Há mérito em crer em Cristo?

‘Crer’ decorre da ‘fé’, não o contrario. Arrependimento decorre da ‘fé’ (evangelho) e nunca a ‘fé’ do arrependimento. Sem a fé manifesta, que é Cristo, é impossível o homem arrepender-se e crer para a salvação. Sem o conhecimento de Deus, a mensagem do evangelho, não há no que o homem possa crer, que o livre da condenação. O homem pode crer em Deus, crer em anjos, crer em milagres, crer no impossível, etc., mas se não crer em Cristo, o dom de Deus, não será salvo (Jo 14:1).


“E seja achado nele, não tendo a minha justiça, que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus, pela fé” (Fl 3:9)

A fé

Após ler o livro ‘Tudo de Graça’, do pregador Charles H. Spurgeon, no capítulo ‘Pela graça, mediante a fé’, deparei-me com o seguinte posicionamento:

“Que imensa é a graça de Deus! Quem poderá medir sua extensão? Quem poderá imaginar sua profundidade? Como os demais atributos divinos, ela é infinita. Deus é cheio de amor, pois “Deus é amor”! [1João 4.8]. Bondade e amor fazem parte da real essência do Deus triuno. Ele é todo bondade. Exatamente, porque Deus é misericordioso, que não somos todos destruídos. Lembre-se disso, ou você poderá cair em erro, fixando tanto a sua mente na fé, que é o meio da salvação e esquecendo-se da graça, fonte da própria fé.  Fé é obra da graça de Deus, em nós. Ninguém poderá dizer que Jesus é o Cristo, senão por obra do Espírito Santo. “Ninguém poderá vir a mim,” disse Jesus, “se, pelo Pai, não lhe for concedido” [João 6.65]. De maneira que a fé, que é o ato de ir a Cristo e concessão divina da graça. A graça é a primeira e última causa movedora da salvação; e a fé, por mais essencial que seja, é apenas parte importante do mecanismo utilizado pela graça. Somos salvos “mediante a fé”, mas “pela graça”. Soam essas palavras como que, proferidas pela voz do arcanjo: “Pela graça sois salvos”. Que boas novas para quem não merece (…) Ainda assim, quero lembrar que a fé é apenas um canal ou aqueduto, não a própria fonte. Não deveríamos considerá-la, além da fonte de todas as bênçãos, a graça de Deus. Jamais figure Cristo, a partir de sua fé, nem pense nela como fonte independente para a sua salvação. Nossa vida é achada quando olhamos para Jesus, não quando olhamos para a nossa fé” Spurgeon, C. H. Tudo de Graça, Titulo Original, All of Grace (1894), Tradução Wadislau Martins Gomes, 2010, pág. 25.

De que ‘fé’ Spurgeon está tratando?

Como no início do capítulo 7, do livreto ‘Tudo de graça’, Spurgeon cita o versículo: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé” (Ef 2:8). Eu esperava que ele fizesse referência à ‘fé’ como ‘evangelho’, por meio da qual o homem é salvo, mas fui frustrado.

Apesar de ter dito boas coisas, acerca da graça de Deus, o texto de Spurgeon não passa de tergiversações, acerca da graça e da fé, pois, a sua exposição, decorre de má leitura do texto bíblico, o que o tornou doutrinariamente tendencioso.

Quando o apóstolo Paulo diz: “Porque, pela graça sois salvos, por meio da fé” (Ef 2:8), acerca de qual ‘fé’ o apóstolo está escrevendo? Da ‘fé’ que é anunciada aos gentios e que deve ser obedecida (Rm 1:5 e 8), ou, da que significa ‘crer’, ‘acreditar’ em Cristo, disposição decorrente da verdade do evangelho que, também, é nomeada ‘fé’ (Rm 4:3)? Spurgeon fez a sua exposição, apontando para a ‘fé’ que é anunciada (pregada) ou, para a necessidade de ‘crer’ no evangelho? Neste sentido, a ‘fé’ é objetiva (doutrina, crença) ou, diz de uma ‘fé’ subjetiva (acreditar, crer, questão de foro íntimo)?

Ora, o apóstolo Paulo, ao afirmar que os cristãos de Éfeso eram salvos, por meio da fé, na verdade, estava abordando a própria fonte da salvação: Cristo. Cristo Jesus é a ‘fé’ que se manifestou na plenitude dos tempos e que faz os homens agradáveis a Deus:

“Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” (Gl 3:23).

“Ora, sem fé é impossível agradar-lhe, porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que é galardoador dos que o buscam” (Hb 11:6).

Enquanto, o que está sendo apresentado pelo apóstolo dos gentios aos cristãos de Éfeso, diz da fé[1] como verdade, fidelidade, etc., Spurgeon leu o termo ‘fé’, no sentido de crer[2], de acreditar. Spurgeon fez má leitura do termo ‘fé’, tradução do termo grego πίστις (pistis), conforme empregado no versículo: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé” (Ef 2:8), o que afetou a sua compreensão.

Enquanto o apóstolo Paulo apresenta a ‘fé’ que salva e é ‘firme fundamento’ (Hb 11:1), Spurgeon faz referência à disposição do indivíduo de ‘crer’, ‘acreditar’. Enquanto o apóstolo Paulo trata da fé, como o dom de Deus – Cristo – Spurgeon faz elucubrações equivocadas, tanto da fé, como  doutrina (πίστις), quanto do ato de crer, acreditar (πιστεύω).

Por definição, a ‘fé’, da qual o escritor aos Hebreus faz referência, diz do ‘firme fundamento’, que é Cristo, o fundamento dos apóstolos e dos profetas (Ef 2:20; 1Co 3:11). O escritor aos Hebreus não fez referência à certeza de alguém que espera um evento, pois, o homem, mesmo equivocado, pode nutrir uma certeza e esperança que jamais se concretizarão. O escritor aos Hebreus fez referência ao firme fundamento, à prova, que, apesar de não estar ao alcance dos olhos, torna o que se espera confiável.

O termo hebraico אֱמוּנָה (emunáh), traduzido por ‘fé’, decorre, etimologicamente, de diversos significados, quais sejam: veracidade, sinceridade, honradez, retidão, fidelidade, lealdade, seguridade, crédito, firmeza e verdade. A ‘fé’, como ‘firme fundamento’ e ‘prova’, diz da palavra de Deus, que é fiel e digna de toda aceitação: “Esta é uma palavra fiel e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus, veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” (1Tm 1:15).

O apóstolo Paulo, no capítulo 2 de Efésios, verso 8, disse que o homem é salvo, gratuitamente, pela misericórdia de Deus (graça), por meio de Cristo (fé), pois Cristo é o dom de Deus (Jo 4:10). Equivocadamente, Spurgeon trata a fé (πίστις), que o apóstolo Paulo aborda no verso 8 de Efésios 2, como crença (πιστεύω). Ele não considerou que o termo grego πίστις, transliterado pistis, comumente, traduzido por ‘fé’, na verdade, foi empregado pelo apóstolo Paulo, na qualidade de figura de linguagem: metonímia ou transnominação[3].

Metonímia é recurso de estilo linguístico e um desses recursos, consiste em substituir o autor, pela obra. Assim, como é possível dizer: gosto de ler Jorge Amado, em lugar de dizer: gosto de ler os livros de Jorge Amado, sabendo que Cristo é o autor e consumador da ‘fé’, é possível dizer: guardei a fé (πίστις), em vez de dizer: guardei o mandamento ou, o evangelho (1Tm 3:9; 1Tm 6:14; 2Tm 4:7; 1Jo 2:4 -5).

“Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus” (Hb 12:2).

Sabemos que o homem é salvo por intermédio do evangelho (Ef 1:13), que é o poder de Deus (Rm 1:16). Sabemos, também, que, por diversas vezes, o termo εὐαγγέλιον (evangelho) é substituído pelo termo πίστις (fé). É possível dizer: ‘batalhar pelo evangelho’, ou: ‘batalhar pela fé’ (Jd 3).  Neste sentido, desviar-se da ‘fé’, é o mesmo que desviar-se de Cristo, um exemplo de metonímia “A qual, professando-a alguns, se desviaram da fé. A graça seja contigo. Amém” (1Tm 6:21). Esse mesmo recurso permite dizer: ‘mistério da fé’, ‘mistério do evangelho’, ‘mistério da piedade’, ‘mistério de Cristo’, etc. (1Tm 3:9 e 16; Cl 4:3; Ef 6:19).

Quando nos deparamos com o seguinte verso: “Se, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé e não vos moverdes da esperança do evangelho que tendes ouvido, o qual foi pregado a toda criatura que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, estou feito ministro” (Cl 1:23), devemos considerar que ‘permanecer fundado e firme na fé’, é o mesmo que permanecer em Cristo, o fundamento dos apóstolos e profetas (Ef 2:20).

Cristo, a nossa ‘fé’, também é nomeado ‘conhecimento’ e ‘sabedoria’: “Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus” (1Co 1:24); “Destruindo os conselhos e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo” (2 Co 10:5); “E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo” (Fl 3:8); “E isto digo, conhecendo o tempo, que já é hora de despertarmos do sono, porque a nossa salvação está agora mais perto de nós do que quando aceitamos a fé” (Rm 13:11).

Ao iniciar o capítulo 7 do seu livreto, sob o título “Pela graça mediante a Fé”, Spurgeon cita Efésios 2, verso 8: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé”. Em seguida, Spurgeon fez algumas considerações acerca da extensão da misericórdia de Deus, onde afirma que: ‘… você poderá cair em erro, fixando tanto a sua mente na fé…’, e conclui: ‘… que é o meio da salvação e esquecendo-se da graça, fonte da própria fé’.

Ora, o homem é salvo pela misericórdia de Deus, demonstrada em Cristo, ou seja, por meio da fé (verdade, evangelho). Por isso, é dito pelo apóstolo Paulo a Tito que ‘a graça de Deus se manifestou, trazendo salvação a todos os homens’ (Tt 2:11), assim como foi dito aos cristãos da Galácia que, quando estavam debaixo da lei, estavam encerrados para ‘aquela fé que se havia de manifestar’ (Gl 3:23). A graça de Deus se manifesta em Cristo e Cristo manifesta a graça de Deus. Quando Cristo foi manifesto em carne, manifestou-se a graça de Deus a todos os homens, ou seja, manifestou-se a fé, manifestou-se a palavra: “TU, pois, meu filho, fortifica-te na graça que há em Cristo Jesus” (2Tm 2:1).

No que consiste o argumento de Spurgeon: ‘fixando tanto a sua mente na fé’? Ora, se a fé da qual Spurgeon está tratando, diz de crer, com relação a quem crê em Cristo, não se pode dizer que está fixando a sua mente no ‘crer’. Mas, se ele estivesse falando da ‘fé manifesta’, que é Cristo, não há erro em fixar a mente na ‘fé’, pois o apóstolo Paulo afirma que é necessário ao cristão ter firmeza na fé (Cl 2:5; 2Pd 3:17).

É necessário ‘reter a palavra da vida’, ou seja, ‘guardar a fé’ (Fl 2:16). E como fazê-lo, sem fixar a mente na ‘fé’? Fixar a mente no ‘evangelho’, na ‘fé’ é segurança, tanto que o apóstolo Paulo não se cansava de escrever acerca das mesmas coisas (Fl 3:1). Reter a palavra da vida é a obra perfeita da fé: perseverança (Tg 1:2). Aquele que persevera na doutrina, não se deixa envolver por doutrinas várias e estranhas, vez que se fortificou na graça, ou seja, na fé. “Não vos deixeis levar em redor por doutrinas várias e estranhas, porque bom é que o coração se fortifique com graça e não com alimentos que de nada aproveitaram aos que a eles se entregaram” (Hb 13:9).

Os termos ‘fé’, ‘graça’ e ‘evangelho’, são intercambiáveis, por causa da pessoa de Cristo, de modo que podemos dizer que o homem é justificado pela fé, ou pelo evangelho, ou pela graça, ou por Cristo: “Para que, sendo justificados pela sua graça, sejamos feitos herdeiros, segundo a esperança da vida eterna” (Tt 3:7); “Porque se introduziram alguns, que já, antes, estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo” (Jd 1:4); “Da qual salvação inquiriram e trataram diligentemente os profetas que profetizaram da graça que vos foi dada(1Pd 1:10); “Por isso, tendo recebido um reino que não pode ser abalado, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus agradavelmente, com reverência e piedade” (Hb 12:28).

Infelizmente, Spurgeon não soube ler a mensagem que o apóstolo Paulo escreveu aos cristãos de Éfeso, concernente à ‘fé’ e a ‘graça’, vez que o apóstolo, ao escrever, trouxe à memória dos cristãos que, antes de crerem em Cristo (Ef 1:13), todos eram por natureza filhos da ira (Ef 2:3). Em seguida, o apóstolo aponta para a infinita misericórdia de Deus, pois, apesar da condição deles no passado (mortos em delitos e pecados), Deus os vivificou juntamente com Cristo.

Nos versos que se seguem (vv. 5 à 10), o apóstolo continua a descrever o que Deus fez pelos cristãos, sem abordar nenhuma questão pertinente aos homens, nem mesmo a necessidade de crer. Tudo o que o apóstolo aborda, restringe-se ao que Deus faz pelo homem (Ef 2:10; Is 26:12).

Quando o homem morre com Cristo, Deus é justo, pois ‘a alma que pecar essa mesma morrerá’ (Ez  18:4). Mas, apesar de não ter dívida alguma para com aqueles que morrem com Cristo, ao satisfazer o que a lei exige, pela sua misericórdia e graça, Deus faz ressurgir um novo homem, uma nova criatura, criada em verdadeira justiça e santidade (somos feitura Sua).

Deus é misericordioso por salvar o homem, porém, jamais poderia passar por sobre a sua justiça, por isso, a sua misericórdia é demonstrada em Cristo, para que Ele seja justo e justificador “… pela sua benignidade para conosco em Cristo” (Ef 2:7). A misericórdia de Deus é demonstrada em Cristo, porque é necessário aos descendentes de Adão serem participantes da morte de Cristo, para serem justificados do pecado (Rm 6:7), e, em seguida, Deus age, poderosamente, ressuscitando-os, segundo a sua maravilhosa graça (Ef 1:19; Cl 3:1).

É Deus justo e justificador, que salva segundo a Sua misericórdia e graça, mas, por meio da fé, ou seja, por meio do evangelho, que é poder de Deus para todo aquele que crê (Rm 1:16 -17).

 

Crer

Spurgeon dá testemunho de que ficou confuso, diante dos diversos conceitos de ‘fé’:

“Que fé é essa da qual é dito: “Pela graça sois salvos, mediante a fé”? Certamente, há muitas descrições de fé, mas quase todas as definições que tenho encontrado, levam-me a entender menos do que entendia antes. É possível que, ao tentar explicar muito alguma coisa, ela se torne ainda mais confusa. Podemos explicá-la tanto, até que ninguém mais entenda. Espero não ser culpado dessa falta. A fé é a mais simples de todas as coisas e, talvez, por causa de tal simplicidade, ela seja de mais difícil explicação”. Spurgeon, C. H. Tudo de Graça, Titulo Original, All of Grace (1894), Tradução Wadislau Martins Gomes, 2010, pág. 27.

Parece que Spurgeon se deixou levar pelas definições que encontrou, pela má leitura que fez de Efésios 2, verso 8 (“Pela graça sois salvos, mediante a fé”), demonstrando que ele nada entendeu acerca do assunto ‘fé’ e ‘graça’, e que o medo que nutria da possibilidade de se fazer culpado, ao abordar o tema, se concretizou.

Vamos à definição de ‘fé’, apresentada por Spurgeon:

“O que é fé? Resumidamente, a fé é feita de três coisas: conhecimento, crença e confiança. Conhecimento vem primeiro. “como crerão naquele de quem nada ouviram?”. É preciso que eu seja informado de um fato antes que possa crer nele (…) A confiança é a corrente sanguínea da fé; sem ela, não haverá fé salvadora. Os puritanos estavam acostumados a explicar a fé, utilizando o termo recumbência (do verbo recumbir). A palavra significa recostar, inclinar; repousar em Jesus Cristo. Haveria melhor ilustração do que dizer: Lance todo o seu peso sobre a Rocha eterna? Entregue-se a Jesus; descanse nele; confie nele” Idem, págs. 27 e 28.

No grego, temos o substantivo πιστις (pistis), comumente traduzido por ‘fé’ e o verbo πιστευω (pisteuo), traduzido por ‘crer’. Nas línguas de origem latina o radical do substantivo ‘fé’ não se flexiona para traduzir a ideia do verbo grego πιστευω (pisteuo – crer), o que obrigou os tradutores a utilizarem o radical da palavra “credere”, vertendo o verbo πιστευω (pisteuo) para ‘crer’.

Crer em Cristo é, simplesmente, acreditar no que as Escrituras dizem acerca d’Ele: “Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre” (Jo 7:38). Não há qualquer outra exigência nas Escrituras, além de crer, para ser salvo (Is 28:16). O poder para a salvação não está no ato de crer, mas no poder da ‘fé’, ou seja, no poder do evangelho (Jo 1:12; Rm 1:16; 1Co 1:18 e 24).

É pelo poder contido no evangelho que o homem é concitado a crer, acreditar, confiar, descansar, repousar, etc. A segurança está na pedra bem fundada e firme, provada e preciosa que Deus assentou em Sião, de modo que quem crer não perece (Is 28:16).

A fé salvadora é Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus. A fé, que é poder de Deus, não possui ‘corrente sanguínea’ e nem depende da confiança do homem. O homem, confiando[4] ou não, a fé (evangelho) é salvadora, pois se o homem for infiel, Ele permanece fiel: “Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo” (2Tm 2:13).

“A confiança é a corrente sanguínea da fé; sem ela, não haverá fé salvadora” Idem.

A fada Sininho, da estória do Peter Pan, necessita de crianças que acreditem que fadas existem para sobreviver. Não é assim o evangelho de Cristo, pois Ele é salvador, quer o homem creia ou não. A ‘fé’ é firme, indissolúvel, fidedigna, portanto, não depende da confiança do homem, antes, a confiança e a esperança decorrem da ‘fé’. A confiança do homem não salva e nem garante a salvação, antes, é Deus que se interpôs como garantia: “Retenhamos firmes a confissão da nossa esperança; porque fiel é o que prometeu” (Hb 10:23; Tt 1:2; Rm 1:2; Hb 10:23). A segurança de quem crê, está em Deus, que é poderoso e fiel.

Antes que o homem fosse criado, já na fundação do mundo, Deus providenciou salvação a todos os homens, pois o cordeiro de Deus foi morto desde a fundação o mundo (1Pd 1:20; Ap 13:8). Não é a confiança do homem que estabeleceu a salvação em Cristo, mas a verdade de que Cristo foi morto, desde a fundação do mundo, que promove a confiança do homem.

Crer em Cristo é suficiente para ser salvo da condenação, portanto, a ideia de que, além de crer, é necessário se entregar, totalmente, à misericórdia de Deus, é redundância. Crer em Cristo é o mesmo que se entregar à misericórdia de Deus. Considerar que crer é distinto de se entregar à misericórdia de Deus, é uma brecha criada pelos enganadores que, privarão os incautos de desfrutarem da graça de Deus. Quando alguém crê, na verdade, entregou-se ‘completamente’ à misericórdia de Deus.

Outra aberração, é desvincular o ‘arrependimento’, do ato de ‘crer’ e de ‘arrepender-se’. Crer é consequência do arrependimento. Só se arrepende de fato quem, após ouvir o evangelho, crê em Cristo. Quem crê que Jesus é o Cristo de fato mudou de concepção (metanoia), acerca de como ser salvo. Primeiro é anunciada a fé, em seguida o homem se arrepende (metanoia), e, por fim, crê.

‘Crer’ decorre da ‘fé’, não o contrario. Arrependimento decorre da ‘fé’ (evangelho) e nunca a ‘fé’ do arrependimento. Sem a fé manifesta, que é Cristo, é impossível o homem arrepender-se e crer para a salvação. Sem o conhecimento de Deus, a mensagem do evangelho, não há no que o homem possa crer, que o livre da condenação. O homem pode crer em Deus, crer em anjos, crer em milagres, crer no impossível, etc., mas se não crer em Cristo, o dom de Deus, não será salvo (Jo 14:1).

A palavra ‘fé’, quando é empregada nas Escrituras, no sentido de ‘crer’, não é ‘conhecimento’ e nem ‘crença’. Spurgeon equivocou-se ao conceituar quea fé é feita de três coisas: conhecimento, crença e confiança’. ‘Crer’ em Cristo é somente confiança n’Ele, por causa do testemunho que o Pai deu acerca do Filho nas Escrituras. A ‘fé’ (evangelho) é conhecimento, doutrina, crença e a ‘fé’ (crer) é somente confiança. Para que o homem possa crer, primeiro é necessário o ‘conhecimento’, que, em relação ao evangelho, é informação, mensagem, doutrina, espírito, etc., revelado por Deus em Cristo, assim com profetizado pelo profeta Isaias:

“Ele verá o fruto do trabalho da sua alma e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles levará sobre si” (Is 53:11)

É impossível a quem crê em Cristo, se gloriar de ter crido. É impossível reputar que há mérito em confiar em Cristo. Quem crê em Cristo, conforme as Escrituras, na verdade gloria-se em Cristo (Fl 3:3). Quem crê em Cristo, na verdade rendeu-se diante da fidelidade de Deus, expressa na sua palavra. O mérito, a glória e a virtude estão no evangelho, mensagem de boas novas de que Cristo veio ao mundo salvar os pecadores: “Esta é uma palavra fiel e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” (1Tm 1:15).

Aquele que crê no evangelho, não necessita preocupar-se com o erro de se gloriar diante de Deus, pois o próprio evangelho exclui a jactância: “Onde está logo a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé” (Rm 3:27).

Não há como alguém se gloriar de ter amado a Cristo, pois quem ama, não se envaidece e não se vangloria (1Co 13:4). Quem crê, não tem como se vangloriar de ter crido, pois crer em Cristo é obra de Deus (Jo 6:29), que Ele opera, por meio do evangelho. Crer em Cristo é o mandamento de Deus, e quem crê se fez servo. Como gloriar-se de tomar sobre si o jugo de Jesus? Onde está a jactância, no ato de levar sobre si o fardo de Jesus?

Quando Jesus concitou os seus interlocutores, cansados e sobrecarregados, a tomarem sobre si o seu jugo, na verdade, estava requerendo que eles se sujeitassem como servos (Mt 11:28-30).

Por não se sujeitarem a esse ‘conhecimento’ especifico, é que os judeus, sem entendimento, procuraram estabelecer uma justiça própria, não se sujeita à justiça que vem de Deus – Cristo (Rm 10:1-3). Se compreendessem que o justo vive da fé, ou seja, que o homem só vive através da palavra que sai da boca de Deus (Dt 8:3; Hc 2:4), os judeus saberiam que o homem só é justificado pela pregação da fé (Gl 3:2 e 5).

A lei exige realizações (Rm 10:5), a fé (evangelho) exige que se creia (Rm 9:33). A justiça, que vem por intermédio da ‘fé’, se dá quando o homem morre e ressurge com Cristo e o que permite ao homem morrer e ressurgir, é crer na palavra da fé, que foi anunciada pelos apóstolos e profetas (Rm 10:8). Os judeus ouviam e acreditavam que seriam justificados pela lei, mas como a lei estava enferma pela carne, ela era inócua para o que os judeus pretendiam alcançar (Rm 2:17; Gl 3:11).

A fé (crer) que os judeus depositavam na lei, é a mesma fé (crer) que o arrependido deposita no evangelho. O diferencial está em que, a lei não tem o poder que o evangelho possui. O propósito da lei é conduzir o homem a Cristo e o propósito do evangelho. é conduzir o homem a Deus. por intermédio de Cristo.

Spurgeon parece exalar sabedoria e humidade nas palavras:

De maneira que a fé, que é o ato de ir a Cristo é concessão divina, da graça. A graça é a primeira e última causa movedora da salvação; e a fé, por mais essencial que seja, é apenas parte importante do mecanismo utilizado pela graça” Idem.

Mas, quando se questiona: que ‘fé’ é essa que é o ato de ir a Cristo? A concessão divina da graça está em que, Deus deu o Seu Filho, como mediador entre Deus e os homens. A fé, como concessão divina, não diz do ato do homem ir a Cristo, mas do ato de Deus vir até os homens. Em Deus revelar-se aos homens na pessoa de Cristo, está a primeira e última causa movedora da salvação (Jo 1:18).

A graça de Deus veio sobre todos os homens, através de um ato de justiça, realizado por Cristo Jesus (Rm 5:18). Como Cristo foi entregue pelos pecados da humanidade e ressuscitou para a justificação dos que creem (Rm 4:25), os crentes são justificados por Cristo, ou seja, pela fé (Rm 5:1). É por Cristo que o homem alcança a graça de ter paz com Deus, mediante o evangelho (fé) (Rm 5:2). É no evangelho (fé) que o cristão permanece firme e gloria-se na esperança da gloria de Deus (Rm 5:2).

Crer é o ato de receber a Cristo, para ir a Deus (Jo 1:12). Portanto, crer, não é o ato de ir a Cristo, mas de receber a Cristo. Não há como o homem ir a Deus, por isso Deus veio aos homens, concedendo Cristo como mediador (graça), para que os homens pudessem ir a Deus (Jo 14:6). A ‘fé’ não é o ato de o homem ir a Cristo, antes, a ‘fé’ está no ato de Deus conceder Cristo aos homens (Gl 3:23).

Observe:

“Fé é uma palavra muito significativa. Implica fidelidade a Deus (Mt 24:45) e confiança absoluta n’Ele, como aquela demonstrada pelas pessoas que iam a Jesus à procura de cura (Lc 7:2-10). Fé pode ser definida, positivamente, como uma esperança segura, inabalável (Hb 11:1), ou, negativamente, como uma crença infecunda que não redunda em boas obras (Tg 2:14-26). Mas o que Paulo quis dizer, quando falou de ‘fé salvadora’,em Romanos? O apóstolo relacionou a fé à salvação. Não é necessário praticar boas obras para alcançar a salvação; se fosse, esta seria mais um feito humano, e Paulo deixou bem claro que as obras não nos podem salvar (Gl 2:16). Embora, a fé seja uma dádiva concedida por Deus, porque Ele deseja nos salvar (Ef 2:8), é a graça de Deus e não a nossa fé, que nos salva. Em sua misericórdia, ao nos salvar, Deus nos concede a fé, a fim de que tenhamos um relacionamento com o seu Filho, que nos ajuda a ser como ele. Por meio dessa fé, que recebemos do próprio Deus, passamos da morte para a vida (Jo 5:24 ) (…) Como seria trágico se transformássemos a fé em uma obra e tentássemos desenvolvê-la por nossa conta! Nunca poderíamos chegar a Deus por meio de uma fé humana, assim como o povo do Antigo Testamento não o poderia,, por meio dos seus sacrifícios. Assim, devemos aceitar a bondosa oferta de Deus com ações de graça e permitir que Ele plante a semente da fé dentro de nós” Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal, Versão Almeida Revista e Corrigida Edição 1995, pág. 1552.

Percebe-se que os editores da Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal compartilham da mesma concepção de Spurgeon, de que é a graça de Deus e não a fé, que salva. A Bíblia afirma que quem crer será salvo e os editores da Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal afirmam que, ao salvar o homem, Deus concede fé para que possa relacionar-se com Cristo. É esse o posicionamento das Escrituras?

Na verdade, os que creem em Cristo recebem de Deus poder para serem feitos filhos de Deus e não fé. Na verdade, Deus concedeu o seu Filho, Jesus Cristo, para que, por Ele, o homem tenha comunhão com Deus. Cristo é mediador entre Deus e os homens, portanto, a ideia de que a fé é para ter um relacionamento com o Filho é descabida, qualquer que seja a ideia que nutrem acerca do termo ‘fé’.

A ‘fé’ (crer) do homem não é uma semente que Deus planta em seu coração, antes a fé, no sentido de crer, surge da fidelidade de Deus, expressa em sua palavra. A palavra de Deus é fiel, verdadeira, firme, imutável, etc., portanto, digna de ser aceita (1Tm 1:15). A palavra de Deus que é descrita como ‘semente incorruptível’, porque o homem é gerado de novo, por meio dela (1Pd 1:23). Essa semente é a palavra da fé, a boa doutrina (1Tm 4:6), que, quando aceita pelo homem (crê), Deus faz surgir a nova criatura.

Somente a palavra de Deus é descrita como semente (Lc 8:11), pois, dela resulta a nova criatura (1Jo 3:9). ‘Crer’ na palavra de Deus, nunca é descrito como semente, pois o poder de conceder nova vida está na palavra de Deus e não na crença do homem. Deus salva o homem por meio da fé (evangelho), o que é diferente da ideia de que Deus salva e concede a fé (crer).

Se o leitor não souber diferenciar os versos que utilizam o termo ‘fé’ no sentido de ‘evangelho’, ‘verdade’, ‘Cristo’, etc., dos textos que utilizam o termo ‘fé’ no sentido de ‘crer’, ‘acreditar’, etc., chegará à mesma conclusão equivocada a seguir:

“Fé é obra da graça de Deus em nós. Ninguém poderá dizer que Jesus é o Cristo, senão por obra do Espírito Santo. “Ninguém poderá vir a mim,” disse Jesus, “se, pelo Pai, não lhe for concedido” [João 6.65]” Idem.

Cristo é a graça de Deus manifesta, que trouxe salvação a todos os homens (Tt 2:11), portanto, a ‘fé’ é a própria graça de Deus manifesta: “Porque a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1:17; Gl 3:23). Deus deu o Cristo para realizar a sua obra: crede naquele que Ele enviou (Jo 6:29).

A ‘fé’, a ‘verdade’, é o testemunho que Deus deu acerca do seu Filho Jesus Cristo, para que todos honrem o Filho, da mesma forma que honram o Pai. Aquele que ouve as palavras de Cristo e crê, na verdade, crê em Deus, pois crê no testemunho de Deus, ou seja, nas Escrituras (Jo 5:23-24; Jo 5:39; 1Jo 5:10). O ensino de Jesus não era d’Ele, mas, de Deus, de modo que, quem crê em Cristo, faz a vontade de Deus (Jo 7:16-17).

Jesus disse: “… ninguém pode vir a mim, se pelo Pai não lhe for concedido” (Jo 6:65), porque alguns dos seus discípulos não criam em suas palavras, que eram espirito e vida (Jo 6:63-64). Embora Jesus anunciasse: – “Eu sou o pão da vida”, contudo não criam (Jo 6:35-36). Embora anunciasse: – “Eu sou o pão que desceu do céu” (Jo 6:41), murmuravam (Jo 6:42-43).

Foi predito pelos profetas que ‘todos seriam ensinados por Deus’ (Jo 6:45; Is 54:13), de modo que ‘todo aquele que o Pai me dá virá a mim’, ou ‘ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer’, ou ‘ninguém pode vir a mim, se pelo Pai não lhe for concedido’, são modos distintos de dizer que as Escrituras dão testemunho de Cristo, de modo que todos os que se ouvem o Pai e se deixam instruir (aprende dele), creem em Cristo (Jo 6:45).

Quem o Pai deu a Cristo? Conforme o previsto nas Escrituras, aqueles que esperam no Senhor, que escondeu o seu roso da casa de Israel, ou seja, Cristo, que apesar de ser santuário, tornou-se pedra de tropeço para Israel (Is 8:17-18). Quando é dito: – “Eis-me aqui, com os filhos que me deu o Senhor” (Is 8:18), é porque ‘todos os teus filhos serão ensinados do Senhor’ (IS 54:13), de modo que, aquele que ouve o ensino de Cristo, aprende de Deus, que O enviou (Jo 7:16).

 

Salvação

“E seja achado nele, não tendo a minha justiça, que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé” (Fl 3:9)

O que é ser ‘achado n’Ele’? É estar em Cristo, ou seja, ser uma nova criatura (2Co 5:17). Por definição, quem ‘está em Cristo’ é ‘nova criatura’! A nova criatura alcança a justiça que vem de Deus, por intermédio de Cristo, que é sabedoria, justiça, santificação e redenção (1Co 1:30).

