Isaías 56 – A bem-aventurança prometida a Abraão chega aos gentios

As Escrituras depõem contra todos os homens, classificando-os de ‘mentirosos’( Sl 116:11; Rm 3:4). Por que todos são mentirosos? Todos os homens são mentirosos, porque todos os homens, juntamente, se desviaram desde a madre (Sl 53:3) e falam mentiras. desde que nascem (Sl 58:3). Isso não quer dizer que todos os homens faltam com a verdade, ou que são infiéis nos negócios, etc.


Isaias 56 – A bem-aventurança prometida a Abraão chega aos gentios

Introdução

É através da seguinte ótica que se deve compreender o capítulo 56 de Isaias: Deus estava prestes a cumprir a promessa feita a Abraão!

Qual a promessa de Deus feita a Abraão? Que, na descendência de Abraão, seriam benditas todas as famílias da terra, apesar de que, à época da promessa, Abraão ainda não tinha filhos.

“… em ti e na tua descendência serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 28:14).

Considerando que Deus notificou a Abraão que, em seu Descendente seriam benditas todas as famílias da terra, os filhos de Israel, equivocadamente, passaram a considerar que eram herdeiros da bem-aventurança prometida por causa da carne e do sangue de Abrão que corria em suas veias (Gl 3:8; Gn 28:14).

O apóstolo Paulo nos esclarece que a bem-aventurança não foi dada aos descendentes segundo a carne de Abraão, antes, a bem-aventurança estava vinculada ao Descendente de Abraão que seria chamado em Isaque  (Rm 9:7).

Como a descendência de Abraão seria chamada em Isaque, isso significava que a promessa não tinha por base a carne de Abraão, portanto, os descendentes de Abraão não haviam sido agraciados com a bem-aventurança.

Ora, todos os israelitas se gloriavam no fato de serem descendência de Abraão e, por confiarem na carne, se afastavam de Deus. Em vez de bem-aventurados, eram malditos, segundo a palavra do Senhor, anunciada por intermédio de Jeremias, por fazerem da carne o seu braço (força, salvação):

“Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, faz da carne o seu braço e aparta o seu coração do SENHOR!” (Jr 17:5).

Essa profecia de Jeremias demonstra que o homem que confia em si mesmo é maldito! O homem que confia em si mesmo é aquele que faz da sua carne a sua salvação, porque ‘braço’ é figura de força, o que remete à salvação.

“O SENHOR é a minha força e o meu cântico; Ele me foi por salvação; este é o meu Deus, portanto, lhe farei uma habitação; ele é o Deus de meu pai, por isso o exaltarei” (Êx 15:2);

“Eis que Deus é a minha salvação; nele confiarei e não temerei, porque o SENHOR DEUS é a minha força e o meu cântico e se tornou a minha salvação” (Is 12:2).

Considerando a argumentação do apóstolo Paulo, de que tudo o que a lei diz, diz aos que estão debaixo da lei, isso significa que a reprimenda de Jeremias tinha por alvo o homem judeu, pois eles, sabidamente, se gloriavam pelo fato de serem descendentes da carne de Abraão.

“Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus em espírito, nos gloriamos em Jesus Cristo e não confiamos na carne” (Fl 3:3);

“Mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me entender e em me conhecer, que eu sou o SENHOR, que faço beneficência, juízo e justiça na terra; porque, destas coisas me agrado, diz o SENHOR” (Jr 9:24; Tg 1:9; 1 Co 1:31).

 

Salvação para todos os povos

“ASSIM diz o SENHOR: Guardai o juízo e fazei justiça, porque a minha salvação está prestes a vir e a minha justiça, para se manifestar” (Is 56:1)

Através do profeta Isaias, Deus ordenou aos filhos de Israel que ‘guardem o juízo’ e ‘façam justiça’, ou seja, eles deviam obedecer à palavra de Deus. A palavra do Senhor, por intermédio de Isaias, remete ao exarado em Deuteronômio:

“E será para nós justiça, quando tivermos cuidado de cumprir todos estes mandamentos perante o SENHOR nosso Deus, como nos tem ordenado” (Dt 6:25).

O que Deus exigiu dos filhos de Israel não é justiça social e nem a justiça que é administrada em tribunais humanos. Esse é um equivoco que afeta a compreensão de muitos, pois interpretam o ‘guardar o juízo’ e ‘fazei justiça’ como um apelo divino para que os filhos de Israel se ocupassem de questões sociais.

Na verdade, quando é dito ‘guardai o juízo’ e ‘fazei justiça’, Deus estava conclamando os filhos de Israel para observarem o Seu mandamento. Uma pequena análise de dois versículos, levando-se em conta a estrutura do texto – paralelismo – verifica-se que obedecer à voz de Deus é o mesmo que ‘fazer justiça’ e ‘guardar o juízo’:

“E será para nós justiça, quando tivermos cuidado de cumprir todos estes mandamentos perante o SENHOR nosso Deus, como nos tem ordenado” (Dt 6:25);

“AMARÁS, pois, ao SENHOR teu Deus e guardarás as suas ordenanças, os seus estatutos, os seus juízos e os seus mandamentos, todos os dias” (Dt 11:1).

Na verdade, o verso 1: “Amarás, pois, ao Senhor teu Deus…” é uma ordem aos filhos de Israel, para que obedecessem a Deus!

“Que te farei, ó Efraim? Que te farei, ó Judá? Porque a vossa benignidade é como a nuvem da manhã e como o orvalho da madrugada, que cedo passa. Por isso os abati pelos profetas; pelas palavras da minha boca os matei; e os teus juízos sairão como a luz, porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos” (Os 6:4 -6);

“Porém, Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” (1 Sm 15:22).

Mas, por que Deus concita o povo a obedecê-Lo? O motivo é patente: – “… porque a minha salvação está prestes a vir e a minha justiça prestes a manifestar-se”. O motivo apresentado por Deus não diz de um conceito ou, de uma ideia filosófica, acerca da salvação e da justiça.

Através dessa profecia, Deus notifica os seus interlocutores que a Sua salvação e a Sua justiça estavam prestes a virem personificadas! Ora, o apóstolo Paulo deixa claro que, antes que Cristo viesse, as Escrituras encerrou todos os homens debaixo do pecado e os judeus, por sua vez, estavam sob o cuidado da lei, uma espécie de curador (aio), que os conduzia a Cristo, a salvação e a justiça de Deus (Gl 3:24).

A lei é apontada como ‘aio’, que conduz o homem a Cristo: a salvação de Deus e a justiça de Deus manifesta (Gl 3:24). Ao guardar as ordenanças de Deus, o homem descobriria que a justiça de Deus não é segundo a lei, antes, Deus encerrou todos debaixo do pecado (judeus e gregos), para que soubessem que a promessa da fé é dada aos crentes (Gl 3:21-22).

A justiça de Deus é segundo a promessa estabelecida no Descendente de Abraão, que é Cristo, a justiça de Deus.

 

“Bem-aventurado o homem que fizer isto e o filho do homem que lançar mão disto; que se guarda de profanar o sábado e guarda a sua mão de fazer algum mal” (Is 56:2)

Deus enfatiza que é bem-aventurado qualquer que O obedecesse, ou seja, que faz justiça e guarda o juízo. O profeta dá um exemplo de como guardar o juízo e fazer justiça à época (Zc 8:16), guardando os sábados e não realizarem mal algum.

Para compreender todas as nuances deste verso, o leitor deve considerar que Deus falava ao povo de Israel por enigmas, pois somente com Moisés Deus falava cara a cara e sem utilizar enigmas: “Boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas; pois ele vê a semelhança do SENHOR; por que, pois, não tivestes temor de falar contra o meu servo, contra Moisés?” (Nm 12:8).

Os enigmas contidos nas Escrituras faziam com que as visões do livro estivessem como que seladas, de modo que os interpretes de Israel não pudessem compreender: “Por isso toda a visão vos é como as palavras de um livro selado que se dá ao que sabe ler, dizendo: Lê isto, peço-te; e ele dirá: Não posso, porque está selado” (Is 29:11).

Se o interprete não desvendar os significados dos enigmas, qualquer interpretação das escrituras será equivocada.

O primeiro enigma a ser desvendado está em com o homem se guardar de fazer o mal. Como é possível ao homem deixar de fazer o mal, se a própria escritura diz que ‘não há quem faça o bem’? “Desviaram-se todos e, juntamente, se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um” (Sl 53:1).

Ao falar com os fariseus, Jesus deu uma pista para elucidar o enigma acerca do ‘mal’, pois Ele disse que, apesar de os fariseus darem boas dádivas aos seus semelhantes (filhos), na essência eram ‘maus’. Até dizer boas coisas os fariseus estavam impedidos, pela condição deles: “Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem?” (Mt 7:11); “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” (Mt 12:34).

Os fariseus não eram maus porque faziam maldades, mas, sim, maus, porque, diante de Deus, eram vis, inferiores, da ralé, portanto, maus. Jesus não estava apontando para o comportamento dos fariseus, pois Ele a ninguém julgava, mas, apontou para a condição de alguém que é escravo do pecado: vil, mal.

Ora, os fariseus podiam falar acerca de temas nobres, princípios comportamentais, questões religiosas e questões de ordem filosófica, porém, tais temas tão caros aos homens, não são ‘boas coisas’ diante de Deus. Por que não? Porque tais questões não desfazem a barreira de inimizade que há entre Deus e os homens.

Os fariseus não podiam fazer o bem e nem dizer boas coisas, por causa dos seus corações enganosos. Fazer o bem e dizer boas coisas só é possível através da revelação de Deus em Cristo, o nobre tema que o salmista Davi anunciou no Salmo 45. Se a revelação de Deus, o mistério revelado em Cristo, o homem não consegue decifrar o enigma anunciado por Deus (Sl 49:4; Sl 45:1).

As Escrituras depõem contra todos os homens, classificando-os de ‘mentirosos’( Sl 116:11; Rm 3:4). Por que todos são mentirosos? Todos os homens são mentirosos, porque todos os homens, juntamente, se desviaram desde a madre (Sl 53:3) e falam mentiras. desde que nascem (Sl 58:3). Isso não quer dizer que todos os homens faltam com a verdade, ou que são infiéis nos negócios, etc.

Quando é dito que todos os homens são mentirosos é o mesmo que dizer que todos pecaram. Assim como Deus é luz, verdade e vida, o homem alienado de Deus está em trevas, é mentira e está morto.

Os judeus se esforçavam para não faltar com a verdade com os seus semelhantes, porém, não é acerca dessa questão que Deus conclama aos filhos de Israel para que fale cada um a verdade com o seu companheiro.

“Estas são as coisas que deveis fazer: Falai a verdade cada um com o seu próximo; executai juízo de verdade e de paz nas vossas portas” (Zc  8:16).

Considerando que ‘a boca fala do que está cheio o coração’, quem fala o mal, fala segundo o seu coração mau. Qualquer descendente da carne de Adão é mau, porque herdou tal condição de Adão, herdou um coração enganoso e fala segundo o seu coração: engano contínuo.           

Para falar boas coisas é necessário um novo coração, por isso Deus anunciou, através de Moisés, a necessidade de circuncidarem o coração pois, com a circuncisão do coração, o homem morre e recebe de Deus um novo coração e um novo espírito (Sl 51:10; Is 57:15; Ez 18:31 ).

Ora, os filhos de Israel achavam que guardavam o sábado, porém, Deus continuamente protestava contra eles, demonstrando que eles eram homens de dura cerviz e que não circuncidavam o coração: “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração e não mais endureçais a vossa cerviz” (Dt 10:16).

No oitavo dia, após o nascimento de uma criança, os filhos de Israel circuncidavam os seus filhos no prepúcio da carne, porém, não se deixavam circuncidar pelo Pai celeste. Sem a circuncisão do coração, que significa morte para o pecado, jamais os filhos de Jacó seriam judeus de fato, e todas as obras deles continuavam sendo más, continuadamente.  

“Circuncidai-vos ao SENHOR e tirai os prepúcios do vosso coração, ó homens de Judá e habitantes de Jerusalém, para que o meu furor não venha a sair como fogo e arda, de modo que não haja quem o apague, por causa da malícia das vossas obras” (Jr 4:4);

“Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente, na carne. Mas, é judeu o que o é no interior e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus” (Rm 2:28-29).

Os judeus se consideravam os ‘bons’, e consideram os gentios ‘ruins’. Entenda ‘bons’, no sentido de bem nascidos, nobres, filhos de Abraão, consequentemente, filhos de Deus. Por isso, sempre argumentavam, dizendo: ‘Temos por Pai a Abraão’.

De igual modo, entenda ‘ruins’ como baixos, plebes, sem levar em conta conotação moral. Enquanto se achavam filhos de Abraão, Deus protestava contra os filhos de Israel, declarando-os filhos da agoureira, da adúltera.

“Mas, chegai-vos aqui, vós os filhos da agoureira, descendência adulterina e de prostituição” (Is 57:3).

O erro dos judeus era considerar que eram bem nascidos, portanto, bons, e que os estrangeiros eram mal nascidos, consequentemente ‘ruins’. Igualmente, judeus e gentios são ruins (Rm 3:4), portanto, mentirosos, pois todos, juntamente, alienaram-se de Deus em Adão (Rm 3:9).

“Deveras o meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios e não entendidos; são sábios para fazer mal, mas não sabem fazer o bem (Jr 4:22).

Apesar dos judeus guardarem os sábados, as festas, as assembleias, etc., nenhum deles observava a lei.

“Não vos deu Moisés a lei? E nenhum de vós observa a lei. Por que procurais matar-me?” (Jo 7:19).

Na verdade, as Escrituras depunham contra os judeus como blasfemos:

“E agora, que tenho eu que fazer aqui, diz o SENHOR, pois o meu povo foi tomado sem nenhuma razão? Os que dominam sobre ele dão uivos, diz o SENHOR; e o meu nome é blasfemado, incessantemente, o dia todo” (Is 52:5; Rm 2:24).

A circuncisão na carne era uma marca dada aos descendentes da carne de Abraão para identificá-los como nação e não como filhos de Deus. Tal marca só seria proveitosa se os judeus obedecessem a Deus, assim como o crente Abraão (Gn 17:10-11; Gn 26:5). É nesse quesito que o apóstolo Paulo repreende os cristãos convertidos, dentre os judeus, que estavam em Roma:

“Porque a circuncisão é, na verdade, proveitosa, se tu guardares a lei; mas, se tu és transgressor da lei, a tua circuncisão se torna em incircuncisão” (Rm 2:25).

O profeta Isaias estava conclamando os seus ouvintes a obedecerem a Deus (mantende o juízo e fazei justiça), através de alguns preceitos da lei (utilizados como figuras): guardar o sábado e guardar a mão de fazer o mal, pois qualquer que, como Abraão, obedecesse ao mandamento de Deus, seria bem-aventurado.

“Bem-aventurado o homem que fizer isto e o filho do homem que lançar mão disto; que se guarda de profanar o sábado e guarda a sua mão de fazer algum mal” (Is 56:2); “Porquanto, Abraão obedeceu à minha voz e guardou o meu mandado, os meus preceitos, os meus estatutos e as minhas leis” (Rm 26:5);

“De sorte que os que são da fé são benditos com o crente Abraão” (Gl 3:9).

Através do profeta Isaias, Deus deixa claro que os sábados dos filhos de Israel eram equivalentes à abominação!

“Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, as luas novas, os sábados e a convocação das assembleias; não posso suportar iniquidade, nem mesmo a reunião solene” (Is 1:13; Is 58:13).

Por quê? Porque andavam após os seus ídolos! ‘Ídolos’, quando utilizado, nas profecias, acerca do povo de Israel, tem relação com riquezas (Mamom), uma figura para demonstrar que os filhos de Israel estavam a serviço de si mesmos: “Porque rejeitaram os meus juízos, não andaram nos meus estatutos e profanaram os meus sábados; porque o seu coração andava após os seus ídolos” (Ez 20:16).

Quando os filhos de Israel jejuavam, achavam que estavam realizando um trabalho para Deus, porém, equivocadamente, trabalhavam para satisfazerem a si mesmos.

“Dizendo: Por que jejuamos nós e tu não atentas para isso? Por que afligimos as nossas almas e tu não o sabes? Eis que, no dia em que jejuais, achais o vosso próprio contentamento e requereis todo o vosso trabalho(Is 58:3).

 

“E não fale o filho do estrangeiro que, se houver unido ao SENHOR, dizendo: Certamente o SENHOR me separará do seu povo; nem, tampouco, diga o eunuco: Eis que sou uma árvore seca. Porque assim diz o SENHOR a respeito dos eunucos, que guardam os meus sábados e escolhem aquilo em que eu me agrado e abraçam a minha aliança: Também lhes darei na minha casa e dentro dos meus muros um lugar e um nome, melhor do que o de filhos e filhas; um nome eterno darei a cada um deles, que nunca se apagará” (Is 56:3-5)

Em seguida, Deus dirige a palavra aos estrangeiros e aos eunucos, para que não pensassem que haviam sido rejeitados (Is 56:3), antes, se eles também guardassem o mandamento de Deus, teriam lugar na casa de Deus e dentro dos muros da cidade e um nome superior a de filhos e filhas (Is 56:5).

Os estrangeiros e os eunucos seriam aceitos por causa da seguinte promessa: – “A minha casa será chamada casa de oração para todos os povos” (Is 56:7). Ora, essa promessa Deus fez a Abraão: – “… em ti e na tua descendência serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 28:14).

Através de Isaias, Deus estava demonstrando que a promessa feita a Abraão estava prestes a ser manifesta, pois, sem distinção alguma, todos os homens teriam lugar na casa de Deus. Estava sendo enfatizado que os homens seriam aceitos no Descendente prometido a Abraão e a Davi, pois Cristo é a casa (descendente) que Deus prometeu a Davi.

“… também o SENHOR te faz saber que te fará casa” (2 Sm 7:11).

A ‘casa’ prometida a Davi diz do renovo justo – Cristo – da raiz de Jessé(Jr 33:15), que através do seu corpo, que é a Igreja, está a edificar um templo ,que abriga todos os povos. O corpo de Cristo é a casa de oração para todos os povos, o templo edificado sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas e santuário (Ef 2:20; Is 8:14). Em Cristo, cumpre-se a promessa de se ajuntar os dispersos de Israel e os outros, aos que já se lhe ajuntaram (Is 56:8).

É em função dessa verdade que Jesus expulsou os que vendiam no templo e os cambistas, dizendo: “Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; mas vós a tendes convertido em covil de ladrões” (Mt 21:13), e, como Pastor enfatizou que agregaria ao seu aprisco outras ovelhas: “Ainda tenho outras ovelhas, que não são deste aprisco; também, me convém agregar estas, elas ouvirão a minha voz e haverá um rebanho e um Pastor” (Jo 10:16).

Em linhas gerais, a profecia de Isaias, registrada no capítulo 56, refere-se a Cristo e ao seu corpo, a Igreja. Através do corpo de Cristo, estrangeiros e eunucos (homens considerados imundos para os judeus), poderiam oferecer os seus holocaustos e os seus sacrifícios e serem aceitos por Deus.

“Eis que chamarás a uma nação que não conheces e uma nação que nunca te conheceu correrá para ti, por amor do SENHOR teu Deus e do Santo de Israel; porque ele te glorificou” (Is 55:5)

Apesar de serem discriminados pelos filhos de Israel, Deus dá aviso aos forasteiros (gentios) que não digam que Deus não os aceitará; ou aviso aos eunucos, de que não devem se considerar como uma árvore cortada. Por que não deveriam pensar que eram inúteis? Porque qualquer que guarda o mandamento de Deus (mesmo os estrangeiros e os eunucos) tem um lugar e um nome na casa de Deus.

Qualquer que guarda a aliança de Deus terá um nome superior ao de filhos e filhas. Um nome eterno, que jamais será esquecido.

“Também lhes darei na minha casa e dentro dos meus muros um lugar e um nome, melhor do que o de filhos e filhas; um nome eterno darei a cada um deles, que nunca se apagará” (Is 56:5).

“E aos filhos dos estrangeiros, que se unirem ao SENHOR, para o servirem, e para amarem o nome do SENHOR, para serem seus servos, todos os que guardarem o sábado, não o profanando, e os que abraçarem a minha aliança, Também os levarei ao meu santo monte, e os alegrarei na minha casa de oração; os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceitos no meu altar; porque a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos. Assim diz o Senhor DEUS, que congrega os dispersos de Israel: Ainda ajuntarei outros aos que já se lhe ajuntaram” (Isaias 56:6-8)

A promessa de Deus se estende aos filhos dos estrangeiros que obedecerem à Sua aliança, o que dá elementos para compreender a seguinte promessa:

“E há de ser que, todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo; porque no monte Sião e, em Jerusalém, haverá livramento, assim como disse o SENHOR, e entre os sobreviventes, aqueles que o SENHOR chamar” (Jl 2:32; Rm 10:13)

Como os estrangeiros e seus filhos seriam conduzidos ao monte do Senhor e como os seus holocaustos e sacrifícios aceitos por Deus? O apóstolo Paulo dá a resposta:

“Que seja ministro de Jesus Cristo para os gentios, ministrando o evangelho de Deus, para que seja agradável a oferta dos gentios, santificada pelo Espírito Santo” (Rm 15:16).

Através do evangelho de Cristo a ‘oferta’ dos gentios se torna agradável a Deus, pois é santificada pelo Espírito Santo. A aliança, da qual o profeta Isaias faz referência, diz do Novo Testamento no sangue de Cristo (1 Co 11:25), e não no Testamento da velhice da letra que foi gravada em pedras (2 Co 3:6).

Em Cristo, o homem é verdadeiro adorador, pois adora a Deus, em espirito e em verdade. Cristo é a pedra assentada no santo monte Sião, o verdadeiro santuário, casa de oração para todos os povos. Apesar de ser o santuário estabelecido por Deus, as duas casas de Israel rejeitaram o Cristo (Is 8:14). Para os que crêem, Jesus é santuário, mas para os incrédulos pedra de tropeço.

“Portanto, assim diz o Senhor DEUS: Eis que eu assentei em Sião uma pedra, uma pedra já provada, pedra preciosa de esquina, que está bem firme e fundada; aquele que crer não se apresse” (Is 28:16)

A promessa para os estrangeiros e seus filhos está condicionada a guardarem o ‘sábado’, ou seja, o descanso verdadeiro, que é Cristo. Como? Abraçando a aliança do Senhor expressa no Seu evangelho, crendo que Jesus é o Cristo.

Os filhos de Israel deveriam guardar o sábado como memorial de que foram resgatados do Egito (Dt 5:15), de que Deus é quem os santifica (Ex 31:13). Como a Aliança do Novo Testamento foi feita no sangue de Cristo, o memorial estabelecido é a ceia do Senhor, para que os cristãos se lembrem da sua morte e anunciem o seu nome até que Ele venha (1 Co 11:25-26).

E o que os gentios oferecem como sacrifício na Nova Aliança? O fruto dos lábios que confessam a Cristo, ou seja, a beneficência e a comunicação! (Hb13:15-16) Os seus corpos em sacrifício vivo, que é o culto racional (Rm 12:1)

Para compreendermos a figura dos sábados, se faz necessário compreender que os sacerdotes da Antiga Aliança eram inculpáveis, por trabalharem no templo aos sábados (Mt 12:5). Como Cristo é superior ao templo e os estrangeiros e eunucos são aceitos no Santuário estabelecido por Deus, os que estão em Cristo não necessitam guardar sábados e luas novas (Cl 2:16).

“Ou não tendes lido na lei que, aos sábados, os sacerdotes no templo violam o sábado, e ficam sem culpa? Pois, eu vos digo que está aqui quem é maior do que o templo. Mas, se vós soubésseis o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício, não condenaríeis os inocentes. Porque o Filho do homem até do sábado é Senhor” (Mt 12:5-8).

Cristo é o descanso prometido, o refrigério, mas não quiseram ouvi-Lo:

“Ao qual disse: Este é o descanso, dai descanso ao cansado; e este é o refrigério; porém não quiseram ouvir” (Is 28:12).

Deus exige obediência (misericórdia), e não sacrifícios, como guarda de dias, luas, festas, etc. Para encontrar descanso para a alma é necessário andar por bom caminho, ou seja, em obediência: crendo em Cristo, pois, Deus faz misericórdia aos que O obedecem.

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” (Êx 20:6);

“Assim diz o SENHOR: Ponde-vos nos caminhos, e vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas; mas eles dizem: Não andaremos nele” (Jr 6:16).

Cristo, como santuário para todos os povos, é superior ao templo, onde os sacerdotes violavam o sábado. Semelhantemente, em Cristo os crentes são sacerdotes que oferecem, continuamente, sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o culto racional, portanto, não estão sujeitos aos ritos da Antiga Aliança.

Na Antiga Aliança era Deus que santificava o povo e, por isso, deveriam santificar o sábado. Na Nova Aliança é Deus quem santifica o crente, por meio da palavra do evangelho, portanto, devem santificar a Cristo em seus corações, ou seja, guardar o descanso verdadeiro (1 Pe 3:15).

O sábado é sombra de uma realidade que o homem experimenta em Cristo: o descanso verdadeiro (Hb 10:1).

O Senhor que promete reunir os dispersos de Israel, é o mesmo Deus que reunirá outros aos que já se ajuntaram. O que isso quer dizer? Que esse é um oráculo do Senhor, acerca da união entre judeus e gentios, do qual resultaria um corpo: a igreja (Ef 2:13-14).

O oráculo aos filhos de Israel, por intermédio do profeta Isaias, foi feito por parábola, o que o apóstolo Paulo fala, abertamente. Cristo é a paz, tanto para aqueles que estão perto(judeus) quanto para os que estão longe (gentios): “Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz, para o que está longe; e para o que está perto, diz o SENHOR e eu o sararei” (Is 57:19).

Deus, que reúne os dispersos de Israel aos gentios que se achegam a Cristo, por meio do evangelho. Jesus Cristo falou, por parábola, que haveria de reunir outras ovelhas que não do aprisco de Israel: “Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também, me convém agregar estas e elas ouvirão a minha voz e haverá um rebanho e um Pastor” (Jo 10:16).

Desde Moisés, Deus já havia alertado ao povo de Israel que haveria de o por em ciúmes com os gentios:

“Mas, digo: Porventura Israel não o soube? Primeiramente diz Moisés: Eu vos porei em ciúmes com aqueles que não são povo, Com gente insensata vos provocarei à ira” (Rm 10:19).

 

Punição

“Vós, todos os animais do campo, todos os animais dos bosques, vinde comer” (Is 56:9).

Deus faz um convite a todos os animais do campo e das florestas, para reunirem-se para comer. Que animais são estes? O que será oferecido como alimento?

Está é mais uma profecia que se utiliza de uma parábola, para falar da punição que Deus dará a Israel, por desviarem-se da aliança com Deus.

Os animais do campo e do bosque são figuras que remetem às nações vizinhas, que são convidadas por Deus, para invadirem Israel. Esses animais são apresentados em outras passagens bíblicas como bestas do campo.

“Arvorai a bandeira rumo a Sião, fugi, não vos detenhais; porque eu trago do norte um mal, e uma grande destruição. Já um leão subiu da sua ramada, e um destruidor dos gentios; ele já partiu, e saiu do seu lugar para fazer da tua terra uma desolação, a fim de que as tuas cidades sejam destruídas, e ninguém habite nelas” (Jr 4:6-7);

“Irei aos grandes e falarei com eles; porque eles sabem o caminho do SENHOR, o juízo do seu Deus; mas estes, juntamente, quebraram o jugo e romperam as ataduras.Por isso um leão do bosque os feriu, um lobo dos desertos os assolará; um leopardo vigia contra as suas cidades; qualquer que sair delas será despedaçado; porque as suas transgressões se avolumam, multiplicaram-se as suas apostasias” (Jr 5:5-6);

“Depois eles se fartaram em proporção do seu pasto; estando fartos, ensoberbeceu-se o seu coração, por isso se esqueceram de mim. Serei, pois, para eles como leão; como leopardo espiarei no caminho. Como ursa roubada dos seus filhos, os encontrarei, e lhes romperei as teias do seu coração, e como leão ali os devorarei; as feras do campo os despedaçarão. Para a tua perda, ó Israel, te rebelaste contra mim, a saber, contra o teu ajudador” (Os 13:6-9).

Deus coloca a nação de Israel como banquete às nações vizinhas e faz o convite: vinde comer!

Deus já havia predito, por intermédio do profeta Moisés que, caso o povo de Israel se desviasse da Aliança com Deus, seria perseguido pelos inimigos, o que seria um sinal da parte de Deus, para que se arrependessem (Dt 28:45-46; Jr 18:11), uma prova de que Deus repreende e castiga a todos os que ama (Hb 12:6; Is 1:5):

“O SENHOR levantará contra ti uma nação de longe, da extremidade da terra, que voa como a águia, nação cuja língua não entenderás; Nação feroz de rosto, que não respeitará o rosto do velho, nem se apiedará do moço” (Dt 28:49-50).

“Todos os seus atalaias são cegos, nada sabem; todos são cães mudos, não podem ladrar; andam adormecidos, estão deitados e gostam do sono. E estes cães são gulosos, não se podem fartar; e eles são pastores que nada compreendem; todos eles se tornam para o seu caminho, cada um para a sua ganância, cada um por sua parte. Vinde, dizem, trarei vinho, e beberemos bebida forte; e o dia de amanhã será como este, ainda muito mais abundante” (Is 56:10-12).

Apesar do convite de Deus às nações inimigas (bestas) para virem sobre o seu povo, os profetas (atalaias) de Israel estavam como que cegos, pois desconheciam os desígnios do Senhor (Ez 33:7).

Uma atalaia exerce a função de segurança, vigilante, porém, como é possível um cego exercer tal função? Por não estarem aptos a desempenhar a função, os atalaias de Israel estava mais para um laço de caçador de aves: “Efraim era o vigia com o meu Deus, mas o profeta é como um laço de caçador de aves em todos os seus caminhos e ódio na casa do seu Deus” (Os 9:8).

Outra descrição dos profetas de Israel é a de cães mudos, ou seja, cães que não podem dar o aviso (ladrar). Estão como que adormecidos, deitados e se deleitam em dormir. São cães gulosos, que não se fartam da gordura do povo, mas que não desempenham o seu papel de proteção (Sl 53:4).

