Ficarão de fora os cães

Na Bíblia os profetas são apresentados como ‘atalaias’, homens que alertavam os moradores de Israel anunciando a palavra do Senhor. O profeta Habacuque era uma atalaia, pois ao ver a iniquidade do povo dava o alarde gritando: – “Violência, violência”! ( Hc 1:2 ). Esta violência trouxe a justa retribuição de Deus através dos caldeus conforme o predito pelo profeta Moisés.


“Ficarão de fora os cães e os feiticeiros, e os que se prostituem, e os homicidas, e os idólatras, e qualquer que ama e comete a mentira” ( Ap 22:15 )

 

Introdução

O termo ‘cães’ no verso: “Ficarão de fora os cães…” ( Ap 22:15),  não é um xingamento derivado de um destempero emocional de seu locutor. Essa assertiva foi feita pelo Senhor Jesus Cristo glorificado e registrado pelo apóstolo João no livro do Apocalipse com a finalidade de alertar os cristãos acerca da iminente volta de Cristo ( Ap 22:20 ).

O Senhor Jesus, neste alerta, não trata de animais irracionais, quer sejam animais domésticos ou animais que sobrevivem na natureza. Vale destacar que os animais quando morrem, até mesmo os de estimação, não irão ao céu e nem a nenhuma outra parte. Não existe céu e nem inferno para animais. Um animal, após o termino das funções vitais deixa de existir, ou seja, animais não ‘ressurgem’.

Durante o seu ministério terreno Jesus utilizou vários termos como ‘víboras’, ‘loucos’, ‘ignorantes’, ‘cegos’, ‘cães’, em suas pregações, mas não tinha a intenção de ofender os seus interlocutores. Na verdade Jesus utilizou estes termos em seus ensinos para evidenciar aos seus ouvintes que eles estavam em igual condição que a dos seus antepassados que morreram durante a peregrinação no deserto ( Hb 1:1- 2; Jo 6:49 ), pois estes termos foram amplamente empregados pelos profetas.

 

Termos e figuras

Verifica-se nas Escrituras que os profetas utilizaram termos que remontam a algumas figuras para esclarecer e evidenciar a condição e algumas situações envolvendo o povo de Israel ( Jr 5:4 ; Dt 32:6 ).

Para compreendermos o significado de alguns termos ou interpretar as figuras utilizadas, tanto por Jesus quanto pelos apóstolos, primeiro é necessário entender como os profetas fizeram uso de tais elementos.

Ora, não convém ao leitor da Bíblia estabelecer, através das próprias conjecturas e suposições, o significado das figuras e das parábolas anunciadas por Cristo e os apóstolos, visto que eles mesmos afirmam que tiveram o cuidado de serem fiéis às Escrituras quando falavam ao povo.

Fidelidade ao mandamento de Deus era o compromisso de Cristo: “E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito” ( Jo 12:50 ). E este era o posicionamento do apóstolo Pedro: “E temos, mui firme, a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia amanheça, e a estrela da alva apareça em vossos corações” ( 2Pd 1:19 ). Neste mesmo diapasão segue o apóstolo dos gentios: “Mas, alcançando socorro de Deus, ainda até ao dia de hoje permaneço dando testemunho tanto a pequenos como a grandes, não dizendo nada mais do que o que os profetas e Moisés disseram que devia acontecer” ( At 26:22 ).

Isto significa que o interprete não pode dar significado aos termos e figuras por si mesmo, antes deve se socorrer do significado que a própria Bíblia apresenta.

 

Atalaia

“ENTÃO disse o SENHOR a Moisés: Eis que te tenho posto por deus sobre Faraó, e Arão, teu irmão, será o teu profeta. Tu falarás tudo o que eu te mandar; e Arão, teu irmão, falará a Faraó, que deixe ir os filhos de Israel da sua terra” ( Ex 7:1-2);

“Filho do homem: Eu te dei por atalaia sobre a casa de Israel; e tu da minha boca ouvirás a palavra e avisá-los-ás da minha parte ( Ez 3:17 ; Ez 33:7 ).

O livro do Êxodo explica que profeta é aquele que tem a incumbência de retransmitir aquilo que especificamente ouviu de Deus. Quando Moisés e Arão foram a Faraó, Deus colocou Moisés como deus sobre Faraó e Arão como ‘profeta’ de Moisés, e a relação que se estabeleceu entre Moisés e Arão deixa claro qual é a missão do profeta “Porém o profeta que tiver a presunção de falar alguma palavra em meu nome, que eu não lhe tenha mandado falar, ou o que falar em nome de outros deuses, esse profeta morrerá” ( Dt 18:20 ).

Através da palavra dada ao profeta Ezequiel, verifica-se que Deus associa o oficio de profeta à função da atalaia.

A função da atalaia (sentinela) é vigiar, e para exercer o seu papel necessita estar em um lugar alto que proporcione uma visão ampla afim de que possa ver o perigo ao longe e dar o aviso em tempo hábil.

Por causa da importância e responsabilidade inerente à função de atalaia, verifica-se que há similaridade entre a incumbência do profeta com a função da atalaia, de modo que do ponto de vista bíblico ‘atalaia’ significa profeta. Isto por si só demonstra que a Bíblia possui terminologias próprias.

Para exercer bem a função de atalaia em Israel, ou seja, avisar o povo do perigo, os profetas deveriam estar em Deus, o altíssimo, mas muitos profetas em Israel prevaricaram na sua atribuição “Os sacerdotes não disseram: Onde está o SENHOR? E os que tratavam da lei não me conheciam, e os pastores prevaricavam contra mim, e os profetas profetizavam por Baal, e andaram após o que é de nenhum proveito” ( Jr 2:8 ).

Além da figura da ‘atalaia’, nas profecias há a figura do ‘cão mudo’ para representar aqueles profetas que não falam o que Deus ordenou:

“Todos os seus atalaias são cegos, nada sabem; todos são cães mudos, não podem ladrar; andam adormecidos, estão deitados, e gostam do sono” ( Is 56:10 )

Pela similaridade que há entre a função da atalaia e do cão de guarda, é introduzida a figura do ‘cão mudo’ para descrever os profetas de Israel. No que diz respeito à vigilância, o cão desempenha o mesmo papel que a sentinela, pois tem a audição e o olfato apurado e dá o alarde quando sente qualquer aproximação.

A atalaia cega não dá o alarde porque nada sabe. Já o cão mudo não dá o aviso pela impossibilidade de ladrar (latir).

 

O desvio das atalaias e do povo

Apesar de Deus ter instituído profetas como atalaias em Israel, tanto as atalaias quanto a nação rejeitaram ouvir a palavra de Deus “Também pus atalaias sobre vós, dizendo: Estai atentos ao som da trombeta; mas dizem: Não escutaremos” ( Jr 6:17 ); “A quem falarei e testemunharei, para que ouça? Eis que os seus ouvidos estão incircuncisos, e não podem ouvir; eis que a palavra do SENHOR é para eles coisa vergonhosa, e não gostam dela” ( Jr 6:10 ); “Porque desde o menor deles até ao maior, cada um se dá à avareza; e desde o profeta até ao sacerdote, cada um usa de falsidade” ( Jr 6:13 ; Jr 8:10 ).

Os profetas ensinavam mentiras, ou seja, falavam visões segundo os seus corações enganosos, e não da parte do Senhor “Assim diz o SENHOR acerca dos profetas que fazem errar o meu povo, que mordem com os seus dentes, e clamam paz; mas contra aquele que nada lhes dá na boca preparam guerra” ( Ml 3:5 ; Jr 23:16 ). Na verdade desencaminhavam ainda mais um povo que já era propenso a errar ( Os 11:7 ; Jr 50:6 ).

Como os profetas não davam o alarde e o povo rejeitava a palavra do Senhor, todos estavam alheios ao mau que estava por vir, pois Deus estava suscitando contra Israel inúmeros inimigos dentre os povos vizinhos ( Jr 6:19 -23).

 

A profecia de Moisés

Os filhos de Israel profanaram a aliança de Deus, ou seja, não fizeram justiça ( Dt 6:25 ), e as pragas preditas por Moisés estavam por se abater sobre o povo de Israel ( Dt 28:15 -68).

Dentre as pragas previstas por Moisés estava o levante de nações inimigas que viriam de terras longínquas e dominaria sobre a nação de Israel “O SENHOR levantará contra ti uma nação de longe, da extremidade da terra, que voa como a águia, nação cuja língua não entenderás; Nação feroz de rosto, que não respeitará o rosto do velho, nem se apiedará do moço” ( Dt 28:49 -50).

O profeta Habacuque cônscio da sua função, alardeou: “SOBRE a minha guarda estarei, e sobre a fortaleza me apresentarei e vigiarei, para ver o que falará a mim, e o que eu responderei quando eu for arguido” ( Hc 2:1 ).

Habacuque estava sabia que, como profeta, era uma ‘atalaia’ de Deus em Israel. A função dele era estar de ‘vigia’, assim como uma atalaia permanece vigilante em seu posto. E o que Habacuque estava à espera? Esperava ouvir o que Deus falaria acerca do seu povo.

Isto não quer dizer que Habacuque estava encarregado de vigiar os muros e os portões da cidade, função esta que cabia aos soldados e vigias. A função de Habacuque era esperar o que Deus havia de falar, pois só podia anunciar o que Deus dissesse ( Hc 2:1 ).

Deus anunciou que havia de fazer uma obra tal que os filhos de Israel não creriam quando fosse anunciada ( Hb 1:5 ), ou seja, Deus estava levantando os caldeus – nação gentílica – como vara de correção contra Israel, e Habacuque estava incumbido de anunciar que estes eventos ocorreriam em função da rebeldia dos filhos de Israel.

Sem compreender o motivo de Deus suscitar uma nação gentílica para punir o seu povo, Habacuque se posta vigilante como uma atalaia a espera de uma resposta de Deus.

Lembre-se que Habacuque não era um soldado em um posto de observação (sentinela) com a missão de dar o alarde caso identificasse uma invasão inimiga, antes ele estava aguardando, como uma atalaia, para compreender o que Deus havia falado.

Nas escrituras os profetas são apresentados como ‘atalaias’, homens que alertavam os moradores de Israel anunciando a palavra do Senhor. O profeta Habacuque era uma atalaia, pois ao ver a iniquidade do povo dava o alarde gritando: – “Violência, violência”! ( Hc 1:2 ). Esta violência trouxe a justa retribuição de Deus através dos caldeus conforme o predito pelo profeta Moisés.

O profeta Isaias como atalaia também anunciou o castigo do Senhor conforme o que foi predito por Moisés em Deuteronômio: “Vós, todos os animais do campo, todos os animais dos bosques, vinde comer” ( Is 56:9 ). As nações inimigas são representadas nas Escrituras através de figuras de alimárias do campo, como leão, leopardo, urso, etc., daí o convite a ‘todos os animais do campo’.

O convite para que se aproximassem e comessem é feito às nações inimigas, e Israel é o banquete “Por isso um leão do bosque os feriu, um lobo dos desertos os assolará; um leopardo vigia contra as suas cidades; qualquer que sair delas será despedaçado; porque as suas transgressões se avolumam, multiplicaram-se as suas apostasias” ( Jr 5:6 ).

Israel estava para ser punido através das nações inimigas (os animais do campo) por ser rebelde, e conforme o predito pelos profetas, ocorreu às invasões dos povos vizinhos: Babilônia (leão), Medos-Persas (urso, carneiro) e Gregos (leopardo, bode) “Serei, pois, para eles como leão; como leopardo espiarei no caminho. Como ursa roubada dos seus filhos, os encontrarei, e lhes romperei as teias do seu coração, e como leão ali os devorarei; as feras do campo os despedaçarão” ( Os 13:7 -9).

A mesma mensagem anunciando a derrocada dos filhos de Israel foi anunciada por profetas que foram perseguidos e mortos, enquanto que, os muitos falsos profetas em Israel, que rejeitavam anunciar a palavra do Senhor, foram acolhidos pelo povo.

 

Cães que não ladram

Quando Isaias disse que os profetas de Israel eram cegos e nada sabiam, nada sabiam mesmo. Desconheciam que por esquecer de Deus, Israel foi dado por presa às nações vizinhas, a justa retribuição de Deus por causa da rebeldia do povo “Então se dirá: Porquanto deixaram a aliança do SENHOR Deus de seus pais, que com eles tinha feito, quando os tirou do Egito;” ( Dt 29 : 25 )

Além da punição iminente, as atalaias de Israel também precisavam ver e anunciar que a ‘salvação de Deus’ estava prestes a se manifestar ( Is 56:1 ).

Os filhos de Israel precisavam distinguir a justiça manifesta na punição com deportação e exilio, da justiça de Deus que seria manifesta a todos os povos através da encarnação de Cristo. Por causa da rebeldia de Israel, Deus faz um convite aos animais do campo e as feras dos bosques para que viessem comer ( Is 56:9 ). O que isto significa? A invasão das nações vizinhas e o exílio!

Antes de fazer uso do termo ‘cães’ no verso 10 do capítulo 56, Isaias profetizou que a justiça de Deus estava prestes a se manifestar, ou seja, Cristo ( Is 56:1 ), e seria bem-aventurado aquele que O obedecesse, assim como foi obediente o crente Abraão  ( Is 56:2 ).

As atalaias precisavam divulgar que ‘estrangeiros’ seriam congregados ao rebanho do Senhor ( Is 56:4 -5). Era imprescindível às atalaias anunciarem que a casa de Deus é casa de oração para todos os povos, no entanto, muitos profetas de Israel desconheciam estas verdades ( Is 56:7 ).

É em função deste quadro de letargia diante da palavra de Deus que Isaias declara que os atalaiais de Israel eram cegos! O que pode fazer uma sentinela cega? Como pode uma atalaia alardear a cidade que ela está em perigo se a atalaia é cega, não vê o perigo? “Todos os seus atalaias são cegos, nada sabem; todos são cães mudos, não podem ladrar; andam adormecidos, estão deitados, e gostam do sono” ( Is 56:10 ).

