O Livro de Jó – Transcendendo a problemática do sofrimento

O íntegro Jó serve para demonstrar a triste condição da humanidade, em sujeição ao pecado, pois, o mais justo dos homens, não consegue satisfazer os reclamos da justiça divina! Mesmo a justiça, a integridade e a retidão de Jó são apresentadas como aquém do padrão de justiça de Deus, tanto que Jó foi repreendido e se arrependeu no pó e na cinza.


A justiça dos escribas e fariseus

Parte II

Talvez você já tenha imaginado a quantidade de pessoas que compunham a grande multidão, ao pé do monte, quando Jesus se posicionou diante dos seus discípulos para ensiná-los (Mateus 5:1). É imprescindível imaginarmos a quantidade de pessoas que formavam aquela multidão e a infinidade de problemas, frustrações, alegrias, esperanças, dúvidas, religiosidades, temores, que atormentavam os componentes da plateia, para a qual Jesus fez o seu grandioso discurso.

Enquanto as bem-aventuranças estavam sendo anunciadas, vejo esperança nos olhos dos ouvintes de Jesus, mesmo naqueles que não compreendiam a mensagem (Mateus 5:3-12).

Mas, quando foi dito que a justiça deles teria de ser superior à dos seus líderes religiosos, para obterem direito ao reino dos céus, vejo os semblantes decaírem pelo espanto e estupefação! Vejo no rosto daquelas pessoas o mesmo espanto que tomou de sobressalto os discípulos, quando perguntaram: – “Quem poderá, pois, salvar-se?” (Mateus 19:25), quando informados de quão difícil é entrar um rico no reino dos céus (Mateus 19:23).

Ora, se é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino dos céus, lembrando que Jesus proferiu tal discurso, após um rico retirar-se triste, mesmo ele tendo dito que guardava a lei desde a sua mocidade, como é possível ao comum do povo entrar no reino dos céus? (Mateus 19:20 e 23).

O que fazer para alcançar justiça superior por alguém que não mata, não rouba, não comete adultério, não furta, não diz falso testemunho, dá o dizimo de tudo? O que fazer para sobrepujar a justiça dos escribas e fariseus, religiosos que, aos olhos dos homens, pareciam justos? (Lc 18:11)

“Assim, também, vós, exteriormente, pareceis justos aos homens, mas, interiormente, estais cheios de hipocrisia e de iniquidade”. (Mateus 23:28)

O que fazer para alcançar justiça, de modo a ter direito ao reino de Deus? As pessoas que compunham aquela multidão precisavam ter um caráter ou uma moral semelhante ao caráter e à moral de Jó?

 

O sofrimento de Jesus

A história de Jó e a história de Cristo têm como pano de fundo o sofrimento, daí a pergunta: Porque o Filho de Deus sofreu, apesar de justo?

Quando os artistas narram a história de Cristo, o sofrimento que envolve a cruz é indispensável. As agruras que se iniciaram no monte das Oliveiras e culminaram com a morte de Jesus na cruz, são exploradas em minúcias.

Quando se narra a história de Cristo, o beijo da traição não pode ser ignorado. O sofrimento impingido pela traição de um amigo é umas das dores de ordem psíquica das mais cruentas, portanto, em nenhuma narrativa que se preze, o beijo da traição fica sem ser destacado (Mateus 26:50).

A condenação perpetrada durante a noite com o uso de falsas testemunhas, por líderes dos concidadãos do Cristo, bem como a sessão de espancamento e os vitupérios que se seguiram à revelia da lei, são elementos imprescindíveis para retratar, sob diversos ângulos, o sofrimento de um homem que só fez o bem.

Um artista consegue retratar com maestria uma multidão enfurecida, após ser incitada por líderes religiosos invejosos, bem como o escárnio dos soldados romanos, quando despiram Jesus e colocaram uma coroa de espinhos sobre a sua cabeça!

Entretanto, habilidade e perícia com palavras, películas, encenação, figurino, efeitos especiais, etc., não habilitam ninguém a compreender que, pela cruz, passou a redenção da humanidade.

Somente conhecendo as Escrituras, é possível ver, através do sofrimento doloroso na cruz, a obediência de Cristo à vontade do Pai, que resultou na redenção da humanidade.

Mas, para um homem natural, na história de Cristo, somente salta aos olhos o sofrimento de um homem bom, injustiçado por seus compatriotas.

O sofrimento é elemento intrínseco nas histórias de Cristo e de Jó, mas, ambas, não têm o sofrimento como elemento central, antes, revelam aspectos relevantes, acerca da justiça de Deus. Em ambas as histórias, o sofrimento é pano de fundo, que emoldura os eventos, que revelam a justiça de Deus.

 

A justiça de Deus contrastada com a justiça dos homens

A história de Jó possui um ingrediente essencial que evidencia a justiça de Deus: a integridade de Jó.

O autor do Livro de Jó dá testemunho de que Jó era um homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do mal (Jó 1:1). Após inúmeras releituras do Livro de Jó, saltou-me aos olhos que o motivo de Jó figurar como protagonista da história estava, especificamente, relacionado à sua integridade e não ao seu sofrimento.

A integridade de Jó serve de contraste para evidenciar o quanto a justiça de Deus é superior à justiça do homem ou, o quanto a justiça do homem está aquém da justiça de Deus.

O íntegro Jó serve para demonstrar a triste condição da humanidade, em sujeição ao pecado, pois, o mais justo dos homens, não consegue satisfazer os reclamos da justiça divina!  Mesmo a justiça, a integridade e a retidão de Jó são apresentadas como aquém do padrão de justiça de Deus, tanto que Jó foi repreendido e se arrependeu no pó e na cinza.

O padrão moral e a retidão de Jó são evidenciados na história com o condão de facilitar a distinção entre a justiça de Deus e a justiça dos homens, esta designada pelo profeta Isaías como ‘trapo de imundície’ e aquela como ‘veste de louvor’ (Is 64:6).

O sofrimento é questão de somenos importância, diante da necessidade de salvação, pertinente a todos os homens. A integridade de Jó destaca que o homem só é aceito por Deus por sua maravilhosa graça e não por suas memoráveis virtudes e qualidades morais.

Se Jó tivesse sido aceito com base na sua integridade, restaria somente desesperança para o restante da humanidade, mas, como o Livro de Jó demonstra que é impossível ao homem justificar-se a si mesmo, através de sua conduta e moral ilibada, vislumbra-se um conhecimento que produz alívio e paz aos homens.

