Tiago 2 – Fé e obras

De nada aproveita ao homem dizer que tem fé (que crê em Deus) e não ter obras (obedecer). Só é plenamente aceitável e aproveitável se ele tiver fé (crer) e as obras (obedecer).


Introdução

O comentário ao capítulo Um da Carta do apóstolo Tiago contém os elementos necessários à interpretação do capítulo dois.

Declarações do apóstolo como: “Assim também a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma”, ou “assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta”, tem suas bases no capítulo um.

Antes de continuarmos na explicação versículo a versículo, já é possível determinarmos o tema central da carta: a perseverança.

A prova da fé produz a perseverança ( Tg 1:2 ). Ele destaca que o homem que suporta a provação é bem-aventurado (v. 12). A perseverança é condição essencial para se alcançar à bem-aventurança prometida por Deus aos que o amam (v. 25).

Nesta linha de raciocínio o apóstolo Paulo também destacou que a perseverança é produzida na tribulação Rm 5. 3. O escritor aos Hebreus também demonstrou que é necessária a perseverança depois que se crê em Cristo “Porque necessitais de perseverança, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” ( Hb 10:36 ).

Perseverança: Obra completa da fé posta à prova ( Tg 1:3 -4);

A vontade de Deus: “Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

Apesar de a carta estar endereçada ‘às doze tribos da dispersão’ Tg 1. 1, o se conteúdo não contempla somente os judeus que se tornaram cristãos.

O apóstolo Tiago demonstra que a fé do cristão ao ser provada desenvolve a perseverança. Esta idéia é confirmada pelo apóstolo Paulo: “E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a paciência…” ( Rm 5:3 ).

A prova da fé produz a perseverança, e a perseverança é a obra completa da fé, como se lê abaixo:

“Sabendo que a prova de voffa fé obra a paciencia. Tenha porém a paciencia a obra perfeita, peraque perfeitos e totalmente finseros fejaes, em nada faltando”

Novo Testamento – 2ª impressão – Data da edição: 1693, com introduções e resumos da edição de 1681 de Amsterdam, além de Notas de Rodapé dos revisores – Impresso na Batávia (Ilha de Java). SBB.

Tiago insta os leitores a entenderem que a prova da fé produz a perseverança. Após a provação restava a eles estarem de posse da perseverança, que é a obra completa (perfeita) da fé.

Este aspecto da fé é retratado por Paulo aos cristãos de Tessalonicenses ao citar a perseverança de Cristo: “Ora o Senhor encaminhe os vossos corações no amor de Deus, e na paciência de Cristo” ( 2Ts 3:5 ).

Tanto Paulo quanto Tiago concordam que a perseverança é a obra perfeita da fé “Bem-aventurado o homem que suporta com perseverança a provação…” ( Tg 1:12 ; Rm 5:3 ).

O homem será bem-aventurado no que realizar quando suporta a provação, visto que atenta para a lei perfeita, a da liberdade. Esta é a obra a se executar: a perseverança ( Tg 1:25 ).

A fé que Tiago faz referência é a fé salvadora. Ele diz da fé que uma vez foi dada aos santos Jd 3. Esta fé quando provada ‘obra’ (produz) a perseverança.

Em resumo, o capítulo um demonstra a obra da fé quando provada: a perseverança.

A perseverança é algo próprio da fé. Da mesma forma que a fé não vem do cristão, mas de Deus, a perseverança é proveniente da fé e não do cristão. A perseverança é característica de quem possui a fé (evangelho).

 

 

Alerta Segundo a Lei Real

1 Meus irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas.

Novamente o apóstolo Tiago demonstra a fraternidade em Cristo: meus irmãos.

A fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória é coletiva. Pertence ao senhor da glória e foi dada aos cristãos ( Jd 1:3 ; Ef 2:8 ; Tg 1:3 ).

A fé foi dada aos santos, mas estes não deviam tê-la em acepção de pessoas.

Este versículo é um aconselhamento seguido de um exemplo.

 

2 Porque, se no vosso ajuntamento entrar algum homem com anel de ouro no dedo, com trajes preciosos, e entrar também algum pobre com sórdido traje,

 

Observe que a entra de pessoas nas reuniões dos cristãos era livre, diferente das reuniões dos judeus.

3 E atentardes para o que traz o traje precioso, e lhe disserdes: Assenta-te tu aqui num lugar de honra, e disserdes ao pobre: Tu, fica aí em pé, ou assenta-te abaixo do meu estrado,

O exemplo de acepção de pessoas recai nas diferenças socioeconômicas.

 

4 Porventura não fizestes distinção entre vós mesmos, e não vos fizestes juízes de maus pensamentos?

Em um primeiro momento o exemplo parece hipotético, porém a exortação torna-se incisiva. Fizeram distinção entre eles mesmos e se tornaram juízes movidos por maus pensamentos.

 

5 Ouvi, meus amados irmãos: Porventura não escolheu Deus aos pobres deste mundo para serem ricos na fé, e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam?

O agora é o momento para qual os cristãos foram preparados: “Ouvi, meus amados irmãos…” ( Tg 1:19 ).

A linguagem é exclusivamente evangelística: Deus escolheu os pobres aos olhos do mundo para serem ricos na fé.

Não há qualquer promessa ou previsão de mudança na condição financeira dos cristãos. Qualquer tipo de promessa de melhora na condição financeira dos cristãos após terem aceitado a Cristo não é bíblica.

Observe que a promessa confere direito aos cristãos, porém a herança está atrelada ao reino prometido, que não é deste mundo.

 

6 Mas vós desonrastes o pobre. Porventura não vos oprimem os ricos, e não vos arrastam aos tribunais?

Tiago é incisivo e expõe um problema no seio da igreja: “Mas vós desonrastes o pobre”. Aqueles que precisavam ouvir tal queixa do apóstolo estavam preparados – sejam prontos a ouvir.

Aqueles que sofreram a afronta também estavam preparados: sejam tardios em falar, e tardios em irar.

O tema da carta é perseverança, porém o capítulo um reuniu elementos que preparou o ânimo dos ouvintes, tanto dos ricos como os de condição humilde ( Tg 1:9 -10).

 

 

Recomendações

7 Porventura não blasfemam eles o bom nome que sobre vós foi invocado?

Os ricos segundo os parâmetros deste mundo, além da opressão que impunham aos cristãos, acabavam por levá-los aos tribunais.

 

8 Todavia, se cumprirdes, conforme a Escritura, a lei real: Amarás a teu próximo como a ti mesmo, bem fazeis.

Se os leitores da carta de Tiago andassem conforme as Escritura (A. T.), estariam realizando o bem “E vós, irmãos, não vos canseis de fazer o bem” ( 2Ts 3:13 ).

Observe a distinção que Tiago faz dos elementos da lei ao citar um único trecho de Levítico (a Escritura): deveriam cumprir a lei real, ou o que foi instituído por Cristo “Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o SENHOR” ( Lv 19:18 ; Mc 12:31 ).

 

9 Mas, se fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado, e sois redarguidos pela lei como transgressores.

O apóstolo Tiago faz esta declaração com base neste versículo: “Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado” ( Tg 4:17 ).

Aquele que não anda conforme a lei real, este é transgressor e comente pecado, pois tal pessoa ainda não teve um encontro real com Cristo “Aquele que diz que está na luz, e odeia a seu irmão, até agora está nas trevas” ( 1Jo 2:9 ).

 

10 Porque qualquer que guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos.

Este é um parâmetro da lei: um ‘simples’ tropeço em qualquer ponto leva a pessoa subordinada a ela a derrocada total.

 

11 Porque aquele que disse: Não cometerás adultério, também disse: Não matarás. Se tu, pois não cometeres adultério, mas matares, estás feito transgressor da lei.

Este versículo é um exemplo aplicado dos parâmetros da lei que foi apresentado no versículo anterior.

 

12 Assim falai, e assim procedei, como devendo ser julgados pela lei da liberdade.

Este versículo contempla o argumento do apóstolo João: “Aquele que diz que está na luz, e odeia a seu irmão, até agora está nas trevas” ( 1Jo 2:9 ). O procedimento do cristão deve estar em conformidade como que ele professa.

Ao falar: “Amarás o teu próximo, como a ti mesmo”, deveriam proceder conforme o que diziam. Deveriam falar conforme a lei régia e proceder conforme ela estipula.

Aquele que procede conforme o que fala, age assim por saber que será julgado pela lei da liberdade. Tal julgamento é de obras e se dará no Tribunal de Cristo “Mas tu, por que julgas teu irmão? Ou tu, também, por que desprezas teu irmão? Pois todos havemos de comparecer ante o tribunal de Cristo” ( Rm 14:10 ); “Porque todos devemos comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o que tiver feito por meio do corpo, ou bem, ou mal” ( 2Co 5:10 ).

A lei da liberdade nos remete ao versículo vinte e cinco do capítulo um: “Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito” ( Tg 1:25 ).

Aquele que não é relapso, ou seja, que atenta bem para a lei da liberdade, cumpre com o determinado e é bem-aventurado no seu feito.

Ele é bem-aventurado por suportar com perseverança a tentação. A fé que ele recebeu deve se desenvolver, tornando-se perseverante.

 

13 Porque o juízo será sem misericórdia sobre aquele que não fez misericórdia; e a misericórdia triunfa do juízo.

A misericórdia divina só é demonstrada aos homens em particular quando este tem um encontro com Ele.

Sabemos que Deus amou o mundo de tal maneira, e que deu o seu Filho unigênito. Está é a misericórdia de Deus demonstrada ao mundo, em que seu Filho morreu, sendo nós ainda pecadores.

Mas, para que o homem seja participante desta misericórdia deve crer em Cristo para ser participante da luz.

Todos aqueles que crêem em Cristo são participante de sua natureza e devem andar como ele andou. Contudo, devemos observar o que diz o apóstolo João: “Outra vez vos escrevo um mandamento novo, que é verdadeiro nele e em vós; porque vão passando as trevas, e já a verdadeira luz ilumina. Aquele que diz que está na luz, e odeia a seu irmão, até agora está em trevas. Aquele que ama a seu irmão está na luz, e nele não há escândalo. Mas aquele que odeia a seu irmão está em trevas, e anda em trevas, e não sabe para onde deva ir; porque as trevas lhe cegaram os olhos” ( 1Jo 2:8 -11).

Aquele que não faz misericórdia é porque está em trevas e anda nas trevas. Não conhece a Deus, ou antes, não é conhecido por Ele. Tal homem, por não ser perseverante, ou seja, não continuou na fé que professava, uma vez viu, mas agora não sabe para onde deva ir, pois as trevas cegaram os seus olhos.

Estes são aqueles que não fazem misericórdia e terão o juízo de Deus.

O apóstolo João é bem claro com relação ao amor: “Ora, o seu mandamento é este, que creiamos no nome do seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o mandamento que nos ordenou” ( 1Jo 3:23 ).

O mandamento de Deus é claro: “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ). Somente após crer no enviado do Pai, é que o amor ao semelhante passa a ter valor diante de Deus. Devemos nos amar segundo o mandamento que foi ordenado: que creiais naquele que Ele enviou.

 

Porventura a Fé pode Salvá-los?

14 Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo?

O apóstolo Tiago continua a exposição do versículo doze: “Assim falai, e assim procedei…”. Qual o proveito se alguém disser que tem fé e não tiver as obras? Esta pergunta encontra resposta nos versículos seguintes.

“Meus irmaõs, que aproveita, fe alguem differ que a fé tem, e as obras não tiver? por ventura pode o a [tal] fé falvar?

Novo Testamento – 2ª impressão – Data da edição: 1693, com introduções e resumos da edição de 1681 de Amsterdam, além de Notas de Rodapé dos revisores – Impresso na Batávia (Ilha de Java). SBB.

O leitor deve observar atentamente a construção do versículo 14: alguém diz que tem fé, porém ele não tem as obras.

De nada aproveita ao homem ter fé e não ter obras. Só é plenamente aceitável e aproveitável se ele tiver a fé e as obras.

