A simplicidade dos pequeninos

Em nossos dias, quando utilizamos o termo ‘inocente’, somos remetidos à ideia de alguém que nada sabe, ou seja, que desconhece que é simples. O termo inocente, neste artigo, não se refere às questões próprias aos tribunais, onde temos o culpado e o livre de culpa, este último, também, chamado de inocente.


“O prudente prevê o mal e esconde-se; mas, os simples, passam e acabam pagando.” (Provérbios 22:3)

“O avisado vê o mal e esconde-se; mas, os simples, passam e sofrem a pena.” (Provérbios 27:12)

 

Introdução

A condição do ‘infante’, em relação ao ‘pecado’, fomenta muitas discussões e, pela má compreensão, acerca da natureza do pecado, sobram suposições e vários desvarios doutrinários, acerca do tema.

Há quem acredite, sem suporte bíblico, que uma criancinha inocente, ingênua ou, sem consciência, é isenta de pecado. Através de uma perspectiva humana, com base em viés sentimental, questionam se é possível um infante de aspecto ‘angelical’, que nunca fez nada de errado, do ponto de vista moral, ser um pecador.

Entender que, pela tenra idade, uma criança é isenta de pecado, é temerário, à luz das Escrituras, vez que Deus garantiu a Abraão que não destruiria as cidades de Sodoma e Gomorra, se nelas houvesse ao menos dez justos.

Sabemos que somente três pessoas foram resgatadas com vida das cidades de Sodoma e Gomorra: o justo Ló e suas duas filhas e que todas as criancinhas, juntamente com os habitantes adultos, foram dizimadas por Deus.

Qual entendimento abstrair acerca da destruição das crianças das cidades de Sodoma e Gomorra, quando da subversão dessas cidades?

 

Justo é o mesmo que inocente?

Como Deus garantiu que não destruiria as cidades de Sodoma e Gomorra, se nelas houvesse dez justos, isso significa, claramente, que as muitas criancinhas de Sodoma e Gomorra não eram justas diante de Deus, apesar de nada saberem (inocentes)!

“Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra? Então disse o Senhor: Se eu em Sodoma, achar cinquenta justos dentro da cidade, pouparei a todo o lugar por amor deles (…) Disse mais: Ora, não se ire o Senhor, que ainda só mais esta vez falo: Se porventura se acharem ali dez? E disse: Não a destruirei, por amor dos dez” (Gn 18:25-26 e 32).

Através dessa passagem bíblica e de outras que relatam a morte de crianças, verifica-se que inocência ou simplicidade não é o mesmo que ser justo diante de Deus. Mesmo o simples, o inocente, o não alertado, o desconhecedor ou, o sem consciência, são passíveis de pena ou, das consequências do pecado.

O principio que se aplica, é o mesmo apontado pelo Pregador, no Livro dos Provérbios: Como é possível um inocente (simples) sofrer as consequências, somente por passar em um determinado lugar?

Ora, um ladrão, ao saber que esta ocorrendo um tiroteio, em determinado lugar, imediatamente se esconde, mas, um inocente ou, um simples (que nada sabe acerca do que está ocorrendo), caso passe em meio ao tiroteio, sofrerá as consequências.

Como o simples ou, o inocente, são passíveis de sofrerem as consequências, compreende-se o motivo pelo qual a Bíblia utiliza a figura da escravidão para ilustrar a condição do homem sob a égide do pecado.

 

Escravos do pecado

Adão, pela ofensa no Éden, vendeu todos os seus descendentes como escravos ao pecado. Por analogia, assim como nas sociedades antigas, os descendentes de escravos eram escravos e permaneciam por toda existência terrena sob as consequências da escravidão, simplesmente, porque nasceram de escravos. Igualmente se dá com os menores, quando vem ao mundo: são escravos do pecado, em função da semente dos seus pais, que, também, são escravos do pecado.

A escravidão, nas sociedades antigas, alcançava os filhos dos escravos, independente de moralidade, inocência, habilidade, sentimento ou, idade, vez que o pecado, como senhor, estabeleceu o seu domínio sobre todos os descendentes de Adão, independentemente de raça, cor, nacionalidade, moral, tamanho, idade, sexo, etc.

O apóstolo Paulo enfatizou que um pecou (Adão) e, como consequência, a morte (penalidade, consequência) passou a todos os homens, por isso, é dito que todos pecaram (Rm5:12). A morte, como consequência da ofensa de Adão, passou a todos os homens, mesmo sem terem culpa ou, dolo algum, o que demonstra que a pena, como consequência da ofensa de Adão, repousa sobre todos os homens, mesmo sobre os inocentes ou, sobre os simples.

Em nossos dias, quando utilizamos o termo ‘inocente’, somos remetidos à ideia de alguém que nada sabe, ou seja, que desconhece que é simples. O termo inocente, neste artigo, não se refere às questões próprias aos tribunais, onde temos o culpado e o livre de culpa, este último, também, chamado de inocente.

Um aborígene nada sabe sobre a sua condição diante de Deus e, nesse aspecto, é um inocente, porém, o tal não é livre da condenação estabelecida, em função da ofensa de Adão, portanto, é culpável diante de Deus pela condenação estabelecida no Éden.

Deste modo, é possível dizer que alguém é inocente, em razão de nada saber, porém, culpável diante de Deus, em função da condenação estabelecida no Éden. Por conseguinte, é possível alguém ser inocente e ímpio, nada saber e ser injusto diante de Deus. Esse alguém pode ser simples, mas sobre ele pesam as consequências da ofensa de Adão.

 

A morte

A condição imposta pela ofensa, que é a morte (separação, alienação de Deus), é o que torna o homem pecador. A humanidade é pecadora, porque as consequências da ofensa, do primeiro homem que pecou, passaram aos seus descendentes: condenação e morte (separação).

Foi no Éden que a humanidade, na coxa de Adão, juntamente, alienou-se de Deus e se fez imunda. Adão é a porta larga, por onde todos os seus descendentes entram no mundo e, por estarem na sua ‘coxa’, juntamente, todos os homens se desviaram e se fizeram imundos, não importando se judeus ou gentios (Sl 53:3,Sl 58:3).

“Desviaram-se todos e, juntamente, se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um” (Sl 53:3);

“Alienam-se os ímpios, desde a madre; andam errados, desde que nasceram, falando mentiras” (Sl 58:3);

Uma é a verdade: se não nascer de novo, da semente incorruptível, não se pode ver o reino dos céus! Sem entrar pela porta estreita, que é Cristo, jamais o homem poderá ter acesso ao reino dos céus! Isso porque, o nascimento natural é segundo a semente corruptível de Adão, que é terrena.

Como carne e sangue não podem herdar o reino dos céus e a corrupção não pode herdar a incorrupção, certo é, que é necessário nascer da semente de Deus, para ter acesso ao reino de Deus.

“E agora digo isto, irmãos: que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção” (1 Co 15:50).

Criança ou não, inocente ou não, se é nascido da carne, é carnal, portanto, corruptível e terreno. Se é carne, corruptível e terreno, não podem herdar a incorrupção, mesmo os infantes. As condições apontadas pelo apóstolo Paulo: carne, sangue e incorrupção, abarcam as crianças e não temos, na Bíblia, qualquer alusão a possíveis exceções.

O que um pai deixa de herdade, não depende do dolo ou da culpa dos filhos. Filho é filho, não importando questões morais ou, comportamentais, portanto, é herdeiro, por vínculo familiar ou, de sangue. A alienação de Deus é a herança que o primeiro pai da humanidade deixou a todos os seus descendentes, por vinculo de sangue, portanto, não depende de questão moral ou, comportamental.

A realidade do pecado não se refere à possibilidade de uma criança se desviar dos preceitos legais ou, morais, instituídos pela sociedade ou, ainda, que tenha herdado um comportamento ou, um caráter transviado do primeiro homem, Adão. O pecado não diz de uma tendência enraizada de caminhos tortuosos, desvinculados da boa moral ou, dos bons costumes. O pecado não diz de escolhas entre certo e errado, entre bem e mal, que o conhecimento do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal legou aos homens.

O pecado refere-se a uma barreira de separação erguida entre o homem e Deus, por causa da ofensa de Adão, que lhe conferiu a condição de morto para Deus. A condição do homem, ao entrar no mundo, por Adão, a porta larga, é estar separado de Deus. A separação de Deus (morte) é consequência do pecado e não os desvios morais.

Mas, equivocadamente, as pessoas rotulam como pecado as decisões que os homens tomam, tendo por base o conhecimento do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal e se esquecem da barreira de separação que há entre Deus e os homens.

Todos os homens, quando abrem a madre, entram no mundo, por Adão, e seguem um caminho largo, que os conduzirá à perdição, independentemente da moral, costumes, caráter, honradez, idade, nacionalidade, etc.

Assim como o principado é condição que se herda de berço, o pecado é condição que se herda de nascimento: separação de Deus.

Em função da ofensa de Adão, que desobedeceu a lei santa, justa e boa (visto que a lei dada no Éden visava proteger o homem da morte), entrou o pecado no mundo, ou seja, a barreira de separação entre Deus e os homens e, pelo pecado, veio a condenação: morte (Rm 5:18). Como a morte passou a todos os homens, isso significa que todos estão condenados e apenados com a morte, portanto, designados ‘pecadores’.

A consequência da queda de Adão é funesta para a humanidade, mesmo sobre aqueles que não desobedeceram à ordem direta de Deus dada no Éden, que diz:

“Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2:17).

Os infantes serem tidos por ímpios por Deus é a expressão mais contundente da ofensa de Adão, por causa das questões sentimentais próprias ao homem, pois a morte reina tanto sobre criancinhas, quanto sobre adultos.

“… entretanto, reinou a morte, desde Adão, até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança da morte de Adão…” (Rm 5.14).

Uma criança ser tida como pecadora choca a concepção do homem natural. Os sentimentos como dó, apego, afeição, etc., turvam o entendimento do homem, porém, a realidade é o que é, não importando os sentimentos humanos!

Se o homem está triste ou feliz, a verdade é a verdade. Se o homem gosta ou não gosta, a justiça é a justiça. Aceitando ou, não, a lei da gravidade, os homens estão sujeitos a ela. Querendo ou, não, o tempo é inexorável, portanto, ao tratar da realidade do pecado, não se pode considerá-lo sob influência dos sentimentos ou, através da ótica das emoções humanas.

Como a morte alcança a todos, infantes e adultos, mesmo aqueles que não compreendem a sua triste condição herdada: escravos do pecado ou, nem possuem consciência para compreender o que é ser escravo do pecado, a morte é fato e demonstra que todos estão sob domínio do pecado, sem exceção.

Isso porque a morte, como pena da condenação decorrente da ofensa de Adão, entrou no mundo e alcançou a todos os seus descendentes, como uma herança (Rm 5:12).

 

A natureza do pecado

Entretanto, além do erro de se considerar que uma criança inocente como justa, ou seja, isenta de pecado, há outros erros semelhantemente perniciosos:

  1. Considerar que o pecado é um princípio nas crianças que, invariavelmente, as levará a fazer coisas erradas;
  2. Considerar que ações erradas do ponto de vista da lei, da moral e dos bons costumes seriam provenientes de uma semente (o pecado) latente na criança;
  3. Considerar que uma criança aprende a pecar durante o seu desenvolvimento e, por isso, quando praticar algo inconveniente, tornar-se-á pecadora;
  4. Entender que uma criança é pecadora por ser completamente ‘depravada’ pois, todos os tipos de pecados já estão plantados em seu coração.

O Dr. Russel Sheed entendia que o homem aprende[1] a pecar quando adquire hábitos em um ambiente onde não é corrigido. Para o Dr. Shedd, Adão desobedeceu a Deus e legou aos seus descendentes uma inclinação para o mal. Em outra abordagem, Sheed aponta a consequência do pecado como culpa, como se o pecado fosse uma questão de cunho psíquico, daí a abordagem do ponto de vista sentimental[2].

No entanto, a Bíblia sublinha que o pecado não possui relação alguma com aprendizado, mas, sim, com o nascimento natural, em que o escravo do pecado traz ao mundo descendentes, escravos do pecado. Por descender de um ímpio, aquele que é gerado, também, é ímpio e procederá impiamente, não importando se o ímpio gerado viera praticar ou, não, boas ou, más ações, do ponto de vista da moral humana.

“Como diz o provérbio dos antigos: Dos ímpios procede a impiedade; porém a minha mão não será contra ti” (1 Sm 24:13).

O pecado não diz de uma inclinação para o mal, mas de uma natureza má. A condição de pecador não é questão de hábito, mas de natureza. A natureza de alguém separada de Deus é morte, mentira, trevas, mal, vil, etc., e, em função dessa natureza, é pecador. Isso significa que o pecador jamais faz o bem (Sl 53:3), mesmo que queira, pois o seu coração enganoso obra continuamente o mal, pois, como escravo, pertence, por direito, ao seu senhor, servindo como instrumento do pecado.

É por isso que o salmista descreve o ímpio como aquele que, desde que nasce, continuamente, profere mentiras. Fala mentira, desde que nasce, por causa do coração enganoso que herdou e, como a boca fala o que o coração está cheio, profere continuamente mentiras (Sl 58:3; Jr 17:9; Pv 12:5).

O homem é pecador porque é mal no sentido de vil, baixo, ralé, etc., mesmo sabendo dar boas dádivas aos seus semelhantes (Lc 11:13). O problema do pecado decorre da semente que traz os homens ao mundo e não das suas ações. Praticar boas ações não muda a natureza de alguém, gerado da semente corruptível. Uma semente ruim (vil, ralé) forma árvore má que só pode produzir frutos maus.

“Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons” (Mt 7:18).

O problema da árvore má em dar maus frutos decorre da semente que foi plantada, ou seja, está na natureza da árvore. Não importa o quão vistosas estejam as folhagens; a qualidade do fruto sempre estará comprometida. Não importa o quão boa é a qualidade da terra; os frutos sempre serão conforme a espécie da semente (Is 26:10).

O problema de uma criança em ser má e dar frutos maus, não está no seu comportamento futuro, antes, decorre da semente a qual nasceu. Não importa o quão vistoso possa parecer aos olhos dos homens alguém que atingiu a maturidade, por causa da natureza herdada de Adão, estará impossibilitado de produzir bons frutos.

Os israelitas achavam que eram livres e que nunca foram servos de ninguém, simplesmente, por serem descendentes da carne de Abraão e, por isso, sempre diziam: temos por Pai a Abraão, quando procuravam demonstrar que eram salvos (Mt 3:9; Jo 8:39).

O fruto dos lábios dos judeus não era um fruto bom, pois não admitiam o que foi evidenciado pelo profeta Isaias:

“Ó SENHOR Deus nosso, já outros senhores têm tido domínio sobre nós; porém, por ti só, nos lembramos de teu nome” (Is 26:13).

O fruto de um homem pode ser bom ou mal e, respectivamente, nascer de um coração bom ou mal e do fruto dos lábios, torna-se farto o seu ventre. Fruto na Bíblia diz do que procede do coração e é pronunciado pelos lábios, por isso é dito que a boca fala do que o coração está cheio.

“Do fruto da boca de cada um se fartará o seu ventre; dos renovos dos seus lábios ficará satisfeito” (Pv 18:20).

O fruto dos lábios de um crente em Cristo é segundo a verdade do evangelho: admitir que Jesus é o Cristo (Hb 13:15). O fruto dos lábios de um homem mal jamais admitirá verdades como: Jesus veio em carne, Jesus é o Filho de Deus, Jesus é o Filho de Davi, etc.

Quando Jesus disse que os judeus precisavam permanecer em Seu ensino para conhecerem a verdade e serem livres, o fruto bom seria admitir: Mestre, ‘outros senhores têm tido domínio sobre nós’, mas como disseram: ‘nunca fomos escravos de ninguém’, professaram uma mentira segundo o coração maligno que herdaram, portanto, eram escravos do pecado.

“Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado” (Jo 8:34).

