente através do poder de Deus (evangelho) os homens alcançam a vida eterna.

Observe a primeira carta aos Coríntios, onde é possível inferir que as divisões entre os cristãos em vários partidos eram provenientes do entendimento de alguns que estabeleciam aqueles que detinham maior conhecimento humano em uma posição de preeminência sobre os demais ( 1Co 1:13 ).

O que percebemos através dos textos bíblicos é que Paulo não promovia estas desavenças. Paulo procurava demonstrar que todos os cristãos foram agraciados e enriquecidos em Cristo, em toda palavra e conhecimento, de modo que, nenhum dom faltava aos cristãos ( 1Co 1:5 ). Se todos foram de igual modo enriquecido em conhecimento e sabedoria, porque estavam se gloriando nos homens se tudo pertencia a eles? ( 1Co 3:21 ).

Se todos os cristãos foram enriquecidos em Cristo em tudo, para quê focar elementos provenientes do conhecimento humano “…os quais são vãos” ( 1Co 3:20 ), se a maior riqueza está na cruz de Cristo?

Paulo demonstra que nada propôs saber aos cristãos, a não ser a Cristo, e Este crucificado “Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado” ( 1Co 2:2 ), ou seja, o apóstolo não apresentou aos cristãos elementos de sabedoria humana, visto que, tal sabedoria é vã e não vem do alto, conforme também atesta o apóstolo Tiago ( Tg 3:14 -15).

As dissensões nas igrejas eram provenientes daqueles que estavam equivocados em sua carnal compreensão. Tinham a si mesmos por sábios, mas esqueciam que a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus ( 1Co 3:18 -19).

Além daqueles que consideravam a si mesmos por sábios segundo a sabedoria deste mundo, havia outros que se gloriavam naqueles que se diziam sábios, o que potencializava as contendas entre os cristãos “…portanto, ninguém se glorie nos homens!” ( 1Co 3:21 ).

Através do exposto por Paulo aos cristãos de Coríntios, verifica-se que a mensagem do evangelho não se mescla à sabedoria humana. Enquanto esta é vã, aquela promove a vida eterna.

Quando Paulo escreveu que a sabedoria deste mundo é vã, ele não estava descartando de todo o conhecimento humano. É salutar que os cristãos sejam instruídos no conhecimento secular, porém, é preciso compreender que o homem jamais se achegará a Deus por meio deste conhecimento.

Enquanto na condição de ‘peregrinos’ nesta vida, o cristão precisa instrui-se para melhor relacionar-se com os concidadãos deste mundo, mas deve estar ciente de que a instrução deste mundo não o torna apto a compreender as coisas do reino de Deus.

Alguém pode perguntar: por quê? A bíblia apresenta vários motivos:

  • Ter um diploma ou ser versado em ciências humanas não habilita homem algum a compreender a mensagem do evangelho “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” ( 1Co 2:14 );
  • A mensagem do evangelho é loucura para os sábios deste mundo “Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem…” ( 1Co 1:18 );
  • A sabedoria deste mundo não promove o conhecimento de Deus “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria…” ( 1Co 1:21 );
  • O evangelho apresenta Deus se revelando aos homens por intermédio do seu Espírito, mas nenhum dos ‘príncipes’ deste mundo conheceu a Cristo, embora fossem sábios e entendidos “A qual nenhum dos príncipes deste mundo conheceu (…) Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito…” ( 1Co 2:8 -10).

O que observamos em Paulo é que, apesar de ele ter sido instruído nas questões seculares, ele não usou desta sabedoria para se impor sobre os demais cristãos. Porém, não podemos negar que, ao expor o evangelho em suas cartas, Paulo utiliza elementos da retórica para melhor expor a verdade do evangelho.

Mas, quando comparamos as cartas de Paulo e Pedro, verificamos que, com relação à mensagem apregoada, as cartas de Pedro não ficam aquém do exposto pelas cartas Paulinas.

O problema quanto à sabedoria deste mundo surge quando alguém se arroga na posição de sábio e mestre, porém, firma-se na sabedoria deste mundo, e não na sabedoria que é do alto, proveniente da revelação de Deus por intermédio do evangelho ( 1Co 3:18 -20).

O homem movido pelo conhecimento deste mundo se vangloria em suas conquistas pessoais e apresentam os seus títulos como troféus. Acaba ensoberbecendo-se contra o seu irmão, e esquece que, as conquistas pessoais deste mundo não tornam ninguém diferente perante Deus “Porque, quem te faz diferente? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não o houveras recebido?” ( 1Co 4:7 ).

Um exemplo claro de como o conhecimento humano interfere na compreensão da palavra do evangelho encontramos na doutrina da justificação.

Muitos estudiosos ao examinar a bíblia compreendem que a justiça divina é semelhante a apresentada nos tribunais humanos, e estabelecem esta relação pura e simplesmente por causa da palavra ‘justificação’.

Scofield e Bancroft comungam da mesma opinião quando fazem referência à justificação: “A justificação é o ato judicial de Deus, mediante o qual aquele que deposita sua confiança em Cristo é declarado justo a Seus olhos…” Teologia Elementar, Bancroft, Emery H., Editora EBR, 3º Ed., pág. 255 (grifo nosso), e nota explicativa do rodapé da Bíblia de Scofield com Referências à Rm 3: 28.

Na mesma página, Bancroft dá uma definição ‘bíblica’ para a palavra justificação: “A palavra ‘justificação’, tanto na terminologia religiosa como na linguagem comum, é um termo ligado à lei (…) É termo técnico e forense…”. Destas colocações surge a pergunta: Onde está definido que a palavra justificação é termo técnico e forense? O que se percebe, é que homens versados em ciências jurídicas passaram a adotar o termo ‘justificação’ como sendo um termo jurídico por entenderem que a justiça divina assemelhasse a justiça humana, ou seja, que Deus também trabalha com ‘ato judicial’.

Ledo engano! Isto quando não apresenta contradições em suas definições. Se considerarmos as notas de Scofield, o que é justificação? É um ato judicial ou um ato de reconhecimento divino?

Se considerarmos a bíblia, verificaremos que os dois conceitos não condizem com a verdade. A bíblia não trás uma definição, porém, ela apresenta elementos que apontam para a seguinte definição: Justificação resulta de um ato criativo de Deus!

Por que um ato criativo? Por que envolve o poder de Deus. O homem só é justificado (tornar justo, declarar justo, declarar reto ou livre de culpa e merecimento de castigo) quando crê no evangelho e recebe poder para ser feito (criado) novamente (regeneração) um novo homem em verdadeira justiça e santidade ( Jo 1:12 ; Ef 4:24 ).

A necessidade da justificação do homem não é por causa de seus atos, antes por causa da natureza herdada em Adão. Por isso a justificação é de vida, através da ressurreição com Cristo, onde o poder manifesto em Cristo, também se manifesta sobre os que creem “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida ( Rm 5:18 ; Ef 1:19 -20).

Desta maneira, verifica-se que o conhecimento humano não alcança a magnitude da revelação de Deus por meio do evangelho. A sabedoria de Deus não surpreende somente os homens uma vez que a multiforme sabedoria de Deus é revelada aos principados e potestades por intermédio da igreja.

Enquanto o mundo procura sabedoria, o cristão deve fixar-se na mensagem da cruz de Cristo, que é escândalo para os sábios deste mundo, porém, a sabedoria de Deus confunde a sabedoria dos sábios deste mundo, pois o que é anunciado por meio do evangelho constitui-se poder de Deus.

 

 

15 Pois que? Pecaremos porque não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça? De modo nenhum.

A argumentação apresentada no verso 2 é complementada através deste verso e apresenta a mesma colocação de João e uma de suas cartas: “Qualquer que permanece nele não peca (…) Qualquer que é nascido de Deus não comente pecado; porque a sua semente permanece nele; e não pode pecar, porque é nascido de Deus” ( 1Jo 3:6 -9).

Sem esquecer que os argumentos deste capítulo fundamenta-se no capítulo 5, do verso 12 ao 21, João apresenta uma figura que ilustra a condição daquele que á nascido de Deus, ou seja, é uma planta plantada por Deus “Ele, porém, respondendo, disse: Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” ( Mt 15:13 ).

João apresenta o motivo pelo qual o homem nascido de Deus não peca: porque a semente de Deus permanece nele, ou seja, o que determina o tipo de uma planta é a semente.

A bíblia apresenta dois tipos de sementes: a corruptível e a incorruptível. Está é a palavra de Deus e aquela refere-se a semente corruptível de Adão, por quem todos os homens pecaram e foram destituídos da glória de Deus por causa da semente de Adão.

Sabemos que uma planta não pode produzir dois tipos de frutos, e nesta ilustração, verifica-se que a planta plantada pelo Pai só pode produzir segundo a semente planta. É um contra senso considerar que a planta que o Pai plantou possa produzir dois tipos de frutos: o bem e o mau.

Segundo o que Paulo apresentou temos:

  • Os mortos para o pecado não podem viver para o pecado ( Rm 6:2 );
  • Ao ser plantado na semelhança da morte de Cristo, o homem é semelhante a Cristo na ressurreição ( Rm 6:5 ). Uma vez que os cristãos já ressuscitaram com Cristo ( Rm 6:8 ; Cl 3:1 ), segue-se que, qual Ele é, os cristãos o são neste mundo “Nisto é perfeito o amor para conosco, para que no dia do juízo tenhamos confiança; porque, qual ele é, somos nós também neste mundo” ( 1Jo 4:17 );
  • A única referência às questões comportamentais no capítulo 6 refere-se a “andar em novidade de vida” ( Rm 6:4 ), visto que ‘viver em Espírito’ diz da nova vida proveniente de Deus;
  • Uma vez que os cristãos não estão debaixo da lei, mas da graça, segue-se que o pecado perdeu o seu domínio ( Rm 6:14 ). Como um servo só pode servir a um senhor, conclui-se que é impossível aos que tem a Cristo como Senhor em suas vidas produzir para Deus e para o pecado.

Neste versículo (v. 15) Paulo retoma a abordagem do verso 2, e demonstra que não há como o cristão pecar (De modo nenhum). Paulo demonstra que este saber era comum aos cristãos, visto que eles sabiam que haviam morrido com Cristo (v. 6). Também sabiam que Cristo havia ressuscitado dentre os mortos (v. 9). Mas, no que implica a morte e a ressurreição de Cristo?

Uma vez que o velho homem foi crucificado com Cristo (v. 6), segue-se que, com a ‘morte’ do velho homem, o cristão é declarado justo (v. 7), conforme demonstra o verso 5: “Porque, uma vez que temos sido plantados juntamente com Ele na semelhança da Sua morte…” assim é o cristão, justo e santo ‘na semelhança da Sua ressurreição’ ( 1Jo 4:17 ).

Uma vez que os cristãos já morreram com Cristo e a ressurreição é na semelhança da ressurreição de Cristo, segue-se que aqueles que morrem juntamente com Cristo, de uma vez por todas morrem para o pecado, já que tanto Cristo como os cristãos passaram a viver para Deus por intermédio da ressurreição. Desta forma os cristãos estão assentados nas regiões celestiais em Cristo, por causa da nova condição do homem espiritual gerado em Cristo (v. 10).

Muitos entendem que neste versículo (v. 15) Paulo está perguntado aos seus leitores se é pertinente aos cristãos permanecerem em uma vida de devassidão simplesmente por não terem o freio da lei, uma vez que agora estão na graça.

Mas, não é esta a colocação do apóstolo. É preciso considerar a primeira pergunta: “Pois que?”, que introduz os elementos necessário à compreensão do leitor, quando ler a conclusão: “De modo nenhum”.

Paulo através da pergunta: “Pecaremos porque não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça?” procurou introduzir uma nova figura que ilustrasse e trouxesse conhecimento aos Cristãos: “Não sabeis vós que…” (v. 16), contrastando com o conhecimento que era comum: “Sabendo isto…” (v. 6 e 9).

Após apresentar Adão e Cristo, o pecado e a graça no capítulo anterior ( Rm 5:12 -21), neste capítulo, a primeira referência à lei encontra-se no verso 15. Através deste versículo Paulo demonstra que a ausência da lei não determina a condição de submissão ao pecado, e sim o fato de o homem ter herdado de Adão tal condição. Antes mesmo de ser instituída a lei, já estava o pecado no mundo ( Rm 5:13 ), o que demonstra que a abundante graça de Deus promove a justificação de vida ( Rm 5:18 ), em contraste à condenação herdada de Adão.

Na justificação, Deus declara o homem livre de pecado e culpa, ou seja, o homem é justo perante Ele. Para receber tal declaração de Deus é preciso que o homem não esteja na condição de sujeição ao pecado, e, para isso, não pode pecar, uma vez que somente os escravos do pecado pecam “Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado” ( Jo 8:34 ).

Somente cometem pecado os servos do pecado, ou seja, àqueles nascido da semente corruptível de Adão. Isto porque, segundo o apóstolo João, os que tem em si a semente de Deus, nascidos da vontade de Deus ( Jo 1:12 ), estes não pecam ( 1Jo 3:6 -9).

A frase ‘De modo nenhum (…) Pecaremos…” não é uma determinação divina que o homem deva cumprir como uma lei, antes diz da impossibilidade da nova natureza criada na regeneração através da semente incorruptível pecar.

Por não estarmos debaixo da lei (tutelados) pecaremos? De modo nenhum! Pois que os que morreram e ressurgiram com Cristo, de uma vez morreram para o pecado.

 

16 Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça?

A frase ‘De nenhum modo’ pede uma explicação da parte do apóstolo sobre a impossibilidade de o homem pecar quando alcançado pela graça. Tal explicação advém de elementos pertinente à figura do escavo, que é introduzida através da argumentação seguinte “Não sabeis vós…?”.

Não sabeis vós que é impossível servir a dois senhores? Não sabeis vós que a árvore só produz fruto segundo a sua espécie? Ou não sabeis que um fonte não pode jorrar água doce e salgada? ( Tg 3:12 ). Todas estas figuras complementam-se e apontam para os elementos apresentados por Cristo acerca das duas portas e dos dois caminhos.

Como o homem apresenta-se como servo para obedecer ao seu senhor (…a quem vos apresentardes por servos…)? Ou seja, como o homem passa a condição de servo daquele a quem ele obedece (pecado ou obediência)?

A bíblia é clara sobre este aspecto. Todos os homens quando vem ao mundo através do nascimento natural, segundo Adão, apresentam-se ao pecado para o servir e obedecer. Ou seja, o nascimento natural é a porta larga que dá acesso a um caminho espaçoso que conduz a perdição “Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela” ( Mt 7:13 ).

O nascimento segundo a semente corruptível de Adão (natural) é a maneira como o homem se apresenta como servo ao pecado. É o nascimento segundo a vontade da carne, segundo a vontade do varão e do sangue que coloca o homem em sujeição e em obediência ao pecado ( Jo 1:13 ).

Como o homem se apresenta a Deus como servo? Através da obediência a palavra da verdade (evangelho) “…obedecestes de coração a forma de doutrina a que fostes entregues” (v. 17).

 

17 Mas graças a Deus que, tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues.

Paulo agradece a Deus por de modo nenhum ser possível àqueles que morreram e ressurgiram com Cristo pecarem. Graças a Deus, pois outrora os cristãos foram escravos do pecado, mas, agora, em Cristo, por terem obedecido de coração à forma de doutrina a que foram entregue, foram feitos servos da justiça.

 

18 E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça.

Esta é a condição daqueles que obedeceram a verdade do evangelho: libertos do pecado e servos da justiça.

É Deus que, por intermédio de Cristo, faz (feitos= criados) os que creem servos da justiça ( Jo 1:12 ).

 

 

19 Falo como homem, pela fraqueza da vossa carne; pois que, assim como apresentastes os vossos membros para servirem à imundícia, e à maldade para maldade, assim apresentai agora os vossos membros para servirem à justiça para santificação.

(Falo como homem) – Observe o comentário ao capítulo 3, verso 5. Por causa da fraqueza da carne ou para evidenciar a condição da carne é que Paulo ilustra o tema como se os cristãos judeus ainda estivessem na carne.

Observe que ao falar aos Judeus Paulo se inclui na explicação “Qual é a vantagem do Judeus? (…) E, se a nossa injustiça for causa da justiça de Deus? … (Falo como homem)” ( Rm 3:1 -5).

Da mesma forma, ao escrever aos cristãos da Galácia, Paulo assim diz: “Para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios por Jesus Cristo, e para que pela fé nós recebamos a promessa do Espírito. Irmãos, como homem falo; se a aliança de um homem for confirmada, ninguém a anula nem a acrescenta” ( Gl 3:14 -15).

‘Nós’ quem? Paulo fala acerca da bênção de Abraão aos gentios e da promessa do Espírito aos judeus, e que, tanto Paulo e os cristãos judeus receberam (nós).

Por ter feito referência a sua condição como judeu, ou seja, quando Paulo ainda estava na carne, é que ele introduz a ressalva: falo como homem. Isto demonstra que Paulo jamais quis se valer da sua condição de judeu para anunciar a verdade do evangelho.

Neste versículo Paulo registrou que falava como homem porque no verso 1 do capítulo 4 ele fez referência a seu irmãos na carne “Que diremos, pois, ter alcançado Abraão, nosso pai segundo a carne” ( Rm 4:1 ), sendo que, as escrituras foram deixadas aos descendentes de Abraão segundo a carne “Ora, não só por causa dele está escrito, que lhe fosse tomado em conta, mas também por nós, a quem será tomado em conta…” ( Rm 4:23 -24).

Em seguida Paulo demonstra que ser descendente de Abraão é ser fraco, visto que, ser descendente de Abraão não é ser filho de Abraão “Porque Cristo, estando nós ainda fracos…” ( Rm 5:6 ). Ser filho de Abraão só é possível por meio da fé.

Desta maneira, ao chegar no capítulo 6, verso 19, Paulo reitera que, falou como homem, por causa da fraqueza da carne dos judeus, que não aproxima homem algum de Deus “Falo como homem, pela fraqueza da vossa carne…” (v. 19).

Compare: ‘nós ainda fracos’ diz de Paulo e dos judeus quando ainda estavam sem Cristo, e ‘pela fraqueza da vossa carne’ diz da condição dos judeus que confiavam da carne (descendência de Abraão) para a salvação, condição que Paulo não mais estava.

Após evidenciar a nova condição daqueles que estão em Cristo (v. 18), Paulo procurou tratar do comportamento dos cristãos judeus, visto que, por ter sido evidenciado que eles não estavam mais tutelados pela lei (v. 14), consideravam Paulo um libertino “Façamos males para que venham bens?” ( Rm 3:8 ).

Ora (pois que), se os cristãos judeus haviam apresentado os seus corpos para servirem à imundície e a maldade através da sujeição à lei, embora as suas ações fossem alvo de louvor por parte dos homens por causa da moral e ética que seguiam, por que não continuar a fazer boas ações e receber de Deus o louvor?

Paulo estabelece um comparativo entre o antes e o depois de aceitarem a verdade do evangelho: “…assim como apresentastes os vossos membros (…) assim apresentai agora os vossos membros …” ( Rm 6:19 ).

Compare:

Na fraqueza da carne, ou seja, na submissão à lei, por acreditar que eram filhos de Abraão (de Deus) por serem descendentes de Abraão, permaneciam filhos da ira e da desobediência, permaneciam carnais. No poder do Espírito, ou seja, na submissão à graça por meio da fé em Cristo, os judeus cristãos tornaram-se filhos de Abraão, livrando-se da fraqueza da carne e foram criados homens espirituais ( Jo 1:12 e Jo 3:6 ).
Por quererem servir a Deus por intermédio da lei, os judeus possuíam uma conduta ilibada se comparado aos outros povos de sua época, porém, esta devoção à lei somente era um serviço à maldade e a imundície. Assim como possuíam uma conduta ilibada diante dos homens por pensarem que era possível servir a Deus por intermédio da lei, agora, libertos da lei e servos da jus
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Romanos 5 – O dom gratuito

Comentário ao Capítulo 5 da Carta de Paulo aos Romanos. Após estudar o capítulo cinco da carta de Paulo aos Romanos será possível ao leitor divisar como todos os homens foram feitos pecadores, e como é possível ser participante da graça de Deus. O leitor também estará apto a verificar qual é a condição dos que estão em Cristo, e a condição daqueles que continuam inimigos de Deus.


Romanos 5

Introdução ao Capítulo 5

Antes de prosseguirmos na análise versículo a versículo, faz-se necessário observarmos como Paulo estruturou a escrita da carta aos Romanos.

A primeira abordagem de Paulo sobre a justiça de Deus pela fé em Cristo se dá no capítulo 1, versos 16 à 17. Em seguida, o apóstolo passa a demonstrar que todos os homens pecaram e foram destituídos da glória de Deus em Adão ( Rm 1:16 à Rm 3:20 ). Após demonstrar que diante de Deus todos os homens tornaram-se escusáveis (judeus e gregos), o apóstolo volta a abordagem inicial: a justificação pela fé. Observe:

1º) “Não me envergonho do evangelho, pois é poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego. Pois nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé” ( Rm 1:16 -17).

2º) “Mas agora se manifestou sem a lei, a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas. Isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos [e sobre todos] os que creem. Não há distinção” ( Rm 3:21 -22).

Percebe-se que no intervalo argumentativo entre os dois textos acima, Paulo apresentou elementos que demonstram que todos os homens tornaram-se culpáveis diante de Deus.

Também é possível pontuar os elementos presentes nos dois textos acima: No capítulo 1, versos 16 à 17, Paulo demonstra que a justiça de Deus se alcança por meio da fé sem qualquer distinção entre judeus e gregos. Da mesma, o capítulo 3, versos 21 à 22 continua demonstrando que a justiça de Deus é para os que creem sem distinção alguma entre judeus e gregos.

Em seguida, o apóstolo apresenta uma argumentação precisa e concisa sobre os motivos da justificação ser pela fé ( Rm 3:23 -27), e uma conclusão: “Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, sem as obras da lei” ( Rm 3:28 ).

No capítulo 4, o apóstolo apresenta exemplos de justificação pela fé no A. T.: Abraão e Davi, ou seja, Paulo evoca a autoridade da Escritura para dar sustentação a sua argumentação ( Rm 4:1 -25).

Desta forma, chegamos ao capítulo 5, onde o apóstolo volta à exposição argumentativa do início da carta, quando apresentou a ideia da justificação pela fé “TENDO sido, pois, justificados pela fé…” ( Rm 5:1 ).

Isto demonstra que a exposição de Paulo é focada sobre um tema: a justificação pela fé em Cristo, sem qualquer distinção entre judeus e gregos. A abordagem de Paulo sobre a justificação pela fé sem distinção alguma entre judeus e gregos é debatida do capítulo 1 ao 4.

A abordagem do capítulo 5 também é sobre a justificação pela fé, porém, sem o foco das discussões provenientes da diferenças entre judeus e gregos, que motivou o apóstolo a demonstrar que em Cristo não há distinção alguma entre judeus e gentios.

Nos quatro primeiros capítulos Paulo demonstrou que todos os homens pecaram, e no capítulo cinco, ele retroage no tempo para demonstrar onde e em quem todos pecaram ( Rm 5:12 -21). Diferentemente dos quatro primeiros capítulos que focam a problemática da lei, da fé, dos judeus e dos gentios, o capítulo cinco apresenta qual é a condição daqueles que agora estão em Cristo ( Rm 5:1 -5), e qual era a condição do homem antes de terem um encontro com Cristo por meio do evangelho ( Rm 5:6 -6; 8 e 10).

Conclui-se que, após estudar o capítulo cinco da carta de Paulo aos Romanos, será possível divisarmos como todos os homens tornaram-se pecadores, e como é possível ser participante da graça de Deus. O leitor também estará apto a verificar qual é a condição dos que estão em Cristo, e a condição daqueles que continuam inimigos de Deus.

 

Capítulo V

1 TENDO sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo;

Não é correto nos pautarmos nas divisões de textos como capítulos e versículos quando da interpretação das cartas bíblicas. Ao analisar o texto, não podemos atrelar a análise tão somente a um capítulo ou a um, dois ou três versículos. Antes, a análise de qualquer versículo ou frase deve ser considerada dentro do contexto geral da carta.

Precisamos estar atentos, pois as divisões em versículos e capítulos acabam por influenciar a leitura bíblica. As divisões em capítulos e versículos devem ser considerados somente como auxilio para localização e referenciamos certos textos.

A observação anterior é válida na análise deste capítulo. Quando o apóstolo diz: “Tendo sido, pois, justificados pela fé…” ( Rm 5:1 ), ele termina uma argumentação e introduz uma nova ideia.

Quando o apóstolo escreve ‘Tendo sido, pois, justificados pela fé…’, ele dá por encerrada a discussão sobre a superioridade dos judeus, ou que somente os gentios eram pecadores, ou que a justiça de Deus era proveniente da lei mosaica.

Ao ser justificado pela fé em Deus, as questões abordadas anteriormente passam à segundo plano, uma vez que não há distinção alguma entre gentios e judeus. “Sendo, pois, justificados pela fé…” remete à versículos anteriores ( Rm 1:16 -17 e Rm 3:21 -22), e apresenta um novo aspecto da justificação pela fé.

Os cristãos pela fé adquiriram paz com Deus, por intermédio de Cristo Jesus. Por meio da fé os cristãos são declarados justos e obtiveram paz com Deus. A condição alcançada em Cristo contrasta com a condição apresentada no verso 10.

 

2 Pelo qual também temos entrada pela fé a esta graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da glória de Deus.

Desde já, vale observar que, ao falar da salvação em Cristo, Paulo apresenta a condição dos cristãos (paz com Deus), para depois apresentar como alcançaram tal condição (pelo qual também temos entrada pela fé a esta graça). Ou seja, durante a análise da carta aos Romanos, demonstraremos que, geralmente, o ponto de partida para o apóstolo apresentar o plano da salvação é o da condição alcançada (paz com Deus), e em seguida, ele retroage até demonstrar qual era a condição anterior (inimizade).

Por intermédio de Jesus os cristãos têm entrada a esta graça, ou seja, alcança a graça da justificação e amizade com Deus pela fé. Este versículo demonstra que por Cristo e pela fé os cristãos recebem a graça de Deus, e o verso anterior fixa-se em demonstrar a graça alcançada: justificação e amizade com Deus.

Paulo reitera que ele e todos quantos estão em Cristo (…também temos…), estão firme na graça proveniente do evangelho (…na qual estamos firmes…). Enquanto muitos se gloriam das questões relativo à carne ( 2Co 11:18 ), os cristãos gloriam-se na esperança proposta por meio do evangelho.

Embora o apóstolo não volte a falar que não há diferenças entre gentil e judeu explicitamente, ele acaba por falar de modo velado destas distinções promovidas pelos homens, e não por Deus. Gloriar-se na esperança da glória de Deus é uma das maneiras de trazer à lembrança dos cristãos àqueles que se vangloriam da carne.

 

3 E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a paciência,

Enquanto os da fé gloriam-se na esperança proposta e nas tribulações, os segundo à carne gloriam-se em questões meramente humanas “Pois que muitos se gloriam segundo a carne, eu também me gloriarei” ( 2Co 11:18 ); “Se convém gloriar-me, gloriar-me-ei no que diz respeito à minha fraqueza” ( 2Co 11:30 ).

Enquanto os da carne buscavam elementos para gloriarem-se na carne dos irmãos em Cristo “Porque nem ainda esses mesmos que se circuncidam guardam a lei, mas querem que vos circuncideis, para se gloriarem na vossa carne” ( Gl 6:13 ), Paulo demonstra que o cristão deve gloriar-se tão somente na cruz de Cristo, esperança da glória “Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” ( Gl 6:14 ).

 

4 E a paciência a experiência, e a experiência a esperança. 5 E a esperança não traz confusão, porquanto o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado.

Esta relação entre tribulação, paciência, experiência e esperança também foi abordado por Pedro e Tiago, porém, cada um à sua maneira:

“Meus irmãos, tende por motivo de grande gozo o passardes por provações, sabendo que a prova da vossa fé desenvolve a perseverança. Ora a perseverança deve terminar a sua obra…” ( Tg 1:2 -4).

“Nisto vos exultais, ainda que no presente, por breve tempo, se necessário, sejais contristados por várias provações. Essas provações são para que a prova da vossa fé (…) redunde para louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo” ( 1Pe 1:6 -7).

A fé é a ‘entrada’ à graça de Deus, que pela esperança proposta concede forças para suportar as tribulações ( Hb 12:2 ).

Quando o apóstolo diz que ‘a esperança não traz confusão’, ele aponta para o Espírito Santo, que foi concedido através do amor de Deus. Ao escrever este verso Paulo tinha em mente a declaração feita aos cristãos de Éfeso: “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa. O qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória” ( Ef 1:13 -14).

O penhor geralmente é equivalente ao valor da dívida, e Paulo demonstra que os cristãos já haviam recebido o que é infinitamente superior à herança: o Espírito Santo de Deus.

 

 

O Primeiro e o último Adão

“Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante” ( 1Co 15:45 )

 

Adão e Cristo são os dois personagens de maior importância para a interpretação bíblica. Grande parte das parábolas de Jesus e das figuras do Novo Testamento são referências específicas aos eventos no Éden e da cruz, ilustrando as conseqüências destes eventos para a humanidade.

Um exemplo é a parábola dos ‘dois caminhos’, que, implicitamente, faz referência as conseqüências decorrentes dos eventos que sucederam no Éden e na cruz. Observe: Adão foi feito (criado) alma vivente, porém, após desobedecer a determinação divina passou a condição de morto perante Deus. A ‘nova’ condição de Adão após a queda passou a ser de sujeição ao pecado pela natureza adquirida.

A sujeição ao pecado deixou Adão em inimizade com Deus, e por causa da condenação deixou de ser participante da vida que há em Deus e passou a viver para o mundo e suas concupiscências (morto para Deus e vivo para o mundo).

Todos os nascidos de Adão (nascidos da carne, vontade do varão e do sangue) passaram a condição de filhos da ira e da desobediência. Todos os homens estavam destituídos da glória de Deus, pois todos pecaram.

Esta condição pertinente à toda humanidade é ilustrada através da parábola das duas portas e dos dois caminhos, ou seja, todos os homens ao nascerem, por serem descendentes de Adão, entram pela porta larga, e seguem pelo caminho espaçoso que conduz à perdição ( Mt 7:13 ).

Em Adão todos os homens morreram e destituídos estão da glória de Deus. Em Adão, a ‘porta larga’, todos os homens seguem o caminho de perdição. Todos os homens morreram em Adão e passaram a viver para o pecado, para o maligno e para o mundo.

Porém, através do último Adão, que por Deus constitui-se espírito vivificante, todos os que creem entram pela porta estreita, ou seja, nascem de novo. São criados por Deus em verdadeira justiça e santidade, segundo o poder concedido através do evangelho, sendo feitos (criados) filhos de Deus ( Jo 1:12 ).

