Cristo e a sua Igreja

Há só uma fé, a fé que foi entregue aos santos (Jd 1:3; Fl 1:27). Através dessa fé, que é dom de Deus, há um só batismo: o batismo na morte de Cristo (Rm 6:4; Cl 2:12). A Igreja de Cristo subsiste perfeita em unidade com Cristo e com o Pai (Jo 17:21-23) e cada membro, em particular, é constituído ministro do espírito (2 Co 3:6).


A Igreja é o corpo de Cristo. Ela veio à existência quando Cristo ressurgiu dentre os mortos. Todos os homens, quantos creem em Cristo, morrem com Ele e ressurgem novas criaturas, membros da sua carne e dos seus ossos (Ef 5:30). A Igreja é constituída de homens de todos os povos, línguas e nações que creem, conforme as Escrituras, que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus bendito.

Os membros do corpo de Cristo tem a missão de anunciar ao mundo as virtudes de Deus, ensinando a todos os povos que Cristo é o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (Mt 28:20). A Igreja de Cristo é vitoriosa, pois os poderes do inferno não prevalecem contra ela.

Da mesma forma que o marido é a cabeça da mulher, Cristo é a cabeça da Igreja, ou seja, exerce autoridade sobre ela. É Cristo quem salva o seu corpo e o sustem. É por isso que o apóstolo Paulo utiliza a relação do marido com a esposa para ilustrar a relação de Cristo com o seu corpo (Ef 5:23 e 29).

Cristo amou a Igreja, por isso se entregou por ela, para santificá-la e, pela palavra a purificou, possibilitando que ela se apresente a Ele gloriosa, sem mácula, nem ruga. A Igreja é santa e irrepreensível por Aquele que se entregou por ela (Ef 5:25-27).

A importância da Igreja é inegável, pois, por meio dela, Cristo alçou a mais alta posição na criação: a primogenitura entre muitos irmãos e abaixo dos seus pés, ou seja, abaixo da Igreja, está todo principado, autoridade, poder, domínio, não só deste século, mas, também, do vindouro (Ef 1:22).

Porém, apesar de a Igreja ser edificada com pedras vivas, tal qual Cristo é (1 Pd 2:4 -5), há quem veja problemas na composição humana da Igreja. Pela má leitura de algumas parábolas e passagens bíblicas, julgam que a Igreja é composta de trigo e de joio, de virgens prudentes e de virgens loucas, de crentes carnais e de crentes espirituais, etc.

Tal entendimento equivocado se dá, por confundirem o ajuntamento solene de cristãos, onde é possível ao homem ímpio comparecer (Jd 1:12), com a verdadeira Igreja de Cristo, que não comporta aqueles que não estão em comunhão com o Pai e o Filho.

É um erro pensar a Igreja de Cristo do ponto de vista histórico, porque, analisar a Igreja de Cristo, através de subsídios gerados a partir de fatos gerados no tempo, trará a ideia de que a Igreja de Cristo carece de reforma e de avivamento ou, que a Igreja de Cristo, ao longo de dois mil, passou por bons e maus momentos.

O que precisou de reforma, ao longo das eras, foram instituições humanas que os homens nomearam por igreja. A ideia de avivamento surgiu atrelada a algumas denominações cristãs, o que não passam de especulações e de apelos, atrelados às instituições humanas.

A Igreja de Cristo, jamais precisou de reforma ou, de ser corrigida. Na Igreja, jamais existiram desvios ou, carência de avivamento. A Igreja de Cristo está fundamentada sobre Cristo, a pedra angular (Ef 2:20). É Deus quem edifica a Sua Igreja (Cl 2:19), por meio de Cristo, para a morada de Deus em Espírito (Ef 2:22).

A Igreja tem por base a Cristo, o fundamento dos apóstolos e dos profetas. Apesar de haver muitos membros no corpo de Cristo, contudo há um só corpo, ou seja, uma só Igreja (1 Co 10:17). De igual modo, há muitos membros, porém um só espírito, ou seja, uma só mensagem que foi anunciada por Cristo (Ef 4:4).

Há só uma fé, a fé que foi entregue aos santos (Jd 1:3; Fl 1:27). Através dessa fé, que é dom de Deus, há um só batismo: o batismo na morte de Cristo (Rm 6:4; Cl 2:12). A Igreja de Cristo subsiste perfeita em unidade com Cristo e com o Pai (Jo 17:21-23) e cada membro, em particular, é constituído ministro do espírito (2 Co 3:6).

Cristo é a verdade de Deus revelada ao mundo e nenhuma instituição humana foi comissionada como guardiã desta verdade. A verdade de Deus foi confiada a homens fiéis que, após crerem em Cristo e nascerem de novo, anunciam a verdade do Evangelho (Cristo), que é universal e permanece para sempre.

“E o que de mim, entre muitas testemunhas, ouviste, confia-o a homens fiéis, que sejam idôneos para, também, ensinarem os outros” (2 Tm 2:2).

A Igreja de Cristo se sustem sob a pessoa de Cristo, e através da confissão: Jesus é o Cristo, assim como o apóstolo Pedro admitiu, o crente passa a compor a Igreja:

“E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16:16).

Basta crer em Cristo que o homem torna-se membro do seu corpo, ou seja, torna-se Igreja, portanto, não é necessário crer em uma instituição, como guardiã da verdade, como encontramos no Credo Niceno ou, na Confissão de Augsburgo ou, na Confissão Helvética, etc.

O crente em Cristo não pode se socorrer de instituições humanas ou de qualquer seguimento religioso, como se tais instituições tivessem autoridade apostólica.

Somente os apóstolos de Cristo possuíram tal autoridade e eles mesmos reputavam como mais firme as palavras dos profetas e recomendaram aos cristãos atentarem para o que está registrado nas Escrituras (Pd 1:19).

Os apóstolos, quando instruíam os cristãos, se apresentavam como ministros de Cristo e membros da Igreja, demonstrando que, em Cristo, ninguém é superior ou inferior pela função que desempenha no corpo, antes, todos são igualmente servos de Cristo.

“Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o SENHOR; e nós mesmos somos vossos servos, por amor de Jesus” (2 Co 4:5).

A razão de ser da Igreja é a preeminência de Cristo, o primogênito entre muitos irmãos (Rm 8:29), e, por isso mesmo, a Igreja é uma assembleia de iguais (ecclesia), pois, em Cristo, não há macho nem fêmea, servo ou livre, judeu ou grego, antes, todos são um, em Cristo Jesus (Gl 3:28).

A glória de Cristo foi dada aos homens que creram (Jo 17:22) e não a uma instituição. Jesus Cristo estabeleceu a Sua Igreja e não uma instituição humana. A Igreja de Cristo é o templo que Deus prometeu a Davi (2 Sm 7:13-14) e não uma instituição humana.

O primeiro ajuntamento solene de cristãos se deu em Jerusalém e de lá o evangelho se propagou pelo mundo. Quando o evangelho passou a ser anunciado a todas as gentes, os apóstolos não estavam preocupados em estabelecer uma organização humana e nem consideraram estabelecer um centro administrativo da Igreja.

Se a Igreja de Cristo não se vincula a um lugar, antes, é formada por verdadeiros adoradores, que adoram o Pai em espírito e em verdade, como poderia ter um centro administrativo? Se adorar a Deus se dá em espírito e em verdade, questões como lugar e hora foram abolidas, portanto, não se sustenta a ideia de uma santa sé ou um centro administrativo eclesiástico, sob a anuência de Deus!

Inicialmente, os membros do corpo de Cristo se reuniam em Jerusalém, mas, com a perseguição e a dispersão, surgiram novos núcleos de reunião, no entanto, à época, não havia instituições ditas cristãs. Cada ajuntamento solene de cristãos ao redor do mundo estava vinculado somente pela doutrina que professavam, não por estarem sujeitos a uma liderança humana ou, a um centro administrativo eclesiástico.

Após a morte dos apóstolos, inúmeras instituições humanas surgiram, sob o pseudônimo ‘igreja’. Cada instituição que surgiu e se estabeleceu, acabou avocando para si, na figura do seu líder, autoridade de representantes de Deus na terra.

Em nossos dias, é incalculável o número de ajuntamento de pessoas que se dizem cristãs e a gama de instituições criadas para acolher seguidores de diferentes correntes doutrinárias. Muitas dessas instituições tornaram-se agremiações que mais promovem reuniões de caráter recreativo, cultural, artístico, político, social, etc., do que o evangelho de Cristo.

Em nossos dias, as instituições humanas são tantas que, quando alguém diz ser cristão, não se questiona se tal pessoa é seguidora de Cristo, tal qual estabelecido nas Escrituras, mas, a qual denominação, instituição, agremiação, comunidade, etc., que o tal pertence.

Somente quem conhece as Escrituras não se deixa levar pelos equívocos que uma instituição promove, pois, a instituição humana acaba suplantando a condição do individuo como Igreja, no afã de se estabelecer e crescer como organização.

As instituições humanas facilitam o congraçamento entre os cristãos, porém, quando há um ajuntamento solene, o cristão deve verificar se a mensagem anunciada naquele local é conforme o anunciado pelos apóstolos e profetas. A verdade do evangelho, em um ajuntamento solene, tem de falar mais alto que os interesses da instituição.

 

Corretor ortográfico: Pr. Carlos Gasparotto

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O conflito na alma e o inimigo na alma

Enquanto Barclay analisa os termos gregos utilizados pelo apóstolo Paulo, que foram traduzidos por: adultério, prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices e glutonarias, a partir do comportamento desregrado dos gregos e dos romanos (esquecendo que o apóstolo Paulo não julga os que são de fora, mas os que são de dentro), não percebe que a lista das obras da carne foi feita a partir da apostasia dos filhos de Israel, que foram postos por exemplos.


O conflito na alma e o inimigo na alma

Este artigo tece considerações, em função do livro “As obras da carne e o fruto do Espírito”, de William Barclay, publicado pela editora ‘Edições Vida Nova’, em especial, sobre o capítulo I, que aborda duas questões: ‘O conflito na alma’ e ‘O inimigo na alma’.

 

O conflito na alma

O Dr. Barclay, já no primeiro parágrafo do seu livro, afirma que ‘A filosofia e a teologia são essencialmente uma transcrição e uma interpretação da experiência humana… ’, e conclui: ‘… e a experiência humana é de que há um conflito na alma humana’[1] Barclay, William, As obras da carne e o fruto do Espírito, Tradução Gordon Chown, Ed. Edições Vida Nova, SP, 1988. Pág. 13.

Apesar de citar trecho da carta do apóstolo Paulo aos Gálatas, tanto a asserção, quanto a conclusão de Barclay, não refletem a verdade exarada nas Escrituras. Primeiro, porque a filosofia não é matéria bíblica. Segundo, se esses, também, são os termos da teologia, uma transcrição e uma interpretação da experiência humana, não estamos falando de um estudo de Deus, mas, de uma matéria secular.

A Bíblia tem por base a revelação divina, não as experiências humanas. Por mais que a experiência humana diga que há um conflito na alma, a Bíblia não trata desses conflitos e nem se apoia nas experiências humanas. Por mais que evidências palpáveis aos sentidos humanos apontem a existência de um conflito na alma, a revelação das Escrituras, por ser a verdade, suplanta as experiências humanas.

Por mais que o pensamento judaico acerca do homem aponte para a existência de um conflito interno, conforme exarado na doutrina de yetserhatobh e yetserhara[2] (a natureza boa e a má), tal pensamento nada pode comunicar aos cristãos, pois a Bíblia é clara, aos dizer que os judeus não tem o conhecimento de Deus (Dt 32:28; Is 1:6; Os 4:6), portanto, a doutrina deles não é confiável.

No entanto, o Dr. Barclay busca, não só o pensamento judaico, mas, também, entre os gregos[3], evidencias para sustentar a sua asserção inicial e aponta para Platão que, no Fedro (246B), “descreve a alma do homem como o cocheiro, cuja tarefa é dirigir, em arreios duplos, dois cavalos, um dos quais é ‘nobre e de raça nobre’, e o outro é ‘o oposto na raça e no caráter’”. Barclay não para por aí e busca, entre Ovídio (Metamorfoses 7.20), Sêneca (Cartas 112.3), Epíteto (Discursos 2.11.1) e outros, evidenciar a tal ‘experiência humana’[4], que comprove que há um conflito na alma.

Barclay destaca dois escritores gregos: Platão e a sua obra Fédon, que narra às últimas horas de Sócrates e Filo, e acrescenta que este último estabeleceu uma ponte entre o pensamento hebraico e o grego e aquele influenciou incalculavelmente o pensamento cristão, e que ambos sublinharam em seus escritos que o corpo é eminentemente mal (idem, págs. 14 e 15).

A informação inicial apresentada por Barclay, de que o apóstolo ‘Paulo não foi, de modo algum, a primeira pessoa que viu a vida em termos do conflito interno’ (idem, pág. 13), não é verdadeira, pois, em suas epístolas, o apóstolo dos gentios não trata das experiências humanas e nem dos seus conflitos internos, mas, da ‘oposição’ entre o ‘mandamentos de homens’, que é contrário ao ‘mandamento de Deus’, ou seja, ‘carne’ versus ‘espírito’.

Quando o apóstolo Paulo afirma que a carne milita contra o espírito, ele tem em vista dois sistemas doutrinários antagônicos: os mandamentos dos homens e o mandamento de Deus. Aqueles que estão em Cristo Jesus, são os que andam no espírito, diferentemente daqueles que andam segundo a tradição dos homens, ou seja, segundo a carne.

“PORTANTO, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Rm 8:1).

A oposição entre a ‘carne’ e o ‘espírito’ descrita pelo apóstolo Paulo não é interna ao homem, pois o que ‘carne’ e ‘espírito’ disputam é o homem, na busca de sujeita-los ‘para que não façais o que quereis’ (Gl 5:17). A oposição entre carne e espírito, descrita pelo termo grego αντικειμαι (antikeimai), não diz de um embate, de um enfrentamento, mas, de oposição. Os que são segundo o evangelho, agradam a Deus, pois se sujeitam ao mandamento, que é crer em Cristo (At 10:35), mas os que são segundo a lei, ou seja, segundo as obras da carne, são inimigos de Deus, pois não se sujeitam ao mandamento de Deus (Rm 8:7-9).

A má leitura de Barclay se deve à falta de compreensão, acerca do termo grego ‘pneuma’, quando empregado pelo apóstolo Paulo, em certos contextos, nas suas epístolas.[5]

O problema exposto na base de um dilema, se o pneuma (espírito), faz parte do homem ou, se é uma parte do homem após ele se tornar cristão, demonstra o quanto a incompreensão de certos termos gregos empregados no Novo Testamento interferiu na leitura e na compreensão de Barclay. Pela incompreensão do tema, Barclay cita J. E. Frame, que, por sua vez, cita Teodoro de Mopsuéstia (ou, Teodoro de Antioquia; 350-428), somando-se erro sobre erro:

“Deus nunca colocou os três, a alma, o espírito e o corpo, num descrente, mas somente nos crentes. Destes, a alma e o corpo são naturais, mas o espírito é um benefício (euergesia) especial para nós, uma dádiva da graça aos que creem”. Teodoro de Mopsuéstia.

Em primeiro lugar, o homem, seja ele crente em Cristo ou, não, só é homem, porque é formado por corpo, alma e espírito. É impossível ao homem ser homem sem corpo, da mesma forma que é impossível ao homem ser o que é sem a alma e o espírito. O espírito que compõe a natureza do homem, tanto natural, quanto espiritual, não diz da dádiva da graça ou de um dom de Deus para a natureza humana redimida.

Todos os homens possuem um corpo constituído de matéria orgânica, formado do pó da terra (Gn 2:7) e Cristo, ao se tornar homem, também teve que ser participante de carne e sangue (Hb 2:14 e 16; Sl 139:13-16; Sl 22:9-10; Sl 40:6). Todos os corpos dos homens são constituídos de matéria orgânica e semelhantes entre si, pois, todos vem do pó e ao pó retornam.

