A simplicidade dos pequeninos

Em nossos dias, quando utilizamos o termo ‘inocente’, somos remetidos à ideia de alguém que nada sabe, ou seja, que desconhece que é simples. O termo inocente, neste artigo, não se refere às questões próprias aos tribunais, onde temos o culpado e o livre de culpa, este último, também, chamado de inocente.


“O prudente prevê o mal e esconde-se; mas, os simples, passam e acabam pagando.” (Provérbios 22:3)

“O avisado vê o mal e esconde-se; mas, os simples, passam e sofrem a pena.” (Provérbios 27:12)

 

Introdução

A condição do ‘infante’, em relação ao ‘pecado’, fomenta muitas discussões e, pela má compreensão, acerca da natureza do pecado, sobram suposições e vários desvarios doutrinários, acerca do tema.

Há quem acredite, sem suporte bíblico, que uma criancinha inocente, ingênua ou, sem consciência, é isenta de pecado. Através de uma perspectiva humana, com base em viés sentimental, questionam se é possível um infante de aspecto ‘angelical’, que nunca fez nada de errado, do ponto de vista moral, ser um pecador.

Entender que, pela tenra idade, uma criança é isenta de pecado, é temerário, à luz das Escrituras, vez que Deus garantiu a Abraão que não destruiria as cidades de Sodoma e Gomorra, se nelas houvesse ao menos dez justos.

Sabemos que somente três pessoas foram resgatadas com vida das cidades de Sodoma e Gomorra: o justo Ló e suas duas filhas e que todas as criancinhas, juntamente com os habitantes adultos, foram dizimadas por Deus.

Qual entendimento abstrair acerca da destruição das crianças das cidades de Sodoma e Gomorra, quando da subversão dessas cidades?

 

Justo é o mesmo que inocente?

Como Deus garantiu que não destruiria as cidades de Sodoma e Gomorra, se nelas houvesse dez justos, isso significa, claramente, que as muitas criancinhas de Sodoma e Gomorra não eram justas diante de Deus, apesar de nada saberem (inocentes)!

“Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra? Então disse o Senhor: Se eu em Sodoma, achar cinquenta justos dentro da cidade, pouparei a todo o lugar por amor deles (…) Disse mais: Ora, não se ire o Senhor, que ainda só mais esta vez falo: Se porventura se acharem ali dez? E disse: Não a destruirei, por amor dos dez” (Gn 18:25-26 e 32).

Através dessa passagem bíblica e de outras que relatam a morte de crianças, verifica-se que inocência ou simplicidade não é o mesmo que ser justo diante de Deus. Mesmo o simples, o inocente, o não alertado, o desconhecedor ou, o sem consciência, são passíveis de pena ou, das consequências do pecado.

O principio que se aplica, é o mesmo apontado pelo Pregador, no Livro dos Provérbios: Como é possível um inocente (simples) sofrer as consequências, somente por passar em um determinado lugar?

Ora, um ladrão, ao saber que esta ocorrendo um tiroteio, em determinado lugar, imediatamente se esconde, mas, um inocente ou, um simples (que nada sabe acerca do que está ocorrendo), caso passe em meio ao tiroteio, sofrerá as consequências.

Como o simples ou, o inocente, são passíveis de sofrerem as consequências, compreende-se o motivo pelo qual a Bíblia utiliza a figura da escravidão para ilustrar a condição do homem sob a égide do pecado.

 

Escravos do pecado

Adão, pela ofensa no Éden, vendeu todos os seus descendentes como escravos ao pecado. Por analogia, assim como nas sociedades antigas, os descendentes de escravos eram escravos e permaneciam por toda existência terrena sob as consequências da escravidão, simplesmente, porque nasceram de escravos. Igualmente se dá com os menores, quando vem ao mundo: são escravos do pecado, em função da semente dos seus pais, que, também, são escravos do pecado.

A escravidão, nas sociedades antigas, alcançava os filhos dos escravos, independente de moralidade, inocência, habilidade, sentimento ou, idade, vez que o pecado, como senhor, estabeleceu o seu domínio sobre todos os descendentes de Adão, independentemente de raça, cor, nacionalidade, moral, tamanho, idade, sexo, etc.

O apóstolo Paulo enfatizou que um pecou (Adão) e, como consequência, a morte (penalidade, consequência) passou a todos os homens, por isso, é dito que todos pecaram (Rm5:12). A morte, como consequência da ofensa de Adão, passou a todos os homens, mesmo sem terem culpa ou, dolo algum, o que demonstra que a pena, como consequência da ofensa de Adão, repousa sobre todos os homens, mesmo sobre os inocentes ou, sobre os simples.

Em nossos dias, quando utilizamos o termo ‘inocente’, somos remetidos à ideia de alguém que nada sabe, ou seja, que desconhece que é simples. O termo inocente, neste artigo, não se refere às questões próprias aos tribunais, onde temos o culpado e o livre de culpa, este último, também, chamado de inocente.

Um aborígene nada sabe sobre a sua condição diante de Deus e, nesse aspecto, é um inocente, porém, o tal não é livre da condenação estabelecida, em função da ofensa de Adão, portanto, é culpável diante de Deus pela condenação estabelecida no Éden.

Deste modo, é possível dizer que alguém é inocente, em razão de nada saber, porém, culpável diante de Deus, em função da condenação estabelecida no Éden. Por conseguinte, é possível alguém ser inocente e ímpio, nada saber e ser injusto diante de Deus. Esse alguém pode ser simples, mas sobre ele pesam as consequências da ofensa de Adão.

 

A morte

A condição imposta pela ofensa, que é a morte (separação, alienação de Deus), é o que torna o homem pecador. A humanidade é pecadora, porque as consequências da ofensa, do primeiro homem que pecou, passaram aos seus descendentes: condenação e morte (separação).

Foi no Éden que a humanidade, na coxa de Adão, juntamente, alienou-se de Deus e se fez imunda. Adão é a porta larga, por onde todos os seus descendentes entram no mundo e, por estarem na sua ‘coxa’, juntamente, todos os homens se desviaram e se fizeram imundos, não importando se judeus ou gentios (Sl 53:3,Sl 58:3).

“Desviaram-se todos e, juntamente, se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um” (Sl 53:3);

“Alienam-se os ímpios, desde a madre; andam errados, desde que nasceram, falando mentiras” (Sl 58:3);

Uma é a verdade: se não nascer de novo, da semente incorruptível, não se pode ver o reino dos céus! Sem entrar pela porta estreita, que é Cristo, jamais o homem poderá ter acesso ao reino dos céus! Isso porque, o nascimento natural é segundo a semente corruptível de Adão, que é terrena.

Como carne e sangue não podem herdar o reino dos céus e a corrupção não pode herdar a incorrupção, certo é, que é necessário nascer da semente de Deus, para ter acesso ao reino de Deus.

“E agora digo isto, irmãos: que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção” (1 Co 15:50).

Criança ou não, inocente ou não, se é nascido da carne, é carnal, portanto, corruptível e terreno. Se é carne, corruptível e terreno, não podem herdar a incorrupção, mesmo os infantes. As condições apontadas pelo apóstolo Paulo: carne, sangue e incorrupção, abarcam as crianças e não temos, na Bíblia, qualquer alusão a possíveis exceções.

O que um pai deixa de herdade, não depende do dolo ou da culpa dos filhos. Filho é filho, não importando questões morais ou, comportamentais, portanto, é herdeiro, por vínculo familiar ou, de sangue. A alienação de Deus é a herança que o primeiro pai da humanidade deixou a todos os seus descendentes, por vinculo de sangue, portanto, não depende de questão moral ou, comportamental.

A realidade do pecado não se refere à possibilidade de uma criança se desviar dos preceitos legais ou, morais, instituídos pela sociedade ou, ainda, que tenha herdado um comportamento ou, um caráter transviado do primeiro homem, Adão. O pecado não diz de uma tendência enraizada de caminhos tortuosos, desvinculados da boa moral ou, dos bons costumes. O pecado não diz de escolhas entre certo e errado, entre bem e mal, que o conhecimento do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal legou aos homens.

O pecado refere-se a uma barreira de separação erguida entre o homem e Deus, por causa da ofensa de Adão, que lhe conferiu a condição de morto para Deus. A condição do homem, ao entrar no mundo, por Adão, a porta larga, é estar separado de Deus. A separação de Deus (morte) é consequência do pecado e não os desvios morais.

Mas, equivocadamente, as pessoas rotulam como pecado as decisões que os homens tomam, tendo por base o conhecimento do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal e se esquecem da barreira de separação que há entre Deus e os homens.

Todos os homens, quando abrem a madre, entram no mundo, por Adão, e seguem um caminho largo, que os conduzirá à perdição, independentemente da moral, costumes, caráter, honradez, idade, nacionalidade, etc.

Assim como o principado é condição que se herda de berço, o pecado é condição que se herda de nascimento: separação de Deus.

Em função da ofensa de Adão, que desobedeceu a lei santa, justa e boa (visto que a lei dada no Éden visava proteger o homem da morte), entrou o pecado no mundo, ou seja, a barreira de separação entre Deus e os homens e, pelo pecado, veio a condenação: morte (Rm 5:18). Como a morte passou a todos os homens, isso significa que todos estão condenados e apenados com a morte, portanto, designados ‘pecadores’.

A consequência da queda de Adão é funesta para a humanidade, mesmo sobre aqueles que não desobedeceram à ordem direta de Deus dada no Éden, que diz:

“Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2:17).

Os infantes serem tidos por ímpios por Deus é a expressão mais contundente da ofensa de Adão, por causa das questões sentimentais próprias ao homem, pois a morte reina tanto sobre criancinhas, quanto sobre adultos.

“… entretanto, reinou a morte, desde Adão, até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança da morte de Adão…” (Rm 5.14).

Uma criança ser tida como pecadora choca a concepção do homem natural. Os sentimentos como dó, apego, afeição, etc., turvam o entendimento do homem, porém, a realidade é o que é, não importando os sentimentos humanos!

Se o homem está triste ou feliz, a verdade é a verdade. Se o homem gosta ou não gosta, a justiça é a justiça. Aceitando ou, não, a lei da gravidade, os homens estão sujeitos a ela. Querendo ou, não, o tempo é inexorável, portanto, ao tratar da realidade do pecado, não se pode considerá-lo sob influência dos sentimentos ou, através da ótica das emoções humanas.

Como a morte alcança a todos, infantes e adultos, mesmo aqueles que não compreendem a sua triste condição herdada: escravos do pecado ou, nem possuem consciência para compreender o que é ser escravo do pecado, a morte é fato e demonstra que todos estão sob domínio do pecado, sem exceção.

Isso porque a morte, como pena da condenação decorrente da ofensa de Adão, entrou no mundo e alcançou a todos os seus descendentes, como uma herança (Rm 5:12).

 

A natureza do pecado

Entretanto, além do erro de se considerar que uma criança inocente como justa, ou seja, isenta de pecado, há outros erros semelhantemente perniciosos:

  1. Considerar que o pecado é um princípio nas crianças que, invariavelmente, as levará a fazer coisas erradas;
  2. Considerar que ações erradas do ponto de vista da lei, da moral e dos bons costumes seriam provenientes de uma semente (o pecado) latente na criança;
  3. Considerar que uma criança aprende a pecar durante o seu desenvolvimento e, por isso, quando praticar algo inconveniente, tornar-se-á pecadora;
  4. Entender que uma criança é pecadora por ser completamente ‘depravada’ pois, todos os tipos de pecados já estão plantados em seu coração.

O Dr. Russel Sheed entendia que o homem aprende[1] a pecar quando adquire hábitos em um ambiente onde não é corrigido. Para o Dr. Shedd, Adão desobedeceu a Deus e legou aos seus descendentes uma inclinação para o mal. Em outra abordagem, Sheed aponta a consequência do pecado como culpa, como se o pecado fosse uma questão de cunho psíquico, daí a abordagem do ponto de vista sentimental[2].

No entanto, a Bíblia sublinha que o pecado não possui relação alguma com aprendizado, mas, sim, com o nascimento natural, em que o escravo do pecado traz ao mundo descendentes, escravos do pecado. Por descender de um ímpio, aquele que é gerado, também, é ímpio e procederá impiamente, não importando se o ímpio gerado viera praticar ou, não, boas ou, más ações, do ponto de vista da moral humana.

“Como diz o provérbio dos antigos: Dos ímpios procede a impiedade; porém a minha mão não será contra ti” (1 Sm 24:13).

O pecado não diz de uma inclinação para o mal, mas de uma natureza má. A condição de pecador não é questão de hábito, mas de natureza. A natureza de alguém separada de Deus é morte, mentira, trevas, mal, vil, etc., e, em função dessa natureza, é pecador. Isso significa que o pecador jamais faz o bem (Sl 53:3), mesmo que queira, pois o seu coração enganoso obra continuamente o mal, pois, como escravo, pertence, por direito, ao seu senhor, servindo como instrumento do pecado.

É por isso que o salmista descreve o ímpio como aquele que, desde que nasce, continuamente, profere mentiras. Fala mentira, desde que nasce, por causa do coração enganoso que herdou e, como a boca fala o que o coração está cheio, profere continuamente mentiras (Sl 58:3; Jr 17:9; Pv 12:5).

O homem é pecador porque é mal no sentido de vil, baixo, ralé, etc., mesmo sabendo dar boas dádivas aos seus semelhantes (Lc 11:13). O problema do pecado decorre da semente que traz os homens ao mundo e não das suas ações. Praticar boas ações não muda a natureza de alguém, gerado da semente corruptível. Uma semente ruim (vil, ralé) forma árvore má que só pode produzir frutos maus.

“Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons” (Mt 7:18).

O problema da árvore má em dar maus frutos decorre da semente que foi plantada, ou seja, está na natureza da árvore. Não importa o quão vistosas estejam as folhagens; a qualidade do fruto sempre estará comprometida. Não importa o quão boa é a qualidade da terra; os frutos sempre serão conforme a espécie da semente (Is 26:10).

O problema de uma criança em ser má e dar frutos maus, não está no seu comportamento futuro, antes, decorre da semente a qual nasceu. Não importa o quão vistoso possa parecer aos olhos dos homens alguém que atingiu a maturidade, por causa da natureza herdada de Adão, estará impossibilitado de produzir bons frutos.

Os israelitas achavam que eram livres e que nunca foram servos de ninguém, simplesmente, por serem descendentes da carne de Abraão e, por isso, sempre diziam: temos por Pai a Abraão, quando procuravam demonstrar que eram salvos (Mt 3:9; Jo 8:39).

O fruto dos lábios dos judeus não era um fruto bom, pois não admitiam o que foi evidenciado pelo profeta Isaias:

“Ó SENHOR Deus nosso, já outros senhores têm tido domínio sobre nós; porém, por ti só, nos lembramos de teu nome” (Is 26:13).

O fruto de um homem pode ser bom ou mal e, respectivamente, nascer de um coração bom ou mal e do fruto dos lábios, torna-se farto o seu ventre. Fruto na Bíblia diz do que procede do coração e é pronunciado pelos lábios, por isso é dito que a boca fala do que o coração está cheio.

“Do fruto da boca de cada um se fartará o seu ventre; dos renovos dos seus lábios ficará satisfeito” (Pv 18:20).

O fruto dos lábios de um crente em Cristo é segundo a verdade do evangelho: admitir que Jesus é o Cristo (Hb 13:15). O fruto dos lábios de um homem mal jamais admitirá verdades como: Jesus veio em carne, Jesus é o Filho de Deus, Jesus é o Filho de Davi, etc.

Quando Jesus disse que os judeus precisavam permanecer em Seu ensino para conhecerem a verdade e serem livres, o fruto bom seria admitir: Mestre, ‘outros senhores têm tido domínio sobre nós’, mas como disseram: ‘nunca fomos escravos de ninguém’, professaram uma mentira segundo o coração maligno que herdaram, portanto, eram escravos do pecado.

“Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado” (Jo 8:34).

Um coração sujeito ao pecado é altivo, ou seja, jamais admite que é escravo. Todo homem é mentiroso, desde que nasce, inclusive os descendentes da carne de Abraão (Rm 3:4), por isso, precisavam morrer (circuncisão do coração) e nascer de novo da palavra de Deus.

Diferentemente do que o Dr. Shedd disse, a consequência do pecado é alienação de Deus e não o sentimento de culpa. O sentimento de culpa que aflorou em Adão, não alterou a sua comunhão com Deus, mas, sim, a sua desobediência. A culpa, como sentimento de que algo deu errado, ou para tentar fugir à responsabilidade, faz parte da natureza humana, mas a culpa não tem poder de alterar a relação do homem com Deus.

O poder que atuou sobre o homem e alterou a sua condição, diz da força da lei, que dizia: ‘certamente morreras’, não o sentimento de Adão de que estava com medo de um castigo. A lei que estabelecia a morte como punição à desobediência tornou-se a força do pecado, por isso o apóstolo Paulo apresenta a morte como aguilhão “Ora, o aguilhão da morte é o pecado e a força do pecado é a lei” (1 Co 15:56).

Uma árvore que procede de uma semente má, também é má, quer seja grande ou, pequena. O fruto da árvore má será sempre mau, não importando as boas ou, más ações, que vier a praticar. Daí o veredicto:

“E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo” (Mt 3:10).

Esse ensinamento de João Batista, também, foi dado por Cristo, nas seguintes palavras:

“Ele, porém, respondendo, disse: Toda a planta que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” (Mt 15:13).

Devemos ter em mente que as boas e as más ações dos homens, somente aproveitam ou, prejudicam aos seus semelhantes, portanto, não alteram a condição do homem diante de Deus:

“Se pecares, que efetuarás contra ele? Se as tuas transgressões se multiplicarem, que lhe farás? Se fores justo, que lhe darás ou, que receberá ele da tua mão? A tua impiedade faria mal a outro tal como tu; e a tua justiça aproveitaria ao filho do homem” (Jó 35:6-8).

A mudança da natureza do homem somente ocorre quando nasce de novo, de uma semente incorruptível, a palavra de Deus, que concede ao homem uma nova natureza: a divina, quando, portanto, torna-se santo, justo e bom!

“Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que, por elas, fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo” (1 Pe 1:4).

Todas as crianças que vem ao mundo têm a oportunidade de serem regradas moralmente ou, se tornarem transviadas, dependendo, em muito, do meio em que ela está inserida. Todas podem seguir uma boa vida moral e possuir bons costumes, como, também, podem se desviar da boa moral e dos bons costumes.

Segundo a concepção humana, uma pessoa moralmente correta segue um bom caminho e uma pessoa imoral segue o mau caminho, porém, não é essa realidade que a Bíblia revela, pois ela ensina que todos os homens que vem ao mundo entram por Adão (porta larga) e seguem por um caminho largo que conduz à perdição, independentemente de suas práticas e hábitos.

O caminho que conduz o homem à perdição não é sinuoso e nem tortuoso, antes largo. Moralmente, o homem pode seguir caminhos tortuosos ou retos, entretanto, o caminho da boa ou má moral não diz do caminho que conduz à perdição.

‘Uma pessoa moralmente correta que frequentou um ambiente onde havia objeção contra mentir, linguagem obscena, comentários desnecessários e prejudiciais, usar o nome de Deus em vão, etc.’, percorre o mesmo caminho de perdição de alguém que não foi criado em um ambiente que não havia objeção alguma com relação a certas práticas perniciosas. Tanto moralmente corretos, quanto incorretos, percorrem o caminho da perdição, pelo fato de terem acessado o mundo, através da porta larga, que é Adão.

Vale destacar que nenhuma criança vem ao mundo com um princípio ou tendência de seguir o que é moralmente errado e pernicioso. Todos os recém-nascidos são como ‘tábuas rasas’. Todas são como folhas em branco, na qual, pela convivência, são incutidos conhecimentos e desejos. É por isso que devem ser instruídos no caminho que devem andar, para não se desviarem, quando crescerem.

No entanto, mesmo essas ‘tabuas rasas’ são pecadoras, assim como um adulto permanece pecador, enquanto dorme. O pecador não deixa de ser pecador enquanto dorme, pois o pecado é uma questão de natureza alienada de Deus e não deriva do comportamento.

O pensamento de que, no coração de uma criança, já estão ‘plantadas sementes de todo tipo de pecado’[3] é equivocado, visto que, na verdade, a criança está no pecado e, não o pecado, como uma semente, está latente no coração da criança.

A criança deriva de uma semente corruptível que a introduziu no mundo, toda em pecado, pecado esse que não possui relação com o bem ou com o mal que ela vier a praticar. A criança é pecadora, em razão de ter estado na coxa do primeiro homem que pecou, e não porque foi introduzida uma semente que a levará à prática de coisas inconvenientes.

É em função de o homem estar no pecado que é necessário que o corpo do pecado seja desfeito, o que ocorre quando o homem morre com Cristo. Deus não extrai uma semente do pecado do coração do homem, antes, através da circuncisão do coração, toda a carne do pecado é despojada (lançada fora) (Rm 6:6; Cl 2:11).

Davi confessou que foi formado em iniquidade e concebido em pecado (Sl 51:5), o que demonstra que Ele nasceu sob o domínio do pecado e não que, em seu coração, foi colocado uma ‘semente de pecados’. Davi nasceu todo no pecado: corpo, alma e espírito, de modo que Ele apela a Deus que lhe dê um novo coração e um novo espírito (novo nascimento).

Se o pecado fosse um princípio ou, uma semente, bastava extirpar a semente ou a árvore do pecado que floresceu no coração do homem, entretanto, vemos que é necessário que o próprio coração que teve origem da semente de Adão, seja trocado por um novo coração, segundo o poder de Deus, pois o machado é posto à raiz das árvores, vez que o homem está no pecado e não o pecado no homem.

“Cria (Bara – cf. hb) em mim, ó Deus, um coração puro e renova em mim um espírito reto” (Sl 51:10)

O erro em entender que no coração das crianças o pecado é como semente, decorre do erro de entender que Cristo leva ‘os pecados do pecador para a cruz’, como se o pecado fosse um fardo. Na verdade, o homem está no pecado e o pecado nele, de modo que Jesus não leva ‘os pecados do pecador’[4], antes convida os homens que o sigam até a cruz, para que sejam crucificados, mortos, sepultados e possam ressurgir (Mt 10:38; Rm 6:6; Cl 2:12).

Do homem é dito que é pecador porque, pela ofensa de Adão, a humanidade ‘pecou’. A humanidade pecou, assim como é dito que um fruto impróprio para o consumo ou, aquém dos padrões de qualidade, ‘pecou’, ou seja, a humanidade tornou-se imprópria para a glória de Deus.

“Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3:23).

Quando é dito que todos ‘pecaram’, não significa que todos fizeram coisas inconvenientes, do ponto de vista moral, para serem pecadores, antes, que, na madre ocorreu um erro. Desde a madre, os homens se desviam (alienam) de Deus e o fruto dos lábios é mau (falando mentiras), pois, procede de um coração mentiroso (Sl 58:3).

Todos vêm ao mundo sob o domínio do pecado e estão entregues aos seus desejos, guiados pela concupiscência dos olhos e pela soberba da vida, mas essas questões não são, propriamente, o pecado, antes os desejos, as concupiscências e a soberba são uma nevoa (entenebrecidos) que impede as pessoas de enxergarem a luz da verdade do evangelho (Ef 4:18).

Um monge que vive uma vida de ascetismo e não pratica as mesmas ações desregradas dos demais homens, na tentativa de se aproximar de Deus, é soberbo, nada sabe. Do mesmo modo que os demais homens, um monge está entregue aos seus próprios desejos e é guiado pela soberba da vida e pela concupiscência dos olhos. Um religioso que vive de práticas caridosas, de cuidado para com o semelhante, que fez voto de castidade, etc., está em igual condição que os demais homens pecadores.

 

Reforma

A teologia reformada introduziu o conceito da ‘depravação total’, para falar da natureza do homem caído, mas, tal nomenclatura, decorre de uma má leitura do que é o pecado.

Os reformadores seguiram a concepção de que o ser humano só é pecador, por ser ‘moralmente responsável’, quando formularam o conceito de depravação[5], para se referirem à corrupção e à degradação moral do homem.

Por fim, construíram o conceito de ‘depravação total’[6], de que o homem está moralmente ou, espiritualmente morto, ou que o homem natural é como um corpo morto moral e espiritualmente. Para os da reforma, a natureza da escravidão do pecado é moral e espiritual, ou seja, o homem é moralmente e espiritualmente escravo do pecado[7].

Quando apresenta o homem como pecador, a Bíblia não trata de questões de ordem moral e nem se é, moralmente, responsável. Quando a Bíblia diz que o homem é mau ou, mentiroso, não está apontando para questões de ordem moral, antes distingue a natureza de quem é mal, no sentido de vil, baixo, ralé, em contrate com aquele que é bom, luz e verdade por questões e impedimentos que vem de berço (Rm 3:4).

Quando Adão comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, instantaneamente, tornou-se pecador. O que isso significa? Que de imediato ergueu-se uma barreira de separação, e aquele que era santo, justo e bom, passou à condição de imundo, ímpio e mau.

Independentemente da moral e dos costumes que Adão iria aprender ou adotar, no instante após comer do fruto, já estava separado d’Aquele que é a vida, portanto, passou à condição de morto para Deus e vivo para o seu vil senhor, o pecado. Após desobedecer, Adão foi imediatamente responsabilizado pela ofensa, e o que o vinculou ao pecado foi a morte (alienação), e não a moral.

Quando a Bíblia apresenta o homem como mau, não diz da sua moral, mas da sua condição de alienado daquele que é bom. Qualquer boa ação que o homem pratique na intenção de alcançar a Deus é inócua, pois, por mais que alguém da ralé se proponha a viver como alguém da nobreza, jamais mudará a sua condição. Ao vender-se ao pecado como escravo, Adão deixou de ser participante da natureza divina e passou a uma nova condição: inferior.

A Bíblia não diz que o homem está ‘moralmente’[8]morto, como apregoa a teologia reformada, antes que está separado (morto) para Deus. A natureza da morte não é moral, mas, sim, uma barreira que impede a comunhão entre as partes.

A barreira de separação não é segundo a moral, porque Jesus não veio salvar o homem de questões de cunho moral, mas, antes, veio para conceder comunhão com o Criador, removendo a parede de separação que há entre Deus e os homens: o pecado. O evangelho não visa resgatar o caráter ou a moral da humanidade, mas, sim, tirar a barreira de separação (tirar o pecado do mundo), transportando o homem das trevas para o reino do Filho do seu amor.

Questões morais são barreiras comportamentais que os homens erguem entre si e que proporcionam uma melhor vivência entre si. Entraves morais entre os homens não diz da barreira do pecado erguida entre Deus e os homens.

 

Alerta

Os pais cristãos devem compreender que os infantes são pecadores e que podem ser regenerados por meio da fé (evangelho), crendo em Cristo Jesus.

O erro que acometeu os filhos de Abraão, de presumirem de si mesmos que eram filhos de Deus, por terem por pai a Abraão, aquele a quem a promessa foi feita, é o mesmo erro que ronda muitos pais cristãos que pensam que os seus filhos são salvos pelo fato de serem filhos de pais cristãos.

A promessa que Deus fez a Abraão não foi aos seus descendentes segundo a carne, mas ao Seu Descendente, que é Cristo. De igual modo, a promessa de Deus no seu Descendente, que é Cristo, é para todos quantos crerem no evangelho,  não aos que descenderem da carne de quem crê.

Um pai cristão deve ter em mente que o pecado foi introduzido no mundo por Adão e a graça em Cristo, através do último Adão. Igualmente, precisa compreender que, para ser pecador, basta ter entrado no mundo e que para ser salvo, é necessário nascer de novo, crendo em Cristo através da semente incorruptível, que é a palavra de Deus.

O crente em Cristo deve saber que uma criança não é potencialmente pecadora porque está propensa a cometer erros no futuro, antes é pecadora porque veio ao mundo na condição de escrava do pecado, pelo fato de Adão, ao desobedecer a Deus, ter se vendido ao pecado como escravo.

O crente em Cristo deve entender que tem dupla e árdua missão:

a) instruir os seus filhos acerca da verdade do evangelho, para que sejam salvos da condenação estabelecida em Adão, e;

b) instruí-los quanto ao bom porte em sociedade, evidenciando que a sociedade não é misericordiosa quando pune os transgressores.

Quando lemos a mensagem do apóstolo Paulo: “E eles disseram: Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa” (At 16:31), certo é que a salvação está em crer em Cristo. Mas, para que os descendentes do carcereiro (casa) fossem salvos, também precisaram crer e, por isso, o apóstolo pregou o evangelho a todos da casa do carcereiro:

“E lhe pregavam a palavra do Senhor, e a todos os que estavam em sua casa. E, tomando-os ele consigo naquela mesma hora da noite, lavou-lhes os vergões; e logo foi batizado, ele e todos os seus. E, levando-os à sua casa, lhes pôs a mesa; e, na sua crença em Deus, alegrou-se com toda a sua casa” (At 16:32-34).

Se só bastasse ao carcereiro crer e a sua casa inteira seria salva, não seria necessário pregar a palavra a todos que estavam na sua casa para que o carcereiro e todos os seus familiares fossem batizados.

Por isso é dito:

“O qual te dirá palavras, com que te salves, tu e toda a tua casa” (At 11:14).

Outro ponto a se destacar, está na passagem em que Jesus fica indignado ao ver os seus discípulos proibindo as pessoas de trazerem as crianças para tocarem nele, quando disse:

“Deixai vir os meninos a mim e não os impeçais; porque dos tais é o reino de Deus” (Mc 10:14).

Os discípulos foram repreendidos para que deixassem as criancinhas se achegarem a Cristo e Ele dá o motivo: ‘porque dos tais é o reino de Deus’. Ora, o reino de Deus, que é Cristo, é de todos quantos atendem ao convite: “Vinde a mim…”, não importando, se infantes ou, se adultos. Jesus pontuou aos seus discípulos a necessidade das crianças se achegarem a Ele, pois, das que vão a Ele, pertence o reino dos céus.

Jesus não afirmou que o reino dos céus pertence a todas as crianças, pelo fato de serem crianças, antes, que o reino pertence às crianças que vão a Ele: “dos tais”[9]. Por que o reino dos céus é das crianças que vão a Cristo? Porque elas também podem produzir o perfeito louvor, que é confessar que Jesus é o Cristo: – Hosana ao Filho de Davi! (Mt 21:15).

Portanto, todas as crianças precisam ser evangelizadas, pois, só através do mandamento contido no evangelho, que elas podem se precaver do mal que herdaram ao entrar no mundo, se escondendo em Cristo, caso contrário, sofrerão as consequências da ofensa de Adão.

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto

 


[1]“É assim que aprendemos a pecar: linguagem obscena, comentários desnecessários prejudiciais, usar o nome de Deus em vão, tornam-se hábitos pela prática dentro de um ambiente onde ninguém cria objeção alguma” Sheed, Russell P., Lei, Graça e Santificação, 2ª Ed., editora Vida Nova, pág. 99 (grifo nosso).

[2] “A consequência do pecado inevitavelmente é a culpa, aquele sentimento ruim de ter errado, de ter fugido de nossa responsabilidade. É um pressentimento de castigo merecido, de uma dívida que terá que ser paga”. Sheed, Russell P., Psicologia, pecado e culpa Consulta realizada em 30/12/16.

[3]Sinclair B. Ferguson, ao escrever sobre a condição dos infantes, citou Robert Murray McCheyne, de que os infantes, ‘mesmo nessa idade, a semente de todo tipo de pecado já está plantada em seus corações’. Sinclair B. Ferguson , Inocentes Pequeninos, Revista Os Puritanos, pág.  24 <https://issuu.com/heraldoa/docs/revista_03-2010_-_vergonha_do_pecado>.

[4]“… que levou os pecados desse pecado para cruz…” Bíblia de Scofield, com referências, nota de rodapé, pág. 1147.

[5] “Depravação é uma palavra que descreve o estado ou disposição do homem, considerado um ser moral. Ser moral é alguém responsável diante de Deus por seus pensamentos, fala e conduta. Depravação significa a corrupção moral da natureza humana. Refere-se ao estado de pecaminosidade natural do não regenerado” Cole, C. D., Definição de doutrina – Volume II,  As Doutrinas do Pecado, da Salvação e do Serviço. Capítulo 3: Depravação – total, universal e inerente.

[6] “A depravação total significa que o homem, como resultado do pecado original, está morto moral ou espiritualmente. E morto, como adjetivo, não admite comparação. Não há grau de morte; mas há grau na morte. Diante de nós está um morto. Há um dia que está morto. Ele está morto totalmente em todas as partes físicas. Eis outro morto. Ele está morto há uma semana. Ele não está mais morto do que o outro, mas o corpo se encontra em uma condição pior. A Bíblia apresenta o homem natural como um corpo morto moral ou espiritual” Cole, C. D., Definição de doutrina – Volume II,  As Doutrinas do Pecado, da Salvação e do Serviço. Capítulo 3: Depravação – total, universal e inerente.

[7]“Se temos dificuldade aqui, pode ser porque falhamos em entender a natureza da escravidão do pecador. Ela é uma escravidão moral e espiritual, não uma escravidão metafísica, física ou psicológica. Se, como em minha ilustração da máquina-robótica, alguém é fisicamente forçado a fazer algo que ele não deseje fazer, então, certamente, sua escravidão remove sua responsabilidade pelo ato. Confrontada com o seu “feito”, a pessoa teria uma escusa válida: “Eu não pude evitar; eu fui fisicamente forçado a fazê-lo”. Mas, imagine alguém vindo diante de um juiz humano e dizendo, para se escusar de um crime, “Eu não pude evitar, meritíssimo; eu fui forçado a fazê-lo por minha natureza. Desde o nascimento tenho sido um garoto extremamente perverso!”. Certamente há algo irônico sobre apelar à depravação para escusar atos depravados! Se o nosso acusado é realmente um “garoto extremamente perverso”, então, longe de ser uma escusa, isso é mais uma razão para prendê-lo! Meu ponto, então, é que, embora a escravidão física (e outros tipos de escravidão) possa fornecer escusas válidas para ações contrariamente más, a escravidão moral não é uma escusa. Eu não posso imaginar alguém disputando essa proposição, uma vez que ele a entenda (…) A incapacidade do pecado é moral e espiritual; deveras, como temos visto, é uma incapacidade da qual ele mesmo é responsável.” Frame, John,Livre-Arbítrio e Responsabilidade Moral, artigo disponível na web; Grifo nosso. <http://www.monergismo.com/textos/livre_arbitrio/livre_responsabilidade_frame.htm> consulta realizada em 07/01/2017.

[8] “Moral refere-se ao conjunto de regras, padrões e normas adquiridos em uma sociedade por meio da cultura, educação, cotidiano e costumes adquiridos no âmbito social e familiar”, Wikipédia.

[9] “5108 τοιουτοςtoioutos (inclui as outras inflexões) de 5104 e 3778; adj” Dicionário Bíblico Strong.

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Isaías 56 – A bem-aventurança prometida a Abraão chega aos gentios

As Escrituras depõem contra todos os homens, classificando-os de ‘mentirosos’( Sl 116:11; Rm 3:4). Por que todos são mentirosos? Todos os homens são mentirosos, porque todos os homens, juntamente, se desviaram desde a madre (Sl 53:3) e falam mentiras. desde que nascem (Sl 58:3). Isso não quer dizer que todos os homens faltam com a verdade, ou que são infiéis nos negócios, etc.


Isaias 56 – A bem-aventurança prometida a Abraão chega aos gentios

Introdução

É através da seguinte ótica que se deve compreender o capítulo 56 de Isaias: Deus estava prestes a cumprir a promessa feita a Abraão!

Qual a promessa de Deus feita a Abraão? Que, na descendência de Abraão, seriam benditas todas as famílias da terra, apesar de que, à época da promessa, Abraão ainda não tinha filhos.

