A figura da adúltera no Livro de Provérbios

A sedução da mulher adúltera está em se apresentar como alguém que serve ao Senhor (Is 58:1-3), pois, trás consigo, sacrifícios pacíficos e faz votos, porém, não se sujeita ao seu Senhor, e nem possui o conhecimento de Deus (Pv 9:13; Dt 32:28).


Introdução

O Livro de Provérbios, embora, seja, comumente, interpretado, através de um prisma moral, é, na realidade, uma alegoria, um conjunto de figuras, que exprimem uma ideia.[1]

Este artigo destacará, resumidamente, a figura da mulher adúltera e o que ela, de fato, representa.

 

Instrução para o Messias

As instruções do Livro dos Provérbios são proferidas por meio  da figura de um Pai que tem um cuidado singular pelo seu Filho.

“Filho meu, ouve a instrução de teu pai…” (Pv 1:8).

É significativo o fato de os provérbios serem endereçados a um filho e não a todos os filhos de Israel, como se falasse de muitos. Isto, também, nos remete ao que foi anunciado por Moisés, de que os filhos de Israel já não eram filhos de Deus, mas, uma mancha (Dt 32:5).

Quando Provérbios diz: ‘Filho meu’, evoca a questão da descendência, da filiação, o que nos remete à seguinte lição, do apóstolo Paulo:

“Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo” (Gl 3:16).

A proposta do Livro dos Provérbios é fornecer o conhecimento necessário para o Descendente, segundo a promessa feita a Abraão, de se proteger dos seus irmãos, pois os inimigos d’Ele seriam os seus próprios familiares (Mt 10:36; Mq 7:6; Jr 6:21; Jr 12:6; Jr 9:4).

O Descendente, segundo a promessa anunciada a Abraão, é Cristo, o Filho de Deus, que, na plenitude dos tempos, despiu-se da sua glória, se fez carne e habitou entre os homens.

Através do conteúdo do Livro dos Provérbios, o Messias é alertado de que o ‘conhecimento’ de Deus O manteria afastado da mulher adúltera:

Para te afastar da mulher estranha, sim da estranha que lisonjeia com suas palavras (Pv 2:16).

A mulher adúltera

Os versos que retratam a mulher adúltera, não evocam questões vinculadas à luxúria, volúpia ou sensualidade, antes, destacam as palavras que procedem dos seus lábios. O cuidado que consta da orientação do Pai ao Filho, visa protegê-lo das palavras suaves que a mulher adúltera profere. Palavras comparáveis ao mel e ao azeite (Pv 5:3).

Estas são as características da mulher adúltera:

  • Deixou o companheiro da sua mocidade e esqueceu-se da aliança com o seu Deus (Pv 2:17);
  • Os seus lábios destilam favos de mel e as suas palavras são suaves como o azeite (Pv 5:3);
  • A sedução esta na língua (Pv 6:24; Pv 7:21);
  • Seduz, argumentando, que já ofereceu sacrifícios pacíficos e pagou os seus votos (Pv 7:14);
  • É indisciplinada e não possui conhecimento (Pv 9:13).

Considerando as características acima, certo é que o Pregador não está tratando das questões próprias a uma mulher de vida fácil. A mulher em questão é uma alegoria que retrata a apostasia do povo de Israel no deserto, que fez uma aliança com Deus e O deixou.

“Como se fez prostituta a cidade fiel! Ela que estava cheia de retidão! A justiça habitava nela, mas, agora, homicidas” (Is 1:21).

“Vai e clama aos ouvidos de Jerusalém, dizendo: Assim diz o SENHOR: Lembro-me de ti, da piedade da tua mocidade, e do amor do teu noivado, quando me seguias no deserto, numa terra que não se semeava. Por isso, foram retiradas as chuvas, e não houve chuva serôdia; mas tu tens a fronte de uma prostituta e não queres ter vergonha” (Jr 2:2-3);

“E, engordando-se Jesurum, deu coices (engordaste-te, engrossaste-te e de gordura te cobriste) deixou a Deus, que o fez, e desprezou a Rocha da sua salvação” (Dt 32:15);

“Como, vendo isto, te perdoaria? Teus filhos me deixam a mim e juram pelos que não são deuses; quando os fartei, então adulteraram, e em casa de meretrizes se ajuntaram em bandos” (Jr 5:7);

“Portanto, ó meretriz, ouve a palavra do SENHOR” (Ez 16:35).

