O Livro de Jó – A cilada de Satanás

Fazer um paralelo entre a história de Jó e as literaturas antigas produzidas na Grécia, com base nas queixas dos personagens, em decorrência do sofrimento, é temerário, pois, a dor, o sofrimento e a angústia são sensações físicas ou psíquicas iguais em todos os homens, portanto, quando descritas, as perspectivas são equivalentes.


 

Considerações sobre o sofrimento de Jó

Parte III

As riquezas, a família e a saúde foram arrancadas abruptamente de Jó sem um motivo aparente. E o que relata a Bíblia? Em tudo isso Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma.

O sofrimento afetou o equilíbrio emocional de Jó, mas não tirou a sua confiança em Deus.

A compreensão que Jó tinha a respeito da existência do homem neste mundo e das dádivas que Deus concede pelo fruto do trabalho, era firme. Para Jó, tudo pertence a Deus e, se alguém tem alguma coisa, é porque recebeu de Deus.

“O Senhor o deu e o Senhor o tomou, bendito seja o nome do Senhor!” (Jó 1. 21).

Jó se posiciona como servo diante do senhorio de Deus, quando diz que o Senhor deu e o Senhor tomou, e o louva por tudo.

O sofrimento e a perda de bens materiais não afetou a confiança de Jó em Deus, porém, o mal que sobreveio sobre ele, afetou sobremaneira os seus amigos. Quando avistaram a condição de Jó, lamentaram e choraram, em alta voz, e permaneceram sete dias, sem dizer uma palavra sequer, sentados em cinzas e com os mantos rasgados (Jó 2:12). Era evidente a má sorte de Jó, entretanto, os consoladores não conseguiram segurar a emoção que a tristeza provocou.

Satanás vive observando, diuturnamente, os homens e identificou o bem mais precioso na vida de Jó. O sofrimento foi somente uma distração, enquanto o ponto principal seria atacado com todas as forças pelo adversário.

O sofrimento impressionou muito mais os amigos de Jó, do que o próprio Jó. Por quê? Porque o sofrimento de Jó foi um quadro meticulosamente arranjado por Satanás, para a contemplação e a estupefação dos amigos de Jó. Eles avistaram Jó, de longe, e não o reconheceram. Eles viram que a dor de Jó era muito grande e isso os tocou, profundamente.

O quadro aflitivo de Jó foi delineado para estabelecer uma cilada, que tragou primeiro os amigos de Jó pela estupefação e, posteriormente, se voltaram contra Jó para justificar a Deus. O sofrimento foi uma cilada que enlaçou, sentimentalmente, os amigos de Jó e, assim, guiados pelos sentimentos e emoções, foram conduzidos a fazer julgamentos segundo padrões humanos.

Satanás já aguardava um julgamento precipitado dos três amigos, ao exibir um justo sofrendo. Diante daquele quadro aflitivo, os amigos de Jó só tinham duas opções viáveis a considerar:

a) Deus é justo e Jó está em pecado;

b) Jó não está em pecado e Deus não estava sendo justo.

Ora, sem mais delongas, os amigos de Jó se posicionaram em defesa de Deus e emitiram um juízo, segundo o que era aparente. Eles julgaram, precipitadamente, a condição de Jó e foram unânimes ao concluir que Jó estava em pecado.

A conclusão equivocada dos amigos de Jó era o elemento que Satanás precisava para iniciar um ataque à integridade de Jó. Após Jó manifestar a intensidade da sua dor, o primeiro amigo dele deixa de considerar a aflição de Jó e passa a fazer considerações acerca da justiça de Deus.

É admirável como a grande maioria dos leitores do Livro de Jó se identifica com os sofrimentos desse homem, mesmo não tendo passado por nada parecido. Muitos questionam: – Como um homem pode suportar tanto sofrimento e continuar integro diante de seu Deus?

É próprio dos homens se identificarem com os problemas alheios, principalmente diante de alguém que mantém um comportamento altruísta. O sentimento de empatia leva os homens a analisarem e se compararem com o outro, imaginando qual seria o seu comportamento, frente aos mesmos sofrimentos.

O sofrimento toca profundamente os homens e causa uma espécie de fixação. O homem se detém, geralmente, no que pode ver, ouvir e sentir pela empatia e deixa de considerar a questão segundo a revelação das Escrituras.

O sofrimento de Cristo na cruz comove multidões, entretanto, as pessoas, na sua grande maioria, não conseguem visualizar o amor de Deus e a justiça que Deus proporcionou para a humanidade.

O elemento mais importante para a humanidade na cruz é a obediência de Cristo e o sofrimento, a maior provação para o Cristo, que teve que desprezar a afronta, pelo prémio que lhe estava proposto.

A visão humana só alcança o que é temporal, passageiro e efêmero, e o sofrimento é uma das principais impressões que fixa, privilegiadamente, uma ideia na mente do homem. Uma má leitura do livro de Jó deixa a impressão de que o livro trata do sofrimento de um homem que, em última análise, não era merecedor.

Entretanto, no Livro de Jó Deus revela algo grandioso, que diz respeito às coisas eternas, às quais o pensamento do homem não poderia alcançar, se Deus não o revelasse, pela sua palavra. O sofrimento de Jó serve a um propósito infinitamente superior!

Por mais que o homem seja diligente em suas realizações, Deus nada deve ao homem. A única exigência de Deus para com o homem é que confie, ou seja, descanse n’Ele.

A exigência de Deus para se alcançar a sua justiça está bem ilustrada em Abraão, que creu em Deus e isso foi lhe imputado por justiça.

Vale destacar, aqui, algumas considerações acerca do sofrimento, em vista do que contém o livro ‘Jó: O Problema do Sofrimento do Justo e o seu Propósito’[1], do Pr. Claudionor de Andrade, que cita outros autores.

  1. O sofrimento que Satanás impingiu sobre Jó não pode ser considerado uma forma de Deus se ‘justificar’ frente às acuações de Satanás. Deus não se justifica com ninguém, pois todas as suas obras são, juntamente, justas e boas. Deus permitiu o sofrimento na vida de Jó para deixar uma lição valiosa para a humanidade, que é muito superior ao sofrimento de um homem. Jó estava à disposição de Deus na condição de servo.
  2. O sofrimento na vida de Jó é detalhe, portanto, jamais o leitor do Livro de Jó pode se deixar levar pelo pensamento de que o sofrimento serve para purificar o homem. É uma ideia equivocada entender que a mente humana finita, frente ao propósito de Deus, torna impossível saber o motivo de um justo sofrer. O sofrimento não transforma e nem aperfeiçoa ninguém. Não há poder transformador ou regenerador no sofrimento, como alguns alegam. A redenção e purificação do homem estão no evangelho de Cristo, que é poder para salvação do que crê.
  3. A grandeza do evangelho é infinitamente vasta, se comparado este com o sofrimento de um justo. Ora, se o homem está apto a compreender o evangelho, não estaria apto a entender o sofrimento de um justo? O sofrimento é plenamente compreensível!
  4. Há quem diga que Deus confiou em Jó e que, por isso, submeteu Jó a uma prova. Sabemos que Deus requer dos homens, que confiem em sua palavra, que é fiel e justa, jamais o contrário. Porém, como alguém onisciente pode confiar num homem, se é sabedor de todas as coisas?
  5. Deus não usou o sofrimento de Jó para derrotar Satanás, antes para deixar uma lição para a humanidade. O sofrimento que sobreveio sobre Jó não é resultado de um duelo entre Deus e Satanás. O Criador jamais se opõe às suas criaturas, mesmo contra Satanás. Em Cristo, a vitória da Igreja já estava estabelecida, pois Ele é o cordeiro de Deus morto, desde a fundação do mundo, antes da fundação do mundo.

 

A história de Jó e outros textos do Oriente Antigo

Para alguns estudiosos, o tema do Livro de Jó não é genuinamente israelita, mas uma reprodução de uma ideia comum a todo o Oriente.[2] [3] Esses eruditos partem da premissa de que outros textos antigos trabalharam, a seu modo, o problema do sofrimento humano, vez que Jó poderia ser um não israelita oriundo de Us.

Ora, Abrão não era israelita quando foi chamado por Deus, pois era um caldeu da cidade de Ur e tal fato não pode ser tomado como evidência de que as instruções que o gentio Abrão recebeu de Deus tem raízes ou paralelo com qualquer pensamento produzido na caldeia.

Atribuir ao Livro de Jó semelhanças, até mesmo com as tragédias gregas,[4] por entenderem que o tema do Livro de Jó é o sofrimento humano, só evidencia a gana dos estudiosos em estabelecer um paralelo entre o personagem bíblico Jó e alguns personagens das tragédias gregas, como exemplo: Prometeu, Ésquilo e Édipo rei, de Sófocles.

Considerando que as tragédias gregas não possuem finalidade didática e que, apesar de poder causar a ‘catarse’[5] das emoções dos espectadores, este não era o seu objetivo; portanto, já temos um contra ponto à tentativa de se estabelecer semelhanças entre a história de Jó e as tragédias gregas.

A história de Jó possui viés didático, ou seja, introduz questionamentos acerca da justiça de Deus, para apresentar ao leitor um conhecimento impar, que somente Deus pode revelar, pois, o conhecimento que há no Livro de Jó, não tem paralelo com qualquer elucubração da mente humana.

Analisando a história de Jó, apesar do caráter irretocável do personagem, a mensagem do livro não é de cunho moralizante ou prescritivo de comportamento, como se observa na arte renascentista, pela má leitura que fizeram das tragédias gregas, malogro que se repete nas ‘tragédias’ shakespearianas[6].

Enquanto os artistas literários[7] da Grécia produziam as suas obras trágicas centradas na imitação, ou mímēsis[8], séria, completa e de certa magnitude, tendo a forma da composição artística a ação e não a narração, de modo a evocar emoções, como a piedade e o terror dos espectadores, os artistas Renascentistas, com destaque para os trabalhos de Shakespeare, tinham o viés de apresentar o protagonista da estória, confrontado com sua própria culpa.

Colocar Jó e Édipo, lado a lado, é um despautério, pois, apesar de, nas tragédias gregas, os heróis serem homens de elevada reputação ou, posição social, Jó é descrito como inigualável, pelo testemunho dado por Deus:

“Porque ninguém há na terra semelhante a ele” (Jó 1:8).

Enquanto o personagem e a história de Édipo são fruto da imaginação do homem, Jó é um personagem histórico que habitou na terra de Uz. Este é um personagem histórico, aquele um personagem literário fictício que idealiza homens da vida real.

A prosa no Livro de Jó, que introduz o diálogo entre Jó e seus amigos, redigido em forma de poesia, não depõe contra a literalidade da história – embora há quem lance mão dessa peculiaridade, para dizer que sim – antes reveste de importância a história de Jó.

Os discursos em forma de poema são uma ferramenta de proteção e preservação das ideias que são apresentadas pois, as poesias hebraicas, através dos seus paralelismos, estabelecem travas lógicas que favorecem a preservação do texto.

O Livro de Jó tem, como pano de fundo, o sofrimento, assim como muitas outras estórias oriundas do imaginário humano. As estórias trazem no seu bojo o sofrimento, pelas emoções que evocam aos espectadores.

Já, o sofrimento de Jó, foi utilizado para fins didáticos e não para impingir o terror ou a piedade pois, tudo que as Escrituras contêm, para o nosso ensino foi escrito:

“Porque tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que, pela paciência e consolação das Escrituras, tenhamos esperança” (Romanos 15:4).

Estabelecer um paralelo entre a história de Jó e as literaturas antigas produzidas na Grécia, com base nas queixas dos personagens, em decorrência do sofrimento, é temerário, pois, a dor, o sofrimento e a angústia são sensações físicas ou psíquicas iguais em todos os homens, portanto, quando descritas, as perspectivas são equivalentes.

No entanto, diferente de Édipo, a história de Jó não foi engendrada, tendo as Moiras como pano de fundo, e nem evoca os meandros do fatalismo. O Deus do Livro de Jó não se sujeita ao Destino, um dos deuses da mitologia grega que sobrepuja todos os outros deuses e perante o qual os outros se curvam. Diferentemente, dos deuses da mitologia Grega, o Deus de Jó não se compraz em fazer a humanidade sofrer.

Édipo, ao descobrir a trama que estava envolto, rende-se[9] diante da sua impotência e miserabilidade traçada pelo Destino[10]. Diferentemente, ao contemplar a grandeza de Deus e ser instruído, Jó se arrepende de ter tecido comentário desairoso sem o conhecimento necessário (Jó 42:3-4).

Deus, no Livro de Jó, é o mesmo Deus que se revela por todas as Escrituras, e nada tem a ver com os deuses da mitologia grega e o fatalismo, concepção tão cara àquela sociedade.

O Livro de Jó deve ser visto a partir da seguinte premissa:

“Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam. Ninguém, sendo tentado, diga: de Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta. Mas, cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência” (Tiago 1:12-14).

 

Continua…


[1] “William W. Orr resume, assim, o assunto central de Jó: “Satanás acusou Deus de não ser correto na sua maneira de tratar o homem. Para justificar-se, Deus permitiu que Satanás afligisse esse abastado homem do Oriente”. Gleason L. Archer, Jr. faz uma interessante análise do tema de Jó: “Este livro trata com o problema teórico da dor na vida dos fiéis. Procura responder à pergunta: Por que os justos sofrem? Esta resposta chega de forma tríplice; I) Deus merece nosso amor à parte das bênçãos que concede; 2) Deus pode permitir o sofrimento como meio de purificar e fortalecer a alma em piedade; 3) os pensamentos e os caminhos de Deus são movidos por considerações vastas demais para a mente fraca do homem compreender, já que o homem não pode ver os grandes assuntos da vida com a mesma visão ampla do Onipotente. Mesmo assim, Deus realmente sabe o que é o melhor para sua própria glória e para nosso bem final. Esta resposta é dada em contraste aos conceitos limitados dos três consoladores de Jó: Elifaz, Bildade e Zofar”. Escreve Henry Hampton Hailey: “Ao lermos o livro de Jó, do começo ao fim, devemos nos lembrar de que Jó nunca soube por que sofria —nem qual seria o desfecho. Os dois primeiros capítulos de Jó nos explicam por que isso aconteceu e deixam claro que a causa de seus sofrimentos não era algum castigo por pecados, mas, sim, a provação de sua fé —Deus tinha plena confiança dê que Jó seria aprovado”. Andrade, Claudionor de, Jó: O Problema do Sofrimento do Justo e o seu Propósito, Rio de Janeiro, Editora CPAD, 2ª edição, 2003, pág. 14. (Grifo nosso).

[2] “De uma série de textos paralelos do antigo Oriente se depreende que o livro de Jó não trata de um tema genuinamente israelita, mas comum ao Oriente. Há, hoje documentos, textos do 3º milênio ao séc. V a. C. que abordam o ‘problema de Jó’, de formas diferentes e com ênfases temáticas distintas (…) De maneira similar ao procedimento dos trágicos gregos ou dos poetas modernos (p. ex., Goethe, Fausto), o autor da forma mais antiga da narrativa de Jó deve ter recolhido uma lenda popular para trabalhar seu tema”. Zenger, Erich e outros, Introdução ao Antigo Testamento, Edições Loyola, São Paulo, 2003, págs. 296 e 297.

[3] “O presente artigo analisa o Livro de Jó, enquanto expressão do conjunto maior da tradição sapiencial do antigo oriente próximo. Pretendemos demonstrar a sua intimidade com fontes literárias egípcias e mesopotâmicas”. Leite, Edgard, O silêncio de Jó: O Livro de Jó e a crítica sapiencial à teologia sacerdotal. Revista Brasileira de História das Religiões. ANPUH, Ano IV, n. 10, Maio 2011 – ISSN 1983-2850 < http://www.dhi.uem.br/gtreligiao /index.html >.

[4] “Se alguma novidade existe neste meu trabalho, é a tentativa de esboçar, na presente introdução, um pouco mais extensivamente, certa semelhança que existe entre o Livro de Jó e a Tragédia Grega, sublinhado, de modo especial, um impressionante paralelismo entre Jó e o Prometeu de Ésquilo, fazendo também algumas referências ao Édipo Rei de Sófocles (…) Não se trata de uma obra histórica: Jó é o nome fictício do personagem central de uma parábola, este gênero literário oriental tão ao gosto de Jesus, que o empregou no episódio do Filho Pródigo e em outras narrativas suas”. Lima, Héber S., Jó… quando o espinho floresce, Edições Loyola: São Paulo, 1995, pág. 10.

[5] “É fundamentalmente não-grego, atribuir qualquer impulso específico, didático ou terapêutico à criação artística, em geral ou, a algum artista em particular. A Poética pode falar da catarse de emoções, mas este é o (possível) efeito da tragédia e não seu propósito intrínseco” McLeish, Kenneth, Aristóteles: a Poética de Aristóteles, tradução de Raul Fiker. – São Paulo, Editora UNESP, 2000, pág. 12.

[6] “Os conceitos de Aristóteles de anagnorisis (‘reconhecimento’) e peripeteia (‘reversão’) foram tão mal compreendidos na época do Renascimento, quanto sua concepção de hamartia – de fato, numa sequência partindo e se desenvolvendo da má compreensão anterior”. McLeish, Kenneth, Aristóteles: a Poética de Aristóteles, tradução de Raul Fiker. – São Paulo: Editora UNESP, 2000, pág. 32.

[7] “A tragédia é a imitação de uma ação importante e completa, de certa extensão; deve ser composta num estilo tornado agradável pelo emprego separado de cada uma de suas formas; na tragédia, a ação é apresentada, não com a ajuda de uma narrativa, mas por atores. Suscitando a compaixão e o terror, a tragédia tem por efeito obter a purgação dessas emoções” Aristóteles, A arte Poética, capítulo VI.

[8] “A mimesis, o processo principal das artes, era uma questão menos de doutrinação moral que de imitação (seletiva) da realidade (…) As ‘lições’ de literatura, na época de Aristóteles, não menos do que hoje, são oblíquas em vez de diretas e não prescritivas; não há mais obrigação de alguém tentar, na vida diária, viver à altura das excelências ou, evitar os excessos ali descritos, do que há a emular as qualidades ‘ideais’ representadas por (digamos) escultores como Fídias ou Canova. Esta é a luz sob a qual todas as afirmações de Aristóteles, na Poética, devem ser tomadas. A tragédia não é dogmática; a saúde moral da audiência não é sua preocupação primeira”. McLeish, Kenneth, Aristóteles: a Poética de Aristóteles, tradução de Raul Fiker. – São Paulo, Editora UNESP, 2000, pág. 13.

[9] “A anagnorisis, na tragédia antiga, assume duas formas. A primeira é uma simples admissão de que os personagens na peça reconhecem a verdade quando ela lhes é mostrada, revelando uma compreensão do padrão universal que eles nunca tiveram antes. As peças são salpicadas com expressões como ‘Finalmente, compreendo’ ou ‘Eu que estava cego, agora vejo’ ou ‘Ouvimos e obedecemos’ …” McLeish, Kenneth, Aristóteles: a Poética de Aristóteles, tradução de Raul Fiker. – São Paulo, Editora UNESP, 2000, pág. 32.

[10] “Édipo, em Édipo, Rei de Sófocles, frequentemente tomando como o arquétipo de um herói, cuja hamartia moral deriva da hybris (‘ele deliberadamente zomba do Destino’) é, na verdade, inocente: ele é cego para quem ele é, e a harmonia pode ser restaurada, apenas quando ele finalmente compreende”, McLeish, Kenneth, Aristóteles: a Poética de Aristóteles, tradução de Raul Fiker. – São Paulo, Editora UNESP, 2000, pág. 30.

Ler mais

O Livro de Jó – Transcendendo a problemática do sofrimento

O íntegro Jó serve para demonstrar a triste condição da humanidade, em sujeição ao pecado, pois, o mais justo dos homens, não consegue satisfazer os reclamos da justiça divina! Mesmo a justiça, a integridade e a retidão de Jó são apresentadas como aquém do padrão de justiça de Deus, tanto que Jó foi repreendido e se arrependeu no pó e na cinza.


A justiça dos escribas e fariseus

Parte II

Talvez você já tenha imaginado a quantidade de pessoas que compunham a grande multidão, ao pé do monte, quando Jesus se posicionou diante dos seus discípulos para ensiná-los (Mateus 5:1). É imprescindível imaginarmos a quantidade de pessoas que formavam aquela multidão e a infinidade de problemas, frustrações, alegrias, esperanças, dúvidas, religiosidades, temores, que atormentavam os componentes da plateia, para a qual Jesus fez o seu grandioso discurso.

Enquanto as bem-aventuranças estavam sendo anunciadas, vejo esperança nos olhos dos ouvintes de Jesus, mesmo naqueles que não compreendiam a mensagem (Mateus 5:3-12).

Mas, quando foi dito que a justiça deles teria de ser superior à dos seus líderes religiosos, para obterem direito ao reino dos céus, vejo os semblantes decaírem pelo espanto e estupefação! Vejo no rosto daquelas pessoas o mesmo espanto que tomou de sobressalto os discípulos, quando perguntaram: – “Quem poderá, pois, salvar-se?” (Mateus 19:25), quando informados de quão difícil é entrar um rico no reino dos céus (Mateus 19:23).

Ora, se é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino dos céus, lembrando que Jesus proferiu tal discurso, após um rico retirar-se triste, mesmo ele tendo dito que guardava a lei desde a sua mocidade, como é possível ao comum do povo entrar no reino dos céus? (Mateus 19:20 e 23).

O que fazer para alcançar justiça superior por alguém que não mata, não rouba, não comete adultério, não furta, não diz falso testemunho, dá o dizimo de tudo? O que fazer para sobrepujar a justiça dos escribas e fariseus, religiosos que, aos olhos dos homens, pareciam justos? (Lc 18:11)

“Assim, também, vós, exteriormente, pareceis justos aos homens, mas, interiormente, estais cheios de hipocrisia e de iniquidade”. (Mateus 23:28)

O que fazer para alcançar justiça, de modo a ter direito ao reino de Deus? As pessoas que compunham aquela multidão precisavam ter um caráter ou uma moral semelhante ao caráter e à moral de Jó?

 

O sofrimento de Jesus

A história de Jó e a história de Cristo têm como pano de fundo o sofrimento, daí a pergunta: Porque o Filho de Deus sofreu, apesar de justo?

Quando os artistas narram a história de Cristo, o sofrimento que envolve a cruz é indispensável. As agruras que se iniciaram no monte das Oliveiras e culminaram com a morte de Jesus na cruz, são exploradas em minúcias.

Quando se narra a história de Cristo, o beijo da traição não pode ser ignorado. O sofrimento impingido pela traição de um amigo é umas das dores de ordem psíquica das mais cruentas, portanto, em nenhuma narrativa que se preze, o beijo da traição fica sem ser destacado (Mateus 26:50).

A condenação perpetrada durante a noite com o uso de falsas testemunhas, por líderes dos concidadãos do Cristo, bem como a sessão de espancamento e os vitupérios que se seguiram à revelia da lei, são elementos imprescindíveis para retratar, sob diversos ângulos, o sofrimento de um homem que só fez o bem.

Um artista consegue retratar com maestria uma multidão enfurecida, após ser incitada por líderes religiosos invejosos, bem como o escárnio dos soldados romanos, quando despiram Jesus e colocaram uma coroa de espinhos sobre a sua cabeça!

Entretanto, habilidade e perícia com palavras, películas, encenação, figurino, efeitos especiais, etc., não habilitam ninguém a compreender que, pela cruz, passou a redenção da humanidade.

Somente conhecendo as Escrituras, é possível ver, através do sofrimento doloroso na cruz, a obediência de Cristo à vontade do Pai, que resultou na redenção da humanidade.

Mas, para um homem natural, na história de Cristo, somente salta aos olhos o sofrimento de um homem bom, injustiçado por seus compatriotas.

O sofrimento é elemento intrínseco nas histórias de Cristo e de Jó, mas, ambas, não têm o sofrimento como elemento central, antes, revelam aspectos relevantes, acerca da justiça de Deus. Em ambas as histórias, o sofrimento é pano de fundo, que emoldura os eventos, que revelam a justiça de Deus.

 

A justiça de Deus contrastada com a justiça dos homens

A história de Jó possui um ingrediente essencial que evidencia a justiça de Deus: a integridade de Jó.

O autor do Livro de Jó dá testemunho de que Jó era um homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do mal (Jó 1:1). Após inúmeras releituras do Livro de Jó, saltou-me aos olhos que o motivo de Jó figurar como protagonista da história estava, especificamente, relacionado à sua integridade e não ao seu sofrimento.

A integridade de Jó serve de contraste para evidenciar o quanto a justiça de Deus é superior à justiça do homem ou, o quanto a justiça do homem está aquém da justiça de Deus.

O íntegro Jó serve para demonstrar a triste condição da humanidade, em sujeição ao pecado, pois, o mais justo dos homens, não consegue satisfazer os reclamos da justiça divina!  Mesmo a justiça, a integridade e a retidão de Jó são apresentadas como aquém do padrão de justiça de Deus, tanto que Jó foi repreendido e se arrependeu no pó e na cinza.

O padrão moral e a retidão de Jó são evidenciados na história com o condão de facilitar a distinção entre a justiça de Deus e a justiça dos homens, esta designada pelo profeta Isaías como ‘trapo de imundície’ e aquela como ‘veste de louvor’ (Is 64:6).

O sofrimento é questão de somenos importância, diante da necessidade de salvação, pertinente a todos os homens. A integridade de Jó destaca que o homem só é aceito por Deus por sua maravilhosa graça e não por suas memoráveis virtudes e qualidades morais.

Se Jó tivesse sido aceito com base na sua integridade, restaria somente desesperança para o restante da humanidade, mas, como o Livro de Jó demonstra que é impossível ao homem justificar-se a si mesmo, através de sua conduta e moral ilibada, vislumbra-se um conhecimento que produz alívio e paz aos homens.

Temos paz quando compreendermos que a justificação do homem independe de suas ações, pois Jó, mesmo inspirando o mais alto ideal de justiça humana, igualmente a todos os outros homens, teve que aguardar em Deus a sua salvação.

A temática do Livro de Jó tem relação direta com a pergunta que abriu o debate entre Jó e os seus amigos:

“Mas, como se justificaria o homem para com Deus?” (Jó 9:2b).

A resposta de Deus contida no Livro de Jó é objetiva e contém todos os elementos pertinentes à justificação do homem.

Somente uma má leitura conduz alguém a considerar que no Livro de Jó Deus mais pergunta que responde, ou que Jó esperou por uma resposta, onde sobrevieram somente perguntas.

 

Por que tinha que ser Jó?

– “Por que eu”?

Está é a primeira pergunta que formulamos quando ocorre um infortúnio em nossas vidas!

Embora o Pregador assevere que ‘tudo acontece igualmente ao justo e ao injusto’, qualquer adversidade é motivo para questionarmos: – “Mas, como pode ter ocorrido isso comigo, que sou dizimista fiel”? – “Eu não entendo como Deus permitiu esta mazela, se eu busco a Deus nas madrugadas”?

