Deus endurece a quem quer?

Deus não fica impassível diante de um coração contrito (Sl 51:17; Sl 34:18; Is 57:15), de modo que Ele demonstra misericórdia aos que O obedecem. Deus ama os que O amam (Dt 30:20; Pv 8:17), pois, guardar o mandamento, é o amor de Deus.


Deus endurece a quem quer?

“Logo, pois, compadece-se de quem quer e endurece a quem quer.” (Rm 9:18)

Como compreender a conclusão do apóstolo Paulo: “Logo, pois, compadece-se de quem quer e endurece a quem quer”, que teve por base a passagem do Êxodo, em referência à palavra de Deus, anunciada a Faraó? (Rm 9:18)

“Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra.” (Rm 9:17)

Unilateralmente, Deus salva a quem quer e condena a quem quer? O apóstolo Paulo estava tratando da salvação da humanidade, ao concluir que Deus endurece a quem quer?

Esse exercício é necessário por causa de ‘como lemos’ as Escrituras! Certa vez, um doutor da lei questionou Jesus, acerca do direito à vida eterna e Jesus respondeu:

“E ele lhe disse: Que está escrito na lei? Como lês?” (Lc 10:26)

Há uma grande diferença entre o que está escrito e como se interpreta. O doutor da lei sabia o que estava escrito, porém, ao tentar justificar a si mesmo, demonstrou que desconhecia quem era o seu próximo. (Lc 10:29).

Como esse doutor da lei poderia ler, compreender e ensinar acerca da lei, se desconhecia quem era o seu próximo? Como alcançar a justiça da lei, sem saber quem é o próximo?

 

A chave

“Com o benigno te mostrarás benigno; e com o homem sincero te mostrarás sincero; com o puro te mostrarás puro; e com o perverso te mostrarás indomável.” (Sl 18:25)

O rei Davi, no Salmo 18, demonstra que Deus se mostra misericordioso com quem é misericordioso. Davi utilizou o adjetivo [1]חָסִיד (chaciyd), para descrever o homem que se sujeita a Deus como servo, obedecendo aos seus mandamentos e o verbo [2]חסד(chacad), para fazer referência a Deus, que demonstra misericórdia.

O profeta Davi bem sabia a quem Deus demonstra misericórdia, assim como o exposto no Deuteronômio:

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos.” (Dt 5:10)

Semelhantemente, com o homem perfeito,[3] Deus se mostra perfeito[4]. Como é possível ao homem ser perfeito? Ao falar com Abraão, Deus instruiu o patriarca a andar na Sua presença para alcançar tal posição:

“SENDO, pois, Abrão da idade de noventa e nove anos, apareceu o SENHOR a Abrão e disse-lhe: Eu sou o Deus Todo-Poderoso, anda em minha presença e sê perfeito.” (Gn 17:1; Dt 18:13).

Abraão tinha consciência de sua perfeição, pois, ele mesmo declara que andava na presença de Deus. (Gn 24:40).

“Porquanto, Abraão obedeceu à minha voz e guardou o meu mandado, os meus preceitos, os meus estatutos e as minhas leis.” (Gn 26:5)

Basta sujeitar-se a Deus, obedecendo ao que Ele já declarou na Sua palavra, que o homem é perfeito: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o SENHOR pede de ti, senão que pratiques a justiça, ames a benignidade e andes, humildemente, com o teu Deus?” (Mq 6:8)

“Sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso.” (Lc 6:36);

“Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus.” (Mt 5:48);

“Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; vem e segue-me.” (Mt 19:21)

Tiago declara que todos os cristãos tropeçam em muitas coisas, mas aquele que não tropeça na palavra da verdade é perfeito. (Tg 3:2)

Deus se evidencia justo, verdadeiro, sem mistura, ou seja, perfeito, para o homem que anda em sua presença, ou seja, que é perfeito. Com relação ao puro, Deus, também, se evidencia puro[5], ou seja, justo, bondoso.

No entanto, Deus se revela impossível[6], indomável, no sentido de não demonstrar a sua misericórdia, benignidade, ao homem que não se sujeita a Ele (perverso)[7].

Essa abordagem do Salmista é semelhante ao exposto pelo apóstolo Paulo:

“Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também, com ele viveremos; Se sofrermos, também, com ele reinaremos; se o negarmos, também, ele nos negará; Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo. (2 Tm 2:11)

Deus não fica impassível diante de um coração contrito (Sl 51:17; Sl 34:18; Is 57:15), de modo que Ele demonstra misericórdia aos que O obedecem. Deus ama os que O amam (Dt 30:20; Pv 8:17), pois, guardar o mandamento, é o amor de Deus.

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados.” (1 Jo 5:3).

O apóstolo João, ao dar essa declaração, interpreta Deuteronômio 30, verso 11:

“Porque este mandamento, que hoje te ordeno, não te é difícil de mais e, tampouco, está longe de ti.” (Dt 30:11)

Dependendo de como o homem se posiciona diante do mandamento de Deus, há promessa de vida ou, de expectação de morte:

“Vês aqui, hoje te tenho proposto a vida e o bem, a morte e o mal; Porquanto, te ordeno hoje que ames ao SENHOR teu Deus, que andes nos seus caminhos, e que guardes os seus mandamentos, os seus estatutos e os seus juízos, para que vivas, e te multipliques e o SENHOR teu Deus te abençoe na terra, a qual entras a possuir. Porém, se o teu coração se desviar e não quiseres dar ouvidos e fores seduzido para te inclinares a outros deuses e os servires, Então, eu vos declaro hoje que, certamente, perecereis; não prolongareis os dias na terra a que vais, passando o Jordão, para que, entrando nela, a possuas.” (Dt 30:15-18)

A palavra do evangelho tem essa mesma característica:

“E em nada vos espanteis dos que resistem, o que para eles, na verdade, é indício de perdição, mas, para vós, de salvação e isto, de Deus.” (Fl 1:28)

Isso porque aprouve a Deus salvar os que creem em Sua palavra, pois, Ele demonstra misericórdia aos que O amam, ou seja, lhe obedecem, no entanto, Deus, também, se revela zeloso, inflexível, ante os que não aquiescem à sua palavra:

“Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia, até mil gerações, aos que o amam e guardam os seus mandamentos. E retribui no rosto a qualquer dos que o odeiam, fazendo-o perecer; não será tardio ao que o odeia; em seu rosto, lhe pagará.” (Dt 7:9-10);

“Não te encurvarás a elas, nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até à terceira e à quarta geração daqueles que me odeiam. E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos.” (Dt 5:9-10);

“Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não conheceu a Deus, pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes, pela loucura da pregação.” (1 Co 1:21).

Deus é zeloso, ao retribuir a iniquidade sobre o ímpio e fiel, ao demonstrar a sua salvação aos que O amam.

Por causa dessa verdade exarada na lei, o Salmista, poeticamente, utilizando-se de paralelismos e figuras, faz uma descrição profética de como Deus age para com os homens: Ele é fiel, benigno e justo com os que lhe obedecem, porém, zeloso, ou seja, indomável, inflexível com aqueles que rejeitam a sua palavra.

“Com o benigno, te mostrarás benigno; e com o homem sincero, te mostrarás sincero; Com o puro, te mostrarás puro; e com o perverso, te mostrarás indomável.” (Sl 18:25).

Daí a máxima:

“Porém, ele disse: Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti e proclamarei o nome do SENHOR diante de ti; e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer.” (Êx 33:19).

De quem Deus tem misericórdia e se compadece? Do benigno, do sincero, do puro!

Qualquer pedido do homem, semelhante ao feito por Moisés, que tente mudar a fidelidade (amor) e o zelo (retribuição) de Deus, será inócuo (Dt32:32), pois Ele terá misericórdia de quem lhe apraz, ou seja, dos que O amam e se compadece de quem lhe apraz, dos que guardam o seu mandamento!

 

Endurece a quem quer

Todos os versos que analisamos, até agora, demonstram a natureza de Deus e como Ele age para com os homens: misericórdia aos que O amam e retribuição aos que O odeiam.

É, através da análise desses textos, que o apóstolo Paulo chega à conclusão de que Deus se compadece de quem quer, logo, após, fazer alusão a Faraó:

“Logo, pois, compadece-se de quem quer e endurece a quem quer.” (Rm 9:18)

Após afirmar que não há injustiça em Deus, apontando para Esaú e Jacó, o apóstolo cita o que foi dito a Moisés: compadecer-me-ei de quem me compadecer (Rm 9:13), porque Deus se compadeceu de Jacó, que havia adquirido o direito de primogenitura e rejeitou a Esaú como primogênito, visto ter desprezado o direito de primogenitura, vendendo-o, por um prato de lentilhas. (Gn 25:34)

De nada adiantou Esaú correr atrás da caça e querer a bênção, rogando a José, seu pai, se a benção estava atrelada à primogenitura e ao primogênito. Deus exerce a sua misericórdia (Rm 9:16). Em Esaú e Jacó evidencia-se que o propósito de Deus, segundo a eleição, fica firme, não por causa das obras, mas pelo que chama.

Deus chamou o primogênito para o seu propósito e a bênção estava reservada para o primogênito. Embora as obras de Esaú, ao sair à caça de um animal cevado, tinha o viés de alcançar a benção, o direito à benção já havia sido decidido quando ele desprezou a primogenitura por um prato de lentilhas.

“Mas, ao filho da desprezada, reconhecerá por primogênito, dando-lhe dobrada porção de tudo quanto tiver; porquanto, aquele é o princípio da sua força, o direito da primogenitura é dele.” (Dt 21:17).

Torna-se evidente o motivo pelo qual a eleição de Deus repousou sobre Jacó: o direto de primogenitura, porém, muitos alegam que não há como saber, como Deus elege alguém para o seu propósito. Esses alegam que o propósito de Deus se dá pela sua soberania, ou que a mente humana é pequena demais para compreendê-lo.

“Ora, todos sabem que o amor e a ira de Deus não se assemelham às paixões humanas; porém, a questão com que ora nos defrontamos não requer que perguntemos como Deus ama ou odeia, mas, por que Deus ama ou odeia (…) O amor e a ira de Deus não estão sujeitos a alterações, conforme ocorre conosco. Em Deus, ambos são eternos e imutáveis. Foram fixados muito antes que o “livre-arbítrio” fosse possível. Vemos nisso, que nem o amor nem a ira de Deus esperam pela reação humana, mas antecedem à mesma. […] O que poderia ter feito Deus amar a Jacó ou odiar a Esaú? Certamente, não por qualquer coisa que eles tivessem feito, pois a atitude de Deus para com eles foi estabelecida e declarada, antes mesmo de terem nascido e não havia muita atuação do “livre-arbítrio” naquela ocasião!” Martinho Lutero, Nascido Escravo, pág. 81.

A Bíblia apresenta resposta às duas perguntas: a) como Deus ama e odeia, e; b) por que Deus ama e odeia. O amor de Deus se evidencia em conceder o que é de direito ao homem e o seu ódio, em negar o que não é de direito ao homem. No caso de Jacó, Deus o amou, porque ele buscou para si o direito de primogenitura e odiou a Esaú, ou seja, não lhe concedeu o que não lhe era de direito.

Quando Deus tirou os filhos de Israel do Egito, não o fez por que eram melhores e mais justos que os povos que habitavam a terra prometida (Dt 9:4-6), antes, porque Deus os amava, ou seja, para guardar o juramento que fizera a Abraão, Isaque e Jacó.

“O SENHOR não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos, em número, do que eles; Mas, porque o SENHOR vos amava, e para guardar o juramento que fizera a vossos pais, o SENHOR vos tirou com mão forte e vos resgatou da casa da servidão, da mão de Faraó, rei do Egito. Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos. E retribui no rosto qualquer dos que o odeiam, fazendo-o perecer; não será tardio ao que o odeia; em seu rosto lho pagará.” (Dt 7:7-10)

O termo ‘amor’ denota ‘honra’, não sentimento, de modo que Deus ama o que O honra e odeia aos que O desprezam.

“Portanto, diz o SENHOR Deus de Israel: Na verdade, tinha falado eu que a tua casa e a casa de teu pai andariam diante de mim, perpetuamente; porém, agora, diz o SENHOR: Longe de mim tal coisa, porque, aos que me honram honrarei, porém, aos que me desprezam, serão desprezados. (1 Sm 2:30)

No caso de Esaú e de Jacó, pelo amor de Deus, já estava estabelecido para quem seria a bênção, antes mesmo que as crianças tivessem nascido ou, feito bem ou, mal: a bênção era para o primogênito. Esaú, de livre-vontade, desprezou o direito e Jacó, de livre vontade, buscou o direito para si, de modo que o amor de Deus não está atrelado ao arbítrio do homem, mas à sua palavra, que estabeleceu o direito do primogênito.

Deus se compadeceu de Jacó, porque ele buscou para si o direto de primogênito e Deus, sendo zeloso, não deu o que não era de direito a Esaú, rejeitando-o, por não ser o primogênito. A bênção da primogenitura não se dá por misericórdia, mas, por eleição, pois, na eleição, o propósito de Deus fica firme, não por causa das obras, mas pelo que chama.

O apóstolo cita as Escrituras, especificamente, com relação ao que foi dito a Faraó:

“Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra.” (Rm 9:17).

Ora, faraó[8] foi levantado para Deus mostrar o Seu poder e o seu Nome ser anunciado sobre a face da terra. O propósito de Deus era anunciar o seu nome e declarar o seu poder e escolheu um dos reis do Egito para isso. Como o propósito de Deus é firme e imutável, não importava o posicionamento de Faraó: Deus anunciaria o seu nome e declararia o seu poder.

Deus não elegeu uma pessoa especifica, mas, um faraó, ou seja, o escolhido poderia ser qualquer rei do Egito. É significativo o fato de a Bíblia não trazer o nome do faraó à época do êxodo, o que demonstra que Deus não elegeu uma pessoa, mas, um rei.

Isso não significa que Deus havia rejeitado faraó, ao levantá-lo. Pelo contrário, se faraó se inclinasse em terra e reconhecesse que Deus é Deus, deixando o povo ir, o poder de Deus seria revelado e anunciado o seu nome em toda a terra. Do mesmo modo, como o propósito é firme, quando faraó não aquiesceu à ordem de Deus, Deus mostrou o seu poder e anunciou o seu nome sobre a face da terra, arrancando o povo com mão forte.

O que o apóstolo Paulo evidencia, ao citar a Faraó, não é a pessoa do rei do Egito, mas, a eleição de Deus, que é firme, por causa do propósito de Deus. Faraó, deixando ou não o povo ir, o propósito de Deus se efetivaria. Observe que o que está em análise não é o coração de Faraó, mas, o fato de Deus se compadecer de quem lhe apraz.

A longanimidade de Deus vem expressa em sua palavra, de modo que falou a faraó por dez vezes, sendo Deus longânime, como o foi nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca. A mesma água do mar vermelho que se abriu para os filhos de Israel, significando salvação, fechou-se sobre Faraó, significando, perdição, assim como nos dias de Noé, em que o mundo inteiro pereceu pela água e somente oito almas se salvaram pela água.

“…quando a longanimidade de Deus esperava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca; na qual poucas (isto é, oito) almas se salvaram pela água; Que, também, como uma verdadeira figura, agora vos salva, o batismo, não do despojamento da imundícia da carne, mas, da indagação de uma boa consciência para com Deus, pela ressurreição de Jesus Cristo.” (1 Pe 3:20-21).

Quando o apóstolo Paulo conclui, com base na palavra dita a faraó, que Deus se compadece de quem quer, evidencia que Deus exerce misericórdia àqueles que Lhe obedecem. O verso trata de como Deus se porta, não do homem.

“Logo, pois, Ele se compadece de quem quer…” (Rm 9:18)

Deus se compadece dos que O obedecem, ou seja, dos que O amam e para Deus exercer a sua misericórdia, Ele não faz acepção de pessoas.

Mas, com relação ao propósito de Deus, opera a eleição, pois o propósito de Deus permanece firme, independentemente, das pessoas envolvidas. Não importava se Esaú ou, Jacó, seriam abençoados, mas, sim, o propósito de Deus, segundo a eleição, que estabeleceu a primogenitura, como critério para conceder a bênção, tendo em vista a linhagem do descendente prometido a Abraão.

Semelhantemente, não importava quem era o faraó à época ou, se ele iria obedecer ou, não, o propósito pelo qual o faraó foi levantado, foi levado a efeito: Deus anunciou o seu nome ao mundo e mostrou o poder de Deus.

Isso significa que Deus ‘endureceu’[9] a faraó?

“Logo, pois Ele se compadece de quem quer e endurece a quem quer. (Rm 9:18).

Definitivamente não! Deus não agiu sobre a vontade, influenciando a decisão de faraó, de modo a torná-lo recalcitrante. O verso não aponta uma pessoa que era o faraó, à época, e nem para os homens, mas, sim, para Deus, descrevendo-O como zeloso (indomável, impossível), quando o homem é perverso, desobediente.

Do mesmo modo que Deus é compassivo com quem quer, Deus é indomável com quem quer:

“ἄρα οὖνὃνθέλειἐλεεῖὃνδὲθέλεισκληρύνει” Westcott/HortwithDiacritics.

“Assim, pois (de) quem (ele) quer tem misericórdia, (a) quem [2] mas[1] quer endurece”. Novo Testamento Interlinear Grego-Português (SBB).

Os termos gregos ἐλεεῖ e σκληρύνει estão na terceira pessoa do singular, do tempo presente, modo indicativo e voz ativa. Os verbos na frase não contém outro sujeito além de Deus. É Deus que tem misericórdia de quem quer, e é Ele que é inflexível, ou seja, zeloso, com quem quer.

Através da língua grega, o apóstolo Paulo reproduz uma premissa imortalizada no Livro do Êxodo, através de um paralelismo, que, em essência, é a repetição de uma ideia, recurso essencial às poesias hebraicas. Fazendo uma releitura do exposto no Êxodo a Moisés, Deus evidencia a verdade da sua misericórdia, através de um paralelismo sinômico:

“Porém, ele disse: Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti e proclamarei o nome do SENHOR diante de ti; e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer.” (Êx 33:19)

Se Deus tem misericórdia de quem lhe apraz, segue-se que Ele não se compadece de quem não lhe apraz, ou seja, Deus se endurece. Deus é fiel, ao ter misericórdia dos que O amam e guardam o seu mandamento (Dt 7:9-10) e Deus é zeloso, inflexível, se endurece, com aqueles que O odeiam (Dt 5:9-10). Essa ideia vem sendo desenvolvida nos versos 15 e 16, do capítulo 9 de Romanos e conclui-se no verso 18:

“Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece (…) Logo, pois, compadece-se de quem quer e endurece quem quer.” (Rm 9:15-16 e 18).

Em relação a Esaú e Jacó, Deus amou Jacó e odiou a Esaú. O termo ‘amor’ foi empregado no sentido de compadecer e o termo ‘ódio’, no sentido de endurecer, ou seja, com o perverso Deus se mostra indomável, duro, inflexível, o que se deu com Faraó.

“Eu vos tenho amado, diz o SENHOR. Mas vós dizeis: Em que nos tem amado? Não era Esaú irmão de Jacó? disse o SENHOR; todavia amei a Jacó e odiei a Esaú; fiz dos seus montes uma desolação e dei a sua herança aos chacais do deserto.” (Ml 1:2-3)

Devemos considerar que Faraó se mostrou perverso ante a palavra de Deus, ou seja, endureceu[10] o seu coração. A Bíblia demonstra que “o coração de Faraó se endureceu.” (Êx.7:13-14 e Êx 8:19) e que Faraó “continuou de coração endurecido” (Êx 8:15). Quando Faraó se propunha a deixar o povo ir, Deus desviava a praga, mas, quando ele se endurecia, novamente, Deus enviava nova praga.

“E Faraó chamou a Moisés e a Arão e disse: Rogai ao SENHOR, que tire as rãs de mim e do meu povo; depois, deixarei ir o povo, para que sacrifiquem ao SENHOR (…) Vendo, porém, Faraó que havia alívio, continuou de coração endurecido e não os ouviu, como o Senhor tinha dito.” (Êx 8:8 e 15)

O termo hebraico קשה (qashah), traduzido por ‘endurecer’, em Êxodo 7, verso 3, não diz de uma ação sobrenatural de Deus, influenciando as decisões de Faraó, antes, a palavra que foi dita a Faraó: ‘Deixa ir o meu povo, para que me celebre uma festa no deserto” (Êx 5:1), fez de Faraó um obstinado.

Ao dar ordem a Faraó, por intermédio de um mensageiro: ‘Deixa ir o meu povo…’, Deus endureceu o coração de Faraó e como Faraó não aquiesceu, Deus se mostrou zeloso, indomável, impossível.

Antes da palavra de Deus, o coração de Faraó não tinha disposição alguma, em relação a deixar ou, não, o povo de Israel ir a qualquer lugar que seja, mas quando ouviu que era necessário deixar ir o povo que pertencia a Deus, Faraó se endureceu pela proposta.

Onde está o espírito de Deus, ai há liberdade! (2 Co 3:17) Para o propósito que Faraó foi levantado, não era necessário Deus endurecer o coração de Faraó, pois o propósito de Deus seria levado a efeito se Faraó obedecesse, ou não. Desse modo, se Deus ‘endureceu’ o coração de Faraó para ser glorificado, de certo seria melhor ‘amolecer’ o coração de Faraó, pois assim também seria glorificado.

Mas, Deus não faz nenhuma ou, nem outra coisa, antes, dá liberdade ao homem e, por isso, Deus é longânime e espera que Israel se converta, quando o véu será tirado (2 Co 3:16). Deus apresenta ao homem a sua palavra e Deus agirá conforme a resposta que o homem der a ela.

Muitos, por não compreenderem a eleição de faraó, para explicá-la, se focam na ideia de que faraó não é uma pessoa boa e nem temente a Deus; que a sociedade egípcia era comandada por faraós que se achavam deuses, que escravizaram os filhos de Israel, que foram responsáveis por inúmeras mortes de criancinhas, etc.

“A minha resposta é que, à parte da graça da eleição, Deus trata com os homens em consonância com a natureza deles. Visto que a natureza deles é maligna e pervertida, quando Deus os impulsiona para que entrem em ação, seus atos são malignos e pervertidos.” Martinho Lutero, Nascido Escravo, pág. 73.

“Deus não cria uma nova maldade no coração dos homens. Antes, Ele se utiliza do mal que já se encontra no coração deles, visando aos seus próprios, bons e sábios desígnios.” Martinho Lutero, Nascido Escravo, pág. 74.

Deus não trata o homem em consonância com a índole ou moral, antes trata com os homens, através do estabelecido na sua palavra. A palavra de Deus é a medida e a ferramenta de Deus, de modo que Ele zela da sua palavra para cumpri-la. (Jr 1:12) É um equívoco achar que Deus utiliza o mal que há no coração do homem, para levar a efeito o Seu propósito.

Ora, a eleição de Deus é firme e não tem em vista se a pessoa fez bem ou mal, mas tem em vista a glória de Deus. O mesmo critério utilizado na eleição de Esaú e Jacó, quando Raquel concebeu de Isaque, sendo que as criancinhas nem tinham nascido e nem feito bem ou, mal, é o mesmo critério estabelecido sobre faraó, portanto, não tem em vista se ele era bom ou mal, ou se fez algum bem ou muitos males.

Pelo fato de desconhecerem que Deus tem misericórdia daqueles que O obedecem, ao lerem em Romanos 9, verso 18, que Deus “tem misericórdia de quem ele quer e endurece a quem ele quer”, muitos argumentam que faraó não tinha desculpa e era responsável por seu próprio pecado, quando Deus o ‘endureceu’.

Pelo fato de não compreenderem que Deus se apraz em exercer misericórdia aos que O amam, e que Deus disse que ‘tem misericórdia de quem quer’, para evidenciarem a Moisés o que já havia sido apregoado, anteriormente (Êx 33:19), compare-se com (Êx 20:6), em que não conseguem aceitar o que foi dito, acerca de faraó.

“Por que Deus não altera a vontade perversa de pessoas como Faraó? Essa questão toca na vontade secreta de Deus, cujos caminhos são inescrutáveis. (Rm 11:33) Se alguém, que é orientado por sua razão humana, fica ofendido por causa disso, que assim seja. As queixas nada mudarão e os eleitos de Deus permanecerão inabaláveis. Poderíamos, também, perguntar por que Deus deixou que Adão caísse! Não devemos tentar estabelecer regras para Deus. Aquilo que Deus faz, não é correto porque o aprovamos, mas porque Deus assim o desejou”. Idem.

Por que Deus deixou que Adão caísse? Resposta: – Porque Deus o orientou e lhe deu plena liberdade! Foi uma escolha deliberada de Adão, por ser livre. E, por que Deus não altera a vontade (perversa ou não) das pessoas? Por que os dons de Deus são irrevogáveis! Como Deus lida com a liberdade do homem não é segredo, ou, algo que as suas criaturas não possam compreender.

Com relação a Deus, o homem sempre é livre, sendo servo de Deus ou, não! Isso não significa que o homem não esteja livre de um senhor, pois, os que não estão sujeitos a Deus, estão sujeitos ao pecado.

A abordagem do capítulo 9 de Romanos, não tem em vista a salvação ou, a condenação do homem, mas, sim, a demonstração de que palavra de Deus não havia falhado (Rm 9:6). Agostinho, Lutero, Calvino, e muitos outros, com base em Romanos 9, debatem, acerca da salvação e da condenação, porém, o apóstolo Paulo estava demonstrando que, apesar de haverem muitas pessoas pertencentes a Israel, de fato elas não eram israelitas.

O fato de serem descendentes de Abraão não significava que eram filhos de Abraão (Rm 9:7), pois, em Isaque a descendência de Abraão AINDA seria chamada. Mas, se os filhos de Isaque fossem descendência de Abraão, não seria necessária a palavra de Deus a Rebeca: ‘o maior servirá o menor’, o que significa que Jacó e Esaú ainda não eram a descendência de Abraão, antes, que em Jacó seria chamada a descendência de Abraão (Rm9:12).

“Porém, Deus disse a Abraão: Não te pareça mal aos teus olhos acerca do moço e acerca da tua serva; em tudo o que Sara te diz, ouve a sua voz; porque, em Isaque será chamada a tua descendência.” (Gn21:12)

Há uma grande diferença, entre interpretar que Isaque era a descendência de Abraão e, assim, todos os seus filhos seriam bem-aventurados, entre interpretar que, em Isaque a descendência de Abraão seria chamada.

“Nem por serem descendência de Abraão, são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência.” (Rm 9:7)

O apóstolo Paulo não estava dizendo que Deus, unilateralmente, salva quem quer e condena quem quer, por ser soberano, antes, que a palavra de Deus, com relação à descendência prometida a Abraão, não havia falhado. Deus prometeu um descendente a Abraão, que viria por Isaque, o Cristo, e cumpriu a sua palavra a Abraão, quando disse: ‘Por esse tempo virei e Sara terá um filho’. (Rm 9:9)

Mas, de Isaque nasceram dois filhos: Esaú e Jacó e, de ambos, não seria chamada a descendência de Abraão, pelo que foi dito a Rebeca: ‘o maior servirá o menor’, pois havia dois povos no ventre de Rebeca. Neste caso, Deus elegeu a casa de Jacó e rejeitou a casa de Esaú, para chamar a descendência prometida a Abraão.

E qual o critério que Deus utilizou para escolher entre Esaú e Jacó? O direito de primogenitura, estabelecido conforme a sua soberania. Conclui-se que não há injustiça da parte de Deus (Rm 9:14) e que a palavra de Deus não havia falhado (Rm 9:6).

Há injustiça da parte de Deus, por ter amado a Jacó e aborrecido Esaú? De modo nenhum! Primeiro, Deus deu o que era de direito a Jacó, e, segundo, Deus manteve a sua palavra dada a Abraão, acerca do descendente!

Em momento algum, no capítulo 9 da carta aos Romanos, o apóstolo Paulo tratou de salvação ou, de perdição, antes destacou: a) como veio ao mundo o Salvador e; b) como Deus cumpriu a palavra anunciada a Abraão, acerca da descendência, que seria chamada em Isaque e que passou por Jacó.

A palavra de Deus não falhou para com Israel, visto que, no tempo presente, há um remanescente, mas segundo a eleição da graça:

“Assim, pois, também, agora, neste tempo, ficou um remanescente, segundo a eleição da graça” (Rm 11:5)

“Também, Isaías clama acerca de Israel: Ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, o remanescente é que será salvo. Porque ele completará a obra e abreviá-la-á em justiça; porque o Senhor fará breve a obra sobre a terra.” (Rm 9:27 -28).

Deus salva o homem por intermédio da mensagem do evangelho (loucura da pregação, fé), e não através da eleição, predestinação ou presciência. Os que creem (crentes) na mensagem do evangelho (loucura da pregação) são salvos, pois o evangelho é o poder de Deus para salvação dos que creem (Rm 1:16).

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1] “02623  חסיד  (chaciyd) procedente de 2616; DITAT – 698b; adj 1) fiel, bondoso, piedoso, santo 1a) bondoso 1b) piedoso, devoto 1c) os fiéis (substantivo)”, Dicionário Bíblico Strong.

[2] 02616″ חסד (chacaduma) raiz primitiva; DITAT – 698, 699; v1) ser bom, ser gentil 2a) (Hitpael), mostrar bondade para 2) ser reprovado, ser envergonhado 1a) (Piel) ser envergonhado, ser reprovado”, Dicionário Bíblico Strong.

[3] תמים 08549 (tamiym) procedente de 8552; DITAT – 2522d; adj. 1) completo, total, inteiro, são 1a) completo, total, inteiro 1b) total, são, saudável 1c) completo, integral (referindo-se ao tempo) 1d) são, saudável, sem defeito, inocente, íntegro fig. Figuradamente 1e) que está completa ou inteiramente de acordo com a verdade e os fatos (adj./subst. neutro)”, Dicionário Bíblico Strong.

[4]תמם 08552 (tamam) uma raiz primitiva; DITAT – 2522; v. 1) ser completo, estar terminado, acabar 1a) (Qal), 1a1) estar terminado, estar completo, 1a1a) completamente, totalmente, inteiramente (como auxiliar de outro verbo), 1a2) estar terminado, acabar, cessar, 1a3) estar completo (referindo-se a número), 1a4) ser consumido, estar exausto, estar esgotado, 1a5) estar terminado, ser consumido, ser destruído, 1a6) ser íntegro, ser idôneo, ser sem defeito, ser justo (eticamente), 1a7) completar, terminar 1a8) ser atravessado, completamente, 1b) (Nifal) ser consumido, 1c) (Hifil)”, Dicionário Bíblico Strong.

[5] ברר 01305 (barar) uma raiz primitiva; DITAT – 288; v 1) purificar, selecionar, polir, escolher, depurar, limpar ou, tornar brilhante, testar ou, provar, 1a) (Qal), 1a1) depurar, purificar, 1a2) escolher, selecionar, 1a3) limpar, deixar brilhante, polir, 1a4) testar, provar, 1b) (Nifal) purifi/car-se, 1c) (Piel) purificar, 1d) (Hifil), 1d1) purificar, 1d2) polir flechas, 1e) (Hitpael), 1e1) purificar-se, 1e2) mostrar-se puro, justo, bondoso”, Dicionário Bíblico Strong.

[6] פתל 06617 (pathal) uma raiz primitiva; DITAT – 1857; v. 1) torcer, 1a) (Nifal), 1a1) ser torcido, 1a2) lutar, 1b) (Hitpael), ser torcido”, Dicionário Bíblico Strong.

[7] עקש 06141 (iqqesh) procedente de 6140; DITAT – 1684a; adj. 1) torcido, deformado, torto, perverso, pervertido”, Dicionário Bíblico Strong.

[8]Faraó é a designação (título) que se atribuí aos reis (com estatuto de deuses) no Antigo Egito, porém, à época o povo os chamava por nesu (“rei”) ou neb (“senhor”). Faraó decorre da tradução grega da Bíblia, que deriva da expressão egípcia per-aá, “a grande casa”, que a tradição entende como sendo referência ao palácio real, à sede do poder, mas a expressão pode fazer referência à linhagem dos faraós.

[9] “4645 σκληρυνωs (kleruno) de 4642; TDNT – 5:1030, 816; v 1) tornar duro, endurecer 2) metáf. 2a) tornar obstinado, teimoso, 2b) ser endurecido, 2c) tornar-se obstinado ou, teimoso”, Dicionário Bíblico Strong.

[10] “07185 קשה (qashah uma raiz primitiva; DITAT – 2085; v. 1) ser duro, ser severo, ser feroz, ser cruel 1a) (Qal), 1a1) ser duro, ser difícil, 1a2) ser rude, ser severo, 1b) (Nifal), 1b1) ser maltratado 1b2) ser oprimido 1c) (Piel), ter grandes dores de parto (referindo-se a mulheres), 1d) (Hifil), 1d1) tornar difícil, criar dificuldade, 1d2) tornar rigoroso, tornar fatigante, 1d3) endurecer, tornar obstinado, tornar teimoso, 1d3a) referindo-se a obstinação (fig.), 1d4) demonstrar teimosia”, Dicionário Bíblico Strong.

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Terei misericórdia de quem me aprouver!

Perdoar o pecado do povo já era um pedido descabido por parte de Moisés, quanto mais a condição que estabeleceu: “…se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito” (Êx 32:32). Ao fazer essa oração, Moisés desconsiderou completamente o que foi dito por Deus aos filhos de Israel, quando estavam acampados ao pé do monte Sinai.


“Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e terei compaixão de quem me aprouver ter compaixão. Assim, pois, não depende de quem quer, nem do que corre, mas de Deus, que usa de misericórdia” (Romanos 9:15-16)

 

Para compreender a palavra de Deus: “… terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer” (Êx 33:19), quando revelou a Sua glória a Moisés, temos de voltar alguns dias no tempo, no dia em que Deus anunciou a Lei aos filhos de Israel.

Três meses, após saírem do Egito, os filhos de Israel chegaram ao deserto do Sinai e acamparam diante do monte (Êx 19:1). No terceiro dia, após o povo se santificar, Moisés subiu ao cume do monte, quando Deus lhe disse, abertamente:

“Não te encurvarás a elas, nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” (Êx 20:6).

Deus deixou muito claro ao povo de Israel que é Deus zeloso, ou seja, que vela sobre a sua palavra para cumpri-la (Jr 1:12). Isto posto, Deus dá a sua palavra de que não justifica o pecado daqueles que O odeiam, mas, que faz misericórdia aos que O amam, ou seja, aos que guardam os seus mandamentos.

Tomando por base a palavra de Deus dita a Moisés, no capítulo 20, verso 6, pergunta-se: – de quem Deus tem misericórdia? Deus tem misericórdia, única e exclusivamente, daqueles que O amam!