O profeta Isaias compara os profetas de Israel a cães adormecidos, deitados e que amam o tosquenejar. São descritos como gulosos e que nunca se fartam ( Is 56:11 ).

A função da atalaia é a mesma de um cão de guarda, atribuições que, bem desempenhada, remete à figura de um pastor.

Um pastor que não compreende o seu papel, que nada sabe e segue os seus próprios devaneios é um mercenário, pois satisfaz a sua ganancia e conduz o rebanho para o abismo. É por isso que Isaias descreve os filhos de Israel andando como cegos, tropeçando ao meio-dia “Apalpamos as paredes como cegos, e como os que não têm olhos andamos apalpando; tropeçamos ao meio-dia como nas trevas, e nos lugares escuros como mortos” ( Is 59:10 ).

É em função desta descrição do profeta Isaias que Jesus declarou que todos os que vieram antes d’Ele eram ladrões e salteadores “Todos quantos vieram antes de mim são ladrões e salteadores; mas as ovelhas não os ouviram” ( Jo 10:8 ), pois todos os pastores em Israel não conheciam a Deus e seguiam as elucubrações de seus corações cheios de engano, o que não é bom “E estes cães são gulosos, não se podem fartar; e eles são pastores que nada compreendem; todos eles se tornam para o seu caminho, cada um para a sua ganância, sem exceção” ( Is 56:11 ; Is 66:3 ; Jr 50:6 ).

Isaias desempenhava a sua função de atalaia fiel, pois alertava os filhos de Israel dizendo: “Surdos, ouvi, e vós, cegos, olhai, para que possais ver” ( Is 42:18 ). Mas, como não atendiam e nem entendiam a palavra do Senhor, foi derramado sobre Israel a indignação da ira de Deus “Mas este é um povo roubado e saqueado; todos estão enlaçados em cavernas, e escondidos em cárceres; são postos por presa, e ninguém há que os livre; por despojo, e ninguém diz: Restitui. Quem há entre vós que ouça isto, que atenda e ouça o que há de ser depois? Quem entregou a Jacó por despojo, e a Israel aos roubadores? Porventura não foi o SENHOR, aquele contra quem pecamos, e nos caminhos do qual não queriam andar, não dando ouvidos à sua lei? Por isso derramou sobre eles a indignação da sua ira, e a força da guerra, e lhes pôs labaredas em redor; porém nisso não atentaram; e os queimou, mas não puseram nisso o coração” ( Is 42:22 -25).

Quando Jesus veio, anunciou que a Sua missão era dar vista aos cegos. Os fariseus, por sua vez, questionaram se Jesus também estava dizendo que eles eram cegos. Se os fariseus reconhecessem que eram cegos, consequentemente se arrependeriam (metanoia) “E disse-lhe Jesus: Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não veem vejam, e os que veem sejam cegos. E aqueles dos fariseus, que estavam com ele, ouvindo isto, disseram-lhe: Também nós somos cegos? Disse-lhes Jesus: Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece” ( Jo 9:39 -41).

Daí o veredicto acerca dos fariseus: “Deixai-os; são condutores cegos. Ora, se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova” ( Mt 15:14 ).

Além de seguirem cada um por seu próprio caminho, os ‘pastores’ (cães cegos e mudos) que nada compreendiam sobre o que Isaias descreve, eram ‘loucos’, pois convocavam os seus adeptos a trazerem vinho para que juntos (profetas e povo) pudessem beber, ou seja, alegrarem-se. E qual o argumento da alegria? Que o dia de amanhã seria como o dia de hoje, ou muito melhor. Segundo a cegueira deles nada de ruim estava para acontecer ( Is 56:12 ).

Os falsos pastores embriagavam o povo com falsos discursos, dizendo que havia paz, porém, não havia paz! “Porquanto, sim, porquanto andam enganando o meu povo, dizendo: Paz, não havendo paz; e quando um edifica uma parede, eis que outros a cobrem com argamassa não temperada” ( Ez 13:10 ); “Nada sabem, nem entendem; porque tapou os olhos para que não vejam, e os seus corações para que não entendam” ( Is 44:18 ).

A cegueira dos filhos de Israel persistiu até a vinda de Cristo, a raiz de Davi “Disse-lhes Jesus: Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece” ( Jo 9:41 ). Cristo é o sol nascente das alturas para iluminar os que jazem em trevas, mas os líderes de Israel permaneciam às cegas ao meio dia “Disse-lhes, pois, Jesus: A luz ainda está convosco por um pouco de tempo. Andai enquanto tendes luz, para que as trevas não vos apanhem; pois quem anda nas trevas não sabe para onde vai. Enquanto tendes luz, crede na luz, para que sejais filhos da luz. Estas coisas disse Jesus e, retirando-se, escondeu-se deles” ( Jo 12:35 -36); “Pelas entranhas da misericórdia do nosso Deus, Com que o oriente do alto nos visitou; Para iluminar aos que estão assentados em trevas e na sombra da morte; A fim de dirigir os nossos pés pelo caminho da paz” ( Lc 1:78 -79); “Apalpamos as paredes como cegos, e como os que não têm olhos andamos apalpando; tropeçamos ao meio-dia como nas trevas, e nos lugares escuros como mortos” ( Is 59:10 ).

Os líderes de Israel eram condutores cegos (cães mudos, atalaias cegos), pois não perceberam que a justiça anunciada por Deus se manifestou quando nasceu um menino em Belém da Judeia na casa de Davi. A sabedoria deles pereceu, pois quando anunciada a obra maravilhosa de Deus – Cristo a luz do mundo – não creram conforme previu o profeta Isaias “Portanto eis que continuarei a fazer uma obra maravilhosa no meio deste povo, uma obra maravilhosa e um assombro; porque a sabedoria dos seus sábios perecerá, e o entendimento dos seus prudentes se esconderá” ( Is 29:14 ).

Ao discursar na sinagoga de Antioquia da Pisídia, o apóstolo Paulo alertou os judeus (irmãos segundo a carne) a crerem em Cristo sob pena de se cumprir o predito por Habacuque “Seja-vos, pois, notório, homens irmãos, que por este se vos anuncia a remissão dos pecados. E de tudo o que, pela lei de Moisés, não pudestes ser justificados, por ele é justificado todo aquele que crê. Vede, pois, que não venha sobre vós o que está dito nos profetas: Vede, ó desprezadores, e espantai-vos e desaparecei; Porque opero uma obra em vossos dias, Obra tal que não crereis, se alguém vo-la contar” ( At 13:38 -41 ); “Vede entre os gentios e olhai, e maravilhai-vos, e admirai-vos; porque realizarei em vossos dias uma obra que vós não crereis, quando for contada” ( Hc 1:5 ).

Além da punição iminente, as atalaias de Israel também precisavam ver e anunciar que a ‘salvação de Deus’ estava prestes a se manifestar ( Is 56:1 ). Os filhos de Israel precisavam distinguir a justiça manifesta na punição com deportação e exilio, da justiça de Deus que seria manifesta a todos os povos através da encarnação de Cristo, a raiz de Davi “Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção” ( 1Co 1:30 ).

 

A raiz de Davi

Cristo se identifica no Apocalipse como a raiz, a geração de Davi ( Ap 22:16 ), conforme profetizou Isaias: “PORQUE brotará um rebento do tronco de Jessé, e das suas raízes um renovo frutificará. E repousará sobre ele o Espírito do SENHOR, o espírito de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de conhecimento e de temor do SENHOR” ( Is 11:1 -2).

Cristo é um rebento (filho) do tronco (casa, família) de Jessé, o renovo do Senhor que frutificou na casa (descendência) de Davi. É este mesmo Jesus que anuncia através do evangelista João no Apocalipse que é a raiz, a geração de Davi.

Crer que Jesus de Nazaré é o rebento do tronco de Jessé é o mesmo que crer que Ele é filho de Davi, por conseguinte, filho de Deus “Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho” ( 2Sm 7:14 ). Ele é a luz que veio ao mundo para que os homens não andem em trevas, portanto, a resplandecente estrela da manhã “Pelas entranhas da misericórdia do nosso Deus, com que o oriente do alto nos visitou; Para iluminar aos que estão assentados em trevas e na sombra da morte; A fim de dirigir os nossos pés pelo caminho da paz” ( Lc 1:78 -79).

 

Convite aos sedentos

Deus disse a Abraão: “E em tua descendência serão benditas todas as nações da terra; porquanto obedeceste à minha voz” ( Gn 22:18 ).

O apóstolo Paulo interpretou esta promessa feita a Abraão como uma previsão de que Deus havia de salvar os gentios, portanto, o evangelho foi anunciado a Abraão quando na incircuncisão da carne, ou seja, Abraão era um gentio da cidade de Ur dos Caldeus quando Deus lhe fez uma promessa “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti” ( Gl 3:8 ).

Após muito tempo da promessa feita a Abraão em que em seu descendente todas as nações da terra seriam benditas, Isaías profetizou convidando todos os sedentos a virem às águas, e os que não tinham com que comprar, que viessem e comprasse sem preço vinho e leite ( Is 55:1 ).

E o que era necessário para os ‘sedentos’ e ‘famintos’ participarem da água, do pão e do leite oferecido por Deus? Inclinar os seus ouvidos, atender o convite, e em consequência, obteriam vida, pois Deus concederia as firmes beneficências prometidas a Davi ( Sl 55:3 ).

E no que consistia a firmes beneficências prometida a Davi? Um descendente de suas entranhas que teria o seu reino estabelecido para sempre e edificaria uma casa ao nome do Senhor ( 2Sm 7:12 ).

Aos sedentos e famintos não seria dado água que saciam a sede cotidiana e nem pão que mata a fome cotidiana, antes seria dado um ente santo, o descendente prometido a Davi, pois Ele é a água que jorra para a vida eterna e o pão que quem se alimenta obtém vida eterna “E Jesus lhes disse: Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome, e quem crê em mim nunca terá sede” ( Jo 6:35 ); “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” ( Is 9:6 ).

Por causa da promessa feita a Abraão, um menino foi dado por testemunho aos povos ( Is 9:6 ), como príncipe e governador dos povos e um povo que não conhecia ao Senhor concorreria para Deus e para o Santo de Israel ( Is 55:5 ).

O capítulo 55 de Isaias é uma profecia acerca da salvação de Deus anunciada a todos os povos: o descendente de Davi por testemunho e príncipe dos povos ( Is 55:4 ).

Deus prometeu salvação a todos os povos por intermédio do descendente prometido a Davi e Israel estava despercebido, alheio a voz de Deus. Na plenitude dos tempos, quando Deus enviou Jesus para salvação de todos os homens, os judeus aguardavam somente uma salvação nacional.

Cristo veio na casa de Davi conforme o predito pelos profetas ( Rm 1:3 ), e o salmista Davi previu que um ajuntamento de malfeitores cercaria e traspassaria as mãos e os pés de Cristo. Estes malfeitores são descritos como cães: “Pois me rodearam cães; o ajuntamento de malfeitores me cercou, traspassaram-me as mãos e os pés” ( Sl 22:16 ).

O Salmo 59 também faz referência aos ‘cães’ nomeando-os como sanguinários, iníquos, pérfidos, pois armam ciladas para matar o Cristo ( Sl 58:4 ). Uma características dos cães que é evidenciada no salmo é a boca, demonstrando que sua língua é como espada entre seus lábios ( Sl 59:7 ) “Que afiaram as suas línguas como espadas; e armaram por suas flechas palavras amargas” ( Sl 64:3 ); “A minha alma está entre leões, e eu estou entre aqueles que estão abrasados, filhos dos homens, cujos dentes são lanças e flechas, e a sua língua espada afiada” ( Sl 57:4 ).

O Salmo 22 descreve os opositores do Cristo como leões que abrem a boca e ruguem ( Sl 22:13 ), demonstrando que a força deles é a ‘espada’ que tem na boca, ou seja, uma língua mentirosa e perversa “Livra a minha alma da espada, e a minha predileta da força do cão” ( Sl 22:20 ;  Sl 59:5 -7); “Para que o teu pé mergulhe no sangue de teus inimigos, e no mesmo a língua dos teus cães” ( Sl 68:23 ); “Uma flecha mortífera é a língua deles; fala engano; com a sua boca fala cada um de paz com o seu próximo mas no seu coração arma-lhe ciladas” ( Jr 9:8 ).

Cristo é o pão e a água que Deus ofereceu por intermédio do profeta Isaias a todos os sedentos e famintos, mas a nação de Israel o rejeitou ( Is 55:7 ; Jo 1:11 ).

 

Os cães

Quem são os cães? Na Antiga Aliança os ‘cães’ eram os líderes da nação, sacerdotes e profetas de Israel, homens que tinham a missão de anunciar a palavra de Deus ao povo, porém, não anunciavam. Nos dias do Senhor Jesus aqui na terra os ‘cães’ remetia aos príncipes, sacerdotes, fariseus, escribas e juízes de Israel, que perseguiram e mataram o príncipe da vida. Em nossos dias os ‘cães’ são os maus obreiros, líderes religiosos que transtornam a verdade do evangelho ( Gl 1:7 ).

Ao utilizar o termo ‘cães’, o apóstolo Paulo conserva intacta a essência da figura, aplicando-a aos falsos mestres, no caso específico dos cristãos em Filipos, aos da circuncisão.

Os mestres da circuncisão eram atalaias cegas e que nada sabiam. Cães mudos que não ladravam. Eles estavam adormecidos e deitados, famintos e insaciáveis.

Enquanto a alegria dos cães está no vinho em que há contenda (afastamento da palavra de Deus), o apóstolo Paulo recomenda aos cristãos se alegrarem no Senhor “Quanto ao mais, irmãos meus, regozijai-vos no Senhor…” ( Fl 3:1 ). Ora, os fariseus eram denominados ‘insensatos’, ‘loucos’ e ‘cegos’ por não compreenderem a vontade de Deus, visto que estavam embriagados com vinho. Mas, aqueles que são cheios do Espírito não são insensatos, pois entendem a vontade do Senhor “Por isso não sejais insensatos, mas entendei qual seja a vontade do Senhor. E não vos embriagueis com vinho, em que há contenda, mas enchei-vos do Espírito” ( Ef 5:17 -18).