Um coração sujeito ao pecado é altivo, ou seja, jamais admite que é escravo. Todo homem é mentiroso, desde que nasce, inclusive os descendentes da carne de Abraão (Rm 3:4), por isso, precisavam morrer (circuncisão do coração) e nascer de novo da palavra de Deus.

Diferentemente do que o Dr. Shedd disse, a consequência do pecado é alienação de Deus e não o sentimento de culpa. O sentimento de culpa que aflorou em Adão, não alterou a sua comunhão com Deus, mas, sim, a sua desobediência. A culpa, como sentimento de que algo deu errado, ou para tentar fugir à responsabilidade, faz parte da natureza humana, mas a culpa não tem poder de alterar a relação do homem com Deus.

O poder que atuou sobre o homem e alterou a sua condição, diz da força da lei, que dizia: ‘certamente morreras’, não o sentimento de Adão de que estava com medo de um castigo. A lei que estabelecia a morte como punição à desobediência tornou-se a força do pecado, por isso o apóstolo Paulo apresenta a morte como aguilhão “Ora, o aguilhão da morte é o pecado e a força do pecado é a lei” (1 Co 15:56).

Uma árvore que procede de uma semente má, também é má, quer seja grande ou, pequena. O fruto da árvore má será sempre mau, não importando as boas ou, más ações, que vier a praticar. Daí o veredicto:

“E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo” (Mt 3:10).

Esse ensinamento de João Batista, também, foi dado por Cristo, nas seguintes palavras:

“Ele, porém, respondendo, disse: Toda a planta que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” (Mt 15:13).

Devemos ter em mente que as boas e as más ações dos homens, somente aproveitam ou, prejudicam aos seus semelhantes, portanto, não alteram a condição do homem diante de Deus:

“Se pecares, que efetuarás contra ele? Se as tuas transgressões se multiplicarem, que lhe farás? Se fores justo, que lhe darás ou, que receberá ele da tua mão? A tua impiedade faria mal a outro tal como tu; e a tua justiça aproveitaria ao filho do homem” (Jó 35:6-8).

A mudança da natureza do homem somente ocorre quando nasce de novo, de uma semente incorruptível, a palavra de Deus, que concede ao homem uma nova natureza: a divina, quando, portanto, torna-se santo, justo e bom!

“Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que, por elas, fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo” (1 Pe 1:4).

Todas as crianças que vem ao mundo têm a oportunidade de serem regradas moralmente ou, se tornarem transviadas, dependendo, em muito, do meio em que ela está inserida. Todas podem seguir uma boa vida moral e possuir bons costumes, como, também, podem se desviar da boa moral e dos bons costumes.

Segundo a concepção humana, uma pessoa moralmente correta segue um bom caminho e uma pessoa imoral segue o mau caminho, porém, não é essa realidade que a Bíblia revela, pois ela ensina que todos os homens que vem ao mundo entram por Adão (porta larga) e seguem por um caminho largo que conduz à perdição, independentemente de suas práticas e hábitos.

O caminho que conduz o homem à perdição não é sinuoso e nem tortuoso, antes largo. Moralmente, o homem pode seguir caminhos tortuosos ou retos, entretanto, o caminho da boa ou má moral não diz do caminho que conduz à perdição.

‘Uma pessoa moralmente correta que frequentou um ambiente onde havia objeção contra mentir, linguagem obscena, comentários desnecessários e prejudiciais, usar o nome de Deus em vão, etc.’, percorre o mesmo caminho de perdição de alguém que não foi criado em um ambiente que não havia objeção alguma com relação a certas práticas perniciosas. Tanto moralmente corretos, quanto incorretos, percorrem o caminho da perdição, pelo fato de terem acessado o mundo, através da porta larga, que é Adão.

Vale destacar que nenhuma criança vem ao mundo com um princípio ou tendência de seguir o que é moralmente errado e pernicioso. Todos os recém-nascidos são como ‘tábuas rasas’. Todas são como folhas em branco, na qual, pela convivência, são incutidos conhecimentos e desejos. É por isso que devem ser instruídos no caminho que devem andar, para não se desviarem, quando crescerem.

No entanto, mesmo essas ‘tabuas rasas’ são pecadoras, assim como um adulto permanece pecador, enquanto dorme. O pecador não deixa de ser pecador enquanto dorme, pois o pecado é uma questão de natureza alienada de Deus e não deriva do comportamento.

O pensamento de que, no coração de uma criança, já estão ‘plantadas sementes de todo tipo de pecado’[3] é equivocado, visto que, na verdade, a criança está no pecado e, não o pecado, como uma semente, está latente no coração da criança.

A criança deriva de uma semente corruptível que a introduziu no mundo, toda em pecado, pecado esse que não possui relação com o bem ou com o mal que ela vier a praticar. A criança é pecadora, em razão de ter estado na coxa do primeiro homem que pecou, e não porque foi introduzida uma semente que a levará à prática de coisas inconvenientes.

É em função de o homem estar no pecado que é necessário que o corpo do pecado seja desfeito, o que ocorre quando o homem morre com Cristo. Deus não extrai uma semente do pecado do coração do homem, antes, através da circuncisão do coração, toda a carne do pecado é despojada (lançada fora) (Rm 6:6; Cl 2:11).

Davi confessou que foi formado em iniquidade e concebido em pecado (Sl 51:5), o que demonstra que Ele nasceu sob o domínio do pecado e não que, em seu coração, foi colocado uma ‘semente de pecados’. Davi nasceu todo no pecado: corpo, alma e espírito, de modo que Ele apela a Deus que lhe dê um novo coração e um novo espírito (novo nascimento).

Se o pecado fosse um princípio ou, uma semente, bastava extirpar a semente ou a árvore do pecado que floresceu no coração do homem, entretanto, vemos que é necessário que o próprio coração que teve origem da semente de Adão, seja trocado por um novo coração, segundo o poder de Deus, pois o machado é posto à raiz das árvores, vez que o homem está no pecado e não o pecado no homem.

“Cria (Bara – cf. hb) em mim, ó Deus, um coração puro e renova em mim um espírito reto” (Sl 51:10)

O erro em entender que no coração das crianças o pecado é como semente, decorre do erro de entender que Cristo leva ‘os pecados do pecador para a cruz’, como se o pecado fosse um fardo. Na verdade, o homem está no pecado e o pecado nele, de modo que Jesus não leva ‘os pecados do pecador’[4], antes convida os homens que o sigam até a cruz, para que sejam crucificados, mortos, sepultados e possam ressurgir (Mt 10:38; Rm 6:6; Cl 2:12).

Do homem é dito que é pecador porque, pela ofensa de Adão, a humanidade ‘pecou’. A humanidade pecou, assim como é dito que um fruto impróprio para o consumo ou, aquém dos padrões de qualidade, ‘pecou’, ou seja, a humanidade tornou-se imprópria para a glória de Deus.

“Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3:23).

Quando é dito que todos ‘pecaram’, não significa que todos fizeram coisas inconvenientes, do ponto de vista moral, para serem pecadores, antes, que, na madre ocorreu um erro. Desde a madre, os homens se desviam (alienam) de Deus e o fruto dos lábios é mau (falando mentiras), pois, procede de um coração mentiroso (Sl 58:3).

Todos vêm ao mundo sob o domínio do pecado e estão entregues aos seus desejos, guiados pela concupiscência dos olhos e pela soberba da vida, mas essas questões não são, propriamente, o pecado, antes os desejos, as concupiscências e a soberba são uma nevoa (entenebrecidos) que impede as pessoas de enxergarem a luz da verdade do evangelho (Ef 4:18).

Um monge que vive uma vida de ascetismo e não pratica as mesmas ações desregradas dos demais homens, na tentativa de se aproximar de Deus, é soberbo, nada sabe. Do mesmo modo que os demais homens, um monge está entregue aos seus próprios desejos e é guiado pela soberba da vida e pela concupiscência dos olhos. Um religioso que vive de práticas caridosas, de cuidado para com o semelhante, que fez voto de castidade, etc., está em igual condição que os demais homens pecadores.

 

Reforma

A teologia reformada introduziu o conceito da ‘depravação total’, para falar da natureza do homem caído, mas, tal nomenclatura, decorre de uma má leitura do que é o pecado.

Os reformadores seguiram a concepção de que o ser humano só é pecador, por ser ‘moralmente responsável’, quando formularam o conceito de depravação[5], para se referirem à corrupção e à degradação moral do homem.

Por fim, construíram o conceito de ‘depravação total’[6], de que o homem está moralmente ou, espiritualmente morto, ou que o homem natural é como um corpo morto moral e espiritualmente. Para os da reforma, a natureza da escravidão do pecado é moral e espiritual, ou seja, o homem é moralmente e espiritualmente escravo do pecado[7].

Quando apresenta o homem como pecador, a Bíblia não trata de questões de ordem moral e nem se é, moralmente, responsável. Quando a Bíblia diz que o homem é mau ou, mentiroso, não está apontando para questões de ordem moral, antes distingue a natureza de quem é mal, no sentido de vil, baixo, ralé, em contrate com aquele que é bom, luz e verdade por questões e impedimentos que vem de berço (Rm 3:4).

Quando Adão comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, instantaneamente, tornou-se pecador. O que isso significa? Que de imediato ergueu-se uma barreira de separação, e aquele que era santo, justo e bom, passou à condição de imundo, ímpio e mau.

Independentemente da moral e dos costumes que Adão iria aprender ou adotar, no instante após comer do fruto, já estava separado d’Aquele que é a vida, portanto, passou à condição de morto para Deus e vivo para o seu vil senhor, o pecado. Após desobedecer, Adão foi imediatamente responsabilizado pela ofensa, e o que o vinculou ao pecado foi a morte (alienação), e não a moral.

Quando a Bíblia apresenta o homem como mau, não diz da sua moral, mas da sua condição de alienado daquele que é bom. Qualquer boa ação que o homem pratique na intenção de alcançar a Deus é inócua, pois, por mais que alguém da ralé se proponha a viver como alguém da nobreza, jamais mudará a sua condição. Ao vender-se ao pecado como escravo, Adão deixou de ser participante da natureza divina e passou a uma nova condição: inferior.

A Bíblia não diz que o homem está ‘moralmente’[8]morto, como apregoa a teologia reformada, antes que está separado (morto) para Deus. A natureza da morte não é moral, mas, sim, uma barreira que impede a comunhão entre as partes.

A barreira de separação não é segundo a moral, porque Jesus não veio salvar o homem de questões de cunho moral, mas, antes, veio para conceder comunhão com o Criador, removendo a parede de separação que há entre Deus e os homens: o pecado. O evangelho não visa resgatar o caráter ou a moral da humanidade, mas, sim, tirar a barreira de separação (tirar o pecado do mundo), transportando o homem das trevas para o reino do Filho do seu amor.

Questões morais são barreiras comportamentais que os homens erguem entre si e que proporcionam uma melhor vivência entre si. Entraves morais entre os homens não diz da barreira do pecado erguida entre Deus e os homens.

 

Alerta

Os pais cristãos devem compreender que os infantes são pecadores e que podem ser regenerados por meio da fé (evangelho), crendo em Cristo Jesus.

O erro que acometeu os filhos de Abraão, de presumirem de si mesmos que eram filhos de Deus, por terem por pai a Abraão, aquele a quem a promessa foi feita, é o mesmo erro que ronda muitos pais cristãos que pensam que os seus filhos são salvos pelo fato de serem filhos de pais cristãos.

A promessa que Deus fez a Abraão não foi aos seus descendentes segundo a carne, mas ao Seu Descendente, que é Cristo. De igual modo, a promessa de Deus no seu Descendente, que é Cristo, é para todos quantos crerem no evangelho,  não aos que descenderem da carne de quem crê.

Um pai cristão deve ter em mente que o pecado foi introduzido no mundo por Adão e a graça em Cristo, através do último Adão. Igualmente, precisa compreender que, para ser pecador, basta ter entrado no mundo e que para ser salvo, é necessário nascer de novo, crendo em Cristo através da semente incorruptível, que é a palavra de Deus.

O crente em Cristo deve saber que uma criança não é potencialmente pecadora porque está propensa a cometer erros no futuro, antes é pecadora porque veio ao mundo na condição de escrava do pecado, pelo fato de Adão, ao desobedecer a Deus, ter se vendido ao pecado como escravo.

O crente em Cristo deve entender que tem dupla e árdua missão:

a) instruir os seus filhos acerca da verdade do evangelho, para que sejam salvos da condenação estabelecida em Adão, e;

b) instruí-los quanto ao bom porte em sociedade, evidenciando que a sociedade não é misericordiosa quando pune os transgressores.

Quando lemos a mensagem do apóstolo Paulo: “E eles disseram: Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa” (At 16:31), certo é que a salvação está em crer em Cristo. Mas, para que os descendentes do carcereiro (casa) fossem salvos, também precisaram crer e, por isso, o apóstolo pregou o evangelho a todos da casa do carcereiro:

“E lhe pregavam a palavra do Senhor, e a todos os que estavam em sua casa. E, tomando-os ele consigo naquela mesma hora da noite, lavou-lhes os vergões; e logo foi batizado, ele e todos os seus. E, levando-os à sua casa, lhes pôs a mesa; e, na sua crença em Deus, alegrou-se com toda a sua casa” (At 16:32-34).

Se só bastasse ao carcereiro crer e a sua casa inteira seria salva, não seria necessário pregar a palavra a todos que estavam na sua casa para que o carcereiro e todos os seus familiares fossem batizados.

Por isso é dito:

“O qual te dirá palavras, com que te salves, tu e toda a tua casa” (At 11:14).

Outro ponto a se destacar, está na passagem em que Jesus fica indignado ao ver os seus discípulos proibindo as pessoas de trazerem as crianças para tocarem nele, quando disse:

“Deixai vir os meninos a mim e não os impeçais; porque dos tais é o reino de Deus” (Mc 10:14).

Os discípulos foram repreendidos para que deixassem as criancinhas se achegarem a Cristo e Ele dá o motivo: ‘porque dos tais é o reino de Deus’. Ora, o reino de Deus, que é Cristo, é de todos quantos atendem ao convite: “Vinde a mim…”, não importando, se infantes ou, se adultos. Jesus pontuou aos seus discípulos a necessidade das crianças se achegarem a Ele, pois, das que vão a Ele, pertence o reino dos céus.

Jesus não afirmou que o reino dos céus pertence a todas as crianças, pelo fato de serem crianças, antes, que o reino pertence às crianças que vão a Ele: “dos tais”[9]. Por que o reino dos céus é das crianças que vão a Cristo? Porque elas também podem produzir o perfeito louvor, que é confessar que Jesus é o Cristo: – Hosana ao Filho de Davi! (Mt 21:15).

Portanto, todas as crianças precisam ser evangelizadas, pois, só através do mandamento contido no evangelho, que elas podem se precaver do mal que herdaram ao entrar no mundo, se escondendo em Cristo, caso contrário, sofrerão as consequências da ofensa de Adão.

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto

 


[1]“É assim que aprendemos a pecar: linguagem obscena, comentários desnecessários prejudiciais, usar o nome de Deus em vão, tornam-se hábitos pela prática dentro de um ambiente onde ninguém cria objeção alguma” Sheed, Russell P., Lei, Graça e Santificação, 2ª Ed., editora Vida Nova, pág. 99 (grifo nosso).

[2] “A consequência do pecado inevitavelmente é a culpa, aquele sentimento ruim de ter errado, de ter fugido de nossa responsabilidade. É um pressentimento de castigo merecido, de uma dívida que terá que ser paga”. Sheed, Russell P., Psicologia, pecado e culpa Consulta realizada em 30/12/16.

[3]Sinclair B. Ferguson, ao escrever sobre a condição dos infantes, citou Robert Murray McCheyne, de que os infantes, ‘mesmo nessa idade, a semente de todo tipo de pecado já está plantada em seus corações’. Sinclair B. Ferguson , Inocentes Pequeninos, Revista Os Puritanos, pág.  24 <https://issuu.com/heraldoa/docs/revista_03-2010_-_vergonha_do_pecado>.

