O emprego do termo ‘ágape’ na Bíblia

Dentre todos os termos gregos utilizados na Bíblia para ‘amor’, o termo ‘ágape’ foi escolhido e utilizado pelos apóstolos para enfatizar a obediência a Deus.

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Avivamento, de onde vem?

O ‘avivamento’ bíblico, no sentido de ‘realizar’, ‘implementar’, decorre do que Deus estabeleceu, por meio da sua palavra. À parte da palavra de Deus, não há obra e nem ‘avivamento’. Deus ‘avivou’ a sua obra, quando os filhos de Israel foram levados cativos para a Babilônia, cumprindo a sua palavra, anunciada pelos profetas, desde Moisés.


Introdução

Basta uma pesquisa na internet, para encontrar algumas definições de ‘avivamento’:

“Avivamento é o ato de se avivar, ou seja, de se tornar mais vivo, mais ativo, mais intenso, despertado e nítido”[1];

“Avivamento é, simplesmente, aquele momento, quando Deus se manifesta diretamente no meio dos homens; quando Ele ‘rasga os céus e desce’”[2].

Desde garoto ouço, nos púlpitos das igrejas evangélicas, pregações cujo tema é o ‘avivamento’. No decurso dos anos, presenciei inúmeras cruzadas, congressos, eventos, festividades, vigílias, que tiveram por tema a necessidade de um avivamento na igreja, porém, nada de significativo e duradouro se estabeleceu ao término desses eventos.

Muitos preletores congressistas citavam eventos históricos como fruto de um avivamento, tendo como ícones líderes cristãos da antiguidade, como o clérigo anglicano e teólogo cristão britânico John Wesley que, no século dezoito, supostamente, ajudou a Inglaterra a evitar uma revolução sangrenta, semelhante à revolução que dizimou a França; ou, a suposta diminuição de índices de criminalidade em algumas comunidades, como no país de Gales, em 1905, ou, ainda, no Zaire, em 1976, ou, Pensacola – Flórida (EUA), em 1995; a erradicação do trabalho infantil e da prostituição infantil, na Inglaterra, supostamente promovida pelo Exército da Salvação, liderado pelo William Booth, no século 19, etc.

Com o tempo, muitos ‘avivamentos’ passaram a ser denominados por ‘moveres espirituais’, sendo que tais movimentos caracterizaram-se pelo grande número de pessoas envolvidas e pela ocorrência de fenômenos considerados sobrenaturais, como: curas, revelações, profecias, danças, êxtase, etc., muitas vezes acompanhados por experiências sensoriais, como tremores, fraquezas, desmaios, etc. Tais fenômenos não se restringem às denominações evangélicas e neopentecostais, pois, também, ocorrem em meio a alguns seguimentos católicos, como a renovação carismática e a teologia da libertação; no hinduísmo, nas religiões orientais, com o crescente número de gurus, lamas e mestres; e no islamismo, com a proposta de expansão pelo continente europeu, etc.

A partir dos chamados ‘movimentos espirituais’, o que se constata é o surgimento de doutrinas e práticas diversas, como ‘cair no espirito’, ‘unção do riso’, ‘movimento profético’, ‘unção do paletó’, práticas e ensinamentos que não possuem respaldo bíblico.

Um crente em Cristo não deve nortear a sua crença, a partir de transcrições ou, de interpretações das experiências humanas ou, ainda, se apoiar em alguma experiência sensorial. O apóstolo Pedro viu o Cristo se transfigurar, quando estava no monte e ouviu uma voz dos céus, porém, a sua crença não estava apoiada no que viu e no que ouviu, mas, no que é firme: a palavra dos profetas, a qual todos devem estar atentos.

“Porquanto, ele recebeu de Deus Pai, honra e glória, quando da magnífica glória lhe foi dirigida a seguinte voz: Este é o meu Filho amado, em quem me tenho comprazido. E ouvimos essa voz, dirigida do céu, estando nós com Ele no monte santo; E temos mui firme, a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia amanheça e a estrela da alva apareça em vossos corações” (2 Pe 1:17-19).

O cristão tem de se restringir a seguir somente o que está estabelecido nas Escrituras. Como não encontramos no Novo Testamento os apóstolos fazendo alusão a ‘avivamentos’ na Igreja de Cristo, faz-se necessário apreciar tais movimentos à luz das Escrituras.

Jesus não deu mandamento aos seus discípulos, para que aguardassem por um avivamento. A única ordem dada a seus seguidores, foi para ficarem em Jerusalém, até que do alto fossem revestidos de poder (At 1:4) e, após a descida do Espírito Santo, já não há o que se esperar, a não ser a volta de Cristo.

A Bíblia fala somente da necessidade de um novo nascimento e o nascimento, segundo o evangelho, é imprescindível a quem não crê em Cristo. Quem é nova criatura não necessita nascer de novo, pois há quem confunda o ‘novo nascimento’ com o que denominam de ‘avivamento’.

 

Aviva, ó Senhor!

Não adianta alguém gritar da tribuna: – ‘Aviva, ó Senhor, a tua Igreja’, pois não há suporte bíblico para tal petição.

Alguém dirá: – “Mas, Habacuque fez esse pedido a Deus” e apresentam esse versículo:

“Ouvi SENHOR a tua palavra e temi; aviva, ó SENHOR, a tua obra no meio dos anos, no meio dos anos faze-a conhecida; na tua ira lembra-te da misericórdia” (Hc 3:2).

Em primeiro lugar, temos que considerar que a oração de Habacuque pedindo a Deus para ‘avivar’ a sua obra não se refere à Igreja de Cristo, antes tinha por alvo a nação de Israel. Em segundo lugar, a petição do profeta Habacuque teve por base a revelação de que Deus iria punir os filhos de Israel, por causa da apostasia.

Que obra Deus haveria de realizar no transcorrer do tempo (no meio dos anos), que deixou o profeta perplexo? Deus levantaria os caldeus, um povo feroz, de língua desconhecida e de terras bem distantes, que guerrearia contra Israel e os levaria cativos (Hc 1:6-11).

“Vede entre os gentios,  olhai, maravilhai-vos e admirai-vos; porque realizarei em vossos dias uma obra que vós não crereis, quando for contada. Porque eis que suscito os caldeus, nação amarga e impetuosa, que marcha sobre a largura da terra, para apoderar-se de moradas que não são suas” (Hc 1:5-6).

O profeta Habacuque via que os filhos de Israel eram homens ímpios e ele questiona por que Deus não agia (Hc 1:1-4). Mas, quando Deus respondeu, dizendo que traria a guerra sobre Israel e quando apontou para as nações gentílicas, dizendo que faria uma obra que ninguém acreditaria quando fosse anunciada (Hc 1:5), Habacuque ficou perplexo! O temor apoderou-se do profeta, por causa do que Deus haveria de fazer, tendo em vista que uma nação ímpia seria utilizada por Deus, como vara, para corrigir os filhos de Israel (Hc 1:12).

Então, Habacuque se postou como vigia, esperando uma resposta de Deus, pois ele não compreendia como Deus poderia tolerar um povo perverso (caldeus) devorar outro povo (judeus) que, a seu ver, era mais justo (Hc 1:12). Deus respondeu a Habacuque e garantiu que, depois de realizada a Sua obra, punindo os filhos de Israel, os caldeus não sairiam impunes das suas maldades, apesar de terem sido utilizados como vara de correção de Israel (Hb 2:6).

Ao ficar a par do que Deus faria com o seu povo, o profeta Habacuque ora ao Senhor, dizendo: – ‘Ouvi Senhor as tuas palavras e estou alarmado’! Apesar de saber o que haveria de ocorrer com os filhos de Jacó, Habacuque clama: – ‘Aviva, ó Senhor, a tua obra’!

Que obra Deus haveria de ‘avivar’? A obra que Ele prometeu realizar no capítulo 1 do Livro de Habacuque:

“Vede entre os gentios, olhai, maravilhai-vos e admirai-vos; porque realizarei em vossos dias uma obra que vós não crereis, quando for contada” (Hb 1:5).

Essa obra seria executada nos dias dos filhos de Israel e não nos dias da Igreja.

Ao dizer: ‘Aviva’, Habacuque estava dizendo: ‘execute’, ‘implemente’, ‘realize’, a sua obra, ó Senhor! A oração de Habacuque é transcrita na forma de cântico e contém, em si, alguns elementos pertinentes à poesia hebraica. Através do paralelismo sinônimo, que é próprio à poesia hebraica, depreendemos da segunda linha do poema a ideia expressa na linha anterior, porém, com palavras diferentes:

Aviva, ó SENHOR, a tua obra no meio dos anos,

no meio dos anos, faze-a conhecida

O termo hebraico חיה transliterado ‘chayah’, comumente traduzido por ‘viver, ter vida, permanecer vivo, sustentar a vida, viver prosperamente, viver para sempre, reviver, estar vivo, ter a vida ou, a saúde recuperada’, procede de outra palavra hebraica primitiva חוה, também, transliterada ‘chavah’, que significa ‘contar, declarar, mostrar, tornar conhecido’. Assim, por ‘avivar’, Habacuque estava dizendo: ‘torna conhecida, mostra, declara, realiza, conta a sua obra’. No contexto, ‘avivar’, é Deus ‘fazer conhecida’ a obra que prometeu!

Certo de que Deus haveria de enviar os caldeus para combater contra Israel, o profeta Habacuque roga a misericórdia de Deus. Se o ‘avivar’ da obra de Deus fosse uma benesse para os filhos de Israel, o profeta não rogaria por misericórdia. Ele rogou por misericórdia, porque visualizou a ira de Deus:

“… na tua ira lembra-te da misericórdia” (Hc 3:2).

A obra anunciada a Habacuque, Deus a realizou quando a Babilônia, através de Nabucodonosor II, invadiu, destruiu Jerusalém e levou os filhos de Israel cativos. A primeira deportação teve início em 609 a.C. e os filhos de Israel foram feitos escravos dos seus inimigos.

O alerta no Livro de Habacuque aplica-se aos judeus, tanto que o apóstolo Paulo, ao pregar, num sábado, na sinagoga de Antioquia, na Pisídia, citou um verso do livro de Habacuque, após demonstrar que Jesus é o Cristo, alertando-os, caso não cressem em Cristo:

“E de tudo o que, pela lei de Moisés, não pudestes ser justificados, por Ele é justificado todo aquele que crê. Vede, pois, que não venha sobre vós o que está dito nos profetas: Vede, ó desprezadores, espantai-vos e desaparecei; Porque opero uma obra em vossos dias, obra tal que não crereis, se alguém vo-la contar” (At 13:39-41).

Diante disso, caberia se perguntar se o Livro de Habacuque teria alguma aplicação prática para a Igreja de Cristo? A resposta é – sim, como todas as Escrituras, conforme o exposto pelo apóstolo Paulo:

“E estas coisas nos foram feitas em figura, para que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram (…) Ora, tudo isto lhes sobreveio como figuras e estão escritas para aviso nosso, para quem já são chegados os fins dos séculos” (1 Co 10:6 e 11);

“Toda a Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir e para instruir em justiça” (2 Tm 3:16).

O ‘avivamento’ bíblico, no sentido de ‘realizar’, ‘implementar’, decorre do que Deus estabeleceu, por meio da sua palavra. À parte da palavra de Deus, não há obra e nem ‘avivamento’.

Deus ‘avivou’ a sua obra, quando os filhos de Israel foram levados cativos para a Babilônia, cumprindo a sua palavra, anunciada pelos profetas, desde Moisés:

“O SENHOR levantará contra ti uma nação de longe, da extremidade da terra, que voa como a águia, nação cuja língua não entenderás” (Dt 28:49).

Deus ‘avivou’ a sua obra, quando enviou o Cristo ao mundo, cumprindo o que prometera a Abraão e a Davi: um descendente em quem todas as famílias da terra seriam benditas.

“E abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12:3; Gl 3:16);

“Quando teus dias forem completos e vieres a dormir com teus pais, então farei levantar depois de ti um dentre a tua descendência, o qual sairá das tuas entranhas e estabelecerei o seu reino. Este edificará uma casa ao meu nome e confirmarei o trono do seu reino para sempre. Eu lhe serei por pai e ele me será por filho; e, se vier a transgredir, castigá-lo-ei com vara de homens e com açoites de filhos de homens” (2 Sm 7:12-14).

Deus ‘avivou’ a sua obra, quando Cristo passou a ser anunciado a todas as gentes, com a descida do Espírito Santo, pois se cumpriu a palavra anunciada por Joel: o espírito de Deus foi derramado como orvalho sobre toda carne, pois toda carne é como a flor da erva (Dt 32:2; Is 40:6).

“Mas isto é o que foi dito pelo profeta Joel: E, nos últimos dias, acontecerá, diz Deus, Que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne; E os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, Os vossos jovens terão visões, E os vossos velhos terão sonhos; E, também, do meu Espírito derramarei sobre os meus servos e as minhas servas, naqueles dias, e profetizarão; E farei aparecer prodígios em cima, no céu; E sinais embaixo, na terra, Sangue, fogo e vapor de fumo” (At 2:16-19).

No dia do Pentecostes, uma festa judaica, houve a descida do Espírito Santo, o Consolador, e também o conhecimento (espírito) do Senhor foi anunciado (derramado) a todas as gentes, que estavam em Jerusalém, pois cada um ouviu em suas próprias línguas nativas as grandezas de Deus.

O espírito do Senhor derramado sobre toda carne é o mesmo que a doutrina de Deus, sendo gotejada como a chuva sobre a erva, pois toda carne é como a erva e o evangelho anunciado é o espírito derramado sobre toda carne (1 Pe 1:24; Is 40:6).

Cristo ‘avivou’ a sua obra, quando enviou o Consolador, cinquenta dias (Pentecostes) após a sua assunção aos céus (Jo 16:7). Cristo ‘avivará’ a sua obra quando vier para arrebatar a sua Igreja, conforme o que prometera (At 1:11).

 

A Igreja de Cristo

 

Há quem proclame que Deus quer dar um ‘avivamento’para a Sua Igreja hoje, porém, o apóstolo Pedro deixou registrado que Deus já concedeu tudo o que diz respeito à vida e piedade:

“Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e à piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou pela sua glória e virtude” (2 Pe 1:3).

O apóstolo Paulo afirma que nenhum dom falta à Sua Igreja, pois os cristãos foram abençoados com todas as bênçãos espirituais:

“De maneira que nenhum dom vos falta, esperando a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Co 1:7);

“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo” (Ef 1:3).

Muitos preletores, ‘avivalistas’, chegam a afirmar que é necessário um avivamento, quando a igreja está fraca, prestes a morrer.

“Avivamento é o Espírito Santo enchendo um corpo prestes a tornar-se um cadáver.” – D. M. Panton;

“Um avivamento espiritual sugere a ideia de que houve, antes, um declínio espiritual.” – Charles Finney;

Tais posicionamentos são temerários, com relação à Igreja de Cristo, pois não há, na Bíblia, qualquer suporte que dê sustentabilidade à ideia de que a Igreja, como corpo de Cristo, necessite de avivamento hoje, ou, até à volta de Cristo. Como é possível a Igreja necessitar de avivamento, se Cristo prometeu estar com os que crêem, todos os dias até à consumação de todas as coisas?

“Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco, todos os dias, até à consumação dos séculos. Amém” (Mt 28:20).

São estarrecedoras algumas frases que procuram promover a necessidade de movimentos avivalísticos. De que corpo o Dr. Panton está falando? Como é possível o corpo de Cristo, que é a sua Igreja, estar prestes a se tornar um cadáver? Qual o sentido da palavra ‘encher’, aplicada à pessoa do Espírito Santo, por Panton? O que é um declínio espiritual, segundo a concepção de Finney?

Das asserções acima, tenho que concluir que Panton não está falando da Igreja, como o corpo de Cristo, pois é impossível o corpo de Cristo definhar, quando tem por cabeça o Salvador do corpo – Cristo. Se a Igreja chegar a definhar, o problema deriva da cabeça e não do corpo. É infeliz a ideia de considerar que o corpo de Cristo precisa de uma intervenção do Espírito Santo, por estar ‘prestes a tornar-se um cadáver’. A vida da Igreja decorre de Cristo e o Espírito Santo é o guia de cada membro, em particular, à verdade (Jo 16:13).

Quando falamos da Igreja de Cristo, jamais podemos entender que ela sofra declínio ‘espiritual’, vez que Deus, como agricultor, poda aqueles ramos que dão frutos para que deem mais fruto e corta fora os que não dão frutos. Aqueles que pertencem ao mundo é que declinam, pois vão de mal a pior, enganando e sendo enganados (2 Tm 3:13).

Por avivamento[3], os avivalistas entendem que se trata de Deus conceder ‘nova vida em um corpo que já está morrendo’. É possível aos membros do corpo de Cristo estarem quase deixando de ser sal e luz da terra? Se assim é, não é o caso de Deus os lançarem fora, para serem pisados? Se alguém é membro de Cristo, também, é sal e luz do mundo, portanto, se alguém deixa de ser sal e luz do mundo é porque não está mais ligado a Cristo, a videira verdadeira.

A maior estratégia de Satanás é enganar os cristãos, fazendo com que acreditem que não estão de posse das bênçãos prometidas por Deus. Embora de posse de todas as bênçãos espirituais, de modo que nenhum dom lhes falte, rogos e cânticos proliferam em meio aos cristãos, com a seguinte mensagem:

“Envie o fogo

Olhe para baixo e veja esta multidão esperando.

Dê-nos o prometido Espírito Santo

Queremos um novo Pentecostes”[4]

Os discípulos foram instruídos a deixarem de olhar para o alto, pois o que se espera do céu é que o mesmo Jesus, assim como subiu, há de vir (At 1:11). O que devemos esperar é a volta de Cristo, pois a promessa do Espírito Santo já foi cumprida e não haverá uma nova ‘descida’ do Espírito Santo (novo Pentecostes). Os dons de Deus são irrevogáveis! O apóstolo Pedro disserta, dizendo que nenhum dom falta àqueles que estão em Cristo (1 Co 1:7), pois, foram abençoados com todas as bênçãos espirituais (Ef 1:3).

“Aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Salvador Jesus Cristo” (Tt 2:13).

