Jesus veio salvar o que se havia perdido

A finalidade da predestinação é a primogenitura de Cristo, e não a salvação. O filhos de Israel segundo a carne que são salvos antes de Cristo e na grande Tribulação não fazem parte desta predestinação, não terão a imagem do Filho de Deus. Para Cristo ser o primogênito há a necessidade de existirem irmãos conforme a sua semelhança, por isso que assim como Ele é o veremos e seremos semelhantes a Ele ( 1Jo 3:2 ).


Ao ler o artigo “Questões sóbrias para aqueles que creem numa redenção universal ou expiação ilimitada” do Pr. Colin Maxwell[1], não me esquivei à oportunidade de tecer alguns comentários e responder alguns dos seus questionamentos.

Mas, antes de responder as ‘Questões sóbrias’ do Pr. Maxwell, segue uma breve exposição do que creio segundo as Escrituras.

 

Eleição e predestinação

Os crentes em Cristo Jesus, por fazerem parte do corpo de Cristo, que é a sua igreja, além da maravilhosa graça de terem alcançado a salvação gratuitamente, também foram chamados a fazer parte do eterno propósito que Deus estabeleceu em Cristo “… segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor” ( Ef 3:11 ).

Deus introduziu o Seu Filho no mundo na condição de Unigênito, pois Ele foi o único homem concebido no ventre de uma virgem pelo poder do Espírito Santo ( Lc 1:35 ). Mas, ao ressuscitar o Seu Filho dentre os mortos, Cristo é declarado ‘primogênito’ entre muitos irmãos, pois todos que creem morrem com Cristo e ressurgem com Ele como filhos se Deus, uma nova criatura ( Cl 3:1 ).

Como o eterno propósito de Deus estabelecido na eternidade é constituir o Seu Filho primogênito entre muitos irmãos, todos quantos são salvos em Cristo Jesus através do evangelho foram predestinados a serem conforme a imagem de Cristo “… também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos( Rm 8:29 ).

O apóstolo Paulo deixa claro que o objetivo de predestinar os que ‘conheceram’ a Deus, ou antes, foram conhecidos d’Ele é que Cristo seja primogênito entre muitos irmãos ( Gl 4:9 ). Pela pregação da fé o homem ‘conhece’[2] a Deus, o que é impossível aos rudimentos fracos e pobres da lei ( Gl 3:2 com Gl 4:9 ).

Deus estabeleceu na eternidade (predestinou) que os membros do corpo de Cristo seriam conforme a imagem de Seu Filho por causa do beneplácito que propusera em Cristo: Ele será primogênito entre muitos irmãos ( Rm 8:29 ).

A salvação difere da eleição e da predestinação quanto a finalidade. Enquanto a salvação diz da providência divina segundo as riquezas da graça de Deus que livra o homem da condenação estabelecida no Éden ( Ef 1:7 ), a eleição e a predestinação decorrem do conselho (beneplácito) da vontade de Deus, que é convergir na plenitude dos tempos todas as coisas em Cristo, e isso para louvor da Sua glória ( Ef 1:11 ).

Sem a salvação em Cristo é impossível ser eleito para o propósito de Deus que foi proposto em Cristo segundo o Seu beneplácito. É por isso que o apóstolo Paulo disse a Timóteo que Deus salva os crentes salva os crentes segundo o seu poder (evangelho) e que os chamou com santa vocação (eleição e predestinação).

O apóstolo Pedro ao falar da eleição aponta para uma geração: a geração eleita, ou seja, aqueles que foram gerados de novo através da semente incorruptível. Uma geração foi eleita, portanto a eleição não aponta para indivíduos “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” ( 1Pd 2:9 ).

Deus não elegeu e nem predestinou indivíduos para a salvação, antes Ele elegeu a geração de Cristo para serem santos e irrepreensíveis e os predestinou para serem conforme a imagem do Seu Filho, para que Ele seja primogênito entre muitos irmãos.

A salvação se dá no tempo que se chama hoje e o propósito eterno foi estabelecido antes de haver mundo (eternidade)! A eleição, segundo o propósito estabelecido em Cristo é anterior à salvação, porém, a vocação do crente para o propósito que Deus estabeleceu em Cristo é posterior à salvação.

“Portanto, não te envergonhes do testemunho de nosso SENHOR, nem de mim, que sou prisioneiro seu; antes participa das aflições do evangelho segundo o poder de Deus, que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” ( 2Tm 1:8 -9).

O apóstolo João destaca que os cristãos serão semelhantes a Cristo quando Ele se manifestar ( 1Jo 3:2 ), pois para isto foram predestinados a fim de que Jesus seja primogênito entre muitos irmãos.

 

Mundo

Quando é dito na Bíblia que Deus amou o mundo, certo é que o termo ‘mundo’ não se refere ao globo terrestre ou a sua fauna, visto que eles se reservam para o fogo. Quando é dito que Deus amou o mundo, o termo grego κόσμος, transliterado ‘kósmos’ foi empregado para fazer referência a todos habitantes do planeta terra.

Esta leitura do termo depreendemos do ‘Ide’ de Jesus aos seus discípulos. A mesma ordem foi registrada pelos evangelistas Mateus e Marcos, sendo que este registrou “Ide por todo mundo e pregai o evangelho a toda criatura ( Mc 16:15 ), e aquele registrou “Ide e fazei discípulos de todos os povos( Mt 28:19 ), o que demonstra que o termo grego κόσμος (mundo) deve ser lido com a conotação ‘de todos os povos’.

É no sentido de ‘povos’, e não de ‘extensão’ geográfica que o mesmo evangelho que estava com os cristãos em Colossos, estava se propagando pelo κόσμος (mundo) ( Cl 1:6 ).

No verso 23 do capítulo 1 de Colossenses, ao admoestar os cristãos a permanecerem firmes no evangelho (a não se afastar do evangelho que ouviram), o apóstolo Paulo enfatiza que o evangelho foi ‘proclamado’ a toda criatura debaixo do céu. ‘Toda criatura’ é um modo deixar evidente que a mensagem do evangelho não faz acepção de povo, língua ou nação ( Cl 1:23 ).

Agora, o mesmo termo ‘mundo’ quando empregado no contexto que se segue, possui outra conotação:

“E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo ( 1Jo 2:2 ).

O termo κόσμος (mundo) no verso acima não serve ao propósito de demonstrar que Deus não faz acepção de pessoas, antes é inclusivo, pois a propiciação em Cristo não era somente para os cristãos convertidos, mas pelos pecados de todo o mundo.

 

Pecadores

Por causa de uma só ofensa todos os homens ficaram sujeitos ao pecado, por isso a morte afetou todos os homens, de modo que todos são pecadores ( Rm 5:12 ; 15:21 -22).

Quando o apóstolo Paulo diz que o pecado entrou no ‘mundo’, o termo não tem a conotação de extensão geográfica, e sim de inclusão, indicando que o pecado afetou todos os homens sem distinção. Como os judeus se entendiam diferentes dos gentios, o termo ‘mundo’ foi utilizado para demonstrar que o pecado afetou judeus e gregos “Pois quê? Somos nós mais excelentes? De maneira nenhuma, pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado” ( Rm 3:9 ).

Quando lemos o testemunho de João Batista acerca de Cristo, o Cordeio de Deus que tira o pecado do ‘mundo’, certo é que João Batista esta fazendo referencia aos profetas para demonstrar que aquele Jesus era o descendente prometido a Abraão em quem todas as famílias da terra são benditas. Novamente verifica-se que o termo ‘mundo’ tem conotação inclusiva para indicar nações, povos e tribos de todas as línguas.

Todos os homens são pecadores, e Cristo veio salvar o que se havia perdido. A missão de Cristo é inclusiva e extensiva a todos os homens, até mesmo sobre aqueles que eram discriminados pelo seu próprio povo, como era o caso de Zaqueu, o publicano ( Lc 19:10 ).

Teria Cristo vindo salvar alguns que se perderam dentre muitos? Este não é o posicionamento das Escrituras, pois não há exceção: todo aquele que invocar o Senhor será salvo, visto que Deus quer que todos se salvem e que venham ao conhecimento da verdade ( 1Tm 2:4 ).

 

Resposta as indagações do Pr. Colin Maxwell

As respostas aqui apresentadas não possuem o condão de fomentar disputas teológicas, antes que cada cristão leia a Bíblia e medite nela.

Faz-se necessário deixar registrado que a visão bíblica é aquela que não acrescenta e nem diminui o conteúdo que há na Lei, nos Salmos e nos Profetas, porque foi isso que Cristo e os apóstolos fizeram: evidenciaram o cumprimento das Escrituras ( At 26:22 ; At 4:18 ; Lc 24:25 -27).

Como o Pr. Maxwell defende que o calvinismo deve ser difundido em suas ‘Questões sóbrias’, especificamente na de número 14, através da pergunta:

‘Você se refreia de crer na redenção particular por qualquer outra razão além do temor do homem?’, tenho que destacar que crer é algo de fórum íntimo, portanto, o pastor seria mais feliz se perguntasse se ‘você se refreia confessar a redenção particular por temor (medo) a homens’, porque quando creio, posso negar a crença e ninguém pode provar o contrário.

Respondendo a pergunta, devo afirmar segundo as Escrituras que, para alcançar a salvação em Cristo não é imprescindível confessar como se dá a redenção que Deus providenciou para a humanidade. Afinal, a redenção em Cristo é tão grandiosa que revela aos seres celestiais a multiforme sabedoria de Deus ( Ef 3:10 ).

Considerando que a redenção revela a multiforme sabedoria de Deus até aos seres celestiais, não podemos considerar que seja imprescindível para alcançar a salvação confessar como se dá a redenção ( Ef 2:2-3 e 4:17). As Escrituras afirmam categoricamente o que é necessário: confessar (admitir) que Jesus é o Senhor “A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” ( Rm 10:9 ).

Quem evangeliza deve conhecer qual a esperança do salvo, quais as riquezas da glória da nossa herança e qual a excelente grandeza do poder de Deus sobre os que creem ( Ef 1:16 -20), mas ao evangelizar deve se ater a apresentar o Cristo, e este crucificado e ressurreto dentre os mortos.

O pastor insiste perguntando:

‘Se o temor do homem é a única razão (de não confessar a redenção particular), você não reconhece que isto no fim provará ser uma armadilha?’, o que me faz responder com outra pergunta: Se há predestinação para salvação, que armadilha pode haver em não confessar a redenção particular?

Esta pergunta do pastor me levar a inferir que a intenção dele é afirmar que, saber como se dá a redenção: se particular ou universal, é garantia de salvação. Crer que Deus predestinou alguns para salvação é garantia da salvação? Ou melhor, seria garantia de predestinação? Se a garantia de salvação se encontra em Crer que o Senhor Jesus morreu por causa de nossos pecados e ressuscitou para nossa justificação, por que tanto empenho em convencer qual tipo de redenção crer? Por que perder tempo anunciando como se dá a redenção, se a salvação se alcança em crer em Cristo Jesus?

Devo lembrar aqui que crer que Jesus é o Senhor e confessar que Ele é ressurreto dentre os mortos é garantida de salvação, e nisto não há ‘armadilha’ alguma, porque Deus vela sobre a sua palavra para cumprir.

A seguir o Pr. Maxwell faz uma pergunta que mais parece uma espécie de chantagem emocional evocando o medo ao dizer:

“Você não pode conversar sobre e através das diferenças com aqueles que você teme, apontado o sucesso da pregação calvinista na história da igreja? (Provérbios 29:25)”.

Ao citar provérbios sem levar em consideração o contexto bíblico, depois de fazer sua pergunta, o pastor parece induzir meninos em Cristo a conversar sobre a redenção particular e o sucesso da pregação calvinista, e não as Escrituras.

Por que intimidar o cristão para que converse sobre questões e sucesso da pregação calvinista, se a promessa bíblica é que não há mais nenhuma condenação para quem está em Cristo, e somos exortados a: conhecer qual a esperança dos santos, quais as riquezas da glória da nossa herança e qual a excelente grandeza do poder de Deus sobre os que creem ( Ef 1:16 -20), nada dizendo sobre se a redenção é geral ou particular?

O apóstolo João fez um alerta acerca da permanência em Cristo, mas o alerta não evoca medo e nem se apoia em chantagem emocional, como se lê:

“Todo aquele que prevarica, e não persevera na doutrina de Cristo, não tem a Deus. Quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem tanto ao Pai como ao Filho” ( 2Jo 1:9 ).

A doutrina de Cristo que o apóstolo João faz referencia não se refere à pregação calvinista, mas ao mandamento que o Senhor Jesus deu, à saber: a ‘amar a Deus sobre todas as coisas’ crendo em Cristo, e ‘ao próximo como a si mesmo’ segundo o mandamento de Deus ( 1Jo 3:24 ).

Evoco o posicionamento do apóstolo Paulo:

“Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida” ( Rm 5:18 )

A Bíblia mostra que a graça de Deus se estende a todos os homens, assim como a ofensa de Adão trouxe juízo e condenação sobre todos os homens. Se admitirmos que o juízo de Deus veio sobre todos os homens para condenação sem exceção, também temos que admitir que a graça veio sobre todos os homens.

A condenação veio sobre todos os homens, porque ela é em função do nascimento natural segundo a carne de Adão. Mas, com relação à graça sobre todos os homens pela obediência de Cristo, só desfrutam dela aqueles que creem em Cristo conforme o poder que há no evangelho. A graça é poderosa para alcançar todos os homens sem exceção, pois a perdição foi para todos sem exceção!

“Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia” ( Rm 11:32 );

“E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo ( 1Jo 2:2 ).

Faço esta defesa do evangelho de Cristo por não temer qualquer posicionamento doutrinário, ou homem algum, pois devemos ter por lema: “Porque nada podemos contra a verdade, senão pela verdade” ( 2Co 13:8 ).

Além do mais, o sucesso de qualquer agremiação ou tendência teológica não é selo de autenticidade doutrinária, por isso não me refreio em contestar o que se demonstra contrario às Escrituras mesmo que tenha atingido o sucesso.

Na questão de número 13[3], o Pr. Maxwell aponta a existência de calvinistas que ele desaprova. Na pergunta que contém muita argumentação, no afã de remover o que traz entrave à doutrina calvinista, o pastor lança descredito nos ‘hiper’ calvinistas por evidenciar que não há a necessidade de se evangelizar.

No entanto, os ditos hiper calvinistas são coerentes quando afirmam que não há necessidade de pregar quando se acredita na predestinação para a salvação. Segundo os hiper calvinista, se Deus só garante salvação para os eleitos segundo Sua soberania, exclui-se a necessidade de evangelizar.

Entendo que os hiper calvinista estão em extinção porque os demais calvinistas não sustentam o que afirmam. A recomendação de Tiago é: “Assim falai, e assim procedei, …” ( Tg 2:12 ), portanto, se a salvação decorre de uma predestinação, a pregação do evangelho fica sem finalidade. Uma característica de quem confessa a doutrina calvinista e defende a evangelização parece se amoldar muito bem ao alerta que o apostolo Paulo fez a Timóteo: “… Querendo ser mestres da lei, e não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam” ( 1Tm 1:6 -7 ).

O cerne da questão não está na constatação de calvinistas que não recomendam evangelizar, e sim na essência do pensamento calvinista: por que evangelizar todos, se a salvação é para alguns escolhidos? Qual a necessidade de se evangelizar a todos, se a salvação é só dos eleitos? Se a salvação é só para alguns, porque o ‘ide’ de Jesus é para todos?

A energia que os não hiper calvinistas despendem para desqualificar a salvação ao alcance de todos deveria ser aplicada em encontrar argumentos que expliquem a necessidade de evangelismo considerando a lógica de sua doutrina, pois se de fato existe eleição e predestinação para a salvação, que se dê uma explicação plausível por que pregar o evangelho. Somente afirmar que também evangelizam não valida utilidade do evangelismo dentro da doutrina que anunciam.

Para defender o seu argumento, o Pr. Maxwell aponta na pergunta de n° 12 os pregadores George Whitefield e C. H. Spurgeon como os maiores evangelistas que já viveram. Volto a repetir, a postura desses homens e dos neo calvinistas não esclarece e nem valida a necessidade de evangelizar na doutrina calvinista.

Com relação à questão de n° 11:

“Você vê a redenção particular como estando em desvantagem quando se trata da livre oferta do evangelho? Tanto calvinistas como não calvinistas creem que o precioso sacrifício do Filho de Deus é suficiente para salvar o mundo, tanto os eleitos como os não eleitos – isto não remova qualquer senso de desvantagem?”;

Primeiro: ‘vantagem’ não é uma questão que se deva levar em conta quando o assunto é salvação. O que se deve considerar é a veracidade da palavra, e as palavras do artigo “Questões sóbrias…” se mostram duvidosas, porque enquanto aqui afirma que o precioso sacrifício de Jesus é suficiente para salvar o mundo todo, nas questões de número 02 e 03 argumenta contra esta mesma possibilidade dizendo:

“Cristo veio e morreu para salvar eficazmente homens ou apenas para fazer a salvação possível? Então, era teoricamente possível que Cristo falhou, no final das contas, no Seu propósito de Sua morte? Ele realmente verá o fruto do trabalho de Sua alma e ficará”, ou “Cristo está realmente satisfeito com o fruto do trabalho de Sua alma quando Ele vê Judas Iscariotes, (por quem, você insiste, Ele morreu, da mesma forma como por João e Pedro, etc.) indo para o próprio lugar onde teria sido melhor para ele nunca ter nascido? poderia morrer por pecados e ninguém ser salvo?”.

O ‘ide’ de Jesus ao mundo como mandamento depõe contra a predestinação para a salvação. Ora, não encontramos termos como ‘redenção particular’ ou ‘redenção geral’ na Lei, Salmos, ou nos Profetas. A doutrina da redenção particular é incongruente com o evangelho de Cristo, porque quem nasce predestinado nunca esteve perdido, portanto, não precisa de salvação.

A Bíblia apresenta Jesus como salvador para todos que creem, sem distinção entre judeus e gregos, pois todos pecaram, e ainda afirma: “Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia” ( Rm 11:32 ). Já o posicionamento calvinista afirma a existência de dois grupos de pessoas: as que foram predestinadas a serem salvas (o que significa que tais pessoas nunca estiveram perdidas), e outras que nascem predestinadas à perdição (nunca tiveram uma real oportunidade de salvação).

A eleição e a predestinação são, efetivamente, doutrinas bíblicas, porém não apontam diretamente para a salvação. A eleição aponta para Jesus, pois se dá em Cristo e a predestinação visa os que nascem de novo, ou seja, os crentes. Cristo é o eleito de Deus antes da fundação do mundo e todos que se tornam participantes do seu corpo crendo nele, foram predestinados para serem conforme a imagem de Cristo.

O apóstolo Paulo enfatiza que os cristãos foram predestinados para serem conforme a imagem de Cristo, para que Ele seja primogênito entre muitos irmãos. A finalidade da predestinação é a primogenitura de Cristo, e não a salvação. Os filhos de Israel segundo a carne que são salvos antes de Cristo e na grande Tribulação não fazem parte desta predestinação, não terão a imagem do Filho de Deus. Para Cristo ser o primogênito há a necessidade de existirem irmãos conforme a sua semelhança, por isso que assim como Ele é o veremos e seremos semelhantes a Ele ( 1Jo 3:2 ).

“Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conforme à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” ( Rm 8:29 ).

A salvação é concedida aos homens que, por intermédio do evangelho conheceu a Deus, ou antes, foram conhecidos dele “Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” ( Gl 4:9 ). O homem conhece a Deus por intermédio do evangelho.

Conhecer aqui não é presciência, e sim ter comunhão íntima, participando de um só corpo e de um só espírito. Ora, primeiro o homem se torna um com Cristo, e consequentemente predestinado a ser conforme a imagem de Cristo, pois a predestinação tem por objetivo a preeminência de Cristo entre muitos semelhantes a ele.

Primeiro Deus salva o perdido segundo o poder do evangelho, depois o salvo em Cristo é chamado com santa vocação: eleição e predestinação. Deus não escolheu e nem predestinou alguns indivíduos à salvação, antes Ele elegeu e predestinou a nova geração em Cristo, sendo Ele o último Adão, para serem santos e irrepreensíveis e conforme a imagem do Seu Filho para que Ele seja primogênito entre muitos irmãos.

A vocação do crente para o propósito que Deus estabeleceu em Cristo não precede a salvação em Cristo, porém, o propósito estabelecido em Cristo foi estabelecido na eternidade antes de haver mundo.

Na questão de nº 10[4], vale destacar que a crença exigida nas Escrituras é que se creia que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus. A essência do evangelho é universal e inclusiva: todo aquele “Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” ( Rm 10:13 ).

Este é o mandamento de Deus segundo registrou o apóstolo João: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( Jo 3:23 ).

Não há suporte nas Escrituras para o que o homem acredita segundo uma carnal compreensão, e nem para a tal redenção dita ‘particular’, pois o que é a base da salvação é Cristo: o fundamento de Deus. A salvação está em Cristo, pois Ele é a fé manifesta ( Gl 3:23 ). A vantagem está em crer n’Ele, pois Ele é fiel, agora, não há vantagem alguma em acreditar em algo que não seja as Escrituras.

O evangelho anunciado pelo apóstolo Pedro as pessoas que crucificaram o Cristo foi de salvação irrestrita, mesmo para os assassinos do Filho de Deus, desde que mudassem de concepção crendo em Cristo ( At 3:15 -19).

Ora, Deus é verdade, e não há nele injustiça nenhuma ( Dt 32:4 ). Ora, se Ele amou todos os homens (mundo), significa que Deus amou todos os homens, e não que Ele anunciou uma ficção aos homens. O apóstolo Pedro, quando fez este discurso, não estava pensando em uma redenção particular, antes foi verdadeiro ao propor a todos homicidas de Cristo ampla e irrestrita salvação.

Seria uma falácia a mensagem do apóstolo Pedro se algumas pessoas estivessem destinadas a salvação. Deus não trabalha com o engano. Ele não fala o que não vai cumprir. É desonesta uma mensagem de salvação a todos os pecadores se a proposta inicial é salvar alguns.

O Pr. Maxwell alega que é desvantagem crer numa ‘redenção geral’ vez que Deus não alcança 100% de sucesso. Deus retirou do Egito um povo numeroso com quase seiscentos mil homens de pé, porém, desses, somente dois entraram na terra prometida. O sucesso de Deus é analisado pela quantidade de crentes salvos, e não pela quantidade dos que se perdem.

A promessa de Deus não se manteve firme por apenas dois dos que saíram do Egito terem entrado na terra prometida? Se todos os crentes em Cristo são salvos, então há 100% de sucesso na obra de Cristo “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação ( 1Co 1:21 ); “Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue?” ( Rm 10:14 ).

Ora, o plano de redenção de Deus tem 100% de sucesso, pois Cristo veio ao mundo e foi obediente ao Pai em tudo. O seu eterno proposito que redunda em louvor a Sua glória tem 100% de sucesso, pois Cristo ao ressurgir dentre os mortos conduziu muitos filhos a Deus, e Cristo é primogênito entre muitos irmãos. Os muitos filhos são compostos de 100% crentes.

A incredulidade de alguns ou de muitos não aniquila a fidelidade de Deus. Deus é fiel e cumpriu o que prometeu: enviou o seu Filho e salva todo aquele que n’Ele crê. Agora, se formos infiéis, Ele permanece fiel, e a infidelidade do homem não depõe contra Deus ( Rm 3:3 ).

A questão de n° 9[5] acerca do significado de alguns termos na Bíblia como ‘todos’ e ‘mundo’, deve ser analisada criteriosamente, principalmente quanto à ênfase que o contexto apresenta.

Devemos reconhecer que, dependendo do contexto em que a palavra ‘mundo’ ou ‘todos’ é inserida, pode limitar o número de pessoas, contudo não anula o fato de que o termo ‘mundo’ empregado em João 3, verso 16, e em primeira João 2, verso 2 referem-se a todas e quaisquer pessoas, de todos os tempos e em todos lugares.

Foram citadas 5 passagens bíblicas e questionado o significado de algumas palavras. Atos 4, verso 35 é citado: “E repartia-se a cada um, segundo a necessidade que cada um tinha” onde se vê que os apóstolos repartiam o que era comum segundo a necessidade em particular de cada indivíduo que pertencia à igreja. Ou seja, a passagem demonstra que havia uma limitação quanto ao que era distribuído, e a limitação não era quanto ao indivíduo, mas quanto a necessidade do indivíduo.

Isto porque ‘ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria’, ou seja, ninguém assume o valor de ‘todos’, pois sem exceção todos consideravam o que possuíam como sendo propriedade de todos, de modo que tudo era comum a todos ( At 4:32 ).

O verso seguinte demonstra que todos os apóstolos, sem exceção, possuía abundante graça e testemunhavam acerca da ressureição de Jesus ( At 4:33 ). Entre os cristãos não havia necessidade alguma, pois aqueles que possuíam herdade vendiam e traziam o valor arrecadado e dava aos apóstolos. Neste caso, somente os cristãos que possuíam herdade é que vendiam-nas, mas dentre os que possuíam, todos se propuseram vender e dar o dinheiro aos apóstolos.

Com relação a recomendação acerca do casamento o apóstolo Paulo adverte que cada cristão em particular tenha a sua própria esposa, e cada mulher cristã que tenha o seu próprio marido. Ora, o texto limita a quantidade de esposas e esposos por causa da prostituição, porém, a ordem se estende a todos os cristãos. A ênfase do texto está em limitar uma única esposa por marido ( 1Co 7:2 ).

Para responder a pergunta do Pr. Maxwell com relação ao comentário que ele faz do evangelho de João 12, versos 19 à 20 (“mundo” significa os gentios em oposição aos judeus somente), vale destacar que ‘mundo’ não foi utilizado para destacar oposição entre judeus e gentios, porque tanto a multidão que viu a ressurreição de Lázaro como a que viera para a festa era composta de judeus e prosélitos ( Jo 12.9 ). Afinal haviam ido a Jerusalém para a festa da Páscoa ( Jo 12.1 )

Outra questão levantada é com relação a seguinte passagem “E qualquer que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, como também ele é puro” ( 1Jo 3:3 ). No verso ‘qualquer’ tem o sentido de ‘todo’, e isto não significa limitação, mas inclusão. Não importa a nação, o povo, ou a língua, se tem em Cristo esperança, purifica-se a si mesmo.

Nenhuma destas passagens depõe contra o fato de que Jesus veio salvar a todos, por isso a boa nova de salvação é anunciada a todos, sem exceção. A fidelidade de Deus é para todos, pois Ele providenciou poderosa salvação na casa de Davi para todos os povos, cumprindo a promessa a Abraão de que no descendente seriam benditas todas as famílias da terra “E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra” ( Gn 12:3 ).

A promessa de benção de Deus não é extensiva a ‘todas’ as famílias da terra? Há alguma limitação especifica no evangelho anunciado primeiramente a Abraão?

Não há limitação quanto aos tipos de famílias: todas.

Qual o significado de ‘todos’ no verso seguinte:

“Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida” ( Rm 5:18 ).

Existe limitação com relação ao juízo de Deus sobre todos os homens? Não! Então não há limitação quanto à graça de Deus sobre todos os homens!

Não há limitação da parte de Deus, pois Ele é fiel! Mas, há limitação por parte do homem: a incredulidade “Pois quê? Se alguns foram incrédulos, a sua incredulidade aniquilará a fidelidade de Deus?” ( Rm 3:3 ).

A questão ‘incredulidade’ leva a pergunta de n° 8[6] onde há uma profusão de erros de interpretação bíblica.

A resposta para a pergunta: “Cristo morreu pelo pecado da incredulidade?” é não!

Cristo não morreu por ‘pecados’, antes ele morreu pelos pecadores, como se lê:

“Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios ( Rm 5:6 );

“Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores ( Rm 5:8 );

“Porque foi para isto que morreu Cristo, e ressurgiu, e tornou a viver, para ser Senhor, tanto dos mortos, como dos vivos” ( Rm 14:9 );

“Mas, se por causa da comida se contrista teu irmão, já não andas conforme o amor. Não destruas por causa da tua comida aquele por quem Cristo morreu” ( Rm 14:15 );

“E pela tua ciência perecerá o irmão fraco, pelo qual Cristo morreu” ( 1Co 8:11 ).

Esses versículos citados enfatizam que Cristo morreu pelos homens, ou seja, pelos pecadores.

Há um único versículo que diz que Jesus morreu por nossos pecados:

“Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras” ( 1Co 15:3 ).

Ora, Jesus morreu pelos ‘ímpios’ ou pelos ‘pecados’?

O apóstolo Paulo nos responde:

“Porque o amor de Cristo nos constrange, julgando nós assim: que, se um morreu por todos, logo todos morreram” ( 2Co 5:14 ).

Há uma questão teológica a ser entendida com relação a morte de Cristo.

Em primeiro lugar devemos entender que o pecado que atingiu toda humanidade é decorrente da ofensa de Adão, que desobedeceu e trouxe morte sobre todos os homens “Porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo” ( 1Co 15:21 -22); “Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram” ( Rm 5:12 ).

A ofensa contra Deus que resultou no pecado foi a desobediência de Adão, e a desobediência só poderia ser substituída pela obediência. Na verdade a redenção da humanidade é substituição de ato: obediência pela desobediência, como se lê:

“Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” ( Rm 5:18 )

A redenção está na obediência de Cristo.

Mas, para que Cristo obedecesse havia que ser revelada a vontade de Deus, que neste caso era a oblação do corpo de Cristo.

“Então disse: Eis aqui venho, para fazer, ó Deus, a tua vontade. Tira o primeiro, para estabelecer o segundo. Na qual vontade temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez” ( Hb 10:9 -10).

Mas, por que Cristo morreu?

Ao morrer Cristo não estava oferecendo um sacrifício a Deus, antes estava sendo obediente, e foi obediente até a morte, e morte de cruz. Semelhante a Abraão que obedeceu a Deus e ia oferecer o seu único filho em holocausto, Jesus obedeceu a Deus como Abraão e foi a ovelha do holocausto. Ele morreu por causa do advento da Nova Aliança, pois era necessário a morte do testador para ter validade a aliança “Porque onde há testamento, é necessário que intervenha a morte do testador” ( Hb 9:16 ).

Não foi por pecados que Cristo morreu, antes Ele morreu pelos homens porque são pecadores, daí a colocação paulina: Cristo morreu pelos (por causa dos) nossos pecados “Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” ( Is 53:5 ).

Analisaremos em conjunto as questões 6 e 7[7], pois estão intimamente ligadas.

O Pr. Maxwell quer validar o seu argumento com a pergunta: Isto é justo? Esta é uma artimanha das Testemunhas de Jeová ao negarem a existência do lago de fogo: É justo alguém padecer pela eternidade?

Argumentar ante o juiz de toda terra se é justo o que ele faz, não valida qualquer argumento, pois a concepção de justiça do homem é como trapo de imundície diante de Deus.

Deus ordenou a destruição dos amalequitas, e incluiu na matança as crianças. Pergunto: Isto é justo? Mas, as crianças eram inocentes! Questionar se é justo ou não, não é base para validar um argumento, pois mesmo as crianças de Sodoma e Gomorra sendo inocentes, não eram justas diante de Deus “Se porventura de cinquenta justos faltarem cinco, destruirás por aqueles cinco toda a cidade? E disse: Não a destruirei, se eu achar ali quarenta e cinco ( Gn 18:28 ).

Cristo veio ao mundo salvar o que se havia perdido. Quem se perdeu? Todos os homens, pelo que se conclui que Jesus veio salvar todos os homens Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho; mas o SENHOR fez cair sobre ele a iniqüidade de nós todos ( Is 53:6 ); “Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido” ( Lc 19:10 ).

A morte de Cristo garantiu salvação a todos os homens, porém, muitos permanecem separados da vida de Deus por causa da ignorância que há neles. O problema não está na salvação providenciada, pois é poderosa e alcança a todos os homens, sem exceção. O problema é a ignorância.

A Bíblia afirma que por uma só ofensa todos pecaram, e Cristo morreu por causa desta ofensa. Já o erro de conduta das pessoas quer sejam salvas ou não, serão julgadas em tribunal específico: Tribunal de Cristo para os salvos e Tribunal do Trono Branco para os perdidos, onde cada um receberá segundo as suas obras “Entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração” ( Ef 4:18 ).

Devemos nos afastar de qualquer doutrina que tenha aparência de piedade, mas que negue a eficácia do evangelho “Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te” ( 2Tm 3:5 ).

Deus não se lembra dos pecados daqueles que ouviram a mensagem e misturaram com a fé “Porque também a nós foram pregadas as boas novas, como a eles, mas a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não estava misturada com a fé naqueles que a ouviram” ( Hb 4:2 ).

O escritor aos Hebreus destaca que o problema não está na mensagem pregada, o problema está naqueles que ouviram, mas ouviram de malgrado “Porque o coração deste povo está endurecido, E ouviram de mau grado com seus ouvidos, E fecharam seus olhos; Para que não vejam com os olhos, E ouçam com os ouvidos, E compreendam com o coração, E se convertam, E eu os cure” ( Mt 13:15 ).

O castigo que nos trouxe a paz foi perfeito, mas se alguém negar a Cristo, Ele também o negará “Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará” ( 2Tm 2:12 ). Se a salvação fosse por predestinação, o aviso solene para permanecer firme é sem razão, pois os que creem é para conservar a alma, diferente dos que desistem ( Hb 10:39 ).

Quando Cristo venceu a morte, o pecado foi aniquilado ( Hb 9:26 ). Só permanecem separados de Deus aqueles que permanecem na ignorância.

Embora a questão de nº 7 não leve em consideração o fato de o Cordeiro de Deus ter sido morto desde a fundação do mundo ( Ap 13:8 ), vale salientar que embora a graça é para todos, a promessa de jamais se lembrar dos pecados alcança somente os crentes ( Hb 10:17 ).

Apesar de o Cordeiro de Deus ser manifesto oportunamente na plenitude dos tempos, ele foi morto desde a fundação do mundo. Logo, quando Cristo foi morto (desde a fundação do mundo) não havia homens no inferno, de modo que a sua morte era suficiente para beneficiar a todos que cressem.

Somente os crentes são remidos, porém, a oferta do corpo de Cristo foi feita de uma vez por todas de modo que não há mais oblação pelo pecado ( Rm 8:1 ; Hb 10:18 ). Devemos lembrar que as ações daqueles que creem serão julgadas no Tribunal de Cristo. Os descrentes carregam consigo a condenação decorrente da ofensa de Adão, mas também serão julgados quanto as suas obras “E vi os mortos, grandes e pequenos, que estavam diante de Deus, e abriram-se os livros; e abriu-se outro livro, que é o da vida. E os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras” ( Ap 20:12 ); “O que é, já foi; e o que há de ser, também já foi; e Deus pede conta do que passou” ( Ec 3:15 ).

O juízo para condenação se deu em Adão, mas haverá juízo de obras. Os pecados que não serão lembrados referem-se aos erros de conduta dos salvos antes de conhecerem a Cristo, pois se deram sob a paciência de Deus “Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” ( Rm 3:25 -26).

Cristo morreu por causa da ofensa de Adão e ressurgiu para a nossa justificação, o que demonstra que os erros de conduta e as boas ações dos crentes, quando praticados na ignorância são esquecidos. Cristo não morreu por pecados, antes por causa dos pecados para justificação de todo que crê.

Com relação a questão 5[8], entendo pelas Escrituras que Cristo morreu por todos os homens, até mesmo por Caim e Faraó. Devemos lembrar que Jesus é o Cordeiro de Deus que foi morto desde a fundação do mundo, e se Abel foi declarado justo por Deus, tal declaração foi decorrente da fé de Abel.

Caim e Faraó se perderam não por ineficácia da morte de Cristo, mas pela incredulidade deles. Caim se perdeu, mas Abel foi salvo porque creu que Deus o aceitaria graciosamente, e não que seria aceito em função da oferta, de modo que Deus primeiramente o aceitou e depois a sua oferta ( Gn 4:4 ).

Abel se aproximou de Deus pois cria que Ele existe, e o buscou por que sabia que Deus é galardoador dos que O buscam, e não dos que apresentam uma oferta.

Sim! Creio que Jesus morreu por aqueles que já morreram, porque segundo as Escrituras para Deus vivem todos e, mesmo após morrerem, seguem para o juízo. Ora, todos os nascidos de Adão nasceram sob condenação, pois o juízo de Deus foi estabelecido na morte de Adão no Éden. O juízo que o homem segue após morrer a morte ordenada para ocorrer uma só vez é o juízo do Trono Branco, onde haverá julgamento das obras “E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo” ( Hb 9:27 ).

Cristo é Cordeiro de Deus morto desde a fundação do mundo, porém, a sua morte se deu na plenitude dos tempos ( Gl 4:4 ). Jesus morreu em benefício de todos, porém, indivíduos como Caim e Faraó não se beneficiaram da graça de Deus pela incredulidade deles.

Sim! Jesus morreu de bom grado por homens como Caim e Faraó, pois Ele não se propôs a morrer por homens justos, mas sim pelos ímpios, visto que não havia um justo, nem um se quer ( Sl 53:3 ). Esta é uma prova do amor de Deus: morrer por ímpios como Caim, Faraó, etc. “Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” ( Rm 5:8 ).

O convite de salvação é para pecadores, sejam eles a Madre Teresa de Calcutá ou Hitler. Este convite se estende até mesmo para aqueles que mataram o autor da vida ( At 3:19 ).

Com relação aos argumentos dos itens 3 e 4[9], tem-se um caloroso ‘sim’ à pergunta se Cristo morreu de igual forma para Pedro ou Judas.

A verdade é única: Cristo se fez maldito quando foi pendurado no madeiro   e morreu pelos pecadores. Judas Iscariores era pecador? Sim! Então Jesus morreu por ele. Pedro era pecador? Sim! Então, de igual modo Jesus morreu por Pedro.

Cristo não se sentiu satisfeito com a morte de Judas Iscariotes, mas sentiu-se satisfeito com o seu trabalho. Levando-se em conta a profecia de Isaias, com o seu trabalho Jesus ficou satisfeito, pois através do seu conhecimento Ele salvou muitos.

Judas não foi predestinado a perdição, antes Deus onisciente sabe de todas as coisas, e deixou tal evento registrado nas Escrituras. A decisão de Judas não foi estabelecida e nem sofreu influência de Deus, antes foi totalmente autônoma e voluntária.

O registro da traição nas Escrituras é um lampejo da onisciência de Deus, que para nós é presciência. A revelação de eventos futuros para o homem recebe o nome de presciência, já o atributo divino com relação ao conhecimento dá-se o nome de onisciência.

Deus é onisciente, e não presciente. A revelação de Deus aos homens é presciência. O fato de Deus saber da traição e deixar predito nas Escrituras não determinou a traição de Judas, pois tudo o que é já foi, e o que há de ser já ocorreu para Deus, mas Ele pede conta de cada um quanto aos seus feitos. O fato de Deus requerer dos homens seus feitos demonstra que Ele não determina os atos de ninguém ( Ec 3:15 ).

Mas, porque Ele não salvou todos, se Ele morreu por todos? Porque onde há o Espírito de Deus, aí há liberdade, como se lê: “Enquanto se diz: Hoje, se ouvirdes a sua voz, Não endureçais os vossos corações, como na provocação” ( Hb 3:15 ; Sl 93:8 ). O convite é feito a todos, como se Deus por nos rogasse aos homens para que se reconciliem com Ele, mas Ele não sobrepuja os corações endurecidos ( 2Co 5:20 ).

É contra senso um Deus que escolhe e predestina alguns a salvação rogar através dos seus embaixadores que os homens se reconciliem com Ele.

Deus roga porque todos tem liberdade de aceitar ou recusar convite: “Se alguém tem sede, venha a mim, e beba” ( Jo 7:37 ). A água oferecida não tem problema algum, pois é de uma fonte inesgotável e tem poder para saciar todos quanto beberem. O problema está naqueles que ouvem o convite e rejeitam a água.

Deus não tem prazer na morte do ímpio, e Cristo também “Desejaria eu, de qualquer maneira, a morte do ímpio? diz o Senhor DEUS; Não desejo antes que se converta dos seus caminhos, e viva?” ( Ez 18:23 ).

Além de Deus não desejar a morte do ímpio, é desejo d’Ele que o ímpio se converta. O problema não está em Deus que faz um convite ao homem para que se converta, e sim nos homens que não dão ouvidos “Dize-lhes: Vivo eu, diz o Senhor DEUS, que não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho, e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois, por que razão morrereis, ó casa de Israel?” ( Ez 33:11 ).

Na questão do proposito que Deus estabeleceu na eternidade em Cristo, de fazê-lo cabeça da igreja e o mais elevado dos reis da terra, opera a soberania de Deus. Mas, nas questões relativas a salvação do homem, opera a misericórdia, por isso diz o apóstolo Paulo: “De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo, como se Deus por nós rogasse. Rogamo-vos, pois, da parte de Cristo, que vos reconcilieis com Deus” ( 2Co 5:20 ).

Deus estabeleceu o Seu Filho como primogênito, pois Cristo conquistou este direito na cruz, já com relação à salvação, há um pedido aos homens que se reconciliem.

Cristo ficou satisfeito com o seu trabalho, porque embora tenha provido salvação a todos os homens, a proposta é salvar os que creem. Deus não salva pela predestinação ou eleição, e sim pela loucura da pregação, que é o poder de Deus “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação” ( 1Co 1:21 ).

Com relação ao item 2[10], certo é que Cristo veio salvar a humanidade, e o termo ‘eficazmente’ foi amalgamado à salvação para pôr em xeque a salvação em Cristo. A salvação não é especulação teórica, assim como a perdição de todos em Adão não é teoria.

Analisando a doutrina calvinista da eleição e predestinação, a perdição de alguns não passou de teoria, visto que tais ‘salvos’ pela eleição e predestinação nunca estiveram perdidos de fato. De outra banda, os perdidos nunca tiveram a possibilidade de salvação, pois a salvação nunca foi uma providência divina para eles. Segundo a concepção calvinista a salvação é uma falácia!

A Bíblia como verdade deve ser analisada como fato, e não como teoria. Levantar teorias sobre se era possível Cristo morrer pela humanidade em pecado (e não por pecados) e ninguém ser salvo é semelhante a se ater às fábulas e a genealogias intermináveis que mais promovem contendas do que edificação. Mas, nunca houve a possibilidade de ninguém ser salvo, pois Deus mesmo diz que a Sua palavra não volta atrás vazia, e por isso mesmo providenciou poderosa salvação na casa de Davi.

A questão sóbria de n° 1[11] é a pior de todas do ponto de vista dos equívocos. Não é admissível que alguém que se coloca como mestre das Escrituras use os anjos caídos para provar a redenção particular, visto que um mestre das Escrituras deve conhecer as Escrituras.

Cristo não morreu para salvar os seres celestiais caídos! Vejamos os motivos:

  • Os anjos não fazem parte do propósito eterno estabelecido em Cristo, que é Cristo como primogênito entre muitos irmãos ( Hb 2:5 );
  • Com relação ao propósito eterno os anjos são espectadores da multiforme sabedoria de Deus ( Ef 3:10 );
  • Aos anjos caídos não foi dado um mandamento que os salvasse, pois igualmente na queda não desobedeceram um mandamento ( Sl 71:3 ); Um homem desobedeceu o mandamento dado no Éden, agora a salvação para os homens está em um novo mandamento: crer em Cristo;
  • Os anjos não necessitam crer, pois enquanto os homens veem por espelho através dos enigmas, os anjos caídos estavam em contato com a realidade quando caíram;
  • Como não há morte física para os anjos, pois são seres ‘espirituais’, a redenção em Cristo não os alcança. A morte de Cristo só alcança os seus semelhantes segundo a carne sujeitos à morte física, pois qualquer que nele crê é batizado na morte de Cristo para ressurgir uma nova criatura;
  • Cristo foi feito menor que os anjos precisamente para que participasse da paixão da morte, morrendo a morte física em nosso lugar. Entretanto, os pecadores por estarem em um caminho largo que conduz à perdição, isso causa da ofensa de Adão, precisam morrer para o pecado para que se cumpra a lei que diz: a alma que pecar, essa mesma morrerá;
  • Os homens tornaram-se pecadores por uma ofensa de um homem que pecou, já os anjos deliberadamente seguiram cada um a presunção de seus corações;
  • Cristo é mediador entre Deus e os homens, e não mediador entre Deus, anjos e homens.

O fato de Jesus não ter morrido pelos anjos não depõe contra o fato de Jesus ter morrido pela humanidade, pois ele como homem só podia ser mediador de homens, por isso em tudo se fez semelhante aos seus irmãos: participante de carne e sangue ( Hb 2:17 ).

Não existe um grupo particular de pecadores, pois nem mesmo os judeus são diferentes ou melhores diante de Deus que os demais pecadores gentios ( Rm 3:9 ).

A salvação é universal (ilimitada) e inclusiva (todo aquele), porém, só gozarão dessas benesses aqueles que creem no evangelho, ou seja, que invocarem o nome do Senhor, portanto, neste aspecto a salvação é exclusiva dos que creem “Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” ( Rm 10:13 ; Rm 1:16 ).

Em suma, Jesus disse que Deus deu o Seu Filho para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Jesus disse que importava que Ele fosse levantado assim como a serpente de metal foi levantada no deserto por Moisés, para todo aquele que nele crê não perecesse, mas tivesse a vida eterna ( Jo 3:14 -16).

Deus amou o mundo que Deus o Seu Filho, porém, os adeptos da doutrina da ‘expiação limita’ fazem um esforço enorme para colocar uma dúvida no coração de quem ouve a mensagem do evangelho:

‘Será que Jesus morreu por você?’

Amado leitor, se esta dúvida sobressaltar o seu coração devido algumas questões doutrinárias, tenha este verso como lema:

“E ele [Jesus] é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” ( 1Jo 2:2 ).

 


[1] Maxwell, Colin ‘Questões sóbrias para aqueles que creem numa redenção universal ou expiação ilimitada’, artigo disponível no Site Monergismo < http://www.monergismo.com/textos/expiacao_limitada/questoes.htm > consulta realizada em 26/06/15.

[2] ‘Conhecer’ no sentido de se fazer um com Cristo ( Ef 5:30 ). Não diz de ‘presciência’, ou de ‘antever’, e sim de comunhão intima “E eu já não estou mais no mundo, mas eles estão no mundo, e eu vou para ti. Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um, assim como nós” ( Jo 17:11 ).

[3] “13) Aparte da possibilidade de um ocasional hiper calvinista – uma espécie em extinção – você já ouviu um calvinista declarar que ele não necessita evangelizar, visto que o sacrifício de Cristo garante a salvação dos eleitos, quer ele evangelize, quer não?”

[4] “10) Você reconhece a distinta vantagem de se crer na redenção particular – que ela realmente realizará aquilo para o qual foi designada, isto é, a certa e infalível salvação daqueles por quem ela foi pretendida? Você reconhece a distinta desvantagem de se crer numa redenção geral que reside no tipo de imprecisão e o não poder reivindicar 100% de sucesso?”

[5] “9) Você crê que na Bíblia, palavras como “todos” e “mundo” e “todo homem” sempre significa cada pessoa ou coisa individualmente, a menos que seja limitada especificamente (por exemplo, 1 João 3:3) OU você reconhece que algumas vezes na Bíblia, palavras como “todos” significa “todos tipos de” (1 Timóteo 6:10) e “mundo” significa os gentios em oposição aos judeus somente (João 12:19-20) e “todo homem” significa “todos tipos de homem” (Atos 4:35/1 Coríntios 7:2), sem qualquer menção específica de uma limitação?”

