Jesus veio por água e sangue

Jesus ter vindo por ‘água’, decorre do fato de Ele ter sido gerado por Deus, de modo sobrenatural, ou seja, o ente Santo que foi concebido no ventre de Maria, formado pelo Espírito Santo, segundo o poder incompreensível (sombra) de Deus.


Jesus veio por água e sangue

“Este é aquele que veio por água e sangue, isto é, Jesus Cristo; não só por água, mas por água e por sangue. E o Espírito é o que testifica, porque o Espírito é a verdade.” (1 Jo 5:6)

 

Introdução

Da asserção ‘Este é aquele que veio por água e sangue’, depreende-se do texto que o apóstolo João fez referência ao Verbo de Deus que, na plenitude dos tempos, se fez carne e habitou entre os homens. (Lc 2:27-32; Jo 1:9-10; Hb 10:5; 1 Jo 1:1)

Mas, qual verdade o discípulo amado queria evidenciar, quando destacou o fato de Jesus não ter vindo somente por ‘água’, mas por ‘água’ e ‘sangue’? Que posicionamento doutrinário o apóstolo amado estava defendendo, ao rechaçar o ataque dos anticristos? O que representam as figuras ‘água’ e ‘sangue’, em conexão com a vinda de Jesus, em carne?

A abordagem do evangelista João tem por objetivo combater algumas heresias que surgiram no seio das primeiras comunidades cristãs, já no primeiro século. Devemos lembrar que as primeiras heresias que os apóstolos enfrentaram, foram introduzidas nas igrejas por judeus que se diziam convertidos ao cristianismo, pseudocrístãos, que exigiam que os novos  convertidos, dentre os gentios, se submetessem ao rito da circuncisão. (At 15:1-5).

Dentre os judaizantes, surgiram os ‘ebionitas’, grupo essencialmente farisaico, pois insistia em guardar a lei de Moisés, através de ritos como circuncisão, guarda do sábado e vegetarianismo. Esse grupo de judaizantes negava a divindade de Cristo e o seu nascimento virginal e que Jesus se distinguia dos outros homens, somente pela observância da lei.

Havia o segmento judaizante oriundo dos saduceus, que negava a ressurreição dos mortos, o que foi fortemente combatido pelo apóstolo Paulo. (1 Co 15:12)

“Porque os saduceus dizem que não há ressurreição, nem anjo, nem espírito; mas os fariseus reconhecem uma e outra coisa.” (At 23:8)

Surgiram, também, os elquesaítas, outro tipo de judaísmo que misturava especulações teosóficas e ascetismo. Eles rejeitavam o nascimento virginal de Cristo e alegavam que Jesus seria um mensageiro, profeta, espírito ou ser angelical, sem falar na prática da circuncisão e do sábado.

Por influencia de algumas filosofias, surgiram movimentos que desaguaram no gnosticismo e passaram a fazer distinção entre o Jesus humano e o Messias; que este seria um espírito, que se apossou daquele, no evento do batismo de João Batista e deixou o seu corpo antes da crucificação.

A filosofia gnóstica acredita que toda matéria é essencialmente má e somente o espiritual é bom, na essência. Dai a ideia de que o corpo físico é mal, o que contrasta com o espírito, o que levava tais ‘pseudos’ cristãos ao ascetismo, a fim de subjugarem o corpo, para ascensão espiritual.

Daí surgiu alguns questionamentos acerca da natureza do Cristo homem: Como Jesus poderia ser santo, se possuía um corpo constituído de matéria orgânica?

 

A ‘mensagem’ do evangelho versus o ‘espírito’ do anticristo

“TODO aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que o gerou, também ama ao que dele é nascido.” (1 Jo 5:1)

Antes de analisar a asserção joanina de que Jesus não veio somente por água, mas por água e sangue, se faz necessário entender o contexto que levou o apóstolo João a fazer tal declaração.

No primeiro verso do capítulo 4, da primeira epístola do apóstolo João, o apóstolo amado recomenda aos cristãos que provem os espíritos, pois, muitos falsos profetas haviam surgido no mundo.

“AMADOS, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo.” (1 Jo 4:1)

Como se ‘prova’ os espíritos? Que espíritos são esses, passiveis de serem julgados?

No versículo em análise, ‘espíritos’ referem-se a toda e qualquer mensagem, palavra, ensinamento, doutrina, etc. ‘Provar’ um ‘espírito’ é o mesmo que julgar uma mensagem, uma doutrina ou, um ensinamento, etc.

Da mesma forma que o paladar prova a comida, os ouvidos provam as palavras, de modo que, quando os cristãos ouvem uma mensagem, devem analisar se o que está sendo ensinado é de Deus ou, não. (Jó 12:11)

O motivo de se provar ‘os espíritos’ foi destacado: muitos falsos profetas haviam surgido no mundo. Para analisar se os espíritos são provenientes de Deus ou, não, o apóstolo João apresenta aos cristãos dois parâmetros objetivos:

  1. Nisto conhecereis o Espírito de Deus: Todo o espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus, e;
  2. E todo[1] o espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne não é de Deus; mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e eis que já está no mundo. (1 Jo 4:2-3).

Admitir (confessar) que Jesus é o Filho de Deus, e que Ele veio em carne, é o selo de autenticidade da mensagem (espírito) para o cristão saber se ela (mensagem) procede de Deus ou, não. Mas, se a mensagem do profeta (espírito) diz que Jesus não veio em carne, tal espírito é proveniente do anticristo.

A verificação da mensagem é objetiva, ou seja, o cristão deve provar se a mensagem (espírito) do preletor (profeta) está em conformidade com as Escrituras ou, não. Mensagens que neguem que Jesus é o Filho de Deus ou, que neguem que Ele veio em carne ou, que neguem que Ele ressuscitou ou, que neguem que Ele é Deus, etc., peremptoriamente devem ser rejeitadas: “Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre”. (Jo 7:38)

O espírito (mensagem) do anticristo, à época do apóstolo, possuía duas vertentes principais:

a) negava que Jesus era o Filho de Deus (1 Jo 2:22) e;

b) que Jesus veio em carne. (1 Jo 4:3 )

As negativas do espírito do anticristo nos fazem compreender o motivo pelo qual o evangelista João, já no início da carta, foi enfático, ao dizer que ‘viu’, ‘ouviu’ e ‘tocou’ em Jesus e, em seguida, fez a seguinte confissão: ‘… nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo’, ou seja, Jesus é o Filho de Deus.

“O QUE era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado e as nossas mãos tocaram, da Palavra da vida (Porque a vida foi manifestada e nós a vimos e testificamos dela e vos anunciamos a vida eterna, que estava com o Pai e nos foi manifestada); O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que, também, tenhais comunhão conosco; e a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo.(1 Jo 1:1-3)

Após expor a essência mentirosa da mensagem do anticristo, o evangelista João enfatiza que todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é gerado de Deus e todo aquele que obedece (ama) a Deus, também, obedece (ama) a Cristo: “TODO aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que o gerou, também, ama ao que dele é nascido.” (1 Jo 5:1; 1 Jo 2:22)

Uma pregação que anuncia que Jesus não veio em carne, não é de Deus, e o evangelista destaca que muitos anticristos haviam surgido no mundo, anunciando que Jesus não veio em carne (1 Jo 2:18). Os anticristos eram pessoas que tinham frequentado as comunidades cristãs primitivas, mas que se distanciaram da mensagem dos apóstolos e negavam a pessoa de Cristo. (1 Jo 2:22).

 

Conhecendo a Deus

Se uma pessoa não crê em Cristo, mas diz que ‘conhece[2]’ a Deus, tal declaração é mentirosa, pois só conhece a Deus quem guarda os seus mandamentos (1 Jo 1:3-5). Os anticristos diziam que ‘conheciam’ a Deus, mas, como não obedeciam ao mandamento de Deus, que é crer em Cristo, eram mentirosos. (1 Jo 2:4)

Quando afirmamos que é necessário crer em Cristo, ‘crer’ consiste em admitir, intelectualmente que:

  1. Jesus veio ao mundo em carne;
  2. nasceu na casa de Abraão e de Davi;
  3. foi gerado de Deus, no ventre de uma virgem;
  4. habitou as regiões da Galileia;
  5. foi morto por mãos de pecadores;
  6. ressurgiu ao terceiro dia e;
  7. está assentado à destra de Deus, tudo, conforme o previsto nas Escrituras. (Jo 7:38)

Observe que o apóstolo João fez uso da exortação do profeta Isaias, quando recomendou aos cristãos a não amarem somente de palavra e por língua (Mt 15:7-9). Os falsos cristãos diziam amar a Deus, porém, tal declaração era somente de palavra e de língua, visto que negavam a Deus, por não obedecerem ao mandamento de Deus, que é crer em Cristo.

“Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade.” (1 Jo 3:18; Is 29:13)

Ora, por certo que aqueles que saíram do meio dos cristãos diziam amar a Deus, pois, se assim não afirmassem, não havia motivo para o apóstolo João fazer esta colocação. O apóstolo destaca algumas implicações que decorrem da confissão: – ‘Eu amo a Deus’, pois se alguém ‘ama’ a Deus, também deve ‘amar’ a Cristo, pois se não ‘amar’ a Cristo, na verdade, não ama a Deus: “Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai. Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou.” (Jo 5:23) Compare: “… e todo aquele que ama ao que o gerou, também, ama ao que dele é nascido.” (1 Jo 5:1)

Como Cristo era o enviado de Deus, quem cresse em Cristo, na verdade, estava crendo em Deus, que O enviou.

“E Jesus clamou e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas, naquele que me enviou.” (Jo 12:44)

Antes de prosseguirmos, vale destacar que ‘amar a Deus’ é ‘cumprir o seu mandamento’ (1 Jo 5:3 ) e o mandamento de Deus é especifico: que os homens creiam em seu Filho Jesus Cristo. (1 Jo 3:23 ) Quem crê que Jesus é o Cristo, é gerado de Deus, pois amou a Deus. Amar a Deus consiste em obedecê-Lo, do mesmo modo que amar a Cristo é obedecê-Lo. O amor em comento não diz de um sentimento, mas de obediência, sujeição.

“Se me amais, guardais os meus mandamentos.” (Jo 14:15);

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele.” (Jo 14:21)

O apóstolo João demonstra que é sem valor algum, se dizer que crê em Deus, se não crê que Jesus é o Filho de Deus. Não crer em Cristo, é o mesmo que considerar Deus mentiroso, pois não crê no testemunho que Deus deu acerca do seu Filho ou, que Ele é o enviado de DEUS: “Quem crê no Filho de Deus, em si mesmo tem o testemunho; quem a Deus não crê, mentiroso o fez, porquanto, não creu no testemunho que Deus de seu Filho deu.” (1 Jo 5:10)

Jesus lembrou aos seus discípulos sobre crerem em Deus, mas, destaca que, também, era necessário crer n’Ele, pois, só crendo em Cristo é que o homem ‘obedece’ (ama) a Deus.

“NÃO se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim.” (Jo 14:1);

“E é por Cristo que temos tal confiança em Deus.” (2 Co 3:4)

Nesse sentido, o irmão Tiago censurou aqueles que diziam crer que havia somente um Deus, pois, é sem valor dizer que crê em um só Deus, se não obedece ao mandamento de Deus, que é crer em Cristo: “Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o creem e estremecem.” (Tg 2:19 )

É por intermédio da confiança em Cristo, como o enviado de Deus, que o homem, verdadeiramente, crê em Deus. Crer que Jesus é o Cristo e que Deus o ressuscitou dentre os mortos, efetivamente, é crer em Deus, pois as Escrituras são o testemunho que Deus deu, acerca do seu Filho: “E por ele credes em Deus, que o ressuscitou dentre os mortos e lhe deu glória, para que a vossa fé e esperança estivessem em Deus.” (1 Pe 1:21)

Seguindo o raciocínio do evangelista João, qualquer que diz ‘conhecer’ a Deus, mas não guarda o que Ele determinou, é mentiroso. E como se conhece a Deus? Crendo em Cristo, pois este é o mandamento de Deus: “Aquele que diz: Eu o conheço, mas, não guarda os seus mandamentos, é mentiroso e nele não está a verdade.” (1 Jo 2:4); “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento. E aquele que guarda os seus mandamentos, nele está e ele, nele. E nisto conhecemos que ele está em nós, pelo Espírito que nos tem dado.” (1 Jo 3:23-24)

 

Os nascidos de Deus

“Porque, todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé.” (1 Jo 5:4)

O evangelista João demonstra que, qualquer pessoa (judeu ou grego) que crê que Jesus é o Cristo, é nascida de Deus (1 Jo 5:1), portanto, essa pessoa, por crer em Cristo, venceu o mundo, isso porque recebeu poder de ser feito filho de Deus. (Rm 8:37) Por que essa pessoa venceu o mundo? Porque os filhos de Deus são participantes da natureza divina e escaparam da corrupção que há no mundo: “Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que, por elas, fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que, pela concupiscência, há no mundo.” (2 Pe 1:4)

Em Cristo, o crente é mais que vencedor, pois, é uma nova criatura, gerada segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade. (Ef 4:24) A vitória do crente resume-se em ser uma nova criatura, pois, em Cristo, o homem vence o mundo. (Gl 3:23; Jo 16:33; 1 Jo 4:4; 2 Pe 2:20)

Por estar em Cristo, o crente é uma nova criatura, pois, morreu e ressurgiu com Cristo. Sobre o crente não pesa nenhuma condenação, pois, as coisas velhas passaram e tudo se fez novo. (2 Co 5:17).

O crente escapou da corrupção que há no mundo, ou seja, foi liberto do pecado e do engano, que mantém os homens entenebrecidos no entendimento: “Porquanto, se, depois de terem escapado das corrupções do mundo, pelo conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, forem outra vez envolvidos nelas e vencidos, tornou-se-lhes o último estado pior do que o primeiro.” (2 Pe 2:20; Ef 4:18)

Após crer que Jesus é o Filho de Deus (1 Jo 5:5), o homem é participante da natureza divina, portanto, escapou da corrupção, decorrente da ofensa de Adão, pela qual os homens foram feitos pecadores: “Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre.” (1 Pe 1:23; 2 Pe 1:4; 1 Co 15:50; Rm 8:17; 1 Jo 4:3) Se o homem abandona a Palavra de Cristo, renega a sua fé e volta ao status quo anterior, porque não perseverou, uma vez que a perseverança é a obra perfeita da fé!

 

Aquele que veio por água e sangue

Após demonstrar que, por intermédio do evangelho, os cristãos são filhos de Deus e venceram o mundo (1 Jo 5:1-4), o apóstolo, novamente, enfatiza a vitória dos que creem em Cristo, e aproveita para afirmar, novamente, que Jesus é o Filho de Deus, através da seguinte pergunta:

“Quem é que vence o mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?” (1 Jo 5:5)

É, em função da essência do evangelho, de que Jesus Cristo é o Filho de Deus, que o apóstolo João enfatiza que Cristo Jesus veio por ‘água’ e ‘sangue’, o que para ele era prova suficientemente contundente para demonstrar que: a) Jesus é o Filho de Deus e; b) veio ao mundo, em carne.

“Este é aquele que veio por água e sangue, isto é, Jesus Cristo; não só por água, mas por água e por sangue. E o Espírito é o que testifica, porque o Espírito é a verdade.” (1 Jo 5:6)

Na asserção ‘Jesus veio em carne’, o termo ‘carne’ foi utilizado pelo apóstolo João para destacar a humanidade de Cristo, conforme o escritor aos Hebreus aponta:

“E, visto como os filhos participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas, para que, pela morte, aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo.” (Hb 2:14)

O fato de Jesus Cristo ter tido um corpo constituído de material orgânico (carne, sangue e ossos), como todos os outros homens que vem ao mundo, demonstra que Ele, em tudo foi semelhante aos homens: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.” (Jo 1:14)

O fato de Jesus ter vindo em carne, é de total relevância para o evangelho, tanto que o apóstolo João dá testemunho de que os seus olhos contemplaram e que ele pode tocar o Cristo (inclusive reclinou em seu peito). (Jo 13:23):

“O QUE era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida.” (1 Jo 1:1); “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.” (Jo 1:14)

Por qual motivo João enfatiza o fato de Jesus ter vindo por água e sangue e porque destaca que ele não veio somente por água, mas por água e sangue?

 

Água e Espírito

“Jesus respondeu e disse-lhe: Na verdade, na verdade, te digo que, aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.” (Jo 3:3)

No diálogo entre Jesus e Nicodemos, é evidenciado que o reino dos céus está vetado a qualquer homem que não nascer de novo. (Jo 3:3)

Nicodemos não entendeu a exposição de Jesus e quis saber como poderia um homem, sendo velho, nascer de novo:

‘Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, tornar a entrar no ventre de sua mãe e nascer?’ (Jo 3:4)

Foi, quando Jesus apresentou a essência do novo nascimento, evento que Nicodemos – na condição de mestre, em Israel – deveria conhecer: – “Na verdade, na verdade te digo que, aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus.” (Jo 3:5 e 9 a 10)

Nicodemos não podia entrar no reino dos céus porque não tinha nascido da água e do Espírito. Ele era nascido da carne e do sangue, portanto, descendente da semente corruptível de Adão. Sobre Nicodemos pesava uma condenação decorrente da ofensa de Adão e como os demais homens, que não conhecem a Cristo, estava alienado da glória de Deus. (Rm3:23)

Ora, a condenação do pecado está vinculada ao nascimento natural, ou seja, ao nascimento segundo a vontade do varão, vontade da carne e do sangue (Jo 1:13). É por isso que o apóstolo João demonstra que, aquele que crê em Cristo, é gerado de Deus e venceu o mundo, ou seja, não está mais sujeito à condenação que pesa sobre os descendentes da carne e do sangue de Adão, por haver nascido de novo, por intermédio do evangelho.

