– Vigia irmão!

O crente deve estar cônscio de que a sua salvação só ocorrerá se permanecer firme no evangelho anunciado pelos apóstolos, retendo-o inalterado, tal qual foi anunciado até o fim: “Também vos notifico, irmãos, o evangelho que já vos tenho anunciado, o qual também recebestes e no qual também permaneceis. Pelo qual, também, sois salvos se o retiverdes, tal como vo-lo tenho anunciado (1 Co 15:1).


“Vigiai, estai firmes na fé, portai-vos varonilmente e fortalecei-vos” (1 Co 16:13)

Introdução

No dia a dia entre os cristãos é comum ouvirmos o seguinte alerta: – “Vigia varão”! Mas, com o que o cristão deve estar vigilante?

Vigiar para não ser surpreendido pela volta de Cristo, quando vier buscar a igreja? A vigilância do crente deve estar focada nas questões de vestimentas, alimentação, relações interpessoais, etc.? O cristão deve ser vigilante com relação às suas amizades com os não cristãos?

Analisemos qual o objetivo do apóstolo Paulo, ao ter ordenado aos cristãos que vigiassem.

 

Vigiai

“Porque nenhuma outras coisas vos escrevemos, senão as que já sabeis ou, também, reconheceis e espero que, também, até ao fim as reconhecereis” (2 Co 1:13).

Um dos princípios norteadores de todas as cartas paulinas, consta do verso acima: tudo o que o apóstolo escreveu em suas epístolas, os destinatários (cristãos) já sabiam ou, tinham condição de reconhecê-las. Além disso, o apóstolo Paulo não se aborrecia de escrever sempre as mesmas coisas, pois ele entendia que era segurança para os cristãos (Fl 3:1).

O apóstolo Paulo nutria a esperança de que os seus interlocutores identificassem a mensagem escrita, como idêntica ao que lhes fora ensinado pessoalmente, e que jamais se distanciassem do que haviam aprendido.

Considerando que tudo o que o apóstolo Paulo escreveu em suas epístolas os cristãos conheciam e podiam identificar, quando é dito: – ‘Vigiai’, o apóstolo dos gentios estava evocando um ensinamento que, efetivamente, os seus interlocutores sabiam e que podiam distinguir com precisão.

Em seu discurso de despedida da igreja que ficava na cidade de Éfeso, o apóstolo Paulo ordenou aos anciões que ficassem atentos. Observe:

“Olhai, pois, por vós e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos…” (At 20:28).

Por que os cristãos deveriam estar atentos? Porque o apóstolo Paulo sabia que, após partir para Jerusalém, na comunidade de Éfeso se levantariam homens que falariam coisas ‘perversas’[1] para atraírem os seguidores de Cristo após eles. Surgiriam lobos cruéis que se introduziriam em meio aos cristãos e não poupariam o rebanho de Deus.

“Porque eu sei isto que, depois da minha partida, entrarão no meio de vós lobos cruéis, que não pouparão ao rebanho; E que de entre vós mesmos se levantarão homens que falarão coisas perversas, para atraírem os discípulos após si” (At 20:29-30).

Dai o alerta: ‘Olhai por vós e por todo o rebanho…’ (At 20:28). – “Estai atentos”, ou seja, os anciões deveriam estar vigilantes. Vigilantes como? Mantendo acesa na memoria o que, com lágrimas, lhes foi ensinado pelo apóstolo Paulo, durante três anos (At 20:31).

O crente deve estar cônscio de que a sua salvação só ocorrerá se permanecer firme no evangelho anunciado pelos apóstolos, retendo-o inalterado, tal qual foi anunciado até o fim: “Também vos notifico, irmãos, o evangelho que já vos tenho anunciado, o qual também recebestes e no qual também permaneceis. Pelo qual, também, sois salvos se o retiverdes, tal como vo-lo tenho anunciado (1 Co 15:1).

Ora, Jesus teve o cuidado de anunciar somente o que o Pai prescreveu, pois Ele sabia que o mandamento de Deus é a vida eterna, logo, tudo que Jesus ensinou, falou, especificamente, como o Pai lhe prescreveu (Jo 12:49-50; Jo 14:24).

Em meio aos irmãos de Corinto surgiram pseudocristãos que falavam coisas ‘perversas’, ou seja, anunciavam que os mortos não ressuscitavam (1 Co 15:12), daí o alerta paulino: – “Vigiai justamente e não pequeis”!

“Não vos enganeis[2]: as más conversações[3] corrompem os bons costumes[4] [5]. Vigiai justamente e não pequeis; porque alguns ainda não têm o conhecimento de Deus; digo-o para vergonha vossa” (1 Co 15:33-34).

O apóstolo alerta aos cristãos, a não se deixarem iludir, ou seja, não se deixarem enganar, pois, as más associações (comunhão) corrompem o que está estabelecido. A companhia, a relação ou a comunhão (conversações) com aqueles que anunciavam que os mortos não ressuscitam comprometia a verdade do evangelho, vez que a ideia de não haver ressurreição é contrária à pregação dos apóstolos: “E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação e, também, é vã a vossa fé” (1 Co 15:14).

A mensagem que o apóstolo Paulo pregou aos cristãos, na qual deveriam permanecer era o ηθος (ethos), a residência habitual, o abrigo, o recanto dos cristãos, da qual não podiam se demover (1 Co 15:11; 2 Ts 2:15), mas a ‘conversação’ com quem não detém o conhecimento de Deus, pode corromper a verdade do evangelho: “Ninguém vos engane com palavras vãs, porque, por estas coisas, vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência. Portanto, não sejais seus companheiros” (Ef 5:6-7; 2 Ts 3:6).

Por causa do risco inerente às más conversações, a ordem é: afaste-se, não compartilhe da mesma mesa, não receba em casa e nem saudai! “Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes, afasta-te(2 Tm 3:5); “Mas, agora vos escrevi, que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais (1 Co 5:11); “Se alguém vem ter convosco e não traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem tampouco o saudeis(2 Jo 1:10).

Diante do desvio doutrinário, acerca da ressurreição dos mortos, o apóstolo Paulo conclama os cristãos a permanecerem sóbrios. Daí a ordem: – ‘Vigia, justamente, e não pequeis[6]’! (1 Co 15:34).

Permanecer sóbrio é indispensável à vigilância. A sobriedade contrasta com a loucura, decorrente da embriaguez, portanto, é o mesmo que dizer: não seja insensato, néscio, louco, etc. Os judeus foram nomeados loucos pelos profetas, por não andarem segundo o mandamento de Deus: “Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos” (Rm 1:22); “E ele lhes disse: Ó néscios e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram!” (Lc 24:25); “Deveras o meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios e não entendidos; são sábios para fazer mal, mas não sabem fazer o bem” (Jr 4:22; Dt 32:6).

O sóbrio compreende qual é a vontade de Deus, segundo a verdade do evangelho (Ef 5:17), ou seja, é pleno (cheio) do Espírito, pois a palavra de Deus habita nele, abundantemente (Cl 3:16), o que contrasta com os filhos de Israel, que não tinham o conhecimento de Deus (Dt 32:28).

O insensato é aquele que rejeita a verdade do evangelho, por estar embriagado no vinho da dissolução (contenda, facciosidade, devassidão), ou seja, nas questões loucas e nocivas que produzem contenda, portanto, não produz edificação do corpo de Cristo “Mas não entres em questões loucas, genealogias e contendas e nos debates, acerca da lei; porque são coisas inúteis e vãs” (Tt 3:9); “E rejeita as questões loucas e sem instrução, sabendo que produzem contendas” (2 Tm 2:23).

Os néscios estavam embriagados no vinho colhido nos campos de Sodoma e Gomorra, um ardente veneno de serpentes, pois não conheciam a Deus: “Tardai e maravilhai-vos, folgai e clamai, bêbados estão, mas não de vinho, andam titubeando, mas não de bebida forte. Porque o SENHOR derramou sobre vós um espírito de profundo sono e fechou os vossos olhos, vendou os profetas e os vossos principais videntes” (Is 29:9-10); “Serpentes, raça de víboras! como escapareis da condenação do inferno?” (Mt 23:33; Dt 32:32-33).

“Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, mas como sábios, remindo o tempo, porquanto, os dias são maus. Por isso, não sejais insensatos, mas entendei qual seja a vontade do Senhor. E não vos embriagueis com vinho, em que há contenda, mas enchei-vos do Espírito” (Ef 5:15-18).

O apóstolo Paulo recomenda a Timóteo que seja sóbrio, quanto a sofrer as aflições por causa do evangelho, cumprindo o ministério de evangelista, pregando a palavra, redarguindo, repreendendo e exortando, segundo a verdade do evangelho, isso porque, muitos se desviariam da verdade, voltando às fábulas (judaísmo), pois não suportariam a doutrina do evangelho e buscariam doutores, segundo as suas concupiscências (2 Tm 4:1-5).

O sóbrio é aquele que está revestido da armadura de Deus e permanece vigilante, ou seja, não se deixa vencer pelo sono: “Não durmamos, pois, como os demais, mas vigiemos e sejamos sóbrios (…) Mas nós, que somos do dia, sejamos sóbrios, vestindo-nos da couraça da fé e do amor e tendo por capacete a esperança da salvação” (1 Ts 5:6 e 8).

O apóstolo Paulo recomenda aos cristãos a sobriedade, para não pecarem (1 Co 15:34) e o apóstolo João escreve a sua primeira epístola, para que os seus interlocutores, também, não pecassem (1 Jo 2:1).

“Ficai sóbrio, justamente, e não pequeis, porque alguns ainda não têm o conhecimento de Deus” (1 Co 15:34).

“Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis e, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo” (1 Jo 2:1)

Com o objetivo de evitar que os cristãos se desviassem (αμαρτανω/hamartano) do que lhes fora anunciado (evangelho), tanto o apóstolo Paulo, quanto o apóstolo João, escrevem aos cristãos para que sempre se lembrassem o que lhes fora anunciado.

“Também vos notifico, irmãos, o evangelho que já vos tenho anunciado, o qual, também, recebestes e no qual também permaneceis. Pelo qual, também, sois salvos, se o retiverdes, tal como vo-lo tenho anunciado (…) Vigiai justamente e não pequeis (1 Co 15:1-2 e 34).

O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que, também, tenhais comunhão conosco; e a nossa comunhão é com o Pai, e com seu Filho Jesus Cristo. Estas coisas vos escrevemos, para que o vosso gozo se cumpra (…) Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo para que não pequeis(1 Jo 1:3 -4 e 2:1)

Lembrar as palavras anunciadas por Cristo e os apóstolos é estar vigilante:

“AMADOS, escrevo-vos agora esta segunda carta, em ambas as quais desperto com exortação o vosso ânimo sincero; Para que vos lembreis das palavras que primeiramente foram ditas pelos santos profetas, e do nosso mandamento, como apóstolos do Senhor e Salvador. Sabendo primeiro isto, que nos últimos dias virão escarnecedores, andando segundo as suas próprias concupiscências” (2Pe 3:1 -3).

Perseverança

A falta de conhecimento (ignorância) de alguns cristãos em Corinto foi destacada pelo apóstolo Paulo para envergonhá-los (1 Co 15:34). O escritor aos Hebreus, por sua vez, repreende aos cristãos, por ainda serem neófitos no evangelho, apesar do decurso do tempo: “Porque, devendo já ser mestres pelo tempo, ainda necessitais de que se vos torne a ensinar quais sejam os primeiros rudimentos das palavras de Deus; e vos haveis feito tais que necessitais de leite e não de sólido mantimento” (Hb 5:12).

O aviso solene para ‘vigiar’ tem o escopo de apontar a necessidade de perseverança. A ordem é de autotutela: cuida de ti mesmo e da doutrina. O cristão deve manter-se vigilante e não esperar que outros o façam: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem” (1 Tm 4:16).

Como cuidar da sã doutrina? Portando-se como os crentes de Beréia, examinado se o ensinado está em consonância com as Escrituras ou não (At 17:10-11). É imprescindível que o cristão prove os espíritos, ou seja, analise se as mensagens anunciadas provem de Deus ou não (1 Jo 4:1).

Quando ordenam a vigilância, os apóstolos não têm em mente que os cristãos possam ser surpreendidos despercebidos, quando da volta de Cristo. Embora Cristo virá em hora que ninguém sabe (como o ladrão de noite), os que creem em Cristo, já não estão em trevas, portanto, o dia do Senhor não os surpreenderá.

“Mas vós, irmãos, já não estais em trevas, para que aquele dia vos surpreenda como um ladrão; Porque todos vós sois filhos da luz e filhos do dia; nós não somos da noite, nem das trevas” (1 Ts 5:4-5).

Qualquer que crê que Jesus é o Cristo, é filho de Deus (Gl 3:26; 1 Jo 3:1-2 e 1 Jo 5:1), portanto, filho da luz (Ef 5:8), visto que, ao ser batizado na morte de Cristo, ressurgiu uma nova criatura segundo Cristo (Gl 3:28; Cl 3:1). A vigilância do crente não é motivada pelo medo de que o dia da volta de Cristo o surpreenda despreparado, antes, a vigilância tem por foco a firmeza na verdade do evangelho.

 

Estai firmes na fé

Após afirmar que há ressurreição dentre os mortos (1 Co 15:42), o apóstolo Paulo recomenda que os cristãos sejam firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor (1 Co 15:58).

Mas, para o crente estar firme é necessário se revestir da palavra de Deus, ou seja, fortalecer-se na força do poder de Deus, que é o evangelho: “Pelo qual, também, temos entrada pela fé a esta graça, na qual estamos firmes e nos gloriamos na esperança da glória de Deus” (Rm 5:2; Rm 1:16; 1 Co 1:18 e 24).

O crente estará revestido de toda a armadura de Deus, quando a palavra de Cristo habitar, abundantemente, ou seja, quando o crente, como ministro do espírito, estiver pleno (cheio) do espírito, vez que as palavras de Cristo são espírito e vida: “O qual, nos fez, também, capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica” (2 Co 3:6; Cl 3:16; Ef 5:18; Jo 6:63).

Ao escrever aos cristãos em Filipos, o apóstolo Paulo alerta acerca dos cães, dos maus obreiros e da falsa circuncisão (Fl 3:2). Ele esclarece que os crentes em Cristo serviam a Deus em espírito (evangelho), e não confiam na carne (Fl 3:3), mas que existiam muitas pessoas que eram inimigas da cruz de Cristo, cujo deus era o ventre (Fl 3:18) e, por fim, recomenda que permanecessem firmes em Cristo (Fl 4:1).

Aos cristãos de Colossos, o apóstolo Paulo lembra que, antes eles eram inimigos no entendimento, mas foram reconciliados através do corpo de Cristo pela morte, de modo a apresentar os que creem santos, irrepreensíveis e inculpáveis perante Ele (Cl 1:21). Mas, para isto era necessário que os cristãos permanecessem fundados e firmes na fé, ou seja, sem se demoverem da esperança do evangelho (Ef 1:23).

“Se, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé e não vos moverdes da esperança do evangelho que tendes ouvido, o qual foi pregado a toda criatura que há debaixo do céu e do qual eu, Paulo, estou feito ministro” (Cl 1:23).

O apóstolo Pedro evoca a sobriedade e a vigilância, por causa do adversário à espreita e explica que, somente permanecendo firme na verdade do evangelho, a fé entregue aos santos (Jd 1:3), é possível resistir ao diabo, o adversário (1 Pe 5:8-9).

“Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos” (Jd 1:3);

“Somente deveis portar-vos dignamente, conforme o evangelho de Cristo, para que, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de vós que estais num mesmo espírito, combatendo juntamente com o mesmo ânimo pela fé do evangelho” (Fl 1:27).

O apóstolo Pedro, resumidamente, exortou e testificou acerca da verdade em Cristo e ordena que os cristãos fiquem firmes nela (1 Pe 5:12), pois, quem está firme na fé, resiste ao adversário – o diabo – que anda em derredor, buscando quem possa tragar (1 Pe 5:9).

Muitos querem resistir ao diabo através de imprecações, orações, jejuns, etc., porém, só é possível resistir ao adversário, permanecendo firme na fé.

“Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar; ao qual resisti firmes na fé, sabendo que as mesmas aflições se cumprem entre os vossos irmãos no mundo” (1 Pe 5:8);

“Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo” (Ef 6:11).

 

Portai-vos varonilmente

Ao ordenar aos cristãos que portassem varonilmente, o apóstolo Paulo evoca a ideia do que foi dito por Davi a Salomão:

“Eu vou pelo caminho de toda a terra; esforça-te, pois, e sê homem” (1 Rs 2:2).

Salomão deveria se esforçar e ser valoroso, aguerrido, forte, campeão, vencedor, etc. Mas, para ser esse ‘homem’, era necessário obedecer a Deus em tudo, pois assim prosperaria em tudo que fizesse: “E guarda a ordenança do SENHOR teu Deus, para andares nos seus caminhos e para guardares os seus estatutos e os seus mandamentos,  os seus juízos e os seus testemunhos, como está escrito na lei de Moisés; para que prosperes em tudo quanto fizeres e para onde quer que fores” (1 Rs 2:3).

Gideão foi nomeado valoroso, quando se esforçava malhando trigo no lagar para proteger o sustento dos midianitas: “Então o anjo do SENHOR lhe apareceu e lhe disse: O SENHOR é contigo, homem valoroso” (Jz 6:12).

Para fazer o que Deus ordena é necessário se esforçar e ter bom ânimo:

“Tão-somente esforça-te e tem mui bom ânimo, para teres o cuidado de fazer conforme a toda a lei que meu servo Moisés te ordenou; dela não te desvies, nem para a direita nem para a esquerda, para que, prudentemente, te conduzas por onde quer que andares” (Jz 1:7).

O crente deve permanecer firme no evangelho, pois venceu o maligno (1 Jo 2:13). Mas aquele que se deixa enganar por aqueles que, com astúcia, enganam fraudulentamente, torna-se uma fonte turva, um manancial poluído: “Para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente” (Ef 4:14);

“Como fonte turvada e manancial poluído, assim é o justo que cede diante do ímpio” (Pv 25:26).

 

Fortalecei-vos

Ao escrever aos cristãos, em Éfeso, o apóstolo Paulo, também, ordena que se fortaleçam no Senhor e na força do seu poder:

“No demais, irmãos meus, fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder” (Ef 6:10).

No que consiste fortalecer no Senhor e na força do seu poder? É o mesmo que se fortificar na graça que há em Cristo, ou seja, crescer na graça e no conhecimento: “Tu, pois, meu filho, fortifica-te na graça que há em Cristo Jesus” (2Tm 2:1); “Antes crescei na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo. A ele seja dada a glória, assim agora, como no dia da eternidade. Amém” (2 Pd 3:18).

Por que o apóstolo Pedro recomenda aos cristãos que cresçam na graça? Porque o apóstolo enfatiza que é necessário aos cristãos se protegerem do engano dos homens abomináveis. Se o crente não crescer na graça revelada em Cristo, ou seja, no conhecimento do evangelho, corre o risco de ser arrebatado pelo engano, não permanecendo firme em Cristo: “Vós, portanto, amados, sabendo isto de antemão, guardai-vos de que, pelo engano dos homens abomináveis, sejais, juntamente, arrebatados e descaiais da vossa firmeza” (2 Pd 3:17).

O evangelho é o poder de Deus para salvação daquele que crê, portanto, o crente tem que se fortalecer no evangelho, revestindo-se da palavra de Deus, ou seja, fortalecer na força do poder de Deus (Rm 1:16; 1 Co 1:18; 1 Co 2:4-5; 2 Co 6:7).

Ao crer no evangelho, o crente realiza a vontade de Deus e passa a ser membro da família de Cristo. Mas, após crer em Cristo, é necessário permanecer crendo para que possa alcançar a promessa. Da mesma forma que um lavrador espera o fruto da árvore, aguardando-o com paciência, o crente deve ser paciente e, para isso, precisa fortalecer o seu coração: “E, estendendo a sua mão para os seus discípulos, disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos; Porque, qualquer que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, irmã e mãe” (Mt 12:49-50); “Porque necessitais de paciência, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” (Hb 10:36); “Sede pois, irmãos, pacientes até à vinda do Senhor. Eis que o lavrador espera o precioso fruto da terra, aguardando-o com paciência, até que receba a chuva temporã e serôdia. Sede vós, também, pacientes, fortalecei os vossos corações; porque, já a vinda do Senhor está próxima” (Tg 5:7-8).

Após alertar os cristãos acerca das ‘doutrinas várias e estranhas’, o escritor aos Hebreus destaca que é bom que o coração se fortifique com graça e não com alimentos, o que demonstra que haviam alguns que entendiam que o cristão estaria robustecido, caso participe ou, se abstenha de determinados alimentos, uma doutrina estranha à verdade do evangelho: “Não vos deixeis levar em redor por doutrinas várias e estranhas, porque bom é que o coração se fortifique com graça e não com alimentos, que de nada aproveitaram aos que a eles se entregaram” (Hb 13:9).

O cristão deve seguir a verdade do evangelho desenvolvendo-se plenamente em Cristo, ou seja, precisa chegar à unidade da fé, ao pleno conhecimento de Cristo, à medida da estatura completa de Cristo: conhecendo a palavra de Deus. Deste modo, o crente deixa de ser menino, ou seja, sugestionável, propenso a ser levado por ventos de doutrinas (Ef 4:13-14).

 


[1] “1294 διαστρεφω (diastrepho) de 1223 e 4762; TDNT – 7:717,1093; v 1) torcer, desencaminhar, desviar 1a) opor-se, conspirar contra os propósitos e planos salvadores de Deus 2) desviar do caminho certo, perverter, corromper”. Dicionário Bíblico Strong.

[2] “4105 πλαναω (planao) de 4106; TDNT – 6:228,857; v 1) fazer algo ou, alguém se desviar, desviar do caminho reto 1a) perder-se, vagar, perambular 2) metáf. 2a) desencaminhar da verdade, conduzir ao erro, enganar 2b) ser induzido ao erro 2c) ser desviado do caminho de virtude, perder-se, pecar 2d) desviar-se ou afastar-se da verdade 2d1) de heréticos 2e) ser conduzido ao erro e pecado”. Dicionário Bíblico Strong.

[3] “3657 ομιλια (homilia) de 3658; n f 1) companhia, relação, comunhão”. Dicionário Bíblico Strong.

[4] “2239 ηθος (ethos) uma forma consolidada de 1485; n n 1) residência habitual, lugar de habitação, abrigo, recanto 2) costume, uso, moral, caráter”. Dicionário Bíblico Strong.

[5] “1485 εθος (ethos) de 1486; TDNT – 2:372,202; n n 1) costume 2) prática prescrita pela lei, instituição, prescrição, rito”. Dicionário Bíblico Strong.

[6] “264 αμαρτανω (hamartano) talvez de 1 (como partícula negativa) e a raiz de 3313; TDNT – 1:267,44; v 1) não ter parte em 2) errar o alvo 3) errar, estar errado 4) errar ou desviar-se do caminho da retidão e honra, fazer ou andar no erro 5) desviar-se da lei de Deus, violar a lei de Deus, pecado”. Dicionário Bíblico Strong.

Ler mais

Há mérito em crer em Cristo?

‘Crer’ decorre da ‘fé’, não o contrario. Arrependimento decorre da ‘fé’ (evangelho) e nunca a ‘fé’ do arrependimento. Sem a fé manifesta, que é Cristo, é impossível o homem arrepender-se e crer para a salvação. Sem o conhecimento de Deus, a mensagem do evangelho, não há no que o homem possa crer, que o livre da condenação. O homem pode crer em Deus, crer em anjos, crer em milagres, crer no impossível, etc., mas se não crer em Cristo, o dom de Deus, não será salvo (Jo 14:1).


“E seja achado nele, não tendo a minha justiça, que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus, pela fé” (Fl 3:9)

A fé

Após ler o livro ‘Tudo de Graça’, do pregador Charles H. Spurgeon, no capítulo ‘Pela graça, mediante a fé’, deparei-me com o seguinte posicionamento:

“Que imensa é a graça de Deus! Quem poderá medir sua extensão? Quem poderá imaginar sua profundidade? Como os demais atributos divinos, ela é infinita. Deus é cheio de amor, pois “Deus é amor”! [1João 4.8]. Bondade e amor fazem parte da real essência do Deus triuno. Ele é todo bondade. Exatamente, porque Deus é misericordioso, que não somos todos destruídos. Lembre-se disso, ou você poderá cair em erro, fixando tanto a sua mente na fé, que é o meio da salvação e esquecendo-se da graça, fonte da própria fé.  Fé é obra da graça de Deus, em nós. Ninguém poderá dizer que Jesus é o Cristo, senão por obra do Espírito Santo. “Ninguém poderá vir a mim,” disse Jesus, “se, pelo Pai, não lhe for concedido” [João 6.65]. De maneira que a fé, que é o ato de ir a Cristo e concessão divina da graça. A graça é a primeira e última causa movedora da salvação; e a fé, por mais essencial que seja, é apenas parte importante do mecanismo utilizado pela graça. Somos salvos “mediante a fé”, mas “pela graça”. Soam essas palavras como que, proferidas pela voz do arcanjo: “Pela graça sois salvos”. Que boas novas para quem não merece (…) Ainda assim, quero lembrar que a fé é apenas um canal ou aqueduto, não a própria fonte. Não deveríamos considerá-la, além da fonte de todas as bênçãos, a graça de Deus. Jamais figure Cristo, a partir de sua fé, nem pense nela como fonte independente para a sua salvação. Nossa vida é achada quando olhamos para Jesus, não quando olhamos para a nossa fé” Spurgeon, C. H. Tudo de Graça, Titulo Original, All of Grace (1894), Tradução Wadislau Martins Gomes, 2010, pág. 25.

De que ‘fé’ Spurgeon está tratando?

Como no início do capítulo 7, do livreto ‘Tudo de graça’, Spurgeon cita o versículo: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé” (Ef 2:8). Eu esperava que ele fizesse referência à ‘fé’ como ‘evangelho’, por meio da qual o homem é salvo, mas fui frustrado.

Apesar de ter dito boas coisas, acerca da graça de Deus, o texto de Spurgeon não passa de tergiversações, acerca da graça e da fé, pois, a sua exposição, decorre de má leitura do texto bíblico, o que o tornou doutrinariamente tendencioso.

Quando o apóstolo Paulo diz: “Porque, pela graça sois salvos, por meio da fé” (Ef 2:8), acerca de qual ‘fé’ o apóstolo está escrevendo? Da ‘fé’ que é anunciada aos gentios e que deve ser obedecida (Rm 1:5 e 8), ou, da que significa ‘crer’, ‘acreditar’ em Cristo, disposição decorrente da verdade do evangelho que, também, é nomeada ‘fé’ (Rm 4:3)? Spurgeon fez a sua exposição, apontando para a ‘fé’ que é anunciada (pregada) ou, para a necessidade de ‘crer’ no evangelho? Neste sentido, a ‘fé’ é objetiva (doutrina, crença) ou, diz de uma ‘fé’ subjetiva (acreditar, crer, questão de foro íntimo)?

Ora, o apóstolo Paulo, ao afirmar que os cristãos de Éfeso eram salvos, por meio da fé, na verdade, estava abordando a própria fonte da salvação: Cristo. Cristo Jesus é a ‘fé’ que se manifestou na plenitude dos tempos e que faz os homens agradáveis a Deus:

“Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” (Gl 3:23).

“Ora, sem fé é impossível agradar-lhe, porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que é galardoador dos que o buscam” (Hb 11:6).

Enquanto, o que está sendo apresentado pelo apóstolo dos gentios aos cristãos de Éfeso, diz da fé[1] como verdade, fidelidade, etc., Spurgeon leu o termo ‘fé’, no sentido de crer[2], de acreditar. Spurgeon fez má leitura do termo ‘fé’, tradução do termo grego πίστις (pistis), conforme empregado no versículo: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé” (Ef 2:8), o que afetou a sua compreensão.

Enquanto o apóstolo Paulo apresenta a ‘fé’ que salva e é ‘firme fundamento’ (Hb 11:1), Spurgeon faz referência à disposição do indivíduo de ‘crer’, ‘acreditar’. Enquanto o apóstolo Paulo trata da fé, como o dom de Deus – Cristo – Spurgeon faz elucubrações equivocadas, tanto da fé, como  doutrina (πίστις), quanto do ato de crer, acreditar (πιστεύω).

Por definição, a ‘fé’, da qual o escritor aos Hebreus faz referência, diz do ‘firme fundamento’, que é Cristo, o fundamento dos apóstolos e dos profetas (Ef 2:20; 1Co 3:11). O escritor aos Hebreus não fez referência à certeza de alguém que espera um evento, pois, o homem, mesmo equivocado, pode nutrir uma certeza e esperança que jamais se concretizarão. O escritor aos Hebreus fez referência ao firme fundamento, à prova, que, apesar de não estar ao alcance dos olhos, torna o que se espera confiável.

O termo hebraico אֱמוּנָה (emunáh), traduzido por ‘fé’, decorre, etimologicamente, de diversos significados, quais sejam: veracidade, sinceridade, honradez, retidão, fidelidade, lealdade, seguridade, crédito, firmeza e verdade. A ‘fé’, como ‘firme fundamento’ e ‘prova’, diz da palavra de Deus, que é fiel e digna de toda aceitação: “Esta é uma palavra fiel e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus, veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” (1Tm 1:15).

O apóstolo Paulo, no capítulo 2 de Efésios, verso 8, disse que o homem é salvo, gratuitamente, pela misericórdia de Deus (graça), por meio de Cristo (fé), pois Cristo é o dom de Deus (Jo 4:10). Equivocadamente, Spurgeon trata a fé (πίστις), que o apóstolo Paulo aborda no verso 8 de Efésios 2, como crença (πιστεύω). Ele não considerou que o termo grego πίστις, transliterado pistis, comumente, traduzido por ‘fé’, na verdade, foi empregado pelo apóstolo Paulo, na qualidade de figura de linguagem: metonímia ou transnominação[3].

Metonímia é recurso de estilo linguístico e um desses recursos, consiste em substituir o autor, pela obra. Assim, como é possível dizer: gosto de ler Jorge Amado, em lugar de dizer: gosto de ler os livros de Jorge Amado, sabendo que Cristo é o autor e consumador da ‘fé’, é possível dizer: guardei a fé (πίστις), em vez de dizer: guardei o mandamento ou, o evangelho (1Tm 3:9; 1Tm 6:14; 2Tm 4:7; 1Jo 2:4 -5).

“Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus” (Hb 12:2).

Sabemos que o homem é salvo por intermédio do evangelho (Ef 1:13), que é o poder de Deus (Rm 1:16). Sabemos, também, que, por diversas vezes, o termo εὐαγγέλιον (evangelho) é substituído pelo termo πίστις (fé). É possível dizer: ‘batalhar pelo evangelho’, ou: ‘batalhar pela fé’ (Jd 3).  Neste sentido, desviar-se da ‘fé’, é o mesmo que desviar-se de Cristo, um exemplo de metonímia “A qual, professando-a alguns, se desviaram da fé. A graça seja contigo. Amém” (1Tm 6:21). Esse mesmo recurso permite dizer: ‘mistério da fé’, ‘mistério do evangelho’, ‘mistério da piedade’, ‘mistério de Cristo’, etc. (1Tm 3:9 e 16; Cl 4:3; Ef 6:19).

Quando nos deparamos com o seguinte verso: “Se, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé e não vos moverdes da esperança do evangelho que tendes ouvido, o qual foi pregado a toda criatura que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, estou feito ministro” (Cl 1:23), devemos considerar que ‘permanecer fundado e firme na fé’, é o mesmo que permanecer em Cristo, o fundamento dos apóstolos e profetas (Ef 2:20).

Cristo, a nossa ‘fé’, também é nomeado ‘conhecimento’ e ‘sabedoria’: “Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus” (1Co 1:24); “Destruindo os conselhos e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo” (2 Co 10:5); “E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo” (Fl 3:8); “E isto digo, conhecendo o tempo, que já é hora de despertarmos do sono, porque a nossa salvação está agora mais perto de nós do que quando aceitamos a fé” (Rm 13:11).

Ao iniciar o capítulo 7 do seu livreto, sob o título “Pela graça mediante a Fé”, Spurgeon cita Efésios 2, verso 8: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé”. Em seguida, Spurgeon fez algumas considerações acerca da extensão da misericórdia de Deus, onde afirma que: ‘… você poderá cair em erro, fixando tanto a sua mente na fé…’, e conclui: ‘… que é o meio da salvação e esquecendo-se da graça, fonte da própria fé’.