Quando atingidos por infortúnios, de pronto subimos em uma balança em que o ponteiro está atrelado aos nossos méritos, reputação, religiosidade, sentimentos, amarguras e questionamos a Deus sobre o motivo daquela adversidade!

Esse tipo de questionamento, quando parte de um não cristão é até compreensível. Se um não cristão vocifera e esbraveja contra os céus, não podemos censurá-lo. Mas, quando ouvimos tais queixas de um cristão, temos de nos perguntar, se alguma vez leu a seguinte passagem bíblica:

“Tudo sucede, igualmente, a todos; o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao puro, como ao impuro; assim, ao que sacrifica, como ao que não sacrifica; assim, ao bom, como ao pecador; ao que jura, como ao que teme o juramento. Este é o mal que há entre tudo quanto se faz debaixo do sol; a todos sucede o mesmo” (Eclesiastes 9:2-3)

Infortúnios ocorrem igualmente a todos! E sabe o porquê é exatamente assim? Porque Deus é justo!

Mas, se nós, mesmos carregados de tantos tropeços[1], como assevera Tiago, em sua epístola, questionamos o porquê passamos por reveses, que se dirá de alguém como Jó: “… homem íntegro, reto e temente a Deus que desviava-se do mal” (Jó 1:1)?

Com o seu currículo irrepreensível, mais que qualquer um, Jó poderia questionar: – “Por que eu”?

Na verdade, pela sua sujeição a Deus, Jó acabou declarando a mesma verdade que o Pregador, quando reconheceu que Deus dá e tira:

“Nu saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; o SENHOR o deu e o SENHOR o tomou: bendito seja o nome do SENHOR” (Jó 1:21).

“Como saiu do ventre de sua mãe, assim nu tornará, indo-se como veio; e nada tomará do seu trabalho, que possa levar na sua mão” (Eclesiastes 5:15)

O senso de justiça social e a conduta irrepreensível de Jó para com os seus semelhantes deveria fazê-lo questionar, de pronto, o motivo de tantas mazelas, no entanto, ele nos surpreende quando bendiz a Deus: – “Bendito seja o nome do Senhor”! (Jó 1:21)

Jó surpreende quando bendiz a Deus, após os infortúnios que lhe sobrevieram, o que nos faz perceber que, dentre tantos personagens bíblicos, o patriarca se destaca pela sua integridade e firmeza moral. Analisando, panoramicamente, as Escrituras, verifica-se que os demais personagens, geralmente, eram insignificantes (o menor), repreensíveis do ponto de vista moral e cometeram alguns desvios comportamentais.

O elemento a ser considerado no Livro de Jó é a sua integridade e retidão, pois não é possível apontarmos falhas de cunho moral nesse herói da fé, diferentemente de outros personagens como Abraão, Isaque, Jacó, Moisés, Davi, Jonas, Gideão, etc.

As histórias dos personagens bíblicos nos faz contemplar a graça e a misericórdia de Deus e nos identificamos com eles, pois, fica patente que somos sujeitos às mesmas paixões que eles, de modo que a graça de Deus foi superabundante sobre eles, da mesma forma que é sobre nós: “Elias era homem sujeito às mesmas paixões que nós e, orando, pediu que não chovesse e, por três anos e seis meses, não choveu sobre a terra” (Tiago 5:17).

Quando o rei Davi se deitou com Bate-Seba, mulher de Urias, e mandou matá-lo (2 Sm 11:4), vemos, de imediato, a misericórdia de Deus ao perdoá-lo, entretanto, quando analisamos a vida de Jó, o que nos salta aos olhos é o testemunho de Deus:

“Observaste a meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele; homem íntegro, reto e temente a Deus, e que se desvia do mal” (Jó 1:8).

Considerando que tudo o que foi escrito nas Escrituras tem o condão de ensinar (Romanos 15:4), e que foi Deus que apontou a integridade de Jó, resta concluir que Jó foi escolhido por Deus para figurar como personagem de uma das mais belas histórias da Bíblia, única e exclusivamente, pela sua integridade.

A lição que Deus ensina no Livro de Jó não dá para ser transmitida através da vida de heroínas da fé como Raabe e Tamar. Através da vida de homens como Gideão, Sansão, Jefté, Salomão, etc., não é possível transmitir com tamanha propriedade um conhecimento impar acerca da justiça de Deus e, por isso mesmo, o Livro evidencia a integridade de Jó e o torna personagem principal dessa trama maravilhosa.

Que conhecimento ou, que lição é esta? Evidenciar a justiça de Deus, contrastando com a justiça do homem mais justo e integro que já existiu! Através do melhor homem, somos convidados a considerar o quão impossível é ao homem justificar-se a si mesmo.

A integridade de Jó funciona como contraste[2], evidenciando o quão discrepante é a natureza da justiça humana, quando comparada à natureza da justiça de Deus.

As Escrituras dão conta de que não há homem que seja justo, nem sequer um (Eclesiastes 7:20; Salmos 53:3; Miqueias 7:2) e por não existir homem justo sobre a terra, Deus escolheu alguém inigualável entre os homens: Jó, para evidenciar a Sua justiça.

“E disse o SENHOR a Satanás: Observaste tu a meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desvia do mal” (Jó 1:8).

O termo hebraico traduzido por semelhante é כָּמֹ֙הוּ֙, transliterado kêmow ou kamow, segundo o Dicionário Strong, que significa: ‘como, assim como, semelhante a, quando, de acordo com, segundo’.

Não havia quem fosse semelhante a Jó no quesito integridade, retidão e temor a Deus, e esse foi o motivo de Jó ter sido selecionado por Deus para figurar como protagonista desse livro singular.

Diante da pergunta: – “Por que Jó”? A resposta é inequívoca: Jó foi escolhido por Deus por ser um homem de índole e comportamento ímpar.

 

O sofrimento de Noemi

A história de Noemi, assim como a história de Jó é dramática, no entanto, o questionamento acerca do sofrimento não ocorre. Por quê?

Embora o narrador do Livro de Rute não dê um testemunho direto acerca da índole e do caráter de Noemi, percebe-se nuances que apontam o quão virtuosa era essa mulher.

O Livro de Rute é do gênero narrativo e conta a história de uma moça moabita que se casou com um israelita, filho de Noemi. Para muitos, a história é um ‘ode’ à lealdade de Rute, uma mulher de grande caráter, para com sua sogra, Noemi.

Mas, o leitor deve atentar para o fato de que a história de Rute teve início com Elimeleque, um efrateu de Belém de Judá, à época em que os juízes julgavam.

O drama teve início com uma grande fome na terra de Israel, de modo que Elimeleque, juntamente com sua esposa, Noemi, e seus dois filhos, Malom e Quiliom, saíram a peregrinar nos campos de Moabe.

Durante a peregrinação, Elimeleque faleceu e Noemi ficou só, em terras estrangeiras, com os seus dois filhos. Com o passar do tempo, os filhos de Noemi se casaram com mulheres moabitas: Orfa e Rute. Em um período de dez anos, os dois filhos de Noemi faleceram, restando as três mulheres viúvas: Noemi, Orfa e Rute.

Noemi soube que, em Israel, havia pão e resolveu sair de Moabe e voltar a Belém. Porém, antes de retornar, resolveu despedir as suas noras, cada qual para os seus familiares. Orfa resolveu voltar para a casa de sua mãe, mas Rute resolveu seguir a Noemi.

Quando Noemi e Rute adentraram a cidade de Belém, os moradores se comoveram com o infortúnio que abatera sobre Noemi. Os habitantes de Belém ainda guardavam na lembrança Noemi, quando casada e com os seus dois filhos. Como os moradores de Belém ainda continuavam chamando Noemi pelo seu nome, que evocava um tempo de bonança e esperança, Noemi, em função da grande amargura e dor que sentia, pediu para que a chamassem de Mara.

Estas são as palavras do lamento de Noemi:

“Cheia parti, porém vazia o Senhor me fez tornar; porque, pois, me chamareis Noemi? Pois o Senhor testifica contra mim e o Todo-poderoso me tem afligido muito” (Rute 1:21).

Além da dor e da aflição pela perda do marido, Noemi, também, perdeu o bom nome que possuía, quando perdeu os seus dois filhos. O bom nome de Noemi estava vinculado ao fato dela ter dado dois filhos ao seu marido Elimeleque, pois, em Israel, todos tinham por bem-aventurada a casa que tivesse filhos, pela esperança da vinda do Messias.

Ora, mesmo em dor e aflição, assim como Jó, Noemi não infamou ao Senhor. Ela demonstrou ter consciência de que as aflições que lhe sobrevieram eram decorrentes da mão do Senhor, assim como Jó (Rute 1:13).

Jó perdeu os filhos, a saúde e foi acusado de pecado e Noemi perdeu a família, o bom nome, pois estava velha e não tinha condições de cumprir o seu papel: dar descendência ao seu marido.

Assim como Jó teve sete filhos e três filhas, quando recompensado por Deus, Noemi foi recompensada com o nascimento de Obede, filho de Boaz, com Rute. Através de Rute, Noemi ganhou boa fama entre os seus compatriotas e tornou-se bendita, como se a sua nora valesse por sete filhos (Rute 4:14-15).

Comparando a história de Jó com a história de Noemi, percebe-se que ambos sofreram um intenso revés na vida, no entanto, a história desta sofrida velha senhora não desperta questionamentos acerca da justiça de Deus frente às mazelas e tragédias[3] que acometem os justos.

Diferentemente da história de Noemi, que evidencia o cuidado de Deus para com a sua serva, a história de Jó foi redigida com o propósito de estimular o leitor a uma mudança de entendimento acerca da justificação do homem.

O essencial para compreender a justiça de Deus não é o sofrimento do personagem Jó, mas, os seus predicativos.  Já o sofrimento de Noemi evidencia o cuidado de Deus para com os que confiam, sem questionamentos, acerca da justiça de Deus.

 

Continua…


[1] “Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça em palavra, o tal é perfeito e poderoso para também refrear todo o corpo”. (Tiago 3:2)

[2] Para a nossa análise, adotaremos o conceito de contraste, como algo ou, alguém, diferente, único, que se distingue pelo valor maior, porque a oposição ou, a discrepância, nos permite distinguir um do outro.

[3] “O livro explora o velho, eterno e insolúvel problema da presença do mal no mundo, sobretudo na vida dos inocentes, dos que parecem sofrer sem razão alguma”. Lima, Héber S., Jó… Quando o Espinho Floresce, Edições Loyola, São Paulo, 1995, pág. 10.

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Abraão foi salvo pela fé ou pelas obras?

Se Abraão tivesse saído do meio de sua parentela e fosse habitar as regiões de Canaã sem que Deus lhe ordenasse, a sua decisão não seria por fé. Se Abraão tivesse decidido, de moto próprio, oferecer Isaque em holocausto a Deus, sem que Deus houvesse ordenado, o seu sacrifício não seria por fé e sua atitude não seria em função de uma provação (Hb 11:17).


Introdução

Na maioria dos comentários bíblicos, em que os termos ‘fé’ e ‘obras’ aparecem, a palavra ‘paradoxo’ acaba sendo utilizada. Há até quem afirme que no Novo Testamento há inúmeros “paradoxos aparentes”.

O que é um paradoxo?

Segundo definição que consta na Wikipédia:

“Paradoxo é uma declaração, aparentemente, verdadeira, que leva a uma contradição lógica, ou, a uma situação que contradiz a intuição comum. Em termos simples, um paradoxo é “o oposto do que alguém pensa ser a verdade”. A identificação de um paradoxo, baseado em conceitos aparentemente simples e racionais tem, por vezes, auxiliado, significativamente, o progresso da ciência, filosofia e matemática”. Wikipédia.

Diante dessa definição de paradoxo: ‘declaração aparentemente verdadeira’, é correto entender que as asserções[1] bíblicas são ‘aparentemente’ verdadeiras? Os dois versículos abaixo, são a exata expressão da verdade ou, ‘aparentemente’ verdadeiros?

“Assim como Abraão creu em Deus, isso lhe foi imputado como justiça” (Gl 3:6);

“Porventura, o nosso pai Abraão não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque?” (Tg 2:21).

Os versos acima são paradoxais? Há contradição entre o ensinamento do apóstolo Paulo e do irmão Tiago? A doutrina de Cristo possui pontos aparentemente discordantes? São ensinos aparentemente verdadeiros?

A palavra de Deus não é uma declaração aparentemente verdadeira, antes, é a verdade “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17:17), portanto, os ensinamentos bíblicos, não comportam essa definição de ‘paradoxo’.

Na comunicação falada ou escrita há ‘paradoxos’, porém, tais paradoxos são figuras de pensamento, um dos recursos linguísticos (figuras de linguagem) que tornam uma mensagem mais expressiva, que nada mais é do que uma proposição construída, através da união de ideias contraditórias.

Quando Jesus propôs a Nicodemos que era necessário nascer de novo, o alerta de Jesus era verdadeiro, entretanto, por desconhecer a natureza daquilo que Jesus propôs, surgiu na cabeça de Nicodemos um paradoxo: Como é possível um homem nascer, sendo velho? (Jo 3:4)

A mensagem de Jesus não era contraditória e nem aparentemente verdadeira, mas a limitação de Nicodemos que, sendo mestre, não compreendeu a mensagem, é que levou a questionar, sobre como seria possível um homem velho, nascer de novo.

Abraão foi salvo pela ‘fé’ ou, por ‘obras’? Há contradição entre a ‘fé’ e as ‘obras’, ou, a contradição decorre da má compreensão?

 

Abraão creu em Deus

“Assim como Abraão creu em Deus, isso lhe foi imputado como justiça” (Gl 3:6).

Como ler esse versículo? A ‘confiança’ de Abraão é o que o justificou? O que dizer do versículo: ‘O justo viverá da fé?’

Quando o apóstolo Paulo escreveu, repreendendo os cristãos da Galácia, sobre o fascínio que os levou a se desviarem da verdade do evangelho, lembrou que anunciou aos Gálatas o Cristo crucificado (Gl 3:1; 1Co 1:23), e que não receberam o espírito pelas ‘obras da lei’, antes pela ‘pregação da fé’ (Gl 3:2 e 5).

Que ‘espírito’ eles receberam pela ‘pregação da fé’? O espírito que o apóstolo Paulo faz referência, diz do evangelho, a palavra de Deus, vez que os cristãos são ministros do espírito, ou seja, ministros da justiça, ministros da nova aliança: “O qual, nos fez, também, capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica (…) Como não será de maior glória o ministério do Espírito? Porque, se o ministério da condenação foi glorioso, muito mais excederá em glória o ministério da justiça” (1Co 3:6 e 8-9).

Jesus afirmou que as palavras d’Ele são espírito e vida: “O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são espírito e vida” (Jo 6:63).

A mensagem do evangelho é cumprimento do anunciado pelos profetas: água sobre o sedento, espírito derramado. É por isso que o homem nasce de novo, somente pela água e pelo espírito: “Porque derramarei água sobre o sedento e rios sobre a terra seca; derramarei o meu Espírito sobre a tua posteridade e a minha bênção sobre os teus descendentes” (Is 44:3). “E há de ser que, depois derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos, os vossos jovens terão visões” (Jl 2:28; Jo 3:5).

Como Deus dá do seu espírito? Como Deus opera milagres? O apóstolo Paulo afirma que Deus deu o seu espírito e opera milagres pela ‘pregação da fé’, ou seja, através do evangelho (Gl 3:5). Cristo foi ungido para evangelizar, ou seja, o espírito de Deus estava sobre Ele, o mesmo espírito foi dado aos cristãos pela pregação da fé. “Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos” (Jd 1:3; Is 11:1-3; Is 61:1-3).

O evangelho foi anunciado pelo apóstolo Paulo aos gentios, de modo que ele era ministro do evangelho, anunciando a ‘fé’ (evangelho) entre os gentios. “Se, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé e não vos moverdes da esperança do evangelho que tendes ouvido, o qual foi pregado a toda criatura que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, estou feito ministro” (Cl 1:23; Rm 1:8).

A ‘fé’ se refere à mensagem das boas novas, o espírito derramado sobre toda carne, o mesmo espírito do qual o apóstolo Paulo foi constituído ministro. A ‘fé’ diz do evangelho anunciado a toda criatura, que há debaixo do sol (judeus e gentios), esperança anunciada para que os homens creiam e sejam salvos: “Porque, se alguém for pregar-vos outro Jesus que nós não temos pregado, ou se recebeis outro espírito que não recebestes, ou outro evangelho que não abraçastes, com razão o sofrereis” (2Co 11:4).

O crente é salvo ao crer na ‘loucura da pregação’, mas a salvação decorre especificamente da ‘loucura da pregação’, que é Cristo crucificado, que para os judeus era escândalo e para os gregos, loucura “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação” (1Co 1:21-23).

O poder para a salvação não está na capacidade do homem de acreditar, mas, sim, na mensagem pregada. Para aqueles que são salvos, a palavra da cruz é o poder de Deus: “Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu e também do grego” (Rm 1:16; 1Co 1:18).

Deus salva pela ‘loucura da pregação’, ou seja, pela fé. Para ser salvo, é imprescindível ouvir a palavra da verdade, pois, no evangelho, está o poder para que o homem seja feito filho de Deus (Jo 1:12; Ef 1:13). O homem é justificado pela fé, ou seja, por Cristo, pelo evangelho. “E de tudo o que, pela lei de Moisés, não pudestes ser justificados, por ele é justificado todo aquele que crê” (At 13:39).

Acerca da salvação em Cristo, foi predito a Abraão: ‘Todas as nações serão benditas em ti’ (Gl 3:8). O apóstolo Paulo, ao ler Gênesis 12, verso 3, interpretou essa passagem bíblica como uma profecia, acerca de como Deus haveria de justificar os gentios: pela fé, ou seja, por meio de Cristo – a fé que havia de se manifestar: “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar, pela fé, os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti” (Gl 3:8 compare com Gl 3:23).

Por que os gentios seriam benditos em Abraão? Por causa do descendente prometido a Abraão: Cristo. O descendente prometido a Abraão foi estabelecido como luz para todos os povos, não o patriarca (Is 42:6; Is 49:6). Cristo é a fé manifesta, na plenitude dos tempos, por quem os homens são justificados e não o patriarca (Gl 3:23-25).

O apóstolo Paulo apresenta Abraão como exemplo de alguém que foi justificado, ao crer em Deus (Gl 3:6). Mas, como Abraão confiou em Deus? Deus ordenou a Abraão que deixasse a sua parentela e partisse para uma terra que seria revelada e lhe fez uma promessa: Abraão seria uma grande nação e os seus descendentes seriam inumeráveis, assim como as estrelas do céu, apesar de Abraão não ter descendente, na época (Gn 15:4-5).

Abraão demonstrou que confiou em Deus, quando saiu do meio da sua parentela, porém, a bênção de Abraão não decorre do fato de ele ter saído do meio da sua parentela (confiança), antes, Abraão foi abençoado porque foi estabelecido que, se ele saísse do meio da sua parentela, Deus haveria de abençoá-lo grandemente. A bênção está na palavra que diz: ‘E far-te-ei uma grande nação e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção’ (Gn 12:2).

A força da salvação está na promessa de que Deus haveria de abençoar os gentios, através do descendente de Abraão e não em Abraão ter saído do meio da sua parentela. Semelhantemente, a força do pecado está na lei que estabelece: ‘certamente morrerás’, não nas ações dos pecadores: “Ora, o aguilhão da morte é o pecado e a força do pecado é a lei” (1Co 15:56).

Quando Ló se apartou de Abraão, Deus indicou ao patriarca qual a terra que os seus descendentes haveriam de herdar, em função do que lhe foi prometido, caso saísse do meio dos seus parentes. (Gn 13:15-16)

Por isso, é dito pelo escritor aos Hebreus que, pela fé, ou seja, pela palavra de Deus, Abraão, sendo chamado para um lugar que havia de receber por herança, obedeceu e saiu (Hb 11:8). O fato de Abraão ter saído, indica que ele creu na palavra de Deus. Pela fé, ou seja, por causa da palavra de Deus, Abraão peregrinou na terra da promessa, como que em terra alheia (Hb 11:9).

Se Abraão tivesse saído do meio de sua parentela e fosse habitar as regiões de Canaã sem que Deus lhe ordenasse, a sua decisão não seria por fé. Se Abraão tivesse decidido, de moto próprio, oferecer Isaque em holocausto a Deus, sem que Deus houvesse ordenado, o seu sacrifício não seria por fé e sua atitude não seria em função de uma provação (Hb 11:17).

Quando lemos que Abraão foi justificado pela fé, significa que Abraão foi justificado pela palavra de Deus. É por isso que é dito que a fé foi imputada[2] a Abraão (Rm 4:9). O que foi conferido a Abraão? Uma capacidade de crer? Não! O que foi imputado a Abraão foi a fé, a palavra de Deus, que é fato, prova,  sem tergiversações.

A capacidade de crer é pertinente a todos os homens. É um atributo natural do ser humano, acreditar no que é real, verdadeiro, firme, palpável, etc. O que foi dado a Abraão foi a fé, ou seja, uma promessa graciosa e firme (Rm 4:16). Abraão acreditou em Deus, por não atentar para a condição do seu corpo amortecido ou, para o amortecimento do ventre de Sara, e sim, se deixou fortificar pela palavra que lhe foi anunciada: fé! (Hb 11:19-21)

A certeza de Abraão não surgiu de suas próprias convicções, antes pela palavra da fé que lhe disse que haveria de ser abençoado, caso obedecesse. De posse da palavra de Deus, teve certeza que Aquele que prometeu, era poderoso para cumprir (Rm 4:21). Ao sair do meio de sua parentela, Abraão estava admitindo, através da sua ação, que Deus é fiel e poderoso para cumprir o que prometeu, pelo que ‘… isso lhe foi imputado para justiça’ (Rm 4:22); “Assim como Abraão creu em Deus, isso lhe foi imputado como justiça” (Gl 3:6).

Ao sair do meio da sua parentela, Abraão estava admitindo, por meio de sua ação, que Deus é fidedigno[3], ou seja, digno de ‘fé’ (πιστευω – pisteuo), digno de ‘confiança’, pela sua própria glória e virtude (2Pe 1:3).

É na fé (πιστις – pistis), ou seja, na palavra de Deus que há poder. Foi pela palavra de Deus que Sara recebeu poder de conceber um filho, mesmo sendo estéril e de avançada idade. Quando é dito que ‘… pela fé, a própria Sara recebeu poder…’, o termo ‘fé’ não diz das convicções de Sara, antes aponta para a fidelidade, a lealdade, o caráter de alguém em quem se pode confiar. A crença de Sara resume-se em ‘ter por fiel’ aquele que havia feito a promessa (Hb 11:11).

Foi pela palavra de Deus que os antigos alcançaram bom testemunho, pois sem a palavra de Deus, nada podiam esperar ou acreditar (Hb 11:1). A Bíblia diz que Abraão é o Pai da fé, pois o evangelho foi primeiramente anunciado a Ele: a vinda do Cristo em quem todas as famílias da terra seriam bem-aventuradas, e não porque Ele creu, até porque existiram heróis da fé antes do patriarca Abraão.

Abraão foi salvo pela ‘fé’, porque ‘creu’ em Deus, por causa do que lhe foi dito (fé):

“(Como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí) perante aquele no qual creu, a saber, Deus, o qual vivifica os mortos e chama as coisas que não são como se já fossem. O qual, em esperança, creu contra a esperança, tanto que ele tornou-se pai de muitas nações, conforme o que lhe fora dito: Assim será a tua descendência” (Rm 4:17-18).

Deus deu a sua palavra e Abraão creu em Deus, que vivifica os mortos e chama as coisas que não são, como se já fossem, ou seja, Deus é poderoso para realizar o que prometeu, portanto, digno de confiança. Ao crer, Abraão tornou-se pai de muitas nações, isto conforme a palavra de Deus que diz: Assim será a tua descendência!

 

‘Fé’ e ‘crer’

Durante a leitura das cartas paulinas, verifica-se que o substantivo fé (πιστις – pistis) e o verbo crer (πιστευω – pisteuo) são empregados, quase que o mesmo número de vezes, por volta de 244 ocorrências e aquele, por volta de 243 vezes, sem falar no termo fé como adjetivo (πιστός – pistos), que ocorre 67 vezes.

Apesar de ser equivalente, o número de vezes que os termos πιστις e πιστός são empregados, vale destacar que o substantivo πιστις (pistis), quando empregado pelo apóstolo Paulo, em várias ocasiões, assume uma conotação especifica.

Geralmente, a definição de πιστις[4] nos dicionários, aponta para as disposições internas do indivíduo, ou seja, para questões de cunho subjetivo: convicção. Porém, ao fazer uso do termo, o apóstolo Paulo, na maioria das vezes, o faz como figura de linguagem, uma metonímia[5].

Como Cristo é o autor e consumador da fé (Hb 12:2), o substantivo fé é utilizado para fazer referência à pessoa de Cristo e à sua doutrina, havendo substituição do autor (Cristo) pela sua obra (fé).

Quando é dito pelo apóstolo Paulo que, ‘em todo o mundo é anunciada a vossa fé’ (Rm 1:8), o termo foi utilizado para fazer referência à doutrina de Cristo, ou seja, o evangelho. Quando é dito que ‘antes que a fé viesse’, ou ‘aquela fé que havia de se manifestar’ (Gl 3:23), o substantivo fé foi empregado para fazer referência à pessoa de Cristo.

Quando é dito que o homem é justificado pela fé, na verdade, o apóstolo está declarando que o homem é justificado por Cristo. Quando é dito que o homem é salvo pela graça de Deus, por meio da fé, na verdade, o apóstolo está esclarecendo que Cristo é o dom inefável de Deus, e que, através d’Ele, o homem é salvo (Ef 2:8).

Por que devemos fazer essa análise? Porque, quando emprega o substantivo ‘fé’, em sua epístola, o irmão Tiago o faz, somente com um único significado: crer, portanto, apontando, apenas, para as disposições internas do indivíduo, diferentemente do apóstolo Paulo, que emprega o termo, tanto no sentido de ‘doutrina’, quanto no sentido de ‘crer’.

Observe essa definição:

“A fé é mais do que uma crença intelectual em Deus. Se essa crença não nos leva a uma santa vida de justiça e misericórdia, ela não é a fé salvadora (Mt 7.21-23)” Radmacher, Earl; Allen, Ronald B.; House, H. Wayne, O novo comentário bíblico NT, com recursos adicionais – A Palavra de Deus ao alcance de todos. Rio de Janeiro, 2010, pág. 675.

De que ‘fé’ o autor está falando? De um corpo doutrinário, ou de crer?

Se a ‘fé’, em análise pelos editores do ‘O novo comentário bíblico do NT’, refere-se ao evangelho, efetivamente, por meio do evangelho (fé), o homem recebe poder de ser feito filho de Deus, portanto, é de novo criado, em verdadeira justiça e santidade (Ef 3:23). Está acima de uma crença intelectual em Deus, antes é a palavra de Deus pela qual o homem é santificado: “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17:17).