Essa verdade é inconspurcável e enfatizada repetidas vezes:

“Mas a misericórdia do SENHOR é desde a eternidade e até a eternidade sobre aqueles que o temem e a sua justiça sobre os filhos dos filhos; Sobre aqueles que guardam a sua aliança e sobre os que se lembram dos seus mandamentos, para os cumprir” (Sl 103:17-18);

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos” (Dt 5:10);

“Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia, até mil gerações, aos que o amam e guardam os seus mandamentos” (Dt 7:9);

“E orei ao SENHOR meu Deus, confessei e disse: Ah! Senhor! Deus grande e tremendo, que guardas a aliança e a misericórdia para com os que te amam e guardam os teus mandamentos” (Dn 9:4).

Deus deixou estabelecido nas Escrituras que somente demonstra misericórdia aos que obedecem ao Seu mandamento, pois a misericórdia (amor) de Deus é que guardemos os seus mandamentos.

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” (1 Jo 5:3).

Após Moisés anunciar estas palavras ao ouvido dos filhos de Israel e eles votarem a uma só voz que obedeceriam tudo o que o Senhor ordenou (Êx 24:7), bastou Moisés se ausentar por quarenta dias e quarenta noites para os filhos de Israel transgredirem o mandamento, adorando um bezerro de ouro (Êx 32:1).

“Então disse o SENHOR a Moisés: Vai, desce; porque o teu povo, que fizeste subir do Egito, se tem corrompido e depressa se tem desviado do caminho que eu lhe tinha ordenado; eles fizeram para si um bezerro de fundição e perante ele se inclinaram, ofereceram-lhe sacrifícios e disseram: Este é o teu deus, ó Israel, que te tirou da terra do Egito” (Êx 32:7-8).

No dia seguinte, após destruir o bezerro de ouro, Moisés subiu ao Senhor para rogar pelo povo e disse:

“Ora, este povo cometeu grande pecado fazendo para si deuses de ouro. Agora, pois, perdoa o seu pecado, se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito” (Êx 32:31-32).

Ora, segundo o que Deus já havia estabelecido: a) Deus visita a iniquidade dos que O odeiam, e; b) faz misericórdia aos que O amam, portanto, por esses dois motivos, a oração de Moisés, para perdoar o povo, não tinha como prosperar.

Em primeiro lugar Deus é Deus zeloso e a sua palavra não volta vazia. Em segundo lugar, Deus é justo, portanto, Ele não pode justificar o ímpio (Êx 23:7; Êx 34:7). Em terceiro lugar, a alma que pecar, essa mesma morrerá (Êx 32:33).

Perdoar o pecado do povo já era um pedido descabido por parte de Moisés, quanto mais a condição que estabeleceu: “…se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito” (Êx 32:32). Ao fazer essa oração, Moisés desconsiderou completamente o que foi dito por Deus aos filhos de Israel, quando estavam acampados ao pé do monte Sinai.

Como os filhos de Israel pecaram contra o Senhor odiando-O, Deus determinou a Moisés que conduzisse o povo como o ordenado, porém, ficou estabelecido que, no dia da visitação, Deus haveria de dar aos filhos de Israel a paga pela ofensa no deserto (Êx 32:34-35).

Em seguida, Moisés roga a Deus que ande com os filhos de Israel (Êx 33:15), ao que Deus aquiesceu (Êx 33:17). Moisés roga a Deus que mostre a Sua gloria, Deus atende ao pedido e avisa:

“Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti e proclamarei o nome do SENHOR diante de ti; terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer” (Êx 33:19).

Embora Deus tenha concedido a Moisés ver a Sua glória, Moisés precisava compreender que Deus teria misericórdia de quem Lhe aprouvesse! Para Moisés não se esquecer da palavra que havia sido anunciada ao povo, quando acampado ao pé do monte Sinai, evidenciar a Sua vontade e evitar equívocos, Deus utiliza um espécie de trocadilho.

De quem Deus tem misericórdia? Daqueles que O amam! Deus tem misericórdia dos que O obedecem! Aprouve a Deus ter misericórdia dos que O amam! Quando é dito: ‘Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia’, Deus está trazendo à memoria a sua vontade expressa: aprouve-me ter misericórdia dos que me amam!

De quem aprouve a Deus ter compaixão? Dos que O amam, ou seja, daqueles que Lhe obedecem! Lembrando que, nas Escrituras, os termos amor e ódio, dependendo do contexto, estão respectivamente para obediência e desobediência, dedicação e desprezo.

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar a um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Mt 6:24).

Com base na ideia de que Deus tem misericórdia de quem ele quer, e de que Ele tem misericórdia dos que O amam, o apóstolo Paulo citou essa passagem, para enfatizar que Deus cumpriu a sua palavra anunciada a Abraão, mesmo que nem todos os pertencentes à nação de Israel sejam, de fato, israelitas (Rm 9:6-8).

“Não que a palavra de Deus haja faltado, porque nem todos os que são de Israel são israelitas; Nem por serem descendência de Abraão, são todos filhos” (Rm 9:6-7).

O apóstolo destaca, desde o verso 7, que a palavra de Deus é firme e que, portanto, deve ser interpretada corretamente.

Por que é necessária a interpretação? Porque, não basta ser descendente da carne de Abraão, para ser considerado filho de Abraão, pois, a palavra de Deus indicava que, em Isaque, seria chamada a descendência de Abraão, não, propriamente, em Abraão.

O apóstolo cita as Escrituras: ‘mas: em Isaque será chamada a tua descendência’ e, em seguida, dá a interpretação: ‘Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas, os filhos da promessa é que são contados como descendência’. Deus não afirmou que Isaque seria a descendência de Abraão, mas, que, em Isaque, a descendência seria chamada!

A palavra da promessa era: ‘Por este tempo virei e Sara terá um filho’, no entanto, essa não era a única palavra, pois, também, foi dito a Rebeca: ‘O maior servirá o menor’.  E por que Deus disse a Rebeca que o maior serviria o menor? Resposta: – Porque Deus amou a Jacó e odiou a Esaú!

Dai a pergunta: há injustiça da parte de Deus, por que Ele disse que amou a Jacó e que odiou a Esaú? Ou, porque o maior servirá o menor? Ou, porque nem todos os que são de Israel são israelitas? Ou, porque, mesmo sendo descendência de Abraão, não eram todos seus filhos?

Para demonstrar que não há injustiça em Deus, nas perguntas formuladas acima (Rm 9:14), antes, que a palavra de Deus não falhou, o apóstolo Paulo cita a palavra de Deus a Moisés, demonstrando que Deus é Deus zeloso:

“Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” (Rm 9:15).

Deus tem misericórdia, especificamente, dos que O amam, pois Ele teve misericórdia de Abraão, porque cumpriu todos os Seus mandamentos e, por isso, foi chamado de amigo de Deus.

“Porquanto, Abraão obedeceu à minha voz e guardou o meu mandado, os meus preceitos, os meus estatutos e as minhas leis” (Gn 26:5; Is 41:8).

Deus elegeu Abraão para ordenar a sua descendência (casa), a fim de que os seus descendentes guardem os mandamentos do Senhor e, em contra partida, o Senhor faria vir sobre Abraão, o que acerca dele havia falado, demonstrando, assim, que Deus tem misericórdia dos que obedecem à sua palavra.

“E disse o SENHOR: Ocultarei eu a Abraão o que faço, visto que Abraão, certamente, virá a ser uma grande e poderosa nação, e nele serão benditas todas as nações da terra? Porque eu o tenho conhecido e sei que ele há de ordenar a seus filhos e à sua casa depois dele, para que guardem o caminho do SENHOR, para agir com justiça e juízo; para que o SENHOR faça vir sobre Abraão o que acerca dele tem falado” (Gn 18:17-19).

Se a promessa de Deus, dada a Abraão, tivesse se cumprido na palavra: “Por este tempo virei e Sara terá um filho”, seria desnecessária a palavra de Deus anunciada a Rebeca: “O maior servirá o menor”, que concebeu de Isaque, também, pai dos judeus (Rm 9:10).

O apóstolo Paulo também demonstra que a perspicácia de Rebeca em obedecer a Deus é semelhante à de Abraão e, por isso, foi dada a palavra a Rebeca: “O maior servirá ao menor”.

Ora, quando foi dito que o maior servirá ao menor, Deus não estava escolhendo entre indivíduos: Esaú e Jacó, mas, sim, entre dois povos, o que contraria o pensamento calvinista e arminianista da eleição e da predestinação. Deus não estava escolhendo Jacó para a salvação, mas, determinando que o Cristo viria da sua descendência.

“E o SENHOR lhe disse: Duas nações há no teu ventre e dois povos se dividirão das tuas entranhas e um povo será mais forte do que o outro povo, e o maior servirá ao menor (Gn 25:23).

Pela palavra que ouviu, Rebeca não ficou passiva, mas, abordou o seu filho Jacó e o orientou a enganar seu próprio pai e, diante do medo que Jacó teve de uma possível maldição, ela se interpôs: “Meu filho, sobre mim seja a tua maldição; somente obedece à minha voz, vá e traze-os” (Gn 27:13) e, assim, garantiu que a bênção prometida a Abraão ficasse na casa de Jacó e não na casa de Esaú (Ml 1:1-3).

Haveria injustiça em Deus, ao amar a Jacó e,  em aborrecer a Esaú? Não! Pelo fato de Esaú ter desprezado o direito de primogenitura, ele não alcançou misericórdia, pois a misericórdia é para os que obedecem. Diferentemente, de Esaú, Jacó alcançou misericórdia, porque buscou para si o direito de primogenitura. Esaú não achou lugar de arrependimento porque só existe um primogênito, direito que ele vendeu a Jacó.

“E ninguém seja devasso ou, profano, como Esaú, que, por uma refeição, vendeu o seu direito de primogenitura. Porque bem sabeis que, querendo ele, ainda, depois de herdar a bênção, foi rejeitado, porque não achou lugar de arrependimento, ainda que, com lágrimas o buscasse” (Hb 12:16-17).

Deus não teve misericórdia de Esaú porque ele foi devasso, vez que profanou o estabelecido por Deus, quanto ao direito de primogenitura. Jacó, por sua vez, amou o estabelecido por Deus no direito de primogenitura e buscou o direito para si, comprando-o. E, por isso, foi recompensado pela sua diligência!

O apóstolo Paulo disse que desejava ser separado de Cristo, por amor aos seus irmãos, mas, o desejo do apóstolo não muda a palavra de Deus, de que Ele tem misericórdia dos que O amam (Rm 9:3). Esaú desejou herdar a bênção e, com lágrimas a buscou, mas, não achou lugar de arrependimento. Moisés queria que Deus exercesse misericórdia sobre os filhos de Israel, mas, o exercício da misericórdia de Deus, não dependia de Moises querer ou correr, mas de Deus, que usa de misericórdia para os que O amam, ou, seja, aos que guardam o seu mandamento.

“Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e terei compaixão de quem me aprouver ter compaixão. Assim, pois, não depende de quem quer, nem do que corre, mas de Deus, que usa de misericórdia” (Rm 9:15-16).

Da mesma forma que Deus tem misericórdia de quem Ele aprouver, aprouve a Deus salvar os crentes, pela loucura da pregação:

“Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve, a Deus, salvar os crentes, pela loucura da pregação (1 Co 1:21).

Não aprouve a Deus salvar a quem Ele quisesse, pelo fato de ser soberano, antes, soberanamente, aprouve a Ele salvar os crentes, por meio do evangelho. O evangelho é a graça de Deus, segundo a sua misericórdia, e para o homem ser salvo, é necessário amar a Deus, crendo em Cristo.

Ao crer em Cristo, o homem ama a Deus, portanto, Deus terá misericórdia deste, pois, ele obedeceu ao mandamento de Deus:

“Pois o mesmo Pai vos ama, visto como vós me amastes e crestes que saí de Deus” (Jo 16:27).

A misericórdia de Deus é manifesta no seu mandamento, possibilitando ao homem obedecer e ser salvo. Obediência ao mandamento resulta na perfeita obra de Deus.

“Jesus respondeu e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” (Jo 6:29);

“Sê tu a minha habitação forte, à qual possa recorrer continuamente. Deste um mandamento que me salva, pois tu és a minha rocha e a minha fortaleza” (Sl 71:3).

Quando Deus disse a Faraó: “Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra” (Rm 9:18; Êx 9:16). Assim, Deus já tinha demonstrado a sua misericórdia, ao ordenar: – “Deixa o meu povo ir”, mas, Faraó se recusou a obedecer.

Através da palavra do Senhor dada a Faraó, conclui-se que Ele compadece de quem quer, ou seja, dos que obedecem à sua palavra. Logo, Ele endurece, ou, resiste a quem quer, ou seja, aos soberbos, aos desobedientes, etc.

“Logo, pois, compadece-se de quem quer (quem lhe apraz) e endurece a quem quer (quem não lhe apraz)” (Rm 9:18);

“Antes, ele dá maior graça. Portanto diz: Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes” (Tg 4:6; 1 Pe 5:5).

A palavra de Deus, para alguns, é salvação e para outros, perdição:

“E, em nada vos espanteis dos que resistem, o que para eles, na verdade, é indício de perdição, mas, para vós, de salvação, e isto de Deus” (Fl 1:28).

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto

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Três passos do verdadeiro arrependimento

A mudança de concepção anunciada só ocorre quando o homem tem contato com a verdade do evangelho. Quando o homem ouve a mensagem do evangelho e abandona sua antiga concepção acerca de como servir a Deus, ocorre o arrependimento. O arrependimento verdadeiro se dá quando o homem deixa de lado as suas crenças ao receber a luz do evangelho e crê que Jesus é o Filho de Deus, que veio em carne, morreu, ressurgiu e está assentado à destra de Deus nas alturas.


Analisando a definição de arrependimento de João Calvino

 

Introdução

João Calvino dá ao arrependimento os seguintes termos:

“… a penitência poderia ser, assim, definida: é a verdadeira conversão de nossa vida a Deus, a qual procede de um sincero e sério temor de Deus, que consiste na mortificação da nossa carne e do homem velho e na vivificação do Espírito”. [1] Calvino, João, 1509-1564, A Instituição da Religião Cristã – tomo 2, volume 2, tradutora Elaine C. Sartorelli, São Paulo – Editora UNESP, 2009, pág. 72.

Faz-se necessário analisar a definição de João Calvino, assim, como, de qualquer outro que se apresente como mestre, devido ao alerta do apóstolo João, que recomendou julgar as palavras dos homens, se é de Deus, ou não, visto a quantidade de falsos profetas que se levantam no mundo: “AMADOS, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo” (1 Jo 4:1).

Analisaremos a definição de arrependimento, dada por Calvino, através de outra exposição dele, que consta no texto ‘Três Passos do Verdadeiro Arrependimento’, que pode ser visto no link: <http://www.ligacalvinista.com/2011/11/tres-passos-do-verdadeiro.html>, visto que, em nossos dias, há muitos que se dizem calvinistas, mas o que divulgam, às vezes, não reflete a ideia registrada por Calvino.

Penitência, arrependimento ou mudança de concepção?

Começaremos a análise da definição de arrependimento construída por João Calvino, primeiro analisando o termo grego traduzido por arrependimento.

Se analisarmos o termo grego ‘metanoia’, que comumente é traduzido por arrependimento, teremos o seguinte significado: mudança de pensamento, pensar diferente, reavaliar uma ideia, mudar de concepção, mudança de mentalidade, mudança de visão, mudança de opinião, mudança de propósito, etc.

Mas, quando o termo ‘metanoia’ foi traduzido para a vulgata latina, em lugar de mudança de pensamento, traduziram-na em latim por ‘paenitentia’. Onde deveria constar: ‘Mudem de concepção’, passou-se a ler: “Façam penitência” – ‘Pœnitentiam agite: appropinquavit enim regnum cælorum’.

Ora, verifica-se que o termo ‘paenitentia’ foi utilizado para refletir a concepção católica de que a salvação era obtida através de atos de caridade, doações, indulgências, etc.

Com o advento da reforma protestante, houve um interesse de se voltar à ideia bíblica, e alguns tradutores ingleses passaram a utilizar os verbos correspondentes ‘repent’ e o substantivo ‘repentance’, em lugar do ‘paenitentia’.

A tradução portuguesa da Bíblia de João Ferreira de Almeida, sob influência, passou a traduzir o termo ‘metanoia’ por ‘arrependimento’, porém, a concepção bíblica de arrependimento continua sendo conduzida ao bel sabor da religiosidade e deixa de refletir o ideário das Escrituras.

O que significa arrepender-se? Arrepender-se é lamento por erros cometidos? É tristeza profunda por causa do pecado? Um sentimento de remorso? Adotar uma religião? Deixar certas condutas? Adotar novas práticas?

Na exposição de Calvino, que data do século XV, a palavra que ele utilizou para tratar do tema arrependimento, era ‘penitência’, termo utilizado na vulgata latina para traduzir o termo grego ‘metanóia’, que, estritamente, significava mudar de pensamento, pensar diferente, reavaliar uma postura, mudar de ideia, o que implica em mudança de mentalidade, de visão, de opinião, de propósito.

Vê-se na exposição de João Calvino que ele conhecia o real significado do vocábulo grego ‘metanoia’, pois deixou registrado:

“O termo arrependimento foi, para os hebreus, derivado da palavra que significa expressamente conversão ou retorno; para os gregos, ele veio do vocábulo que quer dizer mudança da mente e de desígnio. À etimologia de um e outro desses dois termos não se enquadra mal o próprio fato, cuja síntese é que, emigrando de nós mesmos, nos voltemos para Deus; e, deposta a mente antiga, nos revistamos de uma nova.”  Idem, pág 74.

Agora, devemos analisar se ele compreendeu, de fato, o arrependimento bíblico ou, se reproduziu aspectos da ‘penitencia’, como se ‘penitencia’ fosse ‘arrependimento’.

“Por isso, usaram esses termos, indiscriminadamente, com o mesmo sentido: converter-se ou volver-se para o Senhor, arrepender-se e fazer penitência” Idem, pág. 74.

Jesus é o motivo da mudança de pensamento

Quando lemos: “Arrependi-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 3:2), o que João Batista proclamava era uma mudança de concepção. A mudança de concepção ocorreu em função da chegada do Cristo, não em função dos erros e das condutas dos ouvintes de João Batista.

Abandonar erros, atitudes, comportamentos, pensamentos, sentimentos, emoções, etc., não é o arrependimento proposto por João Batista. João Batista propõe mudança radical de concepção, à vista do reino dos céus, em meio aos homens, não em função da percepção de erros.

João Batista foi o precursor anunciado pelo profeta Isaias: “Porque este é o anunciado pelo profeta Isaías, que disse: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, Endireitai as suas veredas” (Mt 3:3), e a mensagem de João tinha o fito de preparar o coração do povo para a chegada do Messias.

Ora, a mudança de mentalidade não demandava remorso ou tristeza, por causa das ações de ordem moral e comportamental dos filhos de Israel. A mudança anunciada por João Batista, era em função da presença de Cristo, em meio aos homens.

A mudança de concepção anunciada só ocorre quando o homem tem contato com a verdade do evangelho. Quando o homem ouve a mensagem do evangelho e abandona sua antiga concepção acerca de como servir a Deus, ocorre o arrependimento. O arrependimento verdadeiro se dá quando o homem deixa de lado as suas crenças ao receber a luz do evangelho e crê que Jesus é o Filho de Deus, que veio em carne, morreu, ressurgiu e está assentado à destra de Deus nas alturas.

Se o homem mudar a sua concepção e abraçar qualquer outro evangelho que não for conforme o anunciado por Cristo e os apóstolos, não ocorreu o arrependimento de fato, pois o arrependimento para a salvação, é crer, especificamente, na doutrina de Cristo.

Ao ver que os escribas e fariseus vinham ao batismo e permaneciam de posse de suas convicções, acerca de como serem salvos (os escribas e fariseus após o batismo continuavam dizendo que tinham por pai Abraão), João Batista alertou, dizendo: “Não presumais de vós mesmos, dizendo: temos por pai a Abraão” (Mt 3:9).

O arrependimento não estava no batismo, mas na mudança de entendimento, diante da mensagem anunciada. A partir do momento em que os escribas e fariseus se dispuseram ao batismo, deviam deixar de considerar que eram salvos por serem descendentes da carne e do sangue de Abraão, vez que a salvação de Deus foi manifesta em Cristo.

Observe o que o profeta Ezequiel, ao tratar do tema, diz:

“Pois que reconsidera, e se converte de todas as suas transgressões que cometeu; certamente viverá, não morrerá. Contudo, diz a casa de Israel: O caminho do Senhor não é direito. Porventura não são direitos os meus caminhos, ó casa de Israel? E não são tortuosos os vossos caminhos? Portanto, eu vos julgarei, cada um conforme os seus caminhos, ó casa de Israel, diz o Senhor DEUS. Tornai-vos e convertei-vos de todas as vossas transgressões, e a iniquidade não vos servirá de tropeço. Lançai de vós todas as vossas transgressões com que transgredistes, e fazei-vos um coração novo e um espírito novo; pois, por que razão morreríeis, ó casa de Israel? Porque não tenho prazer na morte do que morre, diz o Senhor DEUS; convertei-vos, pois, e vivei” (Ez 18:28-32).

O arrependimento tem inicio quando o homem ouve a mensagem de Deus e reconsidera o seu caminho. Após considerar a mensagem divina e mudar de concepção, dá-se o arrependimento (metanóia). O que é necessário ao desenvolvimento da vida cristã, após a mudança de concepção, não pode ser mais chamado de arrependimento, pois a mudança de mente (pensamento/concepção) encerra em si o arrependimento.

O povo de Israel não obedecia à palavra de Deus, antes, seguia preceitos de homens: “Mas, em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens” (Mt 15:9). Por desobedecer a palavra de Deus, o povo de Israel estava dando a entender que os caminhos de Deus não são direitos e que os preceitos de homem que ele seguia, era o caminho direito.

O rei Saul encaixa-se nesse perfil, pois, quando lhe foi dito por Deus: “Eu me recordei do que fez Amaleque a Israel; como se lhe opôs no caminho, quando subia do Egito. Vai, pois, agora, e fere a Amaleque; destrói, totalmente, a tudo o que tiver e não lhe perdoes; porém, matarás desde o homem, até à mulher, desde os meninos, até aos de peito, desde os bois até às ovelhas e desde os camelos, até aos jumentos”. (1 Sm 15:2-3). Esse era o caminho direito.

Mas, quando Saul resolveu poupar a vida de Agague e o melhor do interdito, implicitamente, estava dizendo que o caminho do Senhor não era direito, mas que a sua própria decisão, era o caminho direito: “Antes, dei ouvidos à voz do SENHOR e caminhei no caminho pelo qual o SENHOR me enviou; e trouxe a Agague, rei de Amaleque, e os amalequitas destruí totalmente; Mas, o povo tomou do despojo, ovelhas e vacas, o melhor do interdito, para oferecer ao SENHOR, seu Deus, em Gilgal” (1 Sm 15:20-21).

Saul reconsiderou a sua atitude rebelde, displicente, idólatra e feiticeira? Não! Quem reconsiderou a atitude de Saul foi o profeta Samuel, que mandou trazer Agage e o despedaçou (2 Sm 15:33). Se Saul reconsiderasse a sua omissão, de pronto se arremeteria contra Agague, mas não o fez, pois visava somente o prestigio do povo (1 Sm 15:25).

Diferente de Saul, o rei Davi, quando viu que Uzias foi fulminado, de pronto reconsiderou a sua postura à luz das Escrituras. Qual foi o seu erro: “E temeu Davi ao SENHOR naquele dia; e disse: Como virá a mim a arca do SENHOR?” (2 Sm 6:9). Deus estava mais preocupado que se obedecesse à sua palavra, que, com a arca, em si.  Deus não estava em busca de sacrifícios, mas de servos que obedecessem aos seus mandamentos.

O equívoco, com relação ao arrependimento, é entendê-lo como produto de afeto, medo ou cuidado para com Deus, apegando-se à ideia de que Deus necessita ser agradado, segundo a perspectiva e sentimentos humanos: “Porque lhes dou testemunho de que têm zelo de Deus, mas não com entendimento” (Rm 10:2).

Pensamentos como: – ‘Há, se eu cuidar da arca de Deus, Ele se agradará de mim’!‘Há, se eu construir um templo para Deus, Ele se agradará de mim’! Grande engano, pois, Deus se agrada, única e exclusivamente, daquele que obedece à sua palavra.

Quando Moisés disse: “Ouve, Israel, o SENHOR nosso Deus é o único SENHOR. Amarás, pois, o SENHOR teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças e estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração” (Dt 6:4-6), o que está em voga não é um sentimento de afeto, devoção, medo ou cuidado, antes, que se ouça e se obedeça à palavra de Deus (Dt 6:5; 10:12; 30:2, 6 e 10).

Quem ama é o que obedece, ou seja, aquele que cumpre o mandamento, este é o que ama (Jo 14:21-24).

O que Deus pede ao homem é repetido, por diversas vezes, com as seguintes expressões: temor, andar, servir, guardar, obedecer, circuncidar, etc.: “Agora, pois, ó Israel, que é que o SENHOR teu Deus pede de ti, senão que temas ao SENHOR teu Deus, que andes em todos os seus caminhos, o ames e sirvas ao SENHOR teu Deus, com todo o teu coração e com toda a tua alma, que guardes os mandamentos do SENHOR e os seus estatutos, que hoje te ordeno, para o teu bem?” (Dt 30:16-17).

Quando o homem se converte ao Senhor, obedecendo ao seu mandamento, temos como consequência a “circuncisão do coração” (Dt 30:6). Quando o homem ouve a palavra de Deus e dá ouvido à sua voz, temos a obediência, que é o mesmo que conversão ou arrependimento, pois, antes de obedecer, teve de abandonar os seus conceitos (Dt 30:2 e 8).

O arrependimento é ordem mandamental: “Arrependei-vos!”. A mudança de concepção fica a cargo do homem, pois deve ouvir a verdade, considerar o seu caminho e mudar de concepção, crendo em Cristo.

Como consequência do amor, da obediência que o homem tem para com Deus, Deus circuncidará o coração do homem, para que viva (Dt 30:6). Se o objetivo da circuncisão é vida, isso significa que os filhos de Israel, assim como o restante da humanidade, estavam mortos em delitos e pecados, sendo necessário que Deus circuncidasse o coração deles, assim como um pai, quando circuncida o prepúcio de um filho, para que fosse participante da natureza divina, designados filhos e em comunhão com Deus.

Daí o clamor aos filhos de Jacó: “Inclinai os vossos ouvidos e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá” (Is 55:3). Deus sempre instou contra o povo de Israel de que estavam mortos e de que necessitavam da palavra de Deus para terem vida: “E te humilhou e te deixou ter fome e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” (Dt 8:3).

Para que o homem tenha vida, é necessário obedecer ao seu mandamento, pois Deus retirará (circuncisão) o coração de pedra herdado de Adão (velha natureza) e dará um novo coração de carne e um novo espírito (novo nascimento).

Quando o profeta Ezequiel ordena aos seus ouvintes para que façam para si um novo coração (Ez 18:31), significa que deveriam obedecer a palavra de Deus, pois é só Deus quem tem poder para dar um novo coração e um novo espírito: “E dar-vos-ei um coração novo, porei dentro de vós um espírito novo e tirarei da vossa carne o coração de pedra e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis” (Ez 36:26-27).

O profeta Jeremias também faz alusão ao arrependimento, quando diz: “SE voltares, ó Israel, diz o SENHOR, volta para mim” (Jr 4:1). Como voltar-se para o Senhor? Obedecendo-O! Quando o homem obedece à palavra do Senhor, está declarando que Deus é verdadeiro, como se lê: “E jurarás: Vive o SENHOR na verdade, no juízo e na justiça; nele se bendirão as nações e nele se gloriarão” (Jr 4:2).

Davi obedece à palavra de Deus quando diz: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova em mim um espírito reto” (Sl 51:10). Como? Não é este o mandamento de Deus: “E há de ser que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” (Jl 2:32).

Quando Davi clama a Deus por um novo coração e por um novo espírito, está reconhecendo a sua condição herdada de Adão: pecador (Sl 51:5), e que somente quando Deus cria (bara) um novo coração e dá um novo espírito é que passa a existir verdade no seu intimo.

No Novo Testamento, o mandamento de Deus é crer em Cristo, o filho de Deus. Se alguém possuía qualquer concepção de como ser salvo, a exemplo dos judeus, que pensavam que, para serem salvos, era necessário serem descendentes da carne de Abraão, deveria mudar o seu conceito (arrepender-se) e obedecer ao mandamento de Deus.

A mensagem de João Batista era: “Mudem a concepção de vocês, porque é chegado o reino dos céus!”; “Quem ensinou vocês a se livrarem da ira futura, pois não basta dizer temos por pai a Abraão”. A palavra que define a mudança de concepção: – “Creio em Cristo para ser salvo”, em substituição à ideia; : – “Tenho por pai a Abraão”, é o termo grego ‘metanoia’.

Cristo é a fé que se manifestou na plenitude dos tempos, para obediência de todos os povos: “PAULO, servo de Jesus Cristo, chamado para apóstolo, separado para o evangelho de Deus. O qual, antes prometeu, pelos seus profetas, nas santas escrituras, Acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi, segundo a carne, Declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor, Pelo qual recebemos a graça e o apostolado, para a obediência da fé entre todas as gentes pelo seu nome, Entre as quais sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo” (Rm 1:1-6; Gl 3:23).

Através da obediência da fé (evangelho), Deus opera naqueles que creem na circuncisão de Cristo, ou seja, o despojar de toda a carne, conforme o prometido nos profetas: “No qual também estais circuncidados com a circuncisão, não feita por mão, no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo; Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes, pela fé, no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos” (Cl 2:11-12).

Quando o homem crê, é crucificado com Cristo, morre e é sepultado. Entretanto, ressurge com Cristo, assim como Cristo ressurgiu dentre os mortos, pelo poder de Deus. Dessa forma, o crente passa a viver em verdadeira justiça e santidade, pois a impiedade que havia em seu coração, a que foi herdada de Adão, foi desarraigada (Sl 58:3).

 

O Fruto do arrependimento

O arrependido deixa de confessar o que professava, quando no pecado, como faziam os escribas e fariseus que, após serem batizados no batismo de João, continuavam dizendo que eram descendência de Abraão, ou que nunca foram escravos de ninguém (Mt 3:9; Jo 8:33).

O arrependido produz um novo fruto, o fruto dos lábios que confessam a Cristo (Hb 13:15). Um judeu arrependido produz uma nova confissão, um fruto diferente do fruto antigo que invocava Abraão por pai. O fruto digno de arrependimento é admitir que Cristo Jesus é o Verbo de Deus, que veio em carne como luz do mundo, viveu sem pecado, morreu por causa do pecado da humanidade e ressurgiu pelo poder de Deus, conforme as Escrituras.

O fruto digno de arrependimento é fruto dos lábios e não de ações. As ações e a aparência não são o ‘fruto’, que se identifica se a arvore é boa ou má, antes, o fruto é o dos lábios. Diz de um único fruto, pois há uma só fé, um só evangelho.

O fruto que a boca do arrependido produz demonstra que o seu coração não é dobre, maligno, mentiroso. Se o homem é gerado de novo em Cristo Jesus, nascido da semente incorruptível, que é o evangelho, o que sai da boca do arrependido será uma confissão segundo a mensagem do evangelho, pois a boca fala do que o coração está cheio.

Por exemplo: se alguém disser que é filho de Deus porque creu em Cristo, conforme a Escritura, confessa a verdade, não é maligno, mentiroso e dobre. Mas, se um judeu confessar que, por ser descendente de Abraão, é filho de Deus, é mentiroso, maligno e dobre (1 Jo 4:2).

É em função da falta do fruto dos lábios entre os judeus que o escritos aos Hebreus dizem que, sem fé, é impossível agradar a Deus, ou seja, sem a fé que se manifestou, que é Cristo, é impossível se aproximar ou agradar a Deus (Hb 11:6; Gl 3:23).

O fruto digno de mudança de concepção (fruto dos lábios), que o vinhateiro aguardou, por três anos, para que a figueira produzisse, mas não produziu, era crerem em Cristo e confessarem com a boca, que Ele é o Senhor: “E disse ao vinhateiro: Eis que há três anos venho procurar fruto nesta figueira, mas não o acho. Corta-a; por que ocupa ainda a terra inutilmente?” (Lc 13:7).

Nesses termos, Calvino tem razão, ao dizer que o arrependimento não precede a fé, antes, o arrependimento decorre da fé, porém, há um equivoco na ideia de que o homem precisa ‘aplicar-se retamente ao arrependimento’[2].

Quando entendemos ‘fé’, como a mensagem do evangelho, pela qual devemos batalhar (Jd 3), mas não como ‘acreditar’, verifica-se que a fé foi manifesta em Cristo e, ao crer em Cristo, o homem arrependeu-se, plenamente.

Um judeu que mudou a sua concepção, ou seja, que deixou de acreditar que era salvo por ser descendente da carne de Abraão, se arrependeu plenamente. Calvino faz  confusão entre arrependimento e penitência, pois a penitencia é doutrina católica e demanda do penitente uma vida de exercício de penitências. Percebe-se que a ideia de aplicar-se ao arrependimento decorre da ideia da penitencia, não da mudança de pensamento, que é próprio à ‘metanoia’.

Para Calvino, o arrependimento está mais para mudança comportamental e de caráter (se afaste dos erros da vida e tome a via reta), do que para a mudança de concepção frente à mensagem do evangelho. Para Ele, o arrependimento dá ‘frutos’ e não ‘fruto’, pois este diz da confissão de que Jesus é o Cristo, mas aquele, de ações comportamentais.

Observe:

“Quando até mesmo a História Sagrada diz que arrepender-se é ir após Deus, a saber, quando os homens, que não tinham a Deus em mínima conta, se esbaldavam em seus deleites, agora começam a obedecer-lhe à Palavra e se põem à disposição de seu Chefe para avançar, aonde quer que ele os haja de chamar. E João Batista e Paulo usaram da expressão produzir frutos dignos de arrependimento [Lc 3.8; At 26.20; Rm 6.4] em lugar de levar uma vida que demonstre e comprove, em todas as ações, arrependimento desta natureza”. Idem, pág. 74.

Enquanto Calvino entendeu que produzir ‘frutos’ dignos de arrependimento é levar uma vida que demonstre e comprove o arrependimento, o fruto do arrependimento proposto por João Batista e Cristo tinha em foco a confissão dos escribas e fariseus,  não as suas ações cotidianas.

Aos olhos dos homens, os escribas e fariseus pareciam justos, portanto, quem olhasse para eles tinha a impressão de que se arrependeram. Porém, quem olha para o fruto, o fruto dos lábios, não se deixa enganar pela aparência ou, pelo comportamento.