Ora, o homem é salvo pela misericórdia de Deus, demonstrada em Cristo, ou seja, por meio da fé (verdade, evangelho). Por isso, é dito pelo apóstolo Paulo a Tito que ‘a graça de Deus se manifestou, trazendo salvação a todos os homens’ (Tt 2:11), assim como foi dito aos cristãos da Galácia que, quando estavam debaixo da lei, estavam encerrados para ‘aquela fé que se havia de manifestar’ (Gl 3:23). A graça de Deus se manifesta em Cristo e Cristo manifesta a graça de Deus. Quando Cristo foi manifesto em carne, manifestou-se a graça de Deus a todos os homens, ou seja, manifestou-se a fé, manifestou-se a palavra: “TU, pois, meu filho, fortifica-te na graça que há em Cristo Jesus” (2Tm 2:1).

No que consiste o argumento de Spurgeon: ‘fixando tanto a sua mente na fé’? Ora, se a fé da qual Spurgeon está tratando, diz de crer, com relação a quem crê em Cristo, não se pode dizer que está fixando a sua mente no ‘crer’. Mas, se ele estivesse falando da ‘fé manifesta’, que é Cristo, não há erro em fixar a mente na ‘fé’, pois o apóstolo Paulo afirma que é necessário ao cristão ter firmeza na fé (Cl 2:5; 2Pd 3:17).

É necessário ‘reter a palavra da vida’, ou seja, ‘guardar a fé’ (Fl 2:16). E como fazê-lo, sem fixar a mente na ‘fé’? Fixar a mente no ‘evangelho’, na ‘fé’ é segurança, tanto que o apóstolo Paulo não se cansava de escrever acerca das mesmas coisas (Fl 3:1). Reter a palavra da vida é a obra perfeita da fé: perseverança (Tg 1:2). Aquele que persevera na doutrina, não se deixa envolver por doutrinas várias e estranhas, vez que se fortificou na graça, ou seja, na fé. “Não vos deixeis levar em redor por doutrinas várias e estranhas, porque bom é que o coração se fortifique com graça e não com alimentos que de nada aproveitaram aos que a eles se entregaram” (Hb 13:9).

Os termos ‘fé’, ‘graça’ e ‘evangelho’, são intercambiáveis, por causa da pessoa de Cristo, de modo que podemos dizer que o homem é justificado pela fé, ou pelo evangelho, ou pela graça, ou por Cristo: “Para que, sendo justificados pela sua graça, sejamos feitos herdeiros, segundo a esperança da vida eterna” (Tt 3:7); “Porque se introduziram alguns, que já, antes, estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo” (Jd 1:4); “Da qual salvação inquiriram e trataram diligentemente os profetas que profetizaram da graça que vos foi dada(1Pd 1:10); “Por isso, tendo recebido um reino que não pode ser abalado, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus agradavelmente, com reverência e piedade” (Hb 12:28).

Infelizmente, Spurgeon não soube ler a mensagem que o apóstolo Paulo escreveu aos cristãos de Éfeso, concernente à ‘fé’ e a ‘graça’, vez que o apóstolo, ao escrever, trouxe à memória dos cristãos que, antes de crerem em Cristo (Ef 1:13), todos eram por natureza filhos da ira (Ef 2:3). Em seguida, o apóstolo aponta para a infinita misericórdia de Deus, pois, apesar da condição deles no passado (mortos em delitos e pecados), Deus os vivificou juntamente com Cristo.

Nos versos que se seguem (vv. 5 à 10), o apóstolo continua a descrever o que Deus fez pelos cristãos, sem abordar nenhuma questão pertinente aos homens, nem mesmo a necessidade de crer. Tudo o que o apóstolo aborda, restringe-se ao que Deus faz pelo homem (Ef 2:10; Is 26:12).

Quando o homem morre com Cristo, Deus é justo, pois ‘a alma que pecar essa mesma morrerá’ (Ez  18:4). Mas, apesar de não ter dívida alguma para com aqueles que morrem com Cristo, ao satisfazer o que a lei exige, pela sua misericórdia e graça, Deus faz ressurgir um novo homem, uma nova criatura, criada em verdadeira justiça e santidade (somos feitura Sua).

Deus é misericordioso por salvar o homem, porém, jamais poderia passar por sobre a sua justiça, por isso, a sua misericórdia é demonstrada em Cristo, para que Ele seja justo e justificador “… pela sua benignidade para conosco em Cristo” (Ef 2:7). A misericórdia de Deus é demonstrada em Cristo, porque é necessário aos descendentes de Adão serem participantes da morte de Cristo, para serem justificados do pecado (Rm 6:7), e, em seguida, Deus age, poderosamente, ressuscitando-os, segundo a sua maravilhosa graça (Ef 1:19; Cl 3:1).

É Deus justo e justificador, que salva segundo a Sua misericórdia e graça, mas, por meio da fé, ou seja, por meio do evangelho, que é poder de Deus para todo aquele que crê (Rm 1:16 -17).

 

Crer

Spurgeon dá testemunho de que ficou confuso, diante dos diversos conceitos de ‘fé’:

“Que fé é essa da qual é dito: “Pela graça sois salvos, mediante a fé”? Certamente, há muitas descrições de fé, mas quase todas as definições que tenho encontrado, levam-me a entender menos do que entendia antes. É possível que, ao tentar explicar muito alguma coisa, ela se torne ainda mais confusa. Podemos explicá-la tanto, até que ninguém mais entenda. Espero não ser culpado dessa falta. A fé é a mais simples de todas as coisas e, talvez, por causa de tal simplicidade, ela seja de mais difícil explicação”. Spurgeon, C. H. Tudo de Graça, Titulo Original, All of Grace (1894), Tradução Wadislau Martins Gomes, 2010, pág. 27.

Parece que Spurgeon se deixou levar pelas definições que encontrou, pela má leitura que fez de Efésios 2, verso 8 (“Pela graça sois salvos, mediante a fé”), demonstrando que ele nada entendeu acerca do assunto ‘fé’ e ‘graça’, e que o medo que nutria da possibilidade de se fazer culpado, ao abordar o tema, se concretizou.

Vamos à definição de ‘fé’, apresentada por Spurgeon:

“O que é fé? Resumidamente, a fé é feita de três coisas: conhecimento, crença e confiança. Conhecimento vem primeiro. “como crerão naquele de quem nada ouviram?”. É preciso que eu seja informado de um fato antes que possa crer nele (…) A confiança é a corrente sanguínea da fé; sem ela, não haverá fé salvadora. Os puritanos estavam acostumados a explicar a fé, utilizando o termo recumbência (do verbo recumbir). A palavra significa recostar, inclinar; repousar em Jesus Cristo. Haveria melhor ilustração do que dizer: Lance todo o seu peso sobre a Rocha eterna? Entregue-se a Jesus; descanse nele; confie nele” Idem, págs. 27 e 28.

No grego, temos o substantivo πιστις (pistis), comumente traduzido por ‘fé’ e o verbo πιστευω (pisteuo), traduzido por ‘crer’. Nas línguas de origem latina o radical do substantivo ‘fé’ não se flexiona para traduzir a ideia do verbo grego πιστευω (pisteuo – crer), o que obrigou os tradutores a utilizarem o radical da palavra “credere”, vertendo o verbo πιστευω (pisteuo) para ‘crer’.

Crer em Cristo é, simplesmente, acreditar no que as Escrituras dizem acerca d’Ele: “Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre” (Jo 7:38). Não há qualquer outra exigência nas Escrituras, além de crer, para ser salvo (Is 28:16). O poder para a salvação não está no ato de crer, mas no poder da ‘fé’, ou seja, no poder do evangelho (Jo 1:12; Rm 1:16; 1Co 1:18 e 24).

É pelo poder contido no evangelho que o homem é concitado a crer, acreditar, confiar, descansar, repousar, etc. A segurança está na pedra bem fundada e firme, provada e preciosa que Deus assentou em Sião, de modo que quem crer não perece (Is 28:16).

A fé salvadora é Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus. A fé, que é poder de Deus, não possui ‘corrente sanguínea’ e nem depende da confiança do homem. O homem, confiando[4] ou não, a fé (evangelho) é salvadora, pois se o homem for infiel, Ele permanece fiel: “Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo” (2Tm 2:13).

“A confiança é a corrente sanguínea da fé; sem ela, não haverá fé salvadora” Idem.

A fada Sininho, da estória do Peter Pan, necessita de crianças que acreditem que fadas existem para sobreviver. Não é assim o evangelho de Cristo, pois Ele é salvador, quer o homem creia ou não. A ‘fé’ é firme, indissolúvel, fidedigna, portanto, não depende da confiança do homem, antes, a confiança e a esperança decorrem da ‘fé’. A confiança do homem não salva e nem garante a salvação, antes, é Deus que se interpôs como garantia: “Retenhamos firmes a confissão da nossa esperança; porque fiel é o que prometeu” (Hb 10:23; Tt 1:2; Rm 1:2; Hb 10:23). A segurança de quem crê, está em Deus, que é poderoso e fiel.

Antes que o homem fosse criado, já na fundação do mundo, Deus providenciou salvação a todos os homens, pois o cordeiro de Deus foi morto desde a fundação o mundo (1Pd 1:20; Ap 13:8). Não é a confiança do homem que estabeleceu a salvação em Cristo, mas a verdade de que Cristo foi morto, desde a fundação do mundo, que promove a confiança do homem.

Crer em Cristo é suficiente para ser salvo da condenação, portanto, a ideia de que, além de crer, é necessário se entregar, totalmente, à misericórdia de Deus, é redundância. Crer em Cristo é o mesmo que se entregar à misericórdia de Deus. Considerar que crer é distinto de se entregar à misericórdia de Deus, é uma brecha criada pelos enganadores que, privarão os incautos de desfrutarem da graça de Deus. Quando alguém crê, na verdade, entregou-se ‘completamente’ à misericórdia de Deus.

Outra aberração, é desvincular o ‘arrependimento’, do ato de ‘crer’ e de ‘arrepender-se’. Crer é consequência do arrependimento. Só se arrepende de fato quem, após ouvir o evangelho, crê em Cristo. Quem crê que Jesus é o Cristo de fato mudou de concepção (metanoia), acerca de como ser salvo. Primeiro é anunciada a fé, em seguida o homem se arrepende (metanoia), e, por fim, crê.

‘Crer’ decorre da ‘fé’, não o contrario. Arrependimento decorre da ‘fé’ (evangelho) e nunca a ‘fé’ do arrependimento. Sem a fé manifesta, que é Cristo, é impossível o homem arrepender-se e crer para a salvação. Sem o conhecimento de Deus, a mensagem do evangelho, não há no que o homem possa crer, que o livre da condenação. O homem pode crer em Deus, crer em anjos, crer em milagres, crer no impossível, etc., mas se não crer em Cristo, o dom de Deus, não será salvo (Jo 14:1).

A palavra ‘fé’, quando é empregada nas Escrituras, no sentido de ‘crer’, não é ‘conhecimento’ e nem ‘crença’. Spurgeon equivocou-se ao conceituar quea fé é feita de três coisas: conhecimento, crença e confiança’. ‘Crer’ em Cristo é somente confiança n’Ele, por causa do testemunho que o Pai deu acerca do Filho nas Escrituras. A ‘fé’ (evangelho) é conhecimento, doutrina, crença e a ‘fé’ (crer) é somente confiança. Para que o homem possa crer, primeiro é necessário o ‘conhecimento’, que, em relação ao evangelho, é informação, mensagem, doutrina, espírito, etc., revelado por Deus em Cristo, assim com profetizado pelo profeta Isaias:

“Ele verá o fruto do trabalho da sua alma e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles levará sobre si” (Is 53:11)

É impossível a quem crê em Cristo, se gloriar de ter crido. É impossível reputar que há mérito em confiar em Cristo. Quem crê em Cristo, conforme as Escrituras, na verdade gloria-se em Cristo (Fl 3:3). Quem crê em Cristo, na verdade rendeu-se diante da fidelidade de Deus, expressa na sua palavra. O mérito, a glória e a virtude estão no evangelho, mensagem de boas novas de que Cristo veio ao mundo salvar os pecadores: “Esta é uma palavra fiel e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” (1Tm 1:15).

Aquele que crê no evangelho, não necessita preocupar-se com o erro de se gloriar diante de Deus, pois o próprio evangelho exclui a jactância: “Onde está logo a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé” (Rm 3:27).

Não há como alguém se gloriar de ter amado a Cristo, pois quem ama, não se envaidece e não se vangloria (1Co 13:4). Quem crê, não tem como se vangloriar de ter crido, pois crer em Cristo é obra de Deus (Jo 6:29), que Ele opera, por meio do evangelho. Crer em Cristo é o mandamento de Deus, e quem crê se fez servo. Como gloriar-se de tomar sobre si o jugo de Jesus? Onde está a jactância, no ato de levar sobre si o fardo de Jesus?

Quando Jesus concitou os seus interlocutores, cansados e sobrecarregados, a tomarem sobre si o seu jugo, na verdade, estava requerendo que eles se sujeitassem como servos (Mt 11:28-30).

Por não se sujeitarem a esse ‘conhecimento’ especifico, é que os judeus, sem entendimento, procuraram estabelecer uma justiça própria, não se sujeita à justiça que vem de Deus – Cristo (Rm 10:1-3). Se compreendessem que o justo vive da fé, ou seja, que o homem só vive através da palavra que sai da boca de Deus (Dt 8:3; Hc 2:4), os judeus saberiam que o homem só é justificado pela pregação da fé (Gl 3:2 e 5).

A lei exige realizações (Rm 10:5), a fé (evangelho) exige que se creia (Rm 9:33). A justiça, que vem por intermédio da ‘fé’, se dá quando o homem morre e ressurge com Cristo e o que permite ao homem morrer e ressurgir, é crer na palavra da fé, que foi anunciada pelos apóstolos e profetas (Rm 10:8). Os judeus ouviam e acreditavam que seriam justificados pela lei, mas como a lei estava enferma pela carne, ela era inócua para o que os judeus pretendiam alcançar (Rm 2:17; Gl 3:11).

A fé (crer) que os judeus depositavam na lei, é a mesma fé (crer) que o arrependido deposita no evangelho. O diferencial está em que, a lei não tem o poder que o evangelho possui. O propósito da lei é conduzir o homem a Cristo e o propósito do evangelho. é conduzir o homem a Deus. por intermédio de Cristo.

Spurgeon parece exalar sabedoria e humidade nas palavras:

De maneira que a fé, que é o ato de ir a Cristo é concessão divina, da graça. A graça é a primeira e última causa movedora da salvação; e a fé, por mais essencial que seja, é apenas parte importante do mecanismo utilizado pela graça” Idem.

Mas, quando se questiona: que ‘fé’ é essa que é o ato de ir a Cristo? A concessão divina da graça está em que, Deus deu o Seu Filho, como mediador entre Deus e os homens. A fé, como concessão divina, não diz do ato do homem ir a Cristo, mas do ato de Deus vir até os homens. Em Deus revelar-se aos homens na pessoa de Cristo, está a primeira e última causa movedora da salvação (Jo 1:18).

A graça de Deus veio sobre todos os homens, através de um ato de justiça, realizado por Cristo Jesus (Rm 5:18). Como Cristo foi entregue pelos pecados da humanidade e ressuscitou para a justificação dos que creem (Rm 4:25), os crentes são justificados por Cristo, ou seja, pela fé (Rm 5:1). É por Cristo que o homem alcança a graça de ter paz com Deus, mediante o evangelho (fé) (Rm 5:2). É no evangelho (fé) que o cristão permanece firme e gloria-se na esperança da gloria de Deus (Rm 5:2).

Crer é o ato de receber a Cristo, para ir a Deus (Jo 1:12). Portanto, crer, não é o ato de ir a Cristo, mas de receber a Cristo. Não há como o homem ir a Deus, por isso Deus veio aos homens, concedendo Cristo como mediador (graça), para que os homens pudessem ir a Deus (Jo 14:6). A ‘fé’ não é o ato de o homem ir a Cristo, antes, a ‘fé’ está no ato de Deus conceder Cristo aos homens (Gl 3:23).

Observe:

“Fé é uma palavra muito significativa. Implica fidelidade a Deus (Mt 24:45) e confiança absoluta n’Ele, como aquela demonstrada pelas pessoas que iam a Jesus à procura de cura (Lc 7:2-10). Fé pode ser definida, positivamente, como uma esperança segura, inabalável (Hb 11:1), ou, negativamente, como uma crença infecunda que não redunda em boas obras (Tg 2:14-26). Mas o que Paulo quis dizer, quando falou de ‘fé salvadora’,em Romanos? O apóstolo relacionou a fé à salvação. Não é necessário praticar boas obras para alcançar a salvação; se fosse, esta seria mais um feito humano, e Paulo deixou bem claro que as obras não nos podem salvar (Gl 2:16). Embora, a fé seja uma dádiva concedida por Deus, porque Ele deseja nos salvar (Ef 2:8), é a graça de Deus e não a nossa fé, que nos salva. Em sua misericórdia, ao nos salvar, Deus nos concede a fé, a fim de que tenhamos um relacionamento com o seu Filho, que nos ajuda a ser como ele. Por meio dessa fé, que recebemos do próprio Deus, passamos da morte para a vida (Jo 5:24 ) (…) Como seria trágico se transformássemos a fé em uma obra e tentássemos desenvolvê-la por nossa conta! Nunca poderíamos chegar a Deus por meio de uma fé humana, assim como o povo do Antigo Testamento não o poderia,, por meio dos seus sacrifícios. Assim, devemos aceitar a bondosa oferta de Deus com ações de graça e permitir que Ele plante a semente da fé dentro de nós” Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal, Versão Almeida Revista e Corrigida Edição 1995, pág. 1552.

Percebe-se que os editores da Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal compartilham da mesma concepção de Spurgeon, de que é a graça de Deus e não a fé, que salva. A Bíblia afirma que quem crer será salvo e os editores da Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal afirmam que, ao salvar o homem, Deus concede fé para que possa relacionar-se com Cristo. É esse o posicionamento das Escrituras?

Na verdade, os que creem em Cristo recebem de Deus poder para serem feitos filhos de Deus e não fé. Na verdade, Deus concedeu o seu Filho, Jesus Cristo, para que, por Ele, o homem tenha comunhão com Deus. Cristo é mediador entre Deus e os homens, portanto, a ideia de que a fé é para ter um relacionamento com o Filho é descabida, qualquer que seja a ideia que nutrem acerca do termo ‘fé’.

A ‘fé’ (crer) do homem não é uma semente que Deus planta em seu coração, antes a fé, no sentido de crer, surge da fidelidade de Deus, expressa em sua palavra. A palavra de Deus é fiel, verdadeira, firme, imutável, etc., portanto, digna de ser aceita (1Tm 1:15). A palavra de Deus que é descrita como ‘semente incorruptível’, porque o homem é gerado de novo, por meio dela (1Pd 1:23). Essa semente é a palavra da fé, a boa doutrina (1Tm 4:6), que, quando aceita pelo homem (crê), Deus faz surgir a nova criatura.

Somente a palavra de Deus é descrita como semente (Lc 8:11), pois, dela resulta a nova criatura (1Jo 3:9). ‘Crer’ na palavra de Deus, nunca é descrito como semente, pois o poder de conceder nova vida está na palavra de Deus e não na crença do homem. Deus salva o homem por meio da fé (evangelho), o que é diferente da ideia de que Deus salva e concede a fé (crer).

Se o leitor não souber diferenciar os versos que utilizam o termo ‘fé’ no sentido de ‘evangelho’, ‘verdade’, ‘Cristo’, etc., dos textos que utilizam o termo ‘fé’ no sentido de ‘crer’, ‘acreditar’, etc., chegará à mesma conclusão equivocada a seguir:

“Fé é obra da graça de Deus em nós. Ninguém poderá dizer que Jesus é o Cristo, senão por obra do Espírito Santo. “Ninguém poderá vir a mim,” disse Jesus, “se, pelo Pai, não lhe for concedido” [João 6.65]” Idem.

Cristo é a graça de Deus manifesta, que trouxe salvação a todos os homens (Tt 2:11), portanto, a ‘fé’ é a própria graça de Deus manifesta: “Porque a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1:17; Gl 3:23). Deus deu o Cristo para realizar a sua obra: crede naquele que Ele enviou (Jo 6:29).

A ‘fé’, a ‘verdade’, é o testemunho que Deus deu acerca do seu Filho Jesus Cristo, para que todos honrem o Filho, da mesma forma que honram o Pai. Aquele que ouve as palavras de Cristo e crê, na verdade, crê em Deus, pois crê no testemunho de Deus, ou seja, nas Escrituras (Jo 5:23-24; Jo 5:39; 1Jo 5:10). O ensino de Jesus não era d’Ele, mas, de Deus, de modo que, quem crê em Cristo, faz a vontade de Deus (Jo 7:16-17).

Jesus disse: “… ninguém pode vir a mim, se pelo Pai não lhe for concedido” (Jo 6:65), porque alguns dos seus discípulos não criam em suas palavras, que eram espirito e vida (Jo 6:63-64). Embora Jesus anunciasse: – “Eu sou o pão da vida”, contudo não criam (Jo 6:35-36). Embora anunciasse: – “Eu sou o pão que desceu do céu” (Jo 6:41), murmuravam (Jo 6:42-43).

Foi predito pelos profetas que ‘todos seriam ensinados por Deus’ (Jo 6:45; Is 54:13), de modo que ‘todo aquele que o Pai me dá virá a mim’, ou ‘ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer’, ou ‘ninguém pode vir a mim, se pelo Pai não lhe for concedido’, são modos distintos de dizer que as Escrituras dão testemunho de Cristo, de modo que todos os que se ouvem o Pai e se deixam instruir (aprende dele), creem em Cristo (Jo 6:45).

Quem o Pai deu a Cristo? Conforme o previsto nas Escrituras, aqueles que esperam no Senhor, que escondeu o seu roso da casa de Israel, ou seja, Cristo, que apesar de ser santuário, tornou-se pedra de tropeço para Israel (Is 8:17-18). Quando é dito: – “Eis-me aqui, com os filhos que me deu o Senhor” (Is 8:18), é porque ‘todos os teus filhos serão ensinados do Senhor’ (IS 54:13), de modo que, aquele que ouve o ensino de Cristo, aprende de Deus, que O enviou (Jo 7:16).

 

Salvação

“E seja achado nele, não tendo a minha justiça, que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé” (Fl 3:9)

O que é ser ‘achado n’Ele’? É estar em Cristo, ou seja, ser uma nova criatura (2Co 5:17). Por definição, quem ‘está em Cristo’ é ‘nova criatura’! A nova criatura alcança a justiça que vem de Deus, por intermédio de Cristo, que é sabedoria, justiça, santificação e redenção (1Co 1:30).

Nestas duas orações: “… mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus, pela fé”, o termo ‘fé’ foi empregado com dois significados distintos, a saber:

a) ‘mas a que vem pela fé em Cristo’ – nesta oração o termo ‘fé’ foi empregado no sentido de ‘crer’, ‘acreditar’. O apóstolo está enfatizando que a justiça de Deus é concedida aos que creem em Cristo;

b) ‘a justiça que vem de Deus pela fé’ – nesta oração, o termo ‘fé’ foi empregado no sentido de ‘evangelho’, ‘Cristo’.

Como a justiça de Deus é imputada ao homem?

Quando discursou aos cristãos de Antioquia da Pisídia, o apóstolo Paulo deixou claro que o homem é justificado por Cristo ao crer n’Ele. O homem precisa crer em Cristo, não porque a sua crença será causa de justificação, antes, porque, por Cristo, o homem é justificado: “E de tudo o que, pela lei de Moisés, não pudestes ser justificados, por Ele é justificado todo aquele que crê” (At 13:39).

Os profetas deram testemunho de que, por Jesus Cristo, os que creem, recebem o perdão dos pecados (At 10:43). Há alguma virtude em acreditar em Cristo? Não! Na crença do indivíduo não há poder, antes, a virtude está em Cristo, pois, por Ele, é que o homem confia em Deus (2 Co 3:4). Sem Cristo, por quem vem a fé (crer), não há justificação (At 3:16).

Pelo fato de Cristo ter morrido por todos os homens, e todos os que creem morrem com Ele, o crente desfruta de uma nova vida (At 5:20), pois, vivem para Aquele que morreu e ressurgiu dentre os mortos (2 Co 5:14-15). Ser uma nova criatura provém de Deus, que reconciliou os que creem consigo mesmo  por Jesus Cristo (2 Co 5:18), ou seja, a reconciliação por meio da fé não vem dos homens (Ef 2:8).

Não é a crença do homem que promove a reconciliação com Deus, antes, a fé (Cristo) é o meio pelo qual o homem tem acesso a Deus. Cristo veio ao mundo sem pecado, mas por Deus foi feito pecado, para quem estiver n’Ele (os que creem), sejam declarados justos (2 Co 5:21). Agora, sendo justificados por sua graça, os cristãos são embaixadores da parte de Deus anunciando a graça de Deus aos homens, em tempo oportuno (2 Co 6:1).

O ato de crer resulta em confissão (admitir o que é), conforme dispõe o salmista: ‘Cri, por isso falei’ (2 Co 4:13; Sl 116:10). A evidência exterior de quem crê em Cristo está na doutrina que professa, ou seja, na confissão, que o escritor aos Hebreus denomina ‘fruto dos lábios’ (Hb 13:15). Confissão que João Batista observou que faltava aos escribas e fariseus: ‘frutos dignos de arrependimento’ (Mt 3:8).

Ao acreditar que Cristo ressurgiu dentre os mortos (Rm 10:9-10), isto conforme a palavra da fé, apregoada pelos apóstolos e profetas, o homem é salvo. É salvo todo aquele que confessa a Jesus como Senhor e crê que Deus O ressuscitou dos mortos, pois, com a boca se faz confissão para a salvação[5] e com o coração, se crê para justiça. Ao crente é imprescindível o mesmo espírito de fé anunciado pelo salmista: crer e professar, pois a boca fala do que o coração está pleno (Mt 12:34).

Por meio do evangelho, a graça de Deus é derramada, pois Cristo trouxe salvação sobre todos os homens. A graça (bondade e benignidade de Deus para com os homens) e o evangelho (verdade) decorrem de Cristo, pois por Ele é concedido aos homens redenção e remissão dos pecados: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Ef 2:8); “Porque a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1:17).

Deus criou a humanidade em função do beneplácito que propusera em Cristo, de fazer convergir n’Ele todas as coisas, para que em tudo Ele fosse preeminente (Ef 1:9-10). Mas, para fazer parte deste propósito, a humanidade teria que ser participante da glória de Deus, semelhante a Ele, pois só entre semelhantes é possível ser preeminente. Cristo é espírito vivificante, o último Adão, pois por Ele muitos são conduzidos à glória de Deus e feitos semelhantes a Ele (1Jo 3:2; 1Co 15:48 -49).

Como é impossível aos homens serem semelhantes a Deus, em poder e glória, o Verbo se fez carne e em tudo se fez semelhante aos homens (Hb 2:14 e 17), para fazer propiciação pelos pecados do povo. Os que ressurgissem dentre os mortos com Cristo são santos, irrepreensíveis e semelhantes a Ele. Como Cristo se fez servo em tudo, Deus o exaltou soberanamente, constituindo-o como a cabeça da igreja, que é o seu corpo, posição de primogênito entre muitos irmãos, o que lhe confere a preeminência em tudo.

Jesus despiu-se da sua glória e se fez homem, porém, sem pecado. Em tudo foi provado como homem, tendo que confiar nas Escrituras e ser obediente ao Pai. A missão de Jesus era reparar a ofensa de Adão: obediência pela desobediência, para estabelecer a justiça: “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim, pela obediência de um, muitos serão feitos justos” (Rm 5:19).

A humanidade entrou em condenação eterna pela ofensa de Adão (desobediência). Os homens entram na vida eterna pela obediência de Cristo (justiça). Quando o homem crê que Jesus de Nazaré é o Filho de Deus, morreu pelas ofensas e pecados da humanidade e, que ressuscitou dentre os mortos será salvo, conforme as profecias. A encarnação, morte e ressureição do Filho de Davi são eventos históricos que tornam os homens justos aos olhos de Deus, isso, porque, esses eventos se deram, segundo a palavra de Deus.

Ao crer nos eventos históricos do nascimento, morte e ressurreição e, na doutrina de Cristo, efetivamente, o crente está crendo na palavra de Deus: a verdade (Sl 119:160; Sl 138:2). Os apóstolos viram e testificaram que Deus enviou o seu Filho como salvador do mundo, pois, crer nesta verdade, para salvação, é imprescindível: “E aquele que o viu, testificou e o seu testemunho é verdadeiro; e sabe que é verdade o que diz, para que também vós o creiais” (Jo 19:35; 1 Jo 4:13-15; At 10:39-43). Ao crer nessa verdade, o homem confirma que Deus é verdadeiro: “De maneira nenhuma; sempre seja Deus verdadeiro e todo o homem mentiroso; como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras e venças quando fores julgado” (Rm 3:4).

Crer em Cristo é crer em Deus, declarando-O verdadeiro, fiel e justo. “Quem crê no Filho de Deus, em si mesmo tem o testemunho; quem a Deus não crê, mentiroso o fez, porquanto, não creu no testemunho que Deus de seu Filho deu. E o testemunho é este: que Deus nos deu a vida eterna; e esta vida está em seu Filho” (1Jo 5:10-11); “Na verdade, na verdade, vos digo que, quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida” (Jo 5:24); “Porque, aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus; pois não lhe dá Deus o Espírito por medida” (Jo 3:34); “Porque lhes dei as palavras que tu me deste; e eles as receberam e têm verdadeiramente conhecido que saí de ti, e creram que me enviaste” (Jo 17:8); “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17:17).

Ao escrever ao irmão Tito, o apóstolo Paulo faz alusão a três aspectos do evangelho: a) manifestou a sua palavra; b) pela pregação confiada; e, c) segundo o mandamento de Deus: “Mas, a seu tempo, manifestou a sua palavra, pela pregação que me foi confiada, segundo o mandamento de Deus, nosso Salvador” (Tt 1:3). O primeiro aspecto diz da palavra de Deus manifesta, que se refere a Cristo, o Verbo que se fez carne, na plenitude dos tempos e, por quem o homem é justificado. O segundo aspecto refere-se à pregação, que tem por tema Cristo e deve ser anunciado a todos os povos, pois, ‘como crerão naquele de quem não ouviram’? (Rm 10:4) O terceiro aspecto do evangelho é o mandamento: crer (1 Jo 3:24).

Um erro do calvinismo, está em reputar que, no ato de crer, alguém possa jactar-se de se salvar por seus próprios méritos, pois, com relação ao evangelho, ter mérito por crer é impossível. Crer é mandamento, de modo que, quem crê, se faz servo, sujeitando-se ao senhorio de Cristo. Crer é obedecer ao evangelho, de modo que o crente não tem como se vangloriar e nem como se ensoberbecer.

Com relação ao evangelho, não podemos pecar pelo preciosismo ou pela omissão, pois, em ambos os casos, é prevaricar contra o evangelho. Há quem contrarie as Escrituras, ao dizer que ‘não basta apenas confessar com a boca que Jesus Cristo é o Senhor para ser salvo’, para encontrar ocasião de impor obrigações sobre os incautos e há quem diga que ‘a fé é apenas um canal ou aqueduto e não a própria fonte da salvação’, invocando o medo de um risco de o crente gloriar-se de ter crido em Cristo, pervertendo a fé de alguns.

O crente não pode perder de vista, que a salvação que alcançou em Cristo é graça de Deus; que é graça ter recebido poder de ser feito filho de Deus; que ter uma herança no céu é graça de Deus; desfrutar do cuidado de Deus, no dia a dia, é graça; que ser coerdeiro de Cristo e reinar com Ele é graça. A obra de Cristo nos homens é graça de Deus, de modo que se pode afirmar, categoricamente, que Cristo é a graça de Deus, pois todas essas benesses decorrem de Cristo (2 Co 1:20).

O ápice da graça se encontra na ressurreição que Deus concede aos homens, pois o salário do pecado é a morte. Como todos pecaram, todos são merecedores de morte. Quem morre sem Cristo segue-se ao juízo, sob condenação, mas quem crê em Cristo, passou da morte para a vida, pois de fato morre para o pecado, conformando-se com Cristo, na sua morte e através da ressurreição de Jesus Cristo, ressurge para a vida eterna: maravilhosa graça!

O crente não pode demover-se da fé, ou seja, da graça de Deus. Estar firme na graça (1 Pe 5:12), é estar firme na fé (1Pe 5:9). A graça de Deus tornou-se notória a todos os homens, pelo fato de Cristo Jesus, sendo rico (Tt 2:11; Tt 3:7), por amor dos que creem, se fez pobre, para que, pela sua pobreza fossem, feitos ricos (2 Co 8:9).

