O Livro de Jó – A artimanha do acusador

Ao tirar os bens, a família e a saúde de Jó, a estratégia de Satanás era fazer com que Jó, em defesa da sua integridade, substituísse a genuína justificação de Deus, que se alcança pela confiança na palavra de Deus, por uma justiça humana, baseada na moral e no comportamento ilibado do patriarca.


A artimanha do acusador

Parte V

Jó havia alcançado de Deus a condição de justo, pela confiança que depositava em Deus, não pela sua integridade moral.

Através do exarado nas Escrituras, sabemos que Deus só justifica o homem quando este confia na sua palavra. Por isso, é dito que Abraão creu em Deus e isso lhe foi imputado como justiça (Gn 15:6).

A justificação de Jó se deu, assim, como a justificação de Abraão, pois, este cria em Deus, que prometeu que o patriarca de Ur dos Caldeus seria pai de muitas nações e, aquele, por crer que o Seu Redentor vivia.

Por causa da confiança que Jó nutria em Deus, Satanás nada podia contra Jó, mesmo quando tirou todos os seus bens. Observe a maneira como o escritor do Livro de Jó narra o seu comportamento, quando ele perdeu tudo:

“Em tudo isso Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma!”

Quando Jó perdeu a sua saúde, o autor também deixou consignado:

“Em tudo isso não pecou Jó com os seus lábios!”

Satanás sabia que Jó não pecaria com os seus lábios, mesmo com a perda repentina dos seus bens, filhos e saúde, pois este era o testemunho do próprio Criador.

Os eventos que sucederam, repentinamente, na vida de Jó, foram fomentados por Satanás, com a única finalidade de reunir os amigos de Jó para uma visita, quando, efetivamente, iniciaria o principal ataque do adversário.

Todo o sofrimento imposto sobre Jó tinha, por objetivo, estabelecer um equivoco, quanto à verdadeira condição de Jó, diante de Deus.  Com base no julgamento que os amigos de Jó fariam, sobre a condição dele diante de Deus, atacariam, deliberadamente, a integridade que, por sua vez, se defenderia a si mesmo.

A integridade, a retidão, a honra e a reputação eram o maior patrimônio de Jó, tanto que ele compara a sua justiça com um manto e um diadema (Jo 29:14). Atingir os bens, a família e a saúde de Jó, só foi um meio de Satanás alcançar um fim: atacar o que era mais caro a Jó!

Sem se aperceberem, os amigos de Jó estavam a serviço de Satanás, lançando setas e armando laços, que levariam Jó a justificar-se a si mesmo. A finalidade de Satanás era fazer com que Jó lançasse mão de uma justiça própria, agarrando-se à sua integridade, em detrimento da justiça de Deus.

Ao tirar os bens, a família e a saúde de Jó, a estratégia de Satanás era fazer com que Jó, em defesa da sua integridade, substituísse a genuína justificação de Deus, que se alcança pela confiança na palavra de Deus, por uma justiça humana, baseada na moral e no comportamento ilibado do patriarca.

Acima da integridade e da retidão de Jó, está a justiça de Deus, que o homem só alcança, por meio da palavra de Deus. A confiança de Jó, expressa nas seguintes palavras: – “Porque eu sei que o meu Redentor vive e que, por fim, se levantará sobre a terra” (Jó 19:25), que nos remete à pessoa de Cristo – o autor e consumador da fé – demonstra que, assim como o crente Abraão (Gl 3:6), a sua crença é que era imputada por justiça, não a sua integridade e retidão.

Assim como Deus revelou a Abraão que, no Seu Descendente, seriam benditas todas as famílias da terra (Gl 3:16), Deus havia revelado a Jó que o Seu Redentor haveria de andar na terra dos viventes e, por ele, confessar: – “…eu sei …”, foi declarado justo por Deus, ou seja, justificado (Jo 1:1 e 2:3).

Satanás não atribuiu, diante de Deus, nenhum erro a Jó! E por que não o fez? Porque Satanás não podia fazê-lo, pois Deus mesmo declarou Jó justo. Sendo, pois, justificado por Deus, nenhuma condenação pesava contra Jó (Rm 8:1). Assim como os crentes em Cristo estão livres de toda condenação, por andarem segundo o espírito (evangelho), também, não pesava nenhuma condenação sobre Jó, por ele andar segundo a premissa de que o seu Redentor vivia.