Nestas duas orações: “… mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus, pela fé”, o termo ‘fé’ foi empregado com dois significados distintos, a saber:

a) ‘mas a que vem pela fé em Cristo’ – nesta oração o termo ‘fé’ foi empregado no sentido de ‘crer’, ‘acreditar’. O apóstolo está enfatizando que a justiça de Deus é concedida aos que creem em Cristo;

b) ‘a justiça que vem de Deus pela fé’ – nesta oração, o termo ‘fé’ foi empregado no sentido de ‘evangelho’, ‘Cristo’.

Como a justiça de Deus é imputada ao homem?

Quando discursou aos cristãos de Antioquia da Pisídia, o apóstolo Paulo deixou claro que o homem é justificado por Cristo ao crer n’Ele. O homem precisa crer em Cristo, não porque a sua crença será causa de justificação, antes, porque, por Cristo, o homem é justificado: “E de tudo o que, pela lei de Moisés, não pudestes ser justificados, por Ele é justificado todo aquele que crê” (At 13:39).

Os profetas deram testemunho de que, por Jesus Cristo, os que creem, recebem o perdão dos pecados (At 10:43). Há alguma virtude em acreditar em Cristo? Não! Na crença do indivíduo não há poder, antes, a virtude está em Cristo, pois, por Ele, é que o homem confia em Deus (2 Co 3:4). Sem Cristo, por quem vem a fé (crer), não há justificação (At 3:16).

Pelo fato de Cristo ter morrido por todos os homens, e todos os que creem morrem com Ele, o crente desfruta de uma nova vida (At 5:20), pois, vivem para Aquele que morreu e ressurgiu dentre os mortos (2 Co 5:14-15). Ser uma nova criatura provém de Deus, que reconciliou os que creem consigo mesmo  por Jesus Cristo (2 Co 5:18), ou seja, a reconciliação por meio da fé não vem dos homens (Ef 2:8).

Não é a crença do homem que promove a reconciliação com Deus, antes, a fé (Cristo) é o meio pelo qual o homem tem acesso a Deus. Cristo veio ao mundo sem pecado, mas por Deus foi feito pecado, para quem estiver n’Ele (os que creem), sejam declarados justos (2 Co 5:21). Agora, sendo justificados por sua graça, os cristãos são embaixadores da parte de Deus anunciando a graça de Deus aos homens, em tempo oportuno (2 Co 6:1).

O ato de crer resulta em confissão (admitir o que é), conforme dispõe o salmista: ‘Cri, por isso falei’ (2 Co 4:13; Sl 116:10). A evidência exterior de quem crê em Cristo está na doutrina que professa, ou seja, na confissão, que o escritor aos Hebreus denomina ‘fruto dos lábios’ (Hb 13:15). Confissão que João Batista observou que faltava aos escribas e fariseus: ‘frutos dignos de arrependimento’ (Mt 3:8).

Ao acreditar que Cristo ressurgiu dentre os mortos (Rm 10:9-10), isto conforme a palavra da fé, apregoada pelos apóstolos e profetas, o homem é salvo. É salvo todo aquele que confessa a Jesus como Senhor e crê que Deus O ressuscitou dos mortos, pois, com a boca se faz confissão para a salvação[5] e com o coração, se crê para justiça. Ao crente é imprescindível o mesmo espírito de fé anunciado pelo salmista: crer e professar, pois a boca fala do que o coração está pleno (Mt 12:34).

Por meio do evangelho, a graça de Deus é derramada, pois Cristo trouxe salvação sobre todos os homens. A graça (bondade e benignidade de Deus para com os homens) e o evangelho (verdade) decorrem de Cristo, pois por Ele é concedido aos homens redenção e remissão dos pecados: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Ef 2:8); “Porque a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1:17).

Deus criou a humanidade em função do beneplácito que propusera em Cristo, de fazer convergir n’Ele todas as coisas, para que em tudo Ele fosse preeminente (Ef 1:9-10). Mas, para fazer parte deste propósito, a humanidade teria que ser participante da glória de Deus, semelhante a Ele, pois só entre semelhantes é possível ser preeminente. Cristo é espírito vivificante, o último Adão, pois por Ele muitos são conduzidos à glória de Deus e feitos semelhantes a Ele (1Jo 3:2; 1Co 15:48 -49).

Como é impossível aos homens serem semelhantes a Deus, em poder e glória, o Verbo se fez carne e em tudo se fez semelhante aos homens (Hb 2:14 e 17), para fazer propiciação pelos pecados do povo. Os que ressurgissem dentre os mortos com Cristo são santos, irrepreensíveis e semelhantes a Ele. Como Cristo se fez servo em tudo, Deus o exaltou soberanamente, constituindo-o como a cabeça da igreja, que é o seu corpo, posição de primogênito entre muitos irmãos, o que lhe confere a preeminência em tudo.

Jesus despiu-se da sua glória e se fez homem, porém, sem pecado. Em tudo foi provado como homem, tendo que confiar nas Escrituras e ser obediente ao Pai. A missão de Jesus era reparar a ofensa de Adão: obediência pela desobediência, para estabelecer a justiça: “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim, pela obediência de um, muitos serão feitos justos” (Rm 5:19).

A humanidade entrou em condenação eterna pela ofensa de Adão (desobediência). Os homens entram na vida eterna pela obediência de Cristo (justiça). Quando o homem crê que Jesus de Nazaré é o Filho de Deus, morreu pelas ofensas e pecados da humanidade e, que ressuscitou dentre os mortos será salvo, conforme as profecias. A encarnação, morte e ressureição do Filho de Davi são eventos históricos que tornam os homens justos aos olhos de Deus, isso, porque, esses eventos se deram, segundo a palavra de Deus.

Ao crer nos eventos históricos do nascimento, morte e ressurreição e, na doutrina de Cristo, efetivamente, o crente está crendo na palavra de Deus: a verdade (Sl 119:160; Sl 138:2). Os apóstolos viram e testificaram que Deus enviou o seu Filho como salvador do mundo, pois, crer nesta verdade, para salvação, é imprescindível: “E aquele que o viu, testificou e o seu testemunho é verdadeiro; e sabe que é verdade o que diz, para que também vós o creiais” (Jo 19:35; 1 Jo 4:13-15; At 10:39-43). Ao crer nessa verdade, o homem confirma que Deus é verdadeiro: “De maneira nenhuma; sempre seja Deus verdadeiro e todo o homem mentiroso; como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras e venças quando fores julgado” (Rm 3:4).

Crer em Cristo é crer em Deus, declarando-O verdadeiro, fiel e justo. “Quem crê no Filho de Deus, em si mesmo tem o testemunho; quem a Deus não crê, mentiroso o fez, porquanto, não creu no testemunho que Deus de seu Filho deu. E o testemunho é este: que Deus nos deu a vida eterna; e esta vida está em seu Filho” (1Jo 5:10-11); “Na verdade, na verdade, vos digo que, quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida” (Jo 5:24); “Porque, aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus; pois não lhe dá Deus o Espírito por medida” (Jo 3:34); “Porque lhes dei as palavras que tu me deste; e eles as receberam e têm verdadeiramente conhecido que saí de ti, e creram que me enviaste” (Jo 17:8); “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17:17).

Ao escrever ao irmão Tito, o apóstolo Paulo faz alusão a três aspectos do evangelho: a) manifestou a sua palavra; b) pela pregação confiada; e, c) segundo o mandamento de Deus: “Mas, a seu tempo, manifestou a sua palavra, pela pregação que me foi confiada, segundo o mandamento de Deus, nosso Salvador” (Tt 1:3). O primeiro aspecto diz da palavra de Deus manifesta, que se refere a Cristo, o Verbo que se fez carne, na plenitude dos tempos e, por quem o homem é justificado. O segundo aspecto refere-se à pregação, que tem por tema Cristo e deve ser anunciado a todos os povos, pois, ‘como crerão naquele de quem não ouviram’? (Rm 10:4) O terceiro aspecto do evangelho é o mandamento: crer (1 Jo 3:24).

Um erro do calvinismo, está em reputar que, no ato de crer, alguém possa jactar-se de se salvar por seus próprios méritos, pois, com relação ao evangelho, ter mérito por crer é impossível. Crer é mandamento, de modo que, quem crê, se faz servo, sujeitando-se ao senhorio de Cristo. Crer é obedecer ao evangelho, de modo que o crente não tem como se vangloriar e nem como se ensoberbecer.

Com relação ao evangelho, não podemos pecar pelo preciosismo ou pela omissão, pois, em ambos os casos, é prevaricar contra o evangelho. Há quem contrarie as Escrituras, ao dizer que ‘não basta apenas confessar com a boca que Jesus Cristo é o Senhor para ser salvo’, para encontrar ocasião de impor obrigações sobre os incautos e há quem diga que ‘a fé é apenas um canal ou aqueduto e não a própria fonte da salvação’, invocando o medo de um risco de o crente gloriar-se de ter crido em Cristo, pervertendo a fé de alguns.

O crente não pode perder de vista, que a salvação que alcançou em Cristo é graça de Deus; que é graça ter recebido poder de ser feito filho de Deus; que ter uma herança no céu é graça de Deus; desfrutar do cuidado de Deus, no dia a dia, é graça; que ser coerdeiro de Cristo e reinar com Ele é graça. A obra de Cristo nos homens é graça de Deus, de modo que se pode afirmar, categoricamente, que Cristo é a graça de Deus, pois todas essas benesses decorrem de Cristo (2 Co 1:20).

O ápice da graça se encontra na ressurreição que Deus concede aos homens, pois o salário do pecado é a morte. Como todos pecaram, todos são merecedores de morte. Quem morre sem Cristo segue-se ao juízo, sob condenação, mas quem crê em Cristo, passou da morte para a vida, pois de fato morre para o pecado, conformando-se com Cristo, na sua morte e através da ressurreição de Jesus Cristo, ressurge para a vida eterna: maravilhosa graça!

O crente não pode demover-se da fé, ou seja, da graça de Deus. Estar firme na graça (1 Pe 5:12), é estar firme na fé (1Pe 5:9). A graça de Deus tornou-se notória a todos os homens, pelo fato de Cristo Jesus, sendo rico (Tt 2:11; Tt 3:7), por amor dos que creem, se fez pobre, para que, pela sua pobreza fossem, feitos ricos (2 Co 8:9).

 


[1] “4102 πιστις (pistis) de 3982; TDNT – 6:174,849; n f 1) convicção da verdade de algo, fé; no NT, de uma convicção ou crença, que diz respeito ao relacionamento do homem com Deus e com as coisas divinas, geralmente com a ideia inclusa de confiança e fervor santo, nascido da fé e unido com ela 1a) relativo a Deus 1a1) a convicção de que Deus existe e é o criador e governador de todas as coisas, o provedor e doador da salvação eterna em Cristo 1b) relativo a Cristo 1b1) convicção ou fé forte e benvinda de que Jesus é o Messias, através do qual nós obtemos a salvação eterna no reino de Deus 1c) a fé religiosa dos cristãos 1d) fé com a ideia predominante de confiança (ou confidência) seja em Deus ou em Cristo, surgindo da fé no mesmo 2) fidelidade, lealdade 2a) o caráter de alguém em quem se pode confiar” Dicionário Bíblico Strong.

[2] “4100 πιστευω (pisteuo) de 4102; TDNT – 6:174, 849; v 1) pensar que é verdade, estar persuadido de, acreditar, depositar confiança em 1a) de algo que se crê 1a1) acreditar, ter confiança 1b) numa relação moral ou religiosa 1b1), usado no NT para convicção e verdade, para a qual um homem é impelido por uma certa prerrogativa interna e superior e lei da alma 1b2) confiar em Jesus ou Deus, como capaz de ajudar, seja para obter ou para fazer algo: fé Salvadora 1bc) mero conhecimento de algum fato ou evento: fé intelectual 2) confiar algo a alguém, i.e., sua fidelidade 2a) ser incumbido com algo” Dicionário Bíblico Strong.

[3] “Metonímia ou transnominação é uma figura de linguagem que consiste no emprego de um termo por outro, dada a relação de semelhança entre o segundo e o termo entre as orações ou a possibilidade de associação entre cinco ou mais figuras de linguagem destes. Por exemplo: “Palácio do Planalto” é usado como um metônimo (uma instância de metonímia) para representar a presidência do Brasil, por ser esse o nome do edifício do governo federal”, Wikipédia.

[4] “A ideia de Deus (…) nasce da reflexão sobre as operações do nosso próprio espírito…” Hume – Vida e Obra, Coleção Os pensadores, 1999, pág. 37.

[5] “Podemos sentir no próprio espírito que desta qualidade de caráter depende até mesmo a nossa própria salvação eterna. Sim, porque não basta apenas confessar com a boca que Jesus Cristo é o Senhor para que sejamos salvos, porque isso qualquer um pode fazer”. Macedo, Edir. O poder sobrenatural da fé. 1º Ed. Atualizada. Rio de janeiro: Unipro Editora, 2011 pág. 120. Grifo nosso.

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Salmo 4 – Perturbai-vos e não pequeis

Qualquer que obedece à palavra do Filho não peca, pois a semente de Deus permanece nele ( 1Jo 3:9 ). Neste sentido disse Moisés: “E disse Moisés ao povo: Não temais, Deus veio para vos provar e para que o seu temor esteja diante de vós, a fim de que não pequeis” (Êx 20:20).


Salmo 4 – Perturbai-vos e não pequeis

1 OUVE-ME quando eu clamo, ó Deus da minha justiça, na angústia me deste largueza; tem misericórdia de mim e ouve a minha oração.
2 Filhos dos homens, até quando convertereis a minha glória em infâmia? Até quando amareis a vaidade e buscareis a mentira? (Selá.)
3 Sabei, pois, que o SENHOR separou para si aquele que é piedoso; o SENHOR ouvirá quando eu clamar a ele.
4 Perturbai-vos e não pequeis; falai com o vosso coração sobre a vossa cama e calai-vos. (Selá.)
5 Oferecei sacrifícios de justiça e confiai no SENHOR.
6 Muitos dizem: Quem nos mostrará o bem? SENHOR, exalta sobre nós a luz do teu rosto.
7 Puseste alegria no meu coração, mais do que no tempo em que se lhes multiplicaram o trigo e o vinho.
8 Em paz também me deitarei e dormirei, porque só tu, SENHOR, me fazes habitar em segurança.

 

Introdução

Esse é mais um Salmo messiânico que descreve a confiança do Cristo em Deus, mesmo em meio às adversidades que teria que enfrentar, desde o jardim do Getsêmani até o Calvário.

Como é possível na angústia[1] ter largueza[2]? Parece contraditório passar por aflição, dificuldade, aperto e ter toda suficiência, toda largueza. O clamor registrado no Salmo 4: ‘Ouve-me, quando clamo…’ (v. 1) está em consonância com a vontade do Pai que, em outros Salmos, promete estar com Cristo na angústia (Sl 91:15).

Os registros nos livros das Crônicas dos reis de Israel não apontam para um momento específico em que o Rei Davi tenha passando por uma aflição como a exarada neste Salmo.

O único homem que foi afligido de modo a exclamar que estava angustiado até a morte foi o Filho de Davi e isso porque foi do agrado de Deus fazê-Lo enfermar.

“E, levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angústiar-se muito. Então lhes disse: A minha alma está cheia de tristeza até a morte; ficai aqui, e velai comigo” (Mt 26:37-38);

“Todavia, ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o bom prazer do SENHOR prosperará na sua mão” (Is 53:10).

A análise do Salmo 4 terá como ponto de partida a ‘angústia’, não do ponto de vista da psicologia ou da psicanálise, de alguém inseguro, rancoroso ou ressentido, mas da perspectiva dos eventos que antecederam a morte de Cristo: “Não te alongues de mim, pois a angústia está perto e não há quem ajude” (Sl 22:11); “Dizendo: Pai, se queres, passa de mim este cálice; todavia não se faça a minha vontade, mas a tua” (Lc 22:42).

É notório que o Salmo 22 é messiânico e descreve o sofrimento de Cristo nos momentos que antecederam a sua morte, tanto que Cristo recitou o primeiro verso do Salmo 22 em aramaico para que os que ali estavam entendessem que o Salmo 22 se cumpria aos ouvidos dos que ali estavam: – ‘Elohim, Elohim, lamá sabactâni’, ou seja,  “DEUS meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Sl 22:1); “DEUS meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27:46).

Apesar da angústia, temos de compreender a largueza que o Pai proporcionou ao Filho, pela segurança que o Pai transmitiu, com as garantias contidas nas Escrituras, visto que estava registrado que Deus não viraria as costas para o seu Filho, quando cravado na cruz, e nem esconderia d’Ele o Seu rosto, antes, quando clamou, Deus ouviu o Seu Filho: “Porque não desprezou nem abominou a aflição do aflito, nem escondeu dele o seu rosto; antes, quando ele clamou, o ouviu” (Sl 22:24).

 

1 OUVE-ME quando eu clamo, ó Deus da minha justiça, na angústia me deste largueza; tem misericórdia de mim e ouve a minha oração.

O salmista Davi faz um pronunciamento profético: “Ouve-me quando eu clamo, ó Deus da minha justiça…” (v. 1). Nesta previsão, o salmista registra a confiança do Cristo, de que seria prontamente ouvido pelo Pai, quando na angústia.

Alguém pode questionar: Como ter certeza de que essa é a interpretação correta desse verso? Essa dúvida é importantíssima, pois era dessa forma que se comportavam os bereanos, quando eram instruídos pelo apóstolo Paulo (At 17:11).

Para verificar o que foi afirmado acerca do verso 1, do Salmo 4, basta examinar o Salmo 31:

“Eu me alegrarei e regozijarei na tua benignidade, pois consideraste a minha aflição; conheceste a minha alma nas angústias. E não me entregaste nas mãos do inimigo; puseste os meus pés num lugar espaçoso. Tem misericórdia de mim, ó SENHOR, porque estou angustiado. Consumidos estão de tristeza os meus olhos, a minha alma e o meu ventre” (Sl 31:7-9).

O Salmo 31 torna claro o quanto o Cristo esteve angustiado, antes de ser crucificado, e no que consiste a ‘largueza’ que o Pai lhe concedeu. Para aqueles que ainda têm dúvidas se o Salmo 31 é messiânico e que retrata as agruras que antecedem a morte de Cristo, basta ler o verso 5:

“Nas tuas mãos encomendo o meu espírito; tu me redimiste, SENHOR Deus da verdade” (Sl 31:5; Lc 23:46).

Como já foi dito, os Salmos são escritos proféticos, o que indica que os salmistas não falam de si mesmos, antes, inspirados por Deus, davam testemunho do Cristo. Todas as vezes que lemos as Escrituras, devemos ter em mente a lição de Filipe: “Rogo-te, de quem diz isto o profeta? De si mesmo, ou de algum outro?” (At 8:34).

A largueza concedida por Deus ao Cristo, na angústia, decorre da benignidade de Deus, que considerou a aflição do Aflito. Embora o povo tenha desprezado o Cristo, pela sua ignomínia e aflição, na verdade Ele estava alegre e regozijado, por se sujeitar à vontade do Pai, que era fazê-Lo enfermar: “Verdadeiramente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido” (Is 53:4); “Mas eu sou verme e não homem, opróbrio dos homens e desprezado do povo. Todos os que me veem zombam de mim, estendem os lábios e meneiam a cabeça, dizendo: Confiou no SENHOR, que o livre; livre-o, pois nele tem prazer” (Sl 22:6-8).

A aflição que se abateu sobre o Cristo era em decorrência da morte do seu corpo físico, porém, caminhou para o calvário regozijado por estar cumprindo a vontade do Pai, que foi benigno para com Ele, quando O elegeu para expiação do povo: “Sacrifício e oferta não quiseste; os meus ouvidos abriste; holocausto e expiação pelo pecado não reclamaste. Então, disse: Eis aqui venho; no rolo do livro de mim está escrito. Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu; sim, a tua lei está dentro do meu coração” (Sl 40:6-8); “Todavia, ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o bom prazer do SENHOR prosperará na sua mão” (Is 53:10).

Apesar de angustiado e consumido de tristeza, em função das agruras da cruz, que acometeram o seu corpo (Sl 22:11), o Cristo não foi entregue nas mãos dos seus inimigos, antes, entregou a sua alma nas mãos do Pai, que o colocou a salvo (lugar espaçoso) dos seus inimigos (Sl 40:2). A sua alma não foi deixada na morte, pois o Pai O livrou e O pôs em um alto retiro: à destra da Majestade nas alturas (Sl 91:14).

Cristo invocou o Pai, dizendo: – “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste”? (Sl 22:1), pois essa era a perspectiva dos seus opositores, ao pé da cruz. No entanto, os opositores de Jesus, ao pé da cruz, não sabiam que, quando Jesus clamou, Deus lhe respondeu, pois permaneceu com Ele na angústia: “Porque não desprezou, nem abominou a aflição do aflito, nem escondeu dele o seu rosto; antes, quando ele clamou, o ouviu” (Sl 22:24).

Quem, na angústia, teve total segurança (largueza)? Quem Deus haveria de livrar e glorificar? A resposta é: Cristo, conforme se lê:

“Não te alongues de mim, pois a angústia está perto e não há quem ajude” (Sl 22:11);

“E invoca-me no dia da angústia; eu te livrarei, e tu me glorificarás” (Sl 50:15);

“E tomou consigo a Pedro, a Tiago e a João e começou a ter pavor e a angustiar-se” (Mc 14:33).

Largueza na angústia é afirmar, em oração, com um coração regozijado que ‘a sua carne repousará segura’. Saber que desceria às partes mais baixas da terra (sepultura) não trouxe insegurança, antes trouxe regozijo e segurança, pois estava seguro de que Deus haveria de trazê-Lo à vida novamente, fiado na promessa de que não seria deixado na morte e nem veria corrupção: “Pois não deixarás a minha alma no inferno, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção” (Sl 16:10).

Na angústia, Deus concedeu a Cristo a liberalidade de decidir cumprir ou não a vontade do Pai. Embora, tivesse à sua disposição doze legiões de anjos e ninguém tivesse o poder de tirar a sua vida, Jesus exerceu o poder de dar a sua vida e, assim, conquistou o poder de tornar a tomá-la: “Ninguém ma tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou; tenho poder para a dar e poder para tornar a tomá-la. Este mandamento recebi de meu Pai” (Jo 10:18).

Os Salmos não retratam os sentimentos e as emoções de Davi, pois Ele ainda está na sepultura e não subiu aos céus (At 2:29; At 2:34). Mas, Cristo, apesar dos sofrimentos e da morte, foi livre da morte, glorificado, e alcançou abundância de dias: “Ao qual, Deus ressuscitou, soltas as ânsias da morte, pois não era possível que fosse retido por ela; Porque dele disse Davi: Sempre via diante de mim o Senhor, Porque está à minha direita, para que eu não seja comovido; Por isso, se alegrou o meu coração e a minha língua exultou; E, ainda, a minha carne há de repousar em esperança; Pois não deixarás a minha alma no inferno, Nem permitirás que o teu Santo veja a corrupção; Fizeste-me conhecidos os caminhos da vida; Com a tua face me encherás de júbilo. Homens, irmãos, seja-me lícito dizer-vos livremente acerca do patriarca Davi, que ele morreu e foi sepultado e entre nós está, até hoje, a sua sepultura” (At 2:24-29; Sl 91:15).

 

2 Filhos dos homens, até quando convertereis a minha glória em infâmia? Até quando amareis a vaidade e buscareis a mentira? (Selá.)

Após direcionar a sua palavra ao Pai, em espírito, através do salmista, o Filho reprova a atitude dos homens: até quando amariam a vaidade e buscariam a mentira? Até quando transtornariam a glória do Cristo em infâmia?

A glória do Cristo estava em fazer a vontade do Pai, que era enfermá-Lo, porém, os opositores de Cristo interpretaram que aquela ignomínia era sinal de infâmia. A glória de Cristo estava em ser Servo obediente, mas os homens reputaram que Cristo era maldito ao contemplá-Lo na cruz: “E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte e morte de cruz” (Fp 2:8).

Jesus humilhou-se a si mesmo, ou seja, se fez servo, ao ser obediente até a morte, pois, nesse ato, estava a sua glória, de modo que Deus o exaltou soberanamente: “Por isso, também Deus o exaltou soberanamente e lhe deu um nome que é sobre todo o nome” (Fp 2:9).

O Aflito do Senhor era a luz do mundo, porém, os seus concidadãos (judeus), O rejeitaram, a Palavra da Verdade, se refugiaram na mentira e na vaidade de seus corações mentirosos. Seguindo os seus próprios caminhos, converteram em infâmia a glória do Filho de Deus. Cristo, a Rocha eleita e preciosa, tornou-se rocha de escândalo para os filhos de Israel: “Confia no SENHOR de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento” (Pr 3:5; Is 8:14).

As Escrituras não fazem referência ao rei Davi como possuidor de glória, nem que se dirigisse aos filhos dos homens, exigindo tal reconhecimento, i.e.,  de alguma glória que lhe fosse devida; portanto, da mesma forma que o apóstolo Pedro concluiu que Davi, ao profetizar, fez uma previsão específica da morte e ressurreição de Cristo no Salmo 16 (At 2:31), podemos inferir que o salmista registrou no Salmo 4 uma previsão do Messias reclamando aos homens, que não tivesse por infâmia a sua glória, de realizar a vontade do Pai.

3 Sabei, pois, que o SENHOR separou para si aquele que é piedoso; o SENHOR ouvirá quando eu clamar a ele.

O profeta Miquéias relata que ‘pereceu o homem piedoso’ e, que ‘não havia entre os homens quem fosse reto’ (Mq 7:2). Entretanto, o salmista aponta para alguém que foi separado para Deus por ser ‘piedoso’. Vale destacar que a frase está no singular, falando de um só, não de muitos piedosos (… o Senhor separou para si aquele que é piedoso).

Ora, o homem piedoso que Malaquias diz que pereceu, refere-se a Adão. Depois da queda de Adão, todos os seus descendentes se desviaram e todos juntamente se fizeram imundos, ou seja, em um único evento (a queda), todos se fizeram impróprios para o propósito de Deus, ninguém mais era piedoso (Sl 14:3).

Cristo, o último Adão, é o homem piedoso escolhido por Deus para ser mediador entre Deus e os homens. Cristo é o homem piedoso, reto, íntegro, que Deus separou para si. O Cristo teve plena certeza de que Deus sempre haveria de ouvi-lo, pois esse é um firme fundamento, sob a garantia de Deus (selo): “O Senhor conhece os que são seus” (2 Tm 2:19; Jo 11:14).

Em reconhecer a Cristo como o homem piedoso que Deus escolheu (ungido) e que Deus O ouvia, estaria a salvação dos filhos de Israel, mas desprezaram-No por causa da aparência: nenhuma beleza havia para que os homens o desejassem.

4 Perturbai-vos[3] e não pequeis; falai com o vosso coração sobre a vossa cama e calai-vos. (Selá.) 5 Oferecei sacrifícios de justiça e confiai no SENHOR.

Na condição de eleito, Cristo – o Mediador – alerta aos filhos da desobediência e da ira para obedecerem a Deus, consequentemente, não pecariam: “Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti” (Sl 119:11).

“Tremei e não pequeis” (v. 4) Tradução Brasileira.

A ordem é clara: tremei e não pequeis, ou seja, obedecei e não pecareis. ‘Tremer’ é o mesmo que ‘tremor’. Qualquer que treme da palavra do Filho de Deus não peca: “Ouvi a palavra do SENHOR, os que tremeis da sua palavra. Vossos irmãos, que vos odeiam e que para longe vos lançam, por amor do meu nome, dizem: Seja glorificado o SENHOR, para que vejamos a vossa alegria; mas eles serão confundidos” (Is 66:5).

Qualquer que obedece à palavra do Filho não peca, pois a semente de Deus permanece nele ( 1Jo 3:9 ). Neste sentido disse Moisés: “E disse Moisés ao povo: Não temais, Deus veio para vos provar e para que o seu temor esteja diante de vós, a fim de que não pequeis” (Êx 20:20).

A recomendação do Salmo 2, para os reis da terra: “Servi ao SENHOR com temor e alegrai-vos com tremor” (Sl 2:11), é o mesmo que dizer: Obedecei (tremor) a palavra (temor) do Senhor.

O apóstolo Paulo cita o verso 4, do Salmo 4, na epístola que escreveu aos cristãos de Éfeso:

“Por isso deixai a mentira e falai a verdade, cada um com o seu próximo; porque somos membros uns dos outros. Irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira” (Ef 4:25-26).

Geralmente, fazem conexão entre a citação do verso 4, do Salmo 4, com a recomendação aos cristãos para não deixar o sol se pôr sobre a ira. Entretanto, a citação do Salmo tem conexão com o fato de os cristãos serem membros, uns dos outros, e com a citação de Zacarias:

“Estas são as coisas que deveis fazer: Falai a verdade cada um com o seu próximo; executai juízo de verdade e de paz nas vossas portas” (Zc 8:16).

A ordem para deixar a mentira e falar a verdade cada um com o seu próximo demanda obediência (deveis fazer), daí, a necessidade de ‘tremer’ (obedecer), para não pecar contra o Senhor.

Sacrifício para Deus é um espírito quebrantado, submisso, ou seja, diz daquele que treme da sua palavra (Sl 51:17). Só é possível oferecer sacrifício de justiça, quando se confia em Deus, crendo em Cristo. Sacrifício de justiça só é possível através de Cristo, o Senhor que é a nossa justiça (Sl 51:19).

São sinônimas as ideias: ‘oferecei sacrifícios de justiça’ e ‘confiai no Senhor’, pois quem confia em Cristo, a palavra que concede vida, além e crer com o coração, oferece sacrifício de justiça, pois professa o Seu nome, que é o fruto dos lábios. Todos os que confiam, invocam a Deus e vice-versa: “Visto que, com o coração, se crê para a justiça e com a boca se faz confissão para a salvação” (Rm 10:10; Hb 13:15; Os 14:2 e Pv 18:20).

O mandamento de Deus na Nova Aliança é crer em Cristo e todos quantos confiam em Deus creem em Cristo. Quem crê em Cristo, na verdade crê no testemunho que Deus deu do seu Filho: “Quem crê no Filho de Deus, em si mesmo tem o testemunho; quem a Deus não crê, mentiroso o fez, porquanto não creu no testemunho que Deus de seu Filho deu” (1Jo 5:10); “E Jesus clamou e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas naquele que me enviou” (Jo 12:44).

 

6 Muitos dizem: Quem nos mostrará o bem? SENHOR, exalta sobre nós a luz do teu rosto.

Muitos, dentre os homens, questionam: Quem nos mostrará o bem? Ora, a resposta é o Mediador estabelecido por Deus: Jesus Cristo-homem. Ele é a luz. Ele é o resplendor da glória de Deus!

Observe o que diz o Salmo 67:

“DEUS tenha misericórdia de nós e nos abençoe; e faça resplandecer o seu rosto sobre nós (Selá.) Para que se conheça na terra o teu caminho e entre todas as nações a tua salvação” (Sl 67:1-2).

O caminho do Senhor, conhecido na terra, é o bem de Deus revelado aos homens, pois o caminho do Senhor, diz de Cristo, a luz que resplandeceu nas trevas (Jo 1:5 ).

A luz do Senhor é a resposta. Somente a luz do Senhor mostrará o bem: “Nele (Verbo) estava a vida e a vida era a luz dos homens” (Jo 1:4). Deus mostrou a sua luz (exaltou) quando nos revelou Jesus: “Deus é o SENHOR, que nos mostrou a luz; atai o sacrifício da festa com cordas, até às pontas do altar” (Sl 118:2).

A luz do rosto do Senhor foi revelada em Cristo: “Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo (2Co 4:6).

Cristo é a pedra que seguia os filhos de Israel pelo deserto. A Rocha que rejeitaram. O Senhor que escondeu o seu rosto da casa de Israel: Esconderei, pois, totalmente o meu rosto naquele dia, por todo o mal que tiver feito, por se haverem tornado a outros deuses” (Dt 31:18).

Porém, Isaias profetizou, apontando a sua esperança no Senhor, que esconde o seu rosto da casa de Israel. O Senhor que esconde o seu rosto da casa de Israel tornou-se pedra de tropeço às duas casas de Israel, a quem devemos o temor e o assombro: “E esperarei ao SENHOR, que esconde o seu rosto da casa de Jacó e a ele aguardarei” (Is 8:17; Is 8:13-14; Sl 4:4).

 

7 Puseste alegria no meu coração, mais do que no tempo em que se lhes multiplicaram o trigo e o vinho. 8 Em paz também me deitarei e dormirei, porque só tu, SENHOR, me fazes habitar em segurança.