Alegoria semelhante à feita pelo Pregador, encontramos no Livro do profeta Ezequiel, que destaca o cuidado de Deus por Jerusalém, ao estabelecer uma aliança, bem como, os desvarios das suas prostituições:

“E, passando eu junto de ti, vi-te, e eis que o teu tempo era tempo de amores; e estendi sobre ti a aba do meu manto, cobri a tua nudez; e dei-te juramento, entrei em aliança contigo, diz o Senhor DEUS, e tu ficaste sendo minha” (Ez 16:8);

“Mas confiaste na tua formosura, te corrompeste por causa da tua fama e prostituías-te a todo o que passava, para seres dele” (Ez 16:15).

Com base no alerta contido no Livro dos Provérbios, a mulher adúltera representa as cidades em que habitavam os filhos de Israel, que deixaram a Deus e se esqueceram da aliança (Pv 2:17; Dt 32:5).

A sedução da mulher adúltera está em se apresentar como alguém que serve ao Senhor (Is 58:1-3), pois, trás consigo, sacrifícios pacíficos e faz votos, porém, não se sujeita ao seu Senhor, e nem possui o conhecimento de Deus (Pv 9:13; Dt 32:28).

O profeta Davi faz uso da figura da cidade, em vez da mulher prostituta, para demonstrar a apostasia de Israel:

“Despedaça Senhor e divide as suas línguas, pois tenho visto violência e contenda na cidade. De dia e de noite a cercam sobre os seus muros; iniquidade e malícia estão no meio dela. Maldade há dentro dela; astúcia e engano não se apartam das suas ruas. Pois, não era um inimigo que me afrontava; então, eu o teria suportado; nem era o que me odiava, que se engrandecia contra mim, porque dele me teria escondido. Mas eras tu, homem, meu igual, meu guia e meu íntimo amigo” (Sl 55:9-13).

 

Os moradores da cidade

Ao introduzir a alegoria da mulher adúltera no Livro dos Provérbios, o Pregador evidencia a gravidade da apostasia dos filhos de Israel.

O Pregador apresenta a palavra de Deus como a suprema sabedoria, dirigindo um apelo aos habitantes da cidade:

“Até quando, ó simples, amareis a simplicidade? E vós, escarnecedores, desejareis o escárnio? E vós insensatos, odiareis o conhecimento? Atentai para a minha repreensão; pois eis que vos derramarei, abundantemente, do meu espírito e vos farei saber as minhas palavras. Entretanto, porque eu clamei e recusastes; estendi a minha mão e não houve quem desse atenção, antes, rejeitastes todo o meu conselho e não quisestes a minha repreensão, também, de minha parte, eu me rirei na vossa perdição e zombarei, em vindo o vosso temor” (Pv 1:22-26).

A mensagem de Deus visa alcançar o povo e os seus líderes e, para isso, o Pregador faz uso de várias figuras, como a do ‘louco’ e a do ‘escarnecedor’.

“Até quando, ó néscios, amareis a necedade? E vós, escarnecedores, desejareis o escárnio? E vós, insensatos, odiareis o conhecimento?” (Pv 1:22);

“Ouvi, pois, a palavra do SENHOR, homens escarnecedores, que dominais este povo que está em Jerusalém” (Is 28:14);

O clamor da Sabedoria indica que Deus estende a Sua mão para conceder do Seu espírito (Pv 1:24), no entanto, o povo se mostra rebelde, seguindo os seus próprios conselhos:

“AI dos filhos rebeldes, diz o SENHOR, que tomam conselho, mas não de mim; e que se cobrem com uma cobertura, mas não do meu espírito, para acrescentarem pecado sobre pecado” (Is 30:1);

Estendi as minhas mãos o dia todo a um povo rebelde, que anda por caminho, que não é bom, após os seus pensamentos” (Is 65:2);

“Entretanto, porque eu clamei e recusastes; estendi a minha mão e não houve quem desse atenção. Antes, rejeitastes todo o meu conselho e não quisestes a minha repreensão” (Pv 1:24-25);

“Mas, não ouviram, nem inclinaram os seus ouvidos, andaram nos seus próprios conselhos, no propósito do seu coração malvado; e andaram para trás e não para diante” (Jr 7:24).