Certa feita algumas pessoas se achegaram a Cristo e perguntaram: “Que faremos para executarmos as obras de Deus?” ( Jo 6:28 ). Jesus respondeu: A obra de Deus é esta: “Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

O que esta passagem nos ensina? Que as pessoas geralmente estão em busca de algo material, e não de Deus. A multidão estava a procura de Jesus por causa do pão que comeram (v. 26), porém a mensagem e os sinais demonstrados não os havia sensibilizado (v. 27).

Quando Jesus demonstra que eles o buscavam de maneira enfatuada, interpelaram: “Que faremos para executar a obra de Deus?”.

Geralmente os homens que ainda não tiveram um encontro com Cristo, entendem que para se aproximar de Deus, ou que para agradá-lo, é necessário fazer alguma coisa. Observe que a multidão queria fazer a obra de Deus.

Quando Jesus revela a obra a ser realizada (que creiais naquele que ele enviou), estes apresentam empecilhos: “Que sinal, pois, fazes tu, para que o vejamos, e creiamos em ti? Que operas tu?” ( Jo 6:30 ).

A humanidade é voluntariosa quando se proclama afazeres. Constroem grandes templos, fazem grandes sacrifícios, são generosos nas esmolas, porém, quando tomam ciência do que devem fazer, que é crer em Cristo, estes pedem um sinal.

O jovem rico ao se aproximar de Jesus fez a mesma pergunta: “Bom Mestre, que bem farei para conseguir a vida eterna?” ( Mt 19:16 ). Jesus enumerou algumas coisas pertinentes à lei, e o jovem rico demonstrou que aquela era sua prática de vida, mas ele queria fazer algo mais para ter garantia da vida eterna “Tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade; que me falta ainda?” ( Mt 19:20 ).

Jesus aponta o essencial para que ele alcançasse a perfeição: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me” ( Mt 19:21 ).

A condição para alcançar a perfeição não estava no disponibilizar das riquezas, antes na crença na palavra de Cristo. Quando Jesus lhe apresentou a obra a ser realizada (crer naquele que Deus enviou), o Jovem rico recuou.

Nestas passagens Cristo confirma as palavras do apóstolo Paulo ao dizer que a salvação é por meio da fé “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” ( Ef 2:8 ). Ou seja, que “…sem fé é impossível agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam” ( Hb 11:6 ).

Também somos informados que as boas obras Deus preparou de ante mão para que andássemos nela “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” ( Ef 2:10 ). Ou melhor, que as boas obras são feitas, realizáveis em Deus “Mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus” ( Jo 3:21 ).

Reiterando: a salvação é por meio da fé e as boas obras foram preparadas por Deus e são feitas Nele.

Através desta análise podemos demonstrar que há uma grande diferença entre ‘obras da fé’ e o que chamamos de ‘boas ações’.

‘Boas ações’ são pertinentes e possíveis de serem realizadas por todos os homens e independe da fé. Tanto o crente quanto o incrédulo podem e devem realizar boas ações aos seus semelhantes. Mesmo aqueles que não creem em Cristo realizam boas ações, e nem por isso serão salvos.

Desta maneira é possível verificar que ‘boas obras’ não está vinculado a procedimentos humanos, já que as boas obras só são realizáveis quando o homem está em Deus por meio de Cristo.

Verifica-se que boas obras e más obras são termos utilizados que fazem referência tanto ao comportamento humano, quanto ao que é realizável em Deus “Porque os magistrados não são terror para as boas obras, mas para as más. Queres tu, pois, não temer a potestade? Faze o bem, e terás louvor dela” ( Rm 13:3 ).

O que define quando o texto faz referência a ‘boas ações’ e a ‘boas obras’? O contexto geralmente aponta qual a idéia a se considerar. Na citação acima, temos que ‘boas obras’ é o fazer ‘boas ações’, ou seja, o bem.

Este versículo contém elementos para nortear o entendimento do leitor, porém, há vários versículos que não dispõe do contexto para uma boa interpretação. Nestes versículos o que vale é o posicionamento doutrinário adotado pelos apóstolos.

Um exemplo claro de que devemos nos valer do posicionamento doutrinário adotado pelos apóstolos está neste versículo que estamos analisando.

A análise que fizemos acima aponta os seguintes posicionamentos doutrinários:

  • Sabemos que a salvação é por meio da fé;
  • Que a salvação é dom de Deus;
  • Que a salvação não é por obras, para que ninguém se glorie;
  • Que as boas obras são feitas em Deus;
  • Que não é possível ao homem realizar a obra de Deus;
  • Basta ao homem crer no enviado de Deus para se alcançar a salvação.

O versículo que estamos analisando apresenta os elementos seguintes:

“Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo?”

O versículo aponta que é necessário ter fé e ter as obras. Em momento algum o apóstolo Tiago alude que a prática de boas obras é o meio pelo qual se alcança a salvação. Em momento algum ele afirma que boas obras auxilia a fé.

Observe que as obras pertencem à fé (obras da fé). As obras da fé que Tiago faz alusão não podem ser confundidas com ‘boas ações’.

Neste versículo o apóstolo não fala de prática de boas obras, ou prática de boas ações. Ele fala de posse da fé e posse das obras da fé.

É totalmente pertinente o que Tiago escreveu e o que os outros apóstolos escreveram.

Primeiro porque a bíblia demonstra que a fé é proveniente de Deus “E pela fé no seu nome fez o seu nome fortalecer a este que vedes e conheceis; sim, a fé que vem por ele, deu a este, na presença de todos vós, esta perfeita saúde” ( At 3:16 ; Rm 12:3 ; 1Co 12:9 ).

Qualquer tipo de prática não torna o homem agradável a Deus “Ora, a lei não é da fé; mas o homem, que fizer estas coisas, por elas viverá” ( Gl 3:12 ).

Novamente o apóstolo Paulo excluiu qualquer prática: “Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça” ( Rm 4:5 ).

Não existe contradição alguma entre Paulo e Tiago, pois Tiago não fala em pratica de obras, mas sim da posse da posse das obras da fé.

Para ilustrar a idéia, Tiago estabelece um exemplo:

 

 

Fé e Obras

15 E, se o irmão ou a irmã estiverem nus, e tiverem falta de mantimento quotidiano, 16 E algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos, e fartai-vos; e não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito virá daí?

Estes dois versículos são bases para um comparativo.

Perceba que os dois versículos não constituem uma exortação à prática destas ações, pois a questão de alimentar o faminto era algo já resolvido entre os cristãos, tão resolvido que o apóstolo utiliza como exemplo para mostrar a inutilidade da fé sem as obras.

É uma constante em nossos dias utilizar este comparativo como base para instar as pessoas a serem praticantes de boas ações. Para isso utilizam o jargão: ‘Está escrito’! Está escrito que de nada adianta visitar o irmão necessitado sem dar-lhe o necessário ao sustento.

Estes dois versículos são duas perguntas com respostas prontas. O apóstolo já sabia da resposta dos leitores.

‘Meus irmãos, qual é o proveito…?’ (v. 14)

‘Se (…) qual o proveito disso?’ (v. 15- 16).

A resposta do versículo quatorze é negativa, e a dos versículos quinze e dezesseis era de se esperar negativa.

É necessário dar alimento e roupa a quem tem necessidade? Sim! Mas, a idéia em discussão vem do versículo seguinte:

17 Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma.

Novo Testamento – 2ª impressão – Data da edição: 1693, com introduções e resumos da edição de 1681 de Amsterdam, além de Notas de Rodapé dos revisores – Impresso na Batávia (Ilha de Java). SBB.

O versículo inicia-se através de uma comparação com o exemplo do versículo anterior. A leitura da idéia do versículo anterior é de que nada adianta falar ao necessitado que se satisfaça sem prover-lhe os meios para tanto. Assim também, ou seja, da mesma forma a fé.

Assim também a fé é sem efeito, ou seja, em si mesma está morta, pois não tem o que lhe é próprio: as obras. As obras são concernentes a fé, de sorte que se ela não tiver as obras, a morte também lhe será própria.

Quais são as obras da fé?

A paciência é a obra perfeita da fé e nela estão contidas todas as outras obras. Observe:

“Sabendo que a prova da vossa fé opera a paciência. Tenha, porém, a paciência a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, sem faltar em coisa alguma” ( Tg 1:3 -4).

Os cristãos deveriam ter a paciência, a obra perfeita da fé!

O apóstolo não faz referência à prática de obras, mas a posse da obra perfeita da fé.

É certo que a perseverança termina a obra que teve início através da fé, e que nela estão inclusas todas as outras obras.

O texto é claro: a fé quando provada produz a paciência, a obra perfeita da fé.

A obra em discussão é a da fé, e não a obra do homem que pratica boas ou más ações.

Sobre as questões comportamentais da nova criatura (as boas obras), o apóstolo Paulo recomenda aos cristãos agirem em conformidade ao ‘fruto do Espírito’ “Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança. Contra estas coisas não há lei. E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências. Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito” ( Gl 5:22 -25).

O apóstolo Tiago ao falar das obras da fé retrata as mesmas questões do apóstolo Paulo quando fala do fruto do Espírito. As obras da fé e o fruto do Espírito são questões pertinentes ao homem interior, que devem influenciar o comportamento deste mesmo homem nas suas relações com o mundo “Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito. Não sejamos cobiçosos de vanglórias, irritando-nos uns aos outros, invejando-nos uns aos outros” ( Gl 5:25 -26).

Observe que o fruto é do Espírito da mesma forma que as obras são da fé. Se tal fé não possuiu as obras que dela decorrem, é morta em si mesmo. Aquele que possui a fé deve também estar de posse das obras que a fé produz “Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo?” (v. 14).

As obras que o crente deve ter posse são as da fé, e difere das boas ações que os cristãos devem efetivamente praticar (diferente de ter).

É fácil visualizarmos que as obras da fé não dizem respeito às questões comportamentais (obras do homem) quando compreendemos que todos os homens, sejam salvos ou não, podem praticar boas ações.

De outra forma, é fácil verificarmos que as boas obras dizem respeito àqueles que vêm para Cristo por meio da fé, e que tais obras somente se realizam em Deus ( Jo 3:21 ; Is 26:12 ; Ef 2:10 ). Ou seja, não é possível àqueles que não aceitaram a Cristo como salvador terem boas obras ou o fruto do Espírito. Primeiro porque não são nascidos do Espírito; Segundo porque as boas obras são feitas em Deus.

Porém, há um outro aspecto a se considerar com relação àqueles que estão em Cristo: o homem regenerado realiza as boas obras por estarem em Deus por meio de Jesus, conforme lemos em Isaias “SENHOR, tu nos darás a paz, porque tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras” ( Is 26:12 ); porém, este mesmo homem realiza boas e más ações, e estas serão provadas como pelo fogo quando do Tribunal de Cristo ( 2Co 5:10 ) “E, se alguém sobre este fundamento formar um edifício de ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, A obra de cada um se manifestará; na verdade o dia a declarará, porque pelo fogo será descoberta; e o fogo provará qual seja a obra de cada um. Se a obra que alguém edificou nessa parte permanecer, esse receberá galardão. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá detrimento; mas o tal será salvo, todavia como pelo fogo” ( 1Co 3:12 -15).

 

 

A Nova Criatura:

  • É nascida de Deus “O que é nascido do Espírito é espírito” ( Jo 3:6 );
  • As boas obras são feitas em Deus “… a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus” ( Jo 3:21 );
  • As boas obras foram preparadas por Deus “…criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” ( Ef 2:10 );
  • Porém, a nova criatura pode praticar boas e más ações “… cada um receberá segundo o que tiver feito por meio do corpo, ou bem, ou mal” ( 2Co 5:10 );
  • E será salvo “…mas o tal será salvo, todavia como pelo fogo” ( 1Co 3:12 -15);
  • Ele é salvo por meio da fé e deve estar de posse das obras da fé. É espiritual e deve andar (comportar) segundo o Espírito ( Gl 5:25 ).