 


[1] “4102 πιστις (pistis) de 3982; TDNT – 6:174,849; n f 1) convicção da verdade de algo, fé; no NT, de uma convicção ou crença, que diz respeito ao relacionamento do homem com Deus e com as coisas divinas, geralmente com a ideia inclusa de confiança e fervor santo, nascido da fé e unido com ela 1a) relativo a Deus 1a1) a convicção de que Deus existe e é o criador e governador de todas as coisas, o provedor e doador da salvação eterna em Cristo 1b) relativo a Cristo 1b1) convicção ou fé forte e benvinda de que Jesus é o Messias, através do qual nós obtemos a salvação eterna no reino de Deus 1c) a fé religiosa dos cristãos 1d) fé com a ideia predominante de confiança (ou confidência) seja em Deus ou em Cristo, surgindo da fé no mesmo 2) fidelidade, lealdade 2a) o caráter de alguém em quem se pode confiar” Dicionário Bíblico Strong.

[2] “4100 πιστευω (pisteuo) de 4102; TDNT – 6:174, 849; v 1) pensar que é verdade, estar persuadido de, acreditar, depositar confiança em 1a) de algo que se crê 1a1) acreditar, ter confiança 1b) numa relação moral ou religiosa 1b1), usado no NT para convicção e verdade, para a qual um homem é impelido por uma certa prerrogativa interna e superior e lei da alma 1b2) confiar em Jesus ou Deus, como capaz de ajudar, seja para obter ou para fazer algo: fé Salvadora 1bc) mero conhecimento de algum fato ou evento: fé intelectual 2) confiar algo a alguém, i.e., sua fidelidade 2a) ser incumbido com algo” Dicionário Bíblico Strong.

[3] “Metonímia ou transnominação é uma figura de linguagem que consiste no emprego de um termo por outro, dada a relação de semelhança entre o segundo e o termo entre as orações ou a possibilidade de associação entre cinco ou mais figuras de linguagem destes. Por exemplo: “Palácio do Planalto” é usado como um metônimo (uma instância de metonímia) para representar a presidência do Brasil, por ser esse o nome do edifício do governo federal”, Wikipédia.

[4] “A ideia de Deus (…) nasce da reflexão sobre as operações do nosso próprio espírito…” Hume – Vida e Obra, Coleção Os pensadores, 1999, pág. 37.

[5] “Podemos sentir no próprio espírito que desta qualidade de caráter depende até mesmo a nossa própria salvação eterna. Sim, porque não basta apenas confessar com a boca que Jesus Cristo é o Senhor para que sejamos salvos, porque isso qualquer um pode fazer”. Macedo, Edir. O poder sobrenatural da fé. 1º Ed. Atualizada. Rio de janeiro: Unipro Editora, 2011 pág. 120. Grifo nosso.

Ler mais

Cristo – O dom de Deus para salvação

Quando Deus disse a Moisés, que tem misericórdia de quem Ele tiver, Moisés estava querendo e correndo atrás do perdão de Israel. Ora, Moisés não alcançou a misericórdia de Deus para o povo de Israel, pois todos que saíram do Egito, exceto dois, morreram no deserto. Não dependia de Moisés querer ou correr, mas de Deus, que tem misericórdia dos que O amam.


O Dr. Arthur W. Pink ao argumentar em defesa da doutrina calvinista, especificamente com relação à soberania divina na reprovação, reitera o seu posicionamento defendido em seu livro, dizendo:

“Novamente; fé é um dom de Deus e o propósito de dá-la somente a alguns, envolve o propósito de não dá-la a outros. Sem fé não há salvação — “Quem crê nele não é condenado” — portanto, se há alguns descendentes de Adão aos quais Ele propôs não dar fé, deve ser porque Ele ordenou que eles deveriam ser condenados” – Arthur W. Pink, A Soberania de Deus na Reprovação[1].

O Dr. Pink argumenta que a ‘fé é um dom de Deus’. Sem problema algum, pois neste ponto ele cita o apóstolo Paulo aos Efésios, quando diz: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Ef 2:8).

O erro surge quando ele diz que Deus dá a fé somente a alguns[2], e que, por conseguinte, Deus se resignou a não dar a fé a outros. Está correto o argumento do Dr. Pink?

O problema do Dr. Pink é de interpretação de texto, pois no verso 5, o apóstolo Paulo afirma que, quando os agora cristãos estavam mortos em ofensas, foram vivificados por Cristo. Neste ponto o apóstolo argumenta: “Pela graça sois salvos”.

Ora, o ato de dar vida ao homem é ação graciosa de Deus, pois quando morto em ofensas, o velho homem foi crucificado com Cristo e sepultado. Neste quesito a justiça de Deus é estabelecida, pois a pena não passa do transgressor, visto que a alma que pecar, essa mesma morrerá.

Quando o homem no pecado morre com Cristo, Deus é justo e não tinha nenhuma obrigação para com os que são crucificados com Cristo, mortos no batismo com Cristo e sepultados. Mas, graciosamente, Deus faz ressurgir da sepultura um novo homem, criado, segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade, portanto, na nova criação, Deus é justificador, pois declara o novo homem em Cristo, justo e santo.

Na ressurreição com Cristo, está a graça de Deus, visto que, na morte com Cristo, se opera a justiça de Deus:

“Ou não sabeis que, todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte? De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também, em novidade de vida. Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição; sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado. Porque aquele que está morto está justificado do pecado. Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos” (Rm 6:3 -8).

Foi cravado na cruz o escrito de dívida que era contra os incircuncisos de coração, sendo que, na cruz, a circuncisão de Cristo foi feita, pois, nela, o corpo do pecado da carne foi desfeito. Após ser sepultado com Cristo, no batismo de sua morte, os que creem foram ressuscitados, de modo que todas as ofensas foram perdoadas.

“No qual também estais circuncidados com a circuncisão, não feita por mão, no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo; sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé, no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos.  E, quando vós estáveis mortos nos pecados e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-vos todas as ofensas, havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual, de alguma maneira, nos era contrária e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz” (Cl 2:11-14).

Além dos cristãos terem sido ressuscitados com Cristo, Deus os fez assentar nas regiões celestiais em Cristo, ou seja, agora entram no descanso. Ora, este evento de vivificar os que creram e fazê-los assentar-se nas regiões celestiais, será notificado nos séculos vindouros, o quão abundantes são as riquezas da graça, por intermédio de Cristo (Ef 2:7).

Após apontar a benignidade de Deus, em Cristo, o apóstolo Paulo enfatiza, novamente, que, pela graça, os cristãos são salvos. Ora, os cristãos são salvos pela graça, pois a benignidade de Deus em Cristo, nada exige do homem para ser salvo, vez que é impossível ao homem salvar-se a si mesmo.

Mas, apesar de o homem ser salvo pela graça, a salvação é operada por meio da fé, ou seja, algo definido como não proveniente dos homens (não vem de vós), antes diz do dom de Deus.

“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Ef 2:8).

O Dr. Pink confunde o ‘dom de Deus’ com a ‘crença’ do homem pela má leitura que faz do texto.

O dom de Deus é Cristo e não a crença do homem, conforme se lê:

“Jesus respondeu e disse-lhe: Se tu conheceras o dom de Deus e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias e ele te daria água viva” (Jo 4:10).

Se a mulher samaritana conhecesse o dom de Deus e se conhecesse aquele que lhe estava pedindo água, reconheceria, de pronto, que aquele homem à beira do poço de Jacó era o Cristo, o dom inefável de Deus dado aos homens. Cristo é o dom de Deus dado a todos os homens: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16).

Sem Cristo não há salvação, pois não há entre os homens nenhum outro nome dado pelo qual devamos ser salvos: “E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” (At 4:12); “Sempre dou graças ao meu Deus por vós, pela graça de Deus que vos foi dada em Jesus Cristo” (1Co 1:4).

Isso significa que, pela graça de Deus o homem é salvo, por meio de Cristo, ou como vem expresso no verso: por meio da fé. Ora, quando é dito que o homem é salvo por meio da fé, fé não tem o significado de crença, mas, sim, o significado de O enviado de Deus, pois Cristo é a fé que havia de se manifestar:

“Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar (Gl 3:23).

Quando lemos: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Ef 2:8), temos que ter a perspicácia de substituir a frase: ‘por meio da fé’, pela frase: ‘por meio daquela fé que se havia de manifestar, que é Cristo, o dom de Deus.

No afã de enfatizar o seu credo, o Dr. Pink não teve o cuidado de observar que o termo traduzido por fé, não se trata de um verbo, mas do substantivo grego πίστις, transliterado pistis. Sem πίστις (fé) não há salvação, mas com πιστεύω (pisteúo=fé, crer, acreditar) ou sem πιστεύω  há salvação, pois Deus é fiel e não pode negar a si mesmo: “Pois quê? Se alguns foram incrédulos, a sua incredulidade aniquilará a fidelidade de Deus?” (Rm 3:3; 2Tm 2:13).

Quando o apóstolo Paulo faz referência à fé, que por meio dela o homem é salvo, faz menção da fé, que a incredulidade do homem jamais pode aniquilar.

O termo fé foi empregado pelo apóstolo Paulo, no verso 8, do capítulo 2, de Efésios, como figura de linguagem, a metonímia[3] onde, no caso, temos a substituição do autor pela obra: Cristo é o autor e consumador da fé: “Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta e assentou-se à destra do trono de Deus” (Hb 12:2).

Quando Cristo, o dom de Deus, foi concedido, Deus não fez distinção entre homens. Deus amou o mundo, ou seja, todos os povos, nações, tribos e de todas as línguas, pois, sobre isso, vaticinou o profeta:

“Disse mais: Pouco é que sejas o meu servo, para restaurares as tribos de Jacó e tornares a trazer os preservados de Israel; também te dei para luz dos gentios, para seres a minha salvação até a extremidade da terra” (Is 49:6);

“E toda a carne verá a salvação de Deus” (Lc 3:6);

“Porque o Senhor assim no-lo mandou: Eu te pus para luz dos gentios, a fim de que sejas para salvação, até os confins da terra” (At 13:47);

“Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens” (Tt 2:11).

Segundo o profeta Isaías, Deus se propôs a conceder salvação a todos os descendentes de Adão, ou seja, Deus se propôs a dar fé a todos os homens, do que se conclui que a assertiva do Dr. Pink é equivocada.

A fé foi dada, primeiramente, aos judeus (Jo 1:11), mas, como eles a rejeitaram, ela foi transferida aos gentios:

“Seja-vos, pois, notório que esta salvação de Deus é enviada aos gentios e eles a ouvirão” (At 28:28).

Além de ‘fé’, Cristo também é nomeado de ‘poder de Deus’, ‘sabedoria de Deus’, etc. Sem Cristo não há salvação, o que nos leva a considerar que, sem o poder de Deus, ou sem a sabedoria de Deus, não há como ser salvo.

Daí a máxima:

“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu e, também, do grego” (Rm 1:16).

Ora, o apóstolo Paulo não se envergonhava do evangelho de Cristo, ou seja, da palavra da cruz (1 Co 1:18), da pregação da fé (Gl 3:2), da loucura da pregação (1Co 1:21), pois é poder de Deus para salvação de todo aquele que crer.

A pregação está intimamente ligada à fé, ou seja, a Cristo, de modo que, se a mensagem apregoada não é segundo Cristo, tanto a pregação, quanto aquele que é anunciado, se faz vão. Sabemos que Cristo ressuscitou dentre os mortos, mas se alguém apregoa que Jesus não ressuscitou, a pregação é inútil, bem como o próprio Cristo, se Ele não houvesse ressuscitado: “E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação e também é vã a vossa fé” (1 Co 15:14 e 17).

Quando lemos: “Que mediante a fé estais guardados na virtude de Deus para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo” (1 Pd 1:5), temos que entender que é mediante o evangelho (fé) que os cristãos são guardados para a salvação.

Observe que, pregar com base em sabedoria de palavras e não com base na mensagem da cruz, torna inócua a cruz de Cristo, para quem é anunciado somente em sabedoria de palavras: “Porque Cristo enviou-me, não para batizar, mas para evangelizar; não em sabedoria de palavras, para que a cruz de Cristo se não faça vã” (1 Co 1:17).

Embora Deus tenha enviado o seu Filho ao mundo para salvação, aprouve a Deus salvar aqueles que dão crédito à pregação, ou seja, Deus só salva os crentes, não os ouvintes da pregação: “Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação” (1 Co 1:21).

Daí a pergunta: “Quem deu crédito à nossa pregação? E a quem se manifestou o braço do SENHOR?” (Is 53:1). Embora os filhos de Israel não dessem crédito à pregação, contudo, o braço do Senhor – Cristo – foi manifesto a todos os povos: “O SENHOR desnudou o seu santo braço perante os olhos de todas as nações; e todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus” (Is 52:10).

A πιστεύω (pisteúo=crença) jamais precede a πίστις (pistis=fé). A πιστεύω (crença) decorre da πίστις (fé), pois a πίστις remete à verdade, à fidelidade, à lealdade e à imutabilidade de Deus. Tanto que o termo grego πίστις, decorre da raiz de um termo, que significa fidelidade. Segundo o Dicionário Bíblico Strong, o termo fé (πιστις, pistis), entre outras coisas, significa fidelidade, lealdade.

Quando deparamos com a definição: “Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que não se veem” (Hb 11:1), a fé é objetiva, ou seja, é o firme fundamento, algo imutável. O que se espera, diz respeito à crença do homem, que é algo subjetivo, de foro íntimo. A fé é prova, ou seja, algo objetivo, mesmo quando não conseguimos contemplar, ver.

Ora, as Escrituras deixam claro que o firme fundamento é Cristo, pois Ele é a pedra de esquina, no qual aquele que crê não é confundido: “Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, do qual Jesus Cristo é a principal pedra da esquina” (Ef 2:20); “Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo” (1 Co 3:11).

Sem Cristo (fé) é impossível agradar a Deus: “Ora, sem fé é impossível agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que é galardoador dos que o buscam” (Hb 11:6).

Mas, para que alguém creia, primeiro é necessário pregar, pois crer decorre da palavra da fé: “Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos” (Rm 10:8); “Então, ou seja eu, ou sejam eles, assim pregamos e assim haveis crido” (1 Co 15:11).

Só é possível ‘estar em Cristo’, ou seja, ‘ser uma nova criatura’, após ouvir a palavra da verdade, o evangelho da salvação e crer: “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” (Ef 1:13).

Daí a exposição paulina aos cristãos em Roma:

“Mas, a justiça que é pela fé, diz assim: Não digas em teu coração: Quem subirá ao céu? (isto é, a trazer do alto a Cristo) Ou: Quem descerá ao abismo? (isto é, a tornar a trazer dentre os mortos a Cristo.)” (Rm 10:6-7).

A justiça de Deus não é pela crença do homem, mas pela palavra de Deus, que é firme e fiel: a FÉ. Ou seja, a justiça, que é pela palavra de Deus, protesta contra os homens para não dizerem em seus corações: quem subirá ao céu? Quem descerá ao abismo?

Esta é a palavra firme e fiel, digna de toda aceitação:

“Porque este mandamento, que hoje te ordeno, não te é encoberto e tampouco está longe de ti. Não está nos céus, para dizeres: Quem subirá por nós aos céus, que no-lo traga e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Nem, tampouco, está além do mar, para dizeres: Quem passará por nós, além do mar, para que no-lo traga e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Porque esta palavra está mui perto de ti, na tua boca e no teu coração, para a cumprires” (Dt 30:11-14).

Não crer nesta palavra é injustiça!

A palavra da fé, ou seja, a palavra de Deus é esta:

“Esta é uma palavra fiel e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” (1 Tm 1:15).

Sobre a palavra da fé, orientou o apóstolo Paulo a Timóteo:

“Propondo estas coisas aos irmãos, serás bom ministro de Jesus Cristo, criado com as palavras da fé e da boa doutrina que tens seguido. Mas rejeita as fábulas profanas e de velhas e exercita-te a ti mesmo em piedade; porque o exercício corporal para pouco aproveita, mas a piedade para tudo é proveitosa, tendo a promessa da vida presente e da que há de vir. Esta palavra é fiel e digna de toda a aceitação” (1 Tm 4:6-9).

Por que foi dada esta orientação? Porque muitos apostatariam da fé, ou seja, da verdade, da palavra digna de total aceitação! Deixariam a Cristo e seguiriam fábulas de homens corruptos de entendimento.

O termo grego πιστεύω (pisteúo), traduzido por crença, quando empregado nas Escrituras, tem o sentido de obediência. A palavra da fé é que Cristo é o enviado de Deus, que foi morto e ressurgiu ao terceiro dia. Crer nesta mensagem é o mandamento de Deus para que o homem não pereça. A obediência da fé (evangelho) é crer que Jesus é o Senhor e que Deus o ressuscitou entre os mortos.

“Mas, que se manifestou agora e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações, para obediência da fé” (Rm 16:26).

“A saber: se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que, com o coração se crê para a justiça e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido. Porquanto, não há diferença entre judeu e grego; porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam” (Rm 10:9-12).

Quem crê em Cristo não perece, antes alcança a vida eterna: “Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê, já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo 3:18). Por que? Porque, quem crê em Jesus, crê no testemunho que Deus deu acerca do seu Filho nas Escrituras: “Quem crê no Filho de Deus, em si mesmo tem o testemunho; quem a Deus não crê, mentiroso o fez, porquanto não creu no testemunho que Deus de seu Filho deu. E o testemunho é este: que Deus nos deu a vida eterna; e essa vida está em seu Filho” (1 Jo 5:10 -11).

A mensagem apregoada pelos profetas apontava para o Cristo, mas, quando Jesus veio, os homens O rejeitaram; por conseguinte, rejeitaram as Escrituras, pois elas testificam de Cristo: “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna e são elas que de mim testificam” (Jo 5:39).

Crer em Cristo é obedecer ao mandamento de Deus, ou, segundo uma linguagem própria aos judeus, realizar a obra de Deus: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1 Jo 3:23); “Jesus respondeu e disse-lhes: a obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” (Jo 6:29).

Deus só é favorável a quem obedece, ou seja, a quem O ama, a quem realiza a obra, a quem cumpre o mandamento, pois assim está escrito:

“Eu amo aos que me amam e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17).

A benevolência de Deus está em Cristo, porém, para alcançá-la, o homem tem que obedecer a Deus, como está escrito:

“Portanto, diz o SENHOR Deus de Israel: Na verdade tinha falado eu que a tua casa e a casa de teu pai andariam diante de mim perpetuamente; porém agora diz o SENHOR: Longe de mim tal coisa, porque aos que me honram honrarei, porém os que me desprezam, serão desprezados” (1 Sm 2:30);

“Com o benigno te mostrarás benigno e com o homem sincero te mostrarás sincero; Com o puro te mostrarás puro e com o perverso te mostrarás indomável” (Sl 18:25-26).

A mensagem da salvação é direcionada a todos os homens, porém, a salvação é só para os que obedecem, ou seja, para os que creem em Cristo: “E, sendo ele consumado, veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem(Hb 5:9).

O Dr. Pink apregoa que Deus salva e reprova os homens segundo a sua Soberania, porém, as Escrituras não dizem assim. Observe:

“Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos. E retribui no rosto qualquer dos que o odeiam, fazendo-o perecer; não será tardio ao que o odeia; em seu rosto lho pagará. Guarda, pois, os mandamentos e os estatutos e os juízos que hoje te mando cumprir” (Dt 7:7-11).

Embora Deus seja Deus, ou seja, exerça soberania, contudo, a relação dele com suas criaturas se dá através do amor e do ódio. Quando a Bíblia fala de amor e ódio, não fala de sentimentos, mas, de obediência e desobediência, como se lê:

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Mt 6:24).

Desde sempre, Deus se propôs a exercer misericórdia aos que O amam, ou seja, aos que guardam os seus mandamentos e faz perecerem os que O odeiam, ou seja, aos que não guardam os seus mandamentos. Daí a ordem: Guarda, pois os mandamentos!

Deus é fiel à Sua palavra: Ele guarda a aliança e concede a sua misericórdia aos que O amam. Esta lição é incontestável! Mas, quando o povo de Israel não guardou a aliança e desobedeceu a Deus, fazendo um bezerro de ouro, Moisés se interpôs diante de Deus e fez a seguinte oração:

“Agora, pois, perdoa o seu pecado, se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito” (Êx 32:32).

Ora, Deus só risca do livro aquele que pecar, portanto, a oração de Moisés foi descabida e atentatória à justiça de Deus, pelo que Deus respondeu:

“Então, disse o SENHOR a Moisés: Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro” (Ex 32:33).

Em outras palavras, a alma que pecar essa mesma morrerá, ou seja, Moisés não podia perecer no lugar do povo que pecou: “A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai levará a iniquidade do filho. A justiça do justo ficará sobre ele e a impiedade do ímpio cairá sobre ele” (Ez 18:20).

Deus concedeu a Moisés que continuasse conduzindo aquele povo, porém, o mal já estava estabelecido: visitarei neles o seu pecado! “Vai, pois, agora, conduze este povo para onde te tenho dito; eis que o meu anjo irá adiante de ti; porém, no dia da minha visitação, visitarei neles o seu pecado” (Ex 18:34).

Mas, ao dar prosseguimento em sua missão, Moisés roga pela presença de Deus e que considere o povo de Israel, que havia pecado, como o Seu povo (Ex 33:12-13). Deus concede o desejo de Moisés, de mostrar a sua glória, fazendo passar a bondade de Deus e anunciar o nome de Deus perante Moisés (Ex 33:19).

Mas, apesar de Deus conceder o desejo de Moisés, reitera a sua palavra: “… e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer” (Ex 33:19). Onde os calvinistas veem soberania, na verdade é a reiteração de um mandamento: “Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos” (Ex 7:7).

De quem Deus tem misericórdia? Deus tem misericórdia dos que O amam, ou seja, dos que guardam o seu mandamento. Quando é dito: ‘terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia’, ocorre uma figura de linguagem conhecida por ‘elipse’, que consiste na supressão de parte da frase, geralmente utilizada por bons escritores, pois intensifica e valoriza a porção restante do discurso.

Deus não utiliza dois pesos e duas medidas: “E orei ao SENHOR meu Deus, confessei e disse: Ah! Senhor! Deus grande e tremendo, que guardas a aliança e a misericórdia para com os que te amam e guardam os teus mandamentos” (Dn 9:4).

Jesus mesmo disse que aquele que ama é o que guarda os seus mandamentos: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21). Ora, se tudo concorre para o bem dos que amam a Deus, certo é que tudo concorre para o bem dos que obedecem a Deus (Rm 8:28).

Aquele que não obedece (ama), não conhece a Deus: “Aquele que não ama, não conhece a Deus; porque Deus é amor” (1 Jo 4:8); “Aquele que diz: Eu o conheço e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso e nele não está a verdade” (1 Jo 2:4); “Confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras, sendo abomináveis e desobedientes e reprovados para toda a boa obra” (Tt 1:16).

De nada adianta o homem dizer que crê em Deus, mas não crê em Cristo, pois a boa obra, segundo o mandamento de Deus, é crer naquele que Ele enviou e, concomitantemente, está crendo em Deus: “E Jesus clamou e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas nAquele que me enviou” (Jo 12:44); “E a sua palavra não permanece em vós, porque naquele que Ele enviou não credes vós” (Jo 5:38).

Observe o seguinte verso:

“Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido dele” (1Co 8:3).

Como o homem se torna ‘conhecido’ de Deus? Obedecendo-o! Amando-o!

Essa abordagem se faz necessária, pelos equívocos apresentado pelo Dr. Pink no seguinte parágrafo:

“E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mateus 7:23). No capítulo anterior foi demonstrado que as palavras “conhecer” e “pré-conhecimento”, quando aplicadas a Deus nas Escrituras, têm referência não, simplesmente, à Sua presciência (isto é, a Seu conhecimento desnudo, de antemão), mas, ao Seu conhecimento de aprovação. Quando Deus disse a Israel: “De todas as famílias da terra, somente a vós (Israel) vos tenho conhecido” (Amós 3:2), é evidente que Ele quis dizer: “Somente vocês têm o meu favor”. Quando lemos em Romanos 11:2: “Deus não rejeitou o seu povo (Israel), o qual de antemão conheceu”, é óbvio que o significado é: “Deus não rejeitou, finalmente, aquele povo que Ele escolheu como objeto de Seu amor — conforme Deuteronômio 7:7,8. Da mesma forma (e é a única forma possível) devemos entender Mateus 7:23. No Dia do Julgamento o Senhor dirá a muitos: “Eu nunca vos conheci”. Observe, é mais do que simplesmente “Eu não vos conheço”. Sua declaração solene será: “Eu nunca vos conheci” — vocês nunca foram os objetos da Minha aprovação. Contraste isto com o “Eu conheço (amo) as Minhas ovelhas e das Minhas sou conhecido (amado)” (João 10:14). As “ovelhas”, Seus eleitos, os “poucos”, Ele “conhece”; mas os réprobos, os não-eleitos, os muitos, Ele não conhece — não, nem mesmo antes da fundação do mundo Ele os conheceu — Ele “NUNCA” os conheceu!” Arthur W. Pink, A Soberania de Deus na Reprovação.

Para o Dr. Pink, ‘conhecer’ é o mesmo que ‘aprovação’, porém, o termo não possui este significado. Na verdade, o termo ‘conhecer’ aplica-se aos que obedecem, aos que amam, no sentido de que se tornaram um com Ele: “Como labareda de fogo, tomando vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo” (2Ts 1:8); “E nisto sabemos que o conhecemos: se guardarmos os seus mandamentos. Aquele que diz: Eu conheço-o, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e nele não está a verdade” (1Jo 2:3 -4).

Deus tomará vingança dos que não obedecem ao evangelho de Cristo, ou seja, em sentido contrário, os que obedecem ao evangelho se tornam um com o Pai e o Filho, isto é, conheceram a Deus, ou antes, foram conhecidos d’Ele: “Mas, agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” (Gl 4:9); “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um” (Jo 17:22).

‘Conhecer’ a Deus é se tornar membro do corpo de Cristo, é pertencer à Sua Igreja. ‘Conhecer’ a Deus, ou antes, Deus ‘conhecer’ ao homem, não possui relação com “pré-conhecimento”, “presciência”, “conhecimento desnudo, de antemão”, e nem com “conhecimento de aprovação”, definições utilizadas pelo Dr. Pink para explicar o que não compreende.

Assim, como Adão ‘conheceu’ à sua mulher e se fez uma só carne, um só corpo com ela, aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus, se faz uma só carne, um só corpo com Cristo. “Porque somos membros do seu corpo, da sua carne e dos seus ossos. Por isso, deixará o homem a seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher e serão dois numa carne. Grande é este mistério; digo-o, porém, a respeito de Cristo e da igreja” (Ef 5:30-32).

Quando é dito: “Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Co 5:21), significa que Cristo nunca foi participante do pecado, ou seja, que nunca esteve unido ao pecado.

A doutrina calvinista da reprovação, ou como alguns dizem, preterição, surge da má leitura de alguns termos bíblicos. Na sua grande maioria, os estudiosos leem os termos com a mente do nosso tempo e se esquecem de que os termos têm que ser compreendidos com a mente do homem da época em que o termo foi empregado.

O absurdo de tentar embasar a preterição em passagens bíblicas como Romanos 9, verso 13: “Como está escrito: amei Jacó e aborreci a Esaú”, decorre da má leitura de termos como ‘amar’ e ‘aborrecer’ e de não observar o contexto.

O apóstolo Paulo estava demonstrando que a palavra de Deus não falhou, embora nem todos os pertencentes à comunidade de Israel fossem israelitas, ou seja, não é porque os filhos de Jacó descendiam de Abraão que eram, de fato, filhos de Abraão (Rm 9:6-7).

Como foi dito a Abraão que, em Isaque seria chamada a descendência de Abraão, isso significava que não eram os filhos da carne, que eram filhos de Abraão, mas, sim, os filhos da promessa (Rm 9:8). Em seguida, o apóstolo cita a palavra da promessa que não falhou: “Pois a palavra da promessa é esta: Por este tempo virei e Sara terá um filho” (Rm 9:9).

Seguindo o raciocínio de que a palavra de Deus não falhou (Rm 9:6), o apóstolo Paulo cita outra promessa, a palavra que foi dita a Rebeca quando concebeu de um só, Isaque (Rm 9:10). Mas, antes de Esaú e Jacó terem nascido, ou feito bem ou mal, Deus disse a Rebeca: “O maior servirá o menor” (Rm 9:12).

Por que foi dita esta palavra a Rebeca? Deus tinha preferência entre os filhos de Rebeca e de Isaque? Não! Foi dito que o ‘maior serviria o menor’ para evidenciar que o propósito de Deus, segundo a eleição, é firme, não por obra, mas pelo que chama.

O propósito de Deus, segundo a eleição, era abençoar o primogênito. Mas, como Esaú desprezou o direito de primogenitura por um prato de lentilhas, Jacó adquiriu esse direito. Deus deu o que era de direito a Jacó, ou seja, amou a Jacó. Jacó buscou o direito de primogenitura, ou seja, a bênção de Deus e Deus lhe concedeu, enquanto que negou o mesmo direito a Esaú, pois este o desprezara e o vendera a seu irmão mais novo.

A primogenitura era o parametro para a eleição de Deus, e não a sua soberania. Soberanamente, antes de Esaú e Jacó terem nascido, Deus já havia estabelecido abençoar o primogênito.

A escolha do povo de Israel não se deu porque Deus tinha preferência por Israel, em detrimento dos outros povos, pois, em nada Israel era diferente dos outros povos (Dt 9:6), antes, a escolha se deu para que Deus guardasse o juramento feito a Abraão (Dt 9:5).

Quando Deus disse, por intermédio de Malaquias: “Amei a Jacó, mas odiei a Esaú” (v. 13), foi uma resposta ao povo, que questionava de que forma foram amados (Ml 1:2). Deus ‘amou’ Israel, porque guardou o juramento que fizera aos pais, o que significa que a palavra de Deus não falhou (Sl 44:3).

“O SENHOR não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos em número do que todos os povos; Mas, porque o SENHOR vos amava e para guardar o juramento que fizera a vossos pais, o SENHOR vos tirou, com mão forte e vos resgatou da casa da servidão, da mão de Faraó, rei do Egito” (Dt 7:7-8).

“Será, pois, que, se ouvindo estes juízos, os guardardes e os cumprirdes, o SENHOR teu Deus te guardará a aliança e a misericórdia que jurou a teus pais; E amar-te-á,  abençoar-te-á e te fará multiplicar; abençoará o fruto do teu ventre e o fruto da tua terra, o teu grão e o teu mosto, o teu azeite, a criação das tuas vacas e o rebanho do teu gado miúdo, na terra que jurou a teus pais te dar” (Dt 7:12-13).

Por causa da promessa feita aos pais, Israel foi preservado e Edom, por não ter direito segundo a promessa, tornou-se uma desolação, morada de chacais. A citação de Malaquias evidencia que a palavra de Deus não falhou e não que Deus escolhe alguns para serem salvos e outros destinou à danação.

Há injustiça da parte de Deus, por ter dado a sua palavra aos pais? Não! Pois Deus mesmo disse a Moisés: “Compadecer-me-ei de quem me compadecer e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” (Rm 9:15).

Deus teve misericórdia da humanidade, quando anunciou o evangelho, primeiramente, a Abraão: “Em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gl 3:8). Alguém assim quis, ou correu atrás desta promessa? Não! Conclui-se que a promessa não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus, que se compadeceu da humanidade (Rm 9:16).

Quando Deus disse a Moisés, que tem misericórdia de quem Ele tiver, Moisés estava querendo e correndo atrás do perdão de Israel. Ora, Moisés não alcançou a misericórdia de Deus para o povo de Israel, pois todos que saíram do Egito, exceto dois, morreram no deserto. Não dependia de Moisés querer ou correr, mas de Deus, que tem misericórdia dos que O amam.

O capítulo 9, de Romanos, foi escrito para demonstrar que a palavra de Deus não falha, mas por má leitura, utilizam-no para endossar doutrinas que não tem por base a fé, que foi dada aos santos.

De cinco termos bíblicos que analisamos: fé, crença, misericórdia, amor e conhecimento, percebe-se que a doutrina anunciada pelo Dr. Pink é resultado de má leitura e de má compreensão de algums termos, ou, de algumas figuras de linguagem, quando empregadas nas Escrituras.

 


[1] O livro “A Soberania de Deus”, de Arthur Pink foi traduzido para o português e publicado pela Editora Fiel, com o título “Deus é Soberano”, contudo, não consta na versão brasileira o capítulo sobre “A Soberania de Deus na Reprovação”.

