O arrebatamento da Igreja

A orientação paulina é para que os cristãos não fiquem preocupados ou, assustados com o arrebatamento da Igreja, pois o dia do Senhor só surpreenderá quem está nas trevas.

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Ficarão de fora os cães

Na Bíblia os profetas são apresentados como ‘atalaias’, homens que alertavam os moradores de Israel anunciando a palavra do Senhor. O profeta Habacuque era uma atalaia, pois ao ver a iniquidade do povo dava o alarde gritando: – “Violência, violência”! ( Hc 1:2 ). Esta violência trouxe a justa retribuição de Deus através dos caldeus conforme o predito pelo profeta Moisés.


“Ficarão de fora os cães e os feiticeiros, e os que se prostituem, e os homicidas, e os idólatras, e qualquer que ama e comete a mentira” ( Ap 22:15 )

 

Introdução

O termo ‘cães’ no verso: “Ficarão de fora os cães…” ( Ap 22:15),  não é um xingamento derivado de um destempero emocional de seu locutor. Essa assertiva foi feita pelo Senhor Jesus Cristo glorificado e registrado pelo apóstolo João no livro do Apocalipse com a finalidade de alertar os cristãos acerca da iminente volta de Cristo ( Ap 22:20 ).

O Senhor Jesus, neste alerta, não trata de animais irracionais, quer sejam animais domésticos ou animais que sobrevivem na natureza. Vale destacar que os animais quando morrem, até mesmo os de estimação, não irão ao céu e nem a nenhuma outra parte. Não existe céu e nem inferno para animais. Um animal, após o termino das funções vitais deixa de existir, ou seja, animais não ‘ressurgem’.

Durante o seu ministério terreno Jesus utilizou vários termos como ‘víboras’, ‘loucos’, ‘ignorantes’, ‘cegos’, ‘cães’, em suas pregações, mas não tinha a intenção de ofender os seus interlocutores. Na verdade Jesus utilizou estes termos em seus ensinos para evidenciar aos seus ouvintes que eles estavam em igual condição que a dos seus antepassados que morreram durante a peregrinação no deserto ( Hb 1:1- 2; Jo 6:49 ), pois estes termos foram amplamente empregados pelos profetas.

 

Termos e figuras

Verifica-se nas Escrituras que os profetas utilizaram termos que remontam a algumas figuras para esclarecer e evidenciar a condição e algumas situações envolvendo o povo de Israel ( Jr 5:4 ; Dt 32:6 ).

Para compreendermos o significado de alguns termos ou interpretar as figuras utilizadas, tanto por Jesus quanto pelos apóstolos, primeiro é necessário entender como os profetas fizeram uso de tais elementos.

Ora, não convém ao leitor da Bíblia estabelecer, através das próprias conjecturas e suposições, o significado das figuras e das parábolas anunciadas por Cristo e os apóstolos, visto que eles mesmos afirmam que tiveram o cuidado de serem fiéis às Escrituras quando falavam ao povo.

Fidelidade ao mandamento de Deus era o compromisso de Cristo: “E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito” ( Jo 12:50 ). E este era o posicionamento do apóstolo Pedro: “E temos, mui firme, a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia amanheça, e a estrela da alva apareça em vossos corações” ( 2Pd 1:19 ). Neste mesmo diapasão segue o apóstolo dos gentios: “Mas, alcançando socorro de Deus, ainda até ao dia de hoje permaneço dando testemunho tanto a pequenos como a grandes, não dizendo nada mais do que o que os profetas e Moisés disseram que devia acontecer” ( At 26:22 ).

Isto significa que o interprete não pode dar significado aos termos e figuras por si mesmo, antes deve se socorrer do significado que a própria Bíblia apresenta.

 

Atalaia

“ENTÃO disse o SENHOR a Moisés: Eis que te tenho posto por deus sobre Faraó, e Arão, teu irmão, será o teu profeta. Tu falarás tudo o que eu te mandar; e Arão, teu irmão, falará a Faraó, que deixe ir os filhos de Israel da sua terra” ( Ex 7:1-2);

“Filho do homem: Eu te dei por atalaia sobre a casa de Israel; e tu da minha boca ouvirás a palavra e avisá-los-ás da minha parte ( Ez 3:17 ; Ez 33:7 ).

O livro do Êxodo explica que profeta é aquele que tem a incumbência de retransmitir aquilo que especificamente ouviu de Deus. Quando Moisés e Arão foram a Faraó, Deus colocou Moisés como deus sobre Faraó e Arão como ‘profeta’ de Moisés, e a relação que se estabeleceu entre Moisés e Arão deixa claro qual é a missão do profeta “Porém o profeta que tiver a presunção de falar alguma palavra em meu nome, que eu não lhe tenha mandado falar, ou o que falar em nome de outros deuses, esse profeta morrerá” ( Dt 18:20 ).

Através da palavra dada ao profeta Ezequiel, verifica-se que Deus associa o oficio de profeta à função da atalaia.

A função da atalaia (sentinela) é vigiar, e para exercer o seu papel necessita estar em um lugar alto que proporcione uma visão ampla afim de que possa ver o perigo ao longe e dar o aviso em tempo hábil.

Por causa da importância e responsabilidade inerente à função de atalaia, verifica-se que há similaridade entre a incumbência do profeta com a função da atalaia, de modo que do ponto de vista bíblico ‘atalaia’ significa profeta. Isto por si só demonstra que a Bíblia possui terminologias próprias.

Para exercer bem a função de atalaia em Israel, ou seja, avisar o povo do perigo, os profetas deveriam estar em Deus, o altíssimo, mas muitos profetas em Israel prevaricaram na sua atribuição “Os sacerdotes não disseram: Onde está o SENHOR? E os que tratavam da lei não me conheciam, e os pastores prevaricavam contra mim, e os profetas profetizavam por Baal, e andaram após o que é de nenhum proveito” ( Jr 2:8 ).

Além da figura da ‘atalaia’, nas profecias há a figura do ‘cão mudo’ para representar aqueles profetas que não falam o que Deus ordenou:

“Todos os seus atalaias são cegos, nada sabem; todos são cães mudos, não podem ladrar; andam adormecidos, estão deitados, e gostam do sono” ( Is 56:10 )

Pela similaridade que há entre a função da atalaia e do cão de guarda, é introduzida a figura do ‘cão mudo’ para descrever os profetas de Israel. No que diz respeito à vigilância, o cão desempenha o mesmo papel que a sentinela, pois tem a audição e o olfato apurado e dá o alarde quando sente qualquer aproximação.

A atalaia cega não dá o alarde porque nada sabe. Já o cão mudo não dá o aviso pela impossibilidade de ladrar (latir).

 

O desvio das atalaias e do povo

Apesar de Deus ter instituído profetas como atalaias em Israel, tanto as atalaias quanto a nação rejeitaram ouvir a palavra de Deus “Também pus atalaias sobre vós, dizendo: Estai atentos ao som da trombeta; mas dizem: Não escutaremos” ( Jr 6:17 ); “A quem falarei e testemunharei, para que ouça? Eis que os seus ouvidos estão incircuncisos, e não podem ouvir; eis que a palavra do SENHOR é para eles coisa vergonhosa, e não gostam dela” ( Jr 6:10 ); “Porque desde o menor deles até ao maior, cada um se dá à avareza; e desde o profeta até ao sacerdote, cada um usa de falsidade” ( Jr 6:13 ; Jr 8:10 ).

Os profetas ensinavam mentiras, ou seja, falavam visões segundo os seus corações enganosos, e não da parte do Senhor “Assim diz o SENHOR acerca dos profetas que fazem errar o meu povo, que mordem com os seus dentes, e clamam paz; mas contra aquele que nada lhes dá na boca preparam guerra” ( Ml 3:5 ; Jr 23:16 ). Na verdade desencaminhavam ainda mais um povo que já era propenso a errar ( Os 11:7 ; Jr 50:6 ).

Como os profetas não davam o alarde e o povo rejeitava a palavra do Senhor, todos estavam alheios ao mau que estava por vir, pois Deus estava suscitando contra Israel inúmeros inimigos dentre os povos vizinhos ( Jr 6:19 -23).

 

A profecia de Moisés

Os filhos de Israel profanaram a aliança de Deus, ou seja, não fizeram justiça ( Dt 6:25 ), e as pragas preditas por Moisés estavam por se abater sobre o povo de Israel ( Dt 28:15 -68).

Dentre as pragas previstas por Moisés estava o levante de nações inimigas que viriam de terras longínquas e dominaria sobre a nação de Israel “O SENHOR levantará contra ti uma nação de longe, da extremidade da terra, que voa como a águia, nação cuja língua não entenderás; Nação feroz de rosto, que não respeitará o rosto do velho, nem se apiedará do moço” ( Dt 28:49 -50).

O profeta Habacuque cônscio da sua função, alardeou: “SOBRE a minha guarda estarei, e sobre a fortaleza me apresentarei e vigiarei, para ver o que falará a mim, e o que eu responderei quando eu for arguido” ( Hc 2:1 ).

Habacuque estava sabia que, como profeta, era uma ‘atalaia’ de Deus em Israel. A função dele era estar de ‘vigia’, assim como uma atalaia permanece vigilante em seu posto. E o que Habacuque estava à espera? Esperava ouvir o que Deus falaria acerca do seu povo.