Todos os homens possuem um espirito criado por Deus, exceto Jesus Cristo-homem, visto que o próprio espirito do Verbo eterno esvaziou-se a si mesmo do seu poder e glória e se faz homem, sendo introduzido pelo Altissimo no ventre de Maria, no corpo que lhe foi preparado, sem vínculo com a semente de Adão (Hb 10:5; Fl 2:7).

Todos os homens possuem uma alma, que muitos se referem como a sede dos sentimentos, emoções e desejos dos homens. No entanto, a alma é a identidade do espírito, que unido ao corpo passa a existir dotado de sentimentos, emoções e desejos. Um espírito unido a um corpo, distingue-se dos demais espíritos, quando são unidos a um corpo pela concepção e a alma diz da individualidade do espírito, que o distingue dos demais.

Todos os espíritos dos homens, quando criados por Deus, são idênticos entre si, sem nada que os distingam. Quando do nascimento do homem, em que há a união entre o corpo e o espírito, temos uma alma vivente: um espírito que é único, pela identidade que adquire, através da sua alma.

Os seres angelicais são espíritos e quando criados, o foram de uma única vez, cada qual com a sua identidade e individualidade, distintos um do outro, diferentemente do homem, no qual a identidade e a individualidade do espírito se dá, quando unido ao corpo.

Se Deus retirar o espírito e o fôlego que concedeu ao homem, imediatamente, todos sem exceção, expiram e voltam ao pó da terra (Jó 34:14). O fôlego está relacionado à vida do corpo, constituído de matéria orgânica (Jó 33:4-6) e o espírito está relacionado à existência do homem, o que permite compreender os eventos à sua volta (Jó 38:36). Sem o espírito, o homem seria semelhante aos animais, que se guiam por instintos, ou seja, sem compreender os eventos à sua volta (Sl 32:9).

É próprio do espírito do homem ter e expressar sua opinião, ante os eventos que o cercam por intermédio do corpo, ou seja, através dos lábios (Jó 32:17-20). Eliú, filho de Baraquel, o buzita, antes de ouvir Jó e os seus amigos, achava que era próprio aos mais velhos ensinarem sabedoria e, por isso, tinha receio de expor a sua opinião (Jó 32:6-7). Ao ouvir os mais velhos, Eliú decepcionou-se e chegou à conclusão de que os mais velhos não são os mais sábios e nem os idosos tem conhecimento do que é mais correto (Sl 32:9). Embora fosse consenso à época de Eliú que a sabedoria e o conhecimento eram próprios aos mais velhos, o jovem Eliú conseguiu abstrair, através do que ouviu da discusão dos amigos de Jó, que não era assim.

Como é próprio a todos os homens ter um espírito (o sopro do Senhor Todo Poderoso), Eliú compreendeu que o entendimento e a sabedoria são, igualmente, alcançados por todos, independentemente de ter ou não idade avançada, o que fez com que aquele jovem expressasse a sua opinião diante de alguns velhos (Jó 32:8 e 17).

“Pensava eu: ‘Que a experiência fale mais alto e os muitos anos de vida ensinem a sabedoria’. Contudo, o homem tem um espírito e o sopro de Shaddai, o Todo-Poderoso, que lhe proporciona entendimento. Não são apenas os mais velhos, os maiores e mais sábios, nem os mais idosos que têm o conhecimento do que é mais certo” (Jó 32:7-9).

O espírito do homem não é um entendimento, antes o entendimento é uma faculdade do espírito, que o torna capaz de raciocinar, considerar, compreender, etc. Ao nascer, o homem é um ser terreno, dotado de um espírito, com a faculdade de compreensão, aprendizagem, interação, etc. Entretanto, o discernimento do homem precisa ser exercitado, assim como o corpo, para que possa se desenvolver, até chegar à maturidade, tornando-se apto a discernir entre o bem e o mal (Is 7:16; Hb 5:14).

O espírito do homem, paulatinamente, cresce em entendimento quando interage com o mundo, e isso por intermédio do seu corpo. Deus soprou no homem o fôlego da vida e, assim, este tornou-se alma vivente, dotado de um espírito. O entendimento de Adão só veio através da interação que ele tinha com Deus na virada do dia e com a vivência no jardim do Éden e, assim, é com todos os seus descendentes, pois os filhos interagem com os pais.

A consideração de Teodoro de Mopsuéstia é equivocada, pois, todos os homens, sem exceção, são constituídos de corpo, alma e espírito. Na morte física, o corpo volta ao pó, porém, o espírito, que volta para Deus, jamais se dissocia da alma, pela eternidade. Todo homem, primeiro, teve o corpo formado do pó da terra, através da herança de carne e sangue, que recebe dos pais; em seguida, um espírito, que procede de Deus e, por fim, surge a alma, como identidade do espírito. Ao morrer,o corpo volta para o pó da terra, porém, espírito e alma seguem para a eternidade, quando os homens ressurgirão com corpo glorioso ou, em ignomínia.

Mas, o que é o ‘pneuma’, como dom de Deus, que é próprio à natureza redimida do crente em Cristo? Por ‘natureza redimida’, entende-se como o homem de novo gerado, por meio da palavra do evangelho, que é semente incorruptivel.

O termo grego ‘pneuma’ (espírito), além de se referir a um dos elementos imateriais do homem criado por Deus, também, é utilizado para fazer referência à mensagem do evangelho. O termo ‘espírito’ é utilizado para fazer referência a uma doutrina, assim como o termo ‘fé’, que contém, em seu bojo, a ideia de ‘verdade’. É com esse significado que Jesus afirmou que as suas palavras são ‘espírito e vida’ (Jo 6:63).

Adão, ao pecar, separou-se de Deus, ou seja, morreu. Todos os descendentes de Adão, igualmente, alienaram se de Deus, ou seja, estavam mortos em delitos e pecados (Ef 2:1). O termo ‘morte’ é empregado no sentido de ‘separação’, não no sentido de término das funções vitais. Para a cessação das funções vítias do individuo, o escritor do Gênesis utilizou a expressão ‘voltar ao pó’.

Mas, como o homem volta à comunhão com Deus? Em outras palavras, como o homem é vivificado? Através do espírito, ou seja, pela palavra de Deus (Dt 8:3), pois, por ela, é criado um novo homem (Ef 4:23).

É por isso que o Verbo eterno se fez carne, pois o mandamento de Deus, dado através de Cristo, concede vida aos que creem! Esse mandamento (espirito) é concedido gratuitamente (1 Jo 3:23; Jo 3:16), pois, é dito: pela graça sois salvos! (Ef 2:8). O homem é salvo por meio da ‘verdade anunciada’ (Gl 3:1), que é a ‘fé’, ou seja, evangelho, espírito (Rm 1:16), a fé, que de uma vez foi dada aos santos (Jd 1:3), a palavra anunciada pelos ministros do espírito.

O apóstolo Paulo foi feito ministro do espírito, ou seja, de um Novo Testamento:

“O qual nos fez, também, capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica” (2 Co 3:6).

É por isso que o apóstolo Paulo faz referência a Cristo como o último Adão, o espírito vivificante:

“Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante” (1 Co 15:45).

O espírito do homem regenerado é o mesmo, antes de ser gerado de novo, porém, o que muda é o espírito como mensagem, entendimento, o que se dá no arrependimento. O arrependimento, essencialmente, é uma mudança de espírito, ou seja, de compreensão, acerca de como ser salvo. O espírito dos escribas e fariseus era de que estavam salvos, por serem descendentes da carne de Abraão, mas com o evangelho, deveriam mudar de concepção, espírito, pois a salvação se dá por Cristo, o reino dos céus que era chegado (Mt 3:2 e 8-9).

É pelo espírito (mensagem) do evangelho que sabemos que Deus está em nós e nós n’Ele (1 Jo 3:24). Quem é gerado de novo pelo espírito, é espiritual (Jo 3:6) e quem foi gerado segundo a carne, é carnal, sendo que o espírito (mensagem que acredita ser a verdade) deste, consiste em mandamento carnal e daquele, ‘poder da vida incorruptível’ (Hb 7:16) .

Outro equívoco, é entender que é por meio do pneuma, como espírito do homem[6], que Deus pode falar aos homens, ou que os homens podem ter comunhão com Deus. O pneuma, que Deus fala aos homens, diz da sua palavra, da sua mensagem anunciada por Cristo. É somente por meio do evangelho, que é espirito e vida, que o homem tem comunhão com Deus. O homem possui um espírito, mas não é esse espirito que tem comunhão com Deus ou que torna possível ouvir a Deus.

Watchman Nee, em seu livro, ‘O homem espiritual’ incorre no mesmo erro de Barclay, ao afirmar que:

“É através do espírito que temos comunhão com Deus e somente por ele podemos compreendê-lo e adorá-lo. Por isso se diz que ele é o elemento que nos confere consciência de Deus. Deus habita no espírito; o eu, na alma; e os sentidos, no corpo (…) Por meio do seu espírito, o homem se relaciona com o mundo espiritual e com o Espírito de Deus…” Nee, Watchman, ‘O homem espiritual’ Vol. 1, Editora Betânia – Belo Horizonte, 2002, Pág. 34.

Deus não habita no espírito do homem, mas, no seu corpo:

“Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?” (1 Co 6:19).

O corpo do crente não está em posição inferior ao seu espírito, pois o corpo pertence ao Senhor e o Senhor ao corpo (1 Co 6:13). Ao crer em Cristo, o homem une-se ao Senhor em um só espírito (1 Co 6:17; Ef 2:18), tornando-se, assim, membro do corpo de Cristo (1 Co 6:15). É pelo espírito do evangelho que o homem tem acesso a Deus, por isso, é dito um só espírito (Ef 2:18; Ef 4:4).

Após a queda de Adão, todos os seus descendentes são concebidos todos em pecado, ou seja, em corpo, alma e espírito. Esses elementos não se dividem, não há um mais nobre que o outro, ou seja, o corpo inferior e o espírito superior. É, eminentemente, platônica a ideia de que o espírito é mais nobre[7] que o corpo e o corpo, inferior. Todos os elementos que compõem a natureza do homem estão, igualmente, separados de Deus, sem comunhão, por causa da pena imposta, em decorrência da ofensa de Adão: morte.

Quando o homem crê em Cristo, por intermédio da palavra do evangelho, é purificado, completamente, pelo lavar regenerador do espirito (palavra), de modo que o seu corpo, alma e espírito são plenamente santificados e conservados irrepreensíveis.

“E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito,  alma e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso SENHOR Jesus Cristo” (1 Ts 5:23).

Deus não se comunica com o espírito do homem, como se fosse autônomo do corpo, antes, se comunica com o homem, através do evangelho, o qual o apóstolo Paulo foi feito ministro, e esse homem é corpo, alma e espírito. Para Deus comunicar-se com o homem, é necessário alguém que pregue e que o homem ouça, e isso só é possível através dos ouvidos, ou seja, através do corpo.

“Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? como está escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam o evangelho de paz; dos que trazem alegres novas de boas coisas. Mas nem todos têm obedecido ao evangelho; pois Isaías diz: SENHOR, quem creu na nossa pregação? De sorte que a fé é pelo ouvir e o ouvir pela palavra de Deus” (Rm 10:14-17).

Adão foi formado do pó da terra e Deus soprou-lhe nas narinas o fôlego de vida, concedendo-lhe, além do corpo formado do pó da terra, um espírito, tornando-se assim alma vivente (Gn 2:7). No Éden, Deus se comunicava com o homem pessoalmente, e não com o seu espírito, como se o espírito de Adão fosse independente do corpo.

O Verbo eterno, ao se fazer homem, também, lhe foi preparado um corpo por Deus (Sl 40:6) e Ele foi lançado no ventre de Maria (Sl 22:9-10). Por não ser gerado do sangue, da vontade da carne e do varão, Cristo veio ao mundo sem pecado. O corpo de Cristo não era menos nobre que o seu espírito e alma, tanto que Deus garantiu que nenhum dos seus ossos seriam quebrados (Sl 34:20). Deus ressuscitou o corpo de Cristo e o glorificou, o que demonstra que o corpo não é menos nobre que o espírito.

O termo ‘pneuma’ é utilizado para fazer referência, tanto a Deus, como o Espírito eterno; ao homem, como alma vivente; à parte imaterial do homem criada por Deus; ao evangelho como doutrina; e, ao Espírito Santo. Se o leitor não souber distinguir essas nuances, quanto à aplicabilidade do termo, através do contexto onde empregado, acabará fazendo uma leitura equivocada.

Cristo falou que enviaria o Consolador, ao fazer referência à terceira pessoa da trindade; em outras passagens, é dito que Deus envia o seu espírito, ou o espírito do Seu Filho, uma referência ao evangelho de Cristo; em outras passagens, o Espírito Santo é apresentado fazendo morada no cristão, assim como o Pai e o Filho.

O posicionamento de Barcley é equivocado, conforme se lê:

“Se for assim, o cristão é distintivamente um homem em quem esta presença e poder tem entrado como não podem entrar em outros homens. Então, seria verdadeiro dizer que o espírito do cristão não é outra coisa senão o Espírito Santo fazendo Sua habitação no homem, e dando à vida deste uma paz, uma beleza e poder que simplesmente não estão disponíveis nem são possíveis ao homem não-cristão” Idem, Pág. 17.

O espírito do homem é o homem e o Espírito Santo é a divindade, em comunhão com o homem, o que ocorre pela palavra de Deus que, também, é denominada espírito.

“Que não vos movais facilmente do vosso entendimento, nem vos perturbeis, quer por espírito, quer por palavra, quer por epístola, como de nós, como se o dia de Cristo estivesse já perto” (2Ts 2:2)

Quando o apóstolo Paulo escreve aos cristãos desejando que a bênção de Deus estivesse com eles, assim o faz dizendo: ‘A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja com o vosso espírito’ (Gl 6:18, Fl 4:23 e Fm 25). A graça de Deus não pode estar com o espírito dos não cristãos, mas é afeta aos espíritos dos cristãos.  Espírito foi empregado por Paulo como indivíduo, não como uma personalidade cristã.

Os termos gregos arraboñ (penhor) e sfragizein (selar) que o apóstolo Paulo utilizou em conexão com o termo pneuma, não significa que o espírito do homem é a presença e o poder de Deus dentro dele. Na verdade, o apóstolo Paulo estava demonstrando que, ao Jesus conceder o Consolador, os cristãos foram selados, sendo o Consolador uma garantia da herança dos cristãos (Ef 1:13-14).

O erro de interpretação de Barcley torna-se mais nítido, quando ele faz referência à passagem bíblica de Romanos 8, versos 1 à 17, quando ele conclui que a passagem trata do Espírito de Deus e do espírito do homem.

“Este fato é exposto de modo mais claro na passagem mais rica de Paulo a respeito do Espírito Santo e o espírito do homem” Idem. Pág. 19.

A passagem de Romanos 8 apresenta o evangelho como antagônico ao mandamento de homens, ou seja, o espírito antagônico à carne, não o espírito do homem e o Espírito Santo, até porque, segundo Barclay, o homem sem Deus não tem espirito[8], e outras vezes tergiversa[9] sobre essa questão. O espírito que faz do homem um cristão diz do evangelho, não do Espírito Santo, que guia o homem a toda verdade.

Além de fazer referência ao homem, através do termo pneuma, o apóstolo Paulo faz uso do termo psuché, traduzido por alma. O termo é utilizado para fazer referência ao homem como individuo, ou, para fazer referência à humanidade (Rm 2:9; Rm 13:1), ou, à própria existência do individuo com vida física (Rm 16:4).

O adjetivo psuchikos, também é utilizado para classificar o individuo como natural, o que o desqualifica para compreender, por si só, as coisas de Deus, o que só é possível através da revelação do evangelho (1 Co 2:14).

 

O inimigo na alma

Mas, com o homem é pneuma, psuchê e sõma, verifica-se que este último termo é utilizado para fazer referência ao corpo constituído de matéria orgânica. Há passagens que utilizam o termo sõma para fazer referência ao homem sujeito ao pecado, em que o corpo é figura utilizada para fazer referência ao homem, como pertencente ao pecado, por causa da ofensa de Adão. O corpo físico é apresentado como corruptível, mas, os cristãos aguardam a sua incorruptibilidade, vez que, o que é mortal, será revestido da imortalidade.