O fruto digno de arrependimento não provém dos homens, mas de Deus, que os criou:

“Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz, para o que está longe; e para o que está perto, diz o SENHOR, e eu o sararei” (Is 57:19).

A salvação em Cristo não é mudança de hábitos cotidianos ou, de comportamentos de cunho moral, pois se assim fosse, os fariseus teriam sido aprovados por Cristo, visto que aos olhos dos homens eles pareciam justos. Devotos à vida monástica ou clausural, também, estariam aptos a entrarem no reino dos céus, por adotarem um estilo de vida de resignação que os diferencia dos demais homens: “Assim também vós, exteriormente, pareceis justos aos homens, mas, interiormente, estais cheios de hipocrisia e de iniquidade” (Mt 23:28).

Não se deve conceber o arrependimento como prática cotidiana ou, como conduta, que o cristão deve se amoldar e seguir, metodicamente, pelo resto da sua existência neste mundo. O arrependimento não é prática diária, como ditava a concepção católica, ao traduzir o termo grego ‘metanoia’, pelo latim ‘paenitentia’, que é prática diária que se concretiza em rezas, indulgências e penitências.

Quando critica os anabatistas, João Calvino sinaliza que a sua concepção de arrependimento, também, dizia de uma prática que deveria ser adotada e desenvolvida durante toda a existência do crente, posicionamento este, semelhante ao dos católicos, que, com relação ao arrependimento, cunharam o termo ‘paenitentia’.

Muitos equívocos de Calvino decorrem da má leitura de uma passagem bíblica, mesmo em tratados que ele repreende outros pela má leitura. Por exemplo: ao citar o que foi registrado pelo médico Amado: “testificando tanto a judeus como a gregos o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo” [At 20.21; cf. At 10.42][3], Calvino conclui que a fé é distinta do arrependimento e recrimina aqueles que entendem que arrependimento e fé são a mesma coisa.

Se entendermos a fé (substantivo) como mensagem do evangelho, claro está que se distingue do arrependimento, pois, este é consequência daquele. Porém, se entendermos ‘fé’ como ‘crer’ em Cristo, certo é que crer resulta da fé, portanto, crer e arrepender-se são a mesma coisa.

Calvino não está errado ao distinguir ‘arrependimento’ de ‘fé’, porém, equivoca-se  quanto à leitura do versículo, pois o apóstolo Paulo estava evidenciando o conteúdo do que era anunciado aos judeus e aos gentios. Enquanto aos judeus era anunciado o arrependimento para com Deus, aos gentios era anunciada somente a fé em Cristo Jesus.

Os judeus, por acreditarem que eram salvos, por serem descendentes de Abraão, precisavam mudar de concepção para crer em Cristo: “Arrependei-vos (mudem de concepção), pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados…” (At 3:19); “E dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos (mudem de concepção) e crede no evangelho” (Mc 1:15). Já, os gentios, precisavam ter contato com o evangelho, para exercer fé em Cristo. Quando Filipe pregou ao eunuco, nada disse acerca do arrependimento, pois através das Escrituras expôs quem era o Cristo (At 8:35). O apóstolo Pedro, na casa de Cornélio, não anunciou o arrependimento, antes expôs quem era o Cristo (At 10:42).

O apóstolo Paulo, por sua vez, ao discursar no Areópago, após observar o quanto eram idólatras, enfatizou que Deus não leva em conta o tempo da ignorância e, que, portanto, agora era anunciado o arrependimento (At 17:30). Ora, os atenienses precisavam abandonar as suas crenças e crerem em Cristo, por isso concitou-os ao arrependimento.

 

A definição de arrependimento de João Calvino

João Calvino, ao esclarecer a sua definição de arrependimento, apresentou três pontos e no, segundo, declara que o verdadeiro arrependimento decorre de um ‘real temor’ de Deus e por ‘real temor’, ele entendia um ‘despertamento’, que seria uma inclinação ao arrependimento, provocada pelo ‘senso do juízo divino’, que seria medo ante a possibilidade de comparecer diante do tribunal de Deus para ser julgado. Observe:

“O segundo ponto era que ensinamos que o arrependimento procede do real temor de Deus. Pois, antes que a mente do pecador se incline ao arrependimento, importa seja ela despertada pelo senso do juízo divino. Quando, porém, este senso se tenha fixado, profundamente, de que Deus um dia haverá de subir ao seu tribunal, a fim de exigir a razão de todas as palavras e feitos, não permitirá que o mísero ser humano descanse, nem que respire um instante, sem que o aguilhoe constantemente a meditar em outro modo de vida, em que possa postar-se em segurança diante desse Juízo (…) Por vezes a Escritura declara que Deus é Juiz mediante castigos já infligidos, para que os pecadores ponderem consigo mesmos que, a menos que se arrependam em tempo, coisas piores os ameaçam. Os capítulos 20 e 29 de Deuteronômio são ricos em exemplos”. Idem, pág. 75.

Ora, o ‘temor do Senhor’ não se constitui ‘medo’ do juízo ou do fogo do inferno. O temor que promove o arrependimento diz da palavra de Deus, o conhecimento que é o princípio da sabedoria. Apesar de Deus ser Todo-poderoso, a ninguém oprime: “Ao Todo-Poderoso, não podemos alcançar; grande é em poder; porém a ninguém oprime em juízo e grandeza de justiça” (Jó 37:23).

A palavra ‘temor’, quando empregada nas Escrituras, na maioria das vezes, refere-se ao mandamento de Deus, que, quando obedecido, é o mesmo que ‘temer’. Deus deve ser honrado, obedecido, temido, porque Ele é perdão, e não porque Ele se impõe através do medo ou do castigo: “Mas contigo está o perdão, para que sejas temido (obedecido)” (Sl 130:4).

É em função da palavra de Deus que Moisés disse ao povo:

“Não temais (não tenham medo), Deus veio para vos provar e para que o seu temor (mandamento, sabedoria, instrução) esteja diante de vós, afim de que não pequeis” (Êx 20:20).

Não era para o povo de Israel ter tido medo e se afastar de Deus quando viram os relâmpagos e ouviram os trovões no monte Sinai, pois o objetivo de Deus era que o seu temor (palavra) estivesse com o povo.

Quando Deus se apresentou ao povo de Israel no monte Sinai foi para que ouvissem a palavra de Deus, enquanto Ele falava com Moisés. Os raios e os trovões eram somente uma prova, testando a confiança do povo em Deus, e, em seguida, Deus haveria de anunciar a sua palavra, o seu ensinamento, o seu temor.

Somente a palavra de Deus, escondida no coração, evita que o homem não peque contra Deus: “Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti” (Sl 119:11) e, por isso mesmo, Deus se apresentou aos filhos de Israel, para que o Seu temor, ou seja, as Suas palavras, estivessem perante eles, para que não pecassem.

O convite expresso pelo Salmista não é para impor ao aprendiz medo, antes, a palavra de Deus: “Vinde, meninos, ouvi-me; eu vos ensinarei o temor do SENHOR” (Sl 34:11). Cristo veio ao mundo ensinar aos homens o temor do Senhor, de modo que, quem se posta a ouvi-lo, aprende o temor do Senhor, não a ter medo do juízo ou da condenação ao inferno: “Em verdade vos digo que, qualquer que não receber o reino de Deus como menino, não entrará nele” (Lc 18:17); “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” (Mt 11:28-29).

Cristo é o Verbo de Deus, o temor que permanece para sempre: “O temor do SENHOR é limpo e permanece eternamente; os juízos do SENHOR são verdadeiros e justos juntamente” (Sl 19:9); “Porquanto, odiaram o conhecimento; e não preferiram o temor do SENHOR:” (Pv 1:29); “Então, entenderás o temor do SENHOR e acharás o conhecimento de Deus” (Pv 2:5).

Percebe-se que a compreensão de Calvino foi prejudicada por não saber distinguir o verdadeiro significado do termo ‘temor’, quando empregado em algumas passagens bíblicas da conotação que, comumente, é atribuído ao termo: medo.

O temor do Senhor não consiste em ameaças de que ‘coisas piores acontecerão com o pecador’[4]. A conversão não tem início com o ‘horror’ ou  o ‘ódio’ ao pecado, como pensam mas, através da pregação do evangelho. Ora, o pecador é nascido em pecado, ou seja, é escravo do pecado, de modo que ‘odiar’ o pecado é impossível ao pecador.

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Mt 6:24).

Na Bíblia, os termos ‘amor’ e ‘ódio’, não possuem conotação sentimental, antes, amor se refere a serviço, dedicação, obediência e ódio significa desprezo, desobediência, desserviço. O pecador pode sentir ‘raiva’ do seu senhor, o pecado, porém, a única coisa que o livra do seu senhor é a morte.

Como pecador, o homem ama (serve) ao pecado, independentemente das condutas diárias. O pecador é gerado segundo a desobediência, por isso é filho da ira, desagradável, reprovável e alienado de Deus.

Sob a alegação de ódio ao pecado, muitos levantaram a flâmula do puritanismo e execraram muitas pessoas que tinham uma conduta inconveniente na sociedade. Julgaram os outros segundo a aparência e se carregam de ordenanças segundo os preceitos e doutrinas dos homens (Cl 2:20-22).

Em razão da visão distorcida do que é o evangelho, nem de longe tais pseudo seguidores de Cristo lembram o Mestre, pois Cristo foi claro: “Vós julgais segundo a carne; eu a ninguém julgo” (Jo 8:15); “Vós julgais segundo a carne; eu a ninguém julgo” (Jo 8:15).

A ideia de que o arrependimento demanda a ‘mortificação da carne’ e ‘a vivificação do Espírito’, não é verdadeira. Observe:

“Em terceiro lugar, resta explicar o que significa dizermos que o arrependimento consta de duas partes, a saber: da mortificação da carne e da vivificação do Espírito (…) Pois, quando mandam o homem retroceder da maldade, em seguida exigem a mortificação de toda a carne, a qual está saturada de maldade e de perversidade. Coisa mui difícil e árdua é despir-nos de nós mesmos e apartar-nos de nossa disposição natural. Ora, não se deve julgar que a carne já foi bem mortificada, a não ser que tenha sido abolido tudo quanto temos de nós próprios. Como, porém, todo afeto da carne é inimizade contra Deus [Rm 8.7], o primeiro passo para a obediência de sua lei é essa renúncia de nossa natureza”. Idem.

Na verdade, o arrependimento demanda, por parte do homem, tão somente a mudança de concepção, acerca de como ser salvo, ou seja, o ouvinte abandona os seus conceitos antigos e abraça um novo. Já a ‘mortificação da carne’ e a ‘vivificação do Espírito’ são obras exclusivas de Deus.

Há uma má leitura no artigo de João Calvino, com relação ao verso: “Desiste do mal e faz o bem” (Sl 34:14; Sl 37:27). O desistir do mal e fazer o bem diz do arrependimento em si. O verso não trata de boas ações ou de comportamento, mas do que aprenderam: “Porventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Então podereis vós fazer o bem, sendo ensinados a fazer o mal?” (Jr 13:23).

Desistir do mal é deixar de fazer o mal que foi instruído a fazer, o mesmo mal expresso pelo profeta Isaías: “Deixe o ímpio o seu caminho e o homem maligno os seus pensamentos e se converta ao SENHOR, que se compadecerá dele; torne para o nosso Deus, porque grandioso é em perdoar” (Is 55:7).

Como é possível ao homem guardar a língua do mal? Como guardar os lábios de não falar engano?

Falar engano é um problema de nascimento, pois desde que nascem os ímpios falam engano (Sl 58:3). Para resolvê-lo, é necessário fazer como o salmista Davi, que suplica a Deus um coração e um espírito novo. Quando a Bíblia apresenta um problema afeto aos lábios, a raiz do problema está no coração, não nas ações ou na moral humana: “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” (Mt 12:34); “Mas, o que sai da boca, procede do coração e isso contamina o homem” (Mt 15:18).

Para reconhecer-se pecador, um judeu tinha que mudar a sua concepção de que era justo, por ter por pai a Abraão. Como enxergar que eram oprimidos e cansados e que necessitavam aprender de Jesus, se tinham em Abraão a ideia de salvação? “E ele, respondendo, disse-lhes: Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, Mas o seu coração está longe de mim” (Mc 7:6 ); “Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus” (Mt 5:8).

O Pregador apresenta como o homem se aparta do mal:

“Filho meu, atenta para as minhas palavras; às minhas razões inclina o teu ouvido. Não as deixes apartar-se dos teus olhos; guarda-as no íntimo do teu coração. Porque são vida para os que as acham, e saúde para todo o seu corpo. Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida. Desvia de ti a falsidade da boca, e afasta de ti a perversidade dos lábios” (Pv 4:20-24).

Quando lemos: “Lavai-vos, sede limpos, removei de meus olhos o mal de vossas obras. Cessai de agir perversamente, aprendei a fazer o bem, buscai o juízo, vinde em socorro do oprimido” ( Is 1:16 -17), não podemos esquecer que os profetas falavam ao povo por parábola e que se utilizavam de enigmas, símiles, adágios (Os 12:10).

Uma única ordem está embutida nos verbos: ‘lavai-vos’, ‘sede’, ‘removei’, ‘cessai’, ‘aprendei’, ‘buscai’, ‘vinde’. Todos são paradigmáticos de Isaías 1, verso10:

“Ouvi a palavra do SENHOR, vós poderosos de Sodoma; dai ouvidos à lei do nosso Deus, ó povo de Gomorra” (Is 1:10).

Se dessem ouvidos à palavra do Senhor, os filhos de Jacó seriam lavados e limpos, tornando-se brancos como a neve. Removeriam o mal de suas obras de diante do Senhor. Deixariam de fazer o mal, etc. Jesus mesmo disse: “Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado” (Jo 15:3). Como resultado, disse o apóstolo Paulo: “E estais perfeitos nele, que é a cabeça de todo o principado e potestade” (Cl 2:10).

Para deixar de fazer o mal, é necessário aprender o bem, mas o povo de Israel estava acostumado a fazer o mal, como foram ensinados (Jr 13:23).

Quando o homem crê em Cristo, livra-se da maldade. A ação seguinte é pertinente a Deus, que circuncida o crente com a circuncisão de Cristo. Na circuncisão, é despojado todo o corpo do pecado da carne (Cl 2:11), de modo que, os que creem, não estão mais na carne (Rm 8:9); “E os que são de Cristo, crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” (Gl 5:24).

Só há duas posições em que o homem pode estar:

a) em Cristo, uma nova criatura, ou;

b) na carne, uma velha criatura.

Através da fé (evangelho), o crente tornou-se agradável a Deus, de modo que a carne foi extinta através da cruz de Cristo pois, se o homem estiver na carne, está em inimizade com Deus. Já que o crente foi crucificado com Cristo, sepultado e ressurgiu com Ele, isso significa que a carne já foi abolida.

A renovação do Espírito decorre da semente incorruptível, que é a palavra de Deus: “Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo” (Tt 3:5; 1 Pe 1:3 e 23). A semente incorruptível, que é a palavra de Deus, é o que promove o novo nascimento, não o fruto:

“Em seguida, os profetas assinalam a renovação do Espírito em termos dos frutos que daí se produz, a saber: da justiça, do juízo e da misericórdia”. Idem, pág. 77.

O fruto do Espírito é proveniente do Espírito, de modo que, basta estar ligado à videira verdadeira, que é Cristo, para produzi-lo (Jo 15:4-5).

Calvino fez confusão entre ‘fruto do Espírito’ e a ‘ação do Espírito’. A ação do Espírito Santo é convencer o homem de que todos pecaram, por terem sidos gerados de Adão. Só pelo espírito, a mensagem de Cristo, o homem é inteirado de que a humanidade foi julgada e está condenada à morte em Adão e, que o juízo de Deus já foi estabelecido lá no Éden: “E, quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo” (Jo 16:8); “Pois assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação…” (Rm 5:18).

O fruto do Espírito é produzido pelas varas que estão em Cristo e possui as seguintes características: “Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança” (Gl 5:22); “Porque o fruto do Espírito está em toda a bondade, justiça e verdade” (Ef 5:9).

O homem, por si só, não se despe do velho homem, pois o velho homem refere-se à sua condição herdada de Adão. Sem morrer com Cristo, quando o velho homem é crucificado, é impossível ao homem livrar-se do velho homem. O homem não se despe do velho homem, antes, o velho é crucificado e sepultado quando se crê em Cristo.

Quando a Bíblia faz referência ao despir, diz do que era pertinente ao velho homem e apresenta tal evento concluso (e no passado), como se lê: “Não mintais uns aos outros, pois que já vos despistes do velho homem com os seus feitos e vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Cl 3:9-10). Ora, os despidos do velho homem, já se revestiram de Cristo (Gl 3:27), de modo que o velho homem não mais vive, antes Cristo vive nos de novo gerados.

A ordem na Bíblia para que os crentes se desfaçam do que é pertinente ao velho homem, ou seja, despojar-se, é o despojar-se dos feitos, das ações, dos pensamentos, das emoções, etc., não do que foi realizado por Cristo nos que creem.

Ora, o velho homem morreu, porém, é necessário lançar fora as coisas que eram pertencentes ao velho homem e, dentre elas, o apóstolo Paulo destaca: “da ira, da cólera, da malícia, da maledicência, das palavras torpes da vossa boca” (Cl 3:8).

Há uma grande confusão entre ‘despir’ e ‘despojar’, visto que este verbo diz do comportamento do velho homem e aquele, da velha natureza herdada de Adão. Enquanto o ‘despir’ ocorre quando se crê em Cristo, o ‘despojar’ é gradual, contínuo, pois demanda a renovação do entendimento, quando o cristão vai aprendendo a se portar como filho de Deus (Rm 12:2).

Calvino, no terceiro ponto, confunde arrependimento, que é mudança de concepção, com a ação sobrenatural que Deus (regeneração) opera naqueles que mudaram a sua concepção (arrependeram), crendo em Cristo:

“Em terceiro lugar, resta explicar o que significa dizermos que o arrependimento consta de duas partes, a saber: da mortificação da carne e da vivificação do Espírito. (…) Ora, não se deve julgar que a carne já foi bem mortificada, a não ser que tenha sido abolido tudo quanto temos de nós próprios. Como, porém, todo afeto da carne é inimizade contra Deus [Rm 8.7], o primeiro passo para a obediência de sua lei é essa renúncia de nossa natureza”. Idem, pág. 76.

“Portanto, interpreto o arrependimento com uma palavra: regeneração, cujo objetivo não é outro, senão que, em nós, seja restaurada a imagem de Deus, a qual fora empanada e quase apagada pela transgressão de Adão” Idem, pág. 77. Griffo nosso.

De tudo o que analisamos até agora, foi verificado que, primeiro é anunciado aos pecadores a fé, o dom de Deus, o evangelho de Cristo (Ef 2:8). Em seguida, os que creem na mensagem do evangelho, concomitantemente, mudaram de concepção, ou seja, se arrependeram. É através da mensagem do evangelho que o Espírito Santo convence o mundo do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16:8).

Depois que ouviu a palavra da verdade (fé), o evangelho que é o poder de Deus, para salvação, e crê (mudou de concepção e creu), o crente é selado com o Espírito Santo da promessa: “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa”. (Ef 1:13, Rm 1:16-17, Mc 1:15).

No instante em que se muda de concepção (arrepende), crendo em Cristo, o homem é crucificado e morto com Cristo, ou seja, conforma-se na morte com Cristo (Rm 6:5, Fl 3:10). Em seguida, é sepultado com Cristo na sua morte e ressurge uma nova criatura, criada, segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade (Ef 4:24). Ao crer em Cristo, o arrependido conformou-se com Cristo na sua morte, e por isso, é participante da sua ressurreição.

Todos esses eventos ocorrem com o arrependido, sem que ele perceba, pois, se trata de ação sobrenatural de Deus.  O apóstolo Pedro fala desse evento, utilizando a palavra αναγενναω[5] (anagenao, corolário de gene, com o prefixo ana, que significa de novo, novamente, outra vez), que significa, especificamente, regenerar, nascer de novo, renascer (1 Pd 1:3). O apóstolo Paulo, ao escrever a Tito, utilizou o termo παλιγγενεσία[6] (paliguenesia), para descrever o mesmo evento.

Os termos referem-se a um novo gerar, remetem a uma nova semente e apontam para a vontade de Deus: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus”. (Jo 1:12-13).

Os que mudam de concepção, crendo em Cristo, recebem poder de serem feitos filhos de Deus, nascidos da vontade de Deus,  não da vontade da carne, da vontade do varão ou do sangue. Não diz de uma vida implantada, que habilite ao arrependimento e à fé, antes, diz de uma nova vida, por ter se extinguido a antiga, decorrente da fé (evangelho), que leva o homem à mudança de concepção (arrependimento).

Na regeneração, não há transformação do coração, antes ocorre uma incisão: a circuncisão de Cristo, quando o coração de pedra é arrancado e lançado fora. Não somente o coração herdado de Adão é arrancado e lançado fora, como também todo o corpo do pecado (Cl 2:11). É um equivoco conceber que Deus transforma coração, antes, Ele dá um novo (Sl 51:10).

A circuncisão no prepúcio da carne era feita por mãos de homens, por pais segundo a carne. A circuncisão de Cristo é operada por Deus, o Pai espiritual, que arranca o coração enganoso, lança fora e dá um novo coração: “E lhes darei um só coração e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o coração de pedra e lhes darei um coração de carne” (Ez 11:19).

O homem no pecado não está morto, inerte, insensível, etc., antes está morto para Deus e vivo para o pecado. Quando morre com Cristo, o homem morre para o pecado e passa a viver para Deus. É equivoco inominável achar que o homem no pecado está espiritualmente morto, antes ele vive no pecado, portanto, está separado (morto) de Deus.

Quando o apóstolo Paulo faz referência ao passado dos cristãos e diz que todos estavam mortos em delitos e pecados (Ef 2:1 e 2:5), ele estava evidenciando que estávamos todos vivos (unidos) para o pecado e separados (mortos) para Deus.

As seguintes declarações resultam de má leitura e má interpretação bíblica:

“Ora, não se deve julgar que a carne já foi bem mortificada, a não ser que tenha sido abolido tudo quanto temos de nós próprios. Como, porém, todo afeto da carne é inimizade contra Deus [Rm 8.7], o primeiro passo para a obediência de sua lei é essa renúncia de nossa natureza”. Idem, pág. 76.

Como não se deve aceitar (julgar) que a carne está mortificada, quando se crê em Cristo? Se o velho homem foi com Cristo crucificado, como entender que a carne não foi mortificada?

“Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado” (Rm 6:6).

O apóstolo Paulo, também, diz:

“Porque já estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo, em Deus” (Cl 3:3).

E mais:

“E os que são de Cristo, crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências” (Gl 5:24).

Quem creu em Cristo, crucificou o velho homem que vivia segundo a carne e, ao crucificar o velho homem, a carne, as paixões e as concupiscências, também, foram crucificadas para o indivíduo que creu.

Como principio norteador da existência dos descrentes, a carne continua a subsistir, mas, para aquele que creu em Cristo, liberto está da lei do pecado e da morte (Rm 8:2). Livres da lei e do pecado, por ter morrido com Cristo (Rm 7:6), agora os cristãos servem a Deus, em novidade de espírito, ou seja, segundo o evangelho, o conhecimento de Deus manifesto em Cristo. Após arrepender-se, o cristão serve a Deus com o conhecimento revelado em Cristo, diferente dos judeus que tinham zelo de Deus, mas sem entendimento (Rm 10:2).

Qualquer que quiser servir a Deus com a carne, estará sujeito à lei do pecado (Rm 7:25) pois, não está debaixo da graça, mas debaixo da lei. O apóstolo Paulo, após declarar que o seu ‘eu’ reconheceu a sua miserabilidade e questionou quem poderia livrá-lo do corpo da morte, decorrente da lei do pecado, deu graças a Deus, por Cristo Jesus, que, em seu conhecimento, livrou o apóstolo da lei do pecado e da morte (Rm 8:2).

Mas, o seu “eu”, quando na carne, por ter sido vendido como escravo ao pecado, pela ofensa de Adão (Rm 7:14), apesar de ter prazer na lei de Deus, conforme profetizado por Isaias (Rm 7:22), está preso à lei do pecado, pelo corpo herdado de Adão, segundo a carne: “CLAMA em alta voz, não te detenhas, levanta a tua voz como a trombeta e anuncia ao meu povo a sua transgressão e à casa de Jacó, os seus pecados. Todavia me procuram cada dia, tomam prazer em saber os meus caminhos, como um povo que pratica justiça e não deixa o direito do seu Deus; perguntam-me pelos direitos da justiça e têm prazer em se chegarem a Deus” (Is 58:1 -2).

Não adianta buscar servir à lei de Deus, se a carne é escrava do pecado, pois esse era o entendimento dos judeus, que serviam a Deus por intermédio da lei, mas que estavam servindo à lei do pecado, por causa da carne herdada de seus pais: “Assim que eu mesmo, com o entendimento, sirvo à lei de Deus, mas com a carne [sirvo] à lei do pecado” (Rm 7:25).

Quem creu em Cristo, além de ter sido com Ele crucificado, já ressurgiu com Cristo e está assentado com Ele nas regiões celestiais. Tanto a carne quanto as paixões e concupiscências foram crucificadas (Cl 3:1, Ef 1:3, Cl 2:12). A má leitura de Romano 8, verso 7, encobre o fato de que nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus (Rm 8:1), ou seja, que são novas criaturas (2 Co 5:17).

Tudo do passado foi abolido, visto que nova se fizeram todas as coisas (2 Co 5:17). O escrito de dívida foi cravado na cruz: “Levando ele mesmo, em seu corpo, os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados” (1 Pe 2:24; Cl 2:13-14).

Além de afirmar que a carne foi cravada na cruz e morta, o apóstolo Paulo enfatiza que, quem está em Cristo (nova criatura), não está mais na carne e nem anda segundo a carne: “Para que a justiça da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito (…) Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8:9).

‘Os que estão na carne’, refere-se aos que querem servir a Deus segundo a lei e, ‘os que estão no Espírito’, refere-se aos que estão em Cristo, por intermédio do evangelho. “Só quisera saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé? Sois vós tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, acabeis agora pela carne?” (Gl 3:2-3). Não podemos esquecer que os cristãos são’ ministros do espírito’, ou seja, do evangelho (2Co 3:6).

‘Receber o Espírito’, é estar de posse da promessa e, pela promessa, poder dizer: – “Aba, Pai”! Os da carne foram gerados conforme Ismael, já os do Espirito, gerados segundo a promessa semelhante a Isaque, ou seja, segundo a palavra de Deus: “E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai” (Gl 4:6, Gl 5:28-29); “Porque derramarei água sobre o sedento e rios sobre a terra seca, derramarei o meu Espírito sobre a tua posteridade e a minha bênção sobre os teus descendentes” (Is 44:3); “E lhes darei um só coração e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o coração de pedra e lhes darei um coração de carne” (Ez 11:19).

A natureza pecaminosa é renunciada quando o homem crê em Cristo e não mais é achado pecador, pois Cristo é ministro da justiça (1 Jo 3:8, Gl 2:17, Rm 6:14, 1 Jo 3:6, 9 e 5:18 e 1 Jo 4:17).

Quem busca preservar a sua própria concepção, por entender que nisto está a vida, perdê-la-á, mas quem se arrepende e crê no evangelho, salvar-se-á, pois ninguém pode servir (amar) a Deus e a si mesmo: “Nenhum servo pode servir a dois senhores; porque, ou há de odiar a um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Lc 16:13); “Porque qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas, qualquer que perder a sua vida por amor de mim e do evangelho, esse a salvará” (Mc 8:35); “Quem ama a sua vida perdê-la-á e quem neste mundo odeia a sua vida, guardá-la-á para a vida eterna” (Jo 12:25).

Assim como Ismael se opunha a Isaque, a carne se opõe ao Espírito. O apóstolo Paulo fala de dois senhores que querem ter o domínio sobre os homens, para que o homem não faça o que o seu próprio eu quer, antes se sujeite a eles: “Porque a carne cobiça contra o Espírito e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis” (Gl 5:17).

Se o homem se lançar às obras da lei, apresentou-se como servo para obedecer à carne, mas se o homem permanecer no evangelho, na liberdade em que Cristo o libertou, apresenta-se como servo obediente à justiça: “Não sabeis vós que, a quem vos apresentardes por servos, para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça?” (Rm 6:16).

Calvino equivoca-se ao ‘interpretar o arrependimento com uma palavra: regeneração’. A imagem que Deus concedeu a Adão, no Éden, não foi empanada e nem ‘quase’ apagada pois, quando Cristo veio ao mundo, veio, segundo a imagem que Ele mesmo havia dado a Adão, pois este foi criado à imagem daquele que havia de vir (Cristo), não pela expressa imagem do Deus invisível “… Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” (Rm 5:14).

No Éden, Adão perdeu a comunhão com Deus e, pela condenação decorrente da sua ofensa (morte), vendeu todos os seus descendentes como escravos ao pecado. Mas, a imagem que recebeu, não perdeu e nem precisou ser restaurada, pois todos os seus descendentes, segundo a carne, se tornaram almas viventes e trouxeram a imagem do homem terreno, que era a figura dada a Adão, que o Cristo assumiria ao se fazer carne (1 Co 15:47-49).

Ao ser introduzido no mundo, em tudo, Cristo foi semelhante aos homens: carne, sangue e fraquezas (Hb 2:14 e 17) pois, como homem, herdou a imagem terrena que deu a Adão, mas através da pessoa de Maria, a semente da mulher.

Cristo, ao ser morto possuía a imagem da qual Adão foi feito figura mas, quando ressurgiu dentre os mortos, tornou-se a expressa imagem do Deus invisível. O projeto anunciado por Deus, na primeira criação: – “Façamos o homem, conforme a nossa imagem e conforme a nossa semelhança”, foi levado a efeito quando Cristo ressurgiu dentre os mortos, quando herdou a semelhança do Deus invisível: “Quanto a mim, contemplarei a tua face na justiça; eu me satisfarei da tua semelhança quando acordar” (Sl 17:15).

A semelhança do Altíssimo foi um projeto que Deus estabeleceu em Si mesmo, na pessoa de Cristo (Ef 3:11), projeto esse que Satanás tentou usurpar, ao querer estar acima das estrelas de Deus, sendo semelhante ao Altíssimo: “Subirei sobre as alturas das nuvens e serei semelhante ao Altíssimo” (Is 14:14).

Ninguém, nascido segundo a carne de Adão, será restaurado à expressa imagem de Deus, antes, somente os que creem, após mortos com Cristo, ressurgem uma nova criatura que, desde a eternidade, foram predestinados a serem conforme a imagem de Cristo, para que Cristo seja alçado à posição de primogênito, entre muitos irmãos.

Se entendermos a fé (πίστις = pistis), como mensagem do evangelho, certo é que o arrependimento nasce da fé, no entanto, os que se arrependeram, seguem de posse da fé, o que é diferente da ideia de que o arrependimento segue em continuidade à fé.

“Entretanto, deve estar fora de controvérsia que o arrependimento não apenas segue, de contínuo, a fé, mas, inclusive, nasce dela”. Idem, pág 70.

O crente mudou de concepção, ao aceitar a fé, ou seja, arrependeu-se, portanto, abandonou sua crença e abraçou a fé. O apóstolo Paulo declarou que guardou a fé, sem fazer referência ao arrependimento (2 Tm 4:7). O apóstolo não guardou uma crença (πιστεύω), antes, guardou, inconspurcado, a mensagem do evangelho, a fé. Somente três coisas permanecem e dentre elas não está o arrependimento: a fé, a esperança e o amor (1 Co 13:13).

A ideia que Calvino teve, acerca da ‘metanoia’, não é a mudança de mente, mas, a ‘paenitentia’, da igreja católica. Observe:

“… para que se exercitem no arrependimento toda a sua vida e saibam que não há nenhum fim para esta luta, senão na morte (…) Para que os fiéis cheguem a este ponto, Deus lhes assinala o caminho do arrependimento, pelo qual percorram, pela vida inteira” Idem, pág. 78.

“O termo e o próprio conceito de penitência são bastante complexos. Se a relacionarmos com a metánoia, a que se referem os Sinópticos, a penitência significa, então, a íntima mudança do coração, sob o influxo da Palavra de Deus e na perspectiva do Reino. Mas, penitência quer dizer, também, mudar de vida, em coerência com a mudança do coração; e, neste sentido, o fazer penitência completa-se com o produzir frutos condignos de arrependimento: é a existência toda que se torna penitencial, aplicada numa contínua caminhada, em tensão para o que é melhor. Fazer penitência, no entanto, só será algo de autêntico e eficaz se se traduzir em actos e gestos de penitência. Neste sentido, penitência significa, no vocabulário cristão teológico e espiritual, a ascese, isto é, o esforço concreto e quotidiano do homem, amparado pela graça de Deus, por perder a própria vida, por Cristo, como único modo de a ganhar:  esforço por se despojar do homem velho e revestir-se do novo; por superar, em si mesmo, o que é carnal, para que prevaleça o que é espiritual; e esforço por se elevar continuamente das coisas de cá de baixo para as lá do alto, onde está Cristo. A penitência, portanto, é a conversão que passa do coração às obras e, por conseguinte, à vida toda do cristão” Paulo II, João. Exortação apostólica pós-sinodal – Reconciliatio et paenitentia – Sobre a reconciliação e a penitência na missão da igreja hoje.

Se ‘metanoia’ é mudança de concepção, por que na definição de arrependimento de João Calvino, ele diz que é ‘conversão de vida’? “… o arrependimento é a verdadeira conversão de nossa vida a Deus” Idem, pág. 74. Nisto, concorda João Paulo II, com João Calvino: “Mas, penitência, quer dizer, também, mudar de vida”.

É desses pensamentos que surge a primeira colocação de Calvino, acerca do arrependimento:

“Primeiro, quando o chamamos a volta da vida para Deus, requeremos uma transformação, não apenas nas obras exteriores, mas, inclusive, na própria alma, a qual, quando é despojada de sua velha natureza, então, afinal, em si, produz os frutos de obras que correspondam à sua renovação” Idem, pág. 74.

É certo que, após se arrepender, crendo em Cristo, o cristão precisa ter um bom porte na sociedade que está inserido, ou seja, precisa portar-se de modo digno, não dando escândalo a judeus, gregos e nem à igreja de Deus (1 Pe 3:16; 1 Co 10:32).

Entretanto, o arrependimento não diz do bom porte do cristão em Cristo, mas da sua mudança de concepção, ao aceitar a mensagem da cruz. O bom porte em Cristo se adquire com a renovação do entendimento, que resulta em transformação comportamental, de modo que os que se alimentam de mantimento sólido, em razão do costume, exercitaram os sentidos, estando aptos para discernir o bem e o mal, não se conformando com o mundo: “Mas, o mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal” (Hb 5:14, Rm 12:2).