[4]“… que levou os pecados desse pecado para cruz…” Bíblia de Scofield, com referências, nota de rodapé, pág. 1147.

[5] “Depravação é uma palavra que descreve o estado ou disposição do homem, considerado um ser moral. Ser moral é alguém responsável diante de Deus por seus pensamentos, fala e conduta. Depravação significa a corrupção moral da natureza humana. Refere-se ao estado de pecaminosidade natural do não regenerado” Cole, C. D., Definição de doutrina – Volume II,  As Doutrinas do Pecado, da Salvação e do Serviço. Capítulo 3: Depravação – total, universal e inerente.

[6] “A depravação total significa que o homem, como resultado do pecado original, está morto moral ou espiritualmente. E morto, como adjetivo, não admite comparação. Não há grau de morte; mas há grau na morte. Diante de nós está um morto. Há um dia que está morto. Ele está morto totalmente em todas as partes físicas. Eis outro morto. Ele está morto há uma semana. Ele não está mais morto do que o outro, mas o corpo se encontra em uma condição pior. A Bíblia apresenta o homem natural como um corpo morto moral ou espiritual” Cole, C. D., Definição de doutrina – Volume II,  As Doutrinas do Pecado, da Salvação e do Serviço. Capítulo 3: Depravação – total, universal e inerente.

[7]“Se temos dificuldade aqui, pode ser porque falhamos em entender a natureza da escravidão do pecador. Ela é uma escravidão moral e espiritual, não uma escravidão metafísica, física ou psicológica. Se, como em minha ilustração da máquina-robótica, alguém é fisicamente forçado a fazer algo que ele não deseje fazer, então, certamente, sua escravidão remove sua responsabilidade pelo ato. Confrontada com o seu “feito”, a pessoa teria uma escusa válida: “Eu não pude evitar; eu fui fisicamente forçado a fazê-lo”. Mas, imagine alguém vindo diante de um juiz humano e dizendo, para se escusar de um crime, “Eu não pude evitar, meritíssimo; eu fui forçado a fazê-lo por minha natureza. Desde o nascimento tenho sido um garoto extremamente perverso!”. Certamente há algo irônico sobre apelar à depravação para escusar atos depravados! Se o nosso acusado é realmente um “garoto extremamente perverso”, então, longe de ser uma escusa, isso é mais uma razão para prendê-lo! Meu ponto, então, é que, embora a escravidão física (e outros tipos de escravidão) possa fornecer escusas válidas para ações contrariamente más, a escravidão moral não é uma escusa. Eu não posso imaginar alguém disputando essa proposição, uma vez que ele a entenda (…) A incapacidade do pecado é moral e espiritual; deveras, como temos visto, é uma incapacidade da qual ele mesmo é responsável.” Frame, John,Livre-Arbítrio e Responsabilidade Moral, artigo disponível na web; Grifo nosso. <http://www.monergismo.com/textos/livre_arbitrio/livre_responsabilidade_frame.htm> consulta realizada em 07/01/2017.

[8] “Moral refere-se ao conjunto de regras, padrões e normas adquiridos em uma sociedade por meio da cultura, educação, cotidiano e costumes adquiridos no âmbito social e familiar”, Wikipédia.

[9] “5108 τοιουτοςtoioutos (inclui as outras inflexões) de 5104 e 3778; adj” Dicionário Bíblico Strong.

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Jesus veio salvar o que se havia perdido

A finalidade da predestinação é a primogenitura de Cristo, e não a salvação. O filhos de Israel segundo a carne que são salvos antes de Cristo e na grande Tribulação não fazem parte desta predestinação, não terão a imagem do Filho de Deus. Para Cristo ser o primogênito há a necessidade de existirem irmãos conforme a sua semelhança, por isso que assim como Ele é o veremos e seremos semelhantes a Ele ( 1Jo 3:2 ).


Ao ler o artigo “Questões sóbrias para aqueles que creem numa redenção universal ou expiação ilimitada” do Pr. Colin Maxwell[1], não me esquivei à oportunidade de tecer alguns comentários e responder alguns dos seus questionamentos.

Mas, antes de responder as ‘Questões sóbrias’ do Pr. Maxwell, segue uma breve exposição do que creio segundo as Escrituras.

 

Eleição e predestinação

Os crentes em Cristo Jesus, por fazerem parte do corpo de Cristo, que é a sua igreja, além da maravilhosa graça de terem alcançado a salvação gratuitamente, também foram chamados a fazer parte do eterno propósito que Deus estabeleceu em Cristo “… segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor” ( Ef 3:11 ).

Deus introduziu o Seu Filho no mundo na condição de Unigênito, pois Ele foi o único homem concebido no ventre de uma virgem pelo poder do Espírito Santo ( Lc 1:35 ). Mas, ao ressuscitar o Seu Filho dentre os mortos, Cristo é declarado ‘primogênito’ entre muitos irmãos, pois todos que creem morrem com Cristo e ressurgem com Ele como filhos se Deus, uma nova criatura ( Cl 3:1 ).

Como o eterno propósito de Deus estabelecido na eternidade é constituir o Seu Filho primogênito entre muitos irmãos, todos quantos são salvos em Cristo Jesus através do evangelho foram predestinados a serem conforme a imagem de Cristo “… também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos( Rm 8:29 ).

O apóstolo Paulo deixa claro que o objetivo de predestinar os que ‘conheceram’ a Deus, ou antes, foram conhecidos d’Ele é que Cristo seja primogênito entre muitos irmãos ( Gl 4:9 ). Pela pregação da fé o homem ‘conhece’[2] a Deus, o que é impossível aos rudimentos fracos e pobres da lei ( Gl 3:2 com Gl 4:9 ).

Deus estabeleceu na eternidade (predestinou) que os membros do corpo de Cristo seriam conforme a imagem de Seu Filho por causa do beneplácito que propusera em Cristo: Ele será primogênito entre muitos irmãos ( Rm 8:29 ).

A salvação difere da eleição e da predestinação quanto a finalidade. Enquanto a salvação diz da providência divina segundo as riquezas da graça de Deus que livra o homem da condenação estabelecida no Éden ( Ef 1:7 ), a eleição e a predestinação decorrem do conselho (beneplácito) da vontade de Deus, que é convergir na plenitude dos tempos todas as coisas em Cristo, e isso para louvor da Sua glória ( Ef 1:11 ).

Sem a salvação em Cristo é impossível ser eleito para o propósito de Deus que foi proposto em Cristo segundo o Seu beneplácito. É por isso que o apóstolo Paulo disse a Timóteo que Deus salva os crentes salva os crentes segundo o seu poder (evangelho) e que os chamou com santa vocação (eleição e predestinação).

O apóstolo Pedro ao falar da eleição aponta para uma geração: a geração eleita, ou seja, aqueles que foram gerados de novo através da semente incorruptível. Uma geração foi eleita, portanto a eleição não aponta para indivíduos “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” ( 1Pd 2:9 ).

Deus não elegeu e nem predestinou indivíduos para a salvação, antes Ele elegeu a geração de Cristo para serem santos e irrepreensíveis e os predestinou para serem conforme a imagem do Seu Filho, para que Ele seja primogênito entre muitos irmãos.

A salvação se dá no tempo que se chama hoje e o propósito eterno foi estabelecido antes de haver mundo (eternidade)! A eleição, segundo o propósito estabelecido em Cristo é anterior à salvação, porém, a vocação do crente para o propósito que Deus estabeleceu em Cristo é posterior à salvação.

“Portanto, não te envergonhes do testemunho de nosso SENHOR, nem de mim, que sou prisioneiro seu; antes participa das aflições do evangelho segundo o poder de Deus, que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” ( 2Tm 1:8 -9).

O apóstolo João destaca que os cristãos serão semelhantes a Cristo quando Ele se manifestar ( 1Jo 3:2 ), pois para isto foram predestinados a fim de que Jesus seja primogênito entre muitos irmãos.

 

Mundo

Quando é dito na Bíblia que Deus amou o mundo, certo é que o termo ‘mundo’ não se refere ao globo terrestre ou a sua fauna, visto que eles se reservam para o fogo. Quando é dito que Deus amou o mundo, o termo grego κόσμος, transliterado ‘kósmos’ foi empregado para fazer referência a todos habitantes do planeta terra.

Esta leitura do termo depreendemos do ‘Ide’ de Jesus aos seus discípulos. A mesma ordem foi registrada pelos evangelistas Mateus e Marcos, sendo que este registrou “Ide por todo mundo e pregai o evangelho a toda criatura ( Mc 16:15 ), e aquele registrou “Ide e fazei discípulos de todos os povos( Mt 28:19 ), o que demonstra que o termo grego κόσμος (mundo) deve ser lido com a conotação ‘de todos os povos’.

É no sentido de ‘povos’, e não de ‘extensão’ geográfica que o mesmo evangelho que estava com os cristãos em Colossos, estava se propagando pelo κόσμος (mundo) ( Cl 1:6 ).

No verso 23 do capítulo 1 de Colossenses, ao admoestar os cristãos a permanecerem firmes no evangelho (a não se afastar do evangelho que ouviram), o apóstolo Paulo enfatiza que o evangelho foi ‘proclamado’ a toda criatura debaixo do céu. ‘Toda criatura’ é um modo deixar evidente que a mensagem do evangelho não faz acepção de povo, língua ou nação ( Cl 1:23 ).

Agora, o mesmo termo ‘mundo’ quando empregado no contexto que se segue, possui outra conotação:

“E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo ( 1Jo 2:2 ).

O termo κόσμος (mundo) no verso acima não serve ao propósito de demonstrar que Deus não faz acepção de pessoas, antes é inclusivo, pois a propiciação em Cristo não era somente para os cristãos convertidos, mas pelos pecados de todo o mundo.

 

Pecadores

Por causa de uma só ofensa todos os homens ficaram sujeitos ao pecado, por isso a morte afetou todos os homens, de modo que todos são pecadores ( Rm 5:12 ; 15:21 -22).

Quando o apóstolo Paulo diz que o pecado entrou no ‘mundo’, o termo não tem a conotação de extensão geográfica, e sim de inclusão, indicando que o pecado afetou todos os homens sem distinção. Como os judeus se entendiam diferentes dos gentios, o termo ‘mundo’ foi utilizado para demonstrar que o pecado afetou judeus e gregos “Pois quê? Somos nós mais excelentes? De maneira nenhuma, pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado” ( Rm 3:9 ).

Quando lemos o testemunho de João Batista acerca de Cristo, o Cordeio de Deus que tira o pecado do ‘mundo’, certo é que João Batista esta fazendo referencia aos profetas para demonstrar que aquele Jesus era o descendente prometido a Abraão em quem todas as famílias da terra são benditas. Novamente verifica-se que o termo ‘mundo’ tem conotação inclusiva para indicar nações, povos e tribos de todas as línguas.

Todos os homens são pecadores, e Cristo veio salvar o que se havia perdido. A missão de Cristo é inclusiva e extensiva a todos os homens, até mesmo sobre aqueles que eram discriminados pelo seu próprio povo, como era o caso de Zaqueu, o publicano ( Lc 19:10 ).

Teria Cristo vindo salvar alguns que se perderam dentre muitos? Este não é o posicionamento das Escrituras, pois não há exceção: todo aquele que invocar o Senhor será salvo, visto que Deus quer que todos se salvem e que venham ao conhecimento da verdade ( 1Tm 2:4 ).

 

Resposta as indagações do Pr. Colin Maxwell

As respostas aqui apresentadas não possuem o condão de fomentar disputas teológicas, antes que cada cristão leia a Bíblia e medite nela.

Faz-se necessário deixar registrado que a visão bíblica é aquela que não acrescenta e nem diminui o conteúdo que há na Lei, nos Salmos e nos Profetas, porque foi isso que Cristo e os apóstolos fizeram: evidenciaram o cumprimento das Escrituras ( At 26:22 ; At 4:18 ; Lc 24:25 -27).

Como o Pr. Maxwell defende que o calvinismo deve ser difundido em suas ‘Questões sóbrias’, especificamente na de número 14, através da pergunta:

‘Você se refreia de crer na redenção particular por qualquer outra razão além do temor do homem?’, tenho que destacar que crer é algo de fórum íntimo, portanto, o pastor seria mais feliz se perguntasse se ‘você se refreia confessar a redenção particular por temor (medo) a homens’, porque quando creio, posso negar a crença e ninguém pode provar o contrário.

Respondendo a pergunta, devo afirmar segundo as Escrituras que, para alcançar a salvação em Cristo não é imprescindível confessar como se dá a redenção que Deus providenciou para a humanidade. Afinal, a redenção em Cristo é tão grandiosa que revela aos seres celestiais a multiforme sabedoria de Deus ( Ef 3:10 ).

Considerando que a redenção revela a multiforme sabedoria de Deus até aos seres celestiais, não podemos considerar que seja imprescindível para alcançar a salvação confessar como se dá a redenção ( Ef 2:2-3 e 4:17). As Escrituras afirmam categoricamente o que é necessário: confessar (admitir) que Jesus é o Senhor “A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” ( Rm 10:9 ).

Quem evangeliza deve conhecer qual a esperança do salvo, quais as riquezas da glória da nossa herança e qual a excelente grandeza do poder de Deus sobre os que creem ( Ef 1:16 -20), mas ao evangelizar deve se ater a apresentar o Cristo, e este crucificado e ressurreto dentre os mortos.

O pastor insiste perguntando:

‘Se o temor do homem é a única razão (de não confessar a redenção particular), você não reconhece que isto no fim provará ser uma armadilha?’, o que me faz responder com outra pergunta: Se há predestinação para salvação, que armadilha pode haver em não confessar a redenção particular?

Esta pergunta do pastor me levar a inferir que a intenção dele é afirmar que, saber como se dá a redenção: se particular ou universal, é garantia de salvação. Crer que Deus predestinou alguns para salvação é garantia da salvação? Ou melhor, seria garantia de predestinação? Se a garantia de salvação se encontra em Crer que o Senhor Jesus morreu por causa de nossos pecados e ressuscitou para nossa justificação, por que tanto empenho em convencer qual tipo de redenção crer? Por que perder tempo anunciando como se dá a redenção, se a salvação se alcança em crer em Cristo Jesus?

Devo lembrar aqui que crer que Jesus é o Senhor e confessar que Ele é ressurreto dentre os mortos é garantida de salvação, e nisto não há ‘armadilha’ alguma, porque Deus vela sobre a sua palavra para cumprir.

A seguir o Pr. Maxwell faz uma pergunta que mais parece uma espécie de chantagem emocional evocando o medo ao dizer:

“Você não pode conversar sobre e através das diferenças com aqueles que você teme, apontado o sucesso da pregação calvinista na história da igreja? (Provérbios 29:25)”.

Ao citar provérbios sem levar em consideração o contexto bíblico, depois de fazer sua pergunta, o pastor parece induzir meninos em Cristo a conversar sobre a redenção particular e o sucesso da pregação calvinista, e não as Escrituras.

Por que intimidar o cristão para que converse sobre questões e sucesso da pregação calvinista, se a promessa bíblica é que não há mais nenhuma condenação para quem está em Cristo, e somos exortados a: conhecer qual a esperança dos santos, quais as riquezas da glória da nossa herança e qual a excelente grandeza do poder de Deus sobre os que creem ( Ef 1:16 -20), nada dizendo sobre se a redenção é geral ou particular?

O apóstolo João fez um alerta acerca da permanência em Cristo, mas o alerta não evoca medo e nem se apoia em chantagem emocional, como se lê:

“Todo aquele que prevarica, e não persevera na doutrina de Cristo, não tem a Deus. Quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem tanto ao Pai como ao Filho” ( 2Jo 1:9 ).

A doutrina de Cristo que o apóstolo João faz referencia não se refere à pregação calvinista, mas ao mandamento que o Senhor Jesus deu, à saber: a ‘amar a Deus sobre todas as coisas’ crendo em Cristo, e ‘ao próximo como a si mesmo’ segundo o mandamento de Deus ( 1Jo 3:24 ).

