A Fé, o sobrenatural e muitos erros…

Se o homem acreditar num futuro, seja ele terrível ou promissor, não é fé. A Fé diz de o homem crer na verdade, acreditar no nome de Jesus, pois os que creem na pessoa de Jesus recebem poder para serem criados de novo na condição de filhos de Deus ( Jo 1:12 ). Crer no futuro não é fé, não há poder e nem algo de sobrenatural no futuro. Em Cristo há poder, pois Ele é a Fé que havia de se manifestar e que se manifestou trazendo salvação a todos os homens.


A Fé, o sobrenatural e muitos erros…

O titulo deste artigo decorre do título do livro ‘O poder sobrenatural da fé’, do Bispo Edir Macedo. Ele lançou em 2011 o livro pela editora Unipro, e utilizaremos algumas citações do livro para abordarmos algumas questões sobre a fé.

No prefácio do livro, os editores chamam a atenção dos leitores destacando que através do poder sobrenatural da fé é possível aos olhos da alma o ‘inimaginável’ passar a existir; que para o homem achegar-se a Deus há uma ‘série de procedimentos’, e; que Deus existirá sempre para os que O buscam. À primeira vista tais argumentos parecem válidos, mas ao verifica-los através das Escrituras fica claro que os editores olvidaram, porque independentemente de alguém buscar a Deus ou não, Deus é o ‘Eu Sou’ por toda a eternidade. A assertiva ‘Deus existirá sempre para os que O buscam’ deriva do pensamento ateísta de que Deus é fruto da imaginação do homem, ou produto de uma crendice.

“A ideia de Deus (…) nasce da reflexão sobre as operações do nosso próprio espírito…” Hume – Vida e Obra, Coleção Os pensadores, 1999, pág. 37.

Ademais, aqueles que buscaram a Deus em espírito e em verdade, já não necessitam buscar a Deus, antes foram encontrados por Ele “Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem” ( Jo 4:23 ).

E também, para o homem aproximar-se de Deus não há uma série de procedimentos, antes é essencial a Fé, a palavra da Verdade, ou seja, a Fé que foi dada aos santos, a Fé que foi manifesta, a Fé que habita os que creem ( Jd 3 ; Gl 3:23 ; 2Tm 1:4 ).

E ainda, a fé não faz o inimaginável existir, antes a fé é a base do que se espera e prova do que não se vê ( Hb 11:1 ), ou seja, a fé é Cristo, esperança da glória, pois apesar dos que creem não verem, são bem-aventurados. Somente Deus é sujeito do verbo ‘bara’ (criar no hebraico), ou seja, somente Ele traz a existência por meio da sua palavra o que não existe. A confiança do homem não tem esta capacidade ( Jo 20:29 ; Rm 5:2 ; Tt 2:13 ).

Na introdução do livro, o Bispo diz que o objetivo do livro é:

‘… trazer às pessoas sinceras, uma base de fé simples, capaz de torna-las independentes da fé alheia e totalmente preparadas, a fim de obterem suas vitórias particulares…’ Macedo, Edir. O poder sobrenatural da fé. 1º Ed. Atualizada. Rio de janeiro: Unipro Editora, 2011, pág. 10.

Ora, quando o cristão está fundado em Cristo, a Fé que havia de se manifestar e que foi manifesta, o cristão é constituído ‘mais que vencedor’. Tal vitória não é uma vitória particular, pois, ser mais que vencedor por Cristo diz de uma vitória pertinente a um corpo, uma coletividade, que é a Igreja. Deus não prometeu vitórias subjetivas, individual, antes vitória sobre o mundo, o pecado e a morte! “Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou” ( Rm 8:37 ).

De igual modo, a fé não é uma questão do indivíduo, subjetiva, antes os que creem compartilham de uma mesma Fé “Isto é, para que juntamente convosco eu seja consolado pela fé mútua, assim vossa como minha” ( Rm 1:12 ). A fé cristã não pertence ao alheio e nem ao indivíduo. Ela é comum, mútua, pois foi entregue aos santos ( Jd 3 ).

Foi feita uma citação de João 10, verso 10: “O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir…”, e o Bispo interpreta-o dizendo que ‘O diabo tem roubado, matado e destruído vidas’ pág. 10 (Idem). Se analisado o verso dentro do contexto e com acuidade, vemos que o verso não diz do diabo, antes se refere aos lideres de Israel que, por prevaricarem na atribuição deles, não entraram pela porta no curral das ovelhas ( Jo 10:1 e 8). Ademais, o pecado entrou no mundo por um homem e através da ofensa dele a morte passou a todos os homens, e não através do diabo ( Rm 5:12 e 17; 1Co 15:21 ). Como o diabo poderia matar os que jazem mortos nas trevas? ( Ef 2:1 e 5).

Em seguida, o Bispo diz que o seu livro indicará o antídoto para vencer o ataque satânico e, acima de tudo, para se ‘manter um padrão de vida cristã para glorificar a Deus’. Ora, a Bíblia nada diz de um padrão de vida cristã para glorificar a Deus, antes Jesus deixa claro que, para glorifica-Lo, a única condição exigida é estar ligado a Cristo, a Videira verdadeira, pois ligado à Videira, o cristão produzirá muito fruto ( Jo 15:5 ). Glorificar a Deus é proveniente de algo específico: produzir muito fruto! “Nisto é glorificado meu Pai, que deis muito fruto” ( Jo 15:8 ).