Estes passam a trilhar o caminho estreito que conduz à vida. O caminho é estreito e poucos entram por ele, ou seja, quando se fala em quantidade, muitos vem ao mundo segundo Adão, e poucos são os que crêem para a salvação, segundo o último Adão, que é Cristo.

Em números absolutos, em Adão todos morreram, e em Cristo, o último Adão, todos quantos crerem também morrem. Em Adão toda a humanidade morreu e passou a viver para o mundo, em Cristo, o último Adão, todos os que crêem, morrem para o pecado, para o maligno e para o mundo, e são de novo criados, e passam a viver para Deus. Amém.

Outro exemplo, é a figura dos vasos, conforme Paulo escreveu aos Romanos, veja: “Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” ( Rm 9:21 ). Como entender esta figura apresentada por Paulo?

Sabemos que Deus é o oleiro, e é Ele que detém o poder sobre o barro, que é o homem. Todos os homens decorrem de uma mesma massa, ou seja, todos são alma viventes conforme Adão.

Todos os homens que vêem ao mundo são criados pelo poder de Deus, porém, por serem descendentes de Adão, todos são feitos vasos para desonra. Todos os descendentes de Adão são vasos para ira, preparados para perdição. Através deles Deus demonstra a sua ira, e dá a conhecer o seu poder, suportando-os com muita paciência.

Deus chama pacientemente os vasos preparados para a ira a fim de torná-los vasos para honra, ou seja, o evangelho é o chamado de Deus a todos os homens nascidos segundo Adão. Todos os cristãos foram chamados por Deus, e neles é demonstrado o poder de Deus e as riquezas de sua graça. Todos os que são chamados e crêem são os vasos de misericórdia, e, portanto, vasos para a honra.

Observe que, tanto os nascidos em Adão e os nascidos em Cristo constituem-se vasos e são formados da mesma massa como nos afirma ( 1Co 15:46 ) “Mas não é primeiro o espiritual, senão o natural; depois o espiritual”. Todos os homens precisam ser feitos almas viventes (homem natural), para depois serem criados espirituais (homem espiritual).

Quando criados, os homens naturais passam à condição de escravos do pecado, por causa do pecado de Adão. Percebe-se então que, o grande diferencial é que, os nascidos segundo Adão são vasos para a desonra, e os nascidos em Cristo são vasos para honra.

Quando o leitor não compreende a verdade sobre os eventos da cruz e do Éden, acaba por interpretar a bíblia erroneamente. Ao deparar-se com parábolas e ilustrações como as apresentadas acima, terá um entendimento segundo uma concepção humana, e permanecerá enfatuado, segundo uma carnal compreensão.

Muitos interpretam que a porta é larga porque as pessoas do mundo estão entregues aos prazeres, são sensuais, céticas e criminosas. Entendem que a porta é larga por não apresentar ‘dificuldades’ ou condições para entrada. Entendem que o caminho estreito esta diretamente relacionado com dificuldades, proibições, restrições de ordem moral, comportamental e religiosa.

Entendem que, para trilhar o caminho estreito, ou que, para entrar pela porta estreita basta seguir preceitos religiosos, cumprir leis nacionais, ou seguir filosofias de vida.

Diante deste entrave surgem muitas religiões, igrejas e denominações. Se avolumam os discursos sobre disciplina, sofrimento, penitências, orações, rezas, moralidade, santidade, serviço, pró-atividade. As qualidades procedentes do ego humano são louvadas insistentemente, como: coragem, determinação, empenho, disciplina, resignação, etc.

O ritualismo, o formalismo e o legalismo são ferramentas utilizadas para caracterizar devoção religiosa. Criam mecanismos para medirem e serem medidos. e força outros a seguirem o que preceituam como necessário à salvação. Estabelecem padrões de justiça e santidade a ser seguido. Procuram lições provenientes do paganismo e das filosofias humanas.

Esquecem de observar o que Jesus disse a Nicodemos: “Em verdade, em verdade te digo que quem não nascer de novo, não pode ver o reino dos céus” ( Jo 3:3 ). Não observam que o ‘melhor’ da religião, da lei, da moral, do comportamento não faz o homem agradável a Deus, e por tanto, a recomendação de Jesus a um dos mestres do judaísmo.

O mundo ainda continua apegado a elementos fracos e pobres, que não pode livrar o homem da condição de sujeição ao pecado ( Gl 4:9 -10).

O apóstolo Paulo demonstra estar consciente das conseqüências decorrente da desobediência de Adão e da obediência de Cristo ao escrever aos cristãos de Corinto ( 1Co 15:45 -50).

Ao escrever a Timóteo, Paulo alerta sobre este pretenso ‘evangelho’: “Mas o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos alguns apostatarão da fé (…) que proíbem o casamento, e ordenam a abstinência de alimentos” ( 1Tm 4:1 -3).

Esta análise se fez necessário, visto que, os capítulos 6 e 7 da carta aos Romanos se fundamentam sobre os eventos do Éden e da cruz, e as conseqüências destes eventos para a humanidade.

 

O comentário que Paulo fez do verso 1 ao 11 demonstra que a humanidade estava em inimizade com Deus, e que agora, por intermédio de Cristo, esta estabelecida a reconciliação Rm 5: 10- 11.

Os versos 12 à 19 retroage no tempo para demonstrar onde toda a humanidade passou à condição de inimizade com Deus, e como se estabelece a paz com Deus Rm 5: 1.

Apesar de Paulo não ter citado nenhum verso da Escritura neste capítulo, a explicação centra-se nos eventos do Éden e da cruz.

 

12 Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram.

Através da desobediência de Adão o pecado entrou no mundo, e pelo pecado (desobediência) a morte também entrou no mundo dos homens.

Lembrando: Deus havia advertido Adão a que não comesse da árvore do conhecimento do bem e do mal, embora ele pudesse comer de todas as árvores livremente. Adão também foi informado das conseqüências funestas se comesse da árvore ‘proibida’: “…dela não comerás, pois no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:17 ).

Adão desobedeceu, e por ele entrou o pecado no mundo. Como conseqüência do pecado, a morte também entrou, ou seja, Adão passou a condição de morto para Deus.

A resposta sobre como todos os homens tornaram-se pecadores encontra-se expresso neste versículo. Observe que Paulo já havia apresentado este conceito anteriormente (todos pecaram) ( Rm 3:23 ), mas não havia apresentado como e onde todos pecaram. Este versículo complementa a idéia apresentada no capítulo 3.

Como o pecado e a morte entraram no mundo por meio de Adão, todos os seus descendentes compartilham da mesma condição: são pecadores e destituídos da glória de Deus ( da vida que há em Deus).

A condenação decorrente do pecado de Adão que passou a todos os seus descendentes, ou seja, ‘assim também a morte passou a todos os homens’.

 

13 Porque até à lei estava o pecado no mundo, mas o pecado não é imputado, não havendo lei.

Paulo observa que o pecado e a condição de destituídos da vida que há em Deus é anterior ao advento da lei. Como seria possível a lei justificar se o pecado é anterior a própria lei? Ou seja, até a lei ser dada ao povo, o pecado já estava no mundo. Como era possível ser justificado antes da lei?

A resposta está no primeiro versículo do capítulo: “… justificados pela fé…” ( Rm 5:1 ), pois a fé é anterior à lei, e o Autor da fé “é” anterior a entrada do pecado no mundo.

A idéia apresentada por Paulo neste versículo é concluída no verso 20: “Porque até à lei estava o pecado no mundo (…) veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse…” (v. 13 e 20). Os versos 14 à 19 compõem um adendo explicativo sobre as conseqüências dos eventos do Éden e da cruz para a humanidade.

A segunda parte do versículo introduz uma pergunta, e não uma conclusão ‘…mas não é o pecado imputado, não havendo lei?’, ou seja, o pecado estava no mundo, e a penalidade não seria imputada, simplesmente por não existir a lei? A resposta é conclusiva: a penalidade foi imposta, mesmo sem a presença da lei, visto que a morte reinou desde Adão (início) até a vinda da lei (Moisés).

 

14 No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir.

Este verso apresenta uma argumentação com base nos elementos apresentados nos versos anteriores, ou seja, mesmo que ‘o pecado é anterior à lei’, e não é ‘imputado aos homens’, ‘NO ENTANTO…’ (v. 14), a morte dominou (reinou) desde Adão até a chagada da lei (Moisés).

A morte dominou sobre todos os homens independentemente de questões comportamentais ou legais. Mesmo sobre aqueles que não transgrediram uma determinação especifica, como foi o caso de Adão, a morte tinha domínio.

Paulo demonstra a fragilidade da ‘sombra’, ou seja, daquilo que não é a imagem ‘exata das coisas’, pois a condenação se deu na ‘figura daquele que havia de vir’, em Adão. O que esperar da lei, se ela não é a imagem exata da coisas, como foi Adão? ( Hb 10:1 ).

 

15 Mas não é assim o dom gratuito como a ofensa. Porque, se pela ofensa de um morreram muitos, muito mais a graça de Deus, e o dom pela graça, que é de um só homem, Jesus Cristo, abundou sobre muitos.

Quando Paulo demonstra que o dom gratuito não é como a ofensa, ele ainda tem em mente o que acabou de declarar no verso anterior: “… a morte reinou desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram a semelhança da transgressão de Adão…”. A morte reinou mesmo sobre aqueles que não pecaram a semelhança da transgressão de Adão, mas não é assim o dom gratuito.

Ou seja, para que o homem tenha acesso ao dom gratuito precisa crer individualmente. Assim é a ofensa: o pecado atingiu a todos os homens indistintamente, mas o dom gratuito não é assim como a ofensa: é pela fé, mediante Jesus Cristo nosso Senhor ( Rm 5:21 ).

Observe que a negativa inicial (Mas não é assim o dom gratuito como a ofensa), não condiz com a explicação que se segue: ‘Porque, se pela…’, que apresenta uma equiparação entre os efeitos do dom gratuito e da ofensa sobre os homens.

O versículo 15 é semelhante na construção ao versículo 13, onde a frase inicial parece apresentar uma interrogação, onde a ofensa é um contra posto ao dom gratuito “Mas não é assim o dom gratuito como a ofensa?”.

A divisão em versículos acaba por influenciar a leitura do texto. ‘Mas, não é assim o dom gratuito como a ofensa’ refere-se ao versículo 14, onde temos: “…até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão”, e não ao versículo 16.

Ou seja, o dom gratuito não é como a ofensa, visto que a morte reinou sobre todos os homens, mesmo sobre aqueles que não transgrediram à semelhança de Adão. O dom gratuito não é como a ofensa, porque a vida reina somente sobre aqueles que crêem em Cristo.

O contra ponto entre ofensa e dom gratuito esta em que, a ofensa comprometeu toda humanidade, mesmo que não tenham cometido a mesma ofensa de Adão. Já o dom gratuito (vida) é por meio da fé em Cristo, e esta nova condição não passa a todos os outros homens, como foi e é o caso da ofensa, em que a morte passou e continua a passar a todos os homens que vêem ao mundo ( Rm 5:12 e 14).

O versículo introduz nova argumentação: ‘Porque, se pela ofensa, de um morreram muitos, muito mais a graça de Deus, e o dom pela graça, que é de um só homem, Jesus Cristo, abundou sobre muitos’. Visto que a introdução do versículo remete a uma ‘possível’ pergunta (v. 15), que já havia sido responda anteriormente (v. 14), Paulo apresenta as bases para trazer uma nova questão: Um homem morreu por casa da ofensa (Adão), e muitos morreram (a humanidade). Como a ofensa impôs à morte a muitos, a graça de Deus é mais efetiva, proposta de salvação graciosa a muitos, ou seja, a oferta do dom da graça por meio de Cristo.

 

16 E não foi assim o dom como a ofensa, por um só que pecou. Porque o juízo veio de uma só ofensa, na verdade, para condenação, mas o dom gratuito veio de muitas ofensas para justificação.

Embora a ofensa e o dom gratuito não sejam semelhantes, visto que o dom da graça não passa a todos os homens como é o caso da ofensa, segue-se que, o dom é similar a ofensa na paridade de pessoas que ofenderam e que obedeceram: um só pecou (Adão), e um só obedeceu (Cristo).

A ofensa é proveniente de um só que pecou, e o dom da graça é proveniente de um só que obedeceu. Paulo demonstra que o juízo de Deus já está estabelecido por causa da ofensa de Adão, e isto para a condenação. Porém, o dom de Deus se manifesta sobre os pecadores (muitas ofensas) para justificação.

 

17 Porque, se pela ofensa de um só, a morte reinou por esse, muito mais os que recebem a abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo.

A graça de Deus se manifesta maravilhosamente abundante, visto que, pela ofensa quem reinou foi a morte sobre os homens, porém, em Cristo quem há de reinar em vida são os homens que receberam por meio da fé o dom da justiça.

A morte reinou sozinha por um único ofensor (Adão), mas os que receberam a abundância da graça (muitos), estes reinarão por um único homem que obedeceu(Jesus).

 

18 Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida.

O verso 19 é o motivo da exposição do verso 18. Paulo volta a demonstrar que uma só ofensa trouxe o juízo de Deus sobre todos os homens, e todos foram condenados em Adão.

Conforme os eventos que decorrem da ofensa, assim também, por um só ato de justiça a graça de Deus é concedida a todos os homens, para que estes sejam justificados.

A condenação trouxe a morte como penalidade, e a justificação, por sua vez, a vida. Isto demonstra que a justificação é ato de Deus contrário à condenação. Na condenação o homem adquiriu uma natureza contrária à natureza divina sendo declarado culpável diante de Deus, e na justificação o homem adquire nova natureza herdada em Deus: a natureza divina, sendo declarado justo por causa da nova vida e natureza ( 2Pe 1:4 ).

Temos: Uma ofensa e um ato de justiça; o juízo e a graça; condenação e justificação. Paulo contrapõe estes elementos, sendo que para reverte a ofensa de Adão, Cristo obedeceu. Para livrar o homem do juízo a graça de Deus manifestou-se. O homem foi declarado culpado na condenação, e na justificação é declarado justo.

Tanto na condenação, quanto na justificação a declaração de Deus diz de condições distintas, porém, efetivas. Deus não declara condenado um justo, e nem declara justificado alguém que ainda seja injusto.

 

19 Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos.

Paulo apresenta os motivos da exposição anterior: pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos (criados) pecadores, e da mesma forma, pela obediência de Cristo, muitos são feitos (criados) justos.

O sentido da palavra ‘fazer’ deste versículo equivale ao anunciado por João: “Mas a todos os que o receberam, àqueles que crêem no seu nome, deu-lhes o poder para serem feitos filhos de Deus…” ( Jo 1:12 ).

O sentido da palavra ‘fazer’ envolve um sentido mais amplo por causa da ação sobrenatural do poder de Deus. Ex: “Nele, digo, em quem também fomos FEITOS herança…” ( Ef 1:11 ); “…pela qual nos fez agradáveis para si no Amado” ( Ef 1:6 ), o que corresponde também a: “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pe 2:5 ).

 

20 Veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse; mas, onde o pecado abundou, superabundou a graça;

Este versículo complementa o exposto nos versos 12 e 13.

Sabemos que um homem pecou, e pelo pecado a morte passou a todos os homens, o que leva a concluir que todos pecaram, ou que estão em pecado. Daí advém a pergunta: Não existindo lei, o pecado não é imputado? O que a realidade demonstra é que mesmo sem lei, o pecado é imputado, visto que, a morte reinou sobre todos os homens, mesmo sobre os que não transgrediram a semelhança da transgressão de Adão.

O que Paulo quis demonstrar nos versos 12 e 13? Que a lei não veio para justificar o homem, antes ela veio para que a ofensa abundasse. Além da condenação em Adão que já encerrou os homens na morte (porta larga), resta que, a lei demonstra o quanto o homem é pecador, e será réu de juízo no Trono Branco por causa de suas obras reprováveis (caminho espaçoso).

Apesar deste quadro horrível para a humanidade, Paulo demonstra que, onde o pecado abundou, superabundou a graça de Deus. Ou seja, não há a necessidade de se permanecer no pecado para que a graça aumente ( Rm 6:1 ). Ela já se demonstrou abundante por meio de Cristo nosso Senhor. Amém.

 

21 Para que, assim como o pecado reinou na morte, também a graça reinasse pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo nosso Senhor.

A graça de Deus é abundante para que, assim como o reino do pecado foi estabelecido através da pena imposta à desobediência, ela também reine pela justiça através da recompensa eterna, que é por intermédio de Cristo: a vida eterna.

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Romanos 4 – Promessa firme à posteridade

Os versículos 21 à 31 do capítulo 3, retoma a abordagem que teve início nos versículos 16 e 17 do capítulo 1. Observe que a ideia é una nos versículos seguintes: “Não me envergonho do evangelho, pois é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego. Pois nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: O Justo viverá da fé (…) Mas agora se manifestou, sem a lei, a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas. Isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos {e sobre todos} os que creem. Não há distinção” ( Rm 1:16 -17 e Rm 3:21 -22).


Introdução

Das análises feita à carta de Paulo aos Romanos, verificou-se que, dos capítulos 1, 2 e 3, até o verso 20, o escritor tratou de desfazer a pretensa vantagem dos judeus quanto à salvação. Paulo demonstra argumentativamente, invocando a autoridade das Escrituras Rm 3: 10, que todos os homens estão reféns da condição herdada em Adão “Todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão, e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados” ( Rm 2:12 ).

Este versículo demonstra que todos os homens, judeus e gentios estão condenados. Os gentios perecerão, e os judeus serão julgados quanto às suas obras segundo a lei. Nenhum homem será justificado, pois ninguém consegue viver para Deus por intermédio da lei ( Rm 2:13 ).

Os versículos 21 à 31 do capítulo 3, retoma a abordagem que teve início nos versículos 16 e 17 do capítulo 1. Observe que a idéia é una nos versículos seguintes: “Não me envergonho do evangelho, pois é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego. Pois nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: O Justo viverá da fé (…) Mas agora se manifestou, sem a lei, a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas. Isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos {e sobre todos} os que crêem. Não há distinção” ( Rm 1:16 -17 e Rm 3:21 -22).

No capítulo 4, o apóstolo demonstra por meio de exemplos o que foi exposto anteriormente sobre a justificação pela fé, que consta no capítulo 3, dos versos 21 à 31.

Em linhas gerais, Paulo demonstrou que:

  • Jesus é a justiça de Deus manifesta aos homens ( Rm 3:21 );
  • A justiça de Deus é alcançada pela fé em Jesus ( Rm 3:22 );
  • A salvação de Deus é para todos os homens, visto que todos pecaram ( Rm 3:22 -23);
  • A salvação de Deus livra o homem da condenação (pecado) herdada de Adão, pois em Adão todos pecaram;
  • Os que foram declarados condenados em Adão, por intermédio da redenção em Cristo é declarado justo por graça ( Rm 3:24 );
  • Para que Deus seja Justo e Justificador, Cristo manifesto é a propiciação do pecado (pela fé no seu sangue), remindo os pecadores. Está é a base da justificação em Cristo;
  • Por intermédio da fé, a lei é estabelecida: não há acepção ou distinção entre os homens diante de Deus.

Após a conclusão ( Rm 3:28 ), Paulo passa a demonstrar evidência da justificação pela fé nos pais da nação judaica.

Antes de prosseguirmos, é preciso esclarecermos duas passagens bíblicas:

“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” ( Mt 5:20 ).

É sabido que os fariseus eram uma das mais severas seitas do judaísmo e lideravam um movimento para trazer o povo a submeter-se à lei de Deus. Eles eram extremamente legalistas, formalistas e tradicionalistas. Hoje estes termos são utilizados de maneira pejorativa, mas à época de Cristo, era tida por justa a maneira de viver dos fariseus.

Os fariseus eram uma referência moral, de caráter, de ética e comportamento. Aos olhos dos homens eles eram justos “Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e de iniqüidade” ( Mt 23:28 ).

Qual justiça Jesus estava recomendando aos seus ouvintes? Qual justiça excede a dos fariseus?

Sabemos que Cristo é a justiça de Deus manifesta aos homens. É Ele a Justiça que excede a justiça dos escribas e fariseus.

Esta justiça é imputada por meio da fé em Cristo, e vem do alto ( Rm 10:6 ).

A justiça divina não se vincula a elementos humanos como comportamento, moral, caráter, sacrifícios, religiosidade, etc.

Da mesma forma que para se ter acesso ao reino de Deus é preciso nascer de novo, a justiça que ultrapassa a dos escribas e fariseus também decorre do novo nascimento. Enquanto os fariseus e saduceus não conseguiram ser justificados por intermédio das obras da lei, aqueles que crêem em Cristo recebem de Deus poder para serem feitos (criados) filhos de Deus: estes, que são nascidos de semente incorruptível, que é a palavra de Deus, são declarados justo por Deus.

Os fariseus e saduceus jamais seriam justificados por Deus, visto que em Adão já estavam condenados, e as suas obras reprováveis por não serem feitas em Deus ( Jo 3:18 -19). Já a nova criatura, é livre da condenação em Adão, e as suas obras são aceitáveis, pois são feitas em Deus ( Jo 3:21 ).

Livre da condenação em Adão, o homem será julgado no tribunal de Cristo. Já os condenados em Adão, ao comparecerem ante o grande Tribunal do Trono Branco, não será justificado, pois as suas obras são trapos de imundície, e não servem para vestes.

Só a justiça providenciada por Deus, por intermédio de Cristo, excede a dos escribas e fariseus. As obras dos escribas e fariseus eram segundo as suas naturezas herdadas de Adão: obras mortas.

 

“Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada; Porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra; E assim os inimigos do homem serão os seus familiares. Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim. E quem não toma a sua cruz, e não segue após mim, não é digno de mim. Quem achar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a sua vida, por amor de mim, achá-la-á” ( Mt 10:32 -39).

Myer Pearlman ao comentar os versículos acima disse: “Esta é a idéia contida nestes versículos: A comunhão com Cristo pode significar separação daqueles que nos são queridos na terra, mas a recompensa será grande (…) É doloroso o repúdio dos familiares, talvez a mais severa tentação que o convertido possa enfrentar” Pearlman, Myer, Mateus, O evangelho do Grande Rei, Ed. CPAD, 1. ed. Rj, 1995, Pág. 75, V.

Jesus realmente recomendou aos seus ouvintes, e a nós, que abandonássemos os nossos familiares? Como entender estes versículos e conciliá-los com o primeiro mandamento com promessa? “Honra a teu pai e a tua mãe, que é o primeiro mandamento com promessa” ( Ef 6:2 ).

Como entender que o príncipe da paz não veio trazer paz à terra? O príncipe da paz empunha uma espada? Por que Jesus veio semear dissensão entre o homem e o seu pai? Como interpretar essa passagem?

O apóstolo Paulo é categórico quanto à interpretação “As quais também falamos, não com palavras de sabedoria humana, mas com as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais” ( 1Co 2:13 ).

A interpretação bíblica não pode ser pautada em sabedoria humana. Ela deve ser estudada através do que o Espírito Santo ensina. Como o Espírito nos ensina? Quando comparamos as coisas espirituais com as espirituais!

Para comparar as coisas espirituais com as espirituais, e ser ensinado pelo Espírito de Deus, devemos nos socorrer da citação bíblica que Cristo faz: “Os inimigos dos homens são os da sua própria casa” ( Mt 10:36 e Mq 7:6 b).

O profeta Miquéias sente pena de si mesmo. Miquéias sente-se faminto pela justiça ( Mq 7:1 ). Por que esta fome e sede? Porque não há homem piedoso sobre a face da terra. Ninguém é reto, pois todos se desviaram em Adão, o homem piedoso que pereceu ( Mq 7:2 ).

As obras dos ímpios e o mal, ou seja, a árvore produz frutos segundo a sua espécie ( Mq 7:3 ). O melhor dos homens é comparado a um espinho, que se dirá do mais reto? ( Mq 7:4 ). Porém, Miquéias visualiza algo maravilhoso: veio do dia dos seus vigias, ou seja, o dia daqueles que esperavam a visitação de Deus! Mas, o dia da visitação do Messias, também é dia de confusão! Quem haveria de entender as parábolas de Cristo? ( Mq 7:4 ).

Na visitação seria semeada a desconfiança ( Mq 7:5 ). O motivo é evidenciado: o filho despreza o pai; a filha é contra a mãe; a nora e a sogra não têm acordo. Por fim, tudo se resume na frase: “Os inimigos do homem são os da sua própria casa”.

Após lermos e interpretarmos estes versículos de Miquéias, passemos ao Novo Testamento.

Quando Jesus cita o pequeno trecho de Miquéias, ele estava anunciando ao povo que a profecia estava se cumprindo ao seus ouvidos. Jesus estava anunciando que ele era o Messias esperado por muitos, e que havia chegado o dia da visitação.

O texto de Miquéias é claro: O Messias não haveria de trazer paz, mas confusão e dissensão ( Mq 7:5 -6). Por quê? A mensagem do evangelho demonstra que os injustos vivem para si, e não para Deus. A condição de injustiça dos homens teve origem em Adão, e não em suas ações, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus.

Jesus veio por causa dos injustos, ou melhor, daqueles que tem fome e sede de justiça ( Mq 7:1 ). Destes elementos decorre que: Deus jamais haveria de estabelecer comunhão com os filhos da ira, por isso, Cristo não trouxe paz aos homens que habitam a terra. Ele trouxe a espada, que representa morte e justiça. Os ímpios só podem ter contato com a espada, e não com a paz de Cristo.

Ao trazer a espada (justiça e morte) àqueles que têm sede e fome de justiça, Cristo estabelece a dissensão entre os seus familiares. Como? O homem está condenado diante de Deus por causa da filiação de Adão. Os judeus consideravam salvos por serem descendentes de Abraão. Jesus propõe aos seus ouvintes que se desvinculem de seus familiares, ou seja, das suas origens em Adão e da idéia de que eram descendência de Abraão para que se tornasse possível receberem a Cristo.

Da mesma forma que Abraão saiu do meio de sua parentela por fé, só é possível o homem abandonar pai, mãe, irmão e irmã por meio da mesma fé que teve o pai Abraão. Somente desta forma é possível adquirir a filiação divina.

Para ir após Cristo, somente tomando a cruz. Não há como seguir após Cristo até Deus, sem antes o homem ter um encontro com a cruz de Cristo. Na cruz de Cristo o homem corta toda e qualquer relação que tinha antes com o pecado de Adão, ou com a idéia de que é filho de Deus por intermédio da descendência de Adão.

A cruz de Cristo é a espada que traspassa o velho homem que teve origem em Adão. Somente após ter um encontro com Cristo, o homem terá a sua fome e sede de justiça saciadas. Este perde a sua vida terrena, e adquire de Deus uma nova vida, achando-a. É vida abundante!

Aqueles que encontram a nova vida que há em Deus, são aceitos por filhos de Deus e declarados justos.

Isto posto, fica demonstrado que em momento algum Jesus disse para abandonarmos os nossos genitores ou parentes à própria sorte. Antes, Jesus recomenda aos seus ouvintes a honrar pai e mãe, e este é um dos mandamentos de Deus “E assim invalidastes, pela vossa tradição, o mandamento de Deus” ( Mt 15:6).

 

1 QUE diremos, pois, ter alcançado Abraão, nosso pai segundo a carne?

Esta pergunta de Paulo é totalmente pertinente às questões da salvação em Deus. Os judaizantes alegavam ser salvos por descenderem de Abraão, e isto implicaria em dizer que, Abraão também recebeu algo decorrente de seus pais. O que Abraão alcançou segundo a sua descendência? Nada. Além do mais, ele era descendente de gentios, que por sua vez não tinham o sinal da circuncisão na carne.

Se Abraão tivesse alcançado a justificação segundo a carne (descendência), seria correto afirmar que era possível receber a salvação por ser descendencia de Abraão.

 

 

2 Porque, se Abraão foi justificado pelas obras, tem de que se gloriar, mas não diante de Deus.

Da mesma forma, caso Abraão pudesse produzir algo (obras) que o justificasse, teria elementos para gloriar-se (jactância), o que era feito pelos judeus ( Rm 3:10 e 27). Abraão poderia considerar ser melhor, ou que tinha alguma vantagem quanto à salvação.

Estas considerações decorrente das obras não permite que homem algum se glorie perante Deus. Todos eles somente se gloriam diante de seus semelhantes, e este era o caso dos judeus.

 

3 Pois, que diz a Escritura? Creu Abraão em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça.

Paulo deixa a sua argumentação de lado e se apóia na autoridade das Escrituras “Creu Abrão no Senhor, e isso lhe foi imputado para justiça” ( Gn 15:6 ). Paulo demonstra através dos textos sagrados que a fé sempre esteve em pauta, quando se faz referência a salvação que procede de Deus.

 

4 Ora, àquele que faz qualquer obra não lhe é imputado o galardão segundo a graça, mas segundo a dívida.

Paulo constrói uma nova argumentação: o salário é uma dívida do empregador para com quem trabalha. Não é uma relação segundo a graça, e sim, decorre de dívida. Se a justificação fosse segundo o que os judaizantes anunciavam, Deus teria uma dívida para com Abraão, e não o contrário. Abraão seria credor na relação acima.

 

5 Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça.

Em contra partida, qualquer um que não pratica as coisas da lei (este foi o caso de Abraão), mas crê em Deus que pode justificar ‘o ímpio’, a fé do crente é imputada por Deus como justiça. Observe que Paulo faz referência a justificação em uma abordagem evangelística, e não teológica.

Na linguagem evangelística é válido argumentos tais como: Deus salva o pecador; Deus justifica o ímpio; Deus perdoa os pecados; etc. Por que é válida esta argumentação? Porque na evangelização é quase impossível utilizar a linguagem teológica acerca da salvação em Cristo.

Observe a frase segundo a visão teológica: “…mas crê naquele que justifica o ímpio…”. Ao analisá-la seguindo a idéia do verso seguinte: “Que guarda a beneficência em milhares; que perdoa a iniqüidade, e a transgressão e o pecado; que ao culpado não tem por inocente; que visita a iniqüidade dos pais sobre os filhos e sobre os filhos dos filhos até à terceira e quarta geração” ( Ex 34:7 ), percebe-se que Deus é justificador, visto que é ele quem perdoa a iniqüidade, a transgressão e o pecado. Porém, de modo algum, ele terá o culpado por inocente, ou seja, ele não justifica o ímpio.

De modo que, quando Paulo diz que ‘mas crê naquele que justifica’, aquele que crê já deixou a condição de ímpio, segundo uma consideração teológica. Quem crê, deixa a condição de ímpio, e passa a condição de justo. Da mesma forma, o pecador que crê, deixa a condição de escravo e passa a condição de servo da justiça. Ou seja, se transformamos estas abordagem em uma linguagem teológica, temos o pecador como sendo ‘velho homem’. Falamos evangelisticamente que Deus salva o pecador, porém, teologicamente, é impossível dizer que Deus salva o velho homem ou a velha criatura (o pecador em seu estado original).

