O emprego do termo ‘ágape’ na Bíblia

Dentre todos os termos gregos utilizados na Bíblia para ‘amor’, o termo ‘ágape’ foi escolhido e utilizado pelos apóstolos para enfatizar a obediência a Deus.

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O Sermão do monte e o adultério

A ênfase do discurso do Sermão da Montanha não é moralizante, antes uma repreensão aos filhos de Israel por entenderem que eram melhores que os gentios por descenderem de Abraão, e que não precisavam de arrependimento (metanoia). A ênfase do discurso é sublinhada pelo público alvo da mensagem, que no caso do Sermão da Montanha eram os filhos de Israel, e não os membros do Corpo de Cristo, a Igreja, ou os gentios não convertidos.


Introdução

Sabemos que Jesus não veio ao mundo para revogar a lei, mas, sim, para cumpri-la. Nesse sentido, é inadmissível a ideia de acrescer ou diminuir qualquer mandamento à lei:

“Não acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do SENHOR vosso Deus, que eu vos mando” (Dt 4:2);

“Nada acrescentes às suas palavras, para que não te repreenda e sejas achado mentiroso” (Pv 30:6).

Se a multidão entendesse que, no Sermão do Monte, Jesus estivesse acrescentando à lei um novo mandamento, por menor que fosse o mandamento ou, proposta de alteração, não sofreriam o discurso passivamente.

Por que a multidão não se enfureceu e se arremeteu contra Cristo, ao ouvir o Sermão da Montanha? Jesus estava apresentando ao povo um novo código moral e de condutas, em substituição à lei?

Que ênfase considerar, ao ler o discurso de Jesus?

 

Adultério

“Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério. Eu, porém, vos digo, que qualquer que atentar numa mulher para cobiçá-la, já, em seu coração, cometeu adultério com ela” (Mateus 5:27-28)

Jesus aponta outro ponto da lei: “Ouvistes o que foi dito: Não adulterarás” (Mt 5:27), em seguida, alerta que não bastava aos seus ouvintes absterem-se das relações sexuais ilícitas, pois, qualquer que atentar para uma mulher para cobiçá-la, em seu coração já adulterou!

“Eu, porém, vos digo, que qualquer que atentar numa mulher para cobiçá-la, já, em seu coração, cometeu adultério com ela” (Mt 5:28).

Por que Jesus cita a lei e, em seguida, apresenta regras próprias mais rígidas que a lei?

“Eu, porém, vos digo…”

O ensinamento de Jesus era totalmente diferente dos seus antecessores. Os escribas e fariseus enfatizavam a lei, Cristo enfatiza os seus ouvintes, perante a lei.

Para compreender a proposta de Jesus, em relação ao adultério, temos de considerar o seu alerta, no início do discurso à multidão, que eles precisavam de justiça superior à dos escribas e fariseus, a fim de terem direito a entrar no reino dos céus.

“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder à dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” (Mt 5:20).

Como alcançar justiça superior à dos escribas e fariseus, se tudo o que faziam, segundo a lei, os publicanos faziam exatamente o mesmo?

“Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos, também, o mesmo? E se saudardes, unicamente, os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos, também, assim?” (Mt 5:46-47).

O motivo de Jesus ter apresentado a lei e, em seguida, apresentado a sua determinação, visava alcançar a compreensão dos seus ouvintes, que se achavam  justos, por ouvirem a lei, porém, os publicanos que eles consideram pecadores faziam exatamente o mesmo!

Os judeus amavam aqueles que os amavam, saudavam aqueles que os saudavam, e se achavam justos diante de Deus, por causa da lei. O que os ouvintes de Jesus faziam a mais que os seus concidadãos cobradores de impostos?

O pensamento do fariseu – da parábola – que foi ao templo orar e deu graças por não ser como os demais homens: roubadores, injustos e adúlteros e nem mesmo como o publicano, além de jejuar duas vezes na semana e dar os dízimos de tudo quanto possuía (Lc 18:11-12), era a tônica dos ouvintes de Jesus.

O fariseu da parábola não roubava, não era ‘injusto’ e não adulterava, etc., e mesmo assim, não voltou para casa justificado. Por quê? Porque o fariseu não tinha a justiça superior que o permitiria entrar no reino dos céus (Lc 18:11).

Se os ouvintes de Jesus desejavam justiça superior à dos escribas e fariseus, não deveriam fazer tão somente o que os fariseus faziam: não adulterar. Em face da necessidade dos seus ouvintes, é que entra a proposta de Jesus: nem mesmo poderiam atentar para uma mulher para a cobiçar, pois já teriam cometido adultério no coração (Mt 5:28).

Se fossem capazes de fazer o que Jesus estava ordenando, adotando uma regra de conduta superior à dos escribas, fariseus e publicanos, em relação ao adultério, quiçá alcançassem a justiça superior à dos seus líderes religiosos, que os permitisse entrar no reino dos céus.

 

Arranque o olho que escandaliza

“Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros, do que seja todo o teu corpo lançado no inferno. E, se a tua mão direita te escandalizar, corta-a e atira-a para longe de ti, porque te é melhor que um dos teus membros se perca, do que seja todo o teu corpo lançado no inferno” (Mt 5:29-30).

Jesus apresenta uma solução aos que se deixassem levar pela concupiscência dos olhos:

“Arranca-o e atira-o para longe de ti”!

Se o olho dos ouvintes de Jesus os fizesse tropeçar, de modo que atentassem para uma mulher e a cobiçasse, a proposta de Jesus é: arranca-o e atira-o para longe de ti! Quem dentre os ouvintes de Jesus, a pretexto de não ir para o inferno, teria coragem de arrancar um dos seus olhos?

Arrancar o olho, após incorrer no erro de atentar para uma mulher, para cobiçá-la, é uma proposta diferente à prática proposta pelos escribas e fariseus! Para alguém que necessita de justiça superior à dos escribas e fariseus, a fim de ter direito a entrar no reino dos céus, é melhor que se perca um dos seus membros, do que ser lançado todo o corpo no inferno.

Satisfazer qualquer exigência necessária, para se alcançar justiça superior à dos escribas e fariseus, a fim de entrar nos céus, deve ser a meta do homem e se alguma coisa o faz tropeçar (escandalizar), que seja removido. Se a mão direita é causa de tropeço, que seja cortada e lançada para longe! É melhor perder um membro, do que ter o corpo inteiro lançado no inferno.

“Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti” (Mt 5:29).

A proposta de Jesus é prescritiva de comportamento, visando estabelecer uma moral superior à dos escribas e fariseus ou, visa provocar nos seus ouvintes uma mudança de pensamento (arrependimento/metanoia)?

 

O divorcio

“Também foi dito: Qualquer que deixar sua mulher dê-lhe carta de divórcio. Eu, porém, vos digo que qualquer que repudiar sua mulher, a não ser por causa de prostituição, faz que ela cometa adultério e qualquer que casar com a repudiada, comete adultério” (Mateus 5:31 -32).

Os judeus tinham ouvido que, aquele que deixasse a sua esposa, que lhe desse carta de divórcio. Mas, para produzir uma mudança de concepção nos seus ouvintes, acerca da justiça de Deus, Jesus alerta que, qualquer que se divorcia de sua mulher, a não ser por imoralidade, por parte dela, faria com que tanto a mulher repudiada, quanto quem se casasse com ela, cometessem adultério.

Jesus estava ab-rogando a lei dada por Moisés? O que Jesus intentava, ao anunciar que, o que estava estabelecido na lei, era pouco? Sabemos que qualquer alteração em uma lei estabelece uma nova, revogando a antiga, mas esse não era o objetivo de Jesus, pois Ele mesmo disse:

“Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir” (Mt 5:17).

Considerando que Jesus estava falando ao povo e que ele nunca falava ao povo sem parábolas (Mc 4:34), certo é que a proposta de Jesus não era impor novas regras sociais acerca da união conjugal aos seus ouvintes, antes, a proposta é apresentar uma grande parábola, que conduzisse os seus ouvintes a compreenderem a necessidade de se buscar o reino de Deus e a sua justiça (Mt 6:33), pois, somente a justiça de Cristo, o reino de Deus, é superior à justiça dos escribas e fariseus.

Devemos considerar que Jesus não veio anular, omitir ou acrescentar o estabelecido pelos profetas, portanto, é contra senso entender o anunciado no Sermão da Montanha, como sendo uma ‘nova moral’, pertinente ao reino de Deus.

“Não acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do SENHOR vosso Deus, que eu vos mando” (Dt 4:2).

Embora o Senhor Jesus fosse o Verbo eterno encarnado, na condição de Filho, não tinha autonomia para alterar o estabelecido por Deus pois, na sua primeira vinda, se fez servo.

 

Juramentos

“Outrossim, ouvistes o que foi dito aos antigos: Não perjurarás, mas cumprirás os teus juramentos ao SENHOR. Eu, porém, vos digo que, de maneira nenhuma, jureis; nem pelo céu, porque é o trono de Deus; Nem pela terra, porque é o escabelo de seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei; Nem jurarás pela tua cabeça, porque não podes tornar um cabelo branco ou preto. Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque, o que passa disso, é de procedência maligna” (Mateus 5:33– 37).

Em seguida, Jesus aborda a questão dos juramentos, destacando o que dizia a lei: “Outrossim, ouvistes o que foi dito aos antigos: Não perjurarás, mas cumprirás os teus juramentos ao SENHOR” (Mt 5:33) para, em seguida, proibi-los de jurar, visto que não pertenciam aos ouvintes de Jesus as coisas sagradas que eles evocavam nos juramentos.

Como jurar por algo que não lhe pertence, como os céus, o trono de Deus? Como jurar pela terra, se ela pertence a Deus? Como jurar pela cidade santa, se ela pertence ao Messias? Como jurar por algo que o homem tem por seu, que é o cabelo da sua cabeça, se nem poder tem para mudar a cor do seu cabelo?

Deus já havia salientado na lei que a terra lhe pertencia e o povo havia votado que fariam o que Deus ordenara:

“Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos, porque toda a terra é minha. E vós me sereis um reino sacerdotal e o povo santo. Estas são as palavras que falarás aos filhos de Israel. E veio Moisés, chamou os anciãos do povo, e expôs diante deles todas estas palavras, que o SENHOR lhe tinha ordenado. Então todo o povo respondeu a uma só voz e disse: Tudo o que o SENHOR tem falado, faremos. E relatou Moisés ao SENHOR as palavras do povo” (Ex 19:5-8).

Deus não está interessado em que o homem faça votos, mas,  que cumpra o que já havia votado, que é obedecer à Sua palavra.

“Assim falai, e assim procedei, como devendo ser julgados pela lei da liberdade” (Tg 2:12).

Jesus orienta os seus ouvintes a terem uma palavra firme e segura, pois os profetas já haviam alertado que a palavra deles era ‘sim’, mas que não punham por obra o que diziam.

“Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” (Is 29:13).

Quem honra com a boca, mas não obedece a Deus, é de procedência maligna: “Ai, nação pecadora, povo carregado de iniquidade, descendência de malfeitores, filhos corruptores; deixaram ao SENHOR, blasfemaram o Santo de Israel, voltaram para trás”  (Is 1:4).

 

Talião

“Ouvistes que foi dito: Olho por olho e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra; E, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; E, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas. Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes” (Mt 5:38-42).

Jesus continua o seu discurso, evidenciando um princípio da lei: “Olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé…” (Ex 21:24) e ordena aos seus ouvintes que não resistam aos homens violentos. Que, caso fossem agredidos em uma das faces, que oferecessem a outra.

Nesse mesmo diapasão, se alguém reclamasse aos ouvintes de Jesus a túnica (vestido) litigiosamente, que deixassem o adversário levar a capa também. Ou, se alguém exigisse dos ouvintes de Jesus que se andasse uma milha, que se dispusessem a acompanhá-lo, também, por duas. Ou, se alguém pedisse algo, que dessem o que foi pedido e, jamais deixassem de emprestar a qualquer que lhe pedisse.

O que Jesus pretendia com esse discurso? Mudar as regras que disciplinavam as relações sociais? Dar a outra face ou, entregar a capa a quem quer a túnica, para obter salvação? Dar a quem pede e não negar a quem pede emprestado, para obter direito à salvação? É certo que não!

Jesus pretendia mudar a lei de Moisés, que é prescritiva de comportamento e disciplina as relações sociais em seus vários aspectos: casamento, divórcio, empréstimo, penhor, guerra, etc.? (Ex 24:1-22) O que foi estabelecido por Deus como preceito em Israel não era justo? A lei não disciplinava o princípio expresso na máxima da lei do talião: paridade entre ofensa e retribuição? É certo que sim!

No seu discurso Jesus busca provocar no povo uma mudança de concepção, pois, ao apresentar a necessidade de uma justiça maior que a dos escribas e fariseus, deixa claro que é impossível alcançar tal justiça através da total abnegação.

Se os fariseus e os escribas, pelas obras da lei não tinham direito a ver o reino dos céus, que ações meritórias o povo deveria praticar, de modo que fosse possível suplantar a justiça dos seus líderes religiosos?

“Mas Israel, que buscava a lei da justiça, não chegou à lei da justiça” (Rm 9:31).

Muitos veem na sugestão de ‘dar a outra face a quem ferir’, o pináculo da sabedoria contida na doutrina de Jesus. No entanto, Jesus estava somente apresentando várias situações que colocam em xeque a religião judaica, visto que os publicanos e os gentios tinham o mesmo comportamento que os escribas e fariseus e eram tidos por pecadores.

A sabedoria de Jesus está, não em dar a outra face a quem agredir mas,  na pergunta que produz a metanoia (arrependimento):

“Que fazeis demais?”

 

O amor ao próximo

“Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus; Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons e a chuva desça sobre justos e injustos. Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos, também, o mesmo? E, se saudardes, unicamente, os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos, também, assim? Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus” (Mateus 5:43-48).

