Predestinação e eleição na ‘pré-ciência’?

Após a queda da humanidade, a redenção passou a ser condicionada ao Descendente da mulher ( Gn 3:15 ), e o dia chamado ‘hoje’ é o dia oportuno de salvação. Se a salvação e a perdição fossem incondicionais, o ‘hoje’ não seria o momento de salvação, ou o ‘dia’, ou o ‘ano’ sobre modo oportuno, antes a oportunidade e o dia de salvação estaria na eternidade, antes que houvesse mundo, pois lá seria estabelecido os perdidos e os salvos ( Is 61:2 ; Hb 3:7 ; ).


 

“Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas” ( 1Pe 1:2 )

No afã de justificar uma concepção doutrinária acerca da eleição e predestinação, alguns estudiosos redefiniram o significado do termo ‘pré-conhecimento’ para ‘presciência’ ou ‘pré-ordenação’. Isto seria mesmo necessário? Para justificar um posicionamento doutrinário é correto redefinir termos básicos como graça, perdição, presciência, etc.?

A seguinte passagem bíblica: “… pelo determinado conselho e presciência de Deus…” ( At 2:33 ), é muito utilizada para demonstrar a concepção doutrinária de que algumas pessoas em particular foram ‘escolhidas’ e ‘predestinadas’ para serem salvas, e outras não. O ‘determinado conselho’ é o mesmo que ‘presciência’? O que é presciência? Presciência é o mesmo que ‘pré-ordenar’?

 

Conselho

“A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos” ( At 2:23 )

O apóstolo Pedro demonstra aos seus leitores que Jesus foi entregue aos homens em função do conselho de Deus. Que conselho é este que Deus estabeleceu (determinado)?

Segundo o conselho de Deus Cristo foi entregue, ou seja, Cristo não foi conquistado, antes se entregou em obediência ao conselho da vontade de Deus “… daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade” ( Ef 1:11 ; Jo 10:17 ).

Este conselho foi estabelecido na eternidade e é imutável, pois está atrelado ao seu propósito estabelecido em Cristo conforme o exarado em sua palavra. O conselho de Deus decorre da sua vontade, do seu desígnio, e foi exarado nas Escrituras muito antes de ocorrer “Que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade” ( Is 46:10 ); “Assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei” ( Is 55:11; Hb 6:17 ).

O conselho segundo a vontade de Deus é fazer Cristo preeminente, estabelecendo-O como o primogênito entre muitos irmãos e o mais elevado dentre os reis da terra. Esta vontade foi levada a cabo quando o Cristo foi introduzido no mundo, foi obediente ao Pai até a morte, e morte de cruz, e ressurgiu dentre os mortos. Este é um desígnio soberano, firme e imutável, assim como a palavra de Deus é firme, imutável e faz tudo o que é aprazível.

Deus fará que o Filho tenha preeminência em tudo. Para consumar o seu propósito, Deus criou o homem, e, ao desobedecer a ordem divina, o homem ficou impróprio para o seu propósito.

Mas, graciosamente, Deus providenciou salvação a todos os homens e deseja que todos se salvem e, todos que aceitam a salvação em Cristo, concomitantemente, passam a fazer parte do propósito de tornar o Filho primogênito entre muitos irmãos. Este ‘querer’ de Deus (diferente do conselho da sua vontade) não é uma imposição, antes expressa um desejo “Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” ( 1Tm 2:4 ).

O ‘conselho’ de Deus é fruto do conhecimento, da sabedoria, da vontade, da prudência, e faz o que é aprazível, perfeito diante dele ( Pv 3:19 -20).

Em função da sua vontade Deus criou o mundo através da palavra do seu poder ( Ap 4:11 ) e, antes de criar o homem à sua imagem e semelhança, Ele expressou a sua vontade conforme lemos em seu Conselho: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” ( Gn 1:26 ).

A vontade perfeita de Deus está registrada em seu Conselho, a sua perfeita vontade é expressa na sua palavra: “Porquanto se rebelaram contra as palavras de Deus, e desprezaram o conselho do Altíssimo” ( Sl 107:11 ).

O desígnio de Deus decorre do conselho da sua vontade, porém, em nada fere a vontade livre dos homens. A essência de Deus é liberdade, equidade, justiça, imutabilidade, etc., e na execução desta vontade, jamais Deus poderia conspurcar a vontade livre de suas criaturas.

Deus não faz acepção de pessoas, de modo a dar livre vontade para alguns sem concedê-la a outros. Por ser justo e equânime, ao oferecer salvação a todos os homens, sem exceção todos devem fazer exercício da sua livre vontade, aceitando ou rejeitando o dom de Deus em Cristo.

Para os homens serem remidos da ofensa, segundo a sua boa vontade, Deus utilizou-se da sua multiforme sabedoria e prudência ( Ef 1:8 ).

Quando se lê: “A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos” ( At 2:23 ), o ‘determinado conselho’ refere-se às Escrituras que de ante mão (presciência) demonstrava que Deus entregaria o seu próprio Filho à morte, e morte de cruz, por mãos de malfeitores.

Os atos de Deus decorrem da sua vontade, vontade esta que está registrada em seu Conselho e é imutável, que por sua vez, leva a termo o seu propósito. Tudo o que Deus faz é segundo o seu conselho; é segundo o que lhe apraz; é segundo a sua palavra, que é Cristo, o Verbo encarnado ( At 4:28 ; At 20:27 ; Hb 6:17 ).

 

Obs.: beneplácito s. m.- 1. Consentimento; 2. Aprovação; 3. Aprazimento, e 4. Licença.

 

O Propósito Eterno

Mas, por que Deus criou o homem? Porque na eternidade Deus propôs segundo a sua vontade estabelecer a sua palavra acima de todo o Seu nome e, para tanto, a Sua palavra teria que ter preeminência em tudo “Inclinar-me-ei para o teu santo templo, e louvarei o teu nome pela tua benignidade, e pela tua verdade; pois engrandeceste a tua palavra acima de todo o teu nome” ( Sl 138:2 ).

Em outras palavras, Deus criou o homem para estabelecer a preeminência de Cristo em tudo e, ao levar a efeito o predito acerca do seu Filho, a fidelidade e imutabilidade da sua palavra é demonstrada ( Cl 1:18 ).

Quando estabeleceu a igreja, o corpo de Cristo, Deus desvendou o mistério da sua vontade, que é convergir em Cristo todas às coisas. Só através da igreja é possível os homens ver o beneplácito que Deus propôs em Cristo e, por intermédio da igreja os anjos conseguiram ver a multiforme sabedoria de Deus ( Ef 1:9 e 3:10 ).

Para levar a efeito o seu propósito: ‘Cristo preeminente em tudo’, Deus criou o homem.

Mesmo sabendo que Adão transgrediria e que a geração segundo a semente de Adão ficaria aquém do seu propósito (onisciência), Deus criou o homem.

Mesmo sabendo que todos os descendentes da carne de Adão tornar-se-iam imundos, incompatíveis para o propósito estabelecido, Deus levaria a efeito seu desígnio.

A queda da humanidade não foi um obstáculo ao desígnio de Deus, pois o seu propósito é imutável “O conselho do SENHOR permanece para sempre; os intentos do seu coração de geração em geração” ( Sl 33:11 ). Para estabelecer a sua palavra acima de todo o seu nome, Deus anunciou as boas novas do evangelho aos homens perdidos para trazer a existência uma nova geração de homens espirituais segundo a semente do último Adão, que é Cristo.

O propósito que consta no conselho de Deus é tornar seu Filho Unigênito, o Primogênito entre muitos irmãos. Através da mensagem do evangelho, todos os que creem são de novo gerados e recebem poder para serem feitos filhos de Deus e, a cada conversão, o número de irmãos de Cristo que são conduzidos à glória pelo Filho aumenta, de modo que entre seus semelhantes, os filhos de Deus, Cristo é preeminente.

Tiago escreveu dizendo que Deus gerou de novo os cristãos pela palavra da verdade, para que fossem como o melhor (primícias) das suas criaturas. Ora, os homens espirituais são superiores aos homens carnais e aos anjos. O apóstolo Paulo, por sua vez, deixa claro que, tal qual Cristo é, assim são os homens de novo gerados pela semente incorruptível: semelhantes a Ele “Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas” ( Tg 1:18 ); “O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o Senhor, é do céu. Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais também os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial” ( 1Co 15:47 -49).

O apóstolo Paulo relata que Deus revelou o mistério acerca da sua vontade ao estabelecer a Igreja. E que mistério era este? Tornar Cristo preeminente em tudo, de modo que através da Igreja, Deus congrega em Cristo todas as coisas. Através das suas novas criaturas, que são primícias, semelhantes a Ele, Jesus é o primogênito de toda a criação: preeminente entre muitos irmãos! ( Cl 1:15 )

Para resgatar a humanidade que jazia em trevas sob a maldição do pecado de Adão, Cristo ofertou o seu corpo segundo a vontade de Deus ( Hb 10:10 ; Hb 10:9 ). Para torná-lo preeminente, o primogênito de toda a criação, Deus ressuscitou a Cristo dentre os mortos através do seu poder, momento em que Ele tornou-se primogênito dentre os mortos.

Antes de ser morto e ser sepultado, Cristo era semelhante em tudo aos homens, no entanto, após ressurgir dentre os mortos, Cristo conquistou a posição de semelhante ao Altíssimo ( Sl 17:15 ), e tornou-se a expressa imagem de Deus ( Hb 1:3 ), e todos que são sepultados à semelhança da sua morte ressurgem com Cristo uma nova criatura e, trazem a imagem do homem celestial, sendo semelhantes ao Altíssimo “E vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” ( Cl 3:10 ).

O propósito eterno de Deus é único e foi estabelecido na pessoa de Cristo: a preeminência de Cristo em todas as coisas! “Segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor” ( Ef 3:11 e 1:9 ).

Diferente dos homens, Deus é perfeito, pois não depende de raciocínio, de intuição, de análise para chegar a uma conclusão. Deus simplesmente age segundo a sua boa vontade. Ele é todo poder, sabedoria, conhecimento, onipresente, onisciente, etc., o que não demanda da parte dele raciocínio, inquirir, concluir, etc. Ele faz todas as coisas segundo o conselho (beneplácito) da sua vontade.

O propósito eterno de Deus é algo que Ele, na eternidade, propôs realizar em si mesmo “Segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor” ( Ef 3:11 ). Tal propósito visou a sua própria glória e graça ( Ef 1:6 e 12).

A salvação refere-se ao tempo chamado ‘hoje’, e há um tempo estabelecido para encerrar, mas, o propósito de Deus é eterno, visto que foi proposto em si mesmo e perdurará por toda eternidade.

Na eternidade Deus propôs convergir em Cristo todas as coisas “De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra” ( Ef 1:10 ), de modo que Ele fez o Verbo ressurreto herdar um nome que é acima de todos os nomes e que perdurará para sempre “Acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro” ( Ef 1:21 ; Fl 2:9 ; Sl 138:2 ; Hb 1:4 ).

Deus é conhecido pelo seu poder e grandeza, sendo nomeado grande, poderoso e o terrível Senhor dos exércitos “Pois o SENHOR vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e terrível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita recompensas” ( Dt 10:17 ); “Porque o SENHOR é Deus grande, e Rei grande sobre todos os deuses” ( Sl 95:3 ; Sl 138:2 ), porém, foi do seu agrado elevar a sua palavra acima de todo o seu nome.

O que isto significa? Significa que, Deus não quer ser reverenciado, tão somente, por seus atributos como onipotência, onisciência, onipresença. Deus propôs dar-se a conhecer às suas criaturas através da sua fidelidade, bondade, misericórdia, etc. Para sua palavra, que é fiel, assumir tal posição, Cristo foi encarnado na condição de unigênito do Pai segundo o anunciado pelos profetas ( Jo 1:1 e 12 ; Sl 138:2 ).

O propósito eterno de Deus visa a sua própria glória (para louvor e glória de sua graça), pois ao revelar aos homens, na plenitude dos tempos, o Verbo encarnado, fez com que a sua palavra tenha preeminência em tudo, visto que, Cristo foi constituído cabeça da igreja “Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens” ( Tt 2:11 ); “E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência” ( Cl 1:18 ).

O corpo de Cristo, que é a igreja, é formado por muitos filhos de Deus semelhantes Aquele que os criou “E vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” ( Cl 3:10 ), sendo que, na hierarquia celestial, os membros do corpo de Cristo assumiram a mais alta posição, superior a dos anjos, o que os tornam primícias das criaturas de Deus “Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas” ( 1Co 6:2 e 3; Tg 1:18 ).

Justamente por ser ‘as primícias’ das criaturas de Deus é que a igreja, geração dos filhos de Deus, serve ao propósito que foi estabelecido em Cristo, pois como cabeça daqueles que são gerados de novo, Ele é preeminente entre muitos irmãos, posição superior a todas as criaturas de Deus “E da parte de Jesus Cristo, que é a fiel testemunha, o primogênito dentre os mortos e o príncipe dos reis da terra. Àquele que nos amou, e em seu sangue nos lavou dos nossos pecados” ( Ap 1:5 ).

É através de Cristo que o propósito de Deus se concretiza, sendo que através d’Ele, uma nova geração de homens espirituais inscritos nos céus forma uma assembleia universal de primogênitos “Segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor” ( Ef 3:11 ); “À universal assembleia e igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus, e a Deus, o juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados” ( Hb 12:23 ).

E não somente isto, Deus propôs fazer também o seu Filho o mais elevado dos reis da terra, concedendo a Ele o trono de Davi e, por herança, todas as nações “Também o farei meu primogênito mais elevado do que os reis da terra” ( Sl 89:27 ; Sl 2:8 ; Is 52:13 -15).

Cristo é a cabeça da igreja e é na união de Cristo com o seu corpo que o propósito celestial é estabelecido. Cristo também é rei, o mais elevado da terra, pois assentará no trono de Davi, e n’Ele é estabelecido o propósito terreno conforme o prometido a Abraão.

É com base no que Deus propôs em Cristo, o Verbo de Deus encarnado, que a sua palavra é alçada acima de todos os nomes pelo qual Deus é nomeado “Inclinar-me-ei para o teu santo templo, e louvarei o teu nome pela tua benignidade, e pela tua verdade; pois engrandeceste a tua palavra acima de todo o teu nome” ( Sl 138:2 ).

Além de conhecido pelo seu poder, magnificência e soberania, é do agrado de Deus torna-se conhecido pela sua palavra, que é fiel, verdadeira, imutável, etc., o que O fez elevar a sua palavra acima de todo o seu nome, para que as suas criaturas o sirvam com temor e alegria “Servi ao SENHOR com temor, e alegrai-vos com tremor” ( Sl 2:11 ).

A palavra ‘temor’ neste salmo não é o mesmo que medo, antes ‘temor’ é o mesmo que a palavra de Deus e, ‘tremor’ é obediência, confiança na sua palavra “Ouvi a palavra do SENHOR, os que tremeis da sua palavra” ( Is 66:5 ; Sl 34:11 ; Sl 86:11 ).

A eleição e a predestinação refere-se ao propósito que Deus estabeleceu em Cristo, já a salvação decorre da misericórdia de Deus revelada em Cristo.

Em todos os tempos (dispensações), Deus, pela sua graça, salva os homens que se perderam em decorrência da ofensa de Adão, porém, somente os salvos na plenitude dos tempos, pela graça contida no evangelho, constituem a igreja, o corpo de Cristo, a geração eleita, predestinada para serem conforme a imagem de Cristo.

Somente os salvos na plenitude dos tempos, por intermédio da graça revelada no evangelho, são chamados para fazerem parte do propósito que Deus estabeleceu em Cristo. Deus salva por intermédio do poder contido na sua palavra (evangelho) e todos os salvos em Cristo, ou seja, na plenitude dos tempos (período compreendido entre a ressurreição de Cristo e o arrebatamento da igreja), foram eleitos antes dos tempos dos séculos para compor o corpo de Cristo e faz parte do propósito que Deus estabeleceu em Si mesmo “… antes participa das aflições do evangelho segundo o poder de Deus, que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” ( 2Tm 1:9 ; Rm 1:16 ).