Evoco o posicionamento do apóstolo Paulo:

“Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida” ( Rm 5:18 )

A Bíblia mostra que a graça de Deus se estende a todos os homens, assim como a ofensa de Adão trouxe juízo e condenação sobre todos os homens. Se admitirmos que o juízo de Deus veio sobre todos os homens para condenação sem exceção, também temos que admitir que a graça veio sobre todos os homens.

A condenação veio sobre todos os homens, porque ela é em função do nascimento natural segundo a carne de Adão. Mas, com relação à graça sobre todos os homens pela obediência de Cristo, só desfrutam dela aqueles que creem em Cristo conforme o poder que há no evangelho. A graça é poderosa para alcançar todos os homens sem exceção, pois a perdição foi para todos sem exceção!

“Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia” ( Rm 11:32 );

“E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo ( 1Jo 2:2 ).

Faço esta defesa do evangelho de Cristo por não temer qualquer posicionamento doutrinário, ou homem algum, pois devemos ter por lema: “Porque nada podemos contra a verdade, senão pela verdade” ( 2Co 13:8 ).

Além do mais, o sucesso de qualquer agremiação ou tendência teológica não é selo de autenticidade doutrinária, por isso não me refreio em contestar o que se demonstra contrario às Escrituras mesmo que tenha atingido o sucesso.

Na questão de número 13[3], o Pr. Maxwell aponta a existência de calvinistas que ele desaprova. Na pergunta que contém muita argumentação, no afã de remover o que traz entrave à doutrina calvinista, o pastor lança descredito nos ‘hiper’ calvinistas por evidenciar que não há a necessidade de se evangelizar.

No entanto, os ditos hiper calvinistas são coerentes quando afirmam que não há necessidade de pregar quando se acredita na predestinação para a salvação. Segundo os hiper calvinista, se Deus só garante salvação para os eleitos segundo Sua soberania, exclui-se a necessidade de evangelizar.

Entendo que os hiper calvinista estão em extinção porque os demais calvinistas não sustentam o que afirmam. A recomendação de Tiago é: “Assim falai, e assim procedei, …” ( Tg 2:12 ), portanto, se a salvação decorre de uma predestinação, a pregação do evangelho fica sem finalidade. Uma característica de quem confessa a doutrina calvinista e defende a evangelização parece se amoldar muito bem ao alerta que o apostolo Paulo fez a Timóteo: “… Querendo ser mestres da lei, e não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam” ( 1Tm 1:6 -7 ).

O cerne da questão não está na constatação de calvinistas que não recomendam evangelizar, e sim na essência do pensamento calvinista: por que evangelizar todos, se a salvação é para alguns escolhidos? Qual a necessidade de se evangelizar a todos, se a salvação é só dos eleitos? Se a salvação é só para alguns, porque o ‘ide’ de Jesus é para todos?

A energia que os não hiper calvinistas despendem para desqualificar a salvação ao alcance de todos deveria ser aplicada em encontrar argumentos que expliquem a necessidade de evangelismo considerando a lógica de sua doutrina, pois se de fato existe eleição e predestinação para a salvação, que se dê uma explicação plausível por que pregar o evangelho. Somente afirmar que também evangelizam não valida utilidade do evangelismo dentro da doutrina que anunciam.

Para defender o seu argumento, o Pr. Maxwell aponta na pergunta de n° 12 os pregadores George Whitefield e C. H. Spurgeon como os maiores evangelistas que já viveram. Volto a repetir, a postura desses homens e dos neo calvinistas não esclarece e nem valida a necessidade de evangelizar na doutrina calvinista.

Com relação à questão de n° 11:

“Você vê a redenção particular como estando em desvantagem quando se trata da livre oferta do evangelho? Tanto calvinistas como não calvinistas creem que o precioso sacrifício do Filho de Deus é suficiente para salvar o mundo, tanto os eleitos como os não eleitos – isto não remova qualquer senso de desvantagem?”;

Primeiro: ‘vantagem’ não é uma questão que se deva levar em conta quando o assunto é salvação. O que se deve considerar é a veracidade da palavra, e as palavras do artigo “Questões sóbrias…” se mostram duvidosas, porque enquanto aqui afirma que o precioso sacrifício de Jesus é suficiente para salvar o mundo todo, nas questões de número 02 e 03 argumenta contra esta mesma possibilidade dizendo:

“Cristo veio e morreu para salvar eficazmente homens ou apenas para fazer a salvação possível? Então, era teoricamente possível que Cristo falhou, no final das contas, no Seu propósito de Sua morte? Ele realmente verá o fruto do trabalho de Sua alma e ficará”, ou “Cristo está realmente satisfeito com o fruto do trabalho de Sua alma quando Ele vê Judas Iscariotes, (por quem, você insiste, Ele morreu, da mesma forma como por João e Pedro, etc.) indo para o próprio lugar onde teria sido melhor para ele nunca ter nascido? poderia morrer por pecados e ninguém ser salvo?”.

O ‘ide’ de Jesus ao mundo como mandamento depõe contra a predestinação para a salvação. Ora, não encontramos termos como ‘redenção particular’ ou ‘redenção geral’ na Lei, Salmos, ou nos Profetas. A doutrina da redenção particular é incongruente com o evangelho de Cristo, porque quem nasce predestinado nunca esteve perdido, portanto, não precisa de salvação.

A Bíblia apresenta Jesus como salvador para todos que creem, sem distinção entre judeus e gregos, pois todos pecaram, e ainda afirma: “Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia” ( Rm 11:32 ). Já o posicionamento calvinista afirma a existência de dois grupos de pessoas: as que foram predestinadas a serem salvas (o que significa que tais pessoas nunca estiveram perdidas), e outras que nascem predestinadas à perdição (nunca tiveram uma real oportunidade de salvação).

A eleição e a predestinação são, efetivamente, doutrinas bíblicas, porém não apontam diretamente para a salvação. A eleição aponta para Jesus, pois se dá em Cristo e a predestinação visa os que nascem de novo, ou seja, os crentes. Cristo é o eleito de Deus antes da fundação do mundo e todos que se tornam participantes do seu corpo crendo nele, foram predestinados para serem conforme a imagem de Cristo.

O apóstolo Paulo enfatiza que os cristãos foram predestinados para serem conforme a imagem de Cristo, para que Ele seja primogênito entre muitos irmãos. A finalidade da predestinação é a primogenitura de Cristo, e não a salvação. Os filhos de Israel segundo a carne que são salvos antes de Cristo e na grande Tribulação não fazem parte desta predestinação, não terão a imagem do Filho de Deus. Para Cristo ser o primogênito há a necessidade de existirem irmãos conforme a sua semelhança, por isso que assim como Ele é o veremos e seremos semelhantes a Ele ( 1Jo 3:2 ).

“Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conforme à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” ( Rm 8:29 ).

A salvação é concedida aos homens que, por intermédio do evangelho conheceu a Deus, ou antes, foram conhecidos dele “Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” ( Gl 4:9 ). O homem conhece a Deus por intermédio do evangelho.

Conhecer aqui não é presciência, e sim ter comunhão íntima, participando de um só corpo e de um só espírito. Ora, primeiro o homem se torna um com Cristo, e consequentemente predestinado a ser conforme a imagem de Cristo, pois a predestinação tem por objetivo a preeminência de Cristo entre muitos semelhantes a ele.

Primeiro Deus salva o perdido segundo o poder do evangelho, depois o salvo em Cristo é chamado com santa vocação: eleição e predestinação. Deus não escolheu e nem predestinou alguns indivíduos à salvação, antes Ele elegeu e predestinou a nova geração em Cristo, sendo Ele o último Adão, para serem santos e irrepreensíveis e conforme a imagem do Seu Filho para que Ele seja primogênito entre muitos irmãos.

A vocação do crente para o propósito que Deus estabeleceu em Cristo não precede a salvação em Cristo, porém, o propósito estabelecido em Cristo foi estabelecido na eternidade antes de haver mundo.

Na questão de nº 10[4], vale destacar que a crença exigida nas Escrituras é que se creia que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus. A essência do evangelho é universal e inclusiva: todo aquele “Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” ( Rm 10:13 ).

Este é o mandamento de Deus segundo registrou o apóstolo João: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( Jo 3:23 ).

Não há suporte nas Escrituras para o que o homem acredita segundo uma carnal compreensão, e nem para a tal redenção dita ‘particular’, pois o que é a base da salvação é Cristo: o fundamento de Deus. A salvação está em Cristo, pois Ele é a fé manifesta ( Gl 3:23 ). A vantagem está em crer n’Ele, pois Ele é fiel, agora, não há vantagem alguma em acreditar em algo que não seja as Escrituras.

O evangelho anunciado pelo apóstolo Pedro as pessoas que crucificaram o Cristo foi de salvação irrestrita, mesmo para os assassinos do Filho de Deus, desde que mudassem de concepção crendo em Cristo ( At 3:15 -19).

Ora, Deus é verdade, e não há nele injustiça nenhuma ( Dt 32:4 ). Ora, se Ele amou todos os homens (mundo), significa que Deus amou todos os homens, e não que Ele anunciou uma ficção aos homens. O apóstolo Pedro, quando fez este discurso, não estava pensando em uma redenção particular, antes foi verdadeiro ao propor a todos homicidas de Cristo ampla e irrestrita salvação.

Seria uma falácia a mensagem do apóstolo Pedro se algumas pessoas estivessem destinadas a salvação. Deus não trabalha com o engano. Ele não fala o que não vai cumprir. É desonesta uma mensagem de salvação a todos os pecadores se a proposta inicial é salvar alguns.

O Pr. Maxwell alega que é desvantagem crer numa ‘redenção geral’ vez que Deus não alcança 100% de sucesso. Deus retirou do Egito um povo numeroso com quase seiscentos mil homens de pé, porém, desses, somente dois entraram na terra prometida. O sucesso de Deus é analisado pela quantidade de crentes salvos, e não pela quantidade dos que se perdem.

A promessa de Deus não se manteve firme por apenas dois dos que saíram do Egito terem entrado na terra prometida? Se todos os crentes em Cristo são salvos, então há 100% de sucesso na obra de Cristo “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação ( 1Co 1:21 ); “Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue?” ( Rm 10:14 ).

Ora, o plano de redenção de Deus tem 100% de sucesso, pois Cristo veio ao mundo e foi obediente ao Pai em tudo. O seu eterno proposito que redunda em louvor a Sua glória tem 100% de sucesso, pois Cristo ao ressurgir dentre os mortos conduziu muitos filhos a Deus, e Cristo é primogênito entre muitos irmãos. Os muitos filhos são compostos de 100% crentes.

A incredulidade de alguns ou de muitos não aniquila a fidelidade de Deus. Deus é fiel e cumpriu o que prometeu: enviou o seu Filho e salva todo aquele que n’Ele crê. Agora, se formos infiéis, Ele permanece fiel, e a infidelidade do homem não depõe contra Deus ( Rm 3:3 ).

A questão de n° 9[5] acerca do significado de alguns termos na Bíblia como ‘todos’ e ‘mundo’, deve ser analisada criteriosamente, principalmente quanto à ênfase que o contexto apresenta.

Devemos reconhecer que, dependendo do contexto em que a palavra ‘mundo’ ou ‘todos’ é inserida, pode limitar o número de pessoas, contudo não anula o fato de que o termo ‘mundo’ empregado em João 3, verso 16, e em primeira João 2, verso 2 referem-se a todas e quaisquer pessoas, de todos os tempos e em todos lugares.

Foram citadas 5 passagens bíblicas e questionado o significado de algumas palavras. Atos 4, verso 35 é citado: “E repartia-se a cada um, segundo a necessidade que cada um tinha” onde se vê que os apóstolos repartiam o que era comum segundo a necessidade em particular de cada indivíduo que pertencia à igreja. Ou seja, a passagem demonstra que havia uma limitação quanto ao que era distribuído, e a limitação não era quanto ao indivíduo, mas quanto a necessidade do indivíduo.

Isto porque ‘ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria’, ou seja, ninguém assume o valor de ‘todos’, pois sem exceção todos consideravam o que possuíam como sendo propriedade de todos, de modo que tudo era comum a todos ( At 4:32 ).

O verso seguinte demonstra que todos os apóstolos, sem exceção, possuía abundante graça e testemunhavam acerca da ressureição de Jesus ( At 4:33 ). Entre os cristãos não havia necessidade alguma, pois aqueles que possuíam herdade vendiam e traziam o valor arrecadado e dava aos apóstolos. Neste caso, somente os cristãos que possuíam herdade é que vendiam-nas, mas dentre os que possuíam, todos se propuseram vender e dar o dinheiro aos apóstolos.

Com relação a recomendação acerca do casamento o apóstolo Paulo adverte que cada cristão em particular tenha a sua própria esposa, e cada mulher cristã que tenha o seu próprio marido. Ora, o texto limita a quantidade de esposas e esposos por causa da prostituição, porém, a ordem se estende a todos os cristãos. A ênfase do texto está em limitar uma única esposa por marido ( 1Co 7:2 ).

Para responder a pergunta do Pr. Maxwell com relação ao comentário que ele faz do evangelho de João 12, versos 19 à 20 (“mundo” significa os gentios em oposição aos judeus somente), vale destacar que ‘mundo’ não foi utilizado para destacar oposição entre judeus e gentios, porque tanto a multidão que viu a ressurreição de Lázaro como a que viera para a festa era composta de judeus e prosélitos ( Jo 12.9 ). Afinal haviam ido a Jerusalém para a festa da Páscoa ( Jo 12.1 )

Outra questão levantada é com relação a seguinte passagem “E qualquer que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, como também ele é puro” ( 1Jo 3:3 ). No verso ‘qualquer’ tem o sentido de ‘todo’, e isto não significa limitação, mas inclusão. Não importa a nação, o povo, ou a língua, se tem em Cristo esperança, purifica-se a si mesmo.

Nenhuma destas passagens depõe contra o fato de que Jesus veio salvar a todos, por isso a boa nova de salvação é anunciada a todos, sem exceção. A fidelidade de Deus é para todos, pois Ele providenciou poderosa salvação na casa de Davi para todos os povos, cumprindo a promessa a Abraão de que no descendente seriam benditas todas as famílias da terra “E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra” ( Gn 12:3 ).

A promessa de benção de Deus não é extensiva a ‘todas’ as famílias da terra? Há alguma limitação especifica no evangelho anunciado primeiramente a Abraão?

Não há limitação quanto aos tipos de famílias: todas.

Qual o significado de ‘todos’ no verso seguinte:

“Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida” ( Rm 5:18 ).

Existe limitação com relação ao juízo de Deus sobre todos os homens? Não! Então não há limitação quanto à graça de Deus sobre todos os homens!

Não há limitação da parte de Deus, pois Ele é fiel! Mas, há limitação por parte do homem: a incredulidade “Pois quê? Se alguns foram incrédulos, a sua incredulidade aniquilará a fidelidade de Deus?” ( Rm 3:3 ).

A questão ‘incredulidade’ leva a pergunta de n° 8[6] onde há uma profusão de erros de interpretação bíblica.

A resposta para a pergunta: “Cristo morreu pelo pecado da incredulidade?” é não!

Cristo não morreu por ‘pecados’, antes ele morreu pelos pecadores, como se lê:

“Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios ( Rm 5:6 );

“Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores ( Rm 5:8 );

“Porque foi para isto que morreu Cristo, e ressurgiu, e tornou a viver, para ser Senhor, tanto dos mortos, como dos vivos” ( Rm 14:9 );

“Mas, se por causa da comida se contrista teu irmão, já não andas conforme o amor. Não destruas por causa da tua comida aquele por quem Cristo morreu” ( Rm 14:15 );

“E pela tua ciência perecerá o irmão fraco, pelo qual Cristo morreu” ( 1Co 8:11 ).

Esses versículos citados enfatizam que Cristo morreu pelos homens, ou seja, pelos pecadores.

Há um único versículo que diz que Jesus morreu por nossos pecados:

“Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras” ( 1Co 15:3 ).

Ora, Jesus morreu pelos ‘ímpios’ ou pelos ‘pecados’?

