Duas portas, dois caminhos

A Bíblia ensina que todos os homens entram pela porta larga, quando vem ao mundo, e estão em um caminho largo, que os conduzirá à perdição.

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Predestinação e Livre-Arbítrio

Vincular indivíduos a destinos, antes mesmo de nascerem, é pensamento contrário às Escrituras, pois a Bíblia evidencia que os destinos estão vinculados aos caminhos. Se alguém nascido da carne e do sangue (Adão) não tomar a decisão de acatar o convite de Deus, será conduzido pelo caminho largo à perdição, mas qualquer que nascer do espírito (último Adão), acatando o convite de Deus, estará no caminho estreito (Cristo), que conduz o homem a Deus.


Predestinação e Livre-Arbítrio

“Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais também os celestiais” (1 Coríntios 15:48 ).

Introdução

É tão espantosa a quantidade de textos sobre predestinação e livre-arbítrio,[1] que o argumento inicial se restringe em afirmar que o tema é de difícil explicação ou é um problema insolúvel.

Invariavelmente, os artigos sobre predestinação e livre-arbítrio, quando começam com as razões acima, somente conduzirão o leitor a rever posições doutrinárias de alguns teólogos do período da reforma protestante e, ao final, não apresentará uma resposta segura ao tema, além de introduzir muitas dúvidas.

É recorrente afirmar que o assunto tem sido objeto de inúmeras discussões ao longo da história do cristianismo, porém, o que se vê não é discussão, mas a imposição de ideias que se sagraram sob o rótulo de ‘escriturísticas’, ou seja, não podem ser questionadas.

No entanto, vale destacar que, se determinado assunto das Escrituras possui duas correntes doutrinárias, certamente uma delas é anti-bíblica ou, ambas são anti-bíblicas, pois o modelo das sãs palavras do evangelho não comportam duas vertentes sobre o mesmo tema: Conserva o modelo das sãs palavras que de mim tens ouvido, na fé e no amor, que há em Cristo Jesus” (2Tm 1:13) .

Considerar que a Bíblia comporta duas doutrinas contraditórias e que ambas possuem fundamento bíblico é tendência de cunho humanista[2], portanto, contraria as Escrituras, pois o próprio Senhor Jesus não teve tal autonomia: “E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai me tem dito (Jo 12:50).

O evangelho de Cristo não possui várias vertentes e nem comporta várias interpretações. O substantivo grego πίστις, transliterado pistis e traduzido por ‘fé’, foi utilizado pelo apóstolo Paulo para fazer referência ao evangelho como ‘unidade’, um corpo de doutrina que não comporta várias vertentes: “Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo” (Ef 4:13).

Qualquer doutrina à margem do evangelho de Cristo é anátema. Nenhuma celebridade, pastor, teólogo, etc., mesmo sendo uma personalidade histórica, não detém autoridade para postular uma doutrina ou uma interpretação que assuma o valor de doutrina bíblica, nem mesmo o apóstolo Paulo: “Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho, além do que já vos tenho anunciado, seja anátema. Assim, como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo. Se alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema” (Gl 1:8 -9).

Aos que contestavam a ressurreição dentre o mortos, argumentou o apóstolo Paulo: “Se, como homem, combati em Éfeso contra as bestas, que me aproveita isso, se os mortos não ressuscitam? Comamos e bebamos, que amanhã morreremos” (1Co 15:32). Essa argumentação também serve para muitos seguimentos doutrinários, pois se há predestinação para salvação, que aproveita o combate em defesa do evangelho?

“Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos” (Jd 1:3).

 

Calvinismo versus Arminianismo

O maior obstáculo à compreensão da doutrina da predestinação e do livre-arbítrio, foi estabelecido por dois teólogos: João Calvino e Jacob Armínio.

Diante das doutrinas de Calvino e de Armínio, alguns teólogos afirmam que a doutrina calvinista é antagônica à doutrina arminianista, entretanto, quando analisadas, ambas as doutrinas derivam do mesmo erro: entender que Deus escolhe e predestina quem vai ser salvo ou não.

A discussão sobre a soberania de Deus e o livre-arbítrio do homem, mediante perspectivas arminianistas e calvinistas, realmente demonstra que tais correntes são inconciliáveis, para não dizermos, paradoxais.

A Bíblia ensina que qualquer que invocar o Senhor será salvo (Jl 2:32; At 2:21; Rm 10:13), e não faz referência à soberania de Deus e nem à sua onisciência. O profeta Isaias destaca que as mãos de Deus não estão encolhidas para que não possa salvar e nem agravados os seus ouvidos (Is 59:1). Por que não encontramos um texto bíblico onde é enfatizado que Deus é soberano para salvar? Por que não é enfatizado que Deus salva por sua onisciência? Por que a Bíblia enfatiza o perdão, a misericórdia e a benignidade de Deus, em vez da soberania e da onisciência?

“Mas contigo está o perdão, para que sejas temido” (Sl 130:4);

“TEM misericórdia de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; apaga as minhas transgressões, segundo a multidão das tuas misericórdias” (Sl 51:1).

É incrível o empenho de muitos em propagar o calvinismo e o arminianismo, mesmo quando se reconhece várias discrepâncias de tais sistemas doutrinários com as Escrituras. Por que enfatizar que essas doutrinas são escrituristicas, se ambas são inconciliáveis e, como alguns dizem, cercadas de riscos, pois podem levar os seus seguidores ao extremismo?

 

Pensamento dos gregos

É notório que a filosofia grega influenciou largamente teólogos, padres e pastores ao longo da história da igreja.

O platonismo tornou-se referência de pensadores como Agostinho, Boécio, João Escoto Erígena e Boaventura de Bagnoregio e o aristotelismo, de pensadores da estirpe de Tomás de Aquino.

Sem nos atermos às influências do pensamento grego no cristianismo, vale lembrar que, na mitologia grega, havia uma entidade cega, Moros, em grego Μόρος, o deus da sorte e do destino. Esse deus não via a quem reservava o futuro, porém, o futuro reservado, quer dos deuses ou dos mortais, era inescapável.

A mitologia grega vinculava deuses e mortais a um destino, pois o deus ‘Destino’ ditava os acontecimentos, e até mesmo Zeus não podia evitar o seu destino. Vários mitos gregos evidenciam o caráter fatalista[3] da cultura grega antiga, fatalismo que se vê também entre os filósofos estoicos e os romanos.

O pensamento da cultura grega e os seus mitos, destoam completamente do pensamento bíblico, pois vinculam deuses e homens a um destino.

Através da parábola dos dois caminhos, Jesus evidencia que os homens não tem um destino pré-estabelecido, pois a parábola apresenta os caminhos atrelados a um destino, e não homens atrelados a determinados destinos.

“Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição e muitos são os que entram por ela; E porque estreita é a porta e apertado o caminho que leva à vida, poucos há que a encontram” (Mt 7:13-14)

Existem somente dois caminhos e cada qual está vinculado a um destino: o caminho largo está vinculado à perdição e o caminho estreito vinculado à salvação. Segundo essa perspectiva, nenhum homem está diretamente vinculado a um destino, mas, sim, à porta por onde entrou.

Há duas portas, sendo uma larga e a outra estreita. Para entrar pela porta estreita, é necessário nascer de novo; de modo semelhante, é através do nascimento natural que o homem entra pela porta larga.

Jesus é a porta estreita – o último Adão -, semelhantemente Adão, o primeiro homem, é a porta larga, por quem os homens entram no mundo.

Quando os homens nascem (vêm ao mundo), entraram por Adão (a porta larga) que os deixa em um caminho largo, que conduz à perdição. Todos os homens, ao nascerem, entram no mundo por Adão (nascidos do sangue, da vontade da carne e da vontade do varão), uma porta larga que não lhes foi dada a oportunidade de escolher entrar, mas que dá acesso a um caminho de perdição.

A escolha que trouxe o caminho de perdição acessível a toda humanidade foi realizada por Adão, quando comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Adão fez uma escolha que afetou a condição de todos os seus descendentes, desde o nascimento: portanto, os homens nascem de uma porta larga (Adão) e trilham um caminho que, apesar de não terem escolhido, os conduzirá à perdição (Sl 58:3).

Os ensinamentos bíblicos e o pensamento grego são antagônicos, pois este se pauta pelo fatalismo, enquanto que, aquele, pelo propósito eterno de Deus. Nenhum homem veio ao mundo (nasceu) destinado ao céu ou ao inferno. Enquanto a cultura grega tinha um pensamento fatalista, Jesus esclarece que todos os homens não possuem um destino pré-estabelecido.

Longe de Deus destinar alguém à perdição, sob o argumento de sua soberania. Ninguém que entra por Adão no mundo está, ou esteve, predestinado à perdição, no sentido grego (fatalismo). Quando Adão pecou e afetou todos os seus descendentes com a sua decisão, Deus anunciou ao casal, que estava sendo expulso do Éden, redenção, através da semente da mulher, a todos os homens.

Os homens entram no mundo sem exercerem uma escolha, ou seja, ninguém que nasceu ou nascerá no mundo, escolheu entrar pela porta larga, mas, uma vez no mundo, é anunciada uma oportunidade de redenção, o que torna possível uma decisão por parte do homem que o livrará da condenação.

Não cabe ao homem no mundo uma escolha para decidir o seu destino, pois essa escolha já foi realizada por Adão. Agora, cabe ao homem, uma decisão, pois já está em um caminho que o conduz a perdição. Daí a ordem: “Entrai pela porta estreita…” (Mt 7:13).

O homem entra por Cristo (porta estreita) quando nasce de novo.  Para nascer de novo, basta crer com o coração, que Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos e confessar que Ele é o Filho do Deus vivo:

“A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça e com a boca se faz confissão para a salvação” (Rm 10:9-10).

Na Bíblia, a visão grega fatalista não existe, assim como qualquer outro princípio filosófico/teológico semelhante, como o determinismo.

O posicionamento bíblico acerca da salvação e da perdição, está bem delineado nas palavras que Deus disse a Ezequiel:

“Filho do homem: Eu te dei por atalaia sobre a casa de Israel; e tu, da minha boca, ouvirás a palavra e avisá-los-ás da minha parte. Quando eu disser ao ímpio: Certamente morrerás; e tu não o avisares, nem falares para avisar o ímpio acerca do seu mau caminho, para salvar a sua vida, aquele ímpio morrerá na sua iniquidade, mas o seu sangue, da tua mão o requererei. Mas, se avisares ao ímpio e ele não se converter da sua impiedade e do seu mau caminho, ele morrerá na sua iniquidade, mas tu livraste a tua alma. Semelhantemente, quando o justo se desviar da sua justiça e cometer iniquidade, e eu puser diante dele um tropeço, ele morrerá: porque tu não o avisaste, no seu pecado morrerá; e suas justiças, que tiver praticado, não serão lembradas, mas o seu sangue, da tua mão o requererei. Mas, avisando tu o justo, para que não peque, e ele não pecar, certamente viverá; porque foi avisado; e tu livraste a tua alma” (Ez 3:17-21).

 

Perdição e salvação

A Bíblia apresenta dois caminhos, com dois destinos: salvação e perdição. De onde surgiu a concepção, eivada de malignidade, de que Deus destinou alguns homens à salvação e outros à perdição, antes mesmo de nascerem?

Vincular indivíduos a destinos, antes mesmo de nascerem, é pensamento contrário às Escrituras, pois a Bíblia evidencia que os destinos estão vinculados aos caminhos. Se alguém nascido da carne e do sangue (Adão) não tomar a decisão de acatar o convite de Deus, será conduzido pelo caminho largo à perdição, mas qualquer que nascer do espírito (último Adão), acatando o convite de Deus, estará no caminho estreito (Cristo), que conduz o homem a Deus.

O homem, por si só, não vai à perdição ou à salvação, antes é conduzido pelos caminhos, no qual se encontra:

“Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição e muitos são os que entram por ela; E porque estreita é a porta e apertado o caminho que leva à vida, poucos há que a encontrem” (Mt 7:13-14)

Se Deus determinasse, de antemão, quem seria salvo ou não, não haveria a necessidade de Cristo vir ao mundo e morrer pela humanidade. Seria contrassenso a necessidade de haver quem pregue o evangelho. Também, não seria exigível crer em Cristo.

Teríamos que considerar que os destinados à salvação nunca se perderam de fato, ou seja, nunca estiveram sujeitos ao pecado e à morte. Esses destinados à salvação, não precisariam morrer e serem sepultados com Cristo, para ressurgirem uma nova criatura.

A parábola dos dois caminhos contém um princípio cristalino, acerca da salvação, em Cristo, e da perdição, em Adão, que não deve ser ignorado, quando da leitura de outras passagens bíblicas que tratam de temas como salvação e perdição.

 

Os terrenos e os espirituais

Certo é que ‘… a morte veio por um homem, também, a ressurreição dos mortos, veio por um homem’, pois ‘… assim como todos morrem em Adão, assim, também, todos serão vivificados em Cristo’ (1Co 15:21-22).

O primeiro Adão, foi criado alma vivente e o último Adão, estabelecido como espirito que dá vida. Há uma ordem natural: primeiro é criado o homem natural, através da carne e do sangue de Adão e só então, é criado o homem espiritual, segundo a palavra do último Adão, que é espirito e vida (Jo 6:63).

O homem nascido da carne e do sangue de Adão é terreno, assim como foi Adão. Adão é da terra, portanto, carne e sangue não concedem direito aos homens de entrar no reino dos céus: “E agora digo isto, irmãos: que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdarem a incorrupção” (1Co 15:50).

É por isso que Jesus disse que os nascidos da carne é carne e os nascidos do espírito é espirito, ao evidenciarem ser necessário nascer de novo.

Os nascidos da carne e do sangue de Adão são carnais e terrenos, portanto, não podem herdar o Reino dos céus. Mas, os gerados segundo a semente incorruptível, são herdeiros do reino dos céus, pois são celestiais tal qual o Senhor, que é do céu.

Adão é a porta larga, porque todos os homens que vem ao mundo têm que entrar pela carne e o sangue de Adão. É através de Adão que entrou a morte no mundo e todos os seus descendentes morreram em Adão. Cristo é a porta estreita, porque é o último Adão e são poucos os que estão mortos em delitos e pecados que O encontram, ou seja, tornam-se participantes da sua carne e sangue.

O apóstolo Paulo, em poucas palavras, resume como, através de Adão, se deu a perdição e, como através de Cristo, o último Adão, se dá a salvação:

“Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente; o último Adão, em espírito vivificante. Mas, não é primeiro o espiritual, senão o natural; depois, o espiritual. O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o SENHOR, é do céu. Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais também os celestiais” (1Co 15:45-48).

Para salvar o que efetivamente havia se perdido, Deus enviou o Seu Filho unigênito ao mundo, conforme estabelecido nas Escrituras. É em função da promessa de que Cristo viria ao mundo, que os patriarcas e os crentes da Antiga Aliança foram salvos, pois creram que Deus haveria de enviar ao mundo o Descendente, em quem todas as famílias da terra seriam benditas.

No mundo, o Unigênito do Pai revelou o Pai aos homens e, através d’Ele, os homens puderam comprovar que Deus é fiel e verdadeiro. Cristo prosperou naquilo para o qual foi enviado (Is 53:10; Is 55:11), pois, como servo, foi obediente em tudo ao Pai, portanto, foi estabelecido como luz para os gentios: “Disse mais: Pouco é que sejas o meu servo, para restaurares as tribos de Jacó e tornares a trazer os preservados de Israel; também te dei para luz dos gentios, para seres a minha salvação até à extremidade da terra” (Is 49:6).

Para ser salvo, eis a receita:

“E há de ser que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” (Jl 2:32; Rm 10:13).

Salvação se obtém única e exclusivamente desta forma:

“… esta é a palavra da fé, que pregamos, a saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que, com o coração, se crê para a justiça e com a boca, se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido” (Rm 10:8-11).

Se houver dúvidas, observe como os cristãos de Éfeso foram salvos:

“Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” (Ef 1:13).

Para que houvesse salvação, primeiro Deus providenciou a palavra da fé e por isso foi anunciado o evangelho, primeiramente a Abraão (Gl 3:8). Na plenitude dos tempos, a ‘fé’ foi manifesta aos homens, pois sem ‘ela’ seria impossível ao homem agradar a Deus: “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” (Gl 3:23; Hb 11:6).

É através da fé – Cristo – o firme fundamento, que os homens são enviados a pregar, anunciando boas novas de salvação, pois como ouvirão se não há quem anuncie as boas novas? E, como invocarão aquele em quem não creram? (Rm 10:14-15)

É nesse sentido que a ‘fé’ precede a ‘conversão’ e o ‘novo nascimento’. Primeiro foi dada a palavra da fé – o evangelho de Cristo, que deve ser anunciado para, depois, haver arrependimento e o novo nascimento.

Não encontramos nas Escrituras Deus dizendo: – “Eu sou soberano para salvar”, ou – “Estou antevendo quem vou salvar”, antes é anunciado: – “EIS que a mão do SENHOR não está encolhida, para que não possa salvar; nem agravado o seu ouvido, para não poder ouvir” (Is 59:1), pois a mensagem é simples: “Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” (Rm 10:13).

