As bem-aventuranças e o ministério de Jesus Cristo

Uma mudança de concepção (metanoia) nos ouvintes de Jesus era imprescindível, pois tinham zelo de Deus, mas, como profetizou Davi, sem entendimento (Sl 53:3). Por não conhecerem a justiça de Deus, procuraram estabelecer uma justiça própria, não se sujeitando à justiça superior: a que vem de Deus: “Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus, e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus. Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10:3).


Parte II

Introdução

Este texto é a segunda parte do artigo “O Sermão da Montanha e o espírito inatingível da Lei”, disponível no Portal Estudos Bíblicos. Caso não tenha lido a primeira parte desse artigo, recomendamos a leitura da primeira parte, a fim de se ter compreensão plena da exposição a seguir.

Na primeira parte do artigo, foram analisadas as beatitudes, através do registro no Evangelho segundo Mateus e, agora, daremos continuidade à análise das beatitudes, por meio do registro efetuado pelo apóstolo Lucas, com especial destaque no público alvo do discurso de Jesus.

Vale salientar que a condição de ‘pobres bem-aventurados’ não tem relação com a condição financeira do indivíduo, pois, entre os apóstolos, havia um médico e um cobrador de impostos e, mesmo assim, Jesus classificou os seus discípulos como pobres.

Se a condição ‘pobre’ bem-aventurado fosse decorrente de questões socioeconômicas, no mínimo, Lucas e Mateus seriam exceções à regra. A bem-aventurança é uma espécie de hebraísmo[1], expressão linguística muito usual nas Escrituras, como encontramos no Salmo 32:

BEM-AVENTURADO aquele cuja transgressão é perdoada e cujo pecado é coberto. Bem-aventurado o homem a quem o SENHOR não imputa maldade e, em cujo espírito, não há engano” (Sl 32:1-2).

Para um judeu da época de Jesus, falar no aramaico asheré ou no grego makários (bem-estar, abençoados, felizes, bem-aventurados,ditosos, venturosos), pelo contexto, teria o mesmo efeito: seriam remetidos às exclamações enfáticas que permeiam as Escrituras.

 

O evangelista Lucas e as beatitudes

“E, descendo com eles, parou num lugar plano e, também, um grande número de seus discípulos e grande multidão de povo de toda a Judéia, de Jerusalém e da costa marítima de Tiro e de Sidom; os quais tinham vindo para ouvi-lo e serem curados das suas enfermidades, como, também, os atormentados dos espíritos imundos; e eram curados. E toda a multidão procurava tocar-lhe, porque saía dele virtude e curava a todos. E, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis fartos. Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir. Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem e quando vos separarem e vos injuriarem e rejeitarem o vosso nome como mau, por causa do Filho do homem. Folgai nesse dia, exultai; porque eis que é grande o vosso galardão no céu, pois assim faziam os seus pais aos profetas” (Lc 6:17-23).

Enquanto o evangelista Mateus registrou o Sermão da Montanha focado na mensagem do discurso, o evangelista Lucas incluiu no registro da mensagem uma descrição do local onde o discurso foi feito, bem como dá detalhes pertinentes ao público que estava ouvindo o Mestre e quando Ele muda a abordagem, em função dos grupos de pessoas que compunham a multidão.

O evangelista Lucas narra que Jesus subiu em um monte para orar e que Ele passou a noite em oração (Lc 6:12). Quando amanheceu, chamou os seus discípulos (seguidores) e, dentre eles, escolheu doze e deu-lhes o nome ‘apóstolos’ (Lc 6:13).

Após a escolha dos doze, Jesus desceu do monte, juntamente com os apóstolos e seus discípulos, e parou em um lugar plano, onde encontrava-se uma outra grande quantidade de discípulos, juntamente com uma grande multidão de diversas regiões da Judéia, Jerusalém e da costa marítima de Tiro e Sidom (Lc 6:17).

Muitos da multidão vieram para ouvir e serem curados por Jesus, pois bastava tocá-Lo para serem livres do mal que lhes afligia (Lc 6:18-19).

O evangelista Mateus enfatiza que Jesus se assentou, ato que indicou à multidão que Ele ia falar, pois à época os mestres ensinavam assentados (Lc 4:20). O evangelista Lucas, por sua vez, evidencia que Jesus selecionou o público alvo da sua mensagem, através de um olhar: “E, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós, os pobres…” (Lc 6:20).

Jesus olhou para os seus discípulos e enfatizou que eles eram bem-aventurados porque o tão almejado reino dos céus pertencia aos seus seguidores. Entretanto, Jesus não falou abertamente esta verdade, antes disse: “Bem-aventurados vós, os pobres…” (Lc 6:20).

Se os discípulos eram ‘os pobres’ e aos pobres ‘pertence o reino dos céus’, certo é que os discípulos eram ditosos, venturosos, pois estavam de posse do reino dos céus – Cristo (Jo 1:12).

E o que dizia os profetas acerca do reino de Deus?

“Do aumento deste principado e da paz não haverá fim, sobre o trono de Davi e no seu reino, para o firmar e o fortificar com juízo e com justiça, desde agora e para sempre; o zelo do SENHOR dos Exércitos fará isto” (Is 9:7).

Os profetas anunciavam que o Messias seria firmado e fortificado com juízo e justiça sobre o trono de Davi. Como o reino é firmado e fortificado em juízo e justiça, e a essência do reino é o principado d’Aquele que se assenta sobre o trono de Davi, quem recebeu o rei está farto de justiça (Jo 1:12).

Os seguidores de Cristo que eram famintos, agora são ditosos, por serem fartos de justiça. A tristeza, o abatimento, foram substituídos por alegria, ou seja, eles foram consolados (Is 61:3).

Ao profetizar acerca do reino do Messias, o Salmista declarou que o rei se compadecerá do necessitado que clamar, como também do aflito e dos necessitados. O rei não fará acepção: atenderá o necessitado que clamar, de modo que todas as nações o servirão: “E todos os reis se prostrarão perante ele; todas as nações o servirão. Porque ele livrará ao necessitado quando clamar, como também ao aflito e ao que não tem quem o ajude. Compadecer-se-á do pobre e do aflito e salvará as almas dos necessitados” (Sl 72:11-13).

Quem são os pobres, aflitos e necessitados? Responde-se: – Aqueles que invocam o nome do Senhor!

“E há de ser que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo; porque no monte Sião e, em Jerusalém, haverá livramento, assim como disse o SENHOR e, entre os sobreviventes, aqueles que o SENHOR chamar” (Jl 2:32);

“Compadecer-se-á do pobre e do aflito e salvará as almas dos necessitados (Sl 72:13).

O publicano, quando orou, de pé e ao longe, no templo, portou-se como necessitado, pois invocou a Deus, dizendo: – “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!”  (Lc 18:13). O publicano invocou o Senhor como pobre, tradução do termo grego ‘ptojói’, que remete a alguém em absoluta miséria, penúria total. Reconheceu a sua condição miserável: – ‘Sou pecador’!

E os necessitados serão livres do que? Da opressão econômica? Do descaso social? Das políticas governamentais opressoras? Das lutas de classes? Da discriminação racial? Não! Ele libertará o homem que clamar – do engano, da violência (Sl 72:14).

Mais adiante, abordaremos essas duas figuras: ‘engano’ e ‘violência’, que compõem a parábola do Salmo de Salomão.

Cristo é a pedra de tropeço, a rocha de escândalo, colocada em Israel por Deus e todo aquele que n’Ele cresse, não seria confundido. Enquanto os filhos de Israel esperavam um rei que estabelecesse um governo, o rei veio para estabelecer um santuário. Antes de restaurar o reino de Israel, Ele veio edificar um templo – a Igreja – um santuário, uma casa de oração para todos os povos: “Então ele vos será por santuário; mas servirá de pedra de tropeço e rocha de escândalo às duas casas de Israel; por armadilha e laço aos moradores de Jerusalém” (Is 8:14); “Também os levarei ao meu santo monte e os alegrarei na minha casa de oração; os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceitos no meu altar; porque a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos” (Is 56:7).

Os discípulos creram em Cristo – a rocha de escândalo para as duas casas de Israel (Judá e Israel) – portanto, os discípulos não foram confundidos, daí o título de bem-aventurados. Ao crerem no enviado de Deus, os discípulos estavam de posse do reino dos céus, portanto, eram fartos de justiça e consolados por Deus. Por terem recebido o grande rei, o Filho de Davi, foram feitos filhos de Deus (Jo 1:12).

Jesus frisou que os discípulos eram bem-aventurados quando odiados e quando os homens buscassem separá-los, injuriando e rejeitando-os como maus, por causa d’Ele. Quando acontecesse de serem injuriados e rejeitados, era para os discípulos não se entristecerem, antes deveriam exultar, folgar, porque a recompensa do Pai celeste seria grande (Mt 6:19-20), visto que, os filhos de Israel, no passado, também haviam perseguido os profetas de Deus.

Diferente dos escribas e fariseus que ajuntavam tesouro na terra, os discípulos, quando perseguidos, estariam ajuntando tesouro nos céus, onde a traça e a ferrugem não destroem e nem está ao alcance de ladrões (Mt 6:19, compare com Mt 5:12).

 

Peso

O evangelista Lucas registrou alguns ‘ais’ anunciados por Jesus, durante a exposição do Sermão do monte e o evangelista Mateus, por sua vez, não faz esse registro. Somente no capítulo 23 o evangelista Mateus registra a censura do Senhor Jesus contra os líderes judaicos, porém, em outro contexto.

Após anunciar a venturosa alegria dos discípulos, o evangelista Lucas registra uma censura através de imprecações de ‘ais’, que Jesus fez, desfavorável a algumas pessoas que estavam ouvindo o discurso.

Seria contrassenso os discípulos serem congratulados e censurados no mesmo discurso. Os seguidores de Cristo não poderiam ser ‘pobres’ e ‘ricos’, portanto, a censura de Jesus torna evidente que o público alvo do Sermão mudou. Observe:

“Mas ai de vós, ricos! Porque já tendes a vossa consolação. Ai de vós, os que estais fartos, porque tereis fome. Ai de vós, os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis. Ai de vós, quando todos os homens de vós disserem bem, porque assim faziam seus pais aos falsos profetas” (Lc 6:24-26).

A conjunção adversativa ‘mas’ e o peso ‘ai’, indicam que Jesus deixou de falar com os seus seguidores e que o juízo que estava sendo anunciado tinha por alvo um outro grupo de pessoas. Isto significa que Jesus deixou de olhar para os seus discípulos e direcionou o seu olhar para um outro público, em meio à multidão: “E, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós…” (Lc 6:20).

Para censurar certo grupo de pessoas em meio à multidão, Jesus introduz a figura do ‘rico’. Jesus estava falando da condição social de algumas pessoas em meio à multidão? Não!

Qual o significado da figura dos ‘ricos’ no discurso de Jesus?

O salmista Asafe fez uma descrição das pessoas que se enquadram no perfil dos ‘ricos’:

“3 Pois eu tinha inveja dos néscios, quando via a prosperidade dos ímpios.

4 Porque não há apertos na sua morte, mas firme está a sua força.

5 Não se acham em trabalhos como outros homens, nem são afligidos como outros homens.

6 Por isso a soberba os cerca como um colar; vestem-se de violência como de adorno.

7 Os olhos deles estão inchados de gordura; eles têm mais do que o coração podia desejar.

8 São corrompidos e tratam maliciosamente de opressão; falam arrogantemente.

9 Põem as suas bocas contra os céus e as suas línguas andam pela terra.

10 Por isso, o povo dele volta aqui e águas de copo cheio se lhes espremem.

11 E eles dizem: Como o sabe Deus? Há conhecimento no Altíssimo?

12 Eis que estes são ímpios e prosperam no mundo; aumentam em riquezas (Sl 73:3-12).

Para ler esse salmo e compreender as figuras utilizadas pelo salmista Asafe é necessário conhecimento básico de alguns recursos utilizados para a construção da poesia hebraica.

Os salmos, provérbios e a maioria das profecias são construídos através de um elemento formal denominado paralelismo. A poesia hebraica não possui rima, mas, sim, um encadeamento lógico que substitui a rima e o ritmo, que muitos chamam de “ritmo de sentido”.

O verso 3: “Pois eu tinha inveja dos néscios, quando via a prosperidade dos ímpios”, foi construído através de um paralelismo sintético (ou: formal, construtivo), em que a segunda frase do verso amplia e acrescenta um conceito à primeira frase.

Asafe, profeticamente, diz que ‘tinha inveja dos néscios’, dos loucos e, em seguida, a justificativa: por causa da prosperidade dos ímpios! Se a inveja decorre da prosperidade, certo é que os ‘néscios’ são ‘ímpios’ e vice-versa.

Tudo o que é descrito nos versos seguintes rementem aos ímpios, por conseguinte, aos néscios e/ou loucos. Daí outra pergunta? Quem são os loucos? Ou, quem são os ímpios?

Considerando o que o apóstolo Paulo asseverou: “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” (Rm 3:19), visto que os judeus se achavam excessão, e que o termo ‘lei’ empregado por ele engloba a lei, os profetas, os provérbios e os salmos (Escrituras), os ‘loucos’ em questão refere-se aos filhos de Israel, como foi dito por Moisés:

“Recompensais assim ao SENHOR, povo louco e ignorante? Não é ele teu pai, que te adquiriu, te fez e te estabeleceu?” (Dt 32:6).

Quando é dito no Salmo 74: “Lembra-te disto: que o inimigo afrontou ao SENHOR e que um povo louco blasfemou o teu nome” (Sl 74:18). O inimigo que afrontou ao Senhor diz da Babilônia que derribou o tempo e ateou fogo ao santuário. Já o povo louco que ‘blasfemou’ o nome do Senhor diz dos filhos de Israel, como diz o profeta: “Porque, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vós” (Rm 2:24).

A censura de Deus recai sobre o seu próprio povo:

“Deveras o meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios e não entendidos; são sábios para fazer mal, mas não sabem fazer o bem” (Jr 4:22);

“Eu, porém, disse: Deveras estes são pobres; são loucos, pois não sabem o caminho do SENHOR, nem o juízo do seu Deus” (Jr 5:4);

“Chegarão os dias da punição, chegarão os dias da retribuição; Israel o saberá; o profeta é um insensato, o homem de espírito é um louco; por causa da abundância da tua iniquidade, também haverá grande ódio” (Os 9:7).

Retornando ao Salmo 73, o salmista descreve os ‘loucos’, ou o povo de Israel com outras figuras: a ‘soberba’ os envolvem como um colar, vestidos de ‘violência’ (Sl 73:6), ‘prosperam’ no mundo e aumentam em ‘riqueza’ (Sl 73:12).

O salmista estaria falando do acumulo de riquezas materiais? Não! A figura possui outro significado.

O que seria a violência que usam como vestimenta? O profeta Isaias responde:

“As suas teias não prestam para vestes nem se poderão cobrir com as suas obras; as suas obras são obras de iniquidade e obra de violência há nas suas mãos” (Is 59:6).

Em lugar de vestes de justiça produzidas por Deus, os ‘loucos’ se cobrem com obras de iniquidade, trapos de imundície que, diante de Deus, são obras de violência. Em lugar do espírito do Senhor (palavra), preferem a força: “E respondeu-me, dizendo: Esta é a palavra do SENHOR a Zorobabel, dizendo: Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos” (Zc 4:6).

Por que violência? Porque a palavra do Senhor na boca dos ‘loucos’ é transtornada em ‘opressão’ e ‘engano’, como se lê: “Porque desde que falo, grito, clamo: Violência e destruição; porque se tornou a palavra do SENHOR um opróbrio e ludíbrio todo o dia” (Jr 20:8).

Um exemplo de violência é trocar a obediência pelo sacrifício. Enquanto Deus requer do homem a obediência, os sacerdotes incitavam o povo ao sacrifício. Deus requer que o homem seja pobre, abatido de espírito, ou seja, que obedeça (tremer) a sua palavra, porém, cada qual seguiam os desvarios dos seus próprios corações e acabavam praticando a ‘violência’ do sacrifício, como se lê:

“Porque a minha mão fez todas estas coisas e assim todas elas foram feitas, diz o SENHOR; mas para esse olharei, para o pobre e abatido de espírito e que treme da minha palavra. Quem mata um boi é como o que tira a vida a um homem; quem sacrifica um cordeiro é como o que degola um cão; quem oferece uma oblação é como o que oferece sangue de porco; quem queima incenso em memorial é como o que bendiz a um ídolo; também estes escolhem os seus próprios caminhos e a sua alma se deleita nas suas abominações” (Is 66:2-3).

A violência de quem mata um homem é comparável à violência de quem sacrificava um boi a Deus, mas que não se sujeita a Ele.

Por toda a Escritura é utilizada a figura do rico, do violento, do mentiroso, do perverso, do maligno, etc.

“Porque os seus ricos estão cheios de violência, e os seus habitantes falam mentiras e a sua língua é enganosa na sua boca” (Mq 6:12);

“Porque o dia do SENHOR dos Exércitos será contra todo o soberbo e altivo, e contra todo o que se exalta, para que seja abatido” (Is 2:12);

“Estas seis coisas o SENHOR odeia e a sétima a sua alma abomina: Olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, o coração que maquina pensamentos perversos, pés que se apressam a correr para o mal, a testemunha falsa que profere mentiras e o que semeia contendas entre irmãos” (Pv 6:16-19).

Em função de outras passagens do Novo Testamento, verifica-se que a figura dos ‘ricos’, à época de Jesus e dos apóstolos, fazia referência aos escribas, aos fariseus e aos príncipes do povo de Israel. Os homens que condenaram e mataram a Cristo e arrastavam os seus seguidores aos tribunais eram ‘ricos’!

“Porventura, não vos oprimem os ricos e não vos arrastam aos tribunais? Porventura, não blasfemam eles o bom nome que sobre vós foi invocado?” (Tg 2:6-7).

“EIA, pois, agora vós, ricos, chorai e pranteai, por vossas misérias, que sobre vós hão de vir. As vossas riquezas estão apodrecidas e as vossas vestes estão comidas de traça. O vosso ouro e a vossa prata se enferrujaram; e a sua ferrugem dará testemunho contra vós e comerá como fogo a vossa carne. Entesourastes para os últimos dias. Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram as vossas terras e que por vós foi diminuído, clama; e os clamores dos que ceifaram entraram nos ouvidos do Senhor dos exércitos. Deliciosamente, vivestes sobre a terra e vos deleitastes; cevastes os vossos corações, como num dia de matança. Condenastes e matastes o justo; ele não vos resistiu” (Tg 5:1-6).

Os textos de Lucas e de Tiago contra os ricos não possuem viés marxista, não abordam lutas de classes, não visam questões trabalhistas e sindicalistas e nem dão suporte à teologia da libertação.

Os ‘ricos’ como figura nas Escrituras não são decorrentes da ordem socioeconômica com base escravocrata, não deriva do capitalismo selvagem e nem decorre de ideologias de governo, etc.

‘Rico’ é uma figura empregada pelos profetas, para fazer referência àqueles que confiavam em si mesmos, que faziam da carne a sua força e o coração se apartava do Senhor (Jr 17:5).

Os profetas na Antiga Aliança descreveram tais homens como insensatos, loucos, que ajuntavam riquezas, mas não retamente (Jr 17:11; Sl 49:5-6 e 12-13; Sl 52:7).

O profeta Amós anunciou o peso do Senhor sobre homens ímpios que estavam em repouso na cidade de Jerusalém. Que, apesar da invasão inimiga iminente por causa da transgressão em Israel, continuavam deitados em camas de marfim, comiam cordeiros e bezerros cevados, cantavam ao som da lira, bebiam vinho e se ungiam com o mais excelente óleo, mas não se afligiam pela ruina da casa de Israel (Am 6:1-7).

Apesar da aparente segurança, os que viviam uma vida regalada em Jerusalém seriam conduzidos ao exílio (Am 6:7).

A figura do ‘rico’ foi utilizada pelos profetas para compor inúmeros símiles e diversas parábolas, e é com base no que foi anunciado na lei, profetas e nos salmos, etc., que Jesus apresentou a parábola do homem rico:

“E propôs-lhe uma parábola, dizendo: A herdade de um homem rico tinha produzido com abundância; E ele arrazoava consigo mesmo, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos. E disse: Farei isto: Derrubarei os meus celeiros e edificarei outros maiores, ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens; E direi à minha alma: alma, tens em depósito muitos bens, para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. Mas, Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é aquele que para si ajunta tesouros e não é rico para com Deus” (Lc 12:16 -21).

A quem Jesus propôs a parábola do homem rico? Para entendermos a parábola, primeiro temos que identificar quem era o público alvo da mensagem, pois pela quantidade de parábolas, até mesmo os discípulos ficaram confusos e perguntaram: “Senhor, dizes esta parábola a nós, ou a todos” (Lc 12:41).

Havia ajuntado milhares de pessoas ao redor de Jesus, tanto que empurravam uns aos outros (Lc 12:1). Inicialmente, Jesus fala com os seus discípulos, utilizando o fermento com figura para alertá-los da perniciosidade contida na doutrina dos fariseus (Lc 12:1).

Mas, enquanto falava aos seus discípulos, um homem O interrompeu, rogando: – “Mestre, dize a meu irmão que reparta comigo a herança” (Lc 12:13). Após repreender o homem, deixando claro que a sua função não era de juiz ou divisor de herança, ordenou aos seus ouvintes que se abstivessem da ‘avareza’.

Seria a ‘avareza’ abordada por Jesus um dos sete pecados capitais? Jesus estava falando de quem tem excessivo apego ao dinheiro?

Ora, anteriormente Jesus havia determinado cautela para com o ‘fermento’ dos fariseus, que era a hipocrisia (Lc 12:1; Mt 16:12). Jesus não estava falando de fermento biológico ou fermento químico ou de pão feito de trigo.

Jesus, também, não estava dizendo que a hipocrisia dos escribas e fariseus se resumia em fingirem ter crenças, virtudes, ideias ou sentimentos que não possuíam.

Na verdade, Jesus estava alertando quanto ao preceito de homens que era ensinado pelos escribas e fariseus. Substituir a palavra de Deus por preceitos de homens é o que os profetas declaravam como sendo ‘hipocrisia’. Mesmo que o homem creia piamente que o seu posicionamento seja correto, se não é conforme o mandamento de Deus, é hipocrisia: “Mas, em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens” (Mt 15:9).

A ‘hipocrisia’ não diz da falsidade, dissimulação, fingimento, etc., nas relações interpessoais. Certo é que, do ponto de vista das relações humanas, a hipocrisia é perniciosa e reprovável, porém, a hipocrisia abordada por Cristo tem relação com o que foi anunciado pelos profetas:

“Porque os guias deste povo são enganadores e os que por eles são guiados são destruídos. Por isso o Senhor não se regozija nos seus jovens e não se compadecerá dos seus órfãos e das suas viúvas, porque todos eles são hipócritas e malfazejos e toda a boca profere doidices; e nem com tudo isto cessou a sua ira, mas ainda está estendida a sua mão” (Is 9:16-17);

“O hipócrita com a boca destrói o seu próximo, mas os justos se libertam pelo conhecimento” (Pv 11:9).

O ‘hipócrita’ é o que diz ‘doidices’, que em lugar de anunciar a palavra do Senhor, que satisfaz o faminto e sacia o sedento, profere o engano, preceitos de homens que não satisfazem a alma faminta por justiça: “Porque o vil fala obscenidade e o seu coração pratica a iniquidade, para usar de hipocrisia e para proferir mentiras contra o SENHOR, para deixar vazia a alma do faminto e fazer com que o sedento venha a ter falta de bebida” (Is 32:6).

Se a ‘hipocrisia’ diz da doutrina de engano, certo é que a ‘avareza’ não diz daquele que está em busca do lucro econômico mas, sim, do que busca a falsidade, seguindo o devaneio do seu coração corrompido: “E eles vêm a ti, como o povo costumava vir e se assentam diante de ti, como meu povo e ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra; pois lisonjeiam com a sua boca, mas o seu coração segue a sua avareza” (Ez 33:31); “Porque desde o menor deles até ao maior, cada um se dá à avareza; e desde o profeta até ao sacerdote, cada um usa de falsidade” (Jr 6:13).

Ter zelo de Deus, mas não ter entendimento, ou seja, o conhecimento, é o mesmo que hipocrisia e avareza (Rm 10:1-3; Pv 19:2). Não é possível servir a dois senhores, lisonjear um com a boca e o coração seguir a avareza, ou seja, servir a Deus e a Mamom: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Mt 6:24).

Ninguém pode servir a Deus e seguir a sua avareza. Aquele que segue a sua ‘avareza’ elegeu o seu próprio ventre como deus. Lisonjeia a Deus com a boca, mas permanece sendo senhor de si mesmo, ou seja, não se humilha (se faz servo) debaixo das potentes mãos de Deus: “Porque, os tais, não servem a nosso Senhor Jesus Cristo, mas ao seu ventre; e com suaves palavras e lisonjas enganam os corações dos simples” (Rm 16:18).

Jesus destaca que a vida do homem não consiste na abundância de bens que possui (Lc 12:15), isso porque, as Escrituras evidenciam que a vida está em ser um abatido de espírito (Is 57:15), ou seja, alguém que se humilha a si mesmo para servir a Deus. A vida está na palavra de Deus e não no pão cotidiano (Dt 8:3).

Após Jesus anunciar que certo homem alcançou grande lucro e arrazoava consigo mesmo, que construiria celeiros maiores para poder dizer: – “Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos. Descansa, come, bebe e folga” (Lc 12:19) e que Deus lhe disse: – “Louco, esta noite te pedirão a tua alma. Então, o que tens preparado, para quem será?”, Jesus compara ao homem louco qualquer que ajunta tesouro na terra e não é rico para com Deus (Lc 12:21).

O homem rico da parábola é louco por não ajuntar tesouro nos céus e não por ser abastado economicamente. A parábola introduz uma similitude entre aquele que ajunta bens materiais e não sabe quem desfrutará, com aqueles que ajuntam recompensa aqui, e não são ricos para com Deus (Mt 5:19-21).

A parábola do homem rico deriva do que escreveu o Salmista Davi: “Todo homem anda como uma sombra: em vão se inquieta; amontoa riquezas, sem saber quem as levará” (Sl 39:6). O homem rico foi nomeado ‘louco’ por causa do que foi anunciado por Jeremias: “Como a perdiz, que choca ovos que não pôs, assim é aquele que ajunta riquezas, mas não retamente; no meio de seus dias as deixará e no seu fim será um insensato (Jr 17:11).

O homem rico era um insensato, um louco, pois o que estava ajuntando não o tornava rico para com Deus. O termo ‘louco’ é uma figura que se aplica aos filhos de Israel, desde Moisés: “Recompensais assim ao SENHOR, povo louco e ignorante? Não é ele teu pai que te adquiriu, te fez e te estabeleceu?” (Dt 32:6); “Atendei, ó brutais dentre o povo; e vós, loucos, quando sereis sábios?” (Sl 94:8).

Como tudo o que a lei diz, diz aos que estão debaixo da lei, ou seja, refere-se aos judeus, a figura do ‘louco’ aplica somente aos judeus, o que demonstra que a parábola do homem rico tinha como figurante um judeu (Rm 3:19). Quando é dito: “Todo homem anda como uma sombra”, o texto é inclusivo, demonstrando que os judeus não são exceção à regra, como equivocadamente achavam.