Primeiro Deus salva o homem por intermédio do poder contido na sua palavra, pois Deus estabeleceu antes dos tempos dos séculos que aqueles que cressem em Cristo, além de serem salvos da condenação que há no mundo, são chamados com uma santa vocação, segundo o seu eterno propósito: tornar Cristo preeminente.

 

Presciência

Soberanamente Deus levou a efeito o seu conselho que estabelecera em Cristo antes dos tempos imemoriais, de fazê-lo preeminente. A vontade de fazer Cristo preeminente é perfeita e boa e, não há quem possa se insurgir contra o propósito de Deus e sair vitorioso.

Para estabelecer o propósito eterno, Deus levou a efeito o seu conselho, não poupando o seu único Filho (gerado pelo Espírito Santo) e nem os judeus, que eram os ramos naturais ( Rm 8:32 e Rm 11:21 ), e entregou o seu Filho para ser crucificado e morto pela mão de homens injustos. Porém, tudo foi feito segundo a vontade de Deus conforme o predito nas Escrituras pelos profetas, ou seja, segundo o conselho e presciência “A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos” ( At 2:23 ).

Por que pela ‘presciência’? Ora, desde a eternidade, ao estabelecer de antemão que faria Cristo o mais sublime entre os sublimes (propósito eterno), Deus sabia que a geração de Adão tornar-se-ia imunda, pois todos juntamente em um único evento (onisciência), a desobediência de Adão, se desviariam do propósito e da comunhão com Deus ( Sl 53:3 ; Sl 58:3 ).

Cristo foi entregue, morreu, ressurgiu segundo o conselho de Deus, ou seja, o conselho refere-se ao que Deus antecipou aos homens nas Escrituras e o propósito eterno é Cristo primogênito entre muitos irmãos.

A ‘presciência’ de Deus refere-se ao ‘conhecimento’ de Deus anunciado previamente pelos seus profetas de que Cristo seria morto na plenitude dos tempos em função do beneplácito da vontade de Deus, pois Cristo é o Cordeiro de Deus morto deste a fundação do mundo, ou seja, a ‘presciência’ ou o ‘pré-conhecimento’ diz dos eventos que se sucederam com relação à vida e morte de Cristo em conformidade com as Escrituras “E adoraram-na todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” ( Ap 13:8 ).

Deus estabeleceu de antemão que haveria de entregar o seu único Filho, pois somente o sangue imaculado, incontaminado de Cristo resgataria os homens do domínio do pecado. Pelas profecias foi anunciado que o cordeiro seria morto, de modo que o sangue do Cordeiro já era conhecido ainda antes da fundação do mundo, porém, tal sacrifício só tornou-se conhecido dos homens na plenitude dos tempos (presciência ou pré-conhecimento) “Mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado, o qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós” ( 1Pe 1:19 -20 ; Hb 9:26 ).

Tornou-se consenso na teologia que o termo ‘presciência’ quer dizer que Deus prevê eventos futuros, e não é questionado tal uso. Devemos ter o cuidado de analisar os termos empregados nas Escrituras dentro do seu contexto, e segundo os princípios bíblicos, ou incorreremos em erros graves. Além de muitos aceitarem passivamente certos consensos, temos também os problemas decorrentes das barreiras culturais que obscurece as nuances da língua em que o Novo Testamento foi escrito, sem falar nas propensões teológicas que surgem ao longo do tempo.

“Presciência”, ou “pré-conhecimento” é um termo secular, mas ao ser inserido no Novo Testamento adquire um significado peculiar em decorrência do tema central das Escrituras. Como o termo ‘fé’, por exemplo: possui uma identidade sacra porque ao utiliza-la, muitos são remetidos a ideia de religião, entretanto, o termo ‘fé’ é similar a qualquer outra palavra quanto ao seu uso secular, visto que fé deriva evoca o que é verdadeiro, fidedigno, fiel.

O substantivo pistis, cujo verbo é pisteuein, foi utilizado pelos apóstolos para fazer referência a Cristo como a fé que havia de se manifestar. No verso a seguir o uso do termo é objetivo, pois identifica a pessoa de Cristo, através de uma figura de linguagem (metonímia) estrategicamente aplicada pelo escritor ao texto para evocar uma ideia acerca da pessoa do Cristo “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” ( Gl 3:23 ).

Se depender de um dicionário, ou da compreensão temporal, o termo fé (do Latim fides, fidelidade e do Grego pistia) diz de uma opinião firme de que algo é verdade, mesmo que não haja qualquer tipo de prova ou critério objetivo de verificação. Também é apontada a ideia de que fé refere-se à adesão a um dogma de uma doutrina religiosa.

Mas, considerando o contexto de Gálatas 3, verso 23, qual o significado de fé? Ora, o texto faz com que o significado do termo transcenda, pois o termo deixa de fazer referencia a uma crença subjetiva ou a um dogma específico para fazer referência à pessoa de Cristo. Neste sentido, o mesmo ocorre com o termo proginosko e, para determinar o seu significado bíblico temos que considerar as passagens onde o termo é empregado.

Não é recomendável abstrair o significado do termo ‘presciência’ simplesmente com base na definição contida em um dicionário. É usual utilizar o termo onisciência para fazer referencia ao conhecimento que Deus possui de todas as coisas, da mesma forma tornou usual utilizar o termo ‘presciência’ para dizer que Deus vê eventos futuros, porém, como o conhecimento de Deus é uno, ou seja, não podemos fracioná-lo em passado, presente e futuro, visto que Ele sabe todas as coisas igualmente bem, não se deve aceitar passivamente o termo ‘presciência’ como um aspecto da onisciência.

A palavra traduzida por presciência (proginosko) é um composto de ‘pró’(antes) e ‘ginosko’ (conhecer, saber). Estudiosos apontam que o prefixo ‘pró’(antes) situa o termo no tempo ou no espaço e não alteram o seu sentido.

Os estudiosos analisam o termo quando empregado no grego clássico, na septuaginta, no grego Koine e no Novo Testamento.

Vale destacar que, na literatura clássica, o verbo ‘proginosko’ e sua forma substantiva (prognóstico) possui conotação de conhecimento futuro, significando “conhecer, perceber, aprender, saber ou compreender de antemão para que o sabedor possa emitir um julgamento, uma opinião ou decidir de antemão”, o que não inclui o conceito de decreto ou de preordenação.

O termo ‘ginosko’ é utilizado para fazer referencia a comunhão íntima que o homem compartilha com Deus. Aplicar o sentido de ‘ginosko’ e ‘yada’’ ao homem como ‘saber’ ou ‘vir a saber’ é perfeitamente compreensível, mas aplicar estes mesmos termos a Deus produz um entrave.

Deus sabe (ginosko) todas as coisas, e o termo utilizado para fazer referencia a este saber na teologia é onisciência. Não há nada que Deus desconheça ou que tomará conhecimento por toda a eternidade.

Quando lemos: “Porque eu o tenho conhecido, e sei que ele há de ordenar a seus filhos e à sua casa depois dele, para que guardem o caminho do SENHOR, para agir com justiça e juízo; para que o SENHOR faça vir sobre Abraão o que acerca dele tem falado” ( Gn 18:19 ), o termo ‘conhecido’ não diz de uma previsão, ou de um ‘saber acerca de’, antes diz da comunhão, do relacionamento íntimo entre Abraão e Deus.

É em função da comunhão estabelecida entre Abraão e Deus que Deus dá testemunho do que sucederá a linhagem de Abraão. Deus deu uma ordem a Abraão e, quando ele obedeceu, formou-se um vínculo perfeito.

O ‘ conhecimento’ de Deus acerca de seus servos é relacional, assim como o homem conhece a sua mulher ( Gn 4:1 e 17).

Há traduções bíblicas que vertem o termo ‘conhecer’ (ginosko e yada) por ‘escolhido’, o que perverte o significado do termo, pois ao traduzir o termo yada’tayv, além do termo ginosko, também é utilizado o termo equivalente ‘ergo’.

Quando se refere ao profeta Jeremias, o conhecimento de Deus é ‘saber acerca de’ ( Jr 1:5 ), o que remete a mesma ideia registrada em João 8, verso 58: ‘… antes que Abraão existisse, eu sou’. Desde sempre Deus é o Eu Sou e desde sempre Ele sabe o presente, o passado e o futuro. A palavra que veio a Jeremias serviu de consolo, garantia, segurança, incentivo, demonstrando ao vidente que, antes de ser formado no ventre, o Eu Sou já sabia de Jeremias e estabeleceu ele como profeta.

O verso não indica uma relação intima entre Jeremias e Deus antes que fosse formado no ventre materno, visto que só Deus é pré-existente. Ora, é possível ser profeta, porém, não ter comunhão com Deus, ou seja, conhecê-lo, ou antes ser conhecido d’Ele como foi o caso de Balaão ( Jd 1:11 ).

O termo ginosko na Septuaginta é utilizado no sentido de ‘conhecer’, ‘saber acerca de’, e tanto os homens quanto Deus figuram como sujeito deste verbo. Os homens são informados acerca de, e Deus, por sua vez, sabe perfeitamente todas as coisas, o que não exclui eventos futuros.

É inegável que Deus conhece todas as coisas, eventos, fenômenos e pessoas, mas quando é dito que Deus ‘conhece’ alguém, o sentido do termo transcende a ideia de ‘saber acerca de’ e passa a ter a conotação de relação íntima. Não podemos nos apegar as definições léxicas, como é o caso de ‘ginosko’ que significa ‘saber’, ‘vir a conhecer’, pois o termo em função do contexto também é utilizado para relações sexuais ou, para fazer referência a uma comunhão íntima, indicando que o homem pertence a Deus ou que se tornou um com Ele.

A Septuaginta é um importantíssimo objeto de pesquisa e de comparação para melhor compreender a língua grega e o surgimento de hebraísmo. Através dela é possível observar várias nuances pertinentes as duas línguas pela conexão entre as ideias do Antigo Testamento e o Novo.

Porém, conhecer a língua hebraica e a língua grega não é garantia de uma correta interpretação, conforme se depreende das passagens bíblicas a seguir: “Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício. Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento” ( Mt 9:13 ). Se os doutores de Israel que conheciam o grego e o hebraico não compreendiam o significado de ‘misericórdia’, o que mais não compreendiam?

Dos escribas e fariseus disse o apóstolo Paulo: “Querendo ser mestres da lei, e não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam” ( 1Tm 1:7 ). Os judaizantes não entenderem o que diziam e nem o que afirmavam, demonstra que o conhecimento linguístico não deve ser tido como algo que confere autoridade nos assuntos pertinentes as Escrituras.

Apesar de os judeus serem guardiões das Escrituras, não tinha o ‘conhecimento’ de Deus ( Rm 10:2 ), rejeitaram o Cristo previsto nas Escrituras, pois não sabiam responder de quem o Cristo é Filho ( Mt 22:41 -46).

Isto demonstra que, conhecer o hebraico e o grego não garante uma compreensão da mensagem do evangelho “Por que não entendeis a minha linguagem? Por não poderdes ouvir a minha palavra” ( Jo 8:43 ). Doutorado em hebraico e grego não habilita ninguém a ser mestre do evangelho, pois se assim fosse os fariseus e os escribas à época de Cristo seriam os primeiros a entrar no reino dos céus.

Ora, o termo fé, além de estar relacionado à verdade, relaciona-se com os seguintes termos: veracidade, sinceridade, honradez, retidão, fidelidade, lealdade, seguridade, crédito e firmeza. Por definição, muitos teólogos argumentam que fé (acreditar) é sempre um dom de Deus, e nunca algo que pode ser produzido pelas pessoas’.

A declaração acima parece verdadeira, mas se analisarmos detidamente a colocação acima, verifica-se que o dom de Deus é Cristo, que por sua vez é descrito como ‘a fé que havia de se manifestar’ “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” ( Ef 2:8 ); “Jesus respondeu, e disse-lhe: Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva” ( Jo 4:10 ).

Na verdade, Cristo – o dom de Deus – jamais poderia ser produzido pelas pessoas. Cristo é a fé, a fidelidade, a verdade digna de toda confiança, de modo que primeiro é manifesta a fé para que o homem possa nela crer. O termo fé deriva de fidelidade.

É comum dar ao termo fé o sentido de crer, acreditar, mas se considerarmos as escrituras o termo grego ‘pistis’ e o hebraico arcaico ‘emunah’ decorre de fidelidade. Cristo é apresentado como a fé porque Ele é fiel, verdadeiro, digno de confiança. Se Cristo é digno de confiança, o mérito em confiar n’Ele não é do homem, antes de Cristo.

Quando dizem que fé ‘é sempre um dom de Deus, e nunca algo que pode ser produzido pelas pessoas’, geralmente os teólogos querem dizer que é impossível ao homem crer em Cristo se antes não for regenerado, alegando que há mérito em crer. Entretanto, não há mérito em quem confia, o mérito está naquele que é verdadeiro, firme, fiel.

O termo fé adquire significado único no contexto das Escrituras, pois às vezes é apresentado como o Cristo ( Gl 3:23 ), ou como a doutrina do Evangelho ( Jd 1:3 ; Rm 1:8 ).

O mesmo ocorre com o termo piedade, que se considerarmos o seu significado secular é compaixão, dó, pena, comiseração. Do ponto de vista ‘teológico’, alguns dão o significado de ‘virtude que leva a render a Deus a honra que lhe é devida’, ‘devoção’, ‘afeição e respeito pelas coisas da religião’.

Se considerarmos a análise que fazem do termo piedade, geralmente buscam o seu significado no grego. A palavra “piedade” vem do termo grego “eusebeia”, junção de duas palavras: “eu” que significa “bom ou correto”, e “sebomaie” que significa “adorar”. Daí a conclusão: piedade é adorar bem ou corretamente.

Mas, seria este o seu significado quando encontramos o termo piedade nas Escrituras?

O que significa ‘piedade’ neste verso: “E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória” ( 1Tm 3:16 ). O termo ganhou novo significado, pois representa a essência do evangelho: “Contendas de homens corruptos de entendimento, e privados da verdade, cuidando que a piedade seja causa de ganho; aparta-te dos tais” ( 1Tm 6:5 ).

Este mesmo fenômeno ocorre com o termo ‘conhecimento’ quando inserido no contexto do Novo Testamento. Quando o apóstolo Paulo escreveu aos cristãos de corinto dizendo: “Destruindo os conselhos, e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento (γνῶσις gnósis) de Deus, e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo” ( 2Co 10:5 ); “E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento (γνῶσις gnósis) de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo” ( Fl 3:8 ).

O termo γνῶσις (gnósis) é um termo cognato derivado de ginóskó que significa ‘conhecimento’, ‘doutrina’, ‘sabedoria’, que dentro do contexto do Novo Testamento aponta para o conteúdo do evangelho.

Quando lemos este verso de Hebreus: “Porque, se pecarmos voluntariamente, depois de termos recebido o conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados” ( Hb 10:26 ), o termo ἀλήθεια (alétheia – verdade) assume a conotação de evangelho, do conhecimento, da doutrina, e o termo conhecimento (ἐπίγνωσις – epignósis) significa reconhecimento, discernimento da verdade.

Ora, o conhecimento de Deus é equivalente à lei, a palavra de Deus “Porque os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento, e da sua boca devem os homens buscar a lei porque ele é o mensageiro do SENHOR dos Exércitos” ( Ml 2:7 ).

Ora, o termo ‘conhecimento’ possui várias conotações no contexto das Escrituras, com pelo menos quatro variantes a serem consideradas e, quando nos depararmos com o termo ‘conhecimento’ dentro do contexto do Novo Testamento, pode significar:

  • ‘saber acerca de’, ‘ter conhecimento de’;
  • ‘comunhão íntima’, ‘relacionamento interpessoal’;
  • ‘relação sexual’, e;
  • ‘doutrina’, ‘evangelho’.

