Jesus veio por água e sangue

Jesus ter vindo por ‘água’, decorre do fato de Ele ter sido gerado por Deus, de modo sobrenatural, ou seja, o ente Santo que foi concebido no ventre de Maria, formado pelo Espírito Santo, segundo o poder incompreensível (sombra) de Deus.


Jesus veio por água e sangue

“Este é aquele que veio por água e sangue, isto é, Jesus Cristo; não só por água, mas por água e por sangue. E o Espírito é o que testifica, porque o Espírito é a verdade.” (1 Jo 5:6)

 

Introdução

Da asserção ‘Este é aquele que veio por água e sangue’, depreende-se do texto que o apóstolo João fez referência ao Verbo de Deus que, na plenitude dos tempos, se fez carne e habitou entre os homens. (Lc 2:27-32; Jo 1:9-10; Hb 10:5; 1 Jo 1:1)

Mas, qual verdade o discípulo amado queria evidenciar, quando destacou o fato de Jesus não ter vindo somente por ‘água’, mas por ‘água’ e ‘sangue’? Que posicionamento doutrinário o apóstolo amado estava defendendo, ao rechaçar o ataque dos anticristos? O que representam as figuras ‘água’ e ‘sangue’, em conexão com a vinda de Jesus, em carne?

A abordagem do evangelista João tem por objetivo combater algumas heresias que surgiram no seio das primeiras comunidades cristãs, já no primeiro século. Devemos lembrar que as primeiras heresias que os apóstolos enfrentaram, foram introduzidas nas igrejas por judeus que se diziam convertidos ao cristianismo, pseudocrístãos, que exigiam que os novos  convertidos, dentre os gentios, se submetessem ao rito da circuncisão. (At 15:1-5).

Dentre os judaizantes, surgiram os ‘ebionitas’, grupo essencialmente farisaico, pois insistia em guardar a lei de Moisés, através de ritos como circuncisão, guarda do sábado e vegetarianismo. Esse grupo de judaizantes negava a divindade de Cristo e o seu nascimento virginal e que Jesus se distinguia dos outros homens, somente pela observância da lei.

Havia o segmento judaizante oriundo dos saduceus, que negava a ressurreição dos mortos, o que foi fortemente combatido pelo apóstolo Paulo. (1 Co 15:12)

“Porque os saduceus dizem que não há ressurreição, nem anjo, nem espírito; mas os fariseus reconhecem uma e outra coisa.” (At 23:8)

Surgiram, também, os elquesaítas, outro tipo de judaísmo que misturava especulações teosóficas e ascetismo. Eles rejeitavam o nascimento virginal de Cristo e alegavam que Jesus seria um mensageiro, profeta, espírito ou ser angelical, sem falar na prática da circuncisão e do sábado.

Por influencia de algumas filosofias, surgiram movimentos que desaguaram no gnosticismo e passaram a fazer distinção entre o Jesus humano e o Messias; que este seria um espírito, que se apossou daquele, no evento do batismo de João Batista e deixou o seu corpo antes da crucificação.

A filosofia gnóstica acredita que toda matéria é essencialmente má e somente o espiritual é bom, na essência. Dai a ideia de que o corpo físico é mal, o que contrasta com o espírito, o que levava tais ‘pseudos’ cristãos ao ascetismo, a fim de subjugarem o corpo, para ascensão espiritual.

Daí surgiu alguns questionamentos acerca da natureza do Cristo homem: Como Jesus poderia ser santo, se possuía um corpo constituído de matéria orgânica?

 

A ‘mensagem’ do evangelho versus o ‘espírito’ do anticristo

“TODO aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que o gerou, também ama ao que dele é nascido.” (1 Jo 5:1)

Antes de analisar a asserção joanina de que Jesus não veio somente por água, mas por água e sangue, se faz necessário entender o contexto que levou o apóstolo João a fazer tal declaração.

No primeiro verso do capítulo 4, da primeira epístola do apóstolo João, o apóstolo amado recomenda aos cristãos que provem os espíritos, pois, muitos falsos profetas haviam surgido no mundo.

“AMADOS, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo.” (1 Jo 4:1)

Como se ‘prova’ os espíritos? Que espíritos são esses, passiveis de serem julgados?

No versículo em análise, ‘espíritos’ referem-se a toda e qualquer mensagem, palavra, ensinamento, doutrina, etc. ‘Provar’ um ‘espírito’ é o mesmo que julgar uma mensagem, uma doutrina ou, um ensinamento, etc.

Da mesma forma que o paladar prova a comida, os ouvidos provam as palavras, de modo que, quando os cristãos ouvem uma mensagem, devem analisar se o que está sendo ensinado é de Deus ou, não. (Jó 12:11)

O motivo de se provar ‘os espíritos’ foi destacado: muitos falsos profetas haviam surgido no mundo. Para analisar se os espíritos são provenientes de Deus ou, não, o apóstolo João apresenta aos cristãos dois parâmetros objetivos:

  1. Nisto conhecereis o Espírito de Deus: Todo o espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus, e;
  2. E todo[1] o espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne não é de Deus; mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e eis que já está no mundo. (1 Jo 4:2-3).

Admitir (confessar) que Jesus é o Filho de Deus, e que Ele veio em carne, é o selo de autenticidade da mensagem (espírito) para o cristão saber se ela (mensagem) procede de Deus ou, não. Mas, se a mensagem do profeta (espírito) diz que Jesus não veio em carne, tal espírito é proveniente do anticristo.

A verificação da mensagem é objetiva, ou seja, o cristão deve provar se a mensagem (espírito) do preletor (profeta) está em conformidade com as Escrituras ou, não. Mensagens que neguem que Jesus é o Filho de Deus ou, que neguem que Ele veio em carne ou, que neguem que Ele ressuscitou ou, que neguem que Ele é Deus, etc., peremptoriamente devem ser rejeitadas: “Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre”. (Jo 7:38)

O espírito (mensagem) do anticristo, à época do apóstolo, possuía duas vertentes principais:

a) negava que Jesus era o Filho de Deus (1 Jo 2:22) e;

b) que Jesus veio em carne. (1 Jo 4:3 )

As negativas do espírito do anticristo nos fazem compreender o motivo pelo qual o evangelista João, já no início da carta, foi enfático, ao dizer que ‘viu’, ‘ouviu’ e ‘tocou’ em Jesus e, em seguida, fez a seguinte confissão: ‘… nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo’, ou seja, Jesus é o Filho de Deus.

“O QUE era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado e as nossas mãos tocaram, da Palavra da vida (Porque a vida foi manifestada e nós a vimos e testificamos dela e vos anunciamos a vida eterna, que estava com o Pai e nos foi manifestada); O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que, também, tenhais comunhão conosco; e a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo.(1 Jo 1:1-3)

Após expor a essência mentirosa da mensagem do anticristo, o evangelista João enfatiza que todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é gerado de Deus e todo aquele que obedece (ama) a Deus, também, obedece (ama) a Cristo: “TODO aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que o gerou, também, ama ao que dele é nascido.” (1 Jo 5:1; 1 Jo 2:22)

Uma pregação que anuncia que Jesus não veio em carne, não é de Deus, e o evangelista destaca que muitos anticristos haviam surgido no mundo, anunciando que Jesus não veio em carne (1 Jo 2:18). Os anticristos eram pessoas que tinham frequentado as comunidades cristãs primitivas, mas que se distanciaram da mensagem dos apóstolos e negavam a pessoa de Cristo. (1 Jo 2:22).

 

Conhecendo a Deus

Se uma pessoa não crê em Cristo, mas diz que ‘conhece[2]’ a Deus, tal declaração é mentirosa, pois só conhece a Deus quem guarda os seus mandamentos (1 Jo 1:3-5). Os anticristos diziam que ‘conheciam’ a Deus, mas, como não obedeciam ao mandamento de Deus, que é crer em Cristo, eram mentirosos. (1 Jo 2:4)

Quando afirmamos que é necessário crer em Cristo, ‘crer’ consiste em admitir, intelectualmente que:

  1. Jesus veio ao mundo em carne;
  2. nasceu na casa de Abraão e de Davi;
  3. foi gerado de Deus, no ventre de uma virgem;
  4. habitou as regiões da Galileia;
  5. foi morto por mãos de pecadores;
  6. ressurgiu ao terceiro dia e;
  7. está assentado à destra de Deus, tudo, conforme o previsto nas Escrituras. (Jo 7:38)

Observe que o apóstolo João fez uso da exortação do profeta Isaias, quando recomendou aos cristãos a não amarem somente de palavra e por língua (Mt 15:7-9). Os falsos cristãos diziam amar a Deus, porém, tal declaração era somente de palavra e de língua, visto que negavam a Deus, por não obedecerem ao mandamento de Deus, que é crer em Cristo.

“Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade.” (1 Jo 3:18; Is 29:13)

Ora, por certo que aqueles que saíram do meio dos cristãos diziam amar a Deus, pois, se assim não afirmassem, não havia motivo para o apóstolo João fazer esta colocação. O apóstolo destaca algumas implicações que decorrem da confissão: – ‘Eu amo a Deus’, pois se alguém ‘ama’ a Deus, também deve ‘amar’ a Cristo, pois se não ‘amar’ a Cristo, na verdade, não ama a Deus: “Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai. Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou.” (Jo 5:23) Compare: “… e todo aquele que ama ao que o gerou, também, ama ao que dele é nascido.” (1 Jo 5:1)

Como Cristo era o enviado de Deus, quem cresse em Cristo, na verdade, estava crendo em Deus, que O enviou.

“E Jesus clamou e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas, naquele que me enviou.” (Jo 12:44)

Antes de prosseguirmos, vale destacar que ‘amar a Deus’ é ‘cumprir o seu mandamento’ (1 Jo 5:3 ) e o mandamento de Deus é especifico: que os homens creiam em seu Filho Jesus Cristo. (1 Jo 3:23 ) Quem crê que Jesus é o Cristo, é gerado de Deus, pois amou a Deus. Amar a Deus consiste em obedecê-Lo, do mesmo modo que amar a Cristo é obedecê-Lo. O amor em comento não diz de um sentimento, mas de obediência, sujeição.

“Se me amais, guardais os meus mandamentos.” (Jo 14:15);

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele.” (Jo 14:21)

O apóstolo João demonstra que é sem valor algum, se dizer que crê em Deus, se não crê que Jesus é o Filho de Deus. Não crer em Cristo, é o mesmo que considerar Deus mentiroso, pois não crê no testemunho que Deus deu acerca do seu Filho ou, que Ele é o enviado de DEUS: “Quem crê no Filho de Deus, em si mesmo tem o testemunho; quem a Deus não crê, mentiroso o fez, porquanto, não creu no testemunho que Deus de seu Filho deu.” (1 Jo 5:10)

Jesus lembrou aos seus discípulos sobre crerem em Deus, mas, destaca que, também, era necessário crer n’Ele, pois, só crendo em Cristo é que o homem ‘obedece’ (ama) a Deus.

“NÃO se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim.” (Jo 14:1);

“E é por Cristo que temos tal confiança em Deus.” (2 Co 3:4)

Nesse sentido, o irmão Tiago censurou aqueles que diziam crer que havia somente um Deus, pois, é sem valor dizer que crê em um só Deus, se não obedece ao mandamento de Deus, que é crer em Cristo: “Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o creem e estremecem.” (Tg 2:19 )

É por intermédio da confiança em Cristo, como o enviado de Deus, que o homem, verdadeiramente, crê em Deus. Crer que Jesus é o Cristo e que Deus o ressuscitou dentre os mortos, efetivamente, é crer em Deus, pois as Escrituras são o testemunho que Deus deu, acerca do seu Filho: “E por ele credes em Deus, que o ressuscitou dentre os mortos e lhe deu glória, para que a vossa fé e esperança estivessem em Deus.” (1 Pe 1:21)

Seguindo o raciocínio do evangelista João, qualquer que diz ‘conhecer’ a Deus, mas não guarda o que Ele determinou, é mentiroso. E como se conhece a Deus? Crendo em Cristo, pois este é o mandamento de Deus: “Aquele que diz: Eu o conheço, mas, não guarda os seus mandamentos, é mentiroso e nele não está a verdade.” (1 Jo 2:4); “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento. E aquele que guarda os seus mandamentos, nele está e ele, nele. E nisto conhecemos que ele está em nós, pelo Espírito que nos tem dado.” (1 Jo 3:23-24)

 

Os nascidos de Deus

“Porque, todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé.” (1 Jo 5:4)

O evangelista João demonstra que, qualquer pessoa (judeu ou grego) que crê que Jesus é o Cristo, é nascida de Deus (1 Jo 5:1), portanto, essa pessoa, por crer em Cristo, venceu o mundo, isso porque recebeu poder de ser feito filho de Deus. (Rm 8:37) Por que essa pessoa venceu o mundo? Porque os filhos de Deus são participantes da natureza divina e escaparam da corrupção que há no mundo: “Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que, por elas, fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que, pela concupiscência, há no mundo.” (2 Pe 1:4)

Em Cristo, o crente é mais que vencedor, pois, é uma nova criatura, gerada segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade. (Ef 4:24) A vitória do crente resume-se em ser uma nova criatura, pois, em Cristo, o homem vence o mundo. (Gl 3:23; Jo 16:33; 1 Jo 4:4; 2 Pe 2:20)

Por estar em Cristo, o crente é uma nova criatura, pois, morreu e ressurgiu com Cristo. Sobre o crente não pesa nenhuma condenação, pois, as coisas velhas passaram e tudo se fez novo. (2 Co 5:17).

O crente escapou da corrupção que há no mundo, ou seja, foi liberto do pecado e do engano, que mantém os homens entenebrecidos no entendimento: “Porquanto, se, depois de terem escapado das corrupções do mundo, pelo conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, forem outra vez envolvidos nelas e vencidos, tornou-se-lhes o último estado pior do que o primeiro.” (2 Pe 2:20; Ef 4:18)

Após crer que Jesus é o Filho de Deus (1 Jo 5:5), o homem é participante da natureza divina, portanto, escapou da corrupção, decorrente da ofensa de Adão, pela qual os homens foram feitos pecadores: “Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre.” (1 Pe 1:23; 2 Pe 1:4; 1 Co 15:50; Rm 8:17; 1 Jo 4:3) Se o homem abandona a Palavra de Cristo, renega a sua fé e volta ao status quo anterior, porque não perseverou, uma vez que a perseverança é a obra perfeita da fé!

 

Aquele que veio por água e sangue

Após demonstrar que, por intermédio do evangelho, os cristãos são filhos de Deus e venceram o mundo (1 Jo 5:1-4), o apóstolo, novamente, enfatiza a vitória dos que creem em Cristo, e aproveita para afirmar, novamente, que Jesus é o Filho de Deus, através da seguinte pergunta:

“Quem é que vence o mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?” (1 Jo 5:5)

É, em função da essência do evangelho, de que Jesus Cristo é o Filho de Deus, que o apóstolo João enfatiza que Cristo Jesus veio por ‘água’ e ‘sangue’, o que para ele era prova suficientemente contundente para demonstrar que: a) Jesus é o Filho de Deus e; b) veio ao mundo, em carne.

“Este é aquele que veio por água e sangue, isto é, Jesus Cristo; não só por água, mas por água e por sangue. E o Espírito é o que testifica, porque o Espírito é a verdade.” (1 Jo 5:6)

Na asserção ‘Jesus veio em carne’, o termo ‘carne’ foi utilizado pelo apóstolo João para destacar a humanidade de Cristo, conforme o escritor aos Hebreus aponta:

“E, visto como os filhos participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas, para que, pela morte, aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo.” (Hb 2:14)

O fato de Jesus Cristo ter tido um corpo constituído de material orgânico (carne, sangue e ossos), como todos os outros homens que vem ao mundo, demonstra que Ele, em tudo foi semelhante aos homens: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.” (Jo 1:14)

O fato de Jesus ter vindo em carne, é de total relevância para o evangelho, tanto que o apóstolo João dá testemunho de que os seus olhos contemplaram e que ele pode tocar o Cristo (inclusive reclinou em seu peito). (Jo 13:23):

“O QUE era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida.” (1 Jo 1:1); “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.” (Jo 1:14)

Por qual motivo João enfatiza o fato de Jesus ter vindo por água e sangue e porque destaca que ele não veio somente por água, mas por água e sangue?

 

Água e Espírito

“Jesus respondeu e disse-lhe: Na verdade, na verdade, te digo que, aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.” (Jo 3:3)

No diálogo entre Jesus e Nicodemos, é evidenciado que o reino dos céus está vetado a qualquer homem que não nascer de novo. (Jo 3:3)

Nicodemos não entendeu a exposição de Jesus e quis saber como poderia um homem, sendo velho, nascer de novo:

‘Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, tornar a entrar no ventre de sua mãe e nascer?’ (Jo 3:4)

Foi, quando Jesus apresentou a essência do novo nascimento, evento que Nicodemos – na condição de mestre, em Israel – deveria conhecer: – “Na verdade, na verdade te digo que, aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus.” (Jo 3:5 e 9 a 10)

Nicodemos não podia entrar no reino dos céus porque não tinha nascido da água e do Espírito. Ele era nascido da carne e do sangue, portanto, descendente da semente corruptível de Adão. Sobre Nicodemos pesava uma condenação decorrente da ofensa de Adão e como os demais homens, que não conhecem a Cristo, estava alienado da glória de Deus. (Rm3:23)

Ora, a condenação do pecado está vinculada ao nascimento natural, ou seja, ao nascimento segundo a vontade do varão, vontade da carne e do sangue (Jo 1:13). É por isso que o apóstolo João demonstra que, aquele que crê em Cristo, é gerado de Deus e venceu o mundo, ou seja, não está mais sujeito à condenação que pesa sobre os descendentes da carne e do sangue de Adão, por haver nascido de novo, por intermédio do evangelho.

O apóstolo Pedro demonstra que o crente tem direito a uma herança incorruptível e incontaminável, após ser de novo gerado, ou seja, está livre da condenação e adquiriu o direito a herdar o reino de Deus:

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo, para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, Para uma herança incorruptível, incontaminável e que não se pode murchar, guardada nos céus para vós.” (1 Pe 1:3-4);

“De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós, também, em novidade de vida.” (Rm 6:4);

“Mas, agora temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito e não na velhice da letra.” (Rm 7:6)

Para nascer da água e do Espírito, basta crer que Jesus é o Cristo, conforme explica o apóstolo João:

“TODO aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus.” (1 Jo 4:1);

“… qualquer que ama, é nascido de Deus e conhece a Deus.” (1 Jo 4:7)

Qualquer pessoa que recebe o Filho de Deus como Senhor, ou seja, que crê em Jesus, recebe poder para ser feito filho de Deus. Ora, nascer de Deus, não ocorre por meio da vontade da carne, nem da vontade do varão e nem do sangue, mas, sim pela vontade de Deus. “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.” (Jo 1:12-13)

O evangelista João teve de explicar, detalhadamente, como o homem é feito filho de Deus, porque os seus concidadãos (judeus) entendiam, equivocadamente, que eram filhos de Deus, por serem descendentes da carne e do sangue de Abraão. Os judeus entendiam que bastavam ter o sangue e a carne de Abraão, que já tinham direito à salvação: “E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão.” (Mt 3:9)

Aquele que crê em Cristo é crucificado com Cristo, morre e é sepultado com Ele (Rm 6:4), ou seja, é ‘batizado’ na morte de Cristo (Rm 6:3), de sorte que o crente ressurge com Cristo uma nova criatura. É pela ressurreição de Cristo, dentre os mortos, que o crente é de novo gerado, da água e do Espírito: “Sepultados com ele no batismo, nele, também, ressuscitastes, pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos.” (Cl 2:12)

O apóstolo Pedro, ao falar do novo nascimento, aponta para o lavar regenerador da Palavra:

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo, dentre os mortos (…) Purificando as vossas almas, pelo Espírito, na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingido; amai-vos, ardentemente, uns aos outros, com um coração puro; Sendo, de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva e que permanece para sempre,” (1 Pe 1:3 e 22 a 23);

“Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade.” (Jo 17:17);

“Esta é, pois, a parábola: A semente é a palavra de Deus.” (Lc 8:11 );

“Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado.” (Jo 15:3.

Cada indivíduo, em particular, que crê em Cristo, é purificado, limpo pela palavra da verdade, que é viva e eficaz, ou seja, ao crer em Cristo, ocorre a lavagem pela água (palavra): “Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra.(Ef 5:26); “Cheguemo-nos com verdadeiro coração, em inteira certeza de fé, tendo os corações purificados da má consciência e o corpo lavado com água limpa.” (Hb 10:22; Hb 4:2)

O novo nascimento foi previsto pelo profeta Ezequiel, nos seguintes termos:

“Então aspergirei água pura sobre vós e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos, vos purificarei. E dar-vos-ei um coração novo e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra e vos darei um coração de carne.” ( Ez 36:25-26)

Qual o significado de ‘água’ e ‘Espírito’ em João 3, verso 5?