Geralmente, o termo sõma possui um sentido negativo, quando empregado como figura, para descrever a realidade do homem sem Deus, ou, positivo, quando a serviço de Deus, mas no geral, o corpo físico não é nem bem nem mal.

O apóstolo Paulo também utiliza o termo sarx, comumente traduzido por carne, e Barclay interpreta que o tal conflito da alma se dá pela oposição carne e espírito.

“i. Sarx é a inimiga mortal do pneuma. O conflito na alma é exatamente entre a carne, para usar a tradução comum da palavra, e o espírito. ‘Estes,’ diz Paulo, ‘são opostos entre si’ (Gl 5:17). Qualquer que seja, uma outra verdade a este respeito, estas duas são forças opostas dentro da existência humana” Idem. Pág. 20.

Apesar de confessar que o termo sarx não possui uma tradução adequada, Barclay se lança a comentar o que é a carne. No item 5[10], Barclay aponta que, em certos contextos, o termo ‘carne’ significa ‘julgando por padrões humanos’. Ora, carne refere-se à concepção dos judeus, segundo o mandamento de homens que foram instruídos, o que se opõe ao evangelho, que é revelação de Deus em Cristo.

A Bíblia não trata de nenhum conflito na alma, mas, da carne como doutrina, e o espírito como doutrina. Os homens que são segundo a carne, se inclinam para as coisas da carne, que são: circuncisão, nacionalidade, tribo, genealogias, etc. A inclinação da doutrina, segundo a carne é morte, pois, não é segundo a lei de Deus e todos que seguem a carne não podem agradar a Deus.

Há passagens em que o apóstolo Paulo utiliza o termo para fazer referência a uma doutrina e, em outras, ele utiliza o termo para fazer referência às pessoas que vivem segundo essa doutrina. Os sábios, segundo a carne, diz daqueles que são versados na doutrina de homens (1 Co 1:26).

E por que o termo ‘carne’ passou a ser empregado como sinônimo da doutrina dos judaizantes? Porque a circuncisão se dá no prepúcio da carne, símbolo da aliança que Deus fez com os descendentes de Abraão, e que os judeus tomaram por símbolo de salvação.

Como todos os homens são constituídos, fisicamente, de carne, o termo, também, foi utilizado para fazer referência à humanidade (Rm 3:20), entretanto, o uso mais comum, é para retratar o pensamento judaico, que faz da sua carne o seu braço.

“Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, que faz da carne o seu braço, e que aparta o seu coração do SENHOR!” (Jr 17:5).

É por isso que o apóstolo Paulo alerta que, apesar de Jesus descender de Davi, segundo a carne, pelo vinculo de sangue com Maria, contudo, não podemos considerá-lo segundo esses parâmetros e nem a ninguém (2 Co 5:16). Isso porque, qualquer que era alguma coisa, segundo a carne, não tem o que comunicar a quem está em Cristo (Gl 2:6).

Viver na carne é o inverso de ser cristão, se considerarmos o judaísmo, que é a essência da carne. Daí, conclui-se que o apóstolo Paulo, como os filósofos, nunca tratou de um conflito na alma, mas, da oposição lei e evangelho, como água e óleo.

A ilustração que Barclay faz da carne é totalmente descabida, pois, a Bíblia apresenta o homem como em pecado, desde o nascimento, portanto, não há que se falar que é através da ‘carne’ que o pecado invade o homem [11]. O homem é formado em iniquidade e concebido em pecado (Sl 51:5), desvia-se desde a madre e anda errado desde que nasce,  proferindo mentiras (Sl 58:3).

O pecado não precisa ‘entrar’ no homem, porque o homem já está sujeito ao pecado como escravo.

Por fim, Barckay passa a descrever as ‘obras da carne’ e, pelo erro inicial, com relação à carne e ao espírito, a leitura que faz das obras da carne e do fruto do espírito não passa de um equivoco generalizado.

Enquanto Barclay analisa os termos gregos utilizados pelo apóstolo Paulo, que foram traduzidos por: adultério, prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices e glutonarias, a partir do comportamento desregrado dos gregos e dos romanos (esquecendo que o apóstolo Paulo não julga os que são de fora, mas os que são de dentro), não percebe que a lista das obras da carne foi feita a partir da apostasia dos filhos de Israel, que foram postos por exemplos.

Como Deus não se agradou dos filhos de Israel, e por isso muitos pereceram no deserto, eles foram feitos figuras, para que não incorramos no mesmo exemplo de desobediência.

“E estas coisas foram-nos feitas em figura, para que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram. Não vos façais, pois, idólatras, como alguns deles, conforme está escrito: O povo assentou-se a comer e a beber e levantou-se para folgar” (1 Co 10:6-7).

A lista de obras da carne tem em vista os cristãos utilizarem da lei, legitimamente, não como os que vivem, segundo a carne, pois a lei foi feita para os judeus, homens injustos e obstinados.

“Querendo ser mestres da lei e não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam. Sabemos, porém, que a lei é boa, se alguém dela usa, legitimamente; Sabendo isto, que a lei não é feita para o justo, mas para os injustos e obstinados, para os ímpios e pecadores, para os profanos e irreligiosos, para os parricidas e matricidas, para os homicidas, para os devassos, para os sodomitas, para os roubadores de homens, para os mentirosos, para os perjuros e para o que for contrário à sã doutrina, conforme o evangelho da glória de Deus bem-aventurado, que me foi confiado” (1 Tm 1:7-11).

Vale destacar que a experiência universal da vida[12] nada pode nos comunicar com relação à verdade das Escrituras, pois, esta, é revelação e aquela, sabedoria humana, em que a sabedoria humana, invariavelmente, desembocará em mandamentos tais como: “Não toques, não proves, não manuseies” (Cl 2:21).

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto

 


[1]“A filosofia e a teologia são essencialmente uma transcrição e uma interpretação da experiência humana, e a experiência humana é de que há um conflito na alma. Para Paulo, tratava-se de uma guerra entre duas forças opostas que chamava de carne e espírito. “Porque a carne milita contra o Espírito,” disse ele, “e o Espírito contra a carne, porque são opostos entre si” (Gl 5.17).” Barclay, William, As obras da carne e o fruto do Espírito, Tradução Gordon Chown, Ed. Edições Vida Nova, SP, 1988. Pág. 13.

[2]“No homem, conforme entendiam, havia duas naturezas, de modo que este sempre estava na situação de alguém que é atraído para duas direções ao mesmo tempo (…) O impulso mau estava espreitando o homem quando emergia do ventre, porque ‘o pecado jaz à porta,’ ou seja: à porta do ventre (Gn 4.7; Sanhedrin 91b) e no decurso de toda vida do homem, permanecia ‘seu inimigo implacável’ (Tanhuma, Beshallah 3). O conflito na alma fazia parte da herança da crença judaica” Barclay, William, As obras da carne e o fruto do Espírito, Tradução Gordon Chown, Ed. Edições Vida Nova, SP, 1988. Pág. 13.

[3]“O cavalo nobre é a razão e o cavalo indócil é a paixão; o cavalo de natureza má ‘sobrecarrega o carro’ e o arrasta para a terra. Aqui, também, há o mesmo quadro de guerra e tensão, sempre com a terrível possibilidade da ruína como consequência”.  Idem.

[4]“O mal do corpo veio a ser uma das ideias dominantes do pensamento hebraico. SômaSêma, o corpo é um túmulo, dizia o provérbio rimado órfico. O corpo, disse Filolao, é uma casa de detenção onde a alma é aprisionada para expiar seu pecado. Epíteto pode dizer que tem vergonha de possuir um corpo, que é uma ‘pobre alma algemada a um cadáver’ (Fragmento 23). Sêneca fala da ‘habitação detestável’ do corpo e da carne vã a que a alma está aprisionada (Cartas 92.110). ‘Desprezem a carne,’ diz Marco Aurélio, ‘sangue e ossos e a rede que é uma meada torcida de nervos, veias e artérias’ (Meditações 2.2).

[5]“Descobrir o que Paulo quer dizer com espírito, o pneuma, não é totalmente fácil. A dificuldade torna-se clara quando comparamos diferentes textos gregos do NT com diferentes versões, porque as versões não concordam entre si quanto à ortografia de espírito e pneuma, com ou sem maiúscula inicial, ou seja, quando a referência diz respeito ao Espírito de Deus ou ao espírito do homem (…) Mas, o verdadeiro problema é saber se o pneuma, o espírito, faz parte do homem propriamente dito, ou se é apenas uma parte do homem depois de ele se tornar cristão; se o pneuma faz parte da natureza humana ou se é o dom de Deus para a natureza humana redimida” Idem. Pág. 17.

[6]“Ainda mais, o pneuma é o elo entre Deus e o homem; é através do pneuma que Deus pode falar aos homens e que os homens podem ter comunhão com Deus” Idem. Pág. 17.

[7]“Por intermédio da alma, o espírito pode subjugar o corpo, para que obedeça a Deus. Da mesma forma, o corpo, através da alma, pode levar o espírito a ter amor pelo mundo. Desses três elementos, o espírito é o mais nobre porque se une com Deus. O corpo é inferior, pois está em contato com a matéria” Nee, Watchman, ‘O homem espiritual’ Vol. 1, Editora Betânia – Belo Horizonte, 2002, Pág. 34.

[8]“Pode ser dito que para Paulo o espírito do homem é o poder de Deus que nele habita ou, num outro modo de expressar o fato, é o Cristo ressurreto que reside nele” Idem. Pág. 19.

[9]“Além disso, é exatamente a possessão desse espirito que torna o homem diferente da criação animal” Idem. Pág. 17.

[10]“v. Paulo usa sarx em frases e contextos onde usaríamos uma frase tal como: ‘julgando por padrões humanos” Idem. Pág. 21.

[11]“A essência da carne é a seguinte. Nenhum exército pode invadir um país pelo mar a não ser que possa obter uma cabeça de ponte. A tentação não teria a capacidade de afetar os homens, a não ser que houvesse algo já existente no homem que correspondesse à tentação. O pecado não poderia obter nenhuma cabeça de ponte na mente, coração, alma e vida do homem a não ser que houvesse um inimigo dentro dos portões que tivesse disposto a abrir a porta para o pecado. A carne é exatamente a cabeça de ponte, através da qual o pecado invade a personalidade humana. A carne é como o inimigo do lado de dentro e que abre o caminho para o inimigo que está forçando a porta” Idem. Pág. 24.

[12]“Mas de onde vem esta cabeça de ponte? De onde surgiu este inimigo do lado de dentro? É experiência universal da vida que um homem pela sua conduta capacita-se ou não a experimentar certas coisas” Idem. Pág. 24.

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A essência da doutrina da predestinação

Deus nunca vinculou a perdição ou a salvação como destino dos homens, antes vinculou a salvação e o destino ao caminho no qual estão, por isso ninguém está predestinado à salvação ou à perdição.


“E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial” (1 Co 15:49)

Ao abrir a madre todos os homens estão predestinados a serem conforme a expressa imagem de seus pais, daí a base da premissa do apóstolo Paulo: ‘… trouxemos a imagem do terreno…’ (1 Co 15:49).

Antes de todos os homens nascerem, já estava determinado qual imagem teriam: a imagem dos seus pais! Ninguém escapa ao que está preordenado, acerca da imagem que os pais transmitem aos seus filhos.

Semelhantemente, assim como todos estão predestinados a herdarem a expressa imagem dos seus pais, em Cristo, também estão predestinados a serem conforme a expressa imagem de Cristo.

Sobre esta verdade, declara o apóstolo Paulo, que Deus predestinou ‘para serem conforme a imagem de seu Filho’, todos   os que creem em Cristo, através da mensagem do evangelho  (Rm 8:29), de modo que todos os que são de novo nascidos, passam a ter a imagem do homem celestial, que é Cristo.

A afirmação de que todos quantos abrem a madre estão predestinados a serem conforme a imagem dos seus pais, remete a Adão, o primeiro homem. Quando Deus criou Adão, ele foi feito alma vivente e, por serem descendentes dele, todos os homens foram feitos almas viventes, de posse da imagem que Adão foi criado.

De Jesus Cristo, o Senhor, é dito que Ele é o último Adão, espírito vivificante e homem celestial. Por intermédio do evangelho, a semente incorruptível, todos os que são de novo gerados, são celestiais e conforme a imagem de Cristo.

A essência da predestinação bíblica vem expressa nestes versos:

“Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante. Mas não é primeiro o espiritual, senão o natural; depois o espiritual. O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o SENHOR, é do céu. Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais, também, os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial” (1 Co 15:45-49).

Da mesma forma que é impossível os filhos não compartilharem da mesma imagem dos pais, essa impossibilidade se estende aos homens ‘celestiais’. Por causa desta impossibilidade, de ‘terrenos’ e ‘celestiais’ não se desvincularem da imagem que herdam ao nascer, é dito que estão ‘predestinados’.

O verbo grego traduzido por ‘predestinar’ é προορίζω (proorizó), que significa predeterminar, decidir de antemão e foi utilizado nas seguintes passagens bíblicas: Atos 4:28, 1 Corintios 2:7, Romanos 8:29 e Efésios 1:5 e 11.

Ao criar o homem, Deus estabeleceu que os descendentes de Adão seriam conforme a imagem de Adão. Neste quesito, diz-se que Deus ‘προορίζω’, ou seja, deixou estabelecido, preordenou, traçou limites, antes de os descendentes de Adão virem à existência, qual imagem teriam: a imagem do homem terreno.

Por que Deus estabeleceu, de antemão, que a imagem dos celestiais seria conforme a imagem de Cristo, o homem celestial?

O motivo pelo qual os celestiais são conforme a imagem dos celestiais é claro e especifico: para que Jesus Cristo seja o primogênito de Deus entre muitos irmãos!

“Porque os que dantes conheceu, também, os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Rm 8:29).

 Jesus foi introduzido no mundo na condição de unigênito de Deus, mas, ao ressurgir dentre os mortos, tornou-se o primogênito de Deus. Por quê? Porque, com Cristo, ressurge uma nova criatura todo aquele que crê na verdade do evangelho. Ao crer em Cristo, o homem morre, é sepultado e ressurge uma nova criatura, criada segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade, conforme a imagem de Cristo, para que Ele seja primogênito entre muitos irmãos.

Por intermédio de Cristo, o homem alcança a imagem e semelhança de Deus (Gn 1:26), pois, Cristo é a expressa imagem do Deus invisível, o primogênito de toda Criação e os que creem são feitos à sua expressa imagem e semelhança: “O qual é a imagem do Deus invisível, o primogênitos de toda a criação” (Cl 1:15).

“Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que haveremos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é, o veremos” (1 Jo 3:2).

A predestinação dos que creem, para serem semelhantes a Cristo, visa satisfazer o propósito eterno que Deus estabeleceu em Cristo: a preeminência de Cristo em tudo.

O mistério da vontade Deus, diz do beneplácito proposto em Si mesmo, que é tornar a reunir em Cristo todas as coisas!

“E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência” (Cl 1:18);

“Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo, de tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus, como as que estão na terra” (Ef 1:9-10).

A predestinação bíblica é funcional, pois visa o propósito eterno de Deus estabelecido em Cristo: exaltá-lo soberanamente!

“Por isso, também, Deus o exaltou soberanamente e lhe deu um nome que é sobre todo o nome” (Fl 2:9).

Na cultura greco-romana encontramos a concepção fatalista e na cultura grega antiga, temos os mitos, como as Moiras e o estoicismo entre os gregos e romanos.

Essa concepção fatalista acabou por influenciar pensadores cristãos, de modo a pensar que todos os eventos são arquitetados por Deus, ao que nomeiam predestinação, diferenciando do fatalismo, pelo fato de não recorrer a nenhuma ordem natural.

Vale destacar que as correntes filosóficas como o ‘fatalismo’ e a ‘predestinação’ diferem do determinismo, ‘teoria filosófica de que todo acontecimento (inclusive o mental) é explicado pela determinação, ou seja, por relações de causalidade’ Wikipédia.