Como carece de suporte bíblico, não raras vezes, um avivalista lançará mão da Bíblia para dar suporte à sua doutrina. O Pr. Paul David Cull, conforme consta do portal ‘www.avivamentoja.com’, cita Malaquias 3, versos 1 a 5 e dá a seguinte explicação:

“Neste trecho em Malaquias capítulo 3 nós temos uma profecia sobre a visitação divina – uma profecia que se cumpriu com a primeira vinda de Jesus, que se cumprirá na Sua segunda vinda, mas que também se cumpre nas “vindas” do Senhor através do Seu Espírito (João 14:16 e 18). Estas “vindas” ou derramamentos do Espírito Santo, são chamados de renovação, despertamento, avivamento etc… Podemos ver neste trecho em Malaquias as fases destas visitações do Espírito Santo”. Pr. Paul David Cull<http://www.avivamentoja.com/pmwiki.php?n=Avivamento.Fases> Consulta realizada em 17/05/17.

De onde surgiram essas vindas entre aspas? Onde elas estão previstas nas Escrituras e os tais derramamentos do Espírito? Jesus deixou claro que chamava os seus discípulos de amigos (servos ladinos), por eles terem sido informados de tudo, portanto, é de se estranhar que Ele não dissesse de outras vidas!

“Já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai, vos tenho feito conhecer” (Jo 15:15).

Para embasar a sua fala, o Pr. Paul cita João 14, verso 16, em que Jesus garante que o Espirito Santo haveria de ser enviado e permaneceria com a Igreja para sempre “E eu rogarei ao Pai e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre” (Jo 14:16).

Ao apresentar algumas frases para o avivamento, com base em Malaquias 3, o Pr. Paul afirma que, antes de um avivamento, há uma voz, e cita a profecia que predisse a vinda do mensageiro do Senhor, João Batista (Mt 3:3; Ml 3:1). No entanto, quando João Batista veio, ele não apregoou uma mensagem avivalística, mas, sim, uma mudança de concepção (arrependimento).

Os judeus, ante à mensagem de João Batista, que anunciava a chegada do reino dos céus, deviam abandonar as suas crenças, de que eram salvos por serem descendentes da carne de Abraão e crerem em Cristo, como o enviado de Deus.

Em seguida, o Pr. Paul aponta homens como Evan Roberts no País de Gales, Frank Bartleman na Rua Azusa, Peggy e Christine Smith (de 84 e 82 anos de idade) nas Ilhas Hébridas, etc., como se desempenhassem o mesmo papel que João Batista. João Batista foi o precursor de Cristo e depois dele jamais haverá outro, pois não há previsão bíblica para tal.

O Senhor que os filhos de Israel buscavam (indagavam), diz do Senhor que escondeu o seu rosto da casa de Israel: a Rocha de Israel (Dt 32:20; Is 8:17). De repente, ao seu tempo, viria o Senhor e Cristo veio na plenitude dos tempos, cumprindo-se, cabalmente, a profecia, portanto, não se deve esperar por um ‘avivamento’, tendo por base essa passagem de Malaquias.

Observe o que alguns líderes[5] dizem, acerca do avivamento:

“Mesmo tendo um teor místico muito acentuado, reavivamento é muito mais que isso. É o motor de coisas novas, de realizações extraordinárias e de certa duração, na área da educação religiosa, na área de evangelização e missões, na área de socorro ao sofrimento humano. Forçosamente, o reavivamento sempre gera preocupação com os não-salvos, pela graça de Deus e com os moralmente marginalizados. A história dos reavivamentos mostra que este sopro do Espírito induz os crentes a fazerem obras de caridade e a levantar a sua voz contra a injustiça social, seja ela qual for e custe o preço que custar” (Entrevistas com Ashbel Green Simonton, p. 107.)

“Reavivamento é uma visitação inteiramente sobrenatural do Espírito soberano de Deus, pela qual uma comunidade inteira toma consciência de sua santa presença e é surpreendida por ela. Os inconversos se convencem do pecado, arrependem-se e clamam a Deus por misericórdia, geralmente em números enormes e sem qualquer intervenção humana. Os desviados são restaurados. Os indecisos são revigorados. E todo o povo de Deus, inundado de um profundo senso de majestade divina, manifesta em suas vidas o multifacetado fruto do Espírito, dedicando-se às boas obras.” John Stott, A Verdade do Evangelho, p. 119.

Dentre muitos comentários que há acerca do avivamento, pois não há um consenso sobre o que é ‘avivamento’, percebe-se que tal pensamento não possui relação com a Igreja, o corpo de Cristo, do qual são membros todos quantos creem que Jesus é o Cristo segundo as Escrituras.

O que entendem por avivamento, geralmente está atrelado a uma igreja local, comunidade, ajuntamento, assembleia, instituição, etc., e tais avivamentos se mostram um movimento local conduzido sob a liderança de uma pessoa, e geralmente, se evidencia em um congresso, festividade, evangelismo, etc. Se tais avivamentos se dão em igrejas locais, isso significa que não possui relação com a Igreja de Cristo, que é universal.

A ideia de que o avivamento está atrelado a profundas mudanças políticas, econômicas, sociais e morais, geralmente decorre de uma liderança politica que se diz cristã e que impõe os seus valores à sociedade. Eventos históricos que pontuam a intervenção de alguns cristãos, que proporcionaram mudanças sociais, como o fim de regimes escravocratas ou uma luta pelo fim da cobrança de juros exorbitantes, etc., não pode ser tido como base para afirmar um avivamento.

Por que não? Porque Jesus deixou claro que os pobres sempre existiriam, ou seja, Jesus não veio transformar as condições socioeconômicas da humanidade (Mt 26:11; Dt 15:11). O apóstolo Paulo, em momento algum, emitiu juízo de valor aos meios de produção da sua sociedade, que era escravagista, o que demonstra que quem levanta tais bandeiras não é por ação sobrenatural de Deus.

Na Bíblia, não encontramos nenhuma alusão ao avivamento do corpo de Cristo, antes, há uma única referência às sete cartas enviadas aos anjos das igrejas locais, que estavam na Ásia, quando Jesus instrui, exorta, repreende e consola os líderes daquelas sete igrejas (Ap 2:1 a 3:22).

Nas cartas de João às sete igrejas da Ásia, Jesus trata, pontualmente, com cada bispo, o que nos leva a compreender que, pontualmente, um líder de uma igreja local pode sofrer uma repreensão, para não ser dizimado pelo inimigo de nossas almas. Mas, esta é uma questão pontual e não global, de modo que envolva o corpo de Cristo, o templo santo do Senhor.

 

Nova Vida versus avivamento

Deus concedeu à humanidade vida abundante, em Cristo. Quem crer em Cristo, como diz as Escrituras, recebe de Deus uma nova vida, pois é gerado de novo, segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade (Ef 4:24).

O novo nascimento não é uma reformulação do velho homem, pois, para o homem ser de novo gerado, primeiro o velho homem tem que ser crucificado, morrer e ser sepultado com Cristo. O corpo que pertence ao pecado precisa ser desfeito, através da morte com Cristo, para que o pecado não mais tenha domínio sobre o homem.

Após ser sepultado com Cristo, o homem ressurge uma nova criatura, designada pelo apóstolo Pedro ‘pedra viva’. Se cada cristão é pedra viva, assim como Cristo é a pedra viva de esquina, a Igreja de Cristo, que é o seu corpo, constitui-se templo santo para habitação de Deus em espírito.

“No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito” (Ef 2:22).

A Igreja, como corpo de Cristo, jamais necessita de avivamento, pois Cristo é a cabeça e o salvador do corpo.

“Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo” (Ef 5:23).

O crente, como membro do corpo não precisa de avivamento, pois quem come e bebe de Cristo, nunca mais terá fome e sede:

“E Jesus lhes disse: Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome e quem crê em mim nunca terá sede” (Jo 6:35).

A Igreja, como corpo de Cristo, compara-se a uma lavoura ou a um edifício e todos que trabalham são somente cooperadores, pois quem dá o crescimento apropriado é Deus. Qualquer crítica ao crescimento do corpo é feita a Deus e não aos homens!

“Por isso, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento” (1 Co 3:7).

Quem cuida da Igreja é Deus, como um agricultor, que poda os ramos que dão fruto e corta e lança fora os que não dão fruto.

“EU sou a videira verdadeira e meu Pai é o lavrador. Toda a vara em mim, que não dá fruto, a tira; e limpa toda aquela que dá fruto, para que dê mais fruto” (Jo 15:1-2).

Com base na obra que Deus realiza junto à Igreja, vez que os poderes do inferno não prevalecem contra ela, a ideia de avivamento não subsiste (Mt 16:18).

O evento da descida do Espírito Santo, que coincidiu com a festa judaica do Pentecostes, não foi um ‘avivamento’ aos moldes do anunciado pelos avivalistas, mas, sim, o cumprimento da promessa de Deus (Lc 24:49), pois os discípulos foram ‘vestidos’ da habilidade necessária para a missão a que foram incumbidos: ir por todo mundo (povos e gentes) ensinando-as a guardar os ensinos de Cristo (Lc 24:47). Que habilidade seria? Intrepidez e compreensão das Escrituras, segundo o que aprenderam de Cristo.

A promessa de Deus, anunciada por intermédio de Joel, era que o seu espírito (palavra) seria derramado sobre toda a carne (At 2:17), assim como foi anunciado a Moisés que a doutrina de Deus deveria ser destilada como orvalho, como chuva sobre a erva (Dt 32:2). Não podemos esquecer que todos os homens são erva e que a doutrina de Deus seria derramada sobre toda carne (Is 40:6).

A essência da descida do Espírito Santo não estava no som, como de um vento impetuoso, que encheu a casa onde os discípulos estavam e nem na visão das línguas repartidas como de fogo, que era visível sobre cada discípulo (At 2:2); a marca da descida do Espírito Santo não estava nas diversas línguas que cada cristão falou e que deixou perplexas as pessoas, que visitavam Jerusalém; a essência e marca da descida do Consolador estava na mensagem que cada visitante de Jerusalém ouviu, em suas próprias línguas nativas, por boca dos discípulos de Cristo. As línguas que os discípulos falaram só foi um sinal para os incrédulos (judeus), portanto, não é a essência da virtude prometida pelo Pai.

“De sorte que as línguas são um sinal, não para os fiéis, mas para os infiéis; e a profecia não é sinal para os infiéis, mas para os fiéis” (1 Co 14:22).

Quando Pedro se apresentou diante dos líderes judaicos e dos homens religiosos, vindos dentre todas as nações (At 2:5), e anunciou abertamente que Jesus de Nazaré era o Cristo, ai estava a essência do derramamento do ‘espírito’ do Senhor sobre toda carne, pois naquela pregação do apóstolo Pedro o ‘espírito’ do Senhor estava sendo gotejado como chuva sobre toda carne.

No seu primeiro discurso, o discípulo Pedro citou o profeta Joel e os Salmos e dissertou a respeito, demonstrando que as Escrituras haviam se cumprido na pessoa de Cristo, o que demonstra que o entendimento do apóstolo Pedro fora aberto para compreender as Escrituras (Lc 24:45) e ele tornou-se testemunha de Cristo (At 1:8).

Devemos ter cuidado para que ninguém nos engane com palavras persuasivas, pois a Igreja de Cristo jamais estará às portas da morte, a ponto de ser necessário um avivamento.

“Ninguém vos engane com palavras vãs; porque, por estas coisas, vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência” (Ef 5:6).

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1]<https://www.significados.com.br/avivamento/> Consulta realizada em 25/05/17.

[3] “A palavra ‘avivamento’ (ou ‘reavivamento’, como está traduzida no Inglês) significa a entrada de nova vida em um corpo que já está morrendo. Quando a igreja de Cristo no mundo para de ser o verdadeiro sal e luz da sociedade, quando não vemos mais as verdadeiras obras de Jesus em nosso meio, quando a igreja parece ter muita fumaça mas pouco fogo, está na hora de pedir por um novo avivamento dos Céus” Por Que Precisamos do Avivamento?<http://www.avivamentoja.com/pmwiki.php?n=Avivamento.Porqueprecisamos> Consulta realizada em 17/05/17.

[4]General William Booth – ThouChristofBurning, Cleansing Flame.

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A simplicidade dos pequeninos

Em nossos dias, quando utilizamos o termo ‘inocente’, somos remetidos à ideia de alguém que nada sabe, ou seja, que desconhece que é simples. O termo inocente, neste artigo, não se refere às questões próprias aos tribunais, onde temos o culpado e o livre de culpa, este último, também, chamado de inocente.


“O prudente prevê o mal e esconde-se; mas, os simples, passam e acabam pagando.” (Provérbios 22:3)

“O avisado vê o mal e esconde-se; mas, os simples, passam e sofrem a pena.” (Provérbios 27:12)

 

Introdução

A condição do ‘infante’, em relação ao ‘pecado’, fomenta muitas discussões e, pela má compreensão, acerca da natureza do pecado, sobram suposições e vários desvarios doutrinários, acerca do tema.

Há quem acredite, sem suporte bíblico, que uma criancinha inocente, ingênua ou, sem consciência, é isenta de pecado. Através de uma perspectiva humana, com base em viés sentimental, questionam se é possível um infante de aspecto ‘angelical’, que nunca fez nada de errado, do ponto de vista moral, ser um pecador.

Entender que, pela tenra idade, uma criança é isenta de pecado, é temerário, à luz das Escrituras, vez que Deus garantiu a Abraão que não destruiria as cidades de Sodoma e Gomorra, se nelas houvesse ao menos dez justos.

Sabemos que somente três pessoas foram resgatadas com vida das cidades de Sodoma e Gomorra: o justo Ló e suas duas filhas e que todas as criancinhas, juntamente com os habitantes adultos, foram dizimadas por Deus.

Qual entendimento abstrair acerca da destruição das crianças das cidades de Sodoma e Gomorra, quando da subversão dessas cidades?

 

Justo é o mesmo que inocente?

Como Deus garantiu que não destruiria as cidades de Sodoma e Gomorra, se nelas houvesse dez justos, isso significa, claramente, que as muitas criancinhas de Sodoma e Gomorra não eram justas diante de Deus, apesar de nada saberem (inocentes)!

“Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra? Então disse o Senhor: Se eu em Sodoma, achar cinquenta justos dentro da cidade, pouparei a todo o lugar por amor deles (…) Disse mais: Ora, não se ire o Senhor, que ainda só mais esta vez falo: Se porventura se acharem ali dez? E disse: Não a destruirei, por amor dos dez” (Gn 18:25-26 e 32).

Através dessa passagem bíblica e de outras que relatam a morte de crianças, verifica-se que inocência ou simplicidade não é o mesmo que ser justo diante de Deus. Mesmo o simples, o inocente, o não alertado, o desconhecedor ou, o sem consciência, são passíveis de pena ou, das consequências do pecado.

O principio que se aplica, é o mesmo apontado pelo Pregador, no Livro dos Provérbios: Como é possível um inocente (simples) sofrer as consequências, somente por passar em um determinado lugar?

Ora, um ladrão, ao saber que esta ocorrendo um tiroteio, em determinado lugar, imediatamente se esconde, mas, um inocente ou, um simples (que nada sabe acerca do que está ocorrendo), caso passe em meio ao tiroteio, sofrerá as consequências.

Como o simples ou, o inocente, são passíveis de sofrerem as consequências, compreende-se o motivo pelo qual a Bíblia utiliza a figura da escravidão para ilustrar a condição do homem sob a égide do pecado.

 

Escravos do pecado

Adão, pela ofensa no Éden, vendeu todos os seus descendentes como escravos ao pecado. Por analogia, assim como nas sociedades antigas, os descendentes de escravos eram escravos e permaneciam por toda existência terrena sob as consequências da escravidão, simplesmente, porque nasceram de escravos. Igualmente se dá com os menores, quando vem ao mundo: são escravos do pecado, em função da semente dos seus pais, que, também, são escravos do pecado.

A escravidão, nas sociedades antigas, alcançava os filhos dos escravos, independente de moralidade, inocência, habilidade, sentimento ou, idade, vez que o pecado, como senhor, estabeleceu o seu domínio sobre todos os descendentes de Adão, independentemente de raça, cor, nacionalidade, moral, tamanho, idade, sexo, etc.

O apóstolo Paulo enfatizou que um pecou (Adão) e, como consequência, a morte (penalidade, consequência) passou a todos os homens, por isso, é dito que todos pecaram (Rm5:12). A morte, como consequência da ofensa de Adão, passou a todos os homens, mesmo sem terem culpa ou, dolo algum, o que demonstra que a pena, como consequência da ofensa de Adão, repousa sobre todos os homens, mesmo sobre os inocentes ou, sobre os simples.

Em nossos dias, quando utilizamos o termo ‘inocente’, somos remetidos à ideia de alguém que nada sabe, ou seja, que desconhece que é simples. O termo inocente, neste artigo, não se refere às questões próprias aos tribunais, onde temos o culpado e o livre de culpa, este último, também, chamado de inocente.

Um aborígene nada sabe sobre a sua condição diante de Deus e, nesse aspecto, é um inocente, porém, o tal não é livre da condenação estabelecida, em função da ofensa de Adão, portanto, é culpável diante de Deus pela condenação estabelecida no Éden.

Deste modo, é possível dizer que alguém é inocente, em razão de nada saber, porém, culpável diante de Deus, em função da condenação estabelecida no Éden. Por conseguinte, é possível alguém ser inocente e ímpio, nada saber e ser injusto diante de Deus. Esse alguém pode ser simples, mas sobre ele pesam as consequências da ofensa de Adão.

 

A morte

A condição imposta pela ofensa, que é a morte (separação, alienação de Deus), é o que torna o homem pecador. A humanidade é pecadora, porque as consequências da ofensa, do primeiro homem que pecou, passaram aos seus descendentes: condenação e morte (separação).

Foi no Éden que a humanidade, na coxa de Adão, juntamente, alienou-se de Deus e se fez imunda. Adão é a porta larga, por onde todos os seus descendentes entram no mundo e, por estarem na sua ‘coxa’, juntamente, todos os homens se desviaram e se fizeram imundos, não importando se judeus ou gentios (Sl 53:3,Sl 58:3).

