Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito

‘Violência’ e ‘força’ são figuras que os profetas utilizavam para fazer referencia a falta de confiança em Deus e a disposição do povo em oferecer sacrifícios, Jesus também utilizou essas figuras para asseverar aos seus interlocutores, que, desde os dias dos profetas, até aquele momento, os homens se ‘apoderavam’ do reino dos céus à força, ou seja, confiados que eram descendência de Abraão e oferecendo sacrifícios!

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Jesus veio por água e sangue

Jesus ter vindo por ‘água’, decorre do fato de Ele ter sido gerado por Deus, de modo sobrenatural, ou seja, o ente Santo que foi concebido no ventre de Maria, formado pelo Espírito Santo, segundo o poder incompreensível (sombra) de Deus.


Jesus veio por água e sangue

“Este é aquele que veio por água e sangue, isto é, Jesus Cristo; não só por água, mas por água e por sangue. E o Espírito é o que testifica, porque o Espírito é a verdade.” (1 Jo 5:6)

 

Introdução

Da asserção ‘Este é aquele que veio por água e sangue’, depreende-se do texto que o apóstolo João fez referência ao Verbo de Deus que, na plenitude dos tempos, se fez carne e habitou entre os homens. (Lc 2:27-32; Jo 1:9-10; Hb 10:5; 1 Jo 1:1)

Mas, qual verdade o discípulo amado queria evidenciar, quando destacou o fato de Jesus não ter vindo somente por ‘água’, mas por ‘água’ e ‘sangue’? Que posicionamento doutrinário o apóstolo amado estava defendendo, ao rechaçar o ataque dos anticristos? O que representam as figuras ‘água’ e ‘sangue’, em conexão com a vinda de Jesus, em carne?

A abordagem do evangelista João tem por objetivo combater algumas heresias que surgiram no seio das primeiras comunidades cristãs, já no primeiro século. Devemos lembrar que as primeiras heresias que os apóstolos enfrentaram, foram introduzidas nas igrejas por judeus que se diziam convertidos ao cristianismo, pseudocrístãos, que exigiam que os novos  convertidos, dentre os gentios, se submetessem ao rito da circuncisão. (At 15:1-5).

Dentre os judaizantes, surgiram os ‘ebionitas’, grupo essencialmente farisaico, pois insistia em guardar a lei de Moisés, através de ritos como circuncisão, guarda do sábado e vegetarianismo. Esse grupo de judaizantes negava a divindade de Cristo e o seu nascimento virginal e que Jesus se distinguia dos outros homens, somente pela observância da lei.

Havia o segmento judaizante oriundo dos saduceus, que negava a ressurreição dos mortos, o que foi fortemente combatido pelo apóstolo Paulo. (1 Co 15:12)

“Porque os saduceus dizem que não há ressurreição, nem anjo, nem espírito; mas os fariseus reconhecem uma e outra coisa.” (At 23:8)

Surgiram, também, os elquesaítas, outro tipo de judaísmo que misturava especulações teosóficas e ascetismo. Eles rejeitavam o nascimento virginal de Cristo e alegavam que Jesus seria um mensageiro, profeta, espírito ou ser angelical, sem falar na prática da circuncisão e do sábado.

Por influencia de algumas filosofias, surgiram movimentos que desaguaram no gnosticismo e passaram a fazer distinção entre o Jesus humano e o Messias; que este seria um espírito, que se apossou daquele, no evento do batismo de João Batista e deixou o seu corpo antes da crucificação.

A filosofia gnóstica acredita que toda matéria é essencialmente má e somente o espiritual é bom, na essência. Dai a ideia de que o corpo físico é mal, o que contrasta com o espírito, o que levava tais ‘pseudos’ cristãos ao ascetismo, a fim de subjugarem o corpo, para ascensão espiritual.

Daí surgiu alguns questionamentos acerca da natureza do Cristo homem: Como Jesus poderia ser santo, se possuía um corpo constituído de matéria orgânica?

 

A ‘mensagem’ do evangelho versus o ‘espírito’ do anticristo

“TODO aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que o gerou, também ama ao que dele é nascido.” (1 Jo 5:1)

Antes de analisar a asserção joanina de que Jesus não veio somente por água, mas por água e sangue, se faz necessário entender o contexto que levou o apóstolo João a fazer tal declaração.

No primeiro verso do capítulo 4, da primeira epístola do apóstolo João, o apóstolo amado recomenda aos cristãos que provem os espíritos, pois, muitos falsos profetas haviam surgido no mundo.

“AMADOS, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo.” (1 Jo 4:1)

Como se ‘prova’ os espíritos? Que espíritos são esses, passiveis de serem julgados?

No versículo em análise, ‘espíritos’ referem-se a toda e qualquer mensagem, palavra, ensinamento, doutrina, etc. ‘Provar’ um ‘espírito’ é o mesmo que julgar uma mensagem, uma doutrina ou, um ensinamento, etc.

Da mesma forma que o paladar prova a comida, os ouvidos provam as palavras, de modo que, quando os cristãos ouvem uma mensagem, devem analisar se o que está sendo ensinado é de Deus ou, não. (Jó 12:11)

O motivo de se provar ‘os espíritos’ foi destacado: muitos falsos profetas haviam surgido no mundo. Para analisar se os espíritos são provenientes de Deus ou, não, o apóstolo João apresenta aos cristãos dois parâmetros objetivos:

  1. Nisto conhecereis o Espírito de Deus: Todo o espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus, e;
  2. E todo[1] o espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne não é de Deus; mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e eis que já está no mundo. (1 Jo 4:2-3).

Admitir (confessar) que Jesus é o Filho de Deus, e que Ele veio em carne, é o selo de autenticidade da mensagem (espírito) para o cristão saber se ela (mensagem) procede de Deus ou, não. Mas, se a mensagem do profeta (espírito) diz que Jesus não veio em carne, tal espírito é proveniente do anticristo.

A verificação da mensagem é objetiva, ou seja, o cristão deve provar se a mensagem (espírito) do preletor (profeta) está em conformidade com as Escrituras ou, não. Mensagens que neguem que Jesus é o Filho de Deus ou, que neguem que Ele veio em carne ou, que neguem que Ele ressuscitou ou, que neguem que Ele é Deus, etc., peremptoriamente devem ser rejeitadas: “Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre”. (Jo 7:38)

O espírito (mensagem) do anticristo, à época do apóstolo, possuía duas vertentes principais:

a) negava que Jesus era o Filho de Deus (1 Jo 2:22) e;

b) que Jesus veio em carne. (1 Jo 4:3 )

As negativas do espírito do anticristo nos fazem compreender o motivo pelo qual o evangelista João, já no início da carta, foi enfático, ao dizer que ‘viu’, ‘ouviu’ e ‘tocou’ em Jesus e, em seguida, fez a seguinte confissão: ‘… nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo’, ou seja, Jesus é o Filho de Deus.

“O QUE era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado e as nossas mãos tocaram, da Palavra da vida (Porque a vida foi manifestada e nós a vimos e testificamos dela e vos anunciamos a vida eterna, que estava com o Pai e nos foi manifestada); O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que, também, tenhais comunhão conosco; e a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo.(1 Jo 1:1-3)

Após expor a essência mentirosa da mensagem do anticristo, o evangelista João enfatiza que todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é gerado de Deus e todo aquele que obedece (ama) a Deus, também, obedece (ama) a Cristo: “TODO aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que o gerou, também, ama ao que dele é nascido.” (1 Jo 5:1; 1 Jo 2:22)

Uma pregação que anuncia que Jesus não veio em carne, não é de Deus, e o evangelista destaca que muitos anticristos haviam surgido no mundo, anunciando que Jesus não veio em carne (1 Jo 2:18). Os anticristos eram pessoas que tinham frequentado as comunidades cristãs primitivas, mas que se distanciaram da mensagem dos apóstolos e negavam a pessoa de Cristo. (1 Jo 2:22).

 

Conhecendo a Deus

Se uma pessoa não crê em Cristo, mas diz que ‘conhece[2]’ a Deus, tal declaração é mentirosa, pois só conhece a Deus quem guarda os seus mandamentos (1 Jo 1:3-5). Os anticristos diziam que ‘conheciam’ a Deus, mas, como não obedeciam ao mandamento de Deus, que é crer em Cristo, eram mentirosos. (1 Jo 2:4)

Quando afirmamos que é necessário crer em Cristo, ‘crer’ consiste em admitir, intelectualmente que:

  1. Jesus veio ao mundo em carne;
  2. nasceu na casa de Abraão e de Davi;
  3. foi gerado de Deus, no ventre de uma virgem;
  4. habitou as regiões da Galileia;
  5. foi morto por mãos de pecadores;
  6. ressurgiu ao terceiro dia e;
  7. está assentado à destra de Deus, tudo, conforme o previsto nas Escrituras. (Jo 7:38)

Observe que o apóstolo João fez uso da exortação do profeta Isaias, quando recomendou aos cristãos a não amarem somente de palavra e por língua (Mt 15:7-9). Os falsos cristãos diziam amar a Deus, porém, tal declaração era somente de palavra e de língua, visto que negavam a Deus, por não obedecerem ao mandamento de Deus, que é crer em Cristo.

“Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade.” (1 Jo 3:18; Is 29:13)

Ora, por certo que aqueles que saíram do meio dos cristãos diziam amar a Deus, pois, se assim não afirmassem, não havia motivo para o apóstolo João fazer esta colocação. O apóstolo destaca algumas implicações que decorrem da confissão: – ‘Eu amo a Deus’, pois se alguém ‘ama’ a Deus, também deve ‘amar’ a Cristo, pois se não ‘amar’ a Cristo, na verdade, não ama a Deus: “Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai. Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou.” (Jo 5:23) Compare: “… e todo aquele que ama ao que o gerou, também, ama ao que dele é nascido.” (1 Jo 5:1)

Como Cristo era o enviado de Deus, quem cresse em Cristo, na verdade, estava crendo em Deus, que O enviou.

“E Jesus clamou e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas, naquele que me enviou.” (Jo 12:44)

Antes de prosseguirmos, vale destacar que ‘amar a Deus’ é ‘cumprir o seu mandamento’ (1 Jo 5:3 ) e o mandamento de Deus é especifico: que os homens creiam em seu Filho Jesus Cristo. (1 Jo 3:23 ) Quem crê que Jesus é o Cristo, é gerado de Deus, pois amou a Deus. Amar a Deus consiste em obedecê-Lo, do mesmo modo que amar a Cristo é obedecê-Lo. O amor em comento não diz de um sentimento, mas de obediência, sujeição.

“Se me amais, guardais os meus mandamentos.” (Jo 14:15);

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele.” (Jo 14:21)

O apóstolo João demonstra que é sem valor algum, se dizer que crê em Deus, se não crê que Jesus é o Filho de Deus. Não crer em Cristo, é o mesmo que considerar Deus mentiroso, pois não crê no testemunho que Deus deu acerca do seu Filho ou, que Ele é o enviado de DEUS: “Quem crê no Filho de Deus, em si mesmo tem o testemunho; quem a Deus não crê, mentiroso o fez, porquanto, não creu no testemunho que Deus de seu Filho deu.” (1 Jo 5:10)

Jesus lembrou aos seus discípulos sobre crerem em Deus, mas, destaca que, também, era necessário crer n’Ele, pois, só crendo em Cristo é que o homem ‘obedece’ (ama) a Deus.

“NÃO se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim.” (Jo 14:1);

“E é por Cristo que temos tal confiança em Deus.” (2 Co 3:4)

Nesse sentido, o irmão Tiago censurou aqueles que diziam crer que havia somente um Deus, pois, é sem valor dizer que crê em um só Deus, se não obedece ao mandamento de Deus, que é crer em Cristo: “Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o creem e estremecem.” (Tg 2:19 )

É por intermédio da confiança em Cristo, como o enviado de Deus, que o homem, verdadeiramente, crê em Deus. Crer que Jesus é o Cristo e que Deus o ressuscitou dentre os mortos, efetivamente, é crer em Deus, pois as Escrituras são o testemunho que Deus deu, acerca do seu Filho: “E por ele credes em Deus, que o ressuscitou dentre os mortos e lhe deu glória, para que a vossa fé e esperança estivessem em Deus.” (1 Pe 1:21)

Seguindo o raciocínio do evangelista João, qualquer que diz ‘conhecer’ a Deus, mas não guarda o que Ele determinou, é mentiroso. E como se conhece a Deus? Crendo em Cristo, pois este é o mandamento de Deus: “Aquele que diz: Eu o conheço, mas, não guarda os seus mandamentos, é mentiroso e nele não está a verdade.” (1 Jo 2:4); “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento. E aquele que guarda os seus mandamentos, nele está e ele, nele. E nisto conhecemos que ele está em nós, pelo Espírito que nos tem dado.” (1 Jo 3:23-24)

 

Os nascidos de Deus

“Porque, todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé.” (1 Jo 5:4)

O evangelista João demonstra que, qualquer pessoa (judeu ou grego) que crê que Jesus é o Cristo, é nascida de Deus (1 Jo 5:1), portanto, essa pessoa, por crer em Cristo, venceu o mundo, isso porque recebeu poder de ser feito filho de Deus. (Rm 8:37) Por que essa pessoa venceu o mundo? Porque os filhos de Deus são participantes da natureza divina e escaparam da corrupção que há no mundo: “Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que, por elas, fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que, pela concupiscência, há no mundo.” (2 Pe 1:4)

Em Cristo, o crente é mais que vencedor, pois, é uma nova criatura, gerada segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade. (Ef 4:24) A vitória do crente resume-se em ser uma nova criatura, pois, em Cristo, o homem vence o mundo. (Gl 3:23; Jo 16:33; 1 Jo 4:4; 2 Pe 2:20)

Por estar em Cristo, o crente é uma nova criatura, pois, morreu e ressurgiu com Cristo. Sobre o crente não pesa nenhuma condenação, pois, as coisas velhas passaram e tudo se fez novo. (2 Co 5:17).

O crente escapou da corrupção que há no mundo, ou seja, foi liberto do pecado e do engano, que mantém os homens entenebrecidos no entendimento: “Porquanto, se, depois de terem escapado das corrupções do mundo, pelo conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, forem outra vez envolvidos nelas e vencidos, tornou-se-lhes o último estado pior do que o primeiro.” (2 Pe 2:20; Ef 4:18)

Após crer que Jesus é o Filho de Deus (1 Jo 5:5), o homem é participante da natureza divina, portanto, escapou da corrupção, decorrente da ofensa de Adão, pela qual os homens foram feitos pecadores: “Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre.” (1 Pe 1:23; 2 Pe 1:4; 1 Co 15:50; Rm 8:17; 1 Jo 4:3) Se o homem abandona a Palavra de Cristo, renega a sua fé e volta ao status quo anterior, porque não perseverou, uma vez que a perseverança é a obra perfeita da fé!

 

Aquele que veio por água e sangue

Após demonstrar que, por intermédio do evangelho, os cristãos são filhos de Deus e venceram o mundo (1 Jo 5:1-4), o apóstolo, novamente, enfatiza a vitória dos que creem em Cristo, e aproveita para afirmar, novamente, que Jesus é o Filho de Deus, através da seguinte pergunta:

“Quem é que vence o mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?” (1 Jo 5:5)

É, em função da essência do evangelho, de que Jesus Cristo é o Filho de Deus, que o apóstolo João enfatiza que Cristo Jesus veio por ‘água’ e ‘sangue’, o que para ele era prova suficientemente contundente para demonstrar que: a) Jesus é o Filho de Deus e; b) veio ao mundo, em carne.

“Este é aquele que veio por água e sangue, isto é, Jesus Cristo; não só por água, mas por água e por sangue. E o Espírito é o que testifica, porque o Espírito é a verdade.” (1 Jo 5:6)

Na asserção ‘Jesus veio em carne’, o termo ‘carne’ foi utilizado pelo apóstolo João para destacar a humanidade de Cristo, conforme o escritor aos Hebreus aponta:

“E, visto como os filhos participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas, para que, pela morte, aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo.” (Hb 2:14)

O fato de Jesus Cristo ter tido um corpo constituído de material orgânico (carne, sangue e ossos), como todos os outros homens que vem ao mundo, demonstra que Ele, em tudo foi semelhante aos homens: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.” (Jo 1:14)

O fato de Jesus ter vindo em carne, é de total relevância para o evangelho, tanto que o apóstolo João dá testemunho de que os seus olhos contemplaram e que ele pode tocar o Cristo (inclusive reclinou em seu peito). (Jo 13:23):

“O QUE era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida.” (1 Jo 1:1); “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.” (Jo 1:14)

Por qual motivo João enfatiza o fato de Jesus ter vindo por água e sangue e porque destaca que ele não veio somente por água, mas por água e sangue?

 

Água e Espírito

“Jesus respondeu e disse-lhe: Na verdade, na verdade, te digo que, aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.” (Jo 3:3)

No diálogo entre Jesus e Nicodemos, é evidenciado que o reino dos céus está vetado a qualquer homem que não nascer de novo. (Jo 3:3)

Nicodemos não entendeu a exposição de Jesus e quis saber como poderia um homem, sendo velho, nascer de novo:

‘Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, tornar a entrar no ventre de sua mãe e nascer?’ (Jo 3:4)

Foi, quando Jesus apresentou a essência do novo nascimento, evento que Nicodemos – na condição de mestre, em Israel – deveria conhecer: – “Na verdade, na verdade te digo que, aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus.” (Jo 3:5 e 9 a 10)

Nicodemos não podia entrar no reino dos céus porque não tinha nascido da água e do Espírito. Ele era nascido da carne e do sangue, portanto, descendente da semente corruptível de Adão. Sobre Nicodemos pesava uma condenação decorrente da ofensa de Adão e como os demais homens, que não conhecem a Cristo, estava alienado da glória de Deus. (Rm3:23)

Ora, a condenação do pecado está vinculada ao nascimento natural, ou seja, ao nascimento segundo a vontade do varão, vontade da carne e do sangue (Jo 1:13). É por isso que o apóstolo João demonstra que, aquele que crê em Cristo, é gerado de Deus e venceu o mundo, ou seja, não está mais sujeito à condenação que pesa sobre os descendentes da carne e do sangue de Adão, por haver nascido de novo, por intermédio do evangelho.

O apóstolo Pedro demonstra que o crente tem direito a uma herança incorruptível e incontaminável, após ser de novo gerado, ou seja, está livre da condenação e adquiriu o direito a herdar o reino de Deus:

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo, para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, Para uma herança incorruptível, incontaminável e que não se pode murchar, guardada nos céus para vós.” (1 Pe 1:3-4);

“De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós, também, em novidade de vida.” (Rm 6:4);

“Mas, agora temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito e não na velhice da letra.” (Rm 7:6)

Para nascer da água e do Espírito, basta crer que Jesus é o Cristo, conforme explica o apóstolo João:

“TODO aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus.” (1 Jo 4:1);

“… qualquer que ama, é nascido de Deus e conhece a Deus.” (1 Jo 4:7)

Qualquer pessoa que recebe o Filho de Deus como Senhor, ou seja, que crê em Jesus, recebe poder para ser feito filho de Deus. Ora, nascer de Deus, não ocorre por meio da vontade da carne, nem da vontade do varão e nem do sangue, mas, sim pela vontade de Deus. “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.” (Jo 1:12-13)

O evangelista João teve de explicar, detalhadamente, como o homem é feito filho de Deus, porque os seus concidadãos (judeus) entendiam, equivocadamente, que eram filhos de Deus, por serem descendentes da carne e do sangue de Abraão. Os judeus entendiam que bastavam ter o sangue e a carne de Abraão, que já tinham direito à salvação: “E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão.” (Mt 3:9)

Aquele que crê em Cristo é crucificado com Cristo, morre e é sepultado com Ele (Rm 6:4), ou seja, é ‘batizado’ na morte de Cristo (Rm 6:3), de sorte que o crente ressurge com Cristo uma nova criatura. É pela ressurreição de Cristo, dentre os mortos, que o crente é de novo gerado, da água e do Espírito: “Sepultados com ele no batismo, nele, também, ressuscitastes, pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos.” (Cl 2:12)

O apóstolo Pedro, ao falar do novo nascimento, aponta para o lavar regenerador da Palavra:

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo, dentre os mortos (…) Purificando as vossas almas, pelo Espírito, na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingido; amai-vos, ardentemente, uns aos outros, com um coração puro; Sendo, de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva e que permanece para sempre,” (1 Pe 1:3 e 22 a 23);

“Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade.” (Jo 17:17);

“Esta é, pois, a parábola: A semente é a palavra de Deus.” (Lc 8:11 );

“Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado.” (Jo 15:3.

Cada indivíduo, em particular, que crê em Cristo, é purificado, limpo pela palavra da verdade, que é viva e eficaz, ou seja, ao crer em Cristo, ocorre a lavagem pela água (palavra): “Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra.(Ef 5:26); “Cheguemo-nos com verdadeiro coração, em inteira certeza de fé, tendo os corações purificados da má consciência e o corpo lavado com água limpa.” (Hb 10:22; Hb 4:2)

O novo nascimento foi previsto pelo profeta Ezequiel, nos seguintes termos:

“Então aspergirei água pura sobre vós e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos, vos purificarei. E dar-vos-ei um coração novo e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra e vos darei um coração de carne.” ( Ez 36:25-26)

Qual o significado de ‘água’ e ‘Espírito’ em João 3, verso 5?

A ‘água’ é a palavra de Deus, o mesmo que a semente, que concede a natureza divina aos que creem: “Qualquer que é nascido de Deus não comete pecado; porque a sua semente permanece nele; e não pode pecar, porque é nascido de Deus.” (1 Jo 3:9); “Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou pela sua glória e virtude; Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que, por elas, fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo.” (2 Pe 1:3-4)

“Espírito” diz do próprio Deus que, por meio da sua palavra, concede vida ao homem. É por isso que o Espírito diz: “Então aspergirei água pura sobre vós…” ( Ez 36:25).O Espírito é o Deus eterno que cria (bara), por intermédio da sua palavra, concedendo, ao homem que crê, um novo coração e um novo espírito, ou seja, o Espírito promove o novo nascimento, por intermédio da Sua palavra. (Sl 51:10)

Uma lição que todos os homens precisam aprender é que o homem viverá da palavra de Deus e não só de pão. Se Deus alerta que o homem ‘viverá’, é porque está morto, diante de Deus, por causa da ofensa de Adão, e só por intermédio da Sua palavra terá vida. “E te humilhou e te deixou ter fome e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem.(Dt 8:3)

 

Carne e sangue

“E agora digo isto, irmãos: que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção.” (1 Co 15:50)

Há um paralelo entre a fala de Jesus e a abordagem paulina, nos seguintes versos:

“Jesus respondeu e disse-lhe: Na verdade, na verdade, te digo que, aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.(Jo 3:3)

“E agora digo isto, irmãos: que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção.” (1 Co 15:50)

Nicodemos era judeu, juiz, mestre e fariseu, portanto, alguém que entendia que era digno do reino dos céus, por ser descendente da carne e do sangue de Abraão.  O discurso: – ‘Temos por pai a Abraão’; –‘Nosso pai é Abraão’; – ‘Temos um pai, que é Deus’, não foi aceito por Cristo, portanto, Nicodemos precisava nascer de novo, para se tornar filho de Deus: “Responderam e disseram-lhe: Nosso pai é Abraão. Jesus disse-lhes: Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão.” (Jo 8:39); “Vós fazeis as obras de vosso pai. Disseram-lhe, pois: Nós não somos nascidos de prostituição; temos um Pai, que é Deus.” (Jo 8:41)

Gerados pela carne e pelo sangue, não podem herdar o reino de Deus, mas, tão somente os gerados da água e do Espírito, os que nasceram de novo.

Os judeus leram nas Escrituras a promessa que Deus fez a Abraão, de que em Abraão seriam benditas todas as famílias da terra, mas os descendentes de Abraão se equivocaram, em não observar que, em Isaque, a descendência de Abraão, ainda, seria chamada e não que eles eram essa descendência.

A descendência que seria chamada não falava dos israelitas (muitos), mas, de Cristo (uma só):

“Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo.” (Gl 3:16);

Nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência.” (Rm 9:7)

Se a descendência de Abraão seria chamada em Isaque e não em Abraão, segue-se que a filiação de Abraão é pela promessa e não por ‘carne’ e ‘sangue’. Cristo Jesus é o descendente prometido a Abraão, em quem todas as famílias da terra são benditas, o que demonstra que ‘carne’ e ‘sangue’ não possuem valor algum para dar direito à promessa.

“Porque todos sois filhos de Deus, pela fé, em Cristo Jesus. Porque todos quantos fostes batizados em Cristo, já vos revestistes de Cristo. Nisto, não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque, todos vós sois um em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão e herdeiros, conforme a promessa.” (Gl 3:26-29).

O apóstolo Paulo afirmou, aos irmãos de Corinto, durante uma explanação, acerca da ressurreição dos mortos, que ‘carne’ e ‘sangue’ não podem herdar o reino dos céus. A explicação paulina se fez necessária, porque algumas pessoas passaram a apregoar aos cristãos que os mortos não ressuscitavam (1 Co 15:12) e o apóstolo combateu, veementemente, essa doutrina, através de vários argumentos. (1 Co 15:13-20)

Durante a defesa desse aspecto importante do evangelho, o apóstolo fez um paralelo entre Adão e Cristo, demonstrando que: a) por Adão veio a morte (condenação) e todos os seus descendentes morreram, porém; b) por Cristo Jesus veio a ressurreição dos mortos e todos são vivificados n’Ele. (1 Co 15:21-22)

O alerta do apóstolo era para que os cristãos não se enganassem, portanto, deveriam ficar atentos para o fato de que as más conversações corrompem a doutrina do evangelho. Ele apela aos cristãos de Corinto que voltassem à sobriedade, ou seja, a ‘sobriedade’ é figura que contrapõe outra figura, o ‘vinho da contenda’, ou seja, a doutrina dos judaizantes. (1 Co 15:33)

Após defender a doutrina da ressurreição dos mortos, o apóstolo se antecipa e formula algumas perguntas que os contradizentes, possivelmente, fariam para contrapor à exposição do apóstolo dos gentios. Dai a pergunta: – “Como ressurgirão os mortos? E com que corpo virão?” (1 Co 15:35)

A resposta do apóstolo visava um grupo específico de pessoas: os judaizantes. O ensinamento do apóstolo visava desfazer um entendimento equivocado, pois é salutar à Igreja de Cristo, que é formada de indivíduos, provenientes de todos os povos, em todas as épocas, que compreendam que os mortos hão de ressuscitar.

A resposta do apóstolo Paulo foi dada para contrapor ao ensinamento dos ‘loucos’, ou seja, dos judeus ‘insensatos’, que, nesse quesito doutrinário, diziam, especificamente, dos saduceus: “Porque os saduceus dizem que não há ressurreição, nem anjo, nem espírito; mas os fariseus reconhecem uma e outra coisa.” (At 23:8)

Após explicar como há de ser os corpos dos que ressurgirem dentre os mortos, o apóstolo faz um paralelo entre Jesus e Adão, demonstrando que:

  1. Jesus é o último Adão, espírito vivificante;
  2. Adão, o primeiro homem, criado alma vivente. (1 Co 15:45)

Aproveitando o que estava explicando que, como Adão, assim, eram os seus descendentes terrenos e como Cristo, também, há de ser os celestiais (da mesma forma que todos herdaram a imagem de Adão, os que creem herdarão a imagem de Cristo) (1 Co 15:48-49), o apóstolo Paulo esclarece que ‘carne’ e ‘sangue’ não podem herdar o reino dos céus, nem a corrupção herdar a incorrupção. (1 Co 15:50)

Quando o apóstolo diz que ‘carne’ e ‘sangue’ não podem herdar o reino dos céus, ele está enfatizando que tais elementos não dão direito aos homens (quem quer que seja, judeu ou gentio) de entrar no reino dos céus. Ser descendente da carne e do sangue de Abraão, ou de qualquer outra personalidade, não dá direito ao reino dos céus.

Devemos considerar que, apesar de estar escrevendo a uma igreja, que ficava em uma cidade gentílica – Corinto – na igreja de corinto havia judeus e gentios. O conhecimento transmitido era para toda a igreja, pois deveriam compreender que, na ressurreição o corpo mortal será transformado em um corpo glorioso.

Isso significa que o corpo constituído de matéria orgânica não pode herdar o reino dos céus, sem, antes, ser revestido de imortalidade e incorruptibilidade. Nos céus não entrarão judeus, gregos, romanos, bárbaros, servos, livres, homens, mulheres, etc. Só tem direito à salvação os gerados de novo pela fé em Cristo Jesus (Gl 3:26-29), portanto, se algum cristão na igreja de corinto se gloriava (jactância) de ser descendente da carne e do sangue de Abraão, diante desta exposição paulina deveria compreender que carne e sangue não dão direito a entrar nos céus.

Além do mais, a corrupção não herda a incorrupção, de modo que, mesmo um crente em Cristo, descendente da carne de Abraão, para entrar nos céus, tal corpo deverá ser transformado. A corrupção que o apóstolo Paulo faz referência, diz da existência fugaz dos homens gerados da semente corruptível de Adão, o que contrapõe à condição daqueles que permanecem para sempre. (1 Jo 2:17; 1 Pe 1:23-25).

Pela ofensa de Adão entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte. Como a morte é penalidade imposta a todos os descendentes de Adão e é isso que os tornam escravos do pecado, por isso é dito que todos os homens pecaram. (Rm 5:12)

O termo ‘pecado’, no verso acima, não tem conteúdo de ordem moral. O termo deve ser compreendido, segundo a linguagem do camponês, quando vê um fruto impróprio para o consumo e diz: – ‘O fruto pecou’. Ora, isso não significa que o fruto fez alguma coisa inconveniente ou, moralmente, reprovável, antes, que ele é impróprio para o consumo.

De igual modo, é dito que todos pecaram, porque ficaram impróprios para o propósito de Deus, em manifestar a sua glória nos homens, quando a morte passou a todos os homens, por causa da ofensa de Adão.