 

 

A Velha Criatura

  • É nascida da semente de Adão “Necessário vos é nascer de novo” ( Jo 3:7 ), e precisa nascer novamente, da semente incorruptível, a palavra de Deus;
  • As suas obras são más “…os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más” ( Jo 3:19 );
  • Fazer o mal está ligado à natureza, e não as ações do homem não regenerado “Porventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Tampouco podeis vós fazer o bem, acostumados que estais a fazer o mal” ( Jr 13:23 );
  • A velha criatura pode fazer boas e más ações, porém não pode realizar o bem “Não há quem faça o bem, não há nem um só” ( Rm 3:12 );
  • Como a velha natureza está vendida ao pecado como escrava, por mais que se tenha vontade, não realizará o bem “…com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem” ( Rm 7:18 ); Por mais que se queira fazer o bem é uma impossibilidade que reside na natureza decaída, que é escrava do pecado;
  • Por mais que pratiquem boas ações, jamais a velha criatura verá o reino dos céus, pois sobre ela pesa uma condenação “…quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” ( Jo 3:18 );
  • Por mais que pratiquem boas ações, a velha criatura não possui a fé e as obras da fé. Ela não vive no Espírito e não pode andar em Espírito ( Gl 5:25 ).

 

 

A Perseverança

A carta de Tiago não foge do tema que está na introdução. Na introdução fica claro que o tema da carta é: “perseverança, obra perfeita da fé” ( Tg 1:2 -4).

Os outros escritores também fizeram referência à perseverança, e eles têm a mesma idéia sobre o seu valor.

Paulo disserta sobre o amor em I Co 13, e de maneira semelhante Tiago disserta quase que exclusivamente sobre a perseverança em sua carta.

Sobre a fé sabemos que ela foi implantada no cristão através da palavra da verdade, que é poderosa para salvar as nossas almas ( Tg 1:21 ). O apóstolo Pedro nos informa que o objetivo fim da nossa fé é salvação das nossas almas ( 1Pe 1:9 ).

Assim como Pedro, Tiago também nos informa que a fé é provada ( 1Pe 1:7 ; Tg 1:3 ).

Veja nas referências abaixo a harmonia de idéia entre Pedro e Tiago:

Aquele que é perseverante em observar a lei perfeita, a da liberdade, receberá a coroa da vida ( 1Pe 1:22 -23; Tg 1:21 e 25). Compare os textos.

A segunda carta de Pedro tem início semelhante à carta de Tiago. Pedro cumprimenta com graça e paz todos aqueles que receberam a fé por meio do conhecimento de Deus, que deu tudo que diz respeito a vida e a piedade. A essa fé alcançada deveriam diligentemente acrescentar as obras da fé.

O apóstolo Pedro enumera as obras da fé: “E vós também, pondo nisto mesmo toda a diligência, acrescentai à vossa fé a virtude, e à virtude a ciência, E à ciência a temperança, e à temperança a paciência, e à paciência a piedade, E à piedade o amor fraternal, e ao amor fraternal a caridade. Porque, se em vós houver e abundarem estas coisas, não vos deixarão ociosos nem estéreis no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo. Pois aquele em quem não há estas coisas é cego, nada vendo ao longe, havendo-se esquecido da purificação dos seus antigos pecados. Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição; porque, fazendo isto, nunca jamais tropeçareis. Porque assim vos será amplamente concedida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” ( 2Pe 1:5 -11; Gl 5:22 -23 ; Tg 3:17 ).

Observe que os elementos que se deve ter acrescido à fé não diz de afazeres (prática de ações ou obras). Não são os afazeres que se deve acrescentar a fé, antes os cristãos deve ter a posse da fé, e somado a ela estas outras virtudes, produzidas por meio da fé (bondade, conhecimento, domínio próprio, perseverança, piedade, fraternidade e amor). Se a fé produz (obra) a paciência, da mesma forma ela produz as virtudes enumeradas acima.

Aquele que está de posse das virtudes que decorrem da fé não estará ocioso, mas se aplicará em produzir boas ações no conhecimento de Cristo Jesus.

Da mesma forma, Tiago receita aqueles que sentissem falta de alguma coisa, que pedissem a Deus sabedoria ( Tg 1:5 ), que a todos concederia do alto ( Tg 1:17 ), a sabedoria que é pura, pacífica, moderada, tratável, misericordiosa e de bons frutos, imparcial e honesta ( Tg 3:17 ).

Novo Testamento – 2ª impressão – Data da edição: 1693, com introduções e resumos da edição de 1681 de Amsterdam, além de Notas de Rodapé dos revisores – Impresso na Batávia (Ilha de Java). SBB.

Tendo posse desta sabedoria, o cristão tem os meios para mostrar através do seu bom comportamento em mansidão de sabedoria as suas obras. Se o cristão é completo, tem fé e obras, deve por meio do seu bom procedimento mostrar as suas obras em mansidão.

  • É a perseverança que termina a obra que teve início na fé ( Tg 1:3 ) – “Porque necessitais de paciência, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” ( Hb 10:36 ). É preciso considerar que a vontade de Deus é que se creia naquele que Ele enviou. Ou seja, primeiro se crê na mensagem do evangelho e para que se possa alcançar a promessa precisa ter a perseverança, a obra perfeita da fé.
  • Não há como dissociar perseverança e fé ( Tg 1:12 ) – “Para que vos não façais negligentes, mas sejais imitadores dos que pela fé e paciência herdam as promessas” ( Hb 6:12 ). A carta de Tiago trabalha esta idéia desde o início ( 2Ts 1:4 ).
  • A carta de Tiago trata do que se deve ter e acrescentar à fé – “E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a paciência, E a paciência a experiência, e a experiência a esperança. Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o esperamos” ( Rm 5:3 -4; Rm 8:25 ). Tiago trata do comportamento do cristão enquanto com perseverança se aguarda a promessa.
  • A salvação se opera através da obra perfeita de fé – “Mas, se somos atribulados, é para vossa consolação e salvação; se somos consolados, para vossa consolação é, a qual se opera suportando com paciência as mesmas aflições que nós também padecemos” ( 2Co 1:6 ). A salvação se opera suportando com paciência as mesmas aflições que sobrevieram aos apóstolos.

A obra que a fé opera (produz) está relacionada ao homem interior, e o capítulo um bem demonstra esta verdade.

 

18 Mas dirá alguém: Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras.

Novo Testamento – 2ª impressão – Data da edição: 1693, com introduções e resumos da edição de 1681 de Amsterdam, além de Notas de Rodapé dos revisores – Impresso na Batávia (Ilha de Java). SBB.

Diante da afirmação anterior, alguém poderia contradizer o apóstolo dizendo: Tu tens a fé, ou seja, a afirmação é o mesmo que por em descrédito o argumento do apóstolo que acabou de dizer que a fé sem as obras é morta.

A resposta do apóstolo é: “…e eu tenho as obras:”, ou seja, ‘… e eu (que ou digo) tenho as obras’. Este alguém que diz: “Tu tens fé”, estaria querendo apontar um possível erro conceitual do apóstolo, porém, Tiago reafirma o seu posicionamento: “E eu tenho obras”.

O apóstolo Tiago põe a prova o que estava afirmando: “mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras”.

O apóstolo não descarta a fé, pois o seu discurso é para que se tenha ‘as obras’ da fé. Observe que as obras é o elemento essencial da fé, pois como alguém sem as obras da fé poderia demonstrar a fé? “Mostre-me a tua fé sem as tuas obras”.

Tiago se propõe a demonstra a sua fé por intermédio de suas obras. Como a paciência é a obra perfeita da fé, é facilmente demonstrável a fé por meio do que ela produz.

 

 

A Fé Morta

19 Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o creem, e estremecem.

A crença em um só Deus é importante, porém pode ser inócua tal crença se não se fizer acompanhar as obras.

De nada adianta dizer crer em Deus se o indivíduo não crê no testemunho que Ele deu acerca do seu Filho. As Escrituras é um testemunho vivo que Deus deu do seu Filho, e aqueles que creem em Cristo realizam a ‘obra’ exigida por Deus, pois Cristo mesmo disse: – ‘A obra de Deus é está: que creiais naquele que ele enviou!’

 

20 Mas, ó homem vão, queres tu saber que a fé sem as obras é morta?

A insensatez de alguns em compreender a mensagem do apóstolo sobre as obras da fé, leva o apóstolo a dar exemplos:

 

21 Porventura o nosso pai Abraão não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque?

A fé de Abraão foi demonstrada na perseverança em levar o seu único filho até o altar de sacrifício. Sobre este aspecto o escritor aos Hebreus assim escreveu: “Pela fé ofereceu Abraão a Isaque, quando foi provado; sim, aquele que recebera as promessas ofereceu o seu unigênito” ( Hb 11:17 ).

Abraão não se fez de rogado quando lhe sobreveio a provação, permanecendo firme.

Abraão foi justificado quando creu em Deus, porém a sua fé provada se demonstrou mais preciosa que o ouro, e as suas obras testemunharam acerca de sua fé “Para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece e é provado pelo fogo, se ache em louvor, e honra, e glória, na revelação de Jesus Cristo” ( 1Pe 1:7 ).

 

Em Gn 15:6 a fé de Abraão foi lhe imputada para justiça, ou seja, Deus justificou a Abraão, e sobre este aspecto Paulo afirma: “Pois, que diz a Escritura? Creu Abraão em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça. Ora, àquele que faz qualquer obra não lhe é imputado o galardão segundo a graça, mas segundo a dívida. Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça” ( Rm 4:3 -5).

O aspecto que Paulo comenta é o da declaração divina acerca do homem: aquele que crê que Deus justifica o ímpio, esta fé é imputada como justiça. Abraão não tinha praticado nenhuma obra, mas creu. Ele estava de posse da fé que veio por meio da palavra de Deus, que lhe fez a promessa.

Tiago comenta Gn 22, onde a ação de Abraão confirma a sua fé em Deus. Neste ponto é as obras de Abraão que o justifica, ou seja, são as obras que dizem algo à respeito do pai Abraão. Em Gênesis quinze, Deus declara algo sobre Abraão, e em Gênesis vinte e dois, as obras dizem algo acerca do patriarca “…pelas obras justificado…” (v. 21).

 

22 Bem vês que a fé cooperou com as suas obras, e que pelas obras a fé foi aperfeiçoada.

Através do exemplo anterior o apóstolo espera que o leitor insensato possa ver que a fé coopera com as obras, e que pelas obras a fé é aperfeiçoada. Ou seja, a prova da fé leva ao aperfeiçoamento da fé, resultando em obras pertinente à fé.

 

23 E cumpriu-se a Escritura, que diz: E creu Abraão em Deus, e foi-lhe isso imputado como justiça, e foi chamado o amigo de Deus.

Tiago citou dois pontos distintos da Escritura: Gn 15:6 , da justificação pela fé, e 2Cr 20:7 , onde Jeosafá em pé na congregação nomeia Abraão de “amigo de Deus”.

A escritura cumpriu-se na seqüência exata e em dois pontos distintos: Deus justificou a Abraão ( Gn 15:6 ), e a sua perseverança na fé, apesar da prova, concedeu-lhe a dádiva de ser chamado de amigo de Deus “Porventura, ó nosso Deus, não lançaste fora os moradores desta terra de diante do teu povo Israel, e não a deste para sempre à descendência de Abraão, teu amigo?” ( 2Cr 20:7 ).

O cumprimento da Escritura se dá em dois momentos: Quando Deus justifica o crente Abraão e ele persevera mesmo quando a sua fé foi provada, o que lhe deu o título de amigo de Deus posteriormente. Se Abraão não estivesse de posse da obra perfeita da fé,a perseverança, jamais teria recebido o título de amigo de Deus.

 

24 Vedes então que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé.

Este versículo demonstra que o homem é justificado pelas obras da fé. Ou seja, o homem não é justificado somente pela fé, mas pela fé e pelas obras que esta fé produz ( Tg 1:4 ).

 

25 E de igual modo Raabe, a meretriz, não foi também justificada pelas obras, quando recolheu os emissários, e os despediu por outro caminho?

A ação de Raabe em esconder os espias de Israel demonstra de maneira clara que ela havia crido em Deus. O que ela ouviu acerca do Deus de Israel foi o bastante para que ela alcançasse a fé, que logo em seguida foi posta à prova ( Js 2:1 -24).

 

 

26 Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta.

Tiago conclui o pensamento com uma comparação. Assim como o corpo sem o espírito está morto, a fé sem obras é morta.