Temos paz quando compreendermos que a justificação do homem independe de suas ações, pois Jó, mesmo inspirando o mais alto ideal de justiça humana, igualmente a todos os outros homens, teve que aguardar em Deus a sua salvação.

A temática do Livro de Jó tem relação direta com a pergunta que abriu o debate entre Jó e os seus amigos:

“Mas, como se justificaria o homem para com Deus?” (Jó 9:2b).

A resposta de Deus contida no Livro de Jó é objetiva e contém todos os elementos pertinentes à justificação do homem.

Somente uma má leitura conduz alguém a considerar que no Livro de Jó Deus mais pergunta que responde, ou que Jó esperou por uma resposta, onde sobrevieram somente perguntas.

 

Por que tinha que ser Jó?

– “Por que eu”?

Está é a primeira pergunta que formulamos quando ocorre um infortúnio em nossas vidas!

Embora o Pregador assevere que ‘tudo acontece igualmente ao justo e ao injusto’, qualquer adversidade é motivo para questionarmos: – “Mas, como pode ter ocorrido isso comigo, que sou dizimista fiel”? – “Eu não entendo como Deus permitiu esta mazela, se eu busco a Deus nas madrugadas”?

Quando atingidos por infortúnios, de pronto subimos em uma balança em que o ponteiro está atrelado aos nossos méritos, reputação, religiosidade, sentimentos, amarguras e questionamos a Deus sobre o motivo daquela adversidade!

Esse tipo de questionamento, quando parte de um não cristão é até compreensível. Se um não cristão vocifera e esbraveja contra os céus, não podemos censurá-lo. Mas, quando ouvimos tais queixas de um cristão, temos de nos perguntar, se alguma vez leu a seguinte passagem bíblica:

“Tudo sucede, igualmente, a todos; o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao puro, como ao impuro; assim, ao que sacrifica, como ao que não sacrifica; assim, ao bom, como ao pecador; ao que jura, como ao que teme o juramento. Este é o mal que há entre tudo quanto se faz debaixo do sol; a todos sucede o mesmo” (Eclesiastes 9:2-3)

Infortúnios ocorrem igualmente a todos! E sabe o porquê é exatamente assim? Porque Deus é justo!

Mas, se nós, mesmos carregados de tantos tropeços[1], como assevera Tiago, em sua epístola, questionamos o porquê passamos por reveses, que se dirá de alguém como Jó: “… homem íntegro, reto e temente a Deus que desviava-se do mal” (Jó 1:1)?

Com o seu currículo irrepreensível, mais que qualquer um, Jó poderia questionar: – “Por que eu”?

Na verdade, pela sua sujeição a Deus, Jó acabou declarando a mesma verdade que o Pregador, quando reconheceu que Deus dá e tira:

“Nu saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; o SENHOR o deu e o SENHOR o tomou: bendito seja o nome do SENHOR” (Jó 1:21).

“Como saiu do ventre de sua mãe, assim nu tornará, indo-se como veio; e nada tomará do seu trabalho, que possa levar na sua mão” (Eclesiastes 5:15)

O senso de justiça social e a conduta irrepreensível de Jó para com os seus semelhantes deveria fazê-lo questionar, de pronto, o motivo de tantas mazelas, no entanto, ele nos surpreende quando bendiz a Deus: – “Bendito seja o nome do Senhor”! (Jó 1:21)

Jó surpreende quando bendiz a Deus, após os infortúnios que lhe sobrevieram, o que nos faz perceber que, dentre tantos personagens bíblicos, o patriarca se destaca pela sua integridade e firmeza moral. Analisando, panoramicamente, as Escrituras, verifica-se que os demais personagens, geralmente, eram insignificantes (o menor), repreensíveis do ponto de vista moral e cometeram alguns desvios comportamentais.

O elemento a ser considerado no Livro de Jó é a sua integridade e retidão, pois não é possível apontarmos falhas de cunho moral nesse herói da fé, diferentemente de outros personagens como Abraão, Isaque, Jacó, Moisés, Davi, Jonas, Gideão, etc.

As histórias dos personagens bíblicos nos faz contemplar a graça e a misericórdia de Deus e nos identificamos com eles, pois, fica patente que somos sujeitos às mesmas paixões que eles, de modo que a graça de Deus foi superabundante sobre eles, da mesma forma que é sobre nós: “Elias era homem sujeito às mesmas paixões que nós e, orando, pediu que não chovesse e, por três anos e seis meses, não choveu sobre a terra” (Tiago 5:17).

Quando o rei Davi se deitou com Bate-Seba, mulher de Urias, e mandou matá-lo (2 Sm 11:4), vemos, de imediato, a misericórdia de Deus ao perdoá-lo, entretanto, quando analisamos a vida de Jó, o que nos salta aos olhos é o testemunho de Deus:

“Observaste a meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele; homem íntegro, reto e temente a Deus, e que se desvia do mal” (Jó 1:8).

Considerando que tudo o que foi escrito nas Escrituras tem o condão de ensinar (Romanos 15:4), e que foi Deus que apontou a integridade de Jó, resta concluir que Jó foi escolhido por Deus para figurar como personagem de uma das mais belas histórias da Bíblia, única e exclusivamente, pela sua integridade.

A lição que Deus ensina no Livro de Jó não dá para ser transmitida através da vida de heroínas da fé como Raabe e Tamar. Através da vida de homens como Gideão, Sansão, Jefté, Salomão, etc., não é possível transmitir com tamanha propriedade um conhecimento impar acerca da justiça de Deus e, por isso mesmo, o Livro evidencia a integridade de Jó e o torna personagem principal dessa trama maravilhosa.

Que conhecimento ou, que lição é esta? Evidenciar a justiça de Deus, contrastando com a justiça do homem mais justo e integro que já existiu! Através do melhor homem, somos convidados a considerar o quão impossível é ao homem justificar-se a si mesmo.

A integridade de Jó funciona como contraste[2], evidenciando o quão discrepante é a natureza da justiça humana, quando comparada à natureza da justiça de Deus.

As Escrituras dão conta de que não há homem que seja justo, nem sequer um (Eclesiastes 7:20; Salmos 53:3; Miqueias 7:2) e por não existir homem justo sobre a terra, Deus escolheu alguém inigualável entre os homens: Jó, para evidenciar a Sua justiça.