O apóstolo Pedro demonstra que o crente tem direito a uma herança incorruptível e incontaminável, após ser de novo gerado, ou seja, está livre da condenação e adquiriu o direito a herdar o reino de Deus:

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo, para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, Para uma herança incorruptível, incontaminável e que não se pode murchar, guardada nos céus para vós.” (1 Pe 1:3-4);

“De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós, também, em novidade de vida.” (Rm 6:4);

“Mas, agora temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito e não na velhice da letra.” (Rm 7:6)

Para nascer da água e do Espírito, basta crer que Jesus é o Cristo, conforme explica o apóstolo João:

“TODO aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus.” (1 Jo 4:1);

“… qualquer que ama, é nascido de Deus e conhece a Deus.” (1 Jo 4:7)

Qualquer pessoa que recebe o Filho de Deus como Senhor, ou seja, que crê em Jesus, recebe poder para ser feito filho de Deus. Ora, nascer de Deus, não ocorre por meio da vontade da carne, nem da vontade do varão e nem do sangue, mas, sim pela vontade de Deus. “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.” (Jo 1:12-13)

O evangelista João teve de explicar, detalhadamente, como o homem é feito filho de Deus, porque os seus concidadãos (judeus) entendiam, equivocadamente, que eram filhos de Deus, por serem descendentes da carne e do sangue de Abraão. Os judeus entendiam que bastavam ter o sangue e a carne de Abraão, que já tinham direito à salvação: “E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão.” (Mt 3:9)

Aquele que crê em Cristo é crucificado com Cristo, morre e é sepultado com Ele (Rm 6:4), ou seja, é ‘batizado’ na morte de Cristo (Rm 6:3), de sorte que o crente ressurge com Cristo uma nova criatura. É pela ressurreição de Cristo, dentre os mortos, que o crente é de novo gerado, da água e do Espírito: “Sepultados com ele no batismo, nele, também, ressuscitastes, pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos.” (Cl 2:12)

O apóstolo Pedro, ao falar do novo nascimento, aponta para o lavar regenerador da Palavra:

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo, dentre os mortos (…) Purificando as vossas almas, pelo Espírito, na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingido; amai-vos, ardentemente, uns aos outros, com um coração puro; Sendo, de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva e que permanece para sempre,” (1 Pe 1:3 e 22 a 23);

“Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade.” (Jo 17:17);

“Esta é, pois, a parábola: A semente é a palavra de Deus.” (Lc 8:11 );

“Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado.” (Jo 15:3.

Cada indivíduo, em particular, que crê em Cristo, é purificado, limpo pela palavra da verdade, que é viva e eficaz, ou seja, ao crer em Cristo, ocorre a lavagem pela água (palavra): “Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra.(Ef 5:26); “Cheguemo-nos com verdadeiro coração, em inteira certeza de fé, tendo os corações purificados da má consciência e o corpo lavado com água limpa.” (Hb 10:22; Hb 4:2)

O novo nascimento foi previsto pelo profeta Ezequiel, nos seguintes termos:

“Então aspergirei água pura sobre vós e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos, vos purificarei. E dar-vos-ei um coração novo e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra e vos darei um coração de carne.” ( Ez 36:25-26)

Qual o significado de ‘água’ e ‘Espírito’ em João 3, verso 5?

A ‘água’ é a palavra de Deus, o mesmo que a semente, que concede a natureza divina aos que creem: “Qualquer que é nascido de Deus não comete pecado; porque a sua semente permanece nele; e não pode pecar, porque é nascido de Deus.” (1 Jo 3:9); “Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou pela sua glória e virtude; Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que, por elas, fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo.” (2 Pe 1:3-4)

“Espírito” diz do próprio Deus que, por meio da sua palavra, concede vida ao homem. É por isso que o Espírito diz: “Então aspergirei água pura sobre vós…” ( Ez 36:25).O Espírito é o Deus eterno que cria (bara), por intermédio da sua palavra, concedendo, ao homem que crê, um novo coração e um novo espírito, ou seja, o Espírito promove o novo nascimento, por intermédio da Sua palavra. (Sl 51:10)

Uma lição que todos os homens precisam aprender é que o homem viverá da palavra de Deus e não só de pão. Se Deus alerta que o homem ‘viverá’, é porque está morto, diante de Deus, por causa da ofensa de Adão, e só por intermédio da Sua palavra terá vida. “E te humilhou e te deixou ter fome e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem.(Dt 8:3)

 

Carne e sangue

“E agora digo isto, irmãos: que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção.” (1 Co 15:50)

Há um paralelo entre a fala de Jesus e a abordagem paulina, nos seguintes versos:

“Jesus respondeu e disse-lhe: Na verdade, na verdade, te digo que, aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.(Jo 3:3)

“E agora digo isto, irmãos: que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção.” (1 Co 15:50)

Nicodemos era judeu, juiz, mestre e fariseu, portanto, alguém que entendia que era digno do reino dos céus, por ser descendente da carne e do sangue de Abraão.  O discurso: – ‘Temos por pai a Abraão’; –‘Nosso pai é Abraão’; – ‘Temos um pai, que é Deus’, não foi aceito por Cristo, portanto, Nicodemos precisava nascer de novo, para se tornar filho de Deus: “Responderam e disseram-lhe: Nosso pai é Abraão. Jesus disse-lhes: Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão.” (Jo 8:39); “Vós fazeis as obras de vosso pai. Disseram-lhe, pois: Nós não somos nascidos de prostituição; temos um Pai, que é Deus.” (Jo 8:41)

Gerados pela carne e pelo sangue, não podem herdar o reino de Deus, mas, tão somente os gerados da água e do Espírito, os que nasceram de novo.

Os judeus leram nas Escrituras a promessa que Deus fez a Abraão, de que em Abraão seriam benditas todas as famílias da terra, mas os descendentes de Abraão se equivocaram, em não observar que, em Isaque, a descendência de Abraão, ainda, seria chamada e não que eles eram essa descendência.

A descendência que seria chamada não falava dos israelitas (muitos), mas, de Cristo (uma só):

“Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo.” (Gl 3:16);

Nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência.” (Rm 9:7)

Se a descendência de Abraão seria chamada em Isaque e não em Abraão, segue-se que a filiação de Abraão é pela promessa e não por ‘carne’ e ‘sangue’. Cristo Jesus é o descendente prometido a Abraão, em quem todas as famílias da terra são benditas, o que demonstra que ‘carne’ e ‘sangue’ não possuem valor algum para dar direito à promessa.

“Porque todos sois filhos de Deus, pela fé, em Cristo Jesus. Porque todos quantos fostes batizados em Cristo, já vos revestistes de Cristo. Nisto, não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque, todos vós sois um em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão e herdeiros, conforme a promessa.” (Gl 3:26-29).

O apóstolo Paulo afirmou, aos irmãos de Corinto, durante uma explanação, acerca da ressurreição dos mortos, que ‘carne’ e ‘sangue’ não podem herdar o reino dos céus. A explicação paulina se fez necessária, porque algumas pessoas passaram a apregoar aos cristãos que os mortos não ressuscitavam (1 Co 15:12) e o apóstolo combateu, veementemente, essa doutrina, através de vários argumentos. (1 Co 15:13-20)

Durante a defesa desse aspecto importante do evangelho, o apóstolo fez um paralelo entre Adão e Cristo, demonstrando que: a) por Adão veio a morte (condenação) e todos os seus descendentes morreram, porém; b) por Cristo Jesus veio a ressurreição dos mortos e todos são vivificados n’Ele. (1 Co 15:21-22)

O alerta do apóstolo era para que os cristãos não se enganassem, portanto, deveriam ficar atentos para o fato de que as más conversações corrompem a doutrina do evangelho. Ele apela aos cristãos de Corinto que voltassem à sobriedade, ou seja, a ‘sobriedade’ é figura que contrapõe outra figura, o ‘vinho da contenda’, ou seja, a doutrina dos judaizantes. (1 Co 15:33)

Após defender a doutrina da ressurreição dos mortos, o apóstolo se antecipa e formula algumas perguntas que os contradizentes, possivelmente, fariam para contrapor à exposição do apóstolo dos gentios. Dai a pergunta: – “Como ressurgirão os mortos? E com que corpo virão?” (1 Co 15:35)

A resposta do apóstolo visava um grupo específico de pessoas: os judaizantes. O ensinamento do apóstolo visava desfazer um entendimento equivocado, pois é salutar à Igreja de Cristo, que é formada de indivíduos, provenientes de todos os povos, em todas as épocas, que compreendam que os mortos hão de ressuscitar.

A resposta do apóstolo Paulo foi dada para contrapor ao ensinamento dos ‘loucos’, ou seja, dos judeus ‘insensatos’, que, nesse quesito doutrinário, diziam, especificamente, dos saduceus: “Porque os saduceus dizem que não há ressurreição, nem anjo, nem espírito; mas os fariseus reconhecem uma e outra coisa.” (At 23:8)

Após explicar como há de ser os corpos dos que ressurgirem dentre os mortos, o apóstolo faz um paralelo entre Jesus e Adão, demonstrando que:

  1. Jesus é o último Adão, espírito vivificante;
  2. Adão, o primeiro homem, criado alma vivente. (1 Co 15:45)

Aproveitando o que estava explicando que, como Adão, assim, eram os seus descendentes terrenos e como Cristo, também, há de ser os celestiais (da mesma forma que todos herdaram a imagem de Adão, os que creem herdarão a imagem de Cristo) (1 Co 15:48-49), o apóstolo Paulo esclarece que ‘carne’ e ‘sangue’ não podem herdar o reino dos céus, nem a corrupção herdar a incorrupção. (1 Co 15:50)

Quando o apóstolo diz que ‘carne’ e ‘sangue’ não podem herdar o reino dos céus, ele está enfatizando que tais elementos não dão direito aos homens (quem quer que seja, judeu ou gentio) de entrar no reino dos céus. Ser descendente da carne e do sangue de Abraão, ou de qualquer outra personalidade, não dá direito ao reino dos céus.

Devemos considerar que, apesar de estar escrevendo a uma igreja, que ficava em uma cidade gentílica – Corinto – na igreja de corinto havia judeus e gentios. O conhecimento transmitido era para toda a igreja, pois deveriam compreender que, na ressurreição o corpo mortal será transformado em um corpo glorioso.

Isso significa que o corpo constituído de matéria orgânica não pode herdar o reino dos céus, sem, antes, ser revestido de imortalidade e incorruptibilidade. Nos céus não entrarão judeus, gregos, romanos, bárbaros, servos, livres, homens, mulheres, etc. Só tem direito à salvação os gerados de novo pela fé em Cristo Jesus (Gl 3:26-29), portanto, se algum cristão na igreja de corinto se gloriava (jactância) de ser descendente da carne e do sangue de Abraão, diante desta exposição paulina deveria compreender que carne e sangue não dão direito a entrar nos céus.

Além do mais, a corrupção não herda a incorrupção, de modo que, mesmo um crente em Cristo, descendente da carne de Abraão, para entrar nos céus, tal corpo deverá ser transformado. A corrupção que o apóstolo Paulo faz referência, diz da existência fugaz dos homens gerados da semente corruptível de Adão, o que contrapõe à condição daqueles que permanecem para sempre. (1 Jo 2:17; 1 Pe 1:23-25).

Pela ofensa de Adão entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte. Como a morte é penalidade imposta a todos os descendentes de Adão e é isso que os tornam escravos do pecado, por isso é dito que todos os homens pecaram. (Rm 5:12)

O termo ‘pecado’, no verso acima, não tem conteúdo de ordem moral. O termo deve ser compreendido, segundo a linguagem do camponês, quando vê um fruto impróprio para o consumo e diz: – ‘O fruto pecou’. Ora, isso não significa que o fruto fez alguma coisa inconveniente ou, moralmente, reprovável, antes, que ele é impróprio para o consumo.

De igual modo, é dito que todos pecaram, porque ficaram impróprios para o propósito de Deus, em manifestar a sua glória nos homens, quando a morte passou a todos os homens, por causa da ofensa de Adão.

O corpo gerado a partir da semente corruptível de Adão é sujeito ao pecado, portanto para entrar no reino dos céus, precisa morrer para o que estava retido e nascer de novo: “Mas, agora, temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito e não na velhice da letra.” (Rm 7:6)

Após crer em Cristo, para ser gerado de novo, o crente serve a Deus, segundo o evangelho (novidade de espírito), diferente daqueles que, por estarem entenebrecidos no entendimento, procuram servir a Deus na velhice da letra: “O qual nos fez, também, capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica.” (2 Co 3:6)

Os judeus serviam a Deus sem entendimento, ou seja, na velhice da letra. (Rm 10:2) E como serviam? Gloriavam-se na ‘carne’ e no ‘sangue’ de Abraão e não consideraram que as Escrituras protestavam contra eles, dizendo:

“Porque Toda a carne é como a erva e toda a glória do homem como a flor da erva. Secou-se a erva, e caiu a sua flor” (1 Pe 1:24)

Se toda carne é como a flor da erva, não se excetua a carne dos judeus, daí o alerta de Jeremias:

“Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, que faz da carne o seu braço e aparta o seu coração do SENHOR!” (Jr 17:5)

É nesse sentido que o apóstolo Paulo escreveu dizendo:

“E Deus escolheu as coisas vis deste mundo, as desprezíveis e as que não são, para aniquilar as que são; Para que nenhuma carne se glorie perante ele. Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, justiça,  santificação e redenção; Para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor.” (1 Co 1:28-31)

Os judeus se gloriavam no fato de serem descendentes da carne de Abraão e por serem circuncidados, conforme o rito da lei mosaica, porém, a verdadeira circuncisão pertence aos cristãos, que circuncidaram o coração, ao morrerem com Cristo: “Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus, em espírito, e nos gloriamos em Jesus Cristo e não confiamos na carne.” (Fl 3:3); “Pois que muitos se gloriam segundo a carne, eu também me gloriarei.” (2 Co 11:18); “Aquele, porém, que se gloria, glorie-se no SENHOR.” (2 Co 10:17); “Porque, nem ainda esses mesmos que se circuncidam guardam a lei, mas querem que vos circuncideis, para se gloriarem na vossa carne.” (Gl 6:13)

Após nascer de novo, o crente tem direito ao reino dos céus, conforme a promessa, mas só entrará no reino, quando for transformado, de modo que, o que é mortal e corruptível, seja revestido da imortalidade e da incorruptibilidade: “Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva e que permanece para sempre.” (1 Pe 1:23)

Agora, analisando sistemicamente, o Novo Testamento, os termos ‘carne’ e ‘sangue’ possuem vários significados, conforme o contexto em que são empregados.

‘Carne’ e ‘sangue’ podem fazer referência:

  1. à natureza pecaminosa herdada de Adão;
  2. aos descendentes de Adão;
  3. à natureza humana;
  4. ao vínculo familiar;
  5. à nacionalidade (judeu e gentio);
  6. ao corpo constituído de matéria orgânica, etc.

Demanda ao leitor, muita atenção, ao se deparar com os termos ‘carne’ e ‘sangue’, pois, podem ser utilizados para fazer referência ao nascimento natural, como lemos:

“Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.” (Jo 1:13)

O nascimento natural decorre da vontade do varão, da vontade da carne e do ‘sangue’, já o novo nascimento decorre da ‘água’ e do ‘Espírito’. Primeiro, é o nascimento, segundo a ‘carne’ e o ‘sangue’, depois, o nascimento, segundo a ‘água’ e o ‘Espírito’, por isso é dito que o nascimento, segundo o último Adão, é um ‘novo’ nascimento: “Mas não é primeiro o espiritual, senão o natural; depois, o espiritual.” (1 Co 15:46).

“Carne” e “sangue” referem-se à geração natural, ou seja, ao nascimento, segundo Adão, daí a máxima: ‘o que é nascido da carne, é carne’, portanto, terreno e herda a corrupção, proveniente da ofensa de Adão. (Jo 3:6; 1 Co 15:47). Essencialmente, “carne” e “sangue” são elementos que vinculam os homens ao primeiro pai, Adão.

Agora, quando lemos que o apóstolo Paulo não consultou ‘carne’ e ‘sangue’, quando saiu a evangelizar os gentios, os termos são empregados no sentido de ‘concidadãos’, o que remete ao vínculo familiar, nacionalidade ou, etnia: “Revelar seu Filho em mim, para que o pregasse entre os gentios, não consultei a carne, nem o sangue.(Gl 1:16)

Quando é dito que os cristãos não têm que lutar contra ‘carne’ e ‘sangue’, o apóstolo demonstra que os cristãos não lutam contra os homens (carne) e nem contra determinada etnia (sangue), quer sejam eles judeus, gregos, romanos ou, bárbaros. “Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais.” (Ef 6:12)

O escritor aos Hebreus enfatizou que Jesus participou da ‘carne’ e do ‘sangue’ para que, pela morte, aniquilasse o diabo. Por causa da paixão da morte, quando se fez ‘carne’, em tudo Cristo se fez semelhante aos homens: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós…” (Jo 1:14)

Quando é dito que Jesus participou da ‘carne’ e do ‘sangue’, significa que Ele teve um corpo de matéria orgânica, assim, como todos os homens, porém, sem vinculo com o pecado, por não ter entrado no mundo por Adão, mas, por Deus. (Sl 22:10)

A ênfase da abordagem do escritor aos Hebreus é a natureza humana, da qual Cristo foi participante e, por participar das mesmas coisas que todos os homens, foi possível a Cristo provar a morte por todos: “Vemos, porém, coroado de glória e de honra, aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos (…) E, visto como os filhos participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas, para que, pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo.” (Hb 2:9 e 14)

Agora, no paralelo que o apóstolo Paulo construiu entre Adão e Cristo, apresentando ambos como cabeças de gerações (primeiro e último Adão, respectivamente), há algumas questões que envolvem os termos ‘carne’ e ‘sangue’: Adão foi criado alma vivente e Cristo, o último Adão, foi feito espírito que dá vida: “Assim está, também, escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão, em espírito vivificante.” (1 Co 15:45).