É por isso que a compreensão do termo ‘presciência’ ou ‘pré-conhecimento’ não pode basear-se no significado que um dicionário apresenta. Apesar de muitos estudiosos dizerem que o significado de um termo deve ser compreendido a partir do contexto onde foi aplicado, de pronto relacionam o termo presciência com a onisciência divina, o que leva ao erro.

É correta a informação que os estudiosos da língua grega apresentam sobre o termo proginosko de que é termo cognato formado de um composto de pró (antes) e ginosko (saber acerca de). O prefixo pro (antes) introduz um significado espacial e temporal ao termo que se segue, porém, não altera o sentido do verbo (ginosko) ou do substantivo (gnósis).

Quando lemos um verso bíblico que possui incrustado nele o termo προγινώσκω ‘proginosko’, como é o caso de Romanos 8, verso 29, o sentido de ‘ginosko’ é o de comunhão íntima, um só corpo, de modo que o prefixo προ (antes) situa o termo no tempo, o que dá a conotação de prévia comunhão íntima. Este aspecto é abordado na carta aos Gálatas, pois os que ‘conheceram a Deus, ou antes foram conhecidos (ginóskó) d’Ele’ refere-se aqueles que primeiro compartilham da unidade do corpo de Cristo ( Gl 4:9 ).

Mas, quando lemos o termo πρόγνωσις (prognósis), o substantivo gnósis assume o valor de ‘piedade’, ‘fé’, ‘doutrina’, ‘conhecimento’ e o prefixo προ (antes) aponta o tempo em que o ‘conhecimento’ (gnósis) foi anunciado aos homens, de forma que ‘pré-conhecimento’ significa que Deus anunciou de antemão por intermédio dos seus profetas o mistério da piedade, ou a fé que havia de se manifestar, ou seja, o ‘conhecimento’ (gnósis).

A presciência, ou o pré-conhecimento está intimamente ligado à ideia deste versículo: “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti” ( Gl 3:8 ).

Por Deus ter dito a Abraão: “E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra” ( Gn 12:3 ), ficou registrado implicitamente nas Escrituras que Deus haveria de abençoar os gentios e o apóstolo Paulo entendeu que esta passagem bíblica é uma previsão.

O apóstolo Paulo lançou mão desta promessa para demonstrar o prenuncio do evangelho, ou seja, o pré-conhecimento. O que lemos nas Escrituras acerca da promessa feita a Abraão foi um prenuncio, uma previsão daquilo que Deus iria fazer através do descendente prometido a Abraão. Esta previsão que envolve a pessoa do Descendente prometido a Abraão é o que se denomina de presciência.

Não podemos conceber que, Deus sendo onisciente, onipotente e onipresente necessite prever o futuro para levar a efeito a Sua vontade, como dizem aqueles que defendem que a presciência é um ramo da onisciência. Deus não antevê o futuro, antes o correto é dizer que Ele é conhecedor de todas as coisas e, antecipa aos seus servos o que irá fazer.

A previsão das Escrituras: ‘Em ti serão benditas as famílias da terra’, tem relação com o evangelho, de modo que a previsão diz da fé que havia de se manifestar, do mistério da piedade, da verdade, do conhecimento de Deus. Quando foi anunciado o evangelho ao patriarca Abraão ocorreu o que o apóstolo Pedro chamou de pré-conhecimento, ou pré-ciência, ou seja, ‘presciência’, o conhecimento de Deus que foi antecipado aos patriarcas ou profetizado pelos seus santos profetas e que está exarado nas Escrituras, portanto, é descabida a ideia de que Deus é presciente, porque, na verdade, Ele é onisciente “PAULO, servo de Deus, e apóstolo de Jesus Cristo, segundo a fé dos eleitos de Deus, e o conhecimento da verdade, que é segundo a piedade, em esperança da vida eterna, a qual Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos dos séculos” ( Tt 1:1 -2).

Ao anunciar o evangelho de antemão a Abraão dizendo: ‘Em ti serão benditas todas as famílias da terra’, Deus não faz qualquer referencia a ideia de eleição ou predestinação, ou seja, no pré-conhecimento anunciado a Abraão tem-se a promessa de Deus.

O que primeiramente foi dito pelos santos profetas diz do pré-conhecimento “Para que vos lembreis das palavras que primeiramente foram ditas pelos santos profetas, e do nosso mandamento, como apóstolos do Senhor e Salvador” ( 2Pe 3:2 ).

Quando o apóstolo Pedro escreveu aos cristãos que estavam dispersos, adjetivou-os de eleitos em virtude do conhecimento que antes fora revelado por Deus através dos seus profetas (presciência). Somente através do conhecimento de Deus anunciado aos homens é possível obedecer a Cristo e ser aspergido com o seu sangue.

É por causa do conhecimento, é como resultado do conhecimento e é com base no conhecimento de Deus contido no evangelho, a fé dos eleitos de Deus, que Paulo e Pedro foram comissionados como apóstolos. A fé dos eleitos de Deus é Cristo que trouxe o conhecimento da verdade, segundo o que lhes fora anunciado: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo e recebido acima na glória.

A estrutura da saudação do apóstolo Pedro em 1Pe 1, versos 1e 2 é como se segue:

  • De: Pedro, apóstolo de Jesus Cristo;
  • Para: Os peregrinos da dispersão;
  • Condição: eleitos;
  • Pré-conhecimento: a condição é segundo o conhecimento de Deus Pai (que é segundo a piedade) anunciado desde o princípio através dos seus santos profetas;
  • Nomeados: ‘eleitos’ pela obra santificadora do Espírito;
  • O conhecimento: possibilita obedecer a Jesus e ser aspergido com o Seu sangue;
  • Saudação: Graça e paz vos sejam dadas em abundância.

 

A condição dos estrangeiros dispersos tem por base o pré-conhecimento, ou seja, o que foi anunciado primeiramente a Abraão: o evangelho. Já a escolha de Deus recai sobre a geração de Cristo, que é eleita para ser santa e irrepreensível ( Ef 1:4 ; 1Pe 2:9 ).

Os arminianos erram na interpretação desta passagem bíblica porque entendem o pré-conhecimento (a piedade, o evangelho anunciado previamente a Abraão) como um conhecimento prévio de eventos futuros. Já os calvinistas erram ao interpretá-la por considerarem que Deus além de antever o futuro, preordenou eventos futuros, determinando de antemão aqueles que seriam salvos e os perdidos.

Ora, o que Deus determinou de antemão é que salvaria os crentes pela loucura da pregação, ou seja, pelo conhecimento, piedade, evangelho, etc “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação” ( 1Co 1:21 ).

Após serem salvos através do lavar regenerador da palavra, os crentes são declarados eleitos por pertencerem à geração dos justos, santos e irrepreensíveis, uma geração predestinada a ser conforme a imagem de Cristo.

Para interpretar o composto verbal προγινώσκω ‘proginosko’ e nominal πρόγνωσις (prognósis), devemos considerar o contexto, sendo que, apesar de falar de fatos e eventos, temos que considerar o personagem central, que é Cristo, o que foi dito nas Escrituras acerca do Cristo e a doutrina do Cristo.

Cristo foi preso, crucificado e morto porque aprouve a Deus enfermá-lo, mas tudo ocorreu segundo o que foi vaticinado pelos santos profetas (pré-conhecimento/πρόγνωσις/prognósis) “A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência (προγνώσει) de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos” ( At 2:23 ).

Em passagens bíblicas em que o ‘conhecimento’ das pessoas está em voga, o verbo προγινώσκω ‘proginosko’ deve ser tomado como “ter um relacionamento anterior” ou “ter uma relação íntima, especial com antecedência” “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” ( Rm 8:29 ).

Em Atos 26, verso 5, ao dar testemunho do apóstolo Paulo, Lucas utiliza o termo ‘προγινώσκοντες’ (proginóskó), demonstrando que todos os judeus sabiam quem era Saulo, o fariseu. O que sabiam acerca de Paulo era um conhecimento específico com base no que presenciaram desde a mocidade. O termo não possui nada de eletivo ou de previsão “Quanto à minha vida, desde a mocidade, como decorreu desde o princípio entre os da minha nação, em Jerusalém, todos os judeus a conhecem, Sabendo de mim desde o princípio (se o quiserem testificar), que, conforme a mais severa seita da nossa religião, vivi fariseu” ( At 26:4 -5).

O sentido relacional, o sentido de comunhão íntima, só aparece no composto verbal προγινώσκω (proginosko), já o composto nominal πρόγνωσις (prognósis) é anterior à existência de seus objetos. O que isto demonstra? Demonstra que, o ‘conhecimento’ de Deus como a palavra de Deus é pré-existente, e que a relação íntima (ginosko) entre Deus e os homens só se processa através do conhecimento (gnósis), que não é ‘saber acerca de’, antes diz do mistério da ‘piedade’, do ‘evangelho’, da ‘fé’.

A relação íntima entre Deus e os homens não envolve uma escolha arbitrária de um déspota, antes ela é estabelecida em liberdade, pois onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade. Observe a liberdade na seguinte palavra do Senhor: “Não te encurvarás a elas, nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos, até à terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos” ( Dt 5:9 -10).

Ora, o Senhor é a palavra, é o Espírito, por isso os cristãos são ministros do Espírito, ou seja, da palavra, contrastando-a com a letra, com a lei ( 2Co 3:6 ). Quando o apóstolo Paulo diz que o Senhor é Espírito, está falando do espírito que vivifica, ou seja, da palavra de Cristo que é espírito e vida. E é pela palavra de Cristo, a semente incorruptível que os homens são transformados de glória em glória na mesma imagem de Cristo ( 2Co 3:18 ).

É através do conhecimento de Deus anunciado de antemão pelos profetas que somos informados que Deus salva os homens pela oferta do corpo de Cristo e, concomitantemente, todos que são salvos através do evangelho durante o período compreendido entre a ressurreição de Cristo e o arrebatamento da igreja, também são chamados com uma santa vocação segundo o eterno propósito que fizera em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos “Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” ( 2Tm 1:9 ).

A vocação é segundo o propósito estabelecido em Cristo de fazê-lo a cabeça da igreja, já a salvação é segundo o amor de Deus, que deu o seu filho unigênito para que os homens não pereçam, mas tenham vida eterna.

Como o proposto por Deus em Cristo era fazê-lo preeminente em tudo, Deus salva os homens da condenação de Adão através do poder do evangelho e confere aos de novo gerados a condição de semelhantes a Ele, para que Cristo seja o primogênito entre muitos irmãos ( Rm 8:29 ; Cl 3:10 ).

Ao estabelecer o seu propósito eterno de convergir em Cristo todas às coisas, Deus também estabeleceu a vida eterna por intermédio da sua palavra “Em esperança da vida eterna, a qual Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos dos séculos” ( Tt 1:2 ).

A promessa de vida eterna é antes dos tempos dos séculos, pois a vontade de Deus desde a eternidade é imutável, sendo conhecido o sangue do Cordeiro antes mesmo da fundação do mundo. Como o cordeiro foi morto antes da fundação do mundo, a esperança de vida eterna é uma promessa efetiva antes dos tempos que se mensuram em séculos.

Cristo é o eleito de Deus para o seu propósito ( Pv 8:23 ). Como Deus estabeleceu que Cristo morreria para resgatar a humanidade, o sangue de Cristo foi conhecido antes dos tempos dos séculos, e ao anunciar de antemão estes eventos acerca da morte e ressurreição de Cristo por intermédio dos profetas deu-se a presciência.

O beneplácito que Deus propusera em si mesmo era um mistério para todas as suas criaturas ( Ef 1:9 ; 1Pe 1:12 Ef 3:11 ). Deus propôs seu beneplácito tendo em vista a Si mesmo, ou seja, a preeminência de Cristo em todas as coisas.

O propósito de Deus não foi estabelecido nas suas criaturas, antes estabeleceu o seu propósito em Si mesmo, a fim de que as suas criaturas como primícias sejam louvor à sua glória. É por isso que o propósito é eterno se centra no Criador e não nas criaturas pois elas não são eternas.

Que honra maior pode haver para uma criatura do que ser convidada a participar de um propósito concernente a pessoa do Criador?

Quando Deus (Elohim) fez o seguinte acordo na eternidade: “Eu lhe serei por Pai, e tu me será por Filho” ( 2Sm 7:14 ), fez em Si mesmo o seu propósito (Ef 1:9 ), e introduziu uma das pessoas da divindade no mundo efetivando o que foi estabelecido por decreto a condição do Verbo eterno entre os homens, conforme o acordo estabelecido na eternidade: Tu és meu Filho “Proclamarei o decreto: o SENHOR me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei” ( Sl 2:7 ), neste instante surgiu um grande mistério que até os anjos queriam compreender (atentar) “Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar” ( 1Pe 1:12 ).

O que os anjos queriam entender refere-se ao anunciado pelos profetas acerca dos ‘sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir’. Os ‘sofrimentos’ e a ‘glória prevista pelos profetas’ é o mesmo que ‘pré-ciência’, ou ‘pré-conhecimento’. Mas, somente pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus tornou-se conhecida ( Ef 3:9 -10). Somente agora, através da igreja, toda a criação compreende o eterno propósito que Deus fez em Cristo Jesus ( Ef 3:11 ): Cristo foi feito a cabeça da Igreja.

Há uma ardente expectativa da criação, pois todos aguardam a revelação dos filhos de Deus. A criação aguarda a revelação daqueles que são as criaturas que assumem a condição de primícias do Espírito Eterno ( Rm 8:23 ; Tg 1:18 ).

 

Eleitos segundo a presciência

“Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas” ( 1Pe 1:2 )

A onisciência de Deus destaca-se nas mais variadas situações, podendo ser notada em vários eventos das escrituras:

  • Deus chamou o rei Ciro pelo nome muito antes dele nascer, porém, tal chamado e revelação não concedeu salvação ao rei Ciro ( Is 44:28 );
  • Os sonhos de José demonstram a presciência de Deus ( Gn 37:5 );
  • Moisés anunciou que o povo de Israel afastar-se-ia de Deus ( Dt 32:5 );
  • Jesus previu que o apóstolo Pedro o negaria antes que o galo cantasse por três vezes ( Mt 26:34 ).

Com relação à vida e morte do Messias:

  • Cristo foi conhecido antes da fundação do mundo ( Jo 17:24 );
  • A semente de Cristo foi prevista em oposição a semente da serpente ( Gn 3:15 );
  • A linhagem de Cristo foi prevista ( Gn 12:3 );
  • O nascimento virginal foi previsto ( Is 7:14 );
  • A traição dos mestres da lei ( Sl 49 )
  • A crucificação foi prevista ( Sl 22:16 );
  • A morte e ressurreição foram previstas ( At 2:31 );
  • A glória futura de Cristo foi prevista ( Is 52:13 ; 1Pe 1:12 ), etc.

Tudo que Deus anunciou de antemão tem relação com o propósito eterno que fora proposto em Si mesmo ( Ef 3:11 ). Segundo o conselho da sua vontade Deus elegeu Cristo para o seu propósito e, segundo a ‘pré-ciência’ foi anunciado de antemão os sofrimentos de Cristo, o que estabeleceu a sua morte desde a fundação do mundo.

Quando Cristo ressurgiu, trouxe à existência a nova geração eleita para ser conforme a imagem daquele que os criou: assim tornou-se firme o seu propósito, pois foi estabelecido no Criador e não nas criaturas (Cl 3:10 ).

Suprimir a ideia de que Deus anunciou de antemão os eventos a que o Cristo estaria sujeito (presciência), tomando-a como vontade-prévia para explicar a eleição e a predestinação não encontra respaldo na bíblia.

Ora, Deus conhece todas as coisas porque é onisciente, e o futuro está incluso neste conhecimento, porém, saber o futuro não é o mesmo que pré-ordenar. Deduzir que o significado do termo grego traduzido por ‘presciência’ é o mesmo que ‘pré-ordenação’ é um equivoco.

