O conflito na alma e o inimigo na alma

Enquanto Barclay analisa os termos gregos utilizados pelo apóstolo Paulo, que foram traduzidos por: adultério, prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices e glutonarias, a partir do comportamento desregrado dos gregos e dos romanos (esquecendo que o apóstolo Paulo não julga os que são de fora, mas os que são de dentro), não percebe que a lista das obras da carne foi feita a partir da apostasia dos filhos de Israel, que foram postos por exemplos.


O conflito na alma e o inimigo na alma

Este artigo tece considerações, em função do livro “As obras da carne e o fruto do Espírito”, de William Barclay, publicado pela editora ‘Edições Vida Nova’, em especial, sobre o capítulo I, que aborda duas questões: ‘O conflito na alma’ e ‘O inimigo na alma’.

 

O conflito na alma

O Dr. Barclay, já no primeiro parágrafo do seu livro, afirma que ‘A filosofia e a teologia são essencialmente uma transcrição e uma interpretação da experiência humana… ’, e conclui: ‘… e a experiência humana é de que há um conflito na alma humana’[1] Barclay, William, As obras da carne e o fruto do Espírito, Tradução Gordon Chown, Ed. Edições Vida Nova, SP, 1988. Pág. 13.

Apesar de citar trecho da carta do apóstolo Paulo aos Gálatas, tanto a asserção, quanto a conclusão de Barclay, não refletem a verdade exarada nas Escrituras. Primeiro, porque a filosofia não é matéria bíblica. Segundo, se esses, também, são os termos da teologia, uma transcrição e uma interpretação da experiência humana, não estamos falando de um estudo de Deus, mas, de uma matéria secular.

A Bíblia tem por base a revelação divina, não as experiências humanas. Por mais que a experiência humana diga que há um conflito na alma, a Bíblia não trata desses conflitos e nem se apoia nas experiências humanas. Por mais que evidências palpáveis aos sentidos humanos apontem a existência de um conflito na alma, a revelação das Escrituras, por ser a verdade, suplanta as experiências humanas.

Por mais que o pensamento judaico acerca do homem aponte para a existência de um conflito interno, conforme exarado na doutrina de yetserhatobh e yetserhara[2] (a natureza boa e a má), tal pensamento nada pode comunicar aos cristãos, pois a Bíblia é clara, aos dizer que os judeus não tem o conhecimento de Deus (Dt 32:28; Is 1:6; Os 4:6), portanto, a doutrina deles não é confiável.

No entanto, o Dr. Barclay busca, não só o pensamento judaico, mas, também, entre os gregos[3], evidencias para sustentar a sua asserção inicial e aponta para Platão que, no Fedro (246B), “descreve a alma do homem como o cocheiro, cuja tarefa é dirigir, em arreios duplos, dois cavalos, um dos quais é ‘nobre e de raça nobre’, e o outro é ‘o oposto na raça e no caráter’”. Barclay não para por aí e busca, entre Ovídio (Metamorfoses 7.20), Sêneca (Cartas 112.3), Epíteto (Discursos 2.11.1) e outros, evidenciar a tal ‘experiência humana’[4], que comprove que há um conflito na alma.

Barclay destaca dois escritores gregos: Platão e a sua obra Fédon, que narra às últimas horas de Sócrates e Filo, e acrescenta que este último estabeleceu uma ponte entre o pensamento hebraico e o grego e aquele influenciou incalculavelmente o pensamento cristão, e que ambos sublinharam em seus escritos que o corpo é eminentemente mal (idem, págs. 14 e 15).

A informação inicial apresentada por Barclay, de que o apóstolo ‘Paulo não foi, de modo algum, a primeira pessoa que viu a vida em termos do conflito interno’ (idem, pág. 13), não é verdadeira, pois, em suas epístolas, o apóstolo dos gentios não trata das experiências humanas e nem dos seus conflitos internos, mas, da ‘oposição’ entre o ‘mandamentos de homens’, que é contrário ao ‘mandamento de Deus’, ou seja, ‘carne’ versus ‘espírito’.

Quando o apóstolo Paulo afirma que a carne milita contra o espírito, ele tem em vista dois sistemas doutrinários antagônicos: os mandamentos dos homens e o mandamento de Deus. Aqueles que estão em Cristo Jesus, são os que andam no espírito, diferentemente daqueles que andam segundo a tradição dos homens, ou seja, segundo a carne.

“PORTANTO, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Rm 8:1).

A oposição entre a ‘carne’ e o ‘espírito’ descrita pelo apóstolo Paulo não é interna ao homem, pois o que ‘carne’ e ‘espírito’ disputam é o homem, na busca de sujeita-los ‘para que não façais o que quereis’ (Gl 5:17). A oposição entre carne e espírito, descrita pelo termo grego αντικειμαι (antikeimai), não diz de um embate, de um enfrentamento, mas, de oposição. Os que são segundo o evangelho, agradam a Deus, pois se sujeitam ao mandamento, que é crer em Cristo (At 10:35), mas os que são segundo a lei, ou seja, segundo as obras da carne, são inimigos de Deus, pois não se sujeitam ao mandamento de Deus (Rm 8:7-9).

A má leitura de Barclay se deve à falta de compreensão, acerca do termo grego ‘pneuma’, quando empregado pelo apóstolo Paulo, em certos contextos, nas suas epístolas.[5]

O problema exposto na base de um dilema, se o pneuma (espírito), faz parte do homem ou, se é uma parte do homem após ele se tornar cristão, demonstra o quanto a incompreensão de certos termos gregos empregados no Novo Testamento interferiu na leitura e na compreensão de Barclay. Pela incompreensão do tema, Barclay cita J. E. Frame, que, por sua vez, cita Teodoro de Mopsuéstia (ou, Teodoro de Antioquia; 350-428), somando-se erro sobre erro:

“Deus nunca colocou os três, a alma, o espírito e o corpo, num descrente, mas somente nos crentes. Destes, a alma e o corpo são naturais, mas o espírito é um benefício (euergesia) especial para nós, uma dádiva da graça aos que creem”. Teodoro de Mopsuéstia.

Em primeiro lugar, o homem, seja ele crente em Cristo ou, não, só é homem, porque é formado por corpo, alma e espírito. É impossível ao homem ser homem sem corpo, da mesma forma que é impossível ao homem ser o que é sem a alma e o espírito. O espírito que compõe a natureza do homem, tanto natural, quanto espiritual, não diz da dádiva da graça ou de um dom de Deus para a natureza humana redimida.

Todos os homens possuem um corpo constituído de matéria orgânica, formado do pó da terra (Gn 2:7) e Cristo, ao se tornar homem, também teve que ser participante de carne e sangue (Hb 2:14 e 16; Sl 139:13-16; Sl 22:9-10; Sl 40:6). Todos os corpos dos homens são constituídos de matéria orgânica e semelhantes entre si, pois, todos vem do pó e ao pó retornam.

Todos os homens possuem um espirito criado por Deus, exceto Jesus Cristo-homem, visto que o próprio espirito do Verbo eterno esvaziou-se a si mesmo do seu poder e glória e se faz homem, sendo introduzido pelo Altissimo no ventre de Maria, no corpo que lhe foi preparado, sem vínculo com a semente de Adão (Hb 10:5; Fl 2:7).

Todos os homens possuem uma alma, que muitos se referem como a sede dos sentimentos, emoções e desejos dos homens. No entanto, a alma é a identidade do espírito, que unido ao corpo passa a existir dotado de sentimentos, emoções e desejos. Um espírito unido a um corpo, distingue-se dos demais espíritos, quando são unidos a um corpo pela concepção e a alma diz da individualidade do espírito, que o distingue dos demais.

Todos os espíritos dos homens, quando criados por Deus, são idênticos entre si, sem nada que os distingam. Quando do nascimento do homem, em que há a união entre o corpo e o espírito, temos uma alma vivente: um espírito que é único, pela identidade que adquire, através da sua alma.

Os seres angelicais são espíritos e quando criados, o foram de uma única vez, cada qual com a sua identidade e individualidade, distintos um do outro, diferentemente do homem, no qual a identidade e a individualidade do espírito se dá, quando unido ao corpo.

Se Deus retirar o espírito e o fôlego que concedeu ao homem, imediatamente, todos sem exceção, expiram e voltam ao pó da terra (Jó 34:14). O fôlego está relacionado à vida do corpo, constituído de matéria orgânica (Jó 33:4-6) e o espírito está relacionado à existência do homem, o que permite compreender os eventos à sua volta (Jó 38:36). Sem o espírito, o homem seria semelhante aos animais, que se guiam por instintos, ou seja, sem compreender os eventos à sua volta (Sl 32:9).

É próprio do espírito do homem ter e expressar sua opinião, ante os eventos que o cercam por intermédio do corpo, ou seja, através dos lábios (Jó 32:17-20). Eliú, filho de Baraquel, o buzita, antes de ouvir Jó e os seus amigos, achava que era próprio aos mais velhos ensinarem sabedoria e, por isso, tinha receio de expor a sua opinião (Jó 32:6-7). Ao ouvir os mais velhos, Eliú decepcionou-se e chegou à conclusão de que os mais velhos não são os mais sábios e nem os idosos tem conhecimento do que é mais correto (Sl 32:9). Embora fosse consenso à época de Eliú que a sabedoria e o conhecimento eram próprios aos mais velhos, o jovem Eliú conseguiu abstrair, através do que ouviu da discusão dos amigos de Jó, que não era assim.

Como é próprio a todos os homens ter um espírito (o sopro do Senhor Todo Poderoso), Eliú compreendeu que o entendimento e a sabedoria são, igualmente, alcançados por todos, independentemente de ter ou não idade avançada, o que fez com que aquele jovem expressasse a sua opinião diante de alguns velhos (Jó 32:8 e 17).

“Pensava eu: ‘Que a experiência fale mais alto e os muitos anos de vida ensinem a sabedoria’. Contudo, o homem tem um espírito e o sopro de Shaddai, o Todo-Poderoso, que lhe proporciona entendimento. Não são apenas os mais velhos, os maiores e mais sábios, nem os mais idosos que têm o conhecimento do que é mais certo” (Jó 32:7-9).

O espírito do homem não é um entendimento, antes o entendimento é uma faculdade do espírito, que o torna capaz de raciocinar, considerar, compreender, etc. Ao nascer, o homem é um ser terreno, dotado de um espírito, com a faculdade de compreensão, aprendizagem, interação, etc. Entretanto, o discernimento do homem precisa ser exercitado, assim como o corpo, para que possa se desenvolver, até chegar à maturidade, tornando-se apto a discernir entre o bem e o mal (Is 7:16; Hb 5:14).

O espírito do homem, paulatinamente, cresce em entendimento quando interage com o mundo, e isso por intermédio do seu corpo. Deus soprou no homem o fôlego da vida e, assim, este tornou-se alma vivente, dotado de um espírito. O entendimento de Adão só veio através da interação que ele tinha com Deus na virada do dia e com a vivência no jardim do Éden e, assim, é com todos os seus descendentes, pois os filhos interagem com os pais.

A consideração de Teodoro de Mopsuéstia é equivocada, pois, todos os homens, sem exceção, são constituídos de corpo, alma e espírito. Na morte física, o corpo volta ao pó, porém, o espírito, que volta para Deus, jamais se dissocia da alma, pela eternidade. Todo homem, primeiro, teve o corpo formado do pó da terra, através da herança de carne e sangue, que recebe dos pais; em seguida, um espírito, que procede de Deus e, por fim, surge a alma, como identidade do espírito. Ao morrer,o corpo volta para o pó da terra, porém, espírito e alma seguem para a eternidade, quando os homens ressurgirão com corpo glorioso ou, em ignomínia.

Mas, o que é o ‘pneuma’, como dom de Deus, que é próprio à natureza redimida do crente em Cristo? Por ‘natureza redimida’, entende-se como o homem de novo gerado, por meio da palavra do evangelho, que é semente incorruptivel.

O termo grego ‘pneuma’ (espírito), além de se referir a um dos elementos imateriais do homem criado por Deus, também, é utilizado para fazer referência à mensagem do evangelho. O termo ‘espírito’ é utilizado para fazer referência a uma doutrina, assim como o termo ‘fé’, que contém, em seu bojo, a ideia de ‘verdade’. É com esse significado que Jesus afirmou que as suas palavras são ‘espírito e vida’ (Jo 6:63).

Adão, ao pecar, separou-se de Deus, ou seja, morreu. Todos os descendentes de Adão, igualmente, alienaram se de Deus, ou seja, estavam mortos em delitos e pecados (Ef 2:1). O termo ‘morte’ é empregado no sentido de ‘separação’, não no sentido de término das funções vitais. Para a cessação das funções vítias do individuo, o escritor do Gênesis utilizou a expressão ‘voltar ao pó’.

Mas, como o homem volta à comunhão com Deus? Em outras palavras, como o homem é vivificado? Através do espírito, ou seja, pela palavra de Deus (Dt 8:3), pois, por ela, é criado um novo homem (Ef 4:23).

É por isso que o Verbo eterno se fez carne, pois o mandamento de Deus, dado através de Cristo, concede vida aos que creem! Esse mandamento (espirito) é concedido gratuitamente (1 Jo 3:23; Jo 3:16), pois, é dito: pela graça sois salvos! (Ef 2:8). O homem é salvo por meio da ‘verdade anunciada’ (Gl 3:1), que é a ‘fé’, ou seja, evangelho, espírito (Rm 1:16), a fé, que de uma vez foi dada aos santos (Jd 1:3), a palavra anunciada pelos ministros do espírito.

O apóstolo Paulo foi feito ministro do espírito, ou seja, de um Novo Testamento:

“O qual nos fez, também, capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica” (2 Co 3:6).

É por isso que o apóstolo Paulo faz referência a Cristo como o último Adão, o espírito vivificante:

“Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante” (1 Co 15:45).

O espírito do homem regenerado é o mesmo, antes de ser gerado de novo, porém, o que muda é o espírito como mensagem, entendimento, o que se dá no arrependimento. O arrependimento, essencialmente, é uma mudança de espírito, ou seja, de compreensão, acerca de como ser salvo. O espírito dos escribas e fariseus era de que estavam salvos, por serem descendentes da carne de Abraão, mas com o evangelho, deveriam mudar de concepção, espírito, pois a salvação se dá por Cristo, o reino dos céus que era chegado (Mt 3:2 e 8-9).

É pelo espírito (mensagem) do evangelho que sabemos que Deus está em nós e nós n’Ele (1 Jo 3:24). Quem é gerado de novo pelo espírito, é espiritual (Jo 3:6) e quem foi gerado segundo a carne, é carnal, sendo que o espírito (mensagem que acredita ser a verdade) deste, consiste em mandamento carnal e daquele, ‘poder da vida incorruptível’ (Hb 7:16) .