Quando os homens vêm ao mundo, são participantes da carne e do sangue de Adão, de modo que possuem a mesma imagem do homem terreno e a mesma natureza. Por compartilhar a mesma natureza de Adão, os descendentes da carne e do sangue estão sujeito à morte, mesma condenação que pesou sobre Adão.

Para nascerem de novo, é necessário aos homens nascidos segundo a carne e o sangue de Adão, participarem da ‘carne’ e do ‘sangue’ de Cristo. Como? Comendo e bebendo, pois a carne de Cristo, verdadeiramente, é comida e o sangue de Cristo, verdadeiramente, é bebida.

“Jesus, pois, lhes disse: Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne, verdadeiramente, é comida e o meu sangue, verdadeiramente, é bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu, nele. Assim, como o Pai, que vive, me enviou e eu vivo pelo Pai, assim, quem de mim se alimenta, também viverá por mim.” (Jo 6:53-57)

Enquanto o homem gerado segundo a semente de Adão é participante da corrupção, decorrente da condenação, pela ofensa, o homem participante da carne e do sangue de Cristo, é participante da bem-aventurança, pelo dom gratuito de Deus. (Rm 5:15-19)

O apóstolo Paulo demonstra que a filiação de Abraão se adquire pela fé em Cristo, ou seja, só é filho de Deus aquele que se alimenta da carne e do sangue de Cristo. Somente, através da carne e do sangue de Cristo, que o homem alcança a natureza divina, escapa da corrupção que há no mundo e é herdeiro de Deus: “Porque todos sois filhos de Deus, pela fé em Cristo Jesus. Porque todos quantos fostes batizados em Cristo, já vos revestistes de Cristo. Nisto não há judeu, nem grego; não há servo, nem livre; não há macho, nem fêmea; porque todos vós sois um, em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, então, sois descendência de Abraão e herdeiros conforme a promessa.” (Gl 3:26-29).

 

Água e sangue

A asserção contida no capítulo 5, da primeira epístola de João, de que Jesus Cristo ‘veio por água e sangue’, tem por objetivo combater os seguintes erros doutrinários, que haviam surgido nas comunidades cristãs:

a) De que Jesus não era o Messias, o Filho de Deus, e;

b) De que Jesus não veio em carne.

Daí a assertiva joanina:

“Quem é que vence o mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?” (1 Jo 5:5);

“E todo o espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne, não é de Deus; mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes, que há de vir e eis que já está no mundo.” (1 Jo 4:3)

Negar o fato de que Jesus é o Ungido de Deus e que Ele veio em carne, são posicionamentos doutrinários contrários às Escrituras e, para prevenir os cristãos do engano dos falsos mestres, o evangelista João enfatizou que Jesus veio por ‘água’ e ‘sangue’.

Pela relevância que o tema possui, o discípulo amado destaca que Jesus Cristo não veio somente por ‘água’, mas que Ele veio por ‘água’ e ‘sangue’, como evidência inequívoca de que Jesus é o Filho Bendito de Deus.

Ao identificar algumas falsas doutrinas que surgiram nas comunidades cristãs, acerca da pessoa de Jesus, depreende-se do texto da sua primeira epístola que o evangelista combateu tais erros, ao enfatizar que Jesus ‘veio’, tanto por ‘água’, quanto por ‘sangue’.

Além de afirmar que Jesus veio por ‘água’ e ‘sangue’, o apóstolo destaca que Jesus não veio somente por ‘água’, mas por ‘água’ e por ‘sangue’, demonstrando que é de suma importância para a compreensão do evangelho, entender o fato de que Jesus, também, veio por ‘sangue’.

Quando se compreende que tudo o que o apóstolo João escreveu, na sua primeira epístola e no seu evangelho, teve o condão de demonstrar que Jesus Cristo é o Filho de Deus, os elementos para compreender o motivo pelo qual Jesus veio, não somente por água, mas por água e por sangue, tornam-se evidentes: a defesa do evangelho.

“Estas coisas vos escrevi a vós, os que credes no nome do Filho de Deus, para que saibais que tendes a vida eterna e para que creiais no nome do Filho de Deus.” (1 Jo 5:13; Jo 20:31)

Demonstrar que Jesus é o Cristo, era um cuidado constante do apóstolo João, tanto que, no início do seu evangelho, ele enfatiza que o Verbo se fez carne e que Ele pode ver a glória do Unigênito Filho de Deus: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.” (Jo 1:14)

A defesa constante dessa verdade, era em função da oposição do espírito do anticristo, ou seja, da doutrina divulgada pelos falsos profetas, de que Jesus não era o Filho de Deus e de que Ele não veio em carne.

Como a análise desse texto centra-se na primeira Epístola do evangelista João, percebe-se que ele é enfático, ao evidenciar que, todo aquele que crê que Jesus é o Cristo, é gerado (filho) de Deus e complementa, confessando que Jesus veio por ‘água’ e por ‘sangue’.

Jesus ter vindo por ‘água’ e por ‘sangue’, é apresentado como prova contundente de que Cristo é o Filho de Deus e a ênfase no ‘sangue’, quando o apóstolo diz que Cristo não veio somente por ‘água’, mas por ‘água’ e por ‘sangue’, é prova de que Jesus também veio em carne.

“Este é aquele que veio por água e por sangue, isto é, Jesus Cristo; não só por água, mas por água e por sangue. E o Espírito é o que testifica, porque o Espírito é a verdade.” (1 Jo 5:6)

O apóstolo João faz uma defesa da verdade do evangelho, estampando provas, de modo a preservar a mesma mensagem anunciada pelo apóstolo Paulo, no início da sua epístola aos cristãos de Roma:

“Acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi, segundo a carne, declarado Filho de Deus, em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor.” (Rm 1:3-4)

Cristo é apresentado pelo evangelista João como ‘aquele’ que ‘veio’ por ‘água’ e por ‘sangue’. Quando é dito que Jesus ‘veio’, o verbo grego ‘ἐλθὼν’ no aoristo foi o modo que o apóstolo utilizou para descrever a encarnação do Verbo eterno. O evento sobrenatural, em que o Verbo eterno, despido de sua glória, se fez carne e passou a habitar entre os homens, foi resumido no verbo ‘vir’. (Jo 1:4; Fl 2:7)

Devemos ter em mente que Cristo Jesus, que nasceu de uma virgem, lá em Belém da Judeia, há pelo menos dois mil anos, é uma das pessoas da divindade, portanto, o Criador de todas as coisas: “No princípio era o Verbo, o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele e sem ele, nada do que foi feito se fez.” (Jo 1:1-3; Hb 1:8 e 10)

Jesus ter vindo por ‘água’, decorre do fato de Ele ter sido gerado por Deus, de modo sobrenatural, ou seja, o ente Santo que foi concebido no ventre de Maria, formado pelo Espírito Santo, segundo o poder incompreensível (sombra) de Deus.

“E, respondendo o anjo, disse-lhe: Descerá sobre ti o Espírito Santo e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso, também, o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus.” (Lc 1:35)

A concepção de Cristo se deu através da operação divina, segundo a sua própria vontade e poder, em cumprimento ao predito nas Escrituras:

“Mas tu és o que me tiraste do ventre; fizeste-me confiar, estando aos seios de minha mãe. Sobre ti fui lançado, desde a madre; tu és o meu Deus, desde o ventre de minha mãe.” (Sl 22:9-10; Sl 71:6; Sl 139:13)

Quando o anjo explicou para Maria que ela estava grávida e que o menino que haveria de nascer teria o nome Jesus (Lc 1:31), foi dito que ela conceberia e daria à luz um filho. A narrativa do médico Lucas, demonstra que Jesus, efetivamente seria filho de Maria, pois ela haveria de conceber e dar à luz um filho.

Essa narrativa é conforme a exposição das linhagens que constam nas Escrituras, sendo certo que o homem gera filhos e a mulher concebe e dá a luz. Nunca é dito nas genealogias que uma mulher gera filhos, antes, é próprio de uma mulher conceber e dar à luz, como se lê:

“E CONHECEU Adão a Eva, sua mulher e ela concebeu e deu à luz a Caim e disse: Alcancei do SENHOR um homem.” (Gn 4:1);

“E Adão viveu cento e trinta anos e gerou um filho, à sua semelhança, conforme a sua imagem e pôs-lhe o nome de Sete. E foram os dias de Adão, depois que gerou a Sete, oitocentos anos e gerou filhos e filhas.” (Gn 5:3-4)

Maria ficou surpresa com a notícia e, ao questionar o anjo, foi dito a ela:

“Descerá sobre ti o Espírito Santo e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso, também, o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus.” (Lc 1:35)

Por ação sobrenatural do Espírito, Maria esteve envolta em um mistério (sombra), segundo o poder de Deus, de modo que o Santo que haveria de nascer, através de Maria, seria chamado de “o Filho de Deus”.

No início da proclamação do evangelho por Cristo, as pessoas eram céticas quanto ao senhorio de Cristo, tanto que o reconheceram somente como profeta (Mt 16:14). Só vemos uma crença firme, com relação à pessoa de Cristo, quando o apóstolo Pedro confessou que Jesus era o Filho de Deus: “E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.” (Mt 16:16)

A confissão do apóstolo Pedro não se deu por um conhecimento transmitido de pai para filho (carne e sangue), ou seja, o fato de Pedro ser descendente da carne e do sangue de Abraão, não lhe conferiu tal conhecimento, antes, tal conhecimento se deu pela revelação do Pai, através do evangelho anunciado por Cristo. (Mt 16:17)

Devemos ter em mente que muitos cristãos da igreja primitiva não conseguiam ver (entender) que, aquele Jesus com um corpo de matéria (carne e sangue) e que esteve sujeito à paixão da morte, na verdade, é sublime e glorioso e todas as coisas estão sujeitas a Ele. (Hb 2:8) Muitos, ainda, tinham em mente o Cristo, segundo a carne e se focavam na aparência dele. (2 Co 5:12)

“Assim que, daqui por diante, a ninguém conhecemos, segundo a carne e, ainda, que também, tenhamos conhecido a Cristo, segundo a carne, contudo agora já não o conhecemos desse modo. (2 Co 5:16)

Vários desvios doutrinários surgiam quando se dava ênfase demasiada a algum aspecto da vida do Senhor Jesus, e até mesmo com relação aos demais irmãos, de modo que o apóstolo Paulo teve que alertá-los que, após estar em Cristo (ser uma nova criatura), nenhum dos irmãos seriam conhecidos, segundo as questões da carne, como tribo, circuncisão, nação, ritos, etc.

Jesus era o Cristo, não porque foi circuncidado ao oitavo dia, apresentado ao sacerdote, oriundo da tribo de Judá, hebreu de uma hebreia, etc. (Fl 3:4-6) Na verdade, todas essas questões, somente serviam para que os homens pudessem identificar quem era o Cristo, enquanto esteve entre os homens.

Os apóstolos Mateus, Marcos e Lucas, ao abordarem a questão da deidade de Cristo, o fazem de forma velada, até porque, não queriam evocar, de pronto, a rejeição dos seus concidadãos, quando lessem os evangelhos. O apóstolo João, por sua vez, aborda a questão, abertamente, até porque, não tinha por objetivo convencer os judeus, mas, sim, instruir a igreja de Deus.

Diferentemente de Mateus e Lucas, que iniciam o relato da vida e do ministério de Cristo, apresentando sua genealogia ou, de Mateus e Marcos, que fazem referência aos Profetas e aos Salmos, o evangelista João é direto, quando aponta a deidade de Cristo:

“No princípio era o Verbo, o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus.” (Jo 1:1-2)

Por que essa diferença? A diferença decorre da estratégia utilizada para alcançar o leitor, pois o evangelho de João foi escrito por volta de 90 a 100 d.C., quando a igreja já havia florescido no mundo e começaram a surgir às heresias e os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas são datados de 60 a 100 d. C., quando ainda se anunciava a vinda, morte e ressurreição do Messias. Esses evangelhos tinham por objetivo anunciar a vida e o ministério de Cristo e aquele apresentar, apologeticamente, quem era o Cristo – o Filho de Deus.

Quando o apóstolo João diz que Jesus veio por ‘água’, ele está enfatizando que o Verbo eterno se fez carne, segundo as Escrituras, única e exclusivamente, pela virtude (poder) do Pai. Jesus veio ao mundo, segundo a palavra de Deus e pelo poder de Deus, ou seja, ao despir-se da sua glória e poder, Cristo foi introduzido no mundo como homem.

A partir do momento em que o Verbo eterno despiu-se da sua glória e passou a habitar um tabernáculo terrestre, durante o tempo que se chama HOJE, o Verbo deixou de sustentar todas as coisas pelo seu poder e passou a existir na dependência do Pai, assim, como todos os demais seres: “Proclamarei o decreto: o SENHOR me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei.” (Sl 2:7); “AQUELE que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará.” (Sl 91:1)

O Verbo, na eternidade, habitava no esconderijo do Altíssimo e, ao despir-se da sua glória, passou ao abrigo da sombra do Onipotente. Essa é a descrição de Cristo, na eternidade:

“O qual, sendo o resplendor da sua glória e a expressa imagem da sua pessoa e sustentando todas as coisas, pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas” (Hb 1:3).

O Salmo 121 é uma descrição precisa da proteção do Pai sobre o seu Filho, que guardou, tanto a sua entrada no mundo (nascimento), quanto a sua saída (morte):

“O SENHOR é quem te guarda; o SENHOR é a tua sombra à tua direita. O sol não te molestará de dia, nem a lua de noite. O SENHOR te guardará de todo o mal; guardará a tua alma. O SENHOR guardará a tua entrada e a tua saída, desde agora e para sempre.” (Sl 121:5– 8)

Na criação no Éden, Deus formou o homem do pó da terra e, quando soprou nas narinas o fôlego de vida, veio à existência o primeiro homem: Adão, uma alma vivente (Gn 2:7). Já, com relação ao último Adão – Cristo – Deus preparou um corpo no ventre de Maria, que veio à existência por ‘água’ e ‘sangue’ para que o Espírito eterno, despido de sua glória e poder pudesse, habitar entre os homens.

Adão não era pré-existente, quando foi feito alma vivente e de Cristo é dito que Ele entrou no mundo, o que demonstra a sua pré-existência. (Hb 10:5) A água remete a palavra de Deus que ‘bara’ (cria) e, nesse sentido, fica evidente a natureza divina de Cristo, que embora na carne, era o Filho de Deus, segundo a palavra de Deus (por água).

“E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre os milhares de Judá, de ti me sairá o que governará em Israel e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade. (Mq 5:2)

Quando é dito que Jesus veio por ‘água’, enfatiza que o Verbo eterno, voluntariamente, despiu-se da sua gloria e se fez carne, para habitar entre os homens. A vontade da carne, mais a vontade do varão e o sangue, trazem à existência um novo ser ao mundo; já o fato de Jesus vir por água, além de apontar a pré-existência de Cristo, demonstra que Ele foi gerado pela vontade e pelo poder de Deus: “E outra vez, quando introduz no mundo o primogênito, diz: E todos os anjos de Deus o adorem.” (Hb 1:6)

Jesus apresentou a seguinte relação: “O que é nascido da carne, é carne e o que é nascido do Espírito, é espirito” (Jo 3:6), de modo que, aquele que veio por ‘água’, é ‘água’ que concede vida. Cristo é a água que dá vida, a semente incorruptível, a palavra de Deus que é viva e permanente, porque veio por água. (1 Pe 1:23-25; Hb 13:8; Jo 6:63: Jo 15:3).

Voluntariamente, o Verbo eterno despiu-se da sua glória e se fez homem, sendo introduzido no mundo dos homens pelo poder sobrenatural de Deus, por isso é dito que Ele veio por água, diferente dos descendentes de Adão, que vem por carne e sangue.

Como Cristo foi gerado pelo Espírito no ventre de Maria, também veio por sangue e por meio do sangue, é descendente de Davi e descendente de Abraão.

“Este é aquele que veio por água e sangue, isto é, Jesus Cristo; não só por água, mas por água e por sangue. E o Espírito é o que testifica, porque o Espírito é a verdade.” (v. 6)

Sobre os bens futuros, Deus é enfático:

“Então aspergirei água pura sobre vós e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei” ( Ez 36:25 ).

A ação divina de aspergir água pura concede ao homem um novo coração e um novo espírito, o que remete a uma nova criação, como disse o profeta Davi: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto.”(Sl 51:10); “E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne” ( Ez 36:26)

Sobre esse aspecto da redenção, disse o apóstolo Pedro:

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos (…) Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre” (1 Pe 1:3 e 23).

Observando a lei de Moisés, verifica-se que, tanto as sementes, quanto as águas, possuem a mesma função, quanto à purificação:

“Porém a fonte ou cisterna, em que se recolhem águas, será limpa, mas quem tocar no seu cadáver, será imundo. E, se dos seus cadáveres cair alguma coisa sobre alguma semente que se vai semear, será limpa.” (Lv 11:36-37)

Observe que Cristo é sumo sacerdote dos bens futuros, onde há um tabernáculo maior e mais perfeito, que não é desta criação:

“Mas, vindo Cristo, o sumo sacerdote dos bens futuros, por um maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, isto é, não desta criação.” (Hb 9:11)

Cristo veio por água, porque foi ‘lançado’ por Deus no ventre de Maria, portanto, o vínculo de carne com Adão não existiu. Com Cristo vindo por água, foi estabelecido vinculo com a humanidade, de modo que passou a ter vínculo de sangue com a descendência de Abraão e de Davi. (Sl 22:10).