Os líderes de Israel são descritos como pastores, mas que nada compreendem: “Eu, porém, disse: Deveras estes são pobres; são loucos, pois não sabem o caminho do SENHOR, nem o juízo do seu Deus” (Jr 5:4; Mt 13:13; Jr 10:21; Jr 50:6; Ez 34:10). Cada pastor desviava para o seu próprio caminho, ou seja, após o seu coração enganoso: “Estendi as minhas mãos o dia todo a um povo rebelde, que anda por caminho, que não é bom, após os seus pensamentos” (Is 65:2).

“O Senhor enviou uma palavra a Jacó e ela caiu em Israel.E todo este povo o saberá, Efraim e os moradores de Samaria, que em soberba e altivez de coração, dizem:Os tijolos caíram, mas, com cantaria tornaremos a edificar; cortaram-se os sicômoros, mas, em cedros as mudaremos.Portanto, o SENHOR suscitará, contra ele, os adversários de Rezim, e juntará os seus inimigos. Pela frente virão os sírios e por detrás os filisteus, e devorarão a Israel à boca escancarada; e nem, com tudo isso, cessou a sua ira, mas, ainda, está estendida a sua mão.Todavia este povo não se voltou para quem o feria, nem buscou ao SENHOR dos Exércitos. Assim o SENHOR cortará de Israel a cabeça e a cauda, o ramo e o junco, num mesmo dia (O ancião e o homem de respeito é a cabeça; e o profeta que ensina a falsidade é a cauda).Porque os guias deste povo são enganadores e os que por eles são guiados são destruídos” (Is 9:8-16).

Enquanto Deus está convidando as ‘bestas’ do campo e das florestas para atacar o povo de Israel, os líderes de Israel somente convidavam o povo para se embriagarem no vinho colhido dos campos de Sodoma e Gomorra.

“Ouvi a palavra do SENHOR, vós poderosos de Sodoma; dai ouvidos à lei do nosso Deus, ó povo de Gomorra” (Is 1:10);

“E toda a sua terra abrasada com enxofre e sal, de sorte que não será semeada, nada produzirá, nem nela crescerá erva alguma; assim como foi a destruição de Sodoma e de Gomorra, de Admá e de Zeboim, que o SENHOR destruiu na sua ira e no seu furor.E todas as nações dirão: Por que fez o SENHOR assim com esta terra? Qual foi a causa do furor desta tão grande ira? Então se dirá: Porquanto deixaram a aliança do SENHOR Deus de seus pais, que com eles tinha feito, quando os tirou do Egito” (Dt 29:23-25);

“Porque a sua vinha é a vinha de Sodoma e dos campos de Gomorra; as suas uvas são uvas venenosas, cachos amargos têm” (Dt 32:32).

A doutrina dos lideres de Israel se assemelha ao vinho que entorpece os sentidos, de modo que, quem é participante da doutrina deles, sempre está confiante em um futuro melhor, embora a palavra de Deus não seja para paz.

 

Correção ortográfica: Carlos Gasparotto

Ler mais

As bestas do campo nas visões de Daniel

Após os três primeiros animais: leão (babilônia), urso (medo/persa) e leopardo (grego), Daniel viu um quarto animal terrível que será substituído pelo reino de Cristo, portanto, este animal não se refere a Roma.

Ler mais

A meretriz assentada sobre muitas águas

A mulher vestida de sol fugirá para o deserto. A ordem para os filhos de Israel no período descrito como grande tribulação é para que fujam da cidade para os montes, porque na cidade haverá grande mortandade “E fugireis pelo vale dos meus montes, pois o vale dos montes chegará até Azel; e fugireis assim como fugistes de diante do terremoto nos dias de Uzias, rei de Judá. Então virá o SENHOR meu Deus, e todos os santos contigo”( Zc 14:5 ; Mt 24:16 -22). A grande cidade ficará sob a mercê da besta, que com dez reis a queimará a fogo, deixando-a ‘viúva’: desolada (sem habitantes) e nua (envergonhada).


 

                Apocalipse 17, versos 1 à 18

1  E VEIO um dos sete anjos que tinham as sete taças, e falou comigo, dizendo-me: Vem, mostrar-te-ei a condenação da grande prostituta que está assentada sobre muitas águas; 2  Com a qual se prostituíram os reis da terra; e os que habitam na terra se embebedaram com o vinho da sua prostituição. 3  E levou-me em espírito a um deserto, e vi uma mulher assentada sobre uma besta de cor de escarlata, que estava cheia de nomes de blasfêmia, e tinha sete cabeças e dez chifres. 4  E a mulher estava vestida de púrpura e de escarlata, e adornada com ouro, e pedras preciosas e pérolas; e tinha na sua mão um cálice de ouro cheio das abominações e da imundícia da sua prostituição; 5  E na sua testa estava escrito o nome: Mistério, a grande Babilônia, a mãe das prostituições e abominações da terra.

 

Introdução

O objetivo da visão do capítulo 17 é apresentar como será a punição da ‘grande cidade’ que reina sobre os reis da terra. O grande desafio para o leitor é descobrir a identidade da ‘grande cidade’ que está fadada à destruição “E a mulher que viste é a grande cidade que reina sobre os reis da terra” ( Ap 17:18 ).

A ‘grande cidade’ foi condenada e será punida e não haverá quem a livre da ira de Deus “Vem, mostrar-te-ei a condenação da grande prostituta…” (v. 1); “Portanto, num dia virão as suas pragas, a morte, e o pranto, e a fome; e será queimada no fogo; porque é forte o Senhor Deus que a julga” ( Ap 18:8 ).

Entender o motivo pelo qual Deus condenará a ‘grande cidade’ nos permitirá identifica-la e entender o motivo pelo qual ela é vista como uma meretriz vestida de púrpura e de escarlata ( Ap 17:16 ).

 

A mulher vestida de sol

Iniciamos no artigo “A mulher e o dragão” a análise das figuras do livro do Apocalipse através da figura da mulher vestida de sol e com a lua debaixo dos pés e que estava com uma coroa de doze estrelas sobre a cabeça < http://www.estudobiblico.org/novo-testamento/o-evangelho/hebreus-e-apocalipse/apocalipse/758-a-mulher-e-o-dragao >. Demonstramos que a lua debaixo dos pés da mulher simboliza a promessa de Deus feita aos pais: Abraão, Isaque e Jacó. A lua significa que a nação de Israel se sustém na promessa imutável de Deus “Assim diz o SENHOR, que dá o sol para luz do dia, e as ordenanças da lua e das estrelas para luz da noite, que agita o mar, bramando as suas ondas; o SENHOR dos Exércitos é o seu nome. Se falharem estas ordenanças de diante de mim, diz o SENHOR, deixará também a descendência de Israel de ser uma nação diante de mim para sempre” ( Jr 31:35 -36; Jr 33:25 -26); “Não quebrarei a minha aliança, não alterarei o que saiu dos meus lábios. Uma vez jurei pela minha santidade que não mentirei a Davi. A sua semente durará para sempre, e o seu trono, como o sol diante de mim. Será estabelecido para sempre como a lua e como uma testemunha fiel no céu. (Selá.)” ( Sl 89:34 -37; Dt 9:5 ; Lv 26:44 -45).

A mulher vestida de sol diz da nação de Israel, pois como nação escolhida para trazer o Cristo ao mundo sofreu dores ( Ap 12:2 ). A vestimenta simboliza a justiça de Deus manifesta a todos os povos por intermédio de Cristo, o descendente prometido a Abraão ( Lc 1:78 -79).

Cristo é o sol da justiça, pois o seu esplendor alcançou os que habitavam as regiões das trevas. O sol não faz acepção de pessoas, de modo que Cristo é luz para todos os povos “LEVANTA-TE, resplandece, porque vem a tua luz, e a glória do SENHOR vai nascendo sobre ti; Porque eis que as trevas cobriram a terra, e a escuridão os povos; mas sobre ti o SENHOR virá surgindo, e a sua glória se verá sobre ti. E os gentios caminharão à tua luz, e os reis ao resplendor que te nasceu” ( Is 59:1 -3; Is 9:2 ; Gn 22:18 ; 2Sm 23:3 -4; Is 40:5 ).

Da mulher vestida de sol disse o apóstolo Paulo: “Deus não rejeitou o seu povo, que antes conheceu. Ou não sabeis o que a Escritura diz de Elias, como fala a Deus contra Israel, dizendo: Senhor, mataram os teus profetas, e derribaram os teus altares; e só eu fiquei, e buscam a minha alma? Mas que lhe diz a resposta divina? Reservei para mim sete mil homens, que não dobraram os joelhos a Baal” ( Rm 11:2 -4).

O advento da Igreja não significa que Deus rejeitou o povo de Israel, antes foram eles que rejeitaram o autor da vida, pois Ele veio para os que eram seus, e eles o rejeitaram ( Jo 1:11 ; Rm 10:21 ). Apesar da rejeição, há um remanescente segundo a graça, ou seja, qualquer homem dentre os judeus que crerem na mensagem do evangelho, será salvo ( Rm 11:23 ).

Após o arrebatamento da Igreja de Cristo, se encerrará a plenitude dos gentios e começará a ser contada a última semana de Daniel sobre o povo de Israel, de modo que os cristãos não podem ignorar que o ‘endurecimento’ de Israel se dará até que se encerre a ‘plenitude dos gentios’ “Porque não quero, irmãos, que ignoreis este segredo (para que não presumais de vós mesmos): que o endurecimento veio em parte sobre Israel, até que a plenitude dos gentios haja entrado. E assim todo o Israel será salvo, como está escrito: De Sião virá o Libertador, E desviará de Jacó as impiedades” ( Rm 11:25 -26; Is 6:9 -12).

Como foi estabelecido nas Escrituras que de Sião virá o libertador e retirará todas as impiedades de Jacó, a aliança entre Deus e Israel permanece, porque o que foi dado aos pais (dons) é irrevogável ( Rm 11:26 -29), pois dos verdadeiros israelitas é a adoção, a glória, as alianças, a lei, o culto, as promessas, os pais, e deles é o Cristo segundo a carne ( Rm 9:3 -4).

A promessa de Deus feita aos pais não falhou, por isso o evangelista João viu a lua debaixo dos pés da mulher, uma vez que a nação de Israel jamais deixará de ser nação diante de Deus e o descendente prometido a Abraão se assentará sobre o trono de Davi como rei e sacerdote e regerá as nações com vara de ferro ( Gn 49:8 -11); “Vós sois os filhos dos profetas e da aliança que Deus fez com nossos pais, dizendo a Abraão: Na tua descendência serão benditas todas as famílias da terra” ( At 3:25 ); “Este será grande, e será chamado filho do Altíssimo; e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai” ( Lc 1:32 ).

O povo de Israel, mesmo quando deportado, não deixou de ser a nação escolhida por Deus e a promessa do Cristo assentado sobre o trono de Davi se cumprirá após o término da plenitude dos gentios. Cristo permanece à destra da majestade nas alturas até que seja enviado a Sião como o libertador das transgressões da casa de Jacó, o que ocorrerá após o período de grande tribulação “DISSE o SENHOR ao meu Senhor: Assenta-te à minha mão direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés. O SENHOR enviará o cetro da tua fortaleza desde Sião, dizendo: Domina no meio dos teus inimigos” ( Sl 110:1 -2).

As promessas se cumprem em Cristo, e para Israel há a promessa de que o Cristo se assentará sobre o trono de Davi, seu pai, e regerá todas as nações da terra a partir de Sião com vara de ferro ( Sl 2:8 ; Gn 15:18 ; Is 60:14 ).

O povo de Israel foi introduzido na terra que de Canaã por causa da promessa feita aos pais, e não porque eram de fato justos aos olhos de Deus, como se lê: “E, porquanto amou teus pais, e escolheu a sua descendência depois deles, te tirou do Egito diante de si, com a sua grande força” ( Dt 4:37 ); “Não é por causa da tua justiça, nem pela retidão do teu coração que entras a possuir a sua terra, mas pela impiedade destas nações o SENHOR teu Deus as lança fora, de diante de ti, e para confirmar a palavra que o SENHOR jurou a teus pais, Abraão, Isaque e Jacó” ( Dt 9:5 ).

Por causa da promessa feita aos pais vemos a mulher vestida de sol e com os pés sobre a lua, mas como o povo era rebelde e de dura servis, surge uma nova figura: a meretriz, visto que a ‘cidade fiel’ se fez prostituta ( Is 1:21 ).

Para compreendermos a figura da meretriz que representa a grande cidade no Apocalipse, temos que lembrar que desde o dia em que foi tirado do Egito a casa de Israel é denominada casa rebelde ( Dt 9:24 ), mas, para confirmar a palavra dada aos pais, Deus introduziu a casa rebelde na terra da promessa ( Dt 8:18 ; Dt 9:6), e os filhos de Jacó foram habitar a terra dos cananeus.

Os judeus se auto intitulavam israelitas, porém, não passavam de casa de Jacó (tomar pelo calcanhar, suplantador), diferente do patriarca Jacó, que de fato passou a ser chamado por Deus de ‘Israel’ quando Deus reitera a promessa que foi feita a Abraão e Isaque ( Gn 32:28 ; Gn 35:10 -12 ; Is 48:1 ).

Não é pela força ou pela violência que se alcança a benção de Deus, antes se dá pela palavra do Senhor. Qualquer que busque a face do Senhor alcançará de Deus a bênção: a salvação “E respondeu-me, dizendo: Esta é a palavra do SENHOR a Zorobabel, dizendo: Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos” ( Zc 4:6 ); “E Jacó lhe perguntou, e disse: Dá-me, peço-te, a saber o teu nome. E disse: Por que perguntas pelo meu nome? E abençoou-o ali. E chamou Jacó o nome daquele lugar Peniel, porque dizia: Tenho visto a Deus face a face, e a minha alma foi salva” ( Gn 32:29 -30; Os 5:15 ).

Havia uma ordem especifica para que os filhos de Jacó destruíssem todos os povos que estavam na terra que herdaram, mandamentos que visava a proteção da nação foram desconsiderados. Por exemplo: ( Dt 20:16 -17), mas não obedeceram e passaram a compartilhar a terra com os povos nativos “E não expulsaram aos cananeus que habitavam em Gezer; e os cananeus habitam no meio dos efraimitas até ao dia de hoje; porém, sendo-lhes tributários” ( Js 16:10 e 17:13 ).

Como o povo não atendia a ordem do Senhor, Deus enviou seus profetas que clamavam contra as cidades do povo de Israel: “E VEIO a mim a palavra do SENHOR, dizendo: Vai, e clama aos ouvidos de Jerusalém, dizendo: Assim diz o SENHOR: Lembro-me de ti, da piedade da tua mocidade, e do amor do teu noivado, quando me seguias no deserto, numa terra que não se semeava. Então Israel era santidade para o SENHOR, e as primícias da sua novidade; todos os que o devoravam eram tidos por culpados; o mal vinha sobre eles, diz o SENHOR” ( Jr 2:1 -3).

Para falar ao povo, os profetas fizeram parábolas e alegorias utilizando-se do nome das cidades em que a nação de Israel habitava. Por exemplo: Ezequiel clamou contra a cidade de Jerusalém e fez uma alegoria descrevendo-a como uma menina abandonada no deserto que, após ser acolhida pelo Senhor, tornou-se uma moça muito bonita que Deus entrou em aliança e ela passou a ser d’Ele. A menina que foi cuidada pelo Senhor tornou-se formosa e, por causa da sua beleza, deixou o seu marido, se fez pérfida e saiu após amantes “E, passando eu junto de ti, vi-te, e eis que o teu tempo era tempo de amores; e estendi sobre ti a aba do meu manto, e cobri a tua nudez; e dei-te juramento, e entrei em aliança contigo, diz o Senhor DEUS, e tu ficaste sendo minha. Então te lavei com água, e te enxuguei do teu sangue, e te ungi com óleo” ( Ez 16:8 -9).