“… em ti e na tua descendência serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 28:14).

Considerando que Deus notificou a Abraão que, em seu Descendente seriam benditas todas as famílias da terra, os filhos de Israel, equivocadamente, passaram a considerar que eram herdeiros da bem-aventurança prometida por causa da carne e do sangue de Abrão que corria em suas veias (Gl 3:8; Gn 28:14).

O apóstolo Paulo nos esclarece que a bem-aventurança não foi dada aos descendentes segundo a carne de Abraão, antes, a bem-aventurança estava vinculada ao Descendente de Abraão que seria chamado em Isaque  (Rm 9:7).

Como a descendência de Abraão seria chamada em Isaque, isso significava que a promessa não tinha por base a carne de Abraão, portanto, os descendentes de Abraão não haviam sido agraciados com a bem-aventurança.

Ora, todos os israelitas se gloriavam no fato de serem descendência de Abraão e, por confiarem na carne, se afastavam de Deus. Em vez de bem-aventurados, eram malditos, segundo a palavra do Senhor, anunciada por intermédio de Jeremias, por fazerem da carne o seu braço (força, salvação):

“Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, faz da carne o seu braço e aparta o seu coração do SENHOR!” (Jr 17:5).

Essa profecia de Jeremias demonstra que o homem que confia em si mesmo é maldito! O homem que confia em si mesmo é aquele que faz da sua carne a sua salvação, porque ‘braço’ é figura de força, o que remete à salvação.

“O SENHOR é a minha força e o meu cântico; Ele me foi por salvação; este é o meu Deus, portanto, lhe farei uma habitação; ele é o Deus de meu pai, por isso o exaltarei” (Êx 15:2);

“Eis que Deus é a minha salvação; nele confiarei e não temerei, porque o SENHOR DEUS é a minha força e o meu cântico e se tornou a minha salvação” (Is 12:2).

Considerando a argumentação do apóstolo Paulo, de que tudo o que a lei diz, diz aos que estão debaixo da lei, isso significa que a reprimenda de Jeremias tinha por alvo o homem judeu, pois eles, sabidamente, se gloriavam pelo fato de serem descendentes da carne de Abraão.

“Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus em espírito, nos gloriamos em Jesus Cristo e não confiamos na carne” (Fl 3:3);

“Mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me entender e em me conhecer, que eu sou o SENHOR, que faço beneficência, juízo e justiça na terra; porque, destas coisas me agrado, diz o SENHOR” (Jr 9:24; Tg 1:9; 1 Co 1:31).

 

Salvação para todos os povos

“ASSIM diz o SENHOR: Guardai o juízo e fazei justiça, porque a minha salvação está prestes a vir e a minha justiça, para se manifestar” (Is 56:1)

Através do profeta Isaias, Deus ordenou aos filhos de Israel que ‘guardem o juízo’ e ‘façam justiça’, ou seja, eles deviam obedecer à palavra de Deus. A palavra do Senhor, por intermédio de Isaias, remete ao exarado em Deuteronômio:

“E será para nós justiça, quando tivermos cuidado de cumprir todos estes mandamentos perante o SENHOR nosso Deus, como nos tem ordenado” (Dt 6:25).

O que Deus exigiu dos filhos de Israel não é justiça social e nem a justiça que é administrada em tribunais humanos. Esse é um equivoco que afeta a compreensão de muitos, pois interpretam o ‘guardar o juízo’ e ‘fazei justiça’ como um apelo divino para que os filhos de Israel se ocupassem de questões sociais.

Na verdade, quando é dito ‘guardai o juízo’ e ‘fazei justiça’, Deus estava conclamando os filhos de Israel para observarem o Seu mandamento. Uma pequena análise de dois versículos, levando-se em conta a estrutura do texto – paralelismo – verifica-se que obedecer à voz de Deus é o mesmo que ‘fazer justiça’ e ‘guardar o juízo’:

“E será para nós justiça, quando tivermos cuidado de cumprir todos estes mandamentos perante o SENHOR nosso Deus, como nos tem ordenado” (Dt 6:25);

“AMARÁS, pois, ao SENHOR teu Deus e guardarás as suas ordenanças, os seus estatutos, os seus juízos e os seus mandamentos, todos os dias” (Dt 11:1).

Na verdade, o verso 1: “Amarás, pois, ao Senhor teu Deus…” é uma ordem aos filhos de Israel, para que obedecessem a Deus!

“Que te farei, ó Efraim? Que te farei, ó Judá? Porque a vossa benignidade é como a nuvem da manhã e como o orvalho da madrugada, que cedo passa. Por isso os abati pelos profetas; pelas palavras da minha boca os matei; e os teus juízos sairão como a luz, porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos” (Os 6:4 -6);

“Porém, Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” (1 Sm 15:22).

Mas, por que Deus concita o povo a obedecê-Lo? O motivo é patente: – “… porque a minha salvação está prestes a vir e a minha justiça prestes a manifestar-se”. O motivo apresentado por Deus não diz de um conceito ou, de uma ideia filosófica, acerca da salvação e da justiça.

Através dessa profecia, Deus notifica os seus interlocutores que a Sua salvação e a Sua justiça estavam prestes a virem personificadas! Ora, o apóstolo Paulo deixa claro que, antes que Cristo viesse, as Escrituras encerrou todos os homens debaixo do pecado e os judeus, por sua vez, estavam sob o cuidado da lei, uma espécie de curador (aio), que os conduzia a Cristo, a salvação e a justiça de Deus (Gl 3:24).

A lei é apontada como ‘aio’, que conduz o homem a Cristo: a salvação de Deus e a justiça de Deus manifesta (Gl 3:24). Ao guardar as ordenanças de Deus, o homem descobriria que a justiça de Deus não é segundo a lei, antes, Deus encerrou todos debaixo do pecado (judeus e gregos), para que soubessem que a promessa da fé é dada aos crentes (Gl 3:21-22).

A justiça de Deus é segundo a promessa estabelecida no Descendente de Abraão, que é Cristo, a justiça de Deus.

 

“Bem-aventurado o homem que fizer isto e o filho do homem que lançar mão disto; que se guarda de profanar o sábado e guarda a sua mão de fazer algum mal” (Is 56:2)

Deus enfatiza que é bem-aventurado qualquer que O obedecesse, ou seja, que faz justiça e guarda o juízo. O profeta dá um exemplo de como guardar o juízo e fazer justiça à época (Zc 8:16), guardando os sábados e não realizarem mal algum.

Para compreender todas as nuances deste verso, o leitor deve considerar que Deus falava ao povo de Israel por enigmas, pois somente com Moisés Deus falava cara a cara e sem utilizar enigmas: “Boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas; pois ele vê a semelhança do SENHOR; por que, pois, não tivestes temor de falar contra o meu servo, contra Moisés?” (Nm 12:8).

Os enigmas contidos nas Escrituras faziam com que as visões do livro estivessem como que seladas, de modo que os interpretes de Israel não pudessem compreender: “Por isso toda a visão vos é como as palavras de um livro selado que se dá ao que sabe ler, dizendo: Lê isto, peço-te; e ele dirá: Não posso, porque está selado” (Is 29:11).

Se o interprete não desvendar os significados dos enigmas, qualquer interpretação das escrituras será equivocada.

O primeiro enigma a ser desvendado está em com o homem se guardar de fazer o mal. Como é possível ao homem deixar de fazer o mal, se a própria escritura diz que ‘não há quem faça o bem’? “Desviaram-se todos e, juntamente, se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um” (Sl 53:1).

Ao falar com os fariseus, Jesus deu uma pista para elucidar o enigma acerca do ‘mal’, pois Ele disse que, apesar de os fariseus darem boas dádivas aos seus semelhantes (filhos), na essência eram ‘maus’. Até dizer boas coisas os fariseus estavam impedidos, pela condição deles: “Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem?” (Mt 7:11); “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” (Mt 12:34).

Os fariseus não eram maus porque faziam maldades, mas, sim, maus, porque, diante de Deus, eram vis, inferiores, da ralé, portanto, maus. Jesus não estava apontando para o comportamento dos fariseus, pois Ele a ninguém julgava, mas, apontou para a condição de alguém que é escravo do pecado: vil, mal.

Ora, os fariseus podiam falar acerca de temas nobres, princípios comportamentais, questões religiosas e questões de ordem filosófica, porém, tais temas tão caros aos homens, não são ‘boas coisas’ diante de Deus. Por que não? Porque tais questões não desfazem a barreira de inimizade que há entre Deus e os homens.

Os fariseus não podiam fazer o bem e nem dizer boas coisas, por causa dos seus corações enganosos. Fazer o bem e dizer boas coisas só é possível através da revelação de Deus em Cristo, o nobre tema que o salmista Davi anunciou no Salmo 45. Se a revelação de Deus, o mistério revelado em Cristo, o homem não consegue decifrar o enigma anunciado por Deus (Sl 49:4; Sl 45:1).

As Escrituras depõem contra todos os homens, classificando-os de ‘mentirosos’( Sl 116:11; Rm 3:4). Por que todos são mentirosos? Todos os homens são mentirosos, porque todos os homens, juntamente, se desviaram desde a madre (Sl 53:3) e falam mentiras. desde que nascem (Sl 58:3). Isso não quer dizer que todos os homens faltam com a verdade, ou que são infiéis nos negócios, etc.

Quando é dito que todos os homens são mentirosos é o mesmo que dizer que todos pecaram. Assim como Deus é luz, verdade e vida, o homem alienado de Deus está em trevas, é mentira e está morto.

Os judeus se esforçavam para não faltar com a verdade com os seus semelhantes, porém, não é acerca dessa questão que Deus conclama aos filhos de Israel para que fale cada um a verdade com o seu companheiro.

“Estas são as coisas que deveis fazer: Falai a verdade cada um com o seu próximo; executai juízo de verdade e de paz nas vossas portas” (Zc  8:16).

Considerando que ‘a boca fala do que está cheio o coração’, quem fala o mal, fala segundo o seu coração mau. Qualquer descendente da carne de Adão é mau, porque herdou tal condição de Adão, herdou um coração enganoso e fala segundo o seu coração: engano contínuo.           

Para falar boas coisas é necessário um novo coração, por isso Deus anunciou, através de Moisés, a necessidade de circuncidarem o coração pois, com a circuncisão do coração, o homem morre e recebe de Deus um novo coração e um novo espírito (Sl 51:10; Is 57:15; Ez 18:31 ).

Ora, os filhos de Israel achavam que guardavam o sábado, porém, Deus continuamente protestava contra eles, demonstrando que eles eram homens de dura cerviz e que não circuncidavam o coração: “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração e não mais endureçais a vossa cerviz” (Dt 10:16).

No oitavo dia, após o nascimento de uma criança, os filhos de Israel circuncidavam os seus filhos no prepúcio da carne, porém, não se deixavam circuncidar pelo Pai celeste. Sem a circuncisão do coração, que significa morte para o pecado, jamais os filhos de Jacó seriam judeus de fato, e todas as obras deles continuavam sendo más, continuadamente.  

“Circuncidai-vos ao SENHOR e tirai os prepúcios do vosso coração, ó homens de Judá e habitantes de Jerusalém, para que o meu furor não venha a sair como fogo e arda, de modo que não haja quem o apague, por causa da malícia das vossas obras” (Jr 4:4);

“Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente, na carne. Mas, é judeu o que o é no interior e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus” (Rm 2:28-29).

Os judeus se consideravam os ‘bons’, e consideram os gentios ‘ruins’. Entenda ‘bons’, no sentido de bem nascidos, nobres, filhos de Abraão, consequentemente, filhos de Deus. Por isso, sempre argumentavam, dizendo: ‘Temos por Pai a Abraão’.

De igual modo, entenda ‘ruins’ como baixos, plebes, sem levar em conta conotação moral. Enquanto se achavam filhos de Abraão, Deus protestava contra os filhos de Israel, declarando-os filhos da agoureira, da adúltera.

“Mas, chegai-vos aqui, vós os filhos da agoureira, descendência adulterina e de prostituição” (Is 57:3).

O erro dos judeus era considerar que eram bem nascidos, portanto, bons, e que os estrangeiros eram mal nascidos, consequentemente ‘ruins’. Igualmente, judeus e gentios são ruins (Rm 3:4), portanto, mentirosos, pois todos, juntamente, alienaram-se de Deus em Adão (Rm 3:9).

“Deveras o meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios e não entendidos; são sábios para fazer mal, mas não sabem fazer o bem (Jr 4:22).

Apesar dos judeus guardarem os sábados, as festas, as assembleias, etc., nenhum deles observava a lei.

“Não vos deu Moisés a lei? E nenhum de vós observa a lei. Por que procurais matar-me?” (Jo 7:19).

Na verdade, as Escrituras depunham contra os judeus como blasfemos:

“E agora, que tenho eu que fazer aqui, diz o SENHOR, pois o meu povo foi tomado sem nenhuma razão? Os que dominam sobre ele dão uivos, diz o SENHOR; e o meu nome é blasfemado, incessantemente, o dia todo” (Is 52:5; Rm 2:24).

A circuncisão na carne era uma marca dada aos descendentes da carne de Abraão para identificá-los como nação e não como filhos de Deus. Tal marca só seria proveitosa se os judeus obedecessem a Deus, assim como o crente Abraão (Gn 17:10-11; Gn 26:5). É nesse quesito que o apóstolo Paulo repreende os cristãos convertidos, dentre os judeus, que estavam em Roma:

“Porque a circuncisão é, na verdade, proveitosa, se tu guardares a lei; mas, se tu és transgressor da lei, a tua circuncisão se torna em incircuncisão” (Rm 2:25).

O profeta Isaias estava conclamando os seus ouvintes a obedecerem a Deus (mantende o juízo e fazei justiça), através de alguns preceitos da lei (utilizados como figuras): guardar o sábado e guardar a mão de fazer o mal, pois qualquer que, como Abraão, obedecesse ao mandamento de Deus, seria bem-aventurado.

“Bem-aventurado o homem que fizer isto e o filho do homem que lançar mão disto; que se guarda de profanar o sábado e guarda a sua mão de fazer algum mal” (Is 56:2); “Porquanto, Abraão obedeceu à minha voz e guardou o meu mandado, os meus preceitos, os meus estatutos e as minhas leis” (Rm 26:5);

“De sorte que os que são da fé são benditos com o crente Abraão” (Gl 3:9).

Através do profeta Isaias, Deus deixa claro que os sábados dos filhos de Israel eram equivalentes à abominação!

“Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, as luas novas, os sábados e a convocação das assembleias; não posso suportar iniquidade, nem mesmo a reunião solene” (Is 1:13; Is 58:13).

Por quê? Porque andavam após os seus ídolos! ‘Ídolos’, quando utilizado, nas profecias, acerca do povo de Israel, tem relação com riquezas (Mamom), uma figura para demonstrar que os filhos de Israel estavam a serviço de si mesmos: “Porque rejeitaram os meus juízos, não andaram nos meus estatutos e profanaram os meus sábados; porque o seu coração andava após os seus ídolos” (Ez 20:16).

Quando os filhos de Israel jejuavam, achavam que estavam realizando um trabalho para Deus, porém, equivocadamente, trabalhavam para satisfazerem a si mesmos.

“Dizendo: Por que jejuamos nós e tu não atentas para isso? Por que afligimos as nossas almas e tu não o sabes? Eis que, no dia em que jejuais, achais o vosso próprio contentamento e requereis todo o vosso trabalho(Is 58:3).

 

“E não fale o filho do estrangeiro que, se houver unido ao SENHOR, dizendo: Certamente o SENHOR me separará do seu povo; nem, tampouco, diga o eunuco: Eis que sou uma árvore seca. Porque assim diz o SENHOR a respeito dos eunucos, que guardam os meus sábados e escolhem aquilo em que eu me agrado e abraçam a minha aliança: Também lhes darei na minha casa e dentro dos meus muros um lugar e um nome, melhor do que o de filhos e filhas; um nome eterno darei a cada um deles, que nunca se apagará” (Is 56:3-5)

Em seguida, Deus dirige a palavra aos estrangeiros e aos eunucos, para que não pensassem que haviam sido rejeitados (Is 56:3), antes, se eles também guardassem o mandamento de Deus, teriam lugar na casa de Deus e dentro dos muros da cidade e um nome superior a de filhos e filhas (Is 56:5).

Os estrangeiros e os eunucos seriam aceitos por causa da seguinte promessa: – “A minha casa será chamada casa de oração para todos os povos” (Is 56:7). Ora, essa promessa Deus fez a Abraão: – “… em ti e na tua descendência serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 28:14).

Através de Isaias, Deus estava demonstrando que a promessa feita a Abraão estava prestes a ser manifesta, pois, sem distinção alguma, todos os homens teriam lugar na casa de Deus. Estava sendo enfatizado que os homens seriam aceitos no Descendente prometido a Abraão e a Davi, pois Cristo é a casa (descendente) que Deus prometeu a Davi.

“… também o SENHOR te faz saber que te fará casa” (2 Sm 7:11).

A ‘casa’ prometida a Davi diz do renovo justo – Cristo – da raiz de Jessé(Jr 33:15), que através do seu corpo, que é a Igreja, está a edificar um templo ,que abriga todos os povos. O corpo de Cristo é a casa de oração para todos os povos, o templo edificado sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas e santuário (Ef 2:20; Is 8:14). Em Cristo, cumpre-se a promessa de se ajuntar os dispersos de Israel e os outros, aos que já se lhe ajuntaram (Is 56:8).

É em função dessa verdade que Jesus expulsou os que vendiam no templo e os cambistas, dizendo: “Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; mas vós a tendes convertido em covil de ladrões” (Mt 21:13), e, como Pastor enfatizou que agregaria ao seu aprisco outras ovelhas: “Ainda tenho outras ovelhas, que não são deste aprisco; também, me convém agregar estas, elas ouvirão a minha voz e haverá um rebanho e um Pastor” (Jo 10:16).

Em linhas gerais, a profecia de Isaias, registrada no capítulo 56, refere-se a Cristo e ao seu corpo, a Igreja. Através do corpo de Cristo, estrangeiros e eunucos (homens considerados imundos para os judeus), poderiam oferecer os seus holocaustos e os seus sacrifícios e serem aceitos por Deus.

“Eis que chamarás a uma nação que não conheces e uma nação que nunca te conheceu correrá para ti, por amor do SENHOR teu Deus e do Santo de Israel; porque ele te glorificou” (Is 55:5)

Apesar de serem discriminados pelos filhos de Israel, Deus dá aviso aos forasteiros (gentios) que não digam que Deus não os aceitará; ou aviso aos eunucos, de que não devem se considerar como uma árvore cortada. Por que não deveriam pensar que eram inúteis? Porque qualquer que guarda o mandamento de Deus (mesmo os estrangeiros e os eunucos) tem um lugar e um nome na casa de Deus.

Qualquer que guarda a aliança de Deus terá um nome superior ao de filhos e filhas. Um nome eterno, que jamais será esquecido.

“Também lhes darei na minha casa e dentro dos meus muros um lugar e um nome, melhor do que o de filhos e filhas; um nome eterno darei a cada um deles, que nunca se apagará” (Is 56:5).

“E aos filhos dos estrangeiros, que se unirem ao SENHOR, para o servirem, e para amarem o nome do SENHOR, para serem seus servos, todos os que guardarem o sábado, não o profanando, e os que abraçarem a minha aliança, Também os levarei ao meu santo monte, e os alegrarei na minha casa de oração; os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceitos no meu altar; porque a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos. Assim diz o Senhor DEUS, que congrega os dispersos de Israel: Ainda ajuntarei outros aos que já se lhe ajuntaram” (Isaias 56:6-8)

A promessa de Deus se estende aos filhos dos estrangeiros que obedecerem à Sua aliança, o que dá elementos para compreender a seguinte promessa:

“E há de ser que, todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo; porque no monte Sião e, em Jerusalém, haverá livramento, assim como disse o SENHOR, e entre os sobreviventes, aqueles que o SENHOR chamar” (Jl 2:32; Rm 10:13)

Como os estrangeiros e seus filhos seriam conduzidos ao monte do Senhor e como os seus holocaustos e sacrifícios aceitos por Deus? O apóstolo Paulo dá a resposta:

“Que seja ministro de Jesus Cristo para os gentios, ministrando o evangelho de Deus, para que seja agradável a oferta dos gentios, santificada pelo Espírito Santo” (Rm 15:16).

Através do evangelho de Cristo a ‘oferta’ dos gentios se torna agradável a Deus, pois é santificada pelo Espírito Santo. A aliança, da qual o profeta Isaias faz referência, diz do Novo Testamento no sangue de Cristo (1 Co 11:25), e não no Testamento da velhice da letra que foi gravada em pedras (2 Co 3:6).

Em Cristo, o homem é verdadeiro adorador, pois adora a Deus, em espirito e em verdade. Cristo é a pedra assentada no santo monte Sião, o verdadeiro santuário, casa de oração para todos os povos. Apesar de ser o santuário estabelecido por Deus, as duas casas de Israel rejeitaram o Cristo (Is 8:14). Para os que crêem, Jesus é santuário, mas para os incrédulos pedra de tropeço.

“Portanto, assim diz o Senhor DEUS: Eis que eu assentei em Sião uma pedra, uma pedra já provada, pedra preciosa de esquina, que está bem firme e fundada; aquele que crer não se apresse” (Is 28:16)

A promessa para os estrangeiros e seus filhos está condicionada a guardarem o ‘sábado’, ou seja, o descanso verdadeiro, que é Cristo. Como? Abraçando a aliança do Senhor expressa no Seu evangelho, crendo que Jesus é o Cristo.

Os filhos de Israel deveriam guardar o sábado como memorial de que foram resgatados do Egito (Dt 5:15), de que Deus é quem os santifica (Ex 31:13). Como a Aliança do Novo Testamento foi feita no sangue de Cristo, o memorial estabelecido é a ceia do Senhor, para que os cristãos se lembrem da sua morte e anunciem o seu nome até que Ele venha (1 Co 11:25-26).

E o que os gentios oferecem como sacrifício na Nova Aliança? O fruto dos lábios que confessam a Cristo, ou seja, a beneficência e a comunicação! (Hb13:15-16) Os seus corpos em sacrifício vivo, que é o culto racional (Rm 12:1)

Para compreendermos a figura dos sábados, se faz necessário compreender que os sacerdotes da Antiga Aliança eram inculpáveis, por trabalharem no templo aos sábados (Mt 12:5). Como Cristo é superior ao templo e os estrangeiros e eunucos são aceitos no Santuário estabelecido por Deus, os que estão em Cristo não necessitam guardar sábados e luas novas (Cl 2:16).

“Ou não tendes lido na lei que, aos sábados, os sacerdotes no templo violam o sábado, e ficam sem culpa? Pois, eu vos digo que está aqui quem é maior do que o templo. Mas, se vós soubésseis o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício, não condenaríeis os inocentes. Porque o Filho do homem até do sábado é Senhor” (Mt 12:5-8).

Cristo é o descanso prometido, o refrigério, mas não quiseram ouvi-Lo:

“Ao qual disse: Este é o descanso, dai descanso ao cansado; e este é o refrigério; porém não quiseram ouvir” (Is 28:12).

Deus exige obediência (misericórdia), e não sacrifícios, como guarda de dias, luas, festas, etc. Para encontrar descanso para a alma é necessário andar por bom caminho, ou seja, em obediência: crendo em Cristo, pois, Deus faz misericórdia aos que O obedecem.

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” (Êx 20:6);

“Assim diz o SENHOR: Ponde-vos nos caminhos, e vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas; mas eles dizem: Não andaremos nele” (Jr 6:16).

Cristo, como santuário para todos os povos, é superior ao templo, onde os sacerdotes violavam o sábado. Semelhantemente, em Cristo os crentes são sacerdotes que oferecem, continuamente, sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o culto racional, portanto, não estão sujeitos aos ritos da Antiga Aliança.

Na Antiga Aliança era Deus que santificava o povo e, por isso, deveriam santificar o sábado. Na Nova Aliança é Deus quem santifica o crente, por meio da palavra do evangelho, portanto, devem santificar a Cristo em seus corações, ou seja, guardar o descanso verdadeiro (1 Pe 3:15).

O sábado é sombra de uma realidade que o homem experimenta em Cristo: o descanso verdadeiro (Hb 10:1).

O Senhor que promete reunir os dispersos de Israel, é o mesmo Deus que reunirá outros aos que já se ajuntaram. O que isso quer dizer? Que esse é um oráculo do Senhor, acerca da união entre judeus e gentios, do qual resultaria um corpo: a igreja (Ef 2:13-14).

O oráculo aos filhos de Israel, por intermédio do profeta Isaias, foi feito por parábola, o que o apóstolo Paulo fala, abertamente. Cristo é a paz, tanto para aqueles que estão perto(judeus) quanto para os que estão longe (gentios): “Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz, para o que está longe; e para o que está perto, diz o SENHOR e eu o sararei” (Is 57:19).

Deus, que reúne os dispersos de Israel aos gentios que se achegam a Cristo, por meio do evangelho. Jesus Cristo falou, por parábola, que haveria de reunir outras ovelhas que não do aprisco de Israel: “Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também, me convém agregar estas e elas ouvirão a minha voz e haverá um rebanho e um Pastor” (Jo 10:16).

Desde Moisés, Deus já havia alertado ao povo de Israel que haveria de o por em ciúmes com os gentios:

“Mas, digo: Porventura Israel não o soube? Primeiramente diz Moisés: Eu vos porei em ciúmes com aqueles que não são povo, Com gente insensata vos provocarei à ira” (Rm 10:19).

 

Punição

“Vós, todos os animais do campo, todos os animais dos bosques, vinde comer” (Is 56:9).

Deus faz um convite a todos os animais do campo e das florestas, para reunirem-se para comer. Que animais são estes? O que será oferecido como alimento?

Está é mais uma profecia que se utiliza de uma parábola, para falar da punição que Deus dará a Israel, por desviarem-se da aliança com Deus.

Os animais do campo e do bosque são figuras que remetem às nações vizinhas, que são convidadas por Deus, para invadirem Israel. Esses animais são apresentados em outras passagens bíblicas como bestas do campo.

“Arvorai a bandeira rumo a Sião, fugi, não vos detenhais; porque eu trago do norte um mal, e uma grande destruição. Já um leão subiu da sua ramada, e um destruidor dos gentios; ele já partiu, e saiu do seu lugar para fazer da tua terra uma desolação, a fim de que as tuas cidades sejam destruídas, e ninguém habite nelas” (Jr 4:6-7);

“Irei aos grandes e falarei com eles; porque eles sabem o caminho do SENHOR, o juízo do seu Deus; mas estes, juntamente, quebraram o jugo e romperam as ataduras.Por isso um leão do bosque os feriu, um lobo dos desertos os assolará; um leopardo vigia contra as suas cidades; qualquer que sair delas será despedaçado; porque as suas transgressões se avolumam, multiplicaram-se as suas apostasias” (Jr 5:5-6);

“Depois eles se fartaram em proporção do seu pasto; estando fartos, ensoberbeceu-se o seu coração, por isso se esqueceram de mim. Serei, pois, para eles como leão; como leopardo espiarei no caminho. Como ursa roubada dos seus filhos, os encontrarei, e lhes romperei as teias do seu coração, e como leão ali os devorarei; as feras do campo os despedaçarão. Para a tua perda, ó Israel, te rebelaste contra mim, a saber, contra o teu ajudador” (Os 13:6-9).

Deus coloca a nação de Israel como banquete às nações vizinhas e faz o convite: vinde comer!

Deus já havia predito, por intermédio do profeta Moisés que, caso o povo de Israel se desviasse da Aliança com Deus, seria perseguido pelos inimigos, o que seria um sinal da parte de Deus, para que se arrependessem (Dt 28:45-46; Jr 18:11), uma prova de que Deus repreende e castiga a todos os que ama (Hb 12:6; Is 1:5):

“O SENHOR levantará contra ti uma nação de longe, da extremidade da terra, que voa como a águia, nação cuja língua não entenderás; Nação feroz de rosto, que não respeitará o rosto do velho, nem se apiedará do moço” (Dt 28:49-50).

“Todos os seus atalaias são cegos, nada sabem; todos são cães mudos, não podem ladrar; andam adormecidos, estão deitados e gostam do sono. E estes cães são gulosos, não se podem fartar; e eles são pastores que nada compreendem; todos eles se tornam para o seu caminho, cada um para a sua ganância, cada um por sua parte. Vinde, dizem, trarei vinho, e beberemos bebida forte; e o dia de amanhã será como este, ainda muito mais abundante” (Is 56:10-12).

Apesar do convite de Deus às nações inimigas (bestas) para virem sobre o seu povo, os profetas (atalaias) de Israel estavam como que cegos, pois desconheciam os desígnios do Senhor (Ez 33:7).

Uma atalaia exerce a função de segurança, vigilante, porém, como é possível um cego exercer tal função? Por não estarem aptos a desempenhar a função, os atalaias de Israel estava mais para um laço de caçador de aves: “Efraim era o vigia com o meu Deus, mas o profeta é como um laço de caçador de aves em todos os seus caminhos e ódio na casa do seu Deus” (Os 9:8).

Outra descrição dos profetas de Israel é a de cães mudos, ou seja, cães que não podem dar o aviso (ladrar). Estão como que adormecidos, deitados e se deleitam em dormir. São cães gulosos, que não se fartam da gordura do povo, mas que não desempenham o seu papel de proteção (Sl 53:4).

Os líderes de Israel são descritos como pastores, mas que nada compreendem: “Eu, porém, disse: Deveras estes são pobres; são loucos, pois não sabem o caminho do SENHOR, nem o juízo do seu Deus” (Jr 5:4; Mt 13:13; Jr 10:21; Jr 50:6; Ez 34:10). Cada pastor desviava para o seu próprio caminho, ou seja, após o seu coração enganoso: “Estendi as minhas mãos o dia todo a um povo rebelde, que anda por caminho, que não é bom, após os seus pensamentos” (Is 65:2).

“O Senhor enviou uma palavra a Jacó e ela caiu em Israel.E todo este povo o saberá, Efraim e os moradores de Samaria, que em soberba e altivez de coração, dizem:Os tijolos caíram, mas, com cantaria tornaremos a edificar; cortaram-se os sicômoros, mas, em cedros as mudaremos.Portanto, o SENHOR suscitará, contra ele, os adversários de Rezim, e juntará os seus inimigos. Pela frente virão os sírios e por detrás os filisteus, e devorarão a Israel à boca escancarada; e nem, com tudo isso, cessou a sua ira, mas, ainda, está estendida a sua mão.Todavia este povo não se voltou para quem o feria, nem buscou ao SENHOR dos Exércitos. Assim o SENHOR cortará de Israel a cabeça e a cauda, o ramo e o junco, num mesmo dia (O ancião e o homem de respeito é a cabeça; e o profeta que ensina a falsidade é a cauda).Porque os guias deste povo são enganadores e os que por eles são guiados são destruídos” (Is 9:8-16).

Enquanto Deus está convidando as ‘bestas’ do campo e das florestas para atacar o povo de Israel, os líderes de Israel somente convidavam o povo para se embriagarem no vinho colhido dos campos de Sodoma e Gomorra.

“Ouvi a palavra do SENHOR, vós poderosos de Sodoma; dai ouvidos à lei do nosso Deus, ó povo de Gomorra” (Is 1:10);

“E toda a sua terra abrasada com enxofre e sal, de sorte que não será semeada, nada produzirá, nem nela crescerá erva alguma; assim como foi a destruição de Sodoma e de Gomorra, de Admá e de Zeboim, que o SENHOR destruiu na sua ira e no seu furor.E todas as nações dirão: Por que fez o SENHOR assim com esta terra? Qual foi a causa do furor desta tão grande ira? Então se dirá: Porquanto deixaram a aliança do SENHOR Deus de seus pais, que com eles tinha feito, quando os tirou do Egito” (Dt 29:23-25);

“Porque a sua vinha é a vinha de Sodoma e dos campos de Gomorra; as suas uvas são uvas venenosas, cachos amargos têm” (Dt 32:32).

A doutrina dos lideres de Israel se assemelha ao vinho que entorpece os sentidos, de modo que, quem é participante da doutrina deles, sempre está confiante em um futuro melhor, embora a palavra de Deus não seja para paz.

 

Correção ortográfica: Carlos Gasparotto

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O Livro de Jó – A artimanha do acusador

Ao tirar os bens, a família e a saúde de Jó, a estratégia de Satanás era fazer com que Jó, em defesa da sua integridade, substituísse a genuína justificação de Deus, que se alcança pela confiança na palavra de Deus, por uma justiça humana, baseada na moral e no comportamento ilibado do patriarca.


A artimanha do acusador

Parte V

Jó havia alcançado de Deus a condição de justo, pela confiança que depositava em Deus, não pela sua integridade moral.

Através do exarado nas Escrituras, sabemos que Deus só justifica o homem quando este confia na sua palavra. Por isso, é dito que Abraão creu em Deus e isso lhe foi imputado como justiça (Gn 15:6).

A justificação de Jó se deu, assim, como a justificação de Abraão, pois, este cria em Deus, que prometeu que o patriarca de Ur dos Caldeus seria pai de muitas nações e, aquele, por crer que o Seu Redentor vivia.

Por causa da confiança que Jó nutria em Deus, Satanás nada podia contra Jó, mesmo quando tirou todos os seus bens. Observe a maneira como o escritor do Livro de Jó narra o seu comportamento, quando ele perdeu tudo:

“Em tudo isso Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma!”

Quando Jó perdeu a sua saúde, o autor também deixou consignado:

“Em tudo isso não pecou Jó com os seus lábios!”

Satanás sabia que Jó não pecaria com os seus lábios, mesmo com a perda repentina dos seus bens, filhos e saúde, pois este era o testemunho do próprio Criador.

Os eventos que sucederam, repentinamente, na vida de Jó, foram fomentados por Satanás, com a única finalidade de reunir os amigos de Jó para uma visita, quando, efetivamente, iniciaria o principal ataque do adversário.

Todo o sofrimento imposto sobre Jó tinha, por objetivo, estabelecer um equivoco, quanto à verdadeira condição de Jó, diante de Deus.  Com base no julgamento que os amigos de Jó fariam, sobre a condição dele diante de Deus, atacariam, deliberadamente, a integridade que, por sua vez, se defenderia a si mesmo.

A integridade, a retidão, a honra e a reputação eram o maior patrimônio de Jó, tanto que ele compara a sua justiça com um manto e um diadema (Jo 29:14). Atingir os bens, a família e a saúde de Jó, só foi um meio de Satanás alcançar um fim: atacar o que era mais caro a Jó!

Sem se aperceberem, os amigos de Jó estavam a serviço de Satanás, lançando setas e armando laços, que levariam Jó a justificar-se a si mesmo. A finalidade de Satanás era fazer com que Jó lançasse mão de uma justiça própria, agarrando-se à sua integridade, em detrimento da justiça de Deus.

Ao tirar os bens, a família e a saúde de Jó, a estratégia de Satanás era fazer com que Jó, em defesa da sua integridade, substituísse a genuína justificação de Deus, que se alcança pela confiança na palavra de Deus, por uma justiça humana, baseada na moral e no comportamento ilibado do patriarca.

Acima da integridade e da retidão de Jó, está a justiça de Deus, que o homem só alcança, por meio da palavra de Deus. A confiança de Jó, expressa nas seguintes palavras: – “Porque eu sei que o meu Redentor vive e que, por fim, se levantará sobre a terra” (Jó 19:25), que nos remete à pessoa de Cristo – o autor e consumador da fé – demonstra que, assim como o crente Abraão (Gl 3:6), a sua crença é que era imputada por justiça, não a sua integridade e retidão.

