É possível um crente carnal?

O que define o homem carnal é estar vendido ao pecado. O crente em Cristo é liberto do pecado e servo de Deus, portanto, é impossível ser servo da justiça e ser carnal.

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Duas portas, dois caminhos

A Bíblia ensina que todos os homens entram pela porta larga, quando vem ao mundo, e estão em um caminho largo, que os conduzirá à perdição.

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O livro do Cordeiro do Apocalipse

A supressão da figura do proprietário do livro da vida no capítulo 17 do Livro do Apocalipse foi suficiente para que algumas pessoas se utilizassem do texto para introduzirem encobertamente a sua doutrina, enfatizando que, ‘desde a fundação do mundo’ há um livro que contém registrado o nome dos salvos, sugerindo a doutrina calvinista da eleição e predestinação.

 

“… cujos nomes não estão escritos no livro da vida, desde a fundação do mundo” ( Ap 17:8 )

Introdução

A abordagem de Apocalipse 17, verso 8 não se centra em um livro, antes na figura do Cordeiro de Deus. Cristo, o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo é o tema central do verso ( Jo 1:29 ; Ap 21:27 ).

A leitura do verso 8 do capítulo 17 de Apocalipse é simples: Ora, a bíblia só faz referência a um livro da vida, e este livro, por sua vez, pertence ao Cordeiro de Deus. É o ‘Cordeiro de Deus’ que foi morto desde a fundação do mundo, e não o ‘livro da vida’ que foi escrito desde a fundação do mundo.

Quando lemos: “… cujos nomes não estão escritos no livro da vida, desde a fundação do mundo” ( Ap 17:8 ), basta incluir no versículo a figura do proprietário do livro para desfazer a confusão que produz muitas interpretações equivocadas e falaciosas: o livro da vida do (pertence ao) Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo.

Observe: “… cujos nomes não estão escritos no livro da vida (do cordeiro que foi morto), desde a fundação do mundo” ( Ap 17:8 ). Este verso faz a mesma abordagem do verso 8 do capítulo 13: “E adoraram-na todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo”.

Na língua grega, aquilo que é evidente no texto, ou o que já foi abordado anteriormente, ou, o que é facilmente subtendido, por uma questão de estilo de redação, geralmente é suprimido. No verso 8 do capítulo 17 houve uma supressão da figura do proprietário do livro (cordeiro), o que é facilmente deduzido, pois o livro pertence ao cordeiro “E não entrará nela coisa alguma que contamine, e cometa abominação e mentira; mas só os que estão inscritos no livro da vida do Cordeiro” ( Ap 21:27 ).

Mas, a supressão da figura do proprietário do livro foi suficiente para que algumas pessoas se utilizassem do texto para introduzirem encobertamente a sua doutrina, enfatizando que, ‘desde a fundação do mundo’ há um livro que contém registrado o nome dos salvos, sugerindo a doutrina calvinista da eleição e predestinação.

Através desta passagem bíblica, há quem procure dar sustentação à doutrina calvinista da predestinação e eleição sob o argumento de que Deus registrou os nomes dos salvos em um livro ‘desde a fundação do mundo’, determinando quem são os salvos, mas se esquecem de considerar que o próprio Deus assevera que apagará o nome daqueles que pecarem, apesar de já estarem inscritos no seu livro, o que depõe contra tal concepção doutrinária fatalista, determinista e mecanicista “Então disse o SENHOR a Moisés: Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro ( Êx 32:33 ).

 

Aplicando princípios de interpretação

A primeira questão a se considerar ao interpretar Apocalipse 17 verso 8 é que se está analisando figuras. No aprendizado de uma nova matéria, a cognição do homem se dá por associação e acomodação, de modo que, Deus, ao transmitir uma ideia espiritual – que é completamente nova para o homem – utiliza figuradamente coisas pertinentes a este mundo dos para apresentar.

Ao observar o versículo 8 do capítulo 17 de Apocalipse, verifica-se que ele faz referência à ‘besta’, uma figura que representa o oitavo rei que pertence ao conjunto de sete reis e que vai a perdição ( Ap 17:11 ), de modo que a figura apresentada é para trazer à compreensão um mistério ( Ap 17:7 ).

Como a besta deste contexto é uma figura para fazer referencia a um rei, o livro que consta do mesmo verso também é uma figura, visto que é improvável que Deus possua ou necessite de um livro para conferir de nomes. Deus não precisa de livros ou de caneta para anotar informações.

Deus é onisciente, ou seja, todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos d’Ele. Todas as coisas Ele conhece igualmente bem, quer seja no passado, no presente ou no futuro, tanto as que consideramos simples quanto as que consideramos complexas.

Ora, a visão de um livro remete o vidente à ideia de que todas as coisas são conhecidas por Deus, de modo que é impossível aos homens, ou a qualquer outro ser criado escapar da percepção dos ‘olhos’ de Deus.

Na bíblia não há em outras passagens bíblicas que faça referencia a um livro redigido antes da fundação do mundo. O que encontramos é referencias a Cristo, apresentado como o cordeiro de Deus, e que ele foi morto desde a fundação do mundo ( Ap 13:8 ).

As verdades bíblicas permeiam e ecoam por todas as Escrituras, de modo que as verdades bíblicas são repetidas de diversas maneiras em seus vários livros. Ora. Não há em outros livros qualquer alusão a um livro escrito na fundação do mundo, mas com relação ao Cordeiro foi anunciado por Moisés (Lei), pelos profetas, confirmado pelos apóstolos que Ele foi morto desde a fundação do mundo.

Embora a bíblia faça menção de um livro como figura, não há menção de um tempo ou de uma época em que tenha sido escrito, antes a referência é quanto à natureza do livro: livro da vida.

Para analisar o verso 8 de Apocalipse 17, o interprete tem que evitar certas ‘armadilhas’ na construção de um argumento dedutivo para não compor uma falácia.

Quando da análise de uma frase é imprescindível considerar:

a) denotação: sentido real, literal da frase, ou o estado de coisas que a frase afirma ser o caso;

b) conotação: a associação subjetiva, cultural e/ou emocional, que está para além do significado estrito ou literal de uma palavra, frase ou conceito, ou seja, diz dos sentimentos, ideias ou emoções provocadas pela frase no auditor, e;

c) ênfase: refere-se ao grau de importância que o autor atribui aos diferentes elementos constitutivos da frase.

Ora, se o interprete desloca o grau de importância que o autor atribuiu a um elemento da frase, no caso em comento o cordeiro, para outro elemento constitutivo da frase que o interprete quer estabelecer, produzirá uma falácia.

Quando lemos: “A besta que viste era e já não é, e subirá do abismo, e irá à sua destruição. Os que habitam na terra (cujos nomes não estão escritos no livro da vida desde a fundação do mundo) se admirarão, vendo a besta que era e já não é, mas que virá”,  duas figuras se destacam: a besta e o livro.

Apesar do verso 8 apontar estas duas figuras, vale destacar que o tema central do livro do Apocalipse é o Cordeiro de Deus, Jesus Cristo-homem. A besta possui no texto uma importância relativa que contrasta com a importância maior, a do Cordeiro, por se opor a Ele ( Ap 17:14 ).

Se não fosse a figura central do Cordeiro, não haveria a necessidade de se fazer referencia a besta. De igual modo, se não fosse o Cordeiro de Deus, a quem pertence o livro da vida, não haveria razão de se fazer menção do livro.

O que o verso apresenta:

  • Um estado de coisas que o versículo afirma ser o caso – o versículo afirma tão somente que o livro da vida pertence ao Cordeiro – denotação. Qualquer suposição que vá além desta ideia é espúria;
  • Os sentimentos, ideias ou emoções provocadas pelo versículo – somente informa que os que não fazem parte do livro do Cordeiro são os que se admirarão ao verem a besta – conotação. Qualquer suposição que vá além deste núcleo de informação é espúria, e;
  • A importância que o autor atribui aos diferentes elementos da frase – o evangelista João enfatiza o Cordeiro de Deus, e não da besta ou do livro, que dirá do tempo em que o livro foi escrito – ênfase.

Após as figuras e a ênfase, há um terceiro ponto a se destacar quando da interpretação deste versículo: na língua grega, aquilo que é evidente, ou o que já foi abordado no texto, o que é facilmente subtendido, por uma questão de estilo de redação, geralmente é suprimido.

A leitura do verso 8 do capítulo 17 de Apocalipse é simples, pois basta incluir no versículo a figura do proprietário do livro – o cordeiro de Deus – para desfazer a confusão que produz muitas interpretações equivocadas e as falácias.

Ora, a bíblia faz referencia a um único livro da vida, e este livro, por sua vez, pertence ao Cordeiro de Deus, de modo que o que ocorreu desde a fundação do mundo foi a morte do proprietário do livro, e não a escrita dos nomes no livro.

Quando lemos: “… cujos nomes não estão escritos no livro da vida, desde a fundação do mundo” ( Ap 17:8 ), temos que considerar que, as pessoas que habitam sobre a terra e que se admirarão vendo a besta são aquelas que não possuem o nome no livro da vida que pertence ao Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo.

O evangelista estava destacando as mesmas coisas abordadas anteriormente:

a) que os que habitam sobre a terra se admirarão vendo a besta;

b) que os que admiram a besta não estão inscrito no livro da vida, e;

c) que o livro da vida pertence ao Cordeiro morto desde a fundação do mundo “E adoraram-na todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” ( Ap 13:8 ).

Enquanto o vidente estava demonstrando que os que não estão escritos no Livro do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo se admirarão ao ver a besta, há quem considere que é o livro da vida que foi escrito desde a fundação do mundo.

 

Como um falácia é construída

Após ler o verso 8 do capítulo 17 do Livro das Revelações, que diz: “cujos nomes não estão escritos no livro da vida, desde a fundação do mundo” ( Ap 17:8 ), o Sr. Clóvis Gonçalves concluiu no artigo intitulado ‘Quando o livro da vida foi escrito?’ disponível na web, que “a expressão desde a fundação do mundo não significa ‘começando lá e continuando até o último convertido’. Mas se refere a algo que estava concluindo quando Deus lançou os fundamentos da terra, antes de criar o primeiro homem” Gonçalves, Clovis, Quando o Livro da vida foi escrito?, Artigo disponível na web.

Através deste artigo do Sr. Clóvis, demonstraremos como é pernicioso, alguém, com uma opinião formada, se achegar ao texto bíblico somente para afirmá-la. É um empenho sem valor ler e analisar um texto bíblico na língua grega somente com foco na gramatica, sem que o estudioso esteja disposto a abrir mão dos seus conceitos para absorver a ideia que o texto transmite.

Quando inicia a análise do versículo, o autor, de pronto estabeleceu que só existem duas possibilidades de se interpretar a passagem bíblica: “Há duas possibilidades aqui, interpretar a expressão como significando que os nomes de todos os salvos estavam registrados no Livro da Vida desde a fundação do mundo ou que o nome de cada pessoa é escrito quando o evangelista ora pelo decidido, pedindo a Deus que escreva o seu nome no livro da vida” Idem.

Por que ele vê somente estas duas possibilidades? Porque a visão dele é de que a doutrina calvinista e arminianista encerram qualquer discussão sobre o tema. Vale salientar que o autor do artigo citado é calvinista.

O Sr. Clovis inicia a sua argumentação, em prol do seu ponto de vista, dizendo que é significativo o fato do verso em comento abordar a questão dos que não tiveram os seus nomes registrados no livro da vida, contrastando com aqueles que possuem esse privilégio.

Em seguida, fez uma análise gramatical da frase em grego: “apo kataboles kosmou”, que significa “desde a fundação do mundo”, subdividindo os elementos do aposto, em preposição (desde), seguido de um substantivo (fundação) e o seu complemento (do mundo). Esta informação é verdadeira, porém, não é esta informação que torna válida a conclusão que ele fez no final do artigo.

Não é o fato de conhecer a língua grega e a hebraica que torna uma pessoa autoridade na interpretação das Escrituras, pois os escribas e fariseus conheciam as duas línguas e, mesmo inseridos no contexto cultural da época, foram inquiridos por Cristo por não entenderem a linguagem d’Ele “Por que não entendeis a minha linguagem? Por não poderdes ouvir a minha palavra” ( Jo 8:43 ).

Ser versado na língua grega ou hebraica não torna ninguém mestre e nem confere autoridade para expor a verdade do evangelho.

Embora a expressão ἀπὸ καταβολῆς κόσμου (apo kataboles kosmou – desde a fundação do mundo) seja comum no Novo Testamento e ocorre exatamente como em Apocalipse 17, verso 8 em outras seis passagens bíblicas, ela pode assumir valor distinto em função do contexto no qual ela foi inserida ( Mt 13:35 ; Mt 25:34 ; Lc 11:50 ; Hb 4:3 ; Hb 9:26 ; Ap 13:8 ).

A expressão ἀπὸ καταβολῆς κόσμου indica que algo está consumado, estabelecido, desde a fundação do mundo, mas, também pode, como em Lucas 11, verso 50, ser lida como uma realização gradual, sucessiva, progressiva, continua “Para que desta geração seja requerido o sangue de todos os profetas que, desde a fundação do mundo, foi derramado” ( Lc 11:50 ). A frase é inclusiva, demonstrando que será requerido o sangue de todos os profetas das mãos de uma geração específica: a geração má.

Vale salientar que, quando Jesus especifica: ‘desta geração’, a primeira ideia que vem a mente do interprete é de que Jesus estava fazendo referência ao espaço de tempo que separa cada grau de filiação, por causa do entendimento de que cada século compreende cerca de três gerações, porém, seria sem propósito Deus requerer o sangue dos profetas que fora derramados pelos pais das mãos dos filhos, sendo que o sangue dos profetas foi derramado sucessivamente desde os pais até os dias de Cristo.

Carece verificar que, quando Jesus diz ‘desta geração’, ele diz de uma ‘geração má’, ‘geração perversa’, ‘geração de Adão’, que contrasta com a geração dos filhos de Deus, com a geração dos que nasceram de novo, provenientes de uma semente incorruptível, que é a palavra de Deus, geração de Cristo.

A fala de Jesus era para tornar evidente que os filhos de Israel eram geração contumaz, rebelde, geração de Adão, contrastando com a semente que foi vaticinada pelos profetas que serviria a Deus, a geração proveniente da palavra de Deus “Uma semente o servirá; será declarada ao Senhor a cada geração” ( Sl 22:30 ); “Esta é a geração daqueles que buscam, daqueles que buscam a tua face, ó Deus de Jacó. (Selá.)” ( Sl 24:6 ).

A argumentação com relação às outras passagens bíblicas quanto ao uso da frase ἀπὸ καταβολῆς κόσμου são pertinentes e encera a ideia de algo concluso, porém, não é causa determinante do significado da passagem de Apocalipse 17, verso 8.

O contraponto que o Sr. Clovis faz ao Pr. Ciro é pertinente, quando diz: “O pastor Ciro faz a sua tese depender da preposição ‘apo’ e não da expressão completa. Porém, a classe de palavra que tem tempo e modo é o verbo, e é para ele que devemos nos voltar se quisermos saber quando e de que forma algo ocorre. Devemos perguntar ao texto ‘o que [não] ocorreu antes da fundação do mundo?’ e a resposta é ‘nomes [não] foram escritos’” Idem.

Embora a leitura do Sr. Clovis tenha por base um dicionário de um lexicógrafo famosíssimo como o é o do Dr. Strong, não significa que a interpretação do contexto do capítulo 17 de Apocalipse seja a correta “O verbo ‘gegraptai’ está no tempo Perfeito e no modo Indicativo. O modo Indicativo, nos informa o Léxico Grego de Strong ‘é uma simples afirmação de fato. Se uma ação realmente ocorre, ocorreu ou ocorrerá, será expressa no modo indicativo’. Já o ‘Perfeito grego corresponde ao Perfeito na língua portuguesa, e descreve uma ação que é vista como tendo sido completada no passado, uma vez por todas, não necessitando ser repetida’” Idem.

Mas, como ler e interpretar Apocalipse 17, verso 8?

“A besta que viste era e já não é, e subirá do abismo, e irá à sua destruição. Os que habitam na terra (cujos nomes não estão escritos no livro da vida desde a fundação do mundo) se admirarão, vendo a besta que era e já não é, mas que virá” ( Ap 17:8 ).

Para compreender Apocalipse 17 é necessário conhecer todo o livro das Revelações. O evangelista João não escreveu o livro de Apocalipse fracionado, pois o livro foi fracionado em capítulos e versículo muito tempo depois. Com isso quero enfatizar que o capítulo 17 deve ser interpretado dentro do contexto do livro, pois se a interpretação for feita a partir da análise de um único verso, resultará em erros.

Ao ler o livro de Apocalipse, verifica-se que os eventos narrados no capítulo 17 de Apocalipse, remetem a ideia que consta em Apocalipse 13, porém, o capítulo 17 sobressai em detalhes, nuances, sendo que o capítulo 13 é resumido, enxuto.

Outro ponto a destacar é que o evangelista viu uma visão. Ora, uma visão trabalha com figuras que podem ser interpretadas e descritas segundo a compreensão humana. Portanto, quando lemos que João viu o Livro da vida, não significa que nos céus há um livro de registro semelhante aos que há nos hotéis, ou semelhante a um livro de contabilidade de uma empresa.

A visão de um livro com nomes inscritos é um modo de o vidente ter acesso à ideia do que é a onisciência de Deus, pois não há outro modo cognoscível de se fazer referencia ao conhecimento de Deus. Se a visão fosse dada em nossos dias, possivelmente o vidente veria um computador, e não um livro. Por meio da visão do livro o apóstolo João demonstra que os que ficaram admirados ao ver a besta possuem um destino diferente dos que creem no Cordeiro de Deus.

A visão do Livro da vida foi um modo de o homem tomar conhecimento de algo que vai além da compreensão humana, permitindo ao homem um meio de considerar a onisciência de Deus, pois Deus não depende de livros, ou de consultar manuscritos para inteirar-se de algo.

