Hebreus 1 – O testemunho de Deus acerca do seu Filho

Se entrevistássemos o escritor da carta aos Hebreus, e perguntássemos: Quem é Jesus? A resposta estaria nos versículos dois a quatro ( Hb 1:2 -4). Se pedíssemos que o escritor apresentasse argumentos em favor das suas alegações acerca de Jesus, elas estariam expostas nos versículo seis a quatorze ( Hb 1:6 -14).


A abordagem que faremos à carta aos Hebreus será realizada levando em conta o texto e o seu contexto. Não ficaremos presos à divisão feita em capítulos e versículos, antes analisaremos o contexto, e depois, comentaremos alguns aspectos do texto.

Esta abordagem será necessária para estabelecermos um novo parâmetro de análise como subsídio ao comentário bíblico, diferente do que estávamos fazendo com as outras cartas.

Esta maneira de analisar uma carta é uma ferramenta poderosíssima na interpretação de textos, o que auxiliará em muito o estudo dos nossos leitores quando da leitura de outras cartas bíblicas.

A linha de raciocínio do escritor da carta aos Hebreus ficará grafada na cor vermelha, um recurso para tornar fácil visualizar as diferenças entre texto e contexto. A idéia principal do autor da carta aos Hebreus sempre estará colorida de vermelho, e as outras cores, quando utilizadas, evidenciará outros aspectos pertinentes ao texto e o contexto.

Estou grato a Deus pela vida daqueles que puderem ter acesso a esta abordagem.

 

Hebreus – Capítulo 1

1 Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho,

A ideia principal que estrutura a carta é desenvolvida em uma única linha de raciocínio. Esta linha de raciocínio tem início no primeiro versículo da carta aos Hebreus. A ideia geral que dá estrutura a carta será nomeada de texto.

Durante o desenvolvimento do texto surgirão outras idéias, que podemos nomear subtextos, e que possuem um contexto próprio, porém, são utilizados para complementar ou ilustrar a ideia desenvolvida no decorrer da carta.

A ideia principal geralmente não depende dos subtextos para ser compreendida. Observe:

O versículo um deste capítulo dá início ao texto da carta, porém, só é possível determinar o seu contexto quando da leitura do versículo um do capítulo dois. Só a leitura do capítulo não concede os elementos necessários para se determinar qual o contexto da carta.

Do capítulo um só é possível extrair declarações acerca da pessoa de Jesus. Tais declarações são completas em si mesmas, porém não lançam luz ao contexto da carta.

Só é possível determinar o contexto da carta quando da leitura do capítulo dois, versículo um.

Destaquemos os personagens que compõe a estrutura do versículo um da carta aos hebreus:

“Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho

 

Deus – o escritor da carta aos Hebreus fala de Deus, Aquele que se deu a conhecer a Moisés como o ‘Eu Sou’ “E disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós” ( Ex 3:14 );

Pais – Refere-se ao povo de Deus que foi escolhido em Abraão; Ou seja, pais, neste versículo, representam a árvore genealógica do povo de Israel, que teve início com o patriarca Abraão. ‘Pais’ é uma referência a todo o povo de Israel;

Profetas – Eram homens e mulheres escolhidos por Deus dentre os pais para levar mensagens ao povo de Israel;

Nós – referem-se aos cristãos, aqueles que ouviram a palavra de Cristo e o aceitaram como Senhor e Salvador. Observe que o escritor da carta se inclui na narrativa através do pronome na primeira pessoa do plural;

Filho – O escritor fala de Cristo, o Filho de Deus “Quem subiu ao céu e desceu? Quem encerrou os ventos nos seus punhos? Quem amarrou as águas numa roupa? Quem estabeleceu todas as extremidades da terra? Qual é o seu nome? E qual é o nome de seu filho, se é que o sabes?” ( Pv 30:4 ).

 

Os registros do Antigo Testamento, de Gênesis à Malaquias apresentam a fala de Deus a um povo contradizente “Mas para Israel diz: Todo o dia estendi as minhas mãos a um povo rebelde e contradizente” ( Rm 10:21 ). Deus falou muitas vezes e socorreu outras tantas o povo de Israel, porém, eles eram um povo contradizente, de dura cerviz.

O cuidado de Deus não se restringiu só em falar por diversas vezes. Ele falou diversas vezes e de muitas maneiras, ou seja, através dos profetas, reis, juízes, salmistas, etc.

Os últimos dias referem-se ao ministério de Cristo, a sua morte, ressurreição e a igreja, o corpo de Cristo.

 

Obs: Os versículo coloridos de vermelho constituem o texto principal da carta, e os versículos em Azul, constituem subtextos.

 

 

2 Filho A quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo. 3 O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas; 4 Feito tanto mais excelente do que os anjos, quanto herdou mais excelente nome do que eles.

O escritor deixa o enredo da carta e passa a falar da pessoa de Cristo. Ele abre um parêntese na escrita da carta para explicar quem é Jesus aos cristãos Hebreus.

Se entrevistássemos o escritor da carta aos Hebreus, e perguntássemos: Quem é Jesus? A resposta estaria nos versículos dois a quatro ( Hb 1:2 -4). Se pedíssemos que o escritor apresentasse argumentos em favor das suas alegações acerca de Jesus, elas estariam expostas nos versículo seis a quatorze ( Hb 1:6 -14).

Este é um recurso que na língua portuguesa denominamos aposto explicativo.

O escritor apresenta nove declarações sobre a pessoa de Jesus. Cada declaração não dependente da declaração seguinte para dar consistência a ideia.

