A simplicidade dos pequeninos

Em nossos dias, quando utilizamos o termo ‘inocente’, somos remetidos à ideia de alguém que nada sabe, ou seja, que desconhece que é simples. O termo inocente, neste artigo, não se refere às questões próprias aos tribunais, onde temos o culpado e o livre de culpa, este último, também, chamado de inocente.


“O prudente prevê o mal e esconde-se; mas, os simples, passam e acabam pagando.” (Provérbios 22:3)

“O avisado vê o mal e esconde-se; mas, os simples, passam e sofrem a pena.” (Provérbios 27:12)

 

Introdução

A condição do ‘infante’, em relação ao ‘pecado’, fomenta muitas discussões e, pela má compreensão, acerca da natureza do pecado, sobram suposições e vários desvarios doutrinários, acerca do tema.

Há quem acredite, sem suporte bíblico, que uma criancinha inocente, ingênua ou, sem consciência, é isenta de pecado. Através de uma perspectiva humana, com base em viés sentimental, questionam se é possível um infante de aspecto ‘angelical’, que nunca fez nada de errado, do ponto de vista moral, ser um pecador.

Entender que, pela tenra idade, uma criança é isenta de pecado, é temerário, à luz das Escrituras, vez que Deus garantiu a Abraão que não destruiria as cidades de Sodoma e Gomorra, se nelas houvesse ao menos dez justos.

Sabemos que somente três pessoas foram resgatadas com vida das cidades de Sodoma e Gomorra: o justo Ló e suas duas filhas e que todas as criancinhas, juntamente com os habitantes adultos, foram dizimadas por Deus.

Qual entendimento abstrair acerca da destruição das crianças das cidades de Sodoma e Gomorra, quando da subversão dessas cidades?

 

Justo é o mesmo que inocente?

Como Deus garantiu que não destruiria as cidades de Sodoma e Gomorra, se nelas houvesse dez justos, isso significa, claramente, que as muitas criancinhas de Sodoma e Gomorra não eram justas diante de Deus, apesar de nada saberem (inocentes)!

“Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra? Então disse o Senhor: Se eu em Sodoma, achar cinquenta justos dentro da cidade, pouparei a todo o lugar por amor deles (…) Disse mais: Ora, não se ire o Senhor, que ainda só mais esta vez falo: Se porventura se acharem ali dez? E disse: Não a destruirei, por amor dos dez” (Gn 18:25-26 e 32).

Através dessa passagem bíblica e de outras que relatam a morte de crianças, verifica-se que inocência ou simplicidade não é o mesmo que ser justo diante de Deus. Mesmo o simples, o inocente, o não alertado, o desconhecedor ou, o sem consciência, são passíveis de pena ou, das consequências do pecado.

O principio que se aplica, é o mesmo apontado pelo Pregador, no Livro dos Provérbios: Como é possível um inocente (simples) sofrer as consequências, somente por passar em um determinado lugar?

Ora, um ladrão, ao saber que esta ocorrendo um tiroteio, em determinado lugar, imediatamente se esconde, mas, um inocente ou, um simples (que nada sabe acerca do que está ocorrendo), caso passe em meio ao tiroteio, sofrerá as consequências.

Como o simples ou, o inocente, são passíveis de sofrerem as consequências, compreende-se o motivo pelo qual a Bíblia utiliza a figura da escravidão para ilustrar a condição do homem sob a égide do pecado.

 

Escravos do pecado

Adão, pela ofensa no Éden, vendeu todos os seus descendentes como escravos ao pecado. Por analogia, assim como nas sociedades antigas, os descendentes de escravos eram escravos e permaneciam por toda existência terrena sob as consequências da escravidão, simplesmente, porque nasceram de escravos. Igualmente se dá com os menores, quando vem ao mundo: são escravos do pecado, em função da semente dos seus pais, que, também, são escravos do pecado.

A escravidão, nas sociedades antigas, alcançava os filhos dos escravos, independente de moralidade, inocência, habilidade, sentimento ou, idade, vez que o pecado, como senhor, estabeleceu o seu domínio sobre todos os descendentes de Adão, independentemente de raça, cor, nacionalidade, moral, tamanho, idade, sexo, etc.

O apóstolo Paulo enfatizou que um pecou (Adão) e, como consequência, a morte (penalidade, consequência) passou a todos os homens, por isso, é dito que todos pecaram (Rm5:12). A morte, como consequência da ofensa de Adão, passou a todos os homens, mesmo sem terem culpa ou, dolo algum, o que demonstra que a pena, como consequência da ofensa de Adão, repousa sobre todos os homens, mesmo sobre os inocentes ou, sobre os simples.

Em nossos dias, quando utilizamos o termo ‘inocente’, somos remetidos à ideia de alguém que nada sabe, ou seja, que desconhece que é simples. O termo inocente, neste artigo, não se refere às questões próprias aos tribunais, onde temos o culpado e o livre de culpa, este último, também, chamado de inocente.

Um aborígene nada sabe sobre a sua condição diante de Deus e, nesse aspecto, é um inocente, porém, o tal não é livre da condenação estabelecida, em função da ofensa de Adão, portanto, é culpável diante de Deus pela condenação estabelecida no Éden.

Deste modo, é possível dizer que alguém é inocente, em razão de nada saber, porém, culpável diante de Deus, em função da condenação estabelecida no Éden. Por conseguinte, é possível alguém ser inocente e ímpio, nada saber e ser injusto diante de Deus. Esse alguém pode ser simples, mas sobre ele pesam as consequências da ofensa de Adão.

 

A morte

A condição imposta pela ofensa, que é a morte (separação, alienação de Deus), é o que torna o homem pecador. A humanidade é pecadora, porque as consequências da ofensa, do primeiro homem que pecou, passaram aos seus descendentes: condenação e morte (separação).

Foi no Éden que a humanidade, na coxa de Adão, juntamente, alienou-se de Deus e se fez imunda. Adão é a porta larga, por onde todos os seus descendentes entram no mundo e, por estarem na sua ‘coxa’, juntamente, todos os homens se desviaram e se fizeram imundos, não importando se judeus ou gentios (Sl 53:3,Sl 58:3).

“Desviaram-se todos e, juntamente, se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um” (Sl 53:3);

“Alienam-se os ímpios, desde a madre; andam errados, desde que nasceram, falando mentiras” (Sl 58:3);

Uma é a verdade: se não nascer de novo, da semente incorruptível, não se pode ver o reino dos céus! Sem entrar pela porta estreita, que é Cristo, jamais o homem poderá ter acesso ao reino dos céus! Isso porque, o nascimento natural é segundo a semente corruptível de Adão, que é terrena.

Como carne e sangue não podem herdar o reino dos céus e a corrupção não pode herdar a incorrupção, certo é, que é necessário nascer da semente de Deus, para ter acesso ao reino de Deus.

“E agora digo isto, irmãos: que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção” (1 Co 15:50).

Criança ou não, inocente ou não, se é nascido da carne, é carnal, portanto, corruptível e terreno. Se é carne, corruptível e terreno, não podem herdar a incorrupção, mesmo os infantes. As condições apontadas pelo apóstolo Paulo: carne, sangue e incorrupção, abarcam as crianças e não temos, na Bíblia, qualquer alusão a possíveis exceções.

O que um pai deixa de herdade, não depende do dolo ou da culpa dos filhos. Filho é filho, não importando questões morais ou, comportamentais, portanto, é herdeiro, por vínculo familiar ou, de sangue. A alienação de Deus é a herança que o primeiro pai da humanidade deixou a todos os seus descendentes, por vinculo de sangue, portanto, não depende de questão moral ou, comportamental.

A realidade do pecado não se refere à possibilidade de uma criança se desviar dos preceitos legais ou, morais, instituídos pela sociedade ou, ainda, que tenha herdado um comportamento ou, um caráter transviado do primeiro homem, Adão. O pecado não diz de uma tendência enraizada de caminhos tortuosos, desvinculados da boa moral ou, dos bons costumes. O pecado não diz de escolhas entre certo e errado, entre bem e mal, que o conhecimento do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal legou aos homens.

O pecado refere-se a uma barreira de separação erguida entre o homem e Deus, por causa da ofensa de Adão, que lhe conferiu a condição de morto para Deus. A condição do homem, ao entrar no mundo, por Adão, a porta larga, é estar separado de Deus. A separação de Deus (morte) é consequência do pecado e não os desvios morais.

Mas, equivocadamente, as pessoas rotulam como pecado as decisões que os homens tomam, tendo por base o conhecimento do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal e se esquecem da barreira de separação que há entre Deus e os homens.

Todos os homens, quando abrem a madre, entram no mundo, por Adão, e seguem um caminho largo, que os conduzirá à perdição, independentemente da moral, costumes, caráter, honradez, idade, nacionalidade, etc.

Assim como o principado é condição que se herda de berço, o pecado é condição que se herda de nascimento: separação de Deus.

Em função da ofensa de Adão, que desobedeceu a lei santa, justa e boa (visto que a lei dada no Éden visava proteger o homem da morte), entrou o pecado no mundo, ou seja, a barreira de separação entre Deus e os homens e, pelo pecado, veio a condenação: morte (Rm 5:18). Como a morte passou a todos os homens, isso significa que todos estão condenados e apenados com a morte, portanto, designados ‘pecadores’.

A consequência da queda de Adão é funesta para a humanidade, mesmo sobre aqueles que não desobedeceram à ordem direta de Deus dada no Éden, que diz:

“Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2:17).

Os infantes serem tidos por ímpios por Deus é a expressão mais contundente da ofensa de Adão, por causa das questões sentimentais próprias ao homem, pois a morte reina tanto sobre criancinhas, quanto sobre adultos.

“… entretanto, reinou a morte, desde Adão, até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança da morte de Adão…” (Rm 5.14).

Uma criança ser tida como pecadora choca a concepção do homem natural. Os sentimentos como dó, apego, afeição, etc., turvam o entendimento do homem, porém, a realidade é o que é, não importando os sentimentos humanos!

Se o homem está triste ou feliz, a verdade é a verdade. Se o homem gosta ou não gosta, a justiça é a justiça. Aceitando ou, não, a lei da gravidade, os homens estão sujeitos a ela. Querendo ou, não, o tempo é inexorável, portanto, ao tratar da realidade do pecado, não se pode considerá-lo sob influência dos sentimentos ou, através da ótica das emoções humanas.

Como a morte alcança a todos, infantes e adultos, mesmo aqueles que não compreendem a sua triste condição herdada: escravos do pecado ou, nem possuem consciência para compreender o que é ser escravo do pecado, a morte é fato e demonstra que todos estão sob domínio do pecado, sem exceção.

Isso porque a morte, como pena da condenação decorrente da ofensa de Adão, entrou no mundo e alcançou a todos os seus descendentes, como uma herança (Rm 5:12).

 

A natureza do pecado

Entretanto, além do erro de se considerar que uma criança inocente como justa, ou seja, isenta de pecado, há outros erros semelhantemente perniciosos:

  1. Considerar que o pecado é um princípio nas crianças que, invariavelmente, as levará a fazer coisas erradas;
  2. Considerar que ações erradas do ponto de vista da lei, da moral e dos bons costumes seriam provenientes de uma semente (o pecado) latente na criança;
  3. Considerar que uma criança aprende a pecar durante o seu desenvolvimento e, por isso, quando praticar algo inconveniente, tornar-se-á pecadora;
  4. Entender que uma criança é pecadora por ser completamente ‘depravada’ pois, todos os tipos de pecados já estão plantados em seu coração.

O Dr. Russel Sheed entendia que o homem aprende[1] a pecar quando adquire hábitos em um ambiente onde não é corrigido. Para o Dr. Shedd, Adão desobedeceu a Deus e legou aos seus descendentes uma inclinação para o mal. Em outra abordagem, Sheed aponta a consequência do pecado como culpa, como se o pecado fosse uma questão de cunho psíquico, daí a abordagem do ponto de vista sentimental[2].

No entanto, a Bíblia sublinha que o pecado não possui relação alguma com aprendizado, mas, sim, com o nascimento natural, em que o escravo do pecado traz ao mundo descendentes, escravos do pecado. Por descender de um ímpio, aquele que é gerado, também, é ímpio e procederá impiamente, não importando se o ímpio gerado viera praticar ou, não, boas ou, más ações, do ponto de vista da moral humana.

“Como diz o provérbio dos antigos: Dos ímpios procede a impiedade; porém a minha mão não será contra ti” (1 Sm 24:13).

O pecado não diz de uma inclinação para o mal, mas de uma natureza má. A condição de pecador não é questão de hábito, mas de natureza. A natureza de alguém separada de Deus é morte, mentira, trevas, mal, vil, etc., e, em função dessa natureza, é pecador. Isso significa que o pecador jamais faz o bem (Sl 53:3), mesmo que queira, pois o seu coração enganoso obra continuamente o mal, pois, como escravo, pertence, por direito, ao seu senhor, servindo como instrumento do pecado.

É por isso que o salmista descreve o ímpio como aquele que, desde que nasce, continuamente, profere mentiras. Fala mentira, desde que nasce, por causa do coração enganoso que herdou e, como a boca fala o que o coração está cheio, profere continuamente mentiras (Sl 58:3; Jr 17:9; Pv 12:5).

O homem é pecador porque é mal no sentido de vil, baixo, ralé, etc., mesmo sabendo dar boas dádivas aos seus semelhantes (Lc 11:13). O problema do pecado decorre da semente que traz os homens ao mundo e não das suas ações. Praticar boas ações não muda a natureza de alguém, gerado da semente corruptível. Uma semente ruim (vil, ralé) forma árvore má que só pode produzir frutos maus.

“Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons” (Mt 7:18).

O problema da árvore má em dar maus frutos decorre da semente que foi plantada, ou seja, está na natureza da árvore. Não importa o quão vistosas estejam as folhagens; a qualidade do fruto sempre estará comprometida. Não importa o quão boa é a qualidade da terra; os frutos sempre serão conforme a espécie da semente (Is 26:10).

O problema de uma criança em ser má e dar frutos maus, não está no seu comportamento futuro, antes, decorre da semente a qual nasceu. Não importa o quão vistoso possa parecer aos olhos dos homens alguém que atingiu a maturidade, por causa da natureza herdada de Adão, estará impossibilitado de produzir bons frutos.

Os israelitas achavam que eram livres e que nunca foram servos de ninguém, simplesmente, por serem descendentes da carne de Abraão e, por isso, sempre diziam: temos por Pai a Abraão, quando procuravam demonstrar que eram salvos (Mt 3:9; Jo 8:39).

O fruto dos lábios dos judeus não era um fruto bom, pois não admitiam o que foi evidenciado pelo profeta Isaias:

“Ó SENHOR Deus nosso, já outros senhores têm tido domínio sobre nós; porém, por ti só, nos lembramos de teu nome” (Is 26:13).

O fruto de um homem pode ser bom ou mal e, respectivamente, nascer de um coração bom ou mal e do fruto dos lábios, torna-se farto o seu ventre. Fruto na Bíblia diz do que procede do coração e é pronunciado pelos lábios, por isso é dito que a boca fala do que o coração está cheio.

“Do fruto da boca de cada um se fartará o seu ventre; dos renovos dos seus lábios ficará satisfeito” (Pv 18:20).

O fruto dos lábios de um crente em Cristo é segundo a verdade do evangelho: admitir que Jesus é o Cristo (Hb 13:15). O fruto dos lábios de um homem mal jamais admitirá verdades como: Jesus veio em carne, Jesus é o Filho de Deus, Jesus é o Filho de Davi, etc.

Quando Jesus disse que os judeus precisavam permanecer em Seu ensino para conhecerem a verdade e serem livres, o fruto bom seria admitir: Mestre, ‘outros senhores têm tido domínio sobre nós’, mas como disseram: ‘nunca fomos escravos de ninguém’, professaram uma mentira segundo o coração maligno que herdaram, portanto, eram escravos do pecado.

“Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado” (Jo 8:34).

Um coração sujeito ao pecado é altivo, ou seja, jamais admite que é escravo. Todo homem é mentiroso, desde que nasce, inclusive os descendentes da carne de Abraão (Rm 3:4), por isso, precisavam morrer (circuncisão do coração) e nascer de novo da palavra de Deus.

Diferentemente do que o Dr. Shedd disse, a consequência do pecado é alienação de Deus e não o sentimento de culpa. O sentimento de culpa que aflorou em Adão, não alterou a sua comunhão com Deus, mas, sim, a sua desobediência. A culpa, como sentimento de que algo deu errado, ou para tentar fugir à responsabilidade, faz parte da natureza humana, mas a culpa não tem poder de alterar a relação do homem com Deus.

O poder que atuou sobre o homem e alterou a sua condição, diz da força da lei, que dizia: ‘certamente morreras’, não o sentimento de Adão de que estava com medo de um castigo. A lei que estabelecia a morte como punição à desobediência tornou-se a força do pecado, por isso o apóstolo Paulo apresenta a morte como aguilhão “Ora, o aguilhão da morte é o pecado e a força do pecado é a lei” (1 Co 15:56).

Uma árvore que procede de uma semente má, também é má, quer seja grande ou, pequena. O fruto da árvore má será sempre mau, não importando as boas ou, más ações, que vier a praticar. Daí o veredicto:

“E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo” (Mt 3:10).

Esse ensinamento de João Batista, também, foi dado por Cristo, nas seguintes palavras:

“Ele, porém, respondendo, disse: Toda a planta que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” (Mt 15:13).

Devemos ter em mente que as boas e as más ações dos homens, somente aproveitam ou, prejudicam aos seus semelhantes, portanto, não alteram a condição do homem diante de Deus:

“Se pecares, que efetuarás contra ele? Se as tuas transgressões se multiplicarem, que lhe farás? Se fores justo, que lhe darás ou, que receberá ele da tua mão? A tua impiedade faria mal a outro tal como tu; e a tua justiça aproveitaria ao filho do homem” (Jó 35:6-8).

A mudança da natureza do homem somente ocorre quando nasce de novo, de uma semente incorruptível, a palavra de Deus, que concede ao homem uma nova natureza: a divina, quando, portanto, torna-se santo, justo e bom!

“Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que, por elas, fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo” (1 Pe 1:4).

Todas as crianças que vem ao mundo têm a oportunidade de serem regradas moralmente ou, se tornarem transviadas, dependendo, em muito, do meio em que ela está inserida. Todas podem seguir uma boa vida moral e possuir bons costumes, como, também, podem se desviar da boa moral e dos bons costumes.

Segundo a concepção humana, uma pessoa moralmente correta segue um bom caminho e uma pessoa imoral segue o mau caminho, porém, não é essa realidade que a Bíblia revela, pois ela ensina que todos os homens que vem ao mundo entram por Adão (porta larga) e seguem por um caminho largo que conduz à perdição, independentemente de suas práticas e hábitos.

O caminho que conduz o homem à perdição não é sinuoso e nem tortuoso, antes largo. Moralmente, o homem pode seguir caminhos tortuosos ou retos, entretanto, o caminho da boa ou má moral não diz do caminho que conduz à perdição.

‘Uma pessoa moralmente correta que frequentou um ambiente onde havia objeção contra mentir, linguagem obscena, comentários desnecessários e prejudiciais, usar o nome de Deus em vão, etc.’, percorre o mesmo caminho de perdição de alguém que não foi criado em um ambiente que não havia objeção alguma com relação a certas práticas perniciosas. Tanto moralmente corretos, quanto incorretos, percorrem o caminho da perdição, pelo fato de terem acessado o mundo, através da porta larga, que é Adão.

Vale destacar que nenhuma criança vem ao mundo com um princípio ou tendência de seguir o que é moralmente errado e pernicioso. Todos os recém-nascidos são como ‘tábuas rasas’. Todas são como folhas em branco, na qual, pela convivência, são incutidos conhecimentos e desejos. É por isso que devem ser instruídos no caminho que devem andar, para não se desviarem, quando crescerem.

No entanto, mesmo essas ‘tabuas rasas’ são pecadoras, assim como um adulto permanece pecador, enquanto dorme. O pecador não deixa de ser pecador enquanto dorme, pois o pecado é uma questão de natureza alienada de Deus e não deriva do comportamento.

O pensamento de que, no coração de uma criança, já estão ‘plantadas sementes de todo tipo de pecado’[3] é equivocado, visto que, na verdade, a criança está no pecado e, não o pecado, como uma semente, está latente no coração da criança.

A criança deriva de uma semente corruptível que a introduziu no mundo, toda em pecado, pecado esse que não possui relação com o bem ou com o mal que ela vier a praticar. A criança é pecadora, em razão de ter estado na coxa do primeiro homem que pecou, e não porque foi introduzida uma semente que a levará à prática de coisas inconvenientes.

É em função de o homem estar no pecado que é necessário que o corpo do pecado seja desfeito, o que ocorre quando o homem morre com Cristo. Deus não extrai uma semente do pecado do coração do homem, antes, através da circuncisão do coração, toda a carne do pecado é despojada (lançada fora) (Rm 6:6; Cl 2:11).

Davi confessou que foi formado em iniquidade e concebido em pecado (Sl 51:5), o que demonstra que Ele nasceu sob o domínio do pecado e não que, em seu coração, foi colocado uma ‘semente de pecados’. Davi nasceu todo no pecado: corpo, alma e espírito, de modo que Ele apela a Deus que lhe dê um novo coração e um novo espírito (novo nascimento).

Se o pecado fosse um princípio ou, uma semente, bastava extirpar a semente ou a árvore do pecado que floresceu no coração do homem, entretanto, vemos que é necessário que o próprio coração que teve origem da semente de Adão, seja trocado por um novo coração, segundo o poder de Deus, pois o machado é posto à raiz das árvores, vez que o homem está no pecado e não o pecado no homem.

“Cria (Bara – cf. hb) em mim, ó Deus, um coração puro e renova em mim um espírito reto” (Sl 51:10)

O erro em entender que no coração das crianças o pecado é como semente, decorre do erro de entender que Cristo leva ‘os pecados do pecador para a cruz’, como se o pecado fosse um fardo. Na verdade, o homem está no pecado e o pecado nele, de modo que Jesus não leva ‘os pecados do pecador’[4], antes convida os homens que o sigam até a cruz, para que sejam crucificados, mortos, sepultados e possam ressurgir (Mt 10:38; Rm 6:6; Cl 2:12).

Do homem é dito que é pecador porque, pela ofensa de Adão, a humanidade ‘pecou’. A humanidade pecou, assim como é dito que um fruto impróprio para o consumo ou, aquém dos padrões de qualidade, ‘pecou’, ou seja, a humanidade tornou-se imprópria para a glória de Deus.

“Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3:23).

Quando é dito que todos ‘pecaram’, não significa que todos fizeram coisas inconvenientes, do ponto de vista moral, para serem pecadores, antes, que, na madre ocorreu um erro. Desde a madre, os homens se desviam (alienam) de Deus e o fruto dos lábios é mau (falando mentiras), pois, procede de um coração mentiroso (Sl 58:3).

Todos vêm ao mundo sob o domínio do pecado e estão entregues aos seus desejos, guiados pela concupiscência dos olhos e pela soberba da vida, mas essas questões não são, propriamente, o pecado, antes os desejos, as concupiscências e a soberba são uma nevoa (entenebrecidos) que impede as pessoas de enxergarem a luz da verdade do evangelho (Ef 4:18).

Um monge que vive uma vida de ascetismo e não pratica as mesmas ações desregradas dos demais homens, na tentativa de se aproximar de Deus, é soberbo, nada sabe. Do mesmo modo que os demais homens, um monge está entregue aos seus próprios desejos e é guiado pela soberba da vida e pela concupiscência dos olhos. Um religioso que vive de práticas caridosas, de cuidado para com o semelhante, que fez voto de castidade, etc., está em igual condição que os demais homens pecadores.

 

Reforma

A teologia reformada introduziu o conceito da ‘depravação total’, para falar da natureza do homem caído, mas, tal nomenclatura, decorre de uma má leitura do que é o pecado.

Os reformadores seguiram a concepção de que o ser humano só é pecador, por ser ‘moralmente responsável’, quando formularam o conceito de depravação[5], para se referirem à corrupção e à degradação moral do homem.

Por fim, construíram o conceito de ‘depravação total’[6], de que o homem está moralmente ou, espiritualmente morto, ou que o homem natural é como um corpo morto moral e espiritualmente. Para os da reforma, a natureza da escravidão do pecado é moral e espiritual, ou seja, o homem é moralmente e espiritualmente escravo do pecado[7].

Quando apresenta o homem como pecador, a Bíblia não trata de questões de ordem moral e nem se é, moralmente, responsável. Quando a Bíblia diz que o homem é mau ou, mentiroso, não está apontando para questões de ordem moral, antes distingue a natureza de quem é mal, no sentido de vil, baixo, ralé, em contrate com aquele que é bom, luz e verdade por questões e impedimentos que vem de berço (Rm 3:4).

Quando Adão comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, instantaneamente, tornou-se pecador. O que isso significa? Que de imediato ergueu-se uma barreira de separação, e aquele que era santo, justo e bom, passou à condição de imundo, ímpio e mau.

Independentemente da moral e dos costumes que Adão iria aprender ou adotar, no instante após comer do fruto, já estava separado d’Aquele que é a vida, portanto, passou à condição de morto para Deus e vivo para o seu vil senhor, o pecado. Após desobedecer, Adão foi imediatamente responsabilizado pela ofensa, e o que o vinculou ao pecado foi a morte (alienação), e não a moral.

Quando a Bíblia apresenta o homem como mau, não diz da sua moral, mas da sua condição de alienado daquele que é bom. Qualquer boa ação que o homem pratique na intenção de alcançar a Deus é inócua, pois, por mais que alguém da ralé se proponha a viver como alguém da nobreza, jamais mudará a sua condição. Ao vender-se ao pecado como escravo, Adão deixou de ser participante da natureza divina e passou a uma nova condição: inferior.

A Bíblia não diz que o homem está ‘moralmente’[8]morto, como apregoa a teologia reformada, antes que está separado (morto) para Deus. A natureza da morte não é moral, mas, sim, uma barreira que impede a comunhão entre as partes.

A barreira de separação não é segundo a moral, porque Jesus não veio salvar o homem de questões de cunho moral, mas, antes, veio para conceder comunhão com o Criador, removendo a parede de separação que há entre Deus e os homens: o pecado. O evangelho não visa resgatar o caráter ou a moral da humanidade, mas, sim, tirar a barreira de separação (tirar o pecado do mundo), transportando o homem das trevas para o reino do Filho do seu amor.

Questões morais são barreiras comportamentais que os homens erguem entre si e que proporcionam uma melhor vivência entre si. Entraves morais entre os homens não diz da barreira do pecado erguida entre Deus e os homens.

 

Alerta

Os pais cristãos devem compreender que os infantes são pecadores e que podem ser regenerados por meio da fé (evangelho), crendo em Cristo Jesus.

O erro que acometeu os filhos de Abraão, de presumirem de si mesmos que eram filhos de Deus, por terem por pai a Abraão, aquele a quem a promessa foi feita, é o mesmo erro que ronda muitos pais cristãos que pensam que os seus filhos são salvos pelo fato de serem filhos de pais cristãos.

A promessa que Deus fez a Abraão não foi aos seus descendentes segundo a carne, mas ao Seu Descendente, que é Cristo. De igual modo, a promessa de Deus no seu Descendente, que é Cristo, é para todos quantos crerem no evangelho,  não aos que descenderem da carne de quem crê.

Um pai cristão deve ter em mente que o pecado foi introduzido no mundo por Adão e a graça em Cristo, através do último Adão. Igualmente, precisa compreender que, para ser pecador, basta ter entrado no mundo e que para ser salvo, é necessário nascer de novo, crendo em Cristo através da semente incorruptível, que é a palavra de Deus.

O crente em Cristo deve saber que uma criança não é potencialmente pecadora porque está propensa a cometer erros no futuro, antes é pecadora porque veio ao mundo na condição de escrava do pecado, pelo fato de Adão, ao desobedecer a Deus, ter se vendido ao pecado como escravo.

O crente em Cristo deve entender que tem dupla e árdua missão:

a) instruir os seus filhos acerca da verdade do evangelho, para que sejam salvos da condenação estabelecida em Adão, e;

b) instruí-los quanto ao bom porte em sociedade, evidenciando que a sociedade não é misericordiosa quando pune os transgressores.

Quando lemos a mensagem do apóstolo Paulo: “E eles disseram: Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa” (At 16:31), certo é que a salvação está em crer em Cristo. Mas, para que os descendentes do carcereiro (casa) fossem salvos, também precisaram crer e, por isso, o apóstolo pregou o evangelho a todos da casa do carcereiro:

“E lhe pregavam a palavra do Senhor, e a todos os que estavam em sua casa. E, tomando-os ele consigo naquela mesma hora da noite, lavou-lhes os vergões; e logo foi batizado, ele e todos os seus. E, levando-os à sua casa, lhes pôs a mesa; e, na sua crença em Deus, alegrou-se com toda a sua casa” (At 16:32-34).

Se só bastasse ao carcereiro crer e a sua casa inteira seria salva, não seria necessário pregar a palavra a todos que estavam na sua casa para que o carcereiro e todos os seus familiares fossem batizados.

Por isso é dito:

“O qual te dirá palavras, com que te salves, tu e toda a tua casa” (At 11:14).

Outro ponto a se destacar, está na passagem em que Jesus fica indignado ao ver os seus discípulos proibindo as pessoas de trazerem as crianças para tocarem nele, quando disse:

“Deixai vir os meninos a mim e não os impeçais; porque dos tais é o reino de Deus” (Mc 10:14).

Os discípulos foram repreendidos para que deixassem as criancinhas se achegarem a Cristo e Ele dá o motivo: ‘porque dos tais é o reino de Deus’. Ora, o reino de Deus, que é Cristo, é de todos quantos atendem ao convite: “Vinde a mim…”, não importando, se infantes ou, se adultos. Jesus pontuou aos seus discípulos a necessidade das crianças se achegarem a Ele, pois, das que vão a Ele, pertence o reino dos céus.

Jesus não afirmou que o reino dos céus pertence a todas as crianças, pelo fato de serem crianças, antes, que o reino pertence às crianças que vão a Ele: “dos tais”[9]. Por que o reino dos céus é das crianças que vão a Cristo? Porque elas também podem produzir o perfeito louvor, que é confessar que Jesus é o Cristo: – Hosana ao Filho de Davi! (Mt 21:15).

Portanto, todas as crianças precisam ser evangelizadas, pois, só através do mandamento contido no evangelho, que elas podem se precaver do mal que herdaram ao entrar no mundo, se escondendo em Cristo, caso contrário, sofrerão as consequências da ofensa de Adão.

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto

 


[1]“É assim que aprendemos a pecar: linguagem obscena, comentários desnecessários prejudiciais, usar o nome de Deus em vão, tornam-se hábitos pela prática dentro de um ambiente onde ninguém cria objeção alguma” Sheed, Russell P., Lei, Graça e Santificação, 2ª Ed., editora Vida Nova, pág. 99 (grifo nosso).

[2] “A consequência do pecado inevitavelmente é a culpa, aquele sentimento ruim de ter errado, de ter fugido de nossa responsabilidade. É um pressentimento de castigo merecido, de uma dívida que terá que ser paga”. Sheed, Russell P., Psicologia, pecado e culpa Consulta realizada em 30/12/16.

[3]Sinclair B. Ferguson, ao escrever sobre a condição dos infantes, citou Robert Murray McCheyne, de que os infantes, ‘mesmo nessa idade, a semente de todo tipo de pecado já está plantada em seus corações’. Sinclair B. Ferguson , Inocentes Pequeninos, Revista Os Puritanos, pág.  24 <https://issuu.com/heraldoa/docs/revista_03-2010_-_vergonha_do_pecado>.

[4]“… que levou os pecados desse pecado para cruz…” Bíblia de Scofield, com referências, nota de rodapé, pág. 1147.

[5] “Depravação é uma palavra que descreve o estado ou disposição do homem, considerado um ser moral. Ser moral é alguém responsável diante de Deus por seus pensamentos, fala e conduta. Depravação significa a corrupção moral da natureza humana. Refere-se ao estado de pecaminosidade natural do não regenerado” Cole, C. D., Definição de doutrina – Volume II,  As Doutrinas do Pecado, da Salvação e do Serviço. Capítulo 3: Depravação – total, universal e inerente.

[6] “A depravação total significa que o homem, como resultado do pecado original, está morto moral ou espiritualmente. E morto, como adjetivo, não admite comparação. Não há grau de morte; mas há grau na morte. Diante de nós está um morto. Há um dia que está morto. Ele está morto totalmente em todas as partes físicas. Eis outro morto. Ele está morto há uma semana. Ele não está mais morto do que o outro, mas o corpo se encontra em uma condição pior. A Bíblia apresenta o homem natural como um corpo morto moral ou espiritual” Cole, C. D., Definição de doutrina – Volume II,  As Doutrinas do Pecado, da Salvação e do Serviço. Capítulo 3: Depravação – total, universal e inerente.