Enquanto a Bíblia apresenta a predestinação, relacionada com o propósito eterno que Deus estabeleceu na pessoa de Cristo, alguns teólogos, como Agostinho de Hipona e João Calvino, influenciados pelo pensamento greco-romano,  entenderam que a predestinação é doutrina que trata da salvação de alguns e da condenação eterna de outros.

Em nenhuma passagem bíblica, encontramos expresso que Deus predestinou alguém à salvação, antes encontramos que Deus predestinou aqueles que foram de novo gerados pela palavra da verdade, para serem conforme a imagem de Cristo (Rm 8:29). O novo homem, por ser gerado de Deus, alcança a mesma imagem de Cristo, além de ser herdeiro com Ele de todas as coisas.

Quando escreveu aos cristãos de Éfeso, o apóstolo Paulo enfatiza que Deus havia predestinado os cristãos a serem filhos por adoção, o que indica qual é a condição e natureza dos cristãos (Ef 1:5). O objetivo da predestinação, na qual os cristãos são feitos herança, visa o louvor da glória de Deus (Ef 1:11-12), não a salvação.

Uma má leitura do versículo 5, do capítulo 1, da carta de Paulo aos Efésios, dá conta que Deus predestinou os não crentes a serem salvos, porém, o apóstolo diz que Deus predestinou por adoção os santos e fiéis em Cristo, que estavam na cidade de Éfeso, a serem filhos (Ef 1:1).

Quando disse: ‘E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo…’, o apóstolo Paulo utilizou o pronome na primeira pessoa do plural: ‘nos’ (ἡμᾶς), indicando que tanto ele quanto os cristãos estavam predestinados, uma das bênçãos espirituais com que foram abençoados.

“E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor e glória da sua graça” (Ef 1:5-6)

É em Cristo que os cristãos são santos e fiéis. É em Cristo que os crentes foram abençoados, com todas as bênçãos espirituais. É em Cristo que os cristãos são eleitos e predestinados! Mas, como os cristãos passaram a estar em Cristo? Quando creram, ao ouvirem “a palavra da verdade, o evangelho da ‘vossa’ salvação” (Ef 1:13).

Os calvinistas e arminianistas erram o público alvo da predestinação, ao entenderem que esta se refere a não crentes em Cristo, sendo que o apóstolo Paulo aponta para a condição dos que creram em Cristo, em decorrência de uma das bênçãos concedidas: a predestinação.

Esperar de antemão (προελπιζω) em Cristo é o mesmo que ser conhecido (προέγνω) de Deus. O único modo de alcançar a salvação em Cristo é crendo no evangelho. Os que esperam em Cristo é porque creram no evangelho. Os que são conhecidos de Deus são aqueles que cumprem o seu mandamento, que é crer em Cristo (1 Co 8:3; 1 Jo 2:3).

Observe:

“Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido dele” (1 Co 8:3);

“E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8:28).

O que concede salvação ao homem é crer no evangelho, que é poder de Deus para salvação (Rm 1:16) e não a predestinação, que concede a imagem de Cristo aos que são salvos pelo evangelho.

“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu e também do grego” (Rm 1:16);

“Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” (Ef 1:13).

A fórmula para a salvação em Cristo, está expressa nos seguintes termos:

“Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, a saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que, com o coração se crê para a justiça e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido” (Rm 10:8-11).

A Bíblia deixa claro que quem invocar a Cristo será salvo! A salvação em Cristo não segue o viés fatalista que é próprio ao pensamento greco-romano! Ninguém abre a madre predestinado à salvação, antes, ao nascer, entra por uma porta larga, que dá acesso a um caminho largo, cujo destino é a perdição.

O caminho que os homens trilham, quando vem ao mundo, está atrelado à perdição, pois entraram por uma porta larga quando nasceram: Adão. Já o caminho que os gerados de novo trilham está atrelado à salvação, por isso a necessidade de entrar por Cristo, a porta estreita.

Deus nunca vinculou a perdição ou a salvação como destino dos homens, antes vinculou a salvação e o destino ao caminho no qual estão, por isso ninguém está predestinado à salvação ou à perdição.

Todos os homens, quando vêm ao mundo, estão predestinados a serem conforme a imagem de Adão e essa verdade não podem mudar. Entretanto, todos os homens que entrarem no mundo estão em um caminho de perdição e essa condição só pode ser alterada, desde que os homens nasçam novamente.

Nenhum homem escolhe entrar pela porta larga, visto que todos os homens, ao virem ao mundo, entram por ela. A todos que entraram no mundo por Adão e que estão seguindo para a perdição, através do evangelho é ofertada a oportunidade de serem gerados de novo, entrando por Cristo, a porta estreita e o último Adão.

Ao nascer de novo, o homem se livra da condenação, que é próprio ao caminho largo, e atrelado à salvação em Cristo, torna-se participante da natureza divina, predestinado a ser conforme a expressa imagem de Cristo.

Embora ainda não seja manifesto o que haveremos de ser, contudo sabemos que seremos semelhantes a Cristo (1 Jo 3:2), pois o motivo da predestinação bíblica repousa no fato de que Cristo é o primogênito entre muitos irmãos semelhantes a Ele:

“O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o SENHOR, é do céu. Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais também os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial” (1 Co 15:45-49).

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Por que o uso do termo ‘Eclésia’?

O termo grego ἐκκλησία, transliterado ‘ekklésia’ quando utilizado por Cristo e os apóstolos tem o sentido de um corpo constituído de ‘IGUAIS’. O que se buscou destacar com o uso do termo ‘ekklésia’ é a ‘igualdade’, pois não há diferença entre os membros do corpo de Cristo “Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito” ( 1Co 12:13 ).


 

“Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” ( Mt 16:18 )

 

A palavra ‘igreja’ traduzida do grego é ‘ekklesia’[1], e muitos apontam o significado do termo quando empregado no Novo Testamento como “chamados para fora”.

Seria este o significado da palavra traduzida por igreja? Por que Jesus utilizou especificamente o termo grego ‘eclésia’ para fazer referência ao seu corpo? Ou, por que os apóstolos utilizaram o termo grego ‘eclésia’ para fazer referência aos salvos em Cristo? Da onde os cristãos foram chamados para fora? Do ‘pecado’, do ‘mundo’, do ‘engano’, da ‘morte’, da lei?

Para respondermos estas perguntas, primeiro se faz necessário lembrar que a ‘igreja’ é o mesmo que ‘corpo’ de Cristo: “E sujeitou todas as coisas a seus pés, e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos” ( Ef 1:22 -23); “E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência” ( Cl 1:18 ).

Os apóstolos, por sua vez, além de utilizarem a figura do corpo para fazer referência à igreja, também utilizam a figura da família e de um edifício em construção.

O apóstolo Paulo ao utilizar a figura da família destaca que os cristãos convertidos dentre os gentios não são estrangeiros e nem forasteiros ( Ef 2:19 ). Com relação a figura do edifício, o apóstolo dos gentios aponta Cristo como a pedra de esquina, e os crentes sobre-edificados n’Ele ( Ef 2:20 -22).

O apóstolo Pedro ao fazer referência ao templo de Deus diz que Cristo é a pedra viva, eleita e preciosa rejeitada pelos homens, e que cada cristão também é pedra viva ( 1Pd 2:4 -5).

O apóstolo João resume o que foi dito pelos outros apóstolos dizendo o seguinte:

“Nisto é perfeito o amor para conosco, para que no dia do juízo tenhamos confiança; porque, qual ele é, somos nós também neste mundo” (  1Jo 4:17 )

Observe que, tal qual Cristo é, os cristãos também são aqui neste mundo.

  • Jesus é pedra viva, os cristãos são pedras vivas ( 1Pd 2:5 );
  • Cristo é o Filho de Deus, os cristãos são filhos de Deus ( 1Jo 3:2 );
  • Cristo está assentado a destra da majestade nas alturas e o cristãos estão assentados nas regiões celestiais em Cristo ( Ef 2:6 );
  • Tal qual Cristo é são os cristãos neste mundo.

Lembrando que certa feita Jesus declarou que sua mãe, seus irmãos e suas irmãs são aqueles que fazem a vontade de Deus, e que aquele que crê em Cristo faz a vontade Deus e pertence à família de Cristo, temos elementos suficientes para determinar o motivo pelo qual o termo ‘eclésia’ foi selecionado para fazer referência ao corpo de Cristo! “Porque, qualquer que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, e irmã e mãe” ( Mt 12:50 ); “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ); “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ).

O termo ‘eclésia’ não foi selecionado por Cristo e os apóstolos tão somente para fazer referência a uma assembleia pública, ou por se tratar de uma reunião democrática, como argumentam alguns teólogos, embora em alguns pontos do Novo Testamento o termo assume este significado pelo contexto. Ex: “Uns, pois, clamavam de uma maneira, outros de outra, porque o ajuntamento era confuso; e os mais deles não sabiam por que causa se tinham ajuntado” ( At 19:32 ).

“No NT, ‘igreja’ traduz a palavra grega ekklēsia. No grego secular, ekklēsia designava uma assembleia pública, e este significado ainda foi mantido no NT (At 19.32, 39, 41)” Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã.

De igual modo o termo ‘eclésia’ não foi selecionado por trata-se de pessoas ‘chamadas para fora de algo’.

A igreja de Cristo não se trata de ‘chamados para fora’ do mundo, pois apesar de os cristãos não pertencerem ao mundo, Jesus rogou ao Pai que não tirasse os seus seguidores do mundo “Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal. Não são do mundo, como eu do mundo não sou” ( Jo 17:15 -16).

A igreja não se trata de pessoas chamadas para fora da lei ou do pecado, pois a Bíblia é clara ao demonstrar que todos que estão retidos pelo pecado e pela lei precisam morrer. A igreja não é constituída de pessoas chamadas do pecado, antes é constituída de pessoas que morreram para o pecado e para lei. A igreja é constituída de pessoas que ressurgiram com Cristo tornando-se nova criatura “De modo nenhum. Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?” ( Rm 6:2 ); “Mas agora temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra” ( Rm 7:6 ).

A igreja não é composta de chamados dentre a morte, antes como o salário do pecado é a morte, cada cristão para ser justificado do pecado precisou morrer com Cristo “Porque aquele que está morto está justificado do pecado” ( Rm 6:7 ). Aqueles que compõe o corpo de Cristo na verdade estão mortos para o mundo, o pecado e a lei ( Cl 3:3 ), porém, ressurgiram e vivem para Deus em novidade de vida ( Cl 3:1 ; Rm 6:4 e 7:6 ).

O equívoco de que o termo Eclésia significa ‘chamados para fora’ ocorre porque no grego o termo ‘ekklēsia’ é a junção de duas palavras: ‘chamar’ (καλέω) e ‘fora’ (ἐκ). Embora os cristãos são chamados através do evangelho do reino das trevas para serem transportados para o reino do Filho do amor de Deus, ‘chamar para fora’ não é o significado ou a definição do termo ‘ekklēsia’ “O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” ( Cl 1:13 ).

O que ocorre com o termo ‘ekklēsia’ é similar ao que ocorre com a palavra em inglês ‘butterfly’ (borboleta), termo que surgiu da junção de duas outras palavras ‘butter’ (manteiga) e ‘fly’ (mosca)[2]. ‘Butterfly’ não significa que borboletas são ‘manteiga de moscas’ ou ‘moscas de manteiga’.

Ora, deixando as discussões acadêmicas sobre a etimologia do termo ‘eclésia’, qual o significado do termo ‘eclésia’ que levou Jesus e os apóstolos a utilizarem o termo para fazer referência ao corpo de Cristo?

O escritor aos Hebreus pode nos esclarecer o significado do termo quando empregado no Novo Testamento:

“À universal assembleia e igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus, e a Deus, o juiz de todos, e ao os espíritos dos justos aperfeiçoados” ( Hb 12:23 )

O termo grego πανηγύρει (panéguris) traduzido por ‘universal assembleia’ remete a ideia de comunhão entre todos que compartilham de um ideal comum. Ora, por tratar-se do corpo de Cristo, certo é que o ideal do cristão é Cristo, o firme fundamento estabelecido por Deus ( Ef 2:20 ; 1Co 3:11 -12).

O corpo de Cristo, o templo do Deus vivo que estava na cidade de corinto, foi saldada e nomeada pelo apóstolo Paulo de santos, assim como todos que em todo lugar que creem em Cristo também são igualmente santos “À igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos, com todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso SENHOR Jesus Cristo, Senhor deles e nosso” ( 1Co 1:2 ).

A ‘universal assembleia’ não se restringe a pessoas de um determinado lugar ou de uma determinada nação, antes diz de qualquer que em qualquer lugar ou nação compartilhe do evangelho, a fé comum a todos que estão em Cristo “A Tito, meu verdadeiro filho, segundo a fé comum: Graça, misericórdia, e paz da parte de Deus Pai, e da do Senhor Jesus Cristo, nosso Salvador” ( Tt 1:4 ); “Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos, e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos” ( Jd 1:3 ).

A composição da ‘universal assembleia’ se dá através do ‘espírito’, pelo qual judeus e gentios tem acesso a Deus ( Ef 2:18 ). E que ‘espírito’ é esse? O ‘espírito’ que vivifica, ou seja, o Novo Testamento, do qual todos que professam a Cristo são ministros “O qual nos fez também capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica” ( 2Co 3:6 ).

Há um só evangelho, ou seja, um só ‘espírito’, por isso é dito que o cristão deve preservar a ‘unidade do espírito’. Da mesma forma que há um só corpo, a igreja, há um só espírito, ou seja, o evangelho, de modo que há um só Senhor, uma só fé e um só batismo ( Ef 4:3 -6).

Assim como sabemos que todos os cristãos são um só corpo em Cristo, e ao mesmo tempo membros do seu corpo, Cristo é o ‘lugar’ em que cada um em particular está unido, portanto, os cristãos de todos os lugares (universal) constituem-se um assembleia “Ora, vós sois o corpo de Cristo, e seus membros em particular” ( 1Co 12:27 ); “Assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros” ( Rm 12:5 ).

Antes de Cristo, haviam dois povos: judeus e gentios. Os gentios estavam separados da comunidade de Israel, sem Deus no mundo, eram estranhos às alianças das promessas, longe de Deus.

O povo judeu recebeu o culto, a adoção de filhos, a glória, as alianças, a lei, o culto, as promessas, os pais, dos quais é Cristo, e apesar serem descendência de Abraão, não eram todos filhos de Abraão ( Ef 2:12 -13; Rm 9:6 -7). Não havia diferença significativa entre judeus e gentios diante de Deus, pois todos (judeus e gentios) pecaram e destituídos estavam da glória de Deus ( Rm 3:9 ).

Por intermédio da cruz Deus unificou os povos fazendo um só, destruindo a barreira de inimizade. Cristo, a paz que excede todo entendimento, foi anunciado aos judeus (aqueles que estavam perto) e aos gentios (aqueles que estavam longe), e dos dois povos foi feito um ao desfazer a lei dos mandamentos ( Ef 2:15 ), de modo que judeus e gentios tem acesso a Deus por intermédio do evangelho (mesmo espírito) “A saber, que os gentios são co-herdeiros, e de um mesmo corpo, e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho” ( Ef 3:6 ).

Ora, pela destruição da barreira, os gentios que em outro tempo eram tidos por ‘estrangeiros’, ‘forasteiros’, agora em Cristo alcançaram nova condição: são concidadãos dos santos e da família de Deus ( Ef 2:19 ).

O termo grego ‘συμπολίτης’ traduzido por ‘concidadão’ refere-se aquele que é um nativo de uma mesma cidade, que possui a mesma cidadania que os outros, que em relação a língua grega remete aos nascidos na ‘polis’. O termo foi utilizado pelo apóstolo Paulo para evidenciar um contraste: a antiga condição de ‘forasteiros’ e ‘estrangeiros’ que os gentios carregavam em relação a comunidade judaica, e que na igreja de Cristo já não existe.

Ora, para ser participante da comunidade de Israel bastava ao prosélito se circuncidar, pois ser judeu não se dá por nascimento em uma cidade, mas pelo vínculo de sangue “Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu” ( Fl 3:5 ).