Sobre a pessoa de Jesus o escritor da carta aos Hebreus faz as seguintes declarações:

Herdeiro de tudo“E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados” ( Rm 8:17 ) – Jesus, como Filho de Deus é herdeiro de todas as coisas;

Fez o mundo“Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele” ( Cl 1:16 ) – Tudo foi criado por Jesus, o Filho amado;

Resplendor da glória de Deus“Aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Salvador Jesus Cristo” ( Tt 2:13 ) – Jesus é o resplendor da glória de Deus;

Expressa imagem de Deus“O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação” ( Cl 1:15 ); “…para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus” ( 2Co 4:4 ) – Jesus, o verbo de Deus;

Sustenta todas as coisas – “E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele” ( Cl 1:17 ) – Todas as coisas subsistem por Cristo;

Purificou os cristãos dos seus pecados“Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados” ( Cl 1:14 ) – Livrou aqueles que creram de todos os pecados;

Assentou-se a destra de Deus“O qual está à destra de Deus, tendo subido ao céu, havendo-se-lhe sujeitado os anjos, e as autoridades, e as potências” ( 1Pe 3:22 ) – Demonstra o poder de Cristo após a ressurreição;

É mais excelente que os anjos“Acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro” ( Ef 1:21 ) – Em todos os tempos o nome de Cristo é sobresselente;

Herdou um nome excelente“Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” ( Is 9:6 ) – Jesus é o nome sobre todos os nomes.

Observe que todos os outros apóstolos comungam da mesma opinião que o escritor da carta aos Hebreus.

Após fazer este breve comentário acerca da pessoa de Cristo, o escritor passa a demonstrar de onde ele tirou as considerações acima.

A base para a crença dos cristãos está nos escritos do Novo Testamento. Para os apóstolos e/ou para o escritor da carta aos Hebreus as bases para as suas afirmações acerca da pessoa de Cristo estão contidas no Antigo Testamento.

Através do vínculo que os escritores do Novo Testamento faz com o Antigo Testamento podemos perceber, de maneira clara, que o Deus do Antigo Testamento é o mesmo Deus do Novo Testamento. Que o Antigo Testamento é divinamente inspirado por Deus, e seus livros contêm as bases do Novo Testamento. Este não subsiste sem aquele!

A bíblia é um composto de livros em torno de uma ideia única: Deus revelando-se à humanidade!

A mesma estrutura de texto que temos na carta aos Hebreus, encontramos na Carta de Paulo aos Colossenses, quando o apóstolo escreve acerca de Cristo. Observe: Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados; O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele. E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência. Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse, E que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus” ( Cl 1:14 -19).

Paulo demonstra que Cristo é a imagem de Deus; o primogênito de toda criação; que nele foram criadas todas as coisas; tudo foi criado por Cristo; Ele é antes de todas as coisas; tudo subsiste por ele; etc.

Tanto Paulo quanto o escritor aos Hebreus utilizam uma estrutura de composição de textos semelhante, informando os leitores a respeito de Cristo. Compare ( Cl 1:14 –19) com ( Hb 1:2 -4).

Mas, na carta aos Colossenses temos outro texto a comparar com a carta aos Hebreus. Observe:

“Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo; Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade; E estais perfeitos nele, que é a cabeça de todo o principado e potestade; No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo; Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos. E, quando vós estáveis mortos nos pecados, e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-vos todas as ofensas, Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz. E, despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo” ( Cl 2:8 -15).

 

Apesar das estruturas de textos serem semelhantes em ( Hb 1:3 -4; e Cl 1:14 -19), o enfoque dos escritores e o contexto são diferentes.

A estrutura dos textos abaixo nos permite verificar que as afirmações que se seguem desempenham funções semelhantes na composição do texto de Hebreus e Colossenses. Compare:

“Pois nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade” ( Cl 2:9 ), e;

“A quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo. O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas; Feito tanto mais excelente do que os anjos, quanto herdou mais excelente nome do que eles” ( Hb 1:3 -4), e;

O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele…” ( Cl 1:14 -19).

Estes três trechos desempenham a mesma função: são afirmações a respeito da pessoa de Cristo.

Paulo fez várias afirmações a respeito de Jesus ( Cl 1:14 -19), da mesma forma que o escritor da carta aos Hebreus também fez várias afirmações ( Hb 1:3 -4), porém, em ( Cl 2:8 -15) temos uma única afirmação sobre Jesus, e o restante do texto traz um enfoque e um contexto diferente do que vimos em ( Hb 1:3 -4 e Cl 1:14 -19).

A diferença nos textos decorre do enfoque dos escritores.

Enquanto Paulo procura demonstrar a nova condição dos cristãos em Cristo ( Cl 2:8 -15), o escritor aos Hebreus procura demonstrar que o Cristo, que os seus contemporâneos conheciam, foi feito menor que os anjos por causa da paixão da morte, e que agora, está assentado à destra do Poder nas alturas ( Hb 1:3 -4).

Em Hebreus o contexto é de exortação “Portanto, convém-nos atentar com mais diligência para as coisas que já temos ouvido, para que em tempo algum nos desviemos delas” ( Hb 2:1 ), e em Colossenses o contexto é de conscientização “E estais perfeitos nele (…) estais circuncidados (…) sepultados com ele (…) nele também ressuscitastes” ( Cl 2:9 -15).

