Salmo 33 – Cristo é a alegria do Senhor

O salmista espera em Deus, pois Ele é salvação (auxilio e escudo), ou seja, alegria, força (v. 21). Somente os retos, os justos, podem cantar este cântico novo e alegrar-se no Senhor ( Sl 32:11 ), pois a alegria do Senhor, que é Cristo, é a nossa salvação ( Ne 8:10 ), pois o Pai dele disse: “Este é o meu amado Filho, em quem me comprazo; escutai-o” ( Mt 17:5 ).


O leitor das Escrituras só se apercebe da grandeza que este Salmo de Davi apresenta quando considera que, em sua grande maioria, os salmos são previsões acerca do Messias prometido.

Se o leitor não considerar que o rei Davi separou alguns homens para profetizarem com harpas ( 1Cr 25:1 ), e que em suas previsões falavam de Cristo ( At 2:30 ) e, que o próprio Cristo deixou claro que as Escrituras testemunhavam acerca d’Ele ( Jo 5:39 ), não fará uma boa leitura e interpretação, pois o salmista não deu testemunho de si mesmo, antes pelo Espírito falou do Descendente.

 

1 REGOZIJAI-VOS no SENHOR, vós justos, pois aos retos convém o louvor.

Quando o salmista anuncia que o homem deve regozijar-se, alegrar-se, ele demonstra que a ‘alegria do Senhor’ é a força, a salvação, do homem ( Ne 8:10 ; Is 35:10 ). Alegrar-se é o mesmo que confiar no Senhor, pois todos quanto s n’Ele confiam são salvos e, há alegria nos céus por um pecador que se arrepende ( Lc 15:10 ).

Somente os justos, os resgatados pelo Senhor, podem alegra-se n’Ele. É necessário estar n’Ele, unido a Ele para ser participante da salvação, da alegria, ou seja, da bem-aventurança “E os resgatados do SENHOR voltarão; e virão a Sião com júbilo, e alegria eterna haverá sobre as suas cabeças; gozo e alegria alcançarão, e deles fugirá a tristeza e o gemido” ( Is 35:10 ).

Quando o salmista diz que ‘somente aos retos convém o louvor’, ele apresenta implicitamente a ideia do verdadeiro adorador, pois só os retos, os justos, podem louvar a Deus em espírito e em verdade ( Jo 4:23 ).

Os retos foram de novo criados para louvor e glória da graça de Deus ( Ef 1:12 ). Somente aos retos convém o louvor a Deus, visto que o louvor, a adoração, só é aceitável quando se é justo, visto que tudo o que é pertinente ao injusto é inaceitável. A própria existência do justo constitui-se em louvor a Deus que os criou de novo em verdadeira justiça e santidade “A ordenar acerca dos tristes de Sião que se lhes dê glória em vez de cinza, óleo de gozo em vez de tristeza, vestes de louvor em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem árvores de justiça, plantações do SENHOR, para que ele seja glorificado” ( Is 61:3 ; Is 61:11 ; Hb 3:3 ).

Só é possível glorificar ao Senhor quando se é plantado por Ele. Qualquer que não for gerado de novo através da semente incorruptível, que é a palavra de Deus, jamais poderá glorificá-lo “Ele, porém, respondendo, disse: Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” ( Mt 15:13 ); “…plantações do SENHOR, para que ele seja glorificado” ( Is 61:3 ).

 

2 Louvai ao SENHOR com harpa, cantai a ele com o saltério e um instrumento de dez cordas. 3 Cantai-lhe um cântico novo; tocai bem e com júbilo.

Só é possível louvar a Deus quando de posse de instrumentos musicais? O que entender por louvar a Deus com harpa, saltério e instrumentos de corda? Qual é o cântico novo?

Só toca ‘bem’ e com ‘alegria’ aquele que anuncia o Cristo de Deus, pois Ele é a ‘aliança do povo’ e a ‘luz dos gentios’ ( Is 42:6 ), Cristo é o que ‘abre os olhos aos cegos’ e ‘tira da prisão os encarcerados’. Cristo é o Senhor e não dará a sua glória a outrem, e foi Ele que anunciou as novas coisas que havia de criar ( Is 42:8 -12).

O louvor é segundo o ministério da profecia, ou seja, segundo a palavra que Deus anuncia antes que as coisas vêm à existência ( Is 42:9 ), o cântico novo ( Is 42:10 ), porque em anunciar a palavra de Deus dá-se glória, louvor ao Senhor “Deem glória ao Senhor, e anunciem o louvor nas ilhas” ( Is 42:12).

Para louvar ao Senhor segundo a convocação do salmista, ou seja, com harpa, saltério e instrumento de dez cordas, é necessário ter o ministério da profecia, pois segundo este ministério alguns homens profetizarem sob a direção do rei ( 1Cr 25:2 ).

O louvor é proveniente do exercício do ministério da palavra, que produz ações de graças e louvores, e não dos instrumentos musicais. É por isso que o apóstolo Paulo recomenda: “Falando entre vós em salmos, e hinos, e cânticos espirituais; cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração” ( Ef 5:19 ).

Todos que compreendem que a grandeza dos salmos está no fato de que eles são profecias, predições, e que o som de harpas, alaúdes e saltérios não é a essência dos Salmos ( 1Cr 25:1 ), e que através dos Salmos se anuncia o Cristo, produz ações de graças e louvores ao Senhor ( 1Cr 25:3 ).

Falar salmos, hinos e cânticos é produzir o fruto exigido por Deus, pois Deus só é glorificado em que se dê muito fruto “Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz, para o que está longe; e para o que está perto, diz o SENHOR, e eu o sararei” ( Is 57:19 ); “Nisto é glorificado meu Pai, que deis muito fruto; e assim sereis meus discípulos” ( Jo 15:8 ).

Ora, para glorificar o Pai é necessário o fruto, ou seja, professar a Cristo ( Hb 13:15 ), e só é possível tal fruto quando se está ligado na Oliveira verdadeira ( Jo 15:4 ), pois o fruto, a palavra, é proveniente de Deus ( Os 14:2 ).

 

4 Porque a palavra do SENHOR é reta, e todas as suas obras são fiéis. 5 Ele ama a justiça e o juízo; a terra está cheia da bondade do SENHOR. 6 Pela palavra do SENHOR foram feitos os céus, e todo o exército deles pelo espírito da sua boca. 7 Ele ajunta as águas do mar como num montão; põe os abismos em depósitos.

O verso 4 contextualiza os versos anteriores. O louvor a Deus, o cântico novo, só é possível através da palavra do Senhor.

A palavra do Senhor não é um ente impessoal, antes diz de Cristo, o Verbo que se fez carne e habitou entre os homens ( Jo 1:1 ). Cristo fez os céus e a terra ( Jo 1:3 ), conforme atesta o escritor aos Hebreus ao citar o Salmo 102, verso 5 “E: Tu, Senhor, no princípio fundaste a terra, E os céus são obra de tuas mãos. Eles perecerão, mas tu permanecerás; E todos eles, como roupa, envelhecerão, E como um manto os enrolarás, e serão mudados. Mas tu és o mesmo, E os teus anos não acabarão” ( Hb 1:10 -12).

Observe que, de tudo que o salmista relata tem por objetivo apresentar Cristo aos seus compatriotas. Por ter sido concedido aos homens o privilegio de ser-lhes manifesto a palavra da vida, que é justiça e juízo, a terra esta plena da bondade de Deus.

O verso seis demonstra que os céus foram criados por Cristo e, que pelo Espírito (palavra) da sua boca, todos os anjos de uma só vez vieram a existência, ou seja, foram criados ( Cl 1:16 ; Ap 4:11 ).

Mas, de toda obra realizada por Cristo, a obra que Cristo realizou na terra é a maior, pois dela advém o louvor a sua graça e misericórdia. Cristo é a plenitude da bondade de Deus demonstrada aos homens “Eu glorifiquei-te na terra, tendo consumado a obra que me deste a fazer” ( Jo 17:4 ).

 

8 Tema toda a terra ao SENHOR; temam-no todos os moradores do mundo. 9 Porque falou, e foi feito; mandou, e logo apareceu.

Nestes dois versos temos a ordem e o motivo da ordem. Temam ao Senhor, ou seja, obedeçam-No.

Temer é obedecer, o que não tem relação com medo, pois o amor lança fora o medo. Cristo é o amor de Deus demonstrado aos homens e, foi Ele quem falou e mandou e o mundo foi criado, portanto, necessário é obedecê-lo ( 1Jo 4:18 ).

Mas, como obedecer (temer) a Cristo? Obedecendo a palavra do Evangelho “Vinde, meninos, ouvi-me; eu vos ensinarei o temor do SENHOR” ( Sl 34:11 ). O temor do Senhor não é um sentimento, antes é conhecimento que deve ser transmitido.

 

10 O SENHOR desfaz o conselho dos gentios, quebranta os intentos dos povos. 11 O conselho do SENHOR permanece para sempre; os intentos do seu coração de geração em geração.

Cristo é o que desfaz o conselho dos povos ( Sl 2:1 -11), pois Ele é o Ungido do Senhor, mas, o conselho do Senhor é Eterno.

Estes dois versos contrapõe o conselho dos povos, que é efêmero, com o propósito eterno de Deus, que é para a eternidade, e foi estabelecido em Cristo ( Ef 1:9 ).

 

12 Bem-aventurada é a nação cujo Deus é o SENHOR, e o povo ao qual escolheu para sua herança.

Este verso é muito significativo, pois apresenta Israel como a nação de Deus, mas que há um povo bem-aventurado escolhido por possessão peculiar.

Este verso contrapõe Israel e a Igreja. Enquanto a igreja é o povo do Senhor ( 1Pe 2:9 ), a herança adquirida ( Ef 1:11 ), Israel é a nação escolhida para trazer o Cristo ao mundo.

 

13 O SENHOR olha desde os céus e está vendo a todos os filhos dos homens. 14 Do lugar da sua habitação contempla todos os moradores da terra. 15 Ele é que forma o coração de todos eles, que contempla todas as suas obras.

Este verso demonstra que todas as coisas são patentes aos olhos de Cristo e, foi Ele que as trouxe a existência. Porém, este mesmo olhar constatou que não havia quem O buscasse ( Sl 53:2 ), pelo que o seu próprio braço foi desnudado perante os povos, trazendo salvação ( Is 53:1 ; Is 59:15 -17).

 

16 Não há rei que se salve com a grandeza dum exército, nem o homem valente se livra pela muita força. 17 O cavalo é falaz para a segurança; não livra ninguém com a sua grande força.

Estes versos demonstram que nem a realeza com grande exército pode conquistar a salvação e, nem o valente pela sua força, pois a salvação não se dá pela força, violência, mas pelo Espírito ( Zc 4:6 ).

Fica demonstrado que o homem possui uma visão distorcida de salvação, pois confiam em cavalos, exércitos e reis, mas não confiam em Deus “Uns confiam em carros e outros em cavalos, mas nós faremos menção do nome do SENHOR nosso Deus” ( Sl 20:7 ; Sl 33:20 ).

 

18 Eis que os olhos do SENHOR estão sobre os que o temem, sobre os que esperam na sua misericórdia; 19 Para lhes livrar as almas da morte, e para os conservar vivos na fome.

Os versos 18 e 19 demonstram que o zelo do Senhor é para os que o obedecem (temem), ou seja, que se refugiam em sua misericórdia.

Os olhos do Senhor fixam-se sobre os que O temem, do mesmo modo que o Anjo do Senhor acampa-se ao redor dos que o temem ( Sl 34:7 ), portanto, não há diferença entre os olhos do Senhor e o Anjo do Senhor: ambas as referencias diz de uma única pessoa: Cristo, o mensageiro do Senhor que está com os que creem até a consumação dos séculos.

Por que é Cristo? Porque é Ele quem livra a alma da morte, separação, alienação e conserva o homem vivo perante Deus ( Sl 34:22 ).

 

20 A nossa alma espera no SENHOR; ele é o nosso auxílio e o nosso escudo. 21 Pois nele se alegra o nosso coração; porquanto temos confiado no seu santo nome. 22 Seja a tua misericórdia, SENHOR, sobre nós, como em ti esperamos.

O salmo volta a abordar o tema do verso 1: “REGOZIJAI-VOS no SENHOR, vós justos, pois aos retos convém o louvor” (v. 1).

O salmista espera em Deus, pois Ele é salvação (auxilio e escudo), ou seja, alegria, força (v. 21). Somente os retos, os justos, podem cantar este cântico novo e alegrar-se no Senhor ( Sl 32:11 ), pois a alegria do Senhor, que é Cristo, é a nossa salvação ( Ne 8:10 ), pois o Pai dele disse: “Este é o meu amado Filho, em quem me comprazo; escutai-o” ( Mt 17:5 ).

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Sacerdócio real ‘versus’ levitas

Quando o crente em Cristo ensina o evangelho, evangeliza um não crente ou, entoa uma canção, faz uma oração, etc., na verdade, está exercendo um sacerdócio, função que não tem relação alguma com o ministério desenvolvido pelos levitas da Antiga Aliança.


“Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas, para a sua maravilhosa luz” (1 Pe 2:9).

 

Introdução

É comum, nas igrejas (congregações, comunidades) locais, os cantores e músicos evangélicos se autodenominarem levitas. Esse é um fenômeno recente nas comunidades evangélicas, daí alguns questionamentos: na Igreja, como corpo de Cristo, há levitas? O que entender por levitas, na Nova Aliança? Havia, na Antiga Aliança, a função de cantores e instrumentistas?

 

O fruto dos lábios

O crente em Cristo é geração escolhida, sacerdócio real, nação separada e povo comprado por bom preço, com uma missão especifica: anunciar as virtudes de Deus, que chamou os crentes das trevas para a Sua maravilhosa luz (Cl 1:13; 1 Co 6:20 e 7:23).

Por ter sido gerado de novo, o crente em Cristo é membro de um povo que pertence (adquirido) a Deus, portanto, separado (santificado) por Deus. Como o corpo de Cristo é constituído de iguais, o termo grego eκκλησία, traduzido por igreja, e transliterado ‘ekklesia’ (eclesia), passou a ser utilizado para nomear os membros do corpo de Cristo: uma assembleia de iguais, visto que todos são filhos de Deus, pela fé em Cristo!

“E ser-me-eis santos, porque eu, o SENHOR, sou santo e vos separei dos povos, para serdes meus(Lv 20:26).