É em razão do pecado de Adão que Jesus não possui vínculo de carne com a humanidade, pois se assim fosse, teria vinculo direto com Adão e sua semente corruptível, portanto, estaria sujeito ao pecado, como todos os homens. O vínculo de Cristo com a humanidade só é de sangue, pois Ele veio por água, introduzido no mundo pelo poder de Deus, no ventre de Maria!

Como esteve no ventre de Maria, ali se efetivou o vínculo de sangue com a humanidade e assim firmou-se o vinculo de sangue com Abraão e com Davi.

Como a palavra de Deus é representada pela ‘água’, a semente incorruptível, temos uma referência à pré-existência de Cristo, o Verbo eterno. O Verbo eterno despiu-se da sua glória para ser introduzido no mundo, por meio do poder de Deus, para compartilhar da natureza humana, por meio do vínculo de sangue com Davi e Abraão, e não pelo vínculo da carne de Davi e de Abraão.

Observe que o evangelista João atribui vontade à carne e ao varão, menos ao sangue:

“Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.” (Jo 1:13)

Maria era da linhagem (casa) de Davi e Jesus não foi gerado da semente de homem algum, antes, o próprio Deus obrou maravilhosamente e fez com que ela concebesse o Seu Filho, que durante a gestação, compartilhou do sangue de Maria, por conseguinte, foi estabelecido somente vínculo de sangue com Davi, o que o tornou isento da morte, caso compartilhasse da carne de Adão.

Quando foi dito a Maria que o filho dela haveria de ser o Filho de Deus, a palavra de Deus predita a Davi estava se cumprindo:

“Quando teus dias forem completos e vieres a dormir com teus pais, então, farei levantar depois de ti um, dentre a tua descendência, o qual sairá das tuas entranhas, e estabelecerei o seu reino. Este edificará uma casa ao meu nome e confirmarei o trono do seu reino para sempre. Eu lhe serei por pai e ele me será por filho,” (2 Sm 7:12-14)

O vínculo de Davi com Cristo, aquele que saiu das entranhas de Davi, se deu somente por ‘sangue’ e não por ‘carne’. Hipoteticamente, se Cristo viesse de Davi, por carne, ou seja, por meio de uma relação sexual, onde a semente do homem é lançada no ventre da mulher, na verdade, o filho de Maria seria, apenas, mais um filho de Adão, portanto, sujeito ao pecado, assim, como, foram os outros filhos de Maria, que nasceram da relação dela com José.

Dai a explicação joanina, que Cristo veio por ‘sangue’, ou seja, Ele compartilhou da natureza humana, por vínculo de sangue, com seu pai Davi, através de Maria, por conseguinte, Cristo também era descendente de Abraão. Isso significa que a descendência (sangue) de Abraão foi escolhida, para que Deus se fizesse carne e viesse ao mundo dos homens. (Hb 2:16)

Quando Adão foi criado, Deus concedeu a Adão, a imagem  do Verbo eterno, que a tudo criou e que haveria de vir ao mundo. Com a queda, a imagem que Deus concedeu ao homem, não se perdeu, pois os dons de Deus são irrevogáveis, de modo que, quando o Verbo eterno, que a tudo criou, veio ao mundo, veio por ‘água’, segundo a mesma imagem que Ele concedeu ao homem, feito do pó da terra.

“No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir. (Rm 5:14)

Ao ser introduzido no mundo, o Verbo eterno teve um corpo constituído de matéria orgânica (carne, sangue e ossos), assim, como todos os homens. O escritor aos Hebreus explica que era necessário Cristo ser participante de ‘carne’ e de ‘sangue’, por causa da paixão na morte, o que é completamente, diferente de ter vindo por ‘água’ e por ‘sangue’.

Quando é dito que Jesus veio por ‘água’ e por ‘sangue’, isso significa que, apesar de ter tido um corpo constituído (participante) de ‘carne’ e de ‘sangue’, Cristo não entrou no mundo, pela mesma porta que todos os homens entram: Adão.

Adão é a porta larga, pela qual todos os homens vêm ao mundo, mas, Cristo foi introduzido no mundo, pelo poder de Deus.

Cristo, como o último Adão, foi estabelecido como a porta estreita, portanto, não poderia vir ao mundo por ‘carne’ e por ‘sangue’, ou seja, através da semente de Adão. Se Cristo entrasse no mundo, segundo a ‘carne’ e o ‘sangue’, estaria em um caminho largo, como todos os homens, e também, seguiria para a perdição.

Como Cristo não veio por Adão, entrou no mundo sem pecado. Por não ter vindo, através da semente de Adão, veio ao mundo pelo poder (virtude) de Deus, ou seja, por ‘água’. Adão, o primeiro homem, foi feito do pó da terra, portanto, é terreno; Cristo, o último Adão, sendo do céu, veio por água, ou seja, por intermédio do poder de Deus. (1 Co 15:47-48)

Todos os que vêm ao mundo por ‘carne’ e por ‘sangue’, não são pré-existentes, assim, como Adão não era pré-existente. Adão foi feito, a partir do pó da terra e veio à existência, quando Deus soprou em suas narinas o fôlego da vida e os demais descendentes de Adão vem à existência, quando são gerados, segundo a carne e o sangue.

É preciso divisar bem a questão de Cristo ter vindo em carne, pois, Cristo possuiu um corpo constituído de carne e de sangue, o que se verifica, quando Jesus foi circuncidado, ao oitavo dia (Lc1:59), quando sentiu fome, sede, cansaço (Mt 4:2; Jo 4:6), foi crucificado, morto e os seus ossos foram preservados, para não serem quebrados, sepultaram o seu corpo em uma sepultura que nunca foi utilizada e, ao terceiro dia, ressuscitou.

Cristo foi introduzido no mundo, na mesma condição de Adão, quando criado: livre de pecado. Mesmo com um corpo constituído de ‘carne’ e de ‘sangue’, Cristo não foi gerado, segundo a carne do pecado.

O vínculo do corpo de Cristo com a humanidade se deu somente por ‘sangue’, não por carne, para não ter vínculo com o pecado. Por causa da ação sobrenatural do Espírito Santo, o vinculo de Cristo com a humanidade se deu por sangue, não por carne, visto que Ele veio por ‘água’.

O fato de Jesus ter sido gerado no ventre de Maria conferiu a Cristo, pelo vínculo de sangue:

  1. O direito de se assentar no trono de Davi, seu pai, por conseguinte, conforme a profecia, depois de morto, ao terceiro dia, tendo ressurgido e foi declarado o Filho de Deus com poder. (2 Sm 7:14; Rm 1:3-4);
  2. Compartilhou da natureza humana, reunindo em si mesmo as condições necessárias para ser mediador entre Deus e os homens e, assim, provasse a morte por todos.

Dependendo do contexto em que o termo ‘carne’ é utilizado, com relação a Cristo, temos que compreender o emprego do termo, dentro do contexto do Novo Testamento. Por exemplo: Quando o apóstolo Paulo diz que Jesus Cristo nasceu ‘segundo a carne’, estava enfatizando, através do termo grego σάρκα (carne) o vínculo de sangue que há entre Davi e Cristo, como o descendente prometido e não que Ele seja oriundo da semente de Davi e de Abraão.

“Acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi, segundo a carne.” (Rm 1:3)

Há uma grande diferença, entre dizer, que Jesus nasceu segundo a carne e dizer que Ele é da descendência de Davi, segundo a carne. A assertiva de que Cristo é da descendência de Davi, remete à promessa que Deus fez a Davi, de modo que o corpo de matéria orgânica de Cristo teve vínculo de sangue com Davi, sem ser da semente de homem algum.

Cristo ter vindo por ‘água’ e por ‘sangue’, é diferente do argumento que demonstra que Cristo foi participante de ‘carne’ e de ‘sangue’. Sabemos que Jesus foi participante de carne e de sangue, ou seja, com um corpo constituído de carne e de sangue, porém, não teve vínculo com Adão, pois veio por água e por sangue. Apesar de ter um corpo de carne e de sangue, Cristo não foi gerado de ‘carne’ e de ‘sangue’, mas, sim, de ‘água’ e de ‘sangue’.

Essa é a grande diferença que há entre o nascimento de Cristo e o restante da humanidade: o modo que vieram ao mundo. Quando é dito que os filhos participam da carne e do sangue, no contexto, significa que os filhos são provenientes de uma semente que lhes confere a natureza dos pais, bem como a condenação oriunda da ofensa de Adão.

O intérprete das Escrituras precisa identificar, durante a leitura, qual é a defesa do evangelho que os escritores das epístolas fizeram. Por Exemplo, o escritor aos Hebreus combateu o desvio teológico de alguns, que diziam que Jesus era um dos profetas (anjo, mensageiro) ou, um ser angelical. O evangelista João combateu o desvio teológico de que Jesus não veio em carne e o apóstolo Paulo, por sua vez, demonstrou o cumprimento da profecia que Deus fez a Davi.

O escritor aos Hebreus precisou enfatizar a humanidade de Cristo, para desfazer a ideia equivocada de que Cristo seria somente um dos profetas ou, um ser angelical. Essa ideia equivocada de que um anjo se fez carne ou, que era somente mais um profeta, comprometia a essência do evangelho.

A alegação de que Jesus é um ser angelical e que se fez carne, nega que o Cristo é pré-existente, ou seja, que Ele é o Deus eterno que estava junto ao Pai e se esvaziou da sua glória, para habitar entre os homens: “Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens.” (Fl 2:7); “No princípio era o Verbo,  o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus.” (Jo 1:1-2 )

Nas Escrituras está registrado o seguinte, acerca do Filho de Deus:

“Mas, do Filho, diz: Ó Deus, o teu trono subsiste pelos séculos dos séculos; Cetro de equidade é o cetro do teu reino. Amaste a justiça e odiaste a iniquidade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com óleo de alegria, mais do que a teus companheiros.” (Hb 1:8-9; Sl 45:6-7);

“E Tu, Senhor, no princípio fundaste a terra, E os céus são obra de tuas mãos. Eles perecerão, mas tu permanecerás; E todos eles, como roupa, envelhecerão e, como um manto, os enrolarás e serão mudados. Mas tu és o mesmo, E os teus anos não acabarão.” (Hb 1:10-12; Sl 102:25-27)

Nas Escrituras não tem registro nenhum, de que algum profeta (anjo, mensageiro), fora chamado de Filho ou de Deus, do mesmo modo que tais nomes: Deus e Filho, não apontam para seres angelicais.

O evangelista João enfatiza que Cristo veio por ‘água’ e por ‘sangue’, o que significa que Ele não veio por ‘carne’ e por ‘sangue’. Ele precisava demonstrar que Jesus teve um corpo de carne, por causa dos anticristos, que diziam que Jesus não veio em carne, o que comprometeria a verdade da morte de Cristo e da sua ressurreição, porém, a verdade de que Cristo não teve vínculo com o pecado, também, deveria ser enfatizado.

A carne, como matéria, é sempre vinculada ao pecado, entretanto, não é um corpo constituído de carne que vincula o homem ao pecado, mas, sim, a herança de Adão transmitida pela semente corruptível. É a condenação, em decorrência da ofensa que ocorreu no Éden, que vincula o homem ao pecado, não a matéria constitutiva do corpo.

É imprescindível destacar que todos os homens, quando vêm ao mundo, exceto Adão e Cristo, possuem vinculo de ‘carne’ e de ‘sangue’. Adão é o único homem que veio ao mundo sem vínculo de carne e de sangue, pois foi criado por Deus, a partir do barro. Já o Filho de Deus veio ao mundo tendo vínculo de sangue, para compartilhar da natureza humana e, assim ser participante das fraquezas e sujeito à morte, porém, por ter vindo por água, nunca esteve sujeito ao pecado.

Exceto Adão e Cristo, todos os homens vêm ao mundo por carne e por sangue, ou seja, são gerados da vontade da carne, da vontade do varão e do sangue. Adão e Cristo tinham corpos constituídos de ‘carne’ e de ‘sangue’, no entanto, ambos não vieram ao mundo, conforme a vontade da carne, vontade do varão e do sangue.

A Palavra que é viva e permanece para sempre, se fez semelhante aos homens, portanto, significa que Jesus veio por água e, ao mesmo tempo, pertenceu à linhagem de Abraão e de Davi, pelo vinculo de sangue:

“… mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens.” (Fl 2:7)

É por causa dos opositores do evangelho, que diziam que Jesus não veio em carne, que o evangelista João demonstra que Jesus veio ao mundo, ao despir-se da sua glória, por ‘água’ e por ‘sangue’. (1 Jo 5:6).

Em seguida, o apóstolo enfatiza que as Escrituras (espírito) confirmam que Jesus veio em carne, ou seja, que Jesus detinha um corpo de carne e de sangue. Ora, como as Escrituras são a verdade e dão testemunho de Cristo, certo é que as Escrituras dão testemunho de Cristo:

“Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna e são elas que de mim testificam.” (Jo 5:39)

“Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade.” (Jo 17:17);

“A tua palavra é a verdade, desde o princípio, e cada um dos teus juízos dura para sempre.” (Sl 119:160)

O apóstolo João demonstra que o próprio Deus é quem dá testemunho, acerca do Cristo, através das Escrituras. A palavra de Deus é a verdade e Cristo, na condição de Verbo eterno encarnado, identificou-se como o caminho, a verdade e a vida: “Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho,  a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.” (Jo 14:6)

A palavra do evangelho é a unidade do Espírito, pois só há uma igreja (corpo) e um evangelho (evangelho): “Procurando guardar a unidade do Espírito, pelo vínculo da paz. Há um só corpo e um só Espírito, como, também, fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação.” (Ef 4:3-4)

Como a palavra de Deus é a verdade e o evangelista João enfatiza que o Espírito é a verdade, segue-se que o que testifica é a palavra, pois o testemunho de Cristo é o espírito da profecia.

“E eu lancei-me a seus pés para o adorar; mas, ele disse-me: Olha, não faças tal; sou teu conservo e de teus irmãos, que têm o testemunho de Jesus. Adora a Deus; porque o testemunho de Jesus é o espírito da profecia.(Ap 19:10; Jo 8:26)

Ao retirar a interpolação: “…no céu: o Pai, a Palavra e o Espírito Santo; e estes três são um. E três são os que testificam na terra:” (1 Jo 5:7-8), que não há nos melhores manuscritos, o que sugere um acréscimo tardio, teremos a seguinte assertiva:

“Porque três são os que testificam: o Espírito, a água e o sangue; e estes três concordam num.” (1 Jo 5:7-8)

Embora o Deus eterno seja constituído de três pessoas sempiternas e unas, e a diferenciação de pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo tenham surgido somente na plenitude dos tempos, quando o Unigênito de Deus foi introduzido no mundo, e a relação Pai/Filho passou a viger, conforme o acordado na eternidade: “Eu lhe serei por Pai e tu me será por Filho.” (2 Sm 7:14), a unidade do testemunho, acerca de Cristo como o Filho de Deus é o das Escrituras, ou seja, do espírito e não ‘do Pai, do Verbo e do Espírito Santo’, como sugere a interpolação.

Sobre o testemunho do Espírito, ou seja, da palavra que dá vida, temos a seguinte declaração de Jesus:

“Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna e são elas que de mim testificam.” (Jo 5:39);

Jesus balizou o seu ministério no testemunho de Deus, que está expresso nas Escrituras somente:

“E na vossa lei está, também, escrito que o testemunho de dois homens é verdadeiro. Eu sou o que testifico de mim mesmo e de mim testifica, também, o Pai que me enviou.(Jo 8:17-18)

O testemunho das Escrituras, conforme o anunciado pelos profetas (Jo 5:39), é o testemunho do Espírito ou, da Palavra ou, de Deus.

A água remete ao nascimento sobrenatural de Cristo, pois, além de Ele ser a água proveniente da pedra que os filhos de Israel beberam, pois era Ele quem os seguia (1 Co 10:4; Jo5:31-36; Jo 8:14), ação sobrenatural de Deus que atuou no ventre da virgem, concedendo a Cristo a natureza humana, constituiu o Cristo por testemunho a todos os povos.

“Mas eu tenho maior testemunho do que o de João; porque as obras que o Pai me deu para realizar, as mesmas obras que eu faço, testificam de mim, que o Pai me enviou.” (Jo 5:36)

O próprio sangue (parente) de Cristo testificou d’Ele, o seu primo, João Batista:

“João testificou dele e clamou, dizendo: Este era aquele de quem eu dizia: O que vem após mim é antes de mim, porque foi primeiro do que eu.” (Jo 1:15).

Quando Cristo é ressurreto pelo poder de Deus o testemunho do Espírito, da água e do sangue se confirmam, pois, Ele foi declarado filho de Deus com poder, pela ressurreição dentre os mortos:

“O qual, antes prometeu, pelos seus profetas, nas santas escrituras, acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi, segundo a carne, declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor.” (Rm 1:2-4).

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1] “3956 πας pas que incluem todas as formas de declinação; TDNT – 5:886,795; adj 1) individualmente 1a) cada, todo, algum, tudo, o todo, qualquer um, todas as coisas, qualquer coisa 2) coletivamente 2a) algo de todos os tipos, Dicionário Bíblico Strong.