“Desviaram-se todos e, juntamente, se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um” (Sl 53:3);

“Alienam-se os ímpios, desde a madre; andam errados, desde que nasceram, falando mentiras” (Sl 58:3);

Uma é a verdade: se não nascer de novo, da semente incorruptível, não se pode ver o reino dos céus! Sem entrar pela porta estreita, que é Cristo, jamais o homem poderá ter acesso ao reino dos céus! Isso porque, o nascimento natural é segundo a semente corruptível de Adão, que é terrena.

Como carne e sangue não podem herdar o reino dos céus e a corrupção não pode herdar a incorrupção, certo é, que é necessário nascer da semente de Deus, para ter acesso ao reino de Deus.

“E agora digo isto, irmãos: que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção” (1 Co 15:50).

Criança ou não, inocente ou não, se é nascido da carne, é carnal, portanto, corruptível e terreno. Se é carne, corruptível e terreno, não podem herdar a incorrupção, mesmo os infantes. As condições apontadas pelo apóstolo Paulo: carne, sangue e incorrupção, abarcam as crianças e não temos, na Bíblia, qualquer alusão a possíveis exceções.

O que um pai deixa de herdade, não depende do dolo ou da culpa dos filhos. Filho é filho, não importando questões morais ou, comportamentais, portanto, é herdeiro, por vínculo familiar ou, de sangue. A alienação de Deus é a herança que o primeiro pai da humanidade deixou a todos os seus descendentes, por vinculo de sangue, portanto, não depende de questão moral ou, comportamental.

A realidade do pecado não se refere à possibilidade de uma criança se desviar dos preceitos legais ou, morais, instituídos pela sociedade ou, ainda, que tenha herdado um comportamento ou, um caráter transviado do primeiro homem, Adão. O pecado não diz de uma tendência enraizada de caminhos tortuosos, desvinculados da boa moral ou, dos bons costumes. O pecado não diz de escolhas entre certo e errado, entre bem e mal, que o conhecimento do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal legou aos homens.

O pecado refere-se a uma barreira de separação erguida entre o homem e Deus, por causa da ofensa de Adão, que lhe conferiu a condição de morto para Deus. A condição do homem, ao entrar no mundo, por Adão, a porta larga, é estar separado de Deus. A separação de Deus (morte) é consequência do pecado e não os desvios morais.

Mas, equivocadamente, as pessoas rotulam como pecado as decisões que os homens tomam, tendo por base o conhecimento do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal e se esquecem da barreira de separação que há entre Deus e os homens.

Todos os homens, quando abrem a madre, entram no mundo, por Adão, e seguem um caminho largo, que os conduzirá à perdição, independentemente da moral, costumes, caráter, honradez, idade, nacionalidade, etc.

Assim como o principado é condição que se herda de berço, o pecado é condição que se herda de nascimento: separação de Deus.

Em função da ofensa de Adão, que desobedeceu a lei santa, justa e boa (visto que a lei dada no Éden visava proteger o homem da morte), entrou o pecado no mundo, ou seja, a barreira de separação entre Deus e os homens e, pelo pecado, veio a condenação: morte (Rm 5:18). Como a morte passou a todos os homens, isso significa que todos estão condenados e apenados com a morte, portanto, designados ‘pecadores’.

A consequência da queda de Adão é funesta para a humanidade, mesmo sobre aqueles que não desobedeceram à ordem direta de Deus dada no Éden, que diz:

“Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2:17).

Os infantes serem tidos por ímpios por Deus é a expressão mais contundente da ofensa de Adão, por causa das questões sentimentais próprias ao homem, pois a morte reina tanto sobre criancinhas, quanto sobre adultos.

“… entretanto, reinou a morte, desde Adão, até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança da morte de Adão…” (Rm 5.14).

Uma criança ser tida como pecadora choca a concepção do homem natural. Os sentimentos como dó, apego, afeição, etc., turvam o entendimento do homem, porém, a realidade é o que é, não importando os sentimentos humanos!

Se o homem está triste ou feliz, a verdade é a verdade. Se o homem gosta ou não gosta, a justiça é a justiça. Aceitando ou, não, a lei da gravidade, os homens estão sujeitos a ela. Querendo ou, não, o tempo é inexorável, portanto, ao tratar da realidade do pecado, não se pode considerá-lo sob influência dos sentimentos ou, através da ótica das emoções humanas.

Como a morte alcança a todos, infantes e adultos, mesmo aqueles que não compreendem a sua triste condição herdada: escravos do pecado ou, nem possuem consciência para compreender o que é ser escravo do pecado, a morte é fato e demonstra que todos estão sob domínio do pecado, sem exceção.

Isso porque a morte, como pena da condenação decorrente da ofensa de Adão, entrou no mundo e alcançou a todos os seus descendentes, como uma herança (Rm 5:12).

 

A natureza do pecado

Entretanto, além do erro de se considerar que uma criança inocente como justa, ou seja, isenta de pecado, há outros erros semelhantemente perniciosos:

  1. Considerar que o pecado é um princípio nas crianças que, invariavelmente, as levará a fazer coisas erradas;
  2. Considerar que ações erradas do ponto de vista da lei, da moral e dos bons costumes seriam provenientes de uma semente (o pecado) latente na criança;
  3. Considerar que uma criança aprende a pecar durante o seu desenvolvimento e, por isso, quando praticar algo inconveniente, tornar-se-á pecadora;
  4. Entender que uma criança é pecadora por ser completamente ‘depravada’ pois, todos os tipos de pecados já estão plantados em seu coração.

O Dr. Russel Sheed entendia que o homem aprende[1] a pecar quando adquire hábitos em um ambiente onde não é corrigido. Para o Dr. Shedd, Adão desobedeceu a Deus e legou aos seus descendentes uma inclinação para o mal. Em outra abordagem, Sheed aponta a consequência do pecado como culpa, como se o pecado fosse uma questão de cunho psíquico, daí a abordagem do ponto de vista sentimental[2].

No entanto, a Bíblia sublinha que o pecado não possui relação alguma com aprendizado, mas, sim, com o nascimento natural, em que o escravo do pecado traz ao mundo descendentes, escravos do pecado. Por descender de um ímpio, aquele que é gerado, também, é ímpio e procederá impiamente, não importando se o ímpio gerado viera praticar ou, não, boas ou, más ações, do ponto de vista da moral humana.

“Como diz o provérbio dos antigos: Dos ímpios procede a impiedade; porém a minha mão não será contra ti” (1 Sm 24:13).

O pecado não diz de uma inclinação para o mal, mas de uma natureza má. A condição de pecador não é questão de hábito, mas de natureza. A natureza de alguém separada de Deus é morte, mentira, trevas, mal, vil, etc., e, em função dessa natureza, é pecador. Isso significa que o pecador jamais faz o bem (Sl 53:3), mesmo que queira, pois o seu coração enganoso obra continuamente o mal, pois, como escravo, pertence, por direito, ao seu senhor, servindo como instrumento do pecado.

É por isso que o salmista descreve o ímpio como aquele que, desde que nasce, continuamente, profere mentiras. Fala mentira, desde que nasce, por causa do coração enganoso que herdou e, como a boca fala o que o coração está cheio, profere continuamente mentiras (Sl 58:3; Jr 17:9; Pv 12:5).

O homem é pecador porque é mal no sentido de vil, baixo, ralé, etc., mesmo sabendo dar boas dádivas aos seus semelhantes (Lc 11:13). O problema do pecado decorre da semente que traz os homens ao mundo e não das suas ações. Praticar boas ações não muda a natureza de alguém, gerado da semente corruptível. Uma semente ruim (vil, ralé) forma árvore má que só pode produzir frutos maus.

“Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons” (Mt 7:18).

O problema da árvore má em dar maus frutos decorre da semente que foi plantada, ou seja, está na natureza da árvore. Não importa o quão vistosas estejam as folhagens; a qualidade do fruto sempre estará comprometida. Não importa o quão boa é a qualidade da terra; os frutos sempre serão conforme a espécie da semente (Is 26:10).

O problema de uma criança em ser má e dar frutos maus, não está no seu comportamento futuro, antes, decorre da semente a qual nasceu. Não importa o quão vistoso possa parecer aos olhos dos homens alguém que atingiu a maturidade, por causa da natureza herdada de Adão, estará impossibilitado de produzir bons frutos.

Os israelitas achavam que eram livres e que nunca foram servos de ninguém, simplesmente, por serem descendentes da carne de Abraão e, por isso, sempre diziam: temos por Pai a Abraão, quando procuravam demonstrar que eram salvos (Mt 3:9; Jo 8:39).

O fruto dos lábios dos judeus não era um fruto bom, pois não admitiam o que foi evidenciado pelo profeta Isaias:

“Ó SENHOR Deus nosso, já outros senhores têm tido domínio sobre nós; porém, por ti só, nos lembramos de teu nome” (Is 26:13).

O fruto de um homem pode ser bom ou mal e, respectivamente, nascer de um coração bom ou mal e do fruto dos lábios, torna-se farto o seu ventre. Fruto na Bíblia diz do que procede do coração e é pronunciado pelos lábios, por isso é dito que a boca fala do que o coração está cheio.

“Do fruto da boca de cada um se fartará o seu ventre; dos renovos dos seus lábios ficará satisfeito” (Pv 18:20).

O fruto dos lábios de um crente em Cristo é segundo a verdade do evangelho: admitir que Jesus é o Cristo (Hb 13:15). O fruto dos lábios de um homem mal jamais admitirá verdades como: Jesus veio em carne, Jesus é o Filho de Deus, Jesus é o Filho de Davi, etc.

Quando Jesus disse que os judeus precisavam permanecer em Seu ensino para conhecerem a verdade e serem livres, o fruto bom seria admitir: Mestre, ‘outros senhores têm tido domínio sobre nós’, mas como disseram: ‘nunca fomos escravos de ninguém’, professaram uma mentira segundo o coração maligno que herdaram, portanto, eram escravos do pecado.

“Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado” (Jo 8:34).

Um coração sujeito ao pecado é altivo, ou seja, jamais admite que é escravo. Todo homem é mentiroso, desde que nasce, inclusive os descendentes da carne de Abraão (Rm 3:4), por isso, precisavam morrer (circuncisão do coração) e nascer de novo da palavra de Deus.

Diferentemente do que o Dr. Shedd disse, a consequência do pecado é alienação de Deus e não o sentimento de culpa. O sentimento de culpa que aflorou em Adão, não alterou a sua comunhão com Deus, mas, sim, a sua desobediência. A culpa, como sentimento de que algo deu errado, ou para tentar fugir à responsabilidade, faz parte da natureza humana, mas a culpa não tem poder de alterar a relação do homem com Deus.

O poder que atuou sobre o homem e alterou a sua condição, diz da força da lei, que dizia: ‘certamente morreras’, não o sentimento de Adão de que estava com medo de um castigo. A lei que estabelecia a morte como punição à desobediência tornou-se a força do pecado, por isso o apóstolo Paulo apresenta a morte como aguilhão “Ora, o aguilhão da morte é o pecado e a força do pecado é a lei” (1 Co 15:56).

Uma árvore que procede de uma semente má, também é má, quer seja grande ou, pequena. O fruto da árvore má será sempre mau, não importando as boas ou, más ações, que vier a praticar. Daí o veredicto:

“E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo” (Mt 3:10).

Esse ensinamento de João Batista, também, foi dado por Cristo, nas seguintes palavras:

“Ele, porém, respondendo, disse: Toda a planta que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” (Mt 15:13).

Devemos ter em mente que as boas e as más ações dos homens, somente aproveitam ou, prejudicam aos seus semelhantes, portanto, não alteram a condição do homem diante de Deus:

“Se pecares, que efetuarás contra ele? Se as tuas transgressões se multiplicarem, que lhe farás? Se fores justo, que lhe darás ou, que receberá ele da tua mão? A tua impiedade faria mal a outro tal como tu; e a tua justiça aproveitaria ao filho do homem” (Jó 35:6-8).

A mudança da natureza do homem somente ocorre quando nasce de novo, de uma semente incorruptível, a palavra de Deus, que concede ao homem uma nova natureza: a divina, quando, portanto, torna-se santo, justo e bom!

“Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que, por elas, fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo” (1 Pe 1:4).

Todas as crianças que vem ao mundo têm a oportunidade de serem regradas moralmente ou, se tornarem transviadas, dependendo, em muito, do meio em que ela está inserida. Todas podem seguir uma boa vida moral e possuir bons costumes, como, também, podem se desviar da boa moral e dos bons costumes.

Segundo a concepção humana, uma pessoa moralmente correta segue um bom caminho e uma pessoa imoral segue o mau caminho, porém, não é essa realidade que a Bíblia revela, pois ela ensina que todos os homens que vem ao mundo entram por Adão (porta larga) e seguem por um caminho largo que conduz à perdição, independentemente de suas práticas e hábitos.

O caminho que conduz o homem à perdição não é sinuoso e nem tortuoso, antes largo. Moralmente, o homem pode seguir caminhos tortuosos ou retos, entretanto, o caminho da boa ou má moral não diz do caminho que conduz à perdição.

‘Uma pessoa moralmente correta que frequentou um ambiente onde havia objeção contra mentir, linguagem obscena, comentários desnecessários e prejudiciais, usar o nome de Deus em vão, etc.’, percorre o mesmo caminho de perdição de alguém que não foi criado em um ambiente que não havia objeção alguma com relação a certas práticas perniciosas. Tanto moralmente corretos, quanto incorretos, percorrem o caminho da perdição, pelo fato de terem acessado o mundo, através da porta larga, que é Adão.

Vale destacar que nenhuma criança vem ao mundo com um princípio ou tendência de seguir o que é moralmente errado e pernicioso. Todos os recém-nascidos são como ‘tábuas rasas’. Todas são como folhas em branco, na qual, pela convivência, são incutidos conhecimentos e desejos. É por isso que devem ser instruídos no caminho que devem andar, para não se desviarem, quando crescerem.

No entanto, mesmo essas ‘tabuas rasas’ são pecadoras, assim como um adulto permanece pecador, enquanto dorme. O pecador não deixa de ser pecador enquanto dorme, pois o pecado é uma questão de natureza alienada de Deus e não deriva do comportamento.

O pensamento de que, no coração de uma criança, já estão ‘plantadas sementes de todo tipo de pecado’[3] é equivocado, visto que, na verdade, a criança está no pecado e, não o pecado, como uma semente, está latente no coração da criança.

A criança deriva de uma semente corruptível que a introduziu no mundo, toda em pecado, pecado esse que não possui relação com o bem ou com o mal que ela vier a praticar. A criança é pecadora, em razão de ter estado na coxa do primeiro homem que pecou, e não porque foi introduzida uma semente que a levará à prática de coisas inconvenientes.

É em função de o homem estar no pecado que é necessário que o corpo do pecado seja desfeito, o que ocorre quando o homem morre com Cristo. Deus não extrai uma semente do pecado do coração do homem, antes, através da circuncisão do coração, toda a carne do pecado é despojada (lançada fora) (Rm 6:6; Cl 2:11).

Davi confessou que foi formado em iniquidade e concebido em pecado (Sl 51:5), o que demonstra que Ele nasceu sob o domínio do pecado e não que, em seu coração, foi colocado uma ‘semente de pecados’. Davi nasceu todo no pecado: corpo, alma e espírito, de modo que Ele apela a Deus que lhe dê um novo coração e um novo espírito (novo nascimento).

Se o pecado fosse um princípio ou, uma semente, bastava extirpar a semente ou a árvore do pecado que floresceu no coração do homem, entretanto, vemos que é necessário que o próprio coração que teve origem da semente de Adão, seja trocado por um novo coração, segundo o poder de Deus, pois o machado é posto à raiz das árvores, vez que o homem está no pecado e não o pecado no homem.

“Cria (Bara – cf. hb) em mim, ó Deus, um coração puro e renova em mim um espírito reto” (Sl 51:10)

O erro em entender que no coração das crianças o pecado é como semente, decorre do erro de entender que Cristo leva ‘os pecados do pecador para a cruz’, como se o pecado fosse um fardo. Na verdade, o homem está no pecado e o pecado nele, de modo que Jesus não leva ‘os pecados do pecador’[4], antes convida os homens que o sigam até a cruz, para que sejam crucificados, mortos, sepultados e possam ressurgir (Mt 10:38; Rm 6:6; Cl 2:12).

Do homem é dito que é pecador porque, pela ofensa de Adão, a humanidade ‘pecou’. A humanidade pecou, assim como é dito que um fruto impróprio para o consumo ou, aquém dos padrões de qualidade, ‘pecou’, ou seja, a humanidade tornou-se imprópria para a glória de Deus.

“Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3:23).

Quando é dito que todos ‘pecaram’, não significa que todos fizeram coisas inconvenientes, do ponto de vista moral, para serem pecadores, antes, que, na madre ocorreu um erro. Desde a madre, os homens se desviam (alienam) de Deus e o fruto dos lábios é mau (falando mentiras), pois, procede de um coração mentiroso (Sl 58:3).

Todos vêm ao mundo sob o domínio do pecado e estão entregues aos seus desejos, guiados pela concupiscência dos olhos e pela soberba da vida, mas essas questões não são, propriamente, o pecado, antes os desejos, as concupiscências e a soberba são uma nevoa (entenebrecidos) que impede as pessoas de enxergarem a luz da verdade do evangelho (Ef 4:18).

Um monge que vive uma vida de ascetismo e não pratica as mesmas ações desregradas dos demais homens, na tentativa de se aproximar de Deus, é soberbo, nada sabe. Do mesmo modo que os demais homens, um monge está entregue aos seus próprios desejos e é guiado pela soberba da vida e pela concupiscência dos olhos. Um religioso que vive de práticas caridosas, de cuidado para com o semelhante, que fez voto de castidade, etc., está em igual condição que os demais homens pecadores.

 

Reforma

A teologia reformada introduziu o conceito da ‘depravação total’, para falar da natureza do homem caído, mas, tal nomenclatura, decorre de uma má leitura do que é o pecado.

Os reformadores seguiram a concepção de que o ser humano só é pecador, por ser ‘moralmente responsável’, quando formularam o conceito de depravação[5], para se referirem à corrupção e à degradação moral do homem.