Daí a ordem expressa: “Guardai-vos dos cães, guardai-vos dos maus obreiros, guardai-vos da circuncisão” ( Fl 3:2 ).

Qualquer atalaia, profeta, ministro, etc., que anuncie uma mensagem que não é conforme o evangelho de Cristo é um ‘cão mudo’, ‘um mau obreiro’.

Há várias descrições dos maus obreiros nas cartas dos apóstolos que nos remente às mesmas características dos ‘cães’ apresentado pelo profeta Isaias: gulosos e que não se fartam ( Is 56:11 ). Geralmente os apóstolos se referiam aos maus obreiros através de algumas características dos cães mudos, e todas elas aplicam-se aos maus obreiros:

  • Gulosos que não se fartavam;
  • Pastores que nada compreendem;
  • Cada qual segue seu próprio caminho: a ganância.

Ora, os opositores do evangelho, na época dos apóstolos, se diziam mestres da lei, porém, a própria escrituras depunham contra eles dizendo que estavam de olhos vedados para não ver e nem entender (pastores que nada compreendem) “Querendo ser mestres da lei, e não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam” ( 1Tm 1:7 ; Is 44:18 ).

O apostolo Paulo teve que deixar Timóteo em Éfeso com a incumbência de dissuadir qualquer que se propunha a ensinar outra doutrina que não o evangelho, nem que se ocupasse com fábulas (filosofia grega) ou genealogias (judaísmo) ( 1Tm 1:6 ). Isto porque alguns se desviaram de obedecer (amor) ao evangelho (mandamento) e se entregaram a discursos vãos ( 1Tm 1:5 ).

Ao escrever aos Romanos o apostolo alerta que tais homens serviam ao seu próprio ventre (cães gulosos), enganando com suaves palavras e lisonjas os incautos “Porque os tais não servem a nosso Senhor Jesus Cristo, mas ao seu ventre; e com suaves palavras e lisonjas enganam os corações dos simples” ( Rm 16:18 ).

A descrição dos ‘cães’ é apresentada aos filipenses no verso 19 do capítulo 3: “Cujo fim é a perdição; cujo Deus é o ventre, e cuja glória é para confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas” ( Fl 3:19 compare com Cl 3:1 ). Por estarem a serviço do próprio ventre, tais homens têm o seu foco somente em questões terrenas.

Estes falsos mestres não passam de ‘mercenários’, ‘cães gulosos’, pois apascentam a si mesmos “Estes são manchas em vossas festas de amor, banqueteando-se convosco, e apascentando-se a si mesmos sem temor; são nuvens sem água, levadas pelos ventos de uma para outra parte; são como árvores murchas, infrutíferas, duas vezes mortas, desarraigadas” ( Jd 1:12 ).

Em lugar de pensarem nas coisas que são de cima, os cães fixam-se nas coisas terrenas. O deleite deles não é o mandamento do Senhor, e sim o engano “Recebendo o galardão da injustiça; pois que tais homens têm prazer nos deleites quotidianos; nódoas são eles e máculas, deleitando-se em seus enganos, quando se banqueteiam convosco” ( 2Pd 2:13 ).

Enquanto o apóstolo Paulo se resignava a anunciar somente o que os profetas disseram, os maus obreiros vão além do que está escrito. Observe o posicionamento do apóstolo Paulo:

“Por isso, ó rei Agripa, não fui desobediente à visão celestial. Antes anunciei primeiramente aos que estão em Damasco e em Jerusalém, e por toda a terra da Judéia, e aos gentios, que se emendassem e se convertessem a Deus, fazendo obras dignas de arrependimento. Por causa disto os judeus lançaram mão de mim no templo, e procuraram matar-me. Mas, alcançando socorro de Deus, ainda até ao dia de hoje permaneço dando testemunho tanto a pequenos como a grandes, não dizendo nada mais do que o que os profetas e Moisés disseram que devia acontecer, Isto é, que o Cristo devia padecer, e sendo o primeiro da ressurreição dentre os mortos, devia anunciar a luz a este povo e aos gentios” ( At 26:19 -23).

Os maus obreiros contemporâneos dos apóstolos anunciavam que, se os cristãos não se circuncidassem segundo o costume de Moisés, não poderiam ser salvos ( At 15:1 ). Outros anunciavam que não havia ressurreição dos mortos ( 1Co 15:12 ). Outros anunciavam que Jesus não veio em carne ( 2Jo 1:7 ).

No meio do povo de Israel havia falsos profetas, e hoje, no meio dos irmãos, há os falsos mestres, pessoas que anunciariam encobertamente heresias de perdição. São indivíduos que negando a Cristo ou negando a eficácia da sua obra na cruz do calvário, trazem sobre eles perdição. Estes falsos mestres são seguidos por muitos, consequentemente o evangelho é blasfemado e, por avareza, arrebanham seus seguidores para lucrar como se fossem mercadorias ( 2Pe 2:1 -3).

Sobre estes obreiros maus alertou o apóstolo Paulo de que eles não serviam ao Senhor, mas ao seu próprio ventre, enganando os incautos com suaves palavras e lisonjas “Porque os tais não servem a nosso Senhor Jesus Cristo, mas ao seu ventre; e com suaves palavras e lisonjas enganam os corações dos simples” ( Rm 16:18 ); “Porque há muitos desordenados, faladores, vãos e enganadores, principalmente os da circuncisão, Aos quais convém tapar a boca; homens que transtornam casas inteiras ensinando o que não convém, por torpe ganância” ( Tt 1:10 -11).

O apóstolo Paulo rogou aos cristãos que identificassem aqueles que promoviam dissensões e escândalos contra o evangelho de Cristo para que os cristãos se desviassem deles ( Rm 16:17 ).

A tônica da mensagem dos ‘cães’ é fé em Deus, nos anjos, nos profetas, no milagre, na vitória, etc., porém, negam que Jesus é o Cristo ou a eficácia da obra vicária. Jesus mesmo disse: – “Credes em Deus, crede também mim” ( Jo 14:1 ); “Confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras, sendo abomináveis, e desobedientes, e reprovados para toda a boa obra” ( Tt 1:16 ).

Os obreiros fraudulentos negam a eficácia da obra de Cristo quando pedem dinheiro para o crente ser abençoado, pois os apóstolos enfatizavam que os cristãos já são abençoados com todas as bênçãos espirituais ( Ef 1:3 ). Sob o pretexto de ‘buscar a Deus’, não ensinam que os cristãos são templo, morada do Altíssimo.

Geralmente fazem dos seus seguidores presa, alegando que o crente ‘busca’ a Deus nos momentos que estão reunidos cantando, orando ou jejuando. Na verdade, quando o crente crê em Cristo, a barreira de separação foi desfeita, e o crente tem acesso perene a Deus pelo corpo de Cristo, de modo que está assentado nas regiões celestiais em Cristo Jesus ( Ef 1:3 ).

Só crê em Deus aquele que crê no Filho, pois o testemunho de Deus é acerca do Seu Filho ( Jo 3:33 ; 1Jo 5:10 ).

Somente acreditar que Deus existe não muda a condição do homem diante d’Ele, pois é necessário crer em Cristo. Acreditar na existência de Deus sem crer no testemunho que Ele dá de seu Filho não resulta em salvação. Quando não se crê que Jesus é o Cristo está negando a Deus através das obras, pois a obra de Deus é que se creia em Cristo ( Jo 6:29 ).

É por causa dos judaizantes que diziam conhecer a Deus que o apóstolo Paulo diz que negavam com as obras, pois não confessavam a Cristo, o único meio de se conhecer a Deus Confessam que conhecem a Deus, negam-no com as obras, sendo abomináveis, e desobedientes, e reprovados para toda a boa obra” ( Tt 1:16 ). Quem crê em Cristo é porque observou a lei da liberdade e nela persevera ( Tg 1:25 ), ou seja, é fazedor da obra, diferente daqueles que dizem ter fé em Deus, mas não tem as obras. A fé em Deus pode salvar alguém sem que creia que Jesus é o Cristo? “Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo?” ( Tg 2:14 ).

O apóstolo João abordou este mesmo aspecto de quem diz ter fé, mas não tem a obra quando evidenciou que alguns diziam conhecer a Deus (tem fé), mas que não guardavam o seu mandamento (obra). De nada adianta dizer conheço a Deus e não crer que Jesus é o Cristo ( 1Jo 2:4 e 1Jo 3:23 )

Alguém que se diz obreiro e não confessa a Cristo, não está qualificado para ser ministro do evangelho. É reprovável e desqualificado para o evangelismo quem não crê que Jesus é o Cristo. ‘Toda boa obra’ consiste em anunciar Cristo, pois como crerão se não há quem pregue e, como pregarão se não forem enviados? É através da pregação da fé (evangelho) que Deus nos fez participante do corpo de Cristo, e através do corpo de Cristo (obreiros fiéis à palavra da verdade) que Deus roga ao mundo que se reconciliem com Ele crendo em Cristo ( 2Co 5:20 ).

A ‘boa obra’ é plena (toda) quando se anuncia e alguém crê. O evangelho é de fé em fé, ou seja, deve ter seu curso completo. Quem anuncia deve entender e, para entender é imprescindível ouvir e experimentar a boa, perfeita e agradável vontade de Deus “Ouvindo alguém a palavra do reino, e não a entendendo, vem o maligno, e arrebata o que foi semeado no seu coração; este é o que foi semeado ao pé do caminho” ( Mt 13:19 ); “Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que por ele vades crescendo” ( 1Pd 2:2 ); “Para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece e é provado pelo fogo, se ache em louvor, e honra, e glória, na revelação de Jesus Cristo” ( 1Pd 1:7 ); “Alcançando o fim da vossa  fé, a salvação das vossas almas” ( 1Pd 1:9 ).

O apóstolo Pedro, ao enfatizar a essência do ensinamento do apóstolo Paulo, que era aguardar novos céus e nova terra, deixa claro que muitos homens indoutos e inconstantes torciam o que o apóstolo Paulo escreveu, bem como as Escrituras ( 2Pe 3:16 ), por causa destes homens, cada cristão tem a incumbência de se guardarem do engano destes homens perversos.

Para identificar maus obreiros (cão), basta observar que tais homens tem prazer em ajuntar tesouros na terra, tem prazer nos deleites quotidianos, e não na lei do Senhor ( Sl 1:2 ). Eles buscam o ajuntamento solene somente para angariar prestigio, poder político, fama, posição, dinheiro, etc., e fazem proliferar as suas mistificações ( 2Pe 2:13 ; Jd 1:12 ).

Sobre estes homens ímpios deixou registrado o irmão Judas que são pastores que se apascentam a si mesmos, ou seja, cães gulosos. Estes são manchas nas festas ágapes, homens sem recato algum.

São descritos como nuvens sem água, pois oferecem uma esperança vazia. São árvores desprovidas de frutos e desarraigadas, duplamente mortas, ou seja, não ligado a videira verdadeira ( Jo 15:4 ).

São comparáveis às ondas do mar, espumando suas próprias sujidades, conforme profetizou Isaias ( Is 57:20 ). São murmuradores, queixosos, andam segundo suas concupiscências, são arrogantes e bajulam as pessoas por interesse ( Jd 1:16 ).

São exercitados na avareza, pois deixam a Cristo e seguem o mesmo caminho de Balaão, filho de Beor, que seguiu um caminho perverso e a muda jumenta se lhe opôs ( Nm 22:32 ).

Os falsos profetas usam a tática de fascinar com concupiscências da carne e dissoluções aqueles que tentam se afastar do erro. Prometem liberdade, porém, são servos da corrupção ( 2Pe 2:18); “Assim diz o SENHOR acerca dos profetas que fazem errar o meu povo, que mordem com os seus dentes, e clamam paz; mas contra aquele que nada lhes dá na boca preparam guerra” ( Ml 3:5 ; Jr 23:16 ).

O conhecimento de Cristo é o que traz liberdade da corrupção que há no mundo ( Is 53:11 ). O conhecimento de Deus indica ao homem qual é o caminho da justiça, porém, os falsos mestres induzem os homens a desviarem do santo mandamento dado por Deus: que creiais naquele que Ele enviou! ( Is 53:11 ; Sl 118:20 )

Aqueles que falam mentiras segundo uma consciência cauterizada, que disseminam doutrinas de demônios ( 1Tm 4:1 ), que proíbem o casamento, ordenam a abstinência de alimentos, propõem fábulas profanas e de velhas, etc. também são cães, são maus obreiros ( 1Tm 4:3 ).

As doutrinas dos cães se baseiam em proibições tais como: não proves, não manuseies, não toques. Destas proibições surgem os julgamentos por causa de comidas, bebidas, vestimentas, festas, dias, etc. O que na lei era sombra da realidade e que foi transtornado por preceitos e ensinamentos de homens é apresentado como aparência de sabedoria, culto espontâneo, humildade (fingida), severidade para com o corpo, etc. “Mas, em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens” ( Mt 15:9 ; Cl 2:16 -23).

O apostolo Paulo escreveu a Tito lembrando que outrora todos eram insensatos (loucos), desobedientes e perdidos (extraviados). Ora, o apóstolo Paulo era judeu, fariseu, irrepreensível segundo a justiça da lei, e excedia em judaísmo a muitos da sua idade por ser zeloso das tradições, entretanto, ele se inclui no rol dos que outrora eram loucos, desobedientes e extraviados, a serviço da concupiscência e deleites “E na minha nação excedia em judaísmo a muitos da minha idade, sendo extremamente zeloso das tradições de meus pais” ( Gl 1:14 ; Fl 3:6 ). Os termos: ‘louco’, ‘desobediente’ e ‘extraviado’ etc., são utilizados para apontar para os filhos de Israel, visto que lhes falta conhecimento de Deus ( Sl 53:1 -4; Dt 32:6 e 28; Rm 10:2 ).

Por ignorância os judaizantes se opunham ao evangelho de Cristo, e apresentavam questões loucas, genealogias, contendas, debates acerca da lei, etc. ( Tt 3:9 ; 1Pd 2:5 ; 1Tm 1:13 ; Tt 3:1 -2).