O corpo gerado a partir da semente corruptível de Adão é sujeito ao pecado, portanto para entrar no reino dos céus, precisa morrer para o que estava retido e nascer de novo: “Mas, agora, temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito e não na velhice da letra.” (Rm 7:6)

Após crer em Cristo, para ser gerado de novo, o crente serve a Deus, segundo o evangelho (novidade de espírito), diferente daqueles que, por estarem entenebrecidos no entendimento, procuram servir a Deus na velhice da letra: “O qual nos fez, também, capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica.” (2 Co 3:6)

Os judeus serviam a Deus sem entendimento, ou seja, na velhice da letra. (Rm 10:2) E como serviam? Gloriavam-se na ‘carne’ e no ‘sangue’ de Abraão e não consideraram que as Escrituras protestavam contra eles, dizendo:

“Porque Toda a carne é como a erva e toda a glória do homem como a flor da erva. Secou-se a erva, e caiu a sua flor” (1 Pe 1:24)

Se toda carne é como a flor da erva, não se excetua a carne dos judeus, daí o alerta de Jeremias:

“Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, que faz da carne o seu braço e aparta o seu coração do SENHOR!” (Jr 17:5)

É nesse sentido que o apóstolo Paulo escreveu dizendo:

“E Deus escolheu as coisas vis deste mundo, as desprezíveis e as que não são, para aniquilar as que são; Para que nenhuma carne se glorie perante ele. Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, justiça,  santificação e redenção; Para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor.” (1 Co 1:28-31)

Os judeus se gloriavam no fato de serem descendentes da carne de Abraão e por serem circuncidados, conforme o rito da lei mosaica, porém, a verdadeira circuncisão pertence aos cristãos, que circuncidaram o coração, ao morrerem com Cristo: “Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus, em espírito, e nos gloriamos em Jesus Cristo e não confiamos na carne.” (Fl 3:3); “Pois que muitos se gloriam segundo a carne, eu também me gloriarei.” (2 Co 11:18); “Aquele, porém, que se gloria, glorie-se no SENHOR.” (2 Co 10:17); “Porque, nem ainda esses mesmos que se circuncidam guardam a lei, mas querem que vos circuncideis, para se gloriarem na vossa carne.” (Gl 6:13)

Após nascer de novo, o crente tem direito ao reino dos céus, conforme a promessa, mas só entrará no reino, quando for transformado, de modo que, o que é mortal e corruptível, seja revestido da imortalidade e da incorruptibilidade: “Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva e que permanece para sempre.” (1 Pe 1:23)

Agora, analisando sistemicamente, o Novo Testamento, os termos ‘carne’ e ‘sangue’ possuem vários significados, conforme o contexto em que são empregados.

‘Carne’ e ‘sangue’ podem fazer referência:

  1. à natureza pecaminosa herdada de Adão;
  2. aos descendentes de Adão;
  3. à natureza humana;
  4. ao vínculo familiar;
  5. à nacionalidade (judeu e gentio);
  6. ao corpo constituído de matéria orgânica, etc.

Demanda ao leitor, muita atenção, ao se deparar com os termos ‘carne’ e ‘sangue’, pois, podem ser utilizados para fazer referência ao nascimento natural, como lemos:

“Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.” (Jo 1:13)

O nascimento natural decorre da vontade do varão, da vontade da carne e do ‘sangue’, já o novo nascimento decorre da ‘água’ e do ‘Espírito’. Primeiro, é o nascimento, segundo a ‘carne’ e o ‘sangue’, depois, o nascimento, segundo a ‘água’ e o ‘Espírito’, por isso é dito que o nascimento, segundo o último Adão, é um ‘novo’ nascimento: “Mas não é primeiro o espiritual, senão o natural; depois, o espiritual.” (1 Co 15:46).

“Carne” e “sangue” referem-se à geração natural, ou seja, ao nascimento, segundo Adão, daí a máxima: ‘o que é nascido da carne, é carne’, portanto, terreno e herda a corrupção, proveniente da ofensa de Adão. (Jo 3:6; 1 Co 15:47). Essencialmente, “carne” e “sangue” são elementos que vinculam os homens ao primeiro pai, Adão.

Agora, quando lemos que o apóstolo Paulo não consultou ‘carne’ e ‘sangue’, quando saiu a evangelizar os gentios, os termos são empregados no sentido de ‘concidadãos’, o que remete ao vínculo familiar, nacionalidade ou, etnia: “Revelar seu Filho em mim, para que o pregasse entre os gentios, não consultei a carne, nem o sangue.(Gl 1:16)

Quando é dito que os cristãos não têm que lutar contra ‘carne’ e ‘sangue’, o apóstolo demonstra que os cristãos não lutam contra os homens (carne) e nem contra determinada etnia (sangue), quer sejam eles judeus, gregos, romanos ou, bárbaros. “Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais.” (Ef 6:12)

O escritor aos Hebreus enfatizou que Jesus participou da ‘carne’ e do ‘sangue’ para que, pela morte, aniquilasse o diabo. Por causa da paixão da morte, quando se fez ‘carne’, em tudo Cristo se fez semelhante aos homens: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós…” (Jo 1:14)

Quando é dito que Jesus participou da ‘carne’ e do ‘sangue’, significa que Ele teve um corpo de matéria orgânica, assim, como todos os homens, porém, sem vinculo com o pecado, por não ter entrado no mundo por Adão, mas, por Deus. (Sl 22:10)

A ênfase da abordagem do escritor aos Hebreus é a natureza humana, da qual Cristo foi participante e, por participar das mesmas coisas que todos os homens, foi possível a Cristo provar a morte por todos: “Vemos, porém, coroado de glória e de honra, aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos (…) E, visto como os filhos participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas, para que, pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo.” (Hb 2:9 e 14)

Agora, no paralelo que o apóstolo Paulo construiu entre Adão e Cristo, apresentando ambos como cabeças de gerações (primeiro e último Adão, respectivamente), há algumas questões que envolvem os termos ‘carne’ e ‘sangue’: Adão foi criado alma vivente e Cristo, o último Adão, foi feito espírito que dá vida: “Assim está, também, escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão, em espírito vivificante.” (1 Co 15:45).

Quando os homens vêm ao mundo, são participantes da carne e do sangue de Adão, de modo que possuem a mesma imagem do homem terreno e a mesma natureza. Por compartilhar a mesma natureza de Adão, os descendentes da carne e do sangue estão sujeito à morte, mesma condenação que pesou sobre Adão.

Para nascerem de novo, é necessário aos homens nascidos segundo a carne e o sangue de Adão, participarem da ‘carne’ e do ‘sangue’ de Cristo. Como? Comendo e bebendo, pois a carne de Cristo, verdadeiramente, é comida e o sangue de Cristo, verdadeiramente, é bebida.

“Jesus, pois, lhes disse: Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne, verdadeiramente, é comida e o meu sangue, verdadeiramente, é bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu, nele. Assim, como o Pai, que vive, me enviou e eu vivo pelo Pai, assim, quem de mim se alimenta, também viverá por mim.” (Jo 6:53-57)

Enquanto o homem gerado segundo a semente de Adão é participante da corrupção, decorrente da condenação, pela ofensa, o homem participante da carne e do sangue de Cristo, é participante da bem-aventurança, pelo dom gratuito de Deus. (Rm 5:15-19)

O apóstolo Paulo demonstra que a filiação de Abraão se adquire pela fé em Cristo, ou seja, só é filho de Deus aquele que se alimenta da carne e do sangue de Cristo. Somente, através da carne e do sangue de Cristo, que o homem alcança a natureza divina, escapa da corrupção que há no mundo e é herdeiro de Deus: “Porque todos sois filhos de Deus, pela fé em Cristo Jesus. Porque todos quantos fostes batizados em Cristo, já vos revestistes de Cristo. Nisto não há judeu, nem grego; não há servo, nem livre; não há macho, nem fêmea; porque todos vós sois um, em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, então, sois descendência de Abraão e herdeiros conforme a promessa.” (Gl 3:26-29).

 

Água e sangue

A asserção contida no capítulo 5, da primeira epístola de João, de que Jesus Cristo ‘veio por água e sangue’, tem por objetivo combater os seguintes erros doutrinários, que haviam surgido nas comunidades cristãs:

a) De que Jesus não era o Messias, o Filho de Deus, e;

b) De que Jesus não veio em carne.

Daí a assertiva joanina:

“Quem é que vence o mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?” (1 Jo 5:5);

“E todo o espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne, não é de Deus; mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes, que há de vir e eis que já está no mundo.” (1 Jo 4:3)

Negar o fato de que Jesus é o Ungido de Deus e que Ele veio em carne, são posicionamentos doutrinários contrários às Escrituras e, para prevenir os cristãos do engano dos falsos mestres, o evangelista João enfatizou que Jesus veio por ‘água’ e ‘sangue’.

Pela relevância que o tema possui, o discípulo amado destaca que Jesus Cristo não veio somente por ‘água’, mas que Ele veio por ‘água’ e ‘sangue’, como evidência inequívoca de que Jesus é o Filho Bendito de Deus.

Ao identificar algumas falsas doutrinas que surgiram nas comunidades cristãs, acerca da pessoa de Jesus, depreende-se do texto da sua primeira epístola que o evangelista combateu tais erros, ao enfatizar que Jesus ‘veio’, tanto por ‘água’, quanto por ‘sangue’.

Além de afirmar que Jesus veio por ‘água’ e ‘sangue’, o apóstolo destaca que Jesus não veio somente por ‘água’, mas por ‘água’ e por ‘sangue’, demonstrando que é de suma importância para a compreensão do evangelho, entender o fato de que Jesus, também, veio por ‘sangue’.

Quando se compreende que tudo o que o apóstolo João escreveu, na sua primeira epístola e no seu evangelho, teve o condão de demonstrar que Jesus Cristo é o Filho de Deus, os elementos para compreender o motivo pelo qual Jesus veio, não somente por água, mas por água e por sangue, tornam-se evidentes: a defesa do evangelho.

“Estas coisas vos escrevi a vós, os que credes no nome do Filho de Deus, para que saibais que tendes a vida eterna e para que creiais no nome do Filho de Deus.” (1 Jo 5:13; Jo 20:31)

Demonstrar que Jesus é o Cristo, era um cuidado constante do apóstolo João, tanto que, no início do seu evangelho, ele enfatiza que o Verbo se fez carne e que Ele pode ver a glória do Unigênito Filho de Deus: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.” (Jo 1:14)

A defesa constante dessa verdade, era em função da oposição do espírito do anticristo, ou seja, da doutrina divulgada pelos falsos profetas, de que Jesus não era o Filho de Deus e de que Ele não veio em carne.

Como a análise desse texto centra-se na primeira Epístola do evangelista João, percebe-se que ele é enfático, ao evidenciar que, todo aquele que crê que Jesus é o Cristo, é gerado (filho) de Deus e complementa, confessando que Jesus veio por ‘água’ e por ‘sangue’.

Jesus ter vindo por ‘água’ e por ‘sangue’, é apresentado como prova contundente de que Cristo é o Filho de Deus e a ênfase no ‘sangue’, quando o apóstolo diz que Cristo não veio somente por ‘água’, mas por ‘água’ e por ‘sangue’, é prova de que Jesus também veio em carne.

“Este é aquele que veio por água e por sangue, isto é, Jesus Cristo; não só por água, mas por água e por sangue. E o Espírito é o que testifica, porque o Espírito é a verdade.” (1 Jo 5:6)

O apóstolo João faz uma defesa da verdade do evangelho, estampando provas, de modo a preservar a mesma mensagem anunciada pelo apóstolo Paulo, no início da sua epístola aos cristãos de Roma:

“Acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi, segundo a carne, declarado Filho de Deus, em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor.” (Rm 1:3-4)

Cristo é apresentado pelo evangelista João como ‘aquele’ que ‘veio’ por ‘água’ e por ‘sangue’. Quando é dito que Jesus ‘veio’, o verbo grego ‘ἐλθὼν’ no aoristo foi o modo que o apóstolo utilizou para descrever a encarnação do Verbo eterno. O evento sobrenatural, em que o Verbo eterno, despido de sua glória, se fez carne e passou a habitar entre os homens, foi resumido no verbo ‘vir’. (Jo 1:4; Fl 2:7)

Devemos ter em mente que Cristo Jesus, que nasceu de uma virgem, lá em Belém da Judeia, há pelo menos dois mil anos, é uma das pessoas da divindade, portanto, o Criador de todas as coisas: “No princípio era o Verbo, o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele e sem ele, nada do que foi feito se fez.” (Jo 1:1-3; Hb 1:8 e 10)

Jesus ter vindo por ‘água’, decorre do fato de Ele ter sido gerado por Deus, de modo sobrenatural, ou seja, o ente Santo que foi concebido no ventre de Maria, formado pelo Espírito Santo, segundo o poder incompreensível (sombra) de Deus.

“E, respondendo o anjo, disse-lhe: Descerá sobre ti o Espírito Santo e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso, também, o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus.” (Lc 1:35)

A concepção de Cristo se deu através da operação divina, segundo a sua própria vontade e poder, em cumprimento ao predito nas Escrituras:

“Mas tu és o que me tiraste do ventre; fizeste-me confiar, estando aos seios de minha mãe. Sobre ti fui lançado, desde a madre; tu és o meu Deus, desde o ventre de minha mãe.” (Sl 22:9-10; Sl 71:6; Sl 139:13)

Quando o anjo explicou para Maria que ela estava grávida e que o menino que haveria de nascer teria o nome Jesus (Lc 1:31), foi dito que ela conceberia e daria à luz um filho. A narrativa do médico Lucas, demonstra que Jesus, efetivamente seria filho de Maria, pois ela haveria de conceber e dar à luz um filho.

Essa narrativa é conforme a exposição das linhagens que constam nas Escrituras, sendo certo que o homem gera filhos e a mulher concebe e dá a luz. Nunca é dito nas genealogias que uma mulher gera filhos, antes, é próprio de uma mulher conceber e dar à luz, como se lê:

“E CONHECEU Adão a Eva, sua mulher e ela concebeu e deu à luz a Caim e disse: Alcancei do SENHOR um homem.” (Gn 4:1);

“E Adão viveu cento e trinta anos e gerou um filho, à sua semelhança, conforme a sua imagem e pôs-lhe o nome de Sete. E foram os dias de Adão, depois que gerou a Sete, oitocentos anos e gerou filhos e filhas.” (Gn 5:3-4)

Maria ficou surpresa com a notícia e, ao questionar o anjo, foi dito a ela:

“Descerá sobre ti o Espírito Santo e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso, também, o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus.” (Lc 1:35)

Por ação sobrenatural do Espírito, Maria esteve envolta em um mistério (sombra), segundo o poder de Deus, de modo que o Santo que haveria de nascer, através de Maria, seria chamado de “o Filho de Deus”.

No início da proclamação do evangelho por Cristo, as pessoas eram céticas quanto ao senhorio de Cristo, tanto que o reconheceram somente como profeta (Mt 16:14). Só vemos uma crença firme, com relação à pessoa de Cristo, quando o apóstolo Pedro confessou que Jesus era o Filho de Deus: “E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.” (Mt 16:16)

A confissão do apóstolo Pedro não se deu por um conhecimento transmitido de pai para filho (carne e sangue), ou seja, o fato de Pedro ser descendente da carne e do sangue de Abraão, não lhe conferiu tal conhecimento, antes, tal conhecimento se deu pela revelação do Pai, através do evangelho anunciado por Cristo. (Mt 16:17)

Devemos ter em mente que muitos cristãos da igreja primitiva não conseguiam ver (entender) que, aquele Jesus com um corpo de matéria (carne e sangue) e que esteve sujeito à paixão da morte, na verdade, é sublime e glorioso e todas as coisas estão sujeitas a Ele. (Hb 2:8) Muitos, ainda, tinham em mente o Cristo, segundo a carne e se focavam na aparência dele. (2 Co 5:12)

“Assim que, daqui por diante, a ninguém conhecemos, segundo a carne e, ainda, que também, tenhamos conhecido a Cristo, segundo a carne, contudo agora já não o conhecemos desse modo. (2 Co 5:16)

Vários desvios doutrinários surgiam quando se dava ênfase demasiada a algum aspecto da vida do Senhor Jesus, e até mesmo com relação aos demais irmãos, de modo que o apóstolo Paulo teve que alertá-los que, após estar em Cristo (ser uma nova criatura), nenhum dos irmãos seriam conhecidos, segundo as questões da carne, como tribo, circuncisão, nação, ritos, etc.

Jesus era o Cristo, não porque foi circuncidado ao oitavo dia, apresentado ao sacerdote, oriundo da tribo de Judá, hebreu de uma hebreia, etc. (Fl 3:4-6) Na verdade, todas essas questões, somente serviam para que os homens pudessem identificar quem era o Cristo, enquanto esteve entre os homens.

Os apóstolos Mateus, Marcos e Lucas, ao abordarem a questão da deidade de Cristo, o fazem de forma velada, até porque, não queriam evocar, de pronto, a rejeição dos seus concidadãos, quando lessem os evangelhos. O apóstolo João, por sua vez, aborda a questão, abertamente, até porque, não tinha por objetivo convencer os judeus, mas, sim, instruir a igreja de Deus.

Diferentemente de Mateus e Lucas, que iniciam o relato da vida e do ministério de Cristo, apresentando sua genealogia ou, de Mateus e Marcos, que fazem referência aos Profetas e aos Salmos, o evangelista João é direto, quando aponta a deidade de Cristo:

“No princípio era o Verbo, o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus.” (Jo 1:1-2)

Por que essa diferença? A diferença decorre da estratégia utilizada para alcançar o leitor, pois o evangelho de João foi escrito por volta de 90 a 100 d.C., quando a igreja já havia florescido no mundo e começaram a surgir às heresias e os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas são datados de 60 a 100 d. C., quando ainda se anunciava a vinda, morte e ressurreição do Messias. Esses evangelhos tinham por objetivo anunciar a vida e o ministério de Cristo e aquele apresentar, apologeticamente, quem era o Cristo – o Filho de Deus.

Quando o apóstolo João diz que Jesus veio por ‘água’, ele está enfatizando que o Verbo eterno se fez carne, segundo as Escrituras, única e exclusivamente, pela virtude (poder) do Pai. Jesus veio ao mundo, segundo a palavra de Deus e pelo poder de Deus, ou seja, ao despir-se da sua glória e poder, Cristo foi introduzido no mundo como homem.

A partir do momento em que o Verbo eterno despiu-se da sua glória e passou a habitar um tabernáculo terrestre, durante o tempo que se chama HOJE, o Verbo deixou de sustentar todas as coisas pelo seu poder e passou a existir na dependência do Pai, assim, como todos os demais seres: “Proclamarei o decreto: o SENHOR me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei.” (Sl 2:7); “AQUELE que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará.” (Sl 91:1)

O Verbo, na eternidade, habitava no esconderijo do Altíssimo e, ao despir-se da sua glória, passou ao abrigo da sombra do Onipotente. Essa é a descrição de Cristo, na eternidade:

“O qual, sendo o resplendor da sua glória e a expressa imagem da sua pessoa e sustentando todas as coisas, pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas” (Hb 1:3).

O Salmo 121 é uma descrição precisa da proteção do Pai sobre o seu Filho, que guardou, tanto a sua entrada no mundo (nascimento), quanto a sua saída (morte):

“O SENHOR é quem te guarda; o SENHOR é a tua sombra à tua direita. O sol não te molestará de dia, nem a lua de noite. O SENHOR te guardará de todo o mal; guardará a tua alma. O SENHOR guardará a tua entrada e a tua saída, desde agora e para sempre.” (Sl 121:5– 8)

Na criação no Éden, Deus formou o homem do pó da terra e, quando soprou nas narinas o fôlego de vida, veio à existência o primeiro homem: Adão, uma alma vivente (Gn 2:7). Já, com relação ao último Adão – Cristo – Deus preparou um corpo no ventre de Maria, que veio à existência por ‘água’ e ‘sangue’ para que o Espírito eterno, despido de sua glória e poder pudesse, habitar entre os homens.

Adão não era pré-existente, quando foi feito alma vivente e de Cristo é dito que Ele entrou no mundo, o que demonstra a sua pré-existência. (Hb 10:5) A água remete a palavra de Deus que ‘bara’ (cria) e, nesse sentido, fica evidente a natureza divina de Cristo, que embora na carne, era o Filho de Deus, segundo a palavra de Deus (por água).

“E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre os milhares de Judá, de ti me sairá o que governará em Israel e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade. (Mq 5:2)

Quando é dito que Jesus veio por ‘água’, enfatiza que o Verbo eterno, voluntariamente, despiu-se da sua gloria e se fez carne, para habitar entre os homens. A vontade da carne, mais a vontade do varão e o sangue, trazem à existência um novo ser ao mundo; já o fato de Jesus vir por água, além de apontar a pré-existência de Cristo, demonstra que Ele foi gerado pela vontade e pelo poder de Deus: “E outra vez, quando introduz no mundo o primogênito, diz: E todos os anjos de Deus o adorem.” (Hb 1:6)

Jesus apresentou a seguinte relação: “O que é nascido da carne, é carne e o que é nascido do Espírito, é espirito” (Jo 3:6), de modo que, aquele que veio por ‘água’, é ‘água’ que concede vida. Cristo é a água que dá vida, a semente incorruptível, a palavra de Deus que é viva e permanente, porque veio por água. (1 Pe 1:23-25; Hb 13:8; Jo 6:63: Jo 15:3).

Voluntariamente, o Verbo eterno despiu-se da sua glória e se fez homem, sendo introduzido no mundo dos homens pelo poder sobrenatural de Deus, por isso é dito que Ele veio por água, diferente dos descendentes de Adão, que vem por carne e sangue.

Como Cristo foi gerado pelo Espírito no ventre de Maria, também veio por sangue e por meio do sangue, é descendente de Davi e descendente de Abraão.

“Este é aquele que veio por água e sangue, isto é, Jesus Cristo; não só por água, mas por água e por sangue. E o Espírito é o que testifica, porque o Espírito é a verdade.” (v. 6)

Sobre os bens futuros, Deus é enfático:

“Então aspergirei água pura sobre vós e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei” ( Ez 36:25 ).

A ação divina de aspergir água pura concede ao homem um novo coração e um novo espírito, o que remete a uma nova criação, como disse o profeta Davi: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto.”(Sl 51:10); “E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne” ( Ez 36:26)

Sobre esse aspecto da redenção, disse o apóstolo Pedro:

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos (…) Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre” (1 Pe 1:3 e 23).

Observando a lei de Moisés, verifica-se que, tanto as sementes, quanto as águas, possuem a mesma função, quanto à purificação:

“Porém a fonte ou cisterna, em que se recolhem águas, será limpa, mas quem tocar no seu cadáver, será imundo. E, se dos seus cadáveres cair alguma coisa sobre alguma semente que se vai semear, será limpa.” (Lv 11:36-37)

Observe que Cristo é sumo sacerdote dos bens futuros, onde há um tabernáculo maior e mais perfeito, que não é desta criação:

“Mas, vindo Cristo, o sumo sacerdote dos bens futuros, por um maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, isto é, não desta criação.” (Hb 9:11)

Cristo veio por água, porque foi ‘lançado’ por Deus no ventre de Maria, portanto, o vínculo de carne com Adão não existiu. Com Cristo vindo por água, foi estabelecido vinculo com a humanidade, de modo que passou a ter vínculo de sangue com a descendência de Abraão e de Davi. (Sl 22:10).

É em razão do pecado de Adão que Jesus não possui vínculo de carne com a humanidade, pois se assim fosse, teria vinculo direto com Adão e sua semente corruptível, portanto, estaria sujeito ao pecado, como todos os homens. O vínculo de Cristo com a humanidade só é de sangue, pois Ele veio por água, introduzido no mundo pelo poder de Deus, no ventre de Maria!

Como esteve no ventre de Maria, ali se efetivou o vínculo de sangue com a humanidade e assim firmou-se o vinculo de sangue com Abraão e com Davi.

Como a palavra de Deus é representada pela ‘água’, a semente incorruptível, temos uma referência à pré-existência de Cristo, o Verbo eterno. O Verbo eterno despiu-se da sua glória para ser introduzido no mundo, por meio do poder de Deus, para compartilhar da natureza humana, por meio do vínculo de sangue com Davi e Abraão, e não pelo vínculo da carne de Davi e de Abraão.

Observe que o evangelista João atribui vontade à carne e ao varão, menos ao sangue:

“Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.” (Jo 1:13)

Maria era da linhagem (casa) de Davi e Jesus não foi gerado da semente de homem algum, antes, o próprio Deus obrou maravilhosamente e fez com que ela concebesse o Seu Filho, que durante a gestação, compartilhou do sangue de Maria, por conseguinte, foi estabelecido somente vínculo de sangue com Davi, o que o tornou isento da morte, caso compartilhasse da carne de Adão.

Quando foi dito a Maria que o filho dela haveria de ser o Filho de Deus, a palavra de Deus predita a Davi estava se cumprindo:

“Quando teus dias forem completos e vieres a dormir com teus pais, então, farei levantar depois de ti um, dentre a tua descendência, o qual sairá das tuas entranhas, e estabelecerei o seu reino. Este edificará uma casa ao meu nome e confirmarei o trono do seu reino para sempre. Eu lhe serei por pai e ele me será por filho,” (2 Sm 7:12-14)

O vínculo de Davi com Cristo, aquele que saiu das entranhas de Davi, se deu somente por ‘sangue’ e não por ‘carne’. Hipoteticamente, se Cristo viesse de Davi, por carne, ou seja, por meio de uma relação sexual, onde a semente do homem é lançada no ventre da mulher, na verdade, o filho de Maria seria, apenas, mais um filho de Adão, portanto, sujeito ao pecado, assim, como, foram os outros filhos de Maria, que nasceram da relação dela com José.

Dai a explicação joanina, que Cristo veio por ‘sangue’, ou seja, Ele compartilhou da natureza humana, por vínculo de sangue, com seu pai Davi, através de Maria, por conseguinte, Cristo também era descendente de Abraão. Isso significa que a descendência (sangue) de Abraão foi escolhida, para que Deus se fizesse carne e viesse ao mundo dos homens. (Hb 2:16)

Quando Adão foi criado, Deus concedeu a Adão, a imagem  do Verbo eterno, que a tudo criou e que haveria de vir ao mundo. Com a queda, a imagem que Deus concedeu ao homem, não se perdeu, pois os dons de Deus são irrevogáveis, de modo que, quando o Verbo eterno, que a tudo criou, veio ao mundo, veio por ‘água’, segundo a mesma imagem que Ele concedeu ao homem, feito do pó da terra.

“No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir. (Rm 5:14)

Ao ser introduzido no mundo, o Verbo eterno teve um corpo constituído de matéria orgânica (carne, sangue e ossos), assim, como todos os homens. O escritor aos Hebreus explica que era necessário Cristo ser participante de ‘carne’ e de ‘sangue’, por causa da paixão na morte, o que é completamente, diferente de ter vindo por ‘água’ e por ‘sangue’.

Quando é dito que Jesus veio por ‘água’ e por ‘sangue’, isso significa que, apesar de ter tido um corpo constituído (participante) de ‘carne’ e de ‘sangue’, Cristo não entrou no mundo, pela mesma porta que todos os homens entram: Adão.

Adão é a porta larga, pela qual todos os homens vêm ao mundo, mas, Cristo foi introduzido no mundo, pelo poder de Deus.

Cristo, como o último Adão, foi estabelecido como a porta estreita, portanto, não poderia vir ao mundo por ‘carne’ e por ‘sangue’, ou seja, através da semente de Adão. Se Cristo entrasse no mundo, segundo a ‘carne’ e o ‘sangue’, estaria em um caminho largo, como todos os homens, e também, seguiria para a perdição.

Como Cristo não veio por Adão, entrou no mundo sem pecado. Por não ter vindo, através da semente de Adão, veio ao mundo pelo poder (virtude) de Deus, ou seja, por ‘água’. Adão, o primeiro homem, foi feito do pó da terra, portanto, é terreno; Cristo, o último Adão, sendo do céu, veio por água, ou seja, por intermédio do poder de Deus. (1 Co 15:47-48)

Todos os que vêm ao mundo por ‘carne’ e por ‘sangue’, não são pré-existentes, assim, como Adão não era pré-existente. Adão foi feito, a partir do pó da terra e veio à existência, quando Deus soprou em suas narinas o fôlego da vida e os demais descendentes de Adão vem à existência, quando são gerados, segundo a carne e o sangue.

É preciso divisar bem a questão de Cristo ter vindo em carne, pois, Cristo possuiu um corpo constituído de carne e de sangue, o que se verifica, quando Jesus foi circuncidado, ao oitavo dia (Lc1:59), quando sentiu fome, sede, cansaço (Mt 4:2; Jo 4:6), foi crucificado, morto e os seus ossos foram preservados, para não serem quebrados, sepultaram o seu corpo em uma sepultura que nunca foi utilizada e, ao terceiro dia, ressuscitou.

Cristo foi introduzido no mundo, na mesma condição de Adão, quando criado: livre de pecado. Mesmo com um corpo constituído de ‘carne’ e de ‘sangue’, Cristo não foi gerado, segundo a carne do pecado.

O vínculo do corpo de Cristo com a humanidade se deu somente por ‘sangue’, não por carne, para não ter vínculo com o pecado. Por causa da ação sobrenatural do Espírito Santo, o vinculo de Cristo com a humanidade se deu por sangue, não por carne, visto que Ele veio por ‘água’.

O fato de Jesus ter sido gerado no ventre de Maria conferiu a Cristo, pelo vínculo de sangue:

  1. O direito de se assentar no trono de Davi, seu pai, por conseguinte, conforme a profecia, depois de morto, ao terceiro dia, tendo ressurgido e foi declarado o Filho de Deus com poder. (2 Sm 7:14; Rm 1:3-4);
  2. Compartilhou da natureza humana, reunindo em si mesmo as condições necessárias para ser mediador entre Deus e os homens e, assim, provasse a morte por todos.

Dependendo do contexto em que o termo ‘carne’ é utilizado, com relação a Cristo, temos que compreender o emprego do termo, dentro do contexto do Novo Testamento. Por exemplo: Quando o apóstolo Paulo diz que Jesus Cristo nasceu ‘segundo a carne’, estava enfatizando, através do termo grego σάρκα (carne) o vínculo de sangue que há entre Davi e Cristo, como o descendente prometido e não que Ele seja oriundo da semente de Davi e de Abraão.

“Acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi, segundo a carne.” (Rm 1:3)

Há uma grande diferença, entre dizer, que Jesus nasceu segundo a carne e dizer que Ele é da descendência de Davi, segundo a carne. A assertiva de que Cristo é da descendência de Davi, remete à promessa que Deus fez a Davi, de modo que o corpo de matéria orgânica de Cristo teve vínculo de sangue com Davi, sem ser da semente de homem algum.

Cristo ter vindo por ‘água’ e por ‘sangue’, é diferente do argumento que demonstra que Cristo foi participante de ‘carne’ e de ‘sangue’. Sabemos que Jesus foi participante de carne e de sangue, ou seja, com um corpo constituído de carne e de sangue, porém, não teve vínculo com Adão, pois veio por água e por sangue. Apesar de ter um corpo de carne e de sangue, Cristo não foi gerado de ‘carne’ e de ‘sangue’, mas, sim, de ‘água’ e de ‘sangue’.

Essa é a grande diferença que há entre o nascimento de Cristo e o restante da humanidade: o modo que vieram ao mundo. Quando é dito que os filhos participam da carne e do sangue, no contexto, significa que os filhos são provenientes de uma semente que lhes confere a natureza dos pais, bem como a condenação oriunda da ofensa de Adão.

O intérprete das Escrituras precisa identificar, durante a leitura, qual é a defesa do evangelho que os escritores das epístolas fizeram. Por Exemplo, o escritor aos Hebreus combateu o desvio teológico de alguns, que diziam que Jesus era um dos profetas (anjo, mensageiro) ou, um ser angelical. O evangelista João combateu o desvio teológico de que Jesus não veio em carne e o apóstolo Paulo, por sua vez, demonstrou o cumprimento da profecia que Deus fez a Davi.