“E disse o SENHOR a Satanás: Observaste tu a meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desvia do mal” (Jó 1:8).

O termo hebraico traduzido por semelhante é כָּמֹ֙הוּ֙, transliterado kêmow ou kamow, segundo o Dicionário Strong, que significa: ‘como, assim como, semelhante a, quando, de acordo com, segundo’.

Não havia quem fosse semelhante a Jó no quesito integridade, retidão e temor a Deus, e esse foi o motivo de Jó ter sido selecionado por Deus para figurar como protagonista desse livro singular.

Diante da pergunta: – “Por que Jó”? A resposta é inequívoca: Jó foi escolhido por Deus por ser um homem de índole e comportamento ímpar.

 

O sofrimento de Noemi

A história de Noemi, assim como a história de Jó é dramática, no entanto, o questionamento acerca do sofrimento não ocorre. Por quê?

Embora o narrador do Livro de Rute não dê um testemunho direto acerca da índole e do caráter de Noemi, percebe-se nuances que apontam o quão virtuosa era essa mulher.

O Livro de Rute é do gênero narrativo e conta a história de uma moça moabita que se casou com um israelita, filho de Noemi. Para muitos, a história é um ‘ode’ à lealdade de Rute, uma mulher de grande caráter, para com sua sogra, Noemi.

Mas, o leitor deve atentar para o fato de que a história de Rute teve início com Elimeleque, um efrateu de Belém de Judá, à época em que os juízes julgavam.

O drama teve início com uma grande fome na terra de Israel, de modo que Elimeleque, juntamente com sua esposa, Noemi, e seus dois filhos, Malom e Quiliom, saíram a peregrinar nos campos de Moabe.

Durante a peregrinação, Elimeleque faleceu e Noemi ficou só, em terras estrangeiras, com os seus dois filhos. Com o passar do tempo, os filhos de Noemi se casaram com mulheres moabitas: Orfa e Rute. Em um período de dez anos, os dois filhos de Noemi faleceram, restando as três mulheres viúvas: Noemi, Orfa e Rute.

Noemi soube que, em Israel, havia pão e resolveu sair de Moabe e voltar a Belém. Porém, antes de retornar, resolveu despedir as suas noras, cada qual para os seus familiares. Orfa resolveu voltar para a casa de sua mãe, mas Rute resolveu seguir a Noemi.

Quando Noemi e Rute adentraram a cidade de Belém, os moradores se comoveram com o infortúnio que abatera sobre Noemi. Os habitantes de Belém ainda guardavam na lembrança Noemi, quando casada e com os seus dois filhos. Como os moradores de Belém ainda continuavam chamando Noemi pelo seu nome, que evocava um tempo de bonança e esperança, Noemi, em função da grande amargura e dor que sentia, pediu para que a chamassem de Mara.

Estas são as palavras do lamento de Noemi:

“Cheia parti, porém vazia o Senhor me fez tornar; porque, pois, me chamareis Noemi? Pois o Senhor testifica contra mim e o Todo-poderoso me tem afligido muito” (Rute 1:21).

Além da dor e da aflição pela perda do marido, Noemi, também, perdeu o bom nome que possuía, quando perdeu os seus dois filhos. O bom nome de Noemi estava vinculado ao fato dela ter dado dois filhos ao seu marido Elimeleque, pois, em Israel, todos tinham por bem-aventurada a casa que tivesse filhos, pela esperança da vinda do Messias.

Ora, mesmo em dor e aflição, assim como Jó, Noemi não infamou ao Senhor. Ela demonstrou ter consciência de que as aflições que lhe sobrevieram eram decorrentes da mão do Senhor, assim como Jó (Rute 1:13).

Jó perdeu os filhos, a saúde e foi acusado de pecado e Noemi perdeu a família, o bom nome, pois estava velha e não tinha condições de cumprir o seu papel: dar descendência ao seu marido.

Assim como Jó teve sete filhos e três filhas, quando recompensado por Deus, Noemi foi recompensada com o nascimento de Obede, filho de Boaz, com Rute. Através de Rute, Noemi ganhou boa fama entre os seus compatriotas e tornou-se bendita, como se a sua nora valesse por sete filhos (Rute 4:14-15).

Comparando a história de Jó com a história de Noemi, percebe-se que ambos sofreram um intenso revés na vida, no entanto, a história desta sofrida velha senhora não desperta questionamentos acerca da justiça de Deus frente às mazelas e tragédias[3] que acometem os justos.

Diferentemente da história de Noemi, que evidencia o cuidado de Deus para com a sua serva, a história de Jó foi redigida com o propósito de estimular o leitor a uma mudança de entendimento acerca da justificação do homem.

O essencial para compreender a justiça de Deus não é o sofrimento do personagem Jó, mas, os seus predicativos.  Já o sofrimento de Noemi evidencia o cuidado de Deus para com os que confiam, sem questionamentos, acerca da justiça de Deus.

 

Continua…


[1] “Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça em palavra, o tal é perfeito e poderoso para também refrear todo o corpo”. (Tiago 3:2)

[2] Para a nossa análise, adotaremos o conceito de contraste, como algo ou, alguém, diferente, único, que se distingue pelo valor maior, porque a oposição ou, a discrepância, nos permite distinguir um do outro.

[3] “O livro explora o velho, eterno e insolúvel problema da presença do mal no mundo, sobretudo na vida dos inocentes, dos que parecem sofrer sem razão alguma”. Lima, Héber S., Jó… Quando o Espinho Floresce, Edições Loyola, São Paulo, 1995, pág. 10.

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Judas – Defesa da fé

A salvação em Cristo decorre da graça de Deus concedida a todos os que em todo lugar invocam a Cristo como Senhor “À igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos, com todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso SENHOR Jesus Cristo, Senhor deles e nosso:” ( 1Co 1:2 ) Judas sentiu a necessidade de concitar os cristãos a batalharem pela fé, ou seja, a lutarem em defesa da doutrina do evangelho, visto que algumas pessoas que se diziam cristãs buscavam transtornar a mensagem do evangelho.


“JUDAS, servo de Jesus Cristo, e irmão de Tiago, aos chamados, santificados em Deus Pai, e conservados por Jesus Cristo: Misericórdia, e paz, e amor vos sejam multiplicados” ( Judas 1:1 )

Apresentação

Judas identifica-se aos destinatários da sua epístola como servo (δοῦλος – doulos) de Cristo e irmão de Tiago.