Por fim, construíram o conceito de ‘depravação total’[6], de que o homem está moralmente ou, espiritualmente morto, ou que o homem natural é como um corpo morto moral e espiritualmente. Para os da reforma, a natureza da escravidão do pecado é moral e espiritual, ou seja, o homem é moralmente e espiritualmente escravo do pecado[7].

Quando apresenta o homem como pecador, a Bíblia não trata de questões de ordem moral e nem se é, moralmente, responsável. Quando a Bíblia diz que o homem é mau ou, mentiroso, não está apontando para questões de ordem moral, antes distingue a natureza de quem é mal, no sentido de vil, baixo, ralé, em contrate com aquele que é bom, luz e verdade por questões e impedimentos que vem de berço (Rm 3:4).

Quando Adão comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, instantaneamente, tornou-se pecador. O que isso significa? Que de imediato ergueu-se uma barreira de separação, e aquele que era santo, justo e bom, passou à condição de imundo, ímpio e mau.

Independentemente da moral e dos costumes que Adão iria aprender ou adotar, no instante após comer do fruto, já estava separado d’Aquele que é a vida, portanto, passou à condição de morto para Deus e vivo para o seu vil senhor, o pecado. Após desobedecer, Adão foi imediatamente responsabilizado pela ofensa, e o que o vinculou ao pecado foi a morte (alienação), e não a moral.

Quando a Bíblia apresenta o homem como mau, não diz da sua moral, mas da sua condição de alienado daquele que é bom. Qualquer boa ação que o homem pratique na intenção de alcançar a Deus é inócua, pois, por mais que alguém da ralé se proponha a viver como alguém da nobreza, jamais mudará a sua condição. Ao vender-se ao pecado como escravo, Adão deixou de ser participante da natureza divina e passou a uma nova condição: inferior.

A Bíblia não diz que o homem está ‘moralmente’[8]morto, como apregoa a teologia reformada, antes que está separado (morto) para Deus. A natureza da morte não é moral, mas, sim, uma barreira que impede a comunhão entre as partes.

A barreira de separação não é segundo a moral, porque Jesus não veio salvar o homem de questões de cunho moral, mas, antes, veio para conceder comunhão com o Criador, removendo a parede de separação que há entre Deus e os homens: o pecado. O evangelho não visa resgatar o caráter ou a moral da humanidade, mas, sim, tirar a barreira de separação (tirar o pecado do mundo), transportando o homem das trevas para o reino do Filho do seu amor.

Questões morais são barreiras comportamentais que os homens erguem entre si e que proporcionam uma melhor vivência entre si. Entraves morais entre os homens não diz da barreira do pecado erguida entre Deus e os homens.

 

Alerta

Os pais cristãos devem compreender que os infantes são pecadores e que podem ser regenerados por meio da fé (evangelho), crendo em Cristo Jesus.

O erro que acometeu os filhos de Abraão, de presumirem de si mesmos que eram filhos de Deus, por terem por pai a Abraão, aquele a quem a promessa foi feita, é o mesmo erro que ronda muitos pais cristãos que pensam que os seus filhos são salvos pelo fato de serem filhos de pais cristãos.

A promessa que Deus fez a Abraão não foi aos seus descendentes segundo a carne, mas ao Seu Descendente, que é Cristo. De igual modo, a promessa de Deus no seu Descendente, que é Cristo, é para todos quantos crerem no evangelho,  não aos que descenderem da carne de quem crê.

Um pai cristão deve ter em mente que o pecado foi introduzido no mundo por Adão e a graça em Cristo, através do último Adão. Igualmente, precisa compreender que, para ser pecador, basta ter entrado no mundo e que para ser salvo, é necessário nascer de novo, crendo em Cristo através da semente incorruptível, que é a palavra de Deus.

O crente em Cristo deve saber que uma criança não é potencialmente pecadora porque está propensa a cometer erros no futuro, antes é pecadora porque veio ao mundo na condição de escrava do pecado, pelo fato de Adão, ao desobedecer a Deus, ter se vendido ao pecado como escravo.

O crente em Cristo deve entender que tem dupla e árdua missão:

a) instruir os seus filhos acerca da verdade do evangelho, para que sejam salvos da condenação estabelecida em Adão, e;

b) instruí-los quanto ao bom porte em sociedade, evidenciando que a sociedade não é misericordiosa quando pune os transgressores.

Quando lemos a mensagem do apóstolo Paulo: “E eles disseram: Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa” (At 16:31), certo é que a salvação está em crer em Cristo. Mas, para que os descendentes do carcereiro (casa) fossem salvos, também precisaram crer e, por isso, o apóstolo pregou o evangelho a todos da casa do carcereiro:

“E lhe pregavam a palavra do Senhor, e a todos os que estavam em sua casa. E, tomando-os ele consigo naquela mesma hora da noite, lavou-lhes os vergões; e logo foi batizado, ele e todos os seus. E, levando-os à sua casa, lhes pôs a mesa; e, na sua crença em Deus, alegrou-se com toda a sua casa” (At 16:32-34).

Se só bastasse ao carcereiro crer e a sua casa inteira seria salva, não seria necessário pregar a palavra a todos que estavam na sua casa para que o carcereiro e todos os seus familiares fossem batizados.

Por isso é dito:

“O qual te dirá palavras, com que te salves, tu e toda a tua casa” (At 11:14).

Outro ponto a se destacar, está na passagem em que Jesus fica indignado ao ver os seus discípulos proibindo as pessoas de trazerem as crianças para tocarem nele, quando disse:

“Deixai vir os meninos a mim e não os impeçais; porque dos tais é o reino de Deus” (Mc 10:14).

Os discípulos foram repreendidos para que deixassem as criancinhas se achegarem a Cristo e Ele dá o motivo: ‘porque dos tais é o reino de Deus’. Ora, o reino de Deus, que é Cristo, é de todos quantos atendem ao convite: “Vinde a mim…”, não importando, se infantes ou, se adultos. Jesus pontuou aos seus discípulos a necessidade das crianças se achegarem a Ele, pois, das que vão a Ele, pertence o reino dos céus.

Jesus não afirmou que o reino dos céus pertence a todas as crianças, pelo fato de serem crianças, antes, que o reino pertence às crianças que vão a Ele: “dos tais”[9]. Por que o reino dos céus é das crianças que vão a Cristo? Porque elas também podem produzir o perfeito louvor, que é confessar que Jesus é o Cristo: – Hosana ao Filho de Davi! (Mt 21:15).

Portanto, todas as crianças precisam ser evangelizadas, pois, só através do mandamento contido no evangelho, que elas podem se precaver do mal que herdaram ao entrar no mundo, se escondendo em Cristo, caso contrário, sofrerão as consequências da ofensa de Adão.

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto

 


[1]“É assim que aprendemos a pecar: linguagem obscena, comentários desnecessários prejudiciais, usar o nome de Deus em vão, tornam-se hábitos pela prática dentro de um ambiente onde ninguém cria objeção alguma” Sheed, Russell P., Lei, Graça e Santificação, 2ª Ed., editora Vida Nova, pág. 99 (grifo nosso).

[2] “A consequência do pecado inevitavelmente é a culpa, aquele sentimento ruim de ter errado, de ter fugido de nossa responsabilidade. É um pressentimento de castigo merecido, de uma dívida que terá que ser paga”. Sheed, Russell P., Psicologia, pecado e culpa Consulta realizada em 30/12/16.

[3]Sinclair B. Ferguson, ao escrever sobre a condição dos infantes, citou Robert Murray McCheyne, de que os infantes, ‘mesmo nessa idade, a semente de todo tipo de pecado já está plantada em seus corações’. Sinclair B. Ferguson , Inocentes Pequeninos, Revista Os Puritanos, pág.  24 <https://issuu.com/heraldoa/docs/revista_03-2010_-_vergonha_do_pecado>.

[4]“… que levou os pecados desse pecado para cruz…” Bíblia de Scofield, com referências, nota de rodapé, pág. 1147.

[5] “Depravação é uma palavra que descreve o estado ou disposição do homem, considerado um ser moral. Ser moral é alguém responsável diante de Deus por seus pensamentos, fala e conduta. Depravação significa a corrupção moral da natureza humana. Refere-se ao estado de pecaminosidade natural do não regenerado” Cole, C. D., Definição de doutrina – Volume II,  As Doutrinas do Pecado, da Salvação e do Serviço. Capítulo 3: Depravação – total, universal e inerente.

[6] “A depravação total significa que o homem, como resultado do pecado original, está morto moral ou espiritualmente. E morto, como adjetivo, não admite comparação. Não há grau de morte; mas há grau na morte. Diante de nós está um morto. Há um dia que está morto. Ele está morto totalmente em todas as partes físicas. Eis outro morto. Ele está morto há uma semana. Ele não está mais morto do que o outro, mas o corpo se encontra em uma condição pior. A Bíblia apresenta o homem natural como um corpo morto moral ou espiritual” Cole, C. D., Definição de doutrina – Volume II,  As Doutrinas do Pecado, da Salvação e do Serviço. Capítulo 3: Depravação – total, universal e inerente.

[7]“Se temos dificuldade aqui, pode ser porque falhamos em entender a natureza da escravidão do pecador. Ela é uma escravidão moral e espiritual, não uma escravidão metafísica, física ou psicológica. Se, como em minha ilustração da máquina-robótica, alguém é fisicamente forçado a fazer algo que ele não deseje fazer, então, certamente, sua escravidão remove sua responsabilidade pelo ato. Confrontada com o seu “feito”, a pessoa teria uma escusa válida: “Eu não pude evitar; eu fui fisicamente forçado a fazê-lo”. Mas, imagine alguém vindo diante de um juiz humano e dizendo, para se escusar de um crime, “Eu não pude evitar, meritíssimo; eu fui forçado a fazê-lo por minha natureza. Desde o nascimento tenho sido um garoto extremamente perverso!”. Certamente há algo irônico sobre apelar à depravação para escusar atos depravados! Se o nosso acusado é realmente um “garoto extremamente perverso”, então, longe de ser uma escusa, isso é mais uma razão para prendê-lo! Meu ponto, então, é que, embora a escravidão física (e outros tipos de escravidão) possa fornecer escusas válidas para ações contrariamente más, a escravidão moral não é uma escusa. Eu não posso imaginar alguém disputando essa proposição, uma vez que ele a entenda (…) A incapacidade do pecado é moral e espiritual; deveras, como temos visto, é uma incapacidade da qual ele mesmo é responsável.” Frame, John,Livre-Arbítrio e Responsabilidade Moral, artigo disponível na web; Grifo nosso. <http://www.monergismo.com/textos/livre_arbitrio/livre_responsabilidade_frame.htm> consulta realizada em 07/01/2017.

[8] “Moral refere-se ao conjunto de regras, padrões e normas adquiridos em uma sociedade por meio da cultura, educação, cotidiano e costumes adquiridos no âmbito social e familiar”, Wikipédia.

[9] “5108 τοιουτοςtoioutos (inclui as outras inflexões) de 5104 e 3778; adj” Dicionário Bíblico Strong.

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A mulher cananéia

A multidão intentou apedrejar Jesus por causa das suas palavras e não por causa dos milagres que ele realizou “Tenho-vos mostrado muitas obras boas procedentes de meu Pai; por qual destas obras me apedrejais? Os judeus responderam, dizendo-lhe: Não te apedrejamos por alguma obra boa, mas pela blasfêmia; porque, sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo” ( Jo 10:32 -33).

 


“E, partindo Jesus dali, foi para as partes de Tiro e de Sidom. E eis que uma mulher cananéia, que saíra daquelas cercanias, clamou, dizendo: Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim, que minha filha está miseravelmente endemoninhada. Mas ele não lhe respondeu palavra. E os seus discípulos, chegando ao pé dele, rogaram-lhe, dizendo: Despede-a, que vem gritando atrás de nós. E ele, respondendo, disse: Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel. Então chegou ela, e adorou-o, dizendo: Senhor, socorre-me! Ele, porém, respondendo, disse: Não é bom pegar no pão dos filhos e deitá-lo aos cachorrinhos. E ela disse: Sim, SENHOR, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus senhores. Então respondeu Jesus, e disse-lhe: Ó mulher, grande é a tua fé! Seja isso feito para contigo como tu desejas. E desde aquela hora a sua filha ficou sã” ( Mt 15:21 -28).

 

Uma estrangeira crente

Após recriminar os fariseus por pensarem que servir a Deus era o mesmo que seguir tradições de homens ( Mc 7:24 -30), Jesus e seus discípulos seguiram para as terras de Tiro e de Sidom.

O evangelista Lucas deixa claro que, em terras estrangeiras Jesus entrou em uma casa e não queria que soubessem que ali estava, porém, não foi possível esconder-se. Uma mulher grega, siro-feníncia de sangue, que tinha uma filha possuída por um espírito imundo, ao ouvir falar de Jesus, passou a rogar-lhe que expulsasse da sua filha o espírito que a atormentava “Porque uma mulher, cuja filha tinha um espírito imundo, ouvindo falar dele, foi e lançou-se aos seus pés” ( Lc 7:25 ).

O evangelista Mateus descreveu que a mulher saiu das cercanias e passou a clamar dizendo: – Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim, que minha filha está miseravelmente endemoninhada! Mas, apesar das súplicas, Jesus parecia não ouvi-la.

Diferentemente de muitos outros que ouviram falar de Jesus, a mulher cananéia declarava uma verdade ímpar: – Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim…

A mulher não clamou por um mago, um feiticeiro, um curandeiro, um milagreiro, um médico, etc., antes clamou pelo Filho de Davi. Enquanto os filhos de Israel questionavam se Cristo realmente era o Filho de Davi, a mulher cananéia clamou plena de certeza: – Senhor, Filho de Davi…, uma certeza impar se compararmos com as especulações da multidão “E toda a multidão se admirava e dizia: Não é este o Filho de Davi?” ( Mt 12:23 ).

Deus havia prometido nas escrituras que o Messias seria filho de Davi, e o povo de Israel aguardava ansiosamente a sua vinda. Deus prometera que um descendente de Davi, segundo a carne, havia de construir uma casa a Deus e o reino de Israel se firmaria acima de todos os reinos ( 2Sm 7:13 e 16). Porém, a mesma profecia deixava claro que este descendente seria o Filho de Deus, pois o próprio Deus seria o seu Pai, e o descendente seu Filho “Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho; e, se vier a transgredir, castigá-lo-ei com vara de homens, e com açoites de filhos de homens” ( 2Sm 7:14 ).

Mesmo tendo nascido na casa de Davi, pois Maria era descendente de Davi, os escribas e fariseus rejeitaram o Messias. Embora as Escrituras deixassem bem claro que Deus tinha um Filho, não creram em Cristo e rejeitavam a possibilidade de Deus tem um Filho “Quem subiu ao céu e desceu? Quem encerrou os ventos nos seus punhos? Quem amarrou as águas numa roupa? Quem estabeleceu todas as extremidades da terra? Qual é o seu nome? E qual é o nome de seu filho, se é que o sabes?” ( Pv 30:3 ).

Diante da pergunta de Jesus: “Como dizem que o Cristo é filho de Davi?” ( Lc 20:41 ), seus acusadores não souberam responder o porquê Davi chamou profeticamente o seu filho de Senhor, se compete aos filhos honrar os pais e não os pais aos filhos ( Lc 20:44 ), porém, o que aquela mulher estrangeira ouviu acerca de Cristo foi o suficiente para concluir que Cristo era o Filho de Deus a quem Davi chamou de Senhor.

Ora, apesar de estrangeira, a mulher ouviu falar de Cristo, e a informação que chegou até ela levou-a a concluir que Cristo era o Messias prometido, o Descendente de Davi “Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, sendo rei, reinará e agirá sabiamente, e praticará o juízo e a justiça na terra” ( Jr 23:5 ).

Por causa do clamor da mulher os discípulos ficaram incomodados, e pediram a Cristo que a despedisse. Foi quando Jesus respondeu aos discípulos dizendo: – Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel.

Apesar de estar em terra estrangeira, Jesus enfatizou qual era a sua missão “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam” ( Jo 1:11 ); “Ovelhas perdidas têm sido o meu povo, os seus pastores as fizeram errar, para os montes as desviaram; de monte para outeiro andaram, esqueceram-se do lugar do seu repouso” ( Jr 50:6 ).

Como o povo de Israel se esqueceu do ‘lugar do seu repouso’, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, a anuncia-los: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” ( Mt 11:28 ); “Acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne” ( Rm 1:3 ).

Ao convocar o seu povo dizendo: – Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, Jesus se identifica como sendo o cumprimento do que foi profetizado por boca de Jeremias.

O povo do Messias o rejeitou, mas a mulher cananéia aproximou-se de Jesus e o adorou, dizendo: – Senhor, socorre-me!

O evangelista Mateus deixa claro que, pelo fato de a mulher ter pedido socorro a Cristo, estava adorando-O. Pelo fato de ter clamado: – Senhor, socorre-me!, o pedido da mulher era uma adoração ao Filho de Davi.

Por ter ouvido acerca de Jesus, a mulher creu no fato de que Ele era o Filho de Davi e, concomitantemente creu que Cristo era o Filho de Deus, pois adorou-O. O evangelista deixa claro que, o ato de pedir a Cristo que lhe concedesse a dádiva de libertar a sua filha daquele terrível mal, algo impossível aos homens, constituiu adoração.

A adoração da mulher aparentemente não surtiu efeito, pois Jesus lhe disse: – Não é bom pegar no pão dos filhos e deitá-lo aos cachorrinhos. A resposta de Cristo à mulher foi um complemento à resposta de Cristo aos discípulos.

O registro de Lucas dá o significado exato à frase de Cristo: “Deixa primeiro saciar os filhos; porque não convém tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos” ( Mc 7:27 ). Jesus estava enfatizando que a sua missão estava vinculada à casa de Israel, e atende-la, seria comparável ao ato de um pai de família que tira o pão dos filhos e dá aos cachorrinhos.

A resposta da mulher é surpreendente, pois ela não se fez de rogada ao ser comparada aos cães, e responde: Sim, SENHOR, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus senhores. Ela confirma o que Jesus lhe disse, porém, enfatiza que não buscava o alimento destinado aos filhos, mas a migalha que cabe aos cachorrinhos.