Isto não quer dizer que Habacuque estava encarregado de vigiar os muros e os portões da cidade, função esta que cabia aos soldados e vigias. A função de Habacuque era esperar o que Deus havia de falar, pois só podia anunciar o que Deus dissesse ( Hc 2:1 ).

Deus anunciou que havia de fazer uma obra tal que os filhos de Israel não creriam quando fosse anunciada ( Hb 1:5 ), ou seja, Deus estava levantando os caldeus – nação gentílica – como vara de correção contra Israel, e Habacuque estava incumbido de anunciar que estes eventos ocorreriam em função da rebeldia dos filhos de Israel.

Sem compreender o motivo de Deus suscitar uma nação gentílica para punir o seu povo, Habacuque se posta vigilante como uma atalaia a espera de uma resposta de Deus.

Lembre-se que Habacuque não era um soldado em um posto de observação (sentinela) com a missão de dar o alarde caso identificasse uma invasão inimiga, antes ele estava aguardando, como uma atalaia, para compreender o que Deus havia falado.

Nas escrituras os profetas são apresentados como ‘atalaias’, homens que alertavam os moradores de Israel anunciando a palavra do Senhor. O profeta Habacuque era uma atalaia, pois ao ver a iniquidade do povo dava o alarde gritando: – “Violência, violência”! ( Hc 1:2 ). Esta violência trouxe a justa retribuição de Deus através dos caldeus conforme o predito pelo profeta Moisés.

O profeta Isaias como atalaia também anunciou o castigo do Senhor conforme o que foi predito por Moisés em Deuteronômio: “Vós, todos os animais do campo, todos os animais dos bosques, vinde comer” ( Is 56:9 ). As nações inimigas são representadas nas Escrituras através de figuras de alimárias do campo, como leão, leopardo, urso, etc., daí o convite a ‘todos os animais do campo’.

O convite para que se aproximassem e comessem é feito às nações inimigas, e Israel é o banquete “Por isso um leão do bosque os feriu, um lobo dos desertos os assolará; um leopardo vigia contra as suas cidades; qualquer que sair delas será despedaçado; porque as suas transgressões se avolumam, multiplicaram-se as suas apostasias” ( Jr 5:6 ).

Israel estava para ser punido através das nações inimigas (os animais do campo) por ser rebelde, e conforme o predito pelos profetas, ocorreu às invasões dos povos vizinhos: Babilônia (leão), Medos-Persas (urso, carneiro) e Gregos (leopardo, bode) “Serei, pois, para eles como leão; como leopardo espiarei no caminho. Como ursa roubada dos seus filhos, os encontrarei, e lhes romperei as teias do seu coração, e como leão ali os devorarei; as feras do campo os despedaçarão” ( Os 13:7 -9).

A mesma mensagem anunciando a derrocada dos filhos de Israel foi anunciada por profetas que foram perseguidos e mortos, enquanto que, os muitos falsos profetas em Israel, que rejeitavam anunciar a palavra do Senhor, foram acolhidos pelo povo.

 

Cães que não ladram

Quando Isaias disse que os profetas de Israel eram cegos e nada sabiam, nada sabiam mesmo. Desconheciam que por esquecer de Deus, Israel foi dado por presa às nações vizinhas, a justa retribuição de Deus por causa da rebeldia do povo “Então se dirá: Porquanto deixaram a aliança do SENHOR Deus de seus pais, que com eles tinha feito, quando os tirou do Egito;” ( Dt 29 : 25 )

Além da punição iminente, as atalaias de Israel também precisavam ver e anunciar que a ‘salvação de Deus’ estava prestes a se manifestar ( Is 56:1 ).

Os filhos de Israel precisavam distinguir a justiça manifesta na punição com deportação e exilio, da justiça de Deus que seria manifesta a todos os povos através da encarnação de Cristo. Por causa da rebeldia de Israel, Deus faz um convite aos animais do campo e as feras dos bosques para que viessem comer ( Is 56:9 ). O que isto significa? A invasão das nações vizinhas e o exílio!

Antes de fazer uso do termo ‘cães’ no verso 10 do capítulo 56, Isaias profetizou que a justiça de Deus estava prestes a se manifestar, ou seja, Cristo ( Is 56:1 ), e seria bem-aventurado aquele que O obedecesse, assim como foi obediente o crente Abraão  ( Is 56:2 ).

As atalaias precisavam divulgar que ‘estrangeiros’ seriam congregados ao rebanho do Senhor ( Is 56:4 -5). Era imprescindível às atalaias anunciarem que a casa de Deus é casa de oração para todos os povos, no entanto, muitos profetas de Israel desconheciam estas verdades ( Is 56:7 ).

É em função deste quadro de letargia diante da palavra de Deus que Isaias declara que os atalaiais de Israel eram cegos! O que pode fazer uma sentinela cega? Como pode uma atalaia alardear a cidade que ela está em perigo se a atalaia é cega, não vê o perigo? “Todos os seus atalaias são cegos, nada sabem; todos são cães mudos, não podem ladrar; andam adormecidos, estão deitados, e gostam do sono” ( Is 56:10 ).

O profeta Isaias compara os profetas de Israel a cães adormecidos, deitados e que amam o tosquenejar. São descritos como gulosos e que nunca se fartam ( Is 56:11 ).

A função da atalaia é a mesma de um cão de guarda, atribuições que, bem desempenhada, remete à figura de um pastor.

Um pastor que não compreende o seu papel, que nada sabe e segue os seus próprios devaneios é um mercenário, pois satisfaz a sua ganancia e conduz o rebanho para o abismo. É por isso que Isaias descreve os filhos de Israel andando como cegos, tropeçando ao meio-dia “Apalpamos as paredes como cegos, e como os que não têm olhos andamos apalpando; tropeçamos ao meio-dia como nas trevas, e nos lugares escuros como mortos” ( Is 59:10 ).

É em função desta descrição do profeta Isaias que Jesus declarou que todos os que vieram antes d’Ele eram ladrões e salteadores “Todos quantos vieram antes de mim são ladrões e salteadores; mas as ovelhas não os ouviram” ( Jo 10:8 ), pois todos os pastores em Israel não conheciam a Deus e seguiam as elucubrações de seus corações cheios de engano, o que não é bom “E estes cães são gulosos, não se podem fartar; e eles são pastores que nada compreendem; todos eles se tornam para o seu caminho, cada um para a sua ganância, sem exceção” ( Is 56:11 ; Is 66:3 ; Jr 50:6 ).

Isaias desempenhava a sua função de atalaia fiel, pois alertava os filhos de Israel dizendo: “Surdos, ouvi, e vós, cegos, olhai, para que possais ver” ( Is 42:18 ). Mas, como não atendiam e nem entendiam a palavra do Senhor, foi derramado sobre Israel a indignação da ira de Deus “Mas este é um povo roubado e saqueado; todos estão enlaçados em cavernas, e escondidos em cárceres; são postos por presa, e ninguém há que os livre; por despojo, e ninguém diz: Restitui. Quem há entre vós que ouça isto, que atenda e ouça o que há de ser depois? Quem entregou a Jacó por despojo, e a Israel aos roubadores? Porventura não foi o SENHOR, aquele contra quem pecamos, e nos caminhos do qual não queriam andar, não dando ouvidos à sua lei? Por isso derramou sobre eles a indignação da sua ira, e a força da guerra, e lhes pôs labaredas em redor; porém nisso não atentaram; e os queimou, mas não puseram nisso o coração” ( Is 42:22 -25).

Quando Jesus veio, anunciou que a Sua missão era dar vista aos cegos. Os fariseus, por sua vez, questionaram se Jesus também estava dizendo que eles eram cegos. Se os fariseus reconhecessem que eram cegos, consequentemente se arrependeriam (metanoia) “E disse-lhe Jesus: Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não veem vejam, e os que veem sejam cegos. E aqueles dos fariseus, que estavam com ele, ouvindo isto, disseram-lhe: Também nós somos cegos? Disse-lhes Jesus: Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece” ( Jo 9:39 -41).

Daí o veredicto acerca dos fariseus: “Deixai-os; são condutores cegos. Ora, se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova” ( Mt 15:14 ).

Além de seguirem cada um por seu próprio caminho, os ‘pastores’ (cães cegos e mudos) que nada compreendiam sobre o que Isaias descreve, eram ‘loucos’, pois convocavam os seus adeptos a trazerem vinho para que juntos (profetas e povo) pudessem beber, ou seja, alegrarem-se. E qual o argumento da alegria? Que o dia de amanhã seria como o dia de hoje, ou muito melhor. Segundo a cegueira deles nada de ruim estava para acontecer ( Is 56:12 ).

Os falsos pastores embriagavam o povo com falsos discursos, dizendo que havia paz, porém, não havia paz! “Porquanto, sim, porquanto andam enganando o meu povo, dizendo: Paz, não havendo paz; e quando um edifica uma parede, eis que outros a cobrem com argamassa não temperada” ( Ez 13:10 ); “Nada sabem, nem entendem; porque tapou os olhos para que não vejam, e os seus corações para que não entendam” ( Is 44:18 ).