O escritor aos Hebreus precisou enfatizar a humanidade de Cristo, para desfazer a ideia equivocada de que Cristo seria somente um dos profetas ou, um ser angelical. Essa ideia equivocada de que um anjo se fez carne ou, que era somente mais um profeta, comprometia a essência do evangelho.

A alegação de que Jesus é um ser angelical e que se fez carne, nega que o Cristo é pré-existente, ou seja, que Ele é o Deus eterno que estava junto ao Pai e se esvaziou da sua glória, para habitar entre os homens: “Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens.” (Fl 2:7); “No princípio era o Verbo,  o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus.” (Jo 1:1-2 )

Nas Escrituras está registrado o seguinte, acerca do Filho de Deus:

“Mas, do Filho, diz: Ó Deus, o teu trono subsiste pelos séculos dos séculos; Cetro de equidade é o cetro do teu reino. Amaste a justiça e odiaste a iniquidade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com óleo de alegria, mais do que a teus companheiros.” (Hb 1:8-9; Sl 45:6-7);

“E Tu, Senhor, no princípio fundaste a terra, E os céus são obra de tuas mãos. Eles perecerão, mas tu permanecerás; E todos eles, como roupa, envelhecerão e, como um manto, os enrolarás e serão mudados. Mas tu és o mesmo, E os teus anos não acabarão.” (Hb 1:10-12; Sl 102:25-27)

Nas Escrituras não tem registro nenhum, de que algum profeta (anjo, mensageiro), fora chamado de Filho ou de Deus, do mesmo modo que tais nomes: Deus e Filho, não apontam para seres angelicais.

O evangelista João enfatiza que Cristo veio por ‘água’ e por ‘sangue’, o que significa que Ele não veio por ‘carne’ e por ‘sangue’. Ele precisava demonstrar que Jesus teve um corpo de carne, por causa dos anticristos, que diziam que Jesus não veio em carne, o que comprometeria a verdade da morte de Cristo e da sua ressurreição, porém, a verdade de que Cristo não teve vínculo com o pecado, também, deveria ser enfatizado.

A carne, como matéria, é sempre vinculada ao pecado, entretanto, não é um corpo constituído de carne que vincula o homem ao pecado, mas, sim, a herança de Adão transmitida pela semente corruptível. É a condenação, em decorrência da ofensa que ocorreu no Éden, que vincula o homem ao pecado, não a matéria constitutiva do corpo.

É imprescindível destacar que todos os homens, quando vêm ao mundo, exceto Adão e Cristo, possuem vinculo de ‘carne’ e de ‘sangue’. Adão é o único homem que veio ao mundo sem vínculo de carne e de sangue, pois foi criado por Deus, a partir do barro. Já o Filho de Deus veio ao mundo tendo vínculo de sangue, para compartilhar da natureza humana e, assim ser participante das fraquezas e sujeito à morte, porém, por ter vindo por água, nunca esteve sujeito ao pecado.

Exceto Adão e Cristo, todos os homens vêm ao mundo por carne e por sangue, ou seja, são gerados da vontade da carne, da vontade do varão e do sangue. Adão e Cristo tinham corpos constituídos de ‘carne’ e de ‘sangue’, no entanto, ambos não vieram ao mundo, conforme a vontade da carne, vontade do varão e do sangue.

A Palavra que é viva e permanece para sempre, se fez semelhante aos homens, portanto, significa que Jesus veio por água e, ao mesmo tempo, pertenceu à linhagem de Abraão e de Davi, pelo vinculo de sangue:

“… mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens.” (Fl 2:7)

É por causa dos opositores do evangelho, que diziam que Jesus não veio em carne, que o evangelista João demonstra que Jesus veio ao mundo, ao despir-se da sua glória, por ‘água’ e por ‘sangue’. (1 Jo 5:6).

Em seguida, o apóstolo enfatiza que as Escrituras (espírito) confirmam que Jesus veio em carne, ou seja, que Jesus detinha um corpo de carne e de sangue. Ora, como as Escrituras são a verdade e dão testemunho de Cristo, certo é que as Escrituras dão testemunho de Cristo:

“Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna e são elas que de mim testificam.” (Jo 5:39)

“Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade.” (Jo 17:17);

“A tua palavra é a verdade, desde o princípio, e cada um dos teus juízos dura para sempre.” (Sl 119:160)

O apóstolo João demonstra que o próprio Deus é quem dá testemunho, acerca do Cristo, através das Escrituras. A palavra de Deus é a verdade e Cristo, na condição de Verbo eterno encarnado, identificou-se como o caminho, a verdade e a vida: “Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho,  a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.” (Jo 14:6)

A palavra do evangelho é a unidade do Espírito, pois só há uma igreja (corpo) e um evangelho (evangelho): “Procurando guardar a unidade do Espírito, pelo vínculo da paz. Há um só corpo e um só Espírito, como, também, fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação.” (Ef 4:3-4)

Como a palavra de Deus é a verdade e o evangelista João enfatiza que o Espírito é a verdade, segue-se que o que testifica é a palavra, pois o testemunho de Cristo é o espírito da profecia.

“E eu lancei-me a seus pés para o adorar; mas, ele disse-me: Olha, não faças tal; sou teu conservo e de teus irmãos, que têm o testemunho de Jesus. Adora a Deus; porque o testemunho de Jesus é o espírito da profecia.(Ap 19:10; Jo 8:26)

Ao retirar a interpolação: “…no céu: o Pai, a Palavra e o Espírito Santo; e estes três são um. E três são os que testificam na terra:” (1 Jo 5:7-8), que não há nos melhores manuscritos, o que sugere um acréscimo tardio, teremos a seguinte assertiva:

“Porque três são os que testificam: o Espírito, a água e o sangue; e estes três concordam num.” (1 Jo 5:7-8)

Embora o Deus eterno seja constituído de três pessoas sempiternas e unas, e a diferenciação de pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo tenham surgido somente na plenitude dos tempos, quando o Unigênito de Deus foi introduzido no mundo, e a relação Pai/Filho passou a viger, conforme o acordado na eternidade: “Eu lhe serei por Pai e tu me será por Filho.” (2 Sm 7:14), a unidade do testemunho, acerca de Cristo como o Filho de Deus é o das Escrituras, ou seja, do espírito e não ‘do Pai, do Verbo e do Espírito Santo’, como sugere a interpolação.

Sobre o testemunho do Espírito, ou seja, da palavra que dá vida, temos a seguinte declaração de Jesus:

“Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna e são elas que de mim testificam.” (Jo 5:39);

Jesus balizou o seu ministério no testemunho de Deus, que está expresso nas Escrituras somente:

“E na vossa lei está, também, escrito que o testemunho de dois homens é verdadeiro. Eu sou o que testifico de mim mesmo e de mim testifica, também, o Pai que me enviou.(Jo 8:17-18)

O testemunho das Escrituras, conforme o anunciado pelos profetas (Jo 5:39), é o testemunho do Espírito ou, da Palavra ou, de Deus.

A água remete ao nascimento sobrenatural de Cristo, pois, além de Ele ser a água proveniente da pedra que os filhos de Israel beberam, pois era Ele quem os seguia (1 Co 10:4; Jo5:31-36; Jo 8:14), ação sobrenatural de Deus que atuou no ventre da virgem, concedendo a Cristo a natureza humana, constituiu o Cristo por testemunho a todos os povos.

“Mas eu tenho maior testemunho do que o de João; porque as obras que o Pai me deu para realizar, as mesmas obras que eu faço, testificam de mim, que o Pai me enviou.” (Jo 5:36)

O próprio sangue (parente) de Cristo testificou d’Ele, o seu primo, João Batista:

“João testificou dele e clamou, dizendo: Este era aquele de quem eu dizia: O que vem após mim é antes de mim, porque foi primeiro do que eu.” (Jo 1:15).

Quando Cristo é ressurreto pelo poder de Deus o testemunho do Espírito, da água e do sangue se confirmam, pois, Ele foi declarado filho de Deus com poder, pela ressurreição dentre os mortos:

“O qual, antes prometeu, pelos seus profetas, nas santas escrituras, acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi, segundo a carne, declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor.” (Rm 1:2-4).

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1] “3956 πας pas que incluem todas as formas de declinação; TDNT – 5:886,795; adj 1) individualmente 1a) cada, todo, algum, tudo, o todo, qualquer um, todas as coisas, qualquer coisa 2) coletivamente 2a) algo de todos os tipos, Dicionário Bíblico Strong.

[2] “1097 γινωσκωginoskoforma prolongada de um verbo primário; TDNT – 1:689,119; v 1) chegar a saber, vir a conhecer, obter conhecimento de, perceber, sentir 1a) tornar-se conhecido 2) conhecer, entender, perceber, ter conhecimento de 2a) entender 2b) saber 3) expressão idiomática judaica para relação sexual entre homem e mulher 4) tornar-se conhecido de, conhecer” Dicionário Bíblico Strong.

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O conflito na alma e o inimigo na alma

Enquanto Barclay analisa os termos gregos utilizados pelo apóstolo Paulo, que foram traduzidos por: adultério, prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices e glutonarias, a partir do comportamento desregrado dos gregos e dos romanos (esquecendo que o apóstolo Paulo não julga os que são de fora, mas os que são de dentro), não percebe que a lista das obras da carne foi feita a partir da apostasia dos filhos de Israel, que foram postos por exemplos.


O conflito na alma e o inimigo na alma

Este artigo tece considerações, em função do livro “As obras da carne e o fruto do Espírito”, de William Barclay, publicado pela editora ‘Edições Vida Nova’, em especial, sobre o capítulo I, que aborda duas questões: ‘O conflito na alma’ e ‘O inimigo na alma’.

 

O conflito na alma

O Dr. Barclay, já no primeiro parágrafo do seu livro, afirma que ‘A filosofia e a teologia são essencialmente uma transcrição e uma interpretação da experiência humana… ’, e conclui: ‘… e a experiência humana é de que há um conflito na alma humana’[1] Barclay, William, As obras da carne e o fruto do Espírito, Tradução Gordon Chown, Ed. Edições Vida Nova, SP, 1988. Pág. 13.

Apesar de citar trecho da carta do apóstolo Paulo aos Gálatas, tanto a asserção, quanto a conclusão de Barclay, não refletem a verdade exarada nas Escrituras. Primeiro, porque a filosofia não é matéria bíblica. Segundo, se esses, também, são os termos da teologia, uma transcrição e uma interpretação da experiência humana, não estamos falando de um estudo de Deus, mas, de uma matéria secular.

A Bíblia tem por base a revelação divina, não as experiências humanas. Por mais que a experiência humana diga que há um conflito na alma, a Bíblia não trata desses conflitos e nem se apoia nas experiências humanas. Por mais que evidências palpáveis aos sentidos humanos apontem a existência de um conflito na alma, a revelação das Escrituras, por ser a verdade, suplanta as experiências humanas.

Por mais que o pensamento judaico acerca do homem aponte para a existência de um conflito interno, conforme exarado na doutrina de yetserhatobh e yetserhara[2] (a natureza boa e a má), tal pensamento nada pode comunicar aos cristãos, pois a Bíblia é clara, aos dizer que os judeus não tem o conhecimento de Deus (Dt 32:28; Is 1:6; Os 4:6), portanto, a doutrina deles não é confiável.

No entanto, o Dr. Barclay busca, não só o pensamento judaico, mas, também, entre os gregos[3], evidencias para sustentar a sua asserção inicial e aponta para Platão que, no Fedro (246B), “descreve a alma do homem como o cocheiro, cuja tarefa é dirigir, em arreios duplos, dois cavalos, um dos quais é ‘nobre e de raça nobre’, e o outro é ‘o oposto na raça e no caráter’”. Barclay não para por aí e busca, entre Ovídio (Metamorfoses 7.20), Sêneca (Cartas 112.3), Epíteto (Discursos 2.11.1) e outros, evidenciar a tal ‘experiência humana’[4], que comprove que há um conflito na alma.

Barclay destaca dois escritores gregos: Platão e a sua obra Fédon, que narra às últimas horas de Sócrates e Filo, e acrescenta que este último estabeleceu uma ponte entre o pensamento hebraico e o grego e aquele influenciou incalculavelmente o pensamento cristão, e que ambos sublinharam em seus escritos que o corpo é eminentemente mal (idem, págs. 14 e 15).

A informação inicial apresentada por Barclay, de que o apóstolo ‘Paulo não foi, de modo algum, a primeira pessoa que viu a vida em termos do conflito interno’ (idem, pág. 13), não é verdadeira, pois, em suas epístolas, o apóstolo dos gentios não trata das experiências humanas e nem dos seus conflitos internos, mas, da ‘oposição’ entre o ‘mandamentos de homens’, que é contrário ao ‘mandamento de Deus’, ou seja, ‘carne’ versus ‘espírito’.

Quando o apóstolo Paulo afirma que a carne milita contra o espírito, ele tem em vista dois sistemas doutrinários antagônicos: os mandamentos dos homens e o mandamento de Deus. Aqueles que estão em Cristo Jesus, são os que andam no espírito, diferentemente daqueles que andam segundo a tradição dos homens, ou seja, segundo a carne.

“PORTANTO, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Rm 8:1).

A oposição entre a ‘carne’ e o ‘espírito’ descrita pelo apóstolo Paulo não é interna ao homem, pois o que ‘carne’ e ‘espírito’ disputam é o homem, na busca de sujeita-los ‘para que não façais o que quereis’ (Gl 5:17). A oposição entre carne e espírito, descrita pelo termo grego αντικειμαι (antikeimai), não diz de um embate, de um enfrentamento, mas, de oposição. Os que são segundo o evangelho, agradam a Deus, pois se sujeitam ao mandamento, que é crer em Cristo (At 10:35), mas os que são segundo a lei, ou seja, segundo as obras da carne, são inimigos de Deus, pois não se sujeitam ao mandamento de Deus (Rm 8:7-9).

A má leitura de Barclay se deve à falta de compreensão, acerca do termo grego ‘pneuma’, quando empregado pelo apóstolo Paulo, em certos contextos, nas suas epístolas.[5]

O problema exposto na base de um dilema, se o pneuma (espírito), faz parte do homem ou, se é uma parte do homem após ele se tornar cristão, demonstra o quanto a incompreensão de certos termos gregos empregados no Novo Testamento interferiu na leitura e na compreensão de Barclay. Pela incompreensão do tema, Barclay cita J. E. Frame, que, por sua vez, cita Teodoro de Mopsuéstia (ou, Teodoro de Antioquia; 350-428), somando-se erro sobre erro:

“Deus nunca colocou os três, a alma, o espírito e o corpo, num descrente, mas somente nos crentes. Destes, a alma e o corpo são naturais, mas o espírito é um benefício (euergesia) especial para nós, uma dádiva da graça aos que creem”. Teodoro de Mopsuéstia.

Em primeiro lugar, o homem, seja ele crente em Cristo ou, não, só é homem, porque é formado por corpo, alma e espírito. É impossível ao homem ser homem sem corpo, da mesma forma que é impossível ao homem ser o que é sem a alma e o espírito. O espírito que compõe a natureza do homem, tanto natural, quanto espiritual, não diz da dádiva da graça ou de um dom de Deus para a natureza humana redimida.

Todos os homens possuem um corpo constituído de matéria orgânica, formado do pó da terra (Gn 2:7) e Cristo, ao se tornar homem, também teve que ser participante de carne e sangue (Hb 2:14 e 16; Sl 139:13-16; Sl 22:9-10; Sl 40:6). Todos os corpos dos homens são constituídos de matéria orgânica e semelhantes entre si, pois, todos vem do pó e ao pó retornam.

Todos os homens possuem um espirito criado por Deus, exceto Jesus Cristo-homem, visto que o próprio espirito do Verbo eterno esvaziou-se a si mesmo do seu poder e glória e se faz homem, sendo introduzido pelo Altissimo no ventre de Maria, no corpo que lhe foi preparado, sem vínculo com a semente de Adão (Hb 10:5; Fl 2:7).

Todos os homens possuem uma alma, que muitos se referem como a sede dos sentimentos, emoções e desejos dos homens. No entanto, a alma é a identidade do espírito, que unido ao corpo passa a existir dotado de sentimentos, emoções e desejos. Um espírito unido a um corpo, distingue-se dos demais espíritos, quando são unidos a um corpo pela concepção e a alma diz da individualidade do espírito, que o distingue dos demais.

Todos os espíritos dos homens, quando criados por Deus, são idênticos entre si, sem nada que os distingam. Quando do nascimento do homem, em que há a união entre o corpo e o espírito, temos uma alma vivente: um espírito que é único, pela identidade que adquire, através da sua alma.

Os seres angelicais são espíritos e quando criados, o foram de uma única vez, cada qual com a sua identidade e individualidade, distintos um do outro, diferentemente do homem, no qual a identidade e a individualidade do espírito se dá, quando unido ao corpo.

Se Deus retirar o espírito e o fôlego que concedeu ao homem, imediatamente, todos sem exceção, expiram e voltam ao pó da terra (Jó 34:14). O fôlego está relacionado à vida do corpo, constituído de matéria orgânica (Jó 33:4-6) e o espírito está relacionado à existência do homem, o que permite compreender os eventos à sua volta (Jó 38:36). Sem o espírito, o homem seria semelhante aos animais, que se guiam por instintos, ou seja, sem compreender os eventos à sua volta (Sl 32:9).

É próprio do espírito do homem ter e expressar sua opinião, ante os eventos que o cercam por intermédio do corpo, ou seja, através dos lábios (Jó 32:17-20). Eliú, filho de Baraquel, o buzita, antes de ouvir Jó e os seus amigos, achava que era próprio aos mais velhos ensinarem sabedoria e, por isso, tinha receio de expor a sua opinião (Jó 32:6-7). Ao ouvir os mais velhos, Eliú decepcionou-se e chegou à conclusão de que os mais velhos não são os mais sábios e nem os idosos tem conhecimento do que é mais correto (Sl 32:9). Embora fosse consenso à época de Eliú que a sabedoria e o conhecimento eram próprios aos mais velhos, o jovem Eliú conseguiu abstrair, através do que ouviu da discusão dos amigos de Jó, que não era assim.

Como é próprio a todos os homens ter um espírito (o sopro do Senhor Todo Poderoso), Eliú compreendeu que o entendimento e a sabedoria são, igualmente, alcançados por todos, independentemente de ter ou não idade avançada, o que fez com que aquele jovem expressasse a sua opinião diante de alguns velhos (Jó 32:8 e 17).

“Pensava eu: ‘Que a experiência fale mais alto e os muitos anos de vida ensinem a sabedoria’. Contudo, o homem tem um espírito e o sopro de Shaddai, o Todo-Poderoso, que lhe proporciona entendimento. Não são apenas os mais velhos, os maiores e mais sábios, nem os mais idosos que têm o conhecimento do que é mais certo” (Jó 32:7-9).

O espírito do homem não é um entendimento, antes o entendimento é uma faculdade do espírito, que o torna capaz de raciocinar, considerar, compreender, etc. Ao nascer, o homem é um ser terreno, dotado de um espírito, com a faculdade de compreensão, aprendizagem, interação, etc. Entretanto, o discernimento do homem precisa ser exercitado, assim como o corpo, para que possa se desenvolver, até chegar à maturidade, tornando-se apto a discernir entre o bem e o mal (Is 7:16; Hb 5:14).

O espírito do homem, paulatinamente, cresce em entendimento quando interage com o mundo, e isso por intermédio do seu corpo. Deus soprou no homem o fôlego da vida e, assim, este tornou-se alma vivente, dotado de um espírito. O entendimento de Adão só veio através da interação que ele tinha com Deus na virada do dia e com a vivência no jardim do Éden e, assim, é com todos os seus descendentes, pois os filhos interagem com os pais.

A consideração de Teodoro de Mopsuéstia é equivocada, pois, todos os homens, sem exceção, são constituídos de corpo, alma e espírito. Na morte física, o corpo volta ao pó, porém, o espírito, que volta para Deus, jamais se dissocia da alma, pela eternidade. Todo homem, primeiro, teve o corpo formado do pó da terra, através da herança de carne e sangue, que recebe dos pais; em seguida, um espírito, que procede de Deus e, por fim, surge a alma, como identidade do espírito. Ao morrer,o corpo volta para o pó da terra, porém, espírito e alma seguem para a eternidade, quando os homens ressurgirão com corpo glorioso ou, em ignomínia.

Mas, o que é o ‘pneuma’, como dom de Deus, que é próprio à natureza redimida do crente em Cristo? Por ‘natureza redimida’, entende-se como o homem de novo gerado, por meio da palavra do evangelho, que é semente incorruptivel.

O termo grego ‘pneuma’ (espírito), além de se referir a um dos elementos imateriais do homem criado por Deus, também, é utilizado para fazer referência à mensagem do evangelho. O termo ‘espírito’ é utilizado para fazer referência a uma doutrina, assim como o termo ‘fé’, que contém, em seu bojo, a ideia de ‘verdade’. É com esse significado que Jesus afirmou que as suas palavras são ‘espírito e vida’ (Jo 6:63).

Adão, ao pecar, separou-se de Deus, ou seja, morreu. Todos os descendentes de Adão, igualmente, alienaram se de Deus, ou seja, estavam mortos em delitos e pecados (Ef 2:1). O termo ‘morte’ é empregado no sentido de ‘separação’, não no sentido de término das funções vitais. Para a cessação das funções vítias do individuo, o escritor do Gênesis utilizou a expressão ‘voltar ao pó’.

Mas, como o homem volta à comunhão com Deus? Em outras palavras, como o homem é vivificado? Através do espírito, ou seja, pela palavra de Deus (Dt 8:3), pois, por ela, é criado um novo homem (Ef 4:23).

É por isso que o Verbo eterno se fez carne, pois o mandamento de Deus, dado através de Cristo, concede vida aos que creem! Esse mandamento (espirito) é concedido gratuitamente (1 Jo 3:23; Jo 3:16), pois, é dito: pela graça sois salvos! (Ef 2:8). O homem é salvo por meio da ‘verdade anunciada’ (Gl 3:1), que é a ‘fé’, ou seja, evangelho, espírito (Rm 1:16), a fé, que de uma vez foi dada aos santos (Jd 1:3), a palavra anunciada pelos ministros do espírito.

O apóstolo Paulo foi feito ministro do espírito, ou seja, de um Novo Testamento:

“O qual nos fez, também, capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica” (2 Co 3:6).

É por isso que o apóstolo Paulo faz referência a Cristo como o último Adão, o espírito vivificante:

“Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante” (1 Co 15:45).

O espírito do homem regenerado é o mesmo, antes de ser gerado de novo, porém, o que muda é o espírito como mensagem, entendimento, o que se dá no arrependimento. O arrependimento, essencialmente, é uma mudança de espírito, ou seja, de compreensão, acerca de como ser salvo. O espírito dos escribas e fariseus era de que estavam salvos, por serem descendentes da carne de Abraão, mas com o evangelho, deveriam mudar de concepção, espírito, pois a salvação se dá por Cristo, o reino dos céus que era chegado (Mt 3:2 e 8-9).

É pelo espírito (mensagem) do evangelho que sabemos que Deus está em nós e nós n’Ele (1 Jo 3:24). Quem é gerado de novo pelo espírito, é espiritual (Jo 3:6) e quem foi gerado segundo a carne, é carnal, sendo que o espírito (mensagem que acredita ser a verdade) deste, consiste em mandamento carnal e daquele, ‘poder da vida incorruptível’ (Hb 7:16) .

Outro equívoco, é entender que é por meio do pneuma, como espírito do homem[6], que Deus pode falar aos homens, ou que os homens podem ter comunhão com Deus. O pneuma, que Deus fala aos homens, diz da sua palavra, da sua mensagem anunciada por Cristo. É somente por meio do evangelho, que é espirito e vida, que o homem tem comunhão com Deus. O homem possui um espírito, mas não é esse espirito que tem comunhão com Deus ou que torna possível ouvir a Deus.

Watchman Nee, em seu livro, ‘O homem espiritual’ incorre no mesmo erro de Barclay, ao afirmar que:

“É através do espírito que temos comunhão com Deus e somente por ele podemos compreendê-lo e adorá-lo. Por isso se diz que ele é o elemento que nos confere consciência de Deus. Deus habita no espírito; o eu, na alma; e os sentidos, no corpo (…) Por meio do seu espírito, o homem se relaciona com o mundo espiritual e com o Espírito de Deus…” Nee, Watchman, ‘O homem espiritual’ Vol. 1, Editora Betânia – Belo Horizonte, 2002, Pág. 34.

Deus não habita no espírito do homem, mas, no seu corpo:

“Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?” (1 Co 6:19).

O corpo do crente não está em posição inferior ao seu espírito, pois o corpo pertence ao Senhor e o Senhor ao corpo (1 Co 6:13). Ao crer em Cristo, o homem une-se ao Senhor em um só espírito (1 Co 6:17; Ef 2:18), tornando-se, assim, membro do corpo de Cristo (1 Co 6:15). É pelo espírito do evangelho que o homem tem acesso a Deus, por isso, é dito um só espírito (Ef 2:18; Ef 4:4).

Após a queda de Adão, todos os seus descendentes são concebidos todos em pecado, ou seja, em corpo, alma e espírito. Esses elementos não se dividem, não há um mais nobre que o outro, ou seja, o corpo inferior e o espírito superior. É, eminentemente, platônica a ideia de que o espírito é mais nobre[7] que o corpo e o corpo, inferior. Todos os elementos que compõem a natureza do homem estão, igualmente, separados de Deus, sem comunhão, por causa da pena imposta, em decorrência da ofensa de Adão: morte.

Quando o homem crê em Cristo, por intermédio da palavra do evangelho, é purificado, completamente, pelo lavar regenerador do espirito (palavra), de modo que o seu corpo, alma e espírito são plenamente santificados e conservados irrepreensíveis.

“E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito,  alma e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso SENHOR Jesus Cristo” (1 Ts 5:23).

Deus não se comunica com o espírito do homem, como se fosse autônomo do corpo, antes, se comunica com o homem, através do evangelho, o qual o apóstolo Paulo foi feito ministro, e esse homem é corpo, alma e espírito. Para Deus comunicar-se com o homem, é necessário alguém que pregue e que o homem ouça, e isso só é possível através dos ouvidos, ou seja, através do corpo.

“Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? como está escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam o evangelho de paz; dos que trazem alegres novas de boas coisas. Mas nem todos têm obedecido ao evangelho; pois Isaías diz: SENHOR, quem creu na nossa pregação? De sorte que a fé é pelo ouvir e o ouvir pela palavra de Deus” (Rm 10:14-17).

Adão foi formado do pó da terra e Deus soprou-lhe nas narinas o fôlego de vida, concedendo-lhe, além do corpo formado do pó da terra, um espírito, tornando-se assim alma vivente (Gn 2:7). No Éden, Deus se comunicava com o homem pessoalmente, e não com o seu espírito, como se o espírito de Adão fosse independente do corpo.

O Verbo eterno, ao se fazer homem, também, lhe foi preparado um corpo por Deus (Sl 40:6) e Ele foi lançado no ventre de Maria (Sl 22:9-10). Por não ser gerado do sangue, da vontade da carne e do varão, Cristo veio ao mundo sem pecado. O corpo de Cristo não era menos nobre que o seu espírito e alma, tanto que Deus garantiu que nenhum dos seus ossos seriam quebrados (Sl 34:20). Deus ressuscitou o corpo de Cristo e o glorificou, o que demonstra que o corpo não é menos nobre que o espírito.

O termo ‘pneuma’ é utilizado para fazer referência, tanto a Deus, como o Espírito eterno; ao homem, como alma vivente; à parte imaterial do homem criada por Deus; ao evangelho como doutrina; e, ao Espírito Santo. Se o leitor não souber distinguir essas nuances, quanto à aplicabilidade do termo, através do contexto onde empregado, acabará fazendo uma leitura equivocada.

Cristo falou que enviaria o Consolador, ao fazer referência à terceira pessoa da trindade; em outras passagens, é dito que Deus envia o seu espírito, ou o espírito do Seu Filho, uma referência ao evangelho de Cristo; em outras passagens, o Espírito Santo é apresentado fazendo morada no cristão, assim como o Pai e o Filho.

O posicionamento de Barcley é equivocado, conforme se lê:

“Se for assim, o cristão é distintivamente um homem em quem esta presença e poder tem entrado como não podem entrar em outros homens. Então, seria verdadeiro dizer que o espírito do cristão não é outra coisa senão o Espírito Santo fazendo Sua habitação no homem, e dando à vida deste uma paz, uma beleza e poder que simplesmente não estão disponíveis nem são possíveis ao homem não-cristão” Idem, Pág. 17.

O espírito do homem é o homem e o Espírito Santo é a divindade, em comunhão com o homem, o que ocorre pela palavra de Deus que, também, é denominada espírito.

“Que não vos movais facilmente do vosso entendimento, nem vos perturbeis, quer por espírito, quer por palavra, quer por epístola, como de nós, como se o dia de Cristo estivesse já perto” (2Ts 2:2)

Quando o apóstolo Paulo escreve aos cristãos desejando que a bênção de Deus estivesse com eles, assim o faz dizendo: ‘A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja com o vosso espírito’ (Gl 6:18, Fl 4:23 e Fm 25). A graça de Deus não pode estar com o espírito dos não cristãos, mas é afeta aos espíritos dos cristãos.  Espírito foi empregado por Paulo como indivíduo, não como uma personalidade cristã.

Os termos gregos arraboñ (penhor) e sfragizein (selar) que o apóstolo Paulo utilizou em conexão com o termo pneuma, não significa que o espírito do homem é a presença e o poder de Deus dentro dele. Na verdade, o apóstolo Paulo estava demonstrando que, ao Jesus conceder o Consolador, os cristãos foram selados, sendo o Consolador uma garantia da herança dos cristãos (Ef 1:13-14).

O erro de interpretação de Barcley torna-se mais nítido, quando ele faz referência à passagem bíblica de Romanos 8, versos 1 à 17, quando ele conclui que a passagem trata do Espírito de Deus e do espírito do homem.

“Este fato é exposto de modo mais claro na passagem mais rica de Paulo a respeito do Espírito Santo e o espírito do homem” Idem. Pág. 19.

A passagem de Romanos 8 apresenta o evangelho como antagônico ao mandamento de homens, ou seja, o espírito antagônico à carne, não o espírito do homem e o Espírito Santo, até porque, segundo Barclay, o homem sem Deus não tem espirito[8], e outras vezes tergiversa[9] sobre essa questão. O espírito que faz do homem um cristão diz do evangelho, não do Espírito Santo, que guia o homem a toda verdade.

Além de fazer referência ao homem, através do termo pneuma, o apóstolo Paulo faz uso do termo psuché, traduzido por alma. O termo é utilizado para fazer referência ao homem como individuo, ou, para fazer referência à humanidade (Rm 2:9; Rm 13:1), ou, à própria existência do individuo com vida física (Rm 16:4).