Se o leitor atentar para o verso 8 de Apocalipse 13, verá que a frase ἀπὸ καταβολῆς κόσμου (desde a fundação do mundo) é idêntica:

“E todos os que habitam sobre a terra adorarão, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” ( Ap 13:8 )

“A besta que viste era e já não é, e subirá do abismo, e irá à sua destruição. Os que habitam na terra (cujos nomes não estão escritos no livro da vida desde a fundação do mundo) se admirarão, vendo a besta que era e já não é, mas que virá” ( Ap 17:8 )

Sabemos também que o Cordeiro de Deus, que é Cristo, foi conhecido antes da fundação do mundo e manifesto aos homens na plenitude dos tempos “O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós” ( 1Pe 1:20 ).

Sabemos que o dia de salvação sobremodo oportuno é ‘hoje’, de modo que a salvação do indivíduo ocorre “hoje”, ou seja, no tempo dos homens, e não na eternidade, quando o Cordeiro foi conhecido ( 1Pe 1:20 ; Hb 9:26 ; Jo 17:24 ). A exortação deve ocorrer durante o tempo que se chama ‘hoje’ ( Hb 3:13 ), e é isto que o apóstolo Paulo fazia: “E NÓS, cooperando também com ele, vos exortamos a que não recebais a graça de Deus em vão  (Porque diz: Ouvi-te em tempo aceitável E socorri-te no dia da salvação; Eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação)” ( 2Co 6:1 -2). Os termos ‘aqui’, ‘agora’ é o mesmo que ‘hoje’, ou seja, a salvação não se deu ou foi determinada na eternidade, pois se assim não fosse, não seria necessário à exortação.

O Cordeiro de Deus é uma figura que remete a pessoa do ‘Eu Sou’ quando encarnado. Cristo, o Verbo encarnado, é preexistente, de modo que, Ele foi anunciado de antemão (verbo: προγινώσκω – proginóskó: pré-conhecimento, pré-ciência), porque é antes da fundação do mundo “Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou” ( Jo 8:58 ).

Cristo foi ‘pré-conhecido’ não no sentido de ‘saber acerca de’, e sim no sentido de ter sido anunciado de antemão pelos santos profetas “Em esperança da vida eterna, a qual Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos dos séculos” ( Tt 1:2 ) compare com: “O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós” ( 1Pe 1:20 ).

A ‘promessa’ que o apóstolo Paulo faz alusão a Tito diz do ‘conhecimento’ que o apóstolo Pedro anunciou aos cristãos da dispersão. O que foi anunciado de antemão pelos profetas acerca do Filho de Deus, que nasceu na casa de Davi, diz da ‘promessa’, do ‘conhecimento’ de Deus enquanto doutrina, e não da sua onisciência, que é saber plenamente bem acerca de todas as coisas “O qual antes prometeu pelos seus profetas nas santas escrituras, acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne” ( Rm 1:2 -3).

No verso 8 de Apocalipse 13, o evangelista João especifica que o Livro da Vida pertence ao Cordeiro “… no livro da vida do Cordeiro que foi morto…” ( Ap 13:8 ). Ele não trata de outro livro a não ser o Livro que pertence ao Cordeiro, Cordeiro este que foi morto desde a fundação do mundo.

Quando o mundo foi fundado por Deus, pelos eventos que haviam de suceder (queda da humanidade e redenção), a morte de Cristo foi estabelecida, daí a exposição de que o cordeiro foi morto na fundação do mundo, porém, Cristo foi manifesto na plenitude dos tempos.

A construção do texto de Apocalipse 17, verso 8 é semelhante a de Apocalipse 13, verso 8, porém, é mais rica em detalhes. No capítulo 13 o vidente aponta a admiração dos que residem na terra, já no capítulo 17 ele aponta a adoração destas mesmas pessoas. No capítulo 17 fica delineado que a destruição da besta está estabelecida, porém, apesar de prevista, a besta ainda não existia (não é), mas está para subir do abismo e será destruída.

Como o apóstolo escreveu anteriormente que o livro pertence ao Cordeiro de Deus e que Ele foi morto desde a fundação do mundo ( Ap 13:8 ), ao escrever no verso 8 do capítulo 17, ele deixou de mencionar expressamente o nome do Cordeiro de Deus, a quem o Livro da Vida pertence.

A visão doutrinária determinista, fatalista e mecanicista que o Sr. Clovis possui transtornou lhe a leitura, pois é comum na escrita grega a supressão de palavras e frases quando à lógica ou estrutura da frase permite.

Por exemplo: “ἐν τούτῳ γινώσκετε τὸ πνεῦμα τοῦ θεοῦ· πᾶν πνεῦμα ὁ ὁμολογεῖ Ἰησοῦν Χριστὸν ἐν σαρκὶ ἐληλυθότα ἐκ τοῦ θεοῦ ἐστιν, καὶ πᾶν πνεῦμα ὁ μὴ ὁμολογεῖ τὸν Ἰησοῦν ἐκ τοῦ θεοῦ οὐκ ἐστιν· καὶ τοῦτο ἐστιν τὸ τοῦ ἀντίχριστου, ὃ ἀκηκόατε ὅτι ἔρχεται, καὶ νῦν ἐν τῷ κόσμῳ ἐστὶν ἤδη – Nisto conhecereis o Espírito de Deus: Todo o espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; E todo o espírito que não confessa que Jesus (Cristo veio em carne – suprimido) não é de Deus; mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e eis que já está no mundo” ( 1Jo 4:2 -3).

No texto em grego o evangelista e apóstolo João demonstra que todo aquele que confessar que Jesus ‘o Cristo veio em carne’, pertence a Deus, mas, ao fazer referência àqueles que não professam a verdade demonstrada anteriormente, que o ‘Cristo veio em carne’, no grego ficam suprimidos o nome ‘Cristo’ e a frase ‘veio em carne’ (Χριστὸν ἐν σαρκὶ). A supressão de uma frase que ocorreu em Apocalipse 13, verso 8 é uma figura de construção por omissão (zeugma: consiste na omissão de um ou mais elementos de uma oração, já expressos anteriormente. A zeugma é uma forma de elipse), o mesmo tipo de supressão que ocorreu em 1João 4, verso 3.

A construção do Sr. Clovis é descabida por não ter considerado as nuances que envolvem as figuras de linguagem, construção e estilo que é próprio a todos os idiomas e as normas de interpretação que a própria bíblia apresenta.

Ao dizer que só há a possibilidade de duas interpretações de Apocalipse 17, verso 8, sendo a possibilidade que ele apoia a de ‘interpretar a expressão como significando que os nomes de todos os salvos estavam registrados no Livro da Vida desde a fundação do mundo’, ele desconsidera o que Deus diz:  “E, se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte do livro da vida, e da cidade santa, e das coisas que estão escritas neste livro” ( Ap 22:19 ).

Se ele observasse as Escrituras, veria que afirmar a doutrina calvinista da predestinação e eleição através da figura apocalíptica do livro que pertence ao cordeiro é descabido, visto que outras passagens bíblicas deixam claro que Deus altera o conteúdo do livro conforme a resposta que o homens dá a sua palavra “MAS o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios” ( 1Tm 4:1 ).

O profeta Moises rogou a Deus que riscasse o seu nome do Livro da Vida, ou usasse de misericórdia para com o povo de Israel ( Ex 32:33 ), porém Deus instruiu Moisés dizendo que não riscaria o nome de Moisés e nem favoreceria os pecadores dentre o povo, pois Deus jamais transtornaria a sua natureza, santidade, justiça, equidade, para satisfazer o pedido de quem quer que fosse.

Todos os homens são pecadores, ímpios, por terem sido gerados segundo a semente corruptível de Adão ( Sl 58:3 ), o nome deles não se misturam com o daqueles que nasceram de novo ( Rm 5:18 ). Todos os homens quando abrem a madre, entram por uma porta larga (Adão), que dá para o caminho largo que os conduzirá a perdição, o que significa que ninguém que entra no mundo está predestinado ou foi eleito para salvação. Todos os homens se desviam de Deus desde a madre, e falam mentira desde que nascem, pois foram julgados e condenados em Adão, apenados com alienação de Deus e herdaram um coração mentiroso segundo o coração de Adão ( Rm 3:4 ).

Daí a acusação do apóstolo Paulo de que todos os homens são mentirosos, pois a boca dos homens fala segundo o coração que herdaram de Adão. Somente quando o homem nasce de novo é que há alegria nos céus por um pecador que se arrepende ( Ap 20:12 ).

Mas, com relação aos descrentes, a leitura correta da bíblia é que todos morreram porque pecaram, e pecaram porque um só pecou, portanto, são gerados e concebidos em pecado, iniquidade, sendo certo que ninguém nasce predestinado à salvação.

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Romanos 1 – O poder de Deus para salvação

Devemos ter em mente que a contextualização histórica e sociocultural auxilia em muito na compreensão da sociedade à época do apóstolo Paulo, porém, pouco auxilia na compreensão das nuances que firmam a ideia que o apóstolo procurou transmitir (…) Quando o profeta Habacuque afirma que: “O justo viverá da fé, temos que verificar qual ‘fé’ ele estava abordando, visto que Jesus disse que “…está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus ( Mt 4:4 ); ou seja, sabemos que ambos, Jesus e Habacuque anunciaram a palavra de Deus, e que a palavra de Deus não se contradiz. Portanto, se o ‘justo vive da fé’, e o homem ‘vive da palavra que sai da boca de Deus’, conclui-se que a fé anunciada por Habacuque é o mesmo que a palavra de Deus.


Romanos 1

Introdução

Há vários quesitos a serem observados quanto à interpretação das cartas bíblicas. No decorrer deste estudo sobre a carta aos Romanos destacaremos vários quesitos necessários a uma interpretação segura.

Em primeiro lugar faz-se necessário ler o texto da carta desconsiderando as divisões em capítulos e versículos. O leitor deve ter em mente que as divisões foram feitas somente para auxiliar na localização de frases nos textos, e que elas não guardam vínculos com a estrutura de idéias que a carta desenvolve.

Caso o leitor interprete o capítulo um da carta aos Romanos sem considerar os capítulos dois e três poderá incorrer em vários erros.

Em segundo lugar é necessário contextualizar a carta com aspectos pertinentes a vida do remetente. A contextualização não deve se ater a eventos históricos, onde se destacam somente elementos pertinentes a sociedade de então. Devemos ter em mente que a contextualização histórica e sociocultural auxilia em muito na compreensão da sociedade à época do apóstolo Paulo, porém, pouco auxilia na compreensão das nuances que firmam a ideia que o apóstolo procurou transmitir.

Devemos ler a carta como um texto uníssono, isto é, sem divisões, fazer uma interpretação deste texto e depreender aspectos importantes da mensagem que o escritor da carta é acostumado a desenvolver. Depois é preciso aplicá-la à ideia geral que a carta procura transmitir. Para compreendermos o capítulo um da carta aos Romanos seguimos o seguinte raciocínio:

a) O apóstolo Paulo geralmente enfatiza em suas cartas a liberdade do cristão decorrente do evangelho de Cristo ( 1Co 8:9 ; I Co 10:29 ; Gl 2:4 ; Gl 5:13 );
b) Pela postura do apóstolo em enfatizar a liberdade em Cristo, algumas pessoas passaram a considerar e a divulgar que Paulo andava segundo a carne, ou seja, que ele incentivava a libertinagem ( 2Co 10:2 ; Gl 5:13 );
c) A postura de algumas pessoas era a de que o apóstolo Paulo andava segundo a carne, e não consideravam que a mensagem do apóstolo Paulo e a do apóstolo Pedro são idênticas ( 1Pe 2:16 );
d) O apóstolo prevendo que tais pessoas já haviam se introduzido em meio aos cristãos de Roma, visto que, até aquele momento ele fora impedido de visitá-los, Paulo dá início a carta com um discurso incisivo demonstrando o quanto é condenável a humanidade sem Deus “Do céu se manifesta a ira de Deus sobre a impiedade e injustiça dos homens que detêm a verdade pela injustiça” ( Rm 1:18 );
e) O discurso que o apóstolo apresenta no capitulo um da carta aos Romanos, do versículo dezoito aos trinta e dois, tem o objetivo de cativar as pessoas que consideravam o apóstolo propagador de uma vivencia desregrada, enlaçando-os em seus próprios argumentos. Porém, como é próprio ao apóstolo, o capítulo dois demonstra que não há diferença entre os homens, sejam eles quem forem ( Rm 2:1 ).

Observe que a ideia da carta é única, e não se restringe as divisões em capítulos.

Durante a interpretação não podemos perder de vista que:

a) a salvação é pela graça e por meio da fé somente ( Ef 2:8 );
b) a condenação da humanidade se deu em Adão “Pois assim como por uma ofensa veio o juízo sobre todos os homens, para condenação…” ( Rm 5:18 ), e;
c) a ira de Deus sobre a humanidade não é em decorrência da depravação ética e moral; a ira de Deus repousa sobre a humanidade porque estes são filhos da desobediência, filhos da ira e filhos de Adão ( Ef 2:2 -3).

Qualquer interpretação que destoe das proposições acima deve ser desconsiderada. Caso alguém interprete um texto e conclua que a salvação é por obras, deve rever a sua análise, pois esta não foi a idéia que o escritor procurou transmitir.

Os judaizantes, os legalistas, os moralistas e os formalistas sempre se empenharam em demonstrar o quanto a humanidade está perdida apontando as depravações dos pagãos. Paulo, por sua vez demonstra que a humanidade está perdida, não por questões comportamentais e morais, e sim, por todos estarem debaixo do pecado ( Rm 3:9 -19).

O homem é pecador porque foi concebido nesta condição ( Sl 51:4 ). O pecado está vinculado diretamente a natureza do homem, e não às suas ações. O homem é pecador por ter nascido da semente corruptível de Adão, vendido como escravo, e sob condenação “Pois como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores…” ( Rm 5:18 ).

Descobrir o que motivou o escritor da carta é o terceiro quesito que auxilia, em muito, a interpretação de uma carta.

Com esta análise prévia conseguimos evidenciar o objetivo primário do apóstolo quando descreve a depravação da humanidade: fazer calar a boca daqueles que diziam que Paulo apregoava ser necessário fazer o mal, para que venham bens “Façamos males, para que venham bens?” ( Rm 3:8 ).

 

 

Capítulo I – Carta de Paulo aos Romanos

Apresentação Pessoal e do Ministério

1 PAULO, servo de Jesus Cristo, chamado para apóstolo, separado para o evangelho de Deus,

O apóstolo Paulo dá inicio a sua carta aos cristãos em Roma com uma apresentação pessoal. Ele se considera servo de Cristo e utiliza um termo que deriva do verbo ‘deo’ que significa ligar, algemar, aprisionar. Paulo entendia ser prisioneiro de Cristo, ligado ao serviço do seu Senhor.

Paulo demonstra que foi chamado para ser apóstolo. Observe que a posição de apóstolo não foi imposta a Paulo, antes ele foi chamado para o apostolado. Não há como alguém ser chamado para o apostolado sem se submeter ao senhorio de Cristo. Um descrente não teria como ser chamado para desempenhar a missão de apóstolo.

O evangelho é um chamado aos descrentes, que se crerem, estarão habilitados para a salvação. Porém, o chamado do evangelho não habilita o crente para o apostolado. O chamado para o apostolado é distinto do chamado do evangelho. Este chamado é para o serviço no evangelho, e aquele para tornar-se possessão do Senhor.

Paulo estava cônscio da sua missão: foi separado para anunciar as boas novas do evangelho de Deus.

2 O qual antes prometeu pelos seus profetas nas santas escrituras, 3 Acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne, 4 Declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor,

O Velho Testamento é nomeado por Paulo de Sagradas Escrituras. Para ele o A. T. contém as promessas de Deus acerca do seu Filho, Jesus.

O evangelho é especificamente o que foi prometido por Deus por intermédio dos seus profetas.
Paulo concorda a uma só voz com o seu Mestre: As Santas Escrituras testemunham acerca de Cristo ( Jo 5:39 ).

O evangelho não é fruto da cabeça do apóstolo. Ele demonstra que a ele foi revelado os mistérios das Santas Escrituras “O mistério que esteve oculto desde todos os séculos, e em todas as gerações, e que agora foi manifesto aos seus santos” ( Cl 1:26 ).

O apóstolo Paulo disserta sobre o vínculo de Jesus com Deus e com o rei Davi. Paulo faz um pequeno adendo para explicar alguns aspectos acerca do Cristo prometido nas escrituras, a quem ele serviu por meio do evangelho.

Para entendermos quem é o Cristo de Deus prometido nas escrituras através dos profetas é necessário compreender que:

a) Na eternidade não havia a RELAÇÃO Pai e Filho entre as pessoas da divindade, ou seja, na eternidade a relação que hoje conhecemos nas pessoas da divindade (a relação Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo) não existiam. Quando o apóstolo João fez referência a Cristo na eternidade, ele O chama de Verbo Divino ( Jo 1:1 ). A palavra grega traduzida por ‘Verbo’ (grego=Logos, e aramaico=Memra, palavra que foi utilizada na tradução do Velho Testamento como uma designação de Deus), significa pensamento ou conceito, e João a utiliza para designar a pessoa da divindade que fez todas as coisas e estava no princípio com Deus, e que se fez carne e habitou entre os homens “Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por meio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez” ( Jo 1:2 -3). Desta maneira o apóstolo João demonstrou que, em essência, o Cristo antes de se fazer carne possuía os mesmos atributos da divindade em plenitude “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” ( Jo 1:1 );

b) O dia que Cristo haveria de se fazer carne é descrito pelos profetas como sendo ‘hoje’ “Proclamarei o decreto: o SENHOR me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei” ( Sl 2:7 ). O Verbo de Deus ao ser introduzido no mundo passou a ser denominado de ‘Filho’, o único gerado de Deus, ou seja, quando Cristo foi gerado pelo Espírito Eterno no tempo predeterminado e denominado hoje, Deus o chamou de Filho por tê-lo gerado no mundo dos homens;

c) Este aspecto da filiação de Cristo foi revelado a Davi: quando o Espírito Eterno fez gerar uma criança no ventre de Maria, cumpriu-se o que foi predito pelo profeta Natã a Davi: “Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho” ( 2Sm 7:14 ). Como na eternidade não havia a relação Pai & Filho entre as pessoas da divindade, estas pessoas acordaram entre si (Deus eterno e o Verbo eterno), e estabeleceram que quando Cristo fosse introduzido no mundo, a relação Pai e Filho haveria de ser efetivada entre eles: “Eu lhe serei por Pai, e ele me será por Filho“. Ao ser introduzido Cristo no mundo, o primeiro homem gerado de Deus (primogênito), visto que Adão foi o primeiro homem criado, a relação Pai e Filho se estabeleceu. Prova disto é que, ao ser introduzido o primogênito no mundo foi dada a determinação aos seres celestiais: “Todos os anjos de Deus o adorem” ( Hb 1:6 );

d) Cristo despojou-se da sua glória e passou a condição de Filho na relação pré-estabelecida na eternidade e que foi prometida por Deus por intermédio de Natã. Antes de se fazer carne, o Verbo de Deus ‘era’ o resplendor da glória de Deus ( Hb 1:3 ); Mesmo após despojar-se da sua glória, Cristo, quando introduzido no mundo, continuou a receber adoração, tanto dos anjos, quanto dos homens ( Jo 1:14 ). Deus estava em Cristo reconciliando consigo mesmo o mundo!