O Salmista descreve a alegria no coração do Messias, como maior que a alegria que ocorre no coração dos homens, quando se multiplica a colheita de trigo e vinho. A alegria do Messias como último Adão está na sua descendência espiritual, por isso Isaias diz: “Eis me aqui, com os filhos que me deu o Senhor” (Is 8:18); “Mas aos santos que estão na terra, e aos ilustres em quem está todo o meu prazer” (Sl 16:3).

O verso 8 retrata o momento da morte do Messias, que em paz deitaria e dormiria, pela segurança que o Pai lhe proporcionou: “Portanto, está alegre o meu coração e se regozija a minha glória; também, a minha carne repousará segura. Pois não deixarás a minha alma no inferno, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção” (Sl 16:9-10; Sl 30:3; Sl 31:5).

Ora, Cristo é aquele que habitava no esconderijo do Altíssimo e, após ser introduzido no mundo dos homens, passou a descansar à sombra do Onipotente (Sl 91:1). Jesus Cristo, homem, alcançou ‘largueza’, por confiar plenamente na proteção do Pai (Sl 4:1).

 


[1] “06862 tsar ou צר tsar procedente de 6887; DITAT – 1973a,1973b,1974a,1975a; adj. 1) estreito, apertado 2) dificuldades, aflição 3) adversário, inimigo, opressor 4) pedra dura, pederneira” Dicionário Bíblico Strong;

[2] “07337 rachab uma raiz primitiva; DITAT – 2143; v. 1) ser ou ficar amplo, ser ou ficar grande 1a) (Qal) ser largo, ser aumentado 1b) (Nifal) pastagem ampla ou espaçosa (particípio) 1c) (Hifil) 1c1) tornar amplo 1c2) alargar” Dicionário Bíblico Strong;

[3] “07264 ragaz uma raiz primitiva; DITAT – 2112; v. 1) tremer, estremecer, enfurecer-se, tiritar, estar agitado, estar perturbado 1a) (Qal) tremer, estar inquieto, estar agitado, estar perturbado 1b) (Hifil) fazer estremecer, inquietar, enraivecer, incomodar 1c) (Hitpael) agitar-se” Dicionário Bíblico Strong

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Cristo – O dom de Deus para salvação

Quando Deus disse a Moisés, que tem misericórdia de quem Ele tiver, Moisés estava querendo e correndo atrás do perdão de Israel. Ora, Moisés não alcançou a misericórdia de Deus para o povo de Israel, pois todos que saíram do Egito, exceto dois, morreram no deserto. Não dependia de Moisés querer ou correr, mas de Deus, que tem misericórdia dos que O amam.


O Dr. Arthur W. Pink ao argumentar em defesa da doutrina calvinista, especificamente com relação à soberania divina na reprovação, reitera o seu posicionamento defendido em seu livro, dizendo:

“Novamente; fé é um dom de Deus e o propósito de dá-la somente a alguns, envolve o propósito de não dá-la a outros. Sem fé não há salvação — “Quem crê nele não é condenado” — portanto, se há alguns descendentes de Adão aos quais Ele propôs não dar fé, deve ser porque Ele ordenou que eles deveriam ser condenados” – Arthur W. Pink, A Soberania de Deus na Reprovação[1].

O Dr. Pink argumenta que a ‘fé é um dom de Deus’. Sem problema algum, pois neste ponto ele cita o apóstolo Paulo aos Efésios, quando diz: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Ef 2:8).

O erro surge quando ele diz que Deus dá a fé somente a alguns[2], e que, por conseguinte, Deus se resignou a não dar a fé a outros. Está correto o argumento do Dr. Pink?

O problema do Dr. Pink é de interpretação de texto, pois no verso 5, o apóstolo Paulo afirma que, quando os agora cristãos estavam mortos em ofensas, foram vivificados por Cristo. Neste ponto o apóstolo argumenta: “Pela graça sois salvos”.

Ora, o ato de dar vida ao homem é ação graciosa de Deus, pois quando morto em ofensas, o velho homem foi crucificado com Cristo e sepultado. Neste quesito a justiça de Deus é estabelecida, pois a pena não passa do transgressor, visto que a alma que pecar, essa mesma morrerá.

Quando o homem no pecado morre com Cristo, Deus é justo e não tinha nenhuma obrigação para com os que são crucificados com Cristo, mortos no batismo com Cristo e sepultados. Mas, graciosamente, Deus faz ressurgir da sepultura um novo homem, criado, segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade, portanto, na nova criação, Deus é justificador, pois declara o novo homem em Cristo, justo e santo.

Na ressurreição com Cristo, está a graça de Deus, visto que, na morte com Cristo, se opera a justiça de Deus:

“Ou não sabeis que, todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte? De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também, em novidade de vida. Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição; sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado. Porque aquele que está morto está justificado do pecado. Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos” (Rm 6:3 -8).

Foi cravado na cruz o escrito de dívida que era contra os incircuncisos de coração, sendo que, na cruz, a circuncisão de Cristo foi feita, pois, nela, o corpo do pecado da carne foi desfeito. Após ser sepultado com Cristo, no batismo de sua morte, os que creem foram ressuscitados, de modo que todas as ofensas foram perdoadas.

“No qual também estais circuncidados com a circuncisão, não feita por mão, no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo; sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé, no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos.  E, quando vós estáveis mortos nos pecados e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-vos todas as ofensas, havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual, de alguma maneira, nos era contrária e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz” (Cl 2:11-14).

Além dos cristãos terem sido ressuscitados com Cristo, Deus os fez assentar nas regiões celestiais em Cristo, ou seja, agora entram no descanso. Ora, este evento de vivificar os que creram e fazê-los assentar-se nas regiões celestiais, será notificado nos séculos vindouros, o quão abundantes são as riquezas da graça, por intermédio de Cristo (Ef 2:7).

Após apontar a benignidade de Deus, em Cristo, o apóstolo Paulo enfatiza, novamente, que, pela graça, os cristãos são salvos. Ora, os cristãos são salvos pela graça, pois a benignidade de Deus em Cristo, nada exige do homem para ser salvo, vez que é impossível ao homem salvar-se a si mesmo.

Mas, apesar de o homem ser salvo pela graça, a salvação é operada por meio da fé, ou seja, algo definido como não proveniente dos homens (não vem de vós), antes diz do dom de Deus.

“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Ef 2:8).

O Dr. Pink confunde o ‘dom de Deus’ com a ‘crença’ do homem pela má leitura que faz do texto.

O dom de Deus é Cristo e não a crença do homem, conforme se lê:

“Jesus respondeu e disse-lhe: Se tu conheceras o dom de Deus e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias e ele te daria água viva” (Jo 4:10).

Se a mulher samaritana conhecesse o dom de Deus e se conhecesse aquele que lhe estava pedindo água, reconheceria, de pronto, que aquele homem à beira do poço de Jacó era o Cristo, o dom inefável de Deus dado aos homens. Cristo é o dom de Deus dado a todos os homens: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16).

Sem Cristo não há salvação, pois não há entre os homens nenhum outro nome dado pelo qual devamos ser salvos: “E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” (At 4:12); “Sempre dou graças ao meu Deus por vós, pela graça de Deus que vos foi dada em Jesus Cristo” (1Co 1:4).

Isso significa que, pela graça de Deus o homem é salvo, por meio de Cristo, ou como vem expresso no verso: por meio da fé. Ora, quando é dito que o homem é salvo por meio da fé, fé não tem o significado de crença, mas, sim, o significado de O enviado de Deus, pois Cristo é a fé que havia de se manifestar:

“Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar (Gl 3:23).

Quando lemos: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Ef 2:8), temos que ter a perspicácia de substituir a frase: ‘por meio da fé’, pela frase: ‘por meio daquela fé que se havia de manifestar, que é Cristo, o dom de Deus.

No afã de enfatizar o seu credo, o Dr. Pink não teve o cuidado de observar que o termo traduzido por fé, não se trata de um verbo, mas do substantivo grego πίστις, transliterado pistis. Sem πίστις (fé) não há salvação, mas com πιστεύω (pisteúo=fé, crer, acreditar) ou sem πιστεύω  há salvação, pois Deus é fiel e não pode negar a si mesmo: “Pois quê? Se alguns foram incrédulos, a sua incredulidade aniquilará a fidelidade de Deus?” (Rm 3:3; 2Tm 2:13).

Quando o apóstolo Paulo faz referência à fé, que por meio dela o homem é salvo, faz menção da fé, que a incredulidade do homem jamais pode aniquilar.

O termo fé foi empregado pelo apóstolo Paulo, no verso 8, do capítulo 2, de Efésios, como figura de linguagem, a metonímia[3] onde, no caso, temos a substituição do autor pela obra: Cristo é o autor e consumador da fé: “Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta e assentou-se à destra do trono de Deus” (Hb 12:2).

Quando Cristo, o dom de Deus, foi concedido, Deus não fez distinção entre homens. Deus amou o mundo, ou seja, todos os povos, nações, tribos e de todas as línguas, pois, sobre isso, vaticinou o profeta:

“Disse mais: Pouco é que sejas o meu servo, para restaurares as tribos de Jacó e tornares a trazer os preservados de Israel; também te dei para luz dos gentios, para seres a minha salvação até a extremidade da terra” (Is 49:6);

“E toda a carne verá a salvação de Deus” (Lc 3:6);

“Porque o Senhor assim no-lo mandou: Eu te pus para luz dos gentios, a fim de que sejas para salvação, até os confins da terra” (At 13:47);

“Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens” (Tt 2:11).

Segundo o profeta Isaías, Deus se propôs a conceder salvação a todos os descendentes de Adão, ou seja, Deus se propôs a dar fé a todos os homens, do que se conclui que a assertiva do Dr. Pink é equivocada.

A fé foi dada, primeiramente, aos judeus (Jo 1:11), mas, como eles a rejeitaram, ela foi transferida aos gentios:

“Seja-vos, pois, notório que esta salvação de Deus é enviada aos gentios e eles a ouvirão” (At 28:28).

Além de ‘fé’, Cristo também é nomeado de ‘poder de Deus’, ‘sabedoria de Deus’, etc. Sem Cristo não há salvação, o que nos leva a considerar que, sem o poder de Deus, ou sem a sabedoria de Deus, não há como ser salvo.

Daí a máxima:

“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu e, também, do grego” (Rm 1:16).

Ora, o apóstolo Paulo não se envergonhava do evangelho de Cristo, ou seja, da palavra da cruz (1 Co 1:18), da pregação da fé (Gl 3:2), da loucura da pregação (1Co 1:21), pois é poder de Deus para salvação de todo aquele que crer.

A pregação está intimamente ligada à fé, ou seja, a Cristo, de modo que, se a mensagem apregoada não é segundo Cristo, tanto a pregação, quanto aquele que é anunciado, se faz vão. Sabemos que Cristo ressuscitou dentre os mortos, mas se alguém apregoa que Jesus não ressuscitou, a pregação é inútil, bem como o próprio Cristo, se Ele não houvesse ressuscitado: “E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação e também é vã a vossa fé” (1 Co 15:14 e 17).

Quando lemos: “Que mediante a fé estais guardados na virtude de Deus para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo” (1 Pd 1:5), temos que entender que é mediante o evangelho (fé) que os cristãos são guardados para a salvação.

Observe que, pregar com base em sabedoria de palavras e não com base na mensagem da cruz, torna inócua a cruz de Cristo, para quem é anunciado somente em sabedoria de palavras: “Porque Cristo enviou-me, não para batizar, mas para evangelizar; não em sabedoria de palavras, para que a cruz de Cristo se não faça vã” (1 Co 1:17).

Embora Deus tenha enviado o seu Filho ao mundo para salvação, aprouve a Deus salvar aqueles que dão crédito à pregação, ou seja, Deus só salva os crentes, não os ouvintes da pregação: “Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação” (1 Co 1:21).

Daí a pergunta: “Quem deu crédito à nossa pregação? E a quem se manifestou o braço do SENHOR?” (Is 53:1). Embora os filhos de Israel não dessem crédito à pregação, contudo, o braço do Senhor – Cristo – foi manifesto a todos os povos: “O SENHOR desnudou o seu santo braço perante os olhos de todas as nações; e todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus” (Is 52:10).

A πιστεύω (pisteúo=crença) jamais precede a πίστις (pistis=fé). A πιστεύω (crença) decorre da πίστις (fé), pois a πίστις remete à verdade, à fidelidade, à lealdade e à imutabilidade de Deus. Tanto que o termo grego πίστις, decorre da raiz de um termo, que significa fidelidade. Segundo o Dicionário Bíblico Strong, o termo fé (πιστις, pistis), entre outras coisas, significa fidelidade, lealdade.

Quando deparamos com a definição: “Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que não se veem” (Hb 11:1), a fé é objetiva, ou seja, é o firme fundamento, algo imutável. O que se espera, diz respeito à crença do homem, que é algo subjetivo, de foro íntimo. A fé é prova, ou seja, algo objetivo, mesmo quando não conseguimos contemplar, ver.

Ora, as Escrituras deixam claro que o firme fundamento é Cristo, pois Ele é a pedra de esquina, no qual aquele que crê não é confundido: “Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, do qual Jesus Cristo é a principal pedra da esquina” (Ef 2:20); “Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo” (1 Co 3:11).

Sem Cristo (fé) é impossível agradar a Deus: “Ora, sem fé é impossível agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que é galardoador dos que o buscam” (Hb 11:6).

Mas, para que alguém creia, primeiro é necessário pregar, pois crer decorre da palavra da fé: “Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos” (Rm 10:8); “Então, ou seja eu, ou sejam eles, assim pregamos e assim haveis crido” (1 Co 15:11).

Só é possível ‘estar em Cristo’, ou seja, ‘ser uma nova criatura’, após ouvir a palavra da verdade, o evangelho da salvação e crer: “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” (Ef 1:13).

Daí a exposição paulina aos cristãos em Roma:

“Mas, a justiça que é pela fé, diz assim: Não digas em teu coração: Quem subirá ao céu? (isto é, a trazer do alto a Cristo) Ou: Quem descerá ao abismo? (isto é, a tornar a trazer dentre os mortos a Cristo.)” (Rm 10:6-7).

A justiça de Deus não é pela crença do homem, mas pela palavra de Deus, que é firme e fiel: a FÉ. Ou seja, a justiça, que é pela palavra de Deus, protesta contra os homens para não dizerem em seus corações: quem subirá ao céu? Quem descerá ao abismo?

Esta é a palavra firme e fiel, digna de toda aceitação:

“Porque este mandamento, que hoje te ordeno, não te é encoberto e tampouco está longe de ti. Não está nos céus, para dizeres: Quem subirá por nós aos céus, que no-lo traga e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Nem, tampouco, está além do mar, para dizeres: Quem passará por nós, além do mar, para que no-lo traga e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Porque esta palavra está mui perto de ti, na tua boca e no teu coração, para a cumprires” (Dt 30:11-14).

Não crer nesta palavra é injustiça!

A palavra da fé, ou seja, a palavra de Deus é esta:

“Esta é uma palavra fiel e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” (1 Tm 1:15).

Sobre a palavra da fé, orientou o apóstolo Paulo a Timóteo:

“Propondo estas coisas aos irmãos, serás bom ministro de Jesus Cristo, criado com as palavras da fé e da boa doutrina que tens seguido. Mas rejeita as fábulas profanas e de velhas e exercita-te a ti mesmo em piedade; porque o exercício corporal para pouco aproveita, mas a piedade para tudo é proveitosa, tendo a promessa da vida presente e da que há de vir. Esta palavra é fiel e digna de toda a aceitação” (1 Tm 4:6-9).

Por que foi dada esta orientação? Porque muitos apostatariam da fé, ou seja, da verdade, da palavra digna de total aceitação! Deixariam a Cristo e seguiriam fábulas de homens corruptos de entendimento.

O termo grego πιστεύω (pisteúo), traduzido por crença, quando empregado nas Escrituras, tem o sentido de obediência. A palavra da fé é que Cristo é o enviado de Deus, que foi morto e ressurgiu ao terceiro dia. Crer nesta mensagem é o mandamento de Deus para que o homem não pereça. A obediência da fé (evangelho) é crer que Jesus é o Senhor e que Deus o ressuscitou entre os mortos.

“Mas, que se manifestou agora e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações, para obediência da fé” (Rm 16:26).

“A saber: se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que, com o coração se crê para a justiça e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido. Porquanto, não há diferença entre judeu e grego; porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam” (Rm 10:9-12).

Quem crê em Cristo não perece, antes alcança a vida eterna: “Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê, já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo 3:18). Por que? Porque, quem crê em Jesus, crê no testemunho que Deus deu acerca do seu Filho nas Escrituras: “Quem crê no Filho de Deus, em si mesmo tem o testemunho; quem a Deus não crê, mentiroso o fez, porquanto não creu no testemunho que Deus de seu Filho deu. E o testemunho é este: que Deus nos deu a vida eterna; e essa vida está em seu Filho” (1 Jo 5:10 -11).

A mensagem apregoada pelos profetas apontava para o Cristo, mas, quando Jesus veio, os homens O rejeitaram; por conseguinte, rejeitaram as Escrituras, pois elas testificam de Cristo: “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna e são elas que de mim testificam” (Jo 5:39).

Crer em Cristo é obedecer ao mandamento de Deus, ou, segundo uma linguagem própria aos judeus, realizar a obra de Deus: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1 Jo 3:23); “Jesus respondeu e disse-lhes: a obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” (Jo 6:29).

Deus só é favorável a quem obedece, ou seja, a quem O ama, a quem realiza a obra, a quem cumpre o mandamento, pois assim está escrito:

“Eu amo aos que me amam e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17).

A benevolência de Deus está em Cristo, porém, para alcançá-la, o homem tem que obedecer a Deus, como está escrito:

“Portanto, diz o SENHOR Deus de Israel: Na verdade tinha falado eu que a tua casa e a casa de teu pai andariam diante de mim perpetuamente; porém agora diz o SENHOR: Longe de mim tal coisa, porque aos que me honram honrarei, porém os que me desprezam, serão desprezados” (1 Sm 2:30);

“Com o benigno te mostrarás benigno e com o homem sincero te mostrarás sincero; Com o puro te mostrarás puro e com o perverso te mostrarás indomável” (Sl 18:25-26).

A mensagem da salvação é direcionada a todos os homens, porém, a salvação é só para os que obedecem, ou seja, para os que creem em Cristo: “E, sendo ele consumado, veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem(Hb 5:9).

O Dr. Pink apregoa que Deus salva e reprova os homens segundo a sua Soberania, porém, as Escrituras não dizem assim. Observe:

“Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos. E retribui no rosto qualquer dos que o odeiam, fazendo-o perecer; não será tardio ao que o odeia; em seu rosto lho pagará. Guarda, pois, os mandamentos e os estatutos e os juízos que hoje te mando cumprir” (Dt 7:7-11).

Embora Deus seja Deus, ou seja, exerça soberania, contudo, a relação dele com suas criaturas se dá através do amor e do ódio. Quando a Bíblia fala de amor e ódio, não fala de sentimentos, mas, de obediência e desobediência, como se lê:

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Mt 6:24).

Desde sempre, Deus se propôs a exercer misericórdia aos que O amam, ou seja, aos que guardam os seus mandamentos e faz perecerem os que O odeiam, ou seja, aos que não guardam os seus mandamentos. Daí a ordem: Guarda, pois os mandamentos!

Deus é fiel à Sua palavra: Ele guarda a aliança e concede a sua misericórdia aos que O amam. Esta lição é incontestável! Mas, quando o povo de Israel não guardou a aliança e desobedeceu a Deus, fazendo um bezerro de ouro, Moisés se interpôs diante de Deus e fez a seguinte oração:

“Agora, pois, perdoa o seu pecado, se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito” (Êx 32:32).

Ora, Deus só risca do livro aquele que pecar, portanto, a oração de Moisés foi descabida e atentatória à justiça de Deus, pelo que Deus respondeu:

“Então, disse o SENHOR a Moisés: Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro” (Ex 32:33).

Em outras palavras, a alma que pecar essa mesma morrerá, ou seja, Moisés não podia perecer no lugar do povo que pecou: “A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai levará a iniquidade do filho. A justiça do justo ficará sobre ele e a impiedade do ímpio cairá sobre ele” (Ez 18:20).

Deus concedeu a Moisés que continuasse conduzindo aquele povo, porém, o mal já estava estabelecido: visitarei neles o seu pecado! “Vai, pois, agora, conduze este povo para onde te tenho dito; eis que o meu anjo irá adiante de ti; porém, no dia da minha visitação, visitarei neles o seu pecado” (Ex 18:34).

Mas, ao dar prosseguimento em sua missão, Moisés roga pela presença de Deus e que considere o povo de Israel, que havia pecado, como o Seu povo (Ex 33:12-13). Deus concede o desejo de Moisés, de mostrar a sua glória, fazendo passar a bondade de Deus e anunciar o nome de Deus perante Moisés (Ex 33:19).

Mas, apesar de Deus conceder o desejo de Moisés, reitera a sua palavra: “… e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer” (Ex 33:19). Onde os calvinistas veem soberania, na verdade é a reiteração de um mandamento: “Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos” (Ex 7:7).

De quem Deus tem misericórdia? Deus tem misericórdia dos que O amam, ou seja, dos que guardam o seu mandamento. Quando é dito: ‘terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia’, ocorre uma figura de linguagem conhecida por ‘elipse’, que consiste na supressão de parte da frase, geralmente utilizada por bons escritores, pois intensifica e valoriza a porção restante do discurso.

Deus não utiliza dois pesos e duas medidas: “E orei ao SENHOR meu Deus, confessei e disse: Ah! Senhor! Deus grande e tremendo, que guardas a aliança e a misericórdia para com os que te amam e guardam os teus mandamentos” (Dn 9:4).

Jesus mesmo disse que aquele que ama é o que guarda os seus mandamentos: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21). Ora, se tudo concorre para o bem dos que amam a Deus, certo é que tudo concorre para o bem dos que obedecem a Deus (Rm 8:28).

Aquele que não obedece (ama), não conhece a Deus: “Aquele que não ama, não conhece a Deus; porque Deus é amor” (1 Jo 4:8); “Aquele que diz: Eu o conheço e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso e nele não está a verdade” (1 Jo 2:4); “Confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras, sendo abomináveis e desobedientes e reprovados para toda a boa obra” (Tt 1:16).

De nada adianta o homem dizer que crê em Deus, mas não crê em Cristo, pois a boa obra, segundo o mandamento de Deus, é crer naquele que Ele enviou e, concomitantemente, está crendo em Deus: “E Jesus clamou e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas nAquele que me enviou” (Jo 12:44); “E a sua palavra não permanece em vós, porque naquele que Ele enviou não credes vós” (Jo 5:38).

Observe o seguinte verso:

“Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido dele” (1Co 8:3).

Como o homem se torna ‘conhecido’ de Deus? Obedecendo-o! Amando-o!

Essa abordagem se faz necessária, pelos equívocos apresentado pelo Dr. Pink no seguinte parágrafo:

“E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mateus 7:23). No capítulo anterior foi demonstrado que as palavras “conhecer” e “pré-conhecimento”, quando aplicadas a Deus nas Escrituras, têm referência não, simplesmente, à Sua presciência (isto é, a Seu conhecimento desnudo, de antemão), mas, ao Seu conhecimento de aprovação. Quando Deus disse a Israel: “De todas as famílias da terra, somente a vós (Israel) vos tenho conhecido” (Amós 3:2), é evidente que Ele quis dizer: “Somente vocês têm o meu favor”. Quando lemos em Romanos 11:2: “Deus não rejeitou o seu povo (Israel), o qual de antemão conheceu”, é óbvio que o significado é: “Deus não rejeitou, finalmente, aquele povo que Ele escolheu como objeto de Seu amor — conforme Deuteronômio 7:7,8. Da mesma forma (e é a única forma possível) devemos entender Mateus 7:23. No Dia do Julgamento o Senhor dirá a muitos: “Eu nunca vos conheci”. Observe, é mais do que simplesmente “Eu não vos conheço”. Sua declaração solene será: “Eu nunca vos conheci” — vocês nunca foram os objetos da Minha aprovação. Contraste isto com o “Eu conheço (amo) as Minhas ovelhas e das Minhas sou conhecido (amado)” (João 10:14). As “ovelhas”, Seus eleitos, os “poucos”, Ele “conhece”; mas os réprobos, os não-eleitos, os muitos, Ele não conhece — não, nem mesmo antes da fundação do mundo Ele os conheceu — Ele “NUNCA” os conheceu!” Arthur W. Pink, A Soberania de Deus na Reprovação.

Para o Dr. Pink, ‘conhecer’ é o mesmo que ‘aprovação’, porém, o termo não possui este significado. Na verdade, o termo ‘conhecer’ aplica-se aos que obedecem, aos que amam, no sentido de que se tornaram um com Ele: “Como labareda de fogo, tomando vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo” (2Ts 1:8); “E nisto sabemos que o conhecemos: se guardarmos os seus mandamentos. Aquele que diz: Eu conheço-o, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e nele não está a verdade” (1Jo 2:3 -4).

Deus tomará vingança dos que não obedecem ao evangelho de Cristo, ou seja, em sentido contrário, os que obedecem ao evangelho se tornam um com o Pai e o Filho, isto é, conheceram a Deus, ou antes, foram conhecidos d’Ele: “Mas, agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” (Gl 4:9); “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um” (Jo 17:22).

‘Conhecer’ a Deus é se tornar membro do corpo de Cristo, é pertencer à Sua Igreja. ‘Conhecer’ a Deus, ou antes, Deus ‘conhecer’ ao homem, não possui relação com “pré-conhecimento”, “presciência”, “conhecimento desnudo, de antemão”, e nem com “conhecimento de aprovação”, definições utilizadas pelo Dr. Pink para explicar o que não compreende.

Assim, como Adão ‘conheceu’ à sua mulher e se fez uma só carne, um só corpo com ela, aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus, se faz uma só carne, um só corpo com Cristo. “Porque somos membros do seu corpo, da sua carne e dos seus ossos. Por isso, deixará o homem a seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher e serão dois numa carne. Grande é este mistério; digo-o, porém, a respeito de Cristo e da igreja” (Ef 5:30-32).

Quando é dito: “Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Co 5:21), significa que Cristo nunca foi participante do pecado, ou seja, que nunca esteve unido ao pecado.

A doutrina calvinista da reprovação, ou como alguns dizem, preterição, surge da má leitura de alguns termos bíblicos. Na sua grande maioria, os estudiosos leem os termos com a mente do nosso tempo e se esquecem de que os termos têm que ser compreendidos com a mente do homem da época em que o termo foi empregado.

O absurdo de tentar embasar a preterição em passagens bíblicas como Romanos 9, verso 13: “Como está escrito: amei Jacó e aborreci a Esaú”, decorre da má leitura de termos como ‘amar’ e ‘aborrecer’ e de não observar o contexto.

O apóstolo Paulo estava demonstrando que a palavra de Deus não falhou, embora nem todos os pertencentes à comunidade de Israel fossem israelitas, ou seja, não é porque os filhos de Jacó descendiam de Abraão que eram, de fato, filhos de Abraão (Rm 9:6-7).

Como foi dito a Abraão que, em Isaque seria chamada a descendência de Abraão, isso significava que não eram os filhos da carne, que eram filhos de Abraão, mas, sim, os filhos da promessa (Rm 9:8). Em seguida, o apóstolo cita a palavra da promessa que não falhou: “Pois a palavra da promessa é esta: Por este tempo virei e Sara terá um filho” (Rm 9:9).

Seguindo o raciocínio de que a palavra de Deus não falhou (Rm 9:6), o apóstolo Paulo cita outra promessa, a palavra que foi dita a Rebeca quando concebeu de um só, Isaque (Rm 9:10). Mas, antes de Esaú e Jacó terem nascido, ou feito bem ou mal, Deus disse a Rebeca: “O maior servirá o menor” (Rm 9:12).

Por que foi dita esta palavra a Rebeca? Deus tinha preferência entre os filhos de Rebeca e de Isaque? Não! Foi dito que o ‘maior serviria o menor’ para evidenciar que o propósito de Deus, segundo a eleição, é firme, não por obra, mas pelo que chama.

O propósito de Deus, segundo a eleição, era abençoar o primogênito. Mas, como Esaú desprezou o direito de primogenitura por um prato de lentilhas, Jacó adquiriu esse direito. Deus deu o que era de direito a Jacó, ou seja, amou a Jacó. Jacó buscou o direito de primogenitura, ou seja, a bênção de Deus e Deus lhe concedeu, enquanto que negou o mesmo direito a Esaú, pois este o desprezara e o vendera a seu irmão mais novo.

A primogenitura era o parametro para a eleição de Deus, e não a sua soberania. Soberanamente, antes de Esaú e Jacó terem nascido, Deus já havia estabelecido abençoar o primogênito.

A escolha do povo de Israel não se deu porque Deus tinha preferência por Israel, em detrimento dos outros povos, pois, em nada Israel era diferente dos outros povos (Dt 9:6), antes, a escolha se deu para que Deus guardasse o juramento feito a Abraão (Dt 9:5).

Quando Deus disse, por intermédio de Malaquias: “Amei a Jacó, mas odiei a Esaú” (v. 13), foi uma resposta ao povo, que questionava de que forma foram amados (Ml 1:2). Deus ‘amou’ Israel, porque guardou o juramento que fizera aos pais, o que significa que a palavra de Deus não falhou (Sl 44:3).

“O SENHOR não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos em número do que todos os povos; Mas, porque o SENHOR vos amava e para guardar o juramento que fizera a vossos pais, o SENHOR vos tirou, com mão forte e vos resgatou da casa da servidão, da mão de Faraó, rei do Egito” (Dt 7:7-8).

“Será, pois, que, se ouvindo estes juízos, os guardardes e os cumprirdes, o SENHOR teu Deus te guardará a aliança e a misericórdia que jurou a teus pais; E amar-te-á,  abençoar-te-á e te fará multiplicar; abençoará o fruto do teu ventre e o fruto da tua terra, o teu grão e o teu mosto, o teu azeite, a criação das tuas vacas e o rebanho do teu gado miúdo, na terra que jurou a teus pais te dar” (Dt 7:12-13).

Por causa da promessa feita aos pais, Israel foi preservado e Edom, por não ter direito segundo a promessa, tornou-se uma desolação, morada de chacais. A citação de Malaquias evidencia que a palavra de Deus não falhou e não que Deus escolhe alguns para serem salvos e outros destinou à danação.

Há injustiça da parte de Deus, por ter dado a sua palavra aos pais? Não! Pois Deus mesmo disse a Moisés: “Compadecer-me-ei de quem me compadecer e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” (Rm 9:15).

Deus teve misericórdia da humanidade, quando anunciou o evangelho, primeiramente, a Abraão: “Em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gl 3:8). Alguém assim quis, ou correu atrás desta promessa? Não! Conclui-se que a promessa não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus, que se compadeceu da humanidade (Rm 9:16).

Quando Deus disse a Moisés, que tem misericórdia de quem Ele tiver, Moisés estava querendo e correndo atrás do perdão de Israel. Ora, Moisés não alcançou a misericórdia de Deus para o povo de Israel, pois todos que saíram do Egito, exceto dois, morreram no deserto. Não dependia de Moisés querer ou correr, mas de Deus, que tem misericórdia dos que O amam.

O capítulo 9, de Romanos, foi escrito para demonstrar que a palavra de Deus não falha, mas por má leitura, utilizam-no para endossar doutrinas que não tem por base a fé, que foi dada aos santos.

De cinco termos bíblicos que analisamos: fé, crença, misericórdia, amor e conhecimento, percebe-se que a doutrina anunciada pelo Dr. Pink é resultado de má leitura e de má compreensão de algums termos, ou, de algumas figuras de linguagem, quando empregadas nas Escrituras.

 


[1] O livro “A Soberania de Deus”, de Arthur Pink foi traduzido para o português e publicado pela Editora Fiel, com o título “Deus é Soberano”, contudo, não consta na versão brasileira o capítulo sobre “A Soberania de Deus na Reprovação”.