O pronome ‘todo’ é inclusivo, ou seja, ‘qualquer’ que invocar o nome do Senhor será salvo, pois as suas mãos não estão encolhidas (Ele é poderoso para salvar) e os seus ouvidos não estão agravados.

Em momento algum Deus declara que escolherá aqueles que Ele há de salvar. Quando o tema é salvação, Deus é poderoso e está pronto para salvar a qualquer que o invocar. A salvação nem mesmo aparece na Bíblia, em conexão com a soberania e a onisciência divinas.

“O SENHOR teu Deus, o poderoso, está no meio de ti, ele salvará; ele se deleitará em ti com alegria; calar-se-á por seu amor, regozijar-se-á em ti com júbilo” (Sf 3:17).

Predestinação

Após explicar que a morte entrou no mundo e todos morreram por causa da ofensa de Adão e que a ressureição veio por meio de Cristo e por Ele serão vivificados todos os que creem (1Co 15:21-22), o apóstolo Paulo demonstra que não há diferença alguma entre Adão e os seus descendentes e que não haverá diferença nenhuma entre Cristo e os seus muitos irmãos.

Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais também os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial” (1Co 15:49).

Adão foi criado pelo Verbo eterno, assim como todas as coisas (Hb 1:10-12; Sl 102:25-27). Quando Adão foi criado, o Verbo eterno, teofanicamente, manifestou-se e formou o homem do pó da terra e, ao soprar em suas narinas, o homem tornou-se alma vivente.

Mas, qual foi a imagem que foi dada a Adão, quando formado do pó da terra? Resposta: foi concedida a Adão a imagem que Cristo deveria ter quando viesse ao mundo “… o qual (Adão) é a figura daquele que havia de vir (Cristo)” (Rm 5:14). Uma questão de lógica, pois se fosse dada outra imagem a Adão, quando Cristo viesse ao mundo, teria a mesma imagem, segundo a imagem concedida a Adão.

Nesta abordagem, não estamos evidenciando a perdição, decorrente da ofensa de Adão, mas, sim, como seria a imagem de Cristo na plenitude dos tempos, se fosse concedida outra imagem a Adão diversa da que foi dada no Éden.

Quando Deus criou Adão, todos os descendentes de Adão foram preordenados a serem tal qual Adão, pois qual o terreno, tais são, também, os terrestres.

O apóstolo Paulo explica que, assim como todos os homens são como o terreno Adão, os nascidos de novo em Cristo Jesus, quando revestidos da imortalidade, serão semelhantes a Ele (traremos também a imagem do celestial):

“Amados, agora somos filhos de Deus e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos” (1Jo 3:2).

Quando Cristo se manifestar em glória (1Jo 3:2), será possível aos nascidos de novo trazerem uma imagem diferente da imagem que Cristo, glorificado, agora possui à destra da Majestade nas alturas?

Se os crentes hão de ser semelhantes a Cristo, é impossível que os que creem em Cristo venham a ter uma imagem diversa da imagem de Cristo glorificado, e o motivo é bem claro: “… pois assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial” (1Co 15:49). A questão que o evangelista João aborda neste verso não diz da salvação em Cristo, mas da imagem que os salvos em Cristo haverão de ter quando Ele se manifestar.

Por causa de uma má leitura das Escrituras, ao longo da história da igreja, acreditou-se que a predestinação era para a salvação, porém, a predestinação é garantia de que o crente em Cristo, quando for revestido da imortalidade e incorrupção, há de ser conforme a imagem de Cristo.

Todas as vezes que o termo predestinação é utilizado na Bíblia, não aponta para a salvação em Cristo, antes aponta para a imagem, à semelhança de Cristo:

“Porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Rm 8:29).

A predestinação tem um objetivo e atende a um propósito específico: a primogenitura de Cristo! Para o propósito de Deus ser levado a efeito, se fez necessário estabelecer de antemão qual imagem seria dada aos de novo gerados, os irmãos de Cristo.

O objetivo da predestinação é que todos os que creem em Cristo sejam conforme a imagem (semelhança) de Cristo. Os irmãos de Cristo não serão como os homens e nem como os anjos, antes, todos serão tal qual Cristo é.

O propósito da predestinação foi estabelecido por Deus em Cristo (Ef 3:11), pois, quando os cristãos foram predestinados a serem semelhantes a Cristo, por sua vez, Cristo é elevado à condição de primogênito entre muitos irmãos (semelhantes).

Romanos 8, verso 29 primeiro, trata da salvação em Cristo, depois aborda a predestinação. Primeiro o apóstolo Paulo escreve acerca da salvação: “Porque os que dantes conheceu…”, e, em seguida, escreve acerca da predestinação: “… também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (v. 29).

Que erro grosseiro ler que Deus predestinou para ser salvo, sendo que está escrito que Deus predestinou para ser conforme a imagem de Cristo, ou seja, que os cristãos serão semelhantes a Ele.

O verbo grego προγινώσκω transliterado proginóskó traduzido por ‘dantes conheceu’ não se refere a ‘saber de antemão’, ‘saber previamente’, ‘ter conhecimento de antemão’. Ora, Deus é onisciente, portanto, sabedor de todas as coisas, quer seja os eventos do passado, quer seja os eventos do presente e igualmente os eventos do futuro.

É sem sentido afirmar que Deus é presciente, se Ele é onisciente. Presciência é reducionismo do atributo divino da onisciência.

O verbo grego προγινώσκω empregado no verso 29, de Romanos 8, não significa ‘saber de antemão’, antes foi utilizado para evidenciar a comunhão do crente com Deus. O termo foi utilizado para evidenciar comunhão intima com Deus, semelhante ao conhecimento que une homem e mulher em um só corpo.

O termo προγινώσκω contrapõe a ideia evidenciada pelo termo γινώσκω, quando utilizado por Cristo, ao dizer: “E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mt 7:23). Apesar de onisciente, conhecedor de todas as coisas, os praticantes da iniquidade nunca se fizeram um corpo com Cristo: “Porque somos membros do seu corpo, da sua carne e dos seus ossos” (Ef 5:30).

O apóstolo evidenciou que Deus só predestina a ser conforme a semelhança de Cristo, apenas aqueles que passaram (dantes) a ter comunhão intima (conhecer) com Deus: “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um” (Jo 17:22).

Só é conhecido de Deus aquele que ama a Deus, pois Ele mesmo disse que ‘ama aos que me amam’. “Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido dele” (1Co 8:3); “Eu amo aos que me amam, e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17). Dantes conhecer é o mesmo que, de antemão esperar em Cristo (Ef 1:12).

O sentido do termo grego amor (ágape), utilizado nestes versos, é honrar, obedecer. Portanto, só é conhecido de Deus, ou antes, Deus é conhecido de alguém, quando se guarda o seu mandamento, ou seja, quando O ama: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21); “Mas, agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” (Gl 4:9).

Só os que amam a Deus, ou seja, aqueles que se tornaram um com Ele, em Cristo estão predestinados a serem conforme a semelhança de Cristo (Jo 17:21).

Primeiro, a salvação, depois, a predestinação! Primeiro, a salvação, depois, a eleição, como se lê:

“Portanto, não te envergonhes do testemunho de nosso SENHOR, nem de mim, que sou prisioneiro seu; antes participa das aflições do evangelho segundo o poder de Deus, que nos salvou  e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça, que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos dos séculos” (2Tm 1:9).

O apóstolo Paulo destaca o evangelho, ou seja, o testemunho de nosso Senhor, que é o poder de Deus (Rm 1:16). Ora, é através do evangelho que o homem é salvo e, para isso, é necessário que haja quem pregue, para que os homens possam crer, pois como crerão se não há quem pregue?

O apóstolo Paulo recomenda a Timóteo que participe das aflições do evangelho, o poder de Deus que ‘nos salvou’, ou seja, salvou tanto o apóstolo Paulo, quanto a Timóteo (Ef 1:13).

Após salvo por intermédio do evangelho, os crentes são chamados com uma santa vocação. Assim como a predestinação, o chamado, segundo a santa vocação, tem um objetivo e atende a um propósito. O objetivo da vocação é para ser santo e irrepreensível diante de Deus (Ef 1:4). O proposito é o louvor e glória da graça que propôs convergir em Cristo todas coisas, para que em tudo Ele tenha a preeminência (Ef 1:10).

Os crentes em Cristo foram eleitos para serem santos e irrepreensíveis, porque constituem o corpo de Cristo. Como a cabeça é santa, o corpo também tem de ser, por isso, Deus elegeu os crentes em Cristo, a fim de serem santos e irrepreensíveis e Cristo alcança a preeminência, como a cabeça do corpo: “E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência” (Cl 1:18).

Ora, antes da fundação do mundo Deus elegeu a Cristo e a sua geração, dai o predicativo: geração eleita: “Mas, vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1Pd 2:9).

 

Má leitura

Muitos, quando leem: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn 1:26), entendem que Deus criou o homem para ser adorado e louvado, no entanto, Deus criou o homem, segundo o propósito que fez em Cristo, para que em tudo Cristo tivesse a preeminência e assim, os homens em Cristo, fossem louvor e glória para a sua graça.

A imagem e semelhança anunciadas no Éden, não foram dadas a Adão, antes, o que foi concedido a Adão, foi a imagem daquele que haveria de vir: a imagem de Jesus Cristo-homem.

Quando Cristo ressurgiu dentre os mortos, alcançou a imagem e a semelhança de Deus (Sl 17:15), tornando-se a expressa imagem do Deus invisível (Hb 1:3), quando a vontade de Deus, anunciada antes da criação, cumpriu-se: Cristo, o Descendente de Davi, tornou-se à imagem e semelhança do Deus invisível.

A semelhança que Cristo alcançou, quando ressurgiu dentre os mortos, diz da semelhança que Satanás intentou alcançar, quando pensou: “Subirei sobre as alturas das nuvens e serei semelhante ao Altíssimo” (Is 14:14). É consenso, em meio aos cristãos, que Satanás quis ser Deus, no entanto, o que ele queria mesmo, era ser semelhante ao Altíssimo, posição que Cristo alcançou quando ressurgiu dentre os mortos e todos os que n’Ele creem, estão predestinados a receber.

Os calvinistas dizem que na Bíblia há uma coleção de versículos afirmando que Deus é soberano para escolher quem Ele quer para salvar. Tremendo engano, pois as Escrituras enfatizam o poder de Deus, mas, não a sua soberania: “Ao Todo-Poderoso não podemos alcançar; grande é em poder; porém a ninguém oprime em juízo e grandeza de justiça” (Jó 37:23).

A soberania está relacionada à posição de maioral entre semelhantes e o rei Davi, neste sentido, era soberano em Israel. Deus é criador de todas as coisas, portanto, não há ninguém que se compare ou iguale a Ele. Dizemos que Deus é soberano, porque Ele é inatingível e inigualável, porém, as Escrituras não enfatizam a soberania de Deus, mas, o poder, a justiça, a fidelidade, o amor, etc.

A Bíblia apresenta Jesus Cristo como soberano, pois Ele é da casa de Davi, seu Pai, e se assentará para reinar sobre os seus irmãos e sobre toda a terra. Soberano é um titulo que pertence a Cristo, pois regerá as nações com vara de ferro: “Porque Judá foi poderoso entre seus irmãos e dele veio o soberano; porém, a primogenitura foi de José)” (1Cr 5:2).

A maioria dos Salmos que apontam para o Senhor Altíssimo, diz respeito a Cristo, o Rei grande, visto que o principado está sobre Cristo: “Porque o SENHOR Altíssimo é tremendo e Rei grande sobre toda a terra. Ele nos subjugará os povos e as nações debaixo dos nossos pés” (Sl 47:2-3); “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Is 9:6).

Ao longo da história da igreja, textos bíblicos como: Rm 8:29, Ef 1:4-5 e11, Rm 9:6-29, 1Pe 2:8, Jd 4 e 1Pe 1:2 e 20 são mal interpretados, para afirmarem o fatalismo calvinista. É uma aberração, afirmar, com base em Romanos 8, verso 29, que Deus predestinou alguns para a salvação, se o texto bíblico afirma claramente que Deus predestinou os que se fizeram um corpo com Cristo, para serem conforme a imagem do seu Filho.

O apóstolo Paulo não afirmou que o homem é predestinado para ser salvo e nem que é predestinado para ser filho, pois a filiação divina é alcançada através do poder que Deus concede aos que creem em Cristo: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1:12-13).

Para ser salvo e ser um dos filhos de Deus, só é possível por meio da fé em Cristo, portanto, a salvação e a filiação não vêm pela predestinação. A predestinação é para ser conforme a imagem de Cristo, para que Ele seja primogênito entre muitos irmãos. A predestinação visa o propósito de Deus em Cristo, que é a preeminência de Cristo em todas as coisas.

Ao escapar do erro calvinista, há a igualmente perigosa e equivocada doutrina dos arminianistas, que aponta algumas verdades, como a necessidade de arrependimento para a salvação e que o homem pode rejeitar a oferta de salvação em Cristo, mas enfatizam que Deus, prevendo quem haveria de crer, predestina alguns à salvação.

Previsão e premonição, são termos que se aplicam aos homens que desconhecem o futuro. Deus não prevê o futuro e nem tem premonição, visto que Ele é onisciente e onipresente. Prever e antever são verbos que não se aplicam a Deus, pois todas as coisas estão nuas e patentes aos seus olhos.

Assim como Deus não pode mentir, Ele não pode escolher alguns e desprezar outros, pois Ele não faz acepção de pessoas. O que Deus escolheu foi salvar os que O amam, ou seja, os que guardam os seus mandamentos. Somente aqueles que O honram, serão honrados por Ele: “Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos” (Dt 7:9); “Portanto, diz o SENHOR Deus de Israel: Na verdade tinha falado eu que a tua casa e a casa de teu pai andariam diante de mim perpetuamente; porém, agora, diz o SENHOR: Longe de mim tal coisa, porque aos que me honram honrarei, porém os que me desprezam serão desprezados” (1Sm 2:30); “Se alguém me serve, siga-me, e onde eu estiver, ali estará também o meu servo. E, se alguém me servir, meu Pai o honrará” (Jo 12:26); “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21).

Só amam a Deus aqueles que guardam o seu mandamento, portanto, só ama a Deus aquele que crê em Cristo, pois este é o mandamento: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho, Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1Jo 3:23).

Segundo a teologia, diante das doutrinas calvinista e arminianista, não há outro caminho a trilhar, se não o do equilíbrio. O termo paradoxo, tão utilizado na filosofia passou a ser utilizado pela teologia para explicar os erros teológicos inexplicáveis.

O entendimento com viés grego fatalista, de que Deus traçou um plano para a vida dos homens que é impossível de escapar e sem oferta real de salvação, contaminou a leitura bíblica de muitos.

Tornou-se consenso que os homens são autômatos, desempenhando um papel previamente estabelecido por Deus, assim como os gregos conceberam o mitológico deus Destino.

Em resumo, a verdade bíblica cristalina descreve todos os nascidos da vontade da carne, da vontade do varão e do sangue como perdidos, alienados de Deus por causa da ofensa de Adão. Para ser salvo, é necessário crer que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para isso são anunciadas as boas novas de salvação, que descrevem o Cristo como o Filho de Davi, portanto, o Filho de Deus.

Após crer em Cristo, o homem se torna um com Ele, e, de agora em diante, na condição de salvo e filho de Deus, não lhe resta alternativa: será semelhante a Cristo, pois Ele é o primogênito entre muitos irmãos!

 


[1] Análise do artigo “A Relação entre Predestinação e Livre-Arbítrio”, de Marcos Aurélio dos Santos, disponível na Web < http://www.teologiaevida.com.br/2012/06/relacao-entre-predestinacao-e-livre.html > Consulta realizada em 01/03/16.

[2] “Humanismo é a filosofia moral que coloca os humanos como principais, numa escala de importância. É uma perspectiva comum a uma grande variedade de posturas éticas que atribuem a maior importância à dignidade, aspirações e capacidades humanas, particularmente a racionalidade” Wikipédia.

[3] Fatalismo – “Concepção que considera serem o mundo e os acontecimentos produzidos de modo irrevogável. E também, a crença de que uma ordem cósmica, dita Logos, preside a vida quotidiana. Mas, em geral, é uma corrente aceita por quem se põe de maneira impassível diante dos acontecimentos, não tendo a crença de que pode exercer um papel na sua modificação. É, assim, uma doutrina que afirma que todos os acontecimentos ocorrem de acordo com um destino fixo e inexorável, não controlado ou influenciado pela vontade humana e que, embora aceite um poder sobrenatural preexistente, não recorre a nenhuma ordem natural, recusando, assim, a predestinação. Também, costuma ser confundido com determinismo. Exerceu influência, especialmente, sobre os antigos hebreus e alguns pensadores gregos”. (Wikipédia).

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Salmo 17 – Proteção contra os inimigos

O Senhor Jesus Cristo é o que anda em sinceridade, pratica a justiça e do coração fala a verdade (Sl 15:2). Ele também é descrito por Isaias como o que fala com retidão: “O que anda em justiça e o que fala com retidão; o que rejeita o ganho da opressão, o que sacode das suas mãos todo o presente; o que tapa os seus ouvidos para não ouvir falar de derramamento de sangue e fecha os seus olhos para não ver o mal” (Is 33:15).