É o mesmo que ‘cingir os lombos do entendimento’, quando o crente são se conforma com as concupiscências que antes tinha quando na ignorância (1 Pe 1:13-14).

O crente precisa se renovar quanto ao espirito do seu entendimento, despojando-se (lançando fora) do que era pertinente ao velho homem (mentira, ira, roubo, furto, palavras torpes, etc.), e revestindo-se do que é pertinente ao novo homem (benigno, compassivo, etc.).

Arrepender-se não é o mesmo que ‘fazer um coração novo’, pois só Deus pode dar um coração novo. Calvino fez má leitura de Ezequiel 18, verso 31:

“Lançai de vós todas as vossas transgressões com que transgredistes, e fazei-vos um coração novo e um espírito novo; pois, por que razão morreríeis, ó casa de Israel?” (Ez 18:31).

O lançar de si as transgressões é o mesmo que arrepender-se, mas fazer um coração novo e um espírito novo é ação sobrenatural de Deus que, assim, faz naqueles que se arrependem.

Ao arrepender-se, o homem se socorre de Deus que faz o que prometeu, portanto, ao se arrepender, considera-se que está fazendo um coração puro e um espírito novo:

“E lhes darei um só coração e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o coração de pedra e lhes darei um coração de carne” (Ez 11:19, Ez 36:25-27).

Quando Deus ordena aos homens que circuncidem o coração, na verdade espera que os homens se socorram d’Ele, pois aos homens é impossível circuncidarem o coração, assim como é impossível salvarem-se a si mesmos.

“E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração e o coração de tua descendência, para amares ao SENHOR teu Deus com todo o coração e com toda a tua alma, para que vivas” (Dt 30:6).

Como o homem circuncida o seu coração? Fazendo o que Deus requer:

“Agora, pois, ó Israel, que é que o SENHOR teu Deus pede de ti, senão que temas ao SENHOR teu Deus, que andes em todos os seus caminhos e o ames,  sirvas ao SENHOR teu Deus, com todo o teu coração e com toda a tua alma, que guardes os mandamentos do SENHOR e os seus estatutos, que hoje te ordeno, para o teu bem?” (Dt 10:12 -13).

Se o homem temer a Deus, andar em seus caminhos, amar, servir, guardar os mandamentos e os estatutos, circuncidará o coração, pois Deus haverá de fazê-Lo.

Por fim, vale destacar que o apóstolo Paulo não trata dos frutos do arrependimento, quando escreve a sua segunda carta aos Coríntios.

“O Apóstolo, porém, na descrição do arrependimento [2 Co 7.11], enumera sete causas ou, efeitos ou, partes; isso ele o faz com mui excelente razão. Ora, são elas: diligência ou solicitude, exame, indignação, temor, anelo, zelo, vindicação” Idem, pág. 83.

Ao escrever a sua segunda carta aos Corintos, o apóstolo Paulo evidencia que eles estavam estreitados em seus próprios afetos, ou seja, não correspondiam ao afeto que o apóstolo lhes demonstrava (2 Co 6:11-12). Daí a recomendação: – “Recebei-nos em vossos corações”.

Após destacar que os cristãos de Corinto estavam presentes no coração do apóstolo para, juntamente, viverem ou morrerem (2 Co 7:3), deixou claro que não sentia remorso (μεταμέλομαι = metamelomai)[7] de tê-los contristados em outra carta (2 Co 7:8). Mas, mesmo que houvesse sentido remorso por um período de tempo, pela carta ter entristecido os cristãos de Corinto, agora, contudo, estava alegre.

Ele deixa claro que não estava alegre por tê-los deixado tristes, mas, porque foram contristados para arrependimento (μετάνοια = metanóia). Ora, o arrependimento da qual o apóstolo Paulo trata aqui, não se refere à mudança de mente (arrependimento) com relação ao evangelho, pois os cristãos eram a igreja de Deus em Corinto (2 Co 1:1, 2 Co 5:17), portanto, plenamente arrependidos por serem crentes em Cristo para a salvação.

Os cristãos foram contristados, para que alguns mudassem a concepção que tinham acerca do apóstolo Paulo, para que, em nada, sofressem dano, por causa do que pensavam acerca do apóstolo: “Esta é minha defesa para com os que me condenam” (1 Co 9:3).

O fato de terem sido contristados, segundo Deus, produziu nos cristãos solicitude (afã, diligência), mas, não somente isso, produziu, também, defesa, indignação, temor, saudade, zelo, vindita, em favor do apóstolo Paulo. Com isso, demonstraram que nada deviam quanto ao assunto em pauta, na carta anterior (2 Co 7:11).

O apóstolo Paulo demonstra que escreveu a carta anterior, não por ter sido ofendido e nem por causa de quem o ofendera, mas, antes, para tornar manifesta a solicitude dos cristãos de Corinto. (2 Co 7:12).

O arrependimento tratado no capítulo 7, da segunda epístola aos Coríntios, não diz do arrependimento anunciado por João Batista. O arrependimento de João Batista não decorre do sofrimento; mas, o arrependimento de que o apóstolo Paulo estava tratando, tinha em vista o sofrimento, decorrente dos abundantes sofrimentos de Cristo, para com os cristãos (2 Co 1:5).

O apóstolo tinha plena certeza de que, se era afligido, era para a consolação e salvação dos cristãos (2 Co 1:6), de modo que, a tristeza, segundo Deus, produz mudança de concepção, sem remorso (pesar) para a salvação. O apóstolo Paulo não sentia remorso por sofrer aflições, para que os cristãos fossem consolados, e os cristãos ao serem contristados, tampouco, ficaram com pesar, antes, saíram em defesa do apóstolo, o que produziu consolação e salvação.

As sete causas ou, efeitos ou, partes, que Calvino atribuiu ao arrependimento anunciado por João Batista e o Senhor Jesus Cristo: ‘diligência ou solicitude, exame, indignação, temor, anelo, zelo, vindicação’, na verdade se referem à resposta que os cristãos deram, em defesa do apóstolo Paulo, quando foram contristados com a carta que receberam.

Se há inúmeros equívocos e má interpretação de textos bíblicos na exposição de Calvino (alguém que se posicionou como mestre e crítico ferrenho de outras concepções), em um tema de relativa facilidade, que se dirá da exposição que Calvino fez de outras doutrinas bíblicas mais complexas e dos pontos de difícil interpretação, como asseverou o apóstolo Pedro?

 


[1] “Isto posto, pelo menos, em meu modo de julgar, não se poderá, assim, definir mal o arrependimento: é a verdadeira conversão de nossa vida a Deus, procedente de um sincero e real terror de Deus, que consiste da mortificação de nossa carne e do velho homem e da vivificação do Espírito”. Calvino, João. As Institutas ou, Tratado da Religião Cristã, vol. 3, edição clássica (latim), pág 74.

[2] “Mas, os que pensam que o arrependimento precede à fé e não é produzida por ela, como o fruto de sua árvore, estes jamais souberam no que consiste sua propriedade e natureza, e, ao pensar assim, se apoiam num fundamento sem consistência”. Idem, pág. 70 “… por certo que ninguém pode abraçar a graça do evangelho a não ser que se afaste dos erros da vida e tome a via reta, e aplique todo seu esforço à prática do arrependimento”. Idem, pág 70. “… ao contrário, queremos pôr à mostra que o homem não pode aplicar-se seriamente ao arrependimento, a não ser que reconheça ser de Deus”. Idem, pág 71. “Mas, carece de toda evidência de razão o desvario daqueles que, para começar do arrependimento, prescrevem a seus neófitos, certos dias, durante os quais se exercitem em penitência; passados, afinal, os quais os admitem à comunhão da graça do evangelho. Falo da maior parte dos anabatistas, especialmente daqueles que exultam, sobremaneira, em ser tidos como os espirituais, e de seus confrades, os jesuítas, e gentalha afim. Tais frutos, evidentemente, são produzidos por esse espírito de torvelinho que limita, a uns poucos dias, a penitência que, ao homem cristão, deve prorrogar-se por toda a vida”. Idem, pág 72.

[3] “Se bem que estas coisas todas são verdadeiras, contudo o termo arrependimento, em si, até onde posso alcançar das Escrituras, deve ser tomado em acepção diferente. Visto que querem confundir a fé com arrependimento, se põem em conflito com o que Paulo diz em Atos [20.21]: “Testificando a judeus e gentios o arrependimento para com Deus e a fé em Jesus Cristo”, onde enumera arrependimento e fé como duas coisas diversas. E então? Porventura pode o verdadeiro arrependimento subsistir à parte da fé? Absolutamente, não. Mas, embora não possam ser separados, devem, no entanto, ser distinguidos entre si. Da mesma forma que a fé não subsiste sem a esperança e, todavia, fé e esperança são coisas diferentes, assim o arrependimento e a fé, embora sejam entre si ligados por um vínculo perpétuo, no entanto, demandam que permaneçam unidos, mas não confundidos.” Idem, pág. 73.

[4] “Não obstante, uma vez que a conversão começa do horror e ódio ao pecado, por isso o Apóstolo faz a “tristeza que é segundo Deus” [2Co 7.10] a causa do arrependimento” Idem, Pág. 76.

[5] “313 αναγενναω (anagennao), de 303 e 1080; TDNT – 1:673,114; v 1) regenerar, renascer, nascer de novo 2) metáfora – ter passado por uma transformação da mente, que leva a uma nova vida, que procura conformar-se à vontade de Deus”. Dicionário Bíblico Strong.

[6] “3824 παλιγγενεσια (paliggenesia), de 3825 e 1078; TDNT – 1:686,117; n f 1) novo nascimento, reprodução, renovação, recreação, regeneração 1a) por isso, renovação, regeneração, produção de uma nova vida consagrada a Deus, mudança radical de mente para melhor. A palavra é frequentemente usada para denotar a restauração de algo ao seu estado primitivo, sua renovação, como a renovação ou restauração da vida depois da morte 1b) a renovação da terra após o dilúvio 1c) renovação do mundo que terá lugar após sua destruição pelo fogo, como os estoicos ensinavam 1d) o sinal e gloriosa mudança de todas as coisas (no céu e na terra) para melhor, aquela restauração da condição primitiva e perfeita das coisas que existiam, antes da queda de nossos primeiros pais, que os judeus esperavam em conexão com o advento do Messias e que os cristãos esperam, em conexão com a volta visível de Jesus do céu. 1e) outros usos 1e1) da restauração, de Cícero, à sua posição e fortuna na sua volta do exílio 1e2) da restauração da nação judaica, após o exílio 1e3) da recuperação do conhecimento pela recordação”. Dicionário Bíblico Strong.

[7] “3338 μεταμελομαι (metamelomai) de 3326 e a voz média de 3199; TDNT – 4:626,589; v 1) estar, posteriormente, preocupado com alguém ou, algo 1a) estar arrependido, arrepender-se. Sinônimos, ver verbete 5862”. Dicionário Bíblico Strong.

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Predestinação e Livre-Arbítrio

Vincular indivíduos a destinos, antes mesmo de nascerem, é pensamento contrário às Escrituras, pois a Bíblia evidencia que os destinos estão vinculados aos caminhos. Se alguém nascido da carne e do sangue (Adão) não tomar a decisão de acatar o convite de Deus, será conduzido pelo caminho largo à perdição, mas qualquer que nascer do espírito (último Adão), acatando o convite de Deus, estará no caminho estreito (Cristo), que conduz o homem a Deus.


Predestinação e Livre-Arbítrio

“Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais também os celestiais” (1 Coríntios 15:48 ).

Introdução

É tão espantosa a quantidade de textos sobre predestinação e livre-arbítrio,[1] que o argumento inicial se restringe em afirmar que o tema é de difícil explicação ou é um problema insolúvel.

Invariavelmente, os artigos sobre predestinação e livre-arbítrio, quando começam com as razões acima, somente conduzirão o leitor a rever posições doutrinárias de alguns teólogos do período da reforma protestante e, ao final, não apresentará uma resposta segura ao tema, além de introduzir muitas dúvidas.

É recorrente afirmar que o assunto tem sido objeto de inúmeras discussões ao longo da história do cristianismo, porém, o que se vê não é discussão, mas a imposição de ideias que se sagraram sob o rótulo de ‘escriturísticas’, ou seja, não podem ser questionadas.

No entanto, vale destacar que, se determinado assunto das Escrituras possui duas correntes doutrinárias, certamente uma delas é anti-bíblica ou, ambas são anti-bíblicas, pois o modelo das sãs palavras do evangelho não comportam duas vertentes sobre o mesmo tema: Conserva o modelo das sãs palavras que de mim tens ouvido, na fé e no amor, que há em Cristo Jesus” (2Tm 1:13) .

Considerar que a Bíblia comporta duas doutrinas contraditórias e que ambas possuem fundamento bíblico é tendência de cunho humanista[2], portanto, contraria as Escrituras, pois o próprio Senhor Jesus não teve tal autonomia: “E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai me tem dito (Jo 12:50).

O evangelho de Cristo não possui várias vertentes e nem comporta várias interpretações. O substantivo grego πίστις, transliterado pistis e traduzido por ‘fé’, foi utilizado pelo apóstolo Paulo para fazer referência ao evangelho como ‘unidade’, um corpo de doutrina que não comporta várias vertentes: “Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo” (Ef 4:13).

Qualquer doutrina à margem do evangelho de Cristo é anátema. Nenhuma celebridade, pastor, teólogo, etc., mesmo sendo uma personalidade histórica, não detém autoridade para postular uma doutrina ou uma interpretação que assuma o valor de doutrina bíblica, nem mesmo o apóstolo Paulo: “Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho, além do que já vos tenho anunciado, seja anátema. Assim, como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo. Se alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema” (Gl 1:8 -9).

Aos que contestavam a ressurreição dentre o mortos, argumentou o apóstolo Paulo: “Se, como homem, combati em Éfeso contra as bestas, que me aproveita isso, se os mortos não ressuscitam? Comamos e bebamos, que amanhã morreremos” (1Co 15:32). Essa argumentação também serve para muitos seguimentos doutrinários, pois se há predestinação para salvação, que aproveita o combate em defesa do evangelho?

“Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos” (Jd 1:3).

 

Calvinismo versus Arminianismo

O maior obstáculo à compreensão da doutrina da predestinação e do livre-arbítrio, foi estabelecido por dois teólogos: João Calvino e Jacob Armínio.

Diante das doutrinas de Calvino e de Armínio, alguns teólogos afirmam que a doutrina calvinista é antagônica à doutrina arminianista, entretanto, quando analisadas, ambas as doutrinas derivam do mesmo erro: entender que Deus escolhe e predestina quem vai ser salvo ou não.

A discussão sobre a soberania de Deus e o livre-arbítrio do homem, mediante perspectivas arminianistas e calvinistas, realmente demonstra que tais correntes são inconciliáveis, para não dizermos, paradoxais.

A Bíblia ensina que qualquer que invocar o Senhor será salvo (Jl 2:32; At 2:21; Rm 10:13), e não faz referência à soberania de Deus e nem à sua onisciência. O profeta Isaias destaca que as mãos de Deus não estão encolhidas para que não possa salvar e nem agravados os seus ouvidos (Is 59:1). Por que não encontramos um texto bíblico onde é enfatizado que Deus é soberano para salvar? Por que não é enfatizado que Deus salva por sua onisciência? Por que a Bíblia enfatiza o perdão, a misericórdia e a benignidade de Deus, em vez da soberania e da onisciência?

“Mas contigo está o perdão, para que sejas temido” (Sl 130:4);

“TEM misericórdia de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; apaga as minhas transgressões, segundo a multidão das tuas misericórdias” (Sl 51:1).

É incrível o empenho de muitos em propagar o calvinismo e o arminianismo, mesmo quando se reconhece várias discrepâncias de tais sistemas doutrinários com as Escrituras. Por que enfatizar que essas doutrinas são escrituristicas, se ambas são inconciliáveis e, como alguns dizem, cercadas de riscos, pois podem levar os seus seguidores ao extremismo?

 

Pensamento dos gregos

É notório que a filosofia grega influenciou largamente teólogos, padres e pastores ao longo da história da igreja.

O platonismo tornou-se referência de pensadores como Agostinho, Boécio, João Escoto Erígena e Boaventura de Bagnoregio e o aristotelismo, de pensadores da estirpe de Tomás de Aquino.

Sem nos atermos às influências do pensamento grego no cristianismo, vale lembrar que, na mitologia grega, havia uma entidade cega, Moros, em grego Μόρος, o deus da sorte e do destino. Esse deus não via a quem reservava o futuro, porém, o futuro reservado, quer dos deuses ou dos mortais, era inescapável.

A mitologia grega vinculava deuses e mortais a um destino, pois o deus ‘Destino’ ditava os acontecimentos, e até mesmo Zeus não podia evitar o seu destino. Vários mitos gregos evidenciam o caráter fatalista[3] da cultura grega antiga, fatalismo que se vê também entre os filósofos estoicos e os romanos.

O pensamento da cultura grega e os seus mitos, destoam completamente do pensamento bíblico, pois vinculam deuses e homens a um destino.

Através da parábola dos dois caminhos, Jesus evidencia que os homens não tem um destino pré-estabelecido, pois a parábola apresenta os caminhos atrelados a um destino, e não homens atrelados a determinados destinos.

“Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição e muitos são os que entram por ela; E porque estreita é a porta e apertado o caminho que leva à vida, poucos há que a encontram” (Mt 7:13-14)

Existem somente dois caminhos e cada qual está vinculado a um destino: o caminho largo está vinculado à perdição e o caminho estreito vinculado à salvação. Segundo essa perspectiva, nenhum homem está diretamente vinculado a um destino, mas, sim, à porta por onde entrou.

Há duas portas, sendo uma larga e a outra estreita. Para entrar pela porta estreita, é necessário nascer de novo; de modo semelhante, é através do nascimento natural que o homem entra pela porta larga.

Jesus é a porta estreita – o último Adão -, semelhantemente Adão, o primeiro homem, é a porta larga, por quem os homens entram no mundo.

Quando os homens nascem (vêm ao mundo), entraram por Adão (a porta larga) que os deixa em um caminho largo, que conduz à perdição. Todos os homens, ao nascerem, entram no mundo por Adão (nascidos do sangue, da vontade da carne e da vontade do varão), uma porta larga que não lhes foi dada a oportunidade de escolher entrar, mas que dá acesso a um caminho de perdição.

A escolha que trouxe o caminho de perdição acessível a toda humanidade foi realizada por Adão, quando comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Adão fez uma escolha que afetou a condição de todos os seus descendentes, desde o nascimento: portanto, os homens nascem de uma porta larga (Adão) e trilham um caminho que, apesar de não terem escolhido, os conduzirá à perdição (Sl 58:3).

Os ensinamentos bíblicos e o pensamento grego são antagônicos, pois este se pauta pelo fatalismo, enquanto que, aquele, pelo propósito eterno de Deus. Nenhum homem veio ao mundo (nasceu) destinado ao céu ou ao inferno. Enquanto a cultura grega tinha um pensamento fatalista, Jesus esclarece que todos os homens não possuem um destino pré-estabelecido.

Longe de Deus destinar alguém à perdição, sob o argumento de sua soberania. Ninguém que entra por Adão no mundo está, ou esteve, predestinado à perdição, no sentido grego (fatalismo). Quando Adão pecou e afetou todos os seus descendentes com a sua decisão, Deus anunciou ao casal, que estava sendo expulso do Éden, redenção, através da semente da mulher, a todos os homens.

Os homens entram no mundo sem exercerem uma escolha, ou seja, ninguém que nasceu ou nascerá no mundo, escolheu entrar pela porta larga, mas, uma vez no mundo, é anunciada uma oportunidade de redenção, o que torna possível uma decisão por parte do homem que o livrará da condenação.

Não cabe ao homem no mundo uma escolha para decidir o seu destino, pois essa escolha já foi realizada por Adão. Agora, cabe ao homem, uma decisão, pois já está em um caminho que o conduz a perdição. Daí a ordem: “Entrai pela porta estreita…” (Mt 7:13).

O homem entra por Cristo (porta estreita) quando nasce de novo.  Para nascer de novo, basta crer com o coração, que Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos e confessar que Ele é o Filho do Deus vivo:

“A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça e com a boca se faz confissão para a salvação” (Rm 10:9-10).

Na Bíblia, a visão grega fatalista não existe, assim como qualquer outro princípio filosófico/teológico semelhante, como o determinismo.

O posicionamento bíblico acerca da salvação e da perdição, está bem delineado nas palavras que Deus disse a Ezequiel:

“Filho do homem: Eu te dei por atalaia sobre a casa de Israel; e tu, da minha boca, ouvirás a palavra e avisá-los-ás da minha parte. Quando eu disser ao ímpio: Certamente morrerás; e tu não o avisares, nem falares para avisar o ímpio acerca do seu mau caminho, para salvar a sua vida, aquele ímpio morrerá na sua iniquidade, mas o seu sangue, da tua mão o requererei. Mas, se avisares ao ímpio e ele não se converter da sua impiedade e do seu mau caminho, ele morrerá na sua iniquidade, mas tu livraste a tua alma. Semelhantemente, quando o justo se desviar da sua justiça e cometer iniquidade, e eu puser diante dele um tropeço, ele morrerá: porque tu não o avisaste, no seu pecado morrerá; e suas justiças, que tiver praticado, não serão lembradas, mas o seu sangue, da tua mão o requererei. Mas, avisando tu o justo, para que não peque, e ele não pecar, certamente viverá; porque foi avisado; e tu livraste a tua alma” (Ez 3:17-21).

 

Perdição e salvação

A Bíblia apresenta dois caminhos, com dois destinos: salvação e perdição. De onde surgiu a concepção, eivada de malignidade, de que Deus destinou alguns homens à salvação e outros à perdição, antes mesmo de nascerem?

Vincular indivíduos a destinos, antes mesmo de nascerem, é pensamento contrário às Escrituras, pois a Bíblia evidencia que os destinos estão vinculados aos caminhos. Se alguém nascido da carne e do sangue (Adão) não tomar a decisão de acatar o convite de Deus, será conduzido pelo caminho largo à perdição, mas qualquer que nascer do espírito (último Adão), acatando o convite de Deus, estará no caminho estreito (Cristo), que conduz o homem a Deus.

O homem, por si só, não vai à perdição ou à salvação, antes é conduzido pelos caminhos, no qual se encontra:

“Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição e muitos são os que entram por ela; E porque estreita é a porta e apertado o caminho que leva à vida, poucos há que a encontrem” (Mt 7:13-14)

Se Deus determinasse, de antemão, quem seria salvo ou não, não haveria a necessidade de Cristo vir ao mundo e morrer pela humanidade. Seria contrassenso a necessidade de haver quem pregue o evangelho. Também, não seria exigível crer em Cristo.

Teríamos que considerar que os destinados à salvação nunca se perderam de fato, ou seja, nunca estiveram sujeitos ao pecado e à morte. Esses destinados à salvação, não precisariam morrer e serem sepultados com Cristo, para ressurgirem uma nova criatura.

A parábola dos dois caminhos contém um princípio cristalino, acerca da salvação, em Cristo, e da perdição, em Adão, que não deve ser ignorado, quando da leitura de outras passagens bíblicas que tratam de temas como salvação e perdição.

 

Os terrenos e os espirituais

Certo é que ‘… a morte veio por um homem, também, a ressurreição dos mortos, veio por um homem’, pois ‘… assim como todos morrem em Adão, assim, também, todos serão vivificados em Cristo’ (1Co 15:21-22).

O primeiro Adão, foi criado alma vivente e o último Adão, estabelecido como espirito que dá vida. Há uma ordem natural: primeiro é criado o homem natural, através da carne e do sangue de Adão e só então, é criado o homem espiritual, segundo a palavra do último Adão, que é espirito e vida (Jo 6:63).

O homem nascido da carne e do sangue de Adão é terreno, assim como foi Adão. Adão é da terra, portanto, carne e sangue não concedem direito aos homens de entrar no reino dos céus: “E agora digo isto, irmãos: que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdarem a incorrupção” (1Co 15:50).

É por isso que Jesus disse que os nascidos da carne é carne e os nascidos do espírito é espirito, ao evidenciarem ser necessário nascer de novo.

Os nascidos da carne e do sangue de Adão são carnais e terrenos, portanto, não podem herdar o Reino dos céus. Mas, os gerados segundo a semente incorruptível, são herdeiros do reino dos céus, pois são celestiais tal qual o Senhor, que é do céu.

Adão é a porta larga, porque todos os homens que vem ao mundo têm que entrar pela carne e o sangue de Adão. É através de Adão que entrou a morte no mundo e todos os seus descendentes morreram em Adão. Cristo é a porta estreita, porque é o último Adão e são poucos os que estão mortos em delitos e pecados que O encontram, ou seja, tornam-se participantes da sua carne e sangue.

O apóstolo Paulo, em poucas palavras, resume como, através de Adão, se deu a perdição e, como através de Cristo, o último Adão, se dá a salvação:

“Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente; o último Adão, em espírito vivificante. Mas, não é primeiro o espiritual, senão o natural; depois, o espiritual. O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o SENHOR, é do céu. Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais também os celestiais” (1Co 15:45-48).

Para salvar o que efetivamente havia se perdido, Deus enviou o Seu Filho unigênito ao mundo, conforme estabelecido nas Escrituras. É em função da promessa de que Cristo viria ao mundo, que os patriarcas e os crentes da Antiga Aliança foram salvos, pois creram que Deus haveria de enviar ao mundo o Descendente, em quem todas as famílias da terra seriam benditas.

No mundo, o Unigênito do Pai revelou o Pai aos homens e, através d’Ele, os homens puderam comprovar que Deus é fiel e verdadeiro. Cristo prosperou naquilo para o qual foi enviado (Is 53:10; Is 55:11), pois, como servo, foi obediente em tudo ao Pai, portanto, foi estabelecido como luz para os gentios: “Disse mais: Pouco é que sejas o meu servo, para restaurares as tribos de Jacó e tornares a trazer os preservados de Israel; também te dei para luz dos gentios, para seres a minha salvação até à extremidade da terra” (Is 49:6).

Para ser salvo, eis a receita:

“E há de ser que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” (Jl 2:32; Rm 10:13).

Salvação se obtém única e exclusivamente desta forma:

“… esta é a palavra da fé, que pregamos, a saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que, com o coração, se crê para a justiça e com a boca, se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido” (Rm 10:8-11).

Se houver dúvidas, observe como os cristãos de Éfeso foram salvos:

“Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” (Ef 1:13).

Para que houvesse salvação, primeiro Deus providenciou a palavra da fé e por isso foi anunciado o evangelho, primeiramente a Abraão (Gl 3:8). Na plenitude dos tempos, a ‘fé’ foi manifesta aos homens, pois sem ‘ela’ seria impossível ao homem agradar a Deus: “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” (Gl 3:23; Hb 11:6).

É através da fé – Cristo – o firme fundamento, que os homens são enviados a pregar, anunciando boas novas de salvação, pois como ouvirão se não há quem anuncie as boas novas? E, como invocarão aquele em quem não creram? (Rm 10:14-15)

É nesse sentido que a ‘fé’ precede a ‘conversão’ e o ‘novo nascimento’. Primeiro foi dada a palavra da fé – o evangelho de Cristo, que deve ser anunciado para, depois, haver arrependimento e o novo nascimento.

Não encontramos nas Escrituras Deus dizendo: – “Eu sou soberano para salvar”, ou – “Estou antevendo quem vou salvar”, antes é anunciado: – “EIS que a mão do SENHOR não está encolhida, para que não possa salvar; nem agravado o seu ouvido, para não poder ouvir” (Is 59:1), pois a mensagem é simples: “Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” (Rm 10:13).

O pronome ‘todo’ é inclusivo, ou seja, ‘qualquer’ que invocar o nome do Senhor será salvo, pois as suas mãos não estão encolhidas (Ele é poderoso para salvar) e os seus ouvidos não estão agravados.

Em momento algum Deus declara que escolherá aqueles que Ele há de salvar. Quando o tema é salvação, Deus é poderoso e está pronto para salvar a qualquer que o invocar. A salvação nem mesmo aparece na Bíblia, em conexão com a soberania e a onisciência divinas.

“O SENHOR teu Deus, o poderoso, está no meio de ti, ele salvará; ele se deleitará em ti com alegria; calar-se-á por seu amor, regozijar-se-á em ti com júbilo” (Sf 3:17).

Predestinação

Após explicar que a morte entrou no mundo e todos morreram por causa da ofensa de Adão e que a ressureição veio por meio de Cristo e por Ele serão vivificados todos os que creem (1Co 15:21-22), o apóstolo Paulo demonstra que não há diferença alguma entre Adão e os seus descendentes e que não haverá diferença nenhuma entre Cristo e os seus muitos irmãos.

Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais também os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial” (1Co 15:49).

Adão foi criado pelo Verbo eterno, assim como todas as coisas (Hb 1:10-12; Sl 102:25-27). Quando Adão foi criado, o Verbo eterno, teofanicamente, manifestou-se e formou o homem do pó da terra e, ao soprar em suas narinas, o homem tornou-se alma vivente.

Mas, qual foi a imagem que foi dada a Adão, quando formado do pó da terra? Resposta: foi concedida a Adão a imagem que Cristo deveria ter quando viesse ao mundo “… o qual (Adão) é a figura daquele que havia de vir (Cristo)” (Rm 5:14). Uma questão de lógica, pois se fosse dada outra imagem a Adão, quando Cristo viesse ao mundo, teria a mesma imagem, segundo a imagem concedida a Adão.

Nesta abordagem, não estamos evidenciando a perdição, decorrente da ofensa de Adão, mas, sim, como seria a imagem de Cristo na plenitude dos tempos, se fosse concedida outra imagem a Adão diversa da que foi dada no Éden.

Quando Deus criou Adão, todos os descendentes de Adão foram preordenados a serem tal qual Adão, pois qual o terreno, tais são, também, os terrestres.

O apóstolo Paulo explica que, assim como todos os homens são como o terreno Adão, os nascidos de novo em Cristo Jesus, quando revestidos da imortalidade, serão semelhantes a Ele (traremos também a imagem do celestial):

“Amados, agora somos filhos de Deus e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos” (1Jo 3:2).

Quando Cristo se manifestar em glória (1Jo 3:2), será possível aos nascidos de novo trazerem uma imagem diferente da imagem que Cristo, glorificado, agora possui à destra da Majestade nas alturas?

Se os crentes hão de ser semelhantes a Cristo, é impossível que os que creem em Cristo venham a ter uma imagem diversa da imagem de Cristo glorificado, e o motivo é bem claro: “… pois assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial” (1Co 15:49). A questão que o evangelista João aborda neste verso não diz da salvação em Cristo, mas da imagem que os salvos em Cristo haverão de ter quando Ele se manifestar.

Por causa de uma má leitura das Escrituras, ao longo da história da igreja, acreditou-se que a predestinação era para a salvação, porém, a predestinação é garantia de que o crente em Cristo, quando for revestido da imortalidade e incorrupção, há de ser conforme a imagem de Cristo.

Todas as vezes que o termo predestinação é utilizado na Bíblia, não aponta para a salvação em Cristo, antes aponta para a imagem, à semelhança de Cristo:

“Porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Rm 8:29).

A predestinação tem um objetivo e atende a um propósito específico: a primogenitura de Cristo! Para o propósito de Deus ser levado a efeito, se fez necessário estabelecer de antemão qual imagem seria dada aos de novo gerados, os irmãos de Cristo.

O objetivo da predestinação é que todos os que creem em Cristo sejam conforme a imagem (semelhança) de Cristo. Os irmãos de Cristo não serão como os homens e nem como os anjos, antes, todos serão tal qual Cristo é.

O propósito da predestinação foi estabelecido por Deus em Cristo (Ef 3:11), pois, quando os cristãos foram predestinados a serem semelhantes a Cristo, por sua vez, Cristo é elevado à condição de primogênito entre muitos irmãos (semelhantes).

Romanos 8, verso 29 primeiro, trata da salvação em Cristo, depois aborda a predestinação. Primeiro o apóstolo Paulo escreve acerca da salvação: “Porque os que dantes conheceu…”, e, em seguida, escreve acerca da predestinação: “… também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (v. 29).

Que erro grosseiro ler que Deus predestinou para ser salvo, sendo que está escrito que Deus predestinou para ser conforme a imagem de Cristo, ou seja, que os cristãos serão semelhantes a Ele.

O verbo grego προγινώσκω transliterado proginóskó traduzido por ‘dantes conheceu’ não se refere a ‘saber de antemão’, ‘saber previamente’, ‘ter conhecimento de antemão’. Ora, Deus é onisciente, portanto, sabedor de todas as coisas, quer seja os eventos do passado, quer seja os eventos do presente e igualmente os eventos do futuro.

É sem sentido afirmar que Deus é presciente, se Ele é onisciente. Presciência é reducionismo do atributo divino da onisciência.

O verbo grego προγινώσκω empregado no verso 29, de Romanos 8, não significa ‘saber de antemão’, antes foi utilizado para evidenciar a comunhão do crente com Deus. O termo foi utilizado para evidenciar comunhão intima com Deus, semelhante ao conhecimento que une homem e mulher em um só corpo.

O termo προγινώσκω contrapõe a ideia evidenciada pelo termo γινώσκω, quando utilizado por Cristo, ao dizer: “E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mt 7:23). Apesar de onisciente, conhecedor de todas as coisas, os praticantes da iniquidade nunca se fizeram um corpo com Cristo: “Porque somos membros do seu corpo, da sua carne e dos seus ossos” (Ef 5:30).

O apóstolo evidenciou que Deus só predestina a ser conforme a semelhança de Cristo, apenas aqueles que passaram (dantes) a ter comunhão intima (conhecer) com Deus: “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um” (Jo 17:22).

Só é conhecido de Deus aquele que ama a Deus, pois Ele mesmo disse que ‘ama aos que me amam’. “Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido dele” (1Co 8:3); “Eu amo aos que me amam, e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17). Dantes conhecer é o mesmo que, de antemão esperar em Cristo (Ef 1:12).

O sentido do termo grego amor (ágape), utilizado nestes versos, é honrar, obedecer. Portanto, só é conhecido de Deus, ou antes, Deus é conhecido de alguém, quando se guarda o seu mandamento, ou seja, quando O ama: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21); “Mas, agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” (Gl 4:9).

Só os que amam a Deus, ou seja, aqueles que se tornaram um com Ele, em Cristo estão predestinados a serem conforme a semelhança de Cristo (Jo 17:21).

Primeiro, a salvação, depois, a predestinação! Primeiro, a salvação, depois, a eleição, como se lê:

“Portanto, não te envergonhes do testemunho de nosso SENHOR, nem de mim, que sou prisioneiro seu; antes participa das aflições do evangelho segundo o poder de Deus, que nos salvou  e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça, que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos dos séculos” (2Tm 1:9).