O adjetivo psuchikos, também é utilizado para classificar o individuo como natural, o que o desqualifica para compreender, por si só, as coisas de Deus, o que só é possível através da revelação do evangelho (1 Co 2:14).

 

O inimigo na alma

Mas, com o homem é pneuma, psuchê e sõma, verifica-se que este último termo é utilizado para fazer referência ao corpo constituído de matéria orgânica. Há passagens que utilizam o termo sõma para fazer referência ao homem sujeito ao pecado, em que o corpo é figura utilizada para fazer referência ao homem, como pertencente ao pecado, por causa da ofensa de Adão. O corpo físico é apresentado como corruptível, mas, os cristãos aguardam a sua incorruptibilidade, vez que, o que é mortal, será revestido da imortalidade.

Geralmente, o termo sõma possui um sentido negativo, quando empregado como figura, para descrever a realidade do homem sem Deus, ou, positivo, quando a serviço de Deus, mas no geral, o corpo físico não é nem bem nem mal.

O apóstolo Paulo também utiliza o termo sarx, comumente traduzido por carne, e Barclay interpreta que o tal conflito da alma se dá pela oposição carne e espírito.

“i. Sarx é a inimiga mortal do pneuma. O conflito na alma é exatamente entre a carne, para usar a tradução comum da palavra, e o espírito. ‘Estes,’ diz Paulo, ‘são opostos entre si’ (Gl 5:17). Qualquer que seja, uma outra verdade a este respeito, estas duas são forças opostas dentro da existência humana” Idem. Pág. 20.

Apesar de confessar que o termo sarx não possui uma tradução adequada, Barclay se lança a comentar o que é a carne. No item 5[10], Barclay aponta que, em certos contextos, o termo ‘carne’ significa ‘julgando por padrões humanos’. Ora, carne refere-se à concepção dos judeus, segundo o mandamento de homens que foram instruídos, o que se opõe ao evangelho, que é revelação de Deus em Cristo.

A Bíblia não trata de nenhum conflito na alma, mas, da carne como doutrina, e o espírito como doutrina. Os homens que são segundo a carne, se inclinam para as coisas da carne, que são: circuncisão, nacionalidade, tribo, genealogias, etc. A inclinação da doutrina, segundo a carne é morte, pois, não é segundo a lei de Deus e todos que seguem a carne não podem agradar a Deus.

Há passagens em que o apóstolo Paulo utiliza o termo para fazer referência a uma doutrina e, em outras, ele utiliza o termo para fazer referência às pessoas que vivem segundo essa doutrina. Os sábios, segundo a carne, diz daqueles que são versados na doutrina de homens (1 Co 1:26).

E por que o termo ‘carne’ passou a ser empregado como sinônimo da doutrina dos judaizantes? Porque a circuncisão se dá no prepúcio da carne, símbolo da aliança que Deus fez com os descendentes de Abraão, e que os judeus tomaram por símbolo de salvação.

Como todos os homens são constituídos, fisicamente, de carne, o termo, também, foi utilizado para fazer referência à humanidade (Rm 3:20), entretanto, o uso mais comum, é para retratar o pensamento judaico, que faz da sua carne o seu braço.

“Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, que faz da carne o seu braço, e que aparta o seu coração do SENHOR!” (Jr 17:5).

É por isso que o apóstolo Paulo alerta que, apesar de Jesus descender de Davi, segundo a carne, pelo vinculo de sangue com Maria, contudo, não podemos considerá-lo segundo esses parâmetros e nem a ninguém (2 Co 5:16). Isso porque, qualquer que era alguma coisa, segundo a carne, não tem o que comunicar a quem está em Cristo (Gl 2:6).

Viver na carne é o inverso de ser cristão, se considerarmos o judaísmo, que é a essência da carne. Daí, conclui-se que o apóstolo Paulo, como os filósofos, nunca tratou de um conflito na alma, mas, da oposição lei e evangelho, como água e óleo.

A ilustração que Barclay faz da carne é totalmente descabida, pois, a Bíblia apresenta o homem como em pecado, desde o nascimento, portanto, não há que se falar que é através da ‘carne’ que o pecado invade o homem [11]. O homem é formado em iniquidade e concebido em pecado (Sl 51:5), desvia-se desde a madre e anda errado desde que nasce,  proferindo mentiras (Sl 58:3).

O pecado não precisa ‘entrar’ no homem, porque o homem já está sujeito ao pecado como escravo.

Por fim, Barckay passa a descrever as ‘obras da carne’ e, pelo erro inicial, com relação à carne e ao espírito, a leitura que faz das obras da carne e do fruto do espírito não passa de um equivoco generalizado.

Enquanto Barclay analisa os termos gregos utilizados pelo apóstolo Paulo, que foram traduzidos por: adultério, prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices e glutonarias, a partir do comportamento desregrado dos gregos e dos romanos (esquecendo que o apóstolo Paulo não julga os que são de fora, mas os que são de dentro), não percebe que a lista das obras da carne foi feita a partir da apostasia dos filhos de Israel, que foram postos por exemplos.

Como Deus não se agradou dos filhos de Israel, e por isso muitos pereceram no deserto, eles foram feitos figuras, para que não incorramos no mesmo exemplo de desobediência.

“E estas coisas foram-nos feitas em figura, para que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram. Não vos façais, pois, idólatras, como alguns deles, conforme está escrito: O povo assentou-se a comer e a beber e levantou-se para folgar” (1 Co 10:6-7).

A lista de obras da carne tem em vista os cristãos utilizarem da lei, legitimamente, não como os que vivem, segundo a carne, pois a lei foi feita para os judeus, homens injustos e obstinados.

“Querendo ser mestres da lei e não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam. Sabemos, porém, que a lei é boa, se alguém dela usa, legitimamente; Sabendo isto, que a lei não é feita para o justo, mas para os injustos e obstinados, para os ímpios e pecadores, para os profanos e irreligiosos, para os parricidas e matricidas, para os homicidas, para os devassos, para os sodomitas, para os roubadores de homens, para os mentirosos, para os perjuros e para o que for contrário à sã doutrina, conforme o evangelho da glória de Deus bem-aventurado, que me foi confiado” (1 Tm 1:7-11).

Vale destacar que a experiência universal da vida[12] nada pode nos comunicar com relação à verdade das Escrituras, pois, esta, é revelação e aquela, sabedoria humana, em que a sabedoria humana, invariavelmente, desembocará em mandamentos tais como: “Não toques, não proves, não manuseies” (Cl 2:21).

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto

 


[1]“A filosofia e a teologia são essencialmente uma transcrição e uma interpretação da experiência humana, e a experiência humana é de que há um conflito na alma. Para Paulo, tratava-se de uma guerra entre duas forças opostas que chamava de carne e espírito. “Porque a carne milita contra o Espírito,” disse ele, “e o Espírito contra a carne, porque são opostos entre si” (Gl 5.17).” Barclay, William, As obras da carne e o fruto do Espírito, Tradução Gordon Chown, Ed. Edições Vida Nova, SP, 1988. Pág. 13.

[2]“No homem, conforme entendiam, havia duas naturezas, de modo que este sempre estava na situação de alguém que é atraído para duas direções ao mesmo tempo (…) O impulso mau estava espreitando o homem quando emergia do ventre, porque ‘o pecado jaz à porta,’ ou seja: à porta do ventre (Gn 4.7; Sanhedrin 91b) e no decurso de toda vida do homem, permanecia ‘seu inimigo implacável’ (Tanhuma, Beshallah 3). O conflito na alma fazia parte da herança da crença judaica” Barclay, William, As obras da carne e o fruto do Espírito, Tradução Gordon Chown, Ed. Edições Vida Nova, SP, 1988. Pág. 13.

[3]“O cavalo nobre é a razão e o cavalo indócil é a paixão; o cavalo de natureza má ‘sobrecarrega o carro’ e o arrasta para a terra. Aqui, também, há o mesmo quadro de guerra e tensão, sempre com a terrível possibilidade da ruína como consequência”.  Idem.

[4]“O mal do corpo veio a ser uma das ideias dominantes do pensamento hebraico. SômaSêma, o corpo é um túmulo, dizia o provérbio rimado órfico. O corpo, disse Filolao, é uma casa de detenção onde a alma é aprisionada para expiar seu pecado. Epíteto pode dizer que tem vergonha de possuir um corpo, que é uma ‘pobre alma algemada a um cadáver’ (Fragmento 23). Sêneca fala da ‘habitação detestável’ do corpo e da carne vã a que a alma está aprisionada (Cartas 92.110). ‘Desprezem a carne,’ diz Marco Aurélio, ‘sangue e ossos e a rede que é uma meada torcida de nervos, veias e artérias’ (Meditações 2.2).

[5]“Descobrir o que Paulo quer dizer com espírito, o pneuma, não é totalmente fácil. A dificuldade torna-se clara quando comparamos diferentes textos gregos do NT com diferentes versões, porque as versões não concordam entre si quanto à ortografia de espírito e pneuma, com ou sem maiúscula inicial, ou seja, quando a referência diz respeito ao Espírito de Deus ou ao espírito do homem (…) Mas, o verdadeiro problema é saber se o pneuma, o espírito, faz parte do homem propriamente dito, ou se é apenas uma parte do homem depois de ele se tornar cristão; se o pneuma faz parte da natureza humana ou se é o dom de Deus para a natureza humana redimida” Idem. Pág. 17.

[6]“Ainda mais, o pneuma é o elo entre Deus e o homem; é através do pneuma que Deus pode falar aos homens e que os homens podem ter comunhão com Deus” Idem. Pág. 17.

[7]“Por intermédio da alma, o espírito pode subjugar o corpo, para que obedeça a Deus. Da mesma forma, o corpo, através da alma, pode levar o espírito a ter amor pelo mundo. Desses três elementos, o espírito é o mais nobre porque se une com Deus. O corpo é inferior, pois está em contato com a matéria” Nee, Watchman, ‘O homem espiritual’ Vol. 1, Editora Betânia – Belo Horizonte, 2002, Pág. 34.

[8]“Pode ser dito que para Paulo o espírito do homem é o poder de Deus que nele habita ou, num outro modo de expressar o fato, é o Cristo ressurreto que reside nele” Idem. Pág. 19.

[9]“Além disso, é exatamente a possessão desse espirito que torna o homem diferente da criação animal” Idem. Pág. 17.

[10]“v. Paulo usa sarx em frases e contextos onde usaríamos uma frase tal como: ‘julgando por padrões humanos” Idem. Pág. 21.

[11]“A essência da carne é a seguinte. Nenhum exército pode invadir um país pelo mar a não ser que possa obter uma cabeça de ponte. A tentação não teria a capacidade de afetar os homens, a não ser que houvesse algo já existente no homem que correspondesse à tentação. O pecado não poderia obter nenhuma cabeça de ponte na mente, coração, alma e vida do homem a não ser que houvesse um inimigo dentro dos portões que tivesse disposto a abrir a porta para o pecado. A carne é exatamente a cabeça de ponte, através da qual o pecado invade a personalidade humana. A carne é como o inimigo do lado de dentro e que abre o caminho para o inimigo que está forçando a porta” Idem. Pág. 24.

[12]“Mas de onde vem esta cabeça de ponte? De onde surgiu este inimigo do lado de dentro? É experiência universal da vida que um homem pela sua conduta capacita-se ou não a experimentar certas coisas” Idem. Pág. 24.

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A luta entre a carne e o espírito

Não há no interior do homem uma luta entre a carne e o espírito ou, entre a alma e o espírito! As necessidades do corpo físico e os anseios da alma, são próprios à humanidade e não possuem relação com a ideia bíblica da ‘carne’ versus ‘espírito’.

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Por que o uso do termo ‘Eclésia’?

O termo grego ἐκκλησία, transliterado ‘ekklésia’ quando utilizado por Cristo e os apóstolos tem o sentido de um corpo constituído de ‘IGUAIS’. O que se buscou destacar com o uso do termo ‘ekklésia’ é a ‘igualdade’, pois não há diferença entre os membros do corpo de Cristo “Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito” ( 1Co 12:13 ).


 

“Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” ( Mt 16:18 )

 

A palavra ‘igreja’ traduzida do grego é ‘ekklesia’[1], e muitos apontam o significado do termo quando empregado no Novo Testamento como “chamados para fora”.

Seria este o significado da palavra traduzida por igreja? Por que Jesus utilizou especificamente o termo grego ‘eclésia’ para fazer referência ao seu corpo? Ou, por que os apóstolos utilizaram o termo grego ‘eclésia’ para fazer referência aos salvos em Cristo? Da onde os cristãos foram chamados para fora? Do ‘pecado’, do ‘mundo’, do ‘engano’, da ‘morte’, da lei?

Para respondermos estas perguntas, primeiro se faz necessário lembrar que a ‘igreja’ é o mesmo que ‘corpo’ de Cristo: “E sujeitou todas as coisas a seus pés, e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos” ( Ef 1:22 -23); “E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência” ( Cl 1:18 ).

Os apóstolos, por sua vez, além de utilizarem a figura do corpo para fazer referência à igreja, também utilizam a figura da família e de um edifício em construção.

O apóstolo Paulo ao utilizar a figura da família destaca que os cristãos convertidos dentre os gentios não são estrangeiros e nem forasteiros ( Ef 2:19 ). Com relação a figura do edifício, o apóstolo dos gentios aponta Cristo como a pedra de esquina, e os crentes sobre-edificados n’Ele ( Ef 2:20 -22).

O apóstolo Pedro ao fazer referência ao templo de Deus diz que Cristo é a pedra viva, eleita e preciosa rejeitada pelos homens, e que cada cristão também é pedra viva ( 1Pd 2:4 -5).

O apóstolo João resume o que foi dito pelos outros apóstolos dizendo o seguinte:

“Nisto é perfeito o amor para conosco, para que no dia do juízo tenhamos confiança; porque, qual ele é, somos nós também neste mundo” (  1Jo 4:17 )

Observe que, tal qual Cristo é, os cristãos também são aqui neste mundo.

  • Jesus é pedra viva, os cristãos são pedras vivas ( 1Pd 2:5 );
  • Cristo é o Filho de Deus, os cristãos são filhos de Deus ( 1Jo 3:2 );
  • Cristo está assentado a destra da majestade nas alturas e o cristãos estão assentados nas regiões celestiais em Cristo ( Ef 2:6 );
  • Tal qual Cristo é são os cristãos neste mundo.

Lembrando que certa feita Jesus declarou que sua mãe, seus irmãos e suas irmãs são aqueles que fazem a vontade de Deus, e que aquele que crê em Cristo faz a vontade Deus e pertence à família de Cristo, temos elementos suficientes para determinar o motivo pelo qual o termo ‘eclésia’ foi selecionado para fazer referência ao corpo de Cristo! “Porque, qualquer que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, e irmã e mãe” ( Mt 12:50 ); “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ); “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ).

O termo ‘eclésia’ não foi selecionado por Cristo e os apóstolos tão somente para fazer referência a uma assembleia pública, ou por se tratar de uma reunião democrática, como argumentam alguns teólogos, embora em alguns pontos do Novo Testamento o termo assume este significado pelo contexto. Ex: “Uns, pois, clamavam de uma maneira, outros de outra, porque o ajuntamento era confuso; e os mais deles não sabiam por que causa se tinham ajuntado” ( At 19:32 ).

“No NT, ‘igreja’ traduz a palavra grega ekklēsia. No grego secular, ekklēsia designava uma assembleia pública, e este significado ainda foi mantido no NT (At 19.32, 39, 41)” Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã.

De igual modo o termo ‘eclésia’ não foi selecionado por trata-se de pessoas ‘chamadas para fora de algo’.

A igreja de Cristo não se trata de ‘chamados para fora’ do mundo, pois apesar de os cristãos não pertencerem ao mundo, Jesus rogou ao Pai que não tirasse os seus seguidores do mundo “Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal. Não são do mundo, como eu do mundo não sou” ( Jo 17:15 -16).

A igreja não se trata de pessoas chamadas para fora da lei ou do pecado, pois a Bíblia é clara ao demonstrar que todos que estão retidos pelo pecado e pela lei precisam morrer. A igreja não é constituída de pessoas chamadas do pecado, antes é constituída de pessoas que morreram para o pecado e para lei. A igreja é constituída de pessoas que ressurgiram com Cristo tornando-se nova criatura “De modo nenhum. Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?” ( Rm 6:2 ); “Mas agora temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra” ( Rm 7:6 ).

A igreja não é composta de chamados dentre a morte, antes como o salário do pecado é a morte, cada cristão para ser justificado do pecado precisou morrer com Cristo “Porque aquele que está morto está justificado do pecado” ( Rm 6:7 ). Aqueles que compõe o corpo de Cristo na verdade estão mortos para o mundo, o pecado e a lei ( Cl 3:3 ), porém, ressurgiram e vivem para Deus em novidade de vida ( Cl 3:1 ; Rm 6:4 e 7:6 ).

O equívoco de que o termo Eclésia significa ‘chamados para fora’ ocorre porque no grego o termo ‘ekklēsia’ é a junção de duas palavras: ‘chamar’ (καλέω) e ‘fora’ (ἐκ). Embora os cristãos são chamados através do evangelho do reino das trevas para serem transportados para o reino do Filho do amor de Deus, ‘chamar para fora’ não é o significado ou a definição do termo ‘ekklēsia’ “O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” ( Cl 1:13 ).

O que ocorre com o termo ‘ekklēsia’ é similar ao que ocorre com a palavra em inglês ‘butterfly’ (borboleta), termo que surgiu da junção de duas outras palavras ‘butter’ (manteiga) e ‘fly’ (mosca)[2]. ‘Butterfly’ não significa que borboletas são ‘manteiga de moscas’ ou ‘moscas de manteiga’.

Ora, deixando as discussões acadêmicas sobre a etimologia do termo ‘eclésia’, qual o significado do termo ‘eclésia’ que levou Jesus e os apóstolos a utilizarem o termo para fazer referência ao corpo de Cristo?

O escritor aos Hebreus pode nos esclarecer o significado do termo quando empregado no Novo Testamento:

“À universal assembleia e igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus, e a Deus, o juiz de todos, e ao os espíritos dos justos aperfeiçoados” ( Hb 12:23 )

O termo grego πανηγύρει (panéguris) traduzido por ‘universal assembleia’ remete a ideia de comunhão entre todos que compartilham de um ideal comum. Ora, por tratar-se do corpo de Cristo, certo é que o ideal do cristão é Cristo, o firme fundamento estabelecido por Deus ( Ef 2:20 ; 1Co 3:11 -12).

O corpo de Cristo, o templo do Deus vivo que estava na cidade de corinto, foi saldada e nomeada pelo apóstolo Paulo de santos, assim como todos que em todo lugar que creem em Cristo também são igualmente santos “À igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos, com todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso SENHOR Jesus Cristo, Senhor deles e nosso” ( 1Co 1:2 ).

A ‘universal assembleia’ não se restringe a pessoas de um determinado lugar ou de uma determinada nação, antes diz de qualquer que em qualquer lugar ou nação compartilhe do evangelho, a fé comum a todos que estão em Cristo “A Tito, meu verdadeiro filho, segundo a fé comum: Graça, misericórdia, e paz da parte de Deus Pai, e da do Senhor Jesus Cristo, nosso Salvador” ( Tt 1:4 ); “Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos, e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos” ( Jd 1:3 ).

A composição da ‘universal assembleia’ se dá através do ‘espírito’, pelo qual judeus e gentios tem acesso a Deus ( Ef 2:18 ). E que ‘espírito’ é esse? O ‘espírito’ que vivifica, ou seja, o Novo Testamento, do qual todos que professam a Cristo são ministros “O qual nos fez também capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica” ( 2Co 3:6 ).

Há um só evangelho, ou seja, um só ‘espírito’, por isso é dito que o cristão deve preservar a ‘unidade do espírito’. Da mesma forma que há um só corpo, a igreja, há um só espírito, ou seja, o evangelho, de modo que há um só Senhor, uma só fé e um só batismo ( Ef 4:3 -6).

Assim como sabemos que todos os cristãos são um só corpo em Cristo, e ao mesmo tempo membros do seu corpo, Cristo é o ‘lugar’ em que cada um em particular está unido, portanto, os cristãos de todos os lugares (universal) constituem-se um assembleia “Ora, vós sois o corpo de Cristo, e seus membros em particular” ( 1Co 12:27 ); “Assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros” ( Rm 12:5 ).

Antes de Cristo, haviam dois povos: judeus e gentios. Os gentios estavam separados da comunidade de Israel, sem Deus no mundo, eram estranhos às alianças das promessas, longe de Deus.

O povo judeu recebeu o culto, a adoção de filhos, a glória, as alianças, a lei, o culto, as promessas, os pais, dos quais é Cristo, e apesar serem descendência de Abraão, não eram todos filhos de Abraão ( Ef 2:12 -13; Rm 9:6 -7). Não havia diferença significativa entre judeus e gentios diante de Deus, pois todos (judeus e gentios) pecaram e destituídos estavam da glória de Deus ( Rm 3:9 ).

Por intermédio da cruz Deus unificou os povos fazendo um só, destruindo a barreira de inimizade. Cristo, a paz que excede todo entendimento, foi anunciado aos judeus (aqueles que estavam perto) e aos gentios (aqueles que estavam longe), e dos dois povos foi feito um ao desfazer a lei dos mandamentos ( Ef 2:15 ), de modo que judeus e gentios tem acesso a Deus por intermédio do evangelho (mesmo espírito) “A saber, que os gentios são co-herdeiros, e de um mesmo corpo, e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho” ( Ef 3:6 ).

Ora, pela destruição da barreira, os gentios que em outro tempo eram tidos por ‘estrangeiros’, ‘forasteiros’, agora em Cristo alcançaram nova condição: são concidadãos dos santos e da família de Deus ( Ef 2:19 ).

O termo grego ‘συμπολίτης’ traduzido por ‘concidadão’ refere-se aquele que é um nativo de uma mesma cidade, que possui a mesma cidadania que os outros, que em relação a língua grega remete aos nascidos na ‘polis’. O termo foi utilizado pelo apóstolo Paulo para evidenciar um contraste: a antiga condição de ‘forasteiros’ e ‘estrangeiros’ que os gentios carregavam em relação a comunidade judaica, e que na igreja de Cristo já não existe.

Ora, para ser participante da comunidade de Israel bastava ao prosélito se circuncidar, pois ser judeu não se dá por nascimento em uma cidade, mas pelo vínculo de sangue “Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu” ( Fl 3:5 ).

O termo grego ‘πολιτεία’ (politeia) aponta para um corpo de cidadãos, ou seja, indivíduos que possuem os mesmos direitos dentro de uma organização política e religiosa (pólis).

Quais os ‘direitos’ da comunidade de Israel? Às alianças da promessa, portanto possuíam esperança por pertencerem como povo a Deus.

De acordo com o pensamento comum, ekklēsia significa:

“1577 εκκλησια ekklēsia de um composto de 1537 e um derivado de 2564; TDNT – 3:501,394; n f 1) reunião de cidadãos chamados para fora de seus lares para algum lugar público, assembleia  1a) assembleia do povo reunida em lugar público com o fim de deliberar  1b) assembleia dos israelitas  1c) qualquer ajuntamento ou multidão de homens reunidos por acaso, tumultuosamente  1d) num sentido cristão  1d1) assembleia de Cristãos reunidos para adorar em um encontro religioso  1d2) grupo de cristãos, ou daqueles que, na esperança da salvação eterna em Jesus Cristo, observam seus próprios ritos religiosos, mantêm seus próprios encontros espirituais, e administram seus próprios assuntos, de acordo com os regulamentos prescritos para o corpo por amor à ordem  1d3) aqueles que em qualquer lugar, numa cidade, vila, etc, constituem um grupo e estão unidos em um só corpo  1d4) totalidade dos cristãos dispersos por todo o mundo  1d5) assembleia dos cristãos fieis já falecidos e recebidos no céu” Dicionário Strong.

O escritor aos Hebreus ao fazer referência a ‘igreja dos primogênitos’, demonstra que, para ser participante de tal ‘comunidade’ é imprescindível que o nome do indivíduo esteja escrito nos céus.

Para satisfazer esta condição não basta estar inscrito como membro de uma comunidade religiosa, ou seguir ritos e preceitos religiosos ou morais, antes é necessário ser participante da família de Cristo, ou seja, fazer a vontade de Deus “Porque, qualquer que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, e irmã e mãe” ( Mt 12:50 ); “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

Ora, após crer em Cristo, tornando-se da família de Cristo as prerrogativas de ser judeu ou grego desaparecem “Porque em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão tem valor algum; mas sim a fé que opera pelo amor” ( Gl 5:6 ). As diferenças entre servo e livre são eliminadas “Onde não há grego, nem judeu, circuncisão, nem incircuncisão, bárbaro, cita, servo ou livre; mas Cristo é tudo em todos” ( Cl 3:11 ). Ser macho ou fêmea não faz ninguém diferente: melhor ou pior diante de Deus, e o motivo é específico: ‘Porque todos vós sois um em Cristo Jesus’ ( Gl 3:28 ).

Ora, o termo grego ἐκκλησία, transliterado ‘ekklésia’ quando utilizado por Cristo e os apóstolos tem o sentido de um corpo constituído de ‘IGUAIS’.  O que se buscou destacar com o uso do termo ‘ekklésia’ é a ‘igualdade’ pelo fato de que não há diferença entre os membros do corpo “Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito” ( 1Co 12:13 ).

Assim como a eκκλησία da Grécia Antiga, a principal assembleia da democracia ateniense, era constituída de iguais[3], o corpo de Cristo é constituído de iguais, daí deriva a designação πρωτότοκος (primogênitos) “Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão” ( 1Co 10:17 ).

‘πανηγύρει καὶ ἐκκλησία πρωτοτόκων ἀπογεγραμμένων ἐν οὐρανοῖς’

“(à) reunião festiva e (à) reunião de (os) primogênitos arrolados em (os) céus”

Nesta passagem o termo ‘ἐκκλησία’ depende da leitura do termo ‘πρωτοτόκων’ (primogênitos), e como compreender o termo traduzido por ‘primogênitos’ no contexto?

O Verbo eterno ao ser introduzido no mundo passou à condição de o Unigênito (μονογενοῦς) Filho de Deus ( Jo 1:14 e 18; Jo 3:16 e 18; 1Jo 4:9 ). Quando ressurgiu dentre os mortos Jesus tornou-se o Primogênito de Deus, pois através da obediência de Cristo foram conduzidos à gloria muitos filhos a Deus “Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas, e mediante quem tudo existe, trazendo muitos filhos à glória, consagrasse pelas aflições o príncipe da salvação deles” ( Hb 2:10 ).

O Verbo eterno ao se fazer carne tornou-se o único homem nascido de mulher gerado por Deus “Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei” ( Gl 4:4), ou seja, o único homem que em si mesmo teve a natureza divina por ter sido ‘lançado’ por Deus no ventre de Maria “Sobre ti fui lançado desde a madre; tu és o meu Deus desde o ventre de minha mãe” ( Sl 22:10 ). De retorno a Sua glória, Cristo assentou-se à destra da Majestade nas alturas e trouxe muitos filhos a Deus que, igualmente estão assentados com Ele nas regiões celestiais ( Ef 1:3 e Ef 2:6 ).

Embora os cristãos sejam tal qual Cristo é ainda neste mundo ( 1Jo 4:17 ), só permanecem no mundo porque Jesus os comissionou assim como Deus enviou Jesus ao mundo “Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal (…) Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo” ( Jo 17:15 e 18).

Com relação a nascimento carnal Jesus é o Unigênito, e com relação a ressurreição dentre os mortos Jesus é o Primogênito, pois para isto os cristãos foram predestinados: para ser conforme a imagem do Cristo ressurreto, para que Ele seja ‘primogênito’ entre muitos irmãos ( Rm 8:29 ).

Cristo como ‘primogênito’ remete a ideia contida neste verso: “Mas ao filho da desprezada reconhecerá por primogênito, dando-lhe dobrada porção de tudo quanto tiver; porquanto aquele é o princípio da sua força, o direito da primogenitura é dele” ( Dt 21:17 ), de modo que pelo direito de primogênito compete a Cristo porção dobrada em relação aos seus muitos irmãos, que são coerdeiros com Ele ( Hb 2:10 ; Rm 8:17 ; Gl 3:29 ).

Ora, o termo grego ‘πρωτοτόκων’ aplica-se àquele nasceu primeiro considerando-se uma sequência “E deu à luz a seu filho primogênito, e envolveu-o em panos, e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na estalagem” ( Lc 2:7 ). Esta característica de sequência aplica-se a Cristo, pois Ele é o primeiro a ressurgir dentre os mortos em relação aos muitos outros irmãos que ressurgiriam com Ele.

Já com relação a glorificação de Cristo, foi predito: “Ele me chamará, dizendo: Tu és meu pai, meu Deus, e a rocha da minha salvação. Também lhe darei o lugar de primogênito, o mais elevado dos reis da terra” ( Sl 89:27 ), e ao fazer referência a esta posição de Cristo no sentido de ‘preeminência’, é utilizado também o termo grego ‘πρωτεύω’ (próteuó), ou, dependendo do contexto ‘πρωτοτόκων’ (prototokos), pois o primogênito é aquele que tem preeminência entre os irmãos.

Cristo na posição de cabeça, a cabeça do corpo, além de ‘primogênito’ também é ‘preeminente’ entre os ressurretos com Ele “E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência” ( Cl 1:18 ); “PORTANTO, se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus. Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra; Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” ( Cl 3:1 -3).

O escritor aos Hebreus ao ler o Salmo 97, verso 7, aponta para a posição do Cristo assentado à destra da majestade nas alturas, registrando o seguinte: “E outra vez, quando introduz no mundo o primogênito, diz: E todos os anjos de Deus o adorem” ( Hb 1:6 e Hb 1:3 ). Ao ser introduzido no mundo Cristo era o unigênito de Deus, mas agora assentado à destra da majestade nas alturas é o primogênito, pois herdou nome mais excelente ( Hb 1:4 ).

Considerando que a igreja diz do corpo de Cristo e, que o apóstolo Paulo destaca o fato de que sobre todas as coisas Cristo foi constituído a cabeça da igreja ( Ef 1:21 -23), segue-se que a igreja está acima de todo principado, autoridade, domínio e poder, pois há de julgar até mesmo os seres celestiais ( 1Co 6:3 ).

Segue-se que ao fazer referência ao corpo de Cristo como ‘eclésia’, o escritor aos Hebreus semelhante ao que fez o apóstolo dos gentios, destaca a posição hierárquica superior que o corpo de Cristo ocupa em relação a todas as coisas quando diz ‘a igreja dos primogênitos’ (ἐκκλησία πρωτοτόκων).