[2] “Ele concede o dom da fé para que as pessoas possam crer. Deus dá esta fé só àqueles que Ele tem escolhido e sem dúvidas tem o direito de atuar como e quando quer neste assunto” Pink A. W. Deus é Soberano, Tradução do espanhol para o português realizada por Daniela Raffo, 2007. Arquivo disponível na Web < http://www.ipitatiaia.com.br/documentos/280613-A.%20W.%20Pink%20-%20Deus%20e%20soberano.pdf > Consulta realizada em 17/10/15.

[3] “Metonímia ou transnominação é uma figura de linguagem que consiste no emprego de um termo por outro, dada a relação de semelhança entre o segundo e o termo entre as orações, ou a possibilidade de associação entre cinco ou mais figuras de linguagem destes. Por exemplo: “Palácio do Planalto” é usado como um metônimo (uma instância de metonímia) para representar a presidência do Brasil, por ser esse o nome do edifício do governo federal” (Wikipédia).

Ler mais

A maravilhosa graça

As riquezas da graça são concedidas aos membros do corpo de Cristo segundo o beneplácito que Deus propusera em Si mesmo de fazer convergir todas as coisas em Cristo ( Ef 1:10 ; Ef 3:11 ). Ao estabelecer Cristo como a cabeça do corpo, que é a igreja, todas as coisas convergem para Cristo, pois entre os filhos de Deus semelhantes a Ele, Cristo é proeminente: a cabeça.

 


“Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens” ( Tt 2:11 )

Quando entendemos o real significado e todos as nuances que há na redenção do homem, constatamos que definir a graça de Deus somente como ‘favor imerecido’ constitui-se um reducionismo . Somente enfatizar que a salvação é favor imerecido não evidencia os elementos que compõe a maravilhosa graça de Deus que se revela em Cristo.

O reducionismo ocorre quando nos socorremos somente ao significado do vocábulo grego ‘charis’, o que por si só não evidencia a grandeza da salvação em Cristo. Há certa importância no fato de se verificar que, à época de Homero, o termo ‘charis’ significava ‘doçura’ ou ‘atrativo’, e com o passar do tempo, o termo evoluiu para ‘favor’, ‘boa vontade’, ’bondade’, mas isto não é tudo.

Somente enumerar a quantidade de vezes que o termo ‘charis’ consta do Novo Testamento também não evidencia a ideia do tema, antes o primordial é considerar o termo no seu contexto, principalmente quando utilizado em conexão com a ideia da redenção.

É assente que o termo graça é utilizado para descrever a disposição de Deus em ser favorável aos homens, apesar de não serem merecedores, como se lê: “Não nos tratou segundo os nossos pecados, nem nos recompensou segundo as nossas iniquidades” ( Sl 103:10 ), entretanto, como a graça de Deus é concedida sem macular a justiça de Deus, poucos conhecem como esta ‘transação’ ocorre.

Como Deus demonstrou favor aos pecadores sem comprometer a juízo e a justiça? Como é possível Ele ser justo e justificador?

 

“Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” ( Rm 3:26 )

 

Queda

Para mensurar como se dá a maravilhosa graça de Deus se faz necessário lembrar que todos os homens caíram em desgraça por causa de um só homem que pecou – Adão. Por causa da ofensa de Adão todos os seus descendentes foram feitos pecadores, ou seja, nasceram alienados de Deus, distanciados de Deus, impróprios para Sua glória ( Rm 5:12 e 19; 1Co 15:21 ).

A desgraça que se abateu sobre a humanidade não se deu por questões de ordem moral, antes pela ofensa de um só homem que pecou. Isto significa que os homens tornaram-se pecadores (em outras palavras: filhos da ira, filhos da desobediência) por serem descendentes da carne de Adão, e não por suas condutas inconvenientes nas relações sociais cotidianas.

Por causa da filiação adâmica, todos os homens são formados em pecado e concebidos em iniquidade ( Sl 51:5 ), de modo que, desde o ventre materno estão separados de Deus, dai a designação ‘ímpios’.

Quando a bíblia diz que os homens são ‘pecadores’ evidencia que todos os filhos de Adão são ‘errantes’ desde que nascem ( Sl 58:3 ).

Em um único evento (a ofensa de Adão), toda a humanidade juntamente se desviou e se fez imunda “Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um” ( Sl 53:3 ). Ora, o interprete deve divisar bem, ter bem nítido que os homens não se ‘fazem’ imundos porque são roubadores, homicidas, detratores, homossexuais, mentirosos, invejosos, etc., antes porque todos ‘juntamente’ são herdeiros da penalidade imposta a Adão.

do que acabamos de evidenciar acima através da seguinte assertiva: “Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece” ( Jo 3:36 ). Ora, a ira de Deus permanece sobre os homens em função de não crerem em Cristo, e não em função de se portarem de modo inconveniente.

 

A ira

A ira de Deus permanece sobre aquele que não crê, porque quem não crê que Jesus é o Filho de Deus permanece filho de Adão, portanto herdeiro da ira, consequência da desobediência ( Ef 2:2 -3).

O termo ‘ira’ não deve ser entendido como uma emoção ou sentimento colérico da parte de Deus. Da mesma forma que os descendentes de Adão são designados ‘filhos da ira’ para apontar-lhes a condição de sujeição ao pecado, o que não significa que são filhos de um sentimento colérico ou de uma emoção, a ira de Deus não se refere a um sentimento, antes à justa retribuição estabelecida para os filhos da desobediência de Adão.

É significativo o fato de que, na bíblia, os homens não são designados ‘filhos do pecado’, antes são designados ‘filhos da desobediência’ ou ‘filhos da ira’. Isto porque a ‘filiação’ envolve duas questões: a) natureza, e; b) herança. Os filhos são participantes da natureza e da condição dos seus genitores e, consequentemente, tem direito a uma herança.

Quando a bíblia diz que os homens são ‘escravos do pecado’, e não ‘filhos do pecado’, significa que, apesar de estarem ‘presos’ ao senhorio do pecado, há a possibilidade de serem livres. Mas, se a bíblia dissesse que os homens são ‘filhos do pecado’, significaria que não haveria a possibilidade de livramento da condição de filhos e, concomitantemente, não haveria como não receber a ‘herança’ desta filiação: ira.

Dai a máxima: ‘O filho permanece para sempre em casa, o escravo não’ que abstraímos da resposta que Jesus deu aos seus interlocutores: “Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado. Ora o servo não fica para sempre em casa; o Filho fica para sempre” ( Jo 8:34 -35), e da fala de Sara: “E disse a Abraão: Ponha fora esta serva e o seu filho; porque o filho desta serva não herdará com Isaque, meu filho” ( Gn 21:10 ).

Esta é uma triste descrição de como era os sistemas escravagistas, visto que aos escravos não era atribuído nenhum bem ou herdade, antes o que era liquido e certo aos escravos era a morte. Somente a morte livrava os escravos dos seus senhores, assim como a morte do marido torna livre a mulher ( Rm 6:7 ; Rm 7:2 ).

Quando é dito que os homens são ‘filhos da ira’, significa que não há como escaparem da condição que lhe é pertinente e nem da ‘herança’ funesta que receberá. Quando é dito que os homens são ‘escravos do pecado’, a história muda, porque significa que ainda há esperança: a possibilidade de se verem livres da condição de escravos.

Adão não foi gerado do pecado, antes criado por Deus. Quando pecou, Adão deixou de ser livre e passou à condição de escravo do pecado. Não se pode dizer que Adão é filho do pecado porque, na verdade, ele foi criado por Deus livre. A condição de servo só veio quando da ofensa, e em consequência, a morte.

Com relação à existência, Adão era criatura de Deus. Com relação ao pecado Adão tornou-se servo. Com relação à ira tornou-se filho, pois em função da ofensa não passaria dele a penalidade estabelecida: a morte. Como a morte é certa, o homem é tido por filho da ira, pois não pode livrar-se da penalidade estabelecida em decorrência da desobediência.

 

A possibilidade

Mas, como é possível o homem deixar de ser ‘pecador’?

Como a escravidão é uma figura da sujeição do homem ao senhorio do pecado, a resposta para o homem deixar o jugo do pecado é morrendo!

Na antiguidade, os escravos que não alcançavam a liberdade durante o curso de sua existência somente seriam livres do jugo da servidão quando morressem, visto que estavam presos por toda a vida aos seus donos por causa da lei. Somente a morte do escravo cortava o vínculo de servidão estabelecido pela lei, assim como somente a morte de um dos cônjuges interrompe o vinculo do casamento “NÃO sabeis vós, irmãos (pois que falo aos que sabem a lei), que a lei tem domínio sobre o homem por todo o tempo que vive?” ( Rm 7:1 ).

O medo da morte era o que mantinha os escravos sujeitos a servidão por toda vida, visto que o instinto de preservação da própria existência falava mais alto. Bastava dar cabo da própria vida para se verem livres da servidão, no entanto, o medo da morte o que impedia “E livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão” ( Hb 2:15 ).

 

A morte é diferente de descer ao pó

O homem está morto por ter desobedecido ao que foi estabelecido no Éden: “E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:16 -17).

Quando Adão comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal de imediato morreu, ou seja, a comunhão com Deus foi cortada e passou a estar sujeito a um novo senhor: o pecado. O homem (macho e fêmea) morreu para Deus, a única pessoa com que tinha comunhão.

Após o homem ter morrido para Deus, Deus estabeleceu a dor na concepção da mulher e que o homem comeria do suor do seu rosto até que voltasse ao pó da terra, ficando estabelecida a morte física, quando os homens perdem a comunhão com seus entes queridos.

Enquanto estava no Éden antes da ofensa, Adão estava vivo para Deus e o pecado ainda não havia entrado no mundo. Após pecar, Adão morreu para Deus, e passou a viver no pecado. Aqueles que vivem para o pecado estão mortos para Deus, e vice-versa. Se o homem descer ao pó da terra sem Cristo, para sempre estará separado de Deus.

 

Justo

Quando a bíblia diz que Deus é justo, significa dizer que Deus é a medida absoluta de retidão e equidade. Este atributo se observa por diversos fatores tais como:

a) Deus não mente;

b) Deus não muda;

c) O culpado não é tido por inocente;

d) A pena não passa da pessoa do transgressor;

d) Não aceita suborno;

e) Suas leis são expressões da Sua natureza;

f) A ninguém oprime.

 

A retidão e a justiça de Deus verificam-se no Éden quando Deus dá o seguinte mandamento ao primeiro homem em um lugar perfeito: “De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 1:16 -17).

O mandamento dado no Éden é santo justo e bom porque nele estava implícito a liberdade do homem (De toda a árvore do jardim comerás livremente…), e o cuidado de Deus (… mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás).

A ordem veta ao homem o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal pelas consequências (certamente morrerás), e não por opressão. O mandamento visava preservar a liberdade e a comunhão entre o Criador e a criatura, concedo a informação necessária para que o homem pudesse se guiar.

A palavra de Deus é expressão da verdade (do que é real, do que é efetivo), de modo que, quando o homem exerceu a sua liberdade e comeu do fruto da árvore do conhecimento, as consequências se efetivaram: o homem passou a estar alienado de Deus (morto) e, em função do que era intrínseco ao fruto do conhecimento do bem e do mal o homem tornou-se como Deus (conhecimento do bem e do mal).

Deus é imutável, não pode mentir e a sua palavra não volta vazia “Em esperança da vida eterna, a qual Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos dos séculos” ( Tt 1:2 );  “Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo” ( 2Tm 2:13 ).

Se Deus voltasse atrás na sua palavra permanecendo em comunhão com o homem após a ofensa, Deus não seria firme, fiel, justo e imutável. Primeiro por não ter cumprido com Sua palavra sendo firme e fiel. Em segundo lugar, decorrente do primeiro, estaria oprimindo o homem que, ao comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, claramente demonstrou que não confiava em Deus e que não queria permanecer em comunhão com ele.

Manter o homem em comunhão após a ofensa seria arbitrário e opressivo da parte de Deus. Se a pena não fosse aplicada a palavra de Deus deixaria de ser verdadeira, consequentemente, não seria digno de confiança. Como confiar em quem não hora a sua palavra?

 

Justiça

Como o homem desobedeceu, a pena não poderia passar do homem, pois se outro sofresse a pena em lugar do transgressor não haveria justiça, pois o correto é a alma que pecar sofra as consequências “Então disse o SENHOR a Moisés: Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro” ( Ez 32:33 ); “A alma que pecar, essa morrerá” ( Ez 18:20 ).

É por isso mesmo que Deus diz: “De palavras de falsidade te afastarás, e não matarás o inocente e o justo; porque não justificarei o ímpio ( Êx 23:7 ). Se Deus declarasse o ímpio justo, jamais seria justo.

Observe que jamais Deus exterminaria o justo com o ímpio quando executa juízo: “Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra?” ( Gn 18:25 ).

Ora, antes de abordar a solução dada para a condição do homem em sujeição ao pecado de modo gracioso, primeiro se faz necessário compreender como foi solucionado o problema de Deus declarar justo o ímpio “Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça” ( Rm 4:5 ).

Antes de Deus justificar o homem, primeiro satisfez a Sua justiça “Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” ( Rm 3:26 ). Qual justiça foi satisfeita? A estabelecida na lei outorgada no Éden que é santa, justa e boa, pois dela decorre que a alma que pecar morrerá. Daí a máxima: o salário do pecado é a morte ( Rm 6:23 ), e como todos pecaram por estarem na coxa de Adão, todos estavam sujeitos ao pecado por causa da morte “Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei” ( 1Co 15:56 ).

Desde que Adão pecou e o pecado entrou no mundo, todos estão mortos em delitos e pecados, pois todos pecaram. Todos os homens estão alienados de Deus e, se descerem ao pó da terra, seguem ao juízo do grande Trono Branco perdidos para toda a eternidade ( Ef 2:1 ; Rm 3:23 ; Rm 5:12 ).

Esta realidade foi descrita por João Batista desta forma: “E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo” ( Mt 3:10 ), uma releitura das palavras anunciadas pelo profeta Isaias: “Uma voz diz: Clama; e alguém disse: Que hei de clamar? Toda a carne é erva e toda a sua beleza como a flor do campo. Seca-se a erva, e cai a flor, soprando nela o Espírito do SENHOR. Na verdade o povo é erva. Seca-se a erva, e cai a flor, porém a palavra de nosso Deus subsiste eternamente” ( Is 40:6 – 8).

Sem exceção, todos os descendentes de Adão estão sujeitos à penalidade estabelecida no Éden: alienados de Deus, por isso são arrancados: “Ele, porém, respondendo, disse: Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” ( Mt 15:13 ).

A primeira ação de Deus justo para redimir o homem foi substituir a desobediência de Adão pela obediência do último Adão (Cristo). Sem a substituição de ato: obediência pela desobediência, jamais haveria justiça e redenção, pois se um desobedeceu e muitos pecaram, segue-se que se um obedecesse, muitos seriam justificados ( Rm 5:15 ). Se um trouxe a morte, somente por um seria possível abolir a morte estabelecendo a vida “E que é manifesta agora pela aparição de nosso Salvador Jesus Cristo, o qual aboliu a morte, e trouxe à luz a vida e a incorrupção pelo evangelho” ( 2Tm 1:10 ).

Sem a substituição de ato, obediência pela desobediência, jamais haveria meio de salvação que não contrariasse a natureza justa de Deus “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” ( Rm 5:19 ).

Esta substituição de ato, obediência pela desobediência, só poderia ser feita por alguém livre de pecado, assim como esteve livre o primeiro homem. Para haver a substituição de ato, o Verbo Eterno que estava com Deus e que a tudo criara se fez carne e habitou entre os homens. Em tudo se fez semelhante aos homens, sujeitos as mesmas aflições e fraquezas ( Hb 2:18 ).

Adão desobedeceu em um ambiente perfeito contrariando uma única ordem: ‘… dela não comerás’. O Verbo eterno quando em carne, apesar das aflições, fraquezas e tentações cumpriu toda a justiça, ou seja, nada ab-rogou da lei ou dos profetas ( Mt 5:17 ). A obediência de Cristo é demonstrada no fato de que Ele morreu segundo a ordem do Pai e morte de cruz “E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz” ( Fl 2:8 ; Hb 5:8 ).

Ao resolver o problema da justiça através da obediência de Cristo ( Hb 10:9 -10), visto que Jesus foi obediente em tudo, através da carne do Cristo, Deus abriu um novo e vivo caminho pelo qual o homem passou a ter acesso a Ele “Pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne” ( Hb 10:20 ).

O caminho foi aberto através da obediência, e não em razão de um sacrifício, pois de Cristo disse Deus: “Por isso, entrando no mundo, diz: Sacrifício e oferta não quiseste, Mas corpo me preparaste” ( Hb 10:5 ). É um equivoco entender que a salvação se deu em razão de Cristo voluntariar-se para oferecer o seu corpo em sacrifício, pois a oferta do corpo de Cristo, na verdade, se deu em obediência ao mando do Pai. A salvação se deu pela obediência de Cristo que, segundo a vontade do Pai derramou a sua alma na morte “Ninguém ma tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou; tenho poder para a dar, e poder para tornar a tomá-la. Este mandamento recebi de meu Pai” ( Jo 10:18 ).

Quando ouve as boas novas de salvação e crê que Jesus é o Cristo, o pecador morre com Cristo e é sepultado. A pena estabelecida não passa da pessoa do transgressor, visto que ao crer tomou sobre si a sua própria cruz e seguiu após Cristo. Ao crer no evangelho o pecador torna-se participante da carne e do sangue de Cristo, de modo que se conforma como Cristo na sua morte.

Ora, a obediência de Cristo substitui a desobediência de Adão, e a carne de Cristo tornou-se um novo e vivo caminho de livre acesso a Deus, através da morte e ressureição de Cristo. O que falta ainda para a redenção do homem?

Falta ao homem no pecado morrer satisfazendo o estabelecido na lei outorgada no Éden.

Se o homem desce ao pó da terra sem crer em Cristo, segue para eternidade perdido, mas se o homem crê que Cristo é o Filho de Deus segundo as Escrituras, morre com Cristo e é sepultado com Ele ( Rm 6:3 -8).

Na morte do pecador com Cristo a justiça do mandamento dado no Éden é satisfeita, pois a morte de Cristo só é substitutiva em relação à cruz do calvário, no entanto, todos os que creem tornam-se participantes da carne e do sangue de Cristo, ou seja, efetivamente crucificam o corpo do pecado e as suas concupiscências, morrem e são sepultados.

Mas, como está estabelecido que o homem deve morrer, para que Deus seja justo e a sua palavra permaneça firme, quando o homem crê em Cristo morre, sendo sepultado com Cristo.

O homem que estava vivo para o pecado e morto em delitos e pecados para Deus, após morrer com Cristo, passa a viver para Deus. O crente em Cristo morre para o pecado, portanto, a justiça de Deus é estabelecida e o homem fica livre do seu antigo senhor, o pecado.

 

A maravilhosa graça

“Para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça pela sua benignidade para conosco em Cristo Jesus” ( Ef 2:7 )

O cristão precisa compreender o quão significativo é não ter contradição entre a graça e a justiça de Deus. Em nossos dias são poucos os cristãos que conseguem divisar bem que não há contradição alguma em Deus justo declarar justo o ímpio.

É a palavra de Deus que garante justificação aos que creem em Cristo, no entanto, não haveria injustiça alguma em Deus se não houvesse resgate para o homem. Semelhantemente, quando o homem morre com Cristo, a justiça de Deus é satisfeita, pois se cumpre a palavra que foi estabelecida: “… certamente morrerás”, e não haveria injustiça alguma se só a comunhão fosse estabelecida na eternidade e o homem não ressurgisse com Cristo.

É neste ponto que a graça de Deus se evidencia maravilhosa, pois ao crer em Cristo o homem alienado depois da morte merecida torna a ter comunhão com o Criador, ou seja, é vivificado e ressurge uma nova criatura por estar em Cristo “Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus” ( Ef 2:5 -6).

Quando o crente morre com Cristo, o corpo está morto, visto que o vínculo com o pecado só é desfeito com a morte de quem servia o pecado, entretanto, apesar de o corpo ter sido crucificado, é vivificado pelo Espírito de Deus “E, se Cristo está em vós, o corpo, na verdade, está morto por causa do pecado, mas o espírito vive por causa da justiça. E, se o Espírito daquele que dentre os mortos ressuscitou a Jesus habita em vós, aquele que dentre os mortos ressuscitou a Cristo também vivificará os vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que em vós habita” ( Rm 8:10 -11).

Daí as considerações paulinas: “Porque o amor de Cristo nos constrange, julgando nós assim: que, se um morreu por todos, logo todos morreram” ( 2Co 5:14 ). O corpo que pertencia ao pecado por ter sido gerado da semente corruptível de Adão ao ser crucificado (pela fé em Cristo) é causa de extinção do velho homem e da quebra de vínculo com o pecado ( Rm 6:6 ). Todos os que creem efetivamente morrem com Cristo, de modo que a ninguém devemos fazer referência segundo questões pertinentes à carne do pecado ( 2Co 5:16 ).

Era comum os cristãos lembrarem do Cristo homem, porém, não compreendiam que aquele homem que foi crucificado, Deus o exaltou soberanamente, lhe conferiu um nome que está acima de todos os nomes, sujeitando a Ele toda as coisas ( Hb 2:8 ).

Era comum aos cristãos primitivos fazerem referencia às questões da carne, como: – “Eu sou hebreu de hebreu”; Outros: -“Eu sou Romano de sangue, e não porque comprei cidadania romana”; E ainda aqueles: -“Eu tenho ciência, pois a filosofia tem o seu berço na Grécia”, etc.

Dai o imperativo: a ninguém mais conhecemos segundo a carne, pois todos são filhos de Deus pela fé em Cristo: um novo tempo e uma nova vida, portanto, não havia mais judeus, grego, servo, livre, macho, fêmea, etc. ( Gl 3:26 -29).

O corpo que pertencia ao pecado também é denominado de vaso para desonra, vaso da ira, preparado para a perdição ( Rm 9:21 -22). Ora, todos os homens que vem ao mundo entram por Adão, a porta larga, criados a partir do barro pelo poder de Deus, porém, por causa da semente de Adão, o produto final do barro (vaso) é a desonra, pois em Adão os vasos são para ira, preparados para perdição.

Observe que o apóstolo quando fala do poder criativo de Deus de trazer o homem à existência enfatiza que Deus tem poder sobre o barro, e não sobre o vaso. Sobre o barro Deus tem poder, e faz vasos para honra e desonra, mas o que determina a honra e a desonra dos vasos criados são: o primeiro e o ultimo Adão – Adão e Cristo.

A maravilhosa graça está em que Deus, por ter poder sobre o barro, utiliza a mesma massa que foram criados os vasos para desonra para fazer vasos para honra. O corpo do pecado que era para ser descartado, pelo espírito de Deus que nele habita, torna-se vaso de misericórdia, criado para honra “Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra? E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição; Para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou” ( Rm 9:21 -23).

Ao ressuscitar aqueles que creem com Cristo Deus cria (bara) justos, e em seguida declara qual é a condição do novo nascido: justo. Aí está a essência da justificação: Deus só declara o homem justo quando o homem é criado de novo em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ).

O velho homem jamais é justificado (declarado justo), pois Deus jamais justifica o ímpio. No entanto, quando o homem morre com Cristo a justiça de Deus é satisfeita, e pelo poder da sua palavra, que é semente incorruptível, Deus faz a sua plantação que jamais será arrancada, pois a palavra de Deus permanece para sempre, assim como os que da palavra são gerados ( Mt 15:13 ; 1Pe 1:25 ; 1Jo 2:17 ).

 

As riquezas da graça

“Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens…” ( Tt 1:11 )

 

Após enfatizar a necessidade de os cristãos terem um comportamento aceitável em sociedade, ou seja, portando-se de modo a não dar escândalo a judeus, gregos e nem a igreja de Deus, o apóstolo Paulo apresenta a razão: a graça de Deus em Cristo trouxe salvação a todos os homens!

Os cristãos não devem ser causa de escândalo (vergonha) e nem deve se envergonhar do evangelho, o testemunho de Cristo ( 2Tm 1:8 ), pois é através do evangelho, que é poder de Deus e palavra de reconciliação, que o homem é salvo “… segundo o poder de Deus que nos salvou…” ( 2Tm 1:9 ); “Não me envergonho do evangelho, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê…” ( Rm 1:16 ); “Isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação” ( 2Co 5:19 ).

Quando falamos de redenção, salvação, justificação, santificação, perdão, nova vida, regeneração, abordamos a maravilhosa graça de Deus demonstrada em Cristo Jesus, pois graciosamente o homem é chamado (καλέσαντος/kaleō) das trevas para a maravilhosa luz de Deus, e os que creem são transportados das trevas para o reino do Filho “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” ( 1Pe 2:9 ); “O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” ( Cl 1:13 ).

Muitos são chamados (κλητοί=termo cognato derivado de kaleō) e poucos os escolhidos, ou seja, muitos ouvem o convite do evangelho, mas poucos são os que ouvem e creem. Muitos são convidados a entrar pela porta estreita, mas são poucos os que atendem o chamado ( Mt 7:13 ).

Tudo o que abordamos até aqui refere-se à maravilhosa graça de Deus, anunciada desde o Antigo Testamento, da qual é participante todos os homens que em todos os tempos creem em Deus que anunciou redenção “Bem-aventurados aqueles cujas maldades são perdoadas, e cujos pecados são cobertos” ( Rm 4:7 ).

Mas aos que creem durante o tempo denominado plenitude dos gentios ( Rm 11:25 ), ou plenitude dos tempos ( Gl 4:4 ; Ef 1:10 ), além da maravilhosa graça, há as riquezas da graça, pois é conferido aos crentes uma herança. Além dos crentes em Cristo serem salvos pela misericórdia de Deus mediante a lavagem da regeneração e renovação afim de que fossem declarados justos, também fomos feitos herdeiros de Deus, coerdeiros com Cristo ( Tt 3:7 ; Rm 8:17 ; Rm 8:32 ).

O chamado (κλητοί=termo cognato derivado de kaleō) pelo evangelho é um convite à salvação, e os salvos em Cristo segundo o poder de Deus (evangelho) são ‘chamados com uma santa vocação’ (καλέσαντος κλήσει). O chamado através do evangelho se deu na plenitude dos tempos, já o chamado com uma santa vocação se deu na eternidade (antes dos tempos eternos).

Enquanto o chamado pelo evangelho visa a salvação do homem, a santa vocação tem em vista o próprio propósito que Deus estabeleceu em Cristo.

A riqueza da graça é que todos os que creem em Cristo, além de serem transportados para o reino do Filho, já não possuem outro destino a não ser serem filhos de Deus para que Cristo seja o primogênito entre muitos irmãos ( Rm 8:29 ).

Segundo o propósito eterno que Deus estabeleceu em Cristo de fazê-Lo primogênito entre muitos irmãos é que Deus estabeleceu antes dos tempos eternos (predestinou) que todos os que fossem participantes da carne e do sangue de Cristo através da igreja, seriam conforme a imagem de Jesus, ou seja, semelhantes a Ele ( 1Jo 3:1 -2).

Deus não somente predestinou os membros do corpo de Cristo, a igreja, como também os elegeu antes dos tempos eternos para serem santos e irrepreensíveis diante de Deus ( Ef 1:3 ). De condenação alguma os filhos de Deus são passíveis, pois são participantes da natureza divina ( 1Pe 1:4 ).

Ora, as riquezas da graça são concedidas aos membros do corpo de Cristo segundo o beneplácito que Deus propusera em Si mesmo de fazer convergir todas as coisas em Cristo ( Ef 1:10 ; Ef 3:11 ). Ao estabelecer Cristo como a cabeça do corpo, que é a igreja, todas as coisas se convergem para Cristo, pois entre os filhos de Deus que são semelhantes a Ele, Ele é proeminente: a cabeça.

Foi estabelecido que em Cristo a igreja é herança, predestinação que visa especificamente o louvor da glória de Deus!

Ler mais

Isaías 58 – O jejum e o sábado verdadeiro

O apóstolo Paulo viu algumas pessoas cumprindo essas proibições que se baseiam em não toques, não proves e não manuseies sendo empregas como meio de se achegar a Deus e avisou que tais práticas eram princípios próprios ao mundo, preceitos de homem, visto que consistia somente em aparência de sabedoria, culto voluntário, humildade fingida, severidade com o corpo, mas não tinha valor algum para extirpar a natureza pecaminosa herdada de Adão ( Cl 2:20 -23).


 

O jejum e o sábado verdadeiro

por

Claudio F. Crispim

SMASHWORDS EDITION

* * * * *

PUBLISHED BY:

Claudio F. Crispim on Smashwords

O jejum e o sábado verdadeiro

Copyright © 2010 by Claudio F. Crispim

 

Smashwords Edition License Notes

This ebook is licensed for your personal enjoyment only. This ebook may not be re-sold or given away to other people. If you would like to share this book with another person, please purchase an additional copy for each person you share it with. If you’re reading this book and did not purchase it, or it was not purchased for your use only, then you should return to Smashwords.com and purchase your own copy. Thank you for respecting the author’s work.

 

Notas de Licença Smashwords

Este e-book está licenciado para seu uso pessoal. Este e-book não pode ser vendido ou cedido a outras pessoas. Se você deseja compartilhar este livro com outra pessoa, será necessário adquirir uma cópia adicional. Se você estiver lendo este livro e não adquiriu, ou ele não foi comprado apenas para seu uso, então você deve voltar ao “Smashwords.com” para comprar sua própria cópia. Obrigado pelo respeito ao trabalho do autor.

 

* * * * *

 

Esta obra constitui-se um comentário ao capítulo 58 do Livro do profeta Isaias, e aborda dois temas que merecem a consideração de qualquer estudante aplicado das Escrituras: o jejum e o sábado.

Pela abundancia de informações que contém, a presente obra pode ser considerada de importância impar aos cristãos, pois visa conscientizá-los a deixar para trás tudo o que é pertinente a ‘sombra dos bens futuros’, pois os sacrifícios que continuamente se ofereciam segundo a compreensão distorcida que os judeus possuíam da lei, jamais podem aperfeiçoar os que cultuam a Deus.

Que todos os cristãos possam prosseguir em conhecer o Senhor, pois Ele é a realidade dos bem futuros, e somente por intermédio d’Ele é possível ao homem oferecer em sacrifício o fruto dos lábios.

Claudio Crispim

Articulista do Portal Estudo Bíblico

 

* * * * *

 

DEDICATÓRIA

À minha esposa Jussara Crispim, companheira fiel e amiga em todos os momentos, e o seu valor excede ao de muitos rubis.

* * * * *

O JEJUM E O SÁBADO VERDADEIRO

 

Introdução

“E isto vos será por estatuto perpétuo: no sétimo mês, aos dez do mês, afligireis as vossas almas, e nenhum trabalho fareis nem o natural nem o estrangeiro que peregrina entre vós” ( Lv 16:29 ).

Há uma determinação divina ao povo de Israel que se refere às práticas que denominamos jejum: um dia pré-determinado para que o povo afligisse (jejum) as suas almas e não podiam exercer nenhum ofício (trabalho).

Deus instituiu que o povo de Israel jejuaria (afligiria as suas almas) no dia dez do sétimo mês, e que este dia também deveria ser um dia reservado para descanso ( Lv 16:31 ; Nm 29:7 ).

Mas, como jejuar, ou melhor, como afligir a alma? Qual o verdadeiro jejum?

O povo de Israel sempre buscou cumprir a determinação divina, porém, juntamente com os seus interpretes entenderam que, para afligir a alma (jejuar) bastava ficar cabisbaixo, com o semblante triste, sem comer, sem beber, sem lavar o rosto, sem utilizar perfumes, utilizando sacos em lugar de vestes, e até mesmo deitar cinzas sobre a cabeça.

Por entenderem que Deus se agradava de quem afligia o corpo, as práticas acima elencadas tornaram-se freqüentes. Dentre elas, a abstinência de alimentos tornou-se uma das práticas mais utilizadas como meio de se achegar a Deus.

O apóstolo Paulo viu algumas pessoas cumprindo essas proibições que se baseiam em não toques, não proves e não manuseies sendo empregas como meio de se achegar a Deus e avisou que tais práticas eram princípios próprios ao mundo, preceitos de homem, visto que consistia somente em aparência de sabedoria, culto voluntário, humildade fingida, severidade com o corpo, mas não tinha valor algum para extirpar a natureza pecaminosa herdada de Adão ( Cl 2:20 -23).

A análise do capítulo 58 de Isaias esclarece qual é o verdadeiro jejum estabelecido e porque o jejum praticado pelo povo de Israel não era aceito por Deus.