É cediço que o amor ao próximo é o cumprimento da lei:

“A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor, com que vos ameis uns aos outros; porque, quem ama aos outros, cumpriu a lei. Com efeito: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não darás falso testemunho, não cobiçarás; e se há algum outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. O amor não faz mal ao próximo. De sorte que o cumprimento da lei é o amor” (Rm 13:8-10).

Mas, qual o objetivo de Jesus em lembrar ao povo o que constava na lei?

“Amará o teu próximo e odiarás o teu inimigo” (Mt 5:43).

Por que Ele dá a ordem:

“Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5:44)?

Basta alguém amar o seu inimigo, que alcançará a filiação divina? Uma oração em favor dos que perseguem, é suficiente para a pessoa ser declarada um dos filhos de Deus? Absolutamente, não!

As ações que Jesus recomenda à multidão tinham por objetivo mudar a concepção dos seus ouvintes, não impor-lhe, novas regras sociais. Para os ouvintes de Jesus entrarem no reino dos céus, o exigido por Deus era justiça superior à dos escribas e fariseus e, por isso, Ele ordena a amar os inimigos, pois, só amando ao próximo, a justiça alcançada não suplantaria a dos escribas e fariseus.

Somente praticando ações superiores às praticadas pelos escribas e fariseus, é que os ouvintes de Jesus seriam tidos por filhos de Deus, visto que a lei deixa claro que os filhos de Israel não eram filhos, mas, uma mancha.

“Corromperam-se contra ele; não são seus filhos, mas a sua mancha; geração perversa e distorcida é” (Dt 32:5; Is 30:9).

Se os ouvintes de Jesus queriam alcançar a filiação divina, ou seja, terem justiça maior que a dos escribas e fariseus, as suas ações deveriam ser da mesma natureza do Pai celeste, que não faz acepção de pessoas: faz nascer o sol sobre grandes e pequenos e faz vir chuva sobre justos e injustos.

Partindo do pressuposto de que quem faz somente o que é ordenado não passa de servo inútil, que recompensa alguém teria ao fazer somente o estabelecido na lei?

“Assim, também, vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer” (Lc 17:10).

Tudo o que foi exposto por Jesus, desde o verso 21, deve ser considerado segundo o prisma dessa pergunta fundamental:

“Pois, se amais os que amam a vós, que recompensa tendes? Não é assim que os publicanos também fazem?”, ou:

“E se saudais apenas os seus irmãos, o que a mais fazeis? Não é assim que os gentios também fazem?” (Mt 5:47).

Conforme apontado pelo apóstolo Paulo, os filhos de Israel se achavam melhores que os gentios (Rm 3:9), e Jesus apresenta várias ações ao povo que, caso quisessem ser diferentes dos publicanos e gentios, deveriam considerar praticar.

Os filhos de Israel queriam ser recompensados com o reino dos céus somente amando àqueles que os amavam, dai a sugestão: amai os vossos inimigos! A proposta de Jesus ante a má compreensão dos judeus, acerca das coisas de Deus, foi apresentar um comportamento diferente da dos publicanos e gentios: dê a outra face, a qualquer que ferir a sua face!

Ir à sinagoga com os concidadãos e saudá-los nas praças não era algo que pudesse diferenciá-los dos gentios, pois os gentios também se portavam dessa forma. Através dessa abordagem, Jesus queria que considerassem que, somente ouvir a lei, não torna ninguém justo (Rm 2:13) e que os gentios, apesar de não terem a lei de Moisés, naturalmente, faziam as mesmas coisas que constavam da lei (Rm 2:14).

Ora, só é justificado quem pratica a lei (Rm 2:13) e como nenhum dos ouvintes de Jesus cumpriam, totalmente, a lei (Jo 7:19), nenhum deles era melhor que os gentios, portanto, também, não podiam herdar o reino dos céus. Devemos considerar que, se o homem tropeça em um só quesito da lei, é transgressor de toda a lei.

“Porque qualquer que guardar toda a lei e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos” (Tg 2:10).

Para os ouvintes de Jesus alcançar justiça superior à dos escribas e fariseus, precisavam ser perfeitos, como o pai Abraão:

“Sede vós, pois, perfeitos, como perfeito é o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5:48).

Como ser perfeito diante de Deus? Basta andar na presença de Deus, assim como Deus ordenou a Abraão:

“Eu sou o Deus Todo-Poderoso, anda em minha presença e sê perfeito” (Gn 17:1; Dt 18:13).

O homem jamais será perfeito, de modo a ser possível andar com Deus, antes, por andar com Deus é que o homem alcança a perfeição, assim como aconteceu com Enoque, Noé e Abraão (Gn 5:24; Gn 6:9).

A mensagem de Jesus no Sermão da Montanha estava preparando o povo para a seguinte ordem:

“Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; e vem e segue-me” (Mt 19:21).

Só os que estão em Cristo são perfeitos, verdadeiros filhos do crente Abraão:

“E estais perfeitos nele, que é a cabeça de todo o principado e potestade” (Cl 2:10; Gl 3:7).

Através dessa releitura do Sermão da Montanha, percebe-se que a proposta de Jesus visava causar nos seus ouvintes uma mudança de concepção, o tão apregoado ‘arrependimento’!

A mensagem de Jesus não visava mudança de comportamento, mas, uma mudança de compreensão à vista do Cristo, o reino de Deus.

“Desde então, começou Jesus a pregar e a dizer: Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus” (Mt 4:17).

A ênfase do discurso do Sermão da Montanha não é moralizante, antes uma repreensão aos filhos de Israel por entenderem que eram melhores que os gentios por descenderem de Abraão, e que não precisavam de arrependimento (metanoia). A ênfase do discurso é sublinhada pelo publico alvo da mensagem, que no caso do Sermão da Montanha tinha por alvo os filhos de Israel, e não os membros do Corpo de Cristo, a Igreja ou os gentios não convertidos.

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto

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Como amar os irmãos?

O evangelista João é enfático ao apresentar, de modo objetivo, como se percebe que alguém ama o seu irmão: quando ama a Deus, ou seja, quando guarda o Seu mandamento!

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O amor de Deus

03Jesus não falou do amor segundo os termos gregos ‘storge’, ‘eros’, ‘philia’ ou ‘ágape’. O amor da qual Jesus fala é condicional, portanto, foge das definições que muitos livros de teologia apresentam: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14:15). O amor que Jesus exige é serviçal, sujeição ao seu senhorio…


O amor de Deus é condicional e não sentimental

Introdução

Qual a natureza do amor bíblico? Como entender a declaração: ‘Deus é amor’? Para essas perguntas há mil e uma respostas, inúmeros sermões, uma vastidão de livros e muitas definições, acerca do amor de Deus.

No seu livro ‘Os quatro amores’, no primeiro parágrafo da introdução[1], C. S. Lewis deixou registrado que acreditou que, no axioma ‘Deus é amor’, conforme anunciado pelo evangelista João, encontraria um caminho plano para o assunto, mas, ao que parece, pelas argumentações no seu livro, que Lewis não conseguiu encontrar um caminho plano.

Lewis deixou a Bíblia de lado e foi buscar nos termos gregos[2], que se traduzem por amor, a inspiração necessária para abordar o tema. Ele buscou nos termos στοργη (storge) afeição fraternal, φιλια (philia) amizade, έρως (eros) sexualidade e αγαπη (agapē) caridade, o conhecimento que o levou a uma concepção[3] própria do amor bíblico, e elegeu o agapē como o maior dos amores,  como uma virtude puramente cristã.

Mas, por que não se contentar com o axioma ‘Deus é amor’? Não há na Bíblia um caminho plano para o assunto?

O axioma anunciado pelo evangelista João: “… ὅτι ὁ θεὸς ἀγάπη ἐστίν” no grego ou, na língua portuguesa: “… porque Deus é amor” ou, na língua inglesa: “…because God is love” ou, em qualquer outro idioma ou dialeto, possui o mesmo valor.

O ‘agapē’, por ser escrito no grego, não é superior ao ‘love’ inglês, principalmente por causa do contexto onde é utilizado. Não é Lewis quem define o significado do amor bíblico e nem os lexicógrafos, mas, sim, o contexto onde foi utilizado.

O mesmo autor, que disse: ‘Deus é amor’, em seguida, definiu o amor de Deus:

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” (1 Jo 5:3).

“E o amor é este: que andemos segundo os seus mandamentos. Este é o mandamento, como já desde o princípio ouvistes, que andeis nEle” (2 Jo 1:6).

Essa definição joanina será a bússola que nos conduzirá durante a análise do tema e que permitirá chegarmos a um entendimento seguro da natureza do amor de Deus para com os homens.

 

O amor dos homens para com Deus

Sobre o uso do termo amor, Jesus deixou explicito, de como amar a Deus:

“Mas, é para que o mundo saiba, que eu amo o Pai e que faço como o Pai me mandou. Levantai-vos, vamo-nos daqui” (Jo 14:31).

Jesus amava a Deus, fazendo, especificamente, o que Ele ordenou e qualquer que diz amar a Deus, tem que fazer, exatamente, o que Jesus fez: obedecer a Deus!

Nesse mesmo sentido, qualquer que diz ‘amar’ a Jesus, tem que obedecer aos Seus mandamentos, pois, se não obedecer aos mandamentos de Jesus, significa que não O ama (Jo 14:21 e 23-24).

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama, será amado de meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21).

“Jesus respondeu e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o amará, viremos para ele e faremos nele morada. Quem não me ama. não guarda as minhas palavras; ora, a palavra que ouvistes não é minha, mas do Pai que me enviou” (Jo 14:23-24).

Jesus não falou do amor, segundo os termos gregos ‘storge’, ‘eros’, ‘philia’ ou, ‘ágape’. O amor, do qual Jesus falou, é condicional, portanto, foge das definições que muitos livros de teologia apresentam:

“Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14:15).

O amor que Jesus exige é serviçal, sujeito ao seu senhorio, conforme expresso no seu convite:

“Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11:28-30).

“E por que me chamais, SENHOR, Senhor, se não fazeis o que eu vos digo?” (Lc 6:46).

Qualquer que se achegar a Cristo, precisa tomar sobre si o jugo de Jesus, se fazendo servo, ou seja, é o mesmo que humilhar-se a si mesmo. “E o que a si mesmo se exaltar, será humilhado; e o que a si mesmo se humilhar, será exaltado” (Mt 23:12).

 

O amor de Deus para com os homens

Ao fazer o que Deus manda, o homem ama a Deus e, em contra partida, o homem estará sob o amor de Deus, ou seja, sob o seu cuidado, como se lê:

“Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor” (Jo 15:10).

A definição do amor bíblico foi dada por Deus ao povo de Israel, por intermédio de Moisés, conforme expresso no livro do Êxodo:

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” (Ex 20:6).

Assim, decorre de Êxodo 20, verso 6, a declaração: “Eu amo aos que me amam e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17).

Os que guardam os mandamentos de Deus, são os que O amam, portanto, Deus ama os que O amam, ou seja, faz misericórdia aos que guardam o Seu mandamento.

Voltemos à definição joanina do amor de Deus:

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” (1 Jo 5:3).

O amor de Deus está expresso em seus mandamentos e os homens, por sua vez, amam a Deus, obedecendo-O. Quando Deus dá um mandamento, há um objetivo: a obediência de um coração puro.

“Ora, o fim do mandamento é o amor de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé não fingida” (1 Tm 1:5)

Ao escrever a Timóteo, o apóstolo Paulo não falou do fim da lei, antes, do objetivo do mandamento de Deus: a obediência. O termo grego τέλος (telos), traduzido por ‘fim’, na verdade significa ‘finalidade’, ‘objetivo’. O mandamento que o apóstolo Paulo destaca, refere-se à doutrina do evangelho (1 Tm 1:3).

O mandamento de Deus expressa o Seu cuidado e tem por objetivo a obediência do homem e quando a obediência ocorre, o homem estará ao abrigo do cuidado de Deus.

O leitor deve estar atento, pois, algumas vezes, os escritores bíblicos fazem referência ao amor de Deus e outras vezes, ao amor do homem. Por exemplo, neste verso da epístola de João, o amor em destaque é o do homem:

“No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena e o que teme não é perfeito em amor” (1 Jo 4:18).

O amar que não remete ao medo, não diz do amor de Deus, mas, sim, do amor do homem. O amor como obediência, não tem espaço para o medo, antes a perfeita obediência lança fora o medo. O medo só vem à tona por causa da pena e, qualquer que tem medo, é porque não é um obediente perfeito.

O salmista, no Salmo 71, faz referência ao mandamento de Deus que salva, expressão do amor de Deus:

“Sê tu a minha habitação forte, à qual possa recorrer, continuamente. Deste um mandamento que me salva, pois tu és a minha rocha e a minha fortaleza” (Sl 71:3).

Um exemplo de amor bíblico, ocorre no evento em que Jesus se encontra com o jovem rico. Ao amar o jovem rico, Jesus deu-lhe um mandamento: – “Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz e segue-me” (Mc 10:21).

Caso o jovem desse ouvidos à ordem de Cristo, teria obedecido ao Mestre. Em outras palavras, haveria amado a Cristo e seria amado por Deus. “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama, será amado de meu Pai, eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21).

Semelhantemente, Deus, ao amar homens de todas as tribos, povos e línguas (mundo), deu o seu Filho Unigênito, pois, em Cristo, está implícito o Seu mandamento, um mandamento que salva: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo” (1 Jo 3:23), visto que o amor de Deus é especifico:

“Nisto se manifesta o amor de Deus para conosco: que Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo, para que por ele vivamos” (1 Jo 4:9).

“E o amor é este: que andemos segundo os seus mandamentos” (2 Jo 1:6).

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos” (1 Jo 5:3).

