O amor de Deus

03Jesus não falou do amor segundo os termos gregos ‘storge’, ‘eros’, ‘philia’ ou ‘ágape’. O amor da qual Jesus fala é condicional, portanto, foge das definições que muitos livros de teologia apresentam: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14:15). O amor que Jesus exige é serviçal, sujeição ao seu senhorio…


O amor de Deus é condicional e não sentimental

Introdução

Qual a natureza do amor bíblico? Como entender a declaração: ‘Deus é amor’? Para essas perguntas há mil e uma respostas, inúmeros sermões, uma vastidão de livros e muitas definições, acerca do amor de Deus.

No seu livro ‘Os quatro amores’, no primeiro parágrafo da introdução[1], C. S. Lewis deixou registrado que acreditou que, no axioma ‘Deus é amor’, conforme anunciado pelo evangelista João, encontraria um caminho plano para o assunto, mas, ao que parece, pelas argumentações no seu livro, que Lewis não conseguiu encontrar um caminho plano.

Lewis deixou a Bíblia de lado e foi buscar nos termos gregos[2], que se traduzem por amor, a inspiração necessária para abordar o tema. Ele buscou nos termos στοργη (storge) afeição fraternal, φιλια (philia) amizade, έρως (eros) sexualidade e αγαπη (agapē) caridade, o conhecimento que o levou a uma concepção[3] própria do amor bíblico, e elegeu o agapē como o maior dos amores,  como uma virtude puramente cristã.

Mas, por que não se contentar com o axioma ‘Deus é amor’? Não há na Bíblia um caminho plano para o assunto?

O axioma anunciado pelo evangelista João: “… ὅτι ὁ θεὸς ἀγάπη ἐστίν” no grego ou, na língua portuguesa: “… porque Deus é amor” ou, na língua inglesa: “…because God is love” ou, em qualquer outro idioma ou dialeto, possui o mesmo valor.

O ‘agapē’, por ser escrito no grego, não é superior ao ‘love’ inglês, principalmente por causa do contexto onde é utilizado. Não é Lewis quem define o significado do amor bíblico e nem os lexicógrafos, mas, sim, o contexto onde foi utilizado.

O mesmo autor, que disse: ‘Deus é amor’, em seguida, definiu o amor de Deus:

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” (1 Jo 5:3).

“E o amor é este: que andemos segundo os seus mandamentos. Este é o mandamento, como já desde o princípio ouvistes, que andeis nEle” (2 Jo 1:6).

Essa definição joanina será a bússola que nos conduzirá durante a análise do tema e que permitirá chegarmos a um entendimento seguro da natureza do amor de Deus para com os homens.

 

O amor dos homens para com Deus

Sobre o uso do termo amor, Jesus deixou explicito, de como amar a Deus:

“Mas, é para que o mundo saiba, que eu amo o Pai e que faço como o Pai me mandou. Levantai-vos, vamo-nos daqui” (Jo 14:31).

Jesus amava a Deus, fazendo, especificamente, o que Ele ordenou e qualquer que diz amar a Deus, tem que fazer, exatamente, o que Jesus fez: obedecer a Deus!

Nesse mesmo sentido, qualquer que diz ‘amar’ a Jesus, tem que obedecer aos Seus mandamentos, pois, se não obedecer aos mandamentos de Jesus, significa que não O ama (Jo 14:21 e 23-24).

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama, será amado de meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21).

“Jesus respondeu e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o amará, viremos para ele e faremos nele morada. Quem não me ama. não guarda as minhas palavras; ora, a palavra que ouvistes não é minha, mas do Pai que me enviou” (Jo 14:23-24).

Jesus não falou do amor, segundo os termos gregos ‘storge’, ‘eros’, ‘philia’ ou, ‘ágape’. O amor, do qual Jesus falou, é condicional, portanto, foge das definições que muitos livros de teologia apresentam:

“Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14:15).

O amor que Jesus exige é serviçal, sujeito ao seu senhorio, conforme expresso no seu convite:

“Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11:28-30).

“E por que me chamais, SENHOR, Senhor, se não fazeis o que eu vos digo?” (Lc 6:46).

Qualquer que se achegar a Cristo, precisa tomar sobre si o jugo de Jesus, se fazendo servo, ou seja, é o mesmo que humilhar-se a si mesmo. “E o que a si mesmo se exaltar, será humilhado; e o que a si mesmo se humilhar, será exaltado” (Mt 23:12).

 

O amor de Deus para com os homens

Ao fazer o que Deus manda, o homem ama a Deus e, em contra partida, o homem estará sob o amor de Deus, ou seja, sob o seu cuidado, como se lê:

“Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor” (Jo 15:10).

A definição do amor bíblico foi dada por Deus ao povo de Israel, por intermédio de Moisés, conforme expresso no livro do Êxodo:

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” (Ex 20:6).

Assim, decorre de Êxodo 20, verso 6, a declaração: “Eu amo aos que me amam e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17).

Os que guardam os mandamentos de Deus, são os que O amam, portanto, Deus ama os que O amam, ou seja, faz misericórdia aos que guardam o Seu mandamento.

Voltemos à definição joanina do amor de Deus:

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” (1 Jo 5:3).

O amor de Deus está expresso em seus mandamentos e os homens, por sua vez, amam a Deus, obedecendo-O. Quando Deus dá um mandamento, há um objetivo: a obediência de um coração puro.

“Ora, o fim do mandamento é o amor de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé não fingida” (1 Tm 1:5)

Ao escrever a Timóteo, o apóstolo Paulo não falou do fim da lei, antes, do objetivo do mandamento de Deus: a obediência. O termo grego τέλος (telos), traduzido por ‘fim’, na verdade significa ‘finalidade’, ‘objetivo’. O mandamento que o apóstolo Paulo destaca, refere-se à doutrina do evangelho (1 Tm 1:3).

O mandamento de Deus expressa o Seu cuidado e tem por objetivo a obediência do homem e quando a obediência ocorre, o homem estará ao abrigo do cuidado de Deus.

O leitor deve estar atento, pois, algumas vezes, os escritores bíblicos fazem referência ao amor de Deus e outras vezes, ao amor do homem. Por exemplo, neste verso da epístola de João, o amor em destaque é o do homem:

“No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena e o que teme não é perfeito em amor” (1 Jo 4:18).