Assim como Deus revelou a Abraão que, no Seu Descendente, seriam benditas todas as famílias da terra (Gl 3:16), Deus havia revelado a Jó que o Seu Redentor haveria de andar na terra dos viventes e, por ele, confessar: – “…eu sei …”, foi declarado justo por Deus, ou seja, justificado (Jo 1:1 e 2:3).

Satanás não atribuiu, diante de Deus, nenhum erro a Jó! E por que não o fez? Porque Satanás não podia fazê-lo, pois Deus mesmo declarou Jó justo. Sendo, pois, justificado por Deus, nenhuma condenação pesava contra Jó (Rm 8:1). Assim como os crentes em Cristo estão livres de toda condenação, por andarem segundo o espírito (evangelho), também, não pesava nenhuma condenação sobre Jó, por ele andar segundo a premissa de que o seu Redentor vivia.

Satanás alegou que a devoção de Jó era em função dos bens e da família que possuía, logo, ele não tinha opção, a não ser reverenciar a Deus. Satanás não acusa Jó e nem ataca o Criador, antes, faz alegações de que havia certa ‘cumplicidade’ entre Deus e Jó.

Esse argumento de Satanás, visava reunir os elementos necessários para um ataque ardiloso e não somente retirar os bens e a saúde de Jó. Satanás sabia que a vida de um homem não consiste na abundancia de bens e que o homem vive da palavra que sai da boca de Deus: “E disse-lhes: Acautelai-vos e guardai-vos da avareza; porque a vida de qualquer não consiste na abundância do que possui” (Lc 12:15); “…para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” (Dt 8:3).

As ciladas de Satanás são engendradas, a partir da ignorância do homem, acerca das coisas de Deus. Um dos elementos essenciais ao ataque de Satanás estava na repentina retirada dos bens, família e saúde de Jó, criando uma falsa aparência acerca da condição de Jó diante de Deus: “Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça” (Jo 7:24; Jo 8:15).

Satanás atuou em cima da ignorância dos amigos de Jó, que acreditavam que a justiça de Deus era retributiva, tendo por base a moral e o comportamento humano e, por isso, julgaram, falaram e acusaram, segundo os padrões humanos, não segundo a reta justiça.

“Lembra-te agora qual é o inocente que jamais pereceu? E onde foram os sinceros destruídos? Segundo eu tenho visto, os que lavram iniquidade e semeiam mal, segam o mesmo” (Jó 4:7-8).

Satanás não deixou de atuar e nem desapareceu, logo após tirar os bens, a família e a saúde de Jó, como se satisfizesse em infligir sofrimento atroz a Jó. Restava algo de maior importância para Satanás roubar: a salvação:

“Eis que venho sem demora; guarda o que tens, para que ninguém tome a tua coroa” (Ap 3:11).

Além de armar a cilada, Satanás animou a discussão dos quatro amigos, ao, em sonho, fazer algumas perguntas despretensiosas acerca da justiça de Deus, que Elifaz contou logo no início da discussão (Jó 4:15-17). Em certo ponto da discussão, Jó desconfia da irritabilidade dos seus amigos ao acusá-lo (Jó 16:3).

Trazer os amigos foi uma tática, pois Satanás esperava que Jó se defendesse das acusações e das provocações de seus amigos. Durante o debate, Jó percebe que havia algo de errado na animosidade de seus amigos, no entanto, só no último discurso ele questionou:

“E de quem é o espírito que saiu de ti?” (Jó 26.4)

Satanás só deixou de atuar quando viu que Jó está prestes a lançar mão do pecado de rejeitar a justiça de Deus, agarrando-se à sua integridade. Quando faz o seu discurso, evidenciando o seu ‘eu’: Eu livrava os pobres, eu fazia rejubilar o coração das viúvas, eu era o olho do cego, etc., Jó esteve próximo da ruina (Jó 29:12-17). Quando propôs que Deus o pesasse em uma balança fiel, e assim, aferisse a sua integridade, quase os pés do patriarca se resvalaram (Jó 31:6).

Como nem a morte, nem os anjos ou, alguma outra criatura, podem separar o homem do amor de Deus (Rm 8:38 -39), a cilada de Satanás consiste em fazer com que o homem rejeite a justiça de Deus. Como? Naqueles que tem moral elevado, Satanás busca meios de evidenciá-lo, em detrimento da justiça de Deus. Já os de comportamento reprovável, Satanás fomenta o sentimento de que não são merecedores da misericórdia divina.

Evidenciar no coração do homem uma justiça própria, através de um sentimento de que é merecedor de boas dádivas, é uma das artimanhas que Satanás se utiliza para fazer com que o homem se afaste de Deus. Estabelecer no coração do homem um sentimento de comiseração pelas falhas, é outra estratégia de Satanás para fazer com que o homem rejeite o perdão de Deus.

Satanás nada tem, portanto, nada pode oferecer ao homem, entretanto, ele utiliza a tática de fazer o homem lançar mão, antecipadamente, do que lhe foi reservado. Foi dessa maneira com Eva. Deus havia reservado o conhecimento do bem e do mal para o homem, para quando alcançasse a semelhança do Altíssimo, mas Satanás enganou Eva que, antecipou-se e comeu do fruto. Eva, juntamente com Adão, alcançou o conhecimento do bem e do mal, mas perdeu, junto com o seu marido, a comunhão com o Criador.

Satanás usou essa mesma tática com Jesus, a quem Deus prometeu as nações por herança e os fins da terra por possessão (Sl 2:8), quando prometeu dar os reinos do mundo, se prostrado o adorasse (Mt 4:8). Os reinos do mundo pertencem ao Pai e ao seu Filho, portanto, Satanás ofereceu o que não tinha:

“E o reino, o domínio e a majestade dos reinos, debaixo de todo o céu, serão dados ao povo dos santos do Altíssimo; o seu reino será um reino eterno e todos os domínios o servirão e lhe obedecerão” (Dn 7:27).

Outra artimanha de Satanás engendrada, em função da falta de conhecimento do homem, está em fomentar a busca por algo que já possui. Ao crer em Cristo, o crente é circuncidado com a circuncisão de Cristo, que consiste em lançar fora toda a carne,  não somente o prepúcio do corpo (Cl 2:11). Satanás, por sua vez, oferece a circuncisão do prepúcio da carne, como meio de se alcançar a salvação (At 15:1).

Em nossos dias, uma das artimanhas de Satanás consiste em negar a eficácia do evangelho, através de um evangelho de aparências, firmado em preceitos de homens:

“Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te” (2 Tm 3:5; Cl 2:22-23).

O homem de sã consciência não rejeita a justiça de Deus, simplesmente, dizendo ‘não’. Na verdade, Satanás utiliza-se de homens que não estão ligados à cabeça, que é Cristo (Cl 2:19), engana os incautos com palavras persuasivas, segundo os rudimentos do mundo e as suas vãs filosofias.

As acusações ferrenhas dos amigos de Jó evidenciaram, no coração, a sua integridade, o que levou Jó a se comparar aos demais homens, a ponto de achar que era merecedor de uma sorte melhor, em função da sua integridade (Jó 30:26).

Se Jó continuasse só e na cinza, sem a visita de seus amigos, não teria a sua própria justiça evidenciada. Vieram os seus amigos, julgando segundo a aparência, o que despertou em Jó a necessidade de provar a sua integridade.

“À minha justiça me apegarei e não a largarei; não me reprovará o meu coração, em toda a minha vida” (Jó 27:6).

Se tivesse desprezado a afronta de ser taxado de pecador, Jó não se agarraria à sua integridade e nem acusaria a Deus, de ter negado justiça a ele (Jó 27:1). Cristo, sendo justo, deu-nos exemplo, ao desprezar a afronta:

“Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta e assentou-se à destra do trono de Deus” (Hb 12:2).

 

Não podemos ignorar os ardis de Satanás

Além de conhecer a pessoa de Jó, por observá-lo, constantemente, Satanás conhece os atributos de Deus. O conhecimento que detém, decorrente da sua constante observação, é a fonte do poder que dá força à atuação de Satanás.

Satanás desejava separar Jó da comunhão com Deus, por isso, escolheu um ponto vulnerável, a fim de desferir o seu ataque. Sabedor de que Jó prezava mais a sua integridade do que a sua própria vida e bens, e que tanto Jó quanto os seus amigos não conheciam plenamente, como se dá a justificação, Satanás estava de posse dos ingredientes necessários para fomentar a queda de Jó.

No ataque, Satanás, geralmente, se utiliza daquilo que o homem mais preza nesta vida, para fazer o homem demover da sua esperança e de Deus e, por conseguinte, abrir mão da salvação.

  • Era de conhecimento de Satanás que Jó amava a Deus e que a sua integridade ocupava uma posição de destaque em seu coração;
  • Ele, também, sabia que o conhecimento que Jó detinha, a respeito da justiça de Deus, era distorcido;
  • Satanás sabia da religiosidade dos amigos de Jó, que eram propensos a julgar pela aparência.

Através do conhecimento que possuía, simplesmente, por observar continuamente a Jó, Satanás reuniu os elementos necessários para montar uma estratégia, a fim de tentar derrubar a Jó. A brecha para a ação de Satanás estava na falta de conhecimento dos quatro amigos, acerca das coisas de Deus!

Todos os elementos que Satanás utilizou contra Jó, também foram utilizados contra Adão e Eva.

Eva detinha plena liberdade, por ter pleno acesso à árvore do conhecimento do bem e do mal. A liberdade plena foi dada pelo Espírito de Deus, que disse: “De toda árvore do jardim poderás comer livremente…” (Gn 2:16).

O livre arbítrio é um dom irrevogável que Deus deu aos homens, pela liberdade de decidir-se por obedecer a Deus ou, não.

Através de uma pergunta, aparentemente, inocente, Satanás apresentou-se a Eva, evidenciando, astutamente, uma dura restrição: “É assim que Deus disse: ‘Não comereis de toda a árvore do Jardim?’” (Gn 3:1).

Deus falou ao homem, dando-lhe plena liberdade, e Satanás, através de uma pergunta,  evidencia uma proibição total. O aparente desconhecimento de Satanás, acerca do que Deus disse, deu confiança à mulher, de modo que ela passou a ensiná-lo.

Satanás introduz a troca, a negar o que Deus disse. O homem tinha plena liberdade e Satanás evidenciou a possibilidade ser como Deus, conhecendo o bem e o mal. A comunhão com Deus é a essência da liberdade e o homem abriu mão da liberdade, para ter conhecimento do bem e do mal.

Após comer o fruto, o homem adquiriu conhecimento do bem e do mal, tornando-se como Deus, mas perdeu a comunhão, por conseguinte, a liberdade. Satanás enganou o homem, tirando a vida decorrente da comunhão com o Criador, substituindo pelo conhecimento, que nada agrega, se não tiver comunhão com Deus.

O homem deixou de confiar no aviso de Deus: “… porque no dia em que comeres do fruto, certamente morrerás”. Rejeitar a palavra de Deus é o maior erro que o homem pode incorrer. Deixar de crer em seu Senhor, para acreditar em seus próprios sentimentos e percepções.

A mulher viu que a árvore era boa para comer, agradável aos olhos e desejável para dar entendimento e deixou de confiar em Deus, para confiar em seus sentidos, sentimentos e desejos.

Na história de Jó são demonstrados todos os elementos das artimanhas satânicas, que é fazer o homem substituir o que é concedido por Deus, por algo que o homem tem em alta conta.

O apóstolo Paulo alerta, ao argumentar que, para os cristãos não serem vencidos, que não podiam ignorar os seus ardis. Quem ignora, desconhece ou não compreende a ação de Satanás, estará fadado à derrota.

A intenção de Satanás, era fazer Jó atribuir a Deus uma falta (Jó 1:22), tanto que uma das notícias das calamidades chegou a Jó como sendo fogo de Deus, que havia atingido os seus servos e gados.

Não seria injustiça da parte de Deus deixar uma pessoa correta sofrer? Satanás sabia que Jó não se deixaria levar por um argumento tão simplório, mas ele também sabia que o ataque dos amigos de Jó poderia minar a sua confiança em Deus, pois, para defender-se, teria que lançar mão de uma justiça própria:

“Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira, porque está escrito: Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor” (Rm 12:19).

Satanás procurou minar a confiança que Jó nutria em Deus, através das considerações implacáveis dos seus amigos.

“As tuas palavras firmaram os que tropeçavam e os joelhos desfalecentes tens fortalecido. Mas agora, que se trata de ti, te enfadas; e tocando-te a ti, te perturbas” (Jó 4:4-5)

Satanás arquitetou uma armadilha para fazer Jó se sentir desamparado por Deus, e assim, em sua defesa, recorreria à sua integridade, negligenciando a justiça de Deus.

Após compreender do que trata o Livro de Jó, analisaremos, detalhadamente, as queixas de Jó e as recriminações dos seus amigos.

 

Continua….

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O Livro de Jó – Prefácio

Em função da verdade incrustada nas páginas desse livro tão magnifico, esta é a minha oração: que o Senhor continue a se revelar, através da pessoa bendita do seu Filho Jesus Cristo, e que possamos compreender plenamente o seu propósito e graça, pois, o que de Deus se pode conhecer, já foi revelado em graça e bondade, através da manifestação em carne de Cristo Jesus, nosso Senhor. Amém!


Livro de Jó: Objetivo

Parte I

Prefácio

O Livro de Jó compõe o Cânon sagrado, juntamente com os Livros de Provérbios e de Eclesiastes, conjunto que se nomeia Livros de Sabedoria.

Do ponto de vista literário muitos autores classificam o Livro de Jó como drama e, em função dos diálogos, monólogos, provérbios e ditados que contém, interpretam o livro do ponto de vista das experiências humanas.

Não se pode negar que o Livro de Jó é de riqueza incalculável do ponto de vista literário, mas, também, pelo seu valor como poesia, sem falar do seu conteúdo histórico. Entretanto, o tesouro que há no Livro de Jó não é de ordem literária, filosófica, histórica, sociológica e nem psicológica.

A finalidade deste ensaio é trazer a lume uma questão que passa despercebida por muitos leitores do Livro de Jó:

– “Como o pecador pode ser justo diante de Deus?”

Na sua grande maioria, os livros e estudos acerca do Livro de Jó, destaca o sofrimento do patriarca, o que fomenta inúmeras discussões de viés filosófico, antropológico e, até mesmo, ontológico.

Poucos se apercebem de que a temática do Livro de Jó não é o sofrimento. Poucos conseguem visualizar, que o conteúdo do Livro de Jó dá corpo a uma parábola, através de uma história enigmática e que demanda interpretação.

O Livro de Jó funciona como um espelho, ao refletir que a justiça do homem mais íntegro que já viveu, está aquém da justiça de Deus. A integridade de Jó estabelece um contraste que evidencia a justiça de Deus, de modo que o sofrimento torna-se mero pano de fundo para revelar uma verdade imprescindível ao homem.

A finalidade deste ensaio, não necessariamente nesta ordem, é:

  • Evidenciar a justiça de Deus, em contraste com as qualidades de Jó;
  • Identificar o motivo pelo qual Jó foi escolhido como protagonista dessa história;
  • Trazer a lume o papel desempenhado pelos amigos de Jó e a visão superficial que tinham da justiça de Deus;
  • Extrair alguns elementos pertinentes à atuação de Satanás e como se dá a sua investida contra os servos de Deus;
  • Demonstrar a superioridade do conhecimento de Eliú, em relação aos outros amigos de Jó;
  • Explicar a diferença entre a Justiça Divina e a “justiça” humana;
  • Esclarecer os motivos pelos quais Jó foi repreendido por Deus e qual a lição que precisamos aprender, através da vida do seu servo!

Em função da verdade incrustrada nas páginas desse livro tão magnifico, esta é a minha oração: que o Senhor continue a se revelar, através da pessoa bendita do seu Filho Jesus Cristo, e que possamos compreender plenamente o seu propósito e graça, pois, o que de Deus se pode conhecer, já foi revelado em graça e bondade, através da manifestação em carne de Cristo Jesus, nosso Senhor. Amém!

 

Notas do autor.

 

Qual o objetivo do livro de Jó?

 

O livro

O Livro de Jó é classificado como poético, assim como, os cinco Livros dos Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cantares de Salomão e Lamentações. Os eruditos classificam, também, o Livro de Jó como Livro de Sabedoria, assim como o Livro de Provérbios e de Eclesiastes.

Por que classificam o Livro de Jó como poético e de sabedoria? Por causa da estrutura dos diálogos entre Jó e seus amigos, construída através de muitos ‘paralelismos’.

Por paralelismo, o que dá sustentabilidade à poesia hebraica, temos a valoração do pensamento, através da ênfase, da repetição, do contraste e da elaboração de ideias, sem levar em conta elementos como ritmos, rimas e métricas, elementos essenciais às poesias ocidentais.

Como a estrutura da poesia hebraica repousa no desenvolvimento de ideias, a tradução do texto para outras línguas permite que se tenha maior precisão e preservação da ideia do texto, o que não ocorre nas poesias ocidentais pela impossibilidade de se transpor ritmo, rima e métrica para qualquer tradução.

O poema ‘Canção do exílio’, de Gonçalves Dias, por exemplo, é primoroso pelo ritmo, rima e métrica, de modo que a melodia, pelo encadeamento do ritmo, como a rima, permite descrever a beleza da terra do autor com leveza ímpar, do ponto de vista patriótico e nacionalista.

Observe:

“Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá”.

Dias, Gonçalves, Canção do exílio, De Primeiros cantos (1847).

A versão em Inglês, fica assim:

“My land has palm trees
Where the thrush sings.
The birds that sing here
Do not sing as they do there”

O ritmo e a rima que dá graciosidade ao texto se perdem na tradução e somente as expressões figurativas permanecem intocadas.

Já, o paralelismo, a base da poesia hebraica, trabalha analogias através de comparações, de modo a fazer com que o leitor conclua uma ideia por deduções simples, induzidas por figuras de linguagem, como personificações, hipérboles, metáforas, símiles e aliterações.

Destacamos alguns tipos de paralelismos importantes para exemplificar:

O paralelismo sintético (ou, formal, construtivo) trabalha um pensamento na primeira linha do poema e a segunda linha desenvolve e enriquece a ideia que está na primeira linha, que compõe a estrofe, através de uma relação de causa e efeito. Observe:

“Os céus declaram a glória de Deus e

o firmamento anuncia a obra das suas mãos”  (Salmo 19:1)

O paralelismo sintético divide-se em outros três, a saber:

  1. Conclusão: “Eu, porém, ungi o meu Rei sobre o meu santo monte de Sião” (Salmos 2:6);
  2. Comparação: “É melhor confiar no SENHOR, do que confiar nos príncipes” (Salmos 118:9) e;
  3. Razão: “Beijai o Filho, para que se não ire, e pereçais no caminho, quando em breve se acender a sua ira; bem-aventurados todos aqueles que nele confiam” (Salmos 2:12).

Por outro lado, o paralelismo antitético trabalha um pensamento em duas linhas, através da oposição de ideias, onde a segunda linha do poema expressa uma ideia oposta à ideia da primeira linha:

“Porque o SENHOR conhece o caminho dos justos;

porém o caminho dos ímpios perecerá” (Salmos 1:6)

Já, o paralelismo sinonímico trabalha uma ideia expressa duas vezes, com termos diferentes, em duas linhas:

“Levanta o pobre do pó e

do monturo levanta o necessitado” (Salmos 113:7)

Ter domínio das peculiaridades do paralelismo, na composição da poesia hebraica, muito auxilia na leitura e na análise do Livro de Jó.

O Livro de Jó, também, é classificado como Livro de Sabedoria, porque os eruditos entendem que o livro trata de questões práticas, pertinentes à existência humana, tais como fatalismo, materialismo, espiritualidade, sofrimento, moralidade, etc.

Outra questão acadêmica que orbita o Livro de Jó, é acerca da sua autoria e possível data em que foi escrito. Não há uma resposta segura para ambos e quando se parte para o campo das especulações, sobram opiniões! Aqui não opinaremos.

O significado do nome ‘Jó’, do hebraico בוֹיּאּ, transliterado “Iyyõb”, provavelmente, deriva de uma raiz que significa ‘voltar’ ou, ‘arrepender-se’ ou, o ‘perseguido’, do hebraico ‘ãyeb’.

Podemos traçar o seguinte esboço do Livro de Jó:

  1. Jó é provado e o sofrimento passa a ser o pano de fundo da história: (Jó 1:1 a 2:13);
  2. Três amigos de Jó procuram confortá-lo, porém, diante da reclamação de Jó, inicia-se um ciclo de discursos, em defesa de Deus, apontando a condição de Jó como resultado dos seus erros (Jó 3:1 a 31:40);
    1. Lamentação de Jó (Jó 3:1-26);
    2. Posicionamento de Elifaz (Jó 4:1 a 5:27) e réplica de Jó (Jó 6:1 a 7:21);
    3. Posicionamento de Bildade (Jó 8:1-22) e réplica de Jó (Jó 9:1 a 10:22);
    4. Posicionamento de Zofar (Jó 11:1-20) e réplica de Jó (Jó 12:1 a 14:22).
    5. Posicionamento de Elifaz (Jó 15:1-35) e réplica de Jó (Jó 16:1 a 17:16);
    6. Posicionamento de Bildade (Jó 18:1-21) e réplica de Jó (Jó 19:1-29);
    7. Posicionamento de Zofar (Jó 20:1-29) e réplica de Jó (Jó 21:1-34).
    8. Posicionamento de Elifaz (Jó 22:1-30)  e  réplica de Jó (Jó 23:1 a 24:25);
    9. Posicionamento de Bildade (Jó 25:1-6) e réplica de Jó (Jó 26:1 a 31:40).
  3. Exposição de Eliú (Jó 32:1 a 37:24);
  4. Perguntas de Deus (Jó 38:1 a 42:6);
  5. Epílogo (Jó 42:7-17).

Por que o justo sofre?

Ao pesquisar vários livros e comentários sobre o livro de Jó, as considerações sempre orbitam o sofrimento e, quase unanimemente, dão como tema do livro o sofrimento do justo[1].

Os comentaristas, geralmente, destacam, em letras garrafais, a seguinte pergunta:

“Por que o justo sofre?”

As considerações dos eruditos, que giram sobre o sofrimento, são diversas e, dentre elas, destacamos as principais:

  • Deus permitiu o sofrimento de Jó para justificar-se diante da acusação de Satanás;
  • A providência e o governo ético de Deus frente ao problema do sofrimento de um homem justo;
  • Deus permite o sofrimento do justo como meio de purifica-lo[2];
  • A mente do homem é muito ínfima, para que possa entender os motivos de Deus no sofrimento do justo;
  • Deus tinha plena confiança de que Jó sairia da provação, plenamente aprovado;
  • Deus derrotou Satanás, através do sofrimento de Jó;
  • Jó foi o homem mais integro que atendeu aos altos reclames da justiça divina, etc.

Se o tema do Livro de Jó é o sofrimento do justo[3], por inferência, se faz necessário concluir que o sofrimento do ímpio é plenamente aceitável. Através da leitura do Livro de Jó, somos levados a entender que o ímpio deve sofrer?

Ao estudar o Livro de Jó, desconsiderei as abordagens teóricas que constam das Bíblias de Estudos e dos livros de teologia. Li e reli diversas vezes o Livro de Jó, para chegar à seguinte conclusão: é impossível achar no Livro de Jó uma resposta para o sofrimento do justo, vez que o sofrimento ou, a problemática dos infortúnios que acometem o justo, não é o tema do livro.

Apesar do consenso de que o sofrimento do justo é o tema do Livro de Jó, não há entre os acadêmicos, uma resposta plausível que apresente um motivo[4], que dê resposta à pergunta: – ‘Por que o justo sofre?’[5].

Na verdade, o Livro de Jó não busca dar uma resposta à questão do sofrimento dos justos e nem foi escrito com o fito de apresentar uma teoria geral do sofrimento da humanidade[6].

O mote do Livro de Jó é pedagógico e o sofrimento é somente o pano de fundo, pois o tema do livro decorre de uma verdade imprescindível ao homem: a justiça do homem está aquém da justiça de Deus.

O propósito do livro é revelar uma verdade superior à ideia da problemática do sofrimento: como se dá a justificação do homem. O sofrimento é um dos elementos que fomentou os questionamentos, acerca da justiça de Deus e de que modo o homem poderia ser justo diante d’Ele.

Caro leitor, não quero desestimular a leitura do Livro de Jó, como um geólogo que desencoraja um visionário a não procurar petróleo em um terreno onde se suspeita que não haja o precioso ouro negro, mas deixa de avisar que há diamantes de grande valor naquela terra.

O nosso objetivo é que o leitor encontre a essência do Livro de Jó e, para isso, é necessário que o objeto seja substituído, para que o leitor tenha como encontrar o grande tesouro incrustado nessa história.

O leitor da Bíblia já observou que a história de Jó descreve alguém que sobrepuja qualquer ideário humano de justiça? Que a conduta, o caráter, a honradez e as práticas de Jó, estão muito além das nossas práticas cotidianas de justiça?

Ora, se Jó, de posse de um caráter que, a nosso ver, beira a perfeição; se as ações cotidianas do patriarca testemunhavam a favor da sua retidão e integridade[7] e; se Jó, ao ver o Criador, sentiu-se abominável e arrependido, imagine se eu ou você contemplássemos a Deus?

“Com os ouvidos eu ouvira falar de ti, mas agora te veem os meus olhos. Por isso me abomino e me arrependo no pó e na cinza” (Jó 42:5-6).

Após abrir mão de considerar o sofrimento dos justos como tema do Livro de Jó, fiquei sem um norte. Fez-se necessário fincar uma estaca, marcando um ponto ‘zero’, e voltar às minhas considerações e à releitura do livro, considerando os demais livros da Bíblia. Foi quando me deparei com o seguinte verso:

“Porque tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que, pela paciência e consolação das Escrituras, tenhamos esperança”. (Romanos 15:4)

Se tudo o que foi escrito, anteriormente, tem o objetivo de nos ensinar, o que Deus quer ensinar, através do Livro de Jó? O que há no livro de Jó, que nos concede esperança? Há ‘paciência’ e ‘consolação’ na história de Jó?

Tive que retornar aos evangelhos, às epístolas, aos profetas e à lei e, se o leitor deseja desvendar o objetivo do Livro de Jó, venha comigo. É essencial uma digressão[8] para compreender o ensinamento que está incrustado na trama de Jó, da mesma forma que é necessário garimpar o ouro oculto nas rochas, no seio da terra.

 

O mal debaixo do Sol

Não encontraremos, na Bíblia, uma resposta à pergunta: – ‘Porque o justo sofre?’, no entanto, ela nos informa que há um mal, em relação a tudo o que se faz debaixo do sol: tudo sucede, de igual forma, a todos!

“Tudo sucede, igualmente, a todos; o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao puro, como ao impuro; assim ao que sacrifica, como ao que não sacrifica; assim, ao bom, como ao pecador; ao que jura, como ao que teme o juramento. Este é o mal que há entre tudo quanto se faz debaixo do sol; a todos sucede o mesmo (Eclesiastes 9:2-3).

O Pregador aponta que há um mal em tudo o que se faz neste mundo: tudo sucede, igualmente, a todos. Os eventos neste mundo, quer sejam bons, quer sejam maus, não tem preferência em atingir a justos ou ímpios!

Se, somente, os justos sofressem, haveria motivo para indagar acerca do sofrimento dos justos. Semelhantemente, se tão somente os ímpios sofressem[9], poderíamos dissertar a respeito. Mas, como tudo sucede, igualmente, a todos, um mal que há entre tudo quanto se faz debaixo do sol, torna-se evidente que não há motivo para questionar o sofrimento, quando acomete os justos.

Mesmo os justos, tropeçam em muitas coisas (Tg 3:2) e se queixam dos seus próprios erros (Lm 3:39). O trabalho e a dor são pertinentes ao mundo dos homens, para exercitá-los, portanto, não há motivo para questionar acerca do sofrimento dos justos. “Tenho visto o trabalho que Deus deu aos filhos dos homens, para com ele os exercitar” (Ec 3:10;  Gn 3:17).

O Pregador dá um conselho aos homens, quer sejam justos, quer ímpios, e apresenta o motivo pelo qual há o dia da adversidade: para que o homem nada descubra do que há de vir depois dele.

“No dia da prosperidade goza do bem, mas, no dia da adversidade, considera; porque, também, Deus fez a este, em oposição àquele, para que o homem nada descubra do que há de vir depois dele” (Ec 7:14).

Continua…

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1] “Este livro trata com o problema teórico da dor na vida dos fiéis. Procura responder à pergunta: Por que os justos sofrem? Essa resposta chega de forma tríplice: Deus merece nosso amor à parte das bênçãos que concede; 2) Deus pode permitir o sofrimento como meio de purificar e fortalecer a alma em piedade; 3) os pensamentos e os caminhos de Deus são movidos por considerações vastas demais para a mente fraca do homem compreender, já que o homem não pode ver os grandes assuntos da vida com a mesma visão ampla do onipotente”. Archer, Gleason L., Merece confiança o Antigo Testamento? Traduzido por Gordon Chown. – São Paulo: Edições Vida Nova, Reimpressões 1998. Pág. 407.

[2] “Deus, por meio do sofrimento, pode levar o pecador à conversão e à salvação”. Bíblia de Estudo Almeida. Barueri – SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2000. Pág. 549.

[3] “O livro de Jó é uma obra-prima da literatura sapiencial. É uma dramática ficção histórica sobre o homem justo, sempre fiel às leis e tradições. O autor ou, autores, entrelaçam prosas e poemas, com os mais variados temas teológicos e sociais, como o sofrimento humano, a transformação  humana e social, o  bem e  o mal, a doutrina da retribuição, entre outros”. Nova Bíblia Pastoral, Editora Paulus, 2014 (Nota de rodapé), pg. 628.

[4] “O assunto do livro tem sido dado como ‘O problema do sofrimento, A relação entre o sofrimento e o pecado, ou Quais são as leis governo moral de Deus no mundo?’ Tudo isso é discutido de vários pontos de vista; e, mediante a discussão, somos levados a uma compreensão mais sábia destes perpétuos mistérios; mas, o livro termina sem que o problema tenha sido resolvido”. McNair, S. E. A Bíblia explicada, 4ª Edição, RJ: CPAD, 1983. Pág. 167 (Citação de Scroggie).

[5] “Existe apenas uma questão que realmente importa: Por que coisas ruins acontecem a pessoas boas? (…) Trata-se de um livro de difícil compreensão, um livro profundo e belo sobre o mais profundo dos temas, o problema do sofrimento dos bons”. Kushner, Harold S. “Quando coisas ruins acontecem às pessoas boas”, tradução Francisco de Castro Azevedo. – São Paulo: Nobel, 1988.  Págs. 15 e 38.

[6] “O assunto do livro é a providência e o governo ético de Deus à luz do muito antigo problema do sofrimento de um homem justo. Para esse problema, nem Jó se justificando, nem os seus três amigos acusando-o de pecado, encontraram a solução”. Scofield, C. I., Bíblia de Scofield, com referências (Nota de rodapé).

[7] Integridade – significa que Jó era honrado; integro no sentido de ‘completo’, resignado a não violar o que era de direito do outro.

[8] Em Literatura, digressão é um recurso utilizado pelo narrador, a fim de afastar a atenção sobre alguma ação da história principal. Dessa forma, o narrador pode iniciar um tema secundário pouco importante para a trama ou, refletir sobre um assunto que foge da narrativa principal.

[9] “Transcendendo o drama humano, centra-se o Livro de Jó nesta pergunta: ‘Por que sofre o justo?’ Que o pecador sofra, todos entendemos! Mas o justo? Aquele que tudo faz por agradar a Deus?” Andrade, Claudionor de, Jó: O Problema do Sofrimento do Justo e o seu Propósito., Rio de Janeiro: Editora CPAD, 2ª Edição, 2003, pág. 14.

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Por que o uso do termo ‘Eclésia’?

O termo grego ἐκκλησία, transliterado ‘ekklésia’ quando utilizado por Cristo e os apóstolos tem o sentido de um corpo constituído de ‘IGUAIS’. O que se buscou destacar com o uso do termo ‘ekklésia’ é a ‘igualdade’, pois não há diferença entre os membros do corpo de Cristo “Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito” ( 1Co 12:13 ).


 

“Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” ( Mt 16:18 )

 

A palavra ‘igreja’ traduzida do grego é ‘ekklesia’[1], e muitos apontam o significado do termo quando empregado no Novo Testamento como “chamados para fora”.

Seria este o significado da palavra traduzida por igreja? Por que Jesus utilizou especificamente o termo grego ‘eclésia’ para fazer referência ao seu corpo? Ou, por que os apóstolos utilizaram o termo grego ‘eclésia’ para fazer referência aos salvos em Cristo? Da onde os cristãos foram chamados para fora? Do ‘pecado’, do ‘mundo’, do ‘engano’, da ‘morte’, da lei?

Para respondermos estas perguntas, primeiro se faz necessário lembrar que a ‘igreja’ é o mesmo que ‘corpo’ de Cristo: “E sujeitou todas as coisas a seus pés, e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos” ( Ef 1:22 -23); “E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência” ( Cl 1:18 ).

Os apóstolos, por sua vez, além de utilizarem a figura do corpo para fazer referência à igreja, também utilizam a figura da família e de um edifício em construção.

O apóstolo Paulo ao utilizar a figura da família destaca que os cristãos convertidos dentre os gentios não são estrangeiros e nem forasteiros ( Ef 2:19 ). Com relação a figura do edifício, o apóstolo dos gentios aponta Cristo como a pedra de esquina, e os crentes sobre-edificados n’Ele ( Ef 2:20 -22).

O apóstolo Pedro ao fazer referência ao templo de Deus diz que Cristo é a pedra viva, eleita e preciosa rejeitada pelos homens, e que cada cristão também é pedra viva ( 1Pd 2:4 -5).

O apóstolo João resume o que foi dito pelos outros apóstolos dizendo o seguinte:

“Nisto é perfeito o amor para conosco, para que no dia do juízo tenhamos confiança; porque, qual ele é, somos nós também neste mundo” (  1Jo 4:17 )

Observe que, tal qual Cristo é, os cristãos também são aqui neste mundo.

  • Jesus é pedra viva, os cristãos são pedras vivas ( 1Pd 2:5 );
  • Cristo é o Filho de Deus, os cristãos são filhos de Deus ( 1Jo 3:2 );
  • Cristo está assentado a destra da majestade nas alturas e o cristãos estão assentados nas regiões celestiais em Cristo ( Ef 2:6 );
  • Tal qual Cristo é são os cristãos neste mundo.

Lembrando que certa feita Jesus declarou que sua mãe, seus irmãos e suas irmãs são aqueles que fazem a vontade de Deus, e que aquele que crê em Cristo faz a vontade Deus e pertence à família de Cristo, temos elementos suficientes para determinar o motivo pelo qual o termo ‘eclésia’ foi selecionado para fazer referência ao corpo de Cristo! “Porque, qualquer que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, e irmã e mãe” ( Mt 12:50 ); “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ); “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ).

O termo ‘eclésia’ não foi selecionado por Cristo e os apóstolos tão somente para fazer referência a uma assembleia pública, ou por se tratar de uma reunião democrática, como argumentam alguns teólogos, embora em alguns pontos do Novo Testamento o termo assume este significado pelo contexto. Ex: “Uns, pois, clamavam de uma maneira, outros de outra, porque o ajuntamento era confuso; e os mais deles não sabiam por que causa se tinham ajuntado” ( At 19:32 ).

“No NT, ‘igreja’ traduz a palavra grega ekklēsia. No grego secular, ekklēsia designava uma assembleia pública, e este significado ainda foi mantido no NT (At 19.32, 39, 41)” Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã.

De igual modo o termo ‘eclésia’ não foi selecionado por trata-se de pessoas ‘chamadas para fora de algo’.