 

* * * * *

O pecado de Israel

 

“Clama em alta voz, não te detenhas, levanta a tua voz como a trombeta e anuncia ao meu povo a sua transgressão, e à casa de Jacó os seus pecados” ( Is 58:1 ).

O profeta Isaias foi comissionado por Deus a anunciar e demonstrar qual era a transgressão de Israel.

Isaias precisava anunciar em alta voz, a plenos pulmões, ou seja, como uma trombeta, quais eram os pecados da casa de Jacó. Os pecados de Israel precisavam ser anunciados como que por uma trombeta, pois apesar de escutarem não davam ouvidos.

Neste verso há um trocadilho aos moldes do verso 1 do capítulo 48 de Isaias: “Ouvi isto, casa de Jacó, que vos chamais do nome de Israel, e saístes das águas de Judá, que jurais pelo nome do SENHOR, e fazeis menção do Deus de Israel, mas não em verdade nem em justiça” ( Is 48:1 ).

O significado do nome Jacó é ‘suplantador’, porém, foi tido por ‘enganador’ pelo seu irmão Esaú ( Gn 27:36 ), ou seja, o povo se autonomeava o Israel de Deus, mas não passavam de casa do ‘engano’, isto porque faziam ‘…menção do nome do Deus de Israel, mas não em verdade nem em justiça’ ( Is 48:1 ).

Qual a transgressão do povo de Israel? Qual o pecado dos filhos de Jacó?

O pecado do povo de Israel decorre do pecado de Adão, o primeiro pai da humanidade, e os interpretes de Israel não compreenderam esta verdade “… porque eu sabia que procederias muito perfidamente, e que eras chamado transgressor desde o ventre” ( Is 48:8 compare com Sl 58:3 ).

Por serem descendentes da carne de Abraão, o povo de Israel entendia que eram filhos de Deus e, que, portanto, estavam livres da condenação de Adão “Teu primeiro pai pecou, e os teus intérpretes prevaricaram contra mim” ( Is 43:27 ).

Não atinaram que todos os homens, inclusive os filhos de Jacó, desviaram-se e juntamente se fizeram imundos por causa da transgressão de Adão “Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um” ( Sl 53:3 ).

Para se livrar do pecado de Adão não basta ao homem ser descendente da carne de Abraão, antes é necessário ter a mesma fé que o crente Abraão para alcançar a justificação divina “Nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência. Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência” ( Rm 9:7- 8).

A tarefa do profeta Isaias foi semelhante à de João Batista, uma vez que ambos precisavam dissuadir o seu povo de presumir por si mesmo que era salvo por ser descendente de Abraão “E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão” ( Mt 3:9 ).

 

* * * * *

Coração distante

 

“Todavia me procuram cada dia, tomam prazer em saber os meus caminhos, como um povo que pratica justiça, e não deixa o direito do seu Deus; perguntam-me pelos direitos da justiça, e têm prazer em se chegarem a Deus” ( Is 58:2 ).

Apesar da necessidade de se apontar o pecado do povo de Israel, Deus chama a atenção do profeta para uma questão importante “Todavia…” (v. 2).

Apesar de continuarem sendo transgressores, todos os dias, os filhos de Jacó (filhos da desobediência, filhos da ira, ou filho do enganador) pareciam procurar a Deus. Apesar de serem pecadores, os filhos de Jacó pareciam sentir prazer em perscrutar qual seria o caminho do Senhor ( Is 48:1 ).

É de se estranhar, mas apesar de Deus anunciar os pecados dos filhos de Jacó, eles se portavam ‘como’ se praticassem a justiça exigida por Deus. Portavam-se ‘como’ se praticassem a lei de Deus, porém, eram pecadores e transgressores!

O povo de Israel se ocupava em perguntar pelas questões pertinentes à lei e demonstrava estar feliz por ir ao templo como se estivesse em plena comunhão com Deus. Eles possuíam zelo de Deus, porém, como disse o apóstolo Paulo, sem entendimento ( Rm 10:2 ).

Honravam a Deus somente com a boca, obedeciam somente aos homens, no entanto, permaneciam longe de Deus “Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” ( Is 29:13 ).

 

* * * * *

Por que não responde?

 

“Dizendo: Por que jejuamos nós, e tu não atentas para isso? Por que afligimos as nossas almas, e tu não o sabes? Eis que no dia em que jejuais achais o vosso próprio contentamento, e requereis todo o vosso trabalho.

Quando questionavam por que Deus não atentava para eles quando afligiam as suas almas (jejuavam), isto demonstra que buscavam saber os caminhos de Deus “Todavia me procuram cada dia, tomam prazer em saber os meus caminhos, como um povo que pratica justiça (…) Dizendo: Por que jejuamos nós, e tu não atentas para isso? Por que afligimos as nossas almas, e tu não o sabes?” (v. 2 -3)

Pelo fato de:

a)  Entenderem que procuravam a Deus continuamente;

b) Entenderem que tinham prazer em saber os caminhos de Deus;

c)  Por portarem-se como um povo que praticava a justiça;

d) Por não deixarem o direito (lei) de Deus;

e)  Por quererem saber pelos direitos da justiça, e;

f)  Por entenderem que tinham prazer em se achegarem a Deus.

O povo de Israel ficava apreensivo e questionavam porque Deus não os atendia. As perguntas deste verso surgiram porque o povo de Israel entendia que era fiel a Deus em tudo que foi prescrito na lei, mas que Deus não os atendia por capricho.

Estas eram as perguntas formuladas pelo povo:

a)  Por que Deus não atendia o jejum que faziam? e;

b) Por que Deus parecia desconhecer que jejuavam?

 

* * * * *

Não jejuem como hoje

 

“Eis que para contendas e debates jejuais, e para ferirdes com punho iníquo; não jejueis como hoje, para fazer ouvir a vossa voz no alto” ( Is 58:4 ).

Esta é a resposta de Deus às perguntas formuladas pelo povo de Israel: “Eis que no dia em que jejuais achais o vosso próprio contentamento ( Mt 6:16 ), e requereis todo o vosso trabalho. Eis que para contendas e debates jejuais, e para ferirdes com punho iníquo; não jejueis como hoje, para fazer ouvir a vossa voz no alto” (v. 3 e 4).

Por se absterem de comer, de beber, de trabalhar, etc., o povo de Israel entendiam que estavam realizando uma obra que Deus lhes havia comissionado, porém, tal obra pertencia somente a eles (vosso trabalho). Por jejuarem, entendiam que Deus lhes devia alguma coisas (v. 3).

Deus observa que eles jejuavam para satisfazer uma disposição interna que lhes era próprio: a voluntariedade, porém buscavam cumprir a lei segundo um entendimento carnal (buscavam um contentamento próprio), e queriam que Deus lhes retribuísse pelos jejuns realizados “As quais têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade, e em disciplina do corpo, mas não são de valor algum senão para a satisfação da carne” ( Cl 2:23 ).

Além do mais, eles jejuavam para contenderem entre si, com o fito de dar sustentação aos seus argumentos quando em debates, e com tais práticas obtinham armas com que ‘ferirem’ o próximo e ganhar a discussão, porém, Deus os alerta para que não procedessem desta forma.

Não deviam jejuar somente para tornar público a sua religiosidade, como continuaram fazendo os escribas e os fariseus à época de Cristo.

 

* * * * *

O jejum escolhido

 5  “Seria este o jejum que eu escolheria, que o homem um dia aflija a sua alma, que incline a sua cabeça como o junco, e estenda debaixo de si saco e cinza? Chamarias tu a isto jejum e dia aprazível ao SENHOR?” ( Is 58:5 ).

Neste verso Deus questiona seus interlocutores acerca do jejum que ‘praticavam’ “Seria este o jejum que eu escolheria..?” (v. 5).

Deus demonstra através de perguntas que o jejum que ordenou ao seu povo não consistia em ficarem contristados e cabisbaixos. Jejuar não consistia em não utilizar perfumes, em não lavar o rosto, ou cobrir-se com saco e deitar-se sobre cinzas. Rasgar as vestimentas não era jejum e nem significava que o homem tinha se tornado agradável a Deus ( Jr 14:10 ). Tais práticas não promovem a aflição na alma que é exigida por Deus ( Lv 29:7 ).

O Senhor rejeitou os jejuns do povo de Israel, pois eles eram de duras servis, ou seja, eram insubordinados, gostavam de andar errantes, pois seguiam seus próprios pensamentos, e não a lei de Deus “Assim diz o SENHOR, acerca deste povo: Pois que tanto gostaram de andar errantes, e não retiveram os seus pés, por isso o SENHOR não se agrada deles, mas agora se lembrará da iniqüidade deles, e visitará os seus pecados. Disse-me mais o SENHOR: Não rogues por este povo para seu bem. Quando jejuarem, não ouvirei o seu clamor, e quando oferecerem holocaustos e ofertas de alimentos, não me agradarei deles; antes eu os consumirei pela espada, e pela fome e pela peste” ( Jr 14:10 -12).

Observe que o profeta Jeremias também apregoou que o povo de Israel era iníquo. Por quê? Porque eram de ‘dura servis’, ou seja, não obedeciam ao Senhor, não deixavam ser guiados pelo Senhor ( Is 66:3 ).

Deus não se agradava dos filhos de Jacó e haveria de puni-los. Por quê? Por que ‘gostavam’ de andar errantes, ou seja, continuavam errantes uma vez que se extraviaram em Adão e permaneciam escolhendo os seus próprios caminhos ( Sl 53:3 ).

Desde a concepção se desviaram, e não retiraram os seus pés do caminho largo de perdição, e por isso, Deus não se agradava deles ( Sl 58:3 ). Eles não eram filhos de Abraão, ou seja, filhos de Deus, pois ainda permaneciam sendo filhos do primeiro pai da humanidade, Adão “Teu primeiro pai pecou, e os teus intérpretes prevaricaram contra mim” ( Is 43:27 ).

Através deste verso fica claro que Deus não se agradava do que entendiam ser um jejum agradável a Deus. Deus aponta para o jejum que realizavam, e recrimina todos os filhos de Jacó, dizendo: “Seria este o jejum que Eu escolheria…?”. A resposta é: Não! (v. 5).

 

* * * * *

Ligaduras da impiedade

 

“Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo e que deixes livres os oprimidos, e despedaces todo o jugo?” ( Is 58:6 ).

Neste verso Deus apresenta o jejum que havia estipulado para o seu povo, e que haviam distorcido. Somente do modo descrito neste verso verdadeiramente afligiriam a alma! Somente deste modo ‘afligiriam’ a alma a ponto de serem vivificados pelo Senhor ( Is 57:15 ).

O verdadeiro jejum (que Deus estipulou para o seu povo) consiste em ‘soltar as ligaduras da impiedade’, o mesmo que ‘desfazer as ataduras do jugo’, o mesmo que ‘libertar os oprimidos’, o mesmo que ‘soltar os presos de suas prisões’ (v. 6).

O que seria as ‘ligaduras da impiedade’? À época do profeta Isaias havia muitos doentes que necessitavam que as suas feridas fossem tratadas. Seria esta a recomendação divina? Que o povo de Israel fosse caridoso e tratasse dos ferimentos dos necessitados? Deus estava estabelecendo uma sociedade mais justa e igualitária? Não!

Observe que a ligadura que se devia soltar é específica: a ligadura da ‘impiedade’. Todos em Israel deviam livrar-se deste ‘trapo’ de imundície posto sobre as chagas do pecado. Precisavam livrar-se dos curativos que cobriam as chagas do pecado, pois as chagas os tornavam imundos diante de Deus.

Qual é a ‘atadura do jugo’, ou ‘atadura da servidão’? De que jugo Deus estava protestando? Do jugo do pecado, da servidão ao pecado, conforme o exposto no verso 1. A ‘atadura’ diz do domínio que o pecado exerce sobre os filhos de Jacó e sobre todos os homens que não crêem em Deus.

É certo que à época de Isaias havia escravos que serviam aos seus senhores em Israel. Seria o caso de Deus estar requerendo dos israelitas que tratassem melhor os seus servos, ou que fossem mais humanitários com aqueles que estavam presos em masmorras? Não!

Ao ler este verso, não se deve ignorar que os termos: jugo e ligadura estão relacionados com a palavra ‘impiedade’, ou seja, de acordo com as escrituras, ímpio é aquele que está distante de Deus.

Como podiam jejuar segundo a palavra do Senhor se o povo de Israel permanecia preso ao pecado e sobrecarregado de iniqüidades? Como soltar as ligaduras da impiedade se o povo de Israel permanecia sendo transgressores diante de Deus?

Como soltar as ligaduras da impiedade? Como desfazer as ataduras do pecado? Como deixar os oprimidos (quebrantados) livres? Como ‘jejuar’ segundo o jejum estipulado pelo Senhor?

Soltar as ligaduras da ‘impiedade’ é algo possível somente a Deus ( Jr 2:20 ). Tornar os oprimidos livres não é obra de homens, é obra de Deus “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” ( Mt 11:28 ). As ataduras do jugo do pecado somente Deus pode removê-las “Ó SENHOR, deveras sou teu servo; sou teu servo, filho da tua serva; soltaste as minhas ataduras” ( Sl 116:16 compare com v. 6).

Por que o verdadeiro jejum refere-se a algo que somente Deus pode realizar? Por que Deus determinou ao povo que afligisse a alma?

Ora, Deus estabeleceu o afligir da alma como estatuto para que o povo de Israel compreendesse que necessitavam confiar n’Ele. O afligir da alma exigido no dia dez do sétimo mês era para demonstrar que, mesmo após terem sido resgatados do Egito, ainda continuavam presos ao pecado.

Eles precisavam compreender que quando foram resgatados do Egito somente ocorreu uma libertação nacional, o que não poderia ser confundido com libertação do pecado.

Observe que Deus deixou o povo de Israel vagando pelo deserto, até mesmo deixou o povo ter fome, e depois o alimentou com o pão dos anjos, para dar-lhes a entender que não é de pão que o homem adquire vida, antes das palavras provenientes da boca de Deus “E te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” ( Dt 8:3 ).

Isto quer dizer que, mesmo após terem sido resgatados do Egito os filhos de Jacó ainda permaneciam mortos em delitos e pecados, e que necessitavam da palavra de Deus para adquirirem vida “Entre os quais todos nós (Judeus e gentios) também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também” ( Ef 2:3 ); “E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados” ( Ef 2:1 ); “Isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação” ( 2Co 5:19 ).

Quando estavam sendo resgatados do Egito, Deus instituiu ao povo de Israel que deveriam comer ‘ervas amargas’ juntamente com o cordeiro sem mácula e mancha ( Ex 12:8 ).

E como deveriam comer o cordeiro juntamente com as ervas amargas? Com: “Os vossos lombos cingidos, os vossos sapatos nos pés, e o vosso cajado na mão; e o comereis apressadamente; esta é a páscoa do SENHOR” ( Ex 12:11 ), o que se tornou um memorial da condição aflita que o povo estava antes de ser resgatado do Egito, e de como Deus trabalhou poderosamente para resgatá-los ( Ex 12:12 ; Ex 12:14 ).

Os filhos de Jacó estavam aflitos, cansados e sobrecarregados por causa da opressão do Egito, e Deus obrou poderosamente, provendo ao povo de Israel libertação das mãos dos egípcios.

Ao instituir que deviam afligir a alma, Deus estava dando a entender ao povo de Israel que só foram libertos da escravidão do Egito, porém, estavam sob a servidão do pecado.

E para serem livres do pecado precisavam confiar em Deus que haveria de libertá-los de modo semelhante quando estavam sob a servidão no Egito.

Do mesmo modo que as ervas amargas constituíram-se um tipo da aflição de quando o povo de Israel estava para ser resgatado do Egito, ao instituir o jejum, que é o afligir da alma (afligir a alma é figura do jugo da servidão), Deus estabeleceu elementos para dar a entender ao povo que permaneciam sob domínio do pecado e que necessitavam de Deus para resgatá-los.

As ‘ervas amargas’ foi Deus que instituiu, assim como o ‘afligir da alma’, dois tipos que representam a aflição física e espiritual do povo de Israel.

Ao instituir o jejum Deus estava demonstrando que os filhos de Jacó eram prisioneiros do pecado e que somente na presença do Senhor seriam purificados “Diante do Senhor sereis purificados… “ ( Lv 16:30 ), assim como o foi Abraão “… ande na minha presença, e sê perfeito” ( Gn 17:1 ; Dt 18:13 e Mt 5:48 ).

Para se tornarem filhos de Abraão o povo de Israel precisava da presença do Senhor, porém, entediam de modo equivocado que eram filhos por serem descendentes da carne de Abraão.

Mas, como o homem entra na presença do Senhor? Somente descansando na sua presença, ou seja, crendo na sua palavra “Far-me-ás ver a vereda da vida; na tua presença há fartura de alegrias; à tua mão direita há delícias perpetuamente” ( Sl 16:11).

Qualquer que ouve ‘toda a palavra de Deus’ Deus fará com que veja a vereda da vida ( Dt 8:3 compare com Sl 16:11 ). Na presença do Senhor há fartura de alegria, pois todos que entram na sua presença são bem-aventurados como o crente Abraão ( Dt 18:13 ). Cristo está à mão direita do Pai, sendo Ele o pão que da vida perpétua.

Ao instituir o jejum Deus estava dando a entender que somente Ele pode fazer justiça e juízo aos oprimidos. O salmista Davi compreendia o que era afligir a alma quando disse: “Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus” ( Sl 51:17 ).

Somente Deus pode dar pão aos famintos e liberdade aos encarcerados, ou seja, aos verdadeiramente aflitos, aos contritos de espírito “Ó SENHOR, deveras sou teu servo; sou teu servo, filho da tua serva; soltaste as minhas ataduras” ( Sl 116:16 ; Sl 103:6 ; Sl 146:7 ; Is 57:15 ).

Com Deus instituiu que o homem deveria afligir a sua alma, Jesus faz um convite aos cansados e oprimidos, ou seja, aos que jejuavam verdadeiramente “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” ( Mt 11:28 ). Somente os que afligem a alma segundo o exigido por Deus (v. 6), têm um encontro com Cristo, que alivia os cansados e sobrecarregados.

Quando se desfizessem das ligaduras da impiedade os filhos de Israel teriam jejuando de fato. Quando se desfizessem das ataduras do jugo do pecado, verdadeiramente teriam afligido a alma.

‘Ligadura’ é o mesmo que ligamento, atadura. ‘Atadura’, por sua vez, é o que serve para atar, amarrar (laço, correia etc.), que também pode ser uma tira comprida de gaze própria para curativos. Para compreender quando Deus diz que o jejum verdadeiro é soltar as ‘ligaduras da impiedade’, é necessário visualizar o pecado como uma chaga maligna.

Na antiguidade, por falta de remédios que curasse os enfermos de chaga maligna acabavam tornando-se verdadeiros escravos da doença, pois gastavam todo o fruto do trabalho com a doença. As ligaduras, espécie de atadura, utilizada para cobrir as chagas não resolvia o problema do enfermo.

O pecado é uma chaga e todas as ações dos homens para se livrar dele não passa de uma ligadura, um curativo feito com trapo de imundície “Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo e que deixes livres os oprimidos, e despedaces todo o jugo?” ( v. 6).

Sem soltar as ligaduras da impiedade é impossível oferecer sacrifício ao Senhor, pois o sacrifício dos ímpios é abominação “O sacrifício dos ímpios já é abominação…” ( Pr 21:27 ).

Mas, o afligir da alma (jejum) não termina quando se está livre do pecado, mas também que se dê (reparta) aos famintos o pão que os torna livres “Porventura não é também…” (v. 7). Somente quando se reparte o pão enviado dos céus (evangelho) com os famintos é que o cristão cumpre o prescrito pelo apóstolo Paulo: “Alegrai-vos com os que se alegram; e chorai com os que choram” ( Rm 12:15 ).

 

* * * * *

O Pão verdadeiro

 

“Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres abandonados; e, quando vires o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne?” ( Is 58:7 ).

O verdadeiro jejum também é repartir o pão que possuíam com o faminto. Que pão? Quem são os famintos?

Deus estava promovendo um movimento de resgate social? Deus estava instituindo um programa de distribuição de pão para os famintos em Israel? Buscava-se uma sociedade igualitária com uma melhor distribuição de renda?

Não! Este não é o verdadeiro jejum, pois o alerta de Deus é: “… o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” ( Dt 8:3 ). Como só é possível ao homem viver da palavra de Deus, o verso em tela não trata de questões sociais e econômicas.

“… e, quando vires o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne?” (v. 7). O nu é alguém sem as vestimentas? Quando o povo de Israel se depararia com alguém nu? Como cobrir a nudez de quem vissem nu? Como vestir o nu sem se contaminar, ou seja, ficar imundo?

Ora, os versos 6 e 7 contém enigmas que não abarcam questões sociais ou econômicas. O pão que Deus requer que o povo de Israel repartisse com o faminto refere-se à palavra de Deus.

Aquele que ainda não se cobriu com a justiça proveniente de Deus é o nu que necessita de vestimenta. O faminto é aquele que não bebeu vinho e leite, ou seja, não saciou a fome com o que é bom, ou seja, com a palavra da vida. O oprimido é aquele que reconhece que não há como se salvar com seus próprios recursos (dinheiro) ( Is 55:1 ; Sl 49:7 -8 ).

Deus utiliza as questões referentes ao jejum que o povo utilizava em seus debates (v. 4), para demonstrar que o povo de Israel estava equivocado quanto ao modo de se achegar a Deus. O jejum foi utilizado como figura para demonstrar como o povo de Israel permanecia em pecado, pois nem mesmo compreendiam qual a natureza do jejum, que dirá compreender o caminho do Senhor.

Analisando a palavra do Senhor expressa nos versos 1 e 2, é certo que o povo de Israel eram transgressores, ou seja, pecadores. Apesar de irem continuamente ao templo, de demonstrar que tinham prazer no caminho do Senhor, como se efetivamente praticassem a justiça, permaneciam pecadores ( Is 1:1 -4).

Desde o capítulo 1 de Isaias a nação de Israel é descrita como sendo ‘… pecadora, povo carregado de iniqüidade, descendência de malfeitores, filhos corruptores; deixaram ao SENHOR, blasfemaram o Santo de Israel, voltaram para trás’ ( Is 1:4 ).

Eles eram pecadores porque não deram ouvidos a palavra de Deus ( Is 1:10 ). Os sacrifícios que ofereciam não eram aceitos por Deus ( Is 1:11 ). Deus não havia exigido que fossem ao templo, porém, compareciam sempre, mas não ouviam a palavra do Senhor ( Is 1:12 ).

Deus ordenou ao povo que se lavasse, que se purificasse, porém, como seriam purificados se não davam ouvidos a palavra do Senhor? ( Is 1:16 ; Jo 15:3 ) Cumpriam inúmeros rituais, porém, não ouviam a palavra de Deus, que é vida.

Neste capítulo Deus expõe a condição do povo de Israel: eram pecadores. Ao mesmo tempo demonstrou que o povo sempre ia ao templo na intenção de se tornar agradável a Deus, porém, não ouvia a sua palavra.

Ao mesmo tempo em que rejeitava a palavra de Deus, o povo de Israel questionava porque jejuava e não era atendido. Daí é que surge a resposta divina: é este o jejum que Eu escolhi?

Qual o verdadeiro jejum? Para descobrir qual é o verdadeiro jejum, temos que fazer o mesmo exercício que fizeram os discípulos quando ouviram Jesus falar acerca do fermento dos fariseus “Como não compreendestes que não vos falei a respeito do pão, mas que vos guardásseis do fermento dos fariseus e saduceus? Então compreenderam que não dissera que se guardassem do fermento do pão, mas da doutrina dos fariseus” ( Mt 16:11 ).

Do mesmo modo, quando ouvimos acerca do jejum, devemos compreender que Deus não estava orientado o seu povo a abstinência de alimento, contristados, cabisbaixos e deitados em cinzas.

O verdadeiro jejum é abstinência dos seus próprios conceitos acerca de como servir a Deus. É abster-se do fermento (doutrina) que tornava levedado o pão oferecido pelos fariseus.

O povo de Israel deveria alimentar-se única e exclusivamente da palavra anunciada por Deus “E te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” ( Dt 8:3 ).

 

* * * * *

Luz como a alva

 

“Então romperá a tua luz como a alva, e a tua cura apressadamente brotará, e a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do SENHOR será a tua retaguarda” ( Is 58:8 ).

Quando soltassem as ligaduras da impiedade deixando o jugo do pecado através da palavra de Deus, a luz deles haveria de surgir como surge a luz do sol. Haveriam de ser curados de todas as suas feridas, viveriam sem ataduras ( Is 1:6 ).

Este verso demonstra que a luz que romperá é comparável a alva. A cura seria repentina. Deus haveria de justificá-los, e seriam protegidos pelo Senhor.

O Senhor é a nossa justiça, e Ele garante que haveria de ir à frente deles. Caso não mais estivessem sob o jugo do pecado, o Senhor haveria de ser a sua retaguarda.

 

* * * * *

Eis-me aqui!

 

“Então clamarás, e o SENHOR te responderá; gritarás, e ele dirá: Eis-me aqui. Se tirares do meio de ti o jugo, o estender do dedo, e o falar iniquamente” ( is 58:9 ).

Eles reclamavam que jejuavam e não eram atendidos, mas o Senhor garante que, caso jejuassem o jejum estipulado por Ele, quando clamassem haveriam de ser respondidos. Em momento de desespero Deus lhes diria: Eis-me aqui!

Ou seja, a promessa do Senhor haveria de ser cumprida se realmente ‘afligissem a alma’ do seguinte modo: “Se tirares do meio de ti o jugo, o estender do dedo, e o falar iniquamente” (v. 9). Este é o verdadeiro jejum.

O Senhor condiciona a sua resposta ao jejum do povo.

‘O jugo’ refere-se ao ‘domínio’ do pecado. Para tirar o jugo do pecado basta dar ouvidos à palavra de Deus que o homem passará da morte para a vida ( Is 55:3 ).

O ‘estender o dedo’ refere-se ao fato de apontarem somente os outros como sendo pecadores ( Is 65:5 ). Falar iniquamente é divulgar uma doutrina que não é conforme as palavras de Deus, é o mesmo que prevaricar na atribuição de interpretar a palavra de Deus, como os fariseus faziam.

O salmista Davi denunciou que os ímpios estão alienados de Deus desde a madre, ou seja, são concebidos em pecado. Por causa desta ‘alienação’ andam errantes e tudo que anunciam não corresponde à verdade “Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, falando mentiras” ( Sl 58:3 ).

 

* * * * *

Abrindo a alma

 

10  “E se abrires a tua alma ao faminto, e fartares a alma aflita; então a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio-dia” ( Is 58:10 ).

O que foi estipulado no verso 7 é repetido neste verso, porém, lança luz ao que é necessário para alimentar o faminto: abrir a tua alma. Como se abre a alma? Abrindo a boca! Expondo a palavra do Senhor.

Quando se anuncia a palavra do Senhor, que livra o homem das ataduras do pecado, se esta ‘fartando’ a alma aflita, concedendo pão ao faminto.  É isto que Jesus fez, e espera que todos que o ouçam, façam: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” ( Mt 11:28 ).

Observe que os saciados pelo Senhor podem ‘abrir a alma’ ao faminto para alimentá-los, e o faminto, ou a alma aflita refere-se àqueles que afligem a alma (jejuam), que desejam a palavra da verdade conforme Deus ordenou “E se abrires a tua alma ao faminto, e fartares a alma aflita…” (v. 10).

Para aqueles (aflitos) que tirarem o jugo do pecado Deus anuncia que das trevas nascerá luz, ou seja, sem Deus o homem é trevas, mas através da sua palavra, que é poder de Deus, será criado tudo novo: haverá luz! ( Ef 5:8 ; Is 55:3 )

Do mesmo modo que o poder criativo contido na palavra de Deus fez luz quando somente havia trevas no Gênesis ( Gn 1:2 ), a mesma palavra que foi encarnada e habitou entre os homens cria (Bara) a nova criatura trazendo muitos filhos à glória de Deus ( Hb 2:10 ).

Qualquer homem, antes de ter um encontro com Deus é treva, mas após crer, agora é luz, porque Deus fez tudo novo. Das trevas do velho homem, Deus faz através de Cristo o novo homem, que é luz no Senhor ( 2Co 5:17 ; Gl 6:15 ).

Todos que ouvem a palavra de Deus, se crer, terão a sua escuridão transformada por Deus como se fosse a luz do meio-dia. Das trevas surgirá a luz!

O homem gerado segundo o primeiro Adão é treva, vaso para desonra, entrou pela porta larga e segue por um caminho que o conduz à perdição. Após o novo nascimento, que se dá através do último Adão, que é Cristo, o novo homem é luz, vaso para honra, plantação do Senhor, árvore de justiça, entrou pela porta estreita e segue por um caminho que o conduz a Deus.

 

* * * * *

Fonte de água viva

 

11  “E o SENHOR te guiará continuamente, e fartará a tua alma em lugares áridos, e fortificará os teus ossos; e serás como um jardim regado, e como um manancial, cujas águas nunca faltam” ( Is 58:11 ).

O verso 11 demonstra que, os que verdadeiramente afligem as suas almas (jejuam) serão bem-aventurados, conforme o exposto no salmo primeiro.

O Senhor os guiará as águas tranqüilas. Terá pastos verdejantes. O salmo 1 e 23 lançam luz (esclarece) a este verso.

Este mesmo aspecto é anunciado pelo profeta Jeremias: “Bendito o homem que confia no SENHOR, e cuja confiança é o SENHOR. Porque será como a árvore plantada junto às águas, que estende as suas raízes para o ribeiro, e não receia quando vem o calor, mas a sua folha fica verde; e no ano de sequidão não se afadiga, nem deixa de dar fruto” ( Jr 17:8 ).

Bem-aventurados são aqueles que confiam em Deus ( Sl 2:12 ), ou seja, serão como árvores plantadas junto a ribeiros de águas, dará o seu fruto no seu tempo, as folhas não cairão, e tudo quanto fizer prosperará ( Sl 1:3 ).

* * * * *

Edificação do Senhor

 

12 .”E os que de ti procederem edificarão as antigas ruínas; e levantarás os fundamentos de geração em geração; e chamar-te-ão reparador das roturas, e restaurador de veredas para morar” ( Is 58:12 ).

Qual a idéia contida na frase: ‘os que de ti procederem’? Ora, refere-se àqueles que foram gerados pelo Senhor, ou seja, que nasceram de novo por terem fartado a alma aflita na fonte que faz jorrar água para a vida eterna (v. 10).

Há os que procedem da carne e os que procedem do Espírito, assim como Jesus anunciou a Nicodemos ( Jo 3:6 ). Através da carne de Adão ‘procedem’ os carnais, e através do Espírito vivificante, que é Cristo, o último Adão, ‘procedem’ os homens espirituais ( 1Co 15:45 ).

Somente os que são gerados de Deus podem edificar as antigas ruínas. Que ruínas? O homem foi criado para que Deus habitasse neles, porém, com a queda de Adão, o homem tornou-se ruínas.

É Deus que ergue o seu santo templo de geração a geração. Os que procedem de Deus são constituídos pedras vivas, a ‘matéria prima’ empregada na casa espiritual edificada por Deus “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pe 2:5 ).

“E os que de ti procederem edificarão as antigas ruínas; e levantarás os fundamentos de geração em geração; e chamar-te-ão reparador das roturas, e restaurador de veredas para morar”

Por edificar as ‘antigas ruínas’ através daqueles que d’Ele procederem, Deus será nomeado como o ‘Reparados de roturas’, ou ‘Restaurador de veredas’, por torná-los local de sua habitação ( Is 57:15 ).

 

* * * * *

O ‘descanso’ do Senhor

 

13  “Se desviares o teu pé do sábado, de fazeres a tua vontade no meu santo dia, e chamares ao sábado deleitoso, e o santo dia do SENHOR, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, nem pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falares as tuas próprias palavras” ( Is 58:13 ).

Deus protesta contra a atitude dos seus interlocutores: desprezavam o dia de descanso instituído para afligirem a alma “E isto vos será por estatuto perpétuo: no sétimo mês, aos dez do mês, afligireis as vossas almas, e nenhum trabalho fareis nem o natural nem o estrangeiro que peregrina entre vós” ( Lv 16:29 ).

Devemos ter em mente dois tipos de dias de descanso:

a)  O descanso semanal, que se dava no sétimo dia da semana ( Mc 2:23 ; Mc 3:2 ), e;

b) O dia dez do sétimo mês, que poderia ser qualquer dia da semana, porém, seria um dia de descanso (sábado) do Senhor ( Lv 16:29 ; Nm 29:7 ).