Outro equívoco, é entender que é por meio do pneuma, como espírito do homem[6], que Deus pode falar aos homens, ou que os homens podem ter comunhão com Deus. O pneuma, que Deus fala aos homens, diz da sua palavra, da sua mensagem anunciada por Cristo. É somente por meio do evangelho, que é espirito e vida, que o homem tem comunhão com Deus. O homem possui um espírito, mas não é esse espirito que tem comunhão com Deus ou que torna possível ouvir a Deus.

Watchman Nee, em seu livro, ‘O homem espiritual’ incorre no mesmo erro de Barclay, ao afirmar que:

“É através do espírito que temos comunhão com Deus e somente por ele podemos compreendê-lo e adorá-lo. Por isso se diz que ele é o elemento que nos confere consciência de Deus. Deus habita no espírito; o eu, na alma; e os sentidos, no corpo (…) Por meio do seu espírito, o homem se relaciona com o mundo espiritual e com o Espírito de Deus…” Nee, Watchman, ‘O homem espiritual’ Vol. 1, Editora Betânia – Belo Horizonte, 2002, Pág. 34.

Deus não habita no espírito do homem, mas, no seu corpo:

“Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?” (1 Co 6:19).

O corpo do crente não está em posição inferior ao seu espírito, pois o corpo pertence ao Senhor e o Senhor ao corpo (1 Co 6:13). Ao crer em Cristo, o homem une-se ao Senhor em um só espírito (1 Co 6:17; Ef 2:18), tornando-se, assim, membro do corpo de Cristo (1 Co 6:15). É pelo espírito do evangelho que o homem tem acesso a Deus, por isso, é dito um só espírito (Ef 2:18; Ef 4:4).

Após a queda de Adão, todos os seus descendentes são concebidos todos em pecado, ou seja, em corpo, alma e espírito. Esses elementos não se dividem, não há um mais nobre que o outro, ou seja, o corpo inferior e o espírito superior. É, eminentemente, platônica a ideia de que o espírito é mais nobre[7] que o corpo e o corpo, inferior. Todos os elementos que compõem a natureza do homem estão, igualmente, separados de Deus, sem comunhão, por causa da pena imposta, em decorrência da ofensa de Adão: morte.

Quando o homem crê em Cristo, por intermédio da palavra do evangelho, é purificado, completamente, pelo lavar regenerador do espirito (palavra), de modo que o seu corpo, alma e espírito são plenamente santificados e conservados irrepreensíveis.

“E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito,  alma e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso SENHOR Jesus Cristo” (1 Ts 5:23).

Deus não se comunica com o espírito do homem, como se fosse autônomo do corpo, antes, se comunica com o homem, através do evangelho, o qual o apóstolo Paulo foi feito ministro, e esse homem é corpo, alma e espírito. Para Deus comunicar-se com o homem, é necessário alguém que pregue e que o homem ouça, e isso só é possível através dos ouvidos, ou seja, através do corpo.

“Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? como está escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam o evangelho de paz; dos que trazem alegres novas de boas coisas. Mas nem todos têm obedecido ao evangelho; pois Isaías diz: SENHOR, quem creu na nossa pregação? De sorte que a fé é pelo ouvir e o ouvir pela palavra de Deus” (Rm 10:14-17).

Adão foi formado do pó da terra e Deus soprou-lhe nas narinas o fôlego de vida, concedendo-lhe, além do corpo formado do pó da terra, um espírito, tornando-se assim alma vivente (Gn 2:7). No Éden, Deus se comunicava com o homem pessoalmente, e não com o seu espírito, como se o espírito de Adão fosse independente do corpo.

O Verbo eterno, ao se fazer homem, também, lhe foi preparado um corpo por Deus (Sl 40:6) e Ele foi lançado no ventre de Maria (Sl 22:9-10). Por não ser gerado do sangue, da vontade da carne e do varão, Cristo veio ao mundo sem pecado. O corpo de Cristo não era menos nobre que o seu espírito e alma, tanto que Deus garantiu que nenhum dos seus ossos seriam quebrados (Sl 34:20). Deus ressuscitou o corpo de Cristo e o glorificou, o que demonstra que o corpo não é menos nobre que o espírito.

O termo ‘pneuma’ é utilizado para fazer referência, tanto a Deus, como o Espírito eterno; ao homem, como alma vivente; à parte imaterial do homem criada por Deus; ao evangelho como doutrina; e, ao Espírito Santo. Se o leitor não souber distinguir essas nuances, quanto à aplicabilidade do termo, através do contexto onde empregado, acabará fazendo uma leitura equivocada.

Cristo falou que enviaria o Consolador, ao fazer referência à terceira pessoa da trindade; em outras passagens, é dito que Deus envia o seu espírito, ou o espírito do Seu Filho, uma referência ao evangelho de Cristo; em outras passagens, o Espírito Santo é apresentado fazendo morada no cristão, assim como o Pai e o Filho.

O posicionamento de Barcley é equivocado, conforme se lê:

“Se for assim, o cristão é distintivamente um homem em quem esta presença e poder tem entrado como não podem entrar em outros homens. Então, seria verdadeiro dizer que o espírito do cristão não é outra coisa senão o Espírito Santo fazendo Sua habitação no homem, e dando à vida deste uma paz, uma beleza e poder que simplesmente não estão disponíveis nem são possíveis ao homem não-cristão” Idem, Pág. 17.

O espírito do homem é o homem e o Espírito Santo é a divindade, em comunhão com o homem, o que ocorre pela palavra de Deus que, também, é denominada espírito.

“Que não vos movais facilmente do vosso entendimento, nem vos perturbeis, quer por espírito, quer por palavra, quer por epístola, como de nós, como se o dia de Cristo estivesse já perto” (2Ts 2:2)

Quando o apóstolo Paulo escreve aos cristãos desejando que a bênção de Deus estivesse com eles, assim o faz dizendo: ‘A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja com o vosso espírito’ (Gl 6:18, Fl 4:23 e Fm 25). A graça de Deus não pode estar com o espírito dos não cristãos, mas é afeta aos espíritos dos cristãos.  Espírito foi empregado por Paulo como indivíduo, não como uma personalidade cristã.

Os termos gregos arraboñ (penhor) e sfragizein (selar) que o apóstolo Paulo utilizou em conexão com o termo pneuma, não significa que o espírito do homem é a presença e o poder de Deus dentro dele. Na verdade, o apóstolo Paulo estava demonstrando que, ao Jesus conceder o Consolador, os cristãos foram selados, sendo o Consolador uma garantia da herança dos cristãos (Ef 1:13-14).

O erro de interpretação de Barcley torna-se mais nítido, quando ele faz referência à passagem bíblica de Romanos 8, versos 1 à 17, quando ele conclui que a passagem trata do Espírito de Deus e do espírito do homem.

“Este fato é exposto de modo mais claro na passagem mais rica de Paulo a respeito do Espírito Santo e o espírito do homem” Idem. Pág. 19.

A passagem de Romanos 8 apresenta o evangelho como antagônico ao mandamento de homens, ou seja, o espírito antagônico à carne, não o espírito do homem e o Espírito Santo, até porque, segundo Barclay, o homem sem Deus não tem espirito[8], e outras vezes tergiversa[9] sobre essa questão. O espírito que faz do homem um cristão diz do evangelho, não do Espírito Santo, que guia o homem a toda verdade.

Além de fazer referência ao homem, através do termo pneuma, o apóstolo Paulo faz uso do termo psuché, traduzido por alma. O termo é utilizado para fazer referência ao homem como individuo, ou, para fazer referência à humanidade (Rm 2:9; Rm 13:1), ou, à própria existência do individuo com vida física (Rm 16:4).

O adjetivo psuchikos, também é utilizado para classificar o individuo como natural, o que o desqualifica para compreender, por si só, as coisas de Deus, o que só é possível através da revelação do evangelho (1 Co 2:14).

 

O inimigo na alma

Mas, com o homem é pneuma, psuchê e sõma, verifica-se que este último termo é utilizado para fazer referência ao corpo constituído de matéria orgânica. Há passagens que utilizam o termo sõma para fazer referência ao homem sujeito ao pecado, em que o corpo é figura utilizada para fazer referência ao homem, como pertencente ao pecado, por causa da ofensa de Adão. O corpo físico é apresentado como corruptível, mas, os cristãos aguardam a sua incorruptibilidade, vez que, o que é mortal, será revestido da imortalidade.

Geralmente, o termo sõma possui um sentido negativo, quando empregado como figura, para descrever a realidade do homem sem Deus, ou, positivo, quando a serviço de Deus, mas no geral, o corpo físico não é nem bem nem mal.

O apóstolo Paulo também utiliza o termo sarx, comumente traduzido por carne, e Barclay interpreta que o tal conflito da alma se dá pela oposição carne e espírito.

“i. Sarx é a inimiga mortal do pneuma. O conflito na alma é exatamente entre a carne, para usar a tradução comum da palavra, e o espírito. ‘Estes,’ diz Paulo, ‘são opostos entre si’ (Gl 5:17). Qualquer que seja, uma outra verdade a este respeito, estas duas são forças opostas dentro da existência humana” Idem. Pág. 20.

Apesar de confessar que o termo sarx não possui uma tradução adequada, Barclay se lança a comentar o que é a carne. No item 5[10], Barclay aponta que, em certos contextos, o termo ‘carne’ significa ‘julgando por padrões humanos’. Ora, carne refere-se à concepção dos judeus, segundo o mandamento de homens que foram instruídos, o que se opõe ao evangelho, que é revelação de Deus em Cristo.

A Bíblia não trata de nenhum conflito na alma, mas, da carne como doutrina, e o espírito como doutrina. Os homens que são segundo a carne, se inclinam para as coisas da carne, que são: circuncisão, nacionalidade, tribo, genealogias, etc. A inclinação da doutrina, segundo a carne é morte, pois, não é segundo a lei de Deus e todos que seguem a carne não podem agradar a Deus.

Há passagens em que o apóstolo Paulo utiliza o termo para fazer referência a uma doutrina e, em outras, ele utiliza o termo para fazer referência às pessoas que vivem segundo essa doutrina. Os sábios, segundo a carne, diz daqueles que são versados na doutrina de homens (1 Co 1:26).

E por que o termo ‘carne’ passou a ser empregado como sinônimo da doutrina dos judaizantes? Porque a circuncisão se dá no prepúcio da carne, símbolo da aliança que Deus fez com os descendentes de Abraão, e que os judeus tomaram por símbolo de salvação.

Como todos os homens são constituídos, fisicamente, de carne, o termo, também, foi utilizado para fazer referência à humanidade (Rm 3:20), entretanto, o uso mais comum, é para retratar o pensamento judaico, que faz da sua carne o seu braço.

“Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, que faz da carne o seu braço, e que aparta o seu coração do SENHOR!” (Jr 17:5).

É por isso que o apóstolo Paulo alerta que, apesar de Jesus descender de Davi, segundo a carne, pelo vinculo de sangue com Maria, contudo, não podemos considerá-lo segundo esses parâmetros e nem a ninguém (2 Co 5:16). Isso porque, qualquer que era alguma coisa, segundo a carne, não tem o que comunicar a quem está em Cristo (Gl 2:6).

Viver na carne é o inverso de ser cristão, se considerarmos o judaísmo, que é a essência da carne. Daí, conclui-se que o apóstolo Paulo, como os filósofos, nunca tratou de um conflito na alma, mas, da oposição lei e evangelho, como água e óleo.

A ilustração que Barclay faz da carne é totalmente descabida, pois, a Bíblia apresenta o homem como em pecado, desde o nascimento, portanto, não há que se falar que é através da ‘carne’ que o pecado invade o homem [11]. O homem é formado em iniquidade e concebido em pecado (Sl 51:5), desvia-se desde a madre e anda errado desde que nasce,  proferindo mentiras (Sl 58:3).

O pecado não precisa ‘entrar’ no homem, porque o homem já está sujeito ao pecado como escravo.

Por fim, Barckay passa a descrever as ‘obras da carne’ e, pelo erro inicial, com relação à carne e ao espírito, a leitura que faz das obras da carne e do fruto do espírito não passa de um equivoco generalizado.

Enquanto Barclay analisa os termos gregos utilizados pelo apóstolo Paulo, que foram traduzidos por: adultério, prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices e glutonarias, a partir do comportamento desregrado dos gregos e dos romanos (esquecendo que o apóstolo Paulo não julga os que são de fora, mas os que são de dentro), não percebe que a lista das obras da carne foi feita a partir da apostasia dos filhos de Israel, que foram postos por exemplos.

Como Deus não se agradou dos filhos de Israel, e por isso muitos pereceram no deserto, eles foram feitos figuras, para que não incorramos no mesmo exemplo de desobediência.

“E estas coisas foram-nos feitas em figura, para que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram. Não vos façais, pois, idólatras, como alguns deles, conforme está escrito: O povo assentou-se a comer e a beber e levantou-se para folgar” (1 Co 10:6-7).

A lista de obras da carne tem em vista os cristãos utilizarem da lei, legitimamente, não como os que vivem, segundo a carne, pois a lei foi feita para os judeus, homens injustos e obstinados.

“Querendo ser mestres da lei e não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam. Sabemos, porém, que a lei é boa, se alguém dela usa, legitimamente; Sabendo isto, que a lei não é feita para o justo, mas para os injustos e obstinados, para os ímpios e pecadores, para os profanos e irreligiosos, para os parricidas e matricidas, para os homicidas, para os devassos, para os sodomitas, para os roubadores de homens, para os mentirosos, para os perjuros e para o que for contrário à sã doutrina, conforme o evangelho da glória de Deus bem-aventurado, que me foi confiado” (1 Tm 1:7-11).

Vale destacar que a experiência universal da vida[12] nada pode nos comunicar com relação à verdade das Escrituras, pois, esta, é revelação e aquela, sabedoria humana, em que a sabedoria humana, invariavelmente, desembocará em mandamentos tais como: “Não toques, não proves, não manuseies” (Cl 2:21).

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto

 


[1]“A filosofia e a teologia são essencialmente uma transcrição e uma interpretação da experiência humana, e a experiência humana é de que há um conflito na alma. Para Paulo, tratava-se de uma guerra entre duas forças opostas que chamava de carne e espírito. “Porque a carne milita contra o Espírito,” disse ele, “e o Espírito contra a carne, porque são opostos entre si” (Gl 5.17).” Barclay, William, As obras da carne e o fruto do Espírito, Tradução Gordon Chown, Ed. Edições Vida Nova, SP, 1988. Pág. 13.