Os cristãos alcançam a plenitude em Cristo ( Cl 2:10 ), porém os colossenses não tinham consciência do que possuíam; Os cristãos Hebreus ouviram a palavra de Deus algumas vezes, porém deveriam ser diligentes, para que em tempo algum se desviassem da verdade do evangelho.

Por possuir vários contextos, a carta de Paulo aos Colossenses evidencia de maneira clara as diferenças que um mesmo texto trás, quando se observa e analisa o contexto.

Continuemos o comentário à carta:

 

5 Porque, a qual dos anjos disse jamais: Tu és meu Filho, Hoje te gerei? Eu lhe serei por Pai, E ele me será por Filho?

6 E outra vez, quando introduz no mundo o primogênito, diz: E todos os anjos de Deus o adorem.

7 E, quanto aos anjos, diz: Faz dos seus anjos espíritos, E de seus ministros labareda de fogo.

8 Mas, do Filho, diz: O Deus, o teu trono subsiste pelos séculos dos séculos; Cetro de equidade é o cetro do teu reino. 9 Amaste a justiça e odiaste a iniquidade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu Com óleo de alegria mais do que a teus companheiros.

10 E: Tu, Senhor, no princípio fundaste a terra, E os céus são obra de tuas mãos. 11 Eles perecerão, mas tu permanecerás; E todos eles, como roupa, envelhecerão, 12 E como um manto os enrolarás, e serão mudados. Mas tu és o mesmo, E os teus anos não acabarão.

13 E a qual dos anjos disse jamais: Assenta-te à minha destra, Até que ponha a teus inimigos por escabelo de teus pés?

14 Não são porventura todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação?

 

O escritor da carta aos Hebreus faz sete citações do Antigo Testamento para dar base as declarações que ele fez acerca da pessoa de Jesus.

Por ele ter afirmado que Jesus foi “Feito tanto mais excelente do que os anjos, quanto herdou mais excelente nome do que eles”, o escritor da epistola, através de uma argumentação lógica e em conjunto com as citações, demonstra que o A. T. é a base de apoio para as suas afirmações.

O escritor argumenta que o que foi registrado acerca de Jesus não se refere a anjos. O que foi predito acerca do Messias, jamais foi dito de um ser angelical.

Seguem as citações do Antigo Testamento feitas pelo escritor da carta aos Hebreus:

“Tu és meu Filho, Hoje te gerei” ( Sl 2:7 ) – O salmo dois é eminentemente messiânico, e demonstra a Filiação divina do Cristo. O Messias prometido foi gerado de Deus. Não há registro no Antigo Testamento de que algum ser celestial tenha recebido uma declaração divina semelhante à recebida por Jesus. Só ele foi gerado de Deus, enquanto os anjos foram criados. Jesus é o unigênito de Deus.

“Eu lhe serei por Pai, E ele me será por Filho” ( 2Sm 7:14 ) – Não há registro de que Deus tenha estabelecido a relação de Pai e Filho com algum ser celestial; por isso a argumentação: “Porque, a qual dos anjos ele disse jamais?”

“E todos os anjos de Deus o adorem” provavelmente uma citação do ( Sl 97:7 ) “Prostrai-vos diante dele, todos os deuses” – A nenhum ser foi dado a honra de receber adoração; Com relação a argumentação que antecede a citação do versículo, deve-se observar que, “E outra vez…” refere-se a argumentação anterior: “Porque, a qual dos anjos disse jamais…”. Ou seja, Ele já havia demonstrado que aos anjos jamais foi dito o que foi destacado dos salmos, e que outra vez ficaria demonstrado que sobre os anjos, jamais foi dito que alguém deveria adorá-los; Ele estava demonstrando novamente (E outra vez), através de outra citação do A. T. (v. 6), que, quando no mundo foi introduzido o primogênito de Deus, que todos deveriam adorá-lo;

“Faz dos seus anjos espíritos, E de seus ministros labareda de fogo” ( Sl 104:4 ) – Quando a bíblia faz uma citação que contém algo a respeito dos seres celestiais, é bem clara a função que desempenham diante de Deus: são ministros de Deus.

“O Deus, o teu trono subsiste pelos séculos dos séculos; Cetro de eqüidade é o cetro do teu reino. Amaste a justiça e odiaste a iniqüidade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu Com óleo de alegria mais do que a teus companheiros” ( Sl 45:6 -7) – Sobre Jesus, o Filho de Deus, o Salmo quarenta e cinco declara que Ele é Deus; que possui um reinado que dura pelos séculos dos séculos; a qual dos anjos foi dito o que está no salmo 45?

“Tu, Senhor, no princípio fundaste a terra, E os céus são obra de tuas mãos. 11 Eles perecerão, mas tu permanecerás; E todos eles, como roupa, envelhecerão, 12 E como um manto os enrolarás, e serão mudados. Mas tu és o mesmo, E os teus anos não acabarão” ( Sl 102:25 -26) – O Salmo 102 é citado porque diz que no princípio Ele (Jesus) fundou a terra; Jesus, o Senhor que fundou a terra, e que os céus são obras de suas mãos; são provas irrefutáveis acerca da divindade de Cristo;

“Assenta-te à minha destra, Até que ponha a teus inimigos por escabelo de teus pés?” ( Sl 110:1 ) – Alguma vez foi dito a um anjo que se assentasse a mão direita do Todo Poderoso? Jamais!

O escritor da carta aos Hebreus conclui com base nas citações do Antigo Testamento: “Não são porventura todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação?”.

Após a exposição do escritor aos hebreus de quem é Jesus, o Filho de Deus, o escritor volta a compor o texto da carta, o que veremos no comentário ao próximo capítulo.