A parábola do homem rico era instrução para os discípulos, mas, como Jesus falava por parábolas ao povo e expôs um grande número de parábolas, isso trouxe um questionamento: – “Senhor, dizes esta parábola a nós, ou a todos?” (Lc 12:41).

Quando era anunciado algo à multidão, o evangelista Lucas deixou frisado: “Disse também à multidão: Quando vedes a nuvem que vem do ocidente, logo dizeis: Lá vem chuva e assim sucede” (Lc 12:54), o que evidencia a importância de se observar o público alvo da mensagem.

Retornemos às beatitudes anunciadas por Jesus aos seus discípulos, segundo o que foi registrado pelo evangelista Lucas:

“Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis fartos. Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir. Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem e quando vos separarem, e vos injuriarem, e rejeitarem o vosso nome como mau, por causa do Filho do homem. Folgai nesse dia, exultai; porque, eis que é grande o vosso galardão no céu, pois assim faziam os seus pais aos profetas” (Lc 6:20-23).

Após anunciar as bem-aventuranças, Jesus anuncia um peso contra algumas pessoas, em meio à multidão que estava ouvindo o discurso, ou seja, os ‘ais’ (peso) não eram em desfavor aos discípulos:

“Mas ai de vós, ricos! porque já tendes a vossa consolação. Ai de vós, os que estais fartos, porque tereis fome. Ai de vós, os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis. Ai de vós quando todos os homens de vós disserem bem, porque assim faziam seus pais aos falsos profetas” (Lc 6:24-26).

Os escribas e fariseus deviam observar que, enquanto todos os homens diziam coisas boas acerca deles, assim também fizeram no passado os filhos de Israel aos falsos profetas. Os líderes da religião judaica eram os fartos que, em breve, sentiriam o quanto eram miseráveis. Agora estavam alegres, mas em breve haveriam de se lamentar e chorar.

Após anunciar o peso do Senhor através de ‘ais’ contra os líderes da religião, Jesus se dirige à multidão, mudando o público alvo da sua mensagem novamente, dizendo: “Mas a vós, que isto ouvis…” (Lc 6:27).

Após estabelecer um contraponto entre a condição dos Seus seguidores e os mestres da religião judaica através das beatitudes e dos ‘ais’, Jesus se volta à multidão para expor a sua doutrina.

Do capítulo 6 do evangelho de Lucas, dos versos 27 em diante, o público alvo da mensagem de Cristo é a multidão que os escribas e fariseus consideravam maldita: “Mas esta multidão, que não sabe a lei, é maldita” (Jo 7:49).

 

Cristo, a lei e os profetas

“17 Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir.

18 Porque, em verdade, vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido” (Mt 5:17 -18).

O evangelista Mateus não registrou a censura dos escribas e fariseus e o evangelista Lucas, por sua vez, não registrou a relação de Cristo com a lei e os profetas. Lucas não registrou a censura e a lembrança do que foi determinado nas Escrituras e vai direto para a ordem à multidão de amar os inimigos, o que foi feito por Mateus somente a partir do verso 44 do capítulo 5.

A transição do público alvo da mensagem de Cristo é mais perceptível através do registro do evangelista Lucas, como vemos no seguinte apelo: “Mas a vós, que isto ouvis, digo: Amai…” (Lc 6:27), no entanto, essa mesma transição de público ocorre no evangelho de Mateus, quando Jesus diz: “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas…” (Mt 5:17).

O pronome na terceira pessoa do plural ‘vós’, e a referência ao que foi dito: beatitudes e censura, indica que Jesus passou a tratar com um outro público: a multidão, deixando de fora os seus discípulos e os líderes da religião judaica (escribas e fariseus).

O público alvo da mensagem de Cristo mudou, pois ele não está mais falando da condição dos seus discípulos (pobres, tristes, mansos, puros de coração, etc.), visto que é impossível ser bem-aventurado e ter grande galardão nos céus (Mt 5:12), quando não se compreende a relação de Cristo com a lei e os profetas.

Ele também não estava falando aos escribas e fariseus (ricos, fartos, etc.), uma vez que a mensagem de Cristo dá uma solução: entrem pela porta estreita (Mt 7:13), pois qualquer que ouvisse a sua doutrina e obedecesse, seria comparável ao homem prudente que constrói a sua casa sobre a rocha (Mt 7:24).

Do capítulo 5 do evangelho segundo Mateus, versos 17 em diante, o leitor terá um discurso voltado para a multidão que, em primeiro lugar, visa esclarecer a relação de Jesus com a lei e os profetas (não vim destruir a lei e os profetas) e, em seguida, alertar que o reino dos céus estava vetado à multidão, caso não adquirissem justiça superior à justiça dos escribas e fariseus (Mt 5:20).

Lembrando que a temática da mensagem de Jesus, desde quando João Batista foi preso, era revolucionar o modo de pensar dos seus concidadãos (Mt 4:12-17), o leitor do Sermão da Montanha precisa estar cônscio de que o sermão tem o escopo de operar uma mudança de compreensão (metanoia) nos judeus.

Mas, para entender o arrependimento (metanoia) exigido por Cristo, primeiro se faz necessário compreender quem eram os judeus e o entendimento que possuíam da lei, pessoas a quem, primeiramente, Jesus foi enviado (Jo 1:11; Mt 15:24; Jr 50:6).

Para o leitor ter noção de quem eram os judeus, basta ler o capítulo 7 do livro dos Atos dos apóstolos, onde o mártir Estêvão faz um resumo preciso da origem e crescimento do povo Judeu.

Os judeus são descendentes do patriarca Abraão, um gentio que veio da Mesopotâmia, antes de fixar residência em Harã. Quando em Harã, Deus apareceu a Abraão e disse-lhe: – “Sai desta terra e dentre a tua parentela para uma terra que Eu te mostrarei” (At 7:2-3).

Abraão deixou os seus parentes e passou a peregrinar nas terras de Canaã (Gn 12:1-5). Deus não deu herança a Abraão em Canaã (At 7:5), pois Abraão viveu como peregrino na terra da promessa (Hb 11:9). Abraão não herdou terras, antes era herdeiro da seguinte promessa: “À tua descendência darei esta terra” (Gn 12:7).

Abraão gerou Isaque, segundo a promessa e Isaque gerou a Jacó e Jacó os doze patriarcas. Os patriarcas cheios de inveja venderam José como escravo, porém Deus o fez governador do Egito e tudo o que foi revelado a Abraão cumpriu-se (At 7:6-7; Gn 15:13-14).

Os filhos de Israel foram feitos escravos no Egito e Deus levantou um profeta – Moisés – e o comissionou para resgatar o seu povo do jugo da servidão, como foi revelado a Abraão. O resgate do povo foi feito com poderosa mão, sendo realizado por Deus muitos prodígios e sinais memoráveis (At 7:34-35).

Moisés profetizou que, dentre os filhos de Israel, Deus levantaria um profeta como Moisés, e que o povo deveria ouvi-Lo (At 7:37). Mas, quando Moisés subiu ao monte Sinai para falar com Deus e ficou quarenta dias e quarenta noites. O povo achou que Moisés estava demorando e que poderia ter morrido e rebelou-se, pois intentou retornar ao Egito (At 7:39).

Por causa da rebeldia do povo, Deus se afastou e os abandonou à própria sorte. Em outras palavras, o Senhor que os seguia no deserto (a pedra) e que concedeu comida e bebida espiritual ‘escondeu’ o seu rosto: “Assim se acenderá a minha ira naquele dia contra ele e desampará-lo-ei, esconderei o meu rosto dele, para que seja devorado; e tantos males e angústias o alcancem, que dirá naquele dia: Não me alcançaram estes males, porque o meu Deus não está no meio de mim? Esconderei, pois, totalmente o meu rosto naquele dia, por todo o mal que tiver feito, por se haverem tornado a outros deuses” (Dt 31:17-18; Dt 32:20; Is 64:7); “E beberam todos de uma mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra espiritual que os seguia; e a pedra era Cristo” (1Co 10:4).

Onde há relato nas Escrituras de uma pedra que seguia os filhos de Israel no deserto e contra quem se rebelaram?

“Porque apregoarei o nome do SENHOR; engrandecei a nosso Deus. Ele é a Rocha, cuja obra é perfeita, porque todos os seus caminhos são justos; Deus é a verdade e não há nele injustiça; justo e reto é” (Dt 32:3-4 e 15).

A mesma Rocha que serviu de tropeço às duas casas de Israel, visto que os edificadores a rejeitaram (1Pe 2:6-8; Is 8:14; Is 28:16; Sl 118:22). A Rocha que os seguia é o Senhor, que escondeu o seu rosto da casa de Israel, para que aprendessem a esperar n’Ele: “E esperarei ao SENHOR, que esconde o seu rosto da casa de Jacó e a ele aguardarei” (Is 8:17), pois, só há salvação quando Deus manifesta a sua glória na face de Cristo: “Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” (2Co 4:6).

Manifestar o rosto é o mesmo que resplandecer, de modo que o resplendor da face de Deus é misericórdia e salvação: “O SENHOR faça resplandecer o seu rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti” (Nm 6:25); “Faze-nos voltar, ó Deus e faze resplandecer o teu rosto e seremos salvos” (Sl 80:3).

Embora os filhos de Israel oferecessem sacrifícios no deserto por quarenta anos, dizendo que serviam ao Deus de Abraão, Isaque e Jacó, continuamente eram censurados e repreendidos como transgressores (At 7:42-43).

Deus não se agradou da MAIORIA deles quando percorriam o deserto por serem cobiçosos (torpe ganancia), idólatras, promíscuos (prostituiam), tentadores e murmuradores (1Co 10:5-10).

Havia em Israel aqueles que cobiçavam coisas materiais, reverenciavam outros deuses, que se prostituiam, etc., porém, havia os religiosos que diziam seguir a lei de Deus (como o fariseu que orava no templo agradecendo a Deus por não ser como os demais homens, pois não matava, não roubava, não se prostituía, etc.), e mesmo assim Deus os denominava cobiçosos, idolatras, promíscuos, etc.

Ora, todos esses comportamentos, perniciosos do ponto de vista da moral humana, foram utilizados como figuras para apontar uma realidade espiritual, assim como tudo o que sobreveio sobre Israel foi feito para a Igreja de Cristo como figura (1Co 10:6 e 11).

Moisés protestou contra Israel, dizendo:

“Porque conheço a tua rebelião e a tua dura cerviz; eis que, vivendo eu ainda hoje convosco, rebeldes fostes contra o SENHOR; e quanto mais depois da minha morte?” (Dt 31:27).

O que é a rebelião? A rebelião não é o mesmo que feitiçaria? A mesma feitiçaria que os religiosos tanto apontavam como prática reprovável entre os gentios? Que são a iniquidade e a idolatria? A iniquidade e a idolatria não são o mesmo que persistir no erro (porfiar)? O mesmo julgamento que os filhos de Israel emitiam com relação aos povos vizinhos como iníquos e idólatras, arguia contra eles por rejeitarem a palavra de Deus (Rm 2:1-3).

“Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniquidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei” (1Sm 15:23).

Ao chamar os filhos de Israel de rebeldes e de dura cerviz, Moisés estava chamando-os de feiticeiros, de iníquos e de idólatras. Por que? Ora, basta analisarmos a confissão de Neemias:

“E recusaram ouvir-te e não se lembraram das tuas maravilhas, que lhes fizeste, e endureceram a sua cerviz e, na sua rebelião, levantaram um capitão, a fim de voltarem para a sua servidão; porém tu, ó Deus perdoador, clemente e misericordioso, tardio em irar-te e grande em beneficência, tu não os desamparastes” (Ne 9:17).

Em outras palavras, os filhos de Israel, na sua ‘feitiçaria’ (rebelião), levantaram um líder tencionando voltar ao Egito. Queriam permanecer escravos, ou seja, porfiar, o mesmo que iniquidade e idolatria.

É em função da transgressão e da iniquidade que os filhos de Israel são denominados de ‘loucos’, como já vimos acima: “Os loucos, por causa da sua transgressão e por causa das suas iniquidades, são aflitos” (Sl 107:17).

Ora, a maioria das figuras utilizadas pelos profetas para censurarem os filhos de Israel, primeiramente, foram utilizadas por Moisés em seu cântico profético: loucos, dura cerviz, ignorantes, perversos, depravados, Sodoma, Gomorra, veneno, peçonha, víboras, etc. (Dt 32:5-6 e 28-29 e 32-33).

Isaias clamou contra Israel dizendo: “Ouvi a palavra do SENHOR, vós poderosos de Sodoma; dai ouvidos à lei do nosso Deus, ó povo de Gomorra” (Is 1:10). Semelhantemente, clamou Jeremias: “Deveras o meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios e não entendidos; são sábios para fazer  o mal, mas não sabem fazer o bem” (Jr 4:22). Ezequiel chamou os filhos de Israel de prostituta: “Portanto, ó meretriz, ouve a palavra do SENHOR” (Ez 16:35).

As figuras utilizadas pelos profetas para falar contra os filhos de Israel eram nomes que se davam aos comportamentos desregrados, do ponto de vista de convivência social, porém, essas figuras apontavam para uma realidade espiritual.

Equivocadamente, os filhos de Israel tornaram-se moralistas, legalistas e ritualistas, reprimindo comportamentos humanos desregrados (figuras) e se esqueciam da realidade: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas” (Mt 23:23).

Dessa prevaricação surgiram judeus religiosos que percorriam o mar e a terra para tornar um gentio seguidor do judaísmo (prosélito), e, quando conseguiam, o estado do prosélito se tornava duas vezes pior do que os seus instrutores: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós” (Mt 23:15).

Como mestres, os escribas e fariseus eram prevaricadores, ou seja, os interpretes não sabiam interpretar a lei e os profetas “Teu primeiro pai pecou, e os teus intérpretes prevaricaram contra mim” (Is 43:27); “Os sacerdotes não disseram: Onde está o SENHOR? E os que tratavam da lei não me conheciam, e os pastores prevaricavam contra mim, e os profetas profetizavam por Baal e andaram após o que é de nenhum proveito” (Jr 2:8); “Lembrai-vos disto, e considerai; trazei-o à memória, ó prevaricadores” (Is 46:8); “Como o prevaricar e mentir contra o SENHOR, e o desviarmo-nos do nosso Deus, o falar de opressão e rebelião, o conceber e proferir do coração palavras de falsidade” (Is 59:13).

Os escribas e fariseus achavam que eram salvos por terem Abraão por pai e não atinavam que, somente, os que tem a mesma fé que Abraão são filhos de Abraão: “E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão” (Mt 3:9); “Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento e não comeceis a dizer em vós mesmos: Temos Abraão por pai; porque, eu vos digo que, até destas pedras, pode Deus suscitar filhos a Abraão” (Lc 3:8); “Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres?” (Jo 8:33); “Responderam e disseram-lhe: Nosso pai é Abraão. Jesus disse-lhes: Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão” (Jo 8:39); “Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão” (Gl 3:7).

O entendimento dos escribas e fariseus era de que bastava ser descendente da carne e do sangue de um judeu para ter direito à bem-aventurança prometida a Abraão, ou que um gentio se circuncidasse e guardasse as tradições dos anciões.

“1 E AJUNTARAM-SE a ele os fariseus e alguns dos escribas, que tinham vindo de Jerusalém.

2 E, vendo que alguns dos seus discípulos comiam pão com as mãos impuras, isto é, por lavar, os repreendiam.

3 Porque os fariseus, e todos os judeus, conservando a tradição dos antigos, não comem sem lavar as mãos muitas vezes;

4 E, quando voltam do mercado, se não se lavarem, não comem. E muitas outras coisas há que receberam para observar, como lavar os copos, e os jarros, e os vasos de metal e as camas.

5 Depois perguntaram-lhe os fariseus e os escribas: Por que não andam os teus discípulos conforme a tradição dos antigos, mas comem o pão com as mãos por lavar?

6 E ele, respondendo, disse-lhes: Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, Mas o seu coração está longe de mim;

7 Em vão, porém, me honram, Ensinando doutrinas que são mandamentos de homens.

8 Porque, deixando o mandamento de Deus, retendes a tradição dos homens; como o lavar dos jarros e dos copos; e fazeis muitas outras coisas semelhantes a estas.

9 E dizia-lhes: Bem invalidais o mandamento de Deus para guardardes a vossa tradição.

10 Porque Moisés disse: Honra a teu pai e a tua mãe; e quem maldisser, ou o pai ou a mãe, certamente morrerá.

11 Vós, porém, dizeis: Se um homem disser ao pai ou à mãe: Aquilo que poderias aproveitar de mim é Corbã, isto é, oferta ao Senhor;

12 Nada mais lhe deixais fazer por seu pai ou por sua mãe,

13 Invalidando assim a palavra de Deus pela vossa tradição, que vós ordenastes. E muitas coisas fazeis semelhantes a estas” (Mc 7:1-13).

É em função da má leitura que se faz das Escrituras que muitos não conseguem compreender porque Saul foi rejeitado por Deus, e Davi, um homicida e adúltero, foi considerado um homem segundo o coração de Deus.

Aos olhos de Deus, Saul era feiticeiro, iniquo e idolatra, pois era um homem de torpe ganancia (queria a presença do profeta e sacerdote Samuel somente para ser honrado diante do povo), e hábil em mentir, desviar da palavra do Senhor e conceber e proferir do coração palavras falsas (1Sm 13:12; 1Sm 15:30; 1Sm 15:20 e 24-25).

Davi, por sua vez, portou-se de modo inconveniente e reprovável (2Sm 11:4 e 15), e recebendo a pena pelos seus crimes (2Sm 12:10-12). O comportamento de Davi deu azo aos inimigos de Deus blasfemarem, não só no seu tempo, pois onde a história de Davi tornar-se conhecida até hoje, questionam o Deus de Israel.

Mas, em que Davi é melhor que Saul? Errou, porque não foi instruído corretamente segundo a lei, mas quando Deus matou Uzá, de pronto buscou instrução nas Escrituras.

Certa feita os levitas receberam carros de bois, assim como os filhos de Israel receberam a arca da aliança dos filisteus sobre carros de bois, porém, à época de Moisés, somente os filhos de Coate nada receberam, pois o santuário estava a seu encargo e deveriam levá-lo sobre os ombros (2Sm 6:5-7; Nm 6:9).

Davi temeu ao Senhor e questionou como viria a ele a arca do Senhor (2Sm 6:9), e assim buscam ao Senhor segundo o que Deus prescrevera na lei (1Cr 15:2 e 12-15). No mesmo dia que trouxe a arca, Davi entregou pela primeira vez a Asafe e seus irmãos um Salmo de ações de graças ao Senhor onde ele instrui os filhos de Israel a jamais se esquecerem da aliança de Deus e das palavras que prescreveu (1Cr 16:7 e 15-17).

Ora, a multidão ao pé da montanha que estava ouvindo o discurso de Jesus era composta de judeus, descendentes do patriarca Abraão e que foram liderados por Moisés quando saíram do Egito. Desde sempre, aquela multidão foi instruída por prevaricadores que mentiam, pois concebiam e proferiam do coração palavras de falsidade dizendo que os filhos de Jacó efetivamente eram uma nação santa, um povo escolhido por Deus, pelo fato de serem descendentes da carne de Abraão: “Como o prevaricar, e mentir contra o SENHOR, o desviarmo-nos do nosso Deus, o falar de opressão e rebelião, o conceber e o proferir do coração, palavras de falsidade” (Is 59:13).

Entretanto, a Escritura que os mestres da lei liam para afirmar falsamente que os filhos de Israel eram possessão do Senhor, na verdade era condicional, pois dizia: se diligentemente ouvissem a voz de Deus e guardassem a aliança ENTÃO SERIAM propriedade peculiar: “Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então sereis a minha propriedade peculiar, dentre todos os povos, porque toda a terra é minha” (Êx 19:5).

As pessoas que estavam ouvindo o discurso de Jesus pensavam que eram salvas por serem descendentes da carne de Abraão (Mt 3:9; Jo 8:39). Achavam que eram mais justas e melhores que os outros povos vizinhos, simplesmente porque os seus pais receberam a lei de Deus das mãos de Moisés (Dt 9:4; Rm 3:9). Embora os seus antecessores tivessem matado os profetas que anunciavam a vinda de Cristo, eles religiosamente edificavam e adornavam os túmulos dos profetas sob pretexto de serem melhores que os seus pais (At 7:51-53; Lc 11:47-48). Eles religiosamente ouviam a lei, mas não seguiam os preceitos de Deus (At 7:53; Jo 7:19; Ml 3:7; Rm 2:13), etc.

Os ouvintes de Jesus foram instruídos a cumprir mandamentos de homens e, ao ouvirem a doutrina de Cristo, haveria conflito de ideias, pois o que Jesus haveria de ensinar não era conforme estavam acostumados a ouvir, daí o alerta de Jesus à multidão: “Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas…” (Mt 5:17).

É nesse ponto que entra a questão do arrependimento, no seu sentido grego: ‘metanoia’. Quando Jesus apregoava ‘arrependei-vos’, não estava buscando uma reação emocional de pesar dos seus interlocutores por atos realizados ou não, quer fossem atos bons, por não terem sido realizados ou ruins, que foram realizados.

O arrependimento apregoado por Jesus diz da ‘metanoia’ dos gregos, ou seja, significa mudança de mente, mudança de concepção em vista de um novo conhecimento ou evento. Não é o arrependimento traduzido por ‘paenitentia’, que invoca sofrimento, fazer penitencia, pagar indulgência, etc.

A ordem era: arrependei-vos (mudem a concepção de vocês), porque é chegado o reino dos céus (a chegada do reino dos céus – Cristo – é o evento ou o conhecimento que deveriam mudar o modo de pensar dos judeus).

Como mudar a concepção de pessoas que eram acostumadas a ouvir que eram bem-aventuradas, por terem por Pai a Abraão? (Mt 3:9) Como mudar o pensamento de pessoas que estavam acostumadas a ouvir que eram filhos de Abraão e que nunca foram escravos de ninguém? (Jo 8:33) Como mudar o modo de pensar de pessoas acostumadas a ouvirem que era necessário fazer prosélitos, sob o argumento de que só assim os gentios seriam ditosos?

Jesus não podia dizer abertamente ao povo: – “Eu sou o Cristo”, por isso, Ele fez uso de parábolas, de modo que a multidão pudesse, pelas figuras utilizas no Sermão da Montanha, compreender pela Escrituras, que Ele era o Cristo: “E com muitas parábolas tais lhes dirigia a palavra, segundo o que podiam compreender. E sem parábolas nunca lhes falava (Mc 4:33-34).

Jesus não podia dizer abertamente que era o Cristo, porque quem testifica de si mesmo é mentiroso: “Se eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro” (Jo 5:31). Também era impossível os seus ouvintes reconhecerem o Cristo pela aparência, muito menos alguém iria indicá-lo: “E, interrogado pelos fariseus sobre quando havia de vir o reino de Deus, respondeu-lhes e disse: O reino de Deus não vem com aparência exterior. Nem dirão: Ei-lo aqui, ou: Ei-lo ali; porque eis que o reino de Deus está entre vós” (Lc 17:20-21).

Os sermões de Jesus visavam a mudança de concepção dos seus interlocutores, portanto, precisavam ser conduzidos genuinamente através da lei, dos profetas e dos salmos a Cristo. Para reconhecerem Jesus como o Cristo, o Filho do Deus vivo, assim como confessou o apóstolo Pedro (Mt 16:16), os discursos de Jesus apontavam através de parábolas e figuras o testemunho (revelação) de Deus nas Escrituras.

O apóstolo Pedro confessou que Jesus é o Filho de Deus, porque Deus revelou a ele. Como? Quando? A revelação de Deus se deu pela manifestação de Cristo aos homens, conforme o testemunho das Escrituras (1Jo 5:9-11).

Não foi carne e sangue que revelou ao apóstolo Pedro que Jesus é o Filho de Deus, ou seja, não foram os seus concidadãos, os seus parentes, os judeus que deram o conhecimento necessário para o apóstolo chegar àquela confissão que lhe concedeu a bem-aventurança. ‘Carne’ e ‘sangue’ neste contesto remete a parentesco, nacionalidade: “E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque não to revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus” (Mt 16:16-17).

Para os escribas e fariseus, a lei e os profetas estavam intimamente ligados à guarda da tradição dos anciões (Mc 7:5), consequentemente, não conseguiam entender como era possível Jesus ser um mestre judaico e comer com os publicanos e pecadores (Mt 9:11), muito menos entender como era possível os discípulos de Jesus não jejuarem (Mt 9:14). Como era possível um seguidor da lei não guardar o sábado? (Mt 12:2)

Por questões semelhantes a essas, facilmente o povo poderia entender que Jesus estava destruindo a lei e os profetas. É em função da falta de compreensão dos seus interlocutores que Jesus enfatiza qual o seu papel em relação à lei e os profetas: “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir” (Mt 5:17).

Quando Jesus disse que veio para ‘cumprir’ a lei e os profetas, não estava enfatizando os ritos e cerimoniais da lei, antes destacou que Ele era o cumprimento da lei e dos profetas. Jesus deixou claro que nada do que constava na lei acerca d’Ele (nem um jota ou um til) deixaria de se cumprir.

Quando Jesus disse: “Vim para cumprir” (v. 17), temos que interpretar esse verso segundo essa perspectiva: “E disse-lhes: São estas as palavras que vos disse estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, nos profetas e nos Salmos” (Lc 24:44), ou seja, nem um jota ou til deixaria de se cumprir “Porquanto vos digo que importa que em mim se cumpra aquilo que está escrito: E com os malfeitores foi contado. Porque o que está escrito de mim terá cumprimento” (Lc 22:37).

Jesus estava preparando o entendimento do povo para que pudessem compreender, que todas as promessas que constam das Escrituras, sem exceção, estavam vinculadas à pessoa de Cristo: “Porque todas quantas promessas há de Deus, são nele sim e por ele o Amém, para glória de Deus por nós” (2Co 1:20).

Jesus não veio cumprir os preceitos dos escribas e fariseus que, pela tradição oral, compõem a Mishnah ou o comentário posterior que deu origem ao Talmud. Por Ele ser a realidade, vez que a lei era sombra, não precisava guardar os sábados (dias de descansos), pois Ele é o descanso que Deus prometeu à humanidade, cujos sábados simbolizavam.

O objetivo da lei era o Cristo, pois através do nascimento, morte e ressurreição Ele é a propiciação para todo que crê “Porque o fim (objetivo) da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10:4). A lei é santa, justa e boa, porém, através da lei era impossível o homem se justificar, pois a lei era sombra da realidade que se encontra em Cristo “Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, Que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo” (Cl 2:16-17); “PORQUE sendo a lei a sombra dos bens futuros, e não a imagem exata das coisas, nunca, pelos mesmos sacrifícios que continuamente se oferecem cada ano, podem aperfeiçoar os que a eles se chegam” (Hb 10:1).

Certa feita, Jesus e os discípulos estavam caminhando em um dia de sábado, e passando por uma seara, os discípulos de Jesus colheram espigas. Os fariseus de ponto criticaram a atitude dos discípulos de Jesus, ao que Ele respondeu apontando para Davi que, quando esteve em aperto e com fome, entrou no templo e comeu os pães da propiciação juntamente com os seus homens.