Através do livro dos Gênesis conhecemos que todos os homens, quando nascem, são filhos de Adão segundo a carne. Cristo, o Verbo de Deus, não nasceu na mesma condição dos homens, visto que ele não foi concebido em pecado da mesma forma que o foi o rei Davi ( Sl 51:5 ). O Espírito de Deus misteriosamente fez Maria conceber, o que tornou Cristo livre do pecado de Adão “Descerá sobre ti o Espírito santo, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra” ( Lc 1:35 ).

Cristo nasceu com um corpo carnal, porém não foi gerado segundo a carne. Para ser gerado segundo a carne João demonstra em seu evangelho que é necessário nascer do sangue, da vontade da carne e da vontade do homem ( Jo 1:13 ). Ou seja, jamais Cristo teve qualquer relação com a semente corruptível de Adão.

A única relação de Cristo com a carne ficou por conta de Maria, uma descendente da linhagem de Davi, o que deu direito a seu descendente se assentar sobre o trono de Davi. Por meio de Maria, Cristo passou a ter direito sobre o trono de Davi, mas o pecado de Adão não o alcançou, visto que, Cristo não nasceu da vontade do varão “Todavia, nem o homem é sem a mulher, nem a mulher sem o homem, no SENHOR” ( 1Co 11:11 ). Observe que os nossos pais no Éden somente reconheceram que estavam nus após Adão comer do fruto, ou seja, a vontade do varão fala da união “homem e mulher”. Eva comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, e não ‘viu’ que estava nua. O estado pecaminoso se efetivou somente após Adão comer do que foi oferecido por Eva.

Quando Paulo diz que Jesus veio segundo a carne da descendência do rei Davi, demonstra que Cristo tornou-se homem como um de nós, e participou de todas as nossas ‘fraquezas’ , porém, com direitos plenos ao trono de Davi ( Hb 4:15 ).

Outro aspecto da filiação divina se deu na ressurreição dentre os mortos. A ressurreição é uma declaração de Deus que Cristo é o seu Filho.

Deus é Espírito de santificação. Pelo fato de Cristo ter sido gerado de Deus, ele permaneceu um ente santo “Por isso o ente santo que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus” ( Lc 1:35 ; Jo 1:12 -13). O Cristo do qual o apóstolo Paulo tornou-se servo e fez referência aos cristãos em Roma, é aquele que ressurgiu dentre os mortos. A ressurreição, para Paulo, se constitui em evidência clara de que Cristo é o primogênito de Deus e Senhor de todos os cristãos ( 2Co 5:16 ).

5 Pelo qual recebemos a graça e o apostolado, para a obediência da fé entre todas as gentes pelo seu nome, 6 Entre as quais sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo.

Por intermédio de Cristo, Paulo recebeu em primeiramente graça. Graça é o favor imerecido de Deus que dá ao homem salvação. O apostolado diz de certas pessoas que foram chamadas e ensinadas por Cristo pessoalmente. Estas pessoas foram ensinadas e comissionadas para continuar o ministério de Cristo, proclamando a verdade do evangelho com autoridade.

A mensagem do evangelho é recebida por fé, e por isso o apóstolo utiliza a palavra fé em lugar da palavra ‘evangelho’. A mensagem do evangelho é anunciada a todos, e quem recebe a mensagem, recebe-a por fé. Obedecemos a mensagem do evangelho, o que se constitui obediência da fé.

A mensagem do evangelho alcança a todas as gentes chamando-as para serem propriedade exclusiva de Cristo. O evangelho convoca dentre os povos, todos os homens para serem servos de Cristo, incluindo judeus e gregos. O evangelho de Cristo não exclui os Romanos, que eram a grande potência econômica e bélica daquela época “Entre as quais sois vós também chamados…”.

A mensagem do evangelho é um convite. Os chamados dentre os homens serão nomeados santos se, e tão somente se, aceitarem a mensagem do evangelho por meio da fé em Cristo.

Obs.: Quando Cristo disse que: “Muitos são chamados e poucos os escolhidos” ( Mt 20:16 ), devemos entender que nem todos os homens ouvirão a mensagem do evangelho. Nem todos serão chamados através da mensagem do evangelho, uma vez que, a mensagem do evangelho não alcançou e nem alçará todos os homens. O evangelho não foi e nem será anunciado a todos os homens, porém muitos ouviram e ouvirão o evangelho (estes são os chamados), porém, poucos são os que hão de aceitar o chamado do evangelho (estes que aceitarem o evangelho passam a condição de escolhidos).

 

 

Os Destinatários da Carta

7 A todos os que estais em Roma, amados de Deus, chamados santos: Graça e paz de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo.

Paulo saúda todos os cristãos que estavam em Roma com graça e paz. Graça diz do favor imerecido de Deus que foi concedido aos homens.
Paz diz da reconciliação de Deus com os homens. É a paz que excede a todo entendimento.

Paulo demonstra que os cristãos são sujeitos do amor de Deus e estão em condição diferente daqueles que não aceitaram a mensagem do evangelho. Quem não crê em Cristo ainda é filho da ira, uma vez que pesa sobre eles a condenação de Adão ( Jo 3:18 ).
A condição de ‘Amados de Deus’ é pertinente a todos quantos crerem na mensagem do evangelho.

Todos os amados de Deus também são designados santos por Ele. Sabemos que Deus chama a existência as coisas que não são como se elas já fossem, ou seja, esta declaração de Paulo remete ao poder criativo de Deus ( Rm 4:17 ). Quando Deus nomeia alguém de santo não tem em vista questões posicionais, ou seja, Deus jamais nomeia alguém santo, se esta pessoa não for efetivamente santa. Deus não nomeia alguém que não é santo como se fosse santo.

Todos os cristãos são santos independentemente de questões morais e comportamentais. Eles são santos por terem aceitado o chamado de Deus através do evangelho. É o chamado de Deus que concede a condição de santo sem qualquer relação com esforços humanos; todos quantos aceitarem o chamado de Deus estão separados como propriedade e uso exclusivo de Deus ( Ef 1:1 ).

Ser santo é condição pertinente ao cristão por estar em Cristo. Os cristãos são novas criaturas, criados segundo Deus em verdadeira justiça e santidade. Esta nova criatura é designada santa perante Deus, pois aquele que está ‘em Cristo’ nova criatura é ( Ef 4:24 ).

Agradecimentos e os Motivos

8 Primeiramente dou graças ao meu Deus por Jesus Cristo, acerca de vós todos, porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé.

Uma das características própria às cartas de Paulo é o momento de agradecimento a Deus logo após as saudações. As suas cartas seguem um padrão semelhante: Apresentação pessoal, saudação e agradecimento. Ex: ( 1Co 1:1 -4; 2Co 1:1 -3); etc.
O apóstolo agradece a Deus por intermédio de Cristo pela existência dos cristãos que estavam em Roma.

Paulo havia recebido noticias de que em Roma algumas pessoas também haviam recebido a mensagem do evangelho. Paulo estava contentíssimo, visto que o mundo conhecido de então estavam recebendo noticias de que também havia cristãos em Roma.
A notícia de que romanos também estavam seguindo ao evangelho de Cristo contribuiu em muito para a difusão da mensagem do evangelho.
Paulo sabia o quanto a notícia de que até os romanos estavam se rendendo ao evangelho poderia fazer propagar ainda mais a mensagem do evangelho “…porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé” (v. 8), e este tornou-se um dos motivos pelo qual o apóstolo rendeu graças a Deus.

9 Porque Deus, a quem sirvo em meu espírito, no evangelho de seu Filho, me é testemunha de como incessantemente faço menção de vós, 10 Pedindo sempre em minhas orações que nalgum tempo, pela vontade de Deus, se me ofereça boa ocasião de ir ter convosco.

O apóstolo evoca a Deus como testemunha de quantas vezes fez menção dos cristãos romanos quando em oração.
Paulo insere um aposto explicando que serve a Deus em seu espírito através do evangelho de Cristo “para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra” ( Rm 7:6 ). O serviço do apóstolo não era através da lei de Moisés, e sim, por meio de um espírito novo, conforme o que profetizou o salmista: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova em mim um espírito reto” ( Sl 51:10 ). O evangelho de Cristo concede aos cristãos a condição indispensável para servir a Deus: novidade de espírito ( Ez 11:19 ). O que fora prometido por Deus por intermédio do profeta Ezequiel, o apóstolo Paulo recebeu através do evangelho de Cristo.

Diferente de outras cartas em que o apóstolo roga a Deus que conceda conhecimento aos cristãos, nesta carta Paulo ora pedindo que Deus conceda, segundo a sua vontade, uma oportunidade para visitar os cristãos em Roma. Diferente do que se apregoa no ‘evangelho da prosperidade’, o apóstolo não exige, antes pede que, segundo a sua vontade, Deus lhe conceda boa ocasião de ir ter com os cristãos.

11 Porque desejo ver-vos, para vos comunicar algum dom espiritual, a fim de que sejais confortados; 12 Isto é, para que juntamente convosco eu seja consolado pela fé mútua, assim vossa como minha.

Paulo ora constantemente e louva a Deus pela existência dos cristãos em Roma, motivado pelo desejo de vê-los pessoalmente. Paulo desejava confortá-los anunciando as dádivas recebidas de Deus. O encontro serviria para conforto mútuo, onde Paulo teria contato com os cristãos e observaria a obediência deles no evangelho, e os cristãos teriam a oportunidade de observarem pessoalmente o zelo de Paulo no evangelho.

13 Não quero, porém, irmãos, que ignoreis que muitas vezes propus ir ter convosco (mas até agora tenho sido impedido) para também ter entre vós algum fruto, como também entre os demais gentios.

Do exposto, Paulo reitera que se propôs a ir a Roma por várias vezes, porém, foi impedido. Ele não apresenta os impedimentos que surgiram, e não devemos conjeturar a respeito. O desejo de Paulo era ter algum fruto entre os Romanos da mesma forma que ele obtivera entre os demais gentios.
Paulo não queria que os romanos tivessem uma idéia errônea a seu respeito, uma vez que poderiam alegar que ele estava com vergonha de encontrar os seus concidadãos em Roma, por ser a sua presença fraca em relação as suas cartas ( 2Co 10:10 ).

14 Eu sou devedor, tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes.

Paulo sentia-se devedor a todos os homens, não se importando com nacionalidades, origens ou etnias. A dívida que Paulo contraiu por causa do amor de Cristo se estendia aos bárbaros e gregos; ele queria alcançar tanto a sábios quanto a ignorantes. A disposição de Paulo não era somente para com os estrangeiros.

15 E assim, quanto está em mim, estou pronto para também vos anunciar o evangelho, a vós que estais em Roma.

Se dependesse tão somente do apóstolo, ele estava pronto a ir a Roma para anunciar as boas novas de Cristo.

 

 

A Motivação de Paulo

Há um exercício muito útil na descoberta dos eventos que motivaram o escritor da carta. Durante a leitura é preciso se posicionar como sendo o próprio escritor da carta, questionando as alegações de Paulo da seguinte maneira:

  • Quais os motivos que levaram o apóstolo a afirmar que não se envergonhava do evangelho ( Rm 1:16 );
  • Por que Paulo procurou demonstrar aos cristãos que até aquele momento tinha sido impedido de ir a Roma ( Rm 1:13 );
  • Você deve se perguntar sobre os motivos que levou Paulo a enfatizar que era devedor tanto a gregos como a bárbaros ( Rm 1:14 ).

Estas perguntas são essências a compreensão, em certos momentos das cartas, onde não há uma exposição doutrinária, como é o caso de Romanos um, versículo oito a quinze.

Outro bom exercício é se posicionar como sendo um dos cristãos romanos que receberam a carta de Paulo. Durante a leitura devemos ter em mente quais eram as expectativas dos leitores, levando em consideração as condições dos cristãos como cidadãos romanos.

Quais seriam as expectativas acerca de alguém que serviu o governo Romano, perseguindo a igreja de Deus, e que, agora, era um dos cristãos que anunciavam o evangelho?

Em terceiro lugar devemos reler as outras cartas do apóstolo fazendo comparações entre elas.

Conhecer alguns subsídios históricos e geográficos ajudará na leitura, ainda que estes subsídios não são essenciais a compreensão do texto. É bom conhecer que a carta aos Romanos foi escrita em Corinto durante a terceira viagem missionária de Paulo; é bom saber que o escrevente da carta era Tárcio ( Rm 16:22 ), e que Paulo estava hospedado na casa de Gaio, um abastado irmão ( Rm 16:23 ). Porém, o leitor deve estar cônscio de que subsídios históricos e geográficos não auxiliarão na compreensão da doutrina de Cristo, e nem na compreensão de certas nuances do texto.

Ora, se sabemos que Paulo escreveu aos Romanos quando estava em Corinto, devemos ler e relacionar os problemas que ele mais abordou nas cartas aos Corinto e perceber certas nuance destes problemas nas abordagens e explanações que faz aos cristãos em Roma. Somente as cartas de Paulo contêm subsídios que fará o leitor entender as exposições que ele faz em uma carta em específico. Exemplos:

a) Qual a base utilizada para afirmarmos na página anterior que a santificação não é posicional? Em primeira aos Coríntios lemos que Paulo escreveu “… aos santificados em Cristo, chamados para serem santos, com todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo…” ( 1Co 1:2 ); Paulo também demonstra que aos cristãos foi dado graça, que em tudo foram enriquecidos em Cristo, que nenhum dom falta, e que Deus é fiel e cuidará para que os cristãos permanecessem irrepreensíveis até aquele dia ( 1Co 1:4 -9); “O mesmo Deus de paz vos santifique completamente. E todo o vosso espírito, alma e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é o que vos chama, o qual também o fará” ( 1Ts 5:23 -24) (grifo nosso).

Note que é Deus quem nos santifica. Não cabe ao homem tal incumbência, pois esta é uma glória que pertence a Deus. Não é o homem que se separa como propriedade do Senhor, e sim Deus, que o separa para si.

Como considerar que aquele que crê em Cristo não é de fato santo, se Jesus é sabedoria, justiça, santificação e redenção ( Rm 1:31 )? Já deixamos de ser imundos, visto que já fomos lavados, santificados, justificados em nome de Cristo ( 1Co 6:11 ). Paulo é claro na sua exposição: “E tais fostes alguns de vós” ( 1Co 6:11 ). A imundície é algo do passado. Se alguém não entende a extensão da doutrina da santificação, não deve teorizar a respeito do que não entende.

Compare: ( 1Co 1:8 ; Fl 1:10 ; 1Pe 5:10 ; 1Ts 5:23 -24).

b) O evangelho é poder de Deus só para os Romanos? Para quem é salvo o evangelho é poder de Deus e sabedoria de Deus ( 1Co 1:18 e 24). É por intermédio do evangelho de Deus que o cristão passa a pertencer a Deus; em Cristo Jesus o homem passa a pertencer a Deus ( 1Co 1:30 ). Ou seja, todos os que crêem em Cristo pertencem exclusivamente a Deus ( 1Co 6:19 );

c) Neste diapasão o apóstolo afirma a liberdade em Cristo: “…todavia, para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele” ( 1Co 8:6 ).

1ª) Tudo pertence a Deus, principalmente os cristãos, visto que, através do evangelho passamos a viver para Deus.
2ª) Através do evangelho aceitamos a Cristo como Senhor e Ele concede nova vida. Por Cristo existem todas as coisas, inclusive os cristãos passam a ter vida por intermédio d’Ele, porque, por intermédio da Palavra todas as coisas foram e são criadas.

O evangelho é o tema das cartas de Paulo, e ao escrever aos Romanos não seria diferente, visto que ele sempre propôs aos irmãos conhecerem a Cristo ( 1Co 2:2 ). Estas pequenas comparações entre as cartas levará o leitor a perceber que, quando Paulo identificava um problema que havia se instalado em uma igreja, ele acabava por se antecipar e escrevia a outras igrejas antes que estes problemas acabasse por influenciar tais igrejas.

Como Paulo sempre enfatizou a liberdade em Cristo demonstrando o fim da lei em Cristo, muitos judaizantes questionavam a autoridade e as mensagens de Paulo. Estes diziam que Paulo era carnal ( 2Co 10:2 -3). Paulo por sua vez demonstra que não adianta ter zelo de Deus sem entendimento ( Rm 10:2 ), visto que, Cristo é o fim da lei para justiça de todos quantos crerem ( Rm 8:4 ). Por algumas pessoas dizerem que Paulo era carnal na igreja de Corinto, ele se antecipa e escreveu demonstrando aos cristãos em Roma que ele não andava segundo a carne.

Outro aspecto pertinente a uma carta está na construção de idéias. Uma carta não utiliza definições ou conceitos como é próprio dos livros. Diferente dos livros, onde o público alvo é indefinido, as cartas bíblicas tem um público alvo específico. As cartas eram direcionadas aos cristãos especificadamente.

Uma carta é construída através de desenvolvimento de idéias, de argumentações com bases nessas idéias e sentimentos comuns ao remetente e ao destinatário. Geralmente se escreve uma carta a alguém que mantém algum vínculo pessoal com o escritor, aspecto este que não existe entre um autor e os leitores de livros.

Em uma carta já existe uma linguagem que é comum ao escritor e aos destinatários. Já em um livro é necessário a construção de uma linguagem, principalmente por meio de conceitos e definições, e quase sempre amparado por signos lingüísticos contemporâneos ao escritor e leitores.