SALMO 17 – Proteção contra os inimigos​

Introdução

A grande maioria dos leitores do Livro dos Salmos ainda veem os Salmos como expressão decorrente do estado emocional dos salmistas. Corroboram com tal pensamento, os títulos introdutórios que muitas Bíblias apresentam e, assim, constituem um obstáculo à boa leitura e compreensão dos Salmos. A interposição de títulos introdutórios, que seria auxilio ao leitor no momento de localizar uma passagem bíblica, serve de obstáculo à compreensão do texto, pois impõem ideias e conceitos divorciados da verdade que o Salmo contém.

Em uma Bíblia na língua portuguesa, encontramos o seguinte título no Salmo 17:

“Davi pede a Deus que o proteja contra os seus inimigos. Davi confia na sua inocência e na justiça de Deus” Oração de Davi.

Além do título, acresce a informação: Oração de Davi.

Seria isso verdadeiro?

Davi mesmo disse que o Espírito de Deus falava por ele, ou seja, que a palavra de Deus estava em sua boca (2Sm 23:2). Os apóstolos nomeavam o salmista Davi de profeta e não de compositor, musicista, levita, etc. (At 2:30).

Jesus, ao fazer referência a um Salmo, nomeou o Salmo de lei e, em outro lugar, disse que tudo o que d’Ele estava escrito na Lei, nos Salmos e nos Profetas, convinha que se cumprisse, evidenciando qual o ‘status’ dos Salmos: profecias “Respondeu-lhes Jesus: Não está escrito na vossa lei: Eu disse: Sois deuses?” (Jo 10:34); “E disse-lhes: São estas as palavras que vos disse, estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, nos profetas e nos Salmos” (Lc 24:44).

O rei Davi, quando separou os capitães dos seus exércitos, deu-lhes a missão de profetizarem ao som de instrumentos musicais, portanto, os Salmos são profecias em forma de poesia e canto.

“E DAVI, juntamente com os capitães do exército, separou para o ministério os filhos de Asafe, de Hemã e de Jedutum, para profetizarem com harpas, com címbalos e com saltérios; e este foi o número dos homens aptos para a obra do seu ministério: Dos filhos de Asafe: Zacur, José, Netanias, e Asarela, filhos de Asafe; a cargo de Asafe, que profetizava debaixo das ordens do rei Davi. Quanto a Jedutum, os filhos: Gedalias, Zeri, Jesaías, Hasabias, e Matitias, seis, a cargo de seu pai, Jedutum, o qual profetizava com a harpa, louvando e dando graças ao SENHOR” (1Cr 25:1-3).

A estrutura da poesia hebraica, na qual os Salmos foram produzidos, facilita a exposição de ideias e possui recursos de cunho lógico que impedem alguém de má índole de transtornar a mensagem.

Os Salmistas não buscavam tocar a emoção dos ouvintes, através de ritmos, rimas, melodia, harmonia, etc.

A proposta dos Salmos é tocar o entendimento dos ouvintes, de modo que pudessem conhecer o seu Deus e, por isso, utilizavam o paralelismo[1] para compor ou evidenciar uma ideia que, geralmente, constitui uma instrução, uma profecia, uma repreensão ou um exemplo ao povo de Israel.

 

A Justiça

1 OUVE, SENHOR, a justiça; atende ao meu clamor; dá ouvidos à minha oração, que não é feita com lábios enganosos. 2 Saia a minha sentença de diante do teu rosto; atendam os teus olhos à razão.

O Salmo tem início com um pedido da ‘justiça’ e não do rei Davi. Se o Salmo fosse um pedido, um rogo de Davi, por certo ele diria: – “Ouve, ó Senhor, o teu servo”, no entanto, temos um pedido da própria ‘justiça’.

Não estamos diante de uma oração de Davi mas, sim, diante de uma profecia que aponta para a justiça personificada. Neste verso, a justiça não trata de um conceito abstrato, que deriva de uma perspectiva humana mas, sim, à justiça que vem de Deus, segundo o que profetizou Isaias:

“ASSIM diz o SENHOR: Guardai o juízo e fazei justiça, porque a minha salvação está prestes a vir e a minha justiça, para se manifestar (Is 56:1)

Da justiça que vem por meio do evangelho foi profetizado:

“Não está nos céus, para dizeres: Quem subirá por nós aos céus, que no-lo traga e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Nem tampouco está além do mar, para dizeres: Quem passará por nós além do mar, para que no-lo traga e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Porque esta palavra está mui perto de ti, na tua boca e no teu coração, para a cumprires” (Dt 30:12-14); “Mas a justiça, que é pela fé, diz assim: Não digas em teu coração: Quem subirá ao céu? (isto é, a trazer do alto a Cristo)” (Rm 10:6).

O Senhor Jesus, para os que creem, foi feito justiça: “Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, justiça, santificação e redenção” (1Co 1:30).

O Senhor Jesus, ao interpretar o Salmo 110, demonstra que Davi estava profetizando acerca do Filho do homem, quando disse: “Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés?” (Sl 110:1; Mt 22:43-44).

Davi, no Salmo 17, registra, em espírito, o clamor do Cristo, quando manifesto aos homens. Neste Salmo a justiça diz do Renovo justo, o Filho de Davi, que terá o nome: ‘O Senhor, Nossa Justiça’!

“Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, sendo rei, reinará e agirá sabiamente, praticará o juízo e a justiça na terra. Nos seus dias Judá será salvo e Israel habitará seguro; e este será o seu nome, com o qual Deus o chamará: O SENHOR JUSTIÇA NOSSA” (Jr 23:5-6).

Algumas traduções vertem o Salmo 17, verso 1 desta forma: ‘Ouve, ó Senhor, a minha causa justa’, o que remete o leitor à pessoa do rei Davi, sendo que o que está sendo dito refere-se ao Descendente prometido a Davi.

Certo homem etíope, eunuco, mordomo-mor de Candace, rainha dos etíopes, quando leu uma profecia no Livro de Isaias, tinha a seguinte dúvida: – “Rogo-te, de quem diz isto o profeta? De si mesmo, ou de algum outro?” (At 8:34). O eunuco lia: “Foi levado como a ovelha para o matadouro; e, como está mudo o cordeiro diante do que o tosquia, assim não abriu a sua boca. Na sua humilhação foi tirado o seu julgamento; E quem contará a sua geração? Porque a sua vida é tirada da terra” (At 8:32-33) e não conseguia entender quem ‘foi levado como a ovelha para o matadouro’. Seria o profeta Isaias que estava sendo levado? Ou seria alguma outra pessoa?

De quem é a boca que fez a oração deste Salmo, cujos lábios não são enganosos? O único homem que nunca houve engano em sua boca foi Jesus, portanto, claro está que este clamor não diz do salmista Davi “E puseram a sua sepultura com os ímpios e com o rico na sua morte; ainda que nunca cometeu injustiça, nem houve engano na sua boca” (Is 53:9); “O SENHOR julgará os povos; julga-me, SENHOR, conforme a minha justiça e conforme a integridade que há em mim” (Sl 7:8).

O Salmo 15 também faz referência a Cristo como Aquele que anda em sinceridade, pratica a justiça e do coração fala a verdade (Sl 15:2). Ele também é descrito por Isaias como o que fala com retidão: “O que anda em justiça e o que fala com retidão; o que rejeita o ganho da opressão, o que sacode das suas mãos todo o presente; o que tapa os seus ouvidos para não ouvir falar de derramamento de sangue e fecha os seus olhos para não ver o mal” (Is 33:15).

Se dentre os homens não há ninguém que faça o bem; Se todos juntamente se desviaram e se fizeram imundos (Sl 14:1-3); Se os ímpios falam mentiras desde que nascem (Sl 58:3), certo é que ninguém havia entre os filhos dos homens tivesse os lábios puros, pois como todos foram formados em iniquidades (Sl 51:5), todos herdaram coração imundo.

Qualquer homem, em sã consciência, e conhecedor da sua condição miserável, clamará por misericórdia, e não por uma sentença segundo a sua justiça, equidade, retidão (מֵישָׁרִים)[2] “JULGA-ME, SENHOR, pois tenho andado em minha sinceridade; tenho confiado também no SENHOR; não vacilarei” (Sl 26:1; Sl 7:3-5).

Davi não possuía esses predicativos, antes quando errou confiou na misericórdia de Deus, atitude que por si só demonstra que jamais Davi pleitearia algo a Deus com base em sua retidão e justiça “Então disse Davi a Gade: Estou em grande angústia; porém caiamos nas mãos do SENHOR, porque muitas são as suas misericórdias; mas nas mãos dos homens não caia eu” (2Sm 24:14).

Há um titulo introdutório nas Bíblias para o Salmo 26 que diz: “Davi recorre a Deus, confiando na sua própria integridade”. Homem algum pode recorrer a Deus confiado em sua própria integridade[3], pois diante de Deus não há homem que seja justo, nem mesmo Davi “Na verdade que não há homem justo sobre a terra, que faça o bem, e nunca peque” (Ec 7:20).

 

Retidão​

3 Provaste o meu coração; visitaste-me de noite; examinaste-me e nada achaste; propus que a minha boca não transgredirá.

Jesus Cristo-homem foi provado, examinado minuciosamente por Deus, e restou confirmado que Ele andou integramente diante de Deus, pois confiou em Deus sem vacilar “JULGA-ME, SENHOR, pois tenho andado em minha sinceridade; tenho confiado também no SENHOR; não vacilarei. Examina-me, SENHOR, e prova-me; esquadrinha os meus rins e o meu coração” (Sl 26:1-2; Sl 139:1 3 e 23; Sl 7:9).

Jesus esteve ao abrigo da sombra protetora de Deus, vez que, a fidelidade de Deus expressa em sua palavra, era como escudo e broquel “Louvarei ao SENHOR que me aconselhou; até o meu coração me ensina de noite” (Sl 16:7; Sl 63:7).

Continuamente, Cristo esteve sob proteção, ao abrigo da sombra das asas de Deus, pois tinha o ‘amor’ de Deus diante dos seus olhos, ou seja, meditava na palavra de Deus, continuamente (de dia e de noite), deste modo, nada de pecaminoso foi achado n’Ele “O SENHOR é quem te guarda; o SENHOR é a tua sombra à tua direita” (Sl 121:5); “Guarda-me como à menina do olho; esconde-me debaixo da sombra das tuas asas” (Sl 17:8; Sl 91:1; Sl 26:3; Sl 1:2).

Este é o testemunho que Deus deu acerca do seu Filho, Jesus Cristo: “E puseram a sua sepultura com os ímpios e com o rico na sua morte; ainda que nunca cometeu injustiça, nem houve engano na sua boca” (Is 53:9); “O qual não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano” (1Pd 2:22).

 

4 Quanto ao trato dos homens, pela palavra dos teus lábios me guardei das veredas do destruidor. 5 Dirige os meus passos nos teus caminhos, para que as minhas pegadas não vacilem.

Ao se pautar pelas palavras de Deus, Jesus permaneceu longe dos caminhos dos transgressores[4] (destruidor) (Sl 1:1; Sl 26:2 -6). Como Servo obediente, Jesus se deixou guiar pela lei do Senhor, de modo que os seus pés não vacilaram: “Tenho posto o SENHOR continuamente diante de mim; por isso que ele está à minha mão direita, nunca vacilarei” (Sl 16:8; Sl 121:3 e 5).

 

6 Eu te invoquei, ó Deus, pois me queres ouvir; inclina para mim os teus ouvidos, e escuta as minhas palavras. 7 Faze maravilhosas as tuas beneficências, ó tu que livras aqueles que em ti confiam dos que se levantam contra a tua destra.

Pela confiança de que o Pai havia de respondê-Lo, é que o Filho invocava (Jo 11:42). E pelo que o Filho clama? Para que Deus estenda as suas misericórdias, ou seja, faça maravilhosa as suas beneficências. Como? Salvando os que buscam refugio em Deus através da sua Destra, ou seja, através de Cristo.

Cristo é a Destra do Senhor desnudada perante os olhos de todos os povos: “O SENHOR desnudou o seu santo braço perante os olhos de todas as nações; e todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus” (Is 52:10). Cristo é a firme beneficência prometida a Davi e salvação para todos quantos O invocar: “Inclinai os vossos ouvidos e vinde a mim; ouvi e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, dando-vos as firmes beneficências de Davi” (Is 55:3). Cristo é o homem que, após ser glorificado, assentou-se à destra da Majestade nas alturas: “Seja a tua mão sobre o homem da tua destra, sobre o filho do homem, que fortificaste para ti” (Sl 80:17).

Mas, apesar das beneficências prometidas por Deus em Cristo, haveria homens ímpios que se levantariam contra a Destra do Altíssimo.

 

Adversários

8 Guarda-me como à menina do olho; esconde-me debaixo da sombra das tuas asas, 9 Dos ímpios que me oprimem, dos meus inimigos mortais que me andam cercando. 10 Na sua gordura se encerram, com a boca falam soberbamente. 11 Têm-nos cercado agora os nossos passos; e baixaram os seus olhos para a terra;12 Parecem-se com o leão que deseja arrebatar a sua presa, e com o leãozinho que se põe em esconderijos.

Por causa da oposição dos pecadores, nesta previsão, Jesus roga a Deus que O proteja como os homens protegem as meninas dos olhos. Cristo espera em Deus que O proteja debaixo de suas asas (Sl 20:6).

O pedido é para que Deus livrasse o Cristo dos ímpios, homens que O oprimiriam. Estes homens seriam seus inimigos mortais, pois procurariam saqueá-Lo e, por fim, apoderarem-se da sua alma.

Quem eram esses inimigos de Jesus? Os escribas, fariseus, sacerdotes, príncipes, etc., homens que honravam a Deus com a boca, porém, os seus corações estavam longe de Deus “Este povo se aproxima de mim com a sua boca e me honra com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mt 15:8).

Como estava predito: “Porque o filho despreza ao pai, a filha se levanta contra sua mãe, a nora contra sua sogra, os inimigos do homem são os da sua própria casa” (Mq 7:6), Jesus veio para os que eram seus e os seus não O receberam (Jo 1:12) e foi rejeitado pelos seus concidadãos.

Os líderes da religião se colocavam à espreita buscando pegar Jesus nalguma contradição: “E, observando-o, mandaram espias, que se fingissem justos, para o apanharem nalguma palavra e o entregarem à jurisdição e poder do presidente” (Lc 20:20; Lc 10:25; Mt 22:15), e assim cumpriu-se neles o provérbio que diz: “No entanto estes armam ciladas contra o seu próprio sangue; e espreitam suas próprias vidas” (Pv 1:18).

O ‘laço do passarinheiro’ predito no Salmo 91 refere-se às armadilhas dos escribas e fariseus que buscavam pegar Jesus nalguma contradição (Sl 91:3). Homens, cujas línguas comparam-se a da serpente, pois veneno (engano) procedem dos seus lábios (Sl 140:3). Lábios mentirosos que se propuseram a desviar o Cristo das veredas de justiça estabelecida pelo Pai. Através de laços e cordas (armadilhas), estendem uma rede, na intenção de terem do que acusar o Cristo (Sl 140:4-5).

Sobre esses homens profetizou Jeremias:

“Porque ímpios se acham entre o meu povo; andam espiando, como quem arma laços; põem armadilhas, com que prendem os homens. Como uma gaiola está cheia de pássaros, assim, as suas casas estão cheias de engano; por isso, se engrandeceram e enriqueceram” (Jr 5:26-27).

Jeremias protesta contra os filhos de Israel, visto que os profetas profetizavam falsidades, os sacerdotes estavam em conluio com os profetas e o povo se deleitava no engano, pois, não gostavam da palavra de Deus (Jr 5:31 e Jr 6:10).

Por estarem tão seguros na mentira e no erro dos seus corações enganosos (Jr 17:9), rejeitaram o profeta que Deus avisou, por intermédio de Moisés, que seria levantado dentre os seus irmãos: “Eis lhes suscitarei um profeta do meio de seus irmãos, como tu, e porei as minhas palavras na sua boca, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar” (Dt 18:18). Tendo por pretexto a lei, se mancomunaram contra o Cristo e condenaram sangue inocente “Porventura o trono de iniquidade te acompanha, o qual forja o mal por uma lei? Eles se ajuntam contra a alma do justo e condenam o sangue inocente. Mas o SENHOR é a minha defesa; e o meu Deus é a rocha do meu refúgio. E trará sobre eles a sua própria iniquidade; e os destruirá na sua própria malícia; o SENHOR nosso Deus os destruirá” (Sl 94:20-23).

Os escribas e fariseus assemelhavam-se aos leões que ficam a espreita da presa, ou como o filho do leão que caça por emboscada. Por causa de um coração incrédulo, repeliram a piedade de Deus revelada em Cristo e falaram arrogantemente, segundo os seus corações malignos: “Pois a boca do ímpio e a boca do enganador estão abertas contra mim. Têm falado contra mim com uma língua mentirosa” (Sl 109:2).