Jesus deixa claro que o sábado foi instituído por causa dos homens e não o homem por causa do sábado. E ao final da exposição, Jesus deixa claro que Ele é o Senhor que instituiu o sábado (Mc 2:23-28).

Ora, o sábado foi instituído para que o povo soubesse que precisavam de descanso para a alma, assim como precisavam de descanso para o corpo físico. Os filhos de Israel só teriam descanso quando perguntassem pelas veredas antigas e andassem nela, mas se faziam de rogados e rejeitavam andar segundo a palavra de Deus: “Assim diz o SENHOR: Ponde-vos nos caminhos,  vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas; mas eles dizem: Não andaremos nele” (Jr 6:16).

Jesus veio revelar a vontade de Deus aos homens e orientou a todos dizendo: “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” (Mt 11:29).

A instituição de sábados de festas tinha como foco a raiz de Jessé, ou seja, o Cristo – o Senhor que escondeu o seu rosto da casa de Israel – “E acontecerá naquele dia que a raiz de Jessé, a qual estará posta por estandarte dos povos, será buscada pelos gentios; e o lugar do seu repouso será glorioso” (Is 11:10); “E o efeito da justiça será paz, a operação da justiça, repouso e segurança para sempre” (Is 32:17).

De que adiantava guardar sábados e dias de festas, se eles não entrariam no repouso estabelecido por Deus? “Porque nós, os que temos crido, entramos no repouso, tal como disse: Assim jurei na minha ira: Que não entrarão no meu repouso; embora as suas obras estivessem acabadas desde a fundação do mundo” (Hb 4:3).

O escritor ao Hebreus deixa claro que Josué não deu descanso aos filhos de Israel, embora eles tivessem entrado na terra prometida com ele:

“Porque nós, os que temos crido, entramos no repouso, tal como disse: Assim jurei na minha ira Que não entrarão no meu repouso; embora as suas obras estivessem acabadas desde a fundação do mundo. Porque em certo lugar disse assim do dia sétimo: E repousou Deus de todas as suas obras no sétimo dia. E outra vez neste lugar: Não entrarão no meu repouso. Visto, pois, que resta que alguns entrem nele e que aqueles a quem primeiro foram pregadas as boas novas não entraram por causa da desobediência, Determina outra vez um certo dia, Hoje, dizendo por Davi, muito tempo depois, como está dito: Hoje, se ouvirdes a sua voz, Não endureçais os vossos corações. Porque, se Josué lhes houvesse dado repouso, não falaria depois disso de outro dia. Portanto, resta ainda um repouso para o povo de Deus. Porque aquele que entrou no seu repouso, ele próprio repousou de suas obras, como Deus das suas. Procuremos, pois, entrar naquele repouso, para que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência” (Hb 4:3-11)

Como poderia Josué ter dado repouso aos filhos de Israel, se Davi, muito tempo depois, profetiza acerca de um dia – hoje – quando haveria de ser dado o descanso? Como poderiam ter alcançado descanso, se Deus jurou que aquele povo não entraria no descanso de Deus?

Mas, se ouvissem a voz de Deus anunciada por Davi – hoje – e não endurecessem o coração, certamente entrariam no descanso do Senhor. Se é dito para dar ouvidos à voz de Deus, certo é que há um descanso.

Enquanto os escribas e fariseus ordenavam ao povo que se lavassem antes das refeições, Jesus deixa claro que todos os que o ouviam já estavam limpos pela palavra. Ele deixa claro que o que sai pela boca é o que contamina o homem e não o que entra “Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado” (Jo 15:3).

Cristo é a água limpa providenciada por Deus que purifica o homem de toda imundície, portanto, não é a agua natural que purifica o homem, mas, sim, o Verbo de Deus: “Então aspergirei água pura sobre vós e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei” (Ez 36:25).

A lei e os profetas testificavam do Cristo e Jesus deixa claro essa função das Escrituras: “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam” (Jo 5:39).

A lei foi dada aos filhos de Israel para que reconhecessem que eram pecadores, porém, por causa da carne (sou filho de Abraão) a lei se tornou enferma, ou seja, não produzia o seu efeito, visto que os filhos de Israel se achavam justos, por serem descendentes da carne de Abraão (Rm 8:3).

Por mais que a lei arguisse os judeus como transgressores encerrando tanto judeus quanto gentios debaixo do pecado (Gl 3:22), pois essa era a função da lei, ela tornou-se inócua (enferma) frente ao argumento: ‘Temos por pai Abraão’ (carne).

A lei serviu de ‘aio’ para que os judeus fossem conduzidos a Cristo (Gl 3:24), os judeus, por sua vez, buscavam ser justificados por meio do que foi dado para preservá-los até a vinda do Cristo: “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” (Gl 3:23).

 

O dever dos mestres

“19 Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus” (Mt 5:19).

Jesus evidencia a importância da lei e dos profetas, ao destacar que, qualquer que aviltar (transtornar) um dos mandamentos, por menor que fosse e ensinasse aos homens, será nomeado ‘menor’, ‘sem expressividade’ (ἐλάχιστος)[2] no reino dos céus. Porém, aquele que obedecer e ensinar, será chamado ‘grande’ no reino dos céus.

Torcer o mandamento de Deus é violentar a própria alma, pois o peso decorre de suas próprias palavras: “Porém, ele lhe disse: Mau servo, pela tua boca te julgarei. Sabias que eu sou homem rigoroso, que tomo o que não pus, e sego o que não semeei”  (Lc 19:22); “Mas nunca mais vos lembrareis do peso do SENHOR; porque a cada um lhe servirá de peso a sua própria palavra; pois torceis as palavras do Deus vivo, do SENHOR dos Exércitos, o nosso Deus” (Jr 23:36; Ez 22:26; Pv 8:32-36).

O apóstolo Paulo é exemplo de alguém que é chamado ‘grande’ no reino dos céus, pois creu que Jesus é o Cristo (cumpriu o exigido na lei e nos profetas) e ensinava o evangelho de Cristo aos seus ouvintes, através da lei de Moisés e dos profetas: “E, havendo-lhe eles assinalado um dia, muitos foram ter com ele à pousada, aos quais declarava com bom testemunho o reino de Deus e procurava persuadi-los à fé em Jesus, tanto pela lei de Moisés como pelos profetas, desde a manhã até à tarde” (At 28:23).

 

Justiça superior

“20 Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus (Mt 5:20)

Do mesmo modo que era impossível Nicodemos ver o reino de Deus, apesar de ser juiz, príncipe e fariseu, se não nascesse de novo, também era impossível à multidão que ouvia Jesus entrar no reino dos céus.

O reino dos céus estava vetado ao povo, do mesmo modo que o reino dos céus estava vetado aos escribas e fariseus, ou seja, a justiça deles era equivalente. Daí a ordem: se a justiça do povo não excedesse a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrariam nos céus.

Através desta colocação, Jesus estava demonstrando que os líderes da religião judaica não podiam entrar no reino dos céus, apesar de parecerem justos aos olhos dos homens (Mt 23:28).

Levando-se em conta a seguinte parábola: “E dizia-lhes uma parábola: Pode porventura o cego guiar outro cego? Não cairão ambos na cova?” (Lc 6:39), certo é que a multidão estava em igual condição à dos seus líderes religiosos (Mt 15:12).

Qual a justiça superior à dos escribas e fariseus? A justiça pela qual os seguidores de Jesus haveriam de ser perseguidos e injuriados (Mt 5:10-12).

Uma mudança de concepção (metanoia) nos ouvintes de Jesus era imprescindível, pois tinham zelo de Deus, mas, como profetizou Davi, sem entendimento (Sl 53:3). Por não conhecerem a justiça de Deus, procuraram estabelecer uma justiça própria, não se sujeitando à justiça superior: a que vem de Deus: “Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus, e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus. Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10:3).

A justiça da lei descrevia os seus ouvintes como mortos, pois o homem que fizesse o estipulado na lei haveria de viver pelo que cumprisse (Rm 10:5; Lv 18:5).

No evento das serpentes ardentes, temos uma alegoria que aponta para condição dos filhos de Israel, mortos em delitos e pecados, visto que qualquer que olhasse para a serpente de metal, viveria: “E disse o SENHOR a Moisés: Faze-te uma serpente ardente, e põe-na sobre uma haste; e será que viverá todo o que, tendo sido picado, olhar para ela” (Nm 21:8).

Para viver, era necessário cumprir a lei, que foi interposta com maldição: “Maldito aquele que não confirmar as palavras desta lei, não as cumprindo. E todo o povo dirá: Amém” (Dt 27:26). Para viverem, teriam que olhar para a serpente, segundo o que Deus ordenará ao povo, por intermédio de Moisés.

Os filhos de Israel desconheciam que a justiça superior foi dada gratuitamente a Abraão, quando Deus prometeu que, em seu Descendente, todas as famílias (judeus e gentios) da terra seriam benditas: “Porque a promessa de que havia de ser herdeiro do mundo não foi feita pela lei a Abraão, ou à sua posteridade, mas pela justiça da fé” (Rm 4:13).

Apesar de os filhos de Israel horarem a Deus com os lábios, o coração deles estava longe de Deus (Mt 15:8), e justamente quem veio explicar tudo acerca da lei e dos profetas (Jo 5:25), não foi reconhecido por eles, porque a mensagem de Jesus era contrária a religiosidade judaica (formalismo, legalismo e ritualismo).

Os judeus não se consideravam transgressores da lei e nem atinavam que, qualquer que tentasse guardar a lei, mas tropeçasse em um único ponto dela, era transgressor de toda lei (Tg 2:11). Os descendentes de Jacó não analisavam o motivo pelo qual a lei protestava contra eles, como povo rebelde e fazia referência a eles como injustos, tanto que Moisés deixou claro que os judeus não eram melhores e nem mais justos que os povos vizinhos (Dt 9:4 e 6), principalmente, porque os judeus eram ouvintes da lei, mas nenhum deles a praticavam (Jo 7:19; Rm 2:13).

 

Continua: ‘Não matarás’ e o Sermão da Montanha

 


[1] Hebraísmos –  refere-se a termos ou expressões exclusivas da linguagem dos hebreus (algo semelhante as expressões idiomáticas) que, pela peculiaridade da língua ou do contexto, pode trazer certa dificuldade aos tradutores para verterem o texto em outra língua.

[2] “1646 ελαχιστος elachistos superlativo de elachus (curto); usado como equivalente a 3398; TDNT – 4:648,593; adj 1) o menor, o mínimo 1a) em tamanho 1b) em valor: de administração de negócios ​1c) em importância: que é o momento mínimo 1d) em autoridade: de mandamentos 1e) na avaliação de seres humanos: de pessoas 1f) em posição e excelência: de pessoas” Dicionário Bíblico Strong; “1. elachistos (ελαχιστος). “o mínimo, o menor”, o grau superlativo formado da palavra elachus, “pequeno”, de cujo lugar foi tirado por mikros (o grau comparativo de elassõn, “menos” ). É usado acerca de: (a) tamanho (Tg 3.4. “bem pequeno” ); (b ) quantidade, a administração dos negócios (Lc 16.10. duas vezes; Lc 19.17); (c) importância (1 Co 6.2); (d) autoridade, de mandamentos (Mt 5.19); (e) avaliação, sobre pessoas (Mt 5.19. segunda parte: Mt 25.40,45; 1 Co 15.9): sobre uma cidade (Mt 2.6); sobre atividades ou operações (Lc 12.26; 1 Co 4.3, “mui pouco” ). 2. eiachistoteros (éXaxicrrÓTepoç), grau comparativo formado do n° I , é usado em Ef 3.8. “o mínimo”. 3. mikros (piicpóç). “pequeno, pouco”, é usado em At 8.10 (“o mais pequeno” ) e Hb 8.11 (“o menor”). com referência a hierarquia ou influência. Veja PEQUENO (1), A. n° 1.” Dicionário VINE.

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Hebreus 2 – O Criador de todas as coisas

Todas as coisas estão sujeitas a Jesus, porém, os cristãos ainda não viam que todas as coisas estavam sujeitas a ele. Este era um problema de entendimento de alguns cristãos que o escritor queria esclarecer: embora não vissem que todas as coisas estavam sujeitas a Cristo, isto não muda a realidade dos fatos: todas as coisas estão sujeitas a Cristo!


Introdução

Somente no capítulo 2 é possível precisar qual o contexto da carta aos Hebreus, visto que, o primeiro capítulo resume-se em uma abordagem específica sobre a pessoa de Cristo.

Antes de prosseguir, é necessário enfatizar que, caso não houvesse o aposto explicativo do primeiro capítulo que trata especificamente da pessoa de Jesus ( Hb 1:3 -4), juntamente com várias citações do Antigo Testamento ( Hb 1:5 -14), o texto principal da carta ficaria assim:

“Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho (…). Portanto, convém-nos atentar com mais diligência para as coisas que já temos ouvido…” ( Hb 1:1 -2 e Hb 2:1 – 4).

O assunto principal que o escritor da carta transmite aos leitores começa no capítulo 1, versos 1 e 2, e continua no capítulo 2, verso 1 em diante. Ele queria que os cristãos entendessem que, como Deus falou muitas vezes e de várias formas aos pais (israelitas) utilizando os seus profetas, agora falou através do seu Filho, o que demanda maior diligencia por parte dos ouvintes com relação ao que já foi ouvido.

O tema em destaque na carta aos Hebreus é a mensagem anunciada.

O texto base da epístola consiste nos versículos citados acima grifados em vermelho. Observe que a exclusão dos versículos 3 ao 14 do capítulo 1 não alteram em nada a idéia principal que o escritor da carta aos Hebreus expõe.

A idéia que ele defende nestes versículos permeia toda a carta, o que torna possível precisar qual o tema central que ele evidencia.

Neste capítulo é possível determinar o tema, o enfoque e o contexto da carta aos Hebreus.

1 Portanto, convém-nos atentar com mais diligência para as coisas que já temos ouvido, para que em tempo algum nos desviemos delas. 2 Porque, se a palavra falada pelos anjos permaneceu firme, e toda a transgressão e desobediência recebeu a justa retribuição, 3 Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação, a qual, começando a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram; 4 Testificando também Deus com eles, por sinais, e milagres, e várias maravilhas e dons do Espírito Santo, distribuídos por sua vontade?

O verso 1 do capítulo 2 da carta é conclusivo “Portanto,…”, e decorre do argumento apresentado anteriormente nos versos 1 e 2 do capítulo 1.

O escritor demonstrou que antigamente Deus falou várias vezes e de muitas maneiras, mas, que nos últimos dias, falou através do seu próprio Filho! Conclui-se que Deus falou e depois enviou o seu Filho para falar aos homens, o que demonstra o compromisso e o amor de Deus para com os homens, enviou seu Filho.

Os cristãos não podem seguir o exemplo negativo dos israelitas, que foram relapsos quanto ao que Deus falou por intermédio dos seus servos e profetas. Agora, após terem ouvido a mensagem de Deus por intermédio do Filho, os cristãos devem atentar diligentemente para ‘as coisas que já ouviram’.

A conclusão do escritor segue com uma exortação: “… convém-nos atentar com mais diligência…”. É conveniente aos cristãos atentarem diligentemente para as coisas que já ouviram, para que em tempo algum se desviem do evangelho.

Ora, se Deus falou várias vezes e de muitas maneiras ao povo do Antigo Testamento, e muitos pereceram por não atentarem para a mensagem, o cristão, por sua vez, deve utilizar o passado do povo de Israel como exemplo e ser diligente, atentando para o que já ouviu.

O adendo explicativo acerca da pessoa de Jesus no capítulo 1 ( Hb 1:3 -4), foi inserido antes da argumentação do capítulo 2 com dois objetivos:

  • Para dar peso à argumentação que o escritor da carta apresenta nos versículos 2 a 4 do capitulo 2;
  • Para compreendermos que o Filho de Deus glorificado é a expressa imagem do Deus invisível.

O peso da argumentação decorre dos seguintes fatores: se a palavra dos anjos, que são ministros de Deus, permaneceu firme e toda transgressão e desobediência couberam justa retribuição, que se dirá da palavra do Filho, que é a expressa imagem do Deus invisível?

A exortação é clara: o cristão deve atentar para o que já foi dito, para que em tempo algum se desvie do que foi anunciado. Observe que o risco de desviar-se da palavra anunciada é factível, uma vez que o próprio escritor da carta inclui-se entre aqueles que devem atentar diligentemente para a mensagem do evangelho ao utilizar a primeira pessoa do plural: “nos”.

Ao registrar: “Portanto, convém-nos…”, o escritor da carta demonstra que ele também ficaria exposto a riscos, caso não atentasse diligentemente para o que Deus já noticiou por intermédio do seu Filho.

Em hipótese alguma o escritor descarta a fidelidade de Deus, visto que, por mais que o homem seja infiel, Deus continua fiel e é poderoso em salvar ( Rm 9:6 ).

Longe de nós entendermos que a salvação não é eterna, porém, não e porque alguém frequenta uma igreja evangélica que já lhe pertence à adoção.

Ou seja, o cristão deve entender que a palavra falada por Deus tem o suporte da sua fidelidade e imutabilidade, ou seja, ela não volta atrás. Esta e a garantia da salvação dos que creem: a fidelidade e imutabilidade de Deus. Mas, da mesma forma que o homem é salvo por causa da fidelidade de Deus, é necessário compreender e não esquecer que, Deus trará ira sobre todo coração impenitente.

Deus não volta atrás em sua palavra, porém, o homem pode de moto próprio, desconsiderar o que já foi ouvido, e desviar-se do que Deus propõe através do evangelho de Cristo. A pessoa pode ouvir a mensagem do evangelho, não compreender e nem atentar para o que já ouviu, e o maligno vir e arrebatar o que foi semeado ( Mt 13:19 ).

A indagação do escritor aos Hebreus é oportuna: “Como escaparemos nós se não atentarmos para uma tão grande salvação?” ( Hb 2:3 ), ou seja, atentar com mais diligência para o que já se ouviu é o mesmo que atentar para a tão grande salvação revelada em Cristo.

A ‘tão grande salvação’ começou a ser anunciado por intermédio de Jesus, o Senhor, e se os cristãos não atentarem diligentemente para o que ouviram, há a possibilidade de desviar-se das palavras de Cristo, que é espírito e vida.

Não há como o homem ser salvo se não atentar para o que foi anunciado por Cristo e seus apóstolos ( Hb 12:2 ). O que foi anunciado por Jesus, também foi confirmado pelos que ouviram d’Ele, e Deus, por meio de sinais e milagres também deu testemunho com eles (v. 4).

O tema da carta começa a ficar perceptível, que é: atentar para a palavra que Deus anunciou aos homens por intermédio do seu Filho. Observe como o tema tem início no capítulo 1, e percorre toda a carta:

  • Outrora Deus falou por intermédio dos profetas ( Hb 1:1 );
  • Nestes últimos dias falou por intermédio do Filho ( Hb 1:2 );
  • Exortação para se atentar para o que já ouviu ( Hb 2:1 );
  • Considerar que a palavra dos anjos permaneceu firme ( Hb 2:2 );
  • Como ser salvo se negligenciar o que foi anunciado por Jesus? ( Hb 2:3 );
  • Confirmando o que Jesus anunciou, Deus novamente testificou por meio de sinais e prodígios ( Hb 2:4 ).

Isto posto, verifica-se que o tema da carta aos Hebreus é:

“A palavra de Deus anunciada através dos tempos”

Para não perder o foco, estaremos demonstrando capítulo após capítulo, como se desenvolve este tema no transcorrer da carta.

O tema da carta é ‘a palavra de Deus anunciada através dos tempos’, porém, o contexto geral da carta se expõe através de exortações: “… convém-nos atentar com mais diligência para as coisas que já temos ouvido…” ( Hb 2:1 ).

O enfoque do escritor centra-se na atitude dos cristãos frente à palavra de Deus, que foi anunciada pelos profetas, e que, nos últimos dias, foi anunciada pelo Filho.

Para auxiliar na leitura e interpretação do texto, os versículos foram coloridos em três cores:

O vermelho apresenta o tema central da carta, que é a palavra de Deus anunciada através dos tempos.

O azul contém explicações gerais, e geralmente serve para ilustrar ou dar sustentabilidade a argumentação principal, e que se refere ao que está colorido em vermelho.

O preto são citações do Antigo Testamento que reforça a ideia apresentada, e concede peso as explicações em azul.

 

Anjos e Homens

5 Porque não foi aos anjos que sujeitou o mundo futuro, de que falamos. 6 Mas em certo lugar testificou alguém, dizendo: Que é o homem, para que dele te lembres? Ou o filho do homem, para que o visites? 7 Tu o fizeste um pouco menor do que os anjos, De glória e de honra o coroaste, E o constituíste sobre as obras de tuas mãos; 8 Todas as coisas lhe sujeitaste debaixo dos pés. Ora, visto que lhe sujeitou todas as coisas, nada deixou que não lhe esteja sujeito. Mas agora ainda não vemos todas as coisas sujeitas a ele. 9 Vemos, porém, coroado de glória e de honra aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos. 10 Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas, e mediante quem tudo existe, trazendo muitos filhos à glória, consagrasse pelas aflições o príncipe da salvação deles. 11 Porque, assim o que santifica, como os que são santificados, são todos de um; por cuja causa não se envergonha de lhes chamar irmãos, 12 Dizendo: Anunciarei o teu nome a meus irmãos, Cantar-te-ei louvores no meio da congregação. 13 E outra vez: Porei nele a minha confiança. E outra vez: Eis-me aqui a mim, e aos filhos que Deus me deu. 14 E, visto como os filhos participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas, para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo; 15 E livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão. 16 Porque, na verdade, ele não tomou os anjos, mas tomou a descendência de Abraão. 17 Por isso convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo. 18 Porque naquilo que ele mesmo, sendo tentado, padeceu, pode socorrer aos que são tentados.

Os versículos 5 a 18 constituem um novo adendo explicativo semelhante ao apresentado no primeiro capítulo ( Hb 1:3 -14 compare Hb 2:5 -18).

O escritor já havia demonstrado que todos os anjos são espíritos ministradores enviados para servir aqueles que hão de herdar a salvação ( Hb 1:14 ), e que a palavra falada pelos anjos permaneceu firme ( Hb 2:2 ).

A missão dada por Deus aos anjos de ministros e mensageiros em favor dos homens somente demonstra o cuidado do Criador para com os homens, porém, não foi a eles que Deus sujeitou o mundo vindouro. Esta ressalva é pertinente, e esclarecedora.

Os anjos foram comissionados como mensageiros, porém, não serão eles que exercerão domínio no mundo vindouro. O escritor apresenta alguns versículos que dá sustentação à sua argumentação, para tornar evidente o exposto no versículo dezesseis: “Porque, na verdade, ele não tomou os anjos, mas tomou a descendência de Abraão” (v. 16).

Estas citações inseridas pelo escritor da carta demonstram que a mensagem que ele estava proclamando não era de particular interpretação, e que não eram invenções provenientes de uma mente carnal. Ele demonstra que as suas palavras e argumentações tinham o peso das Escrituras (A.T.)

Os cristãos devem apegar-se com firmeza às verdades ouvidas, visto que, há um mundo vindouro, no qual todos os que creem em Cristo exercerão domínio. Não será um mundo sujeito aos anjos, conforme é possível depreender da explicação que o escritor aos Hebreus faz do Salmo que se segue:

“Que é o homem, para que dele te lembres? Ou o filho do homem, para que o visites? Tu o fizeste um pouco menor do que os anjos, De glória e de honra o coroaste, E o constituíste sobre as obras de tuas mãos; Todas as coisas lhe sujeitaste debaixo dos pés” ( Sl 8:4 -6; Hb 2:6 -8).

O salmo oitavo envolve inúmeras questões, porém, para o nosso estudo demonstraremos que ele é eminentemente messiânico.

Ao ler citações do Antigo Testamento é necessário ter o cuidado de verificar qual a relação entre o texto citado e a argumentação do escritor da carta.

Ao lermos: “Ó SENHOR, Senhor nosso, quão admirável é o teu nome em toda a terra, pois puseste a tua glória sobre os céus!” ( Sl 8:1 ), se observa que o verso primeiro do salmo oitavo é um momento de louvor ao mesmo Senhor identificado no salmo quarenta e cinco “Tu, Senhor, no precipício fundaste a terra…” ( Sl 45:6 ), e que o escritor aos Hebreus demonstra com propriedade ser uma referencia a pessoa do Filho ( Hb 1:10 ).

O versículo 2 do salmo 8 também foi citado por Jesus: “E disseram-lhe: Ouves o que estes dizem? E Jesus lhes disse: Sim; nunca lestes: Pela boca dos meninos e das criancinhas de peito tiraste o perfeito louvor?” ( Mt 21:16 ).

Os principais dos sacerdotes e escribas ficaram indignados com o louvor das criancinhas que estava sendo direcionado à pessoa de Cristo. Eles queriam que Jesus repreendesse as crianças, e Jesus lhes citou o Salmo 8, verso 2, o que demonstra que Cristo é especificamente o Senhor do versículo 1 do salmo 8, sendo Ele digno do louvor das criancinhas “Tu ordenaste força da boca das crianças e dos que mamam, por causa dos teus inimigos, para fazer calar ao inimigo e ao vingador” ( Sl 8:2 ).

Da mesma forma que as criancinhas, o salmista também irrompeu em louvor ao ver as obras das mãos de Cristo: “Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que preparaste” (v. 3), conforme demonstra o estribilho: “O SENHOR, Senhor nosso, quão admirável é o teu nome sobre toda a terra!” (v. 9).

O salmista, através da pergunta: “… que é o homem mortal…”, demonstra interesse em saber qual o papel que o homem mortal desempenha na criação. Da mesma forma, ele também não sabia quem seria ou como seria o Filho do homem, porém, ele profetiza: “Pois pouco menor o fizeste do que os anjos, e de glória e de honra o coroaste. Fazes com que ele tenha domínio sobre as obras das tuas mãos; tudo puseste debaixo de seus pés: Todas as ovelhas e bois, assim como os animais do campo, As aves dos céus, e os peixes do mar, e tudo o que passa pelas veredas dos mares” ( Sl 8:5 -8). Este entrave do salmista é descrito por Pedro: “Da qual salvação inquiriram e trataram diligentemente os profetas que profetizaram da graça que vos foi dada” ( 1Pe 1:10 ).

O que o salmista não sabia acerca dos bens futuros, o escritor aos Hebreus demonstra ao responder a pergunta: Que é o homem? É aos homens em Cristo que Deus sujeitou o mundo vindouro. Quem é o Filho do homem? É o Cristo, o Filho de Deus, conforme o escritor da carta aos Hebreus já havia demonstrado no adendo anterior.

“Pois pouco menor o fizeste do que os anjos, e de glória e de honra o coroaste. Fazes com que ele tenha domínio sobre as obras das tuas mãos; tudo puseste debaixo de seus pés: Todas as ovelhas e bois, assim como os animais do campo, As aves dos céus, e os peixes do mar, e tudo o que passa pelas veredas dos mares” ( Sl 8:5 -8).