[2] “Ele concede o dom da fé para que as pessoas possam crer. Deus dá esta fé só àqueles que Ele tem escolhido e sem dúvidas tem o direito de atuar como e quando quer neste assunto” Pink A. W. Deus é Soberano, Tradução do espanhol para o português realizada por Daniela Raffo, 2007. Arquivo disponível na Web < http://www.ipitatiaia.com.br/documentos/280613-A.%20W.%20Pink%20-%20Deus%20e%20soberano.pdf > Consulta realizada em 17/10/15.

[3] “Metonímia ou transnominação é uma figura de linguagem que consiste no emprego de um termo por outro, dada a relação de semelhança entre o segundo e o termo entre as orações, ou a possibilidade de associação entre cinco ou mais figuras de linguagem destes. Por exemplo: “Palácio do Planalto” é usado como um metônimo (uma instância de metonímia) para representar a presidência do Brasil, por ser esse o nome do edifício do governo federal” (Wikipédia).

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Efésios 2 – Vivificados com Cristo

Quando o homem vem ao mundo, está morto para Deus. Este fato não depende de conduta, tendências, propensão, vontade, etc. Todos quantos nascerem, nascem sob a égide do pecado, sob a égide da ofensa de Adão.


Introdução

Aqueles que já tiveram um contato com o comentário feito ao capítulo um de Efésios terão maior facilidade em assimilar os conceitos que aqui serão apresentados.

O capítulo um da carta de Paulo aos cristãos em Éfeso apresenta várias idéias que são detalhadas a partir do segundo capítulo.

Para início de nosso estudo, faremos um breve resumo do que já estudamos.

  • As cartas de Paulo possuem um público alvo pré-definido: os cristãos. Em decorrência destas características das Epístolas Paulo utiliza várias vezes o pronome “nós”;
  • Logo após a apresentação do remetente e saudações aos destinatários da carta, Paulo passa a agradecer a Deus pelas bênçãos recebidas;
  • Para descrever a nova condição que os cristãos alcançaram em Cristo Jesus, Paulo utiliza a maioria dos verbos que fazem referência à ação divina no pretérito perfeito: abençoou, elegeu, predestinou, etc. Estes verbos no pretérito apontam para a nova condição dos cristãos no presente: Eles são abençoados, eleitos, predestinados, redimidos, etc “Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas…” ( Ef 1:7 ); O verbo ter indica a nova condição dos cristãos no presente, e a desinência do verbo (-mos) indica que o apóstolo inclui-se entre os que alcançaram a redenção;
  • Após agradecer a Deus, Paulo procura conscientizar os Cristãos da nova condição que eles haviam adquiridos em Cristo “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa…” ( Ef 1:13 );
  • Por último, analisemos a oração de Paulo:

a) Paulo não cessava de agradecer a Deus pela vida dos novos cristãos;

b) Paulo passa a orar a Deus para que os olhos do entendimento dos cristãos fossem iluminados para que soubessem:

1. Qual a esperança da vocação divina;

2. Qual a riqueza da glória da herança divina nos santos, e;

3. Qual a suprema grandeza do poder de Deus para com todos.

Sobre o terceiro quesito que Paulo orou a Deus para que os cristãos conhecessem, ele demonstra que Deus manifestou a suprema grandeza do seu poder ressuscitando a Jesus Cristo.

“E qual a sobre excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder, Que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus. Acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro; E sujeitou todas as coisas a seus pés, e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja, Que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos” ( Ef 1:19 -23).

A grandeza do poder de Deus foi manifesto em Cristo. Sobre nós, os que cremos está a operação da força do mesmo poder que atuou sobre Cristo.

O capítulo dois de Efésios é uma continuação precisa dos versículos acima.

Observe:

A sobre excelente grandeza do poder de Deus foi manifesto naqueles que crêem em seu nome “E qual a sobre excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder…”, da mesma forma que a sobre excelente grandeza do poder de Deus foi manifesto em Cristo Jesus, ressuscitando-o dentre os mortos “… que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus…”.

Deste ponto continua o nosso estudo.

Veremos o capitulo dois de Efésios sob o prisma da declaração de Paulo aos cristãos em Roma:

“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego” ( Rm 1:16 )

Ele enfatiza que o evangelho é poder de Deus para os que crêem. Estudaremos a transformação que ocorre naqueles que são agraciados com este poder.

“Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome” ( Jo 1:12 )

 

 

A Condição sob o Pecado

1 E VOS vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados,

Paulo passa a demonstrar aos cristãos que todos foram vivificados por estarem em Cristo Jesus.

A sobre excelente grandeza do poder de Deus vivificou os cristãos “E vos vivificou…”. Antes de demonstrar os elementos pertinentes a operação do poder de Deus Paulo passa a falar da condição anterior a nova vida em Cristo “..estando vós mortos…”.

O que define o homem como morto ou vivo diante de Deus?

É impossível ao homem assumir as duas condições (vivo e morto) ao mesmo tempo diante de Deus. Ou se está morto ou se está vivo.

Quando o homem vem ao mundo, está morto para Deus. Este fato não depende de conduta, tendências, propensão, vontade, etc. Todos quantos nascerem, nascem sob a égide do pecado, sob a égide da ofensa de Adão.

Quando o homem está morto para Deus ele se encontra na condição de vivo para o mundo.

A condição de vivo para o mundo é em decorrência do pecado que herdamos de Adão e o salmista Davi assim diz: “Eis que em iniqüidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe” ( Sl 51:5 ).

Para o homem passar a viver para Deus necessariamente ele precisa morrer para o mundo. Isto só é possível após o homem ter um encontro com a cruz de Cristo. Após o encontro com Cristo, o homem morre para o mundo e passa a viver para Deus.

“Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor” ( Rm 6:11 );

“Nem tampouco apresenteis os vossos membros ao pecado por instrumentos de iniqüidade; mas apresentai-vos a Deus, como vivos dentre mortos, e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça” ( Rm 6:13 );

“Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” ( Cl 3:3 ).

Desta forma devemos nos conscientizar que por estarmos vivos para Deus estamos mortos para o mundo. Aqueles que estão vivos para o mundo, estão mortos para Deus.

No passado, todos estavam mortos em ofensas e pecados, e hoje, os cristãos estão vivos em Cristo.

Há uma tênue diferença entre ofensa e pecado. Esta diferença é facilmente percebida ao lermos o capítulo cinco da carta aos Romanos.

Se observarmos as referências bíblicas, veremos que ofensa geralmente aponta para o pecado decorrente de Adão “E não foi assim o dom como a ofensa, por um só que pecou. Porque o juízo veio de uma só ofensa, na verdade, para condenação, mas o dom gratuito veio de muitas ofensas para justificação” ( Rm 5:16 ).

A ofensa em Adão (um só que pecou) trouxe juízo e condenação sobre toda a humanidade. Já o dom gratuito de Deus veio de muitas ofensas para a justificação.

A ofensa de Adão deixou a humanidade diante de Deus na condição de mortos. Por quê? Por que a determinação divina a Adão foi clara: “Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:17 ).

Na determinação divina vem incluso a lei, o juízo e a condenação: Não comerás – a lei; No dia em que dela comerdes – o juízo foi estabelecido no momento que comeram do fruto proibido; certamente morrerás – a sentença é morte.

Em decorrência desta condenação Jesus declara: “Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” ( Jo 3:18 ). Se aquele que não crê já está condenado é porquê este homem já passou pelo juízo e condenação divino.

A morte pertinente ao velho homem é em decorrência da queda de Adão e resulta da condenação adquirida no Éden.

“Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça” ( Ef 1:7 );

“Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados” ( Cl 1:14 ).

Paulo coloca uma nota explicativa nas frases acima: A redenção pelo sangue é remissão das ofensas e dos pecados!

“Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)” ( Ef 2:5 ).

Geralmente a palavra ofensa vem em conexão com a condição de morto diante de Deus.

A palavra ‘pecado’ acaba por abranger duas perspectivas: a ofensa em Adão e a conduta do homem: “E, quando vós estáveis mortos nos pecados, e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-vos todas as ofensas” ( Cl 2:13 ).

A vivificação em Cristo ocorre quando as ofensas são perdoadas, quando o escrito de dívida que pesa sobre o homem é riscado.

“Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz” ( Cl 2:14 ).

Só é possível a vivificação em Cristo quando se tem um encontro com a cruz de Cristo. É necessário morrer com Cristo para que o homem possa ressurgir uma nova criatura, livre da ofensa e dos pecados.

“Se dissermos que temos comunhão com ele, e andarmos em trevas, mentimos, e não praticamos a verdade. Mas, se andarmos na luz, como ele na luz está, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o pecado” ( 1Jo 1:7 ).

Andar em trevas é o mesmo que não praticar a verdade. A prática da verdade só é possível quando se anda, ou se comporta na luz.

Observe a exposição de João: Quando se diz que possui comunhão com Deus e não pratica a verdade, o homem anda em trevas, ou seja, é mentiroso ( Rm 3:7 ).

‘Mas…’, ou seja, se andar na luz, o mesmo que dizer que tem comunhão com Deus, segue-se que o sangue de Cristo purifica o homem de todo o pecado.

O pecado aqui está no singular. João não faz referência a conduta pecaminosa através da palavra pecado. A conduta pecaminosa é abordada através da expressão “andarmos em trevas”.

Quando se tem comunhão com Deus (se anda na luz), é porque o sangue de Jesus já purificou de todo o pecado (da morte decorrente das nossas ofensas).

Aquele que tem comunhão com Deus anda na luz; quem não tem comunhão, anda em trevas. Este princípio é semelhante ao da árvore: A árvore boa só produz bons frutos e a árvore má só produz frutos segundo a sua espécie: maus.

Se o homem disser que tem comunhão com Deus e anda em trevas, é mentiroso e não faz o que é verdadeiro. Por outro lado, se na luz andar, é o mesmo que dizer que tem comunhão com Deus, fato que leva a estar livre de pecado (nova condição).

Alguém pode pensar que o versículo compõe uma gradação para alcançar a libertação do pecado. Primeiro o homem teria que andar na luz, e; Segundo, ter comunhão com os irmãos, e, somente então, o sangue de Cristo haveria de purificar-lo dos pecados.

A ‘comunhão’ com os irmãos nunca livraria o homem do pecado, antes é a comunhão com Deus, por meio do sangue de Cristo, que torna o homem livre. A comunhão é um dos aspectos da nova vida com Deus, que demonstra efetivamente que o cristão prática a verdade. Para ter comunhão com os irmãos, primeiramente é necessário ter comunhão com Deus ( 1Jo 1:6 -7).

A ofensa de Adão é específica e nenhum outro homem teve ou terá a possibilidade de transgredir a mesma maneira de Adão “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” ( Rm 5:14 ).

Não existe a possibilidade de alguém pecar à semelhança da transgressão de Adão: Adão antes de pecar era santo, justo e bom. Perfeito diante de Deus. A determinação de não comer da árvore do conhecimento só foi feita a Adão, e não aos seus descendentes; o ambiente onde Adão estava era perfeito, etc.

Pecado não envolve questões relativo a conduta. A ofensa refere-se ao pecado (desobediência) de Adão, e por ele todos os homens pecaram. O sangue de Cristo foi derramado para que a humanidade fosse redimida da ofensa herdada de Adão ( Ef 1:7 ).

Desta forma a palavra ‘pecado’ é genérica e abrange tanto as ofensas quanto o pecado de conduta: “Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados” ( Cl 1:14 ).

A remissão dos pecados refere-se a toda transgressão contra Deus. Ou seja, a remissão engloba tanto o pecado em Adão, que subjugou toda a humanidade, quanto às condutas errôneas dos homens que haverão de ser julgadas perante o Grande Trono Branco.

 

Mudou o Calendário para os Cristãos

2 Em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência.

Paulo fala de outro tempo. Percebe-se que ele fala do passado dos cristãos pelo fato de o verbo ‘andar’ estar no passado (andastes).

Por que Paulo fala do passado desta maneira: “…noutro tempo…”? Porque os cristãos vivificados nunca viveram o tempo do pecado. Ou seja, os cristãos vivificados, regenerados, que foram criados segundo Deus em verdadeira justiça e santidade nunca viveram sob a égide do pecado.

Como? Noutro tempo existia o velho homem, escravo do pecado e sem Deus no mundo. Este velho homem ao ter um encontro com Cristo morreu. Foi crucificado com Cristo. Ao ressurgir, é criado por Deus um novo homem.

O novo homem vive num novo tempo: tempo de gozo, paz e amizade com Deus.

Observe que Paulo faz referência ao passado como se tal tempo não fosse o passado dos cristãos “Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no SENHOR; andai como filhos da luz” ( Ef 5:8 ); “Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne…” ( Ef 2:11 ).

Da mesma forma que o nascimento de Cristo mudou a contagem do tempo, o nascimento da nova criatura estabelece um novo tempo de vida e paz no Espírito Santo para os que recebem um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ).

Compare este versículo com o versículo dez.

Os cristãos, quando ainda não eram cristãos, haviam andado segundo o curso deste mundo e segundo o maligno. O curso deste mundo é morte. O príncipe das potestades do ar é o diabo. O espírito que opera nos filhos da desobediência e o engano.

Andar refere-se a conduta. Observe o que Paulo escreveu na carta aos Gálatas: “Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito” ( Gl 5:25 ). Paulo exorta a todos que nasceram de Deus, e que agora vivem em Deus, a também se comportarem como filhos de Deus.

Para se viver em Espírito, necessário é nascer do Espírito, conforme Jesus diz a Nicodemos: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” ( Jo 3:6 ).

O andar em Espírito diz da conduta da nova criatura: “Andemos honestamente, como de dia; não em glutonarias, nem em bebedeiras, nem em desonestidades, nem em dissoluções, nem em contendas e inveja. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não tenhais cuidado da carne em suas concupiscências” ( Rm 13:13 -14).

‘Viver em Espírito’ não é o mesmo que ‘andar em Espírito’. Este não ocorre em consequência daquele. A ordem é dupla: revesti-vos do Senhor e não tenhais cuidado com a carne ( Rm 13:14 ).

Desta maneira podemos verificar que, se o homem viver em Cristo, também precisa andar em Espírito.

O viver em Espírito é o mesmo que ser revestido de Cristo, ou o despojar da carne ( Cl 2:11 ). O andar no Espírito refere-se ao cuidado diário que os cristãos precisam se aplicar para não praticar o que é pertinente à carne. Não é o cuidado que santifica o homem, porém, como o cristão foi santificado por estar em Cristo (nova criatura), esta é a vontade de Deus para a nova condição alcançada em Cristo.

“Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no SENHOR; andai como filhos da luz” ( Ef 5:8 )

Há principados e potestades dos céus e principados e potestades do ar ( Ef 2:2 e Ef 3:10 ). Existem anjos e também existem demônios. Posteriormente aprofundaremos o estudo sobre os seres celestiais.

Os filhos da desobediência são atraídos e engodados pelo engano e este é o espírito que sobre eles opera. Mas, ‘nós’ (os cristãos), os que cremos em Cristo, temos a verdade do evangelho e o Espírito Santo de Deus.

 

3 Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também.

Entre os filhos da desobediência, todos os cristãos, tanto judeus quanto gentios, antes andavam no desejo da carne.

Quando Paulo diz: ‘…todos nós também (…) como os outros também…’, ele esta fazendo referência a judeus e gentios. Está é uma das maneiras que Paulo utiliza para incluir os judeus na mesma condição dos gentios antes de terem um encontro com Cristo.

Os Judeus convertidos também andaram nos desejos da carne e eram também filhos da ira como os demais (gentios).

Paulo fala sobre o desejo da carne. Todos os homens antes de terem um encontro com Cristo andam nos desejos da carne. É possível ao homem desvencilhar-se do desejo da carne sem a cruz de Cristo? Não!

O desejo da carne refere-se à ofensa ocorrida em Adão. Só através do novo nascimento o homem torna-se livre do desejo pertinente à carne.

Qual é o desejo da carne? Paulo ao escrever aos Gálatas demonstrou que o desejo da carne é contrário ao desejo do Espírito de Deus “Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis” Ef 5. 17.

Em que o desejo da carne se opõe ao Espírito? A oposição entre a carne e o Espírito se resume em morte e vida “Porque a inclinação da carne é morte; mas a inclinação do Espírito é vida e paz” ( Rm 8:6 ).

Desta maneira o apóstolo Paulo esclarece o que ocorre quando se está na carne: “Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte” ( Rm 7:5 ).

Quando se está no Espírito a inclinação do novo homem é amizade com Deus (vida), sendo certo que o novo homem produz exclusivamente fruto para Deus ( Rm 7:4 e Rm 8:7 ).

Só é possível andar no desejo da carne quando se está efetivamente na carne. Andar no desejo da carne só é possível àqueles que, por natureza, são filhos da ira, ou seja, é condição pertinente a todos aqueles que não tiveram um encontro com Cristo.

Todos os cristãos antes de terem um encontro com Cristo andavam no desejo da carne. Agora, em Cristo, não mais se anda no desejo da carne.

“… antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos”

“… quando estávamos na carne” é o mesmo que dizer “antes andávamos nos desejos da carne”.

Por estar na carne o homem faz a vontade da carne e dos pensamentos.

Qual a diferença entre desejos da carne, vontade da carne e vontade do pensamento?

 

 

Os desejos da carne

“Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons” ( Mt 7:18 )

Os fariseus faziam boas obras perante os olhos de seus semelhantes, entretanto, por rejeitarem a Cristo, continuavam sob o pecado de Adão e tudo o que produziam era segundo a natureza pecaminosa que possuíam.

Jesus ilustra a condição dos fariseus através da relação fruto – árvore. É pertinente à natureza das árvores boas produzirem frutos bons, e as árvores más produzirem frutos maus.

Por mais que os fariseus procurassem fazer as obras estipuladas na lei, não conseguiam realizar o bem, visto que a natureza deles era má. Eles não haviam nascido de novo, e, por tanto, eram filhos da ira, e tudo o que produziam eram frutos para a morte ( Rm 7:5 ).

Jesus dá o veredicto: “Toda árvore que não dá bom fruto é cortada e lançada no fogo” ( Mt 7:19 ). Não há exceção. Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo.

Quando Jesus falou a Nicodemos, ele demonstrou que para ver o reino dos céus necessariamente o homem precisa nascer de novo, e neste aspecto também não há exceção.

Os fariseus diziam: “Senhor, Senhor…”, mas, nem todos que assim dizem entrarão no reino dos céus, visto que estes não fazem a vontade de Deus.

Os fariseus não entrariam nos céus por não crêem naquele que Deus enviou, pois esta é a vontade do Pai “E a sua palavra não permanece em vós, porque naquele que ele enviou não credes vós” ( Jo 5:38 ); “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

O que determina a qualidade do fruto é a natureza da árvore. Se alguém crê em Cristo, o seu fruto é bom. Como os fariseus não criam em Cristo, eles permaneciam em seus pecados, e por tanto, os seus frutos eram maus “Por isso vos disse que morrereis em vossos pecados, porque se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados” ( Jo 8:24 ).

João Batista disse aos fariseus que lhes era necessário produzirem frutos dignos de arrependimento. Frutos dignos de arrependimentos são boas obras? Não! As obras que os fariseus faziam eram ‘superiores’ as obras do povo, no entanto, eles não produziam frutos dignos de arrependimento “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” ( Mt 5:20 ). Quem pensa que basta dizer que tem por pai Abraão que está salvo, não produz fruto digno de arrependimento ( Mt 3:9 ).

João Batista alerta: “E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo” ( Mt 3:10 ). Todas as árvores que não produzem bom fruto devem ser cortadas e destruídas.

Em contra partida, todos os que têm um encontro com Cristo também morrem para poderem ressurgir. Estes ressurgem e fazem parte da oliveira verdadeira e dão bom fruto “Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” ( Jo 15:5 ).

Os fariseus vieram ao mundo em pecado, e por tanto, andavam no desejo da carne. Eram filhos da ira, filhos da desobediência, filhos de Adão por natureza “Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira” ( Jo 8:44 ), ou se preferir, filhos do diabo.

Os fariseus por não nascerem de novo andavam segundo o curso deste mundo, ou seja, andavam nos desejos da carne “Em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência” ( Ef 2:2 ).

Os fariseus eram árvores não plantadas pelo Pai, como Jesus disse: “Toda planta que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” ( Mt 15:13 ).

 

 

Fazendo a vontade da carne

“E tornarem a despertar, desprendendo-se dos laços do diabo, em que à vontade dele estão presos ( 2Tm 2:26 )

As obras da carne são conhecidas: “Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: adultério, prostituição, impureza, lascívia…” ( Gl 5:19 ).

A humanidade num todo andava segundo o desejo da carne: mortos em delitos e pecados. As obras da humanidade seguia o curso estipulado pela natureza perniciosa “Não há quem faça o bem, não há nem um só” ( Rm 3:12 b).

A pratica pecaminosa é uma constante na vida dos homens, pois fazem a vontade da carne. Fazem a vontade da carne, pois ela não é sujeita a lei de Deus “Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser” ( Rm 8:7 ).

 

Fazendo a vontade do pensamento

Qual era o pensamento dos escribas e fariseus? Eles pensavam que eram filhos de Abraão, e que, portanto, eram filhos de Deus.

E o que João Batista disse? “E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão” ( Mt 3:9 ).

Os homens sempre presumem de si mesmo que é preciso fazer algo para alcançar a salvação. O jovem rico é um exemplo: “Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” ( Mc 10:17 ). O homem sempre presume de si mesmo que para agradar a Deus é necessário fazer ou deixar de fazer alguma coisa. Este é um dos maiores erros do pensamento humano.

Certa feita Jesus foi interpelado sobre o que deveriam fazer para fazer a obra de Deus: “Disseram-lhe, pois: Que faremos para executarmos as obras de Deus?” ( Jo 6:28 ).

Os pensamentos do homem se estruturam na religião, na justiça própria, no conhecimento humano e na consciência.

“Os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os” ( Rm 2:15 )

Paulo ao escrever aos Romanos demonstrou que a obra que deriva da lei sempre esteve presente no coração dos homens. Os gentios, mesmo não tendo a lei de Moisés, sempre praticaram as obras da lei naturalmente.

Por quê? Porque os homens sempre se guiaram por meio de seus pensamentos tendo como parâmetro a consciência.

Desta maneira os homens seguem o que presumem “Há um caminho que ao homem parece direito, mas o fim dele são os caminhos da morte” ( Pv 14:12 ).

A vontade do homem é guiada pelas obras da lei. Muitos não se salvam por meio da crença em Cristo por se guiarem através da consciência e do pensamento. Estes se sentem seguros por estarem pautados na própria consciência (quer acusando ou defendendo), e continuam perdidos em decorrência da concupiscência do engano.

Aqueles que seguem a vontade do pensamento acabam por se sentirem ‘certinhos’ e com direito a salvação. Estes pensam que a salvação se dá por meio de boas obras e procuram respaldo e orientação em suas consciências. Ledo engano! Caem no engano do diabo.

O desejo da carne é que o homem faça a vontade da carne e do pensamento. Já a vontade do Espírito é que façamos a vontade do Espírito.

A luta entre carne e Espírito é para que não façamos a nossa vontade “…para que não façais o que quereis”, antes, devemos fazer a vontade de Deus, que é crer naquele que Ele enviou, e que nos amemos segundo o seu mandamento.

“Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem” ( Rm 7:18 ).

Quando o apóstolo Paulo diz: “… na minha carne, não habita bem algum…”, ele faz referência ao desejo da carne. Não há bem algum na natureza decorrente da queda e condenação de Adão. Através da queda de Adão os homens passaram a ser filho da ira, filho da desobediência, e não há bem algum nesta natureza.

Quando Paulo diz: “…com efeito o querer está em mim…”, ele faz referência a vontade do pensamento, o que é pertinente a todos os homens. Todos os homens querem e procuram fazer o bem, mas se não nascerem de novo é impossível fazerem o bem, visto que a carne não é sujeita a lei e Deus.

Quando Paulo diz que: “…não consigo realizar o bem”, ele faz referência a vontade da carne que decorre do desejo da carne.

O pecado de Adão tornou todos os homens escravos do pecado. Por mais que o homem queira realizar o bem, isto só fica na vontade. Por quê? Porque tudo aquilo que o escravo produz, produz para o seu senhor.

Há outra ilustração desta verdade: a árvore má não pode produzir bons frutos, isto porquê bons frutos não derivam de uma má árvore.

“… e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também”

A natureza de filhos da ira foi transmitida a todos os homens por meio da ofensa de Adão. Não podemos nos esquecer que filhos de Adão, filhos da desobediência e filhos da ira fazem referência a transgressão no Éden.

Faz-se necessário observarmos a estrutura de texto que Paulo construiu.

Paulo ora a Deus para que fosse dado aos cristãos: ‘…em seu conhecimento o espírito de sabedoria e de revelação’;

Segue-se que Deus iluminou os olhos do entendimento dos cristãos, para que:

  • Soubessem qual a esperança da vocação;
  • Quais as riquezas da glória da sua herança, e;
  • Qual a sobre-excelente grandeza do seu poder.

O poder de Deus foi manifesto em Cristo ( Ef 1:20 ), e este mesmo poder vivificou os cristãos ( Ef 2:1 ).

“E nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar no lugares celestiais, em Cristo Jesus; para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça pela benignidade para conosco em Cristo Jesus” ( Ef 2:6 -7).

“… segundo a operação da força do seu poder, que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus. Acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro” ( Ef 1:19 -21).

No capítulo primeiro da carta, Paulo faz referência à operação do poder de Deus sobre aqueles que creram (v. 19). Em seguida Paulo demonstra que o poder de Deus foi manifesto em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos.

É característica própria às cartas de Paulo fazer um adendo contendo aspectos importantes acerca de Cristo.isto.

Na carta aos Efésios Paulo descreve a ação do poder de Deus em estabelecer a glória que Jesus tinha antes de haver mundo ( Ef 1:20 -23; Jo 17:5 ). Na carta aos Colossenses Paulo descreve a pessoa de Cristo, a imagem do Deus invisível ( Cl 1:15 -20).

Em seguida Paulo traz a lembrança dos leitores a condição passada ( Ef 2:1 ). Paulo demonstra que Deus vivificou os cristãos e a condição pecaminosa na qual se encontravam.

Do versículo quatro em diante Paulo passa a descrever o que o poder de Deus fez aos cristãos. Observe que a estrutura de texto que Paulo utiliza para descrever a ação divina na vivificação dos cristãos é semelhante ao que foi realizado em Cristo na ressurreição.

4 Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou,

No capítulo anterior o apóstolo Paulo demonstrou que os cristãos haviam crido segundo a operação da força do poder de Deus e que este mesmo poder foi manifesto ao ressuscitar Jesus dentre os mortos ( Ef 1:19 -23).

Quando Paulo fala do poder de Deus manifesto em Cristo, ele passa a descrever o que aconteceu com Cristo após a ressurreição.

Logo em seguida, Paulo passa a falar da ação de Deus sobre os cristãos: “Ele vos vivificou…”. Mas, antes de falar da vivificação Paulo faz um adendo e fala da condição do homem no pecado ( Ef 2:1 -3).

Agora, no versículo quatro Paulo volta ao tema que teve início no capítulo um, versículo dezenove: vivificou!

Apesar da condição pecaminosa do homem, Deus é riquíssimo em misericórdia. A expressão ‘riquíssimo em misericórdia’ se deve ao grande amor demonstrado aos homens.

5 Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo ( pela graça sois salvos ),

Observe que a morte decorre da ofensa.

O poder de Deus que foi manifesto em Cristo ressuscitando-o dentre os mortos e por meio deste poder os cristãos creram e foram vivificados juntamente com Cristo.

“E qual a sobre-excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder” ( Ef 1:19 ).

6 E nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus;

Os cristãos foram ressuscitados (vivificados) juntamente com Cristo “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos” ( 1Pe 1:3 ).

Cristo ao ressurgir assentou-se a destra de Deus nos céus e nos fez assentar nos lugares celestiais.

Os cristãos foram abençoados com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestiais em Cristo; é o mesmo que estar assentado nos lugares celestiais ( Ef 1:3 ; Ef 1:20 e Ef 2:6 ).

7 Para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça pela sua benignidade para conosco em Cristo Jesus.

O objetivo dos cristãos terem ressurgido com Cristo é específico: “… mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça pela sua benignidade para conosco em Cristo Jesus” ( V. 7).

Cristo assentou-se a destra de Deus acima de todo principado, autoridade, poder, domínio e de todo nome que se nomeia, não só neste século, mas no vindouro.

Jesus, além de receber todo domínio e poder, também demonstrará nos séculos vindouros as abundantes riquezas da graça de Deus.

8 Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus.

Pela graça somos salvos, por meio da fé.

Paulo retorna ao versículo dezenove do capítulo um: os cristãos haviam crido segundo a operação da força do poder de Deus “E qual a sobre-excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do teu poder” ( Ef 1:19 ).

A salvação é por meio da fé segundo a força do poder de Deus. Como? A salvação é por meio da fé segundo a pregação do evangelho:

“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego” ( Rm 1:16 )

E novamente:

“Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus” ( 1Co 1:18 )

Desta maneira conclui-se que: “A fé vem pelo ouvir…” .

A salvação é graça, pois foi dada aos homens por promessa. Deus prometeu salvação poderosa a todos os homens através do descendente de Abraão

“Portanto, é pela fé, para que seja segundo a graça, a fim de que a promessa seja firme a toda a posteridade, não somente à que é da lei, mas também à que é da fé que teve Abraão, o qual é pai de todos nós…” ( Rm 4:16 ; Gl 3:16 ).

Primeiro Deus prometeu a Abraão o descendente e só após ouvir a promessa Abraão creu, sendo a sua fé em Deus imputada como justiça. Foi por graça a promessa. Abraão nada fiz e Deus lhe prometeu o descendente.

A promessa refere-se a graça de Deus dada aos homens por intermédio de Abraão e do descendente, que é Cristo.

“… mas Deus pela promessa a deu gratuitamente a Abraão” ( Gl 3:18 ).

A promessa foi concedida por Deus. A promessa é dom de Deus. Não foi o homem que conquistou a salvação, mas Deus a deu gratuitamente.

9 Não vem das obras, para que ninguém se glorie;

A salvação vem da promessa e não das obras. Caso a salvação fosse concedida por meio daquilo que produzimos, haveria motivo para alguém se posicionar de maneira altiva: “Eu conquistei a minha salvação. Fiz por merecer”.

10 Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas.

Não há como a salvação ser pelas obras. Por quê? Porque somos feituras de Deus.

Observe a grandeza da exposição de Paulo: antes de conhecermos a Cristo todas as nossas obras pertencia por direito ao pecado. Éramos escravos do pecado, e por tanto, tudo o que produzíamos pertencia ao pecado.

Por mais que o homem trabalhe e se esforce em fazer boas obras, elas não poderão salvá-lo, visto que tais obras não lhe pertencem.

Um escravo não adquire bens. Um escravo não ajunta fortuna. Como é possível a um escravo adquirir a própria liberdade se ele não possui recursos? Tudo o que se produz pertence ao seu senhor! O escravo é propriedade de seu senhor.

O trabalhador escravo do pecado só tem um salário estipulado: a morte!

A salvação não vem das obras porque há a necessidade de se nascer de novo. O novo homem é criado em Cristo, e só a partir de então é que se produz a boa obra.

A obra realizada por meio da antiga natureza não é contada como algo necessário para a existência da nova criatura. O salário que o pecador recebe é morte.

A vinda a existência da nova criatura fica na pendência única e exclusiva do poder de Deus. Primeiro há a regeneração e após as obras. Não há como inverter os fatores.

Não é por obras, visto que o novo homem é criado em Cristo; todos os que crêem recebem poder para serem feitos filhos de Deus com o objetivo de produzirmos boas obras.

São poucas as citações do antigo testamento, mas Paulo buscou em Isaias esta última declaração:

“SENHOR, tu nos darás a paz, porque tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras” ( Is 26:12 ).

O profeta vaticinou o recebimento da paz que excede a todo entendimento. Há paz para aqueles que estão em Cristo Jesus, pois estes não necessitam realizar qualquer obra para alcançar a salvação.

Tudo que havia para ser feito foi realizado.

“Em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo…” (v. 2);

“Não vem das obras (…) Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus…” (v. 10)

Por ser feitura de Deus, criado em Cristo, houve ‘um’ outro tempo em que o cristão não era feitura de Deus. Neste tempo a nova criatura (os cristãos) nunca existira.

Os versículos seguintes são conclusivos. Todo arcabouço doutrinário demonstrado nos versículos anteriores é utilizado como base para tocar o pensamento dos leitores.