[2] “1097 γινωσκωginoskoforma prolongada de um verbo primário; TDNT – 1:689,119; v 1) chegar a saber, vir a conhecer, obter conhecimento de, perceber, sentir 1a) tornar-se conhecido 2) conhecer, entender, perceber, ter conhecimento de 2a) entender 2b) saber 3) expressão idiomática judaica para relação sexual entre homem e mulher 4) tornar-se conhecido de, conhecer” Dicionário Bíblico Strong.

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Sacerdócio real ‘versus’ levitas

Quando o crente em Cristo ensina o evangelho, evangeliza um não crente ou, entoa uma canção, faz uma oração, etc., na verdade, está exercendo um sacerdócio, função que não tem relação alguma com o ministério desenvolvido pelos levitas da Antiga Aliança.


“Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas, para a sua maravilhosa luz” (1 Pe 2:9).

 

Introdução

É comum, nas igrejas (congregações, comunidades) locais, os cantores e músicos evangélicos se autodenominarem levitas. Esse é um fenômeno recente nas comunidades evangélicas, daí alguns questionamentos: na Igreja, como corpo de Cristo, há levitas? O que entender por levitas, na Nova Aliança? Havia, na Antiga Aliança, a função de cantores e instrumentistas?

 

O fruto dos lábios

O crente em Cristo é geração escolhida, sacerdócio real, nação separada e povo comprado por bom preço, com uma missão especifica: anunciar as virtudes de Deus, que chamou os crentes das trevas para a Sua maravilhosa luz (Cl 1:13; 1 Co 6:20 e 7:23).

Por ter sido gerado de novo, o crente em Cristo é membro de um povo que pertence (adquirido) a Deus, portanto, separado (santificado) por Deus. Como o corpo de Cristo é constituído de iguais, o termo grego eκκλησία, traduzido por igreja, e transliterado ‘ekklesia’ (eclesia), passou a ser utilizado para nomear os membros do corpo de Cristo: uma assembleia de iguais, visto que todos são filhos de Deus, pela fé em Cristo!

“E ser-me-eis santos, porque eu, o SENHOR, sou santo e vos separei dos povos, para serdes meus(Lv 20:26).

Ser ‘geração’, ‘nação’ e ‘povo’, é condição inerente ao crente, por estar em Cristo, ou seja, por ser uma nova criatura, gerada, segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade (Ef 4:24; 2 Co 5:17).

Agora, ‘sacerdócio’ aponta para a missão que o crente desempenha, como membro do corpo de Cristo! O cristão, ao exercer o seu sacerdócio, tem a missão de anunciar as virtudes de Deus, pois este é o sacrifício que Deus se agrada. O sacrifício exigido por Deus diz do ‘fruto dos lábios’, ou seja, anunciar ao mundo as virtudes de Deus!

“Portanto, ofereçamos sempre por ele a Deus, sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome” (Hb 13:15).

Quando o crente admite (confessa) com os lábios que Jesus é o Cristo, vez que, com o coração creu que Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos (Rm 10:9-10), Deus é glorificado. É tão somente na confissão de que Jesus é o Filho de Deus, que o homem oferece sacrifício de louvor a Deus, ou seja, o fruto dos lábios, pois, em confessar a Cristo, o crente glorifica a Deus.

“E me disse: Tu és meu servo; és Israel, aquele por quem hei de ser glorificado (Is 49:3).

Admitir que Jesus de Nazaré é o Cristo (Mt 16:16), ou seja, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo, é produzir o fruto pelo qual Deus é glorificado:

“Nisto é glorificado meu Pai, que deis muito fruto; e assim sereis meus discípulos” (Jo 15:8).

Por três anos, Deus esperou que Israel (figueira) produzisse o fruto dos lábios, crendo em Cristo, a pedra que os edificadores rejeitaram, e confessando (louvor nos lábios) que Ele é a paz para os judeus (perto) e os gentios (longe), mas não produziram e foram cortados (Is 57:19; Lc 13:6-9).

Os cristãos são plantação do Senhor, por terem nascido da semente incorruptível, que é a palavra de Deus (Is 60:21 e Is 61:3). Ao anunciar a palavra de Deus, o cristão desempenha o seu sacerdócio, pois, através do fruto (louvor) dos seus lábios, anuncia a Cristo, um sacrifício santo e agradável!

“Vós, também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus, por Jesus Cristo” (1 Pe 2:5).

Os verdadeiros adoradores, que o Pai procura, encontram-se em Cristo (Jo 4:24), pois adoram a Deus, em espírito e em verdade, uma vez que o evangelho é espírito e Cristo, a verdade (Jo 6:63; Fp 3:3). Os nascidos da carne, são carne e os nascidos do espírito, são espírito, portanto, estes, verdadeiros adoradores!

 

Levitas

Os “levitas” eram “descendentes da Tribo de Levi” e Levi, por sua vez, um dos doze filhos de Jacó. Os levitas eram ministros de Deus que cuidavam do serviço da tenda da congregação, auxiliares dos sacerdotes.

Dentre os levitas, alguns desempenhavam a função de sacerdotes, que eram os descendentes da família de Arão. Embora os sacerdotes fossem levitas e descendentes de Arão, os levitas cuidavam do tabernáculo e de seus utensílios, inclusive, eram responsáveis por carregar a tenda e os seus utensílios, durante a peregrinação pelo deserto, e os descendentes de Arão, que eram da Tribo de Levi, ofereciam a Deus dons e sacrifícios pelos homens (Hb 5:1).

“DEPOIS tu farás chegar a ti teu irmão Arão e seus filhos com ele, do meio dos filhos de Israel, para me administrarem o ofício sacerdotal, a saber: Arão, Nadabe, Abiú, Eleazar e Itamar, os filhos de Arão” (Êx 28:1).

Para ser sacerdote, não bastava ser levita, tinha de ser, especificamente, da casa (descendência) de Arão! (Hb 5:4)

Não havia, na Antiga Aliança, alguém responsável por cânticos, músicas ou instrumentos musicais e, nem mesmo havia, durante o culto conduzido pelos sacerdotes, um momento de cânticos.

Encontramos, no Livro de Deuteronômio, Deus ordenando a Moisés que escrevesse um cântico profético, e que o ensinasse aos filhos de Israel, como testemunho em desfavor deles.

“Agora, pois, escrevei-vos este cântico e ensinai-o aos filhos de Israel; ponde-o na sua boca, para que este cântico me seja por testemunha contra os filhos de Israel (Dt 31:19).

A mensagem do cântico era instrução para os filhos de Israel e o cântico, em si, um veículo para que a mensagem não fosse esquecida:

“E será que, quando o alcançarem muitos males e angústias, então este cântico responderá contra ele por testemunha, pois não será esquecido da boca de sua descendência; porquanto, conheço a sua boa imaginação, o que ele faz hoje, antes que o introduza na terra que tenho jurado” (Dt 31:20)

Daí, o cântico magnífico, no Capítulo 32, do Livro de Deuteronômio, denunciando que os filhos de Israel não eram filhos de Deus (Dt 32:5), sem entendimento das coisas de Deus (Dt 32:28; Sl 53:3), e a doutrina que ensinavam não passava de peçonha de víboras (Dt 32:32-33).

Muito tempo depois, o profeta Davi inseriu a música e os instrumentos musicais, como elemento assessório ao ministério dos profetas (1 Cr 25:1-3). Ora, alguns levitas eram cantores e instrumentistas, assim como, o rei Davi (2Cr 5:12-13), porém, o ministério de alguns levitas era o de profetizar, utilizando-se de instrumentos musicais, diferentemente de outros, que tinham atribuições como porteiros, guardas, padeiros, perfumistas, etc. (1 Cr 9:14-33).

As profecias de Davi e de alguns levitas, foram anunciadas ao povo, em forma de cânticos e poesias, poemas acompanhados de instrumentos musicais, o que facilitava o povo decorar o que ouviam no templo, visto que 98% da população não sabia ler.

O que é imprescindível no cântico é a mensagem, a doutrina, a profecia, etc., que deve ser obedecida, não a musicalidade, os instrumentos, os acordes, a voz, o conjunto, a dança, etc., que são elementos acessórios à mensagem.

Cânticos, canções, composições, etc., que não contém a mensagem do evangelho, são inócuos para a salvação e quem se aplica aos cânticos, sem obedecer ao mandamento de Deus (crer em Cristo, conforme as Escrituras) é manancial roto, sem vida, e não é aceito por Deus:

“Odeio, desprezo as vossas festas e as vossas assembleias solenes não me exalarão bom cheiro. E ainda que me ofereçais holocaustos, ofertas de alimentos, não me agradarei delas; nem atentarei para as ofertas pacíficas de vossos animais gordos. Afasta de mim o estrépito dos teus cânticos; porque não ouvirei as melodias das tuas violas (Am 5:21-23).

Na Nova Aliança, não temos a figura dos levitas à semelhança dos homens que serviam na Antiga Aliança, que tinham a incumbência de conduzir a glória do Senhor sobre os ombros, com auxilio de varas, representada através da arca do Senhor (1 Cr 15:2).

“Porque havia sempre, naquele ofício, quatro porteiros principais, que eram levitas, e tinham a seu cargo as câmaras e os tesouros da Casa de Deus” (1 Cr 9:26);

“Quenanias, chefe dos levitas músicos, tinha o encargo de dirigir o canto, porque era perito nisso” (1 Cr 15:22)

Na igreja não temos levitas, porque a Igreja não possui paralelo com o Templo de Salomão, visto que o Templo de Salomão foi erguido com mãos humanas, no qual Deus não habita (At 17:24), e a Igreja está sendo erguida pelo descendente de Davi, sem auxilio de mãos humanas, no qual Deus habita.

A Igreja é o corpo de Cristo, templo santo ao Senhor, onde o Espírito Santo de Deus habita (1 Co 3:16). Os levitas eram ministros que cuidavam do templo auxiliando os sacerdotes, o crente, por sua vez, é ministro de Cristo e templo de Deus.

Os levitas tinham a incumbência de cuidar e de transportar os utensílios da tenda da congregação ou, prestavam serviço no templo (Nm 4:3-4), mas a glória do Senhor não estava sobre eles. Os levitas iam ao templo para adorar, os crentes em Cristo, por sua vez, são o templo, habitação do Altíssimo e adoram em todo tempo e em qualquer lugar.

Os levitas eram descendentes da tribo de Levi, separados por Deus para o serviço do culto na Antiga Aliança, e acabaram por não ter herança com os filhos de Israel (Dt 18:1-2). No corpo de Cristo não há subdivisão, pois todos são coerdeiros com Cristo e herdarão com Ele todas as coisas. Um levita não possui herança entre as onze tribos de Israel, já os membros do corpo de Cristo são herdeiros de Deus, vez que são filhos e coerdeiros de Cristo (Hb 9:15).

“E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados” (Rm 8:17).

No exercício do seu sacerdócio, os cristãos são ministros do espírito, despenseiros dos mistérios de Deus, administrando aos outros a verdade do evangelho: o dom de Deus.

“Que os homens nos considerem como ministros de Cristo e despenseiros dos mistérios de Deus” (1 Co 4:1);

“Cada um administre aos outros o dom como o recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus” (1 Pe 4:10).

O apóstolo Paulo não queria ser considerado levita, e sim, ministro de Cristo, segundo a medida (padrão) do espirito (dom), segundo o que Deus repartiu a cada um:

“Pois, quem é Paulo e quem é Apolo, senão ministros pelos quais crestes, e conforme o que o SENHOR deu a cada um?” (1 Co 3:5; Rm 12:3 e 6).

Na qualidade de ministro de Jesus a serviço dos gentios, ministrando o evangelho, o apóstolo Paulo exercia o seu sacerdócio real, de modo que, assim era santificado pelo Espírito Santo, o que era ofertado pelos gentios.

“Que seja ministro de Jesus Cristo para os gentios, ministrando o evangelho de Deus, para que seja agradável a oferta dos gentios, santificada pelo Espírito Santo” (Rm 15:16).

Ministro[1] diz de quem serve no templo, ou de alguém ocupado com o serviço do templo, um sacerdote ou dos servos de um rei. Quando é dito que o crente é sacerdócio real, é porque exerce o ministério do espírito, pelo dom do evangelho, que contém a virtude de Deus.

“O qual nos fez também capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica” (2Co 3:6);

“Do qual fui feito ministro, pelo dom da graça de Deus, que me foi dado segundo a operação do seu poder” (Ef 3:7).

 

Levita e a Igreja

Quando é feita a seguinte pergunta: – ‘Qual a verdadeira função dos levitas na Casa do Senhor?’, há um erro no questionamento, que induz a um equívoco, por causa de uma premissa errada.

Na casa do Senhor não há a função para levitas, considerando que a casa do Senhor diz do corpo de Cristo – a Igreja – e não de uma denominação, ou de uma igreja local.

“Porém vós sereis chamados sacerdotes do SENHOR e vos chamarão ministros de nosso Deus; comereis a riqueza dos gentios e na sua glória vos gloriareis” (Is 61:6);

“Mas, longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu, para o mundo” (Gl 6:14).

Não se pode confundir a função dos levitas da Antiga Aliança com a função dos diáconos na Nova Aliança.

O termo grego antigo διάκονος, traduzido por diácono, significa “ministro”, “servo”, “ajudante”, que é aplicado aos cristãos qualificados e selecionados para servir aos demais cristãos. Os diáconos são servos de Cristo, assim como os demais cristãos, e, em sujeição a Cristo, cuidam do interesse dos membros da igreja local.

Na igreja primitiva os diáconos foram comissionados para cuidar de questões materiais, como o sustento das viúvas (At 6:1). Em linhas gerais era uma espécie de tesoureiro da comunidade local, com a incumbência de tratar das necessidades dos mais pobres, visto que o estado não cuidava dessas questões (At 6:3).

O serviço do diácono, na igreja primitiva, devia primar pela equidade, de modo a não haver acepção de pessoas no momento da distribuição dos gêneros alimentícios. Para isso, os diáconos precisavam ser instruídos na palavra do evangelho, conscientes de que, no corpo de Cristo, não há melhor e nem pior, pois, todos são filhos de Deus, pela fé em Cristo.

Mas, apesar de um diácono ter a incumbência do serviço na comunidade local, com relação ao evangelho, exerce sacerdócio real como os demais, pois, também, é um despenseiro da graça de Deus.

Os levitas não podiam oferecer a gordura dos animais como os sacerdotes e nem podiam entrar no Santo dos Santos. Já os diáconos, com ousadia, têm acesso total a Deus, pelo novo e vivo caminho, consagrado através da carne de Cristo (Hb 10:19-20).

Quando o crente em Cristo ensina o evangelho, evangeliza um não crente ou, entoa uma canção, faz uma oração, etc., na verdade, está exercendo um sacerdócio, função que não tem relação alguma com o ministério desenvolvido pelos levitas da Antiga Aliança.

Arrogar para si a função de levita em uma igreja local é descabido, pois o sacerdócio araônico foi transitório, de modo que foi necessária a instituição de uma nova ordem: a ordem de Melquisedeque, rei de Salém (Hb 7:11). O Salmista Davi, muito depois da instituição do sacerdócio levítico, por intermédio de Arão, profetizou, acerca de Cristo, que Ele seria sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque (Sl 110:4; Hb 7:21).

O crente serve como membro do corpo de Cristo, do qual Cristo é a cabeça e, porque permanece eternamente, o seu sacerdócio é perpétuo: “Mas este, porque permanece eternamente, tem um sacerdócio perpétuo” (Hb 7:24).

Um crente em Cristo é, acima de tudo, verdadeiro adorador, pois adora a Deus em espírito e em verdade. Em Cristo é santo e fiel, em qualquer lugar e em todo o tempo! Por crer em Cristo, realizou a obra de Deus, conforme Jesus asseverou aos seus ouvintes (Jo 6:29).

  • O crente não adora através de cânticos, danças, orações, jejuns, etc., pois esses recursos não são essenciais ao culto e, muitas das vezes somente refletem emoções da alma;
  • O crente não precisa de templo, pois é o templo;
  • O crente não precisa de sacrifício, pois apresenta o seu corpo e o fruto dos seus lábios, em sacrifício;
  • O crente não precisa de intermediário (sacerdote), pois tem amplo acesso ao trono da graça;
  • O crente não precisa de tempo ou de lugar para adorar a Deus, pois adora segundo o evangelho (espírito) e não na velhice da lei;
  • O crente goza de plena comunhão com Deus, pois tem comunhão com Cristo e os apóstolos em um mesmo espírito;
  • O crente goza de um nome e de uma posição superior à dos levitas: a de filhos e filhas.

Não queira se auto intitular levita, pois, foi honra concedida por Deus, somente aos descendentes da Tribo de Levi, da mesma forma que foi concedido à casa de Arão o sacerdócio. Assim como Cristo não se glorificou a si mesmo, antes foi Deus quem o honrou, ao estabelecê-Lo sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque, contente-se com a posição superior que Deus te concedeu em Cristo: a condição de filho!

“E ninguém toma para si esta honra, senão o que é chamado por Deus, como Arão. Assim também Cristo não se glorificou a si mesmo, para se fazer sumo sacerdote” (Hb 5:4-5).

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1] “3011 λειτουργος leitourgos de um derivado de 2992 e 2041; TDNT – 4:229,526; n m 1) ministério público, empregado do estado 2) ministro, empregado 2a) assim de trabalhadores militares 2b) do templo 2b1) de alguém ocupado com coisas santas 2b2) de um sacerdote 2c) dos servos de um rei”, Dicionário Bíblico Strong.