 

13 Levanta-te, SENHOR, detém-no, derriba-o, livra a minha alma do ímpio, com a tua espada; 14 Dos homens com a tua mão, SENHOR, dos homens do mundo, cuja porção está nesta vida, e cujo ventre enches do teu tesouro oculto. Estão fartos de filhos e dão os seus sobejos às suas crianças.

Em espírito, o profeta Davi nesta previsão antecipa a oração do Cristo, para que Deus detenha e livre a sua alma dos ímpios. No verso 14 o Salmista deixa uma descrição dos ímpios: Homens do mundo cuja porção está nesta vida!

O apóstolo Paulo faz uso deste verso ao falar dos inimigos do evangelho: “Porque muitos há, dos quais muitas vezes vos disse, e agora também digo, chorando, que são inimigos da cruz de Cristo, cujo fim é a perdição; cujo Deus é o ventre, e cuja glória é para confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas” (Fl 3:18-19).

Os homens do mundo se satisfazem com o que proferem as suas bocas, ou seja, fartam os seus ventres com o que há em seus corações malignos, pois do que o coração está cheio, disso fala a boca “Do fruto da boca de cada um se fartará o seu ventre; dos renovos dos seus lábios ficará satisfeito” (Pv 18:20); “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” (Mt 12:34; Sl 7:14).

Deus há de retribuir os homens segundo as suas obras, de modo que aquele que tem um coração impenitente, ou seja, que não creu no testemunho que Deus deu acerca do Seu Filho, receberá a ira de Deus: “Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus” (Rm 2:5); “Se eu afiar a minha espada reluzente, e se a minha mão travar o juízo, retribuirei a vingança sobre os meus adversários e recompensarei aos que me odeiam” (Dt 32:41; Jr 17:10).

Sobre os fim dos ímpios profetizou Jeremias:

“JUSTO serias, ó SENHOR, ainda que eu entrasse contigo num pleito; contudo falarei contigo dos teus juízos. Por que prospera o caminho dos ímpios, e vivem em paz todos os que procedem aleivosamente? Plantaste-os, e eles se arraigaram; crescem, dão também fruto; chegado estás à sua boca, porém longe dos seus rins” (Jr 12:1 -2).

Os ímpios descritos por Jeremias são homem que tem Deus nos lábios, mas longe do coração (Is 29:13). Aos olhos dos homens, os religiosos em Israel prosperavam e viviam em paz. Foram plantados por Deus, mas desviaram-se e se firmaram nas suas conquistas decorrentes da força do seu próprio braço e se esqueceram do Senhor. Multiplicaram e cresceram, mas não viam a ruina que se avizinhava (Jr 12:3).

Os ímpios só podem ser combatidos através da espada de Deus, ou seja, com a palavra do evangelho (Ef 6:17), mas se não se converterem, sofrerão a ira de Deus (Sl 7:12; Rm 2:16).

Como se multiplicaram e cresceram, fartos estão de filhos e dão dos seus sobejos (doutrina) aos seus rebentos. Os filhos de Israel se fartavam das regras e mandamentos, que por tradição herdavam de seus pais (Mc 7:8-9), uma herança que dava a falsa sensação de que eram ricos, fartos, diante de Deus.

 

15 Quanto a mim, contemplarei a tua face na justiça; eu me satisfarei da tua semelhança quando acordar.

O Salmo é encerrado com uma confissão admirável: – “Quanto a mim, por minha integridade, contemplarei a Tua face”. Diferentemente de todos os outros homens, que a revelação da face do Senhor significa misericórdia, o Salmo descreve o Messias pleiteando a sua causa com base na sua retidão.

Enquanto o Salmo 80 relata o arrependimento dos filhos de Israel clamando por misericórdia, no Salmo 17 o Salmista descreve Aquele que se manteve integro e que nunca se achou engano e sua boca “O SENHOR julgará os povos; julga-me, SENHOR, conforme a minha justiça, e conforme a integridade que há em mim” (Sl 7:8).

“Faze-nos voltar, ó Deus, e faze resplandecer o teu rosto e seremos salvos. Ó SENHOR Deus dos Exércitos, até quando te indignarás contra a oração do teu povo? Tu os sustentas com pão de lágrimas, e lhes dás a beber lágrimas com abundância. Tu nos pões em contendas com os nossos vizinhos, e os nossos inimigos zombam de nós entre si. Faze-nos voltar, ó Deus dos Exércitos, e faze resplandecer o teu rosto, e seremos salvos” (Sl 80:3 -7)

O final do Salmo 17 aborda a morte e a ressurreição de Cristo. Como Cristo andou firme em Deus, a sua alma não foi deixada na morte, soltas as ânsias da morte: “Ao qual, Deus ressuscitou, soltas as ânsias da morte, pois não era possível que fosse retido por ela” (At 2:24).

O Salmo 16 aponta para Cristo, sendo que o corpo de Cristo ficaria em repouso e seguro na sepultura. O Pai prometeu que o Filho não seria deixado na sepultura e que nem experimentaria a corrupção (Sl 16:9 -10; At 2:25).

Sobre a morte de Cristo, temos essa predição: “Atenta para mim, ouve-me, ó Senhor, meu Deus. Ilumina-me os olhos para que eu não adormeça na morte” (Sl 13:3).

No Salmo 138, verso 7 temos uma expressão de confiança do Cristo em Deus, pois mesmo na angustia o Pai estaria com Ele. A certeza de que invocaria e seria atendido decorre da promessa:

“Andando eu no meio da angústia, tu me reviverás; estenderás a tua mão contra a ira dos meus inimigos e a tua destra me salvará” (Sl 138:7);

“Ele me invocará, e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia; dela o retirarei, e o glorificarei. Fartá-lo-ei com longura de dias, e lhe mostrarei a minha salvação” (Sl 91:15 -16).

Quando introduzido no mundo, Jesus se fez, em tudo, semelhante aos homens, sendo participante de carne e sangue (Hb 2:14 e 17). O Verbo Eterno despiu-se da sua glória e se fez carne e passou a habitar entre os homens como o Unigênito de Deus (Fl 2:7-8).

Após ser achado na forma de homem, se fez Servo e foi obediente até a morte, e morte de cruz: “E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte e morte de cruz” (Fl 2:8).

A parte ‘b’ do versículo 15, do Salmo 17, faz referência à condição do Cristo ressurreto. Enquanto no mundo, tinha a forma de homem e, quando ressurreto, herdou a Semelhança do Altíssimo, ou seja, tornou-se a expressa imagem do Deus invisível, o primogênito dentre os mortos, pois todos os que creem ressurgem com Ele e são feitos semelhantes a Ele “O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação” (Cl 1:15; 1Jo 3:1-3).

Enquanto na carne (homem), Jesus era o Unigênito de Deus, depois de glorificado, tornou-se a expressa imagem do Deus invisível, o resplendor da sua glória “O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas” (Hb 1:3).

Quando Deus criou o mundo expressou a sua vontade de dar à sua imagem e semelhança ao homem (Gn 1:26). Adão foi criado à imagem de Cristo homem, a imagem daquele que havia de vir, e não a expressa imagem e semelhança do Deus invisível.

A vontade de Deus expressa no Gênesis foi levada a efeito, quando Cristo ressurgiu dentre os mortos com um corpo glorificado: o homem a expressa imagem do Deus invisível. Todos quantos n’Ele creem ressurgem uma nova criatura semelhante a Ele, para que Ele seja primogênito entre muitos irmãos.

Quando o querubim da guarda ungido se insurgiu contra o Criador, a intenção não era tomar o lugar de Deus, antes era alcançar a posição que foi dada a Cristo e ao seu corpo (Igreja): a semelhança do Altíssimo “E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono e no monte da congregação me assentarei, aos lados do norte. Subirei sobre as alturas das nuvens e serei semelhante ao Altíssimo” (Is 14:14).

O propósito de Deus, estabelecido em Cristo, esteve oculto em Deus, mas, através da igreja, a multiforme sabedoria de Deus se tornou conhecida das potestades e principados nas regiões celestiais. Através da igreja, que é o seu corpo, Cristo agora tem a preeminência em tudo (Cl 1:18).

 


[1] Os diversos tipos de paralelismos são utilizados: a) Paralelismo Sinônimo – A segunda asserção repete o pensamento da primeira, porém, utiliza-se de termos diferentes. Ex: “Ao SENHOR pertence a terra e tudo o que nela se contém, o mundo e os que nele habitam” ( Salmo 24.1 ); b) Paralelismo Antitético – A segunda asserção contrasta a ideia da primeira. Ex: “Pois o Senhor conhece o caminho dos justos; mas o caminho dos ímpios perecerá” (Sl 1:6 ); c) Paralelismo Sintético – A segunda asserção enfatiza o estipulado pela primeira. Ex: “Não te furtes a fazer o bem a quem de direito, estando na tua mão o poder de fazê-lo” (Pv 3:27 ); d) Paralelismo Climático – A segunda asserção faz uso de palavras da primeira asserção e complementa a ideia. Ex: “Tributai ao SENHOR, filhos de Deus, tributai ao SENHOR glória e força” (Sl 29:1); e) Paralelismo Emblemático – A primeira asserção estabelece um comparativo que ilustra a segunda asserção. Ex: “Como água fria para o sedento, tais são as boas-novas vindas de um país remoto” (Pv 25:25).

[2] “04339 meyshar procedente de 3474; DITAT – 930e; n m 1) igualdade, honestidade, retidão, equidade 1a) igualdade, plano, suavidade 1b) retidão, equidade 1c) corretamente (como advérbio)” Dicionário Strong.

[3] “O clamor do salmista para que Deus ouça a sua oração baseia-se não somente na misericórdia e graça de Deus, mas também na sua continua fidelidade nos caminhos do Senhor (vv. 1-5). Deus sondou seu coração e viu que no seu esforço para agradá-lo não havia fingimento (cf. 1Jo 3:18-21). O fato de Davi orar a Deus com base na sua própria fidelidade pessoal expressa a verdade fundamental que Deus promete ouvir as orações dos que o amam e o honram” Comentário de Nota de Rodapé da Bíblia de Estudo Pentecostal, Editora CPAD.

[4] “06530 פָּרִיץ parits procedente de 6555; DITAT – 1826b; n. m. 1) pessoa violenta, infrator 1a) ladrão, assassino” Dicionário Bíblico Strong.

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Romanos 2 – Os que ouvem a lei não são justos diante de Deus

Há um dia predeterminado para a ira de Deus “Pois é vindo o grande dia da ira deles, e quem poderá subsistir?” ( Ap 6:17 ). Neste dia os homens conhecerão (saber acerca de, entender, compreender) o juízo de Deus. O juízo de Deus foi estabelecido lá em Adão, mas os homens ignoram esta verdade. Quando do dia da ira será manifesto a eles que estão debaixo de condenação. Por serem filhos de Adão, ou filhos da desobediência, por conseguintes, também são filhos da ira ( Cl 3:6 ); “E éramos por natureza filhos da ira, como também os demais” ( Ef 2:3 ).


Lógica

Antes de prosseguirmos, segue mais uma lição de interpretação bíblica. Utilizaremos nesta lição uma linguagem própria à lógica.

Conforme escreveu o apóstolo João, sabemos que: ‘Deus é luz’, e que: ‘não há nele trevas alguma’ ( 1Jo 1:5 ).

Considerando os elementos da lógica, a primeira oração é uma proposição simples declarativa: Deus é luz. Há valores lógicos às proposições: verdadeiro e falso. Conforme a ideia bíblica, temos que a proposição ‘Deus é luz’ tem o valor lógico verdadeiro.

Dentro da lógica há três princípios:

a) Princípio da identidade – se qualquer proposição é verdadeira, então, ela é verdadeira;
b) Princípio de não-contradição – nenhuma proposição pode ser verdadeira e falsa;
c) Princípio do terceiro excluído – uma proposição ou é verdadeira ou é falsa.

A proposição ‘Deus é luz’ é verdadeira, e por conseqüência não é falsa. Jamais esta proposição assumirá dois valores simultaneamente.

Dada uma proposição qualquer, se inserirmos o conectivo ‘não’, poderá formar a sua própria negação. Ex: ‘Deus não é luz’ – proposição simples declarativa com valor lógico falso.

A segunda oração ‘não há em Deus trevas alguma’, apesar de ter o conectivo ‘não’ tem o valor lógico verdadeiro, visto que reafirma a ideia da proposição ‘Deus é luz’.

As cartas bíblicas foram escritas essencialmente na linguagem lógica, sendo que definições e conceitos quase não são utilizados.

Definir: determinar a extensão ou os limites de; explicar o significado de; fixar, estabelecer; etc;
Conceituar: formulação de uma ideia por palavras, definição.

Já estudamos o seguinte versículo: “Do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda impiedade e injustiça dos homens que detêm a verdade pela injustiça” ( Rm 1:18 ). Considerando que este versículo é uma proposição simples declarativa e verdadeira quanto ao valor lógico, é plenamente possível construímos uma nova proposição se substituirmos alguns elementos.

Da mesma forma que ‘do céu se manifesta a ira de Deus’, é certo que de lá também se manifesta a bondade de Deus. Como a bondade de Deus é certa, restam as perguntas: sobre quem a bondade se manifesta?

Durante o estudo do segundo capítulo da carta aos Romanos aplicaremos os elementos que apresentamos acima.

 

Romanos – Capítulo II

1 PORTANTO, és inescusável quando julgas, ó homem, quem quer que sejas, porque te condenas a ti mesmo naquilo em que julgas a outro; pois tu, que julgas, fazes o mesmo.

O capítulo dois tem início com uma conjunção (portanto), o que indica uma relação de conclusão ao que foi dito anteriormente.

O que foi dito anteriormente (no capitulo 1)? Foi dito que:

a) Os homens que detém a verdade em injustiça são objetos da ira de Deus ( Rm 1:18 );
b) A natureza depõe contra os homens que detém a verdade em injustiça, deixando-os inescusáveis ( Rm 1:20 );
c) Há homens que detém a verdade em injustiça, e que, mesmo reconhecendo a existência de Deus, seus raciocínios tornarem-se fúteis e os corações insensatos se obscureceram, e criaram deuses para si ( Rm 1:21 ), e;
d) Há homens que detém a verdade em injustiça e que foram entregues às suas concupiscências ( Rm 1:24 ), as suas paixões infames ( Rm 1:26 e a uma disposição mental reprovável ( Rm 1:28 ), e passaram a praticar todos os tipos de ações reprováveis diante de Deus e dos homens ( Rm 1:29 -31).

O homem que Paulo evoca neste versículo “ó homem”, refere-se ao mesmo homem que ‘detém a verdade em injustiça’ do capitulo anterior ( Rm 1:18 ). Por que refere-se ao mesmo homem do capítulo anterior? Ao lermos o versículo “Ora, conhecendo eles a sentença de Deus, de que são passíveis de morte os que tais cousas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que assim procedem” ( Rm 1:32 ), percebe-se que as conjunções ‘ora’ e ‘portanto’ são empregadas indicando uma relação de conclusão em relação ao que foi dito anteriormente.

Neste caso em específico, a conjunção ‘ora’ ou ‘portanto’ introduz uma conclusão. O versículo trinta e dois, do capítulo um, demonstra que, embora os homens que detêm a verdade em injustiça, conhecendo a justiça de Deus (de que são dignos de morte quem pratica as ações enumeradas anteriormente), praticam as ações reprováveis e consentem com quem as praticam. Com base nestas informações, qualquer que seja o homem, mesmo que ele se sinta em posição privilegiada por julgar outros homens, ele permanece inescusável diante de Deus.

Seja quem for o homem (a fala de Paulo é para pegar os judeus), se ele detém a verdade em injustiça, ele está na mesma condição de quem ele julga, e pratica o que ele mesmo condena.

Neste versículo o apóstolo Paulo desfaz toda e qualquer diferença entre os homens. Este versículo e o último do capítulo anterior são inseparáveis quando se faz uma interpretação.

 

2 E bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade sobre os que tais coisas fazem.

Paulo reitera que os cristãos estão cônscios de que o juízo de Deus é segundo a verdade. Observe que ele enfatiza: “Bem sabemos…”. A verdade da qual o apostolo faz referência é a verdade do evangelho.

Através desta afirmativa, o apóstolo Paulo demonstra que os cristãos não julgam aqueles que estão fora da verdade, porém, é de conhecimento que o juízo de Deus é certo sobre quem pratica as ações descritas no capítulo primeiro, versos 29 a 31.

O conhecimento que o cristão dispõe é segundo a verdade do evangelho, enquanto que o ‘conhecimento’ dos homens que detêm a verdade em injustiça é proveniente da lei escrita em seus corações, ou da consciência ( Rm 2:15 ).

3 E tu, ó homem, que julgas os que fazem tais coisas, cuidas que, fazendo-as tu, escaparás ao juízo de Deus?

Paulo volta a questionar o ‘homem’ que detém a verdade em injustiça, e aponta o seu comportamento questionável: basta julgar aqueles que fazem as coisa descritas anteriormente para se ver livre do juízo de Deus?

Observe que o juízo segundo a verdade já está estabelecido e as atitudes dos homens visam escapar a tal juízo. O escritor ao Hebreus é claro: “Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação, a qual, começando a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram” ( Hb 2:3 ).