A cegueira dos filhos de Israel persistiu até a vinda de Cristo, a raiz de Davi “Disse-lhes Jesus: Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece” ( Jo 9:41 ). Cristo é o sol nascente das alturas para iluminar os que jazem em trevas, mas os líderes de Israel permaneciam às cegas ao meio dia “Disse-lhes, pois, Jesus: A luz ainda está convosco por um pouco de tempo. Andai enquanto tendes luz, para que as trevas não vos apanhem; pois quem anda nas trevas não sabe para onde vai. Enquanto tendes luz, crede na luz, para que sejais filhos da luz. Estas coisas disse Jesus e, retirando-se, escondeu-se deles” ( Jo 12:35 -36); “Pelas entranhas da misericórdia do nosso Deus, Com que o oriente do alto nos visitou; Para iluminar aos que estão assentados em trevas e na sombra da morte; A fim de dirigir os nossos pés pelo caminho da paz” ( Lc 1:78 -79); “Apalpamos as paredes como cegos, e como os que não têm olhos andamos apalpando; tropeçamos ao meio-dia como nas trevas, e nos lugares escuros como mortos” ( Is 59:10 ).

Os líderes de Israel eram condutores cegos (cães mudos, atalaias cegos), pois não perceberam que a justiça anunciada por Deus se manifestou quando nasceu um menino em Belém da Judeia na casa de Davi. A sabedoria deles pereceu, pois quando anunciada a obra maravilhosa de Deus – Cristo a luz do mundo – não creram conforme previu o profeta Isaias “Portanto eis que continuarei a fazer uma obra maravilhosa no meio deste povo, uma obra maravilhosa e um assombro; porque a sabedoria dos seus sábios perecerá, e o entendimento dos seus prudentes se esconderá” ( Is 29:14 ).

Ao discursar na sinagoga de Antioquia da Pisídia, o apóstolo Paulo alertou os judeus (irmãos segundo a carne) a crerem em Cristo sob pena de se cumprir o predito por Habacuque “Seja-vos, pois, notório, homens irmãos, que por este se vos anuncia a remissão dos pecados. E de tudo o que, pela lei de Moisés, não pudestes ser justificados, por ele é justificado todo aquele que crê. Vede, pois, que não venha sobre vós o que está dito nos profetas: Vede, ó desprezadores, e espantai-vos e desaparecei; Porque opero uma obra em vossos dias, Obra tal que não crereis, se alguém vo-la contar” ( At 13:38 -41 ); “Vede entre os gentios e olhai, e maravilhai-vos, e admirai-vos; porque realizarei em vossos dias uma obra que vós não crereis, quando for contada” ( Hc 1:5 ).

Além da punição iminente, as atalaias de Israel também precisavam ver e anunciar que a ‘salvação de Deus’ estava prestes a se manifestar ( Is 56:1 ). Os filhos de Israel precisavam distinguir a justiça manifesta na punição com deportação e exilio, da justiça de Deus que seria manifesta a todos os povos através da encarnação de Cristo, a raiz de Davi “Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção” ( 1Co 1:30 ).

 

A raiz de Davi

Cristo se identifica no Apocalipse como a raiz, a geração de Davi ( Ap 22:16 ), conforme profetizou Isaias: “PORQUE brotará um rebento do tronco de Jessé, e das suas raízes um renovo frutificará. E repousará sobre ele o Espírito do SENHOR, o espírito de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de conhecimento e de temor do SENHOR” ( Is 11:1 -2).

Cristo é um rebento (filho) do tronco (casa, família) de Jessé, o renovo do Senhor que frutificou na casa (descendência) de Davi. É este mesmo Jesus que anuncia através do evangelista João no Apocalipse que é a raiz, a geração de Davi.

Crer que Jesus de Nazaré é o rebento do tronco de Jessé é o mesmo que crer que Ele é filho de Davi, por conseguinte, filho de Deus “Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho” ( 2Sm 7:14 ). Ele é a luz que veio ao mundo para que os homens não andem em trevas, portanto, a resplandecente estrela da manhã “Pelas entranhas da misericórdia do nosso Deus, com que o oriente do alto nos visitou; Para iluminar aos que estão assentados em trevas e na sombra da morte; A fim de dirigir os nossos pés pelo caminho da paz” ( Lc 1:78 -79).

 

Convite aos sedentos

Deus disse a Abraão: “E em tua descendência serão benditas todas as nações da terra; porquanto obedeceste à minha voz” ( Gn 22:18 ).

O apóstolo Paulo interpretou esta promessa feita a Abraão como uma previsão de que Deus havia de salvar os gentios, portanto, o evangelho foi anunciado a Abraão quando na incircuncisão da carne, ou seja, Abraão era um gentio da cidade de Ur dos Caldeus quando Deus lhe fez uma promessa “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti” ( Gl 3:8 ).

Após muito tempo da promessa feita a Abraão em que em seu descendente todas as nações da terra seriam benditas, Isaías profetizou convidando todos os sedentos a virem às águas, e os que não tinham com que comprar, que viessem e comprasse sem preço vinho e leite ( Is 55:1 ).

E o que era necessário para os ‘sedentos’ e ‘famintos’ participarem da água, do pão e do leite oferecido por Deus? Inclinar os seus ouvidos, atender o convite, e em consequência, obteriam vida, pois Deus concederia as firmes beneficências prometidas a Davi ( Sl 55:3 ).

E no que consistia a firmes beneficências prometida a Davi? Um descendente de suas entranhas que teria o seu reino estabelecido para sempre e edificaria uma casa ao nome do Senhor ( 2Sm 7:12 ).

Aos sedentos e famintos não seria dado água que saciam a sede cotidiana e nem pão que mata a fome cotidiana, antes seria dado um ente santo, o descendente prometido a Davi, pois Ele é a água que jorra para a vida eterna e o pão que quem se alimenta obtém vida eterna “E Jesus lhes disse: Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome, e quem crê em mim nunca terá sede” ( Jo 6:35 ); “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” ( Is 9:6 ).

Por causa da promessa feita a Abraão, um menino foi dado por testemunho aos povos ( Is 9:6 ), como príncipe e governador dos povos e um povo que não conhecia ao Senhor concorreria para Deus e para o Santo de Israel ( Is 55:5 ).

O capítulo 55 de Isaias é uma profecia acerca da salvação de Deus anunciada a todos os povos: o descendente de Davi por testemunho e príncipe dos povos ( Is 55:4 ).

Deus prometeu salvação a todos os povos por intermédio do descendente prometido a Davi e Israel estava despercebido, alheio a voz de Deus. Na plenitude dos tempos, quando Deus enviou Jesus para salvação de todos os homens, os judeus aguardavam somente uma salvação nacional.

Cristo veio na casa de Davi conforme o predito pelos profetas ( Rm 1:3 ), e o salmista Davi previu que um ajuntamento de malfeitores cercaria e traspassaria as mãos e os pés de Cristo. Estes malfeitores são descritos como cães: “Pois me rodearam cães; o ajuntamento de malfeitores me cercou, traspassaram-me as mãos e os pés” ( Sl 22:16 ).

O Salmo 59 também faz referência aos ‘cães’ nomeando-os como sanguinários, iníquos, pérfidos, pois armam ciladas para matar o Cristo ( Sl 58:4 ). Uma características dos cães que é evidenciada no salmo é a boca, demonstrando que sua língua é como espada entre seus lábios ( Sl 59:7 ) “Que afiaram as suas línguas como espadas; e armaram por suas flechas palavras amargas” ( Sl 64:3 ); “A minha alma está entre leões, e eu estou entre aqueles que estão abrasados, filhos dos homens, cujos dentes são lanças e flechas, e a sua língua espada afiada” ( Sl 57:4 ).

O Salmo 22 descreve os opositores do Cristo como leões que abrem a boca e ruguem ( Sl 22:13 ), demonstrando que a força deles é a ‘espada’ que tem na boca, ou seja, uma língua mentirosa e perversa “Livra a minha alma da espada, e a minha predileta da força do cão” ( Sl 22:20 ;  Sl 59:5 -7); “Para que o teu pé mergulhe no sangue de teus inimigos, e no mesmo a língua dos teus cães” ( Sl 68:23 ); “Uma flecha mortífera é a língua deles; fala engano; com a sua boca fala cada um de paz com o seu próximo mas no seu coração arma-lhe ciladas” ( Jr 9:8 ).

Cristo é o pão e a água que Deus ofereceu por intermédio do profeta Isaias a todos os sedentos e famintos, mas a nação de Israel o rejeitou ( Is 55:7 ; Jo 1:11 ).

 

Os cães

Quem são os cães? Na Antiga Aliança os ‘cães’ eram os líderes da nação, sacerdotes e profetas de Israel, homens que tinham a missão de anunciar a palavra de Deus ao povo, porém, não anunciavam. Nos dias do Senhor Jesus aqui na terra os ‘cães’ remetia aos príncipes, sacerdotes, fariseus, escribas e juízes de Israel, que perseguiram e mataram o príncipe da vida. Em nossos dias os ‘cães’ são os maus obreiros, líderes religiosos que transtornam a verdade do evangelho ( Gl 1:7 ).

Ao utilizar o termo ‘cães’, o apóstolo Paulo conserva intacta a essência da figura, aplicando-a aos falsos mestres, no caso específico dos cristãos em Filipos, aos da circuncisão.

Os mestres da circuncisão eram atalaias cegas e que nada sabiam. Cães mudos que não ladravam. Eles estavam adormecidos e deitados, famintos e insaciáveis.