No Capitulo 1 do livro ‘O poder sobrenatural da fé’, o Bispo faz uma assertiva de que não há limites para a fé, e arremata:

“Se acreditarmos num futuro terrível, isso com certeza nos sobrevirá; da mesma forma acontecerá com a crença em um porvir promissor. Aquilo em que acreditamos nos sobrevirá; aí reside o poder sobrenatural da fé pág. 11 (Idem).

Enquanto a Bíblia demonstra que o evangelho é a fé ( Rm 1:8 ), o poder de Deus ( Rm 1:16 -17), o Bispo desloca o poder que há no evangelho para a crença do homem. Contraditório, pois ao falar à multidão no Sermão do Monte, Jesus deixa claro que o homem não tem poder algum, pois não pode tornar o seu cabelo branco ou preto ( Mt 5:36 ). Se aquilo em que acreditamos nos sobrevém, com certeza Jesus incentivaria o ‘poder latente’ que, segundo o Bispo, havia em seus ouvintes. Jesus, aos moldes do Bispo teria dito à multidão no Sermão da Montanha que bastava acreditarem que mudariam a cor de seus cabelos.

Se o homem acreditar num futuro, seja ele terrível ou promissor, não é fé. A Fé diz de o homem crer na verdade, acreditar no nome de Jesus, pois os que creem na pessoa de Jesus recebem poder para serem criados de novo na condição de filhos de Deus ( Jo 1:12 ). Crer no futuro não é fé, não há poder e nem algo de sobrenatural no futuro. Em Cristo há poder, pois Ele é a Fé que havia de se manifestar e que se manifestou trazendo salvação a todos os homens.

Sem base bíblica, o Bispo advinha os pensamentos do diabo em épocas remotas, quando na página 12 do livro ‘O poder sobrenatural da fé’ diz :

“Ele (o diabo) deve ter pensado: ‘Se eu tivesse esse poder, usaria a minha palavra para destruir tudo o que Deus construiu e, então, eu seria realmente igual a Ele'” Grifo nosso.

O pensamento que nunca ocorreu não passa de uma suposição descabida, pois o diabo nunca quis ou intentou ser igual a Deus. Não é factível a qualquer criatura ser igual a Deus. O intento de satanás foi o de ser semelhante a Deus, o que é totalmente diverso de ser igual a Deus “Subirei sobre as alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo” ( Is 14:14 ).

Satanás intentou alcançar o que Deus daria aos homens, pois Deus diz: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” ( Gn 1:26 ). Ao usurpar o que seria dado aos homens, Satanás não guardou a sua posição ( Ez 28:15 ).

Após fazer diversas críticas à sociedade e as religiões, na página 17 do citado livro, o Bispo argumenta que:

‘… o ambiente da campanha de fé (…) desperta a fé das pessoas que, naturalmente, alcançam o milagre…’  pág. 17 (idem), mas que às vezes, algumas voltam a se queixar da moléstia que fora curadas, e arremata que ‘Tais pessoas, deixando de andar na fé, começaram a dar ouvidos a palavras sem fundamento…’  pág. 19 (idem).

Da abordagem, entende-se que a fé é algo inerente ao homem e, que o ambiente de fé, as campanhas, despertam tal ‘capacidade’ nas pessoas, momento em que passam a andar na fé. Porém, a Bíblia é clara que a Fé é dom de Deus, ou seja, não tem com ser ‘despertada’, pois não é inerente ao homem. Cristo é a Fé manifesta, o Dom de Deus, portanto, a Fé foi revelada aos homens que, por sua vez, precisam crer ( Jo 4:10 ; Ef 2:8 ).

Já na página 21, tem-se o argumento de que “(o homem) a partir da fé cristã (…) passa a ter mais capacidade, força e poder que o diabo; daí, é fácil subjugá-lo, em nome do Senhor Jesus…” pág. 21 (Idem). Ora, a Fé cristã é o evangelho, portanto, poder de Deus para os que creem para salvação. O poder é para salvação, daí o alerta de Cristo: “Mas, não vos alegreis porque se vos sujeitem os espíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus” ( Mt 10:20 ).

O fato de o cristão possuir poder para pisar serpentes e escorpiões é secundário, pois o diabo é astuto, e pode fingir submeter-se a quem não é salvo para que o faça acreditar que Deus é com ele. A Bíblia ordena ao homem sujeitar-se a Deus, o que faz com que o diabo fuja, ou seja, não é o poder de submeter o diabo que deve ser considerado, antes o poder de ser feito filho de Deus ( Jo 1:12 ). Foi Jesus que subjugou o diabo debaixo dos seus pés, pois Ele é o Valente ( Lc 11:22 ), resta ao cristão crer em Cristo, o salvador de nossas almas.

Mas, após dizer que o cristão luta contra a carne (pág. 23), ( Ef 6:12 ); apresentar um princípio platônico de que os espinhos quando mais alimentados esmagam a semente (pág. 25) – metáfora de Platão da carruagem puxada por dois cavalos, um branco e outro negro em O Fedro -; que o diabo passa aos descendentes dos que foram usados por ele (pág. 28), e; que é possível a um líder religioso ‘fazer’ pessoas sinceras ‘nascerem da carne’  (pág. 32) – nascer da carne na Bíblia diz do nascimento natural, diz do resultado da concepção de um homem quando vem ao mundo ( Jo 1:13 ) – abordagem do Bispo agrava-se em equívocos nas páginas 36 e 37, contraponto ‘fé’ versus ‘medo’.