A ‘água’ é a palavra de Deus, o mesmo que a semente, que concede a natureza divina aos que creem: “Qualquer que é nascido de Deus não comete pecado; porque a sua semente permanece nele; e não pode pecar, porque é nascido de Deus.” (1 Jo 3:9); “Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou pela sua glória e virtude; Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que, por elas, fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo.” (2 Pe 1:3-4)

“Espírito” diz do próprio Deus que, por meio da sua palavra, concede vida ao homem. É por isso que o Espírito diz: “Então aspergirei água pura sobre vós…” ( Ez 36:25).O Espírito é o Deus eterno que cria (bara), por intermédio da sua palavra, concedendo, ao homem que crê, um novo coração e um novo espírito, ou seja, o Espírito promove o novo nascimento, por intermédio da Sua palavra. (Sl 51:10)

Uma lição que todos os homens precisam aprender é que o homem viverá da palavra de Deus e não só de pão. Se Deus alerta que o homem ‘viverá’, é porque está morto, diante de Deus, por causa da ofensa de Adão, e só por intermédio da Sua palavra terá vida. “E te humilhou e te deixou ter fome e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem.(Dt 8:3)

 

Carne e sangue

“E agora digo isto, irmãos: que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção.” (1 Co 15:50)

Há um paralelo entre a fala de Jesus e a abordagem paulina, nos seguintes versos:

“Jesus respondeu e disse-lhe: Na verdade, na verdade, te digo que, aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.(Jo 3:3)

“E agora digo isto, irmãos: que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção.” (1 Co 15:50)

Nicodemos era judeu, juiz, mestre e fariseu, portanto, alguém que entendia que era digno do reino dos céus, por ser descendente da carne e do sangue de Abraão.  O discurso: – ‘Temos por pai a Abraão’; –‘Nosso pai é Abraão’; – ‘Temos um pai, que é Deus’, não foi aceito por Cristo, portanto, Nicodemos precisava nascer de novo, para se tornar filho de Deus: “Responderam e disseram-lhe: Nosso pai é Abraão. Jesus disse-lhes: Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão.” (Jo 8:39); “Vós fazeis as obras de vosso pai. Disseram-lhe, pois: Nós não somos nascidos de prostituição; temos um Pai, que é Deus.” (Jo 8:41)

Gerados pela carne e pelo sangue, não podem herdar o reino de Deus, mas, tão somente os gerados da água e do Espírito, os que nasceram de novo.

Os judeus leram nas Escrituras a promessa que Deus fez a Abraão, de que em Abraão seriam benditas todas as famílias da terra, mas os descendentes de Abraão se equivocaram, em não observar que, em Isaque, a descendência de Abraão, ainda, seria chamada e não que eles eram essa descendência.

A descendência que seria chamada não falava dos israelitas (muitos), mas, de Cristo (uma só):

“Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo.” (Gl 3:16);

Nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência.” (Rm 9:7)

Se a descendência de Abraão seria chamada em Isaque e não em Abraão, segue-se que a filiação de Abraão é pela promessa e não por ‘carne’ e ‘sangue’. Cristo Jesus é o descendente prometido a Abraão, em quem todas as famílias da terra são benditas, o que demonstra que ‘carne’ e ‘sangue’ não possuem valor algum para dar direito à promessa.

“Porque todos sois filhos de Deus, pela fé, em Cristo Jesus. Porque todos quantos fostes batizados em Cristo, já vos revestistes de Cristo. Nisto, não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque, todos vós sois um em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão e herdeiros, conforme a promessa.” (Gl 3:26-29).

O apóstolo Paulo afirmou, aos irmãos de Corinto, durante uma explanação, acerca da ressurreição dos mortos, que ‘carne’ e ‘sangue’ não podem herdar o reino dos céus. A explicação paulina se fez necessária, porque algumas pessoas passaram a apregoar aos cristãos que os mortos não ressuscitavam (1 Co 15:12) e o apóstolo combateu, veementemente, essa doutrina, através de vários argumentos. (1 Co 15:13-20)

Durante a defesa desse aspecto importante do evangelho, o apóstolo fez um paralelo entre Adão e Cristo, demonstrando que: a) por Adão veio a morte (condenação) e todos os seus descendentes morreram, porém; b) por Cristo Jesus veio a ressurreição dos mortos e todos são vivificados n’Ele. (1 Co 15:21-22)

O alerta do apóstolo era para que os cristãos não se enganassem, portanto, deveriam ficar atentos para o fato de que as más conversações corrompem a doutrina do evangelho. Ele apela aos cristãos de Corinto que voltassem à sobriedade, ou seja, a ‘sobriedade’ é figura que contrapõe outra figura, o ‘vinho da contenda’, ou seja, a doutrina dos judaizantes. (1 Co 15:33)

Após defender a doutrina da ressurreição dos mortos, o apóstolo se antecipa e formula algumas perguntas que os contradizentes, possivelmente, fariam para contrapor à exposição do apóstolo dos gentios. Dai a pergunta: – “Como ressurgirão os mortos? E com que corpo virão?” (1 Co 15:35)

A resposta do apóstolo visava um grupo específico de pessoas: os judaizantes. O ensinamento do apóstolo visava desfazer um entendimento equivocado, pois é salutar à Igreja de Cristo, que é formada de indivíduos, provenientes de todos os povos, em todas as épocas, que compreendam que os mortos hão de ressuscitar.

A resposta do apóstolo Paulo foi dada para contrapor ao ensinamento dos ‘loucos’, ou seja, dos judeus ‘insensatos’, que, nesse quesito doutrinário, diziam, especificamente, dos saduceus: “Porque os saduceus dizem que não há ressurreição, nem anjo, nem espírito; mas os fariseus reconhecem uma e outra coisa.” (At 23:8)

Após explicar como há de ser os corpos dos que ressurgirem dentre os mortos, o apóstolo faz um paralelo entre Jesus e Adão, demonstrando que:

  1. Jesus é o último Adão, espírito vivificante;
  2. Adão, o primeiro homem, criado alma vivente. (1 Co 15:45)

Aproveitando o que estava explicando que, como Adão, assim, eram os seus descendentes terrenos e como Cristo, também, há de ser os celestiais (da mesma forma que todos herdaram a imagem de Adão, os que creem herdarão a imagem de Cristo) (1 Co 15:48-49), o apóstolo Paulo esclarece que ‘carne’ e ‘sangue’ não podem herdar o reino dos céus, nem a corrupção herdar a incorrupção. (1 Co 15:50)

Quando o apóstolo diz que ‘carne’ e ‘sangue’ não podem herdar o reino dos céus, ele está enfatizando que tais elementos não dão direito aos homens (quem quer que seja, judeu ou gentio) de entrar no reino dos céus. Ser descendente da carne e do sangue de Abraão, ou de qualquer outra personalidade, não dá direito ao reino dos céus.

Devemos considerar que, apesar de estar escrevendo a uma igreja, que ficava em uma cidade gentílica – Corinto – na igreja de corinto havia judeus e gentios. O conhecimento transmitido era para toda a igreja, pois deveriam compreender que, na ressurreição o corpo mortal será transformado em um corpo glorioso.

Isso significa que o corpo constituído de matéria orgânica não pode herdar o reino dos céus, sem, antes, ser revestido de imortalidade e incorruptibilidade. Nos céus não entrarão judeus, gregos, romanos, bárbaros, servos, livres, homens, mulheres, etc. Só tem direito à salvação os gerados de novo pela fé em Cristo Jesus (Gl 3:26-29), portanto, se algum cristão na igreja de corinto se gloriava (jactância) de ser descendente da carne e do sangue de Abraão, diante desta exposição paulina deveria compreender que carne e sangue não dão direito a entrar nos céus.

Além do mais, a corrupção não herda a incorrupção, de modo que, mesmo um crente em Cristo, descendente da carne de Abraão, para entrar nos céus, tal corpo deverá ser transformado. A corrupção que o apóstolo Paulo faz referência, diz da existência fugaz dos homens gerados da semente corruptível de Adão, o que contrapõe à condição daqueles que permanecem para sempre. (1 Jo 2:17; 1 Pe 1:23-25).

Pela ofensa de Adão entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte. Como a morte é penalidade imposta a todos os descendentes de Adão e é isso que os tornam escravos do pecado, por isso é dito que todos os homens pecaram. (Rm 5:12)

O termo ‘pecado’, no verso acima, não tem conteúdo de ordem moral. O termo deve ser compreendido, segundo a linguagem do camponês, quando vê um fruto impróprio para o consumo e diz: – ‘O fruto pecou’. Ora, isso não significa que o fruto fez alguma coisa inconveniente ou, moralmente, reprovável, antes, que ele é impróprio para o consumo.

De igual modo, é dito que todos pecaram, porque ficaram impróprios para o propósito de Deus, em manifestar a sua glória nos homens, quando a morte passou a todos os homens, por causa da ofensa de Adão.

O corpo gerado a partir da semente corruptível de Adão é sujeito ao pecado, portanto para entrar no reino dos céus, precisa morrer para o que estava retido e nascer de novo: “Mas, agora, temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito e não na velhice da letra.” (Rm 7:6)

Após crer em Cristo, para ser gerado de novo, o crente serve a Deus, segundo o evangelho (novidade de espírito), diferente daqueles que, por estarem entenebrecidos no entendimento, procuram servir a Deus na velhice da letra: “O qual nos fez, também, capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica.” (2 Co 3:6)

Os judeus serviam a Deus sem entendimento, ou seja, na velhice da letra. (Rm 10:2) E como serviam? Gloriavam-se na ‘carne’ e no ‘sangue’ de Abraão e não consideraram que as Escrituras protestavam contra eles, dizendo:

“Porque Toda a carne é como a erva e toda a glória do homem como a flor da erva. Secou-se a erva, e caiu a sua flor” (1 Pe 1:24)

Se toda carne é como a flor da erva, não se excetua a carne dos judeus, daí o alerta de Jeremias:

“Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, que faz da carne o seu braço e aparta o seu coração do SENHOR!” (Jr 17:5)

É nesse sentido que o apóstolo Paulo escreveu dizendo:

“E Deus escolheu as coisas vis deste mundo, as desprezíveis e as que não são, para aniquilar as que são; Para que nenhuma carne se glorie perante ele. Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, justiça,  santificação e redenção; Para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor.” (1 Co 1:28-31)

Os judeus se gloriavam no fato de serem descendentes da carne de Abraão e por serem circuncidados, conforme o rito da lei mosaica, porém, a verdadeira circuncisão pertence aos cristãos, que circuncidaram o coração, ao morrerem com Cristo: “Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus, em espírito, e nos gloriamos em Jesus Cristo e não confiamos na carne.” (Fl 3:3); “Pois que muitos se gloriam segundo a carne, eu também me gloriarei.” (2 Co 11:18); “Aquele, porém, que se gloria, glorie-se no SENHOR.” (2 Co 10:17); “Porque, nem ainda esses mesmos que se circuncidam guardam a lei, mas querem que vos circuncideis, para se gloriarem na vossa carne.” (Gl 6:13)

Após nascer de novo, o crente tem direito ao reino dos céus, conforme a promessa, mas só entrará no reino, quando for transformado, de modo que, o que é mortal e corruptível, seja revestido da imortalidade e da incorruptibilidade: “Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva e que permanece para sempre.” (1 Pe 1:23)

Agora, analisando sistemicamente, o Novo Testamento, os termos ‘carne’ e ‘sangue’ possuem vários significados, conforme o contexto em que são empregados.

‘Carne’ e ‘sangue’ podem fazer referência:

  1. à natureza pecaminosa herdada de Adão;
  2. aos descendentes de Adão;
  3. à natureza humana;
  4. ao vínculo familiar;
  5. à nacionalidade (judeu e gentio);
  6. ao corpo constituído de matéria orgânica, etc.

Demanda ao leitor, muita atenção, ao se deparar com os termos ‘carne’ e ‘sangue’, pois, podem ser utilizados para fazer referência ao nascimento natural, como lemos:

“Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.” (Jo 1:13)

O nascimento natural decorre da vontade do varão, da vontade da carne e do ‘sangue’, já o novo nascimento decorre da ‘água’ e do ‘Espírito’. Primeiro, é o nascimento, segundo a ‘carne’ e o ‘sangue’, depois, o nascimento, segundo a ‘água’ e o ‘Espírito’, por isso é dito que o nascimento, segundo o último Adão, é um ‘novo’ nascimento: “Mas não é primeiro o espiritual, senão o natural; depois, o espiritual.” (1 Co 15:46).

“Carne” e “sangue” referem-se à geração natural, ou seja, ao nascimento, segundo Adão, daí a máxima: ‘o que é nascido da carne, é carne’, portanto, terreno e herda a corrupção, proveniente da ofensa de Adão. (Jo 3:6; 1 Co 15:47). Essencialmente, “carne” e “sangue” são elementos que vinculam os homens ao primeiro pai, Adão.

Agora, quando lemos que o apóstolo Paulo não consultou ‘carne’ e ‘sangue’, quando saiu a evangelizar os gentios, os termos são empregados no sentido de ‘concidadãos’, o que remete ao vínculo familiar, nacionalidade ou, etnia: “Revelar seu Filho em mim, para que o pregasse entre os gentios, não consultei a carne, nem o sangue.(Gl 1:16)

Quando é dito que os cristãos não têm que lutar contra ‘carne’ e ‘sangue’, o apóstolo demonstra que os cristãos não lutam contra os homens (carne) e nem contra determinada etnia (sangue), quer sejam eles judeus, gregos, romanos ou, bárbaros. “Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais.” (Ef 6:12)

O escritor aos Hebreus enfatizou que Jesus participou da ‘carne’ e do ‘sangue’ para que, pela morte, aniquilasse o diabo. Por causa da paixão da morte, quando se fez ‘carne’, em tudo Cristo se fez semelhante aos homens: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós…” (Jo 1:14)

Quando é dito que Jesus participou da ‘carne’ e do ‘sangue’, significa que Ele teve um corpo de matéria orgânica, assim, como todos os homens, porém, sem vinculo com o pecado, por não ter entrado no mundo por Adão, mas, por Deus. (Sl 22:10)

A ênfase da abordagem do escritor aos Hebreus é a natureza humana, da qual Cristo foi participante e, por participar das mesmas coisas que todos os homens, foi possível a Cristo provar a morte por todos: “Vemos, porém, coroado de glória e de honra, aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos (…) E, visto como os filhos participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas, para que, pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo.” (Hb 2:9 e 14)

Agora, no paralelo que o apóstolo Paulo construiu entre Adão e Cristo, apresentando ambos como cabeças de gerações (primeiro e último Adão, respectivamente), há algumas questões que envolvem os termos ‘carne’ e ‘sangue’: Adão foi criado alma vivente e Cristo, o último Adão, foi feito espírito que dá vida: “Assim está, também, escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão, em espírito vivificante.” (1 Co 15:45).

Quando os homens vêm ao mundo, são participantes da carne e do sangue de Adão, de modo que possuem a mesma imagem do homem terreno e a mesma natureza. Por compartilhar a mesma natureza de Adão, os descendentes da carne e do sangue estão sujeito à morte, mesma condenação que pesou sobre Adão.

Para nascerem de novo, é necessário aos homens nascidos segundo a carne e o sangue de Adão, participarem da ‘carne’ e do ‘sangue’ de Cristo. Como? Comendo e bebendo, pois a carne de Cristo, verdadeiramente, é comida e o sangue de Cristo, verdadeiramente, é bebida.

“Jesus, pois, lhes disse: Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne, verdadeiramente, é comida e o meu sangue, verdadeiramente, é bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu, nele. Assim, como o Pai, que vive, me enviou e eu vivo pelo Pai, assim, quem de mim se alimenta, também viverá por mim.” (Jo 6:53-57)

Enquanto o homem gerado segundo a semente de Adão é participante da corrupção, decorrente da condenação, pela ofensa, o homem participante da carne e do sangue de Cristo, é participante da bem-aventurança, pelo dom gratuito de Deus. (Rm 5:15-19)

O apóstolo Paulo demonstra que a filiação de Abraão se adquire pela fé em Cristo, ou seja, só é filho de Deus aquele que se alimenta da carne e do sangue de Cristo. Somente, através da carne e do sangue de Cristo, que o homem alcança a natureza divina, escapa da corrupção que há no mundo e é herdeiro de Deus: “Porque todos sois filhos de Deus, pela fé em Cristo Jesus. Porque todos quantos fostes batizados em Cristo, já vos revestistes de Cristo. Nisto não há judeu, nem grego; não há servo, nem livre; não há macho, nem fêmea; porque todos vós sois um, em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, então, sois descendência de Abraão e herdeiros conforme a promessa.” (Gl 3:26-29).

 

Água e sangue

A asserção contida no capítulo 5, da primeira epístola de João, de que Jesus Cristo ‘veio por água e sangue’, tem por objetivo combater os seguintes erros doutrinários, que haviam surgido nas comunidades cristãs:

a) De que Jesus não era o Messias, o Filho de Deus, e;

b) De que Jesus não veio em carne.

Daí a assertiva joanina:

“Quem é que vence o mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?” (1 Jo 5:5);

“E todo o espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne, não é de Deus; mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes, que há de vir e eis que já está no mundo.” (1 Jo 4:3)

Negar o fato de que Jesus é o Ungido de Deus e que Ele veio em carne, são posicionamentos doutrinários contrários às Escrituras e, para prevenir os cristãos do engano dos falsos mestres, o evangelista João enfatizou que Jesus veio por ‘água’ e ‘sangue’.

Pela relevância que o tema possui, o discípulo amado destaca que Jesus Cristo não veio somente por ‘água’, mas que Ele veio por ‘água’ e ‘sangue’, como evidência inequívoca de que Jesus é o Filho Bendito de Deus.

Ao identificar algumas falsas doutrinas que surgiram nas comunidades cristãs, acerca da pessoa de Jesus, depreende-se do texto da sua primeira epístola que o evangelista combateu tais erros, ao enfatizar que Jesus ‘veio’, tanto por ‘água’, quanto por ‘sangue’.

Além de afirmar que Jesus veio por ‘água’ e ‘sangue’, o apóstolo destaca que Jesus não veio somente por ‘água’, mas por ‘água’ e por ‘sangue’, demonstrando que é de suma importância para a compreensão do evangelho, entender o fato de que Jesus, também, veio por ‘sangue’.

Quando se compreende que tudo o que o apóstolo João escreveu, na sua primeira epístola e no seu evangelho, teve o condão de demonstrar que Jesus Cristo é o Filho de Deus, os elementos para compreender o motivo pelo qual Jesus veio, não somente por água, mas por água e por sangue, tornam-se evidentes: a defesa do evangelho.

“Estas coisas vos escrevi a vós, os que credes no nome do Filho de Deus, para que saibais que tendes a vida eterna e para que creiais no nome do Filho de Deus.” (1 Jo 5:13; Jo 20:31)

Demonstrar que Jesus é o Cristo, era um cuidado constante do apóstolo João, tanto que, no início do seu evangelho, ele enfatiza que o Verbo se fez carne e que Ele pode ver a glória do Unigênito Filho de Deus: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.” (Jo 1:14)

A defesa constante dessa verdade, era em função da oposição do espírito do anticristo, ou seja, da doutrina divulgada pelos falsos profetas, de que Jesus não era o Filho de Deus e de que Ele não veio em carne.

Como a análise desse texto centra-se na primeira Epístola do evangelista João, percebe-se que ele é enfático, ao evidenciar que, todo aquele que crê que Jesus é o Cristo, é gerado (filho) de Deus e complementa, confessando que Jesus veio por ‘água’ e por ‘sangue’.

Jesus ter vindo por ‘água’ e por ‘sangue’, é apresentado como prova contundente de que Cristo é o Filho de Deus e a ênfase no ‘sangue’, quando o apóstolo diz que Cristo não veio somente por ‘água’, mas por ‘água’ e por ‘sangue’, é prova de que Jesus também veio em carne.

“Este é aquele que veio por água e por sangue, isto é, Jesus Cristo; não só por água, mas por água e por sangue. E o Espírito é o que testifica, porque o Espírito é a verdade.” (1 Jo 5:6)

O apóstolo João faz uma defesa da verdade do evangelho, estampando provas, de modo a preservar a mesma mensagem anunciada pelo apóstolo Paulo, no início da sua epístola aos cristãos de Roma:

“Acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi, segundo a carne, declarado Filho de Deus, em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor.” (Rm 1:3-4)

Cristo é apresentado pelo evangelista João como ‘aquele’ que ‘veio’ por ‘água’ e por ‘sangue’. Quando é dito que Jesus ‘veio’, o verbo grego ‘ἐλθὼν’ no aoristo foi o modo que o apóstolo utilizou para descrever a encarnação do Verbo eterno. O evento sobrenatural, em que o Verbo eterno, despido de sua glória, se fez carne e passou a habitar entre os homens, foi resumido no verbo ‘vir’. (Jo 1:4; Fl 2:7)

Devemos ter em mente que Cristo Jesus, que nasceu de uma virgem, lá em Belém da Judeia, há pelo menos dois mil anos, é uma das pessoas da divindade, portanto, o Criador de todas as coisas: “No princípio era o Verbo, o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele e sem ele, nada do que foi feito se fez.” (Jo 1:1-3; Hb 1:8 e 10)

Jesus ter vindo por ‘água’, decorre do fato de Ele ter sido gerado por Deus, de modo sobrenatural, ou seja, o ente Santo que foi concebido no ventre de Maria, formado pelo Espírito Santo, segundo o poder incompreensível (sombra) de Deus.

