Os cristãos e as ‘boas obras’

Ao escrever a Tito, o apóstolo Paulo demonstra que os homens que dão ouvidos às fábulas judaicas e a mandamentos de homens são reprováveis para toda boa obra, pois são desobedientes e abomináveis diante de Deus, pois não creem em Cristo ( Tt 1:14 -15).


“Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” ( Ef 2:10 )

Recentemente ouvi em um ensinamento bíblico que muitos cristãos se esquivam de praticarem ‘boas obras’ para fugirem da ideia da salvação pelas obras, ao passo que os espíritas e católicos praticam ‘boas obras’ e os evangélicos em geral tem ignorado a importância espiritual delas. O pregador enfatizou de diversas formas que é necessário aos cristãos praticarem ‘boas obras’ e apresentou como argumento suficiente para embasar e concluir sua exposição o verso 10 de Efésios 2: “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas”.

Num primeiro momento a exposição de que os cristãos têm o dever de praticar as boas obras parece fazer sentido, porém, quando ele afirma que os cristãos negligenciam as ‘boas obras’ enquanto os espíritas e os católicos sobressaem nesta área, deixa claro que a argumentação do pregador deriva de uma lógica simplista, o que me levou a questionar: será que o ensinamento deste pregador é correto? O versículo citado foi interpretado corretamente?

É imprescindível ao interprete da bíblia analisar todo e qualquer versículo à luz de todos os pontos das Escrituras que fazem referencia ao tema para ter segurança quanto à interpretação do texto. Antes de iniciar a analise do verso: “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” ( Ef 2:10 ), faz-se necessário ao interprete se esvaziar de seus próprios conceitos, pois eles influenciam diretamente a interpretação.

Em segundo lugar, vale salientar que a tradução bíblica que utilizamos, João Ferreira de Almeida, que apesar da maravilhosa tradução que produziu, estava à mercê de uma concepção doutrinária que louvava a filantropia. Portanto, há pontos específicos na tradução que utilizamos que merecem um cuidado maior quando analisado, pois uma concepção de que a filantropia é um meio de se alcançar a salvação, ou que esmolar aproxima o homem de Deus demonstra certa influencia na tradução, e o tema boas obras merecem uma atenção específica.

“Antes dai esmola do que tiverdes, e eis que tudo vos será limpo ( Lc 11:41 )

Basta esmolar que o interior e o exterior do copo ficam limpos? O que limpa o homem do pecado é o sangue de Jesus ou o ato de dar esmolas? “Mas, se andarmos na luz, como ele na luz está, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o pecado” ( 1Jo 1:7 ); “Purificando as vossas almas pelo Espírito na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingido; amai-vos ardentemente uns aos outros com um coração puro” ( 1Pd 1:22 ); “Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra” ( Ef 5:26 ).

Analisando os termos traduzidos por ‘obra’, temos:

έργον, ου, το trabalho—1. ato, ação Lc 24.19; Cl 3.17; 2 Ts 2.17; Hb 4.3, 4, 10; Tg 2.14ss. Manifestação, prova prática Rm 2.15; Ef 4.12; 1 Ts 1.3; 2 Ts 1.11; Tg 1.4. Ato, realização Mt 11.2; Mc 14.6; Lc 11.48; Jo 3.19, 20s; 6.28s; 7.3, 21; 10.25, 37s.; At 9.36; Rm 3.20, 28; Cl 1.10; Hb 6.1; Tg 3.13; Ap 15.3.— 2. trabalho, tarefa, ocupação Mc 13.34; Jo 17.4; At 14.26; 5.38; 1 Co 15.58; 2 Tm 4.5.—3. trabalho, no sentido passivo, indicando o produto do trabalho At 7.41; 1 Co 3.13, 14, 15; Hb 1.10; 2 Pe 3.10; 1 Jo 3.8.—4. coisa, matéria At 5.38; talvez 1 Tm 3.1. [ergometria] 

ένεργέω—1. trabalhar, estar trabalhando,operar, ser efetivo at Mc 6.14; Gl 2.8; Ef 2.2. το θέλειν και το έ. α vontade e acão Fp 2.13b. Méd. trabalhar Rm 7.5; 2 Co 4.12; Ef 3.20; 1 Ts 2.13; tornar-se efetivo 2 Co 1.6. δέησις έ. poder efetivo Tg 5.16.—2. trabalhar, produzir, efetuar 1 Co 12.6; Ef 1.11; 2.2; Fp 2.13a. Léxico do Novo Testamento Grego / Português, F. Wilbur Gingrich, Revisado por Frederick W. Danker, Tradução de Júlio Ρ. Τ. Zabatiero.

É suficiente socorrer-nos de um dicionário para compreendermos a proposta de Cristo e dos seus apóstolos? É plenamente compreensível quando o termo ‘obra’ é empregado como ocupação,  por exemplo: Marcos 13, verso 34. Mas, como compreender o termo ‘obra’ quando ele é utilizado para demonstrar que a paciência é uma ‘obra’ que a fé realiza? “Sabendo que a prova da vossa fé opera a paciência. Tenha, porém, a paciência a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, sem faltar em coisa alguma” ( Tg 1:3 -4).

O mesmo termo empregado pelo apóstolo Paulo na carta aos Efésios, verso 10, capitulo 2, é empregado na carta aos Colossenses capítulo primeiro, verso 10. Compare:

“Para que possais andar dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda a boa obra, e crescendo no conhecimento de Deus” ( Cl 1:10 ).

“Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” ( Ef 2:10 )

Enquanto na carta aos Efésios os cristãos são apresentados como novas criaturas que Deus criou em função das boas obras, na carta aos Colossenses o cristão é alertado a produzir boas obras. Qual abordagem é correta?

Considerando que a palavra de Deus é única e imutável, não podemos aquiescer que a abordagem de um tema possua duas interpretações distintas. Seria catastrófico analisar as Escrituras se deparássemos com frases ambíguas (sugere dois sentidos) ou vagas (não há um sentido definido) por falta de clareza ou precisão na abordagem de um tema.

Há um ramo da filosofia que analisa erros de construções de textos seculares decorrentes da ambiguidade, o que resulta em uma falácia. Os principais erros de construção de um texto são: Equívoco (A mesma palavra pode ser usada com dois significados diferentes), Anfibologia (uma frase permite atribuir-lhe diferentes significados) e a Ênfase (sugere uma proposição diferente daquela que, de facto, é expressa).

Um dos maiores problemas da humanidade surgiu com a ênfase. Enquanto Deus disse ao homem que poderia comer de todas as árvores do jardim do Éden livremente, com a ressalva de haver consequências caso comesse da árvore do conhecimento do bem e do mal, o diabo, ao falar com a mulher enfatizou a ideia de proibição quando disse: “É assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim?” ( Gn 3:1 ), contrariando a liberdade plena que o homem possuía.

Na bíblia, apesar de uma mesma palavra poder ser utilizada com dois significados diferentes, o contexto deixa claro qual é o significado utilizado. As proposições bíblicas não comportam dois significados diferentes na uma mesma frase.

Não há erros de construção frasal na bíblia, antes o erro se dá no interprete que, quando analisa um texto bíblico, por causa da sua concepção, dá ênfase a um determinado elemento fazendo surgir uma nova proposição completamente distinta do que o escritor postulou.

Daí a necessidade de fazermos algumas perguntas às afirmações simplistas sobre boa obras: o cristão deve frutificar e crescer na ‘boa obra’ ou frutificar e crescer no ‘conhecimento de Deus’? Qual a ênfase do capítulo primeiro de Colossenses, verso 10: frutificar e crescer na ‘boa obra’ ou frutificar e crescer no ‘evangelho’, que é ‘conhecimento de Deus’?

O apóstolo Paulo demonstrou que os cristãos são feituras de Deus ( Ef 4:24 ), criados em Cristo Jesus para as boas obras, sendo que as boas obras foram preparadas por Deus para que os cristãos estivessem nelas: “dele [2] Pois [1] somos feitura, criados em Cristo Jesus para obras boas as quais previamente preparou [2] Deus [1]” Novo Testamento Interlinear Grego / Português por Vilson Scholz, Barueri, SP: SBB, 2004.