O apóstolo Paulo destaca o evangelho, ou seja, o testemunho de nosso Senhor, que é o poder de Deus (Rm 1:16). Ora, é através do evangelho que o homem é salvo e, para isso, é necessário que haja quem pregue, para que os homens possam crer, pois como crerão se não há quem pregue?

O apóstolo Paulo recomenda a Timóteo que participe das aflições do evangelho, o poder de Deus que ‘nos salvou’, ou seja, salvou tanto o apóstolo Paulo, quanto a Timóteo (Ef 1:13).

Após salvo por intermédio do evangelho, os crentes são chamados com uma santa vocação. Assim como a predestinação, o chamado, segundo a santa vocação, tem um objetivo e atende a um propósito. O objetivo da vocação é para ser santo e irrepreensível diante de Deus (Ef 1:4). O proposito é o louvor e glória da graça que propôs convergir em Cristo todas coisas, para que em tudo Ele tenha a preeminência (Ef 1:10).

Os crentes em Cristo foram eleitos para serem santos e irrepreensíveis, porque constituem o corpo de Cristo. Como a cabeça é santa, o corpo também tem de ser, por isso, Deus elegeu os crentes em Cristo, a fim de serem santos e irrepreensíveis e Cristo alcança a preeminência, como a cabeça do corpo: “E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência” (Cl 1:18).

Ora, antes da fundação do mundo Deus elegeu a Cristo e a sua geração, dai o predicativo: geração eleita: “Mas, vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1Pd 2:9).

 

Má leitura

Muitos, quando leem: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn 1:26), entendem que Deus criou o homem para ser adorado e louvado, no entanto, Deus criou o homem, segundo o propósito que fez em Cristo, para que em tudo Cristo tivesse a preeminência e assim, os homens em Cristo, fossem louvor e glória para a sua graça.

A imagem e semelhança anunciadas no Éden, não foram dadas a Adão, antes, o que foi concedido a Adão, foi a imagem daquele que haveria de vir: a imagem de Jesus Cristo-homem.

Quando Cristo ressurgiu dentre os mortos, alcançou a imagem e a semelhança de Deus (Sl 17:15), tornando-se a expressa imagem do Deus invisível (Hb 1:3), quando a vontade de Deus, anunciada antes da criação, cumpriu-se: Cristo, o Descendente de Davi, tornou-se à imagem e semelhança do Deus invisível.

A semelhança que Cristo alcançou, quando ressurgiu dentre os mortos, diz da semelhança que Satanás intentou alcançar, quando pensou: “Subirei sobre as alturas das nuvens e serei semelhante ao Altíssimo” (Is 14:14). É consenso, em meio aos cristãos, que Satanás quis ser Deus, no entanto, o que ele queria mesmo, era ser semelhante ao Altíssimo, posição que Cristo alcançou quando ressurgiu dentre os mortos e todos os que n’Ele creem, estão predestinados a receber.

Os calvinistas dizem que na Bíblia há uma coleção de versículos afirmando que Deus é soberano para escolher quem Ele quer para salvar. Tremendo engano, pois as Escrituras enfatizam o poder de Deus, mas, não a sua soberania: “Ao Todo-Poderoso não podemos alcançar; grande é em poder; porém a ninguém oprime em juízo e grandeza de justiça” (Jó 37:23).

A soberania está relacionada à posição de maioral entre semelhantes e o rei Davi, neste sentido, era soberano em Israel. Deus é criador de todas as coisas, portanto, não há ninguém que se compare ou iguale a Ele. Dizemos que Deus é soberano, porque Ele é inatingível e inigualável, porém, as Escrituras não enfatizam a soberania de Deus, mas, o poder, a justiça, a fidelidade, o amor, etc.

A Bíblia apresenta Jesus Cristo como soberano, pois Ele é da casa de Davi, seu Pai, e se assentará para reinar sobre os seus irmãos e sobre toda a terra. Soberano é um titulo que pertence a Cristo, pois regerá as nações com vara de ferro: “Porque Judá foi poderoso entre seus irmãos e dele veio o soberano; porém, a primogenitura foi de José)” (1Cr 5:2).

A maioria dos Salmos que apontam para o Senhor Altíssimo, diz respeito a Cristo, o Rei grande, visto que o principado está sobre Cristo: “Porque o SENHOR Altíssimo é tremendo e Rei grande sobre toda a terra. Ele nos subjugará os povos e as nações debaixo dos nossos pés” (Sl 47:2-3); “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Is 9:6).

Ao longo da história da igreja, textos bíblicos como: Rm 8:29, Ef 1:4-5 e11, Rm 9:6-29, 1Pe 2:8, Jd 4 e 1Pe 1:2 e 20 são mal interpretados, para afirmarem o fatalismo calvinista. É uma aberração, afirmar, com base em Romanos 8, verso 29, que Deus predestinou alguns para a salvação, se o texto bíblico afirma claramente que Deus predestinou os que se fizeram um corpo com Cristo, para serem conforme a imagem do seu Filho.

O apóstolo Paulo não afirmou que o homem é predestinado para ser salvo e nem que é predestinado para ser filho, pois a filiação divina é alcançada através do poder que Deus concede aos que creem em Cristo: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1:12-13).

Para ser salvo e ser um dos filhos de Deus, só é possível por meio da fé em Cristo, portanto, a salvação e a filiação não vêm pela predestinação. A predestinação é para ser conforme a imagem de Cristo, para que Ele seja primogênito entre muitos irmãos. A predestinação visa o propósito de Deus em Cristo, que é a preeminência de Cristo em todas as coisas.

Ao escapar do erro calvinista, há a igualmente perigosa e equivocada doutrina dos arminianistas, que aponta algumas verdades, como a necessidade de arrependimento para a salvação e que o homem pode rejeitar a oferta de salvação em Cristo, mas enfatizam que Deus, prevendo quem haveria de crer, predestina alguns à salvação.

Previsão e premonição, são termos que se aplicam aos homens que desconhecem o futuro. Deus não prevê o futuro e nem tem premonição, visto que Ele é onisciente e onipresente. Prever e antever são verbos que não se aplicam a Deus, pois todas as coisas estão nuas e patentes aos seus olhos.

Assim como Deus não pode mentir, Ele não pode escolher alguns e desprezar outros, pois Ele não faz acepção de pessoas. O que Deus escolheu foi salvar os que O amam, ou seja, os que guardam os seus mandamentos. Somente aqueles que O honram, serão honrados por Ele: “Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos” (Dt 7:9); “Portanto, diz o SENHOR Deus de Israel: Na verdade tinha falado eu que a tua casa e a casa de teu pai andariam diante de mim perpetuamente; porém, agora, diz o SENHOR: Longe de mim tal coisa, porque aos que me honram honrarei, porém os que me desprezam serão desprezados” (1Sm 2:30); “Se alguém me serve, siga-me, e onde eu estiver, ali estará também o meu servo. E, se alguém me servir, meu Pai o honrará” (Jo 12:26); “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21).

Só amam a Deus aqueles que guardam o seu mandamento, portanto, só ama a Deus aquele que crê em Cristo, pois este é o mandamento: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho, Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1Jo 3:23).

Segundo a teologia, diante das doutrinas calvinista e arminianista, não há outro caminho a trilhar, se não o do equilíbrio. O termo paradoxo, tão utilizado na filosofia passou a ser utilizado pela teologia para explicar os erros teológicos inexplicáveis.

O entendimento com viés grego fatalista, de que Deus traçou um plano para a vida dos homens que é impossível de escapar e sem oferta real de salvação, contaminou a leitura bíblica de muitos.

Tornou-se consenso que os homens são autômatos, desempenhando um papel previamente estabelecido por Deus, assim como os gregos conceberam o mitológico deus Destino.

Em resumo, a verdade bíblica cristalina descreve todos os nascidos da vontade da carne, da vontade do varão e do sangue como perdidos, alienados de Deus por causa da ofensa de Adão. Para ser salvo, é necessário crer que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para isso são anunciadas as boas novas de salvação, que descrevem o Cristo como o Filho de Davi, portanto, o Filho de Deus.

Após crer em Cristo, o homem se torna um com Ele, e, de agora em diante, na condição de salvo e filho de Deus, não lhe resta alternativa: será semelhante a Cristo, pois Ele é o primogênito entre muitos irmãos!

 


[1] Análise do artigo “A Relação entre Predestinação e Livre-Arbítrio”, de Marcos Aurélio dos Santos, disponível na Web < http://www.teologiaevida.com.br/2012/06/relacao-entre-predestinacao-e-livre.html > Consulta realizada em 01/03/16.

[2] “Humanismo é a filosofia moral que coloca os humanos como principais, numa escala de importância. É uma perspectiva comum a uma grande variedade de posturas éticas que atribuem a maior importância à dignidade, aspirações e capacidades humanas, particularmente a racionalidade” Wikipédia.

[3] Fatalismo – “Concepção que considera serem o mundo e os acontecimentos produzidos de modo irrevogável. E também, a crença de que uma ordem cósmica, dita Logos, preside a vida quotidiana. Mas, em geral, é uma corrente aceita por quem se põe de maneira impassível diante dos acontecimentos, não tendo a crença de que pode exercer um papel na sua modificação. É, assim, uma doutrina que afirma que todos os acontecimentos ocorrem de acordo com um destino fixo e inexorável, não controlado ou influenciado pela vontade humana e que, embora aceite um poder sobrenatural preexistente, não recorre a nenhuma ordem natural, recusando, assim, a predestinação. Também, costuma ser confundido com determinismo. Exerceu influência, especialmente, sobre os antigos hebreus e alguns pensadores gregos”. (Wikipédia).

Ler mais

Jesus veio salvar o que se havia perdido

A finalidade da predestinação é a primogenitura de Cristo, e não a salvação. O filhos de Israel segundo a carne que são salvos antes de Cristo e na grande Tribulação não fazem parte desta predestinação, não terão a imagem do Filho de Deus. Para Cristo ser o primogênito há a necessidade de existirem irmãos conforme a sua semelhança, por isso que assim como Ele é o veremos e seremos semelhantes a Ele ( 1Jo 3:2 ).


Ao ler o artigo “Questões sóbrias para aqueles que creem numa redenção universal ou expiação ilimitada” do Pr. Colin Maxwell[1], não me esquivei à oportunidade de tecer alguns comentários e responder alguns dos seus questionamentos.

Mas, antes de responder as ‘Questões sóbrias’ do Pr. Maxwell, segue uma breve exposição do que creio segundo as Escrituras.

 

Eleição e predestinação

Os crentes em Cristo Jesus, por fazerem parte do corpo de Cristo, que é a sua igreja, além da maravilhosa graça de terem alcançado a salvação gratuitamente, também foram chamados a fazer parte do eterno propósito que Deus estabeleceu em Cristo “… segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor” ( Ef 3:11 ).

Deus introduziu o Seu Filho no mundo na condição de Unigênito, pois Ele foi o único homem concebido no ventre de uma virgem pelo poder do Espírito Santo ( Lc 1:35 ). Mas, ao ressuscitar o Seu Filho dentre os mortos, Cristo é declarado ‘primogênito’ entre muitos irmãos, pois todos que creem morrem com Cristo e ressurgem com Ele como filhos se Deus, uma nova criatura ( Cl 3:1 ).

Como o eterno propósito de Deus estabelecido na eternidade é constituir o Seu Filho primogênito entre muitos irmãos, todos quantos são salvos em Cristo Jesus através do evangelho foram predestinados a serem conforme a imagem de Cristo “… também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos( Rm 8:29 ).

O apóstolo Paulo deixa claro que o objetivo de predestinar os que ‘conheceram’ a Deus, ou antes, foram conhecidos d’Ele é que Cristo seja primogênito entre muitos irmãos ( Gl 4:9 ). Pela pregação da fé o homem ‘conhece’[2] a Deus, o que é impossível aos rudimentos fracos e pobres da lei ( Gl 3:2 com Gl 4:9 ).

Deus estabeleceu na eternidade (predestinou) que os membros do corpo de Cristo seriam conforme a imagem de Seu Filho por causa do beneplácito que propusera em Cristo: Ele será primogênito entre muitos irmãos ( Rm 8:29 ).

A salvação difere da eleição e da predestinação quanto a finalidade. Enquanto a salvação diz da providência divina segundo as riquezas da graça de Deus que livra o homem da condenação estabelecida no Éden ( Ef 1:7 ), a eleição e a predestinação decorrem do conselho (beneplácito) da vontade de Deus, que é convergir na plenitude dos tempos todas as coisas em Cristo, e isso para louvor da Sua glória ( Ef 1:11 ).

Sem a salvação em Cristo é impossível ser eleito para o propósito de Deus que foi proposto em Cristo segundo o Seu beneplácito. É por isso que o apóstolo Paulo disse a Timóteo que Deus salva os crentes salva os crentes segundo o seu poder (evangelho) e que os chamou com santa vocação (eleição e predestinação).

O apóstolo Pedro ao falar da eleição aponta para uma geração: a geração eleita, ou seja, aqueles que foram gerados de novo através da semente incorruptível. Uma geração foi eleita, portanto a eleição não aponta para indivíduos “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” ( 1Pd 2:9 ).

Deus não elegeu e nem predestinou indivíduos para a salvação, antes Ele elegeu a geração de Cristo para serem santos e irrepreensíveis e os predestinou para serem conforme a imagem do Seu Filho, para que Ele seja primogênito entre muitos irmãos.

A salvação se dá no tempo que se chama hoje e o propósito eterno foi estabelecido antes de haver mundo (eternidade)! A eleição, segundo o propósito estabelecido em Cristo é anterior à salvação, porém, a vocação do crente para o propósito que Deus estabeleceu em Cristo é posterior à salvação.

“Portanto, não te envergonhes do testemunho de nosso SENHOR, nem de mim, que sou prisioneiro seu; antes participa das aflições do evangelho segundo o poder de Deus, que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” ( 2Tm 1:8 -9).

O apóstolo João destaca que os cristãos serão semelhantes a Cristo quando Ele se manifestar ( 1Jo 3:2 ), pois para isto foram predestinados a fim de que Jesus seja primogênito entre muitos irmãos.

 

Mundo

Quando é dito na Bíblia que Deus amou o mundo, certo é que o termo ‘mundo’ não se refere ao globo terrestre ou a sua fauna, visto que eles se reservam para o fogo. Quando é dito que Deus amou o mundo, o termo grego κόσμος, transliterado ‘kósmos’ foi empregado para fazer referência a todos habitantes do planeta terra.

Esta leitura do termo depreendemos do ‘Ide’ de Jesus aos seus discípulos. A mesma ordem foi registrada pelos evangelistas Mateus e Marcos, sendo que este registrou “Ide por todo mundo e pregai o evangelho a toda criatura ( Mc 16:15 ), e aquele registrou “Ide e fazei discípulos de todos os povos( Mt 28:19 ), o que demonstra que o termo grego κόσμος (mundo) deve ser lido com a conotação ‘de todos os povos’.

É no sentido de ‘povos’, e não de ‘extensão’ geográfica que o mesmo evangelho que estava com os cristãos em Colossos, estava se propagando pelo κόσμος (mundo) ( Cl 1:6 ).

No verso 23 do capítulo 1 de Colossenses, ao admoestar os cristãos a permanecerem firmes no evangelho (a não se afastar do evangelho que ouviram), o apóstolo Paulo enfatiza que o evangelho foi ‘proclamado’ a toda criatura debaixo do céu. ‘Toda criatura’ é um modo deixar evidente que a mensagem do evangelho não faz acepção de povo, língua ou nação ( Cl 1:23 ).

Agora, o mesmo termo ‘mundo’ quando empregado no contexto que se segue, possui outra conotação:

“E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo ( 1Jo 2:2 ).

O termo κόσμος (mundo) no verso acima não serve ao propósito de demonstrar que Deus não faz acepção de pessoas, antes é inclusivo, pois a propiciação em Cristo não era somente para os cristãos convertidos, mas pelos pecados de todo o mundo.

 

Pecadores

Por causa de uma só ofensa todos os homens ficaram sujeitos ao pecado, por isso a morte afetou todos os homens, de modo que todos são pecadores ( Rm 5:12 ; 15:21 -22).

Quando o apóstolo Paulo diz que o pecado entrou no ‘mundo’, o termo não tem a conotação de extensão geográfica, e sim de inclusão, indicando que o pecado afetou todos os homens sem distinção. Como os judeus se entendiam diferentes dos gentios, o termo ‘mundo’ foi utilizado para demonstrar que o pecado afetou judeus e gregos “Pois quê? Somos nós mais excelentes? De maneira nenhuma, pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado” ( Rm 3:9 ).

Quando lemos o testemunho de João Batista acerca de Cristo, o Cordeio de Deus que tira o pecado do ‘mundo’, certo é que João Batista esta fazendo referencia aos profetas para demonstrar que aquele Jesus era o descendente prometido a Abraão em quem todas as famílias da terra são benditas. Novamente verifica-se que o termo ‘mundo’ tem conotação inclusiva para indicar nações, povos e tribos de todas as línguas.

Todos os homens são pecadores, e Cristo veio salvar o que se havia perdido. A missão de Cristo é inclusiva e extensiva a todos os homens, até mesmo sobre aqueles que eram discriminados pelo seu próprio povo, como era o caso de Zaqueu, o publicano ( Lc 19:10 ).

Teria Cristo vindo salvar alguns que se perderam dentre muitos? Este não é o posicionamento das Escrituras, pois não há exceção: todo aquele que invocar o Senhor será salvo, visto que Deus quer que todos se salvem e que venham ao conhecimento da verdade ( 1Tm 2:4 ).

 

Resposta as indagações do Pr. Colin Maxwell

As respostas aqui apresentadas não possuem o condão de fomentar disputas teológicas, antes que cada cristão leia a Bíblia e medite nela.

Faz-se necessário deixar registrado que a visão bíblica é aquela que não acrescenta e nem diminui o conteúdo que há na Lei, nos Salmos e nos Profetas, porque foi isso que Cristo e os apóstolos fizeram: evidenciaram o cumprimento das Escrituras ( At 26:22 ; At 4:18 ; Lc 24:25 -27).

Como o Pr. Maxwell defende que o calvinismo deve ser difundido em suas ‘Questões sóbrias’, especificamente na de número 14, através da pergunta:

‘Você se refreia de crer na redenção particular por qualquer outra razão além do temor do homem?’, tenho que destacar que crer é algo de fórum íntimo, portanto, o pastor seria mais feliz se perguntasse se ‘você se refreia confessar a redenção particular por temor (medo) a homens’, porque quando creio, posso negar a crença e ninguém pode provar o contrário.

Respondendo a pergunta, devo afirmar segundo as Escrituras que, para alcançar a salvação em Cristo não é imprescindível confessar como se dá a redenção que Deus providenciou para a humanidade. Afinal, a redenção em Cristo é tão grandiosa que revela aos seres celestiais a multiforme sabedoria de Deus ( Ef 3:10 ).

Considerando que a redenção revela a multiforme sabedoria de Deus até aos seres celestiais, não podemos considerar que seja imprescindível para alcançar a salvação confessar como se dá a redenção ( Ef 2:2-3 e 4:17). As Escrituras afirmam categoricamente o que é necessário: confessar (admitir) que Jesus é o Senhor “A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” ( Rm 10:9 ).

Quem evangeliza deve conhecer qual a esperança do salvo, quais as riquezas da glória da nossa herança e qual a excelente grandeza do poder de Deus sobre os que creem ( Ef 1:16 -20), mas ao evangelizar deve se ater a apresentar o Cristo, e este crucificado e ressurreto dentre os mortos.

O pastor insiste perguntando:

‘Se o temor do homem é a única razão (de não confessar a redenção particular), você não reconhece que isto no fim provará ser uma armadilha?’, o que me faz responder com outra pergunta: Se há predestinação para salvação, que armadilha pode haver em não confessar a redenção particular?

Esta pergunta do pastor me levar a inferir que a intenção dele é afirmar que, saber como se dá a redenção: se particular ou universal, é garantia de salvação. Crer que Deus predestinou alguns para salvação é garantia da salvação? Ou melhor, seria garantia de predestinação? Se a garantia de salvação se encontra em Crer que o Senhor Jesus morreu por causa de nossos pecados e ressuscitou para nossa justificação, por que tanto empenho em convencer qual tipo de redenção crer? Por que perder tempo anunciando como se dá a redenção, se a salvação se alcança em crer em Cristo Jesus?

Devo lembrar aqui que crer que Jesus é o Senhor e confessar que Ele é ressurreto dentre os mortos é garantida de salvação, e nisto não há ‘armadilha’ alguma, porque Deus vela sobre a sua palavra para cumprir.

A seguir o Pr. Maxwell faz uma pergunta que mais parece uma espécie de chantagem emocional evocando o medo ao dizer:

“Você não pode conversar sobre e através das diferenças com aqueles que você teme, apontado o sucesso da pregação calvinista na história da igreja? (Provérbios 29:25)”.

Ao citar provérbios sem levar em consideração o contexto bíblico, depois de fazer sua pergunta, o pastor parece induzir meninos em Cristo a conversar sobre a redenção particular e o sucesso da pregação calvinista, e não as Escrituras.

Por que intimidar o cristão para que converse sobre questões e sucesso da pregação calvinista, se a promessa bíblica é que não há mais nenhuma condenação para quem está em Cristo, e somos exortados a: conhecer qual a esperança dos santos, quais as riquezas da glória da nossa herança e qual a excelente grandeza do poder de Deus sobre os que creem ( Ef 1:16 -20), nada dizendo sobre se a redenção é geral ou particular?

O apóstolo João fez um alerta acerca da permanência em Cristo, mas o alerta não evoca medo e nem se apoia em chantagem emocional, como se lê:

“Todo aquele que prevarica, e não persevera na doutrina de Cristo, não tem a Deus. Quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem tanto ao Pai como ao Filho” ( 2Jo 1:9 ).

A doutrina de Cristo que o apóstolo João faz referencia não se refere à pregação calvinista, mas ao mandamento que o Senhor Jesus deu, à saber: a ‘amar a Deus sobre todas as coisas’ crendo em Cristo, e ‘ao próximo como a si mesmo’ segundo o mandamento de Deus ( 1Jo 3:24 ).

Evoco o posicionamento do apóstolo Paulo:

“Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida” ( Rm 5:18 )

A Bíblia mostra que a graça de Deus se estende a todos os homens, assim como a ofensa de Adão trouxe juízo e condenação sobre todos os homens. Se admitirmos que o juízo de Deus veio sobre todos os homens para condenação sem exceção, também temos que admitir que a graça veio sobre todos os homens.

A condenação veio sobre todos os homens, porque ela é em função do nascimento natural segundo a carne de Adão. Mas, com relação à graça sobre todos os homens pela obediência de Cristo, só desfrutam dela aqueles que creem em Cristo conforme o poder que há no evangelho. A graça é poderosa para alcançar todos os homens sem exceção, pois a perdição foi para todos sem exceção!

“Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia” ( Rm 11:32 );

“E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo ( 1Jo 2:2 ).

Faço esta defesa do evangelho de Cristo por não temer qualquer posicionamento doutrinário, ou homem algum, pois devemos ter por lema: “Porque nada podemos contra a verdade, senão pela verdade” ( 2Co 13:8 ).

Além do mais, o sucesso de qualquer agremiação ou tendência teológica não é selo de autenticidade doutrinária, por isso não me refreio em contestar o que se demonstra contrario às Escrituras mesmo que tenha atingido o sucesso.

Na questão de número 13[3], o Pr. Maxwell aponta a existência de calvinistas que ele desaprova. Na pergunta que contém muita argumentação, no afã de remover o que traz entrave à doutrina calvinista, o pastor lança descredito nos ‘hiper’ calvinistas por evidenciar que não há a necessidade de se evangelizar.

No entanto, os ditos hiper calvinistas são coerentes quando afirmam que não há necessidade de pregar quando se acredita na predestinação para a salvação. Segundo os hiper calvinista, se Deus só garante salvação para os eleitos segundo Sua soberania, exclui-se a necessidade de evangelizar.

Entendo que os hiper calvinista estão em extinção porque os demais calvinistas não sustentam o que afirmam. A recomendação de Tiago é: “Assim falai, e assim procedei, …” ( Tg 2:12 ), portanto, se a salvação decorre de uma predestinação, a pregação do evangelho fica sem finalidade. Uma característica de quem confessa a doutrina calvinista e defende a evangelização parece se amoldar muito bem ao alerta que o apostolo Paulo fez a Timóteo: “… Querendo ser mestres da lei, e não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam” ( 1Tm 1:6 -7 ).

O cerne da questão não está na constatação de calvinistas que não recomendam evangelizar, e sim na essência do pensamento calvinista: por que evangelizar todos, se a salvação é para alguns escolhidos? Qual a necessidade de se evangelizar a todos, se a salvação é só dos eleitos? Se a salvação é só para alguns, porque o ‘ide’ de Jesus é para todos?

A energia que os não hiper calvinistas despendem para desqualificar a salvação ao alcance de todos deveria ser aplicada em encontrar argumentos que expliquem a necessidade de evangelismo considerando a lógica de sua doutrina, pois se de fato existe eleição e predestinação para a salvação, que se dê uma explicação plausível por que pregar o evangelho. Somente afirmar que também evangelizam não valida utilidade do evangelismo dentro da doutrina que anunciam.

Para defender o seu argumento, o Pr. Maxwell aponta na pergunta de n° 12 os pregadores George Whitefield e C. H. Spurgeon como os maiores evangelistas que já viveram. Volto a repetir, a postura desses homens e dos neo calvinistas não esclarece e nem valida a necessidade de evangelizar na doutrina calvinista.

Com relação à questão de n° 11:

“Você vê a redenção particular como estando em desvantagem quando se trata da livre oferta do evangelho? Tanto calvinistas como não calvinistas creem que o precioso sacrifício do Filho de Deus é suficiente para salvar o mundo, tanto os eleitos como os não eleitos – isto não remova qualquer senso de desvantagem?”;

Primeiro: ‘vantagem’ não é uma questão que se deva levar em conta quando o assunto é salvação. O que se deve considerar é a veracidade da palavra, e as palavras do artigo “Questões sóbrias…” se mostram duvidosas, porque enquanto aqui afirma que o precioso sacrifício de Jesus é suficiente para salvar o mundo todo, nas questões de número 02 e 03 argumenta contra esta mesma possibilidade dizendo:

“Cristo veio e morreu para salvar eficazmente homens ou apenas para fazer a salvação possível? Então, era teoricamente possível que Cristo falhou, no final das contas, no Seu propósito de Sua morte? Ele realmente verá o fruto do trabalho de Sua alma e ficará”, ou “Cristo está realmente satisfeito com o fruto do trabalho de Sua alma quando Ele vê Judas Iscariotes, (por quem, você insiste, Ele morreu, da mesma forma como por João e Pedro, etc.) indo para o próprio lugar onde teria sido melhor para ele nunca ter nascido? poderia morrer por pecados e ninguém ser salvo?”.

O ‘ide’ de Jesus ao mundo como mandamento depõe contra a predestinação para a salvação. Ora, não encontramos termos como ‘redenção particular’ ou ‘redenção geral’ na Lei, Salmos, ou nos Profetas. A doutrina da redenção particular é incongruente com o evangelho de Cristo, porque quem nasce predestinado nunca esteve perdido, portanto, não precisa de salvação.

A Bíblia apresenta Jesus como salvador para todos que creem, sem distinção entre judeus e gregos, pois todos pecaram, e ainda afirma: “Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia” ( Rm 11:32 ). Já o posicionamento calvinista afirma a existência de dois grupos de pessoas: as que foram predestinadas a serem salvas (o que significa que tais pessoas nunca estiveram perdidas), e outras que nascem predestinadas à perdição (nunca tiveram uma real oportunidade de salvação).

A eleição e a predestinação são, efetivamente, doutrinas bíblicas, porém não apontam diretamente para a salvação. A eleição aponta para Jesus, pois se dá em Cristo e a predestinação visa os que nascem de novo, ou seja, os crentes. Cristo é o eleito de Deus antes da fundação do mundo e todos que se tornam participantes do seu corpo crendo nele, foram predestinados para serem conforme a imagem de Cristo.

O apóstolo Paulo enfatiza que os cristãos foram predestinados para serem conforme a imagem de Cristo, para que Ele seja primogênito entre muitos irmãos. A finalidade da predestinação é a primogenitura de Cristo, e não a salvação. Os filhos de Israel segundo a carne que são salvos antes de Cristo e na grande Tribulação não fazem parte desta predestinação, não terão a imagem do Filho de Deus. Para Cristo ser o primogênito há a necessidade de existirem irmãos conforme a sua semelhança, por isso que assim como Ele é o veremos e seremos semelhantes a Ele ( 1Jo 3:2 ).

“Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conforme à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” ( Rm 8:29 ).

A salvação é concedida aos homens que, por intermédio do evangelho conheceu a Deus, ou antes, foram conhecidos dele “Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” ( Gl 4:9 ). O homem conhece a Deus por intermédio do evangelho.

Conhecer aqui não é presciência, e sim ter comunhão íntima, participando de um só corpo e de um só espírito. Ora, primeiro o homem se torna um com Cristo, e consequentemente predestinado a ser conforme a imagem de Cristo, pois a predestinação tem por objetivo a preeminência de Cristo entre muitos semelhantes a ele.

Primeiro Deus salva o perdido segundo o poder do evangelho, depois o salvo em Cristo é chamado com santa vocação: eleição e predestinação. Deus não escolheu e nem predestinou alguns indivíduos à salvação, antes Ele elegeu e predestinou a nova geração em Cristo, sendo Ele o último Adão, para serem santos e irrepreensíveis e conforme a imagem do Seu Filho para que Ele seja primogênito entre muitos irmãos.

A vocação do crente para o propósito que Deus estabeleceu em Cristo não precede a salvação em Cristo, porém, o propósito estabelecido em Cristo foi estabelecido na eternidade antes de haver mundo.

Na questão de nº 10[4], vale destacar que a crença exigida nas Escrituras é que se creia que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus. A essência do evangelho é universal e inclusiva: todo aquele “Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” ( Rm 10:13 ).

Este é o mandamento de Deus segundo registrou o apóstolo João: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( Jo 3:23 ).

Não há suporte nas Escrituras para o que o homem acredita segundo uma carnal compreensão, e nem para a tal redenção dita ‘particular’, pois o que é a base da salvação é Cristo: o fundamento de Deus. A salvação está em Cristo, pois Ele é a fé manifesta ( Gl 3:23 ). A vantagem está em crer n’Ele, pois Ele é fiel, agora, não há vantagem alguma em acreditar em algo que não seja as Escrituras.

O evangelho anunciado pelo apóstolo Pedro as pessoas que crucificaram o Cristo foi de salvação irrestrita, mesmo para os assassinos do Filho de Deus, desde que mudassem de concepção crendo em Cristo ( At 3:15 -19).

Ora, Deus é verdade, e não há nele injustiça nenhuma ( Dt 32:4 ). Ora, se Ele amou todos os homens (mundo), significa que Deus amou todos os homens, e não que Ele anunciou uma ficção aos homens. O apóstolo Pedro, quando fez este discurso, não estava pensando em uma redenção particular, antes foi verdadeiro ao propor a todos homicidas de Cristo ampla e irrestrita salvação.

Seria uma falácia a mensagem do apóstolo Pedro se algumas pessoas estivessem destinadas a salvação. Deus não trabalha com o engano. Ele não fala o que não vai cumprir. É desonesta uma mensagem de salvação a todos os pecadores se a proposta inicial é salvar alguns.

O Pr. Maxwell alega que é desvantagem crer numa ‘redenção geral’ vez que Deus não alcança 100% de sucesso. Deus retirou do Egito um povo numeroso com quase seiscentos mil homens de pé, porém, desses, somente dois entraram na terra prometida. O sucesso de Deus é analisado pela quantidade de crentes salvos, e não pela quantidade dos que se perdem.

A promessa de Deus não se manteve firme por apenas dois dos que saíram do Egito terem entrado na terra prometida? Se todos os crentes em Cristo são salvos, então há 100% de sucesso na obra de Cristo “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação ( 1Co 1:21 ); “Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue?” ( Rm 10:14 ).

Ora, o plano de redenção de Deus tem 100% de sucesso, pois Cristo veio ao mundo e foi obediente ao Pai em tudo. O seu eterno proposito que redunda em louvor a Sua glória tem 100% de sucesso, pois Cristo ao ressurgir dentre os mortos conduziu muitos filhos a Deus, e Cristo é primogênito entre muitos irmãos. Os muitos filhos são compostos de 100% crentes.

A incredulidade de alguns ou de muitos não aniquila a fidelidade de Deus. Deus é fiel e cumpriu o que prometeu: enviou o seu Filho e salva todo aquele que n’Ele crê. Agora, se formos infiéis, Ele permanece fiel, e a infidelidade do homem não depõe contra Deus ( Rm 3:3 ).

A questão de n° 9[5] acerca do significado de alguns termos na Bíblia como ‘todos’ e ‘mundo’, deve ser analisada criteriosamente, principalmente quanto à ênfase que o contexto apresenta.

Devemos reconhecer que, dependendo do contexto em que a palavra ‘mundo’ ou ‘todos’ é inserida, pode limitar o número de pessoas, contudo não anula o fato de que o termo ‘mundo’ empregado em João 3, verso 16, e em primeira João 2, verso 2 referem-se a todas e quaisquer pessoas, de todos os tempos e em todos lugares.

Foram citadas 5 passagens bíblicas e questionado o significado de algumas palavras. Atos 4, verso 35 é citado: “E repartia-se a cada um, segundo a necessidade que cada um tinha” onde se vê que os apóstolos repartiam o que era comum segundo a necessidade em particular de cada indivíduo que pertencia à igreja. Ou seja, a passagem demonstra que havia uma limitação quanto ao que era distribuído, e a limitação não era quanto ao indivíduo, mas quanto a necessidade do indivíduo.

Isto porque ‘ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria’, ou seja, ninguém assume o valor de ‘todos’, pois sem exceção todos consideravam o que possuíam como sendo propriedade de todos, de modo que tudo era comum a todos ( At 4:32 ).

O verso seguinte demonstra que todos os apóstolos, sem exceção, possuía abundante graça e testemunhavam acerca da ressureição de Jesus ( At 4:33 ). Entre os cristãos não havia necessidade alguma, pois aqueles que possuíam herdade vendiam e traziam o valor arrecadado e dava aos apóstolos. Neste caso, somente os cristãos que possuíam herdade é que vendiam-nas, mas dentre os que possuíam, todos se propuseram vender e dar o dinheiro aos apóstolos.

Com relação a recomendação acerca do casamento o apóstolo Paulo adverte que cada cristão em particular tenha a sua própria esposa, e cada mulher cristã que tenha o seu próprio marido. Ora, o texto limita a quantidade de esposas e esposos por causa da prostituição, porém, a ordem se estende a todos os cristãos. A ênfase do texto está em limitar uma única esposa por marido ( 1Co 7:2 ).