“E, respondendo o anjo, disse-lhe: Descerá sobre ti o Espírito Santo e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso, também, o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus.” (Lc 1:35)

A concepção de Cristo se deu através da operação divina, segundo a sua própria vontade e poder, em cumprimento ao predito nas Escrituras:

“Mas tu és o que me tiraste do ventre; fizeste-me confiar, estando aos seios de minha mãe. Sobre ti fui lançado, desde a madre; tu és o meu Deus, desde o ventre de minha mãe.” (Sl 22:9-10; Sl 71:6; Sl 139:13)

Quando o anjo explicou para Maria que ela estava grávida e que o menino que haveria de nascer teria o nome Jesus (Lc 1:31), foi dito que ela conceberia e daria à luz um filho. A narrativa do médico Lucas, demonstra que Jesus, efetivamente seria filho de Maria, pois ela haveria de conceber e dar à luz um filho.

Essa narrativa é conforme a exposição das linhagens que constam nas Escrituras, sendo certo que o homem gera filhos e a mulher concebe e dá a luz. Nunca é dito nas genealogias que uma mulher gera filhos, antes, é próprio de uma mulher conceber e dar à luz, como se lê:

“E CONHECEU Adão a Eva, sua mulher e ela concebeu e deu à luz a Caim e disse: Alcancei do SENHOR um homem.” (Gn 4:1);

“E Adão viveu cento e trinta anos e gerou um filho, à sua semelhança, conforme a sua imagem e pôs-lhe o nome de Sete. E foram os dias de Adão, depois que gerou a Sete, oitocentos anos e gerou filhos e filhas.” (Gn 5:3-4)

Maria ficou surpresa com a notícia e, ao questionar o anjo, foi dito a ela:

“Descerá sobre ti o Espírito Santo e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso, também, o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus.” (Lc 1:35)

Por ação sobrenatural do Espírito, Maria esteve envolta em um mistério (sombra), segundo o poder de Deus, de modo que o Santo que haveria de nascer, através de Maria, seria chamado de “o Filho de Deus”.

No início da proclamação do evangelho por Cristo, as pessoas eram céticas quanto ao senhorio de Cristo, tanto que o reconheceram somente como profeta (Mt 16:14). Só vemos uma crença firme, com relação à pessoa de Cristo, quando o apóstolo Pedro confessou que Jesus era o Filho de Deus: “E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.” (Mt 16:16)

A confissão do apóstolo Pedro não se deu por um conhecimento transmitido de pai para filho (carne e sangue), ou seja, o fato de Pedro ser descendente da carne e do sangue de Abraão, não lhe conferiu tal conhecimento, antes, tal conhecimento se deu pela revelação do Pai, através do evangelho anunciado por Cristo. (Mt 16:17)

Devemos ter em mente que muitos cristãos da igreja primitiva não conseguiam ver (entender) que, aquele Jesus com um corpo de matéria (carne e sangue) e que esteve sujeito à paixão da morte, na verdade, é sublime e glorioso e todas as coisas estão sujeitas a Ele. (Hb 2:8) Muitos, ainda, tinham em mente o Cristo, segundo a carne e se focavam na aparência dele. (2 Co 5:12)

“Assim que, daqui por diante, a ninguém conhecemos, segundo a carne e, ainda, que também, tenhamos conhecido a Cristo, segundo a carne, contudo agora já não o conhecemos desse modo. (2 Co 5:16)

Vários desvios doutrinários surgiam quando se dava ênfase demasiada a algum aspecto da vida do Senhor Jesus, e até mesmo com relação aos demais irmãos, de modo que o apóstolo Paulo teve que alertá-los que, após estar em Cristo (ser uma nova criatura), nenhum dos irmãos seriam conhecidos, segundo as questões da carne, como tribo, circuncisão, nação, ritos, etc.

Jesus era o Cristo, não porque foi circuncidado ao oitavo dia, apresentado ao sacerdote, oriundo da tribo de Judá, hebreu de uma hebreia, etc. (Fl 3:4-6) Na verdade, todas essas questões, somente serviam para que os homens pudessem identificar quem era o Cristo, enquanto esteve entre os homens.

Os apóstolos Mateus, Marcos e Lucas, ao abordarem a questão da deidade de Cristo, o fazem de forma velada, até porque, não queriam evocar, de pronto, a rejeição dos seus concidadãos, quando lessem os evangelhos. O apóstolo João, por sua vez, aborda a questão, abertamente, até porque, não tinha por objetivo convencer os judeus, mas, sim, instruir a igreja de Deus.

Diferentemente de Mateus e Lucas, que iniciam o relato da vida e do ministério de Cristo, apresentando sua genealogia ou, de Mateus e Marcos, que fazem referência aos Profetas e aos Salmos, o evangelista João é direto, quando aponta a deidade de Cristo:

“No princípio era o Verbo, o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus.” (Jo 1:1-2)

Por que essa diferença? A diferença decorre da estratégia utilizada para alcançar o leitor, pois o evangelho de João foi escrito por volta de 90 a 100 d.C., quando a igreja já havia florescido no mundo e começaram a surgir às heresias e os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas são datados de 60 a 100 d. C., quando ainda se anunciava a vinda, morte e ressurreição do Messias. Esses evangelhos tinham por objetivo anunciar a vida e o ministério de Cristo e aquele apresentar, apologeticamente, quem era o Cristo – o Filho de Deus.

Quando o apóstolo João diz que Jesus veio por ‘água’, ele está enfatizando que o Verbo eterno se fez carne, segundo as Escrituras, única e exclusivamente, pela virtude (poder) do Pai. Jesus veio ao mundo, segundo a palavra de Deus e pelo poder de Deus, ou seja, ao despir-se da sua glória e poder, Cristo foi introduzido no mundo como homem.

A partir do momento em que o Verbo eterno despiu-se da sua glória e passou a habitar um tabernáculo terrestre, durante o tempo que se chama HOJE, o Verbo deixou de sustentar todas as coisas pelo seu poder e passou a existir na dependência do Pai, assim, como todos os demais seres: “Proclamarei o decreto: o SENHOR me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei.” (Sl 2:7); “AQUELE que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará.” (Sl 91:1)

O Verbo, na eternidade, habitava no esconderijo do Altíssimo e, ao despir-se da sua glória, passou ao abrigo da sombra do Onipotente. Essa é a descrição de Cristo, na eternidade:

“O qual, sendo o resplendor da sua glória e a expressa imagem da sua pessoa e sustentando todas as coisas, pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas” (Hb 1:3).

O Salmo 121 é uma descrição precisa da proteção do Pai sobre o seu Filho, que guardou, tanto a sua entrada no mundo (nascimento), quanto a sua saída (morte):

“O SENHOR é quem te guarda; o SENHOR é a tua sombra à tua direita. O sol não te molestará de dia, nem a lua de noite. O SENHOR te guardará de todo o mal; guardará a tua alma. O SENHOR guardará a tua entrada e a tua saída, desde agora e para sempre.” (Sl 121:5– 8)

Na criação no Éden, Deus formou o homem do pó da terra e, quando soprou nas narinas o fôlego de vida, veio à existência o primeiro homem: Adão, uma alma vivente (Gn 2:7). Já, com relação ao último Adão – Cristo – Deus preparou um corpo no ventre de Maria, que veio à existência por ‘água’ e ‘sangue’ para que o Espírito eterno, despido de sua glória e poder pudesse, habitar entre os homens.

Adão não era pré-existente, quando foi feito alma vivente e de Cristo é dito que Ele entrou no mundo, o que demonstra a sua pré-existência. (Hb 10:5) A água remete a palavra de Deus que ‘bara’ (cria) e, nesse sentido, fica evidente a natureza divina de Cristo, que embora na carne, era o Filho de Deus, segundo a palavra de Deus (por água).

“E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre os milhares de Judá, de ti me sairá o que governará em Israel e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade. (Mq 5:2)

Quando é dito que Jesus veio por ‘água’, enfatiza que o Verbo eterno, voluntariamente, despiu-se da sua gloria e se fez carne, para habitar entre os homens. A vontade da carne, mais a vontade do varão e o sangue, trazem à existência um novo ser ao mundo; já o fato de Jesus vir por água, além de apontar a pré-existência de Cristo, demonstra que Ele foi gerado pela vontade e pelo poder de Deus: “E outra vez, quando introduz no mundo o primogênito, diz: E todos os anjos de Deus o adorem.” (Hb 1:6)

Jesus apresentou a seguinte relação: “O que é nascido da carne, é carne e o que é nascido do Espírito, é espirito” (Jo 3:6), de modo que, aquele que veio por ‘água’, é ‘água’ que concede vida. Cristo é a água que dá vida, a semente incorruptível, a palavra de Deus que é viva e permanente, porque veio por água. (1 Pe 1:23-25; Hb 13:8; Jo 6:63: Jo 15:3).

Voluntariamente, o Verbo eterno despiu-se da sua glória e se fez homem, sendo introduzido no mundo dos homens pelo poder sobrenatural de Deus, por isso é dito que Ele veio por água, diferente dos descendentes de Adão, que vem por carne e sangue.

Como Cristo foi gerado pelo Espírito no ventre de Maria, também veio por sangue e por meio do sangue, é descendente de Davi e descendente de Abraão.

“Este é aquele que veio por água e sangue, isto é, Jesus Cristo; não só por água, mas por água e por sangue. E o Espírito é o que testifica, porque o Espírito é a verdade.” (v. 6)

Sobre os bens futuros, Deus é enfático:

“Então aspergirei água pura sobre vós e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei” ( Ez 36:25 ).

A ação divina de aspergir água pura concede ao homem um novo coração e um novo espírito, o que remete a uma nova criação, como disse o profeta Davi: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto.”(Sl 51:10); “E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne” ( Ez 36:26)

Sobre esse aspecto da redenção, disse o apóstolo Pedro:

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos (…) Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre” (1 Pe 1:3 e 23).

Observando a lei de Moisés, verifica-se que, tanto as sementes, quanto as águas, possuem a mesma função, quanto à purificação:

“Porém a fonte ou cisterna, em que se recolhem águas, será limpa, mas quem tocar no seu cadáver, será imundo. E, se dos seus cadáveres cair alguma coisa sobre alguma semente que se vai semear, será limpa.” (Lv 11:36-37)

Observe que Cristo é sumo sacerdote dos bens futuros, onde há um tabernáculo maior e mais perfeito, que não é desta criação:

“Mas, vindo Cristo, o sumo sacerdote dos bens futuros, por um maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, isto é, não desta criação.” (Hb 9:11)

Cristo veio por água, porque foi ‘lançado’ por Deus no ventre de Maria, portanto, o vínculo de carne com Adão não existiu. Com Cristo vindo por água, foi estabelecido vinculo com a humanidade, de modo que passou a ter vínculo de sangue com a descendência de Abraão e de Davi. (Sl 22:10).

É em razão do pecado de Adão que Jesus não possui vínculo de carne com a humanidade, pois se assim fosse, teria vinculo direto com Adão e sua semente corruptível, portanto, estaria sujeito ao pecado, como todos os homens. O vínculo de Cristo com a humanidade só é de sangue, pois Ele veio por água, introduzido no mundo pelo poder de Deus, no ventre de Maria!

Como esteve no ventre de Maria, ali se efetivou o vínculo de sangue com a humanidade e assim firmou-se o vinculo de sangue com Abraão e com Davi.

Como a palavra de Deus é representada pela ‘água’, a semente incorruptível, temos uma referência à pré-existência de Cristo, o Verbo eterno. O Verbo eterno despiu-se da sua glória para ser introduzido no mundo, por meio do poder de Deus, para compartilhar da natureza humana, por meio do vínculo de sangue com Davi e Abraão, e não pelo vínculo da carne de Davi e de Abraão.

Observe que o evangelista João atribui vontade à carne e ao varão, menos ao sangue:

“Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.” (Jo 1:13)

Maria era da linhagem (casa) de Davi e Jesus não foi gerado da semente de homem algum, antes, o próprio Deus obrou maravilhosamente e fez com que ela concebesse o Seu Filho, que durante a gestação, compartilhou do sangue de Maria, por conseguinte, foi estabelecido somente vínculo de sangue com Davi, o que o tornou isento da morte, caso compartilhasse da carne de Adão.

Quando foi dito a Maria que o filho dela haveria de ser o Filho de Deus, a palavra de Deus predita a Davi estava se cumprindo:

“Quando teus dias forem completos e vieres a dormir com teus pais, então, farei levantar depois de ti um, dentre a tua descendência, o qual sairá das tuas entranhas, e estabelecerei o seu reino. Este edificará uma casa ao meu nome e confirmarei o trono do seu reino para sempre. Eu lhe serei por pai e ele me será por filho,” (2 Sm 7:12-14)

O vínculo de Davi com Cristo, aquele que saiu das entranhas de Davi, se deu somente por ‘sangue’ e não por ‘carne’. Hipoteticamente, se Cristo viesse de Davi, por carne, ou seja, por meio de uma relação sexual, onde a semente do homem é lançada no ventre da mulher, na verdade, o filho de Maria seria, apenas, mais um filho de Adão, portanto, sujeito ao pecado, assim, como, foram os outros filhos de Maria, que nasceram da relação dela com José.

Dai a explicação joanina, que Cristo veio por ‘sangue’, ou seja, Ele compartilhou da natureza humana, por vínculo de sangue, com seu pai Davi, através de Maria, por conseguinte, Cristo também era descendente de Abraão. Isso significa que a descendência (sangue) de Abraão foi escolhida, para que Deus se fizesse carne e viesse ao mundo dos homens. (Hb 2:16)

Quando Adão foi criado, Deus concedeu a Adão, a imagem  do Verbo eterno, que a tudo criou e que haveria de vir ao mundo. Com a queda, a imagem que Deus concedeu ao homem, não se perdeu, pois os dons de Deus são irrevogáveis, de modo que, quando o Verbo eterno, que a tudo criou, veio ao mundo, veio por ‘água’, segundo a mesma imagem que Ele concedeu ao homem, feito do pó da terra.

“No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir. (Rm 5:14)

Ao ser introduzido no mundo, o Verbo eterno teve um corpo constituído de matéria orgânica (carne, sangue e ossos), assim, como todos os homens. O escritor aos Hebreus explica que era necessário Cristo ser participante de ‘carne’ e de ‘sangue’, por causa da paixão na morte, o que é completamente, diferente de ter vindo por ‘água’ e por ‘sangue’.

Quando é dito que Jesus veio por ‘água’ e por ‘sangue’, isso significa que, apesar de ter tido um corpo constituído (participante) de ‘carne’ e de ‘sangue’, Cristo não entrou no mundo, pela mesma porta que todos os homens entram: Adão.

Adão é a porta larga, pela qual todos os homens vêm ao mundo, mas, Cristo foi introduzido no mundo, pelo poder de Deus.

Cristo, como o último Adão, foi estabelecido como a porta estreita, portanto, não poderia vir ao mundo por ‘carne’ e por ‘sangue’, ou seja, através da semente de Adão. Se Cristo entrasse no mundo, segundo a ‘carne’ e o ‘sangue’, estaria em um caminho largo, como todos os homens, e também, seguiria para a perdição.

Como Cristo não veio por Adão, entrou no mundo sem pecado. Por não ter vindo, através da semente de Adão, veio ao mundo pelo poder (virtude) de Deus, ou seja, por ‘água’. Adão, o primeiro homem, foi feito do pó da terra, portanto, é terreno; Cristo, o último Adão, sendo do céu, veio por água, ou seja, por intermédio do poder de Deus. (1 Co 15:47-48)

Todos os que vêm ao mundo por ‘carne’ e por ‘sangue’, não são pré-existentes, assim, como Adão não era pré-existente. Adão foi feito, a partir do pó da terra e veio à existência, quando Deus soprou em suas narinas o fôlego da vida e os demais descendentes de Adão vem à existência, quando são gerados, segundo a carne e o sangue.

É preciso divisar bem a questão de Cristo ter vindo em carne, pois, Cristo possuiu um corpo constituído de carne e de sangue, o que se verifica, quando Jesus foi circuncidado, ao oitavo dia (Lc1:59), quando sentiu fome, sede, cansaço (Mt 4:2; Jo 4:6), foi crucificado, morto e os seus ossos foram preservados, para não serem quebrados, sepultaram o seu corpo em uma sepultura que nunca foi utilizada e, ao terceiro dia, ressuscitou.

Cristo foi introduzido no mundo, na mesma condição de Adão, quando criado: livre de pecado. Mesmo com um corpo constituído de ‘carne’ e de ‘sangue’, Cristo não foi gerado, segundo a carne do pecado.

O vínculo do corpo de Cristo com a humanidade se deu somente por ‘sangue’, não por carne, para não ter vínculo com o pecado. Por causa da ação sobrenatural do Espírito Santo, o vinculo de Cristo com a humanidade se deu por sangue, não por carne, visto que Ele veio por ‘água’.

O fato de Jesus ter sido gerado no ventre de Maria conferiu a Cristo, pelo vínculo de sangue:

  1. O direito de se assentar no trono de Davi, seu pai, por conseguinte, conforme a profecia, depois de morto, ao terceiro dia, tendo ressurgido e foi declarado o Filho de Deus com poder. (2 Sm 7:14; Rm 1:3-4);
  2. Compartilhou da natureza humana, reunindo em si mesmo as condições necessárias para ser mediador entre Deus e os homens e, assim, provasse a morte por todos.

Dependendo do contexto em que o termo ‘carne’ é utilizado, com relação a Cristo, temos que compreender o emprego do termo, dentro do contexto do Novo Testamento. Por exemplo: Quando o apóstolo Paulo diz que Jesus Cristo nasceu ‘segundo a carne’, estava enfatizando, através do termo grego σάρκα (carne) o vínculo de sangue que há entre Davi e Cristo, como o descendente prometido e não que Ele seja oriundo da semente de Davi e de Abraão.

“Acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi, segundo a carne.” (Rm 1:3)

Há uma grande diferença, entre dizer, que Jesus nasceu segundo a carne e dizer que Ele é da descendência de Davi, segundo a carne. A assertiva de que Cristo é da descendência de Davi, remete à promessa que Deus fez a Davi, de modo que o corpo de matéria orgânica de Cristo teve vínculo de sangue com Davi, sem ser da semente de homem algum.

Cristo ter vindo por ‘água’ e por ‘sangue’, é diferente do argumento que demonstra que Cristo foi participante de ‘carne’ e de ‘sangue’. Sabemos que Jesus foi participante de carne e de sangue, ou seja, com um corpo constituído de carne e de sangue, porém, não teve vínculo com Adão, pois veio por água e por sangue. Apesar de ter um corpo de carne e de sangue, Cristo não foi gerado de ‘carne’ e de ‘sangue’, mas, sim, de ‘água’ e de ‘sangue’.

Essa é a grande diferença que há entre o nascimento de Cristo e o restante da humanidade: o modo que vieram ao mundo. Quando é dito que os filhos participam da carne e do sangue, no contexto, significa que os filhos são provenientes de uma semente que lhes confere a natureza dos pais, bem como a condenação oriunda da ofensa de Adão.

O intérprete das Escrituras precisa identificar, durante a leitura, qual é a defesa do evangelho que os escritores das epístolas fizeram. Por Exemplo, o escritor aos Hebreus combateu o desvio teológico de alguns, que diziam que Jesus era um dos profetas (anjo, mensageiro) ou, um ser angelical. O evangelista João combateu o desvio teológico de que Jesus não veio em carne e o apóstolo Paulo, por sua vez, demonstrou o cumprimento da profecia que Deus fez a Davi.

O escritor aos Hebreus precisou enfatizar a humanidade de Cristo, para desfazer a ideia equivocada de que Cristo seria somente um dos profetas ou, um ser angelical. Essa ideia equivocada de que um anjo se fez carne ou, que era somente mais um profeta, comprometia a essência do evangelho.

A alegação de que Jesus é um ser angelical e que se fez carne, nega que o Cristo é pré-existente, ou seja, que Ele é o Deus eterno que estava junto ao Pai e se esvaziou da sua glória, para habitar entre os homens: “Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens.” (Fl 2:7); “No princípio era o Verbo,  o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus.” (Jo 1:1-2 )

Nas Escrituras está registrado o seguinte, acerca do Filho de Deus:

“Mas, do Filho, diz: Ó Deus, o teu trono subsiste pelos séculos dos séculos; Cetro de equidade é o cetro do teu reino. Amaste a justiça e odiaste a iniquidade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com óleo de alegria, mais do que a teus companheiros.” (Hb 1:8-9; Sl 45:6-7);

“E Tu, Senhor, no princípio fundaste a terra, E os céus são obra de tuas mãos. Eles perecerão, mas tu permanecerás; E todos eles, como roupa, envelhecerão e, como um manto, os enrolarás e serão mudados. Mas tu és o mesmo, E os teus anos não acabarão.” (Hb 1:10-12; Sl 102:25-27)

Nas Escrituras não tem registro nenhum, de que algum profeta (anjo, mensageiro), fora chamado de Filho ou de Deus, do mesmo modo que tais nomes: Deus e Filho, não apontam para seres angelicais.