O amar que não remete ao medo, não diz do amor de Deus, mas, sim, do amor do homem. O amor como obediência, não tem espaço para o medo, antes a perfeita obediência lança fora o medo. O medo só vem à tona por causa da pena e, qualquer que tem medo, é porque não é um obediente perfeito.

O salmista, no Salmo 71, faz referência ao mandamento de Deus que salva, expressão do amor de Deus:

“Sê tu a minha habitação forte, à qual possa recorrer, continuamente. Deste um mandamento que me salva, pois tu és a minha rocha e a minha fortaleza” (Sl 71:3).

Um exemplo de amor bíblico, ocorre no evento em que Jesus se encontra com o jovem rico. Ao amar o jovem rico, Jesus deu-lhe um mandamento: – “Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz e segue-me” (Mc 10:21).

Caso o jovem desse ouvidos à ordem de Cristo, teria obedecido ao Mestre. Em outras palavras, haveria amado a Cristo e seria amado por Deus. “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama, será amado de meu Pai, eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21).

Semelhantemente, Deus, ao amar homens de todas as tribos, povos e línguas (mundo), deu o seu Filho Unigênito, pois, em Cristo, está implícito o Seu mandamento, um mandamento que salva: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo” (1 Jo 3:23), visto que o amor de Deus é especifico:

“Nisto se manifesta o amor de Deus para conosco: que Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo, para que por ele vivamos” (1 Jo 4:9).

“E o amor é este: que andemos segundo os seus mandamentos” (2 Jo 1:6).

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos” (1 Jo 5:3).

O apóstolo João destaca que os cristãos só amam a Deus, porque Deus os amou primeiro: “Nós o amamos a ele, porque ele nos amou primeiro” (1 Jo 4:19). O amor de Deus para com a humanidade foi manifesto, quando Ele enviou o Seu Filho Unigênito ao mundo, porém, o amor de Deus foi estabelecido na fundação do mundo, uma vez que o cordeiro de Deus foi morto, desde a fundação do mundo (Ap 13:8).

Só é possível obedecer, quando há um mandamento, uma vez que, primeiro Deus deu o Seu mandamento em Cristo, daí o ‘amamos (obedecemos) a Ele, porque Ele nos amou (deu um mandamento) primeiro’.

Deus estabeleceu o seu mandamento, já na fundação do mundo. Deus não tem que provar nada e nem deu provas, antes, ‘estabeleceu’ o Seu amor, quando fundou o mundo, uma vez que o cordeiro foi morto, desde a fundação do mundo e o evidenciou aos olhos do mundo, na plenitude dos tempos, quando Cristo veio e morreu na cruz!

“Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5:8).

O apóstolo Paulo, ao abordar o amor de Deus, evidencia que Ele estabeleceu o seu amor para com os cristãos, no fato de Cristo ter morrido, quando ainda éramos pecadores. Os tradutores utilizam o verbo ‘provar’, para traduzir as variantes συνισταω (sunistao), συνιστανω (sunistano) ou συνιστημι (sunistemi) [4].

A ideia de um amor que admite prova, é decorrente do humanismo, movimento cultural/filosófico que se apegou aos conceitos filosóficos platonista e aristotélico, e que, em muitos casos, deixou de lado o sentido da linguagem do homem do campo, da antiguidade, que permeava as relações aristocráticas.

Cristo, por sua vez, ao fazer uso do termo αγαπη (agapē), não o fez, no sentido de caridade, mas, no sentido de honra. Para que o mundo soubesse que Cristo honrou o Pai, Ele fez, especificamente, o que o Pai ordenou: “Mas, é para que o mundo saiba que eu amo o Pai e que faço como o Pai me mandou. Levantai-vos, vamo-nos daqui” (Jo 14:31).

Apesar dos estudiosos conhecerem a essência do termo grego αγαπη (agapē), quando abordam o tema ‘amor’ na Bíblia, dão um novo significado ao termo e fazem um desserviço ao evangelho. Observe:

“Amor (gr. agape) (1 Pe 4.8; Rm 5.5, 8; 1 Jo 3.1; 4.7, 8,16; Jd 21) Esta palavra raramente era usada na literatura grega, antes do Novo Testamento. E quando isso acontecia, ela era usada para expressar um ato de gentileza aos estrangeiros, de oferecer hospitalidade e ser caridoso”. O novo comentário bíblico NT, com recursos adicionais — A Palavra de Deus ao Alcance de Todos, Editores Earl Radmacher, Ronald B. Allen e H. Wayne House, Rio de Janeiro, 2010, pág. 701.

“agapaõ que, originalmente, significava “honrar” ou “dar boas-vindas”, é, no Gr. clássico, a palavra que tem menos definição específica; frequentemente, se emprega como sinônimo de phileõ, sem haver qualquer distinção, necessariamente nítida, quanto ao significado (…) 4. Não está clara a etimologia de agapaõ e agapè. O vb. agapaõ aparece, frequentemente, na literatura gr. de Homero em diante, mas o subs. agapè é uma construção, que só aparece no Gr. posterior. Foi achada uma só referência fora da Bíblia: ali, a deusa Isis recebe o título de agapè (P. Oxy, 1380, 109; século II d.C.), agapaõ é frequentemente uma palavra descolorida em Grego e aparece, com frequência, como alternativa para, ou sinônimo com, eraõ e phileõ, com o significado de “gostar de”, “tratar com respeito”, “estar contente com”, e “dar as boas-vindas”. Quando, em raras ocasiões, se refere a alguém que foi favorecido por um deus (cf. Dio. Cris., Orationes 33, 21), fica claro que, diferentemente, de eraõ, não se refere ao anseio humano por posses ou valores, mas, sim, uma iniciativa generosa de uma pessoa por amor à outra”. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, Colin Brown, Lothar Coenen (orgs.); [tradução Gordón Chown] — 2ª ed. — São Paulo; Vida Nova, 2000, págs. 113 e 114.

Por causa da má leitura do termo αγαπη (agapē), quando empregado nas Escrituras, surgiu a ideia de que o amor de Deus é incondicional[5], ou seja, que Deus não exige nenhum quesito para amar e nem espera reciprocidade. Por outro lado, as Escrituras apresentam o amor de Deus, em outros termos:

“Eu amo aos que me amam e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17).