As concupiscência e deleites dos falsos mestres de hoje centram-se em questões desta vida, principalmente com relação às riquezas, pois fazem dos seus seguidores negócio ( 2Pd 2:3 ) e aguçam a ambição destes ( 1Tm 6:5 ).

Nas exposições dos falsos mestres não se ouve dizer que os que vivem de acordo com o evangelho padecem perseguições ( 2Tm 3:12 ); nem se ouve que o crente deve se gloriar nas fraquezas, injurias, necessidades, perseguições, angustias, etc. ( 2Tm 3:12 ; 2Co 12:10 ; 1Pd 4:13 ); jamais evidenciam que as aflições por causa do evangelho se dão com todos os cristãos no mundo ( 1Pe 5:9 ). O tema de suas pregações não tem por alvo as coisas de cima, mas as da terra ( Cl 3:1 ; Fl 3:19 ).

Os ‘cães’ jamais tocam no assunto de que ‘grande lucro’ é o evangelho com contentamento ( 1Tm 6:6 ). Não ensinam que tendo sustento e com o que se cobrir já é motivo de contentamento, e jamais recomendam aos seus seguidores que se acomodem as coisas humildes ( Rm 12:16 ). Não alertam seus seguidores que se traspassam com muitas dores (trabalho) os que querem ficar ricos e naufragam e ruina e perdição.

Apesar do posto de obreiros, ficarão de fora, porque são cães.

 

Não podem entrar

Há um paralelo entre as passagens bíblicas:

“Ficarão de fora os cães…” ( Ap 22:15 ), e;

“Aquele que não nascer de novo” ( Jo 3:3 ).

‘Quem não nascer de novo’ não pode ver o reino de Deus assim como ‘os cães’ por não terem direito à árvore da vida não podem entrar na cidade pelas portas, logo, ‘os cães’ é figura que remete a quem não está em Cristo, ou seja, não é nova criatura.

“Jesus respondeu, e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” ( Jo 3:3 );

“Bem-aventurados aqueles que guardam os seus mandamentos, para que tenham direito à árvore da vida, e possam entrar na cidade pelas portas. Ficarão de fora os cães…” ( Ap 22:14 -15)

Há cães que, como os judaizantes, nunca compreenderam o evangelho de Cristo, e se posicionam como mestres Confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras, sendo abomináveis, e desobedientes, e reprovados para toda a boa obra” ( Tt 1:16 ). Porém, há cães que, estavam no meio dos cristãos e se afastaram da verdade “Saíram de nós, mas não eram de nós; porque, se fossem de nós, ficariam conosco; mas isto é para que se manifestasse que não são todos de nós” ( 1Jo 2:19 ).

É por causa dos apóstatas que foi dado o alerta: Não ameis o mundo ( 1Jo 2:15 ), como se deu com Demas “Porque Demas me desamparou, amando o presente século, e foi para Tessalônica, Crescente para Galácia, Tito para Dalmácia” ( 2Tm 4:10 ).

 

O que é necessário para entrar no céu?

Encontramos na Bíblia diversas passagens que demonstram o que é necessário para o homem entrar no reino dos céus, no entanto, a assertiva: – “Ficarão de fora os cães”, aguça a curiosidade por causa da figura utilizada.

É necessário nascer de novo para entrar no reino dos céus, portanto, a passagem bíblica que estabelece que os cães, os feiticeiros, os que se prostituem, etc., ficarão de fora, não deve causar preocupação aos que nasceram de novo “Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre” ( 1Pe 1:23 ). Basta nascer de novo e permanecer crendo na mensagem do evangelho.

A figura dos ‘cães’ que ficarão de fora é intrigante, porém, a qualquer que não nascer de novo é igualmente vetado entrar no reino dos céus. Se, quem não nascer de novo não pode entrar no reino, e os cães ficarão de fora, as duas passagens bíblicas deveriam despertar a curiosidade “Jesus respondeu, e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” ( Jo 3:3 ).

A curiosidade não pode ficar somente na pergunta: – “Quem são os ‘cães’?”, antes deve ir além: – “Por que ficará de fora”? Neste sentido, a pergunta maior deveria ser: – “Por que o homem não pode ver o reino de Deus”?

O mesmo Jesus que disse que ‘os cães ficarão de fora da cidade’, também disse que ‘quem não nascer de novo não pode ver o reino dos céus’! Enquanto a passagem de Apocalipse diz que os ‘cães’ ficarão de fora, a passagem do evangelista João diz que o homem não entrará no reino dos céus, a não ser que nasça de novo!

O reino dos céus também é vetado aos que não tiverem obras superiores à dos escribas e fariseus, e não causa tanta curiosidade, mas a expressão ficarão de fora os ‘cães’, os ‘feiticeiros’, ‘os que se prostituem’, etc., causa grande impacto pela figura utilizada: cães “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” ( Mt 5:20 ).

Desde já gostaríamos de acalmar os ‘ânimos’ de quem receia fazer parte do grupo dos que ficarão de fora, pois se você crê que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo, você adquiriu o direito à árvore da vida e pode entrar na cidade pelas portas “Bem-aventurados aqueles que guardam os seus mandamentos, para que tenham direito à árvore da vida, e possam entrar na cidade pelas portas” ( Ap 22:14 ); “Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece” ( Jo 3:36 ).

Por que basta crer em Cristo para ter vida eterna? Porque quem crê nas palavras de Cristo crê em Deus, pois as Escrituras são testemunho vivo que Deus deixou acerca do seu Filho “Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida” ( Jo 5:24 ).

Esta é a obra de Deus: “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ). Este é o mandamento que o homem deve guardar para que tenha direito à árvore da vida “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ); “E Jesus clamou, e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas naquele que me enviou. E quem me vê a mim, vê aquele que me enviou. Eu sou a luz que vim ao mundo, para que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas. E se alguém ouvir as minhas palavras, e não crer, eu não o julgo; porque eu vim, não para julgar o mundo, mas para salvar o mundo. Quem me rejeitar a mim, e não receber as minhas palavras, já tem quem o julgue; a palavra que tenho pregado, essa o há de julgar no último dia. Porque eu não tenho falado de mim mesmo; mas o Pai, que me enviou, ele me deu mandamento sobre o que hei de dizer e sobre o que hei de falar. E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito” ( Jo 12:44 -50).

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Tiago 3 – Os perfeitos

O tropeçar em muitas coisas não suspende o direito a salvação, uma vez que foi alcançado pela fé. A salvação decorre da filiação divina por meio da fé em Cristo aparte das questões comportamentais. A salvação não é conquistada através de bom ou mau comportamento e também não é mantida através de comportamento. A salvação é pela fé (salvação) e o fim objetivo da nossa fé se alcança com a perseverança.


A Língua

1 Meus irmãos, muitos de vós não sejam mestres, sabendo que receberemos mais duro juízo.

 

Tiago dá um conselho a alguns irmãos: não sejam muitos de vós mestres. Por que ele dá esse conselho? Alguns queriam ser mestre, porém não tinham recebido tal capacitação ( Ef 4:10 -11).

As pessoas que aspiravam a posição de mestre não atinavam que os mestres receberão juízo na condição de mestre e nem da necessidade de estar enquadrado em alguns quesitos que Tiago discorre neste capítulo.

O juízo que Tiago faz referência será estabelecido no Tribunal de Cristo ( Rm 14:10 ; 2Co 5:10 ), visto que ele se inclui entre aqueles que receberão maior juízo (implicitamente Tiago se posiciona como mestre), e por ser certo que ele tinha certeza de sua salvação. O juízo do Grande Trono Branco não é destinado à igreja “Meus irmãos…” (v. 1).

Os versículos que se seguem apresentam os motivos pelas quais os irmãos não deveriam aspirar a posição de mestres com o único fito de se vã gloriar.

 

2 Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça em palavra, o tal é perfeito, e poderoso para também refrear todo o corpo.

 

O apóstolo chama a atenção para algo que não devemos ignorar: todos tropeçam em muitas coisas! Tiago não exclui nenhum dos irmãos. Todos nós tropeçamos em muitas coisas.

O tropeçar deste versículo difere da ideia que Paulo apresenta em Romanos “Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só” ( Rm 3:12 ). Isto porque o que Paulo apresenta diz respeito a todos que ainda não tiveram um encontro com Cristo.

A carta aos Hebreus demonstra o desejo do escritor em não tropeçar em coisa alguma, e para isso solicita aos cristãos que orem em seu favor “Orai por nós, porque confiamos que temos boa consciência, como aqueles que em tudo querem portar-se honestamente” ( Hb 13:18 ). O portar-se honestamente em tudo deve ser o desejo de todo cristão, porém, ele deve ter consciência de que falhará em muitas coisas.

O tropeçar em muitas coisas não suspende o direito à salvação, uma vez que a salvação é alcançada pela fé. A salvação decorre da filiação divina por meio da fé em Cristo, aparte das questões comportamentais. A salvação não é conquistada através de bom ou mau comportamento e também não é mantida através do comportamento.

A salvação é pela fé (evangelho), e o fim objetivo da nossa fé se alcança com a perseverança.

“Se alguém não tropeça (em+a) palavra, o tal é perfeito, e poderoso para também refrear todo o corpo”

Após demonstrar que todos os cristãos estão sujeitos a erros, tanto comportamentais quanto conceituais, o apóstolo Tiago estipula uma condição para alguém ser perfeito: se não tropeçar em palavra, o homem é perfeito.

Tropeçar ‘em palavra’ não é falar palavras torpes, fofocar, mal dizer, mentir, etc. O ‘tropeçar em palavra’ não tem relação com o que é abordado no verso 5 ( Tg 3:5 ).

Se ‘tropeçar em palavra’ fosse falar palavras torpes, fofocar, mentir, amaldiçoar, o apóstolo não teria colocado o substantivo ‘palavra’ no singular “Se alguém não tropeça em palavra(s) …”. Quando alguém mente, fofoca ou amaldiçoa, profere várias palavras, diferente de tropeçar ‘em’ a ‘palavra’. Sobre qual ‘palavra’ o apóstolo fez referência?

 

A palavra do verso 2 do capítulo 3 diz da palavra da verdade, o que foi abordado desde o início da epístola:

“Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas” ( Tg 1:18 );

“Por isso, rejeitando toda a imundícia e superfluidade de malícia, recebei com mansidão a palavra em vós enxertada, a qual pode salvar as vossas almas” ( Tg 1:21 );

“E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos” ( Tg 1:22 );

“Porque, se alguém é ouvinte da palavra, e não cumpridor, é semelhante ao homem que contempla ao espelho o seu rosto natural” ( Tg 1:23 );

 

Ou seja, desde o início da epístola o apóstolo demonstrou que os cristãos foram gerados pela palavra da verdade com o objetivo de serem primícias das criaturas de Deus (perfeitos). Ele também demonstra que é necessário rejeitar toda a imundície e malícia, recebendo com mansidão a palavra enxertada que salva o homem. O cristão é aquele que cumpre a palavra, e não somente ouvinte, ou seja, o ouvinte diz de quem se envolve em falsos discursos ( Tg 1:23 ).

A palavra da verdade é poder para criar filhos de Deus ( Jo 1:12 ), porém, não tem efeito sobre aqueles que não se exercitam nela “Ora, o fruto da justiça semeia-se na paz, para os que exercitam a paz” ( Tg 3:18 ). Ou seja, da mesma forma que o espelho não tem poder para mudar o homem que se utiliza do seu reflexo para contemplar o seu rosto natural, não terá nova vida aqueles que não atentam bem para a lei perfeita, e nela perseveram ( Tg 1:25 ).

Todos que creem na palavra tornam-se perfeitos, pois alcançou a salvação em Cristo ( 1Co 2:6 ; 2Co 13:11 ). Ou seja, Tiago estava demonstrando que quem não tropeça na (em+a) palavra alcançou a perfeição, isto porque muitos desejavam serem mestres, porém não compreendiam a palavra que concede a perfeição em Cristo “Querendo ser mestres da lei, e não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam” ( 1Tm 1:7 ); “Instrutor dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei” ( Rm 2:20 ).

Muitos buscavam somente a posição de mestre por vã-gloria, o que promoveria somente a inveja, o sentimento faccioso, a confusão e toda má obra ( Tg 3:16 ). Quem quisesse ser sábio e entendido, condição essencial para ser mestre, bastava ter um bom procedimento ( Tg 3:13 ).

Os perfeitos manejam bem a palavra da verdade (poder de Deus), estão plenos (cheios) do poder de Deus ( Rm 1:16 ). Quem é perfeito se revestiu de toda a armadura de Deus ( Ef 6:10 , 13 -17), e não mais vive guiado pelas paixões humanas ( Gl 5:24 ; 2Tm 2:22 ), não tem falta de coisa alguma. Perfeito: maduro e completo ( Tg 1:4 ).

 

3 Ora, nós pomos freio nas bocas dos cavalos, para que nos obedeçam; e conseguimos dirigir todo o seu corpo.

O apóstolo passa a exemplos figurativos. Os exemplos apontam o contraste entre o tamanho e força do cavalo e a pequenez dos freios que os controlam.

 

4 Vede também as naus que, sendo tão grandes, e levadas de impetuosos ventos, se viram com um bem pequeno leme para onde quer a vontade daquele que as governa.

 

Ele apresenta o contraste entre o tamanho das embarcações e o leme que as orienta.

 

5 Assim também a língua é um pequeno membro, e gloria-se de grandes coisas. Vede quão grande bosque um pequeno fogo incendeia.

 

“Assim também…”, ou seja, alguns dos elementos (leme e freio) que foram apresentados nas ilustrações anteriores se comparam proporcionalmente a língua e o efeito devastador que ela pode causar. O apóstolo evidencia o quanto é importante ter a língua sob controle.

Tiago apresenta uma grande verdade: a língua é um pequeno membro que se gloria de grandes coisas! Ou seja, muitos dentro da igreja se gabavam de serem mestres, mesmo quando não tinham esse dom. Porém, é difícil que alguém venha a se gabar das funções que aparentemente são pequenas.