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A simplicidade dos pequeninos

Em nossos dias, quando utilizamos o termo ‘inocente’, somos remetidos à ideia de alguém que nada sabe, ou seja, que desconhece que é simples. O termo inocente, neste artigo, não se refere às questões próprias aos tribunais, onde temos o culpado e o livre de culpa, este último, também, chamado de inocente.


“O prudente prevê o mal e esconde-se; mas, os simples, passam e acabam pagando.” (Provérbios 22:3)

“O avisado vê o mal e esconde-se; mas, os simples, passam e sofrem a pena.” (Provérbios 27:12)

 

Introdução

A condição do ‘infante’, em relação ao ‘pecado’, fomenta muitas discussões e, pela má compreensão, acerca da natureza do pecado, sobram suposições e vários desvarios doutrinários, acerca do tema.

Há quem acredite, sem suporte bíblico, que uma criancinha inocente, ingênua ou, sem consciência, é isenta de pecado. Através de uma perspectiva humana, com base em viés sentimental, questionam se é possível um infante de aspecto ‘angelical’, que nunca fez nada de errado, do ponto de vista moral, ser um pecador.

Entender que, pela tenra idade, uma criança é isenta de pecado, é temerário, à luz das Escrituras, vez que Deus garantiu a Abraão que não destruiria as cidades de Sodoma e Gomorra, se nelas houvesse ao menos dez justos.

Sabemos que somente três pessoas foram resgatadas com vida das cidades de Sodoma e Gomorra: o justo Ló e suas duas filhas e que todas as criancinhas, juntamente com os habitantes adultos, foram dizimadas por Deus.

Qual entendimento abstrair acerca da destruição das crianças das cidades de Sodoma e Gomorra, quando da subversão dessas cidades?

 

Justo é o mesmo que inocente?

Como Deus garantiu que não destruiria as cidades de Sodoma e Gomorra, se nelas houvesse dez justos, isso significa, claramente, que as muitas criancinhas de Sodoma e Gomorra não eram justas diante de Deus, apesar de nada saberem (inocentes)!

“Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra? Então disse o Senhor: Se eu em Sodoma, achar cinquenta justos dentro da cidade, pouparei a todo o lugar por amor deles (…) Disse mais: Ora, não se ire o Senhor, que ainda só mais esta vez falo: Se porventura se acharem ali dez? E disse: Não a destruirei, por amor dos dez” (Gn 18:25-26 e 32).

Através dessa passagem bíblica e de outras que relatam a morte de crianças, verifica-se que inocência ou simplicidade não é o mesmo que ser justo diante de Deus. Mesmo o simples, o inocente, o não alertado, o desconhecedor ou, o sem consciência, são passíveis de pena ou, das consequências do pecado.

O principio que se aplica, é o mesmo apontado pelo Pregador, no Livro dos Provérbios: Como é possível um inocente (simples) sofrer as consequências, somente por passar em um determinado lugar?

Ora, um ladrão, ao saber que esta ocorrendo um tiroteio, em determinado lugar, imediatamente se esconde, mas, um inocente ou, um simples (que nada sabe acerca do que está ocorrendo), caso passe em meio ao tiroteio, sofrerá as consequências.

Como o simples ou, o inocente, são passíveis de sofrerem as consequências, compreende-se o motivo pelo qual a Bíblia utiliza a figura da escravidão para ilustrar a condição do homem sob a égide do pecado.

 

Escravos do pecado

Adão, pela ofensa no Éden, vendeu todos os seus descendentes como escravos ao pecado. Por analogia, assim como nas sociedades antigas, os descendentes de escravos eram escravos e permaneciam por toda existência terrena sob as consequências da escravidão, simplesmente, porque nasceram de escravos. Igualmente se dá com os menores, quando vem ao mundo: são escravos do pecado, em função da semente dos seus pais, que, também, são escravos do pecado.

A escravidão, nas sociedades antigas, alcançava os filhos dos escravos, independente de moralidade, inocência, habilidade, sentimento ou, idade, vez que o pecado, como senhor, estabeleceu o seu domínio sobre todos os descendentes de Adão, independentemente de raça, cor, nacionalidade, moral, tamanho, idade, sexo, etc.

O apóstolo Paulo enfatizou que um pecou (Adão) e, como consequência, a morte (penalidade, consequência) passou a todos os homens, por isso, é dito que todos pecaram (Rm5:12). A morte, como consequência da ofensa de Adão, passou a todos os homens, mesmo sem terem culpa ou, dolo algum, o que demonstra que a pena, como consequência da ofensa de Adão, repousa sobre todos os homens, mesmo sobre os inocentes ou, sobre os simples.

Em nossos dias, quando utilizamos o termo ‘inocente’, somos remetidos à ideia de alguém que nada sabe, ou seja, que desconhece que é simples. O termo inocente, neste artigo, não se refere às questões próprias aos tribunais, onde temos o culpado e o livre de culpa, este último, também, chamado de inocente.

Um aborígene nada sabe sobre a sua condição diante de Deus e, nesse aspecto, é um inocente, porém, o tal não é livre da condenação estabelecida, em função da ofensa de Adão, portanto, é culpável diante de Deus pela condenação estabelecida no Éden.

Deste modo, é possível dizer que alguém é inocente, em razão de nada saber, porém, culpável diante de Deus, em função da condenação estabelecida no Éden. Por conseguinte, é possível alguém ser inocente e ímpio, nada saber e ser injusto diante de Deus. Esse alguém pode ser simples, mas sobre ele pesam as consequências da ofensa de Adão.

 

A morte

A condição imposta pela ofensa, que é a morte (separação, alienação de Deus), é o que torna o homem pecador. A humanidade é pecadora, porque as consequências da ofensa, do primeiro homem que pecou, passaram aos seus descendentes: condenação e morte (separação).

Foi no Éden que a humanidade, na coxa de Adão, juntamente, alienou-se de Deus e se fez imunda. Adão é a porta larga, por onde todos os seus descendentes entram no mundo e, por estarem na sua ‘coxa’, juntamente, todos os homens se desviaram e se fizeram imundos, não importando se judeus ou gentios (Sl 53:3,Sl 58:3).

“Desviaram-se todos e, juntamente, se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um” (Sl 53:3);

“Alienam-se os ímpios, desde a madre; andam errados, desde que nasceram, falando mentiras” (Sl 58:3);

Uma é a verdade: se não nascer de novo, da semente incorruptível, não se pode ver o reino dos céus! Sem entrar pela porta estreita, que é Cristo, jamais o homem poderá ter acesso ao reino dos céus! Isso porque, o nascimento natural é segundo a semente corruptível de Adão, que é terrena.

Como carne e sangue não podem herdar o reino dos céus e a corrupção não pode herdar a incorrupção, certo é, que é necessário nascer da semente de Deus, para ter acesso ao reino de Deus.

“E agora digo isto, irmãos: que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção” (1 Co 15:50).

Criança ou não, inocente ou não, se é nascido da carne, é carnal, portanto, corruptível e terreno. Se é carne, corruptível e terreno, não podem herdar a incorrupção, mesmo os infantes. As condições apontadas pelo apóstolo Paulo: carne, sangue e incorrupção, abarcam as crianças e não temos, na Bíblia, qualquer alusão a possíveis exceções.

O que um pai deixa de herdade, não depende do dolo ou da culpa dos filhos. Filho é filho, não importando questões morais ou, comportamentais, portanto, é herdeiro, por vínculo familiar ou, de sangue. A alienação de Deus é a herança que o primeiro pai da humanidade deixou a todos os seus descendentes, por vinculo de sangue, portanto, não depende de questão moral ou, comportamental.

A realidade do pecado não se refere à possibilidade de uma criança se desviar dos preceitos legais ou, morais, instituídos pela sociedade ou, ainda, que tenha herdado um comportamento ou, um caráter transviado do primeiro homem, Adão. O pecado não diz de uma tendência enraizada de caminhos tortuosos, desvinculados da boa moral ou, dos bons costumes. O pecado não diz de escolhas entre certo e errado, entre bem e mal, que o conhecimento do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal legou aos homens.

O pecado refere-se a uma barreira de separação erguida entre o homem e Deus, por causa da ofensa de Adão, que lhe conferiu a condição de morto para Deus. A condição do homem, ao entrar no mundo, por Adão, a porta larga, é estar separado de Deus. A separação de Deus (morte) é consequência do pecado e não os desvios morais.

Mas, equivocadamente, as pessoas rotulam como pecado as decisões que os homens tomam, tendo por base o conhecimento do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal e se esquecem da barreira de separação que há entre Deus e os homens.

Todos os homens, quando abrem a madre, entram no mundo, por Adão, e seguem um caminho largo, que os conduzirá à perdição, independentemente da moral, costumes, caráter, honradez, idade, nacionalidade, etc.

Assim como o principado é condição que se herda de berço, o pecado é condição que se herda de nascimento: separação de Deus.

Em função da ofensa de Adão, que desobedeceu a lei santa, justa e boa (visto que a lei dada no Éden visava proteger o homem da morte), entrou o pecado no mundo, ou seja, a barreira de separação entre Deus e os homens e, pelo pecado, veio a condenação: morte (Rm 5:18). Como a morte passou a todos os homens, isso significa que todos estão condenados e apenados com a morte, portanto, designados ‘pecadores’.

A consequência da queda de Adão é funesta para a humanidade, mesmo sobre aqueles que não desobedeceram à ordem direta de Deus dada no Éden, que diz:

“Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2:17).

Os infantes serem tidos por ímpios por Deus é a expressão mais contundente da ofensa de Adão, por causa das questões sentimentais próprias ao homem, pois a morte reina tanto sobre criancinhas, quanto sobre adultos.

“… entretanto, reinou a morte, desde Adão, até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança da morte de Adão…” (Rm 5.14).

Uma criança ser tida como pecadora choca a concepção do homem natural. Os sentimentos como dó, apego, afeição, etc., turvam o entendimento do homem, porém, a realidade é o que é, não importando os sentimentos humanos!

Se o homem está triste ou feliz, a verdade é a verdade. Se o homem gosta ou não gosta, a justiça é a justiça. Aceitando ou, não, a lei da gravidade, os homens estão sujeitos a ela. Querendo ou, não, o tempo é inexorável, portanto, ao tratar da realidade do pecado, não se pode considerá-lo sob influência dos sentimentos ou, através da ótica das emoções humanas.

Como a morte alcança a todos, infantes e adultos, mesmo aqueles que não compreendem a sua triste condição herdada: escravos do pecado ou, nem possuem consciência para compreender o que é ser escravo do pecado, a morte é fato e demonstra que todos estão sob domínio do pecado, sem exceção.

Isso porque a morte, como pena da condenação decorrente da ofensa de Adão, entrou no mundo e alcançou a todos os seus descendentes, como uma herança (Rm 5:12).

 

A natureza do pecado

Entretanto, além do erro de se considerar que uma criança inocente como justa, ou seja, isenta de pecado, há outros erros semelhantemente perniciosos:

  1. Considerar que o pecado é um princípio nas crianças que, invariavelmente, as levará a fazer coisas erradas;
  2. Considerar que ações erradas do ponto de vista da lei, da moral e dos bons costumes seriam provenientes de uma semente (o pecado) latente na criança;
  3. Considerar que uma criança aprende a pecar durante o seu desenvolvimento e, por isso, quando praticar algo inconveniente, tornar-se-á pecadora;
  4. Entender que uma criança é pecadora por ser completamente ‘depravada’ pois, todos os tipos de pecados já estão plantados em seu coração.

O Dr. Russel Sheed entendia que o homem aprende[1] a pecar quando adquire hábitos em um ambiente onde não é corrigido. Para o Dr. Shedd, Adão desobedeceu a Deus e legou aos seus descendentes uma inclinação para o mal. Em outra abordagem, Sheed aponta a consequência do pecado como culpa, como se o pecado fosse uma questão de cunho psíquico, daí a abordagem do ponto de vista sentimental[2].

No entanto, a Bíblia sublinha que o pecado não possui relação alguma com aprendizado, mas, sim, com o nascimento natural, em que o escravo do pecado traz ao mundo descendentes, escravos do pecado. Por descender de um ímpio, aquele que é gerado, também, é ímpio e procederá impiamente, não importando se o ímpio gerado viera praticar ou, não, boas ou, más ações, do ponto de vista da moral humana.

“Como diz o provérbio dos antigos: Dos ímpios procede a impiedade; porém a minha mão não será contra ti” (1 Sm 24:13).

O pecado não diz de uma inclinação para o mal, mas de uma natureza má. A condição de pecador não é questão de hábito, mas de natureza. A natureza de alguém separada de Deus é morte, mentira, trevas, mal, vil, etc., e, em função dessa natureza, é pecador. Isso significa que o pecador jamais faz o bem (Sl 53:3), mesmo que queira, pois o seu coração enganoso obra continuamente o mal, pois, como escravo, pertence, por direito, ao seu senhor, servindo como instrumento do pecado.

É por isso que o salmista descreve o ímpio como aquele que, desde que nasce, continuamente, profere mentiras. Fala mentira, desde que nasce, por causa do coração enganoso que herdou e, como a boca fala o que o coração está cheio, profere continuamente mentiras (Sl 58:3; Jr 17:9; Pv 12:5).

O homem é pecador porque é mal no sentido de vil, baixo, ralé, etc., mesmo sabendo dar boas dádivas aos seus semelhantes (Lc 11:13). O problema do pecado decorre da semente que traz os homens ao mundo e não das suas ações. Praticar boas ações não muda a natureza de alguém, gerado da semente corruptível. Uma semente ruim (vil, ralé) forma árvore má que só pode produzir frutos maus.

“Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons” (Mt 7:18).

O problema da árvore má em dar maus frutos decorre da semente que foi plantada, ou seja, está na natureza da árvore. Não importa o quão vistosas estejam as folhagens; a qualidade do fruto sempre estará comprometida. Não importa o quão boa é a qualidade da terra; os frutos sempre serão conforme a espécie da semente (Is 26:10).

O problema de uma criança em ser má e dar frutos maus, não está no seu comportamento futuro, antes, decorre da semente a qual nasceu. Não importa o quão vistoso possa parecer aos olhos dos homens alguém que atingiu a maturidade, por causa da natureza herdada de Adão, estará impossibilitado de produzir bons frutos.

Os israelitas achavam que eram livres e que nunca foram servos de ninguém, simplesmente, por serem descendentes da carne de Abraão e, por isso, sempre diziam: temos por Pai a Abraão, quando procuravam demonstrar que eram salvos (Mt 3:9; Jo 8:39).

O fruto dos lábios dos judeus não era um fruto bom, pois não admitiam o que foi evidenciado pelo profeta Isaias:

“Ó SENHOR Deus nosso, já outros senhores têm tido domínio sobre nós; porém, por ti só, nos lembramos de teu nome” (Is 26:13).

O fruto de um homem pode ser bom ou mal e, respectivamente, nascer de um coração bom ou mal e do fruto dos lábios, torna-se farto o seu ventre. Fruto na Bíblia diz do que procede do coração e é pronunciado pelos lábios, por isso é dito que a boca fala do que o coração está cheio.

“Do fruto da boca de cada um se fartará o seu ventre; dos renovos dos seus lábios ficará satisfeito” (Pv 18:20).

O fruto dos lábios de um crente em Cristo é segundo a verdade do evangelho: admitir que Jesus é o Cristo (Hb 13:15). O fruto dos lábios de um homem mal jamais admitirá verdades como: Jesus veio em carne, Jesus é o Filho de Deus, Jesus é o Filho de Davi, etc.

Quando Jesus disse que os judeus precisavam permanecer em Seu ensino para conhecerem a verdade e serem livres, o fruto bom seria admitir: Mestre, ‘outros senhores têm tido domínio sobre nós’, mas como disseram: ‘nunca fomos escravos de ninguém’, professaram uma mentira segundo o coração maligno que herdaram, portanto, eram escravos do pecado.

“Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado” (Jo 8:34).

Um coração sujeito ao pecado é altivo, ou seja, jamais admite que é escravo. Todo homem é mentiroso, desde que nasce, inclusive os descendentes da carne de Abraão (Rm 3:4), por isso, precisavam morrer (circuncisão do coração) e nascer de novo da palavra de Deus.

Diferentemente do que o Dr. Shedd disse, a consequência do pecado é alienação de Deus e não o sentimento de culpa. O sentimento de culpa que aflorou em Adão, não alterou a sua comunhão com Deus, mas, sim, a sua desobediência. A culpa, como sentimento de que algo deu errado, ou para tentar fugir à responsabilidade, faz parte da natureza humana, mas a culpa não tem poder de alterar a relação do homem com Deus.

O poder que atuou sobre o homem e alterou a sua condição, diz da força da lei, que dizia: ‘certamente morreras’, não o sentimento de Adão de que estava com medo de um castigo. A lei que estabelecia a morte como punição à desobediência tornou-se a força do pecado, por isso o apóstolo Paulo apresenta a morte como aguilhão “Ora, o aguilhão da morte é o pecado e a força do pecado é a lei” (1 Co 15:56).

Uma árvore que procede de uma semente má, também é má, quer seja grande ou, pequena. O fruto da árvore má será sempre mau, não importando as boas ou, más ações, que vier a praticar. Daí o veredicto:

“E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo” (Mt 3:10).

Esse ensinamento de João Batista, também, foi dado por Cristo, nas seguintes palavras:

“Ele, porém, respondendo, disse: Toda a planta que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” (Mt 15:13).

Devemos ter em mente que as boas e as más ações dos homens, somente aproveitam ou, prejudicam aos seus semelhantes, portanto, não alteram a condição do homem diante de Deus:

“Se pecares, que efetuarás contra ele? Se as tuas transgressões se multiplicarem, que lhe farás? Se fores justo, que lhe darás ou, que receberá ele da tua mão? A tua impiedade faria mal a outro tal como tu; e a tua justiça aproveitaria ao filho do homem” (Jó 35:6-8).