[6] “8) Cristo morreu pelo pecado da incredulidade? Se sim, porque este pecado impede o pecador, mais do que qualquer outro pecado pelos quais Cristo morreu?”

[7] “6) Cristo realmente suportou os pecados daqueles que já estavam ou agora estão ou irão estar no inferno quando Ele morreu por eles? O resultado disto é o mesmo do crente, isto é, o esquecimento de Deus dos seus pecados (Hebreus 10:17)? Se sim, por que eles estão sendo relembrados agora? Se não, até que ponto é a diferença que você está introduzindo?” e; “7) Se Cristo sofreu e morreu por aqueles que estão agora sofrendo no inferno e agonizante pelos seus pecados… não estaria Deus exigindo castigo duas vezes pelos mesmos pecados? Isto é justo?”

[8] “5) Você crê que Cristo morreu por aqueles que já estavam no inferno, isto é, Caim, Faraó, etc., quando Ele veio ao mundo? Ele morreu de bom grado por eles, suportando todos os seus pecados, mesmo embora Ele soubesse que nem um milímetro de Seus sofrimentos jamais os beneficiaria?”

[9] “3) Cristo falhou, no final das contas, no Seu propósito de Sua morte? Ele realmente verá o fruto do trabalho de Sua alma e ficará SATISFEITO? (Isaías 53:11) Cristo está realmente satisfeito com o fruto do trabalho de Sua alma quando Ele vê Judas Iscariotes, (por quem, você insiste, Ele morreu, da mesma forma como por João e Pedro, etc.) indo para o próprio lugar onde teria sido melhor para ele nunca ter nascido? (Marcos 14:21) 4) Você relaciona a morte de Cristo – certamente o assunto mais importante sempre – com versos como Isaías 14:24/14:27/46:10/Salmos 115:3/Provérbios 19:21 etc., os quais ensinam que os propósitos de Deus são certos e não podem ser frustrados?”

[10] “2) Cristo veio e morreu para salvar eficazmente homens ou apenas para fazer a salvação possível? Então, era teoricamente possível que Cristo poderia morrer por pecados e ninguém ser salvo?”

[11] “1) Você crê que Cristo morreu pelos pecados dos anjos caídos, que estão reservados na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia (Judas 6), quando serão lançados como malditos no fogo eterno (Mateus 25:41), para serem atormentados de dia e de noite para todo o sempre (Apocalipse 20:10)? OU você crê que a expiação foi limitada a um grupo particular de pecadores?”

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Descubra o que poucos cristãos sabem sobre salvação e filiação divina

Sabemos que Cristo é mais sublime que os céus, e que a igreja será semelhante a Ele, ou seja, possuidores de uma glória superior a própria ‘habitação’ do Altíssimo ( Hb 7:26 ; 1Jo 3:2 ). Mas, como ainda ‘não é manifesto o que havemos de ser’, uma coisa é certa, toda a criação está numa ardente expectação esperando a manifestação dos filhos de Deus “Porque a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus” ( Rm 8:19 ).


“Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” ( Ef 1:13 )

Nova Criatura

Após ouvir a mensagem do evangelho (fé) e crer em Cristo os cristãos passaram a estar em Cristo “É nele que vós também estais…” (v. 1 ), ou seja, após ouvir e crer no evangelho da salvação todos os cristãos efetivamente passara a ser uma nova criatura ( 2Co 5:17 ).

O apóstolo Paulo é categórico ao afirmar: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é” ( 2Co 5:17 ). Qualquer que está em Cristo, ou seja, que é uma nova criatura goza de uma nova condição. O que motivou o apóstolo dos gentios a bendizer a Deus no verso 3 “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo” ( Ef 1:3 ).

Ao que parece, os cristãos em Éfeso desconheciam que estar em Cristo, ou seja, ser uma nova criatura, lhes concedia nova condição, pois o apóstolo teve que afirma de modo contundente que eles também estavam em Cristo após ouvir e crer na mensagem do evangelho.

Esta abordagem incisiva do apóstolo dos gentios deixa evidente o contexto do capítulo 1 da carta aos Efésios. Ele estava tratando especificamente das benesses pertinentes à nova criatura, posição recém adquirida pelos cristãos por estarem em Cristo.

Quem foi abençoado com todas as bênçãos espirituais? Os cristãos! Quem estava assentado nas regiões celestiais? Os cristãos!

E porque os cristãos foram abençoados com todas as bênçãos e gozavam de um lugar de descanso (assentados)? Porque estavam em Cristo, porque eram novas criaturas, ou seja, o apóstolo estava abordando questões especificas à nova criatura.

Ao dizer: ‘É nele que vós também estais…’, o apóstolo procura demonstrar que:

a) Eles foram abençoados com todas as bênçãos, e;

b) que estavam assentados nas regiões celestiais, porque foram gerados de novo e eram novas criaturas.

Faz-se necessário destacar que no Capítulo 1 da carta aos Efésios em momento algum o apóstolo dos gentios faz referencia ao homem sem Cristo. Todas as bênçãos espirituais pertencem aos que estão em Cristo! Somente os que são novas criaturas descansaram de todas as suas obras, ou seja, estão assentados!

Somente aqueles que ouviram a mensagem do evangelho e creram em Cristo, ou seja, que estão n’Ele, e que, portanto, são novas criaturas, são os eleitos de Deus. Observe que o apóstolo está tratando de questões pertinentes à nova criatura: “… nos elegeu n’Ele…”, ou seja, antes da fundação do mundo Deus determinou que, aqueles que estariam em Cristo, ou seja, que seriam novas criaturas, haveriam se ser santos e irrepreensíveis.

Deus escolheu a nova criatura para ser santa e irrepreensível diante d’Ele. Para ser eleito de Deus é necessário estar em Cristo, ou seja, é necessário ouvir e crer na mensagem do evangelho. Quando não se está em Cristo é impossível ser eleito de Deus. Como a posição de eleito é pertinente somente à nova criatura, segue-se que o pecador não preenche o quesito da eleição, pois jamais a velha criatura, alguém que ainda não está em Cristo, seria eleita para ser santa e irrepreensível.

Quando o apóstolo Paulo trata da eleição, ele diz da nova criatura, pois o pecador, o velho homem, a natureza pecaminosa não é escolhida por Deus. Como Deus elege o homem em pecado para ser santo e irrepreensível se ele precisa ser desfeito para surgir uma nova criatura? ( Rm 6;6 ). Deus não elege o homem sob o domínio do pecado porque o velho homem precisa morrer para Deus possa criar o novo homem em Cristo Jesus.

Como Deus escolheria o homem em pecado, se Deus elege o homem somente quando se está em Cristo? Se Deus “… nos elegeu n’Ele…”, acaso Cristo é ministro do pecado? Não! O homem em pecado não foi escolhido para ser santo e irrepreensível, antes, a nova criatura, aquele que está em Cristo, é a escolhida para ser santa e irrepreensível.

Jamais Deus elegeria ou predestinaria os homens sob o pecado, pois antes de ser servo da justiça o velho homem precisa ser crucificado e sepultado com Cristo. Se o velho homem é destruído para que o cristão tenha um encontro com Deus, como o homem em pecado pode ser escolhido ou predestinado?

A relação de equivalência na asserção:

a) ‘…se alguém está em Cristo…’, e;

b) ‘… nova criatura é’,

A relação a=b e b=a possibilita substituir no capítulo 1 da carta aos Efésios o ‘estar em Cristo’ por ‘nova criatura’.

Com a substituição teríamos a seguinte abordagem: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais por sermos uma nova criatura; Como também nos elegeu por sermos uma nova criatura antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele por sermos novas criaturas; E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor e glória da sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si por sermos novas criaturas. Por sermos novas criaturas temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça (…) novas criaturas vocês também são, depois que ouvistes a palavra da verdade…”.

O apóstolo procurou demonstrar aos cristãos em Éfeso que as benesses de Deus são pertinentes à nova criatura. Quando se admiti que, só após ser uma nova criatura é que se está de posse da redenção pelo sangue e da remissão das ofensas, tem-se que admitir também que só o homem em Cristo (nova criatura) assume a condição para a qual é eleito: santo e irrepreensível.

Tudo que foi demonstrado pelo apóstolo Paulo no capítulo 1 de Efésios refere-se aqueles que, primeiro esperaram em Cristo “… nós os que primeiro esperamos em Cristo” ( Ef 1:12 ).

Quando o apóstolo Paulo menciona ‘… os que primeiro esperamos em Cristo’, não se refere aos apóstolos ou aos pais da igreja, antes diz daqueles que receberam as bênçãos porque ‘primeiramente’ creram em Cristo. Quando o homem crê em Cristo passa a ‘conhecer a Deus, ou antes, é conhecido d’Ele’. Primeiro é necessário ao homem crer em Cristo (esperar, permanecer na palavra, ser discípulo), para depois conhecê-lo “Então, conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” ( Jo 8:32 ).

Quem foi abençoado com todas as bênçãos espirituais? Os cristãos! ‘Nos abençoou’, ou seja, o pronome na primeira pessoa do plural ‘nós’ demonstra que Deus abençoou ‘os que primeiro esperamos em Cristo’. Quem foi assentado nas regiões celestiais? ‘Nós’, ou seja, aqueles que foram feitos novas criaturas. Quem são os eleitos? ‘Nós’, ou seja, os que creram em Cristo! Quem é predestinado a ser filhos por adoção? ‘Nós’, os que esperamos em Cristo!

Segundo a riqueza da sua graça, Deus concedeu:

  • Sabedoria e prudência aos cristãos;
  • Revelou a sua vontade;
  • Foram feitos herdeiros, e;
  • Constituem-se louvor à Sua glória.

A quem Deus concedeu estas bênçãos? Aos que primeiramente esperaram em Cristo, ou seja, aos cristãos! Em momento algum o apóstolo Paulo faz referencia aos não cristãos.

No capítulo 1 da epístola aos Efésios, o apóstolo Paulo deixa registrado tudo o que é pertinente à nova criatura, ou seja, ele faz alusão à nova condição pertinente aos cristãos, aqueles que esperam em Cristo, e que, apesar de desconhecer as benesses desta nova condição, também eram nova criaturas e necessitavam se conscientizar do que receberam após crer no evangelho ( Ef 1:13 ).

Tudo que o apóstolo dos gentios demonstra tem por sujeito os cristãos, sendo utilizada a primeira pessoa do plural (nós) para fazer referencia a tudo quanto os cristãos receberam após estarem em Cristo.

O que o apóstolo faz é lançar luz aos olhos do entendimento dos cristãos, para que eles soubessem o montante (todas) de benesses que receberam ao aceitar o chamado do Senhor segundo o evangelho ( Ef 1:18 ). O apóstolo assim o faz porque os cristãos de Éfeso desconheciam a riqueza da glória da herança de Deus nos santos.

Eles deviam saber que, o poder que ressuscitou a Cristo dentre os mortos foi o mesmo que operou sobre os cristãos por terem crido na mensagem do evangelho ( Ef 1:20 ), e que o mesmo Deus que fez o Senhor Jesus assentar a sua direita, também fez com que os cristãos assentassem nas regiões celestiais ( Ef 2:6 ).

O apóstolo Paulo escreveu aos santos e fiéis em Cristo, ou seja, escreveu àqueles que são novas criaturas, que estão assentados nas regiões celestiais, que são herdeiros e herança, selados com o espírito santo da promessa, redimidos do pecado, gerados de novo para serem filhos por adoção (predestinados) e de posse da irrepreensibilidade e santidade que só é próprio aos de novo gerados em Cristo (eleitos).

Deus escolheu de antemão todos os que seriam gerados de novo para serem irrepreensíveis e santos. Deus predestinou todos os que seriam gerados de novo, segundo Cristo, para serem filhos de Deus por adoção.

Nenhuma destas benesses é pertinente aos filhos de Adão. Os filhos de Adão são imundos e infiéis. Não são eleitos e nem predestinados. Foram amaldiçoados e são cansados e oprimidos, ou seja, não encontraram descanso. Não são herança e nem herdeiros de Deus.

Como Cristo foi eleito para conduzir muitos filhos a Deus ( Hb 2:10 ), e antes mesmo da fundação do mundo fora ofertado como cordeiro imaculado ( Ap 13:8 ), de antemão Deus elegeu (escolheu) os descendentes do último Adão, que é Cristo, para serem santos e irrepreensíveis, ou seja, elegeu aqueles que primeiro esperam em Cristo.

De igual modo, Deus estabeleceu os descendentes do Descendente, que é Cristo, como sua herança peculiar e os predestinou para serem filhos por adoção “… com o fim de sermos para louvor da sua glória, nós os que primeiro esperamos em Cristo” ( Ef 1:12 e Ef 1:5 ).

A condição de filhos por adoção é para louvor e glória da sua graça, uma vez que os cristãos foram feitos agradáveis a Deus por esperarem em Cristo, ou seja, primeiro crerem na mensagem do evangelho e foram de novo criados, segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade, ou seja, irrepreensíveis e santos ( Ef 4:24 ). Ao crer na mensagem do evangelho, os cristãos receberam poder para serem feitos filhos de Deus, tornando-se agradáveis a Deus através do Amado Senhor Jesus Cristo ( Jo 1:12 ).

 

Velha Criatura

No capítulo 1 da epístola aos Efésios, o apóstolo Paulo trata somente do que é pertinente aos cristãos. No capítulo 2, o apóstolo trás a lembrança dos cristãos qual era a condição deles antes de crer no evangelho de Cristo.

Após demonstrar aos cristãos que eles eram obras realizadas por Deus, criados em Cristo Jesus “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” ( Ef 2:10 ), o apóstolo Paulo fez com que lembrassem que, houve um tempo em que todos não tinham esperança “Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne, e chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão feita pela mão dos homens; Que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo” ( Ef 2:11 -12).

Ora, se noutro tempo os cristãos não tinham esperança, segue-se que nenhum deles era eleito ou predestinado à salvação aos moldes do que foi alardeado pelos reformadores, pois, se assim fosse, todos eles tinham uma esperança.

Como nova criaturas, os cristãos vivem um novo tempo de justiça, e paz e alegria no Espírito Santo ( Rm 14:17 ). Após ser gerado de novo, o calendário de medição do tempo do novo homem também muda. Ao fazer referencia a antiga condição, o apóstolo Paulo diz: “Noutro tempo”, ou “outrora”.

Quando os cristãos estavam sem Cristo eram estranhos à aliança da promessa, não tinham esperança, estavam sem Deus, e, por natureza, eram filhos da ira ( Ef 2:12 e Ef 2:2 -3).

Todos os homens gerados de Adão são filhos da desobediência, e, portanto, filhos da ira. Não têm esperança, pois entraram por uma porta larga que os conduz à perdição. Todos quantos querem ser salvos, precisam entrar pela porta estreita, que é Cristo, ou seja, precisam nascer de novo.

O último Adão é a porta estreita (por onde os homens entram e são conduzidos à salvação), e o primeiro Adão a porta larga (por onde os homens entram e são conduzidos à perdição).

Se a eleição e a predestinação fossem aos moldes da doutrina calvinista ou arminianista contrariaria o exposto pelo apóstolo Paulo, uma vez que alguns homens sempre estiveram de posse de uma garantia. Estes seriam filhos da desobediência, porém, não seriam filhos da ira. Nunca seriam perdidos de fato, pois antes mesmo de serem gerados já estavam destinados a salvação.

Mas, não é assim a verdade do evangelho, visto que, quanto ao trato passado (condição), todos os cristãos estavam efetivamente mortos, e, portanto, perdidos ( 1Co 15:22 ). A salvação se da através das boas novas do evangelho, ou seja, alguém anuncia as boas novas do evangelho e os que ouvem precisam crer ( 1Co 15:2 ; Rm 10:14 ).

A salvação em Cristo não se dá pela eleição e nem pela predestinação, como apregoam os que dizem que a soberania divina não coaduna com o livre arbítrio do homem. Para justificar este posicionamento, perguntam: Se o homem está morto, como poderia decidir servir a Deus? Esquecem do alerta de Cristo que diz: “Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” ( Jo 11:25 ).

A condição do homem não é causa de impedimento para que se possa crer em Cristo, visto que, ainda que esteja morto, ao crer em Cristo, viverá.

Para que os cristãos alcançassem as benesses pelas quais o apóstolo Paulo bendiz a Deus no capítulo 1, foi necessário Deus vivificá-los, pois estavam todos mortos ( Ef 2:1 ). Para vivificar os cristãos, Deus ressuscitou-os juntamente com Cristo e os fez assentar nas regiões celestiais ( Ef 2:6 ).

O apóstolo Paulo aponta dois tempos e duas condições específicas na vida dos cristãos: outrora éreis trevas, agora sois luz no Senhor (no Senhor=em Cristo=nova criatura), ou seja, sois luz por ser nova criatura “Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no SENHOR” ( Ef 5:8 ).

Mas, como os cristãos se tornaram luz? Foram escolhidos dentre os perdidos para serem luz? Foram predestinados para serem luz? Não!

O apóstolo João é claro ao repetir as palavras de Cristo: “Enquanto tendes luz, crede na luz, para que sejais filhos da luz. Estas coisas disse Jesus e, retirando-se, escondeu-se deles” ( Jo 12:36 ). Ou seja, é necessário ao homem crer na luz para ser filho de Deus. Qualquer que recebe a Cristo, ou seja, crê na mensagem do evangelho, recebe de Deus poder para ser feito filho de Deus ( Jo 1:12 ).

Deixar de considerar que o apóstolo Paulo faz referencia a dois tempos, duas condições e dois tipos de criaturas no capítulo 1 da carta aos efésios, faz com que surja e se perpetue alguns erros de interpretação.

Os reformadores erraram:

  • Ao estabelecer como finalidade da eleição e da predestinação a salvação, e;
  • Por não levar em conta que o apóstolo Paulo faz referência a dois tipos de criaturas.

Erraram ao estabelecer que Deus elegeu e predestinou dentre os filhos da desobediência de Adão alguns para serem salvos. Deixaram de observar que a eleição refere-se à santidade e irrepreensibilidade, e que a predestinação refere-se a filiação.

Após observar que há os filhos da ira e os filhos da luz, e que, para ser filho da luz é necessário crer na luz, conclui-se que, antes da fundação do mundo Deus estabeleceu que, os que cressem na mensagem do evangelho, receberiam poder para serem feitos filhos de Deus ( Jo 1:12 ), e na condição de eleitos de Deus são santos e irrepreensíveis ( Tt 1:1 ).

Isto que dizer que, de antemão Deus estabeleceu um único destino (predestinou) aos que haveriam de crer em Cristo: seriam salvos da condenação estabelecida em Adão e seriam filhos por adoção.

Quando o apóstolo escreve aos cristãos em Éfeso, capítulo 1, ele trata única e exclusivamente das bênçãos que Deus concede aos cristãos na condição de novas criaturas. Para fazer alusão às bênçãos concedidas por Deus, o apóstolo utiliza os verbos no pretérito perfeito (elegeu, predestinou, deu, derramou, desvendou, etc.), tendo por sujeito dos verbos no pretérito perfeito, os cristãos (nos), e não aqueles que são filhos da ira e da desobediência.

Deste modo não há contradição alguma entre a soberania e o livre-arbítrio do homem, pois os filhos da ira são provenientes de uma geração e os filhos da luz proveniente de outra geração. A geração dos ímpios é segundo o sangue, a vontade da carne e a vontade do varão, e a geração dos justos segundo a vontade de Deus.

A geração dos ímpios jamais foi eleita, pois a eleição é pertinente a geração dos justos, como se lê: “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” ( 1Pe 2:9 ).

Os cristãos são geração eleita, pois a geração segundo a carne foi rejeitada. Como os cristãos alcançaram a eleição? Deus os chamou através do evangelho das trevas para a luz, ou seja, não foram predestinados e nem eleitos. Foram chamados!

 

Salvação e a filiação

No capítulo 1 da carta aos Efésios o apóstolo Paulo faz alusão ao propósito eterno de Deus. Qual o propósito eterno de Deus? Ora, o propósito eterno não se refere à salvação do homem, pois apesar de Deus querer e salvar os homens, há um tempo pré-determinado para a obra redentora ser encerrada.

A salvação é eterna, porém, Deus não continuara salvando os homens por toda a eternidade, portanto, a obra redentora de Deus não se refere ao propósito eterno.

O propósito eterno diz de algo que nunca terá fim, ou seja, o único evento que nunca terá fim é a preeminência de Cristo, pois ela perdurará pela eternidade ( Ef 1:10 ).

É propósito eterno de Deus:

  • Que a multiforme sabedoria de Deus seja revelada aos principados e potestades nas regiões celestiais;
  • Que Cristo tenha a preeminência em tudo;
  • Que Cristo seja o primogênito de toda criação;
  • Que Cristo seja o primogênito dentre os mortos, e;
  • Que Cristo seja o primogênito entre muitos irmãos.

Através da igreja, que é o corpo de Cristo, Deus concretizou o seu propósito eterno!

Em todos os tempos os homens são salvos por Deus mediante a fé, porém, a condição dos membros do corpo de Cristo é diferente da condição dos outros salvos que existiram ao longo da história da humanidade. Como?

Ora, os homens são salvos em todos os tempos pela fé em Deus, pois Deus salvou e salvará:

  • Antes da lei de Moisés;
  • Durante o período da lei de Moisés;
  • Durante o período das boas novas do evangelho;
  • No período da grande tribulação, e;
  • Durante o milênio.

Porém, diferente dos outros salvos, que continuarão na posição de homens, a igreja de Cristo foi elevada a categoria de ‘semelhantes a Deus’, posição superior a dos anjos, uma vez que serão semelhantes a Cristo ( 1Jo 3:2 ). Observe a tabela abaixo:

 

Hierarquia dos seres antes da constituição da Igreja

Hierarquia dos seres depois da constituição da Igreja

Criador

Deus

Deus

Criaturas

—————-

Semelhantes a Deus

Anjos

Anjos

Homens

Homens

 

Aos salvos que não são membros do corpo de Cristo, que é a igreja, não será dado a autonomia de julgar os anjos ( 1Co 6:3 ), mas a igreja julgará o mundo e os anjos ( 1Co 6:2 -3).

Diferentemente dos salvos de outras épocas, a igreja foi participante da morte de Cristo e passou a ser semelhante a Ele na ressurreição “Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição” ( Rm 6:5 ; Cl 3:1 -3).

O mesmo poder que foi manifesto em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, também operou sobre os membros do corpo de Cristo, a igreja ( Ef 1:19 ). Cristo é o primogênito dentre os mortos, e o seu corpo, também nomeado de a universal assembléia, é a igreja dos primogênitos ( Hb 12:23 ).

Cristo é Filho e herdeiro de todas as coisas, e os membros do seu corpo, filhos e co-herdeiros, pois é certo que os cristãos com Ele morreram (padecemos) para com Ele serem glorificados (ressurgir) ( Rm 8:17 ; Cl 3:3 ).

Tal qual Cristo é, é a sua igreja aqui neste mundo ( 1Jo 4:17 ). A igreja possui a imagem de Cristo, pois qual o Celestial, tais também os celestiais ( 1Co 15:47 -48). Esta condição é efetiva hoje, agora, não diz de algo para o futuro ( Ef 5:8 ).

Conclui-se que, todos os salvos de todas as épocas são filhos de Deus, porém, nem todos os salvos são qual o último Adão, que é Cristo. Há muitos filhos, mas somente a igreja é conforme a imagem de Cristo. Há muitos salvos, porém, somente através da igreja Cristo tornou-se primogênito dentre os mortos e primogênito entre muitos irmãos ( Rm 8:29 ).

O apóstolo João e o apóstolo Paulo anunciaram que todos os cristãos receberam da plenitude de Cristo ( Jo 1:16 ; Cl 2:10 -11), ou seja, todos são participantes da natureza divina, pois a semente de Deus permanece neles ( 2Pe 1:4 ; 1Jo 3:9 ).

A condição da igreja é tão diferenciada da dos outros salvos que os profetas estavam cientes que a graça que seria concedida à igreja não era igual a que lhes pertencia ( 1Pe 1:12 ).

As potestades e principados, por sua vez, desconheciam qual a multiforme sabedoria que foi revelada na igreja ( Ef 3:10 ), e assim como os profetas da antiga aliança também desejaram compreende-la “… para as quais coisas os anjos desejam bem atentar” ( 1Pe 1:12 b).

Este verso tem causado inúmeros equívocos, visto que os anjos não desejaram anunciar o evangelho como muitos apregoam, antes eles desejavam atentar para as mesmas coisas que os profetas desejavam compreender Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar” ( 1Pe 1:12 ).

Sabemos que Cristo é mais sublime que os céus, e que a igreja será semelhante a Ele, ou seja, possuidores de uma glória superior a própria ‘habitação’ do Altíssimo ( Hb 7:26 ; 1Jo 3:2 ).

Mas, como ainda ‘não é manifesto o que havemos de ser’, uma coisa é certa, toda a criação está numa ardente expectação esperando a manifestação dos filhos de Deus “Porque a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus” ( Rm 8:19 ).

No entanto, a manifestação dos filhos de Deus somente se dará quando Cristo se manifestar, e, então, a igreja será manifesta com Cristo em glória, ou seja, semelhantes a Ele ( Cl 2:11 ; 2Co 5:4 ; 1Co 15:53 -54).

Deus levou a efeito o seu propósito eterno quando adquiriu um povo, gerado segundo a palavra da verdade, constituído sacerdócio real e nação santa para que Cristo tenha a preeminência em tudo. Como? Através da igreja Cristo é o mais sublime entre os sublimes. Ele é o primogênito entre muitos irmãos! “Eis que o meu servo procederá com prudência; será exaltado, e elevado, e mui sublime” ( Is 52:13 ).

Somente através da igreja, o Servo do Senhor, o Filho do Altíssimo, é exaltado, elevado e mui sublime.

 

Conheceu e Predestinou

“Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” ( Rm 8:29 ).

Após alertar que as aflições do tempo presente não se comparam com a glória que há de ser revelada, e lembrar a expectativa da criação quanto a revelação dos filhos de Deus ( Rm 8:18 -22), o apóstolo Paulo demonstrou estar ansioso quanto a redenção do corpo ( Rm 8:23 ).

Ele reitera o que os cristãos deviam saber: que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus ( Rm 8:28 ), ou seja, os ‘que amam a Deus’ são aqueles que foram ‘chamados segundo o seu propósito’.

Quem são os chamados? Todos os que ouvem a mensagem do evangelho. Quem são os que amam a Deus? Todos que atenderam o chamado contido no evangelho.

Ora, somente as ‘boas novas’ do evangelho promove o propósito de Deus, pois todos os que foram ‘conhecidos’ de Deus, também foram predestinados a serem conforme a imagem de Cristo ( Rm 8:29 ).

Deste verso surgem algumas perguntas essenciais a compreensão:

  • O que é conhecer a Deus?
  • O ‘dantes’ refere-se a que?
  • Foram predestinados a que?
  • Com que propósito Deus chama os homens através do evangelho?

Conhecer a Deus “Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” ( Gl 4:9 ) – ‘Conhecer’ a Deus não é ter ‘ciência’, ‘saber’ ou ‘conhecimento acerca de’ Deus, antes, ‘conhecer’ é tornar-se um só corpo e um só espírito com o Pai e o Filho ( Ef 4:4 ), ou seja, refere-se a comunhão intima ( 1Co 1:9 ). Assim como o homem torna-se um só corpo ao ‘conhecer’ a mulher, conhecer a Deus, ou antes, ser conhecido d’Ele, diz de comunhão intima. Conhecer a Deus é algo pertinente ao tempo presente dos cristãos “Mas, agora…” ( Gl 4:9 ).

Dantes conheceu – A que tempo refere o ‘dantes’? O que ‘dantes conheceu’ é o mesmo que ‘… primeiro esperamos em Cristo’ ( Ef 1:12 ). Os que primeiro esperaram em Cristo são os que conheceram a Deus, ou antes, foram conhecidos d’Ele. Os que ‘dantes’, ou os que ‘primeiro’ conheceram a Deus, por esperar em Cristo, são os que foram feitos herança e predestinados segundo o propósito de Deus ( Ef 1:11 -12). ‘Dantes conheceu’ remete a mesma idéia que o apóstolo Paulo expôs aos cristãos da região da Galácia: conhecendo a Deus, ou ANTES, sendo conhecido d’Ele ( Gl 4:9 ). Este ‘dantes’ não tem relação com a ‘pré-ciência’ de Deus.

Predestinados a quê? – Deus predestinou os que ‘dantes’, ou seja, que em primeiro lugar O conheceram ao crer no evangelho para serem conformes à imagem de seu Filho. Observe que ninguém é predestinado a salvação! Antes de ser predestinado a ser conforme a imagem do Filho é necessário ao homem ‘conhecer’ a Deus, ou antes, ser ‘conhecido’ d’Ele.

O evangelho do propósito eterno – A oferta de salvação em Cristo, além da redenção do homem, faz parte do propósito eterno de Deus, que é tornar o Unigênito Filho de Deus no Primogênito de Deus entre muitos irmãos. Para tanto, todos os que crêem no evangelho, além de salvos, são predestinados a serem conforme a imagem de Cristo.

Somente os que primeiro ‘conheceram’ a Deus por intermédio do evangelho são predestinados à filiação divina. Ninguém é predestinado a ‘conhecer’ a Deus, ou seja, ninguém é predestinado a salvação, antes, é necessário primeiramente (dantes) crer em Cristo, que o homem terá o seu destino definido conforme o que foi proposto na eternidade: será conforme a imagem de Cristo “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” ( Rm 8:29 ).

E qual o propósito de Deus ao conceder filiação aos remidos segundo a graça demonstrada no evangelho? Que o Unigênito Filho de Deus, que foi morto e ressurgiu, seja o primogênito dentre os mortos com muitos irmãos.

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Qual a medida da depravação da humanidade?

Ao dirigir a palavra aos escribas e fariseus, Jesus os chamava de condutores cegos e insensatos ( Mt 23:16 -17). A figura da cegueira e da surdez aplica-se aos judeus, portanto, utilizá-las para descrever a humanidade sem Deus estabelece um entendimento equivocado de que a humanidade é cega e surda. Pelo fato de a humanidade estar morta em delitos e pecados, aplicam à humanidade as figuras da ‘cegueira’ e ‘surdez’, sendo que tais figuras apontam para Israel. Dai surge a ideia de que, para ver e ouvir a palavra de Deus, é necessário uma graça especial dada somente a alguns.


Alienação ou depravação

Após ler o artigo ‘Os cinco pontos’ do Rev. Alderi Souza de Matos, especificamente o subtítulo ‘Depravação Total’, fez-se necessário comentar o evento da criação do homem e analisar o que chamam de depravação total.

Assim se expressou o Ver. Alderi:

“A Bíblia diz que Deus criou o primeiro homem, Adão, à Sua imagem e semelhança. Deus fez um pacto com esse homem a fim de que, através da obediência aos Seus mandamentos, este pudesse obter vida. Contudo, o homem falhou desobedecendo a Deus deliberadamente, fazendo uso do seu livre-arbítrio, rebelando-se contra o seu Criador. Este pecado inicial de desobediência (conhecido como a Queda do Homem) resultou em morte espiritual e ruptura na ligação de sua alma com Deus, o que mais tarde trouxe também sua morte física. Sendo Adão o representante de toda a raça humana, todos caímos com ele e fomos afetados pela mesma corrupção do pecado. Tornamo-nos objetos da justa ira de Deus e a morte passou a todos os homens” Os Cinco Pontos, Alderi Souza de Matos < http://ipbo.org.br/cincopontos.html > Consulta realizada em 23/09/13.

O Rev. Alderi diz que Deus criou o homem à Sua imagem e semelhança, no entanto, o apóstolo Paulo esclarece a exposição acerca da criação do homem que consta do Gênesis dizendo que Adão foi criado à imagem de Cristo, e não a imagem e semelhança do Deus invisível “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” ( Rm 5:14 ).

O apóstolo Paulo deixa claro que Adão é a figura daquele que havia de vir, ou seja, através das Escrituras sabemos que Cristo homem é o que veio na plenitude dos tempos, portanto, a imagem que foi dada ao primeiro homem é a imagem do Cristo que haveria de vir ao mundo.

Quando Cisto foi manifesto aos homens na terra, manifestou-se em carne, e não em glória. A imagem que Adão recebeu foi a de Jesus Cristo homem, e não a imagem de Deus, visto que Deus é espírito. Para saber mais, acesse o artigo A criação do homem e a encarnação de Cristo .

Através do mandamento: “E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:16 -17), Deus alertou que havia a possibilidade de o homem abrir mão da comunhão que possuía com o Criador.

O fim da comunhão com Deus seria tão funesto que foi nomeada morte. Separação que o homem não pode remediar, e que emprestou o nome ao evento ‘descer ao pó da terra’. O homem se preocupa com o ‘descer ao pó’ como se fosse o mais grave evento para a existência do homem, e muitos não sabem que a separação de Deus pode perdurar pela eternidade.

Enquanto possuía comunhão com Deus não havia nenhuma obrigação para o homem, mas se decidisse comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, a comunhão com Deus estaria cortada (morte).

Deus é vida, e a comunhão com Ele é vida, portanto, estar alienado d’Ele é morte. A ideia de morte no mandamento que foi dado no Éden significa separação de Deus, alienação, consequência muito mais gravosa e danosa para o homem do que o término das funções vitais, que é o descer ao pó (separação dos entes queridos) “E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:16- 17); “No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” ( Gn 3:19 ).

A ofensa de Adão (conhecida como a Queda do Homem) resultou em separação (morte), ruptura entre o Criador e a criatura. A criatura continuou existindo, no entanto, após a ofensa, uma parede de separação foi erguida. O homem tornou-se separado de Deus, perdeu a liberdade que havia na comunhão “Porque, quando éreis servos do pecado, estáveis livres da justiça” ( Rm 6:20 ).

Por causa da ofensa a terra foi amaldiçoada, a mulher foi apenada a ter filho com dores e o homem a comer do suor do seu rosto até tornar para o pó da terra, isto porque o homem foi tomado do pó da terra. É neste ponto que surge o conceito de morte física, que não pode ser confundida com a morte espiritual que é alienação de Deus ( Gn 3:19 ).

Adão é a cabeça da raça humana e, através da desobediência dele toda a humanidade foi afetada. Por causa da ofensa de Adão a humanidade tornou-se filha da ira e da desobediência, e a alienação passou a todos os homens. Toda a humanidade herdou as consequências da ofensa de Adão e, por isso, todos os homens nascem alienados da Vida.

A queda de Adão escancarou uma porta larga pela qual todos os homens entram quando nascem. Esta porta larga dá acesso a um caminho largo que conduz os homens à perdição ( Mt 7:13 ). Por causa da ofensa de Adão todos os homens que veem ao mundo são ímpios, pois se desviam de Deus desde a madre. Andam errado desde que nascem, pois estão em um caminho largo que os conduz à perdição ( Sl 58:3 ).

Em Adão desviaram-se todos e juntamente se fizeram imundos, pois toda a humanidade estava na coxa de Adão ( Hb 7:9 -10), e neste quesito não há distinção de carne e sangue. Tanto judeus quanto gentios tornaram-se impróprios para a glória de Deus ( Sl 53:3 ; Rm 3:9 ).

Com a queda, os homens passaram a ser descritos como escravos do pecado, portanto, filhos da desobediência, herdeiros da ira.

Ser escravo do pecado não é ser escravo da própria natureza. É equivocada a concepção de que alguém é escravo de si mesmo, antes um escravo é aquele que, mesmo contra a sua vontade está sob domínio de outrem.

O pecado alcançou o senhorio por intermédio do mandamento santo, justo e bom que foi dado no Éden. Foi através do mandamento dado no Éden que o pecado tem força para dominar a humanidade, pois sem o mandamento não existiria o pecado “Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda a concupiscência; porquanto sem a lei estava morto o pecado” ( Rm 7:8 ).

Sem o mandamento que diz: “Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás”, não haveria alienação, morte, separação entre Deus e os homens, mas por causa da ofensa, veio a morte por força do mandamento divino que não pode ser invalidado “Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei” ( 1Co 15:56 ).

Ora, toda a humanidade herdou as consequências da ofensa de Adão, ou seja, a morte. Não existe nada mais grave do que a alienação de Deus. Mas, me surpreende a concepção de que os homens nascem ‘totalmente depravados’, ou seja, a concepção e o conceito ‘extensivamente maus’.

“Toda a humanidade herdou a culpa do pecado de Adão e por isso todos nascemos totalmente depravados e espiritualmente mortos. A morte espiritual não quer dizer que o espírito humano esteja inativo, mas sim que o homem é culpado (tem um passado manchado) e corrupto (possui uma natureza má). A depravação total não quer dizer que os homens são intensivamente maus (que somos tão maus quanto poderíamos ser), mas sim que somos extensivamente maus (todo o nosso ser, intelecto, emoções e vontade estão corrompidos pelo pecado)” Os Cinco Pontos, Alderi Souza de Matos.

A colocação do Rev. Alderi começa com o equivoco de afirmar que a humanidade herdou a culpa do pecado de Adão, sendo que a bíblia demonstra que o homem herdou a condenação: alienação, separação de Deus. No Novo Testamento, o termo grego traduzido por culpa.

(1777 ενοχος enochos de 1758; TDNT – 2:828,286; adj 1) constrangido, sob obrigação, sujeito a, responsável por 1a) usado de alguém que está nas mãos de, possuído pelo amor, e zelo por algo 1b) num sentido forense, denotando a conexão de uma pessoa seja com o seu crime ou com penalidade ou julgamento, ou com aquilo contra quem ou o que ele tem ofendido 1b1) culpado, digno de punição 1b2) culpado de algo 1b3) do crime 1b4) da penalidade 1b5) sujeito a este ou aquele tribunal i.e. a punição a ser imposta por este ou aquele tribunal 1b6) do lugar onde a punição é para ser sofrida) Dicionário Strong, aparece em conexão com a ideia de punição, o que difere do conceito jurídico recente de culpa, que deriva das intenções.

Quando encontramos na bíblia que o homem é culpado, não significa que a Bíblia está levando em conta as questões de foro íntimo do indivíduo como certo e errado, conhecedor ou ignorante, motivos e intenções, etc. O termo culpado aponta somente para a penalidade imposta.

Um jurista entende que a humanidade herdou a culpa de Adão, mas a Bíblia demonstra que o homem herdou a condenação “Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” ( Jo 3:18 ).

Mas, no que consiste a condenação? Alienação, separação, morte. Ora, todos os homens nascem separados da vida que há em Deus, portanto, mortos. A penalidade da desobediência é única: certamente morrerás. Na penalidade não está inclusa a ideia de depravação.

O que querem dizer com ‘depravado’? Por que a necessidade de enfatizar a ‘depravação’ com o termo ‘totalmente’. Por que a necessidade de inserir um novo termo para ilustrar a condição da humanidade se o termo morte demonstra com clareza a condição do homem?

O homem não possui um passado manchado, antes, segundo a Bíblia, é o homem que está manchado, ou seja, maculado, impróprio para comunhão com Deus. O homem não possui uma natureza má, antes o homem é apresentado na Bíblia como sendo mau “Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos…” ( Mt 7:11 ).

Surpreende-me a colocação de que os homens não são ‘intensivamente’ maus, e sim, extensivamente maus. Quando comparo com o que Jesus disse: “Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos…” (Mateus 7 : 11), verifico que nenhuma das duas premissas resistem à verdade.

Quando Jesus diz: “Se vós, sendo maus…”, indica que a plenitude do ser é má, ou seja, está comprometida. Se houvesse como mensurar o mau que decorre da ofensa, e esse mau fosse mínimo, mesmo assim o homem estaria aquém da gloria de Deus. Por que? Porque Deus é luz e não há n’Ele trevas nenhuma ( 1Jo 1:5 ).

A morte não comporta intensidade de modo que dizer que o homem é totalmente depravado é sem significado. O homem está morto em delitos e pecados e é mau, o que contraria a assertiva do Rev. Alderi.

Por outro lado, Jesus demonstra que, apesar de os seus interlocutores serem maus, sabiam dar boas coisas aos seus filhos ( Mt 7:11 ), o que demonstra que os homens não são extensivamente maus, como afirma o Rev. Alderi.

Ora, apesar de serem inteiramente maus, o intelecto dos fariseus não foi afetado, pois davam aos seus filhos boas dádivas. A emoção não foi afeta, pois o ato de dar boas dadivas aos filhos demonstra que o pecado não tolhe o forte vínculo emocional entre pai e filho.

Observe que, apesar de os fariseus serem maus, caso o filho deles pedisse pão, jamais dariam uma pedra. Ou, se o filho pedisse um peixe, jamais dariam uma serpente, o que evidencia que a vontade do homem não foi comprometida após a queda.

O que foi comprometida foi a relação do homem com Deus. Antes da queda havia comunhão, liberdade e vida, após a queda instalou-se a morte, perdeu-se a comunhão e o homem tornou-se escravo do pecado.

No instante após comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, Adão passou à condição de morto para Deus, alienado, separado, etc. A morte foi a penalidade estabelecida na lei: certamente morrerás. O homem não ficou extensivamente mau após a queda visto que não há no mandamento dado no Éden a penalidade ‘certamente ficarás extensivamente mau’.

Após a queda Adão não praticou nenhuma maldade que pudéssemos indicar que ele tornou-se tão mau quanto poderia ser, e nenhuma atitude dele após a queda indica que o seu intelecto, emoções e vontade foram corrompidos, porém, uma coisa é certa: ele estava completamente separado de Deus.

A morte espiritual é alienação de Deus, mas isto não significa que, por estar ‘separado de Deus’ o homem é ‘extensivamente mau’, ou seja, que o intelecto, as emoções e a vontade do homem estão corrompidos pelo pecado.

Há o mau proveniente da ofensa de Adão e o mau proveniente do fruto da árvore do conhecimento. Temos que divisar bem o que é ser mau por causa da ofensa de Adão, e o que é ter o conhecimento do bem e do mal proveniente do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal que estava no meio do jardim.

Através do seu intelecto, sentimento, emoções e vontade o homem pode executar intentos nobres e bons, como também pode executar ações reprováveis e más. Tanto o que faz boas ações quanto o que faz más ações estão alienados de Deus e, diante de Deus estão em pé de igualdade, pois o mais reto dos homens diante de Deus é como um espinho, e o mais justo como uma cerca de espinho ( Mq 7:4 ).

Quando a Bíblia afirma que o homem é mau, temos que entender o conceito de mau assim como entendemos o conceito de trevas.  Deus é luz, e o homem sem Deus é trevas. Dentro do mesmo princípio, Deus é bom e o homem sem Deus é mau.

Quando dizemos que Deus é bom, temos que entender o conceito ‘bom’ segundo a concepção do homem da antiguidade, e não com o olhar e o sentimento do homem moderno. Na Bíblia ‘bom’ (aghatos) vincula-se à nobreza, e o conceito de mau que se aplica ao homem é o de vil, baixo, ralé. Ou seja, há uma barreira de separação entre Deus e os homens, não porque o homem é maldoso e Deus é bondoso, antes porque a natureza de Deus é distinta da do homem, este inferior e aquele superior.

Quando a bíblia diz que o homem está separado, alienado de Deus, estabelece um conceito de totalidade. Não há como estar ‘parcialmente’ alienado. Não há como apor uma adjetivação na condição do homem, como ‘totalmente’ morto, ‘plenamente’ morto, ‘incomparavelmente’ morto, etc.

Mas, muitos adeptos da reforma protestante apresentaram o conceito da depravação total, dizendo que os homens são extensivamente maus, ou seja, que o pecado afetou o intelecto, as emoções e a vontade do homem.

A ofensa afetou a relação entre o homem e Deus, já o intelecto do homem, bem como as emoções e vontade adquiriram um novo ingrediente: o conhecimento do bem e do mal. O evento negativo que afetou o homem foi a alienação de Deus, porém, adquirir o conhecimento do bem e do mal não pode ser considerado como algo negativo, visto que o próprio Criador é detentor deste conhecimento.

O fato de o homem desprezar a palavra de Deus o deixa entregue a um sentimento perverso de modo que praticam coisas inconvenientes ( Rm 1:28 ), porém, as coisas inconvenientes que praticam não é o que os tornam escusáveis diante de Deus.

O pecado está na desobediência de ter comido do fruto, e não no conhecimento do bem e do mal que o homem adquiriu por ter comido do fruto do conhecimento do bem e do mal. Conhecer o bem e o mal não é pecado, visto que Deus é conhecedor (saber)do bem e do mal (Gn 3.22) e n’Ele não há trevas nenhumas. Pecado é a condição do homem após a ofensa.

O pecado é a condição imposta pela lei em função da ofensa, condição que impossibilita que o homem restaure a comunhão com seu Criador. Por causa da morte que mantém o homem preso ao pecado, o homem natural por si mesmo é incapaz de reatar a comunhão com Deus.

Mas, diante da impossibilidade do homem, Deus tomou a iniciativa de salvar a humanidade. Por intermédio de Cristo Jesus, Deus tomou a providência necessária para que o homem volte a ter comunhão com Deus.

No Éden Deus deu um mandamento que preservaria a condição do homem em comunhão com Deus, com o advento de Cristo, o último Adão, Deus deu um novo mandamento que restaura a comunhão com Deus.

E qual é este mandamento? Encontramos o mandamento de Deus estampado nas Escrituras: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ).

Em todos os tempos Jesus é o único caminho que reata a comunhão dos homens com Deus, pois Jesus foi dado para este fim “E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” ( At 4:12 ). No entanto, a humanidade, no afã de se salvar promovem inúmeras religiões na tentativa de que Deus lhes seja propício, porém, essas tentativas são inócuas, pois o homem natural por si mesmo não pode agradar a Deus. Somente a justiça agrada a Deus.

Além de dizerem que a ‘depravação total’ significa que ‘o pecado afetou o intelecto, as emoções e a vontade do homem’, muitos que seguem a doutrina produzida na reforma protestante alegam que o homem natural é totalmente incapaz de crer em Deus, pois está morto, cego e surdo para as coisas espirituais.

Ora, primeiro analisaremos esta alegação sob o prisma da nação de Israel, lembrando que Deus anunciou através do profeta Isaías que estendeu a suas mãos o dia todo a um povo rebelde “Estendi as minhas mãos o dia todo a um povo rebelde, que anda por caminho, que não é bom, após os seus pensamentos” ( Is 65:2 ).

Como pode ser isto? Apesar de Deus saber que o povo de Israel era totalmente incapaz de crer por estarem mortos, cegos, surdos e com o intelecto, as emoções e a vontade comprometida pelo pecado, estendeu a mão aos filhos de Jacó? Seria um tremendo contra censo! Apesar de Deus saber que o homem é completamente inabilitado para atendê-Lo, faz um convite de salvação e estende a mão? “Porque Deus não é Deus de confusão, senão de paz, como em todas as igrejas dos santos” ( 1Co 14:33 ).

Como Deus pode acusar o povo de Israel de não querer ouvi-Lo, se, na verdade, o povo era completamente surdo e cego? “Porque este é um povo rebelde, filhos mentirosos, filhos que não querem ouvir a lei do SENHOR” ( Is 30:9 ).

Não querer ouvir é completamente diferente de ser surdo, ou seja, impossibilitado de ouvir. Estar morto é uma condição, não querer ouvir é atitude rebelde.