Note que há uma diferença entre ser inescusável e escapar ao juízo de Deus. Este refere-se a condenação adquirida em Adão, enquanto aquele refere-se ao comportamento reprovável dos que foram condenados em Adão. O juízo de Deus é uma condição muito mais dura diante de Deus, pois afeta a natureza do homem. Do juízo de Deus surgiu a semente corruptível de Adão. Tal semente faz com que os frutos dos homens nascidos de Adão sejam maus ( Jo 3:19 -20). A árvore que tem origem na semente de Adão só produz o mal, visto que uma árvore não pode produzir dois tipos de frutos ( Mt 7:17 ).

4 Ou desprezas tu as riquezas da sua benignidade, e paciência e longanimidade, ignorando que a benignidade de Deus te leva ao arrependimento?

O versículo quatro depende do versículo três. No versículo três Paulo questiona a atitude do homem que pensa ser possível praticar as coisas reprováveis descritas anteriormente e escapar ao juízo de Deus. O homem que julga os que praticam as coisas reprováveis, ou pensa é possível escapar ao juízo de Deus, ou evidencia uma atitude mais grave ainda: desprezar a benignidade de Deus.

Paulo demonstra não entender a atitude daqueles que detêm a verdade em injustiça. Ou tal homem acha que é possível escapar ao juízo de Deus estabelecido lá em Adão, ou é uma atitude de desprezo a benignidade, paciência e longanimidade de Deus.

O desprezo à benignidade de Deus é por incredulidade, visto que, é a benignidade que leva o homem a arrepender-se de suas concepções errôneas.

 

Uma Figura Importante

Antes de perseguirmos no estudo faz-se necessário entendermos a seguinte colocação de Jesus:

“Entrai pela porta estreita. Pois larga e a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela. Mas estreita é a porta, e apertado o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que a encontram” ( Mt 7:13 -14).

Jesus demonstra que há duas portas e dois caminhos. Há uma porta estreita e há uma porta larga. Há um caminho apertado e um caminho espaçoso.

O texto demonstra duas diferenças gritantes entre os dois caminhos e as duas portas, eles conduzem: a vida, ou a perdição.

O leitor deve perceber que há uma ordem clara: “Entrai pela porta estreita”, ou seja, Cristo alerta os seus ouvintes para que entrem pela porta estreita. É um convite que demanda uma decisão por parte de quem ouve. Para ter acesso a vida é preciso entrar pela porta sugerida por Cristo.

Por que é necessário entrar pela porta estreita? Jesus explica: porque ‘larga e a porta’, e ‘espaçoso é o caminho que conduz à perdição’. Através da explicação de Jesus, percebe-se que não é necessário ao homem tomar uma decisão para entrar na porta e percorrer o caminho que conduz a perdição. Por quê? O que isto quer dizer?

A explicação de Jesus demonstra implicitamente que todos os homens quando nascem, eles entram por uma porta larga; ou seja, a porta é larga que comporta todos quantos vêem ao mundo. O nascimento é a entrada por esta porta, e por isso não é necessário uma decisão de entrar por ela.

Todos os homens entraram por uma porta e percorrem um caminho que conduz a perdição. Para ter acesso ao caminho da vida, se faz necessário tomar a decisão de entrar pela porta estreita, e seguir o caminho apertado.

A figura das duas portas e dos dois caminhos são semelhantes à figura da árvore boa e da árvore má ( Mt 12:33 ); o bom tesouro e o mal tesouro ( Mt 12:35 ); as fontes de água doce e água amarga ( Tg 3:11 -12). Estas figuras são semelhantes quanto a idéia principal e cada uma apresenta um dos aspectos da salvação em Cristo.

A idéia principal destas figuras aponta para o evento da queda de Adão. Em Adão todos os homens foram julgados e condenados. A pena que pesa sobre a humanidade é a morte. Para Deus os homens nascidos de Adão estão mortos em delitos e pecados. A queda de Adão comprometeu a natureza do homem: Deus é vida, e a queda separou o homem de Deus. O homem perdeu a essência da natureza divina, deixando-o na condição de morto para Deus.

Todos os homens nascem sem ser participantes da natureza divina. A natureza do homem é segundo a natureza de Adão, visto que, nasceram da vontade da carne, da vontade do homem e do sangue ( Jo 1:13 ). Para o homem livrar-se da condenação que ocorreu em Adão, é preciso ao homem nascer de novo. Ele precisa nascer da vontade de Deus para tornar-se um dos filhos de Deus ( Jo 1:12 ).

Com base nestas informações, verifica-se que todos nascem sob condenação, e pesa sobre eles o juízo de Deus e por isso todos que vem ao mundo ‘são os que entram por ela’, a porta larga e o caminho espaçoso ( Mt 7:13 ). Todos entram pela porta ao nascer e no caminho que conduz à perdição, e esta figura evidência a necessidade do homem decidir-se pela oferta de salvação que há em Cristo.

Para entrar pela porta, que é Cristo, é necessário um novo nascimento. Observe que o nascimento é a ‘porta’ de entrada para a perdição eterna e para a vida eterna.

Todos descendem da semente de Adão (semente corruptível), e, portanto, são árvores más. Como pesa sobre eles a condenação de Adão, resta às árvores que tiveram origem na semente corruptível serem cortadas e lançadas no fogo. Como é próprio das árvores produzirem frutos segundo a sua espécie, as árvores que descendem da semente de Adão, só produzem frutos maus. Diferente da figura da porta e do caminho, a figura da árvore demonstra que é impossível aos homens nascidos de Adão produzirem o bem ( Mt 12:34 ).

Os corações dos homens nascidos sob a condenação de Adão são maus, e por mais que se esforcem, só pode tirar do coração o mau, do seu mau tesouro. Esta figura demonstra que o problema do homem pecador encontra-se em seu coração, na sua natureza. Para livrar-se desta condição é preciso circuncidá-lo por meio da circuncisão de Cristo.

Os homens nascidos de Adão têm uma vida restrita a este mundo. Vivem para si e para o pecado. Após aceitar a Cristo, o novo homem terá uma fonte de água viva que jorra para a vida eterna, passando a viver para Deus ( 2Co 5:15 ; Rm 14:7 ).

A figura da árvore demonstra que os homens permanecem na condição herdada em Adão: serão ‘cortados’ e lançados no inferno por pesar sobre eles o juízo de Deus ( Rm 2:3 ; Mt 3:10 ). Como uma árvore produz um único tipo de fruto, os frutos das árvores que surgiram da semente corruptível de Adão são maus, ou seja, segundo a espécie da árvore. Por mais que o homem nascido de Adão procure fazer o bem, isto é impossível, visto que as suas obras não foram feitas em Deus, e não foram preparadas por Deus.

Por produzirem o mal, o homem entesoura ira para si. A condenação em Adão decorre da retidão e justiça de Deus, sem qualquer referência a ira. Já que o homem se deixou levar pela natureza corrompida, à prática de toda impiedade e injustiça, Deus trará a juízo todas as ações dos homens, e com relação a isto, não há acepção de pessoas.

As ações dos nascidos de novo serão julgadas e recompensadas no tribunal de Cristo, e as ações do velho homem serão julgadas e recompensadas no grande trono branco.

Depois desta pequena introdução estamos aptos a interpretar os versículos seguintes.

5 Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus;

A ‘dureza’ refere-se a ação de resistir à verdade em injustiça, e o ‘coração impenitente’, refere-se à natureza pecaminosa herdada em Adão.

Todos os homens quando vêm ao mundo, nascem com um coração impenitente. No Antigo Testamento, mesmo após a entrega da lei, Moisés recomenda ao povo de Israel a circuncisão do coração “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz” ( Dt 10:16 ). Observe que a circuncisão do prepúcio do coração refere-se ao coração impenitente, e o endurecimento da cerviz à dureza do homem.

No Novo Testamento é recomendado a circuncisão de Cristo, no despojar do corpo da carne. A circuncisão do A. T equivale a circuncisão do N. T., visto que, qualquer incisão no coração levará a morte. A morte em Cristo é o despojar do corpo da carne “No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo” ( Cl 2:11 ).

A circuncisão de Cristo (N. T.), não é feita por mãos humanas, da mesma forma que a circuncisão do coração (A. T.), recomendada por Moisés;

A circuncisão de Cristo (N. T.), e a circuncisão do prepúcio do coração (A. T.), e pode ser realizado no homem e na mulher.

O homem que detém a verdade em injustiça, por manter-se insensível ao convite de salvação, simplesmente continua na empreitada de entesourar ira para si. Como compreender esta declaração de Paulo? Devemos ter em mente que:

a) Todos os homens estão condenados em Adão ( Rm 5:18 );
b) A condenação da humanidade em Adão decorre da justiça e retidão de Deus, sem qualquer referência a ira. Deus não se irou contra o homem quando da queda, antes fez justiça conforme a determinação dada a Adão ( Rm 3:23 );
c) A condenação afetou a natureza do homem, e todas as suas ações passaram a ser reprováveis diante de Deus ( Mt 12:34 );
d) Por não estarem em Deus, as ‘obras’ dos homens não são feitas em Deus, e por isso são reprováveis ( Jo 3:19 -21);
e) Todas as ações de todos os homens serão julgadas em juízo específico, e isso independe da condição de salvos ou perdidos ( Rm 2:11 );
f) Haverá o juízo do Trono Branco para os perdidos e o juízo do Tribunal de Cristo ( 2Co 5:10 e Ap 20:13 );
g) O homem que detém a verdade em injustiça continua na prática do mal, visto que as suas obras não são feitas em Deus e não foram preparadas por Deus ( Jo 3:21 e Ef 2:10 );
h) As obras más serão retribuídas por Deus com indignação e ira, e as obras feitas em Deus serão retribuídas com glória, honra e paz.

Há um dia predeterminado para a ira de Deus “Pois é vindo o grande dia da ira deles, e quem poderá subsistir?” ( Ap 6:17 ). Neste dia os homens conhecerão o juízo de Deus. O juízo de Deus foi estabelecido lá em Adão, mas os homens ignoram esta verdade. Quando do dia da ira será manifesto a eles que estão debaixo de condenação. Por serem filhos de Adão, ou filhos da desobediência, por conseguintes, também são filhos da ira ( Cl 3:6 ); “E éramos por natureza filhos da ira, como também os demais” ( Ef 2:3 ).

6 O qual recompensará cada um segundo as suas obras; a saber: 7 A vida eterna aos que, com perseverança em fazer bem, procuram glória, honra e incorrupção; 8 Mas a indignação e a ira aos que são contenciosos, desobedientes à verdade e obedientes à iniqüidade;

O qual recompensará cada um segundo as suas obras; a saber:

a) Dará vida eterna aos que, com perseverança em fazer bem, procuram glória, honra e incorrupção;
b) Mas a indignação e a ira aos que são contenciosos, desobedientes à verdade e obedientes à iniqüidade;

A vida eterna é prometida àqueles que procuram glória, honra e incorrupção, e não a quem faz boas ações, pois fazer boas ações não é fazer o bem. O homem só pode fazer o bem quando está em Cristo. Somente em Cristo o homem encontra glória, honra e incorrupção, e após encontrar estas bênçãos em Cristo, é preciso ao crente perseverar fazendo o bem. Boas ações não concederão vida eterna aos homens.

Em primeiro lugar é preciso ao homem buscar o reino de Deus e a sua justiça, que é Cristo; e como Deus há de recompensar a cada um segundo as suas obras, é de bom alvitre que se faça o bem. O bem que o cristão faz visa a recompensa futura, e não a salvação. A salvação só é possível através do evangelho de Cristo, que é poder de Deus.

Deus também recompensará as obras dos homens que detêm a verdade em injustiça. Observe que a ira e a indignação de Deus permanece sobre aqueles que são desobedientes à verdade. A indignação e a ira não decorre das más ações dos homens, antes decorre da desobediência à verdade e obediência à iniqüidade. Enquanto o homem for obediente à iniqüidade, jamais será filho de Deus. Permanecerá na condição de filho da ira e sujeito à ira de Deus.

O homem sem Cristo é desobediente à verdade, e acumula ira para si por ser faccioso, contencioso. As boas ações realizadas pelos homens obedientes à iniqüidade não será tido por Deus como sendo boas obras. Essas ações Isaias nomeia ‘trapos de imundície’.

9 Tribulação e angústia sobre toda a alma do homem que faz o mal; primeiramente do judeu e também do grego; 10 Glória, porém, e honra e paz a qualquer que pratica o bem; primeiramente ao judeu e também ao grego;

Paulo demonstra que não há qualquer diferença entre judeus e gentios. Tanto os judeus quanto os gentios praticam o mal diante de Deus caso sejam desobedientes à verdade do evangelho. Lembre que uma árvore má não produz frutos bons. A natureza corrompida do homem, que é obediente à iniqüidade, impede que o homem faça o bem.

Da mesma forma que o pecado escraviza judeus e gregos, também não há diferença entre judeu e grego quando se tornam escravos da justiça. Todos que aceitam a Cristo praticam o bem. Por terem adquirido um novo coração em Cristo tem um bom tesouro, e as suas ações são boas, pois são feitas estando em Deus.

Quem aceita a Cristo pode fazer o bem e o mal, mas suas ações não o levarão para o inferno, pois Deus já o recebeu por seu. Da mesma forma, os descrentes fazem o bem e o mal, mas para Deus as suas ações são más, pois eles não pertencem a Deus.

 

11 Porque, para com Deus, não há acepção de pessoas.

Se um judeu e um grego praticam o bem (devemos entender a prática do bem vinculado à crença em Cristo), não há distinção entre eles perante Deus. Ele recompensará a cada um segundo as suas obras, pois em Deus não há acepção de pessoas.

Se um judeu e um grego praticam o mal (a prática do mal decorre da obediência à iniquidade), para Deus não há acepção: receberão a recompensa devida: indignação e ira.

 

 

Introdução

Na página quatro estudamos alguns elementos de lógica, e na página cinco algumas questões doutrinárias. Agora veremos como aplicar elementos da lógica durante uma leitura bíblica para não nos afastarmos das questões doutrinárias.

Lemos em uma publicação evangélica, no tópico ‘Falsos profetas’, ao citarem Mateus dez, versículo dezesseis, o seguinte: “É possível ao homem de falso coração fazer certas coisas boas. Pode-se até receber edificação pela sua mensagem, porque Deus honra a sua Palavra. Mas a pregação não o salvará da sentença do Juiz: ‘Apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade!'” Pearlman, Myer, Mateus, o Evangelho do Grande Rei, 1. edição, Rj, Ed. CPAD, pág. 44.

Considerando que fazer ‘coisas boas’ é possível a todos os homens, mas fazer ‘o bem’, só é possível aos nascidos de novo, visto que ‘não há quem faça o bem’ sem estar ligado em Cristo Rm 3: 12. Considerando que aos homens é pertinente limparem o exterior do copo e do prato, mas que é impossível limparem o seu interior “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que limpais o exterior do copo e do prato, mas o interior está cheio de rapina e de iniqüidade” ( Mt 23:25 ), segue-se que, ao tentar explicar que “Há maldade nos melhores, e bondade nos piores” Pág 39, Myer não faz distinção entre ‘fazer coisas boas’ e ‘fazer o bem’, e acaba por afirmar que o homem de coração ‘falso’ faz ‘certas coisas boas’.

Aos falsos profetas é pertinente fazem boas ações, pois somente com ações exteriores é que eles se dão a conhecer como ovelhas, porém, o interior deles é comparado a lobos. As religiões que negam a Cristo como Senhor geralmente se esmera em praticar boas ações aos seus semelhantes, mas a mensagem que apregoam não aproxima o homem de Deus.

Fazer o bem não é uma questão de vontade, e sim de natureza. Não basta querer fazer o bem, antes é necessário obter uma nova natureza, segundo a semente incorruptível que é a palavra de Deus, para que se torne possível ao homem produzir o bem ( 1Pe 1:23 ). Somente aqueles que são nascidos de Deus fazem bem ( Jo 3:21 ). As boas obras foram preparadas por Deus para que os vivificados em Cristo possam andar nelas ( Ef 2:9 ).

Fazer boas ações está ligado a vontade do homem. Se ele quiser fará boas ações aos seus semelhantes, e isto não diz da disposição do seu coração. Agora, fazer o bem só é possível quando se está em Deus, pois é algo vinculado a natureza do novo homem e não à vontade, como é o caso de boas ações ( Jo 3:21 ).

É plenamente possível a um falso profeta fazer certas coisas boas, mas é impossível a eles fazerem o bem. Primeiramente porque a bíblia diz que ‘não há quem faça o bem’ ( Rm 3:12 ). Um falso profeta não pode fazer de modo algum o bem, pois eles não estão em Deus. Fazer ações humanitárias ou boas ações fará com que os homens acreditem que eles são ‘ovelhas’ ( 2Tm 4:1 -4).