[7]“Se temos dificuldade aqui, pode ser porque falhamos em entender a natureza da escravidão do pecador. Ela é uma escravidão moral e espiritual, não uma escravidão metafísica, física ou psicológica. Se, como em minha ilustração da máquina-robótica, alguém é fisicamente forçado a fazer algo que ele não deseje fazer, então, certamente, sua escravidão remove sua responsabilidade pelo ato. Confrontada com o seu “feito”, a pessoa teria uma escusa válida: “Eu não pude evitar; eu fui fisicamente forçado a fazê-lo”. Mas, imagine alguém vindo diante de um juiz humano e dizendo, para se escusar de um crime, “Eu não pude evitar, meritíssimo; eu fui forçado a fazê-lo por minha natureza. Desde o nascimento tenho sido um garoto extremamente perverso!”. Certamente há algo irônico sobre apelar à depravação para escusar atos depravados! Se o nosso acusado é realmente um “garoto extremamente perverso”, então, longe de ser uma escusa, isso é mais uma razão para prendê-lo! Meu ponto, então, é que, embora a escravidão física (e outros tipos de escravidão) possa fornecer escusas válidas para ações contrariamente más, a escravidão moral não é uma escusa. Eu não posso imaginar alguém disputando essa proposição, uma vez que ele a entenda (…) A incapacidade do pecado é moral e espiritual; deveras, como temos visto, é uma incapacidade da qual ele mesmo é responsável.” Frame, John,Livre-Arbítrio e Responsabilidade Moral, artigo disponível na web; Grifo nosso. <http://www.monergismo.com/textos/livre_arbitrio/livre_responsabilidade_frame.htm> consulta realizada em 07/01/2017.

[8] “Moral refere-se ao conjunto de regras, padrões e normas adquiridos em uma sociedade por meio da cultura, educação, cotidiano e costumes adquiridos no âmbito social e familiar”, Wikipédia.

[9] “5108 τοιουτοςtoioutos (inclui as outras inflexões) de 5104 e 3778; adj” Dicionário Bíblico Strong.

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Deus olha para você através de Cristo?

Deus é santo! Esta verdade é apresentada em várias passagens bíblicas. Deus é santo e imutável, ou seja, quer os homens acreditem ou não, Deus é santo. Quer bendigam a santidade de Deus ou não, Ele permanecerá Santo pela eternidade.


Para enaltecer a santidade de Deus muitos pregadores ensinam que, para não ver o pecado, Deus olha para o crente através de Cristo. Argumentam que, apesar de crer em Cristo, o crente ainda é pecador.

Escritores renomados corroboram este pensamento e, dentre eles, destaco esta frase:

“Não entenda isto mal. O significado, não é que haja algo que cobre os nossos pecados ao ponto que Deus não os vê. Não é o caso de que eles realmente estão lá mas Deus não os vê porque eles estão encobertos. Coberto nem mesmo significa que os pecados de alguém estão escondidos sob Cristo, como se costuma dizer. O facto é que Deus olha através de Cristo” Fonte: Righteous by Faith Alone, Herman Hoeksema, Reformed Free Publishing Association, capítulo 21 (grifo nosso). Consulta realizada em 04/01/2012.

Analisando a asserção: “O facto é que Deus olha através de Cristo” à luz das Sagradas Escrituras, verifica-se que Hoeksema procurou evidenciar o mérito da obra de Cristo, contrastando-a com o demérito da condição do homem diante de Deus.

A premissa construída para evidenciar a santidade de Deus, afirmando que Deus é tão santo que, para olhar para o crente, precisa olhar através de Cristo para não ver pecado, carece de ser considerada à luz das Escrituras.

É bíblico este posicionamento? Quando olha através de Cristo Deus não vê pecado no crente porque eles estão encobertos?

Para responder esta pergunta, utilizaremos como ponto de partida uma pergunta do apóstolo Paulo aos cristãos de Corintos: “Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” ( 1Co 3:16 ).

A verdade de que os cristãos são templos de Deus era tão evidente para o apóstolo dos gentios que a pergunta aos Corintos é uma reprimenda!

Está é uma verdade que permeia todo o Novo Testamento:

  • “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pd 2:5 );
  • “Mas Cristo, como Filho, sobre a sua própria casa; a qual casa somos nós, se tão somente conservarmos firme a confiança e a glória da esperança até ao fim” ( Hb 3:6 );
  • “E que consenso tem o templo de Deus com os ídolos? Porque vós sois o templo do Deus vivente, como Deus disse: Neles habitarei, e entre eles andarei; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo” ( 2Co 6:16 );
  • “Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é santo” ( 1Co 3:17 );
  • “No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito” ( Ef 2:22 ).

Verdade que deriva das promessas feitas no Antigo Testamento:

  • “Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade, e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e para vivificar o coração dos contritos” ( Is 57:15 );
  • “Não me lances fora da tua presença, e não retires de mim o teu Espírito Santo” ( Sl 51:11 );
  • “E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis” ( Ez 36:27 ).

Se para olhar para aquele que creu no evangelho é necessário Deus olhar através de Cristo, o que é necessário para que Deus venha habitar o crente? O que é mais profundo: ‘olhar’ ou ‘habitar’ o crente?

Em que a santidade de Deus não é maculada se Ele olhar através de Cristo para contemplar o crente, se na verdade, em primeira instância Ele habita o crente? “Jesus respondeu, e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada ( Jo 14:23 ).

Como conciliar o argumento de que, para não contemplar o pecado no crente Deus necessita olhar através de Cristo, se não há nenhum obstes na bíblia com relação ao crente ser templo, morada de Deus.

Se aceitarmos a tese de Hoeksema que Deus olha para o crente através de Cristo apesar de haver pecado no crente, Cristo torna-se uma espécie de lente, prisma, etc., que possibilita Deus, que é santo, olhar para o crente; a lente cria uma ilusão de ótica de modo que Deus passa a contemplar o crente sem ver o pecado e, ao mesmo tempo Deus se guia pelo que passou a enxergar através de Cristo e ignora o fato de haver pecado no crente; no entanto, apesar do pecado, Deus habita o crente. Seria isto possível?

Existe também o testemunho de Deus de que Ele não habita em templo feito por mãos humanas ( At 17:24 ), e por isso mesmo, Se propôs construir o seu templo para habitá-lo através do seu próprio braço (Cristo) ( Ef 2:22 ; 1Pe 2:5 ; Hb 3:4 -6 ), no entanto, Hoeksema afirma que Deus vê pecado no templo que Ele mesmo está construindo e, que só é possível olhar o seu próprio templo através de Cristo?

“No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito” ( Ef 2:22 )

O crente é templo de Deus, ou não é? Há pecado no crente, ou não há? O templo de Deus é santo, ou não é?

Deus exige do homem que o seu falar seja segundo a verdade, pois o que passa da verdade é de procedência maligna “Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque o que passa disto é de procedência maligna” ( Mt 5:37 ).

Deus pode deixar de ver o pecado onde há pecado coberto? Haveria alguma coisa encoberta aos olhos de Deus? “E …antes todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar”  (Hebreus 4 : 13)

O apóstolo Paulo demonstra que efetivamente o templo de Deus, que são os cristãos, é santo: “Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é santo” ( 1Co 3:17 ). Ora, o templo de Deus é santo, portanto não pode haver no templo, que pertence e está sendo construído por Deus, pecado. Por fim, o templo de Deus que é santo diz dos crentes: ‘o templo de Deus, que sós vós, é santo’!

Neste mesmo sentido alertou o apóstolo: “Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?” ( 1Co 6:19 ).

Não podemos esquecer que, cada cristão individualmente é membro uns dos outros, porém, apesar de haver muitos cristãos, todos são um só corpo em Cristo “Assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros” ( Rm 12:5 ).

Considerando que Cristo é santo e é a cabeça do seu corpo, segue-se que o corpo de Cristo, que é a igreja, por sua vez, também é santo. É inconcebível um corpo ter condição diversa da condição da cabeça, ou seja, a cabeça ser santa e o corpo imundo, pois deste modo não haveria unidade “E estais perfeitos nele, que é a cabeça de todo o principado e potestade” ( Cl 2:10 ); “Para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível” ( Ef 5:27 ).

Cristo é a pedra angular preciosa que Deus estabeleceu como fundamento da igreja, e o templo é edificado por Deus com pedras vivas, ou seja, os cristãos Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pd 2:5 ); “Porque toda a casa é edificada por alguém, mas o que edificou todas as coisas é Deus” ( Hb 3:4 ).

Mas, alguém pode protestar dizendo: nesta passagem o apóstolo Paulo está falando do corpo místico, e não de cada crente em particular. Ora, só há o corpo místico se considerarmos que cada cristão em particular é um só pão em Cristo. O templo santo só é erguido porque há um fundamento posto, que é Cristo, a pedra eleita e preciosa, e igualmente cada cristão é uma pedra viva “Do qual todo o corpo, bem ajustado, e ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, faz o aumento do corpo, para sua edificação em amor” ( Ef 4:16 ); “Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão” ( 1Co 10:17 )

Antes de ser crucificado, Cristo rogou por sua igreja dizendo: “E eu já não estou mais no mundo, mas eles estão no mundo, e eu vou para ti. Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um, assim como nós ( Jo 17:11 ); Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” ( Jo 17:21 ); “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um ( Jo 17:22 ).

Há unidade entre Cristo, o Pai e a igreja, e esta unidade não é somente de ‘olhar através de Cristo’, antes é unidade derivada de comunhão íntima em virtude de Cristo ter concedido aos que creem n’Ele a mesma glória que Deus deu a Cristo. Jesus concedeu a mesma glória que foi dada pelo Pai aos que creram para que os cristãos sejam um, como o Pai e o Filho são um. A unidade do Pai, o Filho e os cristãos diz de comunhão intima: “Porque somos membros do seu corpo, da sua carne, e dos seus ossos ( Ef 5:30 ); “Ora, vós sois o corpo de Cristo, e seus membros em particular” ( 1Co 12:27 ).

Não há nenhuma comunhão entre a Luz e as trevas, pois Jesus disse: “Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas” ( 1Jo 1:5 ). Deus é luz e qualquer que está em Cristo, está em Deus e Deus está nele “Qualquer que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele, e ele em Deus ( 1Jo 4:15 ).

Confessar, admitir que Jesus é o Filho de Deus segundo as Escrituras, significa ter comunhão, adentrar na Luz que não tem trevas nenhuma, e que a Luz que não tem trevas entrou nele. Ora, se aquele que crê em Cristo está em Deus, segue-se que não há trevas nenhuma nele, pois se houvesse, seria impedido de estar em Deus, pois não há comunhão entre a Luz e as trevas.

A promessa de Deus é perfeita: qualquer que guarda a sua palavra, o amor de Deus está aperfeiçoado verdadeiramente nele. Qual é a palavra a ser guardada, obedecida? A palavra, o mandamento a ser obedecido é: crer em Cristo como o Filho do Deus vivo, assim como diversas pessoas confessaram nas Escrituras “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento. E aquele que guarda os seus mandamentos nele está, e ele nele. E nisto conhecemos que ele está em nós, pelo Espírito que nos tem dado” ( 1Jo 3:23 -24; Jo 6:69 ; Jo 11:27 ; Mt 16:16 ).

Qualquer que creu em Cristo obedeceu ao mandamento de Deus e passou a estar em Deus: “Mas qualquer que guarda a sua palavra, o amor de Deus está nele verdadeiramente aperfeiçoado; nisto conhecemos que estamos nele ( 1Jo 2:5 ); “Nisto conhecemos que estamos nele, e ele em nós, pois que nos deu do seu Espírito” ( 1Jo 4:13 ).

Ao crer, o homem passa a pertencer a Deus “Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus” ( 1Co 6:20 ); “Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção” ( 1Co 1:30 ).

Aquele que está em Cristo é uma nova criatura “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ). Ora, se o crente está em Cristo é nova criatura, de modo que Cristo também está no crente “Examinai-vos a vós mesmos, se permaneceis na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não sabeis quanto a vós mesmos, que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados” ( 2Co 13:5 ).

Sendo o crente uma nova criatura, está em Cristo, e se está em Cristo, consequentemente, está em Deus “E sabemos que já o Filho de Deus é vindo, e nos deu entendimento para conhecermos o que é verdadeiro; e no que é verdadeiro estamos, isto é, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna” ( 1Jo 5:20 ).

Para estar em Deus através de Cristo, foi necessário Deus fazer tudo novo, de modo que, sem Cristo o homem é trevas, mas ao crer, o cristão torna-se luz no Senhor “Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no SENHOR; andai como filhos da luz” ( Ef 5:8 ); “Porque todos vós sois filhos da luz e filhos do dia; nós não somos da noite nem das trevas” ( 1Ts 5:5 ); “Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte” ( Mt 5:14 ).

Deus não só tirou aqueles que creram da potestade das trevas e os transportou para o reino de Cristo, Ele também os fez luz “O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” ( Cl 1:13 ).

Ao crer o cristão recebeu poder para ser feito filho de Deus ( Jo 1:12 ), portanto, é filho da luz. E se é filho da luz, agora é luz. Deus é a verdade, e se o crente esta em Cristo, que é a verdade, é verdadeiramente livre, pois tem comunhão com a verdade! Conheceu a verdade! “Jesus dizia, pois, aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos; E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” ( Jo 8:31 -32); “Portanto, o que desde o princípio ouvistes permaneça em vós. Se em vós permanecer o que desde o princípio ouvistes, também permanecereis no Filho e no Pai” ( 1Jo 2:24 ).

Permanecer na palavra de Cristo é fazer a vontade de Deus, e aquele que crê na palavra do Evangelho permanece para sempre “E o mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre” ( 1Jo 2:17 ); “Mas a palavra do SENHOR permanece para sempre. E esta é a palavra que entre vós foi evangelizada” ( 1Pd 1:25 ); “Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” ( Jo 20:31 ); “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ).

O apóstolo João demonstra que os que creem em Cristo conhecem a Deus e Deus está nele “Ninguém jamais viu a Deus; se nos amamos uns aos outros, Deus está em nós, e em nós é perfeito o seu amor” ( 1Jo 4:12 ). Por ter dado da sua palavra (espírito) aos que creem é possível saber que todos quantos creem estão em Deus e Deus neles “Nisto conhecemos que estamos nele, e ele em nós, pois que nos deu do seu Espírito” ( 1Jo 4:13 ).

Cristo é o amor de Deus demonstrado ao mundo, e quem está no amor de Deus está em Deus e Deus nele “E vimos, e testificamos que o Pai enviou seu Filho para Salvador do mundo. Qualquer que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele, e ele em Deus. E nós conhecemos, e cremos no amor que Deus nos tem. Deus é amor; e quem está em amor está em Deus, e Deus nele ( 1Jo 4:14- 16).

E o mais importante: Qual Cristo é, o cristão o é igualmente neste mundo “Nisto é perfeito o amor para conosco, para que no dia do juízo tenhamos confiança; porque, qual ele é, somos nós também neste mundo ( 1Jo 4:17 ). Assim como os filhos de Adão são como o primeiro homem, de igual modo, os filhos de Deus são tal qual o último Adão: homens espirituais “Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais também os celestiais ( 1Co 15:48 ).

  • Jesus é o Filho de Deus, os que creem são filhos de Deus ( 1Jo 3:1- 2; Gl 3:26 );
  • Jesus é luz, os que creem são luz no Senhor ( Ef 5:8 );
  • Jesus é pedra viva, os cristãos são pedras vivas ( 1Pd 2:5 );
  • Jesus é o fundamento dos apóstolos e dos profetas, os cristãos são edificados casa espiritual sobre o fundamento de Deus que é firme ( Ef 2:20 -22);
  • Jesus é o pão que dá vida ao mundo, os cristãos são pão ( 1Co 10:17 );
  • Jesus é o sumo sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque, os que creem exercem sacerdócio real ( 1Pd 2:9 );
  • Jesus assentou-se a destra do Pai nas alturas, os cristãos estão assentados nas regiões celestiais ( Ef 13 e 2:6 ).

Os cristãos foram gerados de novo através da ressurreição de Jesus ( 1Pd 1:3 ; Cl 2:12 -13 ; Cl 3:1 ). Foram gerados de uma semente incorruptível ( 1Pd 1:23 ), e são participantes da natureza divina ( 2Pd 1:4 ; Cl 2:10 ).

Ora, após tudo o que Deus realizou naqueles que creem, sendo certo que Cristo foi manifesto como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo ( Jo 1:29 ), como é possível haver pecado no crente, se o crente está em Cristo? Como é possível haver pecado no crente se o crente é nova criatura? Se em Cristo não há pecado, como um pecador pode estar em Cristo? “E bem sabeis que ele se manifestou para tirar os nossos pecados; e nele não há pecado ( 1Jo 3:5).

Em Cristo não há pecado, assim como em Deus não há trevas nenhumas, portanto, qualquer que está em Cristo é luz e não tem pecado algum. Deste modo, Deus conhece o crente ( Gl 4:9 ), pois habita no crente. O termo ‘conhecer’ não é saber acerca de, ou ver através de Cristo, antes significa comunhão intima, um só corpo.

 

‘Santo’ versus ‘imundo’

“E que comunhão tem a luz com as trevas?” ( 2Co 6:14 )

Deus é santo! Esta verdade é apresentada em várias passagens bíblicas. Deus é santo e imutável, ou seja, quer os homens acreditem ou não, Deus é santo. Quer bendigam a santidade de Deus ou não, Ele permanecerá Santo pela eternidade.

As Escrituras também demonstram que o Santo não tem comunhão com o imundo. – “Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas” ( 1Jo 1:5 ), está foi uma asserção que o evangelista João ouviu de Jesus e anunciou aos cristãos. Não há comunhão entre a Luz e as trevas, portanto, na luz não pode haver sequer uma mínima sombra!

O que faz separação entre o Santo e o imundo, entre a Luz e as trevas?

Deus disse ao povo de Israel: “Mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça” ( Is 59:2 ). O pecado é o que faz divisão entre os homens e Deus, de modo que toda a humanidade estava alienada de Deus, pois todos pecaram “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” ( Rm 3:23 ).

Apesar de o povo de Israel pensar que havia alguma diferença entre gentios e judeus, que os judeus eram salvos por serem descendentes da carne de Abraão e o gentios não, o protesto do profeta Isaias foi direcionado aos judeus: “Mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça” ( Is 59:2 ).

Em virtude da acusação das Escrituras que pesava contra os judeus é que o apóstolo Paulo argumenta: ‘porque não há diferença’ ( Rm 3:22 ), pois tudo o que a lei diz, diz aos que receberam a lei e estavam debaixo da lei, ou seja, aos judeus. Deste modo, todo o mundo é condenável diante de Deus: judeus e gentios “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus. Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado” ( Rm 3:19 -20).

Tudo o que o apóstolo Paulo escreveu contra os judeus foi segundo as Escrituras, conforme se lê: “Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só. A sua garganta é um sepulcro aberto; Com as suas línguas tratam enganosamente; Peçonha de áspides está debaixo de seus lábios; Cuja boca está cheia de maldição e amargura. Os seus pés são ligeiros para derramar sangue. Em seus caminhos há destruição e miséria; E não conheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos” ( Rm 3:10 -18).

Mas, tanto judeus quanto gentios se tornaram imundos? Quando foi que isto ocorreu? Ora, toda a humanidade tornou-se imunda e alienada de Deus em um único evento: a ofensa de Adão no Éden. Quando Adão pecou, todos pecaram. Quando Adão recebeu a pena, todos foram apenados com a morte, ou seja, com a alienação de Deus “Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram” ( Rm 5:12 ).

Certa feita os discípulos perguntaram a Jesus: – ‘Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?’ ( Jo 9:2 ). Jesus respondeu: – “Nem ele pecou nem seus pais” ( Jo 9:3 ). Ora, com relação a cegueira, o cego nasceu cego para que as obras de Deus fossem manifestas, porém, a pergunta persiste: Quem pecou? Pois todos pecaram ( Rm 3:23 )!

Ora, há um só que pecou: Adão “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores…” ( Rm 5:19 ). Por causa da ofensa de Adão, todos se extraviaram. A ofensa de Adão trouxe maldição, morte, trevas, alienação, para todos os homens, mesmo que os homens não tenha transgredido a semelhança da transgressão de Adão “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão…” ( Rm 5:14 ).

O que o apóstolo Paulo disse com o verso acima? Que mesmo a humanidade não tendo comido do fruto do conhecimento do bem e do mal como Adão e Eva comeram lá no Éden, a morte passou a todos os seus descendentes: a humanidade, portanto, todos pecaram “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” ( Rm 3:23 ); “Porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo” ( 1Co 15:21 -22).

Isto significa que o homem é concebido e gerado em pecado, ou seja, que desde a ofensa do homem no Éden, a humanidade separou-se de Deus ( Sl 51:5 e Sl 58:3 ). Ora, o homem é pecador em função da sua geração. A geração do homem segundo Adão é má, e todos os seus descendentes são maus. Não importa se saiba dar boas dádivas aos seus semelhantes, todos os homens nascidos segundo a semente de Adão são maus, são trevas, vasos de desonra, plantas que o pai não plantou, alienados de Deus, mortos em delitos e pecados, etc.

Agora podemos responder a pergunta: O que faz separação entre o Santo e o imundo, entre a Luz e as trevas? Como a humanidade tornou-se imunda e separada de Deus?

A resposta está no Éden! Lá todos pecaram e foram destituídos de terem comunhão com Deus. Deus é luz e a humanidade passou a condição de trevas por dar ouvidos à serpente (criatura) e não ao Criador. Lá no Éden o homem separou-se de Deus, tornou-se morte, tornou-se imundo. Foi em função de uma única ofensa que toda a humanidade (juntamente) tornou-se imunda “Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um” ( Sl 53:3 ).

Quando desobedeceu ao Criador, Adão não somente se vendeu ao pecado, como também vendeu toda a sua descendência e, consequentemente, todos os descendentes de Adão são escravos do pecado. O pecado como senhor assalaria os seus servos com a morte, de modo que a humanidade é refém, cativa (aguilhão) do pecado por causa da morte “Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei” ( 1Co 15:56 ).

A força do pecado não advém do diabo, como muitos pensam, visto que o próprio diabo está retido sob o domínio do pecado. A força do pecado decorre da lei que disse: “De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:16 -17).

A palavra de Deus não volta vazia! Se Ele determinou, é irrevogável! Como o homem comeu da árvore do conhecimento do bem e do mal, às consequências vieram: a) alienação de Deus (morte), e; b) o conhecimento do bem e do mal (como Deus).

A separação de Deus (pecado) dos que não creem persiste por causa da lei que disse: certamente morrerás. Enquanto não crerem em Cristo para se conformarem com Cristo na sua morte, não tem acesso à maravilhosa graça que se dá na ressureição com Cristo ( Fl 3:10 ).

 

Remissão

“Ora, onde há remissão destes, não há mais oblação pelo pecado” ( Hb 10:18 )

Outro ponto das consequências do pecado esta na seguinte premissa: “A alma que pecar, esta mesma morrerᔓA alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai levará a iniquidade do filho. A justiça do justo ficará sobre ele e a impiedade do ímpio cairá sobre ele” ( Ez 18:20 ).

O salário do pecado é a morte! Não há como o pecador não receber o seu quinhão.

Mas, Cristo Jesus deu a si mesmo para remir o homem de toda a iniquidade, purificando um povo para si “O qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras” ( Tt 2:14 ); “Para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos” ( Gl 4:5 ).

Por causa do pecado da humanidade, Cristo Jesus apresentou-se como sacrifício a Deus e, através da sua carne, abriu-se um novo e vivo caminho que conduz os homens a Deus “Pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne” ( Hb 10:20 ).

Por ser uma exigência da justiça que a morte do pecador, quando crê em Cristo, o homem morre com Cristo, passa a ser participante da carne e do sangue de Cristo. Quando o pecador crê em Cristo, toma sobre si a sua própria cruz e segue após Cristo até o calvário, é crucificado com Cristo, morto e sepultado. Neste ato a justiça de Deus é vindicada, pois Ele é justo e a transgressão não passa da pessoa do transgressor.

Para abrir um novo e vivo caminho, Jesus morreu pelos pecadores, pois somente Ele podia remir os seus irmãos ( Hb 2:11 ). Ou seja, não é necessário aos que creem subirem em um madeiro e serem crucificados com pregos e sofrer as ignominias que Cristo sofreu na cruz.

Como é possível um homem morrer em lugar de todos os homens, se a pena jamais pode passar da pessoa do transgressor? Um homem desobedeceu, e em consequência, a geração deste homem foi destituída de Deus. Mas, Cristo Jesus foi obediente até a morte, e morte de cruz, de modo que ao ressurgir dentre os mortos a sua geração é aceita por Deus.

Quando Jesus morreu houve substituição de ato: obediência pela desobediência. Em lugar da desobediência do Éden, Jesus bradou: Está consumado! “E, quando Jesus tomou o vinagre, disse: Está consumado. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito” ( Jo 19:30 ).

Neste brado não foi expressa a ideia que muitos divulgam de que uma dívida foi paga, antes que Cristo cumpriu cabalmente o que o Pai determinou, ou seja, consumei a obra que o Pai me deu a realizar! “Eu glorifiquei-te na terra, tendo consumado a obra que me deste a fazer” ( Jo 17:4 ).

“Nenhum ser humano que tentasse pagar por seus próprios pecados poderia dizer finalmente, como exclamou Cristo em triunfo na Cruz: “Está consumado! A dívida foi paga”.  Mas o preço tinha que ser pago integralmente. De que outro modo os portões da justiça se abririam?” Hunt, Dave ‘O poder da ressurreição de Cristo’, The Berean Callhttp://www.chamada.com.br) – http://www.chamada.com.br/mensagens/ressurreicao_de_cristo.html Consulta realizada em 06/01/2012.

Substituição de ato foi o que ocorreu na cruz: a obediência de Cristo (último Adão) pela desobediência de Adão, pois Deus não busca sacrifício, antes a obediência “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” ( Rm 5:19 ); “Por isso, entrando no mundo, diz: Sacrifício e oferta não quiseste, Mas corpo me preparaste; Holocaustos e oblações pelo pecado não te agradaram. Então disse: Eis aqui venho (No princípio do livro está escrito de mim), para fazer, ó Deus, a tua vontade” ( Hb 10:5 -7 ).

Por estar em Cristo o cristão é uma nova criatura, igualmente é perfeito, pois está em Cristo, que é a cabeça de todo principado. Por estar em Cristo, o cristão lançou fora (despojou) a carne do pecado. Por estar em Cristo o cristão foi sepultado e ressurgiu ( Cl 2:10 -12).

Quando vivificado em Cristo, o cristão teve as suas ofensas perdoadas por Cristo, pois a cédula foi riscada, uma vez que não cumpríamos as ordenanças de Deus. Como Cristo veio cumprir e cumpriu plenamente a vontade de Deus, a obediência de Cristo anulou a divida das ordenanças. O que fixou na cruz as ordenanças que punha o homem em divida foi a obediência de Cristo, que nada ab-rogou da lei, não foi puro e simplesmente o seu sofrimento. O objetivo da cruz não era o sofrimento, antes a obediência plena, pois a obediência excluiu toda condenação para a nova criatura, que por estar em Cristo está morta para o pecado e para a lei.

Pois, para que o homem possa alcançar vida dentre os mortos é necessário cair na terra assim como o grão de trigo. Cristo caiu na terra e ressurgiu para a glória de Deus Pai, todos quanto creem n’Ele, também são plantados na semelhança da sua morte, para que possam ressurgir com Cristo. Neste quesito cada um deve tomar a sua própria cruz e morrer com Cristo “Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto” ( Jo 12:24 ).

Deus é fiel: “Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também com ele viveremos; Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará; Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo” ( 2Tm 2:11 -13).

Sobre a morte dos que creem com Cristo escreveu o apóstolo Paulo:

“Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte? De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida. Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição; Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado. Porque aquele que está morto está justificado do pecado. Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos” ( Rm 6:3 -8).

A carne de Cristo foi oferecida em oblação e é o novo e vivo caminho pelo qual o homem vem a Deus, pois quando o homem crê, torna-se participante da carne e do sangue de Cristo, ou seja, morre com Cristo. O batismo do cristão é na morte de Cristo, e o batismo em águas é um testemunho público, símbolo da morte com Cristo.

Quando o crente morre com Cristo fica demonstrada a justiça de Deus, visto que a pena estipulada pela lei: ‘certamente morrerá’, ou ‘a alma que pecar esta morrerá’, não passa da pessoa do transgressor. O pecador, quando se arrepende, morre com Cristo e o corpo do pecado herdado em Adão é desfeito.

Após estabelecer a sua justiça dando ao pecador a morte em função do pecado, Deus elimina o vínculo do servo com seu antigo senhor, o pecado. E é neste ponto que a maravilhosa graça de Deus opera eficazmente, visto que, assim como Cristo ressurgiu dentre os mortos para a glória de Deus Pai, todos quando foram sepultados com Cristo são ressuscitados juntamente com Cristo ( Cl 3:1 ).

Enquanto o pecador é morto com Cristo, Deus é justo, mas quando é gerada uma nova criatura em Cristo, Deus é declarado justificador “Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” ( Rm 3:26 ).

Ora, se o homem não morre, não está justificado do pecado, pois enquanto vivo para o pecado é devedor e sujeito ao pecado. Mas, quando o homem morre com Cristo, a justiça de Deus é vindicada, pois: “… aquele que está morto está justificado do pecado” ( Rm 6:7 ).

Cristo ressurgiu dentre os mortos para a justificação dos que creem “O qual por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação” ( Rm 4:25 ). Ora, como Cristo ressurgiu, todos os que creem ressurgiram à semelhança da sua ressureição, de modo que os que foram ressurretos dentre os mortos possuem uma nova vida, sendo declarados justos diante de Deus “Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus” ( Rm 3:24 ).

O velho homem gerado em Adão jamais seria declarado justo, portanto, pereceu ao ser crucificado com Cristo e o seu corpo foi desfeito com Cristo na cruz. Quando é gerado um novo homem através de Cristo (a semente incorruptível), tem-se uma nova criatura participante da natureza divina, que foi criada em verdadeira justiça e santidade, e que recebe de Deus a declaração de que é justa.

Quando gerado de Adão o homem é pecador, agora gerado de novo em Cristo Jesus, o homem é participante da natureza divina. Não é mais servo do pecado, escapou da corrupção que há no mundo, portanto é santo e justo “Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo” ( 2Pe 1:4 ); “E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça” ( Rm 6:18 ).

Quando Jesus se deu a si mesmo foi para adquirir para si um povo “O qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras” ( Tt 2:14 ). Ora, se Ele remiu o pecador tomando por seu servo, segue-se que não mais se nomeia os que creem de pecadores.

Há um contra senso na assertiva: ‘pecador remido’, pois se o homem é pecador é porque não foi remido, e se foi remido, resta que não é pecador, pois pertence a um novo senhor.

Este problema também ocorre com o termo naufrago. Quando alguém está a deriva em alto mar é nomeado ‘naufrago’, porém, quando é salvo do perigo e está a bordo de uma nova embarcação, já não faz jus ao nome ‘naufrago’, assim é aquele que crê em Cristo: era pecador, agora é remido.

A bíblia é clara: não podeis servir a dois senhores, ou seja, é impossível prestar serviço a dois senhores. Quando Cristo remiu o pecador, não deixou o remido à disposição do pecado para servi-lo. No momento em que o homem é liberto do pecado é feito servo da justiça.

Há pecadores e há remidos, jamais haverá ‘pecadores remidos’, pois onde há remissão não há mais oferta pelo pecado “Ora, onde há remissão destes, não há mais oblação pelo pecado” ( Hb 10:18 ).

O pecador é servo do pecado, portanto, comete pecado. Ora, se o homem comete pecado pertence ao diabo, portanto não é remido “Quem comete o pecado é do diabo; porque o diabo peca desde o princípio. Para isto o Filho de Deus se manifestou: para desfazer as obras do diabo” ( 1Jo 3:8 ); “Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado” ( Jo 8:34 ).

O que comente pecado é servo do pecado, porém, temos o apóstolo Paulo redarguindo os cristãos: tornastes-vos servos da justiça ( Rm 6:18 )

Não existe ‘pecador remido’, pois o apóstolo Paulo diz que, se os cristãos foram justificados em Cristo e ainda são pecadores, teria que admitir que Cristo é ministro do pecado. Como Cristo não é ministro do pecado, todos quanto estão n’Ele não são pecadores “Pois, se nós, que procuramos ser justificados em Cristo, nós mesmos também somos achados pecadores, é porventura Cristo ministro do pecado? De maneira nenhuma” ( Gl 2:17 ).

 

Deus olha através de Cristo

Em um devocional intitulado “Um detalhe milagroso”, assinado pela Pra. Clarice Ziller, temos a seguinte frase:

‘Olhe que coisa fantástica é o Sangue de Jesus: quando Deus me olha através dele, eu sou pura como aquele sumo sacerdote!’.

Spurgeon também fez alusão à ideia de que Deus vê o crente através de Cristo:

“Se bem que Ele vê pecado em ti, em ti mesmo, agora, quando Ele olha para ti através de Cristo, Ele não vê pecado” C. H. Spurgeon, Evening’s Meditation, Meditações Vespertinas. Tradução de Carlos António da Rocha. consulta realizada em 13/09/2012.

Muitos esquecem, ou não sabem, que a promessa de Deus para aquele que guardam a palavra do evangelho crendo em Cristo é se tornar morada do Altíssimo “Jesus respondeu, e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada” ( Jo 14:23 ).

Por esquecerem, ou não saberem que o crente é o templo de Deus, adotam o pensamento equivocado de que é necessário Deus olhar através de Cristo para poder ver o crente, haja vista, considerarem que o crente, apesar de estar em Cristo, é pecador “Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” ( 1Co 3:16 ).