Este versículo da carta aos cristãos em Éfeso tem por base o que predisse o profeta Isaias: “SENHOR, tu nos darás a paz, porque tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras ( Is 26:12 ; Ef 2:17 ). É Deus que concedeu gratuitamente aos homens a paz através de Cristo, o Príncipe da Paz, de modo que, o próprio Deus reconciliou os homens através da oferta do corpo de Cristo concedendo aos que creem a paz que excede todo entendimento ( Ef 2:16 ). Foi Deus quem realizou para os que creem todas as obras, colocação que o apóstolo Paulo buscou no livro de Isaias.

No verso de Colossenses é feito alusão ao ‘Senhor’, à ‘boa obra’ e ao ‘conhecimento de Deus’, e quatro processos nos quais os cristãos figuram como parte ativa: andar, agradar, frutificar e crescer. O cristão deve andar dignamente diante de Deus, agradando-O em tudo.

Mas como andar agradando a Deus? Primeiro é necessário ser criado em Cristo Jesus, pois sem Cristo é impossível agradar a Deus.

Consequentemente a nova criatura estará nas boas obras que Deus preparou, o que é essencial para que o cristão possa frutificar e crescer no conhecimento de Deus “… para andardes dignamente do Senhor para todo agrado, em toda obra boa frutificando e crescendo no conhecimento de Deus…” Novo Testamento Interlinear Grego / Português por Vilson Scholz, Barueri, SP: SBB, 2004.

Só é possível frutificar quando se está ligado à videira verdadeira, ou seja, quando se é uma nova criatura “Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” ( Jo 15:5 ); “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ).

A ênfase de Colossenses 1, verso 10 é Cristo, o Príncipe da paz, visto que aquele que está em Cristo foi criado em função da boa obra, apto a frutificar e crescer no conhecimento de Deus “Para que possais andar dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda a boa obra, e crescendo no conhecimento de Deus” ( Cl 1:10 ).

Sem Cristo não há quem faça o bem. Todos juntamente se desviaram e tornaram-se imundos, de modo que não havia um justo se quer ( Sl 53:3 ; Sl 14:3 ; Rm 3:12 ; Mq 7:2 ). Como é possível o homem sem Cristo fazer boa obra se não há quem faça o bem? Antes de Cristo se manifestar nunca houve entre os homens quem atendesse um necessitado, ou que não houvesse dado esmolas e nem oferecido alimento ao faminto e cobertura a um peregrino?

Jesus mesmo disse: “Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos…” ( Mt 7:11 ), o que demonstra que dar boas coisas aos semelhantes não é ser bom e nem é o mesmo que fazer o bem. Cristo vai além ao demonstrar que, aos maus é impossível dizer boas coisas, que se dirá de realizar boas obras “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” ( Mt 12:34 ).

Considerando que é através de Cristo que Deus concedeu aos que creem estarem nas boas obras tornando possível frutificarem e que, sem Cristo não há quem faça o bem, como é possível a alguém que não crê em Cristo como diz as Escrituras ter em si as ‘obras’ realizadas por Deus? É Deus quem preparou os cristãos para as boas obras, ou qualquer pessoa está apta a produzi-las?

O Senhor Jesus fez um alerta sobre as obras que contém a resposta para as pergunta acima:

“Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. E a condenação é esta: Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más. Porque todo aquele que faz o mal odeia a luz, e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus ( Jo 3:18 -21).

Após demonstrar a Nicodemos que quem crê no Unigênito Filho de Deus é livre da condenação que há no mundo, e que quem não crê permanece na condenação, Jesus destacou que os homens amaram mais as trevas do que a Luz que veio ao mundo pelo fato das obras deles serem más.

Jesus destaca que aqueles que vêm a Ele (vem para luz), são os que praticam a verdade, e é manifesto que as suas obras são feitas em Deus. Compete ao homem ‘praticar’ a verdade para ‘estar’ na luz e, somente aqueles que praticam a verdade são descritos como aqueles que realizam as suas obras em Deus.

Devemos interpretar Efésios 2, verso 10 considerando o ensinamento de Jesus e a profecia de Isaias, portanto fazer ‘boas obras’ não é o mesmo que praticar filantropia.

Aos escrever aos Filipenses, o apóstolo Paulo deixa claro que a ‘boa obra’ é realizada por Deus nos que creem, pois Deus começou e Ele mesmo aperfeiçoará a sua ‘boa obra’ até a vinda de Cristo “Tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo” ( Fl 1:6 ).

Qual a boa obra que Deus ‘começou’ nos que creem? A resposta está no seguinte ensinamento de Jesus: “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

E como Deus ‘aperfeiçoa’ a sua obra? Através dos seus apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e doutores, como se lê: “E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo” ( Ef 4:11 -12).

Quando o homem crê em Cristo ‘fez’ a obra de Deus, porém, necessita de perseverança, ou seja, não pode se demover da verdade do evangelho. É neste ponto que entram os apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e doutores: eles estão incumbidos de defenderem a verdade do evangelho para que os cristãos não se demovam da obra realizada por Deus, deixando de crer em Cristo.

Edificar o corpo de Cristo é a boa obra de Deus, e só possível estar na ‘boa obra’ quando o homem crê em Cristo. A edificação do corpo de Cristo é a obra que Deus está realizando no tempo presente, pois se refere a obra do templo prometido ao rei Davi ( 2Sm 7:11 -13).

Deus prometeu a Davi que edificaria uma casa ao Seu Nome e, que o Descendente prometido seria o homem que edificaria uma casa a Deus. Quando nasceu o Cristo na casa de Davi, Deus deu inicio a sua obra segundo a sua palavra, pois Deus não habita em casa feita por mãos de homens ( At 17:24 ).

Cristo foi gerado segundo o que fora prometido a Davi: ‘Eu lhe serei por Pai, e Ele me será por Filho’, e como pedra angular do edifício de Deus foi preparado para as boas obras. Cristo é a base da boa obra como pedra angular do templo de Deus ( 2Sm 7:14 ). Cristo é a pedra angular da obra de Deus e os que creem tornam-se feituras de Deus, criados em Cristo como pedras vivas, preparados para comporem o templo santo que foi prometido a Davi ( 1Pe 2:4 -5); “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” ( Ef 2:10 ); “Inclinai os vossos ouvidos, e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, dando-vos as firmes beneficências de Davi” ( Is 55:3 ).

O verso 10 de Efésios 2 é melhor compreendido quando entendemos que na antiguidade as pedras eram preparadas com exclusividade para compor uma determinada obra, de modo que os cristãos são feituras de Deus em Cristo para comporem a boa obra. Daí a colocação paulina: Deus estabeleceu de antemão que os que cressem em Cristo comporiam a obra do templo que Deus prometera a Davi na condição de pedras vivas ( Ef 2:20 -22).

E como Deus aperfeiçoa a Sua boa obra? Através dos ensinamentos dos apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e doutores. O objetivo é que cada pedra viva chegue à medida da estatura completa de Cristo “Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo…” ( Ef 4:13 ; Fl 1:6 ).

Neste aspecto, Tiago recomendou aos cristãos que regozijassem quando se deparassem com várias provações, pois a prova da fé dos cristãos redunda em paciência, sendo que a paciência é a obra perfeita que a fé opera “Meus irmãos, tende grande gozo quando cairdes em várias tentações; Sabendo que a prova da vossa fé opera a paciência. Tenha, porém, a paciência a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, sem faltar em coisa alguma” ( Tg 1:3 -4).

Nestes versos Tiago não estava tratando da confiança dos cristãos, antes da Fé que foi manifesta trazendo salvação a todos os homens, sem a qual o justo não vive e que sem ela é impossível agradar a Deus ( Gl 3:23 ). A perseverança ou paciência é a obra completa de Cristo “Mas aquele que perseverar até ao fim será salvo” ( Mt 24:13 ); “Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito” ( Tg 1:25 ).

Que obra o homem deve realizar que promove a bem-aventurança? Crer em Cristo, pois está é a lei perfeita da liberdade. Quem cuida dos que creem para que permaneçam na verdade do evangelho é obreiro de Deus nesta obra.

Ao escrever a Tito, o apóstolo Paulo descreveu o perfil de um presbítero. Após apontar algumas características de cunho pessoal ( Tt 1:6 -8), destaca que os bispos devem guardar firme a palavra fiel sem dar ouvidos aos pensamentos judaicos, pois os judaizantes diziam conhecer a Deus, porém, eram réprobos para a boa obra “Confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras, sendo abomináveis, e desobedientes, e reprovados para toda a boa obra” ( Tt 1:16 ).