Enquanto a alegria dos cães está no vinho em que há contenda (afastamento da palavra de Deus), o apóstolo Paulo recomenda aos cristãos se alegrarem no Senhor “Quanto ao mais, irmãos meus, regozijai-vos no Senhor…” ( Fl 3:1 ). Ora, os fariseus eram denominados ‘insensatos’, ‘loucos’ e ‘cegos’ por não compreenderem a vontade de Deus, visto que estavam embriagados com vinho. Mas, aqueles que são cheios do Espírito não são insensatos, pois entendem a vontade do Senhor “Por isso não sejais insensatos, mas entendei qual seja a vontade do Senhor. E não vos embriagueis com vinho, em que há contenda, mas enchei-vos do Espírito” ( Ef 5:17 -18).

Daí a ordem expressa: “Guardai-vos dos cães, guardai-vos dos maus obreiros, guardai-vos da circuncisão” ( Fl 3:2 ).

Qualquer atalaia, profeta, ministro, etc., que anuncie uma mensagem que não é conforme o evangelho de Cristo é um ‘cão mudo’, ‘um mau obreiro’.

Há várias descrições dos maus obreiros nas cartas dos apóstolos que nos remente às mesmas características dos ‘cães’ apresentado pelo profeta Isaias: gulosos e que não se fartam ( Is 56:11 ). Geralmente os apóstolos se referiam aos maus obreiros através de algumas características dos cães mudos, e todas elas aplicam-se aos maus obreiros:

  • Gulosos que não se fartavam;
  • Pastores que nada compreendem;
  • Cada qual segue seu próprio caminho: a ganância.

Ora, os opositores do evangelho, na época dos apóstolos, se diziam mestres da lei, porém, a própria escrituras depunham contra eles dizendo que estavam de olhos vedados para não ver e nem entender (pastores que nada compreendem) “Querendo ser mestres da lei, e não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam” ( 1Tm 1:7 ; Is 44:18 ).

O apostolo Paulo teve que deixar Timóteo em Éfeso com a incumbência de dissuadir qualquer que se propunha a ensinar outra doutrina que não o evangelho, nem que se ocupasse com fábulas (filosofia grega) ou genealogias (judaísmo) ( 1Tm 1:6 ). Isto porque alguns se desviaram de obedecer (amor) ao evangelho (mandamento) e se entregaram a discursos vãos ( 1Tm 1:5 ).

Ao escrever aos Romanos o apostolo alerta que tais homens serviam ao seu próprio ventre (cães gulosos), enganando com suaves palavras e lisonjas os incautos “Porque os tais não servem a nosso Senhor Jesus Cristo, mas ao seu ventre; e com suaves palavras e lisonjas enganam os corações dos simples” ( Rm 16:18 ).

A descrição dos ‘cães’ é apresentada aos filipenses no verso 19 do capítulo 3: “Cujo fim é a perdição; cujo Deus é o ventre, e cuja glória é para confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas” ( Fl 3:19 compare com Cl 3:1 ). Por estarem a serviço do próprio ventre, tais homens têm o seu foco somente em questões terrenas.

Estes falsos mestres não passam de ‘mercenários’, ‘cães gulosos’, pois apascentam a si mesmos “Estes são manchas em vossas festas de amor, banqueteando-se convosco, e apascentando-se a si mesmos sem temor; são nuvens sem água, levadas pelos ventos de uma para outra parte; são como árvores murchas, infrutíferas, duas vezes mortas, desarraigadas” ( Jd 1:12 ).

Em lugar de pensarem nas coisas que são de cima, os cães fixam-se nas coisas terrenas. O deleite deles não é o mandamento do Senhor, e sim o engano “Recebendo o galardão da injustiça; pois que tais homens têm prazer nos deleites quotidianos; nódoas são eles e máculas, deleitando-se em seus enganos, quando se banqueteiam convosco” ( 2Pd 2:13 ).

Enquanto o apóstolo Paulo se resignava a anunciar somente o que os profetas disseram, os maus obreiros vão além do que está escrito. Observe o posicionamento do apóstolo Paulo:

“Por isso, ó rei Agripa, não fui desobediente à visão celestial. Antes anunciei primeiramente aos que estão em Damasco e em Jerusalém, e por toda a terra da Judéia, e aos gentios, que se emendassem e se convertessem a Deus, fazendo obras dignas de arrependimento. Por causa disto os judeus lançaram mão de mim no templo, e procuraram matar-me. Mas, alcançando socorro de Deus, ainda até ao dia de hoje permaneço dando testemunho tanto a pequenos como a grandes, não dizendo nada mais do que o que os profetas e Moisés disseram que devia acontecer, Isto é, que o Cristo devia padecer, e sendo o primeiro da ressurreição dentre os mortos, devia anunciar a luz a este povo e aos gentios” ( At 26:19 -23).

Os maus obreiros contemporâneos dos apóstolos anunciavam que, se os cristãos não se circuncidassem segundo o costume de Moisés, não poderiam ser salvos ( At 15:1 ). Outros anunciavam que não havia ressurreição dos mortos ( 1Co 15:12 ). Outros anunciavam que Jesus não veio em carne ( 2Jo 1:7 ).

No meio do povo de Israel havia falsos profetas, e hoje, no meio dos irmãos, há os falsos mestres, pessoas que anunciariam encobertamente heresias de perdição. São indivíduos que negando a Cristo ou negando a eficácia da sua obra na cruz do calvário, trazem sobre eles perdição. Estes falsos mestres são seguidos por muitos, consequentemente o evangelho é blasfemado e, por avareza, arrebanham seus seguidores para lucrar como se fossem mercadorias ( 2Pe 2:1 -3).

Sobre estes obreiros maus alertou o apóstolo Paulo de que eles não serviam ao Senhor, mas ao seu próprio ventre, enganando os incautos com suaves palavras e lisonjas “Porque os tais não servem a nosso Senhor Jesus Cristo, mas ao seu ventre; e com suaves palavras e lisonjas enganam os corações dos simples” ( Rm 16:18 ); “Porque há muitos desordenados, faladores, vãos e enganadores, principalmente os da circuncisão, Aos quais convém tapar a boca; homens que transtornam casas inteiras ensinando o que não convém, por torpe ganância” ( Tt 1:10 -11).

O apóstolo Paulo rogou aos cristãos que identificassem aqueles que promoviam dissensões e escândalos contra o evangelho de Cristo para que os cristãos se desviassem deles ( Rm 16:17 ).

A tônica da mensagem dos ‘cães’ é fé em Deus, nos anjos, nos profetas, no milagre, na vitória, etc., porém, negam que Jesus é o Cristo ou a eficácia da obra vicária. Jesus mesmo disse: – “Credes em Deus, crede também mim” ( Jo 14:1 ); “Confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras, sendo abomináveis, e desobedientes, e reprovados para toda a boa obra” ( Tt 1:16 ).

Os obreiros fraudulentos negam a eficácia da obra de Cristo quando pedem dinheiro para o crente ser abençoado, pois os apóstolos enfatizavam que os cristãos já são abençoados com todas as bênçãos espirituais ( Ef 1:3 ). Sob o pretexto de ‘buscar a Deus’, não ensinam que os cristãos são templo, morada do Altíssimo.

Geralmente fazem dos seus seguidores presa, alegando que o crente ‘busca’ a Deus nos momentos que estão reunidos cantando, orando ou jejuando. Na verdade, quando o crente crê em Cristo, a barreira de separação foi desfeita, e o crente tem acesso perene a Deus pelo corpo de Cristo, de modo que está assentado nas regiões celestiais em Cristo Jesus ( Ef 1:3 ).

Só crê em Deus aquele que crê no Filho, pois o testemunho de Deus é acerca do Seu Filho ( Jo 3:33 ; 1Jo 5:10 ).

Somente acreditar que Deus existe não muda a condição do homem diante d’Ele, pois é necessário crer em Cristo. Acreditar na existência de Deus sem crer no testemunho que Ele dá de seu Filho não resulta em salvação. Quando não se crê que Jesus é o Cristo está negando a Deus através das obras, pois a obra de Deus é que se creia em Cristo ( Jo 6:29 ).

É por causa dos judaizantes que diziam conhecer a Deus que o apóstolo Paulo diz que negavam com as obras, pois não confessavam a Cristo, o único meio de se conhecer a Deus Confessam que conhecem a Deus, negam-no com as obras, sendo abomináveis, e desobedientes, e reprovados para toda a boa obra” ( Tt 1:16 ). Quem crê em Cristo é porque observou a lei da liberdade e nela persevera ( Tg 1:25 ), ou seja, é fazedor da obra, diferente daqueles que dizem ter fé em Deus, mas não tem as obras. A fé em Deus pode salvar alguém sem que creia que Jesus é o Cristo? “Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo?” ( Tg 2:14 ).

O apóstolo João abordou este mesmo aspecto de quem diz ter fé, mas não tem a obra quando evidenciou que alguns diziam conhecer a Deus (tem fé), mas que não guardavam o seu mandamento (obra). De nada adianta dizer conheço a Deus e não crer que Jesus é o Cristo ( 1Jo 2:4 e 1Jo 3:23 )

Alguém que se diz obreiro e não confessa a Cristo, não está qualificado para ser ministro do evangelho. É reprovável e desqualificado para o evangelismo quem não crê que Jesus é o Cristo. ‘Toda boa obra’ consiste em anunciar Cristo, pois como crerão se não há quem pregue e, como pregarão se não forem enviados? É através da pregação da fé (evangelho) que Deus nos fez participante do corpo de Cristo, e através do corpo de Cristo (obreiros fiéis à palavra da verdade) que Deus roga ao mundo que se reconciliem com Ele crendo em Cristo ( 2Co 5:20 ).