Através das profecias verifica-se que Deus fez uma promessa incondicional aos pais que jamais será quebrada, pois Deus mesmo ungiu o seu Santo Rei sobre o monte Sião ( Sl 2:6 ), e o estabeleceu como sacerdote eterno ( Sl 110:4 ). No entanto, a aliança que Deus fez com o povo que foi tirado do Egito é condicional, pois a alma que fizesse o prescrito na lei viveria por ela, e este foi o trato que o povo fez: “Então todo o povo respondeu a uma voz, e disse: Tudo o que o SENHOR tem falado, faremos. E relatou Moisés ao SENHOR as palavras do povo” ( Êx 19:8 ; Ez 20:21 ); “Portanto, os meus estatutos e os meus juízos guardareis; os quais, observando-os o homem, viverá por eles. Eu sou o SENHOR” ( Lv 18:5 ).

Assim como Deus deu a sua palavra a Abraão, Isaque e a Jacó, Deus reuniu o povo de Israel no monte Sinai para que o povo ouvisse a voz de Deus, mas quando foi provado, o povo se pôs ao longe e não quis ouvir a voz de Deus ( Ex 20:18 -20).

Jacó pelejou com Deus e não teve medo de morrer, de modo que foi abençoado e Deus mudou o seu nome. Os filhos de Jacó se auto intitulavam filhos de Israel e que fariam tudo o que Deus mandasse, no entanto quando viram que o monte fumegava e havia trovões, relâmpagos, tiveram medo de ouvirem a voz do Senhor e morrer, quando na verdade a palavra do Senhor é que dá vida. Atitude do povo se por ao longe demonstra a falta de confiança em Deus. Imagine se a prova fosse semelhante a de Jacó, pelejar com Deus “E disseram a Moisés: Fala tu conosco, e ouviremos: e não fale Deus conosco, para que não morramos. E disse Moisés ao povo: Não temais, Deus veio para vos provar, e para que o seu temor esteja diante de vós, afim de que não pequeis” ( Ex 20:19 -20).

O povo precisava ouvir diligentemente a voz do Senhor. Ouvir a voz do Senhor os tornaria apto a cumprir a aliança ( Ex 19:5 ), porém, o povo antes de ouvir a voz do Senhor se propôs a fazer o que Deus mandasse ( Ex 19:8 ), mas, quando Deus ia falar-lhes de modo que cressem eternamente ( Ex 19:9 ), rejeitaram ouvir a palavra de Deus.

A aliança foi feita, mas o povo corrompeu a aliança, pois passaram a confiar na força dos seus braços e deixaram de confiar n’Aquele que fez a aliança, se fizeram filhos rebeldes e sujeitos aos ‘ais’ “Mas vós vos desviastes do caminho; a muitos fizestes tropeçar na lei; corrompestes a aliança de Levi, diz o SENHOR dos Exércitos” ( Ml 2:8 ; Zc 11:10 ; Jr 11:10 ); “Não segundo a aliança que fiz com seus pais No dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito; Como não permaneceram naquela minha aliança, Eu para eles não atentei, diz o Senhor” ( Hb 8:9 ).

Os filhos de Jacó se ‘cobriram’ com a força do braço, com a violência, mas não do Espírito do Senhor ( Is 30:1 ; Zc 4:6 ; Mt 11:12 ).

O evangelista João viu em visões distintas duas mulheres: uma parturiente e outra meretriz. O profeta Jeremias também profetizou acerca de duas mulheres, e nos chama a atenção o fato de que essas duas mulheres apontam para Israel ( Jr 4:30 -31).

A figura da mulher parturiente foi utilizada pelo profeta Jeremias para fazer referencia à nação de Israel, como se lê: “Porquanto ouço uma voz, como a de uma mulher que está de parto, uma angústia como a de que está com dores de parto do primeiro filho; a voz da filha de Sião, ofegante, que estende as suas mãos, dizendo: Oh! ai de mim agora, porque já a minha alma desmaia por causa dos assassinos” ( Jr 4:31).

Quando foi previsto através da figura de um leão (Babilônia) que Deus enviaria do norte uma nação sanguinária que assolaria as cidades de Israel ( Jr 4:7 ), o profeta descreveu a voz da filha de Sião ofegante como a que está de parto.

Por causa da iniquidade dos filhos de Jacó Deus determinou que uma nação sanguinária viesse do norte para assolar a nação de Israel ( Jr 4:6 ), e, por mais que a nação de Israel se posicionasse como rainha (vestida de carmesim) e se fizesse bela (enfeites e adornos) para atrair o apoio das nações vizinhas (amantes), o mal já estava determinado “Agora, pois, que farás, ó assolada? Ainda que te vistas de carmesim (escarlata), ainda que te adornes com enfeites de ouro, ainda que te pintes em volta dos teus olhos, debalde te farias bela; os amantes te desprezam, e procuram tirar-te a vida” ( Jr 4:30 ).

Deus utilizou duas figuras para anunciar a deportação de Israel para babilônia:

a) mulher com dores de parto, e;

b) prostituta em busca dos seus amantes.

As mesmas figuras utilizadas pelo profeta Jeremias foram vistas pelo apóstolo amado, sendo que:

  • a figura da mulher com dores de parto no Apocalipse retrata a nação de Israel
  • e a figura da grande meretriz retrata a cidade dos filhos de Israel.

A promessa de Deus é imutável quanto à nação, visto que o remanescente será salvo (mulher vestida de sol), já as cidades de Israel, por causa da infidelidade do povo (meretriz que se assenta como rainha), serão destruídas e ficará deserta.

 

A mulher prostituta vestida como rainha

A figura da mulher meretriz vestida de púrpura e escarlate representa a ‘grande cidade’ que abrigará a nação de Israel antes do período descrito por Cristo como ‘aflição daqueles dias’ (grande tribulação) ( Ap 17:18 ; Mt 24:21 ).

O nome escrito na testa da meretriz é um símile (enigma), portanto, não deve ser interpretada com uma referência à antiga cidade dos caldeus. Os caldeus já foram apenados e destruídos pelos medos ( Jr 51:11 e 28; Dn 7:5 ), e, conforme as profecias, Babilônia foi destruída e nunca mais será povoada, assemelhando-se às cidades de Sodoma e Gomorra ( Jr 50:39 -40).

Foi determinado por Deus que a cidade de Babilônia seria uma desolação perpétua ( Jr 51:26 ), portanto, a figura da mulher assentada sobre muitas águas não diz da cidade dos caldeus, apesar da inscrição na testa da mulher.

Por causa da inscrição, que diz: Mistério, a grande Babilônia, a mãe das prostituições e abominações da terra”, os reformadores entendiam que a visão fazia referencia ao papado (Igreja Católica Apostólica Romana)“A quem ou a que se refere esta mulher? A maior parte dos comentadores, desde o tempo da Reforma, identificam-na com o papado, tal como o fizeram Lutero, Tyndale, Knox, Calvino (Institutes, IV, 2.12), Alford, Elliott, Lange, e muitos outros. A Igreja Católica Romana identifica esta mulher com Roma – mas com a Roma pagã, é claro, já no passado” Moody, Pág. 59.

Este sentido também foi apresentado por Barclay “A mulher é Babilônia, quer dizer, é Roma. Há uma dificuldade que se expõe no princípio do capítulo, mas pode ser esclarecida de maneira imediata. Afirma-se que a mulher está assentada sobre “muitas águas” (v. 1). Esta é uma imagem de Roma representada mediante o simbolismo que corresponde a Babilônia, segundo os ditos dos antigos profetas de Israel. Em Jeremias 51:13 faz-se referência a Babilônia, precisamente, como uma cidade “assentada sobre muitas águas”” Barclay, Pág. 370.

Há quem ateste que a grande cidade será a cidade de Babilônia reedificada: “… em Apocalipse 17 João descreve a visão em duas partes. A primeira parte fala de uma mulher identificada como Babilônia. Simboliza uma cidade de extrema riqueza que controla – “povos, multidões, nações e línguas” (Ap 17.15). Ela é literalmente a cidade de Babilônia reconstruída” Dyer, Charles H., The Rise of Babylon: Is Iraq at the Center of The Final Drama? Edição Revisada, Chicago: Moody Press, [1991], 2003, pág. 162.

Especulações não faltam acerca do tema: “As profecias referentes à cidade de Babilônia nunca se cumpriram no passado, o que qualquer enciclopédia pode testificar. Para que as profecias bíblicas se cumpram, é necessário que a cidade de Babilônia seja reconstruída na mesma área de outrora. A antiga Babilônia é o atual Iraque” Fruchtenbaum, Arnold, The Footsteps of the Messiah: A Study of the Sequence of Prophetic Events, (Tustin, Califórnia: Ariel Ministries Press, 1982), pág. 192.

Ora, o interprete deve ler o livro de Apocalipse cônscio de que ele contém inúmeras figuras e símbolos. Os símbolos e figuras possuem um significado específico que remetem a um único evento ou realidade, e o interprete precisa ter a perspicácia de verificar que as profecias apresentam enigmas amalgamados às figuras e símbolos.

Os enigmas precisam ser desvendados antes da interpretação das figuras e dos símbolos, portanto, não é porque consta na visão o nome ‘Babilônia’ que a civilização Babilônica e as cidades dos caldeus serão reconstruídas.

A visão da mulher meretriz assentada sobre a besta diz de uma cidade nomeada ‘A grande cidade’ ( Ap 17:18 ), e todos os reis da terra se prostituíram com ela ( Ap 17:2 ).

O evangelista João verificou que a meretriz estava prestes a cair (embriagada) por ter matado os santos e as testemunhas de Jesus ( Ap 18:24 ). A embriagues simboliza a ‘queda’ iminente, que no texto em comento é a meretriz ser devorada pela besta na qual se assenta como rainha.

A visão do evangelista aponta qual é a concepção da grande cidade que se assentou sobre a besta do Apocalipse como se fosse rainha. A grande cidade tem a concepção de que jamais será despojada de seus habitantes e riquezas ao dizer: – ‘Jamais serei viúva’, por estar exercendo domínio sobre sete montes ( Ap 18:7 ), no entanto, o domínio da grande cidade foi proporcionado pelo dragão que deu o seu poder à besta ( Ap 13:4 ).

A grande cidade acredita que reina por causa da aliança firmada com sete montes, no entanto, os sete montes foram atraídos pela formosura da ‘meretriz’. A aliança estabelecida que faz a cidade confiante tem por base uma ficção arquitetada pelo dragão, pois a besta juntamente com dez reis se levantará contra a grande cidade e a devorará.

A mulher vestida de sol sofreu dores de parto até que o descendente prometido a Abraão veio ao mundo dos homens, o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo ( Ap 12:5 ; Is 26:17 -18). A meretriz será destruída e os prevaricadores em Israel exterminados ( Dn 8:23 ). Será um tempo de aflição como nunca houve sobre os filhos de Jacó até que o Cristo se revele novamente em glória sobre o monte das Oliveiras ( Zc 14:4 ; Mt 23:39 ), e o restante do povo de Israel olhe para aquele a quem trespassaram ( Zc 12:10 ).

Diversas nações serão ajuntada e pelejarão contra Israel colocando em aperto a grande cidade onde se achou (culpa) o sangue dos profetas e dos santos ( Zc 14:2 ; Ap 18:24 ). Quando os que restarem dos filhos de Jacó se puserem em fuga, o Cristo que se manifestará em glória destruirá as nações que se opõe a Israel, porém, a grande cidade estará desolada e nua a vista das nações “Orai, pois, para que a vossa fuga não suceda no inverno” ( Mc 13:18 ; Mt 24:20 ; Zc 12:9 ; Mt 24:30 ).

Após dar à luz o filho homem que há de reger todas as nações da terra com vara de ferro, iniciou a contagem do tempo dos gentios ( Ap 12:5 ), e quando iniciar a contagem da última semana de Daniel a mulher fugirá para o deserto onde será alimentada por Deus ( Ap 12:6 e 14). Ora, o deserto é o lugar onde os que escaparem da grande tribulação encontrará o favor do Senhor “Assim diz o SENHOR: O povo dos que escaparam da espada achou graça no deserto. Israel mesmo, quando eu o fizer descansar” ( Jr 31:2 ).

Observe que a mulher vestida de sol fugirá para o deserto. A ordem para os filhos de Israel no período descrito como grande tribulação é para que fujam da cidade para os montes, porque na cidade haverá grande mortandade “E fugireis pelo vale dos meus montes, pois o vale dos montes chegará até Azel; e fugireis assim como fugistes de diante do terremoto nos dias de Uzias, rei de Judá. Então virá o SENHOR meu Deus, e todos os santos contigo” ( Zc 14:5 ; Mt 24:16 -22).

A grande cidade ficará sob a mercê da besta, que com dez reis a queimará a fogo, deixando-a ‘viúva’: desolada (sem habitantes) e nua (envergonhada).

 

Elementos que compõe a visão

Um dos anjos que tinha um das sete taças (contendo as últimas pragas) convidou o evangelista João para acompanha-lo e em seguida mostrou uma visão contendo a figura de uma mulher assentada sobre uma besta ( Ap 17:3 ).

O anjo alerta que seria revelado qual a condenação da meretriz, e este deve ser o foco do interprete: a punição da grande cidade.

A condenação da ‘grande cidade’ também foi anunciada em outras duas visões no livro do Apocalipse, o que destaca o ponto de maior relevância da visão: a ira de Deus “E outro anjo seguiu, dizendo: Caiu, caiu Babilônia, aquela grande cidade, que a todas as nações deu a beber do vinho da ira da sua prostituição” ( Ap 14:8 ); “E a grande cidade fendeu-se em três partes, e as cidades das nações caíram; e da grande Babilônia se lembrou Deus, para lhe dar o cálice do vinho da indignação da sua ira” ( Ap 16:19 ).

O evangelista João foi conduzido por um anjo em espírito a um lugar ermo (deserto), e o apóstolo viu uma mulher assentada sobre uma besta de cor vermelha. A vestimenta da mulher foi descrita pelas suas cores: roxa (púrpura) e vermelha (escarlate), e ela estava adornada com ouro e pedras preciosas ( Ap 17:4 ). As cores roxa e vermelha representam a realeza da mulher, que se assenta como rainha ( Ap 18:7 ).

Além do mais, a meretriz estava adornada de modo a chamar a atenção dos seus amantes (ouro, pedras preciosas e enfeites). A riqueza da mulher atrai os seus amantes que são participantes das abominações e da imundície da prostituição dela ( Ap 17:2 e Ap 18:3).

A meretriz segura na mão um cálice de ouro cheio de abominações e prostituições. As abominações da grande meretriz que está
sentenciada à destruição tem alcance mundial, pois tanto os reis (governos) da terra quanto os moradores do mundo (súditos) se prostituíram e se embriagaram com o vinho da sua prostituição.