Daí a melhor leitura não seria a ‘igreja dos primogênitos’, destacando uma sequência de filhos gerados de Deus, e nem a posição dos Cristãos no corpo de Cristo como ‘preeminentes’ ( Rm 8:29 ). Ora, a posição de ‘primogênito’, como o primeiro ressurreto dentre os mortos só é possível a um, e não a muitos ( Cl 1:18 ). Cristo é o primogênito dentre os mortos e foi constituído a cabeça do corpo, portanto, Cristo é preeminente entre muitos irmãos semelhantes, visto que é o primeiro a ressurgir dentre os mortos ( Ap 1:5 ; Cl 1:15 ).

Ao fazer alusão ao corpo de Cristo como a ‘igreja dos primogênitos’, o escritor aos Hebreus estava destacando o fato de que todos no corpo de Cristo igualmente pertencem a Deus “Santifica-me todo o primogênito, o que abrir toda a madre entre os filhos de Israel, de homens e de animais; porque meu é ( Êx 13:2 ); “Mas o primogênito de um animal, por já ser do SENHOR ninguém o santificará; seja boi ou gado miúdo, do SENHOR é ( Lv 27:26 ).

O escritor aos Hebreus estava destacando que a ‘universal assembleia’ é constituída de indivíduos que pertencem a Deus (igreja dos primogênitos), vez que os seus nomes estão inscritos nos céus, mostrando que em Cristo todos são iguais, concidadãos dos santos e da família de Deus “Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus” ( 1Co 6:20 ).

O termo grego πρωτοτόκων (primogênitos) deve ser compreendido como uma espécie de hebraísmo[4], em que o termo grego foi utilizado para demonstrar que os cristãos são propriedades exclusivas de Deus, assim como eram os ‘primogênitos’ e as ‘primícias’ na Antiga Aliança “Estes são os que não estão contaminados com mulheres; porque são virgens. Estes são os que seguem o Cordeiro para onde quer que vá. Estes são os que dentre os homens foram comprados como primícias para Deus e para o Cordeiro” ( Ap 14:4 ).

Os que creem em Cristo tonam-se propriedades de Deus, e o termo ‘primícias’ é utilizado para fazer referência a essa condição, introduzindo a ideia de que tanto judeus quanto gentios, escravos quanto livres, mulheres e homens, etc. ( Gl 3:26 -29), igualmente pertencem a Deus “Agora vos rogo, irmãos (sabeis que a família de Estéfanas é as primícias da Acaia, e que se tem dedicado ao ministério dos santos),” ( 1Co 16:15 ); “Saudai também a igreja que está em sua casa. Saudai a Epêneto, meu amado, que é as primícias da Acaia em Cristo” ( Rm 16:5 ).

Portanto, quando lemos a asserção: “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” ( Mt 16:18 ), a ênfase do termo ‘ekklēsia’ está na pedra que dá base de sustentação ao templo. Se a ênfase é a pedra de esquina, a pedra viva que os edificadores rejeitaram, todas as outras pedras utilizadas na ‘edificação’ do corpo possuem as mesmas propriedades: são pedras vivas.

Diferenças sociais, econômicas, nacionalidades, etc., deixam de ser levadas em consideração, pois em Cristo é o lugar: “Onde não há grego, nem judeu, circuncisão, nem incircuncisão, bárbaro, cita, servo ou livre; mas Cristo é tudo em todos” ( Cl 3:11 ), pois todos são propriedade de um mesmo Senhor .

Se estas diferenças não são levadas em conta no corpo, segue-se que este deve ser o comportamento dos filhos de Deus: “Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de entranhas de misericórdia, de benignidade, humildade, mansidão, longanimidade; suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro; assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também. E, sobre tudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição” ( Cl 3:13 -14).

Este deve ser o posicionamento dos membros do corpo de Cristo:

“Porque em Cristo Jesus nem a circuncisão, nem a incircuncisão tem virtude alguma, mas sim o ser uma nova criatura” ( Gl 6:15 );

“Porque em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão tem valor algum; mas sim a fé que opera pelo amor” ( Gl 5:6 );

A circuncisão é nada e a incircuncisão nada é, mas, sim, a observância dos mandamentos de Deus” ( 1Co 7:19 ).

Como ser uma nova criatura? Crendo em Cristo, pois este é o mandamento de Deus. Crer em Cristo é o mandamento que se deve obedecer, ou seja a fé (evangelho) que opera pelo amor (obediência).

Todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso SENHOR Jesus Cristo constituem a ‘ekklēsia’ de Deus, o corpo de Cristo, pois igualmente pertencem a Deus.

A ekklēsia da Grécia Antiga era formada por filhos de moradores naturais da polis, ou seja, que pertenciam a pólis[5], e a ekklēsia de Deus é formada pelos santificados em Cristo, ou seja, que pela obediência a sua palavra passaram a pertencer a Deus “À igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos, com todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso SENHOR Jesus Cristo, Senhor deles e nosso” ( 1Co 1:2 ); “Porque, assim o que santifica, como os que são santificados, são todos de um; por cuja causa não se envergonha de lhes chamar irmãos” ( Hb 2:11 ); “Para lhes abrires os olhos, e das trevas os converteres à luz, e do poder de Satanás a Deus; a fim de que recebam a remissão de pecados, e herança entre os que são santificados pela fé em mim” ( At 26:18 ).

Os membros do corpo de Cristo não podem ser aceitos ou desprezados por suas diferenças socioeconômicas, como bem disse o apóstolo Paulo:

“Porque, comendo, cada um toma antecipadamente a sua própria ceia; e assim um tem fome e outro embriaga-se. Não tendes porventura casas para comer e para beber? Ou desprezais a igreja de Deus, e envergonhais os que nada têm? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisto não vos louvo” ( 1Co 11:21 -22).

O irmão Tiago, por sua vez, alerta quanto a privilegiar os cristãos convertidos dentre os judeus em detrimento aos convertidos dentre os gentios:

“MEUS irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas. Porque, se no vosso ajuntamento entrar algum homem com anel de ouro no dedo, com trajes preciosos, e entrar também algum pobre com sórdido traje, e atentardes para o que traz o traje precioso, e lhe disserdes: Assenta-te tu aqui num lugar de honra, e disserdes ao pobre: Tu, fica aí em pé, ou assenta-te abaixo do meu estrado, porventura não fizestes distinção entre vós mesmos, e não vos fizestes juízes de maus pensamentos? Ouvi, meus amados irmãos: Porventura não escolheu Deus aos pobres deste mundo para serem ricos na fé, e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam? Mas vós desonrastes o pobre. Porventura não vos oprimem os ricos, e não vos arrastam aos tribunais? Porventura não blasfemam eles o bom nome que sobre vós foi invocado?” ( Tg 2:1 -7).

O irmão Tiago utiliza os termos ‘abatido’ e ‘rico’ não do ponto de vista socioeconômico. É necessário entender o exemplo que Tiago apresentou: na comunidade judaica não havia distinção quanto a pobreza e riqueza, antes a distinção era com relação a ser circuncidado ou não (estrangeiro e forasteiros). Era um absurdo fazer distinção entre descendentes da carne de Abraão, pois seriam tidos como transgressores da lei.

No entanto, a premissa do evangelho é que Deus escolheu os abatidos (pobres) e rejeitou os ‘ricos’ (altivos), de modo que agora em Cristo não podiam rejeitar os gentios que haviam se convertido ao evangelho. Alguns cristãos convertidos dentre o judaísmo estavam fazendo acepção nas reuniões de cristãos convertidos a Cristo, privilegiando aqueles que eram judeus por natureza (ricos), ou seja, aqueles que condenaram e mataram ‘… o justo; ele não vos resistiu’ ( Tg 5:6); “Mas glorie-se o irmão abatido na sua exaltação, e o rico em seu abatimento; porque ele passará como a flor da erva” ( Tg 1:9 -10).

O corpo de Cristo é constituído de iguais, daí a pergunta: “Porque, quem te faz diferente? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não o houveras recebido?” ( 1Co 4:7 ).

Um membro do corpo de Cristo não pode desprezar ou julgar o outro, antes cada um em particular deve considerar o outro superior a si mesmo “Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo” ( Fl 2:3 ); “Mas tu, por que julgas teu irmão? Ou tu, também, por que desprezas teu irmão? Pois todos havemos de comparecer ante o tribunal de Cristo” ( Rm 14:10 ); “ORA, quanto ao que está enfermo na fé, recebei-o, não em contendas sobre dúvidas. Porque um crê que de tudo se pode comer, e outro, que é fraco, come legumes. O que come não despreze o que não come; e o que não come, não julgue o que come; porque Deus o recebeu por seu. Quem és tu, que julgas o servo alheio? Para seu próprio SENHOR ele está em pé ou cai. Mas estará firme, porque poderoso é Deus para o firmar. Um faz diferença entre dia e dia, mas outro julga iguais todos os dias. Cada um esteja inteiramente seguro em sua própria mente. Aquele que faz caso do dia, para o Senhor o faz e o que não faz caso do dia para o Senhor o não faz. O que come, para o Senhor come, porque dá graças a Deus; e o que não come, para o SENHOR não come, e dá graças a Deus. Porque nenhum de nós vive para si, e nenhum morre para si. Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. De sorte que, ou vivamos o u morramos, somos do Senhor” ( Rm 14:1 -8).

 

[1] Eclésia – ‘eκκλησία’ (transl.: ekklesia) era a principal assembleia da democracia ateniense na Grécia Antiga, da qual só podia participar os cidadãos do sexo masculino, filhos de pais natural da pólis (cidade grega), com mais de dezoito anos e que tivesse prestado ao menos dois anos de serviço militar” <http://pt.wikipedia.org/wiki/Eclésia> Consulta realizada em 12/04/15; “Igreja [Eclésia]. Reunião, assembleia. A palavra aplica-se a qualquer assembleia, como, por exemplo, ao ajuntamento do povo em Éfeso (At 15.4), e a Israel, chamado do Egito e, reunido no deserto (At 7.38). Israel era uma verdadeira igreja, mas em nenhum sentido a igreja do N. T., pois a única semelhança entre as duas é que ambas foram chamadas para fora. No mais, tudo é contraste. Na Bíblia o termo nunca se aplica a um edifício material” McNair, S. E., Pequeno Dicionário Bíblico, CPAD, Pág. 1499.

[2] Cara, Robert. Cuidado com o significado oculto da raiz de uma palavra, Artigo disponível na Web <http://www.ministeriofiel.com.br/artigos/detalhes/715/Cuidado_com_o_Significado_Oculto_da_Raiz_de_uma_Palavra>  Consulta realizada em 12/04/15.

[3] Embora por definição a eκκλησία fosse uma assembleia popular, a principal assembleia da democracia ateniense na Grécia Antiga, contudo não tinha nada do ideário que hoje consideramos ‘popular’. Era uma assembleia restrita a aproximadamente 10% da população, visto ser acessível somente aos cidadãos do sexo masculino, com mais de dezoito anos, que tivessem prestado pelo menos dois anos de serviço militar e que fossem filhos de pais natural da pólis, ou seja, excluía os comuns do povo, as mulheres, as crianças, os forasteiros, os estrangeiros (Metecos: Μέτοικος), e os escravos.

[4] ‘Hebraísmos’ diz de certas expressões e maneiras peculiares ao idioma hebraico na construção de figuras, enigmas e provérbios, isto do ponto de vista linguístico.

[5] “… não se deve crer que cada cidadão pertence a si mesmo, mas que todos pertencem à cidade, porque cada um é parte dela…” Aristóteles, A Política.

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Parasita

‘Pobre’, ‘humilde’, ‘abatido’, etc., não diz de pobreza financeira ou abatimento (humilhação) social! Qualquer que obedece a Deus, quer seja pobre quer seja rico financeiramente, se faz servo, portanto diante de Deus é pobre, humilde, abatido. Só é possível compreender o verso: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus” ( Mt 5:3 ) quando o leitor considera que os que ‘tremem’ da palavra de Deus são os que ‘obedecem’ a Deus.


 “Assim diz o SENHOR acerca dos profetas que fazem errar o meu povo, que mordem com os seus dentes, e clamam paz; mas contra aquele que nada lhes dá na boca preparam guerra” ( Ml 3:5 )

“O termo parasita descende do latim parasitus que, por sua vez, deriva do grego παράσιτος (parásitos), ou seja, “aquele que come na mesa de outrem”. O termo grego é composto de παρά (para), “junto a, ao lado” e σῖτος (sitos), “alimento”. O termo acabou por significar o comensal que adulava alguém de alta posição social para que pudesse comer gratuitamente em sua casa” Wikipédia

 

A crônica ‘O parasita’, do escritor Machado de Assis publicada no Jornal O Espelho em 18 de Setembro de 1859, bem como a continuação da crônica publicada em 09 de Outubro de 1859 é uma notável critica social que descreve acertadamente certa classe de indivíduos que ‘infestam’ a sociedade e se instalam principalmente em setores como imprensa, religião e governo.

O cronista trás à baila a existência de ‘ervas parasitas’ que não tiram os seus nutrientes da terra, antes retiram o que lhe é necessário das árvores, e estabelece um paralelo com certos indivíduos que se ‘alimentam’ de estruturas que há na sociedade como a política, a igreja e a literatura (leia-se governo, religião e imprensa).

Deixando de lado o trabalho impecável quanto à crítica social de “O Parasita”, a nossa abordagem tem por alvo somente a citação que o escritor Machado de Assis fez de uma passagem do Novo Testamento. Vejamos:

“(…)

Que gente!

Os tragos fisiológicos do parasita são especiais e característicos. Não podendo imitar os grandes homens pelo talento, copiam na postura e nas maneiras o que acham pelas gravuras e fotografias. Assumem um certo ar pedantesco, tomam um timbre dogmático nas palavras; e, ao contrário do fanqueiro, que tem a espinha dorsal mole e flexível, — ele não se curva nem se torce; a vaidade é o seu espartilho.

Mas, por compensação, há a modéstia nas palavras ou certo abatimento, que faz lembrar esse ninguém elogiado da comedia. Mas ainda assim vem a afetação; o parasita é o primeiro que está cônscio de que é alguma coisa, apesar da sinceridade com que procura pôr-se abaixo de zero.

Pobre gente!

Podiam ser homens de bem, fazer alguma coisa para a sociedade, honrar a musa nacional, contendo-se na sua esfera própria; mas nada, saem uma noite da sua nulidade e vão por aí matando a ferro frio…

É que têm o evangelho diante dos olhos…

Bem-aventurados os pobres de espírito.

O parasita ramifica-se e enrosca-se ainda por todas as vértebras da sociedade. Entra na Igreja, na política e na diplomacia; há laivos dele por toda a parte

(…) ”Obra Completa, Machado de Assis, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, V.III, 1994.Publicado originalmente em O Espelho, Rio de Janeiro, 11 e 18/09 e 9, 16 e 30/10/1859.<http://machado.mec.gov.br/images/stories/pdf/cronica/macr15.pdf> Acesso realizado em 09/01/15.

Ora, que os ‘parasitas sociais’ são ‘pobre gente’, não devemos negar. Talvez esta seja a pior espécie de ‘pobreza’, que de longe não se compara à ‘pobreza’ caracterizada pela falta de recursos financeiros.

Os ‘parasitas sociais’ são indivíduos que, apesar de viverem regaladamente, somente agravam as diferenças socioeconômicas acentuando a percepção da miserabilidade dos que vivem à margem da sociedade.

Em um trabalho anterior, Machado de Assis fez alusão aos ‘mascates literários’ sob o título ‘Os fanqueiros literários’, espécie de indivíduos mais flexíveis que ‘os parasitas’, produzem textos (literatura) que visam somente o lucro, e serve para entorpecer o leitor desavisado. Machado d Assis crítica a este tipo de literatura que imita os ‘espíritos sérios’ dando o nome de ‘ópio encadernado’.

A crítica aos ‘fanqueiros literários’ decorre do que o escritor entendeu ser verdade, mas, a alegação que os ‘parasitas sociais’ são ‘pobre gente’ porque “… têm o evangelho diante dos olhos” é sarcasmo.

Vale esclarecer que o evangelho não promove ‘parasitas’, antes que alguém chegue a esta conclusão guiado pelo sarcasmo machadiano.

O Novo Testamento recomenda aos cristãos que sejam produtivos na sociedade em que estão inseridos. Para ser um cristão (discípulo de Cristo), não basta ter o evangelho diante dos olhos, antes o evangelho é conhecimento intrínseco ao discípulo.

A ociosidade ou o parasitismo não é a temática e nem é promovido pelo evangelho de Cristo conforme se verifica através da seguinte determinação paulina:

“Porque, quando ainda estávamos convosco, vos mandamos isto, que, se alguém não quiser trabalhar, não coma também. Porquanto ouvimos que alguns entre vós andam desordenadamente, não trabalhando, antes fazendo coisas vãs. A esses tais, porém, mandamos, e exortamos por nosso Senhor Jesus Cristo, que, trabalhando com sossego, comam o seu próprio pão” ( 2Ts 3:10- 12)

O apóstolo Paulo observou que em meio aos cristãos havia alguns que não possuíam uma ocupação. Daí a ordem: – trabalhem com sossego para poder comer o seu próprio pão – ou seja, o evangelho não é conivente com quem se arvora no direito de buscar alimento na mesa alheia ( Pv 28:19 ).

A recomendação do apóstolo é objetiva pelo exemplo que ele apresenta:

“Nem de graça comemos o pão de homem algum, mas com trabalho e fadiga, trabalhando noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós” ( 2Ts 3:8 )

O apóstolo Paulo é contundente com relação àqueles que se propõe a seguir a doutrina de Cristo:

“Aquele que furtava, não furte mais; antes trabalhe, fazendo com as mãos o que é bom, para que tenha o que repartir com o que tiver necessidade” ( Ef 4:28 )

Para Machado de Assis o ‘parasita’ é alguém sem talento, mas que imita posturas e maneiras. Para compensar a falta de talento, o parasita é modesto na fala, ou seja, possui tom humilde (abatimento). Sinceramente procura negar que é importante, mas é o primeiro a concluir que de fato é superior, daí a falsidade (afetação).

Ao dizer que as maneiras e a postura do ‘parasita’ se dá por terem o evangelho diante dos olhos, Machado de Assis sarcasticamente denuncia a hipocrisia deles. Daí a pergunta: Os parasitas, por terem o evangelho diante dos olhos, procuram imitar ‘maneiras’ e ‘posturas’ dos bem-aventurados anunciados por Cristo?

Se o leitor da obra de Machado de Assis não observar as nuances do texto, poderá entender que os ‘parasitas’ que sobrevivem à custa da sociedade são assim por procurarem seguir o evangelho, entretanto a abordagem sarcástica de Machado de Assis é desfavorável à hipocrisia dos parasitas que pensam ser alguma coisa.

A citação bíblica: ‘Bem-aventurados os pobres de espírito…’  foi introduzido na crônica somente para servir ao sarcasmo do escritor. A intertextualidade[1] da citação decorre da intencionalidade do escritor que, sem se importar com a significação da frase no contexto do evangelho de Cristo, deu uma nova significação à citação sem se preocupar com o fato de ter subvertido o seu significado.

Portanto, considerando que a afirmação de que os parasitas assim são por procurarem se ajustar à condição de bem-aventurado estabelecida por Cristo, não partiu de um teólogo e tem por finalidade servir ao sarcasmo do autor, a nossa abordagem será apenas de esclarecimento.

“O parasita ramifica-se e enrosca-se ainda por todas as vértebras da sociedade” Idem.

A partir desta frase faremos uma crítica pontual à crônica machadiana pela citação de um verso bíblico.

Segundo Machado de Assis há indivíduos que, como uma planta ‘parasita’ se ramifica e se enrosca por todas as vértebras da sociedade. Se há ‘laivos’ (vestígios) de parasitismo em todas as ‘vértebras da sociedade’, é certo que as estruturas religiosas não se elidem deste mal, quer sejam as religiões ditas cristãs ou as pagãs, mas é possível afirmar que o parasitismo social não surgiu dos ensinamentos de Cristo porque ser religioso não é o mesmo que ser um seguidor de Cristo.

Os ‘parasitas’ se alimentam de toda estrutura que dá sustentação à sociedade, quer sejam religiosas, cientificas, filosóficas, políticas, etc., no entanto, o Senhor Jesus não instituiu nenhuma estrutura religiosa como guardiã dos seus ensinos, e sim homens fiéis. Jesus não flertou com nenhum sistema filosófico, não se filiou a partidos político e nem buscou apoio de qualquer sistema de governo.

Jesus fez parte da cadeia produtiva da sociedade na qual estava inserido, pois exerceu a profissão de carpinteiro até os seus 30 anos de idade, sem falar que a sua nação como escrava era fazia parte da base produtiva de Roma. Todos os discípulos que Jesus escolheu para o seu ministério faziam parte da cadeia produtiva: alguns eram pescadores, outro médico, outro cobrador de impostos, etc.

A seguinte colocação de Machado de Assis: ‘E como não ser assim, se ele não tem outro cuidado nesta vida? e se os limites da mesa redonda são os horizontes das suas aspirações?’ Idem, é um convite à reflexão acerca da pessoa de Jesus e o seu comportamento ministerial.

Durante seu ministério Jesus aceitou vários convites para participar de refeições, porém, a sua postura na mesa não era a de um comensal. Jesus não elogiava e nem adulava os seus anfitriões. Pelo contrário, publicamente Jesus repreendia os religiosos e lideres de Israel pela compreensão equivocada que possuíam em relação ao reino dos céus ( Lc 7:36 -50).

Jesus não estava interessado em comida como os seus concidadãos ( Jo 6:27 ), seu interesse era anunciar as palavras de Deus ( Mt 4:4 ). Jesus também não veio estabelecer regras com relação ao que o homem coloca ou não em sua mesa, pois o reino dos céus não é comida nem bebida “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” ( Rm 14:17 ).

Jesus disse que tinha uma ‘comida a comer’, e em seguida deixou claro que essa comida era realizar a vontade do Pai. Jesus não esteve focado nas questões deste mundo, antes veio para cumprir tudo o que acerca d’Ele foi predito pelos profetas “Ele, porém, lhes disse: Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis” ( Jo 4:32 ); “Em seguida, Jesus lhes explicou: São estas as palavras que Eu vos ensinei quando ainda estava entre vós: Era necessário que se cumprisse tudo o que a meu respeito está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos!” Lc 24:44 ).

Quando tentado a transformar pedras em pães, Jesus enfatizou o contido nas Escrituras, de que o homem tem vida através da palavra de Deus, demonstrando que está estabelecido nas Escrituras que o homem adquire alimento através do trabalho ( Mt 4:4 ; Gn 3:17 ).

A questão do alimento cotidiano era tão premente na cabeça de seus ouvintes, que Jesus teve que orientá-los a não ficarem preocupados com o que comer ou vestir ( Mt 6:25 ). A preocupação com a escassez de pão tolhia os sentidos, pois esperavam que Deus lhes enviasse um líder, ou um profeta que resolvesse o problema de pão ( Jo 6:14 ).

Assim como os profetas da antiguidade, Jesus utilizou o pão como figura para falar por enigmas ao povo e, até mesmo os seus discípulos concluíam que Jesus estava tratando do pão cotidiano “Entretanto, eles discutiam entre si, dizendo: “É porque não trouxemos pães” ( Mt 16:7 ); “Houve, então, grande discussão entre os judeus e esbravejavam uns com os outros: “Como pode este homem dar-nos a comer a sua própria carne?” ( Jo 6:52 ).

Conhecendo pelas Escrituras a natureza do homem ( Jo 2:25 ), de que todos são ‘mentirosos’ ( Sl 116:11 ; Rm 3:4 ), Jesus enfatizou que tudo o que sai da boca procede do coração, e o que há no coração é o que contamina o homem ( Mt 12:34 ; Mt 15:11 ), perspectiva que norteou o seu ministério, pois só a palavra de Deus concede nova natureza ao homem. Ora, o interesse de Cristo não estava no alimento cotidiano, e sim livrar os homens da condenação decorrente da ofensa de Adão.

Jesus não se utilizou das estruturas sociais estabelecidas para angariar prestigio político e religioso, antes reprovou publicamente os escribas e fariseus por seguirem preceitos religiosos que satisfazia somente o desejo de serem vistos pelos seus semelhantes: desejam os primeiros lugares nas refeições, as primeiras cadeiras nas sinagogas, etc. ( Mt 23:5 -6).Geralmente os judeus convidavam os seus amigos para cear com intuito de serem honrados posteriormente, mas Jesus orientou que convidassem aqueles que não tinham condição financeira de retribuir a honraria ( Lc 14:12 -14).

Jesus deixa claro que os seus seguidores, enquanto neste mundo, seriam perseguidos por causa da Sua doutrina, e sendo rei, Jesus deixou claro que o Seu reino não era deste mundo “Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” (Jo 18:36). Cristo não buscou promover a si mesmo, antes buscou realizar a vontade de Deus “Eu não busco a minha glória; há quem a busque, e julgue” (Jo 8:50).

Quem tem o evangelho no coração não tem o apoio dos poderes deste mundo. Os cristãos apoiam-se única e exclusivamente no poder de Deus (evangelho), e não a ‘facilmente manipulável decência moral nos lábios’ Idem “Lembrai-vos da palavra que vos disse: Não é o servo maior do que o seu SENHOR. Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa” (Jo 15:20).

Os astuciosos religiosos à época, a contragosto admitiram que Cristo não aceitava ninguém segundo a aparência “E perguntaram-lhe, dizendo: Mestre, nós sabemos que falas e ensinas bem e retamente, e que não consideras a aparência da pessoa, mas ensinas com verdade o caminho de Deus” (Lc 20:21).

O evangelho genuíno não possui qualquer elemento que os parasitas possam lançar mão, mas como a fisiologia dos parasitas é a imitação, no máximo o que copiam é a postura e as maneiras dos religiosos. As religiões decorrem de concepções humanas acerca do divino, já o evangelho de Cristo é revelação de um mistério oculto que não possui conexão com a religiosidade humana.

A religião estabelece posturas, maneiras conforme a moral vigente. É ela que concede o timbre dogmático às posturas e modos, o que inexoravelmente será campo fértil aos parasitas.

Machado de Assis apresenta as instituições como árvore onde os parasitas ramificam-se e enroscam-se, enquanto a Bíblia apresenta as pessoas como árvores e, para ter direito ao reino de Deus, é necessário que tal árvore pertença à lavoura de Deus ( Is 63:1 ). João Batista anunciou o veredito de Deus: “E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo” ( Mt 3:10 ); “Ele, porém, respondendo, disse: Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” (Mt 15:13).

Enquanto os ‘parasitas’ são ‘pobre gente’ pelo mal que causam à sociedade, os ‘pobres de espírito’ são descritos como herdeiros de um reino que não tem relação com as estruturas sociais deste mundo. Machado de Assis associa negativamente a ‘pobre gente’ aos ‘pobres de espírito’, enquanto Jesus ensina positivamente que os pobres de espíritos são eleitos de Deus!

A figura do ‘pobre bem-aventurado’ não tem vínculo com questões de ordem econômica, moral ou religiosa, antes se refere ao que foi anunciado pelo profeta Isaías:

“Porque a minha mão fez todas estas coisas, e assim todas elas foram feitas, diz o SENHOR; mas para esse olharei, para o pobre e abatido de espírito, e que treme da minha palavra” (Is 66:2).

Jesus utilizou os profetas para ensinar à multidão que só é possível alcançar a bem-aventurança obedecendo à palavra de Deus “Ouvi, meus amados irmãos: Porventura não escolheu Deus aos pobres deste mundo para serem ricos na fé, e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam?” (Tg 2:5).

Aquele que guarda os mandamentos de Cristo é o que o ama, e a Palavra de Deus garante que quem obedece a Cristo é herdeiro do seu reino, portanto, assume a condição descrita pelos profetas como ‘pobre’: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” (Jo 14:21).

A lição de Tiago não tem relação com o evangelho humanista (teologia da libertação[2]) apregoado hoje, antes repete a formula do ensino de Cristo: “Bem-aventurado os pobres de espírito…”. A herança do reino é promessa aos que obedecem a Deus (amam), e que ouve a palavra de Deus, ou seja, são os que reconhecem que não dispõem de recursos para adquirir a vida eterna “Nenhum deles de modo algum pode remir a seu irmão, ou dar a Deus o resgate dele. Pois a redenção da sua alma é caríssima, e seus recursos acabariam antes” ( Sl 49:7 -8).

Ao analisar a citação do profeta Isaias, devemos fazer e responder algumas perguntas: Para quem Deus ‘olhará’? Ou, seja, a quem Deus é favorável? Ao pobre! Ao abatido de espírito! A quem não tem dinheiro! E quem são os pobres e abatidos de espírito? Os que obedecem à palavra de Deus.

Quem obedece à palavra de Deus se fez servo da justiça, ou seja, abateu-se a si mesmo! ‘Abater-se’ é o mesmo que ‘humilhar-se’, ou seja, sujeitar-se ao senhorio de Deus, obedecendo-O ( Tg 4:7 ). Quem se humilha a si mesmo abriu mão de tudo o que possui ( Mt 19:21 ), portanto, é pobre, abatido ( Sl 51:17 ).

‘Pobre’, ‘humilde’, ‘abatido’, etc., não diz de pobreza financeira ou abatimento (humilhação) social! Qualquer que obedece a Deus, quer seja pobre quer seja rico financeiramente, se faz servo, portanto diante de Deus é pobre, humilde, abatido. Só é possível compreender o verso: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus” ( Mt 5:3 ) quando o leitor considera que os que ‘tremem’ da palavra de Deus são os que ‘obedecem’ a Deus.

A palavra ‘temor’ é figura de instrução, mandamento, e a palavra ‘tremor’ é figura de obediência, sujeição. O significado de ‘temor’ e ‘tremor’ se abstrai do paralelismo existente nas poesias hebraicas, que associa ‘temor’ a doutrina e ‘tremor’ a obediência ( Sl 34:11 ; Pv 1:9 ; Is 66:5 ).

O profeta Isaias faz referencia ao pobre através de um convite gracioso: “Ó VÓS, todos os que tendes sede, vinde às águas, e os que não tendes dinheiro, vinde, comprai, e comei; sim, vinde, comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite” ( Is 55:1 ). Ter sede remete a figura do necessitado, e o que não tem recursos (dinheiro) ao pobre.

Deus convida os necessitados a beberem água, e aos pobres que adquiram e comam sem dinheiro e sem preço vinho e leite. Para os necessitados alcançarem água e os pobres vinho e leite, bastava inclinar os ouvidos que comeriam o que é bom, de modo que seriam felizes (deleite com o que é bom).

Enquanto é feito um convite aos necessitados e pobres, Isaias censura aqueles que têm posses (ricos), pois adquirem o que não podem satisfazer suas necessidades ( Is 55:2 ). Isaías estabelece um contraste entre os que não têm posses e aqueles que têm diante de Deus, de modo que aquele que inclina os ouvidos a voz de Deus são os ‘pobres’, e aqueles que rejeitam a voz de Deus os ‘ricos’.

A figura do ‘pobre’ e do ‘rico’ são enigmas utilizados para demonstrar como o homem alcança o dom de Deus. A palavra de Deus é água que dá refrigério (salvação) ao necessitado. A palavra de Deus é pão que dá vida (salvação) e alegria (vinho e leite). Esta é a bem-aventurança!