Como é possível Deus clamar ao povo que volte, se o povo era surdo? “Vai, pois, e apregoa estas palavras para o lado norte, e dize: Volta, ó rebelde Israel, diz o SENHOR, e não farei cair a minha ira sobre ti; porque misericordioso sou, diz o SENHOR, e não conservarei para sempre a minha ira” ( Jr 3:12 ).

Ora, a Bíblia é clara em demonstrar que os filhos de Israel podiam ouvir. Primeiro porque Deus lhes dirigiu a palavra. Segundo porque eles podiam ouvir ou deixar de ouvir “Mas tu lhes dirás as minhas palavras, quer ouçam quer deixem de ouvir, pois são rebeldes” ( Ez 2:7 ); “Mas, quando eu falar contigo, abrirei a tua boca, e lhes dirás: Assim diz o Senhor DEUS: Quem ouvir ouça, e quem deixar de ouvir, deixe; porque eles são casa rebelde” ( Ez 3:27 ).

Já no Novo Testamento, quando Jesus conversa com Marta, irmã de Lazaro, disse: “Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá ( Jo 11:25 ). Mesmo os ‘mortos’ podem ouvir e crer, e se crerem, viverão, ou seja, voltarão a ter comunhão com Deus “Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão” ( Jo 5:25 ); “Ouvi, e a vossa alma viverá” ( Is 53:3 ).

Isaias profetizou que o povo que andava em trevas e que habitava nas regiões da morte viu uma grande luz, demonstrando que os homens, apesar de estarem mortos (alienados de Deus), pode ver “O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz” ( Is 9:2 ).

Deus estendeu as suas mãos todos os dias anunciando a seguinte mensagem aos ‘mortos’: “Inclinai os vossos ouvidos, e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, dando-vos as firmes beneficências de Davi” ( Is 55:3 ). Como posso afirmar que a mensagem era para os ‘mortos’? Porque se desse ouvidos (inclinar os ouvidos) e viesse a quem anuncia a mensagem alcançaria vida.

Só é possível passar a viver quem está morto, portanto, é anunciado aos mortos a possibilidade de viverem se derem ouvidos a voz de Deus.

Primeiro é necessário que o autor da mensagem tenha poder para dar vida. Em segundo lugar é necessário que a mensagem seja anunciada, pois se não há quem pregue, não há como crer. Em terceiro lugar é necessário ao homem morto inclinar os ouvidos, o que conduzirá o homem a Deus (vinde a mim). Quando o homem dá ouvidos, ou seja, ouve, volta à comunhão com Deus, terá vida dentre os mortos.

O que dissemos acima, o apóstolo Paulo escreveu aos Romanos:

“Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido. Porquanto não há diferença entre judeu e grego; porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam. Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo. Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? como está escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam o evangelho de paz; dos que trazem alegres novas de boas coisas. Mas nem todos têm obedecido ao evangelho; pois Isaías diz: SENHOR, quem creu na nossa pregação? De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus. Mas digo: Porventura não ouviram? Sim, por certo, pois Por toda a terra saiu a voz deles, E as suas palavras até aos confins do mundo. Mas digo: Porventura Israel não o soube? Primeiramente diz Moisés: Eu vos porei em ciúmes com aqueles que não são povo, Com gente insensata vos provocarei à ira. E Isaías ousadamente diz: Fui achado pelos que não me buscavam, Fui manifestado aos que por mim não perguntavam. Mas para Israel diz: Todo o dia estendi as minhas mãos a um povo rebelde e contradizente” ( Rm 10:8 -21).

Como havia uma barreira de separação entre Deus e os homens, o homem não podia aproximar-se de Deus e nem Deus do homem. Se Deus se aproximasse do homem após a queda, violaria a sua própria palavra e comprometeria a sua justiça e santidade. Já o homem não podia aproximar-se pela falta do conhecimento necessário, o que foi satisfeito quando Deus enviou o seu Único Filho como mediador “Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles levará sobre si” ( Is 53:11 ).

Para ser justo e justificar o homem, Deus enviou ao mundo Jesus Cristo homem na condição de mediador entre Deus e os homens. Por intermédio de Cristo, o Verbo de Deus, foi estabelecido um novo e vivo caminho para que o homem volte à comunhão com Deus.

O homem não é cego e nem surdo. A surdez e a cegueira são figuras especificas utilizadas pelos profetas para fazer referencia ao povo de Israel “Surdos, ouvi, e vós, cegos, olhai, para que possais ver” ( Is 42:18 ).

Como é possível o apóstolo Paulo afirmar que é possível entender a divindade pelas coisas criadas se o homem está impossibilitado de ver? “Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se veem pelas coisas que estão criadas…” ( Rm 1:20 ).

Na Bíblia você encontrará os termos ‘surdo’ e ‘cego’ utilizados como figuras para fazer referencia aos filhos de Jacó. O povo de Israel acreditava que via e ouvia ( Jo 9:39 -41), ou seja, entendia que eram guia dos cegos e dos que estavam em trevas ( Rm 2:19 ), porém, se admitissem que eram cegos, seriam como o servo do Senhor: perfeitos! “Quem é cego, senão o meu servo, ou surdo como o meu mensageiro, a quem envio? E quem é cego como o que é perfeito, e cego como o servo do SENHOR? Tu vês muitas coisas, mas não as guardas; ainda que tenhas os ouvidos abertos, nada ouves ( Is 42:19 -20).

O povo de Israel era tido por cego e surdo não porque eram portadores de deficiência visual e auditiva, antes porque ouviam e viam, mas não obedeciam “Tu vês muitas coisas, mas não as guardas; ainda que tenhas os ouvidos abertos, nada ouves” ( Is 42:20 ).

Ao dirigir a palavra aos escribas e fariseus, Jesus os chamava de condutores cegos e insensatos ( Mt 23:16 -17). A figura da cegueira e da surdez aplica-se aos judeus, portanto, utilizá-las para descrever a humanidade sem Deus estabelece um entendimento equivocado de que a humanidade é cega e surda. Pelo fato de a humanidade estar morta em delitos e pecados, aplicam à humanidade as figuras da ‘cegueira’ e ‘surdez’, sendo que tais figuras apontam para Israel. Dai surge a ideia de que, para ver e ouvir a palavra de Deus, é necessário uma graça especial dada somente a alguns.

Após a queda Adão morreu. Estava separado de Deus em função da ofensa. No entanto, quando Deus chamou Adão dizendo: – “Onde estás?”, apesar de morto, Adão disse: “Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me” ( Gn 3:10 ). Os ouvidos do primeiro homem que morreu estava em pleno funcionamento.

Mas, para quem os profetas disseram estas palavras: “Todos os seus atalaias são cegos, nada sabem; todos são cães mudos, não podem ladrar; andam adormecidos, estão deitados, e gostam do sono” ( Is 56:10 ); “Apalpamos as paredes como cegos, e como os que não têm olhos andamos apalpando; tropeçamos ao meio-dia como nas trevas, e nos lugares escuros como mortos ( Is 59:10 ). Não era para os judeus?

Observe o que diz o Rer. Alderi:

“A depravação total também significa que o homem possui uma inabilidade total para restaurar o relacionamento com seu Criador. Por causa da depravação, o homem natural, por si mesmo, é totalmente incapaz de crer verdadeiramente em Deus. O pecador está morto, cego e surdo para as coisas espirituais. Desde a Queda o homem perdeu o seu livre-arbítrio e passou a ser escravo de sua natureza corrompida e por isso ele é incapaz de escolher o bem em questões espirituais. Todas as falsas religiões são tentativas do homem de construir para si um deus que lhe seja propício. Porém, todas essas tentativas erram o alvo, pois o homem natural por si mesmo não quer buscar o verdadeiro Deus” Idem.

A cegueira e a surdez espiritual são figuras que se aplicam ao povo de Israel, porém, a doutrina calvinista da ‘depravação total’ utilizam figuras que tratam do povo de Israel para descrever a humanidade, e por isso dizem: ‘O pecador está morto, cego e surdo para as coisas espirituais’.

No entanto, quando as Escrituras diz: “Trazei o povo cego, que tem olhos; e os surdos, que têm ouvidos” ( Is 43:8 ); “Surdos, ouvi, e vós, cegos, olhai, para que possais ver” ( Is 42:18 ), ela aponta para os que receberam a lei, e não aos gentios “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” ( Rm 3:19 ).

 

 

Os Cânones de Dort (1618-1619)

Os Cânones de Dort, ou cânones de Dordrech, intitulados formalmente como ‘A Decisão do Sínodo de Dort sobre os Cinco Pontos Principais de Doutrina’ em disputa na cidade holandesa de Dordrech, em 1618/19, conhecida também como os Cinco pontos contra os Remonstrantes, registra a seguinte ideia no primeiro ponto:

“1. Todos os homens pecaram em Adão, estão debaixo da maldição de Deus e são condenados à morte eterna. Por isso Deus não teria feito injustiça a ninguém se Ele tivesse resolvido deixar toda a raça humana no pecado e sob a maldição e condená-la por causa do seu pecado, de acordo com estas palavras do apóstolo:  ‘… para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus… pois todos pecaram e carecem da glória de Deus…’, e: ‘…o salário do pecado é a morte…’ ( Rm 3:19- 23; Rm 6:23 )”.

Os autores do Cânones de Dort no afã de rebater a doutrina arminianista cometeram o equivoco de não observar que a assertiva paulina: ‘… para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus’, tinha por alvo os judeus, e não  a humanidade. É certo que todos pecaram em Adão. É certo que todos estão debaixo de maldição e condenados à morte eterna. Também é certo que se Deus não houvesse resgatado o homem não haveria injustiça n’Ele.

O erro está em utilizar a passagem bíblica de Romanos 3, verso 19 para embasar a assertivas acima, visto que o apóstolo Paulo estava incluindo o povo judeu sob o pecado e a condenação. Que todos pecaram e carecem da glória de Deus é fato, porém, os judeus se consideravam privilegiados por serem descendentes da carne de Abraão.

Censurando os judeus, o apóstolo Paulo diz: “Eis que tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus” ( Rm 2:17 ), demonstrando que, o que exporia a seguir depunha contra os judeus, incluindo-os debaixo da maldição do pecado.

Após apresentar a vantagem e a utilidade do povo judeu ( Rm 3:1 -2), o apóstolo Paulo demonstra que em nada eram diferente dos gentios ( Rm 3:9 ). Neste contexto, todas as afirmações do apóstolo Paulo são absolutas no sentido de demonstrar a inutilidade da circuncisão para ser salvo.

Dai a conclusão: “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” ( Rm 3:19 ).

Se a lei foi escrita para os que estavam debaixo da lei, significa que o povo de Israel também estava sob condenação, de modo que todo mundo é condenável diante de Deus por causa da ofensa de Adão.

Quando é dito: “… pois todos pecaram e carecem da glória de Deus…’, devemos considerar a inclusão dos judeus sob a maldição do pecado e, subsidiariamente, subentende-se que os gentios são pecadores. A ênfase do texto, porém, está nos judeus.

A exposição do apóstolo Paulo foi necessária para conscientizar o povo de Israel da sua real condição. Israel era nomeado povo de Deus, o que dava a entender que era uma nação constituída de homens que não eram pecadores.

Ler a carta de Paulo aos Romanos como se fosse uma carta direcionada apenas aos gentios é ficar alijado do sentido exato do texto, e a compreensão ficara distorcida. O apóstolo Paulo só fala aos gentios a partir do capítulo 11 da carta aos Romanos “Porque convosco falo, gentios, que, enquanto for apóstolo dos gentios, exalto o meu ministério” ( Rm 11:13 ), enquanto os capítulos iniciais foram escritos para os cristãos judeus “Eis que tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus…” ( Rm 2:17 ).

No segundo ponto do Cânones de Dort, fica demonstrado que Deus manifestou seu amor ao enviar o seu Filho, Jesus Cristo:

“2. Mas ‘Nisto se manifestou o amor de Deus em nós, em haver Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo…’, ‘…para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” ( 1Jo 4:9 ; Jo 3:16 ).

No ponto três do Canones de Dort tem-se algumas distorções que decorre de uma má leitura que já demonstramos no ponto um:

“3. Para que os homens sejam conduzidos à fé, Deus envia, em sua misericórdia, mensageiros desta mensagem muito alegre a quem e quando Ele quer. Pelo ministério deles, os homens são chamados ao arrependimento e à fé no Cristo crucificado. Porque ‘…como crerão naquele de quem nada ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão se não forem enviados?…’ ( Rm 10:14- 15)”.

A Bíblia demonstra que os homens necessitam de comunhão com Deus, e não que os homens devam ser conduzidos à ‘fé’.

A Bíblia demonstra que há uma barreira entre Deus e os homens, e não uma barreira entre os homens e Cristo, que é a ‘fé’ manifesta. Seria um contra senso Deus enviar um mediador e haver uma barreira entre os homens e o mediador.

É um absurdo entender que há uma barreira entre o pecador (homens) e o mediador (Cristo), ou que há uma barreira entre o pecador e o sacerdote como sugere a asserção:

‘Para que os homens sejam conduzidos à fé, Deus envia, em sua misericórdia, mensageiros desta mensagem…’.  Idem

Se entendemos que Cristo é a fé manifesta ( Gl 3:23 ), é sem sentido afirmar que os homens devam ser conduzidos à fé. Ora, foi Deus que enviou o seu Filho ao mundo.

Se entendemos que a ‘fé’ é a mensagem anunciada que tem por tema o Cristo ( Jd 1:3 ; Rm 1:5 ), o mensageiro é porta-voz da fé aos homens para que eles possam por intermédio de Cristo serem conduzidos a Deus.

Ora, Deus em sua misericórdia, enviou o seu Filho amado ao mundo, ou seja, a todos os homens, e não ‘a quem e quando Ele quer’. O apóstolo Paulo é claro: “Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” ( 1Tm 2:4 ; Jo 3:16 ).

O homem precisa ser conduzido a Deus, e para isto Cristo veio. O homem não precisa ser conduzido a Cristo, antes a Deus, e Cristo é o mediador. Cristo foi posto como um novo e vivo caminho, e pelo seu corpo o homem tem acesso a Deus.

O Canones de Dort faz distinção entre ‘arrependimento’ e ‘fé’ por causa do conceito deturpado de arrependimento oriundo da concepção católica que decorre do termo ‘penitência’.

Arrependimento é mudança de concepção, abandono de uma ideia para abraçar uma nova, de modo que, quando ocorre o arrependimento, consequentemente, o homem abraça a fé. Se abraçou a fé, significa que se arrependeu, e vice-versa, pois arrependimento é ‘metanoia’, mudança de concepção, conversão.

No ponto 4 temos a seguinte assertiva:

“4. A ira de Deus permanece sobre aqueles que não creem neste Evangelho. Mas aqueles que o aceitam e abraçam Jesus, o Salvador, com uma fé verdadeira e viva, são redimidos por Ele da ira de Deus e da perdição, e presenteados com a vida eterna ( Jo 3:36 ; Mc 16:16 )”.

Basta ao homem crer em Cristo segundo as Escrituras que aceitaram a Jesus como salvador com uma fé verdadeira e viva. A fé verdadeira e viva é a verdade do evangelho, e aquele que crê no evangelho tem uma fé verdadeira e viva.

O ponto cinco possui duas incongruências com as Escrituras:

“5. Em Deus não está, de forma alguma, a causa ou culpa desta incredulidade. O homem tem a culpa dela, tal como de todos os demais pecados. Mas a fé em Jesus Cristo e também a salvação por meio d’Ele são dons gratuitos de Deus, como está escrito: ‘Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus…’ ( Ef 2:8 ). Semelhantemente, ‘Porque vos foi concedida a graça de…’ crer em Cristo ( Fp 1:29 )”.

Deus não trata com a humanidade a questão da culpa, antes da condenação. Foi um só homem que pecou, e todos pecaram. Um só homem ofendeu, e a condenação veio sobre todos os homens, mesmo a humanidade não tendo transgredido à semelhança da transgressão de Adão ( Rm 5:14 ).

A humanidade está condenada por causa da ofensa de Adão, e este é o pecado que alienou o homem de Deus. Sobre a humanidade pesa a condenação por causa da ofensa de Adão, portanto, não há que se falar que ‘o homem tem a culpa dela, tal como de todos os demais pecados’.

A segunda incongruência se dá pela má leitura do texto de Efésios 2, verso 8: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus…” ( Ef 2:8 ). O apóstolo Paulo estava explicando que os cristãos são salvos graciosamente mediante a fé, ou seja, mediante Cristo, pois Ele é a fé que ‘havia de se manifestar’. O termo ‘fé’ no versículo não é o que os tradutores vertem por ‘crer’. Não se trata do verbo ‘fé’, antes é a forma substantivada, um recurso linguístico (figura de linguagem) para fazer referência à pessoa do Cristo  ( Gl 3:23 ).

A salvação em Cristo, a ‘fé’ manifesta não vem dos homens, é dom de Deus, pois Jesus mesmo disse a mulher samaritana: “Jesus respondeu, e disse-lhe: Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva” ( Jo 4:10 ). Cristo é o dom de Deus, a fé que havia de se manifestar e foi manifesta na plenitude dos tempos.

Já o que foi escrito aos Filipenses diz respeito a batalhar pela fé ( Jd 1:3 ), pois além de terem crido em Cristo, a eles foi concedido defender a mensagem do evangelho “Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele” ( Fp 1:29 ).

No ponto 6 do Canones de Dort, ao afirmar a doutrina da eleição e da reprovação calvinistas, é enfatizado que Deus faz distinção entre homens:

“6. Deus dá nesta vida a fé a alguns enquanto não dá a fé a outros. Isto procede do eterno decreto de Deus. Porque as Escrituras dizem que Ele “…faz estas cousas conhecidas desde séculos.” e que Ele “faz todas as cousas conforme o conselho da sua vontade…” ( At 15:18 ; Ef 1:11 ). De acordo com este decreto, Ele graciosamente quebranta os corações dos eleitos, por duros que sejam, e os inclina a crer. Pelo mesmo decreto, entretanto, segundo seu justo juízo, Ele deixa os não-eleitos em sua própria maldade e dureza. E aqui especialmente nos é manifesta a profunda, misericordiosa e ao mesmo tempo justa distinção entre os homens que estão na mesma condição de perdição. Este é o decreto da eleição e reprovação revelado na Palavra de Deus. Ainda que os homens perversos, impuros e instáveis o deturpem, para sua própria perdição, ele dá um inexprimível conforto para as pessoas santas e tementes a Deus”.

Quando afirmam que ‘Deus dá nesta vida a fé a alguns enquanto não dá a fé a outros’, contrariam a bíblia, visto que Cristo é a fé manifesta que Deus deu a todos os homens. Cristo é descrito como o Sol nascente das alturas, e o sol nasce sobre todos sem distinção, pois Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito para todo aquele que crê seja salvo ( Lc 2:32 ).

A fé foi manifesta salvadora a todos os homens, pois Deus deseja que todos se salvem “Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” ( 1Tm 2:4 ); “Porque para isto trabalhamos e lutamos, pois esperamos no Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens, principalmente dos fiéis” ( 1Tm 4:10 ); “Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam” ( At 17:30 ).

Deus não faz distinção entre homens e homens, pois todos entram neste mundo por uma mesma porta, a porta larga (Adão) e alienados estão de Deus “Quanto menos àquele, que não faz acepção das pessoas de príncipes, nem estima o rico mais do que o pobre; porque todos são obras de suas mãos” ( Jó 34:19 ; Dt 10:17 ; Dt 16:19 ). Todos entram por Adão, ou seja, todos são filhos da desobediência, para que Deus use igualmente de misericórdia para com todos “Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia” ( Rm 11:32 ).

Por causa da separação, Deus estabeleceu Jesus Cristo homem como mediador entre Deus e os homens, de modo que não há ninguém que seja especial diante da mensagem do evangelho, e ninguém que seja preterido ao ouvi-lo “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem” ( 1Tm 2:5 ).

Ao escrever aos Gálatas, o apóstolo Paulo deixou claro o motivo pelo qual todos foram encerrados debaixo do pecado: “Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos crentes ( Gl 3:22 ). Não importa se judeus ou gregos, a promessa que e segundo a fé é para os que creem.

Deus faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade ( Ef 1:11 ), e é da vontade de Deus salvar os crentes, ou seja, os que creem na mensagem do evangelho, que é poder de Deus. Na pregação está o poder de Deus e, todos quantos creem recebem poder para serem feitos filhos de Deus “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação” ( 1Co 1:21 ; Jo 1:12- 13).

A salvação é para os que creem na pregação, pois na mensagem anunciada por Cristo e os apóstolos está o poder de Deus para salvação ( Rm 1:16 ; Hb 5:9 ).

A salvação não é segundo o que propõe a predestinação calvinista, de que o homem é salvo antes mesmo de ouvir a palavra da verdade, o evangelho da salvação. Ao ouvir e crer em Cristo o homem é salvo, e após ser salvo é designado eleito de Deus para ser santo e irrepreensível, predestinado a ser conforme a imagem de Cristo Jesus “Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos” ( 1Jo 3:2 ).

 

Alienados

Como já verificamos, a força da lei dada no Éden somada a ofensa de Adão fez surgir a parede de separação (pecado) entre Deus e os homens. O termo utilizado para descrever esta separação é alienação, diferente da ideia que o termo ‘depravação total’ transmite.

O termo depravação tem relação com o que o homem realiza do ponto de vista moral, já a alienação demonstra a quebra da comunhão com Deus. Do ponto de vista da moral é possível mudarmos o nome ‘depravado’ através do adjunto ‘totalmente’, mas se falarmos da relação entre Deus e os homens sob o domínio do pecado, o termo ‘alienado’ não comporta o adjunto ‘totalmente’.

O pecador está separado de Deus, e ponto. Nem mais nem menos. Utilizarmos o adverbio totalmente, ou completamente, é sem valor, pois o termo alienado encerra uma ideia.

O equivoco de tentar demonstrar que o homem está totalmente depravado surge da má leitura que fizeram da explicação de várias passagens do Antigo Testamento que o apóstolo Paulo citou na carta aos Romanos.

Quando o apóstolo Paulo explicou aos cristãos convertidos dentre os judeus que eles não eram melhores que os gentios, porque ambos os povos estavam debaixo do pecado ( Rm 3:9 ), citou os Salmos: “Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só ( Rm 3:10 -12).

Os judeus, por serem descendentes da carne de Abraão, terem a lei e a circuncisão, consideravam que eram melhores que os gentios, porém, o apóstolo Paulo utilizou os Salmos para demonstrar que as Escrituras protestavam contra os judeus e não contra os gentios.

Apesar de os gentios serem pecadores, o alvo das Escrituras era os judeus. Apesar dos judeus comparecerem continuamente no templo para orar e oferecer sacrifícios, Deus protestava continuamente contra eles de que não eram justos, não entendiam a vontade de Deus, não buscavam a Deus. Juntamente judeus e gentios se extraviaram em Adão, são imundos e não fazem o bem.

Após citar outras passagens bíblicas, o apóstolo Paulo enfatiza a essência da sua abordagem: “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” ( Rm 3:19 ). Os únicos que possuíam uma boca dilatada eram os judeus, pois confiavam na lei, mas a própria lei foi dada para que eles também estivessem de bocas fechadas, pois eram condenáveis diante da lei e estavam alienados de Deus “Não vos deu Moisés a lei? e nenhum de vós observa a lei. Por que procurais matar-me?” ( Jo 7:19 ; Rm 2:27 ;  ).

A alienação da humanidade é igual para judeus e gregos. Ambos os povos carecem da glória de Deus. A única diferença entre judeus e gentios é que foi dado aos judeus a lei para conduzi-los a Cristo ( Rm 3:2 ). Não existe uma alienação maior ou uma menor. Não existe alienação total ou parcial. O homem quando no pecado está separado, alienado, e ponto!

É de se estranhar que a doutrina calvinista utilize termos como ‘totalmente’, ‘completamente’, para enfatizar a condição do homem separado de Deus. No entanto, desconsideram o fato de que Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito para que TODO aquele que crê não pereça, ou o fato de que Deus quer que TODOS os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade. Nosso Deus é Deus de paz e não de confusão.

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O livro do Cordeiro do Apocalipse

A supressão da figura do proprietário do livro da vida no capítulo 17 do Livro do Apocalipse foi suficiente para que algumas pessoas se utilizassem do texto para introduzirem encobertamente a sua doutrina, enfatizando que, ‘desde a fundação do mundo’ há um livro que contém registrado o nome dos salvos, sugerindo a doutrina calvinista da eleição e predestinação.

 

“… cujos nomes não estão escritos no livro da vida, desde a fundação do mundo” ( Ap 17:8 )

Introdução

A abordagem de Apocalipse 17, verso 8 não se centra em um livro, antes na figura do Cordeiro de Deus. Cristo, o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo é o tema central do verso ( Jo 1:29 ; Ap 21:27 ).

A leitura do verso 8 do capítulo 17 de Apocalipse é simples: Ora, a bíblia só faz referência a um livro da vida, e este livro, por sua vez, pertence ao Cordeiro de Deus. É o ‘Cordeiro de Deus’ que foi morto desde a fundação do mundo, e não o ‘livro da vida’ que foi escrito desde a fundação do mundo.

Quando lemos: “… cujos nomes não estão escritos no livro da vida, desde a fundação do mundo” ( Ap 17:8 ), basta incluir no versículo a figura do proprietário do livro para desfazer a confusão que produz muitas interpretações equivocadas e falaciosas: o livro da vida do (pertence ao) Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo.

Observe: “… cujos nomes não estão escritos no livro da vida (do cordeiro que foi morto), desde a fundação do mundo” ( Ap 17:8 ). Este verso faz a mesma abordagem do verso 8 do capítulo 13: “E adoraram-na todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo”.

Na língua grega, aquilo que é evidente no texto, ou o que já foi abordado anteriormente, ou, o que é facilmente subtendido, por uma questão de estilo de redação, geralmente é suprimido. No verso 8 do capítulo 17 houve uma supressão da figura do proprietário do livro (cordeiro), o que é facilmente deduzido, pois o livro pertence ao cordeiro “E não entrará nela coisa alguma que contamine, e cometa abominação e mentira; mas só os que estão inscritos no livro da vida do Cordeiro” ( Ap 21:27 ).

Mas, a supressão da figura do proprietário do livro foi suficiente para que algumas pessoas se utilizassem do texto para introduzirem encobertamente a sua doutrina, enfatizando que, ‘desde a fundação do mundo’ há um livro que contém registrado o nome dos salvos, sugerindo a doutrina calvinista da eleição e predestinação.

Através desta passagem bíblica, há quem procure dar sustentação à doutrina calvinista da predestinação e eleição sob o argumento de que Deus registrou os nomes dos salvos em um livro ‘desde a fundação do mundo’, determinando quem são os salvos, mas se esquecem de considerar que o próprio Deus assevera que apagará o nome daqueles que pecarem, apesar de já estarem inscritos no seu livro, o que depõe contra tal concepção doutrinária fatalista, determinista e mecanicista “Então disse o SENHOR a Moisés: Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro ( Êx 32:33 ).

 

Aplicando princípios de interpretação

A primeira questão a se considerar ao interpretar Apocalipse 17 verso 8 é que se está analisando figuras. No aprendizado de uma nova matéria, a cognição do homem se dá por associação e acomodação, de modo que, Deus, ao transmitir uma ideia espiritual – que é completamente nova para o homem – utiliza figuradamente coisas pertinentes a este mundo dos para apresentar.

Ao observar o versículo 8 do capítulo 17 de Apocalipse, verifica-se que ele faz referência à ‘besta’, uma figura que representa o oitavo rei que pertence ao conjunto de sete reis e que vai a perdição ( Ap 17:11 ), de modo que a figura apresentada é para trazer à compreensão um mistério ( Ap 17:7 ).

Como a besta deste contexto é uma figura para fazer referencia a um rei, o livro que consta do mesmo verso também é uma figura, visto que é improvável que Deus possua ou necessite de um livro para conferir de nomes. Deus não precisa de livros ou de caneta para anotar informações.

Deus é onisciente, ou seja, todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos d’Ele. Todas as coisas Ele conhece igualmente bem, quer seja no passado, no presente ou no futuro, tanto as que consideramos simples quanto as que consideramos complexas.

Ora, a visão de um livro remete o vidente à ideia de que todas as coisas são conhecidas por Deus, de modo que é impossível aos homens, ou a qualquer outro ser criado escapar da percepção dos ‘olhos’ de Deus.

Na bíblia não há em outras passagens bíblicas que faça referencia a um livro redigido antes da fundação do mundo. O que encontramos é referencias a Cristo, apresentado como o cordeiro de Deus, e que ele foi morto desde a fundação do mundo ( Ap 13:8 ).

As verdades bíblicas permeiam e ecoam por todas as Escrituras, de modo que as verdades bíblicas são repetidas de diversas maneiras em seus vários livros. Ora. Não há em outros livros qualquer alusão a um livro escrito na fundação do mundo, mas com relação ao Cordeiro foi anunciado por Moisés (Lei), pelos profetas, confirmado pelos apóstolos que Ele foi morto desde a fundação do mundo.

Embora a bíblia faça menção de um livro como figura, não há menção de um tempo ou de uma época em que tenha sido escrito, antes a referência é quanto à natureza do livro: livro da vida.

Para analisar o verso 8 de Apocalipse 17, o interprete tem que evitar certas ‘armadilhas’ na construção de um argumento dedutivo para não compor uma falácia.

Quando da análise de uma frase é imprescindível considerar:

a) denotação: sentido real, literal da frase, ou o estado de coisas que a frase afirma ser o caso;

b) conotação: a associação subjetiva, cultural e/ou emocional, que está para além do significado estrito ou literal de uma palavra, frase ou conceito, ou seja, diz dos sentimentos, ideias ou emoções provocadas pela frase no auditor, e;

c) ênfase: refere-se ao grau de importância que o autor atribui aos diferentes elementos constitutivos da frase.

Ora, se o interprete desloca o grau de importância que o autor atribuiu a um elemento da frase, no caso em comento o cordeiro, para outro elemento constitutivo da frase que o interprete quer estabelecer, produzirá uma falácia.

Quando lemos: “A besta que viste era e já não é, e subirá do abismo, e irá à sua destruição. Os que habitam na terra (cujos nomes não estão escritos no livro da vida desde a fundação do mundo) se admirarão, vendo a besta que era e já não é, mas que virá”,  duas figuras se destacam: a besta e o livro.

Apesar do verso 8 apontar estas duas figuras, vale destacar que o tema central do livro do Apocalipse é o Cordeiro de Deus, Jesus Cristo-homem. A besta possui no texto uma importância relativa que contrasta com a importância maior, a do Cordeiro, por se opor a Ele ( Ap 17:14 ).

Se não fosse a figura central do Cordeiro, não haveria a necessidade de se fazer referencia a besta. De igual modo, se não fosse o Cordeiro de Deus, a quem pertence o livro da vida, não haveria razão de se fazer menção do livro.

O que o verso apresenta:

  • Um estado de coisas que o versículo afirma ser o caso – o versículo afirma tão somente que o livro da vida pertence ao Cordeiro – denotação. Qualquer suposição que vá além desta ideia é espúria;
  • Os sentimentos, ideias ou emoções provocadas pelo versículo – somente informa que os que não fazem parte do livro do Cordeiro são os que se admirarão ao verem a besta – conotação. Qualquer suposição que vá além deste núcleo de informação é espúria, e;
  • A importância que o autor atribui aos diferentes elementos da frase – o evangelista João enfatiza o Cordeiro de Deus, e não da besta ou do livro, que dirá do tempo em que o livro foi escrito – ênfase.

Após as figuras e a ênfase, há um terceiro ponto a se destacar quando da interpretação deste versículo: na língua grega, aquilo que é evidente, ou o que já foi abordado no texto, o que é facilmente subtendido, por uma questão de estilo de redação, geralmente é suprimido.

A leitura do verso 8 do capítulo 17 de Apocalipse é simples, pois basta incluir no versículo a figura do proprietário do livro – o cordeiro de Deus – para desfazer a confusão que produz muitas interpretações equivocadas e as falácias.

Ora, a bíblia faz referencia a um único livro da vida, e este livro, por sua vez, pertence ao Cordeiro de Deus, de modo que o que ocorreu desde a fundação do mundo foi a morte do proprietário do livro, e não a escrita dos nomes no livro.

Quando lemos: “… cujos nomes não estão escritos no livro da vida, desde a fundação do mundo” ( Ap 17:8 ), temos que considerar que, as pessoas que habitam sobre a terra e que se admirarão vendo a besta são aquelas que não possuem o nome no livro da vida que pertence ao Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo.

O evangelista estava destacando as mesmas coisas abordadas anteriormente:

a) que os que habitam sobre a terra se admirarão vendo a besta;

b) que os que admiram a besta não estão inscrito no livro da vida, e;

c) que o livro da vida pertence ao Cordeiro morto desde a fundação do mundo “E adoraram-na todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” ( Ap 13:8 ).

Enquanto o vidente estava demonstrando que os que não estão escritos no Livro do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo se admirarão ao ver a besta, há quem considere que é o livro da vida que foi escrito desde a fundação do mundo.

 

Como um falácia é construída

Após ler o verso 8 do capítulo 17 do Livro das Revelações, que diz: “cujos nomes não estão escritos no livro da vida, desde a fundação do mundo” ( Ap 17:8 ), o Sr. Clóvis Gonçalves concluiu no artigo intitulado ‘Quando o livro da vida foi escrito?’ disponível na web, que “a expressão desde a fundação do mundo não significa ‘começando lá e continuando até o último convertido’. Mas se refere a algo que estava concluindo quando Deus lançou os fundamentos da terra, antes de criar o primeiro homem” Gonçalves, Clovis, Quando o Livro da vida foi escrito?, Artigo disponível na web.

Através deste artigo do Sr. Clóvis, demonstraremos como é pernicioso, alguém, com uma opinião formada, se achegar ao texto bíblico somente para afirmá-la. É um empenho sem valor ler e analisar um texto bíblico na língua grega somente com foco na gramatica, sem que o estudioso esteja disposto a abrir mão dos seus conceitos para absorver a ideia que o texto transmite.

Quando inicia a análise do versículo, o autor, de pronto estabeleceu que só existem duas possibilidades de se interpretar a passagem bíblica: “Há duas possibilidades aqui, interpretar a expressão como significando que os nomes de todos os salvos estavam registrados no Livro da Vida desde a fundação do mundo ou que o nome de cada pessoa é escrito quando o evangelista ora pelo decidido, pedindo a Deus que escreva o seu nome no livro da vida” Idem.

Por que ele vê somente estas duas possibilidades? Porque a visão dele é de que a doutrina calvinista e arminianista encerram qualquer discussão sobre o tema. Vale salientar que o autor do artigo citado é calvinista.

O Sr. Clovis inicia a sua argumentação, em prol do seu ponto de vista, dizendo que é significativo o fato do verso em comento abordar a questão dos que não tiveram os seus nomes registrados no livro da vida, contrastando com aqueles que possuem esse privilégio.

Em seguida, fez uma análise gramatical da frase em grego: “apo kataboles kosmou”, que significa “desde a fundação do mundo”, subdividindo os elementos do aposto, em preposição (desde), seguido de um substantivo (fundação) e o seu complemento (do mundo). Esta informação é verdadeira, porém, não é esta informação que torna válida a conclusão que ele fez no final do artigo.

Não é o fato de conhecer a língua grega e a hebraica que torna uma pessoa autoridade na interpretação das Escrituras, pois os escribas e fariseus conheciam as duas línguas e, mesmo inseridos no contexto cultural da época, foram inquiridos por Cristo por não entenderem a linguagem d’Ele “Por que não entendeis a minha linguagem? Por não poderdes ouvir a minha palavra” ( Jo 8:43 ).

Ser versado na língua grega ou hebraica não torna ninguém mestre e nem confere autoridade para expor a verdade do evangelho.

Embora a expressão ἀπὸ καταβολῆς κόσμου (apo kataboles kosmou – desde a fundação do mundo) seja comum no Novo Testamento e ocorre exatamente como em Apocalipse 17, verso 8 em outras seis passagens bíblicas, ela pode assumir valor distinto em função do contexto no qual ela foi inserida ( Mt 13:35 ; Mt 25:34 ; Lc 11:50 ; Hb 4:3 ; Hb 9:26 ; Ap 13:8 ).

A expressão ἀπὸ καταβολῆς κόσμου indica que algo está consumado, estabelecido, desde a fundação do mundo, mas, também pode, como em Lucas 11, verso 50, ser lida como uma realização gradual, sucessiva, progressiva, continua “Para que desta geração seja requerido o sangue de todos os profetas que, desde a fundação do mundo, foi derramado” ( Lc 11:50 ). A frase é inclusiva, demonstrando que será requerido o sangue de todos os profetas das mãos de uma geração específica: a geração má.

Vale salientar que, quando Jesus especifica: ‘desta geração’, a primeira ideia que vem a mente do interprete é de que Jesus estava fazendo referência ao espaço de tempo que separa cada grau de filiação, por causa do entendimento de que cada século compreende cerca de três gerações, porém, seria sem propósito Deus requerer o sangue dos profetas que fora derramados pelos pais das mãos dos filhos, sendo que o sangue dos profetas foi derramado sucessivamente desde os pais até os dias de Cristo.

Carece verificar que, quando Jesus diz ‘desta geração’, ele diz de uma ‘geração má’, ‘geração perversa’, ‘geração de Adão’, que contrasta com a geração dos filhos de Deus, com a geração dos que nasceram de novo, provenientes de uma semente incorruptível, que é a palavra de Deus, geração de Cristo.

A fala de Jesus era para tornar evidente que os filhos de Israel eram geração contumaz, rebelde, geração de Adão, contrastando com a semente que foi vaticinada pelos profetas que serviria a Deus, a geração proveniente da palavra de Deus “Uma semente o servirá; será declarada ao Senhor a cada geração” ( Sl 22:30 ); “Esta é a geração daqueles que buscam, daqueles que buscam a tua face, ó Deus de Jacó. (Selá.)” ( Sl 24:6 ).

A argumentação com relação às outras passagens bíblicas quanto ao uso da frase ἀπὸ καταβολῆς κόσμου são pertinentes e encera a ideia de algo concluso, porém, não é causa determinante do significado da passagem de Apocalipse 17, verso 8.

O contraponto que o Sr. Clovis faz ao Pr. Ciro é pertinente, quando diz: “O pastor Ciro faz a sua tese depender da preposição ‘apo’ e não da expressão completa. Porém, a classe de palavra que tem tempo e modo é o verbo, e é para ele que devemos nos voltar se quisermos saber quando e de que forma algo ocorre. Devemos perguntar ao texto ‘o que [não] ocorreu antes da fundação do mundo?’ e a resposta é ‘nomes [não] foram escritos’” Idem.

Embora a leitura do Sr. Clovis tenha por base um dicionário de um lexicógrafo famosíssimo como o é o do Dr. Strong, não significa que a interpretação do contexto do capítulo 17 de Apocalipse seja a correta “O verbo ‘gegraptai’ está no tempo Perfeito e no modo Indicativo. O modo Indicativo, nos informa o Léxico Grego de Strong ‘é uma simples afirmação de fato. Se uma ação realmente ocorre, ocorreu ou ocorrerá, será expressa no modo indicativo’. Já o ‘Perfeito grego corresponde ao Perfeito na língua portuguesa, e descreve uma ação que é vista como tendo sido completada no passado, uma vez por todas, não necessitando ser repetida’” Idem.

Mas, como ler e interpretar Apocalipse 17, verso 8?

“A besta que viste era e já não é, e subirá do abismo, e irá à sua destruição. Os que habitam na terra (cujos nomes não estão escritos no livro da vida desde a fundação do mundo) se admirarão, vendo a besta que era e já não é, mas que virá” ( Ap 17:8 ).

Para compreender Apocalipse 17 é necessário conhecer todo o livro das Revelações. O evangelista João não escreveu o livro de Apocalipse fracionado, pois o livro foi fracionado em capítulos e versículo muito tempo depois. Com isso quero enfatizar que o capítulo 17 deve ser interpretado dentro do contexto do livro, pois se a interpretação for feita a partir da análise de um único verso, resultará em erros.

Ao ler o livro de Apocalipse, verifica-se que os eventos narrados no capítulo 17 de Apocalipse, remetem a ideia que consta em Apocalipse 13, porém, o capítulo 17 sobressai em detalhes, nuances, sendo que o capítulo 13 é resumido, enxuto.

Outro ponto a destacar é que o evangelista viu uma visão. Ora, uma visão trabalha com figuras que podem ser interpretadas e descritas segundo a compreensão humana. Portanto, quando lemos que João viu o Livro da vida, não significa que nos céus há um livro de registro semelhante aos que há nos hotéis, ou semelhante a um livro de contabilidade de uma empresa.

A visão de um livro com nomes inscritos é um modo de o vidente ter acesso à ideia do que é a onisciência de Deus, pois não há outro modo cognoscível de se fazer referencia ao conhecimento de Deus. Se a visão fosse dada em nossos dias, possivelmente o vidente veria um computador, e não um livro. Por meio da visão do livro o apóstolo João demonstra que os que ficaram admirados ao ver a besta possuem um destino diferente dos que creem no Cordeiro de Deus.

A visão do Livro da vida foi um modo de o homem tomar conhecimento de algo que vai além da compreensão humana, permitindo ao homem um meio de considerar a onisciência de Deus, pois Deus não depende de livros, ou de consultar manuscritos para inteirar-se de algo.

Se o leitor atentar para o verso 8 de Apocalipse 13, verá que a frase ἀπὸ καταβολῆς κόσμου (desde a fundação do mundo) é idêntica:

“E todos os que habitam sobre a terra adorarão, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” ( Ap 13:8 )

“A besta que viste era e já não é, e subirá do abismo, e irá à sua destruição. Os que habitam na terra (cujos nomes não estão escritos no livro da vida desde a fundação do mundo) se admirarão, vendo a besta que era e já não é, mas que virá” ( Ap 17:8 )

Sabemos também que o Cordeiro de Deus, que é Cristo, foi conhecido antes da fundação do mundo e manifesto aos homens na plenitude dos tempos “O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós” ( 1Pe 1:20 ).

Sabemos que o dia de salvação sobremodo oportuno é ‘hoje’, de modo que a salvação do indivíduo ocorre “hoje”, ou seja, no tempo dos homens, e não na eternidade, quando o Cordeiro foi conhecido ( 1Pe 1:20 ; Hb 9:26 ; Jo 17:24 ). A exortação deve ocorrer durante o tempo que se chama ‘hoje’ ( Hb 3:13 ), e é isto que o apóstolo Paulo fazia: “E NÓS, cooperando também com ele, vos exortamos a que não recebais a graça de Deus em vão  (Porque diz: Ouvi-te em tempo aceitável E socorri-te no dia da salvação; Eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação)” ( 2Co 6:1 -2). Os termos ‘aqui’, ‘agora’ é o mesmo que ‘hoje’, ou seja, a salvação não se deu ou foi determinada na eternidade, pois se assim não fosse, não seria necessário à exortação.

O Cordeiro de Deus é uma figura que remete a pessoa do ‘Eu Sou’ quando encarnado. Cristo, o Verbo encarnado, é preexistente, de modo que, Ele foi anunciado de antemão (verbo: προγινώσκω – proginóskó: pré-conhecimento, pré-ciência), porque é antes da fundação do mundo “Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou” ( Jo 8:58 ).

Cristo foi ‘pré-conhecido’ não no sentido de ‘saber acerca de’, e sim no sentido de ter sido anunciado de antemão pelos santos profetas “Em esperança da vida eterna, a qual Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos dos séculos” ( Tt 1:2 ) compare com: “O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós” ( 1Pe 1:20 ).

A ‘promessa’ que o apóstolo Paulo faz alusão a Tito diz do ‘conhecimento’ que o apóstolo Pedro anunciou aos cristãos da dispersão. O que foi anunciado de antemão pelos profetas acerca do Filho de Deus, que nasceu na casa de Davi, diz da ‘promessa’, do ‘conhecimento’ de Deus enquanto doutrina, e não da sua onisciência, que é saber plenamente bem acerca de todas as coisas “O qual antes prometeu pelos seus profetas nas santas escrituras, acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne” ( Rm 1:2 -3).

No verso 8 de Apocalipse 13, o evangelista João especifica que o Livro da Vida pertence ao Cordeiro “… no livro da vida do Cordeiro que foi morto…” ( Ap 13:8 ). Ele não trata de outro livro a não ser o Livro que pertence ao Cordeiro, Cordeiro este que foi morto desde a fundação do mundo.

Quando o mundo foi fundado por Deus, pelos eventos que haviam de suceder (queda da humanidade e redenção), a morte de Cristo foi estabelecida, daí a exposição de que o cordeiro foi morto na fundação do mundo, porém, Cristo foi manifesto na plenitude dos tempos.

A construção do texto de Apocalipse 17, verso 8 é semelhante a de Apocalipse 13, verso 8, porém, é mais rica em detalhes. No capítulo 13 o vidente aponta a admiração dos que residem na terra, já no capítulo 17 ele aponta a adoração destas mesmas pessoas. No capítulo 17 fica delineado que a destruição da besta está estabelecida, porém, apesar de prevista, a besta ainda não existia (não é), mas está para subir do abismo e será destruída.

Como o apóstolo escreveu anteriormente que o livro pertence ao Cordeiro de Deus e que Ele foi morto desde a fundação do mundo ( Ap 13:8 ), ao escrever no verso 8 do capítulo 17, ele deixou de mencionar expressamente o nome do Cordeiro de Deus, a quem o Livro da Vida pertence.

A visão doutrinária determinista, fatalista e mecanicista que o Sr. Clovis possui transtornou lhe a leitura, pois é comum na escrita grega a supressão de palavras e frases quando à lógica ou estrutura da frase permite.

Por exemplo: “ἐν τούτῳ γινώσκετε τὸ πνεῦμα τοῦ θεοῦ· πᾶν πνεῦμα ὁ ὁμολογεῖ Ἰησοῦν Χριστὸν ἐν σαρκὶ ἐληλυθότα ἐκ τοῦ θεοῦ ἐστιν, καὶ πᾶν πνεῦμα ὁ μὴ ὁμολογεῖ τὸν Ἰησοῦν ἐκ τοῦ θεοῦ οὐκ ἐστιν· καὶ τοῦτο ἐστιν τὸ τοῦ ἀντίχριστου, ὃ ἀκηκόατε ὅτι ἔρχεται, καὶ νῦν ἐν τῷ κόσμῳ ἐστὶν ἤδη – Nisto conhecereis o Espírito de Deus: Todo o espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; E todo o espírito que não confessa que Jesus (Cristo veio em carne – suprimido) não é de Deus; mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e eis que já está no mundo” ( 1Jo 4:2 -3).

No texto em grego o evangelista e apóstolo João demonstra que todo aquele que confessar que Jesus ‘o Cristo veio em carne’, pertence a Deus, mas, ao fazer referência àqueles que não professam a verdade demonstrada anteriormente, que o ‘Cristo veio em carne’, no grego ficam suprimidos o nome ‘Cristo’ e a frase ‘veio em carne’ (Χριστὸν ἐν σαρκὶ). A supressão de uma frase que ocorreu em Apocalipse 13, verso 8 é uma figura de construção por omissão (zeugma: consiste na omissão de um ou mais elementos de uma oração, já expressos anteriormente. A zeugma é uma forma de elipse), o mesmo tipo de supressão que ocorreu em 1João 4, verso 3.

A construção do Sr. Clovis é descabida por não ter considerado as nuances que envolvem as figuras de linguagem, construção e estilo que é próprio a todos os idiomas e as normas de interpretação que a própria bíblia apresenta.