O termo grego ‘πολιτεία’ (politeia) aponta para um corpo de cidadãos, ou seja, indivíduos que possuem os mesmos direitos dentro de uma organização política e religiosa (pólis).

Quais os ‘direitos’ da comunidade de Israel? Às alianças da promessa, portanto possuíam esperança por pertencerem como povo a Deus.

De acordo com o pensamento comum, ekklēsia significa:

“1577 εκκλησια ekklēsia de um composto de 1537 e um derivado de 2564; TDNT – 3:501,394; n f 1) reunião de cidadãos chamados para fora de seus lares para algum lugar público, assembleia  1a) assembleia do povo reunida em lugar público com o fim de deliberar  1b) assembleia dos israelitas  1c) qualquer ajuntamento ou multidão de homens reunidos por acaso, tumultuosamente  1d) num sentido cristão  1d1) assembleia de Cristãos reunidos para adorar em um encontro religioso  1d2) grupo de cristãos, ou daqueles que, na esperança da salvação eterna em Jesus Cristo, observam seus próprios ritos religiosos, mantêm seus próprios encontros espirituais, e administram seus próprios assuntos, de acordo com os regulamentos prescritos para o corpo por amor à ordem  1d3) aqueles que em qualquer lugar, numa cidade, vila, etc, constituem um grupo e estão unidos em um só corpo  1d4) totalidade dos cristãos dispersos por todo o mundo  1d5) assembleia dos cristãos fieis já falecidos e recebidos no céu” Dicionário Strong.

O escritor aos Hebreus ao fazer referência a ‘igreja dos primogênitos’, demonstra que, para ser participante de tal ‘comunidade’ é imprescindível que o nome do indivíduo esteja escrito nos céus.

Para satisfazer esta condição não basta estar inscrito como membro de uma comunidade religiosa, ou seguir ritos e preceitos religiosos ou morais, antes é necessário ser participante da família de Cristo, ou seja, fazer a vontade de Deus “Porque, qualquer que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, e irmã e mãe” ( Mt 12:50 ); “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

Ora, após crer em Cristo, tornando-se da família de Cristo as prerrogativas de ser judeu ou grego desaparecem “Porque em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão tem valor algum; mas sim a fé que opera pelo amor” ( Gl 5:6 ). As diferenças entre servo e livre são eliminadas “Onde não há grego, nem judeu, circuncisão, nem incircuncisão, bárbaro, cita, servo ou livre; mas Cristo é tudo em todos” ( Cl 3:11 ). Ser macho ou fêmea não faz ninguém diferente: melhor ou pior diante de Deus, e o motivo é específico: ‘Porque todos vós sois um em Cristo Jesus’ ( Gl 3:28 ).

Ora, o termo grego ἐκκλησία, transliterado ‘ekklésia’ quando utilizado por Cristo e os apóstolos tem o sentido de um corpo constituído de ‘IGUAIS’.  O que se buscou destacar com o uso do termo ‘ekklésia’ é a ‘igualdade’ pelo fato de que não há diferença entre os membros do corpo “Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito” ( 1Co 12:13 ).

Assim como a eκκλησία da Grécia Antiga, a principal assembleia da democracia ateniense, era constituída de iguais[3], o corpo de Cristo é constituído de iguais, daí deriva a designação πρωτότοκος (primogênitos) “Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão” ( 1Co 10:17 ).

‘πανηγύρει καὶ ἐκκλησία πρωτοτόκων ἀπογεγραμμένων ἐν οὐρανοῖς’

“(à) reunião festiva e (à) reunião de (os) primogênitos arrolados em (os) céus”

Nesta passagem o termo ‘ἐκκλησία’ depende da leitura do termo ‘πρωτοτόκων’ (primogênitos), e como compreender o termo traduzido por ‘primogênitos’ no contexto?

O Verbo eterno ao ser introduzido no mundo passou à condição de o Unigênito (μονογενοῦς) Filho de Deus ( Jo 1:14 e 18; Jo 3:16 e 18; 1Jo 4:9 ). Quando ressurgiu dentre os mortos Jesus tornou-se o Primogênito de Deus, pois através da obediência de Cristo foram conduzidos à gloria muitos filhos a Deus “Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas, e mediante quem tudo existe, trazendo muitos filhos à glória, consagrasse pelas aflições o príncipe da salvação deles” ( Hb 2:10 ).

O Verbo eterno ao se fazer carne tornou-se o único homem nascido de mulher gerado por Deus “Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei” ( Gl 4:4), ou seja, o único homem que em si mesmo teve a natureza divina por ter sido ‘lançado’ por Deus no ventre de Maria “Sobre ti fui lançado desde a madre; tu és o meu Deus desde o ventre de minha mãe” ( Sl 22:10 ). De retorno a Sua glória, Cristo assentou-se à destra da Majestade nas alturas e trouxe muitos filhos a Deus que, igualmente estão assentados com Ele nas regiões celestiais ( Ef 1:3 e Ef 2:6 ).

Embora os cristãos sejam tal qual Cristo é ainda neste mundo ( 1Jo 4:17 ), só permanecem no mundo porque Jesus os comissionou assim como Deus enviou Jesus ao mundo “Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal (…) Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo” ( Jo 17:15 e 18).

Com relação a nascimento carnal Jesus é o Unigênito, e com relação a ressurreição dentre os mortos Jesus é o Primogênito, pois para isto os cristãos foram predestinados: para ser conforme a imagem do Cristo ressurreto, para que Ele seja ‘primogênito’ entre muitos irmãos ( Rm 8:29 ).

Cristo como ‘primogênito’ remete a ideia contida neste verso: “Mas ao filho da desprezada reconhecerá por primogênito, dando-lhe dobrada porção de tudo quanto tiver; porquanto aquele é o princípio da sua força, o direito da primogenitura é dele” ( Dt 21:17 ), de modo que pelo direito de primogênito compete a Cristo porção dobrada em relação aos seus muitos irmãos, que são coerdeiros com Ele ( Hb 2:10 ; Rm 8:17 ; Gl 3:29 ).

Ora, o termo grego ‘πρωτοτόκων’ aplica-se àquele nasceu primeiro considerando-se uma sequência “E deu à luz a seu filho primogênito, e envolveu-o em panos, e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na estalagem” ( Lc 2:7 ). Esta característica de sequência aplica-se a Cristo, pois Ele é o primeiro a ressurgir dentre os mortos em relação aos muitos outros irmãos que ressurgiriam com Ele.

Já com relação a glorificação de Cristo, foi predito: “Ele me chamará, dizendo: Tu és meu pai, meu Deus, e a rocha da minha salvação. Também lhe darei o lugar de primogênito, o mais elevado dos reis da terra” ( Sl 89:27 ), e ao fazer referência a esta posição de Cristo no sentido de ‘preeminência’, é utilizado também o termo grego ‘πρωτεύω’ (próteuó), ou, dependendo do contexto ‘πρωτοτόκων’ (prototokos), pois o primogênito é aquele que tem preeminência entre os irmãos.

Cristo na posição de cabeça, a cabeça do corpo, além de ‘primogênito’ também é ‘preeminente’ entre os ressurretos com Ele “E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência” ( Cl 1:18 ); “PORTANTO, se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus. Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra; Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” ( Cl 3:1 -3).

O escritor aos Hebreus ao ler o Salmo 97, verso 7, aponta para a posição do Cristo assentado à destra da majestade nas alturas, registrando o seguinte: “E outra vez, quando introduz no mundo o primogênito, diz: E todos os anjos de Deus o adorem” ( Hb 1:6 e Hb 1:3 ). Ao ser introduzido no mundo Cristo era o unigênito de Deus, mas agora assentado à destra da majestade nas alturas é o primogênito, pois herdou nome mais excelente ( Hb 1:4 ).

Considerando que a igreja diz do corpo de Cristo e, que o apóstolo Paulo destaca o fato de que sobre todas as coisas Cristo foi constituído a cabeça da igreja ( Ef 1:21 -23), segue-se que a igreja está acima de todo principado, autoridade, domínio e poder, pois há de julgar até mesmo os seres celestiais ( 1Co 6:3 ).

Segue-se que ao fazer referência ao corpo de Cristo como ‘eclésia’, o escritor aos Hebreus semelhante ao que fez o apóstolo dos gentios, destaca a posição hierárquica superior que o corpo de Cristo ocupa em relação a todas as coisas quando diz ‘a igreja dos primogênitos’ (ἐκκλησία πρωτοτόκων).

Daí a melhor leitura não seria a ‘igreja dos primogênitos’, destacando uma sequência de filhos gerados de Deus, e nem a posição dos Cristãos no corpo de Cristo como ‘preeminentes’ ( Rm 8:29 ). Ora, a posição de ‘primogênito’, como o primeiro ressurreto dentre os mortos só é possível a um, e não a muitos ( Cl 1:18 ). Cristo é o primogênito dentre os mortos e foi constituído a cabeça do corpo, portanto, Cristo é preeminente entre muitos irmãos semelhantes, visto que é o primeiro a ressurgir dentre os mortos ( Ap 1:5 ; Cl 1:15 ).

Ao fazer alusão ao corpo de Cristo como a ‘igreja dos primogênitos’, o escritor aos Hebreus estava destacando o fato de que todos no corpo de Cristo igualmente pertencem a Deus “Santifica-me todo o primogênito, o que abrir toda a madre entre os filhos de Israel, de homens e de animais; porque meu é ( Êx 13:2 ); “Mas o primogênito de um animal, por já ser do SENHOR ninguém o santificará; seja boi ou gado miúdo, do SENHOR é ( Lv 27:26 ).

O escritor aos Hebreus estava destacando que a ‘universal assembleia’ é constituída de indivíduos que pertencem a Deus (igreja dos primogênitos), vez que os seus nomes estão inscritos nos céus, mostrando que em Cristo todos são iguais, concidadãos dos santos e da família de Deus “Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus” ( 1Co 6:20 ).

O termo grego πρωτοτόκων (primogênitos) deve ser compreendido como uma espécie de hebraísmo[4], em que o termo grego foi utilizado para demonstrar que os cristãos são propriedades exclusivas de Deus, assim como eram os ‘primogênitos’ e as ‘primícias’ na Antiga Aliança “Estes são os que não estão contaminados com mulheres; porque são virgens. Estes são os que seguem o Cordeiro para onde quer que vá. Estes são os que dentre os homens foram comprados como primícias para Deus e para o Cordeiro” ( Ap 14:4 ).

Os que creem em Cristo tonam-se propriedades de Deus, e o termo ‘primícias’ é utilizado para fazer referência a essa condição, introduzindo a ideia de que tanto judeus quanto gentios, escravos quanto livres, mulheres e homens, etc. ( Gl 3:26 -29), igualmente pertencem a Deus “Agora vos rogo, irmãos (sabeis que a família de Estéfanas é as primícias da Acaia, e que se tem dedicado ao ministério dos santos),” ( 1Co 16:15 ); “Saudai também a igreja que está em sua casa. Saudai a Epêneto, meu amado, que é as primícias da Acaia em Cristo” ( Rm 16:5 ).

Portanto, quando lemos a asserção: “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” ( Mt 16:18 ), a ênfase do termo ‘ekklēsia’ está na pedra que dá base de sustentação ao templo. Se a ênfase é a pedra de esquina, a pedra viva que os edificadores rejeitaram, todas as outras pedras utilizadas na ‘edificação’ do corpo possuem as mesmas propriedades: são pedras vivas.

Diferenças sociais, econômicas, nacionalidades, etc., deixam de ser levadas em consideração, pois em Cristo é o lugar: “Onde não há grego, nem judeu, circuncisão, nem incircuncisão, bárbaro, cita, servo ou livre; mas Cristo é tudo em todos” ( Cl 3:11 ), pois todos são propriedade de um mesmo Senhor .

Se estas diferenças não são levadas em conta no corpo, segue-se que este deve ser o comportamento dos filhos de Deus: “Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de entranhas de misericórdia, de benignidade, humildade, mansidão, longanimidade; suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro; assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também. E, sobre tudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição” ( Cl 3:13 -14).

Este deve ser o posicionamento dos membros do corpo de Cristo:

“Porque em Cristo Jesus nem a circuncisão, nem a incircuncisão tem virtude alguma, mas sim o ser uma nova criatura” ( Gl 6:15 );

“Porque em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão tem valor algum; mas sim a fé que opera pelo amor” ( Gl 5:6 );

A circuncisão é nada e a incircuncisão nada é, mas, sim, a observância dos mandamentos de Deus” ( 1Co 7:19 ).

Como ser uma nova criatura? Crendo em Cristo, pois este é o mandamento de Deus. Crer em Cristo é o mandamento que se deve obedecer, ou seja a fé (evangelho) que opera pelo amor (obediência).

Todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso SENHOR Jesus Cristo constituem a ‘ekklēsia’ de Deus, o corpo de Cristo, pois igualmente pertencem a Deus.

A ekklēsia da Grécia Antiga era formada por filhos de moradores naturais da polis, ou seja, que pertenciam a pólis[5], e a ekklēsia de Deus é formada pelos santificados em Cristo, ou seja, que pela obediência a sua palavra passaram a pertencer a Deus “À igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos, com todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso SENHOR Jesus Cristo, Senhor deles e nosso” ( 1Co 1:2 ); “Porque, assim o que santifica, como os que são santificados, são todos de um; por cuja causa não se envergonha de lhes chamar irmãos” ( Hb 2:11 ); “Para lhes abrires os olhos, e das trevas os converteres à luz, e do poder de Satanás a Deus; a fim de que recebam a remissão de pecados, e herança entre os que são santificados pela fé em mim” ( At 26:18 ).

Os membros do corpo de Cristo não podem ser aceitos ou desprezados por suas diferenças socioeconômicas, como bem disse o apóstolo Paulo:

“Porque, comendo, cada um toma antecipadamente a sua própria ceia; e assim um tem fome e outro embriaga-se. Não tendes porventura casas para comer e para beber? Ou desprezais a igreja de Deus, e envergonhais os que nada têm? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisto não vos louvo” ( 1Co 11:21 -22).

O irmão Tiago, por sua vez, alerta quanto a privilegiar os cristãos convertidos dentre os judeus em detrimento aos convertidos dentre os gentios:

“MEUS irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas. Porque, se no vosso ajuntamento entrar algum homem com anel de ouro no dedo, com trajes preciosos, e entrar também algum pobre com sórdido traje, e atentardes para o que traz o traje precioso, e lhe disserdes: Assenta-te tu aqui num lugar de honra, e disserdes ao pobre: Tu, fica aí em pé, ou assenta-te abaixo do meu estrado, porventura não fizestes distinção entre vós mesmos, e não vos fizestes juízes de maus pensamentos? Ouvi, meus amados irmãos: Porventura não escolheu Deus aos pobres deste mundo para serem ricos na fé, e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam? Mas vós desonrastes o pobre. Porventura não vos oprimem os ricos, e não vos arrastam aos tribunais? Porventura não blasfemam eles o bom nome que sobre vós foi invocado?” ( Tg 2:1 -7).

O irmão Tiago utiliza os termos ‘abatido’ e ‘rico’ não do ponto de vista socioeconômico. É necessário entender o exemplo que Tiago apresentou: na comunidade judaica não havia distinção quanto a pobreza e riqueza, antes a distinção era com relação a ser circuncidado ou não (estrangeiro e forasteiros). Era um absurdo fazer distinção entre descendentes da carne de Abraão, pois seriam tidos como transgressores da lei.

No entanto, a premissa do evangelho é que Deus escolheu os abatidos (pobres) e rejeitou os ‘ricos’ (altivos), de modo que agora em Cristo não podiam rejeitar os gentios que haviam se convertido ao evangelho. Alguns cristãos convertidos dentre o judaísmo estavam fazendo acepção nas reuniões de cristãos convertidos a Cristo, privilegiando aqueles que eram judeus por natureza (ricos), ou seja, aqueles que condenaram e mataram ‘… o justo; ele não vos resistiu’ ( Tg 5:6); “Mas glorie-se o irmão abatido na sua exaltação, e o rico em seu abatimento; porque ele passará como a flor da erva” ( Tg 1:9 -10).