Para aquela mulher, a migalha da mesa do Filho de Davi era suficiente para resolver o seu problema. Ela demonstrou que não tinha a pretensão de tirar o pão dos filhos que possuíam o direito de serem participantes da mesa, antes bastava a migalha que caísse da mesa do Filho de Davi.

Foi quando Jesus lhe respondeu: – Ó mulher, grande é a tua fé! Seja isso feito para contigo como tu desejas. E desde aquela hora a filha da mulher ficou sã.

É importante notar que a mulher foi atendida por crer que Cristo era o enviado de Deus, o Filho de Davi, o Senhor, e não porque Jesus se comoveu pelo sentimento de uma mãe desesperada.

Não é o desespero de uma mãe que faz com que Deus venha em socorro do homem, pois Cristo quando leu as Escrituras no profeta Isaias, que diz “O Espírito do Senhor é sobre mim…”, disse: “Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos” ( Lc 4:21 ), e deixou claro que é a confiança em Deus que move a mão Deus, pois havia inúmeras viúvas necessitadas em Jerusalém, porém, Elias foi enviado à casa de uma viúva estrangeira. Por quê? Porque aquela moradora da cidade de Sarepta de Sidom reconheceu que Elias era profeta, e apesar de sua necessidade, que beirava ao desespero, demonstrou a sua confiança em Deus ao obedecer a palavra do profeta ( Lc 4:25 -26).

 

O Testemunho das Escrituras

Muitos que seguiam a Cristo possuíam necessidades semelhantes à da mulher cananéia, porém, aquela mulher destacou-se da multidão por reconhecer duas verdades essenciais: que Cristo era o Filho de Davi e, concomitantemente, o Senhor.

Embora Cristo tenha sido enviado às ovelhas perdidas da casa de Israel, anunciando o evangelho e realizando muitos milagres, os israelitas tinham para si que Cristo não passava de um profeta “Uns, João o Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias, ou um dos profetas” ( Mt 16:14 ).

Como os homens não sabiam quem era o filho do homem, Cristo interpelou aos seus discípulos: – E vós, quem dizeis que eu sou? Foi quando o apóstolo Pedro fez a confissão (admitiu) que Cristo é o Filho do Deus vivo.

Como os judeus não conseguiam ver que Cristo era o Messias prometido, Jesus orienta seus discípulos a não declararem esta verdade a ninguém “Então mandou aos seus discípulos que a ninguém dissessem que ele era Jesus, o Cristo” ( Mt 16:20 ).

Por que Jesus não queria que os discípulos declarassem que Ele era o Cristo?

Porque Jesus queria que os homens cressem nele conforme as Escrituras, pois são elas que testificam d’Ele. Isto porque Jesus deixa claro que, se testificasse de si mesmo o seu testemunho não seria verdadeiro “Se eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro” ( Jo 5:31 ), e que o testemunho verdadeiro e suficiente é proveniente do Pai (das Escrituras) “Há outro que testifica de mim, e sei que o testemunho que ele dá de mim é verdadeiro” ( Jo 5:32 ).

Apesar de entendermos que João Batista deu testemunho do Cristo, contudo o testemunho dele era testemunho da verdade “Vós mandastes mensageiros a João, e ele deu testemunho da verdade” ( Jo 5:33 ), ou seja, tudo o que o Batista dizia tinha relação direta com as Escrituras, pois só a palavra de Deus é a verdade ( Jo 17:17 ).

Ora, Jesus não queria que seus discípulos divulgassem que Ele era o Cristo porque ele não recebe testemunho de homens ( Jo 5:34 ), antes Ele possuía um testemunho maior, o testemunho do Pai, e todos os homens devem crer no testemunho que as Escrituras dá do Filho “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam” ( Jo 5:39 ).

Note esta verdade evidenciada na resposta de Abraão a um rico em tormento: “Porém, Abraão lhe disse: Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite” ( Lc 16:31 ). Crer em Deus não decorre de milagres, antes do testemunho que os profetas anunciaram acerca da verdade ( Jo 4:48 ).

Contar ‘milagres’ não é testemunho da verdade. O apóstolo Pedro deixa claro o que é testemunhar: “Mas a palavra do SENHOR permanece para sempre. E esta é a palavra que entre vós foi evangelizada” ( 1Pe 1:25 ). Testemunhar é falar a palavra de Deus, falar o que diz as Escrituras, anunciar Cristo aos homens.

Em nossos dias a ênfase de muitos está nas pessoas e em milagres por elas operados, mas a bíblia deixa claro que o ministério dos apóstolos não se apoiava nos milagres, antes se apoiava na palavra. O primeiro discurso de Pedro expunha aos habitantes de Jerusalém o testemunho das Escrituras ( At 2:14 -36). Mesmo após a cura de um coxo à porta do templo, repreendeu os seus ouvintes para que não ficassem maravilhados em relação ao sinal miraculoso ( At 3:12 ), e em seguida expôs o testemunho das Escrituras ( At 3:13 -26).

Quando os judeus apedrejaram Estevão, ele estava como João Batista, testemunhando acerca da verdade, ou seja, expondo o testemunho que Deus deu acerca do seu Filho, anunciando à multidão enfurecida, as Escrituras ( At 7:51 -53).

Se Estevão estivesse contando sinais miraculosos, jamais seria apedrejado, pois a rejeição dos homens é quanto à palavra e não quanto aos sinais miraculosos ( Jo 6:60 ). A multidão queria apedrejar Jesus por causa das suas palavras e não por causa dos milagres que realizou “Tenho-vos mostrado muitas obras boas procedentes de meu Pai; por qual destas obras me apedrejais? Os judeus responderam, dizendo-lhe: Não te apedrejamos por alguma obra boa, mas pela blasfêmia; porque, sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo” ( Jo 10:32 -33).

Muitos viram o milagre que Cristo operou para com a mulher cananéia, porém, a multidão que o seguia não confessou que Jesus era o Filho de Davi como ela fez ao ouvir acerca do Verbo eterno, a palavra do Senhor que permanece para sempre. O povo de Israel era dado a ouvir as Escrituras, mas estava aquém da mulher cananéia que, ao ouvir acerca de Jesus, deu crédito e clamou pelo Filho de Davi, e o adorou.

O diferencial da mulher está no fato de que ela ouviu e creu, enquanto a multidão que seguia Cristo viam os milagres ( Mt 11:20 -22), examinavam as escrituras ( Jo 5:39 )e, equivocadamente, concluíam que Jesus era somente um profeta. Rejeitavam a Cristo de modo que não obtiveram vida ( Jo 5:40 ).

Na mulher cananéia e nos muitos gentios que creram, temos o cumprimento do anunciado por Isaias: “Fui buscado dos que não perguntavam por mim, fui achado daqueles que não me buscavam; a uma nação que não se chamava do meu nome eu disse: Eis-me aqui. Eis-me aqui” ( Is 65:1 ).

Ora, sabemos que a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus, e o que a mulher ouviu foi o bastante para crer “Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue?” ( Rm 10:14 ). Qualquer que ouve e crê é bem-aventurado, pois Jesus mesmo disse: “Disse-lhe Jesus: Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram” ( Jo 20:29 ).

Como a mulher cananéia creu, ela viu a gloria de Deus “Disse-lhe Jesus: Não te hei dito que, se creres, verás a glória de Deus?” ( Jo 11:40 ), diferente do povo de Israel que esperava ver o sobrenatural para que pudesse crer “Disseram-lhe, pois: Que sinal, pois, fazes tu, para que o vejamos, e creiamos em ti? Que operas tu?” ( Jo 6:30 ).

Ora, a gloria de Deus é revelada na face de Cristo, e não em operações miraculosas “Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” ( 2Co 4:6 ). O que salva é resplendor da face do Senhor que escondeu o seu rosto da casa dos filhos de Israel “E esperarei ao SENHOR, que esconde o seu rosto da casa de Jacó, e a ele aguardarei” ( Is 8:17 ; Sl 80:3 ).

A mulher foi atendida porque creu, e não porque colocou Jesus contra a parede, ou porque o chantageou dizendo: – Se não me atenderdes, rasgarei as Escrituras. Antes de ser agraciada com a libertação da filha, a mulher já havia crido, diferente de muitos que querem uma ação miraculosa para crer.

O que a mulher ouviu acerca de Cristo? Ora, se a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus. O que a mulher ouviu não foi o testemunho de milagres ou que alguém famoso havia se convertido. Ouvir que alguém alcançou um milagre, ou ler uma faixa dizendo que alcançou uma graça não fará uma pessoa confessar abertamente que Cristo é o Filho de Davi!

O testemunho que produz fé é proveniente das Escrituras, pois são elas que testificam de Cristo. Falar que um artista converteu-se, ou que alguém deixou as drogas, a prostituição, etc., não é a lei e o testemunho selado entre os discípulos de Cristo. O profeta Isaias é claro: “À lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, é porque não há luz neles” ( Is 8:20 ).

O testemunho é a marca registrada da igreja, e não os sinais miraculosos, pois Cristo mesmo alertou que os falsos profetas operariam sinais, profetizariam e expulsariam demônios ( Mt 7:22 ). O fruto que procede dos lábios, ou seja, o testemunho é o diferencial entre o verdadeiro e o falso profeta, pois o falso profeta virá disfarçado de ovelha, de modo que, pelas ações e aparência é impossível identifica-los ( Mt 7:15 -16).

‘Quem crer em mim segundo as Escrituras’ esta é a condição estabelecida por Cristo para que haja luz nos homens “Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre” ( Jo 7:38 ), pois as palavras de Cristo é Espírito e vida ( Jo 6:63 ), semente incorruptível, e somente tal semente faz germinar uma nova vida que dá direito a vida eterna ( 1Pe 1:23 ).

Qualquer que crer em Cristo como o Filho de Davi, o Senhor, o Filho do Deus vivo, já não é estrangeiro e nem forasteiro. Não viverá das migalhas que caem da mesa do seu senhor, antes se tornou concidadão dos santos. Passou a ser participante da família de Deus “Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos, e da família de Deus” ( Ef 2:19 ).

Quem crê no Filho de Davi creu no Descendente prometido a Abraão, portanto é bem-aventurado como o crente Abraão, e participante de todas as beneficências prometidas por Deus através dos seus santos profetas, pois tudo que os profetas escreveram, escreveram a respeito do Filho ( Jo 5:46 -47 ; Hb 1:1 -2).

Quem crê pode todas as coisas em Deus, como se lê: “Os quais pela fé venceram reinos, praticaram a justiça, alcançaram promessas, fecharam as bocas dos leões, Apagaram a força do fogo, escaparam do fio da espada, da fraqueza tiraram forças, na batalha se esforçaram, puseram em fuga os exércitos dos estranhos. As mulheres receberam pela ressurreição os seus mortos; uns foram torturados, não aceitando o seu livramento, para alcançarem uma melhor ressurreição; E outros experimentaram escárnios e açoites, e até cadeias e prisões. Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada; andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, desamparados, aflitos e maltratados (Dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, e montes, e pelas covas e cavernas da terra. E todos estes, tendo tido testemunho pela fé, não alcançaram a promessa, Provendo Deus alguma coisa melhor a nosso respeito, para que eles sem nós não fossem aperfeiçoados” ( Hb 11:33 -40).

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Por teus pecados

Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos com o objetivo de conduzir os homens a Deus ( 1Pe 3:18 ). Ele é a propiciação pelos pecados do mundo todo ( 1Jo 2:2 ), desfazendo a barreira de inimizade que havia entre Deus e os homens. Uma vez liberto da condenação de Adão o homem está apto a produzir boas obras, pois elas são feitas somente quando se está em Deus ( Is 26:12 ; Jo 3:21 ).

 


Li um trecho do Sermão nº 350, do Dr. Charles Haddon Spurgeon, sob o título “Um tiro certeiro na justiça própria”, e não consegui deixar de tecer um comentário acerca de uma afirmação contida no sermão.

Chamou-me a atenção a última frase do sermão, que diz:

“Cristo foi castigado por teus pecados antes que fossem cometidos” Charles Haddon Spurgeon, trecho do sermão nº 350 “Um tiro certeiro na justiça própria”, extraído da web.

Ora, se o Dr. Spurgeon considerou o texto bíblico que diz que Jesus é ‘o cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo’, na verdade ele devwria destacar que Cristo morreu antes que o pecado fosse introduzido no mundo ( Ap 13:8 ; Rm 5:12 ). Porém, como ele afirma que Jesus foi castigado antes que cada pecado dos cristãos fossem cometidos individualmente, entendo que o Dr. Spurgeon não fez referência ao verso 8, capítulo 13 do Livro de Apocalipse.

Cristo foi castigado pelo pecado de toda a humanidade, porém, quem cometeu a ofensa que levou toda a humanidade a estar debaixo do pecado? Ora, pelas Escrituras entendemos que o pecado é proveniente da ofensa (desobediência) de Adão, e não pelos erros de condutas que os homens cometem.

O castigo que trouxe a paz não se deu por causa de erros de conduta cometidos individualmente’, visto que todos os homens são gerados na condição de alienados de Deus (pecadores). Cristo é cordeiro de Deus morto antes da fundação do mundo, ou seja, o cordeiro foi ofertado antes que a ofensa de Adão ocorresse.

O castigo que recaiu sobre Cristo não decorre da conduta dos homens (pecados cometidos), antes decorre da ofensa de Adão. Em Adão os homens foram feitos pecadores, visto que, por uma ofensa veio o juízo e a condenação sobre todos os homens, sem exceção ( Rm 5:18 ).

Se o pecado (condição do homem sem Deus) decorre da conduta dos homens, para que a justiça fosse estabelecida, necessariamente a salvação somente seria possível através da conduta dos homens. Seria exigível que os homens praticassem algo bom para amenizar a sua conduta ruim, porém, jamais seria ‘justificado’.

Mas, a mensagem do evangelho demonstra que pela ofensa de um homem (Adão) todos foram condenados à morte, e somente por um homem (Cristo, o último Adão) o dom da graça de Deus abundou sobre muitos ( Rm 5:15 ). Quando Jesus morreu pelos nossos pecados, ocorreu uma substituição de ato: como Adão desobedeceu, o último Adão foi obediente até o calvário.

A última frase do trecho do sermão do Dr. Spurgeon demonstra que não foi considerado que:

  • Todos os homens são pecadores porque o primeiro pai da humanidade (Adão) pecou ( Is 43:27 );
  • Que todos os homens são formados em iniquidade e concebidos em pecado ( Sl 51:5 );
  • Que toda a humanidade desviou-se de Deus desde a madre ( Sl 58:3 );
  • Que todos os homens andam errados desde que nascem ( Sl 58:3 ), porque entraram por uma porta larga que dá acesso a um caminho largo que conduz à perdição ( Mt 7:13 -14);
  • Que por terem sido vendidos como escravo ao pecado, ninguém transgride conforme a transgressão de Adão ( Rm 5:14 );
  • Que o melhor dos homens é comparável a um espinho, e o mais reto pior que uma sebe de espinhos ( Mq 7:4 );
  • Que todos os homens pecaram e destituídos estão da glória de Deus por causa da condenação estabelecida em Adão;
  • Que não há nenhum justo, nenhum sequer, entre os descendentes de Adão ( Rm 3:10 ), etc.

Que bem ou mal comete uma criança no ventre materno para ser concebido em pecado? Que pecado uma criança comete para andar ‘errada’ desde que nasce? Quando e onde todos os homens desviaram e juntamente se fizeram imundos? ( Rm 3:12 ) Acaso o extravio da humanidade não se deu através da ofensa de Adão?

Em Adão todos os homens juntamente se fizeram imundos ( Sl 53:3 ), isto porque Adão é a porta larga por onde todos os homens entram ao nascer. O nascimento segundo a carne, o sangue e a vontade do varão é a porta larga por onde todos os homens entram, se desviam e juntamente se fazem imundos ( Jo 1:13 ).

Que evento fez com que todos os homens ‘juntamente’ se tornassem imundos? Somente a ofensa de Adão explica o fato de todos os homens, em um mesmo evento, tornarem-se imundos (juntamente), visto que é impossível a todos homens de inúmeras épocas praticarem um mesmo ato juntos.

Considere: Cristo morreu porque Caim matou Abel, ou Cristo morreu por causa da ofensa de Adão? Qual dos eventos comprometeu a natureza de toda humanidade? O ato de Caim ou a ofensa de Adão?

Observe que a condenação de Caim não é proveniente do seu ato criminoso, antes decorre da condenação em Adão. Jesus demonstrou que não veio condenar o mundo, antes salvá-lo, pois seria contraproducente julgar o que já está condenado ( Jo 3:18 ).

Cristo foi castigado por causa do pecado da humanidade, porém, o pecado não se refere àquilo que os homens cometem, antes diz da ofensa que trouxe juízo e condenação sobre todos os homens, sem distinção.

As ações dos homens sob o jugo do pecado também é denominado pecado, visto que, qualquer que peca, peca porque é escravo do pecado. A barreira de separação entre Deus e os homens se deu através da ofensa de Adão, e por causa da ofensa no Éden não há entre os filhos dos homens quem faça o bem. Por que não há quem faça o bem? Porque se extraviaram todos e juntamente se fizeram imundos. Portanto, por causa da ofensa de Adão, tudo que o homem sem Cristo faz é imundo.

Quem do imundo tirará o que é puro? Ninguém! ( Jó 14:4 ) Ou seja, não há quem faça o bem porque todos são escravos do pecado.

Ora, o escravo do pecado comete pecado, visto que, tudo que realiza pertence por direito ao seu senhor. As ações dos servos do pecado são pecaminosas porque são feitas por escravos do pecado. É por isso que Deus libertou os que creem para que sejam servos da justiça ( Rm 6:18 ).

Já os filhos de Deus não podem pecar porque são nascidos de Deus e a semente de Deus permanece neles ( 1Jo 3:6 e 1Jo 3:9 ). Qualquer que comente pecado é do diabo, mas os que creem em Cristo pertencem a Deus ( 1Co 1:30 ; 1Jo 3:24 ; 1Jo 4:13 ), visto que são templo e morada do Espírito ( 1Jo 3:8 ).