A ‘boa obra’ é plena (toda) quando se anuncia e alguém crê. O evangelho é de fé em fé, ou seja, deve ter seu curso completo. Quem anuncia deve entender e, para entender é imprescindível ouvir e experimentar a boa, perfeita e agradável vontade de Deus “Ouvindo alguém a palavra do reino, e não a entendendo, vem o maligno, e arrebata o que foi semeado no seu coração; este é o que foi semeado ao pé do caminho” ( Mt 13:19 ); “Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que por ele vades crescendo” ( 1Pd 2:2 ); “Para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece e é provado pelo fogo, se ache em louvor, e honra, e glória, na revelação de Jesus Cristo” ( 1Pd 1:7 ); “Alcançando o fim da vossa  fé, a salvação das vossas almas” ( 1Pd 1:9 ).

O apóstolo Pedro, ao enfatizar a essência do ensinamento do apóstolo Paulo, que era aguardar novos céus e nova terra, deixa claro que muitos homens indoutos e inconstantes torciam o que o apóstolo Paulo escreveu, bem como as Escrituras ( 2Pe 3:16 ), por causa destes homens, cada cristão tem a incumbência de se guardarem do engano destes homens perversos.

Para identificar maus obreiros (cão), basta observar que tais homens tem prazer em ajuntar tesouros na terra, tem prazer nos deleites quotidianos, e não na lei do Senhor ( Sl 1:2 ). Eles buscam o ajuntamento solene somente para angariar prestigio, poder político, fama, posição, dinheiro, etc., e fazem proliferar as suas mistificações ( 2Pe 2:13 ; Jd 1:12 ).

Sobre estes homens ímpios deixou registrado o irmão Judas que são pastores que se apascentam a si mesmos, ou seja, cães gulosos. Estes são manchas nas festas ágapes, homens sem recato algum.

São descritos como nuvens sem água, pois oferecem uma esperança vazia. São árvores desprovidas de frutos e desarraigadas, duplamente mortas, ou seja, não ligado a videira verdadeira ( Jo 15:4 ).

São comparáveis às ondas do mar, espumando suas próprias sujidades, conforme profetizou Isaias ( Is 57:20 ). São murmuradores, queixosos, andam segundo suas concupiscências, são arrogantes e bajulam as pessoas por interesse ( Jd 1:16 ).

São exercitados na avareza, pois deixam a Cristo e seguem o mesmo caminho de Balaão, filho de Beor, que seguiu um caminho perverso e a muda jumenta se lhe opôs ( Nm 22:32 ).

Os falsos profetas usam a tática de fascinar com concupiscências da carne e dissoluções aqueles que tentam se afastar do erro. Prometem liberdade, porém, são servos da corrupção ( 2Pe 2:18); “Assim diz o SENHOR acerca dos profetas que fazem errar o meu povo, que mordem com os seus dentes, e clamam paz; mas contra aquele que nada lhes dá na boca preparam guerra” ( Ml 3:5 ; Jr 23:16 ).

O conhecimento de Cristo é o que traz liberdade da corrupção que há no mundo ( Is 53:11 ). O conhecimento de Deus indica ao homem qual é o caminho da justiça, porém, os falsos mestres induzem os homens a desviarem do santo mandamento dado por Deus: que creiais naquele que Ele enviou! ( Is 53:11 ; Sl 118:20 )

Aqueles que falam mentiras segundo uma consciência cauterizada, que disseminam doutrinas de demônios ( 1Tm 4:1 ), que proíbem o casamento, ordenam a abstinência de alimentos, propõem fábulas profanas e de velhas, etc. também são cães, são maus obreiros ( 1Tm 4:3 ).

As doutrinas dos cães se baseiam em proibições tais como: não proves, não manuseies, não toques. Destas proibições surgem os julgamentos por causa de comidas, bebidas, vestimentas, festas, dias, etc. O que na lei era sombra da realidade e que foi transtornado por preceitos e ensinamentos de homens é apresentado como aparência de sabedoria, culto espontâneo, humildade (fingida), severidade para com o corpo, etc. “Mas, em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens” ( Mt 15:9 ; Cl 2:16 -23).

O apostolo Paulo escreveu a Tito lembrando que outrora todos eram insensatos (loucos), desobedientes e perdidos (extraviados). Ora, o apóstolo Paulo era judeu, fariseu, irrepreensível segundo a justiça da lei, e excedia em judaísmo a muitos da sua idade por ser zeloso das tradições, entretanto, ele se inclui no rol dos que outrora eram loucos, desobedientes e extraviados, a serviço da concupiscência e deleites “E na minha nação excedia em judaísmo a muitos da minha idade, sendo extremamente zeloso das tradições de meus pais” ( Gl 1:14 ; Fl 3:6 ). Os termos: ‘louco’, ‘desobediente’ e ‘extraviado’ etc., são utilizados para apontar para os filhos de Israel, visto que lhes falta conhecimento de Deus ( Sl 53:1 -4; Dt 32:6 e 28; Rm 10:2 ).

Por ignorância os judaizantes se opunham ao evangelho de Cristo, e apresentavam questões loucas, genealogias, contendas, debates acerca da lei, etc. ( Tt 3:9 ; 1Pd 2:5 ; 1Tm 1:13 ; Tt 3:1 -2).

As concupiscência e deleites dos falsos mestres de hoje centram-se em questões desta vida, principalmente com relação às riquezas, pois fazem dos seus seguidores negócio ( 2Pd 2:3 ) e aguçam a ambição destes ( 1Tm 6:5 ).

Nas exposições dos falsos mestres não se ouve dizer que os que vivem de acordo com o evangelho padecem perseguições ( 2Tm 3:12 ); nem se ouve que o crente deve se gloriar nas fraquezas, injurias, necessidades, perseguições, angustias, etc. ( 2Tm 3:12 ; 2Co 12:10 ; 1Pd 4:13 ); jamais evidenciam que as aflições por causa do evangelho se dão com todos os cristãos no mundo ( 1Pe 5:9 ). O tema de suas pregações não tem por alvo as coisas de cima, mas as da terra ( Cl 3:1 ; Fl 3:19 ).

Os ‘cães’ jamais tocam no assunto de que ‘grande lucro’ é o evangelho com contentamento ( 1Tm 6:6 ). Não ensinam que tendo sustento e com o que se cobrir já é motivo de contentamento, e jamais recomendam aos seus seguidores que se acomodem as coisas humildes ( Rm 12:16 ). Não alertam seus seguidores que se traspassam com muitas dores (trabalho) os que querem ficar ricos e naufragam e ruina e perdição.

Apesar do posto de obreiros, ficarão de fora, porque são cães.

 

Não podem entrar

Há um paralelo entre as passagens bíblicas:

“Ficarão de fora os cães…” ( Ap 22:15 ), e;

“Aquele que não nascer de novo” ( Jo 3:3 ).

‘Quem não nascer de novo’ não pode ver o reino de Deus assim como ‘os cães’ por não terem direito à árvore da vida não podem entrar na cidade pelas portas, logo, ‘os cães’ é figura que remete a quem não está em Cristo, ou seja, não é nova criatura.

“Jesus respondeu, e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” ( Jo 3:3 );

“Bem-aventurados aqueles que guardam os seus mandamentos, para que tenham direito à árvore da vida, e possam entrar na cidade pelas portas. Ficarão de fora os cães…” ( Ap 22:14 -15)

Há cães que, como os judaizantes, nunca compreenderam o evangelho de Cristo, e se posicionam como mestres Confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras, sendo abomináveis, e desobedientes, e reprovados para toda a boa obra” ( Tt 1:16 ). Porém, há cães que, estavam no meio dos cristãos e se afastaram da verdade “Saíram de nós, mas não eram de nós; porque, se fossem de nós, ficariam conosco; mas isto é para que se manifestasse que não são todos de nós” ( 1Jo 2:19 ).

É por causa dos apóstatas que foi dado o alerta: Não ameis o mundo ( 1Jo 2:15 ), como se deu com Demas “Porque Demas me desamparou, amando o presente século, e foi para Tessalônica, Crescente para Galácia, Tito para Dalmácia” ( 2Tm 4:10 ).

 

O que é necessário para entrar no céu?

Encontramos na Bíblia diversas passagens que demonstram o que é necessário para o homem entrar no reino dos céus, no entanto, a assertiva: – “Ficarão de fora os cães”, aguça a curiosidade por causa da figura utilizada.

É necessário nascer de novo para entrar no reino dos céus, portanto, a passagem bíblica que estabelece que os cães, os feiticeiros, os que se prostituem, etc., ficarão de fora, não deve causar preocupação aos que nasceram de novo “Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre” ( 1Pe 1:23 ). Basta nascer de novo e permanecer crendo na mensagem do evangelho.

A figura dos ‘cães’ que ficarão de fora é intrigante, porém, a qualquer que não nascer de novo é igualmente vetado entrar no reino dos céus. Se, quem não nascer de novo não pode entrar no reino, e os cães ficarão de fora, as duas passagens bíblicas deveriam despertar a curiosidade “Jesus respondeu, e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” ( Jo 3:3 ).