Como era possível dizerem conhecer a Deus e negá-lo com as obras? Negavam a Deus pelo fato de não crerem em Cristo Jesus como Filho de Deus, pois aquele que nega o Filho, nega também o Pai. Embora dissessem que obedeciam a Deus, não realizavam a obra exigida por Deus: crer em Cristo “E Jesus clamou, e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas naquele que me enviou” ( Jo 12:44 ); “Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai. Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou” ( Jo 5:23 ).

Como rejeitaram a Cristo, a pedra de esquina, os construtores de Israel eram réprobos para a boa obra, pois a obra de Deus é crer em Cristo.

Sobre este aspecto disse o apóstolo João: “Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade” ( 1Jo 3:18 ). Dizer que ‘conhece a Deus’ ou ‘que ama a Deus’ sem crer em Cristo é o mesmo que não realizar a obra exigida por Deus “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

Observe que Jesus é especifico: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” ( Jo 14:21 ). Sem obedecer a Cristo é impossível amá-Lo ou conhecê-Lo, pois Jesus se manifesta, ou melhor, conhece ou é conhecido daqueles que O obedecem.

Por que os judaizantes eram reprováveis para a boa obra? Porque não retinham a sã doutrina do evangelho e o que ensinavam não promovia a edificação do templo de Deus prometido a Davi “Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes. Porque há muitos desordenados, faladores, vãos e enganadores, principalmente os da circuncisão, Aos quais convém tapar a boca; homens que transtornam casas inteiras ensinando o que não convém, por torpe ganância” ( Tt 1:9 -11).

Ao escrever a Tito, o apóstolo Paulo queria que estabelecessem presbíteros, pois a intenção do apóstolo era o aperfeiçoamento dos santos, a obra do ministério, a edificação do corpo de Cristo “Querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo” ( Ef 4:12 ).

É comum o equivoco de relacionar ‘boas obras’ com questões de cunho comportamental, ou com questões de ordem filantrópica. O bom comportamento é salutar à vida do cristão, porém, o ‘exemplo’ de ‘boas obras’ decorre única e exclusivamente de uma exposição sadia da doutrina de Cristo. Ser ‘exemplo de boas obras’ refere-se a conservar intocado o modelo da doutrina do evangelho, ou seja, livre de mistura, mancha “Em tudo te dá por exemplo de boas obras; na doutrina mostra incorrupção, gravidade, sinceridade” ( Tt 2:7 ).

A ideia de ‘exemplo’ em Tito 2, verso 7 expressa a mesma ideia do termo ‘modelo’ em segunda Timóteo: “Conserva o modelo das sãs palavras que de mim tens ouvido, na fé e no amor que há em Cristo Jesus” ( 2Tm 1:13 ); “Somente deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho de Cristo, para que, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de vós que estais num mesmo espírito, combatendo juntamente com o mesmo ânimo pela fé do evangelho” ( Fl 1:27 ).

Ao escrever aos filipenses, o apóstolo Paulo rogou que vivessem dignos do evangelho de Cristo. Um bom comportamento é necessário? Sim! Entretanto, a preocupação maior do apóstolo para com os seus interlocutores era que permanecessem firmes no espírito, que é o mesmo que permanecer firme na palavra, evangelho, fé, conhecimento. “Então, irmãos, estai firmes e retende as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa” ( 2Ts 2:15 ); “Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes” ( Tt 1:9 ); “Vigiai, estai firmes na fé; portai-vos varonilmente, e fortalecei-vos” ( 1Co 16:13 ); “Vós, portanto, amados, sabendo isto de antemão, guardai-vos de que, pelo engano dos homens abomináveis, sejais juntamente arrebatados, e descaiais da vossa firmeza” ( 2Pd 3:17 ); “Por Silvano, vosso fiel irmão, como cuido, escrevi abreviadamente, exortando e testificando que esta é a verdadeira graça de Deus, na qual estais firmes” ( 1Pd 5:12 ).

Ao escrever a Timóteo, o apóstolo dos gentios preocupou-se em apresentar o que é conveniente a um ministro do evangelho (como convém andar na casa de Deus). Timóteo deveria demonstrar o que expressamente a palavra diz: que nos últimos dias alguns apostatariam da fé, e enfatizou qual seria o ensinamento dos réprobos quanto ao evangelho. Mas, se Timóteo expusesse tais enganadores, seria um bom ministro de Cristo ( 1Tm 4:1 -10); “Mas, se tardar, para que saibas como convém andar na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade” ( 1Tm 3:15 ).

Os obreiros de Deus foram comissionados para uma obra específica: “Mas tu, sê sóbrio em tudo, sofre as aflições, faze a obra de um evangelista, cumpre o teu ministério” ( 2Tm 4:5 ). Aquele que maneja bem a palavra da verdade, que evita falatórios profanos e permanece firmado no fundamento de Deus ( 2Tm 2:14 -19), está preparado para a boa obra  “De sorte que, se alguém se purificar destas coisas, será vaso para honra, santificado e idôneo para uso do Senhor, e preparado para toda a boa obra” ( 2Tm 2:21 ); “Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra” ( 2Tm 3:17 ).

Nesta abordagem feita aos Tessalonicenses: “Por isso exortai-vos uns aos outros, e edificai-vos uns aos outros, como também o fazeis. E rogamo-vos, irmãos, que reconheçais os que trabalham entre vós e que presidem sobre vós no Senhor, e vos admoestam; E que os tenhais em grande estima e amor, por causa da sua obra. Tende paz entre vós” ( Ts 5:11 -13), o apóstolo Paulo recomenda honra aos que presidiam, por causa da obra de ‘edificar’ uns aos outros por meio da palavra (exortação).

O apóstolo Paulo demonstrou que os cristãos de corintos eram a sua ‘obra’ no Senhor “NÃO sou eu apóstolo? Não sou livre? Não vi eu a Jesus Cristo SENHOR nosso? Não sois vós a minha obra no Senhor?” ( 1Co 9:1 ). O que compreender desta declaração? Que como sábio arquiteto o apóstolo Paulo havia posto Cristo como fundamento e, cada cristão em particular estava sobre edificado em Cristo “Segundo a graça de Deus que me foi dada, pus eu, como sábio arquiteto, o fundamento, e outro edifica sobre ele; mas veja cada um como edifica sobre ele” ( 1Co 3:10 ).

Lembrando que é através dos seus apóstolos que Deus ‘aperfeiçoa’ a sua obra: “E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo” ( Ef 4:11 -12).

Ao escrever aos corintos, o apóstolo Paulo demonstra que os cristãos creram em Cristo  conforme o que Deus deu a cada um dos seus ministros: “Pois, quem é Paulo, e quem é Apolo, senão ministros pelos quais crestes, e conforme o que o SENHOR deu a cada um? Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento. Por isso, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento. Ora, o que planta e o que rega são um; mas cada um receberá o seu galardão segundo o seu trabalho. Porque nós somos cooperadores de Deus; vós sois lavoura de Deus e edifício de Deus” ( 1Co 3:5 -9).

Observe que a lavoura ou o edifício pertence a Deus, ou seja, a obra é d’Ele. O fundamento foi estabelecido por Deus, que é Cristo, de modo que ninguém pode por outro fundamento ( 2Ts 2:19 ). O que compete aos cooperadores é trabalhar no edifício, sendo que o justo juiz é quem apreciará a obra de cada um “Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo. E, se alguém sobre este fundamento formar um edifício de ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, a obra de cada um se manifestará; na verdade o dia a declarará, porque pelo fogo será descoberta; e o fogo provará qual seja a obra de cada um. Se a obra que alguém edificou nessa parte permanecer, esse receberá galardão. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá detrimento; mas o tal será salvo, todavia como pelo fogo” ( 1Co 3:11 -15).

A palavra de Deus é a base da Sua obra, pois Ele diz: “Assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei” ( Is 55:11 ). Cristo é o Verbo do Deus vivo, fundamento da obra do Pai “Vede, ó desprezadores, e espantai-vos e desaparecei; Porque opero uma obra em vossos dias, Obra tal que não crereis, se alguém vo-la contar” ( At 13:41 ).

Isaias profetizou contra os ‘desprezadores’, os lideres do povo de Israel, alertando-os de que Deus assentaria na cidade de Davi a pedra provada, de modo que aquele que n’Ele cresse, não pereceria ( Is 28:14 e 16). Semelhantemente, Habacuque profetizou que Deus realizaria uma obra em meio ao povo de Israel que, quando contada, o povo não creria ( Hc 1:4 ).