O profeta Isaias ao falar dos filhos de Jacó, deixa claro que eles foram desamparados e abatidos por causa:

a) da prata e do ouro que possuíam;

b) dos cavalos e dos carros que adquiriram;

c) dos deuses que reverenciavam, e;

d) por associarem-se com os estranhos ( Is 2:6 -9), características que se amoldam a meretriz do Apocalipse.

 

A punição da meretriz

“E VEIO um dos sete anjos que tinham as sete taças, e falou comigo, dizendo-me: Vem, mostrar-te-ei a condenação da grande prostituta que está assentada sobre muitas águas (…) E levou-me em espírito a um deserto, e vi uma mulher assentada sobre uma besta de cor de escarlata, que estava cheia de nomes de blasfêmia, e tinha sete cabeças e dez chifres” (v. 1 e 3).

O anjo explicou para o apóstolo que a figura da meretriz assentada sobre uma besta refere-se a uma ‘grande cidade’ que exerce domínio sobre reis e reinos da terra ( Ap 17:18 ). Na visão a mulher é apresentada como tendo domínio sobre a besta (assentada), e como foi dado à besta poder sobre toda a tribo, e língua, e nação ( Ap 13:7 ), segue-se que a mulher se assenta (exerce domínio) sobre muitas águas ( Ap 17:15 ).

A figura deixa claro que a mulher vestida de purpura não tem, por si só, poder para exercer domínio sobre tribos, línguas e nações, mas, exercerá domínio por intermédio da besta, que por sua vez receberá poder do ‘dragão’, a antiga serpente, que é Satanás ( Ap 13:7 ).

Apesar desta mulher se assentar como rainha sobre ‘muitas águas’ em função da autoridade que a besta franquiará à prostituta ( Ap 17:1 ; Ap 18:7 ), por estar embriagada no sangue dos santos e das testemunhas de Jesus, a meretriz desconhece que se assenta sobre a fera que irá devorá-la ( Ap 17:6 ; Ap 17:16 ).

A cegueira de Israel foi prevista pelo profeta Isaias, quando se apresentou a Deus: – ‘Eis-me aqui. Envia-me a mim’ ( Is 6:8 ). O profeta tinha que anunciar aos filhos de Jacó que eles ouviam, mas não entendiam; que viam, porém, não percebiam, e assim não se convertiam e nem eram sarados ( Is 6:10 ). O profeta perguntou ao Senhor até quando aquela cegueira e surdez persistiriam, e a reposta apontou o tempo do fim, quando sobrasse somente a santa semente “Então disse eu: Até quando Senhor? E respondeu: Até que sejam desoladas as cidades e fiquem sem habitantes, e as casas sem moradores, e a terra seja de todo assolada. E o SENHOR afaste dela os homens, e no meio da terra seja grande o desamparo. Porém ainda a décima parte ficará nela, e tornará a ser pastada; e como o carvalho, e como a azinheira, que depois de se desfolharem, ainda ficam firmes, assim a santa semente será a firmeza dela” ( Is 6:11 -13; Is 63:17 ).

Por esquecer-se de Deus, a nação, por mais que se esforçasse para crescer, no dia da tribulação, ou seja, das dores incuráveis do Apocalipse, as obras dela seriam completamente destruídas ( Is 17:10 -11). Dos filhos de Jacó sobreviverá somente os ‘rabiscos’ ( Is 17:6 ), antes da vinda do Messias para salva-los do bramido dos mares ( Is 17:12 -13 ; Sl 46:3 ).

O profeta Isaias, ao pronunciar o juízo que virá sobre Israel, fez referência às cidades de Israel como ‘cidade elevada’, ‘cidade fortificada’, ‘cidade vazia’, ‘cidade jubilosa’, etc. “Porque ele abate os que habitam no alto, na cidade elevada; humilha-a, humilha-a até ao chão, e derruba-a até ao pó” ( Is 26:5 ; Is 27:10 ; Is 24:10 ; Is 32:13 ).

Isaias descreve os habitantes da cidade como absortos pelo vinho, cambaleiam, mas não de bebia forte ( Is 28:7 ; Is 29:9 ). Os filhos de José (Efraim) descritos como bêbados aponta para o dia da vingança de Deus ( Is 27:2 ),  dia que antecede o castigo que abaterá a serpente veloz e deslizante (leviatã) com a dura espada (juízo) e exterminará o dragão que está no mar ( Is 27:1 ).

O dragão que está no mar é Satanás, a antiga serpente ( Ap 12:9 ), e é Ele que inflamará a besta contra a ‘grande cidade’ para destruí-la e perseguirá até o deserto a mulher (Israel) que deu à luz o Filho varão – Jesus ( Ap 12:13 ; Is 43:20 ).

Como o dragão tem grande ira contra a mulher e propôs fazer guerra contra o remanescente da semente ( Ap 12:17 ; Ap 6:13 ), Satanás franqueou, através de sinais e prodígios de mentira, força e autoridade à besta que subiu do mar ( Ap 13:1 ; 2Ts 2:9 ).

Após destruir a grande cidade, o mostro marinho (besta) perseguirá o remanescente da semente, selando o seu fim, pois será destruído através da dura espada do Senhor. Lembrando que a grande prostituta está assentada sobre muitas águas ( Ap 17:1 e 15), e que as muitas águas, nesta visão, significa povos, nações, tribos, e como a besta domina sobre as águas, dai o nome monstro marinho.

A meretriz, confiada em suas riquezas, assentou-se sobre a besta destinada por Deus à destruição, mas antes que a besta seja destruída, ela se insurgirá contra a meretriz para devorá-la.

A visão mostra que Satanás preparará todo um cenário para que a prostituta tenha a falsa sensação de que é rainha ( Ap 18:7 ). Através da besta, Satanás franqueará à meretriz domínio sobre povos, nações e tribos, domínio este angariado através de sinais e prodígios de mentiras. Quando a meretriz estiver sentindo-se em paz e segurança pela ilusão de ser rainha, a besta se levantará juntamente com dez reis e a deixarão desolada e nua.

  • “E os dez chifres que viste são dez reis, que ainda não receberam o reino, mas receberão poder como reis por uma hora, juntamente com a besta” ( Ap 17:12 );
  • “E os dez chifres que viste na besta são os que odiarão a prostituta, e a colocarão desolada e nua, e comerão a sua carne, e a queimarão no fogo” ( Ap 17:16 )

A punição da ‘grande cidade’ será a desolação, o abandono. As vestes suntuosas que identificavam a meretriz como rainha, bem como seus adornos, serão substituídas pela vergonha da nudez por causa do vinho da ira de Deus. Os seus habitantes serão mortos (comerão a sua carne) e reduzidos a cinzas (humilhada).

A desolação da ‘grande cidade’ que consta do verso 16 foi prevista pelo profeta Isaias e essa desolação antecederá a vinda do Messias e a conversão de Israel, como se lê: “Então disse eu: Até quando Senhor? E respondeu: Até que sejam desoladas as cidades e fiquem sem habitantes, e as casas sem moradores, e a terra seja de todo assolada. E o SENHOR afaste dela os homens, e no meio da terra seja grande o desamparo” ( Is 6:11 -12); “Demolida está a cidade vazia, todas as casas fecharam, ninguém pode entrar. Há lastimoso clamor nas ruas por falta do vinho; toda a alegria se escureceu, desterrou-se o gozo da terra. Na cidade só ficou a desolação, a porta ficou reduzida a ruínas. Porque assim será no interior da terra, e no meio destes povos, como a sacudidura da oliveira, e como os rabiscos, quando está acabada a vindima” ( Is 24:10 -13).

A ordem na palavra da profecia para que saia da grande cidade é semelhante à ordem que foi dada a Ló e a sua família: “E ouvi outra voz do céu, que dizia: Sai dela, povo meu, para que não sejas participante dos seus pecados, e para que não incorras nas suas pragas” ( Ap 18:4 ; Is 52:11 ), porque os que ficarem em Jerusalém serão mortos ( Zc 14:5 ).

Após Jerusalém beber do cálice da ira de Deus, o cálice será tirado dela e dado aos que a perseguiram, quando o Cristo manifestar-se e borrifar as nações da terra “Desperta, desperta, levanta-te, ó Jerusalém, que bebeste da mão do SENHOR o cálice do seu furor; bebeste e sorveste os sedimentos do cálice do atordoamento. De todos os filhos que ela teve, nenhum há que a guie mansamente; e de todos os filhos que criou, nenhum há que a tome pela mão. Estas duas coisas te aconteceram; quem terá compaixão de ti? A assolação, e o quebrantamento, e a fome, e a espada! Por quem te consolarei? Os teus filhos já desmaiaram, jazem nas entradas de todos os caminhos, como o antílope na rede; cheios estão do furor do SENHOR e da repreensão do teu Deus. Portanto agora ouve isto, ó aflita, e embriagada, mas não de vinho. Assim diz o teu Senhor o SENHOR, e o teu Deus, que pleiteará a causa do seu povo: Eis que eu tomo da tua mão o cálice do atordoamento, os sedimentos do cálice do meu furor, nunca mais dele beberás. Porém, pô-lo-ei nas mãos dos que te entristeceram, que disseram à tua alma: Abaixa-te, e passaremos sobre ti; e tu puseste as tuas costas como chão, e como caminho, aos viandantes” ( Is 51:17 -23; Is 52:15 ).

 

A cidade que se fez meretriz

Através do profeta Isaias Deus fez a seguinte observação: “Como se fez prostituta a cidade fiel! Ela que estava cheia de retidão! A justiça habitava nela, mas agora homicidas” ( Is 1:21 ).

Como é possível uma cidade cheia de retidão, onde a justiça fez a sua habitação tornar-se promiscua? Causa espanto, admiração verificar que a cidade que se chamava fiel tenha homens de violência residindo nela.

Outra atalaia de Israel profetizou contra a cidade que se fez prostituta: “Porque assim diz o SENHOR dos Exércitos: Cortai árvores, e levantai trincheiras contra Jerusalém; esta é a cidade que há de ser castigada, só opressão há no meio dela. Como a fonte produz as suas águas, assim ela produz a sua malícia; violência e estrago se ouvem nela; enfermidade e feridas há diante de mim continuamente. Corrige-te, ó Jerusalém, para que a minha alma não se aparte de ti, para que não te torne em assolação e terra não habitada” ( Jr 6:6 -8).

Quando nos deparamos com termos como violência, homicidas, meretriz, etc., a primeira ideia que vem a mente são questões de ordem moral e comportamental. Como é possível um povo extremamente religioso se deixar levar por comportamentos tão perniciosos?

Mas, se observarmos os provérbios, vê-se que a violência que Deus protesta contra os filhos de Israel não é de cunho comportamental, antes está atrelado a boca, ou seja, a doutrina que professavam. Observe: “Bênçãos há sobre a cabeça do justo, mas a violência cobre a boca dos perversos” ( Pv 10:6 ); “A boca do justo é fonte de vida, mas a violência cobre a boca dos perversos” ( Pv 10:11 ).

A religiosidade, o formalismo, o legalismo, o ritualismo, os sacrifícios, etc., era o que produzia violência diante de Deus, pois substituir a palavra de Deus por mandamento de homens produz morte, e não vida “Lembrai-vos disto, e considerai; trazei-o à memória, ó prevaricadores” ( Is 46:8 ); “Como o prevaricar, e mentir contra o SENHOR, e o desviarmo-nos do nosso Deus, o falar de opressão e rebelião, o conceber e proferir do coração palavras de falsidade” ( Is 59:13 ); “Do fruto da boca cada um comerá o bem, mas a alma dos prevaricadores comerá a violência” ( Pv 13:2 ).

Os judeus eram zelosos da lei, mas não com entendimento “Porque lhes dou testemunho de que têm zelo de Deus, mas não com entendimento” ( Rm 10:2 ). Eles tinham tanto zelo que não permitiam que as filhas do povo de Israel trouxessem ao templo oferta proveniente de prostituição, porém, não atinavam que os sacrifícios e oferendas que traziam ao templo era proveniente de prostituição, pois era filhos de prostituição e não de Deus “Mas chegai-vos aqui, vós os filhos da agoureira, descendência adulterina, e de prostituição” ( Is 57:3 ; Dt 31:16 ; Jr 5:21 e 23).

Os judeus estabeleciam preceitos sobre preceitos, inúmeros mandamentos de homens, uma religiosidade ritualista, formalista, doutrinas segundo o devaneio dos seus corações, além dos declaradamente idolatras “Não trarás o salário da prostituta nem preço de um sodomita à casa do SENHOR teu Deus por qualquer voto; porque ambos são igualmente abominação ao SENHOR teu Deus” ( Dt 23:18 ).

Por serem filhos da agoureira, Deus não suportava os sacrifícios e as ofertas dos filhos de Israel, pois o que ofereciam era equivalente a oferta do salário de prostituta: abominação “Ai, nação pecadora, povo carregado de iniquidade, descendência de malfeitores, filhos corruptores; deixaram ao SENHOR, blasfemaram o Santo de Israel, voltaram para trás (…) Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e as luas novas, e os sábados, e a convocação das assembleias; não posso suportar iniquidade, nem mesmo a reunião solene. As vossas luas novas, e as vossas solenidades, a minha alma as odeia; já me são pesadas; já estou cansado de as sofrer” ( Is 1:4 e 13 -14).

É por causa deste alerta que temos a observação paulina contra os judeus: “Tu, pois, que ensinas a outro, não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas?  Tu, que dizes que não se deve adulterar, adulteras? Tu, que abominas os ídolos, cometes sacrilégio? Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei? Porque, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vós” ( Rm 2:21 -24).

Esta era a crença dos judeus: “Disseram-lhe, pois: Nós não somos nascidos de prostituição; temos um Pai, que é Deus” ( Jo 8:41 ), mas esta era a condição deles diante de Deus: “Já vi as tuas abominações, e os teus adultérios, e os teus rinchos, e a enormidade da tua prostituição sobre os outeiros no campo; ai de ti, Jerusalém! Até quando ainda não te purificarás?” ( Jr 13:27 ).

Embora os profetas demonstrassem continuamente que os filhos de Jacó eram filhos de prostituição, eles se arrogavam no direito de serem chamados filhos de Abraão. Jesus claramente acusou os escribas e fariseus de filhos do diabo “Vós tendes por pai ao diabo…” ( Jo 8:44 ), pois não aceitavam a Cristo, a verdade encarnada. Preferiram a mentira que os seus corações enganados aprenderam dos prevaricadores, homens que cuidavam da lei, mas não conheciam a Deus ( Jr 2:8 ; Is 46:8 ; Is 59:13 ).

O livro de Provérbios foi escrito para que possamos compreender os adágios, os símiles, as parábolas e os enigmas ( Pv 1:6 ).

O livro apresenta vários provérbios que instrui o filho para não se deixar levar pela mulher adultera ( Pv 5:3 ). Quem é esta mulher? A descrição da mulher adultera é surpreendente e causa admiração, assim como o evangelista João ficou admirado quando viu que a meretriz estava embriagada com o sangue dos santos e das testemunhas de Jesus ( Ap 17:6 ). Observe:

“O bom siso te guardará e a inteligência te conservará; Para te afastar do mau caminho, e do homem que fala coisas perversas; Dos que deixam as veredas da retidão, para andarem pelos caminhos escusos; Que se alegram de fazer mal, e folgam com as perversidades dos maus, Cujas veredas são tortuosas e que se desviam nos seus caminhos; Para te afastar da mulher estranha, sim da estranha que lisonjeia com suas palavras; Que deixa o guia da sua mocidade e se esquece da aliança do seu Deus; Porque a sua casa se inclina para a morte, e as suas veredas para os mortos. Todos os que se dirigem a ela não voltarão e não atinarão com as veredas da vida” ( Pv 2:11 -19).