O apóstolo Paulo nos responde:

“Porque o amor de Cristo nos constrange, julgando nós assim: que, se um morreu por todos, logo todos morreram” ( 2Co 5:14 ).

Há uma questão teológica a ser entendida com relação a morte de Cristo.

Em primeiro lugar devemos entender que o pecado que atingiu toda humanidade é decorrente da ofensa de Adão, que desobedeceu e trouxe morte sobre todos os homens “Porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo” ( 1Co 15:21 -22); “Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram” ( Rm 5:12 ).

A ofensa contra Deus que resultou no pecado foi a desobediência de Adão, e a desobediência só poderia ser substituída pela obediência. Na verdade a redenção da humanidade é substituição de ato: obediência pela desobediência, como se lê:

“Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” ( Rm 5:18 )

A redenção está na obediência de Cristo.

Mas, para que Cristo obedecesse havia que ser revelada a vontade de Deus, que neste caso era a oblação do corpo de Cristo.

“Então disse: Eis aqui venho, para fazer, ó Deus, a tua vontade. Tira o primeiro, para estabelecer o segundo. Na qual vontade temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez” ( Hb 10:9 -10).

Mas, por que Cristo morreu?

Ao morrer Cristo não estava oferecendo um sacrifício a Deus, antes estava sendo obediente, e foi obediente até a morte, e morte de cruz. Semelhante a Abraão que obedeceu a Deus e ia oferecer o seu único filho em holocausto, Jesus obedeceu a Deus como Abraão e foi a ovelha do holocausto. Ele morreu por causa do advento da Nova Aliança, pois era necessário a morte do testador para ter validade a aliança “Porque onde há testamento, é necessário que intervenha a morte do testador” ( Hb 9:16 ).

Não foi por pecados que Cristo morreu, antes Ele morreu pelos homens porque são pecadores, daí a colocação paulina: Cristo morreu pelos (por causa dos) nossos pecados “Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” ( Is 53:5 ).

Analisaremos em conjunto as questões 6 e 7[7], pois estão intimamente ligadas.

O Pr. Maxwell quer validar o seu argumento com a pergunta: Isto é justo? Esta é uma artimanha das Testemunhas de Jeová ao negarem a existência do lago de fogo: É justo alguém padecer pela eternidade?

Argumentar ante o juiz de toda terra se é justo o que ele faz, não valida qualquer argumento, pois a concepção de justiça do homem é como trapo de imundície diante de Deus.

Deus ordenou a destruição dos amalequitas, e incluiu na matança as crianças. Pergunto: Isto é justo? Mas, as crianças eram inocentes! Questionar se é justo ou não, não é base para validar um argumento, pois mesmo as crianças de Sodoma e Gomorra sendo inocentes, não eram justas diante de Deus “Se porventura de cinquenta justos faltarem cinco, destruirás por aqueles cinco toda a cidade? E disse: Não a destruirei, se eu achar ali quarenta e cinco ( Gn 18:28 ).

Cristo veio ao mundo salvar o que se havia perdido. Quem se perdeu? Todos os homens, pelo que se conclui que Jesus veio salvar todos os homens Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho; mas o SENHOR fez cair sobre ele a iniqüidade de nós todos ( Is 53:6 ); “Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido” ( Lc 19:10 ).

A morte de Cristo garantiu salvação a todos os homens, porém, muitos permanecem separados da vida de Deus por causa da ignorância que há neles. O problema não está na salvação providenciada, pois é poderosa e alcança a todos os homens, sem exceção. O problema é a ignorância.

A Bíblia afirma que por uma só ofensa todos pecaram, e Cristo morreu por causa desta ofensa. Já o erro de conduta das pessoas quer sejam salvas ou não, serão julgadas em tribunal específico: Tribunal de Cristo para os salvos e Tribunal do Trono Branco para os perdidos, onde cada um receberá segundo as suas obras “Entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração” ( Ef 4:18 ).

Devemos nos afastar de qualquer doutrina que tenha aparência de piedade, mas que negue a eficácia do evangelho “Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te” ( 2Tm 3:5 ).

Deus não se lembra dos pecados daqueles que ouviram a mensagem e misturaram com a fé “Porque também a nós foram pregadas as boas novas, como a eles, mas a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não estava misturada com a fé naqueles que a ouviram” ( Hb 4:2 ).

O escritor aos Hebreus destaca que o problema não está na mensagem pregada, o problema está naqueles que ouviram, mas ouviram de malgrado “Porque o coração deste povo está endurecido, E ouviram de mau grado com seus ouvidos, E fecharam seus olhos; Para que não vejam com os olhos, E ouçam com os ouvidos, E compreendam com o coração, E se convertam, E eu os cure” ( Mt 13:15 ).

O castigo que nos trouxe a paz foi perfeito, mas se alguém negar a Cristo, Ele também o negará “Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará” ( 2Tm 2:12 ). Se a salvação fosse por predestinação, o aviso solene para permanecer firme é sem razão, pois os que creem é para conservar a alma, diferente dos que desistem ( Hb 10:39 ).

Quando Cristo venceu a morte, o pecado foi aniquilado ( Hb 9:26 ). Só permanecem separados de Deus aqueles que permanecem na ignorância.

Embora a questão de nº 7 não leve em consideração o fato de o Cordeiro de Deus ter sido morto desde a fundação do mundo ( Ap 13:8 ), vale salientar que embora a graça é para todos, a promessa de jamais se lembrar dos pecados alcança somente os crentes ( Hb 10:17 ).

Apesar de o Cordeiro de Deus ser manifesto oportunamente na plenitude dos tempos, ele foi morto desde a fundação do mundo. Logo, quando Cristo foi morto (desde a fundação do mundo) não havia homens no inferno, de modo que a sua morte era suficiente para beneficiar a todos que cressem.

Somente os crentes são remidos, porém, a oferta do corpo de Cristo foi feita de uma vez por todas de modo que não há mais oblação pelo pecado ( Rm 8:1 ; Hb 10:18 ). Devemos lembrar que as ações daqueles que creem serão julgadas no Tribunal de Cristo. Os descrentes carregam consigo a condenação decorrente da ofensa de Adão, mas também serão julgados quanto as suas obras “E vi os mortos, grandes e pequenos, que estavam diante de Deus, e abriram-se os livros; e abriu-se outro livro, que é o da vida. E os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras” ( Ap 20:12 ); “O que é, já foi; e o que há de ser, também já foi; e Deus pede conta do que passou” ( Ec 3:15 ).

O juízo para condenação se deu em Adão, mas haverá juízo de obras. Os pecados que não serão lembrados referem-se aos erros de conduta dos salvos antes de conhecerem a Cristo, pois se deram sob a paciência de Deus “Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” ( Rm 3:25 -26).

Cristo morreu por causa da ofensa de Adão e ressurgiu para a nossa justificação, o que demonstra que os erros de conduta e as boas ações dos crentes, quando praticados na ignorância são esquecidos. Cristo não morreu por pecados, antes por causa dos pecados para justificação de todo que crê.

Com relação a questão 5[8], entendo pelas Escrituras que Cristo morreu por todos os homens, até mesmo por Caim e Faraó. Devemos lembrar que Jesus é o Cordeiro de Deus que foi morto desde a fundação do mundo, e se Abel foi declarado justo por Deus, tal declaração foi decorrente da fé de Abel.

Caim e Faraó se perderam não por ineficácia da morte de Cristo, mas pela incredulidade deles. Caim se perdeu, mas Abel foi salvo porque creu que Deus o aceitaria graciosamente, e não que seria aceito em função da oferta, de modo que Deus primeiramente o aceitou e depois a sua oferta ( Gn 4:4 ).

Abel se aproximou de Deus pois cria que Ele existe, e o buscou por que sabia que Deus é galardoador dos que O buscam, e não dos que apresentam uma oferta.

Sim! Creio que Jesus morreu por aqueles que já morreram, porque segundo as Escrituras para Deus vivem todos e, mesmo após morrerem, seguem para o juízo. Ora, todos os nascidos de Adão nasceram sob condenação, pois o juízo de Deus foi estabelecido na morte de Adão no Éden. O juízo que o homem segue após morrer a morte ordenada para ocorrer uma só vez é o juízo do Trono Branco, onde haverá julgamento das obras “E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo” ( Hb 9:27 ).

Cristo é Cordeiro de Deus morto desde a fundação do mundo, porém, a sua morte se deu na plenitude dos tempos ( Gl 4:4 ). Jesus morreu em benefício de todos, porém, indivíduos como Caim e Faraó não se beneficiaram da graça de Deus pela incredulidade deles.

Sim! Jesus morreu de bom grado por homens como Caim e Faraó, pois Ele não se propôs a morrer por homens justos, mas sim pelos ímpios, visto que não havia um justo, nem um se quer ( Sl 53:3 ). Esta é uma prova do amor de Deus: morrer por ímpios como Caim, Faraó, etc. “Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” ( Rm 5:8 ).

O convite de salvação é para pecadores, sejam eles a Madre Teresa de Calcutá ou Hitler. Este convite se estende até mesmo para aqueles que mataram o autor da vida ( At 3:19 ).

Com relação aos argumentos dos itens 3 e 4[9], tem-se um caloroso ‘sim’ à pergunta se Cristo morreu de igual forma para Pedro ou Judas.

A verdade é única: Cristo se fez maldito quando foi pendurado no madeiro   e morreu pelos pecadores. Judas Iscariores era pecador? Sim! Então Jesus morreu por ele. Pedro era pecador? Sim! Então, de igual modo Jesus morreu por Pedro.

Cristo não se sentiu satisfeito com a morte de Judas Iscariotes, mas sentiu-se satisfeito com o seu trabalho. Levando-se em conta a profecia de Isaias, com o seu trabalho Jesus ficou satisfeito, pois através do seu conhecimento Ele salvou muitos.

Judas não foi predestinado a perdição, antes Deus onisciente sabe de todas as coisas, e deixou tal evento registrado nas Escrituras. A decisão de Judas não foi estabelecida e nem sofreu influência de Deus, antes foi totalmente autônoma e voluntária.

O registro da traição nas Escrituras é um lampejo da onisciência de Deus, que para nós é presciência. A revelação de eventos futuros para o homem recebe o nome de presciência, já o atributo divino com relação ao conhecimento dá-se o nome de onisciência.

Deus é onisciente, e não presciente. A revelação de Deus aos homens é presciência. O fato de Deus saber da traição e deixar predito nas Escrituras não determinou a traição de Judas, pois tudo o que é já foi, e o que há de ser já ocorreu para Deus, mas Ele pede conta de cada um quanto aos seus feitos. O fato de Deus requerer dos homens seus feitos demonstra que Ele não determina os atos de ninguém ( Ec 3:15 ).

Mas, porque Ele não salvou todos, se Ele morreu por todos? Porque onde há o Espírito de Deus, aí há liberdade, como se lê: “Enquanto se diz: Hoje, se ouvirdes a sua voz, Não endureçais os vossos corações, como na provocação” ( Hb 3:15 ; Sl 93:8 ). O convite é feito a todos, como se Deus por nos rogasse aos homens para que se reconciliem com Ele, mas Ele não sobrepuja os corações endurecidos ( 2Co 5:20 ).

É contra senso um Deus que escolhe e predestina alguns a salvação rogar através dos seus embaixadores que os homens se reconciliem com Ele.

Deus roga porque todos tem liberdade de aceitar ou recusar convite: “Se alguém tem sede, venha a mim, e beba” ( Jo 7:37 ). A água oferecida não tem problema algum, pois é de uma fonte inesgotável e tem poder para saciar todos quanto beberem. O problema está naqueles que ouvem o convite e rejeitam a água.

Deus não tem prazer na morte do ímpio, e Cristo também “Desejaria eu, de qualquer maneira, a morte do ímpio? diz o Senhor DEUS; Não desejo antes que se converta dos seus caminhos, e viva?” ( Ez 18:23 ).

Além de Deus não desejar a morte do ímpio, é desejo d’Ele que o ímpio se converta. O problema não está em Deus que faz um convite ao homem para que se converta, e sim nos homens que não dão ouvidos “Dize-lhes: Vivo eu, diz o Senhor DEUS, que não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho, e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois, por que razão morrereis, ó casa de Israel?” ( Ez 33:11 ).

Na questão do proposito que Deus estabeleceu na eternidade em Cristo, de fazê-lo cabeça da igreja e o mais elevado dos reis da terra, opera a soberania de Deus. Mas, nas questões relativas a salvação do homem, opera a misericórdia, por isso diz o apóstolo Paulo: “De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo, como se Deus por nós rogasse. Rogamo-vos, pois, da parte de Cristo, que vos reconcilieis com Deus” ( 2Co 5:20 ).

Deus estabeleceu o Seu Filho como primogênito, pois Cristo conquistou este direito na cruz, já com relação à salvação, há um pedido aos homens que se reconciliem.

Cristo ficou satisfeito com o seu trabalho, porque embora tenha provido salvação a todos os homens, a proposta é salvar os que creem. Deus não salva pela predestinação ou eleição, e sim pela loucura da pregação, que é o poder de Deus “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação” ( 1Co 1:21 ).

Com relação ao item 2[10], certo é que Cristo veio salvar a humanidade, e o termo ‘eficazmente’ foi amalgamado à salvação para pôr em xeque a salvação em Cristo. A salvação não é especulação teórica, assim como a perdição de todos em Adão não é teoria.

Analisando a doutrina calvinista da eleição e predestinação, a perdição de alguns não passou de teoria, visto que tais ‘salvos’ pela eleição e predestinação nunca estiveram perdidos de fato. De outra banda, os perdidos nunca tiveram a possibilidade de salvação, pois a salvação nunca foi uma providência divina para eles. Segundo a concepção calvinista a salvação é uma falácia!

A Bíblia como verdade deve ser analisada como fato, e não como teoria. Levantar teorias sobre se era possível Cristo morrer pela humanidade em pecado (e não por pecados) e ninguém ser salvo é semelhante a se ater às fábulas e a genealogias intermináveis que mais promovem contendas do que edificação. Mas, nunca houve a possibilidade de ninguém ser salvo, pois Deus mesmo diz que a Sua palavra não volta atrás vazia, e por isso mesmo providenciou poderosa salvação na casa de Davi.

A questão sóbria de n° 1[11] é a pior de todas do ponto de vista dos equívocos. Não é admissível que alguém que se coloca como mestre das Escrituras use os anjos caídos para provar a redenção particular, visto que um mestre das Escrituras deve conhecer as Escrituras.

Cristo não morreu para salvar os seres celestiais caídos! Vejamos os motivos:

  • Os anjos não fazem parte do propósito eterno estabelecido em Cristo, que é Cristo como primogênito entre muitos irmãos ( Hb 2:5 );
  • Com relação ao propósito eterno os anjos são espectadores da multiforme sabedoria de Deus ( Ef 3:10 );
  • Aos anjos caídos não foi dado um mandamento que os salvasse, pois igualmente na queda não desobedeceram um mandamento ( Sl 71:3 ); Um homem desobedeceu o mandamento dado no Éden, agora a salvação para os homens está em um novo mandamento: crer em Cristo;
  • Os anjos não necessitam crer, pois enquanto os homens veem por espelho através dos enigmas, os anjos caídos estavam em contato com a realidade quando caíram;
  • Como não há morte física para os anjos, pois são seres ‘espirituais’, a redenção em Cristo não os alcança. A morte de Cristo só alcança os seus semelhantes segundo a carne sujeitos à morte física, pois qualquer que nele crê é batizado na morte de Cristo para ressurgir uma nova criatura;
  • Cristo foi feito menor que os anjos precisamente para que participasse da paixão da morte, morrendo a morte física em nosso lugar. Entretanto, os pecadores por estarem em um caminho largo que conduz à perdição, isso causa da ofensa de Adão, precisam morrer para o pecado para que se cumpra a lei que diz: a alma que pecar, essa mesma morrerá;
  • Os homens tornaram-se pecadores por uma ofensa de um homem que pecou, já os anjos deliberadamente seguiram cada um a presunção de seus corações;
  • Cristo é mediador entre Deus e os homens, e não mediador entre Deus, anjos e homens.