Judas e Tiago eram filhos de Maria e José e, por sua vez, ambos eram irmãos de Jesus segundo a carne por parte de Maria “Não é este o filho do carpinteiro? e não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, e José, e Simão, e Judas?” ( Mt 13:55 ).

Através desta apresentação fica evidente que Judas não se considerou privilegiado em relação aos demais cristãos quanto à salvação, pois a salvação é dádiva de Deus comum a todos quantos creem em Cristo “À igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos, com todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso SENHOR Jesus Cristo, Senhor deles e nosso:” ( 1Co 1:2 ).

Judas não se arroga no direito de escrever aos cristãos na condição de apóstolo de Cristo, embora reunisse em si todas as condições necessárias para fazê-lo (v. 17), pois ele conviveu com Jesus quando em carne. Mas, como a condição de apóstolo decorre de uma escolha de Jesus Cristo, como se verifica na lista com o nome dos doze apóstolos ( Mt 10:2 -4), Judas se absteve de lançar mão deste título.

Apesar de ser irmão de Jesus segundo a carne, ao posicionar-se como servo Judas demonstra que se submeteu ao senhorio de Cristo assim como os demais cristãos “Judas, servo de Jesus Cristo…” (v. 1).

É na condição de servo (obediente a Cristo) que Judas escreve aos cristãos (chamados), ou seja, àqueles que ouviram a mensagem do evangelho e creram. Quando foi anunciada a mensagem do evangelho os cristãos foram chamados, e quando creram tornaram propriedade (pertencerem) peculiar de Deus “Entre as quais sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo” ( Rm 1:6 ; Ef 1:13 ).

Os cristãos estavam em Deus, portanto, sobre a proteção do amor (cuidado) do Pai, e em Cristo Jesus guardados “Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” ( Cl 3:3 ; 1Pd 1:5 ; Rm 1:6 ; Ex 16:5 ).

 

Santos

Todo e qualquer que aceita (crê) a proposta do evangelho (chamado) são santificados. A proposta do evangelho está em que o homem reconheça que Jesus de Nazaré é o Filho de Deus e, quem assim crê é porque creu no testemunho que Deus deu acerca do Seu Filho ( 1Jo 5:10 ; At 26:18 ).

Por santificado devemos entender ‘separado’ como propriedade para uso exclusivo de Deus. Por ser propriedade de Deus é que o cristão é nomeado ‘santo’ “E ser-me-eis santos, porque eu, o SENHOR, sou santo, e vos separei dos povos, para serdes meus” ( Lv 20:26 ); “Entre as quais sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo” ( Rm 1:6 ; Jd 1:3 ).

O nome ‘santo’ decorre única e exclusivamente da nova condição ‘em Cristo’, e não de questões comportamentais ( Rm 1:7 ). O homem alcança a santificação crendo em Cristo, mas como se dá a santificação?

Por intermédio do evangelho ocorre o chamado, por isso é dito muitos ‘chamados’, e como poucos atendem o ‘chamado’, poucos são denominados ‘escolhidos’. O convite para entrar pela porta estreita é direcionado a todos, mas são poucos os que encontram Cristo, ou seja, são poucos os escolhidos “Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos” ( Mt 22:14 ; Mt 7:13 -14; 1Co 1:26 ).

Ora, quem crê em Cristo segundo as Escrituras atendeu ao chamado do evangelho, e agora são designados ‘chamados’ (κλητός – klétos). Os cristãos são nomeados ‘chamados’ em vista da vocação em Cristo: eleição e predestinação. Cristo é o eleito de Deus, e os cristãos por serem geração de Cristo são santos e irrepreensíveis (eleitos). Por causa da vocação (chamado) estabelecida na eternidade em Cristo, os que creem estão predestinados a serem conforme a imagem de Cristo, para que Ele seja primogênito entre muitos irmãos ( Rm 8:29 ; Ef 3:11 ).

Os que são ‘chamados’, ou seja, aqueles que ouvem a mensagem do evangelho (poder de Deus) e creem (escolhidos), recebem poder para serem feitos (criados) filhos de Deus. Por serem participantes da salvação em Cristo por intermédio do evangelho, os que creram são chamados com santa vocação, portanto eleitos e predestinados ( Jo 1:12 ; 2Tm 1:8 -9).

Esta nova criatura proveniente do poder criativo de Deus pertence exclusivamente a Deus ( Ef 4:24 ; 2Co 5:17 ), diferente da velha criatura proveniente da semente corruptível de Adão que pertence ao pecado. Como a nova criatura proveniente da semente incorruptível, que é a palavra de Deus, é gerada em verdadeira justiça e santidade, agora é designada ‘santo’ ( 1Pe 1:23 ; Ef 4:24 ).

A raiz da qual se origina a palavra ‘santificados’ e outras correlatas é proveniente do vocábulo grego ἁγιάζω, transliterado “hágios”, e significa ‘o sublime’, ‘o consagrado’, ‘o venerável’, sem qualquer referência às questões de ordem moral ou comportamental. O termo ‘hágios’ aponta especificamente para questões de ordem funcional, pois entre os gregos da antiguidade tudo se definia pela função.

Quando nomeou os cristãos de ‘santos’, Judas utilizou a raiz do vocábulo grego ‘hagios’, dando a entender que os cristãos são propriedade de Deus, portanto verdadeiramente e inteiramente separados para uso de Deus (santos). Os cristãos por serem gerados de novo, criados segundo a palavra da verdade (semente incorruptível) participantes da natureza divina ( 2Pe 1:4 ), são declarados santos porque Deus os separou por Seu.

Assim como os cristãos são nomeados santos, também são nomeados ‘primícias’ e ‘primogênitos’, porque funcionalmente são propriedades do Senhor “À universal assembleia e igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus, e a Deus, o juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados” ( Hb 12:23 ); “Mas o primogênito de um animal, por já ser do SENHOR ninguém o santificará; seja boi ou gado miúdo, do SENHOR é” ( Lv 27:26 ); “Porque meu é todo o primogênito entre os filhos de Israel, entre os homens e entre os animais; no dia em que, na terra do Egito, feri a todo o primogênito, os santifiquei para mim” ( Nm 8:17 ).

Em momento algum a santificação em Cristo é apresentada como gradual e/ou processual. A ideia de que a santificação é processual decorre do trabalho e do entendimento de alguns lexicógrafos, pois ao longo dos anos ‘amalgamaram’ ao termo ‘hagios’ a ideia de que santo é ‘aquilo que merece e exige reverência moral e religiosa’.