Em uma carta o prefácio e a saudação devem ser analisados em aspectos absolutos. Entendemos que Paulo era ‘servo de Cristo’ e chamado para o ‘apostolado’ de modo absoluto, e isto implica que devemos considerar que Paulo escreveu a ‘santos’ e ‘amados de Deus’ em absoluto ( Rm 1:1 -7).

É um contra senso tomar as palavras do apóstolo Paulo em sentido absoluto quando ele declara ser servo de Cristo e apóstolo, e no mesmo contexto entender que os cristãos são santos em sentido relativo. Paulo em suas cartas escreve as igrejas de Deus, pessoas que foram chamadas para serem propriedades de Deus por meio de Cristo ( Rm 1:6 ). Não há como considerar estas declarações de Paulo em sentido relativo.

Os motivos da escrita de uma carta são inúmeros, e para determiná-los é preciso estudar os vários escritos do remetente e a sua relação com os destinatários. Já em um livro, temos a introdução ou o prefácio, onde os motivos e objetivos do escritos já vêm explicitados.

Considerando estes aspectos, estaremos aptos a estudar e compreender melhor as cartas bíblicas.

 

16 Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego.

Paulo demonstra prontidão quanto a ir a Roma sem ter qualquer obstes quanto ao evangelho. Alguém poderia dar a entender que Paulo ainda não teria ido a Roma por ter vergonha de evangelizar entre os seus concidadãos. Paulo é enfático: “Não me envergonho do evangelho…”.
Paulo declara que o evangelho é poder de Deus para salvação de todo aquele que crê. A declaração de Paulo é igual à de João: “Mas a todos os que o receberam, àqueles que crêem no seu nome, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus” ( Jo 1:12 ).

O evangelho é a boas novas de Deus aos homens. Como boas novas do reino ele é anunciada na forma de convite, e a todos quantos ouvirem. Quem ainda não creu no nome de Cristo está na condição de chamados “… nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, e loucura para os gregos. Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus” ( 1Co 1:23 -24). Após aceitar o convite do evangelho, o homem passa a condição de ‘eleito’, ou ‘vocacionado’. Quem crê passa a condição de ‘eleito’: “Ora, vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados” ( 1Co 1:26 ).

Aqueles que crêem no evangelho, ou seja, que crêem no nome de Jesus, estes recebem poder para salvação. Estes são feitos (criados) novamente na condição de filhos de Deus.

Não há qualquer impedimento para a salvação daqueles que crêem. Deus transforma tanto gregos como judeus em seus filhos através do poder que o evangelho de Cristo contém. Observe que esta abordagem Paulo faz em quase todas as suas cartas: a universalidade do evangelho.

17 Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá da fé.

No evangelho de Cristo a JUSTIÇA de Deus torna-se conhecida dos homens. A descoberta da justiça de Deus, ou o conhecimento da justiça de Deus não é um conhecimento vinculado à considerações filosóficas. Antes a justiça de Deus torna-se conhecida por se manifestar na vida daqueles que tem fé em Cristo. Paulo fala de um conhecimento experimental, e não da compreensão que satisfaça as indagações humanas.

Como entender que a justiça de Deus é de fé em fé? O parâmetro para entendermos a declaração de Paulo encontra-se no trecho que ele cita das escrituras: “Mas o justo viverá da fé” ( Hc 2:4 ). O livro de Habacuque contém os elementos necessários a compreensão do texto de Paulo.

No livro de Habacuque lemos que o profeta clama a Deus em oração preocupado em receber a resposta do Senhor: “Até quando, Senhor, clamarei eu, e tu não me escutarás?” ( Hc 1:2 ). O profeta destaca que, por Deus não agir, a lei havia se afrouxado e a justiça nunca se manifestava “Por isso a lei se afrouxa, e a justiça nunca se manifesta” ( Hc 1:4 ).

Paulo demonstra que a justiça de Deus já havia se manifestado através do evangelho, caso alguém em Roma ainda estivesse com as mesmas questões que o profeta Habacuque. O que Habacuque reclama no versículo quatro, tem resposta em Romanos um, versículo dezessete.

“… e a justiça nunca se manifesta” ( Hc 1:4 );
“Porque nele (no evangelho) se descobre a justiça de Deus…” ( Rm 1:17 ).

Quando o profeta Habacuque afirma que: “O justo viverá da fé, temos que verificar qual ‘fé’ ele estava abordando, visto que Jesus disse que “…está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus ( Mt 4:4 ); ou seja, sabemos que ambos, Jesus e Habacuque anunciaram a palavra de Deus, e que a palavra de Deus não se contradiz. Portanto, se o ‘justo vive da fé’, e o homem ‘vive da palavra que sai da boca de Deus’, conclui-se que a fé anunciada por Habacuque é o mesmo que a palavra de Deus. A fé anunciada por Habacuque não é algo místico, ou um sentimento que aflora no homem, antes ela surge da palavra que é segundo a fidelidade de Deus.

Neste sentido, temos no Novo Testamento os apóstolos exortando os cristãos a batalharem pela fé, ou seja, batalharem pela verdade do evangelho, que é a Palavra de Deus ( Jd 1:3 ).

A resposta de Deus é clara as questões do profeta Habacuque: “Vede entre as nações, e olhai, e maravilhai-vos, e admirai-vos, porque realizo em vossos dias um obra, que vós não crereis quando for contada” ( Hc 1:5 ). Deus prometeu uma obra maravilhosa, porém o profeta não entende porque os caldeus estavam devorando o seu povo, se eles eram ‘mais pecadores’ do que os israelitas ( Hc 1:13 ). A obra prometida a Habacuque foi realizada nos dias de Cristo em meio ao povo de Israel, porém não creram ( Jo 1:11 ).

Porém, ainda que o profeta não havia compreendido a ação de Deus, demonstra confiança e se refugia em aguardar a resposta do Senhor “Sobre a minha torre de vigia estarei, e sobre a fortaleza me apresentarei e vigiarei, para ver o que fala comigo, e o que eu responderei a esta queixa” ( Hc 2:1 ).

Enquanto o profeta pensava em questões amenas como: “O ímpio cerca o justo, e a justiça é pervertida” Hc 1: 4, Deus lhe dá resposta para questões eternas: “Eis o soberbo! A sua alma não e reta nele; mas o justo viverá pela sua fé” ( Hc 2:4 ).

Deus sempre cuidou do povo de Israel, mesmo quando eles estavam sendo perseguidos. As nações que oprimiam o povo do profeta faziam conforme o conselho do Senhor. Porém, estas questões não eram de maior importância. A ação de Deus sempre foi manifestar aos seus profetas como se da a sua justiça aos homens.

O soberbo, aquele que sente-se abastado e que não confia em Deus, a sua condição perante Deus não é reta. Outras traduções rezam: “Eis que a sua alma se incha, não é reta nele…” ( Hc 2:4 ). Estes são os ‘ricos’, os ‘abastados’, os ‘soberbos’, os cheios de ‘gordura’, que tem a alma inchada por confiarem em suas posses, e não reconhecem que necessitam de Deus. Enquanto o profeta entendia que o problema da humanidade residia na opressão dos ímpios e na perversão da justiça humana, Deus anuncia que o maior problema da humanidade esta na falta de confiança em Deus. Somente aqueles que em Deus confiam tem uma natureza justa. Estes são justos perante Deus e viverão diante de Deus pela sua fé.

Esta ideia do texto de Habacuque é retransmitida aos cristãos em Roma. Em conformidade com que Deus disse a Habacuque: “O justo vivera da fé”, Paulo demonstra que o evangelho é poder que concede vida aos homens, por intermédio do evangelho, que é Cristo, Deus cria filhos para Si ( Jo 1:12 ), revelando as bases da sua justiça “nele se descobre a justiça de Deus”:

a) o evangelho é para salvação;
b) é poder de Deus;
c) é por meio da fé;
d) não faz distinção entre os homens;
e) cria filhos de e para Deus ( Rm 1:16 ).

A justiça de Deus é de fé em fé, ou seja, todos quantos creem devem permanecer confiantes como Habacuque. A obra perfeita que a fé realiza é nomeada de perseverança. Quem crê em Deus, nele persevera.

A ideia que Paulo expõe nestes dois versículos será concluída depois de uma extensa argumentação. Perceba que Paulo concluirá esta exposição inicial acerca do evangelho lá no capítulo três, versículo vinte e um:

“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego. Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá da fé (…) Mas agora se manifestou sem a lei a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas; Isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos e sobre todos os que creem; porque não há diferença” ( Rm 1:16 -17 e Rm 3:21 -22).

O leitor da carta aos Romanos precisa estar atento as argumentações e a ideia principal que está sendo desenvolvida. Qual a ideia básica desenvolvida por Paulo? O evangelho é poder de Deus para salvação de todos quantos crerem! Esta ideia será mantida por toda carta. Paulo a apresenta no capítulo primeiro, versos 16 e 17, e continua no capítulo três, versos 21 e 22.

Porém, entre as exposições da ideia principal, há as argumentações que são as bases que dão sustentação a ideia principal.

O estudo que se segue é sobre uma das argumentações de Paulo que dá suporte a ideia da salvação por meio do evangelho de Cristo e que desmente a concepção de que Paulo era libertino (sensual, lascivo ou devasso).

 

 

A Depravação da Humanidade

Como entender a declaração dos versículos dezoito e dezenove? Em primeiro lugar é necessário ter em mente que as declarações de Paulo foram direcionadas aos cristãos. Somente os cristãos conhecem a verdade sobre a ira de Deus: há um dia específico para a ira de Deus e a manifestação do juízo de Deus ( Rm 2:5 ); somente os cristãos compreendem que a ira de Deus se manifesta contra a impiedade e injustiça.

Paulo reitera aos cristãos que a ira de Deus se manifesta contra a impiedade e injustiça, porém os descrentes não sabem desta realidade descrita no versículo dezoito. Os cristãos conhecem e entendem que a ira de Deus é a retribuição pelas injustiças e impiedades praticadas pelos homens; também compreendem que o juízo de Deus se deu em Adão, porém, no dia da ira também será dado a conhecer o juízo de Deus que se deu em Adão, e que os homens desconhecem ( Rm 2:5 ).

Aprendemos em Habacuque que o maior problema do homem está na falta de fé em Deus, e não nas impiedades e injustiça praticadas pelos homens; esta verdade é repetida por Paulo ao demonstrar que o maior problema do homem persiste quando ele detém a verdade pela injustiça.

Com base nestas informações iniciais a estrutura de ideia destes dois versículos fica assim:

“Do céu se manifesta a ira de de Deus sobre toda impiedade e injustiça dos homens que detêm a verdade pela injustiça, visto que o que de Deus se pode conhecer, neles se manifesta, porque Deus lhes manifestou” (v. 16 e 17).

Da mesma forma que os cristãos entendiam que o evangelho é poder de Deus para salvação, eles também entendiam que a ira de Deus se manifesta desde os céus sobre as impiedade dos homens que não creem em Deus (homens que detêm a verdade em injustiça).

A oração ‘visto que o que de Deus se pode conhecer’ na gramática portuguesa é uma Oração Subordinada Adverbial Causal, caracterizada pela conjunção ‘visto que’, pois funciona como uma adjunto adverbial de causa. A ideia que foi exposta na primeira oração é complementada pela oração seguinte que expõe o que deu causa à ideia. Ou seja, a ira de Deus se manifesta sobre os homens que detém a verdade em injustiça porque esta é a única coisa que eles podem conhecer de Deus.

Devemos ter em mente que todas as colocações de Paulo foram feitas a cristãos, e portanto, dentro da compreensão que era pertinente a todos eles.

 

18 Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça.

O que aprendemos com a citação de Habacuque também se aplica deste versículo até o versículo trinta e dois: a depravação da humanidade é uma evidência da falta de fé em Deus, e não o pior problema da humanidade. A depravação que Paulo descreve em linhas gerais não é o pior mal da humanidade, antes indica algo de maior gravidade e que aprisiona a humanidade: o pecado da incredulidade!

Da mesma forma que Habacuque se ocupava em questionar a justiça de Deus por causa de questões sociais, éticas e morais, hoje muitos questionam a justiça de Deus por causa dos problemas da sociedade. Por que tantas injustiças? Por que tanta violência? Será que Deus não está vendo? ( Hc 1:3 -4).

Da mesma forma que a justiça de Deus se manifesta por meio da verdade do evangelho e os homens não conseguem ver, a ira de Deus se manifesta sobre a impiedade e injustiça dos homens, e eles também não conseguem ver.

Os homens que detém a verdade em injustiça são a peça chave na leitura deste capítulo. A fé é o elemento pelo qual o homem alcança a justiça de Deus, e a incredulidade é o elemento que detém a ação da verdade, permanecendo a injustiça. O evangelho de Cristo revela a justiça de Deus aos homens, e estes, quando não creem em Cristo, detêm a verdade em injustiça.

 

19 Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou.

Somente aqueles que creem na mensagem do evangelho descobrem a justiça de Deus, pois é isto que o evangelho manifesta a todos quantos creem. Já aos incrédulos é dado conhecer a ira de Deus, pois mesmo eles não sabendo, a ira de Deus se manifesta neles. Deus manifestou a sua ira sobre os homens que detém a verdade de Deus em injustiça.

Visto que os homens vivem em impiedade e em injustiças, a eles compete a ira de Deus. Neles se manifesta a ira de Deus porque é a única coisa de Deus que eles ‘podem’ conhecer. Os justo não conhecerão a ira, antes terão gozo e paz no espírito Santo, pois não é pertinente a eles conhecer a ira.

Aqueles que não creem terão contato única e exclusivamente com a ira de Deus, pois é isto que eles tem entesourado para si. A ira de Deus se há manifestado entre eles, visto que Deus deixou todos eles entregues as concupiscências de seus corações impenitentes (v. 24). Compete a eles a ira de Deus por serem filhos da ira e vasos da ira, preparados para a perdição ( Rm 9:21 -23). Não podemos perder de vista que a culpabilidade dos homens é em decorrência da condenação em Adão, e não por questões morais e comportamentais (impiedade e injustiças).

Permanece a condenação e serão alvos da ira de Deus por não crerem na verdade, conforme o exposto por Cristo: “Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, porque não crê no unigênito Filho de Deus” ( Jo 3:18 ).

 

A Natureza

Paulo expõe aos cristãos de Roma que os atributos de Deus, bem como o seu eterno poder e sua divindade são facilmente perceptíveis por tudo quanto está criado por Deus.

Ao analisarmos esta declaração de Paulo, devemos ter em mente que ele estava escrevendo a cristãos e que é próprio a eles ver os atributos de Deus na criação.

Paulo destaca que Deus ‘manifesta’ a sua ira sobre a impiedade e a injustiça, é que a ira é algo que somente os injustos podem conhecer. Porém, os ímpios à época de Paulo tinham ciência, ou melhor, sabiam que a ira de Deus se ‘manifestava’ neles? Os descrentes desconheciam esta verdade! Por que? Porque o texto é uma explanação do apóstolo que demonstra aos cristãos uma realidade pertinente aos injustos. Os injustos são sujeitos da ira de Deus (neles se manifesta a ira), porém, este não é um conhecimento pertinente aos incrédulos. Eles não sabem, ou melhor, não têm ciência de que são sujeitos da ira.

Lembre-se que há o conhecer de ‘ciência’, ou ‘estar informado a respeito de’, e o conhecer cristão, que é ‘Deus em nós e nós nele’. O conhecer do cristão refere-se a união com Cristo.

Quando Paulo fala que as evidências presentes na criação depõe contra os homens que detêm a verdade em injustiça, ele fala de um conhecimento (ciência) que não é de total domínio dos incrédulos. Os incrédulos não conseguem perceber que a natureza depõe contra eles quando revela a existência de Deus.

O papel da natureza é duplo:

a) revela a existência de Deus e desperta a curiosidade de conhecê-lo melhor, e;
b) depõe contra aqueles que souberam da existência de Deus e não se importaram de ter conhecimento de Deus (v. 28).

O conhecimento proveniente da natureza não condena o homem. A condenação é proveniente da queda em Adão, e o conhecimento da existência de Deus através da natureza somente depõe contra os homens, deixando-os sem qualquer desculpa pelo proceder inconveniente que adotaram neste mundo.

Os incrédulos, ao observarem a natureza, souberam da existência de Deus, ou seja, ‘pelas coisas que foram criadas’. Já o entendimento dos cristãos é mais amplo diante das mesmas coisas criadas; os cristãos conseguem ver claramente e entender ‘os atributos invisíveis de Deus, a criação do mundo, o eterno poder de Deus e a divindade’. Ver e entender claramente é algo pertinente aos cristãos, já os incrédulos tem contato com as coisas criadas, e por isso são inescusáveis quando agem em impiamente.

Ao olhar a natureza é possível ‘entender’ e ‘ver’ os atributos de Deus e o seu eterno poder? Observe que os atributos de Deus são invisíveis! É possível entender e ver a criação do mundo? É possível entender e ver que o poder de Deus é eterno? Não! Este conhecimento é restrito aos cristãos, que são informados destas verdades através das Escrituras.

Agora, o que os cristãos claramente viam e entendiam (a manifestação da ira, os atributos invisíveis de Deus, o eterno poder), os incrédulos também adquiriram ‘conhecimento’ de Deus por meio das coisas criadas. O conhecimento deles não equivale ao conhecimento dos cristãos: através da natureza somente é possível perceber a existência de Deus, o que não os livra da condenação em Adão! O conhecimento que os incrédulos adquiriram da natureza não os conduz a Deus, antes, os seus raciocínios tornaram-se fúteis e os seus corações insensatos se obscureceram e não buscaram a Deus.

Os homens que detêm a verdade em injustiça já estão debaixo de condenação herdada de Adão, e se mantém inescusáveis quanto as suas ações, visto que souberam da existência de Deus por meio das coisas que foram criadas, mas não deram a devida importância a tal conhecimento e não buscando a Deus. Antes, as suas ações se diversificaram segundo os seus corações e pensamentos, e somente entesouram ira para si ( Rm 2:5 ).

A ira de Deus a se manifestar é quanto as ações dos homens, visto que o juízo já foi estabelecido quanto à queda de Adão. A queda trouxe o juízo de Deus, mas as ações dos homens trará a ira e a indignação de Deus.