Para os judeus qualquer dia da semana poderia um sábado desde que fosse um dia festivo instituído pelo Senhor. Qualquer dia da semana poderia ser sábado, ou véspera de sábado. Observe: “E, chegada a tarde, porquanto era o dia da preparação, isto é, a véspera do sábado” ( Mc 15:42 ).

O médico Lucas apresenta dois eventos que se dá em dias distintos, porém, ambos são nomeados sábados “E era o dia da preparação, e amanhecia o sábado. E as mulheres, que tinham vindo com ele da Galiléia, seguiram também e viram o sepulcro, e como foi posto o seu corpo. E, voltando elas, prepararam especiarias e ungüentos; e no sábado repousaram, conforme o mandamento” ( Lc 23:54 -56 ).

Com relação ao dia do descanso do sétimo dia da semana, Deus o instituiu como estatuto perpétuo ao povo de Israel com um objetivo bem definido:

a)  Seria um sinal entre Deus e o povo;

b) Deveriam lembrar e entender que somente Deus santifica, e;

c)  Memorial de que foram servos no Egito e que Deus os resgatou com mão poderosa ( Dt 5:15 ; Ex 31:13 ).

Por que precisavam deste sinal como memorial perpetuo? Porque apesar de terem sido resgatados da servidão no Egito, não significava que eram justos diante de Deus “Sabe, pois, que não é por causa da tua justiça que o SENHOR teu Deus te dá esta boa terra para possuí-la, pois tu és povo obstinado” ( Dt 9:6 ).

Pelo fato de não terem sido resgatados do pecado, o santo dia deveria ser nomeado pelo povo de deleitoso e digno de honra. Por quê? Jesus responde: “O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado” ( Mc 2:27 ), ou seja, o sábado foi instituído para que o homem possa compreender que só Deus pode libertá-lo das ligaduras do pecado.

Os escribas e fariseus entendiam que eram cumpridores do sábado e recriminaram a atitude de Cristo e dos seus discípulos “Os fariseus lhe disseram: Vês? Por que fazem no sábado o que não é lícito?” ( Mc 2:24 ).

Isto porque Jesus e os seus discípulos estavam caminhando e colhendo espigas de milho, e apesar dos escribas e fariseus dizerem que estavam descumprindo o sábado, Jesus demonstra que Ele e os discípulos não estavam descumprindo o sábado pelo fato de andarem e satisfazerem as suas necessidades pessoais ( Mc 2:25 -28).

Jesus demonstrou que o sábado não estava relacionado com o que o homem faz ou deixa de fazer, antes é um memorial daquilo que Deus pode fazer pelo homem “E, olhando para eles em redor com indignação, condoendo-se da dureza do seu coração, disse ao homem: Estende a tua mão. E ele a estendeu, e foi-lhe restituída a sua mão, sã como a outra” ( Mc 3:5 ).

Embora o povo de Israel fosse composto de homens ímpios ( Dt 9:6 ), Deus estabeleceu um memorial, o sétimo dia da semana como descanso, para lembrá-los que foram resgatados do Egito e que só Deus santifica ( Dt 5:15 ; Ex 31:13 ). Ou seja, o sábado foi instituído por causa do homem, para lembrá-lo que é Deus que santifica, e não suas próprias ações “… para que saibais que eu sou o SENHOR, que vos santifica” ( Ex 31:13 ).

Como o povo de Israel era de dura cerviz ( Dt 10:16 ), além de instituir os sábados ( Lv 23:3 ), a páscoa ( Lv 23:5 ), a festa dos pães asmos ( Lv 23:6 ), as primícias ( Lv 23:10 ), a festa dos pentecostes ( Lv 23:16 ), a festa das trombetas ( Lv 23:24 ), a festa dos tabernáculos ( Lv 23:34 ), todas instituídas sem revogar o descanso do sétimo dia ( Lv 23:38 ), foi instituído também o dia da expiação.

Dentre estas festas instituídas como santa convocação a única que não faz referência a idéia de festa é o dia da expiação, pois a santa convocação da expiação não era festiva, antes deveriam afligir a alma desde o dia nove à tarde, de uma tarde a outra tarde, no sétimo mês ( Lv 23:32 ). Seria um dia de descanso (sábado), porém, sem festividades, ou seja, deveriam afligir a alma.

Porém, apesar de não trabalharem nos dias estabelecidos, não comerem, não beberem, não utilizarem perfumes, não lavarem o rosto e muitas vezes cobrirem-se de saco e cinzas, os filhos de Jacó não tiravam os pés do sábado do Senhor (v. 13). Apesar de os fariseus não matarem, não roubarem, darem o dízimo de tudo e jejuarem muitas vezes, faziam somente a própria vontade.

Diferente das outras convocações, o dia da expiação não era festivo, o que fazia com que muitos em Israel reclamassem por ‘afligirem’ as suas almas, levando-os a formular as perguntas do verso 3.

Mas, Deus diz: “Se desviares o teu pé do sábado, de fazeres a tua vontade no meu santo dia, e chamares ao sábado deleitoso, e o santo dia do SENHOR, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, nem pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falares as tuas próprias palavras, então te deleitarás no SENHOR…” (v. 13 -14).

O sétimo dia da semana instituído pelo Senhor como dia do descanso, era um sinal para o homem de que na palavra de Deus há descanso. E o dia da expiação, além de demonstrar que na palavra de Deus há descanso por causa do sábado e do afligir da alma, demonstrava também qual era a condição do homem: escravo do pecado.

Mas os profetas e sacerdotes de Israel não compreendiam a palavra do Senhor, e vagavam pelos seus próprios caminhos ( Is 28:7 ), e a lei do Senhor não passava para eles de “… mandamento sobre mandamento, regra sobre regra, um pouco aqui, um pouco ali” ( Is 28:10 ).

Enquanto Deus dizia através das festas solenes que N’Ele há descanso, os interpretes de Israel não dava ouvidos “Ao qual disse: Este é o descanso, dai descanso ao cansado; e este é o refrigério; porém não quiseram ouvir” ( Is 28:13 ), o que tornava os dias festivos ‘penosos’ mandamentos “Assim, pois, a palavra do SENHOR lhes será mandamento sobre mandamento, regra sobre regra, um pouco aqui, um pouco ali; para que vão, e caiam para trás, e se quebrantem e se enlacem, e sejam presos” ( Is 28:13 ).

Quando Jesus veio, novamente o Senhor falou aos homens escarnecedores “Ouvi, pois, a palavra do SENHOR, homens escarnecedores, que dominais este povo que está em Jerusalém” ( Is 28:14 ).

Como Cristo cumpriu o sábado? Cumpriu segundo a palavra de Deus, e não segundo os mandamentos e as regras dos homens, pois a palavra de Deus diz: “Se desviares o teu pé do sábado, de fazeres a tua vontade no meu santo dia, e chamares ao sábado deleitoso, e o santo dia do SENHOR, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, nem pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falares as tuas próprias palavras…” (v. 13).

Jesus efetivamente cumpriu o sábado e todas as festas instituídas na lei, pois:

a)  Jesus não falou as suas próprias palavras “Porque eu não tenho falado de mim mesmo; mas o Pai, que me enviou, ele me deu mandamento sobre o que hei de dizer e sobre o que hei de falar. E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito” ( Jo 12:49 -50);

b) Jesus não fez a sua própria vontade “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” ( Jo 6:38 ; Jo 4:34 ; Jo 7:17 ), e;

c)  Jesus não seguiu outro caminho, pois ele foi gerado de Deus “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” ( Jo 1:14 ; Sl 1:6 ).

Jesus verdadeiramente jejuou, pois se absteve do pão fermentado dos homens ( Mt 16:6 ), uma vez que se alimentava do Pai “Jesus disse-lhes: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra” ( Jo 4:34 ).

Jesus verdadeiramente jejuou, pois abriu a sua alma aos famintos “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” ( Mt 11:28 ); “… se abrires a tua alma ao faminto, e fartares a alma aflita” ( Is 58:10 ).

Este foi o jejum estipulado pelo Senhor, e Jesus veio fazer a vontade do Pai “O SENHOR será também um alto refúgio para o oprimido; um alto refúgio em tempos de angústia” ( Sl 9:9 ); “Oh, não volte envergonhado o oprimido; louvem o teu nome o aflito e o necessitado” ( Sl 74:21 ); “O que faz justiça aos oprimidos, o que dá pão aos famintos. O SENHOR solta os encarcerados” ( Sl 146:7 ); “Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo e que deixes livres os oprimidos, e despedaces todo o jugo?” ( Is 58:6 ); “Cri, por isso falei. Estive muito aflito” ( Sl 116:10 ); “Os aflitos e necessitados buscam águas, e não há, e a sua língua se seca de sede; eu o SENHOR os ouvirei, eu, o Deus de Israel não os desampararei” ( Is 41:17 ); “O SENHOR abre os olhos aos cegos; o SENHOR levanta os abatidos; o SENHOR ama os justos” ( Sl 146:8 ); “Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade, e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e para vivificar o coração dos contritos” ( Is 57:15 ); “O ESPÍRITO do Senhor DEUS está sobre mim; porque o SENHOR me ungiu, para pregar boas novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos” ( Is 61:1 ), etc.

Ora, se os filhos de Jacó verdadeiramente jejuassem e honrassem o sábado como Jesus o fez, seriam dignos de honra, e seriam honrados pelo Senhor (v. 13).

Neste verso o Senhor trata especificamente do dia separado para que afligissem a alma (dia da expiação), dia em que cada um não deveria executar obra alguma “E isto vos será por estatuto perpétuo: no sétimo mês, aos dez do mês, afligireis as vossas almas, e nenhum trabalho fareis nem o natural nem o estrangeiro que peregrina entre vós” ( Lv 16:29 ).

O dia separado para o Senhor consiste em honrar ao Senhor, ou seja, em obedecer a sua palavra (temor) “O filho honra o pai, e o servo o seu senhor; se eu sou pai, onde está a minha honra? E, se eu sou senhor, onde está o meu temor? diz o SENHOR dos Exércitos a vós, ó sacerdotes, que desprezais o meu nome. E vós dizeis: Em que nós temos desprezado o teu nome?” ( Ml 1:6 ).

Cristo é o Filho e o Servo do Senhor porque honrou o Pai, porém, os filhos de Jacó não honravam e nem temiam ao Senhor!

O caminho do homem é de perdição, pois ao entrar pela porta larga, que é Adão, segue um caminho que o conduz à perdição ( Mt 7:13 ). Somente honrando o sábado que é tremer da palavra do Senhor é que o homem deixa os seus caminhos ( Is 55:7 ).

Somente aquele que ouve a palavra de Deus deixa de fazer a sua própria vontade. Somente os que ouvem e compreendem deixam de falar segundo o seu conhecimento, e passa a falar as palavras do Senhor ( Mt 3:9 ).

 

 

* * * * *

 

A alegria do Senhor

 

14  “Então te deleitarás no SENHOR, e te farei cavalgar sobre as alturas da terra, e te sustentarei com a herança de teu pai Jacó; porque a boca do SENHOR o disse” ( Is 58:14 ).

Jesus cumpriu cabalmente o estipulado nos versos 12 e 13 do capítulo 58 de Isaias, e por isso o Salmo 16 contém uma profecia acerca do Messias: “Far-me-ás ver a vereda da vida; na tua presença há fartura de alegrias; à tua mão direita há delícias perpetuamente” ( Sl 16:11 ; Sl 91:14 ).

Após o jejum exigido por Deus, o homem será bem-aventurado, ditoso, deleitará no Senhor. Deus garante que fará com que os que afligiram a sua alma sejam estabelecidos em posição de honra.

Ou melhor, Deus há de sustentá-los como a herança de Jacó. Tudo o que o Senhor prometeu a Jacó será, por direito, concedido aos que descansam (crêem) no Senhor.

Tudo o que foi anunciado segue garantido por aquele que prometeu: “Porque a boca do Senhor o disse”!

* * * * *

Conclusão

 

Abstinências físicas (jejuar) em lugar de ‘afligir a alma’ tornou-se uma prática comum em Israel, tanto que várias datas específicas foram instituídas para jejuarem “Assim diz o SENHOR dos Exércitos: O jejum do quarto, e o jejum do quinto, e o jejum do sétimo, e o jejum do décimo mês será para a casa de Judá gozo, alegria, e festividades solenes; amai, pois, a verdade e a paz” ( Zc 8:19 ).

Diante do mandamento, os judeus se apegavam as práticas e aos dias estipulados, porém, o mais importante, que é o amor à verdade e a paz, não compreenderam o que seria. O povo pensava somente em cumprir regras sociais, tal qual não brigar com o próximo e não mentir.

Ao lerem na lei a seguinte determinação: “Estas são as coisas que deveis fazer: Falai a verdade cada um com o seu próximo; executai juízo de verdade e de paz nas vossas portas” ( Zc 8:16 ; Ef 4:25 ), entenderam somente que era para estabelecer ou manter a paz com o próximo, e  não se aperceberam que lhes era necessário ter paz com Deus.

O profeta Zacarias demonstra que os dias de jejuns deveriam ser de festividade, gozo e alegria. Que contraditório! Há aqueles que nomeiam esta aparente contradição de paradoxo. O dia estipulado para afligir a alma devia ser um dia de alegria, gozo e festividades solenes. Mas, para que o dia do jejum se tornasse dia de alegria, precisavam amar a verdade e a paz ( Zc 8:19 ).

O apóstolo Paulo, ao fazer alusão à mensagem do profeta Zacarias, demonstra que ‘falar a verdade’ com o próximo possui uma conotação mais ampla do que não mentir, pois ao escrever aos cristãos em Éfeso faz a seguinte abordagem: “Mas vós não aprendestes assim a Cristo, se é que o tendes ouvido, e nele fostes ensinados, como está a verdade em Jesus; Que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe pelas concupiscências do engano; E vos renoveis no espírito da vossa mente; E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade. Por isso deixai a mentira, e falai a verdade cada um com o seu próximo; porque somos membros uns dos outros” ( Ef 4:20 -25 ).

O apóstolo Paulo demonstra que a verdade anunciada por Zacarias está em Cristo, segundo o que ouviram e foram ensinados, ou seja, conforme o evangelho ( Ef 4:21 ). O que ouviram e lhes foi ensinado com relação à verdade (Cristo)?

a)  Que deveriam se despojar de tudo que era pertinente ao velho homem;

b) Que renovassem a compreensão, e;

c)  Que revestissem do que é pertinente ao novo homem.

Por isso deveriam ‘deixar a mentira’ (lançar fora a compreensão pertinente ao velho homem de como se adquire a salvação), e ‘falar a verdade’ com o companheiro, ou seja, deviam falar de Cristo (como está à verdade em Cristo), conforme o anunciado pelo profeta Zacarias.

O evangelho deve ser a temática da conversa dos cristãos porque é o evangelho que os torna membros uns dos outros, ou seja, o ‘juízo de verdade e de paz’ (mandamento) anunciado por Zacarias refere-se a Cristo, pois Cristo é a verdade e é a paz. Somente Ele faz juízo ao oprimido ( Sl 103:6 ; Ef 4:21; Ef 2:14 ; Zc 8:16 ).

Qualquer que ama a verdade e a paz, cumpre o mandamento do Senhor ( Zc 8:19 ), e será amado de Deus “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” ( Jo 14:21 ).

Por todos os homens serem gerados de Adão, o apóstolo Paulo afirma que todos são mentirosos ( Rm 3:4 ), isto conforme anunciou o salmista Davi, pois todos são concebidos em pecado e falam mentiras desde que nascem ( Sl 51:5 ; Sl 58:3 ). Ou seja, todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus, pois se extraviaram juntamente e se fizeram imundos em Adão ( Rm 3:23 ; Sl 53:3 ).

O coração do homem é enganoso ( Jr 17:9 ), e a boca fala do que o coração está cheio ( Lc 6:45 ), portanto, todo homem é mentiroso e só fala engano. Para falar a verdade é necessário ao homem falar segundo a palavra de Deus, pois a palavra d’Ele é a verdade ( Jo 17:17 ).

Para falar a verdade cada um com o seu companheiro é necessário ao homem falar as ‘palavras de Deus’, e não as suas próprias palavras, como recomendou o profeta Isaias ( Is 58:13 ; Zc 8:16 ; Ef 4:20 ). O Senhor Jesus, assim como o apóstolo Paulo, o profeta Isaias e o profeta Zacarias abordaram o mesmo tema quando ordenaram: falai a verdade!

Para falar a verdade é necessário ao homem ouvir (alimentar-se) a palavra de Deus que concede vida ( Dt 8:3 ), ou seja, é necessário ao  homem nascer de novo, sendo gerado em verdadeira justiça e santidade da semente incorruptível, que é a palavra de Deus. Somente os gerados da palavra de Deus são amados de Deus, pois se tornaram um com a verdade (conhecer) no íntimo “Eis que amas a verdade no íntimo, e no oculto me fazes conhecer a sabedoria” ( Sl 51:6 ; Ef 4:24 ).

Jesus alertou aos seus ouvintes que o jejuar dos fariseus era hipócrita, pois se apresentavam aos homens com o rosto triste, e até desfiguravam o rosto para demonstrar que afligiam a alma (jejuavam).

O verdadeiro jejum não se produz com estômago vazio e aspectos físicos desfigurados, pois assim agiam os fariseus para parecer que jejuavam e Jesus os censurou “E, quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram os seus rostos, para que aos homens pareça que jejuam. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão” ( Mt 6:16 ).

Ora, se desfigurar o rosto não é o mesmo que o jejum exigido por Deus, como jejuar? Como já vimos, o verdadeiro jejum não se refere a aspectos físicos (rosto desfigurado) ou sensações físicas (fome), pois mesmo lavando e ungindo a cabeça era possível ao homem jejuar, pois o jejum é para Deus, e não para os homens ( Mt 6:18 ).

Por que Jesus recomenda não agirem como os hipócritas? Porque aquele era o modo pelo qual escribas e fariseus ajuntavam tesouro na terra “Eis que para contendas e debates jejuais, e para ferirdes com punho iníquo; não jejueis como hoje, para fazer ouvir a vossa voz no alto” ( Is 58:4 ; Mt 6:18 ).

Por entenderem que jejuavam segundo o estipulado na lei, os escribas e os fariseus buscaram contender com Jesus, buscando feri-lo com punho iníquo “Disseram-lhe, então, eles: Por que jejuam os discípulos de João muitas vezes, e fazem orações, como também os dos fariseus, mas os teus comem e bebem?” ( Lc 5:33 ).

A bíblia demonstra que Jesus veio especificamente para cumprir a lei ( Mt 5:17 ), mas os fariseus e os escribas julgavam-no como alguém que queria acabar com a lei e com os profetas.

A Bíblia também demonstra que Jesus falava ao povo somente por parábolas, e o sermão do monte deve se analisado como sendo um conjunto de várias parábolas conexas entre si “E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” ( Mc 4:34 ).

A maioria dos leitores do sermão do monte entende que Jesus estava ordenando aos seus ouvintes o modo correto de como absterem-se do alimento quando recomendou que não deviam fazer como os hipócritas ( Mt 6:16 ). O que Jesus estava recomendando? Ora, Jesus estava apresentado aos seus ouvintes o suposto paradoxo apresentado pelo profeta Zacarias. O jejum não devia ser um dia de tristeza, antes um dia de alegria, de festa solene e gozo, pois o afligir da alma não possui relação com aspectos exteriores do corpo “Assim diz o SENHOR dos Exércitos: O jejum do quarto, e o jejum do quinto, e o jejum do sétimo, e o jejum do décimo mês será para a casa de Judá gozo, alegria, e festividades solenes; amai, pois, a verdade e a paz” ( Zc 8:19 ).

Jesus estava ordenando os ouvintes do sermão do monte a afligirem a alma diante de Deus e não diante dos homens, de modo que a tristeza proveniente do verdadeiro jejum se tornasse em alegria, como Deus havia determinado ( Sl 30:11 ; Zc 8:19 ). Ao ordenar que lavassem o rosto e não se mostrassem contristados quando ‘jejuavam’, Jesus queria que o povo compreendesse o verdadeiro significado da ordenança de se afligir a alma.

Ao alertar que não deveriam se mostrar contristados, que podiam lavar o rosto e ungir a cabeça ( Mt 6:17 ), Jesus queria dar a  entender à multidão qual era o verdadeiro jejum. Eles precisavam compreender que o verdadeiro jejum se dá quando o homem deixa de seguir os seus próprios conceitos “Estendi as minhas mãos o dia todo a um povo rebelde, que anda por caminho, que não é bom, após os seus pensamentos” ( Is 65:2 compare com Is 58:13 ); “Se desviares o teu pé do sábado, de fazeres a tua vontade no meu santo dia, e chamares ao sábado deleitoso, e o santo dia do SENHOR, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, nem pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falares as tuas próprias palavras, então te deleitarás no SENHOR…” ( Is 58:13-14).

Qualquer que anda segundo os seus próprios pensamentos segue um caminho que não é bom, e não se deleitará no Senhor conforme o profeta Zacarias recomenda que se faça.

Tudo que Jesus falava ao povo de Israel foi dito por parábolas, o que dá ao sermão do monte o título de uma grande parábola. Interpretar o capítulo 58 de Isaias também é resolver um grande enigma da antiguidade, pois este é o modo de o povo ouvir e ver, mas não compreender ( Sl 78:2 ; Mt 13:15 ; Jo 12:40 ; Lc 12:41 ).

Deus ordenou ao povo que ‘afligissem a alma’. Eles ouviram, mas não compreenderam o enigma, e neles se cumpriu a profecia ( Lc 8:10 ; Is 6:9 ). Deus ordenou que afligissem a alma, eles entenderam que afligir a alma seria o mesmo que afligir o corpo com abstinências diversas.

Davi foi um homem segundo o coração de Deus porque compreendeu que afligir a alma é o mesmo que um coração contrito, quebrantado. Ele compreendeu que o verdadeiro sacrifício é um espírito quebrantado ( Sl 51:17 ). Davi compreendeu que somente o abatido, o contrito de espírito alcança as benesses que ele havia rogado ao Senhor: um coração e um espírito vivificado e habitado pelo Senhor ( Sl 51:10 -11; Is 57:15 ).

Os escribas e fariseus não compreenderam o que é ‘afligir a alma’ do mesmo modo que desconheciam o significado da ordenança ‘misericórdia quero, e não sacrifício “Misericórdia quero, e não sacrifício” ( Mt 9:13 ; Os 6:6 ).

Antes de questionarem porque os discípulos não jejuavam, Jesus orientou-os a irem aprender o que significava ‘misericórdia quero’ “Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício. Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento” ( Mt 9:13 ).

Os escribas e os fariseus rebateram em pensamento a ordem de Cristo, uma vez que sabiam que a frase ‘Misericórdia quero, e não sacrifício’ tratava-se de citações atribuídas aos profetas Oséias e Samuel. Não atinaram que tais passagens contêm um enigma que eles ainda não haviam decifrado.

O que eram as abstinências que os escribas e fariseus praticavam no intento de afligir a alma? Tais abstinências não se resumiam em meros sacrifícios?

O que significa ‘Misericórdia quero, e não sacrifício’?

Para aprender o que significa ‘misericórdia quero’ se faz necessário compreender o que Deus exige do homem. Para compreender o significado de ‘misericórdia quero’ se faz necessário analisar a passagem bíblica de Oséias.

Certa feita o profeta Oséias anunciou ao povo o protesto de Deus, pois o amor que os filhos de Jacó demonstravam era volátil como o orvalho da madrugada “Que te farei, ó Efraim? Que te farei, ó Judá? Porque o vosso amor é como a nuvem da manhã e como o orvalho da madrugada, que cedo passa” ( Os 6:4 ).

O tema principal da passagem de Oséias, quando se lê ‘misericórdia quero’ é destacar o que Deus espera do homem: amor. Deus está demonstrando que não se interessa por sacrifícios, antes demonstra que deseja o amor do homem.

A exigência divina demonstra que o homem nada pode fazer para agradá-Lo, antes é Deus quem pode fazer algo em prol da humanidade. Quando Deus diz: ‘misericórdia quero’, significa que Ele quer exercer misericórdia para com os homens, e para tanto, basta ao homem amá-Lo de todo coração “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” ( Ex 20:6 ); “Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos” ( Dt 7:9 ).

Deus quer misericórdia, porque Ele é misericordioso. A qualquer que o ama Deus exerce misericórdia, o que não depende e nem demanda sacrifício. Sacrifício não é de valor algum diante de Deus ( Is 1:1 ).

Deus não exigiu do povo de Israel sacrifícios, antes exigiu que O amasse de todo coração “Agora, pois, ó Israel, que é que o SENHOR teu Deus pede de ti, senão que temas o SENHOR teu Deus, que andes em todos os seus caminhos, e o ames, e sirvas ao SENHOR teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma…” ( Dt 10:12 ); “E a todos quantos andarem conforme esta regra, paz e misericórdia sobre eles e sobre o Israel de Deus” ( Gl 6:16 ).

Apesar de demonstrar que não desejava sacrifícios, por conhecer a disposição interna dos homens em sacrificar, Deus regulamentou como os voluntariosos em Israel deveriam sacrificar, o que não significa que Deus exigiu sacrifícios dos homens “Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Quando algum de vós oferecer oferta ao SENHOR, oferecerá a sua oferta de gado, isto é, de gado vacum e de ovelha” ( Lv 1:2 compare Sl 50:7 -23 ).

O profeta Samuel demonstra que Deus não se interessa em sacrifícios “Porém Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros. Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniqüidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei” ( 1Sm 15:21 -22).

Deus determinou o afligir da alma como sendo juízo de verdade porque este é o sacrifício aceitável “Estas são as coisas que deveis fazer: Falai a verdade cada um com o seu próximo; executai juízo de verdade e de paz nas vossas portas” ( Zc 8:16 ); “Fazer justiça e juízo é mais aceitável ao SENHOR do que sacrifício” ( Pv 21:3 ).

Abster-se de entrar na casa de ‘pecadores’, ou de comer com eles era um tipo de sacrifício que os escribas e fariseus praticavam, mas que Deus não aceitava, pois Ele quer misericórdia, e não sacrifícios ( Mt 9:13 ).

Como os jejuns era uma prática dos judeus, em especial dos fariseus, os discípulos de João Batista questionaram Jesus por que os seus discípulos não jejuavam, o que demonstra que os jejuns não passam de meros sacrifícios ( Mt 9:14 ).

Observe que os ímpios oferecem sacrifício, e nem por isso deixam de ser ímpios. Mesmo que tenha a mais nobre das intenções ao sacrificar, o ímpio oferecerá abominação. O que torna o sacrifício dos ímpios uma abominação é o fato de serem ímpios “O sacrifício dos ímpios já é abominação; quanto mais oferecendo-o com má intenção!” ( Pv 21:27 ).

Como os filhos de Jacó não buscavam a palavra do Senhor, conclui-se que eram ímpios “A salvação está longe dos ímpios, pois não buscam os teus estatutos” ( Sl 119:155 ), condição pertinente a todos os homens por causa de Adão ( Sl 53:2 -3 ; Sl 58:3 ).

Como as abstenções de qualquer natureza é um tipo de sacrifício, segue-se que, por não se apartarem da impiedade ( Is 58:1 e 6), quando os filhos de Jacó se aplicavam as abstenções (sacrifícios) ofereciam abominações, por mais nobre que fossem as suas intenções.

O salmista compreendeu que Deus não desejava sacrifícios, antes que se satisfazia com o coração contrito, com a alma afligida “Pois não desejas sacrifícios, senão eu os daria; tu não te deleitas em holocaustos” ( Sl 51:16 ).

Por intermédio do profeta e salmista Davi, Deus protesta ao povo de Israel, dizendo: “Ouve, povo meu, e eu falarei; ó Israel, e eu protestarei contra ti: Sou Deus, sou o teu Deus. Não te repreenderei pelos teus sacrifícios, ou holocaustos, que estão continuamente perante mim. Da tua casa não tirarei bezerro, nem bodes dos teus currais. Porque meu é todo animal da selva, e o gado sobre milhares de montanhas. Conheço todas as aves dos montes; e minhas são todas as feras do campo. Se eu tivesse fome, não to diria, pois meu é o mundo e toda a sua plenitude. Comerei eu carne de touros? ou beberei sangue de bodes? Oferece a Deus sacrifício de louvor, e paga ao Altíssimo os teus votos. E invoca-me no dia da angústia; eu te livrarei, e tu me glorificarás” ( Sl 50:7 -15).

Deus demonstra que o problema de Israel não era os sacrifícios que de contínuo traziam ao templo. Antes, Deus queria que eles O invocasse no dia da angústia, e não que se aplicassem aos sacrifícios. Qual é o dia da angustia? É o dia em que o homem verdadeiramente afligisse a sua alma, o dia que compreendesse que necessita da salvação de Deus.

Do mesmo modo que os filhos de Israel não compreenderam o que é ‘executar juízo de verdade’, ‘falar a verdade com o próximo’ e ‘misericórdia quero’, não compreenderam a determinação divina de afligir a alma “Estas são as coisas que deveis fazer: Falai a verdade cada um com o seu próximo; executai juízo de verdade e de paz nas vossas portas” ( Zc 8:16 ); “Fazer justiça e juízo é mais aceitável ao SENHOR do que sacrifício” ( Pv 21:3 ), e; “Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos. Mas eles transgrediram a aliança, como Adão; eles se portaram aleivosamente contra mim” ( Os 6:6 -7).

O maior erro dos judeus estava em não conhecerem as escrituras “Jesus, porém, respondendo, disse-lhes: Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus” ( Mt 22:29 ). Os interpretes de Israel prevaricam quanto as suas atribuições ( Is 43:27 ). Eles se consideravam filhos de Deus por serem descendentes da carne de Abraão “E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão” ( Mt 3:9 ), mas por não fazerem justiça e juízo, por sacrificarem em lugar de amarem a Deus, ou seja, por não falarem a verdade (palavra de Deus), etc., continuavam transgressores por causa do primeiro pai da humanidade, Adão.

Por não conhecerem as escrituras aplicavam-se as abstinências, e esqueciam que ainda eram transgressores por serem descendentes da carne de Adão, portanto, não eram filhos de Abraão “Eu quero amor e não sacrifícios, conhecimento de Deus e não holocaustos. Em Adam eles quebraram a minha aliança, aí eles me traíram” ( Os 6:6 -7 – Bíblia da CNBB).

A tradução católica da bíblia do Conselho Nacional dos Bispos do Brasil expressa melhor as duas idéias analisadas acima: a) Deus quer amor, e; b) Em Adão os filhos de Jacó quebraram a aliança.

A tradução que reza que os judeus transgrediram a aliança como Adão não coaduna com o que o apóstolo Paulo diz aos cristãos em Roma: “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” ( Rm 5:14 ).

Ou seja, Adão é o único homem por quem a morte entrou no mundo, separando toda a humanidade de Deus. Como todos estão mortos, separados de Deus, logo ninguém mais dentre os homens pode pecar como (semelhança) Adão.

A morte reinou sobre todos os homens, até mesmo sobre aqueles que não transgrediram à semelhança (como) da transgressão de Adão, pois em Adão todos os homens pecaram e destituídos estão da glória de Deus. Desviaram-se e juntamente todos os homens tornaram se imundos, ou seja, em Adão se deu o evento em que a humanidade juntamente se extraviou de Deus ( Sl 14:3 ; Sl 53:3 ).

Os escribas e fariseus que foram ao batismo de João Batista, mesmo após serem batizados continuavam professando que eram filhos de Deus por serem descendentes de Abraão ( Mt 3:9 ), o que indicava que não estavam produzindo frutos dignos de arrependimento. A mensagem de João Batista era: “Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus” ( Mt 3:2 ), ou seja, arrepender-se é mudança de concepção acerca de alguma matéria, é mudança de pensamento.

Em função da chegada do reino dos céus, que é Cristo, os escribas e fariseus deviam abandonar os seus conceitos (arrependimento) para poder abraçar a Cristo, ou seja, precisavam deixar de presumir que eram filhos de Abraão por serem descendentes da carne de Abraão para serem filhos de Deus por intermédio do Descendente prometido a Abraão ( Rm 9:7 -8).

O que professavam quando vinham ao batismo, denunciava os escribas e fariseus, pois o fruto dos lábios deveria ser de mudança de conceito, mas continuavam professando que eram filhos de Abraão, o que os impedia de ter comunhão com a verdade, o caminho e a vida ( Jo 8:33 e 39).

O fariseu que subia ao templo para orar é exemplo de alguém que ajuntava tesouro na terra, pois era descendente da carne de Abraão, que em última instância era o mesmo que ser descendente de Adão.