A obra do Pai é realizada por sua palavra, de modo que, quando Jesus na condição de servo anunciava as palavras do Pai, Deus estava em Cristo realizando a sua obra. A palavra de Deus diz de Cristo, e quando o Verbo encarnado apregoou o ano aceitável do Senhor, demonstrava aos homens ser o firme fundamento estabelecido na obra do Pai “Crede-me que estou no Pai, e o Pai em mim; crede-me, ao menos, por causa das mesmas obras” ( Jo 14:11 ).

Qualquer que anuncia Cristo às nações realiza as obras que Cristo fez “Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas, porque eu vou para meu Pai” ( Jo 14:12 ).

Ao escrever a Tito, o apóstolo Paulo demonstra que os homens que dão ouvidos às fábulas judaicas e a mandamentos de homens são reprováveis para toda boa obra, pois são desobedientes e abomináveis diante de Deus, pois não creem em Cristo ( Tt 1:14 -15).

Em seguida o apóstolo Paulo orienta Tito a exortar os velhos a serem temperantes, respeitáveis, cordatos, sadios na fé, no amor e na constância; as mulheres são exortadas a serem sérias no seu viver; os moços moderados; os servos a serem obedientes aos seus senhores. Tais comportamentos são pertinentes a quem é pedra viva no templo de Deus, porém, a obra não se fundamenta no comportamento, e sim, na palavra, pois o comportamento segundo a moral dos homens constitui-se somente ornamento à doutrina do evangelho ( Tt 2:10 ).

Semelhantemente, o cristão deve se submeter às questões de governo, estado etc., para não haver entrave quanto ao anuncio do evangelho.

Qual deve ser o zelo de um cristão? O apóstolo Paulo responde: “Porque estou zeloso de vós com zelo de Deus; porque vos tenho preparado para vos apresentar como uma virgem pura a um marido, a saber, a Cristo” ( 2Co 11:2 ). Como o apóstolo zelaria dos cristãos com zelo de Deus? Preservando intocado o evangelho, pois o evangelho é a simplicidade de Cristo, que os falsos apóstolos e obreiros fraudulentos queriam transtornar ( 2Co 11:3 -4); “O qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras” ( Tt 2:14 ).

Jesus demonstrou que as palavras que dizia aos seus discípulos não era dele, antes do Pai, que o enviou, de modo que é Deus quem faz a sua obra por intermédio de Cristo “Não crês tu que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo de mim mesmo, mas o Pai, que está em mim, é quem faz as obras” ( Jo 14:10 ).

As ‘boas obras’ só é possível àqueles que estão em Deus, ou seja, que creram em Cristo. Sem Cristo o homem é mau e só realiza obras más, visto que ‘boas obras’ são feitas única e exclusivamente por aqueles que creem em Cristo “Qualquer que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele, e ele em Deus” ( 1Jo 4:15 ).

Ora, qualquer que não confessa que Cristo é o Filho do Deus vivo não pratica e não pode praticar boas obras, pois não está em Deus. Portanto, quando referirmos as práticas louváveis do ponto de vista dos homens, como as ações de ordem filantrópicas, ou de bom trato, nomearemos de ‘boas ações’, e não ‘boas obras’, pois as ‘boas obras’ só são realizadas por aqueles que confessam que Jesus é o Filho de Deus.

Mas, para o homem estar em Deus, primeiro tem que crer em Cristo ( 1Jo 4:15 ), o que o habilita para a boa obra. Para o cristão preparar-se para a boa obra, deve sujeitar-se as autoridades de estado, uma vez que a boa obra não diz de luta política ou de classes “Admoesta-os a que se sujeitem aos principados e potestades, que lhes obedeçam, e estejam preparados para toda a boa obra” ( Tt 3:1 ).

Quando o apóstolo Paulo diz a Tito: “E os nossos aprendam também a aplicar-se às boas obras, nas coisas necessárias, para que não sejam infrutuosos” ( Tt 3:14 ), estava fazendo alusão a palavra do evangelho, e não as ações de cunho social que tanto é apregoada em nossos dias.

Quando o apóstolo Paulo diz que Epafrodito esteve próximo da morte pela obra, temos que entender que, para que a palavra sem fermento fosse anunciada pelo apóstolo dos gentios, Epafrodito não fez caso de sua própria existência para suprir as necessidades de Paulo “Porque pela obra de Cristo chegou até bem próximo da morte, não fazendo caso da vida para suprir para comigo a falta do vosso serviço” ( Fl 2:30 ).

Epafrodito se dispôs a dar a vida trabalhando para sustentar o apóstolo Paulo para que a Palavra da verdade fosse pregada. Epafrodito sabia que era necessário que Paulo continuasse ensinando a verdade do evangelho para que os crentes pudessem conservar o modelo das sãs palavras de Cristo, pois só por intermédio dela é que Deus realiza a sua obra “As palavras que eu vos digo não as digo de mim mesmo, mas o Pai, que está em mim, é quem faz as obras” ( Jo 14:10 ).

A obra de Deus está vinculada à palavra de Deus. Sem a palavra de Deus não há obra boa. Quando se anuncia as palavras de Deus conforme as Escrituras, a obra e realizada por Deus.

Quando lemos: “Vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a sua vontade, operando em vós o que perante ele é agradável por Cristo Jesus, ao qual seja glória para todo o sempre. Amém” ( Hb 13:21 ), a ênfase do escritor aos Hebreus repousa no fato de os cristãos serem criados para a boa obra e, que por sua vez, Deus os aperfeiçoará para fazerem a vontade de Deus: “Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” ( 1Tm 2:4 ); “Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” ( Jo 6:40 ).

Todos quantos falam conforme o mandamento que Cristo recebeu do Pai são perfeito para a boa obra: “E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito” ( Jo 12:50 ), pois quem não diz nada de si mesmo ou conforme a sua carnal compreensão é porque sabe que é Deus quem faz a Sua obra ( Jo 14:10 ).

Conhecer o Pai por intermédio do Filho é a obra que Deus realiza “E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” ( Jo 17:3 ).

 

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Por que Deus é bom?

Se o homem for infiel, Deus permanece fiel. Se o homem não o invocar, não será perdoado, porém, Deus permanece bom. Deus não pode negar-se a si mesmo, Ele é imutável. Como pode ser isto? Deus permanece ‘bom’ mesmo quando castiga os transgressores? Sim! A bíblia é categórica: “Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação” ( Tg 1:17 ); “Porque eu, o SENHOR, não mudo; por isso vós, ó filhos de Jacó, não sois consumidos” ( Ml 3:6 ).


“LOUVAI ao SENHOR, porque ele é bom; porque a sua benignidade dura para sempre” ( Sl 136:1 )

Introdução

Deus é bom! Este é o posicionamento das Escrituras.

Além do predicativo ‘bom’, Deus é descrito como aquele que é detentor do perdão e pleno de bondade para com todos os que O invocam “Pois tu, Senhor, és bom, e pronto a perdoar, e abundante em benignidade para todos os que te invocam” ( Sl 86:5 ).

E quanto aos que não invocam a Deus? Deus é bom? Sim, Deus é bom! A Bíblia demonstra que se o homem for infiel, Ele permanece fiel, portanto, Deus é bom, mesmo quando o homem não O invoca “Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo” ( 2Tm 2:13 ).

Se o homem for infiel, Deus permanece fiel. Se o homem não o invocar, não será perdoado, porém, Deus permanece bom. Deus não pode negar-se a si mesmo, Ele é imutável. Como pode ser isto? Deus permanece ‘bom’ mesmo quando castiga os transgressores? Sim! A bíblia é categórica: “Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação” ( Tg 1:17 ); “Porque eu, o SENHOR, não mudo; por isso vós, ó filhos de Jacó, não sois consumidos” ( Ml 3:6 ).

Deus permanecerá ‘bom’ mesmo quando derramar o seu furor sobre os impenitentes? Como é possível haver tanto sofrimento na humanidade e Deus permanecer bom? É possível conciliar Deus ‘onipotente’ e ‘bom’ com o problema apresentado pela filosofia acerca da existência do mal?

Há quem considere estas questões como um problema teológico de grande magnitude, porém, o problema não está em Deus, e sim, quanto à compreensão de muitos que tentaram amalgamar filosofia com teologia.

 

Deus é bom

Deus é Deus, ou seja, onipotente, onisciente e onipresente. Também somos informados pela Bíblia que Deus é Senhor, Soberano, Pai, Rei, etc.