Ser ‘geração’, ‘nação’ e ‘povo’, é condição inerente ao crente, por estar em Cristo, ou seja, por ser uma nova criatura, gerada, segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade (Ef 4:24; 2 Co 5:17).

Agora, ‘sacerdócio’ aponta para a missão que o crente desempenha, como membro do corpo de Cristo! O cristão, ao exercer o seu sacerdócio, tem a missão de anunciar as virtudes de Deus, pois este é o sacrifício que Deus se agrada. O sacrifício exigido por Deus diz do ‘fruto dos lábios’, ou seja, anunciar ao mundo as virtudes de Deus!

“Portanto, ofereçamos sempre por ele a Deus, sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome” (Hb 13:15).

Quando o crente admite (confessa) com os lábios que Jesus é o Cristo, vez que, com o coração creu que Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos (Rm 10:9-10), Deus é glorificado. É tão somente na confissão de que Jesus é o Filho de Deus, que o homem oferece sacrifício de louvor a Deus, ou seja, o fruto dos lábios, pois, em confessar a Cristo, o crente glorifica a Deus.

“E me disse: Tu és meu servo; és Israel, aquele por quem hei de ser glorificado (Is 49:3).

Admitir que Jesus de Nazaré é o Cristo (Mt 16:16), ou seja, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo, é produzir o fruto pelo qual Deus é glorificado:

“Nisto é glorificado meu Pai, que deis muito fruto; e assim sereis meus discípulos” (Jo 15:8).

Por três anos, Deus esperou que Israel (figueira) produzisse o fruto dos lábios, crendo em Cristo, a pedra que os edificadores rejeitaram, e confessando (louvor nos lábios) que Ele é a paz para os judeus (perto) e os gentios (longe), mas não produziram e foram cortados (Is 57:19; Lc 13:6-9).

Os cristãos são plantação do Senhor, por terem nascido da semente incorruptível, que é a palavra de Deus (Is 60:21 e Is 61:3). Ao anunciar a palavra de Deus, o cristão desempenha o seu sacerdócio, pois, através do fruto (louvor) dos seus lábios, anuncia a Cristo, um sacrifício santo e agradável!

“Vós, também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus, por Jesus Cristo” (1 Pe 2:5).

Os verdadeiros adoradores, que o Pai procura, encontram-se em Cristo (Jo 4:24), pois adoram a Deus, em espírito e em verdade, uma vez que o evangelho é espírito e Cristo, a verdade (Jo 6:63; Fp 3:3). Os nascidos da carne, são carne e os nascidos do espírito, são espírito, portanto, estes, verdadeiros adoradores!

 

Levitas

Os “levitas” eram “descendentes da Tribo de Levi” e Levi, por sua vez, um dos doze filhos de Jacó. Os levitas eram ministros de Deus que cuidavam do serviço da tenda da congregação, auxiliares dos sacerdotes.

Dentre os levitas, alguns desempenhavam a função de sacerdotes, que eram os descendentes da família de Arão. Embora os sacerdotes fossem levitas e descendentes de Arão, os levitas cuidavam do tabernáculo e de seus utensílios, inclusive, eram responsáveis por carregar a tenda e os seus utensílios, durante a peregrinação pelo deserto, e os descendentes de Arão, que eram da Tribo de Levi, ofereciam a Deus dons e sacrifícios pelos homens (Hb 5:1).

“DEPOIS tu farás chegar a ti teu irmão Arão e seus filhos com ele, do meio dos filhos de Israel, para me administrarem o ofício sacerdotal, a saber: Arão, Nadabe, Abiú, Eleazar e Itamar, os filhos de Arão” (Êx 28:1).

Para ser sacerdote, não bastava ser levita, tinha de ser, especificamente, da casa (descendência) de Arão! (Hb 5:4)

Não havia, na Antiga Aliança, alguém responsável por cânticos, músicas ou instrumentos musicais e, nem mesmo havia, durante o culto conduzido pelos sacerdotes, um momento de cânticos.

Encontramos, no Livro de Deuteronômio, Deus ordenando a Moisés que escrevesse um cântico profético, e que o ensinasse aos filhos de Israel, como testemunho em desfavor deles.

“Agora, pois, escrevei-vos este cântico e ensinai-o aos filhos de Israel; ponde-o na sua boca, para que este cântico me seja por testemunha contra os filhos de Israel (Dt 31:19).

A mensagem do cântico era instrução para os filhos de Israel e o cântico, em si, um veículo para que a mensagem não fosse esquecida:

“E será que, quando o alcançarem muitos males e angústias, então este cântico responderá contra ele por testemunha, pois não será esquecido da boca de sua descendência; porquanto, conheço a sua boa imaginação, o que ele faz hoje, antes que o introduza na terra que tenho jurado” (Dt 31:20)

Daí, o cântico magnífico, no Capítulo 32, do Livro de Deuteronômio, denunciando que os filhos de Israel não eram filhos de Deus (Dt 32:5), sem entendimento das coisas de Deus (Dt 32:28; Sl 53:3), e a doutrina que ensinavam não passava de peçonha de víboras (Dt 32:32-33).

Muito tempo depois, o profeta Davi inseriu a música e os instrumentos musicais, como elemento assessório ao ministério dos profetas (1 Cr 25:1-3). Ora, alguns levitas eram cantores e instrumentistas, assim como, o rei Davi (2Cr 5:12-13), porém, o ministério de alguns levitas era o de profetizar, utilizando-se de instrumentos musicais, diferentemente de outros, que tinham atribuições como porteiros, guardas, padeiros, perfumistas, etc. (1 Cr 9:14-33).

As profecias de Davi e de alguns levitas, foram anunciadas ao povo, em forma de cânticos e poesias, poemas acompanhados de instrumentos musicais, o que facilitava o povo decorar o que ouviam no templo, visto que 98% da população não sabia ler.

O que é imprescindível no cântico é a mensagem, a doutrina, a profecia, etc., que deve ser obedecida, não a musicalidade, os instrumentos, os acordes, a voz, o conjunto, a dança, etc., que são elementos acessórios à mensagem.

Cânticos, canções, composições, etc., que não contém a mensagem do evangelho, são inócuos para a salvação e quem se aplica aos cânticos, sem obedecer ao mandamento de Deus (crer em Cristo, conforme as Escrituras) é manancial roto, sem vida, e não é aceito por Deus:

“Odeio, desprezo as vossas festas e as vossas assembleias solenes não me exalarão bom cheiro. E ainda que me ofereçais holocaustos, ofertas de alimentos, não me agradarei delas; nem atentarei para as ofertas pacíficas de vossos animais gordos. Afasta de mim o estrépito dos teus cânticos; porque não ouvirei as melodias das tuas violas (Am 5:21-23).

Na Nova Aliança, não temos a figura dos levitas à semelhança dos homens que serviam na Antiga Aliança, que tinham a incumbência de conduzir a glória do Senhor sobre os ombros, com auxilio de varas, representada através da arca do Senhor (1 Cr 15:2).

“Porque havia sempre, naquele ofício, quatro porteiros principais, que eram levitas, e tinham a seu cargo as câmaras e os tesouros da Casa de Deus” (1 Cr 9:26);

“Quenanias, chefe dos levitas músicos, tinha o encargo de dirigir o canto, porque era perito nisso” (1 Cr 15:22)

Na igreja não temos levitas, porque a Igreja não possui paralelo com o Templo de Salomão, visto que o Templo de Salomão foi erguido com mãos humanas, no qual Deus não habita (At 17:24), e a Igreja está sendo erguida pelo descendente de Davi, sem auxilio de mãos humanas, no qual Deus habita.

A Igreja é o corpo de Cristo, templo santo ao Senhor, onde o Espírito Santo de Deus habita (1 Co 3:16). Os levitas eram ministros que cuidavam do templo auxiliando os sacerdotes, o crente, por sua vez, é ministro de Cristo e templo de Deus.

Os levitas tinham a incumbência de cuidar e de transportar os utensílios da tenda da congregação ou, prestavam serviço no templo (Nm 4:3-4), mas a glória do Senhor não estava sobre eles. Os levitas iam ao templo para adorar, os crentes em Cristo, por sua vez, são o templo, habitação do Altíssimo e adoram em todo tempo e em qualquer lugar.

Os levitas eram descendentes da tribo de Levi, separados por Deus para o serviço do culto na Antiga Aliança, e acabaram por não ter herança com os filhos de Israel (Dt 18:1-2). No corpo de Cristo não há subdivisão, pois todos são coerdeiros com Cristo e herdarão com Ele todas as coisas. Um levita não possui herança entre as onze tribos de Israel, já os membros do corpo de Cristo são herdeiros de Deus, vez que são filhos e coerdeiros de Cristo (Hb 9:15).

“E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados” (Rm 8:17).

No exercício do seu sacerdócio, os cristãos são ministros do espírito, despenseiros dos mistérios de Deus, administrando aos outros a verdade do evangelho: o dom de Deus.

“Que os homens nos considerem como ministros de Cristo e despenseiros dos mistérios de Deus” (1 Co 4:1);

“Cada um administre aos outros o dom como o recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus” (1 Pe 4:10).

O apóstolo Paulo não queria ser considerado levita, e sim, ministro de Cristo, segundo a medida (padrão) do espirito (dom), segundo o que Deus repartiu a cada um:

“Pois, quem é Paulo e quem é Apolo, senão ministros pelos quais crestes, e conforme o que o SENHOR deu a cada um?” (1 Co 3:5; Rm 12:3 e 6).

Na qualidade de ministro de Jesus a serviço dos gentios, ministrando o evangelho, o apóstolo Paulo exercia o seu sacerdócio real, de modo que, assim era santificado pelo Espírito Santo, o que era ofertado pelos gentios.

“Que seja ministro de Jesus Cristo para os gentios, ministrando o evangelho de Deus, para que seja agradável a oferta dos gentios, santificada pelo Espírito Santo” (Rm 15:16).

Ministro[1] diz de quem serve no templo, ou de alguém ocupado com o serviço do templo, um sacerdote ou dos servos de um rei. Quando é dito que o crente é sacerdócio real, é porque exerce o ministério do espírito, pelo dom do evangelho, que contém a virtude de Deus.

“O qual nos fez também capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica” (2Co 3:6);

“Do qual fui feito ministro, pelo dom da graça de Deus, que me foi dado segundo a operação do seu poder” (Ef 3:7).

 

Levita e a Igreja

Quando é feita a seguinte pergunta: – ‘Qual a verdadeira função dos levitas na Casa do Senhor?’, há um erro no questionamento, que induz a um equívoco, por causa de uma premissa errada.

Na casa do Senhor não há a função para levitas, considerando que a casa do Senhor diz do corpo de Cristo – a Igreja – e não de uma denominação, ou de uma igreja local.

“Porém vós sereis chamados sacerdotes do SENHOR e vos chamarão ministros de nosso Deus; comereis a riqueza dos gentios e na sua glória vos gloriareis” (Is 61:6);

“Mas, longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu, para o mundo” (Gl 6:14).

Não se pode confundir a função dos levitas da Antiga Aliança com a função dos diáconos na Nova Aliança.

O termo grego antigo διάκονος, traduzido por diácono, significa “ministro”, “servo”, “ajudante”, que é aplicado aos cristãos qualificados e selecionados para servir aos demais cristãos. Os diáconos são servos de Cristo, assim como os demais cristãos, e, em sujeição a Cristo, cuidam do interesse dos membros da igreja local.

Na igreja primitiva os diáconos foram comissionados para cuidar de questões materiais, como o sustento das viúvas (At 6:1). Em linhas gerais era uma espécie de tesoureiro da comunidade local, com a incumbência de tratar das necessidades dos mais pobres, visto que o estado não cuidava dessas questões (At 6:3).

O serviço do diácono, na igreja primitiva, devia primar pela equidade, de modo a não haver acepção de pessoas no momento da distribuição dos gêneros alimentícios. Para isso, os diáconos precisavam ser instruídos na palavra do evangelho, conscientes de que, no corpo de Cristo, não há melhor e nem pior, pois, todos são filhos de Deus, pela fé em Cristo.

Mas, apesar de um diácono ter a incumbência do serviço na comunidade local, com relação ao evangelho, exerce sacerdócio real como os demais, pois, também, é um despenseiro da graça de Deus.

Os levitas não podiam oferecer a gordura dos animais como os sacerdotes e nem podiam entrar no Santo dos Santos. Já os diáconos, com ousadia, têm acesso total a Deus, pelo novo e vivo caminho, consagrado através da carne de Cristo (Hb 10:19-20).

Quando o crente em Cristo ensina o evangelho, evangeliza um não crente ou, entoa uma canção, faz uma oração, etc., na verdade, está exercendo um sacerdócio, função que não tem relação alguma com o ministério desenvolvido pelos levitas da Antiga Aliança.

Arrogar para si a função de levita em uma igreja local é descabido, pois o sacerdócio araônico foi transitório, de modo que foi necessária a instituição de uma nova ordem: a ordem de Melquisedeque, rei de Salém (Hb 7:11). O Salmista Davi, muito depois da instituição do sacerdócio levítico, por intermédio de Arão, profetizou, acerca de Cristo, que Ele seria sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque (Sl 110:4; Hb 7:21).

O crente serve como membro do corpo de Cristo, do qual Cristo é a cabeça e, porque permanece eternamente, o seu sacerdócio é perpétuo: “Mas este, porque permanece eternamente, tem um sacerdócio perpétuo” (Hb 7:24).

Um crente em Cristo é, acima de tudo, verdadeiro adorador, pois adora a Deus em espírito e em verdade. Em Cristo é santo e fiel, em qualquer lugar e em todo o tempo! Por crer em Cristo, realizou a obra de Deus, conforme Jesus asseverou aos seus ouvintes (Jo 6:29).

  • O crente não adora através de cânticos, danças, orações, jejuns, etc., pois esses recursos não são essenciais ao culto e, muitas das vezes somente refletem emoções da alma;
  • O crente não precisa de templo, pois é o templo;
  • O crente não precisa de sacrifício, pois apresenta o seu corpo e o fruto dos seus lábios, em sacrifício;
  • O crente não precisa de intermediário (sacerdote), pois tem amplo acesso ao trono da graça;
  • O crente não precisa de tempo ou de lugar para adorar a Deus, pois adora segundo o evangelho (espírito) e não na velhice da lei;
  • O crente goza de plena comunhão com Deus, pois tem comunhão com Cristo e os apóstolos em um mesmo espírito;
  • O crente goza de um nome e de uma posição superior à dos levitas: a de filhos e filhas.