Por que eles se mantém culpáveis diante de Deus? Porque a natureza evidencia que Deus existe, dando aos homens a primeira condição para que creiam em Deus, conforme foi demonstrado aos cristãos Hebreus: “…é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe…” ( Hb 11:6 ). A criação apresenta a primeira condição necessária para que o homem se aproxime de Deus: dá a conhecer a existência de Deus.

A criação nunca substituiu o evangelho e não tem condição de ‘revelar’ a plenitude de Deus aos homens. Somente Jesus, o unigênito de Deus, revelou e revela Deus aos homens ( Jo 1:18 ), dando as condições necessárias para que se creia que ‘Deus existe’, e é ‘galardoador dos que o buscam’ ( Hb 11:6 ).

Saber que Deus existe não livra ninguém da condenação eterna; saber que Deus existe não livra ninguém da condenação do pecado (vide o caso de Caim, que mesmo sabendo da existência de Deus, matou o seu irmão).

A natureza ‘revela’ que Deus existe, porém ela é limitada. A natureza não faz o homem se aproximar de Deus! Somente aqueles que aceitam a verdade do evangelho é que tem acesso a Deus, visto que Jesus é o caminho a verdade e a vida “Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” ( Jo 14:6 ). O conhecimento evidenciado pela natureza jamais conduzirá homem algum a Deus.

Entender que é possível alguém ser salvo através da ‘revelação’ da natureza é temerário, pois:

1ª) Os judeus tinham conhecimento impar de Deus através do que revelava o Antigo Testamento, e mesmo assim, muitos se desviaram após outros deuses;
2ª) Esta ideia não coaduna com o exposto por Paulo: “E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição” ( Rm 9:22 ); muitos questionam a justiça de Deus, visto que nem todos os homens ouviram a mensagem do evangelho. Porém, estes esquecem que os vasos da ira foram preparados para a perdição. “Que diremos? Há injustiça da parte de Deus?” ( Rm 9:14 );
3ª) Alegar que Deus julgará o homem com relação as suas obras através do conhecimento recebido não é bíblico, visto que só o fato de ir a julgamento já demonstra a culpabilidade do homem ( Rm 2:12 ).

A ação dos homens, mesmo tendo conhecimento (‘ciência’) da existência de Deus, foi o de criarem deuses para si.

 

20 Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis;

Os homens que detêm a verdade pela injustiça permanecem no estado de culpabilidade diante de Deus, mesmo quando é perfeitamente possível entender e ver por meio das coisas criadas, que existe um Deus. A culpabilidade da humanidade se deu em Adão, onde os homens passaram a ser filhos da desobediência e da ira.

Os homens que detém a verdade em injustiça permanecem na perdição (culpáveis). A incredulidade dos homens que detém a verdade em injustiça não depõe somente contra o evangelho de Cristo, que é a verdade. A incredulidade se opõe até em coisas por demais evidentes, como as que foram criadas por Deus.

O leitor deve perceber que a argumentação de Paulo é direcionada a cristãos. Dentro desta ideia, Paulo demonstra que observar a natureza e entender que Deus existe não absolve o homem de sua culpa. Constatar que Deus existe através das coisas criadas por Deus serve somente para que os homens que detém a verdade em injustiça fiquem inescusáveis.

O homem tornou-se culpável em Adão, e quando ele entende que Deus existe através da coisas criadas, torna-se indesculpável. Os elementos que a natureza apresenta, apresenta tão somente para que o homem permaneça inescusável diante de Deus.

21 Porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. 22 Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos. 23 E mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis.

Os homens poderiam inquirir a respeito de Deus quando em contato com as coisas criadas, porém, permaneceram inescusáveis, pois souberam da existência de Deus por meio de suas obras e não lhe renderam graças e nem a glória devida.
Este versículo deve ser analisado com a ideia que a carta aos Hebreus apresenta: “Ora, sem fé é impossível agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam” ( Hb 11:6 ).

Ora, se é necessário crer que Deus existe para poder se aproximar dele, a natureza é uma grande aliada, pois o que ela apresenta declara que há um Deus. Apesar dos homens terem conhecimento da existência de Deus, acabaram criando discursos fúteis e seguiram o curso de um coração impenitente herdado em Adão. O ato de renderem adoração as imagens de escultura demonstra o quanto o homem se distanciou do Criador.

A natureza apresenta uma verdade, porém, ela não consegue aproximar o homem de Deus. Somente a verdade do evangelho pode reconciliar o homem com Deus.

A sabedoria do homem, as suas questões filosóficas os faz inculcar que são sábios, porém, a sabedoria dos homens é loucura perante Deus. As investigações dos homens se demonstram ineficazes, e só distancia o homem de Deus. Eles tornaram-se loucos por concluírem que não precisam de Deus, visto que criam deuses para si.

24 Por isso também Deus os entregou às concupiscências de seus corações, à imundícia, para desonrarem seus corpos entre si; 25 Pois mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente. Amém.

A ira de Deus começa a revelar-se nos homens que detém a verdade em injustiça pelo fato de estarem entregues as concupiscências de seus corações.

26 Por isso Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza. 27 E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro.

O apóstolo Paulo descreve o comportamento dos homens que rejeitaram a Deus e seguem as concupiscências de seus corações. As dissoluções, rebeldias e infâmias é resultado da entrega as concupiscências do coração e abandono às paixões infames.

28 E, como eles não se importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convêm; 29 Estando cheios de toda a iniquidade, prostituição, malícia, avareza, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade; 30 Sendo murmuradores, detratores, aborrecedores de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais e às mães; 31 Néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, irreconciliáveis, sem misericórdia;

O maior problema da humanidade reside em não se importar em ter conhecimento de Deus. Enquanto o homem não considera em seu coração que Deus existe e que é galardoador daqueles que o buscam, ficam entregues a um sentimento perverso. A disposição mental daqueles que desprezam o conhecimento de Deus é totalmente reprovável.

32 Os quais, conhecendo a justiça de Deus (que são dignos de morte os que tais coisas praticam), não somente as fazem, mas também consentem aos que as fazem.

Mesmo não se importando em ter conhecimento de Deus os homens não podem negar o testemunho da consciência. Mesmo sabendo que são passíveis de morte quem pratica as ações descritas acima, quem não se importa em ter conhecimento de Deus não somente as fazem, como também consentem com quem as pratica.

Os homens cheios de malignidade conhecem a justiça de Deus através de uma lei interna e da consciência ( Rm 2:15 ). Eles sabem que as suas ações são reprováveis diante de Deus, porém permanecem na prática desenfreada da maldade.

Este trecho da carta aos Romanos (v. 18- 32) tem o objetivo de demonstrar que jamais Paulo apregoou que é necessário fazer o mal, para que o bem venha ( Rm 3:8 ). Este trecho depõe contra a malignidade da humanidade, demonstrando que quem pratica tais coisa são reprováveis perante Deus.

O capítulo seguinte apresenta homens que se escudam em acusar o semelhante, mas a condição deles é a mesma que os mais infames dos homens; eles também são reprováveis diante de Deus.

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Efésios 1 – Todas bênçãos espirituais

O próprio Consolador enviado se interpõe como garantia da herança que recebemos. O penhor deve ter valor equivalente à dívida contraída, e nós que estamos em Cristo já recebemos o que é superior a própria herança: o Espírito Santo de Deus! Que garantia! Que segurança! Os cristãos foram selados com o Espírito Santo da promessa, o que é superior a própria herança. Mas, por que fomos selados? A resposta é: Para redenção da possessão adquirida por Deus. Descanse em Cristo!


Introdução

Este comentário à carta de Efésios constitui-se um exercício de leitura e interpretação bíblica.

Este estudo não é focado em questões como: qual a data de escrita desta carta, ou se a palavra ‘aos efésios’ não se encontra nos melhores manuscritos, etc. Tais questões tem a sua importância, porém não influência diretamente na leitura e interpretação da carta.

As divisões que adotamos para o estudo do texto decorre dos principais contexto, nos quais os temas estão inseridos. Por exemplo: quando Paulo nomeia os cristãos de santos e fiéis, destacamos que o contexto é apresentação e identificação dos destinatários da carta.

Se os destinatários da carta residiam em Éfeso, ou não, é um ponto de menor importância. O que propomos aqui é explicar a condição do estar em Cristo e responder questões como: Eles eram santos, ou somente eram tidos por santos? E muitas outras.

Boa leitura!

Apresentação Pessoal

1 Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus, aos santos que estão em Éfeso, e fiéis em Cristo Jesus:

Paulo, o escritor da carta, identifica-se aos seus destinatários e não deixa dúvidas quanto à sua autoria.

Esta carta possui uma característica diferente das outras. Nela o apóstolo Paulo não precisa defender o seu apostolado. Ele simplesmente demonstra que, pela vontade de Deus, tornou-se apóstolo de Cristo.

Geralmente o apóstolo Paulo se apresenta como servo de Cristo em outras cartas, mas nesta ele se apresenta somente como apóstolo ( Fl 1:1 ; Rm 1:1 ).

Cabe salientar que a carta aos efésios é auto-explicativa, principalmente quanto aos elementos apresentados na introdução. Observe:

Sobre o seu apostolado Paulo esclarece que foi feito ministro do evangelho segundo a operação do poder de Deus ( Ef 1:1 compare com Ef 3:7 ). Paulo demonstra que tal poder foi manifesto em Cristo quando Deus o ressuscitou dentre os mortos ( Ef 1:19 -20).

Compare ( Gl 1:1 com Ef 1:1 ):

“Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus…” ( Ef 1:1 );

“Paulo, apóstolo (não da parte dos homens, nem por homem algum, mas por Jesus Cristo, e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos)” ( Gl 1:1 ).

Paulo identifica os destinatários da carta chamando-os de santos e fiéis ‘em’ Cristo, os cristãos que estavam em Éfeso.

Santidade e fidelidade advêm do ‘estar’ em Cristo. ‘Em Cristo’ é a condição de existência da nova criatura, conforme Paulo escreveu aos cristãos em Coríntios: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ).

‘Em Cristo’ os cristãos são santos e fiéis, ou seja, santos e fiéis são as características pertinentes à nova criatura “E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade” ( Ef 4:24 ). ‘Em Cristo’ é um recurso se estilo, onde a idéia completa ‘estar em Cristo’ para ser uma ‘nova criatura’ passa a ser resumida assim:

“…aos santos que estão em Éfeso, e fiéis em Cristo Jesus:” ( Ef 1:1 e 4).

Quando o apóstolo Paulo diz ‘em Cristo’, ele está apontando a nova condição do cristão por serem uma nova criatura. A nova criatura, por ter sido criada seundo Deus em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ), é santa e fiel. ‘Em Cristo’ é um tipo de ‘contração’ linguistica para apontar de modo resumido a condição da nova criatura diante de Deus.

A fidelidade expressa neste versículo não possui relação com a fidelidade descrita em ( Ef 6:21 ). Quanto ao exercício de um ministério ou serviço, o cristão demonstra a sua fidelidade através de esforço próprio, condição pertinente a poucos cristãos. Já a condição de ‘santidade’ e ‘fidelidade’ somente é possível em Cristo, e esta condição é pertinente a todos cristão.

 

Saudações

2 A vós graça, e paz da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo!

Aos cristãos Paulo deseja graça e paz da parte de Deus.

Graça remete ao favor imerecido de Deus. Paz, é aquela que excede a todo entendimento, pela qual os cristãos foram reconciliados com Deus.

Com relação a escrita, verifica-se que em sua apresentação e saudação Paulo utiliza a primeira pessoa do singular do caso reto “Eu”.

Ao passar a louvar a Deus por bênçãos recebidas, Paulo utilizar a primeira pessoa do plural, fato que inclui todos os cristãos como alvos das bênçãos divina “Nós”.

Observe que o prefácio e a saudação possuem um contexto diferente do versículo três em diante. Nos versículo um e dois, temos: a apresentação do remetente da carta, os destinatários da carta e a saudação. Do versículo três em diante, Paulo passa a louvar a Deus por bênçãos recebidas.

 

Louvor e Adoração

3 Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo;

Os versículos três em diante devem ser analisados do ponto de vista de quem faz uma adoração a Deus “Bendito o Deus e Pai…” (v. 3).

Quem adora, adora por aquilo que recebeu das mãos de Deus ou por reconhecer a sua grandeza. Do versículo três até o versículo doze, o contexto é de agradecimento por bênçãos recebidas.

A estrutura do texto da carta é semelhante ao Salmo 103. Da mesma forma que Davi bendiz ao Senhor, Paulo também bendiz. O salmista bendiz ao Senhor pelos benefícios recebidos, e a partir do versículo três passa a enumerar as bênçãos recebidas.

O apóstolo Paulo também bendiz ao Senhor e passa a enumerar as bênçãos recebidas nos versículos quatro a doze.

“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo; Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fossemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor; E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade” ( Ef 1:3 -5).

“Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e tudo o que há em mim bendiga o seu santo nome. Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e não te esqueças de nenhum de seus benefícios. Ele é o que perdoa todas as tuas iniqüidades, que sara todas as tuas enfermidades, que redime a tua vida da perdição; que te coroa de benignidade e de misericórdia” ( Sl 103:1 -4).

O contexto é de adoração, e toda e qualquer declaração de Paulo deve ser analisada com base na adoração.

Sobre a adoração é necessário observarmos que só há duas maneiras pelas quais se adora a Deus.

A primeira maneira é agradecer, fazendo referência aos benefícios recebidos. A segunda maneira é fazendo referência aos atributos de Deus. Não há outras maneiras de adoração além destas duas, ou seja, que o homem possa render adoração ao Senhor.

O salmista Davi utiliza estas duas maneiras de adoração:

“Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e tudo o que há em mim bendiga o seu santo nome. Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e não te esqueças de nenhum de seus benefícios. Ele é o que perdoa todas as tuas iniqüidades, que sara todas as tuas enfermidades, que redime a tua vida da perdição; que te coroa de benignidade e de misericórdia” ( Sl 103:1 -4).

“Bendize, ó minha alma, ao SENHOR! SENHOR Deus meu, tu és magnificentíssimo; estás vestido de glória e de majestade. Ele se cobre de luz como de um vestido, estende os céus como uma cortina. Põe nas águas as vigas das suas câmaras; faz das nuvens o seu carro, anda sobre as asas do vento. Faz dos seus anjos espíritos, dos seus ministros um fogo abrasador” ( Sl 104:1 -4).

O salmo 103 faz referência aos benefícios concedidos por Deus, e o salmo 104 faz referência aos atributos de Deus.

O apóstolo Paulo adota a linha de adoração demonstrada no salmo 103: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo” ( Ef 1:3 ). Adoração ou reconhecimento pelos benefícios recebidos.

Após verificarmos o contexto na qual estão inseridas as declarações de Paulo, analisaremos dois elementos presentes neste versículo:

a) bênçãos espirituais, e;

b) regiões celestiais.

Há um contraste significativo entre o que é espiritual e o que é material. O apóstolo Paulo descreveu as nuances destes dois ambientes aos cristãos em Coríntios.

a) Primeiro se estabelece o que é natural, e depois o que é espiritual ( 1Co 15:46 );

b) Tudo que é concernente a Cristo é espiritual, e tudo o que é concernente a este mundo é material ( 1Co 10:4 );

c) Aqueles que nascem de Deus são espirituais, e passam a ser casas espirituais ( 1Pe 2:5 ).

 

Jesus ao falar a Nicodemos demonstrou que o que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito, é espírito. Analisando ( Jo 3:6 com Jo 1:12 -13), percebe-se que somente após a regeneração o homem passa a ser espiritual.

  • A relação entre benção e graça.

“Um santo, no N.T., não é uma pessoa sem pecado, mas um pecador salvo” Scofield, C. I., Bíblia de Scofield com Referências, nota de roda pé Ef 1. 1.

Em uma mensagem de cunho evangelístico é plenamente aceitável a colocação: ‘Deus salva o pecador’. Isto é fato, Deus veio resgatar o que estava perdido “Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” ( 1Tm 1:15 ).

Agora, em uma mensagem de ensinamento se utiliza a mesma linguagem? Não! Jesus ao falar a Nicodemos apregoa o seguinte: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” ( Jo 3:3 ).

 

Adoração

Observe que a abordagem teológica é diferente da abordagem evangelística: A oferta da salvação é para todos os pecadores, mas só os regenerados (nascidos de novo), o novo homem, são salvos. Por que é preciso fazer esta distinção?

a) Cristo não é ministro do pecado; ser salvo significa que estar livre do pecado em todos os seus aspectos “Pois, se nós, que procuramos ser justificados em Cristo, nós mesmos também somos achados pecadores, é porventura Cristo ministro do pecado? De maneira nenhuma” ( Gl 2:17 );

b) Vale salientar que somente o ‘novo homem’ em Cristo é salvo, e não o ‘velho homem’, pois este deve morrer através da cruz de Cristo. Dependendo da abordagem a respeito da salvação, por um lado Deus resgata o pecador, por outro, só o novo homem é salvo por Deus.

Podemos ilustrar esta verdade desta forma: Se uma embarcação encontra um naufrago em uma ilha deserta, após resgatá-lo, os tripulantes da embarcação continuarão a designar o novo tripulante da embarcação de ‘náufrago’. O ‘naufrago’ passa a fazer parte da tripulação do navio, e mesmo assim, continuará sendo designado como náufrago. O pecador salvo não é mais ‘pecador’, mas continuará sendo designado pecador, porém, agora em Cristo é um dos filhos de Deus.

 

O velho homem não é salvo, mas através do evangelho a graça de Deus o alcança.
Desta maneira Deus salva o pecador!
Morre com Cristo.
O novo homem o novo homem é salvo. Regenerado torna-se santo e justo diante de Deus.
O novo homem não é mais pecador
Ressurge com Cristo

 

Visualizamos aqui dois momentos na existência do homem quando alcançado pela graça de Deus: o antes, pertence ao velho homem, e o depois, ao novo homem, isto quando referimos à natureza herdada em Adão, e à natureza herdada do último Adão, que é Cristo “Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante” ( 1Co 15:45 ).

Jesus mesmo declarou: “Toda planta que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” ( Mt 15:13 ). A planta que o Pai não plantou não será salva, antes será arrancada, ou seja, todos quantos nascerem em Adão, necessariamente precisam morrer para em seguida nascer de novo. Somente aqueles que de novo são nascidos, da semente incorruptível que é a palavra de Deus, permanecerão para sempre.