O amor de Deus para com o homem é condicional, pois Ele ama aos que O amam. É condicional por haver um quesito e demanda reciprocidade. Concluir que o amor de Deus é incondicional, geralmente decorre da má leitura dos seguintes versículos:

“Nisto consiste o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou (…) Nós o amamos a Ele, porque ele nos amou primeiro” (1 Jo 4:10 e 19).

“Mas, Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5:8).

Só é possível ao homem amar a Deus porque Ele amou primeiro, ou seja, se Deus não houvesse primeiramente dado um mandamento aos homens, seria impossível aos homens amarem a Deus. Daí a definição joanina:

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos” (1 Jo 5:3).

A essência do amor bíblico é a obediência à palavra de Deus, enquanto as elucubrações humanas entendem o amor, a partir de termos gregos e daí surgem só especulações, como: amor-doação, amor-entrega, que sai de si, em benefício do outro, capaz de doar-se, dar a vida, amor que faz tudo pelo amado, amor incondicional, amor que também é perdão, amor-caridade, misericórdia, etc.

Observe a exposição de Bancroft, acerca do amor de Deus:

“Assim como existe uma mente mais alta que a nossa, semelhantemente, existe um coração maior que o nosso. Deus não é, simplesmente, Aquele que ama; Ele é igualmente o Amor que é amado. Há uma infinita vida de sensibilidade e afeição em Deus. Deus tem sensibilidade e isso, em grau infinito. O sentimento por si só, porém, ainda não é amor. O amor implica não apenas em receber, mas em dar, não meramente em emoção, mas em concessão…”  Bancroft, Emery H., Teologia Elementar, Doutrinária e Conservadora, Editora Batista Regular, São Paulo, 2001, pág. 73.

A definição de Bancroft não passa de tergiversações e elucubrações, sem nenhuma fundamentação bíblica, pois trata o amor de Deus do ponto de vista da sensibilidade e da afeição humana.

Um exemplo claro do amor de Deus, nas Escrituras, encontramos na pessoa de Naamã, o capitão do exército do rei da Síria. Naamã não nutria nenhuma sensibilidade ou afeição pelo Deus de Israel, visto que ele nem mesmo sabia que somente em Israel havia Deus.  Ao saber que teria de mergulhar sete vezes no rio Jordão, a reação de Naamã foi de indignação.

Do mesmo modo, Deus não fez concessões e nem se sensibilizou com Naamã, por causa da sua enfermidade. Se Deus não se sensibilizou para atender aos milhares de leprosos que haviam em Israel, não seria o caso de se sensibilizar por um único homem estrangeiro (Lc 4:27).

O amor de Deus foi demonstrado por intermédio de um mensageiro do profeta, que disse: – “Vai e lava-te sete vezes no Jordão, que a tua carne será curada e ficarás purificado” (2Rs 5:10). Deus não se ocupou com o fato de Naamã ficar indignado e nem com a ideia que ele possuía acerca de Deus e do seu profeta (2Rs 5:11), mas, sim, em que se obedecesse à Sua palavra.

Deus não se sensibilizou e nem sentiu qualquer afeto pela viúva de Sarepta, de Sidom, pois, em igual situação, estavam muitas outras viúvas em Israel. Ele atendeu a viúva, por ela se dispor a atender a ordem de Deus: sustentar o profeta de Deus, mesmo não tendo recursos para fazê-lo: “Levanta-te e vai para Sarepta, que é de Sidom, e habita ali; eis que eu ordenei ali a uma mulher viúva que te sustente” (1Rs 17:9).

Devemos conhecer (tornar um com Ele) e prosseguir em conhecer ao nosso Deus (Os 6:3), pois o que Ele requer é a obediência:

“Porque eu quero a misericórdia e não o sacrifício e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos” (Os 6:6).

“Porém, Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” (1 Sm 15:22).

Mas, como ler o verso 16, do capítulo 3, do evangelho de João?

“Porque Deus amou ao mundo de tal[6] maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16).

Como temos a definição joanina: “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos”. (1 Jo 5:3), para compreendermos o verso 16, de João 3, temos que localizar onde está expresso o mandamento de Deus que os homens devem guardar.

Como desconhecem a natureza do amor de Deus, muitos intérpretes da Bíblia vislumbram, equivocadamente, que, no ato de Deus dar o Seu Único Filho, tem-se prova da intensidade do amor de Deus.

Considerando o texto na língua grega, verifica-se que Jesus estava explicando a Nicodemos como Deus amou o mundo: deu o Seu Filho único, o que é completamente diferente da ideia de que Deus amou intensamente o mundo. Ao dar o Seu Filho, temos como Deus amou o mundo, não um vislumbre da intensidade do amor de Deus.

“οὕτως[7] γὰρ[8] ἠγάπησεν[9] ὁ θεὸς τὸν κόσμον, ὥστε τὸν υἱὸν τὸν μονογενῆ ἔδωκεν ἵνα πᾶς ὁ πιστεύων εἰς αὐτὸν μὴ ἀπόληται ἀλλ’ ἔχῃ ζωὴν αἰώνιον” (João 3:16), Westcott and Hort.

“assim[2] Pois[1] amou[4] deus[3] o mundo, que o[2] Filho[3] único[4] deu[1], para que todo o que crê em ele não pereça mas tenha vida eterna”. Novo Testamento Interlinerar,  grego-português, Barueri, SP, SBB, 2004.

O texto, na língua grega, não tem um advérbio que modifique o sentido do verbo ἠγάπησεν (amou) intensificando-o, antes, temos um advérbio explicativo: οὕτως (deste modo, assim, desta maneira). Entretanto, apesar de não termos um advérbio que intensifique a ação do verbo, os tradutores passaram a considerar que o termo grego ἠγάπησεν (ēgapēsen), traduzido por ‘amou’, demonstra intensidade.

O termo ἠγάπησεν ocorre 12 vezes no Novo Testamento, incluindo João 3, verso 16: Marcos 10:21; Lucas 7:47; João 13:1; João 15:9; Efésios 2:4; Efésios 5:2 e 25; 2 Pedro 2:15; 1 João 4:10-11 e 19 e, em nenhuma dessas referências, o termo ἠγάπησεν denota amor com intensidade.

Vale destacar que, no capítulo 2 da carta de Paulo aos Efésios, verso 4, o apóstolo faz referência a Deus como rico em misericórdia, em virtude do seu grande amor. Mesmo fazendo referência à grandeza do amor de Deus, dimensionando-o, o apóstolo dos gentios afirma somente que Deus amou, portanto, não faz referência à ideia de intensidade.