A curiosidade não pode ficar somente na pergunta: – “Quem são os ‘cães’?”, antes deve ir além: – “Por que ficará de fora”? Neste sentido, a pergunta maior deveria ser: – “Por que o homem não pode ver o reino de Deus”?

O mesmo Jesus que disse que ‘os cães ficarão de fora da cidade’, também disse que ‘quem não nascer de novo não pode ver o reino dos céus’! Enquanto a passagem de Apocalipse diz que os ‘cães’ ficarão de fora, a passagem do evangelista João diz que o homem não entrará no reino dos céus, a não ser que nasça de novo!

O reino dos céus também é vetado aos que não tiverem obras superiores à dos escribas e fariseus, e não causa tanta curiosidade, mas a expressão ficarão de fora os ‘cães’, os ‘feiticeiros’, ‘os que se prostituem’, etc., causa grande impacto pela figura utilizada: cães “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” ( Mt 5:20 ).

Desde já gostaríamos de acalmar os ‘ânimos’ de quem receia fazer parte do grupo dos que ficarão de fora, pois se você crê que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo, você adquiriu o direito à árvore da vida e pode entrar na cidade pelas portas “Bem-aventurados aqueles que guardam os seus mandamentos, para que tenham direito à árvore da vida, e possam entrar na cidade pelas portas” ( Ap 22:14 ); “Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece” ( Jo 3:36 ).

Por que basta crer em Cristo para ter vida eterna? Porque quem crê nas palavras de Cristo crê em Deus, pois as Escrituras são testemunho vivo que Deus deixou acerca do seu Filho “Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida” ( Jo 5:24 ).

Esta é a obra de Deus: “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ). Este é o mandamento que o homem deve guardar para que tenha direito à árvore da vida “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ); “E Jesus clamou, e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas naquele que me enviou. E quem me vê a mim, vê aquele que me enviou. Eu sou a luz que vim ao mundo, para que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas. E se alguém ouvir as minhas palavras, e não crer, eu não o julgo; porque eu vim, não para julgar o mundo, mas para salvar o mundo. Quem me rejeitar a mim, e não receber as minhas palavras, já tem quem o julgue; a palavra que tenho pregado, essa o há de julgar no último dia. Porque eu não tenho falado de mim mesmo; mas o Pai, que me enviou, ele me deu mandamento sobre o que hei de dizer e sobre o que hei de falar. E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito” ( Jo 12:44 -50).

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A carne para nada serve

‘Provar os espíritos’ ou ‘os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas’ não envolve questões de ordem psíquica. Provar os espíritos não é verificar se o profeta é nervoso, intolerante, agitado, agressivo, etc., ou verificar se o profeta controla as suas emoções, desejos e ansiedades. Tais questões são pertinentes a psique humana e alguns psicólogos rotulam como sendo nuances do ‘espírito’. Portanto, a análise deve recair única e exclusivamente sobre a palavra do profeta, pois é pelo ‘fruto’ que se identifica a árvore ( Mt 7:16 ).


“E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” ( Mc 4:34 )

Introdução

O evangelista Marcos apresentou uma informação que não pode ser desprezada como parâmetro essencial à contextualização e interpretação de algumas passagens bíblicas:

“E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” ( Mc 4:34 ).

Neste verso o evangelista deixou registrado de modo claro que, tudo o que Jesus dizia à multidão era dito através de parábolas, o que contrasta com a maneira de Jesus ensinar os seus discípulos em particular.

De posse desta informação, é salutar ao interprete da bíblia analisar qual é o público alvo das palavras de Cristo, pois se for a multidão, teremos parábolas e enigmas, mas se o público alvo for os discípulos e em particular, teremos a elucidação das parábolas e dos enigmas ( Sl 78:2 ).

Neste artigo, faremos um exercício de análise e interpretação bíblica utilizando como base o verso 63 de João 6: “O espírito é que vivifica, a carne para nada serve”, levando em conta a informação dada pelo evangelista Marcos, ou seja, de que Jesus só falava ao povo utilizando-se de parábolas, mas quando em particular com os seus discípulos, declarava o significado do que havia dito.

Demonstraremos a importância de se determinar o público alvo da mensagem de Jesus, se judeus ou discípulos, o que possibilitará uma interpretação segura das Escrituras.

João 6

O evangelista João destaca que Jesus discursou a uma grande multidão que O seguia em função do milagre da multiplicação dos pães ( Jo 6:24 e 59), e no verso 61 em diante, o evangelista destaca que, quando Jesus ficou a sós com os seus discípulos, ensinou-os em função do que havia discursado ao povo.

O texto demonstra que muitos dos discípulos, ao ouvirem o discurso que Cristo fez à multidão, argumentaram: ‘- Duro é este discurso, quem o pode ouvir?’ ( Jo 6:60 ). Ao perceber que os seus discípulos murmuravam a respeito do que fora dito à multidão, Jesus os questiona dizendo: ‘- Isto vos escandaliza?’ (v. 61) e complementa ‘- Que aconteceria então se vísseis o Filho do homem subir para onde primeiro estava?’ Foi quando Jesus apresentou a seguinte explicação: “- O espírito é que vivifica, a carne para nada serve. As palavras que eu vos disse são espírito e vida. Mas alguns de vós não creram” ( Jo 6:63 ).

Levando em conta o que o evangelista Marcos disse: “E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” ( Mc 4:34 ), e que Jesus ensinou os discípulos em particular quando disse: “- O espírito é que vivifica, a carne para nada serve. As palavras que eu vos disse são espírito e vida. Mas alguns de vós não creram” ( Jo 6:63 ), devemos perguntar: Jesus propôs alguma parábola ao povo? Jesus contou à multidão alguma história do cotidiano para expor a sua doutrina? O que é uma parábola?

 

Definição secular de parábola: s.f. Trata-se de uma história curta, cujos elementos são eventos e fatos da vida cotidiana que ilustram uma verdade moral ou espiritual.

Se o interprete levar em conta a definição acima, jamais encontrará no capítulo 6 do evangelho de João uma história curta que faça referencia a eventos e fatos do cotidiano. Mas, como o evangelista Marcos foi contundente ao dizer que Jesus só falava a multidão por parábolas, faz-se necessário reler com acuidade o capítulo 6 do evangelho de João, para descobrirmos se há realmente uma parábola no texto.

Outro ponto a se destacar é o predito pelo salmista: “Abrirei a minha boca numa parábola; falarei enigmas da antiguidade” ( Sl 78:2 ). Os enigmas que seriam propostos através de parábolas pelo Messias estavam vinculados as questões da antiguidade, ou seja, não estava vinculado ao cotidiano das pessoas. Se os enigmas são os mesmos da antiguidade, a própria parábola não dependia do formato de uma história curta.

Através de um elemento próprio às poesias hebraicas, o paralelismo, verifica-se que o enigma profetizado pelo salmista e, que seria proposto ao povo através das parábolas pelo Messias, refere-se à lei mosaica anunciada na antiguidade ( Sl 78:1 ), com o objetivo de que os filhos de Israel cressem em Deus ( Sl 78:7 ).

“Escutai a minha lei, povo meu; inclinai os vossos ouvidos às palavras da minha boca.
Abrirei a minha boca numa parábola; falarei enigmas da antiguidade.
Os quais temos ouvido e sabido, e nossos pais no-los têm contado”
( Sl 78:1-3)

O evangelista João narra que Jesus multiplicou cinco pães e dois peixinhos ( Jo 6:9 ) e que uma multidão de quase 5.000 mil pessoas comeram a fartar, de modo que sobejaram e sobraram 12 cestos de pães. Diante daquela maravilha, a multidão pretendia fazer Cristo rei, ao que Ele se retirou sozinho para um monte ( Jo 6:15 ).

Mas, o interesse da multidão em se alimentar de pão era tamanho que os judeus procuraram Jesus em toda parte e, como não O encontraram, atravessaram o mar e foram em busca de Jesus na cidade de Cafarnaum ( Jo 6:24 ).

Quando a multidão encontrou Jesus, foi repreendida: “Na verdade, na verdade vos digo que me buscais, não pelos sinais que vistes, mas porque comestes do pão e vos saciastes” ( Jo 6:26 ). E em seguida lhes dá uma ordem: “Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará; porque a este o Pai, Deus, o selou” ( Jo 6:27 ).

Diante da proposta de Cristo, o povo questionou o que era necessário fazer para ser servo de Deus, pois queriam ter direito ao pão cotidiano ( Jo 6:28 ). Quando Jesus indicou como eles se tornariam servos (executores da obra de Deus), a multidão, que havia comido pão a fartar e que queriam no dia anterior fazer de Cristo seu rei, pediu um sinal visível para que pudessem crer no que Jesus propôs “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

A exigência de um milagre teve por pretexto a lei de Moisés, quando disseram: “Nossos pais comeram o maná no deserto, como está escrito: Deu-lhes a comer o pão do céu” ( Jo 6:31 ). Menosprezaram o milagre operado no dia anterior, em que uma multidão de quase 5.000 pessoas famintas foi saciada com cinco pães e dois peixes, pois entenderam que Cristo só teria autoridade de apresentar-lhes o exigido por Deus se lhes desse comida equivalente ao maná do deserto e por muitos dias.