Para entendermos as questões pertinentes à bênção e graça faz-se necessário divisarmos bem o ‘antes’ e o ‘depois’ do novo nascimento conforme o ensinamento de Cristo a Nicodemos: “…aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” ( Jo 3:3 ).

A graça de Deus é destinada ao velho homem, e as bênçãos de Deus são concedidas ao novo homem. Como? Observe:

a) a graça de Deus manifestou-se a todos os homens “…por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida” ( Rm 5:18 );

b) a graça de Deus é oferta de redenção a todos os homens “Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens” ( Tt 2:11 ), ou seja;

c) a graça de Deus tem como alvo o velho homem “Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” ( 1Tm 2:4 ).

 

O que se manifestou? A graça de Deus, ou seja, Cristo manifesto trouxe salvação a toda humanidade. A graça de Deus revelou-se e trouxe salvação aos homens que habitavam nas regiões das trevas “O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz” ( Is 9:2 ).

Antes de o homem ter um encontro com Cristo por meio da fé, a salvação de Deus é manifesta por graça, favor imerecido de Deus concedido ao homem perdido.

Ou seja, Cristo morreu por causa de nossos pecados e ao crermos nele nos tornamos participantes de sua morte. Cristo ressurgiu para a nossa justificação, ou seja, após ressurgirmos com Cristo, somos declarados justos diante de Deus.

A graça de Deus tem justificado o homem por meio da morte de Cristo, e após a justificação, somos feitos herdeiros.

Conclui-se que, a graça de Deus é destinada à velha criatura, que por estar morta em delitos e pecados, vendida como escravo ao pecado, e que por natureza é filho da ira, necessita de tão precioso resgate gracioso (remissão e redenção).

“Para que, sendo justificados pela sua graça, sejamos feitos herdeiros segundo a esperança da vida eterna” ( Tt 2:11 ).

“Não são porventura todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação?” ( Hb 1:14 ).

 

Por outro lado, as bênçãos de Deus são pertinente ao novo homem. O novo homem surge na Regeneração, onde é criado, segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade. Estes são por natureza filhos de Deus e co-herdeiros com Cristo “Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo” ( Gl 3:26 -27).

O versículo três é a chave para entendermos o capítulo um de Efésios.

Primeiro temos que considerar o contexto: adoração, agradecimento pelas bênçãos concedidas.

Não podemos esquecer que a carta foi escrita aos cristãos, e que, portanto, Paulo não se ocupa em pregar ou explicar o evangelho novamente. A carta se ocupa em apresentar aspectos e pontos específicos do evangelho.

Ao escrever este capítulo, Paulo não se ocupa em descrever as questões pertinentes a graça de Deus que se destina ao velho homem. Antes ele se ocupa de questões pertinentes ao novo homem, e por isso, Paulo se ocupa em agradecer e falar das bênçãos de Deus.

Paulo não se mantém isolado dos destinatários ao falar das bênçãos recebidas. Ele se inclui entre aqueles que foram abençoados, o que demonstra duas coisas:

a) Ele estava falando de questões pertinentes ao novo homem, e;

b) da nova condição daqueles que estão em Cristo.

Paulo está falando do que é pertinente ao novo homem por ele bendizer a Deus por bênçãos já recebidas. Principalmente por ele enfatizar que todos estavam em Cristo. ‘Estar em’ Cristo remete a condição necessária para ser uma nova criatura.

No capítulo dois, versículo seis, Paulo volta a falar da condição alcançada após a ressurreição com Cristo.

 

Bendizendo pelas Bênçãos Recebidas

Eleição

4 Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fossemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor;

Paulo passa a bendizer a Deus pelas benção, que o faz descrevê-las.

(nos abençoou com todas as bênçãos espirituais) Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fossemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor;

a) Como também: a ação de abençoar através da eleição é exclusivamente de Deus. Foi Deus quem abençoou os cristãos com todas as bênçãos espirituais, e dentre elas temos a eleição.

b) nos elegeu nele:

a) Considerando que Paulo estava escrevendo sobre as bênçãos recebidas;

b) Considerando que Paulo estava adorando a Deus pelo que já tinha recebido;

c) Considerando que Paulo estava escrevendo sobre aspectos pertinentes a todos cristãos (nós);

d) Considerando que méritos e qualidades são pertinentes a pessoa de Cristo;

e) Considerando que a estrutura de texto é semelhante ao Salmo 103, e;

f) Considerando que a carta foi escrita a cristãos.

Conclui-se que Paulo escreveu sobre o que é pertinente ao novo homem, sobre aqueles que já estavam em Cristo (nele = em + Cristo).

Quando o apóstolo Paulo diz que Deus nos elegeu, ele utiliza o verbo no pretérito perfeito, o que indica algo concluído, ou que os cristãos estão de posse da bênção. Isto demonstra que os cristão estão de posse da nova condição: eleitos, ou seja, os cristãos já usufruem da condição para qual foram eleitos: santos e irrepreensíveis.

Paulo não quis demonstrar um processo de escolha, onde alguns são escolhidos e outros não. Paulo queria enfatizar as garantias decorrentes do evangelho. Para demonstrar as garantias decorrentes do evangelho, ele demonstra que os cristãos são os eleitos de Deus (santos e fiéis). Aqueles que nascem da vontade de Deus, já nascem santos e irrepreensíveis, ou seja, de posse da bênção divina.

Se Paulo estivesse fazendo referência neste versículo a uma possível escolha dentre aqueles que ainda estão vendidos ao pecado (velho homem), ele faria referência a graça de Deus, que foi direcionada a todos os homens “Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)” ( Ef 2:5 ).

Mas não, ele fala de bênçãos recebidas, o que é pertinente àqueles que estão em Cristo, e que, portanto, já são regenerados e são filhos de Deus.

É pela graça que o pecador alcança a salvação, e não por meio das bênçãos concedidas “Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça…” ( Ef 1:7 ).

A graça é para a salvação, mas a eleição não é para a salvação; a eleição é para aqueles que se encontram em Cristo (nos elegeu em + ele = em Cristo).

Antes da fundação do mundo: Paulo apresenta a data em que se deu a eleição: antes que o mundo fosse fundado. Esta declaração do apóstolo Paulo não pode ser interpretada extensivamente. Observe que em momento algum ele fala da onisciência de Deus. Não é porque a eleição foi realizada antes da fundação do mundo que podemos arrematar que a eleição decorre da onisciência de Deus, ou da ideia equivocada de presciência que há na teologia. Os atributos de Deus não podem ser considerados isoladamente, mas a informação que Paulo nos deixou nesta parte do versículo restringe-se ao tempo em que Deus realizou a eleição.

Para que fossemos santos e irrepreensíveis diante dele: A eleição foi realizada com um objetivo pré-definido: a santidade e irrepreensibilidade dos cristãos! Ou seja, a escolha de Deus repousa sobre o Cristo e a Sua descendência, o que confere aos cristãos semelhança com o Filho de Deus, pois recebemos em Cristo plenitude de Deus ( Cl 2: 9 -10). Santidade e irrepreensibilidade são características pertinentes à nova criatura, conforme o que atesta o apóstolo Paulo: “E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade” ( Ef 4:24 ). O velho homem não pode ser eleito para ser ‘santo e irrepreensível’ pelos seguintes motivos:

  • Somente a graça de Deus através da mensagem do evangelho destina-se aos homens sem Cristo. A luz de Deus enviada ao mundo tem o objetivo de alcançar aqueles que ‘habitavam as regiões das trevas’;
  • Não há como ser santo e irrepreensível sem antes ter um encontro com Cristo. Todos os homens necessitam nascer de novo, e isto somente é possível após morrer com Cristo.
  • O velho homem é culpável, nasceu sob a égide do pecado, é inimigo de Deus, planta que o Pai não plantou, vaso destinado a ira, filho da desobediência, filho da ira. Como este homem pode ser escolhido para ser santo e irrepreensível? A bíblia demonstra que este homem e a sua natureza devem morrer e ser sepultado, para que nova criatura possa ressurgir dentre os mortos.
  • O velho homem é nascido da vontade da carne, da vontade do varão e do sangue, ou seja, é nascido de semente corruptível, é árvore não plantada por Deus, e a árvore não plantada por Deus precisa ser arrancada.
  • Santidade e irrepreensibilidade é condição do novo homem criado em Cristo, o que demonstra que o homem, enquanto pecador, não é escolhido para a santidade. Somente após aceitar a graça de Deus por meio do evangelho, ser gerado de novo da semente incorruptível, ser uma planta plantada pelo Pai, ele assume a posição de eleito em Cristo. Somente após a regeneração é que o homem alcança a bênção de ser santo e irrepreensível.

A bênção de Deus destina-se aos cristãos (nova criatura) que foram gerados em Cristo. Estes são de novo gerados da semente incorruptível, que é a palavra de Deus, por crerem no evangelho, que é poder de Deus, receberam poder para serem feitos filhos de Deus. São vasos para honra. São plantas nascidas da semente incorruptível e plantados por Deus.

Deus não escolhe para a salvação, antes, os que aceitam a graça de Deus que se revela no evangelho são eleitos para serem santos e irrepreensíveis. A eleição dos que agora são cristãos, segundo Paulo, foi realizada em Cristo ( Is 42:1 ), e todos aqueles que estão em Cristo recebem a condição de eleitos: santos!, ou seja, foram eleitos para serem santos, e não eleitos para serem salvos.


Ressurgir com Cristo dentre os mortos (mortos em delitos e pecados) uma nova criatura com a condição de filho de Deus é bênção, pois somente os filhos são participante da natureza divina “Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo” ( 2Pe 1:4 )!

Somente após escapar da corrupção que há no mundo (condenação em Adão) pelo seu glorioso convite e amor demonstrado em Cristo, é que Deus concede ao homem tudo o que diz respeito à vida e piedade (todas as bênção espirituais), nos tornando participantes da natureza divina (filiação, santidade e irrepreensibilidade).

Este é o motivo de Paulo estar louvando a Deus: Ele e os destinatários da carta haviam recebido todas as bênçãos espirituais, e alcançaram uma nova condição: a de serem santos e irrepreensíveis.

Estamos falando de dois momentos na vida do homem que teve um encontro com Cristo: o velho e o novo homem.

Como vimos até agora, há o velho e o novo homem; há a velha e a nova natureza; só é possível ver o reino de Deus após nascer de novo, e; que o novo homem é criado segundo Deus.

Resta analisarmos também os termos: eleição e eleitos.

A palavra eleição nos remete aos seguintes aspectos:

  • A palavra escolha ou eleição aponta um processo para algum fim;
  • Está é a idéia presente neste termo: alguém só é escolhido para um objetivo pré-definido.

Se retirarmos qualquer elemento pertinente ao processo de escolha, não existe escolha. Observe:

  • se não houver um objetivo pré-definido a executar não existe escolha;
  • se não houver alguém a ser escolhido, não haverá escolha;
  • se não houver um critério para a escolha, não haverá escolha, e;
  • se houver a escolha surgirá o antes e o depois da escolha.

 

Já a palavra eleito nos remete ao seguinte aspecto:

Eleito é a condição (posição, cargo) que alguém adquire após o processo de eleição.

Antes da eleição não há pessoas na posição de eleitas, só há candidatos. Após a eleição haverá os eleitos.

Quando se faz referência a condição de eleito, está se evidenciando aspectos como: exercício da posição alcançada e conciência das garantias que envolve a condição.

Quando Paulo escreveu que Deus nos elegeu, ele quer demonstrar que em Cristo estamos na condição de eleitos, e que já estamos gozando da irrepreensibilidade e da santidade. Já estamos de posse da bênção, e por isso mesmo ele bendiz a Deus que nós abençoou.

Por Paulo estar louvando a Deus pelas bênçãos recebidas, isto demonstra que ele quer evidenciar os aspectos que envolvem o conjunto daqueles que foram eleitos, ou seja, os eleitos. A existência dos eleitos (aqueles que creram em Cristo e foram recebidos por filhos) é o que motivou Paulo a bendizer a Deus “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo…” ( Ef 1:3 ).

Ao procurar demonstrar que Deus elegeu alguns para serem salvos estaremos preso as seguintes questões: Por que eu sou escolhido e fulano não?; Quais as garantias de que eu sou um eleito? Qual o critério que Deus utilizou para escolher? Qual o objetivo de Deus escolher só alguns, e o restante não?

Analisando os atributos de Deus surgem mais estes questionamentos: Qual o critério utilizado para que Deus para escolher alguns que devem ser santos e irrepreensíveis se ele ama a todos? O que faz diferente os pecadores diante de Deus, se para Ele não há acepção de pessoas? “Porque, para com Deus, não há acepção de pessoas” ( Rm 2:11 ).

A bíblia nos informa que Deus ama a humanidade como um todo “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” ( Jo 3:16 ).

Como conciliar os dois versículos acima com a idéia que Deus escolhe dentre os perdidos as pessoas que serão salvas?

Observe que é diferente afirmar que Deus elegeu ‘algumas pessoas para serem salvas’, do que Paulo escreveu: Deus nos elegeu ‘para sermos santos e irrepreensíveis’, e não para sermos salvos. É pela graça que o homem é salvo, e não pela eleição.

A afirmação do apóstolo de que os cristãos foram eleitos refere-se especificamente a condição que eles alcançaram após a Regeneração: foram criados segundo Deus em verdadeira justiça e santidade.

A visão dos Reformadores é que Deus escolhe dentre a humanidade perdida (escolha entre ‘a’ e ‘b’), pessoas para serem salvas, o que contraria a idéia presente na graça de Deus: “Pois é pela graça que sois salvos, por meio da fé”, e não por eleição. A Eleição é para ser santo e irrepreensível, condição que é pertinente àqueles que já estão diante de Deus.

E como se deu a eleição dos salvos? “Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” ( 2Tm 1:9 ).

Cristo é o eleito de Deus segundo o seu propósito eterno de fazer convergir n’Ele todas as coisas.

  • O propósito eterno de Deus;
  • O Filho é escolhido, e;
  • O Filho possui os méritos: O santo de Deus ( Is 42:1 ).

Os cristãos não existiam quando ocorreu a eleição, mas ao nascerem de Deus, passaram a eleitos. Foram criados em verdadeira justiça e santidade (salvação) e acolhidos como filhos.

“Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” ( 2Tm 1:9 ).

“…nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fossemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor” ( Ef 1:4 ).

Ao escrever a Timóteo, o apóstolo Paulo demonstra que primeiramente Deus nos salvou por sua maravilhosa graça. A salvação é por meio do evangelho, que é poder de Deus, e não por meio da eleição, que é para filiação ( 2Tm 1:8 ). Somente após a salvação ocorre a eleição. A condição de santos e irrepreensíveis é pertinente aos salvos.

Ao falar que Deus nos salvou, é o mesmo que dizer: estamos salvos, da mesma maneira ao falar ‘nos elegeu, significa que somos eleitos, ou seja, que estamos de posse das bênçãos concedidas. Bendito seja Deus!

Isto demonstra que ao escrever aos cristãos em Éfeso Paulo procurou enfatizar a condição de eleitos de Deus, na qual eles passaram a ser santos e irrepreensíveis. Por isso ele inicia o tópico adorando a Deus pelas bênçãos recebidas.

Paulo demonstra que antes mesmo de existirmos, Deus já havia providenciado por meio de Cristo bênçãos espirituais, e que agora eles estavam de posse destas bênçãos.

Deus não faz acepção de pessoas, o que demonstra que todos aqueles que são recebidos por filhos passam a ter as mesmas condições que o Filho amado. Também são eleitos.

Por fim, verifica-se que os salvos é que são eleitos. Não há como os perdidos serem eleitos. Só os salvos é que são santos e irrepreensíveis diante de Deus.

Observe as análises:

  • Quem são os eleitos? Paulo responde: nós! Como Paulo fala de algo que ocorreu no passado (elegeu), segue-se que hoje os cristãos estão na condição de eleitos: são santos e irrepreensíveis, pois para isso foram eleitos. Quando Paulo fala que ‘nos elegeu’, ele demonstra que os cristãos (os salvos, aqueles que nasceram de novo), é que são os eleitos, e não aquele que ainda se encontra no pecado. Temos definido aqui quem foi eleito: os cristãos por estarem em Cristo;
  • Qual o objetivo pelo qual Deus ‘nos elegeu’? Paulo responde: para que fossemos santos e irrepreensíveis. Os perdidos não foram escolhidos para este mister, mas os cristãos é que foram eleitos para serem santos e irrepreensíveis diante de Deus (nos elegeu! ‘Nos’ quem? …nós, os que primeiro esperamos em Cristo). Aqueles que não esperam em Cristo não são os eleitos de Deus “…nós os que primeiro esperamos em Cristo” (v. 12);
  • Qual o critério da escolha dos que estão em Cristo? A pessoa de Cristo. Os cristãos foram escolhidos com base em Cristo. Cristo é o eleito de Deus antes mesmo da fundação do mundo “Eis aqui o meu servo, a quem sustenho, o meu eleito, em quem se apraz a minha alma; pus o meu espírito sobre ele; ele trará justiça aos gentios” ( Is 42:1 ). Cristo é o santo de Deus; Ele é o justo. O cristão, por ser participante de Cristo, passa a ser santo e irrepreensível diante de Deus. Cristo é a base da nossa eleição, e por ele ser a base, não havia a necessidade de existirmos, mas a escolha já estava definida: todos os que nascerem de Deus passam a ser santos e irrepreensíveis. O cristão nem mesmo existia quando se definiu quem haveria de receber a condição de eleito, e agora, após serem conhecidos por Deus os ‘novos homens’ passam a ser santos e irrepreensíveis;
  • Antes da fundação do mundo já estava definida a eleição; não há mérito por parte dos eleitos, visto que nem mesmo existiam. Com relação a quando ocorreu a eleição só a pessoa de Cristo participou, os méritos estavam nele; após nascermos de Deus, nós nos tornamos participantes das bênçãos restritas aos filhos de Deus: somos santos e irrepreensíveis.

 

O apóstolo Paulo, em momento algum aponta uma escolha entre os perdidos para a salvação. Antes ele aponta que os cristãos são escolhidos para a condição de santos e justos diante de Deus.

Se Deus nos elegeu no passado em Cristo, hoje somos eleitos, estamos de posse das prerrogativas para qual fomos eleitos.

Basta nascer de novo por meio de Cristo que o homem estará na condição de eleito de Deus.