O apóstolo João destaca que os cristãos só amam a Deus, porque Deus os amou primeiro: “Nós o amamos a ele, porque ele nos amou primeiro” (1 Jo 4:19). O amor de Deus para com a humanidade foi manifesto, quando Ele enviou o Seu Filho Unigênito ao mundo, porém, o amor de Deus foi estabelecido na fundação do mundo, uma vez que o cordeiro de Deus foi morto, desde a fundação do mundo (Ap 13:8).

Só é possível obedecer, quando há um mandamento, uma vez que, primeiro Deus deu o Seu mandamento em Cristo, daí o ‘amamos (obedecemos) a Ele, porque Ele nos amou (deu um mandamento) primeiro’.

Deus estabeleceu o seu mandamento, já na fundação do mundo. Deus não tem que provar nada e nem deu provas, antes, ‘estabeleceu’ o Seu amor, quando fundou o mundo, uma vez que o cordeiro foi morto, desde a fundação do mundo e o evidenciou aos olhos do mundo, na plenitude dos tempos, quando Cristo veio e morreu na cruz!

“Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5:8).

O apóstolo Paulo, ao abordar o amor de Deus, evidencia que Ele estabeleceu o seu amor para com os cristãos, no fato de Cristo ter morrido, quando ainda éramos pecadores. Os tradutores utilizam o verbo ‘provar’, para traduzir as variantes συνισταω (sunistao), συνιστανω (sunistano) ou συνιστημι (sunistemi) [4].

A ideia de um amor que admite prova, é decorrente do humanismo, movimento cultural/filosófico que se apegou aos conceitos filosóficos platonista e aristotélico, e que, em muitos casos, deixou de lado o sentido da linguagem do homem do campo, da antiguidade, que permeava as relações aristocráticas.

Cristo, por sua vez, ao fazer uso do termo αγαπη (agapē), não o fez, no sentido de caridade, mas, no sentido de honra. Para que o mundo soubesse que Cristo honrou o Pai, Ele fez, especificamente, o que o Pai ordenou: “Mas, é para que o mundo saiba que eu amo o Pai e que faço como o Pai me mandou. Levantai-vos, vamo-nos daqui” (Jo 14:31).

Apesar dos estudiosos conhecerem a essência do termo grego αγαπη (agapē), quando abordam o tema ‘amor’ na Bíblia, dão um novo significado ao termo e fazem um desserviço ao evangelho. Observe:

“Amor (gr. agape) (1 Pe 4.8; Rm 5.5, 8; 1 Jo 3.1; 4.7, 8,16; Jd 21) Esta palavra raramente era usada na literatura grega, antes do Novo Testamento. E quando isso acontecia, ela era usada para expressar um ato de gentileza aos estrangeiros, de oferecer hospitalidade e ser caridoso”. O novo comentário bíblico NT, com recursos adicionais — A Palavra de Deus ao Alcance de Todos, Editores Earl Radmacher, Ronald B. Allen e H. Wayne House, Rio de Janeiro, 2010, pág. 701.

“agapaõ que, originalmente, significava “honrar” ou “dar boas-vindas”, é, no Gr. clássico, a palavra que tem menos definição específica; frequentemente, se emprega como sinônimo de phileõ, sem haver qualquer distinção, necessariamente nítida, quanto ao significado (…) 4. Não está clara a etimologia de agapaõ e agapè. O vb. agapaõ aparece, frequentemente, na literatura gr. de Homero em diante, mas o subs. agapè é uma construção, que só aparece no Gr. posterior. Foi achada uma só referência fora da Bíblia: ali, a deusa Isis recebe o título de agapè (P. Oxy, 1380, 109; século II d.C.), agapaõ é frequentemente uma palavra descolorida em Grego e aparece, com frequência, como alternativa para, ou sinônimo com, eraõ e phileõ, com o significado de “gostar de”, “tratar com respeito”, “estar contente com”, e “dar as boas-vindas”. Quando, em raras ocasiões, se refere a alguém que foi favorecido por um deus (cf. Dio. Cris., Orationes 33, 21), fica claro que, diferentemente, de eraõ, não se refere ao anseio humano por posses ou valores, mas, sim, uma iniciativa generosa de uma pessoa por amor à outra”. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, Colin Brown, Lothar Coenen (orgs.); [tradução Gordón Chown] — 2ª ed. — São Paulo; Vida Nova, 2000, págs. 113 e 114.

Por causa da má leitura do termo αγαπη (agapē), quando empregado nas Escrituras, surgiu a ideia de que o amor de Deus é incondicional[5], ou seja, que Deus não exige nenhum quesito para amar e nem espera reciprocidade. Por outro lado, as Escrituras apresentam o amor de Deus, em outros termos:

“Eu amo aos que me amam e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17).

O amor de Deus para com o homem é condicional, pois Ele ama aos que O amam. É condicional por haver um quesito e demanda reciprocidade. Concluir que o amor de Deus é incondicional, geralmente decorre da má leitura dos seguintes versículos:

“Nisto consiste o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou (…) Nós o amamos a Ele, porque ele nos amou primeiro” (1 Jo 4:10 e 19).

“Mas, Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5:8).

Só é possível ao homem amar a Deus porque Ele amou primeiro, ou seja, se Deus não houvesse primeiramente dado um mandamento aos homens, seria impossível aos homens amarem a Deus. Daí a definição joanina:

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos” (1 Jo 5:3).

A essência do amor bíblico é a obediência à palavra de Deus, enquanto as elucubrações humanas entendem o amor, a partir de termos gregos e daí surgem só especulações, como: amor-doação, amor-entrega, que sai de si, em benefício do outro, capaz de doar-se, dar a vida, amor que faz tudo pelo amado, amor incondicional, amor que também é perdão, amor-caridade, misericórdia, etc.

Observe a exposição de Bancroft, acerca do amor de Deus:

“Assim como existe uma mente mais alta que a nossa, semelhantemente, existe um coração maior que o nosso. Deus não é, simplesmente, Aquele que ama; Ele é igualmente o Amor que é amado. Há uma infinita vida de sensibilidade e afeição em Deus. Deus tem sensibilidade e isso, em grau infinito. O sentimento por si só, porém, ainda não é amor. O amor implica não apenas em receber, mas em dar, não meramente em emoção, mas em concessão…”  Bancroft, Emery H., Teologia Elementar, Doutrinária e Conservadora, Editora Batista Regular, São Paulo, 2001, pág. 73.

A definição de Bancroft não passa de tergiversações e elucubrações, sem nenhuma fundamentação bíblica, pois trata o amor de Deus do ponto de vista da sensibilidade e da afeição humana.

Um exemplo claro do amor de Deus, nas Escrituras, encontramos na pessoa de Naamã, o capitão do exército do rei da Síria. Naamã não nutria nenhuma sensibilidade ou afeição pelo Deus de Israel, visto que ele nem mesmo sabia que somente em Israel havia Deus.  Ao saber que teria de mergulhar sete vezes no rio Jordão, a reação de Naamã foi de indignação.

Do mesmo modo, Deus não fez concessões e nem se sensibilizou com Naamã, por causa da sua enfermidade. Se Deus não se sensibilizou para atender aos milhares de leprosos que haviam em Israel, não seria o caso de se sensibilizar por um único homem estrangeiro (Lc 4:27).

O amor de Deus foi demonstrado por intermédio de um mensageiro do profeta, que disse: – “Vai e lava-te sete vezes no Jordão, que a tua carne será curada e ficarás purificado” (2Rs 5:10). Deus não se ocupou com o fato de Naamã ficar indignado e nem com a ideia que ele possuía acerca de Deus e do seu profeta (2Rs 5:11), mas, sim, em que se obedecesse à Sua palavra.

Deus não se sensibilizou e nem sentiu qualquer afeto pela viúva de Sarepta, de Sidom, pois, em igual situação, estavam muitas outras viúvas em Israel. Ele atendeu a viúva, por ela se dispor a atender a ordem de Deus: sustentar o profeta de Deus, mesmo não tendo recursos para fazê-lo: “Levanta-te e vai para Sarepta, que é de Sidom, e habita ali; eis que eu ordenei ali a uma mulher viúva que te sustente” (1Rs 17:9).

Devemos conhecer (tornar um com Ele) e prosseguir em conhecer ao nosso Deus (Os 6:3), pois o que Ele requer é a obediência:

“Porque eu quero a misericórdia e não o sacrifício e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos” (Os 6:6).

“Porém, Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” (1 Sm 15:22).

Mas, como ler o verso 16, do capítulo 3, do evangelho de João?

“Porque Deus amou ao mundo de tal[6] maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16).

Como temos a definição joanina: “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos”. (1 Jo 5:3), para compreendermos o verso 16, de João 3, temos que localizar onde está expresso o mandamento de Deus que os homens devem guardar.

Como desconhecem a natureza do amor de Deus, muitos intérpretes da Bíblia vislumbram, equivocadamente, que, no ato de Deus dar o Seu Único Filho, tem-se prova da intensidade do amor de Deus.

Considerando o texto na língua grega, verifica-se que Jesus estava explicando a Nicodemos como Deus amou o mundo: deu o Seu Filho único, o que é completamente diferente da ideia de que Deus amou intensamente o mundo. Ao dar o Seu Filho, temos como Deus amou o mundo, não um vislumbre da intensidade do amor de Deus.

“οὕτως[7] γὰρ[8] ἠγάπησεν[9] ὁ θεὸς τὸν κόσμον, ὥστε τὸν υἱὸν τὸν μονογενῆ ἔδωκεν ἵνα πᾶς ὁ πιστεύων εἰς αὐτὸν μὴ ἀπόληται ἀλλ’ ἔχῃ ζωὴν αἰώνιον” (João 3:16), Westcott and Hort.

“assim[2] Pois[1] amou[4] deus[3] o mundo, que o[2] Filho[3] único[4] deu[1], para que todo o que crê em ele não pereça mas tenha vida eterna”. Novo Testamento Interlinerar,  grego-português, Barueri, SP, SBB, 2004.

O texto, na língua grega, não tem um advérbio que modifique o sentido do verbo ἠγάπησεν (amou) intensificando-o, antes, temos um advérbio explicativo: οὕτως (deste modo, assim, desta maneira). Entretanto, apesar de não termos um advérbio que intensifique a ação do verbo, os tradutores passaram a considerar que o termo grego ἠγάπησεν (ēgapēsen), traduzido por ‘amou’, demonstra intensidade.

O termo ἠγάπησεν ocorre 12 vezes no Novo Testamento, incluindo João 3, verso 16: Marcos 10:21; Lucas 7:47; João 13:1; João 15:9; Efésios 2:4; Efésios 5:2 e 25; 2 Pedro 2:15; 1 João 4:10-11 e 19 e, em nenhuma dessas referências, o termo ἠγάπησεν denota amor com intensidade.

Vale destacar que, no capítulo 2 da carta de Paulo aos Efésios, verso 4, o apóstolo faz referência a Deus como rico em misericórdia, em virtude do seu grande amor. Mesmo fazendo referência à grandeza do amor de Deus, dimensionando-o, o apóstolo dos gentios afirma somente que Deus amou, portanto, não faz referência à ideia de intensidade.

O apóstolo Paulo ao fazer referencia aos elementos que utilizamos para dimensionar um objeto (largura, comprimento, altura e profundidade), demonstra que o amor de Deus é um conhecimento invariável e plenamente compreensível “Poderdes perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade” (Ef 3:18).

“Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou” (Ef 2:4).

Percebe-se que os tradutores do Novo Testamento seguiram a tendência dos tradutores da Septuaginta[10], que utilizaram o termo grego αγαπαω. para verterem o termo hebraico עגב, donde a concepção de intensidade, quando da tradução do termo ἠγάπησεν, no verso em comento, possivelmente surgiu.

Se o leitor seguir a definição dada pelo evangelista João e procurar o mandamento de Deus no versículo em análise, verá que Deus deu o Seu Filho com uma finalidade: para que, qualquer (judeu ou grego) que crer em Cristo, não pereça, mas tenha a vida eterna. Em crer em Cristo está o mandamento de Deus, como se lê:

“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1Jo 3:23).

Portanto, o amor de Deus é objetivo[11]: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, como já lemos:

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos” (1 Jo 5:3).


[1] “Deus é amor”, diz o apóstolo João. Quando tentei começar a escrever este livro pensei que seu axioma iria fornecer-me um caminho plano, através de todo o assunto. Estava certo de poder dizer que o amor humano só merecia ser assim chamado, naquilo em que se assemelhava àquele Amor que é Deus” Lewis, C. S., Os quatro amores, 2ª ed., São Paulo, WMF Martins Fontes, 2009.

[2]  Para os eruditos, o amor possui quatro vertentes, conforme os termos gregos utilizados para fazer referência ao amor: Storge, Eros, Philia e Ágape. Analisam o amor através da mitologia grega ou, através dos escritos de Platão (Eros) ou, procuram compreender o amor através da percepção de Aristóteles (philia), e, quando se deparam com a Bíblia, alegam que as ideias ditas cristãs devem ser analisadas através do amor ‘ágape’.

[3] “Deus é amor. De novo: “Nisto consiste o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou” (I João 4:10). Não devemos principiar com misticismo, com o amor da criatura por Deus, ou com a maravilhosa antecipação da fruição de Deus, concedida a alguns na vida terrena. Começamos no verdadeiro inicio, com o amor, como a energia Divina. Este amor primevo é o amor-Doação. Em Deus não existe fome a ser satisfeita, apenas fartura que deseja doar. A doutrina de que Deus não tinha necessidade de criar não é uma peça de especulação acadêmica, mas essencial”. Lewis, C. S., Os quatro amores, 2ª ed., São Paulo, WMF Martins Fontes, 2009.