A palavra do Senhor é a essência da sabedoria, mas como os filhos de Israel rejeitaram a palavra de Deus e como rejeitaram ao Senhor, não havia em Israel conhecimento de Deus.

“Os sábios foram envergonhados, foram espantados e presos, eis que rejeitaram as palavras do Senhor; que sabedoria, pois, teriam?” (Jr 8:9);

“O temor do Senhor é o princípio da sabedoria; os loucos desprezam a sabedoria e a instrução” (Pv 1:7).

O Salmista Davi destaca o comportamento dos filhos de Israel, em rejeitar o conhecimento de Deus: “Diz o louco no seu coração: – ‘Não há Deus’” (Sl 53:1), pois se corromperam e cometeram iniquidade. Os líderes de Israel são classificados como obreiros da iniquidade, pois, não tem conhecimento de Deus e devoram o povo, como se fosse pão (Sl 53:4).

Os filhos de Israel são tidos por néscios, loucos, visto que rejeitaram a palavra de Deus, de modo que já não invocavam a Deus, o que nos remete à reprimenda que Moisés fez aos filhos de Israel:

“Recompensais, assim, ao SENHOR, povo louco e ignorante? Não é ele teu pai, que te adquiriu, que te fez e que te estabeleceu? (…) O meu povo é gente falta de conselhos e neles não há entendimento” (Dt 32:6 e 28).

Por rejeitarem o conhecimento de Deus, os filhos de Israel são classificados como altivos, ímpios, vis, perversos, maus, filhos de Belial, opressores, mentirosos, violentos, homicidas, adúlteros, etc.

Os filhos de Israel recusavam o conhecimento do Senhor e preferiram os seus próprios conselhos (Jr 9:6; Jr 7:24; Jr 9:13; Pv 3:5), daí a designação adúlteros, ajuntamento de infiéis (Jr 9:2).

Como rejeitaram o conselho de Deus, que é firme e verdadeiro (Is 25:1), os lábios dos filhos de Israel destilavam mentiras, engano:

“Porque este é um povo rebelde, filhos mentirosos, filhos que não querem ouvir a lei do SENHOR” (Is 30:9);

“E encurvam a língua como se fosse o seu arco, para a mentira; fortalecem-se na terra, mas não para a verdade; porque avançam, de malícia em malícia, e a mim não me conhecem, diz o SENHOR” (Jr 9:3);

“Como o prevaricar e mentir contra o SENHOR e o desviarmo-nos do nosso Deus, o falar de opressão e rebelião, o conceber e proferir do coração palavras de falsidade” (Is 59:13).

Ao transtornarem a palavra do Senhor, os filhos de Israel fizeram violência. As imposições dos líderes de Israel sobre o povo é classificada como violência, daí o alerta:

“E respondeu-me, dizendo: Esta é a palavra do SENHOR a Zorobabel, dizendo: Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos” (Zc 4:6);

“Porque, desde que falo, grito, clamo: Violência e destruição; porque se tornou a palavra do SENHOR um opróbrio e ludíbrio todo o dia” (Jr 20:8);

“Assim, diz o Senhor DEUS: Basta já, ó príncipes de Israel; afastai a violência e a assolação e praticai juízo e justiça; tirai as vossas imposições do meu povo, diz o Senhor DEUS” (Ez 45:9).

 

Equívocos quanto à leitura das figuras do Livro dos Provérbios

O Livro dos Provérbios vai além da temática do uso de sentenças poéticas, antes o Pregador é um formulador de parábolas. Através de alegorias, o Pregador apresenta a realidade espiritual dos filhos de Israel, por meio de enunciados, formulados como comparações.

Observe a análise de um teólogo, acerca do Livro dos Provérbios:

“A sabedoria de Provérbios se centra acima de tudo nos âmbitos da vida que não são regulados por ordenanças cúlticas ou, por mandamentos expressos pelo Senhor. Por essa razão, a maior parte do livro não se refere a temas propriamente religiosos. Refere-se, muito mais, aos temas que são específicos da existência humana, seja, na sua dimensão pessoal (o indivíduo) ou, coletiva (a família e a sociedade em geral)” Nota de introdução ao Livro dos Provérbios de Salomão, Bíblia de Estudo Almeida, Barueri–SP, SBB, 2000, p. 659.