Não queira se auto intitular levita, pois, foi honra concedida por Deus, somente aos descendentes da Tribo de Levi, da mesma forma que foi concedido à casa de Arão o sacerdócio. Assim como Cristo não se glorificou a si mesmo, antes foi Deus quem o honrou, ao estabelecê-Lo sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque, contente-se com a posição superior que Deus te concedeu em Cristo: a condição de filho!

“E ninguém toma para si esta honra, senão o que é chamado por Deus, como Arão. Assim também Cristo não se glorificou a si mesmo, para se fazer sumo sacerdote” (Hb 5:4-5).

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1] “3011 λειτουργος leitourgos de um derivado de 2992 e 2041; TDNT – 4:229,526; n m 1) ministério público, empregado do estado 2) ministro, empregado 2a) assim de trabalhadores militares 2b) do templo 2b1) de alguém ocupado com coisas santas 2b2) de um sacerdote 2c) dos servos de um rei”, Dicionário Bíblico Strong.

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O Livro de Jó – Um homem sincero, reto, temente e que se desviava do mal

O caráter e o comportamento de Jó eram superiores ao dos seus semelhantes, mas não foi este quesito que o fez aceitável diante de Deus. Com efeito, sem fé é impossível agradar a Deus (Hebreus 11:6), de modo que, mesmo na aflição, Jó mantinha a sua esperança firme: que o seu Redentor vivia e que haveria de estar sobre a terra!


Quem conduz a trama no Livro de Jó?

Parte IV

Para compreendermos o Livro de Jó é imprescindível responder, com segurança, à pergunta: É Deus ou, Satanás, quem conduz a trama do Livro de Jó?

Várias releituras da história de Jó têm início, descrevendo-o como um próspero fazendeiro, possuidor de diversos rebanhos, de variados animais, com muitos escravos e uma grande família. Em seguida, em algumas dessas releituras, o termo ‘repentinamente’[1] surge focando Satanás, um inimigo que, sem ser convidado, comparece diante de Deus acusando Jó de ser submisso a Deus, somente por estar cercado de bens.

Não foi obra do acaso[2] ou, em decorrência de uma intromissão do acusador, que Jó passou à condição de protagonista da história, cujo livro leva o seu nome.

Quem estabelece Jó como protagonista é o próprio Criador que introduz Jó no drama, ao notificar o acusador de que não havia ninguém sobre a terra que fosse semelhante a ele, quanto à sinceridade, à retidão e ao temor a Deus.

Como personagem da história, Deus está presente, muito antes, da narrativa do escritor. Deus se faz presente na narrativa, muito antes dos filhos de Deus se apresentarem perante Ele (Jó 1:8).

O leitor deve visualizar que Deus permeia o enredo da história de Jó, antes mesmo da fundação do mundo (Jó 38:4) ou, até mesmo, antes da criação dos anjos (Jó 38:7), sendo certo que todas as coisas estão nuas e patentes aos Seus olhos (Hebreus 4:13).

Deus é o primeiro personagem em cena, quando questiona uma de suas criaturas: – “De onde vens?” Diante d’Aquele que todas as coisas estão nuas e patentes, Satanás respondeu: – “De rodear a terra e passear por ela”.

De tudo o que Satanás observou ao rodear e passear pela terra, Deus destaca um homem ímpar: Jó.  Deus convocou o seu servo Jó para evidenciar a sua Justiça, quando perguntou: – “Viste o meu servo Jó?”. Quando Deus introduziu o nome de Jó na conversa, o Seu servo foi escolhido para evidenciar uma verdade que não se compara com o seu sofrimento.

“Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada”. (Romanos 8:18)

A resposta evasiva dada pelo inimigo à pergunta ‘De onde vens’, complementada pela pergunta: ‘Observaste a meu servo Jó?’, revela o quanto Satanás estava à espreita de Jó. Deus, que tudo sabe, demonstrou, através da segunda pergunta, que Satanás estava observando os passos de Jó.

Quando Deus faz uma pergunta às suas criaturas, não é porque desconhece algo, antes a pergunta tem por objetivo evidenciar as intenções do coração. Satanás estava ao derredor de Jó, mas a pergunta de Deus deixa claro que nada escapa aos seus olhos e que estava velando pelo seu servo: “Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar” (I Pedro 5:8).

Os eventos na narrativa do Livro de Jó são conduzidos com maestria por Deus e, em momento algum, Satanás tem o controle. O propósito de Deus em conduzir todos os eventos que afetaram a vida e trouxe sofrimento ao patriarca Jó, teve o condão de deixar uma lição para que a humanidade compreendesse a Sua justiça.

Um homem sincero e reto

Quem era Jó, o personagem principal dessa história maravilhosa?

Geralmente, os estudiosos definem Jó com duas palavras: rico e justo e enfatizam o fato de ele ter perdido tudo, repentinamente. A preocupação maior de muitos eruditos se fixa em estabelecer a localização da cidade de Uz, onde Jó viveu e, em seguida, mensurar sua riqueza.[3]

Mas, se considerarmos a exortação de Cristo, de que a vida do homem não consiste na abundância de bens que ele possui (Lucas 12:15), percebe-se que a sinceridade, retidão, integridade e temor a Deus era a verdadeira riqueza de Jó.

Deus deu testemunho de Jó:

  1. Sincero e reto: os termos hebraicos רשיו םת traduzidos por ‘sincero’ e ‘reto’ identificam Jó como ‘perfeitamente correto’, ou seja, reto, honesto, direito;
  2. Temente: o termo hebraico ארֵיָ , transliterado ‘yare’, significa reverente, respeitoso, obediente;
  3. Desvia-se do mal: o termo hebraico רסוּ, transliterado ‘sur’ é o mesmo que afastar e, nesse caso especifico, do mal.

Deus deu testemunho do caráter de Jó, o que envolve a condição moral, comportamento correto para com os seus semelhantes, ou seja, reto e sincero.

O quesito ‘temente’, refere-se à submissão de Jó a Deus, na qualidade de servo e no que implica ser temente a Deus? Implica na imputação da justiça divina sobre Jó, ou seja, Jó era justo diante de Deus!

Jó era um homem perfeitamente correto nas relações com os seus semelhantes e justo diante de Deus. A condição ‘justo’, pertinente a Jó, depreende-se de outras passagens bíblicas. Por exemplo, os Salmos:

“O SENHOR se agrada dos que o temem e

dos que esperam na sua misericórdia”.  (Salmos 147:11)

O homem que teme ao Senhor lhe é agradável, ou seja, é aceito por Deus. Através do paralelismo ‘sintético’, no qual o verso do Salmo em comento foi construído, verifica-se que ‘temer’ ao Senhor é o mesmo que aguardar pela Sua misericórdia.

“Eis que os olhos do SENHOR estão sobre os que o temem,

sobre os que esperam na sua misericórdia”. (Salmos 33:18)

‘Temer’ a Deus é o mesmo que ‘esperar’ n’Ele. ‘Temor’ a Deus não é sentimento, é ensinamento, doutrina que demanda obediência. É equivoco entender que ‘temer’ a Deus é decorrente de ‘medo santo’ e ‘respeitoso’. Entender o termo ‘temor’, tradução do termo hebraico yará, como medo é má leitura de uma composição literária repleta de figuras, paralelismos e metáforas.

“Vinde, filhos, e escutai-me;

eu vos ensinarei o temor do Senhor”. (Salmos 34:11)

“Companheiro sou de todos os que te temem e

dos que guardam os teus preceitos”. (Salmos 119:63);

“BEM-AVENTURADO aquele que teme ao SENHOR e

anda nos seus caminhos” (Salmos 128:1).

Deus deve ser temido (obedecido) porque, com Ele, está o perdão, não porque devemos ficar aterrorizados com a Sua majestade e infinito poder:

“Mas, contigo está o perdão, para que sejas temido” (Salmos 130:4);

“Por isso, o SENHOR esperará, para ter misericórdia de vós; e por isso se levantará, para se compadecer de vós, porque o SENHOR é um Deus de equidade; bem-aventurados todos os que nele esperam” (Isaías 30:18);

“Seja a tua misericórdia, SENHOR, sobre nós, como em ti esperamos” (Salmos 33:22).

Através dessa análise, podemos afirmar, categoricamente, que Jó era justo diante de Deus, mas não pelo seu correto e perfeito comportamento para com os seus semelhantes, mas, porque esperava em Deus.

Jó era justo porque confiava em Deus, assim como Abraão confiava, não porque o seu comportamento era irrepreensível. Foi através de ‘esperar’ em Deus, o mesmo que ‘temer’, que a justiça de Deus foi atribuída a Jó (Romanos 4:2-3), não por causa de suas ações ‘irrepreensíveis’.

Sabemos que Deus ‘justifica’, tanto o que trabalha, quanto o que não trabalha ou, que Deus justifica tanto a judeus, quanto a gregos, pois, a justiça de Deus é creditada a qualquer que crê em Deus, já que Ele justifica a todo e qualquer que O obedece (Romanos 4:5).

Abraão creu em Deus quando lhe foi anunciado o evangelho, que diz: “Em ti serão benditas todas as nações” (Gálatas 3:8) e Jó demonstrou crer em Deus, quando confessou:

“Porque eu sei que o meu Redentor vive e que por fim se levantará sobre a terra. E depois de consumida a minha pele, contudo, ainda, em minha carne verei a Deus” (Jó 19:25-26).

Jó possuía um comportamento inigualável perante os homens, mas o bom testemunho que ele alcançou é decorrente da confiança que nutria em Deus, assim como muitos outros antigos alcançaram bom testemunho (Hebreus 11:2).

Apesar de o comportamento de Jó ser superior até mesmo às exigências que constam da lei de Moisés, o testemunho que Deus lhe dera não tinha por base o seu comportamento, mas, a promessa de Deus.

Percebe-se que a promessa de que Jó tinha conhecimento é anterior aos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó. A promessa que Jó conhecia não foi posterior ao reinado de Davi, se não a confissão dele seria: – “Eu sei que o meu redentor vive e que por fim se levantará na casa de Davi”.

A confiança que Jó nutria em Deus, decorre de uma promessa, antiquíssima, feita lá no Éden, quando Deus deu um veredicto à serpente: – “E porei inimizade entre ti e a mulher e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gênesis 3:15).

Abraão creu em Deus que teria um filho de suas entranhas e isso lhe foi justo (Gênesis 15:6) e quando Deus pediu Isaque, em holocausto, Deus reitera a promessa a Abraão, por ele ter obedecido ao mandado de Deus (Gênesis 22:18). De modo que as Escrituras dão testemunho de que Abraão obedeceu às leis de Deus, muito antes de ter sido dada a lei de Moisés (Gênesis 26:5).

O caráter e o comportamento de Jó eram superiores ao dos seus semelhantes, mas não foi este quesito que o fez aceitável diante de Deus. Com efeito, sem fé é impossível agradar a Deus (Hebreus 11:6), de modo que, mesmo na aflição, Jó mantinha a sua esperança firme: que o seu Redentor vivia e que haveria de estar sobre a terra!

Quando Jó expressa a sua confiança em Deus, temos reunido os elementos pelo qual Deus declara Jó justo: “Ainda que estivessem no meio dela estes três homens, Noé, Daniel e Jó, eles, pela sua justiça, livrariam apenas as suas almas, diz o Senhor DEUS” (Ezequiel 14:14).

O termo justo aplicado a Jó não se refere ao seu comportamento ou, ao seu caráter, antes remete a sua condição diante de Deus. E essa condição não se alcança por meio de boas ações ou, por bom comportamento, mas, somente sendo obediente a Deus.

A obediência a Deus dava a condição de justo, mas a palavra do Senhor era a causa de Jó desviar-se do mal. Diante de Deus, Jó era inculpável. Nenhuma condenação pesava sobre Jó, porque Deus é misericórdia e verdade, de modo que Jó teve expiado o seu pecado: “Pela misericórdia e pela verdade se expia a culpa e pelo temor do SENHOR os homens evitam o mal” (Provérbios 16:6).

‘Desviar-se do mal’ era o objetivo de Jó, visto que Ele era obediente. Mas, como ser temente, se não haver o mando de Deus? Sem o temor do Senhor, é impossível ao homem desviar-se do mal, pois a palavra de Deus é água que lava o pecador e o orienta na difícil tarefa de rejeitar o mal e apegar-se ao bem.

 

Satanás é posto em cena

A narrativa introduz Satanás na história de Jó como um ente pessoal, que se apresenta diante de Deus, quando os ‘filhos de Deus’ vieram adorá-Lo. Satanás é, assim, chamado, não por ser um título ou um nome específico, mas, pela função que desempenha na história: adversário.

Satanás é um ente pessoal que, ao comparecer, juntamente, com os filhos de Deus, é interpelado, diretamente, por Deus: – “De onde vens?” A resposta do adversário não é fruto de uma composição folclórica de um personagem irreal, inventada pelo narrador.

Quando o Livro de Jó introduz a figura do ‘acusador’, não estamos falando de um emissário de Satanás como o foi Hamã, em que as Escrituras nomeiam como ‘adversário’ (Ester 7:4). O adversário de Jó não é um homem, pois, além de estar à espreita de Jó, era capaz de mensurar e comparar a integridade de Jó com a dos demais homens.

O adversário de Jó não pertence à corte de Deus, como o anjo da matança dos primogênitos do Egito.

Enquanto os anjos são mensageiros que cumprem o mando de Deus, o acusador do Livro de Jó se insurge contra Jó, o que demonstra claramente que se trata de um ser que se opõe aos homens: “Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar” (I Pedro 5:8).

O diálogo entre Deus e Satanás tem, de um lado, o Criador e, do outro, uma criatura, ou seja, não há que se dar vazão à ideia de que Satanás é o arqui-inimigo de Deus ou, ao pensamento dualista, do bem versus o mal, pois a criatura jamais pode se igualar ao Criador, para que possa fazer frente a Ele, como seu arqui-inimigo.

Mas, onde e quando Satanás apresentou-se diante de Deus?

A Bíblia é clara ao nos informar que Deus habita a eternidade, ou seja, diz de uma singularidade que não se mensura, através de unidades de medida como tempo e espaço.

Deus é o ‘Já’, o ‘agora’, pois todas as coisas que hão de ser, são como se já fossem: “O que é, já foi; e o que há de ser, também já foi; e Deus pede conta do que passou” (Eclesiastes 3:15); “Porque mil anos são aos teus olhos como o dia de ontem, que passou, e como a vigília da noite” (Salmos 90:4).

