Abraão foi salvo pela fé ou pelas obras?

Se Abraão tivesse saído do meio de sua parentela e fosse habitar as regiões de Canaã sem que Deus lhe ordenasse, a sua decisão não seria por fé. Se Abraão tivesse decidido, de moto próprio, oferecer Isaque em holocausto a Deus, sem que Deus houvesse ordenado, o seu sacrifício não seria por fé e sua atitude não seria em função de uma provação (Hb 11:17).


Introdução

Na maioria dos comentários bíblicos, em que os termos ‘fé’ e ‘obras’ aparecem, a palavra ‘paradoxo’ acaba sendo utilizada. Há até quem afirme que no Novo Testamento há inúmeros “paradoxos aparentes”.

O que é um paradoxo?

Segundo definição que consta na Wikipédia:

“Paradoxo é uma declaração, aparentemente, verdadeira, que leva a uma contradição lógica, ou, a uma situação que contradiz a intuição comum. Em termos simples, um paradoxo é “o oposto do que alguém pensa ser a verdade”. A identificação de um paradoxo, baseado em conceitos aparentemente simples e racionais tem, por vezes, auxiliado, significativamente, o progresso da ciência, filosofia e matemática”. Wikipédia.

Diante dessa definição de paradoxo: ‘declaração aparentemente verdadeira’, é correto entender que as asserções[1] bíblicas são ‘aparentemente’ verdadeiras? Os dois versículos abaixo, são a exata expressão da verdade ou, ‘aparentemente’ verdadeiros?

“Assim como Abraão creu em Deus, isso lhe foi imputado como justiça” (Gl 3:6);

“Porventura, o nosso pai Abraão não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque?” (Tg 2:21).

Os versos acima são paradoxais? Há contradição entre o ensinamento do apóstolo Paulo e do irmão Tiago? A doutrina de Cristo possui pontos aparentemente discordantes? São ensinos aparentemente verdadeiros?

A palavra de Deus não é uma declaração aparentemente verdadeira, antes, é a verdade “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17:17), portanto, os ensinamentos bíblicos, não comportam essa definição de ‘paradoxo’.

Na comunicação falada ou escrita há ‘paradoxos’, porém, tais paradoxos são figuras de pensamento, um dos recursos linguísticos (figuras de linguagem) que tornam uma mensagem mais expressiva, que nada mais é do que uma proposição construída, através da união de ideias contraditórias.

Quando Jesus propôs a Nicodemos que era necessário nascer de novo, o alerta de Jesus era verdadeiro, entretanto, por desconhecer a natureza daquilo que Jesus propôs, surgiu na cabeça de Nicodemos um paradoxo: Como é possível um homem nascer, sendo velho? (Jo 3:4)

A mensagem de Jesus não era contraditória e nem aparentemente verdadeira, mas a limitação de Nicodemos que, sendo mestre, não compreendeu a mensagem, é que levou a questionar, sobre como seria possível um homem velho, nascer de novo.

Abraão foi salvo pela ‘fé’ ou, por ‘obras’? Há contradição entre a ‘fé’ e as ‘obras’, ou, a contradição decorre da má compreensão?

 

Abraão creu em Deus

“Assim como Abraão creu em Deus, isso lhe foi imputado como justiça” (Gl 3:6).

Como ler esse versículo? A ‘confiança’ de Abraão é o que o justificou? O que dizer do versículo: ‘O justo viverá da fé?’

Quando o apóstolo Paulo escreveu, repreendendo os cristãos da Galácia, sobre o fascínio que os levou a se desviarem da verdade do evangelho, lembrou que anunciou aos Gálatas o Cristo crucificado (Gl 3:1; 1Co 1:23), e que não receberam o espírito pelas ‘obras da lei’, antes pela ‘pregação da fé’ (Gl 3:2 e 5).

Que ‘espírito’ eles receberam pela ‘pregação da fé’? O espírito que o apóstolo Paulo faz referência, diz do evangelho, a palavra de Deus, vez que os cristãos são ministros do espírito, ou seja, ministros da justiça, ministros da nova aliança: “O qual, nos fez, também, capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica (…) Como não será de maior glória o ministério do Espírito? Porque, se o ministério da condenação foi glorioso, muito mais excederá em glória o ministério da justiça” (1Co 3:6 e 8-9).

Jesus afirmou que as palavras d’Ele são espírito e vida: “O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são espírito e vida” (Jo 6:63).

A mensagem do evangelho é cumprimento do anunciado pelos profetas: água sobre o sedento, espírito derramado. É por isso que o homem nasce de novo, somente pela água e pelo espírito: “Porque derramarei água sobre o sedento e rios sobre a terra seca; derramarei o meu Espírito sobre a tua posteridade e a minha bênção sobre os teus descendentes” (Is 44:3). “E há de ser que, depois derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos, os vossos jovens terão visões” (Jl 2:28; Jo 3:5).

Como Deus dá do seu espírito? Como Deus opera milagres? O apóstolo Paulo afirma que Deus deu o seu espírito e opera milagres pela ‘pregação da fé’, ou seja, através do evangelho (Gl 3:5). Cristo foi ungido para evangelizar, ou seja, o espírito de Deus estava sobre Ele, o mesmo espírito foi dado aos cristãos pela pregação da fé. “Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos” (Jd 1:3; Is 11:1-3; Is 61:1-3).

O evangelho foi anunciado pelo apóstolo Paulo aos gentios, de modo que ele era ministro do evangelho, anunciando a ‘fé’ (evangelho) entre os gentios. “Se, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé e não vos moverdes da esperança do evangelho que tendes ouvido, o qual foi pregado a toda criatura que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, estou feito ministro” (Cl 1:23; Rm 1:8).

A ‘fé’ se refere à mensagem das boas novas, o espírito derramado sobre toda carne, o mesmo espírito do qual o apóstolo Paulo foi constituído ministro. A ‘fé’ diz do evangelho anunciado a toda criatura, que há debaixo do sol (judeus e gentios), esperança anunciada para que os homens creiam e sejam salvos: “Porque, se alguém for pregar-vos outro Jesus que nós não temos pregado, ou se recebeis outro espírito que não recebestes, ou outro evangelho que não abraçastes, com razão o sofrereis” (2Co 11:4).

O crente é salvo ao crer na ‘loucura da pregação’, mas a salvação decorre especificamente da ‘loucura da pregação’, que é Cristo crucificado, que para os judeus era escândalo e para os gregos, loucura “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação” (1Co 1:21-23).

O poder para a salvação não está na capacidade do homem de acreditar, mas, sim, na mensagem pregada. Para aqueles que são salvos, a palavra da cruz é o poder de Deus: “Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu e também do grego” (Rm 1:16; 1Co 1:18).

Deus salva pela ‘loucura da pregação’, ou seja, pela fé. Para ser salvo, é imprescindível ouvir a palavra da verdade, pois, no evangelho, está o poder para que o homem seja feito filho de Deus (Jo 1:12; Ef 1:13). O homem é justificado pela fé, ou seja, por Cristo, pelo evangelho. “E de tudo o que, pela lei de Moisés, não pudestes ser justificados, por ele é justificado todo aquele que crê” (At 13:39).

Acerca da salvação em Cristo, foi predito a Abraão: ‘Todas as nações serão benditas em ti’ (Gl 3:8). O apóstolo Paulo, ao ler Gênesis 12, verso 3, interpretou essa passagem bíblica como uma profecia, acerca de como Deus haveria de justificar os gentios: pela fé, ou seja, por meio de Cristo – a fé que havia de se manifestar: “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar, pela fé, os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti” (Gl 3:8 compare com Gl 3:23).

Por que os gentios seriam benditos em Abraão? Por causa do descendente prometido a Abraão: Cristo. O descendente prometido a Abraão foi estabelecido como luz para todos os povos, não o patriarca (Is 42:6; Is 49:6). Cristo é a fé manifesta, na plenitude dos tempos, por quem os homens são justificados e não o patriarca (Gl 3:23-25).

O apóstolo Paulo apresenta Abraão como exemplo de alguém que foi justificado, ao crer em Deus (Gl 3:6). Mas, como Abraão confiou em Deus? Deus ordenou a Abraão que deixasse a sua parentela e partisse para uma terra que seria revelada e lhe fez uma promessa: Abraão seria uma grande nação e os seus descendentes seriam inumeráveis, assim como as estrelas do céu, apesar de Abraão não ter descendente, na época (Gn 15:4-5).

Abraão demonstrou que confiou em Deus, quando saiu do meio da sua parentela, porém, a bênção de Abraão não decorre do fato de ele ter saído do meio da sua parentela (confiança), antes, Abraão foi abençoado porque foi estabelecido que, se ele saísse do meio da sua parentela, Deus haveria de abençoá-lo grandemente. A bênção está na palavra que diz: ‘E far-te-ei uma grande nação e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção’ (Gn 12:2).

A força da salvação está na promessa de que Deus haveria de abençoar os gentios, através do descendente de Abraão e não em Abraão ter saído do meio da sua parentela. Semelhantemente, a força do pecado está na lei que estabelece: ‘certamente morrerás’, não nas ações dos pecadores: “Ora, o aguilhão da morte é o pecado e a força do pecado é a lei” (1Co 15:56).

Quando Ló se apartou de Abraão, Deus indicou ao patriarca qual a terra que os seus descendentes haveriam de herdar, em função do que lhe foi prometido, caso saísse do meio dos seus parentes. (Gn 13:15-16)

Por isso, é dito pelo escritor aos Hebreus que, pela fé, ou seja, pela palavra de Deus, Abraão, sendo chamado para um lugar que havia de receber por herança, obedeceu e saiu (Hb 11:8). O fato de Abraão ter saído, indica que ele creu na palavra de Deus. Pela fé, ou seja, por causa da palavra de Deus, Abraão peregrinou na terra da promessa, como que em terra alheia (Hb 11:9).

Se Abraão tivesse saído do meio de sua parentela e fosse habitar as regiões de Canaã sem que Deus lhe ordenasse, a sua decisão não seria por fé. Se Abraão tivesse decidido, de moto próprio, oferecer Isaque em holocausto a Deus, sem que Deus houvesse ordenado, o seu sacrifício não seria por fé e sua atitude não seria em função de uma provação (Hb 11:17).

Quando lemos que Abraão foi justificado pela fé, significa que Abraão foi justificado pela palavra de Deus. É por isso que é dito que a fé foi imputada[2] a Abraão (Rm 4:9). O que foi conferido a Abraão? Uma capacidade de crer? Não! O que foi imputado a Abraão foi a fé, a palavra de Deus, que é fato, prova,  sem tergiversações.

A capacidade de crer é pertinente a todos os homens. É um atributo natural do ser humano, acreditar no que é real, verdadeiro, firme, palpável, etc. O que foi dado a Abraão foi a fé, ou seja, uma promessa graciosa e firme (Rm 4:16). Abraão acreditou em Deus, por não atentar para a condição do seu corpo amortecido ou, para o amortecimento do ventre de Sara, e sim, se deixou fortificar pela palavra que lhe foi anunciada: fé! (Hb 11:19-21)

A certeza de Abraão não surgiu de suas próprias convicções, antes pela palavra da fé que lhe disse que haveria de ser abençoado, caso obedecesse. De posse da palavra de Deus, teve certeza que Aquele que prometeu, era poderoso para cumprir (Rm 4:21). Ao sair do meio de sua parentela, Abraão estava admitindo, através da sua ação, que Deus é fiel e poderoso para cumprir o que prometeu, pelo que ‘… isso lhe foi imputado para justiça’ (Rm 4:22); “Assim como Abraão creu em Deus, isso lhe foi imputado como justiça” (Gl 3:6).

Ao sair do meio da sua parentela, Abraão estava admitindo, por meio de sua ação, que Deus é fidedigno[3], ou seja, digno de ‘fé’ (πιστευω – pisteuo), digno de ‘confiança’, pela sua própria glória e virtude (2Pe 1:3).

É na fé (πιστις – pistis), ou seja, na palavra de Deus que há poder. Foi pela palavra de Deus que Sara recebeu poder de conceber um filho, mesmo sendo estéril e de avançada idade. Quando é dito que ‘… pela fé, a própria Sara recebeu poder…’, o termo ‘fé’ não diz das convicções de Sara, antes aponta para a fidelidade, a lealdade, o caráter de alguém em quem se pode confiar. A crença de Sara resume-se em ‘ter por fiel’ aquele que havia feito a promessa (Hb 11:11).

Foi pela palavra de Deus que os antigos alcançaram bom testemunho, pois sem a palavra de Deus, nada podiam esperar ou acreditar (Hb 11:1). A Bíblia diz que Abraão é o Pai da fé, pois o evangelho foi primeiramente anunciado a Ele: a vinda do Cristo em quem todas as famílias da terra seriam bem-aventuradas, e não porque Ele creu, até porque existiram heróis da fé antes do patriarca Abraão.

Abraão foi salvo pela ‘fé’, porque ‘creu’ em Deus, por causa do que lhe foi dito (fé):

“(Como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí) perante aquele no qual creu, a saber, Deus, o qual vivifica os mortos e chama as coisas que não são como se já fossem. O qual, em esperança, creu contra a esperança, tanto que ele tornou-se pai de muitas nações, conforme o que lhe fora dito: Assim será a tua descendência” (Rm 4:17-18).

Deus deu a sua palavra e Abraão creu em Deus, que vivifica os mortos e chama as coisas que não são, como se já fossem, ou seja, Deus é poderoso para realizar o que prometeu, portanto, digno de confiança. Ao crer, Abraão tornou-se pai de muitas nações, isto conforme a palavra de Deus que diz: Assim será a tua descendência!

 

‘Fé’ e ‘crer’

Durante a leitura das cartas paulinas, verifica-se que o substantivo fé (πιστις – pistis) e o verbo crer (πιστευω – pisteuo) são empregados, quase que o mesmo número de vezes, por volta de 244 ocorrências e aquele, por volta de 243 vezes, sem falar no termo fé como adjetivo (πιστός – pistos), que ocorre 67 vezes.

Apesar de ser equivalente, o número de vezes que os termos πιστις e πιστός são empregados, vale destacar que o substantivo πιστις (pistis), quando empregado pelo apóstolo Paulo, em várias ocasiões, assume uma conotação especifica.

Geralmente, a definição de πιστις[4] nos dicionários, aponta para as disposições internas do indivíduo, ou seja, para questões de cunho subjetivo: convicção. Porém, ao fazer uso do termo, o apóstolo Paulo, na maioria das vezes, o faz como figura de linguagem, uma metonímia[5].

Como Cristo é o autor e consumador da fé (Hb 12:2), o substantivo fé é utilizado para fazer referência à pessoa de Cristo e à sua doutrina, havendo substituição do autor (Cristo) pela sua obra (fé).

Quando é dito pelo apóstolo Paulo que, ‘em todo o mundo é anunciada a vossa fé’ (Rm 1:8), o termo foi utilizado para fazer referência à doutrina de Cristo, ou seja, o evangelho. Quando é dito que ‘antes que a fé viesse’, ou ‘aquela fé que havia de se manifestar’ (Gl 3:23), o substantivo fé foi empregado para fazer referência à pessoa de Cristo.

Quando é dito que o homem é justificado pela fé, na verdade, o apóstolo está declarando que o homem é justificado por Cristo. Quando é dito que o homem é salvo pela graça de Deus, por meio da fé, na verdade, o apóstolo está esclarecendo que Cristo é o dom inefável de Deus, e que, através d’Ele, o homem é salvo (Ef 2:8).

Por que devemos fazer essa análise? Porque, quando emprega o substantivo ‘fé’, em sua epístola, o irmão Tiago o faz, somente com um único significado: crer, portanto, apontando, apenas, para as disposições internas do indivíduo, diferentemente do apóstolo Paulo, que emprega o termo, tanto no sentido de ‘doutrina’, quanto no sentido de ‘crer’.

Observe essa definição:

“A fé é mais do que uma crença intelectual em Deus. Se essa crença não nos leva a uma santa vida de justiça e misericórdia, ela não é a fé salvadora (Mt 7.21-23)” Radmacher, Earl; Allen, Ronald B.; House, H. Wayne, O novo comentário bíblico NT, com recursos adicionais – A Palavra de Deus ao alcance de todos. Rio de Janeiro, 2010, pág. 675.

De que ‘fé’ o autor está falando? De um corpo doutrinário, ou de crer?

Se a ‘fé’, em análise pelos editores do ‘O novo comentário bíblico do NT’, refere-se ao evangelho, efetivamente, por meio do evangelho (fé), o homem recebe poder de ser feito filho de Deus, portanto, é de novo criado, em verdadeira justiça e santidade (Ef 3:23). Está acima de uma crença intelectual em Deus, antes é a palavra de Deus pela qual o homem é santificado: “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17:17).

Se eles abordaram a ‘fé’, no sentido de ‘crer’, ‘acreditar’, tal fé não pode ser nada, além de uma crença intelectual na palavra de Deus. Quando o homem crê em Cristo, na verdade, exerce uma crença intelectual em Deus, conforme o Seu testemunho, exarado nas Escrituras. Deus deu testemunho do seu Filho nas Escrituras e crer nas Escrituras é exercer um culto racional.

Não é o crer, que leva o homem a uma ‘santa vida de justiça’, antes é a fé manifesta – Cristo – que santifica os que creem, concedendo-lhes uma nova vida: santa e justa. É a verdade, a ‘fé’ que santifica, e não o crer: “E por eles me santifico a mim mesmo, para que também eles sejam santificados na verdade” (Jo 17:19). Os equívocos quanto ao significado do termo ‘fé’, leva ao entendimento errôneo de que o dever de andar como filhos da luz (comportamento), diz de uma fé que ‘… é mais do que uma crença intelectual’.

 

A obra de Abraão

“Porventura o nosso pai Abraão não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque?” (Tg 2:21)

Comparando a escrita do apóstolo Paulo com a do irmão Tiago, percebe-se que, por causa do público alvo da carta, há uma mudança gritante no emprego de alguns termos, sem falar que o apóstolo Paulo, ao escrever, utiliza diversos recursos linguísticos de estilo, enquanto Tiago, pela graciosidade poética da sua epístola, fez uso somente de figuras e parábolas.

Quando Tiago diz ‘a prova da vossa fé’, diz da confiança do homem que é posta à prova, e não da palavra de Deus, que é simultaneamente fundamento e prova. Se o homem é provado e permanece confiante, a confiança transforma-se em ‘perseverança’. “Todo aquele que prevarica e não persevera na doutrina de Cristo, não tem a Deus. Quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem, tanto o Pai, como o Filho” (2 Jo 1:9; Tg 1:3).

O não crente precisa crer para ser salvo e o salvo precisa portar-se de modo digno do evangelho e perseverar na fé, combatendo o bom combate: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo, como aos que te ouvem” (2Tm 4:16); “Somente deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho de Cristo, para que, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de vós, que estais num mesmo espírito, combatendo, juntamente, com o mesmo ânimo, pela fé do evangelho” (Fl 1:27).

Se alguém vai pedir algo a Deus, deve pedir com fé, ou seja, acreditando, crendo (Tg 1:6). O termo ‘fé’, foi empregado por Tiago, no sentido de ‘crer’, diferentemente do apóstolo Paulo que, muitas vezes, emprega o termo, no sentido de evangelho, doutrina.

Mas, por questões de estilo e escrita, há divergências entre o exposto pelo apóstolo Paulo e Tiago? Não! A má compreensão da exposição é que leva as divergências, não o conteúdo doutrinário exposto por eles.

O apóstolo Paulo afirma que o evangelho é poder de Deus para salvação (Rm 1:16), enquanto que Tiago, por sua vez, afirma que a palavra implantada nos cristãos é poderosa para salvar (Tg 1:21). Sem contradição alguma a exposição de ambos!

Entretanto, a linguagem utilizada por eles é diferente, em alguns aspectos, apesar de a doutrina não ser divergente, e, isto se dá em função do público alvo da mensagem.  Observe que o apóstolo Paulo diz que o evangelho é poder de Deus para a salvação ‘de todo aquele que crê’ e o irmão Tiago, em vez de dizer que é necessário crer, aponta a necessidade de cumprir a palavra, ou seja, de ‘ser executor da obra’ (Tg 1:25).

‘Acreditar’ e ‘crer’ são verbos que melhor se adequam à realidade dos gentios, enquanto a linguagem dos judeus traduz a ideia de que, quem crê em Deus, é executor de um ‘trabalho’, de uma ‘obra’.

A linguagem do Antigo Testamento aponta o obediente, como aquele que crê, acredita, daí a linguagem dos judeus em identificar ao que obedece, ou seja, quem é executor do que é ordenado por Deus, como quem crê. A linguagem do irmão Tiago evidencia a sujeição do crente e o senhorio de Deus, e a linguagem do apóstolo Paulo evidencia a condição de quem é livre no Senhor.

Entretanto, é imprescindível ao leitor notar a diferença da abordagem paulina da do irmão Tiago. Abordagem do apóstolo Paulo no verso 16 de Romanos 1 possui viés evangelístico, e a abordagem no verso 21 do capítulo 1 de Tiago possui viés exortativo. Este aborda a necessidade de os cristãos perseverarem firmes na palavra neles implantada, enquanto que, aquele, enfatiza a universalidade do evangelho: todo aquele que crê, tanto judeus quanto gentios.

A linguagem de Tiago é a mesma de Cristo, pois é própria aos judeus. Quando a multidão perguntou a Jesus qual era a obra de Deus para realizarem, Jesus respondeu que a obra de Deus é crer naquele que Ele enviou (Jo 6:28-29). O executor da obra, que é bem-aventurado em seu feito, diz de quem crê em Cristo, pois a lei perfeita, a da liberdade, diz do evangelho, a palavra poderosa para salvar: “Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito” (Tg 1:25).

Tiago escreveu aos servos de Cristo das doze tribos da dispersão, ou seja, aos cristãos convertidos do judaísmo (Tg 1:1). Mas, entre esses cristãos, havia aqueles que diziam crer em Deus e cuidavam ser religiosos e não se sujeitavam a Cristo, consequentemente, a mensagem de Tiago enfatiza o que foi dito por Jesus aos seus discípulos: “… credes em Deus, crede também em mim” (Jo 14:1).

Daí o questionamento de Tiago nos versos 14 a 26, do capítulo 2, da sua epístola: “Que aproveito há se alguém disser que tem fé e não tiver obras?” (Tg 2:14). O termo ‘fé’ foi utilizado no sentido de ‘crer’, conforme o verso 19: “Crês tu que Deus é um só?”, e não no sentido de ‘evangelho’, ‘doutrina’, como quando o apóstolo Paulo diz que acabou a carreira e guardou a ‘fé’ (2 Tm 4:7).

Que proveito teriam os discípulos ao ‘crerem em Deus’ e não crerem em Cristo? Poderia tal fé salvar os discípulos? Não! Pois qualquer que diz crer em Deus, deve crer naquele que Ele enviou: “E Jesus clamou e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas naquele que me enviou” (Jo 12:44).

O termo ‘fé’, utilizado por Tiago, não faz referência ao evangelho e nem a Cristo, bem como o termo ‘obras’ no contexto, não faz referência à lei de Moisés. O termo ‘fé’ foi utilizado para fazer referência a uma crença em uma doutrina ou pensamento diverso da doutrina do evangelho de Cristo (Tg 3:19), e o termo ‘obras’ foi utilizado para fazer referência à lei perfeita, a da liberdade, e não às obras da lei de Moisés (Tg 1:22 e 25).

Acreditar que Deus é um só não salva, da mesma forma que não salva acreditar que o homem pode ser salvo por ser descendente da carne de Abraão ou, pela circuncisão. Os judeus acreditavam que nunca foram escravos de ninguém, mas tal ‘fé’ não os tornava livres do pecado (Jo 8:33). Há quem creia em Cristo, como alguns judeus, mas segundo a concepção do seu coração enganoso. Embora esta pessoa tenha ‘fé’ (creia), tal fé é sem proveito para a salvação, ou seja, não os faz livres do pecado: “Jesus dizia, pois, aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos” (Jo 8:31).

Muitos judeus criam em Cristo, mas quando arguidos, continuavam confiados que eram livres por serem descendentes de Abraão (Jo 8:31 e 39). Poderia tal ‘fé’ salvá-los? Pode alguém ser salvo, por crer na existência de Deus? Não!

Neste sentido, que proveito há, se alguém diz que tem fé, mas não crê em Jesus? Que proveito há em dizer que conhece a Deus, se não guardar o Seu mandamento? Tal pessoa é mentirosa e nela não está a verdade (1 Jo 2:3-5). Que proveio há em dizer: ‘nunca fomos escravos de ninguém’, se não é liberto pela verdade? (Jo 8:31-32)

O irmão Tiago não estava questionando se há proveito em ter fé em Cristo, ou seja, se quem crê em Cristo não será salvo, pois é evidente que quem crê em Cristo será salvo (1 Jo 5:13). A fé em Cristo pode salvar o crente, pois, acerca de Cristo, testemunharam todos os profetas, de que recebem o perdão dos pecados, todos os que creem n’Ele (At 10:43). Por Cristo é justificado todo aquele que crê, ou seja, qualquer que tem fé n’Ele (At 13:39).

A abordagem de Tiago, em relação àqueles que diziam que tinham fé, é a mesma que fez o apóstolo Paulo, ao escrever a Tito, quando disse: “Professam conhecer a Deus, mas o negam pelas suas obras…” (Tt 1:16). É sem proveito dizer que se conhece a Deus, ou dizer que se tem ‘fé’, se esse alguém não guarda o seu mandamento (1 Jo 2:4). E qual é o mandamento a cumprir, para que o homem passe a conhecer a Deus? Que creia em Cristo, no nome do Filho de Deus (1 Jo 3:23), pois, o que guarda esse mandamento, permanece em Deus e Deus nele (1 Jo 3:24; Gl 4:9).

Qual a obra que o homem deve realizar? Crer em Cristo! (Jo 6:28-29). É sem valor algum, professar que se conhece a Deus, mas não se crê em Cristo, ou seja, se o nega pelas obras. Cristo é salvação para todos quantos O obedecem, portanto, Ele salva quem realiza a sua obra: “E, sendo ele consumado, veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem” (Hb 5:9).

O questionamento de Tiago só é compreendido quando o leitor perceber que a obra a qual ele fez referência diz da obra de Deus, que é crer em Cristo e não das obras decorrentes da lei: guardar os sábados, a circuncisão, dias, luas, etc. Aquele que diz que crê em Deus, se não crê em Cristo, a obra exigida por Deus, tal ‘fé’ é morta em si mesma (Tg 2:17).

Ao ler esta passagem de Tiago, tem que se ter em mente que, quem crê em Cristo, não crê somente em Cristo, mas também em Deus e vice-versa: “E Jesus clamou e disse: ‘Quem crê em mim, crê, não somente em mim, mas também naquele que me enviou’” (Jo 12:44). Ora, quem diz ter fé, tem que ter a obra, ou seja, crer em Cristo. Quem crê em Cristo crê no testemunho que Deus deu acerca do seu Filho Jesus Cristo (1 Jo 5:10).

Muitos judeus diziam que criam que Deus é um só, mas, apesar de ser bom crer na existência de Deus, não consideravam que os demônios também criam e estremeciam, mas, tal fé não salva os demônios.

O que salva o homem é o mandamento de Deus, contido no evangelho: realizar a obra de Deus, ou seja, crer em Cristo, não a disposição do homem em crer na existência de Deus, ou em milagres, ou em anjos, ou no sobrenatural, ou na circuncisão, ou na carne de Abraão, etc.

Quando Tiago utiliza o termo ‘louco’, ‘insensato’, deixa evidente que estava tratando com cristãos convertidos dentre os judeus. Os profetas utilizavam o termo ‘louco’, ‘ignorante’ para fazer referência aos filhos de Israel, e, Tiago ao escrever às doze tribos da dispersão, escreveu a cristãos convertidos, dentre os judeus (Dt 32:6; Jr 4:22).

Tiago destaca que, somente dizer acreditar (fé) em Deus, sem obedecê-Lo (obras) é inútil e utiliza a pessoa do patriarca Abraão como exemplo, que, ao oferecer o seu único filho em holocausto, demonstrou confiar em Deus (Tg 2:20).

O irmão Tiago evidencia que Abraão foi justificado pelas obras, quando ofereceu o seu filho Isaque sobre o altar (Tg 2:21). Como? Ao dizer que Abraão foi justificado pelas obras, isto não significa que Abraão foi justificado pelas obras da lei, visto que à época do patriarca ainda não havia sido entregue a lei aos filhos de Israel (Rm 4:13). O apóstolo Paulo é específico: ninguém é justificado ‘pelas obras da lei’, na verdade o homem é justificado pelas obras, em função da lei (mandamento) da fé.