Mas, as Escrituras é a autoridade no assunto, e ela diz: “E bem sabeis que ele se manifestou para tirar os nossos pecados; e nele não há pecado” ( 1Jo 3:5). Além de Cristo ter vindo ao mundo tirar o pecado dos que creem, certo é que em Cristo não há pecado.

Se o crente admite que Jesus é o Cristo conforme as Escrituras, está em Cristo, é nova criatura, portanto não tem pecado, pois está em Cristo em quem não há pecado.

Se o crente está em Cristo, automaticamente está em Deus, que é luz e não há nele trevas nenhumas, portanto, a necessidade de Deus olhar para o crente através de Cristo é ilação de mentes carnais que não consideram que Cristo habita o crente.

Jesus é a garantia de que os que creem estão limpos diante de Deus e esta era a certeza do apóstolo Paulo “E é o que alguns têm sido; mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito do nosso Deus” ( 1Co 6:11 ).

“Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado” ( Jo 15:3 )

 

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Iniquidade é transgressão de qual lei?

Havia alguma lei a ser guarda pelo gentio Abrão? Não, pois nada havia sido ordenado aos homens! Mas, quando foi dito a Abraão que ele teria uma descendência numerosa sobre a face da terra, mesmo não tendo filhos, Abraão creu, e isto lhe foi imputado por justiça. Observe que não havia lei e nem mesmo a circuncisão.


A primeira atitude de muitos quando procuram definir o que é ‘iniquidade’ centra-se em buscar o significado do termo na língua grega. Primeiro demonstram que o termo vem do Grego ‘ανομια’ [anomia] (Substantivo feminino), e que, dependendo da frase, assume a conotação de ‘negação da lei’, ‘ilegalidade’, ‘falta de conformidade com a lei’, ‘violação da lei’, ‘desacato à lei’, ‘iniquidade’, ‘impiedade’, ‘pecado’, etc.

O termo ανομος [anomos] traduzido por iniquidade é composto por um prefixo ‘α’ [a] que desempenha a ideia de ausência, falta, exclusão e o termo νομος [nomos] “lei”. Dai a construção “sem lei”, “ausência de lei”.

O próximo passo restringe-se a determinar quantas vezes o termo é utilizado no Novo Testamento. Contabilizando, chega-se ao consenso de que a palavra ανομια [anomia] aparece 15 vezes no Novo Testamento.

Tudo o que foi visto acima é verdadeiro, mas, a análise não dá base para afirmar que a lei de Moisés, como faziam os judaizantes, é o meio pelo qual o homem alcança a salvação, é recalcitrar contra a verdade do evangelho.

Pelo fato de ‘iniquidade’ ser o mesmo que ‘negação da lei’, interpretar o versículo que diz: “E, por se multiplicar a iniquidade, o amor de quase todos se esfriará” ( Mt 24:12 ), como sendo ‘negação da lei’ (iniquidade) o não guardar a lei mosaica é desconsiderar o contexto do versículo.

No verso anterior Jesus alerta que surgiriam muitos falsos profetas, e que enganariam a muitos ( Mt 24:11 ). Qual a ação dos falsos profetas? Trazer uma mensagem adversa da ordenada por Deus, ou seja, uma mensagem que transtorna o mandamento de Deus. No contexto do Novo Testamento qual é o mandamento de Deus? A resposta é: crer no enviado de Deus! “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo…” ( 1Jo 3:23 ).

Com a vinda do Messias, o mandamento de Deus resume-se na seguinte ‘obra’: “Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ). Quem faz a obra determinada por Deus, que é crer em Cristo, se fez servo, portanto, cumpriu o mandamento de Deus como o fez Abraão que, mesmo antes de ser dada a lei de Moisés cumpriu todos os preceitos de Deus “Porquanto Abraão obedeceu à minha voz, e guardou o meu mandado, os meus preceitos, os meus estatutos, e as minhas leis” ( Gn 26:5 ).

A lei mosaica só foi dada 430 anos após Abraão ter obedecido à voz de Deus, e Deus deu testemunho de Abraão, um gentios da cidade de Ur dos Caldeus, de que guardou todas as suas leis.

Havia alguma lei a ser guarda pelo gentio Abrão? Não, pois nada havia sido ordenado aos homens! Mas, quando foi dito a Abraão que ele teria uma descendência numerosa sobre a face da terra, mesmo não tendo filhos, Abraão creu, e isto lhe foi imputado por justiça. Observe que não havia lei e nem mesmo a circuncisão.

Somente após Abraão crer é que Deus instituiu a circuncisão do prepúcio da carne, como símbolo da aliança firmada entre Deus e Abraão, e que os descendentes da carne de Abraão deveriam guardar ( Gn 17:9 ). A circuncisão não era a aliança, antes a circuncisão era símbolo da aliança estabelecida entre Deus e Abraão.

Quando Abraão fez a circuncisão do prepúcio da carne era gentio e justo diante de Deus. Dai a pergunta do apóstolo Paulo: “Vem, pois, esta bem-aventurança sobre a circuncisão somente, ou também sobre a incircuncisão?” ( Rm 4:9 ).

Para um judaizante, a bem-aventurança prometida Abraão só é possível quando o homem circuncida o prepúcio da carne, mas se observarmos Abraão, verifica-se que o selo da circuncisão só foi determinado após Abraão ter tido o testemunho das Escrituras de que era justo diante de Deus ( Gn 15:6 ; Gn 17:24 ; “ENTÃO alguns que tinham descido da Judéia ensinavam assim os irmãos: Se não vos circuncidardes conforme o uso de Moisés, não podeis salvar-vos” At 15:1 ).

Deus não fez promessa a Abraão por intermédio da lei de Moisés, antes por meio da palavra da fé, ou seja, da promessa ( Rm 4:13 ). Abraão vivia sem lei quando lhe foi feita a seguinte promessa: “E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra” ( Gn 12:3 ).

Se observarmos a mensagem dos judaizantes: – ‘Se não vos circuncidardes conforme o uso de Moisés, não podeis salvar-vos’, tem-se nesta determinação a fala de um falso profeta, pois diz algo que Deus não falou. Daí a necessidade de observarmos oque disse o apóstolo Paulo: “Eis que eu, Paulo, vos digo que, se vos deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará. E de novo protesto a todo o homem, que se deixa circuncidar, que está obrigado a guardar toda a lei. Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído” ( Gl 5:2 -4).

Quando Jesus disse que surgiriam muitos falsos profetas, Ele tinha em vista as inúmeras pessoas que surgiriam anunciando mensagens utilizando o nome de Deus, porém, negando obra realizada por Cristo. Sobre este assunto asseverou o apóstolo Paulo: “Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te” ( 2Tm 3:5 ).

Qual o significado de piedade neste verso? Seria: “amor e respeito às coisas religiosas; religiosidade; devoção; Pena dos males alheios; compaixão, dó, comiseração”? Não! Piedade neste verso é o mesmo que ‘evangelho’. Tem aparência de evangelho, porém, negam a eficácia.

Tal sentido do termo piedade depreende-se da seguinte passagem bíblica: “E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória” ( 1Tm 3:16 ). O mistério da piedade diz do evangelho de Cristo ( ), portanto, todos quantos quiserem viver segundo a palavra do evangelho, sofrerão perseguições ( 2Tm 3:12 ).

Mensagens como: É necessário circuncidar-se; É necessário guardar os sábados; É necessário abster-se de alimentos; É necessário abster-se de casar-se, são todas falsas profecias. Qualquer que dar ouvidos a tais mensagens, da graça de Cristo caiu.

Ora, tais mensagens são negações do mandamento de Deus (iniquidade), pois o seu mandamento é: “Quem crer e for batizado será salvo…” ( Mc 16:16 ). Foi Deus que estabeleceu uma Pedra preciosa em Jerusalém, Jesus, o Cristo “Por isso também na Escritura se contém: Eis que ponho em Sião a pedra principal da esquina, eleita e preciosa; E quem nela crer não será confundido” ( 1Pd 2:6 ).

Ora, por se multiplicar as mensagens de engano, as mensagens dos falsos profetas, a obediência de muitos seria anulada. Ora, o verso: “E, por se multiplicar a iniquidade, o amor se esfriará de quase todos” ( Mt 24:12 ), foi dito por enigmas, portanto, é uma parábola.

Como é possível aumentar a iniquidade? O que se multiplica é a mensagem de engano, pois surgiriam muitos falsos profetas e anticristos “AMADOS, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo” ( 1Jo 4:1 ). Com o surgimento de muitos falsos profetas a mensagem de engano aumenta, consequentemente, o mandamento contido no evangelho de Cristo deixa de ser anunciado.

Se a necessidade de crer em Cristo não é anunciada, antes outra mensagem é divulgada, tem-se a iniquidade, ou seja, ausência da lei, do mandamento. Sem o mandamento não há amor, pois ama aquele que cumpre o mandamento “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” ( Jo 14:21 ).

Ou seja, quando Jesus aponta que o amor se esfriará, Ele estava demonstrando que, em virtude da ausência do mandamento verdadeiro (iniquidade), a obediência (amor) diminui, esfria.

É neste sentido que Jesus pergunta: Quando, porém vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra? O termo fé deve ser compreendido como a mensagem do Filho do homem. Cristo é a Fé, a fé que havia de se manifestar, portanto, sem a sua mensagem não há fé, pois a Fé que a bíblia faz alusão tem a capacidade de residir nos homens ( Gl 3:23 ; 2Tm 1:5 ). A Fé que Jesus faz menção refere-se ao fundamento de Deus, que é firme e faz o homem agradável a Deus ( 2Tm 2:19 : Hb 11:1 ).

Ao escrever a Timóteo, o apóstolo Paulo alerta quanto às falsas doutrinas “Como te roguei, quando parti para a Macedônia, que ficasses em Éfeso, para advertires a alguns, que não ensinem outra doutrina, nem se deem a fábulas ou a genealogias intermináveis, que mais produzem questões do que edificação de Deus, que consiste na fé; assim o faço agora” ( 1Tm 1:3 -4 ).

Quando se ensina outra doutrina, instala-se a iniquidade, pois transtorna o mandamento de Deus. A edificação em Deus consiste na fé, no firme fundamento estabelecido por Ele, que é firme e permanente.

Ora, sabemos que hoje estamos mais próximo do fim ( Rm 13:11 ), porém, o que se observa é que as pessoas tem-se tornado mais crédulas, visto que muitos dizem acreditar em Deus, no impossível, em milagres, no impossível, etc. Mas, a questão é: quando o Filho do homem voltar, a sua mensagem, a palavra da fé estará sendo anunciada ao mundo?

O que foi manifesto aos homens? Cristo foi manifesto, portanto, foi manifesto a palavra, ou seja, a fé: “Mas a seu tempo manifestou a sua palavra pela pregação que me foi confiada segundo o mandamento de Deus, nosso Salvador” ( Tt 1:3 ); “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” ( Gl 3:23 ).

Dai a explicação: “Ora, o fim do mandamento é o amor de um coração puro, e de uma boa consciência, e de uma fé não fingida. Do que, desviando-se alguns, se entregaram a vãs contendas; Querendo ser mestres da lei, e não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam” ( 1Tm 1:5 -7).

Neste verso o apóstolo aponta qual é o objetivo do mandamento de Deus: a obediência de um coração puro que abraça uma fé genuína. O mandamento neste verso diz do evangelho de Cristo, e não da lei mosaica. Quando se ensina a doutrina de Cristo, temos um mandamento que demanda obediência, ou seja, é preciso crer no enviado de Deus.

O objetivo, a finalidade do mandamento de Cristo é a obediência de coração, o que trás uma boa consciência e uma crença genuína. Mas, quando há a distorção, o desvio da verdade, surge a ‘contenda’. É o que o apóstolo Paulo nomeia de ‘vinho da contenda’, do qual o cristão deve se abster, ou seja, do ensinamento dos judaizantes “Mas não entres em questões loucas, genealogias e contendas, e nos debates acerca da lei; porque são coisas inúteis e vãs” ( Tt 3:9 ).

Perceba que ‘contenda’ é uma FIGURA utilizada para fazer referência à doutrina dos judaizantes “Do que, desviando-se alguns, se entregaram a vãs contendas” ( 1Tm 1:6 ). A doutrina dos judaizantes é o ardente vinho de serpentes “O seu vinho é ardente veneno de serpentes, e peçonha cruel de víboras” ( Dt 32:33 ; Ef 5:18 ).

O mandamento de Deus é: creiam no nome do meu Filho ( 1Jo 3:23 ). Qualquer que não crê nunca conheceu o Pai e nem o Filho, de modo que naquele dia ouvirá: “Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade” ( Mt 7:23 ). Ora, estes confessam com a boca que amam a Deus, porém, negam-No com as suas obras. Estes verdadeiramente negam a lei de Deus! “Quem não me ama não guarda as minhas palavras; ora, a palavra que ouvistes não é minha, mas do Pai que me enviou” ( Jo 14:24 ).

Estão em iniquidade porque negam obedecer ao mandamento de Deus, que é crer em Cristo. Ora, quem confessa que Jesus é o Cristo, está em Deus e Deus nele ( 1Jo 4:15 ), de modo que conheceu a Deus ( 1Jo 4:7 ), pois para ser nascido de Deus é necessário receber poder ( Jo 1:12 ), o que é concedido aos que creem em Cristo.

Mas, a qualquer que conhece a Deus, ou seja, que creu em Cristo, jamais deve voltar aos argumentos fracos da lei que tem por base questões de ordem moral e severidade com o corpo “Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” ( Gl 4:9 ).

Os judaizantes dos nossos dias geralmente lançam mão do seguinte verso para expor a ideia de que é necessário guardar a lei: “Qualquer que comete pecado transgride a lei, pois o pecado é a transgressão da lei” ( 1Jo 3:4 ).

O termo ‘mandamento’ é utilizado por diversas vezes na epístola joanina, porém, somente neste verso o tradutor sentiu-se à vontade para traduzir o mesmo termo por ‘lei’, o que constrói a ideia de que se trata de um código escrito.

No inicio da carta o apóstolo diz: “E nisto sabemos que o conhecemos: se guardarmos o seu mandamento” ( 1Jo 2:3 ). Já no verso 23 de 1João 3, temos: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo …”. O correto é traduzir o verso 4 do capítulo 3 da epístola utilizando o termo mandamento: “Qualquer que comente pecado transgride o mandamento, pois o pecado é a transgressão do mandamento” ( 1Jo 3:4 ).

Dai a pergunta: que ‘mandamento’ quando transgredido, ou ‘lei’ quando transgredida é pecado? Seria a lei de Moisés? É certo que não, pois antes de ser entregue a lei mosaica já havia pecadores no mundo “Porque até à lei estava o pecado no mundo…” ( Rm 5:13 ).

Ora, os fariseus cumpriam o que entendiam da lei, porém, Jesus Lhes disse: “Por isso vos disse que morrereis em vossos pecados, porque se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados” ( Jo 8:24 ). Os fariseus achavam que cumpriam a lei, porém, Jesus lhes disse: “Não vos deu Moisés a lei? e nenhum de vós observa a lei. Por que procurais matar-me?” ( Jo 7:19 ).

Ora, crer em Cristo é a lei da liberdade. Crer em Cristo é o mandamento, e qualquer que n’Ele não crê, transgrede a lei. A lei que transgredida é pecado e que o evangelista João faz referência não tem por base regras tais como: “Não toques, não proves, não manuseies?” ( Cl 2:21 ).

Entender que a lei de Moisés é eterna e perfeita é desconsiderar o que disse o escritor aos Hebreus: “Dizendo Nova aliança, envelheceu a primeira. Ora, o que foi tornado velho, e se envelhece, perto está de acabar” ( Hb 8:13 ).

A lei foi dada para conduzir os descendentes de Jacó a Cristo, demonstrando que eles eram pecadores, apesar de serem descendentes da carne de Abraão. A lei foi dada aos descendentes da carne de Abraão para demonstrar que todos os homens estavam em igual condição diante de Deus “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus. Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado” ( Rm 3:19 -20 ).

Antes de chegar a esta conclusão, o apóstolo cita várias passagens da lei e dos salmos que protestavam contras os judeus “Deus olhou desde os céus para os filhos dos homens, para ver se havia algum que tivesse entendimento e buscasse a Deus. Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um. Acaso não têm conhecimento os que praticam a iniquidade, os quais comem o meu povo como se comessem pão? Eles não invocaram a Deus” ( Sl 53:2 -4).

Observe que o salmista aponta que não há um justo se quer, e que ninguém buscava a Deus, embora houvesse o povo de Israel na terra. Em um dos salmos citados pelo apóstolo, o salmista faz um protesto contra os obreiros fraudulentos, que se alimentavam de Israel como se fosse pão, porém, não lhes dava a palavra que alimenta “Pois quê? Somos nós mais excelentes? De maneira nenhuma, pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado” ( Rm 3:9 ).

Tais obreiros eram obreiros da iniquidade, ou seja, obreiros que violavam a lei. Eram semelhantes ao juiz iníquo, que apesar de existir um código de leis a serem seguidas, era avesso ao seu dever. Por que ele era um juiz iníquo? Porque não existia lei? Não! Antes, o iníquo é aquele que não observa o prescrito.

Outro equivoco dos judaizantes está em considerar que Cristo veio cumprir a lei aos moldes daquilo que os judeus executavam, e isto pela seguinte passagem: “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir” ( Mt 5:17 ).

A multidão enquanto ouvia o discurso de Jesus poderia pensar que Ele estava destruindo o que constava na lei e nos profetas. Antes que chegassem a tal entendimento, Jesus se antecipa e afirma categoricamente que não veio anular o que estava posto, antes que Ele era o próprio cumprimento do que os profetas anunciaram. Em outras palavras, Cristo estava demonstrando que tudo o que estava previsto na lei e nos profetas estava cumprindo-se n’Ele.

Enquanto a lei era sombra, Cristo é a realidade, de modo que Ele não viveu segundo os rudimentos frágeis e pobres dos filhos de Jacó. Tudo o que foi predito acerca de Cristo foi cumprido, de modo que não foi omitido ‘nem um jota ou um til’, pois Cristo é o cumprimento da lei.

Diferente dos demais, Jesus entrava na casa dos pecadores e dos cobradores de impostos para comer ( Lc 5:30 ). Não jejuava aos moldes dos fariseus e escribas, antes praticava o verdadeiro jejum apregoado por Isaias ( Is 58:6 ; Mt 9:14 ). Jesus não guardava o sábado aos moldes dos seus acusadores “E alguns dos fariseus lhes disseram: Por que fazeis o que não é lícito fazer nos sábados?” ( Lc 6:2 ). Foi tido por comilão e beberão “Veio o Filho do homem, comendo e bebendo, e dizem: Eis aí um homem comilão e beberrão, amigo dos publicanos e pecadores. Mas a sabedoria é justificada por seus filhos” ( Mt 11:19 ).

Quando lemos que o apóstolo Paulo utilizava a lei e os profetas para persuadir os seus ouvintes ao evangelho, isto não quer dizer que ele estava impondo aos seus ouvintes os preceitos da lei mosaica. Ele se utilizava da lei e dos profetas para demonstrar que, o Jesus de Nazaré que crucificaram a pretexto de um a lei, na verdade era o Cristo de Deus “…procurava persuadi-los à fé em Jesus, tanto pela lei de Moisés como pelos profetas, desde a manhã até à tarde” ( At 28:23 ); “Porventura o trono de iniquidade te acompanha, o qual forja o mal por uma lei?” ( Sl 94:20 ).

Esta também foi a tônica da mensagem do apóstolo Pedro, que lanço mão dos salmos para demonstrar que seus compatriotas haviam crucificado o Autor da vida ( At 2:36 ). O apóstolo Pedro não expôs aos seus irmãos segundo a carne a lei mosaica, antes apresentou-lhes o Cristo, que é a justiça eterna, ou seja, o caminho, a verdade e a vida “A tua justiça é uma justiça eterna, e a tua lei é a verdade” ( Sl 119:142 ).

É temerário utilizar um termo e o seu significado isolado para emitir opinião acerca de uma verdade. Lançar mão do termo ανομος [anomos] para argumentar que a não observância da lei mosaica é iniquidade é argumento frágil, pois ler Moisés não é cumprir a lei “E até hoje, quando é lido Moisés, o véu está posto sobre o coração deles. Mas, quando se converterem ao Senhor, então o véu se tirará” ( 2Co 3:15 -16).

Semelhantemente, cumprir um quesito da lei, não é guardar a lei mosaica, pois qualquer que guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, é culpado “E de novo protesto a todo o homem, que se deixa circuncidar, que está obrigado a guardar toda a lei” ( Gl 5:3 ); “Todos os que querem mostrar boa aparência na carne, esses vos obrigam a circuncidar-vos, somente para não serem perseguidos por causa da cruz de Cristo” ( Gl 6:12 ).

Portanto, quando lemos que: “A circuncisão é nada e a incircuncisão nada é, mas, sim, a observância dos mandamentos de Deus” ( 1Co 7:19 ), não podemos concluir que os mandamentos de Deus refere-se a lei de Moisés, antes se faz necessário comparar a passagem com outros versos, e aí teremos o seguinte quadro: “Porque em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão tem valor algum; mas sim a fé que opera pelo amor” ( Gl 5:6 ).

A fé que opera pelo amor é o mesmo que observância dos mandamentos, de modo que ‘fé’ diz do mandamento em Cristo: crer naquele que Deus enviou, e o ‘amor’ diz da obediência exigida. Em outras palavras, o mandamento de Deus é a obediência da fé “Mas que se manifestou agora, e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações para obediência da fé” ( Rm 16:26 ; Rm 1:5 ).

Daí a advertência: “Porque há muitos desordenados, faladores, vãos e enganadores, principalmente os da circuncisão” ( Tt 1:10 ).

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Você é eterno

Oro a Deus para que você possa crer nesta verdade, pois este Deus feito homem, em tudo foi provado, mas também foi aprovado, pois obedeceu a Deus em tudo, até a morte, pelo que recebeu a vida de volta: ressuscitou dentre os mortos e tornou-se a salvação de todo aquele que crer.


Onde você passará para a eternidade?

Esta é uma pergunta que poucos sabem responder, mas a bíblia mostra para onde irá os homens quando adentrarem na eternidade. Se o homem reconhece Jesus como seu único e soberano Senhor e salvador, melhor dizendo, se acreditar que Jesus Cristo é o Filho do Deus vivo, pois na eternidade Ele era Deus, porém, despiu-se da sua glória e se fez carne (homem), esteve sujeito às mesmas paixões que os homens, contudo não pecou; que morreu por causa da barreira de separação que havia entre Deus e os homens (pecado) e ressuscitou ao terceiro dia, certo é que tal homem na eternidade existirá eternamente em plena comunhão com Deus.

Porém, se não acreditar na verdade exposta acima, existirá eternamente alienado de Deus.

Deus criou o homem para fazer parte de um projeto que estabeleceu em si mesmo, e como Deus é Eterno, o homem não pode ser transitório, ou seja, extinguir-se algum dia, portanto, Deus lhe concedeu algo de si mesmo (o fôlego da vida) “E formou o SENHOR Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente” ( Gn 2:7 ).

O fôlego da vida que o homem possui veio diretamente de Deus, O Eterno, logo não se extinguirá, permanecendo pela eternidade.

Antes de criar o homem, Deus criou a terra e, depois de criá-lo delegou-lhe o domínio dela: “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra” ( Gn 1:26 ).

Em seguida preparou um lugar agradável para o homem ficar: “E plantou o SENHOR Deus um jardim no Éden, do lado oriental; e pôs ali o homem que tinha formado. E o SENHOR Deus fez brotar da terra toda a árvore agradável à vista, e boa para comida; e a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore do conhecimento do bem e do mal” ( Gn 2:9 ).

O homem desfrutava do cuidado e da comunhão com Deus: “E disse o SENHOR Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idônea para ele. Havendo, pois, o SENHOR Deus formado da terra todo o animal do campo, e toda a ave dos céus, os trouxe a Adão, para este ver como lhes chamaria; e tudo o que Adão chamou a toda a alma vivente, isso foi o seu nome” ( Gn 2:18 -19).

“… onde está o Espírito do Senhor aí há liberdade” ( 2Co 3:17 ), e como era de se esperar, Deus deu liberdade ao homem: “E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente…” ( Gn 2:16 ). E lhe mostrou a vida e a morte: vida era obedecê-lo, ou seja, o homem permaneceria unido a Deus, pois Deus é vida e, a morte era desobedecê-lo, pois a desobediência acarretaria separação de Deus, ou seja, morte “Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:17 ).

Parafraseando: Enquanto Adão não comesse da árvore do conhecimento do bem e do mal estaria unido a Deus (vivo), se comesse, ficaria separado de Deus (morto). A determinação era clara: não coma para que viva!

Você consegue ver o amor e o cuidado de Deus para com o homem nestas passagens bíblicas?

Contudo, Adão não percebeu, porque quando a serpente disse: ‘Certamente não morrereis’ ( Gn 3:4 ), acreditou na serpente e comeu do fruto.

E quem era a serpente? Era um anjo presunçoso que perdeu seu principado justamente porque ambicionou o que Deus havia proposto em si mesmo e o homem faria parte. Veja o que este anjo arquitetou: “Subirei sobre as alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo” ( Is 14:14 ). Mas, veja o que Deus propôs para o homem: “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança…” ( Gn 1:26 ).

Satanás não queria ser homem, antes queria a semelhança de Deus, pois a semelhança o tornaria maior que os anjos “E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono, e no monte da congregação me assentarei, aos lados do norte” ( Is 14:13 ). As estrelas de Deus aqui refere-se aos anjos.

Quando o homem acreditou no que Satanás disse e desconsiderou a Palavra de Deus: “certamente morrerás”, cometeu “injustiça”. Com este ato Adão se vendeu como escravo ao pecado e, todos os que dele iriam nascer também foram vendidos, ou seja, todos os homens por causa da ofensa de Adão pecaram: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” ( Rm 3:23 ), Todos estão separados de Deus.

E deste momento em diante o homem tornou-se repreensível, reprovado, ou seja, condenado, morto, alienado da vida para sempre, pois possui uma alma que existirá para sempre, mesmo depois de voltar ao pó.

Mas, o propósito de Deus não pode ser detido, e Deus, no seu muito amor com que amou os homens, providenciou salvação poderosa: seu próprio Filho que, despiu-se da sua glória “Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens” ( Fl 2:7 ), e se fez semelhante aos homens para que o homem tivesse novamente a oportunidade de se tornar semelhante a Deus.

Era necessário que a justiça fosse estabelecida: no inicio um homem criado sem pecado não creu na palavra de Deus, mas em tempo oportuno, outro homem sem pecado foi obediente palavra de Deus “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” ( Rm 5:19 ); “Porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem” ( 1Co 15:21 ).

Mas, como isto iria acontecer se todos pecaram?

Deus teve que se fazer homem e, é por isto que Jesus nasceu de uma virgem, pelo poder de Deus.

Oro a Deus para que você possa crer nesta verdade, pois este Deus feito homem, em tudo foi provado, mas também foi aprovado, pois obedeceu a Deus em tudo, até a morte, pelo que recebeu a vida de volta: ressuscitou dentre os mortos e tornou-se a salvação de todo aquele que crer.

E todos os que creem em Cristo são justificados, porque morrem com Cristo “Porque aquele que está morto está justificado do pecado” ( Rm 6:7 ), e ressurge com Ele. A natureza pecaminosa é extinta e o homem torna-se morto para o pecado, mas vivo para Deus “Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor” ( Rm 6:11 ), pois ressurgiu com seu Filho Jesus Cristo “PORTANTO, se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus” ( Cl 3:1 ).

Se você crer nesta palavra será salvo da condenação eterna, ou seja, adentrará na eternidade em comunhão com Deus. Vida eterna!

Você é capaz de crer em Jesus Cristo?

“A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” ( Rm 10:9 ).

 

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Malaquias descreve o amor de Deus

Deus instrui o povo: Não darás a primogenitura ao filho da amada, preferindo-o ao filho da desprezada. O que Deus demonstra? Que era vetado favorecer um filho em detrimento do outro. Deus ensina por meio da lei que é vetado negar o que é de direito a um filho. E quanto ao que ocorreu com Isaque e Esaú? Deus favoreceu a Jacó? Da relação fraterna entre Esaú e Jacó (Não era Esaú irmão de Jacó?) é possível determinar como se dá o amor de Deus. Leia e descubra!


1 Peso da palavra do SENHOR contra Israel, por intermédio de Malaquias.
2 Eu vos tenho amado, diz o SENHOR. Mas vós dizeis: Em que nos tem amado? Não era Esaú irmão de Jacó? disse o SENHOR; todavia amei a Jacó,
3 E odiei a Esaú; e fiz dos seus montes uma desolação, e dei a sua herança aos chacais do deserto.
4 Ainda que Edom diga: Empobrecidos estamos, porém tornaremos a edificar os lugares desolados; assim diz o SENHOR dos Exércitos: Eles edificarão, e eu destruirei; e lhes chamarão: Termo de impiedade, e povo contra quem o SENHOR está irado para sempre.
5 E os vossos olhos o verão, e direis: O SENHOR seja engrandecido além dos termos de Israel.

Pouco se sabe a respeito deste servo do Senhor, mas as profecias que Malaquias entregou ao povo de Israel nos dizem muito!

As profecias que foram entregue por ele nos dizem muito porque nelas estão descrita a maneira pela qual Deus se relaciona com suas criaturas.

Outra característica do livro de Malaquias que é importante observar são os parâmetros que o livro nos permite traçar e destacar quanto a interpretação bíblica.

 

Característica do livro

O livro é um misto de perguntas e respostas diretas.

Em cada ciclo de perguntas e respostas temos uma idéia central a ser analisada. Neste primeiro ciclo a idéia em destaque é o amor de Deus para com o seu povo Israel.

As perguntas e respostas apontam para o presente. O ‘agora’ do escritor e dos destinatários. Elas fazem referência a alguns elementos do passado, mas a aplicabilidade dos ensinos é para o momento em que o profeta está passando a mensagem presente Ex: ( Ml 1:2 -4).

Em todos os ciclos de perguntas e respostas encontramos uma profecia que aponta para um futuro distante, e que serve de consolo àqueles que receberam de bom grado o peso do Senhor Ex: ( Ml 1:5 ).

Para interpretar o livro de Malaquias, precisamos nos socorrer das referências feitas no novo testamento, e das citações de certos personagens que o escritor faz.

Ao lermos a passagem: “Amei a Jacó, e aborreci a Esaú”, devemos verificar os elementos que compõe a história de Esaú e Jacó, sem no esquecermos das referências e aplicabilidade feita pelos apóstolos no novo testamento.

Este é o nosso objetivo, encontrar a ideia que as passagens procuram transmitir.

 

A sentença

Peso da palavra do SENHOR contra Israel, por intermédio de Malaquias ( Ml 1:1 )

O livro de Malaquias contém várias sentenças proferidas por Deus repreendendo o povo de Israel.

O público alvo deste livro é o povo de Israel. Eles eram os destinatários exclusivos da mensagem divina quanto ao peso.

Deus usou o profeta Malaquias para entregar uma mensagem contra Israel.

Diante desta característica do livro se faz necessário um cuidado maior quanto a interpretação das mensagens nele contida.

É necessário a quem interpreta o livro observar estes aspectos, pois eles delineiam o caminho para uma interpretação segura.

Observe: A mensagem do livro é especifica para Israel, mas alguns dos aspectos da mensagem demonstram de que maneira Deus se relaciona com suas criaturas. A mensagem é especifica a Israel, mas a maneira que Deus se relaciona com suas criaturas é pertinente a todos os homens.

Através da mensagem entregue pelo profeta é possível compreendermos em que se baseia o amor de Deus.

 

“Então conheçamos, e prossigamos em conhecer ao SENHOR; a sua saída, como a alva, é certa; e ele a nós virá como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra” ( Os 6:3 )

 

O povo

Israel, alvo da mensagem.

É o povo escolhido por Deus para fazer conhecido o seu nome a todas as nações. Como nação foi escolhida para a importante missão de demonstrar o maravilhoso nome de Deus a todos os homens.

Por intermédio do povo de Israel Deus revelou poderosa salvação a todos os homens.

Paulo demonstrou aos cristãos em Roma que ao povo de Israel (a nação) foi dado a lei, o culto, as promessas, os patriarcas e Cristo Jesus segundo a carne ( Rm 9:3 -4).

A escolha de Israel não foi para promover a salvação individual de cada homem desta nação, ou seja, a escolha da nação de Israel não é comparável à missão da igreja.

Por Deus agir de forma poderosa ao tirar o povo do Egito, conduzindo-o pelo deserto, Israel tornou-se conhecido a todos os povos.

Os grandes feitos realizados por Deus em prol de Israel tornou conhecido o nome do Deus de Israel ( Ex 14:17 -19; Ex 15:14 ).

Esta foi a missão pela qual o povo de Israel foi escolhido em meio a outras nações ( Dt 7:7 ). Um homem torna-se uma nação através do cuidado especial do seu Deus.

“E correu de ti a tua fama entre os gentios, por causa da tua formosura, pois era perfeita, por causa da minha glória que eu pusera em ti, diz o Senhor DEUS” ( Ez 16:14 ).

Israel era e continuará sendo o povo de Deus com uma missão específica.

Mas a escolha para a missão não proporcionou salvação aos israelitas ( Rm 9:6 ).