Mas, o que entender por ‘bom’ quando lemos: ‘Deus é bom’?

A primeira reação do leitor interessado em saber o significado verdadeiro do termo é buscar um dicionário e fazer a seguinte leitura:

“bom – adj. – 1. Que é como deve ser ou como convém que seja; 2. Que tem bondade; 3. Hábil, destro; 4. Trabalhador; 5. Favorável; 6. Lucrativo; 7. Espirituoso, engraçado; 8. Cumpridor dos seus deveres; 9. Seguro, sólido; 10. Regular, normal; 11. Adequado. – s. m. – 12. Homem bom”

Quais destes predicativos aplicam-se a Deus quando lemos ‘Deus é bom’? Os adjetivos elencados acima são todos pertinentes à visão de mundo do homem do nosso tempo, a visão do homem moderno. Para o homem moderno ‘bom’ refere-se a uma virtude pessoal, disposição permanente de uma pessoa em não fazer maldade, benevolente.

Mas, era esta a visão de mundo do salmista Davi quando afirmou: “Deus é bom”?

Embora o reinado de Davi seja classificado como teocrático, à sua época as sociedades se estruturavam e cultivavam uma cultura com princípio aristocrático, pois havia uma enorme distancia entre o rei e seus súditos. Nas relações sociais, havia uma distância enorme entre senhor e servo, fenômeno próprio às sociedades aristocráticas.

Em termos gerais aristocracia do grego αριστοκρατία, de άριστος (aristos), melhores; e κράτος (kratos), poder, Estado, se lê ‘poder dos melhores’, ou seja, diz de uma forma de governo em que um grupo elitista controla o poder político, sendo as cidades-estados dos Espartanos exemplo de estado governado por uma aristocracia.

Tal designação “poder dos melhores” nos faz recordar que, na antiguidade, os aristocratas eram designados ‘melhores’, ‘bons’, ‘senhores’, ‘distintos’, ‘escolhidos’.

Bons? Sim! O termo grego traduzido por ‘bom’ é ἀγαθούς (agathos), com origem em outra raiz correspondente ao substantivo Arete.

“… continha em si a conjugação de nobreza e bravura militar (…) quase nunca tem o sentido posterior de ‘bom’, como arete não tem o de virtude moral”  Jaeger, Werner, Paidéia, A Formação do homem Grego, tradução Artur M. Parreira, São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2003. Pág. 27; “Senhorio e arete estavam inseparavelmente unidos. A raiz da palavra é a mesma: άριστος, superlativo de distinto e escolhido…” Idem, Pág. 26.

A condição de senhorio era perfeita do ponto de vista funcional, ou seja, ausente a nuance moral que a nossa sociedade está acostumada e louva, de modo que a condição senhor guardava relação intrínseca à ideia de bom.

Friedrich Nietzche em sua obra ‘A genealogia da moral’, fez a seguinte observação:

“… que significam exatamente, do ponto de vista etimológico, as designações para ‘bom’ cunhadas pelas diversas línguas? Descobri então que todas elas remetem à mesma transformação conceitual – que, em toda parte, ‘nobre’, ‘aristocrático’, no sentido social, é o conceito básico a partir do qual necessariamente se desenvolveu ‘bom’, no sentido de ‘espiritualmente nobre’, ‘aristocrático’, de ‘espiritualmente bem-nascido’, ‘espiritualmente privilegiado’: um desenvolvimento que sempre corre paralelo àquele outro que faz ‘plebeu’, ‘comum’, ‘baixo’ transmutar-se finalmente em ‘ruim’” Nietzche, Friedrich, Genealogia da moral – Uma polêmica, Tradução Paulo César de Souza, São Paulo: Companhia das Letras, 2009. Pág. 18.

Traduzir o termo grego agathos por ‘bom’ em virtude da transformação do significado ao longo dos séculos transtorna a ideia que a bíblia apresenta, pois a palavra grega ‘agathos’, em virtude do contexto bíblico onde está inserida, deveria ser traduzida por ‘nobre’, pois a raiz etimológica da palavra ‘agathos significa ‘alguém que é, que tem realidade, que é real, verdadeiro’. Com relação ao termo, Nietzche assevera que, mesmo com relação a uma mudança subjetiva, o termo significa ‘o verdadeiro enquanto veraz’. O termo era empregado para levar adiante o lema da nobreza, de modo a distinguir o nobre do homem comum, mentiroso (Jaeger, Paidéia, Pág. 19).

Qual o sentido de ‘verdadeiro’, quando se lê: “De maneira nenhuma; sempre seja Deus verdadeiro, e todo o homem mentiroso; como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras, e venças quando fores julgado” ( Rm 3:4 ). Ou, qual o sentido de ‘mentiroso’? Neste verso, o significado de ‘verdadeiro’ e ‘mentiroso’ possui conotação moral? Refere-se ao caráter do indivíduo? Observe:

“E os servos, saindo pelos caminhos, ajuntaram todos quantos encontraram, tanto maus como bons; e a festa nupcial foi cheia de convidados” ( Mt 22:10 );

Como interpretar a parábola? Os maus e os bons que os escravos trouxeram a mando do seu senhor possui conotação moral? Não! No texto, maus e bons tem o sentido de ‘vis’ e ‘nobres’, ‘pequenos’ e ‘grandes’, pois o Senhor da parábola não faz acepção de pessoas.

“Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos” ( Mt 5:45 ).

No sermão da montanha, qual o sentido de maus e bons? Ora, sabemos que Deus não faz acepção de pessoas, e que o sol nasce sobre nobres e comuns, justos e injustos, portanto, o sentido das palavras ‘maus’ e ‘bons’ não podem ser interpretadas em sua acepção moral.

“A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz; Se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso” ( Mt 6:22 -23).

Os olhos podem ser moralmente maus ou bons? Ou o sentido de ‘mau’ e ‘bom’ refere-se à ideia de simples, comum, contrastando com a ideia de bom, são, nobre? O comentarista Barclay recomenda traduzir ‘bom’ por generoso, porém, não é a tradução correta, pois a ideia de generoso refere-se à liberalidade dos nobres em fazerem o que quisessem com o que lhes pertencia.

“Para obter um texto mais fiel ao original devemos traduzir aqui generoso em lugar de bom ou simples. Jesus elogia o olho generoso” Barclay, Willian, Comentário do Novo Testamento. Pág. 264.

Daí, a seguinte passagem:

“Ou não me é lícito fazer o que quiser do que é meu? Ou é mau o teu olho porque eu sou bom?” ( Mt 20:15 )

Diante da liberalidade que era próprio aos ‘bons’ fazerem o quem bem entendessem com o que lhes pertencia, o nobre em questão repreende os trabalhadores que censuraram o seu ato. Segundo a visão do homem do nosso tempo, a conduta do empregador é um despautério, pois ele iguala os trabalhadores ao conceder o mesmo salário a todos sem considerar o tempo de trabalho de cada um, porém, segundo a visão do homem à época de Cristo, o despautério surge quando o homem comum contesta a liberalidade do nobre “Por três coisas se alvoroça a terra; e por quatro que não pode suportar: Pelo servo, quando reina; e pelo tolo, quando vive na fartura; Pela mulher odiosa, quando é casada; e pela serva, quando fica herdeira da sua senhora” ( Pv 30:21 -23).

Jaeger analisando os poemas de Teógnis, registrou:

“O poeta aconselha a que se evite o trato com os maus (kakoi), em que o poeta engloba todos os que não pertencem a uma estirpe nobre; por outro lado, também, nobres (agathos) só se acham entre seus iguais” (Jaeger, Paidéia, 244).

Quando se faz análise dos textos bíblicos, não se deve limitar a fazer uso somente do significado que os termos possuem em nossos dias, fruto da concepção que a nossa sociedade imprimiu a certos termos.

Além disso, quando lemos certos termos nas Escrituras, devemos compreendê-los com os olhos da sociedade à época, e fugir da visão de mundo trabalhada pelos princípios filosóficos da época, pois a matéria que os filósofos da época especulavam não era afeta, nem mesmo ao homem daquela sociedade, antes era matéria de ordem ontológica, portanto, distante da concepção sociocultural dos escritores da bíblia.

Enquanto a sociedade definia as coisas de modo funcional, filósofos como Platão, passaram a formular questões acerca da natureza do ser, da realidade, da existência dos entes e das questões metafísicas, e o conhecimento que estavam produzindo à época, possuía uma carga moral e ética, o que ainda não era vivenciada pela sociedade.