Em decorrência da sua filiação e da sua religiosidade, se sentia abastado, rico, por não se comportar como os demais homens: não era roubador, promiscuo, injusto, etc., e além do mais, jejuava, dava o dizimo, orava, ia ao templo, etc. ( Lc 18:11 ). Tudo que o fariseu fazia na sua religiosidade é descrito pela bíblia como sendo um modo de ajuntar ‘tesouro na terra’, ou seja, buscava o seu próprio contentamento pelo ‘trabalho’ realizado ( Is 58:3 ).

É importante que o leitor perceba que “ajuntar tesouro na terra” é uma figura, e esta figura complementa a ideia do jejum, sendo que a ordem para não ajuntar tesouro na terra remete a ideia de que, através das suas práticas para agradar a Deus, os homens somente adquirem e ajuntam o tesouro da impiedade.

Observe que tanto o trabalho (ajuntar tesouro na terra) quanto os sacrifícios dos ímpios não são aceitos por Deus. Do mesmo modo que os sacrifícios dos ímpios são abominação, o trabalho deles é o mesmo que violência “Quem mata um boi é como o que tira a vida a um homem; quem sacrifica um cordeiro é como o que degola um cão; quem oferece uma oblação é como o que oferece sangue de porco; quem queima incenso em memorial é como o que bendiz a um ídolo; também estes escolhem os seus próprios caminhos, e a sua alma se deleita nas suas abominações” ( Is 66:3 ; Pv 21:27 ).

Observe que o profeta Isaias dá no verso 3 do capítulo 66 a interpretação das figuras empregadas nas escrituras quando estabelece a comparação. Violência diante de Deus é tudo que o homem faz para se salvar, ou seja, o sacrifício deles é como tirar a vida de um homem.

As ações dos judeus, na intenção de se salvarem, eram comparáveis a tudo que mais abominavam. Os constantes trabalhos e sacrifícios que realizavam era o que Deus nomeia de seguir seus próprios caminhos. Não eram o afligir da alma exigido por Deus ( Is 66:3 compare com Is 58:3 ). Quando praticavam suas abstinências, não jejuavam de fato, antes era o mesmo que se deleitar nas suas abominações.

Se eles afligissem a alma conforme o exigido no verso 13 do capítulo 58 de Isaias, deixariam as abstinências e os sacrifícios e se deleitariam no Senhor, em quem há paz e descanso para a alma.

“… quem queima incenso em memorial é como o que bendiz a um ídolo; também estes escolhem os seus próprios caminhos, e a sua alma se deleita nas suas abominações” ( Is 66:3 );

“Se desviares o teu pé do sábado, de fazeres a tua vontade no meu santo dia, e chamares ao sábado deleitoso, e o santo dia do SENHOR, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, nem pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falares as tuas próprias palavras, então te deleitarás no SENHOR” ( Is 58:13 ).

Quando o profeta Jeremias clama: “Violência, violência!”, está protestando contra os homens que intentam se salvar através de suas próprias forças, ou seja, com o fruto do seu trabalho, o tesouro da impiedade “Porque desde que falo, grito, clamo: Violência e destruição; porque se tornou a palavra do SENHOR um opróbrio e ludíbrio todo o dia” ( Jr 20:8 ); “As suas teias não prestam para vestes nem se poderão cobrir com as suas obras; as suas obras são obras de iniqüidade, e obra de violência há nas suas mãos” ( Is 59:6 ).

Do mesmo que Isaias aborda em primeiro lugar o jejum e depois as obras de violência, no sermão do monte Jesus adota a mesma sequência: o jejum e o guardar tesouro na terra. Ambos demonstraram que a retidão e as obras do povo não se aproveitam para salvação ( Is 57:12). Ambos, o Senhor Jesus e Isaías, buscavam tirar o tropeço de diante do povo, aplainando o caminho do Senhor ( Is 57:14 ).

Por não afligirem a alma segundo o estipulado no capítulo 58 de Isaias, retirando as ataduras da impiedade, continuavam falando mentiras “Porque as vossas mãos estão contaminadas de sangue, e os vossos dedos de iniqüidade; os vossos lábios falam falsidade, a vossa língua pronuncia perversidade” ( Is 59:3 ), pois a boca fala o que o coração está cheio, ou seja, neste verso está descrito porque Jesus chama os fariseus de raça de víboras ( Mt 12:34 ; Is 59:4 -5 ).

O que Deus determinou por intermédio do profeta Zacarias e o apóstolo Paulo interpretou ao escrever aos cristãos em Êfeso “Estas são as coisas que deveis fazer: Falai a verdade cada um com o seu próximo; executai juízo de verdade e de paz nas vossas portas” ( Zc 8:16 ; Ef 4:25 ), Isaias anuncia demonstrando que ninguém obedecia a palavra de Deus “Ninguém há que clame pela justiça, nem ninguém que compareça em juízo pela verdade; confiam na vaidade, e falam mentiras; concebem o mal, e dão à luz a iniqüidade” ( Is 59:4 compare com Zc 8:16 ).

Melhor é obedecer do que o sacrifício: “De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios, diz o SENHOR? Já estou farto dos holocaustos de carneiros, e da gordura de animais cevados; nem me agrado de sangue de bezerros, nem de cordeiros, nem de bodes. Quando vindes para comparecer perante mim, quem requereu isto de vossas mãos, que viésseis a pisar os meus átrios? Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e as luas novas, e os sábados, e a convocação das assembléias; não posso suportar iniqüidade, nem mesmo a reunião solene. As vossas luas novas, e as vossas solenidades, a minha alma as odeia; já me são pesadas; já estou cansado de as sofrer. Por isso, quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos; e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer mal. Aprendei a fazer bem; procurai o que é justo; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas. Vinde então, e argüi-me, diz o SENHOR: ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã” ( Is 1:11 -18).

As abstinências eram um tipo de sacrifício oferecido pelos filhos de Jacó, e por não se apartarem da impiedade ( Is 58:1 e 6), elas eram abominações, por mais nobre que fossem as suas intenções “Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e as luas novas, e os sábados, e a convocação das assembléias; não posso suportar iniqüidade, nem mesmo a reunião solene. As vossas luas novas, e as vossas solenidades, a minha alma as odeia; já me são pesadas; já estou cansado de as sofrer” ( Is 1:13 -14).

Quando não se busca a palavra (temor) do Senhor, o verdadeiro tesouro ( Is 33:6 ), o homem com todas as suas práticas religiosas e morais não passa de um pobre, cego e nu ( Is 33:6 ).

A determinação de Jesus no sermão do monte não é para que os seus ouvintes deixassem os seus ofícios diários e também não era para deixar de adquirirem bens materiais, antes que deixassem de se apegar a qualquer prática como se ela fosse o que promove salvação ( Pv 10:2 ).

A determinação de Cristo para que os seus ouvintes não ‘ajuntassem tesouro na terra’ é uma explanação, por meio de uma parábola repleta de enigmas, da figura do dia do descanso instituído com o fito de o homem afligir a alma.

Após demonstrar qual o sentido de afligir a alma ( Mt 6:17 ), Jesus passou a demonstrar através da ordem de não ajuntar tesouro na terra o sentido do verdadeiro descanso, pois através de Cristo e seus ensinamentos, cumpre-se o que diz as escrituras, de que se dê descanso ao cansado, mas ouviram e não compreenderam, pois tudo lhes era dito por parábolas “Ao qual disse: Este é o descanso, dai descanso ao cansado; e este é o refrigério; porém não quiseram ouvir” ( Is 28:12 ).

Desde a antiguidade não se estipulou preço para a salvação, pois quem não tem dinheiro (pobre, necessitado, aflito, viúva, órfão), quer seja judeu ou gentil, pode comer o que é bom. Basta que inclinem os seus ouvidos ( Is 55:2 ), ou seja, creia na palavra de Deus, que comerá o que é bom ( Is 1:17 ).

O afligir da alma aparece associado à tristeza por causa das figuras que representam o conceito do pobre de espírito, do necessitado de espírito e do aflito de espírito, ou seja, daqueles que necessitam e se socorrem de Deus. Observe: “E disse-lhes Jesus: Podem porventura andar tristes os filhos das bodas, enquanto o esposo está com eles? Dias, porém, virão, em que lhes será tirado o esposo, e então jejuarão” ( Mt 9:15 ).

Os escribas e fariseus questionavam porque os discípulos de Jesus não se aplicavam as abstinências, ou às práticas que eles compreendiam ser o jejum. Em resposta Jesus demonstra que os seus discípulos não podiam andar tristes, apontando o verdadeiro significado do jejum.

Os filhos das bodas jamais poderiam ficar tristes, pois o noivo estava presente. Enquanto Cristo, o esposo, estava com os discípulos, não havia motivo para ficarem contristados, mas, quando o esposo fosse tirado, automaticamente ficariam tristes, ou seja, ficariam com a alma aflita.

Lucas é específico ao dizer que os discípulos jejuariam (tristeza) apontando especificamente para os dias em que Cristo permaneceria no seio da terra. Somente naqueles dias os discípulos jejuariam, o que indica que depois daqueles dias não mais jejuariam “Dias virão, porém, em que o esposo lhes será tirado, e então, naqueles dias, jejuarão” ( Mt 26:31 ; Lc 5:35 ).

Por que Jesus disse que os pobres e os tristes eram bem-aventurados? ( Mt 5:3 -4) Porque os pobres, tristes, aflitos, oprimidos são figuras bíblicas utilizadas para representar todos os homens que necessitam de Deus.

O profeta Isaias anunciou que o povo trabalhava em vão e gastava o fruto do seu trabalho naquilo que não satisfazia o exigido por Deus ( Is 55:2 ). Por trabalharem ofertando sacrifícios, jejuns, ritos, etc., não esperavam a salvação providenciada por Deus.

Se os pobres e os oprimidos são bem-aventurados, segue-se que são filhos de Abraão, crentes como o crente Abraão, pois ele foi bem-aventurado porque creu na palavra de Deus. O povo de Israel não era filho de Abraão, pois em lugar de descansarem, trabalhavam.

Deus não havia prometido que os pobres, abatidos, tristes, aflitos e oprimidos seriam vivificados pelo Senhor? ( Is 57:15 ) Deus já não havia dito que os aflitos e necessitado são os que buscam a Deus? “Os aflitos e necessitados buscam águas, e não há, e a sua língua se seca de sede; eu o SENHOR os ouvirei, eu, o Deus de Israel não os desampararei” ( Is 41:17 ; Sl 146:7 ).

Qualquer que ouve e aceita o convite de Cristo que diz: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” ( Mt 11:28 ), é porque verdadeiramente afligiu a alma. Somente os aflitos e necessitados ouvem a palavra de Deus, ou seja, não diz de quem pratica abstinências de alimento, roupas, perfumes, banho, etc., pois o alimento ofertado por Deus é espiritual ( Jo 6:63 ).

Sendo o alimento de Deus espiritual, o verdadeiro jejum não se dá no estômago. O verdadeiro jejum é promovido por alguém que tem a alma aflita porque sente que necessita de água e de pão espiritual após abster-se dos conceitos humanos. Este, verdadeiramente entra no descanso prometido por Deus, pois vê em Cristo o descanso preparado por Deus “O que faz justiça aos oprimidos, o que dá pão aos famintos. O SENHOR solta os encarcerados” ( Sl 146:7 );

O que satisfaz o sedento, o oprimido, o aflito, o cansado, o faminto? O pão que Deus oferta a todos os homens, bastando para isso que o ouçam ( Is 55:3 ).

Quando se fala em comida e bebida é comum ao homem esquecer que a palavra de Deus é ‘comida’ espiritual que concede vida aos mortos espirituais “Ele, porém, lhes disse: Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis” ( Jo 4:32 ; Dt 8:3 ).

Mas, para comer da comida que os homens não conhecem faz-se necessário abster-se (jejum) do fermento dos fariseus. Quando se deixa de comer do pão fermentado com a doutrina dos fariseus, o homem jejua verdadeiramente, momento que verá, por causa da aflição que lhe acometerá a alma, que necessita da água e do pão que somente Deus pode dar ( Mt 16:6 ; 1Co 5:6 -8).

Jesus ordenou aos seus ouvintes que ‘trabalhassem’ pela comida que permanece para a vida eterna, ou seja, pela comida que Cristo estava dando gratuitamente “Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará; porque a este o Pai, Deus, o selou” ( Jo 6:27 ).

Os ouvintes de Jesus deviam buscar a palavra de Deus, que Cristo gratuitamente ofertava, porque a obra de Deus é que o homem creia no enviado de Deus. Há um desejo incessante nos homens em fazer a obra de Deus, mas a única obra que Deus tem a realizar é que creiam no enviado de Deus “Disseram-lhe, pois: Que faremos para executarmos as obras de Deus? Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 26:28 -29).

Os ensinos do Senhor Jesus mostram que os cristãos devem estar cônscios de que a comida não torna ninguém agradável a Deus, isto porque, se o cristão comer nada terá a mais que seu irmão, e se não come, nada tem falta “Ora a comida não nos faz agradáveis a Deus, porque, se comemos, nada temos de mais e, se não comemos, nada nos falta” ( 1Co 8:8 ).

Ao observar que o reino dos céus não é comida nem bebida “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” ( Rm 14:17 ), tem-se a seguinte conclusão: “Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados” ( Cl 2:16 ).

Ora, ninguém deve ser julgado por dias de festas ou sábados, sendo que alguns sábados eram específicos para o jejum. Neste ponto temos que: “O que come não despreze o que não come; e o que não come, não julgue o que come; porque Deus o recebeu por seu” ( Rm 14:3 ); “Aquele que faz caso do dia, para o Senhor o faz e o que não faz caso do dia para o Senhor não faz. O que come, para o Senhor come, porque dá graças a Deus; e o que não come, para o SENHOR não come, e dá graças a Deus” ( Rm 14:6 ).

Deus já concedeu aos cristãos tudo que é concernente a vida e a piedade ( 2Pe 1:3 ), pois os abençoou com todas as benção espirituais nas regiões celestiais em Cristo ( Ef 1:3 ), ou seja, de nada têm falta “Temei ao SENHOR, vós, os seus santos, pois nada falta aos que o temem” ( Sl 34:9 ).

Se os que temem ao Senhor de nada tem falta, segue-se que não podem, ou que não há como afligir a alma. Caso deixe de comer ou beber, terá fome, mas não acrescentará nada a sua vida espiritual.

Após verificar que o verdadeiro jejum é: a) Não seguir seus próprios caminhos; b) Não falar suas próprias palavras; c) Não fazer a sua própria vontade; d) Anunciar as boas novas do evangelho ( Is 58:10 e 13), e; e) Que Jesus e os seus discípulos não jejuavam e nem cumpriam o sábado aos moldes dos escribas e fariseus ( Mc 2:18 e Mc 2:24 ; Lc 5:33 ), temos elementos para concluir que um cristão pode até se abster da comida, pois tudo que é proveniente de fé não é pecado (desde que não se pretenda costurar remendo novo em vestido velho, e nem deitar vinho novo em odres velhos, ou seja, amalgamar questões legalistas ao evangelho de Cristo) ( Mc 2:21 -22), mas é um erro o cristão utilizar o jejum como ascetismo pessoal, uma vez que é Deus quem santifica “E guardai os meus estatutos, e cumpri-os. Eu sou o SENHOR que vos santifica” ( Lv 20:8 ).

Antes de ‘abster-se da comida e da bebida’ ou de guardar ‘dias’ o cristão deve ter em mente que, enquanto tiver consigo o esposo, não pode jejuar (afligir sua alma) “E Jesus disse-lhes: Podem porventura os filhos das bodas jejuar enquanto está com eles o esposo? Enquanto têm consigo o esposo, não podem jejuar” ( Mc 2:19 ).

O cristão pode até abster-se do alimento, porém, o jejum de afligir a sua alma é impossível fazer. Cristo disse que sempre está com os que crêem, portanto não podem afligir a alma (jejuar) “… eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém” ( Mt 28:20 ; Jo 14:23 ).

Se o crente crê que Cristo se faz presente todos os dias da sua vida, não pode jejuar! “Far-me-ás ver a vereda da vida; na tua presença há fartura de alegrias; à tua mão direita há delícias perpetuamente” ( Sl 16:11 ).

A aflição da alma e o sábado são figuras estabelecidas especificamente para os homens que necessitam de descanso, o que não é o caso de quem já bebeu da água que Cristo oferece, pois nunca voltará a ter sede “E Jesus, respondendo, disse: Ó geração incrédula e perversa! até quando estarei ainda convosco e vos sofrerei? Traze-me aqui o teu filho” ( Lc 9:41 ), pois os que crêem já foram consolados e entraram para o descanso do Senhor ( Jo 14:16 e 18 ; Jo 15:26 e Jo 16:7 ; Hb 4:3 ).

Deixar de comer e beber não pode ser confundido com a ordenança de Deus para que o povo afligisse a alma. Do mesmo modo que os interpretes de Israel não compreenderam o que é ‘misericórdia quero’, ‘falai a verdade’, ‘executai juízo’, etc., não compreenderam a ordenança de ‘afligirem a alma’ sem fazerem obra alguma.

Deviam abster-se de realizar obras na intenção de salvarem-se, o que os tornariam pobres, necessitados, aflitos na alma, e se refugiariam em Deus. Após absterem-se de seus conceitos, ficariam famintos e sequiosos por beberem e alimentarem-se de Deus, a água e o pão que concede vida.

O povo de Israel e os seus sacerdotes eram contumazes em jejuar. Continuamente compareciam ao templo para prantear e jejuar ( Zc 7:2 ). Sarezer, Regem-Meleque e seus homens foram enviados de Betel à casa do Senhor para suplicarem o favor de Deus, e demonstraram o quanto estavam enfadados com aqueles ritos: “Chorarei eu no quinto mês, fazendo abstinência, como tenho feito por tantos anos?” ( Zc 7:3 ).

Qual foi a resposta de Deus através de Zacarias? “Fala a todo o povo desta terra, e aos sacerdotes, dizendo: Quando jejuastes, e pranteastes, no quinto e no sétimo mês, durante estes setenta anos, porventura, foi mesmo para mim que jejuastes? Ou quando comestes, e quando bebestes, não foi para vós mesmos que comestes e bebestes?” ( Zc 7:5 -6).

Quando choravam, lamentavam e abstinham-se da comida e da bebida, somente estavam se deleitando em suas abominações. Em nada eram diferente os seus dias de abstinências dos dias festivos em que comiam e bebiam, pois ambos eram abominações “… quem queima incenso em memorial é como o que bendiz a um ídolo; também estes escolhem os seus próprios caminhos, e a sua alma se deleita nas suas abominações” ( Is 66:3 ).

O que se observa neste verso? Que há pelo menos setenta anos o povo de Israel se lançava às abstinências, às comidas e às bebidas, porém, tudo foi realizado para eles mesmos. Através deste verso fica nítido que o jejuar estipulado no dia da expiação ( Lv 23:27 ), em nada diferia das determinações de festejarem pertinente as outras santas convocações, como o sábado, a páscoa, as primícias, o pentecostes, etc. ( Lv 23:6 ).

Perante a lei, aquele que comia e bebia para o Senhor festejava, e aquele que se lançavam as abstinências, para o Senhor jejuava ( Zc 7:5 -6 ; Rm 14:3 ). Porém, festejar e jejuar aos moldes dos israelitas não era conforme o que Deus estipulou.

Qual era o verdadeiro jejum a realizar? Deus responde novamente: “Assim falou o SENHOR dos Exércitos, dizendo: Executai juízo verdadeiro, mostrai piedade e misericórdia cada um para com seu irmão…” ( Zc 7:9 ). O juízo verdadeiro refere-se àquele ministrado pelos juízes e sacerdotes nos tribunais? Deus estava tratando de questões sociais? Não!

O juízo verdadeiro que deveriam executar refere-se à palavra de Deus que dá vida eterna aos homens ( Dt 8:11 compare com Dt 8:3 ). Somente sendo misericordioso, como é o Pai celeste, é possível ao homem mostrar piedade e misericórdia aos seus semelhantes “Sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso” ( Lc 6:36 ).

Quando Jesus se apresentou ao povo de Israel como pão vivo que desceu dos céus “Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo” ( Jo 6:51 ), estava sendo misericordioso como o Pai celeste ( Lc 6:36 ).

Ele estava executando juízo verdadeiro! “Julgou a causa do aflito e necessitado; então lhe sucedeu bem; porventura não é isto conhecer-me? diz o SENHOR” ( Jr 22:16 ); “Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma. Como ouço, assim julgo; e o meu juízo é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou” ( Jo 5:30 ; Jo 8:16 ).

Quando se conhece a Verdade, ou antes, se é conhecido de Deus ( Jo 8:32 compare com Gl 4:9 e 1Co 8:9 ), é porque se executou o juízo verdadeiro, julgando a causa do aflito e necessitado, a causa dos que jejuam de fato! ( Jr 22:16 compare com Zc 7:9 ).

Os quarenta dias e quarenta noites sem comer não foram previstos nas escrituras como sendo o jejum do Messias, mas a humilhação e as afrontas que ele sofreu foram previstas como jejum: “Pois o zelo da tua casa me devorou, e as afrontas dos que te afrontam caíram sobre mim. Quando chorei, e castiguei (afligir) com jejum a minha alma, isto se me tornou em afrontas. Pus por vestido um saco, e me fiz um provérbio para eles. Aqueles que se assentam à porta falam contra mim; e fui o cântico dos bebedores de bebida forte” ( Sl 69:9 -12 compare com Sl 36:13 ).

Observe que o salmo 69 é messiânico, sendo que os versos 9 e 10 são citados respectivamente pelo apóstolo Paulo e pelo apóstolo João como referindo-se a Cristo ( Rm 15:3 ; Jo 2:17 ).

O salmo antevê que Cristo haveria de ser o aflito do Senhor (chorei), pois afligiria (castigar com jejum) a sua alma ( Is 53:4 ), tal ação tornar-se-ia em afronta. A afronta seria como usar como vestido uma saco, tornando-se um provérbio para aqueles que exerciam o domínio (as portas) entre o povo.

Por que Jesus foi escarnecido? Como ele tornou-se o aflito do Senhor? Como ele afligiu a sua alma? Porventura não foi porque afligiu a sua alma conforme o verso 13 do capítulo 58 de Isaias? Por Jesus não fazer a sua própria vontade, antes falou segundo as palavras do Pai, sofreu o escárnio dos homens ( Mt 27:43 ; Is 58:13 compare com Jo 6:38 e Jo 8:59 ) “Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma. Como ouço, assim julgo; e o meu juízo é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou” ( Jo 5:30 ; Jo 8:16 ); “Julgou a causa do aflito e necessitado; então lhe sucedeu bem; porventura não é isto conhecer-me? diz o SENHOR” ( Jr 22:16 ).

Como Jesus ‘julgou’ a causa dos ‘aflitos’, a ressurreição dentre os mortos foi o bem que Deus lhe proporcionou. O bem prometido para aquele que esteve muito aflito, porém, creu e falou as ‘palavras’ do Pai “Volta, minha alma, para o teu repouso, pois o SENHOR te fez bem. Porque tu livraste a minha alma da morte, os meus olhos das lágrimas, e os meus pés da queda. Andarei perante a face do SENHOR na terra dos viventes. Cri, por isso falei. Estive muito aflito” ( Sl 116:7 -10).

Pergunta: Quando o profeta Joel proclama um jejum ao povo de Israel, recomendando que se vestissem de saco, estava recomendando que se abstivesse da comida e da bebida? “Cingi-vos (de saco) e lamentai-vos (afligir), sacerdotes (…) Santificai um jejum, convocai uma assembléia solene, congregai os anciãos, e todos os moradores desta terra, na casa do SENHOR vosso Deus, e clamai ao SENHOR” ( Jl 1:13 -14 ). Não!

O verdadeiro jejum é ‘rasgar’ o coração, e não as vestes. O verdadeiro jejum é converte-se ao Senhor, e não somente vestir-se de pano de saco e abster-se de comida e bebida “E rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao SENHOR vosso Deus; porque ele é misericordioso, e compassivo, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e se arrepende do mal” ( Jl 2:13 ).

Converte-se ao Senhor de todo o coração somente é possível quando o homem rasga o coração, ou seja, quando é circuncidado pelo Senhor “E há de ser que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” ( Jl 2:32 ); “Então dali buscarás ao SENHOR teu Deus, e o acharás, quando o buscares de todo o teu coração e de toda a tua alma”  ( Dt 4:29 ); “E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao SENHOR teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas” ( Dt 30:6 ); “Convertei-vos a mim de todo o vosso coração; e isso com jejuns, e com choro, e com pranto” ( Jl 2:12 compare com Dt 30:6 ).

Quando o povo de Israel estava em grande aflição no Egito por causa de questões socioeconômicas, clamava ao Senhor ( Ex 2:23 ), e era atendido, porém, nas questões espirituais, ou seja, com relação à servidão ao pecado, não clamava ao Senhor. Não tomaram o cálice da salvação ( Sl 116:13 ; Jl 2:32 ).

Todas as vezes que se viam em aperto os filhos de Jacó convocavam um jejum nacional que se resumia em lançar cinzas sobre a cabeça, rasgar as vestes, abster da comida e não ungir a cabeça ( Jz 20:26 ; Ed  8:21 ; Et 4:3 ; Jr 36:9 ), e muitas vezes foram atendidos, como foram atendidos ao serem arrancados do Egito.

Neemias resume a história de Israel demonstrando que Deus sempre via a aflição do povo de Jacó e sempre os livrou ( Ne 9:9 ). Demonstrou também que os filhos de Israel, como nação, sempre eram atendidos, pois quando estavam em aperto se aplicavam as abstinências, aflição física semelhante a impingida pelas ervas amargas antes de serem resgatados do Egito.

Quando comeram ervas amargas e o cordeiro pascal, os filhos de Jacó foram libertos do Egito, agora necessitavam afligir a alma para serem libertos do pecado por serem descendentes de Adão. Mas, o povo não compreendeu a diferença entre ‘afligir a alma’ e ‘afligir o corpo’ com ervas amargas ou jejuns.

Após a nação se ver em descanso, novamente era posta em aperto e se voltavam com jejuns e pano de saco ao Senhor, e muitas vezes foram atendidos como nação ( Ne 9:28 ), mas não aprendiam a lição de que lhes era necessário se voltarem para Deus ( Is 59:1 -4). Não atinavam que Deus também queria libertá-los do pecado, o que demandava o afligir da alma, o que é diferente de afligir o corpo com abstinências de alimentos.

Foi por causa destas questões que Deus instituiu o dia da expiação, ordenando a cada indivíduo em Israel que afligisse a alma em um dia de descanso, para que compreendessem que, além da libertação nacional, Deus queria livrá-los do pecado.

Quando Jesus veio, o povo continuou buscando uma libertação nacional ( Jo 6:15 ), no entanto, Jesus demonstrou que veio libertar os cativos, os contritos, os aflitos de coração, pois o seu reino não é deste mundo ( Is 61:1 ; Jo 18:36 ; Mt 11:28 ).

Os contritos, aflitos, pobres, tristes, cativos são todos os que se convertem a Deus de todo o seu coração, que afligem a alma, o jejum, o clamor e o pranto ( Jl 2:12 ).

Observe o alerta do apóstolo Paulo: “MAS o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios; Pela hipocrisia de homens que falam mentiras, tendo cauterizada a sua própria consciência; proibindo o casamento, e ordenando a abstinência dos alimentos que Deus criou para os fiéis, e para os que conhecem a verdade, a fim de usarem deles com ações de graças” ( 1Tm 4:1 -3).

Para os cristãos resta o alerta paulino, pois qualquer que proíbe o casamento e que ordena abstinências, o que devem ser recebidos pelos homens com ação de graças, fala mentira, não fala segundo a verdade do evangelho.

Não se pode perder de vista que “… os alimentos são para o estômago e o estômago para os alimentos”, e que Deus aniquilará tanto um como o outro ( 1Co 6:13; 1Tm 4:4 ).

Daniel ficou por três semanas sem comer manjar desejável, nem carne e nem vinho, e não ungiu a cabeça com óleo, pois a compreensão da visão o entristeceu muito ( Dn 10:2 -3). A tristeza de Daniel o fez abster-se de alimento, mas tal abstinência não diz do jejum estipulado por Deus, antes foi em conseqüência de ter entendido a visão de Deus.

Moisés não comeu pão e nem bebeu água por quarenta dias e quarenta noites ( Ex 34:28 ). Elias após comer o pão que o corvo lhe trouxe caminhou quarenta dias e quarenta noites até Horebe com a força daquela comida ( 1Rs 19:8 ), e o Senhor Jesus foi guiado pelo Espírito até o deserto, e ficou quarenta dias e quarenta noites sem comer, e após, teve fome ( Lc 4:1 -2).

Moisés, Elias e Cristo jejuaram? Se tomarmos a palavra jejuar como sendo ficar sem comer e beber, pode-se ‘dizer’ que eles jejuaram.

Mas, como estavam na presença de Deus, e na presença de Deus há abundância de alegria, somente não comeram, pois lhes era impossível ‘afligir a alma’ diante da alegria verdadeira ( Sl 16:11 ).

Segundo a concepção humana de que jejuar é abster-se de alimento, Moisés e Cristo não jejuaram, mas se considerarmos o verdadeiro jejum descrito em Isaias 58, verso 13, segue-se que jejuaram. Jejuaram, mas não em decorrência de não terem comido ou bebido. Jejuaram por que: a) Não seguir seus próprios caminhos; b) Não falar suas próprias palavras; c) Não fazer a sua própria vontade, e; d) Anunciar as boas novas do evangelho ( Is 58:10 e 13).

Moisés ficou sem comer porque estava na presença de Deus. Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto e, somente após o período de quarenta dias e quarenta noites, teve fome.

O caso de Elias é peculiar, pois ficou sem comer porque o alimento entregue pelo corvo o susteve. A tristeza que Elias sentiu não pode ser confundida com a ordenança de se ‘afligir a alma’, pois a tristeza de Elias era decorrente de um sentimento humano de desilusão, enquanto o ‘afligir da alma’ decorre das questões elencadas acima.

Por não compreenderem o enigma na ordem divina de afligirem a alma em um dia de descanso os judeus faziam propósito de se absterem de alimentos, porém, os três personagens em tela foram atraídos e conduzidos por Deus por um motivo especial.

Os três personagens referenciados acima em momento algum se propuseram ficar sem se alimentar durante quarenta dias e quarenta noites contrariando ou testando as suas estruturas físicas. Nenhum deles tentou a Deus, ou seja, fez um propósito específico de ficar sem comer e beber por um período longo o bastante com o intuito de verificar se Deus estava com eles ou não.

Qualquer propósito no sentido de ficar sem se alimentar por quarenta dias e quarenta noites é o mesmo que tentar a Deus. Qualquer desafio neste sentido é contrário ao mandamento divino, pois o homem não vive de sacrifícios, mas da palavra que sai da boca de Deus “Disse-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus” ( Mt 4:7 ; Dt 6:16 ; Ex 17:7 ).

Saulo, após ficar cego, ficou três dias sem comer e beber ( At 9:9 ), mas ficar sem se alimentar não foi o jejum exigido por Deus no capítulo 58 de Isaias. Após ser contatado pelo Senhor Jesus, Saulo se propôs a obedecê-lo “E ele, tremendo e atônito, disse: Senhor, que queres que eu faça?” ( At 9:6 ), e aguardou as instruções por três dias sem comer e beber “E disse-lhe o Senhor: Levanta-te, e entra na cidade, e lá te será dito o que te convém fazer” ( At 9:6 ).

Enquanto aguardava ser instruído, Saulo passou sem comer por três dias, mas o verdadeiro jejum estava ocorrendo na sua mente, pois o verdadeiro jejum é: a) Não seguir seus próprios caminhos; b) Não falar suas próprias palavras; c) Não fazer a sua própria vontade, e; d) Anunciar as boas novas do evangelho ( Is 58:10 e 13).

Quando lemos citações de jejuns na bíblia, como o caso de Ana, que apesar de ter oitenta e quatro anos, não deixava o templo e fazia jejuns e orações, deve-se ter em mente as questões culturais própria ao povo de Israel.

Apesar das questões culturais, havia em Israel alguns homens que afligiam a alma, pois aguardavam a consolação de Israel “Havia em Jerusalém um homem cujo nome era Simeão; e este homem era justo e temente a Deus, esperando a consolação de Israel; e o Espírito Santo estava sobre ele” ( Lc 2:25 ).

Quando se crê no que profetizou o profeta Simeão encontra-se paz e descanso para a alma aflita “Agora, Senhor, despedes em paz o teu servo, Segundo a tua palavra; Pois já os meus olhos viram a tua salvação, a qual tu preparaste perante a face de todos os povos; Luz para iluminar as nações, e para glória de teu povo Israel” ( Lc 2:29 -32).