A igreja de Cristo não se trata de ‘chamados para fora’ do mundo, pois apesar de os cristãos não pertencerem ao mundo, Jesus rogou ao Pai que não tirasse os seus seguidores do mundo “Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal. Não são do mundo, como eu do mundo não sou” ( Jo 17:15 -16).

A igreja não se trata de pessoas chamadas para fora da lei ou do pecado, pois a Bíblia é clara ao demonstrar que todos que estão retidos pelo pecado e pela lei precisam morrer. A igreja não é constituída de pessoas chamadas do pecado, antes é constituída de pessoas que morreram para o pecado e para lei. A igreja é constituída de pessoas que ressurgiram com Cristo tornando-se nova criatura “De modo nenhum. Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?” ( Rm 6:2 ); “Mas agora temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra” ( Rm 7:6 ).

A igreja não é composta de chamados dentre a morte, antes como o salário do pecado é a morte, cada cristão para ser justificado do pecado precisou morrer com Cristo “Porque aquele que está morto está justificado do pecado” ( Rm 6:7 ). Aqueles que compõe o corpo de Cristo na verdade estão mortos para o mundo, o pecado e a lei ( Cl 3:3 ), porém, ressurgiram e vivem para Deus em novidade de vida ( Cl 3:1 ; Rm 6:4 e 7:6 ).

O equívoco de que o termo Eclésia significa ‘chamados para fora’ ocorre porque no grego o termo ‘ekklēsia’ é a junção de duas palavras: ‘chamar’ (καλέω) e ‘fora’ (ἐκ). Embora os cristãos são chamados através do evangelho do reino das trevas para serem transportados para o reino do Filho do amor de Deus, ‘chamar para fora’ não é o significado ou a definição do termo ‘ekklēsia’ “O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” ( Cl 1:13 ).

O que ocorre com o termo ‘ekklēsia’ é similar ao que ocorre com a palavra em inglês ‘butterfly’ (borboleta), termo que surgiu da junção de duas outras palavras ‘butter’ (manteiga) e ‘fly’ (mosca)[2]. ‘Butterfly’ não significa que borboletas são ‘manteiga de moscas’ ou ‘moscas de manteiga’.

Ora, deixando as discussões acadêmicas sobre a etimologia do termo ‘eclésia’, qual o significado do termo ‘eclésia’ que levou Jesus e os apóstolos a utilizarem o termo para fazer referência ao corpo de Cristo?

O escritor aos Hebreus pode nos esclarecer o significado do termo quando empregado no Novo Testamento:

“À universal assembleia e igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus, e a Deus, o juiz de todos, e ao os espíritos dos justos aperfeiçoados” ( Hb 12:23 )

O termo grego πανηγύρει (panéguris) traduzido por ‘universal assembleia’ remete a ideia de comunhão entre todos que compartilham de um ideal comum. Ora, por tratar-se do corpo de Cristo, certo é que o ideal do cristão é Cristo, o firme fundamento estabelecido por Deus ( Ef 2:20 ; 1Co 3:11 -12).

O corpo de Cristo, o templo do Deus vivo que estava na cidade de corinto, foi saldada e nomeada pelo apóstolo Paulo de santos, assim como todos que em todo lugar que creem em Cristo também são igualmente santos “À igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos, com todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso SENHOR Jesus Cristo, Senhor deles e nosso” ( 1Co 1:2 ).

A ‘universal assembleia’ não se restringe a pessoas de um determinado lugar ou de uma determinada nação, antes diz de qualquer que em qualquer lugar ou nação compartilhe do evangelho, a fé comum a todos que estão em Cristo “A Tito, meu verdadeiro filho, segundo a fé comum: Graça, misericórdia, e paz da parte de Deus Pai, e da do Senhor Jesus Cristo, nosso Salvador” ( Tt 1:4 ); “Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos, e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos” ( Jd 1:3 ).

A composição da ‘universal assembleia’ se dá através do ‘espírito’, pelo qual judeus e gentios tem acesso a Deus ( Ef 2:18 ). E que ‘espírito’ é esse? O ‘espírito’ que vivifica, ou seja, o Novo Testamento, do qual todos que professam a Cristo são ministros “O qual nos fez também capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica” ( 2Co 3:6 ).

Há um só evangelho, ou seja, um só ‘espírito’, por isso é dito que o cristão deve preservar a ‘unidade do espírito’. Da mesma forma que há um só corpo, a igreja, há um só espírito, ou seja, o evangelho, de modo que há um só Senhor, uma só fé e um só batismo ( Ef 4:3 -6).

Assim como sabemos que todos os cristãos são um só corpo em Cristo, e ao mesmo tempo membros do seu corpo, Cristo é o ‘lugar’ em que cada um em particular está unido, portanto, os cristãos de todos os lugares (universal) constituem-se um assembleia “Ora, vós sois o corpo de Cristo, e seus membros em particular” ( 1Co 12:27 ); “Assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros” ( Rm 12:5 ).

Antes de Cristo, haviam dois povos: judeus e gentios. Os gentios estavam separados da comunidade de Israel, sem Deus no mundo, eram estranhos às alianças das promessas, longe de Deus.

O povo judeu recebeu o culto, a adoção de filhos, a glória, as alianças, a lei, o culto, as promessas, os pais, dos quais é Cristo, e apesar serem descendência de Abraão, não eram todos filhos de Abraão ( Ef 2:12 -13; Rm 9:6 -7). Não havia diferença significativa entre judeus e gentios diante de Deus, pois todos (judeus e gentios) pecaram e destituídos estavam da glória de Deus ( Rm 3:9 ).

Por intermédio da cruz Deus unificou os povos fazendo um só, destruindo a barreira de inimizade. Cristo, a paz que excede todo entendimento, foi anunciado aos judeus (aqueles que estavam perto) e aos gentios (aqueles que estavam longe), e dos dois povos foi feito um ao desfazer a lei dos mandamentos ( Ef 2:15 ), de modo que judeus e gentios tem acesso a Deus por intermédio do evangelho (mesmo espírito) “A saber, que os gentios são co-herdeiros, e de um mesmo corpo, e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho” ( Ef 3:6 ).

Ora, pela destruição da barreira, os gentios que em outro tempo eram tidos por ‘estrangeiros’, ‘forasteiros’, agora em Cristo alcançaram nova condição: são concidadãos dos santos e da família de Deus ( Ef 2:19 ).

O termo grego ‘συμπολίτης’ traduzido por ‘concidadão’ refere-se aquele que é um nativo de uma mesma cidade, que possui a mesma cidadania que os outros, que em relação a língua grega remete aos nascidos na ‘polis’. O termo foi utilizado pelo apóstolo Paulo para evidenciar um contraste: a antiga condição de ‘forasteiros’ e ‘estrangeiros’ que os gentios carregavam em relação a comunidade judaica, e que na igreja de Cristo já não existe.

Ora, para ser participante da comunidade de Israel bastava ao prosélito se circuncidar, pois ser judeu não se dá por nascimento em uma cidade, mas pelo vínculo de sangue “Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu” ( Fl 3:5 ).

O termo grego ‘πολιτεία’ (politeia) aponta para um corpo de cidadãos, ou seja, indivíduos que possuem os mesmos direitos dentro de uma organização política e religiosa (pólis).

Quais os ‘direitos’ da comunidade de Israel? Às alianças da promessa, portanto possuíam esperança por pertencerem como povo a Deus.

De acordo com o pensamento comum, ekklēsia significa:

“1577 εκκλησια ekklēsia de um composto de 1537 e um derivado de 2564; TDNT – 3:501,394; n f 1) reunião de cidadãos chamados para fora de seus lares para algum lugar público, assembleia  1a) assembleia do povo reunida em lugar público com o fim de deliberar  1b) assembleia dos israelitas  1c) qualquer ajuntamento ou multidão de homens reunidos por acaso, tumultuosamente  1d) num sentido cristão  1d1) assembleia de Cristãos reunidos para adorar em um encontro religioso  1d2) grupo de cristãos, ou daqueles que, na esperança da salvação eterna em Jesus Cristo, observam seus próprios ritos religiosos, mantêm seus próprios encontros espirituais, e administram seus próprios assuntos, de acordo com os regulamentos prescritos para o corpo por amor à ordem  1d3) aqueles que em qualquer lugar, numa cidade, vila, etc, constituem um grupo e estão unidos em um só corpo  1d4) totalidade dos cristãos dispersos por todo o mundo  1d5) assembleia dos cristãos fieis já falecidos e recebidos no céu” Dicionário Strong.

O escritor aos Hebreus ao fazer referência a ‘igreja dos primogênitos’, demonstra que, para ser participante de tal ‘comunidade’ é imprescindível que o nome do indivíduo esteja escrito nos céus.

Para satisfazer esta condição não basta estar inscrito como membro de uma comunidade religiosa, ou seguir ritos e preceitos religiosos ou morais, antes é necessário ser participante da família de Cristo, ou seja, fazer a vontade de Deus “Porque, qualquer que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, e irmã e mãe” ( Mt 12:50 ); “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

Ora, após crer em Cristo, tornando-se da família de Cristo as prerrogativas de ser judeu ou grego desaparecem “Porque em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão tem valor algum; mas sim a fé que opera pelo amor” ( Gl 5:6 ). As diferenças entre servo e livre são eliminadas “Onde não há grego, nem judeu, circuncisão, nem incircuncisão, bárbaro, cita, servo ou livre; mas Cristo é tudo em todos” ( Cl 3:11 ). Ser macho ou fêmea não faz ninguém diferente: melhor ou pior diante de Deus, e o motivo é específico: ‘Porque todos vós sois um em Cristo Jesus’ ( Gl 3:28 ).

Ora, o termo grego ἐκκλησία, transliterado ‘ekklésia’ quando utilizado por Cristo e os apóstolos tem o sentido de um corpo constituído de ‘IGUAIS’.  O que se buscou destacar com o uso do termo ‘ekklésia’ é a ‘igualdade’ pelo fato de que não há diferença entre os membros do corpo “Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito” ( 1Co 12:13 ).

Assim como a eκκλησία da Grécia Antiga, a principal assembleia da democracia ateniense, era constituída de iguais[3], o corpo de Cristo é constituído de iguais, daí deriva a designação πρωτότοκος (primogênitos) “Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão” ( 1Co 10:17 ).

‘πανηγύρει καὶ ἐκκλησία πρωτοτόκων ἀπογεγραμμένων ἐν οὐρανοῖς’

“(à) reunião festiva e (à) reunião de (os) primogênitos arrolados em (os) céus”

Nesta passagem o termo ‘ἐκκλησία’ depende da leitura do termo ‘πρωτοτόκων’ (primogênitos), e como compreender o termo traduzido por ‘primogênitos’ no contexto?

O Verbo eterno ao ser introduzido no mundo passou à condição de o Unigênito (μονογενοῦς) Filho de Deus ( Jo 1:14 e 18; Jo 3:16 e 18; 1Jo 4:9 ). Quando ressurgiu dentre os mortos Jesus tornou-se o Primogênito de Deus, pois através da obediência de Cristo foram conduzidos à gloria muitos filhos a Deus “Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas, e mediante quem tudo existe, trazendo muitos filhos à glória, consagrasse pelas aflições o príncipe da salvação deles” ( Hb 2:10 ).

O Verbo eterno ao se fazer carne tornou-se o único homem nascido de mulher gerado por Deus “Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei” ( Gl 4:4), ou seja, o único homem que em si mesmo teve a natureza divina por ter sido ‘lançado’ por Deus no ventre de Maria “Sobre ti fui lançado desde a madre; tu és o meu Deus desde o ventre de minha mãe” ( Sl 22:10 ). De retorno a Sua glória, Cristo assentou-se à destra da Majestade nas alturas e trouxe muitos filhos a Deus que, igualmente estão assentados com Ele nas regiões celestiais ( Ef 1:3 e Ef 2:6 ).

Embora os cristãos sejam tal qual Cristo é ainda neste mundo ( 1Jo 4:17 ), só permanecem no mundo porque Jesus os comissionou assim como Deus enviou Jesus ao mundo “Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal (…) Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo” ( Jo 17:15 e 18).

Com relação a nascimento carnal Jesus é o Unigênito, e com relação a ressurreição dentre os mortos Jesus é o Primogênito, pois para isto os cristãos foram predestinados: para ser conforme a imagem do Cristo ressurreto, para que Ele seja ‘primogênito’ entre muitos irmãos ( Rm 8:29 ).

Cristo como ‘primogênito’ remete a ideia contida neste verso: “Mas ao filho da desprezada reconhecerá por primogênito, dando-lhe dobrada porção de tudo quanto tiver; porquanto aquele é o princípio da sua força, o direito da primogenitura é dele” ( Dt 21:17 ), de modo que pelo direito de primogênito compete a Cristo porção dobrada em relação aos seus muitos irmãos, que são coerdeiros com Ele ( Hb 2:10 ; Rm 8:17 ; Gl 3:29 ).

Ora, o termo grego ‘πρωτοτόκων’ aplica-se àquele nasceu primeiro considerando-se uma sequência “E deu à luz a seu filho primogênito, e envolveu-o em panos, e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na estalagem” ( Lc 2:7 ). Esta característica de sequência aplica-se a Cristo, pois Ele é o primeiro a ressurgir dentre os mortos em relação aos muitos outros irmãos que ressurgiriam com Ele.

Já com relação a glorificação de Cristo, foi predito: “Ele me chamará, dizendo: Tu és meu pai, meu Deus, e a rocha da minha salvação. Também lhe darei o lugar de primogênito, o mais elevado dos reis da terra” ( Sl 89:27 ), e ao fazer referência a esta posição de Cristo no sentido de ‘preeminência’, é utilizado também o termo grego ‘πρωτεύω’ (próteuó), ou, dependendo do contexto ‘πρωτοτόκων’ (prototokos), pois o primogênito é aquele que tem preeminência entre os irmãos.

Cristo na posição de cabeça, a cabeça do corpo, além de ‘primogênito’ também é ‘preeminente’ entre os ressurretos com Ele “E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência” ( Cl 1:18 ); “PORTANTO, se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus. Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra; Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” ( Cl 3:1 -3).

O escritor aos Hebreus ao ler o Salmo 97, verso 7, aponta para a posição do Cristo assentado à destra da majestade nas alturas, registrando o seguinte: “E outra vez, quando introduz no mundo o primogênito, diz: E todos os anjos de Deus o adorem” ( Hb 1:6 e Hb 1:3 ). Ao ser introduzido no mundo Cristo era o unigênito de Deus, mas agora assentado à destra da majestade nas alturas é o primogênito, pois herdou nome mais excelente ( Hb 1:4 ).

Considerando que a igreja diz do corpo de Cristo e, que o apóstolo Paulo destaca o fato de que sobre todas as coisas Cristo foi constituído a cabeça da igreja ( Ef 1:21 -23), segue-se que a igreja está acima de todo principado, autoridade, domínio e poder, pois há de julgar até mesmo os seres celestiais ( 1Co 6:3 ).

Segue-se que ao fazer referência ao corpo de Cristo como ‘eclésia’, o escritor aos Hebreus semelhante ao que fez o apóstolo dos gentios, destaca a posição hierárquica superior que o corpo de Cristo ocupa em relação a todas as coisas quando diz ‘a igreja dos primogênitos’ (ἐκκλησία πρωτοτόκων).

Daí a melhor leitura não seria a ‘igreja dos primogênitos’, destacando uma sequência de filhos gerados de Deus, e nem a posição dos Cristãos no corpo de Cristo como ‘preeminentes’ ( Rm 8:29 ). Ora, a posição de ‘primogênito’, como o primeiro ressurreto dentre os mortos só é possível a um, e não a muitos ( Cl 1:18 ). Cristo é o primogênito dentre os mortos e foi constituído a cabeça do corpo, portanto, Cristo é preeminente entre muitos irmãos semelhantes, visto que é o primeiro a ressurgir dentre os mortos ( Ap 1:5 ; Cl 1:15 ).

Ao fazer alusão ao corpo de Cristo como a ‘igreja dos primogênitos’, o escritor aos Hebreus estava destacando o fato de que todos no corpo de Cristo igualmente pertencem a Deus “Santifica-me todo o primogênito, o que abrir toda a madre entre os filhos de Israel, de homens e de animais; porque meu é ( Êx 13:2 ); “Mas o primogênito de um animal, por já ser do SENHOR ninguém o santificará; seja boi ou gado miúdo, do SENHOR é ( Lv 27:26 ).

O escritor aos Hebreus estava destacando que a ‘universal assembleia’ é constituída de indivíduos que pertencem a Deus (igreja dos primogênitos), vez que os seus nomes estão inscritos nos céus, mostrando que em Cristo todos são iguais, concidadãos dos santos e da família de Deus “Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus” ( 1Co 6:20 ).

O termo grego πρωτοτόκων (primogênitos) deve ser compreendido como uma espécie de hebraísmo[4], em que o termo grego foi utilizado para demonstrar que os cristãos são propriedades exclusivas de Deus, assim como eram os ‘primogênitos’ e as ‘primícias’ na Antiga Aliança “Estes são os que não estão contaminados com mulheres; porque são virgens. Estes são os que seguem o Cordeiro para onde quer que vá. Estes são os que dentre os homens foram comprados como primícias para Deus e para o Cordeiro” ( Ap 14:4 ).

Os que creem em Cristo tonam-se propriedades de Deus, e o termo ‘primícias’ é utilizado para fazer referência a essa condição, introduzindo a ideia de que tanto judeus quanto gentios, escravos quanto livres, mulheres e homens, etc. ( Gl 3:26 -29), igualmente pertencem a Deus “Agora vos rogo, irmãos (sabeis que a família de Estéfanas é as primícias da Acaia, e que se tem dedicado ao ministério dos santos),” ( 1Co 16:15 ); “Saudai também a igreja que está em sua casa. Saudai a Epêneto, meu amado, que é as primícias da Acaia em Cristo” ( Rm 16:5 ).

Portanto, quando lemos a asserção: “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” ( Mt 16:18 ), a ênfase do termo ‘ekklēsia’ está na pedra que dá base de sustentação ao templo. Se a ênfase é a pedra de esquina, a pedra viva que os edificadores rejeitaram, todas as outras pedras utilizadas na ‘edificação’ do corpo possuem as mesmas propriedades: são pedras vivas.

Diferenças sociais, econômicas, nacionalidades, etc., deixam de ser levadas em consideração, pois em Cristo é o lugar: “Onde não há grego, nem judeu, circuncisão, nem incircuncisão, bárbaro, cita, servo ou livre; mas Cristo é tudo em todos” ( Cl 3:11 ), pois todos são propriedade de um mesmo Senhor .

Se estas diferenças não são levadas em conta no corpo, segue-se que este deve ser o comportamento dos filhos de Deus: “Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de entranhas de misericórdia, de benignidade, humildade, mansidão, longanimidade; suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro; assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também. E, sobre tudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição” ( Cl 3:13 -14).

Este deve ser o posicionamento dos membros do corpo de Cristo:

“Porque em Cristo Jesus nem a circuncisão, nem a incircuncisão tem virtude alguma, mas sim o ser uma nova criatura” ( Gl 6:15 );

“Porque em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão tem valor algum; mas sim a fé que opera pelo amor” ( Gl 5:6 );

A circuncisão é nada e a incircuncisão nada é, mas, sim, a observância dos mandamentos de Deus” ( 1Co 7:19 ).

Como ser uma nova criatura? Crendo em Cristo, pois este é o mandamento de Deus. Crer em Cristo é o mandamento que se deve obedecer, ou seja a fé (evangelho) que opera pelo amor (obediência).

Todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso SENHOR Jesus Cristo constituem a ‘ekklēsia’ de Deus, o corpo de Cristo, pois igualmente pertencem a Deus.

A ekklēsia da Grécia Antiga era formada por filhos de moradores naturais da polis, ou seja, que pertenciam a pólis[5], e a ekklēsia de Deus é formada pelos santificados em Cristo, ou seja, que pela obediência a sua palavra passaram a pertencer a Deus “À igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos, com todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso SENHOR Jesus Cristo, Senhor deles e nosso” ( 1Co 1:2 ); “Porque, assim o que santifica, como os que são santificados, são todos de um; por cuja causa não se envergonha de lhes chamar irmãos” ( Hb 2:11 ); “Para lhes abrires os olhos, e das trevas os converteres à luz, e do poder de Satanás a Deus; a fim de que recebam a remissão de pecados, e herança entre os que são santificados pela fé em mim” ( At 26:18 ).

Os membros do corpo de Cristo não podem ser aceitos ou desprezados por suas diferenças socioeconômicas, como bem disse o apóstolo Paulo:

“Porque, comendo, cada um toma antecipadamente a sua própria ceia; e assim um tem fome e outro embriaga-se. Não tendes porventura casas para comer e para beber? Ou desprezais a igreja de Deus, e envergonhais os que nada têm? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisto não vos louvo” ( 1Co 11:21 -22).

O irmão Tiago, por sua vez, alerta quanto a privilegiar os cristãos convertidos dentre os judeus em detrimento aos convertidos dentre os gentios:

“MEUS irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas. Porque, se no vosso ajuntamento entrar algum homem com anel de ouro no dedo, com trajes preciosos, e entrar também algum pobre com sórdido traje, e atentardes para o que traz o traje precioso, e lhe disserdes: Assenta-te tu aqui num lugar de honra, e disserdes ao pobre: Tu, fica aí em pé, ou assenta-te abaixo do meu estrado, porventura não fizestes distinção entre vós mesmos, e não vos fizestes juízes de maus pensamentos? Ouvi, meus amados irmãos: Porventura não escolheu Deus aos pobres deste mundo para serem ricos na fé, e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam? Mas vós desonrastes o pobre. Porventura não vos oprimem os ricos, e não vos arrastam aos tribunais? Porventura não blasfemam eles o bom nome que sobre vós foi invocado?” ( Tg 2:1 -7).

O irmão Tiago utiliza os termos ‘abatido’ e ‘rico’ não do ponto de vista socioeconômico. É necessário entender o exemplo que Tiago apresentou: na comunidade judaica não havia distinção quanto a pobreza e riqueza, antes a distinção era com relação a ser circuncidado ou não (estrangeiro e forasteiros). Era um absurdo fazer distinção entre descendentes da carne de Abraão, pois seriam tidos como transgressores da lei.

No entanto, a premissa do evangelho é que Deus escolheu os abatidos (pobres) e rejeitou os ‘ricos’ (altivos), de modo que agora em Cristo não podiam rejeitar os gentios que haviam se convertido ao evangelho. Alguns cristãos convertidos dentre o judaísmo estavam fazendo acepção nas reuniões de cristãos convertidos a Cristo, privilegiando aqueles que eram judeus por natureza (ricos), ou seja, aqueles que condenaram e mataram ‘… o justo; ele não vos resistiu’ ( Tg 5:6); “Mas glorie-se o irmão abatido na sua exaltação, e o rico em seu abatimento; porque ele passará como a flor da erva” ( Tg 1:9 -10).

O corpo de Cristo é constituído de iguais, daí a pergunta: “Porque, quem te faz diferente? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não o houveras recebido?” ( 1Co 4:7 ).

Um membro do corpo de Cristo não pode desprezar ou julgar o outro, antes cada um em particular deve considerar o outro superior a si mesmo “Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo” ( Fl 2:3 ); “Mas tu, por que julgas teu irmão? Ou tu, também, por que desprezas teu irmão? Pois todos havemos de comparecer ante o tribunal de Cristo” ( Rm 14:10 ); “ORA, quanto ao que está enfermo na fé, recebei-o, não em contendas sobre dúvidas. Porque um crê que de tudo se pode comer, e outro, que é fraco, come legumes. O que come não despreze o que não come; e o que não come, não julgue o que come; porque Deus o recebeu por seu. Quem és tu, que julgas o servo alheio? Para seu próprio SENHOR ele está em pé ou cai. Mas estará firme, porque poderoso é Deus para o firmar. Um faz diferença entre dia e dia, mas outro julga iguais todos os dias. Cada um esteja inteiramente seguro em sua própria mente. Aquele que faz caso do dia, para o Senhor o faz e o que não faz caso do dia para o Senhor o não faz. O que come, para o Senhor come, porque dá graças a Deus; e o que não come, para o SENHOR não come, e dá graças a Deus. Porque nenhum de nós vive para si, e nenhum morre para si. Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. De sorte que, ou vivamos o u morramos, somos do Senhor” ( Rm 14:1 -8).

 

[1] Eclésia – ‘eκκλησία’ (transl.: ekklesia) era a principal assembleia da democracia ateniense na Grécia Antiga, da qual só podia participar os cidadãos do sexo masculino, filhos de pais natural da pólis (cidade grega), com mais de dezoito anos e que tivesse prestado ao menos dois anos de serviço militar” <http://pt.wikipedia.org/wiki/Eclésia> Consulta realizada em 12/04/15; “Igreja [Eclésia]. Reunião, assembleia. A palavra aplica-se a qualquer assembleia, como, por exemplo, ao ajuntamento do povo em Éfeso (At 15.4), e a Israel, chamado do Egito e, reunido no deserto (At 7.38). Israel era uma verdadeira igreja, mas em nenhum sentido a igreja do N. T., pois a única semelhança entre as duas é que ambas foram chamadas para fora. No mais, tudo é contraste. Na Bíblia o termo nunca se aplica a um edifício material” McNair, S. E., Pequeno Dicionário Bíblico, CPAD, Pág. 1499.

[2] Cara, Robert. Cuidado com o significado oculto da raiz de uma palavra, Artigo disponível na Web <http://www.ministeriofiel.com.br/artigos/detalhes/715/Cuidado_com_o_Significado_Oculto_da_Raiz_de_uma_Palavra>  Consulta realizada em 12/04/15.

[3] Embora por definição a eκκλησία fosse uma assembleia popular, a principal assembleia da democracia ateniense na Grécia Antiga, contudo não tinha nada do ideário que hoje consideramos ‘popular’. Era uma assembleia restrita a aproximadamente 10% da população, visto ser acessível somente aos cidadãos do sexo masculino, com mais de dezoito anos, que tivessem prestado pelo menos dois anos de serviço militar e que fossem filhos de pais natural da pólis, ou seja, excluía os comuns do povo, as mulheres, as crianças, os forasteiros, os estrangeiros (Metecos: Μέτοικος), e os escravos.

[4] ‘Hebraísmos’ diz de certas expressões e maneiras peculiares ao idioma hebraico na construção de figuras, enigmas e provérbios, isto do ponto de vista linguístico.

[5] “… não se deve crer que cada cidadão pertence a si mesmo, mas que todos pertencem à cidade, porque cada um é parte dela…” Aristóteles, A Política.

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O tesouro escondido e a pérola de grande valor

O apóstolo Paulo é um exemplo de judeu que abriu mão de tudo o que possuía para adquirir a Cristo: o tesouro escondido, a pérola de grande valor! O apóstolo Paulo buscava um tesouro nos céus e, para isso, abriu mão de tudo o que possuía: “Vendei o que tendes e dai esmolas. Fazei para vós bolsas que não se envelheçam; tesouro nos céus que nunca acabe, aonde não chega ladrão e a traça não corrói” (Lc 12:33).


“Também, o reino dos céus, é semelhante a um tesouro escondido num campo, que um homem achou e escondeu e, pelo gozo dele, vai, vende tudo quanto tem e compra aquele campo. Outrossim, o reino dos céus, é semelhante ao homem, negociante, que busca boas pérolas e, encontrando uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo quanto tinha e comprou-a” (Mt 13:44-46)

 

Introdução

Qual o significado da parábola[1] do tesouro escondido num campo? Qual a aplicação prática da parábola do negociante que sai à procura de uma pérola de grande valor? Essas parábolas aplicam-se aos membros do corpo de Cristo?

Antes de narrar as parábolas do ‘tesouro escondido’ e da ‘pérola de grande valor’, o evangelista Mateus destaca que Jesus utilizava parábolas para ensinar à multidão, porque a eles não foi dado conhecer os mistérios do reino dos céus (Mt 13:11).

Os discípulos estavam intrigados e perguntaram o motivo pelo qual Jesus utilizava parábolas para falar ao povo. Jesus explicou que falava por parábolas ao povo de Israel, para que ‘vendo’, não ‘vissem’ e, ‘ouvindo’, não ‘ouvissem’ e nem ‘compreendessem’, de modo que a profecia de Isaías se cumpriria neles (Mt 13:13-14).

Além da explicação de Jesus, acerca do predito por Isaías, o evangelista Mateus lembra o que foi anunciado pelo salmista, no Salmo 78, e explica que Jesus nunca falava à multidão, sem se utilizar de parábolas.

A explicação de Jesus:

“Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não veem e, ouvindo, não ouvem, nem compreendem. E neles se cumpre a profecia de Isaías, que diz: Ouvindo, ouvireis, mas não compreendereis, e, vendo, vereis, mas não percebereis” (Mt 13:13 -14);

A explicação de Mateus:

“Tudo isto disse Jesus por parábolas à multidão e nada lhes falava sem parábolas; para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta, que disse: abrirei em parábolas a minha boca, publicarei coisas ocultas, desde a fundação do mundo” (Mt 13:34-35; Sl 78:2).

O evangelista Marcos, também, destaca como se dava o ensinamento de Jesus à multidão:

“E com muitas parábolas tais lhes dirigia a palavra, segundo o que podiam compreender. E sem parábolas nunca lhes falava, porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” (Mc 4:33-34).

Com base no exposto acima, verifica-se que o público alvo das parábolas de Jesus era o povo judeu. Jesus deixa claro que Ele foi enviado às ovelhas perdidas da casa de Israel, o que corrobora com a ideia de que a mensagem de Jesus foi direcionada aos filhos de Israel: “E ele, respondendo, disse: Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 15:24; Jr 50:6).

 

As parábolas

Mas, por que Jesus compara o reino dos céus a um tesouro que um homem achou e escondeu em um campo? O que os judeus, que ouviram a parábola, tinham que aprender com o homem que vendeu tudo o que possuía, para adquirir o campo onde o tesouro estava escondido? O que aprender com o negociante que estava em busca de uma pérola de grande valor?

Ora, a abordagem de Jesus não visava bens materiais, pois Ele mesmo disse que a vida de qualquer um não consiste na abundância de bens que possui (Lc 12:15). Jesus também não estava instando os judeus a adquirirem bens materiais ou serem empreendedores, pois Ele mesmo instruiu os seus ouvintes a ajuntarem tesouro nos céus (Mt 6:20).

Os ouvintes de Jesus, na sua grande maioria, eram desprovidos de bens materiais, o que nos faz perguntar: O que eles deveriam dispor (abrir mão, vender) para terem condições de adquirir algo de grande valor? O que seria esse algo de imensurável valor, que demandaria aos ouvintes de Jesus, abrir mão de tudo o que possuíam?

Jesus compara (é semelhante) o reino dos céus a um tesouro escondido num campo: “Também o reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido num campo…” (Mt 13:44). Com base nessa informação, Jesus estabeleceu que o reino dos céus é o ‘tesouro escondido’. De igual modo, a ‘pérola de grande valor’, que o negociante encontrou, refere-se ao reino dos céus.

Através do comparativo fixado por Jesus, identificamos o valor atribuído ao reino dos céus: um tesouro, uma pérola de valor inestimável.  Mas, o que seria esse reino dos céus a que Jesus se referiu?

 

O reino dos céus

João Batista apregoava, no deserto da Judeia, a seguinte mensagem:

 “Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus” (Mt 3:2).

Após João Batista ter sido preso, Jesus também passou a pregar a mesma mensagem (Mt 4:17). Ao enviar os doze discípulos às ovelhas perdidas de Israel, Jesus mandou que anunciassem a chegada do reino dos céus (Mt 10:7).

Quando interrogado pelos fariseus, acerca do tempo em que o reino de Deus haveria de vir, Jesus esclareceu que o reino de Deus não viria com aparência exterior, de modo a possibilitar que os homens o identificassem. Ninguém estaria apto a apontar ou identificar o reino de Deus e o motivo era especifico: o reino de Deus estava entre eles!

“E, interrogado pelos fariseus sobre quando havia de vir o reino de Deus, respondeu-lhes e disse: O reino de Deus não vem com aparência exterior. Nem dirão: Ei-lo aqui, ou: Ei-lo ali; porque eis que o reino de Deus está entre vós” (Lc 17:20-21).

Ora, com base nessas passagens bíblicas, conclui-se que Cristo é o reino dos céus, portanto, Ele é o ‘tesouro escondido’ e a ‘pérola de grande valor’!

 

Vende tudo

Mas, o que os ouvintes de Jesus deveriam fazer para ter a Cristo?

Jesus mesmo informou o que os seus concidadãos teriam que dispor de tudo o que possuíam (abrir mão, vender) para tomar posse do ‘tesouro escondido’ ou, da ‘pérola de grande valor’:

“Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim. E quem não toma a sua cruz e não segue após mim, não é digno de mim. Quem achar a sua vida perdê-la-á e quem perder a sua vida, por amor de mim, achá-la-á” (Mt 10:37-39);

“Vendei o que tendes e dai esmolas. Fazei para vós bolsas que não se envelheçam, tesouro nos céus que nunca acabe, aonde não chega ladrão e a traça não corrói” (Lc 12:33).

Considerando que ‘amar’, nas Escrituras, não diz de sentimento, mas, de honra, obediência, temor (Mt 6:24); considerando que aquele que ama a Jesus é o que cumpre os seus mandamentos: “Se me amais, guardai os meus mandamentos” (Jo 14:15), segue-se que aquele que está disposto a seguir os ensinamentos de seus familiares (tradições, ritos, costumes, mandamentos, etc., como no caso dos fariseus, que invalidavam a palavra de Deus, preferindo as tradições dos anciãos) mais do que os ensinamentos de Cristo, não é digno do reino dos céus.

Ora, os profetas haviam previsto que os inimigos do Filho do homem seriam os seus próprios familiares (Mt 10:36; Mq 7:5-6; Jr 9:4; Jr 12:6). Qualquer que seguisse os ensinamentos de seus familiares (pai e mãe) seria um adversário de Cristo, pois o ensinamento dos líderes de Israel não passava de tradições, segundo o mandamento de homens: “Em vão, porém, me honram, ensinando doutrinas que são mandamentos de homens” (Mc 7:7-8; Tt 1:14; Is 29:13).

Como os inimigos de Cristo eram os seus concidadãos, temos a ordem aos filhos de Israel: concilia-te depressa com o teu adversário, ou seja, com o Cristo.

“Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz e o juiz te entregue ao oficial e te encerrem na prisão” (Mt 5:25).

Quando é dito: ‘quem ama o filho, ou a filha, mais do que a mim, não é digno de mim’, Jesus requer dos judeus honra e que deixassem de honrar o vínculo de sangue que possuíam com Abraão: “Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai. Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou” (Jo 5:23).

Além de abrir mão das suas tradições e de não se vangloriarem pelo vínculo de sangue que tinham com Abraão, os filhos de Israel tinham que tomar e levar sobre si a própria cruz e seguir após Cristo! Cristo, pelo seu próprio sangue, santificou o seu povo ao padecer fora do arraial e todos os seus seguidores devem sair fora do arraial, levando a sua própria cruz: “E por isso, também, Jesus, para santificar o povo pelo seu próprio sangue, padeceu fora da porta. Saiamos, pois, a ele fora do arraial, levando o seu vitupério” (Hb 13:12-13).

“Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz e siga-me” (Mt 16:24);

“E chamando a si a multidão, com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8:34);

“E Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse: Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz e segue-me” (Mc 10:21);

“E qualquer que não levar a sua cruz e não vier após mim, não pode ser meu discípulo” (Lc 14:27).

Jesus deixa claro que ‘quem perder a sua vida por obedecer a Ele, achá-la-á’ (Mt 10:39), pois, qualquer que for crucificado com Cristo, passa da morte para a vida: “Já estou crucificado com Cristo e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2:20; Jo 5:24).