Jaeger assevera que os termos ‘arete’ e ‘bom’, na Grécia antiga, não tinham conotação de virtude moral, daí a pergunta: quando estes termos passaram a ser utilizados com conotação moral? Quando filósofos como Sócrates e Platão, através da especulação do conhecimento e da ciência, concederam à filosofia um fim moral pelo fato de ser uma ciência que especula aspectos e problemas de ordem ontológica.

Enquanto em Sócrates a especulação limitava-se às questões ontológicas e moral, Platão enveredou-se pela estrada da metafísica e da cosmologia. Em Platão floresceu uma filosofia humanista, religiosa e moralista. Tem-se nas obras de Platão muito do que é anunciado pelos espíritas e pelos católicos, como a ideia da reencarnação e do purgatório.

O ‘bom’ que designava os nobres, passou a designar o bem, o mundo ideal, o mundo das ideias. A matéria de Platão trouxe uma revolução de conceitos, porém, o povo de sua época e as gerações seguintes, não mudou de imediato a sua práxis. Quando Jesus veio, tal concepção filosófica ainda não fazia parte do povo, principalmente daqueles que se utilizavam do grego Koine.

O maior problema surgiu com a filosofia elaborada pelos primeiros padres, a Patrística. Quando criaram liturgias, disciplinas, costumes, etc., amalgamando conceitos platônicos e socráticos à doutrina dita cristã. Já no primeiro século, vê-se na Didaquê forte tendência moralista e dogmática, influencia clara dos costumes ascéticos.

É possível piorar? Sim! Erasmo de Roterdam incluiu Sócrates como mártir pré-cristão, de modo que rogava: “Sancte Socrates, ora pro nobis!”  (Jaeger, Paidéia, 493). Jaeger aponta que, até o pietismo abrigou-se nos braços de Sócrates, pois viam nele certa afinidade espiritual (Idem, pág. 494). O que dizer de Agostinho, que se baseou no pensamento de Platão?

Enquanto Jesus ensinou ser Ele mesmo o caminho que conduz o homem a Deus, a cristandade viu na filosofia platônica a necessidade de refrearem os prazeres mundanos, propondo a pratica de um estilo de vida austero, perseguindo praticas tidas por virtuosas, afim de adquirir uma espiritualidade maior. Dai, que muitos padres aderiram ao ideal ascetico, acreditando que a purificação do corpo ajudaria na purificação da alma.

Daí por diante, todas as vezes que se faz referência a Deus como ‘bom’, o texto é impregnado com a ideia de perfeição moral, desprezando o fato de que Ele é Senhor. É neste ponto que, diversas questões surgem: se Deus é bom, por que existe o mal?

Tais questões tem o objetivo de cegar o homem para que não veja a verdade. Assim como a pergunta de Satanás no Éden enfatizou uma proibição exacerbada em detrimento da liberdade concedida ( Gn 3:1 ), a pergunta: ‘se Deus é bom, por que existe o mal?’, faz surgir paradoxos, que na realidade, não passam de pretensas contradições fruto de uma má leitura da bíblia e do seu contexto histórico.

O objetivo deste artigo é demonstrar que Deus é bom, independente do fato de ter polpado os homens de Nínive ou feito sucumbir Sodoma e Gomorra com milhares de crianças inocentes ( Gn 19:25 ; Jn 4:11 ). Tais eventos não descaracterizam e nem caracterizam o Deus da bíblia como ‘bom’ ou ‘mal’.

 

Ninguém há bom, senão um, que é Deus

“Jesus lhe disse: Por que me chamas bom? Ninguém há bom, senão um, que é Deus” ( Lc 18:19 )

Quando Jesus afirma categoricamente: “Ninguém há bom, senão um, que é Deus”, estava focado em apresentar uma resposta ontológica ao problema do mal? A asserção “Ninguém, há bom, senão um, que é Deus” refere-se a alguma questão de ordem filosófica?

Digo que não! Jesus não estava tratando de questões filosóficas como a natureza do ser, a realidade, a existência dos entes e nem de questões metafísicas.

Porém, quando dizemos: “Deus é bom!”, a primeira questão levantada pelos acadêmicos é: ‘Se Deus é ‘onipotente’ e ‘bom’, por que permite a existência do mal e do sofrimento?’, e colocam tal questão em um pedestal como sendo a pergunta mais difícil da história da teologia cristã.

É aceitável que um não cristão apresente um paradoxo, como é o caso do paradoxo de Epicuro. Por que aceitável? Porque quem formulou o paradoxo desconhece a natureza de Deus!  Epicuro afirmou que Deus e o mal não podem coexistir caso Deus seja onisciente, onipotente e benevolente, porém, Deus mesmo afirma que é conhecedor do bem e do mal “Então disse o SENHOR Deus: Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal” ( Gn 3:22 ).

Deus é Senhor, nobre, ou seja, bom e, conhecedor do bem e do mal, pois Ele como Senhor recompensará todos os homens e, dará o bem a uns e o mal a outros, tudo em função do que procuraram “O qual recompensará cada um segundo as suas obras; a saber: A vida eterna aos que, com perseverança em fazer bem, procuram glória, honra e incorrupção; Mas a indignação e a ira aos que são contenciosos, desobedientes à verdade e obedientes à iniquidade; Tribulação e angústia sobre toda a alma do homem que faz o mal; primeiramente do judeu e também do grego; Glória, porém, e honra e paz a qualquer que pratica o bem; primeiramente ao judeu e também ao grego; Porque, para com Deus, não há acepção de pessoas” ( Rm 2:6 -11).

Deus é Senhor, Deus é bom e, ao mesmo tempo, Ele é benigno e severo “Considera, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas para contigo, benignidade, se permaneceres na sua benignidade; de outra maneira também tu serás cortado” ( Rm 11:22 ), ou seja, é Deus que instituiu o castigo para os transgressores, de modo que se diz: “Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas” ( Is 45:7 ).

Em que sentido Deus cria o mal? No sentido de retribuição, justiça, de modo que, retribui com benignidade os puros e com rigidez os perversos “E me retribuiu o SENHOR conforme a minha justiça, conforme a minha pureza diante dos seus olhos. Com o benigno, te mostras benigno; com o homem íntegro te mostras perfeito. Com o puro te mostras puro; mas com o perverso te mostras rígido” ( 2Sm 22:25 -27); “Com o benigno te mostrarás benigno; e com o homem sincero te mostrarás sincero” ( Sl 18:25 ).

Este era o posicionamento de um senhor: “Respondendo, porém, o seu senhor, disse-lhe: Mau e negligente servo; sabias que ceifo onde não semeei e ajunto onde não espalhei? Devias então ter dado o meu dinheiro aos banqueiros e, quando eu viesse, receberia o meu com os juros” ( Mt 25:26 -27). Para com os servos bons, benevolência, para os maus, as trevas exteriores.

Este é o posicionamento de Cristo: “E quando o Filho do homem vier em sua glória, e todos os santos anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória; E todas as nações serão reunidas diante dele, e apartará uns dos outros, como o pastor aparta dos bodes as ovelhas (…) E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna” ( Mt 31-32 e 46).

Quando Jesus convida: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” ( Mt 11:28 -30), o leitor com a visão ampliada verá Cristo como ‘bom’, ‘senhor’, ‘nobre’ e, ao mesmo tempo, benevolente, pois aos que se sujeitam a Ele lhes é dado uma fardo leve.

No alerta: “Eu crio o mal”, temos referencia ao fato de Deus ter suscitado algumas nações visinhas como vara de correção, de modo a dar a entender ao povo de Israel a necessidade de se converterem ( Is 1:5 ), porém, a despeito do castigo aplicado ao povo de Israel, Deus é justo, e conforme alertou, aplicou o castigo antes da ira.

Em outra instância, além da salvação e da perdição, Deus retribuirá a cada um segundo as suas obras.

Quando Deus criou o homem deu-lhe o poder de decisão. Como os dons de Deus são irrevogáveis, mesmo após o pecado, o homem continuou de posse da sua liberdade de decidir, pois o domínio sobre a terra foi dado aos homens. Ora, quando Deus se fez homem e retornou vitorioso aos céus, conclamou: é me dado todo poder, nos céus e na terra!

Como os homens são livres e exercem domínio sobre a terra, podem fazer o quem bem entenderem. Há outro ponto, como o homem tornou-se como Deus, sabedor do bem e do mal, também tem a capacidade de analisar as ações dos seus semelhantes e comunicar o bem e o mal.