A mudança da natureza do homem somente ocorre quando nasce de novo, de uma semente incorruptível, a palavra de Deus, que concede ao homem uma nova natureza: a divina, quando, portanto, torna-se santo, justo e bom!

“Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que, por elas, fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo” (1 Pe 1:4).

Todas as crianças que vem ao mundo têm a oportunidade de serem regradas moralmente ou, se tornarem transviadas, dependendo, em muito, do meio em que ela está inserida. Todas podem seguir uma boa vida moral e possuir bons costumes, como, também, podem se desviar da boa moral e dos bons costumes.

Segundo a concepção humana, uma pessoa moralmente correta segue um bom caminho e uma pessoa imoral segue o mau caminho, porém, não é essa realidade que a Bíblia revela, pois ela ensina que todos os homens que vem ao mundo entram por Adão (porta larga) e seguem por um caminho largo que conduz à perdição, independentemente de suas práticas e hábitos.

O caminho que conduz o homem à perdição não é sinuoso e nem tortuoso, antes largo. Moralmente, o homem pode seguir caminhos tortuosos ou retos, entretanto, o caminho da boa ou má moral não diz do caminho que conduz à perdição.

‘Uma pessoa moralmente correta que frequentou um ambiente onde havia objeção contra mentir, linguagem obscena, comentários desnecessários e prejudiciais, usar o nome de Deus em vão, etc.’, percorre o mesmo caminho de perdição de alguém que não foi criado em um ambiente que não havia objeção alguma com relação a certas práticas perniciosas. Tanto moralmente corretos, quanto incorretos, percorrem o caminho da perdição, pelo fato de terem acessado o mundo, através da porta larga, que é Adão.

Vale destacar que nenhuma criança vem ao mundo com um princípio ou tendência de seguir o que é moralmente errado e pernicioso. Todos os recém-nascidos são como ‘tábuas rasas’. Todas são como folhas em branco, na qual, pela convivência, são incutidos conhecimentos e desejos. É por isso que devem ser instruídos no caminho que devem andar, para não se desviarem, quando crescerem.

No entanto, mesmo essas ‘tabuas rasas’ são pecadoras, assim como um adulto permanece pecador, enquanto dorme. O pecador não deixa de ser pecador enquanto dorme, pois o pecado é uma questão de natureza alienada de Deus e não deriva do comportamento.

O pensamento de que, no coração de uma criança, já estão ‘plantadas sementes de todo tipo de pecado’[3] é equivocado, visto que, na verdade, a criança está no pecado e, não o pecado, como uma semente, está latente no coração da criança.

A criança deriva de uma semente corruptível que a introduziu no mundo, toda em pecado, pecado esse que não possui relação com o bem ou com o mal que ela vier a praticar. A criança é pecadora, em razão de ter estado na coxa do primeiro homem que pecou, e não porque foi introduzida uma semente que a levará à prática de coisas inconvenientes.

É em função de o homem estar no pecado que é necessário que o corpo do pecado seja desfeito, o que ocorre quando o homem morre com Cristo. Deus não extrai uma semente do pecado do coração do homem, antes, através da circuncisão do coração, toda a carne do pecado é despojada (lançada fora) (Rm 6:6; Cl 2:11).

Davi confessou que foi formado em iniquidade e concebido em pecado (Sl 51:5), o que demonstra que Ele nasceu sob o domínio do pecado e não que, em seu coração, foi colocado uma ‘semente de pecados’. Davi nasceu todo no pecado: corpo, alma e espírito, de modo que Ele apela a Deus que lhe dê um novo coração e um novo espírito (novo nascimento).

Se o pecado fosse um princípio ou, uma semente, bastava extirpar a semente ou a árvore do pecado que floresceu no coração do homem, entretanto, vemos que é necessário que o próprio coração que teve origem da semente de Adão, seja trocado por um novo coração, segundo o poder de Deus, pois o machado é posto à raiz das árvores, vez que o homem está no pecado e não o pecado no homem.

“Cria (Bara – cf. hb) em mim, ó Deus, um coração puro e renova em mim um espírito reto” (Sl 51:10)

O erro em entender que no coração das crianças o pecado é como semente, decorre do erro de entender que Cristo leva ‘os pecados do pecador para a cruz’, como se o pecado fosse um fardo. Na verdade, o homem está no pecado e o pecado nele, de modo que Jesus não leva ‘os pecados do pecador’[4], antes convida os homens que o sigam até a cruz, para que sejam crucificados, mortos, sepultados e possam ressurgir (Mt 10:38; Rm 6:6; Cl 2:12).

Do homem é dito que é pecador porque, pela ofensa de Adão, a humanidade ‘pecou’. A humanidade pecou, assim como é dito que um fruto impróprio para o consumo ou, aquém dos padrões de qualidade, ‘pecou’, ou seja, a humanidade tornou-se imprópria para a glória de Deus.

“Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3:23).

Quando é dito que todos ‘pecaram’, não significa que todos fizeram coisas inconvenientes, do ponto de vista moral, para serem pecadores, antes, que, na madre ocorreu um erro. Desde a madre, os homens se desviam (alienam) de Deus e o fruto dos lábios é mau (falando mentiras), pois, procede de um coração mentiroso (Sl 58:3).

Todos vêm ao mundo sob o domínio do pecado e estão entregues aos seus desejos, guiados pela concupiscência dos olhos e pela soberba da vida, mas essas questões não são, propriamente, o pecado, antes os desejos, as concupiscências e a soberba são uma nevoa (entenebrecidos) que impede as pessoas de enxergarem a luz da verdade do evangelho (Ef 4:18).

Um monge que vive uma vida de ascetismo e não pratica as mesmas ações desregradas dos demais homens, na tentativa de se aproximar de Deus, é soberbo, nada sabe. Do mesmo modo que os demais homens, um monge está entregue aos seus próprios desejos e é guiado pela soberba da vida e pela concupiscência dos olhos. Um religioso que vive de práticas caridosas, de cuidado para com o semelhante, que fez voto de castidade, etc., está em igual condição que os demais homens pecadores.

 

Reforma

A teologia reformada introduziu o conceito da ‘depravação total’, para falar da natureza do homem caído, mas, tal nomenclatura, decorre de uma má leitura do que é o pecado.

Os reformadores seguiram a concepção de que o ser humano só é pecador, por ser ‘moralmente responsável’, quando formularam o conceito de depravação[5], para se referirem à corrupção e à degradação moral do homem.

Por fim, construíram o conceito de ‘depravação total’[6], de que o homem está moralmente ou, espiritualmente morto, ou que o homem natural é como um corpo morto moral e espiritualmente. Para os da reforma, a natureza da escravidão do pecado é moral e espiritual, ou seja, o homem é moralmente e espiritualmente escravo do pecado[7].

Quando apresenta o homem como pecador, a Bíblia não trata de questões de ordem moral e nem se é, moralmente, responsável. Quando a Bíblia diz que o homem é mau ou, mentiroso, não está apontando para questões de ordem moral, antes distingue a natureza de quem é mal, no sentido de vil, baixo, ralé, em contrate com aquele que é bom, luz e verdade por questões e impedimentos que vem de berço (Rm 3:4).

Quando Adão comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, instantaneamente, tornou-se pecador. O que isso significa? Que de imediato ergueu-se uma barreira de separação, e aquele que era santo, justo e bom, passou à condição de imundo, ímpio e mau.

Independentemente da moral e dos costumes que Adão iria aprender ou adotar, no instante após comer do fruto, já estava separado d’Aquele que é a vida, portanto, passou à condição de morto para Deus e vivo para o seu vil senhor, o pecado. Após desobedecer, Adão foi imediatamente responsabilizado pela ofensa, e o que o vinculou ao pecado foi a morte (alienação), e não a moral.

Quando a Bíblia apresenta o homem como mau, não diz da sua moral, mas da sua condição de alienado daquele que é bom. Qualquer boa ação que o homem pratique na intenção de alcançar a Deus é inócua, pois, por mais que alguém da ralé se proponha a viver como alguém da nobreza, jamais mudará a sua condição. Ao vender-se ao pecado como escravo, Adão deixou de ser participante da natureza divina e passou a uma nova condição: inferior.

A Bíblia não diz que o homem está ‘moralmente’[8]morto, como apregoa a teologia reformada, antes que está separado (morto) para Deus. A natureza da morte não é moral, mas, sim, uma barreira que impede a comunhão entre as partes.

A barreira de separação não é segundo a moral, porque Jesus não veio salvar o homem de questões de cunho moral, mas, antes, veio para conceder comunhão com o Criador, removendo a parede de separação que há entre Deus e os homens: o pecado. O evangelho não visa resgatar o caráter ou a moral da humanidade, mas, sim, tirar a barreira de separação (tirar o pecado do mundo), transportando o homem das trevas para o reino do Filho do seu amor.

Questões morais são barreiras comportamentais que os homens erguem entre si e que proporcionam uma melhor vivência entre si. Entraves morais entre os homens não diz da barreira do pecado erguida entre Deus e os homens.

 

Alerta

Os pais cristãos devem compreender que os infantes são pecadores e que podem ser regenerados por meio da fé (evangelho), crendo em Cristo Jesus.

O erro que acometeu os filhos de Abraão, de presumirem de si mesmos que eram filhos de Deus, por terem por pai a Abraão, aquele a quem a promessa foi feita, é o mesmo erro que ronda muitos pais cristãos que pensam que os seus filhos são salvos pelo fato de serem filhos de pais cristãos.

A promessa que Deus fez a Abraão não foi aos seus descendentes segundo a carne, mas ao Seu Descendente, que é Cristo. De igual modo, a promessa de Deus no seu Descendente, que é Cristo, é para todos quantos crerem no evangelho,  não aos que descenderem da carne de quem crê.

Um pai cristão deve ter em mente que o pecado foi introduzido no mundo por Adão e a graça em Cristo, através do último Adão. Igualmente, precisa compreender que, para ser pecador, basta ter entrado no mundo e que para ser salvo, é necessário nascer de novo, crendo em Cristo através da semente incorruptível, que é a palavra de Deus.

O crente em Cristo deve saber que uma criança não é potencialmente pecadora porque está propensa a cometer erros no futuro, antes é pecadora porque veio ao mundo na condição de escrava do pecado, pelo fato de Adão, ao desobedecer a Deus, ter se vendido ao pecado como escravo.

O crente em Cristo deve entender que tem dupla e árdua missão:

a) instruir os seus filhos acerca da verdade do evangelho, para que sejam salvos da condenação estabelecida em Adão, e;

b) instruí-los quanto ao bom porte em sociedade, evidenciando que a sociedade não é misericordiosa quando pune os transgressores.

Quando lemos a mensagem do apóstolo Paulo: “E eles disseram: Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa” (At 16:31), certo é que a salvação está em crer em Cristo. Mas, para que os descendentes do carcereiro (casa) fossem salvos, também precisaram crer e, por isso, o apóstolo pregou o evangelho a todos da casa do carcereiro:

“E lhe pregavam a palavra do Senhor, e a todos os que estavam em sua casa. E, tomando-os ele consigo naquela mesma hora da noite, lavou-lhes os vergões; e logo foi batizado, ele e todos os seus. E, levando-os à sua casa, lhes pôs a mesa; e, na sua crença em Deus, alegrou-se com toda a sua casa” (At 16:32-34).

Se só bastasse ao carcereiro crer e a sua casa inteira seria salva, não seria necessário pregar a palavra a todos que estavam na sua casa para que o carcereiro e todos os seus familiares fossem batizados.

Por isso é dito:

“O qual te dirá palavras, com que te salves, tu e toda a tua casa” (At 11:14).

Outro ponto a se destacar, está na passagem em que Jesus fica indignado ao ver os seus discípulos proibindo as pessoas de trazerem as crianças para tocarem nele, quando disse:

“Deixai vir os meninos a mim e não os impeçais; porque dos tais é o reino de Deus” (Mc 10:14).

Os discípulos foram repreendidos para que deixassem as criancinhas se achegarem a Cristo e Ele dá o motivo: ‘porque dos tais é o reino de Deus’. Ora, o reino de Deus, que é Cristo, é de todos quantos atendem ao convite: “Vinde a mim…”, não importando, se infantes ou, se adultos. Jesus pontuou aos seus discípulos a necessidade das crianças se achegarem a Ele, pois, das que vão a Ele, pertence o reino dos céus.

Jesus não afirmou que o reino dos céus pertence a todas as crianças, pelo fato de serem crianças, antes, que o reino pertence às crianças que vão a Ele: “dos tais”[9]. Por que o reino dos céus é das crianças que vão a Cristo? Porque elas também podem produzir o perfeito louvor, que é confessar que Jesus é o Cristo: – Hosana ao Filho de Davi! (Mt 21:15).

Portanto, todas as crianças precisam ser evangelizadas, pois, só através do mandamento contido no evangelho, que elas podem se precaver do mal que herdaram ao entrar no mundo, se escondendo em Cristo, caso contrário, sofrerão as consequências da ofensa de Adão.

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto

 


[1]“É assim que aprendemos a pecar: linguagem obscena, comentários desnecessários prejudiciais, usar o nome de Deus em vão, tornam-se hábitos pela prática dentro de um ambiente onde ninguém cria objeção alguma” Sheed, Russell P., Lei, Graça e Santificação, 2ª Ed., editora Vida Nova, pág. 99 (grifo nosso).

[2] “A consequência do pecado inevitavelmente é a culpa, aquele sentimento ruim de ter errado, de ter fugido de nossa responsabilidade. É um pressentimento de castigo merecido, de uma dívida que terá que ser paga”. Sheed, Russell P., Psicologia, pecado e culpa Consulta realizada em 30/12/16.

[3]Sinclair B. Ferguson, ao escrever sobre a condição dos infantes, citou Robert Murray McCheyne, de que os infantes, ‘mesmo nessa idade, a semente de todo tipo de pecado já está plantada em seus corações’. Sinclair B. Ferguson , Inocentes Pequeninos, Revista Os Puritanos, pág.  24 <https://issuu.com/heraldoa/docs/revista_03-2010_-_vergonha_do_pecado>.

[4]“… que levou os pecados desse pecado para cruz…” Bíblia de Scofield, com referências, nota de rodapé, pág. 1147.

[5] “Depravação é uma palavra que descreve o estado ou disposição do homem, considerado um ser moral. Ser moral é alguém responsável diante de Deus por seus pensamentos, fala e conduta. Depravação significa a corrupção moral da natureza humana. Refere-se ao estado de pecaminosidade natural do não regenerado” Cole, C. D., Definição de doutrina – Volume II,  As Doutrinas do Pecado, da Salvação e do Serviço. Capítulo 3: Depravação – total, universal e inerente.

[6] “A depravação total significa que o homem, como resultado do pecado original, está morto moral ou espiritualmente. E morto, como adjetivo, não admite comparação. Não há grau de morte; mas há grau na morte. Diante de nós está um morto. Há um dia que está morto. Ele está morto totalmente em todas as partes físicas. Eis outro morto. Ele está morto há uma semana. Ele não está mais morto do que o outro, mas o corpo se encontra em uma condição pior. A Bíblia apresenta o homem natural como um corpo morto moral ou espiritual” Cole, C. D., Definição de doutrina – Volume II,  As Doutrinas do Pecado, da Salvação e do Serviço. Capítulo 3: Depravação – total, universal e inerente.

[7]“Se temos dificuldade aqui, pode ser porque falhamos em entender a natureza da escravidão do pecador. Ela é uma escravidão moral e espiritual, não uma escravidão metafísica, física ou psicológica. Se, como em minha ilustração da máquina-robótica, alguém é fisicamente forçado a fazer algo que ele não deseje fazer, então, certamente, sua escravidão remove sua responsabilidade pelo ato. Confrontada com o seu “feito”, a pessoa teria uma escusa válida: “Eu não pude evitar; eu fui fisicamente forçado a fazê-lo”. Mas, imagine alguém vindo diante de um juiz humano e dizendo, para se escusar de um crime, “Eu não pude evitar, meritíssimo; eu fui forçado a fazê-lo por minha natureza. Desde o nascimento tenho sido um garoto extremamente perverso!”. Certamente há algo irônico sobre apelar à depravação para escusar atos depravados! Se o nosso acusado é realmente um “garoto extremamente perverso”, então, longe de ser uma escusa, isso é mais uma razão para prendê-lo! Meu ponto, então, é que, embora a escravidão física (e outros tipos de escravidão) possa fornecer escusas válidas para ações contrariamente más, a escravidão moral não é uma escusa. Eu não posso imaginar alguém disputando essa proposição, uma vez que ele a entenda (…) A incapacidade do pecado é moral e espiritual; deveras, como temos visto, é uma incapacidade da qual ele mesmo é responsável.” Frame, John,Livre-Arbítrio e Responsabilidade Moral, artigo disponível na web; Grifo nosso. <http://www.monergismo.com/textos/livre_arbitrio/livre_responsabilidade_frame.htm> consulta realizada em 07/01/2017.

[8] “Moral refere-se ao conjunto de regras, padrões e normas adquiridos em uma sociedade por meio da cultura, educação, cotidiano e costumes adquiridos no âmbito social e familiar”, Wikipédia.

[9] “5108 τοιουτοςtoioutos (inclui as outras inflexões) de 5104 e 3778; adj” Dicionário Bíblico Strong.

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O Livro de Jó – Transcendendo a problemática do sofrimento

O íntegro Jó serve para demonstrar a triste condição da humanidade, em sujeição ao pecado, pois, o mais justo dos homens, não consegue satisfazer os reclamos da justiça divina! Mesmo a justiça, a integridade e a retidão de Jó são apresentadas como aquém do padrão de justiça de Deus, tanto que Jó foi repreendido e se arrependeu no pó e na cinza.