Para alcançarem a salvação de Deus os israelitas deviam crer na mensagem apregoada pelos seus profetas.

E qual era a mensagem apregoada desde Moisés, que é essencial a salvação individual?

 

“Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz” ( Dt 10:16 )

Recapitulando: Observe que Deus escolheu e tirou Israel do Egito, mas logo em seguida, quase todos aqueles que tinham acima de 20 anos acabaram perecendo no deserto! O salmista bem retrata este quadro no salmo 78:

 

“Não refrearam o seu apetite. Ainda lhes estava a comida na boca, Quando a ira de Deus desceu sobre eles, e matou os mais robustos deles, e feriu os escolhidos de Israel. Com tudo isto ainda pecaram, e não deram crédito às suas maravilhas. Por isso consumiu os seus dias na vaidade e os seus anos na angústia” ( Sl 78:30 -33).

 

Deus feriu no deserto os escolhidos de Israel. Seriam os escolhidos para a salvação? Não! Deus feriou os escolhidos que executavam a importante missão de fazer conhecido o nome do Senhor.

Se a escolha de Deus fosse para promover a salvação eterna de todos que saíram do Egito, eles não teriam sido consumidos no deserto “…pois não creram em Deus, nem confiaram na sua salvação” ( Sl 78:22 ).

A salvação de Deus não foi dada à nação, mas para alcançá-la bastava ao povo darem ouvido a voz do Senhor: “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração..”.

Após esta breve análise verifica-se que a sentença de Deus proferida por Malaquias contra Israel tem como objetivo repreender a nação, visto que a nação toda havia se distanciado da presença do Senhor.

Por isso o livro inicia-se assim: “Peso da palavra do Senhor contra Israel…” A sentença é especifica ao povo de Israel, pois todos se desviaram cada um após os seus próprios caminhos.

“…também estes escolhem os seus próprios caminhos, e a sua alma se deleita nas suas abominações” ( Is 66:3 ).

Resumindo: Israel foi escolhido para a missão de tornar conhecido o nome de Deus a todos os povos, mas a salvação de Deus só é alcançada individualmente por meio da fé ( Sl 78:22 ).

 

O motivo do peso do Senhor

É histórica a obstinação do povo de Israel em não atender o seu Deus. Desde que foram tirados do Egito, o povo sempre oscilou em seus caminhos perante o Senhor.

Parecia um ciclo vicioso: o povo pecava, Deus os repreendia e eles se arrependiam “Porque conheço a tua rebelião e a tua dura cerviz; eis que, vivendo eu ainda hoje convosco, rebeldes fostes contra o SENHOR; e quanto mais depois da minha morte?” ( Dt 31:27 ).

O peso, ou a sentença de Deus para um determinado povo, geralmente é proferido quando a medida de transgressão de um povo é completa.

O povo de Israel se arrependia quando estava em dificuldade, mas o livro de Malaquias evidencia um novo comportamento do povo frente a mensagem divina.

Eles deixaram de considerar os seus pecados, e passaram a questionar a mensagem entregue pelos seus profetas.

O peso do Senhor é contra a condição pecaminosa que estavam e por passarem a questionar a mensagem do Senhor.

O povo restaurado do cativeiro tornou-se mais reclusos em seus pecados. Este é o motivo do peso do Senhor.

Verificamos que a mensagem de Deus é específica ao povo de Israel e que só alguns aspectos da mensagem dizem respeito a toda humanidade. Verificamos também que Israel foi comissionado para uma missão, o que não dá direito a salvação.

Por último, nos inteiramos do motivo pelo qual Deus declara a sua sentença contra Israel.

 

Deus declara o seu amor

Os cinco primeiros versículos do livro de Malaquias tratam especificamente do amor de DEUS para com o seu povo.

A mensagem do livro destina-se ao povo de Israel, mas como o amor de Deus também é direcionado a toda humanidade, estes cinco versículos nos ajudarão a compreender alguns aspectos deste amor.

No novo testamento lemos o seguinte:

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” ( Jo 3:16 ).

Do livro de Malaquias extraímos a seguinte afirmação:

“Eu vos tenho amado, diz o SENHOR” ( Ml 1:2 ).

Analisaremos a declaração de amor que Deus fez ao povo de Israel com base no versículo seguinte:

“Agora, pois, seja o temor do SENHOR convosco; guardai-o, e fazei-o; porque não há no SENHOR nosso Deus iniquidade nem acepção de pessoas, nem aceitação de suborno ( 2Cr 19:7 ).

Este versículo nos revela três verdades que são imutáveis. Se estas verdades são inalteradas, elas servem de base para a nossa análise.

Em Deus não há:

a) Pecado, pois Ele é santo;

b) Acepção de pessoas;

c) Ele não aceita suborno (não corrompe o direito).

Deus é santo, pois a ninguém oprime. Ou seja, Deus não pode ser tentado pelo mal “Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta” ( Tg 1:13 ).

É nestes termos que se revela a santidade de Deus: apesar de sua soberania, Deus não oprime as suas criaturas.

Segue-se que este princípio refere-se a todos, pois ele não faz acepção de pessoas. Independente de origem, raça, nação, comportamento, etc. Deus não faz acepção. Trata a todos de igual modo.

É da natureza divina a retidão, a justiça e o juízo. Deus não corrompe o direito de ninguém, e aliado a isso, ele não faz acepção de pessoas.

Estas são verdades eternas que não podem ser mudadas. Não importa o povo a época, as pessoas, o comportamento dos homens, por que: Deus não faz acepção de pessoas, e ama a todos os homens.

Da mesma maneira que Deus ama a todos os homens indistintamente, Deus amava a cada um dos integrantes do povo de Israel ( Dt 4:37 ; Dt 7:7 -8 ; Dt 10:15 ; Dt 23:5 ).

Este é o primeiro parâmetro que utilizaremos para analisar a afirmação de Deus: “Eu vos tenho amado…”.

Da mesma forma que Deus amou ao povo de Israel, ele amou o mundo, isto porque ele não faz acepção de pessoas. Precisaremos deste raciocínio para interpretar o restante do texto.

A afirmação de Deus é categórica ao povo de Israel: “Eu vos tenho amado”. Esta afirmação não pode ser tomada de forma relativa, ou de maneira parcial. O amor de Deus é pleno conforme Ele mesmo afirma.

 

A queixa de um povo

Esta foi a resposta leviana do povo: Em que nos tem amado?” ( Ml 1:2 ).

É plausível a pergunta do povo de Israel?

Uma nação decadente como conseqüência direta de seus pecados pergunta sem ao menos observar os grandes feitos de Deus no passado.

“Oh geração! Considerai vós a palavra do SENHOR: Porventura tenho eu sido para Israel um deserto? Ou uma terra da mais espessa escuridão? Por que, pois, diz o meu povo: Temos determinado; não viremos mais a ti?” ( Jr 2:31 )

A declaração de amor que Deus fez ao povo é uma resposta às queixas constantes do povo de Israel. Eles constantemente diziam: “Em que nos amaste?” Com esta pergunta o povo queria que fosse revelado onde Deus demonstrou o seu amor, visto que a condição do povo era miserável e deprimente frente às outras nações.

A queixa constante “Em que nos amastes” é que traz a declaração divina: “Eu vos amei, diz o Senhor”.

 

Deus dá provas do seu amor

A pergunta: “Não era Esaú irmão de Jacó? Disse o SENHOR” nos dá os elementos essenciais para compreendermos o amor de Deus para com o homem.

Da relação fraternal entre Esaú e Jacó destacamos os seguintes elementos que devem ser analisados:

1. Esaú e Jacó: filhos de Isaque;

2. Ambos nasceram milagrosamente;

3. Eram gêmeos;

4. A primogenitura;

5. A linguagem utilizada.

Só é possível compreendermos a prova de amor que Deus apresenta após analisarmos minuciosamente estes cinco elementos que existem na relação fraternal de Esaú e Jacó.

 

A história

Deus prometeu a Abraão que dele faria uma grande nação e que nele seriam benditas todas as nações da terra “E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção. E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra!” ( Gn 12:2 -3).

Apareceu o Senhor novamente e prometeu a Abraão que a sua semente daria as terras de Canaã “E apareceu o SENHOR a Abrão, e disse: À tua descendência darei esta terra. E edificou ali um altar ao SENHOR, que lhe aparecera” ( Gn 12:7 ).

Até aqui Deus prometeu a Abraão que dele seria feito uma grande nação, que eles possuiriam a terra de Canaã e que de Abraão todas as famílias da terra seriam benditas.

Mas, algo preocupava Abraão: ele não tinha filhos.

Ele questionou o Senhor: “O Senhor Deus, o que me darás, se continuo sem filhos?” ( Gn 15:2 ).

Abraão apresentou o seu servo damasceno Eliézer como solução por não ter um filho, foi então que Deus prometeu: “…aquele que das tuas entranhas sair será o teu herdeiro”. Abraão creu, e isto foi lhe imputado como justiça.

Por que a fé de Abraão foi lhe imputada como justiça?

A explicação é simples: Se Abraão creu que Deus é poderoso para dar-lhe o que prometeu (neste caso um filho de suas entranhas), é porque ele cria na providência divina. Como a salvação nada mais é do que a providência divina a toda humanidade, Abraão foi justificado.

Logo em seguida, Sara, a mulher de Abraão, quis ter um filho por meio da sua escrava egípcia, Hagar. Foi quando nasceu Ismael.

Novamente Deus aparece e reitera as suas promessas a Abraão, e ele apresenta Ismael diante do Senhor, pois se achava velho para ter um filho ( Gn 17:17 -18).

 

Deus cumpriu a sua promessa e Isaque nasceu

Mas, Sara viu o filho da escrava zombando de seu filho e mandou Abraão despedir a escrava com o seu filho; Abraão ficou ressabiado, pois Ismael, segundo a sua concepção, era o seu primogênito. Deus disse a Abraão: “Não te pareça mal aos teus olhos acerca do moço e acerca da tua serva; em tudo o que Sara te diz, ouve a sua voz; porque em Isaque será chamada a tua descendência” ( Gn 21:12 ).

A promessa de Deus não se refere à descendência carnal de Abraão, como foi o caso de Ismael e os filhos das concubinas de Abraão ( Gn 25:5 -6). A promessa se concretizou na descendência proveniente da própria promessa – Isaque.

A promessa de Deus diz respeito a Isaque, e não a Ismael.

Os filhos de Abraão e de Isaque haveriam de herdar a terra porque Deus prometeu. Haveria de adquiri-la por meio da fé? Não! Eles tinham direito a terra prometida, pois Deus a concedeu a descendência de Abraão por promessa.

Mas, e quanto à salvação? Eles haveriam de adquirir a salvação pelo simples fato de serem descendência e herdeiros de Abraão “Nem por serem descendência de Abraão são todos filhos…” ( Rm 9:7 ). Herdar a terra prometida é o mesmo que alcançar a salvação de Deus? Não!

A promessa de salvação feita por Deus refere-se aos que crêem no descendente de Abraão, que é Cristo “Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo” ( Gl 3:16 ).

Paulo complementa: “Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência” ( Rm 9:8 ).

Para ser filho da promessa o homem precisa crer na providência divina, e então será justificado como foi o patriarca Abraão ( Jo 1:11 -12).

Deus havia prometido a Abraão que em Isaque seria chamada a sua descendência ( Gn 21:12 ). Quando a Abraão e Sara parecia impossível terem um filho, nasceu Isaque.

De Isaque nasceram Esaú e Jacó, ambos herdeiros.

Observe que tanto Esaú quanto Jacó tinham plenos direitos de herdarem de Isaque.

Ao fazer referência ao termo ‘herdar’, estamos fazendo referencia a um direito terreno. Já a promessa faz referencia a bens eternos.

 

A Promessa

Da promessa sabemos que ela refere-se ao DESCENDENTE, que é Cristo, pois nele são benditas todas as famílias da terra.

“E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra” ( Gn 12:3 ).

“Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo” ( Gl 3:16 ).

Observe que a promessa foi feita a Abraão e a sua descendência, que é Cristo; desta promessa fundamenta-se o evangelho, pois a Abraão foi anunciado o evangelho primeiramente ( Gl 3:8 ).

O fato de em Abraão serem benditas todas as famílias da terra nos dá parâmetros para entendermos a base do evangelho.

Abraão creu em Deus, e isto lhe foi imputado como justiça.

Conclui-se que, como Deus não faz acepção de pessoas, aqueles que crerem na justiça de Deus (providenciada e demonstrada aos homens), serão justificados como o crente Abraão ( Gl 3:6 -9).

A promessa é por graça, pois Abraão não realizou obra alguma que merecesse a justiça divina, mas ao crer que Deus poderia realizar tudo o que prometerá, foi justificado! Observe que Deus pode realizar muito mais do que aquilo que pensamos ou pedimos ( Ef 3:20 ).

Abraão pensava em sua descendência quando recebeu a justiça de Deus.

Segue-se que a promessa diz respeito àqueles que são da fé, ou seja, daqueles que são filhos de Deus; daqueles que tem a mesma fé que teve Abraão.

Por outro lado, tanto Esaú quanto Jacó eram filhos de Abraão segundo a carne, e se a promessa fosse por descendência, ambos deveriam ser filhos da promessa. Mas não é assim a promessa ( Rm 9:8 ).

 

Herdeiros

Com relação a herdar de Isaque, Esaú e Jacó tinham direito.

Com relação à promessa ambos precisavam crer para alcançá-la, mas com relação à herança, ambos tinham direito.

Com relação ao direito a herança de Abraão, nem o jovem Damasceno, nem Ismael puderam herdar ( Gn 15:2 -3 e Gn 21:10 ). Observe que aos filhos das concubinas Abraão deu presente, mas a Isaque, Abraão deu tudo que possuía ( Gn 25:4 -5).

Abraão queria de várias formas constituir um herdeiro para si, mas Deus lhe prometeu que teria um filho de Sara sua mulher ( Gn 17:19 ).

Nasceu Isaque que tornou-se herdeiro de Abraão, e nele também foi chamada a descendência de Abraão conforme a promessa.

Como Isaque era único não houve qualquer discórdia acerca das questões em torno da primogenitura. Com Esaú e Jacó tal discussão é diferente.

Esaú, Jacó e Isaque eram filhos de Abraão; Esaú, Jacó e Isaque eram herdeiros de Abraão; Isaque era descendente segundo a promessa, mas de Esaú e Jacó não podemos dizer o mesmo.

Da mesma maneira que Esaú e Jacó nasceram de uma estéril, o que demonstra um milagre de Deus, Isaque também nasceu. Mas ter direito a herança e nascer de uma concepção milagrosa não faz de ninguém filho da promessa.

Porém, há um elemento diferenciador: enquanto Isaque era filho único, Esaú e Jacó eram gêmeos. Deste fato surge o direito decorrente da primogenitura.

 

A Primogenitura

Sobre a primogenitura a lei de Moisés diz o seguinte:

“Será que, no dia em que fizer herdar a seus filhos o que tiver, não poderá dar a primogenitura ao filho da amada, preferindo-o ao filho da desprezada, que é o primogênito. Mas ao filho da desprezada reconhecerá por primogênito, dando-lhe dobrada porção de tudo quanto tiver; porquanto aquele é o princípio da sua força, o direito da primogenitura é dele” ( Dt 21:16 ).

Segue-se que o direito de primogenitura já existia antes mesmo da lei; mas, a lei além de instituí-la, dá os parâmetros para executar a partilha da herança.

Em primeiro lugar precisa-se observar que, para existir o direito de primogenitura, há a necessidade de se ter filhos “…fizer herdar a seus filhos…”. Isto porque não há como se preitear o direito de primogenitura quando se é filho único, e este foi o caso de Isaque.

O primogênito é o filho da primeira gestação, e tal direito não havia como ser passado do irmão mais velho ao mais novo. Era um direito decorrente do nascimento.

Agora pergunto: Como Jacó conseguiu aprovação de Deus ao adquirir o direito de primogenitura de Esaú?

Observe que Esaú e Jacó não eram frutos de gestações diferentes. Eles nasceram quase que simultaneamente, e de um único parto. Não houve interrupção no parto de Esaú e Jacó.

Jacó nasceu ligado ao calcanhar de Esaú, o que sinaliza que não houve interrupção no parto. Isto demonstra que ambos tinham direitos à primogenitura.

Segue-se que se Jacó tivesse nascido de uma segunda gravidez seria impossível ele adquirir o direito de primogenitura.

Mas, como Esaú e Jacó eram provenientes de uma mesma gestação, e nasceram na seqüência, neste caso em específico foi possível a Jacó comprar o direito de primogenitura.

 

A linguagem

Outro fator importante a se observar quando se interpreta um texto está na linguagem utilizada pelo escritor. Observe:

“…não poderá dar a primogenitura ao filho da amada, preferindo-o ao filho da desprezada, que é o primogênito” ( Dt 21:16 ).

Filho da amada refere-se aquele que o pai tem preferência; já o filho da desprezada refere-se àquele que tem o direito a primogenitura, mas que não tem a preferência do pai.

Desta maneira podemos concluir que o amor do homem é tendencioso. Um exemplo claro de amor tendencioso é o de Isaque: “E amava Isaque a Esaú, porque a caça era de seu gosto, mas Rebeca amava a Jacó” ( Gn 25:28 ).

O amor do homem é sentimental. Basta que algo lhe agrade que estará favorecendo o seu semelhante. O homem no trato com os seus semelhantes geralmente tem preferência entre um e outro.

Esta passagem de Deuteronômio bem representa a maneira que o homem prefere um em detrimento de outro. Por gostar mais de uma de suas mulheres, o homem quando da partilha dos bens, acabava por favorecer o filho da mulher que ele mais amava.

Desta maneira Deus instrui o povo: Não darás a primogenitura ao filho da amada, preferindo-o ao filho da desprezada. O que Deus demonstra? Que era vetado favorecer um filho em detrimento do outro.

Deus ensina por meio da lei que é vetado negar o que é de direito a um filho. E quanto ao que ocorreu com Isaque e Esaú? Deus favoreceu a Jacó?

Da relação fraterna entre Esaú e Jacó destacamos os elementos enumerados anteriormente. Todos os elementos são implícitos da relação estabelecida: “Não era Esaú irmão de Jacó?”.

Há uma linguagem própria ao tema; há um direito que não pode ser negado; ambos eram herdeiros e nasceram de uma única gravidez, etc.

Todas as considerações em torno dos irmãos Esaú e Jacó nos leva a entender o amor de Deus, tanto para com Israel, como para a humanidade.

“Contudo, amei a Jacó…”

Quando Deus pergunta ao povo: “Não era Esaú irmão de Jacó?” é porque a resposta do povo serve de sustentação a argumentação seguinte.

A pergunta nos remete a um ‘sim’ como resposta. É necessário que consideremos a história que permeia a vida destes dois personagens, pois a pergunta divina nos remete a relação fraternal de Esaú e Jacó.

Eles não eram irmãos? Ou seja, eles não nasceram de Isaque? Ambos não eram filhos de Abraão? Eles não eram gêmeos? A resposta é sim! Esaú e Jacó eram irmãos.

Através deste argumento Deus prova que sempre amou o povo de Israel.

Como? Através dos cinco elementos anteriores podemos compreender de que maneira Deus amou a Jacó.

“Todavia amei a Jacó…”

Jacó tornou-se alvo do amor de Deus, apesar de Esaú e Jacó serem irmãos.

Como? Como Deus amou a Jacó?

 

Passemos à resposta:

Isaque, que tinha gosto por caça, amava a Esaú, pois ele era homem do campo e um perito caçador.

O gosto de Isaque e a qualidade de caçador de Esaú são fatores que combinados influenciaram o amor do patriarca.

“E cresceram os meninos, e Esaú foi homem perito na caça, homem do campo; mas Jacó era homem simples, habitando em tendas. E amava Isaque a Esaú, porque a caça era de seu gosto, mas Rebeca amava a Jacó” ( Gn 25:26 -27).

Isaque amava a Esaú. Observe que o amor de Isaque tinha em preferência Esaú; observamos um amor tendencioso.

Esaú era caçador e Jacó um homem sossegado que habitava em tendas. Segundo a visão e o sentimento de Isaque, Jacó não tinha as mesmas afinidades, o que o levou a preferir Esaú.

A bíblia registra várias vezes declarações de amor de Deus para com o seu povo Israel. Observe:

 

“E, porquanto amou teus pais, e escolheu a sua descendência depois deles, te tirou do Egito diante de si, com a sua grande força” ( Dt 4:37 );

“O SENHOR não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos em número do que todos os povos; Mas, porque o SENHOR vos amava, e para guardar o juramento que fizera a vossos pais, o SENHOR vos tirou com mão forte e vos resgatou da casa da servidão, da mão de Faraó, rei do Egito” ( Dt 7:7 -8);

“Tão somente o SENHOR se agradou de teus pais para os amar; e a vós, descendência deles, escolheu, depois deles, de todos os povos como neste dia se vê” ( Dt 10:15 );

“Porém o SENHOR teu Deus não quis ouvir Balaão; antes o SENHOR teu Deus trocou em bênção a maldição; porquanto o SENHOR teu Deus te amava ( Dt 23:5 ).

 

Ao ler os versículos acima, verifica-se que o amor de Deus para com o povo de Israel não é igual ao amor de Isaque para com os seus filhos.

O amor de Isaque era segundo o gosto que ele tinha pela caça; já o amor de Deus é segundo a sua vontade. Isaque amava a Esaú por causa da qualidade de caçador; Israel não tinha nenhuma qualidade, no entanto Deus ama a Israel ( Dt 9:6 ).

Observe que a declaração de Deus a Israel vem atrelada ao amor para com os patriarcas e com a promessa que a eles foi realizada.

Deus amou aos pais e escolheu a descendência dos patriarcas ( Dt 4:37 ). Não foram as qualidades do povo que fez surgir o amor de Deus, antes o amor de Deus para com os patriarcas é quem deu origem ao povo de Israel. Segue-se que Deus teve prazer em Israel e os escolheu porque os amava e para guardar a aliança feita com os pais ( Dt 7:7 -8).

Deus reitera o seu amor para com Israel dizendo: “Tão somente o Senhor se agradou de teus pais para os amar”; O fato de Deus se agradar dos patriarcas é que deu causa ao amor de Deus. Como?

Retornemos ao fato de Deus chamar o patriarca Abraão. Deus falou a Abraão: “Sai-te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção. E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra” ( Gn 12:1 -3).

A proposta de bênção a Abraão partiu de Deus, ou seja, Deus se agradou de Abraão. Como Abraão correspondeu à proposta divina saindo da sua parentela, Deus passou a cumprir a sua proposta, o que demonstra o amor de Deus.

 

“O amor de Deus é demonstrado em santidade, retidão e justiça”

O amor do homem é demonstrado em favoritismo pessoal.

Já o amor de Deus é demonstrado em justiça. Como pode ser isso?

“Não era Esaú irmão de Jacó? disse o SENHOR; todavia amei a Jacó …”

Esaú e Jacó eram irmãos, mas apesar da relação fraternal entre os gêmeos, Deus amou a Esaú.

De que maneira Deus amou a Jacó?

Deus favoreceu Jacó em detrimento de Esaú? Isto seria amor? Não haveria acepção?

É isto que a relação fraternal evidenciada demonstra:

a) Deus é santo;

b) Não faz acepção de pessoas;

c) Não perverte o direito.

Quem era Jacó?

A bíblia descreve Jacó como sendo um homem de personalidade sossegada. O estilo de vida de Jacó era o de habitar em tendas.

A bíblia também descreve o nascimento de Jacó: um milagre! Raquel era estéril, mas concebeu após Isaque ter orado insistentemente ao Senhor. Raquel concebeu gêmeos e durante o parto Jacó saiu grudado ao calcanhar de seu irmão ( Gn 25:26 ).

Jacó durante a sua mocidade se mostrou oportunista comprando o direito de primogenitura do seu irmão ( Gn 25:29 -34).

Quando Isaque procurou abençoar os seus filhos, Jacó foi sutil e recebeu a bênção que antes pertencia a seu irmão ( Gn 27:35 ).

Diante da história de Jacó, pode-se afirmar que Deus só amou Jacó?

Não! Por quê? Porque Deus é santo e não faz acepção de pessoas! Deus amou e ama a todos os homens de igual modo.

Tanto Esaú quanto Jacó foram alvos do amor de Deus.

Mas, por que a bíblia diz que ‘Deus amou a Jacó’, se ele ama a todos? Por que Deus não perverte o direito, e um exemplo claro é a declaração: Deus não aceita suborno.

Jacó adquiriu legalmente o direito de primogenitura, e em decorrência do direito adquirido, Jacó foi ‘amado’ do Senhor. Ou seja, Deus concedeu a Jacó o que lhe era de direito.

Responda as perguntas seguintes acerca da declaração de Deus:

• Deus amou mais a Jacó do que Esaú? Não!

• Jacó era melhor que Esaú? Não!

• Jacó foi abençoado em decorrência da sua fé? Não!

• Deus favoreceu a Jacó em detrimento de Esaú? Não!

 

No caso de Esaú e Jacó não entra em voga questões pessoais como qualidades, moral, comportamento e vontade, antes o fator em evidência é o direito adquirido.

O amor de Deus foi revelado quando foi concedido a Jacó o que lhe era de direito.

Neste ponto entram em questão os cinco elementos enumerados no início da análise:

• A linguagem;

• O direito de primogenitura;

• O direito de herdar;

• A promessa, e;

• A história.

A linguagem utilizada por Malaquias para anunciar o sentimento divino é totalmente pertinente a linguagem bíblica.

Quando o profeta Malaquias transmite ao povo a seguinte mensagem: “Todavia amei a Jacó…”, a declaração é realizada em uma linguagem própria a idéia que se procurou transmitir.

A bíblia registra que Isaque amou a Esaú, mas de que forma?

Com base em preferências pessoais! A bíblia registra que Isaque amava a Esaú pelo simples fato dele gostar de caça “E amava Isaque a Esaú, porque a caça era de seu gosto, mas Rebeca amava a Jacó” ( Gn 25:28 ).

Se dependesse de Isaque a bênção decorrente do direito de primogenitura seria dada a Esaú ( Gn 27:1 -4).

Note que antes de abençoar a Esaú, Isaque queria satisfazer uma necessidade pessoal.

Seguindo o mesmo estilo de linguagem, a lei mosaica demonstra que o amor do homem não deve ser de acordo com uma preferência pessoal “Será que, no dia em que fizer herdar a seus filhos o que tiver, não poderá dar a primogenitura ao filho da amada, preferindo-o ao filho da desprezada, que é o primogênito” ( Dt 21:16 ).

A linguagem utilizada pelos dois versículos com relação ao amor aponta para preferência pessoal. Desta maneira a palavra ‘amor’ tem no seu bojo a idéia de gosto e preferência.

Observe que a expressão ‘filho da amada’ refere-se aquele filho que o pai tem preferência em decorrência de algum gosto em especial.

Como a bíblia registra que em momento algum se deve favorecer alguém que não tenha o direito, a análise da declaração: ‘Todavia amei a Jacó’, deve demonstrar que em Deus não há qualquer tipo de favoritismo pessoal.

Em momento algum Deus teve preferência ou favoreceu Jacó em detrimento de Esaú.

Deus amou a Jacó, ou seja, a linguagem utilizada e analisada dentro do contexto, que demonstra que Deus concedeu o que era de direito a Jacó.

Homem decide-se com base em gostos pessoais, e Deus se compraz naquilo que é justo e reto. A ‘preferência’ de Deus é a justiça.

A relação fraternal entre Esaú e Jacó foi utilizada para retratar de que forma está estabelecido o amor de Deus para com o povo de Israel.

Lembre-se que a mensagem divina é para o povo de Israel: “Eu vos tenho amado, diz o SENHOR. Mas vós dizeis: Em que nos tem amado?”. Ou seja, por meio da mensagem entregue por Malaquias Deus procurou demonstrar ao povo de Israel que eles estavam sob o cuidado divino devido a promessa feita aos pais “Mas, porque o SENHOR vos amava, e para guardar o juramento que fizera a vossos pais” ( Dt 7:7 -8).

A mensagem é simples: Deus faz o que é justo ao preservar o povo de Israel (este é o amor de Deus), isto porque de maneira alguma Ele voltará atrás no juramento que fez aos pais.

Ao ler a história de Israel, muitos reputam que Deus sempre favoreceu o povo de Israel em detrimento dos outros povos.

Mas assim não é! Por quê? A resposta é simples: Deus não faz acepção de pessoas; Deus não aceita suborno e Ele é Santo.

Deus havia prometido aos pais, que de Israel faria uma grande nação, e por intermédio do cumprimento desta promessa que se revela o cuidado e o amor de Deus para com Israel.

Após a conscientização de que o contato com a linguagem utilizada por Malaquias também pode transmitir ou enfatizar uma ideia, passemos ao próximo ponto.

“E estas coisas foram-nos feitas em figura, para que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram” ( 1Co 10:6 ).

“Ora, tudo isto lhes sobreveio como figuras, e estão escritas para aviso nosso, para quem já são chegados os fins dos séculos” ( 1Co 10:11 ).

“Porque Cristo não entrou num santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, porém no mesmo céu, para agora comparecer por nós perante a face de Deus” ( Hb 9:24 ).

Para prosseguirmos em nosso estudo precisaremos observar o alerta de Paulo aos cristãos da igreja em Corintios.

O objetivo do apóstolo Paulo é alertar os cristãos, mas deste alerta nos cabe uma grande lição.

O apóstolo demonstra que todos aqueles que saíram do Egito passaram pelas mesmas experiências. Todos foram batizados na nuvem e no mar; todos comeram da mesma comida; todos beberam da mesma bebida, mas Deus não se agradou da maioria deles.

Por quê? Por que todos os homens que saíram do Egito, exceto dois, não puderam adentrar a terra prometida? Todos não beberam da mesma água e não comeram da mesma comida? ( Nm 14:30 ).

O que ocorreu com o povo de Israel serve de alerta para as nossas vidas, ou seja, ‘estas coisas foram-nos feitas em figuras’ e estão escritas para aviso, para que não venhamos a incorrer em erros ( 1Co 10:1 -6).

E quanto ao povo de Israel, o povo que nos serve de figuras?

Todos os elementos que estão presentes na história dos patriarcas e de Israel nos transmitem mensagens por figuras.

O fato de Israel ter estado debaixo da nuvem e ter passado pelo mar demonstram que todos foram batizados em Moisés ( 1Co 10:1 ); o fato de todos comerem da mesma comida e beberam da mesma bebida representa que todos se tornaram participantes de Cristo ( 1Co 10:4 ).

Moisés ao construir o tabernáculo no deserto seguiu um modelo, figura do verdadeiro tabernáculo que estava nos céus “Estava entre nossos pais no deserto o tabernáculo do testemunho, como ordenara aquele que disse a Moisés que o fizesse segundo o modelo que tinha visto” ( At 7:44 ).

Quase todos os elementos que foram apresentados no Antigo Testamento contêm uma ideia transmitida por figuras.

A primogenitura apresenta uma das mais importantes das figuras bíblicas.

Quando Moisés construiu o tabernáculo, o fez com base em um modelo; a lei não apresentava a imagem exata das coisas, antes era só uma sobra das coisas futuras “Porque tendo a lei a sombra dos bens futuros, e não a imagem exata das coisas, nunca, pelos mesmos sacrifícios que continuamente se oferecem cada ano, pode aperfeiçoar os que a eles se chegam” ( Hb 10:1 ).

E o que a primogenitura nos apresenta? Após entendermos a primogenitura, poderemos verificar a que se refere esta importante figura bíblica.

As figuras fazem referência a bens futuros e eternos. Nestas figuras contém elementos que nos faz perceber certos aspectos pertinentes ao que é permanente (eterno).

“Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” ( Rm 8:29 ).

Sabemos que Deus faz todas as coisas segundo o seu propósito. Deus propôs fazer convergir em Cristo todas as coisas para louvor de sua graça e glória.

Ao falar do propósito eterno de convergir em Cristo todas as coisas na plenitude dos tempos, Deus falou ao rei Davi assim: “Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho” ( 2Sm 7:14 ). Ou seja, Deus demonstra a Davi qual seria a relação entre Deus e o descendente de Davi.

Deus estabelece a relação de Pai e Filho ao falar de Jesus ao rei Davi. Por que Deus estabelece esta relação? Porque antes de existir mundo, na eternidade, não havia a relação Pai e Filho na divindade. Mas, ao ser introduzido o ‘Deus forte’ no mundo dos homens, passou a existir a relação Pai e Filho.

Quando na glória, sabemos que Cristo criou todas as coisas “Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele” ( Cl 1:16 -17), mas ao ser introduzido Cristo no mundo, pela relação que estava pré-estabelecida na eternidade, é dada a ordem: “E outra vez, quando introduz no mundo o primogênito, diz: E todos os anjos de Deus o adorem” ( Hb 1:6 ).

Por que se fez necessário se estabelecer a relação de Pai e Filho quando o ‘Deus forte’ foi introduzido no mundo? “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” ( Is 9:6 ). “Os restantes se converterão ao Deus forte, sim, os restantes de Jacó” ( Is 10:21 ).

Porque Cristo é o unigênito do Pai, mas havia em Deus o propósito eterno de fazê-lo primogênito de toda a criação. Sabemos que Cristo é o unigênito de Deus em poder e glória, e isto não será alterado ao longo da eternidade, pois a ele glória e majestade para o todo sempre.