Satanás alegou que a devoção de Jó era em função dos bens e da família que possuía, logo, ele não tinha opção, a não ser reverenciar a Deus. Satanás não acusa Jó e nem ataca o Criador, antes, faz alegações de que havia certa ‘cumplicidade’ entre Deus e Jó.

Esse argumento de Satanás, visava reunir os elementos necessários para um ataque ardiloso e não somente retirar os bens e a saúde de Jó. Satanás sabia que a vida de um homem não consiste na abundancia de bens e que o homem vive da palavra que sai da boca de Deus: “E disse-lhes: Acautelai-vos e guardai-vos da avareza; porque a vida de qualquer não consiste na abundância do que possui” (Lc 12:15); “…para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” (Dt 8:3).

As ciladas de Satanás são engendradas, a partir da ignorância do homem, acerca das coisas de Deus. Um dos elementos essenciais ao ataque de Satanás estava na repentina retirada dos bens, família e saúde de Jó, criando uma falsa aparência acerca da condição de Jó diante de Deus: “Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça” (Jo 7:24; Jo 8:15).

Satanás atuou em cima da ignorância dos amigos de Jó, que acreditavam que a justiça de Deus era retributiva, tendo por base a moral e o comportamento humano e, por isso, julgaram, falaram e acusaram, segundo os padrões humanos, não segundo a reta justiça.

“Lembra-te agora qual é o inocente que jamais pereceu? E onde foram os sinceros destruídos? Segundo eu tenho visto, os que lavram iniquidade e semeiam mal, segam o mesmo” (Jó 4:7-8).

Satanás não deixou de atuar e nem desapareceu, logo após tirar os bens, a família e a saúde de Jó, como se satisfizesse em infligir sofrimento atroz a Jó. Restava algo de maior importância para Satanás roubar: a salvação:

“Eis que venho sem demora; guarda o que tens, para que ninguém tome a tua coroa” (Ap 3:11).

Além de armar a cilada, Satanás animou a discussão dos quatro amigos, ao, em sonho, fazer algumas perguntas despretensiosas acerca da justiça de Deus, que Elifaz contou logo no início da discussão (Jó 4:15-17). Em certo ponto da discussão, Jó desconfia da irritabilidade dos seus amigos ao acusá-lo (Jó 16:3).

Trazer os amigos foi uma tática, pois Satanás esperava que Jó se defendesse das acusações e das provocações de seus amigos. Durante o debate, Jó percebe que havia algo de errado na animosidade de seus amigos, no entanto, só no último discurso ele questionou:

“E de quem é o espírito que saiu de ti?” (Jó 26.4)

Satanás só deixou de atuar quando viu que Jó está prestes a lançar mão do pecado de rejeitar a justiça de Deus, agarrando-se à sua integridade. Quando faz o seu discurso, evidenciando o seu ‘eu’: Eu livrava os pobres, eu fazia rejubilar o coração das viúvas, eu era o olho do cego, etc., Jó esteve próximo da ruina (Jó 29:12-17). Quando propôs que Deus o pesasse em uma balança fiel, e assim, aferisse a sua integridade, quase os pés do patriarca se resvalaram (Jó 31:6).

Como nem a morte, nem os anjos ou, alguma outra criatura, podem separar o homem do amor de Deus (Rm 8:38 -39), a cilada de Satanás consiste em fazer com que o homem rejeite a justiça de Deus. Como? Naqueles que tem moral elevado, Satanás busca meios de evidenciá-lo, em detrimento da justiça de Deus. Já os de comportamento reprovável, Satanás fomenta o sentimento de que não são merecedores da misericórdia divina.

Evidenciar no coração do homem uma justiça própria, através de um sentimento de que é merecedor de boas dádivas, é uma das artimanhas que Satanás se utiliza para fazer com que o homem se afaste de Deus. Estabelecer no coração do homem um sentimento de comiseração pelas falhas, é outra estratégia de Satanás para fazer com que o homem rejeite o perdão de Deus.