Que água Deus estava oferecendo a Israel através de Isaias: Cristo! Cristo é a firme beneficência prometida a Davi ( 2Sm7:13 -14), a fonte de água viva ( Jo 4:14 ).

O jovem rico foi concitado por Jesus a vender tudo o que possuía e, o que fosse arrecadado deveria ser dado aos pobres financeiramente ( Mc 10:21 ). Esta ordem de Cristo contém uma grande lição: é necessário obedecer a Cristo para alcançar o favor divino!

Embora o jovem rico possuísse muitos bens materiais, esses bens não o impediam de entrar no reino dos céus. A riqueza dele consistia em guardar alguns mandamentos desde a sua mocidade, mas não considerou que qualquer que tropeça em um quesito da lei é culpado de toda a lei ( Tg 2:10 ).

O mandamento foi dado: ‘Vende tudo e dá aos pobres’! Se o jovem obedecesse à ordem de Cristo, tornaria servo de Cristo, ou seja, seria abatido de espírito, pois humilhou-se a si mesmo ( 1Jo 5:1 ). Assim como Cristo o amou e deu um mandamento, o jovem deveria obedecer ao mandamento que Cristo deu, pois só ama quem obedece. Ora, o mandamento de Deus é especifico: que creiam no Filho de Deus! ( 1Jo 3:23 )

O jovem rico retirou-se triste. O problema do jovem rico não era as riquezas materiais, e sim não obedecer a Cristo. De modo semelhante, muitos judeus não obedeceram a Cristo, tanto os que possuíam muitos bens como os desprovidos deles, porque não abriam mão de dizer que tinham por pai Abraão, pois julgavam que já estavam ao abrigo da bem-aventurança prometida por Deus.

Os pobres descritos por Jesus como bem-aventurados são aqueles que reconhecem que não possuem recursos para se salvar e, através desta abordagem, fica implícito que qualquer (judeu ou gentio) que obedece ao mandamento de Deus é herdeiro da promessa, pois Deus não faz acepção de pessoas.

As bem-aventuranças anunciadas por Cristo depunha contra os seus ouvintes, uma multidão de judeus. É significativo o fato de a plateia de Cristo ser formada de homens judeus, pois após anunciar as bem-aventuranças, volta-se para os seus ouvintes e faz uma exigência: “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” ( Mt 5:20 ).

Os pobres são apresentados como herdeiros do reino dos céus, mas os ouvintes de Cristo são instados a realizarem obras que exceda a dos seus lideres e mestres religiosos para que possa alcançar a bem-aventurança! Através do anuncio das bem-aventuranças Jesus enfatizou que os judeus estavam em igual condição aos gentios se não obtivessem obras superiores aos escribas e fariseus ( Jo 3:3 ; Mt 5:20 ).

A obra que excede as dos escribas e fariseus é obediência ao mandado de Deus: crer no enviado de Deus. A obra de Deus é perfeita: Cristo! Cristo veio ao mundo revelar aos homens a vontade de Deus e realizar a sua obra! ( Jo 6:29 ) Não basta como os judeus dizer que crê em Deus, antes é necessário realizar o que Ele determina: crer no testemunho que Ele deu acerca do seu Filho Jesus Cristo “Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade” ( 1Jo 3:18; 1Jo 5:9 -11).

Os judeus diante da mensagem de Cristo não reconheciam que precisavam de salvação, pois entendiam que ser descendente da carne de Abraão era requisito suficiente e imprescindível para ser salvo “Responderam, e disseram-lhe: Nosso pai é Abraão” ( Jo 8:32 ); “Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento, e não comeceis a dizer em vós mesmos: Temos Abraão por pai; porque eu vos digo que até destas pedras pode Deus suscitar filhos a Abraão” (Lc 3:8).

Em lugar de confiarem em Deus, faziam da carne de Abraão o seu ‘braço’ (salvação). Ora, aquele que confia na carne (faz da carne o seu braço) é maldito, pois confia em si mesmo (homem que confia no homem) “Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do SENHOR!” ( Jr 17:5 ; Fl 3:3 ).

Os judeus, por serem descendentes de Abraão, se consideravam bem-aventurados, ricos para com Deus. Não compreenderam que a bem-aventurança prometida por Deus só é concedida aos gerados por Deus participante da carne e do sangue do Descendente prometido a Abraão, que é Cristo.

Por não compreenderem as profecias, os judeus como povo prevaricam nas suas atribuições ( Is 43:27 ). As escrituras eram como um livro selado para eles, daí o porquê eram tidos por cegos, loucos, bêbados, etc. Em lugar de atenderem a voz de Deus que é vinho e leite, beberam dos cachos de uvas de Sodoma e Gomorra “Mas também estes erram por causa do vinho, e com a bebida forte se desencaminham; até o sacerdote e o profeta erram por causa da bebida forte; são absorvidos pelo vinho; desencaminham-se por causa da bebida forte; andam errados na visão e tropeçam no juízo” ( Is 28:7 ); “Apalpamos as paredes como cegos, e como os que não têm olhos andamos apalpando; tropeçamos ao meio-dia como nas trevas, e nos lugares escuros como mortos” ( Is 59:10 ; Dt 32:28 -32).

Citar o evangelho somente para destilar sarcasmo demonstra que o escritor é só mais um na grande massa de homens que não compreendem o evangelho de Cristo “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” ( 1Co 2:14).

A crítica aos parasitas que infestam as inúmeras estruturas religiosas, quer sejam elas pagãs ou dita cristãs, é válida. Uma análise da sociedade nos revela que os parasitas não poupam as religiões pagãs e nem os sistemas de governos laicos, pois todas as organizações humanas ‘sofrem’ com as ações dos parasitas. Tomando a Igreja Católica Apostólica Romana como exemplo, verifica-se que ela não foi instituída por Cristo como seu corpo e nem o estado do Vaticano como pertencente ao seu reino.

No quesito ‘igreja’, Cristo erigiu o seu próprio corpo: templo santo para habitação de Deus em espírito ( Ef 2:21 ). Após a morte de Cristo, o seu corpo está repartido por todos os cristãos. O corpo de Cristo, a sua igreja, não se trata de uma organização religiosa ou de um estado teocrático onde parasitas possam se instalar. A igreja de Cristo é formada por homens que igualmente confessam que Jesus é o Filho de Deus.

Mas, como Cristo sabia que surgiriam homens que imitariam os seus seguidores, copiando posturas e acrescendo tom dogmático as palavras, ele notificou os seus seguidores a terem cuidado com os falsos profetas, pois só é possível conhecê-los pelo fruto, e não pela aparência ( Mt 7:15 ).

Enquanto os seguidores de Cristo pensam nas coisas de cima, onde Cristo está assentado, os falsos mestres só atentam para as coisas terrenas. Os falsos mestres se infiltram nas comunidades a fim de banquetear-se com os cristãos, mas apascentam a si mesmos “Cujo fim é a perdição; cujo Deus é o ventre, e cuja glória é para confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas” (Fl 3:19); “Estes são manchas em vossas festas de amor, banqueteando-se convosco, e apascentando-se a si mesmos sem temor; são nuvens sem água, levadas pelos ventos de uma para outra parte; são como árvores murchas, infrutíferas, duas vezes mortas, desarraigadas” ( Jd 1:12).

‘O parasita’ de Machado de Assis é crítica severa a certas figuras do seu tempo que sobrevivia à custa das instituições. Através do sarcasmo, Machado de Assis tentou driblar a sina de se tornar um ‘fanqueiro literário’, mas sucumbiu ao fado: muitos dos seus trabalhos são ramas que se enroscaram na Bíblia pelo prestigio que ela contém. Ex: Dom Casmurro, Adão e Eva, A Igreja do Diabo, O espelho, Esaú e Jacó, etc.

Reitero que as abordagens de Machado de Assis não são de todo mal do ponto de vista sociocultural, pois a sua produção literária é de grande valor cultural. O mal se instala quando um leitor dos textos de Machado de Assis desconhece a essência dos textos bíblicos que foram utilizados, pois poderá chegar a conclusão que Machado de Assis detinha conhecimento suficiente para interpretar as Escrituras.

 

 

[1] Intertextualidade – é uma referência explícita ou implícita de um texto em outro “Todo texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de um outro texto. Em lugar da noção de intersubjetividade, instala-se a de intertextualidade” KRISTEVA, J. Introdução à semanálise. São Paulo: Perspectiva, 1974a, p.64,

[2] Teologia da Libertação é um movimento supra-denominacional, apartidário e inclusivista de teologia política, que engloba várias correntes de pensamento que interpretam os ensinamentos de Jesus Cristo em termos de uma libertação de injustas condições econômicas, políticas ou sociais. Ela foi descrita, pelos seus proponentes como reinterpretação analítica e antropológica da fé cristã, em vista dos problemas sociais, mas outros a descrevem como marxismo, relativismo e materialismo cristianizado – Wikipédia<http://pt.wikipedia.org/wiki/Teologia_da_Libertação> consulta realizada em 19/01/15

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A soberania de Deus assusta?

Não foi Deus que estabeleceu o mal sobre o povo de Israel, antes Ele estabeleceu a sua lei para que, ao obedece-la, gozassem o bem, mas ao transgredirem ficaram a mercê das maldições. E qual a causa da maldição? A desobediência à palavra de Deus “Será, porém, que, se não deres ouvidos à voz do SENHOR teu Deus, para não cuidares em cumprir todos os seus mandamentos e os seus estatutos, que hoje te ordeno, então virão sobre ti todas estas maldições, e te alcançarão” ( Dt 28:15 ).


 

Deparei-me com um texto sob o título ‘Quando a soberania de Deus lhe assusta’, escrito pela Sra. Keri Seavey*, e não pude me furtar a comentá-lo.

O artigo original na língua inglesa encontra-se no seguinte link: < http://thegospelcoalition.org/blogs/tgc/2014/04/28/when-gods-sovereignty-scares-you >, e publicando na língua portuguesa no Blog do Andrew: < http://oblogdoandrew.wordpress.com/2014/04/29/quando-a-soberania-de-deus-lhe-assusta > Consulta realizada em 30/04/14.

A Sra. Seavey conta em seu artigo que ao ouvir uma pregação do seu marido, foi necessário conter a enxurrada de emoções que tentava inundar o seu ser, conforme se lê:

Enquanto ouvia o meu marido pregar no Domingo, eu tentava frear a enxurrada de emoções mistas atravessando a represa interna que ergui. Eu estava espantada, cambaleante por conta da auto-reflexão. Cheguei à conclusão, sem dúvida de que fui conduzida pelo Espírito, de que eu estava com medo, assustada e aterrorizada por Deus” Seavey.

Surpreende-me o argumento:

“Cheguei à conclusão, sem dúvida de que fui conduzida pelo Espírito, de que eu estava com medo, assustada e aterrorizada por Deus”.

É temerário ter conclusões decorrente de uma ‘auto-reflexão’ em momento de forte emoção, mas a alegação de que ela afastou o ‘benefício da dúvida’ confiante de que foi ‘guiada pelo Espírito’ à conclusão de que ‘estava com medo, assustada e aterrorizada por Deus’, deve ser analisado à luz das Escrituras.

O artigo da Sra. Seavey possui quatro subtítulos, e o último possui argumentação supostamente de cunho teológico que parece ser o fundamento da argumentação dos outros três subtítulos.

Analisaremos primeiro o último subtítulo “Sofrendo soberano”, onde a Sra. Seavey afirma que as Escrituras revelam ‘Deus como Rei amoroso que ordena e supervisiona todo sofrimento’ Idem. O pronome inclusivo ‘todo’ generaliza a assertiva, e em ‘generalizar’ é grande o risco de cometer um erro.

Se entendermos ‘supervisiona’ todo sofrimento como algo inerente a onisciência de Deus, que tudo vê e tudo sabe, poderíamos entender como verdadeira a segunda parte da assertiva “E não há criatura alguma encoberta diante dele; antes todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar” ( Hb 4:13 ).

Agora, dizer que Deus ‘ordena’ todo sofrimento é temerário, pois os infortúnios do homem decorrem dos seus próprios erros “De que se queixa, pois, o homem vivente? Queixe-se cada um dos seus pecados” ( Lm 3:39 ).

É por isso que o apóstolo instrui dizendo: – “Não erreis’! E o motivo de o homem não errar é específico: tudo o que semeia, ceifará “Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará” ( Gl 6:7 ).

Deus estabeleceu a lei da semeadura, o que é completamente diferente de ter ‘ordenado todo sofrimento’. E como a colheita é abundante comparado ao que se planta, certo é o ditado: quem planta vento colhe tempestade “Porque semearam vento, e segarão tormenta, não haverá seara, a erva não dará farinha; se a der, tragá-la-ão os estrangeiros” ( Os 8:7 ).

Neste sentido, o sofrimento não é determinado por Deus, visto que não há maldição sem causa “Como ao pássaro o vaguear, como à andorinha o voar, assim a maldição sem causa não virá ( Pv 26:2 ). A morte só entrou no mundo por causa da desobediência de um homem que pecou, Adão ( Rm 5:12 ). O mandamento que foi dado no jardim alertava quanto à maldição que sobreviria sobre o homem, porém, a decisão do homem foi causa da maldição.

Deus é soberano, no entanto, apesar do seu eterno poder, Ele é fiel, justo e reto, ou seja, a ninguém oprime, de modo que jamais ordena o sofrimento de indivíduos em particular “Ao Todo-Poderoso não podemos alcançar; grande é em poder; porém a ninguém oprime em juízo e grandeza de justiça” ( Jó 37:23 ).

A maldição que se abateu sobre a terra se deu em função de Adão ter dado ouvidos à mulher e comido da árvore que lhe foi vetada por Deus, e a maldição atingiu todos os homens. No Éden a dor foi posta como maldição decorrente do pecado, de modo que com dor o homem passou a comer do produto da terra até retornar ao pó da terra “E a Adão disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida. Espinhos e cardos também, te produzirá; e comerás a erva do campo. No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” ( Gn 3:17 -19).

Vemos a lei da semeadura aplicada a Israel, pois a rebelião deles trouxe consequência funestas ( Os 8:1 ), ou seja, fizeram um plantio de vento, e a tormenta se abateu sobre eles. Por terem transgredido a aliança é que sobreveio a guerra, a fome e a peste, conforme o testemunho contra os filhos de Israel que consta em Deuteronômio ( Dt 31:19 -21).

Em virtude da palavra de Deus que advertiu que viria um grande mal sobre Israel quando se desviassem do Senhor “Porque eu sei que depois da minha morte certamente vos corrompereis, e vos desviareis do caminho que vos ordenei; então este mal vos alcançará nos últimos dias, quando fizerdes mal aos olhos do SENHOR, para o provocar à ira com a obra das vossas mãos” ( Dt 31:29 ), é que o profeta Habacuque diante da calamidade que se instalava, permaneceu confiante em Deus, pois Ele sabia que a maldição que se abatia sobre o seu povo de Israel era em decorrência da apostasia, e não porque Deus é soberano “Porque ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; ainda que decepcione o produto da oliveira, e os campos não produzam mantimento; ainda que as ovelhas da malhada sejam arrebatadas, e nos currais não haja gado; Todavia eu me alegrarei no SENHOR; exultarei no Deus da minha salvação” ( Hc 3:17 -18).

Não foi Deus que estabeleceu o mal sobre o povo de Israel, antes Ele estabeleceu a sua lei para que, ao obedece-la, gozassem o bem, mas ao transgredirem ficaram a mercê das maldições. E qual a causa da maldição? A desobediência à palavra de Deus “Será, porém, que, se não deres ouvidos à voz do SENHOR teu Deus, para não cuidares em cumprir todos os seus mandamentos e os seus estatutos, que hoje te ordeno, então virão sobre ti todas estas maldições, e te alcançarão” ( Dt 28:15 ).

Deus não ordena sofrimento, antes que se obedeça a sua palavra. O que traz sofrimento é a desobediência à palavra de Deus. O medo sobressalta o homem quando se afasta de Deus: “Vede, irmãos, que nunca haja em qualquer de vós um coração mau e infiel, para se apartar do deus vivo” ( Hb 3:12 ).

Dizer que Deus ordena todo sofrimento não tem respaldo bíblico. Deus não é a causa do sofrimento, e nem mesmo o fato de deus corrigir é cauda de sofrimento. Deus corrige seus filhos para evitar que sofram. Deus corrige o que ama e açoita a quem recebe por filho, e após ser contristado pela correção, virá alegria pelo fruto pacífico de justiça “E, na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela” ( Hb 12:11 ).

A quem Deus recebe por filho? Todos quantos creem em o nome do seu Filho, Jesus Cristo ( Jo 1:12 ). E quem Deus ama? Ora, Deus ama a todos quanto o amam “Eu amo aos que me amam, e os que cedo me buscarem, me acharão” ( Pv 8:17 ).

Há uma confusão em torno do amor de Deus. Primeiro por não compreenderem o significado do termo ‘amor’. Em segundo lugar por não distinguirem passagens bíblicas que abordam o tema com uma linguagem teológica e outras passagens que abordam o tema com uma linguagem evangelística.

João 6, verso 16 expressa o amor de Deus em uma linguagem evangelística: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” ( Jo 3:16 ). O que entender por mundo? O termo ‘mundo’ não se refere ao ‘cosmos’. O termo é utilizado no sentido de que Deus amou indistintamente todos os povos, nações e línguas, e daí a ordem: – “Ide por todo mundo” “E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” ( Mc 16:15 ); “E este evangelho do reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as nações, e então virá o fim” ( Mt 24:14 ; Mt 28:19 ; “E em seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém” ( Lc 24:47 ),

Mas, como foi dado o amor de Deus? Concedendo aos homens o Seu Filho unigênito (justiça de Deus) para que cressem n’Ele para não perecerem. Em uma linguagem teológica, Deus deu um mandamento pelo qual o homem deva ser salvo, que é: crer naquele que Ele enviou “Sê tu a minha habitação forte, à qual possa recorrer continuamente. Deste um mandamento que me salva, pois tu és a minha rocha e a minha fortaleza” ( Sl 71:3 ); “Mas a seu tempo manifestou a sua palavra pela pregação que me foi confiada segundo o mandamento de Deus, nosso Salvador” ( Tt 1:3 ); “Para que vos lembreis das palavras que primeiramente foram ditas pelos santos profetas, e do nosso mandamento, como apóstolos do Senhor e Salvador” ( 2Pd 3:2 ).

Ora, o mandamento de Deus é vida “E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito” ( Jo 12:50 ), e em última instância, só desfruta do amor de Deus o indivíduo que acata o seu mandamento “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” ( Jo 14:21 ).

Em João 6, verso 16 temos Deus revelando o seu amor ao mundo, Cristo como esperança da glória. Mas, só desfruta do amor de Deus o indivíduo que ouve a mensagem da cruz e crê que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo, pois só o que ama a Cristo é amado do Pai ( Jo 14:21 ).

Com relação à fala:

“Se Ele fosse retratado somente como soberano, seríamos tentados a nos afastar dele por medo” Idem, percebe-se que a Sra. Seavey não compreende a soberania. Soberania diz de quem detém domínio sem que haja quem lhe seja igual ou superior.

Deus como soberano (não está sujeito à condições ou encargos postos por outrem, não recebe ordens ou instruções de ninguém) possui poder e a faculdade de impor aos outros um mandamento que demanda obediência, entretanto, resigna-se somente a ensinar ao homem o caminho que deve escolher. Escolher o caminho é faculdade que o homem exerce, pois onde está o espírito do Senhor, ai há liberdade “Qual é o homem que teme ao SENHOR? Ele o ensinará no caminho que deve escolher” ( Sl 25:12 ; 2Co 3:17 ).

Um soberano que impõe medo é aquele que não respeita as suas próprias leis, mas Deus, mesmo possuindo eterno poder, submete-se a sua própria palavra ( Sl 138:2 ; Sl 110:4 ).

Deus é essencialmente bom, ou seja, superior, nobre, excelente “Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também com ele viveremos; Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará; Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo” ( 2Tm 2:11 -13); “O SENHOR é bom, ele serve de fortaleza no dia da angústia, e conhece os que confiam nele” ( Na 1:7 ).

Não há fundamentado na Bíblia para ter medo da soberania divina. Tal medo pode existir em se tratando de um sistema de governo humano em que o mais forte oprime o mais fraco. Ter medo de Deus é um sentimento derivado do desconhecimento, de uma impressão ou entendimento equivocado.

Quando não se entende que amor é obediência ao mandamento surge o medo da soberania de Deus “No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena, e o que teme não é perfeito em amor” ( 1Jo 4:18 ).

O evangelista João demonstra no verso acima que aquele que ‘obedece’ ao mandamento de Deus não tem medo, pois a obediência lança fora o medo. Por outro lado, o medo decorre da pena, e não de Deus ou do seu mandamento, pois aquele que tem medo é porque não obedece. Quem ama obedece a Deus e constata que Ele dá mandamentos para a vida. Quem é desobediente teme, pois ainda não percebeu que o mandamento de Deus é cuidado.

Ficar aterrorizado com a soberania de Deus é acreditar que Deus é punidor, enquanto a Bíblia diz que Ele é galardoador “… porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam” ( Hb 11:6 ).

O medo da Sra. Seavey é infundado por dois motivos:

a) Dá crédito às suas emoções e desconhece que o amor de Deus não é sentimento (subjetivo), e sim, um mandamento (objetivo); e,

b) Desconhece que, na Bíblia, o termo ‘temor’ possui mais de um significado: ‘obediência’ ou ‘medo’, dependendo do contexto.

‘Medo’ diz do sentimento do desobediente em vista da pena, já o ‘temor’ diz da reverencia a Deus por estar com Ele o perdão “Mas contigo está o perdão, para que sejas temido” ( Sl 130:4 ). Com Deus está o perdão para que Ele seja reverenciado, honra, obedecido, etc., já o medo é em vista da punição e não do perdão.

Bem asseverou Moisés ao povo de Israel que não temessem, ou seja, não ficassem amedrontado, antes Deus estava provando o povo para que o ‘temor’ (palavra) dele estivesse diante dos filhos de Israel “E disse Moisés ao povo: Não temais, Deus veio para vos provar, e para que o seu temor esteja diante de vós, afim de que não pequeis ( Êx 20:20 ).

Ora, aquele que esconde a palavra de Deus no coração não peca contra Deus “Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti” ( Sl 119:11 ). A mesma mensagem foi dada por Moisés ao povo afim de não pecarem: para que o seu temor esteja diante de vós! Aquele que não peca, não tem medo. Adão só teve medo depois que pecou, desobedeceu.

A Bíblia revela que Deus já escolheu o seu Rei, ungindo o Seu Filho conforme o seu decreto: “Eu, porém, ungi o meu Rei sobre o meu santo monte de Sião. Proclamarei o decreto: o SENHOR me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei” ( Sl 2:6 -7).

O Cristo é o Filho de Deus Ungido sobre Israel que exercerá domínio sobre todos os povos, línguas e nações. Quando Cristo se assentar no trono da sua glória a reger as nações ( Mt 19:28 ), aos que se sentirem tentados a se afastarem do Rei estabelecido por Deus fica o alerta: sedes prudentes e deixai-vos instruir, ou seja, operai a vossa salvação com temor e tremor “Tu os esmigalharás com uma vara de ferro; tu os despedaçarás como a um vaso de oleiro. Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos instruir, juízes da terra. Servi ao SENHOR com temor, e alegrai-vos com tremor. Beijai o Filho, para que se não ire, e pereçais no caminho, quando em breve se acender a sua ira; bem-aventurados todos aqueles que nele confiam” ( Sl 2:9 -12; Fl 2:12 ).

O ‘temor’ do Senhor é a sua palavra, e o ‘tremor’ diz da obediência à sua palavra “Ouvi a palavra do SENHOR, os que tremeis da sua palavra” ( Is 66:5 ).

Jesus revelou o Pai quando se fez carne ( Jo 1:18 ). No fato de Cristo ter sido encarnado segundo a descendência de Abraão, Isaque e Jacó, nascido na casa de Davi, demonstra a fidelidade de Deus à sua palavra e o seu eterno poder “O qual antes prometeu pelos seus profetas nas santas escrituras, acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne, Declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor” ( Rm 1:2 -4).

O Filho, por sua vez, foi revelado aos homens através do testemunho do Pai contido nas Escrituras. As Escrituras descrevem o Cristo de Deus como Servo sofredor, o castigo que nos traz a paz estava sobre Ele ( Is 53:4 -5). Quando a bíblia diz que o Senhor é sofredor: “Piedoso e benigno é o SENHOR, sofredor e de grande misericórdia” ( Sl 145:8); “Porém tu, Senhor, és um Deus cheio de compaixão, e piedoso, sofredor, e grande em benignidade e em verdade” ( Sl 86:15 ), é uma referencia a Cristo, o Senhor que se assentou à destra de Deus nas alturas “DISSE o SENHOR ao meu Senhor: Assenta-te à minha mão direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés” ( Sl 110:1 ).

Quando a Bíblia assegura a bondade de Cristo, não podemos entender que Ele é condescendente com a desobediência do homem “Ele cumprirá o desejo dos que o temem; ouvirá o seu clamor, e os salvará. O SENHOR guarda a todos os que o amam; mas todos os ímpios serão destruídos” ( Sl 145:19 -20). A bondade e a severidade de Cristo andam de mãos dadas, pois ele salva os que o temem, ou seja, amam, porém, os ímpios serão destruídos “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” ( Jo 14:21 ).

Dizer que:

“Na cruz, Jesus perdeu a sua intimidade tenra com o Pai em troca da fúria da sua ira feroz. Jesus foi afligido e abandonado pelo seu Pai para que nós nunca estivéssemos sozinhos e abandonados nas nossas aflições” Idem, é anti-bíblico, pois apesar de ser o aflito de Deus, Jesus nunca foi abandonado pelo Pai. Deus nunca escondeu de Cristo o seu rosto, nem mesmo quando Cristo estava pendurado na cruz “Porque não desprezou nem abominou a aflição do aflito, nem escondeu dele o seu rosto; antes, quando ele clamou, o ouviu” ( Sl 22:24 ).

Foi do agrado de Deus fazer o Cristo enfermar ( Is 53:10 ), e o Cristo, por sua vez, resignou-se como Servo obedecer “E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz” ( Fl 2:8 ). Cristo não escolheu sofrer “E, indo um pouco mais para diante, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres” ( Mt 26:39 ), mas sendo Sevo resignou-se a obedecer.

Ao que se conclui: “O qual, nos dias da sua carne, oferecendo, com grande clamor e lágrimas, orações e súplicas ao que o podia livrar da morte, foi ouvido quanto ao que temia. Ainda que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu. E, sendo ele consumado, veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem” ( Hb 5:7 -9). Quando na carne, Cristo com clamor e lágrimas rogou ao Pai que tinha poder de livra-lo da morte, e Ele foi ouvido por ser piedoso, temente a Deus, de modo que a sua alma não foi deixada na morte: “Pois não deixarás a minha alma no inferno, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção” ( Sl 16:10 ).

Cristo foi ouvido pelo Pai quanto a não ser deixado na morte, porém, Deus sempre esteve com Ele enquanto era afligido “Ele me invocará, e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia; dela o retirarei, e o glorificarei” ( Sl 91:15 ).

A invocação do Cristo é bela, pois profeticamente por boca do Salmista disse: “Fira-me o justo, será isso uma benignidade; e repreenda-me, será um excelente óleo, que não me quebrará a cabeça; pois a minha oração também ainda continuará nas suas próprias calamidades” ( Sl 141:5 ).

A ‘teologia’ da Sra. Seavey não se sustem diante das Escrituras, de modo que é de se contestar o fato de ela dizer que as suas conclusões foram, sem dúvidas, conduzida pelo Espírito.

“Cheguei à conclusão, sem dúvida de que fui conduzida pelo Espírito, de que eu estava com medo, assustada e aterrorizada por Deus” Idem.

Ora, a função do Espírito Santo é guiar o cristão em toda verdade, de modo que, se a Sra. Seavey estivesse sendo guiada pelo Espírito, não poderia estar à mercê destes equívocos “Mas, quando vier aquele, o Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir” ( Jo 16:13 ).

A função do Espírito Santo é ensinar em todas as coisas e lembrar-se de tudo o que Cristo disse: “Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito” ( Jo 14:26 ), porém, ao encarar o seu coração, a Sra. Seavey não lembra das Escrituras, e sim das palavras de Aslan, um personagem das Crônicas de Nárnia, que ela cita ‘Ipsis litteris’:

“Seguro?” disse o Sr. Castor, “É claro que ele não é seguro. Mas ele é bom. Ele é o Rei, eu lhe digo.” As Crônicas de Nárnia, C. S. Lewis.

A Bíblia nos garante que Jesus é o mesmo ontem, hoje e eternamente, em quem não há mudança nem sombra de variação e vela sobre a sua palavra para a cumprir pois a elevou acima do seu próprio nome. Tem algo mais seguro que Cristo, o firme fundamento? “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, e hoje, e eternamente” ( Hb 13:8 ); “Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação” ( Tg 1:17 ; 2Tm 2:19 ).

O Sr. Castor da fábula de Clive Staples Lewis não tem um testemunho seguro sobre o Rei Jesus! O Rei Jesus é totalmente seguro, pois Ele é a Pedra de Esquina “Portanto assim diz o Senhor DEUS: Eis que eu assentei em Sião uma pedra, uma pedra já provada, pedra preciosa de esquina, que está bem firme e fundada; aquele que crer não se apresse” ( Is 28:16 ); “Qualquer que cair sobre aquela pedra ficará em pedaços, e aquele sobre quem ela cair será feito em pó” ( Lc 20:18 ).

O apóstolo Pedro aponta como firme as palavras dos profetas, e na condição de apóstolo não ousou compor fábulas para expor o poder contido no Evangelho “E temos, mui firme, a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia amanheça, e a estrela da alva apareça em vossos corações” ( 2Pd 1:19 ).

Ora, as Escrituras revelam que o Senhor é bom ( Lc 19:15 ), excelente, superior, distinto, nobre, excelso (diz da sua posição). O homem é concitado a louvá-lo porque Ele é bom e porque a sua benignidade dura para sempre “Louvai ao SENHOR, porque ele é bom; porque a sua benignidade dura para sempre” ( Sl 118:29 ). Além de ser bom, o Senhor é pronto a perdoar e a sua benignidade é abundante pra os que o invocam “Pois tu, Senhor, és bom, e pronto a perdoar, e abundante em benignidade para todos os que te invocam” ( Sl 86:5 ).

Sob o subtítulo ‘Encarando o meu coração’, a lembrança da Sra. Keri Seavey se socorre de uma fábula engenhosamente composta que não reflete a verdade das Escrituras.

A ordem do Senhor é meditar nas Escrituras continuamente, porém, a Sra. Seavey revela que os seus pensamentos sobre a bondade e o amor de Deus surgiu do ‘agitado rios de confusão do ‘seu’ coração’, o que a levou a ter dúvidas sobre o caráter de Deus.