Mas, para que Cristo se tornasse o primogênito de toda a criação, torna-se premente a existência de irmãos. Não há como existir a primogenitura se há só um Filho.

Aqui se revela a multiforme sabedoria de Deus, em que Cristo foi feito um pouco menor que os anjos, porém todas as coisas lhe são sujeitas; e, por meio de Cristo, Deus trouxe à glória muitos irmãos (que somos nós, a igreja), cumprindo-se o propósito eterno de Cristo ser o primogênito de toda a criação.

Como? Quando Cristo ressurgiu dentre os mortos, Ele tornou-se o primogênito dentre os mortos, e quando o cristão morre e ressurge com Cristo, também se torna um dos filhos de Deus, e Cristo vindica a posição sobre excelente de primogênito.

Por quê? “Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas, e mediante quem tudo existe, trazendo muitos filhos à glória, consagrasse pelas aflições o príncipe da salvação deles” ( Hb 2:10 ).

Por meio de Cristo tudo existe, mas convinha que Ele levasse à glória muitos irmãos, ou seja, filhos gerados de Deus. Como conseqüência direta de Jesus ter introduzido muitos filhos à glória, passou a existir a preeminência de Cristo: o primogênito dentre os mortos: “E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência” ( Cl 1:18 ).

Todos os que estão em Cristo, ou seja, que morreram e ressurgiram com Ele, não possuem alternativa. Haverão de ser filhos de Deus, predestinados, serão conforme a imagem de Cristo, com o único objetivo de Cristo ser primogênito dentre muitos irmãos “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” ( Rm 8:29 ).

Em decorrência destas verdades eternas é que se estabeleceu o direito de primogenitura. No primeiro momento temos a impressão que o direito de primogenitura não tem relação com estas verdades eternas, porém ao observarmos as declarações do apóstolo Paulo, nos inteiramos da seguinte verdade: a primogenitura foi estabelecida por Deus aos homens como figura de verdades eternas.

Por isto faz-se necessário observarmos a relação fraternal entre Jacó e Esaú, pois nela temos que considerar o direito que decorre da primogenitura.

Se olharmos a primogenitura do ponto de vista secular, geralmente ela é analisada como sendo regras pertinentes à sucessão hereditária, o que envolve deveres para com a família e direitos quanto a bens patrimoniais.

Todas as vezes que se lê na bíblia que ‘fulano’ era o primogênito, a única relação que se estabelece é com relação ao direito do mais velho receber porção dobrada da herança.

Mas, após verificarmos que a primogenitura é figura de conceitos espirituais, muda a maneira de se observar o porquê a bíblia enfatiza o direito proveniente da primogenitura.

Paulo ao escrever aos cristãos em Roma faz referência a Esaú e Jacó da seguinte maneira:

“E não somente esta, mas também Rebeca, quando concebeu de um, de Isaque, nosso pai; Porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama), Foi-lhe dito a ela: O maior servirá o menor. Como está escrito: Amei a Jacó, e odiei a Esaú. Que diremos pois? que há injustiça da parte de Deus? De maneira nenhuma” ( Rm 9:11 -14).

O propósito inicial de nosso estudo é compreender os argumentos utilizados por Paulo para nos fazer chegar a conclusão de que não há injustiça da parte de Deus.

Justamente a citação de Malaquias: “Amei a Jacó e aborreci a Esaú”, que muitos usam para afirmar que Deus foi parcial em favor de Jacó é o texto que Paulo utiliza para demonstrar que não há injustiça em Deus.

Não há de maneira alguma injustiça da parte de Deus! Esta é a conclusão de Paulo. Mas, como chegar a tal conclusão diante dos argumentos que ele utilizou?

Quando Paulo cita a história de Esaú e Jacó, ele faz referência a eventos que ocorreram antes do parto. Destes eventos ele destaca que os gêmeos ainda não haviam nascido (o que demonstra que eles não haviam feito bem ou mal), e Deus anunciou a Rebeca que o maior haveria de servir o menor.

É certo que Deus adiantou a Rebeca que Esaú serviria a Jacó por meio de sua onisciência, no entanto, a onisciência não é a base da eleição.

Da mesma forma a soberania de Deus não é a base para a eleição, visto que a eleição é a base para o seu propósito.

Não! Não foi por meio destes elementos que Deus fez conhecido a Rebeca que Esaú serviria a Jacó.

1º Não foram as ações de Jacó que determinaram o amor de Deus;

2º Deus não tem preferência por suas criaturas, visto que ele não faz acepção de pessoas, é santo e não aceita suborno.

Quais são os elementos que o apóstolo Paulo utiliza para afirma que não há injustiça da parte de Deus? Que por intermédio da onisciência divina, Deus antecipou a Rebeca que o maior serviria o menor, o que é a base do que foi dito por intermédio de Malaquias: “Amei a Jacó, e aborreci a Esaú”.

Observe a análise de Paulo:

“Foi-lhe dito a ela: O maior servirá o menor. Como está escrito: Amei a Jacó, e odiei a Esaú. Que diremos, pois? Que há injustiça da parte de Deus? De maneira nenhuma” ( Rm 9:11 -14).

Com base no que está escrito em Malaquias (com base em seu amor) é que Deus disse a Rebeca que o maior haveria de servir o menor. Se o amor é a base, não há como considerar que a soberania ou a ideia equivocada acerca da ‘presciência’* de Deus é que demonstra a justiça de Deus.

Por que é segundo o amor de Deus? Porque o amor de Deus é demonstrado em justiça e não em favoritismo pessoal.

Com base nestes elementos Paulo conclui: “Que diremos, pois? Que há injustiça da parte de Deus?”.

Novamente: Que elementos? Observe:

“(para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama)”

 

Qual o propósito de Deus?

“Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” ( 2Tm 1:9 ).

O propósito e a graça de Deus são antes de se estabelecer os tempos que se mensura através de unidades de medidas tão exíguos como é o caso do ‘século’ II Pd 3. 8. O propósito foi estabelecido na eternidade e na pessoa de Cristo Jesus. Aqui Paulo falou do tempo em que Deus estabeleceu o seu propósito e por meio de quem ele levou a efeito tal propósito – Jesus Cristo.

“Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo, de tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra” ( Ef 1:9 -10).

Qual o propósito, ou qual a vontade de Deus, que nos é revelado em Cristo? O propósito de Deus é o de reunir em Cristo todas as coisas “…tanto as que estão nos céus como as que estão na terra”.

Para este propósito Deus nos fez agradáveis a si por meio de Cristo; perdoou os nossos pecados, nos redimiu etc ( Ef 1:3 -10).

Além de congregar em Cristo todas as coisas, o propósito de Deus também inclui a preeminência em tudo “E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência” ( Cl 1:18 ).

Novamente vemos que quando Cristo ressurgiu dentre os mortos, ele se tornou o primogênito de Deus, visto que para alcançarmos a filiação divina nos é necessário nascer de novo. Só a ressurreição em Cristo proporciona esta nova condição ao crente.

“Mas sobre a casa de Davi, e sobre os habitantes de Jerusalém, derramarei o Espírito de graça e de súplicas; e olharão para mim, a quem traspassaram; e pranteá-lo-ão sobre ele, como quem pranteia pelo filho unigênito; e chorarão amargamente por ele, como se chora amargamente pelo primogênito” ( Zc 12:10 ).

O profeta Zacarias lança esclarecimento sobre as duas condições pertinentes a Cristo. Em um futuro próximo Israel olhará para aquele aquém crucificaram da seguinte maneira:

a) Chorarão pelo unigênito de Deus. Este versículo demonstra a divindade de Cristo! Ou seja, chorarão cientes de que crucificaram o filho unigênito de Deus;

b) Da mesma forma chorarão pelo primogênito, pois está é a condição daquele que ressurgiu dentre os mortos.

Morreu na cruz o unigênito filho de Deus! Ressurgiu dentre os mortos o primogênito de Deus, isto porque ele conduz a glória muitos irmãos.

“E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade. Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou” ( Jo 1:14 e 18).

“Nisto se manifesta o amor de Deus para conosco: que Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo, para que por ele vivamos” ( 1Jo 4:9 ).

O apóstolo João é enfático ao falar da condição de Cristo:

a) O Filho unigênito revelou e nos fez conhecer o Pai;

b) O Filho foi enviado ao mundo;

c) Foi possível reconhecer que a glória do Pai estava sobre o unigênito.

 

“Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” ( Rm 8:29 );

“O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação” ( Cl 1:15 );

“E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência” ( Cl 1:18 );

“E outra vez, quando introduz no mundo o primogênito, diz: E todos os anjos de Deus o adorem” ( Hb 1:6 );

“E da parte de Jesus Cristo, que é a fiel testemunha, o primogênito dentre os mortos e o príncipe dos reis da terra. Aquele que nos amou, e em seu sangue nos lavou dos nossos pecados” ( Ap 1:5 ).

 

Paulo é enfático ao falar da primogenitura de Cristo: Ele é o primogênito de toda a Criação!

Mas, para Cristo obter a condição de primogênito, fez-se necessário que muitos irmãos viessem a existência. Como?

Todos aqueles que creem em Deus e em Cristo conforme diz as escrituras, estes nascem de Deus, e se tornam seus filhos “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” ( Jo 1:12 -13).

“Porque, ainda que foi crucificado por fraqueza, vive, contudo, pelo poder de Deus. Porque nós também somos fracos nele, mas viveremos com ele pelo poder de Deus em vós” ( 2Co 13:4 ).

O mesmo poder que trouxer Cristo dentre os mortos é o que opera em nós, os que cremos!

“E qual a sobre excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder, Que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus” ( Ef 1:18 -19).

O poder de Deus foi manifesto em Cristo, quando da ressurreição dentre os mortos. Este poder é que em nós opera.

Todos estes elementos reunidos nos fazem filhos de Deus e irmãos de Cristo. Desta maneira ele é o primogênito dentre muitos irmãos!

Vimos por meio dos versículos citados acima que Deus aprovou (beneplácito) o propósito que tivera em si de fazer convergir em Cristo todas as coisas. Para isto, o Filho unigênito foi entre por todos nós “Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas?” Rm 8. 32, e após a ressurreição de Cristo, muitos filhos foram conduzidos a glória “Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas, e mediante quem tudo existe, trazendo muitos filhos à glória, consagrasse pelas aflições o príncipe da salvação deles” ( Hb 2:10 ).

“(para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama)”

Mas, por que o propósito de Deus é segundo a Eleição?

Paulo estava falando de que maneira se alcança a filiação divina: pela promessa se é contado como descendência de Abraão (filho de Deus). E qual foi a palavra da promessa? “Por este tempo virei, e Sara terá um filho” ; da mesma forma a palavra da promessa foi dita a Rebeca, o que demonstra o propósito de Deus em constituir filhos para si.

Paulo já havia falado do propósito de Deus em alguns versículos anteriores.

Paulo havia demonstrado que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que são chamados (aqueles que amam a Deus) segundo o seu propósito ( Rm 8:28 ). Estes foram predestinados para serem conforme a imagem de Cristo, com o fim último de Cristo ser primogênito ( Rm 8:29 ).

Temos o propósito de Deus de maneira evidente: Cristo ter a preeminência e Deus muitos filhos.

Mas há uma ressalva para tudo isto: o propósito é segundo a eleição!

O texto demonstra a onisciência divina: antes de Esaú e Jacó nascerem foi dito a Rebeca que o maior haveria de servir o menor. Mas, o que foi dito à Rebeca não é com base na ideia equivocada de presciência ou soberania de Deus. O que foi dito a Rebeca é conforme o que está escrito: “Amei a Jacó e aborreci a Esaú”.

Se o que foi dito a Rebeca é conforma Malaquias 1. 2- 3 resta a conclusão: Não há injustiça da parte de Deus!

Observe ainda:

“O maior servirá o menor” é conforme o que está escrito: “Amei a Jacó e aborreci a Esaú”. Que diremos Pois? Que não há injustiça da parte de Deus!

Por quê? Por que na fase: “Amei a Jacó…” está implícito como é o amor de Deus! Ou seja, para compreender a frase: “Amei a Jacó…”, só é possível se considerarmos a relação fraternal de Esaú e Jacó “Não foi Esaú irmão de Jacó? Todavia..”.

 

O propósito de Deus é segundo a eleição

Este tópico nos remete ao início do estudo.

A eleição de Deus é desta forma:

“Não foi Esaú irmão de Jacó? Todavia amei a Jacó e aborreci a Esaú” ( Ml 1:2 -3)

A eleição do homem é da seguinte maneira:

“E cresceram os meninos, e Esaú foi homem perito na caça, homem do campo; mas Jacó era homem simples, habitando em tendas. E amava Isaque a Esaú, porque a caça era de seu gosto, mas Rebeca amava a Jacó” ( Gn 25:27 -28).

O que este dois textos demonstram? Que o amor do homem é tendencioso, segundo preferências pessoais (gosto). Isaque amava Esaú por ele ser caçador. Rebeca amava Jacó por ele habitar em tendas e ser sossegado.

O amor do homem é propenso, inclinado a favorecer aquele que mais o agrada.

E como se dá a escolha de Deus? Com base em seu amor!

Daí surge os três elementos: Deus é santo; não perverte o direito e não faz acepção de pessoas.

Deus amou a Jacó, ou seja, fez o que lhe era de direito, conferindo a ele o direito de primogenitura. Em momento algum Deus oprimiu a Esaú para que colocasse a venda o direito de primogenitura – Demonstra a santidade de Deus. Em momento algum Deus preferi a Jacó em detrimento de Esaú – Demonstra que Deus não tem ninguém em preferência. Por mais que Esaú buscou reaver o seu direito, não foi possível – Deus não corrompe o direito; as lágrimas não podem subornar aquele que é justo e reto “Porque bem sabeis que, querendo ele ainda depois herdar a bênção, foi rejeitado, porque não achou lugar de arrependimento, ainda que com lágrimas o buscou” ( Hb 12:17 ).

Por que Esaú não achou lugar de arrependimento? Porque não há como duas pessoas compartilharem o direito que decorre da primogenitura.

Não podemos confundir: Esaú não achou lugar de arrependimento por não ter como ele reaver o direito de primogenitura. Mas, se ele se arrependesse dos seus pecados, sempre haveria lugar, pois na questão relativo a salvação o que impera é a promessa.

Comentamos a linguagem utilizada por Malaquias e as questões decorrentes do direito de primogenitura. O próximo passo é comentarmos o direito e a herança.

“E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados” ( Rm 8:17 ).

A nossa análise inicia-se com a argumentação paulina: “…se nós somos filhos…”. Vimos que antes mesmo de haver mundo Deus aprovou o seu próprio propósito de estabelecer a preeminência de seu Filho; para isso foi introduzido o Unigênito do Pai no mundo, que após ser entregue e morto em prol da humanidade, ressurgiu e se assentou a destra de Deus.

O filho de Deus retornou a sua glória, aquela que Ele possuía antes mesmo de haver mundo conduzindo muitos filhos a glória de Deus, e alcançou a condição de primogênito dentre os mortos, visto que todos os seus irmãos ressurgem dentre os mortos com ele.

Resumindo: o direito de primogenitura decorre de um propósito eterno em Deus.

“E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados” ( Rm 8:17)

A nossa análise inicia-se com a argumentação paulina: na: “…se nós somos filhos…”.

Vimos que antes mesmo de haver mundo Deus aprovou o seu próprio propósito de estabelecer a preeminência de seu Filho; para isso foi introduzido o Unigênito do Pai no mundo, que após ser entregue e morto em prol da humanidade, ressurgiu e se assentou a destra de Deus.

O filho de Deus retornou a sua glória, aquela que Ele possuía antes mesmo de haver mundo, conduzindo muitos filhos à glória de Deus, e alcançou a condição de primogênito dentre os mortos, visto que todos os seus irmãos ressurgem dentre os mortos com Ele “E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse” ( Jo 17:5 );

Resumindo: o direito de primogenitura decorre de um propósito eterno em Deus.

“E perguntou-lhe um certo príncipe, dizendo: Bom Mestre, que hei de fazer para herdar a vida eterna?” ( Lc 18:18 ).

Este jovem rico ao abordar a Jesus foi bem específico em suas palavras. Que hei de fazer? A preocupação da humanidade é sobre o que se deve ou não fazer para se obter a vida eterna “Disseram-lhe, pois: Que faremos para executarmos as obras de Deus?” ( Jo 6:28 ).

A resposta de Jesus é satisfatória: “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

Não há o que o homem procure fazer ou que abstenha em fazer que possa dar-lhe direito a vida eterna. Ao homem isto é impossível, mas a Deus tudo é possível.

Mas, por que o jovem rico utiliza a palavra ‘herdar’ para fazer referência a vida eterna. Observe que muitos outros versículo refere-se a vida eterna com o termo ‘herdar’:

“Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus?” ( 1Co 6:9 );

“E agora digo isto, irmãos: que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção” ( 1Co 15:50 ).

“Não são porventura todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação?” ( Hb 1:14 ).

Com base nestes versículos podemos afirmar que só obtém a salvação aquele que adquire o direito.

Como foi visto, a primogenitura é um direito. Jesus ao ressurgir dentre os mortos tornou-se o primogênito dentre os mortos ( Cl 1:18 ).

Em contra partida, muitos irmãos ressurgiram com Ele e passaram a ter direito a herança dos santos na luz ( 1Pe 1:3 ; Cl 1:12 ).

Desta forma entendemos a colocação do apóstolo Paulo: se nós somos filhos, somos logo herdeiros também! A condição de filho confere aos crentes o direito.

“Pela fé habitou na terra da promessa, como em terra alheia, morando em cabanas com Isaque e Jacó, herdeiros com ele da mesma promessa” ( Hb 11:9 ).

O direito que Deus confere é por peio da fé, não por obras.

Observe que a promessa foi dada a Abraão, e Isaque e Jacó passou a ser herdeiros com o patriarca Abraão.

Pergunto novamente:

Deus amou mais a Jacó do que Esaú? Não!

Jacó era melhor que Esaú diante de Deus? Não!

Jacó foi amado de Deus por ter fé? Não!

A fé de Abraão na promessa realizada por Deus conferiu a seus herdeiros direitos. Jacó foi abençoado por ter o direito de primogenitura, e não por ter tido fé em Deus.

Como? Não devemos ter fé para alcançarmos a salvação?

Explico! Em Gênesis temos uma narração de suma importância para entendermos o que é direito e o que é por fé:

“E estas são as gerações de Terá: Terá gerou a Abrão, a Naor, e a Harã; e Harã gerou a Ló. E morreu Harã estando seu pai Terá ainda vivo, na terra do seu nascimento, em Ur dos caldeus. E tomaram Abrão e Naor mulheres para si: o nome da mulher de Abrão era Sarai, e o nome da mulher de Naor era Milca, filha de Harã, pai de Milca e pai de Iscá. E Sarai foi estéril, não tinha filhos. E tomou Terá a Abrão seu filho, e a Ló, filho de Harã, filho de seu filho, e a Sarai sua nora, mulher de seu filho Abrão, e saiu com eles de Ur dos caldeus, para ir à terra de Canaã; e vieram até Harã, e habitaram ali. E foram os dias de Terá duzentos e cinco anos, e morreu Terá em Harã” ( Gn 11:27 -32).

O livro de Gênesis enumera as gerações até chegar em Abrão. O livro de Gênesis demonstra que Abrão morava em uma terra pagã, em Ur dos Caldeus.

Quando Deus convocou Abrão, ele era gentio “E fosse pai da circuncisão, daqueles que não somente são da circuncisão, mas que também andam nas pisadas daquela fé que teve nosso pai Abraão, que tivera na incircuncisão” ( Rm 4:12 ).

Abraão estava em meio a sua parentela, quando Deus disse: “Ora, o SENHOR disse a Abrão: Sai-te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção. E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra” ( Gn 12:1 -3).

Abraão tinha algum direito diante de Deus? Não! Mas, quando Deus prometeu que lhe abençoaria, caso ele saísse do meio de sua parentela para uma terra que ainda seria mostrada, surgiu a possibilidade de direitos por parte de Abraão.

Quando Abraão partiu conforme o que o Senhor lhe falará, Abraão passou a ter direito segundo o que lhe foi prometido.

Houve a promessa da parte de Deus, e depois a ação de Abraão em obedecer. Com a simples ação de sair do meio de sua parentela Abraão adquiriu direito perpetuo para a sua descendência, visto que a promessa incluía uma grande nação.

Posteriormente Deus faz outra promessa concernente a um filho para Abraão, e ele creu:

“E creu ele no SENHOR, e imputou-lhe isto por justiça ( Gn 15:6 ).

Quando Abraão saiu do meio da sua parentela, ele adquiriu direito a uma possessão terrena para a sua descendência. Quando ele creu em Deus, ele adquiriu uma pátria celestial.

De sorte que, aqueles que crêem em Cristo são participantes da esperança celestial “De sorte que os que são da fé são benditos com o crente Abraão” ( Gl 3:9 ).

Como Deus na faz acepção de pessoas, todos aqueles que crêem conforme a fé que teve o Pai Abraão, estes serão benditos.

Ter fé como Abraão não dá direito a ninguém a promessa de ser uma grande nação, visto que esta promessa é exclusiva a Abraão e aos seus filhos: Isaque, Jacó, etc.

É certo que com Cristo padecemos (já morremos com Cristo). É certo que com Cristo já fomos glorificados (já ressurgimos com Cristo uma nova criatura). O ser glorificado em Romanos oito, dezessete, é diferente da glorificação futura.

“…se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados” ( Rm 8:17 ).

Se temos a certeza que padecemos com Cristo (mesmo não tendo subido ao madeiro cruento dos romanos), segue-se que Jesus ressurgiu dentre os mortos, glorificado, e nós ressurgimos com ele (mesmo que não alcançamos a glorificação futura).

“E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados” ( Rm 8:17 ).

Como é certo que padecemos com Cristo e ressurgimos com Ele, também é certo que passamos a ter direito a herança dos santos na luz. Ter direito a herança dos santos só é possível após adquirir a filiação divina.

A nova criatura é herdeira de Deus e co-herdeira com Cristo. Cristo, o primogênito, e nós somos os irmãos que possuem o direito a herdar de Deus (na luz) “Enquanto tendes luz, crede na luz, para que sejais filhos da luz. Estas coisas disse Jesus e, retirando-se, escondeu-se deles” ( Jo 12:36 ). “Dando graças ao Pai que nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz” ( Cl 1:12 ).

João expõe uma verdade declarada por Cristo: Enquanto eles (a multidão) tinham a Cristo, deveriam crer nele, e então seriam filhos de Deus (da luz). Imediatamente após crerem em Cristo, os cristãos já eram idôneos para participar da herança dos santos.

Para aqueles que crêem em Cristo não é necessário esperar para ser participante da herança dos santos. Paulo demonstra que Deus já nos fez idôneos. O novo homem nasce de Deus pleno e de posse de direitos que lhe confere uma herança em Deus (….herança dos santos na luz).

“Por isso, querendo Deus mostrar mais abundantemente a imutabilidade do seu conselho aos herdeiros da promessa, se interpôs com juramento” ( Hb 6:17 ).

A promessa confere ‘direitos’. Promessa e direito estão intimamente vinculados. Não há como se estabelecer uma promessa sem criar um direito.

A promessa é graça. É dom gratuito por parte de quem a estabelece.

“Porque, se a herança provém da lei, já não provém da promessa; mas Deus pela promessa a deu gratuitamente a Abraão” ( Gl 3:18 ).

O direito a herança foi dado gratuitamente por Deus a Abraão por meio da promessa. Não houve qualquer exigência ou condição a se satisfeita por Abraão que lhe fosse conferido o prometido.

O fato de Abraão ter saído do meio de sua parentela, acatando a ordem divina, não é o que lhe conferiu o direito a herdar de Deus. Antes, o direito foi conferido por meio da promessa.

“Ora, o SENHOR disse a Abrão: Sai-te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção” ( Gn 12:1 -2).

Na promessa realizada por Deus a Abraão não há uma condição sequer a ser realizada por Abraão. Nos versículos anteriores temos uma ordem e uma promessa. Com efeito, Abraão saiu de sua parentela e levou consigo o seu sobrinho Ló, o que não invalidou a promessa.

“…todavia amei a Jacó, e odiei a Esaú”

Até este ponto foi analisado parte da declaração: “…amei a Jacó…”.

Analisaremos, agora, o restante da declaração: “…e odiei a Esaú”.

Como foi visto até agora, Deus não faz acepção de pessoas, ou seja, Ele ama a todos indistintamente.

O amor de Deus é narrado por Cristo desta forma:

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” ( Jo 3:16 ).

Deus amou o mundo, e não algumas pessoas em específico. Deus não tem ninguém em preferência e faz justiça a todos sem distinção.

Mas, e a declaração: “…odiei a Esaú”?

Passemos a analisar a frase:

“…todavia amei a Jacó, e odiei a Esaú”

Outra tradução reza o seguinte:

“…todavia amei a Jacó, porem aborrecia a Esaú“

Londres: Trinitarian Bible Society, 7 Bury Place, W.C.I.; 1948

Como entender a declaração acima?

Conforme o que já estudamos, Deus amou a Jacó, ou seja, Deus agiu conforme o que era de direito a Jacó. Mesmo Jacó e Esaú sendo irmãos, Deus não teve nenhum dos dois em preferência, antes se ateve a fazer o que era de direito a Jacó.

Nisto se revela o amor de Deus: Ele é santo, não faz acepção de pessoas e não perverte o que é de direito.

Como ler a frase acima?

“Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor (…) E nós conhecemos, e cremos no amor que Deus nos tem. Deus é amor; e quem está em amor está em Deus, e Deus nele” ( Jo 4:8 e 16).

A bíblia é clara: Deus é amor! É possível existir o ódio naquele que é amor eterno? Há dois sentimentos em Deus: amor e ódio?

Sabemos que Deus amou o mundo antes mesmo que houvesse mundo. Sabemos que Jesus é cordeiro de Deus morto desde a fundação do mundo, o que demonstra o amor de Deus.

“O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; mas é longânimo para conosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se” ( 2Pe 3:9 ).

“Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” ( 1Tm 2:4 ).

É um contra senso admitir que em Deus haja ódio. Visto que antes mesmo de trazer a existência as suas criaturas, ele já havia providenciado salvação poderosa para todos. O amor de Deus é demonstrado antes mesmo de haver mundo.

Todos os atos, todos os feitos contínuos de Deus foram feitos em amor. Todas as suas criaturas, e não importa a condição na qual elas estejam, são alvos doa amor de Deus.

“Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” ( Rm 5:8 ).

A pior condição do homem diante de Deus só consegue evidenciar o seu imenso cuidado e amor para com suas criaturas. Deus é amor eterno, e não há qualquer base para inferirmos que Deus tenha tido ódio de alguém.

  • Verificando as traduções bíblicas, a correta é aquela que reza da seguinte forma: “Todavia amei a Jacó e a Esaú aborreci”. A frase CORRETA e aquela que adota a palavra ‘ABORRECI’ em lugar do ‘ODIEI’;
  • Só há uma ação divina demonstrada na frase: o amor. A frase não demonstra duas ações ou sentimentos em Deus. Deus amou a Jacó da mesma forma que Deus ama a toda humanidade. Caso Esaú tivesse o direito de primogenitura, Deus haveria de fazer frente ao que lhe era de direito;
  • A segunda parte da frase é conseqüência do ato realizado na primeira parte: Por Deus ter amado Jacó (dado o que era de direito a Jacó), como conseqüência direta Esaú ficou aborrecido.

A frase não demonstra que Deus estava aborrecido com Esaú. Caso Deus tivesse aborrecido com Esaú, a frase seria da seguinte forma: “Amei a Jacó e me aborreci de Esaú”. No entanto, Malaquias demonstra que Deus amou a Jacó e o ato de dar o que era de direito a Jacó deixou Esaú aborrecido.

Onde há outro fato semelhante ao de Esaú na bíblia?

“E conheceu Adão a Eva, sua mulher, e ela concebeu e deu à luz a Caim, e disse: Alcancei do SENHOR um homem. E deu à luz mais a seu irmão Abel; e Abel foi pastor de ovelhas, e Caim foi lavrador da terra. E aconteceu ao cabo de dias que Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao SENHOR. E Abel também trouxe dos primogênitos das suas ovelhas, e da sua gordura; e atentou o SENHOR para Abel e para a sua oferta. Mas para Caim e para a sua oferta não atentou. E irou-se Caim fortemente, e descaiu-lhe o semblante. E o SENHOR disse a Caim: Por que te iraste? E por que descaiu o teu semblante? Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar. E falou Caim com o seu irmão Abel; e sucedeu que, estando eles no campo, se levantou Caim contra o seu irmão Abel, e o matou” ( Gn 4:1 -8).

Todos os aspectos analisados até aqui são aplicáveis a Caim e Abel. Deus atentou para a oferta de Abel e isto causou um sentimento pernicioso em Caim. Tal sentimento não há em Deus e tão pouco Deus influenciou a Caim para ter tal sentimento.

Deus atentou para Abel e, em conseqüência, Caim ficou aborrecido. Da mesma maneira, Deus fez o que era de direito a Jacó, dando lhe a bênção, fato este que levou Esaú a ficar aborrecido.

Compare a narrativa do que ocorreu com Esaú e com Caim:

“Mas para Caim e para a sua oferta não atentou. E irou-se Caim fortemente, e descaiu-lhe o semblante. E o SENHOR disse a Caim: Por que te iraste?”

“E Esaú odiou a Jacó por causa daquela bênção, com que seu pai o tinha abençoado; e Esaú disse no seu coração: Chegar-se-ão os dias de luto de meu pai; e matarei a Jacó meu irmão” ( Gn 27:41 ).

A bênção que Deus dera a Jacó deu causa ao ódio no coração de Esaú. Diante desta semelhança entre o que ocorreu com Caim e Esaú, verifica-se que por Deus ter dado o que era de direito a Jacó, Esaú se aborreceu.

Ao demonstrar o seu amor, que é conforme a justiça, Deus deu o que era de direito a Jacó e conseqüentemente aborreceu a Esaú.

Voltemos ao texto de Malaquias:

“Eu vos tenho amado, diz o SENHOR. Mas vós dizeis: Em que nos tem amado? Não era Esaú irmão de Jacó? disse o SENHOR; todavia amei a Jacó, E odiei a Esaú; e fiz dos seus montes uma desolação, e dei a sua herança aos chacais do deserto. Ainda que Edom diga: Empobrecidos estamos, porém tornaremos a edificar os lugares desolados; assim diz o SENHOR dos Exércitos: Eles edificarão, e eu destruirei; e lhes chamarão: Termo de impiedade, e povo contra quem o SENHOR está irado para sempre” ( Ml 1:1 -5)

Recapitulando: Por intermédio de Malaquias Deus anuncia ao povo de Israel o seu amor. Israel por sua vez retruca: “Em que nos tem amado?”. Como prova de seu amor, Deus apresenta o argumento seguinte: “Não era Esaú irmão de Jacó? Todavia amei a Jacó e aborrecia Esaú”.

Uma prova contundente do amor de Deus para com Israel está na comparação entre o que ocorreu com Jacó e Esaú, e por semelhança entre o que estava ocorrendo com Israel e o que ocorreu com os idumeus: “…e fiz dos seus montes uma desolação, e dei a sua herança aos chacais do deserto”.

A desolação dos idumeus foi causada por Deus. O que pertencia ao povo descendente de Esaú foi dado aos chacais do deserto e não aos seus filhos.

Alguém pode estar se perguntando: onde está o amor de Deus nesta declaração?

Observe que Israel, a despeito dos seus pecados, ainda existia como nação, e os idumeus não.

Já os idumeus acabaram destruídos devido aos seus pecados.

O que fez Israel e os idumeus ter tratamento diferente perante Deus?

A promessa feita por Deus a Abraão é a resposta. O que determina o amor (o cuidado) de Deus para com Israel é a promessa de Deus aos pais.

Deus havia prometido a Abraão que dele faria uma grande nação, e o fato de Deus cumprir cabalmente a sua promessa demonstra o seu amor. Se não fosse a promessa de Deus feita aos patriarcas, há muito Israel teria se tornado em uma desolação.

 

A promessa de Deus é que tornou Edom e Israel diferentes

O que Deus disse a Abraão? “Ora, o SENHOR disse a Abrão: Sai-te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção. E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra” ( Gn 12:1 -3).

Deus havia prometido a Abraão que dele faria uma grande nação e que todos que amaldiçoassem a Israel seriam amaldiçoados. O que os idumeus fizeram que acabou por determinar maldição sobre eles?

Quase no fim da peregrinação do povo de Israel pelo deserto, fez-se necessário ao povo de Israel passar pelos termos de Edom. Moisés enviou mensageiros ao rei de Edom pedido que deixasse o povo de Israel passar por suas terras com as palavras seguintes: “Depois Moisés, de Cades, mandou mensageiros ao rei de Edom, dizendo: Assim diz teu irmão Israel: Sabes todo o trabalho que nos sobreveio…” ( Nm 20:41 ).

E qual foi a resposta dos ‘irmãos’ idumeus? “Porém Edom lhe disse: Não passarás por mim, para que eu não saia com a espada ao teu encontro (…) Porém ele disse: Não passarás. E saiu-lhe Edom ao encontro com muita gente, e com mão forte (…) Assim recusou Edom deixar passar a Israel pelo seu termo; por isso Israel se desviou dele” ( Nm 20:18 -21).