O fato de Jesus não ter morrido pelos anjos não depõe contra o fato de Jesus ter morrido pela humanidade, pois ele como homem só podia ser mediador de homens, por isso em tudo se fez semelhante aos seus irmãos: participante de carne e sangue ( Hb 2:17 ).

Não existe um grupo particular de pecadores, pois nem mesmo os judeus são diferentes ou melhores diante de Deus que os demais pecadores gentios ( Rm 3:9 ).

A salvação é universal (ilimitada) e inclusiva (todo aquele), porém, só gozarão dessas benesses aqueles que creem no evangelho, ou seja, que invocarem o nome do Senhor, portanto, neste aspecto a salvação é exclusiva dos que creem “Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” ( Rm 10:13 ; Rm 1:16 ).

Em suma, Jesus disse que Deus deu o Seu Filho para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Jesus disse que importava que Ele fosse levantado assim como a serpente de metal foi levantada no deserto por Moisés, para todo aquele que nele crê não perecesse, mas tivesse a vida eterna ( Jo 3:14 -16).

Deus amou o mundo que Deus o Seu Filho, porém, os adeptos da doutrina da ‘expiação limita’ fazem um esforço enorme para colocar uma dúvida no coração de quem ouve a mensagem do evangelho:

‘Será que Jesus morreu por você?’

Amado leitor, se esta dúvida sobressaltar o seu coração devido algumas questões doutrinárias, tenha este verso como lema:

“E ele [Jesus] é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” ( 1Jo 2:2 ).

 


[1] Maxwell, Colin ‘Questões sóbrias para aqueles que creem numa redenção universal ou expiação ilimitada’, artigo disponível no Site Monergismo < http://www.monergismo.com/textos/expiacao_limitada/questoes.htm > consulta realizada em 26/06/15.

[2] ‘Conhecer’ no sentido de se fazer um com Cristo ( Ef 5:30 ). Não diz de ‘presciência’, ou de ‘antever’, e sim de comunhão intima “E eu já não estou mais no mundo, mas eles estão no mundo, e eu vou para ti. Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um, assim como nós” ( Jo 17:11 ).

[3] “13) Aparte da possibilidade de um ocasional hiper calvinista – uma espécie em extinção – você já ouviu um calvinista declarar que ele não necessita evangelizar, visto que o sacrifício de Cristo garante a salvação dos eleitos, quer ele evangelize, quer não?”

[4] “10) Você reconhece a distinta vantagem de se crer na redenção particular – que ela realmente realizará aquilo para o qual foi designada, isto é, a certa e infalível salvação daqueles por quem ela foi pretendida? Você reconhece a distinta desvantagem de se crer numa redenção geral que reside no tipo de imprecisão e o não poder reivindicar 100% de sucesso?”

[5] “9) Você crê que na Bíblia, palavras como “todos” e “mundo” e “todo homem” sempre significa cada pessoa ou coisa individualmente, a menos que seja limitada especificamente (por exemplo, 1 João 3:3) OU você reconhece que algumas vezes na Bíblia, palavras como “todos” significa “todos tipos de” (1 Timóteo 6:10) e “mundo” significa os gentios em oposição aos judeus somente (João 12:19-20) e “todo homem” significa “todos tipos de homem” (Atos 4:35/1 Coríntios 7:2), sem qualquer menção específica de uma limitação?”

[6] “8) Cristo morreu pelo pecado da incredulidade? Se sim, porque este pecado impede o pecador, mais do que qualquer outro pecado pelos quais Cristo morreu?”

[7] “6) Cristo realmente suportou os pecados daqueles que já estavam ou agora estão ou irão estar no inferno quando Ele morreu por eles? O resultado disto é o mesmo do crente, isto é, o esquecimento de Deus dos seus pecados (Hebreus 10:17)? Se sim, por que eles estão sendo relembrados agora? Se não, até que ponto é a diferença que você está introduzindo?” e; “7) Se Cristo sofreu e morreu por aqueles que estão agora sofrendo no inferno e agonizante pelos seus pecados… não estaria Deus exigindo castigo duas vezes pelos mesmos pecados? Isto é justo?”

[8] “5) Você crê que Cristo morreu por aqueles que já estavam no inferno, isto é, Caim, Faraó, etc., quando Ele veio ao mundo? Ele morreu de bom grado por eles, suportando todos os seus pecados, mesmo embora Ele soubesse que nem um milímetro de Seus sofrimentos jamais os beneficiaria?”

[9] “3) Cristo falhou, no final das contas, no Seu propósito de Sua morte? Ele realmente verá o fruto do trabalho de Sua alma e ficará SATISFEITO? (Isaías 53:11) Cristo está realmente satisfeito com o fruto do trabalho de Sua alma quando Ele vê Judas Iscariotes, (por quem, você insiste, Ele morreu, da mesma forma como por João e Pedro, etc.) indo para o próprio lugar onde teria sido melhor para ele nunca ter nascido? (Marcos 14:21) 4) Você relaciona a morte de Cristo – certamente o assunto mais importante sempre – com versos como Isaías 14:24/14:27/46:10/Salmos 115:3/Provérbios 19:21 etc., os quais ensinam que os propósitos de Deus são certos e não podem ser frustrados?”

[10] “2) Cristo veio e morreu para salvar eficazmente homens ou apenas para fazer a salvação possível? Então, era teoricamente possível que Cristo poderia morrer por pecados e ninguém ser salvo?”

[11] “1) Você crê que Cristo morreu pelos pecados dos anjos caídos, que estão reservados na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia (Judas 6), quando serão lançados como malditos no fogo eterno (Mateus 25:41), para serem atormentados de dia e de noite para todo o sempre (Apocalipse 20:10)? OU você crê que a expiação foi limitada a um grupo particular de pecadores?”

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Qual a medida da depravação da humanidade?

Ao dirigir a palavra aos escribas e fariseus, Jesus os chamava de condutores cegos e insensatos ( Mt 23:16 -17). A figura da cegueira e da surdez aplica-se aos judeus, portanto, utilizá-las para descrever a humanidade sem Deus estabelece um entendimento equivocado de que a humanidade é cega e surda. Pelo fato de a humanidade estar morta em delitos e pecados, aplicam à humanidade as figuras da ‘cegueira’ e ‘surdez’, sendo que tais figuras apontam para Israel. Dai surge a ideia de que, para ver e ouvir a palavra de Deus, é necessário uma graça especial dada somente a alguns.


Alienação ou depravação

Após ler o artigo ‘Os cinco pontos’ do Rev. Alderi Souza de Matos, especificamente o subtítulo ‘Depravação Total’, fez-se necessário comentar o evento da criação do homem e analisar o que chamam de depravação total.

Assim se expressou o Ver. Alderi:

“A Bíblia diz que Deus criou o primeiro homem, Adão, à Sua imagem e semelhança. Deus fez um pacto com esse homem a fim de que, através da obediência aos Seus mandamentos, este pudesse obter vida. Contudo, o homem falhou desobedecendo a Deus deliberadamente, fazendo uso do seu livre-arbítrio, rebelando-se contra o seu Criador. Este pecado inicial de desobediência (conhecido como a Queda do Homem) resultou em morte espiritual e ruptura na ligação de sua alma com Deus, o que mais tarde trouxe também sua morte física. Sendo Adão o representante de toda a raça humana, todos caímos com ele e fomos afetados pela mesma corrupção do pecado. Tornamo-nos objetos da justa ira de Deus e a morte passou a todos os homens” Os Cinco Pontos, Alderi Souza de Matos < http://ipbo.org.br/cincopontos.html > Consulta realizada em 23/09/13.

O Rev. Alderi diz que Deus criou o homem à Sua imagem e semelhança, no entanto, o apóstolo Paulo esclarece a exposição acerca da criação do homem que consta do Gênesis dizendo que Adão foi criado à imagem de Cristo, e não a imagem e semelhança do Deus invisível “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” ( Rm 5:14 ).

O apóstolo Paulo deixa claro que Adão é a figura daquele que havia de vir, ou seja, através das Escrituras sabemos que Cristo homem é o que veio na plenitude dos tempos, portanto, a imagem que foi dada ao primeiro homem é a imagem do Cristo que haveria de vir ao mundo.

Quando Cisto foi manifesto aos homens na terra, manifestou-se em carne, e não em glória. A imagem que Adão recebeu foi a de Jesus Cristo homem, e não a imagem de Deus, visto que Deus é espírito. Para saber mais, acesse o artigo A criação do homem e a encarnação de Cristo .

Através do mandamento: “E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:16 -17), Deus alertou que havia a possibilidade de o homem abrir mão da comunhão que possuía com o Criador.

O fim da comunhão com Deus seria tão funesto que foi nomeada morte. Separação que o homem não pode remediar, e que emprestou o nome ao evento ‘descer ao pó da terra’. O homem se preocupa com o ‘descer ao pó’ como se fosse o mais grave evento para a existência do homem, e muitos não sabem que a separação de Deus pode perdurar pela eternidade.

Enquanto possuía comunhão com Deus não havia nenhuma obrigação para o homem, mas se decidisse comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, a comunhão com Deus estaria cortada (morte).

Deus é vida, e a comunhão com Ele é vida, portanto, estar alienado d’Ele é morte. A ideia de morte no mandamento que foi dado no Éden significa separação de Deus, alienação, consequência muito mais gravosa e danosa para o homem do que o término das funções vitais, que é o descer ao pó (separação dos entes queridos) “E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:16- 17); “No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” ( Gn 3:19 ).

A ofensa de Adão (conhecida como a Queda do Homem) resultou em separação (morte), ruptura entre o Criador e a criatura. A criatura continuou existindo, no entanto, após a ofensa, uma parede de separação foi erguida. O homem tornou-se separado de Deus, perdeu a liberdade que havia na comunhão “Porque, quando éreis servos do pecado, estáveis livres da justiça” ( Rm 6:20 ).

Por causa da ofensa a terra foi amaldiçoada, a mulher foi apenada a ter filho com dores e o homem a comer do suor do seu rosto até tornar para o pó da terra, isto porque o homem foi tomado do pó da terra. É neste ponto que surge o conceito de morte física, que não pode ser confundida com a morte espiritual que é alienação de Deus ( Gn 3:19 ).

Adão é a cabeça da raça humana e, através da desobediência dele toda a humanidade foi afetada. Por causa da ofensa de Adão a humanidade tornou-se filha da ira e da desobediência, e a alienação passou a todos os homens. Toda a humanidade herdou as consequências da ofensa de Adão e, por isso, todos os homens nascem alienados da Vida.

A queda de Adão escancarou uma porta larga pela qual todos os homens entram quando nascem. Esta porta larga dá acesso a um caminho largo que conduz os homens à perdição ( Mt 7:13 ). Por causa da ofensa de Adão todos os homens que veem ao mundo são ímpios, pois se desviam de Deus desde a madre. Andam errado desde que nascem, pois estão em um caminho largo que os conduz à perdição ( Sl 58:3 ).

Em Adão desviaram-se todos e juntamente se fizeram imundos, pois toda a humanidade estava na coxa de Adão ( Hb 7:9 -10), e neste quesito não há distinção de carne e sangue. Tanto judeus quanto gentios tornaram-se impróprios para a glória de Deus ( Sl 53:3 ; Rm 3:9 ).

Com a queda, os homens passaram a ser descritos como escravos do pecado, portanto, filhos da desobediência, herdeiros da ira.

Ser escravo do pecado não é ser escravo da própria natureza. É equivocada a concepção de que alguém é escravo de si mesmo, antes um escravo é aquele que, mesmo contra a sua vontade está sob domínio de outrem.

O pecado alcançou o senhorio por intermédio do mandamento santo, justo e bom que foi dado no Éden. Foi através do mandamento dado no Éden que o pecado tem força para dominar a humanidade, pois sem o mandamento não existiria o pecado “Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda a concupiscência; porquanto sem a lei estava morto o pecado” ( Rm 7:8 ).

Sem o mandamento que diz: “Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás”, não haveria alienação, morte, separação entre Deus e os homens, mas por causa da ofensa, veio a morte por força do mandamento divino que não pode ser invalidado “Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei” ( 1Co 15:56 ).

Ora, toda a humanidade herdou as consequências da ofensa de Adão, ou seja, a morte. Não existe nada mais grave do que a alienação de Deus. Mas, me surpreende a concepção de que os homens nascem ‘totalmente depravados’, ou seja, a concepção e o conceito ‘extensivamente maus’.

“Toda a humanidade herdou a culpa do pecado de Adão e por isso todos nascemos totalmente depravados e espiritualmente mortos. A morte espiritual não quer dizer que o espírito humano esteja inativo, mas sim que o homem é culpado (tem um passado manchado) e corrupto (possui uma natureza má). A depravação total não quer dizer que os homens são intensivamente maus (que somos tão maus quanto poderíamos ser), mas sim que somos extensivamente maus (todo o nosso ser, intelecto, emoções e vontade estão corrompidos pelo pecado)” Os Cinco Pontos, Alderi Souza de Matos.

A colocação do Rev. Alderi começa com o equivoco de afirmar que a humanidade herdou a culpa do pecado de Adão, sendo que a bíblia demonstra que o homem herdou a condenação: alienação, separação de Deus. No Novo Testamento, o termo grego traduzido por culpa.

(1777 ενοχος enochos de 1758; TDNT – 2:828,286; adj 1) constrangido, sob obrigação, sujeito a, responsável por 1a) usado de alguém que está nas mãos de, possuído pelo amor, e zelo por algo 1b) num sentido forense, denotando a conexão de uma pessoa seja com o seu crime ou com penalidade ou julgamento, ou com aquilo contra quem ou o que ele tem ofendido 1b1) culpado, digno de punição 1b2) culpado de algo 1b3) do crime 1b4) da penalidade 1b5) sujeito a este ou aquele tribunal i.e. a punição a ser imposta por este ou aquele tribunal 1b6) do lugar onde a punição é para ser sofrida) Dicionário Strong, aparece em conexão com a ideia de punição, o que difere do conceito jurídico recente de culpa, que deriva das intenções.

Quando encontramos na bíblia que o homem é culpado, não significa que a Bíblia está levando em conta as questões de foro íntimo do indivíduo como certo e errado, conhecedor ou ignorante, motivos e intenções, etc. O termo culpado aponta somente para a penalidade imposta.

Um jurista entende que a humanidade herdou a culpa de Adão, mas a Bíblia demonstra que o homem herdou a condenação “Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” ( Jo 3:18 ).

Mas, no que consiste a condenação? Alienação, separação, morte. Ora, todos os homens nascem separados da vida que há em Deus, portanto, mortos. A penalidade da desobediência é única: certamente morrerás. Na penalidade não está inclusa a ideia de depravação.

O que querem dizer com ‘depravado’? Por que a necessidade de enfatizar a ‘depravação’ com o termo ‘totalmente’. Por que a necessidade de inserir um novo termo para ilustrar a condição da humanidade se o termo morte demonstra com clareza a condição do homem?

O homem não possui um passado manchado, antes, segundo a Bíblia, é o homem que está manchado, ou seja, maculado, impróprio para comunhão com Deus. O homem não possui uma natureza má, antes o homem é apresentado na Bíblia como sendo mau “Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos…” ( Mt 7:11 ).

Surpreende-me a colocação de que os homens não são ‘intensivamente’ maus, e sim, extensivamente maus. Quando comparo com o que Jesus disse: “Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos…” (Mateus 7 : 11), verifico que nenhuma das duas premissas resistem à verdade.

Quando Jesus diz: “Se vós, sendo maus…”, indica que a plenitude do ser é má, ou seja, está comprometida. Se houvesse como mensurar o mau que decorre da ofensa, e esse mau fosse mínimo, mesmo assim o homem estaria aquém da gloria de Deus. Por que? Porque Deus é luz e não há n’Ele trevas nenhuma ( 1Jo 1:5 ).

A morte não comporta intensidade de modo que dizer que o homem é totalmente depravado é sem significado. O homem está morto em delitos e pecados e é mau, o que contraria a assertiva do Rev. Alderi.