Evangelisticamente diremos que Deus justifica o ímpio, teologicamente sabemos que jamais Deus justificará o ímpio “De palavras de falsidade te afastarás, e não matarás o inocente e o justo; porque não justificarei o ímpio” ( Ex 23:7 ). Para conciliar estas duas linguagens, percebe-se que aquele que é pecador, e crê naquele que justifica, nasce de novo (nova criatura) deixando a condição de ímpio na sepultura, e consequentemente, Deus o declarará justo diante dele.

Quando Paulo disse que Deus justifica o ímpio, perceba que este ‘ímpio’ primeiramente creu naquele que não justifica o ímpio, e a sua fé é imputada como justiça. O ex-ímpio passa a condição de justo por meio da fé, sendo portanto, declarado justo, por ter sido de novo criado, em verdadeira justiça e santidade.

 

“Toda planta que meu Pai celestial não plantou, será arrancada”
( Mt 15:13 )

 

Qual é a planta que o Pai não plantou? Sobre o que Jesus estava falando? A planta que o Pai não plantou refere-se ao homem nascido de Adão! Mas, como chegar a esta conclusão?

Observe que os escribas e fariseus questionaram Jesus sobre os motivos que levava seus discípulos transgredirem as tradições dos anciões ( Mt 15:1 ). Jesus demonstra que o que seus discípulos estavam deixando de fazer (lavar as mãos antes das refeições), não era nada comparado às transgressões deles ao seguirem as tradições dos anciões: invalidavam a lei de Deus (v. 3).

Deus deu a eles uma ordem clara: “Honra teu pai e a tua mãe, e quem maldisser a seu pai ou a sua mãe certamente será morto” (v. 4), porém, invalidavam a lei de Deus ao instituírem o Corbã ( Mc 7:11 ).

Jesus expõe a hipocrisia dos seus interlocutores ao fazer referência ao que foi profetizado por Isaías: “Este povo honra-me com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim” ( Is 29:13 ). Os escribas e fariseus adoravam a Deus em vão!

E após convocar a multidão, disse-lhes: “Ouvi, e entendei: o que contamina o homem não é o que entra pela boca, mas o que sai da boca, isto sim é o que contamina o homem” ( Mt 15:10 -11).

Enquanto os escribas e fariseus estavam preocupados com o lavar de mãos, Jesus demonstra que a verdadeira contaminação do homem procede do coração. Por que? Como?

A bíblia demonstra que a queda de Adão deixou o homem debaixo de condenação. A humanidade em Adão passou à condição de culpáveis e condenáveis diante de Deus. Todos os homens quando vem ao mundo são formados em iniquidade, e em pecado são concebidos.A humanidade nasce de uma semente corruptível e em inimizade com Deus, por causa da natureza que possuem.

A bíblia classifica a natureza decaída do homem de filhos das trevas, mentira, filhos da ira, filhos da desobediência, filhos do diabo, etc.

Enquanto os homens se preocupam com comportamento, moral e caráter, o mal reside em sua própria natureza, procede do coração.

Os discípulos não entenderam a abordagem de Jesus, e ele lhes disse: “Toda planta que o Pai não plantou, será arrancada”, ou seja, todos quantos não nasceram da semente incorruptível que é a palavra de Deus, estes não permanecerão.

A planta plantada pelo Pai germina de uma semente incorruptível, que é a palavra de Deus. Os homens que vêm ao mundo nascem de uma semente corruptível, pois nascem da vontade da carne, da vontade do varão e do sangue ( Jo 1:13 ). Aqueles que creem são de novo gerados, da semente incorruptível, pela vontade e palavra de Deus ( Jo 1:12 ; 1Pe 1:3 e 23).

Desde a entrega da lei ao povo de Israel, Moisés insistia: “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz” ( Dt 10:16 ), pois era lá que estava o que contamina o homem: a natureza condenada e herdada em Adão.

Os escribas e fariseus nunca circuncidaram os corações, e por isso, não eram plantas que o Pai plantou. Eram cegos, ou seja, permaneciam na escuridão apesar de estar presente a luz de Deus que ilumina os homens.

Honravam a Deus com os lábios, mas os corações não foram circuncidados. Continuavam de posse da natureza (morte) herdada de Adão. A adoração dos escribas e fariseus era em vão, e a doutrina deles resumia-se em preceitos de homens.

A doutrina dos escribas e fariseus não operava a circuncisão do coração, onde o homem se desfaz da velha natureza herdada em Adão. Continuavam de posse de um coração que procede todo tipo de mau.

Cristo é a semente de Deus dada aos homens que promove o novo nascimento. É dele que o homem precisa se alimentar para ter a vida que procede de Deus. Aquele que nasce segundo a vontade de Deus e por meio da palavra de Deus, que é Cristo, é a planta que o Pai plantou.

 

6 Assim também Davi declara bem-aventurado o homem a quem Deus imputa a justiça sem as obras, dizendo:

O apóstolo demonstra que o salmista Davi também profetizou a bem-aventurança decorrente da fé. Deus justifica o homem sem as obras da lei, ou seja, Ele galardoa o homem segundo a graça.

7 Bem-aventurados aqueles cujas maldades são perdoadas, e cujos pecados são cobertos. 8 Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputa o pecado.

Sobre a bem-aventurança, leia o comentário ao “Salmo Primeiro” e o texto “A Bem-aventurança“.

As maldades são perdoadas por Deus, ou seja, não serão levadas em conta. Já os pecados, precisam ser cobertos, enterrados. O homem que teve os pecados cobertos e as maldades perdoadas, não terá imputado o pecado, e sim a justiça divina.

Observe que Davi demonstra o favor de Deus aos homens, e não o serviço dos homens a Deus. Pelas obras da lei, ou serviço, jamais os homens serão justificados.

A maldade faz referência ao fruto da árvore má, ou seja, aquilo que a árvore não plantada por Deus produz ( Mt 15:13 ). Esta maldade é perdoada, ou seja, lançada no mar do esquecimento.

Quanto ao pecado, refere-se a natureza pecaminosa do homem herdada em Adão. Por ter sido formado em iniquidade e concebido em pecado ( Sl 51:5 ), todos os homens quando nascidos segundo à carne, são árvores não plantadas por Deus. Estas árvores devem ser arrancadas, a sua natureza pecaminosa precisa ser ‘coberta’ ( Rm 4:7 ).

Somente após ter um encontro com a cruz de Cristo, e ser sepultado com Ele, é que o homem tem o seu pecado, ou seja, a sua herança em Adão ‘coberta’.

 

9 Vem, pois, esta bem-aventurança sobre a circuncisão somente, ou também sobre a incircuncisão? Porque dizemos que a fé foi imputada como justiça a Abraão.

A bem-aventurança de ter os pecados encobertos e as maldades perdoadas somente é possível aos judeus? Os gentios não podem ser participantes desta bem-aventurança em Deus? Se os leitores declarassem que sim, estariam dizendo que Deus faz acepção de pessoas.

Se alguém dentre os cristãos romanos declarassem que a bem-aventurança é restrita aos judeus, Paulo contra argumenta: “Porque dizemos que a fé foi imputada como justiça a Abraão”, ou seja, por que dizemos que Abrão foi justificado por meio da fé, se para os judaizantes a justificação decorre de laços consanguíneos?

Dizer o que as Escrituras expõe é uma coisa, vivenciar é outra. Os judaizantes citavam as escrituras, porém, não viviam as Escrituras por causa de suas tradições. Liam na Escritura que Abraão foi justificado pela fé, porém, sustentavam que eram justos por descenderem de Abraão.

 

10 Como lhe foi, pois, imputada? Estando na circuncisão ou na incircuncisão? Não na circuncisão, mas na incircuncisão.

Qual a condição de Abraão quando lhe foi imputada a justiça que decorre da fé? Abraão era incircunciso, ou melhor, um gentio. Paulo faz a pergunta e responde em seguida: Abraão estava na incircuncisão!

 

11 E recebeu o sinal da circuncisão, selo da justiça da fé, quando estava na incircuncisão, para que fosse pai de todos os que creem, estando eles também na incircuncisão; a fim de que também a justiça lhes seja imputada;

Paulo demonstra que Abraão recebeu o sinal da circuncisão como um selo da justiça recebida por meio da fé. Ele recebeu este sinal quando incircunciso, demonstrando que ele se tornaria pai de todos aqueles que pela fé creem em Deus.

Abraão é pai tanto dos gentios quanto dos judeus que tiverem a mesma fé que ele teve em Deus. Os judeus tinham Abraão por pai, e pensavam que a filiação divina decorria do fato de eles serem descendentes de Abraão. Paulo demonstra que a fé é o elo de ligação entre Deus e os seus filhos.

Deus não faz acepção de pessoas. Ele justificou a Abraão por meio da fé, e justifica todos quantos se achegarem a Ele por meio da fé.

 

12 E fosse pai da circuncisão, daqueles que não somente são da circuncisão, mas que também andam nas pisadas daquela fé que teve nosso pai Abraão, que tivera na incircuncisão.

O que Abraão recebeu na incircuncisão por meio da fé o torna pai dos incircuncisos que creem, e dos circuncisos que também creem. Observe que Abraão não é pai daqueles que foram circuncidados, e sim, pai dos que seguirem as suas pisadas: a fé!

 

13 Porque a promessa de que havia de ser herdeiro do mundo não foi feita pela lei a Abraão, ou à sua posteridade, mas pela justiça da fé.

Quando Abraão recebeu a promessa de Deus, a lei não existia. A promessa de Deus exigiu dele um exercício de fé, e não obras decorrente de uma lei.

Outro aspecto que Paulo destaca é que a promessa de que Abraão haveria de ser herdeiro do mundo, não diz especificamente da pessoa de Abraão, e sim, de sua posteridade, que é Cristo.

 

 

14 Porque, se os que são da lei são herdeiros, logo a fé é vã e a promessa é aniquilada. 15 Porque a lei opera a ira. Porque onde não há lei também não há transgressão.

Paulo apresenta três argumentos em defesa da abordagem anterior:

1º – Se os judeus são os herdeiros segundo o que estipula a lei, segue-se que crer em Deus não é o que justifica, e que o que foi prometido a Abraão nunca existiu, pois a promessa foi feita quando ele ainda estava na incircuncisão. Ora, se Deus prometeu, e jurou sobre a sua palavra, resta a quem recebeu a proposta crer (descansar).

2º – A lei opera a ira, pois ela somente apresenta punição aos transgressores, sem qualquer promessa. Quem não praticar a lei é considerado transgressor e réu de juízo ( Mt 5:21 ).

3º – Enquanto os judaizantes se escudavam na ideia de que seriam declarados justos por Deus por que tinham uma lei, Paulo demonstra que a função da lei é somente demonstrar que os homens são reprováveis.

Os versículos seguintes demonstram a conclusão de Paulo sobre as obras da lei e a graça.

 

A Teologia da Libertação

A abordagem teológica da ‘Teologia da Libertação’ é uma variante do pensamento da Igreja Católica Romana. Vejamos o que um dos seus teólogos diz: “A religião verdadeira, portanto, nasce dos pobres e dos fracos. São eles que podem, a partir da sua experiência, ensinar quem é Deus e o que ele quer. São eles que penetram a sua sabedoria e o seu projeto (Mt 11, 25- 26). Foi da experiência dos pobres que nasceu a religião de Javé, o Deus que liberta da exploração e da opressão e dá a liberdade e a vida” Storniolo, Ivo, Como ler o Livro de Jó, Série como ler a bíblia, ed. Edições Paulinas.

Por isso é espantoso a abordagem seguinte de um Pr. evangélico “Encontramos o Senhor nos necessitados, solitários, frustrados, oprimidos, enfermos e perturbados. Paulo nos ensina estas grandes verdades em Colossenses 3. 23, 24” Pr. Valdinei Fernandes Gomes da Silva, comentarista da revista Jovens e Adultos, revista dominical para Professor, Epístola de Judas, ed. Betel – 3º Trimestre de 2007, ano 18, nº 64, Pág 07.

É no mínimo estranho que seguimentos do meio evangélico esteja entrando pelo mesmo caminho que até pouco tempo protestavam ser errôneo.

O que disse Paulo aos Colossenses? “E, tudo o que fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens…” ( Cl 3:23 ), ou seja, este versículo não apóia a argumentação de que encontramos o Senhor nos desprovidos de bens materiais desta vida.

Paulo estava instruindo os servos (escravos) que se converteram a Cristo a permanecerem desempenhando o seu serviço aos seus senhores, embora fossem livres em Cristo ( Cl 3:22 ). A mensagem de Paulo demonstra aos seus ouvintes que, em Cristo não há diferenças sociais, ou seja, todos são filhos de Deus pela fé em Cristo “Desta forma não há judeu nem grego, não há servo nem livre, não há macho ou fêmea, pois todos vós sois um em Cristo” ( Gl 3:28 ).

Porém, a mensagem do evangelho poderia ser mal interpretada, e Paulo alerta aos cristãos que eram escravos a submeterem-se aos seus senhores. Embora não haja distinção entre os homens na igreja de Deus, na sociedade existem diferenças. À época de Paulo havia uma distinção nítida entre servos e livres, gregos e judeus, e enquanto os cristãos estivessem convivendo em sociedade, estas diferenças deveriam e devem ser observadas.

Todos cristãos devem se portar de forma que não deem escândalos nem a gregos, nem a judeus e nem a igreja de Deus ( 1Co 10:32 ). O evangelho não é causa de revoltas ou transformações sociais, embora tenha influenciado as relações sociais no transcorrer dos séculos. A abordagem de Paulo aos Colossenses deve ser vista sob a ótica do versículo seguinte: “Assim cada um ande como Deus lhe repartiu, cada um como o Senhor o chamou. É o que ordeno em todas a igreja (…) Cada um permaneça na situação em que estava quando foi chamado” ( 1Co 7:17 -24).

A citações de Mateus 25: 31- 46 também não dá sustentação à ideia de que encontramos o Senhor nos perturbados e frustrados.

O que Jesus ensinou em particular aos discípulos sobre o monte das Oliveiras tem a ver com o julgamento das nações, e não com os pobres deste mundo.

Observe que Jesus virá em glória com os seus santos anjos para se assentar sobre um trono de glória. Ele reunirá todas as nações diante dele, e fará uma seleção como o pastor faz entre bodes e ovelhas ( Mt 25:31-32).

Jesus, na sua vinda em glória assumirá a posição de Rei, pois esta será a palavra do Rei: “Vinde, benditos de meu Pai, possui por herança o reino que vos esta preparado desde a fundação do mundo” ( Mt 25:34 ).

A base do julgamento das nações que serão reunidas diante do Rei será o tratamento que dispensaram aos Seus pequeninos irmãos ( Mt 25:40 ). O julgamento daqueles que não entrarão no reino eterno se dará pela omissão “Em verdade vos digo que, todas as vezes que deixastes de fazer a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer” ( Mt 25:45 ).

Resta a pergunta: encontramos o Senhor nos pobres deste mundo, ou através da revelação do evangelho?

O alerta de Paulo permanece:

“Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema” ( Gl 1:8 )

 

16 Portanto, é pela fé, para que seja segundo a graça, a fim de que a promessa seja firme a toda a posteridade, não somente à que é da lei, mas também à que é da fé que teve Abraão, o qual é pai de todos nós,

Os argumentos apresentados por Paulo em defesa da justificação pela fé, desde o verso 1 ao verso 15 deste capítulo, é concluído a partir deste versículo: “Portanto, é pela fé…” (v. 16).

Na conclusão Paulo apresenta o propósito de a justificação ser somente alcançada pela fé, e não pelas obras da lei:

1º) A justificação é pela fé, para que seja segundo a graça, ou seja, se fosse possível aos homens executar as obras da lei, a justificação seria:

A) uma dívida de Deus para com os homens ( Rm 4:4 ), o que é inadmissível, e;
B) impossível de ser alcançada, visto que a natureza da lei difere da natureza dos homens ( Rm 7:14 );

2º) A justificação é pela fé para que a promessa seja firme a toda posteridade de Abraão. Quando a Escritura (V. T.) diz que a promessa é para a posteridade, ela estava incluindo todos os que cressem. A promessa é para todos que tenham a mesma fé que teve o pai Abraão, que é pai daqueles que tem fé em Deus.

3º) A justificação é pela fé por causa da fidelidade de Deus que não faz acepção de pessoas. Todos quantos têm a mesma fé que teve o crente Abraão (judeus e gentios), são justificados. Como a bíblia dá testemunho de que Deus justificou Abraão pela fé, todos quantos tem fé em Deus por meio de Jesus, também são justificados.

A promessa de Deus é firme, pois centra-se em seu poder e fidelidade. Ela foi firme a Abraão, visto que Abraão nada fez, e Deus lhe concedeu a promessa. Abraão nem mesmo havia saído do meio de sua parentela, e a promessa já tinha sido estabelecida ( Gn 12:2 -3).

Primeiro veio a promessa de Deus, e logo após, Abraão saiu de sua parentela. Observe que não há como ter fé, sem antes ter uma promessa. Deus prometeu uma descendência a Abraão impossível de contar, como é o caso das estrelas no céu, e mesmo sendo a sua mulher estéril, ele creu. A fé só é possível após a promessa ( Gn 15:6 )!

A justificação é pela fé, pois se fundamenta no poder de Deus (Evangelho), unicamente Deus é poderoso para justificar o homem ( Mc 2:10 ). Muitos consideram que a justificação é mediante um ato judicial de Deus, porém, a bíblia nos demonstra que ela é uma ato de poder “Ora, para que saibais que o Filho do homem tem poder para perdoar pecados (disse ao paralítico): A ti te digo: Levanta-te, toma o teu leito, e vai para a tua casa” ( Mc 2:10 -11).

 

17 (Como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí) perante aquele no qual creu, a saber, Deus, o qual vivifica os mortos, e chama as coisas que não são como se já fossem.

Paulo demonstra que a colocação de que Abraão é ‘pai de todos nós’ é segundo o que foi predito na Escritura (Como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí).

Como Abraão é pai de muitas nações, e foi Deus que o constituiu por pai, a promessa feita a Abraão é firme a toda à sua descendência. A Promessa é firme, e foi em Deus que Abraão creu, ou seja, ele creu naquele que dá vida aos mortos; Deus chama a existência as coisas que não são como se já existissem, ou seja, quando se crê em Deus que prometeu, se crê em Deus, e não naquilo que foi prometido. Pois muitas das vezes, o que foi prometido ainda não existe, mas Deus é poderoso para trazer a existência o que prometeu. Isto é crer contra a esperança!

 

 

18 O qual, em esperança, creu contra a esperança, tanto que ele tornou-se pai de muitas nações, conforme o que lhe fora dito: Assim será a tua descendência.

A fé de Abraão estava em Deus que prometeu (em esperança), que a sua crença não levou em conta o fato de ter que sacrificar o seu único filho, de onde seria proveniente a sua descendência (creu contra a esperança). A primeira esperança refere-se a confiança na promessa de Deus, e a segunda esperança diz de Isaque, a esperança de descendência.

Não há como negar a fé de Abraão, visto que ele se tornou pai de muitas nações. A fé de Abraão é evidente, pois Deus fez a ele conforme foi dito: Assim será a tua descendência!

 

19 E não enfraquecendo na fé, não atentou para o seu próprio corpo já amortecido, pois era já de quase cem anos, nem tampouco para o amortecimento do ventre de Sara.

Haviam alguns elementos na vida de Abraão que poderia levá-lo a fraquejar na fé.

Abraão não se fixou em seu corpo, já amortecido, e tampouco no amortecimento do ventre de sua mulher. Abraão e sua mulher constituíam de per si impedimentos por demais à esperança do patriarca, o que poderia influenciar a sua fé.

 

20 E não duvidou da promessa de Deus por incredulidade, mas foi fortificado na fé, dando glória a Deus,

A incredulidade surge depois que o homem tomou conhecimento da promessa e a rejeita. Não há como ser incrédulo antes de ser cientificado da promessa.

Abraão não duvidou, antes foi fortificado na fé! O que quer dizer ser fortificado na fé? Não olhar para as impossibilidades humanas, e sim, para o poder de Deus “No demais, irmãos meus, fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder” ( Ef 6:10 ).

Um exemplo claro do que é ser fortificado na fé é descrito nos versos seguintes: “Tendo iluminados os olhos do vosso entendimento, para que saibais qual seja a esperança da sua vocação, e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos; E qual a sobre excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder, Que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus” ( Ef 1:18 -20).

Após os cristãos serem inteirados sobre a esperança da vocação, quais as riquezas da herança de Deus nos santos e a grandeza do poder que operou sobre os cristãos, tudo por ter crido em Cristo. Se restar alguma dúvida, o cristão deve olhar para o Cristo ressurreto, pois o mesmo poder que foi manifesto em Cristo para ressurreição, opera agora sobre o cristão para a salvação.

Quando o cristão crê em Deus, Deus opera o prometido. O resultado daquilo que Deus realiza se constituí em glória ao seu poder e glória “Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade, a fim de sermos para louvor da sua glória, nós, os que de antemão esperamos em Cristo” ( Ef 1:11 -12). Aquele que espera em Cristo, permite que Deus faça todas as coisas segundo o conselho da Sua vontade em sua vida e passa a se constituir em louvor de sua glória.

 

21 E estando certíssimo de que o que ele tinha prometido também era poderoso para o fazer.

Estar certíssimo de que Deus é poderoso para realizar é o estar fortalecido na fé.

 

22 Assim isso lhe foi também imputado como justiça.

A fé que Abraão exerceu em Deus tinha em vista o prometido: ser pai de muitas nações. Porém, diante da certeza de Abraão (fortificado na fé), a fé que era para ser pai das nações também serviu-lhe para justificação, ou seja, lhe foi também imputado como justiça.

Se a fé de Abraão alcançou a condição de pai de muitas nações, esta mesma fé é base para a salvação. Caso Deus houvesse somente prometido salvação, a fé de Abraão em alcançar ser pai de muitas nações era suficiente para Deus salvá-lo.

Observe que, quando o homem crê em Jesus, Ele concede o que a fé alcançou e o perdão dos pecados ( Mt 8:1 -9).

 

23 Ora, não só por causa dele está escrito, que lhe fosse tomado em conta,

O versículo que consta do livro de Gênesis: “Creu Abrão no Senhor, e isso lhe foi imputado para justiça” ( Gn 15:6 ), não está registrado simplesmente para relatar o que aconteceu com Abrão, visto que, o fato de ele ter crido em Deus é algo pessoal. Antes, foi registrado que a justificação de Abrão foi pela fé, por causa de todos que crêem em Deus que ressuscitou a Cristo.

24 Mas também por nós, a quem será tomado em conta, os que cremos naquele que dentre os mortos ressuscitou a Jesus nosso Senhor;

Os cristão creem em Deus que ressuscitou a Cristo dentre os mortos, e são justificados pela fé tal qual foi o pai Abraão. O que a Escritura diz acerca de Abraão, foi registrado para que os cristãos se informassem deste importante evento com os patriarcas, e que agora, em Cristo, o descendente, tornaram-se participantes.

 

25 O qual por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação.

Por causa do pecado da humanidade Jesus foi entregue, para que todos os que creem n’Ele se conformem com Ele na morte. A sentença que diz: “A alma que pecar, esta mesmo morrerá”, ou “O culpado não será tido por inocente” é cumprida quando os que creem tomam cada uma a sua cruz, e seguem após Cristo.

Estes são mortos e sepultados a semelhança de Cristo ( Rm 6:3 e 8).

Porém, Jesus ressurgiu para a justificação daqueles que creem. Como o cristão morre com Cristo, ele também ressurge com Cristo dentre os mortos, para glória de Deus Pai. Este novo homem criado em Cristo é declarado justo pelo poder de Deus ( Cl 3:1 ). Esta é a base da justificação: o poder de Deus manifesto em Cristo e naqueles que creem ( Ef 1:19 -20).

Ler mais

Romanos 3 – A justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo

Muitos consideram que a justificação é semelhante a um ato de juiz, onde Deus trata o pecador injusto como se fosse justo, porém, a pessoa não é realmente justa. Neste diapasão Scofield diz: “O pecador crente é justificado, isto é, tratado como justo por causa de Cristo (…) A justificação é um ato de reconhecimento divino e não significa tornar uma pessoa justa C. I. Scofield, A bíblia de Scofield com referências, nota à ( Rm 3:28 ). (grifo nosso)???


Introdução

Alguns dos argumentos do apóstolo Paulo são construídos com elementos da lógica quando ele sai em defesa do evangelho. Ex: “Porque a circuncisão é, na verdade, proveitosa, se tu guardares a lei; mas, se tu és transgressor da lei, a tua circuncisão se torna em incircuncisão. Se, pois, a incircuncisão guardar os preceitos da lei, porventura a incircuncisão não será reputada como circuncisão?” ( Rm 2:25 -26).

A frase: “A circuncisão é proveitosa se o circuncidado guardar a lei”, é uma proposição composta em decorrência do conectivo ‘se’. O conectivo ‘se’ combina idéias simples e confere valores lógico à proposição, podendo este valor ser verdadeiro ou falso, dependendo da operação introduzida pelo conectivo.

Paulo demonstra aos cristãos em Roma que os judeus precisariam cumprir cabalmente a lei para que a circuncisão fosse válida diante de Deus. Como é impossível ao homem cumprir a lei, segue-se que a circuncisão dos judeus é inócua, ou melhor, sem valor algum. O ensino de Paulo está vinculado à duas considerações seguintes:

a) tropeçar em um único quesito da lei é o mesmo que não cumprir a lei ( Tg 2:10 ), e;
b) a natureza da lei é incompatível com a natureza do homem: ela é espiritual e o homem carnal ( Rm 7:14 ).

Ao considerarmos que a proposição: ‘a circuncisão é proveitosa se o circuncidado guardar a lei’, é verdadeira, segue-se que, se um ‘incircunciso’ guardar a lei, ele será reputado pelos judeus como ‘circunciso’. A argumentação de Paulo estabelece uma equivalência lógica entre as proposições.

Paulo apresenta uma equivalência lógica na sua argumentação para demonstrar que judeus e gentios são iguais diante de Deus.

Em qualquer interpretação não podemos contrariar ou adaptar a ideia presente nas proposições segundo perspectivas humanas.

Quando Jesus disse: “Entrai pela porta estreita…”, não podemos contrariar a ideia dizendo que ‘a porta não é estreita’. Alegar que ‘a porta não é estreita’ não é correto, principalmente quando se introduz elementos que não são citados no texto. “A soberba do homem faz com que o caminho fique estreito” não é uma ideia presente no texto.

Jesus não apresentou elementos humanos em suas declarações. Ele falou acerca do caminho (é estreito), sem qualquer referência ao comportamento dos seus ouvintes, o que demonstra que não podemos considerar este elemento na hora de interpretarmos as suas declarações.

Se considerarmos que é o homem que faz ‘o caminho estreito’, como podemos entender a declaração de Cristo: “Eu sou o caminho…”? Observe que não há equivalência lógica entre as declarações de Cristo (Eu sou o caminho…, e; o caminho é estreito)e a interpretação de que é o homem quem faz o caminho estreito.

Observe que entre as declarações de Cristo (Eu sou o caminho…) e a interpretação de que o homem é quem faz o caminho estreito não há equivalência.

Jesus apresentou várias definições acerca da sua pessoa: Eu sou o bom pastor; Eu sou a porta; Eu sou o caminho; Eu sou a verdade e a vida, etc. Qualquer explicação que contrarie o que Jesus disse, deve ser considerado anátema, visto que os falsos profetas introduzem heresias encobertamente heresias que negam a pessoa de Cristo.

Do capítulo três em diante, a carta de Paulo aos Romanos apresenta inúmeras proposições, e muitas serão introduzidas pelo conectivo ‘se’, estabelecendo uma equivalência lógica. Ao utilizar o conectivo ‘se’, Paulo não introduz uma dúvida ou uma ‘possibilidade de’, antes estabelece uma equivalência lógica entre a argumentação e uma proposição simples.

A argumentação: “Mas se a nossa injustiça faz surgir a justiça de Deus, que diremos?” ( Rm 3:5 ), tem por base a proposição: ‘Deus não é injusto’ ( Rm 3:6 ).

Com base na proposição: “Deus é justo”, Paulo estabeleceu uma nova proposição: “Deus não é injusto”, e dá sustentação à sua argumentação: “a nossa injustiça faz surgir a justiça de Deus”.

Agora, se quisermos estabelecer uma argumentação semelhante a de Paulo (a nossa injustiça faz surgir a justiça de Deus), não podemos estabelecer uma proposição ‘Deus não é justo’, da mesma maneira que contrariaram o que Jesus disse ‘o caminho não é estreito’.

 

1 QUAL é, pois, a vantagem do judeu? Ou qual a utilidade da circuncisão?

Após demonstrar que não há diferença entre judeu e gentil, pois ambos são homens e culpáveis diante de Deus, Paulo responde uma das questões que poderia ser levantada por seus destinatários: Qual é a vantagem de ser judeu, se não há diferença alguma quanto ao quesito salvação?

2 Muita, em toda a maneira, porque, primeiramente, as palavras de Deus lhe foram confiadas.

Há uma grande vantagem em ser judeu: a palavra de Deus foi confiada primeiramente a eles. Deus escolheu o povo de Israel para uma missão: tornar conhecido o nome de Deus sobre a face da terra, e em contra partida foi confiado a eles as Escrituras. Deus escolheu para o povo para uma missão, mas a salvação é individualizada.

Cada indivíduo pertencente à comunidade de Israel deveria circuncidar o coração conforme a determinação de Moisés, pois Deus não escolhe dentre os homens quem será salvo, mas escolhe quem haverá de desempenhar uma missão.

3 Pois quê? Se alguns foram incrédulos, a sua incredulidade aniquilará a fidelidade de Deus?

Alguém poderia questionar ainda: Qual a vantagem de ter recebido da palavra de Deus e não ser salvo? Paulo conclui: “Ora, não ser salvo é uma questão de incredulidade, e não de infidelidade da parte de Deus”. A incredulidade do homem não influencia os atributos de Deus: ele permanece fiel, mesmo quando o homem não crê em sua palavra.

4 De maneira nenhuma; sempre seja Deus verdadeiro, e todo o homem mentiroso; como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras, E venças quando fores julgado.

Deus é verdadeiro em essência. Naturalmente Deus é verdadeiro e todos os homens mentirosos.

Paulo não fez referência a um comportamento reprovável dos homens: a mentira. Ele simplesmente contrapõe a natureza divina com a natureza humana decaída. Ou seja, nem todos os homens vivem contando mentiras, mas todos os homens são mentirosos em sua essência, pois deixaram de ser participantes da natureza divina, que é a verdade. O pecado de Adão causou esta separação entre Deus e os homens.

Paulo demonstra que a declaração: “Deus é verdadeiro sempre, e todo homem mentiroso”, é conforme as Escrituras. Ele cita o Salmo cinqüenta e um, versículo quatro para demonstrar que Deus é verdadeiro e todo homem mentiroso ( Sl 51:4 ).