O corpo de Cristo é constituído de iguais, daí a pergunta: “Porque, quem te faz diferente? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não o houveras recebido?” ( 1Co 4:7 ).

Um membro do corpo de Cristo não pode desprezar ou julgar o outro, antes cada um em particular deve considerar o outro superior a si mesmo “Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo” ( Fl 2:3 ); “Mas tu, por que julgas teu irmão? Ou tu, também, por que desprezas teu irmão? Pois todos havemos de comparecer ante o tribunal de Cristo” ( Rm 14:10 ); “ORA, quanto ao que está enfermo na fé, recebei-o, não em contendas sobre dúvidas. Porque um crê que de tudo se pode comer, e outro, que é fraco, come legumes. O que come não despreze o que não come; e o que não come, não julgue o que come; porque Deus o recebeu por seu. Quem és tu, que julgas o servo alheio? Para seu próprio SENHOR ele está em pé ou cai. Mas estará firme, porque poderoso é Deus para o firmar. Um faz diferença entre dia e dia, mas outro julga iguais todos os dias. Cada um esteja inteiramente seguro em sua própria mente. Aquele que faz caso do dia, para o Senhor o faz e o que não faz caso do dia para o Senhor o não faz. O que come, para o Senhor come, porque dá graças a Deus; e o que não come, para o SENHOR não come, e dá graças a Deus. Porque nenhum de nós vive para si, e nenhum morre para si. Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. De sorte que, ou vivamos o u morramos, somos do Senhor” ( Rm 14:1 -8).

 

[1] Eclésia – ‘eκκλησία’ (transl.: ekklesia) era a principal assembleia da democracia ateniense na Grécia Antiga, da qual só podia participar os cidadãos do sexo masculino, filhos de pais natural da pólis (cidade grega), com mais de dezoito anos e que tivesse prestado ao menos dois anos de serviço militar” <http://pt.wikipedia.org/wiki/Eclésia> Consulta realizada em 12/04/15; “Igreja [Eclésia]. Reunião, assembleia. A palavra aplica-se a qualquer assembleia, como, por exemplo, ao ajuntamento do povo em Éfeso (At 15.4), e a Israel, chamado do Egito e, reunido no deserto (At 7.38). Israel era uma verdadeira igreja, mas em nenhum sentido a igreja do N. T., pois a única semelhança entre as duas é que ambas foram chamadas para fora. No mais, tudo é contraste. Na Bíblia o termo nunca se aplica a um edifício material” McNair, S. E., Pequeno Dicionário Bíblico, CPAD, Pág. 1499.

[2] Cara, Robert. Cuidado com o significado oculto da raiz de uma palavra, Artigo disponível na Web <http://www.ministeriofiel.com.br/artigos/detalhes/715/Cuidado_com_o_Significado_Oculto_da_Raiz_de_uma_Palavra>  Consulta realizada em 12/04/15.

[3] Embora por definição a eκκλησία fosse uma assembleia popular, a principal assembleia da democracia ateniense na Grécia Antiga, contudo não tinha nada do ideário que hoje consideramos ‘popular’. Era uma assembleia restrita a aproximadamente 10% da população, visto ser acessível somente aos cidadãos do sexo masculino, com mais de dezoito anos, que tivessem prestado pelo menos dois anos de serviço militar e que fossem filhos de pais natural da pólis, ou seja, excluía os comuns do povo, as mulheres, as crianças, os forasteiros, os estrangeiros (Metecos: Μέτοικος), e os escravos.

[4] ‘Hebraísmos’ diz de certas expressões e maneiras peculiares ao idioma hebraico na construção de figuras, enigmas e provérbios, isto do ponto de vista linguístico.

[5] “… não se deve crer que cada cidadão pertence a si mesmo, mas que todos pertencem à cidade, porque cada um é parte dela…” Aristóteles, A Política.

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Deus olha para você através de Cristo?

Deus é santo! Esta verdade é apresentada em várias passagens bíblicas. Deus é santo e imutável, ou seja, quer os homens acreditem ou não, Deus é santo. Quer bendigam a santidade de Deus ou não, Ele permanecerá Santo pela eternidade.


Para enaltecer a santidade de Deus muitos pregadores ensinam que, para não ver o pecado, Deus olha para o crente através de Cristo. Argumentam que, apesar de crer em Cristo, o crente ainda é pecador.

Escritores renomados corroboram este pensamento e, dentre eles, destaco esta frase:

“Não entenda isto mal. O significado, não é que haja algo que cobre os nossos pecados ao ponto que Deus não os vê. Não é o caso de que eles realmente estão lá mas Deus não os vê porque eles estão encobertos. Coberto nem mesmo significa que os pecados de alguém estão escondidos sob Cristo, como se costuma dizer. O facto é que Deus olha através de Cristo” Fonte: Righteous by Faith Alone, Herman Hoeksema, Reformed Free Publishing Association, capítulo 21 (grifo nosso). Consulta realizada em 04/01/2012.

Analisando a asserção: “O facto é que Deus olha através de Cristo” à luz das Sagradas Escrituras, verifica-se que Hoeksema procurou evidenciar o mérito da obra de Cristo, contrastando-a com o demérito da condição do homem diante de Deus.

A premissa construída para evidenciar a santidade de Deus, afirmando que Deus é tão santo que, para olhar para o crente, precisa olhar através de Cristo para não ver pecado, carece de ser considerada à luz das Escrituras.

É bíblico este posicionamento? Quando olha através de Cristo Deus não vê pecado no crente porque eles estão encobertos?

Para responder esta pergunta, utilizaremos como ponto de partida uma pergunta do apóstolo Paulo aos cristãos de Corintos: “Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” ( 1Co 3:16 ).

A verdade de que os cristãos são templos de Deus era tão evidente para o apóstolo dos gentios que a pergunta aos Corintos é uma reprimenda!

Está é uma verdade que permeia todo o Novo Testamento:

  • “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pd 2:5 );
  • “Mas Cristo, como Filho, sobre a sua própria casa; a qual casa somos nós, se tão somente conservarmos firme a confiança e a glória da esperança até ao fim” ( Hb 3:6 );
  • “E que consenso tem o templo de Deus com os ídolos? Porque vós sois o templo do Deus vivente, como Deus disse: Neles habitarei, e entre eles andarei; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo” ( 2Co 6:16 );
  • “Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é santo” ( 1Co 3:17 );
  • “No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito” ( Ef 2:22 ).

Verdade que deriva das promessas feitas no Antigo Testamento:

  • “Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade, e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e para vivificar o coração dos contritos” ( Is 57:15 );
  • “Não me lances fora da tua presença, e não retires de mim o teu Espírito Santo” ( Sl 51:11 );
  • “E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis” ( Ez 36:27 ).

Se para olhar para aquele que creu no evangelho é necessário Deus olhar através de Cristo, o que é necessário para que Deus venha habitar o crente? O que é mais profundo: ‘olhar’ ou ‘habitar’ o crente?

Em que a santidade de Deus não é maculada se Ele olhar através de Cristo para contemplar o crente, se na verdade, em primeira instância Ele habita o crente? “Jesus respondeu, e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada ( Jo 14:23 ).

Como conciliar o argumento de que, para não contemplar o pecado no crente Deus necessita olhar através de Cristo, se não há nenhum obstes na bíblia com relação ao crente ser templo, morada de Deus.

Se aceitarmos a tese de Hoeksema que Deus olha para o crente através de Cristo apesar de haver pecado no crente, Cristo torna-se uma espécie de lente, prisma, etc., que possibilita Deus, que é santo, olhar para o crente; a lente cria uma ilusão de ótica de modo que Deus passa a contemplar o crente sem ver o pecado e, ao mesmo tempo Deus se guia pelo que passou a enxergar através de Cristo e ignora o fato de haver pecado no crente; no entanto, apesar do pecado, Deus habita o crente. Seria isto possível?

Existe também o testemunho de Deus de que Ele não habita em templo feito por mãos humanas ( At 17:24 ), e por isso mesmo, Se propôs construir o seu templo para habitá-lo através do seu próprio braço (Cristo) ( Ef 2:22 ; 1Pe 2:5 ; Hb 3:4 -6 ), no entanto, Hoeksema afirma que Deus vê pecado no templo que Ele mesmo está construindo e, que só é possível olhar o seu próprio templo através de Cristo?

“No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito” ( Ef 2:22 )

O crente é templo de Deus, ou não é? Há pecado no crente, ou não há? O templo de Deus é santo, ou não é?

Deus exige do homem que o seu falar seja segundo a verdade, pois o que passa da verdade é de procedência maligna “Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque o que passa disto é de procedência maligna” ( Mt 5:37 ).

Deus pode deixar de ver o pecado onde há pecado coberto? Haveria alguma coisa encoberta aos olhos de Deus? “E …antes todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar”  (Hebreus 4 : 13)

O apóstolo Paulo demonstra que efetivamente o templo de Deus, que são os cristãos, é santo: “Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é santo” ( 1Co 3:17 ). Ora, o templo de Deus é santo, portanto não pode haver no templo, que pertence e está sendo construído por Deus, pecado. Por fim, o templo de Deus que é santo diz dos crentes: ‘o templo de Deus, que sós vós, é santo’!

Neste mesmo sentido alertou o apóstolo: “Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?” ( 1Co 6:19 ).

Não podemos esquecer que, cada cristão individualmente é membro uns dos outros, porém, apesar de haver muitos cristãos, todos são um só corpo em Cristo “Assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros” ( Rm 12:5 ).

Considerando que Cristo é santo e é a cabeça do seu corpo, segue-se que o corpo de Cristo, que é a igreja, por sua vez, também é santo. É inconcebível um corpo ter condição diversa da condição da cabeça, ou seja, a cabeça ser santa e o corpo imundo, pois deste modo não haveria unidade “E estais perfeitos nele, que é a cabeça de todo o principado e potestade” ( Cl 2:10 ); “Para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível” ( Ef 5:27 ).

Cristo é a pedra angular preciosa que Deus estabeleceu como fundamento da igreja, e o templo é edificado por Deus com pedras vivas, ou seja, os cristãos Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pd 2:5 ); “Porque toda a casa é edificada por alguém, mas o que edificou todas as coisas é Deus” ( Hb 3:4 ).

Mas, alguém pode protestar dizendo: nesta passagem o apóstolo Paulo está falando do corpo místico, e não de cada crente em particular. Ora, só há o corpo místico se considerarmos que cada cristão em particular é um só pão em Cristo. O templo santo só é erguido porque há um fundamento posto, que é Cristo, a pedra eleita e preciosa, e igualmente cada cristão é uma pedra viva “Do qual todo o corpo, bem ajustado, e ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, faz o aumento do corpo, para sua edificação em amor” ( Ef 4:16 ); “Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão” ( 1Co 10:17 )

Antes de ser crucificado, Cristo rogou por sua igreja dizendo: “E eu já não estou mais no mundo, mas eles estão no mundo, e eu vou para ti. Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um, assim como nós ( Jo 17:11 ); Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” ( Jo 17:21 ); “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um ( Jo 17:22 ).

Há unidade entre Cristo, o Pai e a igreja, e esta unidade não é somente de ‘olhar através de Cristo’, antes é unidade derivada de comunhão íntima em virtude de Cristo ter concedido aos que creem n’Ele a mesma glória que Deus deu a Cristo. Jesus concedeu a mesma glória que foi dada pelo Pai aos que creram para que os cristãos sejam um, como o Pai e o Filho são um. A unidade do Pai, o Filho e os cristãos diz de comunhão intima: “Porque somos membros do seu corpo, da sua carne, e dos seus ossos ( Ef 5:30 ); “Ora, vós sois o corpo de Cristo, e seus membros em particular” ( 1Co 12:27 ).

Não há nenhuma comunhão entre a Luz e as trevas, pois Jesus disse: “Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas” ( 1Jo 1:5 ). Deus é luz e qualquer que está em Cristo, está em Deus e Deus está nele “Qualquer que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele, e ele em Deus ( 1Jo 4:15 ).

Confessar, admitir que Jesus é o Filho de Deus segundo as Escrituras, significa ter comunhão, adentrar na Luz que não tem trevas nenhuma, e que a Luz que não tem trevas entrou nele. Ora, se aquele que crê em Cristo está em Deus, segue-se que não há trevas nenhuma nele, pois se houvesse, seria impedido de estar em Deus, pois não há comunhão entre a Luz e as trevas.

A promessa de Deus é perfeita: qualquer que guarda a sua palavra, o amor de Deus está aperfeiçoado verdadeiramente nele. Qual é a palavra a ser guardada, obedecida? A palavra, o mandamento a ser obedecido é: crer em Cristo como o Filho do Deus vivo, assim como diversas pessoas confessaram nas Escrituras “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento. E aquele que guarda os seus mandamentos nele está, e ele nele. E nisto conhecemos que ele está em nós, pelo Espírito que nos tem dado” ( 1Jo 3:23 -24; Jo 6:69 ; Jo 11:27 ; Mt 16:16 ).

Qualquer que creu em Cristo obedeceu ao mandamento de Deus e passou a estar em Deus: “Mas qualquer que guarda a sua palavra, o amor de Deus está nele verdadeiramente aperfeiçoado; nisto conhecemos que estamos nele ( 1Jo 2:5 ); “Nisto conhecemos que estamos nele, e ele em nós, pois que nos deu do seu Espírito” ( 1Jo 4:13 ).

Ao crer, o homem passa a pertencer a Deus “Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus” ( 1Co 6:20 ); “Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção” ( 1Co 1:30 ).

Aquele que está em Cristo é uma nova criatura “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ). Ora, se o crente está em Cristo é nova criatura, de modo que Cristo também está no crente “Examinai-vos a vós mesmos, se permaneceis na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não sabeis quanto a vós mesmos, que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados” ( 2Co 13:5 ).

Sendo o crente uma nova criatura, está em Cristo, e se está em Cristo, consequentemente, está em Deus “E sabemos que já o Filho de Deus é vindo, e nos deu entendimento para conhecermos o que é verdadeiro; e no que é verdadeiro estamos, isto é, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna” ( 1Jo 5:20 ).

Para estar em Deus através de Cristo, foi necessário Deus fazer tudo novo, de modo que, sem Cristo o homem é trevas, mas ao crer, o cristão torna-se luz no Senhor “Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no SENHOR; andai como filhos da luz” ( Ef 5:8 ); “Porque todos vós sois filhos da luz e filhos do dia; nós não somos da noite nem das trevas” ( 1Ts 5:5 ); “Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte” ( Mt 5:14 ).

Deus não só tirou aqueles que creram da potestade das trevas e os transportou para o reino de Cristo, Ele também os fez luz “O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” ( Cl 1:13 ).

Ao crer o cristão recebeu poder para ser feito filho de Deus ( Jo 1:12 ), portanto, é filho da luz. E se é filho da luz, agora é luz. Deus é a verdade, e se o crente esta em Cristo, que é a verdade, é verdadeiramente livre, pois tem comunhão com a verdade! Conheceu a verdade! “Jesus dizia, pois, aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos; E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” ( Jo 8:31 -32); “Portanto, o que desde o princípio ouvistes permaneça em vós. Se em vós permanecer o que desde o princípio ouvistes, também permanecereis no Filho e no Pai” ( 1Jo 2:24 ).

Permanecer na palavra de Cristo é fazer a vontade de Deus, e aquele que crê na palavra do Evangelho permanece para sempre “E o mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre” ( 1Jo 2:17 ); “Mas a palavra do SENHOR permanece para sempre. E esta é a palavra que entre vós foi evangelizada” ( 1Pd 1:25 ); “Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” ( Jo 20:31 ); “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ).

O apóstolo João demonstra que os que creem em Cristo conhecem a Deus e Deus está nele “Ninguém jamais viu a Deus; se nos amamos uns aos outros, Deus está em nós, e em nós é perfeito o seu amor” ( 1Jo 4:12 ). Por ter dado da sua palavra (espírito) aos que creem é possível saber que todos quantos creem estão em Deus e Deus neles “Nisto conhecemos que estamos nele, e ele em nós, pois que nos deu do seu Espírito” ( 1Jo 4:13 ).