Esta é a explicação dada pelo escritor aos Hebreus sobre este salmo:

“Ora, visto que lhe sujeitou todas as coisas, nada deixou que não lhe esteja sujeito. Mas agora ainda não vemos todas as coisas sujeitas a ele. Vemos, porém, coroado de glória e de honra aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos. Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas, e mediante quem tudo existe, trazendo muitos filhos à glória, consagrasse pelas aflições o príncipe da salvação deles. Porque, assim o que santifica, como os que são santificados, são todos de um; por cuja causa não se envergonha de lhes chamar irmãos” ( Hb 2.8 b-11).

O escritor aos Hebreus demonstra que Jesus é aquele que foi feito um pouco menor que os anjos ( Sl 8:5 ), conforme o salmo diz, porém, o mesmo salmo também apresenta Jesus como àquele para quem são todas as coisas e mediante quem tudo existe ( Sl 8:1 ).

Perceba que o texto em verde explica o texto colorido em azul.

O escritor aos Hebreus demonstra que, desde que todas as coisas foram sujeitas a Cristo, nada está fora do seu domínio ( Hb 2:8 ).

Todas as coisas estão sujeitas a Jesus, porém, os cristãos ainda não viam que todas as coisas estavam sujeitas a ele. Este era um problema de entendimento de alguns cristãos que o escritor queria esclarecer: embora não vissem que todas as coisas estavam sujeitas a Cristo, isto não muda a realidade dos fatos: todas as coisas estão sujeitas a Cristo!

Embora Cristo esteja coroado de glória e honra, contudo não é possível vê-lo deste modo “E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse” ( Jo 17:5 ). O que o escritor e os cristãos viam? Qual a imagem nítida que estava na memória dos cristãos?

Eles ainda ‘viam’, ou tinham uma idéia de Cristo como homem, o que demandava atentarem melhor para o que já tinham ouvido. Quando os cristãos anunciavam a Jesus, muitos deles ainda tinham em mente o Jesus que ‘foi feito um pouco menor que os anjos’, o que demonstrava que não estavam sendo diligentes com relação ao que já tinha sido falado. Muitos ainda não haviam alcançado uma compreensão plena sobre a pessoa de Cristo, porém, o escritor da carta procura demonstrar que todas as coisas estão sujeitas a Cristo.

A escritura (V.T.) já demonstrava que todas as coisas estariam sujeitas a Cristo, ou seja, os cristãos precisavam enxergar (ver) por meio da escritura que Jesus haveria de ser coroado de glória e de honra. Após a ressurreição dentre os mortos Cristo assumiu o seu lugar de honra e glória.

A posição de homem que Jesus assumiu neste mundo implica em algumas considerações que serão apresentadas gradativamente no transcorrer da carta. Uma delas é exposta aqui: Jesus ao ser introduzido neste mundo foi feito menor que os anjos, visto que era necessário que Ele passasse pela paixão da morte.

No capítulo 1 o escritor da carta faz um adendo explicativo acerca da pessoa de Cristo enfatizando a sua divindade, demonstrando que aquele homem que esteve entre eles e que conheceram pessoalmente é “o resplendor da glória de Deus”, “a imagem expressa da divindade”, e que “sustem todas as coisas pela palavra do seu poder” ( Hb 1:3 ).

No capítulo 2, o adendo explicativo é para explicar quem é o homem que sustem tudo pela sua palavra, enfatizando a sua humanidade por ter se esvaziado da sua glória ( 1Jo 1:1 ; Jo 17:5 ).

8 Todas as coisas lhe sujeitaste debaixo dos pés. Ora, visto que lhe sujeitou todas as coisas, nada deixou que lhe não esteja sujeito. Mas agora ainda não vemos que todas as coisas lhe estejam sujeitas. 9 Vemos, porém, coroado de glória e de honra aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos. 10 Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas, e mediante quem tudo existe, trazendo muitos filhos à glória, consagrasse pelas aflições o príncipe da salvação deles. 11 Porque, assim o que santifica, como os que são santificados, são todos de um; por cuja causa não se envergonha de lhes chamar irmãos, 12 Dizendo: Anunciarei o teu nome a meus irmãos, Cantar-te-ei louvores no meio da congregação. 13 E outra vez: Porei nele a minha confiança. E outra vez: Eis-me aqui a mim, e aos filhos que Deus me deu. 14 E, visto como os filhos participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas, para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo; 15 E livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão. 16 Porque, na verdade, ele não tomou os anjos, mas tomou a descendência de Abraão. 17 Por isso convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo. 18 Porque naquilo que ele mesmo, sendo tentado, padeceu, pode socorrer aos que são tentados.

Ao ser introduzido no mundo, Cristo foi feito em uma posição menor que a dos anjos de Deus, porém, digno de honra e glória, uma vez que anjos e homens lhe devem adoração ( Sl 8:5 ; Hb 1:6 ).

O Filho Unigênito de Deus ao ser introduzido no mundo ( Hb 1:6 ; Pr 30:4 ), apesar de estar em um corpo carnal ( 2Co 5:16 ), na eternidade ele possui domínio sobre as obras do Pai. Os cristãos não possuíam o conhecimento de que tudo estava sob o seu domínio, pois continuavam a considerar Cristo apenas como homem. O escritor aos hebreus estava esclarecendo aos cristãos a mesma dúvida que Felipe possuía ( Jo 14:9 ).

Por que Deus estabeleceu todas as coisas sob o domínio de Cristo? Porque esta foi a sua vontade ao fazer o homem, conforme se lê no Gênesis: “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra. E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” ( Gn 1:26 -27).

Cristo é a expressa imagem de Deus, e quando na eternidade Deus propôs criar o homem, ele propôs fazê-lo a sua imagem, ou seja, a imagem de Cristo. Do mesmo modo que Cristo tem o domínio sobre as obras das mãos de Deus, foi dado a Adão, figura de Cristo, domínio sobre toda a terra.

Compare Gênesis 1, verso 26, com Hebreus 2, verso 8, e Salmos 8, verso 5 a 8. A expressa imagem de Deus, Cristo criou todas as coisas, e quando foi dito: “Façamos o homem a nossa imagem e semelhança”, Deus fez Adão como figura de Cristo. Não como imagem exata, antes figura, pois a expressa imagem de Deus somente o Filho possui.

E criou Deus o homem à sua imagem! Como? Ora, a própria Imagem expressa de Deus que criou todas as coisas, criou também o homem. O último Adão, a expressa imagem de Deus criou o homem.

O verso 27 de Gênesis 1 é melhor compreendido, se lermos “… a imagem de Deus o criou”, assim: “A expressa imagem de Deus o criou”.

Embora todas as coisas estejam sujeitas a Cristo, muitos dos cristãos não entendiam assim (v. 8b). O apóstolo Paulo também alertou que, embora os cristãos conhecessem Cristo segundo a carne, contudo, agora, não mais o conheciam daquela maneira ( 2Co 5:16 ).

O que eles deveriam ver depois que ouviram o evangelho de Cristo? Deveriam ver a Cristo coroado de honra e glória, desvencilhando da idéia que tinham: aquele Cristo feito menor que os anjos porque lhe era necessário padecer e morrer, provando a morte por todos os homens “Vemos, porém, coroado de glória e de honra aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos” ( Hb 2:8 ).

Os cristãos deviam ter em mente que Cristo já havia sido glorificado com a glória que possuía antes de haver mundo ( Jo 17:5 ), e que agora estava assentado à destra do Pai nas alturas ( Hb 1:13 ; Hb 8:1 ; Sl 110:1 ).

O escritor destaca que era necessário Cristo sofrer, embora todas as coisas pertencessem a Ele e existissem por Ele. Somente através das aflições Cristo seria consagrado o príncipe redentor, e conduziria muitos filhos a Deus. Somente através da morte na cruz, o Unigênito de Deus seria consagrado como Primogênito de Deus, posição de Príncipe entre os filhos de Deus ( Hb 2:10 ; Cl 1:18 ).

O sacrifício voluntário de Cristo na cruz fez com que, tanto Ele, o que santifica, quanto os que são santificados, a igreja, passassem a ser propriedade particular de Deus. São todos de Deus! Cristo, o Filho unigênito de Deus conduziu à glória, ou antes, deu aos que creram a mesma glória que lhe foi concedida, o que os tornou filhos de Deus, pertencentes a Ele, podendo legitimamente chamar-lhes irmãos( Hb 2:11 ; Jo 17:22 ).

Através desta explanação, o escritor queria que os cristãos pudessem ver a glória do Filho, que outrora se lhes apresentou como servo “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me amaste antes da fundação do mundo” ( Jo 17:24 ). O apóstolo João ao falar da filiação divina pertinente aos cristãos também conclama a verem o que lhes foi concedido: “Vede quão grande amor nos concedeu o Pai, que fossemos chamados filhos de Deus. E somos mesmos seus filhos!” ( 1Jo 3:1 )

Além de explicar a natureza de Cristo antes de ser encarnado, durante a encarnação, e após a ressurreição, o escritor demonstra através das Escrituras o que Cristo fez: “anunciou o Pai”, pois ele aponta o Salmo 22, versos 22 e 25 como sendo a obra que Cristo realizou para conduzir seus irmãos ao Pai ( Sl 22:22 ; Hb 1:1 ).

O que Cristo faria pelos seus irmãos? Anunciaria a eles todas as realizações do Pai, o que os levaria a confiar em Deus “Mas para mim, bom é aproximar-me de Deus; pus a minha confiança no Senhor DEUS, para anunciar todas as tuas obras” ( Sl 73:28 ; Hb 2:13 ).

O tempo em que Cristo ficou com os homens em carne, é cumprimento de uma profecia em particular: “Eis-me aqui a mim, e aos filhos que Deus me deu” ( Is 8:18 ; Hb 2:13 ).

 

14 E, visto como os filhos participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas, para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo; 15 E livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão.

Como a condição de filho exige a participação de carne e sangue, Cristo ao ser introduzido no mundo participou de ambos: carne e sangue. Por que ele participou da carne e do sangue? Para poder morrer, e assim, aniquilar o império que pertence a morte, ou seja, o império do diabo.

Somente pela morte de Cristo houve abertura de prisão aos presos ( Is 42:7 ; Is 61:1 ). Cristo trouxe liberdade a todos que estavam sob o domínio do pecado (servidão) em decorrência da lei (pena) “… certamente morrerás” ( Gn 2:17 ) “Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei” ( 1Co 15:56 ).

 

16 Porque, na verdade, ele não tomou os anjos, mas tomou a descendência de Abraão. 17 Por isso convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo. 18 Porque naquilo que ele mesmo, sendo tentado, padeceu, pode socorrer aos que são tentados.

O escritor encerra neste verso o ciclo de exposição acerca do papel desempenhado pelos seres angelicais.

Embora Cristo ao ser encarnado tenha assumido uma posição inferior a dos anjos, contudo possui melhor nome do que eles ( Hb 1:4 ). Isto porque Deus não escolheu os anjos para exercer domínio no mundo vindouro ( Hb 2:5 ), e nem socorre a anjos, antes socorre os descendentes de Abraão, ou seja, os filhos de Deus ( Hb 2:16 ).

Cristo tornou-se semelhante aos homens em tudo, pois Ele mesmo criou o homem a sua imagem e semelhança. Por Adão ser figura de Cristo, quando ele despiu-se da sua glória e foi encarnado, passou a possuir a imagem e a semelhança que concedeu ao homem no Éden.

Jamais um anjo poderia fazer a mediação entre Deus e os homens, pois somente Aquele que é o eterno e tomou a forma de servo pode fazê-lo, pois alem de ser misericordioso, também lhe era necessário ser fiel sumo sacerdote para oferecer os dons exigidos por Deus, ou seja, além de se compadecer, também era necessário fazer a propiciação pelos pecados do mundo.

Cristo é misericordioso por se compadecer dos pecadores, sumo sacerdote ao ser escolhido por Deus, e ofereceu um sacrifício perfeito, santo e agradável a Deus: o seu corpo ( Hb 2:3 ; Hb 7:28 ; Hb 10:10 ).

Uma vez que o Filho resistiu à tentação e padeceu conforme as Escrituras, agora pode auxiliar aqueles que são tentados ( Hb 2:18 ).

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Hebreus 1 – O testemunho de Deus acerca do seu Filho

Se entrevistássemos o escritor da carta aos Hebreus, e perguntássemos: Quem é Jesus? A resposta estaria nos versículos dois a quatro ( Hb 1:2 -4). Se pedíssemos que o escritor apresentasse argumentos em favor das suas alegações acerca de Jesus, elas estariam expostas nos versículo seis a quatorze ( Hb 1:6 -14).


A abordagem que faremos à carta aos Hebreus será realizada levando em conta o texto e o seu contexto. Não ficaremos presos à divisão feita em capítulos e versículos, antes analisaremos o contexto, e depois, comentaremos alguns aspectos do texto.

Esta abordagem será necessária para estabelecermos um novo parâmetro de análise como subsídio ao comentário bíblico, diferente do que estávamos fazendo com as outras cartas.

Esta maneira de analisar uma carta é uma ferramenta poderosíssima na interpretação de textos, o que auxiliará em muito o estudo dos nossos leitores quando da leitura de outras cartas bíblicas.

A linha de raciocínio do escritor da carta aos Hebreus ficará grafada na cor vermelha, um recurso para tornar fácil visualizar as diferenças entre texto e contexto. A idéia principal do autor da carta aos Hebreus sempre estará colorida de vermelho, e as outras cores, quando utilizadas, evidenciará outros aspectos pertinentes ao texto e o contexto.

Estou grato a Deus pela vida daqueles que puderem ter acesso a esta abordagem.

 

Hebreus – Capítulo 1

1 Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho,

A ideia principal que estrutura a carta é desenvolvida em uma única linha de raciocínio. Esta linha de raciocínio tem início no primeiro versículo da carta aos Hebreus. A ideia geral que dá estrutura a carta será nomeada de texto.

Durante o desenvolvimento do texto surgirão outras idéias, que podemos nomear subtextos, e que possuem um contexto próprio, porém, são utilizados para complementar ou ilustrar a ideia desenvolvida no decorrer da carta.

A ideia principal geralmente não depende dos subtextos para ser compreendida. Observe:

O versículo um deste capítulo dá início ao texto da carta, porém, só é possível determinar o seu contexto quando da leitura do versículo um do capítulo dois. Só a leitura do capítulo não concede os elementos necessários para se determinar qual o contexto da carta.

Do capítulo um só é possível extrair declarações acerca da pessoa de Jesus. Tais declarações são completas em si mesmas, porém não lançam luz ao contexto da carta.

Só é possível determinar o contexto da carta quando da leitura do capítulo dois, versículo um.

Destaquemos os personagens que compõe a estrutura do versículo um da carta aos hebreus:

“Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho

 

Deus – o escritor da carta aos Hebreus fala de Deus, Aquele que se deu a conhecer a Moisés como o ‘Eu Sou’ “E disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós” ( Ex 3:14 );

Pais – Refere-se ao povo de Deus que foi escolhido em Abraão; Ou seja, pais, neste versículo, representam a árvore genealógica do povo de Israel, que teve início com o patriarca Abraão. ‘Pais’ é uma referência a todo o povo de Israel;

Profetas – Eram homens e mulheres escolhidos por Deus dentre os pais para levar mensagens ao povo de Israel;

Nós – referem-se aos cristãos, aqueles que ouviram a palavra de Cristo e o aceitaram como Senhor e Salvador. Observe que o escritor da carta se inclui na narrativa através do pronome na primeira pessoa do plural;

Filho – O escritor fala de Cristo, o Filho de Deus “Quem subiu ao céu e desceu? Quem encerrou os ventos nos seus punhos? Quem amarrou as águas numa roupa? Quem estabeleceu todas as extremidades da terra? Qual é o seu nome? E qual é o nome de seu filho, se é que o sabes?” ( Pv 30:4 ).

 

Os registros do Antigo Testamento, de Gênesis à Malaquias apresentam a fala de Deus a um povo contradizente “Mas para Israel diz: Todo o dia estendi as minhas mãos a um povo rebelde e contradizente” ( Rm 10:21 ). Deus falou muitas vezes e socorreu outras tantas o povo de Israel, porém, eles eram um povo contradizente, de dura cerviz.

O cuidado de Deus não se restringiu só em falar por diversas vezes. Ele falou diversas vezes e de muitas maneiras, ou seja, através dos profetas, reis, juízes, salmistas, etc.

Os últimos dias referem-se ao ministério de Cristo, a sua morte, ressurreição e a igreja, o corpo de Cristo.

 

Obs: Os versículo coloridos de vermelho constituem o texto principal da carta, e os versículos em Azul, constituem subtextos.

 

 

2 Filho A quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo. 3 O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas; 4 Feito tanto mais excelente do que os anjos, quanto herdou mais excelente nome do que eles.

O escritor deixa o enredo da carta e passa a falar da pessoa de Cristo. Ele abre um parêntese na escrita da carta para explicar quem é Jesus aos cristãos Hebreus.

Se entrevistássemos o escritor da carta aos Hebreus, e perguntássemos: Quem é Jesus? A resposta estaria nos versículos dois a quatro ( Hb 1:2 -4). Se pedíssemos que o escritor apresentasse argumentos em favor das suas alegações acerca de Jesus, elas estariam expostas nos versículo seis a quatorze ( Hb 1:6 -14).

Este é um recurso que na língua portuguesa denominamos aposto explicativo.

O escritor apresenta nove declarações sobre a pessoa de Jesus. Cada declaração não dependente da declaração seguinte para dar consistência a ideia.

Sobre a pessoa de Jesus o escritor da carta aos Hebreus faz as seguintes declarações:

Herdeiro de tudo“E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados” ( Rm 8:17 ) – Jesus, como Filho de Deus é herdeiro de todas as coisas;

Fez o mundo“Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele” ( Cl 1:16 ) – Tudo foi criado por Jesus, o Filho amado;

Resplendor da glória de Deus“Aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Salvador Jesus Cristo” ( Tt 2:13 ) – Jesus é o resplendor da glória de Deus;

Expressa imagem de Deus“O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação” ( Cl 1:15 ); “…para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus” ( 2Co 4:4 ) – Jesus, o verbo de Deus;

Sustenta todas as coisas – “E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele” ( Cl 1:17 ) – Todas as coisas subsistem por Cristo;

Purificou os cristãos dos seus pecados“Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados” ( Cl 1:14 ) – Livrou aqueles que creram de todos os pecados;

Assentou-se a destra de Deus“O qual está à destra de Deus, tendo subido ao céu, havendo-se-lhe sujeitado os anjos, e as autoridades, e as potências” ( 1Pe 3:22 ) – Demonstra o poder de Cristo após a ressurreição;

É mais excelente que os anjos“Acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro” ( Ef 1:21 ) – Em todos os tempos o nome de Cristo é sobresselente;

Herdou um nome excelente“Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” ( Is 9:6 ) – Jesus é o nome sobre todos os nomes.

Observe que todos os outros apóstolos comungam da mesma opinião que o escritor da carta aos Hebreus.

Após fazer este breve comentário acerca da pessoa de Cristo, o escritor passa a demonstrar de onde ele tirou as considerações acima.

A base para a crença dos cristãos está nos escritos do Novo Testamento. Para os apóstolos e/ou para o escritor da carta aos Hebreus as bases para as suas afirmações acerca da pessoa de Cristo estão contidas no Antigo Testamento.

Através do vínculo que os escritores do Novo Testamento faz com o Antigo Testamento podemos perceber, de maneira clara, que o Deus do Antigo Testamento é o mesmo Deus do Novo Testamento. Que o Antigo Testamento é divinamente inspirado por Deus, e seus livros contêm as bases do Novo Testamento. Este não subsiste sem aquele!

A bíblia é um composto de livros em torno de uma ideia única: Deus revelando-se à humanidade!

A mesma estrutura de texto que temos na carta aos Hebreus, encontramos na Carta de Paulo aos Colossenses, quando o apóstolo escreve acerca de Cristo. Observe: Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados; O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele. E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência. Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse, E que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus” ( Cl 1:14 -19).

Paulo demonstra que Cristo é a imagem de Deus; o primogênito de toda criação; que nele foram criadas todas as coisas; tudo foi criado por Cristo; Ele é antes de todas as coisas; tudo subsiste por ele; etc.

Tanto Paulo quanto o escritor aos Hebreus utilizam uma estrutura de composição de textos semelhante, informando os leitores a respeito de Cristo. Compare ( Cl 1:14 –19) com ( Hb 1:2 -4).

Mas, na carta aos Colossenses temos outro texto a comparar com a carta aos Hebreus. Observe:

“Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo; Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade; E estais perfeitos nele, que é a cabeça de todo o principado e potestade; No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo; Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos. E, quando vós estáveis mortos nos pecados, e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-vos todas as ofensas, Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz. E, despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo” ( Cl 2:8 -15).

 

Apesar das estruturas de textos serem semelhantes em ( Hb 1:3 -4; e Cl 1:14 -19), o enfoque dos escritores e o contexto são diferentes.

A estrutura dos textos abaixo nos permite verificar que as afirmações que se seguem desempenham funções semelhantes na composição do texto de Hebreus e Colossenses. Compare:

“Pois nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade” ( Cl 2:9 ), e;

“A quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo. O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas; Feito tanto mais excelente do que os anjos, quanto herdou mais excelente nome do que eles” ( Hb 1:3 -4), e;

O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele…” ( Cl 1:14 -19).

Estes três trechos desempenham a mesma função: são afirmações a respeito da pessoa de Cristo.

Paulo fez várias afirmações a respeito de Jesus ( Cl 1:14 -19), da mesma forma que o escritor da carta aos Hebreus também fez várias afirmações ( Hb 1:3 -4), porém, em ( Cl 2:8 -15) temos uma única afirmação sobre Jesus, e o restante do texto traz um enfoque e um contexto diferente do que vimos em ( Hb 1:3 -4 e Cl 1:14 -19).

A diferença nos textos decorre do enfoque dos escritores.

Enquanto Paulo procura demonstrar a nova condição dos cristãos em Cristo ( Cl 2:8 -15), o escritor aos Hebreus procura demonstrar que o Cristo, que os seus contemporâneos conheciam, foi feito menor que os anjos por causa da paixão da morte, e que agora, está assentado à destra do Poder nas alturas ( Hb 1:3 -4).

Em Hebreus o contexto é de exortação “Portanto, convém-nos atentar com mais diligência para as coisas que já temos ouvido, para que em tempo algum nos desviemos delas” ( Hb 2:1 ), e em Colossenses o contexto é de conscientização “E estais perfeitos nele (…) estais circuncidados (…) sepultados com ele (…) nele também ressuscitastes” ( Cl 2:9 -15).

Os cristãos alcançam a plenitude em Cristo ( Cl 2:10 ), porém os colossenses não tinham consciência do que possuíam; Os cristãos Hebreus ouviram a palavra de Deus algumas vezes, porém deveriam ser diligentes, para que em tempo algum se desviassem da verdade do evangelho.

Por possuir vários contextos, a carta de Paulo aos Colossenses evidencia de maneira clara as diferenças que um mesmo texto trás, quando se observa e analisa o contexto.

Continuemos o comentário à carta:

 

5 Porque, a qual dos anjos disse jamais: Tu és meu Filho, Hoje te gerei? Eu lhe serei por Pai, E ele me será por Filho?

6 E outra vez, quando introduz no mundo o primogênito, diz: E todos os anjos de Deus o adorem.

7 E, quanto aos anjos, diz: Faz dos seus anjos espíritos, E de seus ministros labareda de fogo.

8 Mas, do Filho, diz: O Deus, o teu trono subsiste pelos séculos dos séculos; Cetro de equidade é o cetro do teu reino. 9 Amaste a justiça e odiaste a iniquidade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu Com óleo de alegria mais do que a teus companheiros.

10 E: Tu, Senhor, no princípio fundaste a terra, E os céus são obra de tuas mãos. 11 Eles perecerão, mas tu permanecerás; E todos eles, como roupa, envelhecerão, 12 E como um manto os enrolarás, e serão mudados. Mas tu és o mesmo, E os teus anos não acabarão.

13 E a qual dos anjos disse jamais: Assenta-te à minha destra, Até que ponha a teus inimigos por escabelo de teus pés?

14 Não são porventura todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação?

 

O escritor da carta aos Hebreus faz sete citações do Antigo Testamento para dar base as declarações que ele fez acerca da pessoa de Jesus.

Por ele ter afirmado que Jesus foi “Feito tanto mais excelente do que os anjos, quanto herdou mais excelente nome do que eles”, o escritor da epistola, através de uma argumentação lógica e em conjunto com as citações, demonstra que o A. T. é a base de apoio para as suas afirmações.

O escritor argumenta que o que foi registrado acerca de Jesus não se refere a anjos. O que foi predito acerca do Messias, jamais foi dito de um ser angelical.

Seguem as citações do Antigo Testamento feitas pelo escritor da carta aos Hebreus:

“Tu és meu Filho, Hoje te gerei” ( Sl 2:7 ) – O salmo dois é eminentemente messiânico, e demonstra a Filiação divina do Cristo. O Messias prometido foi gerado de Deus. Não há registro no Antigo Testamento de que algum ser celestial tenha recebido uma declaração divina semelhante à recebida por Jesus. Só ele foi gerado de Deus, enquanto os anjos foram criados. Jesus é o unigênito de Deus.

“Eu lhe serei por Pai, E ele me será por Filho” ( 2Sm 7:14 ) – Não há registro de que Deus tenha estabelecido a relação de Pai e Filho com algum ser celestial; por isso a argumentação: “Porque, a qual dos anjos ele disse jamais?”

“E todos os anjos de Deus o adorem” provavelmente uma citação do ( Sl 97:7 ) “Prostrai-vos diante dele, todos os deuses” – A nenhum ser foi dado a honra de receber adoração; Com relação a argumentação que antecede a citação do versículo, deve-se observar que, “E outra vez…” refere-se a argumentação anterior: “Porque, a qual dos anjos disse jamais…”. Ou seja, Ele já havia demonstrado que aos anjos jamais foi dito o que foi destacado dos salmos, e que outra vez ficaria demonstrado que sobre os anjos, jamais foi dito que alguém deveria adorá-los; Ele estava demonstrando novamente (E outra vez), através de outra citação do A. T. (v. 6), que, quando no mundo foi introduzido o primogênito de Deus, que todos deveriam adorá-lo;

“Faz dos seus anjos espíritos, E de seus ministros labareda de fogo” ( Sl 104:4 ) – Quando a bíblia faz uma citação que contém algo a respeito dos seres celestiais, é bem clara a função que desempenham diante de Deus: são ministros de Deus.

“O Deus, o teu trono subsiste pelos séculos dos séculos; Cetro de eqüidade é o cetro do teu reino. Amaste a justiça e odiaste a iniqüidade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu Com óleo de alegria mais do que a teus companheiros” ( Sl 45:6 -7) – Sobre Jesus, o Filho de Deus, o Salmo quarenta e cinco declara que Ele é Deus; que possui um reinado que dura pelos séculos dos séculos; a qual dos anjos foi dito o que está no salmo 45?