Como era comum a prática de abstenções de alimentos, votos, sacrifícios, etc., em Israel, e a influencia dos judeus convertidos sobre os demais cristãos foi grande, e tais costumes continuaram sendo aplicados em meio aos primeiros cristãos ( At 13:2 -3 ; At 18:18 ).

Embora tenha orientado os gentios no transcorrer do tempo que não lhes era necessário guardar os costumes dos judeus ( At 21:25 ), muitas práticas foram disseminadas por questões culturais, principalmente àqueles relacionadas a comida e aos dias de festas ( Gl 2:12 ).

Um exemplo claro encontra-se no comportamento do apóstolo Pedro, que apesar de estar comendo com os gentios, quando chegaram os da circuncisão, acabou se deixando envolver em questões culturais, e até Barnabé se deixou levar ( Gl 2:12 ). Tal dissimulação ocorreu quando comiam, que se dirá das abstenções impostas pelos judaizantes em seus dias de festas e jejuns ( Cl 2:11 ).

Ao escrever a Timóteo, o apóstolo Paulo alerta quanto aqueles que proíbem o casamento e que ordenam a abstinência de alimentos ( 1Tm 4:3 ), pois discursam que é possível ao homem render graças a Deus por intermédio destas privações.

O cristão não pode perder de vista que o sacrifício aceito por Deus é o de louvor, ofertado por intermédio de Cristo ( Hb 13:15 ; Rm 12:1 ; Sl 51:15 -17 ; Os 14:2 ).

A melhor recomendação aos que seguem a Cristo foi feita por Ele mesmo: “E Jesus disse-lhes: Podem porventura os filhos das bodas jejuar enquanto está com eles o esposo? Enquanto têm consigo o esposo, não podem jejuar” ( Mc 2:19 ), pois é certo que o cristão já entrou no descanso proposto, pois Cristo está com ele para todo o sempre. Amém! ( Hb 4:3 ; Mt 28:20 ).

 

* * * * *

 

BIBLIOGRAFIA

 

ALMEIDA, João Ferreira de, Bíblia Sagrada, Edição Contemporânea, 4ª impressão, 1996, Editora Vida.

Novo Testamento interlinear grego-português. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2004.

 

* * * * *

 

NOTA PARA O LEITOR:

Acesse o portal Estudo Bíblico através do link abaixo para contatar o autor e receber notícias sobre novas publicações.

http://www.estudobiblico.org

Ler mais

A mulher cananéia

A multidão intentou apedrejar Jesus por causa das suas palavras e não por causa dos milagres que ele realizou “Tenho-vos mostrado muitas obras boas procedentes de meu Pai; por qual destas obras me apedrejais? Os judeus responderam, dizendo-lhe: Não te apedrejamos por alguma obra boa, mas pela blasfêmia; porque, sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo” ( Jo 10:32 -33).

 


“E, partindo Jesus dali, foi para as partes de Tiro e de Sidom. E eis que uma mulher cananéia, que saíra daquelas cercanias, clamou, dizendo: Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim, que minha filha está miseravelmente endemoninhada. Mas ele não lhe respondeu palavra. E os seus discípulos, chegando ao pé dele, rogaram-lhe, dizendo: Despede-a, que vem gritando atrás de nós. E ele, respondendo, disse: Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel. Então chegou ela, e adorou-o, dizendo: Senhor, socorre-me! Ele, porém, respondendo, disse: Não é bom pegar no pão dos filhos e deitá-lo aos cachorrinhos. E ela disse: Sim, SENHOR, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus senhores. Então respondeu Jesus, e disse-lhe: Ó mulher, grande é a tua fé! Seja isso feito para contigo como tu desejas. E desde aquela hora a sua filha ficou sã” ( Mt 15:21 -28).

 

Uma estrangeira crente

Após recriminar os fariseus por pensarem que servir a Deus era o mesmo que seguir tradições de homens ( Mc 7:24 -30), Jesus e seus discípulos seguiram para as terras de Tiro e de Sidom.

O evangelista Lucas deixa claro que, em terras estrangeiras Jesus entrou em uma casa e não queria que soubessem que ali estava, porém, não foi possível esconder-se. Uma mulher grega, siro-feníncia de sangue, que tinha uma filha possuída por um espírito imundo, ao ouvir falar de Jesus, passou a rogar-lhe que expulsasse da sua filha o espírito que a atormentava “Porque uma mulher, cuja filha tinha um espírito imundo, ouvindo falar dele, foi e lançou-se aos seus pés” ( Lc 7:25 ).

O evangelista Mateus descreveu que a mulher saiu das cercanias e passou a clamar dizendo: – Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim, que minha filha está miseravelmente endemoninhada! Mas, apesar das súplicas, Jesus parecia não ouvi-la.

Diferentemente de muitos outros que ouviram falar de Jesus, a mulher cananéia declarava uma verdade ímpar: – Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim…

A mulher não clamou por um mago, um feiticeiro, um curandeiro, um milagreiro, um médico, etc., antes clamou pelo Filho de Davi. Enquanto os filhos de Israel questionavam se Cristo realmente era o Filho de Davi, a mulher cananéia clamou plena de certeza: – Senhor, Filho de Davi…, uma certeza impar se compararmos com as especulações da multidão “E toda a multidão se admirava e dizia: Não é este o Filho de Davi?” ( Mt 12:23 ).

Deus havia prometido nas escrituras que o Messias seria filho de Davi, e o povo de Israel aguardava ansiosamente a sua vinda. Deus prometera que um descendente de Davi, segundo a carne, havia de construir uma casa a Deus e o reino de Israel se firmaria acima de todos os reinos ( 2Sm 7:13 e 16). Porém, a mesma profecia deixava claro que este descendente seria o Filho de Deus, pois o próprio Deus seria o seu Pai, e o descendente seu Filho “Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho; e, se vier a transgredir, castigá-lo-ei com vara de homens, e com açoites de filhos de homens” ( 2Sm 7:14 ).

Mesmo tendo nascido na casa de Davi, pois Maria era descendente de Davi, os escribas e fariseus rejeitaram o Messias. Embora as Escrituras deixassem bem claro que Deus tinha um Filho, não creram em Cristo e rejeitavam a possibilidade de Deus tem um Filho “Quem subiu ao céu e desceu? Quem encerrou os ventos nos seus punhos? Quem amarrou as águas numa roupa? Quem estabeleceu todas as extremidades da terra? Qual é o seu nome? E qual é o nome de seu filho, se é que o sabes?” ( Pv 30:3 ).

Diante da pergunta de Jesus: “Como dizem que o Cristo é filho de Davi?” ( Lc 20:41 ), seus acusadores não souberam responder o porquê Davi chamou profeticamente o seu filho de Senhor, se compete aos filhos honrar os pais e não os pais aos filhos ( Lc 20:44 ), porém, o que aquela mulher estrangeira ouviu acerca de Cristo foi o suficiente para concluir que Cristo era o Filho de Deus a quem Davi chamou de Senhor.

Ora, apesar de estrangeira, a mulher ouviu falar de Cristo, e a informação que chegou até ela levou-a a concluir que Cristo era o Messias prometido, o Descendente de Davi “Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, sendo rei, reinará e agirá sabiamente, e praticará o juízo e a justiça na terra” ( Jr 23:5 ).

Por causa do clamor da mulher os discípulos ficaram incomodados, e pediram a Cristo que a despedisse. Foi quando Jesus respondeu aos discípulos dizendo: – Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel.

Apesar de estar em terra estrangeira, Jesus enfatizou qual era a sua missão “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam” ( Jo 1:11 ); “Ovelhas perdidas têm sido o meu povo, os seus pastores as fizeram errar, para os montes as desviaram; de monte para outeiro andaram, esqueceram-se do lugar do seu repouso” ( Jr 50:6 ).

Como o povo de Israel se esqueceu do ‘lugar do seu repouso’, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, a anuncia-los: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” ( Mt 11:28 ); “Acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne” ( Rm 1:3 ).

Ao convocar o seu povo dizendo: – Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, Jesus se identifica como sendo o cumprimento do que foi profetizado por boca de Jeremias.

O povo do Messias o rejeitou, mas a mulher cananéia aproximou-se de Jesus e o adorou, dizendo: – Senhor, socorre-me!

O evangelista Mateus deixa claro que, pelo fato de a mulher ter pedido socorro a Cristo, estava adorando-O. Pelo fato de ter clamado: – Senhor, socorre-me!, o pedido da mulher era uma adoração ao Filho de Davi.

Por ter ouvido acerca de Jesus, a mulher creu no fato de que Ele era o Filho de Davi e, concomitantemente creu que Cristo era o Filho de Deus, pois adorou-O. O evangelista deixa claro que, o ato de pedir a Cristo que lhe concedesse a dádiva de libertar a sua filha daquele terrível mal, algo impossível aos homens, constituiu adoração.

A adoração da mulher aparentemente não surtiu efeito, pois Jesus lhe disse: – Não é bom pegar no pão dos filhos e deitá-lo aos cachorrinhos. A resposta de Cristo à mulher foi um complemento à resposta de Cristo aos discípulos.

O registro de Lucas dá o significado exato à frase de Cristo: “Deixa primeiro saciar os filhos; porque não convém tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos” ( Mc 7:27 ). Jesus estava enfatizando que a sua missão estava vinculada à casa de Israel, e atende-la, seria comparável ao ato de um pai de família que tira o pão dos filhos e dá aos cachorrinhos.

A resposta da mulher é surpreendente, pois ela não se fez de rogada ao ser comparada aos cães, e responde: Sim, SENHOR, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus senhores. Ela confirma o que Jesus lhe disse, porém, enfatiza que não buscava o alimento destinado aos filhos, mas a migalha que cabe aos cachorrinhos.

Para aquela mulher, a migalha da mesa do Filho de Davi era suficiente para resolver o seu problema. Ela demonstrou que não tinha a pretensão de tirar o pão dos filhos que possuíam o direito de serem participantes da mesa, antes bastava a migalha que caísse da mesa do Filho de Davi.

Foi quando Jesus lhe respondeu: – Ó mulher, grande é a tua fé! Seja isso feito para contigo como tu desejas. E desde aquela hora a filha da mulher ficou sã.

É importante notar que a mulher foi atendida por crer que Cristo era o enviado de Deus, o Filho de Davi, o Senhor, e não porque Jesus se comoveu pelo sentimento de uma mãe desesperada.

Não é o desespero de uma mãe que faz com que Deus venha em socorro do homem, pois Cristo quando leu as Escrituras no profeta Isaias, que diz “O Espírito do Senhor é sobre mim…”, disse: “Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos” ( Lc 4:21 ), e deixou claro que é a confiança em Deus que move a mão Deus, pois havia inúmeras viúvas necessitadas em Jerusalém, porém, Elias foi enviado à casa de uma viúva estrangeira. Por quê? Porque aquela moradora da cidade de Sarepta de Sidom reconheceu que Elias era profeta, e apesar de sua necessidade, que beirava ao desespero, demonstrou a sua confiança em Deus ao obedecer a palavra do profeta ( Lc 4:25 -26).

 

O Testemunho das Escrituras

Muitos que seguiam a Cristo possuíam necessidades semelhantes à da mulher cananéia, porém, aquela mulher destacou-se da multidão por reconhecer duas verdades essenciais: que Cristo era o Filho de Davi e, concomitantemente, o Senhor.

Embora Cristo tenha sido enviado às ovelhas perdidas da casa de Israel, anunciando o evangelho e realizando muitos milagres, os israelitas tinham para si que Cristo não passava de um profeta “Uns, João o Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias, ou um dos profetas” ( Mt 16:14 ).

Como os homens não sabiam quem era o filho do homem, Cristo interpelou aos seus discípulos: – E vós, quem dizeis que eu sou? Foi quando o apóstolo Pedro fez a confissão (admitiu) que Cristo é o Filho do Deus vivo.

Como os judeus não conseguiam ver que Cristo era o Messias prometido, Jesus orienta seus discípulos a não declararem esta verdade a ninguém “Então mandou aos seus discípulos que a ninguém dissessem que ele era Jesus, o Cristo” ( Mt 16:20 ).

Por que Jesus não queria que os discípulos declarassem que Ele era o Cristo?

Porque Jesus queria que os homens cressem nele conforme as Escrituras, pois são elas que testificam d’Ele. Isto porque Jesus deixa claro que, se testificasse de si mesmo o seu testemunho não seria verdadeiro “Se eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro” ( Jo 5:31 ), e que o testemunho verdadeiro e suficiente é proveniente do Pai (das Escrituras) “Há outro que testifica de mim, e sei que o testemunho que ele dá de mim é verdadeiro” ( Jo 5:32 ).

Apesar de entendermos que João Batista deu testemunho do Cristo, contudo o testemunho dele era testemunho da verdade “Vós mandastes mensageiros a João, e ele deu testemunho da verdade” ( Jo 5:33 ), ou seja, tudo o que o Batista dizia tinha relação direta com as Escrituras, pois só a palavra de Deus é a verdade ( Jo 17:17 ).

Ora, Jesus não queria que seus discípulos divulgassem que Ele era o Cristo porque ele não recebe testemunho de homens ( Jo 5:34 ), antes Ele possuía um testemunho maior, o testemunho do Pai, e todos os homens devem crer no testemunho que as Escrituras dá do Filho “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam” ( Jo 5:39 ).

Note esta verdade evidenciada na resposta de Abraão a um rico em tormento: “Porém, Abraão lhe disse: Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite” ( Lc 16:31 ). Crer em Deus não decorre de milagres, antes do testemunho que os profetas anunciaram acerca da verdade ( Jo 4:48 ).

Contar ‘milagres’ não é testemunho da verdade. O apóstolo Pedro deixa claro o que é testemunhar: “Mas a palavra do SENHOR permanece para sempre. E esta é a palavra que entre vós foi evangelizada” ( 1Pe 1:25 ). Testemunhar é falar a palavra de Deus, falar o que diz as Escrituras, anunciar Cristo aos homens.

Em nossos dias a ênfase de muitos está nas pessoas e em milagres por elas operados, mas a bíblia deixa claro que o ministério dos apóstolos não se apoiava nos milagres, antes se apoiava na palavra. O primeiro discurso de Pedro expunha aos habitantes de Jerusalém o testemunho das Escrituras ( At 2:14 -36). Mesmo após a cura de um coxo à porta do templo, repreendeu os seus ouvintes para que não ficassem maravilhados em relação ao sinal miraculoso ( At 3:12 ), e em seguida expôs o testemunho das Escrituras ( At 3:13 -26).

Quando os judeus apedrejaram Estevão, ele estava como João Batista, testemunhando acerca da verdade, ou seja, expondo o testemunho que Deus deu acerca do seu Filho, anunciando à multidão enfurecida, as Escrituras ( At 7:51 -53).

Se Estevão estivesse contando sinais miraculosos, jamais seria apedrejado, pois a rejeição dos homens é quanto à palavra e não quanto aos sinais miraculosos ( Jo 6:60 ). A multidão queria apedrejar Jesus por causa das suas palavras e não por causa dos milagres que realizou “Tenho-vos mostrado muitas obras boas procedentes de meu Pai; por qual destas obras me apedrejais? Os judeus responderam, dizendo-lhe: Não te apedrejamos por alguma obra boa, mas pela blasfêmia; porque, sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo” ( Jo 10:32 -33).

Muitos viram o milagre que Cristo operou para com a mulher cananéia, porém, a multidão que o seguia não confessou que Jesus era o Filho de Davi como ela fez ao ouvir acerca do Verbo eterno, a palavra do Senhor que permanece para sempre. O povo de Israel era dado a ouvir as Escrituras, mas estava aquém da mulher cananéia que, ao ouvir acerca de Jesus, deu crédito e clamou pelo Filho de Davi, e o adorou.

O diferencial da mulher está no fato de que ela ouviu e creu, enquanto a multidão que seguia Cristo viam os milagres ( Mt 11:20 -22), examinavam as escrituras ( Jo 5:39 )e, equivocadamente, concluíam que Jesus era somente um profeta. Rejeitavam a Cristo de modo que não obtiveram vida ( Jo 5:40 ).

Na mulher cananéia e nos muitos gentios que creram, temos o cumprimento do anunciado por Isaias: “Fui buscado dos que não perguntavam por mim, fui achado daqueles que não me buscavam; a uma nação que não se chamava do meu nome eu disse: Eis-me aqui. Eis-me aqui” ( Is 65:1 ).

Ora, sabemos que a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus, e o que a mulher ouviu foi o bastante para crer “Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue?” ( Rm 10:14 ). Qualquer que ouve e crê é bem-aventurado, pois Jesus mesmo disse: “Disse-lhe Jesus: Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram” ( Jo 20:29 ).

Como a mulher cananéia creu, ela viu a gloria de Deus “Disse-lhe Jesus: Não te hei dito que, se creres, verás a glória de Deus?” ( Jo 11:40 ), diferente do povo de Israel que esperava ver o sobrenatural para que pudesse crer “Disseram-lhe, pois: Que sinal, pois, fazes tu, para que o vejamos, e creiamos em ti? Que operas tu?” ( Jo 6:30 ).

Ora, a gloria de Deus é revelada na face de Cristo, e não em operações miraculosas “Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” ( 2Co 4:6 ). O que salva é resplendor da face do Senhor que escondeu o seu rosto da casa dos filhos de Israel “E esperarei ao SENHOR, que esconde o seu rosto da casa de Jacó, e a ele aguardarei” ( Is 8:17 ; Sl 80:3 ).

A mulher foi atendida porque creu, e não porque colocou Jesus contra a parede, ou porque o chantageou dizendo: – Se não me atenderdes, rasgarei as Escrituras. Antes de ser agraciada com a libertação da filha, a mulher já havia crido, diferente de muitos que querem uma ação miraculosa para crer.

O que a mulher ouviu acerca de Cristo? Ora, se a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus. O que a mulher ouviu não foi o testemunho de milagres ou que alguém famoso havia se convertido. Ouvir que alguém alcançou um milagre, ou ler uma faixa dizendo que alcançou uma graça não fará uma pessoa confessar abertamente que Cristo é o Filho de Davi!

O testemunho que produz fé é proveniente das Escrituras, pois são elas que testificam de Cristo. Falar que um artista converteu-se, ou que alguém deixou as drogas, a prostituição, etc., não é a lei e o testemunho selado entre os discípulos de Cristo. O profeta Isaias é claro: “À lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, é porque não há luz neles” ( Is 8:20 ).

O testemunho é a marca registrada da igreja, e não os sinais miraculosos, pois Cristo mesmo alertou que os falsos profetas operariam sinais, profetizariam e expulsariam demônios ( Mt 7:22 ). O fruto que procede dos lábios, ou seja, o testemunho é o diferencial entre o verdadeiro e o falso profeta, pois o falso profeta virá disfarçado de ovelha, de modo que, pelas ações e aparência é impossível identifica-los ( Mt 7:15 -16).

‘Quem crer em mim segundo as Escrituras’ esta é a condição estabelecida por Cristo para que haja luz nos homens “Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre” ( Jo 7:38 ), pois as palavras de Cristo é Espírito e vida ( Jo 6:63 ), semente incorruptível, e somente tal semente faz germinar uma nova vida que dá direito a vida eterna ( 1Pe 1:23 ).

Qualquer que crer em Cristo como o Filho de Davi, o Senhor, o Filho do Deus vivo, já não é estrangeiro e nem forasteiro. Não viverá das migalhas que caem da mesa do seu senhor, antes se tornou concidadão dos santos. Passou a ser participante da família de Deus “Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos, e da família de Deus” ( Ef 2:19 ).

Quem crê no Filho de Davi creu no Descendente prometido a Abraão, portanto é bem-aventurado como o crente Abraão, e participante de todas as beneficências prometidas por Deus através dos seus santos profetas, pois tudo que os profetas escreveram, escreveram a respeito do Filho ( Jo 5:46 -47 ; Hb 1:1 -2).

Quem crê pode todas as coisas em Deus, como se lê: “Os quais pela fé venceram reinos, praticaram a justiça, alcançaram promessas, fecharam as bocas dos leões, Apagaram a força do fogo, escaparam do fio da espada, da fraqueza tiraram forças, na batalha se esforçaram, puseram em fuga os exércitos dos estranhos. As mulheres receberam pela ressurreição os seus mortos; uns foram torturados, não aceitando o seu livramento, para alcançarem uma melhor ressurreição; E outros experimentaram escárnios e açoites, e até cadeias e prisões. Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada; andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, desamparados, aflitos e maltratados (Dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, e montes, e pelas covas e cavernas da terra. E todos estes, tendo tido testemunho pela fé, não alcançaram a promessa, Provendo Deus alguma coisa melhor a nosso respeito, para que eles sem nós não fossem aperfeiçoados” ( Hb 11:33 -40).

Ler mais

Por teus pecados

Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos com o objetivo de conduzir os homens a Deus ( 1Pe 3:18 ). Ele é a propiciação pelos pecados do mundo todo ( 1Jo 2:2 ), desfazendo a barreira de inimizade que havia entre Deus e os homens. Uma vez liberto da condenação de Adão o homem está apto a produzir boas obras, pois elas são feitas somente quando se está em Deus ( Is 26:12 ; Jo 3:21 ).

 


Li um trecho do Sermão nº 350, do Dr. Charles Haddon Spurgeon, sob o título “Um tiro certeiro na justiça própria”, e não consegui deixar de tecer um comentário acerca de uma afirmação contida no sermão.

Chamou-me a atenção a última frase do sermão, que diz:

“Cristo foi castigado por teus pecados antes que fossem cometidos” Charles Haddon Spurgeon, trecho do sermão nº 350 “Um tiro certeiro na justiça própria”, extraído da web.

Ora, se o Dr. Spurgeon considerou o texto bíblico que diz que Jesus é ‘o cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo’, na verdade ele devwria destacar que Cristo morreu antes que o pecado fosse introduzido no mundo ( Ap 13:8 ; Rm 5:12 ). Porém, como ele afirma que Jesus foi castigado antes que cada pecado dos cristãos fossem cometidos individualmente, entendo que o Dr. Spurgeon não fez referência ao verso 8, capítulo 13 do Livro de Apocalipse.

Cristo foi castigado pelo pecado de toda a humanidade, porém, quem cometeu a ofensa que levou toda a humanidade a estar debaixo do pecado? Ora, pelas Escrituras entendemos que o pecado é proveniente da ofensa (desobediência) de Adão, e não pelos erros de condutas que os homens cometem.

O castigo que trouxe a paz não se deu por causa de erros de conduta cometidos individualmente’, visto que todos os homens são gerados na condição de alienados de Deus (pecadores). Cristo é cordeiro de Deus morto antes da fundação do mundo, ou seja, o cordeiro foi ofertado antes que a ofensa de Adão ocorresse.

O castigo que recaiu sobre Cristo não decorre da conduta dos homens (pecados cometidos), antes decorre da ofensa de Adão. Em Adão os homens foram feitos pecadores, visto que, por uma ofensa veio o juízo e a condenação sobre todos os homens, sem exceção ( Rm 5:18 ).

Se o pecado (condição do homem sem Deus) decorre da conduta dos homens, para que a justiça fosse estabelecida, necessariamente a salvação somente seria possível através da conduta dos homens. Seria exigível que os homens praticassem algo bom para amenizar a sua conduta ruim, porém, jamais seria ‘justificado’.

Mas, a mensagem do evangelho demonstra que pela ofensa de um homem (Adão) todos foram condenados à morte, e somente por um homem (Cristo, o último Adão) o dom da graça de Deus abundou sobre muitos ( Rm 5:15 ). Quando Jesus morreu pelos nossos pecados, ocorreu uma substituição de ato: como Adão desobedeceu, o último Adão foi obediente até o calvário.

A última frase do trecho do sermão do Dr. Spurgeon demonstra que não foi considerado que:

  • Todos os homens são pecadores porque o primeiro pai da humanidade (Adão) pecou ( Is 43:27 );
  • Que todos os homens são formados em iniquidade e concebidos em pecado ( Sl 51:5 );
  • Que toda a humanidade desviou-se de Deus desde a madre ( Sl 58:3 );
  • Que todos os homens andam errados desde que nascem ( Sl 58:3 ), porque entraram por uma porta larga que dá acesso a um caminho largo que conduz à perdição ( Mt 7:13 -14);
  • Que por terem sido vendidos como escravo ao pecado, ninguém transgride conforme a transgressão de Adão ( Rm 5:14 );
  • Que o melhor dos homens é comparável a um espinho, e o mais reto pior que uma sebe de espinhos ( Mq 7:4 );
  • Que todos os homens pecaram e destituídos estão da glória de Deus por causa da condenação estabelecida em Adão;
  • Que não há nenhum justo, nenhum sequer, entre os descendentes de Adão ( Rm 3:10 ), etc.

Que bem ou mal comete uma criança no ventre materno para ser concebido em pecado? Que pecado uma criança comete para andar ‘errada’ desde que nasce? Quando e onde todos os homens desviaram e juntamente se fizeram imundos? ( Rm 3:12 ) Acaso o extravio da humanidade não se deu através da ofensa de Adão?

Em Adão todos os homens juntamente se fizeram imundos ( Sl 53:3 ), isto porque Adão é a porta larga por onde todos os homens entram ao nascer. O nascimento segundo a carne, o sangue e a vontade do varão é a porta larga por onde todos os homens entram, se desviam e juntamente se fazem imundos ( Jo 1:13 ).

Que evento fez com que todos os homens ‘juntamente’ se tornassem imundos? Somente a ofensa de Adão explica o fato de todos os homens, em um mesmo evento, tornarem-se imundos (juntamente), visto que é impossível a todos homens de inúmeras épocas praticarem um mesmo ato juntos.

Considere: Cristo morreu porque Caim matou Abel, ou Cristo morreu por causa da ofensa de Adão? Qual dos eventos comprometeu a natureza de toda humanidade? O ato de Caim ou a ofensa de Adão?

Observe que a condenação de Caim não é proveniente do seu ato criminoso, antes decorre da condenação em Adão. Jesus demonstrou que não veio condenar o mundo, antes salvá-lo, pois seria contraproducente julgar o que já está condenado ( Jo 3:18 ).

Cristo foi castigado por causa do pecado da humanidade, porém, o pecado não se refere àquilo que os homens cometem, antes diz da ofensa que trouxe juízo e condenação sobre todos os homens, sem distinção.

As ações dos homens sob o jugo do pecado também é denominado pecado, visto que, qualquer que peca, peca porque é escravo do pecado. A barreira de separação entre Deus e os homens se deu através da ofensa de Adão, e por causa da ofensa no Éden não há entre os filhos dos homens quem faça o bem. Por que não há quem faça o bem? Porque se extraviaram todos e juntamente se fizeram imundos. Portanto, por causa da ofensa de Adão, tudo que o homem sem Cristo faz é imundo.

Quem do imundo tirará o que é puro? Ninguém! ( Jó 14:4 ) Ou seja, não há quem faça o bem porque todos são escravos do pecado.

Ora, o escravo do pecado comete pecado, visto que, tudo que realiza pertence por direito ao seu senhor. As ações dos servos do pecado são pecaminosas porque são feitas por escravos do pecado. É por isso que Deus libertou os que creem para que sejam servos da justiça ( Rm 6:18 ).

Já os filhos de Deus não podem pecar porque são nascidos de Deus e a semente de Deus permanece neles ( 1Jo 3:6 e 1Jo 3:9 ). Qualquer que comente pecado é do diabo, mas os que creem em Cristo pertencem a Deus ( 1Co 1:30 ; 1Jo 3:24 ; 1Jo 4:13 ), visto que são templo e morada do Espírito ( 1Jo 3:8 ).

Cristo se manifestou para destruir as obras do diabo ( 1Jo 3:5 e 1Jo 3:8 ), e todos que são gerados de Deus permanecem n’Ele ( 1Jo 3:24 ) e em Deus não há pecado ( 1Jo 3:5 ). Ora se em Deus não há pecado, segue-se que todos que estão em Deus não pecam, visto que foram gerados de Deus e a semente de Deus permanece neles.

Uma árvore não pode dar dois tipos de frutos. Assim, aqueles que são nascidos da semente de Deus não podem produzir frutos para Deus e para o diabo, da mesma forma que é impossível um servo servir dois senhores ( Lc 16:13 ). Toda planta plantada pelo Pai dá muito fruto, porém, frutifica somente para Deus ( Is 61:3 ; Jo 15:5 ).

Após morrer para o pecado, o antigo senhor, resta ao homem ressurreto apresentar-se a Deus como vivo dentre os mortos, e os membros do seu corpo como instrumento de justiça ( Rm 6:13 ). A condição ‘vivo’ dentre os mortos é adquirida pela fé em Cristo, através da regeneração (novo nascimento). Através do novo nascimento o homem torna-se vivo dentre os mortos, e resta, portanto, voluntariamente apresentar a Deus os membros do seu corpo como instrumento de justiça.

O pecado não mais reina, pois não tem mais domínio sobre os que creem ( Rm 6:14 ). O cristão deve oferecer os seus membros para servirem a justiça, ou seja, para servirem Aquele que os santificou, visto que Cristo é a justificação e a santificação dos cristãos ( Rm 6:19 ; 1Co 1:30 ).

Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos com o objetivo de conduzir os homens a Deus ( 1Pe 3:18 ). Ele é a propiciação pelos pecados do mundo todo ( 1Jo 2:2 ), desfazendo a barreira de inimizade que havia entre Deus e os homens. Uma vez liberto da condenação de Adão o homem está apto a produzir boas obras, pois elas são feitas somente quando se está em Deus ( Is 26:12 ; Jo 3:21 ).

Os homens sem Deus, por sua vez, existem sem esperança neste mundo, pois são como o imundo e tudo que produzem, é imundo. Não há como o homem sem Deus fazer o bem, pois a natureza má só produz o mau “Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia; e todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniquidades como um vento nos arrebatam” ( Is 64:6 ).

O profeta Isaias ao descrever a condição do seu povo, comparou-os com:

  • O imundo – Quando o povo de Israel tornou-se imundo? Quando todos se desviaram e juntamente se tornaram imundos, ou seja, em Adão, o primeiro Pai da humanidade ( Sl 14:3 ; Is 43:27 );
  • Justiça como trapos de imundície – Todas as obras de justiça dos imundos são comparáveis a trapos de imundície, que não servem para vestes. Embora fossem religiosos, as obras do povo de Israel eram obras de iniquidade, obras de violência ( Is 59:6 );
  • Murcham como a folha – Não havia esperança para o povo de Israel, visto que como a folha estavam mortos ( Is 59:10 );
  • As iniquidades são como vento – Nada que Israel fazia podia livrá-los desta horrenda condição, visto que a iniquidade é comparável ao vento que arrebata a folha, ou seja, o homem não pode livrar-se do senhoril do pecado.

Cristo, a seu tempo, morreu pelos ímpios. O Cordeiro de Deus foi imolado desde a fundação do mundo pelos pecadores “Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios” ( Rm 5:6 ); “Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” ( Rm 5:8 ).

Ora, Cristo morreu pelos escravos do pecado, e não pelos ‘pecados’ que os escravos do pecado praticam, como entendeu o Dr. Spurgeon.

Cristo morreu pelos pecadores, logo os que creem morrem juntamente com Ele. Cristo morreu por todos para que os que são vivificados não mais vivam para si, antes vivam para Aquele que morreu e ressurgiu ( 2Co 5:14 ).

Os que ressurgiram com cristo estão em segurança, visto que:

  • Estão em Cristo;
  • São novas Criaturas;
  • As coisas velhas passaram;
  • Tudo se fez novo ( 2Co 5:17 ).

Deus reconciliou consigo mesmo os que creem por intermédio de Cristo e deu aos vivos dentre os mortos o ministério da reconciliação ( 2Co 15:18 ).

Aos vivos dentre os mortos resta a exortação: não recebais a graça de Deus em vão ( 2Co 6:1 ). Deus te ouviu em tempo aceitável, por tanto, como instrumento de justiça os cristãos são recomendados a:

  • Não dar escândalo em coisa alguma – Por que os cristãos não devem dar escândalos? Para serem salvos? Não! Para que o ministério da reconciliação não seja censurado;
  • Sendo recomendáveis em tudo – Na muita paciência, nas aflições, nas necessidades, nas angústias, nos açoites, nas prisões, nos tumultos, nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns, na pureza, na ciência, na longanimidade, na benignidade, no Espírito Santo, no amor não fingido, etc ( 2Co 6:3 -6).

Cristo foi morto desde a fundação do mundo, antes mesmo que toda a humanidade se tornar-se escrava da injustiça em função da desobediência de um só homem que pecou: Adão.

Ler mais