Se observarmos o livro dos Provérbios segundo as premissas da sabedoria humana, vemos que o ensino do pai afastará o filho obediente do homem mau que fala coisas perversas e da mulher adúltera. Mas, a informação que a ‘mulher adultera’ deixou o guia da sua mocidade e se esqueceu da aliança do seu Deus, nos confere respostas que provocam admiração.

  • Quem é esta mulher adultera?
  • Quem são os homens maus?
  • Por que a mulher adultera trás sacrifícios pacíficos consigo? ( Pv 7:14 )

A mulher adultera que deixou o Guia da sua mocidade e se esqueceu da aliança do seu Deus é uma alegoria à cidade de Israel, e os homens maus que falam perversidade que ‘entram’ a ela são os religiosos em Israel, pois os que ‘entram’ a ela são homens violentos, perversos e maus “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” ( Mt 12:34 ).

A nação tornou-se promiscua ( Os 2:1 -5), conforme a descrição que se segue:

“E eis que uma mulher lhe saiu ao encontro com enfeites de prostituta, e astúcia de coração. Estava alvoroçada e irrequieta; não paravam em sua casa os seus pés. Foi para fora, depois pelas ruas, e ia espreitando por todos os cantos; E chegou-se para ele e o beijou. Com face impudente lhe disse: Sacrifícios pacíficos tenho comigo; hoje paguei os meus votos. Por isto saí ao teu encontro a buscar diligentemente a tua face, e te achei. Já cobri a minha cama com cobertas de tapeçaria, com obras lavradas, com linho fino do Egito. Já perfumei o meu leito com mirra, aloés e canela. Vem, saciemo-nos de amores até à manhã; alegremo-nos com amores. Porque o marido não está em casa; foi fazer uma longa viagem;  Levou na sua mão um saquitel de dinheiro; voltará para casa só no dia marcado Assim, o seduziu com palavras muito suaves e o persuadiu com as lisonjas dos seus lábios. E ele logo a segue, como o boi que vai para o matadouro, e como vai o insensato para o castigo das prisões; Até que a flecha lhe atravesse o fígado; ou como a ave que se apressa para o laço, e não sabe que está armado contra a sua vida. Agora pois, filhos, dai-me ouvidos, e estai atentos às palavras da minha boca. Não se desvie para os caminhos dela o teu coração, e não te deixes perder nas suas veredas. Porque a muitos feridos derrubou; e são muitíssimos os que por causa dela foram mortos. A sua casa é caminho do inferno que desce para as câmaras da morte” ( Pv 7:10 -27 ).

O provérbio que fala da mulher prostituta é uma descrição perfeita da cidade de Israel que, apesar de os seus moradores oferecerem sacrifícios e pagar os seus votos é um povo pérfido “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós” ( Mt 23:15 ).

A mulher descrita no livro dos Provérbios possui uma característica que a distingue das meretrizes, pois é ela que oferece benefícios a qualquer que passa. Em lugar de ser convidada por preço: – ‘Vem, deita-te comigo e te darei o teu preço’, ela faz o contrario: nada exige e mostra o que possui a fim de aliciar os seus amantes.

Vale salientar que o livro de Provérbios contém instruções específicas de Deus para o seu Filho, Jesus Cristo, aconselhando-o para não seguir o caminho indicado pela ‘mulher adultera’ (Israel) e seus filhos: geração de adúlteros ( Pv 5:3 -7; Pv 7:14 ; Pv 9:13 ).

Invariavelmente o termo ‘meretriz’ é aplicado às cidades dos filhos de Jacó, e o termo ‘amantes’ às nações vizinhas que Israel buscava proteção militar através de alianças políticas “Todos os teus amantes se esqueceram de ti, e não perguntam por ti; porque te feri com ferida de inimigo, e com castigo de quem é cruel, pela grandeza da tua maldade e multidão de teus pecados” ( Jr 30:14 ).

A única nação que Deus tomou por sua ‘mulher’ foi a nação de Israel, portanto, seria contra senso cobrar fidelidade das outras nações sem haver uma aliança, ou  denomina-las infiéis ou prostitutas.

A condição da cidade de Jerusalém é diferente das cidades das nações vizinhas desde a sua origem. O ‘nascimento’ da cidade de Jerusalém foi descrita por Deus através de uma alegoria, comparando a cidade a uma criança que, logo após o nascimento, foi abandonada à própria sorte no deserto ( Ez 16:1 ).

O cuidado do Senhor fez com que aquela ‘criança’ se tornasse uma ‘mulher’ formosa, e no tempo determinado, Deus fez aliança com ela sob juramento, de modo que a cidade passou a pertencer Lhe ( Ez 16:8 ).

A cidade foi adornada e chegou à realeza, porém, a perfeição, a formosura e a fama dela atraíram os gentios. Jerusalém, por sua vez, confiou na sua formosura e esqueceu-se da aliança da sua mocidade “AI da rebelde e contaminada, da cidade opressora!” ( Sf 3:1 ; Pv 2:16 -17).

A cidade de Jerusalém passou a ser descrita como uma mulher promiscua e que saía no encalço de todos quantos passavam e se prostituía “E correu de ti a tua fama entre os gentios, por causa da tua formosura, pois era perfeita, por causa da minha glória que eu pusera em ti, diz o Senhor DEUS. Mas confiaste na tua formosura, e te corrompeste por causa da tua fama, e prostituías-te a todo o que passava, para seres dele. E tomaste dos teus vestidos, e fizeste lugares altos pintados de diversas cores, e te prostituíste sobre eles, como nunca sucedera, nem sucederá” ( Ez 16:14 -16).

Por causa das prostituições dos filhos de Israel, por intermédio de Ezequiel Deus estabeleceu outra alegoria: duas mulheres, filhas de uma mesma mãe: Oolá e Oolibá, sendo elas respectivamente as cidades de Samaria e Jerusalém “Filho do homem, houve duas mulheres, filhas de uma mesma mãe. Estas se prostituíram no Egito; prostituíram-se na sua mocidade; ali foram apertados os seus seios, e ali foram apalpados os seios da sua virgindade. E os seus nomes eram: Aolá, a mais velha, e Aolibá, sua irmã; e foram minhas, e tiveram filhos e filhas; e, quanto aos seus nomes, Samaria é Aolá, e Jerusalém é Aolibá” ( Ez 23:2 -4 ; Js 24:14 ).

A grande meretriz do Apocalipse que será apenada a ficar desolada é uma alegoria que faz referência ao local de habitação da nação rebelde que deixou o Deus da sua mocidade e passou a se suster da imundície das suas prostituições. Desde a antiguidade a nação de Israel é descrito como uma mulher desavergonhada que se vendia sem nada cobrar a qualquer estrangeiro que passasse “Mas confiaste na tua formosura, e te corrompeste por causa da tua fama, e prostituías-te a todo o que passava, para seres dele” ( Ez 16:15 ); “Foste como a mulher adúltera que, em lugar de seu marido, recebe os estranhos. A todas as meretrizes dão paga, mas tu dás os teus presentes a todos os teus amantes; e lhes dás presentes, para que venham a ti de todas as partes, pelas tuas prostituições. Assim que contigo sucede o contrário das outras mulheres nas tuas prostituições, pois ninguém te procura para prostituição; porque, dando tu a paga, e a ti não sendo dada a paga, fazes o contrário” ( Ez 16:32 -34).

Deus compara a casa de Israel a uma mulher que deixa o seu marido e recebe os estranhos, ou seja, a nação deixou de confiar em Deus e passou a confiar nas alianças politica que faziam com as nações vizinhas (outeiros e montanhas), como se lê: “Deveras, como a mulher se aparta aleivosamente do seu marido, assim aleivosamente te houveste comigo, ó casa de Israel, diz o SENHOR. Nos lugares altos se ouviu uma voz, pranto e súplicas dos filhos de Israel; porquanto perverteram o seu caminho, e se esqueceram do SENHOR seu Deus. Voltai, ó filhos rebeldes, eu curarei as vossas rebeliões. Eis-nos aqui, vimos a ti; porque tu és o SENHOR nosso Deus. Certamente em vão se confia nos outeiros e na multidão das montanhas; deveras no SENHOR nosso Deus está a salvação de Israel” ( Jr 3:20 -23).

A falta de compostura da cidade de Israel fez com que Deus enviasse diversas vicissitudes como pragas, guerras, secas, fome, roubos, etc., contra os seus habitantes, primeiro porque esta é uma consequência direta dos ciúmes (ira) do Senhor à vista das prostituições da cidade e, em segundo lugar, porque este era o indicativo de que Deus esperava que os filhos de Jacó diante das vicissitudes se voltassem para Ele ( Dt 4:25 -31).

O profeta Jeremias chegou a profetizar que Israel tinha posicionamento de prostituta, mas que não queria passar a vergonha decorrente de suas ações “ELES dizem: Se um homem despedir sua mulher, e ela o deixar, e se ajuntar a outro homem, porventura tornará ele outra vez para ela? Não se poluirá de todo aquela terra? Ora, tu te prostituíste com muitos amantes; mas ainda assim, torna para mim, diz o SENHOR.  Levanta os teus olhos aos altos, e vê: onde não te prostituíste? Nos caminhos te assentavas para eles, como o árabe no deserto; assim poluíste a terra com as tuas fornicações e com a tua malícia. Por isso foram retiradas as chuvas, e não houve chuva serôdia; mas tu tens a fronte de uma prostituta, e não queres ter vergonha” ( Jr 3:1 -3 ; Is 1:5 ).

Deus havia protestado através do profeta Moisés, dizendo: “E disse o SENHOR a Moisés: Eis que dormirás com teus pais; e este povo se levantará, e prostituir-se-á indo após os deuses estranhos na terra, para cujo meio vai, e me deixará, e anulará a minha aliança que tenho feito com ele” ( Dt 31:16 ).

Ao descrer de antemão quais seriam as abominações do povo de Israel, Deus também enumerou quais seriam as maldições que paulatinamente sobreviriam sobre a nação para que voltasse para o Senhor que a resgatou do Egito. As maldições foram estabelecidas por sinal e por maravilha, mas se não dessem ouvidos e não considerassem o motivo pelo qual estava passando pelas vicissitudes, a maldição persistiria até que o povo fosse destruído “E serão entre ti por sinal e por maravilha, como também entre a tua descendência para sempre” ( Dt 31:46 ).

O cântico de Moisés constitui-se um memorial para os filhos de Israel se lembrar de quem os resgatou do Egito. A acusação é grave: “Corromperam-se contra Ele…” ( Dt 32:5 ). Por causa da transgressão, Deus deixa claro que já não eram filhos, antes uma geração perversa e depravada. Deus achou o povo de Israel no deserto, cercou e protegeu ( Dt 32:10 ), mas, quando as cidades se fez grande, esqueceu-se de Deus e foi após outros deuses e provocaram a Sua ira ( Dt 32:16 ). O povo de Israel provocou o ciúmes de Deus com aquilo que não era Deus (ídolos), e a ira de Deus se deu com o aperto das nações vizinhas ( Dt 28:36 e 49).

Por causa das abominações dos filhos de Jacó, a nação de Israel foi denominada ‘povo de Sodoma’ e ‘povo de Gomorra’. No verso 9 fica nítido o motivo pelo qual foram chamados de Sodoma e Gomorra, pois se Deus não preservasse um remanescente, o povo de Israel seria como Sodoma e semelhante a Gomorra, ou seja, estariam destruídos, extintos: “Se o SENHOR dos Exércitos não nos tivesse deixado algum remanescente, já como Sodoma seríamos, e semelhantes a Gomorra. Ouvi a palavra do SENHOR, vós poderosos de Sodoma; dai ouvidos à lei do nosso Deus, ó povo de Gomorra” ( Is 1:9 -10).

Ao fazer referência ao povo de Israel no capítulo 11, no verso 8 do livro de Apocalipse, foram empregados os seguintes nomes: ‘Sodoma’ e ‘Egito’, pois Israel é a ‘grande cidade’ do Apocalipse onde as duas testemunhas serão mortas ( Ap 11:8 ), e é o mesmo lugar no qual Jesus foi morto e crucificado “E jazerão os seus corpos mortos na praça da grande cidade que espiritualmente se chama Sodoma e Egito, onde o seu Senhor também foi crucificado” ( Ap 11:8 ; Lc 24:18 ).

Quando Deus nomeia as cidades de Israel de Sodoma e Gomorra fica implícito que as cidades seriam punidas à vista da prostituição, da promiscuidade, da rebeldia e da abominação do povo de Israel ( Is 1:13 ).

A nação de Israel só não foi de toda exterminada por causa da promessa que Deus fez aos pais, e também porque as nações que foram utilizadas como vara nas mãos de Deus para a punição se gloriariam dizendo que por sua própria força triunfaram sobre Israel ( Dt 32:27 ).

Por diversas vezes o povo de Israel foi perseguido pelos seus inimigos, e Deus lhes dava a oportunidade de se reconciliarem, mas não atentavam para a punição que Deus lhes imporia ( Dt 32:28 ). Como não quiseram atender, Deus entregou a nação de Israel ao cativeiro.

Se tivessem atentado para o anunciado pelos profetas, o povo veria que Deus instituiu os caldeus como vara da Sua ira ( Dt 28:49 -50). O que levou Deus destruir as cidades de Samaria e Jerusalém, deportando os que restaram dos filhos de Jacó para a Babilônia foi a apostasia do povo de Israel, pois não atentaram para a punição que os aguardava ( Dt 32:29 ).

É em função da infidelidade dos filhos de Jacó que Jerusalém haveria de ser destruída pelos povos vizinhos, conforme o profeta Daniel leu e abstraiu das profecias de Moisés “Sim, todo o Israel transgrediu a tua lei, desviando-se para não obedecer à tua voz; por isso a maldição e o juramento, que estão escritos na lei de Moisés, servo de Deus, se derramaram sobre nós; porque pecamos contra ele” ( Dn 9:11 ).

Após a morte de Josué, o povo de Israel seguiu após outros deuses, como Baal e Astarote, de modo que a mão de Deus era contra eles para o mal, conforme o que Deus havia juramentado ( Jz 2:15 ). À época dos juízes, inúmeras vezes Deus estendeu as mãos a um povo rebelde e contradizente, de modo que os livrava de seus inimigos em redor ( Jz 2:1 ), mas bastava morrer o juiz que Deus levantara para a nação ir após outros deuses ( Jz 2:19 ).

Por causa da infidelidade de Israel, Deus não desalojou as nações vizinhas, de modo que as nações se tornaram uma prova, para verificar se a nação se disporia ou não a servir a Deus ( Jz 2:22 ).

Até hoje, os que leem a bíblia segundo uma visão humana, classificam a caldeia como inimiga do povo de Deus a ponto de demonizá-la, mas aqueles que veem segundo a revelação das Escrituras, entendem que os responsáveis pela deportação de Israel foram os próprios israelitas, ou seja, a deportação é a paga que o marido enciumado deu a mulher promiscua. Os próprios filhos de Jacó se privaram da herança prometida, de modo que foram postos por escabelo dos seus inimigos “Assim por ti mesmo te privarás da tua herança que te dei, e far-te-ei servir os teus inimigos, na terra que não conheces; porque o fogo que acendeste na minha ira arderá para sempre” ( Jr 17:4 ).