Por outro lado, Jesus demonstra que, apesar de os seus interlocutores serem maus, sabiam dar boas coisas aos seus filhos ( Mt 7:11 ), o que demonstra que os homens não são extensivamente maus, como afirma o Rev. Alderi.

Ora, apesar de serem inteiramente maus, o intelecto dos fariseus não foi afetado, pois davam aos seus filhos boas dádivas. A emoção não foi afeta, pois o ato de dar boas dadivas aos filhos demonstra que o pecado não tolhe o forte vínculo emocional entre pai e filho.

Observe que, apesar de os fariseus serem maus, caso o filho deles pedisse pão, jamais dariam uma pedra. Ou, se o filho pedisse um peixe, jamais dariam uma serpente, o que evidencia que a vontade do homem não foi comprometida após a queda.

O que foi comprometida foi a relação do homem com Deus. Antes da queda havia comunhão, liberdade e vida, após a queda instalou-se a morte, perdeu-se a comunhão e o homem tornou-se escravo do pecado.

No instante após comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, Adão passou à condição de morto para Deus, alienado, separado, etc. A morte foi a penalidade estabelecida na lei: certamente morrerás. O homem não ficou extensivamente mau após a queda visto que não há no mandamento dado no Éden a penalidade ‘certamente ficarás extensivamente mau’.

Após a queda Adão não praticou nenhuma maldade que pudéssemos indicar que ele tornou-se tão mau quanto poderia ser, e nenhuma atitude dele após a queda indica que o seu intelecto, emoções e vontade foram corrompidos, porém, uma coisa é certa: ele estava completamente separado de Deus.

A morte espiritual é alienação de Deus, mas isto não significa que, por estar ‘separado de Deus’ o homem é ‘extensivamente mau’, ou seja, que o intelecto, as emoções e a vontade do homem estão corrompidos pelo pecado.

Há o mau proveniente da ofensa de Adão e o mau proveniente do fruto da árvore do conhecimento. Temos que divisar bem o que é ser mau por causa da ofensa de Adão, e o que é ter o conhecimento do bem e do mal proveniente do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal que estava no meio do jardim.

Através do seu intelecto, sentimento, emoções e vontade o homem pode executar intentos nobres e bons, como também pode executar ações reprováveis e más. Tanto o que faz boas ações quanto o que faz más ações estão alienados de Deus e, diante de Deus estão em pé de igualdade, pois o mais reto dos homens diante de Deus é como um espinho, e o mais justo como uma cerca de espinho ( Mq 7:4 ).

Quando a Bíblia afirma que o homem é mau, temos que entender o conceito de mau assim como entendemos o conceito de trevas.  Deus é luz, e o homem sem Deus é trevas. Dentro do mesmo princípio, Deus é bom e o homem sem Deus é mau.

Quando dizemos que Deus é bom, temos que entender o conceito ‘bom’ segundo a concepção do homem da antiguidade, e não com o olhar e o sentimento do homem moderno. Na Bíblia ‘bom’ (aghatos) vincula-se à nobreza, e o conceito de mau que se aplica ao homem é o de vil, baixo, ralé. Ou seja, há uma barreira de separação entre Deus e os homens, não porque o homem é maldoso e Deus é bondoso, antes porque a natureza de Deus é distinta da do homem, este inferior e aquele superior.

Quando a bíblia diz que o homem está separado, alienado de Deus, estabelece um conceito de totalidade. Não há como estar ‘parcialmente’ alienado. Não há como apor uma adjetivação na condição do homem, como ‘totalmente’ morto, ‘plenamente’ morto, ‘incomparavelmente’ morto, etc.

Mas, muitos adeptos da reforma protestante apresentaram o conceito da depravação total, dizendo que os homens são extensivamente maus, ou seja, que o pecado afetou o intelecto, as emoções e a vontade do homem.

A ofensa afetou a relação entre o homem e Deus, já o intelecto do homem, bem como as emoções e vontade adquiriram um novo ingrediente: o conhecimento do bem e do mal. O evento negativo que afetou o homem foi a alienação de Deus, porém, adquirir o conhecimento do bem e do mal não pode ser considerado como algo negativo, visto que o próprio Criador é detentor deste conhecimento.

O fato de o homem desprezar a palavra de Deus o deixa entregue a um sentimento perverso de modo que praticam coisas inconvenientes ( Rm 1:28 ), porém, as coisas inconvenientes que praticam não é o que os tornam escusáveis diante de Deus.

O pecado está na desobediência de ter comido do fruto, e não no conhecimento do bem e do mal que o homem adquiriu por ter comido do fruto do conhecimento do bem e do mal. Conhecer o bem e o mal não é pecado, visto que Deus é conhecedor (saber)do bem e do mal (Gn 3.22) e n’Ele não há trevas nenhumas. Pecado é a condição do homem após a ofensa.

O pecado é a condição imposta pela lei em função da ofensa, condição que impossibilita que o homem restaure a comunhão com seu Criador. Por causa da morte que mantém o homem preso ao pecado, o homem natural por si mesmo é incapaz de reatar a comunhão com Deus.

Mas, diante da impossibilidade do homem, Deus tomou a iniciativa de salvar a humanidade. Por intermédio de Cristo Jesus, Deus tomou a providência necessária para que o homem volte a ter comunhão com Deus.

No Éden Deus deu um mandamento que preservaria a condição do homem em comunhão com Deus, com o advento de Cristo, o último Adão, Deus deu um novo mandamento que restaura a comunhão com Deus.

E qual é este mandamento? Encontramos o mandamento de Deus estampado nas Escrituras: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ).

Em todos os tempos Jesus é o único caminho que reata a comunhão dos homens com Deus, pois Jesus foi dado para este fim “E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” ( At 4:12 ). No entanto, a humanidade, no afã de se salvar promovem inúmeras religiões na tentativa de que Deus lhes seja propício, porém, essas tentativas são inócuas, pois o homem natural por si mesmo não pode agradar a Deus. Somente a justiça agrada a Deus.

Além de dizerem que a ‘depravação total’ significa que ‘o pecado afetou o intelecto, as emoções e a vontade do homem’, muitos que seguem a doutrina produzida na reforma protestante alegam que o homem natural é totalmente incapaz de crer em Deus, pois está morto, cego e surdo para as coisas espirituais.

Ora, primeiro analisaremos esta alegação sob o prisma da nação de Israel, lembrando que Deus anunciou através do profeta Isaías que estendeu a suas mãos o dia todo a um povo rebelde “Estendi as minhas mãos o dia todo a um povo rebelde, que anda por caminho, que não é bom, após os seus pensamentos” ( Is 65:2 ).

Como pode ser isto? Apesar de Deus saber que o povo de Israel era totalmente incapaz de crer por estarem mortos, cegos, surdos e com o intelecto, as emoções e a vontade comprometida pelo pecado, estendeu a mão aos filhos de Jacó? Seria um tremendo contra censo! Apesar de Deus saber que o homem é completamente inabilitado para atendê-Lo, faz um convite de salvação e estende a mão? “Porque Deus não é Deus de confusão, senão de paz, como em todas as igrejas dos santos” ( 1Co 14:33 ).

Como Deus pode acusar o povo de Israel de não querer ouvi-Lo, se, na verdade, o povo era completamente surdo e cego? “Porque este é um povo rebelde, filhos mentirosos, filhos que não querem ouvir a lei do SENHOR” ( Is 30:9 ).

Não querer ouvir é completamente diferente de ser surdo, ou seja, impossibilitado de ouvir. Estar morto é uma condição, não querer ouvir é atitude rebelde.

Como é possível Deus clamar ao povo que volte, se o povo era surdo? “Vai, pois, e apregoa estas palavras para o lado norte, e dize: Volta, ó rebelde Israel, diz o SENHOR, e não farei cair a minha ira sobre ti; porque misericordioso sou, diz o SENHOR, e não conservarei para sempre a minha ira” ( Jr 3:12 ).

Ora, a Bíblia é clara em demonstrar que os filhos de Israel podiam ouvir. Primeiro porque Deus lhes dirigiu a palavra. Segundo porque eles podiam ouvir ou deixar de ouvir “Mas tu lhes dirás as minhas palavras, quer ouçam quer deixem de ouvir, pois são rebeldes” ( Ez 2:7 ); “Mas, quando eu falar contigo, abrirei a tua boca, e lhes dirás: Assim diz o Senhor DEUS: Quem ouvir ouça, e quem deixar de ouvir, deixe; porque eles são casa rebelde” ( Ez 3:27 ).

Já no Novo Testamento, quando Jesus conversa com Marta, irmã de Lazaro, disse: “Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá ( Jo 11:25 ). Mesmo os ‘mortos’ podem ouvir e crer, e se crerem, viverão, ou seja, voltarão a ter comunhão com Deus “Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão” ( Jo 5:25 ); “Ouvi, e a vossa alma viverá” ( Is 53:3 ).

Isaias profetizou que o povo que andava em trevas e que habitava nas regiões da morte viu uma grande luz, demonstrando que os homens, apesar de estarem mortos (alienados de Deus), pode ver “O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz” ( Is 9:2 ).

Deus estendeu as suas mãos todos os dias anunciando a seguinte mensagem aos ‘mortos’: “Inclinai os vossos ouvidos, e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, dando-vos as firmes beneficências de Davi” ( Is 55:3 ). Como posso afirmar que a mensagem era para os ‘mortos’? Porque se desse ouvidos (inclinar os ouvidos) e viesse a quem anuncia a mensagem alcançaria vida.

Só é possível passar a viver quem está morto, portanto, é anunciado aos mortos a possibilidade de viverem se derem ouvidos a voz de Deus.

Primeiro é necessário que o autor da mensagem tenha poder para dar vida. Em segundo lugar é necessário que a mensagem seja anunciada, pois se não há quem pregue, não há como crer. Em terceiro lugar é necessário ao homem morto inclinar os ouvidos, o que conduzirá o homem a Deus (vinde a mim). Quando o homem dá ouvidos, ou seja, ouve, volta à comunhão com Deus, terá vida dentre os mortos.

O que dissemos acima, o apóstolo Paulo escreveu aos Romanos:

“Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido. Porquanto não há diferença entre judeu e grego; porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam. Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo. Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? como está escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam o evangelho de paz; dos que trazem alegres novas de boas coisas. Mas nem todos têm obedecido ao evangelho; pois Isaías diz: SENHOR, quem creu na nossa pregação? De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus. Mas digo: Porventura não ouviram? Sim, por certo, pois Por toda a terra saiu a voz deles, E as suas palavras até aos confins do mundo. Mas digo: Porventura Israel não o soube? Primeiramente diz Moisés: Eu vos porei em ciúmes com aqueles que não são povo, Com gente insensata vos provocarei à ira. E Isaías ousadamente diz: Fui achado pelos que não me buscavam, Fui manifestado aos que por mim não perguntavam. Mas para Israel diz: Todo o dia estendi as minhas mãos a um povo rebelde e contradizente” ( Rm 10:8 -21).

Como havia uma barreira de separação entre Deus e os homens, o homem não podia aproximar-se de Deus e nem Deus do homem. Se Deus se aproximasse do homem após a queda, violaria a sua própria palavra e comprometeria a sua justiça e santidade. Já o homem não podia aproximar-se pela falta do conhecimento necessário, o que foi satisfeito quando Deus enviou o seu Único Filho como mediador “Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles levará sobre si” ( Is 53:11 ).

Para ser justo e justificar o homem, Deus enviou ao mundo Jesus Cristo homem na condição de mediador entre Deus e os homens. Por intermédio de Cristo, o Verbo de Deus, foi estabelecido um novo e vivo caminho para que o homem volte à comunhão com Deus.

O homem não é cego e nem surdo. A surdez e a cegueira são figuras especificas utilizadas pelos profetas para fazer referencia ao povo de Israel “Surdos, ouvi, e vós, cegos, olhai, para que possais ver” ( Is 42:18 ).

Como é possível o apóstolo Paulo afirmar que é possível entender a divindade pelas coisas criadas se o homem está impossibilitado de ver? “Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se veem pelas coisas que estão criadas…” ( Rm 1:20 ).

Na Bíblia você encontrará os termos ‘surdo’ e ‘cego’ utilizados como figuras para fazer referencia aos filhos de Jacó. O povo de Israel acreditava que via e ouvia ( Jo 9:39 -41), ou seja, entendia que eram guia dos cegos e dos que estavam em trevas ( Rm 2:19 ), porém, se admitissem que eram cegos, seriam como o servo do Senhor: perfeitos! “Quem é cego, senão o meu servo, ou surdo como o meu mensageiro, a quem envio? E quem é cego como o que é perfeito, e cego como o servo do SENHOR? Tu vês muitas coisas, mas não as guardas; ainda que tenhas os ouvidos abertos, nada ouves ( Is 42:19 -20).

O povo de Israel era tido por cego e surdo não porque eram portadores de deficiência visual e auditiva, antes porque ouviam e viam, mas não obedeciam “Tu vês muitas coisas, mas não as guardas; ainda que tenhas os ouvidos abertos, nada ouves” ( Is 42:20 ).

Ao dirigir a palavra aos escribas e fariseus, Jesus os chamava de condutores cegos e insensatos ( Mt 23:16 -17). A figura da cegueira e da surdez aplica-se aos judeus, portanto, utilizá-las para descrever a humanidade sem Deus estabelece um entendimento equivocado de que a humanidade é cega e surda. Pelo fato de a humanidade estar morta em delitos e pecados, aplicam à humanidade as figuras da ‘cegueira’ e ‘surdez’, sendo que tais figuras apontam para Israel. Dai surge a ideia de que, para ver e ouvir a palavra de Deus, é necessário uma graça especial dada somente a alguns.

Após a queda Adão morreu. Estava separado de Deus em função da ofensa. No entanto, quando Deus chamou Adão dizendo: – “Onde estás?”, apesar de morto, Adão disse: “Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me” ( Gn 3:10 ). Os ouvidos do primeiro homem que morreu estava em pleno funcionamento.

Mas, para quem os profetas disseram estas palavras: “Todos os seus atalaias são cegos, nada sabem; todos são cães mudos, não podem ladrar; andam adormecidos, estão deitados, e gostam do sono” ( Is 56:10 ); “Apalpamos as paredes como cegos, e como os que não têm olhos andamos apalpando; tropeçamos ao meio-dia como nas trevas, e nos lugares escuros como mortos ( Is 59:10 ). Não era para os judeus?

Observe o que diz o Rer. Alderi:

“A depravação total também significa que o homem possui uma inabilidade total para restaurar o relacionamento com seu Criador. Por causa da depravação, o homem natural, por si mesmo, é totalmente incapaz de crer verdadeiramente em Deus. O pecador está morto, cego e surdo para as coisas espirituais. Desde a Queda o homem perdeu o seu livre-arbítrio e passou a ser escravo de sua natureza corrompida e por isso ele é incapaz de escolher o bem em questões espirituais. Todas as falsas religiões são tentativas do homem de construir para si um deus que lhe seja propício. Porém, todas essas tentativas erram o alvo, pois o homem natural por si mesmo não quer buscar o verdadeiro Deus” Idem.

A cegueira e a surdez espiritual são figuras que se aplicam ao povo de Israel, porém, a doutrina calvinista da ‘depravação total’ utilizam figuras que tratam do povo de Israel para descrever a humanidade, e por isso dizem: ‘O pecador está morto, cego e surdo para as coisas espirituais’.

No entanto, quando as Escrituras diz: “Trazei o povo cego, que tem olhos; e os surdos, que têm ouvidos” ( Is 43:8 ); “Surdos, ouvi, e vós, cegos, olhai, para que possais ver” ( Is 42:18 ), ela aponta para os que receberam a lei, e não aos gentios “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” ( Rm 3:19 ).