 

Eleição

Deus onisciente tornou os cristãos eleitos aos santificá-los. Como? A condição de eleito é pertinente àqueles que obedecem a palavra de Deus, crendo em Cristo, pois a santificação é pela palavra ( Jo 17:17 ; At 26:18 ). Os eventos seguem a seguinte ordem:

1º) Deus santificou (separou para Si) os cristãos purificando as suas almas através da obediência à verdade do evangelho (nação santa, povo adquirido 1Pe 2:9 -10), pois só através da obediência ao evangelho há a aspersão do sangue que é ‘conhecido’ por Deus antes da fundação do mundo ( 1Pe 1:2 ; 19 e 22);

2º) Após ser santificado pela aspersão do sangue (morte com Cristo), os cristãos ressurgem uma nova criatura (regenerados), eleita para ser santa e irrepreensível.

Não há dentre os homens gerados da semente terrena e corruptível um que fora eleito e designado santo e irrepreensível, mas todos os gerados de novo através da semente espiritual e incorruptível, que é a palavra de Deus (evangelho), são eleitos, pois foram criados em verdadeira justiça e santidade.

Cristo é a pedra viva, eleita e preciosa, pois foi conhecido e escolhido antes da fundação do mundo segundo o eterno propósito ( Ef 3:11 ) e, através d’Ele os cristãos também tornam-se pedras vivas, ou seja, eleitos de Deus e preciosos aos olhos de Deus, mas, em Cristo.

Deus elegeu a Cristo para ser preeminente em todas as coisas e, todos aqueles que são gerados de novo foram eleitos n’Ele antes da fundação do mundo. Deus escolheu, segundo o seu propósito, os gerados do Descendente prometido a Abraão. A geração de Cristo é a geração eleita segundo o beneplácito que Deus propusera em Cristo ( Ef 1:9 ): a preeminência de Cristo em tudo!

Quando os cristãos (gerados por Cristo) foram eleitos? Antes da fundação do mundo.

Como os cristãos foram eleitos? Deus elegeu a Jesus Cristo, seu Filho unigênito, consequentemente, a descendência de Cristo foi eleita. O patriarca Abraão e o povo de Israel são figuras da eleição estabelecida na eternidade e, é por isso que o apóstolo Paulo deixa claro que os cristãos foram eleitos n’Ele, pois as promessas feitas ao Descendente de Abraão, que é Cristo, alcança os gerados em Cristo ( Gl 3:16 ).

Assim como Deus escolheu o gentio Abraão estabelecendo a sua posteridade sem especificar quais e quantos dos seus descendentes entrariam no Egito e quais israelitas seriam resgatados de lá, assim também se dá com a igreja, visto que Deus escolheu a Cristo, o descendente de Abraão e estabeleceu a sua descendência sem fixar quais homens são conduzidos à glória na condição de filhos de Deus ( Hb 2:10 ). O que ficou estabelecido é que a promessa é dada aos crentes, e todos que creem em Cristo são filhos de Deus ( Gl 3:26 -29; 1Co 1:21 ), por causa da promessa feita a Cristo ( Gl 3:16 ).

À descendência de Abraão é dado a terra ( Gn 15:18 ), aos descendentes de Cristo é dado o reino dos céus e também é concedido ser conforme a expressa imagem de Cristo “Não temais, ó pequeno rebanho, porque a vosso Pai agradou dar-vos o reino” ( Lc 12:32 ); “Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais também os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial” ( 1Co 15:48 -49 ; 1Jo 3:2 ).

Somente pela fé em Cristo os homens são salvos e, especificamente aqueles que têm fé em Cristo durante o período compreendido entre a ressurreição e o arrebatamento da igreja, recebem a salvação e a adoção de filhos de Deus em vista do propósito eterno ( Gl 3:26 ), diferente da ideia de que é pela eleição e predestinação que os homens são salvos.

Quando crê em Cristo o homem é batizado em Cristo, isto é, na sua morte, e só então, se reveste de Cristo, isto é, ressurge semelhante a ele ( Gl 3:27 ; Rm 6:3 ). Ao ser gerado do Descendente de Abraão, além da salvação da condenação de Adão, o homem torna-se semelhante à expressa imagem do Deus vivo (filho de Deus) e herdeiro da mesma promessa ( Gl 3:29 ). Por causa da sua descendência, Cristo é alçado à posição de primogênito entre muitos irmãos semelhantes a Ele “Isto é, que o Cristo devia padecer, e sendo o primeiro da ressurreição dentre os mortos, devia anunciar a luz a este povo e aos gentios” ( At 26:23 ; 1Jo 3:2 ; 1Jo 4:17 ).

 

Os filhos da ofensa

Todas as vezes que o apóstolo Paulo faz referência à antiga condição dos cristãos quando sob o pecado, ele o faz nos seguintes termos: filhos da ira, filhos da desobediência, trevas, filhos das trevas, mortos em delitos e pecados, ignorantes, entenebrecidos no entendimento, etc., porém, em nenhuma referência à antiga condição dos cristãos é utilizado o termo ‘eleitos’ e ‘predestinados’.

Não há na bíblia a seguinte afirmação: “Noutro tempo éreis eleitos…”, antes só encontramos as seguintes expressões: “Noutro tempo éreis trevas, filhos da ira, vasos para desonra, plantas que o Pai não plantou, filhos da desobediência, etc.”. Diante de tantos adjetivos acerca da antiga condição daqueles se tornaram eleitos, como perdidos, trevas, filhos da ira, filhos da desobediência, como explicar o motivo pelo qual o apóstolo Paulo não mencionou a condição de ‘eleitos’ pertinentes à antiga condição dos cristãos quando sob o pecado?

Somente os cristãos são nomeados de eleitos de Deus. Somente os cristãos, gerados em Cristo, por serem membros do Seu corpo, são eleitos, condição adquirida ‘em Cristo’ antes da fundação do mundo, não por obras de justiça que houvessem feito, antes pelo simples fato de serem gerados d’Ele: geração eleita.

O apóstolo Paulo é específico ao demonstrar que Deus elegeu os cristãos e não os incrédulos ao utilizar o pronome na 1º pessoa do plural: nos (cristãos) elegeu! ( Ef 1:4 )

O apóstolo Pedro também demonstra que os eleitos são os cristãos: “Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos eleitos que são forasteiros da Dispersão…” ( 1Pe 1:1 ) Almeida RA, e no verso 9, do capítulo 2 da mesma epístola, ele explica que os cristãos são eleitos por fazerem parte de uma geração eleita ( 1Pe 2:9 ).

Este é o título para fazer referencia à condição dos que se assentaram nas regiões celestiais em Cristo. Diz somente daqueles que já entraram no descanso proposto ( Hb 4:3 ).

 

Onisciência

A onisciência refere-se ao conhecimento de Deus, que é perfeito em natureza e em abrangência, pois Deus conhece plenamente a Si próprio e todos os demais seres, coisas, fenômenos e eventos. Ele conhece igualmente bem presente, passado e futuro e a essência de todas as coisas.

Deus está acima de tudo, até mesmo das questões relativas ao tempo, porém, devido a algumas considerações filosóficas, de que o futuro é uma contingência, alguns teólogos lançaram mão do termo grego πρόγνωσις (proginṓskō – presciência), e devido a uma má leitura do texto lançaram mão do termo para fazer referencia ao conhecimento de Deus com relação a fatos futuros.

É um equivoco apresentar a ‘presciência’ como ramo da onisciência, pois este é um modo de reduzir a onisciência divina. Ora, Deus conhece igualmente todos os eventos, tantos os futuros, presentes ou passados. Deus jamais previu ou prevê algo, pois ele desde sempre soube todas as coisas, sem esforço, pesquisa, pensamento, etc.

Com relação a Deus não podemos pensar que tempo e espaço é uma barreira, que fraciona os eventos em passado, presente e futuro, pois Deus sabe tudo igualmente bem. Deus jamais se surpreende, descobre ou busca informação acerca de eventos, estado, condições, etc.

Tudo o que é necessário ocorrer no mundo físico, ocorre por meio de leis físicas estabelecidas desde o fundamento do mundo. Há leis estabelecidas que regem todos os eventos físicos, e Deus desde de a eternidade conhece todos os eventos físicos que ocorreram, ocorrem e ocorrerá e, apesar de Deus ter estabelecido as leis físicas, os homens podem interagir com elas movidos por seus próprios desejos.

Deus conhece todos os eventos chuvosos que ocorreram, ocorre e ocorrerá na face da terra, desde a primeira gotícula de água que foi precipitada até a última, porém, este fenômeno natural é regido por leis estabelecidas, segundo o que Deus determinou e sustem. As contingências decorrentes das chuvas não foram pré-ordenadas por Deus, antes dependem da interação do homem com o meio, porém, Ele conhece todas as contingências igualmente bem. O que Deus estabeleceu foram leis que regem tais eventos e, apesar de sustentar tais leis por seu poder, não interveem nos fenômenos e eventos delas decorrentes.

Mas, além das leis naturais, Deus criou o homem que, sendo livre, pode construir barragens para represar as águas provenientes das chuvas. Apesar de Deus conhecer todas as barragens construídas pelos homens antes mesmo de haver mundo, elas são frutos da imaginação e do trabalho do homem. Desde sempre Deus conhece os homens que trabalhariam na represa e o volume de águas represada, porém, a construção da represa, as benesses e os problemas dela decorrente não foram preordenadas por Deus, e sim pelos interesses dos homens, pois a represa originou-se da livre vontade humana que interagiu com as leis físicas estabelecidas por Deus “E disse Deus: façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra” ( Gn 1:26 ).

O homem dominar sobre a terra é uma lei divina. Anjos não dominam a terra. Para dominar sobre a terra, Deus teve que vindicar o domínio por meio de Cristo que, após ressurgir, disse: “É-me dado todo o poder no céu e na terra” ( Mt 28:18 ).

Caso alguém, em sua loucura, cometer um atentado terrorista contra a represa, apesar de Deus conhecer tal evento desde a eternidade, o ato do terrorista é uma ação livre e autônoma e todas as contingências delas decorrente regem-se por leis naturais ou leis físicas.

Deus não prevê, antes tudo sabe. Quando Ele antecipa eventos futuros nas Escrituras, simplesmente demonstrou o seu eterno poder e que a sua palavra é firme “Que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade” ( Is 46:10 ).

Deus antecipou vários eventos futuros na bíblia, porém, isto não significa que Ele tenha estabelecido qualquer tipo de contingência. Jesus antecipou que Pedro o trairia antes que o galo cantasse três vezes, mas isto não significa que ele foi destinado a trair, antes que, por conhecer todos os eventos, foi revelado pelo Pai qual seria a atitude daquele discípulo diante da condenação do Mestre.

Ao antecipar um evento ou a atitude de uma pessoa, não significa que houve um ‘decreto’. Ou seja, Deus não decretou que Judas trairia o Cristo, antes antecipou um evento futuro que evidencia a onisciência divina. Isto significa que não houve qualquer tipo de intervenção divina que tenha predestinado Judas a traição, antes todas as suas decisões foram autônomas e a partir das suas crenças e impressões adquiridas pela inteiração com o mundo.

Por onisciência entende-se que Deus conhece todos os eventos no passado, no presente e no futuro (espaço-tempo), e na eternidade. Nada escapa aos ‘olhos’ de Deus. Por isso ele chama à existência as coisas que não são como se já fossem “(Como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí) perante aquele no qual creu, a saber, Deus, o qual vivifica os mortos, e chama as coisas que não são como se já fossem” ( Rm 4:17 ).

Deus, de antemão nomeou Abraão como Pai de muitas nações: temos aqui a grandeza da onisciência demonstrada aos homens, visto que Abraão nem mesmo podia ter filhos com Sara.

Como Deus conhece todos os eventos: no passado, no presente e no futuro, é certo que ele sabe de antemão quem são os salvos e quem são os perdidos, porém, não quer dizer que Ele, unilateralmente, preordenou quem seriam os salvos e quem seriam os perdidos. Esta visão fatalista e determinista não é conforme a verdade bíblica, pois Deus não interfere no arbítrio dos homens para fazê-los crer ou não.

Embora Deus saiba de antemão todas as coisas, o ‘conhecimento’ de Deus não determina e nem vincula a condição futura do homem: se perdido, ou se salvo.

A bíblia demonstra que a perdição do homem foi determinada pela ofensa de Adão “Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” ( Jo 3:18 ), e não pela onisciência de Deus. De igual modo, a bíblia demonstra que a salvação decorre da misericórdia de Deus, bastando ao homem aceitar a oferta de redenção.

 

Constitui-se mérito aceitar a salvação?

O fato de aceitar a oferta não seria mérito por parte do homem? Não! A ordem é clara: “Entrai pela porta estreita!” ou, “Necessário vos é nascer de novo”. O fato de o homem sedento beber da água da vida que Cristo dá não lhe confere mérito. O fato de deixar que o Senhor lave toda imundície através do lavar regenerador não confere ao homem mérito algum.

Quando Deus diz: “Olhai para mim e sereis salvos…” ( Is 45:22 ), o fato de o homem olhar, não lhe confere mérito, antes ‘olhar’ demonstra que o homem confiou na palavra que lhe foi anunciada. Qualquer que não olhar para Aquele que oferta salvação, demonstra simplesmente que não creu na palavra de Deus.

Não há mérito algum em quem confia, pois o mérito está em Deus que é fiel, o que o torna digno de confiança.

Quando convencido da necessidade em deixar que Jesus lavasse os pés, Pedro logo se apresentou: “Disse-lhe Simão Pedro: Senhor, não só os meus pés, mas também as mãos e a cabeça” ( Jo 13:9 ). Caso o apóstolo Pedro não consentisse que Cristo lavasse os seus pés, por não se sentir merecedor, não seria lavado.

Esta passagem bíblica demonstra que, quem rejeita a oferta de salvação por se achar indigno (auto reprovação), ou quem acredita que é digno de aceitá-la em vista de algum mérito, diante de Deus estão em pé de igualdade: não tem parte com Cristo.

Permitir ser lavado de suas imundícies demonstra que o homem confia que Deus é poderoso para limpá-lo, o que não demanda esforço da parte do homem. Quando o homem adora a Deus dizendo: – “Dignifica Senhor em lavar-me”, demonstra que o mérito está em Deus que é poderoso e é fiel para fazer o que prometeu.

Deus se propôs lavar a imundície dos homens que confiassem n’Ele, e é por Cristo que o homem passa a ter tal confiança em Deus.

Lavar o homem do pecado é ação de Deus, visto que Jesus trouxe a vasilha, a água, a toalha e as mãos. Quem confia apresenta os seus pés.

Por se considerarem ‘extremamente’ perdidos, muitos se dizem indignos de até mesmo aceitarem o que Deus propõe, porém, se o homem não aceitar a oferta de salvação que Deus lhe oferece, que é lavá-lo da imundície da carne, não terá parte com Deus “Se eu te não lavar, não tens parte comigo” ( Jo 13:18 ).

Quem se sente indigno é porque não crê em Deus, pois se cresse saberia que Deus é poderoso para purificar o homem de toda imundície.

A perdição do homem deu-se em Adão, sendo todos igualmente encerrados debaixo do mesmo pecado: sem exceção alguma. Com relação à salvação, não é o fato de Deus saber algo acerca do futuro – até porque Deus não somente sabe o futuro como também está presente em todos os eventos – que determina quem será salvo ou não, antes a salvação está condicionada à resposta que o homem morto em delitos e pecado dá a seguinte convocação: “Olhai para mim e sereis salvos…” ( Is 45:22 ), pois somente deste modo viverá ( Jo 11:25 ; Dt 8:3 ).

A palavra que diz: “… que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” ( Dt 8:3 ), demonstra que o homem precisa da palavra do Senhor para viver, visto que está morto (separado de Deus). Que para obter vida não depende do pão cotidiano, mas da palavra que produz vida em abundância.