[4] “4921 συνισταω (sunistao) ou (fortalecido) συνιστανω (sunistano) ou συνιστημι (sunistemi), de 4862 e 2476 (que inclui suas formas concomitantes); TDNT – 7:896, 1120, v. 1) estabelecer com, colocar no mesmo lugar, juntar ou unir 1a) permanecer com (ou próximo) 2) colocar alguém com outro 2a) apresentando-o ou introduzindo-o 2b) compreender 3) colocar junto por composição ou combinação, ensinar pela combinação e comparação 3a) mostrar, provar, estabelecer, exibir 4) colocar com, unir as partes num todo 4a) ser composto de, consistir”, Dicionário Bíblico Strong.

[5] “Mas o amor-Doação divino – o próprio Amor operando no homem – é inteiramente desinteressado e deseja o que é, simplesmente, melhor para o ente amado” Lewis, C. S., Os Quatro Amores.

[6] “Pois Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho único, para que não morra quem nele acredita, mas tenha a vida eterna”. Nova Bíblia Pastoral, Editora Paulus, 2014.

[7] “3779 ουτω (houto) ou (diante de vogal) ουτως (houtos) de 3778; adv 1) deste modo, assim, desta maneira”, Dicionário Bíblico Strong.

[8] “1063 γαρ (gar), partícula primária; conj 1) porque, pois, visto que, então”, Dicionário Bíblico Strong.

[9] “25 αγαπαω (agapao) talvez de agan (muito) [ou cf 5689 עגב ]; TDNT 1:21,5; v 1) com respeito às pessoas 1a) receber com alegria, acolher, gostar muito de, amar ternamente 2) com respeito às coisas 2a) estar satisfeito, estar contente sobre ou com as coisas. Sinônimos, ver verbete 5914”; “05689 agab (עגב), uma raiz primitiva, grego 25 αγαπαω; DITAT, 1559; v 1) (Qal) ter afeição desordenada ou cobiça 1a) cobiça (particípio) 1b) amantes (particípio como subst)”, Dicionário Bíblico Strong.

[10] “Na LXX, agapaõ se emprega, de preferência, para traduzir o verbo heb. Ãhèb. O subs. agapè acha aqui a sua origem, ao representar o Heb. ’ah bâk. O vb. Ocorre, muito mais, frequentemente, do que o subs. ’ahèb e pode se referir, tanto a pessoas, como a coisas, e denota, em primeiro lugar, o relacionamento de seres humanos entre si, e, em segundo lugar, o relacionamento entre Deus e o homem (…) Na LXX (Septuaginta), surge diante de nós um quadro bem diferente’; phileõ, ocorre raras vezes, enquanto o vb. agapaõ, e o subs. agapè (doutra forma, quase, inteiramente, desconhecido no Gr.) se acham a cada passo. Não é possível discernir se se empregam conforme regras fixas, pois phileò (30 vezes), tal como agapaò (cerca de 263 vezes), geralmente traduz o Heb. ahèb (e.g. Gn 27:4 e segs.; 37:4 [cf. 37:3]; Is 56:10; Pv 8:17 [cf. 8:21]). Embora o Heb. tenha uma gama inteira de palavras para expressar o conceito contrário do ódio (enquanto a LXX só tem a palavra única miseõ – Inimigo, art. miseõ), tem, virtualmente, a única raiz .ahèb à sua disposição para a gama de sentimentos, que se associam com o amor. O Gr., de outro lado, tem várias raízes e palavras derivadas para expressar as várias matizes do amor: philia (38 vezes), que geralmente traduz ‘aheb, ’ahabâh, é comparativamente rara, embora philos (cerca de 181 vezes), que, geralmente, traduz rèa, embora, frequentemente, sem equivalente heb., seja mais comum na LXX”, Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, Colin Brown, Lothar Coenen (orgs.); [tradução Gordón Chown], 2ª ed., São Paulo, Vida Nova, 2000, págs. 114 e 121.

[11] “A névoa do subjetivismo, permeado pelo idealismo, que as concepções religiosas de nossos dias prescrevem aos seus seguidores, através do termo ‘amor’, não guarda relação com o imperativo grave e objetivo definido no N. T., como: “Nenhum servo pode servir a dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Lc 16:13)” Crispim, Claudio, in A obra que Demonstra Amor a Deus, São Paulo, NewBook, 2012, pág 78. “Tanto o amor de Deus, quanto o amor a Deus, é objetivo: Cristo é o amor de Deus e quem O obedece, O ama. Quando compreendemos o amor, segundo o proposto por Cristo e pelos apóstolos, saímos do campo do subjetivismo. O amor deixa de ter relação com o que se passa no íntimo do sujeito pensante: julgamentos, sentimentos, hábitos, paradigmas, etc., de cada indivíduo, visto que o mandamento de Deus não sofre variação”, idem, pág. 108.

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A soberania de Deus assusta?

Não foi Deus que estabeleceu o mal sobre o povo de Israel, antes Ele estabeleceu a sua lei para que, ao obedece-la, gozassem o bem, mas ao transgredirem ficaram a mercê das maldições. E qual a causa da maldição? A desobediência à palavra de Deus “Será, porém, que, se não deres ouvidos à voz do SENHOR teu Deus, para não cuidares em cumprir todos os seus mandamentos e os seus estatutos, que hoje te ordeno, então virão sobre ti todas estas maldições, e te alcançarão” ( Dt 28:15 ).


 

Deparei-me com um texto sob o título ‘Quando a soberania de Deus lhe assusta’, escrito pela Sra. Keri Seavey*, e não pude me furtar a comentá-lo.

O artigo original na língua inglesa encontra-se no seguinte link: < http://thegospelcoalition.org/blogs/tgc/2014/04/28/when-gods-sovereignty-scares-you >, e publicando na língua portuguesa no Blog do Andrew: < http://oblogdoandrew.wordpress.com/2014/04/29/quando-a-soberania-de-deus-lhe-assusta > Consulta realizada em 30/04/14.

A Sra. Seavey conta em seu artigo que ao ouvir uma pregação do seu marido, foi necessário conter a enxurrada de emoções que tentava inundar o seu ser, conforme se lê:

Enquanto ouvia o meu marido pregar no Domingo, eu tentava frear a enxurrada de emoções mistas atravessando a represa interna que ergui. Eu estava espantada, cambaleante por conta da auto-reflexão. Cheguei à conclusão, sem dúvida de que fui conduzida pelo Espírito, de que eu estava com medo, assustada e aterrorizada por Deus” Seavey.

Surpreende-me o argumento:

“Cheguei à conclusão, sem dúvida de que fui conduzida pelo Espírito, de que eu estava com medo, assustada e aterrorizada por Deus”.

É temerário ter conclusões decorrente de uma ‘auto-reflexão’ em momento de forte emoção, mas a alegação de que ela afastou o ‘benefício da dúvida’ confiante de que foi ‘guiada pelo Espírito’ à conclusão de que ‘estava com medo, assustada e aterrorizada por Deus’, deve ser analisado à luz das Escrituras.

O artigo da Sra. Seavey possui quatro subtítulos, e o último possui argumentação supostamente de cunho teológico que parece ser o fundamento da argumentação dos outros três subtítulos.

Analisaremos primeiro o último subtítulo “Sofrendo soberano”, onde a Sra. Seavey afirma que as Escrituras revelam ‘Deus como Rei amoroso que ordena e supervisiona todo sofrimento’ Idem. O pronome inclusivo ‘todo’ generaliza a assertiva, e em ‘generalizar’ é grande o risco de cometer um erro.

Se entendermos ‘supervisiona’ todo sofrimento como algo inerente a onisciência de Deus, que tudo vê e tudo sabe, poderíamos entender como verdadeira a segunda parte da assertiva “E não há criatura alguma encoberta diante dele; antes todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar” ( Hb 4:13 ).

Agora, dizer que Deus ‘ordena’ todo sofrimento é temerário, pois os infortúnios do homem decorrem dos seus próprios erros “De que se queixa, pois, o homem vivente? Queixe-se cada um dos seus pecados” ( Lm 3:39 ).

É por isso que o apóstolo instrui dizendo: – “Não erreis’! E o motivo de o homem não errar é específico: tudo o que semeia, ceifará “Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará” ( Gl 6:7 ).

Deus estabeleceu a lei da semeadura, o que é completamente diferente de ter ‘ordenado todo sofrimento’. E como a colheita é abundante comparado ao que se planta, certo é o ditado: quem planta vento colhe tempestade “Porque semearam vento, e segarão tormenta, não haverá seara, a erva não dará farinha; se a der, tragá-la-ão os estrangeiros” ( Os 8:7 ).

Neste sentido, o sofrimento não é determinado por Deus, visto que não há maldição sem causa “Como ao pássaro o vaguear, como à andorinha o voar, assim a maldição sem causa não virá ( Pv 26:2 ). A morte só entrou no mundo por causa da desobediência de um homem que pecou, Adão ( Rm 5:12 ). O mandamento que foi dado no jardim alertava quanto à maldição que sobreviria sobre o homem, porém, a decisão do homem foi causa da maldição.

Deus é soberano, no entanto, apesar do seu eterno poder, Ele é fiel, justo e reto, ou seja, a ninguém oprime, de modo que jamais ordena o sofrimento de indivíduos em particular “Ao Todo-Poderoso não podemos alcançar; grande é em poder; porém a ninguém oprime em juízo e grandeza de justiça” ( Jó 37:23 ).

A maldição que se abateu sobre a terra se deu em função de Adão ter dado ouvidos à mulher e comido da árvore que lhe foi vetada por Deus, e a maldição atingiu todos os homens. No Éden a dor foi posta como maldição decorrente do pecado, de modo que com dor o homem passou a comer do produto da terra até retornar ao pó da terra “E a Adão disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida. Espinhos e cardos também, te produzirá; e comerás a erva do campo. No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” ( Gn 3:17 -19).

Vemos a lei da semeadura aplicada a Israel, pois a rebelião deles trouxe consequência funestas ( Os 8:1 ), ou seja, fizeram um plantio de vento, e a tormenta se abateu sobre eles. Por terem transgredido a aliança é que sobreveio a guerra, a fome e a peste, conforme o testemunho contra os filhos de Israel que consta em Deuteronômio ( Dt 31:19 -21).

Em virtude da palavra de Deus que advertiu que viria um grande mal sobre Israel quando se desviassem do Senhor “Porque eu sei que depois da minha morte certamente vos corrompereis, e vos desviareis do caminho que vos ordenei; então este mal vos alcançará nos últimos dias, quando fizerdes mal aos olhos do SENHOR, para o provocar à ira com a obra das vossas mãos” ( Dt 31:29 ), é que o profeta Habacuque diante da calamidade que se instalava, permaneceu confiante em Deus, pois Ele sabia que a maldição que se abatia sobre o seu povo de Israel era em decorrência da apostasia, e não porque Deus é soberano “Porque ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; ainda que decepcione o produto da oliveira, e os campos não produzam mantimento; ainda que as ovelhas da malhada sejam arrebatadas, e nos currais não haja gado; Todavia eu me alegrarei no SENHOR; exultarei no Deus da minha salvação” ( Hc 3:17 -18).

Não foi Deus que estabeleceu o mal sobre o povo de Israel, antes Ele estabeleceu a sua lei para que, ao obedece-la, gozassem o bem, mas ao transgredirem ficaram a mercê das maldições. E qual a causa da maldição? A desobediência à palavra de Deus “Será, porém, que, se não deres ouvidos à voz do SENHOR teu Deus, para não cuidares em cumprir todos os seus mandamentos e os seus estatutos, que hoje te ordeno, então virão sobre ti todas estas maldições, e te alcançarão” ( Dt 28:15 ).

Deus não ordena sofrimento, antes que se obedeça a sua palavra. O que traz sofrimento é a desobediência à palavra de Deus. O medo sobressalta o homem quando se afasta de Deus: “Vede, irmãos, que nunca haja em qualquer de vós um coração mau e infiel, para se apartar do deus vivo” ( Hb 3:12 ).

Dizer que Deus ordena todo sofrimento não tem respaldo bíblico. Deus não é a causa do sofrimento, e nem mesmo o fato de deus corrigir é cauda de sofrimento. Deus corrige seus filhos para evitar que sofram. Deus corrige o que ama e açoita a quem recebe por filho, e após ser contristado pela correção, virá alegria pelo fruto pacífico de justiça “E, na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela” ( Hb 12:11 ).

A quem Deus recebe por filho? Todos quantos creem em o nome do seu Filho, Jesus Cristo ( Jo 1:12 ). E quem Deus ama? Ora, Deus ama a todos quanto o amam “Eu amo aos que me amam, e os que cedo me buscarem, me acharão” ( Pv 8:17 ).

Há uma confusão em torno do amor de Deus. Primeiro por não compreenderem o significado do termo ‘amor’. Em segundo lugar por não distinguirem passagens bíblicas que abordam o tema com uma linguagem teológica e outras passagens que abordam o tema com uma linguagem evangelística.

João 6, verso 16 expressa o amor de Deus em uma linguagem evangelística: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” ( Jo 3:16 ). O que entender por mundo? O termo ‘mundo’ não se refere ao ‘cosmos’. O termo é utilizado no sentido de que Deus amou indistintamente todos os povos, nações e línguas, e daí a ordem: – “Ide por todo mundo” “E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” ( Mc 16:15 ); “E este evangelho do reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as nações, e então virá o fim” ( Mt 24:14 ; Mt 28:19 ; “E em seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém” ( Lc 24:47 ),

Mas, como foi dado o amor de Deus? Concedendo aos homens o Seu Filho unigênito (justiça de Deus) para que cressem n’Ele para não perecerem. Em uma linguagem teológica, Deus deu um mandamento pelo qual o homem deva ser salvo, que é: crer naquele que Ele enviou “Sê tu a minha habitação forte, à qual possa recorrer continuamente. Deste um mandamento que me salva, pois tu és a minha rocha e a minha fortaleza” ( Sl 71:3 ); “Mas a seu tempo manifestou a sua palavra pela pregação que me foi confiada segundo o mandamento de Deus, nosso Salvador” ( Tt 1:3 ); “Para que vos lembreis das palavras que primeiramente foram ditas pelos santos profetas, e do nosso mandamento, como apóstolos do Senhor e Salvador” ( 2Pd 3:2 ).