[2]“No homem, conforme entendiam, havia duas naturezas, de modo que este sempre estava na situação de alguém que é atraído para duas direções ao mesmo tempo (…) O impulso mau estava espreitando o homem quando emergia do ventre, porque ‘o pecado jaz à porta,’ ou seja: à porta do ventre (Gn 4.7; Sanhedrin 91b) e no decurso de toda vida do homem, permanecia ‘seu inimigo implacável’ (Tanhuma, Beshallah 3). O conflito na alma fazia parte da herança da crença judaica” Barclay, William, As obras da carne e o fruto do Espírito, Tradução Gordon Chown, Ed. Edições Vida Nova, SP, 1988. Pág. 13.

[3]“O cavalo nobre é a razão e o cavalo indócil é a paixão; o cavalo de natureza má ‘sobrecarrega o carro’ e o arrasta para a terra. Aqui, também, há o mesmo quadro de guerra e tensão, sempre com a terrível possibilidade da ruína como consequência”.  Idem.

[4]“O mal do corpo veio a ser uma das ideias dominantes do pensamento hebraico. SômaSêma, o corpo é um túmulo, dizia o provérbio rimado órfico. O corpo, disse Filolao, é uma casa de detenção onde a alma é aprisionada para expiar seu pecado. Epíteto pode dizer que tem vergonha de possuir um corpo, que é uma ‘pobre alma algemada a um cadáver’ (Fragmento 23). Sêneca fala da ‘habitação detestável’ do corpo e da carne vã a que a alma está aprisionada (Cartas 92.110). ‘Desprezem a carne,’ diz Marco Aurélio, ‘sangue e ossos e a rede que é uma meada torcida de nervos, veias e artérias’ (Meditações 2.2).

[5]“Descobrir o que Paulo quer dizer com espírito, o pneuma, não é totalmente fácil. A dificuldade torna-se clara quando comparamos diferentes textos gregos do NT com diferentes versões, porque as versões não concordam entre si quanto à ortografia de espírito e pneuma, com ou sem maiúscula inicial, ou seja, quando a referência diz respeito ao Espírito de Deus ou ao espírito do homem (…) Mas, o verdadeiro problema é saber se o pneuma, o espírito, faz parte do homem propriamente dito, ou se é apenas uma parte do homem depois de ele se tornar cristão; se o pneuma faz parte da natureza humana ou se é o dom de Deus para a natureza humana redimida” Idem. Pág. 17.

[6]“Ainda mais, o pneuma é o elo entre Deus e o homem; é através do pneuma que Deus pode falar aos homens e que os homens podem ter comunhão com Deus” Idem. Pág. 17.

[7]“Por intermédio da alma, o espírito pode subjugar o corpo, para que obedeça a Deus. Da mesma forma, o corpo, através da alma, pode levar o espírito a ter amor pelo mundo. Desses três elementos, o espírito é o mais nobre porque se une com Deus. O corpo é inferior, pois está em contato com a matéria” Nee, Watchman, ‘O homem espiritual’ Vol. 1, Editora Betânia – Belo Horizonte, 2002, Pág. 34.

[8]“Pode ser dito que para Paulo o espírito do homem é o poder de Deus que nele habita ou, num outro modo de expressar o fato, é o Cristo ressurreto que reside nele” Idem. Pág. 19.

[9]“Além disso, é exatamente a possessão desse espirito que torna o homem diferente da criação animal” Idem. Pág. 17.

[10]“v. Paulo usa sarx em frases e contextos onde usaríamos uma frase tal como: ‘julgando por padrões humanos” Idem. Pág. 21.

[11]“A essência da carne é a seguinte. Nenhum exército pode invadir um país pelo mar a não ser que possa obter uma cabeça de ponte. A tentação não teria a capacidade de afetar os homens, a não ser que houvesse algo já existente no homem que correspondesse à tentação. O pecado não poderia obter nenhuma cabeça de ponte na mente, coração, alma e vida do homem a não ser que houvesse um inimigo dentro dos portões que tivesse disposto a abrir a porta para o pecado. A carne é exatamente a cabeça de ponte, através da qual o pecado invade a personalidade humana. A carne é como o inimigo do lado de dentro e que abre o caminho para o inimigo que está forçando a porta” Idem. Pág. 24.

[12]“Mas de onde vem esta cabeça de ponte? De onde surgiu este inimigo do lado de dentro? É experiência universal da vida que um homem pela sua conduta capacita-se ou não a experimentar certas coisas” Idem. Pág. 24.

Ler mais

O reino dos céus, os ricos e os pobres

Devido às diversas leituras acerca do tema ‘riqueza’ versus ‘reinos dos céus’ surgiram propostas teológicas como o ‘evangelho social’ e a ‘teologia da libertação’…

 


“Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?”  ( Lc 12:20 )

 

Como interpretar a parábola do rico insensato?

“E propôs-lhe uma parábola, dizendo: A herdade de um homem rico tinha produzido com abundância; E ele arrazoava consigo mesmo, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos. E disse: Farei isto: Derrubarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens; E direi a minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus” ( Lc 12:16 -21).

Após a leitura da parábola, podemos perguntar: o evangelho de Cristo é avesso aos ricos? Ser abastado financeiramente e ser salvo é impossível? Para ser um discípulo de Cristo é necessário ser desprovido de bens materiais? Deus não aceita os abastados de bens materiais? Ao homem que faz planos de angariar fortuna com o fito de viver abastado é negado acesso a graça de Deus?

Devido às diversas leituras acerca do tema ‘riqueza’ versus ‘reinos dos céus’ surgiram propostas teológicas como o ‘evangelho social’ – movimento protestante norte-americano (1880-1930) sob influência do liberalismo teológico que pretendia apresentar uma resposta ‘cristã’ à situação de miserabilidade dos trabalhadores e imigrantes – e a ‘teologia da libertação’ – movimento que surgiu na América Latina em meados do século 20, articulado por teólogos católicos e protestantes, que diante das injustiças e exclusão social fomentado por um quadro de grandes tensões políticas, econômicas e sociais, levantaram uma bandeira centrada na ideia de um Deus ‘libertador’.

Mas, qual é a proposta de Jesus ao propor a parábola do rico louco? Ele buscava uma transformação econômica e social das sociedades à época, ou uma revolução na mentalidade (metanoia) de seus ouvintes acerca de questões relativas ao reino dos céus?

 

A parábola

O primeiro passo para compreender a parábola do rico insensato é entender porque Jesus utilizava parábolas para falar ao povo de Israel. A resposta para esta pergunta é objetiva e foi apresentado pelo próprio Cristo: “Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não veem; e, ouvindo, não ouvem nem compreendem” ( Mt 13:13 ; Is 6:9 ).

Ora, Jesus falava à multidão por parábola porque estava previsto que o Messias proporia aos seus ouvintes enigmas antigos “Abrirei a minha boca numa parábola; falarei enigmas da antiguidade” ( Sl 78:2 ; Mt 13:35 ). Enquanto Jesus cumpria as Escrituras falando ao povo por parábolas, o povo, por ser de dura servis, viam, ouviam e não compreendiam.

O povo de Israel devia saber que Deus não falava abertamente (sem enigmas) com eles porque foi justamente isto que pediram quando não confiaram em Deus “E disseram a Moisés: Fala tu conosco, e ouviremos: e não fale Deus conosco, para que não morramos” ( Êx 20:19 ); “Filho do homem, propõe um enigma, e profere uma parábola para com a casa de Israel” ( Ez 17:2 ). Ouvir a voz de Deus sem enigmas era um privilegio de Moisés “Boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas; pois ele vê a semelhança do SENHOR; por que, pois, não tivestes temor de falar contra o meu servo, contra Moisés?” ( Nm 12:8 ).

Uma característica fundamental da palavra de Deus são as parábolas e os seus enigmas. O fato de Jesus falar por parábolas era um sinal de que Jesus era o Cristo e que falava as palavras de Deus “Porque eu não tenho falado de mim mesmo; mas o Pai, que me enviou, ele me deu mandamento sobre o que hei de dizer e sobre o que hei de falar” ( Jo 12:49 ).

Como o povo de Israel não prestou atenção na mensagem de Jesus como o enviado de Deus, antes se escandalizaram por pensarem que Ele era filho de José e Maria ( Mt 13:54 -57), a profecia de Isaias cumpriu-se neles: “E neles se cumpre a profecia de Isaías, que diz: Ouvindo, ouvireis, mas não compreendereis, e, vendo, vereis, mas não percebereis” ( Mt 13:14 ).

A exposição das parábolas ao povo era segundo a medida que podiam compreender, porém, os enigmas escapavam até mesmo aos discípulos, que em particular eram instruídos “E com muitas parábolas tais lhes dirigia a palavra, segundo o que podiam compreender. E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” ( Mc 4:33 -34); “E disse-lhes: Não percebeis esta parábola? Como, pois, entendereis todas as parábolas?” ( Mc 4:13 ).

Os filhos de Jacó não ouviam, não compreendiam e não percebiam, não em função de Deus querer turvar-lhes o entendimento, antes não ouviam, não compreendiam e não percebiam porque eram de dura servis, ou seja, não se sujeitavam a Deus para obedecê-Lo “Porque o coração deste povo está endurecido, E ouviram de mau grado com seus ouvidos, E fecharam seus olhos; Para que não vejam com os olhos, E ouçam com os ouvidos, E compreendam com o coração, E se convertam, E eu os cure” ( Mt 13:15 ).

Quando Jesus contava uma parábola utilizava relações humanas, eventos do dia a dia, questões materiais, etc., porém, o foco era apresentar ao povo questões espirituais e que já foram abordadas nas Escrituras “Ele, respondendo, disse-lhes: Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhes é dado” ( Mt 13:11 ).

Por exemplo: quando Jesus conversou com Nicodemos e lhe disse que o vento sopra onde quer e ouve-se a sua voz, aparentemente foi utilizado eventos do cotidiano para explicar o novo nascimento, porém, Jesus citava as Escrituras “Se vos falei de coisas terrestres, e não crestes, como crereis, se vos falar das celestiais?” ( Jo 3:12 ; Ec 11:5 ).

O leitor das Escrituras precisa estar alerta, pois todas as parábolas contêm enigmas a serem desvendados. Interpretar uma parábola sem considerar os enigmas contidos nela é má conclusão na certa. Geralmente as parábolas apresentadas no Novo Testamento foram contadas para expor uma verdade defendida pelos profetas, salmos, provérbios e a lei.

 

Sombra, mentira, vaidade

“Na verdade, todo homem anda numa vã aparência; na verdade, em vão se inquietam; amontoam riquezas, e não sabem quem as levará” ( Sl 39:6 )

A parábola do rico ‘louco’ foi contada para evidenciar ao povo de Israel uma verdade contida no salmo 39, verso 6: ‘todo homem anda numa vã aparência’, ou seja, é como uma ‘sombra’, alienado de Deus que é a verdade o homem é ‘mentira’.

O salmo não exclui os judeus desta condição quando diz: todo homem anda numa vã aparência!

O verso 6 do Salmo 39 é inclusivo como o Salmo 53: “Deus olhou desde os céus para os filhos dos homens, para ver se havia algum que tivesse entendimento e buscasse a Deus. Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um” ( Sl 53:2 -3).

Todos os homens se desviaram e juntamente se fizeram imundo, quer sejam gentios quer judeus. Todos juntamente se desviaram, e andam numa ‘vã aparência’. Por causa da separação decorrente da ofensa no Éden, todos os homens são comparáveis a uma sombra.

O salmo 58 enfatiza a mesma ideia: “Desviam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nascem, proferindo mentiras” ( Sl 58:3 ). Todos os homens se desviaram de Deus, de modo que todos os que nascem da madre são ímpios, ou seja, proferem mentiras, quer sejam gentios ou judeus.

Como todos os homens vêm ao mundo proveniente da madre e os ímpios desviam-se na madre, certo é que todos os homens por serem gerados segundo a semente corruptível de Adão são ímpios.

Diante desta verdade evidenciada nas Escrituras, os judeus equivocadamente julgavam que a lei, os profetas e os salmos protestavam exclusivamente contra os gentios, e que somente os gentios se desviaram de Deus por não serem descendentes da carne de Abraão.

Por serem descendentes da carne de Abraão, quando os judeus liam que ‘todos se desviaram de Deus’, prevaricavam quanto à interpretação, pois entendiam que as Escrituras protestavam somente contra os gentios, uma vez que os judeus entendiam que estava em uma condição diferenciada frente aos gentios por ter recebido a lei por intermédio de Moisés.

Ao falar do tema, o apóstolo Paulo demonstrou que tudo o que a lei diz, dizia aos que estavam debaixo da lei, ou seja, aos judeus, de modo que, apesar de serem descendentes da carne de Abraão, os judeus também eram ímpios assim como os gentios, uma vez que todos se desviaram de Deus desde o ventre por serem filhos de Adão ( Rm 3:19 ).

Diante das Escrituras fica claro que os judeus não são melhores que os gentios, pois ambos estão debaixo do pecado ( Rm 3:9 ), como se lê: ‘todo homem anda numa vã aparência’, ou seja, são mentirosos “De maneira nenhuma; sempre seja Deus verdadeiro, e todo o homem mentiroso; como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras, E venças quando fores julgado” ( Rm 3:4 ).

Como o salmista sabia que Deus não fazia distinção alguma entre judeus e gentios, Davi admite (confessa) a sua condição quando clama: “Contra ti, contra ti somente pequei, e fiz o que é mal à tua vista, para que sejas justificado quando falares, e puro quando julgares” ( Sl 51:4 ). Por que o salmista tinha certeza de que era pecador? Porque judeus e gentios igualmente são formados e concebidos em pecado “Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe” ( Rm 51:4 -5).

O salmista Davi sabia que há somente duas gerações: uma é a geração dos ímpios e outra é a geração dos justos. Era de conhecimento do salmista que, não importam as ações dos homens, a recompensa deles é conforme a geração dos seus pais ( Sl 49:19 ). Temos duas sementes e duas gerações, sendo que a semente que permanecerá para sempre diz da semente do último Adão, e a semente que perece, a semente do primeiro pai da humanidade, Adão ( Sl 112:2 ; Sl 89:4 ; Sl 24:6 ; Sl 22:30 ).

É em função desta realidade que Davi roga a Deus para ser gerado de novo segundo a sua palavra (semente incorruptível), que cria um novo coração e concede ao homem um novo espírito ( Sl 51:10 ; Ez 36:26 ).

Os termos riqueza e pobreza são utilizados nas Escrituras para esclarecer a situação do pecador diante de Deus e é justamente fazendo alusão ao pecado que o termo riqueza é citado nas Escrituras, e a análise dos termos ‘riqueza’ e ‘pobreza’ é imprescindível para responder às questões.