 

Comentário versículo à versículo do capítulo primeiro da carta aos Hebreus

Alguns leitores já estavam acostumados aos comentários versículo a versículo, e não podíamos nos furtar a não disponibilizar tal comentário.

1 – Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho,

O escritor informa o leitor da carta que Deus falou no passado usando profetas, e esta mensagem era direcionada aos pais (‘pais’ refere-se a todo o povo hebreu), e Deus utilizou-os de várias formas para trazer a sua mensagem ao povo como: visões, profecias, cânticos e a lei.

Deus continua falando aos homens, porém, com um diferencial: antes falou por mensageiros, nos últimos dias através do Filho.

2 – A quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo.

Deus utilizou o seu próprio filho Jesus Cristo para falar ao povo, ou Deus estava em Cristo reconciliando consigo mesmo o mundo.

Certa vez, Jesus conversando com os fariseus, foi indagado sobre a sua autoridade. Se esta autoridade era proveniente dele mesmo ou de Deus, e Ele lhes propôs está parábola: Um proprietário plantou uma vinha e arrendou a vários trabalhadores e de tempos em tempos mandava os seus servos verificarem como estava a vinha, e nenhum destes servos era respeitado, nem ouvido. Por último, o proprietário enviou seu filho na esperança que este fosse respeitado, mas arrastaram o herdeiro e o mataram. Na parábola o proprietário representa Deus, a vinha à nação de Israel, os trabalhadores os lideres do povo, e o filho a pessoa de Cristo.

Esta parábola ilustra de forma contundente o cuidado de Deus ao trazer uma mensagem à humanidade por intermédio de seu Filho.

Últimos dias referem-se aos dias do escritor, que se estende aos cristãos de hoje ( Mt 20:1 -16; Mt 3:17 ).

3 – O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas;

Cristo foi constituído por Deus herdeiro de tudo, e através d’Ele o mundo que habitamos foi feito. Cristo é o próprio resplendor da glória de Deus, a sua Imagem exata, uma vez que sustenta todas as coisas pelo poder de sua palavra.

Sabemos que Jesus foi enviado para purificação dos pecados dos homens, e para isso, tomou a forma humana. Muitos viram o Unigênito do Pai, porém não se deram conta da magnitude da pessoa de Cristo, o que motivou o escritor a evidenciar estas características do Filho de Deus aos leitores.

Aquele Cristo que tanto era falado pelos apóstolos havia feito o mundo e sustenta todas as coisas com o seu poder. O escritor amplia a visão dos seus leitores demonstrando que aquele Jesus que eles tiveram contato, Ele mesmo havia feito a purificação dos pecados deles e de todos quantos crerem, tornando evidente a Divindade de Cristo. Só Deus tem o poder de perdoar pecados.

O homem que entre eles andara, agora estava assentado a destra de Deus nas alturas, assumindo o seu lugar de direito. Estas declarações aos cristãos Hebreus são muito significativas do ponto de vista histórico e teológico.

4 – Feito tanto mais excelente do que os anjos, quanto herdou mais excelente nome do que eles.

Alguns pecavam em fazer um comparativo entre a pessoa de Cristo e os anjos, e este capítulo procura desfazer esta confusão, demonstrando que o Filho não era um ser angelical, mas o próprio Criador.

Textos citados pelo escritor da carta evidenciam que o Messias ao deixar a forma humana ascendeu aos céus sentando-se à destra de Deus, tornando-se mais excelente que os anjos (como homem ele era menor, por causa da paixão da morte).

Ao voltar aos céus e herdar a glória que antes possuía, Jesus adquiriu um nome mais excelente.

Entre Deus e os Anjos há a relação Criador e criatura. No céu não há relação de parentesco entre os anjos, como Cristo bem esclareceu. Lá não se casa e nem se dá em casamento. Não há como um ser angelical assumir a posição de Filho ( Mt 22:30 ).

Jesus assumiu a posição de Filho quando introduzido no mundo. Do momento em que Cristo foi introduzido neste mundo é que passou a vigorar a relação estabelecida na eternidade: Eu lhe serei por Pai e tu me será por Filho.

 

5 – Porque, a qual dos anjos disse jamais: Tu és meu Filho, Hoje te gerei? E outra vez: Eu lhe serei por Pai, E ele me será por Filho?

O escritor da carta passa a demonstrar aos cristãos que Deus jamais disse a um Anjo “Tu és meu Filho”, sendo que o decreto é específico ao seu próprio Filho Jesus, que foi gerado pelo Espírito Santo.

Observando o ( Sl 2:7 ), é como se o Filho possuísse como garantia de sua filiação neste mundo uma lei (decreto) do seu Pai, chamando-o de Filho. O texto citado na carta refere-se à passagem na qual o profeta Natã entrega uma mensagem a Davi dizendo que o seu “descendente” edificaria uma casa a Deus, e em contra partida, Deus estabeleceria o reino do descendente para sempre.

Em certo momento da profecia, Deus declarou que haveria de ser Pai de um dos descendentes de Davi, e que o descendente lhe seria por Filho.

Dentro destas duas passagens apresentadas (v. 5), entendemos que na eternidade houve um acordo entre as pessoas da divindade (sendo elas iguais entre si em poder, glória e majestade) o Deus único, por quem foi feito o mundo.

A relação que se estabeleceu entre as pessoas da divindade na eternidade é que, uma das pessoas haveria de ser o Pai (Lhe serei por Pai) e o outro o Filho (Tu me serás por Filho).