Satanás apresentou-se diante de Deus um em certo dia, especificamente, quando os ‘filhos de Deus’ vieram apresentar-se diante d’Ele, ou seja, ‘certo dia’ não diz da eternidade, o que se conclui que tal evento não se deu nos céus, pois os céus são o trono de Deus e Deus abriga a própria eternidade. Nos céus não há elementos como dia e noite, pois, lá o que está estabelecido é a própria eternidade: “Porque, assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como, também, com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e para vivificar o coração dos contritos” (Isaías 57:15).

O evento descrito no Livro de Jó foi plotado no espaço/tempo, através de um evento que é próprio ao nosso espaço/tempo: certo dia. O local foi, especificamente, a cidade de Uz, cidade próxima o bastante dos povos caldeus e sabeus, pois, foi gente desses povos vizinhos, os que atacaram os filhos de Jó. O tempo aponta para um dia em que os filhos de Deus apresentaram-se diante de Deus.

Ir à presença do Senhor não significa que Satanás subiu aos céus, mas, que ele estava no evento em que os ‘filhos de Deus’ compareceram diante de um representante de Deus. Sabemos que os sacerdotes são representantes de Deus e que as Escrituras fazem referência a quem se apresenta diante do sacerdote, como se apresentado diante do Senhor (Deuteronômio 19:17).

Caim, também, foi descrito como alguém que esteve em contato com Deus, mas, que fugiu de diante do Senhor, ou seja, Caim não subiu aos céus para Deus conversar ou estar perante Ele (Gênesis 4:16).

Quem eram os ‘filhos de Deus’, que vieram perante Deus?

Os ‘filhos de Deus’, que vieram perante o Senhor, faziam tal prática com regularidade, ou seja, de tempos em tempos, compareciam, em determinado lugar, em função de um representante de Deus, o que indica uma cerimônia, algo que é próprio aos homens,  não aos seres celestes.

Um ser celestial sabe que não há lugar de adoração e nem tempo propício à adoração, antes, que Deus é adorado em espírito e, nem mesmo, estão sujeitos à limitação humana de espaço/tempo.

Quando Satanás se apresenta em meio aos filhos de Deus, homens que foram prestar o seu culto, foi interpelado: – “Donde vens?”

Do diálogo entre Deus e Satanás, é possível extrairmos alguns elementos que nos permitem uma melhor compreensão, de como o adversário é ardiloso, como tem as suas artimanhas e como ele constrói as suas ciladas.

Jesus afirmou que Satanás nunca se firmou na verdade e que, quando fala, fala do que lhe é próprio, proferindo mentiras, pois é mentiroso e pai da mentira. Esta é a natureza do adversário (João 8:44).

Deus não precisava perguntar a Satanás e nem de sua resposta, pois todas as coisas estão nuas e patentes aos seus olhos. Não podemos ignorar a onipresença e a onisciência de Deus nessa passagem bíblica, o que nos leva a concluir que Deus não estava interessado em nos revelar onde o opositor estava, mas, sim, a natureza de Satanás: astuto e mentiroso.

Satanás mentiu: “De rodear a terra e passear por ela”! Para quem o tempo urge, a resposta foi evasiva, pois rodear e passear pela terra não são atribuições de Satanás. Na verdade Satanás observava os filhos de Deus e respondeu de forma evasiva. O inimigo sempre está atento aos filhos dos homens, porém, espreita os fiéis para tentar dissuadi-los de sua fé.

Para quem somente passeava e rodeava a terra, não sendo onisciente ou, onipresente, Satanás sabia de tudo, a respeito de Jó. Satanás sabia que Jó era temente, protegido de Deus por todos os lados, abençoado e os seus bens se multiplicavam sobremaneira na face da terra.

É evidente que Satanás tinha interesse na vida de Jó, vez que, sempre espera um momento oportuno para atacar. Satanás sabia de tudo a respeito de Jó: medos, fé, conhecimento, comportamento, moral, integridade, etc.

Satanás só não tinha acesso aos pensamentos de Jó, pois os pensamentos só são conhecidos por Deus, mas, através do seu comportamento e integridade, o maligno fazia uma leitura do que ocupava a mente de Jó.

Somente Deus conhece o pensamento de suas criaturas, muito antes de pronunciarem qualquer palavra.

Conhecer a vida e os sentimentos de um oponente em uma guerra, é poder e Satanás se vale desse conhecimento, através da observação constante da vida do homem. É, a partir do conhecimento que o homem detém sobre a natureza de Deus, que o nosso inimigo, ardilosamente, monta as suas ciladas.

Satanás monta as suas teias com astúcia e Ele é conhecedor desta verdade: qualquer ser que lutar contra Deus sairá derrotado, pois Deus é todo poder e conhecimento.

Conhecedor dessa verdade, Satanás sabia que era impossível lutar e vencer Jó, pois era Deus quem o justificava e pelejava por Jó. Lutar contra Deus, diretamente, ou lutar contra os seus servos é perder.

“Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica (…) Mas, em todas estas coisas, somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou. Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor” (Rm 8:33 e 37-39).

Como é impossível Satanás vencer aqueles que são declarados justos por Deus, a tática ardilosa dele, é tentar jogar o próprio homem contra Deus, pois, somente o homem, pode se lançar da presença de Deus.

Satanás possui pleno conhecimento sobre a natureza de Deus e seus atributos. Ele também conhece a natureza humana e os seus sentimentos. Satanás também conhece a verdade de Deus contida nas Escrituras.

Deus interpela o acusador se este havia observado Jó durante as suas andanças pela terra, se havia constatado a integridade de Jó. Satanás não contesta o fato de que Jó era temente a Deus, pois como poderia acusá-lo, se o próprio Deus é quem deu testemunho de Jó?[4]

Satanás se mostra habilidoso no seu argumento, quando responde: – “Teme Jó a Deus em vão?”. Satanás não acusa Jó de pecado e a pergunta sugere, ainda, que Jó é verdadeiramente temente, porém, o acusador aponta o cuidado de Deus, como motivo da sujeição de Jó a Deus.

O acusador pode constatar durante as suas andanças que Jó estava sob a proteção de Deus, assim como, os seus descendentes e os seus bens materiais. Para alguém que desconhece a promessa de Deus para os que O temem, talvez pareça que Deus favorecia Jó, no entanto, a promessa de Deus é especifica e imutável para os que obedecem a Deus:

“O anjo do SENHOR acampa-se ao redor dos que o temem e os livra.

Provai e vede que o SENHOR é bom;

Bem-aventurado o homem que nele confia. 

Temei ao SENHOR, vós, os seus santos, pois nada falta aos que o temem”. (Salmos 34:7-9)

Depreende-se da fala do acusador, que Jó era trabalhador, visto que, o que as mãos de Jó produziam, Deus abençoava, de modo que os seus bens se multiplicavam.

“Então, respondeu Satanás ao SENHOR, e disse: Porventura teme Jó a Deus debalde? Porventura tu não cercaste de sebe, a ele, à sua casa e a tudo quanto tem? A obra de suas mãos abençoaste e o seu gado se tem aumentado na terra”. (Jó 1:9-10)

Satanás sugere, em sua argumentação, que, caso Deus retirasse todos os bens de Jó, seria o suficiente para Jó blasfemar. Mas, seria este o principal objetivo de Satanás? A adversidade seria capaz de afastar Jó de Deus?

Segundo o exposto pelo apóstolo Paulo, ao propor aos cristãos de Corinto que perdoassem um dos irmãos em Cristo, nós, como imitadores do apóstolo Paulo, não podemos ignorar os ardis de Satanás.

O que é um ardil? Respondo: uma estratégia, meticulosamente elaborada, para se atingir um objetivo.

Trazer adversidade faria com que Jó se demovesse do seu temor a Deus? Não! A adversidade não possui força suficiente sobre um servo de Deus, principalmente, com as qualidades de Jó, para demovê-lo da sua fé, porém, a adversidade fazia parte da estratégia elaborada por Satanás. Como?

A ação de Satanás foi, estrategicamente, coordenada para dar a entender, a qualquer que conhecesse a vida de Jó, que todos os eventos adversos que sobre ele se abateram, foram impingidos por Deus.

Os ataques dos sabeus e dos caldeus, cada qual, por sua vez, ao matarem os escravos de Jó e saquearem os camelos, os bois e as jumentas, dá a entender que os bens de Jó estavam desamparados.

Somente um ataque poderia dar a entender ser obra do acaso, mas, dois eventos semelhantes, em locais distintos, no mesmo dia, deixam de ser acaso e passam a ser coincidentes, portanto, o evento, em si, evoca que se considere a causa.

As mortes dos servos de Jó e o saque dos bens, foram decorrentes da ação humana, o que poderia levar quem investigasse os eventos à conclusão de que não houve nada de sobrenatural. Entretanto, outros mensageiros, no mesmo dia, trouxeram notícia de que fogo caiu do céu e consumiu parte do rebanho e os escravos e que, um vento vindo da banda do deserto, derrubou a casa do filho primogênito de Jó e matou a todos os filhos do patriarca, que ali estavam reunidos.

Quando as péssimas notícias terminaram, Jó levantou-se, rasgou o seu manto, raspou a cabeça, jogou na terra e adorou a Deus!

Satanás ficou surpreso com a atitude de Jó? Não! Tal atitude já era esperada, porém, o ardil de Satanás, ainda estava em curso.

Após o inimigo tirar todos os bens e exterminar todos os filhos de Jó, em outra ocasião, novamente, o diabo se fez presente, no meio dos filhos de Deus. Ao ser interpelado, como da primeira vez, deu prosseguimento na sua estratégia.

O adversário argumenta que a atitude de Jó, ao adorar a Deus, era uma questão de troca (pele por pele), sobre o pretexto de que o homem abre mão de tudo o que possui para preservar a sua própria vida (Jo 2:5).

A argumentação sugere que Jó não havia sido demovido das suas convicções pelo medo de, ao blasfemar, ser punido com a perda da própria vida.

Vale destacar que, apesar de Deus conhecer o ardil de Satanás, tal empreitada estava dentro do propósito de Deus. Como era necessário à humanidade compreender a justiça de Deus, o Senhor chamou a Jó, segundo o seu propósito, e permitiu que Satanás tirasse todos os bens do patriarca, para que, hoje, pudéssemos aprender, além da lição da perseverança e consolação, como se dá a justificação do homem (Romanos 15:4).

Em função do propósito de evidenciar como se dá a justificação, é que Deus permite que Satanás toque em Jó. Imediatamente, Satanás saiu da presença de Deus e feriu o corpo de Jó com chagas malignas, o que obrigava Jó a raspar as feridas com cacos de telhas, enquanto que, o único tratamento medicinal, era permanecer assentado nas cinzas.

Diante do quadro aflitivo, a mulher de Jó esbravejou: – “Ainda retém a tua sinceridade? Amaldiçoe a Deus e morra”.  Argumento que acrescentou dor ao coração aflito do servo de Deus.

Jó contra argumenta com sua mulher e deixa claro que a fala dela equipara-se a de qualquer desvairada. Perseverante, Jó não transgrediu com os seus lábios!

Depois dessas investidas ardilosas, os elementos necessários para o ataque principal do maligno estavam prontos. O quadro necessário para a investida de Satanás estava emoldurado, bastando ao acusador permanecer, aguardando, até que a notícia, sobre as adversidades que se abateram sobre Jó, se espalhasse pelo oriente.

Após Satanás tocar na pele de Jó, a ideia que se tem, é que o acusador sai de cena, porém, mesmo não atuando, diretamente, a visita dos amigos de Jó era o evento, meticulosamente preparado, para o verdadeiro embate entre Jó e o acusador.

A cilada preparada para fazer com que Jó se insurgisse contra o Seu Criador é o elemento principal das batalhas que Satanás trava com os homens.

Tirar os bens, a família e a saúde de Jó não era o principal objetivo de Satanás. O diabo sabia que a ação de retirar tudo, até mesmo a saúde de Jó, não faria com que ele pecasse contra Deus. Tirar tudo o que Jó possuía, era somente uma estratégia, para,  com astucia, fazer com que Jó se insurgisse contra Deus.

Continua…


[1] “Jó era um próspero fazendeiro, que vivia na terra de Uz. Possuía milhares de ovelhas, camelos e outros rebanhos, uma grande família e muitos servos. De repente, Satanás, o acusador, compareceu diante de Deus alegando que Jó só confiava nEle porque era rico e tudo lhe corria bem. E, assim, teve início o teste de fé daquele homem”. Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal, versão Almeida Revista e Corrigida, Edição de 1995 – Ed. CPAD, pág. 699; “Como se sabe, é ele (Satanás) o mentor da trama que conduz Jó ao encontro com Deus. A partir da proposta do “adversário”, Jó tem sua estabilidade de vida destruída e, na sua desgraça, dialoga com amigos que buscam explicar as razões da tragédia da condição humana”. Leite, Edgard, O silêncio de Jó: O Livro de Jó e a crítica sapiencial à teologia sacerdotal. Revista Brasileira de História das Religiões. ANPUH, ano IV, n. 10, maio 2011 – ISSN 1983-2850 < http://www.dhi.uem.br/gtreligiao /index.html >.

[2] Acaso (do latim a casu, sem causa) é algo que surge ou acontece a esmo, sem motivo ou, sem explicação aparente. Wikipédia < http://pt.wikipedia.org/wiki/Acaso > Consulta realizada em 06/06/15.

[3] Riqueza e posição social jamais podem ser vistas como sinal de aprovação divina. Não podemos consentir com pensamentos que seguem essa linha de raciocínio: “Se levarmos em conta a sua riqueza; se lhe considerarmos a posição social; e se lhe pesarmos a influência política, concluiremos ter sido Jó um perfeito reflexo da santidade de Deus”. Andrade, Claudionor de, Jó: O Problema do Sofrimento do Justo e o seu Propósito., Rio de Janeiro, Editora CPAD, 2ª Edição, 2003, pág. 32.

[4] O testemunho de Deus isentou Jó de qualquer injustiça, de modo que se Deus declarou Jó integro, reto e temente a Deus, o acusador jamais poderia intentar acusá-lo.

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Introdução

Este comentário à carta de Efésios constitui-se um exercício de leitura e interpretação bíblica.