Um bom exemplo de controle sobre a língua é observável em Paulo: “Se convém gloriar-me, gloriar-me-ei no que diz respeito à minha fraqueza. O Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que é eternamente bendito, sabe que não minto. Em Damasco, o que governava sob o rei Aretas pós guardas às portas da cidade dos damascenos, para me prenderem. E fui descido num cesto por uma janela da muralha; e assim escapei das suas mãos” ( 2Co 11:30 -33).

Paulo não se gabou de grandes coisas, antes, sentia-se lisonjeado por ter fugido do rei Aretas em um cesto.

Muitos em nossos dias se gabam de grandes feitos, grandes ajuntamentos, grandes mensagens. Porém, este é um feito próprio da língua quando sobre ela não se tem domínio.

Paulo bem que podia gabar-se do livramento que Deus concedeu a ele e a Silas, mas preferiu gloriar-se (como que em um ato de loucura) das suas fraquezas “E, perto da meia-noite, Paulo e Silas oravam e cantavam hinos a Deus, e os outros presos os escutavam. E de repente sobreveio um tão grande terremoto, que os alicerces do cárcere se moveram, e logo se abriram todas as portas, e foram soltas as prisões de todos” ( At 16:25 -26).

Apenas uma fagulha de fogo pode incendiar um bosque inteiro.

 

Iniquidade

 

6 A língua também é um fogo; como mundo de iniquidade, a língua está posta entre os nossos membros, e contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, e é inflamada pelo inferno.

 

A língua é comparada a uma fagulha que incendeia um bosque. Por vir especificada ‘um fogo’, demonstra que ela não é fogo, mas é comparável ao fogo por ter a capacidade de inflamar.

Embora esta carta traga muitos conselhos, não devemos ler e analisar seus textos como se lê e analisa o livro de provérbios. Primeiro porque provérbios é um livro, e o texto de Tiago é uma epístola.

As diferenças entre carta e livro acabam por influenciar a escrita e a linguagem utilizada pelo autor, visto que a linguagem deve ser própria ao público alvo.

O público que se destina um livro é abrangente, universal, enquanto que uma carta destina-se a um público restrito (os destinatários). Ou seja, uma carta tem o cunho pessoal, enquanto um livro se guia pela impessoalidade e universalidade.

O livro de provérbios destina-se a humanidade e a carta de Tiago aos cristãos.

O tema ‘língua’ não tem início neste capítulo. Este tema vem sendo desenvolvido desde o primeiro capítulo, o que diferencia a abordagem de Tiago da abordagem feita em Provérbios. Em Provérbios geralmente uma ideia se conclui em apenas um versículo.

Como a língua é um pequeno membro que se gaba de grandes coisas, todos os cristãos devem ter o cuidado de gloriar-se apenas em Deus ( Jr 9:24 ; 1Co 1:31 ; 2Co 10:17 ), pois no Senhor não há diferenças sócio-econômicas. Ou seja, o irmão de condição humilde deve gloriar-se na sua alta posição no Senhor e o rico na sua insignificância ( Ef 1:9 -10).

Porém, ao ingressar na igreja, tanto o pobre quanto o rico buscam o que entendem ser a melhor posição: querem ser mestre, doutores, pastores, etc. Esquecem que para ser algo diante do Senhor, devem deixar tudo, principalmente os conceitos e conhecimentos do mundo “E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo…” ( Fl 3:8 ).

Aquele que procura ser mestre somente como meio para se gabar, sem ter a chamada para tal ministério, poderia causar um grande prejuízo a igreja de Deus, visto que poderia introduzir algum erro conceitual e a devastação seria semelhante ao pequeno fogo em uma floresta.

Observe que o homem é atraído e engodado pela sua própria concupiscência. Por desejar ardentemente gabar-se de grandes feitos, aplica-se em alcançar grandes posições. Aquele que é guiado pela concupiscência, quando alcança uma posição de destaque, os deslizes com as palavras e os erros conceituais são inevitáveis (isto porque, todos nós tropeçamos em muitas coisas, e quem não tropeça em palavras é perfeito e capaz de refrear todo o corpo); e o que este homem estará propagando com a sua língua será como o fogo em uma floresta: devastador. A posição de mestre a alguém que não foi comissionado para ensinar potencializa o efeito destruidor do erro.

Para evitar tão grande mal, todo homem deve estar pronto a ouvir e ser tardio em falar, a exemplo daqueles que, diante da tentação, diziam de maneira equivocada que estavam sendo tentados pelo Senhor ( Tg 1:13 -17). Qual não seria o estrago no seio da igreja se alguém com este erro conceitual viesse a alcançar a posição de mestre?

Aquele que é enganado pelo seu próprio coração acredita que é religioso. Estes geralmente não controlam a língua, estão prontos a falar, são tardios em ouvir, e acabam lançando mão da ira ( Tg 1:16 ).

“…como mundo de iniquidade, a língua está posta entre os nossos membros, e contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, e é inflamada pelo inferno”

O versículo acima é um exemplo prático do exposto no capítulo um, versículo quatorze e quinze. Compare:

“Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência. Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte” ( Tg 1:14 -15).

Cada pessoa é tentada pela sua própria concupiscência, ou seja, primeiro ela é atraída e engodada pelos seus próprios desejos. Quando estes desejos são levados a efeito, dá-se à luz o pecado, e o fim dele é a morte.

Da mesma maneira, o homem que não cumpre com o disposto no versículo dezenove do capitulo um, acaba por se gabar de grandes coisas ( Tg 3;5 ). Para fazer jus ao que foi propalado através da língua incontida, este homem vai se sentir atraído e desejar as ‘melhores’ posições na igreja.

Como todos tropeçam em muitas coisas, aquele que se gaba e alcança uma posição de destaque, irá tropeçar em palavras. Desta forma, a língua deste incauto será como fogo. Será como mundo de iniquidade situada entre os seus membros.

Como o que contamina o homem é o que procede do seu coração “Mas, o que sai da boca, procede do coração, e isso contamina o homem” ( Mt 15:18 ); “Nada há, fora do homem, que, entrando nele, o possa contaminar; mas o que sai dele isso é que contamina o homem” ( Mc 7:15 ), a língua é o veículo que evidencia o que está no coração, o que contamina todo o corpo.

Tiago e Jesus falam do mesmo problema que afeta o coração da humanidade. Este fala do princípio pernicioso que contamina o homem (o pecado que tem domínio sob o coração do homem sem Deus), enquanto aquele fala da língua, membro que torna evidente o princípio pernicioso que está no coração do homem.

Tiago dá mais um alerta: a língua pode acelerar o processo de destruição do homem, que sem a intervenção da língua, seria natural, ou seja, seria conforme o curso próprio da natureza. Isto porque o curso da natureza do homem é a morte, e a língua tem a capacidade de inflamar; ela acelera o curso da natureza. Um exemplo desta verdade é o recomendado por Paulo: “Não neófito, para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo” ( 1Tm 3:6 ).

A soberba leva a queda, uma entrada súbita na condenação do diabo. E, o que resta a quem teve inflamado o curso da natureza pela língua? Ser inflamada pelo inferno!

Onde há pecado, há morte e a justiça de Deus não opera, o que resta é o fogo do inferno ( Tg 1:20 e Tg 3:6 ).

 

 

Fonte Doce, Água Doce

7 Porque toda a natureza, tanto de bestas feras como de aves, tanto de répteis como de animais do mar, se amansa e foi domada pela natureza humana;

 

Toda a natureza é dominada pelo homem porque Deus lhe deu o domínio “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra” ( Gn 1:26 ).

 

8 Mas nenhum homem pode domar a língua. É um mal que não se pode refrear; está cheia de peçonha mortal.

 

Apesar da condição anterior (v. 7), o homem não pode domar a língua. Observe que Tiago aponta uma impossibilidade: nenhum homem pode domar a língua. É um mal que não se pode controlar; está cheia de peçonha mortal.

Se pensarmos somente na língua, é difícil explicarmos este verso. Porém, quando verificamos que o coração do homem e enganoso “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” ( Jr 17:9 ); e que, o que procede do coração do homem é que contamina “E dizia: O que sai do homem isso contamina o homem” ( Mc 7:20 ), percebemos que a abordagem de Tiago refere-se ao posicionamento de Jesus: “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” ( Mt 12:34 ).

É impossível ao homem por si só mudar a natureza do seu coração “Porventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Então podereis vós fazer o bem, sendo ensinados a fazer o mal” ( Jr 13:23 ). Mas, o que é impossível aos homens é possível a Deus! Através da regeneração Deus cria um novo coração e um novo homem e lhe dá uma nova vida.

A ordem divina sempre foi: “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz” ( Dt 10:16 ). Mas, como fazer tal circuncisão? É possível ao homem fazer tal incisão?

Ora, o é que impossível aos homens, é possível a Deus. A circuncisão do coração só é possível quando se está em Cristo “No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo” ( Cl 2:11 ).

Tal circuncisão é pela fé “Mas a justiça que é pela fé diz assim: Não digas em teu coração: Quem subirá ao céu? (isto é, a trazer do alto a Cristo.) Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação” ( Rm 10:6 -10).

Seria impossível a boca (língua) fazer a confissão verdadeira para a salvação caso não houvesse a circuncisão de Cristo. Só em Cristo é que o homem recebe um novo coração “E lhes darei um só coração, e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o coração de pedra, e lhes darei um coração de carne” ( Ez 11:19 ).

 

9 Com ela bendizemos a Deus e Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus.

 

Tiago evidência a incoerência de alguns: bendizem a Deus e amaldiçoam a sua criatura.

 

10 De uma mesma boca procede bênção e maldição. Meus irmãos, não convém que isto se faça assim.

 

Isto quer dizer que de uma mesma boca, através de uma mesma língua, um coração deita benção e maldição.

Não é conveniente a cristãos que procedam desta maneira. Caso alguém questionasse o fato de não ser próprio aos irmãos falarem mal uns dos outros Tiago passa aos exemplos e motiva a sua argumentação.

 

11 Porventura deita alguma fonte de um mesmo manancial água doce e água amargosa?

 

As perguntas de respostas prontas: Não! Cada fonte deita a água que lhe é própria. Mas, uma fonte de um mesmo manancial só pode produzir um único tipo de água.

 

12 Meus irmãos, pode também a figueira produzir azeitonas, ou a videira figos? Assim tampouco pode uma fonte dar água salgada e doce.

 

O que é impossível às plantas é impossível às fontes de um mesmo manancial “Porque não há boa árvore que dê mau fruto, nem má árvore que dê bom fruto” ( Lc 6:43 ).

O apóstolo segue fazendo uma aplicação prática do seu ensino.

 

13 Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre pelo seu bom trato as suas obras em mansidão de sabedoria.

 

Esta pergunta é uma ‘pegadinha’. Aquele que responder: “Eu”, é o mesmo que queria ser mestre, e que Tiago procura dissuadir do seu intento ( Tg 3:1 ). Aquele que desejava ser mestre, ao menos se considerava sábio e entendido.

Pois bem, se houvesse alguém que se considerava sábio e entendido deveria demonstrar através de um bom trato (procedimento), as suas obras em mansidão de sabedoria.

Ou seja, aquele que não tivesse as suas obras demonstradas em bom procedimento, tinha em si amarga inveja e um sentimento faccioso.

É necessário observar os três elementos que compõe o versículo: “Mostre pelo seu bom trato as suas obras em mansidão de sabedoria”.

  • Mostre pelo seu bom trato – (trato: tratamento; ajuste, pacto, tratado; convivência; passadio, alimentação; procedimento, modos, etc). Aquele que se sentisse sábio e entendido deveria ter uma boa convivência, bons modos e procedimento;
  • As suas obras – ‘as obras’ constituem o motivo pela qual alguém se gaba; observe que ‘bom trato’ não é ‘boas obras’ (aquelas que são feitas em Deus), e que ‘boas obras’ também não é ‘as suas obras’, que o versículo faz referência; a pessoa que estivesse se gloriando deveria mostrar a sua realização (suas obras);
  • Em mansidão de sabedoria – Porém, deveria demonstrar as suas obras segundo a sabedoria descrita no versículo dezessete: em mansidão de sabedoria que do alto vem.

 

A Inveja: Obra da Carne

 

14 Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade.

 

O problema encontra-se no coração do homem e a língua torna evidente este mal “…sentimento faccioso em vosso coração…”.

Este versículo demanda um exercício de interpretação de texto para uma melhor compreensão. Observe:

  • Uma pergunta“Quem entre vós é sábio e entendido?”. O contexto nos mostra que só quem quer ser mestre se considera sábio e entendido;
  • Uma determinação a quem respondesse afirmativamente que é sábio e entendido“Mostre pelo seu bom trato as suas obras em mansidão de sabedoria” A determinação do apóstolo só é cabível a quem presume ser sábio e entendido; porém, a determinação é impossível de ser cumprida por quem se arroga na condição de sábio e entendido;
  • Uma conclusão“Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso coração…”. Este versículo é uma conclusão do apóstolo, e aponta os elementos que consta do coração daqueles que se acham sábios e entendidos. Observe que o argumento fica inconsistente quando se tenta combinar a primeira e a segunda parte do versículo ao se enfatizar a partícula ‘se’: “Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso…”, e; “…não vos glorieis, nem mintais contra a verdade”. O indivíduo pode se gloriar de uma alta posição, porém, jamais alguém vai querer se gloriar de ser invejoso e faccioso. A Bíblia Vida Nova da Editora Vida Nova reza o seguinte: “Se, pelo contrário, tendes em vosso coração inveja amargurada e sentimento faccioso, nem vos glorieis disso, nem mintais contra a verdade”. Para enfatizar a partícula ‘se’, trocam o ‘não’ pelo ‘nem’, o que dá a entender que alguém se gloria em ser invejo e faccioso (‘glorieis disso’, disso o quê?).

 

A ênfase deve estar no verbo ‘ter’, o que demonstra que aqueles que se sentiam entendidos e sábios só estavam cheios de inveja e contenda “Porém se tendes inveja amarga, e contenda em vosso coração…”.