Ora, o mandamento de Deus é vida “E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito” ( Jo 12:50 ), e em última instância, só desfruta do amor de Deus o indivíduo que acata o seu mandamento “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” ( Jo 14:21 ).

Em João 6, verso 16 temos Deus revelando o seu amor ao mundo, Cristo como esperança da glória. Mas, só desfruta do amor de Deus o indivíduo que ouve a mensagem da cruz e crê que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo, pois só o que ama a Cristo é amado do Pai ( Jo 14:21 ).

Com relação à fala:

“Se Ele fosse retratado somente como soberano, seríamos tentados a nos afastar dele por medo” Idem, percebe-se que a Sra. Seavey não compreende a soberania. Soberania diz de quem detém domínio sem que haja quem lhe seja igual ou superior.

Deus como soberano (não está sujeito à condições ou encargos postos por outrem, não recebe ordens ou instruções de ninguém) possui poder e a faculdade de impor aos outros um mandamento que demanda obediência, entretanto, resigna-se somente a ensinar ao homem o caminho que deve escolher. Escolher o caminho é faculdade que o homem exerce, pois onde está o espírito do Senhor, ai há liberdade “Qual é o homem que teme ao SENHOR? Ele o ensinará no caminho que deve escolher” ( Sl 25:12 ; 2Co 3:17 ).

Um soberano que impõe medo é aquele que não respeita as suas próprias leis, mas Deus, mesmo possuindo eterno poder, submete-se a sua própria palavra ( Sl 138:2 ; Sl 110:4 ).

Deus é essencialmente bom, ou seja, superior, nobre, excelente “Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também com ele viveremos; Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará; Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo” ( 2Tm 2:11 -13); “O SENHOR é bom, ele serve de fortaleza no dia da angústia, e conhece os que confiam nele” ( Na 1:7 ).

Não há fundamentado na Bíblia para ter medo da soberania divina. Tal medo pode existir em se tratando de um sistema de governo humano em que o mais forte oprime o mais fraco. Ter medo de Deus é um sentimento derivado do desconhecimento, de uma impressão ou entendimento equivocado.

Quando não se entende que amor é obediência ao mandamento surge o medo da soberania de Deus “No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena, e o que teme não é perfeito em amor” ( 1Jo 4:18 ).

O evangelista João demonstra no verso acima que aquele que ‘obedece’ ao mandamento de Deus não tem medo, pois a obediência lança fora o medo. Por outro lado, o medo decorre da pena, e não de Deus ou do seu mandamento, pois aquele que tem medo é porque não obedece. Quem ama obedece a Deus e constata que Ele dá mandamentos para a vida. Quem é desobediente teme, pois ainda não percebeu que o mandamento de Deus é cuidado.

Ficar aterrorizado com a soberania de Deus é acreditar que Deus é punidor, enquanto a Bíblia diz que Ele é galardoador “… porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam” ( Hb 11:6 ).

O medo da Sra. Seavey é infundado por dois motivos:

a) Dá crédito às suas emoções e desconhece que o amor de Deus não é sentimento (subjetivo), e sim, um mandamento (objetivo); e,

b) Desconhece que, na Bíblia, o termo ‘temor’ possui mais de um significado: ‘obediência’ ou ‘medo’, dependendo do contexto.

‘Medo’ diz do sentimento do desobediente em vista da pena, já o ‘temor’ diz da reverencia a Deus por estar com Ele o perdão “Mas contigo está o perdão, para que sejas temido” ( Sl 130:4 ). Com Deus está o perdão para que Ele seja reverenciado, honra, obedecido, etc., já o medo é em vista da punição e não do perdão.

Bem asseverou Moisés ao povo de Israel que não temessem, ou seja, não ficassem amedrontado, antes Deus estava provando o povo para que o ‘temor’ (palavra) dele estivesse diante dos filhos de Israel “E disse Moisés ao povo: Não temais, Deus veio para vos provar, e para que o seu temor esteja diante de vós, afim de que não pequeis ( Êx 20:20 ).

Ora, aquele que esconde a palavra de Deus no coração não peca contra Deus “Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti” ( Sl 119:11 ). A mesma mensagem foi dada por Moisés ao povo afim de não pecarem: para que o seu temor esteja diante de vós! Aquele que não peca, não tem medo. Adão só teve medo depois que pecou, desobedeceu.

A Bíblia revela que Deus já escolheu o seu Rei, ungindo o Seu Filho conforme o seu decreto: “Eu, porém, ungi o meu Rei sobre o meu santo monte de Sião. Proclamarei o decreto: o SENHOR me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei” ( Sl 2:6 -7).

O Cristo é o Filho de Deus Ungido sobre Israel que exercerá domínio sobre todos os povos, línguas e nações. Quando Cristo se assentar no trono da sua glória a reger as nações ( Mt 19:28 ), aos que se sentirem tentados a se afastarem do Rei estabelecido por Deus fica o alerta: sedes prudentes e deixai-vos instruir, ou seja, operai a vossa salvação com temor e tremor “Tu os esmigalharás com uma vara de ferro; tu os despedaçarás como a um vaso de oleiro. Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos instruir, juízes da terra. Servi ao SENHOR com temor, e alegrai-vos com tremor. Beijai o Filho, para que se não ire, e pereçais no caminho, quando em breve se acender a sua ira; bem-aventurados todos aqueles que nele confiam” ( Sl 2:9 -12; Fl 2:12 ).

O ‘temor’ do Senhor é a sua palavra, e o ‘tremor’ diz da obediência à sua palavra “Ouvi a palavra do SENHOR, os que tremeis da sua palavra” ( Is 66:5 ).

Jesus revelou o Pai quando se fez carne ( Jo 1:18 ). No fato de Cristo ter sido encarnado segundo a descendência de Abraão, Isaque e Jacó, nascido na casa de Davi, demonstra a fidelidade de Deus à sua palavra e o seu eterno poder “O qual antes prometeu pelos seus profetas nas santas escrituras, acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne, Declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor” ( Rm 1:2 -4).

O Filho, por sua vez, foi revelado aos homens através do testemunho do Pai contido nas Escrituras. As Escrituras descrevem o Cristo de Deus como Servo sofredor, o castigo que nos traz a paz estava sobre Ele ( Is 53:4 -5). Quando a bíblia diz que o Senhor é sofredor: “Piedoso e benigno é o SENHOR, sofredor e de grande misericórdia” ( Sl 145:8); “Porém tu, Senhor, és um Deus cheio de compaixão, e piedoso, sofredor, e grande em benignidade e em verdade” ( Sl 86:15 ), é uma referencia a Cristo, o Senhor que se assentou à destra de Deus nas alturas “DISSE o SENHOR ao meu Senhor: Assenta-te à minha mão direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés” ( Sl 110:1 ).

Quando a Bíblia assegura a bondade de Cristo, não podemos entender que Ele é condescendente com a desobediência do homem “Ele cumprirá o desejo dos que o temem; ouvirá o seu clamor, e os salvará. O SENHOR guarda a todos os que o amam; mas todos os ímpios serão destruídos” ( Sl 145:19 -20). A bondade e a severidade de Cristo andam de mãos dadas, pois ele salva os que o temem, ou seja, amam, porém, os ímpios serão destruídos “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” ( Jo 14:21 ).

Dizer que:

“Na cruz, Jesus perdeu a sua intimidade tenra com o Pai em troca da fúria da sua ira feroz. Jesus foi afligido e abandonado pelo seu Pai para que nós nunca estivéssemos sozinhos e abandonados nas nossas aflições” Idem, é anti-bíblico, pois apesar de ser o aflito de Deus, Jesus nunca foi abandonado pelo Pai. Deus nunca escondeu de Cristo o seu rosto, nem mesmo quando Cristo estava pendurado na cruz “Porque não desprezou nem abominou a aflição do aflito, nem escondeu dele o seu rosto; antes, quando ele clamou, o ouviu” ( Sl 22:24 ).

Foi do agrado de Deus fazer o Cristo enfermar ( Is 53:10 ), e o Cristo, por sua vez, resignou-se como Servo obedecer “E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz” ( Fl 2:8 ). Cristo não escolheu sofrer “E, indo um pouco mais para diante, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres” ( Mt 26:39 ), mas sendo Sevo resignou-se a obedecer.

Ao que se conclui: “O qual, nos dias da sua carne, oferecendo, com grande clamor e lágrimas, orações e súplicas ao que o podia livrar da morte, foi ouvido quanto ao que temia. Ainda que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu. E, sendo ele consumado, veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem” ( Hb 5:7 -9). Quando na carne, Cristo com clamor e lágrimas rogou ao Pai que tinha poder de livra-lo da morte, e Ele foi ouvido por ser piedoso, temente a Deus, de modo que a sua alma não foi deixada na morte: “Pois não deixarás a minha alma no inferno, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção” ( Sl 16:10 ).

Cristo foi ouvido pelo Pai quanto a não ser deixado na morte, porém, Deus sempre esteve com Ele enquanto era afligido “Ele me invocará, e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia; dela o retirarei, e o glorificarei” ( Sl 91:15 ).

A invocação do Cristo é bela, pois profeticamente por boca do Salmista disse: “Fira-me o justo, será isso uma benignidade; e repreenda-me, será um excelente óleo, que não me quebrará a cabeça; pois a minha oração também ainda continuará nas suas próprias calamidades” ( Sl 141:5 ).

A ‘teologia’ da Sra. Seavey não se sustem diante das Escrituras, de modo que é de se contestar o fato de ela dizer que as suas conclusões foram, sem dúvidas, conduzida pelo Espírito.

“Cheguei à conclusão, sem dúvida de que fui conduzida pelo Espírito, de que eu estava com medo, assustada e aterrorizada por Deus” Idem.

Ora, a função do Espírito Santo é guiar o cristão em toda verdade, de modo que, se a Sra. Seavey estivesse sendo guiada pelo Espírito, não poderia estar à mercê destes equívocos “Mas, quando vier aquele, o Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir” ( Jo 16:13 ).

A função do Espírito Santo é ensinar em todas as coisas e lembrar-se de tudo o que Cristo disse: “Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito” ( Jo 14:26 ), porém, ao encarar o seu coração, a Sra. Seavey não lembra das Escrituras, e sim das palavras de Aslan, um personagem das Crônicas de Nárnia, que ela cita ‘Ipsis litteris’:

“Seguro?” disse o Sr. Castor, “É claro que ele não é seguro. Mas ele é bom. Ele é o Rei, eu lhe digo.” As Crônicas de Nárnia, C. S. Lewis.

A Bíblia nos garante que Jesus é o mesmo ontem, hoje e eternamente, em quem não há mudança nem sombra de variação e vela sobre a sua palavra para a cumprir pois a elevou acima do seu próprio nome. Tem algo mais seguro que Cristo, o firme fundamento? “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, e hoje, e eternamente” ( Hb 13:8 ); “Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação” ( Tg 1:17 ; 2Tm 2:19 ).

O Sr. Castor da fábula de Clive Staples Lewis não tem um testemunho seguro sobre o Rei Jesus! O Rei Jesus é totalmente seguro, pois Ele é a Pedra de Esquina “Portanto assim diz o Senhor DEUS: Eis que eu assentei em Sião uma pedra, uma pedra já provada, pedra preciosa de esquina, que está bem firme e fundada; aquele que crer não se apresse” ( Is 28:16 ); “Qualquer que cair sobre aquela pedra ficará em pedaços, e aquele sobre quem ela cair será feito em pó” ( Lc 20:18 ).

O apóstolo Pedro aponta como firme as palavras dos profetas, e na condição de apóstolo não ousou compor fábulas para expor o poder contido no Evangelho “E temos, mui firme, a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia amanheça, e a estrela da alva apareça em vossos corações” ( 2Pd 1:19 ).

Ora, as Escrituras revelam que o Senhor é bom ( Lc 19:15 ), excelente, superior, distinto, nobre, excelso (diz da sua posição). O homem é concitado a louvá-lo porque Ele é bom e porque a sua benignidade dura para sempre “Louvai ao SENHOR, porque ele é bom; porque a sua benignidade dura para sempre” ( Sl 118:29 ). Além de ser bom, o Senhor é pronto a perdoar e a sua benignidade é abundante pra os que o invocam “Pois tu, Senhor, és bom, e pronto a perdoar, e abundante em benignidade para todos os que te invocam” ( Sl 86:5 ).

Sob o subtítulo ‘Encarando o meu coração’, a lembrança da Sra. Keri Seavey se socorre de uma fábula engenhosamente composta que não reflete a verdade das Escrituras.

A ordem do Senhor é meditar nas Escrituras continuamente, porém, a Sra. Seavey revela que os seus pensamentos sobre a bondade e o amor de Deus surgiu do ‘agitado rios de confusão do ‘seu’ coração’, o que a levou a ter dúvidas sobre o caráter de Deus.

A resposta do Senhor livra o homem dos seus temores e angustias “Busquei ao SENHOR, e ele me respondeu; livrou-me de todos os meus temores (…) Clamou este pobre, e o SENHOR o ouviu, e o salvou de todas as suas angústias” ( Sl 34:4 e 6).

Cristo é segurança para os que n’Ele se refugiam, por isso é dito: “Ó! Provai e vede que o Senhor é bom; bem-aventurado o homem que nele se refugia. Temei o Senhor, vos os seus santos” ( Sl 34:8 -9). Mas, só é possível ‘temer’ ao Senhor quando se aprende o temor (palavra) do Senhor “Vinde, meninos, ouvi-me; eu vos ensinarei o temor do SENHOR” ( Sl 34:11 ).

A palavra do Senhor é o que santifica, pois somos limpos por sua palavra “Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado” ( Jo 15:3 ); “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” ( Jo 17:17 ).