As ‘obras da lei’ referem-se à lei de Moisés, que é antagônica à ‘lei da fé’, ou seja, ao mandamento do evangelho: crer em Jesus Cristo: “Onde está logo a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé” (Rm 3:27). “Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé em Cristo, não pelas obras da lei; porquanto pelas obras da lei, nenhuma carne será justificada” (Gl 2:16).

Se Abraão tivesse proposto de si mesmo fazer um sacrifício, oferecendo o seu filho em holocausto, a sua ação não o justificaria. Mas, como Deus ordenou a Abraão que oferecesse o seu único filho em holocausto (Gn 22:2) e ele obedeceu ao mando do Senhor, foi justificado por sua obra: a palavra de Deus operou nele: “Por isso, também, damos, sem cessar, graças a Deus, pois, havendo recebido de nós a palavra da pregação de Deus, a recebestes, não como palavra de homens, mas (segundo é, na verdade), como palavra de Deus, a qual também opera em vós, os que crestes” (1 Ts 2:13).

Tudo o que não é ordenado por Deus, é pecado e oferecer um filho em holocausto, sem Deus ter ordenado, é pecado “… e tudo o que não é de fé é pecado” (Rm 14:23), pois o justo viverá da palavra de Deus, ou seja, da fé (Dt 8:3; Hc 2:4).

Abraão foi justificado por ter colocado o seu único filho sobre o altar? Não! Foi justificado por Deus, porque confiou que Deus era poderoso para ressuscitar o seu filho, quando iria imolá-lo sobre o altar (Hb 11:19).

Ao falar com Saul, Deus deixa claro que importa ao homem obedecer, não sacrificar. (1 Sm 15:22). Abraão demonstrou confiança em Deus, quando colocou o seu filho sobre o altar para imolá-lo, o que demonstra que, quem confia, obedece. É dito que Abraão foi justificado pelas obras, porque não se resignou em acreditar na existência de Deus, antes realizou o que Deus ordenou.

Com relação ao evangelho, o homem é salvo pela obra e não porque acredita que Deus é um só. Qual a obra em questão? Crer que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, pois este é o mandamento de Deus, para todos os homens durante o tempo sobre modo oportuno de salvação – hoje – (2 Co 6:2).

Enquanto de Abraão Deus exigiu o seu único filho, hoje, Deus exige de todos os homens que creiam em seu Filho, Jesus Cristo. Abraão acreditava na existência de Deus, e quando foi realizar a obra exigida por Deus, ficou claro que a sua crença na existência e poder de Deus, cooperou com a sua obra, e assim, pela obra, a confiança foi ‘aperfeiçoada’ (Tg 2:22).

A confiança do homem em Cristo é designada ‘perfeita’ (τελειόω – teleioó) quando o crente realiza o que lhe foi determinado. O termo grego traduzido por ‘aperfeiçoada’ é τελειόω, e não tem o sentido de melhorar a confiança, antes aponta para um quesito funcional: cumpre o propósito para o qual foi estabelecida.

Enquanto Tiago utilizou o termo ‘obra’, para fazer referência ao imperativo de obedecer ao mandamento de Deus, o apóstolo João faz uso do termo ‘amor’ (ágape), para fazer referência a esse mesmo imperativo.

“Bem vês que a fé cooperou com as suas obras e que pelas obras, a fé foi aperfeiçoada” (Tg 2:22);

“No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena e o que teme não é perfeito em amor” (1 Jo 4:18).

Considerando que, quem ama a Deus, cumpre o seu mandamento (Jo 14:15 e 23 e 24), segue-se que quem ama (obedece), não tem medo (temor), pois a obediência perfeita lança fora o medo. O medo decorre da pena, de modo que, quem tem medo é porque não obedeceu, de fato.

Pela palavra de Deus que disse: “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei” (Gn 12:1), ou seja, pela fé (a palavra de Deus é firme fundamento, prova do que não se vê), Abraão obedeceu e saiu, mesmo não sabendo para onde ia (Hb 11:8). A confiança só é perfeita quando cumpre, exatamente, a finalidade: a obediência.

Quando diz que o homem é justificado pela ‘fé’, o apóstolo Paulo está apontando para a verdade do evangelho, que evidencia Cristo como o salvador do mundo. Quando diz que Abraão foi justificado pelas obras, o irmão Tiago está apontando para o mandamento de Deus, que diz: “Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá e oferece-o ali em holocausto, sobre uma das montanhas, que eu te direi” (Gn 22:2).

Sem o mandamento para imolar o filho, Abraão poderia crer na existência de Deus, mas não seria aprovado. Sem o mandamento de Deus, para sair do meio da sua parentela, Abraão poderia deixar pai e mãe, mas não seria herdeiro da promessa. Abraão podia gerar um filho de suas entranhas, o que ocorreu com Hagar e Quetura (Gn 16:4; Gn 25:1-2), porém, tal capacidade não o tornaria pai de muitas nações.

É significativo que, diante da promessa de que a sua descendência seria como as estrelas do céu, Abraão nada fez, antes confiou em Deus, ao que isto lhe foi imputado por justiça. Diante da palavra da promessa, que disse que Abraão teria um filho com Sara (Gn 17:19), a jactância foi excluída, pois não havia nada que Abraão pudesse fazer para que Sara concebesse um filho.

Apesar do questionamento de Abraão, de que era impossível a um homem com mais de cem anos gerar filhos (Gn 17:17), posteriormente, Abraão teve filhos com Quetura (Gn 25:1). Dos filhos que teve com Quetura, Abraão podia jactar-se da sua carne, porém, do filho que teve com Sara, a promessa excluiu qualquer possibilidade de jactância, pela impossibilidade inerente ao homem, e ao oferecer sobre o altar o seu único filho, Abraão teve que, em figura, recobrá-lo dentre os mortos (Rm 3:27; Hb 11:19).

Sair do meio da parentela era algo que Abraão podia fazer, mas, ao fazê-lo, indica que ele se sujeitou, como servo, ao mandamento do Senhor. Oferecer Isaque sobre o altar era algo que Abraão podia fazer, e o fez, demonstrando total submissão à ordem de Deus. Agora, o nascimento de Isaque e a vinda do descendente, foram estabelecido pela palavra de Deus, ao que Abraão resignou-se a crer, pois, com relação à promessa, nada podia fazer a não ser crer naquele que é fiel e não pode mentir.

 

Fé com obras

Por má compreensão da exposição de Tiago, Martinho Lutero[6] chegou a classificar a epístola de Tiago como ‘insossa’, ou ‘cheia de palha’.

Se não compreender que o evangelho constitui um mandamento de Deus e que crer em Cristo é realizar a Sua obra, dificilmente o leitor compreenderá a epístola de Tiago: “Mas, nem todos têm obedecido ao evangelho; pois Isaías diz: SENHOR, quem creu na nossa pregação?” (Rm 10:16).

O apóstolo Paulo, ao escrever a Tito, utiliza a mesma linguagem do apóstolo João e Tiago:

“Confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras, sendo abomináveis, desobedientes e reprovados para toda a boa obra” (Tt 1:16);

“E nisto sabemos que o conhecemos: se guardarmos os seus mandamentos. Aquele que diz: Eu o conheço, mas não guarda os seus mandamentos, é mentiroso e nele não está a verdade” (1 Jo 2:3-4).

Dizer que ‘conhece a Deus’ e ‘negar com as obras’, tem o sentido de honrar a Deus somente com a boca e com os lábios, vez que tal pessoa não guarda o mandamento de Deus (temor). É crer (ter fé) sem as obras (obediência, honra). Os filhos de Israel se aplicavam a um temor que não era o princípio da sabedoria, antes era mandamento de homens: “Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, com a sua boca e  com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo, consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” (Is 29:13).

Primeiro, é dada a palavra da fé, ou seja, o evangelho (Rm 10:8). A palavra da fé é condicionada, vez que ‘se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres, que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo’ (Rm 10:9).

A palavra implantada é fé e a condição estabelecida é crer, de modo que possibilita ao homem crer para a justiça e confessar para ser salvo (Rm 10:10). A confissão é o fruto dos lábios de um coração que recebeu a semente incorruptível, a palavra da fé (Hb 13:15; 1Pd 1:23).

A obra exigida de Deus, dos homens, é crer no coração (intelectualmente), que Deus ressuscitou a Jesus dentre os mortos e, com a boca, confessá-lo como Senhor e Cristo. Essa obra decorre da palavra da fé apregoada: “Porque esta palavra está mui perto de ti, na tua boca, e no teu coração, para a cumprires” (Dt 30:14). Por isso é dito: Cri, por isso falei (Sl 116:10), pois com a boca se confessa e com o coração (mente) se crê.

O exemplo que Tiago apresenta, através de Raabe, se dá da mesma forma que com o cristão, pois ela ouviu que Deus havia dado a Israel a terra onde estava a cidade de Jericó, bem como ouviu que Deus secou as águas do Mar Vermelho e o que foi feito dos povos que se opuseram aos filhos de Israel, após a travessia do Jordão, de modo que Raabe concluiu que Deus é Deus em cima nos céus e embaixo na terra (Js 2:11).

Raabe ouviu e creu em Deus, a ponto de confessar aos espias os seus temores e pedir por misericórdia (Js 2:11-13). Por crer que Deus é Deus encima nos céus e embaixo na terra, pelo que ouviu acerca dos feitos dos filhos de Israel, Raabe acolheu os espias no eirado da sua casa e os despediu por outro caminho (Tg 2:25).

A informação que Raabe ouviu, acerca dos filhos de Israel, era firme e verdadeira, pelo que é dito: “Pela fé Raabe, a meretriz, não pereceu com os incrédulos, acolhendo em paz os espias” (Hb 11:31). Pela informação que recebeu, acerca do povo de Israel e do Deus que tirou o povo da terra do Egito, ou seja, pela fé (πίστις-pistis), Raabe tomou a iniciativa de acolher em paz os espias (obra).

Seria sem proveito, Raabe dizer que acreditava no evento histórico em que Deus secou as águas do Mar Vermelho, se não tivesse rogado por misericórdia aos espias. Seria sem proveito Raabe confessar que Deus é Deus nos céus e na terra sem se sujeitar a Ele, servindo aos espias.

Se entender o termo ‘fé’, segundo o que é usual em nossos dias, Raabe seria uma mulher de fé, se ela acreditasse que não seria atingida pela guerra, ou em algum absurdo ou em algum evento mágico. Nesse diapasão, a fé de Raabe deveria se opor à razão, ou como propuseram: ‘credo quia absurdum’ (creio, porque é absurdo).

Semelhantemente, Abraão foi justificado quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque. Ora, oferecer um filho em holocausto é um absurdo, porém, Abraão o fez pela fé, ou seja, apoiado na palavra de Deus, que disse: “Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre uma das montanhas, que eu te direi” (Gn 22:2). Ele ofereceu o seu único filho, porque era a palavra de Deus e não porque era absurdo.

Embora Deus tenha ordenado a Abraão que oferecesse o seu único filho em holocausto, Abraão considerou a palavra que diz: “Em Isaque será chamada a tua descendência” (Hb 11:18). Sem Isaque não havia descendência, e nem viria o Descendente, pelo que se entende que ele considerou que “Deus era poderoso para, até dentre os mortos, ressuscitar a seu filho e daí, também, em figura ele o recobrou” (Hb 11:18-19).

É pela fé, ou seja, pela palavra de Deus, que diz: ‘Em Isaque seria chamada a sua descendência’, que Abraão foi aprovado por Deus. Por causa dessa promessa: “Como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí” (Rm 4:17), Abraão creu que Deus vivifica os mortos e que chama à existência as coisas que não são, como se já fossem, vez que Deus teria que cumprir a Sua palavra (Rm 4:21).

Sem a palavra de Deus (fé), seria impossível Abraão ter a esperança de que o seu descendente (Cristo), viria ao mundo, quando colocou o seu único filho sobre o altar (creu contra a esperança).

“Pela fé, ofereceu Abraão a Isaque, quando foi provado; sim, aquele que recebera as promessas ofereceu o seu unigênito. Sendo-lhe dito: Em Isaque será chamada a tua descendência, considerou que Deus era poderoso para, até dentre os mortos, ressuscitá-lo; E daí também, em figura, ele o recobrou” (Hb 11:17-19)

Abraão tinha fé em Deus (cria na existência de Deus) e executou a obra que Deus mandou realizar, ou seja, a fé (crer) cooperou com as obras, de modo que, pelas obras de Abraão a fé (crer) foi aperfeiçoada, ou seja, cumpriu o seu propósito.

 

Identificando um erro na pergunta: “A salvação é somente pela fé ou pela fé, mais as obras?”

Há quem acredite que essa é a pergunta mais importante, em toda a Teologia Cristã. Outros, que essa pergunta motivou a Reforma: a separação entre a igreja Protestante e a igreja Católica, entretanto, não atentam para o fato de que há um erro na pergunta, que leva a um entendimento equivocado, acerca da fé e das obras.

Quando é perguntado: ‘A salvação é somente pela fé…?’, é essencial que se dê o significado do termo ‘fé’ na frase. Se o significado de fé for ‘crer’, jamais a salvação é somente pelo ‘crer’.

Quando a Bíblia apresenta a salvação somente pela fé, na verdade está dizendo que a salvação é somente por Cristo, ou seja, pelo evangelho. Não existe outra alternativa que não seja o evangelho (fé). A alternativa “… ou pela fé mais as obras?”, inexiste!

Quando questionam: “A salvação é pela fé mais as obras?”, geralmente, os termos ‘fé’ e ‘obras’ não possuem o mesmo significado que o empregado pelo irmão Tiago no verso: “Vedes então que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé” (Tg 2:24). Tiago diz que ‘o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé’, o que é completamente diferente da ideia que a pergunta sugere: ‘Salvação é pela fé, mais as obras’.

Para quem construiu a pergunta, obras possui o significado de ‘boas ações’, ‘bom comportamento’ e até de ‘frutos’, questões que o irmão Tiago não aborda neste verso em comento. O homem é salvo ‘apenas’ quando crê em Cristo, pois crer em Cristo é o suficiente para ser salvo, vez que quem salva é Cristo.

Quem crê em Cristo, produziu a obra exigida por Deus, de modo que Tiago não está dizendo que, para ser salvo, é necessário ter fé (crer) e fazer boas ações (obras). É um equivoco entender que Tiago enfatizou o fato de que a fé em Cristo produz boas obras’[7].

Tiago não faz referência à fé em Cristo, antes à ‘justificação pelas obras’, que na verdade, é crer em Cristo. Quando ele diz: ‘não somente pela fé’, Tiago não se refere à fé, como a verdade do evangelho, mas, sim, a alguém dizer que crê em Deus, mas que não realiza a sua obra (mandamento).

Realizar boas ações (boas obras) não é prova de que o homem foi verdadeiramente justificado, antes o justificado já produziu a obra exigida por Deus, e Deus, por sua vez, gerou um novo homem, através da semente incorruptível, criado em verdadeira justiça e santidade. O bom porte, o bom comportamento, as boas ações, etc., não decorrem da fé (crer) em Cristo, antes, o bom comportamento se dá quando o homem é admoestado e redarguido, e muda o seu comportamento, pelo transformar do entendimento (Rm 12:2; 1Pd 1:13-14).

A segunda parte da pergunta é equivocada e também induz ao erro, pois Tiago diz que o homem é justificado pelas obras (crer em Cristo),  não pela fé (crer em Deus). Em momento algum Tiago aponta para uma salvação pela ‘fé mais as obras’, antes ele apresenta a salvação pelas obras (obediência ao mandamento de Deus) que decorrem da fé (crer) em Cristo.

 


[1] “Proposição que se assume como verdadeira, independentemente de seu conteúdo”;

[2] “3049 λογιζομαι logizomai voz média de 3056; TDNT – 4:284,536; v 1) recontar, contar, computar, calcular, conferir 1a) levar em conta, fazer um cálculo 1a1) metáf. passar para a conta de alguém, imputar 1a2) algo que é considerado como ou é alguma coisa, i.e., como benefício para ou equivalente a algo, como ter a força e o peso semelhante 1b) constar entre, considerar 1c) considerar ou contar 2) avaliar, somar ou pesar as razões, deliberar 3) de considerar todas as razões, para concluir ou inferir 3a) considerar, levar em conta, pesar, meditar sobre 3b) supor, julgar, crer 3c) determinar, propor-se, decidir Esta palavra lida com a realidade. Se eu “logizomai” ou considero que minha conta bancária tem R$ 25,00, ela tem R$ 25,00. Do contrário eu estaria me enganando. Esta palavra refere-se a fatos e não a suposições” Dicionário Bíblico Strong.

[3] “Fidedigno – adj. Merecedor de crédito (confiança); que é real e verdadeiro; autêntico: realizou um fidedigno levantamento das dívidas da empresa. P.ext. Figurado. Caracterizado por ser real e verdadeiro; autêntico.  (Etm. do latim: fide dignus)”. Dicionário Online de Português.

[4] “4102 πιστις pistis de 3982; TDNT – 6:174,849; n f 1) convicção da verdade de algo, fé; no NT, de uma convicção ou crença que diz respeito ao relacionamento do homem com Deus e com as coisas divinas, geralmente com a ideia inclusa de confiança e fervor santo nascido da fé e unido com ela 1a) relativo a Deus 1a1) a convicção de que Deus existe e é o criador e governador de todas as coisas, o provedor e doador da salvação eterna em Cristo 1b) relativo a Cristo 1b1) convicção ou fé forte e benvinda de que Jesus é o Messias, através do qual nós obtemos a salvação eterna no reino de Deus 1c) a fé religiosa dos cristãos 1d) fé com a ideia predominante de confiança (ou confidência) seja em Deus ou em Cristo, surgindo da fé no mesmo 2) fidelidade, lealdade 2a) o caráter de alguém em quem se pode confiar” Dicionário Bíblico Strong.

[5] “A metonímia consiste em empregar um termo no lugar de outro, havendo entre ambos estreita afinidade ou relação de sentido. Observe os exemplos abaixo: 1 – Autor pela obra: Gosto de ler Machado de Assis. (= Gosto de ler a obra literária de Machado de Assis.) 2 – Inventor pelo invento: Édson ilumina o mundo. (= As lâmpadas iluminam o mundo.) 3 – Símbolo pelo objeto simbolizado: Não te afastes da cruz. (= Não te afastes da religião.) 4 – Lugar pelo produto do lugar: Fumei um saboroso havana. (= Fumei um saboroso charuto.) 5 – Efeito pela causa: Sócrates bebeu a  morte. (= Sócrates tomou veneno.)” Só Português < http://www.soportugues.com.br/secoes/estil/estil3.php > Consulta realizada em 06/05/2016.

[6] “Em suma: o evangelho, segundo João e sua primeira epístola, as epístolas de Paulo, particularmente, as dirigidas aos romanos, gálatas, efésios, e a primeira epístola de Pedro, estes são os livros que lhe apresentam Cristo e lhe ensinam tudo que é necessário e bom saber, ainda que jamais visse ou ouvisse qualquer outro livro ou doutrina. alquer forma, não tem natureza evangélica. Mas disso ainda falaremos em outros prefácios” Lutero, Martinho. Pelo Evangelho de Cristo: Obras selecionadas de momentos decisivos da Reforma. Trad. Walter O. Schlupp. Porto Alegre: Concórdia & São Leopoldo: Sinodal, 1984. pp. 171-177; “Embora esta epístola de São Tiago fosse rejeitada pelos anciãos, eu elogio-a e considero-a um bom livro, porque estabelece não doutrinas de homens, mas vigorosamente promulga a lei de Deus. No entanto, afirmo a minha própria opinião sobre isso, embora sem prejuízo para ninguém, eu não considero como uma escrita de um apóstolo, e as minhas razões seguem. Em primeiro lugar, é terminantemente contra São Paulo e todo o resto da Escritura em atribuir a justificação às obras. Ela diz que Abraão foi justificado por suas obras, quando ofereceu seu filho Isaac, embora em Romanos, São Paulo ensine o contrário, que Abraão foi justificado sem as obras, por sua fé, antes que ele tivesse oferecido seu filho, e prova isso por Moisés em Gênesis 15. Agora, embora esta epístola pode ser ajudada e uma interpretação concebida para essa justificação pelas obras, não pode ser defendida em sua aplicação às obras da declaração de Moisés em Gênesis 15. Pois, Moisés está falando aqui apenas da fé de Abraão, e não de suas obras, como São Paulo demonstra em Romanos. Esta falha, portanto, prova que esta epístola não é o trabalho de qualquer apóstolo” Lutero, Martinho. Prefácio à tradução alemã das Epístolas de S. Tiago e S. Judas, em 1522.

[7] “Tiago e Paulo não discordam em seus ensinamentos sobre a salvação. Eles abordam o mesmo assunto, sob diferentes prismas. Paulo, simplesmente, enfatizou que a justificação vem somente pela fé, enquanto Tiago enfatizou o fato de que a fé em Cristo produz boas obras”. A salvação é somente pela fé ou pela fé mais as obras? Got Questions < http://www.gotquestions.org/Portugues/somente-a-fe.html > Consulta realizada em 19/05/16.

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Paradoxo da onipotência, onisciência e benevolência

Apesar do aviso paulino, já no primeiro século do cristianismo, vê-se influencias helenística nos escritos encontrados, e dentre eles destacamos a ‘Didaquê’, chamado de ‘A doutrina dos doze apóstolos’, uma espécie de catecismo redigido entre os anos 90 e 100, na Síria, na Palestina ou em Antioquia.


 

“Cheia parti, porém vazia o SENHOR me fez tornar; por que pois me chamareis Noemi? O SENHOR testifica contra mim, e o Todo-Poderoso me tem feito mal” ( Rute 1:21 )

 

Filosofias

O apóstolo Paulo orientou os cristãos a terem cuidado com a filosofia (gregos) e as tradições dos homens (judeus) para que não fossem enlaçados e presos ( Cl 2:8 ), pois para estes o evangelho é escândalo e para aqueles loucura.

Apesar disso, escolas teológicas como a de David Friedrich Strauss cogitaram a ideia de que o apóstolo Paulo foi influenciado pela filosofia grega, e a escola de teologia de Tubinga presumia que o apóstolo dos gentios foi influenciado por Sêneca[1], pensador Romano.

Considerando que o apóstolo Paulo ordenou aos cristãos que não entrassem pelo caminho da filosofia, e os próprios filósofos que estava no Areópago, em Atenas, entenderam como uma nova doutrina a mensagem da ressurreição dentre os mortos ( At 17:32 ), não é muito difícil concluir que é incoerente afirmar que há uma correspondência de pensamento entre o apóstolo Paulo e o intelectual estoico Romano Sêneca ou que o estoicismo tenha relação com o evangelho de Cristo como argumentam alguns críticos do evangelho.

O evangelista Lucas registrou o questionamento dos filósofos epicureus e estoicos que queriam saber que nova doutrina era aquela anunciada pelo apóstolo Paulo ( At 17:18 -19), o que leva à pergunta: Por que os atenienses classificariam a exposição do apóstolo Paulo de nova doutrina?

O mesmo não se pode afirmar com relação ao pensamento de Tertuliano, Orígenes[2], Jerônimo, Clemente de Alexandria[3], Tomás de Aquino, Agostinho, João Calvino, etc., pois há sim influencias helenística e correspondência de ideias com o estoicismo e outras correntes de pensamentos filosóficos como o platonismo e o aristotelismo.

Apesar do aviso paulino, já no primeiro século do cristianismo, vê-se influencias helenística nos escritos encontrados, e dentre eles destacamos a ‘Didaquê’, chamado de ‘A doutrina dos doze apóstolos’, uma espécie de catecismo redigido entre os anos 90 e 100, na Síria, na Palestina ou em Antioquia.

O Didaquê anuncia a existência de ‘dois caminhos’, e um leitor desavisado pode entender que o conteúdo filosófico desse catecismo equivale a parábola dos ‘Dois Caminhos’ anunciado por Jesus.

Jesus Cristo deixou claro que Ele é a porta estreita e o caminho estreito que conduz o homem a Deus, enquanto, a Didaquê não apresenta dois caminhos, mas um caminho com uma bifurcação[4]. Uma bifurcação remete a ideia de que o homem está em um caminho neutro e, dependendo de suas ações (se boas ou más) será salvo ou se perderá.

A parábola dos dois caminhos apresenta um caminho estreito e um caminho largo, ambos não se cruzam e conduzem a destinos distintos: perdição e salvação. Entrar ou estar no caminho largo não é resultado das ações do indivíduo. A entrada pelo caminho largo se dá através do nascimento natural, de modo que, para entrar no caminho estreito é necessário decidir-se por Cristo, nascendo de novo.

Para o homem ser salvo deve mudar a sua concepção (arrependimento) acerca de como se adquire a salvação. À saber, abandonar todo e qualquer concepção que seja diferente de: a) anunciar (confessar) que Jesus é o Filho de Deus ( Rm 10:9 ) e; b) crer no coração que Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos.

Adão é o primeiro de uma raça de homens naturais, gerados segundo a carne e o sangue, Cristo, o último Adão, por sua vez, é o primeiro de uma raça de homens espirituais, gerados pela ‘água’ e o ‘espírito’.

Quando se compreende que Jesus é o último Adão, resta concluir que a porta larga pela qual todos os homens entram no mundo e seguem por um caminho largo que os conduz à perdição diz do primeiro homem: Adão. Adão pecou, consequentemente todos os seus descendentes se desviaram e juntamente se fizeram imundos ( Sl 53:3 ; Rm 3:23 ; 1Co 15:21 -22).

A Didaquê segue outra abordagem, pois desconsidera a pessoa de Cristo como o caminho estreito e aponta imperativos de ordem moral como o caminho da vida. Na Didaquê lê-se uma lista enorme de vícios que são apontados como o caminho da morte.

Esta comparação entre ‘Os dois caminhos’ apresentado por Jesus e o que consta da Didaquê serve de alerta aos cristãos para não utilizar a Bíblia para dar respostas às questões de ordem ontológicas próprias à metafísica.

Por que não dar respostas teológicas às questões filosóficas? Porque resultará em vários paradoxos como o apresentado por Epicuro:

“Sendo Deus onisciente e onipotente, então conhecedor de todo o mal e com poder para eliminar o mal e não elimina, conclui-se que Ele não seja benevolente” Epicuro

Este artigo constitui-se uma análise do paradoxo de Epicuro à luz das Escrituras, demonstrando que as questões da filosofia não correspondem com as respostas que a Bíblia apresenta.

 

O paradoxo proposto por Epicuro

Define-se paradoxo como contradição lógica em declarações aparentemente verdadeiras. No caso em estudo, Epicuro entendeu que não havia como existir um Deus todo-poderoso e benevolente à vista do mal que assola o mundo.

Epicuro viu um trilema nos atributos de Deus e fez as seguintes proposições:

  • Sendo Deus onisciente e onipotente, então conhecedor de todo o mal e com poder para eliminar o mal e não elimina, conclui-se que Ele não seja benevolente;
  • Sendo Deus omnipotente e onibenevolente, então com poder para extinguir o mal e, por ser bom, quer fazê-lo, mas não o faz, conclui-se que Ele não seja omnisciente, ou por desconhecer o quanto de mal existe ou onde o mal está;
  • Enquanto omnisciente e omnibenevolente, então sabe de todo o mal que existe e quer mudá-lo, mas não o faz, conclui-se que Ele não seja omnipotente.

O tal dilema/paradoxo tornou-se ferramenta argumentativa para aos ateus, e muitos filósofos fizeram uma releitura destes enunciados enfatizando uma contradição lógica. Dentre eles destacamos dois: Charles Bray, cita Epicuro em seu livro ‘A Filosofia da Necessidade de 1863’:

“Seria Deus desejoso de prevenir o mal mas incapaz? Portanto não é omnipotente. Seria ele capaz, mas sem desejo? Então é malévolo. Seria ele tanto capaz quanto desejoso? Então por que há o mal?” Wikipédia < http://pt.wikipedia.org/wiki/Paradoxo_de_Epicuro> consulta realizada em 11/02/15.

Hume no seu aclamado ‘Diálogos sobre a Religião Natural’, publicado postumamente em 1779 no livro décimo, disse:

“O poder [de Deus] é infinito: o que quer que ele deseja é executado. Mas nem homem nem qualquer outro animal é feliz. Portanto ele não deseja sua felicidade. Sua sabedoria é infinita: ele nunca erra em escolher os meios para qualquer fim: mas o curso da natureza tende a ser contrário a qualquer felicidade humana ou animal: portanto não é estabelecido para tal propósito. Através de toda a história do conhecimento humano, não há inferências mais certas e infalíveis do que estas. Em que ponto, portanto, sua benevolência e misericórdia lembram a benevolência e misericórdia dos homens?” Wikipédia

Epicuro (nasceu na ilha de Samos em 342 ou 341 a. C., e morreu em Atenas, em 271 ou 270 a. C) possivelmente teve contato com o material literário produzido pelos judeus helenizados de Alexandria, principalmente porque os judeus helenizados traduziram para o grego a Bíblia hebraica pelos idos dos séculos III a.C. e II a.C.