A fé sem as suas obras é morta. Não há referência as obras ou ações humanas como meio para se alcançar o favor de Deus.

O favor de Deus foi demonstrado, sendo que Cristo foi morto, e éramos ainda pecadores. Ele morreu isto porque não havia como o homem realizar algo que pudesse mudar sua realidade.

Agora que já fomos reconciliados com Deus através da morte de Cristo, haveria algo ainda a ser feito para permanecer com tal dádiva? Não!

O que o apóstolo demonstra é que devemos ter a fé e estar de posse das obras da fé.

“Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno” ( Hb 4:16 ).

Após cremos em Deus, devemos nos achegar ao trono da graça com confiança, certos de que em tempo oportuno acharemos graça e misericórdia.

O aproximar do trono da graça com confiança é uma das obras da fé, da mesma forma que o é reter firmemente a nossa confissão ( Hb 4:14 ).

As obras da fé são aspectos que se manifestam no homem interior, onde ele lança mão da esperança proposta. Ele possui essa consolação como ancora firme e segura da alma.

Por várias vezes Tiago chama os cristãos de irmãos.

Quando ele chama o lugar de reunião dos cristãos de ‘sinagoga’ (com base no texto grego Tg 2:2 ), é porque o conceito de igreja não se estendia ao templo, como o é em nossos dias.

As várias referências que a bíblia registra acerca da igreja descrevem mais um reunião de pessoas do que o templo onde estavam se reunindo. Para Paulo a igreja era a união de gentios e judeus em torno do nome de Cristo ( Ef 3:10 ).

O ajuntamento dos cristãos constitui a igreja, porém o local pode ser denominado de templo, igreja ou sinagoga. À época de Tiago o termo mais preciso para o local de ajuntamento era ‘sinagoga’.

Neste aspecto o apóstolo João escreveu no Apocalipse desta maneira: “Conheço as tuas obras, e tribulação, e pobreza (mas tu és rico), e a blasfêmia dos que se dizem judeus, e não o são, mas são a sinagoga de Satanás” ( Ap 2:9 ); “Eis que eu farei aos da sinagoga de Satanás, aos que se dizem judeus, e não são, mas mentem: eis que eu farei que venham, e adorem prostrados a teus pés, e saibam que eu te amo” ( Ap 3:9 ). O apóstolo escreve ao anjo das igrejas da Ásia, porém havia algumas pessoas que se diziam judias, mas na verdade eram sinagoga de Satanás. Ou seja, aqueles que se arrogavam no direito de se dizerem judeus queriam avocar para si a filiação divina, mas não passavam de sinagoga (templo) de Satanás.

As expressões judaicas que a carta apresenta decorrem de uma vida inteira voltada para o judaísmo. Tal característica não determina precisamente que os destinatários da carta também devam ser todos judeus convertidos ao cristianismo.

O tema da carta não é uma questão própria e exclusiva dos judeus convertidos, mas de todos quantos creem em Cristo: perseverança!

A carta não apresenta temas como idolatria e escravidão pelo simples fato de os destinatários serem cristãos. Com relação a idolatria já havia recomendações proveniente do concílio de Jerusalém ( At 15:20 ).

Não entraremos nas questões pertinentes às hipóteses das datas em que foi escrita a epístola, porém a carta não faz menção a cristãos gentios ou judeus por ser unânime entre os apóstolos desde o concílio em Jerusalém que os judeus e gentios constituem a igreja de Cristo ( At 15:14 ).

Qualquer desvio deveria ser prontamente reprimido ( Gl 2:14 ). Quem presenciou a repreensão de Paulo ou que ouviu falar de tal acontecimento, já estava mais do que alertado quanto a qualquer tipo de dissensão entre povos no seio da igreja.

As argumentações teológicas em Tiago são as mesmas que permeiam as cartas de Paulo, como já vimos em ( Tg 1:17 -18).

Aliado a está característica, não dá para afirmar que a carta de Tiago foi escrita antes dos evangelhos. A linguagem dos evangelhos é voltada para fatos históricos, com exceções ao evangelho de João.

Tiago não faz alusão ao concílio de Jerusalém, porém tal fato não pode ser utilizado para tentar precisar a data da carta, visto que tal fato não é pertinente ao tema em questão.

Há quatro indivíduos identificados como Tiago no novo testamento. Podemos sugerir qual deles seria o autor da carta, porém não é possível afirmar categoricamente.

O que é plenamente observável a respeito do escritor da carta é que ele não precisar defender a sua posição no seio da igreja à maneira de Paulo. Bastou a simples identificação: “Tiago, servo de Deus, e do Senhor Jesus Cristo…” ( Tg 1:1 ).

Ler mais

Tiago 3 – Os perfeitos

O tropeçar em muitas coisas não suspende o direito a salvação, uma vez que foi alcançado pela fé. A salvação decorre da filiação divina por meio da fé em Cristo aparte das questões comportamentais. A salvação não é conquistada através de bom ou mau comportamento e também não é mantida através de comportamento. A salvação é pela fé (salvação) e o fim objetivo da nossa fé se alcança com a perseverança.


A Língua

1 Meus irmãos, muitos de vós não sejam mestres, sabendo que receberemos mais duro juízo.

 

Tiago dá um conselho a alguns irmãos: não sejam muitos de vós mestres. Por que ele dá esse conselho? Alguns queriam ser mestre, porém não tinham recebido tal capacitação ( Ef 4:10 -11).

As pessoas que aspiravam a posição de mestre não atinavam que os mestres receberão juízo na condição de mestre e nem da necessidade de estar enquadrado em alguns quesitos que Tiago discorre neste capítulo.

O juízo que Tiago faz referência será estabelecido no Tribunal de Cristo ( Rm 14:10 ; 2Co 5:10 ), visto que ele se inclui entre aqueles que receberão maior juízo (implicitamente Tiago se posiciona como mestre), e por ser certo que ele tinha certeza de sua salvação. O juízo do Grande Trono Branco não é destinado à igreja “Meus irmãos…” (v. 1).

Os versículos que se seguem apresentam os motivos pelas quais os irmãos não deveriam aspirar a posição de mestres com o único fito de se vã gloriar.

 

2 Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça em palavra, o tal é perfeito, e poderoso para também refrear todo o corpo.

 

O apóstolo chama a atenção para algo que não devemos ignorar: todos tropeçam em muitas coisas! Tiago não exclui nenhum dos irmãos. Todos nós tropeçamos em muitas coisas.

O tropeçar deste versículo difere da ideia que Paulo apresenta em Romanos “Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só” ( Rm 3:12 ). Isto porque o que Paulo apresenta diz respeito a todos que ainda não tiveram um encontro com Cristo.

A carta aos Hebreus demonstra o desejo do escritor em não tropeçar em coisa alguma, e para isso solicita aos cristãos que orem em seu favor “Orai por nós, porque confiamos que temos boa consciência, como aqueles que em tudo querem portar-se honestamente” ( Hb 13:18 ). O portar-se honestamente em tudo deve ser o desejo de todo cristão, porém, ele deve ter consciência de que falhará em muitas coisas.

O tropeçar em muitas coisas não suspende o direito à salvação, uma vez que a salvação é alcançada pela fé. A salvação decorre da filiação divina por meio da fé em Cristo, aparte das questões comportamentais. A salvação não é conquistada através de bom ou mau comportamento e também não é mantida através do comportamento.

A salvação é pela fé (evangelho), e o fim objetivo da nossa fé se alcança com a perseverança.

“Se alguém não tropeça (em+a) palavra, o tal é perfeito, e poderoso para também refrear todo o corpo”

Após demonstrar que todos os cristãos estão sujeitos a erros, tanto comportamentais quanto conceituais, o apóstolo Tiago estipula uma condição para alguém ser perfeito: se não tropeçar em palavra, o homem é perfeito.

Tropeçar ‘em palavra’ não é falar palavras torpes, fofocar, mal dizer, mentir, etc. O ‘tropeçar em palavra’ não tem relação com o que é abordado no verso 5 ( Tg 3:5 ).

Se ‘tropeçar em palavra’ fosse falar palavras torpes, fofocar, mentir, amaldiçoar, o apóstolo não teria colocado o substantivo ‘palavra’ no singular “Se alguém não tropeça em palavra(s) …”. Quando alguém mente, fofoca ou amaldiçoa, profere várias palavras, diferente de tropeçar ‘em’ a ‘palavra’. Sobre qual ‘palavra’ o apóstolo fez referência?

 

A palavra do verso 2 do capítulo 3 diz da palavra da verdade, o que foi abordado desde o início da epístola:

“Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas” ( Tg 1:18 );

“Por isso, rejeitando toda a imundícia e superfluidade de malícia, recebei com mansidão a palavra em vós enxertada, a qual pode salvar as vossas almas” ( Tg 1:21 );

“E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos” ( Tg 1:22 );

“Porque, se alguém é ouvinte da palavra, e não cumpridor, é semelhante ao homem que contempla ao espelho o seu rosto natural” ( Tg 1:23 );

 

Ou seja, desde o início da epístola o apóstolo demonstrou que os cristãos foram gerados pela palavra da verdade com o objetivo de serem primícias das criaturas de Deus (perfeitos). Ele também demonstra que é necessário rejeitar toda a imundície e malícia, recebendo com mansidão a palavra enxertada que salva o homem. O cristão é aquele que cumpre a palavra, e não somente ouvinte, ou seja, o ouvinte diz de quem se envolve em falsos discursos ( Tg 1:23 ).

A palavra da verdade é poder para criar filhos de Deus ( Jo 1:12 ), porém, não tem efeito sobre aqueles que não se exercitam nela “Ora, o fruto da justiça semeia-se na paz, para os que exercitam a paz” ( Tg 3:18 ). Ou seja, da mesma forma que o espelho não tem poder para mudar o homem que se utiliza do seu reflexo para contemplar o seu rosto natural, não terá nova vida aqueles que não atentam bem para a lei perfeita, e nela perseveram ( Tg 1:25 ).

Todos que creem na palavra tornam-se perfeitos, pois alcançou a salvação em Cristo ( 1Co 2:6 ; 2Co 13:11 ). Ou seja, Tiago estava demonstrando que quem não tropeça na (em+a) palavra alcançou a perfeição, isto porque muitos desejavam serem mestres, porém não compreendiam a palavra que concede a perfeição em Cristo “Querendo ser mestres da lei, e não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam” ( 1Tm 1:7 ); “Instrutor dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei” ( Rm 2:20 ).

Muitos buscavam somente a posição de mestre por vã-gloria, o que promoveria somente a inveja, o sentimento faccioso, a confusão e toda má obra ( Tg 3:16 ). Quem quisesse ser sábio e entendido, condição essencial para ser mestre, bastava ter um bom procedimento ( Tg 3:13 ).

Os perfeitos manejam bem a palavra da verdade (poder de Deus), estão plenos (cheios) do poder de Deus ( Rm 1:16 ). Quem é perfeito se revestiu de toda a armadura de Deus ( Ef 6:10 , 13 -17), e não mais vive guiado pelas paixões humanas ( Gl 5:24 ; 2Tm 2:22 ), não tem falta de coisa alguma. Perfeito: maduro e completo ( Tg 1:4 ).

 

3 Ora, nós pomos freio nas bocas dos cavalos, para que nos obedeçam; e conseguimos dirigir todo o seu corpo.

O apóstolo passa a exemplos figurativos. Os exemplos apontam o contraste entre o tamanho e força do cavalo e a pequenez dos freios que os controlam.

 

4 Vede também as naus que, sendo tão grandes, e levadas de impetuosos ventos, se viram com um bem pequeno leme para onde quer a vontade daquele que as governa.

 

Ele apresenta o contraste entre o tamanho das embarcações e o leme que as orienta.

 

5 Assim também a língua é um pequeno membro, e gloria-se de grandes coisas. Vede quão grande bosque um pequeno fogo incendeia.

 

“Assim também…”, ou seja, alguns dos elementos (leme e freio) que foram apresentados nas ilustrações anteriores se comparam proporcionalmente a língua e o efeito devastador que ela pode causar. O apóstolo evidencia o quanto é importante ter a língua sob controle.