O evangelista João enfatiza que Cristo veio por ‘água’ e por ‘sangue’, o que significa que Ele não veio por ‘carne’ e por ‘sangue’. Ele precisava demonstrar que Jesus teve um corpo de carne, por causa dos anticristos, que diziam que Jesus não veio em carne, o que comprometeria a verdade da morte de Cristo e da sua ressurreição, porém, a verdade de que Cristo não teve vínculo com o pecado, também, deveria ser enfatizado.

A carne, como matéria, é sempre vinculada ao pecado, entretanto, não é um corpo constituído de carne que vincula o homem ao pecado, mas, sim, a herança de Adão transmitida pela semente corruptível. É a condenação, em decorrência da ofensa que ocorreu no Éden, que vincula o homem ao pecado, não a matéria constitutiva do corpo.

É imprescindível destacar que todos os homens, quando vêm ao mundo, exceto Adão e Cristo, possuem vinculo de ‘carne’ e de ‘sangue’. Adão é o único homem que veio ao mundo sem vínculo de carne e de sangue, pois foi criado por Deus, a partir do barro. Já o Filho de Deus veio ao mundo tendo vínculo de sangue, para compartilhar da natureza humana e, assim ser participante das fraquezas e sujeito à morte, porém, por ter vindo por água, nunca esteve sujeito ao pecado.

Exceto Adão e Cristo, todos os homens vêm ao mundo por carne e por sangue, ou seja, são gerados da vontade da carne, da vontade do varão e do sangue. Adão e Cristo tinham corpos constituídos de ‘carne’ e de ‘sangue’, no entanto, ambos não vieram ao mundo, conforme a vontade da carne, vontade do varão e do sangue.

A Palavra que é viva e permanece para sempre, se fez semelhante aos homens, portanto, significa que Jesus veio por água e, ao mesmo tempo, pertenceu à linhagem de Abraão e de Davi, pelo vinculo de sangue:

“… mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens.” (Fl 2:7)

É por causa dos opositores do evangelho, que diziam que Jesus não veio em carne, que o evangelista João demonstra que Jesus veio ao mundo, ao despir-se da sua glória, por ‘água’ e por ‘sangue’. (1 Jo 5:6).

Em seguida, o apóstolo enfatiza que as Escrituras (espírito) confirmam que Jesus veio em carne, ou seja, que Jesus detinha um corpo de carne e de sangue. Ora, como as Escrituras são a verdade e dão testemunho de Cristo, certo é que as Escrituras dão testemunho de Cristo:

“Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna e são elas que de mim testificam.” (Jo 5:39)

“Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade.” (Jo 17:17);

“A tua palavra é a verdade, desde o princípio, e cada um dos teus juízos dura para sempre.” (Sl 119:160)

O apóstolo João demonstra que o próprio Deus é quem dá testemunho, acerca do Cristo, através das Escrituras. A palavra de Deus é a verdade e Cristo, na condição de Verbo eterno encarnado, identificou-se como o caminho, a verdade e a vida: “Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho,  a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.” (Jo 14:6)

A palavra do evangelho é a unidade do Espírito, pois só há uma igreja (corpo) e um evangelho (evangelho): “Procurando guardar a unidade do Espírito, pelo vínculo da paz. Há um só corpo e um só Espírito, como, também, fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação.” (Ef 4:3-4)

Como a palavra de Deus é a verdade e o evangelista João enfatiza que o Espírito é a verdade, segue-se que o que testifica é a palavra, pois o testemunho de Cristo é o espírito da profecia.

“E eu lancei-me a seus pés para o adorar; mas, ele disse-me: Olha, não faças tal; sou teu conservo e de teus irmãos, que têm o testemunho de Jesus. Adora a Deus; porque o testemunho de Jesus é o espírito da profecia.(Ap 19:10; Jo 8:26)

Ao retirar a interpolação: “…no céu: o Pai, a Palavra e o Espírito Santo; e estes três são um. E três são os que testificam na terra:” (1 Jo 5:7-8), que não há nos melhores manuscritos, o que sugere um acréscimo tardio, teremos a seguinte assertiva:

“Porque três são os que testificam: o Espírito, a água e o sangue; e estes três concordam num.” (1 Jo 5:7-8)

Embora o Deus eterno seja constituído de três pessoas sempiternas e unas, e a diferenciação de pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo tenham surgido somente na plenitude dos tempos, quando o Unigênito de Deus foi introduzido no mundo, e a relação Pai/Filho passou a viger, conforme o acordado na eternidade: “Eu lhe serei por Pai e tu me será por Filho.” (2 Sm 7:14), a unidade do testemunho, acerca de Cristo como o Filho de Deus é o das Escrituras, ou seja, do espírito e não ‘do Pai, do Verbo e do Espírito Santo’, como sugere a interpolação.

Sobre o testemunho do Espírito, ou seja, da palavra que dá vida, temos a seguinte declaração de Jesus:

“Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna e são elas que de mim testificam.” (Jo 5:39);

Jesus balizou o seu ministério no testemunho de Deus, que está expresso nas Escrituras somente:

“E na vossa lei está, também, escrito que o testemunho de dois homens é verdadeiro. Eu sou o que testifico de mim mesmo e de mim testifica, também, o Pai que me enviou.(Jo 8:17-18)

O testemunho das Escrituras, conforme o anunciado pelos profetas (Jo 5:39), é o testemunho do Espírito ou, da Palavra ou, de Deus.

A água remete ao nascimento sobrenatural de Cristo, pois, além de Ele ser a água proveniente da pedra que os filhos de Israel beberam, pois era Ele quem os seguia (1 Co 10:4; Jo5:31-36; Jo 8:14), ação sobrenatural de Deus que atuou no ventre da virgem, concedendo a Cristo a natureza humana, constituiu o Cristo por testemunho a todos os povos.

“Mas eu tenho maior testemunho do que o de João; porque as obras que o Pai me deu para realizar, as mesmas obras que eu faço, testificam de mim, que o Pai me enviou.” (Jo 5:36)

O próprio sangue (parente) de Cristo testificou d’Ele, o seu primo, João Batista:

“João testificou dele e clamou, dizendo: Este era aquele de quem eu dizia: O que vem após mim é antes de mim, porque foi primeiro do que eu.” (Jo 1:15).

Quando Cristo é ressurreto pelo poder de Deus o testemunho do Espírito, da água e do sangue se confirmam, pois, Ele foi declarado filho de Deus com poder, pela ressurreição dentre os mortos:

“O qual, antes prometeu, pelos seus profetas, nas santas escrituras, acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi, segundo a carne, declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor.” (Rm 1:2-4).

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1] “3956 πας pas que incluem todas as formas de declinação; TDNT – 5:886,795; adj 1) individualmente 1a) cada, todo, algum, tudo, o todo, qualquer um, todas as coisas, qualquer coisa 2) coletivamente 2a) algo de todos os tipos, Dicionário Bíblico Strong.

[2] “1097 γινωσκωginoskoforma prolongada de um verbo primário; TDNT – 1:689,119; v 1) chegar a saber, vir a conhecer, obter conhecimento de, perceber, sentir 1a) tornar-se conhecido 2) conhecer, entender, perceber, ter conhecimento de 2a) entender 2b) saber 3) expressão idiomática judaica para relação sexual entre homem e mulher 4) tornar-se conhecido de, conhecer” Dicionário Bíblico Strong.

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A mulher e o dragão

A visão da mulher e do dragão no Livro das Revelações destaca o papel da nação de Israel, e não o papel de um indivíduo. A promessa do Cristo foi feita a Abraão para cumprir-se nos seus descendentes, na nação de Israel, ou seja, não foi feita uma promessa a Maria. Embora o Cristo foi gerado no ventre de Maria, a visão não se refere a ela. Eva também não é a mulher vestida de sol, apesar de Deus ter dito ao dragão, a antiga serpente que haveria inimizade entre a serpente e a mulher, e entre a descendência do dragão e o descendente da mulher ( Gn 3:15 ).


As várias visões que o evangelista João teve na ilha de Patmos foram registradas no Livro das Revelações, também conhecido como o Livro do Apocalipse. 

O livro do Apocalipse geralmente é rotulado como o livro que fala do ‘fim’ – das últimas coisas – entretanto, o livro do Apocalipse também aborda questões e eventos da origem (Gênesis), ou até mesmo evento antes da criação do mundo. 

Iniciaremos a análise e estudo do Livro do Apocalipse no capítulo 12, visto que as figuras deste capítulo servem de chave para compreendermos as demais visões contidas no Livro das Revelações. 

As referências bíblicas citadas são essenciais à análise das figuras, visto que o livro é riquíssimo em figuras, uma peculiaridade que não se restringe ao livro das Revelações, pois várias figuras permeiam toda a bíblia, portanto as referências devem ser lidas e comparadas. 

Quem se propõe a interpretar o livro do Apocalipse, ao menos dever ler os livros de Deuteronômio, Salmos, Provérbios, Isaias, Jeremias, Ezequiel, Malaquias, Miqueias, Sofonias, Daniel, Mateus e Tessalonicenses, etc., para não inserir na interpretação opinião distanciada da mensagem que Deus revelou ao apóstolo João. 

Diferente de outras visões que descrevem a condição do povo de Israel (pecado) e eventos futuros (redenção), as visões contidas no capítulo 12 apresentam passado, presente e o futuro dos israelitas.

 Apocalipse 12, versos 1 à 17 

1  E VIU-SE um grande sinal no céu: uma mulher vestida do sol, tendo a lua debaixo dos seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça. 2  E estava grávida, e com dores de parto, e gritava com ânsias de dar à luz. 

Após a visão dos sete selos e das sete trombetas, o evangelista vê um grande sinal nos céus. Os sinais que ele vê quando em espírito apresenta uma ‘visão’ panorâmica da história de Israel.

O apóstolo viu:

  • Uma mulher;
  • Vestida do sol;
  • A lua estava sob os seus pés;
  • Havia uma coroa sobre a sua cabeça;
  • A coroa possuía doze estrelas;
  • A mulher estava grávida;
  • Com dores de parto.

Estes dois versos não oferecem elementos suficientes para compor uma ideia ou correlação, pois ainda não foi apresentado um contexto que dê para correlacionar as figuras que compõe o ‘quadro’.

 

3  E viu-se outro sinal no céu; e eis que era um grande dragão vermelho, que tinha sete cabeças e dez chifres, e sobre as suas cabeças sete diademas. 4  E a sua cauda levou após si a terça parte das estrelas do céu, e lançou-as sobre a terra; 

Após ver uma mulher ‘vestida’ do sol, o evangelista viu outra imagem: um dragão: “E viu-se outro sinal no céu…”. Nesta visão é destacada as características do dragão: grande, vermelho, com sete cabeças e dez chifres e sete diademas.

A visão destaca um elemento curioso: a cauda do dragão. A cauda do dragão (cor de fogo) fez com que a terça parte das estrelas a seguisse, e a terça parte das estrelas do céu foram lançadas sobre a terra.

As estrelas vistas neste sinal não são às incontáveis estrelas celestes, até porque o evangelista está narrando uma visão composta de figuras.

 

4 e o dragão parou diante da mulher que havia de dar à luz, para que, dando ela à luz, lhe tragasse o filho. 5  E deu à luz um filho homem que há de reger todas as nações com vara de ferro; e o seu filho foi arrebatado para Deus e para o seu trono.

As duas figuras apresentadas compõe um quadro único, e o verso quatro une os dois, demonstrando que as visões da mulher e do dragão estão interligadas.

O dragão, ao parar diante da mulher, tinha o interesse de destruir a criança que estava no ventre da mulher que gritava com ânsias de dar a luz. O dragão estava pronto para tragar a criança quando ela nascesse (v. 4).

O verso 5 trás um elemento chave que possibilita fazer afirmações sobre as visões.

A mulher vestida de sol diz da nação de Israel, pois o Cristo segundo a carne veio dos pais Abraão, Isaque e Jacó. As doze estrelas na cabeça da mulher simbolizam as doze tribos de Israel conforme a aliança que Deus estabelecera com os pais (Abraão, Isaque e Jacó) “Dos quais são os pais, e dos quais é Cristo segundo a carne, o qual é sobre todos, Deus bendito eternamente” ( Rm 9:5 ).

A mulher trouxe à luz um filho homem que há de reger todas as nações com vara de ferro! Quem seria este menino? O salmo segundo responde: “Proclamarei o decreto: o SENHOR me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei. Pede-me, e eu te darei os gentios por herança, e os fins da terra por tua possessão. Tu os esmigalharás com uma vara de ferro; tu os despedaçarás como a um vaso de oleiro” ( Sl 2:7 -9; Is 66:7 ;  Ap 19:15 ).

O salmo 2 é messiânico, como atesta o escritor aos Hebreus ( Hb 1:5 ), e, como há somente uma pessoa destinada a reger todas as nações com vara de ferro – Jesus Cristo – podemos afirmar com confiança que o filho da mulher que estava grávida diz da pessoa de Jesus. Somente Cristo há de reger todas as nações de modo firme. A Cristo Deus prometeu as nações por herança e a terra por possessão ( Sl 2:8 ; Is 11:4 ; 1Co 15:24 -25).

O verso 5 contém dois tempos verbais distintos: ‘deu à luz’ e ‘há de reger’, o que demonstra que o filho que havia de nascer da mulher é evento passado (deu à luz), mas o tempo em que o filho da mulher vestida de sol regerá as nações ainda está por vir (há de reger) “E fala-lhe, dizendo: Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Eis aqui o homem cujo nome é RENOVO; ele brotará do seu lugar, e edificará o templo do SENHOR. Ele mesmo edificará o templo do SENHOR, e ele levará a glória; assentar-se-á no seu trono e dominará, e será sacerdote no seu trono, e conselho de paz haverá entre ambos os ofícios” ( Zc 6:12 -13).

Através da profecia de Zacarias temos dois elementos a destacar: Cristo é o renovo do Senhor ( Is 53:2 ). Quando é dito que o renovo brotará do seu lugar, demonstra que o Cristo descenderá da linhagem de Davi e, que é Ele que edifica o templo do Senhor.

Ora, o templo do Senhor é a Igreja, o seu corpo, de modo que a Igreja leva sobre si a glória de Deus. Esta profecia tem relação direta com a Igreja, pois Cristo e a pedra angular do templo construído por Deus e não por mãos humanas ( Ef 2:21 ; At 17:24 ).

Após o templo do Senhor ser erguido, Cristo se assentará no trono do seu Pai, Davi, e regerá as nações com vara de ferro e dominará. Neste tempo não haverá distinção entres os ofícios de rei e sacerdote, pois em Cristo haverá a união de ambos os ofícios “Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, sendo rei, reinará e agirá sabiamente, e praticará o juízo e a justiça na terra” ( Jr 23:5 ).

A visão também demonstra que, embora o dragão estivesse posicionado para destruir o Cristo, não teria êxito na sua empreitada, pois o Cristo é tirado deste mundo para estar com Deus, assentando-se a destra do trono de Deus ( Mt 19:28 ; Is 53:8 ; Dn 9:26 ).

A visão destaca o papel da nação de Israel, e não o papel de um indivíduo. A promessa do Cristo foi feita a Abraão para cumprir-se nos seus descendentes, na nação de Israel, ou seja, não foi feita uma promessa a Maria. Embora o Cristo foi gerado no ventre de Maria, a visão não se refere a ela.

Eva também não é a mulher vestida de sol, apesar de Deus ter dito ao dragão, a antiga serpente que haveria inimizade entre a serpente e a mulher, e entre a descendência do dragão e o descendente da mulher ( Gn 3:15 ).

A Sétima trombeta do capítulo 11, versos 15 à 19 diz respeito ao menino que foi gerado pela mulher e arrebatado para o seu trono. Enquanto o capítulo 12 aponta para o Cristo que há de reger as nações, a Sétima trombeta noticia que o reino do Cristo é inaugurado ( Sl 110:1 -7), a revolta das nações ( Sl 2:1 -12), e o julgamento final.

Em suma, a visão da mulher e do dragão é uma descrição da história de Israel feito com figuras ( Is 54:5 ; Jr 3:6 -10; Os 2:19 -20). Israel é a nação (mulher), escolhida por Deus para trazer o Cristo ao mundo (gravida). Apesar de Satanás, a antiga serpente (dragão) querer devorar o menino que a mulher estava para dar a luz (Jesus), não conseguiu o seu intento, pois o menino que veio ao mundo foi arrebatado por Deus para o seu trono.

A serpente somente feriu o calcanhar do descendente da mulher, mas o descendente da mulher feriu a cabeça da serpente quando foi tomado para Deus ( Gn 3:15 ).

 

6  E a mulher fugiu para o deserto, onde já tinha lugar preparado por Deus, para que ali fosse alimentada durante mil duzentos e sessenta dias. 

A mulher que foge para o deserto não pode ser a igreja, pois a igreja é o corpo de Cristo, e Cristo a cabeça (Mt 16:18 ). A igreja é o corpo de Cristo, e não há registro bíblico de que a igreja tenha gerado um filho.

Não há tempo estabelecido na bíblia para a igreja (judeus e gentios), de modo que o período de tempo de mil duzentos e sessenta dias (três anos e meio=metade de uma semana de anos=1 semana equivale a sete anos) aplica-se exclusivamente à nação de Israel, como se lê no livro de Daniel ( Dn 9:27 ; Ap 12:14 ).

A visão apresenta os eventos de Israel em ordem cronológica.

  • A mulher gravida;
  • O intento do dragão;
  • O dragão é frustrado;
  • O filho é tirado para assentar-se no seu trono;
  • A mulher foge para o deserto;
  • A mulher fica por um período de tempo sob os cuidados de Deus.

Após Cristo ter sido arrebatado para o seu trono, abriu-se a plenitude dos gentios e a contagem de tempo para mulher foi suspenso ( Rm 11:25 ). Quando for encerrada a plenitude dos gentios, a mulher (Israel) fugirá para o deserto.

‘Deserto’ não diz de um lugar árido, sem água e sem vegetação, antes é uma figura das aflições e provações pertinentes ao período de grande tribulação previsto, quando Deus tratará com o seu povo em particular e, em seguida dar-se-á a conversão de Israel “Portanto, eis que eu a atrairei, e a levarei para o deserto, e lhe falarei ao coração” ( Os 2:14 ).

Observe que Deus tirou Israel de uma terra pagã (Egito) e os atraiu ao deserto, mas não deram credito ao Senhor. Foram provados e reprovados, pois os seus corações permaneciam desejosos das coisas dos Egito ( Nm 11:5 -6; Dt 8:3). Cristo foi levado ao deserto pelo Espírito para ser provado, e venceu ( Mt 4:1 ). A mulher (Israel) ao seu tempo também será levada ao deserto (aflição), onde se converterá ao Senhor.

O que o apóstolo João relata nas suas visões não foi engenhosamente composto por ele, antes ele resignou-se a relatar o que efetivamente viu, pois ao final do Livro do apocalipse a exortação é clara: “Porque eu testifico a todo aquele que ouvir as palavras da profecia deste livro que, se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus fará vir sobre ele as pragas que estão escritas neste livro” ( Ap 22:18 ).

“Mas ele acrescentou de sua própria colheita algo que todos os pagãos da Ásia Menor eram capazes de reconhecer como parte da antiga representação babilônica da divindade. Muito frequentemente representavam a seus deuses com uma coroa na qual eram representados os doze signos do zodíaco. É como se João tivesse tomado todos os símbolos da divindade e da beleza que conhecia e os tivesse reunido nesta descrição” Barclay, William, Apocalipse, Pág. 298.

A acusação de Barclay é gravíssima e leviana, pois ele aduz que o apóstolo acresceu de si mesmo algo à Revelação. A afirmação de Barclay sugere que a visão de Deus não foi efetiva e que o apóstolo precisou compor de si mesmo a mensagem, lançando mão de símbolos do paganismo.

Se o apóstolo João acresceu de si mesmo algo à visão, elas não são dignas de aceitação, pois não haveria como separar o que é dá ‘colheita’ do apóstolo, e o que seria a visão de Deus.

Tanto Barclay quanto Moody classificam o dragão como arqui-inimigo de Deus, porém, Deus não possui arqui-inimigo. Satanás não está em pé de igualdade com Deus. Satanás é criatura de Deus, nomeia Deus de Altíssimo.

Satanás é inimigo dos homens, e não de Deus. Cogitar que Satanás é inimigo de Deus não passa do imaginário popular e das lendas dos povos. Deste imaginário surgiu o dualismo (bem versus mal), pensamento que não reflete a verdade bíblica.

 

7  E houve batalha no céu; Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão, e batalhavam o dragão e os seus anjos; 8  Mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou nos céus. 9  E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo, e Satanás, que engana todo o mundo; ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele. 

A batalha deste versículo (v. 7) é a explicação da visão da cauda do dragão do verso 4. A batalha se deu antes da mulher dar à luz ao menino, pois a descrição da cauda remete a eventos passados. A cauda aponta para eventos do passado do dragão.

Verso 4: “E a sua cauda levou após si a terça parte das estrelas do céu, e lançou-as sobre a terra; e o dragão parou diante da mulher que havia de dar à luz, para que, dando ela à luz, lhe tragasse o filho”. Primeiro a cauda arrasta após si terça parte das estrelas e, posteriormente o dragão para diante da mulher quando ela ainda não havia dado a luz.