A pergunta persiste: quem é sábio e entendido? Um sábio e entendido deve mostrar através do seu bom comportamento suas obras em mansidão de sabedoria. Quando alguém que se diz sábio e entendido não consegue cumprir com a determinação anterior, só pode estar acometido de amarga inveja e um sentimento faccioso no coração.

A determinação é clara e precisa: “…não vos glorieis nem mintais contra a verdade”.

  • Não vos glorieis – Com relação a gloriar-se, a primeira determinação do apóstolo é oposta: “Glorie-se o irmão de condição humilde (…) o rico, porém, glorie-se na sua insignificância…”; O apóstolo Tiago dá um bom motivo para os irmãos se gloriarem ( Tg 1:9 -10), e reitera que todos devem estar prontos a ouvir, tardios em falar ( Tg 1:19 ). Se alguém estava procurando a posição de mestre com a intenção de gloriar-se, a determinação é clara: não vos glorieis; pois os mestre receberão maior juízo ( Tg 3:1 ); a língua se gaba de grandes coisas ( Tg 3:5 ); e, quem entre eles era sábio e entendido, a ponto de gloriar-se? ( Tg 3:13 );
  • Nem mintais contra a verdade – o verbo no grego sugere que não deveriam alegar ‘falsas reivindicações de estarem na verdade’, ou seja, eles na verdade não eram mestres, antes tinham amarga inveja no coração e um sentimento faccioso.

 

15 Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e diabólica.

 

Muitos dentre os cristãos se sentiam mestres, sábios e entendidos, porém a sabedoria que neles estava não vinha de Deus ( Tg 3:1 e 13).

A pretensa sabedoria que alguns possuíam não era a sabedoria que vem do alto.

A sabedoria terrena, animal e diabólica é a que está vinculada à velha natureza. Eles ainda eram carnais ( 1Co 3:3 ).

 

16 Porque onde há inveja e espírito faccioso aí há perturbação e toda a obra perversa.

 

O apóstolo dá os motivos que compromete a sabedoria que alguns possuíam: inveja, espírito faccioso, perturbação e obra perversa “Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: adultério, prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus” ( Gl 5:19 -21); “Porque ainda sois carnais; pois, havendo entre vós inveja, contendas e dissensões, não sois porventura carnais, e não andais segundo os homens?” ( 1Co 3:3 ).

 

17 Mas a sabedoria que do alto vem é, primeiramente pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia.

 

O apóstolo Tiago descreve a sabedoria que vem de Deus. Esta é a sabedoria que Deus dá liberalmente a todos “E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada” ( Tg 1:5 ).

 

18 Ora, o fruto da justiça semeia-se na paz, para os que exercitam a paz.

 

O apóstolo Tiago chega a uma conclusão: o fruto da justiça semeia-se na paz! O que ele quis dizer?

Não se semeia o fruto, e sim a semente, pois devemos ter em mente que a semente dará o seu fruto no devido tempo. Ou seja, para se obter o fruto da justiça devemos lançar a semente na paz. Mas, qual é a semente que produz o fruto da justiça? Para se obter o fruto da justiça faz-se necessário semear a semente apropriada, que é a palavra de Deus ( 1Pe 1:23 ).

Sabemos que Cristo é a nossa paz e que o fruto da justiça só é possível por meio dele ( Ef 2:14 ). Sobre este assunto o apóstolo Tiago já havia feito uma abordagem anteriormente:

“Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas. Portanto, meus amados irmãos, todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar. Porque a ira do homem não opera a justiça de Deus. Por isso, rejeitando toda a imundícia e superfluidade de malícia, recebei com mansidão a palavra em vós enxertada, a qual pode salvar as vossas almas” ( Tg 1:18 -21).

  • Gerou pela palavra da verdade: “Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre” ( 1Pe 1:23 ) – a palavra do evangelho é semente que pode salvar as nossas almas e nos deixa na posição de primícias das criaturas de Deus;
  • Pronto para ouvir: “De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” ( Rm 10:17 ) – a semente só germina quando ouvimos. Por isso a recomendação do apóstolo: “…recebei com mansidão a palavra…”;
  • Não opera a justiça de Deus: “Aquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” ( 2Co 5:21 ) – a justiça que surge é em Cristo (nele) e é resultado de uma obra divina (feitos);
  • Rejeitando toda a imundícia e superfluidade de malícia: “E, na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela” ( Hb 12:11 ) – o ato do cristão em rejeitar a imundícia e a superfluidade de malícia é o mesmo que se exercitar na paz.

 

Ora, o fruto da justiça semeia-se na paz, para os que exercitam a paz.

Passemos a explicar novamente o versículo dentro do contexto que o apóstolo vinha discorrendo.

Aqueles que desejavam ser mestre simplesmente para se gabar, foram avisados de que a sabedoria que vem do alto é pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade e sem hipocrisia. Após informar qual a sabedoria que deveriam buscar, Tiago conclui: “Ora…”.

Ou seja, só é possível semear o fruto da paz, levar a semente do evangelho, aqueles que dela são nascidos e que exercitam a paz. Os que promovem a paz, ou aqueles que a exercitam, não devem ter amarga inveja e nem sentimento faccioso. Estes são requisitos essenciais a quem deseja ser mestre.

A bíblia nos apresenta o fruto da justiça e o fruto do Espírito. Qual a relação entre eles?

“Ora, o fruto da justiça semeia-se na paz, para os que exercitam a paz”

“Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança…”

 

Tiago fala como se semeia o fruto da justiça e Paulo aponta o que é o fruto do Espírito.

  • O fruto do Espírito“E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências. Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito” ( Gl 5:23 -24) – O fruto do Espírito só é possível àqueles que crucificaram a carne e nasceram do Espírito Eterno. Estes deixaram de viver segundo a carne e passaram a viver segundo o Espírito. Ou seja, cumpre-se o que foi dito por Cristo: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” ( Jo 3:6 ). Aqueles que são nascidos do Espírito através do lavar regenerador da palavra do evangelho, estes são espirituais, e produzem em Deus amor, gozo, paz, longanimidade, etc. “Estai em mim, e eu em vós; como a vara de si mesma não pode dar fruto, se não estiver na videira, assim também vós, se não estiverdes em mim” ( Jo 15:4 );
  • O fruto da justiça“Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados” ( 1Pe 2:24 ) – O fruto da justiça só é possível àqueles que tiveram os seus pecados levados pelo corpo de Cristo e crucificaram a carne, estando mortos para o pecado. Estes deixaram de viver para o pecado e passaram a viver segundo a Justiça. Ou seja, para pudéssemos ser: “Cheios dos frutos de justiça, que são por Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus” ( Fl 1:11 ).

 

Observe que o ‘fruto da justiça’ e o ‘fruto do Espírito’ só são possíveis por meio de Jesus. Observe também que os dois frutos estão no singular: o fruto. Ou seja, o fruto do Espírito é o mesmo que o fruto da justiça.

E o mais interessante: Paulo e Tiago falam do fruto do Espírito, e ou Fruto da Justiça, para dissuadir os seus leitores de comportamento semelhantes:

“Não sejamos cobiçosos de vanglórias, irritando-nos uns aos outros, invejando-nos uns aos outros” ( Gl 5:26 );

“Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade (…) Porque onde há inveja e espírito faccioso aí há perturbação e toda a obra perversa” ( Tg 3:14 -16).

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Um inocente também é justo?

A Bíblia afirma que os homens alienaram-se de Deus desde a madre, e que andam errados desde que nascem, e segundo os seus corações falam mentiras ( Sl 58:3 ; Mt 12:34 ). Dentre os filhos dos homens não há ninguém que tenha entendimento e que busque a Deus ( Sl 53:2 ), e nem mesmo as crianças são apontadas como exceção a regra.

 


“Se eu em Sodoma achar cinqüenta justos dentro da cidade, pouparei a todo o lugar por amor deles” ( Gn 18:26 )

O Problema

É comum a ideia de que uma pessoa ‘inocente’ também é ‘justa’, como se estas duas palavras ‘inocente’ e ‘justo’ fossem sinônimas, porém, do ponto de vista bíblico não é correta está correlação entre as duas palavras.

A Bíblia ensina que inocente é o mesmo que justo? Uma criança recém nascida é inocente e justa? Um inocente pode não ser justo? O ímpio pode ser inocente?

Analisemos algumas passagens bíblicas.

 

As Crianças de Sodoma e Gomorra

Observe este diálogo entre Deus e o patriarca Abraão: “Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra? Então disse o SENHOR: Se eu em Sodoma achar cinqüenta justos dentro da cidade, pouparei a todo o lugar por amor deles” ( Gn 18:25- 26 ).

Este diálogo é muito conhecido, porém, é comum não serem feitas as seguintes perguntas: havia inocentes nas cidades de Sodoma e Gomorra? As crianças das cidades de Sodoma e Gomorra não eram inocentes, e por que elas foram destruídas? Elas, apesar de serem inocentes, também eram ímpias, uma vez que foram destruídas?

Consideremos o que Deus disse a Abraão: “Se eu em Sodoma achar cinqüenta justos dentro da cidade, pouparei a todo o lugar por amor deles ( Gn 18:26 ). Deus garantiu a Abraão que, se houvesse dentro dos portões das cidades de Sodoma e Gomorra pelo menos dez justos, não destruiria as cidades! ( Gn 18:32 )

Como bem sabemos, as cidades de Sodoma e Gomorra foram destruídas, pois os três justos que haviam na cidade foram resgatados de lá, ou seja, Deus demonstrou que jamais destrói o justo com o ímpio, e que o juiz de toda a terra efetivamente faz justiça, pois não trata os justos como trata os ímpios ( Gn 19:16 ).

Após observar as garantias que Deus concedeu a Abraão “Não a destruirei por causa dos dez” ( Gn 18:36 ), e o resultado final, a destruição de Sodoma e Gomorra ( Gn 19:25 ), chega-se a seguinte conclusão: diante de Deus, ser ‘inocente’ não é o mesmo que ser ‘justo’, pois, se os inocentes fossem justos, ambas as cidades não seriam subvertidas devido às inúmeras crianças que haviam naquelas cidades.

Neste mesmo diapasão, o que dizer de milhares de crianças ‘inocentes’ que foram mortas no dilúvio, sendo que somente Noé foi declarado justo por Deus ( Gn 6:9 ; Gn 7:1 ; Hb 11:7 ).

Que dizer dos filhos de Acã? Eles também eram ímpios, mesmo sendo inocentes? ( Js 7:24 ). Os primogênitos do Egito não eram inocentes? ( Ex 12:29 ).

Através destes eventos é possível determinar que, ser inocente não e o mesmo que ser justo, e que ser justo não é o mesmo que ser inocente.

 

Os inocentes

Geralmente a Bíblia utiliza a palavra ‘inocente’ para designar uma pessoa ingênua, ou desavisada, como se lê: “Não tomarás o nome do SENHOR teu Deus em vão; porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão” ( Ex 20:7 ), ou seja, após receber o alerta solene “Não tomarás o nome do Senhor em vão”, o homem deixa de ser inocente.

Qualquer que utilizasse o nome de Deus em vão não mais seria considerado inocente, pois foi alertado.

Ora, se qualquer que for avisado pelo Senhor deixa de ser inocente, temos que Adão nunca foi inocente, pois ele foi avisado por Deus do mau, mas resolveu por si mesmo passar, e como conseqüência sofreu a pena “Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:17 ).

Por causa do alerta solene Adão deixou de ser inocente, porém, continuava sendo um homem justo e sem conhecer o bem e o mal. Após desobedecer, Adão deixou de ser justo e passou a ser como Deus, conhecedor do bem e do mal.

O alerta divino acerca das conseqüências em ser participante da árvore do conhecimento do bem e do mal arrancou a inocência de Adão. Adão deixou de ser justo após desobedecer e passou a ser como Deus: conhecedor do bem e do mal, em virtude de ser participante (comer) da árvore do conhecimento do bem e do mal.

Ou seja, a inocência de Adão foi perdida muito antes de ele conhecer o bem e o mal. A inocência não se perdeu após a transgressão, ou seja, antes mesmo da ofensa Adão já não era inocente por causa do alerta solene de Deus.

Salomão alertou: “O avisado vê o mal e esconde-se; mas os simples passam e sofrem a pena” ( Pv 27:12 ). Ou seja, o aviso torna o homem apto para ver o mal, e este, por sua vez, deve se esconder. Em contra partida, o simples, o desavisado, o inocente, passa e sofre a pena! Por quê?

É comum os homens atinarem que o inocente não deva sofrer a pena, mas a Bíblia demonstra que a pena não passa do simples (inocente) “O prudente prevê o mal, e esconde-se; mas os simples passam e acabam pagando” ( Pv 22:3 ).

Mesmo os inocentes são passíveis de punição, mesmo as criancinhas inocentes são tratadas como os adultos, pois ambos são ímpios diante de Deus, e sofrem a pena: destituídos da glória de Deus.

 

Uma Criança pode ser considerada justa?

Após esta abordagem inicial, sobrevêm inúmeras perguntas: como é possível uma criança não ser justa, se ela é inocente? A partir de que idade uma criança é considerada ímpia? Qual a base da justiça de Deus ao destruir crianças e adultos? Etc.

As alegações de Abraão são verdadeiras: “Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra?” ( Gn 18:25 ), pois Deus mesmo diz: “De palavras de falsidade te afastarás, e não matarás o inocente e o justo; porque não justificarei o ímpio” ( Ex 23:7 ).

  • O juiz de toda a terra faz justiça;
  • Ele faz distinção entre justos e ímpios;
  • Deus não mata o justo com o ímpio, e;
  • Deus não declara (justifica) o ímpio como sendo justo.

Quando Deus recomendou ao povo de Israel algumas questões de direito, Ele orientou para que guardassem da falsa acusação, e que a pena capital não devia ser aplicada ao inocente e ao justo “De palavras de falsidade te afastarás, e não matarás o inocente e o justo; porque não justificarei o ímpio” ( Ex 23:7 ).

Este verso estabelece uma diferença significativa entre justo e inocente, pois se ‘justo’ e ‘inocente’ fossem maneiras distintas de fazer referência a uma mesma condição, Deus não estabeleceria a distinção: não matarás o inocente e o justo ( Ex 23:7 ).