Entretanto, parece não ser esta a crença da Sra. Seavey quando pergunta:

“Mas sendo sincera, as coisas que Deus usa para trazer à tona este bem prometido às vezes me aterrorizam. Será que Ele vai me fazer passar por mais um ano escuro para me santificar?” Idem.

Jesus deixou claro que o homem é santificado pela fé n’Ele, e não em sofrimento “Para lhes abrires os olhos, e das trevas os converteres à luz, e do poder de Satanás a Deus; a fim de que recebam a remissão de pecados, e herança entre os que são santificados pela fé em mim” ( At 26:18 ).

Ao citar Romanos 5, verso 3, a Sra. Seavey confunde as vicissitudes da vida com as perseguições por causa do Evangelho. As perseguições promovem a perseverança e evidência à bem-aventurança do cristão que em decorrência das injurias terá grande galardão “Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa” ( Mt 5:11 )

As vicissitudes da existência terrena decorrem da ofensa no Éden que trouxe maldição a terra até que o homem torne ao pó da terra, já as tribulações de Romanos 5, verso 3 é para quem já está santificado, pois é trata-se de privilégio o padecer por Cristo “E a Adão disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida. Espinhos, e cardos também, te produzirá; e comerás a erva do campo. No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” ( Gn 3:17 -19); “Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele” ( Fl 1:29 ).

Observe que qualquer que quiser viver segundo a verdade do evangelho será perseguido: “E também todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições” ( 2Tm 3:12 ), o que produz no crente perseverança, experiência e esperança.

O resistir firme na fé é o mesmo que perseverar, sabendo que as mesmas aflições assaltam todos os cristãos no mundo “Ao qual resisti firmes na fé, sabendo que as mesmas aflições se cumprem entre os vossos irmãos no mundo” ( 1Pd 5:9 ). Estas aflições referem-se à perseguição por causa da palavra, e não se configura em perda de ente queridos, desemprego, falta de pão, doenças, etc.

A perseguição por causa do evangelho causa aflição, porém, a aflição que sobrevêm aos que querem viver piamente não tem relação com o dia da adversidade estabelecido por Deus em oposição ao dia da bonança. O dia da adversidade possui objetivo definido: para que o homem não saiba o que há de vir depois. Já a aflição por causa do evangelho se dá por causa da palavra “Como está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte todo o dia; Somos reputados como ovelhas para o matadouro” ( Rm 8:36 ; El 7:14 ).

As Escrituras mostram que o mal veio sobre o povo de Israel somente para confirmar o que anteriormente Deus havia dito pelos seus santos profetas no caso de desobediência, ou seja, estavam colhendo o que plantaram “E ele confirmou a sua palavra, que falou contra nós, e contra os nossos juízes que nos julgavam, trazendo sobre nós um grande mal; porquanto debaixo de todo o céu nunca se fez como se tem feito em Jerusalém” ( Dn 9:12 ).

Entretanto, quanto mais eram corrigidos, mais o povo de Israel se distanciava de Deus. O mal que sobreveio sobre o povo de Israel era um sinal da parte de Deus de que precisavam se arrepender e se voltar para Deus “Por que seríeis ainda castigados, se mais vos rebelaríeis? Toda a cabeça está enferma e todo o coração fraco” ( Is 1:5 ).

O que se observa através do mal decretado diante da desobediência do povo de Israel é a longanimidade de Deus através da correção apontando a felicidade do povo de Israel “Mas isto lhes ordenei, dizendo: Dai ouvidos à minha voz, e eu serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo; e andai em todo o caminho que eu vos mandar, para que vos vá bem” ( Jr 7:23 ), entretanto, a consideração da Sra. Seavy sobre a soberania de Deus causar ‘medo’ retrata o Criador como um déspota.

Não sei onde nas Escrituras que a Sra. Seavy leu e abstraiu o pensamento de que ‘A Bíblia afirma com firmeza que na sabedoria soberana de Deus, Ele pode propositadamente ordenar aquilo que mais tememos’ Idem.

O subtítulo do artigo em comento ‘Dores passadas, medos futuros’ faz referencia a uma concepção de um místico, São João da Cruz, expressa em um poema de título “A noite escura da alma”. O que seria esta noite? Seria a ausência de Deus na vida daquele que nutre uma crença. O indivíduo sente como se Deus o tivesse abandonado ou como se sua vida de prece tivesse entrado em colapso pelo sobressalto das dúvidas.

O Pe. Elílio de Faria Matos Júnior, ao falar das Provações da Madre Teresa Calcutá, fez a seguinte análise:

“São João da Cruz (séc. XVI), um dos maiores místicos da Igreja, ensina que sem “noites escuras” não se pode aproximar de Deus como convém. “Noite escura” é o termo que o santo doutor achou para, metaforicamente, falar do processo de purificação da alma, que se dá na obscuridade da fé e que nos dispõe para o matrimônio místico com o Senhor.” Provações de Madre Teresa de Calcutá < http://www.catequisar.com.br/texto/colunas/elilio/24.htm > Consultado em 02/05/14.

O poema de São João da Cruz aponta um caminho mítico até Deus, onde é abordadas questões como os vícios capitais, tais como a soberba, a avareza, a luxuria, a ira, a preguiça, etc.

“A cada passo tropeçava com mil imperfeições e ignorâncias, como já mostramos a propósito dos sete vícios capitais” São João da Cruz, A noite escura da alma, Capítulo XI, 3º parágrafo.

Para São João da Cruz a porta e o caminho estreito da qual Cristo fez referência no sermão do Monte seria a ‘noite escura’.

“… entrando por esta ‘porta apertada e este caminho estreito que conduz à vida’, conforme diz Nosso Senhor (Mt 7, 14). A ‘porta apertada’ é esta noite do sentido do qual a alma é despida e despojada para poder entrar firmando-se na fé, que é alheia a todo o sentido, a fim de caminhar depois pelo ‘caminho estreito’ que é a outra noite, a do espírito” Idem.

Há equívocos absurdos na abordagem de São João da Cruz, visto que Cristo é a porta estreita e o caminho apertado que conduz o homem a Deus ( Jo 10:9 ). Jesus se apresentou como a luz do mundo, e que n’Ele anda não estará em trevas ( Jo 12:46 ). O apóstolo Paulo enfatiza que os que creem pertencem ao dia, e não as trevas.

“Porque todos vós sois filhos da luz e filhos do dia; nós não somos da noite nem das trevas” ( 1Ts 5:5 ).

Mas, deixemos as mitificações de São João da Cruz de lado, e analisemos a atitude da Sra. Seavey quando enfrentou a chamada ‘noite escura da alma’. Ela enfatiza que ‘fez tudo o que sabia para mudar o seu coração’, e passou a sondar minunciosamente, ela mesma, o seu coração em busca de ‘pecados ocultos’.

Apóstolo Paulo alerta: “E, se alguém cuida saber alguma coisa, ainda não sabe como convém saber” ( 1Co 8:2 ). Ela desconhece que só Deus sonda os corações dos homens ( Sl 139:23 ), e que só por meio da palavra de Deus é que se compreende os erros “Quem pode entender os seus erros? Expurga-me tu dos que me são ocultos” ( Sl 19:12 ).

Quais os erros ocultos do homem? O fato de ter sido formado em iniquidade e concebido em pecado ( Sl 51:5 ). Que todos os homens se desviaram de Deus e juntamente se fizeram imundo através da ofensa de Adão ( Sl 53:3 ). Que desde o ventre os homens se desviam de Deus e andam errados desde nascem e falam mentiras ( Sl 58:3 ).

Ora, a Bíblia nos informa que: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” ( Jr 17:9 ), e que só Deus pode esquadrinhar o coração “Eu, o SENHOR, esquadrinho o coração e provo os rins; e isto para dar a cada um segundo os seus caminhos e segundo o fruto das suas ações” ( Jr 17:10 ).

Não há nada que o homem faça que possa mudar o seu coração, pois isto é impossível aos homens. Mas, quando o homem crê no enviado de Deus – Cristo – há a circuncisão de Cristo, que é o despojar de toda carne, momento em que Deus dá um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ; Cl 2:11 ).

Entendo a complexidade dos sentimentos e o torvelinho que move as emoções do homem em momentos de perda de um ente querido. Estas emoções podem se somar a outras questões físicas e psíquicas, como é o caso da tensão pré-menstrual, o nervosismo, as frustrações, etc.

Qualquer um fica assustado quando se deixa levar pelas emoções de reviver algumas das vicissitudes pertinentes a existência do homem na terra. A expectativa dos problemas que estão por vir provocam ansiedade, porém, a ansiedade nada resolve “E disse aos seus discípulos: Portanto vos digo: Não estejais apreensivos pela vossa vida, sobre o que comereis, nem pelo corpo, sobre o que vestireis (…) Pois, se nem ainda podeis as coisas mínimas, por que estais ansiosos pelas outras?” ( Lc 12:22 e 26).

Por causa da ofensa de Adão ficou estabelecido que todo homem há de retornar ao pó ( Gn 3:19 ), e a dor da separação não torna o homem melhor ou pior diante de Deus.

Jesus teve que enfrentar a tristeza e a angustia dos momentos que antecederam a sua morte “E, levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se muito. Então lhes disse: A minha alma está cheia de tristeza até a morte; ficai aqui, e velai comigo” ( Mt 26:37 -38).

Por causa da aflição e da angustia Cristo pediu ao Pai que passasse dele o cálice, porem, acatar a vontade do Pai era um prazer que suplantou a angustia a e a aflição “Aflição e angústia se apoderam de mim; contudo os teus mandamentos são o meu prazer” ( Sl 119:143 ).

A certeza da morte trazia aflição “Porque a minha alma está cheia de angústia, e a minha vida se aproxima da sepultura” ( Sl 88:3 ), porém, Ele não perdeu de vista a presença constante do Pai naqueles momentos cruentos “Ele me invocará, e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia; dela o retirarei, e o glorificarei” ( Sl 91:15 ).

O medo de Deus em vista das vicissitudes da existência humana não se justifica, pois Deus deixa claro que Ele mesmo prova o coração e os rins, e dará a cada um segundo o fruto de suas ações “Eu, o SENHOR, esquadrinho o coração e provo os rins; e isto para dar a cada um segundo os seus caminhos e segundo o fruto das suas ações” ( Jr 17:10 ).

Passar desta existência para a eternidade não deve ser o mote da preocupação do Cristão, mas sim onde o homem passará a eternidade “E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno” ( Dn 12:2 ).

 

*Keri Seavey mora em Vancouver, Washington, com seu marido que é pastor na Living Water Community Church. Eles têm quatro filhos. Keri é líder do ministério feminino, conselheira bíblica, palestrante e escritora que posta com frequência no blog da Biblical Counseling Coalition.

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Os cristãos e as ‘boas obras’

Ao escrever a Tito, o apóstolo Paulo demonstra que os homens que dão ouvidos às fábulas judaicas e a mandamentos de homens são reprováveis para toda boa obra, pois são desobedientes e abomináveis diante de Deus, pois não creem em Cristo ( Tt 1:14 -15).


“Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” ( Ef 2:10 )

Recentemente ouvi em um ensinamento bíblico que muitos cristãos se esquivam de praticarem ‘boas obras’ para fugirem da ideia da salvação pelas obras, ao passo que os espíritas e católicos praticam ‘boas obras’ e os evangélicos em geral tem ignorado a importância espiritual delas. O pregador enfatizou de diversas formas que é necessário aos cristãos praticarem ‘boas obras’ e apresentou como argumento suficiente para embasar e concluir sua exposição o verso 10 de Efésios 2: “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas”.

Num primeiro momento a exposição de que os cristãos têm o dever de praticar as boas obras parece fazer sentido, porém, quando ele afirma que os cristãos negligenciam as ‘boas obras’ enquanto os espíritas e os católicos sobressaem nesta área, deixa claro que a argumentação do pregador deriva de uma lógica simplista, o que me levou a questionar: será que o ensinamento deste pregador é correto? O versículo citado foi interpretado corretamente?

É imprescindível ao interprete da bíblia analisar todo e qualquer versículo à luz de todos os pontos das Escrituras que fazem referencia ao tema para ter segurança quanto à interpretação do texto. Antes de iniciar a analise do verso: “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” ( Ef 2:10 ), faz-se necessário ao interprete se esvaziar de seus próprios conceitos, pois eles influenciam diretamente a interpretação.

Em segundo lugar, vale salientar que a tradução bíblica que utilizamos, João Ferreira de Almeida, que apesar da maravilhosa tradução que produziu, estava à mercê de uma concepção doutrinária que louvava a filantropia. Portanto, há pontos específicos na tradução que utilizamos que merecem um cuidado maior quando analisado, pois uma concepção de que a filantropia é um meio de se alcançar a salvação, ou que esmolar aproxima o homem de Deus demonstra certa influencia na tradução, e o tema boas obras merecem uma atenção específica.

“Antes dai esmola do que tiverdes, e eis que tudo vos será limpo ( Lc 11:41 )

Basta esmolar que o interior e o exterior do copo ficam limpos? O que limpa o homem do pecado é o sangue de Jesus ou o ato de dar esmolas? “Mas, se andarmos na luz, como ele na luz está, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o pecado” ( 1Jo 1:7 ); “Purificando as vossas almas pelo Espírito na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingido; amai-vos ardentemente uns aos outros com um coração puro” ( 1Pd 1:22 ); “Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra” ( Ef 5:26 ).