Cristo é o amor de Deus demonstrado ao mundo, e quem está no amor de Deus está em Deus e Deus nele “E vimos, e testificamos que o Pai enviou seu Filho para Salvador do mundo. Qualquer que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele, e ele em Deus. E nós conhecemos, e cremos no amor que Deus nos tem. Deus é amor; e quem está em amor está em Deus, e Deus nele ( 1Jo 4:14- 16).

E o mais importante: Qual Cristo é, o cristão o é igualmente neste mundo “Nisto é perfeito o amor para conosco, para que no dia do juízo tenhamos confiança; porque, qual ele é, somos nós também neste mundo ( 1Jo 4:17 ). Assim como os filhos de Adão são como o primeiro homem, de igual modo, os filhos de Deus são tal qual o último Adão: homens espirituais “Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais também os celestiais ( 1Co 15:48 ).

  • Jesus é o Filho de Deus, os que creem são filhos de Deus ( 1Jo 3:1- 2; Gl 3:26 );
  • Jesus é luz, os que creem são luz no Senhor ( Ef 5:8 );
  • Jesus é pedra viva, os cristãos são pedras vivas ( 1Pd 2:5 );
  • Jesus é o fundamento dos apóstolos e dos profetas, os cristãos são edificados casa espiritual sobre o fundamento de Deus que é firme ( Ef 2:20 -22);
  • Jesus é o pão que dá vida ao mundo, os cristãos são pão ( 1Co 10:17 );
  • Jesus é o sumo sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque, os que creem exercem sacerdócio real ( 1Pd 2:9 );
  • Jesus assentou-se a destra do Pai nas alturas, os cristãos estão assentados nas regiões celestiais ( Ef 13 e 2:6 ).

Os cristãos foram gerados de novo através da ressurreição de Jesus ( 1Pd 1:3 ; Cl 2:12 -13 ; Cl 3:1 ). Foram gerados de uma semente incorruptível ( 1Pd 1:23 ), e são participantes da natureza divina ( 2Pd 1:4 ; Cl 2:10 ).

Ora, após tudo o que Deus realizou naqueles que creem, sendo certo que Cristo foi manifesto como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo ( Jo 1:29 ), como é possível haver pecado no crente, se o crente está em Cristo? Como é possível haver pecado no crente se o crente é nova criatura? Se em Cristo não há pecado, como um pecador pode estar em Cristo? “E bem sabeis que ele se manifestou para tirar os nossos pecados; e nele não há pecado ( 1Jo 3:5).

Em Cristo não há pecado, assim como em Deus não há trevas nenhumas, portanto, qualquer que está em Cristo é luz e não tem pecado algum. Deste modo, Deus conhece o crente ( Gl 4:9 ), pois habita no crente. O termo ‘conhecer’ não é saber acerca de, ou ver através de Cristo, antes significa comunhão intima, um só corpo.

 

‘Santo’ versus ‘imundo’

“E que comunhão tem a luz com as trevas?” ( 2Co 6:14 )

Deus é santo! Esta verdade é apresentada em várias passagens bíblicas. Deus é santo e imutável, ou seja, quer os homens acreditem ou não, Deus é santo. Quer bendigam a santidade de Deus ou não, Ele permanecerá Santo pela eternidade.

As Escrituras também demonstram que o Santo não tem comunhão com o imundo. – “Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas” ( 1Jo 1:5 ), está foi uma asserção que o evangelista João ouviu de Jesus e anunciou aos cristãos. Não há comunhão entre a Luz e as trevas, portanto, na luz não pode haver sequer uma mínima sombra!

O que faz separação entre o Santo e o imundo, entre a Luz e as trevas?

Deus disse ao povo de Israel: “Mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça” ( Is 59:2 ). O pecado é o que faz divisão entre os homens e Deus, de modo que toda a humanidade estava alienada de Deus, pois todos pecaram “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” ( Rm 3:23 ).

Apesar de o povo de Israel pensar que havia alguma diferença entre gentios e judeus, que os judeus eram salvos por serem descendentes da carne de Abraão e o gentios não, o protesto do profeta Isaias foi direcionado aos judeus: “Mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça” ( Is 59:2 ).

Em virtude da acusação das Escrituras que pesava contra os judeus é que o apóstolo Paulo argumenta: ‘porque não há diferença’ ( Rm 3:22 ), pois tudo o que a lei diz, diz aos que receberam a lei e estavam debaixo da lei, ou seja, aos judeus. Deste modo, todo o mundo é condenável diante de Deus: judeus e gentios “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus. Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado” ( Rm 3:19 -20).

Tudo o que o apóstolo Paulo escreveu contra os judeus foi segundo as Escrituras, conforme se lê: “Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só. A sua garganta é um sepulcro aberto; Com as suas línguas tratam enganosamente; Peçonha de áspides está debaixo de seus lábios; Cuja boca está cheia de maldição e amargura. Os seus pés são ligeiros para derramar sangue. Em seus caminhos há destruição e miséria; E não conheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos” ( Rm 3:10 -18).

Mas, tanto judeus quanto gentios se tornaram imundos? Quando foi que isto ocorreu? Ora, toda a humanidade tornou-se imunda e alienada de Deus em um único evento: a ofensa de Adão no Éden. Quando Adão pecou, todos pecaram. Quando Adão recebeu a pena, todos foram apenados com a morte, ou seja, com a alienação de Deus “Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram” ( Rm 5:12 ).

Certa feita os discípulos perguntaram a Jesus: – ‘Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?’ ( Jo 9:2 ). Jesus respondeu: – “Nem ele pecou nem seus pais” ( Jo 9:3 ). Ora, com relação a cegueira, o cego nasceu cego para que as obras de Deus fossem manifestas, porém, a pergunta persiste: Quem pecou? Pois todos pecaram ( Rm 3:23 )!

Ora, há um só que pecou: Adão “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores…” ( Rm 5:19 ). Por causa da ofensa de Adão, todos se extraviaram. A ofensa de Adão trouxe maldição, morte, trevas, alienação, para todos os homens, mesmo que os homens não tenha transgredido a semelhança da transgressão de Adão “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão…” ( Rm 5:14 ).

O que o apóstolo Paulo disse com o verso acima? Que mesmo a humanidade não tendo comido do fruto do conhecimento do bem e do mal como Adão e Eva comeram lá no Éden, a morte passou a todos os seus descendentes: a humanidade, portanto, todos pecaram “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” ( Rm 3:23 ); “Porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo” ( 1Co 15:21 -22).

Isto significa que o homem é concebido e gerado em pecado, ou seja, que desde a ofensa do homem no Éden, a humanidade separou-se de Deus ( Sl 51:5 e Sl 58:3 ). Ora, o homem é pecador em função da sua geração. A geração do homem segundo Adão é má, e todos os seus descendentes são maus. Não importa se saiba dar boas dádivas aos seus semelhantes, todos os homens nascidos segundo a semente de Adão são maus, são trevas, vasos de desonra, plantas que o pai não plantou, alienados de Deus, mortos em delitos e pecados, etc.

Agora podemos responder a pergunta: O que faz separação entre o Santo e o imundo, entre a Luz e as trevas? Como a humanidade tornou-se imunda e separada de Deus?

A resposta está no Éden! Lá todos pecaram e foram destituídos de terem comunhão com Deus. Deus é luz e a humanidade passou a condição de trevas por dar ouvidos à serpente (criatura) e não ao Criador. Lá no Éden o homem separou-se de Deus, tornou-se morte, tornou-se imundo. Foi em função de uma única ofensa que toda a humanidade (juntamente) tornou-se imunda “Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um” ( Sl 53:3 ).

Quando desobedeceu ao Criador, Adão não somente se vendeu ao pecado, como também vendeu toda a sua descendência e, consequentemente, todos os descendentes de Adão são escravos do pecado. O pecado como senhor assalaria os seus servos com a morte, de modo que a humanidade é refém, cativa (aguilhão) do pecado por causa da morte “Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei” ( 1Co 15:56 ).

A força do pecado não advém do diabo, como muitos pensam, visto que o próprio diabo está retido sob o domínio do pecado. A força do pecado decorre da lei que disse: “De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:16 -17).

A palavra de Deus não volta vazia! Se Ele determinou, é irrevogável! Como o homem comeu da árvore do conhecimento do bem e do mal, às consequências vieram: a) alienação de Deus (morte), e; b) o conhecimento do bem e do mal (como Deus).

A separação de Deus (pecado) dos que não creem persiste por causa da lei que disse: certamente morrerás. Enquanto não crerem em Cristo para se conformarem com Cristo na sua morte, não tem acesso à maravilhosa graça que se dá na ressureição com Cristo ( Fl 3:10 ).

 

Remissão

“Ora, onde há remissão destes, não há mais oblação pelo pecado” ( Hb 10:18 )

Outro ponto das consequências do pecado esta na seguinte premissa: “A alma que pecar, esta mesma morrerᔓA alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai levará a iniquidade do filho. A justiça do justo ficará sobre ele e a impiedade do ímpio cairá sobre ele” ( Ez 18:20 ).

O salário do pecado é a morte! Não há como o pecador não receber o seu quinhão.

Mas, Cristo Jesus deu a si mesmo para remir o homem de toda a iniquidade, purificando um povo para si “O qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras” ( Tt 2:14 ); “Para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos” ( Gl 4:5 ).

Por causa do pecado da humanidade, Cristo Jesus apresentou-se como sacrifício a Deus e, através da sua carne, abriu-se um novo e vivo caminho que conduz os homens a Deus “Pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne” ( Hb 10:20 ).

Por ser uma exigência da justiça que a morte do pecador, quando crê em Cristo, o homem morre com Cristo, passa a ser participante da carne e do sangue de Cristo. Quando o pecador crê em Cristo, toma sobre si a sua própria cruz e segue após Cristo até o calvário, é crucificado com Cristo, morto e sepultado. Neste ato a justiça de Deus é vindicada, pois Ele é justo e a transgressão não passa da pessoa do transgressor.

Para abrir um novo e vivo caminho, Jesus morreu pelos pecadores, pois somente Ele podia remir os seus irmãos ( Hb 2:11 ). Ou seja, não é necessário aos que creem subirem em um madeiro e serem crucificados com pregos e sofrer as ignominias que Cristo sofreu na cruz.

Como é possível um homem morrer em lugar de todos os homens, se a pena jamais pode passar da pessoa do transgressor? Um homem desobedeceu, e em consequência, a geração deste homem foi destituída de Deus. Mas, Cristo Jesus foi obediente até a morte, e morte de cruz, de modo que ao ressurgir dentre os mortos a sua geração é aceita por Deus.

Quando Jesus morreu houve substituição de ato: obediência pela desobediência. Em lugar da desobediência do Éden, Jesus bradou: Está consumado! “E, quando Jesus tomou o vinagre, disse: Está consumado. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito” ( Jo 19:30 ).

Neste brado não foi expressa a ideia que muitos divulgam de que uma dívida foi paga, antes que Cristo cumpriu cabalmente o que o Pai determinou, ou seja, consumei a obra que o Pai me deu a realizar! “Eu glorifiquei-te na terra, tendo consumado a obra que me deste a fazer” ( Jo 17:4 ).

“Nenhum ser humano que tentasse pagar por seus próprios pecados poderia dizer finalmente, como exclamou Cristo em triunfo na Cruz: “Está consumado! A dívida foi paga”.  Mas o preço tinha que ser pago integralmente. De que outro modo os portões da justiça se abririam?” Hunt, Dave ‘O poder da ressurreição de Cristo’, The Berean Callhttp://www.chamada.com.br) – http://www.chamada.com.br/mensagens/ressurreicao_de_cristo.html Consulta realizada em 06/01/2012.

Substituição de ato foi o que ocorreu na cruz: a obediência de Cristo (último Adão) pela desobediência de Adão, pois Deus não busca sacrifício, antes a obediência “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” ( Rm 5:19 ); “Por isso, entrando no mundo, diz: Sacrifício e oferta não quiseste, Mas corpo me preparaste; Holocaustos e oblações pelo pecado não te agradaram. Então disse: Eis aqui venho (No princípio do livro está escrito de mim), para fazer, ó Deus, a tua vontade” ( Hb 10:5 -7 ).

Por estar em Cristo o cristão é uma nova criatura, igualmente é perfeito, pois está em Cristo, que é a cabeça de todo principado. Por estar em Cristo, o cristão lançou fora (despojou) a carne do pecado. Por estar em Cristo o cristão foi sepultado e ressurgiu ( Cl 2:10 -12).

Quando vivificado em Cristo, o cristão teve as suas ofensas perdoadas por Cristo, pois a cédula foi riscada, uma vez que não cumpríamos as ordenanças de Deus. Como Cristo veio cumprir e cumpriu plenamente a vontade de Deus, a obediência de Cristo anulou a divida das ordenanças. O que fixou na cruz as ordenanças que punha o homem em divida foi a obediência de Cristo, que nada ab-rogou da lei, não foi puro e simplesmente o seu sofrimento. O objetivo da cruz não era o sofrimento, antes a obediência plena, pois a obediência excluiu toda condenação para a nova criatura, que por estar em Cristo está morta para o pecado e para a lei.

Pois, para que o homem possa alcançar vida dentre os mortos é necessário cair na terra assim como o grão de trigo. Cristo caiu na terra e ressurgiu para a glória de Deus Pai, todos quanto creem n’Ele, também são plantados na semelhança da sua morte, para que possam ressurgir com Cristo. Neste quesito cada um deve tomar a sua própria cruz e morrer com Cristo “Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto” ( Jo 12:24 ).

Deus é fiel: “Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também com ele viveremos; Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará; Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo” ( 2Tm 2:11 -13).

Sobre a morte dos que creem com Cristo escreveu o apóstolo Paulo:

“Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte? De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida. Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição; Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado. Porque aquele que está morto está justificado do pecado. Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos” ( Rm 6:3 -8).

A carne de Cristo foi oferecida em oblação e é o novo e vivo caminho pelo qual o homem vem a Deus, pois quando o homem crê, torna-se participante da carne e do sangue de Cristo, ou seja, morre com Cristo. O batismo do cristão é na morte de Cristo, e o batismo em águas é um testemunho público, símbolo da morte com Cristo.

Quando o crente morre com Cristo fica demonstrada a justiça de Deus, visto que a pena estipulada pela lei: ‘certamente morrerá’, ou ‘a alma que pecar esta morrerá’, não passa da pessoa do transgressor. O pecador, quando se arrepende, morre com Cristo e o corpo do pecado herdado em Adão é desfeito.

Após estabelecer a sua justiça dando ao pecador a morte em função do pecado, Deus elimina o vínculo do servo com seu antigo senhor, o pecado. E é neste ponto que a maravilhosa graça de Deus opera eficazmente, visto que, assim como Cristo ressurgiu dentre os mortos para a glória de Deus Pai, todos quando foram sepultados com Cristo são ressuscitados juntamente com Cristo ( Cl 3:1 ).

Enquanto o pecador é morto com Cristo, Deus é justo, mas quando é gerada uma nova criatura em Cristo, Deus é declarado justificador “Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” ( Rm 3:26 ).

Ora, se o homem não morre, não está justificado do pecado, pois enquanto vivo para o pecado é devedor e sujeito ao pecado. Mas, quando o homem morre com Cristo, a justiça de Deus é vindicada, pois: “… aquele que está morto está justificado do pecado” ( Rm 6:7 ).

Cristo ressurgiu dentre os mortos para a justificação dos que creem “O qual por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação” ( Rm 4:25 ). Ora, como Cristo ressurgiu, todos os que creem ressurgiram à semelhança da sua ressureição, de modo que os que foram ressurretos dentre os mortos possuem uma nova vida, sendo declarados justos diante de Deus “Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus” ( Rm 3:24 ).

O velho homem gerado em Adão jamais seria declarado justo, portanto, pereceu ao ser crucificado com Cristo e o seu corpo foi desfeito com Cristo na cruz. Quando é gerado um novo homem através de Cristo (a semente incorruptível), tem-se uma nova criatura participante da natureza divina, que foi criada em verdadeira justiça e santidade, e que recebe de Deus a declaração de que é justa.