Observe o que Jesus disse: “Não pode a árvore boa produzir maus frutos, nem a árvore má produzir frutos bons” ( Mt 7:18 ). Se é impossível a árvore má produzir bons frutos, como é possível ao homem de coração falso (coração falso remete a falso profeta), produzir ‘certas coisas boas’ quando Myer faz a citação acima? A análise de Pearlman não está em consonância com o que Jesus ensinou ( Mt 7:18 e Mt 12:33 -35). Se ele quis dizer ‘certas coisas boas’ não utilizou a citação de Mt 7: 18 em seu contexto correto. Da mesma forma, se ele utilizou ‘certas coisas boas’ em lugar de ‘fazer o bem’, contrariou o que Jesus disse: “…nem a árvore má produzir bons frutos” ( Mt 7:18 ).

A segunda declaração que complementa a primeira é muito mais grave: É possível receber edificação por meio da mensagem de um falso profeta?

A premissa que foi utilizada para dar sustentação à argumentação é verdadeira, pois ‘Deus honra a sua palavra’, e condiz com a idéia bíblica: “E disse-me o SENHOR: Viste bem; porque eu velo sobre a minha palavra para cumpri-la” ( Jr 1:12 ), mas, dizer que é possível receber edificação através das palavras de um falso profeta corresponde a uma inverdade.

Há um erro na argumentação do Sr. Myer, visto que:

a) Se Deus vela sobre a palavra de um ‘falso profeta’, este falso profeta já não é falso, e passou à condição de profeta;
b) O cuidado que a bíblia demonstra que devemos ter com os falsos profetas é com aquilo que dizem (doutrina) “E TAMBÉM houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição” ( 2Pe 2:1 );
c) Aspectos humanos como caráter, comportamento e moral não são fatores que determinam se alguém é ou não um falso profeta.

Não há como receber edificação por meio de uma mensagem de um falso profeta. Primeiro, porque a mensagem de um falso profeta não provém de Deus; segundo, a tal mensagem não é a semente incorruptível; o fruto que um falso profeta produz é segundo a sua natureza: é mal ( Mt 12:34 -35).

Elementos humanos como comportamento, moral, caráter, sacrifícios, orações, são utilizados pelos falsos profetas como vestimentas para se disfarçarem em ovelhas. Tais elementos são manipuláveis pelos homens, pois diz de aspectos externos, como o exterior do copo e dos sepulcros. O que não podem manipular é o interior, onde somente Deus tem acesso e pode mudar.

Paulo ao escrever a Timóteo alerta dizendo: “Mas o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos alguns apostatarão da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios, pela hipocrisia de homens que falam mentiras e tem cauterizada a própria consciência, que proíbem o casamento, e ordenam a abstinência de alimentos que Deus criou para os fiéis, e para os que conhecem a verdade, a fim de usarem deles com ações de graças…” ( 1Tm 4:1 -3).

Deus não honra a palavra de um falso profeta, pois a palavra de um falso profeta não é a palavra de Deus. A palavra é clara: Quem é que pratica a iniqüidade? Os falsos profetas, que se apresentam disfarçados de ovelhas, porém são lobos devoradores.

Somente é possível identificar os falsos profetas pelos seus frutos. Quais são os frutos de um falso profeta? O que um falso profeta produz? Mensagens que não têm origem em Deus! Este é o fruto dos falsos profetas: mensagens que não são conforme a verdade do evangelho!

Da mesma forma, o fruto de alguém que é profeta de Deus, é o fruto dos lábios, que professam que Cristo é o Filho de Deus ( Hb 13:15 ) compare ( 1Jo 4:1 -3).

A mensagem de Cristo visa transformar a natureza do homem, e a conduta é transformada gradativamente por intermédio do Espírito de Deus. A mensagem do evangelho não tem a finalidade de transformar concepção de mundo, caráter, conduta, etc. Se assim fosse, Paulo não pediria aos cristãos que vivessem de modo digno do evangelho de Cristo ( Ef 4:1 ).

Myer Pearlman também registrou um argumento de Agostinho: “O que faz com que o caminho seja estreito? perguntou Agostinho. Ele mesmo responde: ‘O caminho não é estreito por si mesmo, mas nós o fazemos assim, mediante o insuflar do nosso orgulho…” Pág. 42 (idem e grifo nosso).

A premissa “estreita é a porta, e apertado o caminho’ foi anunciada por Jesus. Esta premissa é verdadeira! Conforme Pearlman, Agostinho declara que ‘o caminho não é estreito’, o que torna a declaração de Agostinho uma premissa falsa. A premissa de Agostinho contraria completamente a idéia anunciada por Cristo.

Cristo disse ser o caminho e que o caminho é estreito. Quando se afirma que o caminho não é estreito por si mesmo, estamos negando que a declaração de Jesus seja verdade e que a sua natureza não é conforme o que foi dito por si mesmo.

A bíblia demonstra que o caminho é apertado, mas Agostinho argumenta que o caminho é ‘feito’ estreito. A bíblia demonstra que Jesus é o caminho, mas Agostinho declara que ‘nós o fazemos assim’. Observe que as alegações de Agostinho contrariam completamente as premissas bíblicas, pois o caminho é estreito, e não é o homem que o faz desta maneira. Cristo é o caminho, e não é pertinente aos homens determinar a largura do caminho.

Myer declara que Jesus disse que devemos optar por um dos caminhos “Cristo, no entanto, ensinou haver dois caminhos, que levam a direções opostas, e por um dos quais devemos optar” Pág. 40 (idem), mas o que diz a bíblia? “Entrai pela porta estreita. Pois larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela. Mas estreita é a porta, e apertado o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que a encontram” ( Mt 7:13 -14).

Há alguma discrepância entre o que diz Myer e a bíblia? Há sim!

Jesus ordenou aos seus ouvintes que entrassem pela porta estreita, ou seja, é uma premissa que não apresenta opções “Entrai pela porta estreita…”. Jesus não apresentou opções aos seus ouvintes como se eles estivessem em um ‘limbo’. Cristo ensinou haver dois caminhos, mas não apresentou duas opções.

Cristo se apresenta como única opção à condição em que os seus ouvintes estavam. Cristo é a única opção aos perdidos! Não há, portanto, a idéia de duas opções aos homens perdidos.

Estes erros que apontamos decorre da seguinte análise equivocada de Myer Pearlman: “…mas um exame mais profundo do caráter humano mostrará que a classificação de Cristo é verdadeira” Pág. 38 (idem). A mensagem de Cristo é a verdade, e independe de comprovação pautada em questões humanas. Não é uma análise do comportamento humano que fará compreendermos as declarações de Cristo.

Não é a filosofia, ou a sociologia que nos fará dimensionar as verdades do evangelho. Só é possível entendermos as declarações de Cristo “comparando as coisas espirituais com as espirituais” ( 1Co 2:13 -14).

 

12 Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados.

Paulo demonstra que não há acepção de pessoas em Deus, visto que não há diferenças entre judeus e gregos diante da retribuição divina: cada um será recompensado segundo as suas obras ( Rm 2:6 ).

Os gentios foram concebidos em pecado, e por isso, todos pecaram. Eles pecaram, não por falta de uma lei, mas por causa da condenação em Adão. Observe que o pecado aqui não decorre da transgressão da lei, visto que não havia lei para os gentios. Porém, mesmo não havendo lei para os gentios, eles pecaram. Mesmo sem lei, eles estão condenados.

Não é alívio para o judeu ser levado a julgamento. Todos os que pecaram, mesmo tendo uma lei, serão julgados pela lei que receberam. Da mesma forma que os gentios, os judeus, por terem pecado, estão sob condenação, visto que a alma que pecar, esta morrerá. Qualquer devedor que for a juízo perecerá, não importando quem seja: judeu ou grego.

13 Porque os que ouvem a lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados.

Os pretensos seguidores da lei eram somente ouvintes. Os ouvintes da lei (os judeus) não eram justos diante de Deus, visto que não a praticavam. A lei é bem clara: “Portanto os meus estatutos e os meus juízos guardareis, pois o homem que os cumprir por eles viverá” ( Lv 18:5 ; Rm 10:5 ).

Há como ser justificado pela lei? “Porque qualquer que guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos” ( Tg 2:10 ).

14 Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei; 15 Os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os;

Os judeus consideravam serem melhores que os gentios por terem uma lei. Paulo apresenta argumentos que desmistificam esta idéia. Os gentios não tinha um código específico, porém, faziam ‘coisas’ da lei Mosaica, mesmo não tendo a lei. Paulo demonstra que Deus trará a juízo as ações dos gentios, visto que eles tem uma lei interna, em seus corações. Aliado a lei interna, há a consciência e os seus pensamentos, quer acusando quer defendendo as suas ações.

Perceba que nem todos os homens são depravados e que muitos fazem naturalmente o que preceitua a lei. Observe que os homens constituem leis para as suas ações.

16 No dia em que Deus há de julgar os segredos dos homens, por Jesus Cristo, segundo o meu evangelho.

Deus recompensará a cada um segundo as suas ações no dia que Ele se assentar para julgar os segredos de todos os homens.

Não podemos confundir as vicissitudes da vida com o juízo de Deus. Muitas pessoas consideram que Deus pune os homens no dia-a-dia, porém, esquecem que o que o homem colhe o que plantou, e esta lei natural não diz do juízo de Deus.

17 Eis que tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus; 18 E sabes a sua vontade e aprovas as coisas excelentes, sendo instruído por lei; 19 E confias que és guia dos cegos, luz dos que estão em trevas, 20 Instrutor dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei;

Após demonstrar que:

a) Deus não faz acepção de pessoas ( Rm 2:11 );
b) que Deus retribuirá a cada um (todos os homens) segundo as suas obras, tanto judeus quanto gregos ( Rm 2:6 -10);
c) que a lei não estabelece diferencias entre gentios e judeus diante de Deus ( Rm 2:12 ), visto que tanto judeus quanto gentios foram julgados em Adão e nasceram sob a égide do pecado, e;
d) que não há distinção entre judeus e gentios, visto que todos os homens serão julgados quanto as obras ( Rm 2:6 ).

Paulo passa a questionar os homens que se escudavam no sobrenome ‘judeu’. Observe que, apesar do sobrenome ‘judeu’, o primeiro nome ainda continua sendo ‘homem’. Quando Paulo faz referência aos Judeus, procura não fazer distinção, e continua a tratá-los como os outros homens, o que demonstra que não há distinção entre os homens, a não ser pelo sobrenome que adotaram.

Os quesitos abaixo não tornam os judeus melhores que os outros homens:

  • adotar o sobrenome judeu;
  • descansar na lei de Moisés nas questões relativas à salvação;
  • ter um sentimento de orgulho por terem sido escolhidos como povo de Deus;
  • saber a vontade de Deus, e não conhece- lá;
  • pensar que aprova o que é melhor;
  • ser uma pessoa instruída da lei;
  • confiar que está em melhor condição que os outros homens por reputar ser guia, instrutor, mestre, etc;
  • adotar a lei como ciência e verdade.

21 Tu, pois, que ensinas a outro, não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas? 22 Tu, que dizes que não se deve adulterar, adulteras? Tu, que abominas os ídolos, cometes sacrilégio? 23 Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei?

Paulo coloca em xeque o comportamento dos judeus. Muitos dos judeus ensinavam, mas pareciam não ter aprendido a matéria que ensinavam.

Eles pregavam que não se devia furtar, e acabavam furtando. Diziam que não podia adulterar, e adulteravam. Abominar os ídolos era a bandeira dos judeus, no entanto, cometiam sacrilégios. Os homens que se orgulhavam de ter recebido a lei, desonravam a Deus quando transgrediam a lei.

24 Porque, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vós.

Paulo apresenta a base para as suas argumentações: as Escrituras! “Agora, que farei eu aqui, diz o Senhor, visto ter sido o meu povo levado sem preço? Os seus tiranos sobre ele dão uivos, diz o Senhor; e o meu nome é blasfemado incessantemente todo dia” ( Is 52:5 ). Observe que Paulo não cita o versículo ‘ipses literes’, porém, ele fez uma citação aplicada: por causa dos judeus, o nome de Deus estava sendo blasfemado entre os outros povos.

Em toda citação que fizermos da bíblia, devemos nos portar da mesma maneira que Paulo: preservar a ideia principal. Como Deus disse que o seu nome era blasfemado entre os gentios por causa dos judeus, qualquer citação que contrarie esta ideia deve ser tida por anátema.

Qual seria o argumento dos judeus para rebater a própria Escritura? Isaías demonstra que o próprio Deus disse que o nome d’Ele era blasfemado entre os gentios por causa dos judeus.

25 Porque a circuncisão é, na verdade, proveitosa, se tu guardares a lei; mas, se tu és transgressor da lei, a tua circuncisão se torna em incircuncisão.

A circuncisão foi um ritual instituído por Deus após ter anunciado a Abraão uma aliança. Deus apareceu a Abraão e lhe propôs uma aliança, onde Deus abençoaria sobre modo a Abraão e a sua descendência. Por Deus ter prometido abençoar Abraão e a sua descendência, os judeus acreditavam que eram salvos por serem descendentes de Abraão e por cumprirem o ritual da circuncisão ( Gn 17:10 -11).

Paulo contesta a crença dos judeus, demonstrando que a circuncisão só é proveitosa após o homem cumprir o determinado pela lei. A condição estabelecida para a validade da circuncisão é o cumprimento cabal da lei.

Após demonstrar a condição para a circuncisão ser válida diante de Deus, Paulo se reporta aos transgressores da lei. Aos transgressores da lei, a circuncisão não representa nada.

26 Se, pois, a incircuncisão guardar os preceitos da lei, porventura a incircuncisão não será reputada como circuncisão?

Paulo torna a lembrar que os gentios, quando cumprem com os preceitos da lei, são reputados como prosélitos (pessoas convertidas ao judaísmo) pelos próprios judeus, e por isso, circuncidadas. Se é válido reputar um prosélito que cumpre com os preceitos da lei um circunciso, que se dirá de um judeu que não cumpre a lei? Será tido por incircunciso, embora tenha feito a circuncisão na carne.

27 E a incircuncisão que por natureza o é, se cumpre a lei, não te julgará porventura a ti, que pela letra e circuncisão és transgressor da lei?

Paulo demonstra que ser judeu ou gentil é uma questão da natureza. A incircuncisão (gentios) é determinada pela natureza, da mesma forma que a circuncisão (judeu). Ser judeu, da forma que consideravam, não é uma condição proveniente de Deus, antes é uma condição determinada pela natureza.

Ser judeu ou gentil é uma condição determinada pelo nascimento e decorre de vínculos sanguíneos, o que demonstra não ter relação com a vontade e Deus.

Paulo destaca que, se os incircuncisos cumprem os quesitos da lei, eles estão em condição de julgar os circuncidados. Observe que os circuncidados de Israel tinham a lei de Moisés e a circuncisão, porém, mesmo com estes dois quesitos, eles eram transgressores da lei.

Os judeus eram transgressores da lei, visto que, ao tropeçarem em um único quesito da lei, tornavam-se culpados de toda a lei ( Tg 2:10 -11).

Já os incircuncisos não haviam recebido a circuncisão e nem mesmo uma lei, e o fato de cumprirem quesitos da lei, demonstra que a prática da lei compete a todos os homens, não importando quem quer que eles sejam. Este argumento demonstra que não há diferenças entre judeus e gentios perante Deus, pois todos são inescusáveis.

Enquanto os judeus reputavam que eram salvos por cumprirem com o rito da circuncisão e por terem recebido a lei, Paulo demonstra que a verdadeira condição de ‘judeu’ e a verdadeira ‘circuncisão’ não é possível determinarmos por questões externas como nascimento e regras exteriores.

 

28 Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne. 29 Mas é judeu o que o é no interior, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus.

Paulo apresenta os motivos da sua argumentação anterior. Devemos considerar que, neste versículo, Paulo está se referindo ao verdadeiro judeu, ou seja, ao homem que realmente é salvo por Deus.

Ele demonstra que tudo quanto os judeus consideravam ter recebido de Deus por serem descendentes de Abraão, somente se constituíam em aspectos externos, o que não condizia com a realidade interior.

Para o apóstolo, o verdadeiro judeu, ou seja, o homem que é salvo por Deus, é aquele que recebeu de Deus a circuncisão no coração. Enquanto os judeus se apegavam às questões externas da lei, Paulo procura demonstrar que a verdadeira circuncisão se dá no coração do homem.

Enquanto os judeus consideravam aspectos exteriores da lei e a circuncisão da carne como sendo os elementos essências a quem desejasse ser salvo, Paulo demonstra que o verdadeiro judeu precisa da circuncisão do coração. A mensagem do evangelho de Cristo apregoado por Paulo não difere em nada do que era apregoado pelos profetas: “Circuncidai-vos ao SENHOR, e tirai os prepúcios do vosso coração, ó homens de Judá e habitantes de Jerusalém, para que o meu furor não venha a sair como fogo, e arda de modo que não haja quem o apague, por causa da malícia das vossas obras” ( Jr 4:4 ).

Moisés apregoava a circuncisão do coração mesmo após ter entregue a lei ao povo de Israel: “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz” ( Dt 10:16 ).

A circuncisão do coração remete ao despojar da velha natureza (velho homem), e somente através de Cristo é possível adquiri-la “Nele também fostes circuncidados com a circuncisão não feita por mãos no despojar do corpo da carne, a saber, a circuncisão de Cristo” ( Cl 2:11 ).