Ao dizer que só há a possibilidade de duas interpretações de Apocalipse 17, verso 8, sendo a possibilidade que ele apoia a de ‘interpretar a expressão como significando que os nomes de todos os salvos estavam registrados no Livro da Vida desde a fundação do mundo’, ele desconsidera o que Deus diz:  “E, se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte do livro da vida, e da cidade santa, e das coisas que estão escritas neste livro” ( Ap 22:19 ).

Se ele observasse as Escrituras, veria que afirmar a doutrina calvinista da predestinação e eleição através da figura apocalíptica do livro que pertence ao cordeiro é descabido, visto que outras passagens bíblicas deixam claro que Deus altera o conteúdo do livro conforme a resposta que o homens dá a sua palavra “MAS o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios” ( 1Tm 4:1 ).

O profeta Moises rogou a Deus que riscasse o seu nome do Livro da Vida, ou usasse de misericórdia para com o povo de Israel ( Ex 32:33 ), porém Deus instruiu Moisés dizendo que não riscaria o nome de Moisés e nem favoreceria os pecadores dentre o povo, pois Deus jamais transtornaria a sua natureza, santidade, justiça, equidade, para satisfazer o pedido de quem quer que fosse.

Todos os homens são pecadores, ímpios, por terem sido gerados segundo a semente corruptível de Adão ( Sl 58:3 ), o nome deles não se misturam com o daqueles que nasceram de novo ( Rm 5:18 ). Todos os homens quando abrem a madre, entram por uma porta larga (Adão), que dá para o caminho largo que os conduzirá a perdição, o que significa que ninguém que entra no mundo está predestinado ou foi eleito para salvação. Todos os homens se desviam de Deus desde a madre, e falam mentira desde que nascem, pois foram julgados e condenados em Adão, apenados com alienação de Deus e herdaram um coração mentiroso segundo o coração de Adão ( Rm 3:4 ).

Daí a acusação do apóstolo Paulo de que todos os homens são mentirosos, pois a boca dos homens fala segundo o coração que herdaram de Adão. Somente quando o homem nasce de novo é que há alegria nos céus por um pecador que se arrepende ( Ap 20:12 ).

Mas, com relação aos descrentes, a leitura correta da bíblia é que todos morreram porque pecaram, e pecaram porque um só pecou, portanto, são gerados e concebidos em pecado, iniquidade, sendo certo que ninguém nasce predestinado à salvação.

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Conhecimento, presciência, pré-conhecimento – προγινώσκω (proginóskó)

Conhecimento, presciência, pré-conhecimento – O verbo προγινώσκω (proginóskó) e o substantivo πρόγνωσις (prognósis), foi impregnado com certa conotação fatalista, porém, uns apontam a soberania e outros a presciência divina como fator determinante da salvação.

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O livre-arbítrio não é mito

Um dos erros da concepção de que o livre arbítrio é um mito é aplicar uma figura utilizada para descrever a condição dos filhos de Israel e de seus lideres (condutores cegos que guiam cegos) e aplica-la a humanidade para estabelecer a inabilidade do homem em crer em Cristo “Deixai-os; são condutores cegos. Ora, se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova” ( Mt 15:14 ).


 

“Bem pode ser que ouçam, e se convertam cada um do seu mau caminho, e eu me arrependa do mal que intento fazer-lhes por causa da maldade das suas ações” ( Jr 26:3 )

 

Introdução

O presente artigo não é uma abordagem filosófica acerca do que é ‘livre-arbítrio’, nem mesmo se propõe abordar suas implicações morais, religiosas, psicológicas, científicas, sociais, econômicas, politicas, ideológicas, etc.

A abordagem não é de cunho religioso, pois não visa impor questões éticas e morais, ou seja, não é prescritivo, não visa responder se o indivíduo é moralmente responsável por suas ações e nem se o homem é capaz de exercer escolhas genuínas.

A análise deste artigo tem por base princípios e figuras que a bíblia apresenta.

 

Qual é o mito?

Deparei-me com um artigo na web com o título “O mito do livre-arbítrio” que fortemente me compeliu a comentá-lo. Para contextualizar a abordagem do tema, se faz necessário transcrever alguns pontos do artigo que está assinado pelo Pr. Walter Chantry.

Nos dois primeiros parágrafos do artigo temos a seguinte exposição:

“Ninguém pode negar que o homem tem vontade – que é a faculdade de escolher o que deseja dizer, fazer e pensar. Mas, já refletiu sobre a lastimável fraqueza da sua vontade? Embora tenha a capacidade de tomar uma decisão, você não tem o poder de realizar o seu propósito. A vontade pode projetar um curso de ação, mas não tem em si mesma a capacidade de realizar o que intenta. Os irmãos de José o odiavam e venderam-no como escravo. Mas Deus utilizou o que eles fizeram para torná-lo um governante sobre eles mesmos. Eles escolheram, com o seu curso de ação, prejudicar a José, mas Deus, em Seu poder, dirigiu os acontecimentos para o bem de José, que disse: “Vós bem intentastes mal contra mim, porém Deus o tornou em bem” (Gn 50.20)” (grifo nosso) O mito do livre-arbítrio, Walter Chantry, pastor da Grace Baptist Church em Carlisle, PA, EUA – Traduzido por: Wellington Ferreira – Copyright© Walter Chantry, Editora Fiel, Traduzido do original em inglês: The Myth of Free Will extraído do site: www.the-highway.com/Myth.html.

O Pr. Chantry afirma que o homem possui a faculdade de ‘escolher o que desejar dizer, fazer e pensar’, ou seja, ele faz referência à vontade do homem, porém, em seguida, perde a lógica, pois faz algumas conjecturas sobre ‘decisão’ e ‘poder de realizar’ como se estivesse analisando a vontade. Para dar apoio à argumentação, que confunde ‘vontade’ com ‘decisão’ e ‘capacidade de realização’, cita os irmãos de José como prova de que o homem não tem a capacidade de realizar o que intenta sob a alegação de que a vontade do homem é fraca.

Nesta abordagem há uma distorção gravíssima sobre o que é ‘vontade’ e ‘decisão’, quando argumenta que a vontade não possui capacidade de realização. Propositadamente ou não, o que o Pr. Chantry propôs deriva do mesmo princípio do argumento do ‘paradoxo da pedra’, argumentação filosófica que contrapõe a onipotência divina com força física.

O paradoxo da pedra firma-se no argumento de que, se Deus tem poder para realizar qualquer ação, então teria que criar uma pedra que Ele mesmo não pudesse levantar. A argumentação não leva em conta que as leis da física não se aplicam a Deus.

Sem adentrar na seara do paradoxo da pedra que contrapõe indevidamente elementos que possuem naturezas completamente distintas como ‘força física’ e ‘poder criativo’, é inegável que Deus é livre e todo poderoso.

Na tentativa de encontrar uma impossibilidade em Deus, os homens se apoiam na lógica e em eventos físicos, mas a bíblia revela abertamente e sem qualquer rodeio que Deus não pode mentir, ou seja, que Deus não pode negar a si mesmo “Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo” ( 2Tm 2:13 ; Tt 1:2 ).

Apesar de ser todo poderoso, a bíblia apresenta várias impossibilidades em Deus, como: Deus não pode mentir, não pode ter o culpado por inocente, não pode justificar o ímpio, não pode aceitar suborno, não pode fazer acepção de pessoas, não pode mudar, etc. Ora, todas estas impossibilidades é segurança para os que creem!

A impossibilidade de mentir depõe contra a onipotência divina? Não! A impossibilidade seria uma fraqueza da vontade divina? Não! Se tal impossibilidade não depõe contra os atributos da divindade, de igual modo temos que considerar que a incapacidade humana de realizar algum desejo não depõe contra o seu livre arbítrio.

É aberrante tentar amalgamar ‘vontade’ com ‘capacidade de ação’, ou, abordar ambas como se fosse um só ente. A natureza da vontade e a natureza da capacidade de ação são completamente distintas, pois ‘capacidade de ação’, mesmo quando limitada por fatores externos ao homem, não o impede de desejar.

A vontade é algo inerente ao indivíduo e é definida como a ‘capacidade de autodeterminação’, ‘intencionalidade definida’, ‘anseio da alma’, o que diverge do conceito apresentado pelo Pr. Walter, de que vontade é ‘a faculdade de escolher o que deseja dizer, fazer e pensar’.

Há imprecisão na asserção apresentada, pois vontade não é o mesmo que escolha.

Temos que divisar bem. Estamos abordando o problema do livre-arbítrio, questão diferente da livre agencia, embora muitos trabalhem as duas questões como se fosse apenas uma. Na livre agencia há o problema das opções de escolha, que é fator limitador externo ao agente, mas a opção de escolha não limita a vontade. A livre agencia é condicionada a fator externo ao agente, já o livre-arbítrio não.

A vontade do homem não possui limites por não estar sujeita a fatores externos ao indivíduo, mas quando o homem se depara com opções de escolha, exercerá a sua liberdade dentro de parâmetros pré-estabelecidos, o que se denomina de livre agencia. Quando no exercício da escolha dentro das opções ofertadas não podemos aduzir que, em função do limite de opções há fraqueza na vontade do homem.

Nada há que limite a capacidade do homem de desejar e pensar e, se não há o que limite o homem quanto a esta capacidade, certo é que o homem possui livre-arbítrio. Faça você mesmo um exercício desta faculdade neste momento. Escolha o que você quiser pensar e resolva desejar o que você quiser desejar. Há qualquer fraqueza quanto a esta faculdade? Você não conseguiu pensar o que quis pensar, ou houve algum empecilho quanto àquilo que você quis desejar?

Uma pessoa pode desejar comer o doce que quiser, mas se for diabético, apesar do desejo livre, as suas escolhas quanto a comer doces estará condicionada a preservar a sua existência.

O Pr. Walter inicialmente abordou a vontade como faculdade, que em outras palavras é aptidão indissociável das disposições internas do indivíduo, em seguida procurou estabelecer a vontade como fraca em função de questões externas ao indivíduo, porém as questões externas estão relacionadas à capacidade de ação e não à vontade.

Quando se fala em vontade, fazemos referência à autodeterminação e tal capacidade não está investida de poderes mágicos, ou de onipotência. Há uma grande diferença entre vontade e capacidade de realização. Por exemplo: Deus quer que todos os homens se salvem e que venham ao conhecimento da verdade, porém, apesar de possuir todo poder (capacidade de realização), poucos são os que entram pela porta estreita “Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” ( 1Tm 2:4 ); “E porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem” ( Mt 7:14 ).

Há incapacidade na vontade de Deus? Não!

O pastor Walter começa seu texto fazendo uma definição de vontade, e no afã de anular o livre arbítrio faz a seguinte colocação:

“Se a vontade do homem é tão potente, por que não desejar vivendo sempre e sempre? Mas você certamente vai morrer” Idem.

Quem, algum dia afirmou que há potencia na vontade? O termo livre arbítrio não trás a ideia de potência, mas a liberdade de julgamento íntimo!

Ora, a vontade do homem não é potente e nem impotente. Entretanto, se a premissa acima foi lançada no texto para demonstrar que o homem não tem mérito quanto a aceitar a salvação, ela é inócua, porque o mérito da salvação não se baseia em vontade, mas no agir de Deus segundo o seu propósito.

Embora a vontade não tenha em si mesmo o poder de realização, contudo, ela impulsiona o indivíduo a agir (trabalhar) em favor da realização. A ação é a fonte que possibilita a concretização do desejo. Pensar a vontade sem levar em conta que é no trabalho que está o poder de realização, promove confusão no trato do livre arbítrio.

Não há poder de realização quando se deseja ter uma casa, porém, o desejo é a chama que motiva o homem a trabalhar e construir uma casa para si. No trabalho encontra-se o poder de realização.

De igual modo, não há poder na vontade do homem quando deseja ser salvo. Quando se trata de uma casa, o homem pode trabalhar para conquistar seu desejo, mas com relação à salvação isto lhe é impossível alcançar através do labor.

Quando o discípulo Pedro perguntou: “Quem poderá, pois salvar-se?” ( Mt 19:25 ), Jesus respondeu: “Aos homens é isso impossível, mas a Deus tudo é possível” ( Mt 19:26 ). Jesus apontou uma impossibilidade de realização, e não uma impossibilidade de desejar.

Com relação à salvação o homem pode desejar ser salvo, porém não pode conquistar tal desejo em si mesmo, mas como Deus deu garantia expressa que trabalha para aqueles que n’Ele esperam, basta esperar naquele que é poderoso para cumprir o que prometeu que será salvo, pois o evangelho anunciado por Cristo é poder de Deus para salvação dos homens “Porque desde a antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu um Deus além de ti que trabalha para aquele que nele espera” ( Is 64:4 ); “E Jesus lhes respondeu: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também” ( Jo 5:17 ); “Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego” ( Rm 1:16 ).

Sem a vontade o homem fica apático às questões existenciais, não haverá valoração íntima quanto a exercer escolhas, o que o reduzirá a uma subespécie.

A vontade do indivíduo é para sua autodeterminação, ou seja, serve para nortear o curso da sua própria vida. A vontade não serve para direcionar o curso da vida alheia, quanto menos para alterar uma lei física.

Utilizar a passagem de José como exemplo para demonstrar que a vontade do homem é fraca não serve ao propósito, visto que, os irmãos de José desejaram traçar o curso da vida alheia. Os irmãos, por inveja, desejaram se livrar do “queridinho” do pai, mas cada qual do seu jeito. Uns queriam matá-lo, outros vendê-lo, e até mesmo houve quem desejou devolvê-lo ao pai. Cada um dos irmãos de José possuíam desejos distintos.

Quanto ao que os irmãos de José desejaram não há que se falar em fraqueza, pois cada um deles teve seu desejo livre dentro de si. Mas no que tange à capacidade de realizar havia obstáculos. Dentro das alternativas que dispunham, conseguiram afastar José da convivência familiar, pois primeiro lançaram José no poço e depois o venderam como escravo.

A vontade dos irmãos de José guiava o curso da vida deles, porém, a vontade deles jamais poderia guiar o curso da vida de José. Quando se fala de vontade, diz-se de faculdade que se restringe ao indivíduo, e jamais passa da pessoa do indivíduo.

Deus deseja que todos os homens se salvem, porém, muitos se perdem. A vontade de Deus é fraca, visto que Ele não leva a efeito o que deseja? Não! Embora Deus seja onipotente, contudo, não impõe a sua vontade às suas criaturas “Ora, o Senhor é Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade ( 2Co 3:17 ).

Quando Deus age, ninguém pode impedir, mas isto não se aplica à Sua vontade, pois quando Deus manda, a luz vem a existência, o mar obedece, o universo para, mas, diversas vezes na bíblia vemos Deus pedindo obediência ao homem.

Quando Deus criou o homem, vê-se que Ele tem poder sobre o barro. Mas não impôs sua vontade sobre o vaso.

Não era da vontade de Deus que Adão o ofendesse, porém, Adão O ofendeu. A vontade de Adão tornou-se superior à vontade de Deus? Não! Deus simplesmente respeitou a decisão de Adão. Isto significa que não há como afirmar que a vontade é fraca ou forte. Não alcançar o que se deseja não torna a vontade fraca, e alcançar, não torna a vontade forte.

Embora os irmãos de José tenham intentado o mal e deram vazão à vontade que possuíam, contudo, pela ação de Deus em cumprir sua promessa feita a Abraão, José foi preservado tendo-se em vista a linhagem de Cristo, conforme o testemunho de José: “Pelo que Deus me enviou adiante de vós, para conservar vossa sucessão na terra, e para guardar-vos em vida por um grande livramento” ( Gn 45:7 ).

Não quero aqui menosprezar a soberania de Deus, categoricamente na condição de Juiz supremo, ninguém há que possa escapar das mãos de Deus. Nesse quesito, agindo Deus, não há quem possa impedir. O supremo juiz tem poder sobre as suas criaturas “Ainda antes que houvesse dia, eu sou; e ninguém há que possa fazer escapar das minhas mãos; agindo eu, quem o impedirá?” ( Is 43:13 ). Mas no afã de exaltar a soberania de Deus, não devemos menosprezar Sua longanimidade.

Quando li esse parágrafo do artigo “O mito do livre-arbítrio”, fiquei impressionado com a confusão que se faz com livre-arbítrio (livre vontade), poder de decisão e capacidade de realização:

“Quantas das suas decisões são miseravelmente frustradas? Você pode desejar ser um milionário, mas é possível que a providência de Deus impeça isso. Você pode desejar ser um erudito, mas uma saúde comprometida, um lar instável, ou insuficiência financeira pode frustrar a sua vontade. Você pode querer sair de férias, mas um acidente de automóvel pode mandá-lo para o hospital” Idem.

A frustração nada mais é do que prova de que a vontade do homem é livre, pois o homem pode desejar o impossível, o que certamente trará frustração. A liberdade de desejar é faculdade diferente do poder de decisão, que por sua vez é diferente do poder de realizar.

Muitos desejam ser milionários, mas desejar ser milionário e ser milionário é o resultado de uma decisão?

Afirmar que a vontade de Deus impede um homem de ser milionário é contestar a palavra de Deus que diz que o sol nasce sobre os justos e injustos, é negar que a sorte foi lançada ao regaço de todos.

Não sei se fico triste ou alegre por Friedrich Nietzsche não estar vivo, pois as alegações do pensador acima daria azo para que Nietzsche dissesse mais blasfêmias ( Rm 2:24 ).

Se pelo fato de o homem não levar a termo as suas vontades, elas são tachadas de miseravelmente frustradas, que dizer da vontade de Deus, que é salvar todos os homens? Deus é miseravelmente frustrado?

Não é porque o homem não pode selecionar ou determinar a sua posição social, cor, inteligência, família, etc., que seu livre arbítrio está comprometido. Em qualquer condição que um ser humano nasce é possuidor de livre arbítrio, pode desejar o possível e o impossível.

Deus é Todo Poderoso, livre, a sua vontade é livre, mas a ninguém oprime.

Não se pode confundir a ‘vontade’ de Deus com o ‘propósito’ de Deus. Com relação ao propósito de Deus em salvar a humanidade, Ele AGIU soberanamente, pois nem mesmo poupou o seu próprio Filho. Mas com relação a sua vontade: ‘que todos se salvem e venham ao conhecimento da verdade’, não impõe, antes espera que os homens a experimentem “E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus” ( Rm 12:2 ).

É através da vontade livre que os homens sonham, fazem projetos, se lançam às realizações, mesmo quando sentem que as suas forças não pode alcançar.

Muitos escravos, quando amarrados, em postes de tortura, embora não tivessem o poder de realizar os seus intentos, contudo persistia dentro deles o anseio pela liberdade, a vontade deles era livre, e homem algum poderiam sobrepujar os seus anseios e sonhos.

O fato dos sonhos serem frustrados em nada depõe contra a livre vontade do homem. Mesmo que a vontade seja frustrada, não impede que o homem permaneça desejando.

Por fim, o Pr. Walter utiliza duas citações bíblicas como prova das suas alegações:

“Uma sóbria reflexão sobre sua própria experiência levará à conclusão que: “O coração do homem propõe o seu caminho, mas o Senhor lhe DIRIGE os passos” (Pv 16.9). Em vez de exaltarmos a vontade humana, deveríamos humildemente louvar ao Senhor, cujos propósitos formam as nossas vidas. Assim como confessou Jeremias: “Eu sei, ó Senhor, que não é do homem o seu caminho, nem do homem que caminha o dirigir os seus passos” (Jr 10.23). Sim, você pode escolher e planejar o que tiver vontade, mas sua vontade não é livre para realizar nada contrário à vontade de Deus. Nem tem você a capacidade de alcançar qualquer meta que não seja aquela que Deus permitiu” Idem.

O que Jeremias confessa diante de Deus? Que você pode escolher e planejar o que tiver vontade, mas que sua vontade não é livre para realizar nada contrário à vontade de Deus? Que você não tem a capacidade de alcançar qualquer meta que não seja aquela que Deus permitiu ou estabeleceu? Não!

A asserção ‘… mas sua vontade não é livre para realizar nada contrário à vontade de Deus” contraria o que Deus diz: “Porque edificaram os altos de Baal, para queimarem seus filhos no fogo em holocaustos a Baal; o que nunca lhes ordenei, nem falei, nem me veio ao pensamento ( Jr 19:5 ).

É de se considerar que o profeta que Deus usou para falar que não é do homem seu caminho, e nem do que caminha o dirigir os seus passos, foi o mesmo que usou para dizer que certos homens (judeus) faziam coisas que Ele não ordenou, coisas que nem passou em seu pensamento.

Haveria confusão em Deus? Deus desconhecia o assunto que falava? De modo nenhum!

Deus falou muitas vezes, e de muitas maneiras; e uma destas maneiras foi usando figuras. Ao abordar as impossibilidades do homem no que tange ao caminho, Deus estava falando de salvação. O homem não escolhe a porta para entrar neste mundo. Foi o que Jesus explicou: o homem entra no mundo pela porta larga e é conduzido por um caminho largo à perdição porque Adão pecou. É impossível o homem ser conduzido pelo caminho estreito a Deus sem a providência divina da Porta Estreita.

 

Figuras e princípios

A bíblia apresenta as figuras das duas portas (Adão e Cristo) que representam dois nascimentos (natural e espiritual), sendo que ambos os nascimentos é o meio pelo qual os homens acessam os caminhos (largo e apertado) que conduzem a dois destinos (morte e vida).

Os homens, quando vem ao mundo, só entram nele por intermédio do nascimento natural, ou seja, nasce segundo a carne, o sangue e a vontade do varão. Nenhum homem exerce escolha que venha determinar qual a sua condição diante de Deus, visto que, quando nasce, já está em um caminho que o conduz à perdição ( Jo 1:12 ).

O único homem que não entrou no mundo através da porta larga, foi Cristo Jesus, pois diferente de toda a humanidade, Ele foi lançado na madre por Deus ( Sl 22:10 ). Todos os outros homens, apesar de não terem feito escolha alguma, inexoravelmente são descritos como desviados de Deus desde que foram lançados na madre em função da semente corruptível de Adão, de modo que desde a madre a humanidade é descrita como mentira ( Sl 58:3 ).

Por causa da ofensa de Adão, resultante da sua escolha de comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, todos os homens – juntamente – se desviaram de Deus – e em função daquela única escolha, todos se fizeram imundos ( Sl 53:3 ). O desvio e a imundície da humanidade não são apresentados na bíblia como uma questão de ordem ética, moral, psíquica, religiosa, social, filosófica, etc., como várias correntes teológicas vêm apresentado ao longo da história da cristandade.

O pecado, a imundície, a alienação, a separação de Deus é condição intrínseca à natureza do homem em função da queda.

Como a humanidade estava na ‘coxa’ de Adão, todos os homens juntamente se desviaram e tornaram-se imundos, herdaram a escravidão ao pecado, condição que não depende das escolhas diárias. Por causa desta condição, o melhor dos homens é comparável a um espinho, e o mais justo a uma sebe de espinhos ( Mq 7:4 ).

Como a porta estreita é oposta a porta larga, Cristo é apresentado pelo apóstolo Paulo como o último Adão.  Da mesma forma que Adão foi criado como cabeça de homens carnais, Cristo foi introduzido no mundo como a cabeça de uma nova raça de homens espirituais ( 1Co 15:45 -49).

Ou seja, para sair do caminho de perdição, o homem natural precisa morrer com Cristo, ser sepultado e, então, deve ser criado de novo em verdadeira justiça e santidade, nascer de novo, e estará no caminho estreito que conduz o homem a Deus.

É necessário a todos os homens nascerem de novo, nascerem segundo a semente incorruptível do último Adão para alcançar a salvação.

De longa data muitos teólogos negam que o homem sem Cristo possui “livre-arbítrio” alegando que, por serem escravos do pecado deixaram de possuir o ‘livre arbítrio’.

Do ponto de vista existencial, não ter ‘livre arbítrio’ é o mesmo que reduzir a condição do homem a um patamar inferior ao dos animais, ou seja, o homem não passaria de uma máquina.

A condição do homem seria inferior a de um cachorro, visto que, por mais que se prenda um cachorro em canis, correntes, etc., instintivamente o animal é livre. Qualquer prisão arquitetada pelo homem somente mantém cativo o corpo do animal, porém, o animal é livre em seus instintos. Jamais o homem conseguirá exercer domínio sobre os instintos de um animal.

Qual o objetivo de muitos teólogos afirmarem que, com a queda de Adão, o homem perdeu o livre arbítrio? A pena prescrita e imposta por Deus à ofensa de Adão no Éden contemplava a perda do livre-arbítrio além da separação de Deus (morte)?

Na pena estabelecida no Éden não estava incluso a perda do ‘livre-arbítrio’. A pena foi: a morte (separação de Deus) “De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás ( Gn 2:17 -18).

Houve também a dosimetria, que inclui – para a mulher: maior dor emocional, dor na gestação, dor no dar à luz filhos e sujeição ao marido – para o homem: dor e sofrimento para conquistar o alimento e maldição da terra – para ambos: morte física.

Além da pena, acessoriamente o homem tornou-se como Deus, pois adquiriu o conhecimento do bem e do mal ( Gn 3:22 ), mas nada com relação à perda do juízo livre foi mencionado.

A negação do livre arbítrio, chamado de ‘determinismo teológico’, teve origem na doutrina calvinista da eleição e predestinação. Como pode ser isto? A doutrina calvinista afirma que, antes da criação Deus já havia escolhido e predestinado alguns homens à salvação e outros para a danação eterna. Por apresentar a predestinação como base da doutrina da salvação, a alternativa que restou para explicar tal fatalismo foi negar o livre-arbítrio.

A raiz do determinismo teológico é eco do fatalismo, filosofia Greco-romana que considera os acontecimentos no mundo produzidos de modo irrevogável por uma ordem cósmica. Na mitologia grega temos a ‘moira’, e entre os romanos o ‘fatum’, deuses que controlavam o destino de homens e divindades, destino este que submetiam e estava acima de todas as divindades.

A bíblia não aborda o destino dentro de uma perspectiva fatalista, antes o termo ‘destino’ é empregado tão somente para descrever o lugar final de um caminho. Na bíblia há dois caminhos que possuem seus respectivos destinos, e os destinos, por sua vez, não estão vinculados aos homens, e sim, aos caminhos.

Se o leitor se inteirar das discussões acadêmicas que abordam o livre arbítrio poderá observar que a ofensa de Adão e a obediência de Cristo não são consideradas. As considerações filosóficas do juízo livre só analisa a vontade humana como capacidade de escolha entre bem e mal, certo e errado e se conhecidos conscientemente – o que compromete o tema, se analisado sob a ótica bíblica. Ora, o mal que distancia o homem de Deus não é de ordem moral, visto que o mal ao qual a bíblia faz menção e que separa o homem de Deus decorre da desobediência de Adão, e em seguida, que teve como consequência o conhecimento do bem e do mal.

As decisões cotidianas entre o certo e o errado, ou entre o bem e o mal não é o que trás alienação de Deus, antes tais julgamentos tem por base o conhecimento proveniente da árvore do conhecimento do bem e do mal que analisa e julga o comportamento humano.

Já o julgamento de Deus foi realizado com base na ofensa de Adão, pois foi a ofensa de Adão que trouxe o juízo de Deus e a condenação que trouxe perdição sobre a humanidade.

O livre arbítrio deve ser analisado levando-se em conta Cristo e Adão, pois ambos são representados figurativamente como portas que dão acesso a dois caminhos e que sujeitam os homens à justiça ou ao pecado.

É um equivoco das religiões julgarem que através da responsabilidade moral o homem garantirá a sua salvação ou perdição. A bíblia demonstra que a perdição é uma herança, assim como a salvação. Os descendentes de Adão herdaram a perdição, de modo que todos os nascidos da carne e do sangue já estão condenados ( Jo 3:16 ), mas os que creem, são de novo gerados em Cristo e são herdeiros da salvação ( Hb 1:14 ).

Fazer uma leitura com base na responsabilidade moral da seguinte declaração do apóstolo Paulo: “Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” ( Rm 9:21 ), é um equivoco, pois os vasos de desonra são os descendentes de Adão, e os vasos para honra são os descendentes de Cristo, sendo que Deus usa a mesma massa que os filhos de Adão foram feitos para, através de Cristo, fazer vasos de honra para Si, o qual somos nos, por termos crido em Cristo “Os quais somos nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios?” ( Rm 9:24 ).

O artigo ‘O mito do livre-arbítrio’ repetidas vezes confunde ‘vontade’ com ‘poder de realização’. Novamente ele aborda a ideia de que a vontade do homem não é livre para realizar quando cita Jeremias. E não podemos ignorar também que este artigo, além de confundir a vontade do homem com o poder de realizar, também confunde a vontade de Deus com providência, ou seja, a vontade de Deus com o agir de Deus. Não é de admirar que o pastor Walter prevarique na explicação do livre arbítrio.

Veja este proverbio: “A alma do preguiçoso deseja, e coisa nenhuma alcança, mas a alma dos diligentes se farta” ( Pr 13:4 ). Por que o preguiçoso deseja e não alcança? Por que Deus se lhe opõe? Não! O preguiçoso não alcança porque não é diligente, porque se fosse diligente teria a alma farta segundo o seu desejo. Deus determinou que o homem comeria do suor de seu rosto (do seu trabalho). A fartura vem do trabalho. Ter fartura é fruto de trabalho e não apenas de vontade.

Quando Jeremias fala: – ‘O coração do homem propõe o seu caminho…’ , está testificando da parte de Deus que o homem tem a vontade livre, mas que não tem poder em si mesmo de mudar de caminho, visto que Deus estabeleceu que o homem trilharia o caminho da morte caso comesse do fruto do conhecimento do bem e do mal, e estabeleceu também que o homem passaria do caminho da morte para o caminho da vida se cresse em Cristo conforme seu Testemunho.

Quando o profeta diz: “Eu sei, ó Senhor, que não é do homem o seu caminho, nem do homem que caminha o dirigir os seus passos” ( Jr 10:23 ), faz uma referencia aos dois caminhos anunciados por Jesus. O Mestre anunciou haver dois caminhos, porém, em ambos não é o homem que dirige os seus passos, antes o caminho que trilha, porque o caminho largo dirige à perdição e o caminho estreito conduz seus passos à salvação ( Mt 7:13 -14).

Com esta confissão, Jeremias demonstra uma realidade espiritual, porém, o Pr. Walter não se apercebeu desta verdade, e fez uma colocação tímida das questões próprias ao supralapsarianismo e infralapsarianismo ao dizer que a vontade não é livre para realizar nada contrário à vontade de Deus e nem de alcançar qualquer meta que não seja aquela que Deus permitiu.

Jeremias era profeta de Deus e embora tenha usado linguagem e símbolos conhecidos pelos homens, estava discursando sobre coisas celestiais, pois é Deus que determina os caminhos, pois o caminho de perdição e o de salvação não pertence aos homens.

Existem dois caminhos determinados por Deus e cada caminho conduz o homem a um destino. São os caminhos que conduzem os homens à perdição ou à salvação. Porém, todos os homens que abrem a porta da madre entram no caminho de perdição, porque todos entraram pela porta larga que é Adão. Mas, há um convite para todos os homens que entrem pela porta estreita, que se aceitar (crer em Cristo), serão conduzidos a Deus.

Como todos os homens, que entram por Adão, são conduzidos pelo caminho largo à perdição, implica que, o coração do homem é segundo o seu caminho, ou seja, propõe o seu caminho: um coração de pedra é segundo o caminho de perdição. Para estar no caminho estreito é necessário um coração de carne, portanto o coração de carne é segundo a porta estreita “O coração do homem propõe o seu caminho, mas o Senhor lhe DIRIGE os passos” ( Pv 16:9 ).

O homem tem liberdade para querer tudo o que a sua alma desejar, porém, só pode alcançar os desejos que estão dentro das possibilidades que lhe são apresentadas.

Com relação às questões naturais, o homem pode desejar voar como um pássaro? Sim! Pode desejar, visto que a sua vontade é livre. No entanto, tal possibilidade não é factível, terá que se contentar voar de avião. Desta forma, temos a vontade livre e, quando não é possível realizar alguns sonhos, o homem pode implementá-los dentro do que é factível.

Um escravo podia desejar ser livre? Podia desejar, e ninguém jamais sobrepujou este poder em um escravo, porém, a possibilidade de escolher ser livre não existia. O que mantinha o escravo na condição de sujeição ao seu senhor? A lei. A lei determinava que o escravo era propriedade do seu senhor. Ele podia desejar ser livre? Podia e era livre para desejar, mas a possibilidade de se fazer livre não existia.

Ora, muitos escravos lutavam na arena para tentar conquistar o direito de poder ser livre. Ele tinha a vontade livre, mas não tinha o poder para exercer livre escolha, porém buscava tal poder na arena.

Podemos dizer que a livre agencia do homem é o seu poder de escolher entre alternativas. A vontade do homem é livre, porém, só pode decidir dentro das opções que lhe são apresentadas. Suas escolhas são influenciadas por forças exteriores e disposições internas.

Embora o homem possa ser compelido a agir em contrário a sua vontade, ou forçado a dizer o que ele não quer dizer, contudo é a sua vontade que guia suas ações segundo o que lhe for conveniente no momento. Até mesmo quando são apresentadas alternativas, a liberdade da vontade do homem se manifesta, pois deseja o vermelho ainda que só possa escolher entre amarelo e azul.

Mesmo diante de uma grave ameaça para não agir segundo a sua vontade, o homem continua de posse da sua livre vontade. Um escravo permanecia debaixo da sujeição em vista de um preceito legal e das punições. Se não fossem as punições que o coagisse, jamais seria escravo. Alguns, por ser livre quanto à vontade e por não temer a pena, fugiam ou dava cabo da própria vida. Outros, apesar da condição ignóbil, por se afeiçoarem de seus senhores, submetiam-se docilmente.

O homem faz escolhas baseado em seu entendimento, seus sentimentos, nas coisas de que gosta ou não gosta, ou seja, através das suas disposições internas. Em outras palavras, a vontade não é à parte do homem. O homem não é livre de si mesmo! As escolhas são determinadas pela vontade e sentimentos do homem. A vontade jamais é independente da natureza do individuo.

Não podemos dizer que a vontade é escrava da natureza do homem, antes que a vontade é um atributo desta mesma natureza, assim como os instintos de um animal.

A vontade é bastante parcial ao que se sabe, sente, ama e deseja. O homem sempre escolhe com base em sua disposição interna, de acordo com a condição de seu coração, portanto, é livre. Quando a vontade do homem é parcial com seu ser, indica que é livre.

A prisão da vontade seria decretada se fosse possível obrigar a vontade a ser imparcial com as disposições internas do próprio indivíduo.

Concluir que a vontade do pecador não é livre para fazer o bem, tendo em vista que o coração do homem sob o pecado é mau, deriva de uma confusão do que é bem e mau.

Para compreendermos o que é bem e mal conforme as coisas espirituais, devemos considerar o ensino de Jesus comparando-o com a abordagem do salmista Davi: “Pois se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais dará o Pai celestial o Espírito Santo àqueles que lho pedirem?” ( Lc 11:13 ); “Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um” ( Sl 53:3 ).

Embora Deus tenha visto que as maquinações do coração do homem são más continuamente, não significa que os homens não façam boas ações. Significa que dar boas dádivas aos seus semelhantes não é o mesmo que fazer o bem “E viu o SENHOR que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente” ( Gn 6:5 ).

Fazer o bem só é possível quando se está em Cristo, mas fazer boas ações é possível a todos os homens: quer sejam maus ou bons, quer sejam nobres ou vis “E a condenação é esta: Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más ( Jo 3:19 ). A impossibilidade de fazer o bem está no fato de o homem sem Cristo pertencer ao Pecado, e tudo que pertence a este “senhor” é mau.

Um escravo não podia ser livre por sua própria vontade porque esta possibilidade de escolha não existia. Mas, caso o seu senhor lhe apresentasse a oportunidade, por certo que, ao exercer a sua livre escolha, escolheria ser livre. É neste quesito que o apóstolo Paulo orientou alguns cristãos escravos: “Foste chamado sendo servo? não te dê cuidado; e, se ainda podes ser livre, aproveita a ocasião ( 1Co 7:21 ).

Embora a vontade é livre, a escolha é delimitada pelas possibilidades. Um escravo podia exercer inúmeras escolhas durante o seu dia. Qual o caminho para o trabalho, a ferramenta a ser utilizada, a quantidade de esforço, etc., porém, não existia a possibilidade de ser livre, o que revela a escolha delimitada dentro de possibilidades. O maior problema da escravidão era a falta de ocasião, visto que, a ocasião ficava a cargo do seu senhor.

Antes de pecar o homem possuía livre vontade. Ora, ele possuía a livre vontade: de todas as arvores comerás livremente! Ao exercer a livre vontade comendo da árvore do conhecimento do bem e do mal ofendeu Deus. Se ele não possuísse a vontade livre, jamais teria ofendido a Deus.

Porém, para exercer a livre vontade, foi lhe concedido por Deus o poder de escolha: podia comer de todas as árvores que estavam no jardim, livremente, inclusive a do conhecimento do bem e do mal, apesar da ressalva: ( Gn 2:16 ).

Ao exercer a livre vontade, decidindo comer o fruto do conhecimento do bem e do mal, Adão perdeu a opção de união com Deus, pois se sujeitou a escolha de sua decisão anterior. É neste quesito que Adão tornou-se escravo de sua escolha, pois não havia opção que pudesse reverter a sua condição.

A vontade não molda questões da vida como posição social, cor, ou inteligência, mesmo porque quando Adão recebeu o livre arbítrio, assim como qualquer ser humano, a parte física já estava formada. Ora, apesar de ser livre, Adão não podia voar como os pássaros e nem nadar como os peixes. Ele não pode escolher ter sido criado ou não, e nem mesmo foi lhe perguntado se queria ter uma sogra. Não foi dado a Adão nenhum título, riqueza, honrarias, e ele nem mesmo escolheu a sua mulher, contudo sua vontade era livre.

A argumentação a seguir é inócua, pois não depõe contra o livre-arbítrio, antes caracteriza a vontade do homem como isenta de poder de realizar, mas não a isenta de liberdade.

“Os principais fatores que moldam a sua vida não se devem à sua vontade. Você não seleciona sua posição social, sua cor, sua inteligência, etc.”  Idem.

Ora, a liberdade da vontade não está em poder realizar, antes está em desejar, querer. Há uma imprecisão na argumentação de que a vontade do homem não é livre para realizar qualquer coisa contrária aos propósitos de Deus, pois a vontade diz do ‘querer’, do ‘desejo’.

A vontade de Adão era forte ou fraca quando se rebelou? De onde veio o poder que concedeu autonomia a Adão para ofender a vontade de Deus?

“Mas, você já refletiu sobre a profunda fraqueza de sua vontade? Embora você tenha a habilidade de fazer uma decisão, você não tem o poder de realizar seu propósito. A vontade pode planejar um curso de ação, mas não tem nenhum poder de executar sua intenção” Idem.

Planejar e realizar são coisas distintas. Jesus declara que, caso alguém queira edificar uma torre, primeiro é necessário planejar, verificar o quanto possui e o quanto gastará. O poder para construir uma torre é proveniente do seu trabalho e não da sua vontade “Pois qual de vós, querendo edificar uma torre, não se assenta primeiro a fazer as contas dos gastos, para ver se tem com que a acabar?” ( Lc 14:28 ); “O desejo do preguiçoso o mata, porque as suas mãos recusam trabalhar” ( Pv 21:25 ).

A vontade de Deus nem sempre se realiza, mas o seu propósito sempre é realizado. O pastor Walter não soube distinguir o propósito de Deus da vontade de Deus. Com relação a sua vontade, Deus espera ( 1Tm 2:4 ), já o propósito de Deus é levado a efeito segundo o seu eficaz poder ( Fl 3:21 ). O propósito de Deus não contempla ações cotidianas dos homens, antes o seu eficaz poder de sujeitar a Si todas as coisas.

Se Deus tem propósito em cada ação do homem, como afirma alguns, como é possível os filhos de Israel terem sacrificado os seus filhos no fogo? Se nunca subiu ao coração de Deus que os homens queimassem seus filhos no fogo, de quem era o proposito que os filhos de Israel executaram? “E edificaram os altos de Tofete, que está no Vale do Filho de Hinom, para queimarem no fogo a seus filhos e a suas filhas, o que nunca ordenei, nem me subiu ao coração” ( Jr 7:31 ). Tal afirmativa somente seria possível se Deus pudesse mentir!

Contestar o livre-arbítrio através do argumento de que os principais fatores da vida do homem não são moldados por sua vontade já causa estranheza, mas o argumento de que foi Lázaro que resolveu responder o chamado de Jesus quando foi ressuscitado dentre os mortos, só pode ser adjetivado negativamente. Observe:

“Quem jamais escolheu ter sido criado? Quando Lázaro ressuscitou da morte ele decidiu responder à chamada de Cristo, mas não pôde decidir ter vida” (Idem).

Um morto, que desceu ao pó, depois de quatro dias na sepultura resolveu, decidiu, responder um chamado? A vontade de ninguém é responsável para que se venha ao mundo, tão pouco a vontade de um defunto. Com o termino das funções vitais não resta qualquer expectativa neste mundo. A ressurreição de Lázaro não se deu em função de uma resposta de Lázaro.

Ao dizer: – ‘Lázaro, vem para fora’, Jesus somente determinou quem seria ressuscitado. A determinação não dependeu da resposta de Lázaro, antes do poder de Deus.

Não é o homem quem realiza o seu novo nascimento, pois a vontade do homem não possui poder criativo, mas como a vontade de Deus é dar vida aos que creem em função do poder de Deus e da sabedoria de Deus, todos os homens de boa vontade que ouvem e crê na pregação do evangelho, recebe de Deus poder para ser criado de novo, em verdadeira justiça e santidade “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação (…) Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus” ( 1Co 1:21 -24).

As boas novas do evangelho são para os homens de boa vontade: “Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens de boa vontade” ( Lc 2:14 ), mas a concepção da depravação total transtornou até mesmo a tradução do verso em comento, pois a argumentação deles é contraria a ideia de que o homem possa ter boa vontade.

É dado aos que invocarem o nome do Senhor serem salvos ( Rm 10:13 ), mas para serem salvos é necessário primeiro alguém pregar. Para alguém pregar, antes é necessário a mensagem, pois a mensagem é o poder de Deus para salvação dos que creem.

Quando o homem crê na mensagem do evangelho, exalta a graça de Deus revelada em Cristo. A luz de Cristo brilhou aos que habitavam na região das sombras da morte, de modo que, ainda que o homem esteja morto, se crê, verá a Deus “Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” ( Jo 11:25 ).

 

A Prisão Espiritual

No que consiste ser escravo do pecado? O servo do pecado não deseja ser livre? O pecador não deseja fazer o bem?

Ora, o apóstolo Paulo ao descrever as suas disposições internas sob o domínio do pecado, disse: “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e, com efeito, o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem” ( Rm 7:18 ).

Ele destaca que:

  • Na sua carne não reside bem algum;
  • Que a sua vontade era fazer o bem, e;
  • Havia uma impossibilidade decorrente da sua natureza: não conseguia realizar o bem.

Em se tratando de vontade, o homem não deve ser comparado aos animais. A comparação de que o leão faminto sempre escolhe carne fresca à salada, e que tais instintos animais são comparáveis às inclinações do homem no pecado é uma má leitura da bíblia.

Os animais possuem instintos, o homem possui vontade, consciência e inteligência. Instintivamente um leão sempre comerá carne, já com relação ao homem, ele leva em conta suas preferências antes de escolher.

Se os leões possuem instintos e os homens consciência, a natureza de ambos são distintas e, portanto, não se aplica uma mesma regra a homens e animais. O que dita a escolha do homem é a sua vontade.

“Se carne fresca e salada fossem colocadas diante de um leão faminto, ele escolheria a carne. Isso aconteceria porque a natureza do leão dita a escolha. O mesmo se aplica ao homem. A vontade do homem é livre de força exterior, mas não é livre das inclinações da natureza humana. E essas inclinações são contra Deus. O poder de decisão do homem é livre para escolher o que o coração humano dita; portanto, não há possibilidade de um homem escolher agradar a Deus sem a obra anterior da graça divina”  Idem.

O que se observa nas escrituras? Que muitos homens procuravam servir a Deus, porém, sem entendimento. Não serviam a Deus segundo a novidade das boas novas do evangelho, da palavra, do espírito, antes buscavam servir a Deus através da velhice da letra ( Rm 7:6 ; Rm 10:2 ).

Estes versos demonstram que muitos buscavam a Deus, porém, não conseguiam alcança-lo por falta de entendimento, ou seja, do conhecimento que há no evangelho “Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles levará sobre si” ( Is 53:11 ).

Para servir a Deus é necessário um conhecimento especifico que está no evangelho, porém, as obras dos judeus eram más continuamente porque não eram feitas em Deus ( Jo 3:21 ), ou seja, eles eram ensinados a praticar o mal, não possuíam o conhecimento do santo os ‘obreiros da iniquidade’, pois seguia o engano dos seus corações ( Sl 53:4 ).

E que engano era esse? Que eram filhos de Abraão e, por conseguinte, filhos de Deus. Não era engano de ações cotidianas, mas de conceito. Até porque a nação de Israel recebeu instruções do próprio Deus: “E que nação há tão grande, que tenha estatutos e juízos tão justos como toda esta lei que hoje ponho perante vós?” ( Dt 4:8 ).

A verdade é que não lhes resplandeceu a luz do evangelho para verem que eram descendência de Adão, e que estavam em igual condição aos outros povos. Apesar de Deus ter anunciado que eles não eram de fato justo, se achavam justos aos seus próprios olhos e melhores que os outros povos ( Dt 9:4 ).

No antigo testamento o povo de Israel é descrito como cegos, ou seja, um povo que rejeitava ver a verdade expressa nas Escrituras. Com relação à humanidade não é utilizado a figura do cego para descrevê-los, são descritos como povo que habita a região das trevas e que haveriam de ver uma grande luz.

Se os judeus admitissem que eram cegos, não teriam pecado, pois se assim confessassem, demonstraria que eram iguais aos demais pecadores, habitantes da regiões das trevas “Disse-lhes Jesus: Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece” ( Jo 9:41 ).

Um dos erros da concepção de que o livre arbítrio é um mito é aplicar uma figura utilizada para descrever a condição dos filhos de Israel e de seus lideres (condutores cegos que guiam cegos) e aplica-la a humanidade para estabelecer a inabilidade do homem em crer em Cristo “Deixai-os; são condutores cegos. Ora, se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova” ( Mt 15:14 ).

O que dizer de versículos como esta citação dos salmos: “… não há ninguém que busque a Deus” ( Rm 3:11 ). O que dizer da citação de Jeremias: “Porventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Então podereis vós fazer o bem, sendo ensinados a fazer o mal” ( Jr 13:23 ).

Uma leitura equivoca dos versos acima dirá que o ser humano possui uma inabilidade para ouvir e crer, ou que é cego para as coisas de Deus, ou que está morto, e se está morto não pode ouvir e nem crer. Porém, os versos acima depõem contra os judeus, demonstrando que eles se encaixam na mesma condição da humanidade, pois o que a lei diz, diz aos que se guia por ela.