Cronologicamente, primeiro se deu a batalha nos céus (cauda do dragão), evento descrito pela cauda do dragão. O dragão é visto aguardando o nascimento daquele que há de reger as nações, mas o Cristo foi tomando para Deus. A batalha no céu não se deu quando Cristo ressurgiu e foi assunto aos céus e nem se dará na grande tribulação, quando a mulher fugir para o deserto (v. 14).

Enquanto as outras narrativas inicia-se com ‘Viu-se um sinal no céu…’, o verso 7 somente noticia que houve um batalha no céu. Este não é um evento histórico que a humanidade possa comprovar, como é o caso do evento da ‘mulher’ quando ficou frente ao ‘dragão’ que queria devorar o seu ‘filho’.

A visão do dragão e a referência a cauda (v. 4) representa uma ‘batalha’ no céu (vv. 7 -9), porém, foge do exposto na bíblia a ideia de que uma horda de demônio intentou invadir os céus para lutar contra Cristo.

Quando Cristo ascendeu aos céus, foi lhe dado todo poder. A glória que Jesus Cristo homem possuía antes de haver mundo, voltou a pertencer-Lhe, o que torna descabido uma tentativa de invasão da glória celeste por anjos caídos ( Jo 17:5 ).

Nada há o que ou quem se possa comparar com o poder de Deus. Quando o apóstolo Paulo fala da ação de Deus ao aniquilar o iniquo que virá sobre a eficácia de Satanás, demonstra que o sopro de Deus será suficiente.

A cauda do dragão aponta um evento passado: a rebelião de Satanás e a queda dos anjos, pois não guardaram os seus principados.

Quando nos deparamos com a narrativa de uma batalha no céu, não podemos considerar que houve um embate corpo a corpo, com lanças, espadas e vara paus entre anjos, pois estes seres não estão sujeitos às leis da física. O embate que houve nos céus não se deu à semelhança dos embates que há entre os homens quando em guerra.

A batalha nos céus se deu com palavras, exposição de ideias, assim como foi a disputa a respeito do corpo de Moises e da condição do sumo sacerdote Josué “Mas o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo, e disputava a respeito do corpo de Moisés, não ousou pronunciar juízo de maldição contra ele; mas disse: O Senhor te repreenda” ( Jd 1:9 ); “Mas o SENHOR disse a Satanás: O SENHOR te repreenda, ó Satanás, sim, o SENHOR, que escolheu Jerusalém, te repreenda; não é este um tição tirado do fogo?” ( Zc 3:2 ).

Miguel e os anjos debateram com Satanás e seus anjos ( Ap 12:7 ), porém, Satanás (dragão) não prevaleceu e o seu lugar deixou de ser os céus. A única arma poderosa que há em uma batalha espiritual é a autoridade da palavra da justiça e da verdade: a palavra de Deus.

No verso 9 o apóstolo João descreve a queda de Satanás e dos seus anjos.

O dragão é apontado como a antiga serpente (Diabo, Satanás, Enganador), a mesma que abordou e enganou Eva no jardim do Éden.

Quando o dragão foi precipitado, a sua cauda arrastou após si terça parte das estrelas (anjos) “E a sua cauda levou após si a terça parte das estrelas do céu, e lançou-as sobre a terra” (v. 4). O que o apóstolo João viu em visão, Jesus presenciou acontecer: “E disse-lhes: Eu via Satanás, como raio, cair do céu” ( Lc 10:18 ).

O dragão foi o querubim que Deus criou e o empossou como guarda no monte santo que ficava no Éden antes da criação e queda do homem. O lugar deste querubim não era os céus junto as outras estrelas de Deus, antes ficava no Éden ( Ez 28:13 ).

Este querubim nunca regeu corais de anjos, como sugere o imaginário popular, antes ele era guarda. Como guarda, possuía indumentária que o distinguia dos demais anjos e o tornava investido de autoridade sobre os demais ( Ez 28:13 -14).

Satanás, quando foi criado, era perfeito, tanto em formosura quanto em sabedoria ( Ez 28:12 ), mas certa ocasião achou-se iniquidade nele, pois quis lucrar (comércio) com a sua posição. Aquilo que ele foi comissionado para guardar, seu coração desejou e seu interior encheu-se de violência (injustiça), pois passou a dizer em seu coração “Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono; no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do norte. Subirei acima das mais altas nuvens, serei semelhante ao Altíssimo” ( Is 14:13 -14).

Ele não guardou a sua posição (principado), a de guarda, pois ficou interessado na posição que seria dada a Cristo e os seus descendentes: a semelhança do Altíssimo. Enquanto Satanás acreditou que subir acima dos outros anjos (estrelas de Deus) o tornaria ‘semelhante’ ao Altíssimo, Deus desceu para fazer o homem a sua imagem e semelhança.

Satanás não buscou ser igual a Deus ou ser maior que o próprio Deus, pois não é factível que a criatura tome o lugar do Criador. Satanás, quando estabelece o seu plano, nomeia o Criador de Altíssimo em seu coração ( Is 14:14 ), pois Deus é o inatingível. Satanás buscou a semelhança, o que Deus propôs conceder aos homens.

“Há nas Escrituras o eco de uma antiga tradição sobre uma guerra que se teria travado no céu. Segundo esta história Satanás teria sido um anjo tão ambicioso para querer ser maior que Deus. Concebeu, assim, a ideia impossível de colocar seu trono mais alto que o trono divino (2 Enoque 29:4-5)” Barcley Pág. 304.

Outra colocação descabida de Barcley, é a de que há eco da tradição nas Escrituras. As estórias, fábulas e impressões narradas pela tradição não foram recepcionadas nas Escrituras, pois a tradição não é a infalível revelação de Deus.

Quando o dragão subiu do Éden e chegou aos céus, tentou convencer os anjos de que o seu intento era plausível. Nesta empreitada a terça parte dos anjos o seguiu e foram precipitados da sua posição (Jd 1:6 ). Por causa do seu resplendor, sabedoria e formosura, Satanás achou-se digno de lançar mão da semelhança do Altíssimo, porém, esta glória estava reservada para o Verbo encarnado quando retornasse à glória do Pai “Quanto a mim, contemplarei a tua face na justiça; eu me satisfarei da tua semelhança quando acordar” ( Sl 17:15 ); “O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas” ( Hb 1:3 ).

Embora fosse guarda no Éden e vislumbrasse a nova posição na hierarquia celestial que estava para surgir, a de semelhante ao Altíssimo, o dragão não compreendia o mistério da multiforme sabedoria de Deus, que só foi revelado aos anjos através da Igreja: que Cristo é a expressa imagem de Deus, a cabeça da igreja, e que todos os que ressurgem com Ele serão semelhantes a Ele “O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação” ( Cl 1:15 e 18; 1Jo 3:2 ; Ef 3:10 ).

Enquanto o apóstolo João narra os eventos pertinentes à cauda do dragão nos versos 7 à 9, Barcley sugere que Satanás perseguiu o Cristo quando foi tomado para assentar-se no seu trono “A ideia é que a fúria do dragão era tal que seguiu ao Messias até o próprio céu, onde lhe saíram ao encontro Miguel e suas legiões, os quais conseguiram lançá-lo de volta ao abismo” Idem, Pág. 304.

Quem é Satanás (criatura) para se opor ao Senhor Jesus Cristo (Criador) glorificado? Como a criatura pode opor-se ao Criador? O Criador não pode defender-se a Si mesmo que dependa de seus ministros mensageiros (anjos)?

 

10  E ouvi uma grande voz no céu, que dizia: Agora é chegada a salvação, e a força, e o reino do nosso Deus, e o poder do seu Cristo; porque já o acusador de nossos irmãos é derrubado, o qual diante do nosso Deus os acusava de dia e de noite. 11  E eles o venceram pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do seu testemunho; e não amaram as suas vidas até à morte. 12  Por isso alegrai-vos, ó céus, e vós que neles habitais. Ai dos que habitam na terra e no mar; porque o diabo desceu a vós, e tem grande ira, sabendo que já tem pouco tempo. 

O apóstolo João ouviu uma grande voz que anuncia um novo tempo. ‘Agora’, o dia sobremodo oportuno, o dia de salvação está vinculado ao nascimento do menino que a ‘mulher’ deu a luz. O menino que nasceu é o Filho que Deus prometeu através do profeta Isaias: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz. Do aumento deste principado e da paz não haverá fim, sobre o trono de Davi e no seu reino, para o firmar e o fortificar com juízo e com justiça, desde agora e para sempre; o zelo do SENHOR dos Exércitos fará isto” ( Is 9:6 -7).

Com o nascimento de Cristo veio salvação a todos os homens. Por intermédio de Cristo foi concedido salvação, o poder de serem feitos filhos de Deus. Cristo estabelece o reino de Deus, pois o evangelho é poder de Deus para salvação dos que creem.

Através da morte de Cristo, que se deu em obediência ao Pai, o dragão que se opunha dia e noite aos servos de Deus – Satanás – é vencido (derrubado) “Ao que vencer lhe concederei que se assente comigo no meu trono; assim como eu venci, e me assentei com meu Pai no seu trono” ( Ap 3:21 ); “Desde agora o Filho do homem se assentará à direita do poder de Deus” ( Lc 22:69 ).

A descrição de que o filho que a mulher dera a luz foi arrebatado para Deus e para o seu trono apresenta o Cristo como vencedor “E deu à luz um filho homem que há de reger todas as nações com vara de ferro…” ( v. 5; Mt 25:31 -32 ; Mt 19:28 ; Ap 19:15 ; Ap 3:21 ).

Os versos 10 à 12 de Apocalipse 12 demonstram que os que creem em Cristo são vencedores por causa da morte do Cordeiro de Deus e da palavra do seu testemunho (evangelho). Quem crê em Cristo não ama a sua própria vida, antes abriram mão dela “Porque, qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas qualquer que, por amor de mim, perder a sua vida, a salvará” ( Lc 9:24 ).

“E não amaram as suas vidas até à morte” (v. 9), não é o mesmo que ser martirizado, antes a entrega total a Cristo, crendo no evangelho, pois ao crer no enviado de Deus, o homem morre com Cristo e deixa de viver, e a vida que passa a viver, vive-a na fé no Filho de Deus “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” ( Gl 2:20 ).

O pensamento: “O martírio é, por si mesmo, uma vitória sobre Satanás. O mártir, esse homem que preferiu sofrer antes que negar sua fé ou claudicar só uma milésima parte de sua lealdade, é alguém que demonstrou ser superior a qualquer tentação de Satanás, a suas ameaças e até a sua violência” Barcley, Pág. 309., não reflete a verdade do evangelho, pois o que vence o mundo é a personificação da fé, ou seja, a fé manifesta, e não a disposição em ser mártir “Porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé” ( 1Jo 5:4 ); “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” ( Gl 3:23 ).

Diante das boas novas anunciadas – de que Cristo assentou-se no seu trono vencedor e que os que creem também são vencedores – é proclamado aos céus que exultem “Por isso alegrai-vos, ó céus, e vós que neles habitais” (v. 12).

Enquanto os que habitam os céus exultam, é lançado um ‘Ai’ sobre os moradores do mundo (terra e mar). Em seguida a voz que o apóstolo João ouve apresenta o motivo: “… porque o diabo desceu a vós, e tem grande ira, sabendo que já tem pouco tempo” (v. 12).

 

13  E, quando o dragão viu que fora lançado na terra, perseguiu a mulher que dera à luz o filho homem. 14  E foram dadas à mulher duas asas de grande águia, para que voasse para o deserto, ao seu lugar, onde é sustentada por um tempo, e tempos, e metade de um tempo, fora da vista da serpente. 

O evangelista João vê quando o dragão (Satanás) se dá conta que perdera o seu principado ao ser lançado na terra (cauda do dragão), e passou a perseguir a mulher (Israel).

As Escrituras mostra que Israel, como nação, sofreu e sofre perseguição, porém, o evangelista descreve um período específico estabelecido para a mulher (mil duzentos e sessenta dias), quando é concedidas asas de grande águia (providência semelhante à concedida a Israel quando tirado com mão forte do Egito), para que a mulher voasse (deslocasse) para o deserto ( Ex 19:4 ).

O deserto é lugar de juízo, prova, onde a mulher (Israel) permanecerá por um período estabelecido: um tempo, e tempos, e metade de um tempo “E o juízo habitará no deserto, e a justiça morará no campo fértil” ( Is 32:16 ; Os 2:14 ; Ez 34:25 ; Jr 31:2 ; Mq 7:15 ).

O ‘deserto’ é frequente na história de Israel, assim como os ‘períodos de tempos’ estabelecidos. É no deserto que Deus fala ao coração do seu povo “Portanto, eis que eu a atrairei, e a levarei para o deserto, e lhe falarei ao coração” ( Os 2:14 ).

Inicialmente foi profetizado a Abraão a aflição dos seus descendentes em terra alheia e o tempo de permanência do povo de Israel no Egito: “Então disse a Abrão: Sabes, de certo, que peregrina será a tua descendência em terra alheia, e será reduzida à escravidão, e será afligida por quatrocentos anos” ( Gn 15:13 ).

Quando o povo de Israel foi tirado do Egito, foi Deus quem os guiou ao deserto por um caminho mais extenso, um cuidado para que não voltassem ao Egito ( Ex 13:17 ), de modo que Faraó chegou à conclusão que o povo estava embaraçado e presos no deserto ( Ex 14:3 ).

Os espias passaram quarenta dias observando a terra prometida ( Nm 13:25 ), e quando não confiaram no Senhor e não quiseram entrar na terra prometida, foi estabelecido um ano para cada dia que espiaram a terra, de modo que foram afligidos por quarenta anos no deserto ( Nm 14:34 ).

Moisés deixou claro que a aflição por quarenta anos no deserto era para dar entender ao povo que não é de pão que o homem vive, antes que vive pela palavra que sai da boca de Deus ( Dt 8:3 ). Ora, o deserto é lugar de humilhação, prova e instrução. É o lugar em que o povo de Israel tem um encontro com Deus.

Assim como Israel foi conduzido por Deus ao deserto para ser provado, Jesus foi conduzido ao deserto para ser provado ( Mt 4:1 ). No deserto há um embate entre a verdade e a mentira, entre o engano do diabo e a verdade da palavra de Deus.

A mulher da visão do apóstolo João será conduzida ao deserto e será posta a prova. De um lado haverá um rio para traga-la, e do outro a terra para absorver o rio.

Assim como Israel foi tirado do Egito e conduzido ao deserto para lançarem de si os seus ídolos, a ‘mulher’ (Israel) será conduzida ao deserto onde Deus entrará em juízo com a nação de Israel “O que fiz, porém, foi por amor do meu nome, para que não fosse profanado diante dos olhos dos gentios, no meio dos quais estavam, a cujos olhos eu me dei a conhecer a eles, para os tirar da terra do Egito. E os tirei da terra do Egito, e os levei ao deserto (…) E vos levarei ao deserto dos povos; e ali face a face entrarei em juízo convosco; Como entrei em juízo com vossos pais, no deserto da terra do Egito, assim entrarei em juízo convosco, diz o Senhor DEUS. Também vos farei passar debaixo da vara, e vos farei entrar no vínculo da aliança” ( Ez 20:9 -10 e 35 -37).

Assim como Israel saiu do Egito e passou quarenta anos no deserto sendo sustentado e provado por Deus por causa da incredulidade, de igual modo está estabelecido que a mulher ficará um tempo, e tempos, e metade de um tempo sustentada e cuidada por Deus em tempos de aflição qual nunca houve, de modo que os filhos de Israel lançarão de si os seus ídolos e passarão a confiar em Deus “E te lembrarás de todo o caminho, pelo qual o SENHOR teu Deus te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar, e te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias os seus mandamentos, ou não. E te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem. Nunca se envelheceu a tua roupa sobre ti, nem se inchou o teu pé nestes quarenta anos. Sabes, pois, no teu coração que, como um homem castiga a seu filho, assim te castiga o SENHOR teu Deus” ( Dt 8:2 -5).

No período de grande tribulação, a mulher será levada ao deserto porque somente os que ‘habitam’ no deserto inclinarão perante o Cristo glorificado “Aqueles que habitam no deserto se inclinarão ante ele, e os seus inimigos lamberão o pó” ( Sl 72:9 ). Quando os que sobrarem de Israel naquele dia inclinar-se perante o renovo do Senhor, e chorarem amargamente ao verem aquele que trespassaram, os seus inimigos serão derrotados “Naquele dia o renovo do SENHOR será cheio de beleza e de glória; e o fruto da terra excelente e formoso para os que escaparem de Israel” ( Is 4:2 ); “Mas sobre a casa de Davi, e sobre os habitantes de Jerusalém, derramarei o Espírito de graça e de súplicas; e olharão para mim, a quem traspassaram; e pranteá-lo-ão sobre ele, como quem pranteia pelo filho unigênito; e chorarão amargamente por ele, como se chora amargamente pelo primogênito” ( Zc 12:10 ).

Cumprir-se-á a promessa: “E todos os do teu povo serão justos, para sempre herdarão a terra; serão renovos por mim plantados, obra das minhas mãos, para que eu seja glorificado” ( Is 60:21 ). 

Após a provação e as aflições daqueles dias se cumprirá a promessa: “Dize-lhes pois: Assim diz o Senhor DEUS: Eis que eu tomarei os filhos de Israel dentre os gentios, para onde eles foram, e os congregarei de todas as partes, e os levarei à sua terra.  E deles farei uma nação na terra, nos montes de Israel, e um rei será rei de todos eles, e nunca mais serão duas nações; nunca mais para o futuro se dividirão em dois reinos.  E nunca mais se contaminarão com os seus ídolos, nem com as suas abominações, nem com as suas transgressões, e os livrarei de todas as suas habitações, em que pecaram, e os purificarei. Assim eles serão o meu povo, e eu serei o seu Deus. E meu servo Davi será rei sobre eles, e todos eles terão um só pastor; e andarão nos meus juízos e guardarão os meus estatutos, e os observarão. E habitarão na terra que dei a meu servo Jacó, em que habitaram vossos pais; e habitarão nela, eles e seus filhos, e os filhos de seus filhos, para sempre, e Davi, meu servo, será seu príncipe eternamente. E farei com eles uma aliança de paz; e será uma aliança perpétua. E os estabelecerei, e os multiplicarei, e porei o meu santuário no meio deles para sempre. E o meu tabernáculo estará com eles, e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo” ( Ez 37:21 -27).

 

15  E a serpente lançou da sua boca, atrás da mulher, água como um rio, para que pela corrente a fizesse arrebatar. 16  E a terra ajudou a mulher; e a terra abriu a sua boca, e tragou o rio que o dragão lançara da sua boca. 

A serpente é Satanás, o dragão que perseguiu a mulher ( Ap 12:9 ; Ap 20:2 ). Satanás arremessa de sua boca atrás da mulher ‘água como um rio’. Ora, o que sai da boca de Satanás é engano (lançou) ( Jo 8:44 ).

Mas, o engano, a mentira que é lançada da boca da Serpente compara-se a águas torrenciais de um rio. ‘Água’ representa doutrina, mensagem, palavra, que na figura, diz da palavra do engano, da mentira.

O salmista – ao falar da vaidade e da falsidade – demonstra que o engano é comparável as muitas águas de um rio “Estende as tuas mãos desde o alto; livra-me, e arrebata-me das muitas águas e das mãos dos filhos estranhos, Cuja boca fala vaidade, e a sua mão direita é a destra de falsidade” ( Sl 144:7 -8; Sl 72:14 ).

Somente Deus pode livrar o homem da boca daqueles que proferem vaidade (mentira) cuja força (destra) é a falsidade.

Quando o salmista faz a seguinte declaração: “Por isso, todo aquele que é santo orará a ti, a tempo de te poder achar; até no transbordar de muitas águas, estas não lhe chegarão. Tu és o lugar em que me escondo; tu me preservas da angústia; tu me cinges de alegres cantos de livramento” (Selá.) ( Sl 32:6 -7), o ‘transbordar das muitas águas’ refere-se ao espírito de engano, à mentira.

Somente os que confiam na palavra de Deus estão protegidos (abrigados, escondidos) dos lábios mentirosos ( Sl 32:2 ; Sl 31:18 e 20), mesmo que o engano ‘transborde’, não arrebatará o que crê.

A ação de Satanás sempre se processou através do engano, da mentira, mas, as ações da serpente descritas nos versos 15 à 17 dar-se-á em um período específico e de dois modos.

No verso 15 e 16 é exposto qual será o primeiro modo de atuação da serpente ao perseguir a ‘mulher’, e no verso 17 vê-se que a tática da Serpente mudará, conforme se depreende da mudança que há na visão, pois inicialmente o verso aponta para a Serpente e após utiliza a figura da Serpente, o dragão. Em decorrência da sua ira, o dragão porá em aperto a mulher através da guerra utilizando-se dos reis e reinos da terra.