Se assim considerarmos, quando da concepção e nascimento de Jesus se estabeleceu o tempo chamado “hoje”. Ou seja, Cristo sendo Deus assumiu o lugar de Filho ao ser gerado e introduzido no mundo, selando a relação que se estabeleceu na eternidade.

Na carne ele é o descendente de Davi, porém, é o Unigênito do Pai por existir antes dos séculos dos séculos. O Primeiro gerado de Deus, diferente de Adão e dos anjos.

Na glória, Deus e Cristo são iguais em todos os atributos pertinentes a divindade ( Jo 10:30 ), entre nós, Cristo cumpriu o papel proposto na relação que o versículo demonstra “Eu lhe serei por Pai, E ele me será por Filho”.

6 – E outra vez, quando introduz no mundo o primogênito, diz: E todos os anjos de Deus o adorem.

Ao assumir o lugar de Filho Unigênito aqui na terra, foi dada uma ordem aos Principados e Potestades Celestiais para renderem adoração ao Emanuel, o Deus Conosco, que foi dado em resgate de muitos.

Verificamos a adoração do anjos quando do nascimento de Cristo. Os anjos em coro entoaram louvores ao Filho ( Lc 2:14 ). Quando da glorificação do cordeiro, ele foi recebido com louvores no céu ( Ap 5:11 -12). A ordem de adoração complementa a idéia de um selo da relação que foi estabelecida entre as pessoas da divindade na eternidade, entre Pai e Filho, que se concretizou a partir do dia chamado “hoje”, ou seja, quando da concepção no ventre de Maria ( Sl 97:7 ).

7 – E, quanto aos anjos, diz: Faz dos seus anjos ventos, de seus ministros labareda de fogo.

Os anjos são comissionados para tarefas específicas, ou para realizar uma missão, muito diferente da determinada para o Filho. Eles somente foram designados para adoração e trabalho em prol dos santos.

8 – Mas, do Filho, diz: Ó Deus, o teu trono subsiste pelos séculos dos séculos; Cetro de eqüidade é o cetro do teu reino. 9 – Amaste a justiça e odiaste a iniqüidade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu Com óleo de alegria mais do que a teus companheiros.

O salmista ao profetizar acerca do Filho, chama-o de Deus, com um reino que perdurará pela eternidade, em consonância com o texto de Isaías que o proclama Deus Forte e Pai da Eternidade.

O reino de Cristo tem por base a eqüidade, o amor e a justiça. É evidenciado no seu reino o repúdio ao pecado e à transgressão. Em decorrência destes atributos Deus unge a Cristo com óleos de alegria.

O escritor da carta aos Hebreus cita o ( Sl 102:25 -26) para demonstrar o poder criativo inerente à pessoa de Cristo, de10 – E: Tu, Senhor, no princípio fundaste a terra, E os céus são obra de tuas mãos. 11 – Eles perecerão, mas tu permanecerás; E todos eles, como roupa, envelhecerão, 12 – E como um manto os enrolarás, e serão mudados. Mas tu és o mesmo, E os teus anos não acabarão.monstrando que, Ele lançou os fundamentos da terra e as colunas que sustem os céus. A terra envelhece e há um tempo determinado para o seu fim, porém, de Jesus, o mesmo Salmo diz que Ele permanecerá, será o mesmo sempre, com existência que não se extinguirá.

A terra terá o seu fim, e vemos que Jesus terá participação efetiva na criação do novo céu e da nova terra ( Ap 21:1 -8).

13 – E a qual dos anjos disse jamais: Assenta-te à minha destra, Até que ponha a teus inimigos por escabelo de teus pés?

Não há um anjo se quer que o Senhor tenha convidado para se assentar juntamente com Ele no trono.

Dentre as inúmeras seitas que conhecemos, não há uma que se insurja contra os anjos. Geralmente elas surgem de alguma declaração em particular de supostos ‘anjos’ que lhes apareceram.

É certo que muitas seitas surgiram com o fito de negar a divindade de Jesus.

14 – Não são porventura todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação?

Os anjos são espíritos que agem sob ordem e são enviados de Deus para servir os que herdarão a salvação. São todos eles espíritos ministradores, para servir aqueles que herdarão a salvação: Os que crêem no nome do Filho.

 

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Como conhecer a verdade?

Os judeus que criam em Cristo haviam se arrependido? Eles sofreram uma revolução de pensamento a respeito de seus pontos de vista? Não! Eles não se arrependeram, e nem acataram o ensinamento de Cristo, visto que retrucaram o Mestre dizendo: Somos descendência de Abraão, e nunca fomos escravos de ninguém” ( Jo 8:33 ). A atitude mental dos judeus que criam em Cristo é idêntica a dos escribas e fariseus que iam ao batismo de João Batista. Apesar de serem alertados que deviam mudar de concepção porque era chegado o reino dos céus, permaneciam acreditando que haviam herdado os céus por serem descendentes de Abraão.


Os verdadeiros discípulos

Certa feita o Senhor Jesus alertou os judeus que ‘criam’ n’Ele dizendo: “Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos…” ( Jo 8:31 ).

Através deste alerta, o Mestre por excelência, além de evidenciar o que havia no coração de alguns dos seus seguidores, também nos deixou uma grande lição.

Jesus deixa claro aos seus ouvintes que há uma condição a ser satisfeita para que os judeus pudessem ser seguidores verdadeiros “Se vós permanecerdes na minha palavra…”. A partícula ‘se’ introduz uma condição.