O apóstolo Paulo é um exemplo de judeu que abriu mão de tudo o que possuía para adquirir a Cristo: o tesouro escondido, a pérola de grande valor! O apóstolo Paulo buscava um tesouro nos céus e, para isso, abriu mão de tudo o que possuía: “Vendei o que tendes e dai esmolas. Fazei para vós bolsas que não se envelheçam; tesouro nos céus que nunca acabe, aonde não chega ladrão e a traça não corrói” (Lc 12:33).

Observe:

“E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo” (Fl 3:8).

Quais foram as ‘coisas’ que o apóstolo Paulo se desfez (vendeu) para ganhar a Cristo? Temos uma lista:

“Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu; segundo o zelo, perseguidor da igreja, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível” (Fl 3:5-6).

As ‘coisas’ enumeradas pelo apóstolo Paulo era tidas por ‘vantagens’, ‘ganho’:

“Mas o que para mim era ganho, reputei-o perda por Cristo” (Fl 3:7).

O apóstolo Paulo não honrou pai e mãe mais que a Cristo, pois quando se converteu, não consultou os seus concidadãos (carne e nem sangue) se deveria anunciar o evangelho aos gentios, mas partiu para a Arábia: “Revelar seu Filho em mim, para que o pregasse entre os gentios, não consultei a carne nem o sangue” (Gl 1:16).

Quem quiser seguir a Cristo, primeiro tem de abrir mão de tudo:

“E aconteceu que, indo eles pelo caminho, lhe disse um: Senhor, seguir-te-ei para onde quer que fores. E disse-lhe Jesus: As raposas têm covis e as aves do céu, ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. E disse a outro: Segue-me. Mas, ele respondeu: SENHOR, deixa que primeiro eu vá a enterrar meu pai. Mas Jesus lhe observou: Deixa aos mortos o enterrar os seus mortos; porém tu vai e anuncia o reino de Deus. Disse também outro: Senhor, eu te seguirei, mas deixa-me despedir primeiro dos que estão em minha casa. E Jesus lhe disse: Ninguém, que lança mão do arado e olha para trás, é apto para o reino de Deus” (Lc 9:57-62).

Alguns discípulos, quando foram convocados por Cristo, haviam acabado de pescar muitíssimos peixes (encheram dois barcos que, quase foram a pique), uma riqueza de valor considerável para pescadores da época (Lc 5:7). Simão Pedro, Tiago e João deixaram tudo e seguiram a Jesus (Lc 5:11). O jovem rico, por sua vez, não quis abrir mão do que possuía! (Lc 18:22).

Por que era necessário aos ouvintes de Jesus, abrirem mão de tudo, para adquirirem um tesouro nos céus? A resposta é simples: “Porque, onde estiver o vosso tesouro, ali estará, também, o vosso coração” (Lc 12:34; Mt 6:21).

Abraão é um exemplo de quem abriu mão de tudo, para alcançar a cidade que tem fundamento, cujo arquiteto e artífice é Deus (Hb 11:10). Primeiro, ele saiu de sua parentela, ou seja, abriu mão de pai e mãe. Quando apareceu a oportunidade de ficar com os bens do rei de Sodoma, Abraão abriu mão para que o rei de Sodoma não viesse a dizer que enriqueceu Abraão (Gn 14:23).

O profeta Moisés é outro exemplo, pois abriu mão de ser chamado filho da filha de Faraó, por ter em vista a recompensa: “Pela fé, Moisés, sendo já grande, recusou ser chamado filho da filha de Faraó, escolhendo, antes, ser maltratado com o povo de Deus, do que por um pouco de tempo ter o gozo do pecado; tendo por maiores riquezas o vitupério de Cristo, do que os tesouros do Egito; porque tinha em vista a recompensa” (Hb 11:24-26).

 

O ensinamento

Para interpretar a parábola do tesouro escondido, o leitor não tem que buscar um significado para a figura do homem, do campo ou do ato de esconder o tesouro. A parábola foi contada para que os ouvintes de Jesus refletissem se estavam dispostos a abrir mão de tudo, para poder alcançar o reino dos céus!

Em lugar de apresentar um mandamento: ‘Vai e vende tudo…’, Jesus apresentou uma parábola, que fizesse os seus ouvintes considerarem se estavam dispostos a abrir mão de tudo o que possuíam, para alcançar o reino dos céus.

Igualmente, ocorre com a parábola do negociante, que saiu em busca de boas pérolas. O leitor não tem que atribuir significado ao homem negociante ou, ao fato de ter encontrado uma pérola de grande valor. O objetivo da parábola é destacar se os ouvintes de Jesus estavam dispostos a cumprirem a ordem de Cristo: “Vai, vende tudo quanto tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; vem, toma a cruz e segue-me” (Mc 10:21).

Muitos erros surgem quando se ignora o público alvo da parábola, porém, eles se avolumam quando o intérprete procura atribuir significado a cada elemento que compõe a parábola.

De nada adianta interpretar corretamente um elemento da parábola e se equivocar no restante. Observe:

“Mas, há dois conceitos errados, sobre essas parábolas, que devem ser considerados. O primeiro foi proposto por Orígenes e afirma que Cristo é o tesouro escondido ou a pérola de inestimável valor que o pecador tem de encontrar e comprar. Na outra parábola, os papéis são invertidos, fazendo uma alusão descabida a Cristo como aquele que encontra a Igreja e a compra. Ambos, contudo, são conceitos errados (Cristo não está à venda nem vendeu Israel para comprar a igreja) e lidam com questões que estão fora do contexto” O novo comentário bíblico NT, com recursos adicionais — A Palavra de Deus ao alcance de todos. Editores: Earl Radmacher, Ronald B. Allen e H.Wayne House, Rio de Janeiro, 2010.

Com base no apontado pelos editores do ‘O Novo Comentário Bíblico Novo Testamento’, Orígenes estava corretíssimo quando aponta Cristo como o tesouro escondido ou a pérola de grande valor. Entretanto, cometeu o equívoco de não observar o público alvo das parábolas e de considerar que Cristo encontrou a igreja e a compra.

Os editores do ‘O Novo Comentário Bíblico Novo Testamento’ erram quando afirmam que Orígenes errou ao dizer que Cristo é o tesouro escondido ou a pedra de grande valor. Ora, efetivamente Cristo é o tesouro escondido ou a pérola de inestimável valor.

A interpretação que Moody dá à parábola do tesouro escondido é equivocada, porque ele buscou dar significado a alguns elementos que compõem a parábola:

“44. O Tesouro Oculto. Embora o tesouro costume ser explicado como sendo Cristo, o Evangelho, a salvação, ou a Igreja, pelo que o pecador deveria estar pronto a sacrificar tudo, o uso consistente da palavra homem nesta série refere-se a Cristo e o ato de esconder, novamente, depois de encontrar, toma os quadros diferentes. Antes, o tesouro oculto num campo descreve o lugar ocupado pela nação de Israel durante o interregno (Êx. 19:5; Sl. 135:4). Cristo veio para essa nação obscura. A nação, entretanto, rejeitou-o, e assim, com propósito divino, foi privada de sua importância financeira; ainda hoje continua obscura no seu aspecto externo quanto ao seu relacionamento com o reino messiânico (Mt. 21:43). Mas, Cristo deu a sua própria vida (tudo quanto tem) para comprar todo o campo (o mundo, l Co. 5:19; I Jo. 2:2) e, assim, conseguiu plena posse de direito por descobrimento e redenção. Quando ele voltar, o tesouro será desenterrado e totalmente revelado (Zc. 12,13)” Comentário Bíblico Moody – Mateus.

Israel

As parábolas do tesouro escondido e da pérola de grande valor são exigências aos filhos de Israel, para que se desfaçam de tudo, pois acerca deles, protestavam os profetas, de que eram possuidores de muitas ‘riquezas’, a ponto de serem chamados ‘ricos’.

“Mas ai de vós, ricos! porque já tendes a vossa consolação” (Lc 6:24);

“Mas vós desonrastes o pobre. Porventura não vos oprimem os ricos e não vos arrastam aos tribunais?” (Tg 2:6);

“Eia, pois, agora vós, ricos, chorai e pranteai, por vossas misérias, que sobre vós hão de vir (…) Condenastes e matastes o justo; ele não vos resistiu” (Tg 5:1 a 6).

Essa era a condição dos filhos de Israel:

“Na verdade, todo homem anda numa vã aparência; na verdade, em vão se inquietam; amontoam riquezas e não sabem quem as levará (Sl 39:6; Lc 12:20; Jr 17:11);

“Assim diz o SENHOR: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem se glorie o forte na sua força; não se glorie o rico nas suas riquezas” (Jr 9:23).

 

A igreja

Essas duas parábolas possuem algum elemento prático exigível dos membros do corpo de Cristo? Não, pois os que creem já ganharam a Cristo. O crente em Cristo não tem que dispor de nada para ganhar a Cristo, antes, já está de posse de Cristo, por crer na mensagem do evangelho.

O alerta para a igreja é diferente: “Sofre, pois, comigo, as aflições, como bom soldado de Jesus Cristo. Ninguém que milita se embaraça com negócios desta vida, a fim de agradar àquele que o alistou para a guerra” (2Tm 2:4), de modo que: “… os que têm mulheres sejam como se não as tivessem; os que choram, como se não chorassem; os que folgam, como se não folgassem;  os que compram, como se não possuíssem; e os que usam deste mundo, como se dele não abusassem, porque a aparência deste mundo passa” (1Co 7:29-31).

Das parábolas do tesouro escondido e da pérola de grande valor, os cristãos retiram uma lição a ser utilizada no evangelismo, de modo a demonstrar ao pecador que, para ganhar a Cristo é necessário deixar tudo.

“Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Que daria um homem em troca de sua alma?” (Mc 8:36-37).

 


[1] As parábolas da Bíblia, geralmente, são narrativas curtas, que transmitem um ensinamento proposto por Deus, através dos profetas da Antiga Aliança, composta por símiles, figuras, enigmas e adágios.

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Abraão foi salvo pela fé ou pelas obras?

Se Abraão tivesse saído do meio de sua parentela e fosse habitar as regiões de Canaã sem que Deus lhe ordenasse, a sua decisão não seria por fé. Se Abraão tivesse decidido, de moto próprio, oferecer Isaque em holocausto a Deus, sem que Deus houvesse ordenado, o seu sacrifício não seria por fé e sua atitude não seria em função de uma provação (Hb 11:17).


Introdução

Na maioria dos comentários bíblicos, em que os termos ‘fé’ e ‘obras’ aparecem, a palavra ‘paradoxo’ acaba sendo utilizada. Há até quem afirme que no Novo Testamento há inúmeros “paradoxos aparentes”.

O que é um paradoxo?

Segundo definição que consta na Wikipédia:

“Paradoxo é uma declaração, aparentemente, verdadeira, que leva a uma contradição lógica, ou, a uma situação que contradiz a intuição comum. Em termos simples, um paradoxo é “o oposto do que alguém pensa ser a verdade”. A identificação de um paradoxo, baseado em conceitos aparentemente simples e racionais tem, por vezes, auxiliado, significativamente, o progresso da ciência, filosofia e matemática”. Wikipédia.

Diante dessa definição de paradoxo: ‘declaração aparentemente verdadeira’, é correto entender que as asserções[1] bíblicas são ‘aparentemente’ verdadeiras? Os dois versículos abaixo, são a exata expressão da verdade ou, ‘aparentemente’ verdadeiros?

“Assim como Abraão creu em Deus, isso lhe foi imputado como justiça” (Gl 3:6);

“Porventura, o nosso pai Abraão não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque?” (Tg 2:21).

Os versos acima são paradoxais? Há contradição entre o ensinamento do apóstolo Paulo e do irmão Tiago? A doutrina de Cristo possui pontos aparentemente discordantes? São ensinos aparentemente verdadeiros?

A palavra de Deus não é uma declaração aparentemente verdadeira, antes, é a verdade “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17:17), portanto, os ensinamentos bíblicos, não comportam essa definição de ‘paradoxo’.

Na comunicação falada ou escrita há ‘paradoxos’, porém, tais paradoxos são figuras de pensamento, um dos recursos linguísticos (figuras de linguagem) que tornam uma mensagem mais expressiva, que nada mais é do que uma proposição construída, através da união de ideias contraditórias.

Quando Jesus propôs a Nicodemos que era necessário nascer de novo, o alerta de Jesus era verdadeiro, entretanto, por desconhecer a natureza daquilo que Jesus propôs, surgiu na cabeça de Nicodemos um paradoxo: Como é possível um homem nascer, sendo velho? (Jo 3:4)

A mensagem de Jesus não era contraditória e nem aparentemente verdadeira, mas a limitação de Nicodemos que, sendo mestre, não compreendeu a mensagem, é que levou a questionar, sobre como seria possível um homem velho, nascer de novo.

Abraão foi salvo pela ‘fé’ ou, por ‘obras’? Há contradição entre a ‘fé’ e as ‘obras’, ou, a contradição decorre da má compreensão?

 

Abraão creu em Deus

“Assim como Abraão creu em Deus, isso lhe foi imputado como justiça” (Gl 3:6).

Como ler esse versículo? A ‘confiança’ de Abraão é o que o justificou? O que dizer do versículo: ‘O justo viverá da fé?’

Quando o apóstolo Paulo escreveu, repreendendo os cristãos da Galácia, sobre o fascínio que os levou a se desviarem da verdade do evangelho, lembrou que anunciou aos Gálatas o Cristo crucificado (Gl 3:1; 1Co 1:23), e que não receberam o espírito pelas ‘obras da lei’, antes pela ‘pregação da fé’ (Gl 3:2 e 5).

Que ‘espírito’ eles receberam pela ‘pregação da fé’? O espírito que o apóstolo Paulo faz referência, diz do evangelho, a palavra de Deus, vez que os cristãos são ministros do espírito, ou seja, ministros da justiça, ministros da nova aliança: “O qual, nos fez, também, capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica (…) Como não será de maior glória o ministério do Espírito? Porque, se o ministério da condenação foi glorioso, muito mais excederá em glória o ministério da justiça” (1Co 3:6 e 8-9).

Jesus afirmou que as palavras d’Ele são espírito e vida: “O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são espírito e vida” (Jo 6:63).

A mensagem do evangelho é cumprimento do anunciado pelos profetas: água sobre o sedento, espírito derramado. É por isso que o homem nasce de novo, somente pela água e pelo espírito: “Porque derramarei água sobre o sedento e rios sobre a terra seca; derramarei o meu Espírito sobre a tua posteridade e a minha bênção sobre os teus descendentes” (Is 44:3). “E há de ser que, depois derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos, os vossos jovens terão visões” (Jl 2:28; Jo 3:5).

Como Deus dá do seu espírito? Como Deus opera milagres? O apóstolo Paulo afirma que Deus deu o seu espírito e opera milagres pela ‘pregação da fé’, ou seja, através do evangelho (Gl 3:5). Cristo foi ungido para evangelizar, ou seja, o espírito de Deus estava sobre Ele, o mesmo espírito foi dado aos cristãos pela pregação da fé. “Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos” (Jd 1:3; Is 11:1-3; Is 61:1-3).

O evangelho foi anunciado pelo apóstolo Paulo aos gentios, de modo que ele era ministro do evangelho, anunciando a ‘fé’ (evangelho) entre os gentios. “Se, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé e não vos moverdes da esperança do evangelho que tendes ouvido, o qual foi pregado a toda criatura que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, estou feito ministro” (Cl 1:23; Rm 1:8).

A ‘fé’ se refere à mensagem das boas novas, o espírito derramado sobre toda carne, o mesmo espírito do qual o apóstolo Paulo foi constituído ministro. A ‘fé’ diz do evangelho anunciado a toda criatura, que há debaixo do sol (judeus e gentios), esperança anunciada para que os homens creiam e sejam salvos: “Porque, se alguém for pregar-vos outro Jesus que nós não temos pregado, ou se recebeis outro espírito que não recebestes, ou outro evangelho que não abraçastes, com razão o sofrereis” (2Co 11:4).

O crente é salvo ao crer na ‘loucura da pregação’, mas a salvação decorre especificamente da ‘loucura da pregação’, que é Cristo crucificado, que para os judeus era escândalo e para os gregos, loucura “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação” (1Co 1:21-23).

O poder para a salvação não está na capacidade do homem de acreditar, mas, sim, na mensagem pregada. Para aqueles que são salvos, a palavra da cruz é o poder de Deus: “Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu e também do grego” (Rm 1:16; 1Co 1:18).

Deus salva pela ‘loucura da pregação’, ou seja, pela fé. Para ser salvo, é imprescindível ouvir a palavra da verdade, pois, no evangelho, está o poder para que o homem seja feito filho de Deus (Jo 1:12; Ef 1:13). O homem é justificado pela fé, ou seja, por Cristo, pelo evangelho. “E de tudo o que, pela lei de Moisés, não pudestes ser justificados, por ele é justificado todo aquele que crê” (At 13:39).

Acerca da salvação em Cristo, foi predito a Abraão: ‘Todas as nações serão benditas em ti’ (Gl 3:8). O apóstolo Paulo, ao ler Gênesis 12, verso 3, interpretou essa passagem bíblica como uma profecia, acerca de como Deus haveria de justificar os gentios: pela fé, ou seja, por meio de Cristo – a fé que havia de se manifestar: “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar, pela fé, os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti” (Gl 3:8 compare com Gl 3:23).

Por que os gentios seriam benditos em Abraão? Por causa do descendente prometido a Abraão: Cristo. O descendente prometido a Abraão foi estabelecido como luz para todos os povos, não o patriarca (Is 42:6; Is 49:6). Cristo é a fé manifesta, na plenitude dos tempos, por quem os homens são justificados e não o patriarca (Gl 3:23-25).

O apóstolo Paulo apresenta Abraão como exemplo de alguém que foi justificado, ao crer em Deus (Gl 3:6). Mas, como Abraão confiou em Deus? Deus ordenou a Abraão que deixasse a sua parentela e partisse para uma terra que seria revelada e lhe fez uma promessa: Abraão seria uma grande nação e os seus descendentes seriam inumeráveis, assim como as estrelas do céu, apesar de Abraão não ter descendente, na época (Gn 15:4-5).

Abraão demonstrou que confiou em Deus, quando saiu do meio da sua parentela, porém, a bênção de Abraão não decorre do fato de ele ter saído do meio da sua parentela (confiança), antes, Abraão foi abençoado porque foi estabelecido que, se ele saísse do meio da sua parentela, Deus haveria de abençoá-lo grandemente. A bênção está na palavra que diz: ‘E far-te-ei uma grande nação e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção’ (Gn 12:2).

A força da salvação está na promessa de que Deus haveria de abençoar os gentios, através do descendente de Abraão e não em Abraão ter saído do meio da sua parentela. Semelhantemente, a força do pecado está na lei que estabelece: ‘certamente morrerás’, não nas ações dos pecadores: “Ora, o aguilhão da morte é o pecado e a força do pecado é a lei” (1Co 15:56).

Quando Ló se apartou de Abraão, Deus indicou ao patriarca qual a terra que os seus descendentes haveriam de herdar, em função do que lhe foi prometido, caso saísse do meio dos seus parentes. (Gn 13:15-16)

Por isso, é dito pelo escritor aos Hebreus que, pela fé, ou seja, pela palavra de Deus, Abraão, sendo chamado para um lugar que havia de receber por herança, obedeceu e saiu (Hb 11:8). O fato de Abraão ter saído, indica que ele creu na palavra de Deus. Pela fé, ou seja, por causa da palavra de Deus, Abraão peregrinou na terra da promessa, como que em terra alheia (Hb 11:9).

Se Abraão tivesse saído do meio de sua parentela e fosse habitar as regiões de Canaã sem que Deus lhe ordenasse, a sua decisão não seria por fé. Se Abraão tivesse decidido, de moto próprio, oferecer Isaque em holocausto a Deus, sem que Deus houvesse ordenado, o seu sacrifício não seria por fé e sua atitude não seria em função de uma provação (Hb 11:17).

Quando lemos que Abraão foi justificado pela fé, significa que Abraão foi justificado pela palavra de Deus. É por isso que é dito que a fé foi imputada[2] a Abraão (Rm 4:9). O que foi conferido a Abraão? Uma capacidade de crer? Não! O que foi imputado a Abraão foi a fé, a palavra de Deus, que é fato, prova,  sem tergiversações.

A capacidade de crer é pertinente a todos os homens. É um atributo natural do ser humano, acreditar no que é real, verdadeiro, firme, palpável, etc. O que foi dado a Abraão foi a fé, ou seja, uma promessa graciosa e firme (Rm 4:16). Abraão acreditou em Deus, por não atentar para a condição do seu corpo amortecido ou, para o amortecimento do ventre de Sara, e sim, se deixou fortificar pela palavra que lhe foi anunciada: fé! (Hb 11:19-21)

A certeza de Abraão não surgiu de suas próprias convicções, antes pela palavra da fé que lhe disse que haveria de ser abençoado, caso obedecesse. De posse da palavra de Deus, teve certeza que Aquele que prometeu, era poderoso para cumprir (Rm 4:21). Ao sair do meio de sua parentela, Abraão estava admitindo, através da sua ação, que Deus é fiel e poderoso para cumprir o que prometeu, pelo que ‘… isso lhe foi imputado para justiça’ (Rm 4:22); “Assim como Abraão creu em Deus, isso lhe foi imputado como justiça” (Gl 3:6).

Ao sair do meio da sua parentela, Abraão estava admitindo, por meio de sua ação, que Deus é fidedigno[3], ou seja, digno de ‘fé’ (πιστευω – pisteuo), digno de ‘confiança’, pela sua própria glória e virtude (2Pe 1:3).

É na fé (πιστις – pistis), ou seja, na palavra de Deus que há poder. Foi pela palavra de Deus que Sara recebeu poder de conceber um filho, mesmo sendo estéril e de avançada idade. Quando é dito que ‘… pela fé, a própria Sara recebeu poder…’, o termo ‘fé’ não diz das convicções de Sara, antes aponta para a fidelidade, a lealdade, o caráter de alguém em quem se pode confiar. A crença de Sara resume-se em ‘ter por fiel’ aquele que havia feito a promessa (Hb 11:11).

Foi pela palavra de Deus que os antigos alcançaram bom testemunho, pois sem a palavra de Deus, nada podiam esperar ou acreditar (Hb 11:1). A Bíblia diz que Abraão é o Pai da fé, pois o evangelho foi primeiramente anunciado a Ele: a vinda do Cristo em quem todas as famílias da terra seriam bem-aventuradas, e não porque Ele creu, até porque existiram heróis da fé antes do patriarca Abraão.

Abraão foi salvo pela ‘fé’, porque ‘creu’ em Deus, por causa do que lhe foi dito (fé):

“(Como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí) perante aquele no qual creu, a saber, Deus, o qual vivifica os mortos e chama as coisas que não são como se já fossem. O qual, em esperança, creu contra a esperança, tanto que ele tornou-se pai de muitas nações, conforme o que lhe fora dito: Assim será a tua descendência” (Rm 4:17-18).

Deus deu a sua palavra e Abraão creu em Deus, que vivifica os mortos e chama as coisas que não são, como se já fossem, ou seja, Deus é poderoso para realizar o que prometeu, portanto, digno de confiança. Ao crer, Abraão tornou-se pai de muitas nações, isto conforme a palavra de Deus que diz: Assim será a tua descendência!

 

‘Fé’ e ‘crer’

Durante a leitura das cartas paulinas, verifica-se que o substantivo fé (πιστις – pistis) e o verbo crer (πιστευω – pisteuo) são empregados, quase que o mesmo número de vezes, por volta de 244 ocorrências e aquele, por volta de 243 vezes, sem falar no termo fé como adjetivo (πιστός – pistos), que ocorre 67 vezes.

Apesar de ser equivalente, o número de vezes que os termos πιστις e πιστός são empregados, vale destacar que o substantivo πιστις (pistis), quando empregado pelo apóstolo Paulo, em várias ocasiões, assume uma conotação especifica.

Geralmente, a definição de πιστις[4] nos dicionários, aponta para as disposições internas do indivíduo, ou seja, para questões de cunho subjetivo: convicção. Porém, ao fazer uso do termo, o apóstolo Paulo, na maioria das vezes, o faz como figura de linguagem, uma metonímia[5].

Como Cristo é o autor e consumador da fé (Hb 12:2), o substantivo fé é utilizado para fazer referência à pessoa de Cristo e à sua doutrina, havendo substituição do autor (Cristo) pela sua obra (fé).

Quando é dito pelo apóstolo Paulo que, ‘em todo o mundo é anunciada a vossa fé’ (Rm 1:8), o termo foi utilizado para fazer referência à doutrina de Cristo, ou seja, o evangelho. Quando é dito que ‘antes que a fé viesse’, ou ‘aquela fé que havia de se manifestar’ (Gl 3:23), o substantivo fé foi empregado para fazer referência à pessoa de Cristo.

Quando é dito que o homem é justificado pela fé, na verdade, o apóstolo está declarando que o homem é justificado por Cristo. Quando é dito que o homem é salvo pela graça de Deus, por meio da fé, na verdade, o apóstolo está esclarecendo que Cristo é o dom inefável de Deus, e que, através d’Ele, o homem é salvo (Ef 2:8).

Por que devemos fazer essa análise? Porque, quando emprega o substantivo ‘fé’, em sua epístola, o irmão Tiago o faz, somente com um único significado: crer, portanto, apontando, apenas, para as disposições internas do indivíduo, diferentemente do apóstolo Paulo, que emprega o termo, tanto no sentido de ‘doutrina’, quanto no sentido de ‘crer’.

Observe essa definição:

“A fé é mais do que uma crença intelectual em Deus. Se essa crença não nos leva a uma santa vida de justiça e misericórdia, ela não é a fé salvadora (Mt 7.21-23)” Radmacher, Earl; Allen, Ronald B.; House, H. Wayne, O novo comentário bíblico NT, com recursos adicionais – A Palavra de Deus ao alcance de todos. Rio de Janeiro, 2010, pág. 675.

De que ‘fé’ o autor está falando? De um corpo doutrinário, ou de crer?

Se a ‘fé’, em análise pelos editores do ‘O novo comentário bíblico do NT’, refere-se ao evangelho, efetivamente, por meio do evangelho (fé), o homem recebe poder de ser feito filho de Deus, portanto, é de novo criado, em verdadeira justiça e santidade (Ef 3:23). Está acima de uma crença intelectual em Deus, antes é a palavra de Deus pela qual o homem é santificado: “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17:17).

Se eles abordaram a ‘fé’, no sentido de ‘crer’, ‘acreditar’, tal fé não pode ser nada, além de uma crença intelectual na palavra de Deus. Quando o homem crê em Cristo, na verdade, exerce uma crença intelectual em Deus, conforme o Seu testemunho, exarado nas Escrituras. Deus deu testemunho do seu Filho nas Escrituras e crer nas Escrituras é exercer um culto racional.

Não é o crer, que leva o homem a uma ‘santa vida de justiça’, antes é a fé manifesta – Cristo – que santifica os que creem, concedendo-lhes uma nova vida: santa e justa. É a verdade, a ‘fé’ que santifica, e não o crer: “E por eles me santifico a mim mesmo, para que também eles sejam santificados na verdade” (Jo 17:19). Os equívocos quanto ao significado do termo ‘fé’, leva ao entendimento errôneo de que o dever de andar como filhos da luz (comportamento), diz de uma fé que ‘… é mais do que uma crença intelectual’.

 

A obra de Abraão

“Porventura o nosso pai Abraão não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque?” (Tg 2:21)

Comparando a escrita do apóstolo Paulo com a do irmão Tiago, percebe-se que, por causa do público alvo da carta, há uma mudança gritante no emprego de alguns termos, sem falar que o apóstolo Paulo, ao escrever, utiliza diversos recursos linguísticos de estilo, enquanto Tiago, pela graciosidade poética da sua epístola, fez uso somente de figuras e parábolas.

Quando Tiago diz ‘a prova da vossa fé’, diz da confiança do homem que é posta à prova, e não da palavra de Deus, que é simultaneamente fundamento e prova. Se o homem é provado e permanece confiante, a confiança transforma-se em ‘perseverança’. “Todo aquele que prevarica e não persevera na doutrina de Cristo, não tem a Deus. Quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem, tanto o Pai, como o Filho” (2 Jo 1:9; Tg 1:3).

O não crente precisa crer para ser salvo e o salvo precisa portar-se de modo digno do evangelho e perseverar na fé, combatendo o bom combate: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo, como aos que te ouvem” (2Tm 4:16); “Somente deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho de Cristo, para que, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de vós, que estais num mesmo espírito, combatendo, juntamente, com o mesmo ânimo, pela fé do evangelho” (Fl 1:27).

Se alguém vai pedir algo a Deus, deve pedir com fé, ou seja, acreditando, crendo (Tg 1:6). O termo ‘fé’, foi empregado por Tiago, no sentido de ‘crer’, diferentemente do apóstolo Paulo que, muitas vezes, emprega o termo, no sentido de evangelho, doutrina.

Mas, por questões de estilo e escrita, há divergências entre o exposto pelo apóstolo Paulo e Tiago? Não! A má compreensão da exposição é que leva as divergências, não o conteúdo doutrinário exposto por eles.

O apóstolo Paulo afirma que o evangelho é poder de Deus para salvação (Rm 1:16), enquanto que Tiago, por sua vez, afirma que a palavra implantada nos cristãos é poderosa para salvar (Tg 1:21). Sem contradição alguma a exposição de ambos!

Entretanto, a linguagem utilizada por eles é diferente, em alguns aspectos, apesar de a doutrina não ser divergente, e, isto se dá em função do público alvo da mensagem.  Observe que o apóstolo Paulo diz que o evangelho é poder de Deus para a salvação ‘de todo aquele que crê’ e o irmão Tiago, em vez de dizer que é necessário crer, aponta a necessidade de cumprir a palavra, ou seja, de ‘ser executor da obra’ (Tg 1:25).

‘Acreditar’ e ‘crer’ são verbos que melhor se adequam à realidade dos gentios, enquanto a linguagem dos judeus traduz a ideia de que, quem crê em Deus, é executor de um ‘trabalho’, de uma ‘obra’.

A linguagem do Antigo Testamento aponta o obediente, como aquele que crê, acredita, daí a linguagem dos judeus em identificar ao que obedece, ou seja, quem é executor do que é ordenado por Deus, como quem crê. A linguagem do irmão Tiago evidencia a sujeição do crente e o senhorio de Deus, e a linguagem do apóstolo Paulo evidencia a condição de quem é livre no Senhor.

Entretanto, é imprescindível ao leitor notar a diferença da abordagem paulina da do irmão Tiago. Abordagem do apóstolo Paulo no verso 16 de Romanos 1 possui viés evangelístico, e a abordagem no verso 21 do capítulo 1 de Tiago possui viés exortativo. Este aborda a necessidade de os cristãos perseverarem firmes na palavra neles implantada, enquanto que, aquele, enfatiza a universalidade do evangelho: todo aquele que crê, tanto judeus quanto gentios.

A linguagem de Tiago é a mesma de Cristo, pois é própria aos judeus. Quando a multidão perguntou a Jesus qual era a obra de Deus para realizarem, Jesus respondeu que a obra de Deus é crer naquele que Ele enviou (Jo 6:28-29). O executor da obra, que é bem-aventurado em seu feito, diz de quem crê em Cristo, pois a lei perfeita, a da liberdade, diz do evangelho, a palavra poderosa para salvar: “Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito” (Tg 1:25).

Tiago escreveu aos servos de Cristo das doze tribos da dispersão, ou seja, aos cristãos convertidos do judaísmo (Tg 1:1). Mas, entre esses cristãos, havia aqueles que diziam crer em Deus e cuidavam ser religiosos e não se sujeitavam a Cristo, consequentemente, a mensagem de Tiago enfatiza o que foi dito por Jesus aos seus discípulos: “… credes em Deus, crede também em mim” (Jo 14:1).

Daí o questionamento de Tiago nos versos 14 a 26, do capítulo 2, da sua epístola: “Que aproveito há se alguém disser que tem fé e não tiver obras?” (Tg 2:14). O termo ‘fé’ foi utilizado no sentido de ‘crer’, conforme o verso 19: “Crês tu que Deus é um só?”, e não no sentido de ‘evangelho’, ‘doutrina’, como quando o apóstolo Paulo diz que acabou a carreira e guardou a ‘fé’ (2 Tm 4:7).

Que proveito teriam os discípulos ao ‘crerem em Deus’ e não crerem em Cristo? Poderia tal fé salvar os discípulos? Não! Pois qualquer que diz crer em Deus, deve crer naquele que Ele enviou: “E Jesus clamou e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas naquele que me enviou” (Jo 12:44).

O termo ‘fé’, utilizado por Tiago, não faz referência ao evangelho e nem a Cristo, bem como o termo ‘obras’ no contexto, não faz referência à lei de Moisés. O termo ‘fé’ foi utilizado para fazer referência a uma crença em uma doutrina ou pensamento diverso da doutrina do evangelho de Cristo (Tg 3:19), e o termo ‘obras’ foi utilizado para fazer referência à lei perfeita, a da liberdade, e não às obras da lei de Moisés (Tg 1:22 e 25).

Acreditar que Deus é um só não salva, da mesma forma que não salva acreditar que o homem pode ser salvo por ser descendente da carne de Abraão ou, pela circuncisão. Os judeus acreditavam que nunca foram escravos de ninguém, mas tal ‘fé’ não os tornava livres do pecado (Jo 8:33). Há quem creia em Cristo, como alguns judeus, mas segundo a concepção do seu coração enganoso. Embora esta pessoa tenha ‘fé’ (creia), tal fé é sem proveito para a salvação, ou seja, não os faz livres do pecado: “Jesus dizia, pois, aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos” (Jo 8:31).

Muitos judeus criam em Cristo, mas quando arguidos, continuavam confiados que eram livres por serem descendentes de Abraão (Jo 8:31 e 39). Poderia tal ‘fé’ salvá-los? Pode alguém ser salvo, por crer na existência de Deus? Não!

Neste sentido, que proveito há, se alguém diz que tem fé, mas não crê em Jesus? Que proveito há em dizer que conhece a Deus, se não guardar o Seu mandamento? Tal pessoa é mentirosa e nela não está a verdade (1 Jo 2:3-5). Que proveio há em dizer: ‘nunca fomos escravos de ninguém’, se não é liberto pela verdade? (Jo 8:31-32)

O irmão Tiago não estava questionando se há proveito em ter fé em Cristo, ou seja, se quem crê em Cristo não será salvo, pois é evidente que quem crê em Cristo será salvo (1 Jo 5:13). A fé em Cristo pode salvar o crente, pois, acerca de Cristo, testemunharam todos os profetas, de que recebem o perdão dos pecados, todos os que creem n’Ele (At 10:43). Por Cristo é justificado todo aquele que crê, ou seja, qualquer que tem fé n’Ele (At 13:39).

A abordagem de Tiago, em relação àqueles que diziam que tinham fé, é a mesma que fez o apóstolo Paulo, ao escrever a Tito, quando disse: “Professam conhecer a Deus, mas o negam pelas suas obras…” (Tt 1:16). É sem proveito dizer que se conhece a Deus, ou dizer que se tem ‘fé’, se esse alguém não guarda o seu mandamento (1 Jo 2:4). E qual é o mandamento a cumprir, para que o homem passe a conhecer a Deus? Que creia em Cristo, no nome do Filho de Deus (1 Jo 3:23), pois, o que guarda esse mandamento, permanece em Deus e Deus nele (1 Jo 3:24; Gl 4:9).

Qual a obra que o homem deve realizar? Crer em Cristo! (Jo 6:28-29). É sem valor algum, professar que se conhece a Deus, mas não se crê em Cristo, ou seja, se o nega pelas obras. Cristo é salvação para todos quantos O obedecem, portanto, Ele salva quem realiza a sua obra: “E, sendo ele consumado, veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem” (Hb 5:9).