Este estudo não é focado em questões como: qual a data de escrita desta carta, ou se a palavra ‘aos efésios’ não se encontra nos melhores manuscritos, etc. Tais questões tem a sua importância, porém não influência diretamente na leitura e interpretação da carta.

As divisões que adotamos para o estudo do texto decorre dos principais contexto, nos quais os temas estão inseridos. Por exemplo: quando Paulo nomeia os cristãos de santos e fiéis, destacamos que o contexto é apresentação e identificação dos destinatários da carta.

Se os destinatários da carta residiam em Éfeso, ou não, é um ponto de menor importância. O que propomos aqui é explicar a condição do estar em Cristo e responder questões como: Eles eram santos, ou somente eram tidos por santos? E muitas outras.

Boa leitura!

Apresentação Pessoal

1 Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus, aos santos que estão em Éfeso, e fiéis em Cristo Jesus:

Paulo, o escritor da carta, identifica-se aos seus destinatários e não deixa dúvidas quanto à sua autoria.

Esta carta possui uma característica diferente das outras. Nela o apóstolo Paulo não precisa defender o seu apostolado. Ele simplesmente demonstra que, pela vontade de Deus, tornou-se apóstolo de Cristo.

Geralmente o apóstolo Paulo se apresenta como servo de Cristo em outras cartas, mas nesta ele se apresenta somente como apóstolo ( Fl 1:1 ; Rm 1:1 ).

Cabe salientar que a carta aos efésios é auto-explicativa, principalmente quanto aos elementos apresentados na introdução. Observe:

Sobre o seu apostolado Paulo esclarece que foi feito ministro do evangelho segundo a operação do poder de Deus ( Ef 1:1 compare com Ef 3:7 ). Paulo demonstra que tal poder foi manifesto em Cristo quando Deus o ressuscitou dentre os mortos ( Ef 1:19 -20).

Compare ( Gl 1:1 com Ef 1:1 ):

“Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus…” ( Ef 1:1 );

“Paulo, apóstolo (não da parte dos homens, nem por homem algum, mas por Jesus Cristo, e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos)” ( Gl 1:1 ).

Paulo identifica os destinatários da carta chamando-os de santos e fiéis ‘em’ Cristo, os cristãos que estavam em Éfeso.

Santidade e fidelidade advêm do ‘estar’ em Cristo. ‘Em Cristo’ é a condição de existência da nova criatura, conforme Paulo escreveu aos cristãos em Coríntios: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ).

‘Em Cristo’ os cristãos são santos e fiéis, ou seja, santos e fiéis são as características pertinentes à nova criatura “E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade” ( Ef 4:24 ). ‘Em Cristo’ é um recurso se estilo, onde a idéia completa ‘estar em Cristo’ para ser uma ‘nova criatura’ passa a ser resumida assim:

“…aos santos que estão em Éfeso, e fiéis em Cristo Jesus:” ( Ef 1:1 e 4).

Quando o apóstolo Paulo diz ‘em Cristo’, ele está apontando a nova condição do cristão por serem uma nova criatura. A nova criatura, por ter sido criada seundo Deus em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ), é santa e fiel. ‘Em Cristo’ é um tipo de ‘contração’ linguistica para apontar de modo resumido a condição da nova criatura diante de Deus.

A fidelidade expressa neste versículo não possui relação com a fidelidade descrita em ( Ef 6:21 ). Quanto ao exercício de um ministério ou serviço, o cristão demonstra a sua fidelidade através de esforço próprio, condição pertinente a poucos cristãos. Já a condição de ‘santidade’ e ‘fidelidade’ somente é possível em Cristo, e esta condição é pertinente a todos cristão.

 

Saudações

2 A vós graça, e paz da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo!

Aos cristãos Paulo deseja graça e paz da parte de Deus.

Graça remete ao favor imerecido de Deus. Paz, é aquela que excede a todo entendimento, pela qual os cristãos foram reconciliados com Deus.

Com relação a escrita, verifica-se que em sua apresentação e saudação Paulo utiliza a primeira pessoa do singular do caso reto “Eu”.

Ao passar a louvar a Deus por bênçãos recebidas, Paulo utilizar a primeira pessoa do plural, fato que inclui todos os cristãos como alvos das bênçãos divina “Nós”.

Observe que o prefácio e a saudação possuem um contexto diferente do versículo três em diante. Nos versículo um e dois, temos: a apresentação do remetente da carta, os destinatários da carta e a saudação. Do versículo três em diante, Paulo passa a louvar a Deus por bênçãos recebidas.

 

Louvor e Adoração

3 Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo;

Os versículos três em diante devem ser analisados do ponto de vista de quem faz uma adoração a Deus “Bendito o Deus e Pai…” (v. 3).

Quem adora, adora por aquilo que recebeu das mãos de Deus ou por reconhecer a sua grandeza. Do versículo três até o versículo doze, o contexto é de agradecimento por bênçãos recebidas.

A estrutura do texto da carta é semelhante ao Salmo 103. Da mesma forma que Davi bendiz ao Senhor, Paulo também bendiz. O salmista bendiz ao Senhor pelos benefícios recebidos, e a partir do versículo três passa a enumerar as bênçãos recebidas.

O apóstolo Paulo também bendiz ao Senhor e passa a enumerar as bênçãos recebidas nos versículos quatro a doze.

“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo; Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fossemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor; E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade” ( Ef 1:3 -5).

“Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e tudo o que há em mim bendiga o seu santo nome. Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e não te esqueças de nenhum de seus benefícios. Ele é o que perdoa todas as tuas iniqüidades, que sara todas as tuas enfermidades, que redime a tua vida da perdição; que te coroa de benignidade e de misericórdia” ( Sl 103:1 -4).

O contexto é de adoração, e toda e qualquer declaração de Paulo deve ser analisada com base na adoração.

Sobre a adoração é necessário observarmos que só há duas maneiras pelas quais se adora a Deus.

A primeira maneira é agradecer, fazendo referência aos benefícios recebidos. A segunda maneira é fazendo referência aos atributos de Deus. Não há outras maneiras de adoração além destas duas, ou seja, que o homem possa render adoração ao Senhor.

O salmista Davi utiliza estas duas maneiras de adoração:

“Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e tudo o que há em mim bendiga o seu santo nome. Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e não te esqueças de nenhum de seus benefícios. Ele é o que perdoa todas as tuas iniqüidades, que sara todas as tuas enfermidades, que redime a tua vida da perdição; que te coroa de benignidade e de misericórdia” ( Sl 103:1 -4).

“Bendize, ó minha alma, ao SENHOR! SENHOR Deus meu, tu és magnificentíssimo; estás vestido de glória e de majestade. Ele se cobre de luz como de um vestido, estende os céus como uma cortina. Põe nas águas as vigas das suas câmaras; faz das nuvens o seu carro, anda sobre as asas do vento. Faz dos seus anjos espíritos, dos seus ministros um fogo abrasador” ( Sl 104:1 -4).

O salmo 103 faz referência aos benefícios concedidos por Deus, e o salmo 104 faz referência aos atributos de Deus.

O apóstolo Paulo adota a linha de adoração demonstrada no salmo 103: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo” ( Ef 1:3 ). Adoração ou reconhecimento pelos benefícios recebidos.

Após verificarmos o contexto na qual estão inseridas as declarações de Paulo, analisaremos dois elementos presentes neste versículo:

a) bênçãos espirituais, e;

b) regiões celestiais.

Há um contraste significativo entre o que é espiritual e o que é material. O apóstolo Paulo descreveu as nuances destes dois ambientes aos cristãos em Coríntios.

a) Primeiro se estabelece o que é natural, e depois o que é espiritual ( 1Co 15:46 );

b) Tudo que é concernente a Cristo é espiritual, e tudo o que é concernente a este mundo é material ( 1Co 10:4 );

c) Aqueles que nascem de Deus são espirituais, e passam a ser casas espirituais ( 1Pe 2:5 ).

 

Jesus ao falar a Nicodemos demonstrou que o que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito, é espírito. Analisando ( Jo 3:6 com Jo 1:12 -13), percebe-se que somente após a regeneração o homem passa a ser espiritual.

  • A relação entre benção e graça.

“Um santo, no N.T., não é uma pessoa sem pecado, mas um pecador salvo” Scofield, C. I., Bíblia de Scofield com Referências, nota de roda pé Ef 1. 1.

Em uma mensagem de cunho evangelístico é plenamente aceitável a colocação: ‘Deus salva o pecador’. Isto é fato, Deus veio resgatar o que estava perdido “Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” ( 1Tm 1:15 ).

Agora, em uma mensagem de ensinamento se utiliza a mesma linguagem? Não! Jesus ao falar a Nicodemos apregoa o seguinte: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” ( Jo 3:3 ).

 

Adoração

Observe que a abordagem teológica é diferente da abordagem evangelística: A oferta da salvação é para todos os pecadores, mas só os regenerados (nascidos de novo), o novo homem, são salvos. Por que é preciso fazer esta distinção?

a) Cristo não é ministro do pecado; ser salvo significa que estar livre do pecado em todos os seus aspectos “Pois, se nós, que procuramos ser justificados em Cristo, nós mesmos também somos achados pecadores, é porventura Cristo ministro do pecado? De maneira nenhuma” ( Gl 2:17 );

b) Vale salientar que somente o ‘novo homem’ em Cristo é salvo, e não o ‘velho homem’, pois este deve morrer através da cruz de Cristo. Dependendo da abordagem a respeito da salvação, por um lado Deus resgata o pecador, por outro, só o novo homem é salvo por Deus.

Podemos ilustrar esta verdade desta forma: Se uma embarcação encontra um naufrago em uma ilha deserta, após resgatá-lo, os tripulantes da embarcação continuarão a designar o novo tripulante da embarcação de ‘náufrago’. O ‘naufrago’ passa a fazer parte da tripulação do navio, e mesmo assim, continuará sendo designado como náufrago. O pecador salvo não é mais ‘pecador’, mas continuará sendo designado pecador, porém, agora em Cristo é um dos filhos de Deus.

 

O velho homem não é salvo, mas através do evangelho a graça de Deus o alcança.
Desta maneira Deus salva o pecador!
Morre com Cristo.
O novo homem o novo homem é salvo. Regenerado torna-se santo e justo diante de Deus.
O novo homem não é mais pecador
Ressurge com Cristo

 

Visualizamos aqui dois momentos na existência do homem quando alcançado pela graça de Deus: o antes, pertence ao velho homem, e o depois, ao novo homem, isto quando referimos à natureza herdada em Adão, e à natureza herdada do último Adão, que é Cristo “Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante” ( 1Co 15:45 ).

Jesus mesmo declarou: “Toda planta que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” ( Mt 15:13 ). A planta que o Pai não plantou não será salva, antes será arrancada, ou seja, todos quantos nascerem em Adão, necessariamente precisam morrer para em seguida nascer de novo. Somente aqueles que de novo são nascidos, da semente incorruptível que é a palavra de Deus, permanecerão para sempre.

Para entendermos as questões pertinentes à bênção e graça faz-se necessário divisarmos bem o ‘antes’ e o ‘depois’ do novo nascimento conforme o ensinamento de Cristo a Nicodemos: “…aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” ( Jo 3:3 ).

A graça de Deus é destinada ao velho homem, e as bênçãos de Deus são concedidas ao novo homem. Como? Observe:

a) a graça de Deus manifestou-se a todos os homens “…por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida” ( Rm 5:18 );

b) a graça de Deus é oferta de redenção a todos os homens “Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens” ( Tt 2:11 ), ou seja;

c) a graça de Deus tem como alvo o velho homem “Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” ( 1Tm 2:4 ).

 

O que se manifestou? A graça de Deus, ou seja, Cristo manifesto trouxe salvação a toda humanidade. A graça de Deus revelou-se e trouxe salvação aos homens que habitavam nas regiões das trevas “O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz” ( Is 9:2 ).

Antes de o homem ter um encontro com Cristo por meio da fé, a salvação de Deus é manifesta por graça, favor imerecido de Deus concedido ao homem perdido.

Ou seja, Cristo morreu por causa de nossos pecados e ao crermos nele nos tornamos participantes de sua morte. Cristo ressurgiu para a nossa justificação, ou seja, após ressurgirmos com Cristo, somos declarados justos diante de Deus.

A graça de Deus tem justificado o homem por meio da morte de Cristo, e após a justificação, somos feitos herdeiros.

Conclui-se que, a graça de Deus é destinada à velha criatura, que por estar morta em delitos e pecados, vendida como escravo ao pecado, e que por natureza é filho da ira, necessita de tão precioso resgate gracioso (remissão e redenção).

“Para que, sendo justificados pela sua graça, sejamos feitos herdeiros segundo a esperança da vida eterna” ( Tt 2:11 ).

“Não são porventura todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação?” ( Hb 1:14 ).

 

Por outro lado, as bênçãos de Deus são pertinente ao novo homem. O novo homem surge na Regeneração, onde é criado, segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade. Estes são por natureza filhos de Deus e co-herdeiros com Cristo “Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo” ( Gl 3:26 -27).

O versículo três é a chave para entendermos o capítulo um de Efésios.

Primeiro temos que considerar o contexto: adoração, agradecimento pelas bênçãos concedidas.

Não podemos esquecer que a carta foi escrita aos cristãos, e que, portanto, Paulo não se ocupa em pregar ou explicar o evangelho novamente. A carta se ocupa em apresentar aspectos e pontos específicos do evangelho.

Ao escrever este capítulo, Paulo não se ocupa em descrever as questões pertinentes a graça de Deus que se destina ao velho homem. Antes ele se ocupa de questões pertinentes ao novo homem, e por isso, Paulo se ocupa em agradecer e falar das bênçãos de Deus.

Paulo não se mantém isolado dos destinatários ao falar das bênçãos recebidas. Ele se inclui entre aqueles que foram abençoados, o que demonstra duas coisas:

a) Ele estava falando de questões pertinentes ao novo homem, e;

b) da nova condição daqueles que estão em Cristo.

Paulo está falando do que é pertinente ao novo homem por ele bendizer a Deus por bênçãos já recebidas. Principalmente por ele enfatizar que todos estavam em Cristo. ‘Estar em’ Cristo remete a condição necessária para ser uma nova criatura.

No capítulo dois, versículo seis, Paulo volta a falar da condição alcançada após a ressurreição com Cristo.

 

Bendizendo pelas Bênçãos Recebidas

Eleição

4 Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fossemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor;

Paulo passa a bendizer a Deus pelas benção, que o faz descrevê-las.