Caso os judeus que criam em Cristo permanecessem no seu ensino, verdadeiramente seriam seguidores (discípulos) de Cristo. Após serem verdadeiros discípulos, então conheceriam a verdade, e a verdade haveria de libertá-los.

O alerta solene do Mestre demonstra que os judeus, que o apóstolo João enfatizou que criam em Cristo, na verdade:

  • Não criam n’Ele como diz as escrituras;
  • Não eram seus discípulos;
  • Não conheciam a Verdade, e;
  • Eram escravos do pecado.

Por definição, discípulo é aquele que segue outrem em suas ideias, ensinamentos ou posições ideológicas. Não basta dizer ser discípulo, antes é necessário comungar das mesmas ideias do Mestre.

O verdadeiro discípulo é aquele que acata o ensinamento do seu mestre e permanece naquilo que foi ensinado. Ora, para tanto é necessário ao discípulo renunciar os seus próprios conceitos e acatar o ensinamento do Mestre. É necessário haver no discípulo uma mudança de concepção acerca da matéria que lhe foi transmitida pelo Mestre.

Esta mudança de pensamento ou de ponto de vista é o que se denomina de arrependimento. O verdadeiro arrependimento diz de uma mudança de entendimento, mudança de pensamento, de propósito, ou de ponto de vista referente a uma determinada matéria.

O verdadeiro discípulo é aquele que adquire outra atitude mental com base no do que lhe foi ensinado pelo Mestre. No discípulo deve ocorrer uma revolução de entendimento no seu ponto de vista, deixando para trás o entendimento que lhe era tão caro. Abandonar os próprios conceitos diante da mensagem de Cristo é o que denominamos de arrependimento.

Os judeus que criam em Cristo haviam se arrependido? Eles sofreram uma revolução de pensamento a respeito de seus pontos de vista? Não! Eles não se arrependeram, e nem acataram o ensinamento de Cristo, visto que retrucaram o Mestre dizendo: Somos descendência de Abraão, e nunca fomos escravos de ninguém” ( Jo 8:33 ).

A atitude mental dos judeus que criam em Cristo é idêntica a dos escribas e fariseus que iam ao batismo de João Batista. Apesar de serem alertados que deviam mudar de concepção porque era chegado o reino dos céus, permaneciam acreditando que haviam herdado os céus por serem descendentes de Abraão.

João Batista já havia alertado os escribas e fariseus a mudarem de ponto de vista (arrependei-vos), visto que era chegado o Cristo, o reino dos céus entre os homens ( Mt 3:2 ). Porém, mesmo após serem batizados, continuavam professando que eram salvos por serem descendentes de Abraão “E não presumais de vós mesmos, dizendo: Temos por Pai a Abraão ( Mt 3:9 ).

O verdadeiro discípulo não presume de si mesmo, antes acata o ensinamento do seu Mestre. O verdadeiro discípulo muda de concepção, ou seja, arrepende-se, quando aprende do Mestre, e não segue dizendo como os judeus: Somos descendência de Abraão, e nunca fomos escravos de ninguém” ( Jo 8:33 ).

 

O Conhecer

Que tipo de conhecimento Jesus propõe aos seus ouvintes?

O lexicógrafo Aurélio assim define o verbo conhecer:

“v.t.d. 1. Ter noção ou conhecimento de; saber. 2. Ser muito versado em; saber bem. 3. Ter relações ou convivência com. 4. Travar conhecimento com. 5. Reconhecer. 6. Apreciar, avaliar. 7. Ter experimentado (algo). 8. Ter estado em (certo lugar). 9. Ter relações sexuais com. T.i. 10. Ter grande saber, ou competência: O juiz conhecia da causa. P. 11. Ser consciente de si mesmo, dos seus valores e limitações”.

Dentre tantas possibilidades, qual o sentido exato da palavra ‘conhecer’ na frase: “… então conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” ( Jo 8:32 ).

Um estudioso mais cauteloso busca aprimorar o seu campo de pesquisa analisando a palavra grega traduzida por ‘conhecer’ (‘gínomai’ ou ‘ginosco’ ou ‘gignósko’ são, na sua forma, um verbo), pois o Novo Testamento foi redigido na língua grega.

Outros, na tentativa de encontrar o melhor significado semântico da palavra “gnôsesthe“ que foi utilizado por Jesus, estudam a literatura grega e os seus diversos escritores, como Sócrates, Platão, Aristóteles, etc. Desta pesquisa, nem os escritos apócrifos e gnósticos escapam a análise.

Palavras como ‘gnose’, um substantivo que deu origem a outra palavra, ‘gnóstico’, detém o significado de um conhecimento espiritual, místico. Daí percebe-se que, desde aquele tempo a palavra deixou de ter o significado de mero conhecimento cultural, para contemplar algo que dá sentido a existência humana.

Tais buscas esgotam as possibilidades? Não!

O leitor do Novo Testamento precisa estar atento, pois o melhor significado das palavras empregadas por Cristo e os seus apóstolos não são provenientes das tragédias gregas, ou das religiões que surgiram à época. Antes, os termos empregados pelos escritores do Novo Testamento estão intimamente ligados semanticamente aos termos e ideias dos vocábulos e textos do Antigo Testamento.

Diante desta busca por saber, os estudiosos mais cautelosos não podem deixar de considerar que a doutrina de Cristo tem por base o Antigo Testamento, pois Ele mesmo assevera: “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam” ( Jo 5:39 ).