A circuncisão de Cristo se dá no coração e não é feita por mão humanas. A circuncisão dos homens é exterior, no corpo, segundo os quesitos da lei, mas não é proveniente de Deus e nem recebe d’Ele louvor. O homem que é judeu interiormente, é aquele que recebeu a circuncisão no coração, no espírito, desvinculado dos elementos da lei (letra), que são exteriores.

Por intermédio de Jeremias Deus censura as obras do povo, mas por qual motivo? Por que as obras dos judeus, um povo religioso e cheio de regras morais e éticas é reputado ‘maliciosas’ por Deus? Eles não praticavam boas ações?

Os judeus sempre praticaram boas ações aos seus irmãos no intuito de conquistar a salvação, e em decorrência desta particularidade elas são ‘maliciosas’, visto que a salvação só é possível através da circuncisão do coração, que é uma ação exclusiva de Deus.

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O caminho dos justos

Desde o ventre materno os homens alienam-se de Deus, pois a geração de Adão (semente) é o meio pelo qual os homens juntamente alienam-se de Deus “Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um” ( Sl 53:3 ). Andam errado desde que nascem porque passaram a trilhar um caminho que os conduz à perdição, visto que são transgressores sem causa “Confundidos serão os que transgridem sem causa” ( Sl 25:3 ). Falam mentiras porque falam segundo o seus corações, que é enganoso “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” ( Jr 17:9 ). Como a boca fala do que está cheio (pleno) o coração, segue que o homem fala mentira.

 


“Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que CONDUZ à perdição” ( Mt 7:13 )

Antes de iniciar qualquer caminhada é importante saber para onde o caminho nos levará, pois os caminhos possuem um único destino. A escolha geralmente é feita em função do destino que o caminho conduz.

Mas, a Bíblia demonstra que há um caminho que os homens seguem que inexoravelmente os conduzirá a perdição. Embora estejam sendo conduzidos à perdição por causa do caminho, não se dão conta do destino funesto, pois não exerceram uma escolha quando foram postos nele e, mesmo assim, estão sendo conduzidos por ele.

Os homens são conduzidos pelo caminho largo à perdição em função da porta larga que todos acessam ao nascer. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!

Muitos buscam caminhos que aos seus olhos parecem direito, porém, o fim dele é a morte ( Pv 14:12 ). Uns buscam o caminho do ascetismo pessoal, outros busca a religiosidade, o puritanismo, o pietismo, a filosofia, o formalismo, o legalismo, o ritualismo, etc., são vários caminhos que os homens escolhem na intenção de se salvarem, porém, fatalmente são conduzidos à perdição.

 

O Caminho Estreito

Em decorrência da situação funesta que o caminho dos homens impõe a toda humanidade: perdição, o salmista profetizou acerca de uma porta que seria apresentada a humanidade pelo qual todos quantos entrassem seriam justos, livres de condenação “Esta é a porta do SENHOR, pela qual os justos entrarão” ( Sl 118:20 ).

Qual seria esta porta? O mesmo salmo, através de uma linguagem enigmática demonstra que a porta é Aquele que vem em nome do Senhor ( Sl 118:26 ). Ele é a luz dada por Deus, a vítima do sacrifício ( Sl 118:27 ), a pedra que os construtores rejeitaram ( Sl 118:22 ).

Jesus orientou dizendo: “Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens” ( Jo 10:9 ), sendo necessário entrar por Ele “Entrai pela porta estreita…” ( Mt 7:13 ).

Como entrar por esta porta? A porta simboliza o nascimento, portanto, para entrar pela porta estreita é necessário nascer de novo. A porta é estreita porque poucos entram por ela, diferente da porta larga, que todos os homens entram através do nascimento natural.

Todos que nascem de novo, ou seja, que entram pela porta estreita, passam a trilhar um caminho estreito que conduz o homem a Deus. Cristo conduz o homem a Deus, ou seja, todos que entram por Ele são conduzidos à vida ( Mt 7:14 ). É por isso que Jesus diz: “Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” ( Jo 14:6 ).

Ao entrar pela porta estreita o homem passa a trilhar um novo e vivo caminho que dá acesso a Deus “Pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne” ( Hb 10:20 ). É gerado de novo segundo a semente incorruptível, que é a palavra de Deus: viva e que permanece para sempre.

 

O Caminho Largo

Ninguém escolhe entrar pela porta larga. Ninguém escolhe trilhar o caminho largo que conduz à perdição. Embora o homem faça inúmeras escolhas diárias, nenhuma delas tem relação com o caminho de perdição que os conduz ao nascerem.

Poucos homens são inteirados acerca do caminho que trilham ao nascer. Sobre este caminho, Jesus alertou: “…larga é a porta, e espaçoso o caminho que CONDUZ à perdição” ( Mt 7:13 ).

O primeiro pai da humanidade, Adão, é a porta larga por quem todos os homens entram ao nascer. Foi ele quem pecou, por ele o pecado entrou no mundo e por causa de Adão todos pecaram.

Nenhum dos homens peca à semelhança da transgressão de Adão, pois só ele pecou, e todos morreram. Ele pecou, foi julgado e sentenciado a permanecer separado da glória de Deus e, todos que são gerados segundo a semente de Adão são gerados em igual condição: alienados de Deus “Porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo” ( 1Co 15:21 -22).

Pelo fato de ter sido gerado de Adão, os homens passam a trilhar um caminho que os conduz à perdição, independente do que façam ou das suas disposições internas.

Por causa desta condição, o homem é descrito como filho da desobediência, filho da ira, planta que o pai não plantou, mentiroso, trevas, ignorante, morto, alienado, etc. Tal condição é pertinente aos homens desde que nascem “Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, falando mentiras” ( Sl 58:3 ).

Desde o ventre materno os homens alienam-se de Deus, pois a geração de Adão (semente) é o meio pelo qual os homens juntamente alienam-se de Deus “Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um” ( Sl 53:3 ). Andam errado desde que nascem porque passaram a trilhar um caminho que os conduz à perdição, visto que são transgressores sem causa “Confundidos serão os que transgridem sem causa” ( Sl 25:3 ). Falam mentiras porque falam segundo o seus corações, que é enganoso “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” ( Jr 17:9 ). Como a boca fala do que está cheio (pleno) o coração, segue que o homem fala mentira.

O melhor homem natural é comparável a um espinho, e o mais justo a uma cerca feita de espinhos “O melhor deles é como um espinho; o mais reto é pior do que a sebe de espinhos; veio o dia dos teus vigias, veio o dia da tua punição; agora será a sua confusão” ( Mq 7:4 ).

 

Dois Caminhos

“E porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem” ( Mt 7:14 )

Os homens não sabem que trilham um caminho de perdição, não escolheram entrar pela porta larga. São transgressores sem causa.

Porém, para louvor da sua graça e misericórdia, Cristo, o Verbo encarnado identificou-se como a porta estreita que conduz os homens a Deus. Ele é a porta predita pela qual os justos entram e tem acesso a Deus “Esta é a porta do SENHOR, pela qual os justos entrarão” ( Sl 118:20 ).

Os caminhos que os homens escolhem segundo o que presumem de si mesmos, não os livrará da condenação. Somente o caminho ensinado pelo Senhor é o que conduz à vida “Qual é o homem que teme ao SENHOR? Ele o ensinará no caminho que deve escolher” ( Sl 25:12 ).

O Senhor é bom, porque ensinou o caminho aos pecadores quando disse: Eu sou o caminho, a verdade e a vida “Bom e reto é o SENHOR; por isso ensinará o caminho aos pecadores” ( Sl 25:8 ).

Cristo é o bom pastor! Ele é quem ensina no caminho que o homem deve escolher “Está escrito nos profetas: E serão todos ensinados por Deus. Portanto, todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu vem a mim” ( Jo 6:45 ).

Quem não sabe o caminho, peça a Deus, que Ele ensinará “Ensina-me, SENHOR, o teu caminho, e guia-me pela vereda direita, por causa dos meus inimigos” ( Sl 27:11 ).

Devemos conhecer o caminho da vida, ou seja, estar unido a Cristo em um só corpo, pois o caminho dos ímpios perecerá ( Sl 1:6 ).

“Os dois caminhos” é uma grande parábola, e somente aqueles que são discípulos do Mestre a entendem “E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” ( Mc 4:34 ).

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O conselho dos ímpios

O que é necessário para que os homens deixem de ‘andar segundo o conselho dos ímpios’, ou de ‘se deter no caminho dos pecadores’ e ‘se assentar na roda dos escarnecedores’? Somente o novo nascimento é o que torna o homem bem-aventurado e sem qualquer vinculo com o conselho, o caminho e a roda dos escarnecedores ( Sl 1:1 ). Não é necessário aos cristãos deixarem de conviver com os ímpios para serem bem-aventurado.


“E, vendo todos isto, murmuravam, dizendo que entrara para ser hóspede de um homem pecador” ( Lc 19:7 ).

Para os escribas, fariseus e saduceus havia uma grande discrepância entre as Escrituras (o Antigo Testamento) e o comportamento de Jesus.

Certa feita, após convidar Mateus para segui-lo em seu ministério, Jesus assentou-se para comer, e vieram muitos publicanos e pecadores e assentaram-se com Ele e com os seus discípulos.

Os fariseus vendo que Jesus havia se assentado com os pecadores para comer, passaram a indagar: “Por que come o vosso mestre com os publicanos e pecadores?” ( Mt 9:10 -11).

Em outra ocasião uma grande multidão veio a Jesus para ouvi-lo, e os fariseus teceram um comentário semelhante: “Este recebe pecadores e come com eles” ( Lc 15:2 ).

Quando Jesus resolveu ser hospede de Zaqueu, o chefe dos publicanos ficou preocupado com o que os fariseus e os escribas estavam dizendo. A preocupação foi tamanha que ele propôs dar metade de seus bens aos pobres “E, vendo todos isto, murmuravam, dizendo que entrara para ser hóspede de um homem pecador” ( Lc 19:7 ).

Os fariseus e escribas estavam intrigados com o comportamento de Jesus. Para eles, um judeu deveria ao menos conhecer o que diz os salmos e a lei, e muito mais alguém que se propôs ensinar o povo. Como seria possível Jesus se assentar e comer com os pecadores (gentios) e ainda exercer o ofício de mestre?

Para os religiosos judeus era inadmissível a ‘miscigenação’ cultural entre judeus e outros povos. Eles não admitiam a mistura do que pensavam ser santo com o que consideravam profano.

Os lideres do povo de Israel consideravam serem santo por descender da carne de Abraão, e, portanto, não podiam conviver num mesmo recinto com pessoas de outras nações. Por outro lado, Jesus entrava e se assentava na casa de pecadores para comer com eles sem se importar com o prescrito no Salmo primeiro.

Na visão dos religiosos era inadmissível alguém que se dizia mestre contrariar o que diz o Salmo primeiro: “Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores” ( Sl 1:1 ).

Entrar na casa dos pecadores e assentar-se à mesa para comer, configura que Jesus assentou-se na roda dos escarnecedores? Ao andar com eles pelo caminho, Jesus se deteve no caminho dos pecadores? Ao conversar com os pecadores, Jesus andou segundo o conselho dos ímpios?

Como conciliar o Salmo primeiro e o fato de Jesus entrar, assentar, comer e se hospedar na casa de pecadores?

“BEM-AVENTURADO aquele que teme ao SENHOR e anda no seu caminho” ( Sl 128:1 )

O salmo 128 é claro: “Bem aventurado aquele que teme ao Senhor…”. É certo que há os que temem ao Senhor e são bem-aventurados, e os que não temem e estão sob maldição. Neste mesmo diapasão, há homens que andam no caminho que pertence ao Senhor, e os que não andam.

Qual é o caminho do Senhor? Qual o temor do Senhor?

Jesus disse: “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” (João 14: 6).

Os fariseus e escribas estavam diante do Caminho que conduz os homens a Deus, mas seguiam somente os intentos dos seus corações. Mesmo não se aproximando de pessoas tidas por eles como sendo pecadoras, trilhavam o caminho de perdição. Por outro lado, embora Jesus estivesse assentando na mesma mesa e comendo com os pecadores, Ele não estava assentado na roda dos escarnecedores. Embora Jesus andasse com os pecadores, Ele não andava segundo o conselho dos ímpios.

Andar, falar, conviver e comer com os pecadores não muda o fato de que Cristo é o caminho que conduz a Deus. Mesmo assentado e comendo com os pecadores, Jesus, o ‘Caminho’, e o caminho dos pecadores nem mesmo se cruzaram.

Mesmo que um cristão esteja assentado em uma mesma mesa comendo com um grupo de pessoas ímpias, o caminho dos ímpios é o caminho de perdição e o caminho do cristão é o caminho de salvação.

Se os escribas e fariseus entendessem que Adão é a porta larga que dá acesso ao caminho largo que conduz à perdição, e Cristo, o último Adão, a porta estreita e o caminho estreito que conduz à salvação, jamais estranhariam o fato de Jesus comer na mesma mesa com os pecadores, pois comer, assentar e andar com os ímpios não é o mesmo que trilhar o caminho dos pecadores.

O que é necessário para que um homem deixe de andar segundo o conselho dos ímpios, ou de se deter no caminho dos pecadores e se assentar na roda dos escarnecedores? Um novo nascimento é o que torna o homem bem-aventurado e sem qualquer vinculo com o conselho, o caminho e a roda dos escarnecedores ( Sl 1:1 ). Não é necessário aos cristãos deixarem de conviver com os ímpios para serem bem-aventurado.

Desde a madre os ímpios se alienam de Deus e andam por um caminho de perdição “Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, falando mentiras” ( Sl 58:3 ). Somente após o novo nascimento o homem volta a compartilhar da glória de Deus ( Jo 17:22 ), e a andar no seu caminho ( Sl 128:1 ).

O que diferencia os justos dos ímpios é a porta por onde entraram, e não as interações e relações que que travam neste mundo. O nascimento natural é a porta larga por onde todos os homens entram ao nascer, e o novo nascimento segundo o último Adão a porta estreita por onde poucos entram ao crer em Cristo ( Mt 7:13 ).

O conselho, o caminho e a roda dos ímpios teve origem na queda de Adão. O caminho do Senhor é Cristo, pois Ele é o temor do Senhor e o último Adão. Ele é a porta estreita por quem ou onde os homens devem entrar para seguir pelo caminho de salvação.

Ao nascer de novo, ou seja, ao entrar pela porta estreita, jamais será possível andar no caminho dos ímpios, mesmo se compartilhar os mesmos talheres, mesas, lugares, etc.

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A bem-aventurança pode ser segmentada?

Inúmeros religiosos dedicaram-se as causas sociais, mas não são participantes da bem-aventurança. Inúmeras freiras, padres, monges, rabinos, pastores levantaram o estandarte dos fracos e oprimidos e são indignos de receberem o reino dos céus. Qual ‘justiça’ foi alvo do discurso de Jesus quando anunciou a bem-aventurança ao povo de Israel e aos seus discípulos? A bem-aventurança é proveniente das virtudes humanas ou é dom de Deus? O homem precisa ser ‘digno’ da bem-aventurança ou é Deus quem os justifica?


Segmentar – v.t. – Reduzir a segmentos: segmentou o tronco da árvore. Tirar o segmento de algo. / V. pr. Partir-se em segmentos, dividir-se, parcelar-se.

Qual ‘justiça’ foi alvo do discurso de Jesus quando anunciou a bem-aventurança ao povo de Israel e aos seus discípulos? A bem-aventurança é proveniente das virtudes humanas ou é dom de Deus? O homem precisa ser ‘digno’ da bem-aventurança ou é Deus quem os justifica?

Ao ler um artigo intitulado “Bem-aventuranças não alcançadas”, não consegui esquivar-me desta análise. Assim diz o artigo:

“Percebo que não alcancei algumas virtudes; não me encaixo na bem-aventurança de Mateus 5.10 (…) Não posso me incluir nessa promessa porque nunca fiz vigília solitária nas calçadas dos hospitais públicos que desprezam o direito do pobre, nunca marchei pelos idosos ou me arrisquei por crianças abandonadas; não me amarrei a uma árvore para não permitir que ela fosse cortada pela gula da especulação imobiliária; não fiz greve de fome por nenhuma causa (…) Confesso. Ainda não me vejo digno da felicidade de receber o mesmo galardão dos profetas. Enquanto eles defenderam os órfãos e as viúvas, eu me contentei em pregar uma mensagem desencarnada. Por anos, falei do Céu para fugir das injustiças que me rodeavam; prometi salvação como forma de mitigar o sofrimento dos pobres…” Bem-aventuranças não alcançadas, Ricardo Gondim, Revista Enfoque Gospel, Edição 55, Maturidade Cristã.

Lemos nas escrituras que Deus é um Deus de justiça e que os que nele esperam são bem-aventurados “Pois o Senhor é um Deus de justiça. Bem-aventurados todos os que nele esperam” ( Is 30:18 b).

Confiar em Deus (esperar) é o único meio de o homem alcançar a bem-aventurança prometida. Assim sendo, Deus alerta o povo a esperar na justiça e salvação providenciada por ele.