A resposta do Senhor livra o homem dos seus temores e angustias “Busquei ao SENHOR, e ele me respondeu; livrou-me de todos os meus temores (…) Clamou este pobre, e o SENHOR o ouviu, e o salvou de todas as suas angústias” ( Sl 34:4 e 6).

Cristo é segurança para os que n’Ele se refugiam, por isso é dito: “Ó! Provai e vede que o Senhor é bom; bem-aventurado o homem que nele se refugia. Temei o Senhor, vos os seus santos” ( Sl 34:8 -9). Mas, só é possível ‘temer’ ao Senhor quando se aprende o temor (palavra) do Senhor “Vinde, meninos, ouvi-me; eu vos ensinarei o temor do SENHOR” ( Sl 34:11 ).

A palavra do Senhor é o que santifica, pois somos limpos por sua palavra “Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado” ( Jo 15:3 ); “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” ( Jo 17:17 ).

Entretanto, parece não ser esta a crença da Sra. Seavey quando pergunta:

“Mas sendo sincera, as coisas que Deus usa para trazer à tona este bem prometido às vezes me aterrorizam. Será que Ele vai me fazer passar por mais um ano escuro para me santificar?” Idem.

Jesus deixou claro que o homem é santificado pela fé n’Ele, e não em sofrimento “Para lhes abrires os olhos, e das trevas os converteres à luz, e do poder de Satanás a Deus; a fim de que recebam a remissão de pecados, e herança entre os que são santificados pela fé em mim” ( At 26:18 ).

Ao citar Romanos 5, verso 3, a Sra. Seavey confunde as vicissitudes da vida com as perseguições por causa do Evangelho. As perseguições promovem a perseverança e evidência à bem-aventurança do cristão que em decorrência das injurias terá grande galardão “Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa” ( Mt 5:11 )

As vicissitudes da existência terrena decorrem da ofensa no Éden que trouxe maldição a terra até que o homem torne ao pó da terra, já as tribulações de Romanos 5, verso 3 é para quem já está santificado, pois é trata-se de privilégio o padecer por Cristo “E a Adão disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida. Espinhos, e cardos também, te produzirá; e comerás a erva do campo. No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” ( Gn 3:17 -19); “Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele” ( Fl 1:29 ).

Observe que qualquer que quiser viver segundo a verdade do evangelho será perseguido: “E também todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições” ( 2Tm 3:12 ), o que produz no crente perseverança, experiência e esperança.

O resistir firme na fé é o mesmo que perseverar, sabendo que as mesmas aflições assaltam todos os cristãos no mundo “Ao qual resisti firmes na fé, sabendo que as mesmas aflições se cumprem entre os vossos irmãos no mundo” ( 1Pd 5:9 ). Estas aflições referem-se à perseguição por causa da palavra, e não se configura em perda de ente queridos, desemprego, falta de pão, doenças, etc.

A perseguição por causa do evangelho causa aflição, porém, a aflição que sobrevêm aos que querem viver piamente não tem relação com o dia da adversidade estabelecido por Deus em oposição ao dia da bonança. O dia da adversidade possui objetivo definido: para que o homem não saiba o que há de vir depois. Já a aflição por causa do evangelho se dá por causa da palavra “Como está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte todo o dia; Somos reputados como ovelhas para o matadouro” ( Rm 8:36 ; El 7:14 ).

As Escrituras mostram que o mal veio sobre o povo de Israel somente para confirmar o que anteriormente Deus havia dito pelos seus santos profetas no caso de desobediência, ou seja, estavam colhendo o que plantaram “E ele confirmou a sua palavra, que falou contra nós, e contra os nossos juízes que nos julgavam, trazendo sobre nós um grande mal; porquanto debaixo de todo o céu nunca se fez como se tem feito em Jerusalém” ( Dn 9:12 ).

Entretanto, quanto mais eram corrigidos, mais o povo de Israel se distanciava de Deus. O mal que sobreveio sobre o povo de Israel era um sinal da parte de Deus de que precisavam se arrepender e se voltar para Deus “Por que seríeis ainda castigados, se mais vos rebelaríeis? Toda a cabeça está enferma e todo o coração fraco” ( Is 1:5 ).

O que se observa através do mal decretado diante da desobediência do povo de Israel é a longanimidade de Deus através da correção apontando a felicidade do povo de Israel “Mas isto lhes ordenei, dizendo: Dai ouvidos à minha voz, e eu serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo; e andai em todo o caminho que eu vos mandar, para que vos vá bem” ( Jr 7:23 ), entretanto, a consideração da Sra. Seavy sobre a soberania de Deus causar ‘medo’ retrata o Criador como um déspota.

Não sei onde nas Escrituras que a Sra. Seavy leu e abstraiu o pensamento de que ‘A Bíblia afirma com firmeza que na sabedoria soberana de Deus, Ele pode propositadamente ordenar aquilo que mais tememos’ Idem.

O subtítulo do artigo em comento ‘Dores passadas, medos futuros’ faz referencia a uma concepção de um místico, São João da Cruz, expressa em um poema de título “A noite escura da alma”. O que seria esta noite? Seria a ausência de Deus na vida daquele que nutre uma crença. O indivíduo sente como se Deus o tivesse abandonado ou como se sua vida de prece tivesse entrado em colapso pelo sobressalto das dúvidas.

O Pe. Elílio de Faria Matos Júnior, ao falar das Provações da Madre Teresa Calcutá, fez a seguinte análise:

“São João da Cruz (séc. XVI), um dos maiores místicos da Igreja, ensina que sem “noites escuras” não se pode aproximar de Deus como convém. “Noite escura” é o termo que o santo doutor achou para, metaforicamente, falar do processo de purificação da alma, que se dá na obscuridade da fé e que nos dispõe para o matrimônio místico com o Senhor.” Provações de Madre Teresa de Calcutá < http://www.catequisar.com.br/texto/colunas/elilio/24.htm > Consultado em 02/05/14.

O poema de São João da Cruz aponta um caminho mítico até Deus, onde é abordadas questões como os vícios capitais, tais como a soberba, a avareza, a luxuria, a ira, a preguiça, etc.

“A cada passo tropeçava com mil imperfeições e ignorâncias, como já mostramos a propósito dos sete vícios capitais” São João da Cruz, A noite escura da alma, Capítulo XI, 3º parágrafo.

Para São João da Cruz a porta e o caminho estreito da qual Cristo fez referência no sermão do Monte seria a ‘noite escura’.

“… entrando por esta ‘porta apertada e este caminho estreito que conduz à vida’, conforme diz Nosso Senhor (Mt 7, 14). A ‘porta apertada’ é esta noite do sentido do qual a alma é despida e despojada para poder entrar firmando-se na fé, que é alheia a todo o sentido, a fim de caminhar depois pelo ‘caminho estreito’ que é a outra noite, a do espírito” Idem.

Há equívocos absurdos na abordagem de São João da Cruz, visto que Cristo é a porta estreita e o caminho apertado que conduz o homem a Deus ( Jo 10:9 ). Jesus se apresentou como a luz do mundo, e que n’Ele anda não estará em trevas ( Jo 12:46 ). O apóstolo Paulo enfatiza que os que creem pertencem ao dia, e não as trevas.

“Porque todos vós sois filhos da luz e filhos do dia; nós não somos da noite nem das trevas” ( 1Ts 5:5 ).

Mas, deixemos as mitificações de São João da Cruz de lado, e analisemos a atitude da Sra. Seavey quando enfrentou a chamada ‘noite escura da alma’. Ela enfatiza que ‘fez tudo o que sabia para mudar o seu coração’, e passou a sondar minunciosamente, ela mesma, o seu coração em busca de ‘pecados ocultos’.

Apóstolo Paulo alerta: “E, se alguém cuida saber alguma coisa, ainda não sabe como convém saber” ( 1Co 8:2 ). Ela desconhece que só Deus sonda os corações dos homens ( Sl 139:23 ), e que só por meio da palavra de Deus é que se compreende os erros “Quem pode entender os seus erros? Expurga-me tu dos que me são ocultos” ( Sl 19:12 ).

Quais os erros ocultos do homem? O fato de ter sido formado em iniquidade e concebido em pecado ( Sl 51:5 ). Que todos os homens se desviaram de Deus e juntamente se fizeram imundo através da ofensa de Adão ( Sl 53:3 ). Que desde o ventre os homens se desviam de Deus e andam errados desde nascem e falam mentiras ( Sl 58:3 ).

Ora, a Bíblia nos informa que: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” ( Jr 17:9 ), e que só Deus pode esquadrinhar o coração “Eu, o SENHOR, esquadrinho o coração e provo os rins; e isto para dar a cada um segundo os seus caminhos e segundo o fruto das suas ações” ( Jr 17:10 ).

Não há nada que o homem faça que possa mudar o seu coração, pois isto é impossível aos homens. Mas, quando o homem crê no enviado de Deus – Cristo – há a circuncisão de Cristo, que é o despojar de toda carne, momento em que Deus dá um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ; Cl 2:11 ).

Entendo a complexidade dos sentimentos e o torvelinho que move as emoções do homem em momentos de perda de um ente querido. Estas emoções podem se somar a outras questões físicas e psíquicas, como é o caso da tensão pré-menstrual, o nervosismo, as frustrações, etc.

Qualquer um fica assustado quando se deixa levar pelas emoções de reviver algumas das vicissitudes pertinentes a existência do homem na terra. A expectativa dos problemas que estão por vir provocam ansiedade, porém, a ansiedade nada resolve “E disse aos seus discípulos: Portanto vos digo: Não estejais apreensivos pela vossa vida, sobre o que comereis, nem pelo corpo, sobre o que vestireis (…) Pois, se nem ainda podeis as coisas mínimas, por que estais ansiosos pelas outras?” ( Lc 12:22 e 26).

Por causa da ofensa de Adão ficou estabelecido que todo homem há de retornar ao pó ( Gn 3:19 ), e a dor da separação não torna o homem melhor ou pior diante de Deus.

Jesus teve que enfrentar a tristeza e a angustia dos momentos que antecederam a sua morte “E, levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se muito. Então lhes disse: A minha alma está cheia de tristeza até a morte; ficai aqui, e velai comigo” ( Mt 26:37 -38).

Por causa da aflição e da angustia Cristo pediu ao Pai que passasse dele o cálice, porem, acatar a vontade do Pai era um prazer que suplantou a angustia a e a aflição “Aflição e angústia se apoderam de mim; contudo os teus mandamentos são o meu prazer” ( Sl 119:143 ).

A certeza da morte trazia aflição “Porque a minha alma está cheia de angústia, e a minha vida se aproxima da sepultura” ( Sl 88:3 ), porém, Ele não perdeu de vista a presença constante do Pai naqueles momentos cruentos “Ele me invocará, e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia; dela o retirarei, e o glorificarei” ( Sl 91:15 ).

O medo de Deus em vista das vicissitudes da existência humana não se justifica, pois Deus deixa claro que Ele mesmo prova o coração e os rins, e dará a cada um segundo o fruto de suas ações “Eu, o SENHOR, esquadrinho o coração e provo os rins; e isto para dar a cada um segundo os seus caminhos e segundo o fruto das suas ações” ( Jr 17:10 ).

Passar desta existência para a eternidade não deve ser o mote da preocupação do Cristão, mas sim onde o homem passará a eternidade “E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno” ( Dn 12:2 ).

 

*Keri Seavey mora em Vancouver, Washington, com seu marido que é pastor na Living Water Community Church. Eles têm quatro filhos. Keri é líder do ministério feminino, conselheira bíblica, palestrante e escritora que posta com frequência no blog da Biblical Counseling Coalition.

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Manso e humilde de coração

No mesmo discurso em que se declara manso e humilde de coração, Jesus exige submissão e não se despoja da condição de guardião das coisas entregues pelo Pai  “Todas as coisas me foram entregues por meu Pai…” ( Mt 11:27 ). A declaração de Jesus acerca da sua mansidão e humildade se dá após demonstrar ser o único que conhece a Deus, e que só Ele pode revelar o Pai aos homens, o que demostra que a humildade de Jesus não se dá através do despojar-se do que é ou possui.


Introdução

Deparei-me com a seguinte máxima estampada em uma rede social atribuída a um pastor: “Humildade é aquela virtude que, quando você percebe que a tem, já a perdeu”  Andrew Murray. A frase parece resumir uma ideia grandiosa e completa em si mesma, mas a ideia se sustenta à luz das Escrituras?

Andrew Murray foi um pastor que teve o seu ministério eclesiástico influenciado pelo pai, um pastor vinculado à Igreja Presbiteriana da Escócia, que, por sua vez, mantinha estreita relação com a Igreja Reformada da Holanda. Como pastor, Murray é caracterizado no meio cristão como alguém que possuía uma profunda e ardente espiritualidade. Pelos idos de 1877, Murray fez inúmeras conferências acerca do tema santidade. Ele era adepto de uma teologia conservadora, opondo-se ao liberalismo, enfatizando em seus escritos a necessidade de uma consagração integral e absoluta a Deus através da oração e da santidade.

Como a frase foi proferida pelo Pr. Murray e sintetiza uma espécie de louvor à humildade, muitos cristãos abraçam o conteúdo da frase como verdade, porém, vejo a necessidade de analisa-la à luz das Escrituras.

Considerando que o Senhor Jesus apresentou-se como ‘manso’ e ‘humilde’ de coração, e comparando com a ideia exposta na frase do Pr. Murray, temos a seguinte interrogação: Jesus deixou de ser humilde quando afirmou ser manso e humilde?

Se ‘humildade é uma virtude que, quando se percebe que se tem, já perdeu’, o que dizer de Cristo quando afirmou ser manso e humilde de coração? Considerando a frase do Pr. Murray como verdadeira, teríamos que concluir que Jesus perdeu a humildade por entender e declarar ser humilde.

“Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” ( Mt 11:29 )

Se admitirmos que o pastor Andrew foi verdadeiro em sua asserção, teremos que admitir que, naquele instante o Senhor Jesus deixou de ser humilde, por conseguinte, também faltou com a verdade.

Se admitirmos que Cristo falou a verdade, ou seja, que o seu coração realmente era manso e humilde, temos que admitir que o Pr. Murray se expressou de modo equivocado.

Cristo é a verdade, e as Escrituras dão testemunho de que nunca houve engano em sua boca, portanto, não dá para aceitar que seja uma expressão verdadeira a frase atribuída ao Pr. Andrew Murray.

“E puseram a sua sepultura com os ímpios, e com o rico na sua morte; ainda que nunca cometeu injustiça, nem houve engano na sua boca” ( Is 53:9 );

“O qual não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano” ( 1Pe 2:22 ).

A comparação acima evidencia o perigo em aceitar como verdadeiras frases de efeito, sem analisar a ideia à luz das Escrituras.

Para analisar a frase, ou o pensamento à luz das Escrituras, você precisa dispor de conhecimento bíblico. Existe a necessidade de você estar alimentado com sólido alimento, pois o sólido alimento é o que torna o cristão apto a distinguir tanto o bem quanto o mal, como se lê: “Mas o mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal” ( Hb 5:14 ).

 

Humildade

Quando Jesus se apresentou dizendo: – ‘Sou manso e humilde de coração’, o termo grego traduzido por humilde é ‘ταπεινος’, transliterado ‘tapeinos’.

Humilde –“5011 ταπεινος tapeinos de derivação incerta; TDNT – :1,1152; adj 1) que não se levanta muito do chão 2) metáf. 2a) como uma condição, humilde, de grau baixo 2b) abatido pela tristeza, rebaixado, deprimido 2c) humilde de espírito, humilde 2d) num mau sentido, que se comporta de forma humilhante, que se submete à servidão” Dicionário Bíblico de Strong.

“ταπεινος (tapeinos), primariamente “aquilo que é baixo e não sobe muito do chão”, como na Septuaginta em Ez 17.24. daí, metaforicamente, significa “humildemente, de nenhum grau” (2 Co 10.1; cf. Lc 1.52; Tg 1.9). Contraste com os termos tapeinophrosune, “humildade de mente”, e tapeinoõ, “humilhar”” Dicionário VINE

Um dicionário secular apresenta as seguintes definições:

Humilde – “adj. Que tem ou aparenta humildade, que se diminui voluntariamente: uma criatura humilde. Que denota respeito, deferência. Medíocre, baixo, obscuro: exercer funções humildes. (Usa-se como expressão de modéstia e civilidade: sou seu humilde criado.) S.m. Pessoa humilde: sempre protegeu os humildes” Dicionário online de português <http://www.dicio.com.br/humilde/>.

Naquele momento Jesus não estava falando da sua aparência física, não estava se diminuindo voluntariamente e nem estava falando das mazelas decorrentes da sua condição social ou econômica como carpinteiro. Não! Ele foi específico: – “Sou manso e humilde de coração”.

Quando Jesus declarou ser manso e humilde não estava se apresentando como alguém respeitoso, nem estava emocionalmente triste ou exercendo uma função medíocre. Não!

Quando Jesus disse ser manso e humilde estava exigindo que os homens se sujeitassem a Ele na condição de servos.

As definições de humilde que constam no dicionário online de português não se encaixam na exposição de Cristo, até porque Ele não esta se diminuindo, ou sendo respeitoso, antes estava exigindo sujeição (diminuíssem) a Ele.

Considerando o exposto no Dicionário Bíblico de Strong, vale destacar que Jesus não estava falando de suas emoções e sentimentos, como se estivesse triste, abatido, deprimido, etc., ou de sua condição socioeconômica: pobre, oprimido, etc. Ele também não está se apresentando como alguém que ‘não se levanta muito do chão’, no sentido de condição modesta e nem como alguém que foi abatido, humilhado.

Na verdade, ao se apresentar como ‘manso e humilde de coração’, Cristo reivindicou seu senhorio, dizendo: “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim…” ( Mt 11:29 ). Jesus enfatiza que é necessário tomar sobre si o seu jugo e carregar o seu fardo ( Mt 11:30 ).

No mesmo discurso em que se declara manso e humilde de coração, Jesus exige submissão e não se despoja da condição de guardião das coisas entregues pelo Pai  “Todas as coisas me foram entregues por meu Pai…” ( Mt 11:27 ). A declaração de Jesus acerca da sua mansidão e humildade se dá após demonstrar ser o único que conhece a Deus, e que só Ele pode revelar o Pai aos homens, o que demostra que a humildade de Jesus não se dá através do despojar-se do que é ou possui.

Quando Jesus diz: ‘todas as coisas me foram entregues por meu Pai’, estava se apresentado como o Filho de Deus prometido a Davi, o rebento da raiz de Jessé ( Is 11:1 -4 ; 2Sm 7:14 ).

Resta considerar um último sentido do termo apontado por Strong: ‘num mau sentido, que se comporta de forma humilhante, que se submete à servidão’. Ora, Jesus não era alguém que se comportava de modo humilhante, subserviente. Não encontramos nas Escrituras Jesus se submetendo aos homens, quem quer que eles fossem ( Mc 12:14 ; Lc 13:32 ).

Para Strong humilhar-se no mau sentido é ‘submeter-se à servidão’, mas, se olharmos para as profecias acerca do Cristo, veremos que Ele foi escolhido por Deus para ser o servo do Senhor ( Is 49:1 -6). Cristo foi nomeado ‘o Sevo do Senhor’ quando foi dito: – “Tu és o meu servo” ( Sl 49:3 ). Cristo foi formado desde o ventre para ser servo, com a missão de trazer a casa rebelde (Jacó) a Deus e ajuntar a nação escolhida (Israel). Mas, Deus não restringiu a missão de Cristo, pois ela não se limitou à casa de Israel: Cristo também foi dado por Deus como Luz para os gentios ( Is 49:6 -7).

Analisando o termo ‘humilde’ com a visão do homem do nosso tempo, é compreensível a concepção de que há um mau sentido no termo ‘humilde’ por estar associada à escravidão, à crueldade do ser humano, porém, é possível considerar que há um ‘mau sentido’ quando o termo é utilizado para indicar que o homem submeteu-se a Deus?

Vale destacar que consta nos profetas que Deus fez menção do Cristo desde a fundação do mundo. Cristo foi colocado na aljava de Deus como uma flecha limpa e fez a boca d’Ele como uma espada aguda. Flecha na aljava aponta para a filiação divina do Cristo ( Sl 127:4 -5).

Deus concede apenas aos filhos o privilégio de servirem a Ele. Ser servo de Deus é honroso, de modo que não cabe ao termo ‘humildade’ um mau sentido quanto a ser servo de Deus. O mau sentido de ‘humildade’ decorre dos eventos recentes na historia da humanidade “Como livres, e não tendo a liberdade por cobertura da malícia, mas como servos de Deus” ( 1Pd 2:16 ).

Acerca de Cristo profetizou Davi: “Sacrifício e oferta não quiseste; os meus ouvidos abriste; holocausto e expiação pelo pecado não reclamaste. Então disse: Eis aqui venho; no rolo do livro de mim está escrito. Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu; sim, a tua lei está dentro do meu coração” ( Sl 40:6 -8; Hb 10:5 -10).

Apesar das variantes nas traduções: a) ‘os meus ouvidos abriste’, e; b) ‘corpo me preparaste’, o Salmo descreve a submissão voluntária do servo do Senhor à vontade de Deus. Cristo é o servo eleito de Deus, e o Salmista descreve esta sujeição através de uma prescrição na lei de Moisés, pois o escravo que ganhava a liberdade e que quisesse continuar sujeito ao seu senhor teria a ‘orelha furada’ pelo seu senhor diante dos lideres do povo (à porta). Temos aí a figura do servo voluntário, que se sujeita ao seu senhor porque o ama e se sente bem “Então tomarás uma sovela, e lhe furarás a orelha à porta, e teu servo será para sempre; e também assim farás à tua serva” ( Dt 15:17 ).

Ao apresentar-se como manso e humilde, Jesus não estava falando acerca do que estava sentido, antes estava apontando para a sua condição. Quando Ele disse: Sou manso e humilde de coração, estava dizendo, eu sou o Servo do Senhor enviado de Deus conforme a predito nas Escrituras.

Jesus foi comissionado a ensinar aos homens as coisas de Deus, e como servo resignou-se a falar somente o que o Pai estabeleceu nas Escrituras sem nada acrescentar ou diminuir “E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito” ( Jo 12:50 ); “Disse-lhes, pois, Jesus: Quando levantardes o Filho do homem, então conhecereis quem eu sou, e que nada faço por mim mesmo; mas falo como meu Pai me ensinou. E aquele que me enviou está comigo. O Pai não me tem deixado só, porque eu faço sempre o que lhe agrada” ( Jo 8:28 -29).

O termo ‘humilde’ na fala de Jesus aponta para a condição dele como servo, no sentido de quem ‘se submete à servidão’. Segundo a visão do homem da antiguidade não há como considerar um mau sentido em ser ‘humilde’, ou seja, ser ‘servo’ de Deus. Sujeitar-se a Deus é uma honra, e estar a serviço de Deus é uma honra que ninguém toma para si se não for chamado “E ninguém toma para si esta honra, senão o que é chamado por Deus, como Arão” ( Hb 5:4 ; Is 49:3 ).

A missão do servo do Senhor era proclamar a mensagem que dá descanso e refrigério a alma “Assim diz o SENHOR: Ponde-vos nos caminhos, e vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas; mas eles dizem: Não andaremos nele” ( Jr 6:16 ); “Ao qual disse: Este é o descanso, dai descanso ao cansado; e este é o refrigério; porém não quiseram ouvir” ( Is 28:12 ).

Por intermédio de quem Deus daria descanso. Por intermédio de Cristo, a pedra provada, bem firme e fundada. Por intermédio de Cristo, o servo eleito, a paz foi concedida a todos os homens “Disse mais: Pouco é que sejas o meu servo, para restaurares as tribos de Jacó, e tornares a trazer os preservados de Israel; também te dei para luz dos gentios, para seres a minha salvação até à extremidade da terra. Para abrir os olhos dos cegos, para tirar da prisão os presos, e do cárcere os que jazem em trevas” ( Is 42:6 -7); “Portanto assim diz o Senhor DEUS: Eis que eu assentei em Sião uma pedra, uma pedra já provada, pedra preciosa de esquina, que está bem firme e fundada; aquele que crer não se apresse” ( Is 28:16 ).

Cristo é o servo do Senhor por sujeitar-se de coração à vontade do Pai: “Jesus disse-lhes: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra” ( Jo 4:34 ); “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” ( Jo 6:38 ); “Então disse: Eis aqui venho, para fazer, ó Deus, a tua vontade. Tira o primeiro, para estabelecer o segundo” ( Hb 10:9 ).

Cristo é o servo do Senhor no qual Deus teve prazer ( Is 42:1 ; Mt 3:17 ), porque Ele se resignou a fazer a vontade de Deus em todo o tempo “Dizendo: Pai, se queres, passa de mim este cálice; todavia não se faça a minha vontade, mas a tua” ( Lc 22:42 ).

O termo ‘humilde’ não se refere a uma questão de foro íntimo, pessoal, subjetivo, antes aponta para algo objetivo. A humildade decorre da sujeição a um mandamento, o mesmo que submissão, obediência, fidelidade. Sem a ordem, sem o mandamento, sem a figura do senhor que ordena, não há humildade “Sendo fiel ao que o constituiu, como também o foi Moisés em toda a sua casa” ( Hb 3:2 ).

A exortação para dar o seu melhor para Deus não contempla a humildade de Jesus, antes exalta a voluntariedade dos homens. O voluntarioso é altivo, é aquele que anula a vontade do Senhor expressa no mandamento e que realiza a própria vontade sob o argumento de que está servindo, como foi o caso do rei Uzias, que ousou entrar no templo e oferecer holocausto a Deus. Agiu guiado por intuição (carnal compreensão).

Obstinado – “authades (aúôriòriç), “que agrada a si mesmo” (formado de autos, “mesmo, próprio”, e hedomai, “agradar”), denota aquele que, dominado por interesse pessoal e em desconsideração de outros, afirma arrogantemente a própria vontade, “obstinado, rebelde, voluntarioso” Dicionário VINE.

Os filhos de Arão, Nadabe e  Abiú experimentaram as consequências da altives quando ofereceram fogo estranho ao Senhor e foram rejeitados: “E OS filhos de Arão, Nadabe e Abiú, tomaram cada um o seu incensário e puseram neles fogo, e colocaram incenso sobre ele, e ofereceram fogo estranho perante o SENHOR, o que não lhes ordenara” ( Lv 10:1 ); “Mas, havendo-se já fortificado, exaltou-se o seu coração até se corromper; e transgrediu contra o SENHOR seu Deus, porque entrou no templo do SENHOR para queimar incenso no altar do incenso” ( 2Cr 26:16 ).

A forma em que Davi fez a condução da arca da aliança exala a voluntariedade, o que trouxe a punição divina, mas a correção de atitude segundo a lei é submissão: “E temeu Davi ao SENHOR naquele dia; e disse: Como virá a mim a arca do SENHOR?” ( 2Sm 6:9 ).

Ao despir-se da sua gloria para ser introduzido no mundo, no Verbo de Deus houve prontidão de vontade, pois tinha autonomia de fazê-Lo. Mas, após se fazer homem, ou seja, achado na forma de servo, o Verbo eterno não foi voluntarioso propondo sacrifício ou oferta a Deus ( Hb 10:5 ; Hb 5:4 -5), antes resignou-se a obedecer tudo o que foi prescrito pelo Pai ( Hb 10:9 ).

Fl 2.7-8

A obediência é sacrifício agradável, é a disposição em resignar-se a cumprir a determinação de Deus. Para compreendermos o valor da obediência e do voluntarioso, é necessário observar o crente Abraão quando teve que apresentar o seu único filho em holocausto em obediência a Deus. Abraão não queria sacrificar o seu único filho, mas seguiu para o monte Moriá em obediência. O que estava sendo posto à prova no holocausto de Isaque era a obediência de Abraão, e não a sua voluntariedade “Porém Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” ( 1Sm 15:22 ).

Voluntariedade é uma disposição do homem em agradar a Deus através do que possui ou representa, mas o homem só agrada a Deus quando obedece à sua palavra. É Deus quem estabelece o que é agradável a Ele.

A humildade é condição de quem se sujeita ao Senhor como servo:

“Isto está claro em passagens como o Sl 86, onde Davi confessa que, embora ele seja o rei de Israel, ele é humilde (santo) e que, embora desfrute das riquezas do reino, ele é necessitado (confia em Deus). Com base nestas condições espirituais, ele ora pela resposta do concerto de Deus: “Guarda a minha alma, pois sou santo; ó Deus meu, salva o teu servo, que em ti confia” (Sl 86.2). As bênçãos buscadas são eternas (Sl 86.11-13) e temporais (Sl 86.14-17)” Dicionário VINE.

Embora a identificação do paralelismo seja perfeita, contudo a observação de Vine não se refere ao rei Davi, antes o Salmo 86 é messiânico, uma profecia acerca do filho de Davi – Cristo.  Como rei na sua primeira vinda, Cristo é o pobre (humilde) e necessitado (confia em Deus).

A condição ‘pobre’ e ‘necessitado’ não é de bens materiais. São figuras extraídas da lei, pois Deus deixou a sua casa como abrigo dos pobres e necessitados ( Dt 26:12 ), referência de socorro e subsistência. Os termos apontam para aquele humilde (separado como servo) porque é necessitado (confia em Deus).

O servo (humilde) é santo (fiel) e pede que o seu Senhor guarde a sua alma, livrando-a do poder da morte ( Sl 86:13 ).

 

Manso

Semelhantemente, na declaração: ‘Sou manso e humilde de coração’ o termo ‘manso’ na frase em comento não é uma questão de foro íntimo, subjetiva, antes possui valor objetivo. A ‘mansidão’ de Cristo não decorre da relação com o próximo, mas da relação entre Ele e o Pai.

“praütes ou p ra o /e s, forma mais antiga (TTpaúrriç ou Tipaoníç) denota “mansidão”. Em seu uso na Escritura, no qual tem um significado mais extenso que nos escritos gregos seculares, não consiste só no “comportamento exterior da pessoa; nem ainda em suas relações para com o próximo; tampouco na sua mera disposição natural (…) está relacionado de perto com a palavra tapeinophrosune [humildade], e resulta diretamente dela (E f 4.2; Cl 3.12; cf. os adjetivos na Septuaginta em S f 3.12, ‘humilde e pobre’); […] é somente o coração humilde que também é manso, e o qual, como tal, não luta contra Deus e mais ou menos se debate e combate com Ele (…) O significado de praütes “não é expresso prontamente em nosso idioma, pois os termos mansidão, brandura, comumente usados, sugerem fraqueza e pusilanimidade em maior ou menor extensão, ao passo que praütes não diz nada disso. Não obstante, é difícil encontrar uma tradução menos aberta à objeção que ‘mansidão’; gentileza’ foi sugerido. Mas como praütes descreve uma condição da mente e coração, e visto que ‘gentileza’ é apropriada preferivelmente para ações, esta palavra não é melhor que a outra. Deve ser entendido claramente que a mansidão manifestada pelo Senhor e recomendada para o crente c o fruto de poder. A suposição comum é que quando o homem é manso, é porque ele não pode se ajudar; mas o Senhor era ‘manso’ porque Ele tinha os recursos infinitos de Deus à Sua disposição” Dicionário VINE.