No início da última semana de anos (sete anos) que terá início após o termino da plenitude dos gentios ( Rm 11:25 ), a ação da serpente será ‘destilar’ o seu veneno por três anos e meio. Será um período de engano, a mentira agirá de modo torrencial. O engado terá o seu curso através de falsos profetas e falsos cristos ( Mt 24:5 e 11; Mt 24:24 -26).

A mentira proveniente da boca da serpente, que é comparável a um rio, se dará em decorrência da manifestação do iníquo que virá sobre a eficácia de Satanás “E então será revelado o iníquo, a quem o Senhor desfará pelo assopro da sua boca, e aniquilará pelo esplendor da sua vinda; a esse cuja vinda é segundo a eficácia de Satanás, com todo o poder, e sinais e prodígios de mentira, e com todo o engano da injustiça para os que perecem, porque não receberam o amor da verdade para se salvarem” ( 2Ts 2:9 -10).

No verso 15 a ‘água’ simboliza doutrina, que por ser proveniente da boca da serpente refere-se ao engano, portanto, diz da doutrina de engano “Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira” ( Jo 8:44 ).

As mentiras serão torrenciais e pelos sinais e prodígios de mentira operados pelo homem do pecado, o filho da perdição, angariará a credibilidade de modo que fará uma aliança com muitos em Israel ( 2Ts 2:4 ; Dn 9:27 ).

O iníquo é apresentado no capítulo 12 como a besta que subiu da terra e que possui dois chifres semelhantes aos de carneiros, mas que fala como o dragão ( Ap 13:11 ). Além do engano proveniente dos ‘chifres’ que tem aparência de carneiro (falsos profetas), farão grandes sinais e até fogo farão descer dos céus enganando a muitos ( Ap 13:13 -14).

Este período é descrito por Cristo como princípio das dores ( Mt 24:8 ), um período de grande apostasia, visto que os falsos profetas enganarão a muitos e a besta que subiu da terra fará aliança com muitos “E ele firmará aliança com muitos por uma semana; e na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oblação; e sobre a asa das abominações virá o assolador, e isso até à consumação; e o que está determinado será derramado sobre o assolador” ( Dn 9:27 ).

Neste período a ‘terra’ ajudará a mulher, tragando o rio que o dragão lançara. A terra diz da providencia divina em dar as duas testemunhas que profetizará vestidas de saco por um tempo, dois tempos e metade de um tempo, opondo-se a besta que subiu da terra ( Ap 11:3 ).

Da mesma forma que a vara de Moisés engoliu as serpentes dos encantadores do Egito, a ação das ‘duas oliveiras e dos dois candeeiros’ que estão diante do Senhor de toda a terra (as duas testemunhas) será profetizar e realizar sinais assim como fizera Moisés ( Ap 11:3 -8; Zc 4:11 -14).

Mas como a inundação proveniente da boca de Satanás não subverterá a mulher, pois ela permanecerá no deserto cercada dos cuidados de Deus “Então temerão o nome do SENHOR desde o poente, e a sua glória desde o nascente do sol; vindo o inimigo como uma corrente de águas, o Espírito do SENHOR arvorará contra ele a sua bandeira” ( Is 59:19 ). Enquanto a mulher (Israel) permanecerá no deserto, haverá israelitas que farão aliança com a besta que subiu do mar, pois Satanás enganará a muitos ( Mt 24:11 ).

Satanás na sua ira (agora representado na visão como dragão), fará guerra ao ‘remanescente’ da ‘semente’ da mulher. Será um período de aflição, perseguição e de guerra jamais visto ( Mt 24:22 ), e o alerta de Cristo será o terreno firme (terra) que tragará a mentira (água) dos falsos cristos e profetas que impelirá os remanescentes a deixarem o deserto ou seus esconderijos: “Então, se alguém vos disser: Eis que o Cristo está aqui, ou ali, não lhe deis crédito; Porque surgirão falsos cristos e falsos profetas, e farão tão grandes sinais e prodígios que, se possível fora, enganariam até os escolhidos. Eis que eu vo-lo tenho predito. Portanto, se vos disserem: Eis que ele está no deserto, não saiais. Eis que ele está no interior da casa; não acrediteis” ( Mt 24:23 -26).

É em função do volume de engano daqueles dias que é asseverado: “Não creiais no amigo, nem confieis no vosso guia; daquela que repousa no teu seio, guarda as portas da tua boca” ( Mq 7:5 ). Se os próprios da nação disserem: – ‘Olha, o Cristo está ali’, não é para crerem, pois naqueles dias por causa do engano torrencial os inimigos serão os da própria nação “E então, se alguém vos disser: Eis aqui o Cristo; ou: Ei-lo ali; não acrediteis” ( Mc 13:21 ); “Guardai-vos cada um do seu próximo, e de irmão nenhum vos fieis; porque todo o irmão não faz mais do que enganar, e todo o próximo anda caluniando” ( Jr 9:4 ).

O capítulo 7 de Miquéias demonstra qual será a confusão que se abaterá sobre os filhos de Israel e quando se dará a manifestação do Cristo: em um período de aflição qual nunca houve e nem haverá “E os entendidos entre o povo ensinarão a muitos; todavia cairão pela espada, e pelo fogo, e pelo cativeiro, e pelo roubo, por muitos dias” ( Dn 11:35 ; Jr 9:7 ; Is 48:10 ).

 

17  E o dragão irou-se contra a mulher, e foi fazer guerra ao remanescente da sua semente, os que guardam os mandamentos de Deus, e têm o testemunho de Jesus Cristo. 

Além de lançar da sua boca ‘água com um rio’, na sua ira a Serpente (dragão) através de dez reinos (dragão vermelho, que tinha sete cabeças e dez chifres, e sobre as suas cabeças sete diademas) fará guerra ao ‘remanescente’ da sua ‘semente’.

O dragão, através dos reinos e reis da terra porá em aperto o ‘remanescente da semente, os que guardam os mandamentos de Deus, e têm o testemunho de Jesus Cristo’. Este aperto virá em decorrência da ‘inundação’ de engano. Neste tempo há uma nítida diferença entre os que restarem da semente da mulher e a mulher, visto que o remanescente conhece o Cristo e guarda o seu testemunho, enquanto a mulher ainda não conhece o Cristo, apesar de estar ao abrigo de Deus no deserto.

Quando o salmista diz: “Ainda que as águas rujam e se perturbem…” ( Sl 46:3 ), ele faz referência as nações enfurecidas: “As nações se embravecem…” ( Sl 46:6 ); “Rugirão as nações, como rugem as muitas águas, mas Deus as repreenderá e elas fugirão para longe; e serão afugentadas como a pragana dos montes diante do vento, e como o que rola levado pelo tufão” ( Is 17:13 ; Sl 124 ; Sl 93 ).

Mas, para falarmos do ‘remanescente’ da sua semente, ou seja, dos que guardam os mandamentos de Deus, é necessário destacar que, no Antigo Testamento os povos da face da terra subdividiam-se em judeus e gentios. Havia uma grande separação, como atesta o apóstolo Paulo: “… naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo” ( Ef 2:12 ).

Com o advento de Cristo e a rejeição de Israel, inaugurou-se a chamada ‘plenitude dos gentios’, de modo que de dois povos (judeus e gentios) foi feito um. Foi desfeita a inimizade, foi destruída a barreira de separação, e a igreja foi formada de ambos os povos ( Ef 2:14 ; Rm 11:12 e Rm 11:25 ).

Por Deus ter chamado Abraão dentre os gentios e feito a promessa, os filhos de Jacó estabeleceram um distinção entre os gentios e os descendentes da carne de Abraão, embora as Escrituras protestasse contra eles dizendo: “Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um” ( Sl 53:3 ).

O verdadeiro judeu seria o circuncidado no coração, porém, os filhos de Israel acreditavam que eram diferentes dos demais povos por praticarem a circuncisão do prepúcio (trocaram a realidade pela figura). Sabedor desta verdade ( Rm 2:29 ), de que não há distinção entre os povos quanto a salvação, o apóstolo Paulo desenvolveu o seu ministério entre os gentios “Porque convosco falo, gentios, que, enquanto for apóstolo dos gentios, exalto o meu ministério” ( Rm 11:13 ), e o apóstolo Pedro entre os judeus.

Independente de ministério, a igreja de Cristo é a união de todos os povos em um só corpo, e Cristo a cabeça ( Ef 5:23 ).

Neste tempo presente (plenitude dos gentios), há judeus que são salvos, porém, são salvos pela graça que há em Cristo quando creem n’Ele como o Cristo de Deus. Como são poucos os judeus que reconhecem o senhorio de Cristo, o apóstolo Paulo os chama de ‘remanescente’ “Assim, pois, também agora neste tempo ficou um remanescente, segundo a eleição da graça” ( Rm 11:5 ).

O apóstolo Paulo lembra o seguinte a respeito do povo de Israel: “Assim que, quanto ao evangelho, são inimigos por causa de vós; mas, quanto à eleição, amados por causa dos pais” ( Rm 11:28 ). Vale destacar que, o remanescente de Romanos 11, verso 5 não é o mesmo remanescente de Apocalipse 12, verso 17.

A Igreja de Cristo inaugurou um reino celestial, de modo que Jesus disse: “Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” ( Jo 18:36 ), mas quando da sua segunda vinda, Deus entregará os reinos deste mundo ao Filho, e Ele há de reger as nações e se assentará sobre o trono de Davi “Este será grande, e será chamado filho do Altíssimo; e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai” ( Lc 1:32 ).

Após o arrebatamento da igreja terá início a contagem da última semana de anos prevista a Daniel (um tempo, dois tempos e metade de um tempo), quando se dará a plenitude do povo de Israel ( Rm 11:12 ). Neste ‘tempo’ a Igreja estará reunida com Cristo nos céus participando das bodas do Cordeiro.

Lembrando que, quando o evangelho de Cristo foi anunciado, foi anunciado aos homens de boa vontade “Glória a Deus nas alturas, Paz na terra, boa vontade para com os homens” ( Lc 2:14 ), e, quando iniciar o princípio de dores do qual Jesus falou, será necessário que o evangelho do reino em todo o mundo seja pregado para testemunho de todas as nações: “E este evangelho do reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as nações, e então virá o fim” ( Mt 24:14 ; Ap 14:6 -7).

O objetivo fim do evangelho de Cristo é a salvação do crente, que passa a compor o corpo de Cristo e que será arrebatado quando da vinda de Cristo. Já o evangelho do reino tem por objetivo as nações que, antes do reino milenar de Cristo iniciar, serão julgadas.

O fim não está relacionado com o arrebatamento da igreja, portanto, o arrebatamento não depende de que o ‘evangelho do reino’ seja apregoado ‘a todo o mundo e a todas as nações’. Mas, como evangelho do reino precede o fim, deve ser anunciado ‘a todo o mundo e a todas as nações’.

O capítulo 12 de Apocalipse trata tão somente da mulher, ou seja, de Israel como a nação escolhida por Deus para trazer ao mundo o Cristo. Daí vale salientar que a visão da mulher vestida do sol não se refere à Igreja de Cristo, e em momento algum faz alusão a ela.

O verso destaca que o dragão irou-se contra a mulher, e saiu resoluto a fazer guerra contra os demais, ou seja, aos que restaram da descendência. Outras traduções rezam: ‘… e foi fazer guerra ao remanescente da sua semente’.

‘Os que restaram’ é o mesmo que ‘remanescente’, e a ‘descendência’ o mesmo que ‘semente’, ou do grego ‘sperma’ (esperma, semente, filho). No verso ‘descendência’ ou ‘semente’ está no singular, como se apontasse para uma única semente, e não para muitos ‘filhos’, como algumas traduções sugerem.

Na visão a mulher é apresentada tendo um único filho, de modo que a nação de Israel embora sendo muitos é apresentada por uma única figura: a mulher, e a mulher dá a luz a um único filho.

Vale frisar que, assim como o apóstolo Paulo destacou que a promessa foi feita ao pai Abraão e a seu descendente, de modo que a promessa não era para os seus ‘descendentes’ (como falando de muitos, mas como falando de um só), vale destacar que o descendente é Cristo, ou seja, a semente.

Apesar de o dragão irar-se contra a mulher, o dragão é visto fazendo guerra contra o remanescente da semente da mulher, e não contra o remanescente da mulher. Na visão não é representado o remanescente da mulher, antes é apontado o remanescente da ‘semente’ da mulher – Cristo – que são os que guardam os mandamentos de Deus e que possuem o testemunho de Jesus.

Vale distinguir dois grupos de remanescente. O ‘remanescente’ da semente, ou seja, o remanescente de Cristo, aqueles que se converterem a Cristo no período de tribulação após o arrebatamento da Igreja, e o remanescente de Israel, que são os judeus que aguardam a manifestação do Messias.

O remanescente da semente refere-se aos mártires que serão mortos na grande tribulação e que são provenientes de todos os povos, línguas e nações, e que ressurgirão e reinarão com Cristo por mil anos ( Ap 20:5 ). Estes homens serão mortos no período de tribulação e grande tribulação, mas voltarão a vida (ressurgirão) como homens e serão sacerdotes de Deus e de Cristo e reinarão com Cristo sobre todos os reinos da terra ( Ap 20:6 ).

O ‘remanescente’ de Israel refere-se aos judeus que permanecerão vivos no período de grande tribulação e entrarão no reino milenar de Cristo “E todos os do teu povo serão justos, para sempre herdarão a terra; serão renovos por mim plantados, obra das minhas mãos, para que eu seja glorificado” ( Is 60:21 ). Este ‘remanescente’ será os judeus que verão o Cristo (Aquele que trespassaram) quando Ele colocar os seus pés sobre o Monte das Oliveiras, desfazendo com o sopro da sua boca o iniquo ( Zc 12:10 e Zc 14:4 ).

Ambos remanescentes entrarão no reino milenar de Cristo, a distinção está em que o ‘remanescente’ da semente é proveniente de todos os povos, línguas e nações e que durante o período de grande tribulação serão mortos por causa do testemunho de Cristo, pois não adoraram a besta, nem a sua imagem, e o remanescente de Israel serão os que permanecerão vivos durante o período de grande tribulação e entrarão no reino com Cristo “… e vi as almas daqueles que foram degolados pelo testemunho de Jesus, e pela palavra de Deus, e que não adoraram a besta, nem a sua imagem, e não receberam o sinal em suas testas nem em suas mãos; e viveram, e reinaram com Cristo durante mil anos” ( Ap 20:4 ); “E, havendo aberto o quinto selo, vi debaixo do altar as almas dos que foram mortos por amor da palavra de Deus e por amor do testemunho que deram” ( Ap 6:9 ).

O remanescente da semente é proveniente de todas as tribos, línguas e nações, que serão apresentados diante do trono de Deus com vestes brancas e palmas nas mãos, pois foram cortados da terra no período de grande tribulação por não se dobrarem perante a besta. No fim da grande tribulação serão ressuscitados, e reinarão com Cristo por mil anos juntamente com os filhos de Israel que escaparem com vida do aperto das nações “…e viveram, e reinaram com Cristo durante mil anos” ( Ap 20:4 ).

Sobre a guerra que se fará ao remanescente de Israel escreveu o profeta Zacarias: “Porque eu ajuntarei todas as nações para a peleja contra Jerusalém; e a cidade será tomada, e as casas serão saqueadas, e as mulheres forçadas; e metade da cidade sairá para o cativeiro, mas o restante do povo não será extirpado da cidade” ( Zc 14:2 ). E é este o diagnostico de Isaias: “Também Isaías clama acerca de Israel: Ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, o remanescente é que será salvo” ( Rm 9:27 ); “Porque ainda que o teu povo, ó Israel, seja como a areia do mar, só um remanescente dele se converterá; uma destruição está determinada, transbordando em justiça” ( Is 10:22 ).

Há uma guerra descrita pelo profeta Zacarias que antecede o período de mil anos que não possui registro nos anais da história, visto que o seu desfecho envolverá uma intervenção maravilhosa jamais imaginada anteriormente por homem algum segundo o que foi descrito pelo profeta: apodrecimento repentino das carnes dos cavaleiros e de suas montarias “E esta será a praga com que o SENHOR ferirá a todos os povos que guerrearam contra Jerusalém: a sua carne apodrecerá, estando eles em pé, e lhes apodrecerão os olhos nas suas órbitas, e a língua lhes apodrecerá na sua boca. Naquele dia também acontecerá que haverá da parte do SENHOR uma grande perturbação entre eles; porque cada um pegará na mão do seu próximo, e cada um levantará a mão contra o seu próximo” ( Zc 14:12 -13 e 15), então Deus fará o remanescente herdarem o reino ( Dn 7:14 e 18).

Esta guerra será um embate de exércitos e de reinos sob o comando do dragão (que tinha sete cabeças e dez chifres, e sobre as suas cabeças sete diademas) que colocará a cidade de Israel em aperto por um tempo, dois tempos e metade de um tempo ( Dn 7:25 ), restando nela os que aguardam o socorro do Messias e que naquele dia dirão: – ‘Bendito o que vem em nome do Senhor’ “Porque eu vos digo que desde agora me não vereis mais, até que digais: Bendito o que vem em nome do Senhor” ( Mt 23:39 ); “Eu, porém, olharei para o SENHOR; esperarei no Deus da minha salvação; o meu Deus me ouvirá” ( Mq 7: 7 ).

Este aperto se dará em função de Deus utilizar as aflições decorrentes da guerra perpetrada pelo dragão como crisol para ‘provar’ e ‘purificar’ a nação, de modo que 2/3 serão mortos ( Zc 13:8 ) e 1/3 do que sobrar sofrerá provações comparáveis ao ouro e a prata quando purificados no fogo ( Zc 13:9 ; Ml 3:3 ; Sf 3:13 ).

O que sobrar deste 1/3 passará pelo ‘fogo’, e o que restar será o remanescente de Israel que será salvo “Também Isaías clama acerca de Israel: ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, o remanescente é que será salvo” ( Rm 9:27 ).

O remanescente da semente são os que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus Cristo. O remanescente da semente não são os remanescentes de Israel, pois em vários textos bíblicos há um protesto de que eles não guardam a aliança.

Guardar o testemunho é crer no Cristo, o que Israel como nação não fará até que vejam o Cristo trespassado. Os remanescentes da semente são descritos como ‘bem-aventurados’, pois eles creram ( Ap 20:6 ), já o remanescente de Israel terá que ver o Cristo para se render a Ele, quando serão salvos ( Zc 12:14 ). Quando estiverem em aperto invocarão ao Senhor ( Ml 3:16 ; Mt 23:39 ), e Cristo virá: “E da sua boca tirarei o seu sangue, e dentre os seus dentes as suas abominações; e ele também ficará como um remanescente para o nosso Deus; e será como governador em Judá, e Ecrom como um jebuseu” ( Zc 9:7 ); “O remanescente de Israel não cometerá iniquidade, nem proferirá mentira, e na sua boca não se achará língua enganosa; mas serão apascentados, e deitar-se-ão, e não haverá quem os espante. Canta alegremente, ó filha de Sião; rejubila, ó Israel; regozija-te, e exulta de todo o coração, ó filha de Jerusalém” ( Sf 3:13 -14); “Por isso levantou a sua mão contra eles, para os derrubar no deserto; Para derrubar também a sua semente entre as nações, e espalhá-los pelas terras” ( Sl 106:26 -27 ; Ap 13:1 ; Dn 7:25 ).

Durante a perseguição da serpente (grande tribulação) muitos filhos de Israel terão a mão amiga de alguns povos e nações, que serão favoráveis aos ‘pequeninos irmãos’ de Jesus (judeus dispersos), dando a eles o que comer quanto tiverem fome, ou água quando estiverem com sede ( Mt 25:35 -40), e serão estas nações e povos que, quando julgados ouvirão: – “Vinde, benditos de meu pai, possui por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo” ( Mt 25:34 ).

Já com relação ao remanescente de todas as tribos, línguas e nações, são os que “não adorarem a besta e a sua imagem e nem aceitarem o ‘sinal’ da besta”, antes esperarão no Senhor, ou seja, são os que “guardam o mandamento e tem a promessa de Jesus”  “E seguiu-os o terceiro anjo, dizendo com grande voz: Se alguém adorar a besta, e a sua imagem, e receber o sinal na sua testa, ou na sua mão, Também este beberá do vinho da ira de Deus, que se deitou, não misturado, no cálice da sua ira; e será atormentado com fogo e enxofre diante dos santos anjos e diante do Cordeiro. E a fumaça do seu tormento sobe para todo o sempre; e não têm repouso nem de dia nem de noite os que adoram a besta e a sua imagem, e aquele que receber o sinal do seu nome. Aqui está a paciência dos santos; aqui estão os que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus” ( Ap 14:9 -12; 19:10 e 19:19; Mq 7:7 ).

Na plenitude dos tempos Cristo foi gerado por Deus, lançado no ventre de Maria pelo Espírito Santo. Ele é o Verbo de Deus, a semente incorruptível ( Sl 22:10 ; 1Pe 1:23 ). Na visão do apóstolo João, Cristo é visto sendo gerado no ventre da mulher (Israel), de modo que há uma clara oposição entre a mulher e a Serpente, a semente da mulher e da Serpente, que representa a oposição entre a verdade e a mentira.

Como no Éden foi posto inimizade entre a Serpente e a mulhe, significando que haveria inimizade entre a semente (descendência) da mulher e a semente da Serpente, a visão expõe a inimizade que há entre as duas sementes “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” ( Gn 3:15 ).