O salmista lembra o comportamento dos idumeus no passado “Lembra-te, SENHOR, dos filhos de Edom no dia de Jerusalém, que diziam: Descobri-a, descobri-a até aos seus alicerces” ( Sl 137:7 ).

O profeta Ezequiel é mais esclarecedor acerca do peso do Senhor contra os idumeus:

“Assim diz o Senhor DEUS: Porquanto Edom se houve vingativamente para com a casa de Judá, e se fez culpadíssimo, quando se vingou deles; Portanto assim diz o Senhor DEUS: Também estenderei a minha mão sobre Edom, e arrancarei dela homens e animais; e a tornarei em deserto, e desde Temã até Dedã cairão à espada. E exercerei a minha vingança sobre Edom, pela mão do meu povo de Israel; e farão em Edom segundo a minha ira e segundo o meu furor; e conhecerão a minha vingança, diz o Senhor DEUS” ( Ez 25:12 -14).

Há uma grande diferença entre a ideia que se infere da palavra ódio e das palavras como ira, furor e vingança ( Hb 10:30 ).

Observe novamente a declaração de amor de Deus:

“O SENHOR não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos em número do que todos os povos; Mas, porque o SENHOR vos amava, e para guardar o juramento que fizera a vossos pais, o SENHOR vos tirou com mão forte e vos resgatou da casa da servidão, da mão de Faraó, rei do Egito. Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos. E retribui no rosto qualquer dos que o odeiam, fazendo-o perecer; não será tardio ao que o odeia; em seu rosto lho pagará” ( Dt 7:7 -9)

O texto de Deuteronômio demonstra que Israel foi escolhido por que Deus os amava, ou seja, para cumprir o juramento feito a Abraão.

Alguém que no futuro observasse o número de pessoas que integrava a nação de Israel poderia considerar que Deus havia escolhido a Israel para amá-los em decorrência da quantidade de israelitas. Deus demonstra o contrário: “…éreis menos em número do que todos os povos”.

Note que o amor de Deus é interligado a atributos como a fidelidade e justiça. Ele fez aliança com Abraão, e a fidelidade de Deus resulta em misericórdia.

A soberba poderia subir ao coração do povo caso considerassem que a riqueza que adquiriram era resultado de esforço próprio. Deus alerta:

“E digas no teu coração: A minha força, e a fortaleza da minha mão, me adquiriu este poder. Antes te lembrarás do SENHOR teu Deus, que ele é o que te dá força para adquirires riqueza; para confirmar a sua aliança, que jurou a teus pais, como se vê neste dia” ( Dt 8:17 -18).

Tudo o que o povo de Israel haveria de conquistar era resultado direito do amor de Deus, que é segundo a aliança estabelecida com Abraão.

Eles adquiriam a terra prometida por meio da promessa feita a Abraão, e não como conseqüência de atos ‘justos’: “Sabe, pois, que não é por causa da tua justiça que o SENHOR teu Deus te dá esta boa terra para possuí-la, pois tu és povo obstinado” ( Dt 9:4 ).

O amor de Deus para com o povo de Israel é com base nos termos seguintes:

“Então se acendeu a ira do SENHOR contra o seu povo, de modo que abominou a sua herança. E os entregou nas mãos dos gentios; e aqueles que os odiavam se assenhorearam deles. E os seus inimigos os oprimiram, e foram humilhados debaixo das suas mãos. Muitas vezes os livrou, mas o provocaram com o seu conselho, e foram abatidos pela sua iniquidade. Contudo, atendeu à sua aflição, ouvindo o seu clamor. E se lembrou da sua aliança, e se arrependeu segundo a multidão das suas misericórdias. Assim, também fez com que deles tivessem misericórdia os que os levaram cativos” Sl 106. 40- 46.

O povo de Israel ao se queixarem de Deus não atinavam que estavam se queixando dos seus próprios pecados. Isto porque os afligidos haviam provocado a ira de Deus, e foram “…abatidos pela sua iniquidade” ( Sl 106:43 ).

A causa de Israel não ter sido consumido e sempre restar um remanescente do povo é porque Deus não se esquece de sua aliança.

“Lembrou-se da sua aliança, e compadeceu-se, segundo a grandeza do seu amor” ( Sl 106:45 ).

“E os vossos olhos o verão, e direis: O SENHOR seja engrandecido além dos termos de Israel” ( Ml 1:5 ).

Este versículo encerra o primeiro ciclo de perguntas e respostas.

É característica própria do livro de Malaquias apresentar um enunciado profético para o futuro de Israel ao fim de cada ciclo de perguntas e respostas.

Do versículo 1 ao 4, Malaquias faz referência ao tempo presente do povo. Já o versículo 5 remete a um futuro em que o povo de Israel haverão de ver o Senhor.

Esta característica do livro de Malaquias faz com que o livro contenha pequenos enunciados proféticos e complementares à mensagem principal. Característica que difere totalmente dos outros livros proféticos.

Observe a relação que há entre o versículo 5 e 11:

“Mas desde o nascente do sol até ao poente é grande entre os gentios o meu nome; e em todo o lugar se oferecerá ao meu nome incenso, e uma oferta pura; porque o meu nome é grande entre os gentios, diz o SENHOR dos Exércitos” (v. 11).

“E os vossos olhos o verão, e direis: O SENHOR seja engrandecido além dos termos de Israel” (v. 5).

Os dois versículos remetem ao futuro de Israel e falam da condição que se estabelecerá entre Deus e os gentios.

Falaremos destas profecias em um próximo comentário.

Resumindo a declaração de amor que Deus fez ao povo de Israel.

Não foram as ações de Esaú ou Jacó que determinaram o amor de Deus; É certo que o amor de Deus abrange a todos os homens, visto que ele faz justiça a todos.

Deus não tem preferência por suas criaturas, visto que:

a) Ele não faz acepção de pessoas;

b) É santo, e;

c) Deus não aceita suborno, ou seja, não corrompe o que é de direito.

Após as analises apresentadas, fica o alerta: ao ler a bíblia devemos nos inteirar da linguagem utilizada pelos escritores. Citações do Antigo Testamento no Novo Testamento devem ser interpretadas conforme a ideia básica apresentada no Antigo Testamento.

 

* A ‘presciência’ de Deus refere-se ao ‘conhecimento’, a ‘mensagem’ de Deus anunciada previamente pelos seus santos profetas de que Cristo seria morto na plenitude dos tempos em função do beneplácito da vontade de Deus, pois Cristo é o Cordeiro de Deus morto deste a fundação do mundo, ou seja, a ‘presciência’ ou o ‘pré-conhecimento’ diz dos eventos que se sucederam com relação à vida e morte de Cristo em conformidade com as Escrituras “E adoraram-na todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” ( Ap 13:8 ).

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Tiago 3 – Os perfeitos

O tropeçar em muitas coisas não suspende o direito a salvação, uma vez que foi alcançado pela fé. A salvação decorre da filiação divina por meio da fé em Cristo aparte das questões comportamentais. A salvação não é conquistada através de bom ou mau comportamento e também não é mantida através de comportamento. A salvação é pela fé (salvação) e o fim objetivo da nossa fé se alcança com a perseverança.


A Língua

1 Meus irmãos, muitos de vós não sejam mestres, sabendo que receberemos mais duro juízo.

 

Tiago dá um conselho a alguns irmãos: não sejam muitos de vós mestres. Por que ele dá esse conselho? Alguns queriam ser mestre, porém não tinham recebido tal capacitação ( Ef 4:10 -11).

As pessoas que aspiravam a posição de mestre não atinavam que os mestres receberão juízo na condição de mestre e nem da necessidade de estar enquadrado em alguns quesitos que Tiago discorre neste capítulo.

O juízo que Tiago faz referência será estabelecido no Tribunal de Cristo ( Rm 14:10 ; 2Co 5:10 ), visto que ele se inclui entre aqueles que receberão maior juízo (implicitamente Tiago se posiciona como mestre), e por ser certo que ele tinha certeza de sua salvação. O juízo do Grande Trono Branco não é destinado à igreja “Meus irmãos…” (v. 1).

Os versículos que se seguem apresentam os motivos pelas quais os irmãos não deveriam aspirar a posição de mestres com o único fito de se vã gloriar.

 

2 Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça em palavra, o tal é perfeito, e poderoso para também refrear todo o corpo.

 

O apóstolo chama a atenção para algo que não devemos ignorar: todos tropeçam em muitas coisas! Tiago não exclui nenhum dos irmãos. Todos nós tropeçamos em muitas coisas.

O tropeçar deste versículo difere da ideia que Paulo apresenta em Romanos “Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só” ( Rm 3:12 ). Isto porque o que Paulo apresenta diz respeito a todos que ainda não tiveram um encontro com Cristo.

A carta aos Hebreus demonstra o desejo do escritor em não tropeçar em coisa alguma, e para isso solicita aos cristãos que orem em seu favor “Orai por nós, porque confiamos que temos boa consciência, como aqueles que em tudo querem portar-se honestamente” ( Hb 13:18 ). O portar-se honestamente em tudo deve ser o desejo de todo cristão, porém, ele deve ter consciência de que falhará em muitas coisas.

O tropeçar em muitas coisas não suspende o direito à salvação, uma vez que a salvação é alcançada pela fé. A salvação decorre da filiação divina por meio da fé em Cristo, aparte das questões comportamentais. A salvação não é conquistada através de bom ou mau comportamento e também não é mantida através do comportamento.

A salvação é pela fé (evangelho), e o fim objetivo da nossa fé se alcança com a perseverança.

“Se alguém não tropeça (em+a) palavra, o tal é perfeito, e poderoso para também refrear todo o corpo”

Após demonstrar que todos os cristãos estão sujeitos a erros, tanto comportamentais quanto conceituais, o apóstolo Tiago estipula uma condição para alguém ser perfeito: se não tropeçar em palavra, o homem é perfeito.

Tropeçar ‘em palavra’ não é falar palavras torpes, fofocar, mal dizer, mentir, etc. O ‘tropeçar em palavra’ não tem relação com o que é abordado no verso 5 ( Tg 3:5 ).

Se ‘tropeçar em palavra’ fosse falar palavras torpes, fofocar, mentir, amaldiçoar, o apóstolo não teria colocado o substantivo ‘palavra’ no singular “Se alguém não tropeça em palavra(s) …”. Quando alguém mente, fofoca ou amaldiçoa, profere várias palavras, diferente de tropeçar ‘em’ a ‘palavra’. Sobre qual ‘palavra’ o apóstolo fez referência?

 

A palavra do verso 2 do capítulo 3 diz da palavra da verdade, o que foi abordado desde o início da epístola:

“Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas” ( Tg 1:18 );

“Por isso, rejeitando toda a imundícia e superfluidade de malícia, recebei com mansidão a palavra em vós enxertada, a qual pode salvar as vossas almas” ( Tg 1:21 );

“E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos” ( Tg 1:22 );

“Porque, se alguém é ouvinte da palavra, e não cumpridor, é semelhante ao homem que contempla ao espelho o seu rosto natural” ( Tg 1:23 );

 

Ou seja, desde o início da epístola o apóstolo demonstrou que os cristãos foram gerados pela palavra da verdade com o objetivo de serem primícias das criaturas de Deus (perfeitos). Ele também demonstra que é necessário rejeitar toda a imundície e malícia, recebendo com mansidão a palavra enxertada que salva o homem. O cristão é aquele que cumpre a palavra, e não somente ouvinte, ou seja, o ouvinte diz de quem se envolve em falsos discursos ( Tg 1:23 ).

A palavra da verdade é poder para criar filhos de Deus ( Jo 1:12 ), porém, não tem efeito sobre aqueles que não se exercitam nela “Ora, o fruto da justiça semeia-se na paz, para os que exercitam a paz” ( Tg 3:18 ). Ou seja, da mesma forma que o espelho não tem poder para mudar o homem que se utiliza do seu reflexo para contemplar o seu rosto natural, não terá nova vida aqueles que não atentam bem para a lei perfeita, e nela perseveram ( Tg 1:25 ).

Todos que creem na palavra tornam-se perfeitos, pois alcançou a salvação em Cristo ( 1Co 2:6 ; 2Co 13:11 ). Ou seja, Tiago estava demonstrando que quem não tropeça na (em+a) palavra alcançou a perfeição, isto porque muitos desejavam serem mestres, porém não compreendiam a palavra que concede a perfeição em Cristo “Querendo ser mestres da lei, e não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam” ( 1Tm 1:7 ); “Instrutor dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei” ( Rm 2:20 ).

Muitos buscavam somente a posição de mestre por vã-gloria, o que promoveria somente a inveja, o sentimento faccioso, a confusão e toda má obra ( Tg 3:16 ). Quem quisesse ser sábio e entendido, condição essencial para ser mestre, bastava ter um bom procedimento ( Tg 3:13 ).

Os perfeitos manejam bem a palavra da verdade (poder de Deus), estão plenos (cheios) do poder de Deus ( Rm 1:16 ). Quem é perfeito se revestiu de toda a armadura de Deus ( Ef 6:10 , 13 -17), e não mais vive guiado pelas paixões humanas ( Gl 5:24 ; 2Tm 2:22 ), não tem falta de coisa alguma. Perfeito: maduro e completo ( Tg 1:4 ).

 

3 Ora, nós pomos freio nas bocas dos cavalos, para que nos obedeçam; e conseguimos dirigir todo o seu corpo.

O apóstolo passa a exemplos figurativos. Os exemplos apontam o contraste entre o tamanho e força do cavalo e a pequenez dos freios que os controlam.

 

4 Vede também as naus que, sendo tão grandes, e levadas de impetuosos ventos, se viram com um bem pequeno leme para onde quer a vontade daquele que as governa.

 

Ele apresenta o contraste entre o tamanho das embarcações e o leme que as orienta.

 

5 Assim também a língua é um pequeno membro, e gloria-se de grandes coisas. Vede quão grande bosque um pequeno fogo incendeia.

 

“Assim também…”, ou seja, alguns dos elementos (leme e freio) que foram apresentados nas ilustrações anteriores se comparam proporcionalmente a língua e o efeito devastador que ela pode causar. O apóstolo evidencia o quanto é importante ter a língua sob controle.

Tiago apresenta uma grande verdade: a língua é um pequeno membro que se gloria de grandes coisas! Ou seja, muitos dentro da igreja se gabavam de serem mestres, mesmo quando não tinham esse dom. Porém, é difícil que alguém venha a se gabar das funções que aparentemente são pequenas.

Um bom exemplo de controle sobre a língua é observável em Paulo: “Se convém gloriar-me, gloriar-me-ei no que diz respeito à minha fraqueza. O Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que é eternamente bendito, sabe que não minto. Em Damasco, o que governava sob o rei Aretas pós guardas às portas da cidade dos damascenos, para me prenderem. E fui descido num cesto por uma janela da muralha; e assim escapei das suas mãos” ( 2Co 11:30 -33).

Paulo não se gabou de grandes coisas, antes, sentia-se lisonjeado por ter fugido do rei Aretas em um cesto.

Muitos em nossos dias se gabam de grandes feitos, grandes ajuntamentos, grandes mensagens. Porém, este é um feito próprio da língua quando sobre ela não se tem domínio.

Paulo bem que podia gabar-se do livramento que Deus concedeu a ele e a Silas, mas preferiu gloriar-se (como que em um ato de loucura) das suas fraquezas “E, perto da meia-noite, Paulo e Silas oravam e cantavam hinos a Deus, e os outros presos os escutavam. E de repente sobreveio um tão grande terremoto, que os alicerces do cárcere se moveram, e logo se abriram todas as portas, e foram soltas as prisões de todos” ( At 16:25 -26).

Apenas uma fagulha de fogo pode incendiar um bosque inteiro.

 

Iniquidade

 

6 A língua também é um fogo; como mundo de iniquidade, a língua está posta entre os nossos membros, e contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, e é inflamada pelo inferno.

 

A língua é comparada a uma fagulha que incendeia um bosque. Por vir especificada ‘um fogo’, demonstra que ela não é fogo, mas é comparável ao fogo por ter a capacidade de inflamar.

Embora esta carta traga muitos conselhos, não devemos ler e analisar seus textos como se lê e analisa o livro de provérbios. Primeiro porque provérbios é um livro, e o texto de Tiago é uma epístola.

As diferenças entre carta e livro acabam por influenciar a escrita e a linguagem utilizada pelo autor, visto que a linguagem deve ser própria ao público alvo.

O público que se destina um livro é abrangente, universal, enquanto que uma carta destina-se a um público restrito (os destinatários). Ou seja, uma carta tem o cunho pessoal, enquanto um livro se guia pela impessoalidade e universalidade.

O livro de provérbios destina-se a humanidade e a carta de Tiago aos cristãos.

O tema ‘língua’ não tem início neste capítulo. Este tema vem sendo desenvolvido desde o primeiro capítulo, o que diferencia a abordagem de Tiago da abordagem feita em Provérbios. Em Provérbios geralmente uma ideia se conclui em apenas um versículo.

Como a língua é um pequeno membro que se gaba de grandes coisas, todos os cristãos devem ter o cuidado de gloriar-se apenas em Deus ( Jr 9:24 ; 1Co 1:31 ; 2Co 10:17 ), pois no Senhor não há diferenças sócio-econômicas. Ou seja, o irmão de condição humilde deve gloriar-se na sua alta posição no Senhor e o rico na sua insignificância ( Ef 1:9 -10).

Porém, ao ingressar na igreja, tanto o pobre quanto o rico buscam o que entendem ser a melhor posição: querem ser mestre, doutores, pastores, etc. Esquecem que para ser algo diante do Senhor, devem deixar tudo, principalmente os conceitos e conhecimentos do mundo “E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo…” ( Fl 3:8 ).

Aquele que procura ser mestre somente como meio para se gabar, sem ter a chamada para tal ministério, poderia causar um grande prejuízo a igreja de Deus, visto que poderia introduzir algum erro conceitual e a devastação seria semelhante ao pequeno fogo em uma floresta.

Observe que o homem é atraído e engodado pela sua própria concupiscência. Por desejar ardentemente gabar-se de grandes feitos, aplica-se em alcançar grandes posições. Aquele que é guiado pela concupiscência, quando alcança uma posição de destaque, os deslizes com as palavras e os erros conceituais são inevitáveis (isto porque, todos nós tropeçamos em muitas coisas, e quem não tropeça em palavras é perfeito e capaz de refrear todo o corpo); e o que este homem estará propagando com a sua língua será como o fogo em uma floresta: devastador. A posição de mestre a alguém que não foi comissionado para ensinar potencializa o efeito destruidor do erro.

Para evitar tão grande mal, todo homem deve estar pronto a ouvir e ser tardio em falar, a exemplo daqueles que, diante da tentação, diziam de maneira equivocada que estavam sendo tentados pelo Senhor ( Tg 1:13 -17). Qual não seria o estrago no seio da igreja se alguém com este erro conceitual viesse a alcançar a posição de mestre?

Aquele que é enganado pelo seu próprio coração acredita que é religioso. Estes geralmente não controlam a língua, estão prontos a falar, são tardios em ouvir, e acabam lançando mão da ira ( Tg 1:16 ).

“…como mundo de iniquidade, a língua está posta entre os nossos membros, e contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, e é inflamada pelo inferno”

O versículo acima é um exemplo prático do exposto no capítulo um, versículo quatorze e quinze. Compare:

“Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência. Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte” ( Tg 1:14 -15).

Cada pessoa é tentada pela sua própria concupiscência, ou seja, primeiro ela é atraída e engodada pelos seus próprios desejos. Quando estes desejos são levados a efeito, dá-se à luz o pecado, e o fim dele é a morte.

Da mesma maneira, o homem que não cumpre com o disposto no versículo dezenove do capitulo um, acaba por se gabar de grandes coisas ( Tg 3;5 ). Para fazer jus ao que foi propalado através da língua incontida, este homem vai se sentir atraído e desejar as ‘melhores’ posições na igreja.

Como todos tropeçam em muitas coisas, aquele que se gaba e alcança uma posição de destaque, irá tropeçar em palavras. Desta forma, a língua deste incauto será como fogo. Será como mundo de iniquidade situada entre os seus membros.

Como o que contamina o homem é o que procede do seu coração “Mas, o que sai da boca, procede do coração, e isso contamina o homem” ( Mt 15:18 ); “Nada há, fora do homem, que, entrando nele, o possa contaminar; mas o que sai dele isso é que contamina o homem” ( Mc 7:15 ), a língua é o veículo que evidencia o que está no coração, o que contamina todo o corpo.

Tiago e Jesus falam do mesmo problema que afeta o coração da humanidade. Este fala do princípio pernicioso que contamina o homem (o pecado que tem domínio sob o coração do homem sem Deus), enquanto aquele fala da língua, membro que torna evidente o princípio pernicioso que está no coração do homem.

Tiago dá mais um alerta: a língua pode acelerar o processo de destruição do homem, que sem a intervenção da língua, seria natural, ou seja, seria conforme o curso próprio da natureza. Isto porque o curso da natureza do homem é a morte, e a língua tem a capacidade de inflamar; ela acelera o curso da natureza. Um exemplo desta verdade é o recomendado por Paulo: “Não neófito, para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo” ( 1Tm 3:6 ).

A soberba leva a queda, uma entrada súbita na condenação do diabo. E, o que resta a quem teve inflamado o curso da natureza pela língua? Ser inflamada pelo inferno!

Onde há pecado, há morte e a justiça de Deus não opera, o que resta é o fogo do inferno ( Tg 1:20 e Tg 3:6 ).

 

 

Fonte Doce, Água Doce

7 Porque toda a natureza, tanto de bestas feras como de aves, tanto de répteis como de animais do mar, se amansa e foi domada pela natureza humana;

 

Toda a natureza é dominada pelo homem porque Deus lhe deu o domínio “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra” ( Gn 1:26 ).

 

8 Mas nenhum homem pode domar a língua. É um mal que não se pode refrear; está cheia de peçonha mortal.

 

Apesar da condição anterior (v. 7), o homem não pode domar a língua. Observe que Tiago aponta uma impossibilidade: nenhum homem pode domar a língua. É um mal que não se pode controlar; está cheia de peçonha mortal.

Se pensarmos somente na língua, é difícil explicarmos este verso. Porém, quando verificamos que o coração do homem e enganoso “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” ( Jr 17:9 ); e que, o que procede do coração do homem é que contamina “E dizia: O que sai do homem isso contamina o homem” ( Mc 7:20 ), percebemos que a abordagem de Tiago refere-se ao posicionamento de Jesus: “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” ( Mt 12:34 ).

É impossível ao homem por si só mudar a natureza do seu coração “Porventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Então podereis vós fazer o bem, sendo ensinados a fazer o mal” ( Jr 13:23 ). Mas, o que é impossível aos homens é possível a Deus! Através da regeneração Deus cria um novo coração e um novo homem e lhe dá uma nova vida.

A ordem divina sempre foi: “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz” ( Dt 10:16 ). Mas, como fazer tal circuncisão? É possível ao homem fazer tal incisão?

Ora, o é que impossível aos homens, é possível a Deus. A circuncisão do coração só é possível quando se está em Cristo “No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo” ( Cl 2:11 ).

Tal circuncisão é pela fé “Mas a justiça que é pela fé diz assim: Não digas em teu coração: Quem subirá ao céu? (isto é, a trazer do alto a Cristo.) Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação” ( Rm 10:6 -10).

Seria impossível a boca (língua) fazer a confissão verdadeira para a salvação caso não houvesse a circuncisão de Cristo. Só em Cristo é que o homem recebe um novo coração “E lhes darei um só coração, e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o coração de pedra, e lhes darei um coração de carne” ( Ez 11:19 ).

 

9 Com ela bendizemos a Deus e Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus.

 

Tiago evidência a incoerência de alguns: bendizem a Deus e amaldiçoam a sua criatura.

 

10 De uma mesma boca procede bênção e maldição. Meus irmãos, não convém que isto se faça assim.

 

Isto quer dizer que de uma mesma boca, através de uma mesma língua, um coração deita benção e maldição.

Não é conveniente a cristãos que procedam desta maneira. Caso alguém questionasse o fato de não ser próprio aos irmãos falarem mal uns dos outros Tiago passa aos exemplos e motiva a sua argumentação.

 

11 Porventura deita alguma fonte de um mesmo manancial água doce e água amargosa?

 

As perguntas de respostas prontas: Não! Cada fonte deita a água que lhe é própria. Mas, uma fonte de um mesmo manancial só pode produzir um único tipo de água.

 

12 Meus irmãos, pode também a figueira produzir azeitonas, ou a videira figos? Assim tampouco pode uma fonte dar água salgada e doce.

 

O que é impossível às plantas é impossível às fontes de um mesmo manancial “Porque não há boa árvore que dê mau fruto, nem má árvore que dê bom fruto” ( Lc 6:43 ).

O apóstolo segue fazendo uma aplicação prática do seu ensino.

 

13 Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre pelo seu bom trato as suas obras em mansidão de sabedoria.

 

Esta pergunta é uma ‘pegadinha’. Aquele que responder: “Eu”, é o mesmo que queria ser mestre, e que Tiago procura dissuadir do seu intento ( Tg 3:1 ). Aquele que desejava ser mestre, ao menos se considerava sábio e entendido.

Pois bem, se houvesse alguém que se considerava sábio e entendido deveria demonstrar através de um bom trato (procedimento), as suas obras em mansidão de sabedoria.

Ou seja, aquele que não tivesse as suas obras demonstradas em bom procedimento, tinha em si amarga inveja e um sentimento faccioso.

É necessário observar os três elementos que compõe o versículo: “Mostre pelo seu bom trato as suas obras em mansidão de sabedoria”.

  • Mostre pelo seu bom trato – (trato: tratamento; ajuste, pacto, tratado; convivência; passadio, alimentação; procedimento, modos, etc). Aquele que se sentisse sábio e entendido deveria ter uma boa convivência, bons modos e procedimento;
  • As suas obras – ‘as obras’ constituem o motivo pela qual alguém se gaba; observe que ‘bom trato’ não é ‘boas obras’ (aquelas que são feitas em Deus), e que ‘boas obras’ também não é ‘as suas obras’, que o versículo faz referência; a pessoa que estivesse se gloriando deveria mostrar a sua realização (suas obras);
  • Em mansidão de sabedoria – Porém, deveria demonstrar as suas obras segundo a sabedoria descrita no versículo dezessete: em mansidão de sabedoria que do alto vem.

 

A Inveja: Obra da Carne

 

14 Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade.

 

O problema encontra-se no coração do homem e a língua torna evidente este mal “…sentimento faccioso em vosso coração…”.

Este versículo demanda um exercício de interpretação de texto para uma melhor compreensão. Observe:

  • Uma pergunta“Quem entre vós é sábio e entendido?”. O contexto nos mostra que só quem quer ser mestre se considera sábio e entendido;
  • Uma determinação a quem respondesse afirmativamente que é sábio e entendido“Mostre pelo seu bom trato as suas obras em mansidão de sabedoria” A determinação do apóstolo só é cabível a quem presume ser sábio e entendido; porém, a determinação é impossível de ser cumprida por quem se arroga na condição de sábio e entendido;
  • Uma conclusão“Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso coração…”. Este versículo é uma conclusão do apóstolo, e aponta os elementos que consta do coração daqueles que se acham sábios e entendidos. Observe que o argumento fica inconsistente quando se tenta combinar a primeira e a segunda parte do versículo ao se enfatizar a partícula ‘se’: “Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso…”, e; “…não vos glorieis, nem mintais contra a verdade”. O indivíduo pode se gloriar de uma alta posição, porém, jamais alguém vai querer se gloriar de ser invejoso e faccioso. A Bíblia Vida Nova da Editora Vida Nova reza o seguinte: “Se, pelo contrário, tendes em vosso coração inveja amargurada e sentimento faccioso, nem vos glorieis disso, nem mintais contra a verdade”. Para enfatizar a partícula ‘se’, trocam o ‘não’ pelo ‘nem’, o que dá a entender que alguém se gloria em ser invejo e faccioso (‘glorieis disso’, disso o quê?).

 

A ênfase deve estar no verbo ‘ter’, o que demonstra que aqueles que se sentiam entendidos e sábios só estavam cheios de inveja e contenda “Porém se tendes inveja amarga, e contenda em vosso coração…”.

A pergunta persiste: quem é sábio e entendido? Um sábio e entendido deve mostrar através do seu bom comportamento suas obras em mansidão de sabedoria. Quando alguém que se diz sábio e entendido não consegue cumprir com a determinação anterior, só pode estar acometido de amarga inveja e um sentimento faccioso no coração.

A determinação é clara e precisa: “…não vos glorieis nem mintais contra a verdade”.

  • Não vos glorieis – Com relação a gloriar-se, a primeira determinação do apóstolo é oposta: “Glorie-se o irmão de condição humilde (…) o rico, porém, glorie-se na sua insignificância…”; O apóstolo Tiago dá um bom motivo para os irmãos se gloriarem ( Tg 1:9 -10), e reitera que todos devem estar prontos a ouvir, tardios em falar ( Tg 1:19 ). Se alguém estava procurando a posição de mestre com a intenção de gloriar-se, a determinação é clara: não vos glorieis; pois os mestre receberão maior juízo ( Tg 3:1 ); a língua se gaba de grandes coisas ( Tg 3:5 ); e, quem entre eles era sábio e entendido, a ponto de gloriar-se? ( Tg 3:13 );
  • Nem mintais contra a verdade – o verbo no grego sugere que não deveriam alegar ‘falsas reivindicações de estarem na verdade’, ou seja, eles na verdade não eram mestres, antes tinham amarga inveja no coração e um sentimento faccioso.

 

15 Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e diabólica.

 

Muitos dentre os cristãos se sentiam mestres, sábios e entendidos, porém a sabedoria que neles estava não vinha de Deus ( Tg 3:1 e 13).

A pretensa sabedoria que alguns possuíam não era a sabedoria que vem do alto.

A sabedoria terrena, animal e diabólica é a que está vinculada à velha natureza. Eles ainda eram carnais ( 1Co 3:3 ).

 

16 Porque onde há inveja e espírito faccioso aí há perturbação e toda a obra perversa.

 

O apóstolo dá os motivos que compromete a sabedoria que alguns possuíam: inveja, espírito faccioso, perturbação e obra perversa “Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: adultério, prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus” ( Gl 5:19 -21); “Porque ainda sois carnais; pois, havendo entre vós inveja, contendas e dissensões, não sois porventura carnais, e não andais segundo os homens?” ( 1Co 3:3 ).

 

17 Mas a sabedoria que do alto vem é, primeiramente pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia.

 

O apóstolo Tiago descreve a sabedoria que vem de Deus. Esta é a sabedoria que Deus dá liberalmente a todos “E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada” ( Tg 1:5 ).

 

18 Ora, o fruto da justiça semeia-se na paz, para os que exercitam a paz.

 

O apóstolo Tiago chega a uma conclusão: o fruto da justiça semeia-se na paz! O que ele quis dizer?

Não se semeia o fruto, e sim a semente, pois devemos ter em mente que a semente dará o seu fruto no devido tempo. Ou seja, para se obter o fruto da justiça devemos lançar a semente na paz. Mas, qual é a semente que produz o fruto da justiça? Para se obter o fruto da justiça faz-se necessário semear a semente apropriada, que é a palavra de Deus ( 1Pe 1:23 ).

Sabemos que Cristo é a nossa paz e que o fruto da justiça só é possível por meio dele ( Ef 2:14 ). Sobre este assunto o apóstolo Tiago já havia feito uma abordagem anteriormente:

“Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas. Portanto, meus amados irmãos, todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar. Porque a ira do homem não opera a justiça de Deus. Por isso, rejeitando toda a imundícia e superfluidade de malícia, recebei com mansidão a palavra em vós enxertada, a qual pode salvar as vossas almas” ( Tg 1:18 -21).

  • Gerou pela palavra da verdade: “Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre” ( 1Pe 1:23 ) – a palavra do evangelho é semente que pode salvar as nossas almas e nos deixa na posição de primícias das criaturas de Deus;
  • Pronto para ouvir: “De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” ( Rm 10:17 ) – a semente só germina quando ouvimos. Por isso a recomendação do apóstolo: “…recebei com mansidão a palavra…”;
  • Não opera a justiça de Deus: “Aquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” ( 2Co 5:21 ) – a justiça que surge é em Cristo (nele) e é resultado de uma obra divina (feitos);
  • Rejeitando toda a imundícia e superfluidade de malícia: “E, na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela” ( Hb 12:11 ) – o ato do cristão em rejeitar a imundícia e a superfluidade de malícia é o mesmo que se exercitar na paz.

 

Ora, o fruto da justiça semeia-se na paz, para os que exercitam a paz.

Passemos a explicar novamente o versículo dentro do contexto que o apóstolo vinha discorrendo.

Aqueles que desejavam ser mestre simplesmente para se gabar, foram avisados de que a sabedoria que vem do alto é pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade e sem hipocrisia. Após informar qual a sabedoria que deveriam buscar, Tiago conclui: “Ora…”.

Ou seja, só é possível semear o fruto da paz, levar a semente do evangelho, aqueles que dela são nascidos e que exercitam a paz. Os que promovem a paz, ou aqueles que a exercitam, não devem ter amarga inveja e nem sentimento faccioso. Estes são requisitos essenciais a quem deseja ser mestre.

A bíblia nos apresenta o fruto da justiça e o fruto do Espírito. Qual a relação entre eles?