Se eles abordaram a ‘fé’, no sentido de ‘crer’, ‘acreditar’, tal fé não pode ser nada, além de uma crença intelectual na palavra de Deus. Quando o homem crê em Cristo, na verdade, exerce uma crença intelectual em Deus, conforme o Seu testemunho, exarado nas Escrituras. Deus deu testemunho do seu Filho nas Escrituras e crer nas Escrituras é exercer um culto racional.

Não é o crer, que leva o homem a uma ‘santa vida de justiça’, antes é a fé manifesta – Cristo – que santifica os que creem, concedendo-lhes uma nova vida: santa e justa. É a verdade, a ‘fé’ que santifica, e não o crer: “E por eles me santifico a mim mesmo, para que também eles sejam santificados na verdade” (Jo 17:19). Os equívocos quanto ao significado do termo ‘fé’, leva ao entendimento errôneo de que o dever de andar como filhos da luz (comportamento), diz de uma fé que ‘… é mais do que uma crença intelectual’.

 

A obra de Abraão

“Porventura o nosso pai Abraão não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque?” (Tg 2:21)

Comparando a escrita do apóstolo Paulo com a do irmão Tiago, percebe-se que, por causa do público alvo da carta, há uma mudança gritante no emprego de alguns termos, sem falar que o apóstolo Paulo, ao escrever, utiliza diversos recursos linguísticos de estilo, enquanto Tiago, pela graciosidade poética da sua epístola, fez uso somente de figuras e parábolas.

Quando Tiago diz ‘a prova da vossa fé’, diz da confiança do homem que é posta à prova, e não da palavra de Deus, que é simultaneamente fundamento e prova. Se o homem é provado e permanece confiante, a confiança transforma-se em ‘perseverança’. “Todo aquele que prevarica e não persevera na doutrina de Cristo, não tem a Deus. Quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem, tanto o Pai, como o Filho” (2 Jo 1:9; Tg 1:3).

O não crente precisa crer para ser salvo e o salvo precisa portar-se de modo digno do evangelho e perseverar na fé, combatendo o bom combate: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo, como aos que te ouvem” (2Tm 4:16); “Somente deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho de Cristo, para que, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de vós, que estais num mesmo espírito, combatendo, juntamente, com o mesmo ânimo, pela fé do evangelho” (Fl 1:27).

Se alguém vai pedir algo a Deus, deve pedir com fé, ou seja, acreditando, crendo (Tg 1:6). O termo ‘fé’, foi empregado por Tiago, no sentido de ‘crer’, diferentemente do apóstolo Paulo que, muitas vezes, emprega o termo, no sentido de evangelho, doutrina.

Mas, por questões de estilo e escrita, há divergências entre o exposto pelo apóstolo Paulo e Tiago? Não! A má compreensão da exposição é que leva as divergências, não o conteúdo doutrinário exposto por eles.

O apóstolo Paulo afirma que o evangelho é poder de Deus para salvação (Rm 1:16), enquanto que Tiago, por sua vez, afirma que a palavra implantada nos cristãos é poderosa para salvar (Tg 1:21). Sem contradição alguma a exposição de ambos!

Entretanto, a linguagem utilizada por eles é diferente, em alguns aspectos, apesar de a doutrina não ser divergente, e, isto se dá em função do público alvo da mensagem.  Observe que o apóstolo Paulo diz que o evangelho é poder de Deus para a salvação ‘de todo aquele que crê’ e o irmão Tiago, em vez de dizer que é necessário crer, aponta a necessidade de cumprir a palavra, ou seja, de ‘ser executor da obra’ (Tg 1:25).

‘Acreditar’ e ‘crer’ são verbos que melhor se adequam à realidade dos gentios, enquanto a linguagem dos judeus traduz a ideia de que, quem crê em Deus, é executor de um ‘trabalho’, de uma ‘obra’.

A linguagem do Antigo Testamento aponta o obediente, como aquele que crê, acredita, daí a linguagem dos judeus em identificar ao que obedece, ou seja, quem é executor do que é ordenado por Deus, como quem crê. A linguagem do irmão Tiago evidencia a sujeição do crente e o senhorio de Deus, e a linguagem do apóstolo Paulo evidencia a condição de quem é livre no Senhor.

Entretanto, é imprescindível ao leitor notar a diferença da abordagem paulina da do irmão Tiago. Abordagem do apóstolo Paulo no verso 16 de Romanos 1 possui viés evangelístico, e a abordagem no verso 21 do capítulo 1 de Tiago possui viés exortativo. Este aborda a necessidade de os cristãos perseverarem firmes na palavra neles implantada, enquanto que, aquele, enfatiza a universalidade do evangelho: todo aquele que crê, tanto judeus quanto gentios.

A linguagem de Tiago é a mesma de Cristo, pois é própria aos judeus. Quando a multidão perguntou a Jesus qual era a obra de Deus para realizarem, Jesus respondeu que a obra de Deus é crer naquele que Ele enviou (Jo 6:28-29). O executor da obra, que é bem-aventurado em seu feito, diz de quem crê em Cristo, pois a lei perfeita, a da liberdade, diz do evangelho, a palavra poderosa para salvar: “Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito” (Tg 1:25).

Tiago escreveu aos servos de Cristo das doze tribos da dispersão, ou seja, aos cristãos convertidos do judaísmo (Tg 1:1). Mas, entre esses cristãos, havia aqueles que diziam crer em Deus e cuidavam ser religiosos e não se sujeitavam a Cristo, consequentemente, a mensagem de Tiago enfatiza o que foi dito por Jesus aos seus discípulos: “… credes em Deus, crede também em mim” (Jo 14:1).

Daí o questionamento de Tiago nos versos 14 a 26, do capítulo 2, da sua epístola: “Que aproveito há se alguém disser que tem fé e não tiver obras?” (Tg 2:14). O termo ‘fé’ foi utilizado no sentido de ‘crer’, conforme o verso 19: “Crês tu que Deus é um só?”, e não no sentido de ‘evangelho’, ‘doutrina’, como quando o apóstolo Paulo diz que acabou a carreira e guardou a ‘fé’ (2 Tm 4:7).

Que proveito teriam os discípulos ao ‘crerem em Deus’ e não crerem em Cristo? Poderia tal fé salvar os discípulos? Não! Pois qualquer que diz crer em Deus, deve crer naquele que Ele enviou: “E Jesus clamou e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas naquele que me enviou” (Jo 12:44).

O termo ‘fé’, utilizado por Tiago, não faz referência ao evangelho e nem a Cristo, bem como o termo ‘obras’ no contexto, não faz referência à lei de Moisés. O termo ‘fé’ foi utilizado para fazer referência a uma crença em uma doutrina ou pensamento diverso da doutrina do evangelho de Cristo (Tg 3:19), e o termo ‘obras’ foi utilizado para fazer referência à lei perfeita, a da liberdade, e não às obras da lei de Moisés (Tg 1:22 e 25).

Acreditar que Deus é um só não salva, da mesma forma que não salva acreditar que o homem pode ser salvo por ser descendente da carne de Abraão ou, pela circuncisão. Os judeus acreditavam que nunca foram escravos de ninguém, mas tal ‘fé’ não os tornava livres do pecado (Jo 8:33). Há quem creia em Cristo, como alguns judeus, mas segundo a concepção do seu coração enganoso. Embora esta pessoa tenha ‘fé’ (creia), tal fé é sem proveito para a salvação, ou seja, não os faz livres do pecado: “Jesus dizia, pois, aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos” (Jo 8:31).

Muitos judeus criam em Cristo, mas quando arguidos, continuavam confiados que eram livres por serem descendentes de Abraão (Jo 8:31 e 39). Poderia tal ‘fé’ salvá-los? Pode alguém ser salvo, por crer na existência de Deus? Não!

Neste sentido, que proveito há, se alguém diz que tem fé, mas não crê em Jesus? Que proveito há em dizer que conhece a Deus, se não guardar o Seu mandamento? Tal pessoa é mentirosa e nela não está a verdade (1 Jo 2:3-5). Que proveio há em dizer: ‘nunca fomos escravos de ninguém’, se não é liberto pela verdade? (Jo 8:31-32)

O irmão Tiago não estava questionando se há proveito em ter fé em Cristo, ou seja, se quem crê em Cristo não será salvo, pois é evidente que quem crê em Cristo será salvo (1 Jo 5:13). A fé em Cristo pode salvar o crente, pois, acerca de Cristo, testemunharam todos os profetas, de que recebem o perdão dos pecados, todos os que creem n’Ele (At 10:43). Por Cristo é justificado todo aquele que crê, ou seja, qualquer que tem fé n’Ele (At 13:39).

A abordagem de Tiago, em relação àqueles que diziam que tinham fé, é a mesma que fez o apóstolo Paulo, ao escrever a Tito, quando disse: “Professam conhecer a Deus, mas o negam pelas suas obras…” (Tt 1:16). É sem proveito dizer que se conhece a Deus, ou dizer que se tem ‘fé’, se esse alguém não guarda o seu mandamento (1 Jo 2:4). E qual é o mandamento a cumprir, para que o homem passe a conhecer a Deus? Que creia em Cristo, no nome do Filho de Deus (1 Jo 3:23), pois, o que guarda esse mandamento, permanece em Deus e Deus nele (1 Jo 3:24; Gl 4:9).

Qual a obra que o homem deve realizar? Crer em Cristo! (Jo 6:28-29). É sem valor algum, professar que se conhece a Deus, mas não se crê em Cristo, ou seja, se o nega pelas obras. Cristo é salvação para todos quantos O obedecem, portanto, Ele salva quem realiza a sua obra: “E, sendo ele consumado, veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem” (Hb 5:9).

O questionamento de Tiago só é compreendido quando o leitor perceber que a obra a qual ele fez referência diz da obra de Deus, que é crer em Cristo e não das obras decorrentes da lei: guardar os sábados, a circuncisão, dias, luas, etc. Aquele que diz que crê em Deus, se não crê em Cristo, a obra exigida por Deus, tal ‘fé’ é morta em si mesma (Tg 2:17).

Ao ler esta passagem de Tiago, tem que se ter em mente que, quem crê em Cristo, não crê somente em Cristo, mas também em Deus e vice-versa: “E Jesus clamou e disse: ‘Quem crê em mim, crê, não somente em mim, mas também naquele que me enviou’” (Jo 12:44). Ora, quem diz ter fé, tem que ter a obra, ou seja, crer em Cristo. Quem crê em Cristo crê no testemunho que Deus deu acerca do seu Filho Jesus Cristo (1 Jo 5:10).

Muitos judeus diziam que criam que Deus é um só, mas, apesar de ser bom crer na existência de Deus, não consideravam que os demônios também criam e estremeciam, mas, tal fé não salva os demônios.

O que salva o homem é o mandamento de Deus, contido no evangelho: realizar a obra de Deus, ou seja, crer em Cristo, não a disposição do homem em crer na existência de Deus, ou em milagres, ou em anjos, ou no sobrenatural, ou na circuncisão, ou na carne de Abraão, etc.

Quando Tiago utiliza o termo ‘louco’, ‘insensato’, deixa evidente que estava tratando com cristãos convertidos dentre os judeus. Os profetas utilizavam o termo ‘louco’, ‘ignorante’ para fazer referência aos filhos de Israel, e, Tiago ao escrever às doze tribos da dispersão, escreveu a cristãos convertidos, dentre os judeus (Dt 32:6; Jr 4:22).

Tiago destaca que, somente dizer acreditar (fé) em Deus, sem obedecê-Lo (obras) é inútil e utiliza a pessoa do patriarca Abraão como exemplo, que, ao oferecer o seu único filho em holocausto, demonstrou confiar em Deus (Tg 2:20).

O irmão Tiago evidencia que Abraão foi justificado pelas obras, quando ofereceu o seu filho Isaque sobre o altar (Tg 2:21). Como? Ao dizer que Abraão foi justificado pelas obras, isto não significa que Abraão foi justificado pelas obras da lei, visto que à época do patriarca ainda não havia sido entregue a lei aos filhos de Israel (Rm 4:13). O apóstolo Paulo é específico: ninguém é justificado ‘pelas obras da lei’, na verdade o homem é justificado pelas obras, em função da lei (mandamento) da fé.

As ‘obras da lei’ referem-se à lei de Moisés, que é antagônica à ‘lei da fé’, ou seja, ao mandamento do evangelho: crer em Jesus Cristo: “Onde está logo a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé” (Rm 3:27). “Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé em Cristo, não pelas obras da lei; porquanto pelas obras da lei, nenhuma carne será justificada” (Gl 2:16).

Se Abraão tivesse proposto de si mesmo fazer um sacrifício, oferecendo o seu filho em holocausto, a sua ação não o justificaria. Mas, como Deus ordenou a Abraão que oferecesse o seu único filho em holocausto (Gn 22:2) e ele obedeceu ao mando do Senhor, foi justificado por sua obra: a palavra de Deus operou nele: “Por isso, também, damos, sem cessar, graças a Deus, pois, havendo recebido de nós a palavra da pregação de Deus, a recebestes, não como palavra de homens, mas (segundo é, na verdade), como palavra de Deus, a qual também opera em vós, os que crestes” (1 Ts 2:13).

Tudo o que não é ordenado por Deus, é pecado e oferecer um filho em holocausto, sem Deus ter ordenado, é pecado “… e tudo o que não é de fé é pecado” (Rm 14:23), pois o justo viverá da palavra de Deus, ou seja, da fé (Dt 8:3; Hc 2:4).

Abraão foi justificado por ter colocado o seu único filho sobre o altar? Não! Foi justificado por Deus, porque confiou que Deus era poderoso para ressuscitar o seu filho, quando iria imolá-lo sobre o altar (Hb 11:19).

Ao falar com Saul, Deus deixa claro que importa ao homem obedecer, não sacrificar. (1 Sm 15:22). Abraão demonstrou confiança em Deus, quando colocou o seu filho sobre o altar para imolá-lo, o que demonstra que, quem confia, obedece. É dito que Abraão foi justificado pelas obras, porque não se resignou em acreditar na existência de Deus, antes realizou o que Deus ordenou.

Com relação ao evangelho, o homem é salvo pela obra e não porque acredita que Deus é um só. Qual a obra em questão? Crer que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, pois este é o mandamento de Deus, para todos os homens durante o tempo sobre modo oportuno de salvação – hoje – (2 Co 6:2).

Enquanto de Abraão Deus exigiu o seu único filho, hoje, Deus exige de todos os homens que creiam em seu Filho, Jesus Cristo. Abraão acreditava na existência de Deus, e quando foi realizar a obra exigida por Deus, ficou claro que a sua crença na existência e poder de Deus, cooperou com a sua obra, e assim, pela obra, a confiança foi ‘aperfeiçoada’ (Tg 2:22).

A confiança do homem em Cristo é designada ‘perfeita’ (τελειόω – teleioó) quando o crente realiza o que lhe foi determinado. O termo grego traduzido por ‘aperfeiçoada’ é τελειόω, e não tem o sentido de melhorar a confiança, antes aponta para um quesito funcional: cumpre o propósito para o qual foi estabelecida.

Enquanto Tiago utilizou o termo ‘obra’, para fazer referência ao imperativo de obedecer ao mandamento de Deus, o apóstolo João faz uso do termo ‘amor’ (ágape), para fazer referência a esse mesmo imperativo.

“Bem vês que a fé cooperou com as suas obras e que pelas obras, a fé foi aperfeiçoada” (Tg 2:22);

“No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena e o que teme não é perfeito em amor” (1 Jo 4:18).

Considerando que, quem ama a Deus, cumpre o seu mandamento (Jo 14:15 e 23 e 24), segue-se que quem ama (obedece), não tem medo (temor), pois a obediência perfeita lança fora o medo. O medo decorre da pena, de modo que, quem tem medo é porque não obedeceu, de fato.

Pela palavra de Deus que disse: “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei” (Gn 12:1), ou seja, pela fé (a palavra de Deus é firme fundamento, prova do que não se vê), Abraão obedeceu e saiu, mesmo não sabendo para onde ia (Hb 11:8). A confiança só é perfeita quando cumpre, exatamente, a finalidade: a obediência.

Quando diz que o homem é justificado pela ‘fé’, o apóstolo Paulo está apontando para a verdade do evangelho, que evidencia Cristo como o salvador do mundo. Quando diz que Abraão foi justificado pelas obras, o irmão Tiago está apontando para o mandamento de Deus, que diz: “Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá e oferece-o ali em holocausto, sobre uma das montanhas, que eu te direi” (Gn 22:2).

Sem o mandamento para imolar o filho, Abraão poderia crer na existência de Deus, mas não seria aprovado. Sem o mandamento de Deus, para sair do meio da sua parentela, Abraão poderia deixar pai e mãe, mas não seria herdeiro da promessa. Abraão podia gerar um filho de suas entranhas, o que ocorreu com Hagar e Quetura (Gn 16:4; Gn 25:1-2), porém, tal capacidade não o tornaria pai de muitas nações.

É significativo que, diante da promessa de que a sua descendência seria como as estrelas do céu, Abraão nada fez, antes confiou em Deus, ao que isto lhe foi imputado por justiça. Diante da palavra da promessa, que disse que Abraão teria um filho com Sara (Gn 17:19), a jactância foi excluída, pois não havia nada que Abraão pudesse fazer para que Sara concebesse um filho.

Apesar do questionamento de Abraão, de que era impossível a um homem com mais de cem anos gerar filhos (Gn 17:17), posteriormente, Abraão teve filhos com Quetura (Gn 25:1). Dos filhos que teve com Quetura, Abraão podia jactar-se da sua carne, porém, do filho que teve com Sara, a promessa excluiu qualquer possibilidade de jactância, pela impossibilidade inerente ao homem, e ao oferecer sobre o altar o seu único filho, Abraão teve que, em figura, recobrá-lo dentre os mortos (Rm 3:27; Hb 11:19).

Sair do meio da parentela era algo que Abraão podia fazer, mas, ao fazê-lo, indica que ele se sujeitou, como servo, ao mandamento do Senhor. Oferecer Isaque sobre o altar era algo que Abraão podia fazer, e o fez, demonstrando total submissão à ordem de Deus. Agora, o nascimento de Isaque e a vinda do descendente, foram estabelecido pela palavra de Deus, ao que Abraão resignou-se a crer, pois, com relação à promessa, nada podia fazer a não ser crer naquele que é fiel e não pode mentir.

 

Fé com obras

Por má compreensão da exposição de Tiago, Martinho Lutero[6] chegou a classificar a epístola de Tiago como ‘insossa’, ou ‘cheia de palha’.

Se não compreender que o evangelho constitui um mandamento de Deus e que crer em Cristo é realizar a Sua obra, dificilmente o leitor compreenderá a epístola de Tiago: “Mas, nem todos têm obedecido ao evangelho; pois Isaías diz: SENHOR, quem creu na nossa pregação?” (Rm 10:16).

O apóstolo Paulo, ao escrever a Tito, utiliza a mesma linguagem do apóstolo João e Tiago:

“Confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras, sendo abomináveis, desobedientes e reprovados para toda a boa obra” (Tt 1:16);

“E nisto sabemos que o conhecemos: se guardarmos os seus mandamentos. Aquele que diz: Eu o conheço, mas não guarda os seus mandamentos, é mentiroso e nele não está a verdade” (1 Jo 2:3-4).

Dizer que ‘conhece a Deus’ e ‘negar com as obras’, tem o sentido de honrar a Deus somente com a boca e com os lábios, vez que tal pessoa não guarda o mandamento de Deus (temor). É crer (ter fé) sem as obras (obediência, honra). Os filhos de Israel se aplicavam a um temor que não era o princípio da sabedoria, antes era mandamento de homens: “Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, com a sua boca e  com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo, consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” (Is 29:13).

Primeiro, é dada a palavra da fé, ou seja, o evangelho (Rm 10:8). A palavra da fé é condicionada, vez que ‘se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres, que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo’ (Rm 10:9).

A palavra implantada é fé e a condição estabelecida é crer, de modo que possibilita ao homem crer para a justiça e confessar para ser salvo (Rm 10:10). A confissão é o fruto dos lábios de um coração que recebeu a semente incorruptível, a palavra da fé (Hb 13:15; 1Pd 1:23).

A obra exigida de Deus, dos homens, é crer no coração (intelectualmente), que Deus ressuscitou a Jesus dentre os mortos e, com a boca, confessá-lo como Senhor e Cristo. Essa obra decorre da palavra da fé apregoada: “Porque esta palavra está mui perto de ti, na tua boca, e no teu coração, para a cumprires” (Dt 30:14). Por isso é dito: Cri, por isso falei (Sl 116:10), pois com a boca se confessa e com o coração (mente) se crê.

O exemplo que Tiago apresenta, através de Raabe, se dá da mesma forma que com o cristão, pois ela ouviu que Deus havia dado a Israel a terra onde estava a cidade de Jericó, bem como ouviu que Deus secou as águas do Mar Vermelho e o que foi feito dos povos que se opuseram aos filhos de Israel, após a travessia do Jordão, de modo que Raabe concluiu que Deus é Deus em cima nos céus e embaixo na terra (Js 2:11).

Raabe ouviu e creu em Deus, a ponto de confessar aos espias os seus temores e pedir por misericórdia (Js 2:11-13). Por crer que Deus é Deus encima nos céus e embaixo na terra, pelo que ouviu acerca dos feitos dos filhos de Israel, Raabe acolheu os espias no eirado da sua casa e os despediu por outro caminho (Tg 2:25).

A informação que Raabe ouviu, acerca dos filhos de Israel, era firme e verdadeira, pelo que é dito: “Pela fé Raabe, a meretriz, não pereceu com os incrédulos, acolhendo em paz os espias” (Hb 11:31). Pela informação que recebeu, acerca do povo de Israel e do Deus que tirou o povo da terra do Egito, ou seja, pela fé (πίστις-pistis), Raabe tomou a iniciativa de acolher em paz os espias (obra).

Seria sem proveito, Raabe dizer que acreditava no evento histórico em que Deus secou as águas do Mar Vermelho, se não tivesse rogado por misericórdia aos espias. Seria sem proveito Raabe confessar que Deus é Deus nos céus e na terra sem se sujeitar a Ele, servindo aos espias.

Se entender o termo ‘fé’, segundo o que é usual em nossos dias, Raabe seria uma mulher de fé, se ela acreditasse que não seria atingida pela guerra, ou em algum absurdo ou em algum evento mágico. Nesse diapasão, a fé de Raabe deveria se opor à razão, ou como propuseram: ‘credo quia absurdum’ (creio, porque é absurdo).

Semelhantemente, Abraão foi justificado quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque. Ora, oferecer um filho em holocausto é um absurdo, porém, Abraão o fez pela fé, ou seja, apoiado na palavra de Deus, que disse: “Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre uma das montanhas, que eu te direi” (Gn 22:2). Ele ofereceu o seu único filho, porque era a palavra de Deus e não porque era absurdo.

Embora Deus tenha ordenado a Abraão que oferecesse o seu único filho em holocausto, Abraão considerou a palavra que diz: “Em Isaque será chamada a tua descendência” (Hb 11:18). Sem Isaque não havia descendência, e nem viria o Descendente, pelo que se entende que ele considerou que “Deus era poderoso para, até dentre os mortos, ressuscitar a seu filho e daí, também, em figura ele o recobrou” (Hb 11:18-19).

É pela fé, ou seja, pela palavra de Deus, que diz: ‘Em Isaque seria chamada a sua descendência’, que Abraão foi aprovado por Deus. Por causa dessa promessa: “Como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí” (Rm 4:17), Abraão creu que Deus vivifica os mortos e que chama à existência as coisas que não são, como se já fossem, vez que Deus teria que cumprir a Sua palavra (Rm 4:21).

Sem a palavra de Deus (fé), seria impossível Abraão ter a esperança de que o seu descendente (Cristo), viria ao mundo, quando colocou o seu único filho sobre o altar (creu contra a esperança).

“Pela fé, ofereceu Abraão a Isaque, quando foi provado; sim, aquele que recebera as promessas ofereceu o seu unigênito. Sendo-lhe dito: Em Isaque será chamada a tua descendência, considerou que Deus era poderoso para, até dentre os mortos, ressuscitá-lo; E daí também, em figura, ele o recobrou” (Hb 11:17-19)

Abraão tinha fé em Deus (cria na existência de Deus) e executou a obra que Deus mandou realizar, ou seja, a fé (crer) cooperou com as obras, de modo que, pelas obras de Abraão a fé (crer) foi aperfeiçoada, ou seja, cumpriu o seu propósito.

 

Identificando um erro na pergunta: “A salvação é somente pela fé ou pela fé, mais as obras?”

Há quem acredite que essa é a pergunta mais importante, em toda a Teologia Cristã. Outros, que essa pergunta motivou a Reforma: a separação entre a igreja Protestante e a igreja Católica, entretanto, não atentam para o fato de que há um erro na pergunta, que leva a um entendimento equivocado, acerca da fé e das obras.

Quando é perguntado: ‘A salvação é somente pela fé…?’, é essencial que se dê o significado do termo ‘fé’ na frase. Se o significado de fé for ‘crer’, jamais a salvação é somente pelo ‘crer’.

Quando a Bíblia apresenta a salvação somente pela fé, na verdade está dizendo que a salvação é somente por Cristo, ou seja, pelo evangelho. Não existe outra alternativa que não seja o evangelho (fé). A alternativa “… ou pela fé mais as obras?”, inexiste!

Quando questionam: “A salvação é pela fé mais as obras?”, geralmente, os termos ‘fé’ e ‘obras’ não possuem o mesmo significado que o empregado pelo irmão Tiago no verso: “Vedes então que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé” (Tg 2:24). Tiago diz que ‘o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé’, o que é completamente diferente da ideia que a pergunta sugere: ‘Salvação é pela fé, mais as obras’.

Para quem construiu a pergunta, obras possui o significado de ‘boas ações’, ‘bom comportamento’ e até de ‘frutos’, questões que o irmão Tiago não aborda neste verso em comento. O homem é salvo ‘apenas’ quando crê em Cristo, pois crer em Cristo é o suficiente para ser salvo, vez que quem salva é Cristo.

Quem crê em Cristo, produziu a obra exigida por Deus, de modo que Tiago não está dizendo que, para ser salvo, é necessário ter fé (crer) e fazer boas ações (obras). É um equivoco entender que Tiago enfatizou o fato de que a fé em Cristo produz boas obras’[7].

Tiago não faz referência à fé em Cristo, antes à ‘justificação pelas obras’, que na verdade, é crer em Cristo. Quando ele diz: ‘não somente pela fé’, Tiago não se refere à fé, como a verdade do evangelho, mas, sim, a alguém dizer que crê em Deus, mas que não realiza a sua obra (mandamento).