Com base nos elementos doutrinários Paulo conclui: “Portanto…”

Gentios e Judeus

11 Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne, e chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão feita pela mão dos homens;

O apóstolo reiterou aos seus leitores que eles haviam sido vivificados dentre os mortos.

Até o versículo anterior o apóstolo expõe questões de ordem doutrinária. Deste versículo em diante Paulo utiliza-se das questões doutrinárias para tratar do relacionamento entre gentios e judeus que se tornaram cristãos.

Os cristãos gentios não deveriam esquecer que ‘noutro tempo’ eles eram gentios na carne, ou seja, noutro tempo eles não pertenciam a Deus. Ser gentio na carne refere-se à descendência, a origem do indivíduo quando separado da comunidade de Israel.

Deus estabeleceu uma distinção entre gentio e judeu quando escolheu Abraão e lhe fez promessa. Esta distinção tinha a finalidade de preservar a linhagem que introduziria Cristo ao mundo.

Porém os judeus não entenderam este contexto e se achavam melhores que os outros povos simplesmente por terem o rito da circuncisão. Tinham na circuncisão um elemento de salvação, visto que, através dela, avocavam a filiação de Abraão com direito a promessa.

Por isso os judeus nomeavam os gentios de incircuncisos. Os judeus nomeavam os gentios de ‘incircuncisão’ e se auto-intitulavam de ‘circuncisão’.

Com a classificação feita por Paulo entendemos que os judeus são carnais, visto que eles não aceitaram a Cristo “… pelos que na carne …”.

A circuncisão dos judeus é caracterizada por Paulo de: “… feita pela mão dos homens”, para diferenciar da circuncisão realizada por Cristo ( Cl 2:11 ).

12 Que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo.

Paulo aponta cinco situações diferentes em que se encontravam os gentios:

a) Sem Cristo;

b) Separados da comunidade de Israel;

c) Estranhos às alianças da promessa;

d) Não tendo esperança, e;

e) Sem Deus no mundo.

Neste versículo Paulo refere-se ao ‘outro’ tempo através da afirmação: “naquele tempo”. A qual tempo o apóstolo se refere? A outro tempo, o que é diferente quando se refere ao passado.

Paulo enumera estas cinco situações de maneira peculiar: no tempo em destaque, os cristãos ainda eram incrédulos. As situações enumeradas por Paulo retroagem no tempo: os gentios estavam sem Cristo, condições sanadas quando creram na mensagem do evangelho.

Somado a situação de não terem Cristo, os gentios também estavam à parte da comunidade de Israel como conseqüência de não serem participantes das alianças.

Anterior a tudo isto, os gentios não tinham esperança, visto que a humanidade perdeu o vínculo com Deus em Adão.

13 Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto.

Porém, no tempo presente, o agora, os cristãos estavam em Cristo. O estar em Cristo remete a nova natureza, visto que aqueles que estão em Cristo, são novas criaturas “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ).

“…vós, que antes estáveis longe…” refere-se aos gentios.

O sangue de Cristo aboliu o pecado que fazia a separação entre Deus e os homens, e a lei, que fazia separação entre judeus e gentios. Desta maneira os gentios se achegaram a Deus.

14 Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio,

Cristo é a paz de Deus dada aos homens. Os que receberam a paz de Deus passam a fazer parte do grupo que Paulo intitula como sendo ‘nós’. Jesus é a nossa paz, visto que por meio da igreja ele uniu judeus e gentios em um único corpo ( Ef 3:6 ).

15 Na sua carne desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz,

Na carne de Cristo foi desfeita a inimizade entre os homens e Deus. Sabemos que a lei só pode disciplinar a carne, sem valor algum para o espiritual. Conforme esta verdade, Cristo ofereceu a sua carne na morte, e com ela desfez a lei dos mandamentos.

Todos quantos crêem em Jesus também se desfazem da carne e tornam-se espirituais, pois se conformam com Cristo na as morte ( Cl 2:11 ), e não mais estão sujeitos a lei, pois ela só tem poder sobre aqueles que vivem na carne.

Ao destruir a barreira de inimizade, Cristo criou em si mesmo dos dois povos um novo homem, e estabeleceu a paz.

16 E pela cruz reconciliar ambos com Deus em um corpo, matando com ela as inimizades.

Reconciliar ambos, judeus e gentios, com Deus. É o mesmo que matar na cruz as inimizades. A cruz é o elemento reconciliador dos homens com Deus. Por quê? Porque por meio dela o homem morre para o mundo e é criado um novo homem que vive para Deus.

Quando Paulo aponta as inimizades, ele tem em mente a inimizade entre Deus e os homens pecadores, e a inimizade que existia entre judeus e gentios, visto que o véu do templo rasgou-se de alto a baixo.

17 E, vindo, ele evangelizou a paz, a vós que estáveis longe, e aos que estavam perto;

Paulo demonstra que Jesus não fez acepção de pessoas ao anunciar o evangelho da paz. Ele anunciou aos gentios e aos judeus a paz que excede todo entendimento.

18 Porque por ele ambos temos acesso ao Pai em um mesmo Espírito.

Por que paz? Porque por Jesus, tanto judeu quanto gentio, tem acesso a Deus em um mesmo Espírito. Alguém poderia contestar onde estaria a paz evangelizada, e Paulo aponta a paz no acesso que ambos, judeus e gentios, têm acesso a Deus.

19 Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos, e da família de Deus;

Antes, os gentios eram estrangeiros e forasteiros. Em Cristo os gentios tomaram a posição de cidadãos e pertencentes à família de Deus.

20 Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina;

O apóstolo aponta a solidez no qual os elementos que foram adquiridos em Cristo sustentam a condição anterior. Cristo é a pedra onde podemos construir um edifício a Deus “Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta por cabeça de esquina” ( At 4:11 ); “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pe 2:5 ).

21 No qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor.

Em Cristo, a Principal Pedra de Esquina, está sendo construído um só edifício, e o edifício cresce bem ajustado para habitação de Deus ( Is 57:15 ).

22 No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito.

Paulo aponta para os gentios demonstrando que eles também estavam incluídos no edifício destinado à morada de Deus em Espírito “…vós juntamente sois edificados…” (judeus e gentios).

O elemento ‘comunhão’ é essencial para a construção deste edifício ( Jo 1:7 ).

Ler mais

Efésios 1 – Todas bênçãos espirituais

O próprio Consolador enviado se interpõe como garantia da herança que recebemos. O penhor deve ter valor equivalente à dívida contraída, e nós que estamos em Cristo já recebemos o que é superior a própria herança: o Espírito Santo de Deus! Que garantia! Que segurança! Os cristãos foram selados com o Espírito Santo da promessa, o que é superior a própria herança. Mas, por que fomos selados? A resposta é: Para redenção da possessão adquirida por Deus. Descanse em Cristo!


Introdução

Este comentário à carta de Efésios constitui-se um exercício de leitura e interpretação bíblica.

Este estudo não é focado em questões como: qual a data de escrita desta carta, ou se a palavra ‘aos efésios’ não se encontra nos melhores manuscritos, etc. Tais questões tem a sua importância, porém não influência diretamente na leitura e interpretação da carta.

As divisões que adotamos para o estudo do texto decorre dos principais contexto, nos quais os temas estão inseridos. Por exemplo: quando Paulo nomeia os cristãos de santos e fiéis, destacamos que o contexto é apresentação e identificação dos destinatários da carta.

Se os destinatários da carta residiam em Éfeso, ou não, é um ponto de menor importância. O que propomos aqui é explicar a condição do estar em Cristo e responder questões como: Eles eram santos, ou somente eram tidos por santos? E muitas outras.

Boa leitura!

Apresentação Pessoal

1 Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus, aos santos que estão em Éfeso, e fiéis em Cristo Jesus:

Paulo, o escritor da carta, identifica-se aos seus destinatários e não deixa dúvidas quanto à sua autoria.

Esta carta possui uma característica diferente das outras. Nela o apóstolo Paulo não precisa defender o seu apostolado. Ele simplesmente demonstra que, pela vontade de Deus, tornou-se apóstolo de Cristo.

Geralmente o apóstolo Paulo se apresenta como servo de Cristo em outras cartas, mas nesta ele se apresenta somente como apóstolo ( Fl 1:1 ; Rm 1:1 ).

Cabe salientar que a carta aos efésios é auto-explicativa, principalmente quanto aos elementos apresentados na introdução. Observe:

Sobre o seu apostolado Paulo esclarece que foi feito ministro do evangelho segundo a operação do poder de Deus ( Ef 1:1 compare com Ef 3:7 ). Paulo demonstra que tal poder foi manifesto em Cristo quando Deus o ressuscitou dentre os mortos ( Ef 1:19 -20).

Compare ( Gl 1:1 com Ef 1:1 ):

“Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus…” ( Ef 1:1 );

“Paulo, apóstolo (não da parte dos homens, nem por homem algum, mas por Jesus Cristo, e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos)” ( Gl 1:1 ).

Paulo identifica os destinatários da carta chamando-os de santos e fiéis ‘em’ Cristo, os cristãos que estavam em Éfeso.

Santidade e fidelidade advêm do ‘estar’ em Cristo. ‘Em Cristo’ é a condição de existência da nova criatura, conforme Paulo escreveu aos cristãos em Coríntios: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ).

‘Em Cristo’ os cristãos são santos e fiéis, ou seja, santos e fiéis são as características pertinentes à nova criatura “E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade” ( Ef 4:24 ). ‘Em Cristo’ é um recurso se estilo, onde a idéia completa ‘estar em Cristo’ para ser uma ‘nova criatura’ passa a ser resumida assim:

“…aos santos que estão em Éfeso, e fiéis em Cristo Jesus:” ( Ef 1:1 e 4).

Quando o apóstolo Paulo diz ‘em Cristo’, ele está apontando a nova condição do cristão por serem uma nova criatura. A nova criatura, por ter sido criada seundo Deus em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ), é santa e fiel. ‘Em Cristo’ é um tipo de ‘contração’ linguistica para apontar de modo resumido a condição da nova criatura diante de Deus.

A fidelidade expressa neste versículo não possui relação com a fidelidade descrita em ( Ef 6:21 ). Quanto ao exercício de um ministério ou serviço, o cristão demonstra a sua fidelidade através de esforço próprio, condição pertinente a poucos cristãos. Já a condição de ‘santidade’ e ‘fidelidade’ somente é possível em Cristo, e esta condição é pertinente a todos cristão.

 

Saudações

2 A vós graça, e paz da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo!

Aos cristãos Paulo deseja graça e paz da parte de Deus.

Graça remete ao favor imerecido de Deus. Paz, é aquela que excede a todo entendimento, pela qual os cristãos foram reconciliados com Deus.

Com relação a escrita, verifica-se que em sua apresentação e saudação Paulo utiliza a primeira pessoa do singular do caso reto “Eu”.

Ao passar a louvar a Deus por bênçãos recebidas, Paulo utilizar a primeira pessoa do plural, fato que inclui todos os cristãos como alvos das bênçãos divina “Nós”.

Observe que o prefácio e a saudação possuem um contexto diferente do versículo três em diante. Nos versículo um e dois, temos: a apresentação do remetente da carta, os destinatários da carta e a saudação. Do versículo três em diante, Paulo passa a louvar a Deus por bênçãos recebidas.

 

Louvor e Adoração

3 Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo;

Os versículos três em diante devem ser analisados do ponto de vista de quem faz uma adoração a Deus “Bendito o Deus e Pai…” (v. 3).

Quem adora, adora por aquilo que recebeu das mãos de Deus ou por reconhecer a sua grandeza. Do versículo três até o versículo doze, o contexto é de agradecimento por bênçãos recebidas.

A estrutura do texto da carta é semelhante ao Salmo 103. Da mesma forma que Davi bendiz ao Senhor, Paulo também bendiz. O salmista bendiz ao Senhor pelos benefícios recebidos, e a partir do versículo três passa a enumerar as bênçãos recebidas.

O apóstolo Paulo também bendiz ao Senhor e passa a enumerar as bênçãos recebidas nos versículos quatro a doze.

“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo; Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fossemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor; E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade” ( Ef 1:3 -5).

“Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e tudo o que há em mim bendiga o seu santo nome. Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e não te esqueças de nenhum de seus benefícios. Ele é o que perdoa todas as tuas iniqüidades, que sara todas as tuas enfermidades, que redime a tua vida da perdição; que te coroa de benignidade e de misericórdia” ( Sl 103:1 -4).

O contexto é de adoração, e toda e qualquer declaração de Paulo deve ser analisada com base na adoração.

Sobre a adoração é necessário observarmos que só há duas maneiras pelas quais se adora a Deus.

A primeira maneira é agradecer, fazendo referência aos benefícios recebidos. A segunda maneira é fazendo referência aos atributos de Deus. Não há outras maneiras de adoração além destas duas, ou seja, que o homem possa render adoração ao Senhor.

O salmista Davi utiliza estas duas maneiras de adoração:

“Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e tudo o que há em mim bendiga o seu santo nome. Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e não te esqueças de nenhum de seus benefícios. Ele é o que perdoa todas as tuas iniqüidades, que sara todas as tuas enfermidades, que redime a tua vida da perdição; que te coroa de benignidade e de misericórdia” ( Sl 103:1 -4).

“Bendize, ó minha alma, ao SENHOR! SENHOR Deus meu, tu és magnificentíssimo; estás vestido de glória e de majestade. Ele se cobre de luz como de um vestido, estende os céus como uma cortina. Põe nas águas as vigas das suas câmaras; faz das nuvens o seu carro, anda sobre as asas do vento. Faz dos seus anjos espíritos, dos seus ministros um fogo abrasador” ( Sl 104:1 -4).

O salmo 103 faz referência aos benefícios concedidos por Deus, e o salmo 104 faz referência aos atributos de Deus.

O apóstolo Paulo adota a linha de adoração demonstrada no salmo 103: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo” ( Ef 1:3 ). Adoração ou reconhecimento pelos benefícios recebidos.

Após verificarmos o contexto na qual estão inseridas as declarações de Paulo, analisaremos dois elementos presentes neste versículo:

a) bênçãos espirituais, e;

b) regiões celestiais.

Há um contraste significativo entre o que é espiritual e o que é material. O apóstolo Paulo descreveu as nuances destes dois ambientes aos cristãos em Coríntios.

a) Primeiro se estabelece o que é natural, e depois o que é espiritual ( 1Co 15:46 );

b) Tudo que é concernente a Cristo é espiritual, e tudo o que é concernente a este mundo é material ( 1Co 10:4 );

c) Aqueles que nascem de Deus são espirituais, e passam a ser casas espirituais ( 1Pe 2:5 ).

 

Jesus ao falar a Nicodemos demonstrou que o que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito, é espírito. Analisando ( Jo 3:6 com Jo 1:12 -13), percebe-se que somente após a regeneração o homem passa a ser espiritual.

  • A relação entre benção e graça.

“Um santo, no N.T., não é uma pessoa sem pecado, mas um pecador salvo” Scofield, C. I., Bíblia de Scofield com Referências, nota de roda pé Ef 1. 1.

Em uma mensagem de cunho evangelístico é plenamente aceitável a colocação: ‘Deus salva o pecador’. Isto é fato, Deus veio resgatar o que estava perdido “Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” ( 1Tm 1:15 ).

Agora, em uma mensagem de ensinamento se utiliza a mesma linguagem? Não! Jesus ao falar a Nicodemos apregoa o seguinte: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” ( Jo 3:3 ).

 

Adoração

Observe que a abordagem teológica é diferente da abordagem evangelística: A oferta da salvação é para todos os pecadores, mas só os regenerados (nascidos de novo), o novo homem, são salvos. Por que é preciso fazer esta distinção?

a) Cristo não é ministro do pecado; ser salvo significa que estar livre do pecado em todos os seus aspectos “Pois, se nós, que procuramos ser justificados em Cristo, nós mesmos também somos achados pecadores, é porventura Cristo ministro do pecado? De maneira nenhuma” ( Gl 2:17 );

b) Vale salientar que somente o ‘novo homem’ em Cristo é salvo, e não o ‘velho homem’, pois este deve morrer através da cruz de Cristo. Dependendo da abordagem a respeito da salvação, por um lado Deus resgata o pecador, por outro, só o novo homem é salvo por Deus.

Podemos ilustrar esta verdade desta forma: Se uma embarcação encontra um naufrago em uma ilha deserta, após resgatá-lo, os tripulantes da embarcação continuarão a designar o novo tripulante da embarcação de ‘náufrago’. O ‘naufrago’ passa a fazer parte da tripulação do navio, e mesmo assim, continuará sendo designado como náufrago. O pecador salvo não é mais ‘pecador’, mas continuará sendo designado pecador, porém, agora em Cristo é um dos filhos de Deus.

 

O velho homem não é salvo, mas através do evangelho a graça de Deus o alcança.
Desta maneira Deus salva o pecador!
Morre com Cristo.
O novo homem o novo homem é salvo. Regenerado torna-se santo e justo diante de Deus.
O novo homem não é mais pecador
Ressurge com Cristo

 

Visualizamos aqui dois momentos na existência do homem quando alcançado pela graça de Deus: o antes, pertence ao velho homem, e o depois, ao novo homem, isto quando referimos à natureza herdada em Adão, e à natureza herdada do último Adão, que é Cristo “Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante” ( 1Co 15:45 ).

Jesus mesmo declarou: “Toda planta que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” ( Mt 15:13 ). A planta que o Pai não plantou não será salva, antes será arrancada, ou seja, todos quantos nascerem em Adão, necessariamente precisam morrer para em seguida nascer de novo. Somente aqueles que de novo são nascidos, da semente incorruptível que é a palavra de Deus, permanecerão para sempre.

Para entendermos as questões pertinentes à bênção e graça faz-se necessário divisarmos bem o ‘antes’ e o ‘depois’ do novo nascimento conforme o ensinamento de Cristo a Nicodemos: “…aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” ( Jo 3:3 ).

A graça de Deus é destinada ao velho homem, e as bênçãos de Deus são concedidas ao novo homem. Como? Observe:

a) a graça de Deus manifestou-se a todos os homens “…por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida” ( Rm 5:18 );

b) a graça de Deus é oferta de redenção a todos os homens “Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens” ( Tt 2:11 ), ou seja;

c) a graça de Deus tem como alvo o velho homem “Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” ( 1Tm 2:4 ).

 

O que se manifestou? A graça de Deus, ou seja, Cristo manifesto trouxe salvação a toda humanidade. A graça de Deus revelou-se e trouxe salvação aos homens que habitavam nas regiões das trevas “O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz” ( Is 9:2 ).

Antes de o homem ter um encontro com Cristo por meio da fé, a salvação de Deus é manifesta por graça, favor imerecido de Deus concedido ao homem perdido.

Ou seja, Cristo morreu por causa de nossos pecados e ao crermos nele nos tornamos participantes de sua morte. Cristo ressurgiu para a nossa justificação, ou seja, após ressurgirmos com Cristo, somos declarados justos diante de Deus.

A graça de Deus tem justificado o homem por meio da morte de Cristo, e após a justificação, somos feitos herdeiros.

Conclui-se que, a graça de Deus é destinada à velha criatura, que por estar morta em delitos e pecados, vendida como escravo ao pecado, e que por natureza é filho da ira, necessita de tão precioso resgate gracioso (remissão e redenção).

“Para que, sendo justificados pela sua graça, sejamos feitos herdeiros segundo a esperança da vida eterna” ( Tt 2:11 ).

“Não são porventura todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação?” ( Hb 1:14 ).

 

Por outro lado, as bênçãos de Deus são pertinente ao novo homem. O novo homem surge na Regeneração, onde é criado, segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade. Estes são por natureza filhos de Deus e co-herdeiros com Cristo “Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo” ( Gl 3:26 -27).

O versículo três é a chave para entendermos o capítulo um de Efésios.

Primeiro temos que considerar o contexto: adoração, agradecimento pelas bênçãos concedidas.

Não podemos esquecer que a carta foi escrita aos cristãos, e que, portanto, Paulo não se ocupa em pregar ou explicar o evangelho novamente. A carta se ocupa em apresentar aspectos e pontos específicos do evangelho.

Ao escrever este capítulo, Paulo não se ocupa em descrever as questões pertinentes a graça de Deus que se destina ao velho homem. Antes ele se ocupa de questões pertinentes ao novo homem, e por isso, Paulo se ocupa em agradecer e falar das bênçãos de Deus.

Paulo não se mantém isolado dos destinatários ao falar das bênçãos recebidas. Ele se inclui entre aqueles que foram abençoados, o que demonstra duas coisas:

a) Ele estava falando de questões pertinentes ao novo homem, e;

b) da nova condição daqueles que estão em Cristo.

Paulo está falando do que é pertinente ao novo homem por ele bendizer a Deus por bênçãos já recebidas. Principalmente por ele enfatizar que todos estavam em Cristo. ‘Estar em’ Cristo remete a condição necessária para ser uma nova criatura.

No capítulo dois, versículo seis, Paulo volta a falar da condição alcançada após a ressurreição com Cristo.

 

Bendizendo pelas Bênçãos Recebidas

Eleição

4 Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fossemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor;

Paulo passa a bendizer a Deus pelas benção, que o faz descrevê-las.

(nos abençoou com todas as bênçãos espirituais) Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fossemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor;

a) Como também: a ação de abençoar através da eleição é exclusivamente de Deus. Foi Deus quem abençoou os cristãos com todas as bênçãos espirituais, e dentre elas temos a eleição.

b) nos elegeu nele:

a) Considerando que Paulo estava escrevendo sobre as bênçãos recebidas;

b) Considerando que Paulo estava adorando a Deus pelo que já tinha recebido;

c) Considerando que Paulo estava escrevendo sobre aspectos pertinentes a todos cristãos (nós);

d) Considerando que méritos e qualidades são pertinentes a pessoa de Cristo;

e) Considerando que a estrutura de texto é semelhante ao Salmo 103, e;

f) Considerando que a carta foi escrita a cristãos.

Conclui-se que Paulo escreveu sobre o que é pertinente ao novo homem, sobre aqueles que já estavam em Cristo (nele = em + Cristo).

Quando o apóstolo Paulo diz que Deus nos elegeu, ele utiliza o verbo no pretérito perfeito, o que indica algo concluído, ou que os cristãos estão de posse da bênção. Isto demonstra que os cristão estão de posse da nova condição: eleitos, ou seja, os cristãos já usufruem da condição para qual foram eleitos: santos e irrepreensíveis.

Paulo não quis demonstrar um processo de escolha, onde alguns são escolhidos e outros não. Paulo queria enfatizar as garantias decorrentes do evangelho. Para demonstrar as garantias decorrentes do evangelho, ele demonstra que os cristãos são os eleitos de Deus (santos e fiéis). Aqueles que nascem da vontade de Deus, já nascem santos e irrepreensíveis, ou seja, de posse da bênção divina.

Se Paulo estivesse fazendo referência neste versículo a uma possível escolha dentre aqueles que ainda estão vendidos ao pecado (velho homem), ele faria referência a graça de Deus, que foi direcionada a todos os homens “Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)” ( Ef 2:5 ).

Mas não, ele fala de bênçãos recebidas, o que é pertinente àqueles que estão em Cristo, e que, portanto, já são regenerados e são filhos de Deus.

É pela graça que o pecador alcança a salvação, e não por meio das bênçãos concedidas “Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça…” ( Ef 1:7 ).

A graça é para a salvação, mas a eleição não é para a salvação; a eleição é para aqueles que se encontram em Cristo (nos elegeu em + ele = em Cristo).

Antes da fundação do mundo: Paulo apresenta a data em que se deu a eleição: antes que o mundo fosse fundado. Esta declaração do apóstolo Paulo não pode ser interpretada extensivamente. Observe que em momento algum ele fala da onisciência de Deus. Não é porque a eleição foi realizada antes da fundação do mundo que podemos arrematar que a eleição decorre da onisciência de Deus, ou da ideia equivocada de presciência que há na teologia. Os atributos de Deus não podem ser considerados isoladamente, mas a informação que Paulo nos deixou nesta parte do versículo restringe-se ao tempo em que Deus realizou a eleição.

Para que fossemos santos e irrepreensíveis diante dele: A eleição foi realizada com um objetivo pré-definido: a santidade e irrepreensibilidade dos cristãos! Ou seja, a escolha de Deus repousa sobre o Cristo e a Sua descendência, o que confere aos cristãos semelhança com o Filho de Deus, pois recebemos em Cristo plenitude de Deus ( Cl 2: 9 -10). Santidade e irrepreensibilidade são características pertinentes à nova criatura, conforme o que atesta o apóstolo Paulo: “E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade” ( Ef 4:24 ). O velho homem não pode ser eleito para ser ‘santo e irrepreensível’ pelos seguintes motivos:

  • Somente a graça de Deus através da mensagem do evangelho destina-se aos homens sem Cristo. A luz de Deus enviada ao mundo tem o objetivo de alcançar aqueles que ‘habitavam as regiões das trevas’;
  • Não há como ser santo e irrepreensível sem antes ter um encontro com Cristo. Todos os homens necessitam nascer de novo, e isto somente é possível após morrer com Cristo.
  • O velho homem é culpável, nasceu sob a égide do pecado, é inimigo de Deus, planta que o Pai não plantou, vaso destinado a ira, filho da desobediência, filho da ira. Como este homem pode ser escolhido para ser santo e irrepreensível? A bíblia demonstra que este homem e a sua natureza devem morrer e ser sepultado, para que nova criatura possa ressurgir dentre os mortos.
  • O velho homem é nascido da vontade da carne, da vontade do varão e do sangue, ou seja, é nascido de semente corruptível, é árvore não plantada por Deus, e a árvore não plantada por Deus precisa ser arrancada.
  • Santidade e irrepreensibilidade é condição do novo homem criado em Cristo, o que demonstra que o homem, enquanto pecador, não é escolhido para a santidade. Somente após aceitar a graça de Deus por meio do evangelho, ser gerado de novo da semente incorruptível, ser uma planta plantada pelo Pai, ele assume a posição de eleito em Cristo. Somente após a regeneração é que o homem alcança a bênção de ser santo e irrepreensível.

A bênção de Deus destina-se aos cristãos (nova criatura) que foram gerados em Cristo. Estes são de novo gerados da semente incorruptível, que é a palavra de Deus, por crerem no evangelho, que é poder de Deus, receberam poder para serem feitos filhos de Deus. São vasos para honra. São plantas nascidas da semente incorruptível e plantados por Deus.

Deus não escolhe para a salvação, antes, os que aceitam a graça de Deus que se revela no evangelho são eleitos para serem santos e irrepreensíveis. A eleição dos que agora são cristãos, segundo Paulo, foi realizada em Cristo ( Is 42:1 ), e todos aqueles que estão em Cristo recebem a condição de eleitos: santos!, ou seja, foram eleitos para serem santos, e não eleitos para serem salvos.


Ressurgir com Cristo dentre os mortos (mortos em delitos e pecados) uma nova criatura com a condição de filho de Deus é bênção, pois somente os filhos são participante da natureza divina “Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo” ( 2Pe 1:4 )!

Somente após escapar da corrupção que há no mundo (condenação em Adão) pelo seu glorioso convite e amor demonstrado em Cristo, é que Deus concede ao homem tudo o que diz respeito à vida e piedade (todas as bênção espirituais), nos tornando participantes da natureza divina (filiação, santidade e irrepreensibilidade).

Este é o motivo de Paulo estar louvando a Deus: Ele e os destinatários da carta haviam recebido todas as bênçãos espirituais, e alcançaram uma nova condição: a de serem santos e irrepreensíveis.

Estamos falando de dois momentos na vida do homem que teve um encontro com Cristo: o velho e o novo homem.

Como vimos até agora, há o velho e o novo homem; há a velha e a nova natureza; só é possível ver o reino de Deus após nascer de novo, e; que o novo homem é criado segundo Deus.

Resta analisarmos também os termos: eleição e eleitos.

A palavra eleição nos remete aos seguintes aspectos:

  • A palavra escolha ou eleição aponta um processo para algum fim;
  • Está é a idéia presente neste termo: alguém só é escolhido para um objetivo pré-definido.

Se retirarmos qualquer elemento pertinente ao processo de escolha, não existe escolha. Observe:

  • se não houver um objetivo pré-definido a executar não existe escolha;
  • se não houver alguém a ser escolhido, não haverá escolha;
  • se não houver um critério para a escolha, não haverá escolha, e;
  • se houver a escolha surgirá o antes e o depois da escolha.

 

Já a palavra eleito nos remete ao seguinte aspecto:

Eleito é a condição (posição, cargo) que alguém adquire após o processo de eleição.

Antes da eleição não há pessoas na posição de eleitas, só há candidatos. Após a eleição haverá os eleitos.

Quando se faz referência a condição de eleito, está se evidenciando aspectos como: exercício da posição alcançada e conciência das garantias que envolve a condição.

Quando Paulo escreveu que Deus nos elegeu, ele quer demonstrar que em Cristo estamos na condição de eleitos, e que já estamos gozando da irrepreensibilidade e da santidade. Já estamos de posse da bênção, e por isso mesmo ele bendiz a Deus que nós abençoou.

Por Paulo estar louvando a Deus pelas bênçãos recebidas, isto demonstra que ele quer evidenciar os aspectos que envolvem o conjunto daqueles que foram eleitos, ou seja, os eleitos. A existência dos eleitos (aqueles que creram em Cristo e foram recebidos por filhos) é o que motivou Paulo a bendizer a Deus “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo…” ( Ef 1:3 ).

Ao procurar demonstrar que Deus elegeu alguns para serem salvos estaremos preso as seguintes questões: Por que eu sou escolhido e fulano não?; Quais as garantias de que eu sou um eleito? Qual o critério que Deus utilizou para escolher? Qual o objetivo de Deus escolher só alguns, e o restante não?

Analisando os atributos de Deus surgem mais estes questionamentos: Qual o critério utilizado para que Deus para escolher alguns que devem ser santos e irrepreensíveis se ele ama a todos? O que faz diferente os pecadores diante de Deus, se para Ele não há acepção de pessoas? “Porque, para com Deus, não há acepção de pessoas” ( Rm 2:11 ).

A bíblia nos informa que Deus ama a humanidade como um todo “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” ( Jo 3:16 ).

Como conciliar os dois versículos acima com a idéia que Deus escolhe dentre os perdidos as pessoas que serão salvas?

Observe que é diferente afirmar que Deus elegeu ‘algumas pessoas para serem salvas’, do que Paulo escreveu: Deus nos elegeu ‘para sermos santos e irrepreensíveis’, e não para sermos salvos. É pela graça que o homem é salvo, e não pela eleição.

A afirmação do apóstolo de que os cristãos foram eleitos refere-se especificamente a condição que eles alcançaram após a Regeneração: foram criados segundo Deus em verdadeira justiça e santidade.

A visão dos Reformadores é que Deus escolhe dentre a humanidade perdida (escolha entre ‘a’ e ‘b’), pessoas para serem salvas, o que contraria a idéia presente na graça de Deus: “Pois é pela graça que sois salvos, por meio da fé”, e não por eleição. A Eleição é para ser santo e irrepreensível, condição que é pertinente àqueles que já estão diante de Deus.

E como se deu a eleição dos salvos? “Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” ( 2Tm 1:9 ).

Cristo é o eleito de Deus segundo o seu propósito eterno de fazer convergir n’Ele todas as coisas.

  • O propósito eterno de Deus;
  • O Filho é escolhido, e;
  • O Filho possui os méritos: O santo de Deus ( Is 42:1 ).

Os cristãos não existiam quando ocorreu a eleição, mas ao nascerem de Deus, passaram a eleitos. Foram criados em verdadeira justiça e santidade (salvação) e acolhidos como filhos.

“Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” ( 2Tm 1:9 ).

“…nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fossemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor” ( Ef 1:4 ).

Ao escrever a Timóteo, o apóstolo Paulo demonstra que primeiramente Deus nos salvou por sua maravilhosa graça. A salvação é por meio do evangelho, que é poder de Deus, e não por meio da eleição, que é para filiação ( 2Tm 1:8 ). Somente após a salvação ocorre a eleição. A condição de santos e irrepreensíveis é pertinente aos salvos.

Ao falar que Deus nos salvou, é o mesmo que dizer: estamos salvos, da mesma maneira ao falar ‘nos elegeu, significa que somos eleitos, ou seja, que estamos de posse das bênçãos concedidas. Bendito seja Deus!