‘O medo é uma forte manifestação de fé negativa…’  pág. 34 (Idem), e que ‘pensar positivamente’ é a definição de fé em Deus.

“Em vez de pensar positivamente, que e a definição de fé em Deus, alimentam a fé negativa…”  pág. 37 (Idem).

Ele argumenta que é necessário vetar o conhecimento bíblico às pessoas oprimidas pelo medo, pois a palavra de Deus não é suficiente para obter sucesso nestes casos.

“É preciso, contudo, tomar cuidado para não permitir que pessoas oprimidas pelo medo venha a ficar bem informadas a respeito da bíblia…” pág. 37 (Idem) Grifo nosso.

Embora o apóstolo Pedro tenha determinado aos cristãos que desejassem a palavra de Deus como recém nascido deseja o leite “Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que por ele vades crescendo” ( 1Pe 2:2 ), sob o pretexto de que ‘o diabo tem usado muito a bíblia’  (pág. 37), para confundir os que tem tal desejo ardente.

“Esse tipo de ataque tem acontecido com muita frequência exatamente entre os que têm um desejo insaciável de saber as respostas para todas as perguntas”  pág. 38 (Idem).

A gravidade do que é dito fica estampado na assertiva seguinte:

“O bom pastor (…) foi chamado para transmitir a vida que se encontra na Palavra de Deus, e não para transmitir a letra”  pág. 39 (Idem).

Com base no que o Bispo entendeu a partir de 2 Coríntios 3, verso 6: “Porque a letra mata, mas o espírito vivifica”. Ora, o espirito a que o apóstolo Paulo refere-se diz de Cristo, o espírito vivificante ( 1Co 15:45 ). Cristo mesmo afirmou que as suas palavras são espirito e vida, ou seja, o apóstolo estava demonstrando que o Novo Testamento é o espírito (palavra) que vivifica, diferente da lei de Moisés, que mata, pois foi incrustada em pedras e entregue no monte Sinai, diferente do evangelho que é escrita no coração dos que creem “Porque já é manifesto que vós sois a carta de Cristo, ministrada por nós, e escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas nas tábuas de carne do coração” ( 2Co 2:3 ).

No capítulo 2 não há nada aproveitável, o que demandaria um estudo frase a frase para expor os erros. Porém há três pontos a serem destacados pelas aberrações teológicas que apresentam.

O Bispo Edir Macedo afirma na página 48 que ‘… a fé é a certeza de coisas que se esperam; não a certeza de algo que é verdade’. Ora, o fundamento da fé do cristão é a palavra de Deus, e Jesus é enfático: “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” ( Jo 17:17 ). Ele demonstra desconhecer que a Fé que o escritor aos Hebreus evidencia no capítulo 11, verso primeiro diz de Cristo – O Caminho, a Verdade e a Vida, pois Ele é o fundamento do que se espera, quando diz: Creia em mim ( Jo 14:1 ). Ou seja, a fé evidencia o fundamento, portanto, a certeza não produz verdade, mas a verdade é o fundamento da certeza!

“… a fé (..) é a certeza de coisas que se esperam, e mais nada” pág. 134 (Idem)

“ORA, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não veem” ( Hb 11:1 ).

Outra asserção terrível é a exposta na página 60:

“A única diferença está no fato de que a semente da terra é visível, palpável e concreta, enquanto a semente da fé sobrenatural e, consequentemente do milagre, é a Palavra de Deus: invisível, impalpável e abstrata”.

O testemunho do evangelista João é claro acerca da Palavra de Deus: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” ( Jo 1:14 ), de modo que a Palavra de Deus não é invisível, impalpável ( 1Jo 1:1 -3) e nem abstrata (que só existe no domínio das ideias), pois a Palavra de Deus concretizou-se na pessoa do Verbo que se fez carne.

Os erros nas abordagens são constantes, pois enquanto a Bíblia diz que Moisés ficou firme após sair do Egito como se estivesse vendo o invisível ( Hb 11:27 ), o Bispo afirma que Ele viu o invisível. Enquanto a Bíblia afirma que os heróis da fé creram em Deus, ele afirma que creram no impossível “Para que por duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, tenhamos a firme consolação, nós, os que pomos o nosso refúgio em reter a esperança proposta” ( Hb 6:18 ).

“… permaneceram firmes (…) porque viram o invisível e creram no impossível” pág. 60 (idem).

Mas, das aberrações proposta pelo Bispo Edir Macedo, nenhuma supera a que se segue:

“Quem teve a capacidade de determinar alguma coisa e, ao mesmo tempo, não duvidar? Bem, o único que fez isso foi o próprio Deus. Ele disse: “Haja luz”; e houve luz! (Gn 1.3). A luz que não existia veio à existência. E por quê? Porque quando Ele determinou a luz, creu que a luz haveria de existir, pois não havia dúvidas em Seu coração pág. 80 (idem) Grifo Nosso, o que me leva a questionar os diplomas das faculdades de Teologia que ele diz ter cursado.