Embora Deus saiba de antemão todas as coisas, vê-se que, com relação ao passado, Deus pedirá conta aos homens do que passou, o que demonstra que cada pessoa é livre e tem sobre si a oportunidade de mudar a sua condição e destino “O que é, já foi; e o que há de ser, também já foi; e Deus pede conta do que passou” ( Ec 3:15 ).

O Pregador demonstra que todos os eventos que o homem considera como sendo presentes e futuros, para Deus é o mesmo que passado, e pede conta de toda a existência do homem. Ora, se Deus pré estabeleceu na eternidade os salvos porque conhece previamente o futuro, não há porque Ele pedir conta ao homem do que passou, visto que pediria conta dos seus próprios atos.

Devemos considerar que Deus é onipresente, que além de saber, Ele contempla todos os homens e as suas ações (onipresença e onisciência). A onipresença de Deus não tolhe e nem exerce domínio sobre a liberdade do homem, o que também deve ser dito da onisciência.

A multiforme sabedoria de Deus está em que os atributos de Deus possuí perfeito equilíbrio com a liberdade do homem, tanto que no exercício da sua liberdade o homem pecou e, soberanamente Deus providenciou salvação em Cristo para todos os homens porque é misericordioso.

A alegação de que a “presciência” é tanto um atributo quanto um ato de Deus é descabida, pois o atributo de Deus é a onisciência. Da mesma forma que Deus onipresente estava junto a Adão quando da queda, Deus sempre soube que Adão pecaria, mas o fato de Deus ‘saber’ não foi a causa determinante da queda.

Mesmo sabendo o que o homem faria com a sua liberdade, Deus a concedeu e, para levar a efeito o proposto em Cristo, a preeminência de Cristo, Deus providenciou o Cordeiro que, foi morto na fundação do mundo. Embora a queda era sabida, não foi preordenada, antes ocorreu em decorrência da desobediência de Adão, fruto do exercício da sua liberdade.

A doutrina da reprovação incondicional é antibíblica, pois a bíblia demonstra que quem não crê está condenado ( Jo 3:18 ), não porque Deus preordenou, mas porque não creu no nome do Filho Unigênito de Deus, ou seja, a condenação e a salvação estão condicionadas ao crer e ao não crer.

A onisciência nada tem de determinista porque ele mesmo diz que o dia de hoje é um dia sobre modo oportuno e aceitável “(Porque diz: Ouvi-te em tempo aceitável E socorri-te no dia da salvação; Eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação)” ( 2Co 6:2 ). Se o Senhor apresenta o ‘agora’ como tempo aceitável, certo é que a sua onisciência não é determinista, pois se assim fosse, o tempo de salvação seria na eternidade, e não ‘hoje’ (hoje é uma unidade de tempo na terra). A oração do salmista seria sem sentido: “Eu, porém, faço a minha oração a ti, SENHOR, num tempo aceitável; ó Deus, ouve-me segundo a grandeza da tua misericórdia, segundo a verdade da tua salvação” ( Sl 69:13 ).

Tudo o que Deus estabeleceu concernente ao propósito eterno o fez com base em sua sabedoria e prudência. Que sabedoria há em fazer uma terra com contagem de tempo, colocar nela seres alienados da sua glória e simplesmente destinar uns à perdição e outros à salvação?

Deus não determinou quem eram os perdidos na eternidade, antes a bíblia demonstra que todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus por causa de uma única transgressão que se deu no tempo dos homens ( Rm 3:23 ). Não foi Deus quem determinou, por ser onisciente, quem haveria de se perder, antes todos se extraviaram e juntamente se fizeram imundos em Adão, que fez uso da liberdade para fazer o que era inconveniente ( Rm 3:12 ).

Estar perdido é uma condição decorrente da decisão que Adão fez de desobedecer, o que tornou todos os homens filhos da ira e da desobediência. Tal condição não foi estabelecida pela ideia de que Deus é presciente, pois Deus é onisciente.

Deus estabeleceu que havia de justificar os crentes pela fé e, ao anunciar o evangelho a Abraão, a fé foi ‘prevista’, ou seja, anunciada de ante mão “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: ( Gl 3:8 ), o que difere da ideia arminianista de que Deus previu quem teria fé e, portanto, os elegeu para serem salvos.

O evangelho anunciado a Abraão: ‘Todas as nações serão benditas em ti’, era uma previsão exarada nas Escrituras de que Deus justificaria os que cressem no descendente prometido a Abraão, ou seja, um conhecimento pré-anunciado, ou seja, presciência. Isto não é o mesmo que dizer que Deus é presciente, pois Ele não é. Deus é onisciente, o que não condiz com a ideia de que Deus escolheu pela ‘presciência’ quem haveria de ser justificado.

A ‘presciência’ é um termo utilizado pelo apóstolo Pedro para fazer referência ao evangelho, o conhecimento de Deus anunciado de antemão pelos seus profetas ( Gl 3:23 ).

Não há base bíblica para a reprovação incondicional, pois a condenação decorre de um só que pecou, ou seja, ela é condicionada à ofensa de um só homem. De uma única ofensa de Adão veio o juízo sobre todos os homens para condenação e a pena foi a alienação de Deus: morte ( Rm 5:18 ).

Como a perdição é condicionada à ofensa de Adão, a salvação não pode ser incondicional, antes é condicionada à obediência de um homem: Jesus Cristo, o último Adão ( Rm 5:19 ).

Após a queda da humanidade, a redenção passou a ser condicionada ao Descendente da mulher ( Gn 3:15 ), e o dia chamado ‘hoje’ é o dia oportuno de salvação. Se a salvação e a perdição fossem incondicionais, o ‘hoje’ não seria o momento de salvação, ou o ‘dia’, ou o ‘ano’ sobre modo oportuno, antes a oportunidade e o dia de salvação estaria na eternidade, antes que houvesse mundo, pois lá teria sido estabelecido os perdidos e os salvos ( Is 61:2 ; Hb 3:7 ).

O convite de salvação é especifico: “Olhai para mim, e sereis salvos, vós, todos os termos da terra; porque eu sou Deus, e não há outro” ( Is 45:22 ). Basta olhar para Deus que o homem será salvo, ou seja, a salvação não é unilateral.

Existe uma teoria que afirma que o homem é tão depravado que, para olhar para Deus é necessário uma graça ‘preveniente’, o que remonta a teologia de Santo Agostinho (maniqueísta e neoplatonista), pois entende que, se o homem voluntariamente atender o chamado ‘Olhai para mim…’, e olhar para aquele que O chama, a salvação já não é por fé, mas por obras, como se o olhar do pecador fosse suficiente para resgatar um homem da morte. Este posicionamento se enraíza em quem desconhece a real condição que o homem assumiu ao desobedecer a Deus (Sl 49:7-8). Também desconhece qual o significado do termo ‘fé’ quando é dito que a salvação é por fé, pois Cristo é a fé manifesta ( Gl 3:23 ). A atitude deles é semelhante a do apóstolo Pedro antes de ser devidamente instruído “Nunca me lavarás os pés” ( Jo 13:8 )!

Quando Deus diz: “Olhai para mim e sereis salvos”, ele está conscientizando os seus ouvintes de que estão perdidos, ou seja, mortos (separados) em delitos e pecados. Estão em uma condição semelhante a dos filhos de Israel que pecaram e foram mordidos por serpentes ardentes. Todos que estavam picados estavam condenados à morte e, bastava somente um olhar na direção da serpente de metal para serem curados, ou seja, necessitam crer na palavra que diz: “Olhai para mim…”.

‘Olhar’ refere-se ao resultado da confiança que os ouvintes exerceriam na palavra anunciada por Moisés, que diz: “… e será que viverá todo o que, tendo sido picado, olhar para ela” ( Nm 21:8 ) . Como a fé vem pelo ouvir, ao ouvir a palavra da fé (firme fundamento), os picados mortalmente pelas serpentes eram sarados. Quando Deus diz: “Olhai para mim e sereis salvos”, o olhar demonstra que a salvação é por fé somente, pois para o homem olhar para quem diz ‘Olhai para mim’, significa que o homem conscientizou-se da sua real condição (pecado), e creu naquele que prometeu (viverá).

Neste sentido é que Cristo foi levantado da terra, para que todo aquele que olhar (crê) para Ele, seja salvo ( Jo 3:14 -15). E para quem Cristo foi erguido? Para alguns indivíduos selecionados previamente? Não! Ele foi erguido para que todos os termos da terra pudessem vê-lo “E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado; Para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” ( Jo 3:14 -15), pois todos os homens estavam mortos por causa do veneno da serpente no Éden.

Um calvinista dirá que o homem está morto e, que, portanto, não poderá atender o chamado, sem antes ser regenerado, ou que a graça de Deus para os eleitos é diferenciada, sendo irresistível. Porém Jesus disse “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” ( Jo 11:25 ), ou seja, o homem morto em delitos e pecados está separado da vida (Deus), mas é dotado da capacidade de crer ou não em Cristo e, dependendo da resposta que der ao convite de salvação, viverá ou permanecerá morto.

Jesus demonstrou que é Ele que concede vida aos mortos, ou seja, é Ele que desfaz a barreira de inimizade entre Deus e os homens, reconciliando o homem com Deus. Quando Ele diz: “Quem crê em mim…”, a mensagem dele tem por alvo os que necessitam de comunhão com Deus para serem participantes da vida. Quando ele diz: “ainda que esteja morto”, aponta a real condição do homem sem Deus: separado, alienado da vida que há em Deus. Por fim, a vida, a ressurreição dentre os mortos, é o que Ele oferece. Todos os mortos que olham para Cristo obtém vida, portanto, quando foi dito ‘… ainda que esteja morto’, Jesus não falava de morte física, pois para Deus vivem todos!

Jesus, o pão vivo que desceu dos céus, somente repetiu o anunciado por Deus ao povo de Israel através de Moisés: “E te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” ( Dt 8:3 ). A mensagem do evangelho serve para dar a entender aos homens separados de Deus (mortos) que Cristo concede vida, visto que eles estão entenebrecidos no entendimento.

Estão separados de Deus pela dureza de coração ao rejeitarem o dom de Deus, mas, se aquiescerem à luz do evangelho, são salvos “Entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração” ( Ef 4:18 ). O povo de Israel sofreu quarenta anos no deserto porque Deus queria livrá-los da ignorância.

É necessário crer na ressurreição e na vida para que o homem morto possa obter vida. A inversão ‘regeneração para depois crer’ perpetrada pelos calvinistas nega a eficácia da palavra de Cristo, pois para beber da água que concede vida é necessário ter sede. Deus não sacia primeiramente a sede para depois servir a água que concede vida ao homem ( Jo 4:14 ).

Todos os homens sem Deus têm sede, porém, muitos tentam saciar sua sede em fontes rotas. Porque uns saciam a sua sede em Cristo e outros não? Porque muitos estão abastados em seus próprios conceitos, religiosidade, moralidade, legalidade, ritualismo, etc.

Através da entrega do corpo de Cristo, Deus anuncia para a humanidade presa ao pecado (vivo para o pecado) que há um novo e vivo caminho para os homens que quiserem unir-se a Deus (viver unido a Deus). Qual é o caminho? O caminho é Cristo, e todos que entram por Cristo se conformam com Ele na morte, ou seja, morre para o pecado.

Os calvinistas e arminianistas apontam a impossibilidade do homem se salvar como ‘depravação total’, ou seja, consideram a impossibilidade de se salvar como ‘inabilidade’ para aceitar a salvação ofertada por Deus.

A impossibilidade de salvação está no fato de que o homem não possui os meios para promover a sua própria salvação, ou seja, a mensagem de Deus tem por objetivo alcançar o intelecto do homem de modo que venha a aceitar a salvação providenciada por Deus “Mas, o que foi semeado em boa terra é o que ouve e compreende a palavra; e dá fruto, e um produz cem, outro sessenta, e outro trinta” ( Mt 13:23 ), desfazendo a ignorância que os mantém separados de Deus “Entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração” ( Ef 4:18 ).

O único modo de o homem ver-se livre do pecado é morrendo para ele. Somente a morte livra o homem do pecado, mas não a morte física, antes a morte com Cristo, porque se o homem descer à sepultura como servo do pecado, segue perdido para o juízo final, onde suas obras serão julgadas.

O homem precisa morrer para o pecado ainda nesta existência, o que só é possível quando crê em Cristo, conformando-se com Cristo na sua morte. Ao morrer com Cristo, o homem é livre do pecado e passa a ser servo da justiça, ganha vida eterna, filiação divina e suas obras serão julgadas no Tribunal de Cristo.

O convite do evangelho resume-se na premissa: morram com Cristo para que possais compartilhar da vida que há em Deus. Todos os famintos e sedentos devem comer da carne e beber do sangue de Cristo. Há uma só carne e um só sangue pelo qual os homens são salvos, ou seja, não há graça comum e graça superior. Não há graça resistível ou irresistível, antes há somente uma graça, a Graça de Deus “Isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos e sobre todos os que creem; porque não há diferença. Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus” ( Rm 3:22 -24).

 

Conclusão

Os atos de Deus decorrem única e exclusivamente da sua vontade, porém, quando o seu propósito é expresso, o homem é inteirado do seu conselho. Tudo o que Deus faz é segundo o seu conselho, ou seja, segundo a sua palavra, que é Cristo, o Verbo encarnado ( At 4:28 ; At 20:27 ; Hb 6:17 ).

Da onisciência, que é um dos atributos de Deus, não decorre a presciência, que não é um ato e nem uma qualidade de Deus. A palavra ‘presciência’ não se refere a acontecimentos futuros e nem é atributo de Deus, pois o atributo é a onisciência.

‘Presciência’ é um termo cunhado para fazer referencia a mensagem que Deus anunciou de antemão pelos seus profetas acerca de Cristo, o que não tem relação com eventos futuros.

Os atributos referem-se à natureza de Deus e eles não influenciam e nem interferem nas decisões de suas criaturas.

Deus é onipresente e a sua onipresença não interfere nas decisões de suas criaturas. A presença de Deus é soberana e onipotente, mas não interferiu na vontade de Adão quando comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Deus está presente em todos os momentos e lugares, mas a sua presença não impediu Caim de matar Abel. A onipresença de Deus é imanente, ou seja, existe sempre n’Ele e é inseparável d’Ele.

Concomitantemente a onisciência e a onipotência de Deus são imanentes. Apesar de Deus ter dado origem a todas as coisas, Deus não interfere nas decisões de suas criaturas por ser onipotente ( Jó 37:23 ). Apesar de presenciar todos os eventos materiais e espirituais pela sua onipresença, tal atributo divino não interfere nas decisões de suas criaturas, porque Deus é Espírito e onde está o Espírito do Senhor aí há liberdade.

A presciência não é ato divino, e nem implica em pré-ordenação. Os atos de Deus decorrem somente da sua vontade expressa por sua palavra, e não dos seus atributos “Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade” ( Ef 1:11 ).

O calvinismo adota a presciência como pré-ordenação para conceder à eleição e a predestinação ‘status’ de ato divino, como se ambas, a eleição e a predestinação tivessem por base as criaturas de Deus, porém, a eleição e a predestinação visa o propósito eterno que Deus determinou em Cristo ( Ef 1:9 ). A presciência refere-se somente ao conhecimento que Deus anunciou previamente às suas criaturas acerca da salvação em Cristo.

Ao adotar a presciência como ato divino, alguns calvinistas estipulam que ela ‘quase’ tem o significado de ‘pré-ordenação’, mas quando evoluem a abordagem, equiparam-na a ‘pré-ordenação’ calcados na concepção que formularam entorno do termo ‘conhecer’.

Pelo fato de o termo ‘presciência’ não existir no Antigo Testamento, os calvinistas concluem que ‘pré-conhecer’ implica em afeição para com a pessoa em vista, de onde surge a ideia de que presciência é preordenar.