Como é possível ‘todo homem’ amontoar riquezas e não saber quem as levará, se na sua maioria os homens são desprovidos de bens materiais? Os bens de um homem, quer pobres ou ricos, não ficam sob o cuidado de seus herdeiros? Quando analisamos o verso 6 do Salmo 39, temos que nos perguntar: estamos diante de uma parábola e seus enigmas, ou há um equivoco na abordagem do salmista? Como é possível haver tantos homens desprovidos de bens materiais no mundo se o salmo diz que ‘todo’ homem amontoam riquezas? “Na verdade, todo homem anda numa vã aparência; na verdade, em vão se inquietam; amontoam riquezas, e não sabem quem as levará” ( Sl 39:6 ).

Os judeus deviam ter o cuidado de, ao ler as Escrituras, se perguntarem por que elas dizem que ‘todos’ os homens ‘andam em vã aparência’, e porque elas não contem uma ressalva quanto aos judeus dizendo: todo homem, exceto os descendentes da carne de Abraão, andam numa vã aparência. Se tivessem o cuidado de observar que as Escrituras protestavam que todo homem amontoam riquezas e não sabem quem as levará, deveriam inquirir por que existiam tantos pobres.

O mesmo entrave ocorre com os termos ‘louco’, ‘néscio’ que consta na parábola em comento e em outras partes das Escrituras, termos que são utilizados depois da acusação feita por Moisés ao povo de Israel: “Recompensais assim ao SENHOR, povo louco e ignorante? Não é ele teu pai que te adquiriu, te fez e te estabeleceu?” ( Dt 32:6 ).

Após a abordagem de Moisés os termos ‘louco’, ‘néscio’, ‘ignorante’ tornaram-se uma ‘figura’ específica empregada ao longo das Escrituras para fazer referencia ao povo de Israel que eram de dura servil (rebeldes).

O salmo 53 é um exemplo: “DISSE o néscio no seu coração: Não há Deus. Têm-se corrompido, e cometido abominável iniquidade; não há ninguém que faça o bem. Deus olhou desde os céus para os filhos dos homens, para ver se havia algum que tivesse entendimento e buscasse a Deus. Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um. Acaso não têm conhecimento os que praticam a iniquidade, os quais comem o meu povo como se comessem pão? Eles não invocaram a Deus” ( Sl 53:1 -4).

O ‘néscio’ que se comporta como se Deus não existisse diz dos lideres de Israel, homens que se alimentavam do povo de Deus como se comessem pão (compare verso 1 com o 4). Esta figura é utilizada diversas vezes pelos profetas: “Chegarão os dias da punição, chegarão os dias da retribuição; Israel o saberá; o profeta é um insensato, o homem de espírito é um louco; por causa da abundância da tua iniquidade também haverá grande ódio” ( Os 9:7 ); “Assim diz o Senhor DEUS: Ai dos profetas loucos, que seguem o seu próprio espírito e que nada viram!” ( Ez 13:3 ); “Deveras o meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios, e não entendidos; são sábios para fazer mal, mas não sabem fazer o bem” ( Jr 4:22 ); “Atendei, ó brutais dentre o povo; e vós, loucos, quando sereis sábios?” ( Sl 94:8 ).

Observa-se nas Escrituras que o termo ‘louco’ não é utilizado para fazer alusão aos gentios, antes somente é empregado para censurar os filhos de Israel. Esta figura também foi utilizada por Cristo e os apóstolos: “Loucos! Quem fez o exterior não fez também o interior?” ( Lc 11:40 ); “E ele lhes disse: Ó néscios, e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram!” ( Lc 24:25 ); “Instrutor dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei” ( Rm 2:20 ).

Quando lemos na parábola: “Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?”, verifica-se que a reprimenda de Jesus tem por alvo os judeus, pois este era o público a quem foi anunciado a parábola do rico.

Outro elemento a se considerar na parábola é a condição financeira do ‘louco’ e o que ela representa. Devemos considerar a riqueza do homem louco como perniciosa, ou a riqueza é uma figura enigmática que demanda ser estudada e desvendada?

No sermão da montanha registrado por Lucas, temos o seguinte discurso: “E, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis fartos. Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir. Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem e quando vos separarem, e vos injuriarem, e rejeitarem o vosso nome como mau, por causa do Filho do homem. Folgai nesse dia, exultai; porque eis que é grande o vosso galardão no céu, pois assim faziam os seus pais aos profetas. Mas ai de vós, ricos! porque já tendes a vossa consolação. Ai de vós, os que estais fartos, porque tereis fome. Ai de vós, os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis. Ai de vós quando todos os homens de vós disserem bem, porque assim faziam seus pais aos falsos profetas” ( Lc 6:20 -26).

É significativo o fato de que os que creem em Cristo são descritos como pobres, e os que rejeitam a Cristo são designados ‘ricos’. Considerando o fato de que Jesus só falava ao povo utilizando parábolas, significa que Jesus não estava fazendo distinção entre os seus ouvintes quanto às questões de ordem financeira e sim quanto aqueles que realizavam a vontade de Deus “Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” ( Jo 6:40 ).

Significa que qualquer que confiar em Cristo, quer seja rico quer seja pobre financeiramente é bem-aventurado, portanto, pobre, manso, triste, etc. Qualquer que não confia em Cristo, quer seja rico ou pobre financeiramente é descrito como farto, rico, etc.

Quando Tiago diz: “EIA, pois, agora vós, ricos, chorai e pranteai, por vossas misérias, que sobre vós hão de vir. As vossas riquezas estão apodrecidas, e as vossas vestes estão comidas de traça. O vosso ouro e a vossa prata se enferrujaram; e a sua ferrugem dará testemunho contra vós, e comerá como fogo a vossa carne. Entesourastes para os últimos dias. Eis que o jornal dos trabalhadores que ceifaram as vossas terras, e que por vós foi diminuído, clama; e os clamores dos que ceifaram entraram nos ouvidos do Senhor dos exércitos. Deliciosamente vivestes sobre a terra, e vos deleitastes; cevastes os vossos corações, como num dia de matança. Condenastes e matastes o justo; ele não vos resistiu” ( Tg 5:1 -6), os ‘ricos’ referem-se aos judeus (ricos) que não creram, condenaram e mataram o Cristo, de modo que, por rejeitarem a Cristo, o único que tem ouro e prata aprovados ( Ap 3:18 ), a riquezas deles estavam apodrecidas, as vestes destruídas e entesouraram ira para o dia do juízo.

Daí a palavra de ordem: “Senti as vossas misérias, e lamentai e chorai; converta-se o vosso riso em pranto, e o vosso gozo em tristeza” ( Tg 4:9 ), que é o mesmo que ‘arrependei-vos’ ( At 2:38 ). Por que deveriam sentir as suas misérias e lamentarem? Porque os judeus rejeitaram a Cristo por entenderem que possuíam recursos necessários para serem salvos, mas na verdade eram pobres, cegos e nus “Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu” ( Ap 3:17 ). ‘Sentir a miséria’ e ‘lamentar’ são figuras que rementem às pessoas que mudam de concepção (arrependimento) dando ouvidos ao anunciador de boas novas, que é Cristo. Se o contrito de espírito, o manso, o pobre, etc., ouve a mensagem do evangelho e crê, recebe de Deus glória, gozo, louvor, etc. ( Sl 61:1 -3).

Daí é possível entender a seguinte fala de Jesus: “Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas!” ( Mc 10:23 ). Os discípulos ficaram perplexos quando Jesus disse que os que ‘têm riquezas’ dificilmente entrarão no reino dos céus, pois pensaram que Jesus falava dos abastados financeiramente.

Porém, diante da admiração dos seus discípulos, Jesus explica: “Filhos, quão difícil é, para os que confiam nas riquezas, entrar no reino de Deus!” ( Mc 10:24 ). Quando Jesus disse ser ‘difícil’ os que têm ‘riquezas’, ou seja, que cofiam ‘nas riquezas’ entrar no reino dos céus é porque os que ‘confiam nas riquezas’ não nasceram de novo e nem possuem obras maiores que a dos escribas e fariseus ( Jo 3:3 ; Mt 5:20 ).

A vontade de Deus é que o homem creia em Cristo, porém, os judeus preferiam confiar em sua origem segundo a carne e nas prescrições da lei. Por serem recalcitrantes, de dura servis, confiavam em suas ‘riquezas’ e deixavam de confiar em Deus.

Se ‘nascer de novo’ e ter ‘obra superior a dos escribas e fariseus’ é condição essencial para entrar no reino dos céus, qual riqueza é empecilho à entrada no reino dos céus?

A ‘riqueza’ em tela não diz de questões materiais, antes é uma figura que remete aos que fazem da carne (descendência de Abraão) a sua força (salvação). Em lugar de confiarem em Deus para serem bem-aventurados ( Jr 17:7 ), os descendentes da carne de Abraão confiavam em si mesmos, pois constituíam a sua carne o seu próprio braço (salvação)( Jr 17:5 ).

Sobre os que confiavam na força do seu braço escreveu o apóstolo Paulo: “Nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência. Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência” ( Rm 9:7 -8).

A leitura da parábola do rico ‘louco’ deve ser compreendida em função do reino dos céus e não em vista das riquezas deste mundo. A percepção do leitor da parábola deve transcender o senso comum, haja vista que em uma parábola há enigmas a serem desvendados “E disse-lhes: Não percebeis esta parábola? Como, pois, entendereis todas as parábolas?” ( Mc 4:13 ).

Quando lemos: “Certamente que os homens de classe baixa são vaidade, e os homens de ordem elevada são mentira; pesados em balanças, eles juntos são mais leves do que a vaidade. Não confieis na opressão, nem vos ensoberbeçais na rapina; se as vossas riquezas aumentam, não ponhais nelas o coração” ( Sl 62:9 -10), Diante de Deus tanto ricos quanto pobres são vaidade. Deus não tem em preferência os desprovidos de bens materiais e nem pretere os nobres da face da terra.

Como Deus não faz acepção de pessoas, a mensagem: ‘Não confieis na opressão, no roubo, na violência’ abarca tanto ricos quanto pobres financeiramente.

Para entrar no reino dos céus o homem não deve se utilizar da força ou da violência, antes é pela palavra de Deus ( Zc 4:6 ). A força, a violência, a opressão, o roubo, etc., são figuras que ilustram aqueles que querem se salvar por intermédio das suas obras “As suas teias não prestam para vestes nem se poderão cobrir com as suas obras; as suas obras são obras de iniquidade, e obra de violência há nas suas mãos” ( Is 59:6 ).

O profeta Isaias estava anunciado a palavra do Senhor ao povo utilizando-se de parábolas e enigmas, de modo que, ao falar da justiça que decorre da lei, comparou-a a teias de aranha. A justiça decorrente das suas obras não servia para cobrir-se diante de Deus. As obras são comparáveis à iniquidade, o mesmo que obra de violência. Apesar do sacrifício continuo e das orações prolongadas, tudo era reprovado diante de Deus “Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e as luas novas, e os sábados, e a convocação das assembleias; não posso suportar iniquidade, nem mesmo a reunião solene. As vossas luas novas, e as vossas solenidades, a minha alma as odeia; já me são pesadas; já estou cansado de as sofrer. Por isso, quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos; e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer mal” ( Is 1:13 -16).

Se há uma obra, a recompensa, o salário, o ganho é certo, de modo que as ‘obras de iniquidade’ são descritas como ganho de opressão, ganho de violência, atos de maldade. Qualquer que se lança às ofertas vãs, às orações prolongadas, aos sábados, as reuniões solenes, etc., multiplica suas obras de violência e entesoura para si o seu ganho. O ‘tesouro’, a ‘riqueza’ amealhada em função destas práticas é produto de opressão, porém, o povo de Israel aumentava as suas obras acreditando que as suas riquezas seriam suficientes para alcançar salvação, posto que o coração deles estavam fiados em suas obras ( Sl 62:9 -10).

Quando Jesus diz: “É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus” ( Mc 10:25 ), interpôs uma impossibilidade natural (passar um camelo pelo fundo de uma agulha) para demonstrar que a impossibilidade de alguém que ‘confia’ nas ‘riquezas’ entrar no reino de Deus é maior.

O texto deve ser compreendido a partir do seguinte princípio: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” ( Mt 6:24 ). Ora, o tesouro prende o coração do homem, o que o impede de amar (servir) a Deus de todo o seu coração “Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” ( Mt 6:21 ).

Tudo o que o homem adquire de Deus deve ser sem dinheiro e sem preço. Quando o homem adquire uma riqueza por meio da força do seu braço (obras da lei), passa a possuir um tesouro que assume a condição de um ídolo (Mamom), pois o homem deixa de confiar na graça de Deus para confiar na sua riqueza ( Sl 62:9 -10).

O homem passa a servir a Mamom quando não ouve a palavra do Senhor e, ao porfiar confiando na sua riqueza, torna a sua própria vontade um ídolo “Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniquidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei” ( 1Sm 15:23 ).

Ora, o maior tesouro do povo de Israel estava na sua origem e na lei, ou seja, no crente Abraão e em Moisés. Diante do evangelho e da pessoa de Cristo os filhos de Jacó relutavam em mudarem de concepção apontando para ambos: Moisés e Abraão “Então o injuriaram, e disseram: Discípulo dele sejas tu; nós, porém, somos discípulos de Moisés” ( Jo 9:28 ); “Responderam, e disseram-lhe: Nosso pai é Abraão” ( Jo 8:39 ).

O apóstolo Paulo elenca quais os entes que compõe a riqueza dos judeus: a nacionalidade (israelitas), adoção de filhos por serem descendentes de Abraão, a glória, as alianças, a lei, o culto, as promessas, os pais e Cristo segundo a carne.

Ora, se um judeu que recebeu todos os itens elencados acima não pode salvar-se, surge a pergunta: “Quem poderá, pois, salvar-se?” ( Mc 10:26 ). A resposta de Cristo demonstra que confiar na carne de Abraão é uma ‘riqueza’ que não conduz a Deus ( Mt 10:37 ), para alcançar a Cristo, pois com relação a salvação: “Para os homens é impossível, mas não para Deus, porque para Deus todas as coisas são possíveis” ( Mc 10:27 ).

O salmista Davi apresentou profeticamente o enigma do homem rico no salmo 49 anunciado tanto aos ricos quanto aos pobres financeiramente que, quando viesse o dia em que ‘os homens que confiam em suas riquezas’ cercariam o Messias, o Cristo de Deus não temeria ( Sl 49:5 -6). Por quê? Porque confiar em suas riquezas era a loucura dos homens que estavam em honra em Israel, uma vez que rejeitaram a Cristo, a pedra eleita e preciosa ( Sl 49:13 ).