Os versículos não dizem que ninguém desejava aproximar-se de Deus, antes os versos demonstram que, apesar de desejarem buscar a Deus os judeus não buscavam a Deus, de modo que não havia diferença entre judeus e gregos ( Rm 3:9 ). Como o apóstolo Paulo chegou à conclusão que não havia diferença entre judeus e gregos? Através da Escritura que diz: ‘não há ninguém que busque a Deus’. Porque lhes faltava o entendimento, o conhecimento! “Deus olha dos céus para os filhos dos homens, para ver se há algum que tem entendimento e busca a Deus” ( Sl 53:2 ).

A leitura correta do salmo 53 deve ter por base o ‘entendimento’. Deus olha dos céus para os filhos dos homens para ver se eles possuem entendimento. Ora, entre os gentios não havia o entendimento necessário para buscar a Deus, e entre os filhos de Israel, apesar de possuírem a Escritura, não compreendiam, pois os obreiros não tinham o conhecimento.

Por que não há ninguém que faça o bem? Porque os obreiros (servos) do pecado não tem o conhecimento “Acaso não têm conhecimento estes obreiros…” ( Sl 53:4 ). E quem são esses obreiros? São os lideres de Israel, que se alimentavam do povo, porém, prevaricaram quanto às suas atribuições. Eles, no afã de se achegarem a Deus ensinavam um conhecimento que não salvava, pois ensinavam mandamentos de homens.

Por que o salmista é enfático em dizer que não há quem faça o bem? A resposta advém do contexto em que o apóstolo Paulo cita o salmo: para demonstrar que os judeus, que diziam buscar a Deus, não eram melhores que os gentios, sendo que judeus e gregos, todos estavam debaixo do pecado.

Quando as escrituras dizem que: “Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus” ( Rm 3:10 -11), evidencia que, embora os judeus tivessem zelo de Deus, liam as escrituras, faziam sacrifícios continuamente, mas na verdade, não buscavam a Deus.

Os salmos depunham contra os judeus: “ACASO falais vós, deveras, ó congregação, a justiça? Julgais retamente, ó filhos dos homens?” ( Sl 58:1 ), e Jesus enfatizou esta verdade: “Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça” ( Jo 7:24 ).

Para quem foi escrito a lei? O apóstolo Paulo responde: “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” ( Rm 3:19 ).

Para quem foi escrito que o etíope não pode mudar a cor da sua pele e, tão pouco o leopardo? Romanos 3, verso 19 responde. Mas, por que não podiam? Por que não buscavam? Por que não tinham livre escolha? Não! A resposta é clara: porque lhes faltava o entendimento, uma vez eram ensinados a fazer o mal “Porventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Então podereis vós fazer o bem, sendo ensinados a fazer o mal” ( Jr 13:23 ; Mt 3:7 ).

A figura do leopardo e a do etíope demonstra que tanto judeus quanto gentios não podiam mudar a condição deles diante de Deus. Porque os judeus não podiam mudar a condição deles? Porque o que lhes era ensinado era o mal, e não o bem.

Isto não significa que possuíam uma inabilidade para aprender, antes que a inabilidade estava na matéria que aprendiam continuadamente: eram ensinados a fazer o mal. Ora, se fossem ensinados a fazer o bem, aprenderiam o bem, claro está que receberiam poder para mudar a condição deles, pois Deus dá tal poder aos que vierem e aprenderem daquele que humilde e manso de coração ( Jr 13:11 ; Jo 1:12 ; Mt 11:29 ).

Em outras palavras, Israel precisava deixar instruir-se pelo próprio Deus e abandonar os preceitos de homens.

Como é possível alguém ensinar o seu próximo a fazer o mal como os obreiros da iniquidade faziam? Como os filhos de Israel foram lançados na madre ímpios, pois foram concebidos em pecado, ou seja, através da semente de Adão, falavam mentiras desde que nasciam ( Sl 58:3 ). Dai o imperativo: “Estas são as coisas que deveis fazer: Falai a verdade cada um com o seu próximo; executai juízo de verdade e de paz nas vossas portas” ( Zc 8:16 ), mas não tinham o conhecimento do santo e nem julgavam segundo a reta justiça.

As escrituras sempre demonstraram aos judeus que ninguém buscava a Deus, antes se desviaram juntamente, e todos os homens se fizeram imundos ( Sl 53:1 -3). Mas, os mestres de Israel entendiam que eles não estavam em igual condição aos demais homens, acreditavam que eram filhos de Deus por serem descentes de Abraão. Eles entendiam que o Salmo 53 apontava somente para os gentios.

O erro deles consistia no fato de confiarem da carne. Esqueciam que todos os homens juntamente se desviaram, e que eles estavam inclusos neste evento. Que não eram filhos de Abraão, antes filhos de Adão, o primeiro pai de todos os homens, por quem entrou o pecado no mundo “Teu primeiro pai pecou, e os teus intérpretes prevaricaram contra mim” ( Is 43:27 ). Embora avisado de que eram filhos da desobediência de Adão, continuavam ensinado que eram filhos de Abraão. Em Adão transgrediram “Mas eles transgrediram a aliança, como Adão; eles se portaram aleivosamente contra mim” ( Os 6:7 ), ou “Em Adam eles quebraram a minha aliança, aí eles me traíram” ( Os 6:7 ) CNBB.

A bíblia afirma categoricamente que a condição do homem é de sujeição ao pecado, e utiliza a figura da escravidão para levar o leitor a compreender tal condição. Uma figura serve de ilustração e dever ser analisada em todas as suas nuances.

Nos regimes escravagistas a sujeição dos escravos aos seus senhores se dava por meio do corpo. Os senhores compravam o corpo do escravo para subjugá-los, porém, nada contava das escrituras a vontade, a mente e as disposições internas dos indivíduos a serem escravizados.

O que os senhores olhavam num escravo? O porte físico, os dentes, a coloração dos olhos e mucosas, etc. Ou seja, eles não tinham como aferir as disposições internas dos escravos. Eles compravam, pagavam e levavam para suas terras. Nas suas terras vinha a surpresa: os escravos acabavam por revelar as suas disposições internas! Podia ser um bom escravo ou um mal escravo. Trabalhador ou preguiçoso. Serviçal ou arredio, etc.

E o que submetia os escravos aos seus senhores? A lei e as penas previstas. Como a lei submetia os escravos aos seus senhores? Prevendo castigos severos àqueles que não servissem os seus senhores a contento, ou que tentasse fugir.

A fuga era uma saída? Paliativa, porque para a lei e seu senhor, jamais o escravo deixaria de ser escravo. Todos estes aspectos pertinentes à escravidão aplicam-se ao pecado, visto que ele é descrito nas Escrituras como um senhor de escravos que escraviza o corpo, e não as disposições internas como a vontade.

É por isso que a cruz de Cristo foi estabelecida: para desfazer o corpo do pecado “Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado” ( Rm 6:6 ). O pecado exerce domínio por causa da condição que a humanidade herdou de Adão e que sujeita o corpo de todos os homens.

Assim como os escravos só eram livres do seu senhor quando morriam, o único modo de os homens sob o pecado serem libertos é morrendo. Quando se crê em Cristo, o homem morre e é sepultado. Quando sepultado, o homem é criado de novo em verdadeira justiça e santidade, possuidor de um novo corpo unido ao corpo de Cristo. O novo corpo ressurreto com Cristo é livre do domínio do pecado, sendo possível servir à justiça ( Cl 3:1 ).

A vontade de um servo do pecado é livre, porém, o que o submete ao senhorio do pecado é a lei e a pena. Qual lei e qual pena? A lei instituída no Éden, que diz: “E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:16 -17).

Através da lei santa, justa e boa instituída no Éden o pecado achou ocasião e matou o homem ( Rm 8:11 ), e a força do pecado decorre da própria lei santa, justa e boa ( 1Co 15:16 ). A lei que matou o homem não foi a de Moisés, antes a lei perfeita concedida no Éden ( 1Co 15:22 ).

E porque os homens ainda permanecessem sob o domínio do pecado? Por causa da pena imposta! Como? A vontade do homem é livre, porém, permanece sujeito à servidão “E livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão” ( Hb 2:15 ).

A bíblia afirma com todas as letras que a vontade humana faz a decisão crucial de vida espiritual. A vontade do pecador é totalmente livre para decidir-se ou não pela vida eterna oferecida em Jesus. O homem não está numa posição cômoda que possa se dar ao luxo de escolher entre salvação ou perdição. Ele está perdido e precisa decidir entrar pela porta estreita que livra a todos quantos entrarem por ela.

Deus dará um novo coração e um novo espírito a todos que, pelo poder de Deus contido no evangelho, decidirem (livre vontade) receber a Jesus Cristo, que é a opção concedida por Deus ao homem que o livra da condenação. Não há dúvida de que receber a Jesus Cristo é um exercício da liberdade humana, o que denominamos ‘crer’, ‘ter fé’, ‘descansar na esperança proposta’, ‘estar quieto’, etc.

Como o homem chega e recebe espontaneamente o Senhor? A resposta é: Pelo poder contido no evangelho que lhe é oferecido. Como pode ser isso? Jesus, além de profeta, é o Verbo de Deus. Receber a Jesus significa crer em tudo que ele diz, e ele disse em João “Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” ( Jo 11:25 ). O que ocorre se o homem crer? Jesus mesmo disse: “Disse-lhe Jesus: Não te hei dito que, se creres, verás a glória de Deus?” ( Jo 11:40 ).

Em João 8, verso 41 à 45, Jesus deixou claro que os judeus que se diziam crer n’Ele não eram filhos de Abraão, antes filhos de Satanás. Novamente o texto e o contexto remetem aos judeus que achavam que estavam em posição privilegiada diante de Deus por serem descendentes da carne de Abraão, e Jesus tenta convencê-los do contrário.

Dizer que a vontade humana não escolherá crer em Deus é tornar o evangelho inócuo. João 8, verso 41 à 45 não afirma a ideia da inabilidade do homem crer, visto que os judeus tinham zelo de Deus, porém sem entendimento, ou seja, sem Cristo.

Quando o conhecimento verdadeiro que dá entendimento aos homens se posicionou diante deles dizendo: “Se permanecerdes no meu ensino, verdadeiramente sereis meus discípulos, então conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” ( Jo 8:31 -32 ), não creram. Por que não creram? Porque não eram livres, incapacitados para serem ensinados? Não! Antes, mesmo sendo livres para crer preferiram continuar de posse do mal que foram ensinados “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” ( Mt 12:34 ); “Então podereis vós fazer o bem, sendo ensinados a fazer o mal” ( Jr 13:23 ).

Jesus estava ensinando a fazer o bem, ou seja, a vontade de Deus, que é crer naquele que Ele enviou. Mas, como os judeus estavam acostumados com o ensino do mal, não fizeram o bem que é obedecer a Deus que estabeleceu Cristo como a pedra eleita e preciosa “E, vendo ele muitos dos fariseus e dos saduceus, que vinham ao seu batismo, dizia-lhes: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura?” ( Mt 3:7 ).

A pergunta: ‘Quem vos ensinou?’ é pertinente, pois o povo de Israel foi ensinado errado, e através de Cristo, o reino dos céus, alcançariam poder para serem feitos filhos de Deus.

Apesar de a vontade ser livre, não é ela que dá o escape ao homem sob o pecado, antes o escape é providência divina que advém do conhecimento apregoado por Cristo. É no conhecimento contido no evangelho que está o poder de Deus para salvação, e não na vontade do homem. A única realização da vontade humana é descansar, ou seja, nada realizar, ficar quieto, crendo em Cristo “Porque assim diz o Senhor DEUS, o Santo de Israel: Voltando e descansando sereis salvos; no sossego e na confiança estaria a vossa força, mas não quisestes” ( Is 30:15 ). O homem crê, Deus realiza. O homem decide, Deus opera. O homem descansa, Deus trabalha em favor daqueles que nele espera. Aleluia!

Ter fé, crer, acreditar, descansar, sossegar, ficar quieto é a ação da vontade livre diante da oferta de salvação. Ou seja, não é por obra, é pela fé somente. O exercício da fé não pode ser confundido com obras, visto que a fé é descansar, estar quieto e tranquilo, e a obra demanda trabalho, empenho. Deus se empenhou na salvação da humanidade se fazendo homem, sofrendo as mesmas paixões, suportando a cruz.

Como afirmar que crê é salvar-se pelas obras, se crer é descansar? Como haverá dívida se o homem somente descansa na esperança proposta? “Ora, àquele que faz qualquer obra não lhe é imputado o galardão segundo a graça, mas segundo a dívida” ( Rm 4:4 ).

Quando o homem crê, na verdade é uma obra que Deus realizou “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ). E como Deus realiza a sua obra? Por intermédio da sua palavra.

Devemos ter cuidado com doutrinas que se utilizam de superadjetivação para alguns posicionamentos: inimizade violenta contra Deus, todas as outras partes do homem clamam por rebelião, todo o seu ser odeia a verdade; a vontade humana está desesperadamente escravizada; graça preveniente, graça irresistível, graça geral, etc.

Adjetivar o que não foi adjetivado é uma clara violação do mandamento: “Porque eu testifico a todo aquele que ouvir as palavras da profecia deste livro que, se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus fará vir sobre ele as pragas que estão escritas neste livro” ( Ap 22:18 ).

Observe:

“Leia João 1.12-13. Essa passagem diz que aqueles que creem em Jesus foram nascidos não “da vontade do homem, mas de Deus”. Assim como a sua vontade não é responsável por sua vinda a este mundo, assim também ela não é responsável pelo novo nascimento” Idem.

O escritor faz uma má aplicação dos versos citados, visto que assim como os filhos segundo a carne são gerados segundo a vontade dos pais ( Jo 1:12 e Jo 3:6 ), assim são os de novo nascidos, são gerados da vontade de Deus.

Mas, a vontade de Deus não é fazer os descrentes seus filhos, antes é fazer os que creem em Cristo seus filhos. É Deus o responsável pela vinda de seus filhos ao mundo, mas só são feitos filhos os que creem. É neste ponto que temos a advertência de Deus: “Bem pode ser que ouçam, e se convertam cada um do seu mau caminho, e eu me arrependa do mal que intento fazer-lhes por causa da maldade das suas ações” ( Jr 26:3 )

Quando o homem é gerado segundo Adão herda um coração de pedra, um coração que é segundo o caminho de perdição. Quando ouve a verdade e crê, Deus cria um novo coração e dá um novo espírito, um coração que é segundo o caminho de salvação “O coração do homem propõe o seu caminho, mas o Senhor lhe DIRIGE os passos” ( Pv 16:9 ); “E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne” ( Ez 36:26 ).

O que os versos demonstram é que há duas vontades que determinam os nascimentos. Os homens são gerados primeiramente através da vontade do varão (Adão) e gerados de novo através da vontade do último Adão, que é Cristo “Mas não é primeiro o espiritual, senão o natural; depois o espiritual” ( 1Co 15:46 ). Não é porque o homem não vem ao mundo por sua própria vontade que a sua vontade não é livre.

Adão não escolheu vir ao mundo, mas depois que veio ao mundo, Deus lhe deu livre arbítrio e não tirou “Porque os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento” ( Rm 11:29 ).

O evangelho é a fé que havia de manifestar-se, e por si só é um ato de Deus em prol da salvação dos pecadores ( Gl 3:23 ). Quando falamos da fé que foi manifesta e entregue aos santos, ela é poder e sabedoria de Deus “Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus” ( 1Co 1:24 ; Jd 1:3 ).

O que o cristão apregoa é poder e sabedoria para salvação “Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus” ( 1Co 1:18 ). Esta fé dada aos santos é ato proveniente da vontade e misericórdia de Deus.

Ao ouvir o evangelho, que é poder para os que creem a reação do homem não é um ato que envolva mérito, mas uma aquiescência. Da sua reação frente à mensagem não resulta ato ou obra alguma. Aquiescer à esperança proposta é assentar, descansar, estar quieto. Para os que creem Jesus concede salvação.

Não é a vontade do homem que lhe concede esperança, visto que a vontade do homem não é dotada com o poder de realizar, antes a esperança é Cristo que apresenta a proposta de salvação. Os salvos não confiam na vontade livre, antes confiam naquele que é poderoso para salvar e que trabalha para aqueles que nele confiam “E andarei em liberdade; pois busco os teus preceitos” ( Sl 119:45 ).

Onde o Espírito de Deus está, ai há liberdade: “E até hoje, quando é lido Moisés, o véu está posto sobre o coração deles. Mas, quando se converterem ao Senhor, então o véu se tirará. Ora, o Senhor é Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” ( 2Co 3:15 -17 ); “Bem pode ser que ouçam, e se convertam cada um do seu mau caminho, e eu me arrependa do mal que intento fazer-lhes por causa da maldade das suas ações” ( Jr 26:3 ).

A sequência dos eventos para a salvação é: Cristo – vida manifesta; os mortos ouvem e creem; então são regenerados (morte espiritual é separação de Deus – morte física é descer ao pó). O novo coração e um novo espirito só é concedido aos que creem, ou seja, que invocam a Deus: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto” ( Sl 51:10 ).

O clamor ‘cria em mim’ deriva de um coração contrito, ou seja, que crê “Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade, e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e para vivificar o coração dos contritos” ( Is 57:15 ). Quem pede é porque confia, e pede porque ainda não tem. É um contra sendo pedir um coração novo quando se tem, e confiar pedido quando não se crê. Em primeiro lugar é necessário contrição, pois Deus só vivifica os contritos e abatidos de espírito

Por que é lido Moisés? Por que é anunciado o evangelho? Porque Deus espera que os homens ouçam e se convertam ao Senhor, pois aprove Deus salvar os crentes através da loucura da pregação e não através da doutrina que tem por base o pensamento pagão grego de destino.

Embora Deus quer (vontade) que todos se salvem e venham ao conhecimento da verdade, resigna-se a apresentar a sua palavra como se rogasse, de modo que, se ouvirem, Ele espera que os homens O obedeçam e convertam-se do mau caminho “Bem pode ser que ouçam, e se convertam cada um do seu mau caminho, e eu me arrependa do mal que intento fazer-lhes por causa da maldade das suas ações” ( Jr 26:3 ); “De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo, como se Deus por nós rogasse. Rogamos-vos, pois, da parte de Cristo, que vos reconcilieis com Deus” ( 2Co 5:20 ).

 

Contradições

No final do artigo ‘O mito do livre arbítrio’ o autor faz um apelo à vontade humana quando diz:

Lance-se à misericórdia de Deus para a salvação. Rogue ao Espírito de Graça para que Ele crie um novo espírito dentro de você”  Idem.

Ora, se a vontade humana não é livre para decidir se achegar a Deus, antes o homem é escolhido e predestinado por Ele para a salvação, o encerramento do artigo não deveria conter um apelo à vontade do homem, antes deveria ser finalizado como conscientização, demonstrando aos leitores que é para se resignarem, devido à inabilidade humana para salvação, pois se fossem eleitos para serem regenerados, naturalmente se lançariam à misericórdia, mas se não, de nada adiantaria crer em Cristo.

É contraditório um artigo que no inicio defende que a vontade está presa às cadeias da malignidade da natureza humana e terminar apelando à mesma vontade que se lance à misericórdia e que rogue a Deus para criar um espirito novo. Não foi defendido durante o artigo que se Deus primeiro não conceder vida é impossível o homem ouvir a palavra de Deus e crer?

Para defender a ideia da inabilidade humana, de que o pecador não pode responder ao convite do evangelho crendo, o Pr. Walter citou João 1, versos 12 e 13, onde o apóstolo João defende que, todos quantos recebem a Cristo, a saber, que creem em seu nome, Deus concede poder para ser feito filho de Deus “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” ( Jo 1:12 -13).

Vemos a asserção do apóstolo João invertida no artigo do Pr. Walter, pois ele ardilosamente procura demonstrar que primeiro é necessário Deus conceder vida ao homem para tornar possível o homem crer.

Para o homem crer, primeiro foi necessário Deus dar a vida, mas a vida que Deus dá é Cristo, de modo que, estando todos habitando nas regiões das trevas, mortos em delitos e pecado, raiou a luz, e a luz que raiou nas trevas é a vida dos homens ( Jo 1:5 -4). Neste sentido a vida precede o crer, pois antes de o homem crer foi necessária a Fé se manifestar, ou seja, Cristo vir ao mundo ( Gl 3:23 ).

A luz se manifestou e o seu povo (Israel) rejeitou, mas todos quantos o receberam, foram agraciados por Deus com a filiação divina, se crer. Jesus foi rejeitado pelo seu povo porque acharam que já eram filhos de Deus por terem sido gerados segundo a carne e o sangue de Abraão, mas o apóstolo João demonstra que os nascidos da carne e do sangue não são filhos de Deus, somente os nascidos segundo a vontade de Deus.

A bíblia demonstra que Deus trabalha em prol dos que n’Ele esperam “Porque desde a antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu um Deus além de ti que trabalha para aquele que nele espera” ( Is 64:4 ).

Como esperar em quem não se crê? E como crer se não ouvir?  Como ouvir se não há quem pregue? “Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue?” ( Rm 10:14 ).

Deus roga através dos embaixadores de Cristo que os homens se reconciliem Ele, o que demonstra que a vontade de Deus não é imposta. Quando o evangelho da parte de Cristo é anunciado, Deus espera que cada homem se converta do seu mal caminho: “Bem pode ser que ouçam, e se convertam cada um do seu mau caminho, e eu me arrependa do mal que intento fazer-lhes por causa da maldade das suas ações” ( Jr 26:3 ); “De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo, como se Deus por nós rogasse. Rogamos-vos, pois, da parte de Cristo, que vos reconcilieis com Deus” ( 2Co 5:20 ).

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Nunca jamais tropeçareis

Para que Cristo ocupasse posição mais elevada (preeminência), antes que todas as coisas viessem à existência, Deus predestinou a geração de Cristo para serem filhos, que na adoção, serão semelhantes a Ele ( Rm 8:23 ). Cristo conduz a Deus muitos filhos, que por serem gerados da semente (descendentes, rebento) incorruptível, são eleitos para serem santos e irrepreensíveis e predestinados a serem conforme a imagem do Seu Filho, Jesus Cristo “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” ( Rm 8:29 ; Hb 2:10 ).


“Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição; porque, fazendo isto, nunca jamais tropeçareis” ( 2Pe 1:10 )

 

Tornar-se um crente em Cristo é apenas o começo de uma vida nova e em comunhão com Deus. A comunhão com Deus se dá ao crer em Cristo conforme diz as Escrituras ( Jo 3:15 ), porém, se faz necessário ao crente prosseguir em conhecer a Cristo ( Os 6:3 ).

Essencialmente, ser um crente em Cristo é ter a certeza que:

  1. Todos os homens são pecadores porque são descendentes de Adão, gerados em pecado ( Rm 3:23 );
  2. Jesus foi enviado por Deus ao mundo para salvar a humanidade porque todos estavam alienados de Deus por causa da ofensa de Adão ( Jo 3:16 );
  3. Jesus é o Verbo eterno que no princípio estava com Deus ( Jo 1:1 -2), e sendo Deus, esvaziou-se do seu poder e glória e tornou-se homem ( Fl 2:7 );
  4. Jesus foi introduzido no mundo como o Unigênito Filho de Deus gerado virginalmente no ventre de Maria pelo Espírito de Deus ( Jo 1:18 ; Mt 1:18 );
  5. Jesus viveu entre os homens, foi participante de todas as aflições, porém, sem pecado ( Hb 2:17 );
  6. Jesus foi crucificado, morreu, foi sepultado e ressurgiu ao terceiro dia e está assentado à destra de Deus nas alturas ( Rm 1:3 -4).

Os pontos elencados acima é um resumo das boas novas que Jesus apresentou aos homens, e aquele que ouve e crê, ‘perde’ a vida herdada de Adão para ganhar uma nova vida ( Mt 10:39 ).  Quem creu em Cristo ‘tomou’ a sua própria cruz, seguiu após Cristo, foi crucificado juntamente com Ele, morreu e ressurgiu dentre os mortos ( Mt 10:38 ; Cl 3:1 ).

O ressurgir com Cristo dentre os mortos é o novo nascimento! É nascer da água e do Espírito, ou seja, de Deus e da sua Palavra ( Cl 3:1 ; 1Pe 1:3 e 23).

O crente em Cristo é nascido de Deus, pois ao crer em Cristo recebe poder para ser feito filho de Deus ( Jo 1:12 ). Esta ‘criança’ recém-nascida pertence a uma nova geração, a geração eleita, a geração de Cristo (último Adão), que contrasta com a geração ‘perversa’, a geração de Adão ( 1Pe 2:9 ).

Apesar do crente em Cristo continuar em um corpo mortal sujeito às provações, tentações, vicissitudes e aflições desta vida, por ter recebido poder de ser criado (feito) filho de Deus, é um ser espiritual, pois os nascidos do Espírito são espirituais ( Jo 3:9 ; 1Jo 4:17 ; 1Co 15:48 ). Ao ressurgirem com Cristo compartilham da glória de Cristo, porque para este propósito foram de novo gerados “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um” ( Jo 17:22 ; 2Pe 1:4 ).

Antes de criar o homem, Deus tinha um propósito eterno: que o Verbo eterno que seria introduzido no mundo como o Filho Unigênito de Deus, ao retornar à Sua glória, ocuparia a posição mais elevada em relação a todos (preeminência), pois foi do agrado de Deus elevar o Verbo eterno acima de todo o seu nome ( Sl 138:2 ; Ef 1:21 ); “Segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor” ( Ef 3:11 ); “E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência” ( Cl 1:18 ); “Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo, de tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra” ( Ef 1:9 -10).

Antes da criação do homem e de todas as coisas, Deus propôs algo em Si mesmo. A vontade de Deus era um mistério, mas na plenitude dos tempos, quando Cristo foi introduzido no mundo dos homens, foi revelado que a vontade de Deus é congregar em Cristo todas as coisas.

Quando Deus criou o homem, criou Adão segundo o propósito que havia estabelecido em Si mesmo, ou seja, em Cristo, porém, quando Adão desobedeceu ao mandamento no Éden, distanciou-se de Deus (pecado), ficando aquém do propósito de Deus (a preeminência de Cristo).

Além de ficar aquém do propósito eterno que Deus havia estabelecido na eternidade, surgiu o problema da ofensa e as suas consequências ( Rm 5:18 -19). Observe que o homem foi criado em função do propósito eterno de Deus, e que a ofensa de Adão é um evento posterior ao propósito estabelecido na eternidade.

O ‘distanciar-se’ de Deus através da ofensa de Adão é o que se denomina pecado, e todos os que são gerados segundo a semente de Adão, a semente corruptível, estão em pecado, ou seja, mortos, alienados de Deus. São filhos da ira, filhos da desobediência, escravos do pecado, vasos de desonra, plantas que o Pai não plantou, etc.

Quando o homem crê em Cristo, o velho homem gerado em Adão é crucificado e morto e a justiça de Deus é estabelecida. É na morte com Cristo que se dá a justiça de Deus, pois se cumpre a palavra: “A alma que pecar, esta morrerá” ( Ez 18:4 ; Rm 6:7 ).

Observe que a pena estabelecida no Éden jamais passa da pessoa do transgressor, pois quem crê é morto e sepultado para que não sirva mais o pecado ( Rm 6:6 ).

Mas, quando alguém morre e é sepultado com Cristo à semelhança da Sua morte e sepultura ( Rm 6:5 ), ocorre um milagre, pois o mesmo poder que trouxe Jesus dentre os mortos é o que opera sobre o homem ( Ef 1:19 -20), momento que é gerada um nova criatura, ressurreta dentre os mortos ( Cl 3:1 ).

É na morte e ressurreição com Cristo que o problema do pecado é resolvido, pois a barreira de separação é desfeita. O homem gerado de novo recebe de Jesus a mesma glória que o Pai concedeu a Cristo ( Jo 17:22 ).

Como no Éden se instalaram dois problemas: a) o homem distanciou-se de Deus, e; b) ficou aquém do propósito estabelecido em Cristo, quando o novo homem ressurge com Cristo dentre os mortos, o problema do distanciamento entre Deus e o homem é anulado, pois se tornou um com Cristo e o Pai ( Jo 17:11 ), concomitantemente, por ser uma nova criatura, está apto para o propósito que Deus estabeleceu em Cristo de fazê-lo preeminente.

Todos os homens gerados de Adão estavam distantes de Deus, e por serem filhos da ira e da desobediência, não estavam à altura do proposito que Deus estabeleceu em Cristo: a preeminência d’Ele em tudo. Para levar a efeito o propósito de convergir em Cristo todas as coisas, Deus providenciou salvação graciosa a todos os homens através de Cristo conforme as riquezas do evangelho “… antes participa das aflições do evangelho segundo o poder de Deus, que nos salvou…” ( 2Tm 1:8 -9 ).

Depois de resolvido o problema do pecado proveniente da ofensa de Adão através do poder contido no Evangelho, todos os que são gerados de novo em Cristo são chamados com uma santa vocação para serem conforme a imagem do Seu Filho, de modo que, por estarem em Cristo, são filhos de Deus e inculpáveis “Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” ( 2Tm 1:9 ).

O homem é salvo do pecado segundo o poder que há no evangelho ( 1Co 1:18 ; 2Tm 1:8 ), e é chamado com santa vocação em função do propósito eterno que Deus estabeleceu em Cristo.

Como o pecado era um entrave ao propósito estabelecido, primeiro há a redenção do homem do poder do pecado por meio do evangelho, e em seguida, o salvo é chamado em vista do propósito de Deus que há em Cristo Jesus. Muitos equívocos surgem quando se analisa o evangelho de Cristo sem levar em conta o propósito eterno de Deus.

Para levar a efeito o seu propósito eterno, antes que houvesse mundo, Deus escolheu (elegeu) e chamou a descendência de Cristo com uma santa vocação para que os gerados de novo (que são santos e irrepreensíveis diante d’Ele, o que contrasta com a condição da geração de Adão, que é corrompida e perversa), sejam filhos de Deus possibilitando a primogenitura do Cristo ressurreto, que foi introduzido no mundo como o Unigênito de Deus.

É dado aos que creem em Cristo, não só serem salvos da condenação que há no mundo, mas também é concedido aos que creem fazerem parte do propósito eterno que Deus estabeleceu em Cristo. Quando Deus disse: – “Façamos o homem a nossa imagem e semelhança”, estava colocando em curso o seu eterno propósito, pois em Cristo o homem é gerado de novo para ser conforme a imagem de Cristo, para que Cristo seja o primogênito entre muitos irmãos ( Rm 8:29 ).

Acerca destes eventos escreve o apóstolo Paulo: “Tendo iluminados os olhos do vosso entendimento, para que saibais qual seja a esperança da sua vocação, e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos” ( Ef 1:18 ). A graça concedida aos que estão em Cristo é superior a dos crentes da antiga aliança, pois há uma vocação especifica e uma herança de glória específica da qual todos que estão em Cristo são participantes.

Para que Cristo ocupasse posição mais elevada (preeminência), antes que todas as coisas viessem à existência, Deus predestinou a geração de Cristo para serem filhos, que na adoção, serão semelhantes a Ele ( Rm 8:23 ). Cristo conduz a Deus muitos filhos, que por serem gerados da semente (descendentes, rebento) incorruptível, são eleitos para serem santos e irrepreensíveis e predestinados a serem conforme a imagem do Seu Filho, Jesus Cristo “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” ( Rm 8:29 ; Hb 2:10 ).

Através de Cristo, os que morrem e ressurgem com Ele tornam-se membros do corpo de Cristo, e Ele é a cabeça. Os que ressurgiram dentre os mortos tornam-se filhos de Deus para que Cristo seja primogênito entre muitos irmãos. Na condição de primogênito da nova geração e cabeça de um corpo formado de homens ressurretos dentre os mortos semelhantes a Ele, Cristo é preeminente em tudo!

Cristo tem a preeminência ao assumir a condição de cabeça do seu corpo, que é a igreja. Cristo é preeminente, quando assume a posição de primogênito entre aqueles que são semelhantes a Ele, ou seja, entre muitos irmãos ( Rm 8:29 ; 1Jo 3:1 -3).

Quando introduzido no mundo, Jesus foi, em tudo, semelhante aos homens ( Hb 2:17 ). Quando de volta a sua glória, o Cristo ressurreto herdou nome mais excelente e é superior aos anjos ( Hb 1:4 ), concomitantemente, conduziu à glória de Deus muitos filhos semelhantes a Ele ( Hb 2:10 ), e entre os filhos de Deus Jesus é o primogênito, ou seja, ocupa posição mais elevada (preeminente).

Para que Cristo se tornasse primogênito entre muitos irmãos, Deus predestinou os que são salvos segundo o evangelho a serem conforme a imagem do seu Filho ressurreto ( Rm 8:29 ). É em função do proposito que Deus estabeleceu em Si mesmo que os que são predestinados a serem filhos por adoção ( Ef 1:5 ).

É em função desta maravilha concernente aos filhos de Deus que toda a criação está na expectativa de como serão os filhos de Deus, pois qual Cristo é há de ser todos quantos creem em Cristo segundo a verdade do evangelho ( Rm 8:19 ; 1Jo 3:1 -2).

Como será a maravilha da adoção ( Rm 8:23 ), visto que Cristo é mais sublime que os céus? ( Hb 7:26 )

A condição dos cristãos como membros do corpo de Cristo é superior à dos anjos, e como cabeça do corpo, Cristo é preeminente. É em função deste propósito que o crente é chamado e eleito. É sobre o propósito de Deus em tornar Cristo preeminente que o cristão deve, cada vez mais, fazer firme a vocação e eleição “Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição; porque, fazendo isto, nunca jamais tropeçareis” ( 2Pe 1:10 ).

Ora, se os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis, por que é necessário fazer firme a vocação e eleição? “Porque os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento” ( Rm 11:29 ).

Que ‘dons’ são irrevogável? Neste verso o apóstolo Paulo não estava tratando dos dons do Espírito Santo, antes apresentou um princípio relativo às promessas de Deus. Por exemplo: embora os judeus tenham rejeitado o evangelho, contudo, por causa da promessa que Deus fez a Abraão, Israel será salvo após o termino da ‘plenitude dos gentios’ ( Rm 11:25 -26). Os judeus são inimigos do evangelho, porém, como Deus deu a sua palavra a Abraão, a eleição segundo a promessa é irrevogável “Não é por causa da tua justiça, nem pela retidão do teu coração que entras a possuir a sua terra, mas pela impiedade destas nações o SENHOR teu Deus as lança fora, de diante de ti, e para confirmar a palavra que o SENHOR jurou a teus pais, Abraão, Isaque e Jacó” ( Dt 9:5 ; Rm 11:28 ).

Como Deus anunciou primeiramente o evangelho a Abraão, dizendo: “Em ti serão benditas todas as famílias da terra”, o que foi prometido a Abraão é irrevogável, de modo que através do descendente de Abraão, que é Cristo – dom de Deus, dom celestial – é concedida salvação ao mundo por meio do evangelho “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti” ( Gl 3:8 ); “Jesus respondeu, e disse-lhe: Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva” ( Jo 4:10 ; Hb 6:4 ; Ef 2:8 ; Ef 4:7).

Se a eleição do povo de Israel é irrevogável pela promessa que Deus fez a Abraão, Isaque e Jacó, quanto mais a eleição da descendência de Cristo segundo o propósito eterno estabelecido em Cristo! Se Deus chamou à existência um povo, de um homem já velho e de uma mulher estéril e em avançada idade (Sara e Abraão) em virtude da promessa de um descendente feita a Abraão ( Gl 3:16 ), Deus não chamaria a existência um povo especial através da semente incorruptível do último Adão para levar a efeito o seu propósito eterno? ( Tt 2:14 ; 2Co 6:16 )

Ora, a igreja de Cristo é o povo chamado à existência através do renovo justo prometido a Davi. Através do renovo (semente, descendência) justo, que é Cristo, Deus chamou a existência uma nova geração de homens espirituais, uma geração eleita para ser santa e irrepreensível, predestinada a serem conforme a imagem de Cristo, segundo o eterno propósito estabelecido em Cristo.

Como fazer mais firme a ‘nossa’ eleição e vocação? Há um risco real dos cristãos tropeçarem?

Há uma corrente doutrinária que afirma que a salvação se dá segundo a predestinação, em que Deus escolheu alguns homens caídos para salvar do pecado e restaurado a comunhão com Ele.

Se a eleição é incondicional de modo que Deus predestina alguns à salvação e outros à perdição, por que é necessário aos irmãos em Cristo fazerem cada vez mais firme a vocação e eleição? Se a eleição de alguns à salvação se deu na eternidade, como fazer mais firme o que já foi estabelecido?

Há a eleição, a predestinação e uma vocação, porém, a abordagem de Pedro não se refere à salvação em Cristo, antes ao propósito eterno que Deus estabeleceu em Cristo.

Deus chamou, elegeu e predestinou a descendência de Cristo para o seu proposito estabelecido antes dos tempos dos séculos, pois Deus chama as coisas que não são como se já fossem “(Como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí) perante aquele no qual creu, a saber, Deus, o qual vivifica os mortos, e chama as coisas que não são como se já fossem” ( Rm 4:17 ).

Há uma geração eleita, uma semente escolhida, e esta eleição e vocação é irrevogável, pois está intimamente ligada ao propósito eterno de Deus. Ora, se a eleição, a vocação e a predestinação estão ligadas ao propósito de fazer o Cristo proeminente em todas as coisas, segue-se que a salvação não é determinada por vocação, eleição ou predestinação.

A abordagem do apóstolo Pedro trata de indivíduos que, após crerem em Cristo por intermédio da mensagem do evangelho são gerados de novo e passam a fazer parte da geração eleita, pois são gerados de uma semente incorruptível.

O propósito de Deus ao chamar a descendência do último Adão é irrevogável, pois Ele estabeleceu que Cristo é primogênito (preeminente) entre muitos irmãos.

É necessária muita atenção ao interpretar algumas passagens bíblicas, pois a ‘vocação’ de Deus não se refere ao velho homem, aos filhos da ira, aos filhos da desobediência, aos descendentes de Adão. A vocação refere-se aos que estão em Cristo, portanto, aos cristãos. É por isso que o apóstolo Pedro diz aos ‘irmãos’ para fazerem mais firme a vocação eleição.

Se a salvação fosse através da vocação e eleição, o correto seria o apóstolo Pedro fazer a recomendação do verso 10 do primeiro capítulo da segunda carta aos não crentes, pois os incrédulos são os que necessitam de salvação. Mesmo assim haveria uma contradição entre o recomendado pelo apóstolo e a doutrina da eleição incondicional, ou da predestinação absoluta.

A salvação é pela graça de Deus, e, por sua vez, a vocação e eleição diz das riquezas da graça. Cristo é a graça de Deus manifesta a todos os homens, já a riqueza da graça será revelada em um tempo futuro, pois está atrelada a ‘adoção’, ou seja, a redenção do corpo “Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens” ( Tt 2:11 ; 1Pe 1:20 ;  ); “Para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça pela sua benignidade para conosco em Cristo Jesus” ( Ef 2:7 ; 1Jo 3:2 ).

Estar em Deus ou não, é condição que decorre de linhagem. Como Deus estabeleceu um renovo justo (nova linhagem) através de Cristo, o descendente de Davi, Deus está na linhagem de Cristo, o Justo ( Sl 14:5 ; Jr 33:15 ; Is 60:21 ; Sl 112:2 ). Deus chamou a linhagem de Cristo para o seu eterno propósito estabelecido em Si mesmo ( Ef 1:9 ; Ef 3:11 ), de modo que, para o propósito estabelecido em Cristo é necessário nascer de novo através do poder que há no evangelho.

Aquele que está em Cristo nova criatura é, por isso o apóstolo Paulo diz: “Por isso também rogamos sempre por vós, para que o nosso Deus vos faça dignos da sua vocação, e cumpra todo o desejo da sua bondade, e a obra da fé com poder” ( 2Ts 1:11 ). Qual a vocação que o apostolo orava para que Deus os fizesse dignos? A vocação que faz o Cristo preeminente em tudo, pois esta é a vontade de Deus.

Basta analisar o contexto de segunda Tessalonicenses, capítulo 1 verso 11, para verificar que Cristo virá para ser glorificado naqueles que lhe pertencem, e que Ele se fará admirável através dos que creram no evangelho ( 2Ts 1:10 e 12).

É por isso que o apóstolo ora a Deus para que Ele faça os cristãos dignos da sua vocação (fazer-se admirável nos que creem) e que o desejo de Deus se cumpra ( 1Tm 2:4 ), pois esta é a obra do evangelho (fé) que é poder de Deus, pois o objetivo da maravilhosa graça, além da redenção, é que Cristo seja glorificado nos que creem e os que creem sejam glorificados em Cristo ( 1Ts 1:12 ).

Somente a nova criatura está à altura do propósito que Deus estabeleceu em Cristo, pois somente os de novo gerados em Cristo glorificam-no e n’Ele são glorificados “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” ( Ef 1:13 ).

A ação de Deus ‘chamar’ é irrevogável, pois Ele chamou a geração eleita para o seu propósito. A geração segundo a carne de Adão, por sua vez, foi reprovada para o propósito de Deus, uma vez que a ofensa trouxe condenação sobre todos os homens, tonando-os escusáveis para o propósito eterno. Nenhum dos descendentes da carne de Adão são eleitos para a salvação, pois os descendentes da carne de Adão, para serem eleitos, precisam morrer para ressurgir com Cristo, quando fará parte da geração eleita.

Os cristãos de Éfeso passaram a estar em Cristo somente após ouvirem (crerem) o evangelho. Não há como crer e ser salvo se não houver quem anuncie que o Cristo ressurgiu dentre os mortos pelo poder de Deus “Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, a saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido. Porquanto não há diferença entre judeu e grego; porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam. Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo. Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? como está escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam o evangelho de paz; dos que trazem alegres novas de boas coisas. Mas nem todos têm obedecido ao evangelho; pois Isaías diz: SENHOR, quem creu na nossa pregação?” ( Rm 10:8 -16 ).

Observe que a salvação advém de obedecer à mensagem do evangelho, pois o evangelho é o poder de Deus para salvação dos que creem ( 1Co 1:18 ; Jo 1:12 ). Já o propósito eterno de fazer Cristo preeminente em tudo está atrelado à vocação e eleição de todos que estão em Cristo.

Há uma grande diferença entre a igreja de Cristo e o povo de Israel com relação à vocação e eleição. O povo de Israel foi escolhido para o próprio Deus preservar a linhagem do Cristo que havia de vir ao mundo, e Deus trouxe o povo à existência segundo a promessa feita a Abraão, mas para serem salvos deviam crer em Deus assim como o crente Abraão ( Rm 9:4 -9). O indivíduo pertencia à nação de Israel, entretanto, não era salvo, visto que o povo de Israel foi preservado para Deus cumprir a promessa feita a Abraão.

Com relação à igreja de Cristo, para ser eleito e vocacionado, necessariamente tem que estar em Cristo, portanto, ser salvo. Isto porque Deus chamou, elegeu e predestinou a geração de Cristo segundo o seu eterno propósito, mas para pertencer a geração de Cristo é necessário nascer de novo, portanto, é necessário crer em Cristo.

Por exemplo: Abraão creu em Deus e isso lhe foi por justiça ( Gl 3:6 ), já os cristãos creem no descendente prometido a Abraão, que disse: “Crede em Deus, crede também em mim” ( Jo 14:1 ). A promessa aos que creem em Cristo é superior, pois os que creem em Cristo possuem vocação celestial, enquanto Abraão e os seus descendentes segundo a carne possuem uma vocação terrena.

Não é dado a Abraão e a sua descendência segundo a carne serem conforme a imagem de Cristo, mas os remidos em Cristo segundo a fé que teve Abraão é concedido serem conforme a imagem de Cristo, pois a igreja de Cristo é formada de pessoas que morreram e ressurgiram dentre os mortos com Cristo para serem semelhantes a Ele.

O evangelho de Cristo redime o homem da perdição do pecado e, após ser gerado de novo, os que creram são participantes de Cristo, portanto, fazem parte do propósito que Deus estabeleceu em Cristo. Na condição de descendência de Cristo o cristão é vocacionado, eleito e predestinado, daí a ordem para fazer ‘mais’ firme a vocação e eleição.

Como fazer mais firme a vocação e eleição? Basta ao crente perseverar crendo em Cristo como diz as Escrituras, pois quem não persevera na doutrina não tem comunhão com o Pai e o Filho e, se não há comunhão com Deus, está separado, aquém do proposito estabelecido em Cristo “Todo aquele que prevarica, e não persevera na doutrina de Cristo, não tem a Deus. Quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem tanto ao Pai como ao Filho” ( 2Jo 1:9 ); “Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito” ( Tg 1:25 ); “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem” ( 1Tm 4:16 ); “Mas aquele que perseverar até ao fim será salvo” ( Mt 24:13 ).

Mas, para perseverar crendo é necessário seguir a recomendação do escritor aos hebreus: “Portanto, convém-nos atentar com mais diligência para as coisas que já temos ouvido, para que em tempo algum nos desviemos delas” ( Hb 2:1 ).

Em função dos riscos que rondam o cristão é imprescindível ser diligente em compreender a graça proveniente do evangelho, pois os cuidados desta vida, a sedução das riquezas, a angustia e a perseguição por causa da palavra, a oposição do inimigo, etc., só serão superados por aqueles que estiverem firmados sob o fundamento dos apóstolos e dos profetas ( Mt 13:18 -23; Ef 2:20 ).

Quando o apóstolo Pedro recomendou fazer ‘mais’ firme a eleição e vocação, tinha o mesmo propósito do escritor aos Hebreus: que os cristãos ficassem atentos ao que haviam ouvido “E temos, mui firme, a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia amanheça, e a estrela da alva apareça em vossos corações” ( 2Pe 1:19 ).

O escritor aos hebreus perguntou aos seus interlocutores como seria possível escapar da condenação se não atentassem diligentemente para o evangelho que inicialmente foi anunciado por Cristo ( Hb 2:3 ; Ex 19:5 ). Quando se crê no evangelho o homem torna-se participante de Cristo e deve reter firmemente a confiança na mensagem do evangelho até o fim “Mas Cristo, como Filho, sobre a sua própria casa; a qual casa somos nós, se tão somente conservarmos firme a confiança e a glória da esperança até ao fim” ( Hb 3:6 ; Hb 3:14 ).

O imperativo ‘perseverai’ ecoa por todas as cartas dos apóstolos, pois perseverar na doutrina de Cristo é cuidar de si mesmo e batalhar pela fé (doutrina), de modo que o cristão salva se a si mesmo e os que o ouvem “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem” ( 1Tm 4:16 Jd 1:3 ).

Tiago demonstra que é necessário atentar bem para o evangelho e perseverar. Aquele que ouve a mensagem do evangelho e faz conforme o mandamento de Deus crendo no enviado de Deus é bem-aventurado “Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito” ( Tg 1:25 ).

Aquele que crê é fazedor da obra, pois a obra de Deus é crer em Cristo ( Jo 6:29 ; 1Jo 3:23 ). Após obedecer a verdade do evangelho, basta perseverar crendo em Cristo, pois a perseverança é a obra perfeita do evangelho (fé) (Tg 1:4 ). É imprescindível inteirar-se da verdade do evangelho.

O escritor aos Hebreus é específico: “Porque nos tornamos participantes de Cristo, se retivermos firmemente o princípio da nossa confiança até ao fim” ( Hb 3:14 ). Aquele que não retém o evangelho, prevarica, portanto, não tem o Pai e o Filho “Todo aquele que prevarica, e não persevera na doutrina de Cristo, não tem a Deus. Quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem tanto ao Pai como ao Filho” ( 2Jo 1:9 ).