O apóstolo Paulo ao fazer referencia aos elementos que utilizamos para dimensionar um objeto (largura, comprimento, altura e profundidade), demonstra que o amor de Deus é um conhecimento invariável e plenamente compreensível “Poderdes perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade” (Ef 3:18).

“Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou” (Ef 2:4).

Percebe-se que os tradutores do Novo Testamento seguiram a tendência dos tradutores da Septuaginta[10], que utilizaram o termo grego αγαπαω. para verterem o termo hebraico עגב, donde a concepção de intensidade, quando da tradução do termo ἠγάπησεν, no verso em comento, possivelmente surgiu.

Se o leitor seguir a definição dada pelo evangelista João e procurar o mandamento de Deus no versículo em análise, verá que Deus deu o Seu Filho com uma finalidade: para que, qualquer (judeu ou grego) que crer em Cristo, não pereça, mas tenha a vida eterna. Em crer em Cristo está o mandamento de Deus, como se lê:

“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1Jo 3:23).

Portanto, o amor de Deus é objetivo[11]: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, como já lemos:

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos” (1 Jo 5:3).


[1] “Deus é amor”, diz o apóstolo João. Quando tentei começar a escrever este livro pensei que seu axioma iria fornecer-me um caminho plano, através de todo o assunto. Estava certo de poder dizer que o amor humano só merecia ser assim chamado, naquilo em que se assemelhava àquele Amor que é Deus” Lewis, C. S., Os quatro amores, 2ª ed., São Paulo, WMF Martins Fontes, 2009.

[2]  Para os eruditos, o amor possui quatro vertentes, conforme os termos gregos utilizados para fazer referência ao amor: Storge, Eros, Philia e Ágape. Analisam o amor através da mitologia grega ou, através dos escritos de Platão (Eros) ou, procuram compreender o amor através da percepção de Aristóteles (philia), e, quando se deparam com a Bíblia, alegam que as ideias ditas cristãs devem ser analisadas através do amor ‘ágape’.

[3] “Deus é amor. De novo: “Nisto consiste o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou” (I João 4:10). Não devemos principiar com misticismo, com o amor da criatura por Deus, ou com a maravilhosa antecipação da fruição de Deus, concedida a alguns na vida terrena. Começamos no verdadeiro inicio, com o amor, como a energia Divina. Este amor primevo é o amor-Doação. Em Deus não existe fome a ser satisfeita, apenas fartura que deseja doar. A doutrina de que Deus não tinha necessidade de criar não é uma peça de especulação acadêmica, mas essencial”. Lewis, C. S., Os quatro amores, 2ª ed., São Paulo, WMF Martins Fontes, 2009.

[4] “4921 συνισταω (sunistao) ou (fortalecido) συνιστανω (sunistano) ou συνιστημι (sunistemi), de 4862 e 2476 (que inclui suas formas concomitantes); TDNT – 7:896, 1120, v. 1) estabelecer com, colocar no mesmo lugar, juntar ou unir 1a) permanecer com (ou próximo) 2) colocar alguém com outro 2a) apresentando-o ou introduzindo-o 2b) compreender 3) colocar junto por composição ou combinação, ensinar pela combinação e comparação 3a) mostrar, provar, estabelecer, exibir 4) colocar com, unir as partes num todo 4a) ser composto de, consistir”, Dicionário Bíblico Strong.

[5] “Mas o amor-Doação divino – o próprio Amor operando no homem – é inteiramente desinteressado e deseja o que é, simplesmente, melhor para o ente amado” Lewis, C. S., Os Quatro Amores.

[6] “Pois Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho único, para que não morra quem nele acredita, mas tenha a vida eterna”. Nova Bíblia Pastoral, Editora Paulus, 2014.

[7] “3779 ουτω (houto) ou (diante de vogal) ουτως (houtos) de 3778; adv 1) deste modo, assim, desta maneira”, Dicionário Bíblico Strong.

[8] “1063 γαρ (gar), partícula primária; conj 1) porque, pois, visto que, então”, Dicionário Bíblico Strong.

[9] “25 αγαπαω (agapao) talvez de agan (muito) [ou cf 5689 עגב ]; TDNT 1:21,5; v 1) com respeito às pessoas 1a) receber com alegria, acolher, gostar muito de, amar ternamente 2) com respeito às coisas 2a) estar satisfeito, estar contente sobre ou com as coisas. Sinônimos, ver verbete 5914”; “05689 agab (עגב), uma raiz primitiva, grego 25 αγαπαω; DITAT, 1559; v 1) (Qal) ter afeição desordenada ou cobiça 1a) cobiça (particípio) 1b) amantes (particípio como subst)”, Dicionário Bíblico Strong.

[10] “Na LXX, agapaõ se emprega, de preferência, para traduzir o verbo heb. Ãhèb. O subs. agapè acha aqui a sua origem, ao representar o Heb. ’ah bâk. O vb. Ocorre, muito mais, frequentemente, do que o subs. ’ahèb e pode se referir, tanto a pessoas, como a coisas, e denota, em primeiro lugar, o relacionamento de seres humanos entre si, e, em segundo lugar, o relacionamento entre Deus e o homem (…) Na LXX (Septuaginta), surge diante de nós um quadro bem diferente’; phileõ, ocorre raras vezes, enquanto o vb. agapaõ, e o subs. agapè (doutra forma, quase, inteiramente, desconhecido no Gr.) se acham a cada passo. Não é possível discernir se se empregam conforme regras fixas, pois phileò (30 vezes), tal como agapaò (cerca de 263 vezes), geralmente traduz o Heb. ahèb (e.g. Gn 27:4 e segs.; 37:4 [cf. 37:3]; Is 56:10; Pv 8:17 [cf. 8:21]). Embora o Heb. tenha uma gama inteira de palavras para expressar o conceito contrário do ódio (enquanto a LXX só tem a palavra única miseõ – Inimigo, art. miseõ), tem, virtualmente, a única raiz .ahèb à sua disposição para a gama de sentimentos, que se associam com o amor. O Gr., de outro lado, tem várias raízes e palavras derivadas para expressar as várias matizes do amor: philia (38 vezes), que geralmente traduz ‘aheb, ’ahabâh, é comparativamente rara, embora philos (cerca de 181 vezes), que, geralmente, traduz rèa, embora, frequentemente, sem equivalente heb., seja mais comum na LXX”, Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, Colin Brown, Lothar Coenen (orgs.); [tradução Gordón Chown], 2ª ed., São Paulo, Vida Nova, 2000, págs. 114 e 121.