Realizar boas ações (boas obras) não é prova de que o homem foi verdadeiramente justificado, antes o justificado já produziu a obra exigida por Deus, e Deus, por sua vez, gerou um novo homem, através da semente incorruptível, criado em verdadeira justiça e santidade. O bom porte, o bom comportamento, as boas ações, etc., não decorrem da fé (crer) em Cristo, antes, o bom comportamento se dá quando o homem é admoestado e redarguido, e muda o seu comportamento, pelo transformar do entendimento (Rm 12:2; 1Pd 1:13-14).

A segunda parte da pergunta é equivocada e também induz ao erro, pois Tiago diz que o homem é justificado pelas obras (crer em Cristo),  não pela fé (crer em Deus). Em momento algum Tiago aponta para uma salvação pela ‘fé mais as obras’, antes ele apresenta a salvação pelas obras (obediência ao mandamento de Deus) que decorrem da fé (crer) em Cristo.

 


[1] “Proposição que se assume como verdadeira, independentemente de seu conteúdo”;

[2] “3049 λογιζομαι logizomai voz média de 3056; TDNT – 4:284,536; v 1) recontar, contar, computar, calcular, conferir 1a) levar em conta, fazer um cálculo 1a1) metáf. passar para a conta de alguém, imputar 1a2) algo que é considerado como ou é alguma coisa, i.e., como benefício para ou equivalente a algo, como ter a força e o peso semelhante 1b) constar entre, considerar 1c) considerar ou contar 2) avaliar, somar ou pesar as razões, deliberar 3) de considerar todas as razões, para concluir ou inferir 3a) considerar, levar em conta, pesar, meditar sobre 3b) supor, julgar, crer 3c) determinar, propor-se, decidir Esta palavra lida com a realidade. Se eu “logizomai” ou considero que minha conta bancária tem R$ 25,00, ela tem R$ 25,00. Do contrário eu estaria me enganando. Esta palavra refere-se a fatos e não a suposições” Dicionário Bíblico Strong.

[3] “Fidedigno – adj. Merecedor de crédito (confiança); que é real e verdadeiro; autêntico: realizou um fidedigno levantamento das dívidas da empresa. P.ext. Figurado. Caracterizado por ser real e verdadeiro; autêntico.  (Etm. do latim: fide dignus)”. Dicionário Online de Português.

[4] “4102 πιστις pistis de 3982; TDNT – 6:174,849; n f 1) convicção da verdade de algo, fé; no NT, de uma convicção ou crença que diz respeito ao relacionamento do homem com Deus e com as coisas divinas, geralmente com a ideia inclusa de confiança e fervor santo nascido da fé e unido com ela 1a) relativo a Deus 1a1) a convicção de que Deus existe e é o criador e governador de todas as coisas, o provedor e doador da salvação eterna em Cristo 1b) relativo a Cristo 1b1) convicção ou fé forte e benvinda de que Jesus é o Messias, através do qual nós obtemos a salvação eterna no reino de Deus 1c) a fé religiosa dos cristãos 1d) fé com a ideia predominante de confiança (ou confidência) seja em Deus ou em Cristo, surgindo da fé no mesmo 2) fidelidade, lealdade 2a) o caráter de alguém em quem se pode confiar” Dicionário Bíblico Strong.

[5] “A metonímia consiste em empregar um termo no lugar de outro, havendo entre ambos estreita afinidade ou relação de sentido. Observe os exemplos abaixo: 1 – Autor pela obra: Gosto de ler Machado de Assis. (= Gosto de ler a obra literária de Machado de Assis.) 2 – Inventor pelo invento: Édson ilumina o mundo. (= As lâmpadas iluminam o mundo.) 3 – Símbolo pelo objeto simbolizado: Não te afastes da cruz. (= Não te afastes da religião.) 4 – Lugar pelo produto do lugar: Fumei um saboroso havana. (= Fumei um saboroso charuto.) 5 – Efeito pela causa: Sócrates bebeu a  morte. (= Sócrates tomou veneno.)” Só Português < http://www.soportugues.com.br/secoes/estil/estil3.php > Consulta realizada em 06/05/2016.

[6] “Em suma: o evangelho, segundo João e sua primeira epístola, as epístolas de Paulo, particularmente, as dirigidas aos romanos, gálatas, efésios, e a primeira epístola de Pedro, estes são os livros que lhe apresentam Cristo e lhe ensinam tudo que é necessário e bom saber, ainda que jamais visse ou ouvisse qualquer outro livro ou doutrina. alquer forma, não tem natureza evangélica. Mas disso ainda falaremos em outros prefácios” Lutero, Martinho. Pelo Evangelho de Cristo: Obras selecionadas de momentos decisivos da Reforma. Trad. Walter O. Schlupp. Porto Alegre: Concórdia & São Leopoldo: Sinodal, 1984. pp. 171-177; “Embora esta epístola de São Tiago fosse rejeitada pelos anciãos, eu elogio-a e considero-a um bom livro, porque estabelece não doutrinas de homens, mas vigorosamente promulga a lei de Deus. No entanto, afirmo a minha própria opinião sobre isso, embora sem prejuízo para ninguém, eu não considero como uma escrita de um apóstolo, e as minhas razões seguem. Em primeiro lugar, é terminantemente contra São Paulo e todo o resto da Escritura em atribuir a justificação às obras. Ela diz que Abraão foi justificado por suas obras, quando ofereceu seu filho Isaac, embora em Romanos, São Paulo ensine o contrário, que Abraão foi justificado sem as obras, por sua fé, antes que ele tivesse oferecido seu filho, e prova isso por Moisés em Gênesis 15. Agora, embora esta epístola pode ser ajudada e uma interpretação concebida para essa justificação pelas obras, não pode ser defendida em sua aplicação às obras da declaração de Moisés em Gênesis 15. Pois, Moisés está falando aqui apenas da fé de Abraão, e não de suas obras, como São Paulo demonstra em Romanos. Esta falha, portanto, prova que esta epístola não é o trabalho de qualquer apóstolo” Lutero, Martinho. Prefácio à tradução alemã das Epístolas de S. Tiago e S. Judas, em 1522.

[7] “Tiago e Paulo não discordam em seus ensinamentos sobre a salvação. Eles abordam o mesmo assunto, sob diferentes prismas. Paulo, simplesmente, enfatizou que a justificação vem somente pela fé, enquanto Tiago enfatizou o fato de que a fé em Cristo produz boas obras”. A salvação é somente pela fé ou pela fé mais as obras? Got Questions < http://www.gotquestions.org/Portugues/somente-a-fe.html > Consulta realizada em 19/05/16.

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Salmo 4 – Perturbai-vos e não pequeis

Qualquer que obedece à palavra do Filho não peca, pois a semente de Deus permanece nele ( 1Jo 3:9 ). Neste sentido disse Moisés: “E disse Moisés ao povo: Não temais, Deus veio para vos provar e para que o seu temor esteja diante de vós, a fim de que não pequeis” (Êx 20:20).


Salmo 4 – Perturbai-vos e não pequeis

1 OUVE-ME quando eu clamo, ó Deus da minha justiça, na angústia me deste largueza; tem misericórdia de mim e ouve a minha oração.
2 Filhos dos homens, até quando convertereis a minha glória em infâmia? Até quando amareis a vaidade e buscareis a mentira? (Selá.)
3 Sabei, pois, que o SENHOR separou para si aquele que é piedoso; o SENHOR ouvirá quando eu clamar a ele.
4 Perturbai-vos e não pequeis; falai com o vosso coração sobre a vossa cama e calai-vos. (Selá.)
5 Oferecei sacrifícios de justiça e confiai no SENHOR.
6 Muitos dizem: Quem nos mostrará o bem? SENHOR, exalta sobre nós a luz do teu rosto.
7 Puseste alegria no meu coração, mais do que no tempo em que se lhes multiplicaram o trigo e o vinho.
8 Em paz também me deitarei e dormirei, porque só tu, SENHOR, me fazes habitar em segurança.

 

Introdução

Esse é mais um Salmo messiânico que descreve a confiança do Cristo em Deus, mesmo em meio às adversidades que teria que enfrentar, desde o jardim do Getsêmani até o Calvário.

Como é possível na angústia[1] ter largueza[2]? Parece contraditório passar por aflição, dificuldade, aperto e ter toda suficiência, toda largueza. O clamor registrado no Salmo 4: ‘Ouve-me, quando clamo…’ (v. 1) está em consonância com a vontade do Pai que, em outros Salmos, promete estar com Cristo na angústia (Sl 91:15).

Os registros nos livros das Crônicas dos reis de Israel não apontam para um momento específico em que o Rei Davi tenha passando por uma aflição como a exarada neste Salmo.

O único homem que foi afligido de modo a exclamar que estava angustiado até a morte foi o Filho de Davi e isso porque foi do agrado de Deus fazê-Lo enfermar.

“E, levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angústiar-se muito. Então lhes disse: A minha alma está cheia de tristeza até a morte; ficai aqui, e velai comigo” (Mt 26:37-38);

“Todavia, ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o bom prazer do SENHOR prosperará na sua mão” (Is 53:10).

A análise do Salmo 4 terá como ponto de partida a ‘angústia’, não do ponto de vista da psicologia ou da psicanálise, de alguém inseguro, rancoroso ou ressentido, mas da perspectiva dos eventos que antecederam a morte de Cristo: “Não te alongues de mim, pois a angústia está perto e não há quem ajude” (Sl 22:11); “Dizendo: Pai, se queres, passa de mim este cálice; todavia não se faça a minha vontade, mas a tua” (Lc 22:42).

É notório que o Salmo 22 é messiânico e descreve o sofrimento de Cristo nos momentos que antecederam a sua morte, tanto que Cristo recitou o primeiro verso do Salmo 22 em aramaico para que os que ali estavam entendessem que o Salmo 22 se cumpria aos ouvidos dos que ali estavam: – ‘Elohim, Elohim, lamá sabactâni’, ou seja,  “DEUS meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Sl 22:1); “DEUS meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27:46).

Apesar da angústia, temos de compreender a largueza que o Pai proporcionou ao Filho, pela segurança que o Pai transmitiu, com as garantias contidas nas Escrituras, visto que estava registrado que Deus não viraria as costas para o seu Filho, quando cravado na cruz, e nem esconderia d’Ele o Seu rosto, antes, quando clamou, Deus ouviu o Seu Filho: “Porque não desprezou nem abominou a aflição do aflito, nem escondeu dele o seu rosto; antes, quando ele clamou, o ouviu” (Sl 22:24).

 

1 OUVE-ME quando eu clamo, ó Deus da minha justiça, na angústia me deste largueza; tem misericórdia de mim e ouve a minha oração.

O salmista Davi faz um pronunciamento profético: “Ouve-me quando eu clamo, ó Deus da minha justiça…” (v. 1). Nesta previsão, o salmista registra a confiança do Cristo, de que seria prontamente ouvido pelo Pai, quando na angústia.

Alguém pode questionar: Como ter certeza de que essa é a interpretação correta desse verso? Essa dúvida é importantíssima, pois era dessa forma que se comportavam os bereanos, quando eram instruídos pelo apóstolo Paulo (At 17:11).

Para verificar o que foi afirmado acerca do verso 1, do Salmo 4, basta examinar o Salmo 31:

“Eu me alegrarei e regozijarei na tua benignidade, pois consideraste a minha aflição; conheceste a minha alma nas angústias. E não me entregaste nas mãos do inimigo; puseste os meus pés num lugar espaçoso. Tem misericórdia de mim, ó SENHOR, porque estou angustiado. Consumidos estão de tristeza os meus olhos, a minha alma e o meu ventre” (Sl 31:7-9).

O Salmo 31 torna claro o quanto o Cristo esteve angustiado, antes de ser crucificado, e no que consiste a ‘largueza’ que o Pai lhe concedeu. Para aqueles que ainda têm dúvidas se o Salmo 31 é messiânico e que retrata as agruras que antecedem a morte de Cristo, basta ler o verso 5:

“Nas tuas mãos encomendo o meu espírito; tu me redimiste, SENHOR Deus da verdade” (Sl 31:5; Lc 23:46).

Como já foi dito, os Salmos são escritos proféticos, o que indica que os salmistas não falam de si mesmos, antes, inspirados por Deus, davam testemunho do Cristo. Todas as vezes que lemos as Escrituras, devemos ter em mente a lição de Filipe: “Rogo-te, de quem diz isto o profeta? De si mesmo, ou de algum outro?” (At 8:34).

A largueza concedida por Deus ao Cristo, na angústia, decorre da benignidade de Deus, que considerou a aflição do Aflito. Embora o povo tenha desprezado o Cristo, pela sua ignomínia e aflição, na verdade Ele estava alegre e regozijado, por se sujeitar à vontade do Pai, que era fazê-Lo enfermar: “Verdadeiramente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido” (Is 53:4); “Mas eu sou verme e não homem, opróbrio dos homens e desprezado do povo. Todos os que me veem zombam de mim, estendem os lábios e meneiam a cabeça, dizendo: Confiou no SENHOR, que o livre; livre-o, pois nele tem prazer” (Sl 22:6-8).

A aflição que se abateu sobre o Cristo era em decorrência da morte do seu corpo físico, porém, caminhou para o calvário regozijado por estar cumprindo a vontade do Pai, que foi benigno para com Ele, quando O elegeu para expiação do povo: “Sacrifício e oferta não quiseste; os meus ouvidos abriste; holocausto e expiação pelo pecado não reclamaste. Então, disse: Eis aqui venho; no rolo do livro de mim está escrito. Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu; sim, a tua lei está dentro do meu coração” (Sl 40:6-8); “Todavia, ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o bom prazer do SENHOR prosperará na sua mão” (Is 53:10).

Apesar de angustiado e consumido de tristeza, em função das agruras da cruz, que acometeram o seu corpo (Sl 22:11), o Cristo não foi entregue nas mãos dos seus inimigos, antes, entregou a sua alma nas mãos do Pai, que o colocou a salvo (lugar espaçoso) dos seus inimigos (Sl 40:2). A sua alma não foi deixada na morte, pois o Pai O livrou e O pôs em um alto retiro: à destra da Majestade nas alturas (Sl 91:14).

Cristo invocou o Pai, dizendo: – “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste”? (Sl 22:1), pois essa era a perspectiva dos seus opositores, ao pé da cruz. No entanto, os opositores de Jesus, ao pé da cruz, não sabiam que, quando Jesus clamou, Deus lhe respondeu, pois permaneceu com Ele na angústia: “Porque não desprezou, nem abominou a aflição do aflito, nem escondeu dele o seu rosto; antes, quando ele clamou, o ouviu” (Sl 22:24).

Quem, na angústia, teve total segurança (largueza)? Quem Deus haveria de livrar e glorificar? A resposta é: Cristo, conforme se lê:

“Não te alongues de mim, pois a angústia está perto e não há quem ajude” (Sl 22:11);

“E invoca-me no dia da angústia; eu te livrarei, e tu me glorificarás” (Sl 50:15);

“E tomou consigo a Pedro, a Tiago e a João e começou a ter pavor e a angustiar-se” (Mc 14:33).

Largueza na angústia é afirmar, em oração, com um coração regozijado que ‘a sua carne repousará segura’. Saber que desceria às partes mais baixas da terra (sepultura) não trouxe insegurança, antes trouxe regozijo e segurança, pois estava seguro de que Deus haveria de trazê-Lo à vida novamente, fiado na promessa de que não seria deixado na morte e nem veria corrupção: “Pois não deixarás a minha alma no inferno, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção” (Sl 16:10).

Na angústia, Deus concedeu a Cristo a liberalidade de decidir cumprir ou não a vontade do Pai. Embora, tivesse à sua disposição doze legiões de anjos e ninguém tivesse o poder de tirar a sua vida, Jesus exerceu o poder de dar a sua vida e, assim, conquistou o poder de tornar a tomá-la: “Ninguém ma tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou; tenho poder para a dar e poder para tornar a tomá-la. Este mandamento recebi de meu Pai” (Jo 10:18).

Os Salmos não retratam os sentimentos e as emoções de Davi, pois Ele ainda está na sepultura e não subiu aos céus (At 2:29; At 2:34). Mas, Cristo, apesar dos sofrimentos e da morte, foi livre da morte, glorificado, e alcançou abundância de dias: “Ao qual, Deus ressuscitou, soltas as ânsias da morte, pois não era possível que fosse retido por ela; Porque dele disse Davi: Sempre via diante de mim o Senhor, Porque está à minha direita, para que eu não seja comovido; Por isso, se alegrou o meu coração e a minha língua exultou; E, ainda, a minha carne há de repousar em esperança; Pois não deixarás a minha alma no inferno, Nem permitirás que o teu Santo veja a corrupção; Fizeste-me conhecidos os caminhos da vida; Com a tua face me encherás de júbilo. Homens, irmãos, seja-me lícito dizer-vos livremente acerca do patriarca Davi, que ele morreu e foi sepultado e entre nós está, até hoje, a sua sepultura” (At 2:24-29; Sl 91:15).

 

2 Filhos dos homens, até quando convertereis a minha glória em infâmia? Até quando amareis a vaidade e buscareis a mentira? (Selá.)

Após direcionar a sua palavra ao Pai, em espírito, através do salmista, o Filho reprova a atitude dos homens: até quando amariam a vaidade e buscariam a mentira? Até quando transtornariam a glória do Cristo em infâmia?

A glória do Cristo estava em fazer a vontade do Pai, que era enfermá-Lo, porém, os opositores de Cristo interpretaram que aquela ignomínia era sinal de infâmia. A glória de Cristo estava em ser Servo obediente, mas os homens reputaram que Cristo era maldito ao contemplá-Lo na cruz: “E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte e morte de cruz” (Fp 2:8).

Jesus humilhou-se a si mesmo, ou seja, se fez servo, ao ser obediente até a morte, pois, nesse ato, estava a sua glória, de modo que Deus o exaltou soberanamente: “Por isso, também Deus o exaltou soberanamente e lhe deu um nome que é sobre todo o nome” (Fp 2:9).

O Aflito do Senhor era a luz do mundo, porém, os seus concidadãos (judeus), O rejeitaram, a Palavra da Verdade, se refugiaram na mentira e na vaidade de seus corações mentirosos. Seguindo os seus próprios caminhos, converteram em infâmia a glória do Filho de Deus. Cristo, a Rocha eleita e preciosa, tornou-se rocha de escândalo para os filhos de Israel: “Confia no SENHOR de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento” (Pr 3:5; Is 8:14).

As Escrituras não fazem referência ao rei Davi como possuidor de glória, nem que se dirigisse aos filhos dos homens, exigindo tal reconhecimento, i.e.,  de alguma glória que lhe fosse devida; portanto, da mesma forma que o apóstolo Pedro concluiu que Davi, ao profetizar, fez uma previsão específica da morte e ressurreição de Cristo no Salmo 16 (At 2:31), podemos inferir que o salmista registrou no Salmo 4 uma previsão do Messias reclamando aos homens, que não tivesse por infâmia a sua glória, de realizar a vontade do Pai.

3 Sabei, pois, que o SENHOR separou para si aquele que é piedoso; o SENHOR ouvirá quando eu clamar a ele.

O profeta Miquéias relata que ‘pereceu o homem piedoso’ e, que ‘não havia entre os homens quem fosse reto’ (Mq 7:2). Entretanto, o salmista aponta para alguém que foi separado para Deus por ser ‘piedoso’. Vale destacar que a frase está no singular, falando de um só, não de muitos piedosos (… o Senhor separou para si aquele que é piedoso).

Ora, o homem piedoso que Malaquias diz que pereceu, refere-se a Adão. Depois da queda de Adão, todos os seus descendentes se desviaram e todos juntamente se fizeram imundos, ou seja, em um único evento (a queda), todos se fizeram impróprios para o propósito de Deus, ninguém mais era piedoso (Sl 14:3).

Cristo, o último Adão, é o homem piedoso escolhido por Deus para ser mediador entre Deus e os homens. Cristo é o homem piedoso, reto, íntegro, que Deus separou para si. O Cristo teve plena certeza de que Deus sempre haveria de ouvi-lo, pois esse é um firme fundamento, sob a garantia de Deus (selo): “O Senhor conhece os que são seus” (2 Tm 2:19; Jo 11:14).

Em reconhecer a Cristo como o homem piedoso que Deus escolheu (ungido) e que Deus O ouvia, estaria a salvação dos filhos de Israel, mas desprezaram-No por causa da aparência: nenhuma beleza havia para que os homens o desejassem.

4 Perturbai-vos[3] e não pequeis; falai com o vosso coração sobre a vossa cama e calai-vos. (Selá.) 5 Oferecei sacrifícios de justiça e confiai no SENHOR.

Na condição de eleito, Cristo – o Mediador – alerta aos filhos da desobediência e da ira para obedecerem a Deus, consequentemente, não pecariam: “Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti” (Sl 119:11).

“Tremei e não pequeis” (v. 4) Tradução Brasileira.

A ordem é clara: tremei e não pequeis, ou seja, obedecei e não pecareis. ‘Tremer’ é o mesmo que ‘tremor’. Qualquer que treme da palavra do Filho de Deus não peca: “Ouvi a palavra do SENHOR, os que tremeis da sua palavra. Vossos irmãos, que vos odeiam e que para longe vos lançam, por amor do meu nome, dizem: Seja glorificado o SENHOR, para que vejamos a vossa alegria; mas eles serão confundidos” (Is 66:5).

Qualquer que obedece à palavra do Filho não peca, pois a semente de Deus permanece nele ( 1Jo 3:9 ). Neste sentido disse Moisés: “E disse Moisés ao povo: Não temais, Deus veio para vos provar e para que o seu temor esteja diante de vós, a fim de que não pequeis” (Êx 20:20).

A recomendação do Salmo 2, para os reis da terra: “Servi ao SENHOR com temor e alegrai-vos com tremor” (Sl 2:11), é o mesmo que dizer: Obedecei (tremor) a palavra (temor) do Senhor.

O apóstolo Paulo cita o verso 4, do Salmo 4, na epístola que escreveu aos cristãos de Éfeso:

“Por isso deixai a mentira e falai a verdade, cada um com o seu próximo; porque somos membros uns dos outros. Irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira” (Ef 4:25-26).

Geralmente, fazem conexão entre a citação do verso 4, do Salmo 4, com a recomendação aos cristãos para não deixar o sol se pôr sobre a ira. Entretanto, a citação do Salmo tem conexão com o fato de os cristãos serem membros, uns dos outros, e com a citação de Zacarias:

“Estas são as coisas que deveis fazer: Falai a verdade cada um com o seu próximo; executai juízo de verdade e de paz nas vossas portas” (Zc 8:16).

A ordem para deixar a mentira e falar a verdade cada um com o seu próximo demanda obediência (deveis fazer), daí, a necessidade de ‘tremer’ (obedecer), para não pecar contra o Senhor.

Sacrifício para Deus é um espírito quebrantado, submisso, ou seja, diz daquele que treme da sua palavra (Sl 51:17). Só é possível oferecer sacrifício de justiça, quando se confia em Deus, crendo em Cristo. Sacrifício de justiça só é possível através de Cristo, o Senhor que é a nossa justiça (Sl 51:19).

São sinônimas as ideias: ‘oferecei sacrifícios de justiça’ e ‘confiai no Senhor’, pois quem confia em Cristo, a palavra que concede vida, além e crer com o coração, oferece sacrifício de justiça, pois professa o Seu nome, que é o fruto dos lábios. Todos os que confiam, invocam a Deus e vice-versa: “Visto que, com o coração, se crê para a justiça e com a boca se faz confissão para a salvação” (Rm 10:10; Hb 13:15; Os 14:2 e Pv 18:20).

O mandamento de Deus na Nova Aliança é crer em Cristo e todos quantos confiam em Deus creem em Cristo. Quem crê em Cristo, na verdade crê no testemunho que Deus deu do seu Filho: “Quem crê no Filho de Deus, em si mesmo tem o testemunho; quem a Deus não crê, mentiroso o fez, porquanto não creu no testemunho que Deus de seu Filho deu” (1Jo 5:10); “E Jesus clamou e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas naquele que me enviou” (Jo 12:44).

 

6 Muitos dizem: Quem nos mostrará o bem? SENHOR, exalta sobre nós a luz do teu rosto.

Muitos, dentre os homens, questionam: Quem nos mostrará o bem? Ora, a resposta é o Mediador estabelecido por Deus: Jesus Cristo-homem. Ele é a luz. Ele é o resplendor da glória de Deus!

Observe o que diz o Salmo 67:

“DEUS tenha misericórdia de nós e nos abençoe; e faça resplandecer o seu rosto sobre nós (Selá.) Para que se conheça na terra o teu caminho e entre todas as nações a tua salvação” (Sl 67:1-2).

O caminho do Senhor, conhecido na terra, é o bem de Deus revelado aos homens, pois o caminho do Senhor, diz de Cristo, a luz que resplandeceu nas trevas (Jo 1:5 ).

A luz do Senhor é a resposta. Somente a luz do Senhor mostrará o bem: “Nele (Verbo) estava a vida e a vida era a luz dos homens” (Jo 1:4). Deus mostrou a sua luz (exaltou) quando nos revelou Jesus: “Deus é o SENHOR, que nos mostrou a luz; atai o sacrifício da festa com cordas, até às pontas do altar” (Sl 118:2).

A luz do rosto do Senhor foi revelada em Cristo: “Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo (2Co 4:6).

Cristo é a pedra que seguia os filhos de Israel pelo deserto. A Rocha que rejeitaram. O Senhor que escondeu o seu rosto da casa de Israel: Esconderei, pois, totalmente o meu rosto naquele dia, por todo o mal que tiver feito, por se haverem tornado a outros deuses” (Dt 31:18).

Porém, Isaias profetizou, apontando a sua esperança no Senhor, que esconde o seu rosto da casa de Israel. O Senhor que esconde o seu rosto da casa de Israel tornou-se pedra de tropeço às duas casas de Israel, a quem devemos o temor e o assombro: “E esperarei ao SENHOR, que esconde o seu rosto da casa de Jacó e a ele aguardarei” (Is 8:17; Is 8:13-14; Sl 4:4).

 

7 Puseste alegria no meu coração, mais do que no tempo em que se lhes multiplicaram o trigo e o vinho. 8 Em paz também me deitarei e dormirei, porque só tu, SENHOR, me fazes habitar em segurança.

O Salmista descreve a alegria no coração do Messias, como maior que a alegria que ocorre no coração dos homens, quando se multiplica a colheita de trigo e vinho. A alegria do Messias como último Adão está na sua descendência espiritual, por isso Isaias diz: “Eis me aqui, com os filhos que me deu o Senhor” (Is 8:18); “Mas aos santos que estão na terra, e aos ilustres em quem está todo o meu prazer” (Sl 16:3).

O verso 8 retrata o momento da morte do Messias, que em paz deitaria e dormiria, pela segurança que o Pai lhe proporcionou: “Portanto, está alegre o meu coração e se regozija a minha glória; também, a minha carne repousará segura. Pois não deixarás a minha alma no inferno, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção” (Sl 16:9-10; Sl 30:3; Sl 31:5).

Ora, Cristo é aquele que habitava no esconderijo do Altíssimo e, após ser introduzido no mundo dos homens, passou a descansar à sombra do Onipotente (Sl 91:1). Jesus Cristo, homem, alcançou ‘largueza’, por confiar plenamente na proteção do Pai (Sl 4:1).