Observe que o Salmo 51 demonstra um salmista que conhece as suas transgressões; ele reconhece que foi formado em iniquidade; que precisa de Deus para ser limpo no íntimo, visto que ele ama a verdade no íntimo. Quando há uma citação das Escrituras no N. T., devemos observar todo o texto, e não somente o versículo citado.

Reconhecer que Deus é verdadeiro e que os homens são mentirosos é um louvor que não podemos nos furtar a conceder ao nosso Criador.

 

5 E, se a nossa injustiça for causa da justiça de Deus, que diremos? Porventura será Deus injusto, trazendo ira sobre nós? (Falo como homem.)

Quando consideramos que ‘toda ação tem uma reação’, chegamos à questão acima: a nossa injustiça é causa da justiça de Deus. Que argumentos utilizaremos quando ficar demonstrado que as injustiças DOS HOMENS são causa da justiça divina? Deus é injusto? A resposta é taxativa: De maneira nenhuma!

Desde o primeiro capítulo da carta aos Romanos Paulo fala dos homens que detém a verdade em injustiça, ou seja, os homens que rejeitam a verdade do evangelho. Paulo demonstra que o argumento que ele estava utilizando é semelhante ao homem descrito anteriormente (Falo como homem).

Paulo demonstra que o argumento utilizado é pertinente ao homem objeto de seu discurso: o homem natural. Paulo, apesar de ter sido justificado em Cristo (livre da ira), quando da argumentação utiliza o pronome na primeira pessoa do plural “nós” para falar da ira de Deus. Mas, como ele e os cristãos já não eram objetos da ira de Deus, Paulo destaca que está falando como homem, ou seja, ele estava falando como se ainda estivesse na sua condição de homem carnal e sujeito da ira de Deus.

6 De maneira nenhuma; de outro modo, como julgará Deus o mundo?

Deus não é injusto ao trazer ira sobre os injusto. Se alguém pensa diferente que o apóstolo, que apresente outro modo que Deus pudesse exercer a sua justiça. Qualquer tese apresentada deve estar em conformidade com as Escrituras.

7 Mas, se pela minha mentira abundou mais a verdade de Deus para glória sua, por que sou eu ainda julgado também como pecador?

Este versículo é um contra ponto ao versículo cinco. Naquele, a injustiça do homem que rejeita a verdade faz surgir a ira de Deus, e neste, o homem que reconhece o seu estado precário em mentira, recebe em abundância a graça de Deus em verdade.

No versículo cinco, Paulo fala de uma condição pertinente aos homens sem Cristo, e neste versículo, há uma condição pertinente à quem está em Cristo.

Se pela (minha) mentira, ou seja, condição de pecado que separou o homem da verdade que há em Deus, a verdade de Deus abundou mais em verdade para glória de Deus, Paulo questiona o motivo de ele ainda ser julgado como se fosse pecador.

É possível continuar sendo pecador após tornar-se participante da verdade abundante concedida por Deus? Se no versículo cinco questionavam a justiça de Deus por ela ser exercida sobre a injustiça dos homens, porque julgavam o apóstolo, e não Deus, quando sabiam que sobre ele a graça de Deus era abundante?

8 E por que não dizemos (como somos blasfemados, e como alguns dizem que dizemos): Façamos males, para que venham bens? A condenação desses é justa.

Paulo questiona os seus possíveis interlocutores: ‘Vocês me julgam como se eu fosse pecador pelo fato de eu não dizer: façamos males, para que venham bens?’. Ora, quem diz ‘façamos males, para que venham bens’, receberá a condenação merecida.

Observe o exercício de interpretação bíblica utilizado nos versículos quatro e sete.

No versículo quatro Paulo enfatiza que todo homem é mentiroso. Ora, todos sabemos que nem todos os homens vivem da mentira. Paulo estaria falando do comportamento pernicioso, que é a mentira, ou da natureza do homem que não é conforme a natureza divina? Perceba que o salmo 51 demonstra que Deus se agrada da verdade no intimo do homem, ou seja, para que o homem seja verdadeiro há a necessidade de que seja limpo por Deus.

Após estabelecermos que a mentira do versículo quatro, não diz da mentira que os homens contam aos seus semelhantes, temos elementos para afirmar que a referência que Paulo faz à mentira no versículo sete, diz da sua antiga natureza segundo o pecado (por não ser participante da natureza divina que é a verdade, o homem é mentiroso).

Após demonstrar que onde havia pecado (mentira), abundou a graça (a verdade de Deus para a sua glória), Paulo coloca em xeque o julgamento que estavam fazendo de sua pessoa.

 

Condenação

Antes de prosseguirmos, faz-se necessário esclarecermos dois assuntos acerca de alguns temas que iremos estudar no decorrer do capítulo três da carta aos Romanos.

Em certa publicação brasileira, ao falar da justificação pela fé, o escritor recomenda um cuidadoso estudo dos versos 21 ao 31, arrematando que, nestes versículos estão contidos toda a doutrina fundamental do evangelho. Não me oponho a esta argumentação, mas não posso concordar com a argumentação seguinte: “Quando o mundo está com a boca fechada, condenável (mas não condenado) perante Deus, então é que Deus revela uma justiça divina para os homens…” McNair, S. E., A Bíblia explicada – 4ª Ed. – Rj: CPAD, 1983, Pág 407, Cap 3, § 4º.

Segue-se a pergunta: O mundo é ‘condenável’ ou ‘está condenado’ perante Deus?

A bíblia é clara ao demonstrar que o mundo já está condenado perante Deus, mas quanto às obras, o mundo é condenável, visto que as ações dos homens ainda serão submetida à juízo.

Quando não se estabelece distinção entre a condenação em Adão (passado) e a retribuição decorrente das obras (condenável – futuro), não conseguiremos entender as argumentações paulinas.

Jesus demonstrou que o mundo está condenado, conforme se lê: “Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, porque não crê no nome do unigênito Filho de Deus” Jo 3: 18.

Onde o mundo foi condenado? O mundo foi condenado em Adão, conforme Paulo descreve: “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens, para condenação…” ( Rm 5:18 ). Por causa da ofensa de Adão, Deus estabeleceu o seu juízo e todos os homens tornaram-se condenados diante de Deus.

Esta condenação deu-se lá no Éden, e toda a humanidade esta debaixo desta condenação (passado). A condenação em Adão comprometeu a natureza humana: o homem deixou de ser participante da natureza divina , que é vida, e passou a condição de morto, que é a separação da vida que há e é proveniente de Deus.

Agora, se o mundo está condenado, porque o mundo é condenável diante de Deus? De qual julgamento o apóstolo faz referência? O que será julgado?

Os versículos dezenove e vinte do capítulo três demonstra que o mundo é condenável (futuro) diante de Deus, visto que ninguém será justificado diante dele pelas obras da lei. Ou seja, quando se fala de obras o mundo é condenável, porém todos já estão condenados em Adão “…toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus. Pois isso ninguém será justificado diante dele pelas obras da lei” ( Rm 3:19 -20).

Observe que o apóstolo Paulo desde o versículo dezoito do capítulo um, aponta as obras reprováveis dos homens que detém a verdade em injustiça, demonstrando que Deus recompensará a cada ser humano segundo as suas obras ( Rm 2:6 ), e neste juízo não haverá acepção de pessoas ( Rm 2:11 ).

Paulo aponta um juízo futuro, demonstrando que os gentios serão julgados, mesmo não tendo recebido um código de lei e perecerão, e os judeus, por terem um código, pela lei serão julgados, e como pecaram, também perecerão ( Rm 2:12 ).

Este julgamento que será estabelecido quanto às obras, também trará ao conhecimento de todos os homens o juízo estabelecido em Adão, conhecerão que estão condenados diante de Deus “…entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus” ( Rm 2:5 ).

O julgamento, quanto às obras, será realizado no tribunal do Trono Branco, conforme lemos em Apocalipse: “Os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras. O mar entregou os mortos que nele havia, e a morte e o inferno deram os mortos que neles havia, e foram julgados cada um segundo as suas obras” ( Ap 20:12 -13).

Quando do Tribunal do Grande Trono Branco, os homens conhecerão que estão condenados em Adão, ou seja, será manifesto a eles o juízo de Deus que se deu no Éden, e quanto ao julgamento das obras, receberão o que entesouraram para si: ira e indignação ( Rm 2:5 e 8).

Os salvos em Cristo também serão julgados quanto às obras no tribunal de Cristo, onde receberemos o que houvermos feito por meio do corpo… ( 2Co 5:10 ). Por isso o apóstolo Paulo fala que cada um será recompensado segundo as suas obras, tantos salvos, quanto perdidos ( Rm 2:6 ).

Jesus disse que o mundo está condenado, e jamais podemos contrariar a sua afirmação conforme McNair o fez, ao dizer: “..mas não condenado”. O mundo está condenado, e ainda é condenável por causa de suas obras más, visto que as suas obras irão a julgamento, e será aquilatado a recompensa de cada um.

Ao falar como homem, Paulo faz a seguinte pergunta: “Será Deus injusto, trazendo ira sobre nós?” ( Rm 3:5 ). Esta pergunta feita pelos homens demonstra que desconhecem o juízo estabelecido em Adão, e que todos estão condenados. A pergunta também demonstra que estes esperam um julgamento da parte de Deus, e que terão uma retribuição favorável quanto as suas “boas” ações.

Somente no dia da ira (manifestação do juízo de Deus) os homens conhecerão que estão condenados. Ao apresentarem as suas obras diante do tribunal, descobrirão que elas não servem para justificá-los, pois são trapos de imundícia ( Rm 2:5 ; Rm 3:20 ).

Outro teólogo afirmou que: “Os tempos futuros de Rm 3: 20 (porque ninguém será justificado com base nas obras da lei); 3:20 (Deus que irá justificar) talvez não sejam futuros autênticos, e sim gnômicos (lógicos). O (muitos serão colocados como justos), de Rm 5: 19 naturalmente é dito do ponto de vista da virada dos tempos e, portanto, já vale a respeito do presente (cf. v. 17, 21). Por outro lado também o tempo presente nos enunciados em tempo presente de Gl 2: 16; 3: 11; 5: 4 não é um tempo presente autêntico, e sim presente atemporal do dogma, podendo, portanto, quanto ao assunto em questão, referir-se à sentença de Deus no juízo vindouro” Rudolf, Bultmann, Teologia do Novo Testamento, tradução Ilson Kayser, SP: Ed. Editora Teológica, 2004. (Foi suprimido os versos em grego).

Bultmann não negou o que Cristo disse, como fez McNair, porém, ao ler Rm 3:20, percebe-se que ele fez uma leitura equivocada, e criou dois tempos para a justificação: presente autêntico e presente lógico.

Para Bultmann, a justificação não é efetiva na vida do crente hoje, mas refere-se a uma sentença de Deus em um juízo vindouro. Percebe-se que ele ignorou o juízo estabelecido em Adão, e passou a considerar somente o julgamento vindouro, que será quanto as obras.

Observe que Bultmann não tem certeza quanto ao que expõe, e expressa ‘talvez, podendo’, etc.

Ao utilizar o verbo ‘será’ (futuro), o apóstolo Paulo procurou demonstrar o motivo da ineficácia das obras da lei “Por isso ninguém…” (v. 20).

Considerando que Paulo estava falando das obras reprováveis dos homens (judeus e gregos); considerando que todo o mundo é condenável (julgamento das obras – futuro); considerando o julgamento em Adão (juízo de Deus – passado), e que Paulo não está fazendo referência a tal juízo nestes dois versos; segue-se que ninguém SERÁ justificado por realizar o estipulado pela lei.

Como o julgamento da obras será no futuro, aquele que está condenado, não será justificado quando do julgamento de suas obras (condenável) ( Rm 3:19 -20). Porém, quanto ao juízo em Adão, os cristãos, por intermédio da fé em Cristo, já estão justificados (são declarados justos e livres da condenação), conforme Jesus disse: “Quem nele crê não é condenado…” ( Jo 3:18 ).

Utilizando o vocabulário criado por Bultmann, podemos assim dizer que a justificação se dá num presente autêntico “…pois todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus, e são justificados gratuitamente…” ( Rm 3:23 -24). A justificação não se dará em um presente atemporal, e nem mesmo refere-se ao ‘juízo vindouro’ (julgamento das obras).

 

9 Pois quê? Somos nós mais excelentes? De maneira nenhuma, pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado;

Paulo volta a sua argumentação ao primeiro versículo do capítulo três.

Para aqueles (judeus) que julgavam serem melhores que os gentios na questões relativos à salvação, Paulo faz a mesma pergunta do verso três: “pois quê?”. Somos mais excelentes que os gentios que adquirimos uma vantagem na conquista da salvação?

De maneira alguma os gentios foram protelados quanto à graça de Deus! Paulo enfatiza já ter demonstrado esta verdade “…pois já demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado”, compare com Rm 2:12 .

 

10 Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer.

Caso houvesse dúvidas quanto às declarações do apóstolo, ele invoca a autoridade das Escrituras.

Se as Escrituras dizem que ‘não há um justo, nem um sequer’, é porque não há exceção entre os homens, até mesmo por causa de nacionalidade. Não há um justo, e as Escrituras complementam: NEM UM SEQUER!

Mas, de onde, de que parte das Escrituras Paulo faz a afirmação categórica: “Não há um justo, nem um sequer”?

“Já pereceu da terra o homem piedoso, e não há entre os homens um que seja justo; todos armam ciladas para derramar sangue; cada um caça a seu irmão com a rede…” ( Mq 7:2 );

“E não entres em juízo com o teu servo, porque à tua vista não se achará justo nenhum vivente” ( Sl 143:2 ).

A união das proposições presente em Miquéias e nos Salmos leva a conclusão de que não há ‘entre os homens um que seja justo’, pois diante de Deus ‘não se achará justo nenhum’.

 

11 Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. 12 Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só.

Leia o Salmo quatorze e o cinqüenta e três antes de prosseguir na análise da carta aos Romanos.

Todas as citações feitas por Paulo estão diretamente vinculadas à idéia: ‘Não há um justo, nem um sequer’. O versículo dez é uma conclusão de Paulo, que resume a idéia base que contém as Escrituras, diferente dos versículos que se seguem, que são citações ‘ipsis literis’ das Escrituras.

As Escrituras é categórica: apesar de inúmeras religiões, não há quem busque a Deus. Dentre os homens não há quem entenda como buscar a Deus! Isto porque, todos se extraviaram (se perderam), e se fizeram inúteis.

Para entendermos este versículo, devemos nos lembrar que o único evento da história da humanidade que a bíblia relata, na qual alguém se perdeu, foi lá em Adão. Através da queda de Adão, todos os homens, a uma só se fizeram inúteis.

Desde a queda não há entre os filhos dos homens quem faça o bem, sem qualquer exceção, o que demonstra que os judeus também se fizeram inúteis diante de Deus.

Não podemos confundir ‘fazer o bem’ e fazer ‘boas ações’. Esta condição é possível a todos os homens e depende da vontade humana, enquanto aquela somente é possível quando se está em Deus, e está vinculada à natureza do homem.

Um comentário que consta da Bíblia Vida Nova aos versículos 10 a 18, na nota de roda pé, diz que: “É uma prova da universalidade do pecado. 1) O pecado no caráter humano (vv 10- 12. 2) O pecado na conduta humana (vv 13- 17): a) em palavra (vv 13, 14); b) em ação (vv 15- 17). A Fonte do Pecado (v 18)”.

A prova da universalidade do pecado não esta no caráter e na na conduta dos homens. Tal prova encontra-se na morte que é comum a todos os homens “Pelo que, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” ( Rm 5:12 ). A fonte do pecado não está descrito no versículo dezoito, antes a origem do pecado é o diabo, e o pecado foi introduzido no mundo dos homens quando da queda em Adão.

O caráter e a conduta (palavra e ação) perniciosa do homem no pecado apenas decorre do fato de terem ‘conhecido a Deus’, e contudo, não se ‘importaram de ter conhecimento d’Ele’, e foram entregues ao sentimento pervertido, as paixões infames, e a concupiscência de seus corações ( Rm 1:21 -32).

 

13 A sua garganta é um sepulcro aberto; Com as suas línguas tratam enganosamente; Peçonha de áspides está debaixo de seus lábios; 14 Cuja boca está cheia de maldição e amargura.

Leia o salmo cinco e o salmo cento e quarenta antes de prosseguir no estudo.

O apóstolo mescla várias citações das Escrituras, observe:

“A sua garganta é um sepulcro aberto” ( Sl 5:9 b);
“Com as suas línguas tratam enganosamente; Peçonha de áspides está debaixo de seus lábios” ( Sl 140:3 ).

O versículo quatorze é igual ao versículo dez, constitui-se em uma conclusão de Paulo com base nas Escrituras, e não é uma citação ‘ipsis literis’ como o versículos treze “Cuja boca está cheia de maldição e amargura”.

Por que a garganta dos homens é um sepulcro aberto? Porque, quando falam, expõe a podridão do pecado que compromete os seus corações. É por isso que precisam da circuncisão de Cristo, onde o coração enganoso é substituído por um novo coração.

Paulo não está tratando de questões morais ou comportamentais, como a mentira e o engano. Estes versículos não se referem aos comportamentos descritos em Romanos 1, versos 29 a 31. Estes versículos fazem referencia à natureza perniciosa do homem separado de Deus.

15 Os seus pés são ligeiros para derramar sangue. 16 Em seus caminhos há destruição e miséria; 17 E não conheceram o caminho da paz. 18 Não há temor de Deus diante de seus olhos.

Leia Isaias cinqüenta e nove, antes de prosseguir no estudo.

Isaias não estava a protestar aqui os crimes de sangue, embora eles são reprováveis diante de Deus.

O texto de Isaias fala da natureza decaída do homem e o que ela pode produzir. Só é possível entender na plenitude o texto de Isaias quando se está de posse da compreensão da figura da árvore: “Ou fazei a árvore boa e o seu fruto bom, ou fazei a árvore má o seus fruto mau, pois pelo fruto se conhece a árvore” ( Mt 12:33 ).

Como todos os homens estão debaixo do pecado (v. 9), ao citar Isaias, Paulo demonstra que todos os homens estão em igual condição quando não estão em Cristo: possuem pés ligeiros para derramar sangue inocente; os caminhos de todos levam a destruição e miséria.

Como os homens percorrem o caminho da destruição, eles não conhecem caminho da paz, ou seja, o caminho que estabelece a reconciliação entre Deus e os homens, que é a graça de Deus por intermédio de Cristo. O homem segue o que há diante dos seus olhos, por isso não seguem o princípio da sabedoria que é Cristo (v. 18).

 

Justificação

“… aquele que está morto está justificado do pecado” Rm 6: 7.

O Dr. Bancroft ao escrever sobre a justificação, registrou o seguinte: “O método é divino e não humano. O homem só pode justificar o inocente; Deus justifica o culpado; o homem justifica à base do mérito; Deus justifica à base da misericórdia (…) Se o homem tivesse de ser justificado nesta base, seu caráter moral teria de ser perfeito; mas ninguém é perfeito. ‘Não há homem que não peque.’ ‘Não há salvação por meio do caráter. O que os homens necessitam e ser salvos de seu caráter.’ “ Emery H. Bancroft, Teologia Elementar, Ed. EBR, ed. 2001, Pág. 256, III. (grifo nosso).

A bíblia é clara ao dizer que Deus não tem o culpado por inocente “Que guarda a beneficência em milhares; que perdoa a iniqüidade, e a transgressão e o pecado; que ao culpado não tem por inocente; que visita a iniqüidade dos pais sobre os filhos e sobre os filhos dos filhos até à terceira e quarta geração” ( Ex 34:7 ). Daí surge a pergunta: É possível Deus justificar o culpado sem contrariar a sua própria palavra? É pertinente a colocação de Bancroft? “… não justificarei o ímpio” ( Ex 23:7 ).

Jesus disse que é necessário ao homem nascer de novo e não fez qualquer referência a elementos humanos como caráter, moral e comportamento. O homem é salvo (resgatado) do pecado (vã maneira de viver), ou de seu caráter? Ao termino desta introdução você será capaz de determinar qual a base da justificação em Cristo.

Como se dá a justificação em Cristo?

Para desfazerem a aparente contradição que há em um Deus justo que justifica o homem pecador, alguns pensadores pensam a justificação como um ato de clemência de Deus, no qual Ele inocenta um culpado (pecador).

Outros, tem na justificação um ato de juiz, onde Deus trata o pecador injusto como se fosse justo, porém, a pessoa não é realmente justa. Neste diapasão Scofield diz: “O pecador crente é justificado, isto é, tratado como justo por causa de Cristo (…) A justificação é um ato de reconhecimento divino e não significa tornar uma pessoa justa” C. I. Scofield, A bíblia de Scofield com referências, nota à ( Rm 3:28 ). (grifo nosso).

Outros apresentam o amor de Deus como base à justificação. Outros, tem na justificação um ato de Pai, que não leva em conta os erros dos filhos. Para outros, a justificação é um ato de anistia. Outros, que a justificação decorre da soberania de Deus.

Afinal, qual é a base para a justificação para que não haja uma contradição em Deus ser Justo e Justificador daqueles que crêem em Cristo?

O humanidade foi declarada culpada em Adão ( Rm 5:19 ). Em Adão todos os homem tornaram-se pecadores e foram destituídos da glória de Deus ( Rm 3:23 ). A salvação de Deus por intermédio de Cristo visa salvar (resgatar) o homem desta condenação ( Rm 5:18 b), e conduzi-los para o reino do Filho do seu amor ( Cl 1:13 ).

Jesus ao falar da salvação disse a Nicodemos: “Em verdade, em verdade te digo que quem não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” Jo 3: 3. Este versículo demonstra que o empecilho à entrada do homem no reino dos céus encontra-se no seu nascimento. Se é necessário um novo nascimento, o antigo nascimento é a causa da impossibilidade do homem ter acesso a Deus. Todos os homens tornaram-se filhos da ira e da desobediência por serem descendentes de Adão.

A parábola das duas portas e dos dois caminho ( Mt 7:13 -14), e a figura dos vasos para honra e desonra ilustram esta realidade ( Rm 9:21 ). O acesso à porta larga e ao caminho que conduz a perdição decorre do nascimento em Adão, e o acesso à porta estreita, e ao caminho que conduz a vida, é o novo nascimento. Da mesma forma, os vasos para desonra são criados em Adão Rm 9: 22, e os vasos para honra são criados em Cristo ( Rm 9:23 ).

Para reverter esta impossibilidade aos filhos de Adão, Jesus demonstra por meio do evangelho a necessidade do novo nascimento, onde aqueles que crêem em Cristo são de novo gerados, de semente incorruptível, que é a palavra de Deus ( 1Pe 1:3 e 23).

A condenação se deu em Adão, e a salvação se dá em Cristo, por intermédio do lavar regenerador. Aqueles que crêem são gerados de novo, para uma viva esperança pela ressurreição de Cristo.

Os nascido de Adão foram declarados culpados e pesa sobre eles a condenação. Os nascidos de novo são justificados, ou seja, após serem criados em verdadeira justiça e santidade, a nova criatura, ou o novo homem por ser JUSTO é declarado justo por Deus.

É certo que o homem é declarado culpado por Deus por causa de uma condição adquirida em Adão. Por que Deus declararia o homem justo, se esta não é a sua real condição? Se a condenação do passado afetou toda a humanidade, por que a justiça de Cristo não é efetiva hoje?

Desta análise decorre que a justificação não é um ato de juiz, não é um ato de Pai e também não é uma ato judicial. Ou seja, a justificação decorre de um ato criativo da parte de Deus.

  • Deus jamais declarará o ímpio inocente ( Ex 23:7 ).
  • O pecador jamais será tido por inocente ( Nm 14:18 ), visto que, ‘a alma que pecar esta mesmo morrerá ( Ez 18:4 ).
  • A pena não pode passar da pessoa do transgressor ( Dt 25:1 ).
  • Outra pessoa não pode sofrer a pena no lugar do transgressor ( Ez 18:4 ).

Os princípios que constam da lei são todos levados em conta quando da justificação do homem, sem contradição alguma. Ao justificar o homem que crê em Cristo, Deus é justo e a sua declaração de justo não é direcionada a um ímpio tido por inocente.

O homem sem Cristo está morto em delitos e em pecados ( Ef 2:1 ). A condição de morto decorre da queda em Adão, porém, aquele que está morto para Deus vive para o mundo.

A bíblia nos informa que Cristo, enviado ao mundo, é o único acesso dos homens a Deus. Ele é o novo e vivo caminho consagrado em sua carne ( Hb 10:20 ). Cristo morreu pelos injustos, ou seja, a morte dele foi a favor dos injustos. Todos quantos crêem no sacrifício de Cristo tornam-se participantes de sua morte, e efetivamente morrem juntamente com Ele ( Rm 6:6 -7), e passaram a viver para Deus ( Ef 2:5 ).

Quando o velho homem, a velha natureza é crucificada com Cristo, cumpre-se o que determina a lei: o pecador não será tido por inocente; a alma que pecar, esta mesma morrerá, e; a pena não passa do transgressor. Ao unir-se com Cristo na sua morte, o homem deixa de viver para o mundo, e é justificado do pecado Rm 6: 6, e declarado justo por Deus ( Rm 5:1 ).

Sabemos que o nosso velho homem, a velha natureza herdada em Adão, foi crucificada em Cristo Rm 6: 6. O corpo do pecado foi desfeito por meio da nossa união à morte de Cristo, e não mais servimos ao pecado ( Rm 6:18 ). Fomos plantados juntamente com Cristo, na semelhança da sua morte ( Rm 6:5 ). Através da comunhão com Cristo tornamos participante da sua morte, e de fato morremos com Cristo ( Cl 3:3 ). Recebemos a circuncisão de Cristo, que é o despojar (desfazer) do corpo da carne herdada em Adão ( Cl 2:11 ).

Quando o homem aceita a Cristo, ele é convidado a tomar a sua própria cruz, e seguir após Cristo ( Mt 16:24 ). Ao seguir após Cristo, a lei de Deus é estabelecida: o ímpio, o pecador, o injusto recebe a pena determinada: a morte. Há o despojar do corpo da carne. A natureza condenada de Adão juntamente com o corpo que pertencia ao pecado é sepultada.

Após a união com Cristo na sua morte, dá-se o milagre da regeneração e justificação. Este é conseqüência daquele, e após a regeneração, se dá a justificação. Como?

Após tornar-se participante do corpo e do sangue de Cristo ( Jo 6:54 -56), o velho homem é sepultado a semelhança de Cristo (o batismo representa esta verdade), e ressurge um novo homem, criado segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ).

Este novo homem vem a existência por intermédio de Cristo. É uma nova criatura em Cristo. Quando o homem regenerado surge dentre os mortos ( Ef 2:1 ), ele é declarado justo, pois esta é a sua nova condição perante Deus.

Deus é luz, e nele não há trevas nenhuma. Deus é a verdade, e jamais haveria de declarar como sendo justo, alguém que não é efetivamente justo. Deus não representaria uma farsa diante dos homens, tratando os injustos como justos, sem que tais homens sejam de fato justos.

A declaração de Deus é taxativa: “Eis que faço nova todas as coisas” ( Ap 21:5 ). Como Cristo morreu por todos os homens, logo, todos os que aceitam o seu sacrifício morreram ( 2Co 5:14 ). Deixamos de viver para o mundo e passamos a viver para Deus ( 2Co 5:15 ). A nova vida em Cristo dá ao homem uma nova condição diante de Deus e dos homens: passamos a condição de nova criatura. Somos criados à imagem daquele que nos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz. Deixamos a condição de filhos das trevas, e passamos a condição de filhos de Deus.

As coisas do velho homem, como a condenação, a ira, a carne, o pecado, todas elas já passaram, e em Cristo, eis que tudo se fez novo. Cristo se fez pecado para que sejamos feitos, ou seja, criados justiça de Deus “Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” ( 2Co 5:21 ) (grifo nosso). A justificação tem a sua base em um ato criativo de Deus, onde ele faz surgir um novo homem, que é declarado justo por ser verdadeiramente justo.

As palavras traduzidas por ‘justificar’ e justificação’ significam, segundo a idéia bíblia ‘declarar justo’, ‘declarar reto’ ou ‘isento de culpa ou castigo’, condição esta possível após o homem ser gerado de novo, por intermédio de semente incorruptível ( 1Pe 1:3 e 23).

Deus declara justo somente aquele que é efetivamente justo, condição esta que se dá por meio da filiação divina ( Jo 1:12 ). Todos quantos creem em Cristo, recebem poder para serem feitos, ou seja, criados filhos de Deus. Estes são de novo criados, não segundo a semente de Adão, mas através da palavra e do Espírito ( Jo 3:5 ), conforme o prometido nas Escrituras “Então espargirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei. E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis” ( Ez 36:25 -27 ).

A justificação se dá por intermédio da Palavra de Deus, uma vez que é Ele quem fez espargir água pura sobre os homens. Através da palavra, o homem fica limpo e purificado. Por que? Como?

Ao homem é dado um coração novo e um espírito novo (Regeneração), conforme Jesus disse a Nicodemos, necessário vos é nascer da água e do Espírito. Após o homem nascer de Deus (Espírito) e da sua Palavra, será declarado justo, conforme predisse o salmista Davi: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto” ( Sl 51:10 ).

Como apagar as transgressões dos homens? Como torná-los puros e limpos? Como resgatá-los da condenação de Adão? ( Sl 51:5 e 7 e 10). Somente após a morte da velha natureza e por intermédio de uma nova Criação. Esta condição só é possível após a circuncisão do coração!

Sabemos que qualquer incisão no coração é morte. Após a circuncisão não realizada por mãos humanas, o homem é agraciado com um novo coração e um espírito reto.

Após entendermos como se dá a justificação em Cristo, percebe-se que não há contradição alguma em Deus ser Justo e Justificador. Percebe-se que a justificação não é um ato judicial ou forense. Percebe-se que Deus não tem o culpado por inocente. Estamos alegres em saber que Deus cria (torna) o homem justo e o declara justo. O crente é declarado justo, porque é justo em Cristo Jesus.

O homem precisa ser salvo da condenação do pecado para que possa receber a declaração de justo da parte de Deus. Deus exerce misericórdia, mas isto não que dizer que ele receba o culpado como se fosse inocente. Deus só justifica o inocente, aquele que de novo é nascido, sem levar em conta méritos, caráter, moral, conduta, etc. Amém.

 

Capítulo III

19 Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus.

Paulo demonstra que os destinatários detinham um conhecimento comum “Ora, nós sabemos que…”. Os cristãos sabiam que a lei só teria serventia àqueles que tem um vinculo com ela. Tudo que há expresso na lei, foi dito aos judeus (aos que estão debaixo da lei), e isto os destinatários de Paulo sabiam. Porém, o restante da declaração de Paulo provavelmente não era de conhecimento de todos, uma vez que o apóstolo aponta a finalidade da lei: fechar a boca dos judeus.