Como é possível Deus ter fé, ou crer, se todas as coisas estão nuas e patentes aos seus olhos? Afirmar que Deus tem fé é negar as Escrituras: “E não há criatura alguma encoberta diante dele; antes todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar” ( Hb 4:13 ), pois a fé constitui-se prova do que não se vê “Disse-lhe Jesus: Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram” ( Jo 20:29 ); “Porque em esperança fomos salvos. Ora a esperança que se vê não é esperança; porque o que alguém vê como o esperará?” ( Rm 8:24 ).

Acerca da salvação, o líder da Igreja Universal do Reino de Deus diz:

“Podemos sentir no próprio espírito que desta qualidade de caráter depende até mesmo a nossa própria salvação eterna. Sim, porque não basta apenas confessar com a boca que Jesus Cristo é o Senhor para que sejamos salvos, porque isso qualquer um pode fazer” pág. 120 (Idem) Grifo nosso.

Que diremos da declaração do apóstolo Paulo: “A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” ( Rm 10:9 )? Ora, crer e confessar que Jesus é o Cristo de Deus só é possível através da revelação do Pai, e não do caráter do homem “E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus” ( Mt 16:17 ).

Qual era o caráter do ladrão na cruz quando rogou a Cristo que não se esquecesse d’Ele ao entrar no paraíso?

Só posso concluir que o Bispo Edir Macedo está em igual condição a dos lideres de Israel: “Querendo ser mestres da lei, e não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam” ( 1Tm 1:7 ), pois enganam e estão enganados “Mas os homens maus e enganadores irão de mal para pior, enganando e sendo enganados” ( 2Tm 3:13 ).

É por isso que a Bíblia diz para provarmos os espíritos: “AMADOS, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo” ( 1Jo 4:1 ).

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Judas – Defesa da fé

A salvação em Cristo decorre da graça de Deus concedida a todos os que em todo lugar invocam a Cristo como Senhor “À igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos, com todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso SENHOR Jesus Cristo, Senhor deles e nosso:” ( 1Co 1:2 ) Judas sentiu a necessidade de concitar os cristãos a batalharem pela fé, ou seja, a lutarem em defesa da doutrina do evangelho, visto que algumas pessoas que se diziam cristãs buscavam transtornar a mensagem do evangelho.


“JUDAS, servo de Jesus Cristo, e irmão de Tiago, aos chamados, santificados em Deus Pai, e conservados por Jesus Cristo: Misericórdia, e paz, e amor vos sejam multiplicados” ( Judas 1:1 )

Apresentação

Judas identifica-se aos destinatários da sua epístola como servo (δοῦλος – doulos) de Cristo e irmão de Tiago.

Judas e Tiago eram filhos de Maria e José e, por sua vez, ambos eram irmãos de Jesus segundo a carne por parte de Maria “Não é este o filho do carpinteiro? e não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, e José, e Simão, e Judas?” ( Mt 13:55 ).

Através desta apresentação fica evidente que Judas não se considerou privilegiado em relação aos demais cristãos quanto à salvação, pois a salvação é dádiva de Deus comum a todos quantos creem em Cristo “À igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos, com todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso SENHOR Jesus Cristo, Senhor deles e nosso:” ( 1Co 1:2 ).

Judas não se arroga no direito de escrever aos cristãos na condição de apóstolo de Cristo, embora reunisse em si todas as condições necessárias para fazê-lo (v. 17), pois ele conviveu com Jesus quando em carne. Mas, como a condição de apóstolo decorre de uma escolha de Jesus Cristo, como se verifica na lista com o nome dos doze apóstolos ( Mt 10:2 -4), Judas se absteve de lançar mão deste título.

Apesar de ser irmão de Jesus segundo a carne, ao posicionar-se como servo Judas demonstra que se submeteu ao senhorio de Cristo assim como os demais cristãos “Judas, servo de Jesus Cristo…” (v. 1).

É na condição de servo (obediente a Cristo) que Judas escreve aos cristãos (chamados), ou seja, àqueles que ouviram a mensagem do evangelho e creram. Quando foi anunciada a mensagem do evangelho os cristãos foram chamados, e quando creram tornaram propriedade (pertencerem) peculiar de Deus “Entre as quais sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo” ( Rm 1:6 ; Ef 1:13 ).

Os cristãos estavam em Deus, portanto, sobre a proteção do amor (cuidado) do Pai, e em Cristo Jesus guardados “Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” ( Cl 3:3 ; 1Pd 1:5 ; Rm 1:6 ; Ex 16:5 ).

 

Santos

Todo e qualquer que aceita (crê) a proposta do evangelho (chamado) são santificados. A proposta do evangelho está em que o homem reconheça que Jesus de Nazaré é o Filho de Deus e, quem assim crê é porque creu no testemunho que Deus deu acerca do Seu Filho ( 1Jo 5:10 ; At 26:18 ).

Por santificado devemos entender ‘separado’ como propriedade para uso exclusivo de Deus. Por ser propriedade de Deus é que o cristão é nomeado ‘santo’ “E ser-me-eis santos, porque eu, o SENHOR, sou santo, e vos separei dos povos, para serdes meus” ( Lv 20:26 ); “Entre as quais sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo” ( Rm 1:6 ; Jd 1:3 ).

O nome ‘santo’ decorre única e exclusivamente da nova condição ‘em Cristo’, e não de questões comportamentais ( Rm 1:7 ). O homem alcança a santificação crendo em Cristo, mas como se dá a santificação?