“Ora, o fruto da justiça semeia-se na paz, para os que exercitam a paz”

“Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança…”

 

Tiago fala como se semeia o fruto da justiça e Paulo aponta o que é o fruto do Espírito.

  • O fruto do Espírito“E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências. Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito” ( Gl 5:23 -24) – O fruto do Espírito só é possível àqueles que crucificaram a carne e nasceram do Espírito Eterno. Estes deixaram de viver segundo a carne e passaram a viver segundo o Espírito. Ou seja, cumpre-se o que foi dito por Cristo: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” ( Jo 3:6 ). Aqueles que são nascidos do Espírito através do lavar regenerador da palavra do evangelho, estes são espirituais, e produzem em Deus amor, gozo, paz, longanimidade, etc. “Estai em mim, e eu em vós; como a vara de si mesma não pode dar fruto, se não estiver na videira, assim também vós, se não estiverdes em mim” ( Jo 15:4 );
  • O fruto da justiça“Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados” ( 1Pe 2:24 ) – O fruto da justiça só é possível àqueles que tiveram os seus pecados levados pelo corpo de Cristo e crucificaram a carne, estando mortos para o pecado. Estes deixaram de viver para o pecado e passaram a viver segundo a Justiça. Ou seja, para pudéssemos ser: “Cheios dos frutos de justiça, que são por Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus” ( Fl 1:11 ).

 

Observe que o ‘fruto da justiça’ e o ‘fruto do Espírito’ só são possíveis por meio de Jesus. Observe também que os dois frutos estão no singular: o fruto. Ou seja, o fruto do Espírito é o mesmo que o fruto da justiça.

E o mais interessante: Paulo e Tiago falam do fruto do Espírito, e ou Fruto da Justiça, para dissuadir os seus leitores de comportamento semelhantes:

“Não sejamos cobiçosos de vanglórias, irritando-nos uns aos outros, invejando-nos uns aos outros” ( Gl 5:26 );

“Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade (…) Porque onde há inveja e espírito faccioso aí há perturbação e toda a obra perversa” ( Tg 3:14 -16).

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A maldade e a bondade dos homens maus – Ensaio sobre o Bem e o Mau

Por que os homens que não entraram pela porta estreita são classificados por Jesus como ‘maus’? Como é possível alguém ser ‘mau’ e fazer coisas boas? Como é possível não haver quem faça o bem, se é possível ao homem fazer ‘boas coisas’? Quando o homem passou a condição de mau? (…) A concepção dualística ‘bem’ versos ‘mal’ não corresponde a verdade das Escrituras, visto que Deus é bom, e o mau, por sua vez, não é co-eterno. Na eternidade o mau em oposição a Deus não existe, visto que é impossível algo existir à parte de Deus.


“Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem?” ( Mt 7:11 )

Por que Jesus classificou os homens que não entraram pela porta estreita como sendo ‘maus’? Como é possível alguém ser ‘mau’ e fazer coisas boas? Como é possível não haver quem faça o bem, se é possível ao homem fazer ‘boas coisas’? Quando o homem passou a ser mau?

 

Estas e outras perguntas serão respondidas ao longo deste artigo. Boa leitura.

 

Deus, o Bem e o Mau – Ensaio sobre o Bem e o Mau

  • Não há quem faça o bem;
  • O que determina se um Homem é Bom ou Mau;
  • A Árvore – Figura adequada para expor princípios espirituais;
  • Deus é Bom;
  • Deus e o Mau;
  • Deus e o Conhecimento do Bem e do Mal;
  • O Bem e o Mal;
  • O Pecado e o Conhecimento do Bem e do Mal;

 

Não há Quem faça o Bem

Antes de demonstrar aos cristãos em Roma que todos os homens pecaram e que todos foram destituídos da glória de Deus ( Rm 3:23 ), o apóstolo Paulo citou algumas passagens do Livro dos Salmos que dá sustentação a sua declaração, e dentre elas destacamos a seguinte: “Desviaram-se todos e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, nem um se quer” ( Sl 14:3 ; Rm 3:12 ).

O apóstolo Paulo chegou à conclusão que ‘todos os homens pecaram’ com base no exposto pelo salmista, visto que, ‘todos os homens se desviaram e juntamente tornaram-se imundos’. Ora, se a humanidade tornou-se imunda quando desviou do Criador, concomitantemente, todas as ações dos homens foram e estão ‘contaminadas’. Por torna-se imundo quando se desviou, não há um homem se quer que faça o bem, ou seja, as ações dos homens também se tornaram imundas.

Após demonstrar que todos os homens pecaram (desviaram), o apóstolo dos gentios apresenta as nuances de como todos os homens se fizeram imundos (pecaram). Ele demonstra que por um homem (Adão) entrou o pecado no mundo ( Rm 5:12 ), e que, ‘em Adão’ toda a humanidade pecou “Pois, como pela desobediência de um só, muitos foram feitos pecadores…” ( Rm 5:19 ).

A condição ‘em pecado’ além de comprometer a natureza, também comprometeu as ações dos homens. Do mesmo modo que a lei de Moisés estabelecia que tudo quanto um homem imundo tocasse tornava-se igualmente imundo, tudo quanto um pecador faz também é tido como sendo imundo, ou seja, proveniente do pecado ou do mau, portanto, conclui-se que não há quem faça o bem.

Ora, quando Jesus apontou para os seus ouvintes e disse que eles eram ‘maus’, Ele fez referência ao ‘mau’ que afetou todos os homens quando se desviaram: o pecado. Por causa da ofensa de Adão todos os homens passaram a compartilhar de uma natureza que é ‘oposta’ a natureza de Deus “A inclinação da carne é morte, mas a inclinação do Espírito é vida e paz” ( Rm 8:6 ).

Deus é luz, e os homens passaram à condição de trevas. Deus é vida, e os homens divorciados do Criador passaram à condição de mortos, ou seja, o homem passou a ter uma natureza alienada da vida que há em Deus. Portanto, Deus é vida e paz e a natureza herdada de Adão é morta e em inimizade com Deus.

Tal condição herdada de Adão é repassada de pai para filho, como bem declarou o salmista Davi: “Certamente em iniquidade fui formado e em pecado me concebeu a minha mãe” ( Sl 51: 5 ). O pecado é o elemento intrínseco à natureza do homem sem Deus, e, por causa desta natureza sem Deus, Jesus nomeou os seus ouvintes, homens que ainda não haviam entrado pela porta estreita (nascido de novo), de serem efetivamente ‘maus’.

Por causa da desobediência de Adão toda a geração dele é designada má diante de Deus ( Nm 32:14 ; Mt 12:39 ). E não somente isto, tudo que proferem e todas as suas ações também são más “Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus” ( Mt 7:17 ).

Ao declarar que os seus ouvintes eram ‘maus’, Jesus queria que compreendessem que é impossível ao homem imundo, fruto de uma geração má, produzir o que é puro. Jesus estava respondendo uma questão que desde os primórdios persistia: Como é possível ao imundo produzir o que é puro? “Quem do imundo tirará o puro? Ninguém” ( Jó 14:4 ).

O imundo não consegue produzir o que é puro! Embora muitos homens saibam ‘dar boas dádivas aos seus filhos’, diante de Deus são ‘maus’, visto que, por serem gerados segundo Adão, foram criados imundos, ou seja, na condição de vasos para desonra. Mesmo sabendo dar boas dádivas aos seus filhos, as suas ‘boas dádivas’ diante de Deus são comparáveis a trapos de imundície, visto que suas obras não são feitas em Deus ( Jo 3:19 ; Jo 3:20 e Jo 3:21 ).

Obs.: Somente fazem ‘boas obras em Deus’ aqueles que estão ‘em Cristo’, ou seja, que creem na mensagem do evangelho. A todos que não aceitaram a Cristo persiste a declaração do Salmista Davi: “Não há quem faça o bem”!

Por ser impossível ao imundo produzir o que é puro, conclui-se que ‘não há quem faça o bem’. Por mais que um pecador (homem mau) se aplique em fazer coisas boas (dar boas dádivas), todas as suas obras são más, pois elas não são feitas em Deus.

 

O que determina se um Homem é Bom ou Mau?

Conforme o que Jesus ensinou fica demonstrado que não são as ações dos homens que determinam quem é mau ou bom diante de Deus. Observe:

“Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem?” ( Mt 7:11 );

“Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” ( Mt 12:34 );

Uma geração má e adúltera pede um sinal, e nenhum sinal lhe será dado, senão o sinal do profeta Jonas. E, deixando-os, retirou-se” ( Mt 16:4 ).

Não são boas ações e nem bons discursos que determinam quem é bom ou mau diante de Deus, visto que, mesmo sendo maus, os homens sabem dar boas dádivas aos seus semelhantes. O que determina se um homem é bom ou mau é a sua geração ( Pv 30:12 ).

O evento que estabeleceu o ‘mau’ sobre a humanidade (separação entre Deus e os homens) foi a ofensa de Adão ( Rm 6:19 ). Em Adão a humanidade tornou-se imunda (má). Através do nascimento natural todos os homens entram pela porta larga (Adão) e seguem por um caminho que os conduz à perdição ( Mt 7:13 ). Quando a bíblia diz que o homem é mau, é o mesmo que dizer que o homem é imundo, pecador, trevas, inimigo, em suma, todos esses adjetivos referem-se a uma única condição: o homem separado de Deus.

Do mesmo modo que toda árvore produz frutos segundo a sua espécie, assim também ocorre com os homens. É impossível que o homem separado de Deus produza o bem, do mesmo modo que é impossível que o homem unido a Deus por intermédio de Cristo produza o mau. Jesus disse: “Porque não há boa árvore que dê mau fruto, nem má árvore que dê bom fruto” ( Lc 6:43 ).

Jesus também demonstrou que uma das funções do fruto é tornar possível identificar se uma árvore é boa ou má “Ou fazei a árvore boa, e o seu fruto bom, ou fazei a árvore má, e o seu fruto mau; porque pelo fruto se conhece a árvore ( Mt 12:33 ). Ora, é impossível mudar a natureza de uma árvore através do fruto, visto que através do fruto só é possível identificar se a árvore é boa ou má.

O que determina se uma árvore é boa ou má? A resposta é simples: a semente. Do mesmo modo que as espécies das árvores estão vinculadas à semente, assim também são os homens: através da semente corruptível de Adão surgem os homens maus, e através da semente incorruptível, que é a palavra de Deus, surgem os homens bons. Enquanto estes são árvores de justiça, plantação do Senhor, aqueles são plantas que o Pai não plantou, fadadas a serem arrancadas e lançadas no fogo ( Mt 15:13 ).

Por causa da transgressão de Adão pereceu da terra o homem piedoso. Desde a queda deixou de existir entre os homens quem fosse reto por serem todos gerados segundo a semente de Adão ( Mq 7:2 ; Pv 30:12 ). Porém, através do último Adão, que é Cristo, os homens piedosos, retos e bons surgiram sobre a terra.

O que determina a condição de pecado do homem (mau) não são as suas ações e nem as suas convicções, antes, ser gerado da semente corruptível, a semente de Adão. Não são os frutos que determinam as espécies das árvores, porém, através do fruto somente é possível verificar e conhecer se a árvore é boa ou má.

É por isso que Jesus apontou a necessidade dos homens nascerem de novo. Todos precisam ser gerados da semente incorruptível ( Jo 3:5 ; 1Pe 1:23 ), para que possam escapar da condenação proveniente da semente de Adão.

Sobre esta verdade profetizou o profeta Isaías: “A ordenar acerca dos tristes de Sião que se lhes dê glória em vez de cinza, óleo de gozo em vez de tristeza, vestes de louvor em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem árvores de justiça, plantações do SENHOR, para que ele seja glorificado” ( Is 61:3 ).

Quando Jesus anunciou no Sermão do Monte que os que choram (tristes) são bem-aventurados, ele estava oferecendo aos seus ouvintes a Glória de Deus em lugar de destruição (cinza). Para tanto, eles precisariam receber a semente incorruptível (a palavra de Deus) para tornarem-se árvores de justiça, plantação do Senhor. Somente os nascidos de Deus não serão arrancados “Toda planta que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” ( Mt 15:13 ).

Fica demonstrado através dos versículos acima que todos que nasceram segundo Adão são maus e não fazem o bem. Porém, todos que nascerem de novo através da palavra (água) do Espírito Eterno são bons diante de Deus, e produzem o bem ( Jo 3:5 ; Ez 36:25 – 27) “Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus” ( Mt 7:17 ).

Em resumo: quando Jesus nomeou os homens de ‘maus’, ele estava fazendo referência à natureza pecaminosa herdada de Adão, visto que a sujeição ao pecado é proveniente da desobediência (ofensa) de Adão.

 

A Árvore: figura adequada para expor princípios espirituais

“Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus” ( Mt 7:17 )

Durante a exposição no Sermão do Monte Jesus apresentou algumas figuras para ilustrar princípios espirituais.

Ao perguntar: “Colhem-se uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos?” ( Mt 7:16 ), Jesus evidencia aos seus ouvintes um princípio espiritual. Ora, que não se colhem uvas dos espinheiros e figos dos abrolhos é evidente, porém, muitos desconhecem que através desta pergunta Jesus tornou evidente que este princípio também rege a humanidade.

Assim como é próprio das árvores produzirem frutos, Jesus demonstra que toda a árvore boa, sem exceção, produz bons frutos, e que, toda árvore má, sem exceção, produz frutos maus. Produzir fruto não depende de esforço por parte da árvore, como se fosse meritório produzi-los. Produzir fruto conforme sua espécie é próprio à natureza da árvore, do mesmo modo que é próprio ao homem sem Deus produzir o mau, e ao homem que está em Deus produzir o bem ( Mt 7:17 ).

O princípio da impossibilidade aplica-se tanto a árvore boa quanto a árvore má: ambas não podem produzir algo diverso à sua natureza. É impossível a árvore má produzir bom fruto, assim como é impossível a árvore boa produzir maus frutos ( Mt 7:18 ). Como mensurar esta impossibilidade? Ora, através da declaração de Jesus: “Colhem-se uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos?” ( Mt 7:16 ). Não! Portanto, você pode receber boas ações ou dádivas dos homens sem Deus (maus), mas apesar das boas dádivas, os seus frutos não são bons.

Toda árvore que não dá bom fruto é cortada e lançada no fogo! ( Mt 7:19 ). Como produzir bom fruto não é algo meritório, antes é algo pertinente à natureza da árvore, conclui-se que o homem não será lançado no fogo eterno por se aplicar ou não as ‘boas dádivas’, antes será lançado no fogo eterno por não pertencer à plantação do Pai Eterno “Toda planta que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” ( Is 61:13 ).

Quando Deus estabeleceu a sua plantação de árvores de justiça? Qual a semente que dá origem a plantação do Senhor? Como conhecer aqueles que são plantação de Deus?

Jesus é claro: pelo ‘fruto’ se conhece a árvore, ou seja, é possível conhecer os falsos profetas pelo fruto. É necessário reconhecer os falsos profetas (principalmente) porque eles vêm disfarçados de ovelhas ( Mt 7:15 – 16). Não basta ao homem clamar: “Senhor! Senhor!”, como faziam os escribas e fariseus, antes é preciso fazer a vontade de Deus. E qual é a vontade expressa de Deus? Que os homens creiam naquele que Ele enviou! ( Jo 6:29 ; Jo 20:31 ; 1Jo 3:23 ).

Somente após crer em Cristo como diz as escrituras, ou seja, após fazer a vontade de Deus, torna-se possível ao homem produzir bons frutos.

Qual é o fruto de um falso profeta? Professar a Cristo, porém, não segundo a verdade do evangelho! Operar milagres, expulsar demônios e profetizar em nome do Senhor é a pele de ovelha que os lobos devoradores utilizam para enganar os incautos.

Reiterando: nem todos que clamam, operam milagres e profetizam são falsos profetas, mas, o fruto do falso profeta surge dos seus lábios, pois não professam a Cristo conforme a verdade do evangelho.

Qual é o fruto bom que produz os que creem em Cristo? O fruto bom é proveniente dos lábios dos que creem em Cristo, onde está contida a semente da verdade do evangelho, ou seja, o fruto é professar a Cristo segundo as escrituras. É por isso que Jesus protestou contra os escribas e fariseus que era impossível eles dizerem boas coisas sendo maus, visto que, quem não é nascido da semente incorruptível (evangelho), não pode, ou melhor, não consegue professar a verdade do evangelho “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” ( Mt 12:34 ). “Portanto, ofereçamos sempre por meio dele a Deus sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que confessam o seu nome” ( Hb 13:15 ).

Somente os nascidos da semente incorruptível possuem um novo coração. Somente os que creem são bons diante de Deus e produzem frutos bons que contém a semente incorruptível. Diferente são os falsos profetas, que mesmo clamando ‘Senhor, Senhor’, o fruto que produzem é mau e não contém no seu interior a semente incorruptível, ou seja, a verdade do evangelho.

Profetizar, expulsar demônios e fazer milagres não é o mesmo que fazer a vontade de Deus. Somente são ‘conhecidos do Senhor’ aqueles que fazem a sua vontade, ou antes, aqueles que têm o seu prazer na lei de Deus ( Sl 1:1 – 6).

É neste ponto em específico que a doutrina de Cristo difere da doutrina de todas as religiões existentes. Enquanto Jesus demonstra que é impossível aos homens que não aceitam a mensagem do evangelho fazer o bem, todas as religiões apontam que é possível ao homem ser salvo fazendo boas ações.

 

Deus é Bom

“Jesus lhe disse: Por que me chamas bom? Ninguém há bom, senão um, que é Deus” ( Lc 18:19 )

O que motivou aquele homem rico chamar Jesus de ‘Bom Mestre’? Ele estava reconhecendo a divindade de Cristo? Como conhecedor da lei ( Lc 18:21 ), o homem de ‘posição’ bem sabia que somente Deus é ‘bom’. Se o homem cumpridor da lei estava querendo pegar Jesus nalguma questão para acusá-lo, o Mestre demonstrou estar atento sobre o real motivo daquele homem utilizar aquele qualificativo.

Se aquele homem houvesse alcançado a mesma revelação que teve o apóstolo Pedro ao professar que Cristo é o Filho do Deus Vivo, jamais seria questionado por Jesus por admitir a posição de Cristo “E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” ( Mt 16:16 ). Porém, a tristeza do homem em tela demonstra que ele não reconheceu Cristo como sendo o ‘Bom Mestre’, ou seja, ele não reconheceu Jesus como sendo enviado de Deus, caso contrário haveria de seguir a Cristo ( Jo 3:2 ).

Na Bíblia não encontramos uma definição de Deus, porém, há várias referências que apontam atributos pertinentes à divindade. Através de Cristo é possível o homem compreender Deus, visto que, o Verbo encarnado que está à mão direita de Deus foi quem O revelou aos homens ( Jo 1:18 ).

Encontramos na Bíblia que Deus é Luz, Amor, Vida, Justiça, Ira, Justo, Santo, Reto, Verdadeiro, Fiel, Imutável, Bom, etc.

De todos os atributos enumerados anteriormente, analisemos a imutabilidade de Deus. A palavra imutável é proveniente do latim ‘immutabile’ e refere-se aquilo que não muda.

Ora, quando a bíblia diz que Deus é imutável, tal atributo vincula todos os outros, ou seja, jamais Deus deixará de ser amor, vida, justo, santo, etc. “Porque eu, o Senhor, não mudo; por isso vós, ó filhos de Jacó, não sois consumidos” ( Ml 3:6 ). Através da imutabilidade podemos destacar que Deus jamais há de pecar.

Também entendemos que o pecado refere-se à separação que se estabeleceu entre Deus e as suas criaturas “Mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça” ( Is 59:2 ). De outra maneira podemos concluir que Deus não pode pecar porque não há como Deus estar à parte de si mesmo. Não há como se estabelecer uma separação na divindade.

Deus é uno e não há como surgir e inserir na divindade divisão. A unidade da divindade é algo singular, visto que o vinculo perfeito que une as pessoas da divindade é o amor ( Cl 3:14 ).

Quando o Verbo encarnado fez referência ao Pai, Ele disse: “Eu e o Pai somos um” ( Jo 10:30 ), ou seja, mesmo quando Cristo estava em carne, a unidade com o Pai não se desfez.

Jesus também anunciou que os seus seguidores seriam inclusos nesta unidade, para que fossem um do mesmo modo que o Pai e o Filho ‘são’ um “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um” ( Jo 17:22 ).

Quando o apóstolo Paulo descreveu que todos os homens pecaram e foram destituídos da glória de Deus, ele enfatizou que o pecado fez com que o homem deixasse de estar unido a Deus ( Rm 3:23 ). Neste mesmo diapasão, Jesus orou dizendo que, ao dar aos seus seguidores a glória que lhe foi conferida pelo Pai, todos os seus seguidores igualmente passariam a ser um com o Pai e o Filho.

Através da análise anterior verifica-se que a glória de Deus concedida aos homens é o que os tornam unidos a Deus, e o fato de o homem ter sido destituído da glória de Deus, por causa da desobediência de Adão, ocasionou a separação entre Deus e os homens ( Is 59:2 ).

Como Deus não pode alienar-se da sua glória, pois a Ele pertence, segue-se que Deus jamais será sujeito do pecado. Através desta pequena análise conclui-se que o pecado é o mesmo que separação, alienação, destituição da glória de Deus.

Portanto, quando lemos que Deus é vida, qualquer ser que não esteja unido a Deus está morto; quando lemos que Deus é Luz, qualquer ser que não esteja unido a Deus está em trevas; quando lemos que Deus é paz, qualquer ser que não é participante da glória de Deus está em inimizade com Ele; como lemos que Deus é bom, qualquer ser que não está em comunhão com Deus é mau.

Deus é bom, e o diabo, por não estar unido a Deus, é mau. Deus é bom, e todos os anjos que foram destituídos da glória de Deus são maus. Deus é bom, e todos os homens gerados de Adão são maus porque foram destituídos da glória de Deus. Do mesmo modo que ser ‘bom’ é um atributo intrínseco à natureza de Deus, o ‘mau’ vincula-se a natureza destituída da glória de Deus, ou seja, o mau designa e é pertinente à natureza separada de Deus.

Quando a Bíblia diz que Deus é bom, ela apresenta o atributo ‘bom’ em pé de igualdade com o atributo ‘vida’. Do mesmo modo que Deus é ‘vida’, ‘paz’ e ‘luz’, Ele é ‘bom’. Portanto, temos que considerar o atributo ‘bom’ do mesmo modo que consideramos que Deus é ‘vida’. Como? Ora, não podemos considerar que o atributo ‘bom’ é algo pertinente a Sua ‘personalidade’, ou a um ‘caráter’ ou que Deus tenha uma ‘moral’, antes refere-se a natureza de Deus. O atributo ‘bom’ vincula-se diretamente à natureza de Deus, ou seja, por natureza Deus é bom do mesmo modo que Ele é luz, vida, santo, etc.

Deus é bom e retribuirá todos os homens segundo as suas obras. Não é porque Deus retribuirá os seus adversários com ira que Ele deixará de ser bom. A bondade é um atributo da divindade que não impede que Ele retribua os homens separados d’Ele (maus) com ignomínia, e os participantes da sua glória (bons) com alegria eterna “Jubilai, ó nações, o seu povo, porque ele vingará o sangue dos seus servos, e sobre os seus adversários retribuirá a vingança, e terá misericórdia da sua terra e do seu povo” ( Dt 32:43 ).

Há muitos estudiosos que questiona a bondade de Deus por permitir que pessoas sofram com guerras, catástrofes, pestes, etc. Neste diapasão temos uma resposta dada pelo apóstolo Paulo aos que questionam a justiça de Deus do mesmo modo que muitos fazem questionando a bondade de Deus. Paulo reproduz a pergunta que faziam e demonstra que a questão está envolta em conceitos humanos de justiça “E, se a nossa injustiça for causa da justiça de Deus, que diremos? Porventura será Deus injusto, trazendo ira sobre nós? (Falo como homem.)” ( Rm 3:4 ). Analisando do ponto de vista dos homens: se a injustiça dos homens dá ocasião à justiça Deus, será Ele injusto trazendo a recompensa merecida (ira) sobre os injustos? ( Rm 3:5 ). A resposta é clara e precisa: “De maneira nenhuma; de outro modo, como julgará Deus o mundo?” ( Rm 3:6 ).

Ora, sabemos que a justiça dos homens é como trapo de imundícies diante de Deus, e que a justiça de Deus se estabelece em Cristo. A Bíblia nos informa que todo homem é mentiroso por causa de Adão, e que somente em Cristo o homem é verdadeiro ( Rm 3:4 ). Em Adão estabeleceu-se a injustiça, e em Cristo a justiça. Em Adão deu-se as trevas, em Cristo há luz. Em Adão todo homem é mentiroso, injusto, trevas e mau, em Cristo o homem é justo, verdadeiro, luz e bom.

Deus é injusto quando traz ira sobre os homens? O Apóstolo Paulo demonstra que não! Deus permanece fiel ante da incredulidade dos homens ( Rm 3:3 ). Do mesmo modo, Deus é bom quando permite ou retribui com o mal os homens, pois este é o modo justo de Deus tratar com os homens “De maneira nenhuma; de outro modo, como julgará Deus o mundo?” ( Rm 3:6 ). A maldade dos homens aniquila a bondade de Deus quando Ele retribui com ira os maus? De maneira nenhuma! Deus é justo e bondoso, mesmo quando retribui com ira e mal os homens maus.

O homem foi criado à imagem e semelhança do Criador, e uma das semelhanças conferida pelo Criador à criatura foi a impossibilidade de alterar a sua natureza. Deus é Deus porque é bom, luz, vida, imutável, longanimidade, etc. Sabemos que Deus é único, em quem não há mudança e nem sombra de variação “Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação” ( Tg 1:17 ). Diferente de todas as suas criaturas, que muitas vezes querem mudar a própria natureza. Exemplo: O querubim da guarda ungido desejou a semelhança do Altíssimo, porém, ao levar a efeito o seu intento, não guardou o seu principado e foi precipitado ( Is 14:14 ).

Os homens desejam voar como os pássaros, serem invencíveis, serem como os seres angelicais, porém, por mais que desejem, não podem alcançar. O Criador, perfeito em todos os seus caminhos, nem de longe cogitaria em deixar de ser o que é: Deus. Por quê? Porque ser bom, vida, paz, luz, onisciente, em suma: ser Deus é algo pertinente à sua natureza imutável.

Equívocos quanto a asserção: ‘Deus é bom’, geralmente ocorrem porque muitos não consideram a etimologia da palavra grega ‘aghatos’ (bom), que deve ser tomada, não no sentido moral, antes no sentido próprio à época, ou seja, ‘bom’ estava relacionado ao ‘nobre’, condição proveniente da aristocracia, que contrapõe o vil, a ralé, o de classe baixa com aquele que é nobre, bem nascido, o bom.

 

Deus e o Mau

“Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas” ( Is 45:7 )

Sabemos que Deus é bom e que todos quantos não compartilham da glória de Deus são maus. Sabemos que Deus é bom porque Ele é o que é, ou seja, a bondade de Deus está atrelada a sua natureza. Qualquer que não compartilha da vida que há em Deus, também não é participante da sua bondade, e, portanto, é mau.

Perceba que o ‘mau’ é pertinente à natureza do homem caído, e não à sua moral, comportamento ou caráter ( Mt 16:4 ). É na geração que se determina quem é bom ou mau. Como? Quando se lê que os homens sendo maus sabem dar boas dádivas, temos que o ‘mau’ vincula-se a natureza herdada de Adão. Ora, o mau vinculado à natureza proveniente de Adão não submete a vontade do homem com relação a dar boas dádivas aos seus semelhantes, tanto que Jesus notificou os seus ouvintes da capacidade do homem fazer boas ações aos seus semelhantes.

Mesmo não tendo feito bem ou mal o homem é concebido e gerado em pecado ( Sl 51:5 ). Por causa da condenação estabelecida em Adão todos os homens desviaram-se e juntamente tornaram-se escusáveis diante de Deus. Ora, este mau que atingiu a humanidade não é proveniente de questões morais, comportamentais ou de caráter como muitos entendem.

Quando Miquéias anunciou que pereceu da terra o homem piedoso e que não havia um homem se quer entre os filhos dos homens que fosse reto, ele estava fazendo alusão à queda de Adão, onde pereceu da terra o homem piedoso e todos deixaram de ser retos perante Deus ( Mq 7:2 ).

Sabemos que o mau refere-se a natureza de todas as criaturas alienadas de Deus, e que Deus é bom em essência, ou seja, jamais Deus será mau, visto que Ele jamais vai alienar-se de si mesmo, segue-se que o mau é condição própria as criaturas de Deus que estão alienadas d’Ele.

Porém, há algumas perguntas que surgem da leitura de alguns versículos, principalmente daqueles versos que não são analisados dentro do seu contexto. Dentre eles destacamos o que Deus anunciou por intermédio de Isaias: “Eu faço a paz, e crio o mal”.

Para algumas pessoas este verso é utilizado como pretexto para dizer que o Deus do Antigo Testamento é moralmente maldoso e perverso se comparado a Cristo, o Deus bondoso do Novo Testamento. Para outros sistemas religiosos Deus é um ser equilibrado, bom e mau (dualismo); composto por forças opostas, o ‘yin-yang’.

Porém, quando lemos a mensagem transmitida por Deus por intermédio de Isaias na totalidade, a ideia que nos sobressalta é maravilhosa, e totalmente diversa do pensamento de alguns homens maus.

No capítulo 43 de Isaias Deus anuncia que é o único salvador de Israel, faz uma promessa maravilhosa aos descendentes de Abraão, Isaque e Jacó ( Is 43:1 – 6), anuncia que criou o povo de Israel para a sua própria glória “…aos quais formei e fiz” (v. 7); anuncia que estabeleceu Israel por testemunho, porém, eles eram um povo cego e mudo (v. 8 e 10); e reitera que, por causa da transgressão de Adão e pela desídia dos interpretes, Israel seria destruído (v. 28).

No capítulo 44 Ele reitera a condição de Israel: escolhidos ( Is 44:1 ), e aponta os Seus atributos como garantia de redenção (v. 6). Porém, os Israelitas estavam confiados em seus ídolos (v. 11- 20), e a repreensão divina persiste.

No capítulo 45 Deus anuncia que Ciro haveria de reinar sobre os reis da terra ( Is 45:1 ), e reedificar a cidade de Jerusalém, que havia sido entregue por Deus para ser destruída ( Is 43:28 ).

Dentro deste contexto é anunciado que Deus forma maravilhosamente a luz e as trevas, ou seja, Deus aponta o seu poder criativo ( Is 43:19 ; Is 45:7 ); Do mesmo modo que o poder de Deus fez os céus e a terra, o dia e a noite, Ele detém o poder de fazer nova todas as coisas. Ele reitera que através de Ciro seria restabelecida a paz sobre Israel ( Is 44:28 ), do mesmo modo que anteriormente Ele havia estabelecido o mal sobre Jerusalém ( Is 43:28 ). Deste contexto vem a fala: “eu faço a paz, e crio o mal”.

Quando o texto diz: “eu (Deus) crio o mal”, está mostrando que Deus trouxe punição à transgressão dos interpretes de Israel, ou seja, Deus faz justiça. O texto não está dizendo que Deus cria a malignidade dentro de suas criaturas. Deus cria o “mal”, o que é diferente de criar o “mau”. Deus jamais cria o mau, porém, o mau surgiu após algumas de suas criaturas distanciarem-se d’Ele.

A separação que surgiu entre Deus e algumas criaturas não foi criada por Deus, portanto, Deus não criou e nem estabeleceu o mau.

Deus trouxe calamidade, punição (mal) sobre Israel por causa da transgressão de Adão e pela falha dos interpretes de Israel ( Is 43:27 – 28).

Portanto, segue-se que Deus é Deus porque Ele é bom, vida, paz, amor, longânime, justo, reto, santo, etc. Jamais Deus será mau, visto que, somente o que está desvinculado, separado ou alienado de Deus é mau. Como é impossível Deus estar aparte d’Ele mesmo, segue-se que Ele jamais será mau, mesmo quando Ele cria o mal (punição).

 

 

Deus e o Conhecimento do Bem e do Mal

“Ou não me é lícito fazer o que quiser do que é meu? Ou é mau o teu olho porque eu sou bom?” ( Mt 20:15 )

Até este ponto estávamos falando da natureza de Deus e dos seus atributos. Deus é bom, e todos os seres (angelicais e humanos) que existem à parte d’Ele são maus. Deus é bom, e todos os seres (angelicais e humanos) que conhecem a Deus são bons. Agora analisaremos como é possível Deus sendo bom conhecer o bem e o mal “Então disse o Senhor Deus: O homem agora se tornou como um de nós, conhecendo o bem e o mal ( Gn 3:22 ).

Sabemos que o homem sem Deus é mau e conhecedor do bem e do mal, e que Deus é bom e conhecedor do bem e do mal. Quando o homem aceita a verdade do evangelho, ele passa a compartilhar da natureza divina, sendo bom em essência. Ora, na regeneração o homem torna-se livre do mau herdado de Adão, porém permanece conhecedor do bem e do mal.

A Bíblia aponta dois tipos de ‘conhecimento’:

a) “estar unido a”, ou;

b) “saber acerca de”.