Satanás nada tem, portanto, nada pode oferecer ao homem, entretanto, ele utiliza a tática de fazer o homem lançar mão, antecipadamente, do que lhe foi reservado. Foi dessa maneira com Eva. Deus havia reservado o conhecimento do bem e do mal para o homem, para quando alcançasse a semelhança do Altíssimo, mas Satanás enganou Eva que, antecipou-se e comeu do fruto. Eva, juntamente com Adão, alcançou o conhecimento do bem e do mal, mas perdeu, junto com o seu marido, a comunhão com o Criador.

Satanás usou essa mesma tática com Jesus, a quem Deus prometeu as nações por herança e os fins da terra por possessão (Sl 2:8), quando prometeu dar os reinos do mundo, se prostrado o adorasse (Mt 4:8). Os reinos do mundo pertencem ao Pai e ao seu Filho, portanto, Satanás ofereceu o que não tinha:

“E o reino, o domínio e a majestade dos reinos, debaixo de todo o céu, serão dados ao povo dos santos do Altíssimo; o seu reino será um reino eterno e todos os domínios o servirão e lhe obedecerão” (Dn 7:27).

Outra artimanha de Satanás engendrada, em função da falta de conhecimento do homem, está em fomentar a busca por algo que já possui. Ao crer em Cristo, o crente é circuncidado com a circuncisão de Cristo, que consiste em lançar fora toda a carne,  não somente o prepúcio do corpo (Cl 2:11). Satanás, por sua vez, oferece a circuncisão do prepúcio da carne, como meio de se alcançar a salvação (At 15:1).

Em nossos dias, uma das artimanhas de Satanás consiste em negar a eficácia do evangelho, através de um evangelho de aparências, firmado em preceitos de homens:

“Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te” (2 Tm 3:5; Cl 2:22-23).

O homem de sã consciência não rejeita a justiça de Deus, simplesmente, dizendo ‘não’. Na verdade, Satanás utiliza-se de homens que não estão ligados à cabeça, que é Cristo (Cl 2:19), engana os incautos com palavras persuasivas, segundo os rudimentos do mundo e as suas vãs filosofias.

As acusações ferrenhas dos amigos de Jó evidenciaram, no coração, a sua integridade, o que levou Jó a se comparar aos demais homens, a ponto de achar que era merecedor de uma sorte melhor, em função da sua integridade (Jó 30:26).

Se Jó continuasse só e na cinza, sem a visita de seus amigos, não teria a sua própria justiça evidenciada. Vieram os seus amigos, julgando segundo a aparência, o que despertou em Jó a necessidade de provar a sua integridade.

“À minha justiça me apegarei e não a largarei; não me reprovará o meu coração, em toda a minha vida” (Jó 27:6).

Se tivesse desprezado a afronta de ser taxado de pecador, Jó não se agarraria à sua integridade e nem acusaria a Deus, de ter negado justiça a ele (Jó 27:1). Cristo, sendo justo, deu-nos exemplo, ao desprezar a afronta:

“Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta e assentou-se à destra do trono de Deus” (Hb 12:2).

 

Não podemos ignorar os ardis de Satanás

Além de conhecer a pessoa de Jó, por observá-lo, constantemente, Satanás conhece os atributos de Deus. O conhecimento que detém, decorrente da sua constante observação, é a fonte do poder que dá força à atuação de Satanás.

Satanás desejava separar Jó da comunhão com Deus, por isso, escolheu um ponto vulnerável, a fim de desferir o seu ataque. Sabedor de que Jó prezava mais a sua integridade do que a sua própria vida e bens, e que tanto Jó quanto os seus amigos não conheciam plenamente, como se dá a justificação, Satanás estava de posse dos ingredientes necessários para fomentar a queda de Jó.

No ataque, Satanás, geralmente, se utiliza daquilo que o homem mais preza nesta vida, para fazer o homem demover da sua esperança e de Deus e, por conseguinte, abrir mão da salvação.

  • Era de conhecimento de Satanás que Jó amava a Deus e que a sua integridade ocupava uma posição de destaque em seu coração;
  • Ele, também, sabia que o conhecimento que Jó detinha, a respeito da justiça de Deus, era distorcido;
  • Satanás sabia da religiosidade dos amigos de Jó, que eram propensos a julgar pela aparência.