 

A parábola do homem rico

“E propôs-lhe uma parábola, dizendo: A herdade de um homem rico tinha produzido com abundância; E ele arrazoava consigo mesmo, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos. E disse: Farei isto: Derrubarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens; E direi a minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus” ( Lc 12:16 -21).

 

É seguro dizer que a parábola do rico louco não visava uma transformação socioeconômica, antes foi contada visando uma revolução na mentalidade (metanoia) do povo de Israel acerca de como alcançar a salvação.

A parábola do homem rico ilustra o pensamento do povo de Israel que, por ser descendente da carne de Abraão, entendiam que haviam herdado a bem-aventurança prometida por Deus a Abraão.

Quando liam nas Escrituras: “E a tua descendência será como o pó da terra, e estender-se-á ao ocidente, e ao oriente, e ao norte, e ao sul, e em ti e na tua descendência serão benditas todas as famílias da terra” ( Gn 28:14 ), os filhos da carne de Abraão, Isaque e Jacó interpretavam que eram benditos por serem descendentes dos patriarcas e, qualquer que se tornasse prosélito seria bem-aventurado.

Mas, os lideres de Israel estavam equivocados, pois não são os filhos de Abraão que são salvos, antes os salvos são os filhos da promessa, que diz: “Todas as nações serão benditas em ti” ( Gl 3:8 ). Para ser filho segundo a promessa era necessário crer como o crente Abraão, pois este é o único meio de ser declarado justo diante de Deus, porém, os filhos de Jacó repousavam na filiação segundo a carne. Quando Abraão ouviu a promessa, passou a crer no descendente prometido, de modo que viu o seu dia e alegrou-se na salvação de Deus “Abraão, vosso pai, exultou por ver o meu dia, e viu-o, e alegrou-se” ( Jo 8:56 ).

Sobre este posicionamento disse o apostolo Paulo: “Assim como Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça. Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão. Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti. De sorte que os que são da fé são benditos com o crente Abraão” ( Gl 3:6 -9).

A leitura correta da promessa segue o seguinte termo: “Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo” ( Gl 3:16 ). Mas, como os filhos de Israel não atinaram para o fato de que as Escrituras encerrou todos os homens sob o pecado, de modo que a promessa é dada aos crentes e não aos filhos da carne de Abraão “Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos crentes” ( Gl 3:22 ).

Porém, antes que Cristo viesse ao mundo conforme a promessa feita a Abraão, Deus entregou a lei para fazer com que os descendentes da carne de Abraão vissem a sua real condição, deixassem de crer em sua origem e passassem a esperar n’Aquele que havia de se manifestar assim como fez o crente Abraão “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar.  De maneira que a lei nos serviu de aio, para nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos justificados” ( Gl 3:23 -24).

Quando o descendente prometido a Abraão veio, os filhos da carne de Abraão se apegaram à lei de Moisés e continuaram alegando que eram salvos por serem descendentes de Abraão, e rejeitaram a bem-aventurança.

Ora, se tudo o que a lei diz, diz aos que estão sob a lei, isto significa que o que os salmos também dizem (referem-se) dos filhos de Jacó (observe que o apóstolo Paulo citou diversos versículos dos salmos), de modo que a parábola do rico louco é uma releitura do Salmo 49, que diz “Aqueles que confiam na sua fazenda, e se gloriam na multidão das suas riquezas, Nenhum deles de modo algum pode remir a seu irmão, ou dar a Deus o resgate dele (Pois a redenção da sua alma é caríssima, e cessará para sempre), Para que viva para sempre, e não veja corrupção. Porque ele vê que os sábios morrem; perecem igualmente tanto o louco como o brutal, e deixam a outros os seus bens. O seu pensamento interior é que as suas casas serão perpétuas e as suas habitações de geração em geração; dão às suas terras os seus próprios nomes. Todavia o homem que está em honra não permanece; antes é como os animais, que perecem. Este caminho deles é a sua loucura; contudo a sua posteridade aprova as suas palavras. (Selá.) Como ovelhas são postos na sepultura; a morte se alimentará deles e os retos terão domínio sobre eles na manhã, e a sua formosura se consumirá na sepultura, a habitação deles. Mas Deus remirá a minha alma do poder da sepultura, pois me receberá. (Selá.) Não temas, quando alguém se enriquece, quando a glória da sua casa se engrandece. Porque, quando morrer, nada levará consigo, nem a sua glória o acompanhará” ( Sl 49:6 -17).

O homem rico cuja herdade produziu com abundância representa o povo de Israel, pois pensavam (arrazoavam) consigo mesmo que eram salvos, porém, o que pensavam não era condizente com a palavra de Deus.

O que pensa uma pessoa abastada com bens deste mundo? Diante de uma herdade que produz com abundancia resta edificar outros maiores em substituição ao que anteriormente possuía para recolher o que for produzido. Por fim, dirá: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga!

Assim era o pensamento dos filhos de Israel, pois arrazoavam consigo mesmo dizendo: Temos por pai Abraão, de modo que nunca fomos escravos de ninguém! “E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão” ( Mt 3:9 ); “Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão, e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres?” ( Jo 8:33 ).

Ou seja, diante da pedra eleita e preciosa, os filhos de Israel resolveram seguir os seus próprios pensamentos e coração, tendo por real valor a filiação de Abraão e a lei mosaica, desprezando a benção que enriquece ( Pv 10:22 ; Ml 2:2 ; Jo 5:23 ).

Ao compreender a verdade do evangelho, o apóstolo Paulo abriu mão do que ele entendia de real valor para poder alcançar a Cristo “Ainda que também podia confiar na carne; se algum outro cuida que pode confiar na carne, ainda mais eu: Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu; Segundo o zelo, perseguidor da igreja, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível. Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo, E seja achado nele, não tendo a minha justiça que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé” ( Fl 3:4 -9).

O apóstolo elenca os motivos pelos quais poderia confiar na carne: ‘Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu; Segundo o zelo, perseguidor da igreja, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível’. Porém, o que para ele era ganho (de valor), por Cristo reputou como perda todas os elementos elencados anteriormente.

O homem que possuía por sobrenome a alcunha de judeu sentia-se abastado, enriquecido por confiar na lei (repousas na lei), pois entendiam que se gloriavam em Deus, que sabiam a vontade de Deus e que consentiam com o que é excelente em virtude da instrução que detinham segundo a lei ( Rm 2:17 -20). A confiança do povo judeu era a de que guiavam os cegos e que eram luz para os povos em trevas, instrutores dos néscios e das crianças, mas desconheciam que o verdadeiro judeu é o que recebe a circuncisão no coração e não na carne ( Rm 2:29 ).

Daí a parábola de Cristo, demonstrando que o povo judeu se sentia rico ( Ap 3:17 ). Sentiam-se tão abastados que arrazoavam onde armazenariam o produto do seu trabalho ( Lc 12:17 ). Daí a reprimenda de Jesus segundo o que as Escrituras de longa data protestavam: “Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?” ( Lc 12:20 ); “Eis aqui o homem que não pôs em Deus a sua fortaleza, antes confiou na abundância das suas riquezas, e se fortaleceu na sua maldade” ( Sl 52:7 ); “Aquele que confia nas suas riquezas cairá, mas os justos reverdecerão como a folhagem” ( Pv 11:28 ); “Há alguns que se fazem de ricos, e não têm coisa nenhuma, e outros que se fazem de pobres e têm muitas riquezas” ( Pv 13:7 ).

O povo judeu era o homem que não pôs em Deus a sua confiança, antes confiou na sua riqueza, fortalecendo-se na suas obras más. Eles mesmos se fizeram ricos gloriando-se na carne, mas a verdadeira riqueza, que é o louvor de Deus, não possuíam.

Mas, qualquer que ajunta tesouros para si é comparável ao rico louco, que possuindo muito não era rico para com Deus, certo que a vida de um homem não consiste nos bens que possui ( Lc 12:15 ).

Para ser rico para com Deus é necessário buscar a Cristo, a justiça segundo a fé, pois Ele é de cima ( Mt 6:33 ; Jo 8:23 ). Somente Jesus possui ouro aprovado, riqueza impar não sujeita a ferrugens, a traça ou ao roubo ( Mt 6:20 ; Ap 3:18 ). Mas, para adquirir ouro aprovado é necessário o homem reconhecer a sua miserabilidade ( Mt 5:3 ), que é um errado de espírito, quando Deus dará o conhecimento que satisfaz a alma faminta “E os errados de espírito virão a ter entendimento, e os murmuradores aprenderão doutrina” ( Is 29:24 ; Is 61:1 -3; Is 55:1 -3).

Quando aparece nas Escrituras a figura do pobre, como no verso que se segue: “Compadecer-se-á do pobre e do aflito, e salvará as almas dos necessitados” ( Sl 72:13 ), o profeta Davi não tem em vista os desprovidos de bens materiais, antes diz daqueles que creem em Deus, quer seja pobre ou rico financeiramente.

Outra figura é a do órfão e a da viúva: “Pai de órfãos e juiz de viúvas é Deus, no seu lugar santo” ( Sl 68:5 ), pessoas que na antiguidade eram o símbolo, a figura dos necessitados e pobres. Quando o salmista diz que Deus é pai de órfãos, significa que, quem tem por pai Abraão por ser descendente da carne do patriarca não tem Deus por Pai. Mas, aquele que vê que o seu verdadeiro pai segundo a carne é Adão, e este vendeu todos os seus filhos ao pecado quando da ofensa no Éden, é órfão e reconhece que necessita de um justo juiz. Se o homem deixar pai e mãe, ou seja, deixar de confiar na sua origem segundo a carne dos patriarcas, tornar-se-á pobre e alvo da bem-aventurança divina pela fé em Cristo ( Mt 5:3 ).

Ler mais

Habacuque 2 – Aguardando uma resposta de Deus

Para Deus, tanto os caldeus quanto os judeus estavam em iguais condição, pois ambos os povos eram condenáveis diante de Deus. Por serem descendentes de Abraão, por terem as promessas, as escrituras, etc., o profeta Habacuque considerava que a nação de Israel era mais justa que as nações em redor ( Sl 53:3 ).


HABACUQUE 2

1 SOBRE a minha guarda estarei, e sobre a fortaleza me apresentarei e vigiarei, para ver o que falará a mim, e o que eu responderei quando eu for arguido.
2 Então o SENHOR me respondeu, e disse: Escreve a visão e torna bem legível sobre tábuas, para que a possa ler quem passa correndo.
3 Porque a visão é ainda para o tempo determinado, mas se apressa para o fim, e não enganará; se tardar, espera-o, porque certamente virá, não tardará.
4 Eis que a sua alma está orgulhosa, não é reta nele; mas o justo pela sua fé viverá.
5 Tanto mais que, por ser dado ao vinho é desleal; homem soberbo que não permanecerá; que alarga como o inferno a sua alma; e é como a morte que não se farta, e ajunta a si todas as nações, e congrega a si todos os povos.

A Resposta ao Profeta

O profeta Habacuque recolhe-se e põe-se em guarda. Fiado em suas considerações, Habacuque põe se em guarda por ser um dos atalaia em Israel. Ele espera pela resposta divina e demonstra ansiedade pela resposta que Deus haveria de apresentar as suas queixas. Caso ele fosse interpelado, queria ter uma resposta (v. 1).

Habacuque obteve resposta de Deus! Deus ordena que ele a escrevesse sobre tábuas a mensagem, para que as pessoas pudessem ler, mesmo quando passassem correndo, ou seja, em letras grandes (v. 2). O efeito da mensagem causa um trocadilho, visto que, faria quem lesse correr, ou seja: “para que possa correr aquele que a le”.

As tábuas utilizadas eram tijolos de argila, finos como tabuas ou ardósia. Elas eram utilizadas na Babilônia.

A primeira resposta de Deus é sobre o tempo em que Deus haveria de cumprir a visão dada a Habacuque ( Hc 1:2 e Hc 2:3 ).

A visão que Deus concedeu a Habacuque, ou seja, o peso do Senhor acerca de Judá, haveria de ser no tempo determinado por Deus, e com isso o profeta não precisava preocupar-se, pois a profecia seria cumprida ao seu tempo.

Ora, se alguém entendesse que a profecia estava tardando, bastava esperar, pois certamente ela cumprir-se-á no tempo estabelecido por Deus, ou seja, não tardará. A visão cumprir-se-á no tempo que Deus estabeleceu pelo seu próprio poder e não compete aos homens saberem quando os eventos se dará.

Por que a visão deveria ser transcrita sobre tábuas? Porque precisava ficar registrada sobre algo duradouro como testemunho vivo para um tempo futuro. Quem lia sobre a invasão dos caldeus queria correr do evento anunciado. Ora, não tardou e os caldeus levaram cativo o povo de Israel conforme a palavra do Senhor ( Hc 1:6 -11).

Do mesmo modo que Deus revelou que o cativeiro de Israel seria para os dias do profeta Habacuque ( Hc 1:5 ), Deus responde o profeta, revelando que a nação incircuncisa que foi suscitada por Deus também seria punida (Hc 2:4 -19).

Diante da visão divina, resta àqueles que fazem perguntas vazias calarem-se ante o Senhor de toda a terra “Mas o Senhor está no seu santo templo; cale-se diante dele toda a terra” ( Hc 2:20 ). Após dar ouvido as palavras de Deus, Habacuque temeu ao Senhor, e compôs um Salmo, profetizando acerca da providência divina aos homens ( Hc 3:1 -19).

A punição de Judá e Israel era iminente e a punição dos caldeus para um tempo determinado ( Hc 1:5 e Hc 2:3 ). Ao ser ordenado que a visão fosse escrita sobre tábuas com letras grandes, era para ela ‘falar’ até o fim “Porque a visão é ainda para o tempo determinado, e até o fim falará, e não mentirá” ( Hc 2:3 ), mesmo que corressem quem a lesse.

A questão maior do profeta Habacuque foi apresentada no verso 13 do capítulo 1: “Por que te calas quando o ímpio devora aquele que é mais justo do que ele?”. Habacuque já estava indignado porque os ímpios em Judá fomentavam a violência, e esperava que Deus tomasse providência para impedi-los (Hc 1: 2- 4). Agora, quando Deus lhe dá a visão de que os incircuncisos caldeus (gentios) haveriam de castigar Judá e Israel, ele não compreende porque Deus permite que ímpios ‘devorem’ àqueles que são mais ‘justos’.

A resposta de Deus é clara e precisa: “Eis que a sua alma está orgulhosa, não é reta nele; mas o justo pela sua fé viverá” (v. 4). O que Deus disse a Habacuque? O que Habacuque compreendeu que o fez irromper em um alegre canto?