O questionamento de Tiago só é compreendido quando o leitor perceber que a obra a qual ele fez referência diz da obra de Deus, que é crer em Cristo e não das obras decorrentes da lei: guardar os sábados, a circuncisão, dias, luas, etc. Aquele que diz que crê em Deus, se não crê em Cristo, a obra exigida por Deus, tal ‘fé’ é morta em si mesma (Tg 2:17).

Ao ler esta passagem de Tiago, tem que se ter em mente que, quem crê em Cristo, não crê somente em Cristo, mas também em Deus e vice-versa: “E Jesus clamou e disse: ‘Quem crê em mim, crê, não somente em mim, mas também naquele que me enviou’” (Jo 12:44). Ora, quem diz ter fé, tem que ter a obra, ou seja, crer em Cristo. Quem crê em Cristo crê no testemunho que Deus deu acerca do seu Filho Jesus Cristo (1 Jo 5:10).

Muitos judeus diziam que criam que Deus é um só, mas, apesar de ser bom crer na existência de Deus, não consideravam que os demônios também criam e estremeciam, mas, tal fé não salva os demônios.

O que salva o homem é o mandamento de Deus, contido no evangelho: realizar a obra de Deus, ou seja, crer em Cristo, não a disposição do homem em crer na existência de Deus, ou em milagres, ou em anjos, ou no sobrenatural, ou na circuncisão, ou na carne de Abraão, etc.

Quando Tiago utiliza o termo ‘louco’, ‘insensato’, deixa evidente que estava tratando com cristãos convertidos dentre os judeus. Os profetas utilizavam o termo ‘louco’, ‘ignorante’ para fazer referência aos filhos de Israel, e, Tiago ao escrever às doze tribos da dispersão, escreveu a cristãos convertidos, dentre os judeus (Dt 32:6; Jr 4:22).

Tiago destaca que, somente dizer acreditar (fé) em Deus, sem obedecê-Lo (obras) é inútil e utiliza a pessoa do patriarca Abraão como exemplo, que, ao oferecer o seu único filho em holocausto, demonstrou confiar em Deus (Tg 2:20).

O irmão Tiago evidencia que Abraão foi justificado pelas obras, quando ofereceu o seu filho Isaque sobre o altar (Tg 2:21). Como? Ao dizer que Abraão foi justificado pelas obras, isto não significa que Abraão foi justificado pelas obras da lei, visto que à época do patriarca ainda não havia sido entregue a lei aos filhos de Israel (Rm 4:13). O apóstolo Paulo é específico: ninguém é justificado ‘pelas obras da lei’, na verdade o homem é justificado pelas obras, em função da lei (mandamento) da fé.

As ‘obras da lei’ referem-se à lei de Moisés, que é antagônica à ‘lei da fé’, ou seja, ao mandamento do evangelho: crer em Jesus Cristo: “Onde está logo a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé” (Rm 3:27). “Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé em Cristo, não pelas obras da lei; porquanto pelas obras da lei, nenhuma carne será justificada” (Gl 2:16).

Se Abraão tivesse proposto de si mesmo fazer um sacrifício, oferecendo o seu filho em holocausto, a sua ação não o justificaria. Mas, como Deus ordenou a Abraão que oferecesse o seu único filho em holocausto (Gn 22:2) e ele obedeceu ao mando do Senhor, foi justificado por sua obra: a palavra de Deus operou nele: “Por isso, também, damos, sem cessar, graças a Deus, pois, havendo recebido de nós a palavra da pregação de Deus, a recebestes, não como palavra de homens, mas (segundo é, na verdade), como palavra de Deus, a qual também opera em vós, os que crestes” (1 Ts 2:13).

Tudo o que não é ordenado por Deus, é pecado e oferecer um filho em holocausto, sem Deus ter ordenado, é pecado “… e tudo o que não é de fé é pecado” (Rm 14:23), pois o justo viverá da palavra de Deus, ou seja, da fé (Dt 8:3; Hc 2:4).

Abraão foi justificado por ter colocado o seu único filho sobre o altar? Não! Foi justificado por Deus, porque confiou que Deus era poderoso para ressuscitar o seu filho, quando iria imolá-lo sobre o altar (Hb 11:19).

Ao falar com Saul, Deus deixa claro que importa ao homem obedecer, não sacrificar. (1 Sm 15:22). Abraão demonstrou confiança em Deus, quando colocou o seu filho sobre o altar para imolá-lo, o que demonstra que, quem confia, obedece. É dito que Abraão foi justificado pelas obras, porque não se resignou em acreditar na existência de Deus, antes realizou o que Deus ordenou.

Com relação ao evangelho, o homem é salvo pela obra e não porque acredita que Deus é um só. Qual a obra em questão? Crer que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, pois este é o mandamento de Deus, para todos os homens durante o tempo sobre modo oportuno de salvação – hoje – (2 Co 6:2).

Enquanto de Abraão Deus exigiu o seu único filho, hoje, Deus exige de todos os homens que creiam em seu Filho, Jesus Cristo. Abraão acreditava na existência de Deus, e quando foi realizar a obra exigida por Deus, ficou claro que a sua crença na existência e poder de Deus, cooperou com a sua obra, e assim, pela obra, a confiança foi ‘aperfeiçoada’ (Tg 2:22).

A confiança do homem em Cristo é designada ‘perfeita’ (τελειόω – teleioó) quando o crente realiza o que lhe foi determinado. O termo grego traduzido por ‘aperfeiçoada’ é τελειόω, e não tem o sentido de melhorar a confiança, antes aponta para um quesito funcional: cumpre o propósito para o qual foi estabelecida.

Enquanto Tiago utilizou o termo ‘obra’, para fazer referência ao imperativo de obedecer ao mandamento de Deus, o apóstolo João faz uso do termo ‘amor’ (ágape), para fazer referência a esse mesmo imperativo.

“Bem vês que a fé cooperou com as suas obras e que pelas obras, a fé foi aperfeiçoada” (Tg 2:22);

“No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena e o que teme não é perfeito em amor” (1 Jo 4:18).

Considerando que, quem ama a Deus, cumpre o seu mandamento (Jo 14:15 e 23 e 24), segue-se que quem ama (obedece), não tem medo (temor), pois a obediência perfeita lança fora o medo. O medo decorre da pena, de modo que, quem tem medo é porque não obedeceu, de fato.

Pela palavra de Deus que disse: “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei” (Gn 12:1), ou seja, pela fé (a palavra de Deus é firme fundamento, prova do que não se vê), Abraão obedeceu e saiu, mesmo não sabendo para onde ia (Hb 11:8). A confiança só é perfeita quando cumpre, exatamente, a finalidade: a obediência.

Quando diz que o homem é justificado pela ‘fé’, o apóstolo Paulo está apontando para a verdade do evangelho, que evidencia Cristo como o salvador do mundo. Quando diz que Abraão foi justificado pelas obras, o irmão Tiago está apontando para o mandamento de Deus, que diz: “Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá e oferece-o ali em holocausto, sobre uma das montanhas, que eu te direi” (Gn 22:2).

Sem o mandamento para imolar o filho, Abraão poderia crer na existência de Deus, mas não seria aprovado. Sem o mandamento de Deus, para sair do meio da sua parentela, Abraão poderia deixar pai e mãe, mas não seria herdeiro da promessa. Abraão podia gerar um filho de suas entranhas, o que ocorreu com Hagar e Quetura (Gn 16:4; Gn 25:1-2), porém, tal capacidade não o tornaria pai de muitas nações.

É significativo que, diante da promessa de que a sua descendência seria como as estrelas do céu, Abraão nada fez, antes confiou em Deus, ao que isto lhe foi imputado por justiça. Diante da palavra da promessa, que disse que Abraão teria um filho com Sara (Gn 17:19), a jactância foi excluída, pois não havia nada que Abraão pudesse fazer para que Sara concebesse um filho.

Apesar do questionamento de Abraão, de que era impossível a um homem com mais de cem anos gerar filhos (Gn 17:17), posteriormente, Abraão teve filhos com Quetura (Gn 25:1). Dos filhos que teve com Quetura, Abraão podia jactar-se da sua carne, porém, do filho que teve com Sara, a promessa excluiu qualquer possibilidade de jactância, pela impossibilidade inerente ao homem, e ao oferecer sobre o altar o seu único filho, Abraão teve que, em figura, recobrá-lo dentre os mortos (Rm 3:27; Hb 11:19).

Sair do meio da parentela era algo que Abraão podia fazer, mas, ao fazê-lo, indica que ele se sujeitou, como servo, ao mandamento do Senhor. Oferecer Isaque sobre o altar era algo que Abraão podia fazer, e o fez, demonstrando total submissão à ordem de Deus. Agora, o nascimento de Isaque e a vinda do descendente, foram estabelecido pela palavra de Deus, ao que Abraão resignou-se a crer, pois, com relação à promessa, nada podia fazer a não ser crer naquele que é fiel e não pode mentir.

 

Fé com obras

Por má compreensão da exposição de Tiago, Martinho Lutero[6] chegou a classificar a epístola de Tiago como ‘insossa’, ou ‘cheia de palha’.

Se não compreender que o evangelho constitui um mandamento de Deus e que crer em Cristo é realizar a Sua obra, dificilmente o leitor compreenderá a epístola de Tiago: “Mas, nem todos têm obedecido ao evangelho; pois Isaías diz: SENHOR, quem creu na nossa pregação?” (Rm 10:16).

O apóstolo Paulo, ao escrever a Tito, utiliza a mesma linguagem do apóstolo João e Tiago:

“Confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras, sendo abomináveis, desobedientes e reprovados para toda a boa obra” (Tt 1:16);

“E nisto sabemos que o conhecemos: se guardarmos os seus mandamentos. Aquele que diz: Eu o conheço, mas não guarda os seus mandamentos, é mentiroso e nele não está a verdade” (1 Jo 2:3-4).

Dizer que ‘conhece a Deus’ e ‘negar com as obras’, tem o sentido de honrar a Deus somente com a boca e com os lábios, vez que tal pessoa não guarda o mandamento de Deus (temor). É crer (ter fé) sem as obras (obediência, honra). Os filhos de Israel se aplicavam a um temor que não era o princípio da sabedoria, antes era mandamento de homens: “Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, com a sua boca e  com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo, consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” (Is 29:13).

Primeiro, é dada a palavra da fé, ou seja, o evangelho (Rm 10:8). A palavra da fé é condicionada, vez que ‘se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres, que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo’ (Rm 10:9).

A palavra implantada é fé e a condição estabelecida é crer, de modo que possibilita ao homem crer para a justiça e confessar para ser salvo (Rm 10:10). A confissão é o fruto dos lábios de um coração que recebeu a semente incorruptível, a palavra da fé (Hb 13:15; 1Pd 1:23).

A obra exigida de Deus, dos homens, é crer no coração (intelectualmente), que Deus ressuscitou a Jesus dentre os mortos e, com a boca, confessá-lo como Senhor e Cristo. Essa obra decorre da palavra da fé apregoada: “Porque esta palavra está mui perto de ti, na tua boca, e no teu coração, para a cumprires” (Dt 30:14). Por isso é dito: Cri, por isso falei (Sl 116:10), pois com a boca se confessa e com o coração (mente) se crê.

O exemplo que Tiago apresenta, através de Raabe, se dá da mesma forma que com o cristão, pois ela ouviu que Deus havia dado a Israel a terra onde estava a cidade de Jericó, bem como ouviu que Deus secou as águas do Mar Vermelho e o que foi feito dos povos que se opuseram aos filhos de Israel, após a travessia do Jordão, de modo que Raabe concluiu que Deus é Deus em cima nos céus e embaixo na terra (Js 2:11).

Raabe ouviu e creu em Deus, a ponto de confessar aos espias os seus temores e pedir por misericórdia (Js 2:11-13). Por crer que Deus é Deus encima nos céus e embaixo na terra, pelo que ouviu acerca dos feitos dos filhos de Israel, Raabe acolheu os espias no eirado da sua casa e os despediu por outro caminho (Tg 2:25).

A informação que Raabe ouviu, acerca dos filhos de Israel, era firme e verdadeira, pelo que é dito: “Pela fé Raabe, a meretriz, não pereceu com os incrédulos, acolhendo em paz os espias” (Hb 11:31). Pela informação que recebeu, acerca do povo de Israel e do Deus que tirou o povo da terra do Egito, ou seja, pela fé (πίστις-pistis), Raabe tomou a iniciativa de acolher em paz os espias (obra).

Seria sem proveito, Raabe dizer que acreditava no evento histórico em que Deus secou as águas do Mar Vermelho, se não tivesse rogado por misericórdia aos espias. Seria sem proveito Raabe confessar que Deus é Deus nos céus e na terra sem se sujeitar a Ele, servindo aos espias.

Se entender o termo ‘fé’, segundo o que é usual em nossos dias, Raabe seria uma mulher de fé, se ela acreditasse que não seria atingida pela guerra, ou em algum absurdo ou em algum evento mágico. Nesse diapasão, a fé de Raabe deveria se opor à razão, ou como propuseram: ‘credo quia absurdum’ (creio, porque é absurdo).

Semelhantemente, Abraão foi justificado quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque. Ora, oferecer um filho em holocausto é um absurdo, porém, Abraão o fez pela fé, ou seja, apoiado na palavra de Deus, que disse: “Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre uma das montanhas, que eu te direi” (Gn 22:2). Ele ofereceu o seu único filho, porque era a palavra de Deus e não porque era absurdo.

Embora Deus tenha ordenado a Abraão que oferecesse o seu único filho em holocausto, Abraão considerou a palavra que diz: “Em Isaque será chamada a tua descendência” (Hb 11:18). Sem Isaque não havia descendência, e nem viria o Descendente, pelo que se entende que ele considerou que “Deus era poderoso para, até dentre os mortos, ressuscitar a seu filho e daí, também, em figura ele o recobrou” (Hb 11:18-19).

É pela fé, ou seja, pela palavra de Deus, que diz: ‘Em Isaque seria chamada a sua descendência’, que Abraão foi aprovado por Deus. Por causa dessa promessa: “Como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí” (Rm 4:17), Abraão creu que Deus vivifica os mortos e que chama à existência as coisas que não são, como se já fossem, vez que Deus teria que cumprir a Sua palavra (Rm 4:21).

Sem a palavra de Deus (fé), seria impossível Abraão ter a esperança de que o seu descendente (Cristo), viria ao mundo, quando colocou o seu único filho sobre o altar (creu contra a esperança).

“Pela fé, ofereceu Abraão a Isaque, quando foi provado; sim, aquele que recebera as promessas ofereceu o seu unigênito. Sendo-lhe dito: Em Isaque será chamada a tua descendência, considerou que Deus era poderoso para, até dentre os mortos, ressuscitá-lo; E daí também, em figura, ele o recobrou” (Hb 11:17-19)

Abraão tinha fé em Deus (cria na existência de Deus) e executou a obra que Deus mandou realizar, ou seja, a fé (crer) cooperou com as obras, de modo que, pelas obras de Abraão a fé (crer) foi aperfeiçoada, ou seja, cumpriu o seu propósito.

 

Identificando um erro na pergunta: “A salvação é somente pela fé ou pela fé, mais as obras?”

Há quem acredite que essa é a pergunta mais importante, em toda a Teologia Cristã. Outros, que essa pergunta motivou a Reforma: a separação entre a igreja Protestante e a igreja Católica, entretanto, não atentam para o fato de que há um erro na pergunta, que leva a um entendimento equivocado, acerca da fé e das obras.

Quando é perguntado: ‘A salvação é somente pela fé…?’, é essencial que se dê o significado do termo ‘fé’ na frase. Se o significado de fé for ‘crer’, jamais a salvação é somente pelo ‘crer’.

Quando a Bíblia apresenta a salvação somente pela fé, na verdade está dizendo que a salvação é somente por Cristo, ou seja, pelo evangelho. Não existe outra alternativa que não seja o evangelho (fé). A alternativa “… ou pela fé mais as obras?”, inexiste!

Quando questionam: “A salvação é pela fé mais as obras?”, geralmente, os termos ‘fé’ e ‘obras’ não possuem o mesmo significado que o empregado pelo irmão Tiago no verso: “Vedes então que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé” (Tg 2:24). Tiago diz que ‘o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé’, o que é completamente diferente da ideia que a pergunta sugere: ‘Salvação é pela fé, mais as obras’.

Para quem construiu a pergunta, obras possui o significado de ‘boas ações’, ‘bom comportamento’ e até de ‘frutos’, questões que o irmão Tiago não aborda neste verso em comento. O homem é salvo ‘apenas’ quando crê em Cristo, pois crer em Cristo é o suficiente para ser salvo, vez que quem salva é Cristo.

Quem crê em Cristo, produziu a obra exigida por Deus, de modo que Tiago não está dizendo que, para ser salvo, é necessário ter fé (crer) e fazer boas ações (obras). É um equivoco entender que Tiago enfatizou o fato de que a fé em Cristo produz boas obras’[7].

Tiago não faz referência à fé em Cristo, antes à ‘justificação pelas obras’, que na verdade, é crer em Cristo. Quando ele diz: ‘não somente pela fé’, Tiago não se refere à fé, como a verdade do evangelho, mas, sim, a alguém dizer que crê em Deus, mas que não realiza a sua obra (mandamento).

Realizar boas ações (boas obras) não é prova de que o homem foi verdadeiramente justificado, antes o justificado já produziu a obra exigida por Deus, e Deus, por sua vez, gerou um novo homem, através da semente incorruptível, criado em verdadeira justiça e santidade. O bom porte, o bom comportamento, as boas ações, etc., não decorrem da fé (crer) em Cristo, antes, o bom comportamento se dá quando o homem é admoestado e redarguido, e muda o seu comportamento, pelo transformar do entendimento (Rm 12:2; 1Pd 1:13-14).

A segunda parte da pergunta é equivocada e também induz ao erro, pois Tiago diz que o homem é justificado pelas obras (crer em Cristo),  não pela fé (crer em Deus). Em momento algum Tiago aponta para uma salvação pela ‘fé mais as obras’, antes ele apresenta a salvação pelas obras (obediência ao mandamento de Deus) que decorrem da fé (crer) em Cristo.

 


[1] “Proposição que se assume como verdadeira, independentemente de seu conteúdo”;

[2] “3049 λογιζομαι logizomai voz média de 3056; TDNT – 4:284,536; v 1) recontar, contar, computar, calcular, conferir 1a) levar em conta, fazer um cálculo 1a1) metáf. passar para a conta de alguém, imputar 1a2) algo que é considerado como ou é alguma coisa, i.e., como benefício para ou equivalente a algo, como ter a força e o peso semelhante 1b) constar entre, considerar 1c) considerar ou contar 2) avaliar, somar ou pesar as razões, deliberar 3) de considerar todas as razões, para concluir ou inferir 3a) considerar, levar em conta, pesar, meditar sobre 3b) supor, julgar, crer 3c) determinar, propor-se, decidir Esta palavra lida com a realidade. Se eu “logizomai” ou considero que minha conta bancária tem R$ 25,00, ela tem R$ 25,00. Do contrário eu estaria me enganando. Esta palavra refere-se a fatos e não a suposições” Dicionário Bíblico Strong.

[3] “Fidedigno – adj. Merecedor de crédito (confiança); que é real e verdadeiro; autêntico: realizou um fidedigno levantamento das dívidas da empresa. P.ext. Figurado. Caracterizado por ser real e verdadeiro; autêntico.  (Etm. do latim: fide dignus)”. Dicionário Online de Português.

[4] “4102 πιστις pistis de 3982; TDNT – 6:174,849; n f 1) convicção da verdade de algo, fé; no NT, de uma convicção ou crença que diz respeito ao relacionamento do homem com Deus e com as coisas divinas, geralmente com a ideia inclusa de confiança e fervor santo nascido da fé e unido com ela 1a) relativo a Deus 1a1) a convicção de que Deus existe e é o criador e governador de todas as coisas, o provedor e doador da salvação eterna em Cristo 1b) relativo a Cristo 1b1) convicção ou fé forte e benvinda de que Jesus é o Messias, através do qual nós obtemos a salvação eterna no reino de Deus 1c) a fé religiosa dos cristãos 1d) fé com a ideia predominante de confiança (ou confidência) seja em Deus ou em Cristo, surgindo da fé no mesmo 2) fidelidade, lealdade 2a) o caráter de alguém em quem se pode confiar” Dicionário Bíblico Strong.

[5] “A metonímia consiste em empregar um termo no lugar de outro, havendo entre ambos estreita afinidade ou relação de sentido. Observe os exemplos abaixo: 1 – Autor pela obra: Gosto de ler Machado de Assis. (= Gosto de ler a obra literária de Machado de Assis.) 2 – Inventor pelo invento: Édson ilumina o mundo. (= As lâmpadas iluminam o mundo.) 3 – Símbolo pelo objeto simbolizado: Não te afastes da cruz. (= Não te afastes da religião.) 4 – Lugar pelo produto do lugar: Fumei um saboroso havana. (= Fumei um saboroso charuto.) 5 – Efeito pela causa: Sócrates bebeu a  morte. (= Sócrates tomou veneno.)” Só Português < http://www.soportugues.com.br/secoes/estil/estil3.php > Consulta realizada em 06/05/2016.

[6] “Em suma: o evangelho, segundo João e sua primeira epístola, as epístolas de Paulo, particularmente, as dirigidas aos romanos, gálatas, efésios, e a primeira epístola de Pedro, estes são os livros que lhe apresentam Cristo e lhe ensinam tudo que é necessário e bom saber, ainda que jamais visse ou ouvisse qualquer outro livro ou doutrina. alquer forma, não tem natureza evangélica. Mas disso ainda falaremos em outros prefácios” Lutero, Martinho. Pelo Evangelho de Cristo: Obras selecionadas de momentos decisivos da Reforma. Trad. Walter O. Schlupp. Porto Alegre: Concórdia & São Leopoldo: Sinodal, 1984. pp. 171-177; “Embora esta epístola de São Tiago fosse rejeitada pelos anciãos, eu elogio-a e considero-a um bom livro, porque estabelece não doutrinas de homens, mas vigorosamente promulga a lei de Deus. No entanto, afirmo a minha própria opinião sobre isso, embora sem prejuízo para ninguém, eu não considero como uma escrita de um apóstolo, e as minhas razões seguem. Em primeiro lugar, é terminantemente contra São Paulo e todo o resto da Escritura em atribuir a justificação às obras. Ela diz que Abraão foi justificado por suas obras, quando ofereceu seu filho Isaac, embora em Romanos, São Paulo ensine o contrário, que Abraão foi justificado sem as obras, por sua fé, antes que ele tivesse oferecido seu filho, e prova isso por Moisés em Gênesis 15. Agora, embora esta epístola pode ser ajudada e uma interpretação concebida para essa justificação pelas obras, não pode ser defendida em sua aplicação às obras da declaração de Moisés em Gênesis 15. Pois, Moisés está falando aqui apenas da fé de Abraão, e não de suas obras, como São Paulo demonstra em Romanos. Esta falha, portanto, prova que esta epístola não é o trabalho de qualquer apóstolo” Lutero, Martinho. Prefácio à tradução alemã das Epístolas de S. Tiago e S. Judas, em 1522.

[7] “Tiago e Paulo não discordam em seus ensinamentos sobre a salvação. Eles abordam o mesmo assunto, sob diferentes prismas. Paulo, simplesmente, enfatizou que a justificação vem somente pela fé, enquanto Tiago enfatizou o fato de que a fé em Cristo produz boas obras”. A salvação é somente pela fé ou pela fé mais as obras? Got Questions < http://www.gotquestions.org/Portugues/somente-a-fe.html > Consulta realizada em 19/05/16.

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O amor de Deus

03Jesus não falou do amor segundo os termos gregos ‘storge’, ‘eros’, ‘philia’ ou ‘ágape’. O amor da qual Jesus fala é condicional, portanto, foge das definições que muitos livros de teologia apresentam: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14:15). O amor que Jesus exige é serviçal, sujeição ao seu senhorio…


O amor de Deus é condicional e não sentimental

Introdução

Qual a natureza do amor bíblico? Como entender a declaração: ‘Deus é amor’? Para essas perguntas há mil e uma respostas, inúmeros sermões, uma vastidão de livros e muitas definições, acerca do amor de Deus.

No seu livro ‘Os quatro amores’, no primeiro parágrafo da introdução[1], C. S. Lewis deixou registrado que acreditou que, no axioma ‘Deus é amor’, conforme anunciado pelo evangelista João, encontraria um caminho plano para o assunto, mas, ao que parece, pelas argumentações no seu livro, que Lewis não conseguiu encontrar um caminho plano.

Lewis deixou a Bíblia de lado e foi buscar nos termos gregos[2], que se traduzem por amor, a inspiração necessária para abordar o tema. Ele buscou nos termos στοργη (storge) afeição fraternal, φιλια (philia) amizade, έρως (eros) sexualidade e αγαπη (agapē) caridade, o conhecimento que o levou a uma concepção[3] própria do amor bíblico, e elegeu o agapē como o maior dos amores,  como uma virtude puramente cristã.

Mas, por que não se contentar com o axioma ‘Deus é amor’? Não há na Bíblia um caminho plano para o assunto?

O axioma anunciado pelo evangelista João: “… ὅτι ὁ θεὸς ἀγάπη ἐστίν” no grego ou, na língua portuguesa: “… porque Deus é amor” ou, na língua inglesa: “…because God is love” ou, em qualquer outro idioma ou dialeto, possui o mesmo valor.

O ‘agapē’, por ser escrito no grego, não é superior ao ‘love’ inglês, principalmente por causa do contexto onde é utilizado. Não é Lewis quem define o significado do amor bíblico e nem os lexicógrafos, mas, sim, o contexto onde foi utilizado.

O mesmo autor, que disse: ‘Deus é amor’, em seguida, definiu o amor de Deus:

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” (1 Jo 5:3).

“E o amor é este: que andemos segundo os seus mandamentos. Este é o mandamento, como já desde o princípio ouvistes, que andeis nEle” (2 Jo 1:6).

Essa definição joanina será a bússola que nos conduzirá durante a análise do tema e que permitirá chegarmos a um entendimento seguro da natureza do amor de Deus para com os homens.

 

O amor dos homens para com Deus

Sobre o uso do termo amor, Jesus deixou explicito, de como amar a Deus:

“Mas, é para que o mundo saiba, que eu amo o Pai e que faço como o Pai me mandou. Levantai-vos, vamo-nos daqui” (Jo 14:31).

Jesus amava a Deus, fazendo, especificamente, o que Ele ordenou e qualquer que diz amar a Deus, tem que fazer, exatamente, o que Jesus fez: obedecer a Deus!

Nesse mesmo sentido, qualquer que diz ‘amar’ a Jesus, tem que obedecer aos Seus mandamentos, pois, se não obedecer aos mandamentos de Jesus, significa que não O ama (Jo 14:21 e 23-24).

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama, será amado de meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21).

“Jesus respondeu e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o amará, viremos para ele e faremos nele morada. Quem não me ama. não guarda as minhas palavras; ora, a palavra que ouvistes não é minha, mas do Pai que me enviou” (Jo 14:23-24).

Jesus não falou do amor, segundo os termos gregos ‘storge’, ‘eros’, ‘philia’ ou, ‘ágape’. O amor, do qual Jesus falou, é condicional, portanto, foge das definições que muitos livros de teologia apresentam:

“Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14:15).

O amor que Jesus exige é serviçal, sujeito ao seu senhorio, conforme expresso no seu convite:

“Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11:28-30).

“E por que me chamais, SENHOR, Senhor, se não fazeis o que eu vos digo?” (Lc 6:46).

Qualquer que se achegar a Cristo, precisa tomar sobre si o jugo de Jesus, se fazendo servo, ou seja, é o mesmo que humilhar-se a si mesmo. “E o que a si mesmo se exaltar, será humilhado; e o que a si mesmo se humilhar, será exaltado” (Mt 23:12).

 

O amor de Deus para com os homens

Ao fazer o que Deus manda, o homem ama a Deus e, em contra partida, o homem estará sob o amor de Deus, ou seja, sob o seu cuidado, como se lê:

“Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor” (Jo 15:10).

A definição do amor bíblico foi dada por Deus ao povo de Israel, por intermédio de Moisés, conforme expresso no livro do Êxodo:

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” (Ex 20:6).

Assim, decorre de Êxodo 20, verso 6, a declaração: “Eu amo aos que me amam e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17).

Os que guardam os mandamentos de Deus, são os que O amam, portanto, Deus ama os que O amam, ou seja, faz misericórdia aos que guardam o Seu mandamento.

Voltemos à definição joanina do amor de Deus:

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” (1 Jo 5:3).

O amor de Deus está expresso em seus mandamentos e os homens, por sua vez, amam a Deus, obedecendo-O. Quando Deus dá um mandamento, há um objetivo: a obediência de um coração puro.

“Ora, o fim do mandamento é o amor de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé não fingida” (1 Tm 1:5)

Ao escrever a Timóteo, o apóstolo Paulo não falou do fim da lei, antes, do objetivo do mandamento de Deus: a obediência. O termo grego τέλος (telos), traduzido por ‘fim’, na verdade significa ‘finalidade’, ‘objetivo’. O mandamento que o apóstolo Paulo destaca, refere-se à doutrina do evangelho (1 Tm 1:3).

O mandamento de Deus expressa o Seu cuidado e tem por objetivo a obediência do homem e quando a obediência ocorre, o homem estará ao abrigo do cuidado de Deus.

O leitor deve estar atento, pois, algumas vezes, os escritores bíblicos fazem referência ao amor de Deus e outras vezes, ao amor do homem. Por exemplo, neste verso da epístola de João, o amor em destaque é o do homem:

“No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena e o que teme não é perfeito em amor” (1 Jo 4:18).

O amar que não remete ao medo, não diz do amor de Deus, mas, sim, do amor do homem. O amor como obediência, não tem espaço para o medo, antes a perfeita obediência lança fora o medo. O medo só vem à tona por causa da pena e, qualquer que tem medo, é porque não é um obediente perfeito.

O salmista, no Salmo 71, faz referência ao mandamento de Deus que salva, expressão do amor de Deus:

“Sê tu a minha habitação forte, à qual possa recorrer, continuamente. Deste um mandamento que me salva, pois tu és a minha rocha e a minha fortaleza” (Sl 71:3).

Um exemplo de amor bíblico, ocorre no evento em que Jesus se encontra com o jovem rico. Ao amar o jovem rico, Jesus deu-lhe um mandamento: – “Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz e segue-me” (Mc 10:21).

Caso o jovem desse ouvidos à ordem de Cristo, teria obedecido ao Mestre. Em outras palavras, haveria amado a Cristo e seria amado por Deus. “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama, será amado de meu Pai, eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21).

Semelhantemente, Deus, ao amar homens de todas as tribos, povos e línguas (mundo), deu o seu Filho Unigênito, pois, em Cristo, está implícito o Seu mandamento, um mandamento que salva: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo” (1 Jo 3:23), visto que o amor de Deus é especifico:

“Nisto se manifesta o amor de Deus para conosco: que Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo, para que por ele vivamos” (1 Jo 4:9).

“E o amor é este: que andemos segundo os seus mandamentos” (2 Jo 1:6).

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos” (1 Jo 5:3).

O apóstolo João destaca que os cristãos só amam a Deus, porque Deus os amou primeiro: “Nós o amamos a ele, porque ele nos amou primeiro” (1 Jo 4:19). O amor de Deus para com a humanidade foi manifesto, quando Ele enviou o Seu Filho Unigênito ao mundo, porém, o amor de Deus foi estabelecido na fundação do mundo, uma vez que o cordeiro de Deus foi morto, desde a fundação do mundo (Ap 13:8).

Só é possível obedecer, quando há um mandamento, uma vez que, primeiro Deus deu o Seu mandamento em Cristo, daí o ‘amamos (obedecemos) a Ele, porque Ele nos amou (deu um mandamento) primeiro’.

Deus estabeleceu o seu mandamento, já na fundação do mundo. Deus não tem que provar nada e nem deu provas, antes, ‘estabeleceu’ o Seu amor, quando fundou o mundo, uma vez que o cordeiro foi morto, desde a fundação do mundo e o evidenciou aos olhos do mundo, na plenitude dos tempos, quando Cristo veio e morreu na cruz!

“Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5:8).

O apóstolo Paulo, ao abordar o amor de Deus, evidencia que Ele estabeleceu o seu amor para com os cristãos, no fato de Cristo ter morrido, quando ainda éramos pecadores. Os tradutores utilizam o verbo ‘provar’, para traduzir as variantes συνισταω (sunistao), συνιστανω (sunistano) ou συνιστημι (sunistemi) [4].

A ideia de um amor que admite prova, é decorrente do humanismo, movimento cultural/filosófico que se apegou aos conceitos filosóficos platonista e aristotélico, e que, em muitos casos, deixou de lado o sentido da linguagem do homem do campo, da antiguidade, que permeava as relações aristocráticas.

Cristo, por sua vez, ao fazer uso do termo αγαπη (agapē), não o fez, no sentido de caridade, mas, no sentido de honra. Para que o mundo soubesse que Cristo honrou o Pai, Ele fez, especificamente, o que o Pai ordenou: “Mas, é para que o mundo saiba que eu amo o Pai e que faço como o Pai me mandou. Levantai-vos, vamo-nos daqui” (Jo 14:31).

Apesar dos estudiosos conhecerem a essência do termo grego αγαπη (agapē), quando abordam o tema ‘amor’ na Bíblia, dão um novo significado ao termo e fazem um desserviço ao evangelho. Observe:

“Amor (gr. agape) (1 Pe 4.8; Rm 5.5, 8; 1 Jo 3.1; 4.7, 8,16; Jd 21) Esta palavra raramente era usada na literatura grega, antes do Novo Testamento. E quando isso acontecia, ela era usada para expressar um ato de gentileza aos estrangeiros, de oferecer hospitalidade e ser caridoso”. O novo comentário bíblico NT, com recursos adicionais — A Palavra de Deus ao Alcance de Todos, Editores Earl Radmacher, Ronald B. Allen e H. Wayne House, Rio de Janeiro, 2010, pág. 701.

“agapaõ que, originalmente, significava “honrar” ou “dar boas-vindas”, é, no Gr. clássico, a palavra que tem menos definição específica; frequentemente, se emprega como sinônimo de phileõ, sem haver qualquer distinção, necessariamente nítida, quanto ao significado (…) 4. Não está clara a etimologia de agapaõ e agapè. O vb. agapaõ aparece, frequentemente, na literatura gr. de Homero em diante, mas o subs. agapè é uma construção, que só aparece no Gr. posterior. Foi achada uma só referência fora da Bíblia: ali, a deusa Isis recebe o título de agapè (P. Oxy, 1380, 109; século II d.C.), agapaõ é frequentemente uma palavra descolorida em Grego e aparece, com frequência, como alternativa para, ou sinônimo com, eraõ e phileõ, com o significado de “gostar de”, “tratar com respeito”, “estar contente com”, e “dar as boas-vindas”. Quando, em raras ocasiões, se refere a alguém que foi favorecido por um deus (cf. Dio. Cris., Orationes 33, 21), fica claro que, diferentemente, de eraõ, não se refere ao anseio humano por posses ou valores, mas, sim, uma iniciativa generosa de uma pessoa por amor à outra”. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, Colin Brown, Lothar Coenen (orgs.); [tradução Gordón Chown] — 2ª ed. — São Paulo; Vida Nova, 2000, págs. 113 e 114.

Por causa da má leitura do termo αγαπη (agapē), quando empregado nas Escrituras, surgiu a ideia de que o amor de Deus é incondicional[5], ou seja, que Deus não exige nenhum quesito para amar e nem espera reciprocidade. Por outro lado, as Escrituras apresentam o amor de Deus, em outros termos:

“Eu amo aos que me amam e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17).