 

 

Os Cânones de Dort (1618-1619)

Os Cânones de Dort, ou cânones de Dordrech, intitulados formalmente como ‘A Decisão do Sínodo de Dort sobre os Cinco Pontos Principais de Doutrina’ em disputa na cidade holandesa de Dordrech, em 1618/19, conhecida também como os Cinco pontos contra os Remonstrantes, registra a seguinte ideia no primeiro ponto:

“1. Todos os homens pecaram em Adão, estão debaixo da maldição de Deus e são condenados à morte eterna. Por isso Deus não teria feito injustiça a ninguém se Ele tivesse resolvido deixar toda a raça humana no pecado e sob a maldição e condená-la por causa do seu pecado, de acordo com estas palavras do apóstolo:  ‘… para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus… pois todos pecaram e carecem da glória de Deus…’, e: ‘…o salário do pecado é a morte…’ ( Rm 3:19- 23; Rm 6:23 )”.

Os autores do Cânones de Dort no afã de rebater a doutrina arminianista cometeram o equivoco de não observar que a assertiva paulina: ‘… para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus’, tinha por alvo os judeus, e não  a humanidade. É certo que todos pecaram em Adão. É certo que todos estão debaixo de maldição e condenados à morte eterna. Também é certo que se Deus não houvesse resgatado o homem não haveria injustiça n’Ele.

O erro está em utilizar a passagem bíblica de Romanos 3, verso 19 para embasar a assertivas acima, visto que o apóstolo Paulo estava incluindo o povo judeu sob o pecado e a condenação. Que todos pecaram e carecem da glória de Deus é fato, porém, os judeus se consideravam privilegiados por serem descendentes da carne de Abraão.

Censurando os judeus, o apóstolo Paulo diz: “Eis que tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus” ( Rm 2:17 ), demonstrando que, o que exporia a seguir depunha contra os judeus, incluindo-os debaixo da maldição do pecado.

Após apresentar a vantagem e a utilidade do povo judeu ( Rm 3:1 -2), o apóstolo Paulo demonstra que em nada eram diferente dos gentios ( Rm 3:9 ). Neste contexto, todas as afirmações do apóstolo Paulo são absolutas no sentido de demonstrar a inutilidade da circuncisão para ser salvo.

Dai a conclusão: “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” ( Rm 3:19 ).

Se a lei foi escrita para os que estavam debaixo da lei, significa que o povo de Israel também estava sob condenação, de modo que todo mundo é condenável diante de Deus por causa da ofensa de Adão.

Quando é dito: “… pois todos pecaram e carecem da glória de Deus…’, devemos considerar a inclusão dos judeus sob a maldição do pecado e, subsidiariamente, subentende-se que os gentios são pecadores. A ênfase do texto, porém, está nos judeus.

A exposição do apóstolo Paulo foi necessária para conscientizar o povo de Israel da sua real condição. Israel era nomeado povo de Deus, o que dava a entender que era uma nação constituída de homens que não eram pecadores.

Ler a carta de Paulo aos Romanos como se fosse uma carta direcionada apenas aos gentios é ficar alijado do sentido exato do texto, e a compreensão ficara distorcida. O apóstolo Paulo só fala aos gentios a partir do capítulo 11 da carta aos Romanos “Porque convosco falo, gentios, que, enquanto for apóstolo dos gentios, exalto o meu ministério” ( Rm 11:13 ), enquanto os capítulos iniciais foram escritos para os cristãos judeus “Eis que tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus…” ( Rm 2:17 ).

No segundo ponto do Cânones de Dort, fica demonstrado que Deus manifestou seu amor ao enviar o seu Filho, Jesus Cristo:

“2. Mas ‘Nisto se manifestou o amor de Deus em nós, em haver Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo…’, ‘…para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” ( 1Jo 4:9 ; Jo 3:16 ).

No ponto três do Canones de Dort tem-se algumas distorções que decorre de uma má leitura que já demonstramos no ponto um:

“3. Para que os homens sejam conduzidos à fé, Deus envia, em sua misericórdia, mensageiros desta mensagem muito alegre a quem e quando Ele quer. Pelo ministério deles, os homens são chamados ao arrependimento e à fé no Cristo crucificado. Porque ‘…como crerão naquele de quem nada ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão se não forem enviados?…’ ( Rm 10:14- 15)”.

A Bíblia demonstra que os homens necessitam de comunhão com Deus, e não que os homens devam ser conduzidos à ‘fé’.

A Bíblia demonstra que há uma barreira entre Deus e os homens, e não uma barreira entre os homens e Cristo, que é a ‘fé’ manifesta. Seria um contra senso Deus enviar um mediador e haver uma barreira entre os homens e o mediador.

É um absurdo entender que há uma barreira entre o pecador (homens) e o mediador (Cristo), ou que há uma barreira entre o pecador e o sacerdote como sugere a asserção:

‘Para que os homens sejam conduzidos à fé, Deus envia, em sua misericórdia, mensageiros desta mensagem…’.  Idem

Se entendemos que Cristo é a fé manifesta ( Gl 3:23 ), é sem sentido afirmar que os homens devam ser conduzidos à fé. Ora, foi Deus que enviou o seu Filho ao mundo.

Se entendemos que a ‘fé’ é a mensagem anunciada que tem por tema o Cristo ( Jd 1:3 ; Rm 1:5 ), o mensageiro é porta-voz da fé aos homens para que eles possam por intermédio de Cristo serem conduzidos a Deus.

Ora, Deus em sua misericórdia, enviou o seu Filho amado ao mundo, ou seja, a todos os homens, e não ‘a quem e quando Ele quer’. O apóstolo Paulo é claro: “Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” ( 1Tm 2:4 ; Jo 3:16 ).

O homem precisa ser conduzido a Deus, e para isto Cristo veio. O homem não precisa ser conduzido a Cristo, antes a Deus, e Cristo é o mediador. Cristo foi posto como um novo e vivo caminho, e pelo seu corpo o homem tem acesso a Deus.

O Canones de Dort faz distinção entre ‘arrependimento’ e ‘fé’ por causa do conceito deturpado de arrependimento oriundo da concepção católica que decorre do termo ‘penitência’.

Arrependimento é mudança de concepção, abandono de uma ideia para abraçar uma nova, de modo que, quando ocorre o arrependimento, consequentemente, o homem abraça a fé. Se abraçou a fé, significa que se arrependeu, e vice-versa, pois arrependimento é ‘metanoia’, mudança de concepção, conversão.

No ponto 4 temos a seguinte assertiva:

“4. A ira de Deus permanece sobre aqueles que não creem neste Evangelho. Mas aqueles que o aceitam e abraçam Jesus, o Salvador, com uma fé verdadeira e viva, são redimidos por Ele da ira de Deus e da perdição, e presenteados com a vida eterna ( Jo 3:36 ; Mc 16:16 )”.

Basta ao homem crer em Cristo segundo as Escrituras que aceitaram a Jesus como salvador com uma fé verdadeira e viva. A fé verdadeira e viva é a verdade do evangelho, e aquele que crê no evangelho tem uma fé verdadeira e viva.

O ponto cinco possui duas incongruências com as Escrituras:

“5. Em Deus não está, de forma alguma, a causa ou culpa desta incredulidade. O homem tem a culpa dela, tal como de todos os demais pecados. Mas a fé em Jesus Cristo e também a salvação por meio d’Ele são dons gratuitos de Deus, como está escrito: ‘Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus…’ ( Ef 2:8 ). Semelhantemente, ‘Porque vos foi concedida a graça de…’ crer em Cristo ( Fp 1:29 )”.

Deus não trata com a humanidade a questão da culpa, antes da condenação. Foi um só homem que pecou, e todos pecaram. Um só homem ofendeu, e a condenação veio sobre todos os homens, mesmo a humanidade não tendo transgredido à semelhança da transgressão de Adão ( Rm 5:14 ).

A humanidade está condenada por causa da ofensa de Adão, e este é o pecado que alienou o homem de Deus. Sobre a humanidade pesa a condenação por causa da ofensa de Adão, portanto, não há que se falar que ‘o homem tem a culpa dela, tal como de todos os demais pecados’.

A segunda incongruência se dá pela má leitura do texto de Efésios 2, verso 8: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus…” ( Ef 2:8 ). O apóstolo Paulo estava explicando que os cristãos são salvos graciosamente mediante a fé, ou seja, mediante Cristo, pois Ele é a fé que ‘havia de se manifestar’. O termo ‘fé’ no versículo não é o que os tradutores vertem por ‘crer’. Não se trata do verbo ‘fé’, antes é a forma substantivada, um recurso linguístico (figura de linguagem) para fazer referência à pessoa do Cristo  ( Gl 3:23 ).

A salvação em Cristo, a ‘fé’ manifesta não vem dos homens, é dom de Deus, pois Jesus mesmo disse a mulher samaritana: “Jesus respondeu, e disse-lhe: Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva” ( Jo 4:10 ). Cristo é o dom de Deus, a fé que havia de se manifestar e foi manifesta na plenitude dos tempos.

Já o que foi escrito aos Filipenses diz respeito a batalhar pela fé ( Jd 1:3 ), pois além de terem crido em Cristo, a eles foi concedido defender a mensagem do evangelho “Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele” ( Fp 1:29 ).

No ponto 6 do Canones de Dort, ao afirmar a doutrina da eleição e da reprovação calvinistas, é enfatizado que Deus faz distinção entre homens:

“6. Deus dá nesta vida a fé a alguns enquanto não dá a fé a outros. Isto procede do eterno decreto de Deus. Porque as Escrituras dizem que Ele “…faz estas cousas conhecidas desde séculos.” e que Ele “faz todas as cousas conforme o conselho da sua vontade…” ( At 15:18 ; Ef 1:11 ). De acordo com este decreto, Ele graciosamente quebranta os corações dos eleitos, por duros que sejam, e os inclina a crer. Pelo mesmo decreto, entretanto, segundo seu justo juízo, Ele deixa os não-eleitos em sua própria maldade e dureza. E aqui especialmente nos é manifesta a profunda, misericordiosa e ao mesmo tempo justa distinção entre os homens que estão na mesma condição de perdição. Este é o decreto da eleição e reprovação revelado na Palavra de Deus. Ainda que os homens perversos, impuros e instáveis o deturpem, para sua própria perdição, ele dá um inexprimível conforto para as pessoas santas e tementes a Deus”.

Quando afirmam que ‘Deus dá nesta vida a fé a alguns enquanto não dá a fé a outros’, contrariam a bíblia, visto que Cristo é a fé manifesta que Deus deu a todos os homens. Cristo é descrito como o Sol nascente das alturas, e o sol nasce sobre todos sem distinção, pois Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito para todo aquele que crê seja salvo ( Lc 2:32 ).

A fé foi manifesta salvadora a todos os homens, pois Deus deseja que todos se salvem “Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” ( 1Tm 2:4 ); “Porque para isto trabalhamos e lutamos, pois esperamos no Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens, principalmente dos fiéis” ( 1Tm 4:10 ); “Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam” ( At 17:30 ).

Deus não faz distinção entre homens e homens, pois todos entram neste mundo por uma mesma porta, a porta larga (Adão) e alienados estão de Deus “Quanto menos àquele, que não faz acepção das pessoas de príncipes, nem estima o rico mais do que o pobre; porque todos são obras de suas mãos” ( Jó 34:19 ; Dt 10:17 ; Dt 16:19 ). Todos entram por Adão, ou seja, todos são filhos da desobediência, para que Deus use igualmente de misericórdia para com todos “Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia” ( Rm 11:32 ).

Por causa da separação, Deus estabeleceu Jesus Cristo homem como mediador entre Deus e os homens, de modo que não há ninguém que seja especial diante da mensagem do evangelho, e ninguém que seja preterido ao ouvi-lo “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem” ( 1Tm 2:5 ).

Ao escrever aos Gálatas, o apóstolo Paulo deixou claro o motivo pelo qual todos foram encerrados debaixo do pecado: “Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos crentes ( Gl 3:22 ). Não importa se judeus ou gregos, a promessa que e segundo a fé é para os que creem.

Deus faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade ( Ef 1:11 ), e é da vontade de Deus salvar os crentes, ou seja, os que creem na mensagem do evangelho, que é poder de Deus. Na pregação está o poder de Deus e, todos quantos creem recebem poder para serem feitos filhos de Deus “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação” ( 1Co 1:21 ; Jo 1:12- 13).

A salvação é para os que creem na pregação, pois na mensagem anunciada por Cristo e os apóstolos está o poder de Deus para salvação ( Rm 1:16 ; Hb 5:9 ).

A salvação não é segundo o que propõe a predestinação calvinista, de que o homem é salvo antes mesmo de ouvir a palavra da verdade, o evangelho da salvação. Ao ouvir e crer em Cristo o homem é salvo, e após ser salvo é designado eleito de Deus para ser santo e irrepreensível, predestinado a ser conforme a imagem de Cristo Jesus “Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos” ( 1Jo 3:2 ).

 

Alienados

Como já verificamos, a força da lei dada no Éden somada a ofensa de Adão fez surgir a parede de separação (pecado) entre Deus e os homens. O termo utilizado para descrever esta separação é alienação, diferente da ideia que o termo ‘depravação total’ transmite.

O termo depravação tem relação com o que o homem realiza do ponto de vista moral, já a alienação demonstra a quebra da comunhão com Deus. Do ponto de vista da moral é possível mudarmos o nome ‘depravado’ através do adjunto ‘totalmente’, mas se falarmos da relação entre Deus e os homens sob o domínio do pecado, o termo ‘alienado’ não comporta o adjunto ‘totalmente’.

O pecador está separado de Deus, e ponto. Nem mais nem menos. Utilizarmos o adverbio totalmente, ou completamente, é sem valor, pois o termo alienado encerra uma ideia.

O equivoco de tentar demonstrar que o homem está totalmente depravado surge da má leitura que fizeram da explicação de várias passagens do Antigo Testamento que o apóstolo Paulo citou na carta aos Romanos.

Quando o apóstolo Paulo explicou aos cristãos convertidos dentre os judeus que eles não eram melhores que os gentios, porque ambos os povos estavam debaixo do pecado ( Rm 3:9 ), citou os Salmos: “Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só ( Rm 3:10 -12).

Os judeus, por serem descendentes da carne de Abraão, terem a lei e a circuncisão, consideravam que eram melhores que os gentios, porém, o apóstolo Paulo utilizou os Salmos para demonstrar que as Escrituras protestavam contra os judeus e não contra os gentios.

Apesar de os gentios serem pecadores, o alvo das Escrituras era os judeus. Apesar dos judeus comparecerem continuamente no templo para orar e oferecer sacrifícios, Deus protestava continuamente contra eles de que não eram justos, não entendiam a vontade de Deus, não buscavam a Deus. Juntamente judeus e gentios se extraviaram em Adão, são imundos e não fazem o bem.

Após citar outras passagens bíblicas, o apóstolo Paulo enfatiza a essência da sua abordagem: “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” ( Rm 3:19 ). Os únicos que possuíam uma boca dilatada eram os judeus, pois confiavam na lei, mas a própria lei foi dada para que eles também estivessem de bocas fechadas, pois eram condenáveis diante da lei e estavam alienados de Deus “Não vos deu Moisés a lei? e nenhum de vós observa a lei. Por que procurais matar-me?” ( Jo 7:19 ; Rm 2:27 ;  ).

A alienação da humanidade é igual para judeus e gregos. Ambos os povos carecem da glória de Deus. A única diferença entre judeus e gentios é que foi dado aos judeus a lei para conduzi-los a Cristo ( Rm 3:2 ). Não existe uma alienação maior ou uma menor. Não existe alienação total ou parcial. O homem quando no pecado está separado, alienado, e ponto!

É de se estranhar que a doutrina calvinista utilize termos como ‘totalmente’, ‘completamente’, para enfatizar a condição do homem separado de Deus. No entanto, desconsideram o fato de que Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito para que TODO aquele que crê não pereça, ou o fato de que Deus quer que TODOS os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade. Nosso Deus é Deus de paz e não de confusão.

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O Homem sem Deus é ‘Mau até os Ossos’?

A alienação do homem de Deus não precisa ser enfatizada ou descrita através de palavras tais como: ‘todo’, ‘completamente’, ‘terrivelmente’, ‘maus até os ossos’ ou ‘totalmente depravados’.

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