O verso 4 é regida por uma conjunção adversativa, sendo que: se o justo viverá da fé, resta que o ímpio é quem tem a alma orgulhosa. Deus apresenta o diferencial entre o justo e o ímpio. Enquanto o diferencial entre o justo e o ímpio para Habacuque estava na violência, na iniquidade, na contenda, no litígio, na transgressão da lei, etc., Deus demonstra que o diferencial é a fé que foi dada por Deus.

Através da visão, Habacuque compreende que tanto os homens de Judá e Israel quanto os caldeus eram ímpios perante o Senhor. Aqueles que Habacuque considerava mais justos que os caldeus, diante da visão tornaram-se ‘mais’ ímpios, visto que o povo que se chama pelo nome de Deus era dado ao vinho (v. 5).

Qual o vinho que o povo de Israel se embriagava? O vinho produto do fruto da vide? Não! O vinho que os ímpios de Israel eram ‘dados’ (entregues) é o sono profundo que falou o profeta Isaias: “Pasmai, e maravilhai-vos, folgai, e clamai; bêbados estão, mas não de vinho, andam titubeando, mas não de bebida forte. O Senhor derramou sobre vós um espírito de profundo sono. Ele fechou os vossos olhos (os profetas); ele vendou as vossas cabeças (os videntes)” ( Is 29:9 -10).

Quem não compreende as palavras da profecia é dado ao vinho, ou seja, é desleal (ímpio). Anda titubeando. Diferente do justo que vive pela fé, o ímpio (homem soberbo) não permanecerá (v. 5).

Habacuque conseguiu ver que o povo de Israel em nada era diferente dos caldeus, pois os caldeus eram um povo voraz, insaciável, que alargava como o inferno a sua alma, e os seus concidadãos também eram opressores, violentos, contentores e perversos ( Hc 1:2 -4 e v. 5).

Habacuque havia questionado o Senhor por esquecer que:

  • O povo de Israel era nação rebelde ( Dt 9:6 );
  • Não foi a justiça de Israel que os fez habitar a terra prometida ( Dt 9:4 );
  • Deus não se afeiçoou de Israel e os escolheu por eles terem algum mérito, antes porque o Senhor os amava, ou seja, para fazer cumprir o juramento que foi feito a Abraão ( Dt 7:7 -8);
  • Somente aqueles que circuncidarem o coração, ou seja, que não são de dura cerviz, é que são justos diante de Deus ( Dt 10:16 );
  • A circuncisão do prepúcio do coração só é possível através da fé, e é pertinente a homens e mulheres, ricos e pobres, judeus e estrangeiros, pois Deus não faz acepção de pessoas.

Após considerar as palavra do Senhor ( Hc 3:2 ), Habacuque percebeu que não havia diferença entre os homens de Judá e os incircuncisos caldeus. Os caldeus ajuntavam para si as nações através da força e violência, e o povo de Israel procuravam realizar o mesmo intento através de alianças políticas. Ambos não confiavam em Deus, e atribuíam as suas conquistas as suas estratégias. Os caldeus estratégias militares, e os israelenses, estratégias políticas.

Habacuque 2: 4 é citado três vezes no Novo Testamento pelos apóstolos, dada a importância desta visão concedida ao profeta Habacuque ( Rm 1:17 ; Gl 3:11 e Hb 10:38 ).

Em Romanos Paulo demonstra que através do evangelho o homem descobre a justiça de Deus, visto que o evangelho é poder de Deus para a salvação, ou seja, recebem poder para serem feitos (criados) filhos de Deus pela fé em Cristo ( Jo 1:12 -13).

Como o evangelho é a palavra da fé, a fé que uma vez foi dada aos santos, temos que o justo viverá da palavra de Deus, ou seja da fé ( Dt 8:3 ; Mt 4:4 ). Habacuque 2: 4 apresenta a mesma ideia de Deuteronômio 8: 3.

Como os cristãos da Galácia queriam viver para Deus se estavam se distanciando da palavra de Deus? O justo viverá da palavra da fé, e não através das obras da lei, uma vez que estavam passando do evangelho de Cristo para um outro evangelho.

O escritor aos Hebreus citou Habacuque para demonstrar a necessidade de perseverança após o homem fazer a vontade de Deus. Ora, a vontade de Deus é que o homem creia naquele que Ele enviou, ou seja, em Cristo, porém, é preciso perseverar na fé para que o homem possa alcançar a promessa ( Hb 10:35 -39).

 

6 Não levantarão, pois, todos estes uma parábola e um provérbio sarcástico contra ele? E se dirá: Ai daquele que multiplica o que não é seu! (até quando?) e daquele que carrega sobre si dívidas!
7 Porventura não se levantarão de repente os teus extorquiadores, e não despertarão os que te farão tremer, e não lhes servirás tu de despojo?
8 Porquanto despojaste a muitas nações, todos os demais povos te despojarão a ti, por causa do sangue dos homens, e da violência feita à terra, à cidade, e a todos os que nela habitam.
9 Ai daquele que, para a sua casa, ajunta cobiçosamente bens mal adquiridos, para pôr o seu ninho no alto, a fim de se livrar do poder do mal!
10 Vergonha maquinaste para a tua casa; destruindo tu a muitos povos, pecaste contra a tua alma.
11 Porque a pedra clamará da parede, e a trave lhe responderá do madeiramento.
12 Ai daquele que edifica a cidade com sangue, e que funda a cidade com iniquidade!
13 Porventura não vem do SENHOR dos Exércitos que os povos trabalhem pelo fogo e os homens se cansem em vão?
14 Porque a terra se encherá do conhecimento da glória do SENHOR, como as águas cobrem o mar.
15 Ai daquele que dá de beber ao seu companheiro! Ai de ti, que adiciona à bebida o teu furor, e o embebedas para ver a sua nudez!
16 Serás farto de ignomínia em lugar de honra; bebe tu também, e sê como um incircunciso; o cálice da mão direita do SENHOR voltará a ti, e ignomínia cairá sobre a tua glória.
17 Porque a violência cometida contra o Líbano te cobrirá, e a destruição das feras te amedrontará, por causa do sangue dos homens, e da violência feita à terra, à cidade, e a todos os que nela habitam.
18 Que aproveita a imagem de escultura, depois que a esculpiu o seu artífice? Ela é máscara e ensina mentira, para que quem a formou confie na sua obra, fazendo ídolos mudos?

Os ‘ais’

Deus revela a Habacuque que os povos que forem vencidos levantarão um provérbio, um dito zombador acerca dos caldeus (v. 6). Os vencidos pelos caldeus haveriam de dizer: Ai de quem acumulou o que não é seu! Ou seja, até quando os caldeus continuariam acumulando bens pela violência?

Todos cantariam um provérbio acerca dos caldeus, pois estava se sobrecarregando de penhores, e chegaria o tempo em que apareceriam os credores. Ora, o acumulo de riquezas por parte dos caldeus não faria despertar quem os levaria a ruína?

O fato de os caldeus ajuntarem penhores, outros povos fariam com que os caldeus se transformassem em despojos (v. 7).

Por ter despojado muitas nações, os outros povos haveriam de despojar os caldeus (v. 8).

Deus demonstra a Habacuque que os caldeus não permaneceriam para sempre. Eles estavam ajuntando bens mal adquiridos para se engrandecerem. Reputavam que, quanto maior as suas riquezas, com maior facilidade se livrariam do mal (v. 9).

Com este pensamento, os caldeus haviam maquinado o mal e a vergonha para as suas moradas. Por destruir muitos povos, ensoberbeceram e a queda era iminente ( Hc 2:5 e 10).

Quem é a pedra que clamará da parede? As nações vencidas e levadas cativas, visto que os caldeus utilizaram as nações vencidas para construírem as suas moradas. A pedra haveria de clamar um dito zombador “Ai daquele que acumula o que não é seu…” (v. 6b), e a trave responderia como se estivessem compondo um coro “Ai daquele que edifica a cidade com sangue…” (v. 12).

Deus demonstra através da visão que o labutar constante das nações por poder é proveniente d’Ele mesmo “Não vem do Senhor dos Exércitos que as nações labutem para o fogo…” (v. 12). Ora, Habacuque tinha que compreender que é obra de Deus fazer com que as nações labutem para conquistarem o que será destinado ao fogo, e os povos se fatiguem em vão.

Ora, se o ‘labutar em vão’ das nações é algo que vem de Deus, porque preocupar-se com os incircuncisos caldeus? Eles eram somente a vara de correção que Deus estava trazendo sobre Israel.

Habacuque deveria esperar na promessa de Deus, pois a terra se encherá da glória de Deus ‘… como as águas cobrem o mar’ “Não se fará mal nem dano algum em todo o monte da minha santidade, pois a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar” ( Is 11:9 ). A comparação é pertinente para saber o que é o conhecimento do Senhor. Ora, as águas cobrem o mar na plenitude, e do mesmo modo o conhecimento de Deus é pleno quando o homem é conhecido do Senhor. Temos uma profecia para o milênio.

Deus demonstra que os caldeus perecerão, pois deram a beber as nações o seu furor, ou seja, arquitetaram vingança, deitaram ira para embebedar as nações. Somente a Deus pertence a vingança e a ira, pois Ele mesmo diz: “Minha é a vingança” “Porque bem conhecemos aquele que disse: Minha é a vingança, eu darei a recompensa, diz o Senhor. E outra vez: O Senhor julgará o seu povo” ( Hc 10:30 ).

Os caldeus que pensaram estar fartos de honra, trouxeram opróbrio sobre si. Do mesmo modo que os caldeus expuseram os circuncisos (Israel) à vergonha, Deus proclama que fará os caldeus exibirem a sua incircuncisão (vergonha). Haveria de chegar a vez dos caldeus beberem do cálice da ira de Deus.

Observe que o cálice da ira é proveniente da mão direita de Deus, o braço do Senhor manifesto a todos os povos, que é Cristo.

A visão do profeta Habacuque cumpriu-se em 539 a.C., quando a Babilônia caiu ante os Medos e Persas. Daniel foi um dos Judeus levado cativo que presenciou a tomada de Babilônia (Daniel 5).

Por causa da violência contra o povo de Israel (Líbano) (Josué 1: 4), a violência também cobriria os caldeus. Seriam dilacerados do mesmo modo como as feras fazem com as suas presas (v. 17).

Deus havia suscitado os caldeus ( Hc 1:6 ), porém, eles atribuíram o seu poderio as imagens de esculturas (v. 18- 19). Daniel em seu livro demonstra que Belsazar promoveu uma festa e ofereceu louvores aos seus deuses. Porém, mesma noite foi morto, e Dario, o medo ocupou o seu lugar ( Dn 5:4 e 31).

 

Deus alerta acerca dos ídolos

Que proveito há no ídolo se é obra de um escultor? As imagens de fundição são ensinadoras (mestre) de mentiras, visto que até os seus artífices confiem nas obras de suas mãos (v. 18).

Deus demonstra que àqueles que tentam despertar a matéria inerte estão completamente perdidos. Que pode o ídolo ensinar? Mesmo os ídolos feitos com os materiais mais nobres, nada podem fazer pelos seus seguidores (v. 19- 19).

Diferente dos ídolos que nada ensinam e não podem proteger, Deus está assentado no seu santo templo. Aos que ouvem a sua palavra resta por a mão à boca. Habacuque compreende que não terá uma resposta a altura diante de Deus ( Hc 2:1 e 20).

Ler mais

O Deus de Paz

‘O mesmo Deus de paz’ é uma referência implícita à pessoa de Cristo, que é a nossa paz. O mesmo ‘Deus de paz’, que nos fez agradáveis a Deus é quem santifica (separa por seu) o crente completamente. A santificação do crente é obra exclusiva de Deus à parte de qualquer participação do homem.


“O mesmo Deus de paz vos santifique completamente. E todo o vosso espírito, alma e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é o que vos chama, o qual também o fará”  ( 1Ts 5:23 -24)

 

O Deus de Paz

Este versículo é um dos utilizados para defender o posicionamento daqueles que subdividem a santificação em três fases distintas.

A bíblia apóia a ideia da Santificação Progressiva? É o que analisaremos agora.

Na primeira carta escrita aos Tessalonicenses não encontramos um tom incisivo de defesa do evangelho como é próprio as outras cartas. Apesar desta característica peculiar à carta aos Tessalonicenses, o capítulo cinco contém algumas recomendações como: regozijai, orai, daí graças, não extingais o Espírito, examinai tudo, retende o bem e abstende-vos de toda espécie de mal (v. 16 – 22).

Observe que as exortações presentes neste capítulo não se constituem determinações legais de per si (não são leis), antes, elas se apoiam em um pedido do apóstolo. Não é a conformidade com o que Paulo pediu aos cristãos que os tornaria santos “Agora vos rogamos, irmãos…” ( 1Ts 5:12 -22). Qualquer cristão que se alimentar da ideia de que a santificação está associada a qualquer regra de cunho humano está muito enganado.

O apostolo é enfático: “O mesmo Deus de paz vos santifique em tudo”, ou seja, completamente!

‘O mesmo Deus de paz’ é uma referência implícita à pessoa de Cristo, que é a nossa paz. O mesmo ‘Deus de paz’, que nos fez agradáveis a Deus é quem santifica o crente completamente. A santificação do crente é obra exclusiva de Deus à parte de qualquer participação do homem.

É Deus quem exclusivamente santifica o crente, isto porque é Deus que fez o chamado à salvação. É Deus quem fez e faz o chamado por meio do evangelho e é ele quem Santifica.

Quando Paulo diz que o cristão foi feito agradável a Deus, ‘fazer’ refere-se à nova criação que faz do homem uma nova criatura. Fazer agradável a Deus não se refere a uma aceitação da condição pecaminosa do homem “Para louvor e glória de sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado” ( Ef 1:6 ). Ou seja, ‘fazer’ não significa que Deus aceita o pecador não sendo justo e santo como se fosse justo e santo. Aquele que é feito agradável a Deus é porque foi Regenerado (novamente criado) através da semente incorruptível..

Todos quantos creem em Cristo recebem poder para serem feitos, ou seja, criados de novo na condição de filhos de Deus ( Jo 1:12 ); “Pois somos feitura sua, criados em Cristo Jesus…” ( Ef 2:10 ).

O ato criativo regenerador (Regeneração) já havia sido efetivado na vida dos cristãos de Tessalônica, uma vez que eles eram irrepreensíveis!

A Santificação não é uma ação gradativa de Deus na vida do crente. Somente a obra de Deus em recriar o homem a sua imagem, semelhança e participante de sua natureza é que estabelece a paz entre Deus e o homem.

Paulo estava certo de que Deus é quem santifica o cristão completamente. Paulo estava cônscio de que os cristãos eram plenamente irrepreensíveis. O pedido de Paulo a Deus em oração era para que Deus os conservasse na condição estabelecida: irrepreensíveis.