Observe os seguintes versos:

a) “Antes que te formasses no ventre te conheci” ( Jr l:5 ) – neste verso o termo ‘conhecer’ indica a onisciência, mas não indica preordenar para salvação, visto que Jeremias foi comissionado para profetizar às nações, o que é diferente de ter sido escolhido para ser salvo ( Jr 1:10 );

b) “De todas as famílias da terra só a vós vos tenho conhecido” ( Am 3:2 ) – neste verso o termo ‘conhecer’ não refere-se à pré-conhecimento, antes indica que Deus escolheu o povo de Israel como propriedade, o que tornou o povo de Israel separado das demais nações ( Dt 7:6 );

“Porque o Senhor conhece o caminho dos justos” ( Sl 1:6 ) – neste verso o termo ‘conhecer’ indica comunhão, união íntima, estar ligado a, pois o Senhor é o caminho dos justos ( Jo 14:6 ).

Como se verifica, o termo ‘conhecer’ nos versos acima assumem vários significados distinto em função do contexto no qual está inserido, porém, não significa que aquele que Deus ginóskó (conhece) desde a eternidade, preordenou para salvação ou perdição.

A palavra ‘conhecer’ é utilizada varias vezes no Novo Testamento com o sentido de ‘saber acerca de’, ‘ter ciência de’, etc., porém, também é contemplado com o sentido de ‘comunhão íntima’ ou ‘estar intimamente ligado a’ “E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci” ( Mt 7:23 ).

Concluir que o veredicto: ‘Nunca vos conheci’ significa que Jesus nunca soube da existência deles ou, que não os elegeu, escolheu e nem preordenou para a salvação é se estribar no próprio conhecimento, desprezando a onisciência de Deus, visto que, tal termo significa exclusivamente que tais pessoas nunca se tornaram um com Ele e o Pai ( Jo 17:21 ).

Quando Jesus disse: “Eu sou o bom pastor, e conheço as minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido” ( Jo 10:l4 ), ou “Mas, se alguém ama a Deus, este é conhecido dele” ( 1Co 8:3 ), ou “O Senhor conhece os que são seus” ( 2Tm 2:19 ), o termo expressa comunhão íntima, ou seja, refere-se ao grande mistério expresso pelo apostolo Paulo: “Porque somos membros do seu corpo, da sua carne, e dos seus ossos. Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe, e se unirá a sua mulher; e serão dois numa carne. Grande é este mistério; digo-o, porém, a respeito de Cristo e da igreja” ( Ef 5:30 -32).

O ‘conhecimento’ que os versos acima expressam refere-se a tornar-se uma só carne, um só corpo com Cristo, ou seja, o ‘conhecer’ de Cristo limita-se aos salvos, ou seja, homens que creram no conhecimento de Deus revelado em Cristo, porém, não significa eleição através de ‘afeição’ ou ‘preordenação’.

Podemos dizer que Deus conhece (onisciência) a todos os homens, mas nem todos são ‘conhecidos’ (comunhão íntima) d’Ele ( Gl 4:9 ), pois Ele só tem comunhão íntima, ou seja, conhece, aqueles que O amam ( 1Co 8:9 ), aqueles que guardam os seus mandamentos.

A onisciência de Deus refere-se tanto às pessoas quanto às suas ações, portanto a concepção calvinista de que a ‘presciência de pessoas’ significa pré-conhecer com propósito benigno não possui respaldo nas Escrituras. Tal engano induz o interprete a considerar que Romanos 8, verso 29, indica que o primeiro ato da benevolência de Deus para com os pecadores foi ‘pré-conhecer’.

A interpretação do verso: “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho” ( Rm 8:29), é a seguinte: tudo concorre para o bem daqueles que ‘amam’ a Deus, ou seja, tudo concorre para o bem daqueles que tem ‘misericórdia’ ( Os 6:6 ).

O apóstolo Paulo é específico: daqueles que amam a Deus, ou seja, daqueles que são chamados segundo o seu propósito ( Rm 8:28 ).

Como ser ‘chamado’ por Deus, ou como amar a Deus? Deus responde: “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos” ( Dt 5:10 ), e Jesus complementa: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” ( Jo 14:21 ).

Em resumo, tudo concorre para o bem daqueles que ‘tem e guarda os mandamentos de Jesus’, ou seja, que creem n’Ele. Estes amam a Deus e são amados do Pai, pois crer em Cristo é o mandamento de Deus. Estes são os chamados segundo o propósito de Deus!

Os que Deus anteriormente conheceu referem-se aos que foram regenerados, pois somente na regeneração o homem torna-se um com o Pai e com o seu Filho (conhecer). Quando regenerado, o novo homem faz parte da nova geração, a geração eleita, predestina a ser filho, ou seja, o verso 29 reafirma o que foi dito no verso 28.

‘Ser regenerado’, ‘conhecer’, ‘tornar-se um com Cristo’ são formas diferentes de fazer referência a um mesmo evento e condição, daí temos que os que conheceram a Deus tem um destino predefinido: serem conforme a imagem de Cristo “Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos” ( 1Jo 3:2 ).

Os que amam a Deus são os que se tornaram um só corpo com o Pai e o Filho e, estes, por sua vez, foram chamados segundo o propósito que Deus estabeleceu em si mesmo, visto que foram destinados a serem recebidos como filhos por adoção.

Por que foram predestinados a serem conforme a imagem de Cristo? Porque a predestinação visa o propósito estabelecido em Cristo ( Ef 3:11 ), que é Cristo preeminente, ou seja, primogênito entre muitos irmãos ( Rm 8:29 ).

O termo ‘dantes’ no verso 29 não pode ser tomado como ‘presciência’, antes significa ‘anteriormente’. O verso aponta a mesma ideia (comunhão íntima) exarada no seguinte versículo: “Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” ( Gl 4:9 ). Seria a seguinte leitura: “Sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam (conheceram) a Deus (…) Pois os que dantes (anteriormente) conheceu…” (parafraseando o apóstolo Paulo).

Estes versos não dizem que Deus olhou unilateralmente para alguns pecadores específicos com favor gracioso para salvá-los da condenação de Adão, antes demonstra que os misericordiosos (que o amam) tornaram-se um com Ele e o seu Filho, e que, portanto, serão semelhantes a Seu Filho glorioso.

Os versos demonstram que Deus torna-se um (conhece) com aqueles que o amam (guardam os seus mandamentos), e que estas pessoas que O conheceram, ou antes, foram conhecidas d’Ele, também foram predestinadas em decorrência do que propusera em Si mesmo, a serem filhos por adoção ( Ef 1:9 ).

Ora, todos que conhecem a Cristo, ou seja, que se tornaram um só corpo com Ele, foram gerados de novo e, portanto, são uma nova geração, a geração eleita. São destinados a serem filhos porque foram gerados de novo através do lavar regenerador do evangelho.

Devemos ter em mente que Deus escolheu um povo, o povo de Israel, não para serem salvos, antes para preservar a linhagem do Messias. Deus não os rejeitou como nação, apesar da rebeldia deles, por causa da sua promessa aos pais: Abraão, Isaque e Jacó ( Rm 11:28 -29).

Agora, através da igreja, ou seja, daqueles que ‘conheceram’ a Deus, temos os salvos, a descendência de Cristo, geração eleita por causa do Descendente. Individualmente todos os que são conhecidos de Deus são salvos por causa da promessa do evangelho que foi primeiramente anunciado a Abraão ( Gl 3:8 ), tornando-se os bem-aventurados filhos de Abraão.

Os cristãos são os “eleitos” ( 1Pe 1:2 ), porém, a eleição não é baseada na ideia de que a salvação é fruto de um olhar diferenciado de Deus para algumas pessoas previamente escolhidas para obedecerem o evangelho (fé), para só então, serem agraciados com a aspersão do sangue de Cristo.

Se a eleição fosse para a salvação, a salvação não seria pela fé em Cristo. Os calvinistas acreditam que os eleitos são justificados (salvos) por Deus e que tal escolha deve ser complementada pela fé no sangue de Cristo.

Para compreender a primeira epístola de Pedro, capítulo 1, verso dois, temos que ter em mente que o propósito de Deus é um beneplácito proposto em Si mesmo e os cristãos foram chamados para fazerem parte deste propósito grandioso ( Ef 1:9 ). Devemos ter em mente que ‘os estrangeiros da dispersão’ são designados eleitos em decorrência do que Deus propôs em Si mesmo (preeminência de Cristo), e não que o propósito d’Ele tenha em vista somente os cristãos (salvação).

A eleição é baseada na pessoa de Cristo ( Ef 1:4 ; Ef 3:11 ), e não na ideia que construíram com o termo presciência. A eleição é para o propósito estabelecido em Cristo e não nos homens. Como o tempo da eleição se deu antes da fundação do mundo, o evento antecipado segundo a ‘presciência’ de Deus Pai diz da santificação do Espírito, ou seja, da palavra, para a obediência e aspersão do sangue de Cristo.

Não se pode confundir santificação do Espírito com a ação do Espírito Santo. A santificação do Espírito é santificação através da palavra, pois os cristãos são ministros do Espírito, e as palavras de Cristo espírito e vida.

Observe a seguinte tradução bíblica interlinear do Novo Testamento: “Pedro apóstolo de Jesus Cristo a (os) eleitos forasteiros de (a) dispersão de (o) Ponto, de (a) Galácia, de (a) Capadócia, de (a) Ásia e de (a) Bitínia, segundo (a) presciência de Deus Pai em santificação de (o) Espírito para obediência e aspersão…” 1Pe 1:1- 2 Novo Testamento Interlinear Grego-Português SBB (grifo nosso).

Agora, observe a seguinte tradução bíblica e compare: “Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos estrangeiros da dispersão, no Ponto, na Galácia, na Capadócia, na Ásia e na Bitínia, eleitos segundo a presciência de Deus Pai, na santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas” 1Pe 1:1 -2 – Bíblia Sagrada, Antigo e Novo Testamento, Edição Contemporânea, Ed. Vida.

O apóstolo Pedro escreveu aos eleitos de Deus, forasteiros da dispersão, o que é completamente diferente de dizer que ele escreveu aos estrangeiros da dispersão, eleitos segundo a presciência de Deus. Os cristãos são eleitos em Cristo, e a presciência está relacionada com o sangue de Cristo, visto que o Cordeiro de Deus foi morto antes da fundação do mundo para obediência e aspersão do sangue de Jesus.

A presciência não está no fato de que Deus previu ou preordenou quem seriam, nestes últimos tempos, os homens agraciados com o sangue de Cristo para serem salvos, antes a presciência está no fato de que o sangue de Cristo foi conhecido ainda antes da fundação do mundo e anunciado de antemão pelos profetas “Mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado, o qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós” ( 1Pe 1:19 -20).

Novamente reitero: a presciência não é um aspecto da onisciência de Deus, portanto a eleição não decorre da concepção teológica de presciência como um aspecto da onisciência. Deus é onisciente é onipresente. Como Ele está em todos os lugares e tempos simultaneamente, segue-se que é onisciente. Mesmo Deus sendo onipresente, nada emana d’Ele que possa alterar as decisões de suas criaturas, a não ser a sua fidelidade.

Deus conhece todos os eventos, quer sejam passado, presente ou futuro, mas o seu saber não preordena.

A eleição é segundo o beneplácito que Deus propôs em Cristo, pois Ele escolheu a Cristo e a sua geração: a geração eleita. Para levar a efeito o que propusera em Cristo, o Cordeiro de Deus foi anunciado de antemão e, tudo o que foi predito ocorreu para que na plenitude dos tempos fosse possível a santificação pelo Espírito, que se dá através da aspersão do sangue de Cristo após a obediência ao evangelho ( 1Pe 1:11 ).

O apóstolo João fala da santificação do Espírito com os seguintes termos: “E qualquer que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, como também ele é puro” ( 1Jo 3:3 ). Ter a esperança em Cristo, ou seja, o crer no evangelho é o que purifica o homem, e não o contrário, de que o homem necessita purificar-se a si mesmo através de regras como não toques, não proves, não manuseies ( Cl 2:21 ).

A presciência de Deus aparece nas escrituras intimamente associada à pessoa e sacrifício de Cristo ( At 2:23 ; 1Pe 1:2 ), e a eleição e a predestinação ao propósito que Deus propôs em si mesmo, ou seja, na pessoa de Cristo ( Ef 1:9 ; Ef 3:11 ).

Qual a ordem cronológica dos eventos expresso no verso 30, de Romanos 8?

“E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou” ( Rm 8:30 ).

Como já analisamos anteriormente, todos que se tornaram um com Cristo (conheceu) possuem um único destino: ser conforme a imagem de seu Filho “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos” ( Rm 8:29 ).

Geralmente o apóstolo Paulo apresenta inicialmente a condição atual dos cristãos para depois demonstrar qual era a antiga condição deles ( Ef 1:13 e Ef 2:1 ). No verso em comento não é diferente: “Aos que predestinou” refere-se à condição atual dos cristãos, pois agora são filhos de Deus, coerdeiros com Cristo, predestinados a serem conforme a imagem do seu Filho ( Rm 8:29 ; 1Jo 3:1 ).

No verso 30 o apóstolo Paulo retroage os eventos no tempo: aos que predestinou, a estes também chamou, ou seja, o evento anterior à predestinação é o chamamento, conforme se lê: “Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” ( 2Tm 1:9 ).

O chamado é uma santa vocação segundo o propósito que Deus estabeleceu antes dos tempos dos séculos em Cristo, mas que é concedido aos cristãos por estarem em Cristo (por conhecê-Lo).

Retroagindo os eventos no tempo, o apóstolo Paulo descreve: “… e aos que chamou a estes também justificou…”, ou seja, a justificação é o que antecede o chamado de Deus para o seu propósito.

A justificação resulta do ato criativo de Deus, que declara justos aqueles que ressurgem com Cristo. Quando Deus cria o novo homem, gerado de novo pelo Seu poder (evangelho), Ele faz os homens justos e os declara justos.

E no que consiste a glorificação? A glorificação refere-se ao evento anterior à justificação, que é a ressurreição com Cristo e faz com que os cristãos estejam assentados nas regiões celestiais. Leia: “Porque aquele que está morto está justificado do pecado” ( Rm 6:7 ), ou seja, se o homem morreu com Cristo, livre está do pecado, ou seja, é declarado justo por ter conformado com Cristo na sua morte.

Ora, os que Deus declarou justo (justificou porque morreram para o pecado), a estes ele glorificou, ou seja, predestinou para serem conforme a expressa imagem de Cristo. A glorificação que o apóstolo Paulo faz alusão neste verso refere-se à ressurreição com Cristo em uma nova criatura (filiação divina), e não a glorificação futura, que é revestir o que é mortal da imortalidade.

A glorificação do verso 30 de Romanos 8 é a mesma que o apóstolo fez referência no verso 17: “O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e coerdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados” ( Rm 8:16- 17).

Quando os cristãos ressurgiram com Cristo ( Cl 3:1 ), são glorificados de fato porque recebem de Cristo a mesma glória que o Pai concedeu ao Filho “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um” ( Jo 17:22 ), pois ‘conheceram’ a Deus, ou antes foram ‘conhecidos’ d’Ele, nova condição que encaixa-se no chamado segundo o propósito em Cristo, destinando-os a serem filhos por adoção. ‘Glorificar’ é o mesmo que se tornar ‘um com Cristo e o Pai’, ou seja, é o mesmo que ‘conhecer’.

“E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou” ( Rm 8:30 ).

Assim, temos que todos que se conformam com Cristo na sua morte, Deus os fez ressurgir com Cristo (glorificou), mas antes de ressurgirem, foi-lhes necessário morrer com Cristo, momento em que ocorreu a justificação.

Ora, os ressurretos são uma nova geração em Cristo e, por isso são chamados com uma santa vocação (chamou), para serem conforme a imagem d’Aquele que os criou, ou seja, glorificados, predestinados ( 1Jo 3:1-2).