Na mitologia grega não havia deuses que favorecesse Epicuro a pensar um deus onipotente, onipresente, onisciente e benevolente. Provavelmente Epicuro desenvolveu suas ideias de ouvir dizer do Deus dos hebreus, porém, é bem provável que não tenha analisado propriamente as Escrituras.

Agora, deixando as especulações de lado, qual é a posição das Escrituras quando fala de Deus?

 

O que a Bíblia diz de Deus

O paradoxo de Epicuro tem por base três atributos da divindade, os quais são: onipotência, onisciência e onibenevolência (benevolência ilimitada).

 

Onipotência

Os teóricos designam onipotência ou ‘omnipotência’ (português europeu) um atributo exclusivo (incomunicável) da natureza de Deus por ser capaz de fazer tudo.

A Bíblia apresenta Deus como autossuficiente, ou seja, Aquele que não depende de ninguém. Ela também descreve Deus como Aquele que através da palavra do seu poder trouxe à existência todas as coisas, quer sejam visíveis ou invisíveis “Pela palavra do SENHOR foram feitos os céus, e todo o exército deles pelo espírito da sua boca” ( Sl 33:6 ; Cl 1:16 ; Hb 11:3 ).

Com relação ao evento da criação Deus criou céus e terra, e segundo o que Ele disse por intermédio do profeta Isaias, criará novos céus e nova terra ( Is 65:17 e 22). Ou seja, Deus não dependeu de ninguém para trazer à existência todas as coisas e não dependerá de ninguém para trazer a existência novos céus e nova terra.

O dicionário Strog traz a seguinte definição do termo hebraico traduzido por todo-poderoso:

“H7703 – שָׁדַד / שדד shadad (cha-dad) v. (propriamente) ser corpulento; (figurativamente) ser poderoso; (passivamente) ser inexpugnável; (por implicação) assolar; [uma raiz primitiva] – morto, destruir (-dor), opressor, usurpador, despojo (-ador), X absolutamente.  Que fazem referência: H7706 – שׁדי / שַׁדַּי Shadday (cha-dai) s. o Todo-Poderoso [De ‘shâddad, “ser forte” (H7703)’]” Dicionário Strong.

Ora, a Bíblia apresenta Deus como Todo-poderoso, mas isto não implica em dizer que Ele faz tudo! A Bíblia é clara:

  • Deus não pode mentir “Em esperança da vida eterna, a qual Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos dos séculos” ( Tt 1:2 ); “Deus não é homem, para que minta; nem filho do homem, para que se arrependa; porventura diria ele, e não o faria? Ou falaria, e não o confirmaria?” ( Nm 23:19 );
  • Deus não pode negar a si mesmo – “Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo” ( 2Tm 2:13 );
  • Deus não pode mudar – “Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação” ( Tg 1:17 ); “Porque eu, o SENHOR, não mudo; por isso vós, ó filhos de Jacó, não sois consumidos” ( Ml 3:6 );
  • Deus não pode deixar de existir “Não és tu desde a eternidade, ó SENHOR meu Deus, meu Santo? Nós não morreremos. Ó SENHOR, para juízo o puseste, e tu, ó Rocha, o fundaste para castigar” ( Hc 1:12 );
  • Deus não pode fazer acepção de pessoas “E, abrindo Pedro a boca, disse: Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas” ( At 10:34 );
  • Deus não pode perverter o juízo “Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra?” ( Gn 18:25 );
  • Deus não pode ter o culpado por inocente e vice versa “O SENHOR é tardio em irar-se, mas grande em poder, e ao culpado não tem por inocente; o SENHOR tem o seu caminho na tormenta e na tempestade, e as nuvens são o pó dos seus pés” ( Nm 1:3 ).

Estas impossibilidades elencadas referem aos atributos ditos comunicáveis e incomunicáveis de Deus.

Para analisar o paradoxo aventado por Epicuro entre os atributos de Deus, primeiro é imprescindível entender o termo ‘omnipotência’ do ponto de vista filosófico. Para Epicuro um ser onipotente é aquele que detém todo poder para realizar tudo o que quiser. No entanto, o entrave tem início quando Epicuro faz especulações sobre o que Deus quer. Por entender que Deus deixou de fazer o que se especulou acerca da omnibenevolência de Deus, o filósofo concluiu equivocadamente que Deus não detém todo poder.

Ora, este pensamento tem por base uma lógica simplista visto que Deus pode realizar o que deseja, e não o que o homem especula ser o desejo de Deus! “Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade ( Ef 1:11 ).

O que o homem sabe acerca do desejo de Deus? Onde o filósofo se informou para declarar que o mal não poderia subsistir sendo Deus onipotente e bondoso? A vontade de Deus é jamais cometer injustiça, jamais contrariar a sua palavra, continuar imutável, etc., como se lê: “Porque a palavra do SENHOR é reta, e todas as suas obras são fiéis. Ele ama a justiça e o juízo; a terra está cheia da bondade do SENHOR” ( Sl 33:4 -5).

O filósofo se equivoca quando estabelece que ser bom é realizar o que é agradável. O bom faz o que é reto e justo “Mas o nobre projeta coisas nobres, e por nobres atos persevera” ( Is 32:8 ). Deus é bom porque providenciou resgate para o homem que ele criou e que se perdeu. É liberal, pois providenciou salvação para todos os homens e tem misericórdia de quem tiver misericórdia, ou seja, daqueles que O amam ( Ex 20:6 e Ex 33:19 ).

Quando a Bíblia apresenta Deus como ‘Todo-poderoso’ está dizendo que Ele pode fazer tudo o que desejar fazer, daí o qualificativo todo-poderoso, portanto, altíssimo, inexpugnável, inatingível, inigualável, de modo que toda a criação subsiste n’Ele pela palavra do seu poder ( At 17:28 ).

Jesus, quando respondeu ao diabo dizendo ‘também está escrito’, deixou-nos um parâmetro seguro de como ler e interpretar as Escrituras, pois há textos que demonstram que Deus é detentor de todo poder ( Sl 62:11 ), portanto, inigualável, no entanto, Deus não tem em si o desejo de atentar contra a sua própria natureza e existência.

Um dos atributos que é próprio a natureza de Deus é a imutabilidade, e qualquer ação de Deus jamais atentará contra a sua imutabilidade, pois se for de maneira diversa, Ele deixará de ser imutável, consequentemente, deixaria de ser Deus.

Não poder mentir é uma fraqueza? Do ponto de vista da natureza humana tal capacidade é tida por virtude. Mas, quando Deus afirma que não pode mentir, significa que o poder de Deus não é infinito?  Não poder mentir seria uma fraqueza? Não poder mentir atenta contra o seu poder? Não!

Esta ‘impossibilidade’ na verdade demonstram a imutabilidade, a fidelidade e a grandeza de Deus! Com relação ao poder de Deus, vale considerar que após Ele criar todas as coisas, não se cogita que ao final da criação que Ele tenha se enfraquecido ou que tenha ficado menos poderoso. Quando a Bíblia diz que Deus é todo poderoso e imutável, ela demonstra que tudo o que foi criado Deus é poderoso para fazer infinitamente muito mais, e o seu poder permanece inalterado.

Poder criar do nada todas as coisas é uma característica da Onipotência de Deus, e, não mentir é característica de outro atributo d’Ele. Não poder mentir não é falta de poder, antes diz de alguém que tem o poder de garantir a sua palavra, ou seja, faz parte da imutabilidade de Deus.

A questão: Deus onipotente realizaria uma ação que limitaria a sua capacidade de realizar ações? É desta pergunta que surge o aclamado ‘paradoxo da pedra’: “Pode um ser omnipotente criar uma pedra que não consiga erguer?”. Qual a resposta bíblica?

Sim! Em termos gerais o ‘livre arbítrio’ é uma ‘pedra’ que limita a ação de Deus, pois embora tenha providenciado salvação para todos os homens por desejar salvar a todos, Ele resignou-se salvar somente os que obedecem à verdade do evangelho “Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” ( 1Tm 2:4 ; Ex 20:6 e Ex 33:19 ).

É impossível o homem estar em comunhão com Deus a contragosto, pois para estar com Deus é necessário sujeitar-se voluntariamente ao seu mando. Ora, em Deus o homem encontra plena liberdade, condição completamente diferente da ideia de independência “Ora, o Senhor é Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” ( 2Co 3:17 ).

Geralmente confunde-se ‘liberdade’ com ‘independência’. A liberdade só é possível entre partes que possuem comunhão, vínculo. Já a independência interrompe qualquer vínculo. Se há comunhão com Deus, há liberdade. Se há independência de Deus, perde-se a liberdade, pois o homem passa a ser prisioneiro do pecado.

Deus tem o poder de praticar todas as ações que não contrarie a sua natureza, que é santa, justa e boa! Deus é fiel à sua palavra e, como prometeu salvar o homem, providenciou salvação poderosa na casa de Davi para que permaneça justo e possa justificar os homens que obedeçam o evangelho.

No quesito salvação não há impossível para Deus! “EIS que a mão do SENHOR não está encolhida, para que não possa salvar; nem agravado o seu ouvido, para não poder ouvir” ( Is 59:1 ). Porém Deus não salva aqueles que rejeitam a Cristo, não por fraqueza ou impossibilidade n’Ele. Na verdade Deus não salva aquele que rejeita a verdade do evangelho porque seu propósito é salvar os crentes pela loucura da pregação e, como a sua palavra é firme não declara justo o ímpio! “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação” ( 1Co 1:21 ).

Deus é todo-poderoso conforme declarou Jó: “Bem sei eu que tudo podes, e que nenhum dos teus propósitos pode ser impedido” ( Jo 42:2 ), um conceito diverso do que os filósofos cunharam no termo ‘onipotente’, o qual remete a uma ideia equivocada da magnitude do poder de Deus.

Deus tudo pode e nenhuns dos seus propósitos podem ser frustrados, o mesmo não pode ser dito da vontade do homem.

A vontade de Caim foi frustrada, pois queria oferecer um sacrifício e agradar a Deus, porém, ele foi rejeitado e a sua oferta também. Deus sabia quem, como e onde ocorreria o primeiro homicídio e alertou Caim, entretanto, Deus não interveio para parar a ação má de Caim.

Vale observar que o assassínio surgiu da ira que Caim alimentou (se inflamou muito) contra seu irmão ( Gn 4:6 ). Deus alertou Caim quanto aos seus sentimentos, mas não interveio, visto que Caim possuía o livre arbítrio com relação as suas ações. E destacar que, se Caim procedesse bem, de igual modo não era aceito por Deus, pois não é através de boas ou más ações que Deus aceita o homem. Caim já nasceu escravo do pecado, ou seja, sob domínio do pecado, e por isso não era aceito e nem a sua oferta. Quando é dito que ‘o pecado jaz porta’, ‘porta’ assume o significado de local onde se exerce domínio.

Para se aproximar de Deus Caim devia crer que Deus é galardoador dos que O buscam, e não que Deus se agrada do homem quando apresenta uma oferta.

Mas, apesar de ser pecador, o desejo (foro íntimo) de Caim pertencia a ele, e não ao pecado, de modo que sobre as suas emoções e desejos devia exercer domínio ( Gn 4:7 ).

Quando foi dado o livre-arbítrio ao homem, Deus resignou-se não intervir nos seus julgamentos internos, mesmo que resultasse no mal.

A especulação dos filósofos acerca da onipotência de Deus vislumbra uma divindade que esteja sujeita aos caprichos do homem.

 

Bondade

Com relação a ‘bondade’ de Deus, o paradoxo de Epicuro considera somente a bondade de Deus, e se esquece da severidade, como alerta o escritor aos Hebreus: “Considera, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas para contigo, benignidade, se permaneceres na sua benignidade; de outra maneira também tu serás cortado” ( Rm 11:22 ); “Amai ao SENHOR, vós todos que sois seus santos; porque o SENHOR guarda os fiéis e retribui com abundância ao que usa de soberba” ( Sl 31:23 ).

Deus revelou a Moisés a quem Ele destina a sua ‘bondade’: “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” ( Êx 20:6 ), e quando interpelado por Moisés para que fosse punido em lugar do povo que havia pecado, Deus respondeu que teria misericórdia de quem Ele tivesse misericórdia, ou seja, dos que O obedecem “Porém ele disse: Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti, e proclamarei o nome do SENHOR diante de ti; e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer” ( Êx 33:19 ).

Dentre muitos atributos, a Bíblia utiliza o qualificativo ‘bom’ para descrever Deus. Neste sentido Jesus lembrou certo jovem que somente Deus é bom, como se lê: “Jesus lhe disse: Por que me chamas bom? Ninguém há bom, senão um, que é Deus” ( Lc 18:19 ).

O termo hebraico traduzido por ‘bom’ atribuído a Deus teria os significados a seguir?

“טוב / טּוֹב towb tob (to-be) adj. 1. bom (como adjetivo) no sentido mais amplo; 2. usado também como um substantivo, tanto no masculino como no feminino, o singular e plural (bom, uma coisa boa ou boa, um bom homem ou mulher; 3. os bons, os bens ou coisas boas, bons homens ou mulheres), também como um advérbio (bem); [de ‘towb, tob (H2895), “animar, fazer melhor, melhorar, tornar bom”‘] – bonito, melhor, melhor, mais generoso, alegre, à vontade, gracioso, alegre, amável, formoso“ Dicionário Strong

Quando utilizado o termo ‘bom’ em nossos dias, a ideia massificada diz do que é bonito, melhor, mais generoso, alegre, à vontade, gracioso, amável, formoso. Poucos se recordam do tom aristocrático que o termo carrega em si, em que o termo ‘bom’ possui o sentido de superior, nobre, bem nascido, etc., em oposição ao inferior, vil, plebeu.

Quando a Bíblia apresenta Deus como ‘bom’, está demonstrando que Ele é superior, contrastando com a condição de suas criaturas alienadas d’Ele, que são descritas como más. Neste sentido Deus é ‘bom’, ‘verdade’, ‘justiça’, ‘luz’, etc., e estas definições não comportam gradação ou dualidade.

Deus é somente bom, ou seja, neste quesito Ele não agrega os dois valores em si: bom e mal. No sentido de Senhor, bom, nobre, etc., não comporta um adjunto adnominal de intensidade como ‘muito bom’, ‘pouco bom’, ‘quase bom’, etc.

Concomitantemente ao fato de Deus ser ‘senhor’, ‘bom’ (agathos), Ele também é conhecedor do bem e do mal, e este dois últimos são entes indissociáveis. Para compreender a natureza do conhecimento do bem e do mal, basta refletir sobre a natureza das ações, pois uma mesma ação pode ser boa ou má “Então disse o Senhor Deus: Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal” ( Gn 3:22 ).

Adão como criatura, enquanto em comunhão com Deus era bom, mas após a ofensa ao mandamento de Deus dado no Éden, passou a condição de mau e, concomitantemente, conhecedor do bem e do mal.

É neste quesito ‘condição’ que Jesus designou os seus interlocutores de maus, apesar de fazerem o bem aos seus semelhantes segundo o conhecimento do bem e do mal que dispunham ( Lc 11:13 ). Os homens mesmo sendo maus (inferiores, vis, plebe) sabiam dar aos seus filhos pão em lugar de uma víbora.

Neste sentido, é necessário perceber que a condição de Adão e de todos os seus descendentes é ‘mentira’, contrastando com a natureza de Deus que é verdade “De maneira nenhuma; sempre seja Deus verdadeiro, e todo o homem mentiroso; como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras, E venças quando fores julgado” ( Rm 3:4 ); “Dizia na minha pressa: Todos os homens são mentirosos” ( Sl 116:11 ).

Deus é bom porque é Senhor. Deus é bom porque é soberano. Deus é bom porque é pai. Estas três funções devem ser consideradas funcionalmente, conforme era própria à aristocracia, e não conforme a visão da sociedade de hoje, na qual o termo ‘Senhor’ deixou de ter a implicação de ‘dono’ para um significado amolecido ao longo da história da humanidade, que diz de um simples ‘pronome de tratamento’.

O termo ‘senhor’ na antiguidade marcava o abismo social que havia entre o rei e seus súditos, o pai e o filho, o dono e os escravos. Na aristocracia grega (do grego αριστοκρατία, de άριστος (aristos), melhores; e κράτος (kratos), poder, Estado, ‘poder dos melhores’), os aristocratas eram designados ‘melhores’, ‘bons’, ‘senhores’, ‘distintos’, ‘escolhidos’.

O termo grego traduzido por ‘bom’ é ἀγαθούς (agathos), derivado de outro termo com raiz correspondente: ‘Arete’. O termo ‘arete’ significa perfeição do ponto de vista funcional, ou seja, o termo não possui conotação moral, e tal designação apontava para a condição dos senhores como os ‘bons’.

“… continha em si a conjugação de nobreza e bravura militar (…) quase nunca tem o sentido posterior de ‘bom’, como arete não tem o de virtude moral” Jaeger, Werner, Paidéia, A Formação do homem Grego, tradução Artur M. Parreira, São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2003. Pág. 27;

“Senhorio e arete estavam inseparavelmente unidos. A raiz da palavra é a mesma: άριστος, superlativo de distinto e escolhido…” Idem, Pág. 26;

“O poeta aconselha a que se evite o trato com os maus (kakoi), em que o poeta engloba todos os que não pertencem a uma estirpe nobre; por outro lado, também, nobres (agathos) só se acham entre seus iguais” Idem, pág. 244.

“… que significam exatamente, do ponto de vista etimológico, as designações para ‘bom’ cunhadas pelas diversas línguas? Descobri então que todas elas remetem à mesma transformação conceitual – que, em toda parte, ‘nobre’, ‘aristocrático’, no sentido social, é o conceito básico a partir do qual necessariamente se desenvolveu ‘bom’, no sentido de ‘espiritualmente nobre’, ‘aristocrático’, de ‘espiritualmente bem-nascido’, ‘espiritualmente privilegiado’: um desenvolvimento que sempre corre paralelo àquele outro que faz ‘plebeu’, ‘comum’, ‘baixo’ transmutar-se finalmente em ‘ruim’” Nietzche, Friedrich, Genealogia da moral – Uma polêmica, Tradução Paulo César de Souza, São Paulo: Companhia das Letras, 2009. Pág. 18.

A raiz etimológica da palavra ‘agathos’ aponta para ‘alguém que é, que tem realidade, que é real, verdadeiro, o verdadeiro enquanto veraz’, designações que se aplicam a Deus, pois Ele é Senhor. Os termos ‘agathos’ e ‘arete’ eram empregados para levar adiante o lema da nobreza, de modo a distinguir o homem nobre daquele que era comum (Jaeger, Paidéia, Pág. 19).

Quando compreendemos que os termos ‘bom’ e ‘mau’ podem fazer referência ao ser, enquanto ‘alguém que é’, perspectiva diferente da classificação que se faz moralmente em relação as ações e motivações do ser, conseguimos entender que o apóstolo Paulo apontou para a natureza de Deus ao dizer: – “Seja Deus verdadeiro”.

Temos aqui uma confissão, o apóstolo Paulo admitindo o que ele constatou ser verdade acerca de Deus. Seja Deus ‘verdadeiro’ é o mesmo que dizer: Ele é Senhor, distinto, nobre, etc., enquanto os homens são ‘ralé’ por não compartilharem da natureza do Criador

O significado de ‘verdadeiro’ e ‘mentiroso’ não possuem conotação moral e nem se referem às questões de caráter, antes aponta para a natureza “De maneira nenhuma; sempre seja Deus verdadeiro, e todo o homem mentiroso; como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras, e venças quando fores julgado” ( Rm 3:4 ; Sl 51:4 ).

Quando Jesus questiona os fariseus acerca do Messias, eles responderam que o Messias era filho de Davi. Em seguida Jesus questiona como o Messias poderia ser filho de Davi, se Davi o chama de Senhor? ( Mt 22:45 ).

Quando é dito que Deus contempla com chuva tanto ‘maus’ quanto ‘bons’, percebe-se que o texto quer dizer que Deus trata grandes (nobres) e pequenos (vis), justo (crente) e injustos (descrente) de igual modo, ou seja, a abordagem não possui cunho moral ou de caráter “Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos” ( Mt 5:45 ).

Os maus e os bons que foram ajuntados para a festa nupcial, não faz referencia aos ladrões, prostitutas, etc., ou aos religiosos, antes tem o sentido de ‘vis’ e ‘nobres’, ‘pequenos’ e ‘grandes’, demonstrando que o Senhor da parábola não faz acepção de pessoas “E os servos, saindo pelos caminhos, ajuntaram todos quantos encontraram, tanto maus como bons; e a festa nupcial foi cheia de convidados” ( Mt 22:10 ).

Após compreender a bondade pertinente a Deus, resta esclarecer que, além de ser ‘nobre’, Deus também é conhecedor do bem e do mal “Então disse o Senhor Deus: Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal” ( Gn 3:22 ).

Quando lemos o Salmo 8, que diz: “Ó SENHOR, Senhor nosso, quão admirável é o teu nome em toda a terra, pois puseste a tua glória sobre os céus!” ( Sl 8:1 ), o termo hebraico traduzido por ‘admirável’ aplica-se aos nobres, como se verifica:

“0117  אדיר ’addiyr ad-deer’ procedente de 142; DITAT – 28b; adj 1) grande, majestoso  1a) referindo-se às águas do mar  1b) referindo-se a uma árvore  1c) referindo-se aos reis, nações, deuses, príncipes 2) grandioso, majestoso  2a) referindo-se aos nobres, chefes de tribos, servos” Dicionário Strong.

Agora, conhecendo a essência do termo, quando lemos o verso 4 do Salmo 93, temos a real dimensão da nobreza de Deus: “Mas o SENHOR nas alturas é mais poderoso do que o ruído das grandes águas e do que as grandes ondas do mar” ( Sl 93:4 ).

“04791  מרום marowm procedente de 7311; DITAT – 2133h; n m 1) altura  1a) altura, elevação, lugar elevado  1a1) num lugar elevado (adv)  1b) altura  1c) orgulhosamente (adv)  1d) referindo-se aos nobres (fig.)” Dicionário Strong.

O Senhor nas alturas está acima dos nobres (senhores) da terra, e é maior em poder que todos os reinos e nações!

Com relação à ‘bondade’ de Deus resta analisar o verso seguinte:

“Porém ele disse: Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti, e proclamarei o nome do Senhor diante de ti; e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer” ( Êx 33:19 ).

Ora, Moisés pediu para que Deus mostrasse a sua glória, e a resposta de Deus foi que passaria a sua ‘bondade’ diante dele. Que relação há entre a ‘gloria’ e a ‘bondade’ de Deus? Que conexão há entre o que foi pedido e o que foi mostrado?

O termo hebraico traduzido por ‘bondade’ no verso pode ser traduzido por:

“02898  טוב tuwb procedente de 2895; DITAT – 793b; n m 1) bens, coisas boas, bondade  1a) coisas boas  1b) bens, propriedade  1c) justiça, beleza, alegria, prosperidade, bondade (abstrato)  1d) bondade (referindo-se a gosto, discernimento)  1e) bondade (de Deus) (abstrato)” Dicionário Strong.

Este mesmo termo é empregado em Provérbios, onde se lê:

“No bem dos justos exulta a cidade; e perecendo os ímpios, há júbilo” ( Pv 11:10 ).

O termo ‘bem’ no versículo refere-se às riquezas materiais, bem moral, bem estar, benefício, coisas boas, prosperidade, felicidade, generosidade, etc.? Absolutamente não!

Na verdade o termo é utilizado no provérbio para fazer referência à distinção, à nobreza do governante justo, contrastando com o ímpio quando destituído da sua posição “Quando os justos se engrandecem, o povo se alegra, mas quando o ímpio domina, o povo geme” ( Pv 29:2 ).

Ex.: A morte de Atalia trouxe alegria aos habitantes da cidade, pois ficaram livres de um governo ímpio e, simultaneamente passaram a proteção de um rei justo “E todo o povo da terra se alegrou, e a cidade repousou, depois que mataram a Atalia, à espada, junto à casa do rei’ ( 2Rs 11:20 ).

Provérbios 29, verso 12 repete a ideia de provérbios 28, verso 12: “Quando os justos exultam, grande é a glória; mas quando os ímpios sobem, os homens se escondem” ( Pv 28:12 ).

Os versos afirmam que:

  • Quando os justos se alegram há grande glória? ou;
  • Quando os justos se engrandecem (grande glória)?

Ora, o paralelismo[5] que é próprio às poesias e provérbios hebraicos nos leva a concluir pelo consequente dos dois versos que o povo se alegra quando os justos estão no poder, contrastando com os ímpios quando estão no poder. Ora, quando os ímpios galgam o poder os homens se escondem, mas quando os justos se estabelecem no poder há jubilo no povo “Então Mardoqueu saiu da presença do rei com veste real azul-celeste e branco, como também com uma grande coroa de ouro, e com uma capa de linho fino e púrpura, e a cidade de Susã exultou e se alegrou” ( Es 8:15 ).

A melhor do verso 12 de provérbios 28 é:

“Quando os justos triunfam há grande glória; mas quando os ímpios sobem, os homens se escondem” ( Pv 28:12 ) – Almeida Revisada – Imprensa Bíblica.

Voltemos ao pedido de Moisés, e na resposta divina.

O que Deus se propôs revelar está em consonância com o que Moisés pediu, e a glória de Deus é o mesmo que ‘bondade’, entendimento que os lexicógrafos adotaram segundo uma visão romântica.

Na verdade o que iria ser revelado a Moisés não possuía relação com uma bondade abstrata, antes tinha relação com o poderio, a majestade, a magnificência de que é verdadeiro enquanto veraz, nobre, distinto.

É bem provável que em nosso vocabulário[6] tão distante das sociedades aristocráticas ou monarquicas não possua um termo que se possa traduzir as várias nuances pertinentes ao termo hebraico טוב (tuwb).

Este é um provérbio que evidencia uma característica própria às sociedades antigas, que poucos conhecem:

“Por três coisas se alvoroça a terra; e por quatro que não pode suportar: Pelo servo, quando reina; e pelo tolo, quando vive na fartura. Pela mulher odiosa, quando é casada; e pela serva, quando fica herdeira da sua senhora” ( Pv 30: 21 -23).

Ora, o que Deus fez passar diante de Moisés foi toda pujança, poderio, a essência da Sua glória. Dos ricos e poderosos a pujança são os bens, as riquezas, elementos que aponta para a prosperidade, o ‘bem’ que distingue os nobres dentre os comuns dos homens.

Em seguida destaca-se o nome de Deus, que é ‘invocado’ por Deus diante de Moisés, o que é peculiar aos nobres[7], aos bem nascidos, o que por si só representa a glória de quem é o que é: verdadeiro enquanto veraz[8].

Através dos elementos ‘bondade’ e ‘nome’ que consta deste verso, verifica-se o conceito ‘bom’ que se aplica a Deus. Daí vale considerar:

  • Que a ‘bondade’ de Deus é o mesmo que a Sua ‘glória’: “Porém ele disse: Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti, e proclamarei o nome do SENHOR diante de ti (…) E acontecerá que, quando a minha glória passar…” ( Ex 33:19 e 22).
  • Que os homens devem conhecer a Deus como único e verdadeiro “E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” ( Jo 17:3 )
  • Que a glória de Cristo estava na incumbência que recebeu ainda antes da fundação do mundo ( Jo 17:6 ), missão esta de manifestar o nome de Deus aos homens “E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste. Eu glorifiquei-te na terra, tendo consumado a obra que me deste a fazer (…)  Manifestei o teu nome aos homens que do mundo me deste; eram teus, e tu mos deste, e guardaram a tua palavra (…) Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me amaste (ordem, incumbência de uma função) antes da fundação do mundo (…) E eu lhes fiz conhecer o teu nome, e lho farei conhecer mais, para que o amor com que me tens amado esteja neles, e eu neles esteja” ( Jo 17:3 -4 e 6 e 24 e 26);
  • Que no Antigo Testamento as pessoas eram convocadas por sua função “DEPOIS falou o SENHOR a Moisés, dizendo: Eis que eu tenho chamado por nome (ou seja, o chamou por sua função, de saber mexer com metais) a Bezalel, o filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá, e o enchi do Espírito de Deus, de sabedoria, e de entendimento, e de ciência, em todo o lavor” ( Êx 31:1 -3);
  • Que a tradução literal de ‘e proclamarei o nome do Senhor diante de ti’ é: ‘e invocarei o nome de YHWH’ ( Ex 33:19 );
  • Que o termo ‘invocação’ pode significar: “s.f. Ação de invocar, de chamar por alguém; Chamamento; pedido de socorro; rogo; Ato de aduzir (trazer) como prova do que se diz; Súplica do poeta a uma divindade, a uma musa, para pedir inspiração; Liturgia Consagração, dedicação, proteção: igreja colocada sob a invocação da Virgem Maria” Dicionário Informal Web – grifo nosso;
  • Que em Êxodo 33, verso 17 o termo hebraico ׃םשֵֽׁבְּ traduzido por ‘nome’ na frase: “e te conheço por nome” possui um significado mais amplo: “em nome de”, no sentido de ‘te conheço por tua função’. O ‘nome’ diz da função que alguém desempenha e não o substantivo que dá nome a alguém;

O verso: “Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel” ( Is 7:14 ), verifica-se que a ênfase não está no nome (e ele se chamará Emanuel), e sim no nome (e chamará o seu nome Emanuel), destacando a função do menino: ser o Emanuel;

Que a profecia fazia referência a João Batista como Elias, visto que a função de ambos era idêntica: ‘converte o coração dos pais aos filhos’, e que João Batista se apresentava pela função que estava exercendo “Disse: Eu sou a voz do que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor, como disse o profeta Isaías” ( Jo 1:23 ); “Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do SENHOR” ( Ml 4:5 ); “E, se quereis dar crédito, é este o Elias que havia de vir” ( Mt 11:14 ).