A lei fecha a boca aos judeus por ser impossível justificar-se por intermédio das obras da lei. Isto por dois motivos:

a) a lei é espiritual, e o homem é carnal, e;
b) se o homem guardar a lei e tropeçar em um único quesito, tornou-se culpável. Não há como gloriar-se com a boca fechada.

A lei, que muitos entendiam que elevava os judeus a uma condição superior, somente deixou todos os homens em igual condição: condenáveis diante de Deus.

20 Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado.

Se a lei deixa todos os homens condenáveis diante de Deus, resta concluir que as obras decorrente da lei não justificará o homem. Se alguém ainda fazia distinção entre os homens, Paulo enfatiza que todos são carne, e nenhuma carne será justificada pelas obras da lei.

Todos que se deparam com a lei, somente chegam a conclusão de que são pecadores. Por ela vem o conhecimento do pecado, ou seja, o homem toma ciência de uma condição que desconhecia.

21 Mas agora se manifestou sem a lei a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas;

A exposição do apóstolo Paulo retorna a idéia demonstrada nos versículos dezesseis e dezessete do capítulo um.

A justiça de Deus é manifesta sem qualquer dos elementos pertinentes à lei. Paulo especifica o tempo em que a justiça de Deus se manifestou aos homens: agora. A autenticidade do que foi manifesto é demonstrado por intermédio da lei que os judeus não conseguiram cumprir, e dos profetas que eles perseguiram ( At 7:52 ).

22 Isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos e sobre todos os que crêem; porque não há diferença.

A justiça que os judeus reputavam ter alcançado por intermédio da lei, Paulo demonstra que ela é alcançada pela fé em Cristo; a justiça de Deus é destinada (para) a todos quantos crerem. Todos quantos creem já foram agraciados com a justiça, visto que ela é ‘sobre’ quem crê.

Como a justiça de Deus é para todos, e sobre todos os que creem, isto demonstra que a justiça de Deus é efetiva na vida do cristão hoje (agora).

Observe a diferença no tempo verbal da palavra ‘manifestar’ nos versículos 21 deste capítulo, e os versículo 18 e 19 do capítulo um. O versículo 21 demonstra que agora se ‘manifestou’ a justiça de Deus para os que creem, e esta justiça manifesta livra o homem do juízo que se deu em Adão. Já os versículos 18 e 19 do capítulo um, fazem referência à manifestação da ira, e esta contempla a impiedade e injustiça dos homens (que detém a verdade em injustiça) que foram condenados em Adão.

Quando Paulo reitera que ‘não há diferença’, demonstra que a palavra ‘todo’ da frase anterior engloba a idéia de que tanto judeus quanto gregos são justificados por meio da fé.

23 Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus;

Como todos pecaram, a justificação é destinada a todos quantos creem. Judeus e gentios pecaram, e ambos foram destituídos da glória de Deus. Este versículo reforça a idéia de que a justificação por meio da fé contempla todos os homens, ‘porque não há diferença’.

Ao apresentar o motivo pelo qual a graça de Deus destina-se a todos os homens que creem, o apóstolo Paulo acaba por deixar um alerta implícito: todos os homens pecaram, e todos os homens estão destituídos (privado, demitido) da glória de Deus.

Quando, onde, como e por quê todos os homens pecaram? Observe que Paulo não apresentou nenhuma conduta específica dos homens que os deixou na condição de pecadores. Esta declaração de Paulo (todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus) é muito importante e auxilia na definição do que é pecado e como se dá a justificação.

 

24 Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus.

Todos os homens que pecaram e que foram destituídos da glória de Deus, através da redenção que há em Cristo, são justificados (declarados justos) pela graça de Deus (sem qualquer ônus).

Quando justificado pela graça que há em Deus pela redenção que há em Cristo, a condição do homem que foi apresentado no versículo vinte e três é plenamente desfeita.

Todos os homens foram declarados culpados por nascerem de Adão “o que é nascido da carne, é carne…” ( Jo 3:6 ), ou seja, todos são pecadores e destituídos estão da glória de Deus (v. 24).

Agora, quando os declarados culpados em Adão, creem em Cristo, estes nascem de novo, e esta nova criatura, criada em Deus é declarada justa diante d’Ele. Este novo homem passa a ser participante da glória de Deus (por ser participante da natureza divina decorrente da filiação), e deixa a condição de pecado (condenado).

Em linhas gerais, redenção é valor pago que concede uma nova condição ao homem agraciado.

25 Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus;

O ‘valor pago’ por Cristo (a medida exata do que é exigido por Deus Justo e Santo), é o que expia, ou propicia a extinção do pecado que pesa sobre o homem. Ou seja, Cristo, a redenção, foi proposto por ser ‘a oferta que visa a expiação’ dos pecados daqueles que pela fé torna-se participantes de Cristo.

A redenção e a propiciação estão intimamente ligadas. Enquanto esta diz do que é suficiente para a expiação, ou abolição dos pecados, aquela diz do valor estipulado para o homem ser livre da condenação em Adão.

Cristo foi proposto por Deus para:

a) demonstrar a sua justiça, e;
b) demonstrar a sua justiça neste tempo presente.

Demonstrar: ‘provar mediante raciocínio concludente; comprovar; mostrar; evidenciar; dar a conhecer; revelar-se, etc’.

A remissão (liberdade) dos pecados é uma mostra, uma evidência, da justiça de Deus. Somente a justiça de Deus em Cristo pode dar liberdade ao homem ao expiar os seus pecados.

A justiça de Deus livra o homem da condenação em Adão e do julgamento de obras no tribunal do Trono Branco, ou seja, pecados. É por isso que Paulo diz que ‘nenhuma’ condenação há para os que estão em Cristo. A palavra ‘nenhuma’ deixa subtendido que pesa mais que uma condenação sobre os homens sem Cristo.

26 Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus.

Cristo é uma evidência da justiça de Deus neste ‘tempo presente’. Para o agora ( Rm 8:1 )!

A justiça evidenciada em Cristo ao libertar o homem do pecado é porque Deus é justo e justificador dos que crêem em Cristo. Como conciliar os atributos justo e justificador? Deus não pode tomar o culpado por inocente ( Ex 34:7 ).

27 Onde está logo a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé. 28 Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei.

A atitude presunçosa dos judeus acaba por ser excluída diante da regra da fé, pois todos os homens somente são justificados pela fé em Cristo. Todos são pecadores; todos são culpáveis, mas a justiça mediante a fé é sobre todos, sem exceção.

A conclusão de Paulo para os cristãos em Roma é: o homem, não importa quem ele seja, é justificado pela fé, sem as obras estipuladas pela lei.

29 É porventura Deus somente dos judeus? E não o é também dos gentios? Também dos gentios, certamente,

Sem esquecermos da pergunta: “Qual é pois a vantagem do judeu?” ( Rm 3:1 ), Paulo reitera: “É porventura Deus somente dos judeus?” (v. 29). Embora a palavra de Deus tenha sido confiada aos judeus, quanto à questão da salvação, eles não obtiveram vantagem alguma. Primeiro, porque Deus não faz acepção de pessoas, e segundo, a salvação sempre foi por meio da fé em todos os tempos.

Mesmo após a entrega da lei, Moisés anunciava: “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração…” ( Dt 10:16 ), circuncisão esta, que somente é obtida por meio da fé em Deus.

Qualquer presunção de superioridade é desfeita ao analisar a pergunta: “É porventura Deus somente dos Judeus?”. Qualquer resposta em contrário, seria o mesmo que desmentir a lei e os profetas: “DO SENHOR é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam” ( Sl 24:1 ).

30 Visto que Deus é um só, que justifica pela fé a circuncisão, e por meio da fé a incircuncisão.

Quando Deus estabeleceu a fé como único elemento de se ter acesso à sua justiça, a lei é cumprida. Deus é um só que justifica a todos (judeus e gentios) que creem em Cristo.

É neste diapasão que Cristo afirmou: “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir” ( Mt 5:17 ).

O que Deus disse? “…em ti serão benditas todas as famílias da terra” ( Gn 12:3 ).

O que os profetas anunciaram? “Assim diz o Senhor DEUS: Eis que levantarei a minha mão para os gentios, e ante os povos arvorarei a minha bandeira…” ( Is 49:22 ).

O que a lei instituiu? “Regozijai-vos, ó gentios, com o seu povo…” ( Dt 22:43 ).

Por meio da fé cumpre-se o que foi dito por intermédio da lei e dos profetas. É Deus quem justifica gregos e judeus pela fé em Cristo!

Os lideres religiosos e muitos do povo à época de Cristo pensavam na lei e nos profetas como sendo ‘regras sobre regras’, e muitos ainda hoje pensam que Cristo, ao ter anunciado que veio cumprir a lei e os profetas, estava fazendo referência aos ritos e cerimoniais presentes na lei mosaica. É certo que Cristo, como judeu, cumpriu com os cerimoniais da lei, porém, vale salientar que: ele não revogou (anulou) a lei ou os profetas, antes os cumpriu (estabeleceu), ao destruir a parede de separação, a barreira de inimizade, ao reconciliar ambos (judeus e gentios) em um só corpo ( Ef 2:13 -18).

Cristo cumpriu a lei e o profetas ao evangelizar a paz “a vós que estáveis longe, e aos que estavam perto”, e por Cristo ambos (judeus e gentios) obtiveram acesso ao Pai em um mesmo Espírito, por meio da fé.

“Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe, a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar” ( At 2:39 ).

31 Anulamos, pois, a lei pela fé? De maneira nenhuma, antes estabelecemos a lei.

Como o evangelho de Cristo confirma a lei? Um dos princípios da lei é a não acepção de pessoas, e a fé é o elemento que viabiliza a gregos e judeus o acesso à justiça de Deus.

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Romanos 2 – Os que ouvem a lei não são justos diante de Deus

Há um dia predeterminado para a ira de Deus “Pois é vindo o grande dia da ira deles, e quem poderá subsistir?” ( Ap 6:17 ). Neste dia os homens conhecerão (saber acerca de, entender, compreender) o juízo de Deus. O juízo de Deus foi estabelecido lá em Adão, mas os homens ignoram esta verdade. Quando do dia da ira será manifesto a eles que estão debaixo de condenação. Por serem filhos de Adão, ou filhos da desobediência, por conseguintes, também são filhos da ira ( Cl 3:6 ); “E éramos por natureza filhos da ira, como também os demais” ( Ef 2:3 ).


Lógica

Antes de prosseguirmos, segue mais uma lição de interpretação bíblica. Utilizaremos nesta lição uma linguagem própria à lógica.

Conforme escreveu o apóstolo João, sabemos que: ‘Deus é luz’, e que: ‘não há nele trevas alguma’ ( 1Jo 1:5 ).

Considerando os elementos da lógica, a primeira oração é uma proposição simples declarativa: Deus é luz. Há valores lógicos às proposições: verdadeiro e falso. Conforme a ideia bíblica, temos que a proposição ‘Deus é luz’ tem o valor lógico verdadeiro.

Dentro da lógica há três princípios:

a) Princípio da identidade – se qualquer proposição é verdadeira, então, ela é verdadeira;
b) Princípio de não-contradição – nenhuma proposição pode ser verdadeira e falsa;
c) Princípio do terceiro excluído – uma proposição ou é verdadeira ou é falsa.

A proposição ‘Deus é luz’ é verdadeira, e por conseqüência não é falsa. Jamais esta proposição assumirá dois valores simultaneamente.

Dada uma proposição qualquer, se inserirmos o conectivo ‘não’, poderá formar a sua própria negação. Ex: ‘Deus não é luz’ – proposição simples declarativa com valor lógico falso.

A segunda oração ‘não há em Deus trevas alguma’, apesar de ter o conectivo ‘não’ tem o valor lógico verdadeiro, visto que reafirma a ideia da proposição ‘Deus é luz’.

As cartas bíblicas foram escritas essencialmente na linguagem lógica, sendo que definições e conceitos quase não são utilizados.

Definir: determinar a extensão ou os limites de; explicar o significado de; fixar, estabelecer; etc;
Conceituar: formulação de uma ideia por palavras, definição.

Já estudamos o seguinte versículo: “Do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda impiedade e injustiça dos homens que detêm a verdade pela injustiça” ( Rm 1:18 ). Considerando que este versículo é uma proposição simples declarativa e verdadeira quanto ao valor lógico, é plenamente possível construímos uma nova proposição se substituirmos alguns elementos.

Da mesma forma que ‘do céu se manifesta a ira de Deus’, é certo que de lá também se manifesta a bondade de Deus. Como a bondade de Deus é certa, restam as perguntas: sobre quem a bondade se manifesta?

Durante o estudo do segundo capítulo da carta aos Romanos aplicaremos os elementos que apresentamos acima.

 

Romanos – Capítulo II

1 PORTANTO, és inescusável quando julgas, ó homem, quem quer que sejas, porque te condenas a ti mesmo naquilo em que julgas a outro; pois tu, que julgas, fazes o mesmo.

O capítulo dois tem início com uma conjunção (portanto), o que indica uma relação de conclusão ao que foi dito anteriormente.

O que foi dito anteriormente (no capitulo 1)? Foi dito que:

a) Os homens que detém a verdade em injustiça são objetos da ira de Deus ( Rm 1:18 );
b) A natureza depõe contra os homens que detém a verdade em injustiça, deixando-os inescusáveis ( Rm 1:20 );
c) Há homens que detém a verdade em injustiça, e que, mesmo reconhecendo a existência de Deus, seus raciocínios tornarem-se fúteis e os corações insensatos se obscureceram, e criaram deuses para si ( Rm 1:21 ), e;
d) Há homens que detém a verdade em injustiça e que foram entregues às suas concupiscências ( Rm 1:24 ), as suas paixões infames ( Rm 1:26 e a uma disposição mental reprovável ( Rm 1:28 ), e passaram a praticar todos os tipos de ações reprováveis diante de Deus e dos homens ( Rm 1:29 -31).

O homem que Paulo evoca neste versículo “ó homem”, refere-se ao mesmo homem que ‘detém a verdade em injustiça’ do capitulo anterior ( Rm 1:18 ). Por que refere-se ao mesmo homem do capítulo anterior? Ao lermos o versículo “Ora, conhecendo eles a sentença de Deus, de que são passíveis de morte os que tais cousas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que assim procedem” ( Rm 1:32 ), percebe-se que as conjunções ‘ora’ e ‘portanto’ são empregadas indicando uma relação de conclusão em relação ao que foi dito anteriormente.

Neste caso em específico, a conjunção ‘ora’ ou ‘portanto’ introduz uma conclusão. O versículo trinta e dois, do capítulo um, demonstra que, embora os homens que detêm a verdade em injustiça, conhecendo a justiça de Deus (de que são dignos de morte quem pratica as ações enumeradas anteriormente), praticam as ações reprováveis e consentem com quem as praticam. Com base nestas informações, qualquer que seja o homem, mesmo que ele se sinta em posição privilegiada por julgar outros homens, ele permanece inescusável diante de Deus.

Seja quem for o homem (a fala de Paulo é para pegar os judeus), se ele detém a verdade em injustiça, ele está na mesma condição de quem ele julga, e pratica o que ele mesmo condena.

Neste versículo o apóstolo Paulo desfaz toda e qualquer diferença entre os homens. Este versículo e o último do capítulo anterior são inseparáveis quando se faz uma interpretação.

 

2 E bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade sobre os que tais coisas fazem.

Paulo reitera que os cristãos estão cônscios de que o juízo de Deus é segundo a verdade. Observe que ele enfatiza: “Bem sabemos…”. A verdade da qual o apostolo faz referência é a verdade do evangelho.

Através desta afirmativa, o apóstolo Paulo demonstra que os cristãos não julgam aqueles que estão fora da verdade, porém, é de conhecimento que o juízo de Deus é certo sobre quem pratica as ações descritas no capítulo primeiro, versos 29 a 31.

O conhecimento que o cristão dispõe é segundo a verdade do evangelho, enquanto que o ‘conhecimento’ dos homens que detêm a verdade em injustiça é proveniente da lei escrita em seus corações, ou da consciência ( Rm 2:15 ).

3 E tu, ó homem, que julgas os que fazem tais coisas, cuidas que, fazendo-as tu, escaparás ao juízo de Deus?

Paulo volta a questionar o ‘homem’ que detém a verdade em injustiça, e aponta o seu comportamento questionável: basta julgar aqueles que fazem as coisa descritas anteriormente para se ver livre do juízo de Deus?

Observe que o juízo segundo a verdade já está estabelecido e as atitudes dos homens visam escapar a tal juízo. O escritor ao Hebreus é claro: “Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação, a qual, começando a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram” ( Hb 2:3 ).

Note que há uma diferença entre ser inescusável e escapar ao juízo de Deus. Este refere-se a condenação adquirida em Adão, enquanto aquele refere-se ao comportamento reprovável dos que foram condenados em Adão. O juízo de Deus é uma condição muito mais dura diante de Deus, pois afeta a natureza do homem. Do juízo de Deus surgiu a semente corruptível de Adão. Tal semente faz com que os frutos dos homens nascidos de Adão sejam maus ( Jo 3:19 -20). A árvore que tem origem na semente de Adão só produz o mal, visto que uma árvore não pode produzir dois tipos de frutos ( Mt 7:17 ).

4 Ou desprezas tu as riquezas da sua benignidade, e paciência e longanimidade, ignorando que a benignidade de Deus te leva ao arrependimento?

O versículo quatro depende do versículo três. No versículo três Paulo questiona a atitude do homem que pensa ser possível praticar as coisas reprováveis descritas anteriormente e escapar ao juízo de Deus. O homem que julga os que praticam as coisas reprováveis, ou pensa é possível escapar ao juízo de Deus, ou evidencia uma atitude mais grave ainda: desprezar a benignidade de Deus.

Paulo demonstra não entender a atitude daqueles que detêm a verdade em injustiça. Ou tal homem acha que é possível escapar ao juízo de Deus estabelecido lá em Adão, ou é uma atitude de desprezo a benignidade, paciência e longanimidade de Deus.

O desprezo à benignidade de Deus é por incredulidade, visto que, é a benignidade que leva o homem a arrepender-se de suas concepções errôneas.

 

Uma Figura Importante

Antes de perseguirmos no estudo faz-se necessário entendermos a seguinte colocação de Jesus:

“Entrai pela porta estreita. Pois larga e a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela. Mas estreita é a porta, e apertado o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que a encontram” ( Mt 7:13 -14).

Jesus demonstra que há duas portas e dois caminhos. Há uma porta estreita e há uma porta larga. Há um caminho apertado e um caminho espaçoso.

O texto demonstra duas diferenças gritantes entre os dois caminhos e as duas portas, eles conduzem: a vida, ou a perdição.

O leitor deve perceber que há uma ordem clara: “Entrai pela porta estreita”, ou seja, Cristo alerta os seus ouvintes para que entrem pela porta estreita. É um convite que demanda uma decisão por parte de quem ouve. Para ter acesso a vida é preciso entrar pela porta sugerida por Cristo.

Por que é necessário entrar pela porta estreita? Jesus explica: porque ‘larga e a porta’, e ‘espaçoso é o caminho que conduz à perdição’. Através da explicação de Jesus, percebe-se que não é necessário ao homem tomar uma decisão para entrar na porta e percorrer o caminho que conduz a perdição. Por quê? O que isto quer dizer?

A explicação de Jesus demonstra implicitamente que todos os homens quando nascem, eles entram por uma porta larga; ou seja, a porta é larga que comporta todos quantos vêem ao mundo. O nascimento é a entrada por esta porta, e por isso não é necessário uma decisão de entrar por ela.

Todos os homens entraram por uma porta e percorrem um caminho que conduz a perdição. Para ter acesso ao caminho da vida, se faz necessário tomar a decisão de entrar pela porta estreita, e seguir o caminho apertado.

A figura das duas portas e dos dois caminhos são semelhantes à figura da árvore boa e da árvore má ( Mt 12:33 ); o bom tesouro e o mal tesouro ( Mt 12:35 ); as fontes de água doce e água amarga ( Tg 3:11 -12). Estas figuras são semelhantes quanto a idéia principal e cada uma apresenta um dos aspectos da salvação em Cristo.

A idéia principal destas figuras aponta para o evento da queda de Adão. Em Adão todos os homens foram julgados e condenados. A pena que pesa sobre a humanidade é a morte. Para Deus os homens nascidos de Adão estão mortos em delitos e pecados. A queda de Adão comprometeu a natureza do homem: Deus é vida, e a queda separou o homem de Deus. O homem perdeu a essência da natureza divina, deixando-o na condição de morto para Deus.

Todos os homens nascem sem ser participantes da natureza divina. A natureza do homem é segundo a natureza de Adão, visto que, nasceram da vontade da carne, da vontade do homem e do sangue ( Jo 1:13 ). Para o homem livrar-se da condenação que ocorreu em Adão, é preciso ao homem nascer de novo. Ele precisa nascer da vontade de Deus para tornar-se um dos filhos de Deus ( Jo 1:12 ).

Com base nestas informações, verifica-se que todos nascem sob condenação, e pesa sobre eles o juízo de Deus e por isso todos que vem ao mundo ‘são os que entram por ela’, a porta larga e o caminho espaçoso ( Mt 7:13 ). Todos entram pela porta ao nascer e no caminho que conduz à perdição, e esta figura evidência a necessidade do homem decidir-se pela oferta de salvação que há em Cristo.

Para entrar pela porta, que é Cristo, é necessário um novo nascimento. Observe que o nascimento é a ‘porta’ de entrada para a perdição eterna e para a vida eterna.

Todos descendem da semente de Adão (semente corruptível), e, portanto, são árvores más. Como pesa sobre eles a condenação de Adão, resta às árvores que tiveram origem na semente corruptível serem cortadas e lançadas no fogo. Como é próprio das árvores produzirem frutos segundo a sua espécie, as árvores que descendem da semente de Adão, só produzem frutos maus. Diferente da figura da porta e do caminho, a figura da árvore demonstra que é impossível aos homens nascidos de Adão produzirem o bem ( Mt 12:34 ).

Os corações dos homens nascidos sob a condenação de Adão são maus, e por mais que se esforcem, só pode tirar do coração o mau, do seu mau tesouro. Esta figura demonstra que o problema do homem pecador encontra-se em seu coração, na sua natureza. Para livrar-se desta condição é preciso circuncidá-lo por meio da circuncisão de Cristo.

Os homens nascidos de Adão têm uma vida restrita a este mundo. Vivem para si e para o pecado. Após aceitar a Cristo, o novo homem terá uma fonte de água viva que jorra para a vida eterna, passando a viver para Deus ( 2Co 5:15 ; Rm 14:7 ).

A figura da árvore demonstra que os homens permanecem na condição herdada em Adão: serão ‘cortados’ e lançados no inferno por pesar sobre eles o juízo de Deus ( Rm 2:3 ; Mt 3:10 ). Como uma árvore produz um único tipo de fruto, os frutos das árvores que surgiram da semente corruptível de Adão são maus, ou seja, segundo a espécie da árvore. Por mais que o homem nascido de Adão procure fazer o bem, isto é impossível, visto que as suas obras não foram feitas em Deus, e não foram preparadas por Deus.

Por produzirem o mal, o homem entesoura ira para si. A condenação em Adão decorre da retidão e justiça de Deus, sem qualquer referência a ira. Já que o homem se deixou levar pela natureza corrompida, à prática de toda impiedade e injustiça, Deus trará a juízo todas as ações dos homens, e com relação a isto, não há acepção de pessoas.

As ações dos nascidos de novo serão julgadas e recompensadas no tribunal de Cristo, e as ações do velho homem serão julgadas e recompensadas no grande trono branco.

Depois desta pequena introdução estamos aptos a interpretar os versículos seguintes.

5 Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus;

A ‘dureza’ refere-se a ação de resistir à verdade em injustiça, e o ‘coração impenitente’, refere-se à natureza pecaminosa herdada em Adão.

Todos os homens quando vêm ao mundo, nascem com um coração impenitente. No Antigo Testamento, mesmo após a entrega da lei, Moisés recomenda ao povo de Israel a circuncisão do coração “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz” ( Dt 10:16 ). Observe que a circuncisão do prepúcio do coração refere-se ao coração impenitente, e o endurecimento da cerviz à dureza do homem.

No Novo Testamento é recomendado a circuncisão de Cristo, no despojar do corpo da carne. A circuncisão do A. T equivale a circuncisão do N. T., visto que, qualquer incisão no coração levará a morte. A morte em Cristo é o despojar do corpo da carne “No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo” ( Cl 2:11 ).

A circuncisão de Cristo (N. T.), não é feita por mãos humanas, da mesma forma que a circuncisão do coração (A. T.), recomendada por Moisés;

A circuncisão de Cristo (N. T.), e a circuncisão do prepúcio do coração (A. T.), e pode ser realizado no homem e na mulher.

O homem que detém a verdade em injustiça, por manter-se insensível ao convite de salvação, simplesmente continua na empreitada de entesourar ira para si. Como compreender esta declaração de Paulo? Devemos ter em mente que:

a) Todos os homens estão condenados em Adão ( Rm 5:18 );
b) A condenação da humanidade em Adão decorre da justiça e retidão de Deus, sem qualquer referência a ira. Deus não se irou contra o homem quando da queda, antes fez justiça conforme a determinação dada a Adão ( Rm 3:23 );
c) A condenação afetou a natureza do homem, e todas as suas ações passaram a ser reprováveis diante de Deus ( Mt 12:34 );
d) Por não estarem em Deus, as ‘obras’ dos homens não são feitas em Deus, e por isso são reprováveis ( Jo 3:19 -21);
e) Todas as ações de todos os homens serão julgadas em juízo específico, e isso independe da condição de salvos ou perdidos ( Rm 2:11 );
f) Haverá o juízo do Trono Branco para os perdidos e o juízo do Tribunal de Cristo ( 2Co 5:10 e Ap 20:13 );
g) O homem que detém a verdade em injustiça continua na prática do mal, visto que as suas obras não são feitas em Deus e não foram preparadas por Deus ( Jo 3:21 e Ef 2:10 );
h) As obras más serão retribuídas por Deus com indignação e ira, e as obras feitas em Deus serão retribuídas com glória, honra e paz.

Há um dia predeterminado para a ira de Deus “Pois é vindo o grande dia da ira deles, e quem poderá subsistir?” ( Ap 6:17 ). Neste dia os homens conhecerão o juízo de Deus. O juízo de Deus foi estabelecido lá em Adão, mas os homens ignoram esta verdade. Quando do dia da ira será manifesto a eles que estão debaixo de condenação. Por serem filhos de Adão, ou filhos da desobediência, por conseguintes, também são filhos da ira ( Cl 3:6 ); “E éramos por natureza filhos da ira, como também os demais” ( Ef 2:3 ).

6 O qual recompensará cada um segundo as suas obras; a saber: 7 A vida eterna aos que, com perseverança em fazer bem, procuram glória, honra e incorrupção; 8 Mas a indignação e a ira aos que são contenciosos, desobedientes à verdade e obedientes à iniqüidade;

O qual recompensará cada um segundo as suas obras; a saber:

a) Dará vida eterna aos que, com perseverança em fazer bem, procuram glória, honra e incorrupção;
b) Mas a indignação e a ira aos que são contenciosos, desobedientes à verdade e obedientes à iniqüidade;

A vida eterna é prometida àqueles que procuram glória, honra e incorrupção, e não a quem faz boas ações, pois fazer boas ações não é fazer o bem. O homem só pode fazer o bem quando está em Cristo. Somente em Cristo o homem encontra glória, honra e incorrupção, e após encontrar estas bênçãos em Cristo, é preciso ao crente perseverar fazendo o bem. Boas ações não concederão vida eterna aos homens.

Em primeiro lugar é preciso ao homem buscar o reino de Deus e a sua justiça, que é Cristo; e como Deus há de recompensar a cada um segundo as suas obras, é de bom alvitre que se faça o bem. O bem que o cristão faz visa a recompensa futura, e não a salvação. A salvação só é possível através do evangelho de Cristo, que é poder de Deus.

Deus também recompensará as obras dos homens que detêm a verdade em injustiça. Observe que a ira e a indignação de Deus permanece sobre aqueles que são desobedientes à verdade. A indignação e a ira não decorre das más ações dos homens, antes decorre da desobediência à verdade e obediência à iniqüidade. Enquanto o homem for obediente à iniqüidade, jamais será filho de Deus. Permanecerá na condição de filho da ira e sujeito à ira de Deus.

O homem sem Cristo é desobediente à verdade, e acumula ira para si por ser faccioso, contencioso. As boas ações realizadas pelos homens obedientes à iniqüidade não será tido por Deus como sendo boas obras. Essas ações Isaias nomeia ‘trapos de imundície’.

9 Tribulação e angústia sobre toda a alma do homem que faz o mal; primeiramente do judeu e também do grego; 10 Glória, porém, e honra e paz a qualquer que pratica o bem; primeiramente ao judeu e também ao grego;

Paulo demonstra que não há qualquer diferença entre judeus e gentios. Tanto os judeus quanto os gentios praticam o mal diante de Deus caso sejam desobedientes à verdade do evangelho. Lembre que uma árvore má não produz frutos bons. A natureza corrompida do homem, que é obediente à iniqüidade, impede que o homem faça o bem.

Da mesma forma que o pecado escraviza judeus e gregos, também não há diferença entre judeu e grego quando se tornam escravos da justiça. Todos que aceitam a Cristo praticam o bem. Por terem adquirido um novo coração em Cristo tem um bom tesouro, e as suas ações são boas, pois são feitas estando em Deus.

Quem aceita a Cristo pode fazer o bem e o mal, mas suas ações não o levarão para o inferno, pois Deus já o recebeu por seu. Da mesma forma, os descrentes fazem o bem e o mal, mas para Deus as suas ações são más, pois eles não pertencem a Deus.

 

11 Porque, para com Deus, não há acepção de pessoas.

Se um judeu e um grego praticam o bem (devemos entender a prática do bem vinculado à crença em Cristo), não há distinção entre eles perante Deus. Ele recompensará a cada um segundo as suas obras, pois em Deus não há acepção de pessoas.

Se um judeu e um grego praticam o mal (a prática do mal decorre da obediência à iniquidade), para Deus não há acepção: receberão a recompensa devida: indignação e ira.

 

 

Introdução

Na página quatro estudamos alguns elementos de lógica, e na página cinco algumas questões doutrinárias. Agora veremos como aplicar elementos da lógica durante uma leitura bíblica para não nos afastarmos das questões doutrinárias.

Lemos em uma publicação evangélica, no tópico ‘Falsos profetas’, ao citarem Mateus dez, versículo dezesseis, o seguinte: “É possível ao homem de falso coração fazer certas coisas boas. Pode-se até receber edificação pela sua mensagem, porque Deus honra a sua Palavra. Mas a pregação não o salvará da sentença do Juiz: ‘Apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade!'” Pearlman, Myer, Mateus, o Evangelho do Grande Rei, 1. edição, Rj, Ed. CPAD, pág. 44.