Sobre o propósito eterno de Deus ao escolher a Cristo, veremos nos próximos versículos.

 

Predestinação

5 E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade,

Os parâmetros de interpretação utilizados no versículos anteriores são totalmente válidos neste versículo:

“E nos elegeu nele (…) para que fossemos santos e irrepreensíveis…”

“E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo…”

Observe:

  • O contexto demonstra que Paulo estava adorando a Deus por bênçãos recebidas;
  • A carta foi remetida a cristãos, ou seja, pessoas que conheciam e professavam o evangelho;
  • Os dois versículos utilizam o verbo no pretérito perfeito;
  • Os dois versículos demonstram que eles haviam adquiridos as bênçãos em Cristo.

Mas, para que o entendimento do texto seja pleno, utilizaremos uma outra abordagem para melhor elucidar o texto, sendo que ela também poderá ser aplicada ao versículo anterior.

O apóstolo aponta neste verso uma outra bênção adquirida por aqueles que estão em Cristo: a predestinação.

Paulo continua demonstrando que ele e os cristãos de Éfeso eram alvos das bênçãos de Deus. Se houver dúvidas sobre quem são os predestinados, basta perguntar: Quem são os predestinados? E Paulo arremata: nós! Nós quem? Paulo e os santos que estavam em Éfeso.

Segue-se que a predestinação é bênção da parte de Deus para aqueles que foram Regenerados ou por estarem em Cristo.

Mas, como ter certeza de que a predestinação não é direcionada aos perdidos? Como ter certeza que a predestinação é exclusiva daqueles que estão em Cristo?

  1. Devemos observar atentamente a relação que Paulo estabelece entre a primeira pessoa do plural do caso reto “nós” e a segunda pessoa do plural do caso reto “vós”;
  2. Não podemos nos esquecer que Paulo era um Judeu que se tornou cristão, e os cristãos de Éfeso eram gentios que se converteram ao evangelho; JUDEUS E GENTIOS são povos distintos, mas em Cristo são um (passaram pelo novo nascimento), o que explica também porque Paulo ao se referir à sua condição anterior, não se une aos efésios na narrativa.
  3. De posse destas duas informações iniciais, verifica-se que Paulo ao falar das bênçãos divinas concedidas aos cristãos, ele se inclui na narrativa “E nos elegeu (…) E nos predestinou…” ( Ef 1:4 e 5). Mas, ao falar da condição dos cristãos gentios quando eles ainda estavam no pecado, Paulo utiliza o “vós”: “Ele vos vivificou, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados…” ( Ef 2:1 ).
  4. Observe o que Paulo escreveu aos Gálatas: “Nós somos judeus por natureza, e não pecadores dentre os gentios” ( Gl 2:15 ). Paulo evidência uma diferença sutil entre ser pecador dentre os gentios e pecador dentre os judeus para expor uma verdade crucial do evangelho: Nós os Judeus não somos justificados pelas obras da lei.
  5. Na carta aos Efésios esta diferença é ainda mais sutil, mas contrasta com o resultado após o encontro com Cristo: A paz entre ambos os povos! Por isso, ao falar dos cristãos gentios quando no pecado, Paulo utiliza o vós; ao fazer referência a TODOS os filhos da desobediência, Paulo se inclui, demonstrando que no passado, sem Cristo, tanto Judeus quanto gentios eram filhos da ira “Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também” ( Ef 2:3 ).
  6. Ao falar da salvação, Paulo em nenhum momento faz referência à eleição e predestinação, mas sim ao amor e graça de Deus. Todos eram filhos da ira (judeus e gentios), mas o amor de Deus alcançou a todos através de sua maravilhosa graça.

 

Toda a análise demonstra que Deus predestinou os salvos, aqueles que eram cristãos e que Paulo se incluiu na narrativa: “E nos predestinou…”, ou seja, nós, os cristãos, somos predestinados por Deus para sermos filhos por adoção.

Haveria como os perdidos serem filhos de Deus por meio da predestinação? Não! Se não houver a regeneração por meio da graça do evangelho, homem algum será recebido por filho de Deus. O homem só é recebido por filho de Deus quando encontra-se em Cristo.

Estar em Cristo é a condição necessária para ser predestinado a filho por adoção.

Mas, o que é ser predestinado? Qual a idéia que a palavra ‘predestinado’ introduz?

Predestinar significa determinar previamente ou antecipadamente e decorre do sentido da palavra grega prooriso.

A idéia secular a respeito da predestinação aponta para destino, carma, sem opção de futuro, etc. Para o entendimento natural, todas as pessoas possuem um destino pré-definido.

Porém a bíblia demonstra que só os que estão em Cristo é que são predestinados. O restante da humanidade, diante do que expõe a bíblia, não nascem predestinados.

Todos os homens ao nascerem, nascem na condição de filhos da ira, mas em momento algum a bíblia os designa como sendo predestinados a perdição. Por que? Porque a todos os homens é dada a opção de decidirem-se pela graça de Deus. Ninguém nasce predestinado à perdição. Todos possuem uma opção: a graça de Deus!

Agora, por que Paulo diz que os cristãos foram predestinados por Deus? Porque para aqueles que estão em Cristo não existe opção de escolha quanto ao que serão: todos serão filhos por adoção, sem exceção. Como? Em momento algum Paulo diz que Deus predestinou alguém à salvação. Paulo diz que Deus predestinou os cristãos a serem filhos por adoção.

Se Deus houvesse predestinado alguém à salvação, seria o mesmo que dizer que ele predestinou o restante da humanidade à perdição, o que não é verdade. Mas é fato: Aqueles que aceitarem a graça de Deus oferecida por meio do evangelho, serão filhos de Deus, sem exceção.

Alguns alegam que a eleição é um ato de escolha e que a predestinação diz respeito ao fim para essa escolha. Mas o texto não diz isto. Paulo diz que o fim para eleição é a santidade e irrepreensibilidade. da mesma forma a predestinação tem um objetivo bem claro: a filiação divina, e não a salvação.

A eleição e a predestinação devem ser vistas como bênçãos garantidas por Deus. Paulo procurou evidenciar a segurança da salvação em Cristo por meio de termos que demonstrassem a posse das bênçãos espirituais.

“E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade”

Predestinados por Deus para serem filhos por adoção em Cristo. Tanto judeus quanto gentios eram filhos da ira, e por meio da graça do evangelho, são recebidos por filhos.

Observe que Deus, segundo a sua vontade quer filhos para si. Paulo demonstra que a vontade de Deus não é outra, senão que, por meio de Cristo, sejamos seus filhos.

 

Louvor e Glória

6 Para louvor e glória da sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado,

Paulo demonstrou que Deus nos elegeu para sermos santos e irrepreensíveis e nos predestinou para filhos por adoção, segundo a sua vontade. Este versículo aponta o motivo pelo qual Deus abençoou os cristãos com as bênçãos da eleição e predestinação.

Por que Deus elegeu? Por que Deus predestinou? Para louvor e glória da sua graça!

Sobre o que este versículo trata? Sobre a salvação de Deus “Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens” ( Tt 2:11 ).

Não foi a eleição e a predestinação que nos fez agradáveis a Deus, e sim a sua graça.

A graça de Deus que se manifestou por meio do evangelho foi direcionada aos pecadores e os fez agradáveis a Deus, tornando-nos agradáveis a si, Deus nos abençoa com eleição e predestinação. Se a graça de Deus é que nos fez agradáveis (que nos salvou), não há como afirmar que a salvação depende da eleição e da predestinação.

Em Cristo, Deus nos fez seus filhos por meio do evangelho, e a predestinação e eleição são referências à garantia divina.

A salvação foi realizada por meio de Cristo (Amado), conduzindo muitos filhos a Deus (para si mesmo).

Conclui-se que a salvação é por meio da graça, e não o resultado de uma escolha. Deus trouxe salvação a todos os homens de maneira graciosa, sem qualquer referência a uma ‘predestinação’ de alguns ‘privilegiados’ à salvação.

 

7 Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça,

Paulo retroage quanto à exposição das verdades contidas no evangelho: Primeiro ele bendiz a Deus pelas bênçãos recebidas para depois falar da graça recebida por meio do evangelho.

A ordem correta é:

  1. A riqueza da graça por meio do evangelho (salvação) (v. 7);
  2. A redenção pelo sangue (v. 7);
  3. Ser feito agradável a Deus em Cristo (Regeneração) (v. 6);
  4. Adquirir a filiação por adoção (Predestinação) (v. 5);
  5. Ser santo e irrepreensível perante Deus (Eleição) (v. 4).

Em Cristo o cristão teve a redenção por meio do seu sangue. É difícil aparecer nas cartas de Paulo frases que expliquem a idéia presente na frase anterior de forma direta. Este versículo foge à regra. A redenção por meio do sangue de Cristo é o mesmo que remissão das ofensas “…no qual temos a redenção, a remissão dos pecados” ( Cl 1:14 ). Comprados e libertos por Cristo.

Todas as bênçãos recebidas é por meio, ou segundo as riquezas da graça de Deus.

Como a redenção e a remissão é segundo as riquezas da graça de Deus ( Ef 1:7 ), a eleição e a predestinação também o é: “… para louvor e glória da sua graça, a qual nos deu gratuitamente no Amado” ( Ef 1:6 ).

A Eleição, a Predestinação, a Redenção e a Remissão são bênçãos de Deus dadas gratuitamente segundo as riquezas da graça de Deus. Elas são dadas, ou seja, concedidas a todos quantos crêem. Não é uma escolha.

 

8 Que ele fez abundar para conosco em toda a sabedoria e prudência;

A graça de Deus abundou por meio de Cristo, ou seja, tal graça foi derramada profundamente sobre os cristãos em sabedoria e prudência. Como em sabedoria e prudência (entendimento)?

 

9 Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo,

Além da riqueza da salvação, concedida gratuitamente, Deus revelou o mistério da sua vontade, o que nos concede sabedoria e entendimento das coisas celestiais.

A riqueza da salvação faz parte do propósito eterno de Deus, e após nos inteirarmos do propósito divino revelado em sabedoria e entendimento, verifica-se que a salvação não é um fim em si mesmo.

Há no propósito eterno de Deus (que propusera em si mesmo) um objetivo maior do que simplesmente salvar. Ou seja, Deus salva o homem para levá-lo a cumprir um propósito revelado, o que torna este propósito plenamente compreensível pelo homem.

Beneplácito é consentimento, ou seja, aprovação! “E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade (…) Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo” ( Ef 1:5 e 9).

Se é segundo o que Deus aprovou (consentiu), está demonstrada a garantia de Deus quanto aquilo que ele nos revelou. Deus aprovou e consentiu fazer todas as coisas em Cristo.

 

10 De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra;

Deus nos ‘fez’ agradáveis por meio de Cristo com o objetivo maior de reunir em Cristo todas as coisas. Deus reunirá em Cristo todas as coisas, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra ( Ef 3:9 ).

‘nos fez herança’ ou ‘nos fez agradáveis’ refere-se a nova criação, onde Deus concede poder àqueles que crêem para serem feitos (criados) filhos de Deus.

 

11 Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade;

Em Cristo fomos feitos herança! E Paulo demonstra de que maneira os cristãos foram feitos herança: por meio da Predestinação. Os cristãos foram predestinados conforme o propósito de Deus e segundo a vontade de Deus feitos herança. Como?

Além dos filhos de Deus terem direito à herança, também fomos feitos herança, fomos feitos propriedade de Deus conforme esclarece o versículo quatorze “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” ( 1Pe 2:9 ); Fostes comprados por bom preço; não vos façais servos dos homens” ( 1Co 7:23 ).

O salmista diz que os filhos são herança do Senhor que o homem recebe, porém, ao gerar em Cristo filhos para si, Deus nos constituí ‘herança’ para si “Eis que os filhos são herança do SENHOR, e o fruto do ventre o seu galardão” ( Sl 127:3 ).

 

12 Com o fim de sermos para louvor da sua glória, nós os que primeiro esperamos em Cristo;

Qual a diferença entre o versículo seis e doze?

“Para louvor e glória da sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado” (v. 6);

“Com o fim de sermos para louvor da sua glória, nós os que primeiro esperamos em Cristo” (v. 12).

O versículo seis mostra que as bênçãos que acompanham a salvação em Cristo constituem-se de per si louvor e gloria à graça de Deus.

Já o versículo doze demonstra que Deus levou a efeito a sua vontade com o objetivo de sermos para louvor da sua glória.

Observe que o louvor difere da adoração. Paulo adora, ou bendiz ao Senhor pelas bênçãos recebidas, porém estas mesma bênçãos constituem-se em louvor à graça e glória de Deus. Este é Deus quem promove, e aquele refere-se ao reconhecimento do homem. Adoração e louvor diferem quanto à essência.

A obra de Deus (que faz do pecador homens criados em verdadeira justiça e santidade), é que enaltece (verdadeiro louvor) a glória do Senhor! Mas, o ato misericordioso de arrancar o pecador das garras do pecado, concedendo-lhe bênçãos espirituais, promove louvor à sua tão maravilhosa graça proposta no evangelho.

Sobre quem o apóstolo estava falando? Incrédulos ou crentes? A resposta é clara: nós os que primeiro esperamos em Cristo! Só aquele que espera na graça revelada em Cristo serve de louvor à glória e graça de Deus. O descrente não serve a este propósito.


Há uma mudança de contexto do versículo treze em diante.

O apóstolo Paulo passa da adoração a Deus à conscientização dos cristãos.

Observe o recurso utilizado por ele para continuar a carta quando muda de contexto.

Até o versículo doze Paulo utiliza a primeira pessoa do plural (nós) demonstrando a unidade dos cristãos; ao passar a conscientização, Paulo utiliza a segunda pessoa do plural (vós).

Paulo tinha convicção do que ele havia recebido em Cristo (salvação e bênçãos), e queria que os cristãos de Éfeso também possuíssem esta certeza. Daí o fato de ele utilizar a segunda pessoa do plural na narrativa.

 

Conscientização sobre a Nova Condição

13 Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa.

“Nele, digo, em quem também fomos feitos herança…” (v. 11); Primeira pessoa do plural.

“Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade…” (v. 13). Segunda pessoa do plural.

Paulo passa a conscientizar os cristãos sobre a nova condição adquirida por meio de Cristo.

O que ocorre é simples: após ouvir a palavra do evangelho, e crer em Cristo, a palavra da verdade torna-se o evangelho da salvação. Todos que ouvem e crêem são salvos em Cristo.

Paulo dá veracidade às suas argumentações: fostes selados, ou seja, tudo que ocorre com os Cristãos é autentico, conforme o Espírito Santo prometido atesta “O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” ( Rm 8:16 ).

 

14 O qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória.

Penhor: garantia, segurança, ou a coisa que constitui essa garantia. Penhor fala de direito real sobre algo vinculado a uma dívida, surgindo como garantia do pagamento de tal dívida.

O Espírito Santo é garantia da nossa herança, ou seja, Ele é garantia, Ele se constitui a nossa garantia do direito real que possuímos ao sermos recebidos por filhos.

“…fostes selados com o Espírito Santo da promessa. O qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida…” (v. 13- 14).

O próprio Consolador enviado se interpõe como garantia da herança que recebemos. O penhor deve ter valor equivalente à dívida contraída, e nós que estamos em Cristo já recebemos o que é superior a própria herança: o Espírito Santo de Deus! Que garantia! Que segurança!

Os cristãos foram selados com o Espírito Santo da promessa, o que é superior a própria herança. Mas, por que fomos selados? A resposta é: Para redenção da possessão adquirida por Deus.

Aqui, redenção significa libertação futura! Os cristãos foram selados para uma libertação futura, conforme o versículo seguinte: “E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual estais selados para o dia da redenção” ( Ef 4:30 ).

A redenção deste versículo ( Ef 4:30 ) difere da redenção apontada no verso 7. Enquanto a Redenção do versículo sete é bênção alcançada, a deste versículo refere-se ao grande dia da Redenção.

 

Pedidos em Oração

15 Por isso, ouvindo eu também a fé que entre vós há no Senhor Jesus, e o vosso amor para com todos os santos, 16 Não cesso de dar graças a Deus por vós, lembrando-me de vós nas minhas orações:

Depois das garantias apresentadas até o versículo quatorze para aqueles que estão em Cristo, Paulo comunica aos cristãos que não cessava de agradecer a Deus por ouvir da fé que havia nos cristãos em Éfeso e que eles amavam os santos de Deus ( Ef 1:3 ).

Este versículo demonstra o quanto os cristãos foram tocados pela mensagem do evangelho. Observe que, através da oração de Paulo fica demonstrado que eles estavam cumprindo o mandamento de Deus, conforme atesta o apóstolo João: “Ora, o seu mandamento é este, que creiamos no nome do seu Filho Jesus Cristo, e, segundo o mandamento que nos ordenou” ( 1Jo 3:23 ).

A fé dos cristãos era conforme o mandamento ‘que nos ordenou’, ou seja, ‘a fé que entre vós há no Senhor Jesus’. O amor deles era ‘para com todos os santos’, ou seja, eles amavam segundo o mandamento ordenado: ‘amemos uns aos outros’.

Há um paralelo sem igual entre o que João expõe, e o que Paulo observa entre os cristãos de Éfeso.

Paulo não só agradecia, mas também lembrava constantemente dos cristãos quando em oração. Por que Paulo não se esquecia de orar a Deus pelos cristãos? A resposta está no versículo seguinte:

 

17 Para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos dê em seu conhecimento o espírito de sabedoria e de revelação;

Do versículo três ao versículo quatorze Paulo agradece e conscientiza os cristãos das bênçãos já recebidas. Deste versículo em diante Paulo pede a Deus algumas coisas que os cristãos em Éfeso ainda não possuíam. Se Paulo ora fazendo esta petição, é porque ele considera uma necessidade premente a ser satisfeita. Apesar de já serem idôneos e participantes das bênçãos eternas pela união com Cristo, havia a necessidade de sabedoria e revelação (espiritual).

Paulo não pede para si, mas pelos os cristãos de Éfeso, que lhes fossem dado sabedoria e revelação. Por meio de Cristo os cristãos conheciam a Deus, ou antes, foram conhecidos por Ele Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” ( Gl 4:9 ).

Paulo, ao falar ‘espírito’ de sabedoria e revelação, estabelece aí distinção entre a sabedoria humana e a sabedoria que só é alcançada quando revelada pelo Espírito Santo de Deus.