A justiça dos escribas e fariseus

Parte II

Talvez você já tenha imaginado a quantidade de pessoas que compunham a grande multidão, ao pé do monte, quando Jesus se posicionou diante dos seus discípulos para ensiná-los (Mateus 5:1). É imprescindível imaginarmos a quantidade de pessoas que formavam aquela multidão e a infinidade de problemas, frustrações, alegrias, esperanças, dúvidas, religiosidades, temores, que atormentavam os componentes da plateia, para a qual Jesus fez o seu grandioso discurso.

Enquanto as bem-aventuranças estavam sendo anunciadas, vejo esperança nos olhos dos ouvintes de Jesus, mesmo naqueles que não compreendiam a mensagem (Mateus 5:3-12).

Mas, quando foi dito que a justiça deles teria de ser superior à dos seus líderes religiosos, para obterem direito ao reino dos céus, vejo os semblantes decaírem pelo espanto e estupefação! Vejo no rosto daquelas pessoas o mesmo espanto que tomou de sobressalto os discípulos, quando perguntaram: – “Quem poderá, pois, salvar-se?” (Mateus 19:25), quando informados de quão difícil é entrar um rico no reino dos céus (Mateus 19:23).

Ora, se é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino dos céus, lembrando que Jesus proferiu tal discurso, após um rico retirar-se triste, mesmo ele tendo dito que guardava a lei desde a sua mocidade, como é possível ao comum do povo entrar no reino dos céus? (Mateus 19:20 e 23).

O que fazer para alcançar justiça superior por alguém que não mata, não rouba, não comete adultério, não furta, não diz falso testemunho, dá o dizimo de tudo? O que fazer para sobrepujar a justiça dos escribas e fariseus, religiosos que, aos olhos dos homens, pareciam justos? (Lc 18:11)

“Assim, também, vós, exteriormente, pareceis justos aos homens, mas, interiormente, estais cheios de hipocrisia e de iniquidade”. (Mateus 23:28)

O que fazer para alcançar justiça, de modo a ter direito ao reino de Deus? As pessoas que compunham aquela multidão precisavam ter um caráter ou uma moral semelhante ao caráter e à moral de Jó?

 

O sofrimento de Jesus

A história de Jó e a história de Cristo têm como pano de fundo o sofrimento, daí a pergunta: Porque o Filho de Deus sofreu, apesar de justo?

Quando os artistas narram a história de Cristo, o sofrimento que envolve a cruz é indispensável. As agruras que se iniciaram no monte das Oliveiras e culminaram com a morte de Jesus na cruz, são exploradas em minúcias.

Quando se narra a história de Cristo, o beijo da traição não pode ser ignorado. O sofrimento impingido pela traição de um amigo é umas das dores de ordem psíquica das mais cruentas, portanto, em nenhuma narrativa que se preze, o beijo da traição fica sem ser destacado (Mateus 26:50).

A condenação perpetrada durante a noite com o uso de falsas testemunhas, por líderes dos concidadãos do Cristo, bem como a sessão de espancamento e os vitupérios que se seguiram à revelia da lei, são elementos imprescindíveis para retratar, sob diversos ângulos, o sofrimento de um homem que só fez o bem.

Um artista consegue retratar com maestria uma multidão enfurecida, após ser incitada por líderes religiosos invejosos, bem como o escárnio dos soldados romanos, quando despiram Jesus e colocaram uma coroa de espinhos sobre a sua cabeça!

Entretanto, habilidade e perícia com palavras, películas, encenação, figurino, efeitos especiais, etc., não habilitam ninguém a compreender que, pela cruz, passou a redenção da humanidade.

Somente conhecendo as Escrituras, é possível ver, através do sofrimento doloroso na cruz, a obediência de Cristo à vontade do Pai, que resultou na redenção da humanidade.

Mas, para um homem natural, na história de Cristo, somente salta aos olhos o sofrimento de um homem bom, injustiçado por seus compatriotas.

O sofrimento é elemento intrínseco nas histórias de Cristo e de Jó, mas, ambas, não têm o sofrimento como elemento central, antes, revelam aspectos relevantes, acerca da justiça de Deus. Em ambas as histórias, o sofrimento é pano de fundo, que emoldura os eventos, que revelam a justiça de Deus.

 

A justiça de Deus contrastada com a justiça dos homens

A história de Jó possui um ingrediente essencial que evidencia a justiça de Deus: a integridade de Jó.

O autor do Livro de Jó dá testemunho de que Jó era um homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do mal (Jó 1:1). Após inúmeras releituras do Livro de Jó, saltou-me aos olhos que o motivo de Jó figurar como protagonista da história estava, especificamente, relacionado à sua integridade e não ao seu sofrimento.

A integridade de Jó serve de contraste para evidenciar o quanto a justiça de Deus é superior à justiça do homem ou, o quanto a justiça do homem está aquém da justiça de Deus.

O íntegro Jó serve para demonstrar a triste condição da humanidade, em sujeição ao pecado, pois, o mais justo dos homens, não consegue satisfazer os reclamos da justiça divina!  Mesmo a justiça, a integridade e a retidão de Jó são apresentadas como aquém do padrão de justiça de Deus, tanto que Jó foi repreendido e se arrependeu no pó e na cinza.

O padrão moral e a retidão de Jó são evidenciados na história com o condão de facilitar a distinção entre a justiça de Deus e a justiça dos homens, esta designada pelo profeta Isaías como ‘trapo de imundície’ e aquela como ‘veste de louvor’ (Is 64:6).

O sofrimento é questão de somenos importância, diante da necessidade de salvação, pertinente a todos os homens. A integridade de Jó destaca que o homem só é aceito por Deus por sua maravilhosa graça e não por suas memoráveis virtudes e qualidades morais.

Se Jó tivesse sido aceito com base na sua integridade, restaria somente desesperança para o restante da humanidade, mas, como o Livro de Jó demonstra que é impossível ao homem justificar-se a si mesmo, através de sua conduta e moral ilibada, vislumbra-se um conhecimento que produz alívio e paz aos homens.

Temos paz quando compreendermos que a justificação do homem independe de suas ações, pois Jó, mesmo inspirando o mais alto ideal de justiça humana, igualmente a todos os outros homens, teve que aguardar em Deus a sua salvação.

A temática do Livro de Jó tem relação direta com a pergunta que abriu o debate entre Jó e os seus amigos:

“Mas, como se justificaria o homem para com Deus?” (Jó 9:2b).

A resposta de Deus contida no Livro de Jó é objetiva e contém todos os elementos pertinentes à justificação do homem.

Somente uma má leitura conduz alguém a considerar que no Livro de Jó Deus mais pergunta que responde, ou que Jó esperou por uma resposta, onde sobrevieram somente perguntas.

 

Por que tinha que ser Jó?

– “Por que eu”?

Está é a primeira pergunta que formulamos quando ocorre um infortúnio em nossas vidas!

Embora o Pregador assevere que ‘tudo acontece igualmente ao justo e ao injusto’, qualquer adversidade é motivo para questionarmos: – “Mas, como pode ter ocorrido isso comigo, que sou dizimista fiel”? – “Eu não entendo como Deus permitiu esta mazela, se eu busco a Deus nas madrugadas”?

Quando atingidos por infortúnios, de pronto subimos em uma balança em que o ponteiro está atrelado aos nossos méritos, reputação, religiosidade, sentimentos, amarguras e questionamos a Deus sobre o motivo daquela adversidade!

Esse tipo de questionamento, quando parte de um não cristão é até compreensível. Se um não cristão vocifera e esbraveja contra os céus, não podemos censurá-lo. Mas, quando ouvimos tais queixas de um cristão, temos de nos perguntar, se alguma vez leu a seguinte passagem bíblica:

“Tudo sucede, igualmente, a todos; o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao puro, como ao impuro; assim, ao que sacrifica, como ao que não sacrifica; assim, ao bom, como ao pecador; ao que jura, como ao que teme o juramento. Este é o mal que há entre tudo quanto se faz debaixo do sol; a todos sucede o mesmo” (Eclesiastes 9:2-3)

Infortúnios ocorrem igualmente a todos! E sabe o porquê é exatamente assim? Porque Deus é justo!

Mas, se nós, mesmos carregados de tantos tropeços[1], como assevera Tiago, em sua epístola, questionamos o porquê passamos por reveses, que se dirá de alguém como Jó: “… homem íntegro, reto e temente a Deus que desviava-se do mal” (Jó 1:1)?

Com o seu currículo irrepreensível, mais que qualquer um, Jó poderia questionar: – “Por que eu”?

Na verdade, pela sua sujeição a Deus, Jó acabou declarando a mesma verdade que o Pregador, quando reconheceu que Deus dá e tira:

“Nu saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; o SENHOR o deu e o SENHOR o tomou: bendito seja o nome do SENHOR” (Jó 1:21).

“Como saiu do ventre de sua mãe, assim nu tornará, indo-se como veio; e nada tomará do seu trabalho, que possa levar na sua mão” (Eclesiastes 5:15)

O senso de justiça social e a conduta irrepreensível de Jó para com os seus semelhantes deveria fazê-lo questionar, de pronto, o motivo de tantas mazelas, no entanto, ele nos surpreende quando bendiz a Deus: – “Bendito seja o nome do Senhor”! (Jó 1:21)

Jó surpreende quando bendiz a Deus, após os infortúnios que lhe sobrevieram, o que nos faz perceber que, dentre tantos personagens bíblicos, o patriarca se destaca pela sua integridade e firmeza moral. Analisando, panoramicamente, as Escrituras, verifica-se que os demais personagens, geralmente, eram insignificantes (o menor), repreensíveis do ponto de vista moral e cometeram alguns desvios comportamentais.

O elemento a ser considerado no Livro de Jó é a sua integridade e retidão, pois não é possível apontarmos falhas de cunho moral nesse herói da fé, diferentemente de outros personagens como Abraão, Isaque, Jacó, Moisés, Davi, Jonas, Gideão, etc.

As histórias dos personagens bíblicos nos faz contemplar a graça e a misericórdia de Deus e nos identificamos com eles, pois, fica patente que somos sujeitos às mesmas paixões que eles, de modo que a graça de Deus foi superabundante sobre eles, da mesma forma que é sobre nós: “Elias era homem sujeito às mesmas paixões que nós e, orando, pediu que não chovesse e, por três anos e seis meses, não choveu sobre a terra” (Tiago 5:17).

Quando o rei Davi se deitou com Bate-Seba, mulher de Urias, e mandou matá-lo (2 Sm 11:4), vemos, de imediato, a misericórdia de Deus ao perdoá-lo, entretanto, quando analisamos a vida de Jó, o que nos salta aos olhos é o testemunho de Deus:

“Observaste a meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele; homem íntegro, reto e temente a Deus, e que se desvia do mal” (Jó 1:8).

Considerando que tudo o que foi escrito nas Escrituras tem o condão de ensinar (Romanos 15:4), e que foi Deus que apontou a integridade de Jó, resta concluir que Jó foi escolhido por Deus para figurar como personagem de uma das mais belas histórias da Bíblia, única e exclusivamente, pela sua integridade.

A lição que Deus ensina no Livro de Jó não dá para ser transmitida através da vida de heroínas da fé como Raabe e Tamar. Através da vida de homens como Gideão, Sansão, Jefté, Salomão, etc., não é possível transmitir com tamanha propriedade um conhecimento impar acerca da justiça de Deus e, por isso mesmo, o Livro evidencia a integridade de Jó e o torna personagem principal dessa trama maravilhosa.

Que conhecimento ou, que lição é esta? Evidenciar a justiça de Deus, contrastando com a justiça do homem mais justo e integro que já existiu! Através do melhor homem, somos convidados a considerar o quão impossível é ao homem justificar-se a si mesmo.

A integridade de Jó funciona como contraste[2], evidenciando o quão discrepante é a natureza da justiça humana, quando comparada à natureza da justiça de Deus.

As Escrituras dão conta de que não há homem que seja justo, nem sequer um (Eclesiastes 7:20; Salmos 53:3; Miqueias 7:2) e por não existir homem justo sobre a terra, Deus escolheu alguém inigualável entre os homens: Jó, para evidenciar a Sua justiça.

“E disse o SENHOR a Satanás: Observaste tu a meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desvia do mal” (Jó 1:8).

O termo hebraico traduzido por semelhante é כָּמֹ֙הוּ֙, transliterado kêmow ou kamow, segundo o Dicionário Strong, que significa: ‘como, assim como, semelhante a, quando, de acordo com, segundo’.

Não havia quem fosse semelhante a Jó no quesito integridade, retidão e temor a Deus, e esse foi o motivo de Jó ter sido selecionado por Deus para figurar como protagonista desse livro singular.

Diante da pergunta: – “Por que Jó”? A resposta é inequívoca: Jó foi escolhido por Deus por ser um homem de índole e comportamento ímpar.

 

O sofrimento de Noemi

A história de Noemi, assim como a história de Jó é dramática, no entanto, o questionamento acerca do sofrimento não ocorre. Por quê?

Embora o narrador do Livro de Rute não dê um testemunho direto acerca da índole e do caráter de Noemi, percebe-se nuances que apontam o quão virtuosa era essa mulher.

O Livro de Rute é do gênero narrativo e conta a história de uma moça moabita que se casou com um israelita, filho de Noemi. Para muitos, a história é um ‘ode’ à lealdade de Rute, uma mulher de grande caráter, para com sua sogra, Noemi.

Mas, o leitor deve atentar para o fato de que a história de Rute teve início com Elimeleque, um efrateu de Belém de Judá, à época em que os juízes julgavam.

O drama teve início com uma grande fome na terra de Israel, de modo que Elimeleque, juntamente com sua esposa, Noemi, e seus dois filhos, Malom e Quiliom, saíram a peregrinar nos campos de Moabe.

Durante a peregrinação, Elimeleque faleceu e Noemi ficou só, em terras estrangeiras, com os seus dois filhos. Com o passar do tempo, os filhos de Noemi se casaram com mulheres moabitas: Orfa e Rute. Em um período de dez anos, os dois filhos de Noemi faleceram, restando as três mulheres viúvas: Noemi, Orfa e Rute.

Noemi soube que, em Israel, havia pão e resolveu sair de Moabe e voltar a Belém. Porém, antes de retornar, resolveu despedir as suas noras, cada qual para os seus familiares. Orfa resolveu voltar para a casa de sua mãe, mas Rute resolveu seguir a Noemi.

Quando Noemi e Rute adentraram a cidade de Belém, os moradores se comoveram com o infortúnio que abatera sobre Noemi. Os habitantes de Belém ainda guardavam na lembrança Noemi, quando casada e com os seus dois filhos. Como os moradores de Belém ainda continuavam chamando Noemi pelo seu nome, que evocava um tempo de bonança e esperança, Noemi, em função da grande amargura e dor que sentia, pediu para que a chamassem de Mara.

Estas são as palavras do lamento de Noemi:

“Cheia parti, porém vazia o Senhor me fez tornar; porque, pois, me chamareis Noemi? Pois o Senhor testifica contra mim e o Todo-poderoso me tem afligido muito” (Rute 1:21).

Além da dor e da aflição pela perda do marido, Noemi, também, perdeu o bom nome que possuía, quando perdeu os seus dois filhos. O bom nome de Noemi estava vinculado ao fato dela ter dado dois filhos ao seu marido Elimeleque, pois, em Israel, todos tinham por bem-aventurada a casa que tivesse filhos, pela esperança da vinda do Messias.

Ora, mesmo em dor e aflição, assim como Jó, Noemi não infamou ao Senhor. Ela demonstrou ter consciência de que as aflições que lhe sobrevieram eram decorrentes da mão do Senhor, assim como Jó (Rute 1:13).

Jó perdeu os filhos, a saúde e foi acusado de pecado e Noemi perdeu a família, o bom nome, pois estava velha e não tinha condições de cumprir o seu papel: dar descendência ao seu marido.

Assim como Jó teve sete filhos e três filhas, quando recompensado por Deus, Noemi foi recompensada com o nascimento de Obede, filho de Boaz, com Rute. Através de Rute, Noemi ganhou boa fama entre os seus compatriotas e tornou-se bendita, como se a sua nora valesse por sete filhos (Rute 4:14-15).

Comparando a história de Jó com a história de Noemi, percebe-se que ambos sofreram um intenso revés na vida, no entanto, a história desta sofrida velha senhora não desperta questionamentos acerca da justiça de Deus frente às mazelas e tragédias[3] que acometem os justos.

Diferentemente da história de Noemi, que evidencia o cuidado de Deus para com a sua serva, a história de Jó foi redigida com o propósito de estimular o leitor a uma mudança de entendimento acerca da justificação do homem.

O essencial para compreender a justiça de Deus não é o sofrimento do personagem Jó, mas, os seus predicativos.  Já o sofrimento de Noemi evidencia o cuidado de Deus para com os que confiam, sem questionamentos, acerca da justiça de Deus.

 

Continua…


[1] “Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça em palavra, o tal é perfeito e poderoso para também refrear todo o corpo”. (Tiago 3:2)

[2] Para a nossa análise, adotaremos o conceito de contraste, como algo ou, alguém, diferente, único, que se distingue pelo valor maior, porque a oposição ou, a discrepância, nos permite distinguir um do outro.

[3] “O livro explora o velho, eterno e insolúvel problema da presença do mal no mundo, sobretudo na vida dos inocentes, dos que parecem sofrer sem razão alguma”. Lima, Héber S., Jó… Quando o Espinho Floresce, Edições Loyola, São Paulo, 1995, pág. 10.

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