(nos abençoou com todas as bênçãos espirituais) Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fossemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor;

a) Como também: a ação de abençoar através da eleição é exclusivamente de Deus. Foi Deus quem abençoou os cristãos com todas as bênçãos espirituais, e dentre elas temos a eleição.

b) nos elegeu nele:

a) Considerando que Paulo estava escrevendo sobre as bênçãos recebidas;

b) Considerando que Paulo estava adorando a Deus pelo que já tinha recebido;

c) Considerando que Paulo estava escrevendo sobre aspectos pertinentes a todos cristãos (nós);

d) Considerando que méritos e qualidades são pertinentes a pessoa de Cristo;

e) Considerando que a estrutura de texto é semelhante ao Salmo 103, e;

f) Considerando que a carta foi escrita a cristãos.

Conclui-se que Paulo escreveu sobre o que é pertinente ao novo homem, sobre aqueles que já estavam em Cristo (nele = em + Cristo).

Quando o apóstolo Paulo diz que Deus nos elegeu, ele utiliza o verbo no pretérito perfeito, o que indica algo concluído, ou que os cristãos estão de posse da bênção. Isto demonstra que os cristão estão de posse da nova condição: eleitos, ou seja, os cristãos já usufruem da condição para qual foram eleitos: santos e irrepreensíveis.

Paulo não quis demonstrar um processo de escolha, onde alguns são escolhidos e outros não. Paulo queria enfatizar as garantias decorrentes do evangelho. Para demonstrar as garantias decorrentes do evangelho, ele demonstra que os cristãos são os eleitos de Deus (santos e fiéis). Aqueles que nascem da vontade de Deus, já nascem santos e irrepreensíveis, ou seja, de posse da bênção divina.

Se Paulo estivesse fazendo referência neste versículo a uma possível escolha dentre aqueles que ainda estão vendidos ao pecado (velho homem), ele faria referência a graça de Deus, que foi direcionada a todos os homens “Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)” ( Ef 2:5 ).

Mas não, ele fala de bênçãos recebidas, o que é pertinente àqueles que estão em Cristo, e que, portanto, já são regenerados e são filhos de Deus.

É pela graça que o pecador alcança a salvação, e não por meio das bênçãos concedidas “Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça…” ( Ef 1:7 ).

A graça é para a salvação, mas a eleição não é para a salvação; a eleição é para aqueles que se encontram em Cristo (nos elegeu em + ele = em Cristo).

Antes da fundação do mundo: Paulo apresenta a data em que se deu a eleição: antes que o mundo fosse fundado. Esta declaração do apóstolo Paulo não pode ser interpretada extensivamente. Observe que em momento algum ele fala da onisciência de Deus. Não é porque a eleição foi realizada antes da fundação do mundo que podemos arrematar que a eleição decorre da onisciência de Deus, ou da ideia equivocada de presciência que há na teologia. Os atributos de Deus não podem ser considerados isoladamente, mas a informação que Paulo nos deixou nesta parte do versículo restringe-se ao tempo em que Deus realizou a eleição.

Para que fossemos santos e irrepreensíveis diante dele: A eleição foi realizada com um objetivo pré-definido: a santidade e irrepreensibilidade dos cristãos! Ou seja, a escolha de Deus repousa sobre o Cristo e a Sua descendência, o que confere aos cristãos semelhança com o Filho de Deus, pois recebemos em Cristo plenitude de Deus ( Cl 2: 9 -10). Santidade e irrepreensibilidade são características pertinentes à nova criatura, conforme o que atesta o apóstolo Paulo: “E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade” ( Ef 4:24 ). O velho homem não pode ser eleito para ser ‘santo e irrepreensível’ pelos seguintes motivos:

  • Somente a graça de Deus através da mensagem do evangelho destina-se aos homens sem Cristo. A luz de Deus enviada ao mundo tem o objetivo de alcançar aqueles que ‘habitavam as regiões das trevas’;
  • Não há como ser santo e irrepreensível sem antes ter um encontro com Cristo. Todos os homens necessitam nascer de novo, e isto somente é possível após morrer com Cristo.
  • O velho homem é culpável, nasceu sob a égide do pecado, é inimigo de Deus, planta que o Pai não plantou, vaso destinado a ira, filho da desobediência, filho da ira. Como este homem pode ser escolhido para ser santo e irrepreensível? A bíblia demonstra que este homem e a sua natureza devem morrer e ser sepultado, para que nova criatura possa ressurgir dentre os mortos.
  • O velho homem é nascido da vontade da carne, da vontade do varão e do sangue, ou seja, é nascido de semente corruptível, é árvore não plantada por Deus, e a árvore não plantada por Deus precisa ser arrancada.
  • Santidade e irrepreensibilidade é condição do novo homem criado em Cristo, o que demonstra que o homem, enquanto pecador, não é escolhido para a santidade. Somente após aceitar a graça de Deus por meio do evangelho, ser gerado de novo da semente incorruptível, ser uma planta plantada pelo Pai, ele assume a posição de eleito em Cristo. Somente após a regeneração é que o homem alcança a bênção de ser santo e irrepreensível.

A bênção de Deus destina-se aos cristãos (nova criatura) que foram gerados em Cristo. Estes são de novo gerados da semente incorruptível, que é a palavra de Deus, por crerem no evangelho, que é poder de Deus, receberam poder para serem feitos filhos de Deus. São vasos para honra. São plantas nascidas da semente incorruptível e plantados por Deus.

Deus não escolhe para a salvação, antes, os que aceitam a graça de Deus que se revela no evangelho são eleitos para serem santos e irrepreensíveis. A eleição dos que agora são cristãos, segundo Paulo, foi realizada em Cristo ( Is 42:1 ), e todos aqueles que estão em Cristo recebem a condição de eleitos: santos!, ou seja, foram eleitos para serem santos, e não eleitos para serem salvos.


Ressurgir com Cristo dentre os mortos (mortos em delitos e pecados) uma nova criatura com a condição de filho de Deus é bênção, pois somente os filhos são participante da natureza divina “Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo” ( 2Pe 1:4 )!

Somente após escapar da corrupção que há no mundo (condenação em Adão) pelo seu glorioso convite e amor demonstrado em Cristo, é que Deus concede ao homem tudo o que diz respeito à vida e piedade (todas as bênção espirituais), nos tornando participantes da natureza divina (filiação, santidade e irrepreensibilidade).

Este é o motivo de Paulo estar louvando a Deus: Ele e os destinatários da carta haviam recebido todas as bênçãos espirituais, e alcançaram uma nova condição: a de serem santos e irrepreensíveis.

Estamos falando de dois momentos na vida do homem que teve um encontro com Cristo: o velho e o novo homem.

Como vimos até agora, há o velho e o novo homem; há a velha e a nova natureza; só é possível ver o reino de Deus após nascer de novo, e; que o novo homem é criado segundo Deus.

Resta analisarmos também os termos: eleição e eleitos.

A palavra eleição nos remete aos seguintes aspectos:

  • A palavra escolha ou eleição aponta um processo para algum fim;
  • Está é a idéia presente neste termo: alguém só é escolhido para um objetivo pré-definido.

Se retirarmos qualquer elemento pertinente ao processo de escolha, não existe escolha. Observe:

  • se não houver um objetivo pré-definido a executar não existe escolha;
  • se não houver alguém a ser escolhido, não haverá escolha;
  • se não houver um critério para a escolha, não haverá escolha, e;
  • se houver a escolha surgirá o antes e o depois da escolha.

 

Já a palavra eleito nos remete ao seguinte aspecto:

Eleito é a condição (posição, cargo) que alguém adquire após o processo de eleição.

Antes da eleição não há pessoas na posição de eleitas, só há candidatos. Após a eleição haverá os eleitos.

Quando se faz referência a condição de eleito, está se evidenciando aspectos como: exercício da posição alcançada e conciência das garantias que envolve a condição.

Quando Paulo escreveu que Deus nos elegeu, ele quer demonstrar que em Cristo estamos na condição de eleitos, e que já estamos gozando da irrepreensibilidade e da santidade. Já estamos de posse da bênção, e por isso mesmo ele bendiz a Deus que nós abençoou.

Por Paulo estar louvando a Deus pelas bênçãos recebidas, isto demonstra que ele quer evidenciar os aspectos que envolvem o conjunto daqueles que foram eleitos, ou seja, os eleitos. A existência dos eleitos (aqueles que creram em Cristo e foram recebidos por filhos) é o que motivou Paulo a bendizer a Deus “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo…” ( Ef 1:3 ).

Ao procurar demonstrar que Deus elegeu alguns para serem salvos estaremos preso as seguintes questões: Por que eu sou escolhido e fulano não?; Quais as garantias de que eu sou um eleito? Qual o critério que Deus utilizou para escolher? Qual o objetivo de Deus escolher só alguns, e o restante não?

Analisando os atributos de Deus surgem mais estes questionamentos: Qual o critério utilizado para que Deus para escolher alguns que devem ser santos e irrepreensíveis se ele ama a todos? O que faz diferente os pecadores diante de Deus, se para Ele não há acepção de pessoas? “Porque, para com Deus, não há acepção de pessoas” ( Rm 2:11 ).

A bíblia nos informa que Deus ama a humanidade como um todo “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” ( Jo 3:16 ).

Como conciliar os dois versículos acima com a idéia que Deus escolhe dentre os perdidos as pessoas que serão salvas?

Observe que é diferente afirmar que Deus elegeu ‘algumas pessoas para serem salvas’, do que Paulo escreveu: Deus nos elegeu ‘para sermos santos e irrepreensíveis’, e não para sermos salvos. É pela graça que o homem é salvo, e não pela eleição.

A afirmação do apóstolo de que os cristãos foram eleitos refere-se especificamente a condição que eles alcançaram após a Regeneração: foram criados segundo Deus em verdadeira justiça e santidade.

A visão dos Reformadores é que Deus escolhe dentre a humanidade perdida (escolha entre ‘a’ e ‘b’), pessoas para serem salvas, o que contraria a idéia presente na graça de Deus: “Pois é pela graça que sois salvos, por meio da fé”, e não por eleição. A Eleição é para ser santo e irrepreensível, condição que é pertinente àqueles que já estão diante de Deus.

E como se deu a eleição dos salvos? “Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” ( 2Tm 1:9 ).

Cristo é o eleito de Deus segundo o seu propósito eterno de fazer convergir n’Ele todas as coisas.

  • O propósito eterno de Deus;
  • O Filho é escolhido, e;
  • O Filho possui os méritos: O santo de Deus ( Is 42:1 ).

Os cristãos não existiam quando ocorreu a eleição, mas ao nascerem de Deus, passaram a eleitos. Foram criados em verdadeira justiça e santidade (salvação) e acolhidos como filhos.

“Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” ( 2Tm 1:9 ).

“…nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fossemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor” ( Ef 1:4 ).

Ao escrever a Timóteo, o apóstolo Paulo demonstra que primeiramente Deus nos salvou por sua maravilhosa graça. A salvação é por meio do evangelho, que é poder de Deus, e não por meio da eleição, que é para filiação ( 2Tm 1:8 ). Somente após a salvação ocorre a eleição. A condição de santos e irrepreensíveis é pertinente aos salvos.

Ao falar que Deus nos salvou, é o mesmo que dizer: estamos salvos, da mesma maneira ao falar ‘nos elegeu, significa que somos eleitos, ou seja, que estamos de posse das bênçãos concedidas. Bendito seja Deus!

Isto demonstra que ao escrever aos cristãos em Éfeso Paulo procurou enfatizar a condição de eleitos de Deus, na qual eles passaram a ser santos e irrepreensíveis. Por isso ele inicia o tópico adorando a Deus pelas bênçãos recebidas.

Paulo demonstra que antes mesmo de existirmos, Deus já havia providenciado por meio de Cristo bênçãos espirituais, e que agora eles estavam de posse destas bênçãos.

Deus não faz acepção de pessoas, o que demonstra que todos aqueles que são recebidos por filhos passam a ter as mesmas condições que o Filho amado. Também são eleitos.

Por fim, verifica-se que os salvos é que são eleitos. Não há como os perdidos serem eleitos. Só os salvos é que são santos e irrepreensíveis diante de Deus.

Observe as análises:

  • Quem são os eleitos? Paulo responde: nós! Como Paulo fala de algo que ocorreu no passado (elegeu), segue-se que hoje os cristãos estão na condição de eleitos: são santos e irrepreensíveis, pois para isso foram eleitos. Quando Paulo fala que ‘nos elegeu’, ele demonstra que os cristãos (os salvos, aqueles que nasceram de novo), é que são os eleitos, e não aquele que ainda se encontra no pecado. Temos definido aqui quem foi eleito: os cristãos por estarem em Cristo;
  • Qual o objetivo pelo qual Deus ‘nos elegeu’? Paulo responde: para que fossemos santos e irrepreensíveis. Os perdidos não foram escolhidos para este mister, mas os cristãos é que foram eleitos para serem santos e irrepreensíveis diante de Deus (nos elegeu! ‘Nos’ quem? …nós, os que primeiro esperamos em Cristo). Aqueles que não esperam em Cristo não são os eleitos de Deus “…nós os que primeiro esperamos em Cristo” (v. 12);
  • Qual o critério da escolha dos que estão em Cristo? A pessoa de Cristo. Os cristãos foram escolhidos com base em Cristo. Cristo é o eleito de Deus antes mesmo da fundação do mundo “Eis aqui o meu servo, a quem sustenho, o meu eleito, em quem se apraz a minha alma; pus o meu espírito sobre ele; ele trará justiça aos gentios” ( Is 42:1 ). Cristo é o santo de Deus; Ele é o justo. O cristão, por ser participante de Cristo, passa a ser santo e irrepreensível diante de Deus. Cristo é a base da nossa eleição, e por ele ser a base, não havia a necessidade de existirmos, mas a escolha já estava definida: todos os que nascerem de Deus passam a ser santos e irrepreensíveis. O cristão nem mesmo existia quando se definiu quem haveria de receber a condição de eleito, e agora, após serem conhecidos por Deus os ‘novos homens’ passam a ser santos e irrepreensíveis;
  • Antes da fundação do mundo já estava definida a eleição; não há mérito por parte dos eleitos, visto que nem mesmo existiam. Com relação a quando ocorreu a eleição só a pessoa de Cristo participou, os méritos estavam nele; após nascermos de Deus, nós nos tornamos participantes das bênçãos restritas aos filhos de Deus: somos santos e irrepreensíveis.