Tudo começou com Adão, o primeiro pai da humanidade. Através dele a humanidade lançou mão de uma condição miserável. Por causa da ofensa dele todos os homens pecaram, e em um só evento, todos juntamente se desviaram de Deus ( Sl 14:3 ).

Adão foi criado por Deus santo, justo e bom, ou seja, ele compartilhava da natureza de Deus. Adão existia em comunhão com a Vida e compartilhava da glória de Deus.

Porém, Adão foi avisado por Deus que, no dia em que comesse da árvore do conhecimento do bem e do mal, que estava no meio do jardim, haveria de morrer ( Gn 2:17 ).

Embora santo, justo e bom, Adão nunca foi inocente (ingênuo), pois foi alertado quanto as conseqüências de sua decisão “O avisado vê o mal e esconde-se; mas os simples passam e sofrem a pena” ( Pr 27:12 ).

Adão foi avisado e não se escondeu do mal, ou seja, por ter sido avisado, ele já não era simples, ou seja, inocente.

Há diferença entre ‘inocência’, que é ingenuidade e pureza, e ‘inocência’, que é estado de quem não é culpado, significado que é próprio aos tribunais. Não podemos confundir os significados da designação ‘inocência’, pois é essencial para a interpretação bíblica.

Para o Dr. Scofield houve a dispensação da inocência, ou seja, ‘o homem foi criado em inocência, colocado em um ambiente perfeito (…) e advertido das conseqüências da desobediência’ Bíblia de Scofield com Referências, explicação a Gn 1:28 . Ora, como foi avisado por Deus, Adão já não era mais ‘simples’ (inocente, ingênuo), mas não era culpado, ou melhor, segundo a linguagem utilizada nos tribunais ‘inocente’.

Deus criou o homem do pó da terra ( Gn 2:7 ), colocou-o no Jardim do Éden para lavrá-lo e guardá-lo ( Gn 2:15 ), e foi alertado por Deus quanto a árvore que estava no meio do jardim ( Gn 2:17 ). Adão foi criado puro (inocente, inculpável), santo e bom, e alertado (não mais inocente) quanto ao perigo de se comer da árvore do conhecimento do bem e do mal.

Porém, apesar de avisado, tanto a mulher quanto o homem preferiram dar ouvidos à serpente: “Certamente não morrereis” ( Gn 3:4 ). Não dar ouvidos (credito) a palavra de Deus alienou (extraviou) o homem do seu Criador. Após atender a palavra de Satanás, o homem deixou de compartilhar da vida e da glória que há em Deus.

O Homem morreu conforme a palavra do Senhor ( Gn 2:17 )! A justiça divina não tardou: o homem foi julgado e apenado com a morte “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens, para condenação…” ( Rm 5:18 ).

A morte é alienação de Deus. Por causa da lei santa justa e boa que diz: ‘… certamente morrerás’ ( Gn 2:17 ), o pecado encontrou ocasião na força da lei estabelecida por Deus, e por ela aprisionou o homem ( 1Co 15:56 ). Sem a lei que diz: ‘certamente morrerás’ ( Gn 2:17 ), não existia para o homem a possibilidade de alienação de Deus, ou seja, o pecado estaria morto ( Rm 7:8 ).

 

Os ímpios

Mas, porque os infantes de Sodoma e Gomorra, mesmo sendo inocentes, mentalmente e fisicamente incapazes de fazer o bem ou o mal não foram poupados por Deus? Por que não foram tidos por justos?

É fato: Deus prometeu que se houvessem dez justos nas cidades de Sodoma e Gomorra não a destruiria, porém, apesar de inúmeros inocentes, a cidade foi completamente destruída, o que nos deixa uma mensagem clara: as crianças não são justas, apesar de serem inocentes!

As cidades de Sodoma e Gomorra foram destruídas porque todos os homens foram formados em iniquidade, todos foram concebidos em pecado ( Sl 51:5 ).

O salmista Davi profetizou dizendo que todos os homens se desviaram e que juntamente se fizeram imundos ( 1Cr 25:1 ; Sl 53:3 ). Mas, onde e quando ocorreu o desvio, ou seja, a alienação da humanidade de Deus? Qual a idade que o homem passa a estar alienado de Deus?

A Bíblia afirma que os homens alienaram-se de Deus desde a madre, e que andam errados desde que nascem, e segundo os seus corações falam mentiras ( Sl 58:3 ; Mt 12:34 ).

Dentre os filhos dos homens não há ninguém que tenha entendimento e que busque a Deus ( Sl 53:2 ), e nem mesmo as crianças são apontadas como exceção a regra.

Profeticamente o salmista Davi escreve uma oração ao Senhor que retrata o anseio do Messias: “Ó Senhor, com a tua mão, livra-me dos homens do mundo, cuja porção está nesta vida. Enche-lhes o ventre da tua ira entesourada. Fartem-se delas os seus filhos, e dêem ainda os sobejos aos seus pequeninos” ( Sl 17:14 ).

Os ‘homens deste mundo’ referem-se aos filhos de Adão, e tudo que possuem restringe-se a este mundo. A ira de Deus está reservada aos homens deste mundo, conforme demonstra o apóstolo Paulo “Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça” ( Rm 1:18 ).

A informação acima é de conhecimento geral, porém, o mais interessante é a informação a seguir: “Fartem-se delas os seus filhos, e dêem ainda os sobejos aos seus pequeninos” ( Sl 17:14 ). Os filhos dos homens deste mundo também se fartarão da ira de Deus, e mesmo os seus pequeninos sobejarão da ira entesourada por Deus.

 

Julgamento e Condenação

O apóstolo Paulo traz a lume que a humanidade foi julgada e está sob condenação “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens, para condenação…” ( Rm 5:17 ), o que difere de qualquer sistema religioso, pois todas as religiões dão conta que o juízo de Deus ainda está por vir.

Através de uma única ofensa Adão trouxe o juízo de Deus sobre todos os homens para condenação, ou seja, em Adão todos os homens se desviaram de Deus e juntamente se fizeram imundos ( Sl 53:3 ).

Todos os homens, sem exceção: homens, mulheres, crianças e velhos tornaram-se imundos e sob condenação.

A ofensa de Adão foi não crer na palavra de Deus que lhe preservaria a vida, o que o levou comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, que o tornou como Deus, conhecendo o bem e o mal. A ofensa se deu antes do conhecimento do bem e do mal, portanto, a condenação não depende da consciência, ou da capacidade do homem em realizar o bem e o mal.

Quando a Bíblia afirma que o homem é escravo do pecado, ela demonstra que assim como os filhos de escravos eram escravos, todos os descendentes de Adão também são escravos. Não importa a idade ou condição social, se criança ou velho, uma vez descendente de Adão são escravos do pecado.

A escravidão é uma condição que se estabelecia sobre homens, mulheres, jovens e crianças, da mesma forma que o pecado. Não é porque as criancinhas de Sodoma e Gomorra não possuíam consciência e nem dispunham de condições para realizar bem ou mal, que eram justas. Embora inocentes, simples, sofreram a mesma pena que foi imposta aos adultos, pois já estavam condenados à perdição por serem descendentes de Adão, e, portanto, por serem servos do pecado (ímpios).

Que ação, que entendimento, que compreensão, do que era capaz um infante que o tornava escrava? Bastava simplesmente nascer de pais escravos para ser escravo. Não havia nenhuma ação ou omissão por parte da criança, e neste aspecto, todos os descendentes de Adão são escravos do pecado.

A condição é própria a todos os homens, e não se vincula a questões de méritos. O apóstolo Paulo ao falar da condição do homem em sujeição ao pecado utiliza o vocábulo ‘doulos’, indicando escravidão em oposição à condição do homem livre, que é ‘eleutheria’.

‘Doulos’ é um termo que não possui conotação moral ou ética, e que data de um período histórico anterior a Sócrates, e que, portanto, também já era de conhecimento do apóstolo. O apóstolo Paulo preferiu o vocábulo ‘Doulos’ em lugar de ‘eleutheria’, o que demonstra que a escravidão ao pecado não depende de questões morais ou comportamentais.

‘Doulos’ possui sentido diferente de ‘enkráteia’, que é um conceito socrático, que introduziu o conceito de liberdade ética. Este conceito estabelece a liberdade como possuidora de senhorio sobre a existência orgânica e psíquica do homem, indicando a virtude como sendo ‘conhecimento’ e fundamentando a liberdade do homem no conhecimento e na racionalidade: conhecer o bem implica praticá-lo.

Observe: “Mas graças a Deus que, tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues” ( Rm 6:17 ). O homem é servo do pecado sem qualquer conotação moral, uma vez que o apóstolo dos gentios utiliza o vocábulo ‘doulos’ e despreza o termo ‘eleutheria’.

 

O Caminho Largo

Quando Jesus orientou os seus ouvintes a entrarem por Ele: “Entrai pela porta estreita” ( Mt 7:13 ), ou seja, que nascessem de novo ( Jo 3:3 ), Ele também alertou acerca da porta larga.

Jesus é o último Adão, sendo necessário ao homem nascer de novo para ser participante da natureza divina ( 1Pe 1:2 e 22 -23 ; 1Co 15:45 ).

Mas, como não é primeiro o espiritual, senão o animal (o terreno), pois primeiro os homens carnais são gerados através de Adão, que é a porta larga, por onde todos os homens entram ao nascer neste mundo, para depois entrarem pela porta estreita, segue-se que a porta larga é o primeiro Adão “… porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela” ( MT 7:13 ).

Jesus alertou que a porta é larga e que o caminho que conduz a perdição é espaçoso. Ir à perdição não depende da vontade, da consciência, do conhecimento ou da volitividade do indivíduo. O que conduz à perdição é o caminho largo que o homem se encontra após ter nascido segundo a vontade da carne, do sangue e da vontade do varão ( Jo 1:12 ).

De modo semelhante, é Cristo, o caminho, que conduz o homem a Deus, e, portanto, é necessário nascer de novo para trilhar o novo e vivo caminho.

 

Conclusão

Deus destruiu Sodoma e Gomorra porque não havia dez justos em ambas as cidades, o que nos faz lembrar dos infantes que nelas habitavam.

Como Deus garantiu que não destruiria as cidades se houvesse nela dez justos, e acabou subvertendo Sodoma e Gomorra, conclui-se que as crianças não eram justas, embora fossem inocentes.

Devemos ter em mente também que a palavra inocente no Antigo Testamento tem o sentido de alguém ‘simples’, ‘desavisado’, diferente do sentido que passou a predominar ao longo dos anos, devido aos tribunais.

A ação de Deus no Antigo Testamento reitera a declaração do Salmista Davi, que diz: “E não entres em juízo com o teu servo, porque à tua vista não se achará justo nenhum vivente” ( Sl 143:2 ). O apóstolo Paulo reitera: “Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer” ( Rm 3:10 ), nem os infantes.

Em nenhuma das referências bíblicas excetua as crianças, que embora sejam inocentes, diante de Deus são ímpias.

Esta distinção entre justo e inocente se fez necessária porque muitos cristãos, embora admitam que a humanidade sem Cristo seja réu do inferno por causa da sua natureza pecaminosa, entendem que os infantes não se enquadram neste quesito, pois entendem que os infantes não são lúcidos e não possuem consciência para diferenciar o bem do mal, o que impede que exteriorizem uma ação ou omissão pecaminosa.

Ou seja, contraria totalmente a mensagem de Cristo: os homens são sujeitos do verbo ‘hamartia’ porque são escravos do pecado, e não o contrário: são pecadores por causa de suas ações e omissões.

Qual a condição dos inocentes de Sodoma e Gomorra? “Se eu em Sodoma achar cinqüenta justos dentro da cidade, pouparei a todo o lugar por amor deles” ( Gn 18:26 ). Eram ímpias, pois Abraão argumenta: “Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra?” ( Gn 18:25 ).

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O que torna um homem pecador?

O evangelista deve entender que, primeiro é essencial a ação regeneradora de Deus, que faz um novo homem, e então, tudo se faz novo. Para tanto, basta ao evangelista anunciar as boas novas do evangelho, ou seja, que Cristo foi manifesto em carne, viveu sem pecado por ter sido gerado de Deus, foi crucificado, ressurgiu e está assentado à destra de Deus.

 


“Jesus respondeu, e disse-lhe: Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva” ( Jo 4:10 )

É comum em evangelismo a seguinte pergunta aos descrentes: “Você é bom o suficiente para entrar no céu por seu próprio merecimento?”, e não pude me furtar a algumas considerações.

É uma estratégia evangelística enfatizar a miserabilidade do homem em pecado para apresentar Cristo, o redentor, porém, erram ao considerar que a miserabilidade da humanidade decorre das disposições internas do homem.

Muitos cristãos ainda não compreendem porque o homem é pecador, pois reputam que o pecado está atrelado ao comportamento, à moral e ao caráter do homem.

O que torna um homem pecador?

O apóstolo Paulo responde, pois ele demonstrou que todos os homens estão destituídos e carecem da glória de Deus ( Rm 3:23 ). O homem é pecador porque foi destituído, ou seja, está alienado de Deus. É tido por miserável porque carece, ou seja, necessita da glória de Deus.

Por estar alienado de Deus o homem está destinado ao inferno de fogo, pois o inferno é o lugar destinado ao diabo e todas as gentes que se esquecem de Deus ( Sl 9:17 ). Estar destinado ao inferno não é uma questão de merecimento, antes diz de uma condição própria a todos os homens gerados de Adão.

É temerário simplesmente destacar que o homem é ‘merecedor’ do inferno, o que pode levar os pecadores a considerar a perdição como sendo algo proveniente de questões comportamentais, o que inexoravelmente acaba promovendo a ideia da salvação pelas obras.

A Bíblia não ensina que o homem é ‘merecedor’ do inferno, ou seja, que o inferno vincula-se a uma questão meritória, antes ela demonstra que todos que entraram pela porta larga seguem por um caminho largo que conduz à perdição ( Mt 7:13 -14).