A geração eleita não possui outro destino que não seja ser filho, pois foi para isso que Deus os chamou: para que Cristo seja preeminente entre os seus muitos irmãos.

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O eterno propósito que Deus estabeleceu em Cristo

O propósito de Deus de estabelecer a sua palavra acima de todo o seu nome é eterno e imutável e foi levado a cabo quando Cristo ressurgiu dentre os mortos e tornou-se a cabeça da igreja, que é o seu corpo.

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A carne para nada serve

‘Provar os espíritos’ ou ‘os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas’ não envolve questões de ordem psíquica. Provar os espíritos não é verificar se o profeta é nervoso, intolerante, agitado, agressivo, etc., ou verificar se o profeta controla as suas emoções, desejos e ansiedades. Tais questões são pertinentes a psique humana e alguns psicólogos rotulam como sendo nuances do ‘espírito’. Portanto, a análise deve recair única e exclusivamente sobre a palavra do profeta, pois é pelo ‘fruto’ que se identifica a árvore ( Mt 7:16 ).


“E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” ( Mc 4:34 )

Introdução

O evangelista Marcos apresentou uma informação que não pode ser desprezada como parâmetro essencial à contextualização e interpretação de algumas passagens bíblicas:

“E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” ( Mc 4:34 ).

Neste verso o evangelista deixou registrado de modo claro que, tudo o que Jesus dizia à multidão era dito através de parábolas, o que contrasta com a maneira de Jesus ensinar os seus discípulos em particular.

De posse desta informação, é salutar ao interprete da bíblia analisar qual é o público alvo das palavras de Cristo, pois se for a multidão, teremos parábolas e enigmas, mas se o público alvo for os discípulos e em particular, teremos a elucidação das parábolas e dos enigmas ( Sl 78:2 ).

Neste artigo, faremos um exercício de análise e interpretação bíblica utilizando como base o verso 63 de João 6: “O espírito é que vivifica, a carne para nada serve”, levando em conta a informação dada pelo evangelista Marcos, ou seja, de que Jesus só falava ao povo utilizando-se de parábolas, mas quando em particular com os seus discípulos, declarava o significado do que havia dito.

Demonstraremos a importância de se determinar o público alvo da mensagem de Jesus, se judeus ou discípulos, o que possibilitará uma interpretação segura das Escrituras.

João 6

O evangelista João destaca que Jesus discursou a uma grande multidão que O seguia em função do milagre da multiplicação dos pães ( Jo 6:24 e 59), e no verso 61 em diante, o evangelista destaca que, quando Jesus ficou a sós com os seus discípulos, ensinou-os em função do que havia discursado ao povo.

O texto demonstra que muitos dos discípulos, ao ouvirem o discurso que Cristo fez à multidão, argumentaram: ‘- Duro é este discurso, quem o pode ouvir?’ ( Jo 6:60 ). Ao perceber que os seus discípulos murmuravam a respeito do que fora dito à multidão, Jesus os questiona dizendo: ‘- Isto vos escandaliza?’ (v. 61) e complementa ‘- Que aconteceria então se vísseis o Filho do homem subir para onde primeiro estava?’ Foi quando Jesus apresentou a seguinte explicação: “- O espírito é que vivifica, a carne para nada serve. As palavras que eu vos disse são espírito e vida. Mas alguns de vós não creram” ( Jo 6:63 ).

Levando em conta o que o evangelista Marcos disse: “E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” ( Mc 4:34 ), e que Jesus ensinou os discípulos em particular quando disse: “- O espírito é que vivifica, a carne para nada serve. As palavras que eu vos disse são espírito e vida. Mas alguns de vós não creram” ( Jo 6:63 ), devemos perguntar: Jesus propôs alguma parábola ao povo? Jesus contou à multidão alguma história do cotidiano para expor a sua doutrina? O que é uma parábola?

 

Definição secular de parábola: s.f. Trata-se de uma história curta, cujos elementos são eventos e fatos da vida cotidiana que ilustram uma verdade moral ou espiritual.

Se o interprete levar em conta a definição acima, jamais encontrará no capítulo 6 do evangelho de João uma história curta que faça referencia a eventos e fatos do cotidiano. Mas, como o evangelista Marcos foi contundente ao dizer que Jesus só falava a multidão por parábolas, faz-se necessário reler com acuidade o capítulo 6 do evangelho de João, para descobrirmos se há realmente uma parábola no texto.

Outro ponto a se destacar é o predito pelo salmista: “Abrirei a minha boca numa parábola; falarei enigmas da antiguidade” ( Sl 78:2 ). Os enigmas que seriam propostos através de parábolas pelo Messias estavam vinculados as questões da antiguidade, ou seja, não estava vinculado ao cotidiano das pessoas. Se os enigmas são os mesmos da antiguidade, a própria parábola não dependia do formato de uma história curta.

Através de um elemento próprio às poesias hebraicas, o paralelismo, verifica-se que o enigma profetizado pelo salmista e, que seria proposto ao povo através das parábolas pelo Messias, refere-se à lei mosaica anunciada na antiguidade ( Sl 78:1 ), com o objetivo de que os filhos de Israel cressem em Deus ( Sl 78:7 ).

“Escutai a minha lei, povo meu; inclinai os vossos ouvidos às palavras da minha boca.
Abrirei a minha boca numa parábola; falarei enigmas da antiguidade.
Os quais temos ouvido e sabido, e nossos pais no-los têm contado”
( Sl 78:1-3)

O evangelista João narra que Jesus multiplicou cinco pães e dois peixinhos ( Jo 6:9 ) e que uma multidão de quase 5.000 mil pessoas comeram a fartar, de modo que sobejaram e sobraram 12 cestos de pães. Diante daquela maravilha, a multidão pretendia fazer Cristo rei, ao que Ele se retirou sozinho para um monte ( Jo 6:15 ).

Mas, o interesse da multidão em se alimentar de pão era tamanho que os judeus procuraram Jesus em toda parte e, como não O encontraram, atravessaram o mar e foram em busca de Jesus na cidade de Cafarnaum ( Jo 6:24 ).

Quando a multidão encontrou Jesus, foi repreendida: “Na verdade, na verdade vos digo que me buscais, não pelos sinais que vistes, mas porque comestes do pão e vos saciastes” ( Jo 6:26 ). E em seguida lhes dá uma ordem: “Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará; porque a este o Pai, Deus, o selou” ( Jo 6:27 ).

Diante da proposta de Cristo, o povo questionou o que era necessário fazer para ser servo de Deus, pois queriam ter direito ao pão cotidiano ( Jo 6:28 ). Quando Jesus indicou como eles se tornariam servos (executores da obra de Deus), a multidão, que havia comido pão a fartar e que queriam no dia anterior fazer de Cristo seu rei, pediu um sinal visível para que pudessem crer no que Jesus propôs “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

A exigência de um milagre teve por pretexto a lei de Moisés, quando disseram: “Nossos pais comeram o maná no deserto, como está escrito: Deu-lhes a comer o pão do céu” ( Jo 6:31 ). Menosprezaram o milagre operado no dia anterior, em que uma multidão de quase 5.000 pessoas famintas foi saciada com cinco pães e dois peixes, pois entenderam que Cristo só teria autoridade de apresentar-lhes o exigido por Deus se lhes desse comida equivalente ao maná do deserto e por muitos dias.

Foi quando Jesus contraria a crença dos seus ouvintes ao dizer que não fora Moisés que dera o pão do céu e, por fim, identificou-se como o pão que dá vida aos homens ( Jo 6:35 ).

A multidão que inicialmente queria servir a Deus (apresentar-se por servo) para ter direito a comida que perece ( Jo 6:34 ), ficou apreensiva porque Jesus disse ser Ele mesmo o pão vivo que desceu do céu, e passaram a murmurar dizendo: “Não é este Jesus, o filho de José, cujo pai e mãe conhecemos? Então como diz ele: Desci do céu?” ( Jo 6:42 ).

Em seguida Jesus reafirma: – ‘Eu sou o pão da vida! Mas aqui está o pão que desceu do céu, do qual se o homem comer não morre! Se alguém comer deste pão, viverá para sempre. Este pão é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo’ ( Jo 6:48 -51).

Apesar de deixar claro que a sua carne seria entregue para que o mundo obtivesse vida, a declaração de Jesus fomentou uma discussão entre os judeus, e eles começaram a questionar entre si: ‘- Como nos pode dar este homem a sua carne a comer?’

Através das perguntas dos judeus diante da declaração de Cristo, fica evidente que não compreenderam a proposta de Cristo, ou seja, Jesus havia proposto ao povo uma parábola, pois a função da parábola é específica: que o povo ‘vendo não veem e ouvindo não ouvem e nem compreendem’Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não veem; e, ouvindo, não ouvem nem compreendem. E neles se cumpre a profecia de Isaías, que diz: Ouvindo, ouvireis, mas não compreendereis, E, vendo, vereis, mas não percebereis” ( Mt 13:13 -14; Sl 78:2).

Ora, a multidão não compreendeu o que Cristo disse quando se apresentou como o pão vivo enviado dos céus. Eis a parábola, o enigma proposto. Ficaram escandalizados quando foi dito que a carne de Jesus era comida e o seu sangue bebida ( Jo 6:53 -56), ou seja, a proposta de Jesus foi feita por parábola e envolvia um grande enigma!

Tudo o que Jesus disse à multidão em Cafarnaum por parábola, em particular expôs o significado aos Seus discípulos.

A explicação da parábola

A sós com os Seus discípulos, Jesus explica porque Ele é o pão vivo que desceu dos céus, e; porque a sua carne é verdadeiramente comida e o seu sangue verdadeiramente bebida. A explicação resume-se na seguinte fala: ‘- O espírito é que vivifica, a carne para nada serve. As palavras que eu vos disse são espírito e vida!’

Analisando algumas declarações que Jesus fez ao povo, temos que Ele é o pão que desceu do céu e que dá vida ao homem, pois quem se alimenta de Cristo viverá em função d’Ele ( Jo 6:51 e 57). Sobre esta verdade o apóstolo Paulo disse que Jesus é o último Adão, o espírito vivificante, o espírito que dá vida.

À multidão, Jesus anunciou que somente o ‘pão vivo que desceu dos céus concede vida’, e aos discípulos, em particular, deixa claro que o que vivifica é ‘o espírito’. Por fim ele arremata: ‘- As palavras que eu vos disse são espírito e vida’.

O interprete deve estar atento a toda explicação de Jesus, pois quando ele diz: ‘as palavras que eu vos disse são espírito e vida’, está definindo qual o significado do termo ‘espírito’. Ou seja, o que vivifica o homem são as palavras ditas por Cristo, pois as suas palavras são juntamente espírito e vida. Ou melhor, Cristo por ser o Verbo de Deus encarnado, é espírito vivificante ( 1Co 15:45 ).

O apóstolo Pedro ao recomendar a palavra aos cristãos, apresenta a palavra de Deus como alimento, pois exorta a crescerem fazendo uso do ‘leite racional’ “Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que por ele vades crescendo” ( 1Pe 2:2 ).

Quando Jesus fez o convite ao povo para que comessem da sua carne e bebessem do seu sangue dizendo que a sua carne era verdadeiramente comida e os seu sangue verdadeira bebida, estava ensinado ao povo por parábolas. Por enigma Jesus estava dando a entender ao povo que somente suas palavras proporcionam vida aos Seus ouvintes, e não os milagres operados. Jesus estava conclamando o povo que provassem a sua palavra do mesmo modo que o paladar prova a comida, pois veriam que Cristo, o Senhor do salmista, que se assentou a destra do Senhor do Salmista, é bom “Porque o ouvido prova as palavras, como o paladar experimenta a comida” ( Jó 34:3 ); “Provai, e vede que o SENHOR é bom; bem-aventurado o homem que nele confia” ( Sl 34:8 ).

Os cegos e surdos que provam as palavras de Cristo, crendo “Bem-aventurado o homem que nele confia” ( Sl 34:8 ), passa a enxergar. São os meninos que aprendem o temor do Senhor, os mansos que atendem o convite: vinde a mim vós todos que estais cansados e sobrecarregados ( Sl 34:11 ; Mt 11:28 ; Sl 34:2 ).

Se os ouvintes de Cristo ouvissem a sua palavra e cressem, seriam participantes do Espírito que vivifica ( 1Co 15:45 ), ou seja, tornar-se-iam um só corpo com Ele ( Jo 6:51 e Lc 22:20 ). Na palavra de Cristo está a vida dos homens ( Jo 1:4 e 7), mas por causa da parábola, os ouvintes de Cristo entenderam que Ele estava dando a comer o seu corpo físico, pois o que buscavam era pão de cevada. Cristo não queria que bebessem do sangue que estava em suas veias e que foi derramado na cruz, antes Jesus queria que cressem em suas palavras, pois as suas palavras faria com que os seus ouvintes se tornassem um com Ele, participantes do seu corpo ( Jo 17:21 ; Ef 3:6 ).

Quando disse em particular: “- O espírito é que vivifica, a carne para nada serve”, Jesus estava revelando a natureza do Seu discurso “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” ( 1Jo 5:3 ; Jo 6:61), antes que o que estava sendo proposto era que cressem em sua palavra, pois especificamente a sua palavra era espírito e vida “Ele, porém, respondendo, disse: Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus” ( Mt 4:4 ).

A palavra é espírito? Sim! É em função desta verdade que interpretamos passagem como: “E os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas” ( 1Co 14:32 ). Ou seja, a palavra do profeta é sujeita ao profeta. De igual modo, quando lemos: “Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo” ( 1Jo 4:1 ), a palavra ‘espírito’ nestes textos não diz de um ‘demônio’, ‘espírito imundo’ ou ‘fantasma’, antes diz especificamente da mensagem do falso profeta.

‘Provar os espíritos’ ou ‘os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas’ não envolve questões de ordem psíquica. Provar os espíritos não é verificar se o profeta é nervoso, intolerante, agitado, agressivo, etc., ou verificar se o profeta controla as suas emoções, desejos e ansiedades. Tais questões são pertinentes à psique humana e alguns psicólogos rotulam como sendo nuances do ‘espírito’. Portanto, a análise deve recair única e exclusivamente sobre a palavra do profeta, pois é pelo ‘fruto’ que se identifica a árvore ( Mt 7:16 ).

Assim como o paladar prova a comida, o ouvido deve provar as palavras, pois da boca dos homens procede o ‘fruto’ que permite identificá-los se são árvores boas ou más “Do fruto da boca de cada um se fartará o seu ventre; dos renovos dos seus lábios ficará satisfeito” ( Pr 18:20 ); “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” ( Mt 12:34 ).

Compreendendo que a palavra ‘espírito’ às vezes possui o significado de ‘palavra’, torna-se fácil compreender o que o apóstolo Paulo disse com o seguinte verso: “O qual nos fez também capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica” ( 2Co 3:6 ). Ou seja, o cristão é ministro da palavra de Cristo (evangelho), o espírito que vivifica, e não ministro da lei de Moisés, que é morte.

Mas, de onde Cristo e os apóstolos tiram tal significado para o termo espírito? A resposta encontra-se nas Escrituras, como se lê: “O Espírito do Senhor é sobre mim, Pois que me ungiu para evangelizar os pobres. Enviou-me a curar os quebrantados do coração” ( Lc 4:18 ; Is 61:1 ). Ora, o espírito do Senhor que estava sobre Cristo diz da palavra de Deus, pois a palavra era a unção necessária para se evangelizar os pobres e curar os abatidos de espírito.

O espírito do Senhor que repousou sobre Cristo diz da palavra de Deus, pois ela é juntamente sabedoria, conselho, conhecimento, temor, etc. “E repousará sobre ele o Espírito do SENHOR, o espírito de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de conhecimento e de temor do SENHOR” ( Is 11:2 ).

A palavra do Senhor é distinta do Espírito Santo, o consolador prometido e enviado, que veio sobre Cristo em forma de uma pomba quando Ele foi batizado por João Batista ( Jo 16:7 ; Mt 3:16 ).