Cristo se manifestou para destruir as obras do diabo ( 1Jo 3:5 e 1Jo 3:8 ), e todos que são gerados de Deus permanecem n’Ele ( 1Jo 3:24 ) e em Deus não há pecado ( 1Jo 3:5 ). Ora se em Deus não há pecado, segue-se que todos que estão em Deus não pecam, visto que foram gerados de Deus e a semente de Deus permanece neles.

Uma árvore não pode dar dois tipos de frutos. Assim, aqueles que são nascidos da semente de Deus não podem produzir frutos para Deus e para o diabo, da mesma forma que é impossível um servo servir dois senhores ( Lc 16:13 ). Toda planta plantada pelo Pai dá muito fruto, porém, frutifica somente para Deus ( Is 61:3 ; Jo 15:5 ).

Após morrer para o pecado, o antigo senhor, resta ao homem ressurreto apresentar-se a Deus como vivo dentre os mortos, e os membros do seu corpo como instrumento de justiça ( Rm 6:13 ). A condição ‘vivo’ dentre os mortos é adquirida pela fé em Cristo, através da regeneração (novo nascimento). Através do novo nascimento o homem torna-se vivo dentre os mortos, e resta, portanto, voluntariamente apresentar a Deus os membros do seu corpo como instrumento de justiça.

O pecado não mais reina, pois não tem mais domínio sobre os que creem ( Rm 6:14 ). O cristão deve oferecer os seus membros para servirem a justiça, ou seja, para servirem Aquele que os santificou, visto que Cristo é a justificação e a santificação dos cristãos ( Rm 6:19 ; 1Co 1:30 ).

Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos com o objetivo de conduzir os homens a Deus ( 1Pe 3:18 ). Ele é a propiciação pelos pecados do mundo todo ( 1Jo 2:2 ), desfazendo a barreira de inimizade que havia entre Deus e os homens. Uma vez liberto da condenação de Adão o homem está apto a produzir boas obras, pois elas são feitas somente quando se está em Deus ( Is 26:12 ; Jo 3:21 ).

Os homens sem Deus, por sua vez, existem sem esperança neste mundo, pois são como o imundo e tudo que produzem, é imundo. Não há como o homem sem Deus fazer o bem, pois a natureza má só produz o mau “Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia; e todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniquidades como um vento nos arrebatam” ( Is 64:6 ).

O profeta Isaias ao descrever a condição do seu povo, comparou-os com:

  • O imundo – Quando o povo de Israel tornou-se imundo? Quando todos se desviaram e juntamente se tornaram imundos, ou seja, em Adão, o primeiro Pai da humanidade ( Sl 14:3 ; Is 43:27 );
  • Justiça como trapos de imundície – Todas as obras de justiça dos imundos são comparáveis a trapos de imundície, que não servem para vestes. Embora fossem religiosos, as obras do povo de Israel eram obras de iniquidade, obras de violência ( Is 59:6 );
  • Murcham como a folha – Não havia esperança para o povo de Israel, visto que como a folha estavam mortos ( Is 59:10 );
  • As iniquidades são como vento – Nada que Israel fazia podia livrá-los desta horrenda condição, visto que a iniquidade é comparável ao vento que arrebata a folha, ou seja, o homem não pode livrar-se do senhoril do pecado.

Cristo, a seu tempo, morreu pelos ímpios. O Cordeiro de Deus foi imolado desde a fundação do mundo pelos pecadores “Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios” ( Rm 5:6 ); “Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” ( Rm 5:8 ).

Ora, Cristo morreu pelos escravos do pecado, e não pelos ‘pecados’ que os escravos do pecado praticam, como entendeu o Dr. Spurgeon.

Cristo morreu pelos pecadores, logo os que creem morrem juntamente com Ele. Cristo morreu por todos para que os que são vivificados não mais vivam para si, antes vivam para Aquele que morreu e ressurgiu ( 2Co 5:14 ).

Os que ressurgiram com cristo estão em segurança, visto que:

  • Estão em Cristo;
  • São novas Criaturas;
  • As coisas velhas passaram;
  • Tudo se fez novo ( 2Co 5:17 ).

Deus reconciliou consigo mesmo os que creem por intermédio de Cristo e deu aos vivos dentre os mortos o ministério da reconciliação ( 2Co 15:18 ).

Aos vivos dentre os mortos resta a exortação: não recebais a graça de Deus em vão ( 2Co 6:1 ). Deus te ouviu em tempo aceitável, por tanto, como instrumento de justiça os cristãos são recomendados a:

  • Não dar escândalo em coisa alguma – Por que os cristãos não devem dar escândalos? Para serem salvos? Não! Para que o ministério da reconciliação não seja censurado;
  • Sendo recomendáveis em tudo – Na muita paciência, nas aflições, nas necessidades, nas angústias, nos açoites, nas prisões, nos tumultos, nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns, na pureza, na ciência, na longanimidade, na benignidade, no Espírito Santo, no amor não fingido, etc ( 2Co 6:3 -6).

Cristo foi morto desde a fundação do mundo, antes mesmo que toda a humanidade se tornar-se escrava da injustiça em função da desobediência de um só homem que pecou: Adão.

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Por que Deus exigiu de Abraão o sacrifício de Isaque?

Ora, as provações não são instrumentos de medida para se mensurar a fé daqueles que professam a Cristo, antes tem o fito de ‘redundar’ em louvor, glória e honra na revelação de Cristo “Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam” ( Tg 1:12 ). Ou seja, a provação é conforme o propósito e segundo o conselho da vontade de Deus, ‘afim de sermos para louvor da sua glória’ ( Ef 1:11 -12). Abraão foi chamado por Deus para louvor de sua glória!

 


A ordem direta de Deus a Abraão para imolar Isaque fomenta várias discussões, distorções e interpretações errôneas acerca do objetivo de tal ordem.

A despeito da onisciência de Deus, muitos questionam qual o propósito de Deus em mandar Abraão imolar o seu filho. Deus queria saber até onde Abraão era obediente? Deus queria mensurar a fé de Abraão?

A resposta é simples, porém, demanda conhecimento bíblico e raciocínio. Para responder tal indagação é necessário relembrar alguns eventos específicos concernentes a vida de Abraão. Analisemos estes três pontos principais:

 

  • O chamado de Abraão

Abraão era gentil, morava na cidade de Ur, terra dos Caldeus. Seu pai saiu da cidade de Ur com destino a terra de Canaã, porém, quando chegou a Harã, passou a habitar naquele lugar.

Abraão foi orientado por Deus a sair do meio de seus parentes seguindo para uma terra que ainda seria mostrada. Abraão saiu confiado em Deus tendo em vista uma promessa ( Gn 12:2 ). Obedeceu à voz divina, porém, levou consigo o seu sobrinho Ló até a terra de Canaã ( Gn 12:5 ).

Após passar pela terra de Canaã, novamente Deus apareceu a Abraão e prometeu aquela terra à sua descendência. Abraão, que à época chamava-se Abrão, ali edificou um altar ao Senhor, e seguiu em direção ao sul.

Abraão desceu ao Egito por causa da escassez de alimento e quando se estabeleceu no Egito adquirindo riquezas. Após ter alcançado bens o patriarca foi compelido a deixar o Egito, pois Deus feriu o rei do Egito por causa de Sara, mulher de Abraão. Em seguida, Abraão subiu do Egito para as regiões do Nequebe juntamente com Ló.

Perceba que Abraão poderia continuar morando no Egito, porém, a grande praga que sobreveio ao rei do Egito fez com que Abraão saísse de lá.

Abraão seguiu do Egito para a região do Neguebe e retornou ao local que fez o primeiro altar ao Senhor, Betel, ou seja, voltou ao ponto inicial de sua peregrinação. Após uma contenda entre os servos de Ló e os servos de Abraão, eles se separaram. Ló foi levado cativo e Abraão teve que lutar contra quatro reis para libertá-lo.

Após a guerra, saiu ao encontro de Abraão o rei de Sodoma e o rei de Salém. O rei de Salém abençoou Abraão, e o rei de Sodoma fez uma proposta a Abraão, que foi rejeitada de pronto: “Levantei a minha mão ao Senhor, o Deus Altíssimo, o Criador dos céus e da terra, jurando que não tomarei coisa alguma de tudo o que é teu, nem um fio nem uma correia de sapato, para que não digas: eu enriqueci a Abrão” ( Gn 14:22 -23).

De tudo que relembramos até aqui, surgem algumas considerações: Por que Abraão precisou sair do Egito, se ele não alcançou a promessa e viveu como peregrino na terra? Por que Abraão não aceitou a proposta do rei de Sodoma se era legitimo ele aceitar tal prêmio?

Diante da proposta do rei de Sodoma Abraão entendeu que, caso aceitasse, no futuro alguém poderia interpretar que Abraão foi enriquecido através dos bens da cidade que foi subvertida por Deus. Se Abraão ficasse com os bens do rei de Sodoma, ficaria ‘constado na história’ que, o rei de Sodoma, e não Deus havia abençoado Abraão.

Abraão foi tentado a lançar mão de bens, que no futuro poderia dar a entender a Abraão que a promessa de Deus efetivou-se por uma conquista própria. Como bem sabemos posteriormente a cidade de Sodoma foi subvertida devido a sua promiscuidade excessiva.

Porém, fica uma questão sem resposta: onde e quando Abraão alcançou o discernimento para não fazer aliança com o rei de Sodoma, rejeitando o que lhe era de direito? A saída do Egito motivada pela praga na casa do rei proporcionou a Abraão uma lição de vida que o capacitou a rejeitar a aliança com o rei de Sodoma.

Com relação às questões materiais Abraão estava consciente de que deveria esperar em Deus.

 

  • A promessa de um descendente

Deus prometeu a Abraão que a sua descendência herdaria a terra que os seus olhos estavam enxergando no momento da reiteração da promessa ( Gn 13:14 ), porém, Deus ainda não havia prometido um filho a Abraão gerado por Sara.

Em face da promessa à sua ‘descendência’ ( Gn 15:1 ), Abraão ficou incomodado por não ter filho, e pretendia fazer o damasceno Elieser, o seu servo, o seu herdeiro.

Foi quando Deus prometeu a Abraão um filho de suas entranhas, sem qualquer referência a Sara, e creu Abraão e isto lhe foi imputado por justiça ( Gn 15:4 ).

Para Abraão Deus prometeu o impossível, visto que a época da promessa era de conhecimento que Sara era estéril, porém ele creu firmado no poder e na fidelidade de Deus, sendo declarado justo diante de Deus.

Apesar de Abraão crer em Deus e ser justificado, o tempo passava e ele continuava sem filho. Diante deste quadro, a mulher de Abraão resolveu providenciar filho a Abraão, e ele aceitou dar a Sara um filho através da escrava ( Gn 16:2 ).

É bem provável que Abraão tenha interpretado a atitude de sua mulher como sendo a providência divina: 1) Ismael foi gerado segundo a carne de Abraão, e; 2) o nascimento de Ismael encaixou ‘perfeitamente’ no que Deus lhe falara (um filho de suas entranhas).

Este entendimento decorre do fato de Abraão ter feito menção do nome de Ismael quando Deus reiterou a promessa: “Oxalá viva Ismael diante de ti!” ( Gn 17:18 ). Abraão já estava compreendendo que Ismael era o filho da promessa, o seu ‘primogênito’ e herdeiro.

Algum tempo depois, Abraão foi interpelado por sua mulher, que exigiu que Ismael não herdasse juntamente com Isaque. Abraão ficou temeroso, visto que Ismael seria o seu ‘primogênito’, porém, descansou em Deus quando foi orientado a esperar na providência divina e que ele não estaria fazendo nenhum mal ( Gn 21:12 ).

 

  • O milagre

A despeito do riso de Abraão no coração, a promessa de Deus continuou de pé ( Gn 17:17 ), e no tempo determinado nasceu Isaque.

Isto demonstra que a fidelidade de Deus é a causa de Abraão ter sido justificado e abençoado segundo a promessa, visto que Abraão riu da promessa.

Em nossos dias a fé é tida como agente catalisador que desencadeia milagres, porém, o que a palavra de Deus demonstra é que a fidelidade e o poder de Deus devem ser à base da fé cristã.

Mesmo após Abraão apresentar seu servo damasceno e seu filho Ismael como opção diante de Deus, mesmo após rir da promessa, Deus permaneceu fiel à sua palavra.

Sara era estéril, de avançada idade (mais de 90 anos) e segundo a promessa de Deus concebeu Isaque. A bíblia demonstra que Abraão estava ciente das impossibilidades para se alcançar um filho com Sara:

  • Um homem de cem anos;
  • Sará com noventa anos;
  • Sará estéril ( Gn 17:17 ).

Diante das impossibilidades, o homem ri, pois não tem ideia da dimensão do poder de Deus. Diante do mar vermelho o homem fica temeroso, pois a impossibilidade do homem fica em evidência. Diante da necessidade de salvação o homem descobre que está à mercê do pecado e da morte, porém, o que é impossível aos homens, para Deus é possível.

 

Por que Deus exigiu o sacrifício de Isaque?

Através da análise anterior, fica demonstrado que certos eventos relatados na história de Abraão são difíceis de captar. O relato da história do patriarca Abraão não se prende a explicar certos porquês, antes se fixa somente nos fatos.

Como é possível a bíblia apontar Abraão como sendo um exemplo de fé, sendo que em determinado momento da sua vida ele riu da promessa, e apresentou uma alternativa diante de Deus? Não era para ele ter perdido a bênção neste evento?

Por que Abraão tentou ‘ajudar’ Deus cumprir a promessa através de Ismael? Uma leitura superficial da história de Abraão faz com que o leitor não perceba este detalhes de suma importância ao contexto geral das escrituras.

Outro ponto a se destacar é concernente a aliança proposta pelo rei de Sodoma. Abraão foi tentado a ajudar Deus com riquezas provenientes do fruto de suas conquistas pessoais, porém, rejeitou-a, pois entendeu que a sua prosperidade deveria ser fruto da promessa divina.

Isto é maravilhoso, porém, onde Abraão aprendeu esta lição? Se levarmos em conta o fato de Abraão ter sido expulso do Egito por causa de uma praga que sobreveio ao Faraó, veremos que neste evento ele aprendeu que rei algum seria o pivô da riqueza pertinente a sua descendência.

Se Abraão não aprendesse a lição no Egito, certamente sucumbiria diante da aliança e oferta do rei de Sodoma. Observe que o perigo rondava Abraão de perto. Se Abraão fizesse uma aliança com Sodoma, certamente diriam que:

  • Sodoma foi responsável pela prosperidade de Abraão, ou;
  • Abraão poderia reputar que as suas riquezas era fruto de suas conquistas pessoais.

Surge outra pergunta: havia algum risco para Abraão acerca do nascimento de Isaque, caso Deus não tivesse posto Abraão a prova. Como? Isto mesmo! Analisemos se havia algum risco para Abraão, caso ele não fosse submetido à provação.

Observe como é fácil o homem confundir-se:

É notório para nós que Isaque foi quem nasceu segundo a promessa de Deus, porém, Abraão fez menção de Ismael perante Deus, pois estava esperançoso que o filho da escrava fosse o seu herdeiro;

Embora Isaque tenha nascido segundo a promessa, Abraão ainda podia e continuou a gerar filhos, mesmo após os cem anos ( Gn 25:1 -2).

Neste ponto em específico (b) havia um grande perigo rondando o patriarca. Havia um risco para Abraão decorrente do fato de ele gerar filhos segundo a sua carne, mesmo em avançada idade. Havia o risco de Abraão se gloria da sua carne, pois mesmo em avançada idade ainda gerava filhos.

Hoje seria tema de discussão cientifica se Isaque era mesmo filho segundo a promessa, ou se Sara nunca foi estéril de fato. O cuidado que Abraão teve com relação ao rei de Sodoma, para que ninguém dissesse no futuro: “O rei de Sodoma foi quem enriqueceu a Abraão”, seria sem valia, visto que questionariam se Isaque foi realmente fruto da providência divina.

Quando nasceu Isaque, Abraão reputava com base na fé, que a promessa estava sendo cumprida. Mas, após Sara morrer e Abraão casar-se com Quetura, obtendo outros filhos, havia o risco de Abraão ser dissuadido da fé, e voltar a rir da promessa, visto que ele ainda podia gerar filhos, mesmo após considerar impossível obtê-los por causa da idade avançada ( Gn 17:17 ).

Quando Deus mandou Abraão imolar Isaque, Isaque era o seu ‘único’ filho, e não era cogitado Abraão ter mais filhos ( Gn 17:17 ). O evento demonstra que Deus não estava ‘testando’ e nem ‘mensurando’ a fé de Abrão. Deus não estava pondo à fé de Abraão a prova, uma vez que ele já havia sido justificado por Deus.

Deus não estava em dúvidas quanto à fé de Abraão quando o submeteu a prova!

O que Deus pretendia com a ‘provação’?

Com a provação Deus estava cuidando de Abraão! Como?

Pedro nos diz: “Essas provações são para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece, embora provado pelo fogo, redunde para louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo” ( 1Pe 1:7 e 1Pe 4:12 -14).

Ora, as provações não são instrumentos de medida para se mensurar a fé daqueles que professam a Cristo, antes tem o fito de ‘redundar’ em louvor, glória e honra na revelação de Cristo “Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam” ( Tg 1:12 ).

Ou seja, a provação é conforme o propósito e segundo o conselho da vontade de Deus, ‘afim de sermos para louvor da sua glória’ ( Ef 1:11 -12). Abraão foi chamado por Deus para louvor de sua glória!

Como Abraão riu-se da promessa quando vislumbrou as impossibilidades ( Gn 17:17 ), ele poderia novamente rir-se da providência divina após gerar filhos de Quetura ( Gn 25:1 -52).

As seguintes questões poderiam sobressaltar Abraão: Será que Sara era estéril mesmo? Ismael, Isaque, Zinrá, Jocsã, Medã, Midiã, Jisbaque e Sua não foram filhos da minha carne? Será que a falta do “costume das mulheres” em Sara era mesmo uma impossibilidade de ter filhos? A idade de Sara era um real impedimento para ela conceber? Visto que pude ter filhos com mais de cem anos com Quetura, o filho de Sara não poderia ser produto da minha ‘virilidade’?

Todas estas questões não poderiam levar Abraão a gloriar-se da sua carne?