A alegria do cristão está em saber que Deus é fiel e que foi Ele quem chamou à salvação. Deus chamou à salvação e é Ele quem salva, ou seja, “…o qual também fará”.

A palavra ‘também’ demonstra que Deus chamou, tornou os crentes irrepreensíveis, e os santificou. Deus santificou completamente. Deus tornou os cristãos plenamente irrepreensíveis, e TAMBÉM haveria de conservá-los até a vinda de Cristo irrepreensíveis.

Observe que os versos 12 a 22 de I Tessalonicenses 5 apresentam várias exortações, uma vez que Paulo estava convicto de que obedeceriam. Não que fosse uma ordem legal, mas por ser um pedido com base na ‘entrada’ de Paulo entre os de Tessalônica ( 1Ts 2:1 e 5).

Já os versos 23 à 24 do mesmo capítulo se constitui uma imprecação com base na fidelidade e poder de Deus sem qualquer alusão a elementos humanos.

Ler mais

É possível vender a ‘alma’ ao diabo?

Como bem sabemos, o diabo é o pai da mentira e a especialidade dele é enganar os incautos. Ora, todos os homens estão perdidos por serem descendentes de Adão, porém, o diabo propaga a ideia de que é possível o homem vender sua alma em troca de bens materiais para prendê-los ainda mais à ignorância, pois os que ignoram a verdade do evangelho não sabem que estão perdidos por causa da desobediência de Adão.


No imaginário popular é corrente a ideia de que é possível ao homem vender a sua alma ao diabo e tal pensamento também está tomando corpo nas igrejas evangélicas.

Circula um vídeo na internet do Pastor Josue Yrion que aponta uma apresentadora de programa infantil brasileira de ter vendido a alma ao diabo por 100 milhões de dólares e de doar, duas vezes por ano, o seu sangue a uma igreja satanista situada na Califórnia.

O que a Bíblia diz? É possível a alguém vender-se ao diabo? De onde surgiu tal concepção?

A bíblia demonstra que todos os homens pecaram e que todos estão destituídos da glória de Deus ( Rm 3:23 ). Ela demonstra que toda humanidade foi vendida como escrava ao pecado por Adão ( 1Co 15:21 ).

Nenhum descendente de Adão precisou escolher conscientemente estar sujeito ao pecado para ser pecador. Independentemente da consciência, do conhecimento, da moral, do costume, do comportamento, do bem e do mal todos os homens ao nascer (simplesmente por nascer segundo Adão) tornaram-se escravos do pecado ( Rm 5:12 ).

A humanidade está sob o jugo do pecado porque Adão e Eva conscientemente ignoraram a informação concedida por Deus e resolveram comer do fruto proibido tendo em vista um prêmio ( Gn 3:6 ) não dando a devida importância para as conseqüências anunciadas ( Gn 2:17 ).

Depois da queda de Adão, nenhum dos seus descendentes tem a possibilidade de pecar do mesmo modo que Adão, visto que ele se vendeu como escravo ao pecado e todos os seus descendentes com ele.

Os descendentes de Adão são escravos do pecado (propriedade), e, portanto, é impossível serem novamente vendidos ou venderem-se ao pecado. O mundo está morto no maligno (jaz no maligno) por causa da corrupção da natureza herdada de Adão.

A bíblia também demonstra que o diabo não possui propriedades ou herdades. O inferno e o lago de fogo foram preparados para ele e os seus anjos (e todas as gentes que se esquecem de Deus), porém, ele não gerencia e nem administra o inferno. Antes, ele é réu do fogo do inferno “Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos” ( Mt 25:41 ).

A bíblia não atribui ao diabo à posição de senhor. Ele não exerce senhorio sobre os homens e nem sobre os anjos caídos. Todas as criaturas sem Deus estão sujeitas ao pecado por causa da natureza destituída de Deus, e não ao diabo. Entre as criaturas destituídas de Deus está o diabo e os seus anjos, que também são escravos do pecado.

O diabo é o pai da mentira, porém, do mesmo modo que os homens gerados de Adão, ele também é escravo do pecado. Ao buscar a semelhança do Altíssimo (desobedeceu e não guardou o seu principado) ele tornou-se escravo do pecado, ou seja, destituído da vida que há em Deus.

Somente quem obedece à palavra de Deus pode ser participante de sua natureza, tanto homens quanto anjos “Bendizei ao SENHOR, todos os seus anjos, vós que excedeis em força, que guardais os seus mandamentos, obedecendo à voz da sua palavra” ( Sl 103:20 ). A soberba do diabo o conduziu à desobediência, e conseqüentemente a queda.

Por sua vez, levado pelo engano do diabo e pela concupiscência dos olhos, o homem (Adão e Eva) desobedeceu ao Criador e foi destituído da glória de Deus, e conseqüentemente arrastou todos os seus descendentes para a mesma condição.

Após serem lançados da presença de Deus, tanto o ‘anjo de luz’ quanto ‘o primeiro homem’, ambos passaram à condição de trevas. Enquanto o diabo seduziu um terço da ordem angelical, o homem, por sua vez, através da sua capacidade de trazer outros semelhantes à existência passou a gerar filhos segundo a sua desobediência e destinados a ira ( Jo 3:6 ).

Por que o pecado é comparado a um senhor e os destituídos de Deus a escravos? Porque os que estão em sujeição ao pecado, e isto inclui o diabo e seus anjos, mesmo que queiram, a eles é impossível mudarem a condição pertinente a natureza caída.

Em linhas gerais, o pecado é uma condição pertinente a natureza destituída (lançada da presença) de Deus “Do pecado, porque não creem em mim” ( Jo 16:9 ). Por ser impossível à criatura mudar a sua própria natureza, ela está sujeita à condição adquirida pela desobediência. A sujeição da criatura destituída de Deus ao pecado compara-se a sujeição de um escravo ao seu senhor ( Jo 8:34 ).

Diante do que a bíblia expõe é seguro afirmar que é impossível a todos (quaisquer) os homens venderem-se ao diabo pelos seguintes motivos:

  • Um escravo não dispõe de nada que possa oferecer ou negociar – todos os homens gerados segundo Adão são escravos do pecado, e, portanto, propriedades do pecado (objeto ou instrumento). Segundo a lei que norteava o regime escravocrata, uma ‘coisa’ (escravo) não dispunha de bens e não podia negociar por ser uma ‘coisa’ do seu senhor. Ora, se todos os homens são escravos do pecado por causa de Adão, segue-se que o homem não pode vender-se ao diabo;
  • Cristo resgata o homem das garras do pecado, e qualquer contrato com o diabo é um engodo satânico – ao admitir a possibilidade de alguém vender-se ao diabo, teríamos de admitir também que tal pessoa estaria irremediavelmente perdida. Caso alguém tenha ‘vendido a sua alma’ ao diabo e ouça acerca de Cristo e queira aceitá-lo, o contrato com o diabo impedirá a salvação, caso ele se arrependa? Por certo que não, visto que o homem sem Cristo pertence ao pecado, e não ao diabo;
  • Um escravo não compra ou vende-se a outro escravo – Haveria validade em um contrato estabelecido entre escravos? Se ambos, o diabo e o pecador estão perdidos (escravos do pecado), como é possível alguém perdido vender-se a outro perdido?

A bíblia aponta a existência de dois senhores: o pecado e a obediência ( Rm 6:16 ). Quando o homem é salvo do pecado, automaticamente também é liberto do engano do diabo que deriva da ignorância ( Ef 4:18 ).

Como bem sabemos, o diabo é o pai da mentira e a especialidade dele é enganar os incautos. Ora, todos os homens estão perdidos por serem descendentes de Adão, porém, o diabo propaga a ideia de que é possível o homem vender sua alma em troca de bens materiais para prendê-los ainda mais à ignorância, pois nem mesmo sabem que estão perdidos por causa da desobediência de Adão.

Se os homens soubessem que a perdição da humanidade sem Cristo está no nascimento segundo Adão, compreenderiam que precisavam nascer de novo. Porém, tal verdade não é divulgada, e o diabo propaga inúmeras idéias que prende os homens a ignorância.

Por ignorarem que estão perdidos em Adão, os homens aceitam a ideia de que somente estarão perdidos caso vendam (de algum modo) a alma ao diabo. A ignorância somada à vaidade dos pensamentos faz com que o homem acredite que certas práticas levam a perdição, ou que através delas o homem vende a alma ao diabo.

Para muitos o homem nasce livre de condenação, e ao fazer certas escolhas consciente, pautadas pela moral, consciência, costumes, leis, regras religiosas, etc., alcançará a salvação no juízo final, e que, só através de ritos e oferendas ao diabo estará irremediavelmente perdido, ou seja, quando vender a alma ao diabo.

A estratégia usada pelo diabo ao estabelecer cultos aos demônios (repletos de oferendas, rezas, rituais, templos, sacerdotes, seguidores, etc.), é fazer com que o homem não veja que está perdido por causa da condenação estabelecida em Adão. É objetivo do diabo que o homem permaneça na ignorância, acreditando que é um perdido por ter vendido a alma ao diabo.

Porém, a estratégia do diabo presente nas inúmeras religiões é para que o homem acredite que será salvo por não ter participado de tais cultos demoníacos onde fazem a tal ‘venda’ da alma ao diabo.

As religiões que estabelecem regras comportamentais e cerimoniais como sendo o caminho de acesso a Deus, também são um engodo do diabo, pois ao adotar tais praticas, o homem considera-se salvo, e ignora a verdade: que é gerado de Adão, e que precisa nascer de novo.

O homem está vendido como escravo ao pecado (perdido) e é impossível o diabo comprá-lo, porque os homens sem Cristo já estão em um caminho largo que conduz à perdição. A propagação da ideia de que é possível ao homem vender a sua alma em troca de bens materiais faz surgir vários mitos e lendas que promove a ignorância (alienação da verdade).

Um mito popular da conta de que Robert Johnson, um famoso cantor e guitarrista americano de Blues, vendeu a sua alma na encruzilhada das rodovias 61 e 49 em Clarksdale, no Mississippi, em troca da proeza de tocar guitarra. Soma-se a isto, o fato de algumas letras de suas canções fazerem referência ao diabo, como “Crossroads Blues”.

Diante deste mito, algumas pessoas engodadas pela soberba da vida acreditam que é possível estabelecer tal contrato e acabam por procurar templos satanistas. Elas estão perdidas? É claro que sim, porém, a perdição delas está no fato de serem descendentes de Adão, e não por praticarem certos rituais.

Outras pessoas repudiam a ideia de servirem o diabo e procuram nas religiões um caminho que leve a Deus. Elas serão salvas? É claro que não, visto que só é salvo quem entra pelo caminho estreito, que é Cristo, ao nascer de novo.

Para alguém que não conhece a verdade do evangelho é compreensível que aceitem a ideia de que é possível vender a alma ao diabo, porém, para aqueles que conhecem a verdade do evangelho é inadmissível tal argumento.

Ora, é bem provável que Robert Johnson tenha de fato realizado certos ritos e feito oferendas pensando que estava vendendo a sua alma ao diabo, porém, a ‘negociata’ é só um engodo do diabo. A verdade do evangelho demonstra que a ação do diabo é cegar o entendimento dos perdidos para que não vejam a verdade “Nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus” ( 2Co 4:4 ).

Não há qualquer referência bíblica que aponte a ideia de que é possível estabelecer um contrato entre o diabo e os homens. Que valor há em um contrato, mesmo que assinado com sangue, a meia-noite, numa encruzilhada, com inúmeros sacrifícios, se o diabo também é escravo e não dispõe de recursos?

O que a bíblia diz? “Mas que digo? Que o ídolo é alguma coisa? Ou que o sacrificado ao ídolo é alguma coisa?” ( 1Co 10:19 ). Ora, se o que é sacrificado aos ídolos não é nada, que se dirá dos contratos ‘celebrados’ nos templos construídos aos demônios?

Geralmente a concepção de alguns pregadores está embotada por se apoiarem em visões, e não na verdade, que é o evangelho. Sobre estes alerta o apóstolo Paulo, que estão enganados por causa da mente carnal ( Cl 2:18 ). Ora, se é impossível ao homem sem Cristo vender a alma ao diabo, que espírito trouxe tal mensagem ao pregador?

Acerca do diabo sabemos que ele é homicida desde o principio. Que nunca se firmou em Deus. Quando ele profere mentiras, é algo próprio da sua natureza. É mentiroso e pai da mentira. Ora, o que Cristo demonstrou acerca do diabo é suficiente para que o cristão conheça as armas do seu inimigo, ou seja, a bíblia basta “Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira” ( Jo 8:44 ).

Qual o objetivo de conhecer as práticas pagãs? Que instrução ou edificação há em saber de certos ritos e práticas pagãs? Desde a antiguidade a humanidade faz oferendas e sacrifícios, chegando ao cumulo de sacrificar os seus próprios filhos ( Sl 106:37 ). Isto demonstra que nada há de novo na face da terra, e que a temática do cristão deve ser o evangelho de Cristo.

Não é imprimindo medo nas pessoas que elas serão salvas, antes o amor lança fora o medo “No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena, e o que teme não é perfeito em amor” ( 1Jo 4:18 ). Basta ao cristão anunciar o perfeito amor de Deus aos homens (evangelho) que eles se converterão, sem qualquer artifício meramente emocionalista ou referência ao engodo do diabo.

Ler mais

Ouvi, e a vossa alma viverá!

Basta o homem inclinar os ouvidos que se achegará a Deus. Ao ouvi-Lo, o homem terá vida! Deus estabelecerá com aqueles que se achegam a Ele (inclinam os ouvidos) uma aliança com base na sua fidelidade (perpétua), concedendo as mesmas benesses de Davi. Ora, se Deus promete vida é porque o homem está morto. Para entender a promessa divina, se faz necessário compreender quando e como o homem se distanciou de Deus deixando de ter vida!

 


“Inclinai os vossos ouvidos, e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, dando-vos as firmes beneficências de Davi” ( Is 55:3 )

 

Por intermédio do profeta Isaías Deus anuncia aos homens que, qualquer que ouvir a sua palavra terá vida!

Basta o homem inclinar os ouvidos que se achegará a Deus. Ao ouvi-Lo, o homem terá vida! Deus estabelecerá com aqueles que se achegam a Ele (inclinam os ouvidos) uma aliança com base na sua fidelidade (perpétua), concedendo as mesmas benesses de Davi.

Ora, se Deus promete vida é porque o homem está morto. Para entender a promessa divina, se faz necessário compreender quando e como o homem se distanciou de Deus deixando de ter vida!