[11] “A névoa do subjetivismo, permeado pelo idealismo, que as concepções religiosas de nossos dias prescrevem aos seus seguidores, através do termo ‘amor’, não guarda relação com o imperativo grave e objetivo definido no N. T., como: “Nenhum servo pode servir a dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Lc 16:13)” Crispim, Claudio, in A obra que Demonstra Amor a Deus, São Paulo, NewBook, 2012, pág 78. “Tanto o amor de Deus, quanto o amor a Deus, é objetivo: Cristo é o amor de Deus e quem O obedece, O ama. Quando compreendemos o amor, segundo o proposto por Cristo e pelos apóstolos, saímos do campo do subjetivismo. O amor deixa de ter relação com o que se passa no íntimo do sujeito pensante: julgamentos, sentimentos, hábitos, paradigmas, etc., de cada indivíduo, visto que o mandamento de Deus não sofre variação”, idem, pág. 108.

Ler mais

Só é possível crer depois de chamado e habilitado por Deus?

Quando Deus criou o homem concedeu-lhe o livre arbítrio (vontade livre), e a queda do homem demonstra que Deus, na sua soberania, não influenciou a vontade do homem para dissuadi-lo da sua decisão.

Ler mais

A salvação é condicionada ou incondicionada?

Se alguém oferece um copo com água a alguém com sede, que mérito há em quem bebe a água? É isto que Jesus oferece: “E no último dia, o grande dia da festa, Jesus pôs-se em pé, e clamou, dizendo: Se alguém tem sede, venha a mim, e beba” ( Jo 7:37 ). Ora, se alguém tem sede, que venha e beba: oferta de salvação “Mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna” ( Jo 4:14 ).


Introdução

A discussão acerca da salvação se é condicionada ou não se deve a uma outra: se há algum mérito em o homem crer em Cristo.

Há aqueles que negam que a salvação é concedida aqueles que ouvem a mensagem do evangelho e creem em Cristo, pois anunciam uma graça ‘especial’ dada somente a alguns indivíduos que, por meio desta graça, são ‘habilitados a crerem. Este pensamento surgiu por entenderem que, se o homem se decidir crer em Cristo somente por ouvir a mensagem do evangelho, que há mérito no homem que tornou-se um coadjuvante na salvação.

 

Convite

No Antigo Testamento a salvação é apresentada de várias formas ao povo. Dentre elas destacamos:

a) Ordem – “Olhai para mim, e sereis salvos…” ( Is 45:22 );
b) Convite – “Ó VÓS, todos os que tendes sede, vinde às águas, e os que não tendes dinheiro, vinde, comprai, e comei; sim, vinde, comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite” ( Is 55:1 );
c) Orientação – “E rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao SENHOR vosso Deus; porque ele é misericordioso, e compassivo, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e se arrepende do mal” ( Jl 2:13 ).

O que estes versículos apresentam: uma condição a ser satisfeita pelo homem ou apontam uma necessidade intrínseca ao homem?

Os homens são concitados a se salvarem, ou a olhar para Deus que salva? Os homens são concitados a ‘virem’ às águas, ou que providenciem água para si?

No Antigo Testamento não havia a concepção de ‘promessa’ como é usual em nossos dias, pois era o bastante afirmar que alguém disse ou proferiu alguma palavra com referência ao futuro para ser aceito como verdadeiro “…onde nossas versões portuguesas dizem que alguém prometeu alguma coisa, o hebraico simplesmente afirma que alguém disse ou proferiu (‘amar, dabhar) alguma palavra com referência ao futuro…” (Promessa. In: DOUGLAS, J.D. O novo dicionário da Bíblia, t.II, p.1330).

Em nossos dias, por causa da crescente onda de mentiras, a ideia de promessa assume um significado específico. Não basta alguém declarar algo a respeito do futuro, antes deve declinar a sua palavra e dar peso a ela através de uma promessa.

Por ‘promessa’, os lexicógrafos modernos definem como ‘ato ou efeito de prometer’ ou ‘compromisso oral ou escrito de realizar um ato ou de contrair uma obrigação’. Tal palavra tem origem no latim “promissa”, palavra derivada do plural de uma forma verbal “promissum”, cujo significado é ‘lançar, atirar longe, deixar crescer para diante, oferecer, propor, obrigar-se, etc.

A ideia grega proveniente da palavra ‘epangelia’ também não segue a concepção atual de promessa. Para os gregos a ideia de promessa vincula-se a palavra grega “epangelia” (επαγγελια) que também significa ‘anuncio’, ‘mensagem’, e deriva da mesma raiz da palavra ‘evangelho’.

Percebe-se que na antiguidade ‘anunciar’ ou transmitir uma ‘mensagem’ era o mesmo que estabelecer algo veraz. Se alguém proferisse alguma palavra com referência ao futuro, era mais que suficiente para ter a devida credibilidade.

Hoje, para dar à devida credibilidade as palavras que proferimos, é usual prometermos ou até estabelecermos um compromisso oral ou escrito de realizar um ato ou de contrair uma obrigação frente algumas testemunhas ou autoridade constituídas para este fim.

Ora, a palavra, o anúncio, a mensagem ou o que Deus proferiu a respeito do futuro é superior ao que entendemos hoje por promessa. A promessa: ‘… será salvo…’ é a palavra que Deus (aquele que não pode mentir) proferiu a respeito da salvação “Em esperança da vida eterna, a qual Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos dos séculos” ( Tt 1:2 ).

A palavra proferida por Deus acerca da salvação teve por base o Cristo e foi estabelecida ‘antes dos tempos dos séculos’. Deus falou acerca da salvação e o cordeiro foi morto antes da existência dos homens, e no seu devido tempo por intermédio do evangelho é ofertada salvação a todos os homens ( Tt 1:3 ).

Quando Deus prometeu (επαγγελια) salvação, não foi imposta nenhuma condição, uma vez que aqueles que seriam salvos nem mesmo existiam. Porém, o que era necessário para levar a efeito a palavra que foi anunciada antes dos tempos dos séculos Deus providenciou: o cordeiro foi morto antes da fundação do mundo ( Ap 13:8 ).