Ao ser exigido o sacrifício de Isaque, Abraão teve que recobrar o seu filho dentre os mortos, confiado no poder de Deus “Abraão julgou que Deus era poderoso para até dentre os mortos o ressuscitar, e daí também em figura o recobrou” ( Hb 11:19 ).

Ou seja, quando Abraão se predispôs obedecer à ordem divina para oferecem em holocausto o seu filho, ele deixou de ter um filho segundo a sua carne (embora o filho segundo a promessa de Deus fosse proveniente das ‘entranhas’ de Abraão e Sara), para receber o seu filho dentre os mortos.

Daquele momento em diante, Abraão estava desprovido de qualquer elemento que o levasse a considerar posteriormente que Isaque era fruto de sua carne, ou que a sua própria carne havia lhe concedido Isaque. Após o evento da oferta de Isaque, Abraão, segundo a providencia divina, teve a confirmação de que nada alcançou segundo a carne “Que diremos, pois, ter alcançado Abraão, nosso pai segundo a carne?” ( Rm 4: 1).

Ao recobrar o seu filho dentre os mortos, o que Deus proporcionou a Abraão além do seu filho Isaque? Uma âncora que penetrou até o interior do que estava oculto. Ele foi ensinado a lançar mão da esperança proposta, e não do que era aparente e que desvanece ( Hb 6:18 -19).

Isaque não era a segurança de Abraão, antes a segurança estava na esperança proposta. A consolação esta em Deus que não mente e é imutável, o que faz o homem peregrinar em busca da pátria celestial! ( Hb 6:14 -18).

Para alcançar Isaque, Abraão teve que recobrá-lo dentre os mortos, agindo de modo a dar cabo da própria promessa. Naquele momento em que Abraão ofereceu o seu único filho, a palavra de Deus foi posta acima de evidências físicas da promessa.

Abraão descansou na providência divina, pois o descendente sobre quem a promessa repousaria ainda estava por vir!

Abraão alcançou esta graça em Deus, porém, o povo de Israel, os seus descendentes não compreenderam e nem fizeram como o crente Abraão. Apesar do exemplo concedido por Abraão, o povo não foi aprovado na prova do maná concedido no deserto. As pessoas estavam confiadas no maná que aparecia no deserto, porém, não confiavam na palavra de Deus, que deu origem ao maná. Não consideravam que ‘nem só de pão viverá o homem’ ( Dt 8:3 ).

A prova da fé do homem não é porque Deus quer saber ou mensurar algo a respeito do homem. Antes, a prova da fé tem em vista a preservação da confiança do homem, o que redunda em louvor, glória e honra a Deus ( 1Pe 1:7 ).

 

Outra questão

Com relação ao versículo que diz: “Agora sei que temes a Deus, pois não me negaste o teu filho, o teu único filho” ( Gn 22:12 ), temos uma caso típico de antropomorfismo, ou melhor, é um dos ‘modos’ de Deus se manifestar ou comunicar-se utilizando a forma, o modo, a características ou a linguagem humana.

O homem geralmente compara o desconhecido ou compreende algo desconhecido através de elementos e fatos conhecido. Por exemplo, ao descrever algum animal desconhecido, o homem utiliza-se do que conhece para descrevê-lo: tinha pés como o de homem; cabeça como a de cavalo, rabo como o de peru, etc ( Ez 1:10 ).

Do mesmo modo, ao fazer referência a Deus, diz-se que Deus descansou, uma vez que o homem descansa. Porém, surgem as questões: sendo Deus onisciente, onipresente e onipotente Ele pensa? Faz considerações? Chega a conclusões? Precisa descansar segundo a concepção humana? ( Is 40:8 -31).

Por certo que os ‘caminhos de Deus’ são muito elevados, e os seus ‘pensamentos’ inatingíveis! “Mas não sabem os pensamentos do SENHOR, nem entendem o seu conselho; porque as ajuntou como gavelas numa eira” ( Mq 4:12 ). Como expressar o que nunca se viu ou ouviu? O que nunca subiu ao pensamento do homem? “Mas, como está escrito: As coisas que os olhos não viram, e os ouvidos não ouviram, e não subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam” ( 1Co 2:9 ).

Além das questões antropomorfista, é preciso considerar que a linguagem humana é dinâmica e transforma-se constantemente. Como alcançar o pensamento original de uma única palavra ou de uma frase escrita a milhares de anos? Por mais que muitos escribas procuraram ser fiéis à transcrição de textos, impressões pessoais podem afetar a idéia do texto.

É por isso que o estudo da bíblia deve ser sistemático, seguindo regras e princípios pertinentes a hermenêutica e a exegese. Não é o que um texto expressa que fará surgir ou que extirpará uma doutrina bíblica, antes o contexto geral das escrituras é observado para fazermos um juízo de valores e idéias.

Hoje já é difícil para um interprete ou tradutor secular transmitir a idéia contida em uma expressão idiomática, porém, esta é uma limitação humana.

A bíblia diz que Deus descansou no sétimo dia, porém, através da carta aos Hebreus fica demonstrado que a idéia de descanso que a bíblia imprime não tem relação com a necessidade de repouso. Através da palavra ‘descansar’ a bíblia quer evidenciar que não mais havia obras a serem realizadas.

Após o dia sexto nenhuma outra obra concernente a criação do universo foi realizada, pois tudo foi criado e estabelecido com perfeição.

‘Descansar’ no Gênesis significa não ter obrar a realizar, diferente da idéia que muitos querem dar: repouso por causa de cansaço “Porque aquele que entrou no seu repouso, ele próprio repousou de suas obras, como Deus das suas” ( Hb 4:10 ). Ora, quando a bíblia diz que Cristo entrou no seu repouso, ela quer dar a entender que a obra de Cristo é perfeita como a do Pai.

Com relação ao registro: ‘agora sei que temes a Deus’, verifica-se que o temor (confiança) de Abraão foi levado em conta quanto da justificação por Deus ( Gn 15:6 ), ou seja, ao provar Abraão, Deus não tinha como objetivo mensurar a fé do patriarca.

Se considerarmos um dos recursos lingüístico próprio à retórica, percebe-se que o texto tem por objetivo transmitir (noticiar) a Abraão que ele foi provado e aprovado para louvor e glória de Deus, segundo a fé. Este verso não enfatiza falta de conhecimento em Deus, antes, a ênfase da frase está em tornar Abraão ciente de que estava aprovado.

Quando o Anjo do Senhor disse: ‘agora sei que temes a Deus’, o objetivo era louvar o homem que foi provado e aprovado com base na fé “Porque não é aprovado quem a si mesmo se louva, mas, sim, aquele a quem o Senhor louva” ( 2Co 10:18 ).

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A parábola dos dois caminhos

O nascimento natural é a porta larga que dá acesso ao caminho largo de perdição, e o novo nascimento a porta de entrada que dá acesso ao caminho estreito que conduz a salvação. É através do nascimento que o homem entra pelas portas, tanto para a porta larga, quanto para a porta estreita.

 


“Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela; E porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem” ( Mt 7:13 -14).

Jesus apresentou aos ouvintes do Sermão do Monte uma necessidade: a necessidade de entrarem pela “porta estreita”. Em seguida Ele apresentou o motivo pelo qual é necessário entrar pela porta estreita: “Pois larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição…” ( Mt 7:14 ).

Diante da necessidade que Jesus apresentou, surgem as perguntas: O que é a porta estreita? Como entrar por ela? Por que entrar pela porta estreita é a única saída para o homem livrar-se da perdição?

O ‘Sermão do Monte’ não pode ser visto como um aglomerado de idéias desconexas, ou um apanhado geral de conduta e normas sociais. A proposta do Sermão do Monte trata de questões eternas. Através das ‘Bem-aventuranças’ anunciadas Jesus conquistou a atenção dos seus ouvintes ( Mt 5:1 -12), e, em seguida, ele apresentou a nova condição dos seus discípulos: “Bem-aventurados” ( Mt 5:13 -16).

A multidão que reuniu-se para ouvir a mensagem de Cristo não sabia qual a missão de Jesus, e Ele aproveita para destacar alguns aspectos importantes da sua missão:

a) Jesus não veio destruir e nem descumprir a lei e os profetas (v. 17);

b) Jesus demonstrou aos seus ouvintes que é impossível entrar no reino dos céus seguindo a doutrina dos escribas e fariseus, uma vez que, eles não haviam alçando a justiça de Deus (v. 20);

c) Jesus apresentou exemplos práticos de como é impossível entrar no reino dos céus através do cumprimento da lei, ao apresentar aos seus ouvintes o inatingível espírito da lei “Eu, porém, vos digo que qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério…” ( Mt 5:21 à Mt 7:11 );

d) Jesus demonstrou que a lei e os profetas resume-se em um mandamento: ‘amar o próximo como a si mesmo’ ( Mt 7:12 ).

Após demonstrar a impossibilidade dos homens entrarem no reino dos céus através da doutrina dos escribas e fariseus ( Mt 5:20 ) Jesus, apresenta a parábola dos ‘Dois Caminhos’ para ilustrar o único meio de salvação ( Mt 7:13 ).

Somente após entrar pela ‘Porta Estreita’ o homem alcança a ‘justiça superior’ à justiça dos escribas e fariseus.

A mensagem que o Senhor Jesus trouxe no Sermão do Monte é una, concisa e precisa no que propõe. Na essência, a ideia apresentada no Sermão do Monte é a mesma apresentada no diálogo entre Jesus e Nicodemos. O que difere é a abordagem: no ‘Sermão do Monte’ o público alvo era misto e composto principalmente por leigos, já o ensinamento de Jesus a Nicodemos, um mestre erudito, é a altura de um conhecedor da lei.

Tudo que foi demonstrado no Sermão do Monte, Jesus também revelou a Nicodemos:

a) Era impossível a Nicodemos entrar no reino dos céus, embora representasse o melhor da religião, do conhecimento, do comportamento e da moral humana;

b) Jesus demonstra que a doutrina que Nicodemos seguia não o conduziria à salvação, antes, era necessário nascer de novo;

c) Da mesma forma que, para o mestre em Israel era necessário nascer de novo, para o povo ‘leigo’ era necessário entrar pela porta estreita.

O novo nascimento equivale à figura da porta estreita. A equivalência entre porta estreita e novo nascimento decorre da necessidade, pois necessário é entrar pela porta estreita, o que só é possível através do novo nascimento. Não há outro meio de acesso à porta estreita, a não ser através do novo nascimento, que se dá por intermédio do evangelho ( Jo 3:16 ).

Por que é necessário nascer de novo? Por que é necessário entrar pela porta estreita? Porque somente após nascer de novo o homem entra pela porta estreita, deixando de trilhar o caminho espaçoso que todos se põem a trilhar quando nascem segundo Adão, e que conduz à perdição ( Jo 3:16 ; Mt 7:13 ).

Quando disse que era necessário Nicodemos nascer de novo, Jesus estava demonstrando que era impossível alcançar a vida eterna seguindo a doutrina dos fariseus. O maior problema de Nicodemos não estava na prática da Lei, antes, ter entrado por uma porta larga que dá acesso a um caminho que conduz à perdição.

Por que era necessário Nicodemos nascer de novo, ou seja, entrar pela porta estreita? Quando foi que ele entrou pela porta larga? Quem é a porta larga?

Sabemos que Jesus é a ‘Porta Estreita’, e que Ele é o ‘Caminho Apertado’ que conduz o homem à salvação, porém, o que é a porta larga? A resposta é deduzida do versículo seguinte: “Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante”( 1Co 15:45 ).

Observando o que Paulo escreveu aos Coríntios, percebe-se que Adão é a porta larga, e Cristo, o último Adão, a “Porta Estreita”. O maior problema de Nicodemos estava na porta que ele havia entrado quando veio ao mundo: Adão.

Ou seja, o nascimento natural é a porta larga que dá acesso ao caminho largo de perdição, e o novo nascimento a porta de entrada que dá acesso ao caminho estreito que conduz a salvação. É através do nascimento que o homem entra pelas portas, tanto para a porta larga, quanto para a porta estreita.

O homem entra pela porta larga através do nascimento natural por nascer de uma semente corruptível, a semente de Adão. Somente é possível entrar pela porta estreita quando o homem nasce da Palavra de Deus, a semente incorruptível.

Ou seja, tanto a porta larga quanto a porta estreita são ‘acessadas’ por meio do nascimento. A porta larga é acessada quando os homens vêem ao mundo, ao nascer da semente de Adão (a semente corruptível). Da mesma forma, a porta estreita só é acessada através do novo nascimento, quando o homem nasce da Palavra de Deus (a semente incorruptível) ( 1Pe 1:23 ).

Nicodemos precisava nascer de novo, uma vez que era nascido segundo Adão. Ele era filho da ira e da desobediência, a desobediência de Adão. Por mais que ele procurasse seguir os quesitos da lei, o seu caminho era de perdição, pois a porta que Nicodemos havia entrado era larga e seguia para a perdição.

A humanidade sem Cristo entra pela porta larga, pois são gerados segundo Adão, e seguem por um caminho largo de perdição. São muitos os que seguem o caminho largo, visto que, poucos são os que entram por Cristo.

Nicodemos foi informado que, para entrar pela porta estreita, que é Cristo, era necessário nascer novamente. Era necessário crer em Cristo, o enviado de Deus, para que ele pudesse nascer de novo.

Por meio da fé na mensagem do evangelho o homem nasce da semente incorruptível (que é a palavra de Deus), e tem acesso ao caminho apertado. São ‘poucos’ os que encontram a porta estreita, se comparado aos que entram pela porta larga.

Verifica-se então que a parábola dos ‘Dois Caminhos’ refere-se à necessidade do novo nascimento, pois se apegar a quesitos da lei não produz salvação, como muitos à época de Cristo pensavam.

Se a lei fosse para a salvação, não seria preciso Moisés clamar ao povo, logo após a entrega da lei, a seguinte ordem: “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz” ( Dt 10:16 ).

Observe que o cumprimento da lei real (amor) somente tem valor após a obediência ao mandamento divino, que é crer em Cristo: “Ora, o seu mandamento é este, que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo…” ( 1Jo 3:23 ), ou seja, amar o próximo, somente é válido diante de Deus após o novo nascimento, ou seja ‘…segundo o mandamento que nos ordenou’ (v. 23) “Todavia, se cumprirdes, conforme a Escritura, a lei real: Amarás a teu próximo como a ti mesmo, bem fazeis” ( Tg 2:8 ).

Quando entendemos o que Jesus propôs na parábola dos ‘Dois Caminhos’ compreendemos que em momento algum os ensinamentos de Jesus e Paulo destoam, visto que, ‘entrar pela porta estreita’ é o mesmo que ‘viver em Espírito’, ou seja, ambos decorrem do ‘novo nascimento’. Andar no caminho apertado que conduz à vida é o mesmo que ‘andar em Espírito’, ou seja, andar como filhos da Luz ( Gl 5:25 e Ef 5:8 ).

 

Saiba mais: Duas portas, dois caminhos

Perguntas e Respostas:

1) Quem é a porta estreita? ( Jo 10:9 )
R. Jesus identificou-se como a porta estreita.

2) Quem é a porta larga? ( 1Co 15:45 )
R. Assim como Jesus, a porta estreita, é o último Adão, a porta larga é Adão.

3) Como entrar pela porta larga? ( Jo 1:13 )
R. É simples! Todos os homens ao nascerem neste mundo entraram pela porta larga, e seguem pelo caminho largo que conduz a perdição.

4) Como entrar pela porta estreita? ( 1Jo 3:23 )
R. É preciso nascer de novo, da água (palavra de Deus) e do Espírito (de Deus).

5) É possível entrar pela porta estreita antes de entrar pela porta larga? ( 1Co 15:46 )
R. Não! Primeiro vem a existência o homem carnal, para depois vir o homem espiritual.

6) Com base no que o texto ‘Os dois Caminhos’ expõe, que é a árvore que o Pai não plantou? ( Mt 15:13 )
R. Todos os homens que entraram pelo caminho largo que é nascer de Adão são as plantas que o Pai não plantou.

7) No Novo testamento é preciso nascer de novo. E o que era preciso no Velho testamento? ( Dt 10:16 )
No Antigo Testamento a recomendação era a circuncisão do coração, ou seja, era preciso fazer uma incisão no coração que levaria a morte da velha natureza, algo só possível pela fé em Deus.

8) No Novo Testamento o Novo Nascimento é através da Fé e a circuncisão do coração é pela _Fé___ e alcança tanto homens quanto __as mulheres___.

9) ‘Viver em Espírito’ decorre do __Novo Nascimento____, e ‘andar em Espírito’ equivale a __andar como Filhos da Luz_____ .

10) Basta amar o próximo para ser salvo? ( 1Jo 3:23 )
R. Não! É preciso nascer de novo pela fé em Cristo, o último Adão.

11) O que é preciso para ser salvo? Qual é a obra que o homem deve fazer? ( 1Jo 3:23 )
R. É preciso abandonar os antigos conceitos de como ser salvo (arrepender-se), e crer em Cristo Jesus como diz as Escrituras. Não há obra alguma a ser realizada para ser salvo, pois a obra é de Deus, que cria o novo homem em verdadeira justiça e santidade.

12) Qual o caminho estreito?
R. O caminho estreito é Cristo.

13) Como se dá o acesso ao caminho estreito?
R. Todos que nascem de novo estão trilhando o caminho estreito que conduz a salvação.

14) Qual o caminho largo?
R. É o caminho que a humanidade gerada em Adão trilha.

15) Qual o acesso ao caminho largo?
R. Adão é o acesso ao caminho largo.

16) É correto alegar que uma igreja de costumes liberais é uma porta larga?
R. Não. Ao adotar este posicionamento estaria distorcendo o verdadeiro significado da parábola dos dois caminhos.

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Um inocente também é justo?

A Bíblia afirma que os homens alienaram-se de Deus desde a madre, e que andam errados desde que nascem, e segundo os seus corações falam mentiras ( Sl 58:3 ; Mt 12:34 ). Dentre os filhos dos homens não há ninguém que tenha entendimento e que busque a Deus ( Sl 53:2 ), e nem mesmo as crianças são apontadas como exceção a regra.