Ao dizer que ‘proclamaria o nome do Senhor’ diante de Moisés, Deus estava jurando por Si mesmo como fez a Abraão “Dizendo: Certamente, abençoando te abençoarei, e multiplicando te multiplicarei (…) Por isso, querendo Deus mostrar mais abundantemente a imutabilidade do seu conselho aos herdeiros da promessa, se interpôs com juramento” ( Hb 6:14 e 17 ).

No ato de fazer passar a Sua glória diante de Moisés, Deus estava apresentando o fato de ser Deus como garantia. Deus ‘passar a Sua bondade’ (glória) e Deus ‘invocar o Seu nome’ não são coisas distintas, pois a glória e o nome englobam os atributos e a função (o nome = função = de Deus é ser Deus), certo é que Deus mostraria que é o ‘Eu sou’ ao deixar ver a sua glória.

Quando Deus diz a Moisés: “Te conheço por nome” ( Ex 33:17 ), destaca a função de Moisés: “Vem agora, pois, e eu te enviarei a Faraó para que tires o meu povo (os filhos de Israel) do Egito” ( Ex 3:10 ), e: “E Moisés disse ao SENHOR: Eis que tu me dizes: Faze subir a este povo, porém não me fazes saber a quem hás de enviar comigo; e tu disseste: Conheço-te por teu nome, também achaste graça aos meus olhos” ( Ex 33:12 ).

Quando Deus desceu em uma nuvem e se pôs próximo de Moisés ‘invocou’ o Seu nome como havia prometido anteriormente diante de Moisés ( Ex 33:19 ). Deus passou diante de Moisés e ‘invocou’ como prova da Sua glória as seguintes funções que desempenha para com o homem:

“O SENHOR, o SENHOR Deus, misericordioso e piedoso, tardio em irar-se e grande em beneficência e verdade; Que guarda a beneficência em milhares; que perdoa a iniquidade, e a transgressão e o pecado; que ao culpado não tem por inocente; que visita a iniquidade dos pais sobre os filhos e sobre os filhos dos filhos até à terceira e quarta geração” ( Ex 34:6 – 7).

Diante da glória manifesta de Deus e das funções que Ele desempenha, Moisés inclinou a cabeça à terra e adorou.

Neste mesmo sentido é apresentado o nome do Emanuel pela função que Ele havia de desempenhar: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” ( Is 9:6 ).

 

O bem e o mal

O conhecimento do bem e do mal não altera a natureza de quem o possui:

  • Deus é bom (nobre) e conhecedor do bem e do mal;
  • O homem é mau (inferior, vil) e conhecedor do bem e do mal.

Deus é imutável e para todo o sempre bom e, concomitantemente conhecedor do bem e do mal. O homem, por sua vez, era bom (nobre=ligado a Deus=participante da sua natureza), pois assim foi criado, mas ao desobedecer o mandamento de Deus, tornou-se mau (inferior) e conhecedor do bem e do mal.

Quando Adão desobedeceu ao Criador alterou a sua natureza para vil (má), e concomitantemente adquiriu o conhecimento do bem e do mal. Agora, para tornar-se nobre (bom), o homem precisa ‘nascer de novo’, ou seja, de uma semente incorruptível, e mesmo após tornar-se uma nova criatura, permanecerá conhecendo o bem e o mal.

Vale destacar que o conhecimento do bem e do mal não se trata de uma dualidade (bem versus mal ou nobreza versus plebeus) como muitas religiões apregoam. O conhecimento do bem e do mal que estão intrinsicamente ligados difere da essência boa ou má pertinente à natureza, porque enquanto o conhecimento bem e mal estão intimamente vinculados, visto que uma mesma ação pode ser boa e má, com relação a natureza ou é boa (nobre, ligado a Deus) ou é má (vil, desligada de Deus).

O que nos mostra isso é o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. O fruto da árvore era do conhecimento do bem e do mal, de modo que ao ser participante do fruto, não havia como Adão comer somente o bem e rejeitar o mal. Assim como a laranja é agridoce, o fruto da árvore que estava no meio do jardim era do bem e do mal.

A condenação da humanidade não é proveniente do conhecimento do bem e do mal, antes é decorrente da desobediência ao mandamento de Deus. No Éden Adão pecou, foi julgado e apenado com a morte: separação de Deus. A condenação foi estabelecida no Éden, e os homens precisam de salvação hoje, o tempo sobre modo oportuno e aceitável diante de Deus é hoje ( Rm 5:16 ; Jo 3:18 ; Hb 4:16 ; 2Co 6:2 ).

As religiões apregoam que o homem deve fazer boas ações para não serem condenados no futuro. A Bíblia demonstra que o homem precisa de salvação hoje porque foi condenado no passado. Embora sob condenação, o homem perdido pode realizar boas ações, mas boas ações não livra o homem da condenação.

A queda de Adão se deu pela desobediência, e não pelo conhecimento do bem e do mal que agregou. Guiar-se através do conhecimento do bem e do mal não muda a natureza decaída. Somente através da obediência ao evangelho o homem repara a ofensa do Éden.

Muitos questionam a ‘bondade’ de Deus a vista do mal que há no mundo, mas se esquecem que no mundo há tanto o mal quanto o bem. Por que não questionam a ‘bondade’ de Deus à vista de todas as boas ações que os homens podem fazer e as coisas boas que a natureza proporciona?

Deus soberano entregou o domínio da terra ao homem, como se lê: “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra” ( Gn 1:26 ).

Uma coisa é certa: Deus é bom (nobre) e não é a maldade dos homens que fará com que Deus tome indevidamente o domínio que Ele deu ao homem. Para que Deus obtivesse o domínio da terra novamente, enviou o seu Filho Unigênito para que, como homem conquistasse o direito de dominar sobre a terra, o que segundo a Bíblia ocorrerá em breve “E Jesus disse-lhes: Em verdade vos digo que vós, que me seguistes, quando, na regeneração, o Filho do homem se assentar no trono da sua glória, também vos assentareis sobre doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel” ( Mt 19:28 ); “Dizendo: Graças te damos, Senhor Deus Todo-Poderoso, que és, e que eras, e que hás de vir, que tomaste o teu grande poder, e reinaste” ( Ap 11:17 ).

Deus é bom quando traz a existência um homem ao mundo, e Ele permanece bom quando este mesmo homem desce ao pó da terra. Na verdade, as adversidades da vida tem um propósito singular: “No dia da prosperidade goza do bem, mas no dia da adversidade considera; porque também Deus fez a este em oposição àquele, para que o homem nada descubra do que há de vir depois dele” ( Ec 7:14 ).

Deus é bom quando preservou os habitantes da cidade de Ninive ( Jn 4:11 ), e igualmente bom quando destruiu as cidades de Sodoma e Gomorra ( Gn 19:24 ). Ora, por Deus ser bom (nobre) é que ele age da seguinte forma: “Com o benigno te mostras benigno; com o homem íntegro te mostras perfeito. Com o puro te mostras puro; mas com o perverso te mostras rígido” ( 2Sm 22:26 -27).

Geralmente quando se dá as catástrofes naturais e as mazelas decorrentes das misérias sociais é que os homens questionam a bondade de Deus.

Deus deixou leis firmes que regem a interação dos planetas, mares, ventos e do solo. Como o homem sabe ler os tempos e as estações, deve se precaver para não ser pego de surpresa pelas intempéries do planeta.

Deus também estabeleceu uma lei para as questões relativas a subsistência dos homens, lei que se aplica a todos “aquilo que o homem plantar isso também ceifará” ( Gl 6:7 ). A miséria desencadeada pelas injustiças socioeconômicas é causada pelos homens, e não pelas leis de Deus, pois o homem colhe o que planta. Deus é benevolente e justo com todos os homens, pois se o homem colhe o que planta, também necessita de sol e chuva, e Deus faz nascer o sol e chover sobre todos.

A bondade de Deus não é segundo os sentimentos pertinentes ao homem, ou seja, em demonstração de afeto e estima em relação a alguém. A bondade de Deus se verifica no cumprimento da sua palavra, pois o que Ele prometeu cumpre “Por amor do meu nome retardarei a minha ira, e por amor do meu louvor me refrearei para contigo, para que te não venha a cortar” ( Is 48:9 ).

Deus é longânime e benevolente ao ‘tardar’ a sua ira, mas essa boa vontade para com os perdidos é pelo zelo do seu nome “E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição” ( Rm 9:22 ).

Suportar pacientemente os que se opõe a verdade do evangelho é benevolência, mas isto não significa que ele tenha retardado o juízo, pois todos os homens descendentes da carne de Adão estão sob condenação. O juízo já ocorreu e o homem foi apenado com a morte, só não conseguem ver “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida” ( Rm 5:18 ).

Os descendentes de Adão são os maus e merecedores da ira de Deus, mas Ele é gracioso que oferece redenção aos que creem em seu Filho como salvador. Não importa se estes descendentes de Adão sejam pessoas moralmente boas, ou moralmente reprováveis. O juízo de Deus é idêntico sobre Adolf Hitler ou a madre Teresa de Calcutá: ambos nasceram sob condenação, vasos da ira e preparados para a perdição.

A benevolência de Deus é revelada na promessa do seu Filho que veio ao mundo, e todos quantos n’Ele crê são gerados de novo, participante da natureza divina. Moralmente reprováveis ou não, qualquer que nasce de novo é vaso de honra, preparado para vida eterna. Isto significa que não são as boas ou as más ações que afastam ou aproximam o homem de Deus.

O que afastou a humanidade de Deus foi a desobediência de Adão e o que aproxima o homem de Deus é a obediência do último Adão, que é Jesus Cristo. Em Cristo há uma substituição de ato, obediência pela desobediência, e todo aquele que n’Ele crê morre com Cristo por causa do pecado e nasce de novo para justificação, ou seja, é declarado justo por Deus, livre da condenação estabelecida no primeiro Adão.

Além do juízo de Deus estabelecido lá no Éden, haverá também um julgamento de obras, onde todos os homens serão julgados segundo as intenções dos seus corações na prática de algo. Os salvos em Cristo serão julgados no Tribunal de Cristo e os perdidos serão julgados no Grande Trono Branco.

Os filósofos alardeiam que o mal existe, e que o mal depõe contra a existência de um Deus soberano (bom) e benevolente.

Analisando o tal ‘problema do mal’, não há um consenso entre os filósofos sobre o que é o mal. Para alguns, se é algo não desejável, ou desagradável, diz do mal. Para outros, o mal está no vício, em oposição as virtudes. Dependendo da cultura, o mal é personificado em uma entidade maligna, ou quando é um pensamento contrário a crença comum.

De que mal fez referência Epicuro e Charles Bray? O que é desagradável? Uma entidade? Os vícios?

Seria o mal a ausência de felicidade como argumentou Hume? Com que fundamento Hume afirma categoricamente que não há homem feliz nem qualquer outro animal feliz? Hume era dotado de onisciência? O curso da natureza é contrário à felicidade do homem, ou o homem quando rema contra o curso natural da natureza acaba atentando contra a sua própria felicidade? Hume estaria falando de alegria ou felicidade?

Se tomarmos felicidade com um estado do indivíduo de bem-estar, satisfação, serenidade, auto confiança e satisfação diante das consequências das suas decisões, quer sejam elas acertadas ou não, Hume teria razão em afirmar que ninguém é feliz? Se tomarmos a definição de alegria, que é o transbordamento circunstancial das emoções (êxtase), que se comparado a felicidade, esta está vinculada à essência do indivíduo e aquela ao momento de certos eventos, por certo que existem pessoas felizes.

Quem pode afirmar categoricamente que há bem ou que há mal em um sorriso? Um sorriso não é uma das expressões de um estado de espírito feliz? Que mal pode haver em um sorriso? Mas, dependendo do momento que alguém esboça um sorriso poderá causar mal.

Um pai quando castiga o seu filho está fazendo o bem ou mal? Ora, é certo que o momento do castigo parece ser de tristeza, e se considerarmos o argumento de Hume, por certo o castigo é mal. Mas, quando compreendemos no que resulta a repreensão, o castigo pode ser considerado como mal?  “E, na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela” ( Hb 12:11 ).

Quem dá esmola faz o bem? Ora, no momento que alguém dispensa alguns trocados ao pedinte será retribuído com um sorriso de felicidade, mas, a mesma esmola faz com que o pedinte resigne a continuar na miséria. Dar esmola não é mal?

Para os filósofos posteriores a Hume fica a questão de Friedrich Nietzsche sobre a valoração aristocrática (bom, mal) e a transvaloração[9] sacerdotal que verte em ‘bom’ o que antes era mal e, em ruim, o que antes era bom. Hume considerou a felicidade[10] dos ‘bem-nascidos’, como apontou Nietzsche?

Questionar ou não a bondade de Deus à vista das mazelas que atinge a humanidade não torna Deus menos bom ou mais bom. Ele é o que é: verdadeiro, bom, nobre, distinto!

Agora, quanto a Deus recompensar os homens que O invocam, e os que não o invocam, há somente duas formas de Deus trata-los: para os que não o invocam vergonha eterna, e para os que o invocam vida eterna, pois “… se a nossa injustiça for causa da justiça de Deus, que diremos? Porventura será Deus injusto, trazendo ira sobre nós? (Falo como homem) De maneira nenhuma; de outro modo, como julgará Deus o mundo?” ( Rm 3:5 -6).

Se o homem pratica o que é justo diante de Deus[11] será recompensado com vida. Enquanto permanecer na sua justiça a ‘intenção’ de Deus para com o indivíduo é para o bem. Mas, se tal homem deixar a sua justiça e se achegar a iniquidade, a ‘intenção’ de Deus para o mesmo indivíduo é para mal.

Daí o alerta solene do apóstolo Paulo: “Considera, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas para contigo, benignidade, se permaneceres na sua benignidade; de outra maneira também tu serás cortado” ( Rm 11:22 ).

Quando lemos que Deus é pronto a perdoar e abundante em benignidade, não significa que Deus é complacente, tolerante ou condescendente com a impiedade. A benignidade de Deus é abundante para aqueles que O invocam, mas se o indivíduo não invoca a Deus, resta a severidade “Pois tu, Senhor, és bom, e pronto a perdoar, e abundante em benignidade para todos os que te invocam” ( Sl 86:5 ).

Este aspecto da benignidade de Deus é imutável, sem ‘arrependimento’: perdão aos que invocam e severidade aos rebeldes.

É em função da justiça de Deus que Ele tratou o povo de Israel segundo o conhecimento do bem e do mal, conforme se lê: “Porque assim diz o Senhor DEUS: Quanto mais, se eu enviar os meus quatro maus juízos: a espada, a fome, as feras, e a peste, contra Jerusalém, para cortar dela homens e feras?” ( Ez 14:21 ).

O mal que Deus enviaria contra Jerusalém diz de calamidade, desgraça. É neste aspecto que, quando Deus faz referência a Ciro como um escolhido para abater as nações, é dito: “Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas” ( Is 45:7 ), ou seja, Deus levantou em desfavor da nação de Israel aflição, miséria, ferida, calamidade, adversidade, porém, através de Ciro foi concedido a oportunidade de Israel reedificar a cidade destruída pelos babilônios ( Is 45:13 ).

Ora, com relação ao conhecimento do bem e do mal é dito que Deus se ‘arrepende’, como se lê: “Então o SENHOR arrependeu-se do mal que dissera que havia de fazer ao seu povo” ( Êx 32:14 ).

Se o homem não teme a Deus o mal está determinado, mas se temer, Deus se arrepende do mal. Na verdade é o homem que faz mal a sua alma quando não obedece ao Criador “Mataram-no, porventura, Ezequias, rei de Judá, e todo o Judá? Antes não temeu ao SENHOR, e não implorou o favor do SENHOR? E o SENHOR não se arrependeu do mal que falara contra eles? Nós, fazemos um grande mal contra as nossas almas” ( Jr 26:19 ).

Isto significa que Deus possui duas medidas para tratar com o homem: sendo o homem justo receberá a vida, mas sendo o homem ímpio, a morte.

Quando o homem é justo, ou seja, procede conforme a verdade, a proposta de Deus é premiá-lo com a vida ( Ez 18:5 e 9), mas, se tal homem desviar-se da verdade (cometendo assim injustiça), Deus se ‘arrepende’ do bem que faria, e esse homem morrerá ( Ez 18:24 ).

O ‘arrependimento’ de Deus não é igual ao arrependimento do homem, que é mudança de conceitos, mudança de concepção. O homem se arrepende (muda de concepção acerca de uma matéria) porque não conhece tudo acerca do assunto, portanto, constantemente precisa rever os seus conceitos.

O ‘arrepender-se’ de Deus é no sentido de não mentir, por isso é dito que não é o homem para que se ‘arrependa’ (voltar atrás com sua palavra) “E também aquele que é a Força de Israel não mente nem se arrepende; porquanto não é um homem para que se arrependa” ( 1Sm 15:29 ).

Quando se lê que Deus não mente e não se arrepende, não temos conceitos distinto. A ideia é que Deus não mente, não muda, não volta atrás a sua palavra, pois Ele não se engana.

O termo hebraico que se traduz por ‘arrependimento’ é:

“05162  נחם nacham uma raiz primitiva; DITAT – 1344; v 1) estar arrependido, consolar-se, arrepender, sentir remorso, confortar, ser confortado  1a) (Nifal)  1a1) estar sentido, ter pena, ter compaixão  1a2) estar sentido, lamentar, sofrer pesar, arrepender  1a3) confortar-se, ser confortado  1a4) confortar-se, aliviar-se  1b) (Piel) confortar, consolar  1c) (Pual) ser confortado, ser consolado  1d) (Hitpael)  1d1) estar sentido, ter compaixão  1d2) lamentar, arrepender-se de  1d3) confortar-se, ser confortado  1d4) aliviar-se” Dicionário Strong.

Devemos observar que Deus se ‘arrependeu’ de haver posto Saul por rei, visto que deixou de seguir a Deus “Arrependo-me de haver posto a Saul como rei; porquanto deixou de me seguir, e não cumpriu as minhas palavras. Então Samuel se contristou, e toda a noite clamou ao SENHOR” ( 1Sm 15:11 ).

Por que é dito que Deus se arrependeu? Porque Deus se entristeceu, se ‘ressentiu’ da postura de Saul diante da ordem que lhe dera ( Dt 32:21 ; Rm 10:9 ). A atitude de Saul estava inviabilizando o cumprimento da promessa feita a Moisés “Então disse o SENHOR a Moisés: Escreve isto para memória num livro, e relata-o aos ouvidos de Josué; que eu totalmente hei de riscar a memória de Amaleque de debaixo dos céus” ( Êx 17:14 ).

Reinar para sempre estava condicionado a Saul seguir a Deus obedecendo-O, de modo que Saul foi destituído do trono de israel. Por mais que Saul rogasse a Deus, neste quesito Deus jamais voltaria atrás, pois Saul não obedeceu “Então disse Samuel a Saul: Procedeste nesciamente, e não guardaste o mandamento que o SENHOR teu Deus te ordenou; porque agora o SENHOR teria confirmado o teu reino sobre Israel para sempre; Porém agora não subsistirá o teu reino; já tem buscado o SENHOR para si um homem segundo o seu coração, e já lhe tem ordenado o SENHOR, que seja capitão sobre o seu povo, porquanto não guardaste o que o SENHOR te ordenou” ( 1Sm 13:13 -14).

O que aconteceu com Esaú aconteceu também com Saul, pois este foi rebelde a voz de Deus e perdeu o direito ao trono de Israel e aquele perdeu o direito de primogenitura quando vendeu “Porque bem sabeis que, querendo ele ainda depois herdar a bênção, foi rejeitado, porque não achou lugar de arrependimento, ainda que com lágrimas o buscou” ( Hb 12:17 ). A primogenitura passou a ser direito de Jacó e, por mais que Esaú tenha chorado inconsolavelmente, não havia como ocupar a posição de primogênito. Neste quesito Deus jamais voltaria atrás, retirando o que era de direito a Jacó para conceder a Esaú.

No quesito salvação quem se ‘arrependimento’ é o homem pela multidão das misericórdias que há em Deus, de modo que, se o pecador se ‘arrepende’, Deus concede salvação ( Mt 24:13 ). Se o pecador não se arrepende, permanecerá na perdição “Bem pode ser que ouçam, e se convertam cada um do seu mau caminho, e eu me arrependa do mal que intento fazer-lhes por causa da maldade das suas ações. Dize-lhes pois: Assim diz o SENHOR: Se não me derdes ouvidos para andardes na minha lei, que pus diante de vós, Para que ouvísseis as palavras dos meus servos, os profetas, que eu vos envio, madrugando e enviando, mas não ouvistes; Então farei que esta casa seja como Siló, e farei desta cidade uma maldição para todas as nações da terra” ( Jr 26:3 -6).

Deus não muda e nem se arrepende, conforme está escrito: “Porém ele disse: Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti, e proclamarei o nome do Senhor diante de ti; e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer” ( Êx 33:19 ).

Na passagem: “e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer”, ‘misericórdia’ é o mesmo que ‘agraciar’. No contexto a misericórdia está em Deus mostrar a sua glória, conforme está escrito: “O SENHOR faça resplandecer o seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti” ( Nm 6:25 ).

Moisés momentos antes pediu para que Deus se manifestasse não somente para ele, mas também para o povo, ou seja, Moisés pede para Deus mostrar Sua gloria para ele e o povo. Entretanto, apesar de Deus atender o pedido de Moisés, esclarece que que mostraria a Sua glória a quem quisesse.

E a quem Deus quer mostrar a sua glória? Aos que obedecem (amam) a Deus, ou seja, guardam o seu mandamento “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” ( Êx 20:6 ).

 

Conclusão

Compreendendo a mensagem bíblica os paradoxos se dissipam. O raiar do conhecimento que há nas Escrituras dissipa toda nevoa da ignorância. Diante do conhecimento da verdade fica evidente que o paradoxo de Epicuro procede de uma má compreensão do que vem a ser a bondade de Deus.

A bondade de Deus está ligada à sua natureza nobre e à sua justiça, e não significa isenção de punição ou castigo, pois Ele castiga a todos que recebe por filhos para instruí-los e os injustos reserva o dia do juízo “Porque o Senhor corrige o que ama, E açoita a qualquer que recebe por filho” ( Hb 12:6 ); “Assim, sabe o Senhor livrar da tentação os piedosos, e reservar os injustos para o dia do juízo, para serem castigados” ( 2Pd 2:9 ); “Eis que bem-aventurado é o homem a quem Deus repreende; não desprezes, pois, a correção do Todo-Poderoso” ( Jó 5:17 ).

Deus é onipresente, onisciente, onipotente e bom (supremo). Nada escapa aos olhos de Deus: “E não há criatura alguma encoberta diante dele; antes todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar” ( Hb 4:13 ). Embora Deus se resignou não intervir nas decisões dos homens dando-lhes o livre arbítrio, Ele é todo-poderoso, pois tudo criou e faz o que lhe apraz.

Deus estabeleceu leis justas, portanto, é o homem quem provoca seu próprio mal (infortúnios, catástrofes, doenças, guerras, etc.). O homem pratica ações más pelo livre-arbítrio que dispõe, mas de tudo Deus pedirá conta “O que é, já foi; e o que há de ser, também já foi; e Deus pede conta do que passou” ( Ec 3:15 ).

O homem foi criado perfeito (santo, justo e bom) em perfeita comunhão com o Criador. Quando pecou, o homem perdeu a perfeição e a comunhão, um mal irreparável por parte do homem. A bondade, benevolência e benignidade de Deus se revela quando Ele proveu salvação poderosa na casa de Davi a todos os homens que, por natureza estavam destinados a morte.

Além das obras da criação, Deus quis salvar os homens. Salvar-se a si mesmo é impossível aos homens, mas graciosamente Deus quis salvá-los e salva todos que Lhe obedecem! “Os seus discípulos, ouvindo isto, admiraram-se muito, dizendo: Quem poderá pois salvar-se? E Jesus, olhando para eles, disse-lhes: Aos homens é isso impossível, mas a Deus tudo é possível” ( Mt 19 :25 -26 ).

 

[1] “A chamada história geral da religião abordou a influência religiosa estrangeira no Cristianismo primitivo numa frente mais ampla, mas também aflorou a influência dos Gregos. Por outro lado, um impacte directo da filosofia grega no Novo Testamento e, em particular, em S. Paulo, que escolas anteriores de estudos teológicos (p. ex., a de D. F. Strauss) costumavam presumir, não foi confirmado pela investigação histórica moderna. Havia por certo muitas ideias filosóficas no ar, mas isso não é o mesmo que uma influência doutrinal demonstrável, p. ex., de Séneca em S. Paulo, como foi presumida pela escola de teologia de Tubinga em meados do século XIX” Jaeger, Werner, Cristianismo Primitivo e Paideia Grega, Título original: Early Chistianity and Greek Paideia, dições 70 – Lisboa – Portugal, pág. 15, nota de roda pé.

[2] “Ele contribuiu para a legítima helenização do cristianismo, frente ao problema da relação entre Igreja e cultura. Ao afrontar tal problema, conclui que o cristianismo não veio destruir a filosofia grega, mas mobilizá-la e aperfeiçoá-la” Hackmann, Geraldo Luiz Borges, A amada igreja de Jesus Cristo: manual de eclesiologia como comunhão orgânica, Ed. EDIPUCRS, 2003, Pág. 31.

[3] “Vem, pois, ó insensato, e não mais com o terso na mão, nem coroado de hera! Larga tua mitra, deixa tua pele de cabra e retoma a razão! Eu te mostrarei o Logos e os mistérios do Logos, valendo-me de tuas próprias imagens” Clemente de Alexandria. Protréptico, na tradução de Cirilo Folch Gomes. Antologia dos Santos Padres, n. 129.

[4] “Um destes grupos era o dos ‘pitagóricos’, que pregavam o modo de vida ‘pitagórico’ e utilizavam como símbolo um Y, o sinal da encruzilhada em que um homem tinha de decidir o caminho a tomar, o bom ou o mau. Em tempos helenísticos, encontramos este ensinamento dos dois caminhos, que era evidentemente muito antigo (ocorre em Hesíodo, por exemplo), num popular tratado filosófico, o Pinax de Cebes, que descreve uma imagem dos dois caminhos encontrada entre as ofertas votivas de um templo” Idem.

[5] Paralelismo – Elemento formal fundamental na construção da poesia hebraica que se constitui numa espécie de trava lógica, denominado pelos estudiosos de “ritmo de sentido”. Existem pelo menos três estilos primário de paralelismo, e a dos versos em comento trata-se de paralelismo antitético, pois cada linha do proverbio expressa pensamentos opostos quanto aos ímpios e os justos.

[6] A linguagem de uma época as vezes diferem uma da outra simplesmente pela mudança de local, como foi o caso de Sócrates quando se apresentou diante de um tribunal. Que se dirá de uma linguagem utilizada em um tipo de sociedade que os seus valores estão distantes da nossa realidade? “… se ouvirdes, na minha defesa, a mesma linguagem que habitualmente emprego na praça, junto das bancas, onde tantos dentre vós me haveis escutado, e em outros lugares, não a estranheis nem vos revolteis por isso. Acontece que venho ao tribunal pela primeira vez aos setenta anos de idade; sinto-me, assim, completamente estrangeiro à linguagem do local” Platão, Diálogos, Eutífron, Coleção Os Pensadores, Nova Cultural, pág. 66.