Para responder a pergunta do Pr. Maxwell com relação ao comentário que ele faz do evangelho de João 12, versos 19 à 20 (“mundo” significa os gentios em oposição aos judeus somente), vale destacar que ‘mundo’ não foi utilizado para destacar oposição entre judeus e gentios, porque tanto a multidão que viu a ressurreição de Lázaro como a que viera para a festa era composta de judeus e prosélitos ( Jo 12.9 ). Afinal haviam ido a Jerusalém para a festa da Páscoa ( Jo 12.1 )

Outra questão levantada é com relação a seguinte passagem “E qualquer que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, como também ele é puro” ( 1Jo 3:3 ). No verso ‘qualquer’ tem o sentido de ‘todo’, e isto não significa limitação, mas inclusão. Não importa a nação, o povo, ou a língua, se tem em Cristo esperança, purifica-se a si mesmo.

Nenhuma destas passagens depõe contra o fato de que Jesus veio salvar a todos, por isso a boa nova de salvação é anunciada a todos, sem exceção. A fidelidade de Deus é para todos, pois Ele providenciou poderosa salvação na casa de Davi para todos os povos, cumprindo a promessa a Abraão de que no descendente seriam benditas todas as famílias da terra “E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra” ( Gn 12:3 ).

A promessa de benção de Deus não é extensiva a ‘todas’ as famílias da terra? Há alguma limitação especifica no evangelho anunciado primeiramente a Abraão?

Não há limitação quanto aos tipos de famílias: todas.

Qual o significado de ‘todos’ no verso seguinte:

“Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida” ( Rm 5:18 ).

Existe limitação com relação ao juízo de Deus sobre todos os homens? Não! Então não há limitação quanto à graça de Deus sobre todos os homens!

Não há limitação da parte de Deus, pois Ele é fiel! Mas, há limitação por parte do homem: a incredulidade “Pois quê? Se alguns foram incrédulos, a sua incredulidade aniquilará a fidelidade de Deus?” ( Rm 3:3 ).

A questão ‘incredulidade’ leva a pergunta de n° 8[6] onde há uma profusão de erros de interpretação bíblica.

A resposta para a pergunta: “Cristo morreu pelo pecado da incredulidade?” é não!

Cristo não morreu por ‘pecados’, antes ele morreu pelos pecadores, como se lê:

“Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios ( Rm 5:6 );

“Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores ( Rm 5:8 );

“Porque foi para isto que morreu Cristo, e ressurgiu, e tornou a viver, para ser Senhor, tanto dos mortos, como dos vivos” ( Rm 14:9 );

“Mas, se por causa da comida se contrista teu irmão, já não andas conforme o amor. Não destruas por causa da tua comida aquele por quem Cristo morreu” ( Rm 14:15 );

“E pela tua ciência perecerá o irmão fraco, pelo qual Cristo morreu” ( 1Co 8:11 ).

Esses versículos citados enfatizam que Cristo morreu pelos homens, ou seja, pelos pecadores.

Há um único versículo que diz que Jesus morreu por nossos pecados:

“Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras” ( 1Co 15:3 ).

Ora, Jesus morreu pelos ‘ímpios’ ou pelos ‘pecados’?

O apóstolo Paulo nos responde:

“Porque o amor de Cristo nos constrange, julgando nós assim: que, se um morreu por todos, logo todos morreram” ( 2Co 5:14 ).

Há uma questão teológica a ser entendida com relação a morte de Cristo.

Em primeiro lugar devemos entender que o pecado que atingiu toda humanidade é decorrente da ofensa de Adão, que desobedeceu e trouxe morte sobre todos os homens “Porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo” ( 1Co 15:21 -22); “Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram” ( Rm 5:12 ).

A ofensa contra Deus que resultou no pecado foi a desobediência de Adão, e a desobediência só poderia ser substituída pela obediência. Na verdade a redenção da humanidade é substituição de ato: obediência pela desobediência, como se lê:

“Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” ( Rm 5:18 )

A redenção está na obediência de Cristo.

Mas, para que Cristo obedecesse havia que ser revelada a vontade de Deus, que neste caso era a oblação do corpo de Cristo.

“Então disse: Eis aqui venho, para fazer, ó Deus, a tua vontade. Tira o primeiro, para estabelecer o segundo. Na qual vontade temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez” ( Hb 10:9 -10).

Mas, por que Cristo morreu?

Ao morrer Cristo não estava oferecendo um sacrifício a Deus, antes estava sendo obediente, e foi obediente até a morte, e morte de cruz. Semelhante a Abraão que obedeceu a Deus e ia oferecer o seu único filho em holocausto, Jesus obedeceu a Deus como Abraão e foi a ovelha do holocausto. Ele morreu por causa do advento da Nova Aliança, pois era necessário a morte do testador para ter validade a aliança “Porque onde há testamento, é necessário que intervenha a morte do testador” ( Hb 9:16 ).

Não foi por pecados que Cristo morreu, antes Ele morreu pelos homens porque são pecadores, daí a colocação paulina: Cristo morreu pelos (por causa dos) nossos pecados “Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” ( Is 53:5 ).

Analisaremos em conjunto as questões 6 e 7[7], pois estão intimamente ligadas.

O Pr. Maxwell quer validar o seu argumento com a pergunta: Isto é justo? Esta é uma artimanha das Testemunhas de Jeová ao negarem a existência do lago de fogo: É justo alguém padecer pela eternidade?

Argumentar ante o juiz de toda terra se é justo o que ele faz, não valida qualquer argumento, pois a concepção de justiça do homem é como trapo de imundície diante de Deus.

Deus ordenou a destruição dos amalequitas, e incluiu na matança as crianças. Pergunto: Isto é justo? Mas, as crianças eram inocentes! Questionar se é justo ou não, não é base para validar um argumento, pois mesmo as crianças de Sodoma e Gomorra sendo inocentes, não eram justas diante de Deus “Se porventura de cinquenta justos faltarem cinco, destruirás por aqueles cinco toda a cidade? E disse: Não a destruirei, se eu achar ali quarenta e cinco ( Gn 18:28 ).

Cristo veio ao mundo salvar o que se havia perdido. Quem se perdeu? Todos os homens, pelo que se conclui que Jesus veio salvar todos os homens Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho; mas o SENHOR fez cair sobre ele a iniqüidade de nós todos ( Is 53:6 ); “Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido” ( Lc 19:10 ).

A morte de Cristo garantiu salvação a todos os homens, porém, muitos permanecem separados da vida de Deus por causa da ignorância que há neles. O problema não está na salvação providenciada, pois é poderosa e alcança a todos os homens, sem exceção. O problema é a ignorância.

A Bíblia afirma que por uma só ofensa todos pecaram, e Cristo morreu por causa desta ofensa. Já o erro de conduta das pessoas quer sejam salvas ou não, serão julgadas em tribunal específico: Tribunal de Cristo para os salvos e Tribunal do Trono Branco para os perdidos, onde cada um receberá segundo as suas obras “Entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração” ( Ef 4:18 ).

Devemos nos afastar de qualquer doutrina que tenha aparência de piedade, mas que negue a eficácia do evangelho “Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te” ( 2Tm 3:5 ).

Deus não se lembra dos pecados daqueles que ouviram a mensagem e misturaram com a fé “Porque também a nós foram pregadas as boas novas, como a eles, mas a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não estava misturada com a fé naqueles que a ouviram” ( Hb 4:2 ).

O escritor aos Hebreus destaca que o problema não está na mensagem pregada, o problema está naqueles que ouviram, mas ouviram de malgrado “Porque o coração deste povo está endurecido, E ouviram de mau grado com seus ouvidos, E fecharam seus olhos; Para que não vejam com os olhos, E ouçam com os ouvidos, E compreendam com o coração, E se convertam, E eu os cure” ( Mt 13:15 ).

O castigo que nos trouxe a paz foi perfeito, mas se alguém negar a Cristo, Ele também o negará “Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará” ( 2Tm 2:12 ). Se a salvação fosse por predestinação, o aviso solene para permanecer firme é sem razão, pois os que creem é para conservar a alma, diferente dos que desistem ( Hb 10:39 ).

Quando Cristo venceu a morte, o pecado foi aniquilado ( Hb 9:26 ). Só permanecem separados de Deus aqueles que permanecem na ignorância.

Embora a questão de nº 7 não leve em consideração o fato de o Cordeiro de Deus ter sido morto desde a fundação do mundo ( Ap 13:8 ), vale salientar que embora a graça é para todos, a promessa de jamais se lembrar dos pecados alcança somente os crentes ( Hb 10:17 ).

Apesar de o Cordeiro de Deus ser manifesto oportunamente na plenitude dos tempos, ele foi morto desde a fundação do mundo. Logo, quando Cristo foi morto (desde a fundação do mundo) não havia homens no inferno, de modo que a sua morte era suficiente para beneficiar a todos que cressem.

Somente os crentes são remidos, porém, a oferta do corpo de Cristo foi feita de uma vez por todas de modo que não há mais oblação pelo pecado ( Rm 8:1 ; Hb 10:18 ). Devemos lembrar que as ações daqueles que creem serão julgadas no Tribunal de Cristo. Os descrentes carregam consigo a condenação decorrente da ofensa de Adão, mas também serão julgados quanto as suas obras “E vi os mortos, grandes e pequenos, que estavam diante de Deus, e abriram-se os livros; e abriu-se outro livro, que é o da vida. E os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras” ( Ap 20:12 ); “O que é, já foi; e o que há de ser, também já foi; e Deus pede conta do que passou” ( Ec 3:15 ).

O juízo para condenação se deu em Adão, mas haverá juízo de obras. Os pecados que não serão lembrados referem-se aos erros de conduta dos salvos antes de conhecerem a Cristo, pois se deram sob a paciência de Deus “Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” ( Rm 3:25 -26).

Cristo morreu por causa da ofensa de Adão e ressurgiu para a nossa justificação, o que demonstra que os erros de conduta e as boas ações dos crentes, quando praticados na ignorância são esquecidos. Cristo não morreu por pecados, antes por causa dos pecados para justificação de todo que crê.

Com relação a questão 5[8], entendo pelas Escrituras que Cristo morreu por todos os homens, até mesmo por Caim e Faraó. Devemos lembrar que Jesus é o Cordeiro de Deus que foi morto desde a fundação do mundo, e se Abel foi declarado justo por Deus, tal declaração foi decorrente da fé de Abel.

Caim e Faraó se perderam não por ineficácia da morte de Cristo, mas pela incredulidade deles. Caim se perdeu, mas Abel foi salvo porque creu que Deus o aceitaria graciosamente, e não que seria aceito em função da oferta, de modo que Deus primeiramente o aceitou e depois a sua oferta ( Gn 4:4 ).

Abel se aproximou de Deus pois cria que Ele existe, e o buscou por que sabia que Deus é galardoador dos que O buscam, e não dos que apresentam uma oferta.

Sim! Creio que Jesus morreu por aqueles que já morreram, porque segundo as Escrituras para Deus vivem todos e, mesmo após morrerem, seguem para o juízo. Ora, todos os nascidos de Adão nasceram sob condenação, pois o juízo de Deus foi estabelecido na morte de Adão no Éden. O juízo que o homem segue após morrer a morte ordenada para ocorrer uma só vez é o juízo do Trono Branco, onde haverá julgamento das obras “E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo” ( Hb 9:27 ).

Cristo é Cordeiro de Deus morto desde a fundação do mundo, porém, a sua morte se deu na plenitude dos tempos ( Gl 4:4 ). Jesus morreu em benefício de todos, porém, indivíduos como Caim e Faraó não se beneficiaram da graça de Deus pela incredulidade deles.

Sim! Jesus morreu de bom grado por homens como Caim e Faraó, pois Ele não se propôs a morrer por homens justos, mas sim pelos ímpios, visto que não havia um justo, nem um se quer ( Sl 53:3 ). Esta é uma prova do amor de Deus: morrer por ímpios como Caim, Faraó, etc. “Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” ( Rm 5:8 ).

O convite de salvação é para pecadores, sejam eles a Madre Teresa de Calcutá ou Hitler. Este convite se estende até mesmo para aqueles que mataram o autor da vida ( At 3:19 ).

Com relação aos argumentos dos itens 3 e 4[9], tem-se um caloroso ‘sim’ à pergunta se Cristo morreu de igual forma para Pedro ou Judas.

A verdade é única: Cristo se fez maldito quando foi pendurado no madeiro   e morreu pelos pecadores. Judas Iscariores era pecador? Sim! Então Jesus morreu por ele. Pedro era pecador? Sim! Então, de igual modo Jesus morreu por Pedro.

Cristo não se sentiu satisfeito com a morte de Judas Iscariotes, mas sentiu-se satisfeito com o seu trabalho. Levando-se em conta a profecia de Isaias, com o seu trabalho Jesus ficou satisfeito, pois através do seu conhecimento Ele salvou muitos.

Judas não foi predestinado a perdição, antes Deus onisciente sabe de todas as coisas, e deixou tal evento registrado nas Escrituras. A decisão de Judas não foi estabelecida e nem sofreu influência de Deus, antes foi totalmente autônoma e voluntária.

O registro da traição nas Escrituras é um lampejo da onisciência de Deus, que para nós é presciência. A revelação de eventos futuros para o homem recebe o nome de presciência, já o atributo divino com relação ao conhecimento dá-se o nome de onisciência.

Deus é onisciente, e não presciente. A revelação de Deus aos homens é presciência. O fato de Deus saber da traição e deixar predito nas Escrituras não determinou a traição de Judas, pois tudo o que é já foi, e o que há de ser já ocorreu para Deus, mas Ele pede conta de cada um quanto aos seus feitos. O fato de Deus requerer dos homens seus feitos demonstra que Ele não determina os atos de ninguém ( Ec 3:15 ).

Mas, porque Ele não salvou todos, se Ele morreu por todos? Porque onde há o Espírito de Deus, aí há liberdade, como se lê: “Enquanto se diz: Hoje, se ouvirdes a sua voz, Não endureçais os vossos corações, como na provocação” ( Hb 3:15 ; Sl 93:8 ). O convite é feito a todos, como se Deus por nos rogasse aos homens para que se reconciliem com Ele, mas Ele não sobrepuja os corações endurecidos ( 2Co 5:20 ).

É contra senso um Deus que escolhe e predestina alguns a salvação rogar através dos seus embaixadores que os homens se reconciliem com Ele.

Deus roga porque todos tem liberdade de aceitar ou recusar convite: “Se alguém tem sede, venha a mim, e beba” ( Jo 7:37 ). A água oferecida não tem problema algum, pois é de uma fonte inesgotável e tem poder para saciar todos quanto beberem. O problema está naqueles que ouvem o convite e rejeitam a água.

Deus não tem prazer na morte do ímpio, e Cristo também “Desejaria eu, de qualquer maneira, a morte do ímpio? diz o Senhor DEUS; Não desejo antes que se converta dos seus caminhos, e viva?” ( Ez 18:23 ).

Além de Deus não desejar a morte do ímpio, é desejo d’Ele que o ímpio se converta. O problema não está em Deus que faz um convite ao homem para que se converta, e sim nos homens que não dão ouvidos “Dize-lhes: Vivo eu, diz o Senhor DEUS, que não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho, e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois, por que razão morrereis, ó casa de Israel?” ( Ez 33:11 ).

Na questão do proposito que Deus estabeleceu na eternidade em Cristo, de fazê-lo cabeça da igreja e o mais elevado dos reis da terra, opera a soberania de Deus. Mas, nas questões relativas a salvação do homem, opera a misericórdia, por isso diz o apóstolo Paulo: “De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo, como se Deus por nós rogasse. Rogamo-vos, pois, da parte de Cristo, que vos reconcilieis com Deus” ( 2Co 5:20 ).

Deus estabeleceu o Seu Filho como primogênito, pois Cristo conquistou este direito na cruz, já com relação à salvação, há um pedido aos homens que se reconciliem.

Cristo ficou satisfeito com o seu trabalho, porque embora tenha provido salvação a todos os homens, a proposta é salvar os que creem. Deus não salva pela predestinação ou eleição, e sim pela loucura da pregação, que é o poder de Deus “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação” ( 1Co 1:21 ).

Com relação ao item 2[10], certo é que Cristo veio salvar a humanidade, e o termo ‘eficazmente’ foi amalgamado à salvação para pôr em xeque a salvação em Cristo. A salvação não é especulação teórica, assim como a perdição de todos em Adão não é teoria.

Analisando a doutrina calvinista da eleição e predestinação, a perdição de alguns não passou de teoria, visto que tais ‘salvos’ pela eleição e predestinação nunca estiveram perdidos de fato. De outra banda, os perdidos nunca tiveram a possibilidade de salvação, pois a salvação nunca foi uma providência divina para eles. Segundo a concepção calvinista a salvação é uma falácia!

A Bíblia como verdade deve ser analisada como fato, e não como teoria. Levantar teorias sobre se era possível Cristo morrer pela humanidade em pecado (e não por pecados) e ninguém ser salvo é semelhante a se ater às fábulas e a genealogias intermináveis que mais promovem contendas do que edificação. Mas, nunca houve a possibilidade de ninguém ser salvo, pois Deus mesmo diz que a Sua palavra não volta atrás vazia, e por isso mesmo providenciou poderosa salvação na casa de Davi.

A questão sóbria de n° 1[11] é a pior de todas do ponto de vista dos equívocos. Não é admissível que alguém que se coloca como mestre das Escrituras use os anjos caídos para provar a redenção particular, visto que um mestre das Escrituras deve conhecer as Escrituras.

Cristo não morreu para salvar os seres celestiais caídos! Vejamos os motivos:

  • Os anjos não fazem parte do propósito eterno estabelecido em Cristo, que é Cristo como primogênito entre muitos irmãos ( Hb 2:5 );
  • Com relação ao propósito eterno os anjos são espectadores da multiforme sabedoria de Deus ( Ef 3:10 );
  • Aos anjos caídos não foi dado um mandamento que os salvasse, pois igualmente na queda não desobedeceram um mandamento ( Sl 71:3 ); Um homem desobedeceu o mandamento dado no Éden, agora a salvação para os homens está em um novo mandamento: crer em Cristo;
  • Os anjos não necessitam crer, pois enquanto os homens veem por espelho através dos enigmas, os anjos caídos estavam em contato com a realidade quando caíram;
  • Como não há morte física para os anjos, pois são seres ‘espirituais’, a redenção em Cristo não os alcança. A morte de Cristo só alcança os seus semelhantes segundo a carne sujeitos à morte física, pois qualquer que nele crê é batizado na morte de Cristo para ressurgir uma nova criatura;
  • Cristo foi feito menor que os anjos precisamente para que participasse da paixão da morte, morrendo a morte física em nosso lugar. Entretanto, os pecadores por estarem em um caminho largo que conduz à perdição, isso causa da ofensa de Adão, precisam morrer para o pecado para que se cumpra a lei que diz: a alma que pecar, essa mesma morrerá;
  • Os homens tornaram-se pecadores por uma ofensa de um homem que pecou, já os anjos deliberadamente seguiram cada um a presunção de seus corações;
  • Cristo é mediador entre Deus e os homens, e não mediador entre Deus, anjos e homens.

O fato de Jesus não ter morrido pelos anjos não depõe contra o fato de Jesus ter morrido pela humanidade, pois ele como homem só podia ser mediador de homens, por isso em tudo se fez semelhante aos seus irmãos: participante de carne e sangue ( Hb 2:17 ).

Não existe um grupo particular de pecadores, pois nem mesmo os judeus são diferentes ou melhores diante de Deus que os demais pecadores gentios ( Rm 3:9 ).

A salvação é universal (ilimitada) e inclusiva (todo aquele), porém, só gozarão dessas benesses aqueles que creem no evangelho, ou seja, que invocarem o nome do Senhor, portanto, neste aspecto a salvação é exclusiva dos que creem “Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” ( Rm 10:13 ; Rm 1:16 ).

Em suma, Jesus disse que Deus deu o Seu Filho para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Jesus disse que importava que Ele fosse levantado assim como a serpente de metal foi levantada no deserto por Moisés, para todo aquele que nele crê não perecesse, mas tivesse a vida eterna ( Jo 3:14 -16).

Deus amou o mundo que Deus o Seu Filho, porém, os adeptos da doutrina da ‘expiação limita’ fazem um esforço enorme para colocar uma dúvida no coração de quem ouve a mensagem do evangelho:

‘Será que Jesus morreu por você?’

Amado leitor, se esta dúvida sobressaltar o seu coração devido algumas questões doutrinárias, tenha este verso como lema:

“E ele [Jesus] é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” ( 1Jo 2:2 ).

 


[1] Maxwell, Colin ‘Questões sóbrias para aqueles que creem numa redenção universal ou expiação ilimitada’, artigo disponível no Site Monergismo < http://www.monergismo.com/textos/expiacao_limitada/questoes.htm > consulta realizada em 26/06/15.

[2] ‘Conhecer’ no sentido de se fazer um com Cristo ( Ef 5:30 ). Não diz de ‘presciência’, ou de ‘antever’, e sim de comunhão intima “E eu já não estou mais no mundo, mas eles estão no mundo, e eu vou para ti. Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um, assim como nós” ( Jo 17:11 ).

[3] “13) Aparte da possibilidade de um ocasional hiper calvinista – uma espécie em extinção – você já ouviu um calvinista declarar que ele não necessita evangelizar, visto que o sacrifício de Cristo garante a salvação dos eleitos, quer ele evangelize, quer não?”

[4] “10) Você reconhece a distinta vantagem de se crer na redenção particular – que ela realmente realizará aquilo para o qual foi designada, isto é, a certa e infalível salvação daqueles por quem ela foi pretendida? Você reconhece a distinta desvantagem de se crer numa redenção geral que reside no tipo de imprecisão e o não poder reivindicar 100% de sucesso?”

[5] “9) Você crê que na Bíblia, palavras como “todos” e “mundo” e “todo homem” sempre significa cada pessoa ou coisa individualmente, a menos que seja limitada especificamente (por exemplo, 1 João 3:3) OU você reconhece que algumas vezes na Bíblia, palavras como “todos” significa “todos tipos de” (1 Timóteo 6:10) e “mundo” significa os gentios em oposição aos judeus somente (João 12:19-20) e “todo homem” significa “todos tipos de homem” (Atos 4:35/1 Coríntios 7:2), sem qualquer menção específica de uma limitação?”

[6] “8) Cristo morreu pelo pecado da incredulidade? Se sim, porque este pecado impede o pecador, mais do que qualquer outro pecado pelos quais Cristo morreu?”

[7] “6) Cristo realmente suportou os pecados daqueles que já estavam ou agora estão ou irão estar no inferno quando Ele morreu por eles? O resultado disto é o mesmo do crente, isto é, o esquecimento de Deus dos seus pecados (Hebreus 10:17)? Se sim, por que eles estão sendo relembrados agora? Se não, até que ponto é a diferença que você está introduzindo?” e; “7) Se Cristo sofreu e morreu por aqueles que estão agora sofrendo no inferno e agonizante pelos seus pecados… não estaria Deus exigindo castigo duas vezes pelos mesmos pecados? Isto é justo?”

[8] “5) Você crê que Cristo morreu por aqueles que já estavam no inferno, isto é, Caim, Faraó, etc., quando Ele veio ao mundo? Ele morreu de bom grado por eles, suportando todos os seus pecados, mesmo embora Ele soubesse que nem um milímetro de Seus sofrimentos jamais os beneficiaria?”

[9] “3) Cristo falhou, no final das contas, no Seu propósito de Sua morte? Ele realmente verá o fruto do trabalho de Sua alma e ficará SATISFEITO? (Isaías 53:11) Cristo está realmente satisfeito com o fruto do trabalho de Sua alma quando Ele vê Judas Iscariotes, (por quem, você insiste, Ele morreu, da mesma forma como por João e Pedro, etc.) indo para o próprio lugar onde teria sido melhor para ele nunca ter nascido? (Marcos 14:21) 4) Você relaciona a morte de Cristo – certamente o assunto mais importante sempre – com versos como Isaías 14:24/14:27/46:10/Salmos 115:3/Provérbios 19:21 etc., os quais ensinam que os propósitos de Deus são certos e não podem ser frustrados?”

[10] “2) Cristo veio e morreu para salvar eficazmente homens ou apenas para fazer a salvação possível? Então, era teoricamente possível que Cristo poderia morrer por pecados e ninguém ser salvo?”

[11] “1) Você crê que Cristo morreu pelos pecados dos anjos caídos, que estão reservados na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia (Judas 6), quando serão lançados como malditos no fogo eterno (Mateus 25:41), para serem atormentados de dia e de noite para todo o sempre (Apocalipse 20:10)? OU você crê que a expiação foi limitada a um grupo particular de pecadores?”

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Qual a medida da depravação da humanidade?

Ao dirigir a palavra aos escribas e fariseus, Jesus os chamava de condutores cegos e insensatos ( Mt 23:16 -17). A figura da cegueira e da surdez aplica-se aos judeus, portanto, utilizá-las para descrever a humanidade sem Deus estabelece um entendimento equivocado de que a humanidade é cega e surda. Pelo fato de a humanidade estar morta em delitos e pecados, aplicam à humanidade as figuras da ‘cegueira’ e ‘surdez’, sendo que tais figuras apontam para Israel. Dai surge a ideia de que, para ver e ouvir a palavra de Deus, é necessário uma graça especial dada somente a alguns.


Alienação ou depravação

Após ler o artigo ‘Os cinco pontos’ do Rev. Alderi Souza de Matos, especificamente o subtítulo ‘Depravação Total’, fez-se necessário comentar o evento da criação do homem e analisar o que chamam de depravação total.

Assim se expressou o Ver. Alderi:

“A Bíblia diz que Deus criou o primeiro homem, Adão, à Sua imagem e semelhança. Deus fez um pacto com esse homem a fim de que, através da obediência aos Seus mandamentos, este pudesse obter vida. Contudo, o homem falhou desobedecendo a Deus deliberadamente, fazendo uso do seu livre-arbítrio, rebelando-se contra o seu Criador. Este pecado inicial de desobediência (conhecido como a Queda do Homem) resultou em morte espiritual e ruptura na ligação de sua alma com Deus, o que mais tarde trouxe também sua morte física. Sendo Adão o representante de toda a raça humana, todos caímos com ele e fomos afetados pela mesma corrupção do pecado. Tornamo-nos objetos da justa ira de Deus e a morte passou a todos os homens” Os Cinco Pontos, Alderi Souza de Matos < http://ipbo.org.br/cincopontos.html > Consulta realizada em 23/09/13.

O Rev. Alderi diz que Deus criou o homem à Sua imagem e semelhança, no entanto, o apóstolo Paulo esclarece a exposição acerca da criação do homem que consta do Gênesis dizendo que Adão foi criado à imagem de Cristo, e não a imagem e semelhança do Deus invisível “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” ( Rm 5:14 ).

O apóstolo Paulo deixa claro que Adão é a figura daquele que havia de vir, ou seja, através das Escrituras sabemos que Cristo homem é o que veio na plenitude dos tempos, portanto, a imagem que foi dada ao primeiro homem é a imagem do Cristo que haveria de vir ao mundo.

Quando Cisto foi manifesto aos homens na terra, manifestou-se em carne, e não em glória. A imagem que Adão recebeu foi a de Jesus Cristo homem, e não a imagem de Deus, visto que Deus é espírito. Para saber mais, acesse o artigo A criação do homem e a encarnação de Cristo .

Através do mandamento: “E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:16 -17), Deus alertou que havia a possibilidade de o homem abrir mão da comunhão que possuía com o Criador.

O fim da comunhão com Deus seria tão funesto que foi nomeada morte. Separação que o homem não pode remediar, e que emprestou o nome ao evento ‘descer ao pó da terra’. O homem se preocupa com o ‘descer ao pó’ como se fosse o mais grave evento para a existência do homem, e muitos não sabem que a separação de Deus pode perdurar pela eternidade.

Enquanto possuía comunhão com Deus não havia nenhuma obrigação para o homem, mas se decidisse comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, a comunhão com Deus estaria cortada (morte).

Deus é vida, e a comunhão com Ele é vida, portanto, estar alienado d’Ele é morte. A ideia de morte no mandamento que foi dado no Éden significa separação de Deus, alienação, consequência muito mais gravosa e danosa para o homem do que o término das funções vitais, que é o descer ao pó (separação dos entes queridos) “E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:16- 17); “No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” ( Gn 3:19 ).

A ofensa de Adão (conhecida como a Queda do Homem) resultou em separação (morte), ruptura entre o Criador e a criatura. A criatura continuou existindo, no entanto, após a ofensa, uma parede de separação foi erguida. O homem tornou-se separado de Deus, perdeu a liberdade que havia na comunhão “Porque, quando éreis servos do pecado, estáveis livres da justiça” ( Rm 6:20 ).

Por causa da ofensa a terra foi amaldiçoada, a mulher foi apenada a ter filho com dores e o homem a comer do suor do seu rosto até tornar para o pó da terra, isto porque o homem foi tomado do pó da terra. É neste ponto que surge o conceito de morte física, que não pode ser confundida com a morte espiritual que é alienação de Deus ( Gn 3:19 ).

Adão é a cabeça da raça humana e, através da desobediência dele toda a humanidade foi afetada. Por causa da ofensa de Adão a humanidade tornou-se filha da ira e da desobediência, e a alienação passou a todos os homens. Toda a humanidade herdou as consequências da ofensa de Adão e, por isso, todos os homens nascem alienados da Vida.

A queda de Adão escancarou uma porta larga pela qual todos os homens entram quando nascem. Esta porta larga dá acesso a um caminho largo que conduz os homens à perdição ( Mt 7:13 ). Por causa da ofensa de Adão todos os homens que veem ao mundo são ímpios, pois se desviam de Deus desde a madre. Andam errado desde que nascem, pois estão em um caminho largo que os conduz à perdição ( Sl 58:3 ).

Em Adão desviaram-se todos e juntamente se fizeram imundos, pois toda a humanidade estava na coxa de Adão ( Hb 7:9 -10), e neste quesito não há distinção de carne e sangue. Tanto judeus quanto gentios tornaram-se impróprios para a glória de Deus ( Sl 53:3 ; Rm 3:9 ).

Com a queda, os homens passaram a ser descritos como escravos do pecado, portanto, filhos da desobediência, herdeiros da ira.

Ser escravo do pecado não é ser escravo da própria natureza. É equivocada a concepção de que alguém é escravo de si mesmo, antes um escravo é aquele que, mesmo contra a sua vontade está sob domínio de outrem.

O pecado alcançou o senhorio por intermédio do mandamento santo, justo e bom que foi dado no Éden. Foi através do mandamento dado no Éden que o pecado tem força para dominar a humanidade, pois sem o mandamento não existiria o pecado “Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda a concupiscência; porquanto sem a lei estava morto o pecado” ( Rm 7:8 ).

Sem o mandamento que diz: “Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás”, não haveria alienação, morte, separação entre Deus e os homens, mas por causa da ofensa, veio a morte por força do mandamento divino que não pode ser invalidado “Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei” ( 1Co 15:56 ).

Ora, toda a humanidade herdou as consequências da ofensa de Adão, ou seja, a morte. Não existe nada mais grave do que a alienação de Deus. Mas, me surpreende a concepção de que os homens nascem ‘totalmente depravados’, ou seja, a concepção e o conceito ‘extensivamente maus’.

“Toda a humanidade herdou a culpa do pecado de Adão e por isso todos nascemos totalmente depravados e espiritualmente mortos. A morte espiritual não quer dizer que o espírito humano esteja inativo, mas sim que o homem é culpado (tem um passado manchado) e corrupto (possui uma natureza má). A depravação total não quer dizer que os homens são intensivamente maus (que somos tão maus quanto poderíamos ser), mas sim que somos extensivamente maus (todo o nosso ser, intelecto, emoções e vontade estão corrompidos pelo pecado)” Os Cinco Pontos, Alderi Souza de Matos.

A colocação do Rev. Alderi começa com o equivoco de afirmar que a humanidade herdou a culpa do pecado de Adão, sendo que a bíblia demonstra que o homem herdou a condenação: alienação, separação de Deus. No Novo Testamento, o termo grego traduzido por culpa.

(1777 ενοχος enochos de 1758; TDNT – 2:828,286; adj 1) constrangido, sob obrigação, sujeito a, responsável por 1a) usado de alguém que está nas mãos de, possuído pelo amor, e zelo por algo 1b) num sentido forense, denotando a conexão de uma pessoa seja com o seu crime ou com penalidade ou julgamento, ou com aquilo contra quem ou o que ele tem ofendido 1b1) culpado, digno de punição 1b2) culpado de algo 1b3) do crime 1b4) da penalidade 1b5) sujeito a este ou aquele tribunal i.e. a punição a ser imposta por este ou aquele tribunal 1b6) do lugar onde a punição é para ser sofrida) Dicionário Strong, aparece em conexão com a ideia de punição, o que difere do conceito jurídico recente de culpa, que deriva das intenções.

Quando encontramos na bíblia que o homem é culpado, não significa que a Bíblia está levando em conta as questões de foro íntimo do indivíduo como certo e errado, conhecedor ou ignorante, motivos e intenções, etc. O termo culpado aponta somente para a penalidade imposta.

Um jurista entende que a humanidade herdou a culpa de Adão, mas a Bíblia demonstra que o homem herdou a condenação “Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” ( Jo 3:18 ).

Mas, no que consiste a condenação? Alienação, separação, morte. Ora, todos os homens nascem separados da vida que há em Deus, portanto, mortos. A penalidade da desobediência é única: certamente morrerás. Na penalidade não está inclusa a ideia de depravação.

O que querem dizer com ‘depravado’? Por que a necessidade de enfatizar a ‘depravação’ com o termo ‘totalmente’. Por que a necessidade de inserir um novo termo para ilustrar a condição da humanidade se o termo morte demonstra com clareza a condição do homem?

O homem não possui um passado manchado, antes, segundo a Bíblia, é o homem que está manchado, ou seja, maculado, impróprio para comunhão com Deus. O homem não possui uma natureza má, antes o homem é apresentado na Bíblia como sendo mau “Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos…” ( Mt 7:11 ).

Surpreende-me a colocação de que os homens não são ‘intensivamente’ maus, e sim, extensivamente maus. Quando comparo com o que Jesus disse: “Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos…” (Mateus 7 : 11), verifico que nenhuma das duas premissas resistem à verdade.

Quando Jesus diz: “Se vós, sendo maus…”, indica que a plenitude do ser é má, ou seja, está comprometida. Se houvesse como mensurar o mau que decorre da ofensa, e esse mau fosse mínimo, mesmo assim o homem estaria aquém da gloria de Deus. Por que? Porque Deus é luz e não há n’Ele trevas nenhuma ( 1Jo 1:5 ).