Deus aponta o seu próprio braço (destra), Jesus Cristo-homem (o braço do Senhor desnudado perante a humanidade), como justiça e salvação manifesta ao alcance de todos os homens “Perto está a minha justiça, vem saindo a minha salvação, e os meus braços julgarão os povos; as ilhas me aguardarão, e no meu braço esperarão” ( Is 51:5 ).

Cristo foi manifesto aos homens na condição de servo do Senhor, oferta de bem-aventurança a todos os povos (judeus e gentios) “Eu, o SENHOR, te chamei em justiça, e te tomarei pela mão, e te guardarei, e te darei por aliança do povo, e para luz dos gentios” ( Is 42:6 ).

A justiça de Deus manifesta em Cristo estabeleceu paz entre Deus e os homens. Deus preparou salvação poderosa a todos “E o efeito da justiça será paz, e a operação da justiça, repouso e segurança para sempre” ( Is 32:17 ).

Deus chama todos os homens à sua justiça, pois todos andavam longe de Deus trilhando o caminho de perdição, longe da justiça “Ouvi-me, ó duros de coração, os que estais longe da justiça” ( Is 46:12 ).

Os apóstolos compreenderam que Cristo é a justiça de Deus manifesta aos homens. Entenderam que a lei e os profetas anunciaram a Cristo, o sol nascente das alturas “Mas agora se manifestou sem a lei a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas” ( Rm 3:21 ).

Ora, sabemos que a missão de Jesus não foi a de promover a justiça dos homens, antes tornou patente aos homens à justiça de Deus “Assim diz o SENHOR: Guardai o juízo, e fazei justiça, porque a minha salvação está prestes a vir, e a minha justiça, para se manifestar” ( Is 56:1 ).

Quando interpelado por alguém na multidão acerca da partilha de uma herdade, Jesus respondeu: “E disse-lhe um da multidão: Mestre, dize a meu irmão que reparta comigo a herança. Mas ele lhe disse: Homem, quem me pôs a mim por juiz ou repartidor entre vós?” ( Lc 12:13 -14). A missão de Jesus não se vincula as questões judiciais.

Jesus veio conceder vida e vida em abundância ( Jo 10:10 ). Ora, ele veio dar vida em abundancia para ricos e pobres, servos e livres, judeus e gregos, pois a vida não consiste na abundância de bens ( Lc 12:15 ).

Ao recomendar que Filemom recebesse de volta o seu escravo Onésimo, Paulo não levantou uma bandeira contra o regime de escravidão. Ele também não incita os cristãos que eram escravos a lutarem contra o sistema vigente à época “Foste chamado sendo servo? não te dê cuidado; e, se ainda podes ser livre, aproveita a ocasião” ( 1Co 7:21 ).

Por que Deus providenciou justiça aos homens? Porque a justiça dos homens é aquém da justiça de Deus. Porque a bíblia classifica a justiça dos homens como sendo trapos de imundície “Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia; e todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniquidades como um vento nos arrebatam” ( Is 64:6 ).

Isto por si só demonstra que, apesar dos homens instituírem tribunais e juízes sobre si, fazerem leis que norteiam os seus comportamentos, seguirem a moral e os bons costumes, serem redarguidos pela própria consciência e sabendo dar boas dádivas aos seus filhos, são maus diante de Deus ( Mt 7:11 ; Mt 12:34 ).

Os profetas protestavam contra o povo de que não havia sequer um homem que clamasse por justiça ( Is 59:4 ). Como? Nunca houve um injustiçado na história da humanidade que não tenha clamado por justiça? Ora, quando as calamidades sociais subverteram as sociedades do passado, nunca houve quem saísse às ruas para clamar pelo que é justo? Nunca houve dentre os homens alguém que tenha protestado veementemente em defesa da causa alheia?

Nunca houve na história da humanidade quem buscasse compreender e teorizar a respeito da justiça? Nunca houve quem buscasse organizar a sociedade através dos ideais de justiça em busca da felicidade coletiva?

Que se dirá das considerações gregas acerca da ‘polis’, que surgiu da ‘teia social’ estruturada na política e na organização sistemática do poder, como sendo o ‘locus’ da racionalidade e da felicidade humana?

A justiça da bem-aventurança deriva da concepção aristotélica: ‘virtude ética’, e nada mais? Jesus alguma vez demonstrou que o exercício da razão estabelece o que é justo e injusto? Quem praticar ‘atos justos’ é um homem bom diante de Deus? Basta alguém resignar-se a sofrer a injustiça do que praticá-la contra outrem que será um bem-aventurado?

Se não há homem justo sobre a terra, quem dentre os homens herdará o reino dos céus por ter sido perseguido por causa da justiça? ( Ec 7:20 ; Mt 5:10 ).

Quais as virtudes humanas devem ser cultivadas para se alcançar a bem-aventurança? Para aqueles que querem alcançar a Deus através de suas obras, boas ações, esmolas, etc., Deus avisa: “Eu publicarei a tua justiça, e as tuas obras, que não te aproveitarão” ( Is 57:12 ).

Mas, como Deus é Deus de justiça e aqueles que nele esperam são bem-aventurados, temos que a bem-aventurança prometida por Cristo não tem como ser segmentada. Ou o homem é bem-aventurado ou não é.

Os pobres de espírito e os que choram são as mesmas pessoas. Quando Jesus disse que o reino dos céus pertence aos pobres de espírito, os que choram também são os pobres de espírito. Quem recebe como herança o reino dos céus é porque foi consolado por Deus ( Mt 5:3 -4).

Não há como ser ‘manso’ sem ter ‘sede e fome de justiça’. Não há como ‘herdar a terra’ sem antes estar ‘saciado de justiça’, pois os mansos herdarão uma terra onde habita a justiça “Mas nós, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e nova terra, em que habita a justiça” ( 2Pe 3:13 ; Mt 5:5 -6;).

Quem são os misericordiosos, senão aqueles que verão a Deus? Quem são chamados de ‘filhos de Deus’ senão aqueles que são perseguidos? ( 2Tm 3:12 ).

Ora, somente os pobres de espírito reconhecem as suas misérias e aceitam o convite para o banquete divino: “Ó vós, todos os que tendes sede, vinde às águas, e os que não tendes dinheiro, vinde, comprai, e comei! Vinde, comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite” ( Is 55:1 ).

Quem se considera abastado por ter trabalhado (obra), e que tem recursos para a salvação, rejeita o pão da vida, rejeita o que é bom e que traz deleite para alma sedenta. Só o que é oferecido gratuitamente por Deus pode satisfazer o que Ele exige ( Is 55:2 ).

Os pobres de espírito choram as suas misérias, mas são consolados mediante a justiça de Deus, que é Cristo. O resultado é descanso, repouso, paz e segurança! ( Is 32:17 ).

Os mansos são aqueles que aceitaram o convite de Cristo “Vinde a mim…” ( Mt 11:28 ), Aquele que é humilde e manso de coração ( Mt 11:29 ). Ora, não basta ser humilde e manso na conduta, pois Moisés foi o homem mais manso da terra, porém, não entrou na terra prometida. Mas, os que vieram a Cristo, o Mestre por excelência, deles é a terra onde habita a justiça.

Quem come da carne e bebe do sangue de Cristo mata a fome e a sede de justiça ( Jo 6:55 ). Aqueles que estão de posse da salvação são designados misericordiosos, puros de coração, pois através da palavra de Deus, a semente incorruptível, foi criado neles um novo coração puro e um espírito reto ( Sl 51:10 ; Ef 4:24 ).

Os pacificadores também são chamados de filhos de Deus, uma vez que foi lhes confiado o evangelho da reconciliação que estabelece a paz entre Deus e os homens ( 2Co 5:19 ).

Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça. Embora sejam felizes por lhes pertencer o reino dos céus, sofrem perseguições, pois a Justiça de Deus revelada aos homens vaticinou: “Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” ( Jo 16:33 ).

Cristo predisse as aflições para que os seus seguidores permanecerem descansados, pois bem-aventurados seriam quando fossem injuriados e perseguidos por causa do evangelho “Basta ao discípulo ser como seu mestre, e ao servo como seu senhor. Se chamaram Belzebu ao pai de família, quanto mais aos seus domésticos?” ( Mt 10:25 ).

Ora, basta confiar no Senhor que o crente torna-se participante da bem-aventurança prometida. O que Jesus prometeu e concede aos seus não é conforme as coisas deste mundo. Primeiro porque não somos deste mundo e o mundo nos odeia ( Jo 15:18 ). Segundo, a paz de Deus não é conforme a paz do mundo, e Cristo mesmo disse que não a concede do mesmo modo que o mundo a dá ( Jo 14:27 ).

A promessa de bem-aventurança foi feita antes dos tempos dos séculos, e todas as promessas de Deus cumprem-se em Cristo “Porque todas quantas promessas há de Deus, são nele sim, e por ele o Amém, para glória de Deus por nós” ( 2Co 1:20 ).

Jesus alertou: “Porque os pobres sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre me tendes” ( Jo 12:8 ). Este alerta demonstra que Jesus não veio apregoar um evangelho de cunho social. Ele não veio trazer uma revolução sócio-econômica. Ele não veio falar contra as injustiças sociais e nem contra o modelo social adotado pelos homens.

Ora, seria um contra-senso Cristo lutar contra o governo constituído à época, se todo poder dado aos homens foi concedido por Deus “Respondeu Jesus: Nenhum poder terias contra mim, se de cima não te fosse dado; mas aquele que me entregou a ti maior pecado tem” ( Jo 19:11 ).

Jesus é claro: “Porque qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas, qualquer que perder a sua vida por amor de mim e do evangelho, esse a salvará” ( Mc 8:35 ), ele não deu esperança com relação a este mundo, pois o seu reino não é deste mundo “Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” ( Jo 18:36 ).

Enquanto os gregos tinham na sabedoria o meio de estabelecer alegria na ‘polis’, Cristo promete a bem-aventurança no seu reino através da loucura da pregação. Enquanto os judeus criam que teriam pão e um reino aqui, Jesus apresentou o escândalo da cruz, dando a sua carne a comer e o seu sangue a beber.

Ora, Jesus não trouxe paz, mas espada! Ou seja, ele trouxe justiça através da sua morte. Para o velho homem gerado em Adão resta a morte (espada) para que na nova criatura seja estabelecida a justiça de Deus ( Mt 10:34 ).

A espada representa morte e justiça. Como o salário do pecado é a morte, e somente a morte livra o escravo do pecado de seu senhor, aquele que toma a sua própria cruz e segue após Cristo, é morto sepultado e ressurge uma nova criatura, onde se estabelece a justiça de Deus.

Que bem o homem fará para alcançar a bem-aventurança? Agarrar-se às suas virtudes? Ser religioso? Virar um mártir? Levantar uma bandeira ideológica? Doar todos os bens? Dar o seu próprio corpo a ser queimado?

Eliú disse bem: “Se és justo, que dás, ou que recebe Ele das suas mãos? A tua impiedade fará mal apenas a outro homem como tu, e a tua justiça só aproveitará aos filhos dos homens” ( Jó 35:7 -8; Jó 41:11 ).

É possível a quem espera no Senhor não ter a graça da bem-aventurança prometida? Quem espera no Senhor precisa de suas virtudes para alcançar a alegria da salvação? Como pode um soldado alistado para a guerra se embaraçar com negócios desta vida? ( 2Tm 2:4 ).

Ora, é válido a um cristão ser um cidadão ativo em sua comunidade, porém, não pode excluir-se da graça de Deus por causa de questões humanas e sociais. Não somos nós que nos incluímos nas promessas de Deus, antes, Ele as prometeu antes dos tempos dos séculos “Em esperança da vida eterna, a qual Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos dos séculos” ( Tt 1:2 ).

A bem-aventurança não é por obra para que ninguém se glorie, portanto não é fazendo boas ações aos pobres, crianças e velhos que se alcança a alegria prometida. A bem-aventurança prometida é concedida aos homens através da virtude daquele que chama, e não daquele que é chamado ( 2Pe 1:3 ).

A bem-aventurança não é alcançada através de reivindicação, mas por fé, a fé que foi concedida aos santos ( Jd 1:3 ). Como reivindicar o que Deus nos oferece gratuitamente? Quem tiver fome e sede que venha comprar sem dinheiro e sem preço vinho e leite. Quem trabalha (obra) gastando os seus recursos (dinheiro) com o que não pode satisfazer, não verá a Deus.

Inúmeros religiosos dedicaram-se as causas sociais, mas não são participantes da bem-aventurança. Inúmeras freiras, padres, monges, rabinos, pastores levantaram o estandarte dos fracos e oprimidos e são indignos de receberem o reino dos céus.

A teologia da libertação não é o evangelho de Cristo, pois o evangelho é poder de Deus. Não é uma ideologia, um segmento político, a bandeira dos necessitados de bens materiais, etc. A concepção de que Deus está nos pobres, nos miseráveis, nos mendigos, nos desassistidos, etc., não é conforme o evangelho de Cristo.

Ao anunciar o evangelho, Jesus ocupou-se com os pobres de espírito, e não dos pobres desprovidos de bens materiais. Há pobres de espírito que são ricos e pobres de espírito que são paupérrimos, homens e mulheres, grandes e pequenos, pois todos quantos o receberem receberão poder para serem feitos (criados) filhos de Deus, com direito a bem-aventurança prometida.

Há ricos e pobres neste mundo que rejeitam a graça de Deus por considerarem que estão abastados espiritualmente. Este foi o caso dos judeus, tanto pobres quanto ricos financeiramente, acharam que já eram bem-aventurados por serem descendestes de Abraão.

Porém, a igreja de Deus, o corpo de Cristo é constituído de judeus, gregos, servos, livres, macho, fêmea, pobres, ricos, pois todos são um em Cristo ( Gl 3:28 ).

Outros, por serem membros ou simpatizantes dos zelotes, seita e partido político judaico militar e revolucionário, pensavam estar conquistando a bem-aventurança prometida quando pegavam em armas. Eles pensavam que já estavam abastados espiritualmente, pois eram perseguidos pelos romanos por causa da pretensa causa justa.

Que dizer dos Macabeus? Judas Macabeu foi bem-aventurado por causa da sua resignação e força? É possível alcançar a bem-aventurança proposta quando se esquece da determinação divina: não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito!?

Paulo reitera a condição dos que crêem em Cristo: “Todos vós sois filhos de Deus pela fé em Cristo” ( Gl 3:26 ). João alerta: “E somos mesmo seus filhos!” ( 1Jo 3:1 b). Os cristãos são casas espirituais, templo e morada de Deus “Se pelo nome de Cristo sois vituperados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o Espírito da glória e de Deus; quanto a eles, é ele, sim, blasfemado, mas quanto a vós, é glorificado” ( 1Pe 4:14 ).

Ora, como cristão é dado padecer ou não por amor a justiça. Pedro alerta: “Se padecerdes…”, ou seja, padecer não é condição essencial a bem-aventurança, e sim, um de seus aspectos neste mundo “Mas também, se padecerdes por amor da justiça, sois bem-aventurados. E não temais com medo deles, nem vos turbeis” ( 1Pe 3:14 ).

É fato que tivemos grandes lideres humanitários ao longo da história da humanidade. Devemos a estes homens inúmeras conquistas nas áreas trabalhistas, sociais, direitos humanos, racial, étnico, liberdade de culto, expressão, etc. Cada um tem seus méritos e virtudes, e se tentarmos enumerar, seremos injustos com muitos, pois não é possível listar todos os grandes homens.

Contudo, quando falamos da bem-aventurança prometida por Deus antes dos tempos eternos, não é a dignidade, a humildade, a resignação, a bondade, etc., que fará do homem imbuído destes valores um dos filhos de Deus (bem-aventurados).

Devemos separar as questões acerca da perseguição por causa do evangelho, e as perseguições por causa de questões institucionais, ideológicas, religiosas e sociais. Enquanto esta surge quando nos intrometemos em questões alheias ou defendemos o que nos é de direito, aquela só ocorre quando se anuncia o evangelho que é poder para os que se salvam e escândalo e loucura para os que perecem.

Que bem-aventurança foi destinada aos profetas do passado, se o menor do reino de Deus é maior que João Batista? “Em verdade vos digo que, entre os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém maior do que João o Batista; mas aquele que é o menor no reino dos céus é maior do que ele” ( Mt 11:11 ).

Não podemos transtornar a mensagem da cruz, uma vez que é através da loucura da pregação que se alcança a bem-aventurança “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação” ( 1Co 1:21 ). Não podemos introduzir questões humanas na mensagem do evangelho, pois surgirá um outro evangelho inócuo para promover a bem-aventurança prometida. Se excluirmos o escândalo e a loucura da pregação, não haverá salvação.

Ora, se alguém ensinar outra doutrina que não se conforma com as sãs palavras de Cristo, doutrina que é segundo o amor de Deus, não guarda o mandamento de Cristo imaculado e irrepreensível ( 1Tm 6:3 e 14). Acabará corrupto de entendimento e privado da verdade! ( 1Tm 3:8 ).

A verdade do evangelho demonstra que é impossível ser um dos filhos de Deus e não ser bem-aventurado. A bem-aventurança não pode ser segmentada!

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