[7] “Todo esto se debe a que el primitivo libro de Teognis pasó a ser, en el transcurso de los siglos V-IV a. C, el núcleo de una antología en la que se introdujeron poemas de procedencia muy variada, y que se difundía, crecía y se alteraba en los banquetes aristocráticos, en los que solía cantarse por los participantes poesía improvisada sobre temas tradicionales, o tomada directamente de colecciones ya con dicho propósito formadas -como la de Teognis- y que, por eso mismo, estaban sujetas a constante transformación” 57 Título: Teognis de Mégara (selección de Poemas)[*] Autor: Editores invitados Tema: Temas Varios, Junio de 2001, Páginas 101-105 Consultado em 22/03/15.

[8] “Eles se denominam, por exemplo, ‘os vorazes’; primeiramente a nobreza grega, cujo porta-voz é o poeta Teógnis de Megara. A palavra cunhada para este fim, αγαθός [bom, nobre], significa, segundo sua raiz, alguém que é, que tem realidade, que é real, verdadeiro; depois, numa mudança subjetiva, significa o verdadeiro enquanto veraz: nesta fase da transformação conceitual ela se torna lema e distintivo da nobreza, e assume inteiramente o sentido de ‘nobre’, pra diferenciação perante o homem comum mentiroso, tal como Teógnis o vê e descreve – até que finalmente, com o declínio da nobreza, a palavra resta para designar a aristocracia espiritual, tornando-se como que doce e madura” Nietzsche, Friedrich, Genealogia da moral: uma polemica; tradução, notas e posfácio Paulo César de Souza – São Paulo: Companhia das Letras, 2009, pág. 19.

[9] “… com o declínio da nobreza, a palavra (αγαθός) resta para designar a aristocracia espiritual (…) desta regra, a de que o conceito denotador de preeminência política sempre resulta em um conceito de preeminência espiritual…” Nietzsche, Friedrich, Genealogia da moral: Uma polêmica, 2° reimpressão, São Paulo: Companhia das Letras, 2009, pág. 20 e 21.

[10] “Os ‘bem-nascidos’ se sentiam mesmo como os ‘felizes’; eles não tinham de construir artificialmente a sua felicidade, de persuadir-se dela, menti-la para si, por meio de um olhar aos seus inimigos (como costumam fazer os homens do ressentimento); e do mesmo modo, sendo homens plenos, repletos de força e portanto necessariamente ativos, não sabiam separar a felicidade da ação – para eles, ser ativo é parte necessária da felicidade (nisso tem origem [fazer bem: estar bem]” Idem.

[11] Praticar o que é justo é obedecer ao mandamento de Deus, tanto na Antiga aliança quanto na Nova Aliança. No N. T. o que é justo é crer que Jesus é o Cristo, pois crer em Cristo é o mandamento de Deus que dá vida eterna.

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Habacuque 2 – Aguardando uma resposta de Deus

Para Deus, tanto os caldeus quanto os judeus estavam em iguais condição, pois ambos os povos eram condenáveis diante de Deus. Por serem descendentes de Abraão, por terem as promessas, as escrituras, etc., o profeta Habacuque considerava que a nação de Israel era mais justa que as nações em redor ( Sl 53:3 ).


HABACUQUE 2

1 SOBRE a minha guarda estarei, e sobre a fortaleza me apresentarei e vigiarei, para ver o que falará a mim, e o que eu responderei quando eu for arguido.
2 Então o SENHOR me respondeu, e disse: Escreve a visão e torna bem legível sobre tábuas, para que a possa ler quem passa correndo.
3 Porque a visão é ainda para o tempo determinado, mas se apressa para o fim, e não enganará; se tardar, espera-o, porque certamente virá, não tardará.
4 Eis que a sua alma está orgulhosa, não é reta nele; mas o justo pela sua fé viverá.
5 Tanto mais que, por ser dado ao vinho é desleal; homem soberbo que não permanecerá; que alarga como o inferno a sua alma; e é como a morte que não se farta, e ajunta a si todas as nações, e congrega a si todos os povos.

A Resposta ao Profeta

O profeta Habacuque recolhe-se e põe-se em guarda. Fiado em suas considerações, Habacuque põe se em guarda por ser um dos atalaia em Israel. Ele espera pela resposta divina e demonstra ansiedade pela resposta que Deus haveria de apresentar as suas queixas. Caso ele fosse interpelado, queria ter uma resposta (v. 1).

Habacuque obteve resposta de Deus! Deus ordena que ele a escrevesse sobre tábuas a mensagem, para que as pessoas pudessem ler, mesmo quando passassem correndo, ou seja, em letras grandes (v. 2). O efeito da mensagem causa um trocadilho, visto que, faria quem lesse correr, ou seja: “para que possa correr aquele que a le”.

As tábuas utilizadas eram tijolos de argila, finos como tabuas ou ardósia. Elas eram utilizadas na Babilônia.

A primeira resposta de Deus é sobre o tempo em que Deus haveria de cumprir a visão dada a Habacuque ( Hc 1:2 e Hc 2:3 ).

A visão que Deus concedeu a Habacuque, ou seja, o peso do Senhor acerca de Judá, haveria de ser no tempo determinado por Deus, e com isso o profeta não precisava preocupar-se, pois a profecia seria cumprida ao seu tempo.

Ora, se alguém entendesse que a profecia estava tardando, bastava esperar, pois certamente ela cumprir-se-á no tempo estabelecido por Deus, ou seja, não tardará. A visão cumprir-se-á no tempo que Deus estabeleceu pelo seu próprio poder e não compete aos homens saberem quando os eventos se dará.

Por que a visão deveria ser transcrita sobre tábuas? Porque precisava ficar registrada sobre algo duradouro como testemunho vivo para um tempo futuro. Quem lia sobre a invasão dos caldeus queria correr do evento anunciado. Ora, não tardou e os caldeus levaram cativo o povo de Israel conforme a palavra do Senhor ( Hc 1:6 -11).

Do mesmo modo que Deus revelou que o cativeiro de Israel seria para os dias do profeta Habacuque ( Hc 1:5 ), Deus responde o profeta, revelando que a nação incircuncisa que foi suscitada por Deus também seria punida (Hc 2:4 -19).

Diante da visão divina, resta àqueles que fazem perguntas vazias calarem-se ante o Senhor de toda a terra “Mas o Senhor está no seu santo templo; cale-se diante dele toda a terra” ( Hc 2:20 ). Após dar ouvido as palavras de Deus, Habacuque temeu ao Senhor, e compôs um Salmo, profetizando acerca da providência divina aos homens ( Hc 3:1 -19).

A punição de Judá e Israel era iminente e a punição dos caldeus para um tempo determinado ( Hc 1:5 e Hc 2:3 ). Ao ser ordenado que a visão fosse escrita sobre tábuas com letras grandes, era para ela ‘falar’ até o fim “Porque a visão é ainda para o tempo determinado, e até o fim falará, e não mentirá” ( Hc 2:3 ), mesmo que corressem quem a lesse.

A questão maior do profeta Habacuque foi apresentada no verso 13 do capítulo 1: “Por que te calas quando o ímpio devora aquele que é mais justo do que ele?”. Habacuque já estava indignado porque os ímpios em Judá fomentavam a violência, e esperava que Deus tomasse providência para impedi-los (Hc 1: 2- 4). Agora, quando Deus lhe dá a visão de que os incircuncisos caldeus (gentios) haveriam de castigar Judá e Israel, ele não compreende porque Deus permite que ímpios ‘devorem’ àqueles que são mais ‘justos’.

A resposta de Deus é clara e precisa: “Eis que a sua alma está orgulhosa, não é reta nele; mas o justo pela sua fé viverá” (v. 4). O que Deus disse a Habacuque? O que Habacuque compreendeu que o fez irromper em um alegre canto?

O verso 4 é regida por uma conjunção adversativa, sendo que: se o justo viverá da fé, resta que o ímpio é quem tem a alma orgulhosa. Deus apresenta o diferencial entre o justo e o ímpio. Enquanto o diferencial entre o justo e o ímpio para Habacuque estava na violência, na iniquidade, na contenda, no litígio, na transgressão da lei, etc., Deus demonstra que o diferencial é a fé que foi dada por Deus.

Através da visão, Habacuque compreende que tanto os homens de Judá e Israel quanto os caldeus eram ímpios perante o Senhor. Aqueles que Habacuque considerava mais justos que os caldeus, diante da visão tornaram-se ‘mais’ ímpios, visto que o povo que se chama pelo nome de Deus era dado ao vinho (v. 5).

Qual o vinho que o povo de Israel se embriagava? O vinho produto do fruto da vide? Não! O vinho que os ímpios de Israel eram ‘dados’ (entregues) é o sono profundo que falou o profeta Isaias: “Pasmai, e maravilhai-vos, folgai, e clamai; bêbados estão, mas não de vinho, andam titubeando, mas não de bebida forte. O Senhor derramou sobre vós um espírito de profundo sono. Ele fechou os vossos olhos (os profetas); ele vendou as vossas cabeças (os videntes)” ( Is 29:9 -10).

Quem não compreende as palavras da profecia é dado ao vinho, ou seja, é desleal (ímpio). Anda titubeando. Diferente do justo que vive pela fé, o ímpio (homem soberbo) não permanecerá (v. 5).

Habacuque conseguiu ver que o povo de Israel em nada era diferente dos caldeus, pois os caldeus eram um povo voraz, insaciável, que alargava como o inferno a sua alma, e os seus concidadãos também eram opressores, violentos, contentores e perversos ( Hc 1:2 -4 e v. 5).

Habacuque havia questionado o Senhor por esquecer que:

  • O povo de Israel era nação rebelde ( Dt 9:6 );
  • Não foi a justiça de Israel que os fez habitar a terra prometida ( Dt 9:4 );
  • Deus não se afeiçoou de Israel e os escolheu por eles terem algum mérito, antes porque o Senhor os amava, ou seja, para fazer cumprir o juramento que foi feito a Abraão ( Dt 7:7 -8);
  • Somente aqueles que circuncidarem o coração, ou seja, que não são de dura cerviz, é que são justos diante de Deus ( Dt 10:16 );
  • A circuncisão do prepúcio do coração só é possível através da fé, e é pertinente a homens e mulheres, ricos e pobres, judeus e estrangeiros, pois Deus não faz acepção de pessoas.

Após considerar as palavra do Senhor ( Hc 3:2 ), Habacuque percebeu que não havia diferença entre os homens de Judá e os incircuncisos caldeus. Os caldeus ajuntavam para si as nações através da força e violência, e o povo de Israel procuravam realizar o mesmo intento através de alianças políticas. Ambos não confiavam em Deus, e atribuíam as suas conquistas as suas estratégias. Os caldeus estratégias militares, e os israelenses, estratégias políticas.

Habacuque 2: 4 é citado três vezes no Novo Testamento pelos apóstolos, dada a importância desta visão concedida ao profeta Habacuque ( Rm 1:17 ; Gl 3:11 e Hb 10:38 ).

Em Romanos Paulo demonstra que através do evangelho o homem descobre a justiça de Deus, visto que o evangelho é poder de Deus para a salvação, ou seja, recebem poder para serem feitos (criados) filhos de Deus pela fé em Cristo ( Jo 1:12 -13).

Como o evangelho é a palavra da fé, a fé que uma vez foi dada aos santos, temos que o justo viverá da palavra de Deus, ou seja da fé ( Dt 8:3 ; Mt 4:4 ). Habacuque 2: 4 apresenta a mesma ideia de Deuteronômio 8: 3.

Como os cristãos da Galácia queriam viver para Deus se estavam se distanciando da palavra de Deus? O justo viverá da palavra da fé, e não através das obras da lei, uma vez que estavam passando do evangelho de Cristo para um outro evangelho.

O escritor aos Hebreus citou Habacuque para demonstrar a necessidade de perseverança após o homem fazer a vontade de Deus. Ora, a vontade de Deus é que o homem creia naquele que Ele enviou, ou seja, em Cristo, porém, é preciso perseverar na fé para que o homem possa alcançar a promessa ( Hb 10:35 -39).

 

6 Não levantarão, pois, todos estes uma parábola e um provérbio sarcástico contra ele? E se dirá: Ai daquele que multiplica o que não é seu! (até quando?) e daquele que carrega sobre si dívidas!
7 Porventura não se levantarão de repente os teus extorquiadores, e não despertarão os que te farão tremer, e não lhes servirás tu de despojo?
8 Porquanto despojaste a muitas nações, todos os demais povos te despojarão a ti, por causa do sangue dos homens, e da violência feita à terra, à cidade, e a todos os que nela habitam.
9 Ai daquele que, para a sua casa, ajunta cobiçosamente bens mal adquiridos, para pôr o seu ninho no alto, a fim de se livrar do poder do mal!
10 Vergonha maquinaste para a tua casa; destruindo tu a muitos povos, pecaste contra a tua alma.
11 Porque a pedra clamará da parede, e a trave lhe responderá do madeiramento.
12 Ai daquele que edifica a cidade com sangue, e que funda a cidade com iniquidade!
13 Porventura não vem do SENHOR dos Exércitos que os povos trabalhem pelo fogo e os homens se cansem em vão?
14 Porque a terra se encherá do conhecimento da glória do SENHOR, como as águas cobrem o mar.
15 Ai daquele que dá de beber ao seu companheiro! Ai de ti, que adiciona à bebida o teu furor, e o embebedas para ver a sua nudez!
16 Serás farto de ignomínia em lugar de honra; bebe tu também, e sê como um incircunciso; o cálice da mão direita do SENHOR voltará a ti, e ignomínia cairá sobre a tua glória.
17 Porque a violência cometida contra o Líbano te cobrirá, e a destruição das feras te amedrontará, por causa do sangue dos homens, e da violência feita à terra, à cidade, e a todos os que nela habitam.
18 Que aproveita a imagem de escultura, depois que a esculpiu o seu artífice? Ela é máscara e ensina mentira, para que quem a formou confie na sua obra, fazendo ídolos mudos?

Os ‘ais’

Deus revela a Habacuque que os povos que forem vencidos levantarão um provérbio, um dito zombador acerca dos caldeus (v. 6). Os vencidos pelos caldeus haveriam de dizer: Ai de quem acumulou o que não é seu! Ou seja, até quando os caldeus continuariam acumulando bens pela violência?

Todos cantariam um provérbio acerca dos caldeus, pois estava se sobrecarregando de penhores, e chegaria o tempo em que apareceriam os credores. Ora, o acumulo de riquezas por parte dos caldeus não faria despertar quem os levaria a ruína?

O fato de os caldeus ajuntarem penhores, outros povos fariam com que os caldeus se transformassem em despojos (v. 7).

Por ter despojado muitas nações, os outros povos haveriam de despojar os caldeus (v. 8).

Deus demonstra a Habacuque que os caldeus não permaneceriam para sempre. Eles estavam ajuntando bens mal adquiridos para se engrandecerem. Reputavam que, quanto maior as suas riquezas, com maior facilidade se livrariam do mal (v. 9).

Com este pensamento, os caldeus haviam maquinado o mal e a vergonha para as suas moradas. Por destruir muitos povos, ensoberbeceram e a queda era iminente ( Hc 2:5 e 10).

Quem é a pedra que clamará da parede? As nações vencidas e levadas cativas, visto que os caldeus utilizaram as nações vencidas para construírem as suas moradas. A pedra haveria de clamar um dito zombador “Ai daquele que acumula o que não é seu…” (v. 6b), e a trave responderia como se estivessem compondo um coro “Ai daquele que edifica a cidade com sangue…” (v. 12).

Deus demonstra através da visão que o labutar constante das nações por poder é proveniente d’Ele mesmo “Não vem do Senhor dos Exércitos que as nações labutem para o fogo…” (v. 12). Ora, Habacuque tinha que compreender que é obra de Deus fazer com que as nações labutem para conquistarem o que será destinado ao fogo, e os povos se fatiguem em vão.

Ora, se o ‘labutar em vão’ das nações é algo que vem de Deus, porque preocupar-se com os incircuncisos caldeus? Eles eram somente a vara de correção que Deus estava trazendo sobre Israel.

Habacuque deveria esperar na promessa de Deus, pois a terra se encherá da glória de Deus ‘… como as águas cobrem o mar’ “Não se fará mal nem dano algum em todo o monte da minha santidade, pois a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar” ( Is 11:9 ). A comparação é pertinente para saber o que é o conhecimento do Senhor. Ora, as águas cobrem o mar na plenitude, e do mesmo modo o conhecimento de Deus é pleno quando o homem é conhecido do Senhor. Temos uma profecia para o milênio.

Deus demonstra que os caldeus perecerão, pois deram a beber as nações o seu furor, ou seja, arquitetaram vingança, deitaram ira para embebedar as nações. Somente a Deus pertence a vingança e a ira, pois Ele mesmo diz: “Minha é a vingança” “Porque bem conhecemos aquele que disse: Minha é a vingança, eu darei a recompensa, diz o Senhor. E outra vez: O Senhor julgará o seu povo” ( Hc 10:30 ).

Os caldeus que pensaram estar fartos de honra, trouxeram opróbrio sobre si. Do mesmo modo que os caldeus expuseram os circuncisos (Israel) à vergonha, Deus proclama que fará os caldeus exibirem a sua incircuncisão (vergonha). Haveria de chegar a vez dos caldeus beberem do cálice da ira de Deus.

Observe que o cálice da ira é proveniente da mão direita de Deus, o braço do Senhor manifesto a todos os povos, que é Cristo.

A visão do profeta Habacuque cumpriu-se em 539 a.C., quando a Babilônia caiu ante os Medos e Persas. Daniel foi um dos Judeus levado cativo que presenciou a tomada de Babilônia (Daniel 5).

Por causa da violência contra o povo de Israel (Líbano) (Josué 1: 4), a violência também cobriria os caldeus. Seriam dilacerados do mesmo modo como as feras fazem com as suas presas (v. 17).

Deus havia suscitado os caldeus ( Hc 1:6 ), porém, eles atribuíram o seu poderio as imagens de esculturas (v. 18- 19). Daniel em seu livro demonstra que Belsazar promoveu uma festa e ofereceu louvores aos seus deuses. Porém, mesma noite foi morto, e Dario, o medo ocupou o seu lugar ( Dn 5:4 e 31).

 

Deus alerta acerca dos ídolos

Que proveito há no ídolo se é obra de um escultor? As imagens de fundição são ensinadoras (mestre) de mentiras, visto que até os seus artífices confiem nas obras de suas mãos (v. 18).

Deus demonstra que àqueles que tentam despertar a matéria inerte estão completamente perdidos. Que pode o ídolo ensinar? Mesmo os ídolos feitos com os materiais mais nobres, nada podem fazer pelos seus seguidores (v. 19- 19).

Diferente dos ídolos que nada ensinam e não podem proteger, Deus está assentado no seu santo templo. Aos que ouvem a sua palavra resta por a mão à boca. Habacuque compreende que não terá uma resposta a altura diante de Deus ( Hc 2:1 e 20).

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Habacuque 1 – Realizarei em vossos dias uma obra

Deus não é a causa das injustiça sociais e nem das violações de questões legais estabelecida pelos homens. O juízo de Deus foi estabelecido sobre a humanidade em Adão, e a justiça de Deus manifesta-se em Cristo. No juízo está a condenação da humanidade, na justiça de Deus manifesta aos homens em Cristo, está a salvação.


“Entenda o motivo de o profeta Habacuque pedir a Deus que ‘lembre da misericórdia’ após pedir que a obra de Deus fosse avivada”

HABACUQUE 1

1 O PESO que viu o profeta Habacuque.
2 Até quando, SENHOR, clamarei eu, e tu não me escutarás? Gritar-te-ei: Violência! e não salvarás?
3 Por que razão me mostras a iniquidade, e me fazes ver a opressão? Pois que a destruição e a violência estão diante de mim, havendo também quem suscite a contenda e o litígio.
4 Por esta causa a lei se afrouxa, e a justiça nunca se manifesta; porque o ímpio cerca o justo, e a justiça se manifesta distorcida.

Questões sem Respostas

A vida particular do profeta Habacuque é pouco conhecida assim como a dos outros profetas menores. Habacuque, cujo nome significa ‘abraço’, profetizou a Judá sobre a invasão iminente dos caldeus.

O primeiro verso do livro de Habacuque está mais para um título inicial, do que para um elemento essencial para o entendimento do texto. Durante a leitura do livro é possível verificar que o texto apresenta uma sentença (peso) que o profeta (oráculo de Deus) viu, ou seja, uma revelação de Deus.

O peso do Senhor não são as perguntas do profeta, antes uma resposta de Deus as suas perguntas.

O Livro de Habacuque tem início com algumas questões que importunavam o profeta “Até quando, Senhor…” (v. 2). As questões eram acerca dos tempos estabelecidos por Deus através do seu próprio poder. Ora, desde a antiguidade a preocupação dos homens centram-se nos tempos em que Deus realizará os seus desígnios “E disse-lhes: Não vos pertence saber os tempos ou as estações que o Pai estabeleceu pelo seu próprio poder” ( At 1:7 ).

Pedro demonstra a preocupação dos profetas acerca da salvação que haveria de ser revelada e dos tempos estabelecido por Deus “Indagando que tempo ou que ocasião de tempo o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava…” ( 1Pe 1:11 ).

Além de querer saber os tempos que Deus estabeleceu por seu próprio poder, Habacuque clamava por justiça! (v. 2- 4). Mas, qual tipo de justiça era o anseio do profeta Habacuque?

Habacuque queria entender por que ele clamava e Deus não lhe respondia. Não escutar equivale a não responder. Habacuque não estava acusando Deus de surdez ou algo semelhante.

O profeta gritava: “Violência!” do mesmo modo quando os homens gritam: “Fogo!”, e esperam ser atendidos. Porém, embora gritasse “Violência” e clamasse por auxílio, Habacuque não conseguia ver o auxilio de Deus.

Por que Habacuque não conseguiu ver o socorro de Deus? Porque ele estava focado em questões humanas!

Habacuque estava clamando a Deus por causa das injustiça sociais, pois ele via a opressão dos fortes sobre os fracos, dos ricos sobre os pobres, dos reis sobre os súditos, etc. A destruição e a violência era algo aferido diariamente pelo profeta, porém, ele não entendia porque Deus deixava os homens se lançarem às suas maldades.

A preocupação do profeta é a mesma de alguns religiosos e bons cidadãos em nossos dias. Por que tanta violência em nossos dias? Por que tanta morte, roubo, opressão, suborno, etc? Por que os inocentes sofrem?

Habacuque não estava clamando por sua salvação, pois quem invoca a Deus por salvação é atendido (ouvido) prontamente por Deus: é salvo da condenação que há no mundo, pois a mensagem de Deus é clara: “Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” ( Rm 10:13 ; Jl 2:32 ).

Entretanto, quem clama a Deus para ver a providência divina com relação as contendas e litígios entre os homens, deve esperar o tempo ou as estações que Deus estabeleceu por seu próprio poder, quem clama por salvação é atendido prontamente. Pois hoje é o dia sobremodo aceitável! Hoje é o dia de salvação!

Os cristãos devem compreender que, após crerem em Cristo conforme diz as Escrituras, foram salvos da condenação proveniente da queda de Adão. Esta salvação é efetiva para o tempo que se chama hoje. Quem invoca a Cristo é salvo hoje de condenação estabelecida em Adão no passado ( 1Co 6:2 ).

Quem assim clamar (invocar) será escutado (atendido). Quem gritar ao Senhor acerca da violência estabelecida em Adão, verá a salvação de Deus. Quem ver a iniquidade em que foi formado, perceberá que precisa nascer de novo, da semente incorruptível, que é a palavra de Deus ( Sl 51:5 ).

Mas. quem olhar para as relações humanas onde o litígio e as contendas são fomentadas, quem olhar para as questões legais e as injustiças cometidas, ou quem olhar para os perversos que cercam os justos, indagará sempre acerca de como se dá a justiça de Deus.

Se Habacuque considerasse que o juízo de Deus foi estabelecido em Adão, e que todos os homens foram julgados e condenados, jamais diria que Deus não o escutava. Quem aprender com Habacuque jamais considerará que a justiça de Deus ‘tarda mas não falha’. Aqueles que compreendem que a humanidade já está sob condenação, a condenação em Adão, percebe que o juízo e a condenação já foi estabelecido no passado da humanidade, ou seja, a justiça de Deus não é tardia.

Ora, não precisa ser profeta para ver que a violência humana e a iniquidade é crescente. Ao observar a iniquidade e a opressão, Habacuque considerava que Deus é quem lhe mostrava o estado de degradação do homem. Para ele, a justiça não se manifestava e a lei afrouxava por causa do ímpio, aquele que que suscita a contenda e o litígio (v. 3- 4).

A questão levantada por Habacuque é semelhante a dos religiosos, pois estes não compreendem por que Deus silencia acerca das injustiças dos homens (sociais). Por que Deus permanece inerte e despreocupado à vista da degradação da humanidade?

Diferentes dos religiosos da atualidade, que procuram dar uma resposta às suas indagações, Habacuque esperou uma resposta de Deus.

Deus não é a causa das injustiça sociais e nem das violações de questões legais estabelecida pelos homens. O juízo de Deus foi estabelecido sobre a humanidade em Adão, e a justiça de Deus manifesta-se em Cristo. No juízo está a condenação da humanidade, na justiça de Deus manifesta aos homens em Cristo, está a salvação.

Ora, as questões levantadas por Habacuque não precisa ser as mesmas dos cristãos, pois já sabemos que a salvação de Deus é individual e manifesta-se em Cristo “… aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” ( Jl 2:32 ). Os cristãos devem saber que ‘justiça’ neste mundo é utópico, pois mesmo na terra da retidão os ímpios não aprenderão a justiça (milênio) “Ainda que se mostre favor ao ímpio, nem por isso aprende a justiça; até na terra da retidão ele pratica a iniquidade, e não atenta para a majestade do SENHOR” ( Is 26:10 ).

Justiça segundo a concepção inicial de Habacuque só será estabelecida no novo céu e na nova terra que será criada por Deus num tempo estabelecido por seu próprio poder “Porque, eis que eu crio novos céus e nova terra; e não haverá mais lembrança das coisas passadas, nem mais se recordarão” ( Is 65:17 ); “Mas nós, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e nova terra, em que habita a justiça” ( 2Pe 3:13 ).

Embora a corrupção do gênero humano é observável a olho nu, o socorro e a salvação de Deus é imediata àqueles que invocam o seu nome. Os ouvidos de Deus não estão agravados para que não possa ouvir quem clame por salvação “E há de ser que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” ( Jl 2:32 ); “EIS que a mão do SENHOR não está encolhida, para que não possa salvar; nem agravado o seu ouvido, para não poder ouvir” ( Is 59:1 ).

 

5 Vede entre os gentios e olhai, e maravilhai-vos, e admirai-vos; porque realizarei em vossos dias uma obra que vós não crereis, quando for contada.
6 Porque eis que suscito os caldeus, nação amarga e impetuosa, que marcha sobre a largura da terra, para apoderar-se de moradas que não são suas.
7 Horrível e terrível é; dela mesma sairá o seu juízo e a sua dignidade.
8 E os seus cavalos são mais ligeiros do que os leopardos, e mais espertos do que os lobos à tarde; os seus cavaleiros espalham-se por toda parte; os seus cavaleiros virão de longe; voarão como águias que se apressam a devorar.
9 Eles todos virão para fazer violência; os seus rostos buscarão o vento oriental, e reunirão os cativos como areia.
10 E escarnecerão dos reis, e dos príncipes farão zombaria; eles se rirão de todas as fortalezas, porque amontoarão terra, e as tomarão.
11 Então muda a sua mente, e seguirá, e se fará culpado, atribuindo este seu poder ao seu deus.

 

A Obra do Senhor

O profeta Habacuque como todos os homens ‘anseiam’ por uma resposta divina, porém, será que a resposta de Deus é conforme os anseios dos homens? A resposta de Deus é agradável aos homens?

Habacuque queria saber quando e como Deus trataria com o seu povo. Até quando a iniquidade, a opressão, a destruição, a violência, o litígio, a contenda, a injustiça e o ímpio seria uma constante em Israel? ( Sl 73).

Deus ordena a Habacuque e a quem dentre o povo de Israel que aguardava uma resposta de Deus, que olhassem entre as nações para encontrarem a resposta. Deus estava realizando nos dias de Habacuque uma obra maravilhosa, porém, não creriam quando tal obra fosse anunciada (v. 5).

Que obra Deus estava realizando e que daria uma resposta àqueles que esperavam em Deus? Deus estava suscitando os caldeus! Os caldeus eram habitantes semitas da Babilônia. Eram descendentes de Quesede, irmão de Abraão ( Gn 22:22 ). Nos caldeus estaria a resposta a pergunta de Habacuque!

Alguém poderia tentar contrariar o que Deus estava anunciando dizendo que creria piamente na mensagem acerca da obra Deus. Isto é possível?