O apóstolo Paulo é o exemplo a ser seguido, pois declarou no final do seu ministério que havia acabado a carreira e guardado a fé (evangelho), ou seja, perseverou até o fim guardando o princípio da Sua confiança “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé” ( 2Tm 4:7 ); “Somente deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho de Cristo, para que, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de vós que estais num mesmo espírito, combatendo juntamente com o mesmo ânimo pela fé do evangelho” ( Fl 1:27 ).

O perigo das heresias ronda os recém-nascidos de modo que a recomendação para os neófitos na fé é que desejem afetuosamente o ‘leite racional’ para que cresçam, pois a carreira proposta ao cristão é chegar a medida da estatura de Cristo, a varão perfeito ( 1Pe 2:2 ; Ef 4:13 ).

Por que a recomendação para crescer? Porque um ‘menino’ na fé corre o risco de ser levado em roda por todo o vento de doutrinas fomentadas por homens que, com astucia, enganam fraudulosamente ( Ef 4:14 ). Já o ‘adulto’ tem os sentidos exercitados e consegue, através da palavra da verdade, discernir e rejeitar o engano das falsas doutrinas “Mas o mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal” ( Hb 5:14 ).

O escritor aos Hebreus repreendeu os seus interlocutores por causa da negligencia com relação ao evangelho, visto que pelo tempo decorrido no evangelho, já eram para serem mestres, porém, ainda estavam como crianças ( Hb 5:12 ). Observe que os interlocutores da carta aos Hebreus ainda não compreendiam os princípios elementares do evangelho ( Hb 6:1- 2).

A recomendação do apóstolo Pedro quanto a fazer mais firme a vocação e a eleição era para que todos os cristãos alcançassem a perfeição, ou seja, que chegassem à ‘unidade da fé’ tendo a mesma compreensão que os apóstolos detinham com relação à mensagem do evangelho. O crente é ministro do espírito, portanto, deve estar num mesmo espírito, combatendo juntamente com o mesmo ânimo pela fé do evangelho, pois o evangelho é espírito e vida ( Jo 6:63 ; 2Co 3:6 ).

Se o crente não for diligente em analisar as Escrituras, não crescerá, e estará suscetível ao fascínio de homens corruptos de entendimento ( Gl 3:1 ; 2Tm 3:8 ). O alerta é claro: “Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor” ( 1Co 1:9 ), mas se houver algum incrédulo que se aparte do evangelho ( Hb 3:12 ), Deus permanece fiel, de modo que negará o infiel diante do Pai ( Rm 3:3 ; 2Tm 2:12 -13).

É necessário chegar ao pleno conhecimento de Cristo, o seja, seguindo Cristo (verdade) em obediência (amor). Somente os que crescem em tudo estão aptos à identificar os hereges, combater os fomentadores de falsas doutrinas, rejeitar as vãs filosofias, etc. “Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo” ( Ef 4:15 ).

Um dos fundamentos da doutrina do evangelho é crer em Cristo como o descendente de Davi, que foi morto e ressurgiu dentre os mortos para gloria de Deus ( 2Tm 2:8 ). Mas, há os que se desviam da verdade e que se põe a proclamar que não há ressurreição dos mortos ( 2Tm 2:18 ; 1Co 15:12 ), ou seja, estes não fizeram firme a vocação e eleição ( 2Tm 2:18 ; 1Tm 6:20 -21; 1Tm 5:15 ; 1Tm 6:10 ).

Quando o apóstolo Paulo conclama a ser firme e constante, sempre abundante na obra do Senhor, ele tem em vista a semente incorruptível, que é a palavra de Deus. A semente é livre de corrupção, porém, há os réprobos quanto à fé, que semeiam joio em lugar da boa semente. Os réprobos se apresentam como mestres, porém a ‘sabedoria’ que expõe não vem do alto, antes é terrena e maligna ( Tg 3:15 ).

É no evangelho que o cristão deve ser diligente, perseverante, paciente, firme, obediente, o que promove a produção de fruto ( Jo 15:4 ). Se não há fruto é porque é cego e se esqueceu da eficácia do evangelho, de modo que, se o cristão não for ocioso, omisso, prevaricar quanto a conhecer o evangelho, jamais tropeçará na palavra da verdade, tornando firme a vocação e eleição.

Somente permanecendo no evangelho de Cristo a entrada no reino dos céus é garantida. Mas, desviar-se da verdade é perdição, e ao mesmo tempo é abrir mão do premio que há na soberana vocação de ser participante do propósito que Deus estabeleceu em Cristo.

O premio que Deus proporciona ao homem quando crê em Cristo é ter um corpo conforme o de Cristo Jesus quando da adoção “Que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas” ( Fl 3:21 ; Rm 8:23 ).

O crente tem que estar firme na seguinte verdade: “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” ( Ef 1:13 ). Qualquer que ouviu a mensagem do evangelho e creu, passa a estar em Cristo, ou seja, é nova criatura, de modo que a salvação decorre do evangelho, a maravilhosa graça de Deus.

Quem crê na mensagem do evangelho, que é a fé dada aos santos e não se demove é santo, irrepreensível (eleição) e inculpável (vocação, filiação) “Se, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé, e não vos moverdes da esperança do evangelho que tendes ouvido, o qual foi pregado a toda criatura que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, estou feito ministro” ( Cl 1:22 -23 ).

Somente através do evangelho é dado entendimento para compreender qual é a esperança da vocação, e o que os santos herdarão ( Ef 1:19 ). Somente através do evangelho é possível dimensionar qual a operação da força do poder de Deus que foi manifesto em Cristo quando ressurgiu dentre os mortos, e é este mesmo poder que opera naqueles que creem em Cristo.

Aquele que é ‘perfeito’, ou seja, que não tropeça na palavra da verdade, está capacitado a anunciar e admoestar a todo o homem. Está apto a ensinar a todos em toda a sabedoria, ou seja, no evangelho, para que os homens sejam apresentados a Deus perfeito em Jesus Cristo ( Cl 1:28 -29).

Quando o apóstolo Pedro recomenda fazer mais firme a eleição e vocação para nunca tropeçar, ele tem em vista a palavra do evangelho, pois se o crente se inteirar da verdade do evangelho, jamais cometerá equívocos quanto a interpretação e exposição das boas novas, de modo que é perfeito e poderoso para ser mestre ( Tt 1:9 ; Tg 3:2 ).

A abordagem de Tiago e do apóstolo Pedro é a mesma que o apóstolo Paulo fez a Tito: “Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes” ( Tt 1:9 ). Quem retém firme a fiel palavra, faz firme a sua vocação e eleição e torna-se perfeito, poderoso e jamais tropeçará na fiel palavra. Pode perfeitamente ser mestre, ou seja, tem a capacidade de refrear todo o corpo.

Fazer firme a vocação e eleição é o mesmo que prosseguir para o alvo, ou seja, permanecer na verdade do evangelho. Fazer firme a vocação e eleição é operar a salvação com tremor e temor, ou seja, obedecendo (tremor) a palavra do evangelho (temor) ( Fl 2:12). Após ‘conhecer’ a Cristo tornando-se um só corpo com Ele é recomendado ao cristão prosseguir em saber mais acerca o seu Senhor sem perder de vista o prêmio “Prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” ( Fl 3:14 ).

O prêmio que o apóstolo Paulo faz referencia diz glória concedida aos que creem em Cristo de alcançarem um corpo glorioso conforme o de Cristo Jesus ( Fl 3:21 ). Neste quesito temos que imitar a Cristo, que pelo gozo proposto, foi obediente até a morte “Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus” ( Hb 12:2 ).

Prosseguir para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus, é andar segundo a mesma regra: o evangelho de Cristo ( Fl 3:16 ). Se não andar segundo a regra do evangelho, tornou-se inimigo do evangelho.

É em face desta verdade que ao escrever aos cristãos, o apóstolo Pedro demonstra que, tanto ele, quanto qualquer pessoa que crê em Cristo, alcançou fé igualmente preciosa através da justiça que há em Cristo.  Observe que o sentimento do apóstolo Pedro é igual ao do apóstolo Paulo: a fé, o evangelho, a cruz de Cristo para ambos é igualmente precioso.

Como apóstolos, ambos eram perfeitos, pois buscavam preservar intocável a verdade do evangelho ( Fl 3:15 ). Quem não faz firme a sua vocação e eleição, o fim é a perdição, pois será confundido e só pensará nas coisas deste mundo ( Fl 3:19 ; Cl 3:1 ).

O sentimento dos perfeitos é de que a fé é preciosa, pois o evangelho é a fé dada aos santos ( Gl 3:23 ). Há uma só fé, que é o ‘conhecimento’ de Deus e de Jesus, ou seja, o evangelho ( 2Pe 1:1 ; Ef 4:4 -5).

O ‘divino poder’ refere-se à mensagem do evangelho, que o apóstolo Paulo também especifica como o poder de Deus, ou o conhecimento de Deus ( 1Co 1:18 ; Rm 1:18 ; 1Pe 4:11 ; Cl 2:12 ). Através do evangelho, Deus concedeu aos homens, tudo que é pertinente à comunhão com Deus (vida) e obediência (amor).

O evangelho de Cristo é conhecimento que, ao ser anunciado aos homens se traduz em o chamado de Deus segundo a sua graça (glória) e fidelidade (2Pe 1:1 -10). A promessa de Deus é segundo a graça, pois livrar o homem da condenação que há no mundo (Adão) e o torna participante da natureza de Deus, pois é recebido por filho.

Um exemplo de pessoas que não estavam fazendo firme a eleição e o chamado de Deus eram os cristãos das regiões da Galácia. O apóstolo Paulo estava perplexo pela rapidez com que os cristãos estavam deixando o evangelho de Cristo para seguirem uma nova doutrina ( Gl 4:20 ).

Quando creram em Cristo, percorriam a carreira proposta por Deus, mas quando se deixaram circuncidar, deixaram de obedecer a verdade do evangelho ( Gl 5:7 ). Por este fascínio veio o alerta: Cristo de nada vos aproveitará, ou seja, separados estavam de Cristo, da graça caíram (tropeçaram) ( Gl 5:1 -5).

Perseveram em Cristo é permanecer crendo na verdade do evangelho, e qualquer distorção doutrinária que contrarie a verdades elencadas no inicio deste artigo devem ser rejeitadas.

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Não depende de quem quer ou quem corre

Moisés havia intercedido pelo povo e Deus o atendeu ( Êx 32:11 -14), porém, quando intercedeu pela segunda vez, sentiu-se seguro para propôs que Deus riscasse o seu nome do livro da vida ( Ex 32:30 ). Foi quando Deus demonstrou que a sua misericórdia não estava atrelada ao esforço e disposição de Moisés em resignar-se ser punido no lugar do povo (Não depende de quem quer ou quem corre), antes a misericórdia de Deus é demonstrada unica e exclusivamente aos que amam a Deus.

Como compreender a seguinte frase: ‘não depende de quem quer ou quem corre’? Este verso enfatiza a predestinação absoluta?

 

A Misericórdia de Deus

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos” ( Ex 20:6 ; Dt 5:10 ; Dt 7:9 )

Após três meses que saíram do Egito, Deus apresentou ao povo um princípio relacionado à Sua misericórdia: ‘… faço misericórdia a milhares dos que me amam…’ ( Ex 20:6 ).

Na declaração divina expressa no Êxodo há uma promessa, e qualquer homem pode alcançar o ‘prêmio’ proposto: a misericórdia de Deus. Basta obedecer ao que Deus estabeleceu nesta Escritura: “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos” ( Ex 20:6 ; Dt 5:10 ; Dt 7:9 ). Deus estabeleceu que a sua misericórdia é demonstrada somente aos que O amam, guardando os Seus mandamento ( Jo 14:23 -24).

O modo como Deus concede a sua misericórdia também é descrita pelo salmista: “Com o benigno te mostrarás benigno; e com o homem sincero te mostrarás sincero; Com o puro te mostrarás puro; e com o perverso te mostrarás indomável” ( Sl 18:25 -26); “Mas a misericórdia do SENHOR é desde a eternidade e até a eternidade sobre aqueles que o temem, e a sua justiça sobre os filhos dos filhos sobre aqueles que guardam a sua aliança, e sobre os que se lembram dos seus mandamentos para os cumprir” ( Sl 103:17 -18).

Na eternidade Deus não estava obrigado a demonstrar misericórdia a ninguém, mas após empenhar a sua palavra, sujeitou-se a ela para a cumprir ( Jr 1:12 ). Para ilustrar esta verdade, lembremo-nos da seguinte sombra: Deus orientou os filhos de Israel de que não eram obrigados a votar, mas se votassem, estavam obrigados a cumprir.

Em outras palavras: ninguém é obrigado a fazer um voto a Deus, mas se votar, é devedor “Porém, abstendo-te de votar, não haverá pecado em ti. O que saiu dos teus lábios guardarás, e cumprirás, tal como voluntariamente votaste ao SENHOR teu Deus, declarando-o pela tua boca” ( Dt 23:22 -23).

Após ter pronunciado a promessa, Deus não invalida a Sua palavra, antes Ele vela sobre a sua palavra para cumprir e ela não voltará vazia ( Is 55:11 ). Deus é fiel e jamais faltará com sua palavra: se alguém O amar, d’Ele receberá misericórdia. Isto significa que a misericórdia de Deus estende-se a todos quantos O amarem, não importando tribo, nação, língua ou povo.

A misericórdia de Deus é manifesta vinculada a Sua justiça e retidão. Como a justiça e a retidão de Deus vem expressa em sua palavra, para alcançar a misericórdia de Deus o homem tem que submeter-se à Sua palavra ( Ml 3:6 ; 1Pe 1:25 ).

Quando o salmista Davi diz: “Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece dos que o temem” ( Sl 103:13 ), temos a justiça de Deus estabelecida. Um pai se compadece de seus filhos, portanto, Deus se compadece daqueles que recebe por filhos. Deus não é misericordioso com os bastardos, antes os trata com indignação e ira.

O que o salmista expôs reafirma o que Deus proferiu na lei, que a misericórdia é concedida aos que O temem, ou seja, aos que amam a sua palavra. Na bíblia o termo ‘temor’ refere-se à palavra de Deus: “Vinde, meninos, ouvi-me; eu vos ensinarei o temor do SENHOR” ( Sl 34:11 ).

O único meio de o homem alcançar a misericórdia divina é guardando o seu mandamento. Esta verdade ecoa por toda as Escrituras: “Todas as veredas do SENHOR são misericórdia e verdade para aqueles que guardam a sua aliança e os seus testemunhos” ( Sl 25:10 ); “O ímpio tem muitas dores, mas aquele que confia no SENHOR a misericórdia o cercará” ( Sl 32:10 ); “Eis que os olhos do SENHOR estão sobre os que o temem, sobre os que esperam na sua misericórdia” ( Sl 33:18 ).

É com base no exercício da misericórdia de Deus que decorre o seguinte mandamento: “Amarás, pois, o SENHOR teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças” ( Dt 6:5 ). Moisés determinou ao povo que amasse a Deus porque este era o único modo de alcançar a misericórdia divina.

A misericórdia de Deus foi estabelecida nos termos elencados acima porque Deus não quer se revelar às suas criaturas somente como o Onipotente, antes quer ser conhecido por sua benignidade e verdade, de modo que engrandeceu a sua palavra cima do Seu nome “Inclinar-me-ei para o teu santo templo, e louvarei o teu nome pela tua benignidade, e pela tua verdade; pois engrandeceste a tua palavra acima de todo o teu nome” ( Sl 138:2 ).

O salmo 138 é messiânico e apresenta o Verbo da vida, pois somente Cristo esteve na angustia e ressurgiu dentre os mortos e ficou estabelecido que Deus tornaria perfeito aqueles que tocassem a Palavra da vida “Andando eu no meio da angústia, tu me reviverás; estenderás a tua mão contra a ira dos meus inimigos, e a tua destra me salvará. O SENHOR aperfeiçoará o que me toca; a tua benignidade, ó SENHOR, dura para sempre; não desampares as obras das tuas mãos” ( Sl 138:7 -8).

O Verbo encarnado foi engrandecido acima de todo o nome da divindade, visto que não há outro nome pelo qual os homens devam ser salvos ( At 4:12 ). A palavra foi enaltecida, visto que Deus exaltou soberanamente o Verbo encarnado e lhe deu um nome que é sobre todo o nome ( Fl 2:9 ; Ef 1:21 ; Fl 2:9 ; Rm 10:13 ).

Deus quer ser conhecido pela imutabilidade do seu conselho e da sua palavra, ou seja, por ser verdadeiro. Quando Deus disse: “De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:17 ), não estava impondo somente uma restrição. No mandamento estava expresso: plena liberdade, o cuidado de Deus e o conhecimento necessário para que o homem pudesse tomar uma decisão.

Quando ofendeu ao Criador, o homem separou-se de Deus (morreu) por força da lei que diz: certamente morrerás. O pecado achou ocasião na lei que foi estabelecida para preservar o homem em comunhão com o Criador (a lei santa, justa e boa expressa no Éden), e por ela separou (matou) o homem de Deus. Se Deus simplesmente invalidasse a sua palavra que diz: ‘certamente morrerás’ para reatar a comunhão com o homem, negaria a sua essência.

É neste ponto que Deus apresenta a sua misericórdia: como um homem ofendeu e todos morreram, Ele providenciou outro homem, Jesus Cristo. Se o homem que ofendeu trouxe morte, o que obedecesse traria vida. Este último Adão foi incumbido de conquistar o direito à vida para todos os seus descendentes, ou seja, aqueles que igualmente a Ele obedecessem a Deus “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” ( Rm 5:19 ). Justiça e misericórdia se entrelaçam “A misericórdia e a verdade se encontraram; a justiça e a paz se beijaram” ( Sl 85:10 ).

Como a ofensa de um homem fez com que todos morressem, só a obediência de um homem satisfaria a justiça de Deus. Como pela ofensa de um homem sem pecado veio a morte sobre a humanidade, somente um homem sem pecado e obediente em tudo traria a ressurreição dentre os mortos.

É notável que, apesar de ser onipotente, Deus não pode passar por cima da sua palavra: “… a alma que pecar, essa mesma morrerá” ( Ez 18:4 ; Nm 15:31 ). Deus não invalida a sua palavra simplesmente escolhendo dentre os descendentes de Adão aqueles que seriam salvos, pois todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus, portanto, encerrados na penalidade: morte.

Para o homem gerado segundo a carne de Adão ser salvo é necessário se socorrer de Cristo, que é a misericórdia de Deus demonstrada ao mundo, de modo que no mandamento: “… que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo…” ( 1Jo 3:23 ), há liberdade e vida para todos quantos obedecem.

Deus estabeleceu, segundo a sua misericórdia e graça, que faz misericórdia a milhares dos que O amam ( Ex 20:6 ), daí veio o mandamento: “Amarás, pois, o SENHOR teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças” ( Dt 6:5 ). De outro modo, caso o homem não ame Deus, ama a morte, pois ninguém pode servir a dois senhores “… todos os que me odeiam amam a morte” ( Pv 8:36 ).

Observe que os versos em comento não tratam de um sentimento amoroso, antes trata de serviço, obediência, sujeição “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” ( Mt 6:24 ).

Como amar a Deus? Obedecendo-O. Jesus mesmo disse: “Se me amais, guardai os meus mandamentos” ( Jo 14:15 ); “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” ( Jo 14:21 ).

E qual é o mandamento de Deus? “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ). Ora, quem cumpre este mandamento é alvo da misericórdia de Deus.

Esta verdade é apresentada pelo escritor aos Hebreus: “E, sendo ele consumado, veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem” ( Hb 5:9 ). A misericórdia de Deus revela-se em salvação a todos quantos lhe obedecem.

Mas, se alguém não obedece a Cristo, de Deus terá a Sua ira “Como labareda de fogo, tomando vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo” ( 2Ts 1:8 ).

É fato: “Eu amo aos que me amam, e os que cedo me buscarem, me acharão” ( Pv 8:17 ). Deus tem misericórdia dos que O amam, ou seja, Ele ama (cuida) os que O amam (obedecem). Quem buscar ao Senhor certamente O achará!

Os escribas e fariseus não compreendiam a misericórdia de Deus, pois Jesus ordenou: “Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício. Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento” ( Mt 9:13 ).

Os escribas e fariseus pensavam que, quando o Messias viesse, viria em busca dos filhos de Jacó. Na verdade Jesus veio para os seus, mas, como eles eram justos aos próprios olhos, não foram humildes para receber o Cristo, e para recebê-lo era imprescindível uma mudança radical na concepção deles ( Jo 1:11 ). A ideia de que bastava ter por pai a Abraão e já eram salvos deveria ser abandonada para que pudessem alcançar a Cristo ( Mt 3:9 ).

A ideia de que o Messias viria somente em busca dos filhos de Israel, é traduzida na parábola de Cristo: “Os sãos não necessitam de médico, mas, sim, os que estão doentes; eu não vim chamar os justos, mas, sim, os pecadores ao arrependimento” ( Mc 2:17 ). Os judeus pensavam que eram ‘justos’ por serem descendentes da carne de Abraão e porque a eles pertencia a lei e os profetas.

Jesus, por sua vez, demonstra que veio em busca da humanidade, e começou o seu ministério com os filhos do seu povo, e como não o receberam (não foram humildes a ponto de abandonarem o que entendiam por salvação), prosseguiu o seu ministério para além da Galileia, ou seja, à humanidade. A missão de Jesus era chamar os pecadores a uma mudança de entendimento (metanoia=arrependimento).

Na fala: “Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento” ( Mt 9:13 ), confronta o conhecimento dos escribas e fariseus. As Escrituras demonstravam que todos os homens juntamente se desviaram, de modo que não havia um justo se quer ( Sl 53:3 ; Rm 3:10 ; Mq 7:2 ). Seria um contra senso o Messias vir em busca de ‘justos’, se as Escrituras protestavam que não havia um justo se quer. Como não havia um justo se quer, é plausível o Messias vir atrás dos pecadores. Mas, o que Jesus quis dizer com “Ide e aprendei: Misericórdia quero”?

Ele estava orientando os seus interlocutores que Deus não se agradava de sacrifícios, pois os escribas e fariseus se aplicavam somente aos sacrifícios, como: sábados, orações, dízimos, leis, etc. ( Sl 51:16 ), e se esqueciam do principal: a misericórdia.

O que Deus quer é obediência à sua palavra, ou seja, misericórdia, e era exatamente o que Jesus estava fazendo: obedeceu a ordem do Pai. Enquanto comia com os publicanos e pecadores, Jesus estava realizando a vontade de Deus, diferente dos escribas e fariseus que se mantinham separados dos ‘pecadores’.

Há outra consideração acerca da misericórdia de Deus apresentada a Moisés: “Porém ele disse: Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti, e proclamarei o nome do SENHOR diante de ti; e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer” ( Êx 33:19 ).

Esta declaração de Deus foi dada em virtude de um evento anterior: “Agora, pois, perdoa o seu pecado, se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito. Então disse o SENHOR a Moisés: Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro. Vai, pois, agora, conduze este povo para onde te tenho dito; eis que o meu anjo irá adiante de ti; porém no dia da minha visitação visitarei neles o seu pecado” ( Ex 32:32 -34).

No dia seguinte após o povo de Israel ter feito o bezerro de ouro, Moisés subiu ao monte para interceder pelo povo. Foi quando Moisés fez a seguinte proposta: “Agora, pois, perdoa o seu pecado, se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito”. O pedido de Moisés jamais poderia ser atendido, pois Deus teria de contrariar a sua própria natureza. Para atender ao pedido de Moisés, Deus teria de contrariar o que havia estabelecido, cometer injustiça.

Como perdoar aquele povo se não guardaram o mandamento de Deus? “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos” ( Ex 20:6 ).

Daí a resposta divina: “Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro”. Deus não disse: Aquele que Eu rejeitar. Deus havia estabelecido que a rejeição recai sobre aqueles que não obedecem a sua palavra. Esta fala de Deus é suficiente para desconstruir a ideia da predestinação absoluta, ou da eleição incondicional  para a salvação ou para a danação eterna.

Quando Deus disse a Moisés: “… e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer” ( Êx 33:19 ), estava enfatizado que, para satisfazer a sua justiça e retidão aprove a Deus salvar o crentes pela loucura da pregação. Estava em seu poder demonstrar misericórdia àqueles que obedecessem ao Seu mandamento: que creiais naquele que Ele enviou. É antibíblica a ideia de que Deus escolheu quem salvar simplesmente porque é soberano. A salvação dos homens envolveu a sabedoria e a prudência de Deus, pois a sua soberania não podia invalidar a sua justiça “Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça, que ele fez abundar para conosco em toda a sabedoria e prudência” ( Ef 1:7 -8).

O apóstolo Paulo é enfático: Deus salva os crentes pela loucura da pregação, e não por ser soberano “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação” ( 1Co 1:21 ).

Deus já havia apresentado a Moisés qual era o parâmetro estabelecido para demonstrar a sua misericórdia aos homens. No entanto, Moisés fez uma proposta que contrariava completamente a orientação divina, o que fez com que Deus relembrasse o que estava estabelecido.

Deus estava declarando a Moisés que aquela proposta era impossível de ser atendida, pois riscar o nome de Moisés do livro da vida sem ele ter pecado, seria injustiça da parte de Deus. Com a fala: ‘terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia’, Deus estava relembrando a instrução dada anteriormente junto com os dez mandamentos ( Dt 5:10 ; Dt 7:9 ; Ex 20:6  ).

Foi o mesmo que dizer: – Moisés, de quem eu tenho misericórdia? Já não foi ensinado que terei misericórdia daqueles que me obedecem? Moisés, é impossível eu ter misericórdia dos que me odeiam, antes só posso exercer misericórdia aos que me obedecem. Dai a fala: terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia! E de quem Deus tem misericórdia? A resposta vem dos versos analisados anteriormente: dos que me amam ( Dt 5:10 ; Dt 7:9 ; Ex 20:6  ).

A má leitura do trocadilho: ‘eu terei misericórdia daquele que eu tiver misericórdia’, conduz muitos ao entendimento equivocado da predestinação absoluta. Ou pior, surge a seguinte fala: Deus não é obrigado a ter misericórdia. Ledo engano. Deus não é o homem para que minta, e quando Ele empenhou a sua palavra, sujeitou-se a Ela para cumpri-la.

Sabemos que Deus é livre na essência, mas apesar da liberdade infinita que possui, Deus não volta atrás com a sua palavra. Ele não pode negar-se a si mesmo. Ele não pode fazer injustiça ou negar o que é de direito. É impossível Deus não amar os que O amam, pois Ele empenhou a sua palavra. É impossível Deus deixar de ter misericórdia dos que são misericordiosos.

Aos hipócritas e fariseus Jesus foi claro: “Ide e aprendei: Misericórdia quero, e não sacrifício..”. Qual é a misericórdia que Deus exige? A mesma misericórdia que Deus esperava que Saul tivesse: que obedecesse a sua palavra “Porém Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” ( 1Sm 15:22 ).

É de difícil compreensão, mas o rei Saul enquanto estava derramando o sangue dos amalequitas segundo a ordem do Senhor, estava sendo ‘misericordioso’ “E enviou-te o SENHOR a este caminho, e disse: Vai, e destrói totalmente a estes pecadores, os amalequitas, e peleja contra eles, até que os aniquiles” ( 1Sm 15:18 ). Mas, quando Saul resolveu preservar a vida do rei Agague, rei de Amaleque, e dos bois, abandonou a misericórdia e passou à condição de rebelde, feiticeiro, iníquo ( 1Sm 15:23 ).

A obediência que Deus exigiu de Saul é o mesmo amor que Deus exigiu do povo de Israel através de Oséias: “Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos” ( Os 6:6 ).

Quando Jesus anuncia no sermão do monte: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia” ( Mt 5:7 ), temos outro trocadilho. Bem-aventurados os que obedecem a Deus (misericordiosos), pois só os que obedecem é que alcançam misericórdia. É o mesmo que dizer: Terei misericórdia daquele que eu tiver misericórdia, ou amo aos que me amam.

É impossível enumerar o número de teólogos adeptos da doutrina da eleição incondicional, e isto se deve à má leitura que fizeram de um verso construído com ‘trocadilhos’. A leitura que fazem tem por base somente uma passagem bíblica, e se esquecem que, para compreender qualquer passagem bíblia é necessário fazer uso do princípio utilizado por Cristo: ‘mas, também está escrito’.

Está escrito: ‘terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia’, mas também está escrito: ‘terei misericórdia dos que me amam’, de modo que a leitura correta é: ‘Daqueles que me amam eu tenho misericórdia’.

 

A desobediência

 “Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia” ( Rm 11:32 )

O apóstolo Paulo demonstra que Deus encerrou todos os homens debaixo da desobediência e usa de misericórdia para com todos.

Quando todos os homens foram encerrados debaixo da desobediência? Qual a desobediência a que todos foram sujeitos?

A desobediência que o apóstolo refere-se é a ofensa de Adão. Adão ofendeu a Deus e todos os seus descendentes tornaram-se pecadores ( Rm 5:15 ). Por causa da desobediência de Adão todos juntamente alienaram-se de Deus ( Rm 5:19 ).

A humanidade foi encerrada debaixo da consequência da ofensa de Adão. Isto significa que a humanidade não se tornou desobediente em função de erros cometidos no dia a dia, antes todos são gerados na condição de filhos da desobediência, e já trazem sobre sí a penalidade estabelecida por Deus por causa da ofensa: a morte ( 1Co 15:22 ).

É em função desta verdade que o apóstolo Paulo demonstrou que todos foram encerrados debaixo da desobediência.

Como os judeus consideravam que, por serem descendentes da carne de Abraão, não estavam debaixo da condenação proveniente da ofensa de Adão, o apóstolo demonstra que, com relação à ofensa, todos os descendentes de Adão, inclusive os judeus, eram filhos da desobediência e estavam alienados da glória de Deus ( Rm 3:19 ).

Quando o apóstolo diz que ‘Deus encerrou a todos debaixo da desobediência’, demonstrou que todos estão sob a penalidade imposta à ofensa de Adão. A asserção paulina não diz que Deus obrigou o homem pecar, ou que Ele tenha criado o pecado, antes que todos sofrem a penalidade imposta a Adão.

Para evitar divisões na igreja local estabelecia em Roma, o apóstolo Paulo estava demonstrando que os judeus eram inimigos da igreja de Cristo ( Rm 11:28 ; Gl 4:29 ), porém, apesar de serem inimigos do evangelho, por causa da eleição (trazer e abrigar o Cristo segundo a carne), receberam o cuidado de Deus.

O cuidado, o amor que Deus dispensou ao povo de Israel era devido ao que Deus prometera aos patriarcas. Deus tinha o propósito de trazer Jesus Cristo ao mundo e prometera aos pais que da linhagem deles haveria de vir o Cristo. Foi em virtude do propósito e da promessa feita aos pais que o povo de Israel foi escolhido para proporcionar a vinda do Cristo ao mundo.

Observe o que Deus disse por intermédio de Moises: “O SENHOR não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos em número do que todos os povos; Mas, porque o SENHOR vos amava, e para guardar o juramento que fizera a vossos pais, o SENHOR vos tirou com mão forte e vos resgatou da casa da servidão, da mão de Faraó, rei do Egito” ( Dt 7:7 -8).

O povo de Israel pensava que era melhor que os gentios por ter sido escolhido por Deus, porém, Deus já havia alertado que o povo não foi escolhido por ser povo mais numeroso ou melhor que os outros povos, antes a escolha estava firmada na promessa feita aos patriarcas ( Rm 3:9 ).

O povo de Israel em nada era diferente dos outros povos, porém, eles foram ‘escolhidos’ por serem descendentes da carne dos patriarcas. Eles não foram eleitos para serem salvos, antes para uma missão, assim como Ciro, o rei dos Persas e o rei do Egito ( Is 45:1 ; Rm 9:17 ).

Recapitulando: Deus prometeu a Abraão, Isaque e Jacó que através da linhagem deles haveria de vir o Cristo, sendo que o povo de israel foi escolhido para esta missão especifica: abrigar a linhagem do Messias, ou seja, nenhum dos membros de Israel foram escolhidos para serem salvos. Deus tinha o proposito de trazer o Messias ao mundo, e o povo de Israel foi eleito para este propósito por causa da promessa que Deus fez aos pais. Deus prometeu a Abraão, Isaque e Jacó que traria o Cristo através da linhagem deles, e cuidou (amou) do povo de Israel para que a promessa fosse cumprida “Não é por causa da tua justiça, nem pela retidão do teu coração que entras a possuir a sua terra, mas pela impiedade destas nações o SENHOR teu Deus as lança fora, de diante de ti, e para confirmar a palavra que o SENHOR jurou a teus pais, Abraão, Isaque e Jacó ( Dt 9:5 ).

Por que Deus não rejeitou o povo de Israel para trazer o Cristo? Dai a resposta: Por que o que Deus dá (dons) e a missão estabelecida (vocação) são irrevogáveis. Apesar de serem incrédulos, a promessa de Deus não falhou ( Rm 9:6 ). A eleição deles tinha em vista a missão, e mesmo pertencendo a eles a adoção de filho, a glória, as alianças, as leis, o culto e as promessa, não eram filhos de Abraão ( Rm 9:7 -8).

No verso 29 de Romanos 11, o apóstolo Paulo demonstra que os cristãos convertidos dentre os gentios outrora eram desobedientes a Deus, mas que agora haviam alcançado misericórdia porque o povo de Isael foi desobediente, pois rejeitaram o Cristo ( Rm 11:25 ).

Mas, apesar dos judeus terem sido rebeldes, eles podem alcançar a mesma misericórdia que foi dada aos cristãos (v. 32). Não há outra misericórdia a ser demonstrada aos judeus durante a plenitude dos gentios, a não ser a demonstrada à igreja de Cristo. Todos os homens, quer sejam judeus ou gentios, estão sob a desobediência de Adão, de modo que com todos Deus usa da mesma misericórdia.

O princípio para o exercício da misericórdia de Deus não muda: “Com o benigno te mostrarás benigno; e com o homem sincero te mostrarás sincero; Com o puro te mostrarás puro; e com o perverso te mostrarás indomável” ( Sl 18:25 -26).

 

Não depende de quem quer ou quem corre

“Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece” ( Rm 9:16 )

No capítulo 9 de Romanos o apóstolo Paulo expressa a sua dor por ver a condição dos seus irmãos segundo a carne ( Rm 9:2 ). Neste capítulo ele continua a exposição de uma pergunta feita no capítulo 3: “Pois quê? Se alguns foram incrédulos, a sua incredulidade aniquilará a fidelidade de Deus?” ( Rm 3:3 ).

A palavra de Deus não falhou ( Rm 9:6 ), pois a incredulidade do homem jamais anula a fidelidade de Deus “Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também com ele viveremos; Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará; Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo” ( 2Tm 2:11 -13).

No verso 7, o apóstolo Paulo explica que, o fato de os seus irmãos segundo a carne serem descendência de Abraão, não os tornava filhos de Abraão. Ele demonstra que os judeus se equivocaram quanto ao pensarem que, por terem por pai Abraão, eram de fato os seus filhos.

Equivocaram-se por fazerem uma má leitura da promessa: “Em Isaque será chamada a tua descendência” (v. 7). Quando leram as Escrituras, pensaram que falava de muitos, porém, a promessa falava de um “Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo” ( Gl 3:16 ).

A explicação é clara: “Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência” (v. 8). O povo de Israel pensava que foram eleitos e predestinados para serem filhos de Abraão por serem descendentes da carne de Abraão. Prevaricaram com relação à interpretação das Escrituras, pois eram filhos de Adão “Mas eles transgrediram a aliança, como Adão; eles se portaram aleivosamente contra mim” ( Os 6:7 ); “Teu primeiro pai pecou, e os teus intérpretes prevaricaram contra mim” ( Is 43:27 ).

A palavra de Deus foi dada a Sara e também a Rebeca. À Sara foi dito: “Por este tempo virei, e Sara terá um filho”, mas a Rebeca foi dito “O maior servirá o menor”. Por que Deus não disse à Rebeca o mesmo que disse a Sara?

Temos dois eventos a analisar. Quando foi dito a Sara que ela teria um filho, ela era estéril. Com relação à criança herdar a benção de Abraão, bastou Sara despedir Agar dizendo: “Mas que diz a Escritura? Lança fora a escrava e seu filho, porque de modo algum o filho da escrava herdará com o filho da livre” ( Gl 4:30 ).

Quem foi escolhido: Ismael ou Isaque? A resposta é Isaque! E qual foi o parâmetro utilizado para a eleição de Isaque? O parâmetro utilizado para a eleição de Isaque foi o princípio lembrado por Sara: “E disse a Abraão: Ponha fora esta serva e o seu filho; porque o filho desta serva não herdará com Isaque, meu filho” ( Gn 21:10 ). Apesar de Abraão ficar triste com a proposta de Sara, foi Deus que confirmou a escolha, quando disse: “Não te pareça mal aos teus olhos acerca do moço e acerca da tua serva; em tudo o que Sara te diz, ouve a sua voz; porque em Isaque será chamada a tua descendência” ( Gn 21:12 ).

O que estas passagens demonstram? Que Deus não elegeu Isaque através da sua soberania, antes a escolha possui parâmetro especifico, pois Deus não nega o que é de direito aos filhos dos homens: o filho da escrava não herda com o filho da livre.

Mas, com relação a Esaú e Jacó há um entrave. Qual o parâmetro da eleição entre dois irmãos? A soberania de Deus? Não! A Primogenitura. Entre dois irmãos o primogênito é o eleito para receber a bênção, e a primogenitura é o parâmetro para a escolha. É em função desta peculiaridade que Deus disse a Rebeca: “O maior servirá o menor” (v. 12 ).

Sara e Rebeca eram estéreis. Para Sara foi dito que “Por este tempo virei, e Sara terá um filho”, mas a Rebeca, quando os filhos já estavam para nascer, foi dito “O maior servirá o menor” ( Gn 25:21 -23). Se Esaú não houvesse vendido o direito de primogenitura, Ele seria o eleito. Porém, como vendeu o seu direito de primogenitura, Jacó foi eleito. A escolha de Jacó se deu em função do direito de primogenitura, e não em virtude da soberania de Deus.

Eleito para que? Jacó foi eleito para que da sua linhagem descendesse o Cristo. Para confirmar que Israel foi eleito para trazer a descendência de Cristo, o apóstolo Paulo cita Malaquias: “Como está escrito: Amei a Jacó, e odiei a Esaú” ( Ml 1:2 ).

Daí a pergunta: “Que diremos pois? que há injustiça da parte de Deus? De maneira nenhuma” (v. 14). Em ambas as escolhas de Deus não houve injustiça, pois Isaque foi escolhido por ser filho da livre, e Jacó por ter adquirido o direito de primogenitura.

O que isto demonstra? Que Deus elege com base no direito estabelecido, o que diverge do pensamento de muitos: que Deus elege e predestina com base na sua soberania.

Para enfatizar esta verdade, o apóstolo Paulo cita o que Deus disse a Moisés: “Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” (v. 15). De quem Deus se compadece? Como já vimos, Deus se compadece daqueles que O amam, um parâmetro firme, pois a sua palavra é fiel “Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também com ele viveremos; Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará; Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo” ( 2Tm 2:11 -13).

Neste ponto o apóstolo Paulo conclui: “Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece” (v. 16). O que Moisés queria? Que Deus riscasse o seu nome do livro da vida caso não demonstrasse misericórdia ao povo. A misericórdia de Deus dependia do querer de Moises? Adiantava Moisés correr em favor do povo? Não!

Tudo depende de Deus, pois é Ele que se compadece. E como Ele demonstra a sua misericórdia? Ele demonstra a sua misericórdia aos que O amam, obedecendo ao seu mandamento.

A má leitura deste versículo é o que dá sustentáculo a doutrina calvinista da eleição absoluta. Enquanto o apóstolo Paulo estava enfatizando que não adiantou Moisés ‘querer’ ou ‘correr’ para que Deus tivesse misericórdia do povo, Calvino equivocadamente utiliza o texto para falar de virtude e mérito quanto à eleição para salvação “Vai, pois, agora, conduze este povo para onde te tenho dito; eis que o meu anjo irá adiante de ti; porém no dia da minha visitação visitarei neles o seu pecado. Assim feriu o SENHOR o povo, por ter sido feito o bezerro que Arão tinha formado” ( Êx 32:34 -35).

Ao ler esta passagem, não se pode perder de vista o aviso de Tiago: “Porque o juízo será sem misericórdia sobre aquele que não fez misericórdia; e a misericórdia triunfa do juízo” ( Tg 2:13 ). Este é mais um trocadilho! O que os homens entendem por misericórdia? Definem misericórdia como a virtude que leva um homem a compadecer da miséria alheia.

Seria desta misericórdia que Tiago escreveu? Não! Ele fala da mesma misericórdia que Jesus apresentou aos seus ouvintes no sermão do monte e a misericórdia que os fariseus ainda não haviam aprendido: o juízo de Deus é sem misericórdia sobre os que não O obedecem. A obediência é vitória sobre o juízo.

Esta mesma abordagem é feita por João: “No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena, e o que teme não é perfeito em amor” ( 1Jo 4:18 ). O termo ‘amor’ deve ser lido como ‘obediência’. Na obediência não há temor, antes a obediência perfeita lança fora o medo. É da natureza do temor a pena, de modo que quem teme é porque não obedeceu.

 

Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!

“O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!” ( Lc 18:13 ).

É bom revermos a passagem do fariseu e do publicano.

Ao contar a parábola do fariseu e do publicano, Jesus não fez referência à ideia da eleição ou da predestinação calvinista, e nem da arminianista.

Por que o fariseu não foi justificado? Porque Deus não o elegeu e nem predestinou?

A parábola é clara: o fariseu não foi justificado porque confiavam em si mesmos. Ele não alcançou misericórdia porque acreditava que era justo simplesmente por não roubar, não adulterar, dar o dízimo e jejuar, e por isso veio a desprezar os outros homens.

Com base em que o fariseu confiava em si mesmo? O fariseu confiava na sua carne, que por ser descendente da carne de Abraão fora predestinado por Deus para ser salvo ( Lc 18:9 ).

Já o publicano, ao chegar no templo, bateu no peito, dizendo: – ‘Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!’. O que justificou o publicano? Como o publicano alcançou misericórdia?

Observe que Jesus não fez alusão à ideia de predestinação absoluta, antes faz alusão à outra questão: ‘qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado’ (v. 14).

Deus tem misericórdia dos que se humilham, ou seja, dos que obedecem a sua palavra, visto que só obedecendo é possível se oferecer por servos “Eu amo aos que me amam, e os que cedo me buscarem, me acharão” ( Pr 8:17 ; Jl 2:32 ). A obediência é o principio da auto humilhação: “Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça?” ( Rm 6:16 ).

É Deus quem se compadece do homem, portanto, não há mérito algum em obedecer a Deus, pois é neste quesito que o homem se humilha, pois se fez servo. Qual é o mérito de alguém que se faz servo? É possível gloriar-se quando um servo se sujeita ao seu Senhor? Há alguma jactância?

Se Deus deu um mandamento, e o homem obedeceu, ofereceu-se por servo. Está é a humilhação que Deus exige: rendição completa à vontade de seu Senhor.

O salmista bendisse a Deus da seguinte forma: “Sê tu a minha habitação forte, à qual possa recorrer continuamente. Deste um mandamento que me salva, pois tu és a minha rocha e a minha fortaleza” ( Sl 71:3 ).

Deus salva os homens através de um mandamento, e não por intermédio de um fado, de uma sina, ou por predestinação. E qual é o mandamento de Deus que salva? “Mas que se manifestou agora, e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações para obediência da fé” ( Rm 16:26 ).

Cristo é a rocha da nossa salvação, e crer n’Ele é o mandamento que salva: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ).

 

Endurece a quem quer

Para compreender a fala do verso 17 de Romanos 9: “Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra”, temos que entender que é Deus que se compadece.

E como Deus se compadece? Ele se compadece tendo misericórdia dos que obedecem.

Ora, Deus deu a oportunidade de Faraó ouvir a palavra, considerar e tomar uma decisão, mas Faraó não deu crédito “Porém o coração de Faraó se endureceu, e não os ouviu, como o SENHOR tinha falado” ( Ex 7:13 ). O endurecimento de Faraó é notório porque foi mantido vivo apesar de resistido a ordem de Deus por várias vezes.

Em seguida é emitido um protesto de Deus contra Faraó: “Porque agora tenho estendido minha mão, para te ferir a ti e ao teu povo com pestilência, e para que sejas destruído da terra; Mas, deveras, para isto te mantive, para mostrar meu poder em ti, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra. Tu ainda te exaltas contra o meu povo, para não o deixar ir?” ( Ex 9:16 ).

Faraó foi escolhido para desempenhar uma missão, assim como o foi Ciro, e da mesma forma que o foi Israel. A missão de Faraó era tornar conhecido o nome de Deus em toda a terra. Porém, ele ouviu a palavra de Deus e poderia aquiescê-la, mas o fato de ser recalcitrante, afastou a misericórdia de Deus.

É neste ponto que o apóstolo Paulo chega a seguinte conclusão: “Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer” ( Rm 9:18 ). Eis o porquê da leitura feita anteriormente: Deus se compadece de quem quer, e Ele quer compadecer-se dos que O obedecem segundo o seu mandamento. Por outro lado, aos que rejeitam o mandamento de Deus, Deus não exerce misericórdia, pois Ele não pode se compadecer dos que rejeitam a sua palavra.

Como Deus quer demonstrar misericórdia aos que O amam, e não quer demonstrar misericórdia aos que rejeitam, certo é que Ele se ‘compadece’ de quem quer e não se ‘compadece’ de quem quer. Novamente temos um trocadilho! Como o rei do Egito tornou-se símbolo de obstinação, de endurecimento e de rejeição à misericórdia de Deus demonstrada, o apóstolo substitui a frase ‘não se compadece’ por ‘endurece’.

A frase: “Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer” ( Rm 9:18 ), pode ser escrita da seguinte forma: “Logo, pois, ‘compadece-se de quem quer’, e ‘não se compadece de quem quer’” ( Rm 9:18 ).

Daí a replica dos interlocutores recalcitrantes: Por que Deus se queixa ainda, visto que não temos resistido a sua vontade “Dir-me-ás então: Por que se queixa ele ainda? Porquanto, quem tem resistido à sua vontade?” (v. 19 ). Observe que o que o apóstolo Paulo apresenta neste verso não é o que dizem alguns calvinistas, de que o homem não pode resistir à vontade de Deus. O verso demonstra que os homens argumentavam que de modo algum resistiram à vontade de Deus, porém, estabelecer uma justiça própria é resistir a vontade de Deus ( Rm 10:3 ).

Embora argumentassem que não resistiam à vontade de Deus, na verdade tropeçaram na pedra de tropeço “Que diremos pois? Que os gentios, que não buscavam a justiça, alcançaram a justiça? Sim, mas a justiça que é pela fé. Mas Israel, que buscava a lei da justiça, não chegou à lei da justiça. Por quê? Porque não foi pela fé, mas como que pelas obras da lei; tropeçaram na pedra de tropeço; Como está escrito: Eis que eu ponho em Sião uma pedra de tropeço, e uma rocha de escândalo; E todo aquele que crer nela não será confundido” ( Rm 9:30 -33).

Qualquer que não obedece a Deus, antes busca servi-Lo pelas obras da lei, não alcança misericórdia. Está resistindo à vontade de Deus, que estabeleceu que a sua misericórdia decorre da justiça da fé ( Rm 10:6 ).