Através do conhecimento que possuía, simplesmente, por observar continuamente a Jó, Satanás reuniu os elementos necessários para montar uma estratégia, a fim de tentar derrubar a Jó. A brecha para a ação de Satanás estava na falta de conhecimento dos quatro amigos, acerca das coisas de Deus!

Todos os elementos que Satanás utilizou contra Jó, também foram utilizados contra Adão e Eva.

Eva detinha plena liberdade, por ter pleno acesso à árvore do conhecimento do bem e do mal. A liberdade plena foi dada pelo Espírito de Deus, que disse: “De toda árvore do jardim poderás comer livremente…” (Gn 2:16).

O livre arbítrio é um dom irrevogável que Deus deu aos homens, pela liberdade de decidir-se por obedecer a Deus ou, não.

Através de uma pergunta, aparentemente, inocente, Satanás apresentou-se a Eva, evidenciando, astutamente, uma dura restrição: “É assim que Deus disse: ‘Não comereis de toda a árvore do Jardim?’” (Gn 3:1).

Deus falou ao homem, dando-lhe plena liberdade, e Satanás, através de uma pergunta,  evidencia uma proibição total. O aparente desconhecimento de Satanás, acerca do que Deus disse, deu confiança à mulher, de modo que ela passou a ensiná-lo.

Satanás introduz a troca, a negar o que Deus disse. O homem tinha plena liberdade e Satanás evidenciou a possibilidade ser como Deus, conhecendo o bem e o mal. A comunhão com Deus é a essência da liberdade e o homem abriu mão da liberdade, para ter conhecimento do bem e do mal.

Após comer o fruto, o homem adquiriu conhecimento do bem e do mal, tornando-se como Deus, mas perdeu a comunhão, por conseguinte, a liberdade. Satanás enganou o homem, tirando a vida decorrente da comunhão com o Criador, substituindo pelo conhecimento, que nada agrega, se não tiver comunhão com Deus.

O homem deixou de confiar no aviso de Deus: “… porque no dia em que comeres do fruto, certamente morrerás”. Rejeitar a palavra de Deus é o maior erro que o homem pode incorrer. Deixar de crer em seu Senhor, para acreditar em seus próprios sentimentos e percepções.

A mulher viu que a árvore era boa para comer, agradável aos olhos e desejável para dar entendimento e deixou de confiar em Deus, para confiar em seus sentidos, sentimentos e desejos.

Na história de Jó são demonstrados todos os elementos das artimanhas satânicas, que é fazer o homem substituir o que é concedido por Deus, por algo que o homem tem em alta conta.

O apóstolo Paulo alerta, ao argumentar que, para os cristãos não serem vencidos, que não podiam ignorar os seus ardis. Quem ignora, desconhece ou não compreende a ação de Satanás, estará fadado à derrota.

A intenção de Satanás, era fazer Jó atribuir a Deus uma falta (Jó 1:22), tanto que uma das notícias das calamidades chegou a Jó como sendo fogo de Deus, que havia atingido os seus servos e gados.

Não seria injustiça da parte de Deus deixar uma pessoa correta sofrer? Satanás sabia que Jó não se deixaria levar por um argumento tão simplório, mas ele também sabia que o ataque dos amigos de Jó poderia minar a sua confiança em Deus, pois, para defender-se, teria que lançar mão de uma justiça própria:

“Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira, porque está escrito: Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor” (Rm 12:19).

Satanás procurou minar a confiança que Jó nutria em Deus, através das considerações implacáveis dos seus amigos.

“As tuas palavras firmaram os que tropeçavam e os joelhos desfalecentes tens fortalecido. Mas agora, que se trata de ti, te enfadas; e tocando-te a ti, te perturbas” (Jó 4:4-5)

Satanás arquitetou uma armadilha para fazer Jó se sentir desamparado por Deus, e assim, em sua defesa, recorreria à sua integridade, negligenciando a justiça de Deus.

Após compreender do que trata o Livro de Jó, analisaremos, detalhadamente, as queixas de Jó e as recriminações dos seus amigos.

 

Continua….

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