Neste sentido não há como relacionar a promessa de salvação a algum mérito por parte do homem, pois o que era preciso para o homem ser salvo Deus providenciou antes de os homens virem à existência.

Quando Deus diz: “Olhai para mim, e sereis salvos…” ( Is 45:22 ), a sua palavra demonstra duas verdades: a) que o homem está perdido, e; b) que necessita de salvação. É por isso que Jesus disse a Nicodemos: “Necessário vos é nascer de novo” ( Jo 3:7 b).

A necessidade é premente a todos os homens. Todos precisam de salvação por estarem perdidos, e somente Deus pode satisfazer-lhes a necessidade.

Deus apontou aos homens a necessidade do novo nascimento, porém, o novo nascimento não é algo possível aos homens realizarem.

É possível ao homem promover um novo nascimento? Não! É impossível ao homem nascer de novo assim como é impossível ao homem fazer com que venha ao mundo um novo ser. E por que Jesus alerta Nicodemos que é necessário ao homem nascer de novo? Porque assim como é necessário a vontade do homem para vir a existência um ser segundo a carne e o sangue, para vir a existência um novo homem é necessário a vontade do homem.

Ora, o homem só nasce de novo quando nasce da água (palavra) e do Espírito (de Deus). Não há como o homem providenciar a água ou o Espírito, mas é necessário atender o chamado de Deus, quando lhe será dado um novo coração e um novo espírito que só Deus tem poder para criar ( Sl 51:10 ).

Por isso, quando lemos: “Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado” ( Mc 16:16 ), a mensagem deve ser entendida como um convite à salvação, e o crer na mensagem do evangelho é o essencial a salvação. Com relação a mensagem de salvação não há o que o homem possa realizar, se não descansar na promessa.

“Quem crer…”  diz de uma oferta salvadora a todos os homens que lhes preserva o arbítrio. Como oferecer salvação gratuita a todos os homens sem influenciá-los? Ora, a influencia está na mensagem que demonstra que o homem está perdido e que necessita de salvação.

Quando se lê: “Quem crer em mim, como diz as escrituras…” ( Jo 7:38 ), há muitos que entendem o ‘crer’ na mensagem do evangelho como uma obra meritória por parte do homem. No entanto, o evangelho não estabelece exigências aos homens, pois se assim fosse deixaria de ser oferta graciosa para ser um acordo entre as partes.

Para melhor compreender a oferta redentora é preciso considerar os elementos que envolveram a queda da humanidade em Adão. Quando lemos: “De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerá, pois no dia em que comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:17 ), percebe-se que Deus enfatizou a plena liberdade que o homem possuía em comer de todas as árvores do jardim.

Em segundo lugar, Deus alerta sobre as conseqüências em decidir-se por lançar mão do fruto da árvore do bem e do mal.

Foi concedida ao homem liberdade plena com garantias (acesso a todas as árvores), meios (árvore da vida, árvore do conhecimento do bem e do mal e toda sorte de árvores frutíferas) e o conhecimento necessário para exercício desta liberdade (restrição com as conseqüências).

Satanás ao tentar a mulher enfatizou somente a proibição: “É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim?” ( Gn 3:1 ). Onde Deus estabeleceu plena liberdade, satanás apresentou ao homem proibição.

Ou seja, quando se diz: “Quem crer em mim… ’ a ênfase do anunciado é salvação a todos os homens. Todos quantos crerem, sem exceção, serão salvos “Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe, a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar” ( At 2:39 ).

Quando se diz: “Quem crer…” é o mesmo que: “… a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos (judeus), e a todos os que estão longe (gentios), a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar”, ou seja, Deus não está restringindo a sua graça, antes ele manifesta a sua graça a tantos quantos forem chamados, pois o seu desejo é que ninguém se perca, mas que venham ao conhecimento da vida eterna ( 1Tm 2:4 ).

É por isso que o apóstolo Paulo disse que a graça de Deus se manifestou trazendo salvação a todos os homens ( Tt 2:11 ).

A manifesta benignidade de Deus não veio por obras de justiças realizáveis por parte do homem, mas por intermédio da sua misericórdia ( Tt 3:4 -5).

A graça de Deus foi concedida aos homens antes dos tempos eternos e manifesto através do aparecimento de Jesus, o Salvador, pois ele destruiu a morte trazendo à luz a vida e a imortalidade pelo evangelho ( 2Tm 1:9 -10).

A graça foi dada em um tempo imemorial através da oferta do cordeiro, porém, tal fato tornou-se conhecido dos homens através da manifestação (aparecimento) de Cristo. Temos dois eventos distintos.

Ela foi concedida aos homens antes de virem à existência, portanto, neste aspecto é incondicional e graciosa a todos os homens. A graça de Deus é incondicional, ou seja, não depende de obras para ser alcançada.

Mas, que se dirá da fé? A salvação não necessita de fé?

 

O ‘evangelho’ versus a ‘crença’

A fé em Cristo não se compara a idéia de fé que existe em outras crenças.

A fé ou a crença dos homens resulta de um esforço próprio em acreditar em seus ídolos. Embora os ídolos nada sejam, os seus seguidores nutrem uma crença que originou-se neles mesmo “Assim que, quanto ao comer das coisas sacrificadas aos ídolos, sabemos que o ídolo nada é no mundo, e que não há outro Deus, senão um só” ( 1Co 8:4 ).

Os ídolos dependem da devoção (crença) de seus seguidores, uma vez que sem a ‘devida’ devoção deixariam de ser ídolos. Com relação a Deus, quer creia ou não, Deus sempre será Deus. Ele não depende da fé dos homens para existir ou para realizar os seus propósitos como é o caso dos ídolos.

Um exemplo de esforço humano em acreditar em seus deuses visualiza-se nos seguidores de Baal, quando desafiados por Elias. Eles invocaram a Baal desde a manhã até o meio-dia fazendo oferendas e retalhando os seus corpos, porém, não desistiram da crença em Baal ( 1Re 18:28 ).

Os livros de auto-ajuda apregoam uma fé em si mesmo. Confiança e persistência em realizar o que se propõe tornam-se a força motriz das realizações humanas, o que também denominam fé. Da fé procedem os desígnios dos homens e as suas realizações neste mundo: é a fé natural que o homem adquire proveniente das leis naturais que regem este mundo.

A fé para salvação não é o lançar-se no improvável, antes é certeza quanto às coisas que se esperam. A fé diz da confiança na esperança proposta, e não naquilo que não foi proposto “ORA, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem” ( Hb 11:1 ).