A morte não comporta intensidade de modo que dizer que o homem é totalmente depravado é sem significado. O homem está morto em delitos e pecados e é mau, o que contraria a assertiva do Rev. Alderi.

Por outro lado, Jesus demonstra que, apesar de os seus interlocutores serem maus, sabiam dar boas coisas aos seus filhos ( Mt 7:11 ), o que demonstra que os homens não são extensivamente maus, como afirma o Rev. Alderi.

Ora, apesar de serem inteiramente maus, o intelecto dos fariseus não foi afetado, pois davam aos seus filhos boas dádivas. A emoção não foi afeta, pois o ato de dar boas dadivas aos filhos demonstra que o pecado não tolhe o forte vínculo emocional entre pai e filho.

Observe que, apesar de os fariseus serem maus, caso o filho deles pedisse pão, jamais dariam uma pedra. Ou, se o filho pedisse um peixe, jamais dariam uma serpente, o que evidencia que a vontade do homem não foi comprometida após a queda.

O que foi comprometida foi a relação do homem com Deus. Antes da queda havia comunhão, liberdade e vida, após a queda instalou-se a morte, perdeu-se a comunhão e o homem tornou-se escravo do pecado.

No instante após comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, Adão passou à condição de morto para Deus, alienado, separado, etc. A morte foi a penalidade estabelecida na lei: certamente morrerás. O homem não ficou extensivamente mau após a queda visto que não há no mandamento dado no Éden a penalidade ‘certamente ficarás extensivamente mau’.

Após a queda Adão não praticou nenhuma maldade que pudéssemos indicar que ele tornou-se tão mau quanto poderia ser, e nenhuma atitude dele após a queda indica que o seu intelecto, emoções e vontade foram corrompidos, porém, uma coisa é certa: ele estava completamente separado de Deus.

A morte espiritual é alienação de Deus, mas isto não significa que, por estar ‘separado de Deus’ o homem é ‘extensivamente mau’, ou seja, que o intelecto, as emoções e a vontade do homem estão corrompidos pelo pecado.

Há o mau proveniente da ofensa de Adão e o mau proveniente do fruto da árvore do conhecimento. Temos que divisar bem o que é ser mau por causa da ofensa de Adão, e o que é ter o conhecimento do bem e do mal proveniente do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal que estava no meio do jardim.

Através do seu intelecto, sentimento, emoções e vontade o homem pode executar intentos nobres e bons, como também pode executar ações reprováveis e más. Tanto o que faz boas ações quanto o que faz más ações estão alienados de Deus e, diante de Deus estão em pé de igualdade, pois o mais reto dos homens diante de Deus é como um espinho, e o mais justo como uma cerca de espinho ( Mq 7:4 ).

Quando a Bíblia afirma que o homem é mau, temos que entender o conceito de mau assim como entendemos o conceito de trevas.  Deus é luz, e o homem sem Deus é trevas. Dentro do mesmo princípio, Deus é bom e o homem sem Deus é mau.

Quando dizemos que Deus é bom, temos que entender o conceito ‘bom’ segundo a concepção do homem da antiguidade, e não com o olhar e o sentimento do homem moderno. Na Bíblia ‘bom’ (aghatos) vincula-se à nobreza, e o conceito de mau que se aplica ao homem é o de vil, baixo, ralé. Ou seja, há uma barreira de separação entre Deus e os homens, não porque o homem é maldoso e Deus é bondoso, antes porque a natureza de Deus é distinta da do homem, este inferior e aquele superior.

Quando a bíblia diz que o homem está separado, alienado de Deus, estabelece um conceito de totalidade. Não há como estar ‘parcialmente’ alienado. Não há como apor uma adjetivação na condição do homem, como ‘totalmente’ morto, ‘plenamente’ morto, ‘incomparavelmente’ morto, etc.

Mas, muitos adeptos da reforma protestante apresentaram o conceito da depravação total, dizendo que os homens são extensivamente maus, ou seja, que o pecado afetou o intelecto, as emoções e a vontade do homem.

A ofensa afetou a relação entre o homem e Deus, já o intelecto do homem, bem como as emoções e vontade adquiriram um novo ingrediente: o conhecimento do bem e do mal. O evento negativo que afetou o homem foi a alienação de Deus, porém, adquirir o conhecimento do bem e do mal não pode ser considerado como algo negativo, visto que o próprio Criador é detentor deste conhecimento.

O fato de o homem desprezar a palavra de Deus o deixa entregue a um sentimento perverso de modo que praticam coisas inconvenientes ( Rm 1:28 ), porém, as coisas inconvenientes que praticam não é o que os tornam escusáveis diante de Deus.

O pecado está na desobediência de ter comido do fruto, e não no conhecimento do bem e do mal que o homem adquiriu por ter comido do fruto do conhecimento do bem e do mal. Conhecer o bem e o mal não é pecado, visto que Deus é conhecedor (saber)do bem e do mal (Gn 3.22) e n’Ele não há trevas nenhumas. Pecado é a condição do homem após a ofensa.

O pecado é a condição imposta pela lei em função da ofensa, condição que impossibilita que o homem restaure a comunhão com seu Criador. Por causa da morte que mantém o homem preso ao pecado, o homem natural por si mesmo é incapaz de reatar a comunhão com Deus.

Mas, diante da impossibilidade do homem, Deus tomou a iniciativa de salvar a humanidade. Por intermédio de Cristo Jesus, Deus tomou a providência necessária para que o homem volte a ter comunhão com Deus.

No Éden Deus deu um mandamento que preservaria a condição do homem em comunhão com Deus, com o advento de Cristo, o último Adão, Deus deu um novo mandamento que restaura a comunhão com Deus.

E qual é este mandamento? Encontramos o mandamento de Deus estampado nas Escrituras: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ).

Em todos os tempos Jesus é o único caminho que reata a comunhão dos homens com Deus, pois Jesus foi dado para este fim “E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” ( At 4:12 ). No entanto, a humanidade, no afã de se salvar promovem inúmeras religiões na tentativa de que Deus lhes seja propício, porém, essas tentativas são inócuas, pois o homem natural por si mesmo não pode agradar a Deus. Somente a justiça agrada a Deus.

Além de dizerem que a ‘depravação total’ significa que ‘o pecado afetou o intelecto, as emoções e a vontade do homem’, muitos que seguem a doutrina produzida na reforma protestante alegam que o homem natural é totalmente incapaz de crer em Deus, pois está morto, cego e surdo para as coisas espirituais.

Ora, primeiro analisaremos esta alegação sob o prisma da nação de Israel, lembrando que Deus anunciou através do profeta Isaías que estendeu a suas mãos o dia todo a um povo rebelde “Estendi as minhas mãos o dia todo a um povo rebelde, que anda por caminho, que não é bom, após os seus pensamentos” ( Is 65:2 ).

Como pode ser isto? Apesar de Deus saber que o povo de Israel era totalmente incapaz de crer por estarem mortos, cegos, surdos e com o intelecto, as emoções e a vontade comprometida pelo pecado, estendeu a mão aos filhos de Jacó? Seria um tremendo contra censo! Apesar de Deus saber que o homem é completamente inabilitado para atendê-Lo, faz um convite de salvação e estende a mão? “Porque Deus não é Deus de confusão, senão de paz, como em todas as igrejas dos santos” ( 1Co 14:33 ).

Como Deus pode acusar o povo de Israel de não querer ouvi-Lo, se, na verdade, o povo era completamente surdo e cego? “Porque este é um povo rebelde, filhos mentirosos, filhos que não querem ouvir a lei do SENHOR” ( Is 30:9 ).

Não querer ouvir é completamente diferente de ser surdo, ou seja, impossibilitado de ouvir. Estar morto é uma condição, não querer ouvir é atitude rebelde.

Como é possível Deus clamar ao povo que volte, se o povo era surdo? “Vai, pois, e apregoa estas palavras para o lado norte, e dize: Volta, ó rebelde Israel, diz o SENHOR, e não farei cair a minha ira sobre ti; porque misericordioso sou, diz o SENHOR, e não conservarei para sempre a minha ira” ( Jr 3:12 ).

Ora, a Bíblia é clara em demonstrar que os filhos de Israel podiam ouvir. Primeiro porque Deus lhes dirigiu a palavra. Segundo porque eles podiam ouvir ou deixar de ouvir “Mas tu lhes dirás as minhas palavras, quer ouçam quer deixem de ouvir, pois são rebeldes” ( Ez 2:7 ); “Mas, quando eu falar contigo, abrirei a tua boca, e lhes dirás: Assim diz o Senhor DEUS: Quem ouvir ouça, e quem deixar de ouvir, deixe; porque eles são casa rebelde” ( Ez 3:27 ).

Já no Novo Testamento, quando Jesus conversa com Marta, irmã de Lazaro, disse: “Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá ( Jo 11:25 ). Mesmo os ‘mortos’ podem ouvir e crer, e se crerem, viverão, ou seja, voltarão a ter comunhão com Deus “Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão” ( Jo 5:25 ); “Ouvi, e a vossa alma viverá” ( Is 53:3 ).

Isaias profetizou que o povo que andava em trevas e que habitava nas regiões da morte viu uma grande luz, demonstrando que os homens, apesar de estarem mortos (alienados de Deus), pode ver “O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz” ( Is 9:2 ).

Deus estendeu as suas mãos todos os dias anunciando a seguinte mensagem aos ‘mortos’: “Inclinai os vossos ouvidos, e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, dando-vos as firmes beneficências de Davi” ( Is 55:3 ). Como posso afirmar que a mensagem era para os ‘mortos’? Porque se desse ouvidos (inclinar os ouvidos) e viesse a quem anuncia a mensagem alcançaria vida.

Só é possível passar a viver quem está morto, portanto, é anunciado aos mortos a possibilidade de viverem se derem ouvidos a voz de Deus.

Primeiro é necessário que o autor da mensagem tenha poder para dar vida. Em segundo lugar é necessário que a mensagem seja anunciada, pois se não há quem pregue, não há como crer. Em terceiro lugar é necessário ao homem morto inclinar os ouvidos, o que conduzirá o homem a Deus (vinde a mim). Quando o homem dá ouvidos, ou seja, ouve, volta à comunhão com Deus, terá vida dentre os mortos.

O que dissemos acima, o apóstolo Paulo escreveu aos Romanos:

“Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido. Porquanto não há diferença entre judeu e grego; porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam. Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo. Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? como está escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam o evangelho de paz; dos que trazem alegres novas de boas coisas. Mas nem todos têm obedecido ao evangelho; pois Isaías diz: SENHOR, quem creu na nossa pregação? De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus. Mas digo: Porventura não ouviram? Sim, por certo, pois Por toda a terra saiu a voz deles, E as suas palavras até aos confins do mundo. Mas digo: Porventura Israel não o soube? Primeiramente diz Moisés: Eu vos porei em ciúmes com aqueles que não são povo, Com gente insensata vos provocarei à ira. E Isaías ousadamente diz: Fui achado pelos que não me buscavam, Fui manifestado aos que por mim não perguntavam. Mas para Israel diz: Todo o dia estendi as minhas mãos a um povo rebelde e contradizente” ( Rm 10:8 -21).

Como havia uma barreira de separação entre Deus e os homens, o homem não podia aproximar-se de Deus e nem Deus do homem. Se Deus se aproximasse do homem após a queda, violaria a sua própria palavra e comprometeria a sua justiça e santidade. Já o homem não podia aproximar-se pela falta do conhecimento necessário, o que foi satisfeito quando Deus enviou o seu Único Filho como mediador “Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles levará sobre si” ( Is 53:11 ).

Para ser justo e justificar o homem, Deus enviou ao mundo Jesus Cristo homem na condição de mediador entre Deus e os homens. Por intermédio de Cristo, o Verbo de Deus, foi estabelecido um novo e vivo caminho para que o homem volte à comunhão com Deus.

O homem não é cego e nem surdo. A surdez e a cegueira são figuras especificas utilizadas pelos profetas para fazer referencia ao povo de Israel “Surdos, ouvi, e vós, cegos, olhai, para que possais ver” ( Is 42:18 ).

Como é possível o apóstolo Paulo afirmar que é possível entender a divindade pelas coisas criadas se o homem está impossibilitado de ver? “Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se veem pelas coisas que estão criadas…” ( Rm 1:20 ).

Na Bíblia você encontrará os termos ‘surdo’ e ‘cego’ utilizados como figuras para fazer referencia aos filhos de Jacó. O povo de Israel acreditava que via e ouvia ( Jo 9:39 -41), ou seja, entendia que eram guia dos cegos e dos que estavam em trevas ( Rm 2:19 ), porém, se admitissem que eram cegos, seriam como o servo do Senhor: perfeitos! “Quem é cego, senão o meu servo, ou surdo como o meu mensageiro, a quem envio? E quem é cego como o que é perfeito, e cego como o servo do SENHOR? Tu vês muitas coisas, mas não as guardas; ainda que tenhas os ouvidos abertos, nada ouves ( Is 42:19 -20).

O povo de Israel era tido por cego e surdo não porque eram portadores de deficiência visual e auditiva, antes porque ouviam e viam, mas não obedeciam “Tu vês muitas coisas, mas não as guardas; ainda que tenhas os ouvidos abertos, nada ouves” ( Is 42:20 ).

Ao dirigir a palavra aos escribas e fariseus, Jesus os chamava de condutores cegos e insensatos ( Mt 23:16 -17). A figura da cegueira e da surdez aplica-se aos judeus, portanto, utilizá-las para descrever a humanidade sem Deus estabelece um entendimento equivocado de que a humanidade é cega e surda. Pelo fato de a humanidade estar morta em delitos e pecados, aplicam à humanidade as figuras da ‘cegueira’ e ‘surdez’, sendo que tais figuras apontam para Israel. Dai surge a ideia de que, para ver e ouvir a palavra de Deus, é necessário uma graça especial dada somente a alguns.

Após a queda Adão morreu. Estava separado de Deus em função da ofensa. No entanto, quando Deus chamou Adão dizendo: – “Onde estás?”, apesar de morto, Adão disse: “Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me” ( Gn 3:10 ). Os ouvidos do primeiro homem que morreu estava em pleno funcionamento.

Mas, para quem os profetas disseram estas palavras: “Todos os seus atalaias são cegos, nada sabem; todos são cães mudos, não podem ladrar; andam adormecidos, estão deitados, e gostam do sono” ( Is 56:10 ); “Apalpamos as paredes como cegos, e como os que não têm olhos andamos apalpando; tropeçamos ao meio-dia como nas trevas, e nos lugares escuros como mortos ( Is 59:10 ). Não era para os judeus?

Observe o que diz o Rer. Alderi:

“A depravação total também significa que o homem possui uma inabilidade total para restaurar o relacionamento com seu Criador. Por causa da depravação, o homem natural, por si mesmo, é totalmente incapaz de crer verdadeiramente em Deus. O pecador está morto, cego e surdo para as coisas espirituais. Desde a Queda o homem perdeu o seu livre-arbítrio e passou a ser escravo de sua natureza corrompida e por isso ele é incapaz de escolher o bem em questões espirituais. Todas as falsas religiões são tentativas do homem de construir para si um deus que lhe seja propício. Porém, todas essas tentativas erram o alvo, pois o homem natural por si mesmo não quer buscar o verdadeiro Deus” Idem.

A cegueira e a surdez espiritual são figuras que se aplicam ao povo de Israel, porém, a doutrina calvinista da ‘depravação total’ utilizam figuras que tratam do povo de Israel para descrever a humanidade, e por isso dizem: ‘O pecador está morto, cego e surdo para as coisas espirituais’.

No entanto, quando as Escrituras diz: “Trazei o povo cego, que tem olhos; e os surdos, que têm ouvidos” ( Is 43:8 ); “Surdos, ouvi, e vós, cegos, olhai, para que possais ver” ( Is 42:18 ), ela aponta para os que receberam a lei, e não aos gentios “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” ( Rm 3:19 ).

 

 

Os Cânones de Dort (1618-1619)

Os Cânones de Dort, ou cânones de Dordrech, intitulados formalmente como ‘A Decisão do Sínodo de Dort sobre os Cinco Pontos Principais de Doutrina’ em disputa na cidade holandesa de Dordrech, em 1618/19, conhecida também como os Cinco pontos contra os Remonstrantes, registra a seguinte ideia no primeiro ponto:

“1. Todos os homens pecaram em Adão, estão debaixo da maldição de Deus e são condenados à morte eterna. Por isso Deus não teria feito injustiça a ninguém se Ele tivesse resolvido deixar toda a raça humana no pecado e sob a maldição e condená-la por causa do seu pecado, de acordo com estas palavras do apóstolo:  ‘… para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus… pois todos pecaram e carecem da glória de Deus…’, e: ‘…o salário do pecado é a morte…’ ( Rm 3:19- 23; Rm 6:23 )”.

Os autores do Cânones de Dort no afã de rebater a doutrina arminianista cometeram o equivoco de não observar que a assertiva paulina: ‘… para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus’, tinha por alvo os judeus, e não  a humanidade. É certo que todos pecaram em Adão. É certo que todos estão debaixo de maldição e condenados à morte eterna. Também é certo que se Deus não houvesse resgatado o homem não haveria injustiça n’Ele.

O erro está em utilizar a passagem bíblica de Romanos 3, verso 19 para embasar a assertivas acima, visto que o apóstolo Paulo estava incluindo o povo judeu sob o pecado e a condenação. Que todos pecaram e carecem da glória de Deus é fato, porém, os judeus se consideravam privilegiados por serem descendentes da carne de Abraão.

Censurando os judeus, o apóstolo Paulo diz: “Eis que tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus” ( Rm 2:17 ), demonstrando que, o que exporia a seguir depunha contra os judeus, incluindo-os debaixo da maldição do pecado.

Após apresentar a vantagem e a utilidade do povo judeu ( Rm 3:1 -2), o apóstolo Paulo demonstra que em nada eram diferente dos gentios ( Rm 3:9 ). Neste contexto, todas as afirmações do apóstolo Paulo são absolutas no sentido de demonstrar a inutilidade da circuncisão para ser salvo.

Dai a conclusão: “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” ( Rm 3:19 ).

Se a lei foi escrita para os que estavam debaixo da lei, significa que o povo de Israel também estava sob condenação, de modo que todo mundo é condenável diante de Deus por causa da ofensa de Adão.

Quando é dito: “… pois todos pecaram e carecem da glória de Deus…’, devemos considerar a inclusão dos judeus sob a maldição do pecado e, subsidiariamente, subentende-se que os gentios são pecadores. A ênfase do texto, porém, está nos judeus.

A exposição do apóstolo Paulo foi necessária para conscientizar o povo de Israel da sua real condição. Israel era nomeado povo de Deus, o que dava a entender que era uma nação constituída de homens que não eram pecadores.

Ler a carta de Paulo aos Romanos como se fosse uma carta direcionada apenas aos gentios é ficar alijado do sentido exato do texto, e a compreensão ficara distorcida. O apóstolo Paulo só fala aos gentios a partir do capítulo 11 da carta aos Romanos “Porque convosco falo, gentios, que, enquanto for apóstolo dos gentios, exalto o meu ministério” ( Rm 11:13 ), enquanto os capítulos iniciais foram escritos para os cristãos judeus “Eis que tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus…” ( Rm 2:17 ).

No segundo ponto do Cânones de Dort, fica demonstrado que Deus manifestou seu amor ao enviar o seu Filho, Jesus Cristo:

“2. Mas ‘Nisto se manifestou o amor de Deus em nós, em haver Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo…’, ‘…para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” ( 1Jo 4:9 ; Jo 3:16 ).

No ponto três do Canones de Dort tem-se algumas distorções que decorre de uma má leitura que já demonstramos no ponto um:

“3. Para que os homens sejam conduzidos à fé, Deus envia, em sua misericórdia, mensageiros desta mensagem muito alegre a quem e quando Ele quer. Pelo ministério deles, os homens são chamados ao arrependimento e à fé no Cristo crucificado. Porque ‘…como crerão naquele de quem nada ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão se não forem enviados?…’ ( Rm 10:14- 15)”.

A Bíblia demonstra que os homens necessitam de comunhão com Deus, e não que os homens devam ser conduzidos à ‘fé’.

A Bíblia demonstra que há uma barreira entre Deus e os homens, e não uma barreira entre os homens e Cristo, que é a ‘fé’ manifesta. Seria um contra senso Deus enviar um mediador e haver uma barreira entre os homens e o mediador.

É um absurdo entender que há uma barreira entre o pecador (homens) e o mediador (Cristo), ou que há uma barreira entre o pecador e o sacerdote como sugere a asserção:

‘Para que os homens sejam conduzidos à fé, Deus envia, em sua misericórdia, mensageiros desta mensagem…’.  Idem

Se entendemos que Cristo é a fé manifesta ( Gl 3:23 ), é sem sentido afirmar que os homens devam ser conduzidos à fé. Ora, foi Deus que enviou o seu Filho ao mundo.

Se entendemos que a ‘fé’ é a mensagem anunciada que tem por tema o Cristo ( Jd 1:3 ; Rm 1:5 ), o mensageiro é porta-voz da fé aos homens para que eles possam por intermédio de Cristo serem conduzidos a Deus.

Ora, Deus em sua misericórdia, enviou o seu Filho amado ao mundo, ou seja, a todos os homens, e não ‘a quem e quando Ele quer’. O apóstolo Paulo é claro: “Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” ( 1Tm 2:4 ; Jo 3:16 ).

O homem precisa ser conduzido a Deus, e para isto Cristo veio. O homem não precisa ser conduzido a Cristo, antes a Deus, e Cristo é o mediador. Cristo foi posto como um novo e vivo caminho, e pelo seu corpo o homem tem acesso a Deus.

O Canones de Dort faz distinção entre ‘arrependimento’ e ‘fé’ por causa do conceito deturpado de arrependimento oriundo da concepção católica que decorre do termo ‘penitência’.

Arrependimento é mudança de concepção, abandono de uma ideia para abraçar uma nova, de modo que, quando ocorre o arrependimento, consequentemente, o homem abraça a fé. Se abraçou a fé, significa que se arrependeu, e vice-versa, pois arrependimento é ‘metanoia’, mudança de concepção, conversão.

No ponto 4 temos a seguinte assertiva:

“4. A ira de Deus permanece sobre aqueles que não creem neste Evangelho. Mas aqueles que o aceitam e abraçam Jesus, o Salvador, com uma fé verdadeira e viva, são redimidos por Ele da ira de Deus e da perdição, e presenteados com a vida eterna ( Jo 3:36 ; Mc 16:16 )”.

Basta ao homem crer em Cristo segundo as Escrituras que aceitaram a Jesus como salvador com uma fé verdadeira e viva. A fé verdadeira e viva é a verdade do evangelho, e aquele que crê no evangelho tem uma fé verdadeira e viva.

O ponto cinco possui duas incongruências com as Escrituras:

“5. Em Deus não está, de forma alguma, a causa ou culpa desta incredulidade. O homem tem a culpa dela, tal como de todos os demais pecados. Mas a fé em Jesus Cristo e também a salvação por meio d’Ele são dons gratuitos de Deus, como está escrito: ‘Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus…’ ( Ef 2:8 ). Semelhantemente, ‘Porque vos foi concedida a graça de…’ crer em Cristo ( Fp 1:29 )”.

Deus não trata com a humanidade a questão da culpa, antes da condenação. Foi um só homem que pecou, e todos pecaram. Um só homem ofendeu, e a condenação veio sobre todos os homens, mesmo a humanidade não tendo transgredido à semelhança da transgressão de Adão ( Rm 5:14 ).

A humanidade está condenada por causa da ofensa de Adão, e este é o pecado que alienou o homem de Deus. Sobre a humanidade pesa a condenação por causa da ofensa de Adão, portanto, não há que se falar que ‘o homem tem a culpa dela, tal como de todos os demais pecados’.

A segunda incongruência se dá pela má leitura do texto de Efésios 2, verso 8: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus…” ( Ef 2:8 ). O apóstolo Paulo estava explicando que os cristãos são salvos graciosamente mediante a fé, ou seja, mediante Cristo, pois Ele é a fé que ‘havia de se manifestar’. O termo ‘fé’ no versículo não é o que os tradutores vertem por ‘crer’. Não se trata do verbo ‘fé’, antes é a forma substantivada, um recurso linguístico (figura de linguagem) para fazer referência à pessoa do Cristo  ( Gl 3:23 ).

A salvação em Cristo, a ‘fé’ manifesta não vem dos homens, é dom de Deus, pois Jesus mesmo disse a mulher samaritana: “Jesus respondeu, e disse-lhe: Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva” ( Jo 4:10 ). Cristo é o dom de Deus, a fé que havia de se manifestar e foi manifesta na plenitude dos tempos.

Já o que foi escrito aos Filipenses diz respeito a batalhar pela fé ( Jd 1:3 ), pois além de terem crido em Cristo, a eles foi concedido defender a mensagem do evangelho “Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele” ( Fp 1:29 ).

No ponto 6 do Canones de Dort, ao afirmar a doutrina da eleição e da reprovação calvinistas, é enfatizado que Deus faz distinção entre homens:

“6. Deus dá nesta vida a fé a alguns enquanto não dá a fé a outros. Isto procede do eterno decreto de Deus. Porque as Escrituras dizem que Ele “…faz estas cousas conhecidas desde séculos.” e que Ele “faz todas as cousas conforme o conselho da sua vontade…” ( At 15:18 ; Ef 1:11 ). De acordo com este decreto, Ele graciosamente quebranta os corações dos eleitos, por duros que sejam, e os inclina a crer. Pelo mesmo decreto, entretanto, segundo seu justo juízo, Ele deixa os não-eleitos em sua própria maldade e dureza. E aqui especialmente nos é manifesta a profunda, misericordiosa e ao mesmo tempo justa distinção entre os homens que estão na mesma condição de perdição. Este é o decreto da eleição e reprovação revelado na Palavra de Deus. Ainda que os homens perversos, impuros e instáveis o deturpem, para sua própria perdição, ele dá um inexprimível conforto para as pessoas santas e tementes a Deus”.

Quando afirmam que ‘Deus dá nesta vida a fé a alguns enquanto não dá a fé a outros’, contrariam a bíblia, visto que Cristo é a fé manifesta que Deus deu a todos os homens. Cristo é descrito como o Sol nascente das alturas, e o sol nasce sobre todos sem distinção, pois Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito para todo aquele que crê seja salvo ( Lc 2:32 ).

A fé foi manifesta salvadora a todos os homens, pois Deus deseja que todos se salvem “Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” ( 1Tm 2:4 ); “Porque para isto trabalhamos e lutamos, pois esperamos no Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens, principalmente dos fiéis” ( 1Tm 4:10 ); “Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam” ( At 17:30 ).

Deus não faz distinção entre homens e homens, pois todos entram neste mundo por uma mesma porta, a porta larga (Adão) e alienados estão de Deus “Quanto menos àquele, que não faz acepção das pessoas de príncipes, nem estima o rico mais do que o pobre; porque todos são obras de suas mãos” ( Jó 34:19 ; Dt 10:17 ; Dt 16:19 ). Todos entram por Adão, ou seja, todos são filhos da desobediência, para que Deus use igualmente de misericórdia para com todos “Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia” ( Rm 11:32 ).

Por causa da separação, Deus estabeleceu Jesus Cristo homem como mediador entre Deus e os homens, de modo que não há ninguém que seja especial diante da mensagem do evangelho, e ninguém que seja preterido ao ouvi-lo “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem” ( 1Tm 2:5 ).

Ao escrever aos Gálatas, o apóstolo Paulo deixou claro o motivo pelo qual todos foram encerrados debaixo do pecado: “Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos crentes ( Gl 3:22 ). Não importa se judeus ou gregos, a promessa que e segundo a fé é para os que creem.

Deus faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade ( Ef 1:11 ), e é da vontade de Deus salvar os crentes, ou seja, os que creem na mensagem do evangelho, que é poder de Deus. Na pregação está o poder de Deus e, todos quantos creem recebem poder para serem feitos filhos de Deus “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação” ( 1Co 1:21 ; Jo 1:12- 13).

A salvação é para os que creem na pregação, pois na mensagem anunciada por Cristo e os apóstolos está o poder de Deus para salvação ( Rm 1:16 ; Hb 5:9 ).

A salvação não é segundo o que propõe a predestinação calvinista, de que o homem é salvo antes mesmo de ouvir a palavra da verdade, o evangelho da salvação. Ao ouvir e crer em Cristo o homem é salvo, e após ser salvo é designado eleito de Deus para ser santo e irrepreensível, predestinado a ser conforme a imagem de Cristo Jesus “Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos” ( 1Jo 3:2 ).

 

Alienados

Como já verificamos, a força da lei dada no Éden somada a ofensa de Adão fez surgir a parede de separação (pecado) entre Deus e os homens. O termo utilizado para descrever esta separação é alienação, diferente da ideia que o termo ‘depravação total’ transmite.

O termo depravação tem relação com o que o homem realiza do ponto de vista moral, já a alienação demonstra a quebra da comunhão com Deus. Do ponto de vista da moral é possível mudarmos o nome ‘depravado’ através do adjunto ‘totalmente’, mas se falarmos da relação entre Deus e os homens sob o domínio do pecado, o termo ‘alienado’ não comporta o adjunto ‘totalmente’.

O pecador está separado de Deus, e ponto. Nem mais nem menos. Utilizarmos o adverbio totalmente, ou completamente, é sem valor, pois o termo alienado encerra uma ideia.

O equivoco de tentar demonstrar que o homem está totalmente depravado surge da má leitura que fizeram da explicação de várias passagens do Antigo Testamento que o apóstolo Paulo citou na carta aos Romanos.

Quando o apóstolo Paulo explicou aos cristãos convertidos dentre os judeus que eles não eram melhores que os gentios, porque ambos os povos estavam debaixo do pecado ( Rm 3:9 ), citou os Salmos: “Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só ( Rm 3:10 -12).

Os judeus, por serem descendentes da carne de Abraão, terem a lei e a circuncisão, consideravam que eram melhores que os gentios, porém, o apóstolo Paulo utilizou os Salmos para demonstrar que as Escrituras protestavam contra os judeus e não contra os gentios.

Apesar de os gentios serem pecadores, o alvo das Escrituras era os judeus. Apesar dos judeus comparecerem continuamente no templo para orar e oferecer sacrifícios, Deus protestava continuamente contra eles de que não eram justos, não entendiam a vontade de Deus, não buscavam a Deus. Juntamente judeus e gentios se extraviaram em Adão, são imundos e não fazem o bem.

Após citar outras passagens bíblicas, o apóstolo Paulo enfatiza a essência da sua abordagem: “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” ( Rm 3:19 ). Os únicos que possuíam uma boca dilatada eram os judeus, pois confiavam na lei, mas a própria lei foi dada para que eles também estivessem de bocas fechadas, pois eram condenáveis diante da lei e estavam alienados de Deus “Não vos deu Moisés a lei? e nenhum de vós observa a lei. Por que procurais matar-me?” ( Jo 7:19 ; Rm 2:27 ;  ).

A alienação da humanidade é igual para judeus e gregos. Ambos os povos carecem da glória de Deus. A única diferença entre judeus e gentios é que foi dado aos judeus a lei para conduzi-los a Cristo ( Rm 3:2 ). Não existe uma alienação maior ou uma menor. Não existe alienação total ou parcial. O homem quando no pecado está separado, alienado, e ponto!

É de se estranhar que a doutrina calvinista utilize termos como ‘totalmente’, ‘completamente’, para enfatizar a condição do homem separado de Deus. No entanto, desconsideram o fato de que Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito para que TODO aquele que crê não pereça, ou o fato de que Deus quer que TODOS os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade. Nosso Deus é Deus de paz e não de confusão.

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Não depende de quem quer ou quem corre

Moisés havia intercedido pelo povo e Deus o atendeu ( Êx 32:11 -14), porém, quando intercedeu pela segunda vez, sentiu-se seguro para propôs que Deus riscasse o seu nome do livro da vida ( Ex 32:30 ). Foi quando Deus demonstrou que a sua misericórdia não estava atrelada ao esforço e disposição de Moisés em resignar-se ser punido no lugar do povo (Não depende de quem quer ou quem corre), antes a misericórdia de Deus é demonstrada unica e exclusivamente aos que amam a Deus.

Como compreender a seguinte frase: ‘não depende de quem quer ou quem corre’? Este verso enfatiza a predestinação absoluta?

 

A Misericórdia de Deus

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos” ( Ex 20:6 ; Dt 5:10 ; Dt 7:9 )

Após três meses que saíram do Egito, Deus apresentou ao povo um princípio relacionado à Sua misericórdia: ‘… faço misericórdia a milhares dos que me amam…’ ( Ex 20:6 ).

Na declaração divina expressa no Êxodo há uma promessa, e qualquer homem pode alcançar o ‘prêmio’ proposto: a misericórdia de Deus. Basta obedecer ao que Deus estabeleceu nesta Escritura: “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos” ( Ex 20:6 ; Dt 5:10 ; Dt 7:9 ). Deus estabeleceu que a sua misericórdia é demonstrada somente aos que O amam, guardando os Seus mandamento ( Jo 14:23 -24).

O modo como Deus concede a sua misericórdia também é descrita pelo salmista: “Com o benigno te mostrarás benigno; e com o homem sincero te mostrarás sincero; Com o puro te mostrarás puro; e com o perverso te mostrarás indomável” ( Sl 18:25 -26); “Mas a misericórdia do SENHOR é desde a eternidade e até a eternidade sobre aqueles que o temem, e a sua justiça sobre os filhos dos filhos sobre aqueles que guardam a sua aliança, e sobre os que se lembram dos seus mandamentos para os cumprir” ( Sl 103:17 -18).

Na eternidade Deus não estava obrigado a demonstrar misericórdia a ninguém, mas após empenhar a sua palavra, sujeitou-se a ela para a cumprir ( Jr 1:12 ). Para ilustrar esta verdade, lembremo-nos da seguinte sombra: Deus orientou os filhos de Israel de que não eram obrigados a votar, mas se votassem, estavam obrigados a cumprir.

Em outras palavras: ninguém é obrigado a fazer um voto a Deus, mas se votar, é devedor “Porém, abstendo-te de votar, não haverá pecado em ti. O que saiu dos teus lábios guardarás, e cumprirás, tal como voluntariamente votaste ao SENHOR teu Deus, declarando-o pela tua boca” ( Dt 23:22 -23).

Após ter pronunciado a promessa, Deus não invalida a Sua palavra, antes Ele vela sobre a sua palavra para cumprir e ela não voltará vazia ( Is 55:11 ). Deus é fiel e jamais faltará com sua palavra: se alguém O amar, d’Ele receberá misericórdia. Isto significa que a misericórdia de Deus estende-se a todos quantos O amarem, não importando tribo, nação, língua ou povo.