Qualquer tentativa de interpretar as palavras de Cristo e dos apóstolos utilizando somente o significado semântico pertinente à literatura e a filosofia grega, é temerário.

Com base no Antigo Testamento, qual o significado do termo ‘conhecer’ nos versos seguintes:

  • “Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais” ( Gn 3:7 );
  • Conheceu Caim a sua mulher, e ela concebeu e teve a Enoque” ( Gn 4:25 ).

O primeiro uso do termo hebraico traduzido por ‘conhecer’ (Ya.dhá‛ ) refere-se a ‘ter noção ou conhecimento que’ estavam despidos. O segundo verso apresenta outro sentido para o mesmo termo: coabitar, união intima.

Os termos ‘Ya.dhá’’ (hebraico) e ‘gi.nó.sko’ (grego) são utilizados de modo similar. Compare: Gn 4:17 com Mt 1:25 e Lc 1:34 . Esta similaridade semântica entre as palavras hebraicas do A.T, e as ideias aplicadas ao grego do N. T., demonstra que o significado primário das palavras utilizadas por Jesus e seus discípulos derivam do Antigo Testamento.

 

‘Conhecer’ a Verdade

“Jesus dizia, pois, aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos; E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão, e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres?” ( Jo 8:31 -33)

 

Antes de permanecer na palavra de Jesus tornando-se um verdadeiro discípulo é necessário aprender d’Ele. Como aprender do Mestre? Adquirindo saber, conhecimento, ou seja, inteirando-se das palavras do Mestre. Só é possível tornar-se discípulo de Cristo quando se aceita o convite solene: “… aprendei de mim, que sou humilde e manso de coração” ( Mt 11:23 ).

Para aprender de Cristo é necessário ouvir e compreender, conforme se lê: “Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não vêem; e, ouvindo, não ouvem nem compreendem ( Mt 13:13 ; Mc 7:18 ; Lc 2:51 ; 1Jo 2:27 ).

A fase anterior ao permanecer na palavra de Jesus, momento em que o homem ainda não é um verdadeiro discípulo, refere-se a necessidade de um conhecer definido pelos lexicógrafos como: ‘Ter noção ou conhecimento de…’. Para conhecer o evangelho de Cristo é necessário que alguém anuncie a palavra da verdade, e que ouçam acerca desta verdade, pois ‘a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus’ ( Rm 10:17 ).

Sem ouvir é impossível compreender. Sem compreender é impossível permanecer no ensino de Cristo, pois “Ouvindo alguém a palavra do reino, e não a entendendo, vem o maligno, e arrebata o que foi semeado no seu coração; este é o que foi semeado ao pé do caminho (…) Mas, o que foi semeado em boa terra é o que ouve e compreende a palavra; e dá fruto, e um produz cem, outro sessenta, e outro trinta” ( Mt 13: 19 e 23 ).

Este ouvir, aprender e compreender a palavra da verdade envolve conhecimento, que pode ser designado através do vocábulo “gnôsesthe“, palavra que foi utilizada por Jesus, pelos apóstolos e também por muitos escritores e filósofos gregos significando “ter noção, saber, ou conhecimento de”.

Porém, a segunda parte do versículo, onde Jesus declara que: “… e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” ( Rm 8:32 ), o significado do vocábulo traduzido por ‘conhecer’ não se depreende da literatura e nem da filosofia grega. Só é possível compreender a proposta de Jesus quando depreende o significado semântico da palavra conhecer com o auxílio do A. T.

Quando lemos que: “Conheceu Caim a sua mulher, e ela concebeu e teve a Enoque” ( Gn 4:25 ), a palavra ‘conhecer’ tem em seu escopo o significado primário a ideia de ‘relação sexual’. Porém, se observarmos o verso que se segue: “Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne ( Gn 2:24 ), veremos que o sentido da palavra ‘Ya.dhá‛’ é ampliado, deixando de contemplar somente a ideia de ‘relação sexual’, para demonstrar que o homem e a mulher se ‘conhecerem’ “… não são mais dois, mas uma só carne” ( Mt 19:6 ).

Quando Jesus fez esta citação do Antigo Testamento, seus interlocutores passaram a formular questões somente acerca do casamento e do adultério, porém, o apóstolo Paulo nos desvenda o mistério que há por trás desta citação, quando aplica o texto a Cristo e a sua igreja “Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe, e se unirá a sua mulher; e serão dois numa carne. Grande é este mistério; digo-o, porém, a respeito de Cristo e da igreja” ( Ef 5:31 -32 ).

Por que é grande o mistério? Porque nem de longe os gregos e os judeus consideravam a ideia de que os cristãos ‘conhecem’ a Cristo porque são membros do seu corpo, carne e ossos “Porque somos membros do seu corpo, da sua carne, e dos seus ossos” ( Ef 5:30 ).

O mistério é grande:

  • Porque o sentido bíblico da palavra ‘conhecer’ agrega a ideia de que o homem ao unir-se a sua mulher, ambos tornam-se uma só carne, ou seja, a palavra grega traduzida por ‘conhecer’ na Bíblia transcende o seu sentido primário;
  • Porque nem de longe qualquer evolução semântica da palavra ‘conhecer’ proveniente da filosofia ou literatura grega contempla ou traduz a ideia de Cristo como o noivo, e a igreja como noiva;
  • Porque o ‘conhecer’ grego, ora diz de um saber intelectual, ora, diz de um saber espiritual, místico, ou seja, de um saber (gnóstico) que dê sentido a existência humana, e;
  • Porque a ‘verdade’ é considerada pelos gregos somente do ponto de vista filosófico, e nem de longe consideravam que Cristo é a Verdade eterna personificada.