Por intermédio do evangelho ocorre o chamado, por isso é dito muitos ‘chamados’, e como poucos atendem o ‘chamado’, poucos são denominados ‘escolhidos’. O convite para entrar pela porta estreita é direcionado a todos, mas são poucos os que encontram Cristo, ou seja, são poucos os escolhidos “Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos” ( Mt 22:14 ; Mt 7:13 -14; 1Co 1:26 ).

Ora, quem crê em Cristo segundo as Escrituras atendeu ao chamado do evangelho, e agora são designados ‘chamados’ (κλητός – klétos). Os cristãos são nomeados ‘chamados’ em vista da vocação em Cristo: eleição e predestinação. Cristo é o eleito de Deus, e os cristãos por serem geração de Cristo são santos e irrepreensíveis (eleitos). Por causa da vocação (chamado) estabelecida na eternidade em Cristo, os que creem estão predestinados a serem conforme a imagem de Cristo, para que Ele seja primogênito entre muitos irmãos ( Rm 8:29 ; Ef 3:11 ).

Os que são ‘chamados’, ou seja, aqueles que ouvem a mensagem do evangelho (poder de Deus) e creem (escolhidos), recebem poder para serem feitos (criados) filhos de Deus. Por serem participantes da salvação em Cristo por intermédio do evangelho, os que creram são chamados com santa vocação, portanto eleitos e predestinados ( Jo 1:12 ; 2Tm 1:8 -9).

Esta nova criatura proveniente do poder criativo de Deus pertence exclusivamente a Deus ( Ef 4:24 ; 2Co 5:17 ), diferente da velha criatura proveniente da semente corruptível de Adão que pertence ao pecado. Como a nova criatura proveniente da semente incorruptível, que é a palavra de Deus, é gerada em verdadeira justiça e santidade, agora é designada ‘santo’ ( 1Pe 1:23 ; Ef 4:24 ).

A raiz da qual se origina a palavra ‘santificados’ e outras correlatas é proveniente do vocábulo grego ἁγιάζω, transliterado “hágios”, e significa ‘o sublime’, ‘o consagrado’, ‘o venerável’, sem qualquer referência às questões de ordem moral ou comportamental. O termo ‘hágios’ aponta especificamente para questões de ordem funcional, pois entre os gregos da antiguidade tudo se definia pela função.

Quando nomeou os cristãos de ‘santos’, Judas utilizou a raiz do vocábulo grego ‘hagios’, dando a entender que os cristãos são propriedade de Deus, portanto verdadeiramente e inteiramente separados para uso de Deus (santos). Os cristãos por serem gerados de novo, criados segundo a palavra da verdade (semente incorruptível) participantes da natureza divina ( 2Pe 1:4 ), são declarados santos porque Deus os separou por Seu.

Assim como os cristãos são nomeados santos, também são nomeados ‘primícias’ e ‘primogênitos’, porque funcionalmente são propriedades do Senhor “À universal assembleia e igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus, e a Deus, o juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados” ( Hb 12:23 ); “Mas o primogênito de um animal, por já ser do SENHOR ninguém o santificará; seja boi ou gado miúdo, do SENHOR é” ( Lv 27:26 ); “Porque meu é todo o primogênito entre os filhos de Israel, entre os homens e entre os animais; no dia em que, na terra do Egito, feri a todo o primogênito, os santifiquei para mim” ( Nm 8:17 ).

Em momento algum a santificação em Cristo é apresentada como gradual e/ou processual. A ideia de que a santificação é processual decorre do trabalho e do entendimento de alguns lexicógrafos, pois ao longo dos anos ‘amalgamaram’ ao termo ‘hagios’ a ideia de que santo é ‘aquilo que merece e exige reverência moral e religiosa’.

Para ser salvo basta ao homem crer na mensagem do evangelho, graça que é ofertada através da revelação de Cristo Jesus aos homens, e Deus há de operar o milagre da Regeneração, a sua obra perfeita, visto que, para ser salvo é necessário ser gerado de novo de Deus, ou seja, da água e do espírito ( Jo 6:29 ).

Como propriedade de Deus, herança, os de novo nascido segundo a semente de Deus são guardados em Jesus Cristo, como bem demonstrou o apóstolo Paulo: “E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus vos chamou à sua eterna glória, depois de haverdes padecido um pouco, ele mesmo vos aperfeiçoará, confirmará, fortificará e fortalecerá” ( 1Pe 5:10 ; Ef 1:11 ).

É Deus quem chama os cristãos à sua eterna glória por intermédio do evangelho de Cristo, e Ele mesmo há de conservá-los irrepreensíveis até a vinda de Cristo ( 1Ts 5:23 -24).

 

Saudação

Quando Judas saudou os cristãos nos mesmos moldes que os apóstolos, ele o fez confiado em Deus que multiplica misericórdia, paz e amor aos que obedecem a Deus.

Após se identificar, o irmão Judas identifica os seus destinatários como ‘chamados’, e os saúda com a misericórdia, a paz e o amor de Deus (v.2); “A todos os que estais em Roma, amados de Deus, chamados santos: Graça e paz de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo” ( Rm 1:7 ).