Isto demonstra que ao escrever aos cristãos em Éfeso Paulo procurou enfatizar a condição de eleitos de Deus, na qual eles passaram a ser santos e irrepreensíveis. Por isso ele inicia o tópico adorando a Deus pelas bênçãos recebidas.

Paulo demonstra que antes mesmo de existirmos, Deus já havia providenciado por meio de Cristo bênçãos espirituais, e que agora eles estavam de posse destas bênçãos.

Deus não faz acepção de pessoas, o que demonstra que todos aqueles que são recebidos por filhos passam a ter as mesmas condições que o Filho amado. Também são eleitos.

Por fim, verifica-se que os salvos é que são eleitos. Não há como os perdidos serem eleitos. Só os salvos é que são santos e irrepreensíveis diante de Deus.

Observe as análises:

  • Quem são os eleitos? Paulo responde: nós! Como Paulo fala de algo que ocorreu no passado (elegeu), segue-se que hoje os cristãos estão na condição de eleitos: são santos e irrepreensíveis, pois para isso foram eleitos. Quando Paulo fala que ‘nos elegeu’, ele demonstra que os cristãos (os salvos, aqueles que nasceram de novo), é que são os eleitos, e não aquele que ainda se encontra no pecado. Temos definido aqui quem foi eleito: os cristãos por estarem em Cristo;
  • Qual o objetivo pelo qual Deus ‘nos elegeu’? Paulo responde: para que fossemos santos e irrepreensíveis. Os perdidos não foram escolhidos para este mister, mas os cristãos é que foram eleitos para serem santos e irrepreensíveis diante de Deus (nos elegeu! ‘Nos’ quem? …nós, os que primeiro esperamos em Cristo). Aqueles que não esperam em Cristo não são os eleitos de Deus “…nós os que primeiro esperamos em Cristo” (v. 12);
  • Qual o critério da escolha dos que estão em Cristo? A pessoa de Cristo. Os cristãos foram escolhidos com base em Cristo. Cristo é o eleito de Deus antes mesmo da fundação do mundo “Eis aqui o meu servo, a quem sustenho, o meu eleito, em quem se apraz a minha alma; pus o meu espírito sobre ele; ele trará justiça aos gentios” ( Is 42:1 ). Cristo é o santo de Deus; Ele é o justo. O cristão, por ser participante de Cristo, passa a ser santo e irrepreensível diante de Deus. Cristo é a base da nossa eleição, e por ele ser a base, não havia a necessidade de existirmos, mas a escolha já estava definida: todos os que nascerem de Deus passam a ser santos e irrepreensíveis. O cristão nem mesmo existia quando se definiu quem haveria de receber a condição de eleito, e agora, após serem conhecidos por Deus os ‘novos homens’ passam a ser santos e irrepreensíveis;
  • Antes da fundação do mundo já estava definida a eleição; não há mérito por parte dos eleitos, visto que nem mesmo existiam. Com relação a quando ocorreu a eleição só a pessoa de Cristo participou, os méritos estavam nele; após nascermos de Deus, nós nos tornamos participantes das bênçãos restritas aos filhos de Deus: somos santos e irrepreensíveis.

 

O apóstolo Paulo, em momento algum aponta uma escolha entre os perdidos para a salvação. Antes ele aponta que os cristãos são escolhidos para a condição de santos e justos diante de Deus.

Se Deus nos elegeu no passado em Cristo, hoje somos eleitos, estamos de posse das prerrogativas para qual fomos eleitos.

Basta nascer de novo por meio de Cristo que o homem estará na condição de eleito de Deus.

Sobre o propósito eterno de Deus ao escolher a Cristo, veremos nos próximos versículos.

 

Predestinação

5 E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade,

Os parâmetros de interpretação utilizados no versículos anteriores são totalmente válidos neste versículo:

“E nos elegeu nele (…) para que fossemos santos e irrepreensíveis…”

“E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo…”

Observe:

  • O contexto demonstra que Paulo estava adorando a Deus por bênçãos recebidas;
  • A carta foi remetida a cristãos, ou seja, pessoas que conheciam e professavam o evangelho;
  • Os dois versículos utilizam o verbo no pretérito perfeito;
  • Os dois versículos demonstram que eles haviam adquiridos as bênçãos em Cristo.

Mas, para que o entendimento do texto seja pleno, utilizaremos uma outra abordagem para melhor elucidar o texto, sendo que ela também poderá ser aplicada ao versículo anterior.

O apóstolo aponta neste verso uma outra bênção adquirida por aqueles que estão em Cristo: a predestinação.

Paulo continua demonstrando que ele e os cristãos de Éfeso eram alvos das bênçãos de Deus. Se houver dúvidas sobre quem são os predestinados, basta perguntar: Quem são os predestinados? E Paulo arremata: nós! Nós quem? Paulo e os santos que estavam em Éfeso.

Segue-se que a predestinação é bênção da parte de Deus para aqueles que foram Regenerados ou por estarem em Cristo.

Mas, como ter certeza de que a predestinação não é direcionada aos perdidos? Como ter certeza que a predestinação é exclusiva daqueles que estão em Cristo?

  1. Devemos observar atentamente a relação que Paulo estabelece entre a primeira pessoa do plural do caso reto “nós” e a segunda pessoa do plural do caso reto “vós”;
  2. Não podemos nos esquecer que Paulo era um Judeu que se tornou cristão, e os cristãos de Éfeso eram gentios que se converteram ao evangelho; JUDEUS E GENTIOS são povos distintos, mas em Cristo são um (passaram pelo novo nascimento), o que explica também porque Paulo ao se referir à sua condição anterior, não se une aos efésios na narrativa.
  3. De posse destas duas informações iniciais, verifica-se que Paulo ao falar das bênçãos divinas concedidas aos cristãos, ele se inclui na narrativa “E nos elegeu (…) E nos predestinou…” ( Ef 1:4 e 5). Mas, ao falar da condição dos cristãos gentios quando eles ainda estavam no pecado, Paulo utiliza o “vós”: “Ele vos vivificou, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados…” ( Ef 2:1 ).
  4. Observe o que Paulo escreveu aos Gálatas: “Nós somos judeus por natureza, e não pecadores dentre os gentios” ( Gl 2:15 ). Paulo evidência uma diferença sutil entre ser pecador dentre os gentios e pecador dentre os judeus para expor uma verdade crucial do evangelho: Nós os Judeus não somos justificados pelas obras da lei.
  5. Na carta aos Efésios esta diferença é ainda mais sutil, mas contrasta com o resultado após o encontro com Cristo: A paz entre ambos os povos! Por isso, ao falar dos cristãos gentios quando no pecado, Paulo utiliza o vós; ao fazer referência a TODOS os filhos da desobediência, Paulo se inclui, demonstrando que no passado, sem Cristo, tanto Judeus quanto gentios eram filhos da ira “Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também” ( Ef 2:3 ).
  6. Ao falar da salvação, Paulo em nenhum momento faz referência à eleição e predestinação, mas sim ao amor e graça de Deus. Todos eram filhos da ira (judeus e gentios), mas o amor de Deus alcançou a todos através de sua maravilhosa graça.

 

Toda a análise demonstra que Deus predestinou os salvos, aqueles que eram cristãos e que Paulo se incluiu na narrativa: “E nos predestinou…”, ou seja, nós, os cristãos, somos predestinados por Deus para sermos filhos por adoção.

Haveria como os perdidos serem filhos de Deus por meio da predestinação? Não! Se não houver a regeneração por meio da graça do evangelho, homem algum será recebido por filho de Deus. O homem só é recebido por filho de Deus quando encontra-se em Cristo.

Estar em Cristo é a condição necessária para ser predestinado a filho por adoção.

Mas, o que é ser predestinado? Qual a idéia que a palavra ‘predestinado’ introduz?

Predestinar significa determinar previamente ou antecipadamente e decorre do sentido da palavra grega prooriso.

A idéia secular a respeito da predestinação aponta para destino, carma, sem opção de futuro, etc. Para o entendimento natural, todas as pessoas possuem um destino pré-definido.

Porém a bíblia demonstra que só os que estão em Cristo é que são predestinados. O restante da humanidade, diante do que expõe a bíblia, não nascem predestinados.

Todos os homens ao nascerem, nascem na condição de filhos da ira, mas em momento algum a bíblia os designa como sendo predestinados a perdição. Por que? Porque a todos os homens é dada a opção de decidirem-se pela graça de Deus. Ninguém nasce predestinado à perdição. Todos possuem uma opção: a graça de Deus!

Agora, por que Paulo diz que os cristãos foram predestinados por Deus? Porque para aqueles que estão em Cristo não existe opção de escolha quanto ao que serão: todos serão filhos por adoção, sem exceção. Como? Em momento algum Paulo diz que Deus predestinou alguém à salvação. Paulo diz que Deus predestinou os cristãos a serem filhos por adoção.

Se Deus houvesse predestinado alguém à salvação, seria o mesmo que dizer que ele predestinou o restante da humanidade à perdição, o que não é verdade. Mas é fato: Aqueles que aceitarem a graça de Deus oferecida por meio do evangelho, serão filhos de Deus, sem exceção.

Alguns alegam que a eleição é um ato de escolha e que a predestinação diz respeito ao fim para essa escolha. Mas o texto não diz isto. Paulo diz que o fim para eleição é a santidade e irrepreensibilidade. da mesma forma a predestinação tem um objetivo bem claro: a filiação divina, e não a salvação.

A eleição e a predestinação devem ser vistas como bênçãos garantidas por Deus. Paulo procurou evidenciar a segurança da salvação em Cristo por meio de termos que demonstrassem a posse das bênçãos espirituais.

“E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade”

Predestinados por Deus para serem filhos por adoção em Cristo. Tanto judeus quanto gentios eram filhos da ira, e por meio da graça do evangelho, são recebidos por filhos.

Observe que Deus, segundo a sua vontade quer filhos para si. Paulo demonstra que a vontade de Deus não é outra, senão que, por meio de Cristo, sejamos seus filhos.

 

Louvor e Glória

6 Para louvor e glória da sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado,

Paulo demonstrou que Deus nos elegeu para sermos santos e irrepreensíveis e nos predestinou para filhos por adoção, segundo a sua vontade. Este versículo aponta o motivo pelo qual Deus abençoou os cristãos com as bênçãos da eleição e predestinação.

Por que Deus elegeu? Por que Deus predestinou? Para louvor e glória da sua graça!

Sobre o que este versículo trata? Sobre a salvação de Deus “Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens” ( Tt 2:11 ).

Não foi a eleição e a predestinação que nos fez agradáveis a Deus, e sim a sua graça.

A graça de Deus que se manifestou por meio do evangelho foi direcionada aos pecadores e os fez agradáveis a Deus, tornando-nos agradáveis a si, Deus nos abençoa com eleição e predestinação. Se a graça de Deus é que nos fez agradáveis (que nos salvou), não há como afirmar que a salvação depende da eleição e da predestinação.

Em Cristo, Deus nos fez seus filhos por meio do evangelho, e a predestinação e eleição são referências à garantia divina.

A salvação foi realizada por meio de Cristo (Amado), conduzindo muitos filhos a Deus (para si mesmo).

Conclui-se que a salvação é por meio da graça, e não o resultado de uma escolha. Deus trouxe salvação a todos os homens de maneira graciosa, sem qualquer referência a uma ‘predestinação’ de alguns ‘privilegiados’ à salvação.

 

7 Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça,

Paulo retroage quanto à exposição das verdades contidas no evangelho: Primeiro ele bendiz a Deus pelas bênçãos recebidas para depois falar da graça recebida por meio do evangelho.

A ordem correta é:

  1. A riqueza da graça por meio do evangelho (salvação) (v. 7);
  2. A redenção pelo sangue (v. 7);
  3. Ser feito agradável a Deus em Cristo (Regeneração) (v. 6);
  4. Adquirir a filiação por adoção (Predestinação) (v. 5);
  5. Ser santo e irrepreensível perante Deus (Eleição) (v. 4).

Em Cristo o cristão teve a redenção por meio do seu sangue. É difícil aparecer nas cartas de Paulo frases que expliquem a idéia presente na frase anterior de forma direta. Este versículo foge à regra. A redenção por meio do sangue de Cristo é o mesmo que remissão das ofensas “…no qual temos a redenção, a remissão dos pecados” ( Cl 1:14 ). Comprados e libertos por Cristo.

Todas as bênçãos recebidas é por meio, ou segundo as riquezas da graça de Deus.

Como a redenção e a remissão é segundo as riquezas da graça de Deus ( Ef 1:7 ), a eleição e a predestinação também o é: “… para louvor e glória da sua graça, a qual nos deu gratuitamente no Amado” ( Ef 1:6 ).

A Eleição, a Predestinação, a Redenção e a Remissão são bênçãos de Deus dadas gratuitamente segundo as riquezas da graça de Deus. Elas são dadas, ou seja, concedidas a todos quantos crêem. Não é uma escolha.

 

8 Que ele fez abundar para conosco em toda a sabedoria e prudência;

A graça de Deus abundou por meio de Cristo, ou seja, tal graça foi derramada profundamente sobre os cristãos em sabedoria e prudência. Como em sabedoria e prudência (entendimento)?

 

9 Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo,

Além da riqueza da salvação, concedida gratuitamente, Deus revelou o mistério da sua vontade, o que nos concede sabedoria e entendimento das coisas celestiais.

A riqueza da salvação faz parte do propósito eterno de Deus, e após nos inteirarmos do propósito divino revelado em sabedoria e entendimento, verifica-se que a salvação não é um fim em si mesmo.

Há no propósito eterno de Deus (que propusera em si mesmo) um objetivo maior do que simplesmente salvar. Ou seja, Deus salva o homem para levá-lo a cumprir um propósito revelado, o que torna este propósito plenamente compreensível pelo homem.

Beneplácito é consentimento, ou seja, aprovação! “E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade (…) Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo” ( Ef 1:5 e 9).

Se é segundo o que Deus aprovou (consentiu), está demonstrada a garantia de Deus quanto aquilo que ele nos revelou. Deus aprovou e consentiu fazer todas as coisas em Cristo.

 

10 De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra;

Deus nos ‘fez’ agradáveis por meio de Cristo com o objetivo maior de reunir em Cristo todas as coisas. Deus reunirá em Cristo todas as coisas, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra ( Ef 3:9 ).

‘nos fez herança’ ou ‘nos fez agradáveis’ refere-se a nova criação, onde Deus concede poder àqueles que crêem para serem feitos (criados) filhos de Deus.

 

11 Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade;

Em Cristo fomos feitos herança! E Paulo demonstra de que maneira os cristãos foram feitos herança: por meio da Predestinação. Os cristãos foram predestinados conforme o propósito de Deus e segundo a vontade de Deus feitos herança. Como?

Além dos filhos de Deus terem direito à herança, também fomos feitos herança, fomos feitos propriedade de Deus conforme esclarece o versículo quatorze “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” ( 1Pe 2:9 ); Fostes comprados por bom preço; não vos façais servos dos homens” ( 1Co 7:23 ).

O salmista diz que os filhos são herança do Senhor que o homem recebe, porém, ao gerar em Cristo filhos para si, Deus nos constituí ‘herança’ para si “Eis que os filhos são herança do SENHOR, e o fruto do ventre o seu galardão” ( Sl 127:3 ).

 

12 Com o fim de sermos para louvor da sua glória, nós os que primeiro esperamos em Cristo;

Qual a diferença entre o versículo seis e doze?

“Para louvor e glória da sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado” (v. 6);

“Com o fim de sermos para louvor da sua glória, nós os que primeiro esperamos em Cristo” (v. 12).

O versículo seis mostra que as bênçãos que acompanham a salvação em Cristo constituem-se de per si louvor e gloria à graça de Deus.

Já o versículo doze demonstra que Deus levou a efeito a sua vontade com o objetivo de sermos para louvor da sua glória.

Observe que o louvor difere da adoração. Paulo adora, ou bendiz ao Senhor pelas bênçãos recebidas, porém estas mesma bênçãos constituem-se em louvor à graça e glória de Deus. Este é Deus quem promove, e aquele refere-se ao reconhecimento do homem. Adoração e louvor diferem quanto à essência.

A obra de Deus (que faz do pecador homens criados em verdadeira justiça e santidade), é que enaltece (verdadeiro louvor) a glória do Senhor! Mas, o ato misericordioso de arrancar o pecador das garras do pecado, concedendo-lhe bênçãos espirituais, promove louvor à sua tão maravilhosa graça proposta no evangelho.

Sobre quem o apóstolo estava falando? Incrédulos ou crentes? A resposta é clara: nós os que primeiro esperamos em Cristo! Só aquele que espera na graça revelada em Cristo serve de louvor à glória e graça de Deus. O descrente não serve a este propósito.


Há uma mudança de contexto do versículo treze em diante.

O apóstolo Paulo passa da adoração a Deus à conscientização dos cristãos.

Observe o recurso utilizado por ele para continuar a carta quando muda de contexto.

Até o versículo doze Paulo utiliza a primeira pessoa do plural (nós) demonstrando a unidade dos cristãos; ao passar a conscientização, Paulo utiliza a segunda pessoa do plural (vós).

Paulo tinha convicção do que ele havia recebido em Cristo (salvação e bênçãos), e queria que os cristãos de Éfeso também possuíssem esta certeza. Daí o fato de ele utilizar a segunda pessoa do plural na narrativa.

 

Conscientização sobre a Nova Condição

13 Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa.

“Nele, digo, em quem também fomos feitos herança…” (v. 11); Primeira pessoa do plural.

“Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade…” (v. 13). Segunda pessoa do plural.

Paulo passa a conscientizar os cristãos sobre a nova condição adquirida por meio de Cristo.

O que ocorre é simples: após ouvir a palavra do evangelho, e crer em Cristo, a palavra da verdade torna-se o evangelho da salvação. Todos que ouvem e crêem são salvos em Cristo.

Paulo dá veracidade às suas argumentações: fostes selados, ou seja, tudo que ocorre com os Cristãos é autentico, conforme o Espírito Santo prometido atesta “O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” ( Rm 8:16 ).

 

14 O qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória.

Penhor: garantia, segurança, ou a coisa que constitui essa garantia. Penhor fala de direito real sobre algo vinculado a uma dívida, surgindo como garantia do pagamento de tal dívida.

O Espírito Santo é garantia da nossa herança, ou seja, Ele é garantia, Ele se constitui a nossa garantia do direito real que possuímos ao sermos recebidos por filhos.

“…fostes selados com o Espírito Santo da promessa. O qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida…” (v. 13- 14).

O próprio Consolador enviado se interpõe como garantia da herança que recebemos. O penhor deve ter valor equivalente à dívida contraída, e nós que estamos em Cristo já recebemos o que é superior a própria herança: o Espírito Santo de Deus! Que garantia! Que segurança!

Os cristãos foram selados com o Espírito Santo da promessa, o que é superior a própria herança. Mas, por que fomos selados? A resposta é: Para redenção da possessão adquirida por Deus.

Aqui, redenção significa libertação futura! Os cristãos foram selados para uma libertação futura, conforme o versículo seguinte: “E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual estais selados para o dia da redenção” ( Ef 4:30 ).

A redenção deste versículo ( Ef 4:30 ) difere da redenção apontada no verso 7. Enquanto a Redenção do versículo sete é bênção alcançada, a deste versículo refere-se ao grande dia da Redenção.

 

Pedidos em Oração

15 Por isso, ouvindo eu também a fé que entre vós há no Senhor Jesus, e o vosso amor para com todos os santos, 16 Não cesso de dar graças a Deus por vós, lembrando-me de vós nas minhas orações:

Depois das garantias apresentadas até o versículo quatorze para aqueles que estão em Cristo, Paulo comunica aos cristãos que não cessava de agradecer a Deus por ouvir da fé que havia nos cristãos em Éfeso e que eles amavam os santos de Deus ( Ef 1:3 ).

Este versículo demonstra o quanto os cristãos foram tocados pela mensagem do evangelho. Observe que, através da oração de Paulo fica demonstrado que eles estavam cumprindo o mandamento de Deus, conforme atesta o apóstolo João: “Ora, o seu mandamento é este, que creiamos no nome do seu Filho Jesus Cristo, e, segundo o mandamento que nos ordenou” ( 1Jo 3:23 ).

A fé dos cristãos era conforme o mandamento ‘que nos ordenou’, ou seja, ‘a fé que entre vós há no Senhor Jesus’. O amor deles era ‘para com todos os santos’, ou seja, eles amavam segundo o mandamento ordenado: ‘amemos uns aos outros’.

Há um paralelo sem igual entre o que João expõe, e o que Paulo observa entre os cristãos de Éfeso.

Paulo não só agradecia, mas também lembrava constantemente dos cristãos quando em oração. Por que Paulo não se esquecia de orar a Deus pelos cristãos? A resposta está no versículo seguinte:

 

17 Para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos dê em seu conhecimento o espírito de sabedoria e de revelação;

Do versículo três ao versículo quatorze Paulo agradece e conscientiza os cristãos das bênçãos já recebidas. Deste versículo em diante Paulo pede a Deus algumas coisas que os cristãos em Éfeso ainda não possuíam. Se Paulo ora fazendo esta petição, é porque ele considera uma necessidade premente a ser satisfeita. Apesar de já serem idôneos e participantes das bênçãos eternas pela união com Cristo, havia a necessidade de sabedoria e revelação (espiritual).

Paulo não pede para si, mas pelos os cristãos de Éfeso, que lhes fossem dado sabedoria e revelação. Por meio de Cristo os cristãos conheciam a Deus, ou antes, foram conhecidos por Ele Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” ( Gl 4:9 ).

Paulo, ao falar ‘espírito’ de sabedoria e revelação, estabelece aí distinção entre a sabedoria humana e a sabedoria que só é alcançada quando revelada pelo Espírito Santo de Deus.

 

18 Tendo iluminados os olhos do vosso entendimento, para que saibais qual seja a esperança da sua vocação, e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos;

A sabedoria e a revelação vinda de Deus dá luz ao entendimento do novo homem gerado em Cristo.

Por mais que Paulo procurasse conscientizar os cristãos das bênçãos recebidas, o pleno esclarecimento só é alcançado em plenitude através do conhecimento de Deus “…em seu conhecimento…” (v. 17). Conhecimento aqui não é ‘saber’, ou estar ‘ciente de’.

O ‘conhecimento’ que Paulo faz referência diz de união intima, assim como quando o homem e a mulher tornam-se um (conheceu o homem a mulher). Ou seja, quando a bíblia diz que um homem conheceu uma mulher, é porque os dois se tornaram um. Diz de conhecimento íntimo e inviolável.

Paulo demonstra qu

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Colossenses 1 – Idôneos em Cristo

Deus fez os cristãos idôneos, ou seja, Deus já os criou com capacidade plena para serem participantes da herança dos santos. Quando os cristãos creram na mensagem do evangelho, eles receberam poder para serem feitos filhos de Deus ( Jo 1:12 ), e quando foram criados, foram criados em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ). Desta maneira Deus fez (criou) um novo homem (os cristãos) em Cristo. As novas criaturas (os cristãos) vieram à existência com direito pleno à herança guardada nos céus, não necessitando estar debaixo de tutores ou curadores como era próprio a lei ( Gl 4:1 -2).


O contexto do versículo 1 é de apresentação. Paulo faz uma apresentação pessoal, dele e de Timóteo.

O contexto do versículo 2 é de saudação, demonstrando Cristo nos cristão “…que é Cristo em vós, esperança da glória” ( Cl 1:27 ).

Paulo apresenta-se aos destinatários como sendo apóstolo designado por Cristo, e os saúda com graça e paz da parte de Deus e de Jesus Cristo. Na apresentação Paulo nomeia os cristãos de santos e fiéis.

 

Apresentação e Saudação

1 PAULO, apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus, e o irmão Timóteo,

Os remetentes da carta são: o apóstolo Paulo e o seu irmão em Cristo Timóteo.

O apostolado de Paulo decorre da vontade de Deus e segundo a pessoa de Cristo. Este versículo é uma pequena defesa do ministério apostólico de Paulo.

Paulo demonstra não ter se arrogado como apóstolo, antes, pela vontade de Deus, ele foi comissionado para este ministério “… e do qual eu, Paulo, estou feito ministro” ( Cl 1:23 e 25).

 

2 Aos santos e irmãos fiéis em Cristo, que estão em Colossos: Graça a vós, e paz da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo.

Os destinatários da carta são os ‘santos’ e ‘fiéis’ que estavam em Colossos.

Este versículo apresenta os seguintes elementos:

a) Aos santos – A carta de Paulo e Timóteo foi remetida aos cristãos de Colossos e estes são designados ‘santos’ em Cristo. Por estarem em Cristo, Paulo os chama de santos! Ao lermos textos como “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é” ( 2Co 5:17 ); “… mas sim o ser uma nova criatura” ( Gl 6:15 ); “Porque em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão tem virtude alguma; mas sim a fé que opera pelo amor” ( Gl 5:6 ), percebemos que, ‘estar em Cristo’ significa ser uma nova criatura. ‘…em Cristo’ é uma maneira resumida de fazer referência à nova criatura, que é criada em verdadeira justiça e santidade “E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade” ( Ef 4:24 ). Paulo continua nomeando os cristãos de ‘santos’ por toda a carta: ( Cl 1:2 ; Cl 1:4 ; Cl 1:12 ; Cl 1:22 ; Cl 1:26 e Cl 3:12 );

b) Aos fiéis – Da mesma forma, Paulo chama os cristãos de ‘fiéis’. Em Cristo é que se dá a fidelidade dos cristãos, e não à parte d’Ele. Verifica-se que ‘santidade’ e ‘fidelidade’ decorrem de Cristo, condição que se adquire no novo nascimento. Perceba que o cristão não é ‘fiel a Cristo’, e sim, ‘fiéis em Cristo’. Esta fidelidade não decorre de esforço humano para se alcançar (é proveniente do novo nascimento). Compare esta fidelidade (v. 2) com a apresentada no (v. 7);

c) Colossos – cidade ou região onde os cristãos estavam;

d) Graça e paz – graça refere-se ao favor imerecido de Deus e que somente é possível alcançar pela fé em Cristo. Por intermédio de Cristo o homem passa a ter paz com Deus, visto que, sem Cristo o homem é inimigo de Deus “Porque, se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho” ( Rm 5:10 ).

 

 

Agradecimentos a Deus

3 Graças damos a Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, orando sempre por vós,

O apóstolo agradece e ora pelos cristãos. São duas ações distintas.

Estas duas ações, agradecer e orar, são provenientes de elementos distintos, como veremos a seguir.

4 Porquanto ouvimos da vossa fé em Cristo Jesus, e do amor que tendes para com todos os santos;

Paulo agradecia a Deus continuadamente após tomar conhecimento da fé dos cristãos. Paulo e Timóteo ouviram acerca da fé e do amor que os cristãos de Colossos nutriam por todos os santos.

Não há como deixar de agradecer a Deus, diante de tão maravilhosa graça: mais irmãos sendo conduzidos à gloria por Cristo.

O amor dos irmãos era demonstrado no Espírito (v. 8), como assevera o apóstolo João “…e nos amemos uns aos outros, segundo o mandamento que nos ordenou” ( 1Jo 3:23 ).

 

5 Por causa da esperança que vos está reservada nos céus, da qual já antes ouvistes pela palavra da verdade do evangelho,

O agradecimento de Paulo a Deus é por causa da esperança reservada nos céus aos que creem.

A esperança dos cristãos esta reservada nos céus, e os cristãos já haviam tomado ciência do que estava reservado, através da palavra da verdade do evangelho que haviam ouvido anteriormente ( Cl 1:23 e 27).

6 Que já chegou a vós, como também está em todo o mundo; e já vai frutificando, como também entre vós, desde o dia em que ouvistes e conhecestes a graça de Deus em verdade.

A verdade do evangelho, além de ter chegado aos cristãos de Colossos, também estava se disseminado por todo o mundo conhecido à época. O mundo que o apóstolo Paulo refere-se diz das regiões da Europa, Ásia e África, ou seja, conforme o conhecimento geográfico da época.

O evangelho apresentava os seus frutos em todo o mundo, da mesma forma que estava apresentando frutos entre os de Colossenses.

Quando os cristãos ouviram o evangelho e creram, eles conheceram a graça de Deus em verdade. Passaram a conhecer a Deus, ou antes, foram conhecido Dele.

7 Como aprendestes de Epafras, nosso amado conservo, que para vós é um fiel ministro de Cristo,

Os cristãos de colossos aprenderam o evangelho de Epafras, que segundo Paulo era conservo e fiel ministro de Cristo.

Com esta declaração, Paulo demonstra que Epafras e ele desfrutavam de igual condição: Paulo, Timóteo e Epafras eram servos de Cristo.

Os cristãos de Colossenses deveriam ter em Epafras um fiel ministro de Cristo.

Há uma diferença muito grande entre ser ‘fiel em Cristo’ e ser ‘um fiel ministro de Cristo’. A condição de fiel somente é possível para o homem que esta em Cristo ( Cl 1:2 ). Com relação ao ministério, a fidelidade diz de uma qualidade própria de Epafras, ou seja, ele era fiel em Cristo, e desenvolvia o seu ministério com fidelidade.

Da mesma forma que Paulo desempenhou o seu ministério entre os gentios com empenho, Epafras também era fiel em seu ministério. A fidelidade a Deus é por meio da união com Cristo.

 

8 O qual nos declarou também o vosso amor no Espírito.

Paulo demonstra que tomou conhecimento do amor dos cristãos através do amado conservo Epafras.

O amor dos colossenses era no Espírito, ou seja, em Deus.

Para uma melhor compreensão das cartas paulinas é necessário observar o seguinte: o apóstolo Paulo agradece a Deus por aquilo que os cristãos já receberam, e quando ele ora pelos cristãos é solicitando a Deus por algo que eles ainda não haviam recebido.

Esta característica repete-se na carta aos Filipenses, Efésios, Tessalonicenses, etc:

“…não cesso de dar graças a Deus por vós, lembrando-me de vós nas minhas orações…” ( Ef 1:16 );

“Dou graças ao meu Deus todas as vezes que me lembro de vós (…) E esta é a minha oração: que o vosso amor aumente…” ( Fl 1:2 -11);

“Sempre damos graças a Deus por vós todos, fazendo menção de vós em nossas orações” ( 1Ts 1:2 ).

Quando Paulo agradece a Deus, geralmente agradece por elementos pertinentes à esperança proposta em Cristo, tais como: regeneração, justificação, santificação, eleição, predestinação, etc “Dando graças ao Pai que nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz…” ( Cl 1:12 ).

Mas, quando Paulo ora pelos cristãos, é em razão de elementos que eles ainda não haviam alcançado. Observando esta e outras cartas, verifica-se que os pedidos de Paulo em oração a Deus geralmente refere-se a conhecimento ( Cl 1:9 ; Ef 1:17 ; Fl 1:9 ).

 

 

Pedidos em Oração

9 Por esta razão, nós também, desde o dia em que o ouvimos, não cessamos de orar por vós, e de pedir que sejais cheios do conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e inteligência espiritual;

Epafras anunciou a Paulo e Timóteo o ‘amor no Espírito’ dos cristãos em Colossos ( Cl 1:4 ), o que motivou Paulo a orar continuadamente em favor deles.

Paulo não cessou de orar a Deus desde que recebeu notícias acerca dos cristãos, o que demonstra a preocupação do apóstolo por causa do que ainda lhes faltava.

Na oração o apóstolo pede a Deus que eles fossem cheios do conhecimento da vontade divina em toda sabedoria e inteligência espiritual (v. 9).

Por que Paulo orou para que eles fossem cheios do conhecimento da vontade de Deus? Qual o objetivo de eles obterem este conhecimento? Por que a sabedoria e a inteligência devem ser espirituais?

Estar cheios do conhecimento da vontade de Deus daria as condições necessárias para que os cristãos pudessem:

a) andar dignamente diante do Senhor;

b) agradar a Deus em tudo;

c) para frutificarem em toda a boa obra, e;

d) crescer no conhecimento de Deus.

Estes eram os objetivos pelos quais Paulo orava a Deus, e que os cristãos precisavam alcançar.

Só é possível conhecer a vontade de Deus se o homem tiver sabedoria e inteligência espiritual. Por que Paulo emprega o adjetivo ‘espiritual’ à sabedoria e a inteligência? Para diferenciar a sabedoria e a inteligência proveniente do evangelho do conhecimento e da sabedoria secular.