 


[1] “06862 tsar ou צר tsar procedente de 6887; DITAT – 1973a,1973b,1974a,1975a; adj. 1) estreito, apertado 2) dificuldades, aflição 3) adversário, inimigo, opressor 4) pedra dura, pederneira” Dicionário Bíblico Strong;

[2] “07337 rachab uma raiz primitiva; DITAT – 2143; v. 1) ser ou ficar amplo, ser ou ficar grande 1a) (Qal) ser largo, ser aumentado 1b) (Nifal) pastagem ampla ou espaçosa (particípio) 1c) (Hifil) 1c1) tornar amplo 1c2) alargar” Dicionário Bíblico Strong;

[3] “07264 ragaz uma raiz primitiva; DITAT – 2112; v. 1) tremer, estremecer, enfurecer-se, tiritar, estar agitado, estar perturbado 1a) (Qal) tremer, estar inquieto, estar agitado, estar perturbado 1b) (Hifil) fazer estremecer, inquietar, enraivecer, incomodar 1c) (Hitpael) agitar-se” Dicionário Bíblico Strong

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As bem-aventuranças e o ministério de Jesus Cristo

Uma mudança de concepção (metanoia) nos ouvintes de Jesus era imprescindível, pois tinham zelo de Deus, mas, como profetizou Davi, sem entendimento (Sl 53:3). Por não conhecerem a justiça de Deus, procuraram estabelecer uma justiça própria, não se sujeitando à justiça superior: a que vem de Deus: “Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus, e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus. Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10:3).


Parte II

Introdução

Este texto é a segunda parte do artigo “O Sermão da Montanha e o espírito inatingível da Lei”, disponível no Portal Estudos Bíblicos. Caso não tenha lido a primeira parte desse artigo, recomendamos a leitura da primeira parte, a fim de se ter compreensão plena da exposição a seguir.

Na primeira parte do artigo, foram analisadas as beatitudes, através do registro no Evangelho segundo Mateus e, agora, daremos continuidade à análise das beatitudes, por meio do registro efetuado pelo apóstolo Lucas, com especial destaque no público alvo do discurso de Jesus.

Vale salientar que a condição de ‘pobres bem-aventurados’ não tem relação com a condição financeira do indivíduo, pois, entre os apóstolos, havia um médico e um cobrador de impostos e, mesmo assim, Jesus classificou os seus discípulos como pobres.

Se a condição ‘pobre’ bem-aventurado fosse decorrente de questões socioeconômicas, no mínimo, Lucas e Mateus seriam exceções à regra. A bem-aventurança é uma espécie de hebraísmo[1], expressão linguística muito usual nas Escrituras, como encontramos no Salmo 32:

BEM-AVENTURADO aquele cuja transgressão é perdoada e cujo pecado é coberto. Bem-aventurado o homem a quem o SENHOR não imputa maldade e, em cujo espírito, não há engano” (Sl 32:1-2).

Para um judeu da época de Jesus, falar no aramaico asheré ou no grego makários (bem-estar, abençoados, felizes, bem-aventurados,ditosos, venturosos), pelo contexto, teria o mesmo efeito: seriam remetidos às exclamações enfáticas que permeiam as Escrituras.

 

O evangelista Lucas e as beatitudes

“E, descendo com eles, parou num lugar plano e, também, um grande número de seus discípulos e grande multidão de povo de toda a Judéia, de Jerusalém e da costa marítima de Tiro e de Sidom; os quais tinham vindo para ouvi-lo e serem curados das suas enfermidades, como, também, os atormentados dos espíritos imundos; e eram curados. E toda a multidão procurava tocar-lhe, porque saía dele virtude e curava a todos. E, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis fartos. Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir. Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem e quando vos separarem e vos injuriarem e rejeitarem o vosso nome como mau, por causa do Filho do homem. Folgai nesse dia, exultai; porque eis que é grande o vosso galardão no céu, pois assim faziam os seus pais aos profetas” (Lc 6:17-23).

Enquanto o evangelista Mateus registrou o Sermão da Montanha focado na mensagem do discurso, o evangelista Lucas incluiu no registro da mensagem uma descrição do local onde o discurso foi feito, bem como dá detalhes pertinentes ao público que estava ouvindo o Mestre e quando Ele muda a abordagem, em função dos grupos de pessoas que compunham a multidão.

O evangelista Lucas narra que Jesus subiu em um monte para orar e que Ele passou a noite em oração (Lc 6:12). Quando amanheceu, chamou os seus discípulos (seguidores) e, dentre eles, escolheu doze e deu-lhes o nome ‘apóstolos’ (Lc 6:13).

Após a escolha dos doze, Jesus desceu do monte, juntamente com os apóstolos e seus discípulos, e parou em um lugar plano, onde encontrava-se uma outra grande quantidade de discípulos, juntamente com uma grande multidão de diversas regiões da Judéia, Jerusalém e da costa marítima de Tiro e Sidom (Lc 6:17).

Muitos da multidão vieram para ouvir e serem curados por Jesus, pois bastava tocá-Lo para serem livres do mal que lhes afligia (Lc 6:18-19).

O evangelista Mateus enfatiza que Jesus se assentou, ato que indicou à multidão que Ele ia falar, pois à época os mestres ensinavam assentados (Lc 4:20). O evangelista Lucas, por sua vez, evidencia que Jesus selecionou o público alvo da sua mensagem, através de um olhar: “E, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós, os pobres…” (Lc 6:20).

Jesus olhou para os seus discípulos e enfatizou que eles eram bem-aventurados porque o tão almejado reino dos céus pertencia aos seus seguidores. Entretanto, Jesus não falou abertamente esta verdade, antes disse: “Bem-aventurados vós, os pobres…” (Lc 6:20).

Se os discípulos eram ‘os pobres’ e aos pobres ‘pertence o reino dos céus’, certo é que os discípulos eram ditosos, venturosos, pois estavam de posse do reino dos céus – Cristo (Jo 1:12).

E o que dizia os profetas acerca do reino de Deus?

“Do aumento deste principado e da paz não haverá fim, sobre o trono de Davi e no seu reino, para o firmar e o fortificar com juízo e com justiça, desde agora e para sempre; o zelo do SENHOR dos Exércitos fará isto” (Is 9:7).

Os profetas anunciavam que o Messias seria firmado e fortificado com juízo e justiça sobre o trono de Davi. Como o reino é firmado e fortificado em juízo e justiça, e a essência do reino é o principado d’Aquele que se assenta sobre o trono de Davi, quem recebeu o rei está farto de justiça (Jo 1:12).

Os seguidores de Cristo que eram famintos, agora são ditosos, por serem fartos de justiça. A tristeza, o abatimento, foram substituídos por alegria, ou seja, eles foram consolados (Is 61:3).

Ao profetizar acerca do reino do Messias, o Salmista declarou que o rei se compadecerá do necessitado que clamar, como também do aflito e dos necessitados. O rei não fará acepção: atenderá o necessitado que clamar, de modo que todas as nações o servirão: “E todos os reis se prostrarão perante ele; todas as nações o servirão. Porque ele livrará ao necessitado quando clamar, como também ao aflito e ao que não tem quem o ajude. Compadecer-se-á do pobre e do aflito e salvará as almas dos necessitados” (Sl 72:11-13).

Quem são os pobres, aflitos e necessitados? Responde-se: – Aqueles que invocam o nome do Senhor!

“E há de ser que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo; porque no monte Sião e, em Jerusalém, haverá livramento, assim como disse o SENHOR e, entre os sobreviventes, aqueles que o SENHOR chamar” (Jl 2:32);

“Compadecer-se-á do pobre e do aflito e salvará as almas dos necessitados (Sl 72:13).

O publicano, quando orou, de pé e ao longe, no templo, portou-se como necessitado, pois invocou a Deus, dizendo: – “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!”  (Lc 18:13). O publicano invocou o Senhor como pobre, tradução do termo grego ‘ptojói’, que remete a alguém em absoluta miséria, penúria total. Reconheceu a sua condição miserável: – ‘Sou pecador’!

E os necessitados serão livres do que? Da opressão econômica? Do descaso social? Das políticas governamentais opressoras? Das lutas de classes? Da discriminação racial? Não! Ele libertará o homem que clamar – do engano, da violência (Sl 72:14).

Mais adiante, abordaremos essas duas figuras: ‘engano’ e ‘violência’, que compõem a parábola do Salmo de Salomão.

Cristo é a pedra de tropeço, a rocha de escândalo, colocada em Israel por Deus e todo aquele que n’Ele cresse, não seria confundido. Enquanto os filhos de Israel esperavam um rei que estabelecesse um governo, o rei veio para estabelecer um santuário. Antes de restaurar o reino de Israel, Ele veio edificar um templo – a Igreja – um santuário, uma casa de oração para todos os povos: “Então ele vos será por santuário; mas servirá de pedra de tropeço e rocha de escândalo às duas casas de Israel; por armadilha e laço aos moradores de Jerusalém” (Is 8:14); “Também os levarei ao meu santo monte e os alegrarei na minha casa de oração; os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceitos no meu altar; porque a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos” (Is 56:7).

Os discípulos creram em Cristo – a rocha de escândalo para as duas casas de Israel (Judá e Israel) – portanto, os discípulos não foram confundidos, daí o título de bem-aventurados. Ao crerem no enviado de Deus, os discípulos estavam de posse do reino dos céus, portanto, eram fartos de justiça e consolados por Deus. Por terem recebido o grande rei, o Filho de Davi, foram feitos filhos de Deus (Jo 1:12).

Jesus frisou que os discípulos eram bem-aventurados quando odiados e quando os homens buscassem separá-los, injuriando e rejeitando-os como maus, por causa d’Ele. Quando acontecesse de serem injuriados e rejeitados, era para os discípulos não se entristecerem, antes deveriam exultar, folgar, porque a recompensa do Pai celeste seria grande (Mt 6:19-20), visto que, os filhos de Israel, no passado, também haviam perseguido os profetas de Deus.

Diferente dos escribas e fariseus que ajuntavam tesouro na terra, os discípulos, quando perseguidos, estariam ajuntando tesouro nos céus, onde a traça e a ferrugem não destroem e nem está ao alcance de ladrões (Mt 6:19, compare com Mt 5:12).

 

Peso

O evangelista Lucas registrou alguns ‘ais’ anunciados por Jesus, durante a exposição do Sermão do monte e o evangelista Mateus, por sua vez, não faz esse registro. Somente no capítulo 23 o evangelista Mateus registra a censura do Senhor Jesus contra os líderes judaicos, porém, em outro contexto.

Após anunciar a venturosa alegria dos discípulos, o evangelista Lucas registra uma censura através de imprecações de ‘ais’, que Jesus fez, desfavorável a algumas pessoas que estavam ouvindo o discurso.

Seria contrassenso os discípulos serem congratulados e censurados no mesmo discurso. Os seguidores de Cristo não poderiam ser ‘pobres’ e ‘ricos’, portanto, a censura de Jesus torna evidente que o público alvo do Sermão mudou. Observe:

“Mas ai de vós, ricos! Porque já tendes a vossa consolação. Ai de vós, os que estais fartos, porque tereis fome. Ai de vós, os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis. Ai de vós, quando todos os homens de vós disserem bem, porque assim faziam seus pais aos falsos profetas” (Lc 6:24-26).

A conjunção adversativa ‘mas’ e o peso ‘ai’, indicam que Jesus deixou de falar com os seus seguidores e que o juízo que estava sendo anunciado tinha por alvo um outro grupo de pessoas. Isto significa que Jesus deixou de olhar para os seus discípulos e direcionou o seu olhar para um outro público, em meio à multidão: “E, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós…” (Lc 6:20).

Para censurar certo grupo de pessoas em meio à multidão, Jesus introduz a figura do ‘rico’. Jesus estava falando da condição social de algumas pessoas em meio à multidão? Não!

Qual o significado da figura dos ‘ricos’ no discurso de Jesus?

O salmista Asafe fez uma descrição das pessoas que se enquadram no perfil dos ‘ricos’:

“3 Pois eu tinha inveja dos néscios, quando via a prosperidade dos ímpios.

4 Porque não há apertos na sua morte, mas firme está a sua força.

5 Não se acham em trabalhos como outros homens, nem são afligidos como outros homens.

6 Por isso a soberba os cerca como um colar; vestem-se de violência como de adorno.

7 Os olhos deles estão inchados de gordura; eles têm mais do que o coração podia desejar.

8 São corrompidos e tratam maliciosamente de opressão; falam arrogantemente.

9 Põem as suas bocas contra os céus e as suas línguas andam pela terra.

10 Por isso, o povo dele volta aqui e águas de copo cheio se lhes espremem.

11 E eles dizem: Como o sabe Deus? Há conhecimento no Altíssimo?

12 Eis que estes são ímpios e prosperam no mundo; aumentam em riquezas (Sl 73:3-12).

Para ler esse salmo e compreender as figuras utilizadas pelo salmista Asafe é necessário conhecimento básico de alguns recursos utilizados para a construção da poesia hebraica.

Os salmos, provérbios e a maioria das profecias são construídos através de um elemento formal denominado paralelismo. A poesia hebraica não possui rima, mas, sim, um encadeamento lógico que substitui a rima e o ritmo, que muitos chamam de “ritmo de sentido”.

O verso 3: “Pois eu tinha inveja dos néscios, quando via a prosperidade dos ímpios”, foi construído através de um paralelismo sintético (ou: formal, construtivo), em que a segunda frase do verso amplia e acrescenta um conceito à primeira frase.

Asafe, profeticamente, diz que ‘tinha inveja dos néscios’, dos loucos e, em seguida, a justificativa: por causa da prosperidade dos ímpios! Se a inveja decorre da prosperidade, certo é que os ‘néscios’ são ‘ímpios’ e vice-versa.

Tudo o que é descrito nos versos seguintes rementem aos ímpios, por conseguinte, aos néscios e/ou loucos. Daí outra pergunta? Quem são os loucos? Ou, quem são os ímpios?

Considerando o que o apóstolo Paulo asseverou: “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” (Rm 3:19), visto que os judeus se achavam excessão, e que o termo ‘lei’ empregado por ele engloba a lei, os profetas, os provérbios e os salmos (Escrituras), os ‘loucos’ em questão refere-se aos filhos de Israel, como foi dito por Moisés:

“Recompensais assim ao SENHOR, povo louco e ignorante? Não é ele teu pai, que te adquiriu, te fez e te estabeleceu?” (Dt 32:6).

Quando é dito no Salmo 74: “Lembra-te disto: que o inimigo afrontou ao SENHOR e que um povo louco blasfemou o teu nome” (Sl 74:18). O inimigo que afrontou ao Senhor diz da Babilônia que derribou o tempo e ateou fogo ao santuário. Já o povo louco que ‘blasfemou’ o nome do Senhor diz dos filhos de Israel, como diz o profeta: “Porque, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vós” (Rm 2:24).

A censura de Deus recai sobre o seu próprio povo:

“Deveras o meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios e não entendidos; são sábios para fazer mal, mas não sabem fazer o bem” (Jr 4:22);

“Eu, porém, disse: Deveras estes são pobres; são loucos, pois não sabem o caminho do SENHOR, nem o juízo do seu Deus” (Jr 5:4);

“Chegarão os dias da punição, chegarão os dias da retribuição; Israel o saberá; o profeta é um insensato, o homem de espírito é um louco; por causa da abundância da tua iniquidade, também haverá grande ódio” (Os 9:7).

Retornando ao Salmo 73, o salmista descreve os ‘loucos’, ou o povo de Israel com outras figuras: a ‘soberba’ os envolvem como um colar, vestidos de ‘violência’ (Sl 73:6), ‘prosperam’ no mundo e aumentam em ‘riqueza’ (Sl 73:12).

O salmista estaria falando do acumulo de riquezas materiais? Não! A figura possui outro significado.

O que seria a violência que usam como vestimenta? O profeta Isaias responde:

“As suas teias não prestam para vestes nem se poderão cobrir com as suas obras; as suas obras são obras de iniquidade e obra de violência há nas suas mãos” (Is 59:6).

Em lugar de vestes de justiça produzidas por Deus, os ‘loucos’ se cobrem com obras de iniquidade, trapos de imundície que, diante de Deus, são obras de violência. Em lugar do espírito do Senhor (palavra), preferem a força: “E respondeu-me, dizendo: Esta é a palavra do SENHOR a Zorobabel, dizendo: Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos” (Zc 4:6).

Por que violência? Porque a palavra do Senhor na boca dos ‘loucos’ é transtornada em ‘opressão’ e ‘engano’, como se lê: “Porque desde que falo, grito, clamo: Violência e destruição; porque se tornou a palavra do SENHOR um opróbrio e ludíbrio todo o dia” (Jr 20:8).

Um exemplo de violência é trocar a obediência pelo sacrifício. Enquanto Deus requer do homem a obediência, os sacerdotes incitavam o povo ao sacrifício. Deus requer que o homem seja pobre, abatido de espírito, ou seja, que obedeça (tremer) a sua palavra, porém, cada qual seguiam os desvarios dos seus próprios corações e acabavam praticando a ‘violência’ do sacrifício, como se lê:

“Porque a minha mão fez todas estas coisas e assim todas elas foram feitas, diz o SENHOR; mas para esse olharei, para o pobre e abatido de espírito e que treme da minha palavra. Quem mata um boi é como o que tira a vida a um homem; quem sacrifica um cordeiro é como o que degola um cão; quem oferece uma oblação é como o que oferece sangue de porco; quem queima incenso em memorial é como o que bendiz a um ídolo; também estes escolhem os seus próprios caminhos e a sua alma se deleita nas suas abominações” (Is 66:2-3).

A violência de quem mata um homem é comparável à violência de quem sacrificava um boi a Deus, mas que não se sujeita a Ele.

Por toda a Escritura é utilizada a figura do rico, do violento, do mentiroso, do perverso, do maligno, etc.

“Porque os seus ricos estão cheios de violência, e os seus habitantes falam mentiras e a sua língua é enganosa na sua boca” (Mq 6:12);

“Porque o dia do SENHOR dos Exércitos será contra todo o soberbo e altivo, e contra todo o que se exalta, para que seja abatido” (Is 2:12);

“Estas seis coisas o SENHOR odeia e a sétima a sua alma abomina: Olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, o coração que maquina pensamentos perversos, pés que se apressam a correr para o mal, a testemunha falsa que profere mentiras e o que semeia contendas entre irmãos” (Pv 6:16-19).

Em função de outras passagens do Novo Testamento, verifica-se que a figura dos ‘ricos’, à época de Jesus e dos apóstolos, fazia referência aos escribas, aos fariseus e aos príncipes do povo de Israel. Os homens que condenaram e mataram a Cristo e arrastavam os seus seguidores aos tribunais eram ‘ricos’!

“Porventura, não vos oprimem os ricos e não vos arrastam aos tribunais? Porventura, não blasfemam eles o bom nome que sobre vós foi invocado?” (Tg 2:6-7).

“EIA, pois, agora vós, ricos, chorai e pranteai, por vossas misérias, que sobre vós hão de vir. As vossas riquezas estão apodrecidas e as vossas vestes estão comidas de traça. O vosso ouro e a vossa prata se enferrujaram; e a sua ferrugem dará testemunho contra vós e comerá como fogo a vossa carne. Entesourastes para os últimos dias. Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram as vossas terras e que por vós foi diminuído, clama; e os clamores dos que ceifaram entraram nos ouvidos do Senhor dos exércitos. Deliciosamente, vivestes sobre a terra e vos deleitastes; cevastes os vossos corações, como num dia de matança. Condenastes e matastes o justo; ele não vos resistiu” (Tg 5:1-6).

Os textos de Lucas e de Tiago contra os ricos não possuem viés marxista, não abordam lutas de classes, não visam questões trabalhistas e sindicalistas e nem dão suporte à teologia da libertação.

Os ‘ricos’ como figura nas Escrituras não são decorrentes da ordem socioeconômica com base escravocrata, não deriva do capitalismo selvagem e nem decorre de ideologias de governo, etc.

‘Rico’ é uma figura empregada pelos profetas, para fazer referência àqueles que confiavam em si mesmos, que faziam da carne a sua força e o coração se apartava do Senhor (Jr 17:5).

Os profetas na Antiga Aliança descreveram tais homens como insensatos, loucos, que ajuntavam riquezas, mas não retamente (Jr 17:11; Sl 49:5-6 e 12-13; Sl 52:7).

O profeta Amós anunciou o peso do Senhor sobre homens ímpios que estavam em repouso na cidade de Jerusalém. Que, apesar da invasão inimiga iminente por causa da transgressão em Israel, continuavam deitados em camas de marfim, comiam cordeiros e bezerros cevados, cantavam ao som da lira, bebiam vinho e se ungiam com o mais excelente óleo, mas não se afligiam pela ruina da casa de Israel (Am 6:1-7).

Apesar da aparente segurança, os que viviam uma vida regalada em Jerusalém seriam conduzidos ao exílio (Am 6:7).

A figura do ‘rico’ foi utilizada pelos profetas para compor inúmeros símiles e diversas parábolas, e é com base no que foi anunciado na lei, profetas e nos salmos, etc., que Jesus apresentou a parábola do homem rico:

“E propôs-lhe uma parábola, dizendo: A herdade de um homem rico tinha produzido com abundância; E ele arrazoava consigo mesmo, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos. E disse: Farei isto: Derrubarei os meus celeiros e edificarei outros maiores, ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens; E direi à minha alma: alma, tens em depósito muitos bens, para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. Mas, Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é aquele que para si ajunta tesouros e não é rico para com Deus” (Lc 12:16 -21).

A quem Jesus propôs a parábola do homem rico? Para entendermos a parábola, primeiro temos que identificar quem era o público alvo da mensagem, pois pela quantidade de parábolas, até mesmo os discípulos ficaram confusos e perguntaram: “Senhor, dizes esta parábola a nós, ou a todos” (Lc 12:41).

Havia ajuntado milhares de pessoas ao redor de Jesus, tanto que empurravam uns aos outros (Lc 12:1). Inicialmente, Jesus fala com os seus discípulos, utilizando o fermento com figura para alertá-los da perniciosidade contida na doutrina dos fariseus (Lc 12:1).

Mas, enquanto falava aos seus discípulos, um homem O interrompeu, rogando: – “Mestre, dize a meu irmão que reparta comigo a herança” (Lc 12:13). Após repreender o homem, deixando claro que a sua função não era de juiz ou divisor de herança, ordenou aos seus ouvintes que se abstivessem da ‘avareza’.

Seria a ‘avareza’ abordada por Jesus um dos sete pecados capitais? Jesus estava falando de quem tem excessivo apego ao dinheiro?

Ora, anteriormente Jesus havia determinado cautela para com o ‘fermento’ dos fariseus, que era a hipocrisia (Lc 12:1; Mt 16:12). Jesus não estava falando de fermento biológico ou fermento químico ou de pão feito de trigo.

Jesus, também, não estava dizendo que a hipocrisia dos escribas e fariseus se resumia em fingirem ter crenças, virtudes, ideias ou sentimentos que não possuíam.

Na verdade, Jesus estava alertando quanto ao preceito de homens que era ensinado pelos escribas e fariseus. Substituir a palavra de Deus por preceitos de homens é o que os profetas declaravam como sendo ‘hipocrisia’. Mesmo que o homem creia piamente que o seu posicionamento seja correto, se não é conforme o mandamento de Deus, é hipocrisia: “Mas, em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens” (Mt 15:9).

A ‘hipocrisia’ não diz da falsidade, dissimulação, fingimento, etc., nas relações interpessoais. Certo é que, do ponto de vista das relações humanas, a hipocrisia é perniciosa e reprovável, porém, a hipocrisia abordada por Cristo tem relação com o que foi anunciado pelos profetas:

“Porque os guias deste povo são enganadores e os que por eles são guiados são destruídos. Por isso o Senhor não se regozija nos seus jovens e não se compadecerá dos seus órfãos e das suas viúvas, porque todos eles são hipócritas e malfazejos e toda a boca profere doidices; e nem com tudo isto cessou a sua ira, mas ainda está estendida a sua mão” (Is 9:16-17);

“O hipócrita com a boca destrói o seu próximo, mas os justos se libertam pelo conhecimento” (Pv 11:9).

O ‘hipócrita’ é o que diz ‘doidices’, que em lugar de anunciar a palavra do Senhor, que satisfaz o faminto e sacia o sedento, profere o engano, preceitos de homens que não satisfazem a alma faminta por justiça: “Porque o vil fala obscenidade e o seu coração pratica a iniquidade, para usar de hipocrisia e para proferir mentiras contra o SENHOR, para deixar vazia a alma do faminto e fazer com que o sedento venha a ter falta de bebida” (Is 32:6).

Se a ‘hipocrisia’ diz da doutrina de engano, certo é que a ‘avareza’ não diz daquele que está em busca do lucro econômico mas, sim, do que busca a falsidade, seguindo o devaneio do seu coração corrompido: “E eles vêm a ti, como o povo costumava vir e se assentam diante de ti, como meu povo e ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra; pois lisonjeiam com a sua boca, mas o seu coração segue a sua avareza” (Ez 33:31); “Porque desde o menor deles até ao maior, cada um se dá à avareza; e desde o profeta até ao sacerdote, cada um usa de falsidade” (Jr 6:13).

Ter zelo de Deus, mas não ter entendimento, ou seja, o conhecimento, é o mesmo que hipocrisia e avareza (Rm 10:1-3; Pv 19:2). Não é possível servir a dois senhores, lisonjear um com a boca e o coração seguir a avareza, ou seja, servir a Deus e a Mamom: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Mt 6:24).

Ninguém pode servir a Deus e seguir a sua avareza. Aquele que segue a sua ‘avareza’ elegeu o seu próprio ventre como deus. Lisonjeia a Deus com a boca, mas permanece sendo senhor de si mesmo, ou seja, não se humilha (se faz servo) debaixo das potentes mãos de Deus: “Porque, os tais, não servem a nosso Senhor Jesus Cristo, mas ao seu ventre; e com suaves palavras e lisonjas enganam os corações dos simples” (Rm 16:18).

Jesus destaca que a vida do homem não consiste na abundância de bens que possui (Lc 12:15), isso porque, as Escrituras evidenciam que a vida está em ser um abatido de espírito (Is 57:15), ou seja, alguém que se humilha a si mesmo para servir a Deus. A vida está na palavra de Deus e não no pão cotidiano (Dt 8:3).

Após Jesus anunciar que certo homem alcançou grande lucro e arrazoava consigo mesmo, que construiria celeiros maiores para poder dizer: – “Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos. Descansa, come, bebe e folga” (Lc 12:19) e que Deus lhe disse: – “Louco, esta noite te pedirão a tua alma. Então, o que tens preparado, para quem será?”, Jesus compara ao homem louco qualquer que ajunta tesouro na terra e não é rico para com Deus (Lc 12:21).