Cristo é a porta estreita, e para entrar por Ele é necessário ao homem nascer de novo ( Jo 3:3 ). Isto indica que Adão é a porta larga por onde todos os homens entram ao nascer ( 1Co 15:45 ).

Nenhuma questão meritória é destacada com relação à perdição ou a salvação, antes é demonstrado na Bíblia que o homem é gerado em pecado, ou seja, alienado de Deus ( Sl 51:5 ). Que desde a madre os homens desviam-se de Deus, e por possuírem um coração corrupto, proferem mentiras desde que nascem ( Sl 58:3 ; Mt 12:34 ).

A porção dos filhos de Adão é somente este mundo, e estão destinados a saciarem-se somente da ira que Deus entesourou para eles. Sem qualquer mérito ou demérito, todos os filhos dos homens deste mundo também serão fartos da ira do Senhor, e dela sobejarão, pois são filhos da ira e da desobediência ( Sl 17:14 ).

É por isso que o apóstolo Paulo reitera o que anunciou o salmista Davi: “Não há um justo se quer” ( Rm 3:10 ). Ou seja: “Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis” ( Rm 3:12 ).

O que fez com que todos os homens se extraviassem? O apóstolo Paulo anuncia que todos se extraviaram porque um pecou, e por isso, todos pecaram. Um só foi destituído, e todos foram destituídos da glória de Deus ( Rm 5:12 ).

Segundo o profeta Miqueias, um homem piedoso pereceu, e desde que ele (Adão) pereceu não há entre os filhos dos homens um que seja justo. O melhor dos homens é um espinho, e o mais justo não passa de uma sebe de espinhos, o que demonstra que ser pecador e estar destinado ao inferno não é uma questão de mérito, antes diz de uma condição própria

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Por que Deus permite o sofrimento dos Inocentes?

Devemos considerar que sobre a humanidade já pesa uma condenação, ou seja, não há como o homem questionar a justiça de Deus dizendo que Ele é tolerante com os injustos, ou que é complacente com atos injustos, visto que sobre todos os homens gerados de Adão pesa uma condenação. Todos os homens já nascem sob condenação! Observe que o Juízo de Deus já foi estabelecido em Adão quando ele pecou. O juízo já veio, ou seja, foi estabelecido por causa de uma só ofensa para condenação. Quando Adão pecou, ele trouxe juízo e condenação sobre os seus descendentes, conforme Rm 5:16 e 18.


Uma irmã questionou o motivo pela qual Deus não intervém em casos brutais, semelhante ao que ocorreu no Rio de Janeiro, no caso do menino João. Se Deus conhece todas as coisas e é justo, por que permite atrocidades?

“Por causa das muitas opressões os homens clamam por causa do braço dos grandes. Porém ninguém diz: Onde está Deus que me criou, que dá salmos durante a noite” (Jó 35:9 -10)

 

É certo que Deus conhece todas as coisas! É isto o que a Bíblia nos ensina. Deus, antes que qualquer evento ocorra, sabe o que há de vir! Daí o questionamento: Por que Deus permite que ocorra atrocidades, guerras, desastres, etc.?

A Bíblia nos dá a resposta:

1º Tudo o que o homem intentar ou programar fazer Deus permitirá que ocorra.

Da mesma forma que permitiu que Adão pecasse, Deus permitirá que os homens tracem livremente os seus próprios caminhos (Rm 1:28). É o que chamamos de livre- arbítrio.

Por que Deus permitiu que Adão pecasse? Porque ‘Onde o Espírito de Deus está, aí há liberdade’ ( 2Co 3:17 ), ou seja, no Éden, Deus concedeu plena liberdade a Adão, visto que podia comer livremente de todas as árvores do jardim ( Gn 3:16 ). Deus deu plena liberdade para Adão comer de todas as árvores do jardim, e garantiu livre acesso a todas as árvores, incluindo a árvore do conhecimento do bem e do mal.

“E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2:16 -17).

Com a liberdade concedida foi apresentado um aviso solene: no dia em que Adão comesse da árvore do conhecimento do bem e do mal, certamente haveria de morrer (Deus deu o motivo pelo qual não se deveria comer da árvore do conhecimento).

O conceito de morte apresentado no livro do Gênesis diverge do conceito do homem natural, que só pensa no termino das funções vitais do corpo.

Se para Deus vivem todos os homens, como podemos entender a morte como sendo uma pena?

O apóstolo Paulo esclarece o conceito de morte para Deus: Quem está morto para Deus é porque não é participante da natureza de Deus, ou seja, não tem comunhão com Aquele que é a vida. O homem morto para Deus adquiriu outra natureza e passou a viver para o pecado como escravo! Quem está morto para o pecado, passa da morte para vida, ou seja, vive para Deus ( Rm 6:11 )!

Abel era justo e, mesmo assim Deus permitiu que Caim matasse Abel. Deus foi injusto em permitir a morte de Abel? É o que descobriremos. Mesmo quando foi morto por Caim, para Deus Abel continuou vivo! ( Lc 20:38 ).

O apóstolo Paulo várias vezes fez referencia a antiga condição dos cristãos, quando ainda não conhecia a verdade do evangelho, de mortos. Com relação ao passado dos cristãos (Paulo fala de outro tempo), mesmo quando vivos, para Deus estavam mortos! ( Ef 2:5 ).

2º Deus poderia ter impedido o acesso de Adão à árvore do conhecimento do bem e do mal, mas, mesmo sabendo do intento do homem, Ele não interferiu.

Quando foi formado do pó da terra, o homem foi criado à imagem e semelhança do seu Criador. A imagem que o homem recebeu foi a mesma imagem e semelhança que Jesus havia de vir ao mundo.

A imagem dos homens foi concedida por Cristo, o último Adão. Como criador de todas as coisas, Cristo criou o homem segundo a imagem que havia de vir ao mundo, e assim compreendemos o motivo pelo qual o apóstolo Paulo disse que Adão era figura daquele que havia de vir ( Rm 5:14 ).

Deus é Espírito, e espíritos não tem forma. A forma que o homem recebeu foi concedida por Cristo, que a tudo criou “Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (Jo 1:3).

A semelhança que o homem alcançou do seu Criador refere-se ao domínio, ou seja, a livre vontade soberana dentro da sua esfera de atribuição. Deus deu ao homem o domínio sobre tudo na face da terra, e estabeleceu o tempo como garantia desta soberania ( Gn 1:26 ). Caso o homem queira concertar uma decisão que tenha tomado anteriormente, terá que tomar uma nova decisão. Nem mesmo o homem pode alterar as suas decisões, visto que por semelhança Deus não muda os seus desígnios.

Assim como Deus não volta atrás em seus intentos (Ele não volta atrás em sua vontade, pois é soberano), por semelhança as decisões do homem são soberanas, visto que, se o homem quiser alterar uma decisão, não conseguirá. Terá de tomar uma nova decisão para ‘consertar a anterior’.

(Observe que Satanás não quis ser Deus, visto que tal intento é impossível de ser alcançado pelas suas criaturas. Satanás reconhece que a posição de Deus é inatingível por suas criaturas ao chamá-lo de: o Altíssimo. Satanás almejou ser semelhante ao Criador ( Is 14:13 -14). Para alcançar o seu intento, Satanás calculou mal, visto que pensou que, para alcançar a semelhança do Altíssimo precisaria subir acima das estrelas de Deus (anjos). Porém, a semelhança não se alcança de moto próprio, visto que Deus desceu e deu a sua semelhança aos homens. Isto é comentário para outra oportunidade, visto que é um erro gravíssimo dizer que Satanás quis ser Deus, ou que intentou roubar a glória de Deus).

3º Muitos questionam a justiça de Deus quando uma criança morre, ou quando se vê crianças morrendo de fome, guerras, misérias, etc.

Mas, o que a Bíblia nos mostra?

Primeiro devemos considerar que sobre a humanidade já pesa uma condenação, ou seja, não há como o homem questionar a justiça de Deus dizendo que Ele é tolerante com os injustos, ou que é complacente com atos injustos, visto que sobre todos os homens gerados de Adão já pesa uma condenação. Todos os homens já nascem sob condenação, pois foram apenados com a morte, ou seja, foram destituídos da glória de Deus!

“Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3:23);

 

Observe que o Juízo de Deus já foi estabelecido em Adão por causa da ofensa. O juízo já veio, ou seja, já foi estabelecido por causa de uma só ofensa, e isto para condenação. Quando Adão pecou, ele trouxe juízo e condenação sobre os seus descendentes, conforme Rm 5:16 e 18.

(Obs.: Ao desobedecer, Adão foi julgado conforme a liberdade e o conhecimento oferecido. Após pecar, ele foi condenado e recebeu a pena estabelecida: morte! ( 1Co 15:22 ), e com ele toda a humanidade morreu (foi destituída da vida que há em Deus).

“Pois assim como por uma ofensa veio o juízo sobre todos os homens, para a condenação…” ( Rm 5:18 ).

Como questionar a justiça de Deus se todos já estão debaixo de condenação? Portanto, não é verdadeiro o ditado que diz: ‘A justiça de Deus tarda, mas não falha’. Como pode ser tardia a justiça de Deus, se todos os homens já nascem sob condenação?

(Outro erro é considerarmos que o juízo de Deus será estabelecido no futuro, na consumação de todas as coisas. Terrível engano! O juízo já foi estabelecido em Adão. O que se dará no futuro é o julgamento quanto as obras dos homens perdidos “Já está condenado” ( Jo 3:18 ). Se o homem sem Cristo já está condenado é porque o julgamento já se deu no passado da humanidade).

4º Deus não é tolerante com a injustiça, visto que, mesmo que os homens estejam sob condenação ou salvos, Ele estabeleceu dois tribunais para julgamento das ações dos homens no futuro.

a) O tribunal de Cristo será estabelecido para julgamento das ações dos salvos, e;

b) O Grande Trono Branco, será estabelecido para os perdidos, uma vez que Deus trará a juízo as ações de todos os homens, sem exceção.

Resumindo:

a) A humanidade já está sob condenação, ou seja, já foi julgada e apensada em Adão;
b) Deus recompensará a cada um segundo as suas obras, sem acepção de pessoas ( Rm 2:11 ) , e isto se dará no futuro: no Tribunal de Cristo ( Rm 14:10 e 2Co 5:10 ) e no Grande Trono Branco ( Ap 20:11 ). Observe que as referencias dizem das obras dos homens, salvos e não salvos respectivamente.

5º Todos os que creem em Cristo, estes morrem com ele, e ressurgem uma nova Criatura. Sobre eles não pesa mais a condenação de Adão, pois passaram da morte para a vida e vivem para Deus. Mas, mesmo vivendo para Deus, o novo homem ainda pode praticar más ações, porém, isto será alvo de julgamento no Tribunal de Cristo.

Assim poderemos entender o versículo seguinte:

“Portanto, agora, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus…” ( Rm 8:1 ).

Porque nenhuma? Se o apóstolo Paulo dissesse: ‘não há condenação’, entenderíamos que só era possível uma condenação aos homens. Mas, quando o apóstolo diz que ‘nenhuma condenação há’, é porque pesava sobre o homem mais que uma condenação:

1- A condenação de Adão, e;
2 – a condenação no Grande Trono Branco.

Hoje, em Cristo, o cristão está livre da condenação em Adão, e comparecerá ante o Tribunal de Cristo, para ser recompensado pelo que houver feito por meio do corpo, ou bem ou mal.

“Porque todos devemos comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o que tiver feito por meio do corpo, ou bem, ou mal” ( 2Co 5:10 ).

Por todos esses motivos apresentados não podemos questionar a justiça de Deus por questões circunstanciais como guerras, tragédias, calamidades, doenças, etc.

Deus é o oleiro e tem poder sobre o barro (homem) para de uma mesma massa fazer vasos com diferentes atribuições ( Rm 9:21 ).

Em Adão todos os vasos são criados para a desonra. Em função da carne e do sangue de Adão todos os homens nascem de uma semente corruptível, ou seja, são provenientes da vontade da carne, da vontade do varão e do sangue, portanto, não são filhos de Deus. São vasos para desonra, visto que estão em um caminho que os conduz à perdição.

Mas, Deus suporta com paciência os vasos da ira, ou seja, os vasos da desobediência que surgiram em Adão, pois espera que todos venham ao conhecimento da verdade.

Os vasos para honra são criados em Cristo, o último Adão. Deus tem poder sobre o barro (os homens), para da mesma massa (carne de Adão) fazer vasos para honra, demonstrando que Ele é misericordioso. Ao fazer vasos para honra (ao qual somos nós Rm 9:24 ), Deus dá a conhecer a sua glória e misericórdia, revelando aos anjos a sua multiforme sabedoria, etc. ( Ef 3:10 ).

Em Adão são criados os vasos para desonra, e em Cristo os vasos para honra!

Por isso o apóstolo Paulo diz: “Quem és tu, que a Deus replicas?” ( Rm 9:20 ). Precisamos conhecer o conselho de nosso Deus, visto que o diabo lança as suas setas precisamente sobre as questões bíblicas que não compreendemos.

Deus permite o sofrimento porque deu o domínio da terra aos homens, e os seus dons são irrevogáveis (Gn 1:26). Caso Deus interviesse no dia a dia dos homens, certamente questionariam a liberdade concedida por Deus.

Os homens só se lembram de clamar a Deus, ou questionar os seus desígnios quando são afrontados ou quando lhes sobrevém algum mal, mas ninguém pergunta onde Deus está nos momentos de bonança (Jó 35:10).

Sim, Deus permite o sofrimento, para que o homem não saiba o que há de vir. Por isso deve considerar temer ao Senhor, que apesar de permitir o mal, há de pedir conta de tudo que o homem fizer.

“No dia da prosperidade goza do bem, mas no dia da adversidade considera; porque também Deus fez a este em oposição àquele, para que o homem nada descubra do que há de vir depois dele” (Ec 7:14).

“O que é, já foi; e o que há de ser, também já foi; e Deus pede conta do que passou” (Ec 3:15).

O Livro de Jó – A cilada de Satanás

O Livro de Jó – Transcendendo a problemática do sofrimento

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