Para ser salvo basta ao homem crer na mensagem do evangelho, graça que é ofertada através da revelação de Cristo Jesus aos homens, e Deus há de operar o milagre da Regeneração, a sua obra perfeita, visto que, para ser salvo é necessário ser gerado de novo de Deus, ou seja, da água e do espírito ( Jo 6:29 ).

Como propriedade de Deus, herança, os de novo nascido segundo a semente de Deus são guardados em Jesus Cristo, como bem demonstrou o apóstolo Paulo: “E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus vos chamou à sua eterna glória, depois de haverdes padecido um pouco, ele mesmo vos aperfeiçoará, confirmará, fortificará e fortalecerá” ( 1Pe 5:10 ; Ef 1:11 ).

É Deus quem chama os cristãos à sua eterna glória por intermédio do evangelho de Cristo, e Ele mesmo há de conservá-los irrepreensíveis até a vinda de Cristo ( 1Ts 5:23 -24).

 

Saudação

Quando Judas saudou os cristãos nos mesmos moldes que os apóstolos, ele o fez confiado em Deus que multiplica misericórdia, paz e amor aos que obedecem a Deus.

Após se identificar, o irmão Judas identifica os seus destinatários como ‘chamados’, e os saúda com a misericórdia, a paz e o amor de Deus (v.2); “A todos os que estais em Roma, amados de Deus, chamados santos: Graça e paz de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo” ( Rm 1:7 ).

A misericórdia (prover bem a quem merece o mal), a paz (comunhão com Deus) e o amor (o cuidado de Deus) decorrem do evangelho de Cristo. Quando Judas solicita a Deus que se multipliquem estas benesses, ele tem em mente a mesma oração do apóstolo Paulo: “E oro para que, estando arraigados e fundados em amor, possais perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade” ( Ef 3:18 ).

O amor de Cristo já foi derramado sobre os cristãos em misericórdia, paz e caridade, porém, é necessário compreender qual a dimensão deste amor. A exata compreensão do amor de Deus revelará quais foram as benesses concedidas sem medida ( Ef 1:18 ).

 

“Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos, e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos. Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo” ( Judas 1:2 -4)

Este verso demonstra que a epístola de Judas é fruto de uma necessidade, portanto, não se trata de frivolidade. Judas envidou todo esforço para escrever está epístola.

Ao perceber que alguns homens ímpios estavam dissimuladamente introduzindo heresias de perdição entre os cristãos, Judas sentiu a necessidade de concitar os cristãos a batalharem pela ‘fé’, ou seja, a lutarem pela doutrina do evangelho.

Estes indivíduos se introduziram em meio aos que professavam o evangelho e ensinavam doutrinas provenientes de uma concepção carnal, pois pervertiam a graça de Deus negando a pessoa de Cristo.

Não podemos confundir o ajuntamento solene de pessoas, onde os ímpios também podem comparecer, com a Igreja de Deus, que é formada somente por aqueles que efetivamente são membros do corpo de Cristo.

Para fazer parte do corpo de Cristo como membro é necessário comungar da fé (doutrina) dos apóstolos, confessando (admitindo) Cristo como Senhor, pois só assim será participante do batismo na morte de Cristo. O batismo nas águas é representação de um evento espiritual: a morte com Cristo ( Ef 4:4 -6 ; Rm 6:3 ; 1Co 12:13 ).

Os homens somente se tornam membros da igreja de Cristo quando batizados em um só espírito, ou seja, nas palavras de Cristo, que são espírito e vida ( Jo 6:63 ). É possível que não surjam heresias, porém, jamais o corpo de Cristo, a Igreja de Deus, será maculado.

A exortação de Judas é idêntica à que o apóstolo Paulo escreveu aos Filipenses:

“O que é mais importante, deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho de Cristo. Então, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de vós que estais firmes em um mesmo espírito, combatendo juntamente com o mesmo ânimo pela fé do evangelho( Fl 1:27 ).

A salvação em Cristo se dá através do evangelho, que é poder de Deus para salvação do que crê. Todos que creem no evangelho torna-se participante de uma mesma salvação, portanto, salvação comum ( de todos que creem).

O substantivo πίστις (pistis), traduzido por ‘fé’ não se refere a crença do homem, e sim ao corpo doutrinário do evangelho. O cristão não luta por uma crença, antes luta para defender dos ataques dos adversários a mensagem anunciada por Cristo e seus apóstolos ( Ef 2:20 ).

 

“Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo” ( Judas 1:4 )

 

Ímpios

Os homens que dissimuladamente negam a Cristo, único Senhor e Deus, são nomeados ímpios, pois procuravam transtornar o evangelho impondo as suas próprias sujidades. Quando Judas fez alusão aos ímpios, não estava se referindo aos descrentes, mas aqueles que se diziam irmãos e eram devassos.

“Já por carta vos tenho escrito, que não vos associeis com os que se prostituem; Isto não quer dizer absolutamente com os devassos deste mundo, ou com os avarentos, ou com os roubadores, ou com os idólatras; porque então vos seria necessário sair do mundo. Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais” ( 1Co 5:10 -11).

Desde que iniciou-se a proclamação do evangelho aos povos, os seguidores de Jesus foram perseguidos e confrontados pelos judaizantes.

A doutrina do evangelho foi confrontada quando os judaizantes passaram a anunciar que era necessário aos cristãos se circuncidarem segundo a lei de Moisés ( At 15:1 ), embora Jesus e os apóstolos não tenham dado mandamento algum neste sentido “Porquanto ouvimos que alguns que saíram dentre nós vos perturbaram com palavras, e transtornaram as vossas almas, dizendo que deveis circuncidar-vos e guardar a lei, não lhes tendo nós dado mandamento” ( At 15:24 ).

Os judaizantes queriam introduzir no evangelho elementos da lei mosaica, ou seja, deitar fermento à massa “Um pouco de fermento leveda toda a massa” ( Gl 5:9 ), e concitava os cristãos a adotarem práticas e ritos segundo a tradição dos judeus.

O apóstolo Paulo alerta que tal apelo dos judaizantes é um outro evangelho ( Gl 1:6 -7), que tal chamado não é proveniente de Cristo ( Gl 5:8 ), ou seja, tais homens queriam submeter novamente os cristãos à escravidão “Alimpai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa, assim como estais sem fermento. Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós. Por isso façamos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da malícia, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade” ( 1Co 5:7 -8).