É possível verificar esta maneira de Paulo tratar das coisas concernentes ao evangelho quando lemos ( 1Co 2:1 -16).

Paulo evangelizava certo de que estava anunciando poder de Deus para os que crerem, o que não era feito com base em conhecimento humano “…não fui com sublimidade de palavras ou de sabedoria (…) a minha palavra, e a minha pregação, não consistiu em palavras persuasivas de sabedoria humana (…) Para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria dos homens… ” ( 1Co 2:1 -5), mas com sabedoria e inteligência espirituais, segundo o que o Espírito Santo lhe ensinava ( 1Co 2:13 ).

Paulo classifica a inteligência e a sabedoria como sendo espirituais para diferenciar da sabedoria humana.

“… e vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou ( Cl 3:10 ); compare com:

“ … que sejais cheios do conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e inteligência espiritual ( Cl 1:9 ); compare com:

“E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e prefeita vontade de Deus ( Rm 12:2 ).

Renovar, transformar, ser cheio do conhecimento refere-se aos mesmos elementos, visto que, o objetivo é vestir o novo homem do que lhe é pertinente. O novo homem precisa experimentar a boa, agradável e prefeita vontade de Deus, e que pode andar dignamente diante de Deus, agradando-lhe em tudo.

 

10 Para que possais andar dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda a boa obra, e crescendo no conhecimento de Deus;

Estes elementos são novamente apresentados em ( Cl 3:8 -11), e melhor explicado.

Este versículo trata das questões comportamentais pertinentes aos novos cristãos. Os cristãos foram criados em Cristo idôneos para participar da herança dos santos, porém, deveriam moldar o comportamento. Precisavam andar como filhos da Luz, uma vez que já eram filhos da Luz ( Ef 5:8 ).

Desde que ouviu de Epafras que havia cristãos em colossos, Paulo passou a agradecer a Deus por eles também serem participantes da esperança reservada nos céus. Porém, o apóstolo passa a orar para que eles adquirissem uma nova maneira de viver, ou seja, que andassem dignamente diante do Senhor “Assim como bem sabeis de que modo vos exortamos e consolamos, a cada um de vós, como o pai a filhos; Para que vos conduzísseis dignamente para com Deus, que vos chama para o seu reino e glória” ( 1Ts 2:11 -12; Cl 1:10 ); “Somente deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho de Cristo…” ( Fl 1:27 ).

A preocupação de Paulo era para que eles agradassem a Deus em tudo, e que frutificassem em toda a boa obra. O escritor aos hebreus expõe esta mesma idéia em uma única frase: “Vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a sua vontade, operando em vós o que perante ele é agradável por Jesus Cristo…” ( Hb 13:21 ).

Através do conhecimento da vontade de Deus os cristãos andariam por modo digno do evangelho, agradando a Deus e frutificando em toda a boa obra ( Ef 2:10 ), e cresceriam no conhecimento de Deus.

Observe que o crescimento do cristão ocorre no conhecimento, uma vez que já alcançou a maioridade em Cristo: já é participante da herança dos santos na luz.

 

11 Corroborados em toda a fortaleza, segundo a força da sua glória, em toda a paciência, e longanimidade com gozo;

Para atingir o que foi exposto no versículo anterior, os cristãos deviam contar com ‘toda a fortaleza’ por parte de Deus. A fortaleza é segundo a força da glória de Deus. Somado à força divina, ele podiam contar com a paciência e longanimidade de Deus. Deus é longânime e paciente com aqueles que foram recebidos por filhos.

O que lhes falta é chegar à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo.

Deus criou o homem com capacidade de aprender e compreender, e através destas faculdades Deus que lhes preencher do seu conhecimento. Sendo Deus paciente e longânime, o cristão deve andar dignamente perante Ele, pois tem toda a fortaleza segundo a força da sua glória.

Na carta aos cristãos em Éfeso, o apóstolo também faz referência ao poder de Deus: “E qual a sobre-excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder” ( Ef 1:19 ).

 

 

Bendizendo por Bênçãos Eternas

12 Dando graças ao Pai que nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz;

Paulo deixa de falar na primeira pessoa do singular “Graças damos (Paulo e Timóteo) a Deus…” ( Cl 1:3 -11), e passa a falar na primeira pessoa do plural: “Dando graças ao pai que nos (Paulo e os cristãos) fez idôneos…” ( Cl 1:12 -14).

Esta é uma das regras essenciais na interpretação de cartas: é preciso atenção para identificar quando o escritor da carta isola-se da ação que estava descrevendo.

Quando Paulo diz: “Damos graças a Deus”, ele esta demonstrando que ele e Timóteo agradeciam a Deus, e nesta ação os cristãos não estão inclusos. Nesta carta, o apóstolo apresenta as suas ações e a de Timóteo do verso três ao onze.

Do versículo doze em diante, Paulo passa a descrever a ação de Deus que contemplo a todos os cristãos. Paulo inclui na narrativa os cristãos, Timóteo e ele mesmo ( Cl 1:12 -14). Paulo demonstra o que Deus concedeu a ele e a todos os irmãos em Cristo.

Deus fez os cristãos idôneos, ou seja, Deus já os criou com capacidade plena para serem participantes da herança dos santos. Quando os cristãos creram na mensagem do evangelho, eles receberam poder para serem feitos filhos de Deus ( Jo 1:12 ), e quando foram criados, foram criados em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ). Desta maneira Deus fez (criou) um novo homem (os cristãos) em Cristo.

As novas criaturas (os cristãos) vieram à existência com direito pleno à herança guardada nos céus, não necessitando estar debaixo de tutores ou curadores como era próprio a lei ( Gl 4:1 -2).

Participar da herança dos santos na luz, é uma das maneiras de se falar em Deus. Como filhos da Luz, os cristãos passaram a ser herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo ( Ef 5:8 ). Sendo filhos de Deus, os cristãos passaram a ter herança em Deus, ou seja, na Luz.

A condição de ‘santos’ decorre da nova natureza adquirida na regeneração. Os cristãos, por crerem em Cristo, receberam poder de Deus para serem feitos filhos, nascidos de semente incorruptível. Por serem novas criaturas em Cristo e participantes da natureza divina ( 2Pe 1:4 ), pois receberam a plenitude em Cristo ( Cl 2:10 ), são os eleitos de Deus: santos e irrepreensíveis.

 

13 O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor;

Deus tirou Paulo, Timóteo e todos os cristãos, ou seja, o próprio Deus resgatou todos os que creram do domínio das trevas e transportou-os para o reino de seu Filho. Paulo designa Jesus como Filho do seu ‘amor’.

O que ocorreu com os cristãos também ocorreu com o apóstolo: todos foram resgatados do poder das trevas e transportados para o reino de Cristo. A única diferença entre Paulo e os cristãos esta no serviço que ele desempenhava: ministério apostólico ( Cl 1:25 ).

Este ministério difere da idéia de ‘ministério apostólico’ que hoje em dia se divulga, e que muitos se auto-comissionam e intitulam.

 

14 Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados;

Através do ‘Filho do amor de Deus’ é que os cristãos obtiveram a redenção por meio do seu sangue.

Paulo acrescenta uma explicação, demonstrando que a obra da redenção é completa: os cristãos foram comprados por um alto preço, e postos em liberdade.

Em cartas direcionadas as igrejas que Paulo visitou não encontramos ressalvas conforme as apresentadas nesta carta. Nesta carta Paulo apresenta duas ressalvas explicativas sobre a idéia apresentada. Com relação a linguagem empregada, podemos dizer que a necessidade de ressalvas é quase dispensável, mesmo quando o evangelho foi anunciado por outra pessoa (Epafras), como é o caso da igreja de colossos.

Por que se fez necessário Paulo dizer que a redenção pelo sangue de Cristo é remissão dos pecados? Porque ele fez referência a atos que a lei mosaica regulava. Esta ‘transação’ refere-se à retomada do direito de posse de bens perdidos pelas famílias hebraicas.

A redenção é ato de parente capaz, que efetuaria tudo o que fosse exigido pelo credor. A redenção do parente era de pessoas e herança, ou fazer as vezes de marido quando um parente morresse sem deixar descendente ( Lv 25:25 -49 ; Rt 3:12 -13).

Quando o cristão crê em Cristo, e passa a ser participante da carne e do sangue de Cristo, torna-se um dos descendentes de Abraão por intermédio do corpo de Cristo, e ao mesmo tempo adquire a filiação divina, sendo um dos filhos de Abraão por intermédio da fé.

Aquilo que alguns dos judeus disseram a Cristo, somente os cristãos podem dizer: “Somos descendentes de Abraão, e jamais fomos escravos de ninguém” ( Jo 8:31 ). Através do Descendente, que é Cristo, os homens que creem passam à condição de descendentes do pai Abraão, pois se tornaram participante da carne e do sangue do Descendente.

De igual modo, por meio da fé, o crente adquire a filiação divina ao ressurgir com Cristo dentre os mortos, tornando-se filhos de Abraão (filhos de Deus). O novo homem criado em Cristo, este sim, nunca foi escravo de ninguém. São de fato filhos de Deus!

Quando Paulo faz referência à redenção, não o faz em relação a bens materiais, mas a bens futuros, demonstrando que os cristãos foram adquiridos e libertos do poder do pecado.

 

15 O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação;

O contexto da carta muda deste versículo até o versículo vinte.

O apóstolo introduz nestes seis versículo um aposto explicativo semelhante ao da carta aos Hebreus, demonstrando quem é o Filho do amor de Deus – Jesus.

Jesus é a imagem do Deus invisível – O Deus que habita em luz inacessível aos olhos dos homens revelou-se através da pessoa de seu Filho. Sobre esta verdade o apóstolo João testemunhou: “E o verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” ( Jo 1:14 ; 2Co 4:3 -4; Hb 1:3 ).

Jesus, o primogênito de toda a criação – Para entender este versículo, deve-se verificar o que Paulo diz acerca de Adão, o primeiro homem: “…Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” ( Rm 5:14 ). Através deste versículo, somos informados que Cristo é ‘aquele que havia de vir’, e que Adão foi criado segundo a imagem de Cristo. Antes mesmo de haver mundo, Cristo é o cordeiro de Deus! Desta forma, segue-se que: “O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente; o ultimo Adão em Espírito vivificante” ( 1Co 15:45 ); “O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o Senhor, é do céu” ( 1Co 15:47 ). Sendo que, se Adão era a imagem de Cristo (daquele que havia de vir), conclui-se que Cristo é o primogênito de toda a criação.

Cristo é o primeiro gerado (primogênito) de toda a criação de Deus. Todos os outros seres do universo (anjos, arcanjos, querubins, serafins, homens, etc) foram criados por Deus. Cristo difere de todas as criaturas por ser o primeiro gerado de Deus.

Enquanto Adão foi criado alma vivente, Jesus foi gerado espírito vivificante “Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante. Mas não é primeiro o espiritual, senão o natural; depois o espiritual. O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o SENHOR, é do céu” ( 1Co 15:45 -47).

Alguns questionam a passagem de Gênesis, onde está registrado que Deus criou o homem a sua imagem e semelhança, e alegam que, sendo Deus Espírito, qual a imagem de Deus que foi concedida a Adão?. A resposta torna-se evidente por meio da leitura deste versículo: Adão foi criado a imagem do Cristo de Deus ( Rm 5:14 ).

 

16 Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele.

Em Cristo, o Senhor, foram criadas todas as coisas que há no céu e na terra. Desde tronos, dominações, principados, potestades, as coisas visíveis e as invisíveis I Co 15: 47.

O Sl 102:25 -27 fazem referência a Cristo, o criador de todas as coisas ( Hb 1:10 -11).

17 E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele.

Paulo faz referência à divindade de Cristo da mesma forma que o escritor aos Hebreus: “O qual, sendo o resplendor da sua glória, e expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder…” ( Hb 1:3 ).

 

A Pessoa de Cristo

18 E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência.

Ao falar da autoridade de Cristo sobre a igreja, Paulo utiliza uma figura de linguagem: ‘cabeça do corpo, a igreja’.

Jesus como princípio é apresentado no versículo 17. Neste versículo Jesus é o princípio, visto que Ele inaugurou a nova criação de Deus, sendo Ele mesmo o primogênito dentre os mortos. ‘Em Cristo’ Deus faz nova todas as coisas.

Desta maneira, em tudo Cristo é preeminente. Adão era a figura daquele que havia de vir – e Jesus veio em carne, segundo a linhagem de Davi, mas foi declarado Filho de Deus em poder através da ressurreição dentre os mortos. Observe o a alerta: “Assim que daqui por diante a ninguém conhecemos segundo a carne, e , ainda que também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo agora já o não conhecemos deste modo” ( 2Co 5:16 ).

Pela ressurreição dentre os mortos Jesus passou a ser o primogênito dentre os mortos: Adão era figura daquele que havia de vir, e Cristo é o último Adão. Espírito vivificante que dá vida a todos que nele crêem. Desta forma, Ele é o último Adão, e por meio dele todos que creem são feitos (criados) nova criatura: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é: as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ).

Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo ( 2Co 5:19 ).

 

19 Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse,

Através deste versículo conseguimos identificar o propósito principal da divindade: toda plenitude da divindade habitando corporalmente no último Adão, para que ele participasse da carne e do sangue dos homens ( Hb 2:14 ).

Deste propósito decorre a salvação dos homens, onde os que creem passam a ser participantes da carne e do sangue de Cristo, sendo criados filhos de Deus, participantes da natureza divina ( 2Pe 1:4 ), da mesma forma que Cristo participou da natureza humana ( Hb 2:17 ).

 

20 E que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus.

Por meio do sangue de Cristo, Deus estabeleceu a paz, reconciliando consigo mesmo todas as coisas.

Deus reconciliou gentios e judeus, e reconciliou os homens com sigo mesmo, destruindo a inimizade estabelecida no pecado, que teve origem na queda da humanidade em Adão ( Ef 2:16 ).

 

O contexto agora é de conscientização, onde Paulo descreve os eventos que ocorreram na vida daqueles que aceitaram a graça do evangelho. Paulo não se inclui na explanação.

 

21 A vós também, que noutro tempo éreis estranhos, e inimigos no entendimento pelas vossas obras más, agora contudo vos reconciliou

Geralmente quando o apóstolo Paulo conscientiza os cristãos, ele não se inclui na narrativa. Compare:

“É também nele que vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação” ( Ef 1:13 );

“A vós também, que noutro tempo éreis estranhos, e inimigos no entendimento pelas vossas obras más, agora vos reconciliou…” ( Cl 1:21 ).

A inimizade dos homens para com Deus sempre esteve no entendimento, visto que, por meio de Cristo, todos os homens têm livre acesso a Deus.

“Nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que não lhes resplandeça a luz do evangelho…” ( 2Co 4:3 -4);

“Entenebrecidos no entendimento separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração” ( Ef 4:18 );

“…antes o seu entendimento e consciência estão contaminados” ( Tt 1:15 ; 2Pd 1:3 ).

As obras más é que embotam o entendimento dos homens, visto que Deus nunca declarou ser inimigo dos homens. Deus sempre amou os pecadores e entregou o seu Filho em regate dos perdidos, demonstrando que ele não tem em conta as obras más dos homens.

O homem, por ignorar que Deus sempre esteve com as mãos estendidas para salvar, acaba por considerar que Deus lhe é inimigo, visto que as suas obras são más.

Jesus falou deste entrave a Nicodemos: “Todo aquele que pratica o mal aborrece a luz, e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas” ( Jo 3:20 ). Segue-se que, aparte de Cristo, ninguém tem acesso a Deus. Como ir a Luz? Pela prática de boas ações? Não! O homem se achega a Deus por intermédio de Cristo. Mas, Deus prova o seu amor ao conceder Cristo quando ainda éramos pecadores.

Quando se compreende que Deus ama o mais vil pecador, e que Cristo por ele se entregou, ai sim, o pecador vai até Deus confiante que as suas obras más não são levadas em conta, e sim, o seu amor, que cobre multidão de pecados.

Ao abandonar a ignorância, ou a cegueira espiritual, claramente se vê que as boas obras somente são possíveis quando o homem esta em Deus, pois elas são produzidas em Deus ( Jo 3:21 ). Claramente se vê que é impossível ao velho homem proceder dignamente perante Deus.

No passado os cristãos eram inimigos de Deus, estranhos à aliança, sem Deus no mundo ( Ef 2:12 ), mas agora…

 

22 No corpo da sua carne, pela morte, para perante ele vos apresentar santos, e irrepreensíveis, e inculpáveis,

…os cristãos foram reconciliados com Deus no corpo da carne de Cristo, e através de sua morte.

A reconciliação com Deus não se deu em seu corpo glorioso, antes no corpo da carne. Esta verdade pode ser verificada ao lermos “Em verdade, em verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vos mesmo” ( Jo 6:53 ).

Só através do corpo de Cristo é que se abre o novo e vivo caminho para que o homem tenha acesso a Deus “Pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne” ( Hb 10:20 ).

Pela morte com Cristo o homem carnal é desfeito (morre com Cristo), e surge (é criado) o novo homem, que é designado espiritual, em contra ponto ao carnal, que perante Deus é santo e irrepreensível. Por meio da morte foi riscado o escrito de dívida que pesava sobre o homem, pois em Cristo é criado um novo homem em verdadeira justiça e santidade ( Cl 2:14 ).

O objetivo de Cristo ao entregar-se em prol do pecador foi para apresentar diante de Deus homens santos, irrepreensíveis e inculpáveis, ou seja, conduzir à glória filhos a Deus.

É por causa desta verdade do evangelho que Paulo nomeia os cristãos de santos e fiéis em Cristo.

 

 

23 Se, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé, e não vos moverdes da esperança do evangelho que tendes ouvido, o qual foi pregado a toda criatura que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, estou feito ministro.

Todas as benesses apresentadas por Paulo até aqui, tais como: idoneidade, herança, reino, redenção, amizade, santidade, irrepreensibilidade e inculpabilidade pertencem aos cristãos.

O único obstáculo do cristão é ele mesmo. Deus é fiel e todas as bênçãos concedidas têm em Cristo o sim. Resta ao crente permanecer fundado e firme na fé.

Fundados, estruturados, base sólida, sem demover-se na fé. O evangelho foi anunciado aos cristãos quando eles eram ainda pecadores, ou seja, eles ouviram acerca da esperança proposta. Por ouvir vem a fé, e da fé os cristãos não podiam demover “…tenhamos forte consolação, nós, os que nos refugiamos em lançar mão da esperança proposta” ( Hb 6:18 ).

É sobre este aspecto que Tiago diz da obra da fé: “Ora, a perseverança deve terminar a sua obra…”, ou seja, sendo a perseverança produto da fé posta em prova, a perseverança conclui a obra da fé ( Tg 1:3 -4).

O remetente da carta novamente se identifica e demonstra a sua atribuição no evangelho.

 

24 Regozijo-me agora no que padeço por vós, e na minha carne cumpro o resto das aflições de Cristo, pelo seu corpo, que é a igreja;

Paulo estava alegre no que ele padecia pelos cristãos. O sofrimento de Paulo não era causa de tristeza, pois ele mesmo se propôs sofrer em prol do evangelho.

“Na minha carne” refere-se ao corpo físico de Paulo, o que remete ao sofrimento de Cristo quando na carne. Paulo não utiliza o termo ‘corpo’ com relação a sua estrutura física, mas o termo carne, para demonstrar que ele também faz parte do corpo de Cristo, a igreja.

Devemos prestar muita atenção no contexto para ser possível definir o significado da palavra carne. Carne pode referir-se ao ‘corpo físico’, a ‘herança genealógica’, ou a ‘natureza herdada de Adão’.

“Para ver se de alguma maneira posso incitar à emulação os da minha carne e salvar alguns deles” ( Rm 11:14 ) – Paulo refere-se aos hebreus.

“E não rejeitastes, nem desprezastes isso que era uma tentação na minha carne, antes me recebestes como um anjo de Deus, como Jesus Cristo mesmo” ( Gl 4:14 ) – Paulo refere-se ao seu corpo físico.

“Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem” ( Rm 7:18 ) – Paulo refere-se a natureza herdada de Adão.

 

25 Da qual eu estou feito ministro segundo a dispensação de Deus, que me foi concedida para convosco, para cumprir a palavra de Deus;

O contexto muda novamente: Paulo faz uma retrospectiva na escrita da carta para apresentar um panorama completo de tudo que ele escreveu até o presente versículo.

Paulo reafirma a sua condição de ministro da igreja de Deus ( Cl 1:1 ; Cl 1:23 e Cl 1:25 ). O ministério de Paulo foi concedido, não para proveito próprio, antes para cumprir a palavra de Deus e em prol dos cristãos.

 

26 O mistério que esteve oculto desde todos os séculos, e em todas as gerações, e que agora foi manifesto aos seus santos;

O mistério de Deus é Cristo, que foi revelado aos seus santos, conforme ele descreveu anteriormente ( Cl 1:15 -20).

O mistério revelado demonstra Cristo nos cristãos, dando-lhes acesso à glória de Deus.

 

27 Aos quais Deus quis fazer conhecer quais são as riquezas da glória deste mistério entre os gentios, que é Cristo em vós, esperança da glória;

Deus quis revelar o mistério que dantes estava oculto entre os gentios, e não aos judeus – Cristo, a esperança da glória. Cristo em seus santos é esperança da glória.

“Em Cristo” e “Cristo em vós” refere-se a mesma condição: nova criatura!

 

28 A quem anunciamos, admoestando a todo o homem, e ensinando a todo o homem em toda a sabedoria; para que apresentemos todo o homem perfeito em Jesus Cristo;

O evangelho era anunciado pelos apóstolos com o objetivo de apresentar aqueles que cressem perfeitos em Cristo. Todos os que crêem em Jesus conforme diz as escrituras, estes são perfeitos diante de Deus.

Paulo exorta e ensina a todos com sabedoria consciente da responsabilidade imposta ( 1Co 9:16 ).

 

29 E para isto também trabalho, combatendo segundo a sua eficácia, que opera em mim poderosamente.

O trabalho de Paulo consistia em apresentar a Deus homens perfeitos em Cristo. Ele demonstra que o seu trabalho e a sua batalha é segundo a eficácia de Deus, que nele operava poderosamente.

O que Paulo proclamou aos cristãos acerca da força e fortaleza de Deus ( Cl 1:11 ), ele demonstra que esta mesma força e poder operava por meio dele eficazmente.

Ler mais

1 Pedro – Regenerados pela palavra da verdade

A perseverança fará com que os cristãos alcance o objetivo fim proposto no evangelho: a salvação da perdição do pecado. Ora, os cristãos já haviam feito a vontade Deus quando creram na mensagem do evangelho, mas precisavam perseveram na fé que professaram para colocarem as mãos na herança prometida “Porque necessitais de perseverança, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” ( Hb 10:36 ).


1 PEDRO, apóstolo de Jesus Cristo, aos estrangeiros dispersos no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia; 2 Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas.

Pedro não teve o mesmo problema que o apóstolo Paulo quanto a ter que defender o seu apostolado. Por ter sido escolhido por Cristo para ser discípulo, e visto o Mestre ainda em carne, não teve dificuldades no exercício do seu ministério.

Paulo demonstra em suas cartas que Pedro possuía uma posição de destaque entre os primeiros cristãos, tanto que foi significativo para Paulo passar quinze dias com Pedro e ser recebido entre os discípulos pelo evangelho que anunciava aos gentios ( Gl 1:18 ; Gl 2:9 ).

No decorrer da carta Pedro também se apresenta como o ‘Ancião’ ( 1Pe 5:1 ), e que Silvano foi quem escreveu (escriba) a carta, e que eles estavam na companhia de Marcos ( 1Pe 5:12 -13). A maestria na escrita da carta deve-se a Silvano, mas o conteúdo da carta ao apóstolo Pedro.

Muitos questionam a autoria da carta de Pedro por ele ter sido um simples pescador da Galileia e ter escrito uma carta tão bela em grego semelhante à literatura ática. Estudiosos questionam a autoria da carta por ele citar a Septuaginta, por usar o ‘artigo’ de modo elegante como nenhuma outra carta do Novo Testamento e por ter um vocabulário próprio e numeroso.

Ora, Pedro mesmo demonstra que não foi ele quem escreveu a carta, e sim Silvano. Percebe-se que Pedro apresentou os argumentos e Silvano, na condição de hábil escriba usou o seu conhecimento para imprimir à carta o estilo próprio as frases da literatura ática.

Quando escreveu, Pedro estava em uma cidade que ele nomeou de Babilônia ( 1Pe 5:13 ). Os destinatários da carta estavam em cinco províncias Romanas: Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia.

Após identificar-se, o apóstolo aponta quem são os destinatários da sua epístola: os estrangeiros dispersos. ‘Estrangeiros dispersos’ diz dos cristãos que foram perseguidos por causa da mensagem do evangelho ( At 8:1 ; At 11:19 ). Ora, é certo que os dispersos eram na maioria judeus, porém, ao escrever, Pedro tem como foco os cristãos, sem qualquer referência a origem carnal dos cristãos.

Pedro escreveu aos eleitos, ou seja, aos santos e irrepreensíveis em Cristo ( Ef 1:4 ). Os arminianista utilizam-se deste verso para afirmar que a eleição é segundo a presciência de Deus, porém, é necessária uma análise mais rigorosa.

Uma tradução bíblica datada de 1681 diz o seguinte:

Pedro Apoftolo de Jefu Chirifto a os eftrangeiros efpalhados em Ponto, em Galacia, em Cappadocia, em Afia, e em Bythynia. Elegidos fegundo a providencia de Deus Pae, em fanctificaçaõ de Efpirito…”

Novo testamento, Companhia das Indias Oriental, cidade de Amsterdam, Bartholomeus Heynen e Joannes de Vooght, 1681.

Observe o verso em questão: “Elegidos fegundo a providencia de Deus Pae…” (v. I). Ora, a eleição é segundo a presciência ou providência?

Como já demonstramos no artigo O Evangelho Anunciado, a eleição não é o modo pelo qual Deus salva o homem. Deus não escolheu antes dos tempos eternos quem seria salvo ou não, com base na sua presciência ou na sua soberania. As concepções calvinista e arminianistas não são bíblicas.

Para compreender a ideia que o apóstolo Pedro procurou evidenciar, não se pode interpretar um verso fora do contexto, ou isolá-lo do restante da bíblia.

A estrutura da primeira carta de Pedro comparada à carta de Paulo aos Efésios é equivalente na estrutura do texto e na ideia que procuraram demonstrar. Observe:

“Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos estrangeiros da dispersão, no Ponto, na Galácia, na Capadócia, na Ásia e na Bitínia, eleitos segundo a presciência de Deus Pai, na santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas” ( 1Pe 1:1 -2).

“Paulo, apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus, aos santos que estão em Éfeso, e fiéis em Cristo Jesus: a vós outros graça, e paz da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo” ( Ef 1:1 -2).

Tanto Pedro quanto Paulo se apresentam, identificam os destinatários, saúdam com graça e paz, apresentam o local onde os cristãos se reuniam, porém, enquanto Pedro fala da nova condição pertinente aos salvos, ‘eleitos’ (presente), Paulo faz referência ao evento da eleição (passado).

Ora, Deus elegeu os cristãos em Cristo ( Ef 1:3 ), e os cristãos são eleitos (condição atual) por estarem em Cristo ( 1Pe 1:2 ).

Para os arminianistas a eleição é segundo a presciência de Deus, e os calvinistas apontam a soberania de Deus. Como a maioria dos tradutores segue uma tendência teológica, não sabemos o quanto estes posicionamentos doutrinários influenciam os tradutores.

Porém, é possível extrair do texto uma resposta: a eleição não é segundo a presciência e nem segundo a providência de Deus Pai, antes é na (em, ou através) Santificação do Espírito. Observe:

segundo a presciência de Deus Pai

Eleitos (condição atual) na santificação do Espírito

para a obediência e aspersão do sangue

Se considerarmos que a frase ‘segundo a presciência de Deus Pai’ é um aposto explicativo, veremos que não imposta à posição que ela é inserida no texto. Ora, têm-se várias cominações possíveis:

“… segundo a presciência de Deus Pai, eleitos na santificação do Espírito para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo…”, ou;

“… eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, na santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo…”, ou;

“… eleitos na santificação do Espírito, segundo a presciência de Deus Pai, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo…”, ou;

“… eleitos na santificação do Espírito para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo, segundo a presciência de Deus Pai…”.

Alguém que segue uma visão arminianista prefere agrupar as várias frases que compõe o versículo segundo a sua concepção: eleitos segundo a presciência. Outro, que não prefere a concepção arminianista, mas a calvinista, preferem a providência divina.

Porém, de acordo com o restante das escrituras, a eleição não é segundo a presciência, antes a eleição é segundo o propósito eterno de Deus. Ora, se é segundo o propósito eterno não pode ser segundo a presciência!

Por tanto, para interpretar ( 1Pe 1:2 ), é necessário considerar que:

  • Nenhum ponto das Escrituras deve ser considerado isoladamente do restante das escrituras “Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação” ( 2Pe 1:20 );
  • Algumas frases contidas nos textos são um tipo de aposto explicativo;
  • É necessário observar a forma do discurso do interlocutor, que neste caso específico é o apóstolo Pedro;
  • Não deixar ser influenciado por tendências doutrinárias, que são muitas;
  • Comparar o versículo com o texto de outros escritores da bíblia;
  • Por ser um versículo complexo deve ser analisado segundo a ideia geral da bíblia.

Segundo o que Paulo demonstra, os cristãos foram eleitos em Cristo “Pois nos elegeu nele…” ( Ef 1:4 ), e Pedro do mesmo modo demonstra que os eleitos alcançaram está condição ‘… em santificação do Espírito…’ ( 1Pe 1:2 ).

Perceba que tanto Pedro quanto Paulo utiliza o dativo de forma especial (en Cristo = em Cristo) ao escreverem acerca da eleição. É um uso específico do dativo preposicionado, característica própria à sintaxe cristã ao utilizarem o grego.

Ora, Paulo disse que os cristãos foram eleitos em Cristo, portanto, não podemos interpretar que a eleição é segundo a presciência, e sim, em santificação do Espírito.

Como? Ora, as palavras de Cristo são Espírito e vida “O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são espírito e vida” ( Jo 6:63 ). É através da Palavra que Cristo santificou a sua igreja “Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra” ( Ef 5:26 ).

A santificação do Espírito é pela palavra do evangelho e a eleição se deu em Cristo, ou seja, ‘em santificação do Espírito’ (santificação pela palavra), pois Cristo é o Verbo de Deus, a palavra da vida encarnada.

Ora, dizer que os cristãos foram eleitos ‘em Cristo’, ou que são eleitos ‘em santificação do Espírito’ evidencia a mesma ideia: a nova criatura (os cristãos) é eleita por estar em Cristo ( 2Co 5:17 ).

Segundo Paulo, os cristãos foram eleitos para serem santos e irrepreensíveis, ou seja, é para santificação que os cristãos foram eleitos em Cristo antes da fundação do mundo. Temos aqui dois eventos distintos:

  • antes dos tempos eternos, segundo o seu propósito eterno, Deus escolheu a Cristo para ser preeminente sobre todas as coisas;
  • para que Cristo fosse preeminente em tudo, Deus o constituiu como cabeça da igreja, que são os santificados pela palavra, as novas criaturas, homens nascidos segundo Deus em verdadeira justiça e santidade.

Em Cristo Deus escolheu os cristãos para que hoje sejam santos e irrepreensíveis. Paulo apresentou o tempo da eleição para demonstrar que os cristãos agora estavam em Cristo na condição de eleitos de Deus ( Ef 1:13 ), e Pedro apresenta a condição dos cristãos hoje (eleitos), e como alcançaram tal condição: em santificação pelo Espírito.

Percebe-se que através da santificação se dá a eleição dos homens, pois para a santificação é necessário ser anunciada a palavra aos homens, estes por sua vez creiam na pregação, e Deus opera a sua maravilhosa obra: a regeneração. Através da regeneração ocorre a justificação e santificação simultaneamente.

Paulo demonstra que os cristãos foram eleitos para santificação (objetivo), e Pedro demonstra que pela santificação do Espírito os Cristãos são eleitos (condição). A condição de eleitos decorre da santificação, mas quando Deus escolheu antes dos tempos eternos aqueles que estariam em Cristo, foi para serem santos e irreprimíveis.