Analisando os termos traduzidos por ‘obra’, temos:

έργον, ου, το trabalho—1. ato, ação Lc 24.19; Cl 3.17; 2 Ts 2.17; Hb 4.3, 4, 10; Tg 2.14ss. Manifestação, prova prática Rm 2.15; Ef 4.12; 1 Ts 1.3; 2 Ts 1.11; Tg 1.4. Ato, realização Mt 11.2; Mc 14.6; Lc 11.48; Jo 3.19, 20s; 6.28s; 7.3, 21; 10.25, 37s.; At 9.36; Rm 3.20, 28; Cl 1.10; Hb 6.1; Tg 3.13; Ap 15.3.— 2. trabalho, tarefa, ocupação Mc 13.34; Jo 17.4; At 14.26; 5.38; 1 Co 15.58; 2 Tm 4.5.—3. trabalho, no sentido passivo, indicando o produto do trabalho At 7.41; 1 Co 3.13, 14, 15; Hb 1.10; 2 Pe 3.10; 1 Jo 3.8.—4. coisa, matéria At 5.38; talvez 1 Tm 3.1. [ergometria] 

ένεργέω—1. trabalhar, estar trabalhando,operar, ser efetivo at Mc 6.14; Gl 2.8; Ef 2.2. το θέλειν και το έ. α vontade e acão Fp 2.13b. Méd. trabalhar Rm 7.5; 2 Co 4.12; Ef 3.20; 1 Ts 2.13; tornar-se efetivo 2 Co 1.6. δέησις έ. poder efetivo Tg 5.16.—2. trabalhar, produzir, efetuar 1 Co 12.6; Ef 1.11; 2.2; Fp 2.13a. Léxico do Novo Testamento Grego / Português, F. Wilbur Gingrich, Revisado por Frederick W. Danker, Tradução de Júlio Ρ. Τ. Zabatiero.

É suficiente socorrer-nos de um dicionário para compreendermos a proposta de Cristo e dos seus apóstolos? É plenamente compreensível quando o termo ‘obra’ é empregado como ocupação,  por exemplo: Marcos 13, verso 34. Mas, como compreender o termo ‘obra’ quando ele é utilizado para demonstrar que a paciência é uma ‘obra’ que a fé realiza? “Sabendo que a prova da vossa fé opera a paciência. Tenha, porém, a paciência a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, sem faltar em coisa alguma” ( Tg 1:3 -4).

O mesmo termo empregado pelo apóstolo Paulo na carta aos Efésios, verso 10, capitulo 2, é empregado na carta aos Colossenses capítulo primeiro, verso 10. Compare:

“Para que possais andar dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda a boa obra, e crescendo no conhecimento de Deus” ( Cl 1:10 ).

“Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” ( Ef 2:10 )

Enquanto na carta aos Efésios os cristãos são apresentados como novas criaturas que Deus criou em função das boas obras, na carta aos Colossenses o cristão é alertado a produzir boas obras. Qual abordagem é correta?

Considerando que a palavra de Deus é única e imutável, não podemos aquiescer que a abordagem de um tema possua duas interpretações distintas. Seria catastrófico analisar as Escrituras se deparássemos com frases ambíguas (sugere dois sentidos) ou vagas (não há um sentido definido) por falta de clareza ou precisão na abordagem de um tema.

Há um ramo da filosofia que analisa erros de construções de textos seculares decorrentes da ambiguidade, o que resulta em uma falácia. Os principais erros de construção de um texto são: Equívoco (A mesma palavra pode ser usada com dois significados diferentes), Anfibologia (uma frase permite atribuir-lhe diferentes significados) e a Ênfase (sugere uma proposição diferente daquela que, de facto, é expressa).

Um dos maiores problemas da humanidade surgiu com a ênfase. Enquanto Deus disse ao homem que poderia comer de todas as árvores do jardim do Éden livremente, com a ressalva de haver consequências caso comesse da árvore do conhecimento do bem e do mal, o diabo, ao falar com a mulher enfatizou a ideia de proibição quando disse: “É assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim?” ( Gn 3:1 ), contrariando a liberdade plena que o homem possuía.

Na bíblia, apesar de uma mesma palavra poder ser utilizada com dois significados diferentes, o contexto deixa claro qual é o significado utilizado. As proposições bíblicas não comportam dois significados diferentes na uma mesma frase.

Não há erros de construção frasal na bíblia, antes o erro se dá no interprete que, quando analisa um texto bíblico, por causa da sua concepção, dá ênfase a um determinado elemento fazendo surgir uma nova proposição completamente distinta do que o escritor postulou.

Daí a necessidade de fazermos algumas perguntas às afirmações simplistas sobre boa obras: o cristão deve frutificar e crescer na ‘boa obra’ ou frutificar e crescer no ‘conhecimento de Deus’? Qual a ênfase do capítulo primeiro de Colossenses, verso 10: frutificar e crescer na ‘boa obra’ ou frutificar e crescer no ‘evangelho’, que é ‘conhecimento de Deus’?

O apóstolo Paulo demonstrou que os cristãos são feituras de Deus ( Ef 4:24 ), criados em Cristo Jesus para as boas obras, sendo que as boas obras foram preparadas por Deus para que os cristãos estivessem nelas: “dele [2] Pois [1] somos feitura, criados em Cristo Jesus para obras boas as quais previamente preparou [2] Deus [1]” Novo Testamento Interlinear Grego / Português por Vilson Scholz, Barueri, SP: SBB, 2004.

Este versículo da carta aos cristãos em Éfeso tem por base o que predisse o profeta Isaias: “SENHOR, tu nos darás a paz, porque tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras ( Is 26:12 ; Ef 2:17 ). É Deus que concedeu gratuitamente aos homens a paz através de Cristo, o Príncipe da Paz, de modo que, o próprio Deus reconciliou os homens através da oferta do corpo de Cristo concedendo aos que creem a paz que excede todo entendimento ( Ef 2:16 ). Foi Deus quem realizou para os que creem todas as obras, colocação que o apóstolo Paulo buscou no livro de Isaias.

No verso de Colossenses é feito alusão ao ‘Senhor’, à ‘boa obra’ e ao ‘conhecimento de Deus’, e quatro processos nos quais os cristãos figuram como parte ativa: andar, agradar, frutificar e crescer. O cristão deve andar dignamente diante de Deus, agradando-O em tudo.

Mas como andar agradando a Deus? Primeiro é necessário ser criado em Cristo Jesus, pois sem Cristo é impossível agradar a Deus.

Consequentemente a nova criatura estará nas boas obras que Deus preparou, o que é essencial para que o cristão possa frutificar e crescer no conhecimento de Deus “… para andardes dignamente do Senhor para todo agrado, em toda obra boa frutificando e crescendo no conhecimento de Deus…” Novo Testamento Interlinear Grego / Português por Vilson Scholz, Barueri, SP: SBB, 2004.

Só é possível frutificar quando se está ligado à videira verdadeira, ou seja, quando se é uma nova criatura “Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” ( Jo 15:5 ); “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ).

A ênfase de Colossenses 1, verso 10 é Cristo, o Príncipe da paz, visto que aquele que está em Cristo foi criado em função da boa obra, apto a frutificar e crescer no conhecimento de Deus “Para que possais andar dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda a boa obra, e crescendo no conhecimento de Deus” ( Cl 1:10 ).

Sem Cristo não há quem faça o bem. Todos juntamente se desviaram e tornaram-se imundos, de modo que não havia um justo se quer ( Sl 53:3 ; Sl 14:3 ; Rm 3:12 ; Mq 7:2 ). Como é possível o homem sem Cristo fazer boa obra se não há quem faça o bem? Antes de Cristo se manifestar nunca houve entre os homens quem atendesse um necessitado, ou que não houvesse dado esmolas e nem oferecido alimento ao faminto e cobertura a um peregrino?

Jesus mesmo disse: “Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos…” ( Mt 7:11 ), o que demonstra que dar boas coisas aos semelhantes não é ser bom e nem é o mesmo que fazer o bem. Cristo vai além ao demonstrar que, aos maus é impossível dizer boas coisas, que se dirá de realizar boas obras “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” ( Mt 12:34 ).

Considerando que é através de Cristo que Deus concedeu aos que creem estarem nas boas obras tornando possível frutificarem e que, sem Cristo não há quem faça o bem, como é possível a alguém que não crê em Cristo como diz as Escrituras ter em si as ‘obras’ realizadas por Deus? É Deus quem preparou os cristãos para as boas obras, ou qualquer pessoa está apta a produzi-las?

O Senhor Jesus fez um alerta sobre as obras que contém a resposta para as pergunta acima:

“Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. E a condenação é esta: Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más. Porque todo aquele que faz o mal odeia a luz, e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus ( Jo 3:18 -21).

Após demonstrar a Nicodemos que quem crê no Unigênito Filho de Deus é livre da condenação que há no mundo, e que quem não crê permanece na condenação, Jesus destacou que os homens amaram mais as trevas do que a Luz que veio ao mundo pelo fato das obras deles serem más.

Jesus destaca que aqueles que vêm a Ele (vem para luz), são os que praticam a verdade, e é manifesto que as suas obras são feitas em Deus. Compete ao homem ‘praticar’ a verdade para ‘estar’ na luz e, somente aqueles que praticam a verdade são descritos como aqueles que realizam as suas obras em Deus.

Devemos interpretar Efésios 2, verso 10 considerando o ensinamento de Jesus e a profecia de Isaias, portanto fazer ‘boas obras’ não é o mesmo que praticar filantropia.

Aos escrever aos Filipenses, o apóstolo Paulo deixa claro que a ‘boa obra’ é realizada por Deus nos que creem, pois Deus começou e Ele mesmo aperfeiçoará a sua ‘boa obra’ até a vinda de Cristo “Tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo” ( Fl 1:6 ).

Qual a boa obra que Deus ‘começou’ nos que creem? A resposta está no seguinte ensinamento de Jesus: “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

E como Deus ‘aperfeiçoa’ a sua obra? Através dos seus apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e doutores, como se lê: “E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo” ( Ef 4:11 -12).

Quando o homem crê em Cristo ‘fez’ a obra de Deus, porém, necessita de perseverança, ou seja, não pode se demover da verdade do evangelho. É neste ponto que entram os apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e doutores: eles estão incumbidos de defenderem a verdade do evangelho para que os cristãos não se demovam da obra realizada por Deus, deixando de crer em Cristo.

Edificar o corpo de Cristo é a boa obra de Deus, e só possível estar na ‘boa obra’ quando o homem crê em Cristo. A edificação do corpo de Cristo é a obra que Deus está realizando no tempo presente, pois se refere a obra do templo prometido ao rei Davi ( 2Sm 7:11 -13).

Deus prometeu a Davi que edificaria uma casa ao Seu Nome e, que o Descendente prometido seria o homem que edificaria uma casa a Deus. Quando nasceu o Cristo na casa de Davi, Deus deu inicio a sua obra segundo a sua palavra, pois Deus não habita em casa feita por mãos de homens ( At 17:24 ).

Cristo foi gerado segundo o que fora prometido a Davi: ‘Eu lhe serei por Pai, e Ele me será por Filho’, e como pedra angular do edifício de Deus foi preparado para as boas obras. Cristo é a base da boa obra como pedra angular do templo de Deus ( 2Sm 7:14 ). Cristo é a pedra angular da obra de Deus e os que creem tornam-se feituras de Deus, criados em Cristo como pedras vivas, preparados para comporem o templo santo que foi prometido a Davi ( 1Pe 2:4 -5); “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” ( Ef 2:10 ); “Inclinai os vossos ouvidos, e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, dando-vos as firmes beneficências de Davi” ( Is 55:3 ).

O verso 10 de Efésios 2 é melhor compreendido quando entendemos que na antiguidade as pedras eram preparadas com exclusividade para compor uma determinada obra, de modo que os cristãos são feituras de Deus em Cristo para comporem a boa obra. Daí a colocação paulina: Deus estabeleceu de antemão que os que cressem em Cristo comporiam a obra do templo que Deus prometera a Davi na condição de pedras vivas ( Ef 2:20 -22).

E como Deus aperfeiçoa a Sua boa obra? Através dos ensinamentos dos apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e doutores. O objetivo é que cada pedra viva chegue à medida da estatura completa de Cristo “Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo…” ( Ef 4:13 ; Fl 1:6 ).

Neste aspecto, Tiago recomendou aos cristãos que regozijassem quando se deparassem com várias provações, pois a prova da fé dos cristãos redunda em paciência, sendo que a paciência é a obra perfeita que a fé opera “Meus irmãos, tende grande gozo quando cairdes em várias tentações; Sabendo que a prova da vossa fé opera a paciência. Tenha, porém, a paciência a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, sem faltar em coisa alguma” ( Tg 1:3 -4).

Nestes versos Tiago não estava tratando da confiança dos cristãos, antes da Fé que foi manifesta trazendo salvação a todos os homens, sem a qual o justo não vive e que sem ela é impossível agradar a Deus ( Gl 3:23 ). A perseverança ou paciência é a obra completa de Cristo “Mas aquele que perseverar até ao fim será salvo” ( Mt 24:13 ); “Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito” ( Tg 1:25 ).

Que obra o homem deve realizar que promove a bem-aventurança? Crer em Cristo, pois está é a lei perfeita da liberdade. Quem cuida dos que creem para que permaneçam na verdade do evangelho é obreiro de Deus nesta obra.

Ao escrever a Tito, o apóstolo Paulo descreveu o perfil de um presbítero. Após apontar algumas características de cunho pessoal ( Tt 1:6 -8), destaca que os bispos devem guardar firme a palavra fiel sem dar ouvidos aos pensamentos judaicos, pois os judaizantes diziam conhecer a Deus, porém, eram réprobos para a boa obra “Confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras, sendo abomináveis, e desobedientes, e reprovados para toda a boa obra” ( Tt 1:16 ).

Como era possível dizerem conhecer a Deus e negá-lo com as obras? Negavam a Deus pelo fato de não crerem em Cristo Jesus como Filho de Deus, pois aquele que nega o Filho, nega também o Pai. Embora dissessem que obedeciam a Deus, não realizavam a obra exigida por Deus: crer em Cristo “E Jesus clamou, e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas naquele que me enviou” ( Jo 12:44 ); “Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai. Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou” ( Jo 5:23 ).