Os judaizantes negavam a eficácia da obra de Cristo, uma vez que queriam que os cristãos convertidos dentre os gentios adotassem práticas da lei, como a circuncisão do prepúcio da carne, para serem salvos.

Um crente em Cristo crê que para ser salvo é suficiente crer que Jesus é o Filho de Deus, ou seja, que a salvação não está em ser descendente da carne de Abraão ( Gl 5:13 ). O apóstolo Paulo deixa claro que abriu mão de todas as práticas judaicas que por tradição herdou dos seus pais para poder ganhar a Cristo ( Fl 3:4 ).

Os ‘infiltrados’ entre os cristãos são descritos como querendo transtornar (perverter) a graça que se revela em Cristo Jesus, o único Soberano e Senhor. Como? Negando que Cristo é Soberano e Senhor, ou seja, contrariando o profetizado por Isaias: “Ao SENHOR dos Exércitos, a ele santificai; e seja ele o vosso temor e seja ele o vosso assombro” ( Is 8:13 ; 1Pe 3:15 ).

Temos na epístola de Judas uma confissão da deidade de Cristo, pois o próprio irmão de Jesus se refere a Cristo como Soberano e Senhor, segundo o que foi anunciado no Antigo Testamento: Cristo é o Emanuel, Deus conosco, nosso Salvador ( Rm 10:9 ).

O intuito dos que querem transtornar o evangelho é uma flagrante ação do anticristo, visto que, nega a eficácia da obra de Cristo, ou nega que Jesus de Nazaré é o Filho do Deus vivo “Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? É o anticristo esse mesmo que nega o Pai e o Filho” ( 1Jo 2:22 ); “Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te” ( 2Tm 3:5 ).

Judas adverte que as Escrituras já haviam previsto que haveria tais homens ímpios, e nos versos 5 à 6 demonstra onde tal previsão encontra-se nas Escritura através dos exemplos que o povo de Israel deixou “Procuremos, pois, entrar naquele repouso, para que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência” ( Hb 4:11 ; 2Pe 2:6 ; Jd 1:7 ).

Assim como o apóstolo Paulo entendia que tudo o que consta nas Escrituras foi escrito para o nosso ensino, Judas demonstra através da história de Israel que em meio aos cristãos haveria os enganadores “Porque tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que pela paciência e consolação das Escrituras tenhamos esperança” ( Rm 15:4 ).

A sentença dos que rejeitam a verdade (não creram) foi prevista há muito tempo: destruição. Os que odeiam a Deus, ou seja, que não guardam o seu mandamento estão destinados à perdição, pois permanecem na iniquidade “Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” ( Ex 20:5 -6; Sl 81:11 -12).

Quando Moisés roga a Deus para que perdoasse o pecado do povo por haver feito um bezerro de ouro, foi lhe dito: “Então disse o SENHOR a Moisés: Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro” ( Ex 32:33 ), dando a entender o que foi anunciado posteriormente pelo profeta Ezequiel: ‘a alma que pecar, esta mesma morrerá’ “Eis que todas as almas são minhas; como o é a alma do pai, assim também a alma do filho é minha: a alma que pecar, essa morrerá” ( Ez 18:4 ).

Embora Deus tenha dado ordem a Moisés para que conduzisse o povo pelo deserto, o povo de Israel foi ferido mais tarde, porque Deus disse: “… porém no dia da minha visitação visitarei neles o seu pecado” ( Ex 32:33 ), ou seja, estava predito a destruição dos que não creram “Vai, pois, agora, conduze este povo para onde te tenho dito; eis que o meu anjo irá adiante de ti; porém no dia da minha visitação visitarei neles o seu pecado. Assim feriu o SENHOR o povo, por ter sido feito o bezerro que Arão tinha formado” ( Ex 32:34 -35).

Ora, rejeitar a Cristo como Senhor é causa de eterna perdição ( 2Ts 1:8 -9), o que também foi predito pelos profetas acerca dos líderes de Israel, como se lê: “A pedra que os edificadores rejeitaram tornou-se a cabeça da esquina” ( Sl 118:22 ); “Então ele vos será por santuário; mas servirá de pedra de tropeço, e rocha de escândalo, às duas casas de Israel; por armadilha e laço aos moradores de Jerusalém” ( Is 8:14 ); “Por quê? Porque não foi pela fé, mas como que pelas obras da lei; tropeçaram na pedra de tropeço” ( Rm 9:32 ).

Há muito estava previsto por boca dos profetas que aqueles que rejeitam a verdade são passíveis da destruição, leitura semelhante a que foi feita pelo apóstolo Pedro: “E assim para vós, os que credes, é preciosa, mas, para os rebeldes, A pedra que os edificadores reprovaram, Essa foi a principal da esquina, e uma pedra de tropeço e rocha de escândalo, para aqueles que tropeçam na palavra, sendo desobedientes; para o que também foram destinados( 1Pe 2:7 -8). Compare: “Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo…” ( Jd 1:4 ).

Na segunda carta do apóstolo Pedro é feito alusão aos mesmos homens ímpios que se infiltraram em meio aos cristãos:

“E TAMBÉM houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição. E muitos seguirão as suas dissoluções, pelos quais será blasfemado o caminho da verdade. E por avareza farão de vós negócio com palavras fingidas; sobre os quais já de largo tempo não será tardia a sentença, e a sua perdição não dormita” ( 2Pe 2:1 -2).

A sentença de destruição é enfatizada pelos escritores do Novo Testamento todas as vezes que apresentam o povo de Israel como exemplo de desobediência.

 

“Mas quero lembrar-vos, como a quem já uma vez soube isto, que, havendo o Senhor salvo um povo, tirando-o da terra do Egito, destruiu depois os que não creram” ( Judas 1:5 )

 

Exemplo negativo

Embora os cristãos já soubessem da necessidade de estarem engajados na defesa da verdade (fé) do evangelho, Judas escreveu para trazer a lembrança algo que já sabiam ( Jd 1:5 ).

Para relembrá-los da necessidade de perseverarem firmes no evangelho (fé que foi dada aos santos), Judas apresenta três exemplos:

a) a destruição dos que não creram após serem resgatados do Egito;

b) a destruição dos mensageiros que não guardaram a sua posição, e;

c) o exemplo das cidades de Sodoma e Gomorra.