“Tu, Senhor, no princípio fundaste a terra, E os céus são obra de tuas mãos. 11 Eles perecerão, mas tu permanecerás; E todos eles, como roupa, envelhecerão, 12 E como um manto os enrolarás, e serão mudados. Mas tu és o mesmo, E os teus anos não acabarão” ( Sl 102:25 -26) – O Salmo 102 é citado porque diz que no princípio Ele (Jesus) fundou a terra; Jesus, o Senhor que fundou a terra, e que os céus são obras de suas mãos; são provas irrefutáveis acerca da divindade de Cristo;

“Assenta-te à minha destra, Até que ponha a teus inimigos por escabelo de teus pés?” ( Sl 110:1 ) – Alguma vez foi dito a um anjo que se assentasse a mão direita do Todo Poderoso? Jamais!

O escritor da carta aos Hebreus conclui com base nas citações do Antigo Testamento: “Não são porventura todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação?”.

Após a exposição do escritor aos hebreus de quem é Jesus, o Filho de Deus, o escritor volta a compor o texto da carta, o que veremos no comentário ao próximo capítulo.

 

Comentário versículo à versículo do capítulo primeiro da carta aos Hebreus

Alguns leitores já estavam acostumados aos comentários versículo a versículo, e não podíamos nos furtar a não disponibilizar tal comentário.

1 – Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho,

O escritor informa o leitor da carta que Deus falou no passado usando profetas, e esta mensagem era direcionada aos pais (‘pais’ refere-se a todo o povo hebreu), e Deus utilizou-os de várias formas para trazer a sua mensagem ao povo como: visões, profecias, cânticos e a lei.

Deus continua falando aos homens, porém, com um diferencial: antes falou por mensageiros, nos últimos dias através do Filho.

2 – A quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo.

Deus utilizou o seu próprio filho Jesus Cristo para falar ao povo, ou Deus estava em Cristo reconciliando consigo mesmo o mundo.

Certa vez, Jesus conversando com os fariseus, foi indagado sobre a sua autoridade. Se esta autoridade era proveniente dele mesmo ou de Deus, e Ele lhes propôs está parábola: Um proprietário plantou uma vinha e arrendou a vários trabalhadores e de tempos em tempos mandava os seus servos verificarem como estava a vinha, e nenhum destes servos era respeitado, nem ouvido. Por último, o proprietário enviou seu filho na esperança que este fosse respeitado, mas arrastaram o herdeiro e o mataram. Na parábola o proprietário representa Deus, a vinha à nação de Israel, os trabalhadores os lideres do povo, e o filho a pessoa de Cristo.

Esta parábola ilustra de forma contundente o cuidado de Deus ao trazer uma mensagem à humanidade por intermédio de seu Filho.

Últimos dias referem-se aos dias do escritor, que se estende aos cristãos de hoje ( Mt 20:1 -16; Mt 3:17 ).

3 – O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas;

Cristo foi constituído por Deus herdeiro de tudo, e através d’Ele o mundo que habitamos foi feito. Cristo é o próprio resplendor da glória de Deus, a sua Imagem exata, uma vez que sustenta todas as coisas pelo poder de sua palavra.

Sabemos que Jesus foi enviado para purificação dos pecados dos homens, e para isso, tomou a forma humana. Muitos viram o Unigênito do Pai, porém não se deram conta da magnitude da pessoa de Cristo, o que motivou o escritor a evidenciar estas características do Filho de Deus aos leitores.

Aquele Cristo que tanto era falado pelos apóstolos havia feito o mundo e sustenta todas as coisas com o seu poder. O escritor amplia a visão dos seus leitores demonstrando que aquele Jesus que eles tiveram contato, Ele mesmo havia feito a purificação dos pecados deles e de todos quantos crerem, tornando evidente a Divindade de Cristo. Só Deus tem o poder de perdoar pecados.

O homem que entre eles andara, agora estava assentado a destra de Deus nas alturas, assumindo o seu lugar de direito. Estas declarações aos cristãos Hebreus são muito significativas do ponto de vista histórico e teológico.

4 – Feito tanto mais excelente do que os anjos, quanto herdou mais excelente nome do que eles.

Alguns pecavam em fazer um comparativo entre a pessoa de Cristo e os anjos, e este capítulo procura desfazer esta confusão, demonstrando que o Filho não era um ser angelical, mas o próprio Criador.

Textos citados pelo escritor da carta evidenciam que o Messias ao deixar a forma humana ascendeu aos céus sentando-se à destra de Deus, tornando-se mais excelente que os anjos (como homem ele era menor, por causa da paixão da morte).

Ao voltar aos céus e herdar a glória que antes possuía, Jesus adquiriu um nome mais excelente.

Entre Deus e os Anjos há a relação Criador e criatura. No céu não há relação de parentesco entre os anjos, como Cristo bem esclareceu. Lá não se casa e nem se dá em casamento. Não há como um ser angelical assumir a posição de Filho ( Mt 22:30 ).

Jesus assumiu a posição de Filho quando introduzido no mundo. Do momento em que Cristo foi introduzido neste mundo é que passou a vigorar a relação estabelecida na eternidade: Eu lhe serei por Pai e tu me será por Filho.

 

5 – Porque, a qual dos anjos disse jamais: Tu és meu Filho, Hoje te gerei? E outra vez: Eu lhe serei por Pai, E ele me será por Filho?

O escritor da carta passa a demonstrar aos cristãos que Deus jamais disse a um Anjo “Tu és meu Filho”, sendo que o decreto é específico ao seu próprio Filho Jesus, que foi gerado pelo Espírito Santo.

Observando o ( Sl 2:7 ), é como se o Filho possuísse como garantia de sua filiação neste mundo uma lei (decreto) do seu Pai, chamando-o de Filho. O texto citado na carta refere-se à passagem na qual o profeta Natã entrega uma mensagem a Davi dizendo que o seu “descendente” edificaria uma casa a Deus, e em contra partida, Deus estabeleceria o reino do descendente para sempre.

Em certo momento da profecia, Deus declarou que haveria de ser Pai de um dos descendentes de Davi, e que o descendente lhe seria por Filho.

Dentro destas duas passagens apresentadas (v. 5), entendemos que na eternidade houve um acordo entre as pessoas da divindade (sendo elas iguais entre si em poder, glória e majestade) o Deus único, por quem foi feito o mundo.

A relação que se estabeleceu entre as pessoas da divindade na eternidade é que, uma das pessoas haveria de ser o Pai (Lhe serei por Pai) e o outro o Filho (Tu me serás por Filho).

Se assim considerarmos, quando da concepção e nascimento de Jesus se estabeleceu o tempo chamado “hoje”. Ou seja, Cristo sendo Deus assumiu o lugar de Filho ao ser gerado e introduzido no mundo, selando a relação que se estabeleceu na eternidade.

Na carne ele é o descendente de Davi, porém, é o Unigênito do Pai por existir antes dos séculos dos séculos. O Primeiro gerado de Deus, diferente de Adão e dos anjos.

Na glória, Deus e Cristo são iguais em todos os atributos pertinentes a divindade ( Jo 10:30 ), entre nós, Cristo cumpriu o papel proposto na relação que o versículo demonstra “Eu lhe serei por Pai, E ele me será por Filho”.

6 – E outra vez, quando introduz no mundo o primogênito, diz: E todos os anjos de Deus o adorem.

Ao assumir o lugar de Filho Unigênito aqui na terra, foi dada uma ordem aos Principados e Potestades Celestiais para renderem adoração ao Emanuel, o Deus Conosco, que foi dado em resgate de muitos.

Verificamos a adoração do anjos quando do nascimento de Cristo. Os anjos em coro entoaram louvores ao Filho ( Lc 2:14 ). Quando da glorificação do cordeiro, ele foi recebido com louvores no céu ( Ap 5:11 -12). A ordem de adoração complementa a idéia de um selo da relação que foi estabelecida entre as pessoas da divindade na eternidade, entre Pai e Filho, que se concretizou a partir do dia chamado “hoje”, ou seja, quando da concepção no ventre de Maria ( Sl 97:7 ).

7 – E, quanto aos anjos, diz: Faz dos seus anjos ventos, de seus ministros labareda de fogo.

Os anjos são comissionados para tarefas específicas, ou para realizar uma missão, muito diferente da determinada para o Filho. Eles somente foram designados para adoração e trabalho em prol dos santos.

8 – Mas, do Filho, diz: Ó Deus, o teu trono subsiste pelos séculos dos séculos; Cetro de eqüidade é o cetro do teu reino. 9 – Amaste a justiça e odiaste a iniqüidade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu Com óleo de alegria mais do que a teus companheiros.

O salmista ao profetizar acerca do Filho, chama-o de Deus, com um reino que perdurará pela eternidade, em consonância com o texto de Isaías que o proclama Deus Forte e Pai da Eternidade.

O reino de Cristo tem por base a eqüidade, o amor e a justiça. É evidenciado no seu reino o repúdio ao pecado e à transgressão. Em decorrência destes atributos Deus unge a Cristo com óleos de alegria.

O escritor da carta aos Hebreus cita o ( Sl 102:25 -26) para demonstrar o poder criativo inerente à pessoa de Cristo, de10 – E: Tu, Senhor, no princípio fundaste a terra, E os céus são obra de tuas mãos. 11 – Eles perecerão, mas tu permanecerás; E todos eles, como roupa, envelhecerão, 12 – E como um manto os enrolarás, e serão mudados. Mas tu és o mesmo, E os teus anos não acabarão.monstrando que, Ele lançou os fundamentos da terra e as colunas que sustem os céus. A terra envelhece e há um tempo determinado para o seu fim, porém, de Jesus, o mesmo Salmo diz que Ele permanecerá, será o mesmo sempre, com existência que não se extinguirá.

A terra terá o seu fim, e vemos que Jesus terá participação efetiva na criação do novo céu e da nova terra ( Ap 21:1 -8).

13 – E a qual dos anjos disse jamais: Assenta-te à minha destra, Até que ponha a teus inimigos por escabelo de teus pés?

Não há um anjo se quer que o Senhor tenha convidado para se assentar juntamente com Ele no trono.

Dentre as inúmeras seitas que conhecemos, não há uma que se insurja contra os anjos. Geralmente elas surgem de alguma declaração em particular de supostos ‘anjos’ que lhes apareceram.

É certo que muitas seitas surgiram com o fito de negar a divindade de Jesus.

14 – Não são porventura todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação?

Os anjos são espíritos que agem sob ordem e são enviados de Deus para servir os que herdarão a salvação. São todos eles espíritos ministradores, para servir aqueles que herdarão a salvação: Os que crêem no nome do Filho.

 

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O Autor da fé

A ‘fé’ que foi dada aos homens (evangelho) não ilide o crente dos problemas e percalços do dia-a-dia. Antes, o cristão deve ser perseverante na doutrina de Cristo para alcançar o objetivo fim do evangelho: a salvação, ou seja, não deve desfalecer “… não vos canseis, desfalecendo em vossas almas” ( Hb 12:3 ).


“… olhando firmemente para Jesus, autor e consumador da nossa fé, o qual pelo gozo que lhe estava proposto suportou a cruz…” ( Hb 12:2 )

Após fazer uma exposição do que alguns homens do passado alcançaram através da fé ( Hb 11:1 -40), o escritor aos Hebreus conclui o seu pensamento exortando os leitores a serem perseverantes, tendo como exemplo o Senhor Jesus ( Hb 12:2 ), ou seja, o versículo acima é conclusão de elementos apresentados anteriormente.

Após demonstrar a fé dos patriarcas, o escritor conclui que os cristãos após crerem na mensagem do evangelho (carreira que nos esta proposta), deveriam perseverar no evangelho (corramos com perseverança). Mas, para manter-se perseverante é imprescindível olhar firmemente para Cristo, o autor e consumador da fé.

Deste versículo extraímos quem é o autor da fé, ou seja, quem deu origem a crença dos cristãos: Jesus.

Consumador: refere-se àquele que realizou todos os atos para que fosse possível a nossa salvação.

‘Fé’ neste verso faz referência a Cristo, o fundamento dos ‘bens futuros’. Cristo é a essência, a base do que é anunciado no evangelho (fé). Neste versículo a palavra fé segue o que foi exposto na definição anterior: “Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam…” ( Hb 11:1 ).

O escritor aponta Cristo, o autor e o consumador da fé, como exemplo a ser seguido. Os que creem devem observar a Cristo, e este versículo apresentam alguns elementos acerca de Cristo, o autor e consumador da fé:

  • Havia uma promessa específica para Cristo: “… o qual pelo gozo que lhe estava proposto…”;
  • Diante do premio proposto, Cristo suportou e desprezou a ignomínia da cruz, e;
  • Ele assentou-se à destra de Deus.

Segundo o escritor aos Hebreus, os cristãos devem considerar as vicissitudes que Cristo suportou para que não desfalecessem em suas almas.

Da mesma forma que Cristo tinha uma promessa, o gozo proposto, os cristãos têm de Deus uma promessa através do evangelho: a salvação. A ‘fé’ que foi dada aos homens (evangelho) não contempla os problemas do dia-a-dia, antes, o cristão deve ter em mente que deve ser perseverante para ser possível alcançar o que o evangelho propõe, que é a salvação, e, por isso, não deveriam desfalecer “… não vos canseis, desfalecendo em vossas almas” ( Hb 12:3 ).

Precisavam considerar a Cristo, que sendo o autor e consumador da fé, não teve em conta a oposição dos pecadores, antes tinha em vista o premio proposto. Da mesma forma, os cristãos não podiam desfalecer, antes deviam olhar firmemente para Jesus, para podermos alcançar o premio proposto no evangelho, que é a salvação.

A fé (confiança do cristão em Deus), em muitas das vezes não livra o cristão das afrontas, antes lhe concede a força necessária para que venha a resistir firme na esperança proposta, pois o combate do cristão pode estender-se ‘até o sangue’ (v. 4).

O escritor aos Hebreus é claro ao demonstrar que, pela fé o cristão esta apto a abraçar dois extremos: pode ser livre das agruras desta vida ( Hb 11:33 -34), ou resistirem até o sangue ( Hb 11:35 -38).

 

“Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se vêem” ( Hb 11:1 )

Após exortar os cristãos à perseverança, o escritor aos Hebreus exemplifica, apontando a desobediência do povo no Antigo Testamento e suas conseqüências ( Hb 10:28 ).

O escritor aos Hebreus aponta os problemas e obstáculos que os fiéis dentre o povo de Israel tiveram que suportar e passar Hb 10. 32 -34, e leva os cristãos a concluírem que não deveriam lançar fora a confiança que tinham (v. 35).

Primeiro: deveriam permanecer confiantes para continuarem livres do castigo divino e por terem uma grande recompensa. Por causa da recompensa que está na promessa dada por Deus, daí surge a argumentação: “Ora, a fé é a certeza das coisas que se esperam…”.

A fé só pode ser designada fé enquanto se esta aguardando, pois quando se alcança o esperado, já está diante da recompensa, e não de posse da fé.

Observe que a fé geral e a fé para salvação estão fundamentadas em um mesmo princípio: a certeza do que se espera. Através do conhecimento e da experiência comum a todos os homens, sempre esperamos o amanhã, a chuva, o germinar da semente, etc, e temos uma certeza tão segura que nada há que demova o homem da segurança em sua espera.

Da mesma forma, ao falarmos do evangelho ou da fé dada aos santos, há garantias em Deus quanto a nossa salvação que a espera é com base em um fundamento seguro, que é Cristo. Isto é tão patente ao escritor aos Hebreus que ele retoma o mesmo pensamento, só que com outro argumento: “… e a prova das coisas que não se vêem”.

A certeza que se tem quanto ao que se aguarda é prova cabal do que não se vê! O que se aguarda é por não ser possível ver. Isto não significa que a fé é depositada sobre o que não existe.

A certeza decorre de provas irrefutáveis para aquele que acredita. Não é a fé que faz surgir às provas, antes as provas é que dá alicerce a fé ( Rm 8:24 -25).

“Ora, sem fé é impossível agradar a Deus, porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que Ele existe, e que é galardoador dos que O buscam” ( Hb 11:6 )

O ponto de partida deste versículo está em que a fé não é a causa da existência divina, antes é Deus o motivo de nossa fé.

O apóstolo aponta duas condições para que o homem possa agradar o seu criador:

  • para se aproximar de Deus homem precisa ao menos acreditar que Ele existe; isto é fato, só se pode achegar a Deus se cremos em sua existência. Não é a fé que faz surgir a pessoa da divindade!
  • para se aproximar de Deus o homem tem que estar certo de que Deus recompensará aqueles que O buscarem.

Ora, para que o homem creia em Deus de modo a ser recompensado é necessário ouvir a mensagem do evangelho que demonstra a disposição divina em salvar todos que creem que Jesus é o Cristo “E, sendo ele consumado, veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem” ( Hb 5:9 ).

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1 Pedro 2 – Pedras vivas

Cristo, o Senhor bondoso, é a ‘pedra viva’ conforme indicou o salmista Davi: “A pedra que os edificadores rejeitaram tornou-se a pedra angular” ( Sl 118:22 ). Embora os homens tenham reprovado a Cristo, a pedra viva aprovada por Deus, para Deus Ele é a pedra eleita e preciosa.


241 DEIXANDO, pois, toda a malícia, e todo o engano, e fingimentos, e invejas, e todas as murmurações, 2 Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que por ele vades crescendo; 3 Se é que já provastes que o SENHOR é benigno; 4 E, chegando-vos para ele, pedra viva, reprovada, na verdade, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa,

Pedro retoma o tema que foi abordado no verso treze do capítulo anterior: “…cingindo os lombos do nosso entendimento, sede sóbrios…” ( 1Pe 1:13 ).

Os cristãos foram gerados de novo através da ressurreição de Cristo ( 1Pe 1:3 ), mas precisam ter o ‘lombos do entendimento’ ajustado ‘adequadamente’.

O que isso que dizer? Quer dizer que os cristãos não devem viver conforme os desejos mundanos que tinham antes de crerem em Cristo, ou seja, quando eram ignorantes ( 1Pe 1:14 ).

Como? Ora, os cristãos devem deixar toda a malícia, todo engano, todo fingimento, toda inveja e toda sorte de maledicências. Aceitar o convite para ajustar à compreensão é que fará com que os cristãos sejam transformados ( Rm 12:2 ).

Mas, como promover a renovação do entendimento? Desejando ardentemente o puro leite espiritual, ou seja, a palavra de Deus. O homem espiritual é perfeito diante de Deus, pois foi criado idôneo para participar da herança dos santos na luz ( Cl 1:12 ), porém, os neófitos (principiantes) no evangelho (fé) devem exercitar a compreensão na palavra da justiça (cingir o lombo do entendimento).

Paulo fala acerca dos cristãos da Igreja em Corinto que eles foram criados com leite (básico do evangelho), porque eles ainda não podiam suportar alimento sólido (avançado) ( 1Co 3:2 ).

O escritor aos Hebreus também escreveu acerca dos cristãos que, pelo tempo no evangelho, já eram para serem mestres, porém, precisavam compreender ainda os rudimentos do evangelho de Cristo.

Observe que Pedro não designa os cristãos de meninos, antes, eles deviam desejar COMO meninos o leite espiritual, para que eles pudessem crescer na compreensão “Porque qualquer que ainda se alimenta de leite não está experimentado na palavra da justiça, porque é menino” ( Hb 5:13 ); “Com leite vos criei, e não com carne, porque ainda não podíeis, nem tampouco ainda agora podeis” ( 1Co 3:2 ).

A recomendação do apóstolo é para aqueles que já provaram que o Senhor é benigno. Para quem provou e sabe que Deus é benigno, resta tão somente crescer na graça e no conhecimento de Deus ‘bebendo o leite espiritual’, abandonando tudo o que pertencia ao velho homem que foi morto e sepultado com Cristo.

‘Deixar’ as coisas pertinentes ao velho homem (v. 1) e ‘achegar-se’ de Deus (v. 4), é o mesmo que apresentar-se para obedecer àquele a quem se é servo “Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça?” ( Rm 6:16 ).

Ora, um cristão deve saber (ou não sabeis?) que os homens nascidos em Adão tornaram-se servos do pecado, pois foram vendidos como escravos ao pecado através da transgressão de Adão. Deve saber também que, para tornar-se servo da justiça é preciso morrer para o antigo senhor e nascer novamente, uma nova criatura, sob o jugo da justiça.

A única forma dos homens se apresentarem aos senhores (justiça e pecado) para servir-los é através do nascimento. Através do nascimento do primeiro Adão, tornam-se servos do pecado. Através do novo nascimento em Cristo, o último Adão, os homens tornam-se filhos de Deus, e os filhos de Deus jamais foram ou serão escravos de ninguém.

Mas, alguém pode questionar: os cristãos não eram pecadores, como nunca foram escravos de ninguém? Os cristãos eram escravos do pecado em outro tempo, quando não conheciam a Deus. Agora, após conhecerem a Deus, ou antes, serem conhecidos dele, tem-se um novo tempo de justiça e paz.

No ‘novo tempo’ que é pertinente aos criados segundo Deus em verdadeira justiça e santidade, os filhos de Deus foram criados livres e nunca se submeterão a servidão de ninguém. O tempo dos cristãos é diferente do tempo dos ímpios, como se lê: “Portanto, lembrai-vos de que vós outrora éreis (…) que naquele tempo estáveis sem Cristo…” ( Ef 2:11 -12).

Sobre o tempo dos cristãos, temos: “Mas, agora em Cristo…” ( Ef 2:13 ), ou melhor, agora uma nova criatura ( 2Co 5:17 ).

Pedro indica o Senhorio de Cristo e a sua virtude maravilhosa: bondade (vs. 3- 4). É assente que somente Deus é bom “E ele disse-lhe: Por que me chamas bom? Não há bom senão um só, que é Deus. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos” ( Mt 19:17 ), e Pedro, ao demonstrar o senhorio de Cristo, demonstra que o Pai e o Filho são um.

Cristo, o Senhor bondoso, é a ‘pedra viva’ conforme indicou o salmista Davi: “A pedra que os edificadores rejeitaram tornou-se a pedra angular” ( Sl 118:22 ). Embora os homens tenham reprovado a Cristo, a pedra viva aprovada por Deus, para Deus Ele é a pedra eleita e preciosa.

Cristo é a pedra eleita (escolhida) conforme o propósito eterno que é fazer convergir em Cristo todas às coisas. Cristo foi escolhido antes dos tempos eternos por ser o Cordeiro perfeito; por ser o Servo obediente; por ser o Filho amado; por ser o braço do Senhor; por ser o Verbo de Deus, etc.

 

5 Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo. 6 Por isso também na Escritura se contém: Eis que ponho em Sião a pedra principal da esquina, eleita e preciosa; E quem nela crer não será confundido. 7 E assim para vós, os que credes, é preciosa, mas, para os rebeldes, A pedra que os edificadores reprovaram, Essa foi a principal da esquina

Cristo, o Senhor bondoso, é a ‘pedra viva’ conforme indicou o salmista Davi: “A pedra que os edificadores rejeitaram tornou-se a pedra angular” ( Sl 118:22 ). Embora os homens tenham reprovado a Cristo, Ele é a pedra viva aprovada por Deus antes da fundação do mundo. Cristo é a pedra eleita e preciosa.

Cristo, a pedra eleita (escolhida) conforme o propósito eterno de Deus, que é fazer convergir em Cristo todas as coisas “De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra” ( Ef 1:10 ), foi escolhido antes dos tempos eternos para que em tudo seja preeminente “E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência” ( Cl 1:18 ).

Pedro procura conscientizar os cristãos do mesmo modo que o apóstolo Paulo. Compare:

a) Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pe 2:5 );
b) “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” ( Ef 1:13 ).

Paulo demonstrou que, após os cristão ouvirem a palavra do evangelho e crerem, passaram a ser participantes da natureza de Cristo ( Cl 2:10 ). Este não é um privilégio de alguns, antes é um privilégio de todos que ouviram a mensagem do evangelho e creram.

Do mesmo modo que Cristo é a Pedra Viva, os cristãos também são pedras vivas, uma vez que foram de novo criados participantes da natureza divina.

Observe a relação que Pedro estabelece entre a Pedra viva que é Cristo, e as pedras vivas, que são àqueles que creram e receberam poder para serem feitos filhos de Deus ( Jo 1:12 -13) “E, chegando-vos para ele, pedra viva, reprovada, na verdade, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pe 2:4 -5).

Cristo é a pedra viva eleita e preciosa, e os cristãos também, ou seja, são pedras vivas eleitas e preciosas, pois assim como Ele é são os cristãos aqui neste mundo “… porque, qual ele é, somos nós também neste mundo” ( 1Jo 4:17 ).

O homem antes de crer na mensagem do evangelho não é pedra viva. Ele não é eleito e nem precioso aos olhos de Deus. É um grande erro pertinente a doutrina dos reformadores considerar que dentre os homens nascidos em pecado Deus elegeu (escolheu) e predestinou alguns para a salvação, pois somente as pedras vivas são os eleitos de Deus.

Somente é eleito e precioso o novo homem gerado através da palavra da verdade, uma vez que se tornou pedra viva. Os que ouvem a palavra da verdade, e crêem, são os que seguem a retidão, são os que buscam ao Senhor ( Is 51:1 ).

Cada cristão em particular constitui-se casa espiritual e é sacerdote separado dos pecadores. Deus prometeu que habitaria com os contritos e abatidos de espírito ( Is 57:15 ), pois tais homens seriam templos santos do Senhor, casas do Altíssimo.

Sobre esta verdade, Davi pede (confiança) a Deus que crie um novo coração puro e lhe dê um novo espírito reto (regeneração), pois esta é a condição para que o espírito de Deus habite no salmista ( Sl 1:10 -11).

Qual sacrifício os sacerdotes santos oferecem a Deus por intermédio de Cristo? Por intermédio de Cristo os que creem sempre oferecem a Deus sacrifícios de louvor, que é o fruto dos lábios que confessam a Cristo como Senhor ( Hb 13:15 ).

O verdadeiro sacrifício parte dos lábios de quem adora em espírito e em verdade. É possível aos filhos da ira e da desobediência adorar a Deus em espírito e em verdade? Não! Primeiro, para adorá-Lo em espírito e em verdade é preciso nascer de novo, ser criado por Deus em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ).

Quem é nascido do Espírito é espiritual, condição essencial para adorar a Deus. O homem carnal nascido de Adão não pode adorar a Deus em espírito, pois é carnal. O sacrifício que os filhos de Deus oferecem a Deus são os frutos dos lábios, conforme predisse Oseias “Tomai convosco palavras, e voltai para o Senhor. Dizei-lhe: perdoa toda a iniquidade, e nos aceita graciosamente, para que ofereçamos como novilhos os sacrifícios dos nossos lábios” ( Os 14:2 ).

Jejuns, orações, rezas, promessas, votos, meditações, peregrinações, etc., não são sacrifícios aceitáveis diante de Deus, antes um coração contrito, e um espírito abatido constituem-se em sacrifícios aprazíveis a Deus “Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus” ( Sl 51:17 ), e somente aqueles que professam o nome de Cristo como Senhor, pois a boca fala o que procede do coração, constituem-se casa e templo do Altíssimo “Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade, e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e para vivificar o coração dos contritos” ( Is 57:15 ).

A consideração teológica de Pedro é conforme as Escrituras, conforme se lê: “Vede, ponho em Sião uma Pedra Angular, eleita e preciosa; e quem nela crer não será confundido” ( 1Pe 2:6 ). O que Deus estabeleceu é possível o homem constatar: “Vede”. Ele estabeleceu a Pedra Angular onde toda edificação de Deus será erguida.