A Bíblia demonstra que todos os homens pecaram e que foram destituídos da glória de Deus ( Rm 3:23 ), ou seja, todos os homens são pecadores e separados estão de Deus.

Como a humanidade lançou mão desta condição miserável? Quando todos pecaram e em um só evento (juntamente) se desviaram? ( Sl 14:3 )

Ora, tudo começou com o primeiro pai da humanidade, Adão. Adão foi criado por Deus santo, justo e bom, ou seja, ele compartilhava da natureza de Deus. Existia em comunhão com a Vida e compartilhava da glória de Deus.

Adão foi avisado por Deus que, no dia em que comesse da árvore do conhecimento do bem e do mal, que estava no meio do jardim, haveria de morrer ( Gn 2:17 ). Embora santo, justo e bom, Adão nunca foi inocente (ingênuo), pois foi alertado quanto as conseqüências de sua decisão “O avisado vê o mal e esconde-se; mas os simples passam e sofrem a pena” ( Pr 27:12 ).

Adão foi avisado e não se escondeu do mal, ou seja, por ter sido avisado, ele já não era simples, ou seja, inocente. Há diferença entre ‘inocência’, que é ingenuidade e pureza, e ‘inocência’, que é estado de quem não é culpado. Não podemos confundir os significados da designação ‘inocência’, pois é essencial para a interpretação bíblica.

Para o Dr. Scofield houve a dispensação da inocência, ou seja, ‘o homem foi criado em inocência, colocado em um ambiente perfeito (…) e advertido das conseqüências da desobediência’ Bíblia de Scofield com Referências, explicação a Gn 1:28 . Ora, como foi avisado por Deus, Adão já não era mais ‘simples’ (inocente, ingênuo). Pelo fato de ter sido avisado isto não o tornou culpado, mas deixou de ser ‘simples’.

Deus criou o homem do pó da terra ( Gn 2:7 ), colocou-o no Jardim do Éden para lavrá-lo e guardá-lo ( Gn 2:15 ), e foi alertado por Deus quanto a árvore que estava no meio do jardim ( Gn 2:17 ). Adão foi criado puro (inocente, inculpável), santo e bom, e alertado (não mais inocente) quanto ao perigo de se comer da árvore do conhecimento do bem e do mal.

Porém, apesar de avisado, tanto a mulher quanto o homem preferiram dar ouvidos à serpente: “Certamente não morrereis” ( Gn 3:4 ). Não dar ouvidos (credito) a palavra de Deus alienou o homem do seu Criador. Após atender a palavra de Satanás, o homem deixou de compartilhar da vida e da glória que há em Deus.

O Homem morreu conforme a palavra do Senhor ( Gn 2:17 )! A justiça divina não tardou: o homem foi julgado e apenado com a morte “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens, para condenação…” ( Rm 5:18 ).

A morte é alienação de Deus. Por causa da lei santa justa e boa que diz: ‘… certamente morrerás’ ( Gn 2:17 ), o pecado encontrou ocasião na força da lei, e por ela aprisionou o homem ( 1Co 15:56 ). Sem a lei que diz: ‘certamente morrerás’ ( Gn 2:17 ), não existia para o homem a possibilidade de alienação de Deus, ou seja, o pecado estaria morto ( Rm 7:8 ).

O mandamento de Deus foi dado para preservar o homem em vida, porém, após dar ‘ouvido’ à serpente, o homem ‘achou’ que o mandamento era o mesmo que morte, pois entendeu que ainda não estava pleno de Deus ( Rm 7:10 ; Gn 3:5 ). O homem entendeu que não ter o conhecimento do bem e do mal era o mesmo que não ter vida plena. Porém, vida plena é estar em Deus, mesmo sem o conhecimento do bem e do mal.

Pela lei santa justa e boa, que visava preservar a comunhão do homem com Deus, o pecado achou ocasião, mostrando-se excessivamente maligno, pois pelo bem (lei) encontrou a força necessária para alienar o homem de Deus, e, assim, enganou e matou o homem ( Rm 7:11 ).

O homem perdeu a comunhão, a glória de Deus, a vida e a liberdade! Por natureza o homem passou a ser filho da ira e da desobediência, alienado de Deus ( Ef 2:2 -3 ).

A condição de Adão passou a todos os seus descendentes. A morte veio por um homem e todos os homens morreram em Adão ( 1Co 15:21 -22). Um pecou, todos os seus descendentes pecaram ( Rm 5:16 ).

O apóstolo Paulo descreve a condição do homem destituído da gloria de Deus como morto em delitos e pecados ( Ef 2:1 ; Cl 2:13 ). O homem não dispõe de meios para livrar-se por si mesmo da condição herdada de Adão, sendo comparável aos escravos que nasciam alienados da liberdade.

Diante deste quadro horrendo, o pecado, apareceu a benignidade de Deus para com todos os homens ( Tt 3:4 ). Por ser riquíssimo em misericórdia, mesmo os homens estando mortos em delitos, anunciou: “Inclinai os vossos ouvidos, e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá…” ( Is 55:3 ; Ef 2:5 ).

Adão morreu por não dar ouvidos (obedecer) à palavra do Senhor. Não deu crédito à palavra do Senhor e acatou as palavras do pai da mentira.

Como pelo ‘ouvir’ se deu a injustiça do homem, somente pelo ‘ouvir’ é possível alcançar a justiça de Deus. O homem morreu por desprezar a palavra do Senhor, e somente pelo ouvir é possível alcançar a comunhão com Deus.

Por toda a Bíblia o convite de Deus ecoa: “Agora, se diligentemente ouvirdes a minha voz, e guardardes a minha aliança, sereis a minha propriedade peculiar…” (Ex 19:5 ). Apesar de Deus prometer vida, muitos entenderam que Deus queria tirar-lhes a vida “Mas não fala Deus conosco, para que não morramos” ( Ex 20:19 ).

Por causa desta desconfiança, o povo foi provado pelo Senhor no deserto. Deus afligiu e deixou o povo ter fome, e depois os alimentou com o maná, codornizes, etc., para que entendessem que deveriam ouvir a palavra de Deus. Quando Deus provia pão para o sustento diário, parecia que o povo confiava em Deus, mas quando Deus lhes dava pequenas regras para ensiná-los a confiar, rejeitavam o Senhor ( Ex 16:4 ).

Como alcançar entendimento? Como temer o Senhor? Os sinais miraculosos não suprem o que só é satisfeito pela palavra do Senhor! Através dos sinais miraculosos no deserto Deus queria dar a entender que ‘não só de pão vive o homem, mas de tudo o que sai da boca do Senhor’ ( Dt 8:3 ).

Ora, se somente por intermédio da palavra de Deus viverá o homem, como é possível alguém reputar que ouvir a voz do Senhor é morte? ( Ex 20:18 -19).

Deus promete por intermédio do profeta Moisés circuncidar o coração do povo para que tivessem vida, desde que se convertessem ao Senhor dando ouvidos a sua voz ( Dt 30:2 e Dt 30:6 ). Por que lhes era necessário a circuncisão do coração se já eram circuncidados na carne?

A circuncisão da carne era somente um sinal instituído por Deus para que os descendentes da carne de Abraão não se esquecessem da aliança estabelecida entre Deus e o patriarca Abraão. A circuncisão na carne ou ser descendente de Abraão não é o que estabelece a comunhão com Deus, antes a comunhão com Deus só é possível através da circuncisão do coração ( Rm 9:8 ). Esta é realizada somente por Deus, enquanto aquela feita por mãos humanas.

Para obter comunhão com o Senhor, em primeiro lugar é necessário extinguir a comunhão com o pecado. Somente após extinguir a existência alienada de Deus (circuncisão do coração) é que o homem terá novo coração e um novo espírito, ou seja, vida em comunhão com o Espírito Eterno ( Ez 36:26 -27 ).

Ouvir a palavra do Senhor não é um mandamento difícil, pois em ouvir a palavra de Deus está a vida. Neste diapasão anunciou o profeta Habacuque: “… mas o justo pela sua fé viverá” ( Hb 2:4 ).

Qual é a fé do justo? É aquela que vem pelo ouvir da palavra de Deus, ou seja, a fé do justo é aquela revelada por intermédio da voz de Deus ( Gl 3:23 ). Necessário é ouvir a palavra de Deus para que se tenha vida, pois a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus.

O ‘justo vive pela fé’ porque crê na mensagem que lhe foi anunciada, pois é a mensagem anunciada que concede vida ( Rm 10:17 ). O justo vive pela promessa anunciada por Deus. Ora, a promessa anunciada é o mesmo que esperança proposta, e em descansar nela há justiça e vida ( Hb 6:18 ). Pela fé o homem é designado justo, pois passa a compartilhar da natureza do Autor da vida.

A humanidade sem Deus está sedenta e faminta ( Is 55:1 ). Embora os homens trabalhem para terem comunhão com o Criador, tal empreitada não pode satisfazer-lhes ( Is 55:2 ).

Como a palavra de Deus é pão que dá vida, basta ouvi-la atentamente que o homem comerá o que é bom ( Is 55:1 ). Para adquirir o que é ofertado pelo Senhor não é necessário o produto do trabalho (dinheiro), antes basta ouvir diligentemente, que alcançará a luz da vida.

A perdição se deu pelo ouvir a palavra do engano, e a salvação é pelo ouvir a Palavra da Verdade. Basta inclinar os ouvidos à palavra de Deus que o homem se achegará a Ele, uma vez que a barreira de separação foi erguida porque o homem deu ouvido ao pai da mentira.

Jesus anunciou: “Vinde a mim (…) e aprendei de mim, que sou humilde e manso de coração” ( Mt 11:28 ). Só aprende aquele que dá crédito, ou seja, que ouve a palavra de Deus ( Mt 11:15 ).

Ora, o Verbo encarnado clamou aos seus, porém não deram ouvidos à sua voz. O próprio pão que dá vida se ofereceu para que os homens tivessem vida ( Jo 6:51 ), porém, em lugar de ouvi-lo, queriam executar a obra de Deus.

Realizar a obra de Deus? Sim! Eles desejavam realizar a obra de Deus, assim como o povo que saiu do Egito prometeu executar tudo o que Deus prescrevesse “Tudo que o Senhor falou, faremos” ( Ex 19:8 ).

O povo de Israel comeu maná no deserto, e, logo após, murmuraram por causa de água. Do mesmo modo, após comer dos pães que foram multiplicados por Cristo, o povo murmurou querendo outro sinal ( Jo 6:30 ).

Jesus os alertou citando as escrituras: “Serão todos ensinados por Deus” ( Jo 6:45 ), ou seja, qualquer que ouve e aprende de Deus chega-se a Cristo para obter vida ( Jo 6:40 e Jo 6:47 ). Jesus declarou abertamente que Ele é o pão da vida, ou seja, Ele é o Verbo de Deus, Ele é ‘tudo que sai da boca de Deus’ por Quem todo e qualquer homem que se alimenta viverá ( Dt 8:3 ).

Todos que comeram o maná no deserto morreram ( Jo 6:49 ), e Jesus se apresenta como o pão que desceu do céu, do qual quem comer não morre ( Jo 6:50 ). A mensagem de Cristo é a mesma do profeta Isaías: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” ( Mt 11:28 ), ou seja, qualquer que o ouvir receberá alívio “Inclinai os vossos ouvidos, e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá” ( Is 55:3 ).

Qualquer que ouve, ou seja, que come do pão que desceu dos céus, que se alimenta de Cristo, alcança comunhão com Deus “Ouvi-me atentamente, e comei o que é bom, e a vossa alma se deleite com a gordura” ( Is 55:2 ).

A oferta de ‘vinho’ e ‘leite’ restringe-se aos que não tem dinheiro. Basta ter sede que o homem é saciado pelo Senhor! Quem tem sede será saciado, ou seja, deve fazer como o salmista Davi, que disse: “Digna-te, ó SENHOR, livrar-me: SENHOR, apressa-te em meu auxílio” ( Sl 40:13 ).

Qualquer que ouve a palavra do Senhor come o que é bom, porém, há aqueles que querem satisfazer a necessidade de salvação através do produto do seu trabalho, ou seja, em vez de ouvir, os homens querem realizar a obra de Deus.

Deus alerta aqueles que querem utilizar as suas riquezas (dinheiro=boas ações, religiosidade, moral, sacrifício, ascetismo, etc.) naquilo que não é pão, ou seja, que não concede vida. O que representa o ‘produto do trabalho’ do homem? É uma alusão a falta de confiança na providencia divina, pois é maldito qualquer que não confia, ou que não escuta, ou que não ouve, ou que não come o que é bom “Dize-lhes pois: Assim diz o SENHOR Deus de Israel: Maldito o homem que não escutar as palavras desta aliança…” ( Jr 11:3 ).

A salvação (força) do Senhor é a alegria do Cristão, mas qualquer que faz da sua carne o seu braço (força), aparta-se do Senhor. Por não ouvir a palavra do Senhor, não come o que é bom e continua sob a maldição herdada de Adão “Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do SENHOR!” ( Jr 17:5 ).

O ‘produto do trabalho’ do homem é o mesmo que violência diante de Deus “As suas teias não prestam para vestes nem se poderão cobrir com as suas obras; as suas obras são obras de iniquidade, e obra de violência há nas suas mãos” ( Is 59:6 ). O alerta é solene: “Não por força nem por violência, mas pelo meu espírito…” ( Zc 4:6 ), ou seja, o trabalho e o produto do trabalho diante de Deus é abominação.

Apesar do convite solene, Jesus demonstra qual é o posicionamento dos homens: “E, desde os dias de João o Batista até agora, se faz violência ao reino dos céus, e pela força se apoderam dele” ( Mt 11:12 ). Não dão ouvidos ao Espírito que foi enviado para evangelizar os necessitados ( Lc 4:18 ; Mt 11:12 ), mas querem realizar a obra de Deus, ou seja, querem utilizar o produto do trabalho, que é força e violência, ‘naquilo que não pode satisfazer’ ( Is 55:2 ).

Constitui-se uma afronta tentar comprar o que é oferecido gratuitamente. Não há como adquirir por preço o que não tem preço, ou melhor, como a redenção é caríssima, os recursos de qualquer homem se esgotariam ( Sl 49:8 ).

Qualquer que ouvir a palavra da verdade pode exultar com a mesma confiança que teve o apóstolo Pedro: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança (…) tendo sido regenerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, a qual vive e é permanente” ( 1Pe 1:22 e 22 e 23).

O Verbo encarnado, que foi morto e ressurgiu dentre os mortos, vive para sempre, e qualquer que se alimentar da sua carne e beber do seu sangue ( Jo 6:53 ), será participante da natureza divina, tornando-se filhos de Deus ( 1Pe 1:4 ).

Ler mais