Habacuque foi um dos profetas de Deus anterior ao cativeiro de Israel e Judá. Profetizaram antes do cativeiro em Judá: Jeremias (profetizou até o cativeiro), Joel, Miqueias, Naum, Habacuque e Sofonias, e em Israel Oseias, Amós e Jonas.

Dentre estes profetas, muitos se ocuparam em anunciar ao povo que Deus haveria de levar cativo o povo de Israel para a Babilônia. Acaso alguém creu em Isaías quando anunciou que o povo haveria de ser cativo em Babilônia? Do mesmo modo, alguém creu quando Jeremias profetizou acerca do cativeiro? “O que ficar nesta cidade há de morrer à espada, ou de fome, ou de pestilência; mas o que sair, e se render aos caldeus, que vos têm cercado, viverá, e terá a sua vida por despojo” ( Jr 21:9 ).

Quem creu no anunciado pelos profetas? Quem creu na obra maravilhosa que foi anunciada: Deus suscitará os caldeus contra Israel para castigar!

Habacuque compreendeu e anunciou que os caldeus foram levantados por Deus. Bem antes de ocorrer a invasão de Nabucodonosor, Habacuque demonstrou que os caldeus eram uma nação feroz e impetuosa. Que eles marchariam para tomar casas que não eram suas (v. 6).

Os caldeus eram uma tribo semitas (também chamados babilônicos), que ocuparam a região entre o Golfo Pérsico e a Babilônia. Eles conquistaram a maior parte do Oriente num curto período de mais ou menos vinte e cinco anos.

Nem mesmo quando Jerusalém estava cercada pelos caldeus, o povo acreditou no anunciado por Jeremias “Assim diz o SENHOR Deus de Israel: Eis que virarei contra vós as armas de guerra, que estão nas vossas mãos, com que vós pelejais contra o rei de Babilônia, e contra os caldeus, que vos têm cercado de fora dos muros, e ajuntá-los-ei no meio desta cidade” ( Jr 21:4 ).

O profeta descreve os caldeus com detalhes bem antes de iniciarem as suas conquistas:

a) Os caldeus eram uma nação amarga e impetuosa (v. 6);
b) Apoderam-se de tudo;
c) É uma nação horrível e terrível, pois ela estabelece o seu direito sobre o que não lhe pertencia segundo a sua dignidade (v. 7);
d) Eles utilizam cavalos que lhes dá agilidade para apanhar os inimigos, uma vez que tem a capacidade de espalharem-se por toda parte (v. 8);
e) A distância não é empecilho aos caldeus, pois podem alcançar a presa como as águias;
f) Os caldeus abaterão os povos com violência reunindo os cativos em grande número (v. 9);
g) Por fazerem várias conquistas, perdem o respeito pelos reis e os seus exércitos.

 

Após inúmeras conquistas, os caldeus passariam a considerar que as suas vitórias eram por causa de seus deuses, fato que torna os caldeus culpados (v. 11).

Quando pregou aos judeus na sinagoga em um dia de sábado, na cidade de Antioquia da Pisídia (Atos 13: 14), Paulo citou a ideia do verso cinco de Habacuque, que é similar ao exposto pelo profeta Isaías. Compare:

“Vede, ó desprezadores, e espantai-vos e desaparecei; Porque opero uma obra em vossos dias, Obra tal que não crereis, se alguém vo-la contar” ( At 13:41 );

“Vede entre os gentios e olhai, e maravilhai-vos, e admirai-vos; porque realizarei em vossos dias uma obra que vós não crereis, quando for contada” ( Hc 1:5 ), e;

“Diz o Senhor: Este povo se aproxima de mim com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim (…) Portanto continuarei a fazer uma obra maravilhosa no meio deste povo, uma obra maravilhosa e um assombro; a sabedoria dos seus sábios perecerá, e o entendimento dos seus prudentes se esconderá” ( Is 29:13 -14).

Paulo apresenta aos judeus o alerta divino: ‘Vede, ó desprezadores…’ (v. 5).

O que os judeus precisavam ver? Eles precisavam ver e entender que:

1) A obra maravilhosa Deus seria suscitar uma nação dentre os gentios para executar a sua vontade (v. 5);
2) Não acreditariam na obra realizada por Deus apesar de ter sido anunciada com antecedência (v. 5);
3) Diante da obra maravilhosa de Deus, a sabedoria e o entendimento dos homens haveria de desaparecer ( Is 29:14 ).

Nos dias de Habacuque a obra de Deus foi suscitar os caldeus, nação gentílica, nos dias do apóstolo Paulo a obra de Deus são os cristãos, pessoas levantadas dentre todas as nações que se convertiam a Cristo.

Deus revelou a Habacuque que haveria de levantar dentre as nações os caldeus, mas quando fosse anunciado ao povo de Israel a obra que Deus haveria de realizar, o povo de Habacuque não haveriam de crer.

Isaias, Jeremias, Ezequiel e muitos outros profetas anunciaram que o povo de Israel haveria de ser levado cativo pelos caldeus, porém, eles não creram quando lhes foi anunciada a palavra do Senhor.

Habacuque descreve os caldeus segundo a visão que Deus lhe concedeu, ao passo que o povo de Israel não acreditava na invasão dos Babilônicos, a obra maravilhosa que Deus haveria de fazer.

Embora o povo de Israel não terem crido na obra de Deus, no capítulo 5 do livro de Esdras, verso 12, Esdras descreveu a invasão de Nabucodonosor, rei de Babilônia, o caldeu. Jeremias anunciou a obra maravilhosa de Deus e ficou em Jerusalém com o restante do povo que não foi levado cativo ( 2Rs 24:14 ). Ezequias também foi levado cativo à Babilônia na segunda deportação de Judá, segundo a obra maravilhosa que foi anunciada por Deus por intermédio dos seus profetas, como foi o caso de Habacuque.

 

12 Não és tu desde a eternidade, ó SENHOR meu Deus, meu Santo? Nós não morreremos. Ó SENHOR, para juízo o puseste, e tu, ó Rocha, o fundaste para castigar.
13 Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal, e a opressão não podes contemplar. Por que olhas para os que procedem aleivosamente, e te calas quando o ímpio devora aquele que é mais justo do que ele?
14 E por que farias os homens como os peixes do mar, como os répteis, que não têm quem os governe?
15 Ele a todos levantará com o anzol, apanhá-los-á com a sua rede, e os ajuntará na sua rede varredoura; por isso ele se alegrará e se regozijará.
16 Por isso sacrificará à sua rede, e queimará incenso à sua varredoura; porque com elas engordou a sua porção, e engrossou a sua comida.
17 Porventura por isso esvaziará a sua rede e não terá piedade de matar as nações continuamente?

 

Como compreender a Obra do Senhor?

O profeta Habacuque continua confiando em Deus, uma vez que Deus é imutável “Não és desde a eternidade, ó Senhor…” (v. 12). Deus é misericordioso, e não é por causa da profecia acerca da invasão dos caldeus que a misericórdia seria invalidada.

Apesar da invasão ser certa, contudo a confiança de Habacuque era firme na fidelidade de Deus: “Não morreremos” (v. 12). Habacuque demonstra que a fidelidade de Deus é a causa de Israel não ter sido consumido. Porque Deus é desde a eternidade é que o povo não seria exterminado (não morreremos).

Habacuque continua confiando em Deus, pois o invoca: “Ó Senhor…”. Ele entendeu que os caldeus foram estabelecidos para juízo. Eles foram fundados para castigar Israel pela sua desobediência, conforme o predito na lei de Moisés.

O profeta compreende que Deus é puro de olhos, de modo que Ele não coaduna com a opressão (v. 13). A pureza de Deus era possível ao profeta compreender, porém, não compreendia como Deus poderia levar a efeito o seu propósito se a vara de correção (caldeus) eram homens aleivosos. Como os ímpios podiam ser usados por Deus, se o povo de Israel, segundo a concepção de Habacuque, eram mais justo do que eles?

É possível à concepção humana de justiça, alguém ser mais justo que outro. Porém, segundo a justiça e o juízo de Deus, não há uma gradação de justiça. Ou o homem é justo, ou não é.

Para Deus os caldeus e o judeus eram iguais, ambos condenáveis diante de Deus. Para Habacuque, por serem descendentes de Abraão, por terem as promessas, as escrituras, etc., ele considerava que a nação de Israel era mais justa que as nações em redor.

Habacuque invoca a soberania de Deus para que Ele estabeleça o seu reino, e os homens não mais vivam semelhante aos peixes e répteis, sem quem os governe. É plausível esta consideração de Habacuque? Não! Ele esqueceu de considerar que o domínio da terra foi dado aos homens, e o que é dado por Deus Ele não toma.

A Cristo foi dado o domínio de todas as coisas porque ele conquistou. Deus concedeu todo o domínio ao autor e consumador da nossa fé, pois ele conquistou este direito ao morrer e ressurgir dentre os mortos.

Habacuque não duvida da obra maravilhosa revelada, porém, continua em busca de respostas, pois não compreende o modo de Deus trazer correção ao seu povo.

Como Deus aceitava os caldeus abaterem os seus inimigos através do Seu poder, se eles atribuíam as suas conquistas as suas armadilhas e habilidades? (v. 16).

Habacuque procurou elementos para compreender a ação divina, mas os cristãos conhecem que:

  • Deus escolhe dentre os homens e dentre os povos quem executará uma obra, porém, isto não significa que o povo ou quem é escolhido será salvo;
  • Israel foi escolhido para tornar conhecido o nome do Senhor sobre a terra, porém, individualmente cada descendente de Abraão precisava circuncidar o seu coração, caso quisesse ver a salvação de Deus;
  • Ciro e Gideão executaram uma missão, porém, isto não lhes garantiu salvação;
  • A salvação dos homens não é segundo uma escolha divina entre quem será ou não salvo, antes é pela fé em Cristo. Uma missão não concede salvação a ninguém.
  • Os caldeus não eram mais ímpios que os israelitas, visto que a geração dos ímpios é diferente da geração dos justos.

Os ímpios são gerados segundo a vontade da carne, vontade do varão e do sangue. Já os justos são gerados segundo a vontade de Deus ( Jo 1:12 -13).

A geração dos ímpios é proveniente de Adão, e todos os nascidos em Adão são pecadores, filhos da ira e da desobediência. A geração dos justos é proveniente de Cristo, o último Adão, e todos os que são nascidos de Deus são conhecidos d’Ele.

O povo de Israel devia compreender o que foi exposto por Moisés: “Sabe, portanto, que não é por causa da tua justiça que o Senhor teu Deus te dá essa boa terra, para a possuirdes, pois és povo rebelde” ( Dt 9:6 ). Por que eles eram rebeldes? A resposta está em Isaías: “Teu primeiro pai pecou, e os teus intérpretes prevaricaram contra mim” ( Is 43:27 ).

O povo de Israel era rebelde (ímpio) pelo mesmo motivo que as outras nações: Adão pecou! Se os interpretes de Israel considerassem que todos pecaram em Adão e que foram destituídos da glória de Deus, não teriam prevaricado contra o Senhor.

Eles não diriam que o povo de Israel eram filhos de Deus por serem descendentes de Abraão. Antes demonstrariam que, para serem filhos de Deus, o povo precisava circuncidar o coração, o que só é possível através da fé em Deus, a mesma fé que teve o crente Abraão “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz” ( Dt 10:16 ).

Habacuque considerava que a impiedade do seu povo era proveniente da opressão, da violência, do litígio, das injustiças, porém, esqueceu que os homens são ímpios porque foram gerados e concebidos em pecado. Ele não atinou que o primeiro pai dos homens (Adão) pecou e por isso todos tornaram-se pecados, e carecem da glória de Deus.

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Romanos 7 – Mortos para a lei

Quando os cristãos estavam na carne produziam frutos para a morte, agora, ‘em Cristo’, os cristãos servem a Deus em novidade de espírito, e, portanto, produzem frutos para Deus “Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto” ( Sl 51:10 ). Só é ´possível servir a Deus após adquirir um novo espírito. O mesmo Deus que cria a paz é o Deus que vivifica o coração e o espírito dos abatidos ( Is 57:15 -19). O Deus que cria um novo coração é o mesmo que produz o fruto dos lábios (Is 57:19). É próprio à carne produzir frutos para a morte, assim como é próprio do Espírito produzir frutos para a vida eterna ( Rm 6:16 ).


Epístola aos Romanos – Capítulo 7

Introdução e Conteúdo

Devido a complexidade do tema abordado nesta exposição, indico aos leitores e estudantes que façam um estudo sistemático e progressivo de alguns textos essenciais à compreensão deste capítulo, e que estão à disposição neste portal.

Leia atentamente os comentários aos capítulos anteriores, principalmente aqueles pontos que apresentam a metodologia de interpretação da carta paulina.

O leitor precisa conhecer e distinguir no que implica o caminho largo e o caminho estreito. Necessita conhecer quais são as plantas plantadas por Deus, e as que não são. É de suma importância saber quais são os vasos para honra e os vasos para desonra, etc. Todas estas questões foram abordadas neste portal e continua à disposição.

O estudo sobre Romanos 7 não passou por revisão ortográfica, e, desde já pedimos desculpar por possíveis erros de ortografia e gramática.

Agradeço a minha esposa (Jussara) por colaborar na elaboração deste estudo.

Tenha uma boa leitura, e que Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo ilumine os olhos do nosso entendimento ( Ef 1:18 ).

 

Prefácio

Este é um dos capítulos de maior complexidade para se interpretar de toda a bíblia. Ao longo dos séculos o capítulo sete da carta aos Romanos tem desafiado inúmeros teólogos e estudiosos quanto à sua real interpretação.

Uma correta interpretação deste capítulo é essencial à compreensão de toda carta, e, para interpretá-lo, precisaremos de todos os elementos que foram realçados através das análises feitas nos capítulos anteriores.

Antes de ler este capítulo, recomendo que seja feita uma leitura minuciosa de todos os comentários aos capítulos anterior da carta aos Romanos.

Além de observar os comentários versículo a versículo, é preciso observar também todas as introduções feitas aos capítulos, pois eles contêm elementos essenciais à interpretação deste capítulo em particular.

O primeiro ponto a se considerar na leitura deste capítulo é: Paulo escreveu uma carta, e ela originalmente não foi redigida em capítulos e versículos. Ao ler uma carta, o leitor não pode ater-se às divisões em versículos e capítulos, pois tal divisão interfere na interpretação do texto.

Para um maior proveito na leitura da carta que está sendo estudada, recomendo a quem tem um computador, que imprima a carta de Paulo aos Romanos sem as divisões em capítulos e versículos, pois a leitura do texto sem estes divisores será muito mais proveitosa para a interpretação.

Quem analisa qualquer texto bíblico precisa de algumas premissas centrais para não perder o foco durante a interpretação, uma vez que surgirão inúmeras perguntas, porém, dependendo da pergunta ela não vem ao caso no momento da análise.

Um exemplo claro de perca de foco, e que algumas pessoas incorrem ao ler a bíblia, verifica-se na passagem acerca da vida de Caim. Há vários aspectos a serem analisados e compreendidos na vida de Caim, porém, muitos restringem a análise e não progridem por se fixarem em questionar quem foi a mulher de Caim.

Diante de um texto bíblico surgirão inúmeras questões, porém, é necessário estar resolvido somente levantar questões que focam o texto. Antes de prosseguir em certas questões é preciso ter em mente as seguintes questões: É pertinente tal pergunta? É necessária no momento? Tem relação direta com a idéia do texto em análise?

Estas são algumas perguntas que devem ser feitas durante a análise do texto bíblico para evitar divagações desnecessárias quando da interpretação de um texto complexo.

Exemplo: Questionar quem foi a mulher de Caim é plausível? Há na bíblia qualquer referência à mulher de Caim? É possível encontrar uma resposta bíblica acerca da mulher de Caim que não seja mera especulação? Se não há nenhuma referência direta sobre a mulher de Caim, como descobrir quem foi sua mulher? De que adiantaria descobrir quem foi a mulher de Caim?

Paulo recomendou a Tito: “Mas não entres em questões loucas, genealogias e contendas, e nos debates acerca da lei; porque são coisas inúteis e vãs” ( Tt 3:9 ). Muitos há que procuram demonstrar conhecimento bíblico, e que, em qualquer conversa interpõe perguntas semelhantes: Quem foi a mulher de Caim? Quem eram os Nefilins? Qual o sexo dos anjos?

 

 

Convite ao Raciocínio

“NÃO sabeis vós, irmãos (pois que falo aos que sabem a lei), que a lei tem domínio sobre o homem por todo o tempo que vive? Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido. De sorte que, vivendo o marido, será chamada adúltera se for de outro marido; mas, morto o marido, livre está da lei, e assim não será adúltera, se for de outro marido” ( Rm 7:1 – 3).

1 NÃO sabeis vós, irmãos (pois que falo aos que sabem a lei), que a lei tem domínio sobre o homem por todo o tempo que vive?

Após demonstrar que todos os cristãos foram batizados em Cristo, ou seja, tornaram-se participantes da Sua morte, e que, por estarem mortos, não havia como viverem no pecado, Paulo convoca os seus interlocutores ao raciocínio.

Se os cristãos em Roma desconheciam que todos que foram batizados em Cristo ( Rm 6:3 ), destruíram de uma vez por todas o corpo do pecado ( Rm 6:6 ), e que não mais serviam ao pecado, este ponto em específico foi esclarecido no capítulo seis. Porém, caso alguém permanecesse agarrado à ignorância, Paulo propõe os mesmos argumentos aos seus leitores, só que agora, através de figuras.

Este modo de exposição foi utilizado anteriormente nesta mesma carta. Basta analisar os elementos do texto que Paulo escreveu após falar da justificação por meio da fé ( Rm 3:21 – 26), para compreendermos o modo e porque Paulo introduziu os argumentos que há no capítulo 7.

Para ilustrar a doutrina do evangelho no capítulo 3, que foi exposta em poucas linhas, Paulo apresentou Abraão, o homem que foi justificado por Deus pela fé na promessa divina ( Rm 4:1 – 5). Em seguida o apóstolo Paulo apresenta alguns versos do salmista Davi para dar sustentação aos seus argumentos ( Rm 4:6 – 8).

Novamente ele fala da justificação pela fé em Cristo ( Rm 5:1 ), e, somente então, Paulo apresenta a primeira figura na carta aos Romanos: a escravidão, para dirimir qualquer ignorância da parte dos cristãos acerca da justificação: “Ou, porventura, ignorais que (…) e não sirvamos o pecado como escravos” ( Rm 6:6 ).

Diante da ignorância dos cristãos “Porventura ignorais, irmãos…” ( Rm 7:1 ), Paulo apresenta uma nova figura: a mulher ligada ao marido pelo matrimônio ( Rm 7:1 – 3).

Paulo geralmente introduz uma figura ou uma alegoria através da expressão interrogativa: “… não sabeis…?”:

  1. “Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só leva o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis” ( 1Co 9:24 );
  2. “Não é boa a vossa jactância. Não sabeis que um pouco de fermento faz levedar toda a massa?” ( 1Co 5:6 ), e;
  3. “Deus não rejeitou o seu povo, que antes conheceu. Ou não sabeis o que a Escritura diz de Elias, como fala a Deus contra Israel, dizendo:” ( Rm 11:2 );

Paulo conhecia bem a sua ‘platéia’, o que é próprio à retórica (arte do bem falar), uma vez que ele estava escrevendo a quem conhecia à lei. A quem Paulo estava escrevendo? Ora, sabemos que ele escreveu aos cristãos em Roma, porém, a carta do capítulo dois ao doze tinha como público alvo um grupo mais específico: os cristãos judeus.

Como aos cristãos judeus? A resposta a esta pergunta encontra-se no início da carta, isto porque, ao registrar que estava falando a quem conhecia a lei, é possível demonstrar que Paulo estava tratando especificamente com os cristãos de origem judaica e que agora pertenciam à igreja que estava em Roma.

Por ser uma carta intitulada: ‘Epístola de Paulo aos Romanos’, muitos são levados a entender que Paulo escreveu especificamente aos cristãos chamados dentre os gentios que habitavam em Roma. Porém, ao observar alguns versos desde o início da carta, veremos que Paulo escreveu focado em dois grupos de cristãos: cristãos chamados dentre os judeus e cristãos chamados dentre os gentios. Observe:

  • “Que diremos, pois, ter alcançado Abraão, nosso Pai segundo a carne?” ( Rm 4:1 ) – Com base neste versículo, Paulo estava escrevendo aos cristãos judeus ou aos cristãos gentios? De quem Abraão é pai segundo a carne? Dos Judeus ou dos gentios? Observe que Paulo está tratando especificamente com os judeus desde o capítulo 2;
  • “… mas também à que é da fé que teve Abraão, o qual é Pai de todos nós” ( Rm 4:16 ) – Através deste verso, Paulo procura convencer os filhos de Abraão segundo a carne (os judeus) que todos os cristãos, tanto gentios quanto judeus, efetivamente são filhos de Abraão segundo a fé. Ora, segundo a fé Abraão é pai de todos os que creem, sem distinção alguma, tanto de judeus quanto gregos;
  • “… porque não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça” ( Rm 6:14 ) – Ora, quem esteve debaixo da lei a não ser os cristãos chamados dentre os judeus? Perceba que o público alvo da carta aos Romanos inicialmente eram os judeus convertidos, embora os cristãos gentios também pudessem se beneficiar da exposição de Paulo;
  • “Convosco falo, gentios” ( Rm 11:13 ) – Observe que, após tratar diretamente com os judeus, Paulo direciona o seu discurso aos cristãos chamados dentre os gentios, para que eles não se ensoberbecem contra os cristãos que foram chamados dentre os judeus.
  • “Mas tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus” ( Rm 2:17 ) – Paulo direcionou o seu discurso especificamente aos cristãos judeus a partir deste ponto em diante, embora, o alvo da mensagem do evangelho seja todos os homens sem distinção alguma ( Rm 2:3 ).

 

Quem eram os irmãos que conheciam a lei? Os cristãos judeus ou os gentios? É certo que Paulo diz dos cristãos judeus ( Rm 7:1 ).

O que os cristãos estavam aparentando desconhecer? Eles demonstravam desconhecer que a lei tem domínio sobre o homem por todo o tempo que viver ( Rm 7:1 ).

Paulo questiona os seus interlocutores se eles desconheciam que a lei só tem domínio enquanto o homem está vivo. Ora, se eles morreram com Cristo (foram batizados), como era possível questionarem a possibilidade de permanecerem no pecado para que a graça aumentasse ( Rm 6:1 ).

Ora, como é possível a alguém que morreu para o pecado estar sob o domínio do pecado? (Romanos 6: 2). Para quem não compreendeu que a lei não mais tinha domínio sobre os cristãos, visto que todos morreram com Cristo, Paulo apresenta a figura da mulher ligada à lei do marido, para ilustrar a verdade exposta no capítulo 6.

 

 

A Figura da Mulher ligada ao Marido

2 Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido.

Um exemplo claro de que é impossível a alguém que morreu para o pecado permanecer no pecado é apresentado através da figura da mulher sujeita a lei do marido (lei estabelecida no matrimonio).

Enquanto o marido viver, a mulher estará ligada ao marido pela lei. Porém, morto o marido, qual o papel da lei? A viúva deveria continuar submissa à lei mesmo após a morte do marido?

É certo que, morto o marido, a lei continuará a existir, porém, a viúva não mais será alcançada pela lei, por mais que a mesma lei continue a submeter outras mulheres casadas a seus maridos, ela não submeterá a viúva.

Os leitores da carta de Paulo deviam construir um paralelo entre eles, que morreram para o pecado, e os não crentes, que permaneciam vivos para o pecado.

Quem não foi batizado (morreu) em Cristo, e que, portanto, não morreu com Cristo, permanece vivo para o pecado e sob a égide da lei. Quem não é batizado em Cristo, mesmo sem causa é transgressor “Na verdade, não serão confundidos os que esperam em ti; confundidos serão os que transgridem sem causa” ( Sl 25:3 ).

Quem crê em Cristo, ou seja, quem espera na salvação providenciada por Deus (esperam em ti), jamais serão confundidos. Porém, todos os que não confiam em Deus serão confundidos, pois mesmo sem causa são transgressores ( Sl 25:3 ).

O que isto quer dizer? Ora, todos os nascidos em Adão são transgressores por natureza, sem qualquer relação direta com questões comportamentais ou morais. Mesmo quando não transgridem leis sociais, morais e comportamentais, são transgressores diante de Deus.

Quem confia no Senhor, morre para o pecado e ressurge uma nova criatura, que jamais será confundida, pois a salvação providenciada por Deus não advém das regras sociais, morais ou comportamentais, antes, é salvo por ter sido novamente criado na condição de filhos de Deus.

A lei do marido só tem razão de ser enquanto o marido estiver vivo, pois tal lei estabelece a sujeição da mulher ao marido, porém, após a morte do marido, a viúva está livre da lei do marido.

 

3 De sorte que, vivendo o marido, será chamada adúltera se for de outro marido; mas, morto o marido, livre está da lei, e assim não será adúltera, se for de outro marido.

Paulo convida os seus interlocutores a pensarem e a chegarem a uma conclusão. Enquanto o marido viver, a mulher será chamada adúltera se for de outro homem, porém, após morrer o marido, a mulher estará livre da lei, e não mais será adultera se for de outro homem.

As figuras utilizadas por Paulo, tanto da escravidão quanto da mulher ligada ao marido pela lei são simples de entender.

Diante da lei jamais um escravo seria livre sem a aquiescência do seu senhor. Caso o senhor viesse a falecer, o escravo simplesmente fazia parte dos espólios do seu antigo senhor, porém, não seria livre.

Somente a morte do escravo é que o tornava livre do seu senhor, uma vez que a lei e o antigo senhor nada representavam para o escravo após a sua morte. Como é sabido, o pecado é um senhor tirano que não concede liberdade a seus escravos. Somente a morte deixa livre o pecador do seu tirano senhor, no entanto, seguirá para a eternidade sob condenação eterna.

O cristão efetivamente morre com Cristo, e é por isso que o pecado deixa de exercer domínio como senhor sobre ele.

Quem morre (a morte natural) como servo do pecado seguirá para a eternidade sob condenação, porém, aquele que morre com Cristo, é julgado em Cristo para não ser condenados com o mundo. Quem morre para o pecado em Cristo, ressurge uma nova criatura, e passa a viver para Deus.

O ponto principal que Paulo demonstra neste verso é que, após morrer o marido a mulher está livre da lei do marido. Do mesmo modo, após o escravo morrer, livre está do seu senhor.

Por certo, ao morrer para o pecado e para a lei, o cristão é livre da lei e do pecado. A figura da escravidão demonstra que o cristão é livre do pecado ( Rm 6:6 ), e a figura da mulher ligada ao marido pela lei, que o cristão é livre da lei ( Rm 7:4 ).

 

 

Argumentos Conclusivos

A figura da mulher ligada a lei do marido ( Rm 7:2 ) e a figura da escravidão ( Rm 6:18 ) que Paulo apresentou anteriormente conduz o leitor à conclusão que é apresentada nestes três versos a seguir.

Paulo novamente enfatiza que os cristãos estão mortos ( Rm 7:4 ), o que foi demonstrado nos capítulos anteriores exaustivamente “Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?” ( Rm 6:2 ). Todos cristãos estão efetivamente mortos para o pecado.

Paulo descreve de modo retroativo os eventos pertinentes àqueles que morreram em Cristo:

  • “Nós, que estamos mortos…” ( Rm 6:2 ) – diz do agora (presente), diz da nova condição pertinente a vida dos cristãos. Para alcançar esta posição (mortos para o pecado), os cristãos ressurgiram com Cristo (vivos para Deus);
  • “…todos quantos fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte?” (v. 3) – Antes de ressurgir com Cristo, os cristãos foram sepultados pelo batismo na morte de Cristo, ou seja, o batismo que Paulo faz referência não é o batismo em águas, antes ao batismo na morte;
  • “…fomos sepultados com ele pelo batismo na morte…” (v. 4) – o sepultamento se dá efetivamente no batismo na morte, o que não dá vazão a doutrina da regeneração batismal;
  • “…fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte…” (v. 5) – a semelhança não é um faz de conta, antes a semelhança que os cristãos foram plantados é conforme a morte de Cristo;
  • “Pois sabemos isto, que o nosso velho homem foi com ele crucificado…” (v. 6) – antes de estar efetivamente morto, antes de ser batizado, ou seja, ser plantado com Cristo, em primeiro lugar o ‘velho homem’ foi crucificado com Cristo.