O Senhor Jesus que os homens ímpios negavam o seu senhorio, era o mesmo Senhor que resgatou o povo de Israel da escravidão no Egito “E beberam todos de uma mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra espiritual que os seguia; e a pedra era Cristo” ( 1Co 10:4 ).

Por causa da incredulidade de Israel, o Senhor que os resgatou do Egito escondeu o Seu rosto “E disse: Esconderei o meu rosto deles, verei qual será o seu fim; porque são geração perversa, filhos em quem não há lealdade” ( Dt 32:20 ).

O profeta Isaias ao falar da salvação aponta para o Senhor que ‘esconde’ o seu rosto da casa de Jacó, pois o resplendor da glória de Cristo é a misericórdia de Deus manifesta aos homens “E esperarei ao SENHOR, que esconde o seu rosto da casa de Jacó, e a ele aguardarei” ( Is 8:17 ); “O SENHOR faça resplandecer o seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti” ( Nm 6:25 ); “Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” ( 2Co 4:6 ; Sl 80:3 ).

Através desta pequena alusão ao povo de Israel, Judas trouxe à memória dos irmãos uma lição que eles já haviam aprendido (v. 5). Uma lição que o escritor aos Hebreus enfatiza: “Porque também a nós foram pregadas as boas novas, como a eles, mas a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não estava misturada com a fé naqueles que a ouviram” ( Hb 4:2 ).

Sobre o resgate de Israel do Egito e os que foram destruídos no deserto, podemos nos socorrer dos ensinamentos do apóstolo Paulo. Embora tenha sido resgatado do Egito um povo, nem todos eram israelitas de fato “Não que a palavra de Deus haja faltado, porque nem todos os que são de Israel são israelitas” ( Rm 9:6 ). Da mesma forma, nem todos que se apresentam na assembleia solene dos cristãos são verdadeiramente membros do corpo de Cristo.

Os que pereceram no deserto eram descendentes da carne de Abraão, porém, pela incredulidade que havia neles, não vieram a ser contados como filhos de Abraão. Na condição de descendentes da carne de Abraão foram resgatados do Egito, porém, por não tiveram a mesma fé que o crente Abraão, não puderam ser contados como filhos de Deus.

Através desta pequena referência a Israel, Judas esperava que os cristãos considerassem que Deus resgatou a Israel da escravidão do Egito transtornando os pensamentos de Faraó para tornar conhecido o seu nome em toda a terra. Deus fez de Israel sua propriedade particular dentre todos os povos da terra “Mas, deveras, para isto te mantive, para mostrar meu poder em ti, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra” ( Ex 9:16 ).

Embora saiu do Egito um povo livre, individualmente cada membros do povo de Israel ainda era prisioneiro do pecado, pois não confiavam em Deus ( Dt 9:4 e 6). Tomando Israel como exemplo, os cristãos deveriam continuar considerando que, para permanecerem participantes do corpo de Cristo, é preciso crer na verdade do evangelho.

Da mesma forma que foram destruídos os descrentes dentre o povo de Israel, visto que somente dois homens entraram na terra prometida, os ímpios à época de Judas haveriam de ser destruídos por não crerem em Cristo.

Israel não foi salvo porque pesava sobre eles a condenação proveniente de nascimento segundo a maldição que há na semente corruptível de Adão ( Sl 53:3 ; Sl 58:3 ). A circuncisão do prepúcio da carne não os livrava da condenação herdada de Adão. Somente estariam livres do pecado quando circuncidassem o prepúcio do coração, o que é feito sem auxílio de mãos humanas ( Cl 2:11 ).

O irmão Judas propõe trazer a lembrança dos cristãos um conhecimento que dispunham, pois amplamente era lido nas Escrituras o que ocorreu com os desobedientes de Israel.

O exemplo de desobediência dos filhos de Israel é apresentado aos cristãos para não incorrerem no mesmo erro:

“Procuremos, pois, entrar naquele repouso, para que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência. Porque também a nós foram pregadas as boas novas, como a eles, mas a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não estava misturada com a fé naqueles que a ouviram (…) Procuremos, pois, entrar naquele repouso, para que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência” ( Hb 4:1 -2 e11).

O apóstolo Paulo também faz referência a Israel como exemplo negativo:

“E estas coisas foram-nos feitas em figura, para que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram. Não vos façais, pois, idólatras, como alguns deles, conforme está escrito: O povo assentou-se a comer e a beber, e levantou-se para folgar. E não nos prostituamos, como alguns deles fizeram; e caíram num dia vinte e três mil. E não tentemos a Cristo, como alguns deles também tentaram, e pereceram pelas serpentes. E não murmureis, como também alguns deles murmuraram, e pereceram pelo destruidor. Ora, tudo isto lhes sobreveio como figuras, e estão escritas para aviso nosso, para quem já são chegados os fins dos séculos” ( 1Co 10:6 -11).

 

Continua…

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Poderá ir ao céu o ‘cristão’ que cometeu suicídio?

É certo que o cristão não perderá a salvação caso sofra de algum distúrbio físico ou psíquico (há casos em que uma disfunção do físico acarreta distúrbios psíquicos) e cometa o suicídio. Porém, se de outro modo, alguém que se intitula cristão, deliberadamente atentar contra a própria vida como fazem os seguidores de Maomé, como será engrandecido o nome do Senhor em tamanho desatino? ( Fl 1:20 -26).


“E ali haverá uma estrada, um caminho, que se chamará o caminho santo; o imundo não passará por ele, mas será para aqueles; os caminhantes, até mesmo os loucos, não errarão” ( Is 35:8 )

 

Nada melhor que nos socorrer das Escrituras quando nos deparamos com temas complexos.

Ora, se uma pessoa que não crê em Cristo comete suicídio é certo que não será salva. Por qual motivo: Porque ela suicidou-se, ou porque não creu em Cristo? Sem medo de errar: um suicida ou qualquer outra pessoa não será salva porque não creu no Unigênito Filho de Deus!

Não é porque violou algum mandamento que o descrente não será salvo (Agostinho argumentou que o suicídio era uma violação do sexto mandamento). Também não é por ter deixado de fazer ‘confissão de pecado’ que não será salvo. Antes, irá para a condenação eterna por não ter entrado pela porta estreita que é Cristo “Por isso vos disse que morrereis em vossos pecados, porque se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados” ( Jo 8:24 ).