Moisés havia intercedido pelo povo e Deus o atendeu ( Êx 32:11 -14), porém, quando propôs que Deus riscasse o seu nome do livro da vida, Deus demonstrou que a sua misericórdia não estava atrelada ao esforço e disposição de Moisés, antes a misericórdia é de exclusividade dos que amam a Deus. Portanto, o verso em comento não possui relação alguma com a doutrina da predestinação absoluta.

Ler mais

Predestinação e eleição na ‘pré-ciência’?

Após a queda da humanidade, a redenção passou a ser condicionada ao Descendente da mulher ( Gn 3:15 ), e o dia chamado ‘hoje’ é o dia oportuno de salvação. Se a salvação e a perdição fossem incondicionais, o ‘hoje’ não seria o momento de salvação, ou o ‘dia’, ou o ‘ano’ sobre modo oportuno, antes a oportunidade e o dia de salvação estaria na eternidade, antes que houvesse mundo, pois lá seria estabelecido os perdidos e os salvos ( Is 61:2 ; Hb 3:7 ; ).


 

“Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas” ( 1Pe 1:2 )

No afã de justificar uma concepção doutrinária acerca da eleição e predestinação, alguns estudiosos redefiniram o significado do termo ‘pré-conhecimento’ para ‘presciência’ ou ‘pré-ordenação’. Isto seria mesmo necessário? Para justificar um posicionamento doutrinário é correto redefinir termos básicos como graça, perdição, presciência, etc.?

A seguinte passagem bíblica: “… pelo determinado conselho e presciência de Deus…” ( At 2:33 ), é muito utilizada para demonstrar a concepção doutrinária de que algumas pessoas em particular foram ‘escolhidas’ e ‘predestinadas’ para serem salvas, e outras não. O ‘determinado conselho’ é o mesmo que ‘presciência’? O que é presciência? Presciência é o mesmo que ‘pré-ordenar’?

 

Conselho

“A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos” ( At 2:23 )

O apóstolo Pedro demonstra aos seus leitores que Jesus foi entregue aos homens em função do conselho de Deus. Que conselho é este que Deus estabeleceu (determinado)?

Segundo o conselho de Deus Cristo foi entregue, ou seja, Cristo não foi conquistado, antes se entregou em obediência ao conselho da vontade de Deus “… daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade” ( Ef 1:11 ; Jo 10:17 ).

Este conselho foi estabelecido na eternidade e é imutável, pois está atrelado ao seu propósito estabelecido em Cristo conforme o exarado em sua palavra. O conselho de Deus decorre da sua vontade, do seu desígnio, e foi exarado nas Escrituras muito antes de ocorrer “Que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade” ( Is 46:10 ); “Assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei” ( Is 55:11; Hb 6:17 ).

O conselho segundo a vontade de Deus é fazer Cristo preeminente, estabelecendo-O como o primogênito entre muitos irmãos e o mais elevado dentre os reis da terra. Esta vontade foi levada a cabo quando o Cristo foi introduzido no mundo, foi obediente ao Pai até a morte, e morte de cruz, e ressurgiu dentre os mortos. Este é um desígnio soberano, firme e imutável, assim como a palavra de Deus é firme, imutável e faz tudo o que é aprazível.

Deus fará que o Filho tenha preeminência em tudo. Para consumar o seu propósito, Deus criou o homem, e, ao desobedecer a ordem divina, o homem ficou impróprio para o seu propósito.

Mas, graciosamente, Deus providenciou salvação a todos os homens e deseja que todos se salvem e, todos que aceitam a salvação em Cristo, concomitantemente, passam a fazer parte do propósito de tornar o Filho primogênito entre muitos irmãos. Este ‘querer’ de Deus (diferente do conselho da sua vontade) não é uma imposição, antes expressa um desejo “Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” ( 1Tm 2:4 ).

O ‘conselho’ de Deus é fruto do conhecimento, da sabedoria, da vontade, da prudência, e faz o que é aprazível, perfeito diante dele ( Pv 3:19 -20).

Em função da sua vontade Deus criou o mundo através da palavra do seu poder ( Ap 4:11 ) e, antes de criar o homem à sua imagem e semelhança, Ele expressou a sua vontade conforme lemos em seu Conselho: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” ( Gn 1:26 ).

A vontade perfeita de Deus está registrada em seu Conselho, a sua perfeita vontade é expressa na sua palavra: “Porquanto se rebelaram contra as palavras de Deus, e desprezaram o conselho do Altíssimo” ( Sl 107:11 ).

O desígnio de Deus decorre do conselho da sua vontade, porém, em nada fere a vontade livre dos homens. A essência de Deus é liberdade, equidade, justiça, imutabilidade, etc., e na execução desta vontade, jamais Deus poderia conspurcar a vontade livre de suas criaturas.

Deus não faz acepção de pessoas, de modo a dar livre vontade para alguns sem concedê-la a outros. Por ser justo e equânime, ao oferecer salvação a todos os homens, sem exceção todos devem fazer exercício da sua livre vontade, aceitando ou rejeitando o dom de Deus em Cristo.

Para os homens serem remidos da ofensa, segundo a sua boa vontade, Deus utilizou-se da sua multiforme sabedoria e prudência ( Ef 1:8 ).

Quando se lê: “A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos” ( At 2:23 ), o ‘determinado conselho’ refere-se às Escrituras que de ante mão (presciência) demonstrava que Deus entregaria o seu próprio Filho à morte, e morte de cruz, por mãos de malfeitores.

Os atos de Deus decorrem da sua vontade, vontade esta que está registrada em seu Conselho e é imutável, que por sua vez, leva a termo o seu propósito. Tudo o que Deus faz é segundo o seu conselho; é segundo o que lhe apraz; é segundo a sua palavra, que é Cristo, o Verbo encarnado ( At 4:28 ; At 20:27 ; Hb 6:17 ).

 

Obs.: beneplácito s. m.- 1. Consentimento; 2. Aprovação; 3. Aprazimento, e 4. Licença.

 

O Propósito Eterno

Mas, por que Deus criou o homem? Porque na eternidade Deus propôs segundo a sua vontade estabelecer a sua palavra acima de todo o Seu nome e, para tanto, a Sua palavra teria que ter preeminência em tudo “Inclinar-me-ei para o teu santo templo, e louvarei o teu nome pela tua benignidade, e pela tua verdade; pois engrandeceste a tua palavra acima de todo o teu nome” ( Sl 138:2 ).

Em outras palavras, Deus criou o homem para estabelecer a preeminência de Cristo em tudo e, ao levar a efeito o predito acerca do seu Filho, a fidelidade e imutabilidade da sua palavra é demonstrada ( Cl 1:18 ).

Quando estabeleceu a igreja, o corpo de Cristo, Deus desvendou o mistério da sua vontade, que é convergir em Cristo todas às coisas. Só através da igreja é possível os homens ver o beneplácito que Deus propôs em Cristo e, por intermédio da igreja os anjos conseguiram ver a multiforme sabedoria de Deus ( Ef 1:9 e 3:10 ).

Para levar a efeito o seu propósito: ‘Cristo preeminente em tudo’, Deus criou o homem.

Mesmo sabendo que Adão transgrediria e que a geração segundo a semente de Adão ficaria aquém do seu propósito (onisciência), Deus criou o homem.

Mesmo sabendo que todos os descendentes da carne de Adão tornar-se-iam imundos, incompatíveis para o propósito estabelecido, Deus levaria a efeito seu desígnio.

A queda da humanidade não foi um obstáculo ao desígnio de Deus, pois o seu propósito é imutável “O conselho do SENHOR permanece para sempre; os intentos do seu coração de geração em geração” ( Sl 33:11 ). Para estabelecer a sua palavra acima de todo o seu nome, Deus anunciou as boas novas do evangelho aos homens perdidos para trazer a existência uma nova geração de homens espirituais segundo a semente do último Adão, que é Cristo.

O propósito que consta no conselho de Deus é tornar seu Filho Unigênito, o Primogênito entre muitos irmãos. Através da mensagem do evangelho, todos os que creem são de novo gerados e recebem poder para serem feitos filhos de Deus e, a cada conversão, o número de irmãos de Cristo que são conduzidos à glória pelo Filho aumenta, de modo que entre seus semelhantes, os filhos de Deus, Cristo é preeminente.

Tiago escreveu dizendo que Deus gerou de novo os cristãos pela palavra da verdade, para que fossem como o melhor (primícias) das suas criaturas. Ora, os homens espirituais são superiores aos homens carnais e aos anjos. O apóstolo Paulo, por sua vez, deixa claro que, tal qual Cristo é, assim são os homens de novo gerados pela semente incorruptível: semelhantes a Ele “Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas” ( Tg 1:18 ); “O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o Senhor, é do céu. Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais também os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial” ( 1Co 15:47 -49).

O apóstolo Paulo relata que Deus revelou o mistério acerca da sua vontade ao estabelecer a Igreja. E que mistério era este? Tornar Cristo preeminente em tudo, de modo que através da Igreja, Deus congrega em Cristo todas as coisas. Através das suas novas criaturas, que são primícias, semelhantes a Ele, Jesus é o primogênito de toda a criação: preeminente entre muitos irmãos! ( Cl 1:15 )

Para resgatar a humanidade que jazia em trevas sob a maldição do pecado de Adão, Cristo ofertou o seu corpo segundo a vontade de Deus ( Hb 10:10 ; Hb 10:9 ). Para torná-lo preeminente, o primogênito de toda a criação, Deus ressuscitou a Cristo dentre os mortos através do seu poder, momento em que Ele tornou-se primogênito dentre os mortos.

Antes de ser morto e ser sepultado, Cristo era semelhante em tudo aos homens, no entanto, após ressurgir dentre os mortos, Cristo conquistou a posição de semelhante ao Altíssimo ( Sl 17:15 ), e tornou-se a expressa imagem de Deus ( Hb 1:3 ), e todos que são sepultados à semelhança da sua morte ressurgem com Cristo uma nova criatura e, trazem a imagem do homem celestial, sendo semelhantes ao Altíssimo “E vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” ( Cl 3:10 ).

O propósito eterno de Deus é único e foi estabelecido na pessoa de Cristo: a preeminência de Cristo em todas as coisas! “Segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor” ( Ef 3:11 e 1:9 ).

Diferente dos homens, Deus é perfeito, pois não depende de raciocínio, de intuição, de análise para chegar a uma conclusão. Deus simplesmente age segundo a sua boa vontade. Ele é todo poder, sabedoria, conhecimento, onipresente, onisciente, etc., o que não demanda da parte dele raciocínio, inquirir, concluir, etc. Ele faz todas as coisas segundo o conselho (beneplácito) da sua vontade.

O propósito eterno de Deus é algo que Ele, na eternidade, propôs realizar em si mesmo “Segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor” ( Ef 3:11 ). Tal propósito visou a sua própria glória e graça ( Ef 1:6 e 12).

A salvação refere-se ao tempo chamado ‘hoje’, e há um tempo estabelecido para encerrar, mas, o propósito de Deus é eterno, visto que foi proposto em si mesmo e perdurará por toda eternidade.

Na eternidade Deus propôs convergir em Cristo todas as coisas “De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra” ( Ef 1:10 ), de modo que Ele fez o Verbo ressurreto herdar um nome que é acima de todos os nomes e que perdurará para sempre “Acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro” ( Ef 1:21 ; Fl 2:9 ; Sl 138:2 ; Hb 1:4 ).

Deus é conhecido pelo seu poder e grandeza, sendo nomeado grande, poderoso e o terrível Senhor dos exércitos “Pois o SENHOR vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e terrível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita recompensas” ( Dt 10:17 ); “Porque o SENHOR é Deus grande, e Rei grande sobre todos os deuses” ( Sl 95:3 ; Sl 138:2 ), porém, foi do seu agrado elevar a sua palavra acima de todo o seu nome.

O que isto significa? Significa que, Deus não quer ser reverenciado, tão somente, por seus atributos como onipotência, onisciência, onipresença. Deus propôs dar-se a conhecer às suas criaturas através da sua fidelidade, bondade, misericórdia, etc. Para sua palavra, que é fiel, assumir tal posição, Cristo foi encarnado na condição de unigênito do Pai segundo o anunciado pelos profetas ( Jo 1:1 e 12 ; Sl 138:2 ).

O propósito eterno de Deus visa a sua própria glória (para louvor e glória de sua graça), pois ao revelar aos homens, na plenitude dos tempos, o Verbo encarnado, fez com que a sua palavra tenha preeminência em tudo, visto que, Cristo foi constituído cabeça da igreja “Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens” ( Tt 2:11 ); “E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência” ( Cl 1:18 ).

O corpo de Cristo, que é a igreja, é formado por muitos filhos de Deus semelhantes Aquele que os criou “E vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” ( Cl 3:10 ), sendo que, na hierarquia celestial, os membros do corpo de Cristo assumiram a mais alta posição, superior a dos anjos, o que os tornam primícias das criaturas de Deus “Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas” ( 1Co 6:2 e 3; Tg 1:18 ).

Justamente por ser ‘as primícias’ das criaturas de Deus é que a igreja, geração dos filhos de Deus, serve ao propósito que foi estabelecido em Cristo, pois como cabeça daqueles que são gerados de novo, Ele é preeminente entre muitos irmãos, posição superior a todas as criaturas de Deus “E da parte de Jesus Cristo, que é a fiel testemunha, o primogênito dentre os mortos e o príncipe dos reis da terra. Àquele que nos amou, e em seu sangue nos lavou dos nossos pecados” ( Ap 1:5 ).

É através de Cristo que o propósito de Deus se concretiza, sendo que através d’Ele, uma nova geração de homens espirituais inscritos nos céus forma uma assembleia universal de primogênitos “Segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor” ( Ef 3:11 ); “À universal assembleia e igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus, e a Deus, o juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados” ( Hb 12:23 ).

E não somente isto, Deus propôs fazer também o seu Filho o mais elevado dos reis da terra, concedendo a Ele o trono de Davi e, por herança, todas as nações “Também o farei meu primogênito mais elevado do que os reis da terra” ( Sl 89:27 ; Sl 2:8 ; Is 52:13 -15).

Cristo é a cabeça da igreja e é na união de Cristo com o seu corpo que o propósito celestial é estabelecido. Cristo também é rei, o mais elevado da terra, pois assentará no trono de Davi, e n’Ele é estabelecido o propósito terreno conforme o prometido a Abraão.

É com base no que Deus propôs em Cristo, o Verbo de Deus encarnado, que a sua palavra é alçada acima de todos os nomes pelo qual Deus é nomeado “Inclinar-me-ei para o teu santo templo, e louvarei o teu nome pela tua benignidade, e pela tua verdade; pois engrandeceste a tua palavra acima de todo o teu nome” ( Sl 138:2 ).

Além de conhecido pelo seu poder, magnificência e soberania, é do agrado de Deus torna-se conhecido pela sua palavra, que é fiel, verdadeira, imutável, etc., o que O fez elevar a sua palavra acima de todo o seu nome, para que as suas criaturas o sirvam com temor e alegria “Servi ao SENHOR com temor, e alegrai-vos com tremor” ( Sl 2:11 ).

A palavra ‘temor’ neste salmo não é o mesmo que medo, antes ‘temor’ é o mesmo que a palavra de Deus e, ‘tremor’ é obediência, confiança na sua palavra “Ouvi a palavra do SENHOR, os que tremeis da sua palavra” ( Is 66:5 ; Sl 34:11 ; Sl 86:11 ).

A eleição e a predestinação refere-se ao propósito que Deus estabeleceu em Cristo, já a salvação decorre da misericórdia de Deus revelada em Cristo.

Em todos os tempos (dispensações), Deus, pela sua graça, salva os homens que se perderam em decorrência da ofensa de Adão, porém, somente os salvos na plenitude dos tempos, pela graça contida no evangelho, constituem a igreja, o corpo de Cristo, a geração eleita, predestinada para serem conforme a imagem de Cristo.

Somente os salvos na plenitude dos tempos, por intermédio da graça revelada no evangelho, são chamados para fazerem parte do propósito que Deus estabeleceu em Cristo. Deus salva por intermédio do poder contido na sua palavra (evangelho) e todos os salvos em Cristo, ou seja, na plenitude dos tempos (período compreendido entre a ressurreição de Cristo e o arrebatamento da igreja), foram eleitos antes dos tempos dos séculos para compor o corpo de Cristo e faz parte do propósito que Deus estabeleceu em Si mesmo “… antes participa das aflições do evangelho segundo o poder de Deus, que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” ( 2Tm 1:9 ; Rm 1:16 ).

Primeiro Deus salva o homem por intermédio do poder contido na sua palavra, pois Deus estabeleceu antes dos tempos dos séculos que aqueles que cressem em Cristo, além de serem salvos da condenação que há no mundo, são chamados com uma santa vocação, segundo o seu eterno propósito: tornar Cristo preeminente.

 

Presciência

Soberanamente Deus levou a efeito o seu conselho que estabelecera em Cristo antes dos tempos imemoriais, de fazê-lo preeminente. A vontade de fazer Cristo preeminente é perfeita e boa e, não há quem possa se insurgir contra o propósito de Deus e sair vitorioso.

Para estabelecer o propósito eterno, Deus levou a efeito o seu conselho, não poupando o seu único Filho (gerado pelo Espírito Santo) e nem os judeus, que eram os ramos naturais ( Rm 8:32 e Rm 11:21 ), e entregou o seu Filho para ser crucificado e morto pela mão de homens injustos. Porém, tudo foi feito segundo a vontade de Deus conforme o predito nas Escrituras pelos profetas, ou seja, segundo o conselho e presciência “A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos” ( At 2:23 ).

Por que pela ‘presciência’? Ora, desde a eternidade, ao estabelecer de antemão que faria Cristo o mais sublime entre os sublimes (propósito eterno), Deus sabia que a geração de Adão tornar-se-ia imunda, pois todos juntamente em um único evento (onisciência), a desobediência de Adão, se desviariam do propósito e da comunhão com Deus ( Sl 53:3 ; Sl 58:3 ).

Cristo foi entregue, morreu, ressurgiu segundo o conselho de Deus, ou seja, o conselho refere-se ao que Deus antecipou aos homens nas Escrituras e o propósito eterno é Cristo primogênito entre muitos irmãos.

A ‘presciência’ de Deus refere-se ao ‘conhecimento’ de Deus anunciado previamente pelos seus profetas de que Cristo seria morto na plenitude dos tempos em função do beneplácito da vontade de Deus, pois Cristo é o Cordeiro de Deus morto deste a fundação do mundo, ou seja, a ‘presciência’ ou o ‘pré-conhecimento’ diz dos eventos que se sucederam com relação à vida e morte de Cristo em conformidade com as Escrituras “E adoraram-na todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” ( Ap 13:8 ).

Deus estabeleceu de antemão que haveria de entregar o seu único Filho, pois somente o sangue imaculado, incontaminado de Cristo resgataria os homens do domínio do pecado. Pelas profecias foi anunciado que o cordeiro seria morto, de modo que o sangue do Cordeiro já era conhecido ainda antes da fundação do mundo, porém, tal sacrifício só tornou-se conhecido dos homens na plenitude dos tempos (presciência ou pré-conhecimento) “Mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado, o qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós” ( 1Pe 1:19 -20 ; Hb 9:26 ).

Tornou-se consenso na teologia que o termo ‘presciência’ quer dizer que Deus prevê eventos futuros, e não é questionado tal uso. Devemos ter o cuidado de analisar os termos empregados nas Escrituras dentro do seu contexto, e segundo os princípios bíblicos, ou incorreremos em erros graves. Além de muitos aceitarem passivamente certos consensos, temos também os problemas decorrentes das barreiras culturais que obscurece as nuances da língua em que o Novo Testamento foi escrito, sem falar nas propensões teológicas que surgem ao longo do tempo.

“Presciência”, ou “pré-conhecimento” é um termo secular, mas ao ser inserido no Novo Testamento adquire um significado peculiar em decorrência do tema central das Escrituras. Como o termo ‘fé’, por exemplo: possui uma identidade sacra porque ao utiliza-la, muitos são remetidos a ideia de religião, entretanto, o termo ‘fé’ é similar a qualquer outra palavra quanto ao seu uso secular, visto que fé deriva evoca o que é verdadeiro, fidedigno, fiel.

O substantivo pistis, cujo verbo é pisteuein, foi utilizado pelos apóstolos para fazer referência a Cristo como a fé que havia de se manifestar. No verso a seguir o uso do termo é objetivo, pois identifica a pessoa de Cristo, através de uma figura de linguagem (metonímia) estrategicamente aplicada pelo escritor ao texto para evocar uma ideia acerca da pessoa do Cristo “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” ( Gl 3:23 ).

Se depender de um dicionário, ou da compreensão temporal, o termo fé (do Latim fides, fidelidade e do Grego pistia) diz de uma opinião firme de que algo é verdade, mesmo que não haja qualquer tipo de prova ou critério objetivo de verificação. Também é apontada a ideia de que fé refere-se à adesão a um dogma de uma doutrina religiosa.

Mas, considerando o contexto de Gálatas 3, verso 23, qual o significado de fé? Ora, o texto faz com que o significado do termo transcenda, pois o termo deixa de fazer referencia a uma crença subjetiva ou a um dogma específico para fazer referência à pessoa de Cristo. Neste sentido, o mesmo ocorre com o termo proginosko e, para determinar o seu significado bíblico temos que considerar as passagens onde o termo é empregado.

Não é recomendável abstrair o significado do termo ‘presciência’ simplesmente com base na definição contida em um dicionário. É usual utilizar o termo onisciência para fazer referencia ao conhecimento que Deus possui de todas as coisas, da mesma forma tornou usual utilizar o termo ‘presciência’ para dizer que Deus vê eventos futuros, porém, como o conhecimento de Deus é uno, ou seja, não podemos fracioná-lo em passado, presente e futuro, visto que Ele sabe todas as coisas igualmente bem, não se deve aceitar passivamente o termo ‘presciência’ como um aspecto da onisciência.

A palavra traduzida por presciência (proginosko) é um composto de ‘pró’(antes) e ‘ginosko’ (conhecer, saber). Estudiosos apontam que o prefixo ‘pró’(antes) situa o termo no tempo ou no espaço e não alteram o seu sentido.

Os estudiosos analisam o termo quando empregado no grego clássico, na septuaginta, no grego Koine e no Novo Testamento.

Vale destacar que, na literatura clássica, o verbo ‘proginosko’ e sua forma substantiva (prognóstico) possui conotação de conhecimento futuro, significando “conhecer, perceber, aprender, saber ou compreender de antemão para que o sabedor possa emitir um julgamento, uma opinião ou decidir de antemão”, o que não inclui o conceito de decreto ou de preordenação.

O termo ‘ginosko’ é utilizado para fazer referencia a comunhão íntima que o homem compartilha com Deus. Aplicar o sentido de ‘ginosko’ e ‘yada’’ ao homem como ‘saber’ ou ‘vir a saber’ é perfeitamente compreensível, mas aplicar estes mesmos termos a Deus produz um entrave.

Deus sabe (ginosko) todas as coisas, e o termo utilizado para fazer referencia a este saber na teologia é onisciência. Não há nada que Deus desconheça ou que tomará conhecimento por toda a eternidade.

Quando lemos: “Porque eu o tenho conhecido, e sei que ele há de ordenar a seus filhos e à sua casa depois dele, para que guardem o caminho do SENHOR, para agir com justiça e juízo; para que o SENHOR faça vir sobre Abraão o que acerca dele tem falado” ( Gn 18:19 ), o termo ‘conhecido’ não diz de uma previsão, ou de um ‘saber acerca de’, antes diz da comunhão, do relacionamento íntimo entre Abraão e Deus.

É em função da comunhão estabelecida entre Abraão e Deus que Deus dá testemunho do que sucederá a linhagem de Abraão. Deus deu uma ordem a Abraão e, quando ele obedeceu, formou-se um vínculo perfeito.

O ‘ conhecimento’ de Deus acerca de seus servos é relacional, assim como o homem conhece a sua mulher ( Gn 4:1 e 17).

Há traduções bíblicas que vertem o termo ‘conhecer’ (ginosko e yada) por ‘escolhido’, o que perverte o significado do termo, pois ao traduzir o termo yada’tayv, além do termo ginosko, também é utilizado o termo equivalente ‘ergo’.

Quando se refere ao profeta Jeremias, o conhecimento de Deus é ‘saber acerca de’ ( Jr 1:5 ), o que remete a mesma ideia registrada em João 8, verso 58: ‘… antes que Abraão existisse, eu sou’. Desde sempre Deus é o Eu Sou e desde sempre Ele sabe o presente, o passado e o futuro. A palavra que veio a Jeremias serviu de consolo, garantia, segurança, incentivo, demonstrando ao vidente que, antes de ser formado no ventre, o Eu Sou já sabia de Jeremias e estabeleceu ele como profeta.

O verso não indica uma relação intima entre Jeremias e Deus antes que fosse formado no ventre materno, visto que só Deus é pré-existente. Ora, é possível ser profeta, porém, não ter comunhão com Deus, ou seja, conhecê-lo, ou antes ser conhecido d’Ele como foi o caso de Balaão ( Jd 1:11 ).

O termo ginosko na Septuaginta é utilizado no sentido de ‘conhecer’, ‘saber acerca de’, e tanto os homens quanto Deus figuram como sujeito deste verbo. Os homens são informados acerca de, e Deus, por sua vez, sabe perfeitamente todas as coisas, o que não exclui eventos futuros.

É inegável que Deus conhece todas as coisas, eventos, fenômenos e pessoas, mas quando é dito que Deus ‘conhece’ alguém, o sentido do termo transcende a ideia de ‘saber acerca de’ e passa a ter a conotação de relação íntima. Não podemos nos apegar as definições léxicas, como é o caso de ‘ginosko’ que significa ‘saber’, ‘vir a conhecer’, pois o termo em função do contexto também é utilizado para relações sexuais ou, para fazer referência a uma comunhão íntima, indicando que o homem pertence a Deus ou que se tornou um com Ele.

A Septuaginta é um importantíssimo objeto de pesquisa e de comparação para melhor compreender a língua grega e o surgimento de hebraísmo. Através dela é possível observar várias nuances pertinentes as duas línguas pela conexão entre as ideias do Antigo Testamento e o Novo.

Porém, conhecer a língua hebraica e a língua grega não é garantia de uma correta interpretação, conforme se depreende das passagens bíblicas a seguir: “Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício. Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento” ( Mt 9:13 ). Se os doutores de Israel que conheciam o grego e o hebraico não compreendiam o significado de ‘misericórdia’, o que mais não compreendiam?

Dos escribas e fariseus disse o apóstolo Paulo: “Querendo ser mestres da lei, e não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam” ( 1Tm 1:7 ). Os judaizantes não entenderem o que diziam e nem o que afirmavam, demonstra que o conhecimento linguístico não deve ser tido como algo que confere autoridade nos assuntos pertinentes as Escrituras.

Apesar de os judeus serem guardiões das Escrituras, não tinha o ‘conhecimento’ de Deus ( Rm 10:2 ), rejeitaram o Cristo previsto nas Escrituras, pois não sabiam responder de quem o Cristo é Filho ( Mt 22:41 -46).

Isto demonstra que, conhecer o hebraico e o grego não garante uma compreensão da mensagem do evangelho “Por que não entendeis a minha linguagem? Por não poderdes ouvir a minha palavra” ( Jo 8:43 ). Doutorado em hebraico e grego não habilita ninguém a ser mestre do evangelho, pois se assim fosse os fariseus e os escribas à época de Cristo seriam os primeiros a entrar no reino dos céus.

Ora, o termo fé, além de estar relacionado à verdade, relaciona-se com os seguintes termos: veracidade, sinceridade, honradez, retidão, fidelidade, lealdade, seguridade, crédito e firmeza. Por definição, muitos teólogos argumentam que fé (acreditar) é sempre um dom de Deus, e nunca algo que pode ser produzido pelas pessoas’.

A declaração acima parece verdadeira, mas se analisarmos detidamente a colocação acima, verifica-se que o dom de Deus é Cristo, que por sua vez é descrito como ‘a fé que havia de se manifestar’ “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” ( Ef 2:8 ); “Jesus respondeu, e disse-lhe: Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva” ( Jo 4:10 ).

Na verdade, Cristo – o dom de Deus – jamais poderia ser produzido pelas pessoas. Cristo é a fé, a fidelidade, a verdade digna de toda confiança, de modo que primeiro é manifesta a fé para que o homem possa nela crer. O termo fé deriva de fidelidade.

É comum dar ao termo fé o sentido de crer, acreditar, mas se considerarmos as escrituras o termo grego ‘pistis’ e o hebraico arcaico ‘emunah’ decorre de fidelidade. Cristo é apresentado como a fé porque Ele é fiel, verdadeiro, digno de confiança. Se Cristo é digno de confiança, o mérito em confiar n’Ele não é do homem, antes de Cristo.

Quando dizem que fé ‘é sempre um dom de Deus, e nunca algo que pode ser produzido pelas pessoas’, geralmente os teólogos querem dizer que é impossível ao homem crer em Cristo se antes não for regenerado, alegando que há mérito em crer. Entretanto, não há mérito em quem confia, o mérito está naquele que é verdadeiro, firme, fiel.

O termo fé adquire significado único no contexto das Escrituras, pois às vezes é apresentado como o Cristo ( Gl 3:23 ), ou como a doutrina do Evangelho ( Jd 1:3 ; Rm 1:8 ).

O mesmo ocorre com o termo piedade, que se considerarmos o seu significado secular é compaixão, dó, pena, comiseração. Do ponto de vista ‘teológico’, alguns dão o significado de ‘virtude que leva a render a Deus a honra que lhe é devida’, ‘devoção’, ‘afeição e respeito pelas coisas da religião’.

Se considerarmos a análise que fazem do termo piedade, geralmente buscam o seu significado no grego. A palavra “piedade” vem do termo grego “eusebeia”, junção de duas palavras: “eu” que significa “bom ou correto”, e “sebomaie” que significa “adorar”. Daí a conclusão: piedade é adorar bem ou corretamente.

Mas, seria este o seu significado quando encontramos o termo piedade nas Escrituras?

O que significa ‘piedade’ neste verso: “E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória” ( 1Tm 3:16 ). O termo ganhou novo significado, pois representa a essência do evangelho: “Contendas de homens corruptos de entendimento, e privados da verdade, cuidando que a piedade seja causa de ganho; aparta-te dos tais” ( 1Tm 6:5 ).

Este mesmo fenômeno ocorre com o termo ‘conhecimento’ quando inserido no contexto do Novo Testamento. Quando o apóstolo Paulo escreveu aos cristãos de corinto dizendo: “Destruindo os conselhos, e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento (γνῶσις gnósis) de Deus, e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo” ( 2Co 10:5 ); “E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento (γνῶσις gnósis) de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo” ( Fl 3:8 ).

O termo γνῶσις (gnósis) é um termo cognato derivado de ginóskó que significa ‘conhecimento’, ‘doutrina’, ‘sabedoria’, que dentro do contexto do Novo Testamento aponta para o conteúdo do evangelho.

Quando lemos este verso de Hebreus: “Porque, se pecarmos voluntariamente, depois de termos recebido o conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados” ( Hb 10:26 ), o termo ἀλήθεια (alétheia – verdade) assume a conotação de evangelho, do conhecimento, da doutrina, e o termo conhecimento (ἐπίγνωσις – epignósis) significa reconhecimento, discernimento da verdade.

Ora, o conhecimento de Deus é equivalente à lei, a palavra de Deus “Porque os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento, e da sua boca devem os homens buscar a lei porque ele é o mensageiro do SENHOR dos Exércitos” ( Ml 2:7 ).

Ora, o termo ‘conhecimento’ possui várias conotações no contexto das Escrituras, com pelo menos quatro variantes a serem consideradas e, quando nos depararmos com o termo ‘conhecimento’ dentro do contexto do Novo Testamento, pode significar:

  • ‘saber acerca de’, ‘ter conhecimento de’;
  • ‘comunhão íntima’, ‘relacionamento interpessoal’;
  • ‘relação sexual’, e;
  • ‘doutrina’, ‘evangelho’.

É por isso que a compreensão do termo ‘presciência’ ou ‘pré-conhecimento’ não pode basear-se no significado que um dicionário apresenta. Apesar de muitos estudiosos dizerem que o significado de um termo deve ser compreendido a partir do contexto onde foi aplicado, de pronto relacionam o termo presciência com a onisciência divina, o que leva ao erro.

É correta a informação que os estudiosos da língua grega apresentam sobre o termo proginosko de que é termo cognato formado de um composto de pró (antes) e ginosko (saber acerca de). O prefixo pro (antes) introduz um significado espacial e temporal ao termo que se segue, porém, não altera o sentido do verbo (ginosko) ou do substantivo (gnósis).

Quando lemos um verso bíblico que possui incrustado nele o termo προγινώσκω ‘proginosko’, como é o caso de Romanos 8, verso 29, o sentido de ‘ginosko’ é o de comunhão íntima, um só corpo, de modo que o prefixo προ (antes) situa o termo no tempo, o que dá a conotação de prévia comunhão íntima. Este aspecto é abordado na carta aos Gálatas, pois os que ‘conheceram a Deus, ou antes foram conhecidos (ginóskó) d’Ele’ refere-se aqueles que primeiro compartilham da unidade do corpo de Cristo ( Gl 4:9 ).

Mas, quando lemos o termo πρόγνωσις (prognósis), o substantivo gnósis assume o valor de ‘piedade’, ‘fé’, ‘doutrina’, ‘conhecimento’ e o prefixo προ (antes) aponta o tempo em que o ‘conhecimento’ (gnósis) foi anunciado aos homens, de forma que ‘pré-conhecimento’ significa que Deus anunciou de antemão por intermédio dos seus profetas o mistério da piedade, ou a fé que havia de se manifestar, ou seja, o ‘conhecimento’ (gnósis).

A presciência, ou o pré-conhecimento está intimamente ligado à ideia deste versículo: “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti” ( Gl 3:8 ).

Por Deus ter dito a Abraão: “E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra” ( Gn 12:3 ), ficou registrado implicitamente nas Escrituras que Deus haveria de abençoar os gentios e o apóstolo Paulo entendeu que esta passagem bíblica é uma previsão.

O apóstolo Paulo lançou mão desta promessa para demonstrar o prenuncio do evangelho, ou seja, o pré-conhecimento. O que lemos nas Escrituras acerca da promessa feita a Abraão foi um prenuncio, uma previsão daquilo que Deus iria fazer através do descendente prometido a Abraão. Esta previsão que envolve a pessoa do Descendente prometido a Abraão é o que se denomina de presciência.

Não podemos conceber que, Deus sendo onisciente, onipotente e onipresente necessite prever o futuro para levar a efeito a Sua vontade, como dizem aqueles que defendem que a presciência é um ramo da onisciência. Deus não antevê o futuro, antes o correto é dizer que Ele é conhecedor de todas as coisas e, antecipa aos seus servos o que irá fazer.

A previsão das Escrituras: ‘Em ti serão benditas as famílias da terra’, tem relação com o evangelho, de modo que a previsão diz da fé que havia de se manifestar, do mistério da piedade, da verdade, do conhecimento de Deus. Quando foi anunciado o evangelho ao patriarca Abraão ocorreu o que o apóstolo Pedro chamou de pré-conhecimento, ou pré-ciência, ou seja, ‘presciência’, o conhecimento de Deus que foi antecipado aos patriarcas ou profetizado pelos seus santos profetas e que está exarado nas Escrituras, portanto, é descabida a ideia de que Deus é presciente, porque, na verdade, Ele é onisciente “PAULO, servo de Deus, e apóstolo de Jesus Cristo, segundo a fé dos eleitos de Deus, e o conhecimento da verdade, que é segundo a piedade, em esperança da vida eterna, a qual Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos dos séculos” ( Tt 1:1 -2).

Ao anunciar o evangelho de antemão a Abraão dizendo: ‘Em ti serão benditas todas as famílias da terra’, Deus não faz qualquer referencia a ideia de eleição ou predestinação, ou seja, no pré-conhecimento anunciado a Abraão tem-se a promessa de Deus.

O que primeiramente foi dito pelos santos profetas diz do pré-conhecimento “Para que vos lembreis das palavras que primeiramente foram ditas pelos santos profetas, e do nosso mandamento, como apóstolos do Senhor e Salvador” ( 2Pe 3:2 ).

Quando o apóstolo Pedro escreveu aos cristãos que estavam dispersos, adjetivou-os de eleitos em virtude do conhecimento que antes fora revelado por Deus através dos seus profetas (presciência). Somente através do conhecimento de Deus anunciado aos homens é possível obedecer a Cristo e ser aspergido com o seu sangue.

É por causa do conhecimento, é como resultado do conhecimento e é com base no conhecimento de Deus contido no evangelho, a fé dos eleitos de Deus, que Paulo e Pedro foram comissionados como apóstolos. A fé dos eleitos de Deus é Cristo que trouxe o conhecimento da verdade, segundo o que lhes fora anunciado: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo e recebido acima na glória.

A estrutura da saudação do apóstolo Pedro em 1Pe 1, versos 1e 2 é como se segue:

  • De: Pedro, apóstolo de Jesus Cristo;
  • Para: Os peregrinos da dispersão;
  • Condição: eleitos;
  • Pré-conhecimento: a condição é segundo o conhecimento de Deus Pai (que é segundo a piedade) anunciado desde o princípio através dos seus santos profetas;
  • Nomeados: ‘eleitos’ pela obra santificadora do Espírito;
  • O conhecimento: possibilita obedecer a Jesus e ser aspergido com o Seu sangue;
  • Saudação: Graça e paz vos sejam dadas em abundância.

 

A condição dos estrangeiros dispersos tem por base o pré-conhecimento, ou seja, o que foi anunciado primeiramente a Abraão: o evangelho. Já a escolha de Deus recai sobre a geração de Cristo, que é eleita para ser santa e irrepreensível ( Ef 1:4 ; 1Pe 2:9 ).

Os arminianos erram na interpretação desta passagem bíblica porque entendem o pré-conhecimento (a piedade, o evangelho anunciado previamente a Abraão) como um conhecimento prévio de eventos futuros. Já os calvinistas erram ao interpretá-la por considerarem que Deus além de antever o futuro, preordenou eventos futuros, determinando de antemão aqueles que seriam salvos e os perdidos.

Ora, o que Deus determinou de antemão é que salvaria os crentes pela loucura da pregação, ou seja, pelo conhecimento, piedade, evangelho, etc “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação” ( 1Co 1:21 ).

Após serem salvos através do lavar regenerador da palavra, os crentes são declarados eleitos por pertencerem à geração dos justos, santos e irrepreensíveis, uma geração predestinada a ser conforme a imagem de Cristo.

Para interpretar o composto verbal προγινώσκω ‘proginosko’ e nominal πρόγνωσις (prognósis), devemos considerar o contexto, sendo que, apesar de falar de fatos e eventos, temos que considerar o personagem central, que é Cristo, o que foi dito nas Escrituras acerca do Cristo e a doutrina do Cristo.

Cristo foi preso, crucificado e morto porque aprouve a Deus enfermá-lo, mas tudo ocorreu segundo o que foi vaticinado pelos santos profetas (pré-conhecimento/πρόγνωσις/prognósis) “A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência (προγνώσει) de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos” ( At 2:23 ).

Em passagens bíblicas em que o ‘conhecimento’ das pessoas está em voga, o verbo προγινώσκω ‘proginosko’ deve ser tomado como “ter um relacionamento anterior” ou “ter uma relação íntima, especial com antecedência” “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” ( Rm 8:29 ).

Em Atos 26, verso 5, ao dar testemunho do apóstolo Paulo, Lucas utiliza o termo ‘προγινώσκοντες’ (proginóskó), demonstrando que todos os judeus sabiam quem era Saulo, o fariseu. O que sabiam acerca de Paulo era um conhecimento específico com base no que presenciaram desde a mocidade. O termo não possui nada de eletivo ou de previsão “Quanto à minha vida, desde a mocidade, como decorreu desde o princípio entre os da minha nação, em Jerusalém, todos os judeus a conhecem, Sabendo de mim desde o princípio (se o quiserem testificar), que, conforme a mais severa seita da nossa religião, vivi fariseu” ( At 26:4 -5).

O sentido relacional, o sentido de comunhão íntima, só aparece no composto verbal προγινώσκω (proginosko), já o composto nominal πρόγνωσις (prognósis) é anterior à existência de seus objetos. O que isto demonstra? Demonstra que, o ‘conhecimento’ de Deus como a palavra de Deus é pré-existente, e que a relação íntima (ginosko) entre Deus e os homens só se processa através do conhecimento (gnósis), que não é ‘saber acerca de’, antes diz do mistério da ‘piedade’, do ‘evangelho’, da ‘fé’.

A relação íntima entre Deus e os homens não envolve uma escolha arbitrária de um déspota, antes ela é estabelecida em liberdade, pois onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade. Observe a liberdade na seguinte palavra do Senhor: “Não te encurvarás a elas, nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos, até à terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos” ( Dt 5:9 -10).

Ora, o Senhor é a palavra, é o Espírito, por isso os cristãos são ministros do Espírito, ou seja, da palavra, contrastando-a com a letra, com a lei ( 2Co 3:6 ). Quando o apóstolo Paulo diz que o Senhor é Espírito, está falando do espírito que vivifica, ou seja, da palavra de Cristo que é espírito e vida. E é pela palavra de Cristo, a semente incorruptível que os homens são transformados de glória em glória na mesma imagem de Cristo ( 2Co 3:18 ).

É através do conhecimento de Deus anunciado de antemão pelos profetas que somos informados que Deus salva os homens pela oferta do corpo de Cristo e, concomitantemente, todos que são salvos através do evangelho durante o período compreendido entre a ressurreição de Cristo e o arrebatamento da igreja, também são chamados com uma santa vocação segundo o eterno propósito que fizera em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos “Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” ( 2Tm 1:9 ).

A vocação é segundo o propósito estabelecido em Cristo de fazê-lo a cabeça da igreja, já a salvação é segundo o amor de Deus, que deu o seu filho unigênito para que os homens não pereçam, mas tenham vida eterna.

Como o proposto por Deus em Cristo era fazê-lo preeminente em tudo, Deus salva os homens da condenação de Adão através do poder do evangelho e confere aos de novo gerados a condição de semelhantes a Ele, para que Cristo seja o primogênito entre muitos irmãos ( Rm 8:29 ; Cl 3:10 ).

Ao estabelecer o seu propósito eterno de convergir em Cristo todas às coisas, Deus também estabeleceu a vida eterna por intermédio da sua palavra “Em esperança da vida eterna, a qual Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos dos séculos” ( Tt 1:2 ).

A promessa de vida eterna é antes dos tempos dos séculos, pois a vontade de Deus desde a eternidade é imutável, sendo conhecido o sangue do Cordeiro antes mesmo da fundação do mundo. Como o cordeiro foi morto antes da fundação do mundo, a esperança de vida eterna é uma promessa efetiva antes dos tempos que se mensuram em séculos.

Cristo é o eleito de Deus para o seu propósito ( Pv 8:23 ). Como Deus estabeleceu que Cristo morreria para resgatar a humanidade, o sangue de Cristo foi conhecido antes dos tempos dos séculos, e ao anunciar de antemão estes eventos acerca da morte e ressurreição de Cristo por intermédio dos profetas deu-se a presciência.

O beneplácito que Deus propusera em si mesmo era um mistério para todas as suas criaturas ( Ef 1:9 ; 1Pe 1:12 Ef 3:11 ). Deus propôs seu beneplácito tendo em vista a Si mesmo, ou seja, a preeminência de Cristo em todas as coisas.

O propósito de Deus não foi estabelecido nas suas criaturas, antes estabeleceu o seu propósito em Si mesmo, a fim de que as suas criaturas como primícias sejam louvor à sua glória. É por isso que o propósito é eterno se centra no Criador e não nas criaturas pois elas não são eternas.

Que honra maior pode haver para uma criatura do que ser convidada a participar de um propósito concernente a pessoa do Criador?

Quando Deus (Elohim) fez o seguinte acordo na eternidade: “Eu lhe serei por Pai, e tu me será por Filho” ( 2Sm 7:14 ), fez em Si mesmo o seu propósito (Ef 1:9 ), e introduziu uma das pessoas da divindade no mundo efetivando o que foi estabelecido por decreto a condição do Verbo eterno entre os homens, conforme o acordo estabelecido na eternidade: Tu és meu Filho “Proclamarei o decreto: o SENHOR me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei” ( Sl 2:7 ), neste instante surgiu um grande mistério que até os anjos queriam compreender (atentar) “Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar” ( 1Pe 1:12 ).

O que os anjos queriam entender refere-se ao anunciado pelos profetas acerca dos ‘sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir’. Os ‘sofrimentos’ e a ‘glória prevista pelos profetas’ é o mesmo que ‘pré-ciência’, ou ‘pré-conhecimento’. Mas, somente pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus tornou-se conhecida ( Ef 3:9 -10). Somente agora, através da igreja, toda a criação compreende o eterno propósito que Deus fez em Cristo Jesus ( Ef 3:11 ): Cristo foi feito a cabeça da Igreja.

Há uma ardente expectativa da criação, pois todos aguardam a revelação dos filhos de Deus. A criação aguarda a revelação daqueles que são as criaturas que assumem a condição de primícias do Espírito Eterno ( Rm 8:23 ; Tg 1:18 ).

 

Eleitos segundo a presciência

“Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas” ( 1Pe 1:2 )

A onisciência de Deus destaca-se nas mais variadas situações, podendo ser notada em vários eventos das escrituras:

  • Deus chamou o rei Ciro pelo nome muito antes dele nascer, porém, tal chamado e revelação não concedeu salvação ao rei Ciro ( Is 44:28 );
  • Os sonhos de José demonstram a presciência de Deus ( Gn 37:5 );
  • Moisés anunciou que o povo de Israel afastar-se-ia de Deus ( Dt 32:5 );
  • Jesus previu que o apóstolo Pedro o negaria antes que o galo cantasse por três vezes ( Mt 26:34 ).

Com relação à vida e morte do Messias:

  • Cristo foi conhecido antes da fundação do mundo ( Jo 17:24 );
  • A semente de Cristo foi prevista em oposição a semente da serpente ( Gn 3:15 );
  • A linhagem de Cristo foi prevista ( Gn 12:3 );
  • O nascimento virginal foi previsto ( Is 7:14 );
  • A traição dos mestres da lei ( Sl 49 )
  • A crucificação foi prevista ( Sl 22:16 );
  • A morte e ressurreição foram previstas ( At 2:31 );
  • A glória futura de Cristo foi prevista ( Is 52:13 ; 1Pe 1:12 ), etc.

Tudo que Deus anunciou de antemão tem relação com o propósito eterno que fora proposto em Si mesmo ( Ef 3:11 ). Segundo o conselho da sua vontade Deus elegeu Cristo para o seu propósito e, segundo a ‘pré-ciência’ foi anunciado de antemão os sofrimentos de Cristo, o que estabeleceu a sua morte desde a fundação do mundo.

Quando Cristo ressurgiu, trouxe à existência a nova geração eleita para ser conforme a imagem daquele que os criou: assim tornou-se firme o seu propósito, pois foi estabelecido no Criador e não nas criaturas (Cl 3:10 ).

Suprimir a ideia de que Deus anunciou de antemão os eventos a que o Cristo estaria sujeito (presciência), tomando-a como vontade-prévia para explicar a eleição e a predestinação não encontra respaldo na bíblia.