O problema do mal surge quando o homem deixa de lado o senso de justiça, e passa a praticar o mal por prazer. A ideia de retribuição é posta de lado, e o indivíduo por ser entenebrecido no entendimento se lança na pratica de maldades. Embora conheça as ações de tais indivíduos, Deus não intervém, pois todos os homens quando introduzidos no mundo estão sob condenação e como Deus, conhecedores do bem e do mal.

Ora, o bem e o mal foram apresentados no Éden através de um fruto, de modo que o bem e o mal são inseparáveis. O bem e o mal são composições que dá sabor ao fruto. São faces de uma mesma moeda.

Como compreender tal realidade? Quando um pai educa um filho e o corrige, a correção em certo aspecto tem aparência de mal, porém, o pai busca o bem. Já alguém que dá esmola parece estar fazendo o bem, porém, tal ato perpetua a miserabilidade de quem vive de esmolas, o que na realidade é um mal. Tais exemplos mostram que o bem e o mal são inseparáveis.

Segundo a bíblia, a justiça de Deus não tarda e nem falha, pois a justiça de Deus foi exercida na primeira transgressão e, de modo que todos os homens foram condenados, independente de suas ações. Porém, com relação às ações cotidianas, Deus há de pedir conta a cada homem, quer sejam justos ou injustos, e com relação a isto não haverá acepção de pessoas. Para os justos tal conta será acertada no Tribunal de Cristo, e para com os injustos, no Grande Trono Branco.

O apóstolo Paulo alertou os cristãos a que não se deixassem prender por questões de ordem filosóficas, porém, o que mais encontramos na teologia, seja contemporânea ou clássica, são questões segundo os rudimentos do mundo “Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo” ( Cl 2:8 ).

Por imiscuir-se na filosofia, muitos cristãos afirmam que estas questões são afetas a quem crê em Deus onipotente e amoroso.

“A rigor, a desgraça humana, ou o mal em todas as suas formas, é um problema somente para a pessoa que crê num Deus único, onipotente e todo amoroso” Anderson, Francis I. apud Luiz Sayão em ‘Se Deus é bom, por que existe o mal?’, artigo disponível na web.

O que se percebe é que há muitos teólogos que são defensores de Deus, mas desconhecem a sua palavra. E pior, enquanto as armas do cristão deve restringir-se a palavra de Deus, porque ela é poderosa para destruir fortalezas, tais estudiosos estão de posse das armas ofertadas pelo mundo “Porque as armas da nossa milícia não são carnais, mas sim poderosas em Deus para destruição das fortalezas” ( 2Co 10:4 ; 2Co 6:7 ; Rm 13:12 ).

Com a visão turvada em função de impressões modernas, alguns tradutores foram compelidos a utilizar o termo ‘bom’ em lugar de ‘nobre’. Trocar ‘nobre’ por ‘bom’ transtornou a ideia do texto. Desprezar a raiz etimológica do termo ‘agathos’, que significa ‘alguém que é, que tem realidade, que é real, verdadeiro’, trouxe prejuízo a compreensão do texto.

Quando dizemos que Deus é Nobre, Senhor, Bom, estamos expressando o senhorio de Deus e a nossa submissão a Ele. Deus é o Eu sou, aquele que é, que tem realidade, que é real, verdadeiro, conceito superior ao que encontramos em nossos dicionários. Através deste conceito próprio ao termo ‘agathos’, a concepção, a ideia, proveniente da frase ‘Deus é bom’ transmuta-se e transmite um significado singular.

Quando consideramos que Deus é bom, nobre, distinto, Senhor, Pai, não há contradição alguma entre severidade e bondade “Considera, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas para contigo, benignidade, se permaneceres na sua benignidade; de outra maneira também tu serás cortado” ( Rm 11:22 ).

Deus é severo e benigno em razão de ser nobre, superior, ou seja, bom, o que exclui qualquer tipo de paradoxo entre Deus ser bom e haver sofrimento no mundo.

Se os teólogos ao longo dos séculos vêm ignorando a raiz etimológica do termo ‘agathos’, resta-nos a seguinte pergunta: o que fizeram com o termo ‘agape’, palavra grega traduzida por amor?

 Claudio Crispim

Leia também: Porque sou cristão

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Por que Deus permite o sofrimento dos Inocentes?

Devemos considerar que sobre a humanidade já pesa uma condenação, ou seja, não há como o homem questionar a justiça de Deus dizendo que Ele é tolerante com os injustos, ou que é complacente com atos injustos, visto que sobre todos os homens gerados de Adão pesa uma condenação. Todos os homens já nascem sob condenação! Observe que o Juízo de Deus já foi estabelecido em Adão quando ele pecou. O juízo já veio, ou seja, foi estabelecido por causa de uma só ofensa para condenação. Quando Adão pecou, ele trouxe juízo e condenação sobre os seus descendentes, conforme Rm 5:16 e 18.


Uma irmã questionou o motivo pela qual Deus não intervém em casos brutais, semelhante ao que ocorreu no Rio de Janeiro, no caso do menino João. Se Deus conhece todas as coisas e é justo, por que permite atrocidades?

“Por causa das muitas opressões os homens clamam por causa do braço dos grandes. Porém ninguém diz: Onde está Deus que me criou, que dá salmos durante a noite” (Jó 35:9 -10)

 

É certo que Deus conhece todas as coisas! É isto o que a Bíblia nos ensina. Deus, antes que qualquer evento ocorra, sabe o que há de vir! Daí o questionamento: Por que Deus permite que ocorra atrocidades, guerras, desastres, etc.?

A Bíblia nos dá a resposta:

1º Tudo o que o homem intentar ou programar fazer Deus permitirá que ocorra.

Da mesma forma que permitiu que Adão pecasse, Deus permitirá que os homens tracem livremente os seus próprios caminhos (Rm 1:28). É o que chamamos de livre- arbítrio.

Por que Deus permitiu que Adão pecasse? Porque ‘Onde o Espírito de Deus está, aí há liberdade’ ( 2Co 3:17 ), ou seja, no Éden, Deus concedeu plena liberdade a Adão, visto que podia comer livremente de todas as árvores do jardim ( Gn 3:16 ). Deus deu plena liberdade para Adão comer de todas as árvores do jardim, e garantiu livre acesso a todas as árvores, incluindo a árvore do conhecimento do bem e do mal.

“E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2:16 -17).

Com a liberdade concedida foi apresentado um aviso solene: no dia em que Adão comesse da árvore do conhecimento do bem e do mal, certamente haveria de morrer (Deus deu o motivo pelo qual não se deveria comer da árvore do conhecimento).

O conceito de morte apresentado no livro do Gênesis diverge do conceito do homem natural, que só pensa no termino das funções vitais do corpo.

Se para Deus vivem todos os homens, como podemos entender a morte como sendo uma pena?

O apóstolo Paulo esclarece o conceito de morte para Deus: Quem está morto para Deus é porque não é participante da natureza de Deus, ou seja, não tem comunhão com Aquele que é a vida. O homem morto para Deus adquiriu outra natureza e passou a viver para o pecado como escravo! Quem está morto para o pecado, passa da morte para vida, ou seja, vive para Deus ( Rm 6:11 )!

Abel era justo e, mesmo assim Deus permitiu que Caim matasse Abel. Deus foi injusto em permitir a morte de Abel? É o que descobriremos. Mesmo quando foi morto por Caim, para Deus Abel continuou vivo! ( Lc 20:38 ).

O apóstolo Paulo várias vezes fez referencia a antiga condição dos cristãos, quando ainda não conhecia a verdade do evangelho, de mortos. Com relação ao passado dos cristãos (Paulo fala de outro tempo), mesmo quando vivos, para Deus estavam mortos! ( Ef 2:5 ).

2º Deus poderia ter impedido o acesso de Adão à árvore do conhecimento do bem e do mal, mas, mesmo sabendo do intento do homem, Ele não interferiu.

Quando foi formado do pó da terra, o homem foi criado à imagem e semelhança do seu Criador. A imagem que o homem recebeu foi a mesma imagem e semelhança que Jesus havia de vir ao mundo.

A imagem dos homens foi concedida por Cristo, o último Adão. Como criador de todas as coisas, Cristo criou o homem segundo a imagem que havia de vir ao mundo, e assim compreendemos o motivo pelo qual o apóstolo Paulo disse que Adão era figura daquele que havia de vir ( Rm 5:14 ).