Observe a nota da Bíblia de Scofield, com Referências, acerca do Livro dos Provérbios:

“Provérbios é uma coleção de ditados substanciais, nos quais, através de comparação ou contraste, algumas verdades importantes são expostas. Provérbios são ditados comuns a todas as nações do mundo antigo. Essa coleção, em particular, foi compilada, principalmente, por Salomão que, em 1 Rs 4:32, diz-se ter enunciado três mil provérbios”. Bíblia de Scofield, com referências, p. 636.

É imperioso observar que o Livro de Provérbios não guarda qualquer paralelo com os provérbios das nações do mundo antigo e nem se centra em reger as relações humanas. A sabedoria dos Provérbios de Salomão foca-se, especificamente, na Palavra de Deus, de modo a demonstrar a condição dos filhos de Israel, após deixarem o mandamento do Senhor.

Apesar de recitarem os estatutos e fazerem menção da aliança de Deus, os filhos de Israel odiavam a correção e rejeitavam a Palavra de Deus.

“Mas, ao ímpio, diz Deus: Que fazes tu em recitar os meus estatutos e, em tomar a minha aliança, na tua boca? Visto que odeias a correção e lanças as minhas palavras para detrás de ti. Quando vês o ladrão, consentes com ele e tens a tua parte com adúlteros. Soltas a tua boca para o mal e a tua língua compõe o engano. Assentas-te a falar contra teu irmão; falas mal contra o filho de tua mãe” (Sl 50:16-20).

Embora jurassem e fizessem menção ao nome de Deus, contudo, não o faziam segundo a verdade e a justiça, ou seja, segundo a palavra do Senhor.

“OUVI isto, casa de Jacó, que vos chamais do nome de Israel e saístes das águas de Judá, que jurais pelo nome do SENHOR e fazeis menção do Deus de Israel, mas não em verdade, nem em justiça” (Is 48:1).

Tinham a palavra de Deus chegada aos lábios, mas longe do coração e o que diziam era somente o que memorizaram, mas não punham em prática.

“Plantaste-os e eles se arraigaram; crescem, dão também fruto; chegado estás à sua boca, porém, longe dos seus rins” (Jr 12:2);

“Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” (Is 29:13).

As blandícies[2] dos filhos de Israel tinham por base a sua religiosidade (Pv 1:10), o que nos remete à essência da sedução da mulher adúltera, cujas palavras são doces como o mel e suaves como o azeite, alegoria que destaca a apostasia dos filhos de Israel, pois é o que a religião faz: seduzir!

Apesar do alto grau moral dos filhos de Israel, se comparado ao comportamento moral dos gentios, vez que os líderes de Israel eram tidos por justos, aos olhos dos homens, Deus acusa os hebreus de serem aleivosos (Jr 9:2). Dai a recomendação paulina:

“Não dando ouvidos às fábulas judaicas, nem aos mandamentos de homens, que se desviam da verdade” (Tt 1:14).

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1] “Alegoria – modo de expressão ou, interpretação que consiste em representar pensamentos, ideias, qualidades, sob forma figurada”.

[2] “Comportamento ou, palavra carinhosa, afetuosa; recomendação. [Por Extensão] Expressão meiga; comportamento de quem é terno; meiguice. [Figurado] Modo de agir de quem agrada muito a alguém, tentando obter algo dessa pessoa; adulação: usava de blandícia para conseguir vantagens na empresa” Dicionário Online de Português.

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Objetivo do Livro de Provérbios

O livro de provérbio constitui uma espécie de chave que permite interpretar os outros livros que compõe as Escrituras. Através dos provérbios é possível encontrar a ideia base de alguns termos que permitirá compreender uma verdade contida em outros livros. Em outras palavras, o livro de provérbios é um ‘catalisador’ que permite a compreensão de enigmas e parábolas que são apresentados em outros livros. Constitui-se uma chave mestra.