Como rejeitaram a Cristo, a pedra de esquina, os construtores de Israel eram réprobos para a boa obra, pois a obra de Deus é crer em Cristo.

Sobre este aspecto disse o apóstolo João: “Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade” ( 1Jo 3:18 ). Dizer que ‘conhece a Deus’ ou ‘que ama a Deus’ sem crer em Cristo é o mesmo que não realizar a obra exigida por Deus “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

Observe que Jesus é especifico: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” ( Jo 14:21 ). Sem obedecer a Cristo é impossível amá-Lo ou conhecê-Lo, pois Jesus se manifesta, ou melhor, conhece ou é conhecido daqueles que O obedecem.

Por que os judaizantes eram reprováveis para a boa obra? Porque não retinham a sã doutrina do evangelho e o que ensinavam não promovia a edificação do templo de Deus prometido a Davi “Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes. Porque há muitos desordenados, faladores, vãos e enganadores, principalmente os da circuncisão, Aos quais convém tapar a boca; homens que transtornam casas inteiras ensinando o que não convém, por torpe ganância” ( Tt 1:9 -11).

Ao escrever a Tito, o apóstolo Paulo queria que estabelecessem presbíteros, pois a intenção do apóstolo era o aperfeiçoamento dos santos, a obra do ministério, a edificação do corpo de Cristo “Querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo” ( Ef 4:12 ).

É comum o equivoco de relacionar ‘boas obras’ com questões de cunho comportamental, ou com questões de ordem filantrópica. O bom comportamento é salutar à vida do cristão, porém, o ‘exemplo’ de ‘boas obras’ decorre única e exclusivamente de uma exposição sadia da doutrina de Cristo. Ser ‘exemplo de boas obras’ refere-se a conservar intocado o modelo da doutrina do evangelho, ou seja, livre de mistura, mancha “Em tudo te dá por exemplo de boas obras; na doutrina mostra incorrupção, gravidade, sinceridade” ( Tt 2:7 ).

A ideia de ‘exemplo’ em Tito 2, verso 7 expressa a mesma ideia do termo ‘modelo’ em segunda Timóteo: “Conserva o modelo das sãs palavras que de mim tens ouvido, na fé e no amor que há em Cristo Jesus” ( 2Tm 1:13 ); “Somente deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho de Cristo, para que, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de vós que estais num mesmo espírito, combatendo juntamente com o mesmo ânimo pela fé do evangelho” ( Fl 1:27 ).

Ao escrever aos filipenses, o apóstolo Paulo rogou que vivessem dignos do evangelho de Cristo. Um bom comportamento é necessário? Sim! Entretanto, a preocupação maior do apóstolo para com os seus interlocutores era que permanecessem firmes no espírito, que é o mesmo que permanecer firme na palavra, evangelho, fé, conhecimento. “Então, irmãos, estai firmes e retende as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa” ( 2Ts 2:15 ); “Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes” ( Tt 1:9 ); “Vigiai, estai firmes na fé; portai-vos varonilmente, e fortalecei-vos” ( 1Co 16:13 ); “Vós, portanto, amados, sabendo isto de antemão, guardai-vos de que, pelo engano dos homens abomináveis, sejais juntamente arrebatados, e descaiais da vossa firmeza” ( 2Pd 3:17 ); “Por Silvano, vosso fiel irmão, como cuido, escrevi abreviadamente, exortando e testificando que esta é a verdadeira graça de Deus, na qual estais firmes” ( 1Pd 5:12 ).

Ao escrever a Timóteo, o apóstolo dos gentios preocupou-se em apresentar o que é conveniente a um ministro do evangelho (como convém andar na casa de Deus). Timóteo deveria demonstrar o que expressamente a palavra diz: que nos últimos dias alguns apostatariam da fé, e enfatizou qual seria o ensinamento dos réprobos quanto ao evangelho. Mas, se Timóteo expusesse tais enganadores, seria um bom ministro de Cristo ( 1Tm 4:1 -10); “Mas, se tardar, para que saibas como convém andar na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade” ( 1Tm 3:15 ).

Os obreiros de Deus foram comissionados para uma obra específica: “Mas tu, sê sóbrio em tudo, sofre as aflições, faze a obra de um evangelista, cumpre o teu ministério” ( 2Tm 4:5 ). Aquele que maneja bem a palavra da verdade, que evita falatórios profanos e permanece firmado no fundamento de Deus ( 2Tm 2:14 -19), está preparado para a boa obra  “De sorte que, se alguém se purificar destas coisas, será vaso para honra, santificado e idôneo para uso do Senhor, e preparado para toda a boa obra” ( 2Tm 2:21 ); “Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra” ( 2Tm 3:17 ).

Nesta abordagem feita aos Tessalonicenses: “Por isso exortai-vos uns aos outros, e edificai-vos uns aos outros, como também o fazeis. E rogamo-vos, irmãos, que reconheçais os que trabalham entre vós e que presidem sobre vós no Senhor, e vos admoestam; E que os tenhais em grande estima e amor, por causa da sua obra. Tende paz entre vós” ( Ts 5:11 -13), o apóstolo Paulo recomenda honra aos que presidiam, por causa da obra de ‘edificar’ uns aos outros por meio da palavra (exortação).

O apóstolo Paulo demonstrou que os cristãos de corintos eram a sua ‘obra’ no Senhor “NÃO sou eu apóstolo? Não sou livre? Não vi eu a Jesus Cristo SENHOR nosso? Não sois vós a minha obra no Senhor?” ( 1Co 9:1 ). O que compreender desta declaração? Que como sábio arquiteto o apóstolo Paulo havia posto Cristo como fundamento e, cada cristão em particular estava sobre edificado em Cristo “Segundo a graça de Deus que me foi dada, pus eu, como sábio arquiteto, o fundamento, e outro edifica sobre ele; mas veja cada um como edifica sobre ele” ( 1Co 3:10 ).

Lembrando que é através dos seus apóstolos que Deus ‘aperfeiçoa’ a sua obra: “E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo” ( Ef 4:11 -12).

Ao escrever aos corintos, o apóstolo Paulo demonstra que os cristãos creram em Cristo  conforme o que Deus deu a cada um dos seus ministros: “Pois, quem é Paulo, e quem é Apolo, senão ministros pelos quais crestes, e conforme o que o SENHOR deu a cada um? Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento. Por isso, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento. Ora, o que planta e o que rega são um; mas cada um receberá o seu galardão segundo o seu trabalho. Porque nós somos cooperadores de Deus; vós sois lavoura de Deus e edifício de Deus” ( 1Co 3:5 -9).

Observe que a lavoura ou o edifício pertence a Deus, ou seja, a obra é d’Ele. O fundamento foi estabelecido por Deus, que é Cristo, de modo que ninguém pode por outro fundamento ( 2Ts 2:19 ). O que compete aos cooperadores é trabalhar no edifício, sendo que o justo juiz é quem apreciará a obra de cada um “Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo. E, se alguém sobre este fundamento formar um edifício de ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, a obra de cada um se manifestará; na verdade o dia a declarará, porque pelo fogo será descoberta; e o fogo provará qual seja a obra de cada um. Se a obra que alguém edificou nessa parte permanecer, esse receberá galardão. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá detrimento; mas o tal será salvo, todavia como pelo fogo” ( 1Co 3:11 -15).

A palavra de Deus é a base da Sua obra, pois Ele diz: “Assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei” ( Is 55:11 ). Cristo é o Verbo do Deus vivo, fundamento da obra do Pai “Vede, ó desprezadores, e espantai-vos e desaparecei; Porque opero uma obra em vossos dias, Obra tal que não crereis, se alguém vo-la contar” ( At 13:41 ).

Isaias profetizou contra os ‘desprezadores’, os lideres do povo de Israel, alertando-os de que Deus assentaria na cidade de Davi a pedra provada, de modo que aquele que n’Ele cresse, não pereceria ( Is 28:14 e 16). Semelhantemente, Habacuque profetizou que Deus realizaria uma obra em meio ao povo de Israel que, quando contada, o povo não creria ( Hc 1:4 ).

A obra do Pai é realizada por sua palavra, de modo que, quando Jesus na condição de servo anunciava as palavras do Pai, Deus estava em Cristo realizando a sua obra. A palavra de Deus diz de Cristo, e quando o Verbo encarnado apregoou o ano aceitável do Senhor, demonstrava aos homens ser o firme fundamento estabelecido na obra do Pai “Crede-me que estou no Pai, e o Pai em mim; crede-me, ao menos, por causa das mesmas obras” ( Jo 14:11 ).

Qualquer que anuncia Cristo às nações realiza as obras que Cristo fez “Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas, porque eu vou para meu Pai” ( Jo 14:12 ).

Ao escrever a Tito, o apóstolo Paulo demonstra que os homens que dão ouvidos às fábulas judaicas e a mandamentos de homens são reprováveis para toda boa obra, pois são desobedientes e abomináveis diante de Deus, pois não creem em Cristo ( Tt 1:14 -15).

Em seguida o apóstolo Paulo orienta Tito a exortar os velhos a serem temperantes, respeitáveis, cordatos, sadios na fé, no amor e na constância; as mulheres são exortadas a serem sérias no seu viver; os moços moderados; os servos a serem obedientes aos seus senhores. Tais comportamentos são pertinentes a quem é pedra viva no templo de Deus, porém, a obra não se fundamenta no comportamento, e sim, na palavra, pois o comportamento segundo a moral dos homens constitui-se somente ornamento à doutrina do evangelho ( Tt 2:10 ).

Semelhantemente, o cristão deve se submeter às questões de governo, estado etc., para não haver entrave quanto ao anuncio do evangelho.

Qual deve ser o zelo de um cristão? O apóstolo Paulo responde: “Porque estou zeloso de vós com zelo de Deus; porque vos tenho preparado para vos apresentar como uma virgem pura a um marido, a saber, a Cristo” ( 2Co 11:2 ). Como o apóstolo zelaria dos cristãos com zelo de Deus? Preservando intocado o evangelho, pois o evangelho é a simplicidade de Cristo, que os falsos apóstolos e obreiros fraudulentos queriam transtornar ( 2Co 11:3 -4); “O qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras” ( Tt 2:14 ).

Jesus demonstrou que as palavras que dizia aos seus discípulos não era dele, antes do Pai, que o enviou, de modo que é Deus quem faz a sua obra por intermédio de Cristo “Não crês tu que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo de mim mesmo, mas o Pai, que está em mim, é quem faz as obras” ( Jo 14:10 ).

As ‘boas obras’ só é possível àqueles que estão em Deus, ou seja, que creram em Cristo. Sem Cristo o homem é mau e só realiza obras más, visto que ‘boas obras’ são feitas única e exclusivamente por aqueles que creem em Cristo “Qualquer que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele, e ele em Deus” ( 1Jo 4:15 ).

Ora, qualquer que não confessa que Cristo é o Filho do Deus vivo não pratica e não pode praticar boas obras, pois não está em Deus. Portanto, quando referirmos as práticas louváveis do ponto de vista dos homens, como as ações de ordem filantrópicas, ou de bom trato, nomearemos de ‘boas ações’, e não ‘boas obras’, pois as ‘boas obras’ só são realizadas por aqueles que confessam que Jesus é o Filho de Deus.

Mas, para o homem estar em Deus, primeiro tem que crer em Cristo ( 1Jo 4:15 ), o que o habilita para a boa obra. Para o cristão preparar-se para a boa obra, deve sujeitar-se as autoridades de estado, uma vez que a boa obra não diz de luta política ou de classes “Admoesta-os a que se sujeitem aos principados e potestades, que lhes obedeçam, e estejam preparados para toda a boa obra” ( Tt 3:1 ).

Quando o apóstolo Paulo diz a Tito: “E os nossos aprendam também a aplicar-se às boas obras, nas coisas necessárias, para que não sejam infrutuosos” ( Tt 3:14 ), estava fazendo alusão a palavra do evangelho, e não as ações de cunho social que tanto é apregoada em nossos dias.

Quando o apóstolo Paulo diz que Epafrodito esteve próximo da morte pela obra, temos que entender que, para que a palavra sem fermento fosse anunciada pelo apóstolo dos gentios, Epafrodito não fez caso de sua própria existência para suprir as necessidades de Paulo “Porque pela obra de Cristo chegou até bem próximo da morte, não fazendo caso da vida para suprir para comigo a falta do vosso serviço” ( Fl 2:30 ).

Epafrodito se dispôs a dar a vida trabalhando para sustentar o apóstolo Paulo para que a Palavra da verdade fosse pregada. Epafrodito sabia que era necessário que Paulo continuasse ensinando a verdade do evangelho para que os crentes pudessem conservar o modelo das sãs palavras de Cristo, pois só por intermédio dela é que Deus realiza a sua obra “As palavras que eu vos digo não as digo de mim mesmo, mas o Pai, que está em mim, é quem faz as obras” ( Jo 14:10 ).

A obra de Deus está vinculada à palavra de Deus. Sem a palavra de Deus não há obra boa. Quando se anuncia as palavras de Deus conforme as Escrituras, a obra e realizada por Deus.

Quando lemos: “Vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a sua vontade, operando em vós o que perante ele é agradável por Cristo Jesus, ao qual seja glória para todo o sempre. Amém” ( Hb 13:21 ), a ênfase do escritor aos Hebreus repousa no fato de os cristãos serem criados para a boa obra e, que por sua vez, Deus os aperfeiçoará para fazerem a vontade de Deus: “Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” ( 1Tm 2:4 ); “Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” ( Jo 6:40 ).

Todos quantos falam conforme o mandamento que Cristo recebeu do Pai são perfeito para a boa obra: “E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito” ( Jo 12:50 ), pois quem não diz nada de si mesmo ou conforme a sua carnal compreensão é porque sabe que é Deus quem faz a Sua obra ( Jo 14:10 ).

Conhecer o Pai por intermédio do Filho é a obra que Deus realiza “E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” ( Jo 17:3 ).

 

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