Quando a bíblia diz que Deus pesa o espírito do homem, não diz de um julgamento (análise) do ‘ser’, da essência do homem, antes que Deus pesa as suas palavras “Todos os caminhos do homem são puros aos seus olhos, mas o SENHOR pesa o espírito” ( Pr 16:2 ); “Porque por tuas palavras serás justificado, e por tuas palavras serás condenado” ( Mt 12:37 ). Através do provérbio, verifica-se que os homens possuem um entendimento acerca dos seus caminhos, porém, Deus os prova (julga) segundo o que ‘professam’, assim como deve fazer os seguidores de Cristo “Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo” ( 1 Jo 4:1).

Os homens desconhecem a sua condição decorrente do nascimento natural. Quando nascem entram por uma porta larga que lhes dá acesso a um caminho de perdição. Quando Deus pesa o homem, não pesa segundo o que os homens entendem por puro, antes Deus pesa o homem segundo a porta que entrou ao nascer da semente de Adão, pois o que o homem natural anuncia segundo o seu conhecimento natural é mentira desde que foi lançado da madre ( Sl 58:3 ; Rm 3:4 ).

Mas, se tal homem crer em Cristo, morre com Cristo e é gerado de novo, ou seja, nasceu de novo. Por crer passa a falar segundo a verdade do evangelho, o espirito (palavra) que é pesado e não é achado em falta diante do Senhor ( Rm 8:9 ; Lc 4:1 ). É por isso que Jesus disse que julgava segundo a reta justiça e não segundo a aparência, ou seja, julgava segundo o que ouvia, pois Ele provava as palavras daqueles que o cercava. Os homens juntamente se desviaram e tornaram-se imundos em Adão e são pesados segundo as suas palavras em decorrência da mentira que proferem desde o nascimento ( Sl 53:3 ; Sl 58:3 ), e não segundo o comportamento e a moral humana que a religiosidade impõe ( Jo 7:24 ; Jo 5:30 ).

É por isso que Jesus disse que o que contamina o homem é o que sai da boca, e não o que entra, portanto é necessário provar os espíritos se eles procedem de Deus ou não, pois aquele que procede de Deus é porque ouviu as palavras de Deus ( Mc 7:15 -20; Jo 3:34 ; Jo 8:47 e 1Pe 4:11 ).

É por isso que Jesus disse que o que contamina o homem é o que sai da boca, e não o que entra, pois o coração enganoso e corrupto é proveniente do nascimento natural, portanto é necessário provar os espíritos se eles procedem de Deus ou não. Aquele que procede de Deus é porque ouviu as palavras de Deus e fala as palavras de Deus ( Mc 7:15 -20; Jo 3:34 ; Jo 8:47 e 1Pe 4:11 ).

Deste modo, o dom de discernir os espíritos diz da capacidade que é concedida ao cristão de analisar as palavras ditas por aqueles que se posicionam como profetas, se as palavras são de Deus ou não “E a outro a operação de maravilhas; e a outro a profecia; e a outro o dom de discernir os espíritos; e a outro a variedade de línguas; e a outro a interpretação das línguas” ( 1Co 12:10 ).

Resta-nos a pergunta: como ser cheio do espírito? “E não vos embriagueis com vinho, em que há contenda, mas enchei-vos do Espírito” ( Ef 5:18 ). Como ser ‘mais’ cheio do Espírito Santo se Ele foi enviado e habita o crente? Ser cheio do espírito diz do Consolador que Cristo enviou, do qual somos templo, ou da palavra? “Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” ( 1Co 3:16 ); A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando ao Senhor com graça em vosso coração ( Cl 3:16 ).

“… enchei-vos do Espírito; Falando entre vós em salmos, e hinos, e cânticos espirituais; cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração” ( Ef 5:18 -19).

A carne para nada serve

O que causou escândalo ao povo e a alguns discípulos de Cristo foi o discurso: “- Eu sou o pão que desceu do céu!”; “- A minha carne é verdadeiramente comida e bebida!” ( Jo 6:41 e 52). Os discípulos se escandalizaram e concluíram que o discurso de Cristo era duro ( Jo 6:60 -61).

Para um judeu, determinados tipos de alimentos eram proibidos, quanto mais comer a carne de um homem. Do mesmo modo que os judeus desprezaram Jesus por ter demonstrado sabedoria ao expor as Escrituras ( Mc 6:2 ), escandalizaram-se por Ele ter apresentado a sua carne como comida e o seu sangue como bebida.

Por não compreenderem a parábola, o povo escandalizou-se por entenderem que Jesus estava lhes propondo uma espécie de canibalismo.

Em particular com os seus discípulos, Jesus demonstrou que o que estava apresentando ao povo era a sua doutrina, pois o que dá vida ao homem é a palavra, e arrematou: a carne para nada serve!

O que Jesus deu a entender aos seus discípulos com a frase: ‘a carne para nada serve’?

Quando Jesus disse que ‘a carne para nada servia’, estava explicando aos discípulos que a sua carne não era ‘degustável’. Jesus estava esclarecendo que era equivocada a ideia que abstraíram de sua palavra, pois estavam escandalizados com a ideia de que a vida prometida estava vinculada a degustarem uma porção da carne de Cristo como se fosse pão.

Jesus descontrói a ideia que alguns discípulos equivocadamente construíram em função da parábola. Ele esclarece que a vida decorre de participarem do seu espírito (palavra) e, que a carne d’Ele não tinha tal serventia. Ou seja, em relação ao corpo físico de Jesus, que foi feito em semelhança da carne do corpo do pecado, não possuía as propriedades que os seus ouvintes equivocadamente entenderam através da parábola.

A carne de Cristo não tinha valor algum? A carne de Cristo tinha valor, pois foi através dela que Jesus aniquilou o que tinha o império da morte quando entregou ao Pai o seu espírito ( Hb 2:14 ). Foi através do seu corpo físico que Jesus tornou-se semelhante aos seus irmãos ( Hb 2:17 ), de modo que hoje Ele é misericordioso e fiel sumo sacerdote. Foi através do seu copo físico que Ele pode ser tentado e padecer todas as aflições ( Hb 2:18 ). Somente quando participante da carne e do sangue, tornou-se possível o Filho do homem ser entregue nas mãos dos pecadores ( Lc 24:7 ).

No contexto de João 6, verso 63, a carne de Cristo não possuía a propriedade de proporcionar vida caso alguém comesse da sua carne como se fosse pão, mas no contexto de Hebreus 10, verso 10, vê-se a serventia, o valor do corpo de Cristo “Na qual vontade temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez” ( Hb 10:10 ).

É em função da parábola proposta por Cristo aos judeus, que muitos interpretam literalmente a parábola proposta e, se esquece que, para interpretar uma parábola, antes se faz necessário elucidar o enigma: o pão proposto é o espírito, a palavra de Cristo, e não a carne d’Ele. Este erro se vê nas declarações do ex-pastor Batista, Francisco Almeida Araújo, conforme o exposto no DVD intitulado “Nossa Senhora do Marrom Glacê”, pois como a carne de Cristo para nada serve, segue-se que os fundamentos da eucaristia, a transubstanciação, estão equivocados, pois o que dá vida é o espírito, a palavra.

Mas, como convencer alguém da verdade? Somente lhe anunciado a verdade “E respondeu-me, dizendo: Esta é a palavra do SENHOR a Zorobabel, dizendo: Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos” ( Zc 4:6 ). Zorobabel viu um castiçal todo de ouro, um vaso de azeite no seu topo, com as suas sete lâmpadas, sete canudos, um para cada uma das lâmpadas que estão no seu topo e, por cima dele, duas oliveiras, uma à direita do vaso de azeite, e outra à sua esquerda, porém, não compreendeu a visão: a resposta estava no espírito, na palavra do Senhor, que faz o que é aprazível e não volta vazia ( Is 55:11 ).

Ao anunciar que a sua carne era verdadeiramente comida e o seu sangue verdadeiramente bebida, apresentando o enigma de que o seu corpo era o pão a ser comido “Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo” ( Jo 6:51 ), Jesus queria que compreendessem que lhes era necessário serem participantes da sua palavra, crendo n’Ele como confessou o discípulo Pedro: ‘- Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras de vida eterna!’

Portanto, qualquer que crê em Cristo conforme diz as Escrituras, alimentou-se de Cristo, ou seja, é participante do pão, do seu corpo, da sua carne e do seu sangue que foi entregue pela vida do mundo ( Jo 6:51 e 57).

A ideia que abstraíram da palavra de que Cristo estava dando literalmente a sua carne a comer foi descontruída quando Jesus alertou os seus discípulos de que ‘a carne d’Ele não tinha serventia para conceder vida’, antes o que concede vida é o seu espírito, ou seja, a sua doutrina, a sua palavra.

Qualquer que aceitasse a doutrina de Cristo não se escandalizando d’Ele, é o que renovou o espírito da sua mente. É naquele que não se escandaliza que ocorre a ‘metanoia’, a mudança de mente, de espírito. Enquanto alguns discípulos estavam escandalizados a ponto de se retirarem ( Jo 6:66 ), somente aqueles que mudaram a sua concepção diante da mensagem do evangelho puderam confessar: ‘- Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras de vida eterna. Nós cremos e conhecemos que tu és o Cristo, o Santo de Deus!’ ( Jo 6:68 -69).

Aquele que não renova a sua compreensão buscará motivos para se escandalizar. À época de Cristo, uns se escandalizam da doutrina, outros do conhecimento de Cristo, pois apenas viram Jesus como um dos filhos de José e Maria e, que tinha por oficio ser carpinteiro ( Mc 6:3 ). Mas, os que não se retiram escandalizados permanecem, pois creem que Jesus é o Filho de Davi prometido segundo as Escrituras.

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O conselho dos ímpios

O que é necessário para que os homens deixem de ‘andar segundo o conselho dos ímpios’, ou de ‘se deter no caminho dos pecadores’ e ‘se assentar na roda dos escarnecedores’? Somente o novo nascimento é o que torna o homem bem-aventurado e sem qualquer vinculo com o conselho, o caminho e a roda dos escarnecedores ( Sl 1:1 ). Não é necessário aos cristãos deixarem de conviver com os ímpios para serem bem-aventurado.


“E, vendo todos isto, murmuravam, dizendo que entrara para ser hóspede de um homem pecador” ( Lc 19:7 ).

Para os escribas, fariseus e saduceus havia uma grande discrepância entre as Escrituras (o Antigo Testamento) e o comportamento de Jesus.

Certa feita, após convidar Mateus para segui-lo em seu ministério, Jesus assentou-se para comer, e vieram muitos publicanos e pecadores e assentaram-se com Ele e com os seus discípulos.

Os fariseus vendo que Jesus havia se assentado com os pecadores para comer, passaram a indagar: “Por que come o vosso mestre com os publicanos e pecadores?” ( Mt 9:10 -11).

Em outra ocasião uma grande multidão veio a Jesus para ouvi-lo, e os fariseus teceram um comentário semelhante: “Este recebe pecadores e come com eles” ( Lc 15:2 ).

Quando Jesus resolveu ser hospede de Zaqueu, o chefe dos publicanos ficou preocupado com o que os fariseus e os escribas estavam dizendo. A preocupação foi tamanha que ele propôs dar metade de seus bens aos pobres “E, vendo todos isto, murmuravam, dizendo que entrara para ser hóspede de um homem pecador” ( Lc 19:7 ).

Os fariseus e escribas estavam intrigados com o comportamento de Jesus. Para eles, um judeu deveria ao menos conhecer o que diz os salmos e a lei, e muito mais alguém que se propôs ensinar o povo. Como seria possível Jesus se assentar e comer com os pecadores (gentios) e ainda exercer o ofício de mestre?

Para os religiosos judeus era inadmissível a ‘miscigenação’ cultural entre judeus e outros povos. Eles não admitiam a mistura do que pensavam ser santo com o que consideravam profano.

Os lideres do povo de Israel consideravam serem santo por descender da carne de Abraão, e, portanto, não podiam conviver num mesmo recinto com pessoas de outras nações. Por outro lado, Jesus entrava e se assentava na casa de pecadores para comer com eles sem se importar com o prescrito no Salmo primeiro.

Na visão dos religiosos era inadmissível alguém que se dizia mestre contrariar o que diz o Salmo primeiro: “Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores” ( Sl 1:1 ).

Entrar na casa dos pecadores e assentar-se à mesa para comer, configura que Jesus assentou-se na roda dos escarnecedores? Ao andar com eles pelo caminho, Jesus se deteve no caminho dos pecadores? Ao conversar com os pecadores, Jesus andou segundo o conselho dos ímpios?

Como conciliar o Salmo primeiro e o fato de Jesus entrar, assentar, comer e se hospedar na casa de pecadores?

“BEM-AVENTURADO aquele que teme ao SENHOR e anda no seu caminho” ( Sl 128:1 )

O salmo 128 é claro: “Bem aventurado aquele que teme ao Senhor…”. É certo que há os que temem ao Senhor e são bem-aventurados, e os que não temem e estão sob maldição. Neste mesmo diapasão, há homens que andam no caminho que pertence ao Senhor, e os que não andam.

Qual é o caminho do Senhor? Qual o temor do Senhor?

Jesus disse: “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” (João 14: 6).

Os fariseus e escribas estavam diante do Caminho que conduz os homens a Deus, mas seguiam somente os intentos dos seus corações. Mesmo não se aproximando de pessoas tidas por eles como sendo pecadoras, trilhavam o caminho de perdição. Por outro lado, embora Jesus estivesse assentando na mesma mesa e comendo com os pecadores, Ele não estava assentado na roda dos escarnecedores. Embora Jesus andasse com os pecadores, Ele não andava segundo o conselho dos ímpios.

Andar, falar, conviver e comer com os pecadores não muda o fato de que Cristo é o caminho que conduz a Deus. Mesmo assentado e comendo com os pecadores, Jesus, o ‘Caminho’, e o caminho dos pecadores nem mesmo se cruzaram.

Mesmo que um cristão esteja assentado em uma mesma mesa comendo com um grupo de pessoas ímpias, o caminho dos ímpios é o caminho de perdição e o caminho do cristão é o caminho de salvação.

Se os escribas e fariseus entendessem que Adão é a porta larga que dá acesso ao caminho largo que conduz à perdição, e Cristo, o último Adão, a porta estreita e o caminho estreito que conduz à salvação, jamais estranhariam o fato de Jesus comer na mesma mesa com os pecadores, pois comer, assentar e andar com os ímpios não é o mesmo que trilhar o caminho dos pecadores.

O que é necessário para que um homem deixe de andar segundo o conselho dos ímpios, ou de se deter no caminho dos pecadores e se assentar na roda dos escarnecedores? Um novo nascimento é o que torna o homem bem-aventurado e sem qualquer vinculo com o conselho, o caminho e a roda dos escarnecedores ( Sl 1:1 ). Não é necessário aos cristãos deixarem de conviver com os ímpios para serem bem-aventurado.

Desde a madre os ímpios se alienam de Deus e andam por um caminho de perdição “Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, falando mentiras” ( Sl 58:3 ). Somente após o novo nascimento o homem volta a compartilhar da glória de Deus ( Jo 17:22 ), e a andar no seu caminho ( Sl 128:1 ).

O que diferencia os justos dos ímpios é a porta por onde entraram, e não as interações e relações que que travam neste mundo. O nascimento natural é a porta larga por onde todos os homens entram ao nascer, e o novo nascimento segundo o último Adão a porta estreita por onde poucos entram ao crer em Cristo ( Mt 7:13 ).

O conselho, o caminho e a roda dos ímpios teve origem na queda de Adão. O caminho do Senhor é Cristo, pois Ele é o temor do Senhor e o último Adão. Ele é a porta estreita por quem ou onde os homens devem entrar para seguir pelo caminho de salvação.

Ao nascer de novo, ou seja, ao entrar pela porta estreita, jamais será possível andar no caminho dos ímpios, mesmo se compartilhar os mesmos talheres, mesas, lugares, etc.

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