 

“1 PROVÉRBIOS de Salomão, filho de Davi, rei de Israel; 2 Para se conhecer a sabedoria e a instrução; para se entenderem, as palavras da prudência. 3 Para se receber a instrução do entendimento, a justiça, o juízo e a equidade; 4 Para dar aos simples, prudência, e aos moços, conhecimento e bom siso; 5 O sábio ouvirá e crescerá em conhecimento, e o entendido adquirirá sábios conselhos; 6 Para entender os provérbios e sua interpretação; as palavras dos sábios e as suas proposições” ( Pv 1:1 -6)

 

O livro de Provérbios é classificado como um dos livros sapienciais do Antigo Testamento, e está inserido entre o Livro de Salmos e Eclesiastes na Bíblia.

Mas, qual o objetivo dos muitos provérbios elencados neste maravilhoso livro?

Seria um convite aos judeus para aguçar, manter e valorizar a cultura popular e religiosa do povo? Seria ensino de cunho moral e ético?

Segundo o que se abstrai da introdução do livro, o seu objetivo é muito maior que estabelecer uma cultura, fortalecer a religiosidade e difundir ensinamentos éticos e morais. Vejamos!

PROVÉRBIOS de Salomão, filho de Davi, rei de Israel

Na sua maioria os provérbios contidos no livro são atribuídos ao rei Salomão, filho de Davi, que foi um dos reis em Israel. Porém, no livro também há provérbios de outros autores.

Para se conhecer a sabedoria e a instrução;

para se entenderem, as palavras da prudência.

Para se receber a instrução do entendimento, a justiça, o juízo e a equidade;

Para dar aos simples, prudência, e aos moços, conhecimento e bom siso;

 

À semelhança da poesia hebraica, os provérbios possuem um quê poético, um ritmo forte de ideias, porém, difere dos salmos, que na sua maioria são cânticos proféticos compostos para serem entoados com instrumentos musicais de corda (Mizmor) ou sem instrumento (Shir).

A semelhança fica somente por conta do valor das ideias, como se dava com o cântico satírico (Mashal – termo derivado de uma raiz que significa “ser como”), que geralmente se dá por estabelecer comparações e equivalências entre as ideias.

A poesia hebraica valoriza a ideia em detrimento do ritmo e da rima, diferença significativa com relação à poesia ocidental.

A poesia hebraica é composta na essência de paralelismo, que é uma espécie de rima e ritmo de pensamentos, o que, consequentemente, estabelece um tipo de trava lógica entre a ideia antecedente e a consequente.

Há vários tipos de paralelismo na poesia hebraica e, construção similar ocorre nos provérbios, o que permite analisar as proposições através da lógica.

Qual a natureza dos provérbios de Salomão? É sabedoria humana ou sabedoria espiritual?

É sabedoria espiritual! Apresenta aos homens a sabedoria que é de cima ( Tg 3:17 ), visto que o ‘temor’ do SENHOR é o princípio da sabedoria.

O livro de provérbio constitui uma espécie de chave que permite interpretar os outros livros que compõe as Escrituras. Através dos provérbios é possível encontrar a ideia base de alguns termos que permitirá compreender uma verdade contida em outros livros.

Em outras palavras, o livro de provérbios é um catalisador que permite a compreensão de enigmas e parábolas que são apresentados em outros livros. Constitui-se uma chave mestra que permite abrir outros livros à compreensão.

Na introdução do livro tem-se o seu objetivo: “Para se conhecer a sabedoria e a instrução”, ou seja, o livro foi escrito com o propósito de tornar ‘conhecida’ a sabedoria e a instrução. Ele permite ao homem ‘entender’ as palavras da prudência ( Lc 11:31 ).

Quais são as palavras da ‘prudência’? Refere-se à palavra de Deus, que é Cristo, o Verbo encarnado.

O livro tem por objetivo capacitar o leitor a ‘entender’ os provérbios e sua interpretação. Por que é necessário entender os provérbios? Por que é necessário interpretá-los se eles são construídos com proposições simples?

É importante notar que o livro de provérbios tem o objetivo de dar entendimento ao ‘sábio’, e não ao tolo, o que parece ser um contra senso (v. 5). É o sábio que precisa de entendimento? Não seria o tolo? Ora, com relação às escrituras, sábio é aquele que se aplica ao temor do Senhor, ou seja, ao conhecimento da palavra de Deus. ‘Sábio’ não tem relação a quem é letrado ou versado no conhecimento humano.