A mulher da visão é vista dando a luz a um único Filho homem, portanto os ‘remanescentes’ da ‘semente’ são os que descendem de Cristo, visto que guardam os mandamentos de Deus, obedecendo ao testemunho de Cristo ( Ap 12:17 -18).

A benevolência do Senhor repousa sobre a semente do Cristo, pois somente a semente de Cristo serve a Deus “Pois engrandece a salvação do seu rei, e usa de benignidade com o seu ungido, com Davi, e com a sua semente para sempre” ( Sl 18:50 ); “Uma semente o servirá; será declarada ao Senhor a cada geração” ( Sl 22:30 ).

Os que amam o nome do Senhor são os que guardam os mandamentos de Deus, portanto herdará e habitarão em Sião “E herdá-la-á a semente de seus servos, e os que amam o seu nome habitarão nela” ( Sl 69:36 ).

A promessa de Deus repousa sobre o seu Ungido, sendo estabelecida a sua semente e edificado o seu trono para sempre “A tua semente estabelecerei para sempre, e edificarei o teu trono de geração em geração. (Selá.)” ( Sl 89:4 ); “E conservarei para sempre a sua semente, e o seu trono como os dias do céu” ( Sl 89:29 ); “A sua semente durará para sempre, e o seu trono, como o sol diante de mim” ( Sl 89:36 ).

Ora, a Igreja de Cristo é a geração do Senhor, a semente que durará para sempre. Assim como Cristo reinará, a sua Igreja se assentará a reinar e a julgar as nações. Assim como Cristo é os que creram serão semelhantes a Ele. Cristo ressurgiu e é as primícias dentre os mortos, os que creram ressurgiram com Ele e são primícias “Mas de fato Cristo ressuscitou dentre os mortos, e foi feito as primícias dos que dormem” ( 1Co 15:20 ); “Mas cada um por sua ordem: Cristo as primícias, depois os que são de Cristo, na sua vinda” ( 1Co 15:23 ); “Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas” ( Tg 1:18 ; 1Jo 3:2 ).

O arrebatamento da Igreja será a grande colheita das primícias, porém, os que se converterem no período da grande tribulação, ou seja, que guardarem os mandamentos de Deus, obedecendo ao testemunho de Cristo ( Ap 12:17 -18), serão tidos como os que restaram (remanescentes) da semente.

O remanescente será salvo em um período de grande tribulação jamais visto. Sobre este tempo indagou Isaias: “Então disse eu: Até quando Senhor? E respondeu: Até que sejam desoladas as cidades e fiquem sem habitantes, e as casas sem moradores, e a terra seja de todo assolada. E o SENHOR afaste dela os homens, e no meio da terra seja grande o desamparo. Porém ainda a décima parte ficará nela, e tornará a ser pastada; e como o carvalho, e como a azinheira, que depois de se desfolharem, ainda ficam firmes, assim a santa semente será a firmeza dela” ( Is 6:11 -13), e Jesus alertou os seus discípulos quanto a estes eventos ( Mt 24:9 -10).

Será esta a condição de Israel antes que Cristo se assente a julgar as nações e o seu reino na terra estabelecido: “E naquele dia será diminuída a glória de Jacó, e a gordura da sua carne ficará emagrecida. Porque será como o segador que colhe a cana do trigo e com o seu braço sega as espigas; e será também como o que colhe espigas no vale de Refaim. Porém ainda ficarão nele alguns rabiscos, como no sacudir da oliveira: duas ou três azeitonas na mais alta ponta dos ramos, e quatro ou cinco nos seus ramos mais frutíferos, diz o SENHOR Deus de Israel. Naquele dia atentará o homem para o seu Criador, e os seus olhos olharão para o Santo de Israel. E não atentará para os altares, obra das suas mãos, nem olhará para o que fizeram seus dedos, nem para os bosques, nem para as imagens. Naquele dia as suas cidades fortificadas serão como lugares abandonados, no bosque ou sobre o cume das montanhas, os quais foram abandonados ante os filhos de Israel; e haverá assolação porque te esqueceste do Deus da tua salvação, e não te lembraste da rocha da tua fortaleza, portanto farás plantações formosas, e assentarás nelas sarmentos estranhos. E no dia em que as plantares as farás crescer, e pela manhã farás que a tua semente brote; mas a colheita voará no dia da angústia e das dores insofríveis” ( Is 17:4 -11).

As aflições daqueles dias são descritas desta forma por Cristo: “Porque haverá então grande aflição, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem tampouco há de haver. E, se aqueles dias não fossem abreviados, nenhuma carne se salvaria; mas por causa dos escolhidos serão abreviados aqueles dias” ( Mt 24:21 -22).

Ora, quando Jesus disse estas coisas, o povo de Israel já havia sofrido os revezes de Antíoco Epifânio (171 a. C), e Jesus deixa claro que as aflições daquele dia nunca houve desde o princípio do mundo até agora, e após elas, não haverá mais. Epifânio não é o iniquo que virá e que será desfeio pelo sopro de Deus ( 2Ts 2:8 ).

Nem mesmo a invasão de Jerusalém nos anos 70 d. C. pode ser considerado como as aflições daqueles dias, pois recentemente os filhos de Israel sofreram os horrores do Holocausto perpetrado por Hitler.

As aflições daqueles dias será o tempo do assolador que as abominações dos filhos de Jacó trouxeram sobre si, por terem se desviado da palavra do Senhor quando rejeitaram o Cristo ( Dn 9:27 ; Is 17:11 ), bem como as aflições que acometerá os que não creram no evangelho e não foram arrebatados.

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1 Pedro 2 – Pedras vivas

Cristo, o Senhor bondoso, é a ‘pedra viva’ conforme indicou o salmista Davi: “A pedra que os edificadores rejeitaram tornou-se a pedra angular” ( Sl 118:22 ). Embora os homens tenham reprovado a Cristo, a pedra viva aprovada por Deus, para Deus Ele é a pedra eleita e preciosa.


241 DEIXANDO, pois, toda a malícia, e todo o engano, e fingimentos, e invejas, e todas as murmurações, 2 Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que por ele vades crescendo; 3 Se é que já provastes que o SENHOR é benigno; 4 E, chegando-vos para ele, pedra viva, reprovada, na verdade, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa,

Pedro retoma o tema que foi abordado no verso treze do capítulo anterior: “…cingindo os lombos do nosso entendimento, sede sóbrios…” ( 1Pe 1:13 ).

Os cristãos foram gerados de novo através da ressurreição de Cristo ( 1Pe 1:3 ), mas precisam ter o ‘lombos do entendimento’ ajustado ‘adequadamente’.

O que isso que dizer? Quer dizer que os cristãos não devem viver conforme os desejos mundanos que tinham antes de crerem em Cristo, ou seja, quando eram ignorantes ( 1Pe 1:14 ).

Como? Ora, os cristãos devem deixar toda a malícia, todo engano, todo fingimento, toda inveja e toda sorte de maledicências. Aceitar o convite para ajustar à compreensão é que fará com que os cristãos sejam transformados ( Rm 12:2 ).

Mas, como promover a renovação do entendimento? Desejando ardentemente o puro leite espiritual, ou seja, a palavra de Deus. O homem espiritual é perfeito diante de Deus, pois foi criado idôneo para participar da herança dos santos na luz ( Cl 1:12 ), porém, os neófitos (principiantes) no evangelho (fé) devem exercitar a compreensão na palavra da justiça (cingir o lombo do entendimento).

Paulo fala acerca dos cristãos da Igreja em Corinto que eles foram criados com leite (básico do evangelho), porque eles ainda não podiam suportar alimento sólido (avançado) ( 1Co 3:2 ).

O escritor aos Hebreus também escreveu acerca dos cristãos que, pelo tempo no evangelho, já eram para serem mestres, porém, precisavam compreender ainda os rudimentos do evangelho de Cristo.

Observe que Pedro não designa os cristãos de meninos, antes, eles deviam desejar COMO meninos o leite espiritual, para que eles pudessem crescer na compreensão “Porque qualquer que ainda se alimenta de leite não está experimentado na palavra da justiça, porque é menino” ( Hb 5:13 ); “Com leite vos criei, e não com carne, porque ainda não podíeis, nem tampouco ainda agora podeis” ( 1Co 3:2 ).

A recomendação do apóstolo é para aqueles que já provaram que o Senhor é benigno. Para quem provou e sabe que Deus é benigno, resta tão somente crescer na graça e no conhecimento de Deus ‘bebendo o leite espiritual’, abandonando tudo o que pertencia ao velho homem que foi morto e sepultado com Cristo.

‘Deixar’ as coisas pertinentes ao velho homem (v. 1) e ‘achegar-se’ de Deus (v. 4), é o mesmo que apresentar-se para obedecer àquele a quem se é servo “Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça?” ( Rm 6:16 ).

Ora, um cristão deve saber (ou não sabeis?) que os homens nascidos em Adão tornaram-se servos do pecado, pois foram vendidos como escravos ao pecado através da transgressão de Adão. Deve saber também que, para tornar-se servo da justiça é preciso morrer para o antigo senhor e nascer novamente, uma nova criatura, sob o jugo da justiça.

A única forma dos homens se apresentarem aos senhores (justiça e pecado) para servir-los é através do nascimento. Através do nascimento do primeiro Adão, tornam-se servos do pecado. Através do novo nascimento em Cristo, o último Adão, os homens tornam-se filhos de Deus, e os filhos de Deus jamais foram ou serão escravos de ninguém.

Mas, alguém pode questionar: os cristãos não eram pecadores, como nunca foram escravos de ninguém? Os cristãos eram escravos do pecado em outro tempo, quando não conheciam a Deus. Agora, após conhecerem a Deus, ou antes, serem conhecidos dele, tem-se um novo tempo de justiça e paz.

No ‘novo tempo’ que é pertinente aos criados segundo Deus em verdadeira justiça e santidade, os filhos de Deus foram criados livres e nunca se submeterão a servidão de ninguém. O tempo dos cristãos é diferente do tempo dos ímpios, como se lê: “Portanto, lembrai-vos de que vós outrora éreis (…) que naquele tempo estáveis sem Cristo…” ( Ef 2:11 -12).

Sobre o tempo dos cristãos, temos: “Mas, agora em Cristo…” ( Ef 2:13 ), ou melhor, agora uma nova criatura ( 2Co 5:17 ).

Pedro indica o Senhorio de Cristo e a sua virtude maravilhosa: bondade (vs. 3- 4). É assente que somente Deus é bom “E ele disse-lhe: Por que me chamas bom? Não há bom senão um só, que é Deus. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos” ( Mt 19:17 ), e Pedro, ao demonstrar o senhorio de Cristo, demonstra que o Pai e o Filho são um.

Cristo, o Senhor bondoso, é a ‘pedra viva’ conforme indicou o salmista Davi: “A pedra que os edificadores rejeitaram tornou-se a pedra angular” ( Sl 118:22 ). Embora os homens tenham reprovado a Cristo, a pedra viva aprovada por Deus, para Deus Ele é a pedra eleita e preciosa.

Cristo é a pedra eleita (escolhida) conforme o propósito eterno que é fazer convergir em Cristo todas às coisas. Cristo foi escolhido antes dos tempos eternos por ser o Cordeiro perfeito; por ser o Servo obediente; por ser o Filho amado; por ser o braço do Senhor; por ser o Verbo de Deus, etc.

 

5 Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo. 6 Por isso também na Escritura se contém: Eis que ponho em Sião a pedra principal da esquina, eleita e preciosa; E quem nela crer não será confundido. 7 E assim para vós, os que credes, é preciosa, mas, para os rebeldes, A pedra que os edificadores reprovaram, Essa foi a principal da esquina

Cristo, o Senhor bondoso, é a ‘pedra viva’ conforme indicou o salmista Davi: “A pedra que os edificadores rejeitaram tornou-se a pedra angular” ( Sl 118:22 ). Embora os homens tenham reprovado a Cristo, Ele é a pedra viva aprovada por Deus antes da fundação do mundo. Cristo é a pedra eleita e preciosa.

Cristo, a pedra eleita (escolhida) conforme o propósito eterno de Deus, que é fazer convergir em Cristo todas as coisas “De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra” ( Ef 1:10 ), foi escolhido antes dos tempos eternos para que em tudo seja preeminente “E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência” ( Cl 1:18 ).

Pedro procura conscientizar os cristãos do mesmo modo que o apóstolo Paulo. Compare:

a) Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pe 2:5 );
b) “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” ( Ef 1:13 ).

Paulo demonstrou que, após os cristão ouvirem a palavra do evangelho e crerem, passaram a ser participantes da natureza de Cristo ( Cl 2:10 ). Este não é um privilégio de alguns, antes é um privilégio de todos que ouviram a mensagem do evangelho e creram.

Do mesmo modo que Cristo é a Pedra Viva, os cristãos também são pedras vivas, uma vez que foram de novo criados participantes da natureza divina.

Observe a relação que Pedro estabelece entre a Pedra viva que é Cristo, e as pedras vivas, que são àqueles que creram e receberam poder para serem feitos filhos de Deus ( Jo 1:12 -13) “E, chegando-vos para ele, pedra viva, reprovada, na verdade, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pe 2:4 -5).

Cristo é a pedra viva eleita e preciosa, e os cristãos também, ou seja, são pedras vivas eleitas e preciosas, pois assim como Ele é são os cristãos aqui neste mundo “… porque, qual ele é, somos nós também neste mundo” ( 1Jo 4:17 ).

O homem antes de crer na mensagem do evangelho não é pedra viva. Ele não é eleito e nem precioso aos olhos de Deus. É um grande erro pertinente a doutrina dos reformadores considerar que dentre os homens nascidos em pecado Deus elegeu (escolheu) e predestinou alguns para a salvação, pois somente as pedras vivas são os eleitos de Deus.

Somente é eleito e precioso o novo homem gerado através da palavra da verdade, uma vez que se tornou pedra viva. Os que ouvem a palavra da verdade, e crêem, são os que seguem a retidão, são os que buscam ao Senhor ( Is 51:1 ).

Cada cristão em particular constitui-se casa espiritual e é sacerdote separado dos pecadores. Deus prometeu que habitaria com os contritos e abatidos de espírito ( Is 57:15 ), pois tais homens seriam templos santos do Senhor, casas do Altíssimo.

Sobre esta verdade, Davi pede (confiança) a Deus que crie um novo coração puro e lhe dê um novo espírito reto (regeneração), pois esta é a condição para que o espírito de Deus habite no salmista ( Sl 1:10 -11).

Qual sacrifício os sacerdotes santos oferecem a Deus por intermédio de Cristo? Por intermédio de Cristo os que creem sempre oferecem a Deus sacrifícios de louvor, que é o fruto dos lábios que confessam a Cristo como Senhor ( Hb 13:15 ).

O verdadeiro sacrifício parte dos lábios de quem adora em espírito e em verdade. É possível aos filhos da ira e da desobediência adorar a Deus em espírito e em verdade? Não! Primeiro, para adorá-Lo em espírito e em verdade é preciso nascer de novo, ser criado por Deus em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ).

Quem é nascido do Espírito é espiritual, condição essencial para adorar a Deus. O homem carnal nascido de Adão não pode adorar a Deus em espírito, pois é carnal. O sacrifício que os filhos de Deus oferecem a Deus são os frutos dos lábios, conforme predisse Oseias “Tomai convosco palavras, e voltai para o Senhor. Dizei-lhe: perdoa toda a iniquidade, e nos aceita graciosamente, para que ofereçamos como novilhos os sacrifícios dos nossos lábios” ( Os 14:2 ).

Jejuns, orações, rezas, promessas, votos, meditações, peregrinações, etc., não são sacrifícios aceitáveis diante de Deus, antes um coração contrito, e um espírito abatido constituem-se em sacrifícios aprazíveis a Deus “Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus” ( Sl 51:17 ), e somente aqueles que professam o nome de Cristo como Senhor, pois a boca fala o que procede do coração, constituem-se casa e templo do Altíssimo “Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade, e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e para vivificar o coração dos contritos” ( Is 57:15 ).

A consideração teológica de Pedro é conforme as Escrituras, conforme se lê: “Vede, ponho em Sião uma Pedra Angular, eleita e preciosa; e quem nela crer não será confundido” ( 1Pe 2:6 ). O que Deus estabeleceu é possível o homem constatar: “Vede”. Ele estabeleceu a Pedra Angular onde toda edificação de Deus será erguida.

A ‘confusão de rosto’ indica a perdição dos homens, mas todos quantos querem ser salvos, basta crer em Cristo, que não será confundido. Ora, por crerem em Cristo que é a Pedra de Esquina, para os cristãos ela é eleita e preciosa, mas para os que não creem, os rebeldes, a Pedra reprovada pelos edificados é pedra de tropeço, ou rocha de escândalo.

A Igreja Apostólica Romana ensina que Pedro era a pedra sobre quem a igreja de Deus seria construída por Cristo, isto para dar a entender que o papa constitui-se um dos sucessores do apóstolo Paulo.

Mas, o apóstolo Pedro demonstrou que:

  • Cristo é a pedra posta como a principal de esquina, ou seja, a ‘Pedra Viva’ ( 1Pe 2:4 );
  • e, que todos os cristãos são também (igualmente) pedras vivas, edificados como casa espiritual ( 1Pe 2:5 ).

Ora, se Cristo é a Pedra de Esquina sobre quem é construída a casa espiritual, jamais Pedro seria a pedra onde Cristo construiria a sua igreja. De modo que, quando Jesus diz: “Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, pois não foi carne e sangue quem to revelou, mas meu Pai que está nos céus, e também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” ( Mt 16:17 -18).

Pedro foi constituído pedra viva por crer que Jesus é o Filho de Deus, do mesmo modo que todos que creem são pedras vivas. Ou seja, Cristo demonstra que tanto Pedro quanto todos os que creem são pedras vivas, e que todos são edificados sobre Ele, a Pedra de Esquina, em casa espiritual a Deus.

 

 

8 E uma pedra de tropeço e rocha de escândalo, para aqueles que tropeçam na palavra, sendo desobedientes; para o que também foram destinados. 9 Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; 10 Vós, que em outro tempo não éreis povo, mas agora sois povo de Deus; que não tínheis alcançado misericórdia, mas agora alcançastes misericórdia.

Pedro classifica os homens em crentes e descrentes.

Para os que creem em Cristo, Ele é a pedra eleita e preciosa, para os descrentes Ele a pedra de tropeço, a rocha de escândalo ( 1Pe 2:7 ).

Ora, quem crer na Escritura que diz: “Vede, ponho em Sião uma pedra angular, eleita e preciosa; e quem nela crer não será confundida” ( 1Pe 2:6 ), é edificado casa espiritual, onde Deus faz morada eterna.

Quem não crê na palavra que diz: “Vede, ponho em Sião uma pedra angular”, tropeça na palavra, pois não a compreende. Quem tropeça na palavra é desobediente, pois não crê no enviado por Deus.

Ora, os homens ímpios foram destinados à impiedade, do mesmo modo que os justos são destinados à justiça. Como? Quem são os homens ímpios? Quando e como foram destinados à impiedade?

Os homens nascidos em Adão são pecadores, e, portanto, ímpios. Todos são destinados à impiedade, pois nasceram de Adão. São filhos da ira e da desobediência de Adão, que desobedeceu a palavra de Deus e comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e mal.

Em Cristo, o último Adão, os homens são criados filhos de Deus através da obediência de Cristo, que tudo suportou, e foi obediente até a morte, e morte de cruz.

Diferente dos ímpios que foram destituídos da glória de Deus, os cristãos são a geração eleita (escolhida), isto porque uma é a geração dos ímpios e outra a geração dos justos. Qual é a geração dos ímpios? É a geração de Adão. E qual é a geração dos justos? É a geração do último Adão, que é Cristo.

Diferente dos descrentes, os cristãos, por terem crido em Cristo receberam poder para serem feitos filhos de Deus. É por isso que Pedro demonstra que os cristãos são geração eleita “Mas vós sois a geração eleita…” (v. 9).

Além de ser a geração eleita, os cristãos também é sacerdócio real, é nação santa, é povo adquirido. Mas, para que? Para que proclamem as virtudes de Deus, que chamou homens que viviam em trevas, para viverem sob a sua maravilhosa luz.

A geração de Adão não é a escolhida por Deus, pois ao pecar, Adão e toda a sua geração foi destituída de Deus. A geração do último Adão é a escolhida (eleita), pois ao obedecer, Jesus conduziu muitos filhos à glória de Deus.

Observe que as considerações monergistas não comportam a doutrina de Cristo. Dizer que a regeneração precede a fé é contrário à doutrina bíblica, pois primeiro é concedido a esperança proposta (fé), e os homens precisam descansar nesta esperança (fé), que também é designada fé “Para que por duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, tenhamos a firme consolação, nós, os que pomos o nosso refúgio em reter a esperança proposta” ( Hb 6:18 ).

Quem são os cristãos? São aqueles homens que se refugiem em reter a esperança proposta. A proposta de salvação é de Deus, e é pertinente ao homem refugiar-se em aguardar na esperança proposta.