Considerando que fazer ‘coisas boas’ é possível a todos os homens, mas fazer ‘o bem’, só é possível aos nascidos de novo, visto que ‘não há quem faça o bem’ sem estar ligado em Cristo Rm 3: 12. Considerando que aos homens é pertinente limparem o exterior do copo e do prato, mas que é impossível limparem o seu interior “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que limpais o exterior do copo e do prato, mas o interior está cheio de rapina e de iniqüidade” ( Mt 23:25 ), segue-se que, ao tentar explicar que “Há maldade nos melhores, e bondade nos piores” Pág 39, Myer não faz distinção entre ‘fazer coisas boas’ e ‘fazer o bem’, e acaba por afirmar que o homem de coração ‘falso’ faz ‘certas coisas boas’.

Aos falsos profetas é pertinente fazem boas ações, pois somente com ações exteriores é que eles se dão a conhecer como ovelhas, porém, o interior deles é comparado a lobos. As religiões que negam a Cristo como Senhor geralmente se esmera em praticar boas ações aos seus semelhantes, mas a mensagem que apregoam não aproxima o homem de Deus.

Fazer o bem não é uma questão de vontade, e sim de natureza. Não basta querer fazer o bem, antes é necessário obter uma nova natureza, segundo a semente incorruptível que é a palavra de Deus, para que se torne possível ao homem produzir o bem ( 1Pe 1:23 ). Somente aqueles que são nascidos de Deus fazem bem ( Jo 3:21 ). As boas obras foram preparadas por Deus para que os vivificados em Cristo possam andar nelas ( Ef 2:9 ).

Fazer boas ações está ligado a vontade do homem. Se ele quiser fará boas ações aos seus semelhantes, e isto não diz da disposição do seu coração. Agora, fazer o bem só é possível quando se está em Deus, pois é algo vinculado a natureza do novo homem e não à vontade, como é o caso de boas ações ( Jo 3:21 ).

É plenamente possível a um falso profeta fazer certas coisas boas, mas é impossível a eles fazerem o bem. Primeiramente porque a bíblia diz que ‘não há quem faça o bem’ ( Rm 3:12 ). Um falso profeta não pode fazer de modo algum o bem, pois eles não estão em Deus. Fazer ações humanitárias ou boas ações fará com que os homens acreditem que eles são ‘ovelhas’ ( 2Tm 4:1 -4).

Observe o que Jesus disse: “Não pode a árvore boa produzir maus frutos, nem a árvore má produzir frutos bons” ( Mt 7:18 ). Se é impossível a árvore má produzir bons frutos, como é possível ao homem de coração falso (coração falso remete a falso profeta), produzir ‘certas coisas boas’ quando Myer faz a citação acima? A análise de Pearlman não está em consonância com o que Jesus ensinou ( Mt 7:18 e Mt 12:33 -35). Se ele quis dizer ‘certas coisas boas’ não utilizou a citação de Mt 7: 18 em seu contexto correto. Da mesma forma, se ele utilizou ‘certas coisas boas’ em lugar de ‘fazer o bem’, contrariou o que Jesus disse: “…nem a árvore má produzir bons frutos” ( Mt 7:18 ).

A segunda declaração que complementa a primeira é muito mais grave: É possível receber edificação por meio da mensagem de um falso profeta?

A premissa que foi utilizada para dar sustentação à argumentação é verdadeira, pois ‘Deus honra a sua palavra’, e condiz com a idéia bíblica: “E disse-me o SENHOR: Viste bem; porque eu velo sobre a minha palavra para cumpri-la” ( Jr 1:12 ), mas, dizer que é possível receber edificação através das palavras de um falso profeta corresponde a uma inverdade.

Há um erro na argumentação do Sr. Myer, visto que:

a) Se Deus vela sobre a palavra de um ‘falso profeta’, este falso profeta já não é falso, e passou à condição de profeta;
b) O cuidado que a bíblia demonstra que devemos ter com os falsos profetas é com aquilo que dizem (doutrina) “E TAMBÉM houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição” ( 2Pe 2:1 );
c) Aspectos humanos como caráter, comportamento e moral não são fatores que determinam se alguém é ou não um falso profeta.

Não há como receber edificação por meio de uma mensagem de um falso profeta. Primeiro, porque a mensagem de um falso profeta não provém de Deus; segundo, a tal mensagem não é a semente incorruptível; o fruto que um falso profeta produz é segundo a sua natureza: é mal ( Mt 12:34 -35).

Elementos humanos como comportamento, moral, caráter, sacrifícios, orações, são utilizados pelos falsos profetas como vestimentas para se disfarçarem em ovelhas. Tais elementos são manipuláveis pelos homens, pois diz de aspectos externos, como o exterior do copo e dos sepulcros. O que não podem manipular é o interior, onde somente Deus tem acesso e pode mudar.

Paulo ao escrever a Timóteo alerta dizendo: “Mas o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos alguns apostatarão da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios, pela hipocrisia de homens que falam mentiras e tem cauterizada a própria consciência, que proíbem o casamento, e ordenam a abstinência de alimentos que Deus criou para os fiéis, e para os que conhecem a verdade, a fim de usarem deles com ações de graças…” ( 1Tm 4:1 -3).

Deus não honra a palavra de um falso profeta, pois a palavra de um falso profeta não é a palavra de Deus. A palavra é clara: Quem é que pratica a iniqüidade? Os falsos profetas, que se apresentam disfarçados de ovelhas, porém são lobos devoradores.

Somente é possível identificar os falsos profetas pelos seus frutos. Quais são os frutos de um falso profeta? O que um falso profeta produz? Mensagens que não têm origem em Deus! Este é o fruto dos falsos profetas: mensagens que não são conforme a verdade do evangelho!

Da mesma forma, o fruto de alguém que é profeta de Deus, é o fruto dos lábios, que professam que Cristo é o Filho de Deus ( Hb 13:15 ) compare ( 1Jo 4:1 -3).

A mensagem de Cristo visa transformar a natureza do homem, e a conduta é transformada gradativamente por intermédio do Espírito de Deus. A mensagem do evangelho não tem a finalidade de transformar concepção de mundo, caráter, conduta, etc. Se assim fosse, Paulo não pediria aos cristãos que vivessem de modo digno do evangelho de Cristo ( Ef 4:1 ).

Myer Pearlman também registrou um argumento de Agostinho: “O que faz com que o caminho seja estreito? perguntou Agostinho. Ele mesmo responde: ‘O caminho não é estreito por si mesmo, mas nós o fazemos assim, mediante o insuflar do nosso orgulho…” Pág. 42 (idem e grifo nosso).

A premissa “estreita é a porta, e apertado o caminho’ foi anunciada por Jesus. Esta premissa é verdadeira! Conforme Pearlman, Agostinho declara que ‘o caminho não é estreito’, o que torna a declaração de Agostinho uma premissa falsa. A premissa de Agostinho contraria completamente a idéia anunciada por Cristo.

Cristo disse ser o caminho e que o caminho é estreito. Quando se afirma que o caminho não é estreito por si mesmo, estamos negando que a declaração de Jesus seja verdade e que a sua natureza não é conforme o que foi dito por si mesmo.

A bíblia demonstra que o caminho é apertado, mas Agostinho argumenta que o caminho é ‘feito’ estreito. A bíblia demonstra que Jesus é o caminho, mas Agostinho declara que ‘nós o fazemos assim’. Observe que as alegações de Agostinho contrariam completamente as premissas bíblicas, pois o caminho é estreito, e não é o homem que o faz desta maneira. Cristo é o caminho, e não é pertinente aos homens determinar a largura do caminho.

Myer declara que Jesus disse que devemos optar por um dos caminhos “Cristo, no entanto, ensinou haver dois caminhos, que levam a direções opostas, e por um dos quais devemos optar” Pág. 40 (idem), mas o que diz a bíblia? “Entrai pela porta estreita. Pois larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela. Mas estreita é a porta, e apertado o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que a encontram” ( Mt 7:13 -14).

Há alguma discrepância entre o que diz Myer e a bíblia? Há sim!

Jesus ordenou aos seus ouvintes que entrassem pela porta estreita, ou seja, é uma premissa que não apresenta opções “Entrai pela porta estreita…”. Jesus não apresentou opções aos seus ouvintes como se eles estivessem em um ‘limbo’. Cristo ensinou haver dois caminhos, mas não apresentou duas opções.

Cristo se apresenta como única opção à condição em que os seus ouvintes estavam. Cristo é a única opção aos perdidos! Não há, portanto, a idéia de duas opções aos homens perdidos.

Estes erros que apontamos decorre da seguinte análise equivocada de Myer Pearlman: “…mas um exame mais profundo do caráter humano mostrará que a classificação de Cristo é verdadeira” Pág. 38 (idem). A mensagem de Cristo é a verdade, e independe de comprovação pautada em questões humanas. Não é uma análise do comportamento humano que fará compreendermos as declarações de Cristo.

Não é a filosofia, ou a sociologia que nos fará dimensionar as verdades do evangelho. Só é possível entendermos as declarações de Cristo “comparando as coisas espirituais com as espirituais” ( 1Co 2:13 -14).

 

12 Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados.

Paulo demonstra que não há acepção de pessoas em Deus, visto que não há diferenças entre judeus e gregos diante da retribuição divina: cada um será recompensado segundo as suas obras ( Rm 2:6 ).

Os gentios foram concebidos em pecado, e por isso, todos pecaram. Eles pecaram, não por falta de uma lei, mas por causa da condenação em Adão. Observe que o pecado aqui não decorre da transgressão da lei, visto que não havia lei para os gentios. Porém, mesmo não havendo lei para os gentios, eles pecaram. Mesmo sem lei, eles estão condenados.

Não é alívio para o judeu ser levado a julgamento. Todos os que pecaram, mesmo tendo uma lei, serão julgados pela lei que receberam. Da mesma forma que os gentios, os judeus, por terem pecado, estão sob condenação, visto que a alma que pecar, esta morrerá. Qualquer devedor que for a juízo perecerá, não importando quem seja: judeu ou grego.

13 Porque os que ouvem a lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados.

Os pretensos seguidores da lei eram somente ouvintes. Os ouvintes da lei (os judeus) não eram justos diante de Deus, visto que não a praticavam. A lei é bem clara: “Portanto os meus estatutos e os meus juízos guardareis, pois o homem que os cumprir por eles viverá” ( Lv 18:5 ; Rm 10:5 ).

Há como ser justificado pela lei? “Porque qualquer que guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos” ( Tg 2:10 ).

14 Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei; 15 Os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os;

Os judeus consideravam serem melhores que os gentios por terem uma lei. Paulo apresenta argumentos que desmistificam esta idéia. Os gentios não tinha um código específico, porém, faziam ‘coisas’ da lei Mosaica, mesmo não tendo a lei. Paulo demonstra que Deus trará a juízo as ações dos gentios, visto que eles tem uma lei interna, em seus corações. Aliado a lei interna, há a consciência e os seus pensamentos, quer acusando quer defendendo as suas ações.

Perceba que nem todos os homens são depravados e que muitos fazem naturalmente o que preceitua a lei. Observe que os homens constituem leis para as suas ações.

16 No dia em que Deus há de julgar os segredos dos homens, por Jesus Cristo, segundo o meu evangelho.

Deus recompensará a cada um segundo as suas ações no dia que Ele se assentar para julgar os segredos de todos os homens.

Não podemos confundir as vicissitudes da vida com o juízo de Deus. Muitas pessoas consideram que Deus pune os homens no dia-a-dia, porém, esquecem que o que o homem colhe o que plantou, e esta lei natural não diz do juízo de Deus.

17 Eis que tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus; 18 E sabes a sua vontade e aprovas as coisas excelentes, sendo instruído por lei; 19 E confias que és guia dos cegos, luz dos que estão em trevas, 20 Instrutor dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei;

Após demonstrar que:

a) Deus não faz acepção de pessoas ( Rm 2:11 );
b) que Deus retribuirá a cada um (todos os homens) segundo as suas obras, tanto judeus quanto gregos ( Rm 2:6 -10);
c) que a lei não estabelece diferencias entre gentios e judeus diante de Deus ( Rm 2:12 ), visto que tanto judeus quanto gentios foram julgados em Adão e nasceram sob a égide do pecado, e;
d) que não há distinção entre judeus e gentios, visto que todos os homens serão julgados quanto as obras ( Rm 2:6 ).

Paulo passa a questionar os homens que se escudavam no sobrenome ‘judeu’. Observe que, apesar do sobrenome ‘judeu’, o primeiro nome ainda continua sendo ‘homem’. Quando Paulo faz referência aos Judeus, procura não fazer distinção, e continua a tratá-los como os outros homens, o que demonstra que não há distinção entre os homens, a não ser pelo sobrenome que adotaram.

Os quesitos abaixo não tornam os judeus melhores que os outros homens:

  • adotar o sobrenome judeu;
  • descansar na lei de Moisés nas questões relativas à salvação;
  • ter um sentimento de orgulho por terem sido escolhidos como povo de Deus;
  • saber a vontade de Deus, e não conhece- lá;
  • pensar que aprova o que é melhor;
  • ser uma pessoa instruída da lei;
  • confiar que está em melhor condição que os outros homens por reputar ser guia, instrutor, mestre, etc;
  • adotar a lei como ciência e verdade.

21 Tu, pois, que ensinas a outro, não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas? 22 Tu, que dizes que não se deve adulterar, adulteras? Tu, que abominas os ídolos, cometes sacrilégio? 23 Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei?

Paulo coloca em xeque o comportamento dos judeus. Muitos dos judeus ensinavam, mas pareciam não ter aprendido a matéria que ensinavam.

Eles pregavam que não se devia furtar, e acabavam furtando. Diziam que não podia adulterar, e adulteravam. Abominar os ídolos era a bandeira dos judeus, no entanto, cometiam sacrilégios. Os homens que se orgulhavam de ter recebido a lei, desonravam a Deus quando transgrediam a lei.

24 Porque, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vós.

Paulo apresenta a base para as suas argumentações: as Escrituras! “Agora, que farei eu aqui, diz o Senhor, visto ter sido o meu povo levado sem preço? Os seus tiranos sobre ele dão uivos, diz o Senhor; e o meu nome é blasfemado incessantemente todo dia” ( Is 52:5 ). Observe que Paulo não cita o versículo ‘ipses literes’, porém, ele fez uma citação aplicada: por causa dos judeus, o nome de Deus estava sendo blasfemado entre os outros povos.

Em toda citação que fizermos da bíblia, devemos nos portar da mesma maneira que Paulo: preservar a ideia principal. Como Deus disse que o seu nome era blasfemado entre os gentios por causa dos judeus, qualquer citação que contrarie esta ideia deve ser tida por anátema.

Qual seria o argumento dos judeus para rebater a própria Escritura? Isaías demonstra que o próprio Deus disse que o nome d’Ele era blasfemado entre os gentios por causa dos judeus.

25 Porque a circuncisão é, na verdade, proveitosa, se tu guardares a lei; mas, se tu és transgressor da lei, a tua circuncisão se torna em incircuncisão.

A circuncisão foi um ritual instituído por Deus após ter anunciado a Abraão uma aliança. Deus apareceu a Abraão e lhe propôs uma aliança, onde Deus abençoaria sobre modo a Abraão e a sua descendência. Por Deus ter prometido abençoar Abraão e a sua descendência, os judeus acreditavam que eram salvos por serem descendentes de Abraão e por cumprirem o ritual da circuncisão ( Gn 17:10 -11).

Paulo contesta a crença dos judeus, demonstrando que a circuncisão só é proveitosa após o homem cumprir o determinado pela lei. A condição estabelecida para a validade da circuncisão é o cumprimento cabal da lei.

Após demonstrar a condição para a circuncisão ser válida diante de Deus, Paulo se reporta aos transgressores da lei. Aos transgressores da lei, a circuncisão não representa nada.

26 Se, pois, a incircuncisão guardar os preceitos da lei, porventura a incircuncisão não será reputada como circuncisão?

Paulo torna a lembrar que os gentios, quando cumprem com os preceitos da lei, são reputados como prosélitos (pessoas convertidas ao judaísmo) pelos próprios judeus, e por isso, circuncidadas. Se é válido reputar um prosélito que cumpre com os preceitos da lei um circunciso, que se dirá de um judeu que não cumpre a lei? Será tido por incircunciso, embora tenha feito a circuncisão na carne.

27 E a incircuncisão que por natureza o é, se cumpre a lei, não te julgará porventura a ti, que pela letra e circuncisão és transgressor da lei?

Paulo demonstra que ser judeu ou gentil é uma questão da natureza. A incircuncisão (gentios) é determinada pela natureza, da mesma forma que a circuncisão (judeu). Ser judeu, da forma que consideravam, não é uma condição proveniente de Deus, antes é uma condição determinada pela natureza.

Ser judeu ou gentil é uma condição determinada pelo nascimento e decorre de vínculos sanguíneos, o que demonstra não ter relação com a vontade e Deus.

Paulo destaca que, se os incircuncisos cumprem os quesitos da lei, eles estão em condição de julgar os circuncidados. Observe que os circuncidados de Israel tinham a lei de Moisés e a circuncisão, porém, mesmo com estes dois quesitos, eles eram transgressores da lei.

Os judeus eram transgressores da lei, visto que, ao tropeçarem em um único quesito da lei, tornavam-se culpados de toda a lei ( Tg 2:10 -11).

Já os incircuncisos não haviam recebido a circuncisão e nem mesmo uma lei, e o fato de cumprirem quesitos da lei, demonstra que a prática da lei compete a todos os homens, não importando quem quer que eles sejam. Este argumento demonstra que não há diferenças entre judeus e gentios perante Deus, pois todos são inescusáveis.

Enquanto os judeus reputavam que eram salvos por cumprirem com o rito da circuncisão e por terem recebido a lei, Paulo demonstra que a verdadeira condição de ‘judeu’ e a verdadeira ‘circuncisão’ não é possível determinarmos por questões externas como nascimento e regras exteriores.

 

28 Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne. 29 Mas é judeu o que o é no interior, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus.

Paulo apresenta os motivos da sua argumentação anterior. Devemos considerar que, neste versículo, Paulo está se referindo ao verdadeiro judeu, ou seja, ao homem que realmente é salvo por Deus.

Ele demonstra que tudo quanto os judeus consideravam ter recebido de Deus por serem descendentes de Abraão, somente se constituíam em aspectos externos, o que não condizia com a realidade interior.

Para o apóstolo, o verdadeiro judeu, ou seja, o homem que é salvo por Deus, é aquele que recebeu de Deus a circuncisão no coração. Enquanto os judeus se apegavam às questões externas da lei, Paulo procura demonstrar que a verdadeira circuncisão se dá no coração do homem.

Enquanto os judeus consideravam aspectos exteriores da lei e a circuncisão da carne como sendo os elementos essências a quem desejasse ser salvo, Paulo demonstra que o verdadeiro judeu precisa da circuncisão do coração. A mensagem do evangelho de Cristo apregoado por Paulo não difere em nada do que era apregoado pelos profetas: “Circuncidai-vos ao SENHOR, e tirai os prepúcios do vosso coração, ó homens de Judá e habitantes de Jerusalém, para que o meu furor não venha a sair como fogo, e arda de modo que não haja quem o apague, por causa da malícia das vossas obras” ( Jr 4:4 ).

Moisés apregoava a circuncisão do coração mesmo após ter entregue a lei ao povo de Israel: “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz” ( Dt 10:16 ).

A circuncisão do coração remete ao despojar da velha natureza (velho homem), e somente através de Cristo é possível adquiri-la “Nele também fostes circuncidados com a circuncisão não feita por mãos no despojar do corpo da carne, a saber, a circuncisão de Cristo” ( Cl 2:11 ).

A circuncisão de Cristo se dá no coração e não é feita por mão humanas. A circuncisão dos homens é exterior, no corpo, segundo os quesitos da lei, mas não é proveniente de Deus e nem recebe d’Ele louvor. O homem que é judeu interiormente, é aquele que recebeu a circuncisão no coração, no espírito, desvinculado dos elementos da lei (letra), que são exteriores.

Por intermédio de Jeremias Deus censura as obras do povo, mas por qual motivo? Por que as obras dos judeus, um povo religioso e cheio de regras morais e éticas é reputado ‘maliciosas’ por Deus? Eles não praticavam boas ações?

Os judeus sempre praticaram boas ações aos seus irmãos no intuito de conquistar a salvação, e em decorrência desta particularidade elas são ‘maliciosas’, visto que a salvação só é possível através da circuncisão do coração, que é uma ação exclusiva de Deus.

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Romanos 1 – O poder de Deus para salvação

Devemos ter em mente que a contextualização histórica e sociocultural auxilia em muito na compreensão da sociedade à época do apóstolo Paulo, porém, pouco auxilia na compreensão das nuances que firmam a ideia que o apóstolo procurou transmitir (…) Quando o profeta Habacuque afirma que: “O justo viverá da fé, temos que verificar qual ‘fé’ ele estava abordando, visto que Jesus disse que “…está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus ( Mt 4:4 ); ou seja, sabemos que ambos, Jesus e Habacuque anunciaram a palavra de Deus, e que a palavra de Deus não se contradiz. Portanto, se o ‘justo vive da fé’, e o homem ‘vive da palavra que sai da boca de Deus’, conclui-se que a fé anunciada por Habacuque é o mesmo que a palavra de Deus.


Romanos 1

Introdução

Há vários quesitos a serem observados quanto à interpretação das cartas bíblicas. No decorrer deste estudo sobre a carta aos Romanos destacaremos vários quesitos necessários a uma interpretação segura.

Em primeiro lugar faz-se necessário ler o texto da carta desconsiderando as divisões em capítulos e versículos. O leitor deve ter em mente que as divisões foram feitas somente para auxiliar na localização de frases nos textos, e que elas não guardam vínculos com a estrutura de idéias que a carta desenvolve.

Caso o leitor interprete o capítulo um da carta aos Romanos sem considerar os capítulos dois e três poderá incorrer em vários erros.

Em segundo lugar é necessário contextualizar a carta com aspectos pertinentes a vida do remetente. A contextualização não deve se ater a eventos históricos, onde se destacam somente elementos pertinentes a sociedade de então. Devemos ter em mente que a contextualização histórica e sociocultural auxilia em muito na compreensão da sociedade à época do apóstolo Paulo, porém, pouco auxilia na compreensão das nuances que firmam a ideia que o apóstolo procurou transmitir.

Devemos ler a carta como um texto uníssono, isto é, sem divisões, fazer uma interpretação deste texto e depreender aspectos importantes da mensagem que o escritor da carta é acostumado a desenvolver. Depois é preciso aplicá-la à ideia geral que a carta procura transmitir. Para compreendermos o capítulo um da carta aos Romanos seguimos o seguinte raciocínio:

a) O apóstolo Paulo geralmente enfatiza em suas cartas a liberdade do cristão decorrente do evangelho de Cristo ( 1Co 8:9 ; I Co 10:29 ; Gl 2:4 ; Gl 5:13 );
b) Pela postura do apóstolo em enfatizar a liberdade em Cristo, algumas pessoas passaram a considerar e a divulgar que Paulo andava segundo a carne, ou seja, que ele incentivava a libertinagem ( 2Co 10:2 ; Gl 5:13 );
c) A postura de algumas pessoas era a de que o apóstolo Paulo andava segundo a carne, e não consideravam que a mensagem do apóstolo Paulo e a do apóstolo Pedro são idênticas ( 1Pe 2:16 );
d) O apóstolo prevendo que tais pessoas já haviam se introduzido em meio aos cristãos de Roma, visto que, até aquele momento ele fora impedido de visitá-los, Paulo dá início a carta com um discurso incisivo demonstrando o quanto é condenável a humanidade sem Deus “Do céu se manifesta a ira de Deus sobre a impiedade e injustiça dos homens que detêm a verdade pela injustiça” ( Rm 1:18 );
e) O discurso que o apóstolo apresenta no capitulo um da carta aos Romanos, do versículo dezoito aos trinta e dois, tem o objetivo de cativar as pessoas que consideravam o apóstolo propagador de uma vivencia desregrada, enlaçando-os em seus próprios argumentos. Porém, como é próprio ao apóstolo, o capítulo dois demonstra que não há diferença entre os homens, sejam eles quem forem ( Rm 2:1 ).

Observe que a ideia da carta é única, e não se restringe as divisões em capítulos.

Durante a interpretação não podemos perder de vista que:

a) a salvação é pela graça e por meio da fé somente ( Ef 2:8 );
b) a condenação da humanidade se deu em Adão “Pois assim como por uma ofensa veio o juízo sobre todos os homens, para condenação…” ( Rm 5:18 ), e;
c) a ira de Deus sobre a humanidade não é em decorrência da depravação ética e moral; a ira de Deus repousa sobre a humanidade porque estes são filhos da desobediência, filhos da ira e filhos de Adão ( Ef 2:2 -3).

Qualquer interpretação que destoe das proposições acima deve ser desconsiderada. Caso alguém interprete um texto e conclua que a salvação é por obras, deve rever a sua análise, pois esta não foi a idéia que o escritor procurou transmitir.

Os judaizantes, os legalistas, os moralistas e os formalistas sempre se empenharam em demonstrar o quanto a humanidade está perdida apontando as depravações dos pagãos. Paulo, por sua vez demonstra que a humanidade está perdida, não por questões comportamentais e morais, e sim, por todos estarem debaixo do pecado ( Rm 3:9 -19).

O homem é pecador porque foi concebido nesta condição ( Sl 51:4 ). O pecado está vinculado diretamente a natureza do homem, e não às suas ações. O homem é pecador por ter nascido da semente corruptível de Adão, vendido como escravo, e sob condenação “Pois como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores…” ( Rm 5:18 ).

Descobrir o que motivou o escritor da carta é o terceiro quesito que auxilia, em muito, a interpretação de uma carta.

Com esta análise prévia conseguimos evidenciar o objetivo primário do apóstolo quando descreve a depravação da humanidade: fazer calar a boca daqueles que diziam que Paulo apregoava ser necessário fazer o mal, para que venham bens “Façamos males, para que venham bens?” ( Rm 3:8 ).

 

 

Capítulo I – Carta de Paulo aos Romanos

Apresentação Pessoal e do Ministério

1 PAULO, servo de Jesus Cristo, chamado para apóstolo, separado para o evangelho de Deus,

O apóstolo Paulo dá inicio a sua carta aos cristãos em Roma com uma apresentação pessoal. Ele se considera servo de Cristo e utiliza um termo que deriva do verbo ‘deo’ que significa ligar, algemar, aprisionar. Paulo entendia ser prisioneiro de Cristo, ligado ao serviço do seu Senhor.

Paulo demonstra que foi chamado para ser apóstolo. Observe que a posição de apóstolo não foi imposta a Paulo, antes ele foi chamado para o apostolado. Não há como alguém ser chamado para o apostolado sem se submeter ao senhorio de Cristo. Um descrente não teria como ser chamado para desempenhar a missão de apóstolo.

O evangelho é um chamado aos descrentes, que se crerem, estarão habilitados para a salvação. Porém, o chamado do evangelho não habilita o crente para o apostolado. O chamado para o apostolado é distinto do chamado do evangelho. Este chamado é para o serviço no evangelho, e aquele para tornar-se possessão do Senhor.

Paulo estava cônscio da sua missão: foi separado para anunciar as boas novas do evangelho de Deus.

2 O qual antes prometeu pelos seus profetas nas santas escrituras, 3 Acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne, 4 Declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor,

O Velho Testamento é nomeado por Paulo de Sagradas Escrituras. Para ele o A. T. contém as promessas de Deus acerca do seu Filho, Jesus.

O evangelho é especificamente o que foi prometido por Deus por intermédio dos seus profetas.
Paulo concorda a uma só voz com o seu Mestre: As Santas Escrituras testemunham acerca de Cristo ( Jo 5:39 ).

O evangelho não é fruto da cabeça do apóstolo. Ele demonstra que a ele foi revelado os mistérios das Santas Escrituras “O mistério que esteve oculto desde todos os séculos, e em todas as gerações, e que agora foi manifesto aos seus santos” ( Cl 1:26 ).

O apóstolo Paulo disserta sobre o vínculo de Jesus com Deus e com o rei Davi. Paulo faz um pequeno adendo para explicar alguns aspectos acerca do Cristo prometido nas escrituras, a quem ele serviu por meio do evangelho.

Para entendermos quem é o Cristo de Deus prometido nas escrituras através dos profetas é necessário compreender que:

a) Na eternidade não havia a RELAÇÃO Pai e Filho entre as pessoas da divindade, ou seja, na eternidade a relação que hoje conhecemos nas pessoas da divindade (a relação Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo) não existiam. Quando o apóstolo João fez referência a Cristo na eternidade, ele O chama de Verbo Divino ( Jo 1:1 ). A palavra grega traduzida por ‘Verbo’ (grego=Logos, e aramaico=Memra, palavra que foi utilizada na tradução do Velho Testamento como uma designação de Deus), significa pensamento ou conceito, e João a utiliza para designar a pessoa da divindade que fez todas as coisas e estava no princípio com Deus, e que se fez carne e habitou entre os homens “Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por meio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez” ( Jo 1:2 -3). Desta maneira o apóstolo João demonstrou que, em essência, o Cristo antes de se fazer carne possuía os mesmos atributos da divindade em plenitude “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” ( Jo 1:1 );

b) O dia que Cristo haveria de se fazer carne é descrito pelos profetas como sendo ‘hoje’ “Proclamarei o decreto: o SENHOR me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei” ( Sl 2:7 ). O Verbo de Deus ao ser introduzido no mundo passou a ser denominado de ‘Filho’, o único gerado de Deus, ou seja, quando Cristo foi gerado pelo Espírito Eterno no tempo predeterminado e denominado hoje, Deus o chamou de Filho por tê-lo gerado no mundo dos homens;

c) Este aspecto da filiação de Cristo foi revelado a Davi: quando o Espírito Eterno fez gerar uma criança no ventre de Maria, cumpriu-se o que foi predito pelo profeta Natã a Davi: “Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho” ( 2Sm 7:14 ). Como na eternidade não havia a relação Pai & Filho entre as pessoas da divindade, estas pessoas acordaram entre si (Deus eterno e o Verbo eterno), e estabeleceram que quando Cristo fosse introduzido no mundo, a relação Pai e Filho haveria de ser efetivada entre eles: “Eu lhe serei por Pai, e ele me será por Filho“. Ao ser introduzido Cristo no mundo, o primeiro homem gerado de Deus (primogênito), visto que Adão foi o primeiro homem criado, a relação Pai e Filho se estabeleceu. Prova disto é que, ao ser introduzido o primogênito no mundo foi dada a determinação aos seres celestiais: “Todos os anjos de Deus o adorem” ( Hb 1:6 );

d) Cristo despojou-se da sua glória e passou a condição de Filho na relação pré-estabelecida na eternidade e que foi prometida por Deus por intermédio de Natã. Antes de se fazer carne, o Verbo de Deus ‘era’ o resplendor da glória de Deus ( Hb 1:3 ); Mesmo após despojar-se da sua glória, Cristo, quando introduzido no mundo, continuou a receber adoração, tanto dos anjos, quanto dos homens ( Jo 1:14 ). Deus estava em Cristo reconciliando consigo mesmo o mundo!