A misericórdia (prover bem a quem merece o mal), a paz (comunhão com Deus) e o amor (o cuidado de Deus) decorrem do evangelho de Cristo. Quando Judas solicita a Deus que se multipliquem estas benesses, ele tem em mente a mesma oração do apóstolo Paulo: “E oro para que, estando arraigados e fundados em amor, possais perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade” ( Ef 3:18 ).

O amor de Cristo já foi derramado sobre os cristãos em misericórdia, paz e caridade, porém, é necessário compreender qual a dimensão deste amor. A exata compreensão do amor de Deus revelará quais foram as benesses concedidas sem medida ( Ef 1:18 ).

 

“Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos, e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos. Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo” ( Judas 1:2 -4)

Este verso demonstra que a epístola de Judas é fruto de uma necessidade, portanto, não se trata de frivolidade. Judas envidou todo esforço para escrever está epístola.

Ao perceber que alguns homens ímpios estavam dissimuladamente introduzindo heresias de perdição entre os cristãos, Judas sentiu a necessidade de concitar os cristãos a batalharem pela ‘fé’, ou seja, a lutarem pela doutrina do evangelho.

Estes indivíduos se introduziram em meio aos que professavam o evangelho e ensinavam doutrinas provenientes de uma concepção carnal, pois pervertiam a graça de Deus negando a pessoa de Cristo.

Não podemos confundir o ajuntamento solene de pessoas, onde os ímpios também podem comparecer, com a Igreja de Deus, que é formada somente por aqueles que efetivamente são membros do corpo de Cristo.

Para fazer parte do corpo de Cristo como membro é necessário comungar da fé (doutrina) dos apóstolos, confessando (admitindo) Cristo como Senhor, pois só assim será participante do batismo na morte de Cristo. O batismo nas águas é representação de um evento espiritual: a morte com Cristo ( Ef 4:4 -6 ; Rm 6:3 ; 1Co 12:13 ).

Os homens somente se tornam membros da igreja de Cristo quando batizados em um só espírito, ou seja, nas palavras de Cristo, que são espírito e vida ( Jo 6:63 ). É possível que não surjam heresias, porém, jamais o corpo de Cristo, a Igreja de Deus, será maculado.

A exortação de Judas é idêntica à que o apóstolo Paulo escreveu aos Filipenses:

“O que é mais importante, deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho de Cristo. Então, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de vós que estais firmes em um mesmo espírito, combatendo juntamente com o mesmo ânimo pela fé do evangelho( Fl 1:27 ).

A salvação em Cristo se dá através do evangelho, que é poder de Deus para salvação do que crê. Todos que creem no evangelho torna-se participante de uma mesma salvação, portanto, salvação comum ( de todos que creem).

O substantivo πίστις (pistis), traduzido por ‘fé’ não se refere a crença do homem, e sim ao corpo doutrinário do evangelho. O cristão não luta por uma crença, antes luta para defender dos ataques dos adversários a mensagem anunciada por Cristo e seus apóstolos ( Ef 2:20 ).

 

“Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo” ( Judas 1:4 )

 

Ímpios

Os homens que dissimuladamente negam a Cristo, único Senhor e Deus, são nomeados ímpios, pois procuravam transtornar o evangelho impondo as suas próprias sujidades. Quando Judas fez alusão aos ímpios, não estava se referindo aos descrentes, mas aqueles que se diziam irmãos e eram devassos.

“Já por carta vos tenho escrito, que não vos associeis com os que se prostituem; Isto não quer dizer absolutamente com os devassos deste mundo, ou com os avarentos, ou com os roubadores, ou com os idólatras; porque então vos seria necessário sair do mundo. Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais” ( 1Co 5:10 -11).

Desde que iniciou-se a proclamação do evangelho aos povos, os seguidores de Jesus foram perseguidos e confrontados pelos judaizantes.

A doutrina do evangelho foi confrontada quando os judaizantes passaram a anunciar que era necessário aos cristãos se circuncidarem segundo a lei de Moisés ( At 15:1 ), embora Jesus e os apóstolos não tenham dado mandamento algum neste sentido “Porquanto ouvimos que alguns que saíram dentre nós vos perturbaram com palavras, e transtornaram as vossas almas, dizendo que deveis circuncidar-vos e guardar a lei, não lhes tendo nós dado mandamento” ( At 15:24 ).

Os judaizantes queriam introduzir no evangelho elementos da lei mosaica, ou seja, deitar fermento à massa “Um pouco de fermento leveda toda a massa” ( Gl 5:9 ), e concitava os cristãos a adotarem práticas e ritos segundo a tradição dos judeus.

O apóstolo Paulo alerta que tal apelo dos judaizantes é um outro evangelho ( Gl 1:6 -7), que tal chamado não é proveniente de Cristo ( Gl 5:8 ), ou seja, tais homens queriam submeter novamente os cristãos à escravidão “Alimpai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa, assim como estais sem fermento. Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós. Por isso façamos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da malícia, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade” ( 1Co 5:7 -8).

Os judaizantes negavam a eficácia da obra de Cristo, uma vez que queriam que os cristãos convertidos dentre os gentios adotassem práticas da lei, como a circuncisão do prepúcio da carne, para serem salvos.

Um crente em Cristo crê que para ser salvo é suficiente crer que Jesus é o Filho de Deus, ou seja, que a salvação não está em ser descendente da carne de Abraão ( Gl 5:13 ). O apóstolo Paulo deixa claro que abriu mão de todas as práticas judaicas que por tradição herdou dos seus pais para poder ganhar a Cristo ( Fl 3:4 ).