Observe: “Naquele tempo, respondendo Jesus, disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos” ( Mt 11:25 ). O Senhor Jesus demonstrou que há um conhecimento que não é próprio aos sábios e entendidos deste mundo, e nesta descrição encaixa-se os religiosos judeus e as várias correntes filosóficas. A Sabedoria que vem de Deus consiste em ‘revelação’ reservada aos seus ‘pequeninos’, que é descrição própria de todos que O aceitam pela fé, não importando se rico ou pobre, leigo ou sábio.

Ou seja, o livro de provérbio tem o objetivo de ensinar a alcançar a sabedoria que vem do alto, diferente de outras disciplinas humanas que visa uma vida prudente baseada em fazer o que é correto, justo e digno segundo a moral e a ética.

Por ser uma frase curta, bem construída, que expressa uma ideia simples vincada na experiência humana, muitos só conseguem visualizar que os provérbios consistem em ensinamentos deduzidos da experiência que o povo tem da vida com o fito de orientá-los com relação às coisas deste mudo. É daí que surge o equívoco.

Não consegue ver a importância do livro no contexto geral das Escrituras. O livro de provérbios foi escrito especificamente para se compreender os provérbios, os adágios, os enigmas e as parábolas, pois esta seria a forma que Cristo utilizaria para falar com o povo de Israel ( Pv 1:6 ).

Para entender os provérbios e parábolas; os adágios e os enigmas dos sábios

O que entender com o seguinte provérbio:

“Livrar-te-á também da mulher adultera e da estrangeira, que lisonjeia com suas palavras, a qual deixou o companheiro da sua mocidade e se esqueceu da aliança do seu Deus” ( Pv 2:16 -17)

Um leitor culto ou leigo, somente verá neste provérbio um alerta de cunho moral, para que o homem não se deixe enlaçar por uma mulher adultera e, para os judeus, que não se envolvessem com mulheres estrangeiras.

Mas, quem tem o ‘conhecimento’ do Santo, vai olhar o provérbio e observar que o problema da ‘mulher adultera’ está na sua palavra, e não no apelo de ordem sexual, assim como o mau caminho dos versos anteriores está relacionado com as palavras de perversidade proferidas pelos judeus ( Pv 2:12 ). Observará que o provérbio faz referência a uma ‘mulher adultera’ específica, a que deixou a aliança com o seu Deus: Israel ( Pv 2:17 ).

Ou seja, a ‘mulher adultera’ é uma figura para falar da condição de Israel, que deixou a aliança com Deus, ou seja, representa a nação (homens) que segue após os seus caminhos e proferem palavras perversas, palavras estas que se equiparam com as ‘lisonjas’ de uma mulher adultera.

Se observarmos os profetas, verificamos a verdade real que há no provérbio:

“Foste como a mulher adúltera que, em lugar de seu marido, recebe os estranhos” ( Ez 16:32 ; Jr 3:20 ).

Jesus nada falava ao povo a não ser por parábolas, ou seja, quando Ele disse: “Mas ele lhes respondeu, e disse: Uma geração má e adúltera pede um sinal, porém, não se lhe dará outro sinal senão o do profeta Jonas” ( Mt 12:39 ), não estava acusando os fariseus de serem promíscuos, antes de terem deixado a aliança de Deus ( Mc 4:34 ).

Se os judeus soubessem interpretar os provérbios, saberiam que Cristo haveria em ensiná-los utilizando adágios da antiguidade, como profetizou o salmista Davi ( Sl 78:2 ).

Prova de que o provérbio não faz referência ao comportamento reprovável de uma mulher adultera reside no fato de Jesus oferecer a mulher samaritana água viva, embora ela estivesse com um marido que não lhe pertencia, sendo que já tivera cinco maridos ( Jo 4:18 ).

Com o auxilio dos provérbios é possível compreender porque Tiago chama alguns dos seus leitores, que estavam distorcendo a verdade bíblica de adúlteros “Adúlteros e adúlteras, não sabeis vós que a amizade do mundo é inimizade contra Deus? Portanto, qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” ( Tg 4:4 ).

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