Cristo demonstrou que a santificação é proveniente da sua palavra, que é espírito e vida para todos os que creem. A regeneração só é operada através da semente incorruptível, que é a palavra de Deus. Compare: “Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas” ( 1Pe 1:2 ), e “Tendo purificado as vossas almas na obediência a verdade…” ( 1Pe 1:22 ).

A ‘santificação’ ou ‘purificação’ só ocorre através da obediência.

Mas, o que é obediência? Obediência é crer na mensagem do evangelho do mesmo modo que cumprir os mandamentos de Deus é crer em Cristo ( 1Jo 3:23 ). Qual a verdade que os cristãos da Galácia não estavam obedecendo? À verdade do evangelho “Ó INSENSATOS gálatas! quem vos fascinou para não obedecerdes à verdade, a vós, perante os olhos de quem Jesus Cristo foi evidenciado, crucificado, entre vós?” ( Gl 3:1 ).

Como se obedece a verdade do evangelho? Crendo, como está escrito: “Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido” ( Rm 10:11 ).

Pedro procurou demonstra em sua saudação inicial que os cristãos são os eleitos de Deus, pois todos são santos por estarem em Cristo ( Ef 1:2 ). Eles tornaram-se santos (separados) após serem lavados pela palavra da verdade, a palavra do evangelho que obedeceram.

É através da obediência ao evangelho e aspersão do sangue de Jesus que os cristãos foram purificados, tornaram-se eleitos.

Tudo o que ocorreu com os cristãos após ouvirem e obedecerem à palavra do evangelho (aspersão do sangue, santificação e eleição) já era de conhecido de Deus (onisciência) antes dos tempos eternos “Pois os que dantes conheceu…” ( Rm 8:29 ).

Quando os apóstolos falaram da eleição, eles tinham em mente a geração que foi escolhida por Deus e a condição dessa geração. A geração dos eleitos ocorre em Cristo, e a geração dos não eleitos, em Adão ( 1Pe 2:9 ). A geração dos eleitos (justos) se dá em Cristo e a geração dos não eleitos (ímpios) em Adão porque uma é a geração dos justos e outra é a geração dos ímpios.

Nenhum descendente da carne de Adão foi eleito por Deus para ser santo e irrepreensível, antes só os homens que creem em Cristo, ou seja, que obedeceram a verdade do evangelho e são de novo gerados segundo Deus, são eleitos para serem santos (separados). É por isso que apóstolo Pedro fala que é por meio da santificação do Espírito que os cristãos são conhecidos d’Ele.

A ideia que Pedro procurou evidenciar é a mesma que Paulo demonstrou no verso seguinte: “Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” ( Gl 4:9 ).

Através da onisciência Deus é conhecedor de todas as coisas, ou seja, nada se exclui do seu saber, conhecimento. Porém, quando os cristãos eram incrédulos, eles não eram conhecidos de Deus. O que isto quer dizer, que Deus não é conhecedor de todas as coisas? ( Gl 4:8 ).

Não! Quando os cristãos não conheciam a Deus, Deus também não os conhecia. Porém, agora que conheceram a Deus, ou antes, tornaram-se um com Ele, conhecidos por Ele através da aspersão do sangue de Cristo que se da através da obediência à sua palavra, tornaram se filhos, eleitos (escolhidos) conforme o propósito eterno, que é a preeminência de Cristo como cabeça da igreja.

Conhecer a Deus vai além de um simples saber. Fala de união, ou seja, de tornar-se um só corpo com Cristo, conhecendo um ao outro em amor. Quando o cristão torna-se um só corpo com Cristo é o mesmo que Deus ter conhecido os cristãos, tornam-se um só corpo, pois o homem passa a compartilhar da natureza divina ( 2Pe 1:4 ).

A palavra ‘presciência’ não deve ser utilizada para fazer referência a ideia de que Deus antevê eventos futuros, pois Deus sabe de todas as coisas e eventos através dos séculos igualmente bem, o que se dá o nome de onisciência. O termo ‘presciência’, ou melhor, pré-conhecimento ou pré-ciência refere-se á mensagem acerca do Cristo que os profetas anunciaram de antemão (previamente). Que por intermédio do conhecimento de Deus em Cristo os homens tornar-se-iam um com Deus, conhecendo-O ( Dt 9:24 ; Am 3:2 ; Mt 7:23 ; Jo 10:14 -15).

Ora, o sangue da aspersão foi conhecido ainda antes da fundação do mundo do mesmo modo que os eleitos são conhecidos d’Ele através da aspersão deste mesmo sangue ( 1Pe 2:20 ).

Isto não coaduna com a ideia arminianista de que Deus determinou quem seria salvo através da ‘presciência’. O que Pedro demonstra não é o atributo da onisciência, antes que Deus determinou tudo o que é relativo à salvação do homem: o cordeiro, a palavra e a fé.

 

3 Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos,4 Para uma herança incorruptível, incontaminável, e que não se pode murchar, guardada nos céus para vós, 5 Que mediante a fé estais guardados na virtude de Deus para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo

Após o prefácio e a saudação, Pedro passou a bendizer a Deus pela sua misericórdia.

A estrutura inicial desta carta é similar a carta de Paulo aos Efésios e aos Salmos 103 e 104.

Pedro passa a bendizer, ou seja, a adorar a Deus reconhecendo os atributos de Deus (Salmos 104) e os benefícios concedidos aos homens (Salmos 103).

O fato de Pedro bendizer ou adorar a Deus nada acrescenta ao Criador, pois Deus não depende da adoração de suas criaturas para existir. Diferente são as imagens esculpidas, que são ícones idolatrados que surgem e são mantidos somente por serem venerados pelos homens, e que dependem desta veneração para continuarem sendo ídolos.

No entanto, os ídolos nada são ( 1Co 8:4 ), pois mesmo quando venerados, a adoração dos seus adeptos nada acrescenta ou omite as imagens de escultura. Somente são ídolos por causa de seus veneradores, mas afastando os seus adeptos, nada representam.

Como o homem adora a Deus?

Em primeiro lugar, só é possível adorar a Deus em espírito e em verdade, ou seja, somente aqueles que creram em Cristo e foram de novo criados é que o adoram segundo o que Ele estipulou: em espírito e em verdade;

Após o novo nascimento, cabe ao cristão reconhecer a grandeza de Deus e todos os seus atributos, e cantar todos os benefícios concedidos.

Pedro bendiz a Deus pela sua misericórdia, do mesmo modo que Davi e Paulo bendisseram ( Ef 1:3 ; Sl 103:10 ).

Ele aponta a misericórdia de Deus como sendo a causa de uma nova esperança, ou seja, em primeira instância a fé e a esperança do crente estão em Deus ( 1Pe 1:21 ).

Pedro é bem claro ao falar da regeneração em Cristo: gerar de novo. Ora, nascer de novo é o mesmo que ser participante de uma nova geração. Em Adão os homens são gerados segundo a carne, em Cristo, o último Adão, os homens são gerados de novo. Esta é a geração dos justos e aquela é a geração dos ímpios.

Mas, como ocorre o novo nascimento?

O ‘gerar de novo’ é um ato criativo de Deus (bara), onde Ele concede um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ). Deus não reformula ou melhora o velho homem gerado em Adão, antes, Ele faz tudo novo.

Quando Pedro falou ‘nos gerou de novo’, ele se incluiu na narrativa para demonstrar que, tanto ele quanto os cristãos foram de novo gerados. Este não é um privilégio restrito, antes todos os que creem são novamente criados.

É através da ressurreição de Cristo que Deus concede nova vida aos que crêem. Pela ressurreição de Cristo, o primogênito dentre os mortos, os homens nascidos sob a condenação de Adão também ressurgem para a glória de Deus e passam a condição de filhos de Deus, e Cristo assume a posição sublime de primogênito entre muitos irmãos.

Assim como Cristo ressurgiu dentre os mortos e ascendeu aos céus, os cristãos ressurgem com Cristo e assentam se nas regiões celestiais em Cristo. O mesmo poder que agiu em Cristo ressuscitando-O dentre os mortos é que opera a ressurreição dos que são alcançados pela misericórdia de Deus ( Ef 1:19 -20).

A viva esperança do crente é uma herança incorruptível e incontaminável, que não está guardada neste mundo, antes está guardada nos céus. A herança diz de bênçãos, do mesmo modo que Paulo agradece a Deus por todas as bênçãos concedidas por Deus ( 1Pe 3:9 ; Ef 1:3 ).

Ora, o que guarda o cristão para salvação é o poder de Deus, da qual o homem torna-se participante pela fé. Não é a confiança do homem que o salva ou que o sustem (guarda), antes é o poder de Deus que preserva o homem na salvação recebida.

Qual a virtude ou, qual o poder de Deus para salvação?

O poder de Deus para salvação é o evangelho de Cristo, como lemos em Romanos “Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego” ( Rm 1:16 ; Jo 1:12 ; 1Co 1:18 ).

Basta descansar (crer) em Deus que os cristãos são escondidos (guardado) através do seu poder para salvação que será manifesta muito em breve a todos. Revelar, tornar conhecido a todos os homens o retorno de Cristo (V. 5).

O poder de Deus que preserva os que creem da contaminação deste mundo é o evangelho da graça.

 

6 Em que vós grandemente vos alegrais, ainda que agora importa, sendo necessário, que estejais por um pouco contristados com várias tentações, 7 Para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece e é provado pelo fogo, se ache em louvor, e honra, e glória, na revelação de Jesus Cristo; 8 Ao qual, não o havendo visto, amais; no qual, não o vendo agora, mas crendo, vos alegrais com gozo inefável e glorioso; 9 Alcançando o fim da vossa fé, a salvação das vossas almas.

A alegria do cristão é proveniente das coisas pertinentes à salvação. Este deve ser o contentamento e a exultação do cristão, a salvação.

Há quem exulte por expulsar demônios ou quando opera algum milagre, porém, o alerta solene de Jesus é: “Mas, não vos alegreis porque se vos sujeitem os espíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus” ( Lc 10:20 ).

Esta recomendação de Jesus e do apóstolo Pedro é para que os cristãos não caiam no engodo do diabo e sejam levados pelos falsos profetas que fazem inúmeros milagres ( Mt 7:22 ).

A alegria pela salvação também se faz acompanhar de aflições. As aflições e as tentações contristam os seguidores de Cristo, mas estas coisas não são para comparar com a glória futura “Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós” ( Mt 5:12 ).

No verso sete, Pedro aborda a questão da perseverança e compara a fé com o processo de purificação do ouro.

A fé comparada com o ouro é muito mais preciosa. O ouro que segundo a concepção dos homens é um material nobre e que resiste ao tempo, porém, mesmo após ter sido provado pelo fogo continua sendo perecível.

A fé dos cristãos, quanto mais provada, redundará em louvor, honra e glória quando da volta de Cristo. Quanto maior as provações, ficará demonstrado quão grande é o valor da nossa fé, a fé que uma vez foi entregue aos santos (Judas 3).

Pedro demonstra quão maravilhoso é o evangelho, visto que ele apresenta aos cristãos Cristo crucificado, mas, mesmo não tendo visto a Cristo em carne, ou ressurreto, foram conquistados pelo seu amor.

Embora os cristãos não vejam a Cristo agora, o amam crendo, e sentem as suas vidas inundadas por uma alegria inefável e gloriosa. A alegria de Deus é proveniente da paz estabelecida entre Deus e os homens.

A perseverança fará com que os cristãos alcance o objetivo fim proposto no evangelho, a fé que foi entregue aos cristãos. Ora, os cristãos já haviam feito a vontade Deus quando creram na mensagem do evangelho, mas precisavam perseveram na fé que professaram para colocarem as mãos na herança prometida “Porque necessitais de perseverança, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” ( Hb 10:36 ).

 

10 Da qual salvação inquiriram e trataram diligentemente os profetas que profetizaram da graça que vos foi dada, 11 Indagando que tempo ou que ocasião de tempo o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava, anteriormente testificando os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir. 12 Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar. 13 Portanto, cingindo os lombos do vosso entendimento, sede sóbrios, e esperai inteiramente na graça que se vos ofereceu na revelação de Jesus Cristo;

Pedro apresenta um fato curioso acerca dos profetas do Antigo Testamento. Eles inquiriram diligentemente acerca de Cristo, a salvação que seria manifesta aos homens.

Os profetas perguntavam sobre a salvação que haveria de ser relevada, e eram diligentes quando profetizavam acerca de Cristo. Eles queriam saber os tempos que Deus estabeleceu pelo seu poder.

O Espírito de Cristo concediam aos profetas mensagens acerca da vinda do Messias e dos seus sofrimentos, porém, a época em que estes eventos se dariam não lhes era revelado.

Ora, segundo a onisciência de Deus Pai os eventos futuros eram revelados aos profetas, mas o fato de Deus conceder de antemão a revelação de eventos futuros (pré-conhecimento/πρόγνωσις/prognósis) não interfere nas decisões dos homens (v. 11). Cristo foi preso, crucificado e morto porque aprouve a Deus enfermá-lo, mas tudo ocorreu segundo o que foi vaticinado pelos santos profetas  “A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência (προγνώσει) de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos” ( At 2:23 ).

É pela onisciência que Deus antecipou aos seus profetas os eventos futuros, porém, a salvação não é determinada com base na ideia equivocada de ‘presciência’ como ‘saber de antemão’, antes a salvação é na santificação através da obediência ao evangelho, que é a fé entregue aos santos ( Jd 1:3).

Os profetas tinham conhecimento que falavam de coisas grandiosas para outros, e que as suas mensagens não diziam respeito a eles. Pedro quer que os cristãos tenham na memória que os profetas não profetizam acerca de bens para eles mesmos, antes, que eles (profetas) conheciam plenamente que outros seriam favorecidos pela graça de Deus.

Os profetas testificavam acerca de Cristo, e os apóstolos agora, pelo Espírito Santo anunciavam o evangelho. Ou seja, a mensagem anunciada aos cristãos era a mesma anunciada pelos profetas e que lhes aguçava a curiosidade para saber a respeito da salvação que hoje é revelada.

Muitos entendem que os anjos desejaram pregar o evangelho aos homens, porém, Pedro estava demonstrando que a mesma curiosidade pertinente aos profetas, também era pertinente aos cristãos. Do mesmo modo que os profetas inquiriram diligentemente, os anjos também desejaram compreender (v. 12b).

As coisas que os anjos desejaram atentar não foi desejo de anunciar as boas novas do evangelho, antes desejaram compreender a multiforme sabedoria de Deus, que até antes do advento da igreja era um mistério aos principados e potestades celestiais ( Ef 3:10 ).

Ora, se os anjos desejaram compreender as grandezas do evangelho, e os profetas inquirira diligentemente acerca da salvação, coisa que não estava reservada a eles, chega-se a seguinte conclusão: “Portanto,…” ( 1Pe 1:13 ).

Se os anjos desejaram compreender e os profetas inquiriram acerca dos tempos, o que resta aos que estão sendo beneficiados pela salvação revelada é cingir os lombos do entendimento. A recomendação de Pedro é para que os cristãos tenham uma compreensão apurada acerca das riquezas de Deus apresentada no evangelho.

Quando os cristãos ajustam bem a sua compreensão acerca do evangelho, deixando de lado as dúvidas e especulações, ele passa a esperar inteiramente na graça oferecida. Sobre a compreensão dos cristãos o apóstolo Paulo orou a Deus pelos cristãos em Éfeso: “Oro para que, estando arraigados e fundados em amor, possais perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade” ( Ef 3:18 ).

A compreensão acerca das verdades eternas deve ser a temática da vida cristã, pois o cristão só consegue crescer na graça e conhecimento de Cristo. Não há crescimento espiritual, pois o homem espiritual é perfeito diante de Deus. Muitos apregoam crescimento espiritual, mas os cristãos já são criados idôneos, ou seja, já pode participar da herança dos santos em Deus ( Cl 1:12 ).

O que é preciso àqueles que creram na mensagem do evangelho? Falta somente transformarem-se através da renovação do entendimento. O que era pertinente a velha natureza, o cristãos deve lançar fora, para viver segundo o conhecimento de Cristo ( Rm 12:2 ).

Do mesmo modo que Paulo agradece a Deus pelas bênçãos alcançadas do verso 3 ao 14 da carta aos Efésios, e ora a Deus para conceder aos cristãos o que lhes faltava (conhecimento) ( Ef 1:18 ), Pedro recomenda os cristãos a ajustar a compreensão acerca do conhecimento revelado.

Jesus alertou na parábola da semente que a compreensão é essencial a salvação, pois a ação nefasta do inimigo do homem é arrancar a semente dos corações que não compreendem “Ouvindo alguém a palavra do reino, e não entendendo, vem o maligno e arrebata o que foi semeado no coração” ( Mt 13:19 ).

É por isso que o escritor aos Hebreus recomenda os cristãos atentarem diligentemente para as coisas que já ouviram, para que em tempo algum (bonança ou perseguição) se desviem ( Hb 2:1 ).

Pedro recomenda a sobriedade, pois ela é essencial à vigilância, principalmente àqueles que aguardam a revelação de Cristo Jesus, o Senhor ( 1Ts 5:6 ).

 

14 Como filhos obedientes, não vos conformando com as concupiscências que antes havia em vossa ignorância; 15 Mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver; 16 Porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo. 17 E, se invocais por Pai aquele que, sem acepção de pessoas, julga segundo a obra de cada um, andai em temor, durante o tempo da vossa peregrinação, 18 Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que por tradição recebestes dos vossos pais, 19 Mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado,

O comportamento dos cristãos deve ser conforme o comportamento de filhos obedientes. Quando obedeceram a fora de doutrina que foi entregue no evangelho, crendo, os cristãos receberam poder para serem feitos (criados) filhos de Deus ( Jo 1:12 ).

Agora, de posse desta nova condição: filhos do Deus vivo, também devem viver como filhos obedientes. Ora, não é o comportamento dos cristãos que os faz filhos de Deus, e nem o comportamento diário que os mantém na condição de filhos.

Antes, os cristãos são filhos porque obedeceram ao mandamento que diz: “Ora, o seu mandamento é este, que creiamos no nome do eu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 2:23 ). Crer é o mesmo que obedecer a Deus!

Porém, apesar de não ser o comportamento que faz o homem filho de Deus, antes o ser de novo gerado segundo o poder do evangelho, agora que se é filho, os cristãos não devem se conformar com as concupiscências que antes tinham na ignorância.

Os desejos são pertinentes ao homem. Desde o Éden a concupiscência acompanhava o homem ( Gn 3:6 ). Percebe-se que a concupiscência não é o pecado, porém, os desejos do novo homem não devem ser conforme os desejos dos homens que ainda vivem na ignorância.

Se o homem foi alcançado pelo conhecimento do evangelho, que o liberta das trevas da ignorância, deve agora pensar nas coisas que são de cima, onde Cristo está assentado a destra de Deus. Deve aguardar inteiramente na graça que a revelação de Cristo oferece (v. 13).

Os desejos são pertinentes a esta vida, e todos que se deixam levar pelas concupiscências da carne, dos olhos e pela soberba da vida é por que não são sóbrios (vigilantes). Pedro quer demonstrar que a concupiscência gera tentação “Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência, depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte” ( Tg 1:14 -15).

Os cristãos devem pautar os seus desejos segundo o amor não fingido, pois os desejos segundo a concupiscência dos homens não é pertinente àqueles que foram iluminados pela luz do evangelho “Para que, no tempo que vos resta na carne, não vivais mais segundo as concupiscências dos homens, mas segundo a vontade de Deus” ( 1Pe 4:2 ).

Mas, como é Santo Àquele que chamou os cristãos à sua misericórdia, os cristãos também deveriam ser santos em todo o procedimento.

Observe que o comportamento dos cristãos é uma recomendação do apóstolo, e não uma imposição de Deus. Deus é santo porque a ninguém oprime, ou seja, ele não obriga nenhuma de suas criaturas a servi-lo “Ao Todo-Poderoso não podemos alcançar; grande é em poder; porém a ninguém oprime em juízo e grandeza de justiça” ( Jó 37:23 ).

Ele é santo e por isso chama, convida, oferece aos homens salvação. A santidade de Deus não impõe aos homens a sua vontade. Ele não predestina ninguém à salvação ou à perdição.

O cristão é santo porque foi criado de novo participante da natureza de Deus. Não é o comportamento do cristão que o mantém separado dos pecadores, pois há muitos pecadores que tem uma vida regrada, e não são santos (separado para uso exclusivo de Deus).

Mas, como Deus é santo e chamou o homem à santidade, é de bom alvitre que os cristãos mantenham-se separados também do comportamento dos ímpios pecadores ( 1Pe 1:15 ).

Ora, Pedro não faz esta recomendação por acaso, visto que está escrito: “Sede santos, porque eu sou santo” ( 1Pe 1:16 ). Ora, o versículo não recomenda aos homens que se santifiquem, pois isto é impossível aos homens. Antes o versículo expressa a vontade de Deus, pois é através da oferta do corpo de Cristo que o homem é santificado ( Hb 10:10 ).

Ora, quando Deus diz: ‘Sede santo’, temos a sua vontade (querer), e o seu efetuar através da sua palavra (Sede) “Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade” ( Fl 2:13 ). ‘Sede’ não é uma ordem, antes expressa a vontade de um Deus que trabalha para aqueles que nele esperam.

Este verso apresenta a mesma vontade de Deus a Abraão, ‘anda na minha presença e sê perfeito’ ( Gn 17:1 ). Ora, ser perfeito não é a condição para se andar na presença de Deus, mas ao andar na presença de Deus, o homem é perfeito, visto que ele justifica todos os que nele esperam como foi justificado Abraão pela fé.

Deus não exige perfeição do homem, antes é na sua vontade que o homem é aperfeiçoado “Perfeito serás, como o SENHOR teu Deus” ( Dt 18:13 ). O homem só é santo porque Deus o separou dos demais para ser santos ( Lv 20:26 ).

Pedro chama os seus interlocutores ao raciocínio. Se os cristãos invocam por Pai um Deus que não faz acepção de pessoas, ou seja, um Deus que julgará e retribuirá a cada um segundo as suas obras, deve entender que, se Deus punirá os ímpios pelas suas más ações, também será censurando pelo mal ou bem que houver feito ( 2Co 5:10 ).

Ora, os seus filhos precisam compreender que, o comportamento não é para salvação, visto que a salvação é em Cristo, porém, assim como os ímpios serão julgados segundo as suas obras, os justos também serão.

Quem cinge os lombos do entendimento compreendem que Deus não faz acepção de pessoas; que não foi com coisas corruptíveis que foram salvos; que o sangue de Cristo é precioso, o cordeiro de Deus sem mácula.

Pedro convoca os cristãos à sobriedade, para que não andassem segundo a vaidade dos pensamentos, entenebrecidos no entendimento ( Ef 4:17 -18), mas que servissem ao Senhor não fazendo uso do que é pertinente ao velho homem, que já foi crucificado e sepultado co Cristo ( Cl 3:8 -10).

 

20 O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós; 21 E por ele credes em Deus, que o ressuscitou dentre os mortos, e lhe deu glória, para que a vossa fé e esperança estivessem em Deus;

Pedro compara o sangue de Cristo como sendo o de um cordeiro sem mancha ou mácula, ou seja, perfeito ( 1Pe 1:19 ).

Ora, Cristo foi ‘conhecido’ do Pai antes da fundação do mundo (na eternidade). Em ‘outro tempo’, ou seja, um tempo específico que não é conforme o tempo dos homens.

Mas, o que é ter sido ‘conhecido’ antes da fundação do mundo? Que tipo de ‘conhecer’ é este apontado pelo apóstolo Pedro?

É ‘conhecido’ de Deus aquele que o ama “Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido dele” ( 1Co 8:3 ). Jesus também falou acerca de ter sido conhecido do Pai, pois o Pai O amou: “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me amaste antes da fundação do mundo” ( Jo 17:24 ).

Compare:

a) “… porque tu me amaste antes da fundação do mundo” ( Jo 17:24 );
b) “O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo…” ( 1Pe 1:20 ).

Antes de haver mundo, Cristo e o Pai estavam unidos em amor, que é o vínculo da perfeição, ou seja, Cristo é conhecido do Pai antes mesmo de ser introduzido no mundo como Filho amado.

Ser conhecido de Deus é estar em Deus e Deus em nós. O homem em Deus é surpreendente, porém, Deus nos homens é maravilhoso!

Ser ‘conhecido’ de Deus é uma forma específica de fazer referência a divindade de Cristo. É fazer dos homens e as pessoas da divindade um só “Eu e o Pai somos um” ( Jo 10:30 ), e “Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti. Que eles também sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes dei a glória que tu me deste, para que sejam um, como nós somos um: Eu neles, e tu em mim, para que sejam perfeitos em unidade…” ( Jo 17:21 -23).

Ora, o mundo não conheceu a Cristo porque não amou a Deus, mas Cristo conheceu a Deus, pois sempre estiveram unidos em amor. O ‘conhecer’ de Deus é compartilhar da mesma natureza, e os anjos, apesar de maior em poder e glória, jamais serão conhecidos do mesmo modo que os que creem conhecem a Deus, ou antes, são conhecidos dele ( Gl 4:8 -9).

Observe que Cristo foi conhecido de Deus e revelado aos homens. Os anjos não conheceram a Cristo como o Verbo encarnado na eternidade, mas viram o Unigênito de Deus que foi revelado aos homens “E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória” ( 1Tm 3:16 ).

Os anjos ficaram maravilhados quando viram que Deus se manifestou aos homens em carne, o Verbo Eterno encarnado. Foi lhes revelado a multiforme sabedoria quando viram que todos que creem tornam-se semelhantes a Cristo, pois são novamente criados em verdadeira justiça e santidade segundo o poder contido no evangelho.

A palavra grega ‘proginosko’ (conhecer) usada em At 26:5 ; Rm 8:29 ; Rm 11:2 ; 1Pe 1:20 e 2Pe 3:17 não é idêntica à palavra grega ‘prognosis’, usada em At 2:23 e 1Pe 1:2 , mesmo sendo correlatas. ‘Presciência’ não é um dos aspectos da ‘onisciência’, atributo de Deus relacionado ao conhecimento que ele tem de todas as coisas em todos os tempos (eternidade e o tempo dos homens: passado, presente e futuro).

Ao unirem-se (conhecer) o homem e a mulher, tornam-se uma só carne, mas o mistério eterno revela-se na igreja, quando o cristãos torna-se membro do corpo de Cristo ( Ef 5:30 -32).

Cristo foi manifesto aos homens para que eles pudessem crer em Deus. Como? Ora, a mensagem do evangelho demonstra que Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pelo poder de Deus, e que ele recebeu glória e poder, fato que dá garantias, àqueles que com medo da morte eram servos do pecado, de que basta confiar em Deus que será livre do medo e da servidão “E livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão” ( Hb 2:15 ).

Cristo foi manifesto porque Deus amou o mundo de tal maneira (v. 20), e deu o seu Filho (que foi morto e ressurgiu), para que, por intermédio de Cristo, exemplo de fé (autor e consumador), os homens também passem a crer em Deus (v. 21).

Ora, a fé está em Deus, que zela pela sua palavra para cumpri-la, e a esperança do homem também, pois espera inteiramente na salvação que a revelação de Cristo oferece gratuitamente.

Ora, mediante a fé os cristãos estão guardados na virtude (fidelidade) de Deus. A palavra do evangelho é a fé que um dia foi dada aos santos (Judas 3), e por meio dela o cristãos é preservado, esperando inteiramente na graça oferecida.

Esperar em Deus é fé, porém, a palavra do evangelho também é designada fé. A fé que o homem deposita em Deus equivale a esperança, e a fé que foi entregue aos santos (evangelho) é o mesmo que ‘esperança proposta’ ( 1Pe 1:5 ; 13 e 21). Deste modo temos uma esperança proposta, que é designada evangelho ou fé, e quem tem esta esperança em Deus, exerce ‘fé’ (esperança) em Deus.

Os calvinistas e arminisnistas causam um grande prejuízo à compreensão da verdade do evangelho porque não conseguem distinguir que o evangelho é o mesmo que a esperança proposta. Que o evangelho é a fé que uma vez foi dada aos santos.

Caso conseguissem distinguir que o evangelho, a esperança proposta e a fé dada aos santos são coisas provenientes de Deus, veriam também que crer na mensagem do evangelho, ter fé em Deus é o mesmo que esperar inteiramente na esperança proposta.

 

22 Purificando as vossas almas pelo Espírito na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingido; amai-vos ardentemente uns aos outros com um coração puro; 23 Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre. 24 Porque Toda a carne é como a erva, E toda a glória do homem como a flor da erva. Secou-se a erva, e caiu a sua flor; 25 Mas a palavra do SENHOR permanece para sempre. E esta é a palavra que entre vós foi evangelizada.

Os versos 22 e 23 são equivalentes, ou seja, expressam dois eventos provenientes da mensagem do evangelho.

Somente Deus gera de novo e purifica o homem. Somente Deus podia realizar o pedido do salmista Davi: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto” ( Sl 51:10 ). Somente Deus (Espírito) pode espargir água limpa (palavra) sobre os homens, concedendo-lhes um novo coração e um novo espírito ( Ez 36:25 -27). O novo Nascimento somente ocorre por intermédio da água (semente incorruptível) e do Espírito (Deus) ( Jo 3:5 ).

Pedro demonstra que efetivamente os cristãos foram purificados quando creram na mensagem do evangelho (v. 22). ‘Obedecer à verdade’ é o mesmo que ‘cumprir o mandamento de Deus’ que é: “… que creiamos no nome do seu Filho…” ( 1Jo 3:23 ).

Somente quando se crê (obedece) na mensagem do evangelho o Espírito Eterno digna-se em realizar a sua obra “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

Deus purifica o homem completamente (livra do jugo) e o fardo que agora deve carregar por estar em Cristo é amar uns aos outros, segundo o seu mandamento ( 1Jo 3:23 ).

Antes, por ser descendente de Adão, o coração do homem era ‘enganoso’ e ‘incorrigível’, agora, por estar em Cristo, foi concedido um novo coração puro, sendo possível amar uns aos outros ardentemente com um coração puro ( Jr 17:9 ; Sl 51:10 ; 1Pe 1:22 ).

Observe a semelhança entre o verso 22 e o verso 2:

“…eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, na santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus …” (v. 1);
“Tendo purificado as vossas almas na obediência à verdade…” (v. 22).

Pedro apresenta a doutrina da regeneração ou do novo nascimento.

Por que os cristãos foram de novo gerados? Porque todos os homens são gerados em Adão, de uma semente corruptível ( Jo 1:13 ). Após crer na mensagem do evangelho, os homens que foram gerados em Adão, agora são de novo gerados pela palavra de Deus.

A palavra de Deus é viva e permanece para sempre, e todos que são de novo gerados passam a viver para sempre com Deus.

Para demonstrar que todos os homens nascidos em Adão são perecíveis, Pedro cita uma passagem de Isaias: “Diz uma vos: Clama. E eu disse: Que hei de clamar? Todos os homens são como a erva, e toda a sua beleza como as flores co campo. Seca-se a erva, e caem as flores, soprando nelas o hálito do Senhor. Na verdade o povo é erva. Seca-se a erva, e caem as flores, mas a palavra do nosso Deus subsiste eternamente” ( Is 40:6 -8).

Observe que a citação de Pedro não é “ips literis”. Ele somente evidência a ideia do texto de Isaias, demonstrando que todos os homens nascidos da carne (toda carne) são comparados a erva. Toda a glória que o homem possui é comparável a flor da erva.

Para demonstra quão fugaz é a existência dos homens, Pedro somente arremata: “Secou-se a erva, e caiu a sua flor”. Ele não se ateve ao processo de degradação pertinente a existência do homem que culmina com os eu retorno ao pó da terra.

Já a palavra de Deus é completamente diferente: ela permanece para sempre, e os que por ela são de novo gerados subsistem eternamente.

Sobre esta verdade Jesus disse: “Ele, porém, respondendo, disse: Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” ( Mt 15:13 ).

Ora, a planta que o Pai não plantou são os homens nascido em Adão e todos serão arrancados. Porém, aqueles que nascem da palavra de Deus, são plantação do Senhor, árvores de justiça “A ordenar acerca dos tristes de Sião que se lhes dê glória em vez de cinza, óleo de gozo em vez de tristeza, vestes de louvor em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem árvores de justiça, plantações do SENHOR, para que ele seja glorificado” ( Is 61:3 ).

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