O amor de Deus para com o homem é condicional, pois Ele ama aos que O amam. É condicional por haver um quesito e demanda reciprocidade. Concluir que o amor de Deus é incondicional, geralmente decorre da má leitura dos seguintes versículos:

“Nisto consiste o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou (…) Nós o amamos a Ele, porque ele nos amou primeiro” (1 Jo 4:10 e 19).

“Mas, Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5:8).

Só é possível ao homem amar a Deus porque Ele amou primeiro, ou seja, se Deus não houvesse primeiramente dado um mandamento aos homens, seria impossível aos homens amarem a Deus. Daí a definição joanina:

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos” (1 Jo 5:3).

A essência do amor bíblico é a obediência à palavra de Deus, enquanto as elucubrações humanas entendem o amor, a partir de termos gregos e daí surgem só especulações, como: amor-doação, amor-entrega, que sai de si, em benefício do outro, capaz de doar-se, dar a vida, amor que faz tudo pelo amado, amor incondicional, amor que também é perdão, amor-caridade, misericórdia, etc.

Observe a exposição de Bancroft, acerca do amor de Deus:

“Assim como existe uma mente mais alta que a nossa, semelhantemente, existe um coração maior que o nosso. Deus não é, simplesmente, Aquele que ama; Ele é igualmente o Amor que é amado. Há uma infinita vida de sensibilidade e afeição em Deus. Deus tem sensibilidade e isso, em grau infinito. O sentimento por si só, porém, ainda não é amor. O amor implica não apenas em receber, mas em dar, não meramente em emoção, mas em concessão…”  Bancroft, Emery H., Teologia Elementar, Doutrinária e Conservadora, Editora Batista Regular, São Paulo, 2001, pág. 73.

A definição de Bancroft não passa de tergiversações e elucubrações, sem nenhuma fundamentação bíblica, pois trata o amor de Deus do ponto de vista da sensibilidade e da afeição humana.

Um exemplo claro do amor de Deus, nas Escrituras, encontramos na pessoa de Naamã, o capitão do exército do rei da Síria. Naamã não nutria nenhuma sensibilidade ou afeição pelo Deus de Israel, visto que ele nem mesmo sabia que somente em Israel havia Deus.  Ao saber que teria de mergulhar sete vezes no rio Jordão, a reação de Naamã foi de indignação.

Do mesmo modo, Deus não fez concessões e nem se sensibilizou com Naamã, por causa da sua enfermidade. Se Deus não se sensibilizou para atender aos milhares de leprosos que haviam em Israel, não seria o caso de se sensibilizar por um único homem estrangeiro (Lc 4:27).

O amor de Deus foi demonstrado por intermédio de um mensageiro do profeta, que disse: – “Vai e lava-te sete vezes no Jordão, que a tua carne será curada e ficarás purificado” (2Rs 5:10). Deus não se ocupou com o fato de Naamã ficar indignado e nem com a ideia que ele possuía acerca de Deus e do seu profeta (2Rs 5:11), mas, sim, em que se obedecesse à Sua palavra.

Deus não se sensibilizou e nem sentiu qualquer afeto pela viúva de Sarepta, de Sidom, pois, em igual situação, estavam muitas outras viúvas em Israel. Ele atendeu a viúva, por ela se dispor a atender a ordem de Deus: sustentar o profeta de Deus, mesmo não tendo recursos para fazê-lo: “Levanta-te e vai para Sarepta, que é de Sidom, e habita ali; eis que eu ordenei ali a uma mulher viúva que te sustente” (1Rs 17:9).

Devemos conhecer (tornar um com Ele) e prosseguir em conhecer ao nosso Deus (Os 6:3), pois o que Ele requer é a obediência:

“Porque eu quero a misericórdia e não o sacrifício e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos” (Os 6:6).

“Porém, Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” (1 Sm 15:22).

Mas, como ler o verso 16, do capítulo 3, do evangelho de João?

“Porque Deus amou ao mundo de tal[6] maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16).

Como temos a definição joanina: “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos”. (1 Jo 5:3), para compreendermos o verso 16, de João 3, temos que localizar onde está expresso o mandamento de Deus que os homens devem guardar.

Como desconhecem a natureza do amor de Deus, muitos intérpretes da Bíblia vislumbram, equivocadamente, que, no ato de Deus dar o Seu Único Filho, tem-se prova da intensidade do amor de Deus.

Considerando o texto na língua grega, verifica-se que Jesus estava explicando a Nicodemos como Deus amou o mundo: deu o Seu Filho único, o que é completamente diferente da ideia de que Deus amou intensamente o mundo. Ao dar o Seu Filho, temos como Deus amou o mundo, não um vislumbre da intensidade do amor de Deus.

“οὕτως[7] γὰρ[8] ἠγάπησεν[9] ὁ θεὸς τὸν κόσμον, ὥστε τὸν υἱὸν τὸν μονογενῆ ἔδωκεν ἵνα πᾶς ὁ πιστεύων εἰς αὐτὸν μὴ ἀπόληται ἀλλ’ ἔχῃ ζωὴν αἰώνιον” (João 3:16), Westcott and Hort.

“assim[2] Pois[1] amou[4] deus[3] o mundo, que o[2] Filho[3] único[4] deu[1], para que todo o que crê em ele não pereça mas tenha vida eterna”. Novo Testamento Interlinerar,  grego-português, Barueri, SP, SBB, 2004.

O texto, na língua grega, não tem um advérbio que modifique o sentido do verbo ἠγάπησεν (amou) intensificando-o, antes, temos um advérbio explicativo: οὕτως (deste modo, assim, desta maneira). Entretanto, apesar de não termos um advérbio que intensifique a ação do verbo, os tradutores passaram a considerar que o termo grego ἠγάπησεν (ēgapēsen), traduzido por ‘amou’, demonstra intensidade.

O termo ἠγάπησεν ocorre 12 vezes no Novo Testamento, incluindo João 3, verso 16: Marcos 10:21; Lucas 7:47; João 13:1; João 15:9; Efésios 2:4; Efésios 5:2 e 25; 2 Pedro 2:15; 1 João 4:10-11 e 19 e, em nenhuma dessas referências, o termo ἠγάπησεν denota amor com intensidade.

Vale destacar que, no capítulo 2 da carta de Paulo aos Efésios, verso 4, o apóstolo faz referência a Deus como rico em misericórdia, em virtude do seu grande amor. Mesmo fazendo referência à grandeza do amor de Deus, dimensionando-o, o apóstolo dos gentios afirma somente que Deus amou, portanto, não faz referência à ideia de intensidade.

O apóstolo Paulo ao fazer referencia aos elementos que utilizamos para dimensionar um objeto (largura, comprimento, altura e profundidade), demonstra que o amor de Deus é um conhecimento invariável e plenamente compreensível “Poderdes perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade” (Ef 3:18).

“Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou” (Ef 2:4).

Percebe-se que os tradutores do Novo Testamento seguiram a tendência dos tradutores da Septuaginta[10], que utilizaram o termo grego αγαπαω. para verterem o termo hebraico עגב, donde a concepção de intensidade, quando da tradução do termo ἠγάπησεν, no verso em comento, possivelmente surgiu.

Se o leitor seguir a definição dada pelo evangelista João e procurar o mandamento de Deus no versículo em análise, verá que Deus deu o Seu Filho com uma finalidade: para que, qualquer (judeu ou grego) que crer em Cristo, não pereça, mas tenha a vida eterna. Em crer em Cristo está o mandamento de Deus, como se lê:

“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1Jo 3:23).

Portanto, o amor de Deus é objetivo[11]: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, como já lemos:

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos” (1 Jo 5:3).


[1] “Deus é amor”, diz o apóstolo João. Quando tentei começar a escrever este livro pensei que seu axioma iria fornecer-me um caminho plano, através de todo o assunto. Estava certo de poder dizer que o amor humano só merecia ser assim chamado, naquilo em que se assemelhava àquele Amor que é Deus” Lewis, C. S., Os quatro amores, 2ª ed., São Paulo, WMF Martins Fontes, 2009.

[2]  Para os eruditos, o amor possui quatro vertentes, conforme os termos gregos utilizados para fazer referência ao amor: Storge, Eros, Philia e Ágape. Analisam o amor através da mitologia grega ou, através dos escritos de Platão (Eros) ou, procuram compreender o amor através da percepção de Aristóteles (philia), e, quando se deparam com a Bíblia, alegam que as ideias ditas cristãs devem ser analisadas através do amor ‘ágape’.

[3] “Deus é amor. De novo: “Nisto consiste o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou” (I João 4:10). Não devemos principiar com misticismo, com o amor da criatura por Deus, ou com a maravilhosa antecipação da fruição de Deus, concedida a alguns na vida terrena. Começamos no verdadeiro inicio, com o amor, como a energia Divina. Este amor primevo é o amor-Doação. Em Deus não existe fome a ser satisfeita, apenas fartura que deseja doar. A doutrina de que Deus não tinha necessidade de criar não é uma peça de especulação acadêmica, mas essencial”. Lewis, C. S., Os quatro amores, 2ª ed., São Paulo, WMF Martins Fontes, 2009.

[4] “4921 συνισταω (sunistao) ou (fortalecido) συνιστανω (sunistano) ou συνιστημι (sunistemi), de 4862 e 2476 (que inclui suas formas concomitantes); TDNT – 7:896, 1120, v. 1) estabelecer com, colocar no mesmo lugar, juntar ou unir 1a) permanecer com (ou próximo) 2) colocar alguém com outro 2a) apresentando-o ou introduzindo-o 2b) compreender 3) colocar junto por composição ou combinação, ensinar pela combinação e comparação 3a) mostrar, provar, estabelecer, exibir 4) colocar com, unir as partes num todo 4a) ser composto de, consistir”, Dicionário Bíblico Strong.

[5] “Mas o amor-Doação divino – o próprio Amor operando no homem – é inteiramente desinteressado e deseja o que é, simplesmente, melhor para o ente amado” Lewis, C. S., Os Quatro Amores.

[6] “Pois Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho único, para que não morra quem nele acredita, mas tenha a vida eterna”. Nova Bíblia Pastoral, Editora Paulus, 2014.

[7] “3779 ουτω (houto) ou (diante de vogal) ουτως (houtos) de 3778; adv 1) deste modo, assim, desta maneira”, Dicionário Bíblico Strong.

[8] “1063 γαρ (gar), partícula primária; conj 1) porque, pois, visto que, então”, Dicionário Bíblico Strong.

[9] “25 αγαπαω (agapao) talvez de agan (muito) [ou cf 5689 עגב ]; TDNT 1:21,5; v 1) com respeito às pessoas 1a) receber com alegria, acolher, gostar muito de, amar ternamente 2) com respeito às coisas 2a) estar satisfeito, estar contente sobre ou com as coisas. Sinônimos, ver verbete 5914”; “05689 agab (עגב), uma raiz primitiva, grego 25 αγαπαω; DITAT, 1559; v 1) (Qal) ter afeição desordenada ou cobiça 1a) cobiça (particípio) 1b) amantes (particípio como subst)”, Dicionário Bíblico Strong.

[10] “Na LXX, agapaõ se emprega, de preferência, para traduzir o verbo heb. Ãhèb. O subs. agapè acha aqui a sua origem, ao representar o Heb. ’ah bâk. O vb. Ocorre, muito mais, frequentemente, do que o subs. ’ahèb e pode se referir, tanto a pessoas, como a coisas, e denota, em primeiro lugar, o relacionamento de seres humanos entre si, e, em segundo lugar, o relacionamento entre Deus e o homem (…) Na LXX (Septuaginta), surge diante de nós um quadro bem diferente’; phileõ, ocorre raras vezes, enquanto o vb. agapaõ, e o subs. agapè (doutra forma, quase, inteiramente, desconhecido no Gr.) se acham a cada passo. Não é possível discernir se se empregam conforme regras fixas, pois phileò (30 vezes), tal como agapaò (cerca de 263 vezes), geralmente traduz o Heb. ahèb (e.g. Gn 27:4 e segs.; 37:4 [cf. 37:3]; Is 56:10; Pv 8:17 [cf. 8:21]). Embora o Heb. tenha uma gama inteira de palavras para expressar o conceito contrário do ódio (enquanto a LXX só tem a palavra única miseõ – Inimigo, art. miseõ), tem, virtualmente, a única raiz .ahèb à sua disposição para a gama de sentimentos, que se associam com o amor. O Gr., de outro lado, tem várias raízes e palavras derivadas para expressar as várias matizes do amor: philia (38 vezes), que geralmente traduz ‘aheb, ’ahabâh, é comparativamente rara, embora philos (cerca de 181 vezes), que, geralmente, traduz rèa, embora, frequentemente, sem equivalente heb., seja mais comum na LXX”, Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, Colin Brown, Lothar Coenen (orgs.); [tradução Gordón Chown], 2ª ed., São Paulo, Vida Nova, 2000, págs. 114 e 121.

[11] “A névoa do subjetivismo, permeado pelo idealismo, que as concepções religiosas de nossos dias prescrevem aos seus seguidores, através do termo ‘amor’, não guarda relação com o imperativo grave e objetivo definido no N. T., como: “Nenhum servo pode servir a dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Lc 16:13)” Crispim, Claudio, in A obra que Demonstra Amor a Deus, São Paulo, NewBook, 2012, pág 78. “Tanto o amor de Deus, quanto o amor a Deus, é objetivo: Cristo é o amor de Deus e quem O obedece, O ama. Quando compreendemos o amor, segundo o proposto por Cristo e pelos apóstolos, saímos do campo do subjetivismo. O amor deixa de ter relação com o que se passa no íntimo do sujeito pensante: julgamentos, sentimentos, hábitos, paradigmas, etc., de cada indivíduo, visto que o mandamento de Deus não sofre variação”, idem, pág. 108.

Ler mais

Deus odeia o pecado, mas ama o pecador?

O sentido do verbo grego ἀγαπάω (agapaó), ou do verbo hebraico אָהַב (aheb), utilizado na Bíblia, detém um valor aristocrático, voltado para a realidade do homem camponês da antiguidade, apontando para as relações que envolviam os senhores e os servos, ou as relações familiares entre marido e mulher, pais e filhos nos tempos antigos.


Em uma conversa informal, um cristão afirmou: – “Deus odeia o pecado, mas ama o pecador”!  Não pude deixar de questionar:  – “Está na Bíblia”? Não obtive resposta!

É comum citações de pensamentos de origem desconhecida, como se fossem uma verdade bíblica. Sermões e pregações, em nossos dias, estão repletos de frases, pensamentos, provérbios, como: – “Quem não vem pelo amor, vem pela dor”.

Quem cunhou a frase ‘Deus odeia o pecado, mas ama o pecador’, não compreendia verdades bíblicas essenciais, além de desconhecer o significado bíblico de termos como ‘ódio’, ‘amor’, ‘pecado’ e ‘pecador’.

Para entender qual a relação de Deus com o pecador, primeiro faz-se necessário entender o significado dos termos ‘amor’ e ‘ódio’; após isso, abordaremos o significado de ‘pecado’ e ‘pecador’.

 

Amor e ódio

“Eu amo aos que me amam, e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17).

Segundo esse provérbio, pergunta-se: – a quem Deus ama? A resposta é direta: – àqueles que O amam!

Esse provérbio trata do amor[1], segundo os sentimentos ou as emoções humanas?  Qual o melhor significado para a palavra ‘amor’, segundo os termos utilizados pelos gregos? Eros, Fhilia, Ágape? Deus exige do homem afeição, amizade, caridade?

Não! Absolutamente, não! Deus não exige do homem que tenha afeição por Ele! Deus não está em busca de amizade! Deus não quer caridade! Todos esses significados que se atribui ao termo amor, não condizem com o que Deus requer do homem.

Mas, alguém pode contra argumentar, dizendo: – “O termo grego ‘ágape’ define o amor de Deus para com os homens e vice-versa”.  Alto lá! Essa concepção, é fruto de uma má leitura bíblica, engendrada por vários padres, influenciados pela filosofia grega, como Agostinho, de Hipona e Tomás de Aquino, da Itália, sendo que este pendia para a tradição aristotélica enquanto que, aquele, para as ideias platônicas.

Diante de tantas teorias, como amar a Deus? No que consiste o amor a Deus?

O sentido do verbo grego ἀγαπάω (agapaó), ou do verbo hebraico אָהַב (aheb), utilizado na Bíblia, detém um valor aristocrático, voltado para a realidade do homem camponês da antiguidade, apontando para as relações que envolviam os senhores e os servos, ou as relações familiares entre marido e mulher, pais e filhos nos tempos antigos.

Quando lemos:

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Mt 6:24).

Depreende-se do texto que ‘amor’ está para sujeição a um senhor, assim como ‘ódio’ está para insubordinação a outro senhor. Os termos não foram empregados para fazer referências a sentimentos ou, emoções, mas, sim, para destacar a relação entre senhor e servo.

Ama a Deus aquele que O obedece, ou seja, que se sujeita a Ele, como servo obediente.

Jesus mesmo disse: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” (Jo 14:21). “Se me amais, guardai os meus mandamentos” (Jo 14:15). “Jesus respondeu e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra,  meu Pai o amará, viremos para ele e faremos nele morada” (Jo 14:23). “Quem não me ama, não guarda as minhas palavras; ora, a palavra que ouvistes não é minha, mas do Pai que me enviou” (Jo 14:24).

Jesus não estava exigindo que gostassem d’Ele! Na verdade, Jesus exigia que os homens se sujeitassem a Ele, tomando sobre si o jugo d’Ele. “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” (Mt 11:29). “E por que me chamais, SENHOR, Senhor, se não fazeis o que eu vos digo?” (Lc 6:46).

Jesus nos deixou exemplo de como se ama a Deus: “Mas é para que o mundo saiba que eu amo o Pai, e que faço como o Pai me mandou. Levantai-vos, vamo-nos daqui” (Jo 14:31).

Por conseguinte, obediência é a essência do amor bíblico: “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” (1Jo 5:3).

Quando os apóstolos escreveram os Evangelhos e as cartas do Novo Testamento, o termo ἀγαπάω[2] (agapaó) foi escolhido dentre outros por uma caraterística impar: não tinha um significado específico e, raramente, era utilizado! A ideia do termo deriva do seu significado básico: honra.

Quando é dito que Deus ama os que O amam, é o mesmo que dizer que Ele honra aqueles que O honram: “Portanto, diz o SENHOR Deus de Israel: Na verdade tinha falado eu que a tua casa e a casa de teu pai andariam diante de mim, perpetuamente; porém, agora, diz o SENHOR: Longe de mim tal coisa, porque aos que me honram, honrarei, porém os que me desprezam, serão desprezados” (1Sm 2:30).

 

É possível Aquele que é amor, odiar?

O apóstolo João afirma que Deus é amor, mas como compreender essa declaração acerca de Deus? Comparemos os dois versos abaixo, considerando que ambos foram extraídos do mesmo contexto:

“Qualquer que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele e ele, em Deus” (1Jo 4:15);

“E nós conhecemos, e cremos no amor que Deus nos tem. Deus é amor; e quem está em amor está em Deus e Deus nele” (1Jo 4:16).

O apóstolo afirma que quem confessar que Jesus é o Filho de Deus, significa que Deus está nele e ele em Deus. Por conseguinte, o Pai e o Filho fizeram morada naquele que confessa a Cristo. Mas, como o Pai e o Filho passam a fazer morada no homem? Obedecendo a palavra de Cristo, ou seja, ao amá-Lo:

“Jesus respondeu e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra,  meu Pai o amará, viremos para ele e faremos nele morada” (Jo 14:23).

Perceba que, confessar a Cristo, é o mesmo que amar, obedecer e crer, e resulta em salvação: “A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” (Rm 10:9).

Por intermédio de Moisés, Deus deixou bem claro que Ele faz misericórdia aos que o amam, ou seja, àqueles que guardam os mandamentos de Deus.

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” (Êx 20:6).

“Eu amo aos que me amam e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17)

O amor de Deus para com os que O obedecem, não diz de um sentimento ou de uma emoção. O amor de Deus para os que O amam é misericórdia, ou seja, bondade, benignidade, fidelidade.

“Deus amou o povo de Israel”. Esta frase é verdadeira! Mas, como Deus amou os filhos de Israel? R: guardando o juramento feito a Abraão, a Isaque e a Jacó.

“Mas, porque o SENHOR vos amava, e para guardar o juramento que fizera a vossos pais, o SENHOR vos tirou com mão forte e vos resgatou da casa da servidão, da mão de Faraó, rei do Egito” (Dt 7:8).

O amor de Deus é demonstrado na sua fidelidade à Sua palavra. Como Deus fez aliança com Abraão e prometeu que ele seria pai de muitas nações, Deus ‘amou’ os filhos de Israel, mantendo a palavra que falara a Abraão: resgatando-os da servidão do Egito (Gn 17:4-8).

Mas, apesar de Deus demonstrar a sua benignidade, conforme a boa palavra que falara aos patriarcas, Ele também odeia a todos os que praticam a maldade, ou seja, que não O obedecem.

“Os loucos não pararão à tua vista; odeias a todos os que praticam a maldade” (Sl 5:5);

“E retribui no rosto a qualquer dos que o odeiam, fazendo-o perecer; não será tardio ao que o odeia; em seu rosto lhe pagará” (Dt 7:10);

“Se eu afiar a minha espada reluzente e se a minha mão travar o juízo, retribuirei a vingança sobre os meus adversários e recompensarei aos que me odeiam” (Dt 32:41);

“Eis que o justo recebe na terra a retribuição; quanto mais o ímpio e o pecador!” (Pv 11:31).

Enquanto o amor de Deus é dar o que prometeu, segundo a sua palavra aos que O amam, o ódio de Deus refere-se à sua retribuição a todos os que são ímpios e pecadores.

“Amai ao SENHOR, vós todos que sois seus santos; porque o SENHOR guarda os fiéis e retribui, com abundância, ao que usa de soberba” (Sl 31:23);

“Mas, o que pecar contra mim, violentará a sua própria alma; todos os que me odeiam amam a morte” (Pv 8:36).

Quando a Bíblia fala daqueles que odeiam a Deus, não fala de pessoas que tem um sentimento rancoroso ou que falam impropérios contra Deus. O ódio a Deus decorre da desobediência, de propagar o engano, ou seja, de pronunciar mentiras em nome de Deus: “Efraim era o vigia com o meu Deus, mas o profeta é como um laço de caçador de aves, em todos os seus caminhos e ódio na casa do seu Deus” (Os 9:8).

Não basta dizer: – “Deus existe”; “Deus é bom”; “Eu amo a Deus”; “Vive o Senhor”, etc., mas não fazer o que Ele manda. Os filhos de Israel eram religiosos, legalistas, moralistas e ritualistas e tinham a lei chegada à boca, mas longe do coração: “Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” (Is 29:13).

Quando Jesus faz referência aos que O odiaram, diz daqueles que não O obedeceram, pois não creram em Cristo, por consequência, não creram em Deus. Quem crê em Cristo, obedeceu a Deus, ou seja, amou a Deus. Mas, quem não crê em Cristo, desobedeceu, tanto a Cristo, quanto a Deus, ou seja, odiou tanto o Filho, quanto o Pai: “Aquele que me odeia, odeia também a meu Pai. Se eu, entre eles, não fizesse tais obras, quais nenhum outro tem feito, não teriam pecado; mas agora, viram-nas e me odiaram a mim e a meu Pai. Mas é para que se cumpra a palavra que está escrita na sua lei: Odiaram-me sem causa” (Jo 15:23-25). “Jesus clamou e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas naquele que me enviou” (Jo 12:44).

Enquanto o amor do homem para com Deus consiste em obediência ao seu mandamento, o amor de Deus, diz do seu cuidado, expresso em um mandamento: “Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor” (Jo 15:10).

O amor de Deus é proteção, cuidado, abrigo, fidelidade, como se lê:

“Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor” (Jo 15:10).

O apóstolo Paulo expressa a essência do amor de Deus, nessas palavras:

“Palavra fiel é esta: que, se morrermos com Ele, também com Ele viveremos; Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará; Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo” (2Tm 2:11 -13).

 

Pecado e pecador

No imaginário popular, o pecado é representado por um fardo pesado que o pecador leva sobre os seus ombros.  Várias ilustrações e canções advertem os pecadores a deixarem o fardo do pecado aos pés de Cristo. Mais um engano!

A Bíblia apresenta o pecado com um senhor, não como um fardo: “Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que, todo aquele que comete pecado é servo do pecado” (Jo 8:34). Os servos do pecado pecam, por isso são nomeados pecadores! Nas sociedades escravagistas a servidão era intrínseca ao escravo, portanto, era impossível ao servo se separar do seu senhor.

A ilustração que apresenta o pecado como um fardo não descreve a verdade das Escrituras, pois o pecador é apresentado como quem tem autonomia para deixar o pecado (fardo) ao pé da cruz e sair livre.

Além dessa figura, há várias considerações equivocadas, acerca do pecado: “O pecado nasce no coração do homem”. “O homem é uma fábrica de pecado”. “O homem não apenas, ama praticar o pecado, como ele em si mesmo é o pecado”, etc.

O homem não é o pecado, por não ser senhor de si mesmo. O pecado não é uma questão de gostar, querer, etc., na verdade, é uma questão de sujeição. O pecado não nasce no homem, antes o homem é concebido no pecado, ou seja, escravo do pecado.

Uma má leitura de Tiago 1, versos 12 à 15, leva ao entendimento de que o pecado é gerado dentro da pessoa, ou seja, em algum momento da existência do indivíduo o pecado nasce. Erro gravíssimo de interpretação do versículo, pois o que gera o pecado é a concupiscência, não o indivíduo.

O evento em que a concupiscência deu a luz ao pecado, ocorreu no Éden, quando Eva foi tentada e, ao observar o fruto da árvore do conhecimento, surgiu a concupiscência dos olhos: olhou para a árvore do conhecimento do bem e do mal e entendeu que o fruto era bom para comer, vez que agradou os seus olhos e considerou ser desejável para dar entendimento.

O evangelista João aponta três tipos de concupiscência: da carne, dos olhos e a soberba da vida (1Jo 2:16). A concupiscência não é pecado, mas se deixar guiar por ela levará o homem a sujeitar-se ao pecado. A prática reprovável não é o pecado, antes é uma ofensa. O pecado é o senhor que o indivíduo se sujeita, após a ofensa decorrente da concupiscência.

O pecado não é uma ‘simbiose’, antes, um senhor que utiliza o corpo do indivíduo como instrumento, independentemente do tipo de ação que o indivíduo vier a praticar: “Nem tampouco apresenteis os vossos membros ao pecado por instrumentos de iniquidade, mas apresentai-vos a Deus, como vivos dentre mortos e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça” (Rm 6:13).

A concupiscência que deu à luz ao pecado pela ofensa e que trouxe a morte a todos os homens, iniciou-se com Eva e foi consumada por Adão. Tiago não estava tratando com os pecadores, quando fez essa descrição do surgimento do pecado, mas com os cristãos judeus (das doze tribos da dispersão). Esses cristãos estavam livres do pecado, pois se fizeram servos da justiça, quando creram em Cristo (Rm 6:18).

Entretanto, se os cristãos se deixassem levar por falsos discursos (a tentação que leva à concupiscência), e não perseverassem na lei perfeita da liberdade, novamente seriam presas do pecado, consequentemente, sujeitos à morte (Tg 1:22 e 25). Cristo de nada aproveitaria aos cristãos das doze tribos da dispersão, caso se deixassem levar por falsos discursos.

As Escrituras apontam que o único modo de desfazer a sujeição do pecador ao pecado é através da morte do pecador:

“Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado” (Rm 6:6).

Não se separa o pecado do pecador. É impossível punir o pecado ou deixar o pecador sem punição. O pecador é instrumento do pecado, de modo que o pecador só peca por ser servo do pecado.

O pecado (senhor) entrou no mundo por causa da ofensa de Adão, e, em função do pecado, entrou a morte, pela força que há na lei, que diz: “De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2:16-17).

Adão foi quem ofendeu a Deus, porém, a consequência do seu ato (morte) passou a todos os seus descendentes, por isso é dito que todos pecaram (Rm 5:12). Isso equivale a dizer que todos se tornaram imundos, pecadores, não por suas próprias ações ou omissões, mas, pelo fato de terem herdado essa condição de Adão: morte!

Equivocadamente, as pessoas acham que os homens tornam-se pecadores porque fazem coisas inconvenientes, contrárias à moral e aos bons costumes, ou, por transgredirem a ordens legais. Na verdade, os homens são pecadores por causa da morte que lhes foi transmitida. Todos pecaram, porque a morte passou a todos, e não porque todos ofenderam a Deus: “Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, por isso que todos pecaram” (Rm 5:12).

Ocorreu somente uma transgressão, e por meio dela entrou no mundo o pecado (senhor) e a morte (aguilhão). O que prende o homem ao pecado é a morte, ou seja, a condenação decorrente da ofensa de Adão (1Co 15:56).

“Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um, muitos serão feitos justos” (Rm 5:19).

O salário que o pecado (senhor) dará aos seus servos (pecadores) é a morte. Aqui temos uma figura decorrente das relações que existiam nas sociedades escravocratas, pois, a única certeza dos escravos é que morreriam. Tudo o que os escravos produziam, pertenciam, por direito, a seu senhor:

“Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos, para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, do pecado para a morte, ou da obediência, para a justiça?” (Rm 6:16).

Deus, sendo justo, estabeleceu que:

  • A alma que pecar, essa mesma morrerá, portanto, a pena não pode passar da pessoa do transgressor: “Os pais não morrerão pelos filhos, nem os filhos pelos pais; cada um morrerá pelo seu pecado” (Dt 24:16).
  • Não pode justificar o ímpio: “De palavras de falsidade te afastarás e não matarás o inocente e o justo; porque não justificarei ao ímpio” (Êx 23:7).
  • Não faz acepção de pessoas: “Pois o SENHOR, vosso Deus, é o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e terrível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita recompensas” (Dt 10:17).
    Todos os homens que veem ao mundo, independente das suas ações, são pecadores, ou seja, servos do pecado. Todos os descendentes de Adão estão condenados à morte, sem exceção. Todos os descendentes de Adão foram gerados segundo a carne, portanto, são carnais, e carne e sangue não podem herdar o reino dos céus (1Co 15:50).

Estamos diante de um impasse: como é possível esse Deus justo, justificar o ímpio? O que é necessário para que Deus seja, simultaneamente, justo e justificador?

“Para demonstração da sua justiça, neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador, daquele que tem fé em Jesus” (Rm 3:26).

Deus não pode negar-se a si mesmo, portanto, segundo a Sua palavra, Ele não justifica o ímpio (Ex 23:7). Mas, o apóstolo Paulo, por sua vez, afirma categoricamente que Deus justifica o ímpio: “Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça” (Rm 4:5).

Como inocentar um culpado? Como perdoar o ímpio sem ser injusto?

Há outro problema: a pena imposta ao pecador não pode ser paga por outro, pois a alma que pecar, essa mesma morrerá (Ez 18:4 e 20).

A figura de um homem carregando um fardo pesado de pecados não explica essas várias nuances que envolvem a relação senhor/servo, pecado/pecador, por isso não deve ser utilizada ou propagada.

Todos os homens são concebidos em pecado, ou seja, sujeitos ao pecado. Da mesma forma que os filhos dos escravos nasciam escravos, o homem é concebido servo do pecado. O único modo de o homem ser livre do pecado é através da morte, por isso é dito que ‘o salário do pecado é a morte’.

Quando o homem recebe o convite, que há no evangelho, e crê em Cristo, na verdade, seguiu após Cristo, até o calvário, sendo crucificado com Ele, tornando-se participante da morte de Cristo. O pecador, quando tem um encontro com Cristo, não deixa um fardo ao pé da cruz, na verdade, deixa o seu corpo crucificado na cruz:

“Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado” (Rm 6:6).

Quando o pecador é crucificado com Cristo, Deus é justo, pois a pena, efetivamente, não passou da pessoa do transgressor. Na morte do pecador com Cristo, Deus não justificou o ímpio, antes o pecador sofreu a pena, pois a alma que pecar, essa mesmo morrerá.

O batismo em Cristo significa morrer com Cristo, não sepultar pecados. Em Cristo, o pecador é declarado morto para o pecado, pois o corpo do pecado é desfeito e sepultado (Cl 3:3).

“Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte?” (Rm 6:3)

Após o pecador ser sepultado com Cristo, por intermédio d’Ele ressurge com Cristo, pela fé no evangelho, um novo homem, criado segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade (Ef 3:24). Sómente após morrer com Cristo e ser sepultado, é que ocorre o novo nascimento, passando a existir uma nova criatura: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2Co 5:17).

“Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé, no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos” (Cl 2:12).

“De sorte, que fomos sepultados com ele, pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida” (Rm 6:4).

Deus é justo, por isso é necessário que o homem morra com Cristo, e é justificador, quando cria o novo homem e o declara justo. O novo homem é livre do pecado e servo da justiça. Como é impossível servir a dois senhores, o novo homem não é mais pecador: “E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça” (Rm 6:18).

O pecado decorre da semente, não do comportamento. Os nascidos da semente corruptível, a semente de Adão, são pecadores. Já os nascidos da semente incorruptível, a palavra de Deus, são santos, irrepreensíveis e inculpáveis, pois nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus: “Qualquer que é nascido de Deus não comete pecado; porque a sua semente permanece nele; e não pode pecar, porque é nascido de Deus” (1Jo 3:9). “No corpo da sua carne, pela morte, para, perante ele, vos apresentar santos, irrepreensíveis e inculpáveis” (Cl 1:22).

 

Deus amou o mundo

Vale destacar que os termos ‘pecador’ e ‘ímpio’ são intercambiáveis, pois o ímpio é pecador e vice-versa: “Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios” (Rm 5:6).

A frase “Deus ama os pecadores, mas odeia o pecado” não está na Bíblia e nem evidencia uma verdade das Escrituras. Deus é essencialmente justo e fidedigno à justiça. Deus olha (mostra o seu favor) somente para os retos, consequentemente, Deus não olha para os ímpios, pois olhar para o ímpio não é ser justo: “Porque o SENHOR é justo e ama a justiça; o seu rosto olha para os retos” (Sl 11:7).

O termo ‘amor’, quando tem Deus por sujeito, não diz de um sentimento de afinidade, afeição, carinho, afeto, antes, revela, essencialmente, o cuidado que Ele dispensa aos que O obedecem: “O SENHOR guarda a todos os que o amam; mas todos os ímpios serão destruídos” (Sl 145:20).

O cuidado, a proteção, a fidelidade de Deus se faz presente somente naqueles que ouvem o mandamento de Deus e creem: “A salvação está longe dos ímpios, pois não buscam os teus estatutos” (Sl 119:155). Por isso, é dito que Deus ama os que O amam e honra os que O honram, mas para os ímpios é dito: não há paz! (Is 57:21)

Semelhantemente, o termo ‘ódio’ quando tem Deus como sujeito, não possui o sentido de antipatia, desgosto, aversão, raiva, rancor, horror, inimizade, execração, ira ou repulsa. O termo é utilizado para fazer referência a justa retribuição que Deus dá aos que são desobedientes à sua palavra: “Eis que vem o dia do SENHOR, horrendo, com furor e ira ardente, para pôr a terra em assolação e dela destruir os pecadores” (Is 13:9).

Quem obedece, é retribuido com salvação, aos pecadores, por sua vez, destruição. Se Deus amasse o pecador, preservaria a vida do pecador, sem ser necessário morrer e ser sepultado com Cristo. Mas, como é imprescindível o pecador ser batizado na morte de Cristo para ressurgir uma nova criatura, certo é que Deus não ama o pecador. “Mas, os transgressores e os pecadores, serão juntamente destruídos; e os que deixarem o SENHOR serão consumidos” (Is 1:28). “Pois, eis que os que se alongam de ti, perecerão; tu tens destruído todos aqueles que se desviam de ti” (Sl 73:27).