 


“Se eu em Sodoma achar cinqüenta justos dentro da cidade, pouparei a todo o lugar por amor deles” ( Gn 18:26 )

O Problema

É comum a ideia de que uma pessoa ‘inocente’ também é ‘justa’, como se estas duas palavras ‘inocente’ e ‘justo’ fossem sinônimas, porém, do ponto de vista bíblico não é correta está correlação entre as duas palavras.

A Bíblia ensina que inocente é o mesmo que justo? Uma criança recém nascida é inocente e justa? Um inocente pode não ser justo? O ímpio pode ser inocente?

Analisemos algumas passagens bíblicas.

 

As Crianças de Sodoma e Gomorra

Observe este diálogo entre Deus e o patriarca Abraão: “Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra? Então disse o SENHOR: Se eu em Sodoma achar cinqüenta justos dentro da cidade, pouparei a todo o lugar por amor deles” ( Gn 18:25- 26 ).

Este diálogo é muito conhecido, porém, é comum não serem feitas as seguintes perguntas: havia inocentes nas cidades de Sodoma e Gomorra? As crianças das cidades de Sodoma e Gomorra não eram inocentes, e por que elas foram destruídas? Elas, apesar de serem inocentes, também eram ímpias, uma vez que foram destruídas?

Consideremos o que Deus disse a Abraão: “Se eu em Sodoma achar cinqüenta justos dentro da cidade, pouparei a todo o lugar por amor deles ( Gn 18:26 ). Deus garantiu a Abraão que, se houvesse dentro dos portões das cidades de Sodoma e Gomorra pelo menos dez justos, não destruiria as cidades! ( Gn 18:32 )

Como bem sabemos, as cidades de Sodoma e Gomorra foram destruídas, pois os três justos que haviam na cidade foram resgatados de lá, ou seja, Deus demonstrou que jamais destrói o justo com o ímpio, e que o juiz de toda a terra efetivamente faz justiça, pois não trata os justos como trata os ímpios ( Gn 19:16 ).

Após observar as garantias que Deus concedeu a Abraão “Não a destruirei por causa dos dez” ( Gn 18:36 ), e o resultado final, a destruição de Sodoma e Gomorra ( Gn 19:25 ), chega-se a seguinte conclusão: diante de Deus, ser ‘inocente’ não é o mesmo que ser ‘justo’, pois, se os inocentes fossem justos, ambas as cidades não seriam subvertidas devido às inúmeras crianças que haviam naquelas cidades.

Neste mesmo diapasão, o que dizer de milhares de crianças ‘inocentes’ que foram mortas no dilúvio, sendo que somente Noé foi declarado justo por Deus ( Gn 6:9 ; Gn 7:1 ; Hb 11:7 ).

Que dizer dos filhos de Acã? Eles também eram ímpios, mesmo sendo inocentes? ( Js 7:24 ). Os primogênitos do Egito não eram inocentes? ( Ex 12:29 ).

Através destes eventos é possível determinar que, ser inocente não e o mesmo que ser justo, e que ser justo não é o mesmo que ser inocente.

 

Os inocentes

Geralmente a Bíblia utiliza a palavra ‘inocente’ para designar uma pessoa ingênua, ou desavisada, como se lê: “Não tomarás o nome do SENHOR teu Deus em vão; porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão” ( Ex 20:7 ), ou seja, após receber o alerta solene “Não tomarás o nome do Senhor em vão”, o homem deixa de ser inocente.

Qualquer que utilizasse o nome de Deus em vão não mais seria considerado inocente, pois foi alertado.

Ora, se qualquer que for avisado pelo Senhor deixa de ser inocente, temos que Adão nunca foi inocente, pois ele foi avisado por Deus do mau, mas resolveu por si mesmo passar, e como conseqüência sofreu a pena “Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:17 ).

Por causa do alerta solene Adão deixou de ser inocente, porém, continuava sendo um homem justo e sem conhecer o bem e o mal. Após desobedecer, Adão deixou de ser justo e passou a ser como Deus, conhecedor do bem e do mal.

O alerta divino acerca das conseqüências em ser participante da árvore do conhecimento do bem e do mal arrancou a inocência de Adão. Adão deixou de ser justo após desobedecer e passou a ser como Deus: conhecedor do bem e do mal, em virtude de ser participante (comer) da árvore do conhecimento do bem e do mal.

Ou seja, a inocência de Adão foi perdida muito antes de ele conhecer o bem e o mal. A inocência não se perdeu após a transgressão, ou seja, antes mesmo da ofensa Adão já não era inocente por causa do alerta solene de Deus.

Salomão alertou: “O avisado vê o mal e esconde-se; mas os simples passam e sofrem a pena” ( Pv 27:12 ). Ou seja, o aviso torna o homem apto para ver o mal, e este, por sua vez, deve se esconder. Em contra partida, o simples, o desavisado, o inocente, passa e sofre a pena! Por quê?

É comum os homens atinarem que o inocente não deva sofrer a pena, mas a Bíblia demonstra que a pena não passa do simples (inocente) “O prudente prevê o mal, e esconde-se; mas os simples passam e acabam pagando” ( Pv 22:3 ).

Mesmo os inocentes são passíveis de punição, mesmo as criancinhas inocentes são tratadas como os adultos, pois ambos são ímpios diante de Deus, e sofrem a pena: destituídos da glória de Deus.

 

Uma Criança pode ser considerada justa?

Após esta abordagem inicial, sobrevêm inúmeras perguntas: como é possível uma criança não ser justa, se ela é inocente? A partir de que idade uma criança é considerada ímpia? Qual a base da justiça de Deus ao destruir crianças e adultos? Etc.

As alegações de Abraão são verdadeiras: “Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra?” ( Gn 18:25 ), pois Deus mesmo diz: “De palavras de falsidade te afastarás, e não matarás o inocente e o justo; porque não justificarei o ímpio” ( Ex 23:7 ).

  • O juiz de toda a terra faz justiça;
  • Ele faz distinção entre justos e ímpios;
  • Deus não mata o justo com o ímpio, e;
  • Deus não declara (justifica) o ímpio como sendo justo.

Quando Deus recomendou ao povo de Israel algumas questões de direito, Ele orientou para que guardassem da falsa acusação, e que a pena capital não devia ser aplicada ao inocente e ao justo “De palavras de falsidade te afastarás, e não matarás o inocente e o justo; porque não justificarei o ímpio” ( Ex 23:7 ).

Este verso estabelece uma diferença significativa entre justo e inocente, pois se ‘justo’ e ‘inocente’ fossem maneiras distintas de fazer referência a uma mesma condição, Deus não estabeleceria a distinção: não matarás o inocente e o justo ( Ex 23:7 ).

Tudo começou com Adão, o primeiro pai da humanidade. Através dele a humanidade lançou mão de uma condição miserável. Por causa da ofensa dele todos os homens pecaram, e em um só evento, todos juntamente se desviaram de Deus ( Sl 14:3 ).

Adão foi criado por Deus santo, justo e bom, ou seja, ele compartilhava da natureza de Deus. Adão existia em comunhão com a Vida e compartilhava da glória de Deus.

Porém, Adão foi avisado por Deus que, no dia em que comesse da árvore do conhecimento do bem e do mal, que estava no meio do jardim, haveria de morrer ( Gn 2:17 ).

Embora santo, justo e bom, Adão nunca foi inocente (ingênuo), pois foi alertado quanto as conseqüências de sua decisão “O avisado vê o mal e esconde-se; mas os simples passam e sofrem a pena” ( Pr 27:12 ).

Adão foi avisado e não se escondeu do mal, ou seja, por ter sido avisado, ele já não era simples, ou seja, inocente.

Há diferença entre ‘inocência’, que é ingenuidade e pureza, e ‘inocência’, que é estado de quem não é culpado, significado que é próprio aos tribunais. Não podemos confundir os significados da designação ‘inocência’, pois é essencial para a interpretação bíblica.

Para o Dr. Scofield houve a dispensação da inocência, ou seja, ‘o homem foi criado em inocência, colocado em um ambiente perfeito (…) e advertido das conseqüências da desobediência’ Bíblia de Scofield com Referências, explicação a Gn 1:28 . Ora, como foi avisado por Deus, Adão já não era mais ‘simples’ (inocente, ingênuo), mas não era culpado, ou melhor, segundo a linguagem utilizada nos tribunais ‘inocente’.

Deus criou o homem do pó da terra ( Gn 2:7 ), colocou-o no Jardim do Éden para lavrá-lo e guardá-lo ( Gn 2:15 ), e foi alertado por Deus quanto a árvore que estava no meio do jardim ( Gn 2:17 ). Adão foi criado puro (inocente, inculpável), santo e bom, e alertado (não mais inocente) quanto ao perigo de se comer da árvore do conhecimento do bem e do mal.

Porém, apesar de avisado, tanto a mulher quanto o homem preferiram dar ouvidos à serpente: “Certamente não morrereis” ( Gn 3:4 ). Não dar ouvidos (credito) a palavra de Deus alienou (extraviou) o homem do seu Criador. Após atender a palavra de Satanás, o homem deixou de compartilhar da vida e da glória que há em Deus.

O Homem morreu conforme a palavra do Senhor ( Gn 2:17 )! A justiça divina não tardou: o homem foi julgado e apenado com a morte “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens, para condenação…” ( Rm 5:18 ).

A morte é alienação de Deus. Por causa da lei santa justa e boa que diz: ‘… certamente morrerás’ ( Gn 2:17 ), o pecado encontrou ocasião na força da lei estabelecida por Deus, e por ela aprisionou o homem ( 1Co 15:56 ). Sem a lei que diz: ‘certamente morrerás’ ( Gn 2:17 ), não existia para o homem a possibilidade de alienação de Deus, ou seja, o pecado estaria morto ( Rm 7:8 ).

 

Os ímpios

Mas, porque os infantes de Sodoma e Gomorra, mesmo sendo inocentes, mentalmente e fisicamente incapazes de fazer o bem ou o mal não foram poupados por Deus? Por que não foram tidos por justos?

É fato: Deus prometeu que se houvessem dez justos nas cidades de Sodoma e Gomorra não a destruiria, porém, apesar de inúmeros inocentes, a cidade foi completamente destruída, o que nos deixa uma mensagem clara: as crianças não são justas, apesar de serem inocentes!

As cidades de Sodoma e Gomorra foram destruídas porque todos os homens foram formados em iniquidade, todos foram concebidos em pecado ( Sl 51:5 ).

O salmista Davi profetizou dizendo que todos os homens se desviaram e que juntamente se fizeram imundos ( 1Cr 25:1 ; Sl 53:3 ). Mas, onde e quando ocorreu o desvio, ou seja, a alienação da humanidade de Deus? Qual a idade que o homem passa a estar alienado de Deus?

A Bíblia afirma que os homens alienaram-se de Deus desde a madre, e que andam errados desde que nascem, e segundo os seus corações falam mentiras ( Sl 58:3 ; Mt 12:34 ).

Dentre os filhos dos homens não há ninguém que tenha entendimento e que busque a Deus ( Sl 53:2 ), e nem mesmo as crianças são apontadas como exceção a regra.

Profeticamente o salmista Davi escreve uma oração ao Senhor que retrata o anseio do Messias: “Ó Senhor, com a tua mão, livra-me dos homens do mundo, cuja porção está nesta vida. Enche-lhes o ventre da tua ira entesourada. Fartem-se delas os seus filhos, e dêem ainda os sobejos aos seus pequeninos” ( Sl 17:14 ).

Os ‘homens deste mundo’ referem-se aos filhos de Adão, e tudo que possuem restringe-se a este mundo. A ira de Deus está reservada aos homens deste mundo, conforme demonstra o apóstolo Paulo “Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça” ( Rm 1:18 ).

A informação acima é de conhecimento geral, porém, o mais interessante é a informação a seguir: “Fartem-se delas os seus filhos, e dêem ainda os sobejos aos seus pequeninos” ( Sl 17:14 ). Os filhos dos homens deste mundo também se fartarão da ira de Deus, e mesmo os seus pequeninos sobejarão da ira entesourada por Deus.

 

Julgamento e Condenação

O apóstolo Paulo traz a lume que a humanidade foi julgada e está sob condenação “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens, para condenação…” ( Rm 5:17 ), o que difere de qualquer sistema religioso, pois todas as religiões dão conta que o juízo de Deus ainda está por vir.

Através de uma única ofensa Adão trouxe o juízo de Deus sobre todos os homens para condenação, ou seja, em Adão todos os homens se desviaram de Deus e juntamente se fizeram imundos ( Sl 53:3 ).

Todos os homens, sem exceção: homens, mulheres, crianças e velhos tornaram-se imundos e sob condenação.

A ofensa de Adão foi não crer na palavra de Deus que lhe preservaria a vida, o que o levou comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, que o tornou como Deus, conhecendo o bem e o mal. A ofensa se deu antes do conhecimento do bem e do mal, portanto, a condenação não depende da consciência, ou da capacidade do homem em realizar o bem e o mal.

Quando a Bíblia afirma que o homem é escravo do pecado, ela demonstra que assim como os filhos de escravos eram escravos, todos os descendentes de Adão também são escravos. Não importa a idade ou condição social, se criança ou velho, uma vez descendente de Adão são escravos do pecado.

A escravidão é uma condição que se estabelecia sobre homens, mulheres, jovens e crianças, da mesma forma que o pecado. Não é porque as criancinhas de Sodoma e Gomorra não possuíam consciência e nem dispunham de condições para realizar bem ou mal, que eram justas. Embora inocentes, simples, sofreram a mesma pena que foi imposta aos adultos, pois já estavam condenados à perdição por serem descendentes de Adão, e, portanto, por serem servos do pecado (ímpios).

Que ação, que entendimento, que compreensão, do que era capaz um infante que o tornava escrava? Bastava simplesmente nascer de pais escravos para ser escravo. Não havia nenhuma ação ou omissão por parte da criança, e neste aspecto, todos os descendentes de Adão são escravos do pecado.

A condição é própria a todos os homens, e não se vincula a questões de méritos. O apóstolo Paulo ao falar da condição do homem em sujeição ao pecado utiliza o vocábulo ‘doulos’, indicando escravidão em oposição à condição do homem livre, que é ‘eleutheria’.

‘Doulos’ é um termo que não possui conotação moral ou ética, e que data de um período histórico anterior a Sócrates, e que, portanto, também já era de conhecimento do apóstolo. O apóstolo Paulo preferiu o vocábulo ‘Doulos’ em lugar de ‘eleutheria’, o que demonstra que a escravidão ao pecado não depende de questões morais ou comportamentais.

‘Doulos’ possui sentido diferente de ‘enkráteia’, que é um conceito socrático, que introduziu o conceito de liberdade ética. Este conceito estabelece a liberdade como possuidora de senhorio sobre a existência orgânica e psíquica do homem, indicando a virtude como sendo ‘conhecimento’ e fundamentando a liberdade do homem no conhecimento e na racionalidade: conhecer o bem implica praticá-lo.

Observe: “Mas graças a Deus que, tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues” ( Rm 6:17 ). O homem é servo do pecado sem qualquer conotação moral, uma vez que o apóstolo dos gentios utiliza o vocábulo ‘doulos’ e despreza o termo ‘eleutheria’.

 

O Caminho Largo

Quando Jesus orientou os seus ouvintes a entrarem por Ele: “Entrai pela porta estreita” ( Mt 7:13 ), ou seja, que nascessem de novo ( Jo 3:3 ), Ele também alertou acerca da porta larga.

Jesus é o último Adão, sendo necessário ao homem nascer de novo para ser participante da natureza divina ( 1Pe 1:2 e 22 -23 ; 1Co 15:45 ).

Mas, como não é primeiro o espiritual, senão o animal (o terreno), pois primeiro os homens carnais são gerados através de Adão, que é a porta larga, por onde todos os homens entram ao nascer neste mundo, para depois entrarem pela porta estreita, segue-se que a porta larga é o primeiro Adão “… porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela” ( MT 7:13 ).

Jesus alertou que a porta é larga e que o caminho que conduz a perdição é espaçoso. Ir à perdição não depende da vontade, da consciência, do conhecimento ou da volitividade do indivíduo. O que conduz à perdição é o caminho largo que o homem se encontra após ter nascido segundo a vontade da carne, do sangue e da vontade do varão ( Jo 1:12 ).

De modo semelhante, é Cristo, o caminho, que conduz o homem a Deus, e, portanto, é necessário nascer de novo para trilhar o novo e vivo caminho.

 

Conclusão

Deus destruiu Sodoma e Gomorra porque não havia dez justos em ambas as cidades, o que nos faz lembrar dos infantes que nelas habitavam.

Como Deus garantiu que não destruiria as cidades se houvesse nela dez justos, e acabou subvertendo Sodoma e Gomorra, conclui-se que as crianças não eram justas, embora fossem inocentes.

Devemos ter em mente também que a palavra inocente no Antigo Testamento tem o sentido de alguém ‘simples’, ‘desavisado’, diferente do sentido que passou a predominar ao longo dos anos, devido aos tribunais.

A ação de Deus no Antigo Testamento reitera a declaração do Salmista Davi, que diz: “E não entres em juízo com o teu servo, porque à tua vista não se achará justo nenhum vivente” ( Sl 143:2 ). O apóstolo Paulo reitera: “Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer” ( Rm 3:10 ), nem os infantes.

Em nenhuma das referências bíblicas excetua as crianças, que embora sejam inocentes, diante de Deus são ímpias.

Esta distinção entre justo e inocente se fez necessária porque muitos cristãos, embora admitam que a humanidade sem Cristo seja réu do inferno por causa da sua natureza pecaminosa, entendem que os infantes não se enquadram neste quesito, pois entendem que os infantes não são lúcidos e não possuem consciência para diferenciar o bem do mal, o que impede que exteriorizem uma ação ou omissão pecaminosa.

Ou seja, contraria totalmente a mensagem de Cristo: os homens são sujeitos do verbo ‘hamartia’ porque são escravos do pecado, e não o contrário: são pecadores por causa de suas ações e omissões.

Qual a condição dos inocentes de Sodoma e Gomorra? “Se eu em Sodoma achar cinqüenta justos dentro da cidade, pouparei a todo o lugar por amor deles” ( Gn 18:26 ). Eram ímpias, pois Abraão argumenta: “Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra?” ( Gn 18:25 ).

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