O homem rico da parábola é louco por não ajuntar tesouro nos céus e não por ser abastado economicamente. A parábola introduz uma similitude entre aquele que ajunta bens materiais e não sabe quem desfrutará, com aqueles que ajuntam recompensa aqui, e não são ricos para com Deus (Mt 5:19-21).

A parábola do homem rico deriva do que escreveu o Salmista Davi: “Todo homem anda como uma sombra: em vão se inquieta; amontoa riquezas, sem saber quem as levará” (Sl 39:6). O homem rico foi nomeado ‘louco’ por causa do que foi anunciado por Jeremias: “Como a perdiz, que choca ovos que não pôs, assim é aquele que ajunta riquezas, mas não retamente; no meio de seus dias as deixará e no seu fim será um insensato (Jr 17:11).

O homem rico era um insensato, um louco, pois o que estava ajuntando não o tornava rico para com Deus. O termo ‘louco’ é uma figura que se aplica aos filhos de Israel, desde Moisés: “Recompensais assim ao SENHOR, povo louco e ignorante? Não é ele teu pai que te adquiriu, te fez e te estabeleceu?” (Dt 32:6); “Atendei, ó brutais dentre o povo; e vós, loucos, quando sereis sábios?” (Sl 94:8).

Como tudo o que a lei diz, diz aos que estão debaixo da lei, ou seja, refere-se aos judeus, a figura do ‘louco’ aplica somente aos judeus, o que demonstra que a parábola do homem rico tinha como figurante um judeu (Rm 3:19). Quando é dito: “Todo homem anda como uma sombra”, o texto é inclusivo, demonstrando que os judeus não são exceção à regra, como equivocadamente achavam.

A parábola do homem rico era instrução para os discípulos, mas, como Jesus falava por parábolas ao povo e expôs um grande número de parábolas, isso trouxe um questionamento: – “Senhor, dizes esta parábola a nós, ou a todos?” (Lc 12:41).

Quando era anunciado algo à multidão, o evangelista Lucas deixou frisado: “Disse também à multidão: Quando vedes a nuvem que vem do ocidente, logo dizeis: Lá vem chuva e assim sucede” (Lc 12:54), o que evidencia a importância de se observar o público alvo da mensagem.

Retornemos às beatitudes anunciadas por Jesus aos seus discípulos, segundo o que foi registrado pelo evangelista Lucas:

“Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis fartos. Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir. Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem e quando vos separarem, e vos injuriarem, e rejeitarem o vosso nome como mau, por causa do Filho do homem. Folgai nesse dia, exultai; porque, eis que é grande o vosso galardão no céu, pois assim faziam os seus pais aos profetas” (Lc 6:20-23).

Após anunciar as bem-aventuranças, Jesus anuncia um peso contra algumas pessoas, em meio à multidão que estava ouvindo o discurso, ou seja, os ‘ais’ (peso) não eram em desfavor aos discípulos:

“Mas ai de vós, ricos! porque já tendes a vossa consolação. Ai de vós, os que estais fartos, porque tereis fome. Ai de vós, os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis. Ai de vós quando todos os homens de vós disserem bem, porque assim faziam seus pais aos falsos profetas” (Lc 6:24-26).

Os escribas e fariseus deviam observar que, enquanto todos os homens diziam coisas boas acerca deles, assim também fizeram no passado os filhos de Israel aos falsos profetas. Os líderes da religião judaica eram os fartos que, em breve, sentiriam o quanto eram miseráveis. Agora estavam alegres, mas em breve haveriam de se lamentar e chorar.

Após anunciar o peso do Senhor através de ‘ais’ contra os líderes da religião, Jesus se dirige à multidão, mudando o público alvo da sua mensagem novamente, dizendo: “Mas a vós, que isto ouvis…” (Lc 6:27).

Após estabelecer um contraponto entre a condição dos Seus seguidores e os mestres da religião judaica através das beatitudes e dos ‘ais’, Jesus se volta à multidão para expor a sua doutrina.

Do capítulo 6 do evangelho de Lucas, dos versos 27 em diante, o público alvo da mensagem de Cristo é a multidão que os escribas e fariseus consideravam maldita: “Mas esta multidão, que não sabe a lei, é maldita” (Jo 7:49).

 

Cristo, a lei e os profetas

“17 Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir.

18 Porque, em verdade, vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido” (Mt 5:17 -18).

O evangelista Mateus não registrou a censura dos escribas e fariseus e o evangelista Lucas, por sua vez, não registrou a relação de Cristo com a lei e os profetas. Lucas não registrou a censura e a lembrança do que foi determinado nas Escrituras e vai direto para a ordem à multidão de amar os inimigos, o que foi feito por Mateus somente a partir do verso 44 do capítulo 5.

A transição do público alvo da mensagem de Cristo é mais perceptível através do registro do evangelista Lucas, como vemos no seguinte apelo: “Mas a vós, que isto ouvis, digo: Amai…” (Lc 6:27), no entanto, essa mesma transição de público ocorre no evangelho de Mateus, quando Jesus diz: “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas…” (Mt 5:17).

O pronome na terceira pessoa do plural ‘vós’, e a referência ao que foi dito: beatitudes e censura, indica que Jesus passou a tratar com um outro público: a multidão, deixando de fora os seus discípulos e os líderes da religião judaica (escribas e fariseus).

O público alvo da mensagem de Cristo mudou, pois ele não está mais falando da condição dos seus discípulos (pobres, tristes, mansos, puros de coração, etc.), visto que é impossível ser bem-aventurado e ter grande galardão nos céus (Mt 5:12), quando não se compreende a relação de Cristo com a lei e os profetas.

Ele também não estava falando aos escribas e fariseus (ricos, fartos, etc.), uma vez que a mensagem de Cristo dá uma solução: entrem pela porta estreita (Mt 7:13), pois qualquer que ouvisse a sua doutrina e obedecesse, seria comparável ao homem prudente que constrói a sua casa sobre a rocha (Mt 7:24).

Do capítulo 5 do evangelho segundo Mateus, versos 17 em diante, o leitor terá um discurso voltado para a multidão que, em primeiro lugar, visa esclarecer a relação de Jesus com a lei e os profetas (não vim destruir a lei e os profetas) e, em seguida, alertar que o reino dos céus estava vetado à multidão, caso não adquirissem justiça superior à justiça dos escribas e fariseus (Mt 5:20).

Lembrando que a temática da mensagem de Jesus, desde quando João Batista foi preso, era revolucionar o modo de pensar dos seus concidadãos (Mt 4:12-17), o leitor do Sermão da Montanha precisa estar cônscio de que o sermão tem o escopo de operar uma mudança de compreensão (metanoia) nos judeus.

Mas, para entender o arrependimento (metanoia) exigido por Cristo, primeiro se faz necessário compreender quem eram os judeus e o entendimento que possuíam da lei, pessoas a quem, primeiramente, Jesus foi enviado (Jo 1:11; Mt 15:24; Jr 50:6).

Para o leitor ter noção de quem eram os judeus, basta ler o capítulo 7 do livro dos Atos dos apóstolos, onde o mártir Estêvão faz um resumo preciso da origem e crescimento do povo Judeu.

Os judeus são descendentes do patriarca Abraão, um gentio que veio da Mesopotâmia, antes de fixar residência em Harã. Quando em Harã, Deus apareceu a Abraão e disse-lhe: – “Sai desta terra e dentre a tua parentela para uma terra que Eu te mostrarei” (At 7:2-3).

Abraão deixou os seus parentes e passou a peregrinar nas terras de Canaã (Gn 12:1-5). Deus não deu herança a Abraão em Canaã (At 7:5), pois Abraão viveu como peregrino na terra da promessa (Hb 11:9). Abraão não herdou terras, antes era herdeiro da seguinte promessa: “À tua descendência darei esta terra” (Gn 12:7).

Abraão gerou Isaque, segundo a promessa e Isaque gerou a Jacó e Jacó os doze patriarcas. Os patriarcas cheios de inveja venderam José como escravo, porém Deus o fez governador do Egito e tudo o que foi revelado a Abraão cumpriu-se (At 7:6-7; Gn 15:13-14).

Os filhos de Israel foram feitos escravos no Egito e Deus levantou um profeta – Moisés – e o comissionou para resgatar o seu povo do jugo da servidão, como foi revelado a Abraão. O resgate do povo foi feito com poderosa mão, sendo realizado por Deus muitos prodígios e sinais memoráveis (At 7:34-35).

Moisés profetizou que, dentre os filhos de Israel, Deus levantaria um profeta como Moisés, e que o povo deveria ouvi-Lo (At 7:37). Mas, quando Moisés subiu ao monte Sinai para falar com Deus e ficou quarenta dias e quarenta noites. O povo achou que Moisés estava demorando e que poderia ter morrido e rebelou-se, pois intentou retornar ao Egito (At 7:39).

Por causa da rebeldia do povo, Deus se afastou e os abandonou à própria sorte. Em outras palavras, o Senhor que os seguia no deserto (a pedra) e que concedeu comida e bebida espiritual ‘escondeu’ o seu rosto: “Assim se acenderá a minha ira naquele dia contra ele e desampará-lo-ei, esconderei o meu rosto dele, para que seja devorado; e tantos males e angústias o alcancem, que dirá naquele dia: Não me alcançaram estes males, porque o meu Deus não está no meio de mim? Esconderei, pois, totalmente o meu rosto naquele dia, por todo o mal que tiver feito, por se haverem tornado a outros deuses” (Dt 31:17-18; Dt 32:20; Is 64:7); “E beberam todos de uma mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra espiritual que os seguia; e a pedra era Cristo” (1Co 10:4).

Onde há relato nas Escrituras de uma pedra que seguia os filhos de Israel no deserto e contra quem se rebelaram?

“Porque apregoarei o nome do SENHOR; engrandecei a nosso Deus. Ele é a Rocha, cuja obra é perfeita, porque todos os seus caminhos são justos; Deus é a verdade e não há nele injustiça; justo e reto é” (Dt 32:3-4 e 15).

A mesma Rocha que serviu de tropeço às duas casas de Israel, visto que os edificadores a rejeitaram (1Pe 2:6-8; Is 8:14; Is 28:16; Sl 118:22). A Rocha que os seguia é o Senhor, que escondeu o seu rosto da casa de Israel, para que aprendessem a esperar n’Ele: “E esperarei ao SENHOR, que esconde o seu rosto da casa de Jacó e a ele aguardarei” (Is 8:17), pois, só há salvação quando Deus manifesta a sua glória na face de Cristo: “Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” (2Co 4:6).

Manifestar o rosto é o mesmo que resplandecer, de modo que o resplendor da face de Deus é misericórdia e salvação: “O SENHOR faça resplandecer o seu rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti” (Nm 6:25); “Faze-nos voltar, ó Deus e faze resplandecer o teu rosto e seremos salvos” (Sl 80:3).

Embora os filhos de Israel oferecessem sacrifícios no deserto por quarenta anos, dizendo que serviam ao Deus de Abraão, Isaque e Jacó, continuamente eram censurados e repreendidos como transgressores (At 7:42-43).

Deus não se agradou da MAIORIA deles quando percorriam o deserto por serem cobiçosos (torpe ganancia), idólatras, promíscuos (prostituiam), tentadores e murmuradores (1Co 10:5-10).

Havia em Israel aqueles que cobiçavam coisas materiais, reverenciavam outros deuses, que se prostituiam, etc., porém, havia os religiosos que diziam seguir a lei de Deus (como o fariseu que orava no templo agradecendo a Deus por não ser como os demais homens, pois não matava, não roubava, não se prostituía, etc.), e mesmo assim Deus os denominava cobiçosos, idolatras, promíscuos, etc.

Ora, todos esses comportamentos, perniciosos do ponto de vista da moral humana, foram utilizados como figuras para apontar uma realidade espiritual, assim como tudo o que sobreveio sobre Israel foi feito para a Igreja de Cristo como figura (1Co 10:6 e 11).

Moisés protestou contra Israel, dizendo:

“Porque conheço a tua rebelião e a tua dura cerviz; eis que, vivendo eu ainda hoje convosco, rebeldes fostes contra o SENHOR; e quanto mais depois da minha morte?” (Dt 31:27).

O que é a rebelião? A rebelião não é o mesmo que feitiçaria? A mesma feitiçaria que os religiosos tanto apontavam como prática reprovável entre os gentios? Que são a iniquidade e a idolatria? A iniquidade e a idolatria não são o mesmo que persistir no erro (porfiar)? O mesmo julgamento que os filhos de Israel emitiam com relação aos povos vizinhos como iníquos e idólatras, arguia contra eles por rejeitarem a palavra de Deus (Rm 2:1-3).

“Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniquidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei” (1Sm 15:23).

Ao chamar os filhos de Israel de rebeldes e de dura cerviz, Moisés estava chamando-os de feiticeiros, de iníquos e de idólatras. Por que? Ora, basta analisarmos a confissão de Neemias:

“E recusaram ouvir-te e não se lembraram das tuas maravilhas, que lhes fizeste, e endureceram a sua cerviz e, na sua rebelião, levantaram um capitão, a fim de voltarem para a sua servidão; porém tu, ó Deus perdoador, clemente e misericordioso, tardio em irar-te e grande em beneficência, tu não os desamparastes” (Ne 9:17).

Em outras palavras, os filhos de Israel, na sua ‘feitiçaria’ (rebelião), levantaram um líder tencionando voltar ao Egito. Queriam permanecer escravos, ou seja, porfiar, o mesmo que iniquidade e idolatria.

É em função da transgressão e da iniquidade que os filhos de Israel são denominados de ‘loucos’, como já vimos acima: “Os loucos, por causa da sua transgressão e por causa das suas iniquidades, são aflitos” (Sl 107:17).

Ora, a maioria das figuras utilizadas pelos profetas para censurarem os filhos de Israel, primeiramente, foram utilizadas por Moisés em seu cântico profético: loucos, dura cerviz, ignorantes, perversos, depravados, Sodoma, Gomorra, veneno, peçonha, víboras, etc. (Dt 32:5-6 e 28-29 e 32-33).

Isaias clamou contra Israel dizendo: “Ouvi a palavra do SENHOR, vós poderosos de Sodoma; dai ouvidos à lei do nosso Deus, ó povo de Gomorra” (Is 1:10). Semelhantemente, clamou Jeremias: “Deveras o meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios e não entendidos; são sábios para fazer  o mal, mas não sabem fazer o bem” (Jr 4:22). Ezequiel chamou os filhos de Israel de prostituta: “Portanto, ó meretriz, ouve a palavra do SENHOR” (Ez 16:35).

As figuras utilizadas pelos profetas para falar contra os filhos de Israel eram nomes que se davam aos comportamentos desregrados, do ponto de vista de convivência social, porém, essas figuras apontavam para uma realidade espiritual.

Equivocadamente, os filhos de Israel tornaram-se moralistas, legalistas e ritualistas, reprimindo comportamentos humanos desregrados (figuras) e se esqueciam da realidade: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas” (Mt 23:23).

Dessa prevaricação surgiram judeus religiosos que percorriam o mar e a terra para tornar um gentio seguidor do judaísmo (prosélito), e, quando conseguiam, o estado do prosélito se tornava duas vezes pior do que os seus instrutores: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós” (Mt 23:15).

Como mestres, os escribas e fariseus eram prevaricadores, ou seja, os interpretes não sabiam interpretar a lei e os profetas “Teu primeiro pai pecou, e os teus intérpretes prevaricaram contra mim” (Is 43:27); “Os sacerdotes não disseram: Onde está o SENHOR? E os que tratavam da lei não me conheciam, e os pastores prevaricavam contra mim, e os profetas profetizavam por Baal e andaram após o que é de nenhum proveito” (Jr 2:8); “Lembrai-vos disto, e considerai; trazei-o à memória, ó prevaricadores” (Is 46:8); “Como o prevaricar e mentir contra o SENHOR, e o desviarmo-nos do nosso Deus, o falar de opressão e rebelião, o conceber e proferir do coração palavras de falsidade” (Is 59:13).

Os escribas e fariseus achavam que eram salvos por terem Abraão por pai e não atinavam que, somente, os que tem a mesma fé que Abraão são filhos de Abraão: “E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão” (Mt 3:9); “Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento e não comeceis a dizer em vós mesmos: Temos Abraão por pai; porque, eu vos digo que, até destas pedras, pode Deus suscitar filhos a Abraão” (Lc 3:8); “Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres?” (Jo 8:33); “Responderam e disseram-lhe: Nosso pai é Abraão. Jesus disse-lhes: Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão” (Jo 8:39); “Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão” (Gl 3:7).

O entendimento dos escribas e fariseus era de que bastava ser descendente da carne e do sangue de um judeu para ter direito à bem-aventurança prometida a Abraão, ou que um gentio se circuncidasse e guardasse as tradições dos anciões.

“1 E AJUNTARAM-SE a ele os fariseus e alguns dos escribas, que tinham vindo de Jerusalém.

2 E, vendo que alguns dos seus discípulos comiam pão com as mãos impuras, isto é, por lavar, os repreendiam.

3 Porque os fariseus, e todos os judeus, conservando a tradição dos antigos, não comem sem lavar as mãos muitas vezes;

4 E, quando voltam do mercado, se não se lavarem, não comem. E muitas outras coisas há que receberam para observar, como lavar os copos, e os jarros, e os vasos de metal e as camas.

5 Depois perguntaram-lhe os fariseus e os escribas: Por que não andam os teus discípulos conforme a tradição dos antigos, mas comem o pão com as mãos por lavar?

6 E ele, respondendo, disse-lhes: Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, Mas o seu coração está longe de mim;

7 Em vão, porém, me honram, Ensinando doutrinas que são mandamentos de homens.

8 Porque, deixando o mandamento de Deus, retendes a tradição dos homens; como o lavar dos jarros e dos copos; e fazeis muitas outras coisas semelhantes a estas.

9 E dizia-lhes: Bem invalidais o mandamento de Deus para guardardes a vossa tradição.

10 Porque Moisés disse: Honra a teu pai e a tua mãe; e quem maldisser, ou o pai ou a mãe, certamente morrerá.

11 Vós, porém, dizeis: Se um homem disser ao pai ou à mãe: Aquilo que poderias aproveitar de mim é Corbã, isto é, oferta ao Senhor;

12 Nada mais lhe deixais fazer por seu pai ou por sua mãe,

13 Invalidando assim a palavra de Deus pela vossa tradição, que vós ordenastes. E muitas coisas fazeis semelhantes a estas” (Mc 7:1-13).

É em função da má leitura que se faz das Escrituras que muitos não conseguem compreender porque Saul foi rejeitado por Deus, e Davi, um homicida e adúltero, foi considerado um homem segundo o coração de Deus.

Aos olhos de Deus, Saul era feiticeiro, iniquo e idolatra, pois era um homem de torpe ganancia (queria a presença do profeta e sacerdote Samuel somente para ser honrado diante do povo), e hábil em mentir, desviar da palavra do Senhor e conceber e proferir do coração palavras falsas (1Sm 13:12; 1Sm 15:30; 1Sm 15:20 e 24-25).

Davi, por sua vez, portou-se de modo inconveniente e reprovável (2Sm 11:4 e 15), e recebendo a pena pelos seus crimes (2Sm 12:10-12). O comportamento de Davi deu azo aos inimigos de Deus blasfemarem, não só no seu tempo, pois onde a história de Davi tornar-se conhecida até hoje, questionam o Deus de Israel.

Mas, em que Davi é melhor que Saul? Errou, porque não foi instruído corretamente segundo a lei, mas quando Deus matou Uzá, de pronto buscou instrução nas Escrituras.

Certa feita os levitas receberam carros de bois, assim como os filhos de Israel receberam a arca da aliança dos filisteus sobre carros de bois, porém, à época de Moisés, somente os filhos de Coate nada receberam, pois o santuário estava a seu encargo e deveriam levá-lo sobre os ombros (2Sm 6:5-7; Nm 6:9).

Davi temeu ao Senhor e questionou como viria a ele a arca do Senhor (2Sm 6:9), e assim buscam ao Senhor segundo o que Deus prescrevera na lei (1Cr 15:2 e 12-15). No mesmo dia que trouxe a arca, Davi entregou pela primeira vez a Asafe e seus irmãos um Salmo de ações de graças ao Senhor onde ele instrui os filhos de Israel a jamais se esquecerem da aliança de Deus e das palavras que prescreveu (1Cr 16:7 e 15-17).

Ora, a multidão ao pé da montanha que estava ouvindo o discurso de Jesus era composta de judeus, descendentes do patriarca Abraão e que foram liderados por Moisés quando saíram do Egito. Desde sempre, aquela multidão foi instruída por prevaricadores que mentiam, pois concebiam e proferiam do coração palavras de falsidade dizendo que os filhos de Jacó efetivamente eram uma nação santa, um povo escolhido por Deus, pelo fato de serem descendentes da carne de Abraão: “Como o prevaricar, e mentir contra o SENHOR, o desviarmo-nos do nosso Deus, o falar de opressão e rebelião, o conceber e o proferir do coração, palavras de falsidade” (Is 59:13).

Entretanto, a Escritura que os mestres da lei liam para afirmar falsamente que os filhos de Israel eram possessão do Senhor, na verdade era condicional, pois dizia: se diligentemente ouvissem a voz de Deus e guardassem a aliança ENTÃO SERIAM propriedade peculiar: “Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então sereis a minha propriedade peculiar, dentre todos os povos, porque toda a terra é minha” (Êx 19:5).

As pessoas que estavam ouvindo o discurso de Jesus pensavam que eram salvas por serem descendentes da carne de Abraão (Mt 3:9; Jo 8:39). Achavam que eram mais justas e melhores que os outros povos vizinhos, simplesmente porque os seus pais receberam a lei de Deus das mãos de Moisés (Dt 9:4; Rm 3:9). Embora os seus antecessores tivessem matado os profetas que anunciavam a vinda de Cristo, eles religiosamente edificavam e adornavam os túmulos dos profetas sob pretexto de serem melhores que os seus pais (At 7:51-53; Lc 11:47-48). Eles religiosamente ouviam a lei, mas não seguiam os preceitos de Deus (At 7:53; Jo 7:19; Ml 3:7; Rm 2:13), etc.

Os ouvintes de Jesus foram instruídos a cumprir mandamentos de homens e, ao ouvirem a doutrina de Cristo, haveria conflito de ideias, pois o que Jesus haveria de ensinar não era conforme estavam acostumados a ouvir, daí o alerta de Jesus à multidão: “Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas…” (Mt 5:17).

É nesse ponto que entra a questão do arrependimento, no seu sentido grego: ‘metanoia’. Quando Jesus apregoava ‘arrependei-vos’, não estava buscando uma reação emocional de pesar dos seus interlocutores por atos realizados ou não, quer fossem atos bons, por não terem sido realizados ou ruins, que foram realizados.

O arrependimento apregoado por Jesus diz da ‘metanoia’ dos gregos, ou seja, significa mudança de mente, mudança de concepção em vista de um novo conhecimento ou evento. Não é o arrependimento traduzido por ‘paenitentia’, que invoca sofrimento, fazer penitencia, pagar indulgência, etc.

A ordem era: arrependei-vos (mudem a concepção de vocês), porque é chegado o reino dos céus (a chegada do reino dos céus – Cristo – é o evento ou o conhecimento que deveriam mudar o modo de pensar dos judeus).

Como mudar a concepção de pessoas que eram acostumadas a ouvir que eram bem-aventuradas, por terem por Pai a Abraão? (Mt 3:9) Como mudar o pensamento de pessoas que estavam acostumadas a ouvir que eram filhos de Abraão e que nunca foram escravos de ninguém? (Jo 8:33) Como mudar o modo de pensar de pessoas acostumadas a ouvirem que era necessário fazer prosélitos, sob o argumento de que só assim os gentios seriam ditosos?

Jesus não podia dizer abertamente ao povo: – “Eu sou o Cristo”, por isso, Ele fez uso de parábolas, de modo que a multidão pudesse, pelas figuras utilizas no Sermão da Montanha, compreender pela Escrituras, que Ele era o Cristo: “E com muitas parábolas tais lhes dirigia a palavra, segundo o que podiam compreender. E sem parábolas nunca lhes falava (Mc 4:33-34).

Jesus não podia dizer abertamente que era o Cristo, porque quem testifica de si mesmo é mentiroso: “Se eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro” (Jo 5:31). Também era impossível os seus ouvintes reconhecerem o Cristo pela aparência, muito menos alguém iria indicá-lo: “E, interrogado pelos fariseus sobre quando havia de vir o reino de Deus, respondeu-lhes e disse: O reino de Deus não vem com aparência exterior. Nem dirão: Ei-lo aqui, ou: Ei-lo ali; porque eis que o reino de Deus está entre vós” (Lc 17:20-21).

Os sermões de Jesus visavam a mudança de concepção dos seus interlocutores, portanto, precisavam ser conduzidos genuinamente através da lei, dos profetas e dos salmos a Cristo. Para reconhecerem Jesus como o Cristo, o Filho do Deus vivo, assim como confessou o apóstolo Pedro (Mt 16:16), os discursos de Jesus apontavam através de parábolas e figuras o testemunho (revelação) de Deus nas Escrituras.

O apóstolo Pedro confessou que Jesus é o Filho de Deus, porque Deus revelou a ele. Como? Quando? A revelação de Deus se deu pela manifestação de Cristo aos homens, conforme o testemunho das Escrituras (1Jo 5:9-11).

Não foi carne e sangue que revelou ao apóstolo Pedro que Jesus é o Filho de Deus, ou seja, não foram os seus concidadãos, os seus parentes, os judeus que deram o conhecimento necessário para o apóstolo chegar àquela confissão que lhe concedeu a bem-aventurança. ‘Carne’ e ‘sangue’ neste contesto remete a parentesco, nacionalidade: “E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque não to revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus” (Mt 16:16-17).

Para os escribas e fariseus, a lei e os profetas estavam intimamente ligados à guarda da tradição dos anciões (Mc 7:5), consequentemente, não conseguiam entender como era possível Jesus ser um mestre judaico e comer com os publicanos e pecadores (Mt 9:11), muito menos entender como era possível os discípulos de Jesus não jejuarem (Mt 9:14). Como era possível um seguidor da lei não guardar o sábado? (Mt 12:2)

Por questões semelhantes a essas, facilmente o povo poderia entender que Jesus estava destruindo a lei e os profetas. É em função da falta de compreensão dos seus interlocutores que Jesus enfatiza qual o seu papel em relação à lei e os profetas: “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir” (Mt 5:17).

Quando Jesus disse que veio para ‘cumprir’ a lei e os profetas, não estava enfatizando os ritos e cerimoniais da lei, antes destacou que Ele era o cumprimento da lei e dos profetas. Jesus deixou claro que nada do que constava na lei acerca d’Ele (nem um jota ou um til) deixaria de se cumprir.

Quando Jesus disse: “Vim para cumprir” (v. 17), temos que interpretar esse verso segundo essa perspectiva: “E disse-lhes: São estas as palavras que vos disse estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, nos profetas e nos Salmos” (Lc 24:44), ou seja, nem um jota ou til deixaria de se cumprir “Porquanto vos digo que importa que em mim se cumpra aquilo que está escrito: E com os malfeitores foi contado. Porque o que está escrito de mim terá cumprimento” (Lc 22:37).