É pertinente ao modo literário do apóstolo Paulo, apresentar inicialmente a condição efetiva dos cristãos “É também nele que vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade,…” ( Ef 1:13 ), para depois demonstrar como alcançaram tal condição “Ele vos vivificou, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados…” ( Ef 2:1 ). Geralmente o apóstolo dos gentios apresenta aos cristãos a nova condição em Cristo, para depois demonstrar como se alcançou tamanha graça. Para tanto, ele demonstra qual era a condição do homem sem Cristo.

Paulo faz alusão a um princípio doutrinário do evangelho nos versos três a cinco do capítulo 7, mas para compreendê-los é preciso relembrar o que Jesus disse aos discípulos através da figura da árvore e seus frutos: “Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus” ( Mt 7:17 ).

Através da figura da árvore e seus frutos Jesus demonstrou que é impossível uma árvore boa produzir frutos maus, e que é impossível uma árvore má produzir frutos bons. Ora, este princípio é observável na natureza, porém, que aplicação há com relação às questões espirituais?

Jesus demonstrou que é impossível um falso profeta (lembre-se que eles têm aparência de ovelha), produzir frutos bons, ou seja, dizer o que é verdadeiro. Ora, nem todo o que diz: ‘Senhor, Senhor’ entrará no reino dos céus, porque produzem frutos maus, ou seja, não professam a Cristo segundo a verdade do evangelho (não produzem bons frutos).

Qual é o fruto bom? O fruto dos lábios que professam a Cristo! ( Hb 13:15 ). Quem professa a Cristo, conforme diz a Escritura, é porque nasceu da semente incorruptível. É plantação do Senhor, árvores de Justiça ( Is 61:3 ).

Os nascidos em Adão são árvores más, plantas que o Pai não plantou, e todos os seus frutos são maus. Porém, aqueles que crêem na palavra da verdade são plantação do Senhor, árvores de Justiça, e produzem frutos bons, ou seja, professam a Cristo, pois este é o fruto que Deus criou Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz, para o que está longe; e para o que está perto, diz o SENHOR, e eu o sararei” ( Is 57:19 ).

É preciso relacionar Rm 6:19 e Rm6:22 com Rm 7:4 sem esquecer que, antes de serem libertos do pecado, os cristãos eram escravos do pecado, e, portanto, só podiam produzir para o seu senhor.

Lembrando que um servo não pode servir a dois senhores e esta mesma impossibilidade é encontrada na figura da árvore, pois do mesmo modo que um servo do pecado não pode servir à justiça, uma árvore má não pode produzir frutos bons.

Como pode um servo da justiça servir ao pecado, se é impossível servir a dois senhores? ( Rm 6:20 ). Ou melhor, como pode alguém que está morto para o pecado, viver ainda nele? ( Rm 6:2 ). Como é possível a uma árvore que germinou de uma semente incorruptível produzir frutos maus? ( 1Pe 1:23 ). Como ser achado ainda pecador, quem já se refugiou em Cristo? ( Gl 2:17 ).

O capítulo 7 da carta aos Romanos apresenta uma resposta a estas perguntas.

 

 

Os Frutos

“Assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo, para que sejais de outro, daquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de que demos fruto para Deus. Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte. Mas agora temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra” ( Rm 7:4 – 6).

 

4 Assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo, para que sejais de outro, daquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de que demos fruto para Deus.

O comparativo é estabelecido entre os cristãos e a figura da mulher que estava ligada ao marido através da lei “Assim, meus irmãos, também vós…” (v. 4).

Observe a similaridade entre este verso e Efésios 1: 13:

“É também nele que vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade…” ( Ef 1:13 );

“Assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo…” ( Rm 7:4 ).

‘Estar em Cristo’ e ‘estar morto para a lei’ aponta para uma mesma condição diante de Deus: uma nova criatura. Dizer que o cristão está ‘em Cristo’ é dizer que ele é uma nova criatura. Dizer que o cristão está ‘morto para a lei’ é o mesmo que dizer: você é uma nova criatura “Portanto, se alguém está em Cristo, nova criatura é…” ( 2Co 5:17 ).

Por que os cristãos estavam mortos para a lei pelo corpo de Cristo? Porque através do evangelho conclui-se que, se um morreu por todos, logo todos morreram ( 2Co 5:14 ). Ora, foi através da oferta do corpo de Cristo que os cristãos deixaram a condição de velha criatura e passaram à condição de nova criatura ( Hb 10:10 ).

A oferta diz do corpo de Cristo, do corpo que o Verbo encarnou. Foi através do corpo humano que Deus preparou para o seu Filho ( Hb 10:5 ), que os cristãos passaram a estar mortos para a lei.

Quando Paulo faz referência ao corpo de Cristo, ele está fazendo referência à morte de Cristo, ou seja, ao corpo que foi apresentado imaculado como oferta a Deus. Deste modo, por causa do corpo de Cristo, que foi entregue aos pecadores, os cristãos estão mortos para a lei.

Como? Ao apresentar um paralelo entre a figura da mulher que estava ligada ao marido pela lei, e que após a morte do marido não mais estava sujeita à lei, Paulo demonstra que a lei só teve alcance sobre os cristãos pelo tempo que em que viveram na carne ( 2Co 5:15 ).

Uma vez que todos que creram em Cristo foram crucificados, mortos com Cristo, e sepultados com Cristo, que relação há entre a lei e o cristão?

Da morte com Cristo surge uma nova condição: livres da lei e do pecado.

Enquanto filhos de Adão, gerados da semente corruptível, o homem está sob o domínio da lei e da escravidão do pecado, através do corpo de Cristo, o homem efetivamente morre, e passa a compartilhar da natureza divina através da ressurreição com Cristo.

Antes de morrer com Cristo, a quem os cristãos pertenciam? Ao pecado, ao mundo, às trevas, à ira, à perdição e estavam debaixo da lei (certamente morrerás). Agora, por estarem em Cristo, os cristãos passaram a pertencer àquele que ressurgiu dentre os mortos.

Os cristãos não pertencem ao Cristo que veio em carne, antes pertencem àquele que ressurgiu dentre os mortos para louvor da glória e graça de Deus ( 2Co 5:16 ).

Por que os cristãos estão mortos para a lei? Por que eles passaram a pertencer àquele que ressurgiu dentre os mortos? A resposta é simples: “… a fim de darmos fruto para Deus”.

Como é possível dar fruto para Deus? Assim como é próprio a árvores produzir frutos segundo a sua espécie é próprio à natureza daqueles que estão mortos para a lei produzirem frutos para Deus! Não depende do esforço do homem.

Como os cristãos são árvores de justiça, plantação do Senhor é próprio da nova natureza produzir fruto para Deus.

Repassando:

  1. Os cristãos estão mortos para o pecado e não podem viver nele. Paulo não fez uma recomendação aos cristãos: – Vocês não devem viver no pecado! Antes, ele demonstrou que é impossível viver no pecado, quando se está morto para o pecado ( Rm 6:2 ). Paulo demonstra que é impossível viver no pecado, o que difere completamente da concepção de que ele tenha ordenado a que não vivessem em pecado. Ou o homem vive para a justiça ou vive para o pecado. É impossível o homem viver para ambos;
  2. Os cristãos andam em novidade de vida porque ressurgiram com Cristo, ou seja, só é possível ‘andar em novidade de vida’ quando se vive no Espírito, ou seja, após morrer e ressurgir com Cristo ( Rm 6:4 ; Gl 5:25 );
  3. Os cristãos foram plantados juntamente com Cristo, na semelhança da sua morte, e, portanto, são semelhantes a Ele na ressurreição: a morte não tem mais domínio ( Rm 6:5 e Rm 6:9 ; “…qual ele é, somos nós também aqui neste mundo” 1Jo 4:17 );
  4. O pecado não mais tem domínio sobre os cristãos, pois não estão debaixo da lei (morreram), ou seja, o pecado não reina sobre os cristãos de modo que venham a produzir frutos que tenham do que se envergonhar ( Rm 6:14 e Rm 6:21 ).

É próprio à natureza daqueles que foram gerados de novo produzirem frutos de justiça, e que o comportamento humano não se vincula ao fruto que Deus cria Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz, para o que está longe; e para o que está perto, diz o SENHOR, e eu o sararei” ( Is 57:19 ).

Os frutos que os cristãos produzem para Deus são provenientes do próprio Deus sem qualquer relação com o esforço humano. Quem é nascido da semente incorruptível, que é a palavra de Deus ( 1Pe 1:23 ), é plantação do Senhor, ou melhor, plantas que o Pai plantou ( Mt 15:13 ). Ora, as plantas que o Pai plantou produzem frutos segundo a sua espécie: frutos bons.

É por isso que o profeta Isaias registrou: “Eu crio o fruto dos lábios…”. Por quê? Ora, se a boca fala do que o coração está cheio “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” ( Mt 12:34 ), um coração mal só fala malignidade, mas de um coração novo, que é criado por Deus ( Sl 51:10 ), só é possível produzir fruto bom.

Somente Deus pode conceder um novo coração e um novo espírito. Tudo que é proveniente do novo coração foi criado por Deus, e, por isso mesmo, Ele criou o fruto dos lábios.

Quem vive de acordo com a verdade do evangelho é porque está em Cristo, de modo que todos podem ver claramente que as suas obras são feitas em Deus, pois quem vive em trevas e nela anda, não vem para Cristo, porque amam mais as trevas do que a luz para preservarem as suas próprias obras ( Jo 3:19 – 21 ).

 

 

A Carne e o seu Fruto

5 Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte.

Paulo neste verso faz referência à antiga condição dos cristãos, quando estavam vivos para o pecado e mortos para Deus.

Naquele tempo específico, quando os cristãos estavam na carne, eles davam frutos para a morte. Hoje, em Cristo, os cristãos servem a Deus em novidade de espírito, e, portanto, produzem frutos para Deus Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto” ( Sl 51:10 ).

O mesmo Deus que cria a paz é o Deus que vivifica o coração e o espírito dos abatidos ( Is 57:15 e Is 57:19 ). O Deus que cria um novo coração é o mesmo que produz o fruto dos lábios ( Is 57:19 ).

É próprio à carne produzir frutos para a morte, assim como é próprio do Espírito produzir frutos para a vida eterna ( Rm 6:16 ). Os cristãos estão livres do pecado e os seus frutos são para Deus e por fim herdarão a vida eterna ( Rm 6:22 ), porém, antes de aceitarem a Cristo eram servos do pecado, os seus frutos eram para o pecado, e por fim herdariam a morte eterna.

As paixões pertinentes ao corpo do pecado existem pela lei e operam nos membros do corpo do pecado. Quem morre com Cristo, crucifica o corpo do pecado e as suas paixões “E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” ( Gl 5:24 ).

Não são as paixões da carne e suas concupiscências que produzem fruto para a morte, antes é a natureza carnal que produz tal fruto, pois, a inclinação da carne é morte, mesmo para aqueles que não se entregam com avidez às paixões e concupiscência da carne.

Analisando a seguinte tradução com base em outros versículos: “Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte” ( Rm 7:5 ), chega-se à seguinte conclusão: não são as paixões dos pecados que produzem fruto para a morte. Como? Ora, dizer que as paixões e as concupiscências produzem fruto para morte é o mesmo que dizer que o comportamento humano é que produz a morte (separação de Deus).

Porém, como é de conhecimento geral, a natureza pecaminosa herdada de Adão, designada carne, é que estabeleceu a morte (condenação) e produz para a morte (iniqüidades). É por isso que quando os cristãos crucificam a carne, crucificam também as paixões e as concupiscências ( Gl 5:24 ).

Não são as paixões e as concupiscências que se inclinam para a morte, antes é a carne. A carne é sujeita à lei, e a lei realça as paixões e as concupiscências nos membros (corpo) que pertencem à carne.

Assim sendo, o versículo é melhor traduzido quando evidencia a condição da carne (sujeição ao pecado), e para quem ela produz o seu fruto (para a morte). Ou seja: “… quando estávamos na carne (…), frutificávamos para a morte”. Com relação às paixões, Paulo somente evidenciou que elas são (realçadas) através da lei, e que efetivamente tais paixões operavam nos membros da carne.

Sugestão de emenda a tradução: “Porque, quando estávamos na carne (as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros) frutificávamos para a morte”.

Basta comparar os versos ( Rm 7:4 e Rm 7:5 com o verso 16: “… sóis servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça” ( Rm 6:16 ).

É possível o homem escolher não obedecer ao pecado sem ter obedecido a Cristo? É possível ao homem abandonar o pecado sem ser adquirido por Cristo? Não!

Ora, a humanidade sem Cristo (escravos) obedece ao pecado (senhor) porque foram introduzidos no mundo sob o domínio do pecado. Em Adão a humanidade ‘obedeceu’ ao pecado! Adão é a porta larga pela qual todos os homens entraram, e seguem por um caminho largo que os conduz à perdição.

Embora muitos procurem realizar boas ações, as suas obras não passam de trapos de imundície. Por serem servos do pecado todas as obras dos homens são más, ou seja, os servos do pecado frutificam para a morte.

Em Cristo, o último Adão, os homens são novamente criados segundo Deus, livre do poder do pecado, e sob o jugo da justiça. Ao entrar pela porta estreita, o homem deixa de produzir para a morte e passa a produzir para a justiça, pois se inclinam para a vida que há em Deus e para a paz que excede a todo entendimento.

 

 

 

Em Espírito e em Verdade

6 Mas agora temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra.

Paulo apresenta uma conclusão à sua exposição: agora, após serem libertos da lei, ou seja, mortos para aquilo que estavam retidos (a lei), os cristãos servem a Deus em novidade de espírito.

Por que em novidade de espírito? Porque após crer em Cristo o homem adquire um novo coração e um novo espírito, criados segundo Deus em verdadeira justiça e santidade ( Sl 51:10 ; Ef 4:24 ).

Paulo demonstra que os judeus não serviam a Deus, antes, só tinham zelo, porém, sem entendimento ( Rm 10:2 ). Por quê? Porque só é possível servir a Deus em espírito e em verdade, ou seja, quando o homem é gerado do Espírito, o mesmo que ser circuncidado no coração. Somente em Cristo é possível ao homem alcançar a condição de servir a Deus em espírito ( Jo 4:23 ).

A condição ‘em espírito’ só é possível quando o homem é gerado de Deus. É por isso que Jesus disse a Nicodemos: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” ( Jo 3:6 ). Somente após o homem ser gerado de novo através da fé em Cristo torna-se possível servir a Deus (o Espírito Eterno) em espírito.

Os judeus pensavam servir a Deus, porém, a qualquer homem nascido de Adão (nascido da carne) é impossível servir a Deus. Deus somente ‘conhece’ aqueles que o adoram em espírito e em verdade ( Jo 4:24 ; Gl 4:9 ).

Paulo estava tratando diretamente com os judeus convertidos, como foi demonstrado anteriormente, e aqui temos outra evidência: somente os cristãos judeus tentaram servir a Deus através da velhice da letra (lei de Moisés), ponto abordado por Paulo que não tem relação com os gentios.

Só é possível servir a Deus em novidade de espírito, e, somente Ele, é quem ‘renova’ (cria) no homem um espírito reto ( Sl 51:10 ). Só é possível ter novo coração e um novo espírito quando o homem está livre da lei, ou melhor, quando morre para aquilo em que se estava retido.

Como é possível ao homem morrer para o que estava retido (lei)? Através da circuncisão do coração! Quando Moisés apregoou a circuncisão do coração ao povo de Israel, tal circuncisão só era possível através da fé em Deus, Aquele que tem o poder de circuncidar o coração, ou seja, Ele mata o homem gerado em Adão e concede um novo coração “E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao SENHOR teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas” ( Dt 30:6 ).

Somente após alcançar novo coração (novo nascimento) o homem compreende a palavra de Deus “Porém não vos tem dado o SENHOR um coração para entender, nem olhos para ver, nem ouvidos para ouvir, até ao dia de hoje” ( Dt 29:4 ).

Em resumo: Os cristãos morrerem com Cristo, portanto, estavam livres da lei. Qual o objetivo de os cristãos terem morrido para a lei, ou antes, morrido com Cristo? Para servirem a Deus com um novo espírito e um novo coração ( Ez 36:25 – 27 ). Ora, o novo coração e o novo espírito só são possíveis alcançar através da regeneração em Cristo.

A lei de Moisés (velhice da letra) não poderia proporcionar o novo nascimento. Somente o evangelho de Cristo, que é a água limpa aspergida pelo Espírito Eterno, faz nascer o novo homem para louvor de sua glória ( Jo 3:5 ; Ez 36:26 ). É através do evangelho que o homem recebe poder para ser criado em verdadeira justiça e santidade ( Jo 1:12 ; Ef 4:24 ).

Após declarar que os cristãos eram livres da lei ( Rm 7:6 ), do mesmo modo que eram livres do pecado ( Rm 6:6 ), poderia surgir um entrave na mente de alguns cristãos: acharem que Paulo estava equiparando a lei ao pecado ( Rm 7:7 ).

 

 

Verbos, flexões e Interpretação

Como interpretar este versículo:

“Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado” ( Mc 16:16 ).

Quem crê em Cristo é (presente) salvo ou será salvo (futuro)? Por que Jesus disse: quem crer será salvo? Você é salvo ou ainda será salvo no futuro?

Há pessoas que dizem que ainda não estão salvas, mas que serão salvas. Ao serem indagadas, citam o seguinte versículo: “quem crer será salvo”, ou seja, porque o verbo salvar está no futuro essas pessoas entendem que somente estarão salvas no futuro.

O argumento anterior é válido? Não! Por quê?

Porque a frase: ‘quem crer será salvo’ está corretíssima, porém, ‘quem crê está salvo’, também é correta e não contradiz a afirmação anterior.

No verso 16, do capítulo 16, do evangelho de Marcos (Mc 16:16 ), o verbo ‘crer’ está no infinitivo, ou seja, neste caso o verbo conserva a forma não flexionada: ‘crer’.

A frase ‘Quem crer…’ é impessoal, ou seja, o verbo ‘crer’ não faz referência a nenhum sujeito específico. Qualquer homem que ouvir a mensagem do evangelho e crer assumirá a condição de salvo, ou seja, assumirá a condição de sujeito desta frase.

Como o verbo ‘crer’ está no infinitivo, e neste caso o infinitivo não é flexionado, o verbo ‘ser’ é conjugado no futuro simples. Porém, se colocarmos o verbo ‘crer’ no presente ‘crê’, o verbo ‘ser’ é posto no presente: ‘é’. Compare:

Quem crer será salvo;
Quem crê é (está) salvo.

É só substituir o pronome indefinido ‘Quem’ por um substantivo, que a frase apresenta os verbos em tempos flexionados: João crê, portanto, é salvo.

Por que o verbo ‘crer’ foi colocado no infinitivo? Porque a mensagem do evangelho destina-se a todas as pessoas em todos os tempos. A mesma mensagem apregoada por Cristo e os apóstolos continua atual, e destina-se a todos os homens, em todos os tempos e lugares.

Esta primeira análise é gramatical, porém, é possível analisar o mesmo versículo através de outros recursos.

Ao escrever aos cristãos de Coríntios, Paulo disse: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ). Paulo aponta a nova condição dos cristãos efetiva no presente. Ora, se alguém (sujeito indeterminado) está (presente) em Cristo é uma nova criatura, ou seja, a salvação é efetiva hoje: “(Porque diz: Ouvi-te em tempo aceitável E socorri-te no dia da salvação; Eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação)” ( 2Co 6:2 ).

Paulo utiliza neste verso todos os verbos no presente para falar de uma condição pertinente a todos quantos crêem em Cristo.

João, ao falar da salvação, registrou: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome” ( Jo 1:12 ). João fala da salvação como sendo um evento do passado. Todos quantos creram no nome de Jesus receberam poder para serem feitos filhos de Deus. Quem creu, recebeu poder, o que nos leva a seguinte conclusão: quem crê está salvo.

Os tempos verbais podem causar muitos problemas na hora de interpretar um versículo específico ou uma carta. Erros podem surgir da má compreensão dos tempos verbais, principalmente quando há regras para se estabelecer a correta correlação verbal proveniente de questões gramaticais.

O capítulo 6 da carta aos Romanos contém alguns versículos que podem causar alguns problemas na hora da interpretação. Observe:

  • “Se formos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição?” ( Rm 6:5 ) – O versículo é argumentativo, ou seja, o apóstolo não fez uma afirmação. Por causa desta peculiaridade do argumento apresentado por Paulo é preciso estabelecer uma correlação verbal entre as orações, que é ‘a articulação temporal entre duas formas verbais’. No argumento apresentado por Paulo, ‘se formos plantados’ surge a correlação com o verbo ‘ser’ no futuro (seremos). Porém, é assente que os cristãos já morreram com Cristo ( Cl 3:3 ), e, portanto, são semelhantes a Cristo na sua ressurreição ( Cl 3:1 ; 1Jo 4:17 ), pois assim como Jesus é, são os cristãos aqui neste mundo;
  • “Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos” ( Rm 6:8 ) – Neste verso o apóstolo baseia-se na premissa de que os cristãos já morreram com Cristo (para morrer com Cristo é preciso crer), segue-se que os cristãos creram, morreram, ressurgiram, e que também esperam que viverão para sempre com Cristo. O fato de Paulo ter colocado o verbo ‘viver’ no futuro, o que dá uma idéia de algo que será alcançado, é proveniente do argumento introduzido pela partícula ‘se’. Caso o apóstolo tivesse apontado a morte efetiva dos cristãos, a conclusão seria: com ele vivemos.

 

 

É a Lei Pecado?

“Que diremos, pois? É a lei pecado? De modo nenhum. Mas eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás. Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda a concupiscência; porquanto sem a lei estava morto o pecado” ( Rm 7:7 – 8).

Diante do que foi exposto, Paulo convoca os cristãos ao raciocínio: “Que diremos, pois?”.

Com base no que já foi demonstrado anteriormente, qual a conclusão que os cristãos deveriam abraçar? Que a lei é pecado? A resposta é clara: De modo nenhum! A lei não é pecado!

Embora o apóstolo não tenha afirmado no decurso da carta que a lei é pecado, alguns judaizantes poderiam distorcer os argumentos e afirmar que Paulo anunciou que a lei é pecado. Como Paulo anunciava que os cristãos eram livres do pecado e da lei, alguém mal intencionado poderia anunciar que Paulo estava equiparando a lei com o pecado, distorcendo o que o apóstolo dos gentios procurou evidenciar.

Paulo demonstra incisivamente que a lei não é pecado para desfazer qualquer conclusão diferente da verdade do evangelho. Ele apregoou a necessidade dos cristãos livrarem-se da lei, porém, nunca disse que a lei é pecado.

Este deve ser um dos cuidados de quem interpreta as escrituras: não concluir por si só algo que não foi afirmado categoricamente. É necessário saber diferenciar argumentação, asserção e conclusão. Uma argumentação é construída com premissas, porém, as premissas e as argumentações não podem ser consideradas como sendo uma asserção (afirmação).

Do mesmo modo, uma conclusão não tem o mesmo valor de uma asserção, pois a asserção deriva da conclusão ou da argumentação. Isto porque, as premissas utilizadas em uma argumentação que levará a uma conclusão geralmente foram retiradas de asserções. Exemplo:

  • Uma asserção: “Nós, que estamos mortos…” ( Rm 6:2 );
  • Uma argumentação: “…como viveremos ainda nele?” ( Rm 6:2 );
  • Uma conclusão: “Pois o pecado não terá domínio sobre vós…” ( Rm 6:14 );
  • Duas premissas: “…porque não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça ( Rm 6:14 ).

Observe que as duas premissas apresentadas em Romanos 6: 14b são excludentes ( Rm 6:14 ). Ora, quem está debaixo da graça não pode estar sob a lei, e vice-versa.

Deste ponto em diante, o leitor deve estar atento as peculiaridades apresentadas acima, sabendo divisar bem o que é argumento, premissa, asserção e conclusão.

Quando questionou os seus interlocutores acerca da lei (É a lei pecado?), Paulo esperava ter como resposta uma negativa (De modo nenhum!). Em seguida, ele apresenta argumentos que desfaz qualquer argumentação dos judaizantes que vincule a lei ao pecado (versos 7b a 11), para que seus leitores possam chegar à seguinte conclusão: “Portanto, a lei é santa e o mandamento santo, justo e bom” ( Rm 7:12 ).

Agora analisaremos os versos 7b a 11 de Romanos 7, para que possamos chegar à mesma conclusão que Paulo estabeleceu: a lei é santa e o mandamento também ( Rm 7:12 ). Qualquer conclusão que destoe da conclusão que Paulo apresenta no verso 12 de Romanos 7, demonstra que o interprete ‘prevaricou’ na sua atribuição.

Para chegar à conclusão de que ‘a lei é santa e o mandamento santo, justo e bom’, é necessário analisar criteriosamente os cincos versículos ( Rm 7:7 -11) e algumas questões pertinentes à linguística.

 

 

Figuras de Linguagem

Durante a leitura da carta aos Romanos é fácil perceber que Paulo utiliza um recurso linguístico (figura de linguagem) ao falar do evangelho de Cristo. Observe:

  • “… para a obediência da fé entre todos os gentios…” ( Rm 1:5 );
  • “… porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé ( Rm 1:8 );
  • “… seja consolado pela fé mutua, assim vossa como minha” ( Rm 1:12 ).

Tal figura de linguagem é denominada perífrase, onde temos a palavra ‘fé’ substituindo a palavra ‘evangelho’, assumindo a ideia da palavra substituída. O evangelho foi anunciado aos gentios para obediência. Do mesmo modo, em todo mundo era anunciado o evangelho, ou seja, a vossa fé. Paulo e os cristãos seriam consolados mutuamente através do evangelho (fé mutua).

Perceba que, para não repetir várias vezes a palavra ‘evangelho’ e dar maior graciosidade a escrita da carta, Paulo substitui alguns termos por outros, utilizando-se de alguns recursos pertinentes à linguagem.

Após descobrir este uso de uma figura semântica, faz-se necessário observar com acuidade toda a carta, visto que, algumas ‘figuras de linguagem’ ou ‘recurso de estilística’ pode interferir na interpretação do texto.

Desta forma, analisemos a seguinte afirmação de Paulo: Bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade…” ( Rm 2:2 ). O que o ‘apóstolo dos gentios’ expõe neste verso era de conhecimento geral dos cristãos, uma vez que eles ‘bem sabiam’ do que Paulo estava tratando.

Percebe-se através do contexto que a palavra ‘verdade’ em Romanos 2: 2, substitui a palavra ‘evangelho’, como se verifica no verso 16.

  • “Bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade…” ( Rm 2:2 );
  • “Isto sucederá no dia em que Deus há de julgar os segredos dos homens, por meio de Jesus Cristo, segundo o meu evangelho” ( Rm 2:16 ).

Ora, se o julgamento de Deus é segundo a verdade do evangelho, fica claro que o julgamento de Deus não é segundo a lei. Perceba também que o juízo é segundo a verdade (presente), e que há um dia preordenado para ser manifesto este juízo ( Rm 2:5 ), o que indica que o juízo segundo a verdade já ocorreu e está estabelecido.

Porém, ‘segundo o evangelho (de Paulo)’, Deus também julgará os segredos dos homens. Isto demonstra que o juízo de Deus foi estabelecido no passado em Adão “O Juízo veio de uma ofensa (…) Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo…” ( Rm 5:16 e Rm 5:18 ), e, que, Deus julgará todos os homens segundo as suas obras no futuro (Grande Trono Branco) ( Ap 20:11 ).

Procuramos demonstrar que é similar a idéia entre ‘evangelho’ e ‘verdade’, ‘fé’ e ‘evangelho’, porque recursos literários semelhantes a este foram utilizados diversas vezes pelos apóstolos.

 

 

Qual a relação entre Pecado, Lei e Conhecimento?

“Mas eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás. Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda a concupiscência; porquanto sem a lei estava morto o pecado” ( Rm 7:7 – 8).

Para compreender a declaração: “Mas eu não conheci o pecado senão pela lei”, é necessário saber:

a) de qual lei o apóstolo estava falando;
b) o que é pecado, e;
c) o que é ‘conhecer’. Após responder as questões acima, será possível verificar de que ‘eu’ o apóstolo estava falando.

A primeira citação da palavra ‘lei’ Paulo fez na carta aos Romanos no capítulo 2, verso 12: “Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados” ( Rm 2:12 ).

Já analisamos este verso, porém, faz-se necessário aprofundar a análise.

É possível inferir de Rm 2:12 que os que sob a lei pecaram são os judeus, do mesmo modo, que os gentios pecaram sem lei. Isto demonstra que Paulo estava escrevendo acerca da lei de Moisés, visto que, desde Adão até Moisés todos pecaram, mesmo não tendo uma lei específica.

Não é porque os gentios não possuíam uma lei que não estavam sob condenação. Do mesmo modo, não é porque os judeus possuíam uma lei, que não haveriam de perecer. Ou seja, todos pecaram e estavam debaixo de condenação, e seguiam para a perdição ( Rm 3:9 ).