Deus é Espírito, e espíritos não tem forma. A forma que o homem recebeu foi concedida por Cristo, que a tudo criou “Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (Jo 1:3).

A semelhança que o homem alcançou do seu Criador refere-se ao domínio, ou seja, a livre vontade soberana dentro da sua esfera de atribuição. Deus deu ao homem o domínio sobre tudo na face da terra, e estabeleceu o tempo como garantia desta soberania ( Gn 1:26 ). Caso o homem queira concertar uma decisão que tenha tomado anteriormente, terá que tomar uma nova decisão. Nem mesmo o homem pode alterar as suas decisões, visto que por semelhança Deus não muda os seus desígnios.

Assim como Deus não volta atrás em seus intentos (Ele não volta atrás em sua vontade, pois é soberano), por semelhança as decisões do homem são soberanas, visto que, se o homem quiser alterar uma decisão, não conseguirá. Terá de tomar uma nova decisão para ‘consertar a anterior’.

(Observe que Satanás não quis ser Deus, visto que tal intento é impossível de ser alcançado pelas suas criaturas. Satanás reconhece que a posição de Deus é inatingível por suas criaturas ao chamá-lo de: o Altíssimo. Satanás almejou ser semelhante ao Criador ( Is 14:13 -14). Para alcançar o seu intento, Satanás calculou mal, visto que pensou que, para alcançar a semelhança do Altíssimo precisaria subir acima das estrelas de Deus (anjos). Porém, a semelhança não se alcança de moto próprio, visto que Deus desceu e deu a sua semelhança aos homens. Isto é comentário para outra oportunidade, visto que é um erro gravíssimo dizer que Satanás quis ser Deus, ou que intentou roubar a glória de Deus).

3º Muitos questionam a justiça de Deus quando uma criança morre, ou quando se vê crianças morrendo de fome, guerras, misérias, etc.

Mas, o que a Bíblia nos mostra?

Primeiro devemos considerar que sobre a humanidade já pesa uma condenação, ou seja, não há como o homem questionar a justiça de Deus dizendo que Ele é tolerante com os injustos, ou que é complacente com atos injustos, visto que sobre todos os homens gerados de Adão já pesa uma condenação. Todos os homens já nascem sob condenação, pois foram apenados com a morte, ou seja, foram destituídos da glória de Deus!

“Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3:23);

 

Observe que o Juízo de Deus já foi estabelecido em Adão por causa da ofensa. O juízo já veio, ou seja, já foi estabelecido por causa de uma só ofensa, e isto para condenação. Quando Adão pecou, ele trouxe juízo e condenação sobre os seus descendentes, conforme Rm 5:16 e 18.

(Obs.: Ao desobedecer, Adão foi julgado conforme a liberdade e o conhecimento oferecido. Após pecar, ele foi condenado e recebeu a pena estabelecida: morte! ( 1Co 15:22 ), e com ele toda a humanidade morreu (foi destituída da vida que há em Deus).

“Pois assim como por uma ofensa veio o juízo sobre todos os homens, para a condenação…” ( Rm 5:18 ).

Como questionar a justiça de Deus se todos já estão debaixo de condenação? Portanto, não é verdadeiro o ditado que diz: ‘A justiça de Deus tarda, mas não falha’. Como pode ser tardia a justiça de Deus, se todos os homens já nascem sob condenação?

(Outro erro é considerarmos que o juízo de Deus será estabelecido no futuro, na consumação de todas as coisas. Terrível engano! O juízo já foi estabelecido em Adão. O que se dará no futuro é o julgamento quanto as obras dos homens perdidos “Já está condenado” ( Jo 3:18 ). Se o homem sem Cristo já está condenado é porque o julgamento já se deu no passado da humanidade).

4º Deus não é tolerante com a injustiça, visto que, mesmo que os homens estejam sob condenação ou salvos, Ele estabeleceu dois tribunais para julgamento das ações dos homens no futuro.

a) O tribunal de Cristo será estabelecido para julgamento das ações dos salvos, e;

b) O Grande Trono Branco, será estabelecido para os perdidos, uma vez que Deus trará a juízo as ações de todos os homens, sem exceção.

Resumindo:

a) A humanidade já está sob condenação, ou seja, já foi julgada e apensada em Adão;
b) Deus recompensará a cada um segundo as suas obras, sem acepção de pessoas ( Rm 2:11 ) , e isto se dará no futuro: no Tribunal de Cristo ( Rm 14:10 e 2Co 5:10 ) e no Grande Trono Branco ( Ap 20:11 ). Observe que as referencias dizem das obras dos homens, salvos e não salvos respectivamente.

5º Todos os que creem em Cristo, estes morrem com ele, e ressurgem uma nova Criatura. Sobre eles não pesa mais a condenação de Adão, pois passaram da morte para a vida e vivem para Deus. Mas, mesmo vivendo para Deus, o novo homem ainda pode praticar más ações, porém, isto será alvo de julgamento no Tribunal de Cristo.

Assim poderemos entender o versículo seguinte:

“Portanto, agora, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus…” ( Rm 8:1 ).

Porque nenhuma? Se o apóstolo Paulo dissesse: ‘não há condenação’, entenderíamos que só era possível uma condenação aos homens. Mas, quando o apóstolo diz que ‘nenhuma condenação há’, é porque pesava sobre o homem mais que uma condenação:

1- A condenação de Adão, e;
2 – a condenação no Grande Trono Branco.

Hoje, em Cristo, o cristão está livre da condenação em Adão, e comparecerá ante o Tribunal de Cristo, para ser recompensado pelo que houver feito por meio do corpo, ou bem ou mal.

“Porque todos devemos comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o que tiver feito por meio do corpo, ou bem, ou mal” ( 2Co 5:10 ).

Por todos esses motivos apresentados não podemos questionar a justiça de Deus por questões circunstanciais como guerras, tragédias, calamidades, doenças, etc.

Deus é o oleiro e tem poder sobre o barro (homem) para de uma mesma massa fazer vasos com diferentes atribuições ( Rm 9:21 ).

Em Adão todos os vasos são criados para a desonra. Em função da carne e do sangue de Adão todos os homens nascem de uma semente corruptível, ou seja, são provenientes da vontade da carne, da vontade do varão e do sangue, portanto, não são filhos de Deus. São vasos para desonra, visto que estão em um caminho que os conduz à perdição.

Mas, Deus suporta com paciência os vasos da ira, ou seja, os vasos da desobediência que surgiram em Adão, pois espera que todos venham ao conhecimento da verdade.

Os vasos para honra são criados em Cristo, o último Adão. Deus tem poder sobre o barro (os homens), para da mesma massa (carne de Adão) fazer vasos para honra, demonstrando que Ele é misericordioso. Ao fazer vasos para honra (ao qual somos nós Rm 9:24 ), Deus dá a conhecer a sua glória e misericórdia, revelando aos anjos a sua multiforme sabedoria, etc. ( Ef 3:10 ).

Em Adão são criados os vasos para desonra, e em Cristo os vasos para honra!

Por isso o apóstolo Paulo diz: “Quem és tu, que a Deus replicas?” ( Rm 9:20 ). Precisamos conhecer o conselho de nosso Deus, visto que o diabo lança as suas setas precisamente sobre as questões bíblicas que não compreendemos.

Deus permite o sofrimento porque deu o domínio da terra aos homens, e os seus dons são irrevogáveis (Gn 1:26). Caso Deus interviesse no dia a dia dos homens, certamente questionariam a liberdade concedida por Deus.

Os homens só se lembram de clamar a Deus, ou questionar os seus desígnios quando são afrontados ou quando lhes sobrevém algum mal, mas ninguém pergunta onde Deus está nos momentos de bonança (Jó 35:10).

Sim, Deus permite o sofrimento, para que o homem não saiba o que há de vir. Por isso deve considerar temer ao Senhor, que apesar de permitir o mal, há de pedir conta de tudo que o homem fizer.

“No dia da prosperidade goza do bem, mas no dia da adversidade considera; porque também Deus fez a este em oposição àquele, para que o homem nada descubra do que há de vir depois dele” (Ec 7:14).

“O que é, já foi; e o que há de ser, também já foi; e Deus pede conta do que passou” (Ec 3:15).

O Livro de Jó – A cilada de Satanás

O Livro de Jó – Transcendendo a problemática do sofrimento

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