A ‘confusão de rosto’ indica a perdição dos homens, mas todos quantos querem ser salvos, basta crer em Cristo, que não será confundido. Ora, por crerem em Cristo que é a Pedra de Esquina, para os cristãos ela é eleita e preciosa, mas para os que não creem, os rebeldes, a Pedra reprovada pelos edificados é pedra de tropeço, ou rocha de escândalo.

A Igreja Apostólica Romana ensina que Pedro era a pedra sobre quem a igreja de Deus seria construída por Cristo, isto para dar a entender que o papa constitui-se um dos sucessores do apóstolo Paulo.

Mas, o apóstolo Pedro demonstrou que:

  • Cristo é a pedra posta como a principal de esquina, ou seja, a ‘Pedra Viva’ ( 1Pe 2:4 );
  • e, que todos os cristãos são também (igualmente) pedras vivas, edificados como casa espiritual ( 1Pe 2:5 ).

Ora, se Cristo é a Pedra de Esquina sobre quem é construída a casa espiritual, jamais Pedro seria a pedra onde Cristo construiria a sua igreja. De modo que, quando Jesus diz: “Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, pois não foi carne e sangue quem to revelou, mas meu Pai que está nos céus, e também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” ( Mt 16:17 -18).

Pedro foi constituído pedra viva por crer que Jesus é o Filho de Deus, do mesmo modo que todos que creem são pedras vivas. Ou seja, Cristo demonstra que tanto Pedro quanto todos os que creem são pedras vivas, e que todos são edificados sobre Ele, a Pedra de Esquina, em casa espiritual a Deus.

 

 

8 E uma pedra de tropeço e rocha de escândalo, para aqueles que tropeçam na palavra, sendo desobedientes; para o que também foram destinados. 9 Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; 10 Vós, que em outro tempo não éreis povo, mas agora sois povo de Deus; que não tínheis alcançado misericórdia, mas agora alcançastes misericórdia.

Pedro classifica os homens em crentes e descrentes.

Para os que creem em Cristo, Ele é a pedra eleita e preciosa, para os descrentes Ele a pedra de tropeço, a rocha de escândalo ( 1Pe 2:7 ).

Ora, quem crer na Escritura que diz: “Vede, ponho em Sião uma pedra angular, eleita e preciosa; e quem nela crer não será confundida” ( 1Pe 2:6 ), é edificado casa espiritual, onde Deus faz morada eterna.

Quem não crê na palavra que diz: “Vede, ponho em Sião uma pedra angular”, tropeça na palavra, pois não a compreende. Quem tropeça na palavra é desobediente, pois não crê no enviado por Deus.

Ora, os homens ímpios foram destinados à impiedade, do mesmo modo que os justos são destinados à justiça. Como? Quem são os homens ímpios? Quando e como foram destinados à impiedade?

Os homens nascidos em Adão são pecadores, e, portanto, ímpios. Todos são destinados à impiedade, pois nasceram de Adão. São filhos da ira e da desobediência de Adão, que desobedeceu a palavra de Deus e comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e mal.

Em Cristo, o último Adão, os homens são criados filhos de Deus através da obediência de Cristo, que tudo suportou, e foi obediente até a morte, e morte de cruz.

Diferente dos ímpios que foram destituídos da glória de Deus, os cristãos são a geração eleita (escolhida), isto porque uma é a geração dos ímpios e outra a geração dos justos. Qual é a geração dos ímpios? É a geração de Adão. E qual é a geração dos justos? É a geração do último Adão, que é Cristo.

Diferente dos descrentes, os cristãos, por terem crido em Cristo receberam poder para serem feitos filhos de Deus. É por isso que Pedro demonstra que os cristãos são geração eleita “Mas vós sois a geração eleita…” (v. 9).

Além de ser a geração eleita, os cristãos também é sacerdócio real, é nação santa, é povo adquirido. Mas, para que? Para que proclamem as virtudes de Deus, que chamou homens que viviam em trevas, para viverem sob a sua maravilhosa luz.

A geração de Adão não é a escolhida por Deus, pois ao pecar, Adão e toda a sua geração foi destituída de Deus. A geração do último Adão é a escolhida (eleita), pois ao obedecer, Jesus conduziu muitos filhos à glória de Deus.

Observe que as considerações monergistas não comportam a doutrina de Cristo. Dizer que a regeneração precede a fé é contrário à doutrina bíblica, pois primeiro é concedido a esperança proposta (fé), e os homens precisam descansar nesta esperança (fé), que também é designada fé “Para que por duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, tenhamos a firme consolação, nós, os que pomos o nosso refúgio em reter a esperança proposta” ( Hb 6:18 ).

Quem são os cristãos? São aqueles homens que se refugiem em reter a esperança proposta. A proposta de salvação é de Deus, e é pertinente ao homem refugiar-se em aguardar na esperança proposta.

As questões sinergista ou monergista não são bíblicas, pois a fé e a esperança são provenientes da fidelidade de Deus “E por ele credes em Deus, que o ressuscitou dentre os mortos, e lhe deu glória, para que a vossa fé e esperança estivessem em Deus” ( 1Pe 1:21 ).

Por que Deus daria o seu Filho como testemunha ao ressuscitá-lo dentre os mortos, se a regeneração precede a fé? Por que a fé e a esperança estão em Deus, se o homem coopera com Deus?

Perceba que é impossível o homem cooperar na regeneração simplesmente por aguardar em Deus, pois é impossível a quem está sendo gerado de novo segundo a palavra de Deus participe desta nova criação. É impossível o homem cooperar com Deus, pois só Ele ‘bara’ (cria) com base na sua palavra.

Pedro utiliza a mesma fala do apóstolo Paulo:

“Vós, que em outro tempo não éreis povo, mas agora sois povo de Deus; que não tínheis alcançado misericórdia, mas agora alcançastes misericórdia” ( 1Pe 2:10 );
“Pois outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor” ( Ef 5:8 ).

Pedro fez referência aos judeus ou aos gentios? Os judeus não eram o povo de Deus? Ao serem escolhidos como povo, os judeus não alcançaram misericórdia? Por certo que não! Tanto judeus quanto gregos, antes de crerem em Cristo não eram o povo eleito de Deus e nem a geração eleita.

Tanto judeus, quanto gregos, servos, livres, pobres, ricos, todos os cristãos em outro tempo não eram povo de Deus. Mas, agora, ao nascerem de novo segundo a palavra de Deus, aqueles que não eram povo passaram a ser povo, uma vez que pela fé proposta (evangelho) alcançaram fé e descansaram em Deus.

Crer em Deus é alcançar misericórdia. Crer em Deus é atender o chamado. Crer em Deus é ser eleito, pois Deus chamou os homens nascidos de Adão para serem criados de novo, participantes de sua natureza.

 

 

11 Amados, peço-vos, como a peregrinos e forasteiros, que vos abstenhais das concupiscências carnais que combatem contra a alma; 12 Tendo o vosso viver honesto entre os gentios; para que, naquilo em que falam mal de vós, como de malfeitores, glorifiquem a Deus no dia da visitação, pelas boas obras que em vós observem. 13 Sujeitai-vos, pois, a toda a ordenação humana por amor do Senhor; quer ao rei, como superior; 14 Quer aos governadores, como por ele enviados para castigo dos malfeitores, e para louvor dos que fazem o bem. 15 Porque assim é a vontade de Deus, que, fazendo bem, tapeis a boca à ignorância dos homens insensatos; 16 Como livres, e não tendo a liberdade por cobertura da malícia, mas como servos de Deus. 17 Honrai a todos. Amai a fraternidade. Temei a Deus. Honrai ao rei.

Pedro pede aos cristãos que se abstenham dos desejos da carne. Ora, Pedro não utiliza-se da sua autoridade de apóstolo para estabelecer um mandamento, pois somente Deus é legislador, e a sua ordem é clara: creiam naquele que Deus enviou ( 1Jo 3:23 ).

Do mesmo modo é o tratamento dispensado por Paulo aos cristãos: “Portanto, como prisioneiro do Senhor, rogo-vos…” ( Ef 4:1 ). Enquanto Paulo aponta a sua condição de prisioneiro para dar consistência ao seu pedido, Pedro aponta a condição dos cristãos: peregrinos e forasteiros.

Ora, que desejo tem um peregrino e um forasteiro em uma cidade que não lhe pertence? Um peregrino ou forasteiro pensa nas coisas pertinentes a sua cidade, e almeja as coisas que são pertinentes a ela.

Neste mesmo diapasão disse Paulo: “Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra” ( Cl 3:2 ). Como um forasteiro pode ater-se em coisas de uma terra que não lhe pertence?

Os apóstolos recomendam os cristãos a não fixarem os seus desejos e interesses nas coisas deste mundo, uma vez que não pertencem a este mundo “Eles não são do mundo, como eu do mundo não sou” ( Jo 17:18 ).

Pedro pede aos cristãos que se abstenham das concupiscências carnais, pois elas combatem contra a alma. Por que abster-se das concupiscências carnais?

  • Porque as concupiscências da carne são anteriores ao pecado, ou seja, é algo pertinente à natureza humana (humanidade) “E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela” ( Gn 3:6 );
  • A concupiscência não é pecado, porém, ela pode afastar o homem de Deus ( Tg 1:15 ).

É necessário fazer a distinção entre pecado e concupiscência, pois o pecado é proveniente da semente corruptível de Adão. Ora, o pecado foi introduzido no mundo através da desobediência de Adão, e não é dado a nenhum outro homem pecar a semelhança da condenação de Adão ( Rma 5:14 ).

Por que é impossível aos homens nascidos de Adão pecar à semelhança de Adão? Pois todos estão sobre o jugo de Adão, e as suas condutas, por mais perniciosas que sejam não pode melhorar ou piorar as suas condições diante de Deus: estão destituídos da glória de Deus.

A concupiscência é pertinente a humanidade, independentemente se é homem natural ou espiritual. Adão foi criado santo e irrepreensível, e os desejos da carne estavam presentes: ele observava as coisas e as desejava ( Gn 3:6 ).

Os desejos dos homens sem Cristo são variáveis, podendo ser perniciosos ou não. Mas, do mesmo modo, todos quantos nasceram de novo também têm desejos, porém, não podem deixar serem dominados por nenhum deles “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma” ( 1Co 6:12 ).

Ora, os desejos da carne combatem contra a alma, e procuram dominá-la. A coisa desejada pode até ser lícita, porém, mesmo sendo lícito, o cristão não pode deixar as concupiscências da carne (desejos) dominar a alma.

Sobre a concupiscência Jesus disse: “E a que caiu entre espinhos, esses são os que ouviram e, indo por diante, são sufocados com os cuidados e riquezas e deleites da vida, e não dão fruto com perfeição” ( Lc 8:14 ). Cuidar das coisas da vida e buscar uma melhora financeira não é ilícito, mas qualquer um que for vencido pela concupiscência, e for dominado por ela, acabará trocando a promessa de vida eterna por um prato de lentilhas.

Pedro não impôs nenhuma ordenança aos cristãos, antes pediu aos seus leitores que vivessem de modo honesto entre os gentios. Observe que os cristãos têm um viver pertinente a este mundo, porém, por serem nascidos de novo, a vida que adquiriram pertence única e exclusivamente a Deus.

Por que um viver honesto? Para alcançar salvação? Não! Antes, o viver honesto é para que os ímpios possam ver as boas ações dos cristãos e glorifiquem a Deus, embora agora falem dos cristãos como sendo malfeitores.

Em que aspecto Pedro solicita um bom comportamento? Nas questões relativo as ordens do rei ou dos governantes. É por amor do Senhor que os cristãos deviam sujeitar-se aos reis.

Pedro evidência que os governos humanos foram estabelecidos por Deus quando solicita que se sujeitem as leis dos homes por amor a Cristo. Ora, os governos humanos são instituídos sobre a premissa de que eles castigam os malfeitores e premiam os que fazem boas ações.

Pedro responde uma colocação de Paulo: “E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus” ( Rm 12:2 ). Qual a vontade de Deus que o cristão deve experimentar? Fazer o bem, para que os ignorantes não tenham o que falar (v. 15).

Os cristãos vivem como livres, visto que é servo da justiça. Ora, quem é livre no Senhor, não deve ter a sua liberdade por cobertura da malícia, pois é servo do Senhor.

A exortação é clara para que é livre no Senhor: Honrar a todos. Amar fraternalmente. Temor a Deus, o Senhor. Honra a autoridade constituída (v. 17).

 

 

18 Vós, servos, sujeitai-vos com todo o temor aos Senhores, não somente aos bons e humanos, mas também aos maus. 19 Porque é coisa agradável, que alguém, por causa da consciência para com Deus, sofra agravos, padecendo injustamente. 20 Porque, que glória será essa, se, pecando, sois esbofeteados e sofreis? Mas se, fazendo o bem, sois afligidos e o sofreis, isso é agradável a Deus. 21 Porque para isto sois chamados; pois também Cristo padeceu por nós, deixando-nos o exemplo, para que sigais as suas pisadas. 22 O qual não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano. 23 O qual, quando o injuriavam, não injuriava, e quando padecia não ameaçava, mas entregava-se àquele que julga justamente;

Aos cristãos que eram escravos (servos), Pedro recomenda sujeitarem-se aos seus senhores. A sujeição dos cristãos ‘escravos’ deveria ser com todo temor.

A sujeição recomendada aos senhores é proveniente do temor a Cristo, o Senhor, e não por medo dos seus senhores, pois Cristo declarou o seu cuidado pelos seus seguidores: “E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo (…) Não temais, pois; mais valeis vós do que muitos passarinhos” ( Mt 10:28 ).

Os cristãos, escravos ou não, devem temer a Deus, Aquele que tem poder para lançar os homens no inferno. Ora, o amor a Deus lança fora o medo, pois quem O teme está livre do inferno. A paz proveniente dos ensinos de Jesus é que motivaria os cristãos escravos a serem obedientes aos seus senhores na carne “Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” ( Jo 16:33 ).

Sobre este aspecto do evangelho, Paulo também disse: “Vós, servos, obedecei em tudo a vossos senhores segundo a carne, não servindo só na aparência, como para agradar aos homens, mas em simplicidade de coração, temendo a Deus, e tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens” ( Cl 3:22 -23).

Por que ‘temer’ os homens se eles não têm poder sobre a alma? Para que os cristãos tivessem uma vida quieta e sossegada ( 1Tm 2:2 ). A temática do evangelho não é incitar as pessoas a pegar em espadas e saírem em defesa de questões humanitárias, ou de algum regime político, como ocorre em algumas concepções religiosas.

Ora, a sujeição aos homens em eminência é produto do temor a Deus, Àquele que tem poder para lançar o corpo e a alma no inferno.

Observe que as colocações de Jesus, Pedro e Paulo não se contradizem. Isto demonstra que todos tinham um mesmo parecer acerca das questões socioculturais.

A sujeição dos cristãos escravos deveria estender-se também aos senhores maus, ou seja, eram para sujeitarem-se não somente aos senhores bons (v. 18).

Alguém pode questionar: Por que o evangelho não apregoou a insurreição dos escravos contra os seus senhores? Jesus não veio salvar os pobres e os oprimidos?

Não! Jesus não veio mudar os reinos e a concepção de sociedade dos homens. Jesus não veio mudar as relações humanas e implantar uma doutrina com bandeira semelhante à concepção marxista. A temática: liberdade, igualdade e fraternidade não foram instituídas através do evangelho de Cristo. Tal concepção de sociedade é produto da concepção de alguns homens, embora influenciados pelo cristianismo, mas que não lhes deu o direito a salvação em Cristo.

Jesus veio ao mundo salva-lo de condenação anterior, a condenação em Adão, e não readequar ou resgatá-lo de regimes como o autoritarismo, monarquismo, ditadura, comunismo, socialismo, capitalismo, etc. Ora, todos os regimes políticos foram impostos através de uma luta constante dos homens pelo poder, sendo que alguns regimes políticos foram mais e outros menos agressivos.

Mas, por que o apóstolo Pedro recomenda a sujeição dos cristãos escravos aos seus senhores? Ele responde: “Porque é coisa agradável, que alguém, por causa da consciência para com Deus, sofra agravos, padecendo injustamente” (v. 19).

Observe que Pedro aponta a consciência do cristão para com o seu Deus como motivo suficiente para sofrer agravos até de um senhor mau. É agradável a Deus que alguém se sujeite a sofrer afrontas injustamente por causa da compreensão (consciência) do evangelho.

Deus agrada-se da consciência dos que crêem, e não da consciência social, política, moral, etc. Não é de valor para a salvação o sofrimento por causa de questões sociais, políticas, econômicas, morais, etc., pois a salvação encontra-se única e exclusivamente em Cristo.

Que glória resultará a Deus se os cristãos escravos sofressem por estarem comportando-se de modo desordeiro? De igual modo, que glória resultará a Deus se os cristãos livres não se submeterem as leis da sociedade?

A palavra pecado do verso 20 não se refere ao pecado herdado de Adão, antes a palavra grega traduzida por pecado equivale a idéia do que é mau. Ora, se é agradável os cristãos fazerem o bem e mesmo assim serem afligidos, não é agradável quando sofrem por fazerem o mau (pecado) (v. 20).

Para que os cristãos foram chamados? Para padecerem? Não! Para darem glória a Deus, fazendo o que lhe é agradável (v. 19- 20).

Pedro demonstra que Cristo sofreu por todos os cristãos para que seguissem o seu exemplo: não injuriar quando injuriado; não ameaçar quando padecer, antes é preciso entregar-se a Deus, Àquele que julga com justiça (v. 23).

O exemplo dado por Cristo é significativo, pois ele nunca cometeu pecado, e nem em sua boca houve engano, porém, foi perseguido, injuriado, maltratado, etc.

Pedro para de falar de questões comportamentais e volta a abordar uma questão doutrinária sobre modo importante: a morte para o pecado e a vida para justiça (v. 24- 25).

O cristão não deve prender-se em questões socioculturais, porém, deve agir conforme disse o apóstolo Paulo: “Foste chamado sendo servo? não te dê cuidado; e, se ainda podes ser livre, aproveita a ocasião” ( 1Co 7:21 ).

 

 

24 Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados. 25 Porque éreis como ovelhas desgarradas; mas agora tendes voltado ao Pastor e Bispo das vossas almas.

Pedro continua as suas considerações apontando o servo por excelência: Cristo ( Is 52:13 ).

Cristo, o servo escolhido e obediente, levou em seu corpo os pecados dos cristãos, e por que não dizer, do mundo inteiro?

Pedro faz referência a um trecho do livro do profeta Isaias, sem especificamente citá-lo. Ovelhas desgarradas pelas suas feridas foram sarados, e levando ele mesmo os nossos pecados refere-se ao trecho de Isaias 53, e Pedro faz uma releitura do texto, parafraseando-o: “Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si (…) Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas (…) como cordeiro foi levado ao matadouro…” ( Is 53:4 -7).

Como Cristo levou os pecados da humanidade sobre si, se Deus não toma o culpado por inocente, não trata o justo como injusto e a alma que pecar essa morrerá?

Primeiro é preciso considerar o tipo de linguagem utilizada, pois a linguagem teológica difere da linguagem evangelística. Na linguagem evangelística é válido dizer que Deus salva o pecador, porém, na linguagem teológica é salvo somente quem nascer de novo, ou seja, somente o novo homem em Cristo, que outrora era pecador, é salvo por Deus.

Segundo, a oferta do corpo de Cristo é segundo a vontade de Deus ( Hb 10:10 ).

Ora, Cristo morreu pelos pecadores, e todos os que crêem na mensagem do evangelho tornam-se participantes da sua morte, quebrando o vínculo do homem com o seu antigo senhor, o pecado.

Os homens nascidos em Adão que não morrerem com Cristo, não têm como ressurgir com Cristo. Só é possível ressurgir uma nova criatura quando o homem torna-se participante da morte de Cristo.

Mas, como o homem torna-se participante da morte de Cristo? Quando come da sua carne e bebe do seu sangue, ou seja, quando crê na sua palavra, pois ela é espírito e vida, da qual o homem deve ser participante pela fé “O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são espírito e vida” ( Jo 6:63 ).

Como as palavras de Cristo são espírito e vida e só é possível ter vida quando se come a carne e bebe o sangue de Cristo, a fé na promessa contida no evangelho é o único meio do homem comer do pão vivo enviado do céu ( Jo 6:35 e 53).

É preciso morrer para depois ressurgir uma nova criatura, quando passa a existir um novo tempo de justiça e paz. Antes, os cristãos eram como ovelhas quando desgarradas, agora, em Cristo, voltaram ao Pastor e Bispo das suas vidas (v. 25).

É impossível viver para a justiça quando se está longe do Pastor e Bispo das almas regeneradas. Estar longe de Deus é o mesmo que estar vivo para o pecado, e morto para a justiça.

Quando o homem desgarrado como ovelha sem pastor crê em Cristo, efetivamente morre com Cristo, e ressurge um novo homem participante da natureza divina.

Observe que Jesus convidou os seus ouvintes a seguirem-no até a cruz, pois qualquer que quisesse preservar a sua vida haveria de perdê-la “Quem ama a sua vida perdê-la-á, e quem neste mundo odeia a sua vida, guardá-la-á para a vida eterna” ( Jo 12:25 ).

Paulo também reafirma a doutrina de Cristo: “Pois morrestes, e a vossa vida está oculta com Cristo em Deus” ( Cl 3:3 ).

Pedro não é diferente: “… mortos para os pecados…” (v. 24), ou seja, quando os cristãos morreram, morreram para o pecado, e passaram a viver para Deus através da ressurreição de Cristo.

Ambos, Pedro e Paulo falam acerca de um tempo passado: “Porque éreis como ovelhas desgarradas” (v. 25); “Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no SENHOR; andai como filhos da luz” ( Ef 5:8 ). Agora, Em Cristo, os cristãos estão livres de pecado, pois para isto Cristo veio, morreu, ressurgiu e assentou-se à destra de Deus nas alturas: “De outra maneira, necessário lhe fora padecer muitas vezes desde a fundação do mundo. Mas agora na consumação dos séculos uma vez se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo” ( Hb 9:26 ).

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1 Pedro – Regenerados pela palavra da verdade

A perseverança fará com que os cristãos alcance o objetivo fim proposto no evangelho: a salvação da perdição do pecado. Ora, os cristãos já haviam feito a vontade Deus quando creram na mensagem do evangelho, mas precisavam perseveram na fé que professaram para colocarem as mãos na herança prometida “Porque necessitais de perseverança, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” ( Hb 10:36 ).


1 PEDRO, apóstolo de Jesus Cristo, aos estrangeiros dispersos no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia; 2 Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas.

Pedro não teve o mesmo problema que o apóstolo Paulo quanto a ter que defender o seu apostolado. Por ter sido escolhido por Cristo para ser discípulo, e visto o Mestre ainda em carne, não teve dificuldades no exercício do seu ministério.

Paulo demonstra em suas cartas que Pedro possuía uma posição de destaque entre os primeiros cristãos, tanto que foi significativo para Paulo passar quinze dias com Pedro e ser recebido entre os discípulos pelo evangelho que anunciava aos gentios ( Gl 1:18 ; Gl 2:9 ).

No decorrer da carta Pedro também se apresenta como o ‘Ancião’ ( 1Pe 5:1 ), e que Silvano foi quem escreveu (escriba) a carta, e que eles estavam na companhia de Marcos ( 1Pe 5:12 -13). A maestria na escrita da carta deve-se a Silvano, mas o conteúdo da carta ao apóstolo Pedro.

Muitos questionam a autoria da carta de Pedro por ele ter sido um simples pescador da Galileia e ter escrito uma carta tão bela em grego semelhante à literatura ática. Estudiosos questionam a autoria da carta por ele citar a Septuaginta, por usar o ‘artigo’ de modo elegante como nenhuma outra carta do Novo Testamento e por ter um vocabulário próprio e numeroso.

Ora, Pedro mesmo demonstra que não foi ele quem escreveu a carta, e sim Silvano. Percebe-se que Pedro apresentou os argumentos e Silvano, na condição de hábil escriba usou o seu conhecimento para imprimir à carta o estilo próprio as frases da literatura ática.

Quando escreveu, Pedro estava em uma cidade que ele nomeou de Babilônia ( 1Pe 5:13 ). Os destinatários da carta estavam em cinco províncias Romanas: Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia.

Após identificar-se, o apóstolo aponta quem são os destinatários da sua epístola: os estrangeiros dispersos. ‘Estrangeiros dispersos’ diz dos cristãos que foram perseguidos por causa da mensagem do evangelho ( At 8:1 ; At 11:19 ). Ora, é certo que os dispersos eram na maioria judeus, porém, ao escrever, Pedro tem como foco os cristãos, sem qualquer referência a origem carnal dos cristãos.

Pedro escreveu aos eleitos, ou seja, aos santos e irrepreensíveis em Cristo ( Ef 1:4 ). Os arminianista utilizam-se deste verso para afirmar que a eleição é segundo a presciência de Deus, porém, é necessária uma análise mais rigorosa.

Uma tradução bíblica datada de 1681 diz o seguinte:

Pedro Apoftolo de Jefu Chirifto a os eftrangeiros efpalhados em Ponto, em Galacia, em Cappadocia, em Afia, e em Bythynia. Elegidos fegundo a providencia de Deus Pae, em fanctificaçaõ de Efpirito…”

Novo testamento, Companhia das Indias Oriental, cidade de Amsterdam, Bartholomeus Heynen e Joannes de Vooght, 1681.

Observe o verso em questão: “Elegidos fegundo a providencia de Deus Pae…” (v. I). Ora, a eleição é segundo a presciência ou providência?

Como já demonstramos no artigo O Evangelho Anunciado, a eleição não é o modo pelo qual Deus salva o homem. Deus não escolheu antes dos tempos eternos quem seria salvo ou não, com base na sua presciência ou na sua soberania. As concepções calvinista e arminianistas não são bíblicas.

Para compreender a ideia que o apóstolo Pedro procurou evidenciar, não se pode interpretar um verso fora do contexto, ou isolá-lo do restante da bíblia.

A estrutura da primeira carta de Pedro comparada à carta de Paulo aos Efésios é equivalente na estrutura do texto e na ideia que procuraram demonstrar. Observe:

“Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos estrangeiros da dispersão, no Ponto, na Galácia, na Capadócia, na Ásia e na Bitínia, eleitos segundo a presciência de Deus Pai, na santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas” ( 1Pe 1:1 -2).

“Paulo, apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus, aos santos que estão em Éfeso, e fiéis em Cristo Jesus: a vós outros graça, e paz da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo” ( Ef 1:1 -2).

Tanto Pedro quanto Paulo se apresentam, identificam os destinatários, saúdam com graça e paz, apresentam o local onde os cristãos se reuniam, porém, enquanto Pedro fala da nova condição pertinente aos salvos, ‘eleitos’ (presente), Paulo faz referência ao evento da eleição (passado).

Ora, Deus elegeu os cristãos em Cristo ( Ef 1:3 ), e os cristãos são eleitos (condição atual) por estarem em Cristo ( 1Pe 1:2 ).

Para os arminianistas a eleição é segundo a presciência de Deus, e os calvinistas apontam a soberania de Deus. Como a maioria dos tradutores segue uma tendência teológica, não sabemos o quanto estes posicionamentos doutrinários influenciam os tradutores.