Os gregos e os judeus não compreenderam este grande mistério, visto que o homem natural não pode compreender os mistérios de Deus, pois lhes parece loucura ou escândalo ( 1Co 2:14 ).

Quando Jesus disse: “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim ( Jo 14:6 ), Ele demonstrou que só é possível ir ao Pai por intermédio d’Ele, ou seja, tornando-se um com Ele. Para tornar-se um com Cristo é necessário ‘conhecê-lo’, a verdade que liberta. Individualmente o homem torna-se membro dos outros cristãos, e um só corpo em Cristo, formando a Igreja, a noiva de Cristo ( Rm 12:5 ).

Ora, para ser livre o homem precisa ‘conhecer’ a ‘verdade’, ou seja, tornar-se membro do corpo de Cristo, ser participante da sua carne e do seu sangue, tornar-se um com Ele, pois Ele é a Verdade ( Ef 5:30 ).

É por isso que Ele conclama: “Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me;” ( Mt 16:24 ); “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele” ( Jo 6:56 ).

É por isso que o apóstolo João testificou em sua epístola: “E sabemos que já o Filho de Deus é vindo, e nos deu entendimento para conhecermos o que é verdadeiro; e no que é verdadeiro estamos, isto é, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna” ( 1Jo 5:20 ). O ‘sabemos’ é um tipo de conhecimento intelectual. O ‘entendimento’ concedido é outro tipo de conhecimento proveniente da mensagem do evangelho, porém, ‘conhecer o que é verdadeiro’ só ocorre quando se está unido a Cristo, após tornar-se um só corpo e um só espírito “Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão” ( 1Co 10:17 ); “Porque, assim como o corpo é um, e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, são um só corpo, assim é Cristo também ( 1Co 12:12 ).

É neste diapasão que o apóstolo Paulo declara: “Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” ( Gl 4:9 ). Após tornarem-se um (conhecer) com o Pai e o Filho, como era possível aos cristãos voltarem aos rudimentos fracos que antes serviam? “Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” ( Jo 17:21 ). Há algum conhecimento (saber) ou prática que possa suplantar o fato do cristão ser um com o Pai e o Filho?

O apóstolo Paulo queria que soubessem que todos os que creem são um com o Pai e com o Filho. O dia anunciado por Cristo na qual os cristãos conheceriam que o Filho estava no Pai já havia chegado, e os cristãos em Cristo, e Cristo nos cristãos “Naquele dia conhecereis que estou em meu Pai, e vós em mim, e eu em vós” ( Jo 14:20 ).

Foi para isto que Deus concedeu o seu Espírito aos cristãos, para que conhecessem que estavam n’Ele e Ele nos cristãos ( 1Jo 4:13 ).

O ‘conhecer’ o amor de Cristo excede todo entendimento, pois ao ‘conhecer’ (união) a Cristo o homem torna-se pleno de Deus, participante da natureza divina ( Ef 3:19 ; 2Pe 1:4 ).

Através deste estudo também é possível compreender como o homem ‘conheceu’ o pecado, ou seja, tornou-se um com o pecado “Que diremos pois? É a lei pecado? De modo nenhum. Mas eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás” ( Rm 7:7 ).

Cristo não conheceu o pecado, ou seja, Ele nunca esteve unido ao pecado, embora soubesse tudo a respeito do pecado e dos pecadores “Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” ( 2Co 5:21 ).

Quando Jesus disse: “… então, conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”, Ele estava demonstrando aos seus ouvintes a necessidade de estarem unidos a ele, pois Ele é a verdade que liberta. Qualquer que permanece em Cristo tornar-se um com Ele, sendo membro do seu corpo, carne e ossos, e o homem é verdadeiramente livre do pecado ( 1Co 10:17 ).

Deste modo, temos que qualquer que não o ‘viu’ e nem o ‘conheceu’ ainda é escravo do pecado “Qualquer que permanece nele não peca; qualquer que peca não o viu nem o conheceu” ( 1Jo 3:6 ). Somente após estar em comunhão íntima com Cristo, sendo um só pão e um só corpo, o homem é livre do pecado “Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado” ( Jo 8:34 ).

Neste diapasão, como se lê este verso?

  • “E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” ( Jo 17:3 );
  • “Ora, a vida eterna é esta: que conheçam a ti, único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” ( Jo 17:3 ).

O Novo Testamento Interlinear Grego Português assim reza este verso: “esta[2] E[1] é a eterna [2] vida[1] que conheçam a ti o único verdadeiro Deus e a quem enviaste, Jesus Cristo”, ou seja, a melhor tradução é aquela que omite a preposição ‘por’, pois ela da ideia de um saber, reconhecimento.

Ora, saber que Deus é o único Deus os judeus ‘conheciam’, no entanto, precisavam de salvação, pois Jesus foi enviado para os seus, e eles não O receberam.

Do mesmo modo, o que se podia conhecer de Deus foi manifesto ( Rm 1:21 ), mas o mundo não O ‘conheceu’, pois não receberam o Filho ( Jo 1:10 ), e, conseqüentemente, não receberam o Pai ( 1Jo 2:23 ). Portanto, para conhecer a Cristo, a Verdade que liberta da escravidão do pecado ( Jo 1:10 ), é necessário crer n’Ele, ou seja, tornar-se um com Ele, plenos de Deus ( Jo 1:16 ; Cl 2:10 ).

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