Tiago apresenta uma grande verdade: a língua é um pequeno membro que se gloria de grandes coisas! Ou seja, muitos dentro da igreja se gabavam de serem mestres, mesmo quando não tinham esse dom. Porém, é difícil que alguém venha a se gabar das funções que aparentemente são pequenas.

Um bom exemplo de controle sobre a língua é observável em Paulo: “Se convém gloriar-me, gloriar-me-ei no que diz respeito à minha fraqueza. O Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que é eternamente bendito, sabe que não minto. Em Damasco, o que governava sob o rei Aretas pós guardas às portas da cidade dos damascenos, para me prenderem. E fui descido num cesto por uma janela da muralha; e assim escapei das suas mãos” ( 2Co 11:30 -33).

Paulo não se gabou de grandes coisas, antes, sentia-se lisonjeado por ter fugido do rei Aretas em um cesto.

Muitos em nossos dias se gabam de grandes feitos, grandes ajuntamentos, grandes mensagens. Porém, este é um feito próprio da língua quando sobre ela não se tem domínio.

Paulo bem que podia gabar-se do livramento que Deus concedeu a ele e a Silas, mas preferiu gloriar-se (como que em um ato de loucura) das suas fraquezas “E, perto da meia-noite, Paulo e Silas oravam e cantavam hinos a Deus, e os outros presos os escutavam. E de repente sobreveio um tão grande terremoto, que os alicerces do cárcere se moveram, e logo se abriram todas as portas, e foram soltas as prisões de todos” ( At 16:25 -26).

Apenas uma fagulha de fogo pode incendiar um bosque inteiro.

 

Iniquidade

 

6 A língua também é um fogo; como mundo de iniquidade, a língua está posta entre os nossos membros, e contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, e é inflamada pelo inferno.

 

A língua é comparada a uma fagulha que incendeia um bosque. Por vir especificada ‘um fogo’, demonstra que ela não é fogo, mas é comparável ao fogo por ter a capacidade de inflamar.

Embora esta carta traga muitos conselhos, não devemos ler e analisar seus textos como se lê e analisa o livro de provérbios. Primeiro porque provérbios é um livro, e o texto de Tiago é uma epístola.

As diferenças entre carta e livro acabam por influenciar a escrita e a linguagem utilizada pelo autor, visto que a linguagem deve ser própria ao público alvo.

O público que se destina um livro é abrangente, universal, enquanto que uma carta destina-se a um público restrito (os destinatários). Ou seja, uma carta tem o cunho pessoal, enquanto um livro se guia pela impessoalidade e universalidade.

O livro de provérbios destina-se a humanidade e a carta de Tiago aos cristãos.

O tema ‘língua’ não tem início neste capítulo. Este tema vem sendo desenvolvido desde o primeiro capítulo, o que diferencia a abordagem de Tiago da abordagem feita em Provérbios. Em Provérbios geralmente uma ideia se conclui em apenas um versículo.

Como a língua é um pequeno membro que se gaba de grandes coisas, todos os cristãos devem ter o cuidado de gloriar-se apenas em Deus ( Jr 9:24 ; 1Co 1:31 ; 2Co 10:17 ), pois no Senhor não há diferenças sócio-econômicas. Ou seja, o irmão de condição humilde deve gloriar-se na sua alta posição no Senhor e o rico na sua insignificância ( Ef 1:9 -10).

Porém, ao ingressar na igreja, tanto o pobre quanto o rico buscam o que entendem ser a melhor posição: querem ser mestre, doutores, pastores, etc. Esquecem que para ser algo diante do Senhor, devem deixar tudo, principalmente os conceitos e conhecimentos do mundo “E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo…” ( Fl 3:8 ).

Aquele que procura ser mestre somente como meio para se gabar, sem ter a chamada para tal ministério, poderia causar um grande prejuízo a igreja de Deus, visto que poderia introduzir algum erro conceitual e a devastação seria semelhante ao pequeno fogo em uma floresta.

Observe que o homem é atraído e engodado pela sua própria concupiscência. Por desejar ardentemente gabar-se de grandes feitos, aplica-se em alcançar grandes posições. Aquele que é guiado pela concupiscência, quando alcança uma posição de destaque, os deslizes com as palavras e os erros conceituais são inevitáveis (isto porque, todos nós tropeçamos em muitas coisas, e quem não tropeça em palavras é perfeito e capaz de refrear todo o corpo); e o que este homem estará propagando com a sua língua será como o fogo em uma floresta: devastador. A posição de mestre a alguém que não foi comissionado para ensinar potencializa o efeito destruidor do erro.

Para evitar tão grande mal, todo homem deve estar pronto a ouvir e ser tardio em falar, a exemplo daqueles que, diante da tentação, diziam de maneira equivocada que estavam sendo tentados pelo Senhor ( Tg 1:13 -17). Qual não seria o estrago no seio da igreja se alguém com este erro conceitual viesse a alcançar a posição de mestre?

Aquele que é enganado pelo seu próprio coração acredita que é religioso. Estes geralmente não controlam a língua, estão prontos a falar, são tardios em ouvir, e acabam lançando mão da ira ( Tg 1:16 ).

“…como mundo de iniquidade, a língua está posta entre os nossos membros, e contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, e é inflamada pelo inferno”

O versículo acima é um exemplo prático do exposto no capítulo um, versículo quatorze e quinze. Compare:

“Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência. Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte” ( Tg 1:14 -15).

Cada pessoa é tentada pela sua própria concupiscência, ou seja, primeiro ela é atraída e engodada pelos seus próprios desejos. Quando estes desejos são levados a efeito, dá-se à luz o pecado, e o fim dele é a morte.

Da mesma maneira, o homem que não cumpre com o disposto no versículo dezenove do capitulo um, acaba por se gabar de grandes coisas ( Tg 3;5 ). Para fazer jus ao que foi propalado através da língua incontida, este homem vai se sentir atraído e desejar as ‘melhores’ posições na igreja.

Como todos tropeçam em muitas coisas, aquele que se gaba e alcança uma posição de destaque, irá tropeçar em palavras. Desta forma, a língua deste incauto será como fogo. Será como mundo de iniquidade situada entre os seus membros.

Como o que contamina o homem é o que procede do seu coração “Mas, o que sai da boca, procede do coração, e isso contamina o homem” ( Mt 15:18 ); “Nada há, fora do homem, que, entrando nele, o possa contaminar; mas o que sai dele isso é que contamina o homem” ( Mc 7:15 ), a língua é o veículo que evidencia o que está no coração, o que contamina todo o corpo.

Tiago e Jesus falam do mesmo problema que afeta o coração da humanidade. Este fala do princípio pernicioso que contamina o homem (o pecado que tem domínio sob o coração do homem sem Deus), enquanto aquele fala da língua, membro que torna evidente o princípio pernicioso que está no coração do homem.

Tiago dá mais um alerta: a língua pode acelerar o processo de destruição do homem, que sem a intervenção da língua, seria natural, ou seja, seria conforme o curso próprio da natureza. Isto porque o curso da natureza do homem é a morte, e a língua tem a capacidade de inflamar; ela acelera o curso da natureza. Um exemplo desta verdade é o recomendado por Paulo: “Não neófito, para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo” ( 1Tm 3:6 ).

A soberba leva a queda, uma entrada súbita na condenação do diabo. E, o que resta a quem teve inflamado o curso da natureza pela língua? Ser inflamada pelo inferno!

Onde há pecado, há morte e a justiça de Deus não opera, o que resta é o fogo do inferno ( Tg 1:20 e Tg 3:6 ).

 

 

Fonte Doce, Água Doce

7 Porque toda a natureza, tanto de bestas feras como de aves, tanto de répteis como de animais do mar, se amansa e foi domada pela natureza humana;

 

Toda a natureza é dominada pelo homem porque Deus lhe deu o domínio “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra” ( Gn 1:26 ).

 

8 Mas nenhum homem pode domar a língua. É um mal que não se pode refrear; está cheia de peçonha mortal.

 

Apesar da condição anterior (v. 7), o homem não pode domar a língua. Observe que Tiago aponta uma impossibilidade: nenhum homem pode domar a língua. É um mal que não se pode controlar; está cheia de peçonha mortal.

Se pensarmos somente na língua, é difícil explicarmos este verso. Porém, quando verificamos que o coração do homem e enganoso “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” ( Jr 17:9 ); e que, o que procede do coração do homem é que contamina “E dizia: O que sai do homem isso contamina o homem” ( Mc 7:20 ), percebemos que a abordagem de Tiago refere-se ao posicionamento de Jesus: “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” ( Mt 12:34 ).

É impossível ao homem por si só mudar a natureza do seu coração “Porventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Então podereis vós fazer o bem, sendo ensinados a fazer o mal” ( Jr 13:23 ). Mas, o que é impossível aos homens é possível a Deus! Através da regeneração Deus cria um novo coração e um novo homem e lhe dá uma nova vida.

A ordem divina sempre foi: “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz” ( Dt 10:16 ). Mas, como fazer tal circuncisão? É possível ao homem fazer tal incisão?

Ora, o é que impossível aos homens, é possível a Deus. A circuncisão do coração só é possível quando se está em Cristo “No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo” ( Cl 2:11 ).

Tal circuncisão é pela fé “Mas a justiça que é pela fé diz assim: Não digas em teu coração: Quem subirá ao céu? (isto é, a trazer do alto a Cristo.) Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação” ( Rm 10:6 -10).

Seria impossível a boca (língua) fazer a confissão verdadeira para a salvação caso não houvesse a circuncisão de Cristo. Só em Cristo é que o homem recebe um novo coração “E lhes darei um só coração, e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o coração de pedra, e lhes darei um coração de carne” ( Ez 11:19 ).

 

9 Com ela bendizemos a Deus e Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus.

 

Tiago evidência a incoerência de alguns: bendizem a Deus e amaldiçoam a sua criatura.

 

10 De uma mesma boca procede bênção e maldição. Meus irmãos, não convém que isto se faça assim.

 

Isto quer dizer que de uma mesma boca, através de uma mesma língua, um coração deita benção e maldição.

Não é conveniente a cristãos que procedam desta maneira. Caso alguém questionasse o fato de não ser próprio aos irmãos falarem mal uns dos outros Tiago passa aos exemplos e motiva a sua argumentação.

 

11 Porventura deita alguma fonte de um mesmo manancial água doce e água amargosa?

 

As perguntas de respostas prontas: Não! Cada fonte deita a água que lhe é própria. Mas, uma fonte de um mesmo manancial só pode produzir um único tipo de água.

 

12 Meus irmãos, pode também a figueira produzir azeitonas, ou a videira figos? Assim tampouco pode uma fonte dar água salgada e doce.

 

O que é impossível às plantas é impossível às fontes de um mesmo manancial “Porque não há boa árvore que dê mau fruto, nem má árvore que dê bom fruto” ( Lc 6:43 ).

O apóstolo segue fazendo uma aplicação prática do seu ensino.

 

13 Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre pelo seu bom trato as suas obras em mansidão de sabedoria.

 

Esta pergunta é uma ‘pegadinha’. Aquele que responder: “Eu”, é o mesmo que queria ser mestre, e que Tiago procura dissuadir do seu intento ( Tg 3:1 ). Aquele que desejava ser mestre, ao menos se considerava sábio e entendido.

Pois bem, se houvesse alguém que se considerava sábio e entendido deveria demonstrar através de um bom trato (procedimento), as suas obras em mansidão de sabedoria.

Ou seja, aquele que não tivesse as suas obras demonstradas em bom procedimento, tinha em si amarga inveja e um sentimento faccioso.

É necessário observar os três elementos que compõe o versículo: “Mostre pelo seu bom trato as suas obras em mansidão de sabedoria”.

  • Mostre pelo seu bom trato – (trato: tratamento; ajuste, pacto, tratado; convivência; passadio, alimentação; procedimento, modos, etc). Aquele que se sentisse sábio e entendido deveria ter uma boa convivência, bons modos e procedimento;
  • As suas obras – ‘as obras’ constituem o motivo pela qual alguém se gaba; observe que ‘bom trato’ não é ‘boas obras’ (aquelas que são feitas em Deus), e que ‘boas obras’ também não é ‘as suas obras’, que o versículo faz referência; a pessoa que estivesse se gloriando deveria mostrar a sua realização (suas obras);
  • Em mansidão de sabedoria – Porém, deveria demonstrar as suas obras segundo a sabedoria descrita no versículo dezessete: em mansidão de sabedoria que do alto vem.