Quando gerado de Adão o homem é pecador, agora gerado de novo em Cristo Jesus, o homem é participante da natureza divina. Não é mais servo do pecado, escapou da corrupção que há no mundo, portanto é santo e justo “Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo” ( 2Pe 1:4 ); “E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça” ( Rm 6:18 ).

Quando Jesus se deu a si mesmo foi para adquirir para si um povo “O qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras” ( Tt 2:14 ). Ora, se Ele remiu o pecador tomando por seu servo, segue-se que não mais se nomeia os que creem de pecadores.

Há um contra senso na assertiva: ‘pecador remido’, pois se o homem é pecador é porque não foi remido, e se foi remido, resta que não é pecador, pois pertence a um novo senhor.

Este problema também ocorre com o termo naufrago. Quando alguém está a deriva em alto mar é nomeado ‘naufrago’, porém, quando é salvo do perigo e está a bordo de uma nova embarcação, já não faz jus ao nome ‘naufrago’, assim é aquele que crê em Cristo: era pecador, agora é remido.

A bíblia é clara: não podeis servir a dois senhores, ou seja, é impossível prestar serviço a dois senhores. Quando Cristo remiu o pecador, não deixou o remido à disposição do pecado para servi-lo. No momento em que o homem é liberto do pecado é feito servo da justiça.

Há pecadores e há remidos, jamais haverá ‘pecadores remidos’, pois onde há remissão não há mais oferta pelo pecado “Ora, onde há remissão destes, não há mais oblação pelo pecado” ( Hb 10:18 ).

O pecador é servo do pecado, portanto, comete pecado. Ora, se o homem comete pecado pertence ao diabo, portanto não é remido “Quem comete o pecado é do diabo; porque o diabo peca desde o princípio. Para isto o Filho de Deus se manifestou: para desfazer as obras do diabo” ( 1Jo 3:8 ); “Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado” ( Jo 8:34 ).

O que comente pecado é servo do pecado, porém, temos o apóstolo Paulo redarguindo os cristãos: tornastes-vos servos da justiça ( Rm 6:18 )

Não existe ‘pecador remido’, pois o apóstolo Paulo diz que, se os cristãos foram justificados em Cristo e ainda são pecadores, teria que admitir que Cristo é ministro do pecado. Como Cristo não é ministro do pecado, todos quanto estão n’Ele não são pecadores “Pois, se nós, que procuramos ser justificados em Cristo, nós mesmos também somos achados pecadores, é porventura Cristo ministro do pecado? De maneira nenhuma” ( Gl 2:17 ).

 

Deus olha através de Cristo

Em um devocional intitulado “Um detalhe milagroso”, assinado pela Pra. Clarice Ziller, temos a seguinte frase:

‘Olhe que coisa fantástica é o Sangue de Jesus: quando Deus me olha através dele, eu sou pura como aquele sumo sacerdote!’.

Spurgeon também fez alusão à ideia de que Deus vê o crente através de Cristo:

“Se bem que Ele vê pecado em ti, em ti mesmo, agora, quando Ele olha para ti através de Cristo, Ele não vê pecado” C. H. Spurgeon, Evening’s Meditation, Meditações Vespertinas. Tradução de Carlos António da Rocha. consulta realizada em 13/09/2012.

Muitos esquecem, ou não sabem, que a promessa de Deus para aquele que guardam a palavra do evangelho crendo em Cristo é se tornar morada do Altíssimo “Jesus respondeu, e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada” ( Jo 14:23 ).

Por esquecerem, ou não saberem que o crente é o templo de Deus, adotam o pensamento equivocado de que é necessário Deus olhar através de Cristo para poder ver o crente, haja vista, considerarem que o crente, apesar de estar em Cristo, é pecador “Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” ( 1Co 3:16 ).

Mas, as Escrituras é a autoridade no assunto, e ela diz: “E bem sabeis que ele se manifestou para tirar os nossos pecados; e nele não há pecado” ( 1Jo 3:5). Além de Cristo ter vindo ao mundo tirar o pecado dos que creem, certo é que em Cristo não há pecado.

Se o crente admite que Jesus é o Cristo conforme as Escrituras, está em Cristo, é nova criatura, portanto não tem pecado, pois está em Cristo em quem não há pecado.

Se o crente está em Cristo, automaticamente está em Deus, que é luz e não há nele trevas nenhumas, portanto, a necessidade de Deus olhar para o crente através de Cristo é ilação de mentes carnais que não consideram que Cristo habita o crente.

Jesus é a garantia de que os que creem estão limpos diante de Deus e esta era a certeza do apóstolo Paulo “E é o que alguns têm sido; mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito do nosso Deus” ( 1Co 6:11 ).

“Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado” ( Jo 15:3 )

 

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A eleição e a predestinação segundo o eterno propósito de Deus

Enquanto a graça é favor imerecido demonstrado individualmente em todos os tempos a todos os homens salvando-os da condenação em Adão, a eleição é bênção especifica para uma geração especifica.

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Como não tomar a ceia do Senhor indignamente?

Demonstre que o cálice de bênção que eles abençoam representa a comunhão do corpo de Cristo, ou seja, embora haja muitos cristãos ali congregados, todos são um só pão e um só corpo ( 1Co 10:17 ). Enfatize que todos são um pão! Que todos são um só corpo, pois todos participam de um mesmo pão, o corpo de Cristo ( 1Co 10:17 ).


Tempo mínimo de exposição da mensagem: 1 hora.

Este é um sermão expositivo e tem por objetivo fazer com que os seus ouvintes compreendam o que representa o cálice e o pão dos quais os cristãos fazem uso para comemorar a morte do Senhor até que Ele venha.

Como a abordagem é complexa você precisará utilizar textos ancoras para fazer a plateia compreenda a exposição. Como expositor da palavra, você deve estar cônscio de que a compreensão é essencial, conforme demonstrou o Mestre por excelência ( Mt 13:19 )

 

1° Parte – Você precisará de pelo menos 15 minutos.

Em uma abordagem inicial, explique aos seus ouvintes que a mensagem é complexa, mas que, com o auxilio deles a mensagem será inteligível. Esclareça que após ouvirem a mensagem, cada cristão presente na reunião será capaz de responder a seguintes questões:

  • O que representa o cálice?
  • O que representa o pão?
  • O que é tomar o cálice indignamente?

Convide os seus ouvintes para ler I Coríntios 3, verso 16, que diz: “Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” ( 1Co 3:16 ). Após pergunte a eles o que eles são. Todos vocês são….? Quem habita em vocês…..? A resposta deve ser enfatizada pelo expositor, que no caso é você!

Solicite que leiam Gálatas 3, verso 26: “Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus” ( Gl 3:26 ). Após a leitura, questione: Pelo evangelho (fé) todos vocês são…? Obtenha uma resposta de seus ouvintes!

Após, leia a primeira carta de João 3, verso 1: VEDE quão grande amor nos tem concedido o Pai, que fôssemos chamados filhos de Deus. Por isso o mundo não nos conhece; porque não o conhece a ele” ( 1Jo 3:1 ). Agora pergunte a eles o que estão vendo. O que João pede aos seus leitores que vissem? Que todos são chamados filhos de Deus! Leia o verso seguinte é aponte a seriedade das palavras que você está apresentando: “Amados, agora somos filhos de Deus…” ( 1Jo 3:2 ). Aponte que todos são amados! Demonstre o tempo: Agora somos filhos! Não será amanhã! É agora, pois Deus é o Deus de já!

Leia Efésios 5, verso 8: “Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no SENHOR” ( Ef 5:8 ). Pergunte o que somos e aguarde que respondam!

Para finalizar a abordagem inicial, peça que o acompanhe na leitura de primeira Pedro 2, verso 4, 5 e 9: “E, chegando-vos para ele, pedra viva, reprovada, na verdade, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo (…) Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” ( 1Pe 2:4 -5 e 9).

Faça os recordar enumerando a condição deles: – Todos vocês pela fé em Cristo são filhos, luz, templo, casa, sacerdotes, pedras vivas, nação santa, povo adquirido, etc.

 

2° Parte – Você precisará de 25 minutos.

Solicite que leiam juntamente com você a passagem de 1 Coríntios 10, verso 15 ao 17, e vá interpretando cada parte do verso a medida que você for evoluindo a leitura.

“Falo como a entendidos; julgai vós mesmos o que digo” ( 1Co 10:15 ) – Demonstre que o apóstolo Paulo havia escrito aos cristãos de Coríntos e que agora ele espera que analisem a questão como sábios. Que deveriam analisar (julgar) o que seria exposto.

“Porventura o cálice de bênção, que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo?” ( 1Co 10:16 ) – Pergunte à plateia o que é o cálice segundo o versículo. Agora, pergunte quem é que abençoa o ‘cálice de bênção’. Talvez você não obtenha uma resposta, mas deve demonstrar que, da mesma forma que somos filhos, luz, casa, templo, etc., somos ‘nós’, ou seja, todos os seus ouvintes que abençoam o cálice.

Demonstre o quanto as pessoas são propensas a acreditar em promessas vazias, como que receberá uma casa, um emprego, visões de chaves de carros, etc., porém, quando a bíblia diz que somos nós que abençoamos o cálice poucos creem.

O que representa o cálice de bênção que abençoamos? Após perguntar, demonstre que o cálice que abençoamos representa a comunhão do corpo de Cristo!

Para dirimir a dúvida deles quanto a saber se são eles mesmos que abençoam o cálice, solicite que leia Mateus 23, verso 16 à 19. Explique que os fariseus eram os mestres à época de Cristo, por isso são nomeados de condutores, porém, eram cegos. Todos que eram guiados por eles estavam perdidos! ( Mt 23:17 ).

Apresente o entreve que os fariseus apresentavam ao povo quanto ao que santifica o que. Para eles o ouro que revestia o templo era mais importante que o templo, porém é o templo que santifica o ouro, ou seja, demonstre que cada um deles são templo, casa, habitação do Deus vivo, e que, portanto, são eles que consagram as coisas exteriores. Se Eles são templo, eles são superiores a ouro.

Demonstre que, assim como o autor é mais importante que o sacrifício, cada cristão é mais importante que tudo que é oferecido a Deus, pois são luz, filhos, casa, templo, sacerdote, etc.

Demonstre que o cálice de bênção que eles abençoam representa a comunhão do corpo de Cristo, ou seja, embora haja muitos cristãos ali congregados, todos são um só pão e um só corpo ( 1Co 10:17 ). Enfatize que todos são um pão! Que todos são um só corpo, pois todos participam de um mesmo pão, o corpo de Cristo ( 1Co 10:17 ).

Agora você deve demonstrar qual a importância de cada um dos seus ouvintes se comparados ao cálice e ao pão que haverão de participar na comemoração da morte do Senhor.

Enfatize que o ser humano gosta de inverter o valor das coisas. Ex: Dá-se mais valor a bandeira do que as pessoas que a empunham; Dá-se mais valor ao estado, do que aos cidadãos; valoriza-se mais as instituições do que os seus associados, etc.

Demonstre que o cálice de vinho do qual todos serão participantes no cerimonial não possui valor maior do que os seus ouvintes. Demonstre que enquanto o cálice e o pão representa a comunhão do sangue e do corpo ( 1Co 10:16 ), cada um deles é o corpo de Cristo.

Demonstre que cada um ali presente não veio de suas casas para ser abençoado ou purificado pelo cálice e pelo pão, antes cada um são membros do corpo de Cristo, e por tanto, são aqueles que abençoam o cálice e o pão.

Relembre que tudo que o Antigo Testamento representa era sombra das coisas futuras, e que a realidade está em Cristo. Tudo que era feito e ofertado sob a velha aliança era somente sombra, mas agora somos filhos, templo, sacerdotes, luz, casa, etc. A mesa do qual todos participam somente representa aquilo que todos são: um só corpo, um só espírito, um só batismo ( Ef 4:4 ; Rm 6:3 ; Gl 3:27 ).

 

3° Parte – Você precisará de 20 minutos.

O texto base será primeiro Corítios 11, verso 17.

Você precisará demonstrar que a igreja de corintos possuía uma diversidade cultural muito grande, pois havia ricos, pobres, servos, livres, judeus, gentios, homens e mulheres, etc. Enquanto cada um estava em suas casas as diferenças não apareciam, porém quando se reuniam as diferenças se evidenciavam, e muito se deixavam levar pelas aparências, pois se esqueciam que cada um eram um mesmo pão, membros de um mesmo corpo.

Demonstre que:

  • Não seriam elogiados quanto a reunião da ceia ( 1Co 11:17 );
  • A reunião não era para melhor, mas para pior ( 1Co 11:17 );
  • Havia divisões, o que não ocorre num corpo ou num pão ( 1Co 11:18 );
  • Quando se reuniam não era para cear ( 1Co 11:20 );
  • Antes cada um fazia a sua própria, mas não a do Senhor ( 1Co 11:21 );
  • Repreensão pelo comportamento contrário ao evangelho ( 1Co 11:22 );
  • Relembrando o que já foi ensinado ( 1Co 11:23 à 25);
  • Quando se bebe o cálice e come o pão, somente anuncia-se a morte do Senhor, ou seja, ninguém é abençoado por isso, antes todos são benção no Senhor porque são filhos, ou seja, herdeiros da promessa ( 1Co 11:26 );
  • Quem comer o pão e beber o cálice indignamente é culpado da carne e do sangue de cristo ( 1Co 11:27 );
  • Cada um deveria se auto examinar e comer, ou seja, não se deve abrir mão de ser participante da mesa ( 1Co 11:28 );
  • Embora muitos entendam que ser culpado, indigno de participar da mesa do Senhor tem relação com os possíveis comportamentos reprovável que podem ocorrer no dia-a-dia, a bíblia demonstra que indigno é aquele que não discerne, não compreende o que é o corpo do Senhor. Se você não compreende que cada cristão é membro do mesmo corpo, você é indigno de ser participante da mesa que contém os elementos que representa todos ali reunidos “Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do SENHOR” ( 1Co 11:29 ).

 

“Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do SENHOR ( 1Co 11:29 ).

Explique o significado de comer e beber indignamente, ou seja, a condição de condenação. Qualquer que não discerne (grego – diakrino), ou seja, não compreende que judeus, gentios, pobres, ricos, livres, escravos, homens e mulheres são membros de um mesmo corpo ( Gl 3:28 ), são participantes da carne e do sangue de Cristo é indigno, pois todos que compreendem esta verdade é porque creu em Cristo segundo as escrituras.

Somente os filhos da luz, aqueles que são luz no Senhor são dignos do reino de Deus e de participarem da mesa “Prova clara do justo juízo de Deus, para que sejais havidos por dignos do reino de Deus, pelo qual também padeceis” ( 2Ts 1:5 ).

Se para aquele que está em Cristo não há nenhuma condenação, isso significa que o indigno é aquele que participa da mesa sem ser membro do corpo ( Rm 8:1 ; Rm 12:5 ).

Para concluir enfatize que todos se tornaram um só corpo, uma só carne com Cristo “Porque somos membros do seu corpo, da sua carne, e dos seus ossos” ( Ef 5:30 ). Ou seja, Deus é a verdade e os seus ouvintes são um com a Verdade “E eu já não estou mais no mundo, mas eles estão no mundo, e eu vou para ti. Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um, assim como nós” ( Jo 17:11 ).

O grande mistério foi resolvido, ou seja, isto diz de Cristo e sua Igreja ( Ef 5:32 ). Quando nos unimos a Cristo como igreja, nos tornamos membros do seu corpo ( Ef 5:30 ). Ao tornar-se um só corpo com Cristo, a verdade que liberta, você ‘conheceu’ a Deus e és livre! ( Jo 8:32 ).

Só ‘conhece’ a ‘Verdade’ aquele que deixou pai e mãe e uniu-se ao esposo, que é Cristo. Este não é indigno de participar da mesa que anuncia a morte do Senhor até que Ele venha.

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O eterno propósito que Deus estabeleceu em Cristo

O propósito de Deus de estabelecer a sua palavra acima de todo o seu nome é eterno e imutável e foi levado a cabo quando Cristo ressurgiu dentre os mortos e tornou-se a cabeça da igreja, que é o seu corpo.

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