Jesus estava preparando o entendimento do povo para que pudessem compreender, que todas as promessas que constam das Escrituras, sem exceção, estavam vinculadas à pessoa de Cristo: “Porque todas quantas promessas há de Deus, são nele sim e por ele o Amém, para glória de Deus por nós” (2Co 1:20).

Jesus não veio cumprir os preceitos dos escribas e fariseus que, pela tradição oral, compõem a Mishnah ou o comentário posterior que deu origem ao Talmud. Por Ele ser a realidade, vez que a lei era sombra, não precisava guardar os sábados (dias de descansos), pois Ele é o descanso que Deus prometeu à humanidade, cujos sábados simbolizavam.

O objetivo da lei era o Cristo, pois através do nascimento, morte e ressurreição Ele é a propiciação para todo que crê “Porque o fim (objetivo) da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10:4). A lei é santa, justa e boa, porém, através da lei era impossível o homem se justificar, pois a lei era sombra da realidade que se encontra em Cristo “Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, Que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo” (Cl 2:16-17); “PORQUE sendo a lei a sombra dos bens futuros, e não a imagem exata das coisas, nunca, pelos mesmos sacrifícios que continuamente se oferecem cada ano, podem aperfeiçoar os que a eles se chegam” (Hb 10:1).

Certa feita, Jesus e os discípulos estavam caminhando em um dia de sábado, e passando por uma seara, os discípulos de Jesus colheram espigas. Os fariseus de ponto criticaram a atitude dos discípulos de Jesus, ao que Ele respondeu apontando para Davi que, quando esteve em aperto e com fome, entrou no templo e comeu os pães da propiciação juntamente com os seus homens.

Jesus deixa claro que o sábado foi instituído por causa dos homens e não o homem por causa do sábado. E ao final da exposição, Jesus deixa claro que Ele é o Senhor que instituiu o sábado (Mc 2:23-28).

Ora, o sábado foi instituído para que o povo soubesse que precisavam de descanso para a alma, assim como precisavam de descanso para o corpo físico. Os filhos de Israel só teriam descanso quando perguntassem pelas veredas antigas e andassem nela, mas se faziam de rogados e rejeitavam andar segundo a palavra de Deus: “Assim diz o SENHOR: Ponde-vos nos caminhos,  vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas; mas eles dizem: Não andaremos nele” (Jr 6:16).

Jesus veio revelar a vontade de Deus aos homens e orientou a todos dizendo: “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” (Mt 11:29).

A instituição de sábados de festas tinha como foco a raiz de Jessé, ou seja, o Cristo – o Senhor que escondeu o seu rosto da casa de Israel – “E acontecerá naquele dia que a raiz de Jessé, a qual estará posta por estandarte dos povos, será buscada pelos gentios; e o lugar do seu repouso será glorioso” (Is 11:10); “E o efeito da justiça será paz, a operação da justiça, repouso e segurança para sempre” (Is 32:17).

De que adiantava guardar sábados e dias de festas, se eles não entrariam no repouso estabelecido por Deus? “Porque nós, os que temos crido, entramos no repouso, tal como disse: Assim jurei na minha ira: Que não entrarão no meu repouso; embora as suas obras estivessem acabadas desde a fundação do mundo” (Hb 4:3).

O escritor ao Hebreus deixa claro que Josué não deu descanso aos filhos de Israel, embora eles tivessem entrado na terra prometida com ele:

“Porque nós, os que temos crido, entramos no repouso, tal como disse: Assim jurei na minha ira Que não entrarão no meu repouso; embora as suas obras estivessem acabadas desde a fundação do mundo. Porque em certo lugar disse assim do dia sétimo: E repousou Deus de todas as suas obras no sétimo dia. E outra vez neste lugar: Não entrarão no meu repouso. Visto, pois, que resta que alguns entrem nele e que aqueles a quem primeiro foram pregadas as boas novas não entraram por causa da desobediência, Determina outra vez um certo dia, Hoje, dizendo por Davi, muito tempo depois, como está dito: Hoje, se ouvirdes a sua voz, Não endureçais os vossos corações. Porque, se Josué lhes houvesse dado repouso, não falaria depois disso de outro dia. Portanto, resta ainda um repouso para o povo de Deus. Porque aquele que entrou no seu repouso, ele próprio repousou de suas obras, como Deus das suas. Procuremos, pois, entrar naquele repouso, para que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência” (Hb 4:3-11)

Como poderia Josué ter dado repouso aos filhos de Israel, se Davi, muito tempo depois, profetiza acerca de um dia – hoje – quando haveria de ser dado o descanso? Como poderiam ter alcançado descanso, se Deus jurou que aquele povo não entraria no descanso de Deus?

Mas, se ouvissem a voz de Deus anunciada por Davi – hoje – e não endurecessem o coração, certamente entrariam no descanso do Senhor. Se é dito para dar ouvidos à voz de Deus, certo é que há um descanso.

Enquanto os escribas e fariseus ordenavam ao povo que se lavassem antes das refeições, Jesus deixa claro que todos os que o ouviam já estavam limpos pela palavra. Ele deixa claro que o que sai pela boca é o que contamina o homem e não o que entra “Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado” (Jo 15:3).

Cristo é a água limpa providenciada por Deus que purifica o homem de toda imundície, portanto, não é a agua natural que purifica o homem, mas, sim, o Verbo de Deus: “Então aspergirei água pura sobre vós e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei” (Ez 36:25).

A lei e os profetas testificavam do Cristo e Jesus deixa claro essa função das Escrituras: “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam” (Jo 5:39).

A lei foi dada aos filhos de Israel para que reconhecessem que eram pecadores, porém, por causa da carne (sou filho de Abraão) a lei se tornou enferma, ou seja, não produzia o seu efeito, visto que os filhos de Israel se achavam justos, por serem descendentes da carne de Abraão (Rm 8:3).

Por mais que a lei arguisse os judeus como transgressores encerrando tanto judeus quanto gentios debaixo do pecado (Gl 3:22), pois essa era a função da lei, ela tornou-se inócua (enferma) frente ao argumento: ‘Temos por pai Abraão’ (carne).

A lei serviu de ‘aio’ para que os judeus fossem conduzidos a Cristo (Gl 3:24), os judeus, por sua vez, buscavam ser justificados por meio do que foi dado para preservá-los até a vinda do Cristo: “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” (Gl 3:23).

 

O dever dos mestres

“19 Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus” (Mt 5:19).

Jesus evidencia a importância da lei e dos profetas, ao destacar que, qualquer que aviltar (transtornar) um dos mandamentos, por menor que fosse e ensinasse aos homens, será nomeado ‘menor’, ‘sem expressividade’ (ἐλάχιστος)[2] no reino dos céus. Porém, aquele que obedecer e ensinar, será chamado ‘grande’ no reino dos céus.

Torcer o mandamento de Deus é violentar a própria alma, pois o peso decorre de suas próprias palavras: “Porém, ele lhe disse: Mau servo, pela tua boca te julgarei. Sabias que eu sou homem rigoroso, que tomo o que não pus, e sego o que não semeei”  (Lc 19:22); “Mas nunca mais vos lembrareis do peso do SENHOR; porque a cada um lhe servirá de peso a sua própria palavra; pois torceis as palavras do Deus vivo, do SENHOR dos Exércitos, o nosso Deus” (Jr 23:36; Ez 22:26; Pv 8:32-36).

O apóstolo Paulo é exemplo de alguém que é chamado ‘grande’ no reino dos céus, pois creu que Jesus é o Cristo (cumpriu o exigido na lei e nos profetas) e ensinava o evangelho de Cristo aos seus ouvintes, através da lei de Moisés e dos profetas: “E, havendo-lhe eles assinalado um dia, muitos foram ter com ele à pousada, aos quais declarava com bom testemunho o reino de Deus e procurava persuadi-los à fé em Jesus, tanto pela lei de Moisés como pelos profetas, desde a manhã até à tarde” (At 28:23).

 

Justiça superior

“20 Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus (Mt 5:20)

Do mesmo modo que era impossível Nicodemos ver o reino de Deus, apesar de ser juiz, príncipe e fariseu, se não nascesse de novo, também era impossível à multidão que ouvia Jesus entrar no reino dos céus.

O reino dos céus estava vetado ao povo, do mesmo modo que o reino dos céus estava vetado aos escribas e fariseus, ou seja, a justiça deles era equivalente. Daí a ordem: se a justiça do povo não excedesse a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrariam nos céus.

Através desta colocação, Jesus estava demonstrando que os líderes da religião judaica não podiam entrar no reino dos céus, apesar de parecerem justos aos olhos dos homens (Mt 23:28).

Levando-se em conta a seguinte parábola: “E dizia-lhes uma parábola: Pode porventura o cego guiar outro cego? Não cairão ambos na cova?” (Lc 6:39), certo é que a multidão estava em igual condição à dos seus líderes religiosos (Mt 15:12).

Qual a justiça superior à dos escribas e fariseus? A justiça pela qual os seguidores de Jesus haveriam de ser perseguidos e injuriados (Mt 5:10-12).

Uma mudança de concepção (metanoia) nos ouvintes de Jesus era imprescindível, pois tinham zelo de Deus, mas, como profetizou Davi, sem entendimento (Sl 53:3). Por não conhecerem a justiça de Deus, procuraram estabelecer uma justiça própria, não se sujeitando à justiça superior: a que vem de Deus: “Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus, e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus. Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10:3).

A justiça da lei descrevia os seus ouvintes como mortos, pois o homem que fizesse o estipulado na lei haveria de viver pelo que cumprisse (Rm 10:5; Lv 18:5).

No evento das serpentes ardentes, temos uma alegoria que aponta para condição dos filhos de Israel, mortos em delitos e pecados, visto que qualquer que olhasse para a serpente de metal, viveria: “E disse o SENHOR a Moisés: Faze-te uma serpente ardente, e põe-na sobre uma haste; e será que viverá todo o que, tendo sido picado, olhar para ela” (Nm 21:8).

Para viver, era necessário cumprir a lei, que foi interposta com maldição: “Maldito aquele que não confirmar as palavras desta lei, não as cumprindo. E todo o povo dirá: Amém” (Dt 27:26). Para viverem, teriam que olhar para a serpente, segundo o que Deus ordenará ao povo, por intermédio de Moisés.

Os filhos de Israel desconheciam que a justiça superior foi dada gratuitamente a Abraão, quando Deus prometeu que, em seu Descendente, todas as famílias (judeus e gentios) da terra seriam benditas: “Porque a promessa de que havia de ser herdeiro do mundo não foi feita pela lei a Abraão, ou à sua posteridade, mas pela justiça da fé” (Rm 4:13).

Apesar de os filhos de Israel horarem a Deus com os lábios, o coração deles estava longe de Deus (Mt 15:8), e justamente quem veio explicar tudo acerca da lei e dos profetas (Jo 5:25), não foi reconhecido por eles, porque a mensagem de Jesus era contrária a religiosidade judaica (formalismo, legalismo e ritualismo).

Os judeus não se consideravam transgressores da lei e nem atinavam que, qualquer que tentasse guardar a lei, mas tropeçasse em um único ponto dela, era transgressor de toda lei (Tg 2:11). Os descendentes de Jacó não analisavam o motivo pelo qual a lei protestava contra eles, como povo rebelde e fazia referência a eles como injustos, tanto que Moisés deixou claro que os judeus não eram melhores e nem mais justos que os povos vizinhos (Dt 9:4 e 6), principalmente, porque os judeus eram ouvintes da lei, mas nenhum deles a praticavam (Jo 7:19; Rm 2:13).

 

Continua: ‘Não matarás’ e o Sermão da Montanha

 


[1] Hebraísmos –  refere-se a termos ou expressões exclusivas da linguagem dos hebreus (algo semelhante as expressões idiomáticas) que, pela peculiaridade da língua ou do contexto, pode trazer certa dificuldade aos tradutores para verterem o texto em outra língua.

[2] “1646 ελαχιστος elachistos superlativo de elachus (curto); usado como equivalente a 3398; TDNT – 4:648,593; adj 1) o menor, o mínimo 1a) em tamanho 1b) em valor: de administração de negócios ​1c) em importância: que é o momento mínimo 1d) em autoridade: de mandamentos 1e) na avaliação de seres humanos: de pessoas 1f) em posição e excelência: de pessoas” Dicionário Bíblico Strong; “1. elachistos (ελαχιστος). “o mínimo, o menor”, o grau superlativo formado da palavra elachus, “pequeno”, de cujo lugar foi tirado por mikros (o grau comparativo de elassõn, “menos” ). É usado acerca de: (a) tamanho (Tg 3.4. “bem pequeno” ); (b ) quantidade, a administração dos negócios (Lc 16.10. duas vezes; Lc 19.17); (c) importância (1 Co 6.2); (d) autoridade, de mandamentos (Mt 5.19); (e) avaliação, sobre pessoas (Mt 5.19. segunda parte: Mt 25.40,45; 1 Co 15.9): sobre uma cidade (Mt 2.6); sobre atividades ou operações (Lc 12.26; 1 Co 4.3, “mui pouco” ). 2. eiachistoteros (éXaxicrrÓTepoç), grau comparativo formado do n° I , é usado em Ef 3.8. “o mínimo”. 3. mikros (piicpóç). “pequeno, pouco”, é usado em At 8.10 (“o mais pequeno” ) e Hb 8.11 (“o menor”). com referência a hierarquia ou influência. Veja PEQUENO (1), A. n° 1.” Dicionário VINE.

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O Sermão da Montanha e o espírito inatingível da lei

A expressão ‘os tristes’ bem-aventurados, não possui relação com o sentimento de desilusão, frente aos infortúnios da vida e nem decorre da ebulição das emoções a que todos homens estão sujeitos. Os ‘tristes’ enquanto figura que compõe um quadro profético, tem conexão com o advento do Messias, que, segundo o profeta Isaías, foi ungido para apregoar boas novas nos seguintes termos: a tristeza é substituída por glória, gozo e louvor com o objetivo de Deus ser glorificado (Ef 1:12).


As Bem-aventuranças – Parte I

“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e dos fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” (Mateus 5:20)

Como compreender o Sermão da Montanha? Nele, Jesus apresenta princípios éticos e morais[1] do seu reino? O núcleo da mensagem do Sermão da Montanha é de cunho sociocultural? Além dos mandamentos cunhados na lei mosaica, Jesus apresentou novos mandamentos?

Antes de explicarmos algumas nuances pertinentes ao ensino de Cristo à multidão, primeiro faremos análise de alguns textos, que são essenciais à leitura do Sermão da Montanha.

Essa análise é imprescindível à leitura do Sermão da Montanha, vez que trará o conhecimento essencial de algumas peculiaridades pertinentes às Escrituras, que possibilitam a compreensão do discurso de Jesus à multidão.

 

Parábolas

Uma característica intrínseca à mensagem anunciada pelos profetas da Antiga Aliança era as visões, as parábolas e os enigmas: “Falei aos profetas e multipliquei a visão; e pelo ministério dos profetas propus símiles” (Os 12:10).

Os profetas anunciavam visões, propunham parábolas ou apresentavam enigmas, pelo fato de Deus não falar abertamente ao povo. Moisés era exceção à regra, visto que, nem mesmo os profetas, tinham o privilégio de falar cara a cara, boca a boca com Deus, a não ser por sonhos: “Boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas; pois ele vê a semelhança do SENHOR; por que, pois, não tivestes temor de falar contra o meu servo, contra Moisés?” (Nm 12:8).

Nas Escrituras, encontramos alguns profetas que foram taxados pelo povo de contadores de parábolas, entretanto, os profetas se resignavam em falar estritamente o que Deus ordenou: “Então disse eu: Ah! Senhor DEUS! Eles dizem de mim: Não é este um proferidor de parábolas?” (Ez 20:4); “Filho do homem, propõe um enigma e profere uma parábola para com a casa de Israel” (Ez 17:2).

Deus falou, muitas vezes, ao povo de Israel, utilizando-se dos seus mensageiros, e, na plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho Unigênito para anunciar aos homens as boas novas (Hb 1:1-2), porém, algo não mudou: assim como os profetas da Antiga Aliança, Jesus falou ao povo utilizando parábolas: “E falou-lhe de muitas coisas por parábolas, dizendo: Eis que o semeador saiu a semear” (Mt 13:3).

Por que Jesus falava por parábolas? Uma das pistas é o anunciado pelos profetas:

“Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não veem; e, ouvindo, não ouvem nem compreendem” (Mt 13:13).

Falar à multidão por parábolas é uma das características mais importantes a se observar nos discursos de Jesus. O evangelista Marcos é contundente: Jesus só falava ao povo por parábolas! Esta observação do evangelista nos obriga a analisar com cuidado todos os discursos de Jesus, principalmente, quando identificamos o público alvo da mensagem: “E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” (Mc 4:34).

Se o discurso de Jesus tem como público a multidão, os escribas ou os fariseus, provavelmente, haverá uma parábola ou um enigma a ser interpretado.

Se o discurso tem os discípulos como público alvo, faz-se necessário analisar se Jesus falou abertamente ou expôs uma parábola: “E ele disse-lhes: a vós vos é dado saber os mistérios do reino de Deus, mas aos que estão de fora, todas estas coisas se dizem por parábolas” (Mc 4:11).

Para fixar o que foi exposto, faça a seguinte análise: leia o capítulo 13 de Mateus, analise a mensagem de Jesus e qual era o público alvo. O discurso é uma parábola? Jesus estava falando com os discípulos, os escribas, os fariseus, os pecadores, a multidão? Seria possível compreender a mensagem de Jesus, sem a explicação que foi dada em particular aos discípulos?

O evangelista Mateus, assim como Marcos, deixou registrado que Jesus nada dizia à multidão, sem fazer uso de parábolas e, em seguida, apresenta o motivo: “Tudo isto disse Jesus, por parábolas à multidão e nada lhes falava sem parábolas. Para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta, que disse: Abrirei em parábolas a minha boca; Publicarei coisas ocultas, desde a fundação do mundo” (Mt 13:34-35); “Abrirei a minha boca numa parábola; falarei enigmas da antiguidade” (Sl 78:2); “Inclinarei os meus ouvidos a uma parábola; declararei o meu enigma na harpa” (Sl 49:4).

Através da explicação do evangelista Mateus, conclui-se que o Salmo 78 não se refere ao salmista, antes que o Salmo é uma predição que aponta para o Messias. O salmista predisse que o Messias abriria a boca propondo parábolas e enigmas: “Abrirei a minha boca numa parábola; falarei enigmas da antiguidade” (Sl 78:2 compare com Mt 13:35).

Atentar para o público alvo da mensagem é de tamanha importância para a compreensão da mensagem, que até os discípulos questionaram se a mensagem era para todos, ou só para eles: “E disse-lhe Pedro: Senhor, dizes essa parábola a nós, ou também a todos?” (Lc 12:41).

Diante do que foi exposto, o leitor deve considerar se o que foi dito no Sermão da Montanha é um discurso ‘aberto’, ou se o discurso é uma grande parábola composta de enigmas e símiles, tendo em vista o público alvo tratar-se de uma multidão.

Certa vez, Deus mandou Moisés reunir os filhos de Israel ao pé do Monte Sinai para quando Deus falasse com Moisés, eles também pudessem ouvir. Quando o povo viu o monte fumegando, trovões e relâmpagos, se retiram do local onde deviam ficar reunidos e disseram a Moisés: “Fala tu conosco e ouviremos: e não fale Deus conosco, para que não morramos” (Ex 20:18-21).

O povo ficou com medo de morrer quando vislumbraram a glória do Altíssimo, evidenciando o quanto eram rebeldes, incrédulos e descrentes. Tremenda injustiça não confiar naquele que é imutável e que não mente, ao que Moisés disse: “Não temais, Deus veio para vos provar, e para que o seu temor esteja diante de vós, afim de que não pequeis” (Ex 20:20).

Deus se relaciona com o homem através da sua fidelidade, e o homem pela confiança, portanto, não pode ter medo de Deus. Deus somente estava colocando eles à prova, para apresentar a sua palavra (temor) para que não pecassem contra o Senhor.

O contexto da lei era para instruir o povo judeu em justiça, mas, dali em diante, Deus continuou enviando os seus santos profetas que utilizavam parábolas e enigmas. Jesus veio com o mesmo propósito: revelar Deus aos homens, por isso utilizou as mesmas figuras e parábolas anunciadas pelos profetas.

As parábolas e os enigmas serviam para facilitar a compreensão, mas os filhos de Israel rejeitavam a doutrina de Jesus “E com muitas parábolas tais lhes dirigia a palavra, segundo o que podiam compreender” (Mc 4:33).

Portanto, para uma boa interpretação do Sermão da Montanha é imprescindível essa análise inicial!

 

Divisões e títulos

As Bíblias oferecem o recurso de divisões em capítulos e versículos para facilitar a localização e citação de determinadas passagens, desde o Século XIII[2]. Embora úteis à localização e indicação de uma citação, não faz parte do original, portanto, o leitor não pode se pautar nessas divisões e subdivisões para determinar quando inicia ou encerra um assunto ou argumento.

Hoje, além das divisões em capítulo e versículo, introduziram títulos e subtítulos que, invariavelmente, influencia a leitura, ou acaba sugerindo ao leitor uma mudança de assunto ou desmembramento do discurso.

O palavra de Jesus no Sermão da Montanha é una e coesa, com começo meio e fim. Com a introdução de divisões, subdivisões, títulos e subtítulos, a ideia inicial que se tem é de que se trata de um discurso fragmentado, que aborda diversos temas, portanto, sem coesão.

A concepção de que Jesus aborda diversas questões ao longo do Sermão da Montanha é totalmente perniciosa para uma boa interpretação do discurso.

 

As bem-aventuranças

“1 E JESUS, vendo a multidão, subiu a um monte, e, assentando-se, aproximaram-se dele os seus discípulos;

2 E, abrindo a sua boca, os ensinava, dizendo:

3 Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus;

4 Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados;

5 Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra;

6 Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos;

7 Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia;

8 Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus;

9 Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus;

10 Bem-aventurados os que sofrem perseguição, por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus;

11 Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por minha causa.

12 Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas, que foram antes de vós” (Mateus 5:1-12).

 

Após subir em um monte, por causa da multidão, Jesus assentou-se –  ação que indicou a todos que iria ensinar – quando se aproximaram dele os seus discípulos (Lc 4:20).

Jesus iniciou o seu discurso apresentando nove características essenciais aos bem-aventurados: pobres de espírito, tristes, mansos, famintos e sedentos de justiça, misericordiosos, puros de coração, pacificadores, perseguidos por causa da justiça e injuriados (Mt 5:3-11).

Todas estas características decorrem de parábolas e figuras utilizadas pelos profetas do Antigo Testamento, portanto, registradas nas Escrituras, ou seja, Jesus não inventou nenhuma delas.

‘Pobre de espírito’ é uma figura que remete a uma peculiaridade do bem-aventurado, assim como triste, manso, faminto e sedento de justiça, etc. É impossível ser manso e não ser pacificador. As peculiaridades do bem-aventurado são indissociáveis, pois os pobres de espírito também são identificados como aqueles que choram, ou que tem sede e fome de justiça, ou por serem puros de coração, ou por serem mansos, etc.

Considerando alguns aspectos do ministério de Jesus e o que foi anunciado pelos profetas, conclui-se que as bem-aventuranças anunciadas não visavam questões de cunho social. É um equívoco considerar que a bem-aventurança anunciada por Jesus, visava alcançar os pobres e marginalizados do seu tempo.

Quando Jesus anunciou as Bem-aventuranças, na verdade estava fazendo referência às profecias incrustadas nas Escrituras, ou seja, utilizou alguns elementos principais das profecias, como sujeito da promessa, para fazer o povo lembrar das promessas que apontavam um tempo de refrigério pela presença do Messias (At 3:19-20).

Como Deus anunciou a Abraão, que, em sua descendência, seriam benditas todas as famílias da terra (At 3:25), e essa promessa foi reiterada diversas vezes pelos profetas, e foram utilizados diversos recursos como figuras, parábolas, enigmas, símiles, etc., portanto, uma simples referência fez com que o povo se lembrasse das beatitudes decorrentes da presença do Cristo.

A abordagem de Cristo no Sermão da Montanha não possui viés socioeconômico ou de reestruturação política, pois a bem-aventurança anunciada no discurso decorre da promessa feita a Abraão, que Deus cumpriu quando ressuscitou o Senhor Jesus Cristo dentre os mortos.

 

Quem são os pobres de espírito?

“Porque a minha mão fez todas estas coisas e assim todas elas foram feitas, diz o SENHOR; mas para esse olharei, para o pobre e abatido de espírito e que treme da minha palavra” (Is 66:2; Is 57:15).

Segundo o profeta Isaias, o ‘pobre’, o ‘abatido’ ou o ‘humilde’ de espírito é aquele que obedece (treme) a palavra de Deus. Ao dizer: “Bem-aventurados os pobres de espírito”, Jesus está anunciado que Deus é favorável (olharei) àqueles que Lhe obedecem (Mt 7:24).

Aquele que obedece (inclina o ouvido) o mando de Deus alcança vida, pois lhe é concedido por Deus as firmes beneficências prometidas a Davi: o Cristo, o reino dos céus: “Inclinai os vossos ouvidos e vinde a mim; ouvi e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, dando-vos as firmes beneficências de Davi” (Is 55:3; Mt 10:7).

O que Deus prometeu a Davi? Um descendente! A aliança eterna de Deus com os que inclinam os ouvidos (atende, obedece) é conceder o Cristo, o Filho de Davi, poderosa salvação na casa (descendência) de Davi (Lc 1:69).

Através da definição dada pelo profeta Isaias, é possível compreender quem são os pobres de espírito, quesito essencial para compreender o símile: “Bem-aventurado os pobres de espírito…”, visto que Jesus nunca falava abertamente ao povo, somente por parábolas (Mt 13:34).

Através do profeta Isaias verifica-se que Jesus não está tratando de questões sociais, políticas ou econômicas. Na verdade, Ele está tratando, tanto com pessoas ricas, quanto com pessoas pobres, do ponto de vista econômico, tanto com servos, quanto com reis, do ponto de vista social, tanto sábios, quanto com ignorantes, do ponto de vista cultural (Sl 49:2), para que reconheçam, através da mensagem de Cristo, que são miseráveis, necessitados, pobres.

A miserabilidade socioeconômica não dá ao homem a condição de pobre, abatido ou humilde diante de Deus. Deus reconhece o homem como pobre, abatido ou humilde, quando o homem se submete a Ele na condição de servo, ou seja, obediente. É humilde, ou antes, se humilha aquele que deixa de se guiar pela vaidade dos seus pensamentos e que se apresenta diante de Deus, na condição de servo, para obedecê-lo.