Ora, Deus conhece todas as coisas porque é onisciente, e o futuro está incluso neste conhecimento, porém, saber o futuro não é o mesmo que pré-ordenar. Deduzir que o significado do termo grego traduzido por ‘presciência’ é o mesmo que ‘pré-ordenação’ é um equivoco.

 

Eleição

Deus onisciente tornou os cristãos eleitos aos santificá-los. Como? A condição de eleito é pertinente àqueles que obedecem a palavra de Deus, crendo em Cristo, pois a santificação é pela palavra ( Jo 17:17 ; At 26:18 ). Os eventos seguem a seguinte ordem:

1º) Deus santificou (separou para Si) os cristãos purificando as suas almas através da obediência à verdade do evangelho (nação santa, povo adquirido 1Pe 2:9 -10), pois só através da obediência ao evangelho há a aspersão do sangue que é ‘conhecido’ por Deus antes da fundação do mundo ( 1Pe 1:2 ; 19 e 22);

2º) Após ser santificado pela aspersão do sangue (morte com Cristo), os cristãos ressurgem uma nova criatura (regenerados), eleita para ser santa e irrepreensível.

Não há dentre os homens gerados da semente terrena e corruptível um que fora eleito e designado santo e irrepreensível, mas todos os gerados de novo através da semente espiritual e incorruptível, que é a palavra de Deus (evangelho), são eleitos, pois foram criados em verdadeira justiça e santidade.

Cristo é a pedra viva, eleita e preciosa, pois foi conhecido e escolhido antes da fundação do mundo segundo o eterno propósito ( Ef 3:11 ) e, através d’Ele os cristãos também tornam-se pedras vivas, ou seja, eleitos de Deus e preciosos aos olhos de Deus, mas, em Cristo.

Deus elegeu a Cristo para ser preeminente em todas as coisas e, todos aqueles que são gerados de novo foram eleitos n’Ele antes da fundação do mundo. Deus escolheu, segundo o seu propósito, os gerados do Descendente prometido a Abraão. A geração de Cristo é a geração eleita segundo o beneplácito que Deus propusera em Cristo ( Ef 1:9 ): a preeminência de Cristo em tudo!

Quando os cristãos (gerados por Cristo) foram eleitos? Antes da fundação do mundo.

Como os cristãos foram eleitos? Deus elegeu a Jesus Cristo, seu Filho unigênito, consequentemente, a descendência de Cristo foi eleita. O patriarca Abraão e o povo de Israel são figuras da eleição estabelecida na eternidade e, é por isso que o apóstolo Paulo deixa claro que os cristãos foram eleitos n’Ele, pois as promessas feitas ao Descendente de Abraão, que é Cristo, alcança os gerados em Cristo ( Gl 3:16 ).

Assim como Deus escolheu o gentio Abraão estabelecendo a sua posteridade sem especificar quais e quantos dos seus descendentes entrariam no Egito e quais israelitas seriam resgatados de lá, assim também se dá com a igreja, visto que Deus escolheu a Cristo, o descendente de Abraão e estabeleceu a sua descendência sem fixar quais homens são conduzidos à glória na condição de filhos de Deus ( Hb 2:10 ). O que ficou estabelecido é que a promessa é dada aos crentes, e todos que creem em Cristo são filhos de Deus ( Gl 3:26 -29; 1Co 1:21 ), por causa da promessa feita a Cristo ( Gl 3:16 ).

À descendência de Abraão é dado a terra ( Gn 15:18 ), aos descendentes de Cristo é dado o reino dos céus e também é concedido ser conforme a expressa imagem de Cristo “Não temais, ó pequeno rebanho, porque a vosso Pai agradou dar-vos o reino” ( Lc 12:32 ); “Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais também os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial” ( 1Co 15:48 -49 ; 1Jo 3:2 ).

Somente pela fé em Cristo os homens são salvos e, especificamente aqueles que têm fé em Cristo durante o período compreendido entre a ressurreição e o arrebatamento da igreja, recebem a salvação e a adoção de filhos de Deus em vista do propósito eterno ( Gl 3:26 ), diferente da ideia de que é pela eleição e predestinação que os homens são salvos.

Quando crê em Cristo o homem é batizado em Cristo, isto é, na sua morte, e só então, se reveste de Cristo, isto é, ressurge semelhante a ele ( Gl 3:27 ; Rm 6:3 ). Ao ser gerado do Descendente de Abraão, além da salvação da condenação de Adão, o homem torna-se semelhante à expressa imagem do Deus vivo (filho de Deus) e herdeiro da mesma promessa ( Gl 3:29 ). Por causa da sua descendência, Cristo é alçado à posição de primogênito entre muitos irmãos semelhantes a Ele “Isto é, que o Cristo devia padecer, e sendo o primeiro da ressurreição dentre os mortos, devia anunciar a luz a este povo e aos gentios” ( At 26:23 ; 1Jo 3:2 ; 1Jo 4:17 ).

 

Os filhos da ofensa

Todas as vezes que o apóstolo Paulo faz referência à antiga condição dos cristãos quando sob o pecado, ele o faz nos seguintes termos: filhos da ira, filhos da desobediência, trevas, filhos das trevas, mortos em delitos e pecados, ignorantes, entenebrecidos no entendimento, etc., porém, em nenhuma referência à antiga condição dos cristãos é utilizado o termo ‘eleitos’ e ‘predestinados’.

Não há na bíblia a seguinte afirmação: “Noutro tempo éreis eleitos…”, antes só encontramos as seguintes expressões: “Noutro tempo éreis trevas, filhos da ira, vasos para desonra, plantas que o Pai não plantou, filhos da desobediência, etc.”. Diante de tantos adjetivos acerca da antiga condição daqueles se tornaram eleitos, como perdidos, trevas, filhos da ira, filhos da desobediência, como explicar o motivo pelo qual o apóstolo Paulo não mencionou a condição de ‘eleitos’ pertinentes à antiga condição dos cristãos quando sob o pecado?

Somente os cristãos são nomeados de eleitos de Deus. Somente os cristãos, gerados em Cristo, por serem membros do Seu corpo, são eleitos, condição adquirida ‘em Cristo’ antes da fundação do mundo, não por obras de justiça que houvessem feito, antes pelo simples fato de serem gerados d’Ele: geração eleita.

O apóstolo Paulo é específico ao demonstrar que Deus elegeu os cristãos e não os incrédulos ao utilizar o pronome na 1º pessoa do plural: nos (cristãos) elegeu! ( Ef 1:4 )

O apóstolo Pedro também demonstra que os eleitos são os cristãos: “Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos eleitos que são forasteiros da Dispersão…” ( 1Pe 1:1 ) Almeida RA, e no verso 9, do capítulo 2 da mesma epístola, ele explica que os cristãos são eleitos por fazerem parte de uma geração eleita ( 1Pe 2:9 ).

Este é o título para fazer referencia à condição dos que se assentaram nas regiões celestiais em Cristo. Diz somente daqueles que já entraram no descanso proposto ( Hb 4:3 ).

 

Onisciência

A onisciência refere-se ao conhecimento de Deus, que é perfeito em natureza e em abrangência, pois Deus conhece plenamente a Si próprio e todos os demais seres, coisas, fenômenos e eventos. Ele conhece igualmente bem presente, passado e futuro e a essência de todas as coisas.

Deus está acima de tudo, até mesmo das questões relativas ao tempo, porém, devido a algumas considerações filosóficas, de que o futuro é uma contingência, alguns teólogos lançaram mão do termo grego πρόγνωσις (proginṓskō – presciência), e devido a uma má leitura do texto lançaram mão do termo para fazer referencia ao conhecimento de Deus com relação a fatos futuros.

É um equivoco apresentar a ‘presciência’ como ramo da onisciência, pois este é um modo de reduzir a onisciência divina. Ora, Deus conhece igualmente todos os eventos, tantos os futuros, presentes ou passados. Deus jamais previu ou prevê algo, pois ele desde sempre soube todas as coisas, sem esforço, pesquisa, pensamento, etc.

Com relação a Deus não podemos pensar que tempo e espaço é uma barreira, que fraciona os eventos em passado, presente e futuro, pois Deus sabe tudo igualmente bem. Deus jamais se surpreende, descobre ou busca informação acerca de eventos, estado, condições, etc.

Tudo o que é necessário ocorrer no mundo físico, ocorre por meio de leis físicas estabelecidas desde o fundamento do mundo. Há leis estabelecidas que regem todos os eventos físicos, e Deus desde de a eternidade conhece todos os eventos físicos que ocorreram, ocorrem e ocorrerá e, apesar de Deus ter estabelecido as leis físicas, os homens podem interagir com elas movidos por seus próprios desejos.

Deus conhece todos os eventos chuvosos que ocorreram, ocorre e ocorrerá na face da terra, desde a primeira gotícula de água que foi precipitada até a última, porém, este fenômeno natural é regido por leis estabelecidas, segundo o que Deus determinou e sustem. As contingências decorrentes das chuvas não foram pré-ordenadas por Deus, antes dependem da interação do homem com o meio, porém, Ele conhece todas as contingências igualmente bem. O que Deus estabeleceu foram leis que regem tais eventos e, apesar de sustentar tais leis por seu poder, não interveem nos fenômenos e eventos delas decorrentes.

Mas, além das leis naturais, Deus criou o homem que, sendo livre, pode construir barragens para represar as águas provenientes das chuvas. Apesar de Deus conhecer todas as barragens construídas pelos homens antes mesmo de haver mundo, elas são frutos da imaginação e do trabalho do homem. Desde sempre Deus conhece os homens que trabalhariam na represa e o volume de águas represada, porém, a construção da represa, as benesses e os problemas dela decorrente não foram preordenadas por Deus, e sim pelos interesses dos homens, pois a represa originou-se da livre vontade humana que interagiu com as leis físicas estabelecidas por Deus “E disse Deus: façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra” ( Gn 1:26 ).

O homem dominar sobre a terra é uma lei divina. Anjos não dominam a terra. Para dominar sobre a terra, Deus teve que vindicar o domínio por meio de Cristo que, após ressurgir, disse: “É-me dado todo o poder no céu e na terra” ( Mt 28:18 ).

Caso alguém, em sua loucura, cometer um atentado terrorista contra a represa, apesar de Deus conhecer tal evento desde a eternidade, o ato do terrorista é uma ação livre e autônoma e todas as contingências delas decorrente regem-se por leis naturais ou leis físicas.

Deus não prevê, antes tudo sabe. Quando Ele antecipa eventos futuros nas Escrituras, simplesmente demonstrou o seu eterno poder e que a sua palavra é firme “Que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade” ( Is 46:10 ).

Deus antecipou vários eventos futuros na bíblia, porém, isto não significa que Ele tenha estabelecido qualquer tipo de contingência. Jesus antecipou que Pedro o trairia antes que o galo cantasse três vezes, mas isto não significa que ele foi destinado a trair, antes que, por conhecer todos os eventos, foi revelado pelo Pai qual seria a atitude daquele discípulo diante da condenação do Mestre.

Ao antecipar um evento ou a atitude de uma pessoa, não significa que houve um ‘decreto’. Ou seja, Deus não decretou que Judas trairia o Cristo, antes antecipou um evento futuro que evidencia a onisciência divina. Isto significa que não houve qualquer tipo de intervenção divina que tenha predestinado Judas a traição, antes todas as suas decisões foram autônomas e a partir das suas crenças e impressões adquiridas pela inteiração com o mundo.

Por onisciência entende-se que Deus conhece todos os eventos no passado, no presente e no futuro (espaço-tempo), e na eternidade. Nada escapa aos ‘olhos’ de Deus. Por isso ele chama à existência as coisas que não são como se já fossem “(Como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí) perante aquele no qual creu, a saber, Deus, o qual vivifica os mortos, e chama as coisas que não são como se já fossem” ( Rm 4:17 ).

Deus, de antemão nomeou Abraão como Pai de muitas nações: temos aqui a grandeza da onisciência demonstrada aos homens, visto que Abraão nem mesmo podia ter filhos com Sara.

Como Deus conhece todos os eventos: no passado, no presente e no futuro, é certo que ele sabe de antemão quem são os salvos e quem são os perdidos, porém, não quer dizer que Ele, unilateralmente, preordenou quem seriam os salvos e quem seriam os perdidos. Esta visão fatalista e determinista não é conforme a verdade bíblica, pois Deus não interfere no arbítrio dos homens para fazê-los crer ou não.

Embora Deus saiba de antemão todas as coisas, o ‘conhecimento’ de Deus não determina e nem vincula a condição futura do homem: se perdido, ou se salvo.

A bíblia demonstra que a perdição do homem foi determinada pela ofensa de Adão “Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” ( Jo 3:18 ), e não pela onisciência de Deus. De igual modo, a bíblia demonstra que a salvação decorre da misericórdia de Deus, bastando ao homem aceitar a oferta de redenção.

 

Constitui-se mérito aceitar a salvação?

O fato de aceitar a oferta não seria mérito por parte do homem? Não! A ordem é clara: “Entrai pela porta estreita!” ou, “Necessário vos é nascer de novo”. O fato de o homem sedento beber da água da vida que Cristo dá não lhe confere mérito. O fato de deixar que o Senhor lave toda imundície através do lavar regenerador não confere ao homem mérito algum.

Quando Deus diz: “Olhai para mim e sereis salvos…” ( Is 45:22 ), o fato de o homem olhar, não lhe confere mérito, antes ‘olhar’ demonstra que o homem confiou na palavra que lhe foi anunciada. Qualquer que não olhar para Aquele que oferta salvação, demonstra simplesmente que não creu na palavra de Deus.

Não há mérito algum em quem confia, pois o mérito está em Deus que é fiel, o que o torna digno de confiança.

Quando convencido da necessidade em deixar que Jesus lavasse os pés, Pedro logo se apresentou: “Disse-lhe Simão Pedro: Senhor, não só os meus pés, mas também as mãos e a cabeça” ( Jo 13:9 ). Caso o apóstolo Pedro não consentisse que Cristo lavasse os seus pés, por não se sentir merecedor, não seria lavado.

Esta passagem bíblica demonstra que, quem rejeita a oferta de salvação por se achar indigno (auto reprovação), ou quem acredita que é digno de aceitá-la em vista de algum mérito, diante de Deus estão em pé de igualdade: não tem parte com Cristo.

Permitir ser lavado de suas imundícies demonstra que o homem confia que Deus é poderoso para limpá-lo, o que não demanda esforço da parte do homem. Quando o homem adora a Deus dizendo: – “Dignifica Senhor em lavar-me”, demonstra que o mérito está em Deus que é poderoso e é fiel para fazer o que prometeu.

Deus se propôs lavar a imundície dos homens que confiassem n’Ele, e é por Cristo que o homem passa a ter tal confiança em Deus.

Lavar o homem do pecado é ação de Deus, visto que Jesus trouxe a vasilha, a água, a toalha e as mãos. Quem confia apresenta os seus pés.

Por se considerarem ‘extremamente’ perdidos, muitos se dizem indignos de até mesmo aceitarem o que Deus propõe, porém, se o homem não aceitar a oferta de salvação que Deus lhe oferece, que é lavá-lo da imundície da carne, não terá parte com Deus “Se eu te não lavar, não tens parte comigo” ( Jo 13:18 ).

Quem se sente indigno é porque não crê em Deus, pois se cresse saberia que Deus é poderoso para purificar o homem de toda imundície.

A perdição do homem deu-se em Adão, sendo todos igualmente encerrados debaixo do mesmo pecado: sem exceção alguma. Com relação à salvação, não é o fato de Deus saber algo acerca do futuro – até porque Deus não somente sabe o futuro como também está presente em todos os eventos – que determina quem será salvo ou não, antes a salvação está condicionada à resposta que o homem morto em delitos e pecado dá a seguinte convocação: “Olhai para mim e sereis salvos…” ( Is 45:22 ), pois somente deste modo viverá ( Jo 11:25 ; Dt 8:3 ).

A palavra que diz: “… que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” ( Dt 8:3 ), demonstra que o homem precisa da palavra do Senhor para viver, visto que está morto (separado de Deus). Que para obter vida não depende do pão cotidiano, mas da palavra que produz vida em abundância.

Embora Deus saiba de antemão todas as coisas, vê-se que, com relação ao passado, Deus pedirá conta aos homens do que passou, o que demonstra que cada pessoa é livre e tem sobre si a oportunidade de mudar a sua condição e destino “O que é, já foi; e o que há de ser, também já foi; e Deus pede conta do que passou” ( Ec 3:15 ).

O Pregador demonstra que todos os eventos que o homem considera como sendo presentes e futuros, para Deus é o mesmo que passado, e pede conta de toda a existência do homem. Ora, se Deus pré estabeleceu na eternidade os salvos porque conhece previamente o futuro, não há porque Ele pedir conta ao homem do que passou, visto que pediria conta dos seus próprios atos.

Devemos considerar que Deus é onipresente, que além de saber, Ele contempla todos os homens e as suas ações (onipresença e onisciência). A onipresença de Deus não tolhe e nem exerce domínio sobre a liberdade do homem, o que também deve ser dito da onisciência.

A multiforme sabedoria de Deus está em que os atributos de Deus possuí perfeito equilíbrio com a liberdade do homem, tanto que no exercício da sua liberdade o homem pecou e, soberanamente Deus providenciou salvação em Cristo para todos os homens porque é misericordioso.

A alegação de que a “presciência” é tanto um atributo quanto um ato de Deus é descabida, pois o atributo de Deus é a onisciência. Da mesma forma que Deus onipresente estava junto a Adão quando da queda, Deus sempre soube que Adão pecaria, mas o fato de Deus ‘saber’ não foi a causa determinante da queda.

Mesmo sabendo o que o homem faria com a sua liberdade, Deus a concedeu e, para levar a efeito o proposto em Cristo, a preeminência de Cristo, Deus providenciou o Cordeiro que, foi morto na fundação do mundo. Embora a queda era sabida, não foi preordenada, antes ocorreu em decorrência da desobediência de Adão, fruto do exercício da sua liberdade.

A doutrina da reprovação incondicional é antibíblica, pois a bíblia demonstra que quem não crê está condenado ( Jo 3:18 ), não porque Deus preordenou, mas porque não creu no nome do Filho Unigênito de Deus, ou seja, a condenação e a salvação estão condicionadas ao crer e ao não crer.

A onisciência nada tem de determinista porque ele mesmo diz que o dia de hoje é um dia sobre modo oportuno e aceitável “(Porque diz: Ouvi-te em tempo aceitável E socorri-te no dia da salvação; Eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação)” ( 2Co 6:2 ). Se o Senhor apresenta o ‘agora’ como tempo aceitável, certo é que a sua onisciência não é determinista, pois se assim fosse, o tempo de salvação seria na eternidade, e não ‘hoje’ (hoje é uma unidade de tempo na terra). A oração do salmista seria sem sentido: “Eu, porém, faço a minha oração a ti, SENHOR, num tempo aceitável; ó Deus, ouve-me segundo a grandeza da tua misericórdia, segundo a verdade da tua salvação” ( Sl 69:13 ).

Tudo o que Deus estabeleceu concernente ao propósito eterno o fez com base em sua sabedoria e prudência. Que sabedoria há em fazer uma terra com contagem de tempo, colocar nela seres alienados da sua glória e simplesmente destinar uns à perdição e outros à salvação?

Deus não determinou quem eram os perdidos na eternidade, antes a bíblia demonstra que todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus por causa de uma única transgressão que se deu no tempo dos homens ( Rm 3:23 ). Não foi Deus quem determinou, por ser onisciente, quem haveria de se perder, antes todos se extraviaram e juntamente se fizeram imundos em Adão, que fez uso da liberdade para fazer o que era inconveniente ( Rm 3:12 ).

Estar perdido é uma condição decorrente da decisão que Adão fez de desobedecer, o que tornou todos os homens filhos da ira e da desobediência. Tal condição não foi estabelecida pela ideia de que Deus é presciente, pois Deus é onisciente.

Deus estabeleceu que havia de justificar os crentes pela fé e, ao anunciar o evangelho a Abraão, a fé foi ‘prevista’, ou seja, anunciada de ante mão “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: ( Gl 3:8 ), o que difere da ideia arminianista de que Deus previu quem teria fé e, portanto, os elegeu para serem salvos.

O evangelho anunciado a Abraão: ‘Todas as nações serão benditas em ti’, era uma previsão exarada nas Escrituras de que Deus justificaria os que cressem no descendente prometido a Abraão, ou seja, um conhecimento pré-anunciado, ou seja, presciência. Isto não é o mesmo que dizer que Deus é presciente, pois Ele não é. Deus é onisciente, o que não condiz com a ideia de que Deus escolheu pela ‘presciência’ quem haveria de ser justificado.

A ‘presciência’ é um termo utilizado pelo apóstolo Pedro para fazer referência ao evangelho, o conhecimento de Deus anunciado de antemão pelos seus profetas ( Gl 3:23 ).

Não há base bíblica para a reprovação incondicional, pois a condenação decorre de um só que pecou, ou seja, ela é condicionada à ofensa de um só homem. De uma única ofensa de Adão veio o juízo sobre todos os homens para condenação e a pena foi a alienação de Deus: morte ( Rm 5:18 ).

Como a perdição é condicionada à ofensa de Adão, a salvação não pode ser incondicional, antes é condicionada à obediência de um homem: Jesus Cristo, o último Adão ( Rm 5:19 ).

Após a queda da humanidade, a redenção passou a ser condicionada ao Descendente da mulher ( Gn 3:15 ), e o dia chamado ‘hoje’ é o dia oportuno de salvação. Se a salvação e a perdição fossem incondicionais, o ‘hoje’ não seria o momento de salvação, ou o ‘dia’, ou o ‘ano’ sobre modo oportuno, antes a oportunidade e o dia de salvação estaria na eternidade, antes que houvesse mundo, pois lá teria sido estabelecido os perdidos e os salvos ( Is 61:2 ; Hb 3:7 ).

O convite de salvação é especifico: “Olhai para mim, e sereis salvos, vós, todos os termos da terra; porque eu sou Deus, e não há outro” ( Is 45:22 ). Basta olhar para Deus que o homem será salvo, ou seja, a salvação não é unilateral.

Existe uma teoria que afirma que o homem é tão depravado que, para olhar para Deus é necessário uma graça ‘preveniente’, o que remonta a teologia de Santo Agostinho (maniqueísta e neoplatonista), pois entende que, se o homem voluntariamente atender o chamado ‘Olhai para mim…’, e olhar para aquele que O chama, a salvação já não é por fé, mas por obras, como se o olhar do pecador fosse suficiente para resgatar um homem da morte. Este posicionamento se enraíza em quem desconhece a real condição que o homem assumiu ao desobedecer a Deus (Sl 49:7-8). Também desconhece qual o significado do termo ‘fé’ quando é dito que a salvação é por fé, pois Cristo é a fé manifesta ( Gl 3:23 ). A atitude deles é semelhante a do apóstolo Pedro antes de ser devidamente instruído “Nunca me lavarás os pés” ( Jo 13:8 )!

Quando Deus diz: “Olhai para mim e sereis salvos”, ele está conscientizando os seus ouvintes de que estão perdidos, ou seja, mortos (separados) em delitos e pecados. Estão em uma condição semelhante a dos filhos de Israel que pecaram e foram mordidos por serpentes ardentes. Todos que estavam picados estavam condenados à morte e, bastava somente um olhar na direção da serpente de metal para serem curados, ou seja, necessitam crer na palavra que diz: “Olhai para mim…”.

‘Olhar’ refere-se ao resultado da confiança que os ouvintes exerceriam na palavra anunciada por Moisés, que diz: “… e será que viverá todo o que, tendo sido picado, olhar para ela” ( Nm 21:8 ) . Como a fé vem pelo ouvir, ao ouvir a palavra da fé (firme fundamento), os picados mortalmente pelas serpentes eram sarados. Quando Deus diz: “Olhai para mim e sereis salvos”, o olhar demonstra que a salvação é por fé somente, pois para o homem olhar para quem diz ‘Olhai para mim’, significa que o homem conscientizou-se da sua real condição (pecado), e creu naquele que prometeu (viverá).

Neste sentido é que Cristo foi levantado da terra, para que todo aquele que olhar (crê) para Ele, seja salvo ( Jo 3:14 -15). E para quem Cristo foi erguido? Para alguns indivíduos selecionados previamente? Não! Ele foi erguido para que todos os termos da terra pudessem vê-lo “E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado; Para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” ( Jo 3:14 -15), pois todos os homens estavam mortos por causa do veneno da serpente no Éden.

Um calvinista dirá que o homem está morto e, que, portanto, não poderá atender o chamado, sem antes ser regenerado, ou que a graça de Deus para os eleitos é diferenciada, sendo irresistível. Porém Jesus disse “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” ( Jo 11:25 ), ou seja, o homem morto em delitos e pecados está separado da vida (Deus), mas é dotado da capacidade de crer ou não em Cristo e, dependendo da resposta que der ao convite de salvação, viverá ou permanecerá morto.

Jesus demonstrou que é Ele que concede vida aos mortos, ou seja, é Ele que desfaz a barreira de inimizade entre Deus e os homens, reconciliando o homem com Deus. Quando Ele diz: “Quem crê em mim…”, a mensagem dele tem por alvo os que necessitam de comunhão com Deus para serem participantes da vida. Quando ele diz: “ainda que esteja morto”, aponta a real condição do homem sem Deus: separado, alienado da vida que há em Deus. Por fim, a vida, a ressurreição dentre os mortos, é o que Ele oferece. Todos os mortos que olham para Cristo obtém vida, portanto, quando foi dito ‘… ainda que esteja morto’, Jesus não falava de morte física, pois para Deus vivem todos!

Jesus, o pão vivo que desceu dos céus, somente repetiu o anunciado por Deus ao povo de Israel através de Moisés: “E te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” ( Dt 8:3 ). A mensagem do evangelho serve para dar a entender aos homens separados de Deus (mortos) que Cristo concede vida, visto que eles estão entenebrecidos no entendimento.

Estão separados de Deus pela dureza de coração ao rejeitarem o dom de Deus, mas, se aquiescerem à luz do evangelho, são salvos “Entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração” ( Ef 4:18 ). O povo de Israel sofreu quarenta anos no deserto porque Deus queria livrá-los da ignorância.

É necessário crer na ressurreição e na vida para que o homem morto possa obter vida. A inversão ‘regeneração para depois crer’ perpetrada pelos calvinistas nega a eficácia da palavra de Cristo, pois para beber da água que concede vida é necessário ter sede. Deus não sacia primeiramente a sede para depois servir a água que concede vida ao homem ( Jo 4:14 ).

Todos os homens sem Deus têm sede, porém, muitos tentam saciar sua sede em fontes rotas. Porque uns saciam a sua sede em Cristo e outros não? Porque muitos estão abastados em seus próprios conceitos, religiosidade, moralidade, legalidade, ritualismo, etc.

Através da entrega do corpo de Cristo, Deus anuncia para a humanidade presa ao pecado (vivo para o pecado) que há um novo e vivo caminho para os homens que quiserem unir-se a Deus (viver unido a Deus). Qual é o caminho? O caminho é Cristo, e todos que entram por Cristo se conformam com Ele na morte, ou seja, morre para o pecado.

Os calvinistas e arminianistas apontam a impossibilidade do homem se salvar como ‘depravação total’, ou seja, consideram a impossibilidade de se salvar como ‘inabilidade’ para aceitar a salvação ofertada por Deus.

A impossibilidade de salvação está no fato de que o homem não possui os meios para promover a sua própria salvação, ou seja, a mensagem de Deus tem por objetivo alcançar o intelecto do homem de modo que venha a aceitar a salvação providenciada por Deus “Mas, o que foi semeado em boa terra é o que ouve e compreende a palavra; e dá fruto, e um produz cem, outro sessenta, e outro trinta” ( Mt 13:23 ), desfazendo a ignorância que os mantém separados de Deus “Entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração” ( Ef 4:18 ).

O único modo de o homem ver-se livre do pecado é morrendo para ele. Somente a morte livra o homem do pecado, mas não a morte física, antes a morte com Cristo, porque se o homem descer à sepultura como servo do pecado, segue perdido para o juízo final, onde suas obras serão julgadas.

O homem precisa morrer para o pecado ainda nesta existência, o que só é possível quando crê em Cristo, conformando-se com Cristo na sua morte. Ao morrer com Cristo, o homem é livre do pecado e passa a ser servo da justiça, ganha vida eterna, filiação divina e suas obras serão julgadas no Tribunal de Cristo.

O convite do evangelho resume-se na premissa: morram com Cristo para que possais compartilhar da vida que há em Deus. Todos os famintos e sedentos devem comer da carne e beber do sangue de Cristo. Há uma só carne e um só sangue pelo qual os homens são salvos, ou seja, não há graça comum e graça superior. Não há graça resistível ou irresistível, antes há somente uma graça, a Graça de Deus “Isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos e sobre todos os que creem; porque não há diferença. Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus” ( Rm 3:22 -24).

 

Conclusão

Os atos de Deus decorrem única e exclusivamente da sua vontade, porém, quando o seu propósito é expresso, o homem é inteirado do seu conselho. Tudo o que Deus faz é segundo o seu conselho, ou seja, segundo a sua palavra, que é Cristo, o Verbo encarnado ( At 4:28 ; At 20:27 ; Hb 6:17 ).

Da onisciência, que é um dos atributos de Deus, não decorre a presciência, que não é um ato e nem uma qualidade de Deus. A palavra ‘presciência’ não se refere a acontecimentos futuros e nem é atributo de Deus, pois o atributo é a onisciência.

‘Presciência’ é um termo cunhado para fazer referencia a mensagem que Deus anunciou de antemão pelos seus profetas acerca de Cristo, o que não tem relação com eventos futuros.

Os atributos referem-se à natureza de Deus e eles não influenciam e nem interferem nas decisões de suas criaturas.

Deus é onipresente e a sua onipresença não interfere nas decisões de suas criaturas. A presença de Deus é soberana e onipotente, mas não interferiu na vontade de Adão quando comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Deus está presente em todos os momentos e lugares, mas a sua presença não impediu Caim de matar Abel. A onipresença de Deus é imanente, ou seja, existe sempre n’Ele e é inseparável d’Ele.

Concomitantemente a onisciência e a onipotência de Deus são imanentes. Apesar de Deus ter dado origem a todas as coisas, Deus não interfere nas decisões de suas criaturas por ser onipotente ( Jó 37:23 ). Apesar de presenciar todos os eventos materiais e espirituais pela sua onipresença, tal atributo divino não interfere nas decisões de suas criaturas, porque Deus é Espírito e onde está o Espírito do Senhor aí há liberdade.

A presciência não é ato divino, e nem implica em pré-ordenação. Os atos de Deus decorrem somente da sua vontade expressa por sua palavra, e não dos seus atributos “Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade” ( Ef 1:11 ).

O calvinismo adota a presciência como pré-ordenação para conceder à eleição e a predestinação ‘status’ de ato divino, como se ambas, a eleição e a predestinação tivessem por base as criaturas de Deus, porém, a eleição e a predestinação visa o propósito eterno que Deus determinou em Cristo ( Ef 1:9 ). A presciência refere-se somente ao conhecimento que Deus anunciou previamente às suas criaturas acerca da salvação em Cristo.

Ao adotar a presciência como ato divino, alguns calvinistas estipulam que ela ‘quase’ tem o significado de ‘pré-ordenação’, mas quando evoluem a abordagem, equiparam-na a ‘pré-ordenação’ calcados na concepção que formularam entorno do termo ‘conhecer’.

Pelo fato de o termo ‘presciência’ não existir no Antigo Testamento, os calvinistas concluem que ‘pré-conhecer’ implica em afeição para com a pessoa em vista, de onde surge a ideia de que presciência é preordenar.

Observe os seguintes versos:

a) “Antes que te formasses no ventre te conheci” ( Jr l:5 ) – neste verso o termo ‘conhecer’ indica a onisciência, mas não indica preordenar para salvação, visto que Jeremias foi comissionado para profetizar às nações, o que é diferente de ter sido escolhido para ser salvo ( Jr 1:10 );

b) “De todas as famílias da terra só a vós vos tenho conhecido” ( Am 3:2 ) – neste verso o termo ‘conhecer’ não refere-se à pré-conhecimento, antes indica que Deus escolheu o povo de Israel como propriedade, o que tornou o povo de Israel separado das demais nações ( Dt 7:6 );

“Porque o Senhor conhece o caminho dos justos” ( Sl 1:6 ) – neste verso o termo ‘conhecer’ indica comunhão, união íntima, estar ligado a, pois o Senhor é o caminho dos justos ( Jo 14:6 ).

Como se verifica, o termo ‘conhecer’ nos versos acima assumem vários significados distinto em função do contexto no qual está inserido, porém, não significa que aquele que Deus ginóskó (conhece) desde a eternidade, preordenou para salvação ou perdição.

A palavra ‘conhecer’ é utilizada varias vezes no Novo Testamento com o sentido de ‘saber acerca de’, ‘ter ciência de’, etc., porém, também é contemplado com o sentido de ‘comunhão íntima’ ou ‘estar intimamente ligado a’ “E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci” ( Mt 7:23 ).

Concluir que o veredicto: ‘Nunca vos conheci’ significa que Jesus nunca soube da existência deles ou, que não os elegeu, escolheu e nem preordenou para a salvação é se estribar no próprio conhecimento, desprezando a onisciência de Deus, visto que, tal termo significa exclusivamente que tais pessoas nunca se tornaram um com Ele e o Pai ( Jo 17:21 ).

Quando Jesus disse: “Eu sou o bom pastor, e conheço as minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido” ( Jo 10:l4 ), ou “Mas, se alguém ama a Deus, este é conhecido dele” ( 1Co 8:3 ), ou “O Senhor conhece os que são seus” ( 2Tm 2:19 ), o termo expressa comunhão íntima, ou seja, refere-se ao grande mistério expresso pelo apostolo Paulo: “Porque somos membros do seu corpo, da sua carne, e dos seus ossos. Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe, e se unirá a sua mulher; e serão dois numa carne. Grande é este mistério; digo-o, porém, a respeito de Cristo e da igreja” ( Ef 5:30 -32).

O ‘conhecimento’ que os versos acima expressam refere-se a tornar-se uma só carne, um só corpo com Cristo, ou seja, o ‘conhecer’ de Cristo limita-se aos salvos, ou seja, homens que creram no conhecimento de Deus revelado em Cristo, porém, não significa eleição através de ‘afeição’ ou ‘preordenação’.

Podemos dizer que Deus conhece (onisciência) a todos os homens, mas nem todos são ‘conhecidos’ (comunhão íntima) d’Ele ( Gl 4:9 ), pois Ele só tem comunhão íntima, ou seja, conhece, aqueles que O amam ( 1Co 8:9 ), aqueles que guardam os seus mandamentos.

A onisciência de Deus refere-se tanto às pessoas quanto às suas ações, portanto a concepção calvinista de que a ‘presciência de pessoas’ significa pré-conhecer com propósito benigno não possui respaldo nas Escrituras. Tal engano induz o interprete a considerar que Romanos 8, verso 29, indica que o primeiro ato da benevolência de Deus para com os pecadores foi ‘pré-conhecer’.

A interpretação do verso: “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho” ( Rm 8:29), é a seguinte: tudo concorre para o bem daqueles que ‘amam’ a Deus, ou seja, tudo concorre para o bem daqueles que tem ‘misericórdia’ ( Os 6:6 ).

O apóstolo Paulo é específico: daqueles que amam a Deus, ou seja, daqueles que são chamados segundo o seu propósito ( Rm 8:28 ).

Como ser ‘chamado’ por Deus, ou como amar a Deus? Deus responde: “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos” ( Dt 5:10 ), e Jesus complementa: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” ( Jo 14:21 ).

Em resumo, tudo concorre para o bem daqueles que ‘tem e guarda os mandamentos de Jesus’, ou seja, que creem n’Ele. Estes amam a Deus e são amados do Pai, pois crer em Cristo é o mandamento de Deus. Estes são os chamados segundo o propósito de Deus!

Os que Deus anteriormente conheceu referem-se aos que foram regenerados, pois somente na regeneração o homem torna-se um com o Pai e com o seu Filho (conhecer). Quando regenerado, o novo homem faz parte da nova geração, a geração eleita, predestina a ser filho, ou seja, o verso 29 reafirma o que foi dito no verso 28.

‘Ser regenerado’, ‘conhecer’, ‘tornar-se um com Cristo’ são formas diferentes de fazer referência a um mesmo evento e condição, daí temos que os que conheceram a Deus tem um destino predefinido: serem conforme a imagem de Cristo “Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos” ( 1Jo 3:2 ).

Os que amam a Deus são os que se tornaram um só corpo com o Pai e o Filho e, estes, por sua vez, foram chamados segundo o propósito que Deus estabeleceu em si mesmo, visto que foram destinados a serem recebidos como filhos por adoção.

Por que foram predestinados a serem conforme a imagem de Cristo? Porque a predestinação visa o propósito estabelecido em Cristo ( Ef 3:11 ), que é Cristo preeminente, ou seja, primogênito entre muitos irmãos ( Rm 8:29 ).

O termo ‘dantes’ no verso 29 não pode ser tomado como ‘presciência’, antes significa ‘anteriormente’. O verso aponta a mesma ideia (comunhão íntima) exarada no seguinte versículo: “Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” ( Gl 4:9 ). Seria a seguinte leitura: “Sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam (conheceram) a Deus (…) Pois os que dantes (anteriormente) conheceu…” (parafraseando o apóstolo Paulo).

Estes versos não dizem que Deus olhou unilateralmente para alguns pecadores específicos com favor gracioso para salvá-los da condenação de Adão, antes demonstra que os misericordiosos (que o amam) tornaram-se um com Ele e o seu Filho, e que, portanto, serão semelhantes a Seu Filho glorioso.

Os versos demonstram que Deus torna-se um (conhece) com aqueles que o amam (guardam os seus mandamentos), e que estas pessoas que O conheceram, ou antes, foram conhecidas d’Ele, também foram predestinadas em decorrência do que propusera em Si mesmo, a serem filhos por adoção ( Ef 1:9 ).

Ora, todos que conhecem a Cristo, ou seja, que se tornaram um só corpo com Ele, foram gerados de novo e, portanto, são uma nova geração, a geração eleita. São destinados a serem filhos porque foram gerados de novo através do lavar regenerador do evangelho.

Devemos ter em mente que Deus escolheu um povo, o povo de Israel, não para serem salvos, antes para preservar a linhagem do Messias. Deus não os rejeitou como nação, apesar da rebeldia deles, por causa da sua promessa aos pais: Abraão, Isaque e Jacó ( Rm 11:28 -29).

Agora, através da igreja, ou seja, daqueles que ‘conheceram’ a Deus, temos os salvos, a descendência de Cristo, geração eleita por causa do Descendente. Individualmente todos os que são conhecidos de Deus são salvos por causa da promessa do evangelho que foi primeiramente anunciado a Abraão ( Gl 3:8 ), tornando-se os bem-aventurados filhos de Abraão.

Os cristãos são os “eleitos” ( 1Pe 1:2 ), porém, a eleição não é baseada na ideia de que a salvação é fruto de um olhar diferenciado de Deus para algumas pessoas previamente escolhidas para obedecerem o evangelho (fé), para só então, serem agraciados com a aspersão do sangue de Cristo.

Se a eleição fosse para a salvação, a salvação não seria pela fé em Cristo. Os calvinistas acreditam que os eleitos são justificados (salvos) por Deus e que tal escolha deve ser complementada pela fé no sangue de Cristo.

Para compreender a primeira epístola de Pedro, capítulo 1, verso dois, temos que ter em mente que o propósito de Deus é um beneplácito proposto em Si mesmo e os cristãos foram chamados para fazerem parte deste propósito grandioso ( Ef 1:9 ). Devemos ter em mente que ‘os estrangeiros da dispersão’ são designados eleitos em decorrência do que Deus propôs em Si mesmo (preeminência de Cristo), e não que o propósito d’Ele tenha em vista somente os cristãos (salvação).

A eleição é baseada na pessoa de Cristo ( Ef 1:4 ; Ef 3:11 ), e não na ideia que construíram com o termo presciência. A eleição é para o propósito estabelecido em Cristo e não nos homens. Como o tempo da eleição se deu antes da fundação do mundo, o evento antecipado segundo a ‘presciência’ de Deus Pai diz da santificação do Espírito, ou seja, da palavra, para a obediência e aspersão do sangue de Cristo.

Não se pode confundir santificação do Espírito com a ação do Espírito Santo. A santificação do Espírito é santificação através da palavra, pois os cristãos são ministros do Espírito, e as palavras de Cristo espírito e vida.

Observe a seguinte tradução bíblica interlinear do Novo Testamento: “Pedro apóstolo de Jesus Cristo a (os) eleitos forasteiros de (a) dispersão de (o) Ponto, de (a) Galácia, de (a) Capadócia, de (a) Ásia e de (a) Bitínia, segundo (a) presciência de Deus Pai em santificação de (o) Espírito para obediência e aspersão…” 1Pe 1:1- 2 Novo Testamento Interlinear Grego-Português SBB (grifo nosso).

Agora, observe a seguinte tradução bíblica e compare: “Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos estrangeiros da dispersão, no Ponto, na Galácia, na Capadócia, na Ásia e na Bitínia, eleitos segundo a presciência de Deus Pai, na santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas” 1Pe 1:1 -2 – Bíblia Sagrada, Antigo e Novo Testamento, Edição Contemporânea, Ed. Vida.

O apóstolo Pedro escreveu aos eleitos de Deus, forasteiros da dispersão, o que é completamente diferente de dizer que ele escreveu aos estrangeiros da dispersão, eleitos segundo a presciência de Deus. Os cristãos são eleitos em Cristo, e a presciência está relacionada com o sangue de Cristo, visto que o Cordeiro de Deus foi morto antes da fundação do mundo para obediência e aspersão do sangue de Jesus.

A presciência não está no fato de que Deus previu ou preordenou quem seriam, nestes últimos tempos, os homens agraciados com o sangue de Cristo para serem salvos, antes a presciência está no fato de que o sangue de Cristo foi conhecido ainda antes da fundação do mundo e anunciado de antemão pelos profetas “Mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado, o qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós” ( 1Pe 1:19 -20).

Novamente reitero: a presciência não é um aspecto da onisciência de Deus, portanto a eleição não decorre da concepção teológica de presciência como um aspecto da onisciência. Deus é onisciente é onipresente. Como Ele está em todos os lugares e tempos simultaneamente, segue-se que é onisciente. Mesmo Deus sendo onipresente, nada emana d’Ele que possa alterar as decisões de suas criaturas, a não ser a sua fidelidade.

Deus conhece todos os eventos, quer sejam passado, presente ou futuro, mas o seu saber não preordena.

A eleição é segundo o beneplácito que Deus propôs em Cristo, pois Ele escolheu a Cristo e a sua geração: a geração eleita. Para levar a efeito o que propusera em Cristo, o Cordeiro de Deus foi anunciado de antemão e, tudo o que foi predito ocorreu para que na plenitude dos tempos fosse possível a santificação pelo Espírito, que se dá através da aspersão do sangue de Cristo após a obediência ao evangelho ( 1Pe 1:11 ).

O apóstolo João fala da santificação do Espírito com os seguintes termos: “E qualquer que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, como também ele é puro” ( 1Jo 3:3 ). Ter a esperança em Cristo, ou seja, o crer no evangelho é o que purifica o homem, e não o contrário, de que o homem necessita purificar-se a si mesmo através de regras como não toques, não proves, não manuseies ( Cl 2:21 ).

A presciência de Deus aparece nas escrituras intimamente associada à pessoa e sacrifício de Cristo ( At 2:23 ; 1Pe 1:2 ), e a eleição e a predestinação ao propósito que Deus propôs em si mesmo, ou seja, na pessoa de Cristo ( Ef 1:9 ; Ef 3:11 ).

Qual a ordem cronológica dos eventos expresso no verso 30, de Romanos 8?

“E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou” ( Rm 8:30 ).

Como já analisamos anteriormente, todos que se tornaram um com Cristo (conheceu) possuem um único destino: ser conforme a imagem de seu Filho “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos” ( Rm 8:29 ).

Geralmente o apóstolo Paulo apresenta inicialmente a condição atual dos cristãos para depois demonstrar qual era a antiga condição deles ( Ef 1:13 e Ef 2:1 ). No verso em comento não é diferente: “Aos que predestinou” refere-se à condição atual dos cristãos, pois agora são filhos de Deus, coerdeiros com Cristo, predestinados a serem conforme a imagem do seu Filho ( Rm 8:29 ; 1Jo 3:1 ).

No verso 30 o apóstolo Paulo retroage os eventos no tempo: aos que predestinou, a estes também chamou, ou seja, o evento anterior à predestinação é o chamamento, conforme se lê: “Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” ( 2Tm 1:9 ).

O chamado é uma santa vocação segundo o propósito que Deus estabeleceu antes dos tempos dos séculos em Cristo, mas que é concedido aos cristãos por estarem em Cristo (por conhecê-Lo).

Retroagindo os eventos no tempo, o apóstolo Paulo descreve: “… e aos que chamou a estes também justificou…”, ou seja, a justificação é o que antecede o chamado de Deus para o seu propósito.

A justificação resulta do ato criativo de Deus, que declara justos aqueles que ressurgem com Cristo. Quando Deus cria o novo homem, gerado de novo pelo Seu poder (evangelho), Ele faz os homens justos e os declara justos.

E no que consiste a glorificação? A glorificação refere-se ao evento anterior à justificação, que é a ressurreição com Cristo e faz com que os cristãos estejam assentados nas regiões celestiais. Leia: “Porque aquele que está morto está justificado do pecado” ( Rm 6:7 ), ou seja, se o homem morreu com Cristo, livre está do pecado, ou seja, é declarado justo por ter conformado com Cristo na sua morte.

Ora, os que Deus declarou justo (justificou porque morreram para o pecado), a estes ele glorificou, ou seja, predestinou para serem conforme a expressa imagem de Cristo. A glorificação que o apóstolo Paulo faz alusão neste verso refere-se à ressurreição com Cristo em uma nova criatura (filiação divina), e não a glorificação futura, que é revestir o que é mortal da imortalidade.

A glorificação do verso 30 de Romanos 8 é a mesma que o apóstolo fez referência no verso 17: “O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e coerdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados” ( Rm 8:16- 17).

Quando os cristãos ressurgiram com Cristo ( Cl 3:1 ), são glorificados de fato porque recebem de Cristo a mesma glória que o Pai concedeu ao Filho “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um” ( Jo 17:22 ), pois ‘conheceram’ a Deus, ou antes foram ‘conhecidos’ d’Ele, nova condição que encaixa-se no chamado segundo o propósito em Cristo, destinando-os a serem filhos por adoção. ‘Glorificar’ é o mesmo que se tornar ‘um com Cristo e o Pai’, ou seja, é o mesmo que ‘conhecer’.

“E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou” ( Rm 8:30 ).

Assim, temos que todos que se conformam com Cristo na sua morte, Deus os fez ressurgir com Cristo (glorificou), mas antes de ressurgirem, foi-lhes necessário morrer com Cristo, momento em que ocorreu a justificação.

Ora, os ressurretos são uma nova geração em Cristo e, por isso são chamados com uma santa vocação (chamou), para serem conforme a imagem d’Aquele que os criou, ou seja, glorificados, predestinados ( 1Jo 3:1-2).

A geração eleita não possui outro destino que não seja ser filho, pois foi para isso que Deus os chamou: para que Cristo seja preeminente entre os seus muitos irmãos.

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