Mas, alguém pode contra argumentar utilizando a seguinte passagem bíblica:

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16).

É em função deste versículo que muitos dizem: – “Deus ama o pecador”.

Vamos analisar o versículo? Esse verso é explicação do verso anterior, portanto não é uma asserção independente do seu contexto, em decorrência do ‘Porque…’. O que diz o verso anterior?

“Para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:15).

O evangelista João estava explicando que, assim como Moisés levantou a serpente de metal no deserto, para que aqueles que foram picados pelas serpentes olhassem para ela, a fim de serem curados, importava que o Filho do homem, também, fosse levantado (morto).

O motivo de Cristo ser levantado da terra é para que todo aquele que crê n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. Semelhantemente, era necessário que os picados pelas serpentes cressem na palavra anunciada por Moisés para não morrerem, pois assim foi anunciado: “E disse o SENHOR a Moisés: Faze-te uma serpente ardente e põe-na sobre uma haste; e será que viverá todo o que, tendo sido picado, olhar para ela” (Nm 21:8).

Mas, para que a palavra de Deus tivesse efeito sobre os mortalmente picados, a serpente de metal precisava ser erguida por Moisés. Se Moisés não levantasse a serpente de metal não haveria cura e os picados, por sua vez, deveriam crer na palavra dita por intermédio de Moisés e olharem para serpente de metal, erguida segundo a palavra de Deus.

E como Deus amou o mundo? Dando o seu Filho Unigênito! Esse amor diz de afeição? Não! O amor de Deus diz do mesmo amor com que Jesus amou o Jovem rico:

“E Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse: Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz, e segue-me” (Mc 10:21).

Jesus amou o Jovem rico dando, um mandamento: – “Vai, vende tudo quanto tens…”. Jesus não estava afeiçoado ao rapaz, não tinha predileção e nem estimava aquele jovem, antes deu um mandamento, para ser Senhor daquele homem rico. Se acatasse o mandamento de Cristo, aquele jovem se faria servo, ou seja, se humilharia a si mesmo e Cristo tornar-se-ia seu Senhor. Entre Jesus e o jovem rico, dar-se-ia a mesma relação que havia entre Jesus e Deus:

“Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor” (Jo 15:10).

Se Cristo é Senhor, os homens devem obedecê-Lo: “E por que me chamais, SENHOR, Senhor, se não fazeis o que eu vos digo?” (Lc 6:46).

Quando o evangelista João disse que Deus amou ao mundo, na verdade estava evidenciando que Deus estava dando um mandamento a todos os homens, mandamento esse que demanda obediência. Quando o evangelista João disse que Deus deu o seu Filho unigênito, estava anunciando o mandamento de Deus: crer naquele que Ele enviou!

Outra questão que se faz necessário observar no versículo é que Deus amou O MUNDO, não indivíduos. Ao enviar o Seu Filho, Deus deu o mesmo mandamento para todos os homens, ou seja, não há acepção de pessoas. Cristo ter sido enviado ao mundo, demonstra que Deus não tem preferência por ninguém.

O amor de Deus pela humanidade já havia sido expresso a Abraão, quando foi dito: “… em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12:3). Semelhantemente, Deus amou os filhos de Israel e, por isso, foram resgatados do Egito, entretanto, o amor de Deus estava no mandamento que deviam seguir e, como não obedeceram, pereceram no deserto (Dt 7:8). Deus não amou a indivíduos, mas a nação, em função da promessa dada a Abraão, agora, cada indivíduo da nação de Israel deveria permanecer no amor de Deus, obedecendo ao Seu mandamento (Dt 4:1).

Deus amou todas as famílias da terra, assim como amou a Israel, de modo que, para ter vida eterna, se faz necessário crer em Cristo (o mandamento de Deus na Nova Aliança), assim, como era necessário ouvir e cumprir todos os mandamentos e estatutos da Antiga aliança (Jo 3:16 e Dt 4:1; 1Jo 3:23).

Quando lemos: Deus amou o mundo, temos que ter esse versículo em mente:

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” (1Jo 5:3).

E qual é o mandamento de Deus?

“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1 Jo 3:23)

A salvação em Cristo se dá por substituição de ato. Adão desobedeceu ao mandamento de Deus no Éden, e Cristo foi obediente ao pai em tudo (Rm 5:19). Agora, para ser salvo, é necessário obedecer ao mandamento de Deus, por isso o Salmista pede um mandamento:

“Sê tu a minha habitação forte, à qual possa recorrer continuamente. Deste um mandamento que me salva, pois tu és a minha rocha e a minha fortaleza” (Sl 71:3).

Vale destacar que o termo ‘mundo’ em João 3, verso 16 tem o sentido de ‘toda criatura’, ‘todos os povos’, evidenciando que Deus não faz acepção de pessoas, ou seja, deviam pregar para judeus e gentios da mesma forma que Deus amou judeus e gentios: “E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Mc 16:15; Mt 28:19; Cl 1:23; At 10:34).

 

Deus ‘odeia’ o ímpio e ‘ama’ o justo

“O Senhor prova o justo, mas o ímpio e a quem ama a injustiça, a sua alma odeia” (Sl 11:5)

Quando é dito que Deus ‘prova’ os justos (צַדִּ֪יק), significa que é Ele quem purifica os justos, assim como se purifica a prata: “Pois tu, ó Deus, nos provaste; tu nos afinaste como se afina a prata” (Sl 66:10; Is 1:25; Sl 51:2). Neste verso, ‘prova’ não é sinônimo de provação, aflição, mas, sim, de redenção.

Tanto o ouro, quanto a prata, se purificam com meios específicos, já o coração do homem, só Deus pode purificar: “O crisol é para a prata e o forno para o ouro; mas, o SENHOR é quem prova os corações” (Pv 17:3). “Tenha já fim a malícia dos ímpios; mas estabeleça-se o justo; pois tu, ó justo Deus, provas os corações e os rins” (Sl 7:9).

A partir do momento que o homem (pecador) ama a justiça, ou seja, obedece à palavra de Deus, Deus o purifica e o torna justo. É só o homem reconhecer a sua cegueira e se humilhar (se fazer servo), debaixo das potentes mãos de Deus, guardando os Seus mandamentos, que será amado por DeusL “Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor” (Jo 15:10). “O SENHOR abre os olhos aos cegos; o SENHOR levanta os abatidos; o SENHOR ama os justos” (Sl 146:8).

Se o pecador guardar os mandamentos de Deus, ou seja, esconder a Sua palavra no coração, deixará de pecar (não mais será servo do pecado) e passa à condição de justo. Como a boca fala do que o coração está cheio, transbordará a boca do justo de sabedoria e juízo: “A boca do justo fala a sabedoria; a sua língua fala do juízo” (Sl 37:30). “Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti” (Sl 119:11).

Antes de ter um encontro com Cristo, o homem é nomeado pecador, mas após obedecê-Lo, crendo que Ele é o Filho de Deus, passa à condição de justo.

O uso do termo ‘pecador’ é semelhante ao uso do termo ‘náufrago’. Enquanto alguém está à deriva no mar, é um náufrago, mas após ser resgatado, tornou-se passageiro da embarcação. O título de náufrago já não se aplica a quem foi resgatado. Semelhantemente, quando servo do pecado, o homem é pecador, mas após deixar a servidão do pecado, é servo da justiça, portanto, justo e amado de Deus.

Mas, aos ímpios, ou seja, aqueles que não obedecem a Deus (amam a injustiça), Deus os odeia: “Os arrogantes não são aceitos na tua presença; odeias todos os que praticam o mal” (Sl 5:5).

Como Deus poderia amar os que amam a injustiça? Ele é claro: “Eu amo aos que me amam, e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17), ou: “Portanto, diz o SENHOR Deus de Israel: Na verdade tinha falado eu que a tua casa e a casa de teu pai andariam diante de mim, perpetuamente; porém, agora, diz o SENHOR: Longe de mim tal coisa, porque aos que me honram honrarei, porém os que me desprezam, serão desprezados” (1 Sm 2:30).

Podemos dizer que ‘Deus ama o pecador’? Teologicamente tal asserção é equivocada, porém, na linguagem evangelística é plenamente aceitável, desde que você aponte o mandamento de Deus: crer em Cristo, assim como Jesus fez com o Jovem rico, quando o amou dizendo: – ‘Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens e dá-o aos pobres…’ “E Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse: Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz, e segue-me” (Mc 10:21).

O evangelista deve saber qual é o amor de Deus, antes de dizer aos pecadores: – ‘Jesus te ama’.

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” (1 Jo 5:3).

Deus não justifica o ímpio, mas podemos dizer, evangelisticamente, como o apóstolo Paulo disse, que Deus justifica o ímpio, desde que não deixemos de enfatizar que é necessário crer: “Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça” (Rm 4:5). “De palavras de falsidade te afastarás e não matarás o inocente e o justo; porque não justificarei o ímpio” (Êx 23:7).

 


[1] “Amor (do latim amore) é uma emoção ou sentimento, que leva uma pessoa a desejar o bem a outra pessoa ou a uma coisa”. Dicionário Aurélio.

[2] “Amor (gr. agape) (1 Pe 4.8; Rm 5.5, 8; 1 Jo 3.; 4.7,8,16; Jd 21). Esta palavra, raramente, era usada na literatura grega, antes do Novo Testamento. E quando isso acontecia, ela era usada para expressar um ato de gentileza aos estrangeiros, oferecer hospitalidade e ser caridoso” O novo comentário bíblico NT, com recursos adicionais — A Palavra de Deus ao alcance de todos. Editores: Earl Radmacher, Ronald B. Allen e H.Wayne House, Rio de Janeiro, 2010, pág. 701.

“agapaõ que, originalmente, significava “honrar” ou, “dar boas-vindas”, é, no Gr. clássico, a palavra que tem menos definição específica; frequentemente, se emprega como sinônimo de phileõ, sem haver qualquer distinção, necessariamente, nítida quanto ao significado (…) 4. Não está clara a etimologia de agapaõ e agapè. O vb. agapaõ aparece, frequentemente, na literatura gr. de Homero em diante, mas o subs. agapè é uma construção que só aparece no Gr. posterior. Foi achada uma só referência fora da Bíblia: ali, a deusa Isis recebe o título de agapè (P. Oxy. 1380, 109; século II d.C.), agapaõ é, frequentemente, uma palavra descolorida”. Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento/Colin Brown, Lothar Coenen (orgs.); [tradução Gordón Chown]. — 2ª ed. — São Paulo; Vida Nova, 2000 págs. 113 e 114.

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Por que o homem precisa de salvação?

Para compreender o motivo pelo qual o homem precisa de salvação se faz necessário saber como, quando, onde e porque se está condenado e qual pena foi estabelecida. É necessário compreender como Deus justifica aquele que está condenado sem invalidar a sua justiça e o porquê da necessidade de um salvador. Por fim, se faz necessário identificar a verdadeira causa do sofrimento da humanidade.


“Por que o homem precisa de salvação?” é uma explicação sucinta do plano da salvação para que fique claro o porquê e por quem Jesus morreu, ou antes, ressurgiu dentre os mortos. Que fique claro que Ele não veio condenar o mundo, mas veio salvá-lo “Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele” ( Jo 3:17 ).

Todos passam por muitos problemas e sofrimentos nesta existência, mas estes não são os motivos pelos quais o homem precisa de salvação.

O homem precisa de salvação hoje por causa de uma condenação que sujeitou toda a humanidade à morte no passado. A morte foi imposta pelo pecado, uma barreira erguida que separa o homem de Deus. No entanto, por causa de uma visão desfocada, geralmente os homens só se perguntam se estão perdidos quando defrontam com alguma vicissitude – não rotineira – da vida.

A Bíblia nos revela que Deus já julgou a humanidade lá no Éden, e que todos os homens estão sob condenação, mas equivocadamente acredita-se que Deus ainda há de julgar a humanidade para determinar aqueles que serão salvos ou que perecerão.

Por causa de uma visão distorcida, várias religiões prometem salvação após o julgamento final, mas Jesus e os apóstolos afirmaram que o juízo de Deus já foi estabelecido e que todos estão debaixo de condenação. Como a perdição é uma realidade, através do evangelho de Cristo é oferecido salvação hoje, o chamado ‘dia aceitável’ ( Rm 5:16 ; Jo 3:18 ; 2Co 6:2 ).

Apesar da condenação que pesa sobre a humanidade, com o nascimento de Jesus, o Emanuel, cumpriu-se a profecia que diz: “O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz” ( Is 9:2 ), e Cristo foi estabelecido por salvação para todos os povos.

 

O problema da humanidade

Geralmente o que salta aos olhos quando se pensa em salvação são os erros de conduta das pessoas. Por causa de questões comportamentais e morais muitos entendem que se a pessoa for ‘boazinha’, será salva.

Quando se observa uma pessoa desregrada, transviada, má, criminosa, etc., de imediato acredita-se que o tal necessita de salvação muito mais que o restante da humanidade. Isto não é verdade, pois as pessoas desregradas precisam de salvação, como também todos os demais homens, mesmo os religiosos, sábios, regrados, ordeiros, etc.

A Bíblia nos diz que Jesus veio salvar os perdidos, e os perdidos não estão somente entre os desajustados da sociedade. Os perdidos são vistos nas sarjetas e nos palácios, nos templos e nos prostíbulos, na filosofia e na religião, nos ateus e nos crédulos, etc.

Uma visão distorcida dá a falsa segurança para alguém que é saudável, inteligente, abastado de bens, pertencente a uma família e tem muitos amigos, que não necessita de salvação. Mas, segundo a Bíblia, nenhum desses quesitos são indicativos de que o homem está salvo.

 

Uma natureza má

Todo homem sem Cristo está sob o domínio do pecado, ou seja, são escravos do pecado. A sujeição ao pecado não é perceptível aos sentidos naturais e nem é possível identifica-lo através dos sentimentos ou das emoções. Somente as Escrituras revelam o pecado como o mal que afeta a todos através da revelação das Escrituras.

Isto significa dizer que o pecado não tem cheiro, gosto, forma, não emite som, etc. Todos os homens possuem sentimentos e emoções, porém, não é possível identifica-los como pecadores através das emoções ou dos sentimentos, porque quando a Bíblia aponta para a natureza má do homem aponta para uma condição que se estabeleceu desde o nascimento.

A natureza má do homem não se manifesta somente através de condutas desregradas como matar, mentir, roubar, etc. Mesmo quando o homem parece correto, controla as suas emoções, segue bons princípios de convivência e sabe dar boas dádivas aos seus semelhantes, diante de Deus tal pessoa é designada má tal qual os desregrados “Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos…” ( Mt 7:11 ).

A Bíblia nos informa que tanto o religioso, o monge, o padre, o juiz, etc., quanto o roubador, homicida, estuprador, etc., se não aceitarem a Cristo, são igualmente maus diante de Deus. O mal está na natureza humana, pois é contaria a natureza de Deus. Deus é vida e a natureza humana herdada de Adão morte.

O mal da natureza herdada de Adão não é o caráter, a moral ou a índole do indivíduo, mas uma condição contraria à natureza de Deus. Se o homem possui comunhão com Deus: é luz, é verdadeiro, é justo, é santo e bom (nobre). Se não há comunhão com Deus, a sua condição é contraria à nobre, ou seja, é treva, mentiroso, injusto, impuro e mau, no sentido de baixo, vil.

Quando a Bíblia diz que o homem é mau, não se refere às ações – se boas ou más.

O Salmista enfatiza do ponto de vista social que tanto os homens nobres, quantos os homens da ralé são mais leves que o efêmero. No quesito mal – não importa o comportamento – e sim o nascimento. Se descendente de Adão, são mentirosos, ruins “Certamente que os homens de classe baixa são vaidade, e os homens de ordem elevada são mentira; pesados em balanças, eles juntos são mais leves do que a vaidade” ( Sl 62:9 ); “De maneira nenhuma; sempre seja Deus verdadeiro, e todo o homem mentiroso; como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras, E venças quando fores julgado” ( Rm 3:4 ).

Quando é dito na bíblia que todo homem é mentiroso, não significa que todos são desonestos, ou que todos faltam com a verdade para com os seus semelhantes. ‘Mentiroso’ é condição decorrente do coração enganoso herdado de Adão e não uma falha de caráter ( Sl 58:3 ; Jr 17:9 ).

O problema da humanidade teve início na ofensa de Adão, pois através de uma ofensa veio o juízo de Deus sobre todos os homens para condenação: morte. O juízo já foi estabelecido, por isso Jesus não veio condenar o mundo, mas salvá-lo ( Rm 5:18 ).

Deus é vida, luz, bom, santo, justo, etc., e o homem alienado de Deus passou a condição de morto, trevas, ruim, impuro, injusto, etc.

O problema da humanidade não está em suas ações, assim como o problema de uma infecção não está no pus, antes o problema está e decorre da semente que foi gerada. Todos os homens são gerados da semente corruptível de Adão, árvores que Deus não plantou, mas se crer em Cristo é enxertado na oliveira verdadeira, transportado das trevas para luz.

O homem sem Cristo é miserável pelo que é, e não pelo que faz. Adão, o primeiro homem, foi criado justo e santo, mas desobedeceu o Criador e sofreu as consequências da sua decisão: separou-se de Deus. Em razão da sua condição maldita, a semente de Adão tornou-se má e só produz descendentes maus.

Semelhante a semente de uma árvore má que produz outra árvore também má, assim são os descendentes de Adão concebidos em pecado: “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores …” ( Rm 5:19 ).

O homem não possui o poder de mudar a sua natureza, assim como os anjos não podem mudar a deles. Os homens precisam de Cristo porque só no evangelho há poder que faz de quem crê uma nova criatura participante da natureza divina.

 

Boas e más ações

A desobediência de Adão (que foi comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal) é a ofensa que alienou toda a humanidade da glória de Deus. Um mal que se perpetua de pai para filho, independentemente de quaisquer ações que o homem realize.

Além de se tornar pecador, algo decorrente da desobediência ao mandamento dado no Éden, o homem também adquiriu um conhecimento: o conhecimento do bem e do mal. Conhecer o bem e o mal não é o pecado, antes é consequência de ter comido do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal.

Por causa do conhecimento do bem e do mal todos os homens, tanto justos como injustos, são capazes de realizar boas ações e más ações, entretanto, a natureza em pecado do homem não pode ser alterada através de suas ações, quer sejam boas ou más ( Ec 7:20 ). Se fizer boas ações, a natureza permanecerá má, se fizer más ações, a sua natureza permanecerá igualmente má.

Geralmente se presume que somente as pessoas que comentem más ações são pecadoras, porém, Jesus evidencia através da parábola do ‘Fariseu e o Publicano’ que, apesar de o fariseu se cercar de boas ações, diante de Deus não estava justificado.

No período da escravidão tudo que um escravo produzia – por lei – pertencia ao seu senhor. Esse mesmo princípio aplica-se ao homem sem Cristo, pois tudo que o pecador produz pertence ao pecado, quer sejam boas ou más ações.

O pior homem sem Cristo não se mensura por suas más ações, e mesmo o melhor homem sem Cristo não se mensura por suas boas ou más ações “O melhor deles é como um espinho; o mais reto é pior do que a sebe de espinhos” ( Mq 7:4 ). Diante de Deus o melhor dos homens quanto o mais reto estão em igual condição ( Sl 53:3 ).

Devemos olhar com reservas para concepção do homem sem Cristo, por mais justo e correto que pareça, pois a aparência engana e, a concepção deste homem acerca das coisas de Deus é tão perniciosa quanto à do pior dos homens: o melhor e o pior dos homens estão equivocados. Por causa da natureza má, o pensamento do homem alienado de Deus é permanentemente mau. Por causa da natureza herdada de Adão, o homem sem Deus, além de trilhar um caminho de perdição, é mentira desde a origem ( Rm 3.4; Sl 58:3 ).

É em função da natureza do homem sem Deus que Cristo conta a parábola da ‘Árvore boa e a má’: a árvore má produz maus frutos e a árvore boa produz bons frutos ( Mt 12:33 ). A figura da árvore representa o homem; a árvore má representa o homem que não nasceu de novo, árvore que não foi plantada por Deus, ou seja, é árvore nascida de uma semente corrupta, a semente de Adão.

O homem (árvore má) pode até dar coisas boas aos seus semelhantes, porém, dizer coisas boas é impossível, pois possui um mau tesouro no coração enganoso e corrupto ( Mt 12:35 ), e Jesus aplica a figura da árvore má diretamente aos fariseus, porque sendo maus, nascidos de Adão, era impossível (não podiam) dizer boas coisas ( Mt 12:34 ).

É por causa da impossibilidade de um homem sem Cristo (árvore má) dizer (fruto) coisas boas que Jesus alerta acerca de como identificar os falsos profetas: pelo fruto, ou seja, pelo que dizem, pois a boca evidencia o que há no coração. É possível um falso profeta se manter escondido sob o disfarce de ovelha, ou seja, pela aparência (boas ações), mas é impossível disfarçar o fruto ( Mt 7:15 -16).

Embora muitos pensem: “Eu não sou malévolo”, ou até diga: “Cometo erros, mas isto não me faz merecer queimar em fogo pela eternidade”, o juízo de Deus para condenação foi estabelecido por causa de um só homem que pecou. Por causa da ofensa de Adão a condenação se abateu sobre todos os homens ( 1Co 15:21 -22), e muitos ignoram o fato de estarem condenados.

Muitos argumentam que é injusto ser condenado à perdição eterna porque um homem pecou! Este era o sentimento dos filhos dos escravos, pois nada fizeram para estarem sujeitos ao mando de seus senhores, entretanto, estavam condenados a uma existência de servidão.

Alegar que é injusto ser condenado pelo erro de outro não livra o homem da sua condição de sujeição ao pecado. O que livra o homem de tal condenação é crer no evangelho, que é poder de Deus para fazer dos filhos de Adão filhos de Deus.

 

A doutrina de Cristo

“O que eu devo fazer para ser salvo?”

A Bíblia dá a seguinte resposta: “Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e a tua casa” ( At 16:30 -31).

Quem é Jesus para que eu possa confiar n’Ele?

Jesus foi um homem da cidade de Nazaré como qualquer outro homem, porém, o diferencial entre Cristo e os demais homens está na forma como veio ao mundo. Enquanto os demais homens vêm à existência da concepção derivada da união íntima de um homem e uma mulher – na eternidade o Verbo Eterno teve que se esvaziar da sua glória, ou seja, deixar o seu divino poder, e ser ‘lançado’ pelo Espírito Santo no ventre de uma virgem (Maria). Fato que determina que nasceu sem pecado!

O Verbo – desde sempre existiu – mas ao despir-se da sua glória, conforme as profecias se fez homem e nasceu na casa de Davi. Entre os homens foi nomeado ‘Jesus’ conforme orientação de Deus, e tudo o que estava escrito acerca d’Ele nas Escrituras cumpriu-se ( Rm 1:3 ).

Enquanto o primeiro homem Adão, que veio ao mundo sem pecado, desobedeceu a Deus, o Verbo eterno – ao assumir a forma humana – se fez servo e foi obediente até a mote, e morte de cruz. A desobediência de Adão trouxe condenação sobre todos os homens, e Cristo, pela Sua obediência, trouxe salvação a todos quanto crerem n’Ele.

Jesus foi declarado Filho de Deus com poder quando Deus O ressuscitou dentre os mortos ( Rm 1:4 ), cumprindo cabalmente o que foi dito a Davi:- “O teu descendente que proceder das tuas entranhas (…) Eu lhe serei por Pai e Ele me será por Filho” ( 2Sm 7:12 -14).

O apóstolo Pedro deu testemunho que Cristo foi crucificado, mas que Deus o ressuscitou dentre os mortos e que em nenhuma outra pessoa há salvação, pois na terra não há outro nome pelo qual os homens são salvos ( At 4:11 -12).

Jesus é o Salvador, porque quando o homem (Adão) pecou contra o Criador, Deus prometeu um libertador (O Messias, que é o Cristo) e, na plenitude dos tempos Deus enviou o seu Unigênito aos homens, cumprindo-se as profecias escritas a respeito de Jesus séculos antes do Seu nascimento.

Jesus é o descendente prometido a Abraão em quem todas as famílias da terra seriam benditas. Ele é o rebento na casa de Jessé, o Filho de Davi. Conforme a profecia, Jesus nasceu de uma virgem na cidade de Belém, e na sua boca nunca houve engano, porque falava verazmente segundo o seu coração.

Conforme as profecias, na crucificação, as mãos e pés de Jesus foram perfurados, morreu e foi sepultado na cova de um homem rico e ao terceiro dia ressurgiu dos mortos, provando assim que o Jesus de Nazaré é efetivamente o Cristo, o Filho de Davi conforme confessou o cego a beira do caminho de Jericó.

Até aqui, apresentamos aspectos da vida de Jesus homem quando habitou entre nós, porém é imprescindível salientar que Jesus também é o Senhor da Glória.

Jesus, desde sempre (eternidade) é Deus ( Jo 1:1 ). De posse do Seu eterno poder tem toda autoridade. Na eternidade não há hierarquia entre as pessoas da trindade (são um) “Porque três são os que testificam no céu: o Pai, a Palavra (Verbo Eterno), e o Espírito Santo; e estes três são um” ( 1Jo 5:7 ) , de modo que o Verbo Eterno possui toda autoridade, é conhecedor de todas as coisas, é onipresente e dá vida a todos que crerem nele conforme as Escrituras.

Antes de haver mundo, o Verbo eterno criou todas as coisas e Ele sustem todas as coisas pelo Seu poder, mas para ser introduzido no mundo o Verbo eterno despiu-se do seu eterno poder (Jo 17.5; Fl 2.7), e se fez carne e passou a habitar entre os homens na qualidade de único gerado de Deus, pois a sombra do Espírito repousou sobre Maria e ela achou-se grávida.

Quando esteve entre os homens admitiu abertamente: “Eu e o Pai somos um”. E aquele que o ouviram retrucaram: “… tu, sendo homem, te fazes Deus” ( Jo 10:30 -33). Eles achavam que Jesus estivesse blasfemando e queriam matá-lo. Todas as vezes que Jesus anunciou a sua divindade, os seus ouvintes quiseram apedrejá-Lo: – “Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse ‘Eu Sou’” ( Jo 8:58 ).

Quando João Batista deparou-se com Jesus, apesar de ver um homem semelhante a ele, declarou: – “Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Jesus sendo homem, João batista enfatizou: – “Este é aquele do qual eu disse: Após mim vem um homem que tem a primazia, porque era primeiro do que eu”, apontando a preexistência de Cristo ( Jo 1:30 ).

Na eternidade não havia a relação Pai, Filho e Espírito Santo. Na eternidade o Verbo é 100% Deus, e ao deixar a sua glória ao ser introduzido no ventre de Maria se fez 100% homem. No mundo dos homens com a encarnação do Verbo eterno passou a existir a relação Pai e Filho, pois seres celestiais não procriam e, este foi o acordo de Deus Elohim na eternidade ( 2Sm 7:14 ).

Em meio aos homens, Jesus não deteve nem se quer 0.0001% do poder que possui antes de ser introduzido no mundo, pois só tornando-se efetivamente homem reuniria os elementos imprescindíveis para ser mediador entre Deus e os homens, ou seja, em tudo Cristo foi semelhante aos homens “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem” ( 1Tm 2:5 ; Hb 2:17 ).

Lembrando que o poder de Deus é infinito, qualquer porcentagem do poder de Deus, a mais ínfima, diz de um poder ilimitado. Quando em meio aos homens, Jesus viveu na dependência completa do Pai, ou seja, efetivamente se fez homem e foi obediente ao Pai até o fim.

Quando homem, apesar de não estar de posse da sua glória (poder), Jesus – o Espírito Eterno encarnado – era digno de adoração. Os discípulos e os seguidores de Jesus não conseguiam compreender que, aquele homem nascido em Belém e que residiu na cidade de Nazaré era o Criador do mundo.

Os contemporâneos de Jesus não conseguiam ter ideia da glória e majestade de Cristo porque Ele se fez homem por causa da paixão da morte. Mas através da sua ressurreição, agora é possível compreender que todas as coisas estão sujeitas a Cristo ( Hb 2:8 -10).

É imprescindível ao crente compreender que Jesus é o Sumo-sacerdote da Nova Aliança que pode compadecer dos pecadores, pois esteve sujeito às mesmas fraquezas e em tudo foi tentado, porém, sem pecado ( Hb 4:15 ). Ele mesmo – em obediência ao Pai – se interpôs como sacrifício ( Hb 9:15 ), e entrou nos céus, em um tabernáculo não feito por mãos de homens ( Hb 9:24 ); “Mas Ele, que já permanece para a eternidade, possui um sacerdócio exclusivo. Eis porque tem condições de salvar definitivamente os que, por meio dele, se aproximam de Deus, pois está sempre vivo para interceder em favor dele” ( Hb 7:24- 25).

A mensagem de Jesus é universal e atemporal: Jesus salva crianças, velhos, mulheres, homens, rico, pobre, sábio, ignorante, etc.

Quando entre os homens, Jesus recebeu afetuosamente tanto os rejeitados pela sociedade e pela religião, quanto aqueles que, tendo uma religião e desempenhando um papel social, creram n’Ele.

Jesus comissionou os seus discípulos, dizendo: – “Ide e fazei discípulos de todas as nações” ( Mt 28:9 ; Jo 3:16 ), pois Ele morreu pela humanidade inteira.

Cristo morreu por todos os homens, e não por alguns em particular ou em especial, pois o desejo de Deus é que todos os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade ( 1Tm 2:4 ).

Para ser salvo é necessário crer que aquele Jesus que residiu na cidade de Nazaré é o Filho de Deus, nascido da descendência de Abraão e na casa de Davi. Que Ele fez muitos milagres e maravilhas enquanto andou entre os homens com a missão de revelar Deus a humanidade ( At 4:10 ). Foi morto, sepultado, mas ressurgiu ao terceiro dia e está à destra da Majestade nas alturas.

Jesus veio ao mundo como o Unigênito do Pai e, por tudo que sofreu, fica evidente que, mesmo sendo o Filho de Deus, foi obediente em tudo, até à morte ( Hb 5:8 ). Ele foi conduzido ao calvário como um cordeiro que não abriu sua boca e, abdicou de fazer a sua vontade, sujeitou-se à vontade do Pai ( Lc 22:42 ). E, ao terceiro dia ressuscitou dentre os mortos como o Primogênito de Deus, pois por Ele muitos filhos são conduzidos a Deus ( Hb 2:10 ), pois aqueles que creem em Cristo – morrem para o mundo e nascem de novo – como filhos de Deus.

 

Novo Nascimento

O novo nascimento através da semente incorruptível é providência graciosa de Deus que torna o homem livre da natureza má herdada de Adão.

Quando você crê que Jesus é o Cristo, torna-se participante da carne e do sangue de Cristo ( Jo 6:35 e 53). Isto significa que você é participante da morte de Cristo, ou seja, tomou a sua própria cruz e seguiu após Cristo, foi crucificado, morto e sepultado à semelhança da Sua morte ( Rm 6:5 ).

Quando o homem crê em Cristo, o juízo de Deus estabelecido no Éden é satisfeito, pois a pena estabelecida para os pecadores – a morte – não passa da pessoa do transgressor. Deus é justo juiz quando o pecador morre com Cristo, pois recebe o cumprimento da sua sentença , pois o salário do pecado é a morte.

É no momento da morte com Cristo que o homem passa à condição de morto para o pecado ( Rm 6;11 ), e a maravilhosa graça de Deus se manifesta, pois mesmo não tendo obrigação nenhuma para com aquele que foi apenado na morte com Cristo, graciosamente Deus traz a existência um novo homem pela ressurreição de Cristo.

O velho homem é crucificado para que o corpo que pertencia ao pecado seja aniquilado ( Rm 6:6 ), e o pecado não tenha mais domínio sobre o tal homem , pois é certo que, morrendo o homem não há mais lei que o vincule ao pecado ( Rm 7:4 ).

O crente em Cristo ressurge com Cristo ( Cl 3:1 ) uma nova criatura criada segundo Deus em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ), de modo que já não há nenhuma condenação ( Rm 8:1 ).

O apóstolo Paulo diz que nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, porque aquele que está em Cristo Jesus é uma nova criatura isenta de culpa ( Rm 8:1 ; 2Co 5:17 ). Esta nova criatura é participante da natureza divina, ou seja, bom, luz, filho, etc. ( 2Pd 1:4 ). Do bom tesouro do coração fala coisas boas: confessa que Jesus é o Filho de Deus, produz o fruto dos lábios de quem está ligado à oliveira verdadeira: – “Paz, paz, para os que estão longe e para os que estão perto” ( Is 57:19 ).

A nova criatura não mais comete erros? Sim comete, pois apesar de se livrar da condenação estabelecida no Éden, ainda é conhecedor do bem e do mal. Entretanto, as suas obras e intenções do seu coração serão julgadas no Tribunal de Cristo, e não mais no Grande Trono Branco ( 2Co 5:10 ).

 

Falta alguma coisa?

O crente em Cristo arrependeu-se quando creu em Cristo conforme tudo o que foi predito acerca d’Ele nas Escrituras, momento em que Deus concedeu o perdão de todos os seus pecados e delitos.

Agora em Cristo – uma nova criatura – você não precisa viver admitindo culpa (confessando erros do cotidiano) diante de Deus para garantir a salvação, pois nenhuma condenação há que pese sobre você como nova criatura.

Todas as ações dos cristãos serão julgadas no Tribunal de Cristo, portanto, você pode pedir perdão a Deus por questão de consciência, mas não são estas questões que te levará à perdição.

Como crente, você não precisa mais arrepender-se acerca de como alcançar salvação, ou seja, mudar de concepção (metanoia), pois o seu arrependimento diante da mensagem do evangelho é o que te levou a crer em Cristo. O arrependimento bíblico não se repete ao longo da existência do cristão neste mundo, pois crer em Cristo se dá de uma vez por todas, sendo necessário somente a perseverança.

O arrependimento ligado ao remorso e que se concita a confissão de erros diante de um sacerdote, ministro, padre, etc., decorre de uma concepção católica antiga que vinculava o arrependimento à penitência, ou indulgência.

Por causa das questões próprias à penitencia e à indulgencia surgiram afirmações como: – “Não basta admitir culpa, tem que se arrepender”; ou – “Arrependimento genuíno só parte de um coração quebrantado”; ou – “Arrependimento é mais que remorso”, etc.

A culpa pelos erros cometidos, somado à ideia de arrependimento como penitencia e indulgência fazia com que as pessoas doassem seus bens como prova de genuíno arrependimento e devoção, porém, o arrependimento bíblico é somente admitir que Jesus é o Cristo de Deus que tira o pecado do homem.

A oração do crente nascido de novo é de alegria, expressão verbalizada da sua confiança por ter amplo acesso ao trono de Deus “No qual temos ousadia e acesso com confiança, pela nossa fé nele” ( Ef 3:12 ; Hb 10:19 ). Você não deve se apresentar como indigente diante de Deus, mas como filho agradecido por todas as bênçãos concedidas, pois Deus nos fez assentar nas regiões celestiais em Cristo Jesus ( Ef 1:3 ).

Ainda falta alguma coisa para o crente? Sim.

Há a necessidade de se alimentar constantemente. Primeiro com leite racional, depois com alimento sólido até chegar a estatura de varão perfeito, a medida da estatura de Cristo. Prosseguir para o alvo, que é o pleno conhecimento de Cristo. Combater o bom combate em defesa do evangelho e permanecer crendo nele!

E depois de haver feito isto, permanecer firme, até que o corpo mortal seja revestido da imortalidade.

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