As questões sinergista ou monergista não são bíblicas, pois a fé e a esperança são provenientes da fidelidade de Deus “E por ele credes em Deus, que o ressuscitou dentre os mortos, e lhe deu glória, para que a vossa fé e esperança estivessem em Deus” ( 1Pe 1:21 ).

Por que Deus daria o seu Filho como testemunha ao ressuscitá-lo dentre os mortos, se a regeneração precede a fé? Por que a fé e a esperança estão em Deus, se o homem coopera com Deus?

Perceba que é impossível o homem cooperar na regeneração simplesmente por aguardar em Deus, pois é impossível a quem está sendo gerado de novo segundo a palavra de Deus participe desta nova criação. É impossível o homem cooperar com Deus, pois só Ele ‘bara’ (cria) com base na sua palavra.

Pedro utiliza a mesma fala do apóstolo Paulo:

“Vós, que em outro tempo não éreis povo, mas agora sois povo de Deus; que não tínheis alcançado misericórdia, mas agora alcançastes misericórdia” ( 1Pe 2:10 );
“Pois outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor” ( Ef 5:8 ).

Pedro fez referência aos judeus ou aos gentios? Os judeus não eram o povo de Deus? Ao serem escolhidos como povo, os judeus não alcançaram misericórdia? Por certo que não! Tanto judeus quanto gregos, antes de crerem em Cristo não eram o povo eleito de Deus e nem a geração eleita.

Tanto judeus, quanto gregos, servos, livres, pobres, ricos, todos os cristãos em outro tempo não eram povo de Deus. Mas, agora, ao nascerem de novo segundo a palavra de Deus, aqueles que não eram povo passaram a ser povo, uma vez que pela fé proposta (evangelho) alcançaram fé e descansaram em Deus.

Crer em Deus é alcançar misericórdia. Crer em Deus é atender o chamado. Crer em Deus é ser eleito, pois Deus chamou os homens nascidos de Adão para serem criados de novo, participantes de sua natureza.

 

 

11 Amados, peço-vos, como a peregrinos e forasteiros, que vos abstenhais das concupiscências carnais que combatem contra a alma; 12 Tendo o vosso viver honesto entre os gentios; para que, naquilo em que falam mal de vós, como de malfeitores, glorifiquem a Deus no dia da visitação, pelas boas obras que em vós observem. 13 Sujeitai-vos, pois, a toda a ordenação humana por amor do Senhor; quer ao rei, como superior; 14 Quer aos governadores, como por ele enviados para castigo dos malfeitores, e para louvor dos que fazem o bem. 15 Porque assim é a vontade de Deus, que, fazendo bem, tapeis a boca à ignorância dos homens insensatos; 16 Como livres, e não tendo a liberdade por cobertura da malícia, mas como servos de Deus. 17 Honrai a todos. Amai a fraternidade. Temei a Deus. Honrai ao rei.

Pedro pede aos cristãos que se abstenham dos desejos da carne. Ora, Pedro não utiliza-se da sua autoridade de apóstolo para estabelecer um mandamento, pois somente Deus é legislador, e a sua ordem é clara: creiam naquele que Deus enviou ( 1Jo 3:23 ).

Do mesmo modo é o tratamento dispensado por Paulo aos cristãos: “Portanto, como prisioneiro do Senhor, rogo-vos…” ( Ef 4:1 ). Enquanto Paulo aponta a sua condição de prisioneiro para dar consistência ao seu pedido, Pedro aponta a condição dos cristãos: peregrinos e forasteiros.

Ora, que desejo tem um peregrino e um forasteiro em uma cidade que não lhe pertence? Um peregrino ou forasteiro pensa nas coisas pertinentes a sua cidade, e almeja as coisas que são pertinentes a ela.

Neste mesmo diapasão disse Paulo: “Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra” ( Cl 3:2 ). Como um forasteiro pode ater-se em coisas de uma terra que não lhe pertence?

Os apóstolos recomendam os cristãos a não fixarem os seus desejos e interesses nas coisas deste mundo, uma vez que não pertencem a este mundo “Eles não são do mundo, como eu do mundo não sou” ( Jo 17:18 ).

Pedro pede aos cristãos que se abstenham das concupiscências carnais, pois elas combatem contra a alma. Por que abster-se das concupiscências carnais?

  • Porque as concupiscências da carne são anteriores ao pecado, ou seja, é algo pertinente à natureza humana (humanidade) “E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela” ( Gn 3:6 );
  • A concupiscência não é pecado, porém, ela pode afastar o homem de Deus ( Tg 1:15 ).

É necessário fazer a distinção entre pecado e concupiscência, pois o pecado é proveniente da semente corruptível de Adão. Ora, o pecado foi introduzido no mundo através da desobediência de Adão, e não é dado a nenhum outro homem pecar a semelhança da condenação de Adão ( Rma 5:14 ).

Por que é impossível aos homens nascidos de Adão pecar à semelhança de Adão? Pois todos estão sobre o jugo de Adão, e as suas condutas, por mais perniciosas que sejam não pode melhorar ou piorar as suas condições diante de Deus: estão destituídos da glória de Deus.

A concupiscência é pertinente a humanidade, independentemente se é homem natural ou espiritual. Adão foi criado santo e irrepreensível, e os desejos da carne estavam presentes: ele observava as coisas e as desejava ( Gn 3:6 ).

Os desejos dos homens sem Cristo são variáveis, podendo ser perniciosos ou não. Mas, do mesmo modo, todos quantos nasceram de novo também têm desejos, porém, não podem deixar serem dominados por nenhum deles “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma” ( 1Co 6:12 ).

Ora, os desejos da carne combatem contra a alma, e procuram dominá-la. A coisa desejada pode até ser lícita, porém, mesmo sendo lícito, o cristão não pode deixar as concupiscências da carne (desejos) dominar a alma.

Sobre a concupiscência Jesus disse: “E a que caiu entre espinhos, esses são os que ouviram e, indo por diante, são sufocados com os cuidados e riquezas e deleites da vida, e não dão fruto com perfeição” ( Lc 8:14 ). Cuidar das coisas da vida e buscar uma melhora financeira não é ilícito, mas qualquer um que for vencido pela concupiscência, e for dominado por ela, acabará trocando a promessa de vida eterna por um prato de lentilhas.

Pedro não impôs nenhuma ordenança aos cristãos, antes pediu aos seus leitores que vivessem de modo honesto entre os gentios. Observe que os cristãos têm um viver pertinente a este mundo, porém, por serem nascidos de novo, a vida que adquiriram pertence única e exclusivamente a Deus.

Por que um viver honesto? Para alcançar salvação? Não! Antes, o viver honesto é para que os ímpios possam ver as boas ações dos cristãos e glorifiquem a Deus, embora agora falem dos cristãos como sendo malfeitores.

Em que aspecto Pedro solicita um bom comportamento? Nas questões relativo as ordens do rei ou dos governantes. É por amor do Senhor que os cristãos deviam sujeitar-se aos reis.

Pedro evidência que os governos humanos foram estabelecidos por Deus quando solicita que se sujeitem as leis dos homes por amor a Cristo. Ora, os governos humanos são instituídos sobre a premissa de que eles castigam os malfeitores e premiam os que fazem boas ações.

Pedro responde uma colocação de Paulo: “E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus” ( Rm 12:2 ). Qual a vontade de Deus que o cristão deve experimentar? Fazer o bem, para que os ignorantes não tenham o que falar (v. 15).

Os cristãos vivem como livres, visto que é servo da justiça. Ora, quem é livre no Senhor, não deve ter a sua liberdade por cobertura da malícia, pois é servo do Senhor.

A exortação é clara para que é livre no Senhor: Honrar a todos. Amar fraternalmente. Temor a Deus, o Senhor. Honra a autoridade constituída (v. 17).

 

 

18 Vós, servos, sujeitai-vos com todo o temor aos Senhores, não somente aos bons e humanos, mas também aos maus. 19 Porque é coisa agradável, que alguém, por causa da consciência para com Deus, sofra agravos, padecendo injustamente. 20 Porque, que glória será essa, se, pecando, sois esbofeteados e sofreis? Mas se, fazendo o bem, sois afligidos e o sofreis, isso é agradável a Deus. 21 Porque para isto sois chamados; pois também Cristo padeceu por nós, deixando-nos o exemplo, para que sigais as suas pisadas. 22 O qual não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano. 23 O qual, quando o injuriavam, não injuriava, e quando padecia não ameaçava, mas entregava-se àquele que julga justamente;

Aos cristãos que eram escravos (servos), Pedro recomenda sujeitarem-se aos seus senhores. A sujeição dos cristãos ‘escravos’ deveria ser com todo temor.

A sujeição recomendada aos senhores é proveniente do temor a Cristo, o Senhor, e não por medo dos seus senhores, pois Cristo declarou o seu cuidado pelos seus seguidores: “E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo (…) Não temais, pois; mais valeis vós do que muitos passarinhos” ( Mt 10:28 ).

Os cristãos, escravos ou não, devem temer a Deus, Aquele que tem poder para lançar os homens no inferno. Ora, o amor a Deus lança fora o medo, pois quem O teme está livre do inferno. A paz proveniente dos ensinos de Jesus é que motivaria os cristãos escravos a serem obedientes aos seus senhores na carne “Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” ( Jo 16:33 ).

Sobre este aspecto do evangelho, Paulo também disse: “Vós, servos, obedecei em tudo a vossos senhores segundo a carne, não servindo só na aparência, como para agradar aos homens, mas em simplicidade de coração, temendo a Deus, e tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens” ( Cl 3:22 -23).

Por que ‘temer’ os homens se eles não têm poder sobre a alma? Para que os cristãos tivessem uma vida quieta e sossegada ( 1Tm 2:2 ). A temática do evangelho não é incitar as pessoas a pegar em espadas e saírem em defesa de questões humanitárias, ou de algum regime político, como ocorre em algumas concepções religiosas.

Ora, a sujeição aos homens em eminência é produto do temor a Deus, Àquele que tem poder para lançar o corpo e a alma no inferno.

Observe que as colocações de Jesus, Pedro e Paulo não se contradizem. Isto demonstra que todos tinham um mesmo parecer acerca das questões socioculturais.

A sujeição dos cristãos escravos deveria estender-se também aos senhores maus, ou seja, eram para sujeitarem-se não somente aos senhores bons (v. 18).

Alguém pode questionar: Por que o evangelho não apregoou a insurreição dos escravos contra os seus senhores? Jesus não veio salvar os pobres e os oprimidos?

Não! Jesus não veio mudar os reinos e a concepção de sociedade dos homens. Jesus não veio mudar as relações humanas e implantar uma doutrina com bandeira semelhante à concepção marxista. A temática: liberdade, igualdade e fraternidade não foram instituídas através do evangelho de Cristo. Tal concepção de sociedade é produto da concepção de alguns homens, embora influenciados pelo cristianismo, mas que não lhes deu o direito a salvação em Cristo.

Jesus veio ao mundo salva-lo de condenação anterior, a condenação em Adão, e não readequar ou resgatá-lo de regimes como o autoritarismo, monarquismo, ditadura, comunismo, socialismo, capitalismo, etc. Ora, todos os regimes políticos foram impostos através de uma luta constante dos homens pelo poder, sendo que alguns regimes políticos foram mais e outros menos agressivos.

Mas, por que o apóstolo Pedro recomenda a sujeição dos cristãos escravos aos seus senhores? Ele responde: “Porque é coisa agradável, que alguém, por causa da consciência para com Deus, sofra agravos, padecendo injustamente” (v. 19).

Observe que Pedro aponta a consciência do cristão para com o seu Deus como motivo suficiente para sofrer agravos até de um senhor mau. É agradável a Deus que alguém se sujeite a sofrer afrontas injustamente por causa da compreensão (consciência) do evangelho.

Deus agrada-se da consciência dos que crêem, e não da consciência social, política, moral, etc. Não é de valor para a salvação o sofrimento por causa de questões sociais, políticas, econômicas, morais, etc., pois a salvação encontra-se única e exclusivamente em Cristo.

Que glória resultará a Deus se os cristãos escravos sofressem por estarem comportando-se de modo desordeiro? De igual modo, que glória resultará a Deus se os cristãos livres não se submeterem as leis da sociedade?

A palavra pecado do verso 20 não se refere ao pecado herdado de Adão, antes a palavra grega traduzida por pecado equivale a idéia do que é mau. Ora, se é agradável os cristãos fazerem o bem e mesmo assim serem afligidos, não é agradável quando sofrem por fazerem o mau (pecado) (v. 20).

Para que os cristãos foram chamados? Para padecerem? Não! Para darem glória a Deus, fazendo o que lhe é agradável (v. 19- 20).

Pedro demonstra que Cristo sofreu por todos os cristãos para que seguissem o seu exemplo: não injuriar quando injuriado; não ameaçar quando padecer, antes é preciso entregar-se a Deus, Àquele que julga com justiça (v. 23).

O exemplo dado por Cristo é significativo, pois ele nunca cometeu pecado, e nem em sua boca houve engano, porém, foi perseguido, injuriado, maltratado, etc.

Pedro para de falar de questões comportamentais e volta a abordar uma questão doutrinária sobre modo importante: a morte para o pecado e a vida para justiça (v. 24- 25).

O cristão não deve prender-se em questões socioculturais, porém, deve agir conforme disse o apóstolo Paulo: “Foste chamado sendo servo? não te dê cuidado; e, se ainda podes ser livre, aproveita a ocasião” ( 1Co 7:21 ).

 

 

24 Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados. 25 Porque éreis como ovelhas desgarradas; mas agora tendes voltado ao Pastor e Bispo das vossas almas.

Pedro continua as suas considerações apontando o servo por excelência: Cristo ( Is 52:13 ).

Cristo, o servo escolhido e obediente, levou em seu corpo os pecados dos cristãos, e por que não dizer, do mundo inteiro?

Pedro faz referência a um trecho do livro do profeta Isaias, sem especificamente citá-lo. Ovelhas desgarradas pelas suas feridas foram sarados, e levando ele mesmo os nossos pecados refere-se ao trecho de Isaias 53, e Pedro faz uma releitura do texto, parafraseando-o: “Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si (…) Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas (…) como cordeiro foi levado ao matadouro…” ( Is 53:4 -7).

Como Cristo levou os pecados da humanidade sobre si, se Deus não toma o culpado por inocente, não trata o justo como injusto e a alma que pecar essa morrerá?

Primeiro é preciso considerar o tipo de linguagem utilizada, pois a linguagem teológica difere da linguagem evangelística. Na linguagem evangelística é válido dizer que Deus salva o pecador, porém, na linguagem teológica é salvo somente quem nascer de novo, ou seja, somente o novo homem em Cristo, que outrora era pecador, é salvo por Deus.

Segundo, a oferta do corpo de Cristo é segundo a vontade de Deus ( Hb 10:10 ).

Ora, Cristo morreu pelos pecadores, e todos os que crêem na mensagem do evangelho tornam-se participantes da sua morte, quebrando o vínculo do homem com o seu antigo senhor, o pecado.

Os homens nascidos em Adão que não morrerem com Cristo, não têm como ressurgir com Cristo. Só é possível ressurgir uma nova criatura quando o homem torna-se participante da morte de Cristo.

Mas, como o homem torna-se participante da morte de Cristo? Quando come da sua carne e bebe do seu sangue, ou seja, quando crê na sua palavra, pois ela é espírito e vida, da qual o homem deve ser participante pela fé “O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são espírito e vida” ( Jo 6:63 ).

Como as palavras de Cristo são espírito e vida e só é possível ter vida quando se come a carne e bebe o sangue de Cristo, a fé na promessa contida no evangelho é o único meio do homem comer do pão vivo enviado do céu ( Jo 6:35 e 53).

É preciso morrer para depois ressurgir uma nova criatura, quando passa a existir um novo tempo de justiça e paz. Antes, os cristãos eram como ovelhas quando desgarradas, agora, em Cristo, voltaram ao Pastor e Bispo das suas vidas (v. 25).

É impossível viver para a justiça quando se está longe do Pastor e Bispo das almas regeneradas. Estar longe de Deus é o mesmo que estar vivo para o pecado, e morto para a justiça.

Quando o homem desgarrado como ovelha sem pastor crê em Cristo, efetivamente morre com Cristo, e ressurge um novo homem participante da natureza divina.

Observe que Jesus convidou os seus ouvintes a seguirem-no até a cruz, pois qualquer que quisesse preservar a sua vida haveria de perdê-la “Quem ama a sua vida perdê-la-á, e quem neste mundo odeia a sua vida, guardá-la-á para a vida eterna” ( Jo 12:25 ).

Paulo também reafirma a doutrina de Cristo: “Pois morrestes, e a vossa vida está oculta com Cristo em Deus” ( Cl 3:3 ).

Pedro não é diferente: “… mortos para os pecados…” (v. 24), ou seja, quando os cristãos morreram, morreram para o pecado, e passaram a viver para Deus através da ressurreição de Cristo.

Ambos, Pedro e Paulo falam acerca de um tempo passado: “Porque éreis como ovelhas desgarradas” (v. 25); “Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no SENHOR; andai como filhos da luz” ( Ef 5:8 ). Agora, Em Cristo, os cristãos estão livres de pecado, pois para isto Cristo veio, morreu, ressurgiu e assentou-se à destra de Deus nas alturas: “De outra maneira, necessário lhe fora padecer muitas vezes desde a fundação do mundo. Mas agora na consumação dos séculos uma vez se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo” ( Hb 9:26 ).

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O que torna um homem pecador?

O evangelista deve entender que, primeiro é essencial a ação regeneradora de Deus, que faz um novo homem, e então, tudo se faz novo. Para tanto, basta ao evangelista anunciar as boas novas do evangelho, ou seja, que Cristo foi manifesto em carne, viveu sem pecado por ter sido gerado de Deus, foi crucificado, ressurgiu e está assentado à destra de Deus.

 


“Jesus respondeu, e disse-lhe: Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva” ( Jo 4:10 )

É comum em evangelismo a seguinte pergunta aos descrentes: “Você é bom o suficiente para entrar no céu por seu próprio merecimento?”, e não pude me furtar a algumas considerações.

É uma estratégia evangelística enfatizar a miserabilidade do homem em pecado para apresentar Cristo, o redentor, porém, erram ao considerar que a miserabilidade da humanidade decorre das disposições internas do homem.

Muitos cristãos ainda não compreendem porque o homem é pecador, pois reputam que o pecado está atrelado ao comportamento, à moral e ao caráter do homem.

O que torna um homem pecador?

O apóstolo Paulo responde, pois ele demonstrou que todos os homens estão destituídos e carecem da glória de Deus ( Rm 3:23 ). O homem é pecador porque foi destituído, ou seja, está alienado de Deus. É tido por miserável porque carece, ou seja, necessita da glória de Deus.

Por estar alienado de Deus o homem está destinado ao inferno de fogo, pois o inferno é o lugar destinado ao diabo e todas as gentes que se esquecem de Deus ( Sl 9:17 ). Estar destinado ao inferno não é uma questão de merecimento, antes diz de uma condição própria a todos os homens gerados de Adão.

É temerário simplesmente destacar que o homem é ‘merecedor’ do inferno, o que pode levar os pecadores a considerar a perdição como sendo algo proveniente de questões comportamentais, o que inexoravelmente acaba promovendo a ideia da salvação pelas obras.

A Bíblia não ensina que o homem é ‘merecedor’ do inferno, ou seja, que o inferno vincula-se a uma questão meritória, antes ela demonstra que todos que entraram pela porta larga seguem por um caminho largo que conduz à perdição ( Mt 7:13 -14).

Cristo é a porta estreita, e para entrar por Ele é necessário ao homem nascer de novo ( Jo 3:3 ). Isto indica que Adão é a porta larga por onde todos os homens entram ao nascer ( 1Co 15:45 ).

Nenhuma questão meritória é destacada com relação à perdição ou a salvação, antes é demonstrado na Bíblia que o homem é gerado em pecado, ou seja, alienado de Deus ( Sl 51:5 ). Que desde a madre os homens desviam-se de Deus, e por possuírem um coração corrupto, proferem mentiras desde que nascem ( Sl 58:3 ; Mt 12:34 ).

A porção dos filhos de Adão é somente este mundo, e estão destinados a saciarem-se somente da ira que Deus entesourou para eles. Sem qualquer mérito ou demérito, todos os filhos dos homens deste mundo também serão fartos da ira do Senhor, e dela sobejarão, pois são filhos da ira e da desobediência ( Sl 17:14 ).

É por isso que o apóstolo Paulo reitera o que anunciou o salmista Davi: “Não há um justo se quer” ( Rm 3:10 ). Ou seja: “Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis” ( Rm 3:12 ).

O que fez com que todos os homens se extraviassem? O apóstolo Paulo anuncia que todos se extraviaram porque um pecou, e por isso, todos pecaram. Um só foi destituído, e todos foram destituídos da glória de Deus ( Rm 5:12 ).

Segundo o profeta Miqueias, um homem piedoso pereceu, e desde que ele (Adão) pereceu não há entre os filhos dos homens um que seja justo. O melhor dos homens é um espinho, e o mais justo não passa de uma sebe de espinhos, o que demonstra que ser pecador e estar destinado ao inferno não é uma questão de mérito, antes diz de uma condição própria

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