Não é a confissão de algum erro de conduta, também nomeado de pecado, que irá livrar o homem do fogo do inferno, visto que, tal confissão tem por base um arrependimento de obras mortas, e não uma mudança de conceito acerca de como alcançar a salvação (arrependimento verdadeiro). (Tomas de Aquino acreditava que o suicídio era o mais fatal de todos os pecados, porque a ‘vítima’ não poderia se arrepender e confessar o seu delito).

Alguém que professa a verdade do evangelho e deixa levar-se por alguma ideia suicida será salvo? A resposta será dada em duas etapas.

De onde vem a ideia suicida? Qual a origem do suicídio? Ora, é corrente que a ideia suicida é proveniente de algum distúrbio psíquico, visto que tais idéias surgem e se instalam em pessoas com problemas de depressão, ansiedade, psicose, etc.

Tais distúrbios associados aos seguintes fatores aumentam o risco de suicídio: isolamento social, falta de amigos, não ser casado, não morar com outras pessoas, não ter filhos, não ser religioso, etc.

O que se observa é que a idéia suicida decorre de algum problema psíquico.

Sabemos também que todos os homens entram pela porta larga ao nascerem segundo Adão, e que seguem por um caminho que os conduzirá à perdição. Sabemos também que é necessário ao homem nascer de novo (entrar pela porta estreita), para que possam trilhar o novo e vivo caminho que conduz à vida eterna (Jesus).

Ora, se uma pessoa aceita a Cristo segundo a verdade do evangelho, ela entrou pela porta estreita e segue pelo caminho que o conduzirá a salvação. Após ter entrado pela porta que é Cristo é possível errar o caminho por causa de um distúrbio psíquico? Não!

Não será um distúrbio psíquico que separará o cristão do amor de Deus em Cristo. Não é a morte ou a vida que separará o Cristão do amor de Deus ( Rm 8:38 ).

No milênio haverá para os remanescentes de Israel uma estrada, um caminho, denominado de “O caminho Santo”. O imundo (ímpios) não andará pelo Caminho Santo. O caminho será exclusivo para os separados por Deus (os remidos). O caminho pertencerá àqueles que foram fortalecidos e que não temem ( Is 35:3 e 4).

Naquele dia os ‘caminhantes’, ou seja, os remidos, não errarão! Nem mesmo os loucos (povo de Israel) errarão o caminho, pois foram resgatados pelo Senhor ( Is 35:9 -10).

Se no milênio a graça de Deus se mostrará maravilhosa àqueles que virão à Sião restaurada, que se dirá hoje, na dispensação da graça. Quem entra por Cristo, a porta estreita, jamais percorrerá outro caminho.

Sobre este mister, diz o salmo primeiro: “Porque o Senhor conhece o caminho dos justos; porém, o caminho dos ímpios perecerá” ( Sl 1:6 ). O caminho que pertence aos justos é conhecido pelo Senhor, ou seja, está intimamente ligado a Ele. Já o caminho dos ímpios perecerá, visto que é um caminho que conduz a perdição ( Mt 7:3 ).

O evangelho (fé em) de Cristo é para salvação do homem, livrando-o da condenação estabelecida em Adão. Por vezes, a crença (fé) na verdade do evangelho (fé) é suficiente para livrar o homem de algum distúrbio psíquico. Porém, vale salientar que está não é a regra, e quem sofre de distúrbios psíquicos precisam de tratamento psicológico ou psiquiátrico específico.

Jó diante das agruras que lhe foram impostas amaldiçoou o dia do seu nascimento e desejou não ter nascido “Por que não morri eu desde a madre? Em saindo do ventre, não expirei?” ( Jó 3:11 ), contudo continuo confiando no Deus da sua salvação. Diante das agruras desta vida o cristão deve se armar da mesma confiança de Jó.

Agora, o que tornou Judas diferente de outros homens que foram salvos? O suicídio? Não! Judas não foi salvo porque deu cabo de sua própria vida, antes porque não creu na misericórdia de Deus manifesta aos homens.

Qual a traição maior: a de Judas ou a de Pedro? Por certo que elas são equivalentes. Porém, diferente de Judas, Pedro ao ver-se ‘infiel’ recobrou-se do seu erro de conduta e confiou em Quem é fiel e nunca se demove da sua fidelidade. Pedro continuou a produzir os frutos (frutos dos lábios) dignos do arrependimento: professando a sua salvação em Cristo.

Judas, por sua vez, tomado de arrependimento pela infidelidade ao Mestre, não se arrependeu para salvação (não mudou o seu conceito de como se dá a salvação em Cristo), antes se arrependeu à vista do seu comportamento (arrependimento de obras mortas), o que muitos entendem ser remorso.

O apóstolo Paulo demonstra que a sua esperança e expectativa eram intensos, e que jamais seria confundido. Ele tinha plena confiança que Cristo haveria de ser engrandecido no seu corpo, tanto em vida ou através da morte ( Fl 1:20 ). O firme fundamento de Paulo era Cristo, pois o viver é Cristo, e morrer em Cristo é lucro (v. 21).

Paulo nutria o desejo de partir deste mundo e estar com Cristo, porém, o amor pelos irmãos era maior que o desejo pelo ‘melhor do mundo vindouro’. Paulo tinha certeza que ficaria e permaneceria em meio aos cristãos para proveito e gozo da fé (do evangelho). O texto por si só demonstra que o apóstolo, mesmo tendo o desejo de estar com Cristo, não nutria idéias suicidas.

É certo que o cristão não perderá a salvação caso sofra de algum distúrbio físico ou psíquico (há casos em que uma disfunção do físico acarreta distúrbios psíquicos) e cometa o suicídio. Porém, se de outro modo, alguém que se intitula cristão, deliberadamente atentar contra a própria vida como fazem os seguidores de Maomé, como será engrandecido o nome do Senhor em tamanho desatino? ( Fl 1:20 -26).

Os apóstolos eram alvos de múltiplos sofrimentos, prisões, escárnios, perseguições, torturas, porém, não desistiam de viver. Embora esperassem ser revestidos da imortalidade, nenhum deles, nenhum sequer apressou de moto próprio a hora de partir. Estavam certos de que “… foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele…” ( Fl 1:29 ).

Portanto, quem professa a verdade do evangelho e não sofre de nenhum distúrbio grave de ordem psíquica, jamais intentará contra a própria vida.

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