A Assíria foi uma vara na mão de Deus para punir a apostasia de Israel. Como a Assíria foi comissionada para roubar e despojar o povo de Israel segundo o estabelecido por Deus, a Assíria por sua vez sentiu-se poderosa a ponto de conquistar muitas nações, de modo que foi punida pela sua imaginação vã “Ai da Assíria, a vara da minha ira, porque a minha indignação é como bordão em suas mãos. Enviá-la-ei contra uma nação hipócrita, e contra o povo do meu furor lhe darei ordem, para que lhe roube a presa, e lhe tome o despojo, e o ponha para ser pisado aos pés, como a lama das ruas. Ainda que ele não cuide assim, nem o seu coração assim o imagine; antes no seu coração intenta destruir e desarraigar não poucas nações” ( Is 10:5 -7).

Observe que Deus anunciou de antemão que enviaria os Assírios contra uma nação hipócrita, ou seja, os israelitas. Embora não tivessem consciência (não sabiam) do papel que desempenhavam, os Assírios foram enviados para executar a indignação divina como vara de correção.

De igual modo Deus instituiu os babilônicos, sendo Nabucodonosor intitulado de ‘meu servo’, comissionado para punir a rebeldia da casa de Israel. Diante da invasão dos caldeus era para os filhos de Jacó se lembrarem do cântico de Moisés e das prescrições contidas na lei e se voltarem para Deus. No entanto, quanto mais eram castigados, mais eles se afastavam de Deus. Não consideravam as Escrituras como fez o profeta Daniel ( Dt 28:25 compare com Dn 9:11 ).

Quando os profetas protestavam contra os filhos de Israel, bastava eles se lembrarem do cântico de Moisés, ou das bênçãos e das maldições que contavam no livro do Deuteronômio, onde foi estabelecido que Deus enviaria nações que os levariam cativos “Porque eis que suscito os caldeus, nação amarga e impetuosa, que marcha sobre a largura da terra, para apoderar-se de moradas que não são suas” ( Hc 1:6 ); “Portanto assim diz o SENHOR: Eis que eu entrego esta cidade na mão dos caldeus, e na mão de Nabucodonosor, rei de Babilônia, e ele a tomará” ( Jr 32:28 ); “Porque assim diz o SENHOR: Eis que farei de ti um terror para ti mesmo, e para todos os teus amigos. Eles cairão à espada de seus inimigos, e teus olhos o verão. Entregarei todo o Judá na mão do rei de Babilônia; ele os levará presos a Babilônia, e feri-los-á à espada” ( Jr 20:4 ); “Eis que eu enviarei, e tomarei a todas as famílias do norte, diz o SENHOR, como também a Nabucodonosor, rei de Babilônia, meu servo, e os trarei sobre esta terra, e sobre os seus moradores, e sobre todas estas nações em redor, e os destruirei totalmente, e farei que sejam objeto de espanto, e de assobio, e de perpétuas desolações” ( Jr 25:9 ).

O veredicto de Deus contra a nação de Israel era serem castigados e repreendidos pela malicia dos lideres e apostasia do povo A tua malícia te castigará, e as tuas apostasias te repreenderão; sabe, pois, e vê, que mal e quão amargo é deixares ao SENHOR teu Deus, e não teres em ti o meu temor, diz o Senhor DEUS dos Exércitos” ( Jr 2:19 ).

Vale destacar que os filhos de Israel sempre foram dados aos sacrifícios, votos e ofertas, porém as ofertas e sacrifícios de Israel eram o mesmo que abominação diante de Deus, uma violência, pois a iniquidade do povo comprometia o que era ofertado ( Is 1:28 ).

A vinda do Messias foi uma nova oportunidade para a nação de Israel, mas o povo rejeitou o autor da vida. Como a nação rejeitou o Cristo, a nação também foi rejeitada, e, após o termino do tempo dos gentios, iniciará a última semana prevista por Daniel, momento que se cumprirá a revelação da prostituta assentada sobre a besta.

O evangelista João viu duas figuras: uma mulher grávida e uma meretriz ( Ap 12:2 ; Ap 17:1 ). A mulher vestida de sol representa a estabilidade da promessa feita aos pais ( Dt 9:5 ), já a meretriz refere-se aos filhos de Jacó que se mostraram aleivosos desde que foram arrancados do Egito, e com as suas abominações quebraram a aliança ( Dt 9:7 ).

Continua

Ler mais

O livro do Cordeiro do Apocalipse

A supressão da figura do proprietário do livro da vida no capítulo 17 do Livro do Apocalipse foi suficiente para que algumas pessoas se utilizassem do texto para introduzirem encobertamente a sua doutrina, enfatizando que, ‘desde a fundação do mundo’ há um livro que contém registrado o nome dos salvos, sugerindo a doutrina calvinista da eleição e predestinação.

 

“… cujos nomes não estão escritos no livro da vida, desde a fundação do mundo” ( Ap 17:8 )

Introdução

A abordagem de Apocalipse 17, verso 8 não se centra em um livro, antes na figura do Cordeiro de Deus. Cristo, o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo é o tema central do verso ( Jo 1:29 ; Ap 21:27 ).

A leitura do verso 8 do capítulo 17 de Apocalipse é simples: Ora, a bíblia só faz referência a um livro da vida, e este livro, por sua vez, pertence ao Cordeiro de Deus. É o ‘Cordeiro de Deus’ que foi morto desde a fundação do mundo, e não o ‘livro da vida’ que foi escrito desde a fundação do mundo.

Quando lemos: “… cujos nomes não estão escritos no livro da vida, desde a fundação do mundo” ( Ap 17:8 ), basta incluir no versículo a figura do proprietário do livro para desfazer a confusão que produz muitas interpretações equivocadas e falaciosas: o livro da vida do (pertence ao) Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo.

Observe: “… cujos nomes não estão escritos no livro da vida (do cordeiro que foi morto), desde a fundação do mundo” ( Ap 17:8 ). Este verso faz a mesma abordagem do verso 8 do capítulo 13: “E adoraram-na todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo”.

Na língua grega, aquilo que é evidente no texto, ou o que já foi abordado anteriormente, ou, o que é facilmente subtendido, por uma questão de estilo de redação, geralmente é suprimido. No verso 8 do capítulo 17 houve uma supressão da figura do proprietário do livro (cordeiro), o que é facilmente deduzido, pois o livro pertence ao cordeiro “E não entrará nela coisa alguma que contamine, e cometa abominação e mentira; mas só os que estão inscritos no livro da vida do Cordeiro” ( Ap 21:27 ).

Mas, a supressão da figura do proprietário do livro foi suficiente para que algumas pessoas se utilizassem do texto para introduzirem encobertamente a sua doutrina, enfatizando que, ‘desde a fundação do mundo’ há um livro que contém registrado o nome dos salvos, sugerindo a doutrina calvinista da eleição e predestinação.

Através desta passagem bíblica, há quem procure dar sustentação à doutrina calvinista da predestinação e eleição sob o argumento de que Deus registrou os nomes dos salvos em um livro ‘desde a fundação do mundo’, determinando quem são os salvos, mas se esquecem de considerar que o próprio Deus assevera que apagará o nome daqueles que pecarem, apesar de já estarem inscritos no seu livro, o que depõe contra tal concepção doutrinária fatalista, determinista e mecanicista “Então disse o SENHOR a Moisés: Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro ( Êx 32:33 ).

 

Aplicando princípios de interpretação

A primeira questão a se considerar ao interpretar Apocalipse 17 verso 8 é que se está analisando figuras. No aprendizado de uma nova matéria, a cognição do homem se dá por associação e acomodação, de modo que, Deus, ao transmitir uma ideia espiritual – que é completamente nova para o homem – utiliza figuradamente coisas pertinentes a este mundo dos para apresentar.

Ao observar o versículo 8 do capítulo 17 de Apocalipse, verifica-se que ele faz referência à ‘besta’, uma figura que representa o oitavo rei que pertence ao conjunto de sete reis e que vai a perdição ( Ap 17:11 ), de modo que a figura apresentada é para trazer à compreensão um mistério ( Ap 17:7 ).

Como a besta deste contexto é uma figura para fazer referencia a um rei, o livro que consta do mesmo verso também é uma figura, visto que é improvável que Deus possua ou necessite de um livro para conferir de nomes. Deus não precisa de livros ou de caneta para anotar informações.

Deus é onisciente, ou seja, todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos d’Ele. Todas as coisas Ele conhece igualmente bem, quer seja no passado, no presente ou no futuro, tanto as que consideramos simples quanto as que consideramos complexas.

Ora, a visão de um livro remete o vidente à ideia de que todas as coisas são conhecidas por Deus, de modo que é impossível aos homens, ou a qualquer outro ser criado escapar da percepção dos ‘olhos’ de Deus.

Na bíblia não há em outras passagens bíblicas que faça referencia a um livro redigido antes da fundação do mundo. O que encontramos é referencias a Cristo, apresentado como o cordeiro de Deus, e que ele foi morto desde a fundação do mundo ( Ap 13:8 ).

As verdades bíblicas permeiam e ecoam por todas as Escrituras, de modo que as verdades bíblicas são repetidas de diversas maneiras em seus vários livros. Ora. Não há em outros livros qualquer alusão a um livro escrito na fundação do mundo, mas com relação ao Cordeiro foi anunciado por Moisés (Lei), pelos profetas, confirmado pelos apóstolos que Ele foi morto desde a fundação do mundo.

Embora a bíblia faça menção de um livro como figura, não há menção de um tempo ou de uma época em que tenha sido escrito, antes a referência é quanto à natureza do livro: livro da vida.

Para analisar o verso 8 de Apocalipse 17, o interprete tem que evitar certas ‘armadilhas’ na construção de um argumento dedutivo para não compor uma falácia.

Quando da análise de uma frase é imprescindível considerar:

a) denotação: sentido real, literal da frase, ou o estado de coisas que a frase afirma ser o caso;

b) conotação: a associação subjetiva, cultural e/ou emocional, que está para além do significado estrito ou literal de uma palavra, frase ou conceito, ou seja, diz dos sentimentos, ideias ou emoções provocadas pela frase no auditor, e;

c) ênfase: refere-se ao grau de importância que o autor atribui aos diferentes elementos constitutivos da frase.

Ora, se o interprete desloca o grau de importância que o autor atribuiu a um elemento da frase, no caso em comento o cordeiro, para outro elemento constitutivo da frase que o interprete quer estabelecer, produzirá uma falácia.

Quando lemos: “A besta que viste era e já não é, e subirá do abismo, e irá à sua destruição. Os que habitam na terra (cujos nomes não estão escritos no livro da vida desde a fundação do mundo) se admirarão, vendo a besta que era e já não é, mas que virá”,  duas figuras se destacam: a besta e o livro.

Apesar do verso 8 apontar estas duas figuras, vale destacar que o tema central do livro do Apocalipse é o Cordeiro de Deus, Jesus Cristo-homem. A besta possui no texto uma importância relativa que contrasta com a importância maior, a do Cordeiro, por se opor a Ele ( Ap 17:14 ).

Se não fosse a figura central do Cordeiro, não haveria a necessidade de se fazer referencia a besta. De igual modo, se não fosse o Cordeiro de Deus, a quem pertence o livro da vida, não haveria razão de se fazer menção do livro.

O que o verso apresenta:

  • Um estado de coisas que o versículo afirma ser o caso – o versículo afirma tão somente que o livro da vida pertence ao Cordeiro – denotação. Qualquer suposição que vá além desta ideia é espúria;
  • Os sentimentos, ideias ou emoções provocadas pelo versículo – somente informa que os que não fazem parte do livro do Cordeiro são os que se admirarão ao verem a besta – conotação. Qualquer suposição que vá além deste núcleo de informação é espúria, e;
  • A importância que o autor atribui aos diferentes elementos da frase – o evangelista João enfatiza o Cordeiro de Deus, e não da besta ou do livro, que dirá do tempo em que o livro foi escrito – ênfase.

Após as figuras e a ênfase, há um terceiro ponto a se destacar quando da interpretação deste versículo: na língua grega, aquilo que é evidente, ou o que já foi abordado no texto, o que é facilmente subtendido, por uma questão de estilo de redação, geralmente é suprimido.

A leitura do verso 8 do capítulo 17 de Apocalipse é simples, pois basta incluir no versículo a figura do proprietário do livro – o cordeiro de Deus – para desfazer a confusão que produz muitas interpretações equivocadas e as falácias.

Ora, a bíblia faz referencia a um único livro da vida, e este livro, por sua vez, pertence ao Cordeiro de Deus, de modo que o que ocorreu desde a fundação do mundo foi a morte do proprietário do livro, e não a escrita dos nomes no livro.

Quando lemos: “… cujos nomes não estão escritos no livro da vida, desde a fundação do mundo” ( Ap 17:8 ), temos que considerar que, as pessoas que habitam sobre a terra e que se admirarão vendo a besta são aquelas que não possuem o nome no livro da vida que pertence ao Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo.

O evangelista estava destacando as mesmas coisas abordadas anteriormente:

a) que os que habitam sobre a terra se admirarão vendo a besta;

b) que os que admiram a besta não estão inscrito no livro da vida, e;

c) que o livro da vida pertence ao Cordeiro morto desde a fundação do mundo “E adoraram-na todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” ( Ap 13:8 ).

Enquanto o vidente estava demonstrando que os que não estão escritos no Livro do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo se admirarão ao ver a besta, há quem considere que é o livro da vida que foi escrito desde a fundação do mundo.

 

Como um falácia é construída

Após ler o verso 8 do capítulo 17 do Livro das Revelações, que diz: “cujos nomes não estão escritos no livro da vida, desde a fundação do mundo” ( Ap 17:8 ), o Sr. Clóvis Gonçalves concluiu no artigo intitulado ‘Quando o livro da vida foi escrito?’ disponível na web, que “a expressão desde a fundação do mundo não significa ‘começando lá e continuando até o último convertido’. Mas se refere a algo que estava concluindo quando Deus lançou os fundamentos da terra, antes de criar o primeiro homem” Gonçalves, Clovis, Quando o Livro da vida foi escrito?, Artigo disponível na web.

Através deste artigo do Sr. Clóvis, demonstraremos como é pernicioso, alguém, com uma opinião formada, se achegar ao texto bíblico somente para afirmá-la. É um empenho sem valor ler e analisar um texto bíblico na língua grega somente com foco na gramatica, sem que o estudioso esteja disposto a abrir mão dos seus conceitos para absorver a ideia que o texto transmite.

Quando inicia a análise do versículo, o autor, de pronto estabeleceu que só existem duas possibilidades de se interpretar a passagem bíblica: “Há duas possibilidades aqui, interpretar a expressão como significando que os nomes de todos os salvos estavam registrados no Livro da Vida desde a fundação do mundo ou que o nome de cada pessoa é escrito quando o evangelista ora pelo decidido, pedindo a Deus que escreva o seu nome no livro da vida” Idem.

Por que ele vê somente estas duas possibilidades? Porque a visão dele é de que a doutrina calvinista e arminianista encerram qualquer discussão sobre o tema. Vale salientar que o autor do artigo citado é calvinista.

O Sr. Clovis inicia a sua argumentação, em prol do seu ponto de vista, dizendo que é significativo o fato do verso em comento abordar a questão dos que não tiveram os seus nomes registrados no livro da vida, contrastando com aqueles que possuem esse privilégio.