Foi quando Jesus contraria a crença dos seus ouvintes ao dizer que não fora Moisés que dera o pão do céu e, por fim, identificou-se como o pão que dá vida aos homens ( Jo 6:35 ).

A multidão que inicialmente queria servir a Deus (apresentar-se por servo) para ter direito a comida que perece ( Jo 6:34 ), ficou apreensiva porque Jesus disse ser Ele mesmo o pão vivo que desceu do céu, e passaram a murmurar dizendo: “Não é este Jesus, o filho de José, cujo pai e mãe conhecemos? Então como diz ele: Desci do céu?” ( Jo 6:42 ).

Em seguida Jesus reafirma: – ‘Eu sou o pão da vida! Mas aqui está o pão que desceu do céu, do qual se o homem comer não morre! Se alguém comer deste pão, viverá para sempre. Este pão é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo’ ( Jo 6:48 -51).

Apesar de deixar claro que a sua carne seria entregue para que o mundo obtivesse vida, a declaração de Jesus fomentou uma discussão entre os judeus, e eles começaram a questionar entre si: ‘- Como nos pode dar este homem a sua carne a comer?’

Através das perguntas dos judeus diante da declaração de Cristo, fica evidente que não compreenderam a proposta de Cristo, ou seja, Jesus havia proposto ao povo uma parábola, pois a função da parábola é específica: que o povo ‘vendo não veem e ouvindo não ouvem e nem compreendem’Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não veem; e, ouvindo, não ouvem nem compreendem. E neles se cumpre a profecia de Isaías, que diz: Ouvindo, ouvireis, mas não compreendereis, E, vendo, vereis, mas não percebereis” ( Mt 13:13 -14; Sl 78:2).

Ora, a multidão não compreendeu o que Cristo disse quando se apresentou como o pão vivo enviado dos céus. Eis a parábola, o enigma proposto. Ficaram escandalizados quando foi dito que a carne de Jesus era comida e o seu sangue bebida ( Jo 6:53 -56), ou seja, a proposta de Jesus foi feita por parábola e envolvia um grande enigma!

Tudo o que Jesus disse à multidão em Cafarnaum por parábola, em particular expôs o significado aos Seus discípulos.

A explicação da parábola

A sós com os Seus discípulos, Jesus explica porque Ele é o pão vivo que desceu dos céus, e; porque a sua carne é verdadeiramente comida e o seu sangue verdadeiramente bebida. A explicação resume-se na seguinte fala: ‘- O espírito é que vivifica, a carne para nada serve. As palavras que eu vos disse são espírito e vida!’

Analisando algumas declarações que Jesus fez ao povo, temos que Ele é o pão que desceu do céu e que dá vida ao homem, pois quem se alimenta de Cristo viverá em função d’Ele ( Jo 6:51 e 57). Sobre esta verdade o apóstolo Paulo disse que Jesus é o último Adão, o espírito vivificante, o espírito que dá vida.

À multidão, Jesus anunciou que somente o ‘pão vivo que desceu dos céus concede vida’, e aos discípulos, em particular, deixa claro que o que vivifica é ‘o espírito’. Por fim ele arremata: ‘- As palavras que eu vos disse são espírito e vida’.

O interprete deve estar atento a toda explicação de Jesus, pois quando ele diz: ‘as palavras que eu vos disse são espírito e vida’, está definindo qual o significado do termo ‘espírito’. Ou seja, o que vivifica o homem são as palavras ditas por Cristo, pois as suas palavras são juntamente espírito e vida. Ou melhor, Cristo por ser o Verbo de Deus encarnado, é espírito vivificante ( 1Co 15:45 ).

O apóstolo Pedro ao recomendar a palavra aos cristãos, apresenta a palavra de Deus como alimento, pois exorta a crescerem fazendo uso do ‘leite racional’ “Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que por ele vades crescendo” ( 1Pe 2:2 ).

Quando Jesus fez o convite ao povo para que comessem da sua carne e bebessem do seu sangue dizendo que a sua carne era verdadeiramente comida e os seu sangue verdadeira bebida, estava ensinado ao povo por parábolas. Por enigma Jesus estava dando a entender ao povo que somente suas palavras proporcionam vida aos Seus ouvintes, e não os milagres operados. Jesus estava conclamando o povo que provassem a sua palavra do mesmo modo que o paladar prova a comida, pois veriam que Cristo, o Senhor do salmista, que se assentou a destra do Senhor do Salmista, é bom “Porque o ouvido prova as palavras, como o paladar experimenta a comida” ( Jó 34:3 ); “Provai, e vede que o SENHOR é bom; bem-aventurado o homem que nele confia” ( Sl 34:8 ).

Os cegos e surdos que provam as palavras de Cristo, crendo “Bem-aventurado o homem que nele confia” ( Sl 34:8 ), passa a enxergar. São os meninos que aprendem o temor do Senhor, os mansos que atendem o convite: vinde a mim vós todos que estais cansados e sobrecarregados ( Sl 34:11 ; Mt 11:28 ; Sl 34:2 ).

Se os ouvintes de Cristo ouvissem a sua palavra e cressem, seriam participantes do Espírito que vivifica ( 1Co 15:45 ), ou seja, tornar-se-iam um só corpo com Ele ( Jo 6:51 e Lc 22:20 ). Na palavra de Cristo está a vida dos homens ( Jo 1:4 e 7), mas por causa da parábola, os ouvintes de Cristo entenderam que Ele estava dando a comer o seu corpo físico, pois o que buscavam era pão de cevada. Cristo não queria que bebessem do sangue que estava em suas veias e que foi derramado na cruz, antes Jesus queria que cressem em suas palavras, pois as suas palavras faria com que os seus ouvintes se tornassem um com Ele, participantes do seu corpo ( Jo 17:21 ; Ef 3:6 ).

Quando disse em particular: “- O espírito é que vivifica, a carne para nada serve”, Jesus estava revelando a natureza do Seu discurso “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” ( 1Jo 5:3 ; Jo 6:61), antes que o que estava sendo proposto era que cressem em sua palavra, pois especificamente a sua palavra era espírito e vida “Ele, porém, respondendo, disse: Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus” ( Mt 4:4 ).

A palavra é espírito? Sim! É em função desta verdade que interpretamos passagem como: “E os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas” ( 1Co 14:32 ). Ou seja, a palavra do profeta é sujeita ao profeta. De igual modo, quando lemos: “Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo” ( 1Jo 4:1 ), a palavra ‘espírito’ nestes textos não diz de um ‘demônio’, ‘espírito imundo’ ou ‘fantasma’, antes diz especificamente da mensagem do falso profeta.

‘Provar os espíritos’ ou ‘os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas’ não envolve questões de ordem psíquica. Provar os espíritos não é verificar se o profeta é nervoso, intolerante, agitado, agressivo, etc., ou verificar se o profeta controla as suas emoções, desejos e ansiedades. Tais questões são pertinentes à psique humana e alguns psicólogos rotulam como sendo nuances do ‘espírito’. Portanto, a análise deve recair única e exclusivamente sobre a palavra do profeta, pois é pelo ‘fruto’ que se identifica a árvore ( Mt 7:16 ).

Assim como o paladar prova a comida, o ouvido deve provar as palavras, pois da boca dos homens procede o ‘fruto’ que permite identificá-los se são árvores boas ou más “Do fruto da boca de cada um se fartará o seu ventre; dos renovos dos seus lábios ficará satisfeito” ( Pr 18:20 ); “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” ( Mt 12:34 ).

Compreendendo que a palavra ‘espírito’ às vezes possui o significado de ‘palavra’, torna-se fácil compreender o que o apóstolo Paulo disse com o seguinte verso: “O qual nos fez também capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica” ( 2Co 3:6 ). Ou seja, o cristão é ministro da palavra de Cristo (evangelho), o espírito que vivifica, e não ministro da lei de Moisés, que é morte.

Mas, de onde Cristo e os apóstolos tiram tal significado para o termo espírito? A resposta encontra-se nas Escrituras, como se lê: “O Espírito do Senhor é sobre mim, Pois que me ungiu para evangelizar os pobres. Enviou-me a curar os quebrantados do coração” ( Lc 4:18 ; Is 61:1 ). Ora, o espírito do Senhor que estava sobre Cristo diz da palavra de Deus, pois a palavra era a unção necessária para se evangelizar os pobres e curar os abatidos de espírito.

O espírito do Senhor que repousou sobre Cristo diz da palavra de Deus, pois ela é juntamente sabedoria, conselho, conhecimento, temor, etc. “E repousará sobre ele o Espírito do SENHOR, o espírito de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de conhecimento e de temor do SENHOR” ( Is 11:2 ).

A palavra do Senhor é distinta do Espírito Santo, o consolador prometido e enviado, que veio sobre Cristo em forma de uma pomba quando Ele foi batizado por João Batista ( Jo 16:7 ; Mt 3:16 ).

Quando a bíblia diz que Deus pesa o espírito do homem, não diz de um julgamento (análise) do ‘ser’, da essência do homem, antes que Deus pesa as suas palavras “Todos os caminhos do homem são puros aos seus olhos, mas o SENHOR pesa o espírito” ( Pr 16:2 ); “Porque por tuas palavras serás justificado, e por tuas palavras serás condenado” ( Mt 12:37 ). Através do provérbio, verifica-se que os homens possuem um entendimento acerca dos seus caminhos, porém, Deus os prova (julga) segundo o que ‘professam’, assim como deve fazer os seguidores de Cristo “Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo” ( 1 Jo 4:1).