Deus havia determinado ao povo de Israel que não levassem a arca da aliança para a guerra, porém, quando guerrearam contra os filisteus desobedeceram a Deus e confiaram que a arca da aliança haveria de livrá-los do inimigo “E voltando o povo ao arraial, disseram os anciãos de Israel: Por que nos feriu o SENHOR hoje diante dos filisteus? Tragamos de Siló a arca da aliança do SENHOR, e venha no meio de nós, para que nos livre da mão de nossos inimigos” ( 1Sm 4:3 ).

Ora, a confiança deles era grande, pois estavam motivados a irem à batalha e cantaram em alta voz de tal forma que a terra chegou a estremecer. A confiança deles de nada aproveitou, pois ignoraram (desprezaram) a palavra de Deus e seguiram os seus corações enganosos “E sucedeu que, vindo a arca da aliança do SENHOR ao arraial, todo o Israel gritou com grande júbilo, até que a terra estremeceu” ( 1Sm 4:5 ).

A ‘fé’ que tiveram não os salvou, pois Deus não tinha compromisso com os rebelados. Lançaram-se onde não havia promessa. O ato de lançarem-se confiados seriam vencedores indica que tinham fé, porém, a fé deles não tinha como base o firme fundamento, que é a palavra de Deus.

A definição que o escritor aos hebreus apresenta sobre a fé, demonstra que só em Deus é possível ao homem ter certeza quanto ao que se espera. A fé em Deus constitui-se em prova das coisas que não se vêem, pois é o mesmo que lançar mão da esperança proposta ( Hb 6:18 ).

Ora, quando Jesus disse: “Quem crê em mim, conforme diz as escrituras…”, temos uma oferta de salvação a todos os homens que, ao ouvirem a palavra da verdade, devem lançar mão (crer) da esperança proposta.

Há muitos tipos de fé e crenças. Muitos creem em Cristo como um ser elevado, outros como sendo um anjo de Deus. Outros acreditam que Jesus é um espírito iluminado, outros que ele não veio em carne, outros que não ressurgiu etc. De nada lhes aproveitará tal fé para a salvação, pois devem crer segundo a palavra de Deus (segundo a esperança proposta).

Em nossos dias há um pseudo-evangelho que anuncia que Deus prometeu aos que creem bens materiais, relacionamentos amorosos, sucesso profissional, vida conjugal, destaque na sociedade, etc., porém, Cristo não fez promessas específicas e pontuais acerca do dia-a-dia dos seus seguidores, pois a sua promessa é a de vida eterna “E esta é a promessa que ele nos fez: a vida eterna” ( 1Jo 2:25 ).

Como prova de fé muitos lideres solicitam contribuições, doações, votos, provas, desafios e muitos se lançam no improvável, porém, de nada lhes adiantará tamanha fé, pois não é segundo a esperança proposta.

Com relação à vida dos servos de Cristo tem-se a promessa de que Ele estará com eles todos os dias; que tudo concorrerá para o bem deles; que em tudo teriam toda a suficiência; que teriam aflição neste mundo, mas que tivessem bom ânimo. Todas as promessas de Cristo diferem completamente do que se anuncia em nossos dias.

A fé para salvação não é um sentimento, um patuá ou um talismã que o homem se apodera para manter-se unido a Deus. A fé para a salvação não é fé na fé, ou seja, não é a fé que moverá as montanhas ou propiciará salvação (a fé é naquele que remove montanhas), antes a fé para salvação é descansar em Deus que prometeu (esperança proposta) e tem poder para mover montanhas (fazer o impossível aos homens). Confiar nele equivale a descansar, a estar quieto.

Somente descansa e fica quieto aquele que constata que Deus é verdadeiro ( Sl 46:10 ). A crença por si só não faz o impossível, antes é Deus quem faz o impossível, segundo a sua palavra (esperança proposta) “E Jesus, olhando para eles, disse-lhes: Aos homens é isso impossível, mas a Deus tudo é possível” ( Mt 19:26 ).

Ora, confiar em Deus é o mesmo que: obedecer, cumprir os seus mandamentos, descansar, aquietar, assentar, arrepender-se, etc.

A fé está em Cristo “…sabes as sagradas letras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo” ( 2Tm 3:15 ). A fé que há em Cristo é que promove a salvação, e não a fé proveniente da concepção humana.

A fé para salvação é rendição frente à impossibilidade do homem promover a própria salvação. É descansar, entregar-se por ver que a salvação não depende e nem é promovida através de obras humanas.

Não foi o esforço de Naamã ao descer e mergulhar no rio que o livrou da lepra. Ele foi limpo da lepra segundo a palavra do profeta Eliseu.

Alguém acometido da mesma doença que Naamã poderá ir hoje ao rio Jordão crendo que, se mergulhar sete vezes ficará limpo, porém, tal confiança no mergulho no rio, ou no número de vezes a mergulhar, ou no local como propício para uma manifestação de Deus, etc, de nada aproveitará, pois as ações e nem a pretensa confiança promovem a cura.

Naamã só foi curado porque desceu ao rio segundo a palavra de Deus. Houve a multiplicação de peixes porque os discípulos lançaram a rede segundo a palavra de Jesus. Pedro andou sobre as águas porque se lançou as águas segundo a palavra de Jesus. De igual modo, o homem só é salvo quando se lança sobre a palavra de Deus anunciada por intermédio do evangelho (esperança proposta).

A salvação é incondicional no sentido de que o homem não dispunha de meios para providenciá-la. Neste sentido a cura de Naamã não dependia dele, e sim de Deus.

A salvação é incondicional por não depender de ações humanas. Deus anunciou salvação providenciando o cordeiro que foi morto antes da existência dos homens. Ou seja, quando falamos de mérito, não há mérito algum em acreditar na promessa de salvação. Não houve mérito algum em Naamã quando mergulhou no rio Jordão por sete vezes. Antes de faze-lo Naamã considerou tal ordem como um demérito.

Alguém pode argumentar que Naamã cooperou com Deus, porém, não há cooperação quando só uma das partes age. Que ação Naamã executou que o curasse? Se Naamã possuía algum mérito, porque não o demonstrou nos rios da Síria?

A cura foi realizada por Deus que é fiel a Sua palavra, bastando para a cura a obediência de Naamã. O mérito da cura é de Deus que curou!