Através do livro dos Gênesis conhecemos que todos os homens, quando nascem, são filhos de Adão segundo a carne. Cristo, o Verbo de Deus, não nasceu na mesma condição dos homens, visto que ele não foi concebido em pecado da mesma forma que o foi o rei Davi ( Sl 51:5 ). O Espírito de Deus misteriosamente fez Maria conceber, o que tornou Cristo livre do pecado de Adão “Descerá sobre ti o Espírito santo, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra” ( Lc 1:35 ).

Cristo nasceu com um corpo carnal, porém não foi gerado segundo a carne. Para ser gerado segundo a carne João demonstra em seu evangelho que é necessário nascer do sangue, da vontade da carne e da vontade do homem ( Jo 1:13 ). Ou seja, jamais Cristo teve qualquer relação com a semente corruptível de Adão.

A única relação de Cristo com a carne ficou por conta de Maria, uma descendente da linhagem de Davi, o que deu direito a seu descendente se assentar sobre o trono de Davi. Por meio de Maria, Cristo passou a ter direito sobre o trono de Davi, mas o pecado de Adão não o alcançou, visto que, Cristo não nasceu da vontade do varão “Todavia, nem o homem é sem a mulher, nem a mulher sem o homem, no SENHOR” ( 1Co 11:11 ). Observe que os nossos pais no Éden somente reconheceram que estavam nus após Adão comer do fruto, ou seja, a vontade do varão fala da união “homem e mulher”. Eva comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, e não ‘viu’ que estava nua. O estado pecaminoso se efetivou somente após Adão comer do que foi oferecido por Eva.

Quando Paulo diz que Jesus veio segundo a carne da descendência do rei Davi, demonstra que Cristo tornou-se homem como um de nós, e participou de todas as nossas ‘fraquezas’ , porém, com direitos plenos ao trono de Davi ( Hb 4:15 ).

Outro aspecto da filiação divina se deu na ressurreição dentre os mortos. A ressurreição é uma declaração de Deus que Cristo é o seu Filho.

Deus é Espírito de santificação. Pelo fato de Cristo ter sido gerado de Deus, ele permaneceu um ente santo “Por isso o ente santo que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus” ( Lc 1:35 ; Jo 1:12 -13). O Cristo do qual o apóstolo Paulo tornou-se servo e fez referência aos cristãos em Roma, é aquele que ressurgiu dentre os mortos. A ressurreição, para Paulo, se constitui em evidência clara de que Cristo é o primogênito de Deus e Senhor de todos os cristãos ( 2Co 5:16 ).

5 Pelo qual recebemos a graça e o apostolado, para a obediência da fé entre todas as gentes pelo seu nome, 6 Entre as quais sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo.

Por intermédio de Cristo, Paulo recebeu em primeiramente graça. Graça é o favor imerecido de Deus que dá ao homem salvação. O apostolado diz de certas pessoas que foram chamadas e ensinadas por Cristo pessoalmente. Estas pessoas foram ensinadas e comissionadas para continuar o ministério de Cristo, proclamando a verdade do evangelho com autoridade.

A mensagem do evangelho é recebida por fé, e por isso o apóstolo utiliza a palavra fé em lugar da palavra ‘evangelho’. A mensagem do evangelho é anunciada a todos, e quem recebe a mensagem, recebe-a por fé. Obedecemos a mensagem do evangelho, o que se constitui obediência da fé.

A mensagem do evangelho alcança a todas as gentes chamando-as para serem propriedade exclusiva de Cristo. O evangelho convoca dentre os povos, todos os homens para serem servos de Cristo, incluindo judeus e gregos. O evangelho de Cristo não exclui os Romanos, que eram a grande potência econômica e bélica daquela época “Entre as quais sois vós também chamados…”.

A mensagem do evangelho é um convite. Os chamados dentre os homens serão nomeados santos se, e tão somente se, aceitarem a mensagem do evangelho por meio da fé em Cristo.

Obs.: Quando Cristo disse que: “Muitos são chamados e poucos os escolhidos” ( Mt 20:16 ), devemos entender que nem todos os homens ouvirão a mensagem do evangelho. Nem todos serão chamados através da mensagem do evangelho, uma vez que, a mensagem do evangelho não alcançou e nem alçará todos os homens. O evangelho não foi e nem será anunciado a todos os homens, porém muitos ouviram e ouvirão o evangelho (estes são os chamados), porém, poucos são os que hão de aceitar o chamado do evangelho (estes que aceitarem o evangelho passam a condição de escolhidos).

 

 

Os Destinatários da Carta

7 A todos os que estais em Roma, amados de Deus, chamados santos: Graça e paz de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo.

Paulo saúda todos os cristãos que estavam em Roma com graça e paz. Graça diz do favor imerecido de Deus que foi concedido aos homens.
Paz diz da reconciliação de Deus com os homens. É a paz que excede a todo entendimento.

Paulo demonstra que os cristãos são sujeitos do amor de Deus e estão em condição diferente daqueles que não aceitaram a mensagem do evangelho. Quem não crê em Cristo ainda é filho da ira, uma vez que pesa sobre eles a condenação de Adão ( Jo 3:18 ).
A condição de ‘Amados de Deus’ é pertinente a todos quantos crerem na mensagem do evangelho.

Todos os amados de Deus também são designados santos por Ele. Sabemos que Deus chama a existência as coisas que não são como se elas já fossem, ou seja, esta declaração de Paulo remete ao poder criativo de Deus ( Rm 4:17 ). Quando Deus nomeia alguém de santo não tem em vista questões posicionais, ou seja, Deus jamais nomeia alguém santo, se esta pessoa não for efetivamente santa. Deus não nomeia alguém que não é santo como se fosse santo.

Todos os cristãos são santos independentemente de questões morais e comportamentais. Eles são santos por terem aceitado o chamado de Deus através do evangelho. É o chamado de Deus que concede a condição de santo sem qualquer relação com esforços humanos; todos quantos aceitarem o chamado de Deus estão separados como propriedade e uso exclusivo de Deus ( Ef 1:1 ).

Ser santo é condição pertinente ao cristão por estar em Cristo. Os cristãos são novas criaturas, criados segundo Deus em verdadeira justiça e santidade. Esta nova criatura é designada santa perante Deus, pois aquele que está ‘em Cristo’ nova criatura é ( Ef 4:24 ).

Agradecimentos e os Motivos

8 Primeiramente dou graças ao meu Deus por Jesus Cristo, acerca de vós todos, porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé.

Uma das características própria às cartas de Paulo é o momento de agradecimento a Deus logo após as saudações. As suas cartas seguem um padrão semelhante: Apresentação pessoal, saudação e agradecimento. Ex: ( 1Co 1:1 -4; 2Co 1:1 -3); etc.
O apóstolo agradece a Deus por intermédio de Cristo pela existência dos cristãos que estavam em Roma.

Paulo havia recebido noticias de que em Roma algumas pessoas também haviam recebido a mensagem do evangelho. Paulo estava contentíssimo, visto que o mundo conhecido de então estavam recebendo noticias de que também havia cristãos em Roma.
A notícia de que romanos também estavam seguindo ao evangelho de Cristo contribuiu em muito para a difusão da mensagem do evangelho.
Paulo sabia o quanto a notícia de que até os romanos estavam se rendendo ao evangelho poderia fazer propagar ainda mais a mensagem do evangelho “…porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé” (v. 8), e este tornou-se um dos motivos pelo qual o apóstolo rendeu graças a Deus.

9 Porque Deus, a quem sirvo em meu espírito, no evangelho de seu Filho, me é testemunha de como incessantemente faço menção de vós, 10 Pedindo sempre em minhas orações que nalgum tempo, pela vontade de Deus, se me ofereça boa ocasião de ir ter convosco.

O apóstolo evoca a Deus como testemunha de quantas vezes fez menção dos cristãos romanos quando em oração.
Paulo insere um aposto explicando que serve a Deus em seu espírito através do evangelho de Cristo “para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra” ( Rm 7:6 ). O serviço do apóstolo não era através da lei de Moisés, e sim, por meio de um espírito novo, conforme o que profetizou o salmista: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova em mim um espírito reto” ( Sl 51:10 ). O evangelho de Cristo concede aos cristãos a condição indispensável para servir a Deus: novidade de espírito ( Ez 11:19 ). O que fora prometido por Deus por intermédio do profeta Ezequiel, o apóstolo Paulo recebeu através do evangelho de Cristo.

Diferente de outras cartas em que o apóstolo roga a Deus que conceda conhecimento aos cristãos, nesta carta Paulo ora pedindo que Deus conceda, segundo a sua vontade, uma oportunidade para visitar os cristãos em Roma. Diferente do que se apregoa no ‘evangelho da prosperidade’, o apóstolo não exige, antes pede que, segundo a sua vontade, Deus lhe conceda boa ocasião de ir ter com os cristãos.

11 Porque desejo ver-vos, para vos comunicar algum dom espiritual, a fim de que sejais confortados; 12 Isto é, para que juntamente convosco eu seja consolado pela fé mútua, assim vossa como minha.

Paulo ora constantemente e louva a Deus pela existência dos cristãos em Roma, motivado pelo desejo de vê-los pessoalmente. Paulo desejava confortá-los anunciando as dádivas recebidas de Deus. O encontro serviria para conforto mútuo, onde Paulo teria contato com os cristãos e observaria a obediência deles no evangelho, e os cristãos teriam a oportunidade de observarem pessoalmente o zelo de Paulo no evangelho.

13 Não quero, porém, irmãos, que ignoreis que muitas vezes propus ir ter convosco (mas até agora tenho sido impedido) para também ter entre vós algum fruto, como também entre os demais gentios.

Do exposto, Paulo reitera que se propôs a ir a Roma por várias vezes, porém, foi impedido. Ele não apresenta os impedimentos que surgiram, e não devemos conjeturar a respeito. O desejo de Paulo era ter algum fruto entre os Romanos da mesma forma que ele obtivera entre os demais gentios.
Paulo não queria que os romanos tivessem uma idéia errônea a seu respeito, uma vez que poderiam alegar que ele estava com vergonha de encontrar os seus concidadãos em Roma, por ser a sua presença fraca em relação as suas cartas ( 2Co 10:10 ).

14 Eu sou devedor, tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes.

Paulo sentia-se devedor a todos os homens, não se importando com nacionalidades, origens ou etnias. A dívida que Paulo contraiu por causa do amor de Cristo se estendia aos bárbaros e gregos; ele queria alcançar tanto a sábios quanto a ignorantes. A disposição de Paulo não era somente para com os estrangeiros.

15 E assim, quanto está em mim, estou pronto para também vos anunciar o evangelho, a vós que estais em Roma.

Se dependesse tão somente do apóstolo, ele estava pronto a ir a Roma para anunciar as boas novas de Cristo.

 

 

A Motivação de Paulo

Há um exercício muito útil na descoberta dos eventos que motivaram o escritor da carta. Durante a leitura é preciso se posicionar como sendo o próprio escritor da carta, questionando as alegações de Paulo da seguinte maneira:

  • Quais os motivos que levaram o apóstolo a afirmar que não se envergonhava do evangelho ( Rm 1:16 );
  • Por que Paulo procurou demonstrar aos cristãos que até aquele momento tinha sido impedido de ir a Roma ( Rm 1:13 );
  • Você deve se perguntar sobre os motivos que levou Paulo a enfatizar que era devedor tanto a gregos como a bárbaros ( Rm 1:14 ).

Estas perguntas são essências a compreensão, em certos momentos das cartas, onde não há uma exposição doutrinária, como é o caso de Romanos um, versículo oito a quinze.

Outro bom exercício é se posicionar como sendo um dos cristãos romanos que receberam a carta de Paulo. Durante a leitura devemos ter em mente quais eram as expectativas dos leitores, levando em consideração as condições dos cristãos como cidadãos romanos.

Quais seriam as expectativas acerca de alguém que serviu o governo Romano, perseguindo a igreja de Deus, e que, agora, era um dos cristãos que anunciavam o evangelho?

Em terceiro lugar devemos reler as outras cartas do apóstolo fazendo comparações entre elas.

Conhecer alguns subsídios históricos e geográficos ajudará na leitura, ainda que estes subsídios não são essenciais a compreensão do texto. É bom conhecer que a carta aos Romanos foi escrita em Corinto durante a terceira viagem missionária de Paulo; é bom saber que o escrevente da carta era Tárcio ( Rm 16:22 ), e que Paulo estava hospedado na casa de Gaio, um abastado irmão ( Rm 16:23 ). Porém, o leitor deve estar cônscio de que subsídios históricos e geográficos não auxiliarão na compreensão da doutrina de Cristo, e nem na compreensão de certas nuances do texto.

Ora, se sabemos que Paulo escreveu aos Romanos quando estava em Corinto, devemos ler e relacionar os problemas que ele mais abordou nas cartas aos Corinto e perceber certas nuance destes problemas nas abordagens e explanações que faz aos cristãos em Roma. Somente as cartas de Paulo contêm subsídios que fará o leitor entender as exposições que ele faz em uma carta em específico. Exemplos:

a) Qual a base utilizada para afirmarmos na página anterior que a santificação não é posicional? Em primeira aos Coríntios lemos que Paulo escreveu “… aos santificados em Cristo, chamados para serem santos, com todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo…” ( 1Co 1:2 ); Paulo também demonstra que aos cristãos foi dado graça, que em tudo foram enriquecidos em Cristo, que nenhum dom falta, e que Deus é fiel e cuidará para que os cristãos permanecessem irrepreensíveis até aquele dia ( 1Co 1:4 -9); “O mesmo Deus de paz vos santifique completamente. E todo o vosso espírito, alma e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é o que vos chama, o qual também o fará” ( 1Ts 5:23 -24) (grifo nosso).

Note que é Deus quem nos santifica. Não cabe ao homem tal incumbência, pois esta é uma glória que pertence a Deus. Não é o homem que se separa como propriedade do Senhor, e sim Deus, que o separa para si.

Como considerar que aquele que crê em Cristo não é de fato santo, se Jesus é sabedoria, justiça, santificação e redenção ( Rm 1:31 )? Já deixamos de ser imundos, visto que já fomos lavados, santificados, justificados em nome de Cristo ( 1Co 6:11 ). Paulo é claro na sua exposição: “E tais fostes alguns de vós” ( 1Co 6:11 ). A imundície é algo do passado. Se alguém não entende a extensão da doutrina da santificação, não deve teorizar a respeito do que não entende.

Compare: ( 1Co 1:8 ; Fl 1:10 ; 1Pe 5:10 ; 1Ts 5:23 -24).

b) O evangelho é poder de Deus só para os Romanos? Para quem é salvo o evangelho é poder de Deus e sabedoria de Deus ( 1Co 1:18 e 24). É por intermédio do evangelho de Deus que o cristão passa a pertencer a Deus; em Cristo Jesus o homem passa a pertencer a Deus ( 1Co 1:30 ). Ou seja, todos os que crêem em Cristo pertencem exclusivamente a Deus ( 1Co 6:19 );

c) Neste diapasão o apóstolo afirma a liberdade em Cristo: “…todavia, para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele” ( 1Co 8:6 ).

1ª) Tudo pertence a Deus, principalmente os cristãos, visto que, através do evangelho passamos a viver para Deus.
2ª) Através do evangelho aceitamos a Cristo como Senhor e Ele concede nova vida. Por Cristo existem todas as coisas, inclusive os cristãos passam a ter vida por intermédio d’Ele, porque, por intermédio da Palavra todas as coisas foram e são criadas.

O evangelho é o tema das cartas de Paulo, e ao escrever aos Romanos não seria diferente, visto que ele sempre propôs aos irmãos conhecerem a Cristo ( 1Co 2:2 ). Estas pequenas comparações entre as cartas levará o leitor a perceber que, quando Paulo identificava um problema que havia se instalado em uma igreja, ele acabava por se antecipar e escrevia a outras igrejas antes que estes problemas acabasse por influenciar tais igrejas.

Como Paulo sempre enfatizou a liberdade em Cristo demonstrando o fim da lei em Cristo, muitos judaizantes questionavam a autoridade e as mensagens de Paulo. Estes diziam que Paulo era carnal ( 2Co 10:2 -3). Paulo por sua vez demonstra que não adianta ter zelo de Deus sem entendimento ( Rm 10:2 ), visto que, Cristo é o fim da lei para justiça de todos quantos crerem ( Rm 8:4 ). Por algumas pessoas dizerem que Paulo era carnal na igreja de Corinto, ele se antecipa e escreveu demonstrando aos cristãos em Roma que ele não andava segundo a carne.

Outro aspecto pertinente a uma carta está na construção de idéias. Uma carta não utiliza definições ou conceitos como é próprio dos livros. Diferente dos livros, onde o público alvo é indefinido, as cartas bíblicas tem um público alvo específico. As cartas eram direcionadas aos cristãos especificadamente.

Uma carta é construída através de desenvolvimento de idéias, de argumentações com bases nessas idéias e sentimentos comuns ao remetente e ao destinatário. Geralmente se escreve uma carta a alguém que mantém algum vínculo pessoal com o escritor, aspecto este que não existe entre um autor e os leitores de livros.

Em uma carta já existe uma linguagem que é comum ao escritor e aos destinatários. Já em um livro é necessário a construção de uma linguagem, principalmente por meio de conceitos e definições, e quase sempre amparado por signos lingüísticos contemporâneos ao escritor e leitores.

Em uma carta o prefácio e a saudação devem ser analisados em aspectos absolutos. Entendemos que Paulo era ‘servo de Cristo’ e chamado para o ‘apostolado’ de modo absoluto, e isto implica que devemos considerar que Paulo escreveu a ‘santos’ e ‘amados de Deus’ em absoluto ( Rm 1:1 -7).

É um contra senso tomar as palavras do apóstolo Paulo em sentido absoluto quando ele declara ser servo de Cristo e apóstolo, e no mesmo contexto entender que os cristãos são santos em sentido relativo. Paulo em suas cartas escreve as igrejas de Deus, pessoas que foram chamadas para serem propriedades de Deus por meio de Cristo ( Rm 1:6 ). Não há como considerar estas declarações de Paulo em sentido relativo.

Os motivos da escrita de uma carta são inúmeros, e para determiná-los é preciso estudar os vários escritos do remetente e a sua relação com os destinatários. Já em um livro, temos a introdução ou o prefácio, onde os motivos e objetivos do escritos já vêm explicitados.

Considerando estes aspectos, estaremos aptos a estudar e compreender melhor as cartas bíblicas.

 

16 Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego.

Paulo demonstra prontidão quanto a ir a Roma sem ter qualquer obstes quanto ao evangelho. Alguém poderia dar a entender que Paulo ainda não teria ido a Roma por ter vergonha de evangelizar entre os seus concidadãos. Paulo é enfático: “Não me envergonho do evangelho…”.
Paulo declara que o evangelho é poder de Deus para salvação de todo aquele que crê. A declaração de Paulo é igual à de João: “Mas a todos os que o receberam, àqueles que crêem no seu nome, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus” ( Jo 1:12 ).

O evangelho é a boas novas de Deus aos homens. Como boas novas do reino ele é anunciada na forma de convite, e a todos quantos ouvirem. Quem ainda não creu no nome de Cristo está na condição de chamados “… nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, e loucura para os gregos. Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus” ( 1Co 1:23 -24). Após aceitar o convite do evangelho, o homem passa a condição de ‘eleito’, ou ‘vocacionado’. Quem crê passa a condição de ‘eleito’: “Ora, vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados” ( 1Co 1:26 ).

Aqueles que crêem no evangelho, ou seja, que crêem no nome de Jesus, estes recebem poder para salvação. Estes são feitos (criados) novamente na condição de filhos de Deus.

Não há qualquer impedimento para a salvação daqueles que crêem. Deus transforma tanto gregos como judeus em seus filhos através do poder que o evangelho de Cristo contém. Observe que esta abordagem Paulo faz em quase todas as suas cartas: a universalidade do evangelho.

17 Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá da fé.

No evangelho de Cristo a JUSTIÇA de Deus torna-se conhecida dos homens. A descoberta da justiça de Deus, ou o conhecimento da justiça de Deus não é um conhecimento vinculado à considerações filosóficas. Antes a justiça de Deus torna-se conhecida por se manifestar na vida daqueles que tem fé em Cristo. Paulo fala de um conhecimento experimental, e não da compreensão que satisfaça as indagações humanas.

Como entender que a justiça de Deus é de fé em fé? O parâmetro para entendermos a declaração de Paulo encontra-se no trecho que ele cita das escrituras: “Mas o justo viverá da fé” ( Hc 2:4 ). O livro de Habacuque contém os elementos necessários a compreensão do texto de Paulo.

No livro de Habacuque lemos que o profeta clama a Deus em oração preocupado em receber a resposta do Senhor: “Até quando, Senhor, clamarei eu, e tu não me escutarás?” ( Hc 1:2 ). O profeta destaca que, por Deus não agir, a lei havia se afrouxado e a justiça nunca se manifestava “Por isso a lei se afrouxa, e a justiça nunca se manifesta” ( Hc 1:4 ).

Paulo demonstra que a justiça de Deus já havia se manifestado através do evangelho, caso alguém em Roma ainda estivesse com as mesmas questões que o profeta Habacuque. O que Habacuque reclama no versículo quatro, tem resposta em Romanos um, versículo dezessete.

“… e a justiça nunca se manifesta” ( Hc 1:4 );
“Porque nele (no evangelho) se descobre a justiça de Deus…” ( Rm 1:17 ).

Quando o profeta Habacuque afirma que: “O justo viverá da fé, temos que verificar qual ‘fé’ ele estava abordando, visto que Jesus disse que “…está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus ( Mt 4:4 ); ou seja, sabemos que ambos, Jesus e Habacuque anunciaram a palavra de Deus, e que a palavra de Deus não se contradiz. Portanto, se o ‘justo vive da fé’, e o homem ‘vive da palavra que sai da boca de Deus’, conclui-se que a fé anunciada por Habacuque é o mesmo que a palavra de Deus. A fé anunciada por Habacuque não é algo místico, ou um sentimento que aflora no homem, antes ela surge da palavra que é segundo a fidelidade de Deus.

Neste sentido, temos no Novo Testamento os apóstolos exortando os cristãos a batalharem pela fé, ou seja, batalharem pela verdade do evangelho, que é a Palavra de Deus ( Jd 1:3 ).

A resposta de Deus é clara as questões do profeta Habacuque: “Vede entre as nações, e olhai, e maravilhai-vos, e admirai-vos, porque realizo em vossos dias um obra, que vós não crereis quando for contada” ( Hc 1:5 ). Deus prometeu uma obra maravilhosa, porém o profeta não entende porque os caldeus estavam devorando o seu povo, se eles eram ‘mais pecadores’ do que os israelitas ( Hc 1:13 ). A obra prometida a Habacuque foi realizada nos dias de Cristo em meio ao povo de Israel, porém não creram ( Jo 1:11 ).

Porém, ainda que o profeta não havia compreendido a ação de Deus, demonstra confiança e se refugia em aguardar a resposta do Senhor “Sobre a minha torre de vigia estarei, e sobre a fortaleza me apresentarei e vigiarei, para ver o que fala comigo, e o que eu responderei a esta queixa” ( Hc 2:1 ).

Enquanto o profeta pensava em questões amenas como: “O ímpio cerca o justo, e a justiça é pervertida” Hc 1: 4, Deus lhe dá resposta para questões eternas: “Eis o soberbo! A sua alma não e reta nele; mas o justo viverá pela sua fé” ( Hc 2:4 ).

Deus sempre cuidou do povo de Israel, mesmo quando eles estavam sendo perseguidos. As nações que oprimiam o povo do profeta faziam conforme o conselho do Senhor. Porém, estas questões não eram de maior importância. A ação de Deus sempre foi manifestar aos seus profetas como se da a sua justiça aos homens.

O soberbo, aquele que sente-se abastado e que não confia em Deus, a sua condição perante Deus não é reta. Outras traduções rezam: “Eis que a sua alma se incha, não é reta nele…” ( Hc 2:4 ). Estes são os ‘ricos’, os ‘abastados’, os ‘soberbos’, os cheios de ‘gordura’, que tem a alma inchada por confiarem em suas posses, e não reconhecem que necessitam de Deus. Enquanto o profeta entendia que o problema da humanidade residia na opressão dos ímpios e na perversão da justiça humana, Deus anuncia que o maior problema da humanidade esta na falta de confiança em Deus. Somente aqueles que em Deus confiam tem uma natureza justa. Estes são justos perante Deus e viverão diante de Deus pela sua fé.

Esta ideia do texto de Habacuque é retransmitida aos cristãos em Roma. Em conformidade com que Deus disse a Habacuque: “O justo vivera da fé”, Paulo demonstra que o evangelho é poder que concede vida aos homens, por intermédio do evangelho, que é Cristo, Deus cria filhos para Si ( Jo 1:12 ), revelando as bases da sua justiça “nele se descobre a justiça de Deus”:

a) o evangelho é para salvação;
b) é poder de Deus;
c) é por meio da fé;
d) não faz distinção entre os homens;
e) cria filhos de e para Deus ( Rm 1:16 ).

A justiça de Deus é de fé em fé, ou seja, todos quantos creem devem permanecer confiantes como Habacuque. A obra perfeita que a fé realiza é nomeada de perseverança. Quem crê em Deus, nele persevera.

A ideia que Paulo expõe nestes dois versículos será concluída depois de uma extensa argumentação. Perceba que Paulo concluirá esta exposição inicial acerca do evangelho lá no capítulo três, versículo vinte e um:

“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego. Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá da fé (…) Mas agora se manifestou sem a lei a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas; Isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos e sobre todos os que creem; porque não há diferença” ( Rm 1:16 -17 e Rm 3:21 -22).

O leitor da carta aos Romanos precisa estar atento as argumentações e a ideia principal que está sendo desenvolvida. Qual a ideia básica desenvolvida por Paulo? O evangelho é poder de Deus para salvação de todos quantos crerem! Esta ideia será mantida por toda carta. Paulo a apresenta no capítulo primeiro, versos 16 e 17, e continua no capítulo três, versos 21 e 22.

Porém, entre as exposições da ideia principal, há as argumentações que são as bases que dão sustentação a ideia principal.

O estudo que se segue é sobre uma das argumentações de Paulo que dá suporte a ideia da salvação por meio do evangelho de Cristo e que desmente a concepção de que Paulo era libertino (sensual, lascivo ou devasso).

 

 

A Depravação da Humanidade

Como entender a declaração dos versículos dezoito e dezenove? Em primeiro lugar é necessário ter em mente que as declarações de Paulo foram direcionadas aos cristãos. Somente os cristãos conhecem a verdade sobre a ira de Deus: há um dia específico para a ira de Deus e a manifestação do juízo de Deus ( Rm 2:5 ); somente os cristãos compreendem que a ira de Deus se manifesta contra a impiedade e injustiça.

Paulo reitera aos cristãos que a ira de Deus se manifesta contra a impiedade e injustiça, porém os descrentes não sabem desta realidade descrita no versículo dezoito. Os cristãos conhecem e entendem que a ira de Deus é a retribuição pelas injustiças e impiedades praticadas pelos homens; também compreendem que o juízo de Deus se deu em Adão, porém, no dia da ira também será dado a conhecer o juízo de Deus que se deu em Adão, e que os homens desconhecem ( Rm 2:5 ).

Aprendemos em Habacuque que o maior problema do homem está na falta de fé em Deus, e não nas impiedades e injustiça praticadas pelos homens; esta verdade é repetida por Paulo ao demonstrar que o maior problema do homem persiste quando ele detém a verdade pela injustiça.

Com base nestas informações iniciais a estrutura de ideia destes dois versículos fica assim:

“Do céu se manifesta a ira de de Deus sobre toda impiedade e injustiça dos homens que detêm a verdade pela injustiça, visto que o que de Deus se pode conhecer, neles se manifesta, porque Deus lhes manifestou” (v. 16 e 17).

Da mesma forma que os cristãos entendiam que o evangelho é poder de Deus para salvação, eles também entendiam que a ira de Deus se manifesta desde os céus sobre as impiedade dos homens que não creem em Deus (homens que detêm a verdade em injustiça).

A oração ‘visto que o que de Deus se pode conhecer’ na gramática portuguesa é uma Oração Subordinada Adverbial Causal, caracterizada pela conjunção ‘visto que’, pois funciona como uma adjunto adverbial de causa. A ideia que foi exposta na primeira oração é complementada pela oração seguinte que expõe o que deu causa à ideia. Ou seja, a ira de Deus se manifesta sobre os homens que detém a verdade em injustiça porque esta é a única coisa que eles podem conhecer de Deus.

Devemos ter em mente que todas as colocações de Paulo foram feitas a cristãos, e portanto, dentro da compreensão que era pertinente a todos eles.

 

18 Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça.

O que aprendemos com a citação de Habacuque também se aplica deste versículo até o versículo trinta e dois: a depravação da humanidade é uma evidência da falta de fé em Deus, e não o pior problema da humanidade. A depravação que Paulo descreve em linhas gerais não é o pior mal da humanidade, antes indica algo de maior gravidade e que aprisiona a humanidade: o pecado da incredulidade!

Da mesma forma que Habacuque se ocupava em questionar a justiça de Deus por causa de questões sociais, éticas e morais, hoje muitos questionam a justiça de Deus por causa dos problemas da sociedade. Por que tantas injustiças? Por que tanta violência? Será que Deus não está vendo? ( Hc 1:3 -4).

Da mesma forma que a justiça de Deus se manifesta por meio da verdade do evangelho e os homens não conseguem ver, a ira de Deus se manifesta sobre a impiedade e injustiça dos homens, e eles também não conseguem ver.

Os homens que detém a verdade em injustiça são a peça chave na leitura deste capítulo. A fé é o elemento pelo qual o homem alcança a justiça de Deus, e a incredulidade é o elemento que detém a ação da verdade, permanecendo a injustiça. O evangelho de Cristo revela a justiça de Deus aos homens, e estes, quando não creem em Cristo, detêm a verdade em injustiça.

 

19 Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou.

Somente aqueles que creem na mensagem do evangelho descobrem a justiça de Deus, pois é isto que o evangelho manifesta a todos quantos creem. Já aos incrédulos é dado conhecer a ira de Deus, pois mesmo eles não sabendo, a ira de Deus se manifesta neles. Deus manifestou a sua ira sobre os homens que detém a verdade de Deus em injustiça.