Os ‘infiltrados’ entre os cristãos são descritos como querendo transtornar (perverter) a graça que se revela em Cristo Jesus, o único Soberano e Senhor. Como? Negando que Cristo é Soberano e Senhor, ou seja, contrariando o profetizado por Isaias: “Ao SENHOR dos Exércitos, a ele santificai; e seja ele o vosso temor e seja ele o vosso assombro” ( Is 8:13 ; 1Pe 3:15 ).

Temos na epístola de Judas uma confissão da deidade de Cristo, pois o próprio irmão de Jesus se refere a Cristo como Soberano e Senhor, segundo o que foi anunciado no Antigo Testamento: Cristo é o Emanuel, Deus conosco, nosso Salvador ( Rm 10:9 ).

O intuito dos que querem transtornar o evangelho é uma flagrante ação do anticristo, visto que, nega a eficácia da obra de Cristo, ou nega que Jesus de Nazaré é o Filho do Deus vivo “Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? É o anticristo esse mesmo que nega o Pai e o Filho” ( 1Jo 2:22 ); “Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te” ( 2Tm 3:5 ).

Judas adverte que as Escrituras já haviam previsto que haveria tais homens ímpios, e nos versos 5 à 6 demonstra onde tal previsão encontra-se nas Escritura através dos exemplos que o povo de Israel deixou “Procuremos, pois, entrar naquele repouso, para que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência” ( Hb 4:11 ; 2Pe 2:6 ; Jd 1:7 ).

Assim como o apóstolo Paulo entendia que tudo o que consta nas Escrituras foi escrito para o nosso ensino, Judas demonstra através da história de Israel que em meio aos cristãos haveria os enganadores “Porque tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que pela paciência e consolação das Escrituras tenhamos esperança” ( Rm 15:4 ).

A sentença dos que rejeitam a verdade (não creram) foi prevista há muito tempo: destruição. Os que odeiam a Deus, ou seja, que não guardam o seu mandamento estão destinados à perdição, pois permanecem na iniquidade “Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” ( Ex 20:5 -6; Sl 81:11 -12).

Quando Moisés roga a Deus para que perdoasse o pecado do povo por haver feito um bezerro de ouro, foi lhe dito: “Então disse o SENHOR a Moisés: Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro” ( Ex 32:33 ), dando a entender o que foi anunciado posteriormente pelo profeta Ezequiel: ‘a alma que pecar, esta mesma morrerá’ “Eis que todas as almas são minhas; como o é a alma do pai, assim também a alma do filho é minha: a alma que pecar, essa morrerá” ( Ez 18:4 ).

Embora Deus tenha dado ordem a Moisés para que conduzisse o povo pelo deserto, o povo de Israel foi ferido mais tarde, porque Deus disse: “… porém no dia da minha visitação visitarei neles o seu pecado” ( Ex 32:33 ), ou seja, estava predito a destruição dos que não creram “Vai, pois, agora, conduze este povo para onde te tenho dito; eis que o meu anjo irá adiante de ti; porém no dia da minha visitação visitarei neles o seu pecado. Assim feriu o SENHOR o povo, por ter sido feito o bezerro que Arão tinha formado” ( Ex 32:34 -35).

Ora, rejeitar a Cristo como Senhor é causa de eterna perdição ( 2Ts 1:8 -9), o que também foi predito pelos profetas acerca dos líderes de Israel, como se lê: “A pedra que os edificadores rejeitaram tornou-se a cabeça da esquina” ( Sl 118:22 ); “Então ele vos será por santuário; mas servirá de pedra de tropeço, e rocha de escândalo, às duas casas de Israel; por armadilha e laço aos moradores de Jerusalém” ( Is 8:14 ); “Por quê? Porque não foi pela fé, mas como que pelas obras da lei; tropeçaram na pedra de tropeço” ( Rm 9:32 ).

Há muito estava previsto por boca dos profetas que aqueles que rejeitam a verdade são passíveis da destruição, leitura semelhante a que foi feita pelo apóstolo Pedro: “E assim para vós, os que credes, é preciosa, mas, para os rebeldes, A pedra que os edificadores reprovaram, Essa foi a principal da esquina, e uma pedra de tropeço e rocha de escândalo, para aqueles que tropeçam na palavra, sendo desobedientes; para o que também foram destinados( 1Pe 2:7 -8). Compare: “Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo…” ( Jd 1:4 ).

Na segunda carta do apóstolo Pedro é feito alusão aos mesmos homens ímpios que se infiltraram em meio aos cristãos:

“E TAMBÉM houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição. E muitos seguirão as suas dissoluções, pelos quais será blasfemado o caminho da verdade. E por avareza farão de vós negócio com palavras fingidas; sobre os quais já de largo tempo não será tardia a sentença, e a sua perdição não dormita” ( 2Pe 2:1 -2).

A sentença de destruição é enfatizada pelos escritores do Novo Testamento todas as vezes que apresentam o povo de Israel como exemplo de desobediência.

 

“Mas quero lembrar-vos, como a quem já uma vez soube isto, que, havendo o Senhor salvo um povo, tirando-o da terra do Egito, destruiu depois os que não creram” ( Judas 1:5 )

 

Exemplo negativo

Embora os cristãos já soubessem da necessidade de estarem engajados na defesa da verdade (fé) do evangelho, Judas escreveu para trazer a lembrança algo que já sabiam ( Jd 1:5 ).