A misericórdia de Deus é manifesta vinculada a Sua justiça e retidão. Como a justiça e a retidão de Deus vem expressa em sua palavra, para alcançar a misericórdia de Deus o homem tem que submeter-se à Sua palavra ( Ml 3:6 ; 1Pe 1:25 ).

Quando o salmista Davi diz: “Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece dos que o temem” ( Sl 103:13 ), temos a justiça de Deus estabelecida. Um pai se compadece de seus filhos, portanto, Deus se compadece daqueles que recebe por filhos. Deus não é misericordioso com os bastardos, antes os trata com indignação e ira.

O que o salmista expôs reafirma o que Deus proferiu na lei, que a misericórdia é concedida aos que O temem, ou seja, aos que amam a sua palavra. Na bíblia o termo ‘temor’ refere-se à palavra de Deus: “Vinde, meninos, ouvi-me; eu vos ensinarei o temor do SENHOR” ( Sl 34:11 ).

O único meio de o homem alcançar a misericórdia divina é guardando o seu mandamento. Esta verdade ecoa por toda as Escrituras: “Todas as veredas do SENHOR são misericórdia e verdade para aqueles que guardam a sua aliança e os seus testemunhos” ( Sl 25:10 ); “O ímpio tem muitas dores, mas aquele que confia no SENHOR a misericórdia o cercará” ( Sl 32:10 ); “Eis que os olhos do SENHOR estão sobre os que o temem, sobre os que esperam na sua misericórdia” ( Sl 33:18 ).

É com base no exercício da misericórdia de Deus que decorre o seguinte mandamento: “Amarás, pois, o SENHOR teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças” ( Dt 6:5 ). Moisés determinou ao povo que amasse a Deus porque este era o único modo de alcançar a misericórdia divina.

A misericórdia de Deus foi estabelecida nos termos elencados acima porque Deus não quer se revelar às suas criaturas somente como o Onipotente, antes quer ser conhecido por sua benignidade e verdade, de modo que engrandeceu a sua palavra cima do Seu nome “Inclinar-me-ei para o teu santo templo, e louvarei o teu nome pela tua benignidade, e pela tua verdade; pois engrandeceste a tua palavra acima de todo o teu nome” ( Sl 138:2 ).

O salmo 138 é messiânico e apresenta o Verbo da vida, pois somente Cristo esteve na angustia e ressurgiu dentre os mortos e ficou estabelecido que Deus tornaria perfeito aqueles que tocassem a Palavra da vida “Andando eu no meio da angústia, tu me reviverás; estenderás a tua mão contra a ira dos meus inimigos, e a tua destra me salvará. O SENHOR aperfeiçoará o que me toca; a tua benignidade, ó SENHOR, dura para sempre; não desampares as obras das tuas mãos” ( Sl 138:7 -8).

O Verbo encarnado foi engrandecido acima de todo o nome da divindade, visto que não há outro nome pelo qual os homens devam ser salvos ( At 4:12 ). A palavra foi enaltecida, visto que Deus exaltou soberanamente o Verbo encarnado e lhe deu um nome que é sobre todo o nome ( Fl 2:9 ; Ef 1:21 ; Fl 2:9 ; Rm 10:13 ).

Deus quer ser conhecido pela imutabilidade do seu conselho e da sua palavra, ou seja, por ser verdadeiro. Quando Deus disse: “De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:17 ), não estava impondo somente uma restrição. No mandamento estava expresso: plena liberdade, o cuidado de Deus e o conhecimento necessário para que o homem pudesse tomar uma decisão.

Quando ofendeu ao Criador, o homem separou-se de Deus (morreu) por força da lei que diz: certamente morrerás. O pecado achou ocasião na lei que foi estabelecida para preservar o homem em comunhão com o Criador (a lei santa, justa e boa expressa no Éden), e por ela separou (matou) o homem de Deus. Se Deus simplesmente invalidasse a sua palavra que diz: ‘certamente morrerás’ para reatar a comunhão com o homem, negaria a sua essência.

É neste ponto que Deus apresenta a sua misericórdia: como um homem ofendeu e todos morreram, Ele providenciou outro homem, Jesus Cristo. Se o homem que ofendeu trouxe morte, o que obedecesse traria vida. Este último Adão foi incumbido de conquistar o direito à vida para todos os seus descendentes, ou seja, aqueles que igualmente a Ele obedecessem a Deus “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” ( Rm 5:19 ). Justiça e misericórdia se entrelaçam “A misericórdia e a verdade se encontraram; a justiça e a paz se beijaram” ( Sl 85:10 ).

Como a ofensa de um homem fez com que todos morressem, só a obediência de um homem satisfaria a justiça de Deus. Como pela ofensa de um homem sem pecado veio a morte sobre a humanidade, somente um homem sem pecado e obediente em tudo traria a ressurreição dentre os mortos.

É notável que, apesar de ser onipotente, Deus não pode passar por cima da sua palavra: “… a alma que pecar, essa mesma morrerá” ( Ez 18:4 ; Nm 15:31 ). Deus não invalida a sua palavra simplesmente escolhendo dentre os descendentes de Adão aqueles que seriam salvos, pois todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus, portanto, encerrados na penalidade: morte.

Para o homem gerado segundo a carne de Adão ser salvo é necessário se socorrer de Cristo, que é a misericórdia de Deus demonstrada ao mundo, de modo que no mandamento: “… que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo…” ( 1Jo 3:23 ), há liberdade e vida para todos quantos obedecem.

Deus estabeleceu, segundo a sua misericórdia e graça, que faz misericórdia a milhares dos que O amam ( Ex 20:6 ), daí veio o mandamento: “Amarás, pois, o SENHOR teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças” ( Dt 6:5 ). De outro modo, caso o homem não ame Deus, ama a morte, pois ninguém pode servir a dois senhores “… todos os que me odeiam amam a morte” ( Pv 8:36 ).

Observe que os versos em comento não tratam de um sentimento amoroso, antes trata de serviço, obediência, sujeição “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” ( Mt 6:24 ).

Como amar a Deus? Obedecendo-O. Jesus mesmo disse: “Se me amais, guardai os meus mandamentos” ( Jo 14:15 ); “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” ( Jo 14:21 ).

E qual é o mandamento de Deus? “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ). Ora, quem cumpre este mandamento é alvo da misericórdia de Deus.

Esta verdade é apresentada pelo escritor aos Hebreus: “E, sendo ele consumado, veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem” ( Hb 5:9 ). A misericórdia de Deus revela-se em salvação a todos quantos lhe obedecem.

Mas, se alguém não obedece a Cristo, de Deus terá a Sua ira “Como labareda de fogo, tomando vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo” ( 2Ts 1:8 ).

É fato: “Eu amo aos que me amam, e os que cedo me buscarem, me acharão” ( Pv 8:17 ). Deus tem misericórdia dos que O amam, ou seja, Ele ama (cuida) os que O amam (obedecem). Quem buscar ao Senhor certamente O achará!

Os escribas e fariseus não compreendiam a misericórdia de Deus, pois Jesus ordenou: “Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício. Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento” ( Mt 9:13 ).

Os escribas e fariseus pensavam que, quando o Messias viesse, viria em busca dos filhos de Jacó. Na verdade Jesus veio para os seus, mas, como eles eram justos aos próprios olhos, não foram humildes para receber o Cristo, e para recebê-lo era imprescindível uma mudança radical na concepção deles ( Jo 1:11 ). A ideia de que bastava ter por pai a Abraão e já eram salvos deveria ser abandonada para que pudessem alcançar a Cristo ( Mt 3:9 ).

A ideia de que o Messias viria somente em busca dos filhos de Israel, é traduzida na parábola de Cristo: “Os sãos não necessitam de médico, mas, sim, os que estão doentes; eu não vim chamar os justos, mas, sim, os pecadores ao arrependimento” ( Mc 2:17 ). Os judeus pensavam que eram ‘justos’ por serem descendentes da carne de Abraão e porque a eles pertencia a lei e os profetas.

Jesus, por sua vez, demonstra que veio em busca da humanidade, e começou o seu ministério com os filhos do seu povo, e como não o receberam (não foram humildes a ponto de abandonarem o que entendiam por salvação), prosseguiu o seu ministério para além da Galileia, ou seja, à humanidade. A missão de Jesus era chamar os pecadores a uma mudança de entendimento (metanoia=arrependimento).

Na fala: “Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento” ( Mt 9:13 ), confronta o conhecimento dos escribas e fariseus. As Escrituras demonstravam que todos os homens juntamente se desviaram, de modo que não havia um justo se quer ( Sl 53:3 ; Rm 3:10 ; Mq 7:2 ). Seria um contra senso o Messias vir em busca de ‘justos’, se as Escrituras protestavam que não havia um justo se quer. Como não havia um justo se quer, é plausível o Messias vir atrás dos pecadores. Mas, o que Jesus quis dizer com “Ide e aprendei: Misericórdia quero”?

Ele estava orientando os seus interlocutores que Deus não se agradava de sacrifícios, pois os escribas e fariseus se aplicavam somente aos sacrifícios, como: sábados, orações, dízimos, leis, etc. ( Sl 51:16 ), e se esqueciam do principal: a misericórdia.

O que Deus quer é obediência à sua palavra, ou seja, misericórdia, e era exatamente o que Jesus estava fazendo: obedeceu a ordem do Pai. Enquanto comia com os publicanos e pecadores, Jesus estava realizando a vontade de Deus, diferente dos escribas e fariseus que se mantinham separados dos ‘pecadores’.

Há outra consideração acerca da misericórdia de Deus apresentada a Moisés: “Porém ele disse: Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti, e proclamarei o nome do SENHOR diante de ti; e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer” ( Êx 33:19 ).

Esta declaração de Deus foi dada em virtude de um evento anterior: “Agora, pois, perdoa o seu pecado, se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito. Então disse o SENHOR a Moisés: Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro. Vai, pois, agora, conduze este povo para onde te tenho dito; eis que o meu anjo irá adiante de ti; porém no dia da minha visitação visitarei neles o seu pecado” ( Ex 32:32 -34).

No dia seguinte após o povo de Israel ter feito o bezerro de ouro, Moisés subiu ao monte para interceder pelo povo. Foi quando Moisés fez a seguinte proposta: “Agora, pois, perdoa o seu pecado, se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito”. O pedido de Moisés jamais poderia ser atendido, pois Deus teria de contrariar a sua própria natureza. Para atender ao pedido de Moisés, Deus teria de contrariar o que havia estabelecido, cometer injustiça.

Como perdoar aquele povo se não guardaram o mandamento de Deus? “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos” ( Ex 20:6 ).

Daí a resposta divina: “Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro”. Deus não disse: Aquele que Eu rejeitar. Deus havia estabelecido que a rejeição recai sobre aqueles que não obedecem a sua palavra. Esta fala de Deus é suficiente para desconstruir a ideia da predestinação absoluta, ou da eleição incondicional  para a salvação ou para a danação eterna.

Quando Deus disse a Moisés: “… e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer” ( Êx 33:19 ), estava enfatizado que, para satisfazer a sua justiça e retidão aprove a Deus salvar o crentes pela loucura da pregação. Estava em seu poder demonstrar misericórdia àqueles que obedecessem ao Seu mandamento: que creiais naquele que Ele enviou. É antibíblica a ideia de que Deus escolheu quem salvar simplesmente porque é soberano. A salvação dos homens envolveu a sabedoria e a prudência de Deus, pois a sua soberania não podia invalidar a sua justiça “Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça, que ele fez abundar para conosco em toda a sabedoria e prudência” ( Ef 1:7 -8).

O apóstolo Paulo é enfático: Deus salva os crentes pela loucura da pregação, e não por ser soberano “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação” ( 1Co 1:21 ).

Deus já havia apresentado a Moisés qual era o parâmetro estabelecido para demonstrar a sua misericórdia aos homens. No entanto, Moisés fez uma proposta que contrariava completamente a orientação divina, o que fez com que Deus relembrasse o que estava estabelecido.

Deus estava declarando a Moisés que aquela proposta era impossível de ser atendida, pois riscar o nome de Moisés do livro da vida sem ele ter pecado, seria injustiça da parte de Deus. Com a fala: ‘terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia’, Deus estava relembrando a instrução dada anteriormente junto com os dez mandamentos ( Dt 5:10 ; Dt 7:9 ; Ex 20:6  ).

Foi o mesmo que dizer: – Moisés, de quem eu tenho misericórdia? Já não foi ensinado que terei misericórdia daqueles que me obedecem? Moisés, é impossível eu ter misericórdia dos que me odeiam, antes só posso exercer misericórdia aos que me obedecem. Dai a fala: terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia! E de quem Deus tem misericórdia? A resposta vem dos versos analisados anteriormente: dos que me amam ( Dt 5:10 ; Dt 7:9 ; Ex 20:6  ).

A má leitura do trocadilho: ‘eu terei misericórdia daquele que eu tiver misericórdia’, conduz muitos ao entendimento equivocado da predestinação absoluta. Ou pior, surge a seguinte fala: Deus não é obrigado a ter misericórdia. Ledo engano. Deus não é o homem para que minta, e quando Ele empenhou a sua palavra, sujeitou-se a Ela para cumpri-la.

Sabemos que Deus é livre na essência, mas apesar da liberdade infinita que possui, Deus não volta atrás com a sua palavra. Ele não pode negar-se a si mesmo. Ele não pode fazer injustiça ou negar o que é de direito. É impossível Deus não amar os que O amam, pois Ele empenhou a sua palavra. É impossível Deus deixar de ter misericórdia dos que são misericordiosos.

Aos hipócritas e fariseus Jesus foi claro: “Ide e aprendei: Misericórdia quero, e não sacrifício..”. Qual é a misericórdia que Deus exige? A mesma misericórdia que Deus esperava que Saul tivesse: que obedecesse a sua palavra “Porém Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” ( 1Sm 15:22 ).

É de difícil compreensão, mas o rei Saul enquanto estava derramando o sangue dos amalequitas segundo a ordem do Senhor, estava sendo ‘misericordioso’ “E enviou-te o SENHOR a este caminho, e disse: Vai, e destrói totalmente a estes pecadores, os amalequitas, e peleja contra eles, até que os aniquiles” ( 1Sm 15:18 ). Mas, quando Saul resolveu preservar a vida do rei Agague, rei de Amaleque, e dos bois, abandonou a misericórdia e passou à condição de rebelde, feiticeiro, iníquo ( 1Sm 15:23 ).

A obediência que Deus exigiu de Saul é o mesmo amor que Deus exigiu do povo de Israel através de Oséias: “Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos” ( Os 6:6 ).

Quando Jesus anuncia no sermão do monte: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia” ( Mt 5:7 ), temos outro trocadilho. Bem-aventurados os que obedecem a Deus (misericordiosos), pois só os que obedecem é que alcançam misericórdia. É o mesmo que dizer: Terei misericórdia daquele que eu tiver misericórdia, ou amo aos que me amam.

É impossível enumerar o número de teólogos adeptos da doutrina da eleição incondicional, e isto se deve à má leitura que fizeram de um verso construído com ‘trocadilhos’. A leitura que fazem tem por base somente uma passagem bíblica, e se esquecem que, para compreender qualquer passagem bíblia é necessário fazer uso do princípio utilizado por Cristo: ‘mas, também está escrito’.

Está escrito: ‘terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia’, mas também está escrito: ‘terei misericórdia dos que me amam’, de modo que a leitura correta é: ‘Daqueles que me amam eu tenho misericórdia’.

 

A desobediência

 “Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia” ( Rm 11:32 )

O apóstolo Paulo demonstra que Deus encerrou todos os homens debaixo da desobediência e usa de misericórdia para com todos.

Quando todos os homens foram encerrados debaixo da desobediência? Qual a desobediência a que todos foram sujeitos?

A desobediência que o apóstolo refere-se é a ofensa de Adão. Adão ofendeu a Deus e todos os seus descendentes tornaram-se pecadores ( Rm 5:15 ). Por causa da desobediência de Adão todos juntamente alienaram-se de Deus ( Rm 5:19 ).

A humanidade foi encerrada debaixo da consequência da ofensa de Adão. Isto significa que a humanidade não se tornou desobediente em função de erros cometidos no dia a dia, antes todos são gerados na condição de filhos da desobediência, e já trazem sobre sí a penalidade estabelecida por Deus por causa da ofensa: a morte ( 1Co 15:22 ).

É em função desta verdade que o apóstolo Paulo demonstrou que todos foram encerrados debaixo da desobediência.

Como os judeus consideravam que, por serem descendentes da carne de Abraão, não estavam debaixo da condenação proveniente da ofensa de Adão, o apóstolo demonstra que, com relação à ofensa, todos os descendentes de Adão, inclusive os judeus, eram filhos da desobediência e estavam alienados da glória de Deus ( Rm 3:19 ).

Quando o apóstolo diz que ‘Deus encerrou a todos debaixo da desobediência’, demonstrou que todos estão sob a penalidade imposta à ofensa de Adão. A asserção paulina não diz que Deus obrigou o homem pecar, ou que Ele tenha criado o pecado, antes que todos sofrem a penalidade imposta a Adão.

Para evitar divisões na igreja local estabelecia em Roma, o apóstolo Paulo estava demonstrando que os judeus eram inimigos da igreja de Cristo ( Rm 11:28 ; Gl 4:29 ), porém, apesar de serem inimigos do evangelho, por causa da eleição (trazer e abrigar o Cristo segundo a carne), receberam o cuidado de Deus.

O cuidado, o amor que Deus dispensou ao povo de Israel era devido ao que Deus prometera aos patriarcas. Deus tinha o propósito de trazer Jesus Cristo ao mundo e prometera aos pais que da linhagem deles haveria de vir o Cristo. Foi em virtude do propósito e da promessa feita aos pais que o povo de Israel foi escolhido para proporcionar a vinda do Cristo ao mundo.

Observe o que Deus disse por intermédio de Moises: “O SENHOR não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos em número do que todos os povos; Mas, porque o SENHOR vos amava, e para guardar o juramento que fizera a vossos pais, o SENHOR vos tirou com mão forte e vos resgatou da casa da servidão, da mão de Faraó, rei do Egito” ( Dt 7:7 -8).

O povo de Israel pensava que era melhor que os gentios por ter sido escolhido por Deus, porém, Deus já havia alertado que o povo não foi escolhido por ser povo mais numeroso ou melhor que os outros povos, antes a escolha estava firmada na promessa feita aos patriarcas ( Rm 3:9 ).

O povo de Israel em nada era diferente dos outros povos, porém, eles foram ‘escolhidos’ por serem descendentes da carne dos patriarcas. Eles não foram eleitos para serem salvos, antes para uma missão, assim como Ciro, o rei dos Persas e o rei do Egito ( Is 45:1 ; Rm 9:17 ).

Recapitulando: Deus prometeu a Abraão, Isaque e Jacó que através da linhagem deles haveria de vir o Cristo, sendo que o povo de israel foi escolhido para esta missão especifica: abrigar a linhagem do Messias, ou seja, nenhum dos membros de Israel foram escolhidos para serem salvos. Deus tinha o proposito de trazer o Messias ao mundo, e o povo de Israel foi eleito para este propósito por causa da promessa que Deus fez aos pais. Deus prometeu a Abraão, Isaque e Jacó que traria o Cristo através da linhagem deles, e cuidou (amou) do povo de Israel para que a promessa fosse cumprida “Não é por causa da tua justiça, nem pela retidão do teu coração que entras a possuir a sua terra, mas pela impiedade destas nações o SENHOR teu Deus as lança fora, de diante de ti, e para confirmar a palavra que o SENHOR jurou a teus pais, Abraão, Isaque e Jacó ( Dt 9:5 ).

Por que Deus não rejeitou o povo de Israel para trazer o Cristo? Dai a resposta: Por que o que Deus dá (dons) e a missão estabelecida (vocação) são irrevogáveis. Apesar de serem incrédulos, a promessa de Deus não falhou ( Rm 9:6 ). A eleição deles tinha em vista a missão, e mesmo pertencendo a eles a adoção de filho, a glória, as alianças, as leis, o culto e as promessa, não eram filhos de Abraão ( Rm 9:7 -8).

No verso 29 de Romanos 11, o apóstolo Paulo demonstra que os cristãos convertidos dentre os gentios outrora eram desobedientes a Deus, mas que agora haviam alcançado misericórdia porque o povo de Isael foi desobediente, pois rejeitaram o Cristo ( Rm 11:25 ).

Mas, apesar dos judeus terem sido rebeldes, eles podem alcançar a mesma misericórdia que foi dada aos cristãos (v. 32). Não há outra misericórdia a ser demonstrada aos judeus durante a plenitude dos gentios, a não ser a demonstrada à igreja de Cristo. Todos os homens, quer sejam judeus ou gentios, estão sob a desobediência de Adão, de modo que com todos Deus usa da mesma misericórdia.

O princípio para o exercício da misericórdia de Deus não muda: “Com o benigno te mostrarás benigno; e com o homem sincero te mostrarás sincero; Com o puro te mostrarás puro; e com o perverso te mostrarás indomável” ( Sl 18:25 -26).

 

Não depende de quem quer ou quem corre

“Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece” ( Rm 9:16 )

No capítulo 9 de Romanos o apóstolo Paulo expressa a sua dor por ver a condição dos seus irmãos segundo a carne ( Rm 9:2 ). Neste capítulo ele continua a exposição de uma pergunta feita no capítulo 3: “Pois quê? Se alguns foram incrédulos, a sua incredulidade aniquilará a fidelidade de Deus?” ( Rm 3:3 ).

A palavra de Deus não falhou ( Rm 9:6 ), pois a incredulidade do homem jamais anula a fidelidade de Deus “Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também com ele viveremos; Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará; Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo” ( 2Tm 2:11 -13).

No verso 7, o apóstolo Paulo explica que, o fato de os seus irmãos segundo a carne serem descendência de Abraão, não os tornava filhos de Abraão. Ele demonstra que os judeus se equivocaram quanto ao pensarem que, por terem por pai Abraão, eram de fato os seus filhos.

Equivocaram-se por fazerem uma má leitura da promessa: “Em Isaque será chamada a tua descendência” (v. 7). Quando leram as Escrituras, pensaram que falava de muitos, porém, a promessa falava de um “Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo” ( Gl 3:16 ).

A explicação é clara: “Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência” (v. 8). O povo de Israel pensava que foram eleitos e predestinados para serem filhos de Abraão por serem descendentes da carne de Abraão. Prevaricaram com relação à interpretação das Escrituras, pois eram filhos de Adão “Mas eles transgrediram a aliança, como Adão; eles se portaram aleivosamente contra mim” ( Os 6:7 ); “Teu primeiro pai pecou, e os teus intérpretes prevaricaram contra mim” ( Is 43:27 ).

A palavra de Deus foi dada a Sara e também a Rebeca. À Sara foi dito: “Por este tempo virei, e Sara terá um filho”, mas a Rebeca foi dito “O maior servirá o menor”. Por que Deus não disse à Rebeca o mesmo que disse a Sara?

Temos dois eventos a analisar. Quando foi dito a Sara que ela teria um filho, ela era estéril. Com relação à criança herdar a benção de Abraão, bastou Sara despedir Agar dizendo: “Mas que diz a Escritura? Lança fora a escrava e seu filho, porque de modo algum o filho da escrava herdará com o filho da livre” ( Gl 4:30 ).

Quem foi escolhido: Ismael ou Isaque? A resposta é Isaque! E qual foi o parâmetro utilizado para a eleição de Isaque? O parâmetro utilizado para a eleição de Isaque foi o princípio lembrado por Sara: “E disse a Abraão: Ponha fora esta serva e o seu filho; porque o filho desta serva não herdará com Isaque, meu filho” ( Gn 21:10 ). Apesar de Abraão ficar triste com a proposta de Sara, foi Deus que confirmou a escolha, quando disse: “Não te pareça mal aos teus olhos acerca do moço e acerca da tua serva; em tudo o que Sara te diz, ouve a sua voz; porque em Isaque será chamada a tua descendência” ( Gn 21:12 ).

O que estas passagens demonstram? Que Deus não elegeu Isaque através da sua soberania, antes a escolha possui parâmetro especifico, pois Deus não nega o que é de direito aos filhos dos homens: o filho da escrava não herda com o filho da livre.

Mas, com relação a Esaú e Jacó há um entrave. Qual o parâmetro da eleição entre dois irmãos? A soberania de Deus? Não! A Primogenitura. Entre dois irmãos o primogênito é o eleito para receber a bênção, e a primogenitura é o parâmetro para a escolha. É em função desta peculiaridade que Deus disse a Rebeca: “O maior servirá o menor” (v. 12 ).

Sara e Rebeca eram estéreis. Para Sara foi dito que “Por este tempo virei, e Sara terá um filho”, mas a Rebeca, quando os filhos já estavam para nascer, foi dito “O maior servirá o menor” ( Gn 25:21 -23). Se Esaú não houvesse vendido o direito de primogenitura, Ele seria o eleito. Porém, como vendeu o seu direito de primogenitura, Jacó foi eleito. A escolha de Jacó se deu em função do direito de primogenitura, e não em virtude da soberania de Deus.

Eleito para que? Jacó foi eleito para que da sua linhagem descendesse o Cristo. Para confirmar que Israel foi eleito para trazer a descendência de Cristo, o apóstolo Paulo cita Malaquias: “Como está escrito: Amei a Jacó, e odiei a Esaú” ( Ml 1:2 ).

Daí a pergunta: “Que diremos pois? que há injustiça da parte de Deus? De maneira nenhuma” (v. 14). Em ambas as escolhas de Deus não houve injustiça, pois Isaque foi escolhido por ser filho da livre, e Jacó por ter adquirido o direito de primogenitura.

O que isto demonstra? Que Deus elege com base no direito estabelecido, o que diverge do pensamento de muitos: que Deus elege e predestina com base na sua soberania.

Para enfatizar esta verdade, o apóstolo Paulo cita o que Deus disse a Moisés: “Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” (v. 15). De quem Deus se compadece? Como já vimos, Deus se compadece daqueles que O amam, um parâmetro firme, pois a sua palavra é fiel “Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também com ele viveremos; Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará; Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo” ( 2Tm 2:11 -13).

Neste ponto o apóstolo Paulo conclui: “Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece” (v. 16). O que Moisés queria? Que Deus riscasse o seu nome do livro da vida caso não demonstrasse misericórdia ao povo. A misericórdia de Deus dependia do querer de Moises? Adiantava Moisés correr em favor do povo? Não!

Tudo depende de Deus, pois é Ele que se compadece. E como Ele demonstra a sua misericórdia? Ele demonstra a sua misericórdia aos que O amam, obedecendo ao seu mandamento.

A má leitura deste versículo é o que dá sustentáculo a doutrina calvinista da eleição absoluta. Enquanto o apóstolo Paulo estava enfatizando que não adiantou Moisés ‘querer’ ou ‘correr’ para que Deus tivesse misericórdia do povo, Calvino equivocadamente utiliza o texto para falar de virtude e mérito quanto à eleição para salvação “Vai, pois, agora, conduze este povo para onde te tenho dito; eis que o meu anjo irá adiante de ti; porém no dia da minha visitação visitarei neles o seu pecado. Assim feriu o SENHOR o povo, por ter sido feito o bezerro que Arão tinha formado” ( Êx 32:34 -35).

Ao ler esta passagem, não se pode perder de vista o aviso de Tiago: “Porque o juízo será sem misericórdia sobre aquele que não fez misericórdia; e a misericórdia triunfa do juízo” ( Tg 2:13 ). Este é mais um trocadilho! O que os homens entendem por misericórdia? Definem misericórdia como a virtude que leva um homem a compadecer da miséria alheia.

Seria desta misericórdia que Tiago escreveu? Não! Ele fala da mesma misericórdia que Jesus apresentou aos seus ouvintes no sermão do monte e a misericórdia que os fariseus ainda não haviam aprendido: o juízo de Deus é sem misericórdia sobre os que não O obedecem. A obediência é vitória sobre o juízo.

Esta mesma abordagem é feita por João: “No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena, e o que teme não é perfeito em amor” ( 1Jo 4:18 ). O termo ‘amor’ deve ser lido como ‘obediência’. Na obediência não há temor, antes a obediência perfeita lança fora o medo. É da natureza do temor a pena, de modo que quem teme é porque não obedeceu.

 

Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!

“O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!” ( Lc 18:13 ).

É bom revermos a passagem do fariseu e do publicano.

Ao contar a parábola do fariseu e do publicano, Jesus não fez referência à ideia da eleição ou da predestinação calvinista, e nem da arminianista.

Por que o fariseu não foi justificado? Porque Deus não o elegeu e nem predestinou?

A parábola é clara: o fariseu não foi justificado porque confiavam em si mesmos. Ele não alcançou misericórdia porque acreditava que era justo simplesmente por não roubar, não adulterar, dar o dízimo e jejuar, e por isso veio a desprezar os outros homens.

Com base em que o fariseu confiava em si mesmo? O fariseu confiava na sua carne, que por ser descendente da carne de Abraão fora predestinado por Deus para ser salvo ( Lc 18:9 ).

Já o publicano, ao chegar no templo, bateu no peito, dizendo: – ‘Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!’. O que justificou o publicano? Como o publicano alcançou misericórdia?

Observe que Jesus não fez alusão à ideia de predestinação absoluta, antes faz alusão à outra questão: ‘qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado’ (v. 14).

Deus tem misericórdia dos que se humilham, ou seja, dos que obedecem a sua palavra, visto que só obedecendo é possível se oferecer por servos “Eu amo aos que me amam, e os que cedo me buscarem, me acharão” ( Pr 8:17 ; Jl 2:32 ). A obediência é o principio da auto humilhação: “Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça?” ( Rm 6:16 ).

É Deus quem se compadece do homem, portanto, não há mérito algum em obedecer a Deus, pois é neste quesito que o homem se humilha, pois se fez servo. Qual é o mérito de alguém que se faz servo? É possível gloriar-se quando um servo se sujeita ao seu Senhor? Há alguma jactância?

Se Deus deu um mandamento, e o homem obedeceu, ofereceu-se por servo. Está é a humilhação que Deus exige: rendição completa à vontade de seu Senhor.

O salmista bendisse a Deus da seguinte forma: “Sê tu a minha habitação forte, à qual possa recorrer continuamente. Deste um mandamento que me salva, pois tu és a minha rocha e a minha fortaleza” ( Sl 71:3 ).

Deus salva os homens através de um mandamento, e não por intermédio de um fado, de uma sina, ou por predestinação. E qual é o mandamento de Deus que salva? “Mas que se manifestou agora, e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações para obediência da fé” ( Rm 16:26 ).

Cristo é a rocha da nossa salvação, e crer n’Ele é o mandamento que salva: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ).

 

Endurece a quem quer

Para compreender a fala do verso 17 de Romanos 9: “Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra”, temos que entender que é Deus que se compadece.

E como Deus se compadece? Ele se compadece tendo misericórdia dos que obedecem.

Ora, Deus deu a oportunidade de Faraó ouvir a palavra, considerar e tomar uma decisão, mas Faraó não deu crédito “Porém o coração de Faraó se endureceu, e não os ouviu, como o SENHOR tinha falado” ( Ex 7:13 ). O endurecimento de Faraó é notório porque foi mantido vivo apesar de resistido a ordem de Deus por várias vezes.

Em seguida é emitido um protesto de Deus contra Faraó: “Porque agora tenho estendido minha mão, para te ferir a ti e ao teu povo com pestilência, e para que sejas destruído da terra; Mas, deveras, para isto te mantive, para mostrar meu poder em ti, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra. Tu ainda te exaltas contra o meu povo, para não o deixar ir?” ( Ex 9:16 ).

Faraó foi escolhido para desempenhar uma missão, assim como o foi Ciro, e da mesma forma que o foi Israel. A missão de Faraó era tornar conhecido o nome de Deus em toda a terra. Porém, ele ouviu a palavra de Deus e poderia aquiescê-la, mas o fato de ser recalcitrante, afastou a misericórdia de Deus.

É neste ponto que o apóstolo Paulo chega a seguinte conclusão: “Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer” ( Rm 9:18 ). Eis o porquê da leitura feita anteriormente: Deus se compadece de quem quer, e Ele quer compadecer-se dos que O obedecem segundo o seu mandamento. Por outro lado, aos que rejeitam o mandamento de Deus, Deus não exerce misericórdia, pois Ele não pode se compadecer dos que rejeitam a sua palavra.

Como Deus quer demonstrar misericórdia aos que O amam, e não quer demonstrar misericórdia aos que rejeitam, certo é que Ele se ‘compadece’ de quem quer e não se ‘compadece’ de quem quer. Novamente temos um trocadilho! Como o rei do Egito tornou-se símbolo de obstinação, de endurecimento e de rejeição à misericórdia de Deus demonstrada, o apóstolo substitui a frase ‘não se compadece’ por ‘endurece’.

A frase: “Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer” ( Rm 9:18 ), pode ser escrita da seguinte forma: “Logo, pois, ‘compadece-se de quem quer’, e ‘não se compadece de quem quer’” ( Rm 9:18 ).

Daí a replica dos interlocutores recalcitrantes: Por que Deus se queixa ainda, visto que não temos resistido a sua vontade “Dir-me-ás então: Por que se queixa ele ainda? Porquanto, quem tem resistido à sua vontade?” (v. 19 ). Observe que o que o apóstolo Paulo apresenta neste verso não é o que dizem alguns calvinistas, de que o homem não pode resistir à vontade de Deus. O verso demonstra que os homens argumentavam que de modo algum resistiram à vontade de Deus, porém, estabelecer uma justiça própria é resistir a vontade de Deus ( Rm 10:3 ).

Embora argumentassem que não resistiam à vontade de Deus, na verdade tropeçaram na pedra de tropeço “Que diremos pois? Que os gentios, que não buscavam a justiça, alcançaram a justiça? Sim, mas a justiça que é pela fé. Mas Israel, que buscava a lei da justiça, não chegou à lei da justiça. Por quê? Porque não foi pela fé, mas como que pelas obras da lei; tropeçaram na pedra de tropeço; Como está escrito: Eis que eu ponho em Sião uma pedra de tropeço, e uma rocha de escândalo; E todo aquele que crer nela não será confundido” ( Rm 9:30 -33).

Qualquer que não obedece a Deus, antes busca servi-Lo pelas obras da lei, não alcança misericórdia. Está resistindo à vontade de Deus, que estabeleceu que a sua misericórdia decorre da justiça da fé ( Rm 10:6 ).

Moisés havia intercedido pelo povo e Deus o atendeu ( Êx 32:11 -14), porém, quando propôs que Deus riscasse o seu nome do livro da vida, Deus demonstrou que a sua misericórdia não estava atrelada ao esforço e disposição de Moisés, antes a misericórdia é de exclusividade dos que amam a Deus. Portanto, o verso em comento não possui relação alguma com a doutrina da predestinação absoluta.

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