 

18 Tendo iluminados os olhos do vosso entendimento, para que saibais qual seja a esperança da sua vocação, e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos;

A sabedoria e a revelação vinda de Deus dá luz ao entendimento do novo homem gerado em Cristo.

Por mais que Paulo procurasse conscientizar os cristãos das bênçãos recebidas, o pleno esclarecimento só é alcançado em plenitude através do conhecimento de Deus “…em seu conhecimento…” (v. 17). Conhecimento aqui não é ‘saber’, ou estar ‘ciente de’.

O ‘conhecimento’ que Paulo faz referência diz de união intima, assim como quando o homem e a mulher tornam-se um (conheceu o homem a mulher). Ou seja, quando a bíblia diz que um homem conheceu uma mulher, é porque os dois se tornaram um. Diz de conhecimento íntimo e inviolável.

Paulo demonstra qu

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O primeiro e o último Adão

O ritualismo, o formalismo e o legalismo são ferramentas utilizadas para caracterizar devoção religiosa. Criam mecanismos para medirem e serem medidos e forçam outros a seguirem o que preceituam como necessário à salvação. Estabelecem padrões de justiça e santidade a ser seguido. Procuram lições provenientes do paganismo e das filosofias humanas.


“Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante” ( 1Co 15:45 )

Adão e Cristo são os dois personagens de maior importância para a interpretação bíblica.

Grande parte das parábolas de Jesus e das figuras do Novo Testamento são referências específicas aos eventos no Éden e da cruz. Muitas figuras e parábolas ilustram as conseqüências destes eventos para a humanidade.

Um exemplo é a parábola dos ‘Dois Caminhos’, que, implicitamente, faz referência as conseqüências decorrentes dos eventos que sucederam no Éden e na cruz.

Observe: Adão foi feito (criado) alma vivente e participante da vida que há em Deus, porém, após desobedecer à determinação divina passou a condição de morto para Deus. A ‘nova’ condição de Adão após a queda passou a ser de sujeição ao pecado pela natureza adquirida.

A sujeição ao pecado deixou Adão em inimizade com Deus, e por causa da condenação deixou de ser participante da vida que há em Deus, passando a viver para o mundo e suas concupiscências (morto para Deus e vivo para o mundo).

Todos os nascidos de Adão (nascidos da carne, vontade do varão e do sangue) passaram a condição de filhos da ira e da desobediência. Desta forma todos os homens passaram a estar destituídos da glória de Deus, pois todos pecaram.

Esta condição pertinente à toda humanidade é ilustrada através da parábola das duas portas e dos dois caminhos, ou seja, todos os homens ao nascerem, por serem descendentes de Adão, entram pela porta larga, e seguem pelo caminho espaçoso que conduz à perdição ( Mt 7:13 ).

Em Adão todos os homens morreram e destituídos estão da glória de Deus. Em Adão, a ‘porta larga’, todos os homens seguem o caminho de perdição. Todos os homens morreram em Adão e passaram a viver para o pecado, para o maligno e para o mundo.

Porém, através do último Adão, que por Deus constitui-se espírito vivificante, todos os que creem entram pela porta estreita, ou seja, nascem de novo. São criados por Deus em verdadeira justiça e santidade, segundo o poder concedido através do evangelho, sendo feitos (criados) filhos de Deus ( Jo 1:12 ).

Passam a trilhar o caminho estreito que conduz à vida. O caminho é estreito porque poucos entram por ele, ou seja, quando se fala em quantidade, muitos vem ao mundo segundo Adão, e poucos são os que creem para a salvação, segundo o último Adão, que é Cristo.

Em números absolutos, em Adão todos morreram, e em Cristo, o último Adão, todos quantos crerem também morre. Em Adão toda a humanidade morreu e passou a viver para o mundo, em Cristo, o último Adão, todos os que creem, morrem para o pecado, para o maligno e para o mundo, e são de novo criados, e passam a viver para Deus. Amém.

Outro exemplo é a figura dos “vasos”, conforme Paulo escreveu aos Romanos, veja: “Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” ( Rm 9:21 ). Como entender esta figura apresentada por Paulo?

Sabemos que Deus é o oleiro, e é Ele que detém o poder sobre o barro, que é o homem. Todos os homens decorrem de uma mesma massa, ou seja, todos são alma viventes conforme Adão.

Todos os homens que vêem ao mundo são criados pelo poder de Deus, porém, por serem descendentes de Adão, todos são feitos vasos para desonra. Todos os descendentes de Adão são vasos para ira, preparados para perdição. Através deles Deus demonstra a sua ira, e dá a conhecer o seu poder, suportando-os com muita paciência.

Deus chama pacientemente os vasos preparados para a ira a fim de torná-los vasos para honra, ou seja, o evangelho é o chamado de Deus a todos os homens nascidos segundo Adão. Todos os cristãos foram chamados por Deus, e neles é demonstrado o poder de Deus e as riquezas de sua graça. Todos os que são chamados e crêem são os vasos de misericórdia, e, portanto, vasos para a honra.

Observe que, tanto os nascidos em Adão e os nascidos em Cristo constituem-se vasos e são formados da mesma massa como nos afirma “Mas não é primeiro o espiritual, senão o natural; depois o espiritual” ( 1Co 15:46 ). Todos os homens precisam ser feitos almas viventes (homem natural), para depois serem criados espirituais (homem espiritual).

Quando criados, os homens naturais passam à condição de escravos do pecado, por causa do pecado de Adão. Percebe-se então que, o grande diferencial é, os nascidos segundo Adão são vasos para a desonra, e os nascidos em Cristo são vasos para honra.

Quando o leitor não compreende a verdade sobre os eventos da cruz e do Éden, acaba por interpretar a bíblia erroneamente. Ao deparar-se com parábolas e ilustrações como as apresentadas acima terão um entendimento segundo a concepção humana, e permanecerá enfatuado, segundo uma carnal compreensão.

Muitos interpretam que a porta é larga porque as pessoas do mundo estão entregues aos prazeres, são sensuais, céticas e criminosas. Entendem que a porta é larga por não apresentar ‘dificuldades’ ou condições para entrada. Entendem que o caminho estreito está diretamente relacionado com dificuldades, proibições, restrições de ordem moral, comportamental e religiosa.

Entendem que, para trilhar o caminho estreito, ou que, para entrar pela porta estreita basta seguir preceitos religiosos, cumprir leis nacionais, ou seguir filosofias de vida.

Diante deste entrave surgem muitas religiões, igrejas e denominações. Avolumam-se os discursos sobre disciplina, sofrimento, penitências, orações, rezas, moralidade, santidade, serviço, pró-atividade. As qualidades procedentes do ego humano são louvadas insistentemente, como: coragem, determinação, empenho, disciplina, resignação, etc.

O ritualismo, o formalismo e o legalismo são ferramentas utilizadas para caracterizar devoção religiosa. Criam mecanismos para medirem e serem medidos e forçam outros a seguirem o que preceituam como necessário à salvação. Estabelecem padrões de justiça e santidade a ser seguido. Procuram lições provenientes do paganismo e das filosofias humanas.

Esquecem de observar o que Jesus disse a Nicodemos: “Em verdade, em verdade te digo que quem não nascer de novo, não pode ver o reino dos céus” ( Jo 3:3 ). Não observam que o ‘melhor’ da religião, da lei, da moral, do comportamento não faz o homem agradável a Deus, e, por tanto, esquecem também a recomendação de Jesus a um dos mestres do judaísmo: nascer de novo.

O mundo ainda continua apegado a elementos fracos e pobres, que não pode livrar o homem da condição de sujeição ao pecado ( Gl 4:9 -10).

O apóstolo Paulo demonstra estar consciente das conseqüências decorrente da desobediência de Adão e da obediência de Cristo ao escrever aos cristãos de Corinto ( 1Co 15:45 -50).

Ao escrever a Timóteo, Paulo alerta sobre este pretenso ‘evangelho’: “Mas o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos alguns apostatarão da fé (…) que proíbem o casamento, e ordenam a abstinência de alimentos” ( 1Tm 4:1 -3).

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O Temor do Senhor e a loucura dos ímpios

O termo ‘louco’ nas Escrituras é utilizado para fazer referência ao povo de Israel que não acatavam o ‘conhecimento de Deus’. Quando Jesus nomeou os escribas e fariseus de ‘loucos’, assim o fez porque seus interlocutores não sabiam o caminho e o juízo de Deus, a quem diziam que serviam “Loucos! Quem fez o exterior não fez também o interior?” ( Lc 11:40 ); “E ele lhes disse: Ó néscios, e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram!” ( Lc 24:25 ).


 

“O temor do SENHOR é o princípio do conhecimento; os loucos desprezam a sabedoria e a instrução” ( Pv 1:7 )

Os seis primeiros versículos do livro de Provérbios deixam claro qual é o objetivo do livro: conceder aos seus leitores o conhecimento necessário para que se possa entender os adágios, as parábolas, os enigmas e as proposições que são empregadas nos livros da bíblia.

O verso sete do capítulo um contém a primeira proposição do pregador, que demanda uma análise detalhada.

O que significa ‘o temor do Senhor’? Deus quer que os homens tenham medo d’Ele? Quem são os loucos?

Para interpretar este provérbio, se faz necessário analisar os versos seguintes:

“Para fazeres o teu ouvido atento à sabedoria (…) se como a prata a buscares e como a tesouros escondidos a procurares, então entenderás o temor do SENHOR, e acharás o conhecimento de Deus” ( Pv 2:2 -5).

Com base no verso 5 do capítulo 2, verifica-se que o ‘temor’ não é um sentimento de inquietação, pavor, receio, antes refere-se a um conhecimento, um saber revelado por Deus que demanda compreensão (ouvido atento) por parte do homem.

Observe o seguinte verso: “E disse Moisés ao povo: Não temais, Deus veio para vos provar, e para que o seu temor esteja diante de vós, afim de que não pequeis” ( Ex 20:20 ). Não ter medo de Deus é uma ordem: não temais! Essa ordem deixa claro que ‘o temor do Senhor’ não é ter medo (receio), visto que Ele ordena a não ter medo d’Ele.

Qual o temor que deveria estar diante do povo de Israel? Qual temor é o princípio da sabedoria? Ora, o ‘temor’ é um modo enigmático de se fazer referência à palavra de Deus, pois esta é a ideia que se depreende dos versos seguintes:

  • “No temor do SENHOR há firme confiança e ele será um refúgio para seus filhos” ( Pv 14:26 );
  • “Vinde, meninos, ouvi-me; eu vos ensinarei o temor do SENHOR” ( Sl 34:11 );
  • “… pelo temor do SENHOR os homens se desviam do pecado” ( Pv 16:6 ).

Estabelecer tais relações e comparações é essencial para que se possa compreender o provérbio. Comparando os dois versos a seguir, é fácil distinguir o significado dos termos e a relação entre eles:

“Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti” ( Sl 119:11 );

“… e para que o seu temor esteja diante de vós, afim de que não pequeis” ( Ex 20:20 ).

O salmista deixa claro que, para não pecar contra Deus é necessário que se esteja de posse da palavra de Deus no coração e, esta mesma palavra que se estabelecerá no coração através da compreensão também é designada temor.

A introdução ao livro de Provérbios ( Pv 1:1 -6) é melhor compreendido a luz dos versos abaixo:

“Então entenderás o temor do SENHOR, e acharás o conhecimento de Deus. Porque o SENHOR dá a sabedoria; da sua boca é que vem o conhecimento e o entendimento. Ele reserva a verdadeira sabedoria para os retos. Escudo é para os que caminham na sinceridade…” ( Pv 2:5 -7).

Quem ouve a palavra de Deus (faz atento o ouvido) entenderá e achará o conhecimento, pois da boca de Deus procede o conhecimento e o entendimento.

O provérbio “O temor do SENHOR é o princípio do conhecimento…” ( Pv 1:6 ), é uma chave mestra que desvenda o mistério que havia em torno da pessoa do Filho de Deus. É uma referência implícita à pessoa de Cristo, pois em Cristo está escondido todos os tesouros da sabedoria e da ciência “Porque em tudo fostes enriquecidos nele, em toda a palavra e em todo o conhecimento” ( 1Co 1:5 ).

Se o temor do Senhor procede da boca de Deus ( Pv 2:6 ), claro está que o temor do Senhor é uma referência implícita a pessoa de Cristo, pois ele é a Palavra, o Verbo de Deus encarnado “Para que os seus corações sejam consolados, e estejam unidos em amor, e enriquecidos da plenitude da inteligência, para conhecimento do mistério de Deus e Pai, e de Cristo, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência” ( Cl 2:2 -3).

Cristo é o Temor do Senhor, pois Ele mesmo disse: “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam” ( Jo 5:39 ).

Inequivocamente podemos considerar que Cristo é o ‘Temor de Deus’ pois ele é a sabedoria de Deus “Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção” ( 1Co 1:30 ).

A Sabedoria referenciada em Provérbios 8, verso 22 foi revelada no Novo Testamento, como se lê em João 1, versos 2 a 3. No princípio era o Verbo, o Verbo estava com Deus e era Deus, ou seja, os livros Provérbios e João utilizam terminologias diferentes para fazer referência a Cristo: verbo=palavra=sabedoria.

Todas as coisas foram feitas por Cristo ( Jo 1:2 -3), conclui-se que a Sabedoria personificada em Provérbios refere-se a Cristo “O SENHOR me possuiu no princípio de seus caminhos, desde então, e antes de suas obras. Desde a eternidade fui ungida, desde o princípio, antes do começo da terra” ( Pv 8:22 -23).

  • “Vigiai justamente e não pequeis; porque alguns ainda não têm o conhecimento de Deus; digo-o para vergonha vossa” ( 1Co 15:34 ) – Qual é o conhecimento de Deus? Cristo ( 2Co 4:6 );
  • “Destruindo os conselhos, e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo” ( 2Co 10:5 ) – Cristo é a verdade, o conhecimento de Deus “Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” ( 1Tm 2:4 );
  • “Agora, pois, seja o temor do SENHOR convosco; guardai-o, e fazei-o; porque não há no SENHOR nosso Deus iniquidade nem acepção de pessoas, nem aceitação de suborno” ( 2Cr 19:7 ) – Este verso equipara o Temor do Senhor ao Senhor Deus, ou seja, o Temor é uma pessoa – “Se o Deus de meu pai, o Deus de Abraão e o temor de Isaque não fora comigo, por certo me despedirias agora vazio. Deus atendeu à minha aflição, e ao trabalho das minhas mãos, e repreendeu-te ontem à noite” ( Gn 31:42 );
  • “E disse ao homem: Eis que o temor do Senhor é a sabedoria, e apartar-se do mal é a inteligência” ( Jó 28:28 ) – Cristo é a sabedoria de Deus, portanto, o Temor do Senhor e, somente através d’Ele o homem aparta-se do mal estabelecido em Adão;
  • “Servi ao SENHOR com temor, e alegrai-vos com tremor” ( Sl 2:11 ) – Quando se lê que se serve ao Senhor com temor, isto implica servi-lo por intermédio de Cristo, o que os judeus não compreendiam ( Rm 9:2 );
  • “O temor do SENHOR é limpo, e permanece eternamente; os juízos do SENHOR são verdadeiros e justos juntamente” ( Sl 19:9 ) – Sabemos que a palavra do Senhor permanece para sempre “Mas a palavra do SENHOR permanece para sempre. E esta é a palavra que entre vós foi evangelizada” ( 1Pe 1:25 ).

Sendo Cristo a sabedoria de Deus, certo é que Ele é o ‘temor do Senhor’, porém, resta verificar quem são os ‘loucos’ que o verso 7 faz referência “O temor do SENHOR é o princípio do conhecimento; os loucos desprezam a sabedoria e a instrução” ( Pv 1:7 ).

Quando lemos que: ‘… tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz…’ ( Rm 3:19 ), certo é que a lei, os salmos, os provérbios e os profetas tem por público alvo os judeus, portanto, os que desprezavam a sabedoria e a instrução são os que viviam sob a lei “Eu, porém, disse: Deveras estes são pobres; são loucos, pois não sabem o caminho do SENHOR, nem o juízo do seu Deus” ( Jr 5:4 ).

Ou seja, o termo ‘louco’ nas Escrituras é utilizado para fazer referência ao povo de Israel que não acatavam o ‘conhecimento de Deus’. Quando Jesus nomeou os escribas e fariseus de ‘loucos’, assim o fez porque seus interlocutores não sabiam o caminho e o juízo de Deus, a quem diziam que serviam “Loucos! Quem fez o exterior não fez também o interior?” ( Lc 11:40 ); “E ele lhes disse: Ó néscios, e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram!” ( Lc 24:25 ).

Esta abordagem: “loucos”, se dava em função do desvio do povo de Israel, um vocábulo comum aos profetas de Deus “Assim diz o Senhor DEUS: Ai dos profetas loucos, que seguem o seu próprio espírito e que nada viram!” ( Ez 13:3 ).

O profeta Jeremias ao falar em nome do Senhor, acrescentou “Deveras o meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios, e não entendidos; são sábios para fazer mal, mas não sabem fazer o bem” ( Jr 4:22 ). Por desprezarem a palavra de Deus, o conhecimento e a instrução, o povo de Israel estava desvairado. Não conhecer o seu próprio Deus é loucura.

Ser néscio é antônimo de ser entendido. Qualquer que despreza o temor do Senhor despreza o conhecimento “O temor do SENHOR é o princípio do conhecimento; os loucos desprezam a sabedoria e a instrução” ( Pv 1:7 ).

O apóstolo Paulo ao fazer menção dos instrutores em Israel, assim os nomeou: instrutores dos néscios! De igual modo podiam ser considerados ‘mestres de crianças’, ou seja, de pessoas que não possuem uma mentalidade desenvolvida Instrutor dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei” ( Rm 2:20 ).

A conclusão paulina: “Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, mas como sábios…” ( Ef 5:15 ), é um alerta para que seus leitores não sejam faltos de entendimento, insensatos, ou seja, que compreendam a vontade de Deus. Portanto, os cristãos por terem aceitado a Cristo, a Sabedoria de Deus, são sábios, o que se contrapõe a figura dos judeus, que são néscios, pois ‘serviam’ a Deus sem entendimento ( Rm 9:2 ).

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