Para relembrá-los da necessidade de perseverarem firmes no evangelho (fé que foi dada aos santos), Judas apresenta três exemplos:

a) a destruição dos que não creram após serem resgatados do Egito;

b) a destruição dos mensageiros que não guardaram a sua posição, e;

c) o exemplo das cidades de Sodoma e Gomorra.

O Senhor Jesus que os homens ímpios negavam o seu senhorio, era o mesmo Senhor que resgatou o povo de Israel da escravidão no Egito “E beberam todos de uma mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra espiritual que os seguia; e a pedra era Cristo” ( 1Co 10:4 ).

Por causa da incredulidade de Israel, o Senhor que os resgatou do Egito escondeu o Seu rosto “E disse: Esconderei o meu rosto deles, verei qual será o seu fim; porque são geração perversa, filhos em quem não há lealdade” ( Dt 32:20 ).

O profeta Isaias ao falar da salvação aponta para o Senhor que ‘esconde’ o seu rosto da casa de Jacó, pois o resplendor da glória de Cristo é a misericórdia de Deus manifesta aos homens “E esperarei ao SENHOR, que esconde o seu rosto da casa de Jacó, e a ele aguardarei” ( Is 8:17 ); “O SENHOR faça resplandecer o seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti” ( Nm 6:25 ); “Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” ( 2Co 4:6 ; Sl 80:3 ).

Através desta pequena alusão ao povo de Israel, Judas trouxe à memória dos irmãos uma lição que eles já haviam aprendido (v. 5). Uma lição que o escritor aos Hebreus enfatiza: “Porque também a nós foram pregadas as boas novas, como a eles, mas a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não estava misturada com a fé naqueles que a ouviram” ( Hb 4:2 ).

Sobre o resgate de Israel do Egito e os que foram destruídos no deserto, podemos nos socorrer dos ensinamentos do apóstolo Paulo. Embora tenha sido resgatado do Egito um povo, nem todos eram israelitas de fato “Não que a palavra de Deus haja faltado, porque nem todos os que são de Israel são israelitas” ( Rm 9:6 ). Da mesma forma, nem todos que se apresentam na assembleia solene dos cristãos são verdadeiramente membros do corpo de Cristo.

Os que pereceram no deserto eram descendentes da carne de Abraão, porém, pela incredulidade que havia neles, não vieram a ser contados como filhos de Abraão. Na condição de descendentes da carne de Abraão foram resgatados do Egito, porém, por não tiveram a mesma fé que o crente Abraão, não puderam ser contados como filhos de Deus.

Através desta pequena referência a Israel, Judas esperava que os cristãos considerassem que Deus resgatou a Israel da escravidão do Egito transtornando os pensamentos de Faraó para tornar conhecido o seu nome em toda a terra. Deus fez de Israel sua propriedade particular dentre todos os povos da terra “Mas, deveras, para isto te mantive, para mostrar meu poder em ti, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra” ( Ex 9:16 ).

Embora saiu do Egito um povo livre, individualmente cada membros do povo de Israel ainda era prisioneiro do pecado, pois não confiavam em Deus ( Dt 9:4 e 6). Tomando Israel como exemplo, os cristãos deveriam continuar considerando que, para permanecerem participantes do corpo de Cristo, é preciso crer na verdade do evangelho.

Da mesma forma que foram destruídos os descrentes dentre o povo de Israel, visto que somente dois homens entraram na terra prometida, os ímpios à época de Judas haveriam de ser destruídos por não crerem em Cristo.

Israel não foi salvo porque pesava sobre eles a condenação proveniente de nascimento segundo a maldição que há na semente corruptível de Adão ( Sl 53:3 ; Sl 58:3 ). A circuncisão do prepúcio da carne não os livrava da condenação herdada de Adão. Somente estariam livres do pecado quando circuncidassem o prepúcio do coração, o que é feito sem auxílio de mãos humanas ( Cl 2:11 ).

O irmão Judas propõe trazer a lembrança dos cristãos um conhecimento que dispunham, pois amplamente era lido nas Escrituras o que ocorreu com os desobedientes de Israel.

O exemplo de desobediência dos filhos de Israel é apresentado aos cristãos para não incorrerem no mesmo erro:

“Procuremos, pois, entrar naquele repouso, para que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência. Porque também a nós foram pregadas as boas novas, como a eles, mas a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não estava misturada com a fé naqueles que a ouviram (…) Procuremos, pois, entrar naquele repouso, para que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência” ( Hb 4:1 -2 e11).

O apóstolo Paulo também faz referência a Israel como exemplo negativo:

“E estas coisas foram-nos feitas em figura, para que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram. Não vos façais, pois, idólatras, como alguns deles, conforme está escrito: O povo assentou-se a comer e a beber, e levantou-se para folgar. E não nos prostituamos, como alguns deles fizeram; e caíram num dia vinte e três mil. E não tentemos a Cristo, como alguns deles também tentaram, e pereceram pelas serpentes. E não murmureis, como também alguns deles murmuraram, e pereceram pelo destruidor. Ora, tudo isto lhes sobreveio como figuras, e estão escritas para aviso nosso, para quem já são chegados os fins dos séculos” ( 1Co 10:6 -11).

 

Continua…

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