Ocorrem duas má leituras acerta da salvação:

A) Considerar que a salvação é o resultado da cooperação entre Deus e os homens, ou que é preciso algum esforço por parte do homem, como se a salvação dependesse de uma crença do homem (condicional). Alega que a salvação é por fé, mas negam-lhe a eficácia, ao acreditar que depende do esforço do homem;

B) Por outro lado, ao dizer que a salvação é incondicional, muitos a compreendem segundo a visão calvinista e arminianista. Consideram que a salvação é o resultado de uma escolha de Deus (segundo a sua ‘soberania’ ou segundo a ideia equivocada de ‘presciência’*) de alguns homens para a salvação. Em última análise, segundo os calvinistas e os arminianistas, é o mesmo que afirmar que certos homens nunca estiveram realmente perdidos e outros nunca tiveram oportunidade de salvação.

A salvação de Deus é incondicional, pois ela se dá em Cristo “Porque todas quantas promessas há de Deus, são nele sim, e por ele o Amém, para glória de Deus por nós” ( 2Co 1:20 ).

A salvação não depende da fidelidade do homem, como dizem aqueles que consideram que a salvação depende da fé ou de esforços do homem. Exigir que o homem fosse fiel a Deus sem o evangelho (da esperança proposta) é impossível.

A Bíblia demonstra que só é possível ser fiel quando se está em Cristo, diferente da ideia que propõe que o homem seja fiel a Cristo “PAULO, apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus, aos santos que estão em Éfeso, e fiéis em Cristo Jesus:” ( Ef 1:1 ).

A fé para salvação é ‘aguardar na esperança proposta’, ou seja, que ação, obra ou cooperação exerce quem espera que uma promessa seja cumprida? Que ação, obra ou cooperação fará quem espera naquele que é fiel ( Hb 10:23 ), que não pode mentir ( Tt 1:2 ), e é todo poder ( Jd 1:4 )?

Sem a promessa de vida eterna não há como o homem ser fiel a Deus. Somente após receber a esperança proposta no evangelho é que o homem torna-se uma nova criatura, designada fiel em Cristo.

A esperança da vida eterna (fé) vem pelo ouvir acerca da esperança proposta. Ou seja, a fé que há em Cristo é dom de Deus concedido graciosamente a todos os homens.

Só é possível ouvir (ter vida) através da palavra de Deus. É por isso que o evangelho é denominado de palavra da vida ( 1Jo 1:1 ; Fl 2:16 ) e palavra da fé ( 1Tm 4:6 ), pois promove a vida e a fé.

Para aqueles que aguardam a esperança proposta (creem) só resta batalhar pela fé (evangelho) que um dia foi dado aos santos ( Fl 1:27 ; Jd 1:3 ).

Como exemplo, caso alguém ofereça um copo com água a alguém com sede, que mérito há em beber a água? É isto que Jesus oferece: “E no último dia, o grande dia da festa, Jesus pôs-se em pé, e clamou, dizendo: Se alguém tem sede, venha a mim, e beba” ( Jo 7:37 ). Ora, se alguém tem sede, que venha e beba: oferta de salvação.

A salvação é incondicional, pois foi providenciada por Deus e desta providência não há como o homem ser participante.

Mas, há a necessidade do homem aceitar o que Deus lhe propõe por intermédio do evangelho, crendo que Jesus é o Filho de Deus, e neste sentido há uma condição a ser satisfeita: destina-se a quem quiser beber “Mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna” ( Jo 4:14 ).

Ora, como a salvação é para os perdidos que quiserem, torna-se inválida a concepção de que alguns homens nasceram predestinados a salvação, e que outros jamais serão salvos.

Ora, a salvação está em Deus através da esperança proposta em Cristo a todos quantos atenderem o chamado que há na mensagem do evangelho. Muitos são chamados através do evangelho, porém poucos bebem da água oferecida, que lhes daria a condição de escolhido ( Mt 22:14 ).

De igual modo, muitos são que entram pela porta larga (nascem de Adão), mais poucos que entram pela porta estreita (nascem de novo). Nem todos entraram pela porta estreita porque Jesus é o único homem gerado de Deus que não entrou pela porta larga, ou seja, que não nasceu de Adão.

Em primeiro lugar Deus providenciou salvação poderosa a todos os homens incondicionalmente, pois todos pecaram e carecem da misericórdia de Deus. Neste sentido a salvação é incondicional. pois não há nada que o homem possa fazer que possa resultar em salvação.

Em segundo lugar a salvação está condicionada a resposta do homem à mensagem do evangelho, que é poder para salvação dos que creem ( Rm 1:16 ). O homem deve descansar na esperança proposta, na oferta da água que faz saltar uma fonte para a vida eterna. Ora, não há mérito no homem quando aceita a Cristo, pois o mérito está em Deus que prometeu salvação e é fiel.

Que mérito há em confiar em que é fiel? Ora a fidelidade de Deus é a causa da confiança do homem. O mérito está n’Aquele que é fiel e prometeu, portanto, não há mérito em que descansa em sua promessa.

É um erro considerar que a primeira obra de alguém regenerado é crer. Primeiro, porque qualquer que entrou no repouso de Deus descansou de suas obras como Deus das suas ( Hb 4:10 ); Segundo, o cristão está assentado nas regiões celestiais com Cristo em Deus. Não há obras a realizar para quem está assentado ( Ef 1:3 e Ef 2:6 ); Terceiro, se não foi exigido obras quando éramos pecadores, agora que já fomos reconciliados, resta somente a sua vinda. ‘Perseverar’ é a obra perfeita que a fé realiza.

Através da perseverança o homem em Cristo torna-se maduro e completo, não tendo falta de coisa alguma ( Tg 1:3 -4), aguardando a bem-aventurança proposta a quem beber da água ofertada.

* A ‘presciência’ de Deus refere-se ao ‘conhecimento’, a ‘mensagem’ de Deus anunciada previamente pelos seus santos profetas de que Cristo seria morto na plenitude dos tempos em função do beneplácito da vontade de Deus, pois Cristo é o Cordeiro de Deus morto deste a fundação do mundo, ou seja, a ‘presciência’ ou o ‘pré-conhecimento’ diz dos eventos que se sucederam com relação à vida e morte de Cristo em conformidade com as Escrituras “E adoraram-na todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” ( Ap 13:8 ).

Ler mais