Isto demonstra que a transgressão à lei mosaica não é o que subjugou a humanidade ao pecado. Porém, Paulo demonstra que o homem ‘conheceu’ o pecado, ou seja, passou a ter comunhão intima com o pecado através da lei ( Rm 7:7 ), o que indica que em Rm 7:7 ele não está se referindo a Lei de Moisés, antes fez referência a lei perfeita da liberdade concedida ao homem no Éden ( Gn 2:16 – 17).

Ora, Adão perdeu a comunhão com o criador quando desobedeceu a ordenança divina que foi dada no Éden, e por causa da ofensa dele, todos pecaram, tanto gentios quanto judeus. Todos ficaram alienados da glória de Deus, ou seja, ‘conheceram’ o pecado.

O pecado subjugou a humanidade por causa da desobediência à lei dada no Éden. Ora, tanto os que estavam sob a lei de Moisés quanto os gentios, ambos pecaram, o que demonstra que o pecado decorre da desobediência de Adão.

Desta análise é possível concluir que Paulo faz referência a dois tipos de lei na sua carta. Uma refere-se à lei de Moisés, e a outra à lei de Deus outorgada no Éden. Desta última decorre a penalidade eterna: ‘certamente morrerás’, ou seja, o homem ‘conheceu’ a separação da vida que há em Deus através da ofensa no Éden.

Ora, se o pecado decorre da desobediência à lei dada no Éden, logo, o ‘eu’ da qual o apóstolo faz alusão refere-se a algo proveniente de Adão, e que é comum a todos os homens destituídos da glória de Deus.

 

 

O que é pecado?

Se uma das definições de pecado é a transgressão da lei ( 1Jo 3:4 ), como é possível pecar sem lei? ( Rm 2:14 ) Qual lei transgredida é pecado: a lei de Moisés ou a lei dada no Éden?

Paulo afirma categoricamente que a lei não é pecado ( Rm 7:7 ). Também afirmou que os gentios pecaram mesmo sem lei. Estas afirmações levam-nos a concluir que, o pecado surgiu da transgressão à lei dada no Éden, e não da transgressão das prescrições de Moisés.

Uma das definições de pecado geralmente é extraída da I carta do apóstolo João, que diz: “Todo aquele que comente pecado, transgride a lei, pois o pecado é a transgressão da lei” ( 1Jo 3:4 ) Bíblia Sagrada, Edição Contemporânea, Ed. Vida. Se adotarmos este verso da carta de João como sendo a definição de pecado, como é possível aos gentios pecarem, se eles não têm lei?

Observando a carta de João, perceba que apenas neste verso a palavra ‘lei’ foi utilizada. No decurso da carta de João a palavra que foi utilizada diversas vezes é ‘mandamento’, porém, 1Jo 3:4 destoa da carta. A palavra “lei” também não é utilizada nas outras cartas do apóstolo João.

Já a versão João Ferreira Corrigida não utiliza a palavra lei em I João 3: 4, observe: “Qualquer que comete pecado, também comete iniquidade; porque o pecado é iniquidade” ( 1Jo 3:4 ). Versão Corrigida e fiel.

Ora, surge a dúvida: o pecado é ‘iniquidade’ ou o pecado é a ‘transgressão da lei’?

Pois bem, dúvidas a parte, segue-se que, ao ler os versículos nestas traduções, faz-se necessário analisar o seu contexto para chegarmos a um entendimento acerca das palavras utilizadas pelos tradutores, e qual a ideia que os apóstolos procuram evidenciar.

Ora, inferimos de Rm 2:12 que é plenamente possível pecar mesmo sem lei. Bem antes da lei de Moisés a morte reinou sobre todos os homens ( Rm 5:13 ). Desde Adão até Moisés a morte reinou sobre os homens o que significa que todos pecaram ( Rm 5:14 ). Daí, vale destacar que, o pecado impera aparte da lei mosaica.

Como? Um homem pecou, todos pecaram ( Rm 5:18 ). Ora, se um só homem pecou e todos pecaram, segue-se que o pecado que subjugou a humanidade não decorre da desobediência à lei de Moisés, visto que, após a desobediência de Adão, Deus não instituiu de imediato leis, porém, mesmo assim, todos morreram, o que demonstra que todos estavam em pecado.

O homem peca porque foi vendido como escravo ao pecado, e isto através da ofensa de Adão. Jesus é claro ao afirmar: “Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado” ( Jo 8:34 ). O homem peca porque é escravo do pecado, e não porque transgride a lei de Moisés.

Resta a pergunta: O que é pecado? ‘Pecado’ diz da condição da criatura quando divorciada do Criador.

Quando a criatura se distancia do Criador, a condição ‘em pecado’ se manifesta. Ou seja, pecado é o mesmo que estar destituído da glória de Deus (morto para Deus e vivo para o mundo).

Se pecado fosse a transgressão da lei de Moisés ( 1Jo 3:4 ), não haveria como o homem ser formado em iniquidade e nem gerado em pecado, pois como poderia alguém transgredir no ventre materno? ( Sl 51:5 ).

Verifica-se nas Escrituras que um homem transgrediu e que todos transgrediram. Um pecou e todos vêem ao mundo separados de Deus, destituído da Sua Glória, porque todos pecaram pelo simples fato de serem descendentes de Adão.

O que toda humanidade passou a compartilhar após a ofensa de Adão? A mesma condenação! Como o apóstolo Paulo demonstrou que através da lei o ‘eu’ ‘conheceu’

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Efésios 3 – O mistério revelado

Os seres celestiais tinham consciência do poder de Deus e de que o Verbo de Deus participou da criação, visto que, em Cristo todas as coisas foram criadas. Porém, agora, pela igreja, estes seres celestiais passaram a conhecer a multiforme sabedoria de Deus. É interessante observar que os seres celestiais têm contato constante com o poder de Deus, que a tudo criou por meio de Cristo, mas nem mesmo eles conheciam a multiforme sabedoria ( Ef 1:9 -10).


A Missão entre os Gentios

1 Por esta causa eu, Paulo, sou o prisioneiro de Jesus Cristo por vós, os gentios;

Qual causa? A missão que foi confiada ao apóstolo Paulo de demonstrar aos cristãos que a parede de separação entre gentios e judeus foi derrubada. O fato de ter sido criado um novo homem em Cristo Jesus a partir de dois povos (judeus e gentios) “…para criar em si mesmo dos dois um novo homem…” ( Ef 2:15 ), tornou-se o pivô das prisões de Paulo.

A missão que foi delegada a Paulo mantinha o apóstolo vinculado a Cristo através de uma lei interna, visto que ele era cativo (prisioneiro) no entendimento “…e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo” ( 2Co 10:15 ).

A idéia que Paulo expôs sobre ser prisioneiro de Cristo é melhor explanada em ( 1Co 9:16 -19) “Porque, se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois me é imposta essa obrigação; e ai de mim, se não anunciar o evangelho! E por isso, se o faço de boa mente, terei prêmio; mas, se de má vontade, apenas uma dispensação me é confiada. Logo, que prêmio tenho? Que, evangelizando, proponha de graça o evangelho de Cristo para não abusar do meu poder no evangelho. Porque, sendo livre para com todos, fiz-me servo de todos para ganhar ainda mais”.

Paulo não quis ser só um despenseiro, e sim, alguém que anunciava o evangelho de bom grado, com o intuito de receber um prêmio maior. Para tanto, ele quis se prender a causa.

A igreja de Cristo é um novo corpo que une ‘gentios’ e ‘judeus’, e ambos têm acesso ao Pai em um mesmo Espírito.

O remetente da carta se identifica novamente “…eu, Paulo…”; ( Ef 1:1 ).

Paulo tinha conhecimento pleno da sua condição em Cristo “…sou prisioneiro de Jesus Cristo…”, e da missão.

Paulo procurou conscientizar os cristãos gentios da sua luta através deste versículo.

Ele prossegue apresentando novos elementos no transcorrer da carta, porém, sempre faz referência a algo que já escreveu. Ex:

  • Apresentação pessoal ( Ef 1:1 e Ef 3:7 );
  • Louvor a Deus ( Ef 1:3 e Ef 3:20 -21);
  • Regiões celestiais ( Ef 1:3 e Ef 2:6 );
  • Mistério desvendado ( Ef 1:9 e Ef 3:6 );
  • O Espírito Santo ( Ef 1:13 e Ef 4:30 );
  • O poder de Deus ( Ef 1:19 ; Ef 3:7 e Ef 3:20 );
  • O passado ( Ef 2:1 e Ef 4:17 -19);
  • Vivificar com Cristo ( Ef 2:1 e Ef 2:5 );
  • Morada do Espírito ( Ef 2:22 e Ef 3:17 ), etc.

Esta peculiaridade da carta aos Efésios a torna auto-explicativa.

 

2 Se é que tendes ouvido a dispensação da graça de Deus, que para convosco me foi dada;

A conscientização (entendimento) acerca da complexidade que havia por trás do ministério do apóstolo Paulo só é possível àqueles que já ouviram acerca da graça de Deus. Tal graça foi apresentada aos gentios por intermédio do apóstolo.

A mensagem que Paulo apregoava era desconhecida tanto para os judeus como para os gentios. Somado a isto, ele precisava apregoar o evangelho de maneira que convencesse os judeus a abandonarem a idéia de que a salvação era exclusiva ao povo de Israel, sem menosprezar os gentios.

Como conciliar homens que tinham a cruz de Cristo como escândalo e loucura? “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação. Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos” ( 1Co 1:21 -22).

Porém, Paulo pregava confiado em Cristo que concedeu a missão de proclamar o evangelho, que é poder de Deus e salvação para todo aquele que crê “Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus” ( 1Co 1:18 ) compare com “E qual a sobre excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder…” ( Ef 1:19 ).

 

 

3 Como me foi este mistério manifestado pela revelação, como antes um pouco vos escrevi;

A dispensação da graça de Deus era um mistério que foi manifesto ao apóstolo Paulo por revelação. Sobre este mistério, agora revelado, Paulo escreveu algumas coisas no próprio corpo da carta ( Ef 2:13 -22).

 

4 Por isso, quando ledes, podeis perceber a minha compreensão do mistério de Cristo,

Paulo espera que os leitores percebam o quanto ele compreendia o evangelho, o mistério de Cristo que agora foi revelado aos homens.

O versículo 6 detalha a extensão da compreensão do apóstolo Paulo.

 

5 O qual noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens, como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas;

O mistério acerca da pessoa de Cristo ainda não havia sido revelado aos homens, porém, agora, o Espírito Santo de Deus revelou tal segredo aos santos apóstolos e profetas.

É interessante observar que a revelação de Deus se deu aos apóstolos e aos profetas “Porque todos os profetas e a lei profetizaram até João” ( Mt 11:13 ). É diferente a abordagem feita em Efésios da feita por Cristo em Mateus.

Quando Cristo falou acerca dos profetas, Ele disse que: “…os profetas e a lei profetizaram até João”. Ou seja, tanto os profetas quanto a lei apontavam para a vinda de Cristo em carne, e o profeta João Batista foi o último a profetizar acerca da vinda do Messias em carne ( Mt 3:11 ).

Os profetas, da qual Jesus fez referência, profetizavam acerca de algo que não lhes era plenamente compreensível. Da mesma maneira a lei, que é uma profecia acerca do Cristo, mas que não era plenamente compreendida pelo povo.

A abordagem de Paulo é diferente da abordagem feita por Jesus.

Paulo fala do mistério que foi revelado aos apóstolos e profetas. O mistério revelado é que os gentios também são herdeiros da promessa por meio do corpo de Cristo.

A revelação do mistério que estava oculto se deu aos apóstolos (como é o caso do apóstolo Paulo), e aos profetas (como é o caso de algumas pessoas que foram nomeadas como profetas) “E, demorando-nos ali por muitos dias, chegou da Judéia um profeta, por nome Agabo” ( At 21:10 ).

A lei e os profetas falavam da vinda do Messias em carne, mas não deixava claro que através de Cristo os gentios e judeus formariam um só corpo. Porém, agora, o mistério foi revelado, e os apóstolos e os profetas passaram a compreender a grandeza do evangelho.

Os profetas que profetizaram acerca da vinda do Messias duraram até João. Os profetas que Paulo faz referência profetizaram muitas coisas aos apóstolos e a igreja, e estes não estão inclusos no alerta de ( Mt 3:11 ); “E, achando discípulos, ficamos ali sete dias; e eles pelo Espírito diziam a Paulo que não subisse a Jerusalém” ( At 21:4 ).

 

6 A saber, que os gentios são co-herdeiros, e de um mesmo corpo, e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho;

Este versículo demonstra a compreensão do apóstolo acerca do mistério que foi revelado.

O mistério que esteve oculto e que agora foi revelado aos apóstolos e profetas é que os gentios são co-herdeiros e membros de um mesmo corpo.

Por meio do evangelho os gentios tornaram-se participantes da promessa feitas a Abraão.

A promessa foi feita a Abraão, e por meio de Cristo os gentios tornam-se participantes da promessa “… e em ti serão benditas todas as famílias da terra” ( Gn 12:3 ).

 

 

7 Do qual fui feito ministro, pelo dom da graça de Deus, que me foi dado segundo a operação do seu poder.

Este versículo complementa a apresentação inicial do apóstolo.

Paulo identificou-se como apóstolo de Cristo pela vontade de Deus ( Ef 1:1 ), e aqui ele complementa que foi feito ministro do evangelho, segundo o dom da graça de Deus que a ele foi dado, segundo a operação do seu poder.

Verifica-se que o contexto continua sendo o poder de Deus. No capítulo um, versículo dezenove, o apóstolo orou a Deus para que os irmãos se conscientizassem “da suprema grandeza do seu poder” ( Ef 1:19 ).

O poder de Deus foi manifesto em Cristo ao ressuscitá-lo dentre os mortos e em nós, ao nos vivificar dos mortos ( Ef 2:5 -6). E, pelo mesmo poder, Paulo foi feito ministro do evangelho, apóstolo dos gentios.

 

8 A mim, o mínimo de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar entre os gentios, por meio do evangelho, as riquezas incompreensíveis de Cristo,

Paulo demonstra conhecer a sua real condição perante Deus quando diz ser o mínimo de todos os santos.

A graça de Deus concedeu salvação ao apóstolo, porém, também lhe foi dada à incumbência de anunciar o evangelho aos gentios.

Mas, há algo neste versículo que nos chama atenção: o mínimo de todos os santos. Desde a apresentação inicial da carta, o apóstolo nomeia os destinatários de santos “…aos santos que estão em Éfeso…” ( Ef 1:1 ); “…para sermos santos e irrepreensíveis….” ( Ef 1:4 ); “…e o vosso amor para com todos os santos” ( Ef 1:15 ); “…quais as riquezas da glória da sua herança nos santos” ( Ef 1:18 ); “…mas concidadãos dos santos, e da família de Deus” ( Ef 2:19 ); “…como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas” ( Ef 3:5 ), etc.

Estes versículos apresentam uma condição dos cristãos perante Deus, e não somente um título de tratamento entre os irmãos.

 

9 E demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou por meio de Jesus Cristo;

A missão do apóstolo era anunciar as riquezas insondáveis de Cristo e demonstrar a todos os homens a dispensação do mistério que esteve oculto ao longo dos séculos.

O contato que os homens têm é com a mensagem do evangelho, que contém o mistério revelado e que torna compreensíveis as riquezas de Cristo. Diferente é o aspecto deste mesmo evangelho para os seres celestiais.

 

10 Para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus,

Os seres celestiais tinham consciência do poder de Deus e de que o Verbo de Deus participou da criação, visto que, em Cristo todas as coisas foram criadas.

Porém, agora, pela igreja, estes seres celestiais passaram a conhecer a multiforme sabedoria de Deus.

É interessante observar que os seres celestiais têm contato constante com o poder de Deus, que a tudo criou por meio de Cristo, mas nem mesmo eles conheciam a multiforme sabedoria ( Ef 1:9 -10).

 

11 Segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor,

O eterno propósito de Deus de fazer convergir em Cristo todas às coisas tornou conhecido aos principados e potestades nos céus a multiforme sabedoria de Deus.

A nós, os homens, foi revelado o mistério e a possibilidade de compreendermos as riquezas de Cristo.

 

12 No qual temos ousadia e acesso com confiança, pela nossa fé nele.

Em Cristo Jesus, os cristãos têm ousadia e acesso a Deus, pela confiança adquirida. Sobre a confiança a carta de Tiago é esclarecedora.

É pela fé em Cristo que se tem ousadia e confiança “Tendo, pois, irmãos, ousadia para entrar no santuário, pelo sangue de Jesus” ( Hb 10:19 ).

 

13 Portanto, vos peço que não desfaleçais nas minhas tribulações por vós, que são a vossa glória.

Paulo era o prisioneiro de Cristo, mas não queira que os irmãos desfalecessem por causa dele. Antes, os cristãos deveriam reputar as tribulações de Paulo como sendo uma glória deles.

Os cristãos não deveriam desfalecer ante as tribulações do apóstolo, antes deveriam tê-las (as tribulações) como uma confirmação de que o perseguidor era quem anunciava o evangelho.

 

14 Por causa disto me ponho de joelhos perante o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo,

O apóstolo demonstra outro motivo pela qual orava constantemente ao Senhor: que as suas tribulações não se tornem em empecilho aos cristãos.

O primeiro momento de oração foi para que Deus concedesse aos cristãos sabedoria e revelação em seu conhecimento ( Ef 1:16 -19).

 

15 Do qual toda a família nos céus e na terra toma o nome,

Todas as criaturas de Deus refugiam-se em seu nome ( Ef 1:10 ).

 

16 Para que, segundo as riquezas da sua glória, vos conceda que sejais corroborados com poder pelo seu Espírito no homem interior;

Temos duas referências a riquezas da graça ( EF 1:7 ; Ef 2:7 ), e duas referências a riquezas da glória.

As duas últimas referências foram utilizadas em momento de oração. As riquezas incompreensíveis de Cristo dizem das riquezas da graça que é por meio do evangelho, loucura para os que perecem “Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos” ( 1Co 1:23 ).

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Aquele que está ‘morto’ está Justificado

A pena não pode passar da pessoa do transgressor, ou seja, outra pessoa não pode ser punida em lugar do transgressor. A determinação divina é contundente: a alma que pecar, esta deve morrer! O que fazer da realidade seguinte: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” ( Rm 3:23 ). Como todos pecaram, é certo que todos devem morrer.


Aquele que está ‘morto’ está Justificado

Já vimos quem são os justificados (nós) ( Rm 6:2 ).

Também vimos qual a melhor idéia a se traduzir por justificação. Agora veremos qual o ‘objetivo’ de estarmos mortos em Cristo e ‘porquê’ os mortos para o pecado são justificados.

Este versículo contém três afirmações a respeito de nosso Deus: “Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” ( Rm 3:26 ).

Jesus é a justiça de Deus dada aos homens com o evidente propósito de que Deus seja justo e justificador daqueles que crêem em Cristo.

O versículo 26 de Romanos 3 aponta os motivos pelos quais Deus revelou Cristo aos homens:

a) Para demonstrar a sua justiça de Deus neste tempo presente;

b) Para Ele ser justo, e;

c) Para Ele ser justificador.

A primeira afirmação demonstra que Cristo é a Justiça de Deus neste tempo presente! Sem contradição alguma.

“Mas agora se manifestou sem a lei a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas” ( Rm 3:21 ).

Neste tempo presente, ou seja, o agora, Cristo se manifestou aos homens, conforme o que foi dito pelos profetas e pela lei. Ele é a justiça de Deus concedida ou manifesta aos homens.

Para tomar posse desta justiça, todos os homens devem crer em Cristo, sem exceção (judeus e gentios) ( Rm 3:22 ).

Porém, surge um entrave: como Deus sendo Justo e Verdadeiro justifica o pecador?

De acordo com a lei, a justiça e a retidão temos:

  • Deus não justifica o ímpio ( Ex 23:7 );
  • A alma que pecar está morrerá ( Ez 18:20 );
  • Deus não tem o culpado por inocente ( Na 1:3 );

A pena não pode passar da pessoa do transgressor, ou seja, outra pessoa não pode ser punida em lugar do transgressor.

A determinação divina é contundente: a alma que pecar, esta deve morrer! O que fazer da realidade seguinte: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” ( Rm 3:23 ). Como todos pecaram, é certo que todos devem morrer.

Deus não tem o culpado por inocente, e de que maneira ele justifica o homem sem ferir a sua própria palavra?

Se a pena não pode passar do transgressor, como Jesus morreu no lugar do pecador?

Se considerarmos as quatro premissas acima, só é possível declarar alguém justo, quando este alguém nunca tenha cometido pecado.

Quem cometeu pecado deve ter certa a sua morte. Quem cometeu pecado não será tido por inocente. A quem cometeu pecado só resta a punição, pois outrem não pode sofrer a pena em seu lugar.

Como declarar justo o pecador sem ferir as premissas acima?

“A alma que pecar, essa morrerá. O filho não levará a iniqüidade do pai, nem o pai levará a iniqüidade do filho. A justiça do justo ficará sobre ele e a impiedade do ímpio cairá sobre ele” ( Ez 18:20 );

“O SENHOR é tardio em irar-se, mas grande em poder, e ao culpado não tem por inocente…” ( Na 1:3 ).

Como a justiça de Deus é imputada ao homem, se a justiça do justo ficará sobre o justo e a impiedade do ímpio sobre o ímpio? Como Cristo levou sobre si os pecados da humanidade, se o filho não pode levar a iniqüidade do Pai, e nem o Pai a iniqüidade do filho?

Esta pergunta somente será respondida quando entendermos plenamente a doutrina da justificação em Cristo.

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A família de Deus

Ao crer na mensagem do evangelho você recebeu poder para ser feito (criado) filho de Deus ( Jo 1:12 ). Por meio da regeneração (criar de novo) você passou a pertencer à família de Deus. Nesta nova família, Deus é o seu Pai, e Jesus é o seu irmão primogênito ( Rm 8:29 ). Todos os que creram receberam graça sobre graça, alcançando salvação (graça) e a condição de filhos (mais graça) ( Jo 1:16 ). Ao subir à glória Cristo conduziu muitos filhos a Deus ( Hb 2:10 ), e, portanto, todos que creram são mesmo filhos de Deus ( 1Jo 3:1 ).


Ao crer na mensagem do evangelho você recebeu poder para ser feito (criado) filho de Deus ( Jo 1:12 ). Por meio da regeneração (criar de novo) você passou a pertencer à família de Deus. Nesta nova família, Deus é o seu Pai, e Jesus é o seu irmão primogênito ( Rm 8:29 ).

Todos os que creram receberam graça sobre graça, alcançando salvação (graça) e a condição de filhos (mais graça) ( Jo 1:16 ). Ao subir à glória Cristo conduziu muitos filhos a Deus ( Hb 2:10 ), e, portanto, todos que creram são mesmo filhos de Deus ( 1Jo 3:1 ).

Como filho de Deus você deve estar cônscio que Ele cuida de você “Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós” ( 1Pe 5:7 ), sem esquecer a recomendação de Jesus, de que os filhos não precisam inquietar-se com as coisas deste mundo ( Mt 6:31 ).

Você já verificou quais são as benesses por ser um dos filhos de Deus?

Por ser filho de Deus você:

  • Venceu o maligno ( 1Jo 2:13 e 14);
  • O maligno não lhe toca ( 1Jo 5:18 );
  • A sua vida está escondida com Cristo em Deus ( Cl 3:3 );
  • Você é participante da natureza de Deus ( Cl 2:10 ; Jo 1:16 );
  • Você é semelhante a Cristo neste mundo ( 1Jo 4:17 );
  • Possui uma herança;
  • Você venceu o mundo “Quem é que vence o mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?” ( 1Jo 5:5 );
  • Você é mais que vencedor ( Rm 8:37 );
  • Tudo concorre para o seu bem ( Rm 8:28 );

Os filhos dos homens têm direito a herdar bens de seus pais, e para administrarem esses bens, precisam atingir a maioridade, mas , como herdeiro de Deus, assim que se ingressa na família já é idôneo para participar da herança dos santos ( Cl 1:12 ). Você foi abençoado com todas as bênçãos espirituais ( Ef 1:3 ); Você está assentado nas regiões celestiais ( Ef 2:6 ); Você é templo e morada do Espírito Santo ( 1Co 6:9 ); Você é nova criatura, você é luz, etc.

É de grande importância que você saiba os direitos que adquiriu quando ingressou nessa ilustre família, tanto que o apóstolo Paulo empenhou-se na árdua tarefa de conscientização sobre a nova condição daqueles que creram no evangelho, veja: “É também nele que vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação” ( Ef 1:13 ). Por estar em Cristo, ou seja, por ser uma nova criatura, todas as condições enumeradas anteriormente são pertinentes a você.

Por pertencer à família de Deus, além de você ter um Pai Celestial, você tem muitos irmãos. Quem são os seus irmãos? Todos que em todo o lugar invocam o nome de Cristo conforme anunciado nas Escrituras. Eles são seus irmãos porque creram em Cristo, e também receberam poder para serem feitos filhos de Deus ( Jo 1:12 ).

E qual deve ser o seu tratamento para com os seus irmãos em Cristo?

Você não pode esquecer que os seus irmãos são provenientes de todos os povos, de todos os lugares e de todas as condições sociais. À época de Paulo, os cristãos eram provenientes de diversas nações (gregos, judeus, romanos, etc). Também eram provenientes de diversas regiões (Ásia, Europa, África, etc). Da mesma forma, os cristãos possuíam condições sociais distintas (ricos, pobres, servos, livres, doutores, pescadores, etc).

Quando Deus acolheu os seus filhos pela fé em Cristo não fez distinção alguma entre eles. Da mesma forma, você não pode fazer distinção entre aqueles que foram chamados à graça de Deus, preferindo uns em detrimento de outros por causa de suas origens e condições sociais pertinentes a este mundo.

Não se esqueça que somente são filhos de Deus os que aceitaram a Cristo por intermédio da fé, e que, as questões culturais, matérias e sociais não demonstram quem é ou não filho de Deus.

Você precisa estar cônscio desta verdade, visto que, aparecerão pessoas que lhe dirá que os filhos de Deus são abastados financeiramente e possuem saúde física plena, focando-se apenas em questões materiais. Chegarão ao cumulo de afirmar que você não é filho de Deus por não estar abastado financeiramente, ou por estar passando por alguma enfermidade e ainda comparando condições financeiras para levá-lo a fazer imprecações contra Deus.

Ao deparar-se com estas pessoas, você deve lembrar-se que:

  • os cristãos não têm neste mundo possessão permanente;
  • os gerados de Deus ajuntam tesouro em uma pátria onde a ferrugem e a traça não come;
  • a sua esperança está focada no mundo vindouro, pois os que esperam em Deus com relação às coisas deste mundo são os mais miseráveis dos homens ( 1Co 15:19 );
  • o dever dos filhos de Deus está em buscar as coisas que são dos céus, e as demais serão acrescentadas.

Vimos anteriormente que, os filhos de Deus são reconhecidos através daquilo que professam acerca de Cristo, e não através de suas origens, posses, cultura, condição social ou comportamento.

Os nascidos de Deus, ou os que obedecem a Deus, ou os que se arrependeram, enfim, os cristãos devem compreender que as diferenças existentes neste mundo servem aos filhos de Deus como estímulo ao amor, visto que, é dever considerar uns aos outros na condição em que eles estão ( Hb 10:24 ).

 

Perguntas:

1) Você pertence a qual família por crer em Cristo?

R. Por meio da regeneração (criar de novo) você passou a pertencer à família de Deus.

2) Você é _um dos filhos _ de Deus pela fé em Cristo. E Jesus é o _primogênito _ entre muitos irmãos.

3) Por que os filhos de Deus não precisam estar inquietos?

R. Os filhos de Deus não precisam inquietar-se com as coisas deste mundo ( Mt 6:31 ), porque Deus cuida de seu filhos “Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós” ( 1Pe 5:7 )

4) Quem são os seus irmãos?

R. Todos que em todo o lugar invocam o nome de Cristo conforme o anunciado nas Escrituras são os seus irmãos porque creram em Cristo. Todos eles receberam poder para serem feitos filhos de Deus ( Jo 1:12 )

5) Qual a condição social de Onésimo? Como Paulo o considerava? ( Fm 1:16 )

R. Onésimo era escravo, porém, Paulo o considerava irmão.

6) A igreja era composta por __judeus__,__gregos__, _escravos_, __livres__, __homens__, mulheres__ … ( Gl 3:28 )

7) A condição social, financeira, ou de saúde influência a salvação?

R. Não!

8) As diferenças socioeconômicas servem para __estimular os cristãos ____ ao amor fraternal.

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