Quando o homem conhece a Deus, ou antes, é conhecido D’Ele, a palavra ‘conhecer’ indica união intima com o criador ( Gl 4:9 ). Agora, ‘conhecer’ o bem e o mal vincular-se ao saber, ter ciência de algo, o que difere de união íntima, comunhão.

Como vimos anteriormente, é impossível Deus ‘conhecer’ (estar unido a) o mau, pois é impossível Deus pecar. Temos dois motivos:

a) Deus é imutável, e;

b) não pode estar a parte de si mesmo.

Porém, Ele nos informa que é conhecedor do bem e do mal, assim como os homens tornaram-se conhecedores do bem e do mal por causa do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal ( Gn 3:22 ).

Como Deus não pode estar unido (conhecer) ao mau, por exclusão, temos que Deus sabe acerca (conhece) do bem e do mal. No que consiste o conhecimento de Deus do bem e do mal? No que resulta tal conhecimento?

Novamente precisamos analisar os atributos de Deus. Por natureza Deus é bom, reto, santo, justo, imutável, onipresente, onisciente, onipotente, etc. Estes atributos são nomeados naturais.

Sabemos que Deus imutável relaciona-se com suas criaturas, e que o seu relacionamento com as suas criaturas não depõe contra a sua imutabilidade. Também sabemos que Deus é justo, e que ele relaciona-se com suas criaturas, sejam elas justas (participante da sua natureza) ou não.

Como bem sabemos, os homens sem Deus são injustos por não compartilharem da natureza divina, por causa da desobediência de Adão. Em Adão Deus exerceu juízo sobre os homens e todos foram destituídos de sua glória “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida” ( Rm 5:18 ).

Cristo é a justiça de Deus concedida aos homens para que possam voltar a compartilhar da glória de Deus. Ou seja, em Adão estabeleceu-se a injustiça e em Cristo a justiça de Deus, porém, haverá também um julgamento com relação às obras de todos os homens. É neste julgamento e nas relações com as suas criaturas que o conhecimento de Deus do bem e do mal se aplica.

Observe: “Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus; O qual recompensará cada um segundo as suas obras; a saber: A vida eterna aos que, com perseverança em fazer bem, procuram glória, honra e incorrupção; Mas a indignação e a ira aos que são contenciosos, desobedientes à verdade e obedientes à iniquidade; Tribulação e angústia sobre toda a alma do homem que faz o mal; primeiramente do judeu e também do grego; Glória, porém, e honra e paz a qualquer que pratica o bem; primeiramente ao judeu e também ao grego; Porque, para com Deus, não há acepção de pessoas” ( Rm 2:5 – 11).

Destes versículos temos:

  • Para Deus não há acepção de pessoas, ou seja, Deus não tem nenhuma das suas criaturas em preferência;
  • Ele recompensará todas as suas criaturas conforme as suas obras: tanto justos quanto injustos;
  • Serão dois tipos de recompensa, a saber: 1) tribulação e angustia para os desobedientes à verdade do evangelho, e; 2) glória, honra e paz para quem herdar a vida eterna;
  • Qualquer que procurar glória, honra e incorrupção herdará a vida, ou seja, só é possível herdar a vida eterna aqueles que nascerem de semente incorruptível, a palavra de Deus; por ser uma planta plantada pelo Pai, será como a árvore plantada junto a ribeiros, produzirá o bem segundo a sua espécie. Qualquer contencioso e desobediente à verdade do evangelho herdará indignação e ira, e, por serem más as suas obras, terá também tribulação e angustia;
  • Haverá dois tribunais, a saber: tribunal de Cristo, onde os salvos serão julgados quanto ao que houver feito por meio do corpo (obras), bem ou mal ( 2Co 5:10 ); Grande Trono Branco, onde os perdidos serão submetidos ao julgamento das obras, e elas não lhes aproveitarão, pois não foram feitas em Deus ( Ap 20:13 ; Jo 3:21 ).

Como vimos anteriormente, Deus não é injusto por trazer ira sobre os descrentes, do mesmo modo que Ele não é mau por retribuir os homens com bem e mal. As injustiças dos homens não torna Deus injusto ao trazer a sua ira e nem a sua bondade é aniquilada por ele trazer glória, honra e incorrupção sobre os bons e ira e indignação sobre os maus.

A pergunta do apóstolo Paulo persiste: “Doutro modo, como julgará Deus o mundo?” ( Rm 3:6 ). Doutro modo, como é possível Deus bom retribuir a cada um segundo as suas obras, se for mau conceder a uns bem e a outros o mal? ( Pv 13:21 ).

O homem natural, por não compreender as coisas de Deus, questiona a justiça de Deus do mesmo modo que os trabalhadores questionaram o pai de família que contratou trabalhadores para sua vinha ( Mt 20:1 – 16 ).

A parábola dos trabalhadores na vinha demonstra que:

  • O Pai de família ao contratar trabalhadores para sua vinha fixou o valor de um dia de trabalho em um denário ( Mt 20:2 );
  • Porém, durante o dia de trabalho contratou mais trabalhadores sem fixar valores, e disse que pagaria o que fosse justo ( Mt 20:4 );
  • Os trabalhadores que foram contratados e trabalharam desde a madrugada fizeram mal juízo do pai de família por pensarem que receberiam mais que os seus companheiros ( Mt 20:10 );
  • Para os trabalhadores, o pai de família estava sendo injusto por dar o mesmo valor a todos os que trabalharam em sua vinha;
  • Por sua vez o pai de família contra argumentou que:
    • Não era injusto, visto que estava pagando o combinado ( Mt 20:13 );
    • Ele estava agindo conforme a sua vontade e não conforme a vontade dos trabalhadores ( Mt 20:14 );
    • Ele agiu conforme a sua vontade porque tinha direito de fazer o que bem entendesse do que lhe pertencia, e por último, o problema não estava no pai de família, que é bom, antes, no olho do trabalhador, que era mau ( Mt 20:15 ).

Como compreender a última declaração do pai de família?

No Sermão do Monte Jesus demonstrou que, se o olho do homem é mau, todo o corpo estará em trevas ( Mt 6:22 ; Lc 11:34 ). Este é um princípio que remete a uma conclusão: “Portanto, se a luz que em ti há são trevas, quão grandes são essas trevas” ( Mt 6:23 ).

Ora, todos os descendentes de Adão são maus por natureza, pois não são participantes da natureza divina. Qualquer que não é nascido de Deus anda em trevas, pois tenta orientar-se através dos seus olhos maus.

Daí advém a necessidade do novo nascimento (nascer da água e do Espírito), pois só após o novo nascimento o homem passará a andar na luz, pois lhe é iluminado os olhos do entendimento ( Ef 1:18 ).

Ora, o fato de o pai de família ser bom não impede que ele faça o que quiser com o que lhe pertence. O fato de o pai de família dar um mesmo salário a todos os trabalhadores não depõe contra a sua bondade e justiça. O olho de quem observa a maneira de agir do pai de família é que é mau, o que não permite o observador compreender as leis pertinentes ao reino dos céus ( Mt 20:1 ).

Do ponto de vista do homem natural Deus é mau (falo como homem) por estabelecer o inferno como destino final aos pecadores, porém, Deus é bom mesmo estabelecendo o inferno para o diabo, seus anjos e todas as gentes que se esquecem d’Ele.

A pergunta persiste: – ‘É mau o teu olho porque Deus é bom’? Ora, aos homens maus é mau que Deus dê a cada um conforme as suas obras, porém, Deus é bom e justo ao contemplar a cada um conforme as suas obras.

Do que foi exposto e analisado conclui-se que Deus é bom e conhecedor do bem e do mal, visto que jamais a sua bondade será conspurcada enquanto Ele discerne o bem e o mal. Através do conhecimento do bem e do mal Deus discerne os seus anjos e neles acha loucura ( Jó 4:18 ).

A concepção dualística não corresponde a verdade, visto que Deus é bom (agathos), e o mau, por sua vez, não é co-eterno. Na eternidade o mau nunca existiu, visto que nada pode existir à parte de Deus. O mau só passou a existir quando Deus criou as suas criaturas, e elas de moto próprio se lançaram da presença do Criador, tornando-se más. Lembrando que o mau nesta abordagem refere-se a ausência de Deus, ou seja, o não compartilhar da natureza do Criador.

Na eternidade o mal era só um ‘conhecimento’, um conhecimento no qual o mal é intrínseco ao bem e vice versa. Deus declara no Gênesis que é conhecedor do bem e do mal: “Então disse o SENHOR Deus: Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal” ( Gn 3:22 ). Como Deus é eterno e imutável, isto significa que na eternidade Deus bom é conhecedor do bem e do mal, elementos intrínsecos ao fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Não há como desvincular o conhecimento do bem e do mal que há em Deus, assim como não há como desvincular o sabor agridoce de uma laranja.

Deste modo temos que o mau não é eterno e nem co-existe com Deus, como apostam os dualistas. O que os dualista pensam equivocadamente refere-se ao conhecimento do bem  do mal, e não um mal que se oponha a Deus. Porém, como sabemos que as criaturas de Deus são imortais, segue-se que Deus não quer e não eliminará aqueles que existem à parte da sua natureza (o mau). Tais criaturas existirão para sempre num lugar estipulado por Deus ( Sl 9:16 ; Mt 25:41 ; Ap 12:9 ).

O fato de existir locais distintos para justos e ímpios não depõe contra a bondade de Deus, visto que nem a impiedade aniquilará a justiça de Deus e nem o mau aniquilará a bondade de Deus.

Apesar dos evangélicos e protestantes serem contrários ao pensamento dualista de que o bem e o mau co-existem em Deus, acabam por apregoar que a dualidade do bem e o mal é uma realidade intrínseca a cada ser humano. Tremendo engano, visto que, ou o homem é bom por ser nascido de Deus, ou é mau, por ser descendente de Adão.

Jesus foi claro quanto a este posicionamento: “Ou fazei a árvore boa, e o seu fruto bom, ou fazei a árvore má, e o seu fruto mau; porque pelo fruto se conhece a árvore” ( Mt 12:33 ). Não há como fazer a árvore com duas naturezas: boa e má, ou seja, ou o homem é mau ou é bom.

Para defenderem o posicionamento da dualidade do bem e do mal no homem, muitos teólogos lançam mão até de pensamentos rabinos, que por sua vez pensavam que Deus teria dado a Adão dois desejos em conflito, exigindo que ele se apegasse a um e rejeitasse o outro.

Mas, o que diz as escrituras? Que a carne e o Espírito militam um contra o outro. Ou seja, carne e Espírito referem-se a dois reinos espirituais distintos e antagônicos, e não como interpretam alguns, de que o espírito e a carne dos homens estão em conflito constante.

Não há conflito algum entre o corpo (carne) e o espírito do homem. O conflito que existe, ocorre entre a carne ‘versus’ o Espírito de Deus.

A tradução literal do texto grego demonstra que um deseja contra o outro: carne x Espírito. Não diz do crente dividido entre duas tendências, antes diz do Espírito de Deus que é contrário à carne, como bem demonstra o apóstolo Paulo: “A inclinação da carne é morte, mas a inclinação do Espírito é vida e paz” ( Rm 8:6 ). A inclinação, a luta, o desejo, o conflito se estabelece entre a Vida e a morte, o Espírito e a carne, o pecado e a justiça.

Como co-existir a velha e a nova natureza no homem se só é possível a existência do novo homem quando o velho é crucificado e sepultado com Cristo?

 

 

O Bem e o Mal

O jugo do pecado é proveniente da desobediência de Adão, porém, além de ter sido destituído da glória de Deus, ou seja, tornar-se mau, o homem passou a ter conhecimento do bem e do mal, visto que o fruto da árvore proporcionou tal conhecimento “Ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás, pois no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:16 – 17).

A morte (destituição da glória de Deus, mau) foi a penalidade imposta à desobediência de Adão, porém, o homem adquiriu algo que antes não possuía ao tornar-se participante (comer) da árvore do conhecimento do bem e do mal. Sabemos que a desobediência de Adão sujeitou a humanidade ao jugo do pecado (mau), porém, além do mau (morte) estabelecido na ofensa, o homem comeu do fruto do conhecimento do bem e do mal.

Não podemos confundir a origem do mau com a origem do conhecimento do bem e do mal.

  • O conhecimento do bem e do mal foi proporcionado ao homem quando comeu do fruto da árvore, o que tornou o homem igual a Deus, conhecedor do bem e do mal ( Gn 3:22 );
  • O mau estabeleceu-se sobre o homem em decorrência da penalidade pela desobediência de Adão.

A desobediência de Adão sujeitou o homem a morte, ou seja, fez com que o homem fosse destituído da vida que há em Deus. O homem deixou de ser bom e passou a ser mau diante de Deus. Porém, além do mau que é pertinente a natureza do homem sem Deus, ele passou a ter conhecimento do bem e do mal, sendo como Deus.

De que modo o conhecimento do bem e do mal influenciou e continua a influenciar o homem?

É impossível ao homem por si só livrar-se do jugo do pecado, ou seja, da sua condição de mau. Sem a intervenção divina toda a humanidade estaria perdida pela eternidade, visto que, para ser salvo é preciso o homem nascer de novo, obra que só Deus pode realizar por meio da sua palavra.

Ou seja, o mau a quem o homem se sujeitou assumiu a condição de senhor. O homem é pecador, não porque comete pecado, antes é pecador porque é servo do pecado ( Jo 8: 34 ). A desobediência de Adão levou toda a humanidade a esta condição.

Podemos inferir das Escrituras que os efeitos dos frutos das duas árvores que Deus fez brotar da terra (árvore da vida e árvore do conhecimento do bem e do mal) e que estavam no meio do jardim do Éden eram permanentes, visto que, após a queda, foi vetado ao homem o acesso a árvore da vida ( Gn 2:9 e Gn 3:22 ), para que o homem não vivesse eternamente.

O homem foi feito conforme a imagem e semelhança Deus ( Gn 1:26 – 27), porém, após a queda (desobediência) o homem foi:

  • Destituído da glória de Deus, e;
  • Tornou-se conhecedor do bem e do mal, ou seja, como Deus ( Gn 3:22 ).

No que implica ser conhecedor do bem e do mal? Qual a diferença entre ser pecador (mau) e ter o conhecimento do ‘bem e do mal’ proveniente da árvore?

Para compreendermos faz-se necessário analisarmos todos os eventos antes, durante e após a queda de Adão.

  • A tentação estabeleceu a desconfiança – “Então a serpente disse a mulher: certamente não morrereis” ( Gn 3:4 ) – O pecado se estabeleceu sobre o homem por causa da falta de confiança. A falta de fé fez com que o homem deixasse de guiar-se pela palavra de Deus, passando a guiar-se pelos seus próprios instintos. Por não confiar em Deus o homem deixou de ser participante da vida que há em Deus;
  • Antes da queda a concupiscência já existia – “Vendo a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento…” ( Gn 3:6 ) – Há uma grande diferença entre desejar e o pecado, conforme aponta o apóstolo Tiago “Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência. Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte” ( Tg 1:14 – 15);
  • Após a queda – “Então disse o Senhor Deus: O homem agora se tornou como um de nós, conhecendo o bem e o mal…” ( Gn 3:22 ) – Além de ser destituído da glória de Deus (pecado), o homem passou a ser conhecedor do bem e do mal, algo que vai além da pena imposta pela desobediência de Adão. O homem preferiu o conhecimento do bem e do mal à ter vida eterna ( Gn 2:9 );
  • Apesar da condição de (em) pecado, o homem passou a ser como Deus – “O homem agora se tornou como um de nós, conhecendo o bem e o mal…” ( Gn 3:22 ); Satanás era conhecedor do que haveria de acontecer com o homem, caso pecasse ( Gn 3:5 ), porém, o ‘pai da mentira’ fez o que lhe é próprio ao dizer que o homem não haveria de morrer, antes seria como Deus ( Gn 3:4 ); O Querubim da guarda ungido era participante da natureza divina, e após ‘querer’ lançar mão da ‘semelhança’ do Altíssimo, foi destituído da glória de Deus e perdeu o seu principado. Satanás foi destituído da vida que é proveniente de Deus (pecado), porém, não deixou de existir. Satanás continuou sendo anjo e de posse do conhecimento que possuía antes da queda, porém, sem compartilhar da vida que é proveniente de Deus (pecado);
  • Conhecimento do bem e do mal – O Conhecimento (saber) do bem e do mal é que torna o homem como Deus (um de nós). A bíblia aponta dois tipos de conhecimento: “estar unido a” ou “saber acerca de”. Quando o homem conhece a Deus, ou antes, é conhecido D’Ele, a palavra conhecer indica união intima com o criador ( Gl 4:9 ). Agora, ‘conhecer’ o bem e o mal vincular-se ao saber, ter ciência de algo, o que difere de união;
  • O mau e o conhecimento do bem e do mal – após desobedecer ao Criador, Adão passou a ser mau diante de Deus, sem qualquer alusão as suas ações. O homem destituído de Deus sabe fazer boas ações e más ações, porém, não são as suas ações que estabelecem se ele é mau ou bom diante de Deus, antes a sua geração.

Após a queda, ‘conheceu’ (união intima, um só corpo) Adão a sua mulher, e Eva teve filhos: Caim e Abel. Ora, Caim e Abel, por serem descendentes de Adão eram pecadores, maus diante de Deus. Tal condição os atingiu, não porque fizeram algo de certo ou errado, antes, eram pecadores por serem descendentes de Adão. Já foram concebidos e gerados em pecado ( Sl 51:5 ).

Num determinado dia, Caim trouxe dos frutos da terra uma oferta a Deus ( Gn 4:3 ). Abel agiu de igual modo, e trouxe uma de suas ovelhas e ofertou ao Senhor ( Gn 4:4 ), porém, Deus atentou para Abel e não foi favorável a Caim, e este, por sua vez, ficou triste.

Em seguida veio o alerta divino para Caim “Então disse o Senhor: Por que te iraste? E por que descaiu o seu semblante? Se procederes bem, não serás aceito? E se não procederes bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar” ( Gn 4:6 – 7).

Analisando os versículos acima, temos que Deus fez duas perguntas: Qual o motivo da ira e da tristeza de Caim. Porém, as frases seguintes precisam de uma análise mais apurada, visto que, há discrepâncias entre a tradução do texto com a ideia que o Novo Testamento nos apresenta.

Observe:

1) Basta ao homem proceder bem (bom comportamento) que será aceito por Deus?
2) Deus aceita o homem pela fé ou pelas obras?
3) Quando Deus disse que o pecado jaz à porta, o que foi dito:

a) Que o pecado jaz (está morto)?
b) Que o pecado ainda não ocorreu, mas que estava prestes a ocorrer?
c) Ou, que o pecado exerce domínio sobre o homem (estar à porta = local onde se exerce domínio)? ( Jó 29:7 )

4) É possível o homem exercer domínio sobre o pecado (… mas sobre ele deves dominar.)?
5) O desejo do pecado será sobre o homem (… sobre ti será o seu desejo…)?
6) Mesmo sob domínio do pecado é possível o homem proceder bem e mal ( Se procederes bem, não serás aceito? E se não procederes bem…)?

Quantas perguntas retiradas de um pequeno trecho bíblico, porém, sem respondê-las é impossível progredir em nossa empreitada. Antes de prosseguir, devemos considerar as seguintes verdades bíblicas:

  • Quando Deus falou com Caim a humanidade já estava sob o jugo do pecado, pois por Adão o pecado entrou no mundo, e por ele a morte ( Rm 5:12 ), ou seja, Caim já havia sido julgado, condenado e apenado com a morte, destituído da vida que há em Deus ( Rm 5:18 );
  • A obediência e o pecado são senhores que exercem domínio sobre os homens ( Rm 6:16 ). Observa-se através deste versículo que é impossível aos homens exercerem domínio sobre o pecado ou sobre a justiça.

 

Respostas:

  • Sabemos que não basta ao homem proceder, ou comportar-se bem ou de modo honesto, que será aceito diante de Deus. Todos os homens precisam nascer de novo ( Jo 3:3 ), ou conforme a linguagem do Antigo Testamento, é necessário circuncidar o coração, obtendo um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ; Ez 36:26 ), para que possam serem aceitos por Deus;
  • Todos que se aproximam de Deus precisam crer que Ele existe e que é galardoador dos que O buscam ( Hb 11:6 ). Abel foi aceito por Deus por meio da fé ( Hb 11:4 ), e não por obras, sacrifícios ou pela oferta. Caim foi rejeitado e sua oferta também, por outro lado Abel foi aceito e a sua oferta aceita. A ordem não pode ser invertida: Deus aceita o ofertante que se aproximar dele pela fé (evangelho) e por fé (descansar na esperança proposta). Não é a oferta que torna o homem agradável a Deus;
  • Sabemos que o mundo jaz no maligno, ou seja, o mundo está morto no maligno. O mesmo não podemos dizer do pecado, pois através de Adão ele continua a exercer o seu domínio sobre os homens. Também sabemos que quando Deus conversou com Caim, o pecado não estava por acontecer (as portas, prestes a), antes já havia subjugado o homem, inclusive o próprio Caim. Sabemos também que, caso o homem proceda bem ou não, continuará sob a égide do pecado, e Caim e Abel estavam vinculados a este fato;
  • Sabemos que é impossível o homem exercer domínio sobre o pecado ou sobre a injustiça – Com base nesta verdade, como seria possível Deus orientar Caim a subjugar o pecado? ( Rm 6:16 );
  • Se a vontade do pecado na condição de senhor submete o homem, como seria possível o homem na condição de escravo subjugar o seu senhor (pecado)? ( Rm 6:18 );
  • Caim já era escravo do pecado, porém Deus o orientou a ‘proceder bem’, ou seja, quanto ao procedimento o homem tem autonomia para decidir entre o bem e o mal, porém, tais decisões não livram o homem (escravo) do seu senhor (pecado);
  • A desobediência de Adão trouxe conseqüências funestas para toda a sua descendência (morte), porém, além da separação que se estabeleceu entre Deus e os homens, o homem passou a ser como Deus, conhecendo o bem e o mal ( Gn 3:22 ).

Problemas de traduções e interpretações à parte, qualquer entendimento do texto em questão deve-se levar em conta o que analisamos anteriormente, porém, não me atrevo a apresentar aqui uma proposta de emenda à tradução em tela.

Logo após a ofensa que trouxe o juízo de Deus sobre todos os homens ( Rm 5:18 ), Adão conheceu (tomou ciência) que estava nu. Ora, na ofensa ele conheceu o pecado, ou seja, passou a estar unido ao pecado, e tomou ciência (conheceu) que estava nu.

Ora, após a queda Deus não estabeleceu nenhuma lei, porém, Adão de pronto reconheceu o seu estado e recriminou-se. De pronto procuraram um modo de cobrir a nudez, e só após serem interpelados por Deus esconderam-se.

Deste evento podemos destacar que:

  • O pecado sempre foi e será pecado, e se a nudez de ‘per si’ fosse pecado, o que separaria o homem de Deus, antes mesmo da queda a nudez teria sido recriminado por Deus;
  • Se a nudez fosse o ‘pecado’ que estava separando o homem de Deus, logo teria sido proibido por Deus o homem andar nu no Éden e fora do Éden, o que não ocorreu;
  • A desobediência estabeleceu o juízo de Deus (separação entre Deus e os homens), e o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal proporcionou conhecimento, entendimento, e o homem passou a se esconder de Deus; não por causa da desobediência (ofensa), antes, escondeu-se por ver, entender que estava nu ( Gn 3:10 ).

A ofensa do homem estava na desobediência, porém, após comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, o homem passou a guiar-se pelo entendimento adquirido. Deus não havia proibido a nudez de Adão e Eva, porém, para eles, a gravidade residia no fato de estarem nus, e não na desobediência.

Ora, após o homem crer em Cristo é criado um novo homem em verdadeira justiça e santidade, porém, mesmo após estar livre da condenação estabelecida em Adão, o crente ainda permanecerá conhecedor do bem e do mal. Quando o homem aceita a verdade do evangelho deixa de compartilhar do mau herdado da natureza de Adão, e passa a compartilhar da Luz, da Paz, do Bem, porém, jamais deixará de ser conhecedor do bem e do mal, visto que tal conhecimento é que o torna como Deus ( Gn 3:22 ).

Sobre este mister destacou o apóstolo aos Hebreus: “Mas o mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal” ( Hb 5:14 ). O que é o mantimento sólido? A figura ‘alimento sólido’ equivale a verdade do evangelho em profundidade ( Ef 3:18 ), contrastando com os rudimentos (princípios) do evangelho.

Os perfeitos, neste caso específico, referem-se aos cristãos que possuem uma compreensão apurada do evangelho de Cristo. Após o cristão adquirir conhecimento maior que os ensinos elementares da doutrina de Cristo, tem em si a capacidade de discernir tanto o bem como o mal, porque os seus sentidos estão e são exercitados continuamente.

Percebe-se através da exposição do escritor aos Hebreus que:

  • O conhecimento do bem e do mal está atrelado aos sentidos dos homens;
  • Os sentidos podem e devem ser exercitados;
  • O exercício dos sentidos, discernimento, é individual;
  • O exercício dos sentidos tem por parâmetro o conhecimento do bem e do mal.

A capacidade de discernir tanto o bem como o mal equivale a conhecer o bem e o mal. O conhecimento adquirido quando o homem tornou-se participante da árvore do conhecimento do bem e do mal é o que lhe concede discernimento para identificar tanto o bem como o mal.

Ora, surge a pergunta: Tanto o justo quanto o injusto possuem esta capacidade? Sim! Esta capacidade, este discernimento é pertinente aos filhos de Adão e aos filhos de Deus, visto que a humanidade passou a ser como Deus, conhecedora do bem e do mal.

Cristo é um exemplo claro desta verdade! Observe esta profecia: “Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel. Manteiga e mel comerá, quando ele souber rejeitar o mal e escolher o bem. Na verdade, antes que este menino saiba rejeitar o mal e escolher o bem, a terra, de que te enfadas, será desamparada dos seus dois reis” ( Is 7:14 – 16). O Cristo haveria de ser concebido de uma virgem – concepção virginal. Ela traria ao mundo um filho (homem) e seria nomeado Emanuel, ou seja, ‘Deus Conosco’, o mesmo que, ‘Deus com os homens’.

A profecia destacada contrasta a dieta do Emanuel com a dieta de seu precursor, João Batista. Quando o menino souber (saber, conhecimento) rejeitar o mal e escolher o bem, a sua dieta será de manteiga (gordura) e mel (o melhor da terra), contrastando com o seu precursor, que comeu gafanhotos e mel silvestre ( Mt 11:19 ).

Diferente dos filhos de Adão, Cristo veio ao mundo participante da natureza divina – O Filho de Deus encarnado. O Emanuel, o Verbo de Deus, a Luz verdadeira, Santo, Verdadeiro, Bom, etc. Em Cristo não houve trevas nenhuma! Em resumo, Cristo é o mesmo ontem, hoje e eternamente: Bom!

Mesmo sendo Bom, sem nunca ter se conspurcado com o mau, Cristo teve que escolher o bem e rejeitar o mal. Para tanto, o Bom menino Jesus cresceu e soube (conhecimento) rejeitar o mal e escolher o bem.

Há que se ter tal conhecimento, se não, não haveria o alerta solene: “Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem chamam mal, que fazem das trevas luz, e da luz trevas; e fazem do amargo doce, e do doce amargo!” ( Is 5:20 ).

O fato de Jesus ter escolhido o bem e rejeitado o mal não é o que O tornou ‘Bom’, antes, o Cristo é Bom porque foi gerado de Deus.

É por estes motivos que o apóstolo Paulo faz o alerta solene: “Quanto à vossa obediência, é ela conhecida de todos. Comprazo-me, pois, em vós; e quero que sejais sábios no bem, mas simples no mal” ( Rm 16:19 ). A obediência dos cristãos, da qual o apóstolo faz referência, diz da obediência à verdade do evangelho, que é a fé anunciada a todo o mundo ( Rm 1:8 ). Ora, através da obediência à verdade do evangelho o homem torna-se agradável a Deus, perfeito para toda a boa obra, visto que, após crer em Cristo, as obras do cristão são feitas em Deus ( Jo 3:21 ).

Com relação à verdade do evangelho o apóstolo tinha satisfação em ver os cristãos, porém, Paulo desejava ardentemente que eles fossem perfeitos, capacitados, exercitados para saberem rejeitar o mal e escolher o bem, ou seja, sábios no bem e simples no mal.

Todos que creem em Cristo tornam-se perfeitos, visto que foram novamente criados em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ; Cl 2:10; 2Co 2:6 ), porém, aos gerados de novo falta-lhes alcançar a medida da estatura completa de Cristo ( Ef 4:13 ; 2Co 13:11 ).

Por que o cristão deve ser simples com relação ao mal e sábio quanto ao bem? Temos dois motivos:

  • Para que deixassem de serem meninos, aptos para alimento sólido e não fossem levados por ventos de doutrinas – “E EU, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a meninos em Cristo” ( 1Co 3:1 ).
  • O fato de haver entre os cristãos contendas e porfias depunha claramente contra eles, demonstrando que eram neófitos na fé. Por não crescerem na graça e conhecimento de Cristo, Paulo ainda não podia exortá-los como espirituais, antes como se eles ainda fossem carnais, o mesmo que meninos em Cristo.

Qual o problema em ser menino em Cristo? Estar sujeito a ser levados por ventos de doutrinas ( Ef 4:14 ). Na igreja de Corinto havia contendas e dissensões porque os cristãos ainda não eram exercitados em rejeitar o mal. Embora perfeitos em Cristo, não eram perfeitos para saber rejeitar o mal e promover o bem.

Paulo ensinou aos Cristãos em Roma como procederem quando ao discernimento do bem e do mal ( Rm 12:9 e Rm 12:21 ). É de bom alvitre os cristãos não tornar mal por mal, antes deve ater-se as coisas honestas, perante todos os homens ( Rm 12:17 ).

Se for possível, o cristão deve estar em paz com todos os homens, porém, deve desviar-se daqueles que promovem dissensões e escândalos contra a doutrina do evangelho ( Rm 16:17 ).

Porque todos comparecerão ante o Tribunal de Cristo para serem recompensados quanto as suas ações: boas ou más – “Porque todos devemos comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o que tiver feito por meio do corpo, ou bem, ou mal” ( 2Co 5:10 ).

Quando escreveu aos cristãos de Corintos, Paulo expressa a sua esperança em Deus, certo de que haveria de deixar este mundo para habitar eternamente com Deus ( 2Co 5:8 ). Com relação à salvação em Cristo, a obra perfeita do evangelho (fé), ela é atribuída a Deus ( 2Co 5:5 ), porém, além da salvação, Paulo buscava ser agradável aos cristãos, visto que, tal renúncia haveria de ser retribuída no Tribunal de Cristo ( 2Co 5:10 ).

Por que ser agradável a todos e principalmente quanto aos irmãos? Porque todos comparecerão ante o mesmo Tribunal! Para que cada um receba o que houver feito por meio do corpo, ou seja, receberá de acordo com o bem e o mal que fizeram ( Rm 12:20 ).

 

 

O Pecado e o Conhecimento do Bem e do Mal

O homem desobedeceu e comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal rejeitando o alerta divino e passou à condição de pecado (mau). Porém, além de pecar (destituído da glória de Deus por causa da desobediência), não podemos esquecer que Adão comeu do fruto da árvore que lhe concedeu o conhecimento do bem e do mal, algo diferente de pecado.

O conhecimento do bem e do mal não se vincula ao pecado, antes ao fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. O pecado adveio da desobediência de Adão e o conhecimento do bem e do mal adveio do fruto da árvore que foi posta no meio do jardim do Éden.

Não podemos confundir a origem do pecado com a origem do conhecimento do bem e do mal, visto que, Deus é conhecedor do bem e do mal, algo que não deriva do pecado (mau). O Filho do Homem aprendeu rejeitar o mal e escolher o bem, porém, sem pecado.

O conhecimento do bem e mal são provenientes do mesmo fruto e capacita o homem a discernir tanto o bem quanto o mal, porém, tal discernimento não capacita o homem para distinguir o que é bom e o que é mau. Porém, a bíblia nos informa que Deus é bom e se for necessário conhecer quem é bom ou mau, basta verificar o fruto que os homens produzem.

Jesus liberta o homem do pecado (condição oriunda da desobediência de Adão), porém, ele não ‘liberta’ o homem do conhecimento do bem e do mal, visto que o homem após tornar-se participante do fruto da árvore que estava no meio do jardim do Éden tornou-se como Deus. O efeito do fruto é permanente sobre o homem do mesmo modo que seria se ele houvesse comido do fruto da árvore da vida.

O conhecimento do bem e do mal é algo proveniente do fruto e o pecado da desobediência. Embora estivesse relacionado ao fruto, o pecado (mau) é totalmente distinto do conhecimento do bem e do mal.

Enquanto o homem não consegue dominar o pecado (antes é sujeito do pecado na condição de escravo), o conhecimento do bem e do mal está na alçada do homem dominar.

Ora, por mais que alguém se aplique a fazer o bem, dar boas dádivas, não estará livre do pecado. Não é porque alguém faz o mal contra o próximo que está condenado, antes é rejeitado por Deus por causa da desobediência de Adão. Só é aceito perante Deus aqueles que nascerem de novo. Perceba que os cristãos receberão no Tribunal de Cristo conforme as suas ações, boas ou más e os descrentes semelhantemente receberão conforme as suas ações boas ou más quando do Grande Tribunal do Trono Branco.

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