Porém, é possível extrair do texto uma resposta: a eleição não é segundo a presciência e nem segundo a providência de Deus Pai, antes é na (em, ou através) Santificação do Espírito. Observe:

segundo a presciência de Deus Pai

Eleitos (condição atual) na santificação do Espírito

para a obediência e aspersão do sangue

Se considerarmos que a frase ‘segundo a presciência de Deus Pai’ é um aposto explicativo, veremos que não imposta à posição que ela é inserida no texto. Ora, têm-se várias cominações possíveis:

“… segundo a presciência de Deus Pai, eleitos na santificação do Espírito para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo…”, ou;

“… eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, na santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo…”, ou;

“… eleitos na santificação do Espírito, segundo a presciência de Deus Pai, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo…”, ou;

“… eleitos na santificação do Espírito para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo, segundo a presciência de Deus Pai…”.

Alguém que segue uma visão arminianista prefere agrupar as várias frases que compõe o versículo segundo a sua concepção: eleitos segundo a presciência. Outro, que não prefere a concepção arminianista, mas a calvinista, preferem a providência divina.

Porém, de acordo com o restante das escrituras, a eleição não é segundo a presciência, antes a eleição é segundo o propósito eterno de Deus. Ora, se é segundo o propósito eterno não pode ser segundo a presciência!

Por tanto, para interpretar ( 1Pe 1:2 ), é necessário considerar que:

  • Nenhum ponto das Escrituras deve ser considerado isoladamente do restante das escrituras “Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação” ( 2Pe 1:20 );
  • Algumas frases contidas nos textos são um tipo de aposto explicativo;
  • É necessário observar a forma do discurso do interlocutor, que neste caso específico é o apóstolo Pedro;
  • Não deixar ser influenciado por tendências doutrinárias, que são muitas;
  • Comparar o versículo com o texto de outros escritores da bíblia;
  • Por ser um versículo complexo deve ser analisado segundo a ideia geral da bíblia.

Segundo o que Paulo demonstra, os cristãos foram eleitos em Cristo “Pois nos elegeu nele…” ( Ef 1:4 ), e Pedro do mesmo modo demonstra que os eleitos alcançaram está condição ‘… em santificação do Espírito…’ ( 1Pe 1:2 ).

Perceba que tanto Pedro quanto Paulo utiliza o dativo de forma especial (en Cristo = em Cristo) ao escreverem acerca da eleição. É um uso específico do dativo preposicionado, característica própria à sintaxe cristã ao utilizarem o grego.

Ora, Paulo disse que os cristãos foram eleitos em Cristo, portanto, não podemos interpretar que a eleição é segundo a presciência, e sim, em santificação do Espírito.

Como? Ora, as palavras de Cristo são Espírito e vida “O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são espírito e vida” ( Jo 6:63 ). É através da Palavra que Cristo santificou a sua igreja “Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra” ( Ef 5:26 ).

A santificação do Espírito é pela palavra do evangelho e a eleição se deu em Cristo, ou seja, ‘em santificação do Espírito’ (santificação pela palavra), pois Cristo é o Verbo de Deus, a palavra da vida encarnada.

Ora, dizer que os cristãos foram eleitos ‘em Cristo’, ou que são eleitos ‘em santificação do Espírito’ evidencia a mesma ideia: a nova criatura (os cristãos) é eleita por estar em Cristo ( 2Co 5:17 ).

Segundo Paulo, os cristãos foram eleitos para serem santos e irrepreensíveis, ou seja, é para santificação que os cristãos foram eleitos em Cristo antes da fundação do mundo. Temos aqui dois eventos distintos:

  • antes dos tempos eternos, segundo o seu propósito eterno, Deus escolheu a Cristo para ser preeminente sobre todas as coisas;
  • para que Cristo fosse preeminente em tudo, Deus o constituiu como cabeça da igreja, que são os santificados pela palavra, as novas criaturas, homens nascidos segundo Deus em verdadeira justiça e santidade.

Em Cristo Deus escolheu os cristãos para que hoje sejam santos e irrepreensíveis. Paulo apresentou o tempo da eleição para demonstrar que os cristãos agora estavam em Cristo na condição de eleitos de Deus ( Ef 1:13 ), e Pedro apresenta a condição dos cristãos hoje (eleitos), e como alcançaram tal condição: em santificação pelo Espírito.

Percebe-se que através da santificação se dá a eleição dos homens, pois para a santificação é necessário ser anunciada a palavra aos homens, estes por sua vez creiam na pregação, e Deus opera a sua maravilhosa obra: a regeneração. Através da regeneração ocorre a justificação e santificação simultaneamente.

Paulo demonstra que os cristãos foram eleitos para santificação (objetivo), e Pedro demonstra que pela santificação do Espírito os Cristãos são eleitos (condição). A condição de eleitos decorre da santificação, mas quando Deus escolheu antes dos tempos eternos aqueles que estariam em Cristo, foi para serem santos e irreprimíveis.

Cristo demonstrou que a santificação é proveniente da sua palavra, que é espírito e vida para todos os que creem. A regeneração só é operada através da semente incorruptível, que é a palavra de Deus. Compare: “Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas” ( 1Pe 1:2 ), e “Tendo purificado as vossas almas na obediência a verdade…” ( 1Pe 1:22 ).

A ‘santificação’ ou ‘purificação’ só ocorre através da obediência.

Mas, o que é obediência? Obediência é crer na mensagem do evangelho do mesmo modo que cumprir os mandamentos de Deus é crer em Cristo ( 1Jo 3:23 ). Qual a verdade que os cristãos da Galácia não estavam obedecendo? À verdade do evangelho “Ó INSENSATOS gálatas! quem vos fascinou para não obedecerdes à verdade, a vós, perante os olhos de quem Jesus Cristo foi evidenciado, crucificado, entre vós?” ( Gl 3:1 ).

Como se obedece a verdade do evangelho? Crendo, como está escrito: “Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido” ( Rm 10:11 ).

Pedro procurou demonstra em sua saudação inicial que os cristãos são os eleitos de Deus, pois todos são santos por estarem em Cristo ( Ef 1:2 ). Eles tornaram-se santos (separados) após serem lavados pela palavra da verdade, a palavra do evangelho que obedeceram.

É através da obediência ao evangelho e aspersão do sangue de Jesus que os cristãos foram purificados, tornaram-se eleitos.

Tudo o que ocorreu com os cristãos após ouvirem e obedecerem à palavra do evangelho (aspersão do sangue, santificação e eleição) já era de conhecido de Deus (onisciência) antes dos tempos eternos “Pois os que dantes conheceu…” ( Rm 8:29 ).

Quando os apóstolos falaram da eleição, eles tinham em mente a geração que foi escolhida por Deus e a condição dessa geração. A geração dos eleitos ocorre em Cristo, e a geração dos não eleitos, em Adão ( 1Pe 2:9 ). A geração dos eleitos (justos) se dá em Cristo e a geração dos não eleitos (ímpios) em Adão porque uma é a geração dos justos e outra é a geração dos ímpios.

Nenhum descendente da carne de Adão foi eleito por Deus para ser santo e irrepreensível, antes só os homens que creem em Cristo, ou seja, que obedeceram a verdade do evangelho e são de novo gerados segundo Deus, são eleitos para serem santos (separados). É por isso que apóstolo Pedro fala que é por meio da santificação do Espírito que os cristãos são conhecidos d’Ele.

A ideia que Pedro procurou evidenciar é a mesma que Paulo demonstrou no verso seguinte: “Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” ( Gl 4:9 ).

Através da onisciência Deus é conhecedor de todas as coisas, ou seja, nada se exclui do seu saber, conhecimento. Porém, quando os cristãos eram incrédulos, eles não eram conhecidos de Deus. O que isto quer dizer, que Deus não é conhecedor de todas as coisas? ( Gl 4:8 ).

Não! Quando os cristãos não conheciam a Deus, Deus também não os conhecia. Porém, agora que conheceram a Deus, ou antes, tornaram-se um com Ele, conhecidos por Ele através da aspersão do sangue de Cristo que se da através da obediência à sua palavra, tornaram se filhos, eleitos (escolhidos) conforme o propósito eterno, que é a preeminência de Cristo como cabeça da igreja.

Conhecer a Deus vai além de um simples saber. Fala de união, ou seja, de tornar-se um só corpo com Cristo, conhecendo um ao outro em amor. Quando o cristão torna-se um só corpo com Cristo é o mesmo que Deus ter conhecido os cristãos, tornam-se um só corpo, pois o homem passa a compartilhar da natureza divina ( 2Pe 1:4 ).

A palavra ‘presciência’ não deve ser utilizada para fazer referência a ideia de que Deus antevê eventos futuros, pois Deus sabe de todas as coisas e eventos através dos séculos igualmente bem, o que se dá o nome de onisciência. O termo ‘presciência’, ou melhor, pré-conhecimento ou pré-ciência refere-se á mensagem acerca do Cristo que os profetas anunciaram de antemão (previamente). Que por intermédio do conhecimento de Deus em Cristo os homens tornar-se-iam um com Deus, conhecendo-O ( Dt 9:24 ; Am 3:2 ; Mt 7:23 ; Jo 10:14 -15).

Ora, o sangue da aspersão foi conhecido ainda antes da fundação do mundo do mesmo modo que os eleitos são conhecidos d’Ele através da aspersão deste mesmo sangue ( 1Pe 2:20 ).

Isto não coaduna com a ideia arminianista de que Deus determinou quem seria salvo através da ‘presciência’. O que Pedro demonstra não é o atributo da onisciência, antes que Deus determinou tudo o que é relativo à salvação do homem: o cordeiro, a palavra e a fé.

 

3 Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos,4 Para uma herança incorruptível, incontaminável, e que não se pode murchar, guardada nos céus para vós, 5 Que mediante a fé estais guardados na virtude de Deus para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo

Após o prefácio e a saudação, Pedro passou a bendizer a Deus pela sua misericórdia.

A estrutura inicial desta carta é similar a carta de Paulo aos Efésios e aos Salmos 103 e 104.

Pedro passa a bendizer, ou seja, a adorar a Deus reconhecendo os atributos de Deus (Salmos 104) e os benefícios concedidos aos homens (Salmos 103).

O fato de Pedro bendizer ou adorar a Deus nada acrescenta ao Criador, pois Deus não depende da adoração de suas criaturas para existir. Diferente são as imagens esculpidas, que são ícones idolatrados que surgem e são mantidos somente por serem venerados pelos homens, e que dependem desta veneração para continuarem sendo ídolos.

No entanto, os ídolos nada são ( 1Co 8:4 ), pois mesmo quando venerados, a adoração dos seus adeptos nada acrescenta ou omite as imagens de escultura. Somente são ídolos por causa de seus veneradores, mas afastando os seus adeptos, nada representam.

Como o homem adora a Deus?

Em primeiro lugar, só é possível adorar a Deus em espírito e em verdade, ou seja, somente aqueles que creram em Cristo e foram de novo criados é que o adoram segundo o que Ele estipulou: em espírito e em verdade;

Após o novo nascimento, cabe ao cristão reconhecer a grandeza de Deus e todos os seus atributos, e cantar todos os benefícios concedidos.

Pedro bendiz a Deus pela sua misericórdia, do mesmo modo que Davi e Paulo bendisseram ( Ef 1:3 ; Sl 103:10 ).

Ele aponta a misericórdia de Deus como sendo a causa de uma nova esperança, ou seja, em primeira instância a fé e a esperança do crente estão em Deus ( 1Pe 1:21 ).

Pedro é bem claro ao falar da regeneração em Cristo: gerar de novo. Ora, nascer de novo é o mesmo que ser participante de uma nova geração. Em Adão os homens são gerados segundo a carne, em Cristo, o último Adão, os homens são gerados de novo. Esta é a geração dos justos e aquela é a geração dos ímpios.

Mas, como ocorre o novo nascimento?

O ‘gerar de novo’ é um ato criativo de Deus (bara), onde Ele concede um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ). Deus não reformula ou melhora o velho homem gerado em Adão, antes, Ele faz tudo novo.

Quando Pedro falou ‘nos gerou de novo’, ele se incluiu na narrativa para demonstrar que, tanto ele quanto os cristãos foram de novo gerados. Este não é um privilégio restrito, antes todos os que creem são novamente criados.

É através da ressurreição de Cristo que Deus concede nova vida aos que crêem. Pela ressurreição de Cristo, o primogênito dentre os mortos, os homens nascidos sob a condenação de Adão também ressurgem para a glória de Deus e passam a condição de filhos de Deus, e Cristo assume a posição sublime de primogênito entre muitos irmãos.

Assim como Cristo ressurgiu dentre os mortos e ascendeu aos céus, os cristãos ressurgem com Cristo e assentam se nas regiões celestiais em Cristo. O mesmo poder que agiu em Cristo ressuscitando-O dentre os mortos é que opera a ressurreição dos que são alcançados pela misericórdia de Deus ( Ef 1:19 -20).

A viva esperança do crente é uma herança incorruptível e incontaminável, que não está guardada neste mundo, antes está guardada nos céus. A herança diz de bênçãos, do mesmo modo que Paulo agradece a Deus por todas as bênçãos concedidas por Deus ( 1Pe 3:9 ; Ef 1:3 ).

Ora, o que guarda o cristão para salvação é o poder de Deus, da qual o homem torna-se participante pela fé. Não é a confiança do homem que o salva ou que o sustem (guarda), antes é o poder de Deus que preserva o homem na salvação recebida.

Qual a virtude ou, qual o poder de Deus para salvação?

O poder de Deus para salvação é o evangelho de Cristo, como lemos em Romanos “Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego” ( Rm 1:16 ; Jo 1:12 ; 1Co 1:18 ).

Basta descansar (crer) em Deus que os cristãos são escondidos (guardado) através do seu poder para salvação que será manifesta muito em breve a todos. Revelar, tornar conhecido a todos os homens o retorno de Cristo (V. 5).

O poder de Deus que preserva os que creem da contaminação deste mundo é o evangelho da graça.

 

6 Em que vós grandemente vos alegrais, ainda que agora importa, sendo necessário, que estejais por um pouco contristados com várias tentações, 7 Para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece e é provado pelo fogo, se ache em louvor, e honra, e glória, na revelação de Jesus Cristo; 8 Ao qual, não o havendo visto, amais; no qual, não o vendo agora, mas crendo, vos alegrais com gozo inefável e glorioso; 9 Alcançando o fim da vossa fé, a salvação das vossas almas.

A alegria do cristão é proveniente das coisas pertinentes à salvação. Este deve ser o contentamento e a exultação do cristão, a salvação.

Há quem exulte por expulsar demônios ou quando opera algum milagre, porém, o alerta solene de Jesus é: “Mas, não vos alegreis porque se vos sujeitem os espíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus” ( Lc 10:20 ).

Esta recomendação de Jesus e do apóstolo Pedro é para que os cristãos não caiam no engodo do diabo e sejam levados pelos falsos profetas que fazem inúmeros milagres ( Mt 7:22 ).

A alegria pela salvação também se faz acompanhar de aflições. As aflições e as tentações contristam os seguidores de Cristo, mas estas coisas não são para comparar com a glória futura “Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós” ( Mt 5:12 ).

No verso sete, Pedro aborda a questão da perseverança e compara a fé com o processo de purificação do ouro.

A fé comparada com o ouro é muito mais preciosa. O ouro que segundo a concepção dos homens é um material nobre e que resiste ao tempo, porém, mesmo após ter sido provado pelo fogo continua sendo perecível.

A fé dos cristãos, quanto mais provada, redundará em louvor, honra e glória quando da volta de Cristo. Quanto maior as provações, ficará demonstrado quão grande é o valor da nossa fé, a fé que uma vez foi entregue aos santos (Judas 3).

Pedro demonstra quão maravilhoso é o evangelho, visto que ele apresenta aos cristãos Cristo crucificado, mas, mesmo não tendo visto a Cristo em carne, ou ressurreto, foram conquistados pelo seu amor.

Embora os cristãos não vejam a Cristo agora, o amam crendo, e sentem as suas vidas inundadas por uma alegria inefável e gloriosa. A alegria de Deus é proveniente da paz estabelecida entre Deus e os homens.

A perseverança fará com que os cristãos alcance o objetivo fim proposto no evangelho, a fé que foi entregue aos cristãos. Ora, os cristãos já haviam feito a vontade Deus quando creram na mensagem do evangelho, mas precisavam perseveram na fé que professaram para colocarem as mãos na herança prometida “Porque necessitais de perseverança, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” ( Hb 10:36 ).

 

10 Da qual salvação inquiriram e trataram diligentemente os profetas que profetizaram da graça que vos foi dada, 11 Indagando que tempo ou que ocasião de tempo o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava, anteriormente testificando os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir. 12 Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar. 13 Portanto, cingindo os lombos do vosso entendimento, sede sóbrios, e esperai inteiramente na graça que se vos ofereceu na revelação de Jesus Cristo;

Pedro apresenta um fato curioso acerca dos profetas do Antigo Testamento. Eles inquiriram diligentemente acerca de Cristo, a salvação que seria manifesta aos homens.

Os profetas perguntavam sobre a salvação que haveria de ser relevada, e eram diligentes quando profetizavam acerca de Cristo. Eles queriam saber os tempos que Deus estabeleceu pelo seu poder.

O Espírito de Cristo concediam aos profetas mensagens acerca da vinda do Messias e dos seus sofrimentos, porém, a época em que estes eventos se dariam não lhes era revelado.

Ora, segundo a onisciência de Deus Pai os eventos futuros eram revelados aos profetas, mas o fato de Deus conceder de antemão a revelação de eventos futuros (pré-conhecimento/πρόγνωσις/prognósis) não interfere nas decisões dos homens (v. 11). Cristo foi preso, crucificado e morto porque aprouve a Deus enfermá-lo, mas tudo ocorreu segundo o que foi vaticinado pelos santos profetas  “A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência (προγνώσει) de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos” ( At 2:23 ).

É pela onisciência que Deus antecipou aos seus profetas os eventos futuros, porém, a salvação não é determinada com base na ideia equivocada de ‘presciência’ como ‘saber de antemão’, antes a salvação é na santificação através da obediência ao evangelho, que é a fé entregue aos santos ( Jd 1:3).

Os profetas tinham conhecimento que falavam de coisas grandiosas para outros, e que as suas mensagens não diziam respeito a eles. Pedro quer que os cristãos tenham na memória que os profetas não profetizam acerca de bens para eles mesmos, antes, que eles (profetas) conheciam plenamente que outros seriam favorecidos pela graça de Deus.

Os profetas testificavam acerca de Cristo, e os apóstolos agora, pelo Espírito Santo anunciavam o evangelho. Ou seja, a mensagem anunciada aos cristãos era a mesma anunciada pelos profetas e que lhes aguçava a curiosidade para saber a respeito da salvação que hoje é revelada.

Muitos entendem que os anjos desejaram pregar o evangelho aos homens, porém, Pedro estava demonstrando que a mesma curiosidade pertinente aos profetas, também era pertinente aos cristãos. Do mesmo modo que os profetas inquiriram diligentemente, os anjos também desejaram compreender (v. 12b).

As coisas que os anjos desejaram atentar não foi desejo de anunciar as boas novas do evangelho, antes desejaram compreender a multiforme sabedoria de Deus, que até antes do advento da igreja era um mistério aos principados e potestades celestiais ( Ef 3:10 ).

Ora, se os anjos desejaram compreender as grandezas do evangelho, e os profetas inquirira diligentemente acerca da salvação, coisa que não estava reservada a eles, chega-se a seguinte conclusão: “Portanto,…” ( 1Pe 1:13 ).

Se os anjos desejaram compreender e os profetas inquiriram acerca dos tempos, o que resta aos que estão sendo beneficiados pela salvação revelada é cingir os lombos do entendimento. A recomendação de Pedro é para que os cristãos tenham uma compreensão apurada acerca das riquezas de Deus apresentada no evangelho.

Quando os cristãos ajustam bem a sua compreensão acerca do evangelho, deixando de lado as dúvidas e especulações, ele passa a esperar inteiramente na graça oferecida. Sobre a compreensão dos cristãos o apóstolo Paulo orou a Deus pelos cristãos em Éfeso: “Oro para que, estando arraigados e fundados em amor, possais perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade” ( Ef 3:18 ).

A compreensão acerca das verdades eternas deve ser a temática da vida cristã, pois o cristão só consegue crescer na graça e conhecimento de Cristo. Não há crescimento espiritual, pois o homem espiritual é perfeito diante de Deus. Muitos apregoam crescimento espiritual, mas os cristãos já são criados idôneos, ou seja, já pode participar da herança dos santos em Deus ( Cl 1:12 ).

O que é preciso àqueles que creram na mensagem do evangelho? Falta somente transformarem-se através da renovação do entendimento. O que era pertinente a velha natureza, o cristãos deve lançar fora, para viver segundo o conhecimento de Cristo ( Rm 12:2 ).

Do mesmo modo que Paulo agradece a Deus pelas bênçãos alcançadas do verso 3 ao 14 da carta aos Efésios, e ora a Deus para conceder aos cristãos o que lhes faltava (conhecimento) ( Ef 1:18 ), Pedro recomenda os cristãos a ajustar a compreensão acerca do conhecimento revelado.

Jesus alertou na parábola da semente que a compreensão é essencial a salvação, pois a ação nefasta do inimigo do homem é arrancar a semente dos corações que não compreendem “Ouvindo alguém a palavra do reino, e não entendendo, vem o maligno e arrebata o que foi semeado no coração” ( Mt 13:19 ).

É por isso que o escritor aos Hebreus recomenda os cristãos atentarem diligentemente para as coisas que já ouviram, para que em tempo algum (bonança ou perseguição) se desviem ( Hb 2:1 ).

Pedro recomenda a sobriedade, pois ela é essencial à vigilância, principalmente àqueles que aguardam a revelação de Cristo Jesus, o Senhor ( 1Ts 5:6 ).

 

14 Como filhos obedientes, não vos conformando com as concupiscências que antes havia em vossa ignorância; 15 Mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver; 16 Porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo. 17 E, se invocais por Pai aquele que, sem acepção de pessoas, julga segundo a obra de cada um, andai em temor, durante o tempo da vossa peregrinação, 18 Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que por tradição recebestes dos vossos pais, 19 Mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado,

O comportamento dos cristãos deve ser conforme o comportamento de filhos obedientes. Quando obedeceram a fora de doutrina que foi entregue no evangelho, crendo, os cristãos receberam poder para serem feitos (criados) filhos de Deus ( Jo 1:12 ).

Agora, de posse desta nova condição: filhos do Deus vivo, também devem viver como filhos obedientes. Ora, não é o comportamento dos cristãos que os faz filhos de Deus, e nem o comportamento diário que os mantém na condição de filhos.

Antes, os cristãos são filhos porque obedeceram ao mandamento que diz: “Ora, o seu mandamento é este, que creiamos no nome do eu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 2:23 ). Crer é o mesmo que obedecer a Deus!

Porém, apesar de não ser o comportamento que faz o homem filho de Deus, antes o ser de novo gerado segundo o poder do evangelho, agora que se é filho, os cristãos não devem se conformar com as concupiscências que antes tinham na ignorância.

Os desejos são pertinentes ao homem. Desde o Éden a concupiscência acompanhava o homem ( Gn 3:6 ). Percebe-se que a concupiscência não é o pecado, porém, os desejos do novo homem não devem ser conforme os desejos dos homens que ainda vivem na ignorância.

Se o homem foi alcançado pelo conhecimento do evangelho, que o liberta das trevas da ignorância, deve agora pensar nas coisas que são de cima, onde Cristo está assentado a destra de Deus. Deve aguardar inteiramente na graça que a revelação de Cristo oferece (v. 13).

Os desejos são pertinentes a esta vida, e todos que se deixam levar pelas concupiscências da carne, dos olhos e pela soberba da vida é por que não são sóbrios (vigilantes). Pedro quer demonstrar que a concupiscência gera tentação “Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência, depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte” ( Tg 1:14 -15).

Os cristãos devem pautar os seus desejos segundo o amor não fingido, pois os desejos segundo a concupiscência dos homens não é pertinente àqueles que foram iluminados pela luz do evangelho “Para que, no tempo que vos resta na carne, não vivais mais segundo as concupiscências dos homens, mas segundo a vontade de Deus” ( 1Pe 4:2 ).

Mas, como é Santo Àquele que chamou os cristãos à sua misericórdia, os cristãos também deveriam ser santos em todo o procedimento.

Observe que o comportamento dos cristãos é uma recomendação do apóstolo, e não uma imposição de Deus. Deus é santo porque a ninguém oprime, ou seja, ele não obriga nenhuma de suas criaturas a servi-lo “Ao Todo-Poderoso não podemos alcançar; grande é em poder; porém a ninguém oprime em juízo e grandeza de justiça” ( Jó 37:23 ).

Ele é santo e por isso chama, convida, oferece aos homens salvação. A santidade de Deus não impõe aos homens a sua vontade. Ele não predestina ninguém à salvação ou à perdição.

O cristão é santo porque foi criado de novo participante da natureza de Deus. Não é o comportamento do cristão que o mantém separado dos pecadores, pois há muitos pecadores que tem uma vida regrada, e não são santos (separado para uso exclusivo de Deus).

Mas, como Deus é santo e chamou o homem à santidade, é de bom alvitre que os cristãos mantenham-se separados também do comportamento dos ímpios pecadores ( 1Pe 1:15 ).

Ora, Pedro não faz esta recomendação por acaso, visto que está escrito: “Sede santos, porque eu sou santo” ( 1Pe 1:16 ). Ora, o versículo não recomenda aos homens que se santifiquem, pois isto é impossível aos homens. Antes o versículo expressa a vontade de Deus, pois é através da oferta do corpo de Cristo que o homem é santificado ( Hb 10:10 ).

Ora, quando Deus diz: ‘Sede santo’, temos a sua vontade (querer), e o seu efetuar através da sua palavra (Sede) “Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade” ( Fl 2:13 ). ‘Sede’ não é uma ordem, antes expressa a vontade de um Deus que trabalha para aqueles que nele esperam.

Este verso apresenta a mesma vontade de Deus a Abraão, ‘anda na minha presença e sê perfeito’ ( Gn 17:1 ). Ora, ser perfeito não é a condição para se andar na presença de Deus, mas ao andar na presença de Deus, o homem é perfeito, visto que ele justifica todos os que nele esperam como foi justificado Abraão pela fé.

Deus não exige perfeição do homem, antes é na sua vontade que o homem é aperfeiçoado “Perfeito serás, como o SENHOR teu Deus” ( Dt 18:13 ). O homem só é santo porque Deus o separou dos demais para ser santos ( Lv 20:26 ).

Pedro chama os seus interlocutores ao raciocínio. Se os cristãos invocam por Pai um Deus que não faz acepção de pessoas, ou seja, um Deus que julgará e retribuirá a cada um segundo as suas obras, deve entender que, se Deus punirá os ímpios pelas suas más ações, também será censurando pelo mal ou bem que houver feito ( 2Co 5:10 ).

Ora, os seus filhos precisam compreender que, o comportamento não é para salvação, visto que a salvação é em Cristo, porém, assim como os ímpios serão julgados segundo as suas obras, os justos também serão.