 

A Inveja: Obra da Carne

 

14 Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade.

 

O problema encontra-se no coração do homem e a língua torna evidente este mal “…sentimento faccioso em vosso coração…”.

Este versículo demanda um exercício de interpretação de texto para uma melhor compreensão. Observe:

  • Uma pergunta“Quem entre vós é sábio e entendido?”. O contexto nos mostra que só quem quer ser mestre se considera sábio e entendido;
  • Uma determinação a quem respondesse afirmativamente que é sábio e entendido“Mostre pelo seu bom trato as suas obras em mansidão de sabedoria” A determinação do apóstolo só é cabível a quem presume ser sábio e entendido; porém, a determinação é impossível de ser cumprida por quem se arroga na condição de sábio e entendido;
  • Uma conclusão“Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso coração…”. Este versículo é uma conclusão do apóstolo, e aponta os elementos que consta do coração daqueles que se acham sábios e entendidos. Observe que o argumento fica inconsistente quando se tenta combinar a primeira e a segunda parte do versículo ao se enfatizar a partícula ‘se’: “Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso…”, e; “…não vos glorieis, nem mintais contra a verdade”. O indivíduo pode se gloriar de uma alta posição, porém, jamais alguém vai querer se gloriar de ser invejoso e faccioso. A Bíblia Vida Nova da Editora Vida Nova reza o seguinte: “Se, pelo contrário, tendes em vosso coração inveja amargurada e sentimento faccioso, nem vos glorieis disso, nem mintais contra a verdade”. Para enfatizar a partícula ‘se’, trocam o ‘não’ pelo ‘nem’, o que dá a entender que alguém se gloria em ser invejo e faccioso (‘glorieis disso’, disso o quê?).

 

A ênfase deve estar no verbo ‘ter’, o que demonstra que aqueles que se sentiam entendidos e sábios só estavam cheios de inveja e contenda “Porém se tendes inveja amarga, e contenda em vosso coração…”.

A pergunta persiste: quem é sábio e entendido? Um sábio e entendido deve mostrar através do seu bom comportamento suas obras em mansidão de sabedoria. Quando alguém que se diz sábio e entendido não consegue cumprir com a determinação anterior, só pode estar acometido de amarga inveja e um sentimento faccioso no coração.

A determinação é clara e precisa: “…não vos glorieis nem mintais contra a verdade”.

  • Não vos glorieis – Com relação a gloriar-se, a primeira determinação do apóstolo é oposta: “Glorie-se o irmão de condição humilde (…) o rico, porém, glorie-se na sua insignificância…”; O apóstolo Tiago dá um bom motivo para os irmãos se gloriarem ( Tg 1:9 -10), e reitera que todos devem estar prontos a ouvir, tardios em falar ( Tg 1:19 ). Se alguém estava procurando a posição de mestre com a intenção de gloriar-se, a determinação é clara: não vos glorieis; pois os mestre receberão maior juízo ( Tg 3:1 ); a língua se gaba de grandes coisas ( Tg 3:5 ); e, quem entre eles era sábio e entendido, a ponto de gloriar-se? ( Tg 3:13 );
  • Nem mintais contra a verdade – o verbo no grego sugere que não deveriam alegar ‘falsas reivindicações de estarem na verdade’, ou seja, eles na verdade não eram mestres, antes tinham amarga inveja no coração e um sentimento faccioso.

 

15 Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e diabólica.

 

Muitos dentre os cristãos se sentiam mestres, sábios e entendidos, porém a sabedoria que neles estava não vinha de Deus ( Tg 3:1 e 13).

A pretensa sabedoria que alguns possuíam não era a sabedoria que vem do alto.

A sabedoria terrena, animal e diabólica é a que está vinculada à velha natureza. Eles ainda eram carnais ( 1Co 3:3 ).

 

16 Porque onde há inveja e espírito faccioso aí há perturbação e toda a obra perversa.

 

O apóstolo dá os motivos que compromete a sabedoria que alguns possuíam: inveja, espírito faccioso, perturbação e obra perversa “Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: adultério, prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus” ( Gl 5:19 -21); “Porque ainda sois carnais; pois, havendo entre vós inveja, contendas e dissensões, não sois porventura carnais, e não andais segundo os homens?” ( 1Co 3:3 ).

 

17 Mas a sabedoria que do alto vem é, primeiramente pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia.

 

O apóstolo Tiago descreve a sabedoria que vem de Deus. Esta é a sabedoria que Deus dá liberalmente a todos “E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada” ( Tg 1:5 ).

 

18 Ora, o fruto da justiça semeia-se na paz, para os que exercitam a paz.

 

O apóstolo Tiago chega a uma conclusão: o fruto da justiça semeia-se na paz! O que ele quis dizer?

Não se semeia o fruto, e sim a semente, pois devemos ter em mente que a semente dará o seu fruto no devido tempo. Ou seja, para se obter o fruto da justiça devemos lançar a semente na paz. Mas, qual é a semente que produz o fruto da justiça? Para se obter o fruto da justiça faz-se necessário semear a semente apropriada, que é a palavra de Deus ( 1Pe 1:23 ).

Sabemos que Cristo é a nossa paz e que o fruto da justiça só é possível por meio dele ( Ef 2:14 ). Sobre este assunto o apóstolo Tiago já havia feito uma abordagem anteriormente:

“Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas. Portanto, meus amados irmãos, todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar. Porque a ira do homem não opera a justiça de Deus. Por isso, rejeitando toda a imundícia e superfluidade de malícia, recebei com mansidão a palavra em vós enxertada, a qual pode salvar as vossas almas” ( Tg 1:18 -21).

  • Gerou pela palavra da verdade: “Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre” ( 1Pe 1:23 ) – a palavra do evangelho é semente que pode salvar as nossas almas e nos deixa na posição de primícias das criaturas de Deus;
  • Pronto para ouvir: “De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” ( Rm 10:17 ) – a semente só germina quando ouvimos. Por isso a recomendação do apóstolo: “…recebei com mansidão a palavra…”;
  • Não opera a justiça de Deus: “Aquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” ( 2Co 5:21 ) – a justiça que surge é em Cristo (nele) e é resultado de uma obra divina (feitos);
  • Rejeitando toda a imundícia e superfluidade de malícia: “E, na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela” ( Hb 12:11 ) – o ato do cristão em rejeitar a imundícia e a superfluidade de malícia é o mesmo que se exercitar na paz.

 

Ora, o fruto da justiça semeia-se na paz, para os que exercitam a paz.

Passemos a explicar novamente o versículo dentro do contexto que o apóstolo vinha discorrendo.

Aqueles que desejavam ser mestre simplesmente para se gabar, foram avisados de que a sabedoria que vem do alto é pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade e sem hipocrisia. Após informar qual a sabedoria que deveriam buscar, Tiago conclui: “Ora…”.

Ou seja, só é possível semear o fruto da paz, levar a semente do evangelho, aqueles que dela são nascidos e que exercitam a paz. Os que promovem a paz, ou aqueles que a exercitam, não devem ter amarga inveja e nem sentimento faccioso. Estes são requisitos essenciais a quem deseja ser mestre.

A bíblia nos apresenta o fruto da justiça e o fruto do Espírito. Qual a relação entre eles?

“Ora, o fruto da justiça semeia-se na paz, para os que exercitam a paz”

“Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança…”

 

Tiago fala como se semeia o fruto da justiça e Paulo aponta o que é o fruto do Espírito.

  • O fruto do Espírito“E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências. Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito” ( Gl 5:23 -24) – O fruto do Espírito só é possível àqueles que crucificaram a carne e nasceram do Espírito Eterno. Estes deixaram de viver segundo a carne e passaram a viver segundo o Espírito. Ou seja, cumpre-se o que foi dito por Cristo: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” ( Jo 3:6 ). Aqueles que são nascidos do Espírito através do lavar regenerador da palavra do evangelho, estes são espirituais, e produzem em Deus amor, gozo, paz, longanimidade, etc. “Estai em mim, e eu em vós; como a vara de si mesma não pode dar fruto, se não estiver na videira, assim também vós, se não estiverdes em mim” ( Jo 15:4 );
  • O fruto da justiça“Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados” ( 1Pe 2:24 ) – O fruto da justiça só é possível àqueles que tiveram os seus pecados levados pelo corpo de Cristo e crucificaram a carne, estando mortos para o pecado. Estes deixaram de viver para o pecado e passaram a viver segundo a Justiça. Ou seja, para pudéssemos ser: “Cheios dos frutos de justiça, que são por Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus” ( Fl 1:11 ).

 

Observe que o ‘fruto da justiça’ e o ‘fruto do Espírito’ só são possíveis por meio de Jesus. Observe também que os dois frutos estão no singular: o fruto. Ou seja, o fruto do Espírito é o mesmo que o fruto da justiça.

E o mais interessante: Paulo e Tiago falam do fruto do Espírito, e ou Fruto da Justiça, para dissuadir os seus leitores de comportamento semelhantes:

“Não sejamos cobiçosos de vanglórias, irritando-nos uns aos outros, invejando-nos uns aos outros” ( Gl 5:26 );

“Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade (…) Porque onde há inveja e espírito faccioso aí há perturbação e toda a obra perversa” ( Tg 3:14 -16).

Ler mais

Tiago 1 – Perseverança

A determinação é específica aos cristãos (meus amados irmãos). O apóstolo solicita aos cristãos que não errassem demonstrando que, mesmo os cristãos são passíveis de erros. Qual o erro que o apóstolo Tiago repreende? Erros comportamentais ou conceituais? O apóstolo faz uma repreensão acerca de erros conceituais, visto que alguns destes erros já havia se instalado na compreensão de alguns. Pensar que as tentações são provenientes de Deus é um erro conceitual, porém, a verdadeira concepção acerca de Deus é que Ele concede boas dádivas e todo dom perfeito.

Introdução

O apóstolo Tiago utiliza uma linguagem própria aos evangelistas. Ele não se fixa nos pormenores e nas argumentações teológicas.

A linguagem utilizada por Tiago é bem próxima a do apóstolo João, e faz uma abordagem prática do evangelho.

A abordagem de Tiago difere um pouco da abordagem de Paulo, porém, não há discrepância alguma entre os escritos deles.

Analisaremos os escrito de Tiago, comparando-os com as argumentações de Paulo, quando possível.

A Obra Perfeita da Fé

 

1 Tiago, servo de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, às doze tribos que andam dispersas, saúde.

O apóstolo Tiago dá inicio a sua carta com as mesmas considerações de Paulo. Eles se consideravam servo de Deus e do Senhor Jesus.

A apresentação de Tiago é sucinta, isto porque ele não enfrentava os mesmos problemas que o apóstolo Paulo, Paulo tinha o seu apostolado contestado por grupos judaizantes.

Os destinatários da carta são identificados como sendo as doze tribos da dispersão. O apóstolo Pedro também nomeia os destinatários de sua carta de forma semelhante.

Tal nomeação não se refere ao povo de Israel, antes aos cristãos, sejam eles judeus ou gentios que estavam ‘dispersos’ pelo mundo de então.

Quando Tiago identifica os destinatários como sendo os cristãos, isto nos dá um parâmetro quanto à interpretação: mesmo utilizando uma linguagem própria aos evangelistas, ele escreve a pessoas que já eram crentes e que conheciam o evangelho.

 

2 Meus irmãos, tende grande gozo quando cairdes em várias tentações;

O apóstolo conclama os irmãos a alegria quando estivessem sendo provados. Neste versículo tentação é prova, e não uma oferta para a pratica de uma conduta pecaminosa.

As argumentações deste capítulo iniciam-se neste versículo e caminha para um clímax no capítulo dois.

O apóstolo centra a sua argumentação na tentação, e o tema segue por toda a carta.