Em seguida, fez uma análise gramatical da frase em grego: “apo kataboles kosmou”, que significa “desde a fundação do mundo”, subdividindo os elementos do aposto, em preposição (desde), seguido de um substantivo (fundação) e o seu complemento (do mundo). Esta informação é verdadeira, porém, não é esta informação que torna válida a conclusão que ele fez no final do artigo.

Não é o fato de conhecer a língua grega e a hebraica que torna uma pessoa autoridade na interpretação das Escrituras, pois os escribas e fariseus conheciam as duas línguas e, mesmo inseridos no contexto cultural da época, foram inquiridos por Cristo por não entenderem a linguagem d’Ele “Por que não entendeis a minha linguagem? Por não poderdes ouvir a minha palavra” ( Jo 8:43 ).

Ser versado na língua grega ou hebraica não torna ninguém mestre e nem confere autoridade para expor a verdade do evangelho.

Embora a expressão ἀπὸ καταβολῆς κόσμου (apo kataboles kosmou – desde a fundação do mundo) seja comum no Novo Testamento e ocorre exatamente como em Apocalipse 17, verso 8 em outras seis passagens bíblicas, ela pode assumir valor distinto em função do contexto no qual ela foi inserida ( Mt 13:35 ; Mt 25:34 ; Lc 11:50 ; Hb 4:3 ; Hb 9:26 ; Ap 13:8 ).

A expressão ἀπὸ καταβολῆς κόσμου indica que algo está consumado, estabelecido, desde a fundação do mundo, mas, também pode, como em Lucas 11, verso 50, ser lida como uma realização gradual, sucessiva, progressiva, continua “Para que desta geração seja requerido o sangue de todos os profetas que, desde a fundação do mundo, foi derramado” ( Lc 11:50 ). A frase é inclusiva, demonstrando que será requerido o sangue de todos os profetas das mãos de uma geração específica: a geração má.

Vale salientar que, quando Jesus especifica: ‘desta geração’, a primeira ideia que vem a mente do interprete é de que Jesus estava fazendo referência ao espaço de tempo que separa cada grau de filiação, por causa do entendimento de que cada século compreende cerca de três gerações, porém, seria sem propósito Deus requerer o sangue dos profetas que fora derramados pelos pais das mãos dos filhos, sendo que o sangue dos profetas foi derramado sucessivamente desde os pais até os dias de Cristo.

Carece verificar que, quando Jesus diz ‘desta geração’, ele diz de uma ‘geração má’, ‘geração perversa’, ‘geração de Adão’, que contrasta com a geração dos filhos de Deus, com a geração dos que nasceram de novo, provenientes de uma semente incorruptível, que é a palavra de Deus, geração de Cristo.

A fala de Jesus era para tornar evidente que os filhos de Israel eram geração contumaz, rebelde, geração de Adão, contrastando com a semente que foi vaticinada pelos profetas que serviria a Deus, a geração proveniente da palavra de Deus “Uma semente o servirá; será declarada ao Senhor a cada geração” ( Sl 22:30 ); “Esta é a geração daqueles que buscam, daqueles que buscam a tua face, ó Deus de Jacó. (Selá.)” ( Sl 24:6 ).

A argumentação com relação às outras passagens bíblicas quanto ao uso da frase ἀπὸ καταβολῆς κόσμου são pertinentes e encera a ideia de algo concluso, porém, não é causa determinante do significado da passagem de Apocalipse 17, verso 8.

O contraponto que o Sr. Clovis faz ao Pr. Ciro é pertinente, quando diz: “O pastor Ciro faz a sua tese depender da preposição ‘apo’ e não da expressão completa. Porém, a classe de palavra que tem tempo e modo é o verbo, e é para ele que devemos nos voltar se quisermos saber quando e de que forma algo ocorre. Devemos perguntar ao texto ‘o que [não] ocorreu antes da fundação do mundo?’ e a resposta é ‘nomes [não] foram escritos’” Idem.

Embora a leitura do Sr. Clovis tenha por base um dicionário de um lexicógrafo famosíssimo como o é o do Dr. Strong, não significa que a interpretação do contexto do capítulo 17 de Apocalipse seja a correta “O verbo ‘gegraptai’ está no tempo Perfeito e no modo Indicativo. O modo Indicativo, nos informa o Léxico Grego de Strong ‘é uma simples afirmação de fato. Se uma ação realmente ocorre, ocorreu ou ocorrerá, será expressa no modo indicativo’. Já o ‘Perfeito grego corresponde ao Perfeito na língua portuguesa, e descreve uma ação que é vista como tendo sido completada no passado, uma vez por todas, não necessitando ser repetida’” Idem.

Mas, como ler e interpretar Apocalipse 17, verso 8?

“A besta que viste era e já não é, e subirá do abismo, e irá à sua destruição. Os que habitam na terra (cujos nomes não estão escritos no livro da vida desde a fundação do mundo) se admirarão, vendo a besta que era e já não é, mas que virá” ( Ap 17:8 ).

Para compreender Apocalipse 17 é necessário conhecer todo o livro das Revelações. O evangelista João não escreveu o livro de Apocalipse fracionado, pois o livro foi fracionado em capítulos e versículo muito tempo depois. Com isso quero enfatizar que o capítulo 17 deve ser interpretado dentro do contexto do livro, pois se a interpretação for feita a partir da análise de um único verso, resultará em erros.

Ao ler o livro de Apocalipse, verifica-se que os eventos narrados no capítulo 17 de Apocalipse, remetem a ideia que consta em Apocalipse 13, porém, o capítulo 17 sobressai em detalhes, nuances, sendo que o capítulo 13 é resumido, enxuto.

Outro ponto a destacar é que o evangelista viu uma visão. Ora, uma visão trabalha com figuras que podem ser interpretadas e descritas segundo a compreensão humana. Portanto, quando lemos que João viu o Livro da vida, não significa que nos céus há um livro de registro semelhante aos que há nos hotéis, ou semelhante a um livro de contabilidade de uma empresa.

A visão de um livro com nomes inscritos é um modo de o vidente ter acesso à ideia do que é a onisciência de Deus, pois não há outro modo cognoscível de se fazer referencia ao conhecimento de Deus. Se a visão fosse dada em nossos dias, possivelmente o vidente veria um computador, e não um livro. Por meio da visão do livro o apóstolo João demonstra que os que ficaram admirados ao ver a besta possuem um destino diferente dos que creem no Cordeiro de Deus.

A visão do Livro da vida foi um modo de o homem tomar conhecimento de algo que vai além da compreensão humana, permitindo ao homem um meio de considerar a onisciência de Deus, pois Deus não depende de livros, ou de consultar manuscritos para inteirar-se de algo.

Se o leitor atentar para o verso 8 de Apocalipse 13, verá que a frase ἀπὸ καταβολῆς κόσμου (desde a fundação do mundo) é idêntica:

“E todos os que habitam sobre a terra adorarão, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” ( Ap 13:8 )

“A besta que viste era e já não é, e subirá do abismo, e irá à sua destruição. Os que habitam na terra (cujos nomes não estão escritos no livro da vida desde a fundação do mundo) se admirarão, vendo a besta que era e já não é, mas que virá” ( Ap 17:8 )

Sabemos também que o Cordeiro de Deus, que é Cristo, foi conhecido antes da fundação do mundo e manifesto aos homens na plenitude dos tempos “O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós” ( 1Pe 1:20 ).

Sabemos que o dia de salvação sobremodo oportuno é ‘hoje’, de modo que a salvação do indivíduo ocorre “hoje”, ou seja, no tempo dos homens, e não na eternidade, quando o Cordeiro foi conhecido ( 1Pe 1:20 ; Hb 9:26 ; Jo 17:24 ). A exortação deve ocorrer durante o tempo que se chama ‘hoje’ ( Hb 3:13 ), e é isto que o apóstolo Paulo fazia: “E NÓS, cooperando também com ele, vos exortamos a que não recebais a graça de Deus em vão  (Porque diz: Ouvi-te em tempo aceitável E socorri-te no dia da salvação; Eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação)” ( 2Co 6:1 -2). Os termos ‘aqui’, ‘agora’ é o mesmo que ‘hoje’, ou seja, a salvação não se deu ou foi determinada na eternidade, pois se assim não fosse, não seria necessário à exortação.

O Cordeiro de Deus é uma figura que remete a pessoa do ‘Eu Sou’ quando encarnado. Cristo, o Verbo encarnado, é preexistente, de modo que, Ele foi anunciado de antemão (verbo: προγινώσκω – proginóskó: pré-conhecimento, pré-ciência), porque é antes da fundação do mundo “Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou” ( Jo 8:58 ).

Cristo foi ‘pré-conhecido’ não no sentido de ‘saber acerca de’, e sim no sentido de ter sido anunciado de antemão pelos santos profetas “Em esperança da vida eterna, a qual Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos dos séculos” ( Tt 1:2 ) compare com: “O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós” ( 1Pe 1:20 ).

A ‘promessa’ que o apóstolo Paulo faz alusão a Tito diz do ‘conhecimento’ que o apóstolo Pedro anunciou aos cristãos da dispersão. O que foi anunciado de antemão pelos profetas acerca do Filho de Deus, que nasceu na casa de Davi, diz da ‘promessa’, do ‘conhecimento’ de Deus enquanto doutrina, e não da sua onisciência, que é saber plenamente bem acerca de todas as coisas “O qual antes prometeu pelos seus profetas nas santas escrituras, acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne” ( Rm 1:2 -3).

No verso 8 de Apocalipse 13, o evangelista João especifica que o Livro da Vida pertence ao Cordeiro “… no livro da vida do Cordeiro que foi morto…” ( Ap 13:8 ). Ele não trata de outro livro a não ser o Livro que pertence ao Cordeiro, Cordeiro este que foi morto desde a fundação do mundo.

Quando o mundo foi fundado por Deus, pelos eventos que haviam de suceder (queda da humanidade e redenção), a morte de Cristo foi estabelecida, daí a exposição de que o cordeiro foi morto na fundação do mundo, porém, Cristo foi manifesto na plenitude dos tempos.

A construção do texto de Apocalipse 17, verso 8 é semelhante a de Apocalipse 13, verso 8, porém, é mais rica em detalhes. No capítulo 13 o vidente aponta a admiração dos que residem na terra, já no capítulo 17 ele aponta a adoração destas mesmas pessoas. No capítulo 17 fica delineado que a destruição da besta está estabelecida, porém, apesar de prevista, a besta ainda não existia (não é), mas está para subir do abismo e será destruída.

Como o apóstolo escreveu anteriormente que o livro pertence ao Cordeiro de Deus e que Ele foi morto desde a fundação do mundo ( Ap 13:8 ), ao escrever no verso 8 do capítulo 17, ele deixou de mencionar expressamente o nome do Cordeiro de Deus, a quem o Livro da Vida pertence.

A visão doutrinária determinista, fatalista e mecanicista que o Sr. Clovis possui transtornou lhe a leitura, pois é comum na escrita grega a supressão de palavras e frases quando à lógica ou estrutura da frase permite.

Por exemplo: “ἐν τούτῳ γινώσκετε τὸ πνεῦμα τοῦ θεοῦ· πᾶν πνεῦμα ὁ ὁμολογεῖ Ἰησοῦν Χριστὸν ἐν σαρκὶ ἐληλυθότα ἐκ τοῦ θεοῦ ἐστιν, καὶ πᾶν πνεῦμα ὁ μὴ ὁμολογεῖ τὸν Ἰησοῦν ἐκ τοῦ θεοῦ οὐκ ἐστιν· καὶ τοῦτο ἐστιν τὸ τοῦ ἀντίχριστου, ὃ ἀκηκόατε ὅτι ἔρχεται, καὶ νῦν ἐν τῷ κόσμῳ ἐστὶν ἤδη – Nisto conhecereis o Espírito de Deus: Todo o espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; E todo o espírito que não confessa que Jesus (Cristo veio em carne – suprimido) não é de Deus; mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e eis que já está no mundo” ( 1Jo 4:2 -3).

No texto em grego o evangelista e apóstolo João demonstra que todo aquele que confessar que Jesus ‘o Cristo veio em carne’, pertence a Deus, mas, ao fazer referência àqueles que não professam a verdade demonstrada anteriormente, que o ‘Cristo veio em carne’, no grego ficam suprimidos o nome ‘Cristo’ e a frase ‘veio em carne’ (Χριστὸν ἐν σαρκὶ). A supressão de uma frase que ocorreu em Apocalipse 13, verso 8 é uma figura de construção por omissão (zeugma: consiste na omissão de um ou mais elementos de uma oração, já expressos anteriormente. A zeugma é uma forma de elipse), o mesmo tipo de supressão que ocorreu em 1João 4, verso 3.

A construção do Sr. Clovis é descabida por não ter considerado as nuances que envolvem as figuras de linguagem, construção e estilo que é próprio a todos os idiomas e as normas de interpretação que a própria bíblia apresenta.

Ao dizer que só há a possibilidade de duas interpretações de Apocalipse 17, verso 8, sendo a possibilidade que ele apoia a de ‘interpretar a expressão como significando que os nomes de todos os salvos estavam registrados no Livro da Vida desde a fundação do mundo’, ele desconsidera o que Deus diz:  “E, se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte do livro da vida, e da cidade santa, e das coisas que estão escritas neste livro” ( Ap 22:19 ).

Se ele observasse as Escrituras, veria que afirmar a doutrina calvinista da predestinação e eleição através da figura apocalíptica do livro que pertence ao cordeiro é descabido, visto que outras passagens bíblicas deixam claro que Deus altera o conteúdo do livro conforme a resposta que o homens dá a sua palavra “MAS o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios” ( 1Tm 4:1 ).

O profeta Moises rogou a Deus que riscasse o seu nome do Livro da Vida, ou usasse de misericórdia para com o povo de Israel ( Ex 32:33 ), porém Deus instruiu Moisés dizendo que não riscaria o nome de Moisés e nem favoreceria os pecadores dentre o povo, pois Deus jamais transtornaria a sua natureza, santidade, justiça, equidade, para satisfazer o pedido de quem quer que fosse.

Todos os homens são pecadores, ímpios, por terem sido gerados segundo a semente corruptível de Adão ( Sl 58:3 ), o nome deles não se misturam com o daqueles que nasceram de novo ( Rm 5:18 ). Todos os homens quando abrem a madre, entram por uma porta larga (Adão), que dá para o caminho largo que os conduzirá a perdição, o que significa que ninguém que entra no mundo está predestinado ou foi eleito para salvação. Todos os homens se desviam de Deus desde a madre, e falam mentira desde que nascem, pois foram julgados e condenados em Adão, apenados com alienação de Deus e herdaram um coração mentiroso segundo o coração de Adão ( Rm 3:4 ).

Daí a acusação do apóstolo Paulo de que todos os homens são mentirosos, pois a boca dos homens fala segundo o coração que herdaram de Adão. Somente quando o homem nasce de novo é que há alegria nos céus por um pecador que se arrepende ( Ap 20:12 ).

Mas, com relação aos descrentes, a leitura correta da bíblia é que todos morreram porque pecaram, e pecaram porque um só pecou, portanto, são gerados e concebidos em pecado, iniquidade, sendo certo que ninguém nasce predestinado à salvação.

Ler mais