Visto que os homens vivem em impiedade e em injustiças, a eles compete a ira de Deus. Neles se manifesta a ira de Deus porque é a única coisa de Deus que eles ‘podem’ conhecer. Os justo não conhecerão a ira, antes terão gozo e paz no espírito Santo, pois não é pertinente a eles conhecer a ira.

Aqueles que não creem terão contato única e exclusivamente com a ira de Deus, pois é isto que eles tem entesourado para si. A ira de Deus se há manifestado entre eles, visto que Deus deixou todos eles entregues as concupiscências de seus corações impenitentes (v. 24). Compete a eles a ira de Deus por serem filhos da ira e vasos da ira, preparados para a perdição ( Rm 9:21 -23). Não podemos perder de vista que a culpabilidade dos homens é em decorrência da condenação em Adão, e não por questões morais e comportamentais (impiedade e injustiças).

Permanece a condenação e serão alvos da ira de Deus por não crerem na verdade, conforme o exposto por Cristo: “Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, porque não crê no unigênito Filho de Deus” ( Jo 3:18 ).

 

A Natureza

Paulo expõe aos cristãos de Roma que os atributos de Deus, bem como o seu eterno poder e sua divindade são facilmente perceptíveis por tudo quanto está criado por Deus.

Ao analisarmos esta declaração de Paulo, devemos ter em mente que ele estava escrevendo a cristãos e que é próprio a eles ver os atributos de Deus na criação.

Paulo destaca que Deus ‘manifesta’ a sua ira sobre a impiedade e a injustiça, é que a ira é algo que somente os injustos podem conhecer. Porém, os ímpios à época de Paulo tinham ciência, ou melhor, sabiam que a ira de Deus se ‘manifestava’ neles? Os descrentes desconheciam esta verdade! Por que? Porque o texto é uma explanação do apóstolo que demonstra aos cristãos uma realidade pertinente aos injustos. Os injustos são sujeitos da ira de Deus (neles se manifesta a ira), porém, este não é um conhecimento pertinente aos incrédulos. Eles não sabem, ou melhor, não têm ciência de que são sujeitos da ira.

Lembre-se que há o conhecer de ‘ciência’, ou ‘estar informado a respeito de’, e o conhecer cristão, que é ‘Deus em nós e nós nele’. O conhecer do cristão refere-se a união com Cristo.

Quando Paulo fala que as evidências presentes na criação depõe contra os homens que detêm a verdade em injustiça, ele fala de um conhecimento (ciência) que não é de total domínio dos incrédulos. Os incrédulos não conseguem perceber que a natureza depõe contra eles quando revela a existência de Deus.

O papel da natureza é duplo:

a) revela a existência de Deus e desperta a curiosidade de conhecê-lo melhor, e;
b) depõe contra aqueles que souberam da existência de Deus e não se importaram de ter conhecimento de Deus (v. 28).

O conhecimento proveniente da natureza não condena o homem. A condenação é proveniente da queda em Adão, e o conhecimento da existência de Deus através da natureza somente depõe contra os homens, deixando-os sem qualquer desculpa pelo proceder inconveniente que adotaram neste mundo.

Os incrédulos, ao observarem a natureza, souberam da existência de Deus, ou seja, ‘pelas coisas que foram criadas’. Já o entendimento dos cristãos é mais amplo diante das mesmas coisas criadas; os cristãos conseguem ver claramente e entender ‘os atributos invisíveis de Deus, a criação do mundo, o eterno poder de Deus e a divindade’. Ver e entender claramente é algo pertinente aos cristãos, já os incrédulos tem contato com as coisas criadas, e por isso são inescusáveis quando agem em impiamente.

Ao olhar a natureza é possível ‘entender’ e ‘ver’ os atributos de Deus e o seu eterno poder? Observe que os atributos de Deus são invisíveis! É possível entender e ver a criação do mundo? É possível entender e ver que o poder de Deus é eterno? Não! Este conhecimento é restrito aos cristãos, que são informados destas verdades através das Escrituras.

Agora, o que os cristãos claramente viam e entendiam (a manifestação da ira, os atributos invisíveis de Deus, o eterno poder), os incrédulos também adquiriram ‘conhecimento’ de Deus por meio das coisas criadas. O conhecimento deles não equivale ao conhecimento dos cristãos: através da natureza somente é possível perceber a existência de Deus, o que não os livra da condenação em Adão! O conhecimento que os incrédulos adquiriram da natureza não os conduz a Deus, antes, os seus raciocínios tornaram-se fúteis e os seus corações insensatos se obscureceram e não buscaram a Deus.

Os homens que detêm a verdade em injustiça já estão debaixo de condenação herdada de Adão, e se mantém inescusáveis quanto as suas ações, visto que souberam da existência de Deus por meio das coisas que foram criadas, mas não deram a devida importância a tal conhecimento e não buscando a Deus. Antes, as suas ações se diversificaram segundo os seus corações e pensamentos, e somente entesouram ira para si ( Rm 2:5 ).

A ira de Deus a se manifestar é quanto as ações dos homens, visto que o juízo já foi estabelecido quanto à queda de Adão. A queda trouxe o juízo de Deus, mas as ações dos homens trará a ira e a indignação de Deus.

Por que eles se mantém culpáveis diante de Deus? Porque a natureza evidencia que Deus existe, dando aos homens a primeira condição para que creiam em Deus, conforme foi demonstrado aos cristãos Hebreus: “…é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe…” ( Hb 11:6 ). A criação apresenta a primeira condição necessária para que o homem se aproxime de Deus: dá a conhecer a existência de Deus.

A criação nunca substituiu o evangelho e não tem condição de ‘revelar’ a plenitude de Deus aos homens. Somente Jesus, o unigênito de Deus, revelou e revela Deus aos homens ( Jo 1:18 ), dando as condições necessárias para que se creia que ‘Deus existe’, e é ‘galardoador dos que o buscam’ ( Hb 11:6 ).

Saber que Deus existe não livra ninguém da condenação eterna; saber que Deus existe não livra ninguém da condenação do pecado (vide o caso de Caim, que mesmo sabendo da existência de Deus, matou o seu irmão).

A natureza ‘revela’ que Deus existe, porém ela é limitada. A natureza não faz o homem se aproximar de Deus! Somente aqueles que aceitam a verdade do evangelho é que tem acesso a Deus, visto que Jesus é o caminho a verdade e a vida “Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” ( Jo 14:6 ). O conhecimento evidenciado pela natureza jamais conduzirá homem algum a Deus.

Entender que é possível alguém ser salvo através da ‘revelação’ da natureza é temerário, pois:

1ª) Os judeus tinham conhecimento impar de Deus através do que revelava o Antigo Testamento, e mesmo assim, muitos se desviaram após outros deuses;
2ª) Esta ideia não coaduna com o exposto por Paulo: “E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição” ( Rm 9:22 ); muitos questionam a justiça de Deus, visto que nem todos os homens ouviram a mensagem do evangelho. Porém, estes esquecem que os vasos da ira foram preparados para a perdição. “Que diremos? Há injustiça da parte de Deus?” ( Rm 9:14 );
3ª) Alegar que Deus julgará o homem com relação as suas obras através do conhecimento recebido não é bíblico, visto que só o fato de ir a julgamento já demonstra a culpabilidade do homem ( Rm 2:12 ).

A ação dos homens, mesmo tendo conhecimento (‘ciência’) da existência de Deus, foi o de criarem deuses para si.

 

20 Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis;

Os homens que detêm a verdade pela injustiça permanecem no estado de culpabilidade diante de Deus, mesmo quando é perfeitamente possível entender e ver por meio das coisas criadas, que existe um Deus. A culpabilidade da humanidade se deu em Adão, onde os homens passaram a ser filhos da desobediência e da ira.

Os homens que detém a verdade em injustiça permanecem na perdição (culpáveis). A incredulidade dos homens que detém a verdade em injustiça não depõe somente contra o evangelho de Cristo, que é a verdade. A incredulidade se opõe até em coisas por demais evidentes, como as que foram criadas por Deus.

O leitor deve perceber que a argumentação de Paulo é direcionada a cristãos. Dentro desta ideia, Paulo demonstra que observar a natureza e entender que Deus existe não absolve o homem de sua culpa. Constatar que Deus existe através das coisas criadas por Deus serve somente para que os homens que detém a verdade em injustiça fiquem inescusáveis.

O homem tornou-se culpável em Adão, e quando ele entende que Deus existe através da coisas criadas, torna-se indesculpável. Os elementos que a natureza apresenta, apresenta tão somente para que o homem permaneça inescusável diante de Deus.

21 Porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. 22 Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos. 23 E mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis.

Os homens poderiam inquirir a respeito de Deus quando em contato com as coisas criadas, porém, permaneceram inescusáveis, pois souberam da existência de Deus por meio de suas obras e não lhe renderam graças e nem a glória devida.
Este versículo deve ser analisado com a ideia que a carta aos Hebreus apresenta: “Ora, sem fé é impossível agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam” ( Hb 11:6 ).

Ora, se é necessário crer que Deus existe para poder se aproximar dele, a natureza é uma grande aliada, pois o que ela apresenta declara que há um Deus. Apesar dos homens terem conhecimento da existência de Deus, acabaram criando discursos fúteis e seguiram o curso de um coração impenitente herdado em Adão. O ato de renderem adoração as imagens de escultura demonstra o quanto o homem se distanciou do Criador.

A natureza apresenta uma verdade, porém, ela não consegue aproximar o homem de Deus. Somente a verdade do evangelho pode reconciliar o homem com Deus.

A sabedoria do homem, as suas questões filosóficas os faz inculcar que são sábios, porém, a sabedoria dos homens é loucura perante Deus. As investigações dos homens se demonstram ineficazes, e só distancia o homem de Deus. Eles tornaram-se loucos por concluírem que não precisam de Deus, visto que criam deuses para si.

24 Por isso também Deus os entregou às concupiscências de seus corações, à imundícia, para desonrarem seus corpos entre si; 25 Pois mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente. Amém.

A ira de Deus começa a revelar-se nos homens que detém a verdade em injustiça pelo fato de estarem entregues as concupiscências de seus corações.

26 Por isso Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza. 27 E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro.

O apóstolo Paulo descreve o comportamento dos homens que rejeitaram a Deus e seguem as concupiscências de seus corações. As dissoluções, rebeldias e infâmias é resultado da entrega as concupiscências do coração e abandono às paixões infames.

28 E, como eles não se importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convêm; 29 Estando cheios de toda a iniquidade, prostituição, malícia, avareza, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade; 30 Sendo murmuradores, detratores, aborrecedores de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais e às mães; 31 Néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, irreconciliáveis, sem misericórdia;

O maior problema da humanidade reside em não se importar em ter conhecimento de Deus. Enquanto o homem não considera em seu coração que Deus existe e que é galardoador daqueles que o buscam, ficam entregues a um sentimento perverso. A disposição mental daqueles que desprezam o conhecimento de Deus é totalmente reprovável.

32 Os quais, conhecendo a justiça de Deus (que são dignos de morte os que tais coisas praticam), não somente as fazem, mas também consentem aos que as fazem.

Mesmo não se importando em ter conhecimento de Deus os homens não podem negar o testemunho da consciência. Mesmo sabendo que são passíveis de morte quem pratica as ações descritas acima, quem não se importa em ter conhecimento de Deus não somente as fazem, como também consentem com quem as pratica.

Os homens cheios de malignidade conhecem a justiça de Deus através de uma lei interna e da consciência ( Rm 2:15 ). Eles sabem que as suas ações são reprováveis diante de Deus, porém permanecem na prática desenfreada da maldade.

Este trecho da carta aos Romanos (v. 18- 32) tem o objetivo de demonstrar que jamais Paulo apregoou que é necessário fazer o mal, para que o bem venha ( Rm 3:8 ). Este trecho depõe contra a malignidade da humanidade, demonstrando que quem pratica tais coisa são reprováveis perante Deus.

O capítulo seguinte apresenta homens que se escudam em acusar o semelhante, mas a condição deles é a mesma que os mais infames dos homens; eles também são reprováveis diante de Deus.

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Como oferecer sacrifício vivo?

Cristo morreu, segue-se que todos cristãos morreram ( 2Co 5:15 ), portanto, é necessário trazer sempre ‘por toda a parte a mortificação do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também nos nossos corpos’. Ou seja, aqueles que obtiveram nova vida em Cristo sempre estão entregue à morte por amor de Jesus, ou seja, é um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, para que ‘a vida de Jesus se manifeste também na nossa carne mortal’ ( 2Co 4:10 -11).


“ROGO-VOS, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” ( Rm 12:1 )

Como cumprir a recomendação do apóstolo Paulo?

Em primeiro lugar não é se socorrendo da definição de sacrifício que consta em dicionários. Saber que sacrifício é ‘qualquer coisa consagrada e ofertada a Deus’ não nos auxiliará na compreensão da orientação paulina, pois não há dicionário no mundo que esclareça como tornar um ‘corpo’ possuidor dos predicativos que se seguem: vivo, santo e agradável.

Em segundo lugar, sabemos que é impossível ao homem natural compreender as coisas de Deus, portanto, não podemos esperar que o trabalho de lexicógrafos nos auxilie na compreensão das Escrituras ( 1Co 2:14 ).

O apóstolo Paulo roga aos cristãos, ou seja, ele não estabelece uma determinação, uma ordenança, ou uma lei, pois ao chamá-los de irmãos, demonstra que, apesar de estar em posição de impor determinações, por ser apóstolo, não impõe, pois tudo que um cristão faz é voluntário, pois Deus a ninguém oprime ( Jó 37:23 ).

Ele roga aos seus irmãos pela compaixão de Deus, ou seja, por Cristo. Cristo é a compaixão de Deus revelada aos homens.

O apóstolo Paulo não utiliza o seu apostolado para impor determinações aos cristãos, antes roga no nome do Senhor Jesus, o primogênito dentre muitos irmãos, para que a sua exortação fosse acatada ( Rm 8:29 ).

Como o verso em análise aborda as questões de oferta e sacrifício, geralmente vem à mente do leitor os sacrifícios oferecidos sob a velha aliança. Porém, os sacrifícios que se ofereciam segundo a lei eram todos ‘cadáveres’, por mais perfeito que fosse o cordeiro escolhido. Para o sacrifício o animal era morto e, após, disposto sobre o altar em holocausto, mas Deus já sinalizava que não se deleitava somente na sombra dos bens futuros “Pois não desejas sacrifícios, senão eu os daria; tu não te deleitas em holocaustos” ( Sl 51:16 ).

Embora o sacrifício para a redenção da humanidade já foi ofertado, pois Cristo é o Cordeiro de Deus, a Bíblia nos demonstra que sob a nova aliança também é possível oferecer sacrifício a Deus. O escritor aos hebreus assim orienta: “Portanto, ofereçamos sempre por ele a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome” ( Hb 13:15 ), ou seja, por intermédio de Cristo (compaixão de Deus) se oferece a Deus ‘sacrifício de louvor’, que nada mais é do que professar o nome de Cristo.

Neste mesmo sentido alerta o apóstolo Pedro: “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pe 2:5 ). Ele demonstra que os cristãos são ‘casa espiritual’ e exercem um ‘sacerdócio santo’, ou seja, sacerdócio real segundo a ordem de Melquisedeque.

Como? Se Cristo é a pedra fundamental, o sumo sacerdote, o sacrifício e o primogênito entre muitos irmãos, todos os cristãos, como coerdeiros, filhos de Deus, também são pedras vivas e sacerdotes real edificados casa espiritual ( 1Pe 2:15 ).

Mas, qual o objetivo de os cristãos terem sido edificados casa espiritual? Para oferecerem sacrifícios agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo ( Hb 13:15 ). Que sacrifício é este? O fruto dos lábios, ou seja, anunciar a Cristo (a palavra, o Verbo encarnado), a pedra de tropeço no qual os homens tropeçaram ( 1Pe 2:8 ). O apóstolo Pedro destaca que os cristãos são ‘geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido’ para oferecerem sacrifício de louvor, ou seja, anunciando ‘as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz’ ( 1Pe 2:9 ).

Neste sentido o salmista Davi preanunciou: Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus” ( Sl 51:17 ). Como ele haveria de sacrificar? “Eu te oferecerei voluntariamente sacrifícios; louvarei o teu nome, ó SENHOR, porque é bom” ( Sl 54:6 ). Por que Ele haveria de louvar? Porque ‘aquele que oferece o sacrifício de louvor me glorificará’, ou seja, qualquer que queira oferecer sacrifício de louvor, ou o ‘fruto dos lábios’, deve anunciar as virtudes de Cristo professando o seu nome ( Sl 50:23 ; 1Pe 2:9 ; Hb 13:15 ). Compare:

  • Nisto é glorificado meu Pai, que deis muito fruto; e assim sereis meus discípulos” ( Jo 15:8 );
  • “Aquele que oferece o sacrifício de louvor me glorificará ( Sl 50:23 );
  • “Portanto, ofereçamos sempre por ele a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome” ( Hb 13:15 ).

Jesus demonstrou que glorificou o Pai anunciando o seu nome aos homens, e para que o cristão seja discípulo de Cristo deve produzir muito fruto, ou seja, anunciar o nome do Pai, o mesmo que glorificá-Lo Eu glorifiquei-te na terra, tendo consumado a obra que me deste a fazer (…) Manifestei o teu nome aos homens que do mundo me deste; eram teus, e tu mos deste, e guardaram a tua palavra” ( Jo 17:4 -6).

Se o sacrifício do cristão é oferecer o ‘fruto dos lábios’, ou ‘sacrifício de louvor’, ou ‘professar o nome de Cristo’, que glorifica o Pai, o que o apóstolo Paulo propõe aos irmãos no verso 1 do capítulo 12 da epístola aos cristãos em Roma?

Como é assente que ‘um texto fora do contexto é pretexto’, devemos analisar o contexto de Romanos 12.

Antes de analisarmos o contexto de Romanos 12, observe este verso: Oferecer-te-ei sacrifícios de louvor, e invocarei o nome do SENHOR” ( Sl 116:17 ). Por que é necessário observar este verso do Salmo 116? Porque neste verso há um paralelismo sinônimo, ou seja, a segunda linha, apesar de empregar termos diferentes, repete o pensamento da primeira linha, que é uma das características da poesia hebraica.

Lembrando que na poesia hebraica temos uma espécie de rima de pensamentos, nunca de som, ou seja, as ideias é que são relacionadas e não o som, ou rima. É esta uma das características da poesia hebraica que preserva a beleza e a ideia mesmo quando se traduz para qualquer outra língua. Compare:

  • “Aquele que oferece o sacrifício de louvor me glorificará ( Sl 50:23 );
  • “Oferecer-te-ei sacrifícios de louvor, e invocarei o nome do SENHOR” ( Sl 116:17 );
  • “E ofereçam os sacrifícios de louvor, e relatem as suas obras com regozijo” ( Sl 107:22 );
  • “Oferecei sacrifícios de justiça, e confiai no SENHOR” ( Sl 4:5 ).

‘Sacrifício de louvor’ é o mesmo que ‘relatar as obras de Deus’ com alegria, ‘invocar o seu nome’, ‘confiar em Deus’, ‘glorificar’, ‘anunciar’ etc.

Se o paralelismo sinônimo da poesia hebraica estabelece que ‘oferecer sacrifício de louvor’ é o mesmo que ‘invocar o nome do Senhor’, segue-se que o que o apóstolo Paulo propõe no capítulo 12 é continuação das ideias exaradas no capítulo 10, o que não é de se estranhar, pois se trata de uma epístola ( Rm 10:13 ).

Os mesmos irmãos que o apóstolo roga para que apresentem os seus corpos em sacrifício, foram abordados no capítulo 10: “Irmãos, o bom desejo do meu coração…” ( Rm 10:1 ), e: “Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão…” ( Rm 12:2 ).

Qual era o bom desejo do coração do apóstolo Paulo? Que os seus irmãos na carne (judeus) fossem salvos, porém, ele bem sabia que os seus compatriotas, apesar do zelo, não tinham o ‘entendimento’ de Deus ( Rm 10:2 ).

Que entendimento lhes faltava? Que Deus é rico para com todos que O invocam ( Rm 10:12), pois ‘todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo’ ( Rm 10:13 ). Como oferecer ‘sacrifício de louvor’ (buscar ao Senhor) é o mesmo que possuir um ‘espírito quebrantado’ ( Sl 116:17 ; Sl 51:17 ), neste quesito não há diferença entre gentios e judeu, servos e livres, macho e fêmea ( Rm 10:12 ).

Para os que não compreendem a verdade do evangelho o ciúmes permanece ( Rm 10:19 ).

Quando o escritor aos Hebreus cita o Salmo “Dizendo: Anunciarei o teu nome a meus irmãos, Cantar-te-ei louvores no meio da congregação” ( Hb 2:12 ; Sl 22:22 ), está em destaque o paralelismo, pois quem anuncia o nome de Deus é que O louva. Compare: “Os mansos comerão e se fartarão; louvarão ao SENHOR os que O buscam; o vosso coração viverá eternamente” ( Sl 22:26 ), com Oferecer-te-ei sacrifícios de louvor, e invocarei o nome do SENHOR” ( Sl 116:17 ). Quando Jesus convida ‘vinde a mim vós que estais cansados e oprimidos’ e ‘aprendei de mim (…) e encontrareis descanso para as vossas almas’, cumpre-se os versos acima ( Mt 11:28 -29).

Após declinar qual era o desejo do seu coração ( Rm 10:1 ), e que Deus não havia rejeitado a Israel como povo ( Rm 11:1 ), o apóstolo Paulo rogou aos irmãos (judeus e gentios) que oferecessem a Deus os seus corpos, ou seja, agissem de modo a demonstrar que judeus e gentios que creem em Cristo foram elevados a mesma categoria: membros do corpo de Cristo ( 1Co 12:13 e 24).

O sacrifício do cristão é professar a Cristo, mas quando há qualquer tipo de discriminação nega-se a eficácia do evangelho ( Hb 13:15 ). Seria o mesmo que considerar que Deus só podia fazer nova criatura dentre os judeus, pois eram mais regrados devido à lei. Ou que Deus só podia salvar gentios, uma vez que os judeus foram rejeitados.

Diante das diferenças que alguns ainda evocavam por entenderem que mesmo no evangelho persistiam as diferença entre judeus e gentios (ambos, judeus e gentios, não haviam compreendido que os judeus não são mais excelentes que os gentios, e que os judeus não foram rejeitados Rm 3:9 e Rm 11:1 e 12), o apóstolo Paulo roga que ofereçam os seus corpos por sacrifício vivo, santo e agradável, pois assim as diferenças culturais seriam extintas.

Até mesmo considerar que os dons que foram repartidos tornam alguns cristãos melhores que outros não é racional diante de Deus, pois o douto não é melhor que o neófito “Porque os que em nós são mais nobres não têm necessidade disso, mas Deus assim formou o corpo, dando muito mais honra ao que tinha falta dela para que não haja divisão no corpo, mas antes tenham os membros igual cuidado uns dos outros” ( 1Co 12:24 -25).

Como por natureza o cristão é vivo, santo e agradável a Deus, o sacrifício também é vivo, santo e agradável. Por quê? Porque os cristãos já ressurgiram com Cristo e são pedras vivas, sacerdócio real, templo santo. Como é o templo que santifica o ouro, e o altar que santifica a oferta, o sacrifício é vivo, santo e agradável porque o cristão é pedra viva (templo e altar), nação santa, sacerdócio santo, casa espiritual, etc. ( 1Pe 2:5 ).

Conclui-se que, aqueles que não aceitam os irmãos como sendo seu igual, ainda está morto. Não creu em Cristo conforme as escrituras, e não pode oferecer o seu corpo em sacrifício vivo, santo e agradável. Não cultua o culto racional, pois para santificar os membros do seu corpo, o próprio Jesus utilizou a palavra, o que torna a igreja santa e irrepreensível “Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível” ( Ef 5:26 -27). É Cristo que dá vida! É Cristo que santifica! É Cristo que torna o homem agradável a Deus ( Jo 10:10 ; Ef 1:6 ; 1Co 6:11 ).

O apóstolo Paulo considerou tudo como esterco para alcançar a Cristo “E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo” ( Fl 3:8 ), porém, não podia falar-lhes abertamente, por questões socioculturais, que ser judeu ou ser gentil, quando em Cristo, era de nenhum valor, o mesmo que nada, escória ( Gl 6:15 ).

O apóstolo Paulo roga aos cristãos que ofereçam os seus corpos em sacrifício vivo, santo e agradável, pois somente desta forma todas as diferenças socioculturais seriam excluídas. Sacrificar as diferenças socioculturais é o culto racional, pois todo os cristãos, não importando suas origens, são povo adquirido, sacerdotes santos, pedras vivas, casa espiritual para oferecerem sacrifícios santos e agradáveis a Deus ( 1Pe 2:5 ).

O culto racional só é possível após ser participante do leite racional. O que é o leite racional? A palavra da verdade que concede crescimento, que torna o cristão sóbrio, com o entendimento cingido ( 1Pe 2:2 ). No que isto implica? Que o cristão invoca como Pai Aquele que não faz acepção de pessoa (judeu e gentil) ( 1Pe 1:17 ), e que toda carne é como a flor da erva (judeu e gentil) ( 1Pe 1:24 ), e o que permanece é a palavra de Deus ( 1Pe 1:25 ).

Nascer de novo é um imperativo, mas sacrificar as diferenças sociais em função da unidade do corpo de Cristo é uma disposição voluntária, por isso o apóstolo Paulo roga no verso 1, do capítulo 12 da carta aos Romanos. O apóstolo dos gentios destaca que os cristãos são muitos, mas são um só corpo em Cristo, ou seja, individualmente cada cristão é membro um dos outros, portanto, não pode haver diferença entre os cristãos “Assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros” ( Rm 12:5 ).

Daí vem o imperativo: não sede conformados com o mundo! O que isto quer dizer? Que as diferenças apregoadas pelos judaizantes, algo próprio ao mundo, não devia ser a tônica dos cristãos ( 1Pe 1:14 ). Antes, deviam ser ‘transformados pela renovação do entendimento’, ou seja, a transformação do entendimento reflete diretamente na mudança de comportamento, que passa a ser segundo a boa, agradável e perfeita vontade de Deus ( Rm 12:2 e 18 compare com 1Pe 2:19 ).

A mudança de comportamento operada pela transformação do entendimento é o que tapa a boca à ignorância dos homens insensatos, daqueles que se ensoberbecem a favor de um contra o outro, pois vão além do que está escrito “Porque assim é a vontade de Deus, que, fazendo bem, tapeis a boca à ignorância dos homens insensatos” ( 1Pe 2:15 ; Rm 12:3 e 1Co 4:6 ).

Apresentar o corpo como sacrifício vivo, santo e agradável é culto racional ofertado a Deus, ou seja, refere-se a uma transformação na compreensão através da verdade do evangelho (leite racional). O cristão que pensava que os judeus eram mais ilustres que os demais homens diante de Deus precisavam compreender que no corpo de Cristo não há diferença entre judeus e gentios, pois através da operação do evangelho da paz foi feito dos dois povos um novo homem ( Ef 2:15 ).

O culto racional, o mesmo que compreender que todos (judeus e gentios) são um só corpo em Cristo Jesus é apontado como sendo um sacrifício que os cristãos, individualmente e voluntariamente, poderiam oferecer a Deus.

Além de andar de acordo a compreensão do Evangelho podemos oferecer também sacrifício de louvor que decorre do fruto dos lábios, conforme demonstra o escritor aos hebreus ( Hb 13:15 ).

Sob a Velha Aliança, era oferecido a Deus o sacrifício de animais, o que prenunciava o sacrifício do Cordeiro de Deus, Jesus Cristo. Apresentar o corpo em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus não é o mesmo que um processo de santificação, pois a santificação se dá única e exclusivamente pela vontade de Deus através da oferta do corpo de Cristo ( Hb 10:10 ).

Apresentar o ‘corpo’ em sacrifício vivo, santo e agradável também não é o mesmo que apresentar os ‘membros’ a Deus como instrumento de justiça, pois apresentar os membros como instrumento de justiça é abster-se da concupiscência, e apresentar o corpo em sacrifício, um culto racional ( Rm 6:12 -13).

Enquanto o culto racional refere-se à voluntariedade do cristão em aceitar qualquer pessoa, independente das suas origens e condições sociais, como sendo participante do corpo de Cristo, apresentar os membros a Deus como instrumento de justiça refere-se ao comportamento do cristão após tornar-se servo da justiça ( 1Pe 2:11 ).

Observe que a estrutura de texto da primeira epístola do apóstolo Pedro, apesar de não ter o mesmo contexto (judeus versus gentios), demonstra que os sacrifícios agradáveis a Deus ( 1Pe 2:5 ) é anunciar as virtudes daquele que chamou os cristãos para a luz ( 1Pe 2:9 ). Como a vontade de Deus é que os ignorantes não tenham do que acusar os cristãos ( 1Pe 2:15 ), o apóstolo roga, do mesmo modo que o apóstolo Paulo, que os cristãos abstenham das concupiscências carnais (1Pe 2:11 ).

Fica claro após uma releitura do verso em análise que a ‘transformação pela renovação do entendimento’ se traduz em aceitação das diferenças socioculturais dos cristãos, pois após a reconciliação efetivada na cruz ( Ef 2:16 ), todos pertencem a uma mesma família ( Ef 2:19 ; Rm 12:5 ), são membros de um mesmo corpo, pois não há diferença entre judeu e grego ( Rm 10:12 ), o que demanda aos cristãos, que ainda não ofereciam um culto racional, transformarem-se pela renovação do entendimento, ou seja, oferecendo voluntariamente os seus corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é aceitar a eficácia do sacrifício de Cristo (culto racional), que faz (bara) ambos, judeus e gentios, nova criatura.

Por quê? Porque após oferecer o corpo em sacrifício o cristão deixa de considerar os membros do corpo de Cristo segundo a carne (judeus e gentios), como alertou o apóstolo Paulo “Assim que daqui por diante a ninguém conhecemos segundo a carne, e, ainda que também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo agora já não o conhecemos deste modo ( 2Co 5:16 ).

Cristo morreu, segue-se que todos cristãos morreram ( 2Co 5:15 ), portanto, é necessário trazer sempre ‘por toda a parte a mortificação do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também nos nossos corpos’. Ou seja, aqueles que obtiveram nova vida em Cristo sempre estão entregue à morte por amor de Jesus, ou seja, é um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, para que ‘a vida de Jesus se manifeste também na nossa carne mortal’ ( 2Co 4:10 -11).

Ao oferecer o corpo em sacrifício vivo, santo e agradável, que é o culto racional, o cristão compreendeu que na unidade do corpo de Cristo há servo, livre, judeu, grego, homem, mulher, etc. É o mesmo que “… amar a Deus de todo o coração, e de todo o entendimento, e de toda a alma, e de todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo…”, ou seja, oferecer sacrifício de louvor “… é mais do que todos os holocaustos e sacrifícios” ( Mc 12:33 ; Sl 50:23 ).

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