Da relação, Senhor e Servo estabelecida entre o Pai e o Filho, decorre a condição ‘manso’ do Filho, e como Deus quer salvar todos os homens, a submissão do servo proporciona aos homens a graça da redenção.

Competia ao Servo do Senhor substituir a desobediência de Adão pela obediência para que, pela obediência do Servo do Senhor, muitos possam ser feitos justos “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” ( Rm 5:19 ).

Para compreender a declaração de Cristo, vale destacar novamente que, no contexto, Jesus havia acabado de declarar que ‘Todas as coisas me foram entregues pelo meu Pai’. A qualidade de ‘manso’ se dá pelo poder investido pelo Pai no Filho, o Servo que se sujeitou a vontade do Pai em tudo “Sairei na força do Senhor DEUS, farei menção da tua justiça, e só dela” ( Sl 71:16 ).

O Filho é manso mesmo quando propõe seu senhorio aos homens, ele é manso mesmo quando a sua linguagem parece ser rude, como se lê na parábola dos trabalhadores contratados em horários diferentes “Ou não me é lícito fazer o que quiser do que é meu? Ou é mau o teu olho porque eu sou bom?” ( Mt 20:15 ).

Só é possível compreender a declaração de Cristo como ‘manso’ quando se compreende a total sujeição de Cristo a Deus, mesmo Deus entregando todas as coisas a Cristo “Sou como um prodígio para muitos, mas tu és o meu refúgio forte” ( Sl 71:7 ).

O termo grego traduzido por ‘entregue’ é παραδιδωμι, transliterado paradidomi, significa:

“1) entregar nas mãos (de outro), 2) transferir para a (própria) esfera de poder ou uso, 2a) entregar a alguém algo para guardar, usar, cuidar, lidar” Dicionário Bíblico de Strong.

Ao convidar os homens sobrecarregados e cansados em decorrência de um jugo duro e do fardo pesado que levam, Jesus prometeu alivio aos que se sujeitam a Ele. O convite expressa o poder de um Senhor que oferece um jugo suave e um fardo leve aos seus servos. Ele demonstra ter o poder de livrar qualquer homem da opressão e do cansaço do jugo do pecado, desde que se submeta ao seu senhorio.

As Escrituras testificam de Cristo ( Jo 5:39 ), apresentando dois aspectos pertinente àquele que declarou: – “Sou manso e humilde de coração”: a) era o Servo do Senhor, porque se sujeitou a vontade do Pai ( Sl 40:8 ), b) e Rei, porque todas as coisas foram entregues a Ele pelo Pai;

O Servo do Senhor foi descrito por Isaias como prudente e, quando exaltado, elevado e mui sublime: rei “Eis que o meu servo procederá com prudência; será exaltado, e elevado, e mui sublime” ( Is 52:13 ); “Aumentarás a minha grandeza, e de novo me consolarás” ( Sl 71:21 ).

Este mesmo Servo trouxe um conhecimento específico, de modo que demanda por parte dos homens aprenderem este conhecimento e, em contra partida, serem aliviados de suas iniquidades, pois o jugo e a carga que pesa sobre os homens, o Servo do Senhor levou sobre si “Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles levará sobre si” ( Is 53:11 ).

O conhecimento das Escrituras é imprescindível para que os homens entendam, assim como as criancinhas que estavam no templo, que Cristo é aquele que veio em nome do Senhor: – “Hosana ao que vem em nome do Senhor” ( Mt 21:15 ), e lembrar do profetizado por Zacarias: “Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém; eis que o teu rei virá a ti, justo e salvo, pobre, e montado sobre um jumento, e sobre um jumentinho, filho de jumenta” ( Zc 9:9 ). Diante deles não estava um profeta, mas o filho de Davi, o rei de Israel, o Filho de Deus ( Mt 16:13 -14).

É um equivoco considerar que Jesus era manso no sentido de possuir um gênio submisso aos homens. Ele era manso por enfatizar a autoridade do Pai como servo. A autoridade que viam em Jesus decorria do seu ensino e, diferente dos escribas que transtornavam o mandamento de Deus, Cristo cumpriu o mando do Pai “Porquanto os ensinava como tendo autoridade; e não como os escribas” ( Mt 7:29 ); “E admiravam a sua doutrina porque a sua palavra era com autoridade” ( Lc 4:32 ).

O termo grego traduzido por manso é:

“4239 πραυς praus aparentemente, palavra primária, ver 4235; TDNT – 6:645,929; adj1) gentileza, bondade de espírito, humildade” Dicionário Bíblico de Strong

O termo hebraico traduzido por manso é:

“06035 anav ou [pela combinação com 6041] עניו anayv procedente de 6031; DITAT – 1652a; n. m. 1) pobre, humilde, aflito, manso 1a) pobre, necessitado 1b) pobre e fraco 1c) pobre, fraco e aflito 1d) humilde, modesto, manso” Dicionário Bíblico de Strong

A definição de ‘manso’ que consta dos dicionários não é o que Jesus enfatizou ao dizer: – “Sou manso e humilde de coração”. Cristo era ‘manso’ não no sentido de ser pobre, aflito, fraco, modesto, etc., mas em função da maneira em que, como Servo do Senhor cumpria a sua missão.

Os homens reputaram o Cristo como aflito e ferido de Deus, no entanto, o Cristo estava sendo manso, ou seja, não lançou mão das prerrogativas que possuía antes de ser encarnado, e nem antecipou as prerrogativas que receberia ao ser glorificado pelo Pai ‘… e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido’ ( Is 53:4 ).

O termo não deve ser compreendido do ponto de vista moral ou socioeconômico e nem como autocontrole.

No texto a seguir muitos veem autocontrole, mas nele fica estampada a obediência: “E aconteceu que, completando-se os dias para a sua assunção, manifestou o firme propósito de ir a Jerusalém. E mandou mensageiros adiante de si; e, indo eles, entraram numa aldeia de samaritanos, para lhe prepararem pousada, Mas não o receberam, porque o seu aspecto era como de quem ia a Jerusalém. E os seus discípulos, Tiago e João, vendo isto, disseram: Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma, como Elias também fez? Voltando-se, porém, repreendeu-os, e disse: Vós não sabeis de que espírito sois. Porque o Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las. E foram para outra aldeia” ( Lc 9:51 -56).

A orientação de Cristo aos discípulos vai além da ideia de autocontrole, pois deveriam identificar, compreender, a que espirito pertenciam, portanto, deviam se ater à missão recebida “Porque o Filho do homem veio salvar o que se tinha perdido” ( Mt 18:11 ).

Como servo do Senhor, Jesus é o majestoso salvador que cavalgou prosperamente pela causa da verdade, mansidão e da justiça, e como Ele punha a confiança em Deus, Deus ensinou a Ele coisas terríveis “E neste teu esplendor cavalga prosperamente, por causa da verdade, da mansidão e da justiça; e a tua destra te ensinará coisas terríveis” ( Sl 45:4 ); “Tenho posto o SENHOR continuamente diante de mim; por isso que ele está à minha mão direita, nunca vacilarei” ( Sl 16:8 ).

Jesus era manso porque nada realizou entre os homens que promovesse uma glória própria. Apesar de o Pai entregar a Ele todas as coisas, tudo o que realizou visava a glória do Pai “Pai, glorifica o teu nome. Então veio uma voz do céu que dizia: Já o tenho glorificado, e outra vez o glorificarei” ( Jo 12:28 ).

Cristo não promoveu a si mesmo buscando honra e glória ( Jo 8:50 ), tudo o que falou restringia-se ao mandamento que o pai determinou que falasse “Porque eu não tenho falado de mim mesmo; mas o Pai, que me enviou, ele me deu mandamento sobre o que hei de dizer e sobre o que hei de falar. E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito” ( Jo 12:49 -50).

Através do paralelismo antitético do provérbio: “Melhor é ser humilde de espírito com os mansos, do que repartir o despojo com os soberbos” ( Pv 16:19 ), em que ‘humilde de espírito’ é condição oposta a ‘soberbo’, verifica-se que o manso não visa lucro no exercício do seu mister, diferente dos soberbos querem o despojo “Por que, pois, não deste ouvidos à voz do SENHOR, antes te lançaste ao despojo, e fizeste o que parecia mau aos olhos do SENHOR?” ( 1Sm 15:19 ).

Apesar de ser herdeiro de todas as coisas e ter o poder de fazer todas as coisas assim como o Pai, Cristo abriu mão de qualquer ação autônoma “Mas Jesus respondeu, e disse-lhes: Na verdade, na verdade vos digo que o Filho por si mesmo não pode fazer coisa alguma, se o não vir fazer o Pai; porque tudo quanto ele faz, o Filho o faz igualmente” ( Jo 5:19 ).

Ser manso é ter o poder de realizar ou de se vingar, mas resignar-se a cumprir estritamente a vontade do seu Senhor. É ter à mão doze legiões de anjos, e não fazer uso do recurso por preocupar-se com a palavra do seu Senhor “Ou pensas tu que eu não poderia agora orar a meu Pai, e que ele não me daria mais de doze legiões de anjos? Como, pois, se cumpririam as Escrituras, que dizem que assim convém que aconteça?” ( Mt 26:53 -54).

Ora, temos registrado nas Escrituras que Moisés foi o homem mais ‘manso’ da terra ( Nm 12:3 ). O termo manso (עָנָו anav) refere-se a um sentimento ou a uma virtude? O termo não aponta para questões do sentimento e nem da moral!

“Em sua primeira ocorrência a palavra descreve a condição objetiva como também a postura subjetiva de Moisés. Ele era completamente dependente de Deus e via o que era: ‘E era o varão Moises mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra’ (Nm 12.3)” Dicionário VINE.

“06035 עָנָו anav ou [pela combinação com 6041] עניו anayv procedente de 6031; DITAT – 1652a; n. m. 1) pobre, humilde, aflito, manso 1a) pobre, necessitado 1b) pobre e fraco 1c) pobre, fraco e aflito 1d) humilde, modesto, manso” Dicionário Bíblico Strong

Em nossos dias não é aprovado como manso um homem que lança mão de um homem para mata-lo ( Ex 2:12 ). Alguém gentil pode ser severo, pesado ao falar? ( Ex 4:10 ) Como o homem mais manso fica irado a ponto de arremessar e quebrar as tábuas dos mandamentos? ( Ex 32:19 )

As Escrituras designam Moisés como mui manso porque ele não defendia a sua causa ou posição, antes deixava a cargo de Deus defende-Lo. Por várias vezes o profeta Moisés foi desafiado por seus irmãos segundo a carne, e em nenhuma delas Moisés utilizou da autoridade concedida para vindicar a sua posição.

Miriam e Arão confabularam contra Moisés, e Deus interveio ( Nm 12:1 ). Eles até poderiam censurar Moisés por ter tomado para si uma mulher cusita, mas não tinham o direito de contestar o ministério e a autoridade de Moisés com base em uma questão familiar ( Nm 12:2 ); “A Deus não amaldiçoarás, e o príncipe dentre o teu povo não maldirás” ( Êx 22:28 ).

O povo revoltou-se contra Moisés e queriam eleger um líder que os conduzisse de volta ao Egito ( Nm 14:4 ). Moisés poderia se impor sobre o povo como líder, no entanto, ele se voltou para Deus se prostrando como servo ( Nm 14:5 ). Apesar de estar investido de poder sobre a casa de Deus, Moisés evidencia a força de Deus ( Nm 14:17 -19).

Coré, Datã e Abirão, juntamente com duzentos e cinquenta príncipes do povo, se opuseram a Moisés contestando a sua autoridade sob o argumento de que toda a congregação era santa ( Nm 16:3 ), e Moisés nada argumentou em seu favor. Apesar da ira que lhe sobreveio, porque nunca havia defraudado a nenhum dos filhos de Coré, Datã e Abirão ( Nm 16:15 ), deixou a cargo de Deus evidenciar quem era o escolhido para conduzir o povo ( Nm 16:28 ).

Por ser mui manso, Moisés fez com que os filhos de Israel apresentassem segundo o número de suas tribos doze varas. Após serem identificadas com os nomes das tribos, as varas foram deixadas de um dia para o outro na tenda da congregação, e no dia seguinte a vara de Arão havia florescido, as flores desabrocharam e produziam amêndoas ( Nm 17:8 ).

A Bíblia descreve Moisés como ‘mui’ manso. O termo hebraico traduzido por ‘mui’ é מְאֹ֑ד, significando:

“1) extremamente, muito subst. 2) poder, força, abundância n m 3) grande quantidade, força, abundância, extremamente 3a) força, poder 3b) extremamente, grandemente, muito (expressões idiomáticas mostrando magnitude ou grau) 3b1) extremamente 3b2) em abundância, em grau elevado, excessivamente 3b3) com grande quantidade, grande quantidade” Dicionário Strong.

Se comparado aos outros homens, Moisés era muito manso, e não foi nomeado ‘manso’, o que indicaria uma condição plena, porque certa feita, em lugar de obedecer a palavra do Senhor e falar a rocha, feriu a rocha duas vezes, de modo que não evidenciou ao povo quem lhes deu água a beber da rocha ( Nm 20:11 -12).

Cristo por sua vez apresenta-se manso e humilde, condição que O habilita a ensinar os seus ouvintes o conhecimento que lhes dará descanso “Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles levará sobre si” ( Is 53:11 ).

Jesus não se defendeu, antes confiou inteiramente no Pai “Pois tu tens sustentado o meu direito e a minha causa; tu te assentaste no tribunal, julgando justamente” ( Sl 9:4 ); “O qual, quando o injuriavam, não injuriava, e quando padecia não ameaçava, mas entregava-se àquele que julga justamente” ( 1Pd 2:23 ).

Quando Jesus foi incisivo, a intervenção visou a causa do Pai, como podemos ver quando Ele expulsou os cambistas da casa do Pai, mas em tal evento ele permaneceu manso “E disse aos que vendiam pombos: Tirai daqui estes, e não façais da casa de meu Pai casa de venda. E os seus discípulos lembraram-se do que está escrito: O zelo da tua casa me devorará” ( Jo 2:16 -17).

Da mesma forma, Cristo, como Filho sobre a sua própria casa, foi um servo gentil, obediente, conforme o expresso nas Escrituras: “Quem é cego, senão o meu servo, ou surdo como o meu mensageiro, a quem envio? E quem é cego como o que é perfeito, e cego como o servo do SENHOR?” ( Is 42:19 ).

Quem é cego, surdo e perfeito? A resposta está no verso 1: “EIS aqui o meu servo, a quem sustenho, o meu eleito, em quem se apraz a minha alma; pus o meu espírito sobre ele; ele trará justiça aos gentios” ( Is 42:1 ).

Ser cego, surdo e perfeito aponta para condição, e não para questões circunstanciais como a emoção ou o sentimento. Cristo é o servo do Senhor em quem Deus se apraz. E Jesus foi ungido com o espírito do Senhor porque, como servo, tinha que tirar da prisão os presos “Eu, o SENHOR, te chamei em justiça, e te tomarei pela mão, e te guardarei, e te darei por aliança do povo, e para luz dos gentios. Para abrir os olhos dos cegos, para tirar da prisão os presos, e do cárcere os que jazem em trevas” ( Is 42:6 -7).

Quando Jesus disse: “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim…”, estava anunciando as boas novas de salvação. Qualquer que se fizesse servo de Cristo, ou seja, tomasse sobre si o jugo de Cristo, aprenderia d’Ele, o servo (humilde) gentil (manso) de coração, consequentemente, tais pessoas encontrariam o descanso prometido por Deus.

Jesus não disputava uma cadeira na galeria dos humildes que a humanidade elegeu para si com pessoas como Ghandi, Madre Paulina, Madre Tereza de Calcutá, etc. Quando Jesus disse: “… sou manso e humilde de coração…” ( Mt 11:29 ), estava se apresentando aos seus ouvintes como Aquele que se submeteu a vontade do Pai como servo, ungido (escolhido, eleito) a pregar boas novas que dá liberdade aos cativos “O ESPÍRITO do Senhor DEUS está sobre mim; porque o SENHOR me ungiu, para pregar boas novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos; A apregoar o ano aceitável do SENHOR e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes” ( Is 61:1 -2).

  • Jesus continuou sendo o servo do Senhor quando disse: “… sou manso e humilde de coração…” ( Mt 11:29 ).
  • Jesus continuou manso e humilde quando expulsou os cambistas do templo (Jo 2:15 ).
  • Jesus não deixou de ser humilde quando se apresentou como o ‘Eu Sou’ que existia antes mesmo que Abraão existisse “Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou” ( Jo 8:58 ).
  • Jesus continuou humilde após se apresentar a Pilatos “Disse-lhe, pois, Pilatos: Logo tu és rei? Jesus respondeu: Tu dizes que eu sou rei. Eu para isso nasci, e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz” ( Jo 18:37 ).
  • Jesus não perdeu a humildade após se declarar Mestre e Senhor “Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou” ( Jo 13:13 ).
  • Ao dizer ser o Filho de Deus, Jesus não faltou com a verdade e nem perdeu a sua condição de humilde, pois continuou sendo o servo (ταπεινος tapeinos) do Senhor “Àquele a quem o Pai santificou, e enviou ao mundo, vós dizeis: Blasfemas, porque disse: Sou Filho de Deus?” ( Jo 10:36 ).
  • Mesmo após dar testemunho de Si mesmo, Cristo continuou sendo o servo do Senhor, ou seja, humilde e manso de coração “Eu sou o que testifico de mim mesmo, e de mim testifica também o Pai que me enviou” ( Jo 8:18 ).
  • Cristo, o Verbo eterno se esvaziou a si mesmo ao tomar a forma de servo se fazendo semelhante aos homens “Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens” ( Fl 2:7 ). Mas, tomar a forma de servo não é o mesmo que ser servo. Porém, Cristo após se achar na forma de servo, ou seja, semelhante aos homens, humilhou-se a si mesmo sendo obediente até a morte “E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz” ( Fl 2:8 ).

Tomar a forma de servo é se fazer homem, mas ser servo (humilhar a si mesmo) é obedecer.

Onde está o segredo da humildade? Na obediência! Ao obedecer a vontade do Pai resignando-se a morrer na cruz, Cristo humilhou-se a si mesmo fazendo-se servo.

Além de Cristo humilhar a si mesmo se fazendo servo apresentando-se como cordeiro sobre a cruz, os seus algozes negaram-lhe um julgamento justo “Na sua humilhação foi tirado o seu julgamento; E quem contará a sua geração? Porque a sua vida é tirada da terra” ( At 8:33 ; Is 53:8 ).

O que se depreende da frase em comento, como do livro ‘Humildade – A Beleza da Santidade’, ambos produzidos pelo Pr. Andrew Murray é que ele não compreendeu o que é humildade do ponto de vista bíblico.

 

Quem se humilha será exaltado

Em dois momentos que Jesus censurou os escribas e fariseus, foi dito: “E o que a si mesmo se exaltar será humilhado; e o que a si mesmo se humilhar será exaltado” ( Mt 23:12 ; Lc 18:14 ).

O texto não diz que os cristãos são aqueles que são humilhados, no sentido de serem desprezados. Jesus enfatizou que aquele que se humilha é que será exaltado, ou seja, se humilha aquele que se sujeita a Deus “Humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus, para que a seu tempo vos exalte” ( 1Pd 5:6 ).

À época de Cristo um homem livre estava na mais alta posição, se contrastada a sua condição social com a de um escravo. Como alguém poderia ‘humilhar’ a si mesmo? Se fazendo servo!

Como se humilhar a si mesmo do ponto de vista bíblico? Se fazendo servo de Deus. E como tornar-se servo de Deus? Obedecendo a sua ordem? E qual a sua ordem? Que creiais naquele que Ele enviou.

“Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 );

“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ).

Daniel foi um homem que se humilhou diante de Deus. Como? Primeiro ele se aplicou a compreender o que o profeta Jeremias havia profetizado (Dn 9:2 ), e ao querer colocar em prática o que compreendeu, estava se humilhando, ou seja, se fez servo de Deus “Então me disse: Não temas, Daniel, porque desde o primeiro dia em que aplicaste o teu coração a compreender e a humilhar-te perante o teu Deus, são ouvidas as tuas palavras; e eu vim por causa das tuas palavras (…) Mas eu te declararei o que está registrado na escritura da verdade” (Dn 10:12 e 21).

Já o rei Belsazar, apesar de saber tudo o que o seu pai, o rei Nabucodonosor, passou por não reconhecer que Deus é o Altíssimo, não se fez servo de Deus “E tu, Belsazar, que és seu filho, não humilhaste o teu coração, ainda que soubeste tudo isto” ( Dn 5:22 ).

O servo do Senhor não pode ter a iniciativa de falar de si mesmo, antes deve seguir o exemplo do apóstolo Paulo: “Porque não ousarei dizer coisa alguma, que Cristo por mim não tenha feito, para fazer obedientes os gentios, por palavra e por obras” ( Rm15:18 ). Para fazer os gentios obedientes, o apóstolo Paulo não ousou falar coisa alguma que Cristo não houvesse feito por intermédio do apóstolo.

Cristo como servo falou as palavras de Deus conforme Deus havia estabelecido sem alterá-la em nada “Disse-lhes, pois, Jesus: Quando levantardes o Filho do homem, então conhecereis quem eu sou, e que nada faço por mim mesmo; mas falo como meu Pai me ensinou” ( Jo 8:28 ). E porque Jesus teve o cuidado de falar conforme o Pai ensinou? Porque Ele sabia que o mandamento de Deus é a vida eterna, e alterar o mandamento de Deus produz morte “E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito” ( Jo 12:50 ).

Ao crer em Cristo o apóstolo Paulo se humilhou a si mesmo, pois se fez servo de Cristo. Ao perseverar anunciando o evangelho tal qual aprendeu, o apóstolo permanecia na posição de servo, pois somente anunciando tal qual aprendeu os outros seriam exaltados “Pequei, porventura, humilhando-me a mim mesmo, para que vós fôsseis exaltados, porque de graça vos anunciei o evangelho de Deus?” ( 2Co 11:7 ).

Obediência estrita ao conteúdo do evangelho é a essência da auto humilhação, e não questão de caráter, como aponta Murray: “Vamos estudar o caráter de Cristo até nossa alma estar cheia de amor e admiração por Sua humildade” Andrew Murray, Série Riquezas de Cristo – Humildade – A Beleza da Santidade, Título do original em inglês: Humility – The BeautyofHoliness © 1994 Christian LiteratureCrusade, EUA © 2000 CCC Edições; Tradução: Alessandra Schmitt Mendes.

Obediência não diz de um feitio moral, senão o reino de Deus estaria vetado às meretrizes e publicanos. ‘Obediência’ ou ‘se fazer servo’ está em que se faça o que foi determinado, como se lê: “Mas, que vos parece? Um homem tinha dois filhos, e, dirigindo-se ao primeiro, disse: Filho, vai trabalhar hoje na minha vinha. Ele, porém, respondendo, disse: Não quero. Mas depois, arrependendo-se, foi. E, dirigindo-se ao segundo, falou-lhe de igual modo; e, respondendo ele, disse: Eu vou, senhor; e não foi. Qual dos dois fez a vontade do pai? Disseram-lhe eles: O primeiro. Disse-lhes Jesus: Em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no reino de Deus. Porque João veio a vós no caminho da justiça, e não o crestes, mas os publicanos e as meretrizes o creram; vós, porém, vendo isto, nem depois vos arrependestes para o crer” ( Mt 21:28-32).

A Bíblia apresenta a desobediência de Adão como a ofensa contra Deus que trouxe a queda da humanidade e a obediência de Cristo como causa da justificação, de modo que a salvação é substituição de ato, obediência pela desobediência “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” ( Rm 5:19 ).

Por não compreender que a humildade de Cristo teve relação exclusiva com o fato de Ele ser o servo obediente é que surgem colocações como: “Cristo é a humildade de Deus incorporada na natureza humana: o Amor Eterno humilhando-se a Si mesmo, revestindo-se com as vestes da mansidão e da bondade para vencer, e servir e nos salvar. Como o amor e condescendência de Deus fazem Dele o benfeitor, e auxiliador e servo de todos, assim, Jesus, por necessidade, se tornou a Humildade Encarnada. E, assim, mesmo no centro do trono, Ele é o manso e humilde Cordeiro de Deus” Idem.

Cristo foi humilde porque se sujeitou a Deus como servo. Mas, a quem o Altíssimo se sujeitaria para ser humilde? Há humildade em Deus? Deus deixou de ser bom (ἀγαθός agathos)? Ora, o predicativo ‘bom’ quando aplicado a Deus significa aquele que é superior, de cima, nobre, em contrate com aqueles que são de baixo, ralé, inferiores, significado que não contempla a ideia do homem do nosso tempo que acha que Deus é bonzinho, condescendente, etc. “E ele disse-lhe: Por que me chamas bom? Não há bom senão um só, que é Deus. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos” ( Mt 19:17 ).

“18 αγαθοςagathos uma palavra primitiva; TDNT 1:10,3; adj 1) de boa constituição ou natureza. 2) útil, saudável 3) bom, agradável, amável, alegre, feliz 4) excelente, distinto 5) honesto, honrado” Strong

Por não compreender que o termo ‘humildade’ na Bíblia faz parte de uma linguagem utilizada para se fazer compreender diante dos homens à época, ou seja, homens que não pertencem ao nosso tempo, é que o Pr. Murray fez a seguinte colocação: “É nesse estado de mente, nesse espírito e disposição, que a redenção de Cristo tem sua virtude e eficácia. É para trazer-nos para essa disposição que somos feitos participantes de Cristo. Esta é a verdadeira abnegação, para a qual nosso Salvador nos chama: o reconhecimento de que o ego não tem nada de bom em si mesmo, exceto como um recipiente vazio que Deus tem de preencher, e de que sua pretensão de ser ou fazer qualquer coisa não deve, nem por um momento, ser permitida. É nisto, acima e antes de todas as coisas, que consiste a conformidade com Jesus: nada ser e nada fazer de nós mesmos, para que Deus seja tudo” Idem.

Sendo Cristo o ente santo gerado de Deus, em tudo semelhante aos homens, significa que o seu ego não tinha nada de bom em si mesmo? E os que crêem em Cristo, portanto, gerados de novo participantes da natureza divina, não possuem nada de bom no ego?

Cristo era participante da natureza do seu Pai, Ele era bom porque seu Pai é bom. Primeiro era ‘bom’ no sentido de ‘bem nascido’, ‘distinto’, ‘nobre’, segundo, porque Cristo era benevolente.

É um erro entender que o mal decorre do ego do indivíduo, pois o mau se instalou no homem decaído por causa da barreira de separação (pecado) que alienou o homem de Deus, o bom e o bem supremo. O conhecimento do bem e do mal que tornou o homem como Deus não é a causa do mau, portanto, não se deve afirmar que o ego não tem nada de bom em si mesmo.

Leia a seguinte definição de Ego:

“Ego é termo da psicanálise que aponta para o eu de cada indivíduo, a essência da personalidade. A principal função do ego é harmonizar os desejos com a realidade, e depois harmonizar os desejos e a realidade com as exigências presentes nos valores da sociedade. O ego define a personalidade, filtrando os conteúdos do inconsciente impedido que passem para o campo da consciência” Teoria psicanalítica  < http://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_psicanal%C3%ADtica > Consulta realizada em 17/03/2014.

Tudo que o homem é e realiza possui relação com o ego. Mesmo o salvo tem ego, pois Deus jamais anula o indivíduo, mesmo após o evento do novo nascimento. O ego faz parte da massa, que Deus, o oleiro, tem poder para fazer vasos para honra. O ego não é sinônimo de altivez, orgulho, etc. Não há como falar em homem se não considerarmos o ego. Se excluir o ego do homem, o homem deixa de ser homem.

O Pr. Murray chegou a conclusão de que Cristo negou o seu ego após listar alguns versos onde aparece o advérbio de negação ‘não’, como se vê:

“O Filho nada pode fazer de Si mesmo” ( Jo 5:19 ); “Eu nada posso fazer de Mim mesmo (…) O Meu juízo é justo, porque não procuro a Minha própria vontade” (v. 30); “Não aceito glória que vem dos homens” (v. 41); “Eu desci do céu, não para fazer a Minha própria vontade” ( Jo 6:38 ); “O Meu ensino não é Meu” (Jo 7:16 ); “Não vim de Mim mesmo” (v. 28); “Nada faço por Mim mesmo” (Jo 8:28 ); “Não vim de Mim mesmo, mas Ele Me enviou” ( Jo 8:42 ); “Eu não procuro a Minha própria glória” (v. 50); “As palavras que Eu vos digo, não as digo por Mim mesmo” ( Jo 14:10 ); “A palavra que estais ouvindo não é Minha” (v. 24).

A análise de um psicólogo com base nestes versículos daria a ideia de que Jesus estava negando o seu ego, porém, o que dizer dos versos em que Ele enfatiza o ‘Eu’?

“E Jesus lhes disse: Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome, e quem crê em mim nunca terá sede” ( Jo 6:35 ); “E dizia-lhes: Vós sois de baixo, eu sou de cima; vós sois deste mundo, eu não sou deste mundo” ( Jo 8:23 ); “Por isso vos disse que morrereis em vossos pecados, porque se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados” ( Jo 8:24 ); “Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou” ( Jo 8:58 ); “Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens” ( Jo 10:9 ); “Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas” ( Jo 10:11 ); “Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” ( Jo 11:25 ); “Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” ( Jo 15:5 ); “Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou” ( Jo 13:13 ).

Após ler estes versos, seria Jesus narcisista?

Que dizer das seguintes palavras:

“Elas mostram o que Cristo considerou como o estado de coração que Lhe cabia como o Filho do Pai. Elas nos ensinam o que são a natureza e vida essenciais dessa redenção que Cristo cumpriu e agora transmite. É isto: Ele não era nada para que Deus fosse tudo. Ele renunciou a Si mesmo totalmente, com Sua vontade e Suas forças, para que o Pai trabalhasse Nele. De Seu próprio poder, Sua própria vontade, Sua própria glória, de toda a Sua missão com todas as Suas obras e Seu ensinamento — de tudo isso, Ele disse: “Não sou Eu, não sou nada. Eu Me dei totalmente ao Pai para trabalhar; não sou nada, o Pai é tudo”” Idem.

Jesus não disse as palavras acima, ou buscou apregoar a ideia expressa pelo Pr. Murray. Ora, João Batista foi quem procurou se diminuir, e não Cristo “É necessário que ele cresça e que eu diminua” ( Jo 3:30 ).

Cristo não disse que não era nada, antes Ele disse: “Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” ( Jo 15:5 ). Jesus não disse ‘eu me dei totalmente ao pai para trabalhar, antes Ele disse: “E Jesus lhes respondeu: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também” ( Jo 5:17 ).

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