Quem cinge os lombos do entendimento compreendem que Deus não faz acepção de pessoas; que não foi com coisas corruptíveis que foram salvos; que o sangue de Cristo é precioso, o cordeiro de Deus sem mácula.

Pedro convoca os cristãos à sobriedade, para que não andassem segundo a vaidade dos pensamentos, entenebrecidos no entendimento ( Ef 4:17 -18), mas que servissem ao Senhor não fazendo uso do que é pertinente ao velho homem, que já foi crucificado e sepultado co Cristo ( Cl 3:8 -10).

 

20 O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós; 21 E por ele credes em Deus, que o ressuscitou dentre os mortos, e lhe deu glória, para que a vossa fé e esperança estivessem em Deus;

Pedro compara o sangue de Cristo como sendo o de um cordeiro sem mancha ou mácula, ou seja, perfeito ( 1Pe 1:19 ).

Ora, Cristo foi ‘conhecido’ do Pai antes da fundação do mundo (na eternidade). Em ‘outro tempo’, ou seja, um tempo específico que não é conforme o tempo dos homens.

Mas, o que é ter sido ‘conhecido’ antes da fundação do mundo? Que tipo de ‘conhecer’ é este apontado pelo apóstolo Pedro?

É ‘conhecido’ de Deus aquele que o ama “Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido dele” ( 1Co 8:3 ). Jesus também falou acerca de ter sido conhecido do Pai, pois o Pai O amou: “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me amaste antes da fundação do mundo” ( Jo 17:24 ).

Compare:

a) “… porque tu me amaste antes da fundação do mundo” ( Jo 17:24 );
b) “O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo…” ( 1Pe 1:20 ).

Antes de haver mundo, Cristo e o Pai estavam unidos em amor, que é o vínculo da perfeição, ou seja, Cristo é conhecido do Pai antes mesmo de ser introduzido no mundo como Filho amado.

Ser conhecido de Deus é estar em Deus e Deus em nós. O homem em Deus é surpreendente, porém, Deus nos homens é maravilhoso!

Ser ‘conhecido’ de Deus é uma forma específica de fazer referência a divindade de Cristo. É fazer dos homens e as pessoas da divindade um só “Eu e o Pai somos um” ( Jo 10:30 ), e “Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti. Que eles também sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes dei a glória que tu me deste, para que sejam um, como nós somos um: Eu neles, e tu em mim, para que sejam perfeitos em unidade…” ( Jo 17:21 -23).

Ora, o mundo não conheceu a Cristo porque não amou a Deus, mas Cristo conheceu a Deus, pois sempre estiveram unidos em amor. O ‘conhecer’ de Deus é compartilhar da mesma natureza, e os anjos, apesar de maior em poder e glória, jamais serão conhecidos do mesmo modo que os que creem conhecem a Deus, ou antes, são conhecidos dele ( Gl 4:8 -9).

Observe que Cristo foi conhecido de Deus e revelado aos homens. Os anjos não conheceram a Cristo como o Verbo encarnado na eternidade, mas viram o Unigênito de Deus que foi revelado aos homens “E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória” ( 1Tm 3:16 ).

Os anjos ficaram maravilhados quando viram que Deus se manifestou aos homens em carne, o Verbo Eterno encarnado. Foi lhes revelado a multiforme sabedoria quando viram que todos que creem tornam-se semelhantes a Cristo, pois são novamente criados em verdadeira justiça e santidade segundo o poder contido no evangelho.

A palavra grega ‘proginosko’ (conhecer) usada em At 26:5 ; Rm 8:29 ; Rm 11:2 ; 1Pe 1:20 e 2Pe 3:17 não é idêntica à palavra grega ‘prognosis’, usada em At 2:23 e 1Pe 1:2 , mesmo sendo correlatas. ‘Presciência’ não é um dos aspectos da ‘onisciência’, atributo de Deus relacionado ao conhecimento que ele tem de todas as coisas em todos os tempos (eternidade e o tempo dos homens: passado, presente e futuro).

Ao unirem-se (conhecer) o homem e a mulher, tornam-se uma só carne, mas o mistério eterno revela-se na igreja, quando o cristãos torna-se membro do corpo de Cristo ( Ef 5:30 -32).

Cristo foi manifesto aos homens para que eles pudessem crer em Deus. Como? Ora, a mensagem do evangelho demonstra que Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pelo poder de Deus, e que ele recebeu glória e poder, fato que dá garantias, àqueles que com medo da morte eram servos do pecado, de que basta confiar em Deus que será livre do medo e da servidão “E livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão” ( Hb 2:15 ).

Cristo foi manifesto porque Deus amou o mundo de tal maneira (v. 20), e deu o seu Filho (que foi morto e ressurgiu), para que, por intermédio de Cristo, exemplo de fé (autor e consumador), os homens também passem a crer em Deus (v. 21).

Ora, a fé está em Deus, que zela pela sua palavra para cumpri-la, e a esperança do homem também, pois espera inteiramente na salvação que a revelação de Cristo oferece gratuitamente.

Ora, mediante a fé os cristãos estão guardados na virtude (fidelidade) de Deus. A palavra do evangelho é a fé que um dia foi dada aos santos (Judas 3), e por meio dela o cristãos é preservado, esperando inteiramente na graça oferecida.

Esperar em Deus é fé, porém, a palavra do evangelho também é designada fé. A fé que o homem deposita em Deus equivale a esperança, e a fé que foi entregue aos santos (evangelho) é o mesmo que ‘esperança proposta’ ( 1Pe 1:5 ; 13 e 21). Deste modo temos uma esperança proposta, que é designada evangelho ou fé, e quem tem esta esperança em Deus, exerce ‘fé’ (esperança) em Deus.

Os calvinistas e arminisnistas causam um grande prejuízo à compreensão da verdade do evangelho porque não conseguem distinguir que o evangelho é o mesmo que a esperança proposta. Que o evangelho é a fé que uma vez foi dada aos santos.

Caso conseguissem distinguir que o evangelho, a esperança proposta e a fé dada aos santos são coisas provenientes de Deus, veriam também que crer na mensagem do evangelho, ter fé em Deus é o mesmo que esperar inteiramente na esperança proposta.

 

22 Purificando as vossas almas pelo Espírito na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingido; amai-vos ardentemente uns aos outros com um coração puro; 23 Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre. 24 Porque Toda a carne é como a erva, E toda a glória do homem como a flor da erva. Secou-se a erva, e caiu a sua flor; 25 Mas a palavra do SENHOR permanece para sempre. E esta é a palavra que entre vós foi evangelizada.

Os versos 22 e 23 são equivalentes, ou seja, expressam dois eventos provenientes da mensagem do evangelho.

Somente Deus gera de novo e purifica o homem. Somente Deus podia realizar o pedido do salmista Davi: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto” ( Sl 51:10 ). Somente Deus (Espírito) pode espargir água limpa (palavra) sobre os homens, concedendo-lhes um novo coração e um novo espírito ( Ez 36:25 -27). O novo Nascimento somente ocorre por intermédio da água (semente incorruptível) e do Espírito (Deus) ( Jo 3:5 ).

Pedro demonstra que efetivamente os cristãos foram purificados quando creram na mensagem do evangelho (v. 22). ‘Obedecer à verdade’ é o mesmo que ‘cumprir o mandamento de Deus’ que é: “… que creiamos no nome do seu Filho…” ( 1Jo 3:23 ).

Somente quando se crê (obedece) na mensagem do evangelho o Espírito Eterno digna-se em realizar a sua obra “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

Deus purifica o homem completamente (livra do jugo) e o fardo que agora deve carregar por estar em Cristo é amar uns aos outros, segundo o seu mandamento ( 1Jo 3:23 ).

Antes, por ser descendente de Adão, o coração do homem era ‘enganoso’ e ‘incorrigível’, agora, por estar em Cristo, foi concedido um novo coração puro, sendo possível amar uns aos outros ardentemente com um coração puro ( Jr 17:9 ; Sl 51:10 ; 1Pe 1:22 ).

Observe a semelhança entre o verso 22 e o verso 2:

“…eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, na santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus …” (v. 1);
“Tendo purificado as vossas almas na obediência à verdade…” (v. 22).

Pedro apresenta a doutrina da regeneração ou do novo nascimento.

Por que os cristãos foram de novo gerados? Porque todos os homens são gerados em Adão, de uma semente corruptível ( Jo 1:13 ). Após crer na mensagem do evangelho, os homens que foram gerados em Adão, agora são de novo gerados pela palavra de Deus.

A palavra de Deus é viva e permanece para sempre, e todos que são de novo gerados passam a viver para sempre com Deus.

Para demonstrar que todos os homens nascidos em Adão são perecíveis, Pedro cita uma passagem de Isaias: “Diz uma vos: Clama. E eu disse: Que hei de clamar? Todos os homens são como a erva, e toda a sua beleza como as flores co campo. Seca-se a erva, e caem as flores, soprando nelas o hálito do Senhor. Na verdade o povo é erva. Seca-se a erva, e caem as flores, mas a palavra do nosso Deus subsiste eternamente” ( Is 40:6 -8).

Observe que a citação de Pedro não é “ips literis”. Ele somente evidência a ideia do texto de Isaias, demonstrando que todos os homens nascidos da carne (toda carne) são comparados a erva. Toda a glória que o homem possui é comparável a flor da erva.

Para demonstra quão fugaz é a existência dos homens, Pedro somente arremata: “Secou-se a erva, e caiu a sua flor”. Ele não se ateve ao processo de degradação pertinente a existência do homem que culmina com os eu retorno ao pó da terra.

Já a palavra de Deus é completamente diferente: ela permanece para sempre, e os que por ela são de novo gerados subsistem eternamente.

Sobre esta verdade Jesus disse: “Ele, porém, respondendo, disse: Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” ( Mt 15:13 ).

Ora, a planta que o Pai não plantou são os homens nascido em Adão e todos serão arrancados. Porém, aqueles que nascem da palavra de Deus, são plantação do Senhor, árvores de justiça “A ordenar acerca dos tristes de Sião que se lhes dê glória em vez de cinza, óleo de gozo em vez de tristeza, vestes de louvor em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem árvores de justiça, plantações do SENHOR, para que ele seja glorificado” ( Is 61:3 ).

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Caim e Abel

A oferta de Abel não foi melhor em essência que a oferta de Caim! A oferta não torna ninguém diferente, ou melhor, diante de Deus, pois tudo que há na terra pertence a Deus, tanto os frutos da terra quanto as crias das ovelhas.


“Todos estes morreram na fé. Não alcançaram as promessas” ( Hb 11:13 )

Uma das características inegável da fé esta na esperança proposta e não nas conquistas e realizações pessoais que muitos pensam em conquistar.

Observe os exemplos citados pelo escritor aos Hebreus:

“Pela fé Abel ofereceu melhor sacrifício”

Muitos pensam que a oferta é o diferenciou Caim e Abel diante de Deus, ou seja que a oferta de Abel continha elementos superiores a oferta de Caim.

Sobre este aspecto escreveu Scofield: “Este tipo se destaca em contraste à oferta desprovida de sangue, de Caim, dos frutos da terra e declara, na infância da raça humana, a verdade principal de que ‘sem derramamento de sangue não há remissão'” ( Hb 9:22 ; Hb 11:4 ).

É correta a assertiva de que ‘sem derramamento de sangue não há remissão de pecado’, porém, a citação deste verso não valida o pensamento do Dr. Scofield.

A oferta de Abel não era melhor ou superior a oferta de Caim! Oferta não torna ninguém aceitável a Deus. Devemos lembrar do que é dito pelo salmista: tudo que há na terra pertence a Deus, tanto os frutos da terra quanto as crias das ovelhas ( Sl 50:8 -13).

“O diferencial parte do próprio ofertante, e não na oferta!”

Abel alcançou testemunho de que agradou a Deus, não pela oferta que ofereceu, e sim por te-lo feito mediante a fé. É com base no firme fundamento (fé) que Abel alcançou testemunho de que era justo, e não através da sua oferta.

Deus não aceita as pessoas em função de ofertas ou sacrifícios, e sim, pela sua infinita misericórdia, bastando para isto que o homem confie n’Ele.

Caim tentou aproximar-se de Deus confiando que a sua oferta o faria agradável a Deus, e, por isso, primeiramente ele não foi aceito e nem a sua oferta.

“Mas para Caim e para a sua oferta não atentou…” ( Gn 4:5 )

Abel foi até Deus convicto que seria aceito e galardoado porque Deus é misericordioso. Ele foi aceito e a sua oferta também. Abel confiou em Deus, que é galardoador e foi aceito. Já Caim estava confiado na oferta, e permaneceu reprovável diante de Deus.

Abel recebeu a recompensa, pois Deus atentou para Ele e para a sua oferta: foi declarado justo.

Observe que Deus atenta em primeiro lugar para o homem que n’Ele confia, e depois para a oferta. O testemunho de Deus quanto a oferta de Abel decorre do fato de ele ter sido aceito por Deus pela fé.

Observe que, pela fé Abel ofereceu melhor sacrifício que Caim, tanto que, até depois de morto a sua oferta lhe deu testemunho da justiça alcançada.

“…e atentou o SENHOR para Abel e para a sua oferta” ( Gn 4:4 )

Em nossos dias vemos muitos lideres religiosos concitando os seus liderados a fazerem votos, ofertas, sacrifícios, contribuições, etc. Para isso, apresenta a oferta ou o sacrifício como elemento essencial para alcançar a ‘bênção’ de Deus.

Esses lideres argumentam que, quando maior a oferta, maior é a fé do ofertante. Ou, apresenta o pretexto de que quanto maior a ‘semeadura’, maior a colheita. Invertem ou transtornam os valores que a Bíblia apresenta.

O homem só é aceito por Deus por meio da fé, e, só então a oferta é recebida por Deus, pois o salmista diz: “Bem-aventurado o homem a quem o SENHOR não imputa maldade, e em cujo espírito não há engano” ( Sl 32:2 ). É declarado justo aquele que Deus não imputa maldade, e não aquele que oferece sacrifício.

Abel não foi até Deus por causa de uma ‘bênção’, mas pela fé alcançou um bom testemunho “Foi por ela que os antigos alcançaram bom testemunho” ( Hb 11:2 ).

Desta forma compreendemos o exposto pelo escritor aos Hebreus: “Pela fé Abel ofereceu a Deus mais excelente sacrifício do que Caim…” ( Hb 4:4 ).

Por ter se aproximado de Deus pela fé, Abel recebeu testemunho de Deus de que era justo. Observe que a oferta jamais poderia justificar Abel, pois o escritor aos Hebreus já havia demonstra que o sangue de animais jamais poderia tirar pecado ( Hb 10:4 ).

O que é impossível a sangue de touros que se oferece em holocaustos, é possível pela fé, pois, pela fé Abel alcançou de Deus testemunho de que era justo “… pelo qual alcançou testemunho de que era justo…” ( Hb 11:4 ).

Deus não muda e nem a sua palavra: “Pois não desejas sacrifícios, senão eu os daria; tu não te deleitas em holocaustos” ( Sl 51:16 ).

Quando Cristo se apresenta ao Pai, também declarou por intermédio do profeta: “Sacrifício e oferta não quiseste; os meus ouvidos abriste; holocausto e expiação pelo pecado não reclamaste” ( Sl 40:6 ), de modo que foi obediente até a morte e morte de cruz ( Fl 2:8 ).

Ora, Cristo foi obediente porque Deus requer dos homens obediência, e não sacrifício: “Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos” ( Os 6:6 ); “Porém Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” ( 1Sm 15:22 ).

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Como agradar a Deus?

O conceito que o escritor aos Hebreus apresentou auxilia em muito no desenvolvimento deste estudo, porém, o contexto na qual a palavra ‘fé’ é empregada nos diz muito mais “Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se vêem” ( Hb 11:1 ).

 


“Ora, sem fé é impossível agradar a Deus…” ( Hb 11:6 )

A Bíblia geralmente trabalha com proposições, ou seja, não é uma característica das exposições bíblicas dar definições e conceitos. Exemplificando, a bíblia não apresenta uma definição ou um conceito de Deus, ela simplesmente apresenta algumas proposições, como: Deus é luz; Deus é vida, etc.

A linguagem bíblica demanda raciocínio para chegar a um entendimento, diferente da linguagem dos livros de hoje, que se aplicam em apresentar conceitos e definições acerca dos temas que abordam.

Os livros acabam simplesmente informando os seus leitores, já a Bíblia estimula o raciocínio do leitor, fazendo com que este percorra os labirintos do aprendizado até uma maravilhosa descoberta. Além do mais, auxilia na memorização do conceito quando abstraído.

Apesar de a Bíblia nos estimular ao raciocínio, ela nos surpreende ao apresentar, em uma das suas cartas, um conceito de fé:

“Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se vêem” ( Hb 11:1 ).

a) O fundamento firme é definido pelo escritor aos Hebreus como sendo fé.

b) A fé é prova do que se espera e que apesar de não ser possível ser visto, existe.

O conceito que o escritor aos Hebreus apresentou auxilia em muito no desenvolvimento deste estudo, porém, o contexto na qual a palavra fé é empregada nos diz muito mais. Observe o versículo seguinte:

 

“Mas, se alguém não cuida dos seus, e principalmente dos da família, negou a fé, e é pior que o incrédulo” ( 1Tm 5:8 )

Qual o significado da palavra fé no versículo acima? Podemos aplicar o conceito apresentado pelo escritor aos Hebreus a este versículo? Não!

O contexto demonstra que a palavra fé empregada por Paulo neste verso teve o seu significado primário ampliado, passando a designar a ideia geral da mensagem do evangelho. Dizer que: ‘alguém negou a fé’, tem o mesmo significado que ‘negar a mensagem do evangelho’.

A fonte da fé genuína é o evangelho, e ter um comportamento contrário ao recomendado pelo evangelho constitui-se prova de que aquele que se diz cristão, e não é, está em condição inferior até mesmo daquele que não professa o evangelho.

O apóstolo Paulo não quis dizer que o comportamento seja essencial à aceitação do evangelho, pois este é alcançado por meio da fé. Antes, ele procurou demonstrar que o comportamento do cristão confirma o que ele professa ter alcançado por meio do evangelho.

A palavra fé neste versículo é empregada para designar a mensagem que deu causa à confiança do crente, enquanto o conceito da carta aos Hebreus se prende à confiança do crente, sem qualquer referência a mensagem que promove a fé.

Percebe-se que a fé não se trata de uma qualidade ou mérito intrínseco ao crente. A mensagem do evangelho dá base à crença (fé), que acaba por refletir no comportamento de quem professa segui-la.

Um outro aspecto a considerar, quanto à interpretação de alguns textos bíblicos, fica por conta da etimologia da palavra fé.

A ideia de fé no Antigo Testamento é a de ‘descansar’ ou ‘apoiar-se’, confiante em alguém ou em alguma coisa.

 

“Porque o Egito os ajudará em vão, e para nenhum fim; por isso clamei acerca disto: No estarem quietos será a sua força (…) Assim diz o Senhor Deus, o Santo de Israel: Em vos converterdes e em repousardes está a vossa salvação, no sossego e na confiança está a vossa força, mas não quisestes” ( Is 30:7 e 15).

“Aquietai-vos, e sabei que Eu sou Deus” ( Sl 46:10 )

A intranquilidade do homem, ou a sua procura obstinada por uma saída frente aos problemas da vida é uma demonstração de falta de confiança em Deus.

Geazi, o servo de Eliseu, é o exemplo típico do homem sem fé: “Então o moço lhe perguntou: Ai, meu senhor, o que faremos?” ( 2Rs 6:15 b).

A falta de confiança (fé) faz com que o homem busque uma solução apoiada em seus próprios recursos. A pergunta de quem não tem fé sempre será: O que faremos? “Perguntaram eles: Que faremos para executar as obras de Deus?” ( Jo 6:28 ).

Eliseu por sua vez demonstra tranqüilidade, mesmo quando tudo parecia perdido aos olhos de Geazi.

Os reis de Israel e Judá sempre procuravam alianças com os povos vizinhos, confiando que as suas alianças trariam paz e segurança. Todos eles esqueciam que Deus havia prometido defende-los, e que bastava repousarem e estar sossegados.

No A. T. a salvação de Deus apresentava-se àqueles que se convertiam ao Senhor e repousavam (descansar). Já o livramento aparecia vinculado ao estar sossegado. A força dos reis de Israel e Judá não estava em suas alianças, exércitos, cavaleiros, homens, etc., e sim, em estarem tranquilos.

No Novo Testamento temos o verbo ‘pisteuõ’ e o seu substantivo ‘pistis’. Este verbo tem dois significados básicos:

(1) acreditar no que alguém diz, aceitar uma afirmação como verdade, especialmente a de natureza religiosa “Vai-te, e seja feito conforme a tua fé” ( Mt 8:13 );

(2) confiança pessoal em contraposição a um mero crédito ou crença, e esta ideia é introduzida no texto através de uma preposição “em + ele” “Dele todos os profetas dão testemunho de que, por meio de seu nome, todo aquele que nele crê recebe remissão de pecados” ( At 10:43 ).

A mensagem do evangelho fundamenta-se na pessoa de Cristo. Ele mesmo anunciou as boas novas do reino aos homens. Crer na mensagem do engelho, em última instância, é crer na pessoa de Cristo.

A fé do cristão é pessoal, e sendo Cristo o Verbo de Deus encarnado, a palavra d’Ele é a verdade. A pessoa de Cristo e a sua mensagem estão intimamente interligadas. A palavra da fé é o firme fundamento designado fé, sem a qual ninguém verá a Deus.

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Nascer da Água e do Espírito

A doutrina de Jesus somente tornou evidente o que estava registrado nos profetas: nascer da água e do Espírito é o mesmo que Deus espargindo água pura sobre o homem. Somente Deus pode conceder um novo coração e um novo espírito, ou seja, uma nova vida ao homem!


Água e Espírito

“Jesus respondeu: Em verdade, em verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus” ( Jo 3:5 )

A resposta de Jesus satisfaz a seguinte pergunta: “Como pode nascer um homem, sendo velho?” A resposta é precisa: o novo nascimento é por meio da água e do Espírito!

Para entendermos a resposta de Jesus é preciso saber que a doutrina apregoada por Ele em nada difere da mensagem apregoada na lei e pelos profetas.

Sabemos que a lei nunca pode aperfeiçoar ninguém por conter somente a sombra dos bens futuros ( Hb 10:1 ). Porém, ela sempre apontou a necessidade da circuncisão do coração.

O que a lei propunha era impossível o homem alcançar por meio dela, visto que, a própria lei estava enferma pela carne (Romanos 8: 3). A lei somente serviu de ‘tutor’ para conduzir o homem a Cristo ( Gl 3:24 ), ou seja, ao apontar a necessidade da circuncisão do coração, a lei conduz o homem a Cristo, pois somente nele é possível alcançar circuncisão através do despojar do corpo da carne: a circuncisão de Cristo ( Cl 2:11 ).

Podemos extrair uma grande lição da lei: ela foi escrita em tábuas de pedras e entregue ao povo, mas, não pode aperfeiçoar ninguém, visto que, mesmo após a entrega da lei, Moisés continuou apregoando a necessidade da circuncisão do coração ( Dt 10:16 ; Dt 30:6 ; 2Co 3:3 e 7).

Caso a lei fosse essencial para a salvação do homem não haveria a necessidade de Moisés apregoar a circuncisão do coração. Conclui-se que, a lei entregue em tábuas de pedra não operou a transformação necessária no coração do povo, visto que, eles ainda precisavam da circuncisão do coração.

A ação divina nunca foi por intermédio da lei, visto que, a mensagem de Deus sempre foi: “Ouve, ó Israel…”, pois a fé é o único meio de se achegar a Deus ( Rm 10:17 ). Caso ouvissem a voz de Deus, haveria uma mudança radical neles: deixariam de ter um coração de pedra e passariam a ter um coração de carne ( Dt 11:18 ; Jr 4:4 ).

A intervenção divina na vida do povo só ocorreria no momento em que eles ouvissem e gravassem a lei em seus corações. A circuncisão é uma ação divina por meio da sua palavra ( Dt 30:6 -8).

 

۩

O profeta Ezequiel sobre este assunto disse o seguinte: “Então espargirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei. E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis” ( Ez 36:25 -27).

O mestre Nicodemos já conhecia esta passagem bíblica. Há muito que ele lia acerca da promessa de uma nova vida (um novo coração e um novo espírito), porém, não conseguia abstrair a essência do que Deus propôs.

Para alcançar a nova vida é necessário que o próprio Deus venha a espargir água pura sobre o homem (“EU” espargirei água pura sobre vós).

A doutrina de Jesus somente tornou evidente o que estava registrado nos profetas: nascer da água e do Espírito é o mesmo que Deus espargindo água pura sobre o homem. Somente Deus pode conceder um novo coração e um novo espírito, ou seja, uma nova vida ao homem!

Nascer da água é o mesmo que nascer da palavra: Jesus é o Verbo de Deus, ou seja, a Palavra encarnada ( Jo 1:14 ). Sobre este aspecto Paulo escreveu: “Para santificá-la, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra…” ( Ef 5:26 ) “Se alguém tem sede, vem a mim e beba” ( Jo 7:37 ). Jesus é a água que produz vida naqueles que são purificados por Ele, ou seja, naqueles que creem.

Nascer do Espírito é o mesmo que nascer de Deus, visto que, Deus é Espírito e aqueles que d’Ele são nascidos recebem um novo espírito e um novo coração. Portanto, “…o que é nascido do Espírito é espírito” ( Jo 3:6 ), e os que creem recebem poder para serem feitos filhos de Deus! Ora, se o homem crê, da plenitude de Deus já recebeu ( Jo 1:16 ; Cl 2:7 -8). Passa a ser participante da natureza natureza divina ( 2Pe 1:4 ).

Quem crê na Palavra encarnada como diz as Escrituras, do seu interior terá rios de água viva fluindo, ou seja, isto foi dito: “… do Espírito que haviam de receber os que nele cressem” ( Jo 7:37 -39), o nascer do Espírito.

Há uma ordem específica para se nascer de novo? Sim! Primeiro o homem nasce da água, depois do Espírito! Como?

Primeiro o homem precisa da Palavra de Deus para que possa crer, ou seja, para crer, primeiro é preciso ouvir (ser espargido por Deus com água limpa), acerca da fé (evangelho) que é poder de Deus que faz dos homens que descansam na esperança proposta filhos de Deus “Porque não me envergonho do Evangelho de Cristo, pois é Poder de Deus para a Salvação de todo aquele que crê” ( Rm 1:16 ).

O homem só tem acesso ao poder de Deus depois que ouve a palavra da verdade, conforme Paulo escreveu a Tito: “… Ele nos salvou mediante a lavagem da regeneração e da renovação pelo Espírito Santo” ( Tt 3:5 ).

Paulo ao escrever a Tito demonstra que Deus lava e renova o homem por meio da palavra e do seu Espírito, ou seja, ele reafirma o que foi dito por Ezequiel: (“EU” “espargirei água pura sobre vós…”).

Através da Palavra de Deus, que é água pura espargida sobre o pecador, ocorre a lavagem da regeneração. Os que de Deus são nascidos, são renovados pelo Espírito Eterno, recebendo um coração de carne em lugar do coração de pedra e um novo espírito ( Sl 51:10 ).

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