 

O apóstolo Paulo, em momento algum aponta uma escolha entre os perdidos para a salvação. Antes ele aponta que os cristãos são escolhidos para a condição de santos e justos diante de Deus.

Se Deus nos elegeu no passado em Cristo, hoje somos eleitos, estamos de posse das prerrogativas para qual fomos eleitos.

Basta nascer de novo por meio de Cristo que o homem estará na condição de eleito de Deus.

Sobre o propósito eterno de Deus ao escolher a Cristo, veremos nos próximos versículos.

 

Predestinação

5 E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade,

Os parâmetros de interpretação utilizados no versículos anteriores são totalmente válidos neste versículo:

“E nos elegeu nele (…) para que fossemos santos e irrepreensíveis…”

“E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo…”

Observe:

  • O contexto demonstra que Paulo estava adorando a Deus por bênçãos recebidas;
  • A carta foi remetida a cristãos, ou seja, pessoas que conheciam e professavam o evangelho;
  • Os dois versículos utilizam o verbo no pretérito perfeito;
  • Os dois versículos demonstram que eles haviam adquiridos as bênçãos em Cristo.

Mas, para que o entendimento do texto seja pleno, utilizaremos uma outra abordagem para melhor elucidar o texto, sendo que ela também poderá ser aplicada ao versículo anterior.

O apóstolo aponta neste verso uma outra bênção adquirida por aqueles que estão em Cristo: a predestinação.

Paulo continua demonstrando que ele e os cristãos de Éfeso eram alvos das bênçãos de Deus. Se houver dúvidas sobre quem são os predestinados, basta perguntar: Quem são os predestinados? E Paulo arremata: nós! Nós quem? Paulo e os santos que estavam em Éfeso.

Segue-se que a predestinação é bênção da parte de Deus para aqueles que foram Regenerados ou por estarem em Cristo.

Mas, como ter certeza de que a predestinação não é direcionada aos perdidos? Como ter certeza que a predestinação é exclusiva daqueles que estão em Cristo?

  1. Devemos observar atentamente a relação que Paulo estabelece entre a primeira pessoa do plural do caso reto “nós” e a segunda pessoa do plural do caso reto “vós”;
  2. Não podemos nos esquecer que Paulo era um Judeu que se tornou cristão, e os cristãos de Éfeso eram gentios que se converteram ao evangelho; JUDEUS E GENTIOS são povos distintos, mas em Cristo são um (passaram pelo novo nascimento), o que explica também porque Paulo ao se referir à sua condição anterior, não se une aos efésios na narrativa.
  3. De posse destas duas informações iniciais, verifica-se que Paulo ao falar das bênçãos divinas concedidas aos cristãos, ele se inclui na narrativa “E nos elegeu (…) E nos predestinou…” ( Ef 1:4 e 5). Mas, ao falar da condição dos cristãos gentios quando eles ainda estavam no pecado, Paulo utiliza o “vós”: “Ele vos vivificou, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados…” ( Ef 2:1 ).
  4. Observe o que Paulo escreveu aos Gálatas: “Nós somos judeus por natureza, e não pecadores dentre os gentios” ( Gl 2:15 ). Paulo evidência uma diferença sutil entre ser pecador dentre os gentios e pecador dentre os judeus para expor uma verdade crucial do evangelho: Nós os Judeus não somos justificados pelas obras da lei.
  5. Na carta aos Efésios esta diferença é ainda mais sutil, mas contrasta com o resultado após o encontro com Cristo: A paz entre ambos os povos! Por isso, ao falar dos cristãos gentios quando no pecado, Paulo utiliza o vós; ao fazer referência a TODOS os filhos da desobediência, Paulo se inclui, demonstrando que no passado, sem Cristo, tanto Judeus quanto gentios eram filhos da ira “Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também” ( Ef 2:3 ).
  6. Ao falar da salvação, Paulo em nenhum momento faz referência à eleição e predestinação, mas sim ao amor e graça de Deus. Todos eram filhos da ira (judeus e gentios), mas o amor de Deus alcançou a todos através de sua maravilhosa graça.

 

Toda a análise demonstra que Deus predestinou os salvos, aqueles que eram cristãos e que Paulo se incluiu na narrativa: “E nos predestinou…”, ou seja, nós, os cristãos, somos predestinados por Deus para sermos filhos por adoção.

Haveria como os perdidos serem filhos de Deus por meio da predestinação? Não! Se não houver a regeneração por meio da graça do evangelho, homem algum será recebido por filho de Deus. O homem só é recebido por filho de Deus quando encontra-se em Cristo.

Estar em Cristo é a condição necessária para ser predestinado a filho por adoção.

Mas, o que é ser predestinado? Qual a idéia que a palavra ‘predestinado’ introduz?

Predestinar significa determinar previamente ou antecipadamente e decorre do sentido da palavra grega prooriso.

A idéia secular a respeito da predestinação aponta para destino, carma, sem opção de futuro, etc. Para o entendimento natural, todas as pessoas possuem um destino pré-definido.

Porém a bíblia demonstra que só os que estão em Cristo é que são predestinados. O restante da humanidade, diante do que expõe a bíblia, não nascem predestinados.

Todos os homens ao nascerem, nascem na condição de filhos da ira, mas em momento algum a bíblia os designa como sendo predestinados a perdição. Por que? Porque a todos os homens é dada a opção de decidirem-se pela graça de Deus. Ninguém nasce predestinado à perdição. Todos possuem uma opção: a graça de Deus!

Agora, por que Paulo diz que os cristãos foram predestinados por Deus? Porque para aqueles que estão em Cristo não existe opção de escolha quanto ao que serão: todos serão filhos por adoção, sem exceção. Como? Em momento algum Paulo diz que Deus predestinou alguém à salvação. Paulo diz que Deus predestinou os cristãos a serem filhos por adoção.

Se Deus houvesse predestinado alguém à salvação, seria o mesmo que dizer que ele predestinou o restante da humanidade à perdição, o que não é verdade. Mas é fato: Aqueles que aceitarem a graça de Deus oferecida por meio do evangelho, serão filhos de Deus, sem exceção.

Alguns alegam que a eleição é um ato de escolha e que a predestinação diz respeito ao fim para essa escolha. Mas o texto não diz isto. Paulo diz que o fim para eleição é a santidade e irrepreensibilidade. da mesma forma a predestinação tem um objetivo bem claro: a filiação divina, e não a salvação.

A eleição e a predestinação devem ser vistas como bênçãos garantidas por Deus. Paulo procurou evidenciar a segurança da salvação em Cristo por meio de termos que demonstrassem a posse das bênçãos espirituais.

“E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade”

Predestinados por Deus para serem filhos por adoção em Cristo. Tanto judeus quanto gentios eram filhos da ira, e por meio da graça do evangelho, são recebidos por filhos.

Observe que Deus, segundo a sua vontade quer filhos para si. Paulo demonstra que a vontade de Deus não é outra, senão que, por meio de Cristo, sejamos seus filhos.

 

Louvor e Glória

6 Para louvor e glória da sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado,

Paulo demonstrou que Deus nos elegeu para sermos santos e irrepreensíveis e nos predestinou para filhos por adoção, segundo a sua vontade. Este versículo aponta o motivo pelo qual Deus abençoou os cristãos com as bênçãos da eleição e predestinação.

Por que Deus elegeu? Por que Deus predestinou? Para louvor e glória da sua graça!

Sobre o que este versículo trata? Sobre a salvação de Deus “Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens” ( Tt 2:11 ).

Não foi a eleição e a predestinação que nos fez agradáveis a Deus, e sim a sua graça.

A graça de Deus que se manifestou por meio do evangelho foi direcionada aos pecadores e os fez agradáveis a Deus, tornando-nos agradáveis a si, Deus nos abençoa com eleição e predestinação. Se a graça de Deus é que nos fez agradáveis (que nos salvou), não há como afirmar que a salvação depende da eleição e da predestinação.

Em Cristo, Deus nos fez seus filhos por meio do evangelho, e a predestinação e eleição são referências à garantia divina.

A salvação foi realizada por meio de Cristo (Amado), conduzindo muitos filhos a Deus (para si mesmo).

Conclui-se que a salvação é por meio da graça, e não o resultado de uma escolha. Deus trouxe salvação a todos os homens de maneira graciosa, sem qualquer referência a uma ‘predestinação’ de alguns ‘privilegiados’ à salvação.

 

7 Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça,

Paulo retroage quanto à exposição das verdades contidas no evangelho: Primeiro ele bendiz a Deus pelas bênçãos recebidas para depois falar da graça recebida por meio do evangelho.

A ordem correta é:

  1. A riqueza da graça por meio do evangelho (salvação) (v. 7);
  2. A redenção pelo sangue (v. 7);
  3. Ser feito agradável a Deus em Cristo (Regeneração) (v. 6);
  4. Adquirir a filiação por adoção (Predestinação) (v. 5);
  5. Ser santo e irrepreensível perante Deus (Eleição) (v. 4).

Em Cristo o cristão teve a redenção por meio do seu sangue. É difícil aparecer nas cartas de Paulo frases que expliquem a idéia presente na frase anterior de forma direta. Este versículo foge à regra. A redenção por meio do sangue de Cristo é o mesmo que remissão das ofensas “…no qual temos a redenção, a remissão dos pecados” ( Cl 1:14 ). Comprados e libertos por Cristo.

Todas as bênçãos recebidas é por meio, ou segundo as riquezas da graça de Deus.

Como a redenção e a remissão é segundo as riquezas da graça de Deus ( Ef 1:7 ), a eleição e a predestinação também o é: “… para louvor e glória da sua graça, a qual nos deu gratuitamente no Amado” ( Ef 1:6 ).

A Eleição, a Predestinação, a Redenção e a Remissão são bênçãos de Deus dadas gratuitamente segundo as riquezas da graça de Deus. Elas são dadas, ou seja, concedidas a todos quantos crêem. Não é uma escolha.

 

8 Que ele fez abundar para conosco em toda a sabedoria e prudência;

A graça de Deus abundou por meio de Cristo, ou seja, tal graça foi derramada profundamente sobre os cristãos em sabedoria e prudência. Como em sabedoria e prudência (entendimento)?

 

9 Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo,

Além da riqueza da salvação, concedida gratuitamente, Deus revelou o mistério da sua vontade, o que nos concede sabedoria e entendimento das coisas celestiais.

A riqueza da salvação faz parte do propósito eterno de Deus, e após nos inteirarmos do propósito divino revelado em sabedoria e entendimento, verifica-se que a salvação não é um fim em si mesmo.

Há no propósito eterno de Deus (que propusera em si mesmo) um objetivo maior do que simplesmente salvar. Ou seja, Deus salva o homem para levá-lo a cumprir um propósito revelado, o que torna este propósito plenamente compreensível pelo homem.

Beneplácito é consentimento, ou seja, aprovação! “E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade (…) Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo” ( Ef 1:5 e 9).

Se é segundo o que Deus aprovou (consentiu), está demonstrada a garantia de Deus quanto aquilo que ele nos revelou. Deus aprovou e consentiu fazer todas as coisas em Cristo.

 

10 De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra;

Deus nos ‘fez’ agradáveis por meio de Cristo com o objetivo maior de reunir em Cristo todas as coisas. Deus reunirá em Cristo todas as coisas, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra ( Ef 3:9 ).

‘nos fez herança’ ou ‘nos fez agradáveis’ refere-se a nova criação, onde Deus concede poder àqueles que crêem para serem feitos (criados) filhos de Deus.

 

11 Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade;

Em Cristo fomos feitos herança! E Paulo demonstra de que maneira os cristãos foram feitos herança: por meio da Predestinação. Os cristãos foram predestinados conforme o propósito de Deus e segundo a vontade de Deus feitos herança. Como?

Além dos filhos de Deus terem direito à herança, também fomos feitos herança, fomos feitos propriedade de Deus conforme esclarece o versículo quatorze “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” ( 1Pe 2:9 ); Fostes comprados por bom preço; não vos façais servos dos homens” ( 1Co 7:23 ).

O salmista diz que os filhos são herança do Senhor que o homem recebe, porém, ao gerar em Cristo filhos para si, Deus nos constituí ‘herança’ para si “Eis que os filhos são herança do SENHOR, e o fruto do ventre o seu galardão” ( Sl 127:3 ).

 

12 Com o fim de sermos para louvor da sua glória, nós os que primeiro esperamos em Cristo;

Qual a diferença entre o versículo seis e doze?

“Para louvor e glória da sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado” (v. 6);

“Com o fim de sermos para louvor da sua glória, nós os que primeiro esperamos em Cristo” (v. 12).

O versículo seis mostra que as bênçãos que acompanham a salvação em Cristo constituem-se de per si louvor e gloria à graça de Deus.

Já o versículo doze demonstra que Deus levou a efeito a sua vontade com o objetivo de sermos para louvor da sua glória.

Observe que o louvor difere da adoração. Paulo adora, ou bendiz ao Senhor pelas bênçãos recebidas, porém estas mesma bênçãos constituem-se em louvor à graça e glória de Deus. Este é Deus quem promove, e aquele refere-se ao reconhecimento do homem. Adoração e louvor diferem quanto à essência.

A obra de Deus (que faz do pecador homens criados em verdadeira justiça e santidade), é que enaltece (verdadeiro louvor) a glória do Senhor! Mas, o ato misericordioso de arrancar o pecador das garras do pecado, concedendo-lhe bênçãos espirituais, promove louvor à sua tão maravilhosa graça proposta no evangelho.

Sobre quem o apóstolo estava falando? Incrédulos ou crentes? A resposta é clara: nós os que primeiro esperamos em Cristo! Só aquele que espera na graça revelada em Cristo serve de louvor à glória e graça de Deus. O descrente não serve a este propósito.


Há uma mudança de contexto do versículo treze em diante.

O apóstolo Paulo passa da adoração a Deus à conscientização dos cristãos.

Observe o recurso utilizado por ele para continuar a carta quando muda de contexto.

Até o versículo doze Paulo utiliza a primeira pessoa do plural (nós) demonstrando a unidade dos cristãos; ao passar a conscientização, Paulo utiliza a segunda pessoa do plural (vós).

Paulo tinha convicção do que ele havia recebido em Cristo (salvação e bênçãos), e queria que os cristãos de Éfeso também possuíssem esta certeza. Daí o fato de ele utilizar a segunda pessoa do plural na narrativa.