 

3 Sabendo que a prova da vossa fé opera a paciência.

A alegria é certa quando aquele que é provado conhece precisamente que a fé provada gera a paciência ( Rm 5:3 ).

A tentação é uma maneira de se por a fé em prova.

 

4 Tenha, porém, a paciência a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, sem faltar em coisa alguma.

O apóstolo Tiago solicita aos cristãos que sejam pacientes, visto que a obra perfeita da fé é a perseverança ( Hb 10:36 ; Tg 5:7 ). Quando o cristão é provado, ele possui elementos para examinar a si mesmo ( 2Co 13:5 ).

A paciência se evidencia com a prova da fé.

 

5 E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada.

A sabedoria que Tiago faz alusão neste versículo está interligada a paciência do versículo anterior. Se o cristão tem paciência, ele é perfeito e completo, visto que nada lhe falta, aguardando a manifestação em glória de Cristo Jesus.

Se um cristão tem falta de sabedoria, deve pedir a Deus que a dará liberalmente. Mas, qual a sabedoria que os cristãos receberão de Deus? A resposta é dada pelo próprio apóstolo: “Mas a sabedoria que do alto vem é, primeiramente pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia” ( Tg 3:17 ). Ou seja, a sabedoria que será concedida possui vínculo com a paciência, a obra perfeita da fé.

Observe que o versículo anterior ressalta que devemos ser perfeitos sem ter falta de coisa alguma, mas que se tivéssemos falta da sabedoria que é pura, pacifica e moderada, era só pedir que será concedido liberalmente.

 

6 Peça-a, porém, com fé, em nada duvidando; porque o que duvida é semelhante à onda do mar, que é levada pelo vento, e lançada de uma para outra parte.

O cristão deve pedir a sabedoria de Deus com fé, ou seja, sem dúvida alguma quanto àquele que concede liberalmente.

O apóstolo faz a primeira comparação em sua carta: aquele que duvida é semelhante à onda do mar, que é levada pelo vento, e é lançada de uma a outra parte.

Aquele que duvida é inconstante em todos os seus caminhos, e não só quanto ao que pede a Deus. A comparação do apóstolo com a onda do mar está para o homem que é dobre de coração, e não para o que se pede a Deus.

O apóstolo deixa de enfatizar a provação e passa a concitar a fé dos ouvintes.

 

7 Não pense tal homem que receberá do Senhor alguma coisa.

Por que aquele que duvida não receberá de Deus coisa alguma? Deus estaria punindo o reticente? Não!

O homem sem fé não receberá de Deus coisa alguma, pois dele temos a promessa, e para alcançarmos o prometido devemos ser pacientes “Porque necessitais de paciência, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” ( Hb 10:36 ).

 

8 O homem de coração dobre é inconstante em todos os seus caminhos.

Como o apóstolo está aconselhando os cristão à pratica do evangelho, ele aponta os vários aspectos pertinentes a vida do homem. Pela fé alcançamos a salvação de Deus, mas isto não confere ao salvo tranqüilidade em todas as áreas de sua vida. O homem pela fé alcança salvação, mas tal salvação não confere riqueza, felicidade no casamento ou a mudança instantânea de comportamento.

O apóstolo Tiago precisava tratar de um assunto complexo entre os cristãos, e para isto ele utiliza o capítulo um de sua carta preparando os corações dos ouvintes para o tema principal: a acepção de pessoas!

Do versículo dois até aqui, o apóstolo Tiago está estruturando o irmão de condição humilde. Nos versículos dez e onze o apóstolo alerta os cristãos de boa condição financeira.

Observe que não há mudança na ideia no contexto geral tratado no primeiro capítulo. Compare o versículo dois com o doze.

O capítulo um da carta de Tiago é um exemplo claro de psicologia aplicada. Ele não apresenta o problema a ser tratado de inicio. Ele primeiro trata de estruturar os ouvintes evidenciando as provações, a fé, a condição pessoal, a conciliação, para depois trazer o problema à tona.

 

Posições: Alta e Insignificante

9 Mas glorie-se o irmão abatido na sua exaltação,

O irmão de condição financeira humilde deveria gloriar-se na sua exaltação, ou seja, ter grande alegria, visto que, a sua condição humilde lhe concedia muitas provações, muitos motivos para se refugiar em Deus, desenvolvendo a perseverança, que resultará na exaltação futura ( Hb 10:36 ).

O irmão de condição humilde tem maior motivo para exercitar a sua fé em perseverança, isto é, para gloriar-se.

Sobre este aspecto Paulo demonstra que, caso fosse gloriar-se, gloriaria em suas fraquezas ( 2Co 12:5 ).

 

10 E o rico em seu abatimento; porque ele passará como a flor da erva.

O rico deveria ANALISAR a sua condição de maneira diferente. Deveria ter em mente a sua fragilidade, visto que o homem nada é.

O homem tem grande tendência a confiar naquilo que pode ver, o que pode lhe ofuscar a visão de que ele é sustentado por Deus e para ilustra a condição dos homens, principalmente os ricos, Tiago lembra a fragilidade da flor.

 

11 Porque sai o sol com ardor, e a erva seca, e a sua flor cai, e a formosa aparência do seu aspecto perece; assim se murchará também o rico em seus caminhos.

Tudo que é exterior ao homem perece com o tempo. Os caminhos que os homens trilham neste mundo têm um fim, e para o rico não é diferente “Não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas” ( 2Co 4:18 ).

 

12 Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam.

Esta é uma declaração prática de elementos pertinentes ao evangelho de Cristo. Esta declaração é igual a do escritor aos Hebreus:

“Porque necessitais de paciência, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” ( Hb 10:36 ).

Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam.

Aquele que suporta a provação demonstra que é paciente, e que receberá de Deus a vida eterna prometida a todos quantos creram em seu Filho.

A vontade de Deus é que todos os homens creiam naquele que ele enviou. A promessa é de vida, e vida eterna. Mas, para alcançá-la o homem precisa de perseverança na fé dada aos santos.

As discrepâncias de ordem socioeconômica no seio da igreja local estavam causando alguns problemas que será tratado no capítulo dois. Porém, Tiago estrutura os seus leitores a serem pacientes, suportando as tentações e provações.

 

13 Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta.

O apóstolo passa a demonstrar que as provações da vida não são provenientes de Deus. Alguém pode considerar que Deus para aperfeiçoar a fé de seus filhos acaba por submetê-los a inúmeras provações. Mas, não é assim! Deus a ninguém tenta.

A fé não precisa ser aperfeiçoada. O que é passível de aperfeiçoamento é o comportamento humano e a sua compreensão da realidade a sua volta. A fé é dom de Deus, que é perfeita como perfeito é o Pai celeste que nos dá todas as garantias necessárias que estruturarmos a nossa crença.

Por isso o apóstolo Paulo diz: “Eu sei em quem tenho crido” ( 2Tm 1:12 ).

 

 

14 Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência.

Após descartar que as tentações são provenientes de Deus, Tiago demonstra onde as tentações têm origem.

Neste versículo ele não aponta a origem do pecado, visto que o pecado teve origem em Adão, lá no jardim do Éden. Observe que ninguém tem a possibilidade de pecar a semelhança da transgressão de Adão. Não há como os descendentes de Adão dar origem ao pecado “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” ( Rm 5:14 ).

Cada ser humano possui um desejo em particular. Cada pessoa vê as coisas com valores diferenciados. Uns dão maior valor a bens materiais, outros a conduta, outros a dignidade, etc.

O apóstolo Tiago demonstra que o homem é tentado pelo seu próprio desejo. Ele cobiça, é atraído e seduzido pelos seus interesses.

Este desejo após tomar corpo, se for levado a efeito, resulta em uma conduta pecaminosa. Se o desejo for vetado pela consciência do homem, por leis, ou regras éticas, mas este homem leva a efeito este desejo, acaba por gerar a morte.

Por que o apóstolo toca neste assunto? Por causa de elementos apontados no versículo dezenove e vinte deste mesmo capítulo.

Note que Tiago está escrevendo a cristãos, pessoas que não estavam mais sujeitas ao pecado. Da mesma forma estavam livres do pecado de Adão, uma vez que já criam em Cristo. Como um desejo não contido poderia levar a morte?

Caso os ouvintes não suportassem a tentação; caso não fossem perseverantes na fé que receberam, e lançassem mão da ira, deixariam de se sujeitar a justiça de Deus que é pela fé, e estabeleceriam uma própria com base na vingança. Tal inversão, adotar uma justiça própria em lugar da divina, leva a morte espiritual.

 

15 Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte.

O apóstolo está tratando de questões práticas. O irmão de condição humilde deveria ter em conta a sua dignidade. Já o de condição abastada, em quanto era insignificante a existência dos homens sobre a face da terra.

Se estas pessoas considerassem estes elementos, não seriam tentados a fazer acepção de pessoas ( Tg 2:2 ). Da mesma forma caso alguém fosse discriminado, sofreria a provação e não lançaria mão da ira, pois tal ação substitui a justiça de Deus que é pela fé, e se estabelece uma outra, a justiça própria.

Através da fé recebemos a justiça de Deus, pois é Deus quem nos justifica. Quando queremos embasar as nossas ações em um sentimento próprio de justiça e de vingança, estaremos vestidos de trapos de imundície. Só resta a morte diante de Deus.

A morte não é resultado da conduta errônea, e sim da falta de fé. Se não há fé, não se consegue sofrer as tentações com paciência. Se não há fé, o homem não espera na providência divina e passa a agir por conta própria.

 

16 Não erreis, meus amados irmãos.

A determinação é específica aos cristãos (meus amados irmãos). O apóstolo solicita aos cristãos que não errassem demonstrando que, mesmo os cristãos são passíveis de erros.

Qual o erro que o apóstolo faz referência? Erros comportamentais ou erros conceituais?

O apóstolo faz uma repreensão acerca do erro conceitual que havia se instalado em alguns. Alguns pensavam que a tentação era proveniente de Deus, porém, a verdadeira concepção acerca de Deus é que Ele concede boa dádiva e todo dom perfeito. Compare: ( Gl 6:7 e 1Co 6:10 ).

 

Erros Conceituais

17 Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação.

 

Os leitores não deviam cometer o erro de considerar que as tentações eram provenientes de Deus. Antes deveriam considerar que de Deus é proveniente toda a boa dádiva e todo o dom perfeito.

As bênçãos são provenientes de Deus, que desce de Deus, ou antes, vem do alto.

Não é próprio de Deus a mudança e nem mesmo a ‘sombra’ de variação, fato que por si só demonstra que não deveriam errar quanto ao conceito de que Deus tenta alguém com o mal e que concede todo o dom perfeito.

 

18 Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fossemos como primícias das suas criaturas.

 

Esta carta utiliza uma linguagem eminentemente evangelística, porém, neste versículo fica demonstrado que o apóstolo possuía perfeita compreensão das nuances teológicas da mesma forma que Paulo e Pedro.

O apóstolo Tiago não se utilizou de conceitos teológicos ao escrever por questões próprias ao público alvo da carta. Não se deve considerar que o apóstolo Tiago não comungava ou que não possuía a mesma compreensão que o apóstolo Paulo demonstra em suas cartas.

Toda: Deus concedeu aos cristãos toda boa dádiva e todo o dom perfeito, de maneira que nada falta àqueles que aguardam a Jesus “De maneira que nenhum dom vos falta, esperando a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo” ( 1Co 1:7 );

Boa dádiva: Presente de Deus aos homens.