Os homens desconhecem a sua condição decorrente do nascimento natural. Quando nascem entram por uma porta larga que lhes dá acesso a um caminho de perdição. Quando Deus pesa o homem, não pesa segundo o que os homens entendem por puro, antes Deus pesa o homem segundo a porta que entrou ao nascer da semente de Adão, pois o que o homem natural anuncia segundo o seu conhecimento natural é mentira desde que foi lançado da madre ( Sl 58:3 ; Rm 3:4 ).

Mas, se tal homem crer em Cristo, morre com Cristo e é gerado de novo, ou seja, nasceu de novo. Por crer passa a falar segundo a verdade do evangelho, o espirito (palavra) que é pesado e não é achado em falta diante do Senhor ( Rm 8:9 ; Lc 4:1 ). É por isso que Jesus disse que julgava segundo a reta justiça e não segundo a aparência, ou seja, julgava segundo o que ouvia, pois Ele provava as palavras daqueles que o cercava. Os homens juntamente se desviaram e tornaram-se imundos em Adão e são pesados segundo as suas palavras em decorrência da mentira que proferem desde o nascimento ( Sl 53:3 ; Sl 58:3 ), e não segundo o comportamento e a moral humana que a religiosidade impõe ( Jo 7:24 ; Jo 5:30 ).

É por isso que Jesus disse que o que contamina o homem é o que sai da boca, e não o que entra, portanto é necessário provar os espíritos se eles procedem de Deus ou não, pois aquele que procede de Deus é porque ouviu as palavras de Deus ( Mc 7:15 -20; Jo 3:34 ; Jo 8:47 e 1Pe 4:11 ).

É por isso que Jesus disse que o que contamina o homem é o que sai da boca, e não o que entra, pois o coração enganoso e corrupto é proveniente do nascimento natural, portanto é necessário provar os espíritos se eles procedem de Deus ou não. Aquele que procede de Deus é porque ouviu as palavras de Deus e fala as palavras de Deus ( Mc 7:15 -20; Jo 3:34 ; Jo 8:47 e 1Pe 4:11 ).

Deste modo, o dom de discernir os espíritos diz da capacidade que é concedida ao cristão de analisar as palavras ditas por aqueles que se posicionam como profetas, se as palavras são de Deus ou não “E a outro a operação de maravilhas; e a outro a profecia; e a outro o dom de discernir os espíritos; e a outro a variedade de línguas; e a outro a interpretação das línguas” ( 1Co 12:10 ).

Resta-nos a pergunta: como ser cheio do espírito? “E não vos embriagueis com vinho, em que há contenda, mas enchei-vos do Espírito” ( Ef 5:18 ). Como ser ‘mais’ cheio do Espírito Santo se Ele foi enviado e habita o crente? Ser cheio do espírito diz do Consolador que Cristo enviou, do qual somos templo, ou da palavra? “Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” ( 1Co 3:16 ); A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando ao Senhor com graça em vosso coração ( Cl 3:16 ).

“… enchei-vos do Espírito; Falando entre vós em salmos, e hinos, e cânticos espirituais; cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração” ( Ef 5:18 -19).

A carne para nada serve

O que causou escândalo ao povo e a alguns discípulos de Cristo foi o discurso: “- Eu sou o pão que desceu do céu!”; “- A minha carne é verdadeiramente comida e bebida!” ( Jo 6:41 e 52). Os discípulos se escandalizaram e concluíram que o discurso de Cristo era duro ( Jo 6:60 -61).

Para um judeu, determinados tipos de alimentos eram proibidos, quanto mais comer a carne de um homem. Do mesmo modo que os judeus desprezaram Jesus por ter demonstrado sabedoria ao expor as Escrituras ( Mc 6:2 ), escandalizaram-se por Ele ter apresentado a sua carne como comida e o seu sangue como bebida.

Por não compreenderem a parábola, o povo escandalizou-se por entenderem que Jesus estava lhes propondo uma espécie de canibalismo.

Em particular com os seus discípulos, Jesus demonstrou que o que estava apresentando ao povo era a sua doutrina, pois o que dá vida ao homem é a palavra, e arrematou: a carne para nada serve!

O que Jesus deu a entender aos seus discípulos com a frase: ‘a carne para nada serve’?

Quando Jesus disse que ‘a carne para nada servia’, estava explicando aos discípulos que a sua carne não era ‘degustável’. Jesus estava esclarecendo que era equivocada a ideia que abstraíram de sua palavra, pois estavam escandalizados com a ideia de que a vida prometida estava vinculada a degustarem uma porção da carne de Cristo como se fosse pão.

Jesus descontrói a ideia que alguns discípulos equivocadamente construíram em função da parábola. Ele esclarece que a vida decorre de participarem do seu espírito (palavra) e, que a carne d’Ele não tinha tal serventia. Ou seja, em relação ao corpo físico de Jesus, que foi feito em semelhança da carne do corpo do pecado, não possuía as propriedades que os seus ouvintes equivocadamente entenderam através da parábola.

A carne de Cristo não tinha valor algum? A carne de Cristo tinha valor, pois foi através dela que Jesus aniquilou o que tinha o império da morte quando entregou ao Pai o seu espírito ( Hb 2:14 ). Foi através do seu corpo físico que Jesus tornou-se semelhante aos seus irmãos ( Hb 2:17 ), de modo que hoje Ele é misericordioso e fiel sumo sacerdote. Foi através do seu copo físico que Ele pode ser tentado e padecer todas as aflições ( Hb 2:18 ). Somente quando participante da carne e do sangue, tornou-se possível o Filho do homem ser entregue nas mãos dos pecadores ( Lc 24:7 ).

No contexto de João 6, verso 63, a carne de Cristo não possuía a propriedade de proporcionar vida caso alguém comesse da sua carne como se fosse pão, mas no contexto de Hebreus 10, verso 10, vê-se a serventia, o valor do corpo de Cristo “Na qual vontade temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez” ( Hb 10:10 ).

É em função da parábola proposta por Cristo aos judeus, que muitos interpretam literalmente a parábola proposta e, se esquece que, para interpretar uma parábola, antes se faz necessário elucidar o enigma: o pão proposto é o espírito, a palavra de Cristo, e não a carne d’Ele. Este erro se vê nas declarações do ex-pastor Batista, Francisco Almeida Araújo, conforme o exposto no DVD intitulado “Nossa Senhora do Marrom Glacê”, pois como a carne de Cristo para nada serve, segue-se que os fundamentos da eucaristia, a transubstanciação, estão equivocados, pois o que dá vida é o espírito, a palavra.

Mas, como convencer alguém da verdade? Somente lhe anunciado a verdade “E respondeu-me, dizendo: Esta é a palavra do SENHOR a Zorobabel, dizendo: Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos” ( Zc 4:6 ). Zorobabel viu um castiçal todo de ouro, um vaso de azeite no seu topo, com as suas sete lâmpadas, sete canudos, um para cada uma das lâmpadas que estão no seu topo e, por cima dele, duas oliveiras, uma à direita do vaso de azeite, e outra à sua esquerda, porém, não compreendeu a visão: a resposta estava no espírito, na palavra do Senhor, que faz o que é aprazível e não volta vazia ( Is 55:11 ).

Ao anunciar que a sua carne era verdadeiramente comida e o seu sangue verdadeiramente bebida, apresentando o enigma de que o seu corpo era o pão a ser comido “Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo” ( Jo 6:51 ), Jesus queria que compreendessem que lhes era necessário serem participantes da sua palavra, crendo n’Ele como confessou o discípulo Pedro: ‘- Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras de vida eterna!’

Portanto, qualquer que crê em Cristo conforme diz as Escrituras, alimentou-se de Cristo, ou seja, é participante do pão, do seu corpo, da sua carne e do seu sangue que foi entregue pela vida do mundo ( Jo 6:51 e 57).

A ideia que abstraíram da palavra de que Cristo estava dando literalmente a sua carne a comer foi descontruída quando Jesus alertou os seus discípulos de que ‘a carne d’Ele não tinha serventia para conceder vida’, antes o que concede vida é o seu espírito, ou seja, a sua doutrina, a sua palavra.

Qualquer que aceitasse a doutrina de Cristo não se escandalizando d’Ele, é o que renovou o espírito da sua mente. É naquele que não se escandaliza que ocorre a ‘metanoia’, a mudança de mente, de espírito. Enquanto alguns discípulos estavam escandalizados a ponto de se retirarem ( Jo 6:66 ), somente aqueles que mudaram a sua concepção diante da mensagem do evangelho puderam confessar: ‘- Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras de vida eterna. Nós cremos e conhecemos que tu és o Cristo, o Santo de Deus!’ ( Jo 6:68 -69).

Aquele que não renova a sua compreensão buscará motivos para se escandalizar. À época de Cristo, uns se escandalizam da doutrina, outros do conhecimento de Cristo, pois apenas viram Jesus como um dos filhos de José e Maria e, que tinha por oficio ser carpinteiro ( Mc 6:3 ). Mas, os que não se retiram escandalizados permanecem, pois creem que Jesus é o Filho de Davi prometido segundo as Escrituras.

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