 

Conscientização sobre a Nova Condição

13 Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa.

“Nele, digo, em quem também fomos feitos herança…” (v. 11); Primeira pessoa do plural.

“Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade…” (v. 13). Segunda pessoa do plural.

Paulo passa a conscientizar os cristãos sobre a nova condição adquirida por meio de Cristo.

O que ocorre é simples: após ouvir a palavra do evangelho, e crer em Cristo, a palavra da verdade torna-se o evangelho da salvação. Todos que ouvem e crêem são salvos em Cristo.

Paulo dá veracidade às suas argumentações: fostes selados, ou seja, tudo que ocorre com os Cristãos é autentico, conforme o Espírito Santo prometido atesta “O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” ( Rm 8:16 ).

 

14 O qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória.

Penhor: garantia, segurança, ou a coisa que constitui essa garantia. Penhor fala de direito real sobre algo vinculado a uma dívida, surgindo como garantia do pagamento de tal dívida.

O Espírito Santo é garantia da nossa herança, ou seja, Ele é garantia, Ele se constitui a nossa garantia do direito real que possuímos ao sermos recebidos por filhos.

“…fostes selados com o Espírito Santo da promessa. O qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida…” (v. 13- 14).

O próprio Consolador enviado se interpõe como garantia da herança que recebemos. O penhor deve ter valor equivalente à dívida contraída, e nós que estamos em Cristo já recebemos o que é superior a própria herança: o Espírito Santo de Deus! Que garantia! Que segurança!

Os cristãos foram selados com o Espírito Santo da promessa, o que é superior a própria herança. Mas, por que fomos selados? A resposta é: Para redenção da possessão adquirida por Deus.

Aqui, redenção significa libertação futura! Os cristãos foram selados para uma libertação futura, conforme o versículo seguinte: “E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual estais selados para o dia da redenção” ( Ef 4:30 ).

A redenção deste versículo ( Ef 4:30 ) difere da redenção apontada no verso 7. Enquanto a Redenção do versículo sete é bênção alcançada, a deste versículo refere-se ao grande dia da Redenção.

 

Pedidos em Oração

15 Por isso, ouvindo eu também a fé que entre vós há no Senhor Jesus, e o vosso amor para com todos os santos, 16 Não cesso de dar graças a Deus por vós, lembrando-me de vós nas minhas orações:

Depois das garantias apresentadas até o versículo quatorze para aqueles que estão em Cristo, Paulo comunica aos cristãos que não cessava de agradecer a Deus por ouvir da fé que havia nos cristãos em Éfeso e que eles amavam os santos de Deus ( Ef 1:3 ).

Este versículo demonstra o quanto os cristãos foram tocados pela mensagem do evangelho. Observe que, através da oração de Paulo fica demonstrado que eles estavam cumprindo o mandamento de Deus, conforme atesta o apóstolo João: “Ora, o seu mandamento é este, que creiamos no nome do seu Filho Jesus Cristo, e, segundo o mandamento que nos ordenou” ( 1Jo 3:23 ).

A fé dos cristãos era conforme o mandamento ‘que nos ordenou’, ou seja, ‘a fé que entre vós há no Senhor Jesus’. O amor deles era ‘para com todos os santos’, ou seja, eles amavam segundo o mandamento ordenado: ‘amemos uns aos outros’.

Há um paralelo sem igual entre o que João expõe, e o que Paulo observa entre os cristãos de Éfeso.

Paulo não só agradecia, mas também lembrava constantemente dos cristãos quando em oração. Por que Paulo não se esquecia de orar a Deus pelos cristãos? A resposta está no versículo seguinte:

 

17 Para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos dê em seu conhecimento o espírito de sabedoria e de revelação;

Do versículo três ao versículo quatorze Paulo agradece e conscientiza os cristãos das bênçãos já recebidas. Deste versículo em diante Paulo pede a Deus algumas coisas que os cristãos em Éfeso ainda não possuíam. Se Paulo ora fazendo esta petição, é porque ele considera uma necessidade premente a ser satisfeita. Apesar de já serem idôneos e participantes das bênçãos eternas pela união com Cristo, havia a necessidade de sabedoria e revelação (espiritual).

Paulo não pede para si, mas pelos os cristãos de Éfeso, que lhes fossem dado sabedoria e revelação. Por meio de Cristo os cristãos conheciam a Deus, ou antes, foram conhecidos por Ele Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” ( Gl 4:9 ).

Paulo, ao falar ‘espírito’ de sabedoria e revelação, estabelece aí distinção entre a sabedoria humana e a sabedoria que só é alcançada quando revelada pelo Espírito Santo de Deus.

 

18 Tendo iluminados os olhos do vosso entendimento, para que saibais qual seja a esperança da sua vocação, e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos;

A sabedoria e a revelação vinda de Deus dá luz ao entendimento do novo homem gerado em Cristo.

Por mais que Paulo procurasse conscientizar os cristãos das bênçãos recebidas, o pleno esclarecimento só é alcançado em plenitude através do conhecimento de Deus “…em seu conhecimento…” (v. 17). Conhecimento aqui não é ‘saber’, ou estar ‘ciente de’.

O ‘conhecimento’ que Paulo faz referência diz de união intima, assim como quando o homem e a mulher tornam-se um (conheceu o homem a mulher). Ou seja, quando a bíblia diz que um homem conheceu uma mulher, é porque os dois se tornaram um. Diz de conhecimento íntimo e inviolável.

Paulo demonstra qu

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O templo de Deus

Onde estiver o cristão é templo e morada do Espírito. O cristão onde for oferece sacrifício vivo. Em todos os lugares e em qualquer tempo o cristão adora a Deus em espírito e em verdade, pois todos os elementos essenciais ao culto estão presentes nele.

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Verdadeiro louvor

Somente os mansos, aqueles que aprendem de Cristo, comerão e se fartarão de justiça ( Mt 11:29 ). Somente os que buscam ao Senhor verdadeiramente O louvam. Somente aqueles que receberam um novo coração e um novo espírito viverão eternamente ( Ez 36:26 ; Sl 51:10 ), pois todas estas obras são realizadas exclusivamente por Deus “Os mansos comerão e se fartarão; louvarão ao SENHOR os que o buscam; o vosso coração viverá eternamente” ( Sl 22:26 ).

 


Para entendermos a distinção que há entre adoração e louvor, verifiquemos este verso: “Dai-lhe do fruto das suas mãos, e deixe o seu próprio trabalho louvá-la nas portas” ( Pv 31:31 ).

Os provérbios suplementares de Lemuel apresentam uma mulher virtuosa que se dedica ao marido e aos filhos. Após apresentar as virtudes da ditosa mulher, Lemuel demonstra que todos que a cercam hão de bendizê-la ( Pv 31:28 –30), porém, a despeito do testemunho dos seus filhos e do marido, Lemuel diz que ela será recompensada pelas suas próprias realizações, e que suas obras hão de render-lhe o devido louvor ( Pv 31:31 ).

O que se depreende do texto? Depreende-se um princípio do louvor! Fica demonstrado no provérbio que as obras da mulher virtuosa lhe conferem o louvor devido. Por conseguinte, as pessoas que a cercam passam a bendizê-la em função de suas realizações. Ou seja, não podemos confundir ‘louvor’ com ‘bendizer’. O louvor é intrínseco à obra realizada, tributo a quem a realizou, enquanto ‘bendizer’ é ‘falar bem de’.

Do mesmo modo que ‘as obras’ da mulher virtuosa a louvam, são ‘as obras’ de Deus que O louvam “Todas as tuas obras te louvarão, ó SENHOR, e os teus santos te bendirão ( Sl 145:10 ). Enquanto os santos bendizem, as obras de Deus O louvam.

Deste modo, entendemos a extensão das palavras do salmista quando diz: Louvai ao SENHOR desde a terra: vós, baleias, e todos os abismos; Fogo e saraiva, neve e vapores, e vento tempestuoso que executa a sua palavra; Montes e todos os outeiros, árvores frutíferas e todos os cedros; As feras e todos os gados, répteis e aves voadoras; Reis da terra e todos os povos, príncipes e todos os juízes da terra; Moços e moças, velhos e crianças ( Sl 148:7 -12), pois tudo que foi elencado são obras de Deus que O louva, mesmo as obras que não possuem fôlego de vida ou voz, como se segue: “Louvem o nome do SENHOR, pois mandou, e logo foram criados ( Sl 148:5 ).

Todas as obras de Deus constituem-se em louvor à sua onipotência e os seus santos bendizem ao Senhor por tudo que Ele tem realizado. Deus mandou e tudo foi criado para Seu louvor.

Sobre o louvor, o apóstolo Paulo escreveu aos cristãos em Éfeso: Com o fim de sermos para louvor da sua glória, nós os que primeiro esperamos em Cristo” ( Ef 1:12 ). Ou seja, os que creram (esperaram) em Cristo foram feitos herança e predestinados a serem filhos por adoção, e tal obra divina constitui-se louvor à Sua glória.

Todas as obras de Deus O louvam, visto que testemunham acerca da grandeza e do poder de Deus, porém, os que esperam em Cristo, segundo o propósito e conselho de sua vontade, louvam e glorificam especificamente à Sua graça “…segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor e glória da sua graça…” ( Ef 1:5 ).

Ao predestinar os que crêem para serem filhos por adoção por Jesus Cristo, Deus assim o fez para louvor e glória de sua graça ( Ef 1:5 ), ou seja, a sua própria obra é fonte do seu louvor. Do mesmo modo que os céus e a natureza constituem-se em louvor ao poder de Deus, sua fidelidade constitui-se em Seu louvor na assembléia dos santos “E os céus louvarão as tuas maravilhas, ó SENHOR, a tua fidelidade também na congregação dos santos” ( Sl 89:5 ).

Os céus louvam as maravilhas de Deus, da mesma forma que a fidelidade de Deus O louva na assembléia dos santos, pois os santos, obras exclusiva de Deus, passaram a existir em função da fidelidade de Deus.

Concluímos que, o verdadeiro louvor procede da obra que Deus realiza em prol das suas criaturas, e aos seus servos cabe reconhecer, bendizer e adorá-lo.

Somente os mansos, aqueles que aprendem de Cristo, comerão e se fartarão de justiça ( Mt 11:29 ). Somente os que buscam ao Senhor verdadeiramente O louvam. Somente aqueles que receberam um novo coração e um novo espírito viverão eternamente ( Ez 36:26 ; Sl 51:10 ), pois todas estas obras são realizadas exclusivamente por Deus Os mansos comerão e se fartarão; louvarão ao SENHOR os que o buscam; o vosso coração viverá eternamente ( Sl 22:26 ).

O apóstolo Paulo ao escrever aos cristãos em Éfeso deixou claro que, Deus faz todas as coisas conforme o conselho de sua vontade com o único objetivo: que os homens agraciados em Cristo sejam constituídos em louvor de sua glória ( Ef 1:12 ).

Ou seja, o verdadeiro louvor não parte do reconhecimento dos homens, antes tem origem na obra realizada por Deus. A obra realizada por Deus é que o louva, e ao reconhecer as dádivas de Deus proveniente desta obra, resta aos homens bendizerem, anunciarem e adorarem o seu Santo nome ( Sl 103:1 ; Ef 1:3 ; 1Pe 1:3 ).

O povo de Israel pensava que estavam louvando a Deus quando entoavam cânticos no templo ou nas suas casas, porém, o protesto de Deus para com eles dá conta que o coração deles estava longe de Deus. Por quê? Porque o temor deles consistia somente em seguir mandamentos de homens e não acataram o mandamento que diz: “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz” ( Dt 10:16 ).

Ora, a circuncisão do prepúcio ocorria especificamente no oitavo dia após a criança nascer, isto conforme foram instruídos ( Lv 12:3 ; Jo 7:22 – 23), porém, a circuncisão que Deus exige, a circuncisão do coração, quem efetuaria? Como efetuariam? E as mulheres, como seriam circuncidadas?

Enquanto a circuncisão do prepúcio era quesito para ser membro da nação, a circuncisão do coração é imprescindível para que fossem participantes do Israel de Deus ( Rm 9:6 ). Somente Deus pode realizar a circuncisão do coração do homem “E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao SENHOR teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas” ( Dt 30:6 ).

Só um coração circuncidado pelo Senhor pode amá-Lo de todo. Somente após a obra realizada por Deus, a circuncisão do coração, é que o homem e a mulher podem amar a Deus com toda a sua alma. Enquanto um coração incircunciso está morto diante de Deus, somente um coração circuncidado, obra realizável somente por Deus, vive perante Ele “E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração (…) para que vivas” ( Dt 30:6 ).

Ora, se a circuncisão é necessária para que o homem viva, segue-se que, sem a circuncisão de Deus o homem está morto, continua na incircuncisão da carne herdada de Adão, mesmo após circuncidar o prepúcio.

Após ser circuncidado pelo Senhor, o homem recebe um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ), sendo de novo criado em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ). Após receber novo coração e novo espírito, o homem criado de novo passa a adorar a Deus em espírito e em verdade.

Em espírito porque foi gerado do Espírito Eterno, e em verdade porque foi gerado através da semente incorruptível ( 1Pe 1:23 ), que é a palavra de Deus (verdade). Desde os profetas a obra de Deus é espargir água pura sobre os homens, concedendo novo coração e novo espírito ( Ez 36:25 -27). É Deus quem executa a obra de espargir água (nascer do Espírito). Água pura é a palavra de Deus, que lava o homem completamente de sua imundície ( Jo 3:5 ).

A obra que Deus realiza ao criar o novo homem em Cristo constitui-se em louvor e glória da Sua graça. Aqueles que são gerados de novo, por sua vez, tornam-se verdadeiros adoradores, pois adoram em espírito e em verdade ( Jo 4:24 ). Quando o homem entoa cânticos e anunciam as obras de Deus, bendiz o santo nome de Deus ( Sl 103:1 e Sl 104:1 ). Ao ser gerado de novo, segundo o poder que Deus concede aos que creem ( Jo 1:12 ), todo o ser da nova criatura constitui-se em louvor e glória à graça de Deus.

Porém, em nossos dias, há uma confusão de nomenclatura, visto que reputam como ‘louvor’ o ‘bendizer’ a Deus. O problema não reside no simples fato de se designar o bendizer como louvor, antes está em não abstrairmos o verdadeiro significado do louvor, quando se adota como louvor o que é produzido pelas emoções humanas através das cordas vocais e instrumentos musicais.

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