Dom perfeito: A graça de Deus por meio do evangelho “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” ( Ef 2:8 );

Pai das luzes:“Deus é luz, e nele não há trevas alguma” ( 1Jo 1:5 ); “Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor; andai como filhos da luz” ( Ef 5:8 ); “Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus” ( Gl 3:26 );

Em quem não há mudança e nem sobra de variação: A imutabilidade de Deus é base para a nossa fé “Por isso, querendo Deus mostrar mais abundantemente a imutabilidade do seu conselho aos herdeiros da promessa, se interpôs com juramento” ( Hb 6:17 ), pois só pela fé em Deus somos filhos da Luz;

Segundo a sua vontade: Segundo o consentimento (beneplácito) de Deus que, por meio da fé, adquiríssemos a filiação divina “E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade” ( Ef 1:5 );

Ele nos gerou de novo: Aqueles que creem em Cristo são novamente criados segundo Deus em verdadeira justiça e santidade. Não é uma reformulação ou uma melhoria na velha natureza. Antes recebemos poder para sermos feitos (criados novamente) filhos de Deus “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” ( Jo 1:12 );

Palavra da verdade: A palavra da verdade é a mensagem do evangelho, pois o apóstolo Paulo demonstra que o evangelho é poder de Deus para todos quanto crerem ( Rm 1:16 );

Para que fossemos como primícias das suas criaturas: Aqueles que creem são gerados de novo e passam a ser uma nova criatura “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ). Dentre todas as criaturas de Deus somos considerados como sendo as primícias, visto que ressurgimos com Cristo dentre os mortos “Mas de fato Cristo ressuscitou dentre os mortos, e foi feito as primícias dos que dormem” ( 2Co 5:17 );

Com base neste versículo podemos verificar que não há divergência alguma entre o que Tiago e Paulo escreveram em suas cartas.

É característica própria a carta de Tiago utilizar uma linguagem evangelista, já que o público alvo da carta se constitui de leigos. Eram carentes de conhecimento ( Tg 1:3 ; 5; 16; 19), e uma linguagem teológica não seria de todo compreendida.

Por isso o apóstolo Tiago apresenta um evangelho aplicado e menos conceitual.

E Tiago prossegue: “Sabei isto, meus amados irmãos…” (v. 19).

 

19 Portanto, meus amados irmãos, todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar.

O apóstolo reitera pela terceira vez: meus amados irmãos!

Ele não exclui quem quer que fosse da exortação: Todo o homem:

1º Deveriam ser prontos a ouvir;

2º Tardios a falar, e;

3º Tardios a irarem-se.

O apóstolo reitera alguns cuidados que os irmãos deveriam ter quanto a paciência. O homem paciente está pronto a ouvir! Esta recomendação tem dois aspectos dentro do contexto que Tiago procurou transmitir:

a) Eles ouviriam prontamente a mensagem que estava sendo transmitida por meio da carta, e;

b) Quanto fossem inteirados dos problemas existentes no seio da igreja ( Tg 2:1 -4), não partiriam para julgamentos precipitados, antes estariam prontos a ouvirem um pouco mais. Seriam pacientes.

As recomendações deste versículo soam como um freio à concupiscência de alguns, que eram atraídos a falarem precipitadamente ( Tg 1:13 -14).

Tiago utiliza o mesmo principio que Paulo ao exortar o homem a examinar a si mesmo. Este com poucas palavras, de maneira direita e incisiva, aquele utiliza o texto para evidenciar a cada indivíduo o seu erro, fazendo com que se esquecessem dos erros do próximo.

 

20 Porque a ira do homem não opera a justiça de Deus.

Este versículo esclarece o versículo 15.

A abordagem de Tiago tem inicio com a declaração: “Bem-aventurado aquele que suporta a provação” (v. 12). Este homem receberá de Deus o prometido, a coroa da vida, o que é pertinente ao homem livre do pecado.

 

Os que amam a Deus são aqueles que foram chamados segundo o seu propósito de fazer convergir em Cristo todas as coisas; estes não estão sujeitos ao pecado e têm direito à coroa da vida; antes eram sujeitos ao pecado, e, portanto, alijados da vida que há quando se está em Deus”

Nestes versículos podemos observar que dois temas são desenvolvidos paralelamente:

a) Não deveriam errar nas questões conceituais. Se Deus não muda, como conciliar ‘boa dádiva’ com ‘o tentar com o mal’?

b) A maldição do pecado só recai sobre aqueles que não perseveram, e, portanto, não são bem-aventurados.

As questões relativas ao parágrafo (a) já foram comentadas anteriormente.

Sobre o parágrafo (b) resta descobrir qual o tipo de ‘pecado’ que leva o cristão a morte.

O cristão que for atraído e engodado pela sua própria concupiscência (um exemplo prático que o apóstolo Tiago utiliza é a precipitação em falar (v. 19), não suportando a tentação, teria em si mesmo os elementos necessários a concepção da concupiscência.

É questão de tempo para a concupiscência tomar corpo e dar à luz o pecado e do pecado advém à morte!

O pecado que dá luz à morte é o lançar mão da ira.

Deus diz: “Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira, porque está escrito: Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor” ( Rm 12:19 ); “Porque bem conhecemos aquele que disse: Minha é a vingança, eu darei a recompensa, diz o Senhor. E outra vez: O Senhor julgará o seu povo” ( Hb 10:30 ).

Quando Paulo diz: “…dai lugar a Ira…”, é uma referência clara ao Senhor! É o mesmo que dizer, daí lugar a Deus, pois a Ele pertence a Ira “Pelas quais coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência” ( Cl 3:6 ).

Aquele que não suporta a tentação, que advém de uma cobiça e se põe a falar incontidamente, acabará se inflamando em sua própria ira. Este morrerá, visto que deixou de se sujeitar a justiça de Deus, que é pela fé.

Aquele que sai a vingar-se a si próprio está trilhando o mesmo caminho de Davi quando induzido por Nabal “Agora, pois, meu senhor, vive o SENHOR, e vive a tua alma, que o SENHOR te impediu de vires com sangue, e de que a tua mão te salvasse; e, agora, tais quais Nabal sejam os teus inimigos e os que procuram mal contra o meu senhor” ( 1Sm 25.26 ).

O apóstolo Tiago prevendo que alguém poderia ficar indignado frente aos problemas que seriam relacionados nos versículo 1 a 5 do capítulo 2, antecipa-se e demonstra que, se alguém não adotasse o comportamento do versículo 19, incorreria em não estar sujeito a justiça de Deus, que é por meio da fé em Cristo.

Quem se deixar levar pela própria cobiça não suporta a provação, e passa a agir por conta própria alimentando sentimentos facciosos e soberbos, ações pertinentes a ira do homem.

 

 

Recomendações

21 Por isso, rejeitando toda a imundícia e superfluidade de malícia, recebei com mansidão a palavra em vós enxertada, a qual pode salvar as vossas almas.

 

Já que a justiça de Deus não coaduna com a ira do homem, o apóstolo concita os ouvintes a lançarem fora toda impureza e todo vestígio do mal. A imundície e superfluidade de malícia são descritas em Tiago três, treze a dezesseis.

A amarga inveja e o sentimento faccioso geralmente advêm da incontinência em falar e da pressa em vingar uma causa própria.

A prontidão em falar acintosamente e a ira não é próprio daqueles que são mansos, ou seja, a palavra do evangelho deve ser recebida em mansidão.

A palavra de Deus é poder de Deus para todo aquele que crê, ou seja, poder de Deus para salvação das vossas almas.

 

22 E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos.

Tiago solicita um compromisso com a palavra do evangelho. O compromisso com a palavra se estabelece quando o ouvinte resiste as tentações, é paciente, e manso. Este não esta se enganado a si mesmo.

 

23 Porque, se alguém é ouvinte da palavra, e não cumpridor, é semelhante ao homem que contempla ao espelho o seu rosto natural;

Esta é a segunda comparação que Tiago faz.

Ele estabelece uma hipótese: “Se…”. Aquele que duvida é comparado à onda do mar, e o ouvinte que não pratica é semelhante a quem contempla o próprio rosto através de um espelho. A comparação se firma no versículo seguinte:

 

24 Porque se contempla a si mesmo, e vai-se, e logo se esquece de como era.

Através das comparações Tiago demonstra dois perigos:

a) O ouvinte esquecido ou relapso, e;

b) Ouvinte sem fé, que é levado de uma a outra parte “…porque o que duvida é semelhante à onda do mar, que é levada pelo vento, e lançada de uma para outra parte” (v. 6).

25 Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito.

O apóstolo faz uma ressalva: “Aquele, porém…”.

O ouvinte que recebe a palavra com fé e a pratica, este é o que atenta bem para a mensagem do evangelho, a lei perfeita.

A lei que não deixa alternativa de escolha não é perfeita. A lei perfeita deixa alternativa entre cumprir e o não cumprir.

Tiago alerta novamente o ouvinte relapso e o sem fé:

a) e nisso persevera – a perseverança é resultado da fé em prática. A fé posta em prova produz a paciência, e o exercício da fé à perseverança “Sabendo que a prova da vossa fé opera a paciência” (v. 3); “Todo aquele que prevarica, e não persevera na doutrina de Cristo, não tem a Deus. Quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem tanto ao Pai como ao Filho” II Jo 1. 9.

b) não sendo ouvinte esquecido – o ouvinte esquecidiço é aquele que não cumpre a palavra. Ele não é fazedor da obra e nem bem-aventurado.

Só é bem-aventurado o ouvinte que atenta para o evangelho com fé. Este será perfeito e sem falta de coisa alguma, visto que é paciente.

O que suporta a tentação é aquele que cumpre com a palavra, ou, aquele que faz a obra, sendo o resultado disso a paciência, a obra perfeita “Tenha, porém, a paciência a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, sem faltar em coisa alguma” (v. 4).

 

26 Se alguém entre vós cuida ser religioso, e não refreia a sua língua, antes engana o seu coração, a religião desse é vã.

 

O apóstolo Tiago chega ao momento da prática. Ou seja, se o cristão não suportar a provação, não terá a obra perfeita, que é a paciência. Este passará a agir, não refreando a língua. Descumprirá cabalmente a determinação: “…todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar…” (v. 19), enganando a si mesmo (v. 22). Tal homem se apoiará na religiosidade, onde a justiça de Deus não opera.

Tal homem está enfatuado, pois se apóia em um discurso falso: sou religioso! “E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos” (v. 22).

 

27 A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo.

Uma demonstração clara de que alguns estavam apoiados em falsos discursos é que a verdadeira religião se resume em assistencialismo aos órfãos e viúvas, sem se contaminar com a corrupção do mundo.

As recomendações aos gentios no concílio de Jerusalém são claras: “Na verdade pareceu bem ao Espírito Santo e a nós, não vos impor mais encargo algum, senão estas coisas necessárias: Que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da prostituição, das quais coisas bem fazeis se vos guardardes. Bem vos vá” ( At 15:28 -29).

Sobre este mister o apóstolo Paulo foi alertado: “Recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também procurei fazer com diligência” ( Gl 2:10 ).

Tais determinações foram necessárias, visto que alguns não estavam atentando para a perfeita lei da liberdade: “E isto por causa dos falsos irmãos que se intrometeram, e secretamente entraram a espiar a nossa liberdade, que temos em Cristo Jesus, para nos porem em servidão” ( Gl 2:4 ).

A recomendação de Tiago era tão somente para que observasem o que era pertinente ao evangelho de Cristo “E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes…”, porém, alguns estavam presos à religiosidade, que se firma em questões tais como o legalismo, o formalismo e a moralidade. Estes estavam se enganando quando se firmavam nos discursos da religiosidade: “…enganando-vos com falsos discursos”.

Vale salientar que o capítulo um da carta de Tiago visa preparar os cristãos para a exposição de questões que são abordadas no capítulo Dois.

O leitor desta carta deve ter o cuidado de observar e analisar o seu conteúdo sobre o prisma de um único contexto.

A carta de Tiago desenvolve uma idéia principal, porém, antes de especificá-la, ele teve o cuidado de preparar os seus destinatários diretos, os cristãos de sua época, com várias exortações, exemplos e comparações.

Não devemos nos ater as exortações, exemplos e comparações sem o prisma da idéia principal.

A linguagem que Tiago utiliza é evangelística, pois não se estrutura em citações do antigo testamento. A linguagem é baseada em comparações e exemplos pertinentes ao dia-a-dia dos leitores ( Tg 1:10 -11, e 23).

Quando se faz necessário a exposição de alguns conceitos de cunho teológico, o apóstolo Tiago se socorre de conceitos incontestes ( Tg 1:17 ), sem o auxílio da citação de trechos do antigo testamento.

A carta de Paulo aos Efésios segue quase a mesma estrutura de linguagem de Tiago por não utilizar citações do antigo testamento.

Ler mais