Neste ponto, o evangelho não se propõe a sujeitar o homem a Deus, através de ritos, leis e formas impostos pela religião. O evangelho não se propõe a controlar a existência do homem em sociedade, quanto ao que comer, beber, vestir, casar, procriar, comprar, vender, trabalhar, etc., antes, em que o homem creia que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo, que havia de vir ao mundo.

O humilde de espírito, no advento da Nova Aliança, é aquele que se sujeita à seguinte ordenança de Deus:

“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1Jo 3:23).

Príncipes, cavalos, cavaleiros, força, violência, braço, etc., são figuras utilizadas pelos profetas para apontar os soberbos, altivos, ricos, abastados, etc. (Sl 49:13), mas, qualquer que confia no Senhor, é descrito como oprimido, faminto, pobre, abatido, etc., figuras utilizadas pelos profetas para propor símiles e compor parábolas (Sl 146).

Não há ninguém (rico ou pobre, judeu ou gentil) que possa dar o resgate por sua própria alma ou de outrem (Sl 49:6-8). Todos os homens necessitam da salvação providenciada por Deus, portanto, todos precisam de reconhecer que são necessitados. Os judeus, por sua vez, não reconheciam que eram necessitados, pobres, etc., antes se comportavam como ricos, abastados, etc., pois se vangloriavam da descendência (somos filhos de Abraão), se vangloriavam da carne (circuncisão) e se vangloriavam da lei (Moisés).

Quem obedece a Deus, se posiciona diante d’Ele, na condição de humilde, necessitado e pobre, portanto, é agradável ao Senhor, como fez o publicano:

“O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!” (Lc 18:13); “O SENHOR se agrada dos que o temem e dos que esperam na sua misericórdia” (Sl 147:11; Mt 9:13).

‘Esperar’ na misericórdia, significa ‘confiar’. Para o homem alcançar a misericórdia de Deus, basta obedecê-Lo. Quando o homem obedece a Deus, demonstra, efetivamente, que espera em Deus, ou seja, que confia na sua palavra, que diz: “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” (Êx 20:6).

 

Quem são os que choram?

“A apregoar o ano aceitável do SENHOR e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes. A ordenar acerca dos tristes de Sião, que se lhes dê glória, em vez de cinza, óleo de gozo, em vez de tristeza, vestes de louvor, em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem árvores de justiça, plantações do SENHOR, para que ele seja glorificado” (Is 61:2-3).

Quando é dito que os tristes são bem-aventurados, os ouvintes de Jesus deveriam lembrar-se da promessa de alegria registrada pelo profeta Isaias aos tristes!

A expressão ‘os tristes’ bem-aventurados, não possui relação com o sentimento de desilusão, frente aos infortúnios da vida e nem decorre da ebulição das emoções a que todos homens estão sujeitos.

Os ‘tristes’ enquanto figura que compõe um quadro profético, tem conexão com o advento do Messias, que, segundo o profeta Isaías, foi ungido para apregoar boas novas nos seguintes termos: a tristeza é substituída por glória, gozo e louvor com o objetivo de Deus ser glorificado (Ef 1:12).

O anúncio da bem-aventurança dos que choram indica a chegada do tempo de refrigério (salvação). A mensagem de boas novas anunciada por Cristo aos pobres era para possibilitar aos seus ouvintes elementos para que identificassem, pelas Escrituras, o reino de Deus, em meio aos homens: Cristo. “Respondendo, então, Jesus, disse-lhes: Ide e anunciai a João o que tendes visto e ouvido: que os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres anuncia-se o evangelho” (Lc 7:22).

Ao dizer ‘Bem-aventurados os tristes…’, Jesus estava dando a entender que a profecia de Isaias naquele dia se cumpriu nos ouvidos dos que ali estavam e produziria refrigério naqueles que dessem crédito: “Então começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos” (Lc 4:21); “O ESPÍRITO do Senhor DEUS está sobre mim; porque o SENHOR me ungiu, para pregar boas novas aos pobres; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos; A apregoar o ano aceitável do SENHOR e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes” (Is 61:1-2); “Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e para vivificar o coração dos contritos” (Is 57:15).

Os tristes bem-aventurados são os quebrantados, o mesmo que contritos de espírito “Perto está o SENHOR dos que têm o coração quebrantado e salva os contritos de espírito” (Sl 34:18; Sl 51:17). O ‘quebrantado’ é aquele que deixa de ser ‘altivo’ e se faz ‘servo’, ou seja, obedece ao mandamento de Deus, que, na nova aliança, é crer em Cristo: “A minha alma está quebrantada de desejar os teus juízos em todo o tempo” (Sl 119:20).

 

Quem são os mansos?

“Guiará os mansos em justiça e aos mansos ensinará o seu caminho” (Sl 25:9; Mt 11:29).

Os mansos são aqueles que se deixam instruir como as crianças e aprendem de Cristo: o humilde e manso de coração. Os mansos são os humildes de espírito e vice-versa: “Melhor é ser humilde de espírito com os mansos, do que repartir o despojo com os soberbos” (Pv 16:19).

O Senhor convida os ‘meninos’ à instrução (Sl 34:11), não os ‘tolos’, porque diferente do tolo, a criança se deixa instruir. O mesmo Senhor, em outra passagem, diz: “Eis-me aqui, com os filhos que me deu o SENHOR, por sinais e por maravilhas em Israel, da parte do SENHOR dos Exércitos, que habita no monte de Sião” (Is 8:18); “Vinde, meninos, ouvi-me; eu vos ensinarei o temor do SENHOR” (Sl 34:11); “Ainda que repreendas o tolo como quem bate o trigo com a mão de gral entre grãos pilados, não se apartará dele a sua estultícia” (Pv 27:22); “A estultícia está ligada ao coração da criança, mas a vara da correção a afugentará dela” (Pv 22:15).

Daí o imperativo: “Em verdade vos digo que, qualquer que não receber o reino de Deus como menino, não entrará nele” (Lc 18:17).

Os mansos são os que obedecem a Deus, ou seja, que põem por obra o seu mandamento: “Buscai ao SENHOR, vós todos os mansos da terra, que tendes posto por obra o seu juízo; buscai a justiça, buscai a mansidão; pode ser que sejais escondidos no dia da ira do SENHOR” (Sf 2:3).

 

Quem são os que tem fome e sede de justiça?

“E será para nós justiça, quando tivermos cuidado de cumprir todos estes mandamentos perante o SENHOR nosso Deus, como nos tem ordenado” (Dt 6:25).

Aquele que se acorrenta a uma árvore defendendo uma causa ecológica? Quem abraça uma causa social? Que levanta uma bandeira à não beligerância? Não!

Na verdade, tem fome e sede de justiça aquele que anseia por obedecer ao mandamento de Deus, pois está escrito: Se cuidar em cumprir o mandamento como foi ordenado é justiça, ou seja, quem anseia por justiça é aquele que obedece, tem ‘fome’ e ‘sede’ de cuidar em cumprir como foi ordenado!

Quem tem fome e sede e justiça crê no enviado de Deus, pois este é o seu mandamento: “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” (Jo 6:29); “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1Jo 3:23).

É no evangelho que se descobre a justiça de Deus, e somente nele é possível ao homem que tem sede e fome de justiça ser saciado!

A fome e a sede são figuras que remetem ao pobre, ao necessitado de espírito. O órfão, a viúva e o estrangeiro também são figuras que remetem aos necessitados, aos pobres de espírito, aqueles a quem Deus toma por filhos “Pai de órfãos e juiz de viúvas é Deus, no seu lugar santo” (Sl 68:5).

Deus fartará os necessitados, segundo a promessa que foi feita a Davi: o Cristo, como bem reitera o profeta no Salmo 132:

“O SENHOR jurou com verdade a Davi e não se apartará dela: Do fruto do teu ventre porei sobre o teu trono. Se os teus filhos guardarem a minha aliança e os meus testemunhos, que eu lhes hei de ensinar, também os seus filhos se assentarão perpetuamente no teu trono. Porque o SENHOR escolheu a Sião; desejou-a para a sua habitação, dizendo: Este é o meu repouso para sempre; aqui habitarei, pois o desejei. Abençoarei abundantemente o seu mantimento; fartarei de pão os seus necessitados” (Sl 132:11-15).

 

Quem são os misericordiosos?

“Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia, até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos” (Dt 7:9)

As pessoas que nutrem um sentimento de dor e de solidariedade em relação a alguém que sofre uma tragédia pessoal ou que caiu em desgraça? Dó? Compaixão? Piedade?

Quando Saul desobedeceu a Deus e deixou de eliminar Agague, rei dos amalequitas, bem como, o melhor do interdito, o que foi que Deus disse? Obedecer é melhor do que sacrificar, ou seja, melhor era exterminar todos os amalequitas que apresentar a Deus bois e ovelhas! (1Sm 15:22).

Essa passagem bíblica de Saul evidencia que a misericórdia de Deus decorre da obediência à Sua palavra, e não a um sentimento de solidariedade, compaixão ou piedade “Todas as veredas do SENHOR são misericórdia e verdade para aqueles que guardam a sua aliança e os seus testemunhos” (Sl 25:10).

Quando poupou a vida de Agague, Saul não exerceu misericórdia. Ele estava sendo misericordioso, enquanto estava exterminando os amalequitas, estava cumprindo o mandamento de Deus, que diz: Misericórdia quero! “Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos” (Os 6:6).

Deus deixa claro a quem a sua misericórdia e amor é direcionado: “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” (Êx 20:6), ou seja: “Eu amo aos que me amam, e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17).

A misericórdia de Deus é só para os que O obedecem, portanto, os ‘misericordiosos’ bem-aventurados, que alcançam misericórdia, são os que ‘amam’ a Deus, ou seja, que O obedecem.

Deus já havia instruído Israel, quando disse a Moisés que teria misericórdia de quem Ele tivesse misericórdia, um trocadilho para evidenciar que Deus tem misericórdia dos que O obedecem.

Os que obedecem a Deus são recebidos como filhos, portanto, são nomeados misericordiosos, assim como o Pai Celeste é misericordioso.

A misericórdia de Deus foi evidenciada a todos os homens, inclusive aos gentios, na pessoa do seu Filho – Jesus Cristo – entretanto, os desobedientes, iníquos e pérfidos não estão sob o abrigo da misericórdia de Deus: “Tu, pois, ó SENHOR, Deus dos Exércitos, Deus de Israel, desperta para visitares todos os gentios; não tenhas misericórdia de nenhum dos pérfidos que praticam a iniquidade. (Selá.)” (Sl 59:5).

 

Quem são os limpos de coração?

“Tal é a geração daqueles que o buscam, daqueles que buscam a tua face, ó Deus de Jacó” (Sl 24:6).

O Salmo 24 tem resposta para essa pergunta!

Os limpos de coração são aqueles que buscam a face do Senhor, ou seja, os gerados de novo da semente incorruptível (1Pd 1:23). É através do novo nascimento que o homem se torna geração do Senhor, portanto, limpo de coração, tal qual Ele é neste mundo “Nisto é perfeito o amor para conosco, para que no dia do juízo tenhamos confiança; porque, qual ele é, somos nós também neste mundo” (1Jo 4:17).

São limpos de coração, porque foram circuncidados pelo Pai celeste! Através da circuncisão de Cristo o coração de pedra é extraído e Deus concede um novo coração de carne limpo: “E dar-vos-ei um coração novo e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra e vos darei um coração de carne” (Ez 36:26).

É através da aspersão da água pura, pelo Espírito Eterno, que o homem alcança um coração novo e limpo, ou seja, o homem nasce de novo da água e do Espírito, pois Deus diz: “Então aspergirei água pura sobre vós e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei” (Ez 36:25).

Os que creem veem a salvação de Deus, pois Deus se manifestou ao mundo na pessoa do seu Filho (Jo 1:18), pois Cristo veio revelar o Pai aos homens: “E pôs um novo cântico na minha boca, um hino ao nosso Deus; muitos o verão e temerão e confiarão no SENHOR” (Sl 40:3); “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21); “E a glória do SENHOR se manifestará e toda a carne juntamente a verá, pois a boca do SENHOR o disse” (Is 40:5); “O SENHOR desnudou o seu santo braço, perante os olhos de todas as nações; e todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus” (Is 52:10).

É através do resplendor do rosto de Cristo – o Senhor que escondeu a sua face da casa de Israel – que o homem é salvo: “Faze-nos voltar, ó Deus, e faze resplandecer o teu rosto, e seremos salvos” (Sl 80:3); “Esconderei, pois, totalmente, o meu rosto naquele dia, por todo o mal que tiver feito, por se haverem tornado a outros deuses” (Dt 31:18); “E esperarei ao SENHOR, que esconde o seu rosto da casa de Jacó e a ele aguardarei” (Is 8:17).

 

Quem são os pacificadores?

“Ah! se tivesses dado ouvidos aos meus mandamentos, então seria a tua paz como o rio e a tua justiça como as ondas do mar!” (Is 48:18).

Qualquer que dá ouvidos (crédito, obedece) ao mandamento de Deus é pacificador!

Aquele que se deixa instruir pelo Senhor Jesus, que é manso e humilde de coração, cumpre o mandamento de dar ouvidos ao anunciado por Deus, portanto, são filhos ensinados do Senhor, e a paz deles é abundante: “E todos os teus filhos serão ensinados do SENHOR; e a paz de teus filhos será abundante” (Is 54:13); “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” (Mt 11:29).

O termo grego ειρηνοποιος, traduzido por ‘pacificador’, significa ‘que ama a paz’, ou seja, que honra, que obedece a paz, e Cristo é a nossa paz (Ef 2:14). Cristo concede filiação divina a todos os que O recebem: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” (Jo 1:12); “Aparta-te do mal e faze o bem; procura a paz e segue-a” (Sl 34:14).

Cristo é o tema da mensagem de paz anunciada pelos ‘pacificadores’: paz para os que estão longe (gentios) e paz para os que estão perto (judeus): “Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz, para o que está longe; e para o que está perto, diz o SENHOR, e eu o sararei” (Is 57:19); “Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto. Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio” (Ef 2:13-14); “Escutarei o que Deus, o SENHOR, falar; porque falará de paz ao seu povo, e aos santos, para que não voltem à loucura” (Sl 85:8); “Muita paz tem os que amam a tua lei, e para eles não há tropeço” (Sl 119:165).

Aqueles que têm fome e sede de justiça são pacificadores, pois Deus diz: “Até que se derrame sobre nós o espírito lá do alto; então o deserto se tornará em campo fértil e o campo fértil será reputado por um bosque. E o juízo habitará no deserto, e a justiça morará no campo fértil. E o efeito da justiça será paz, e a operação da justiça, repouso e segurança para sempre” (Is 32:15-17); “SENHOR, tu nos darás a paz, porque tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras” (Is 26:12).

 

A quem pertence o reino dos céus?

“E também todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições” (2Tm 3:12)

O reino dos céus pertence a todos quantos sofrem perseguição, por causa da justiça, ou seja, do evangelho de Cristo. Todos quantos são injuriados e perseguidos, ou que, mentindo, disserem em desfavor deles toda sorte de mal, são bem-aventurados por causa de Cristo: “Mas também, se padecerdes por amor da justiça, sois bem-aventurados” (1Pd 3:14-16).

As bem-aventuras decorrem de Cristo, pois Ele é a justiça de Deus e o rei estabelecido para reinar em Sião: “Eu, porém, ungi o meu Rei, sobre o meu santo monte de Sião. Proclamarei o decreto: o SENHOR me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei” (Sl 2:6-7); “Porque o trono se firmará em benignidade, e sobre ele, no tabernáculo de Davi, se assentará, em verdade, um que julgue e busque o juízo e se apresse a fazer justiça” (Is 16:5); “EIS que reinará um rei com justiça e dominarão os príncipes segundo o juízo” (Is 32:1); “Justiça e juízo são a base do teu trono; misericórdia e verdade irão adiante do teu rosto” (Sl 89:14; Sl 97:2; Sl 98:2).

Cristo é o louvor e a mão direita (destra) de Deus cheia (plena) de justiça, o santo braço desnudado perante todos os povos: “Segundo é o teu nome, ó Deus, assim é o teu louvor, até aos fins da terra; a tua mão direita está cheia de justiça” (Sl 48:10); “Do aumento deste principado e da paz não haverá fim, sobre o trono de Davi e no seu reino, para o firmar e o fortificar com juízo e com justiça, desde agora e para sempre; o zelo do SENHOR dos Exércitos fará isto” (Is 9:7); “Perto está a minha justiça, vem saindo a minha salvação e os meus braços julgarão os povos; as ilhas me aguardarão e no meu braço esperarão” (Is 51:5); “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça e paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 14:17).

Quando anunciou as beatitudes, Jesus fez uso de algumas figuras utilizadas pelos profetas da Antiga Aliança, que fazem referência àqueles que obedecem a Deus.

Pobres, tristes, mansos, famintos e sequiosos de justiça, misericordiosos, limpos de coração, pacificadores, perseguidos, são figuras que remetem aos obedientes.

As beatitudes são um anúncio de que as profecias das Escrituras estavam se cumprindo.

Observe o que foi profetizado por Isaias:

“E naquele dia os surdos ouvirão as palavras do livro e dentre a escuridão, dentre as trevas, os olhos dos cegos as verão. E os mansos terão gozo sobre gozo no SENHOR; e os necessitados entre os homens se alegrarão no Santo de Israel. Porque o tirano é reduzido a nada e se consome o escarnecedor e todos os que se dão à iniquidade são desarraigados; Os que fazem culpado ao homem por uma palavra e armam laços ao que repreende na porta e os que sem motivo põem de parte o justo. Portanto, assim diz o SENHOR, que remiu a Abraão, acerca da casa de Jacó: Jacó não será agora envergonhado, nem agora se descorará a sua face. Mas, quando ele vir seus filhos, obra das minhas mãos no meio dele, santificarão o meu nome; sim, santificarão ao Santo de Jacó e temerão ao Deus de Israel. E os errados de espírito virão a ter entendimento e os murmuradores aprenderão doutrina” (Is 29:18-24).

Jesus Cristo é o Senhor que foi convidado a se assentar à destra da Majestade nas alturas (Sl 110:1), a quem os filhos de Israel deveriam santificar o nome, conforme profetizou Isaias e o apóstolo Pedro evidenciou ao falar da perseguição que sofre os que seguem a Cristo: “Mas também, se padecerdes por amor da justiça, sois bem-aventurados. E não temais com medo deles, nem vos turbeis; Antes, santificai ao SENHOR Deus em vossos corações; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós” (1Pe 3:14-15); “Não chameis conjuração a tudo quanto este povo chama conjuração; e não temais o que ele teme, nem tampouco vos assombreis. Ao SENHOR dos Exércitos, a Ele santificai; e seja Ele o vosso temor e seja Ele o vosso assombro” (Is 8:12-13).

É impossível alguém ser manso e não ser misericordioso ou ter o coração limpo e não ser pacificador, pois as beatitudes são características que remetem à pessoa que ouve a doutrina de Cristo e a pratica (Mt 7:24). Todas essas figuras se complementam e remetem àqueles que se sujeitam a Deus, como servo, crendo em Cristo como o enviado de Deus.

Os profetas utilizaram essas figuras para anunciarem a vinda do Cristo, pois Cristo é a base da nova aliança, perpétua, estabelecida por Deus com os povos, segundo o que foi prometido a Davi: um Renovo justo, o rebento da raiz de Jessé, o Descendente, etc., sendo que todos os profetas da Antiga Aliança foram perseguidos por falarem a seus compatriotas dessa Nova Aliança: “Inclinai os vossos ouvidos e vinde a mim; ouvi e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, dando-vos as firmes beneficências de Davi” (Is 55:3; Jr 31:31-34; Hb 8:13).

Os profetas, ao darem testemunho de Cristo, utilizaram as mesmas figuras que Cristo empregou, quando anunciou as beatitudes. Os profetas da Antiga Aliança somente sabiam (porque foi revelado a eles), que o que ministravam não pertencia a Israel e por isso se questionavam sobre o tempo, ou ocasião de tempo, que se dariam as maravilhas anunciadas (1Pe 1:10 -12).

Esta é a essência do Sermão da Montanha:

“E dizendo: O tempo está cumprido e é chegado o reino de Deus. Arrependei-vos e crede no evangelho” (Mc 1:15).

No Sermão da Montanha, Jesus revela ao povo, através das figuras utilizadas pelos profetas, que o tempo de refrigério que constava nas Escrituras foi inaugurado pela presença do reino de Deus em meio aos homens – Cristo – que anunciava o reino dos céus, um reino que não era desse mundo: “Ao qual disse: Este é o descanso, dai descanso ao cansado; e este é o refrigério; porém não quiseram ouvir” (Is 28:12); “Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados e venham, assim, os tempos do refrigério pela presença do SENHOR” (At 3:19).

O que aquela multidão esperava? O que foi ensinado pelos escribas e fariseus: que o reino de Israel seria restaurado com a vinda do Messias! Para os judeus, profecias como a de Joel: “PORQUE, eis que naqueles dias e naquele tempo, em que removerei o cativeiro de Judá e de Jerusalém” (Jo 3:1), se cumpriria com o advento do Cristo.

Mas, não foi o que ocorreu, pois a restauração prevista nas Escrituras não era primeiramente nacional, mas sim, para os gentios, para que se cumprisse a bem-aventurança prometida a Abraão, que diz: “… e em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12:3); “E, respondendo ele, disse-lhes: Em verdade, Elias virá primeiro, e todas as coisas restaurará; e, como está escrito do Filho do homem, que ele deva padecer muito e ser aviltado” (Mc 9:12).

Quando anunciou que faria casa (descendência) a Davi, Deus anunciou que o Descendente de Davi edificaria uma casa a Deus e, em seguida, prometeu que estabeleceria o trono do descendente dado a Davi para sempre.

Como Deus não habita em casa feita por mãos de homens, o Descendente prometido a Davi – Cristo – está a edificar a Sua Igreja como templo santo ao Senhor, do qual todos os que creem se constituem ‘pedras vivas’ edificadas sobre a pedra angular, para morada de Deus em Espírito.

Somente após o advento da igreja, quando se dará o encerramento do tempo dos gentios, que será restaurado o reino prometido a Israel (1Sm 7:13). O povo de Israel estava tão fixo na promessa de restauração do reino de Israel, que se esqueceu de que havia uma promessa a Abraão, acerca de todas as famílias da terra.

Quando Jesus veio, João Batista o precedeu – o Elias – e a restauração implementada não era de um reino visível, mas, sim, de um reino que não era deste mundo, do qual todos os que creem em Cristo, não importando a nação, podem ser participantes.

Mas, como mudar a concepção de um povo que estava fito na promessa: “À tua semente darei esta terra” (Gn 12:7), e não dava ouvidos à voz de Deus, para que o juramento feito aos pais fosse confirmado? (Jr 11:4-5). Como mudar a concepção de um povo que, por circuncidar o prepúcio da carne, mas não deixava Deus circuncidar o coração, achava que era melhor que as nações vizinhas? (Jr 9:26) Como mudar o entendimento de um povo que tinha a lei de Moisés chegada à boca, mas longe do coração? (Jr 12:2; Is 29:13).

A mensagem do Sermão do Monte visa produzir uma mudança de concepção (metanóia) no povo, por isso, Jesus não deu testemunho abertamente de Si mesmo, dizendo: “Eu sou o Cristo”, antes, teve que anunciar por parábolas e símiles o testemunho que Deus deu acerca do Filho do homem. Os filhos de Israel deveriam comparar a doutrina de Cristo com as Escrituras e reconhecer que Jesus era o enviado de Deus, por conseguinte, reconhecendo Cristo como o Filho de Davi, estariam crendo no testemunho de Deus “Jesus lhes respondeu, e disse: A minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou. Se alguém quiser fazer a vontade dele, pela mesma doutrina conhecerá se ela é de Deus, ou se eu falo de mim mesmo” (Jo 7:16-17).

Enquanto o povo aguardava o reino messiânico, Jesus – o Renovo Justo prometido a Davi – se apresenta como a justiça, pela qual os seus seguidores seriam perseguidos e injuriados: “Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, sendo rei, reinará e agirá sabiamente e praticará o juízo e a justiça na terra. Nos seus dias Judá será salvo e Israel habitará seguro; e este será o seu nome, com o qual Deus o chamará: O SENHOR JUSTIÇA NOSSA” (Jr 23:5-6).

Nas entrelinhas, Jesus se revela como a justiça, que dá direito ao reino dos céus, e qualquer perseguido por causa d’Ele seria recompensado: “Não rejeiteis, pois, a vossa confiança, que tem grande e avultado galardão” (Hb 10:35), mas, a multidão pensava, equivocadamente, que o reino estava na iminência de se manifestar, quando Jesus chegou próximo de Jerusalém. Por causa da cegueira espiritual, não perceberam que o reino de Deus já estava manifesto: “E, ouvindo eles estas coisas, ele prosseguiu e contou uma parábola; porquanto estava perto de Jerusalém, e cuidavam que logo se havia de manifestar o reino de Deus” (Lc 19:11).

A causa de Cristo é a causa da justiça e todos que seguirem a Cristo serão perseguidos e injuriados, do mesmo modo que os profetas foram perseguidos: “E neste teu esplendor cavalga prosperamente, por causa da verdade, da mansidão e da justiça; e a tua destra te ensinará coisas terríveis” [assombrosas] (Sl 45:4).

 

As similitudes

“13 Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta, senão para se lançar fora e ser pisado pelos homens.

14 Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte;

15 Nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador e dá luz a todos os que estão na casa.

16 Assim, resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus” (Mateus 5:13-16).

A leitura que se faz das similitudes deve ser extensão das beatitudes, portanto, o entendimento de que as ‘figuras’ (sal, luz) aplicadas aos discípulos não decorrem das bem-aventuranças, como se o discurso de Jesus fosse estruturado em divisões e subdivisões, como se não fosse coeso e uno, não é uma boa leitura.

Na verdade, as características enumeradas nos versos 3 ao 9: pobre, triste, manso, faminto e sedento por justiça, misericordioso, puro, pacífico, definem os seguidores da doutrina de Cristo, ou seja, aqueles que serão perseguidos e injuriados por causa de Cristo, mas que serão recompensados entrando no reino dos céus.

Vale destacar que Abel foi perseguido por Caim; Isaque foi perseguido por Ismael; Jacó foi perseguido por Esaú, etc., eventos que servem de alegoria, pois com os seguidores de Cristo não é diferente, serão perseguidos por serem filhos da promessa: “Dei-lhes a tua palavra e o mundo os odiou, porque não são do mundo, assim como eu não sou do mundo” (Jo 17:14; Gl 4:29).

As características pertinentes aos bem-aventurados descrevem os obedientes, os humildes, os servos, portanto, a obediência a Cristo é o que torna os seus seguidores ‘sal da terra’ e ‘luz do mundo’.

Na lei, estava estabelecido que todas as vezes que fossem ofertados alimentos a Deus, que a oferta deveria ser temperada com sal: “E todas as tuas ofertas dos teus alimentos temperarás com sal; e não deixarás faltar à tua oferta de alimentos o sal da aliança do teu Deus; em todas as tuas ofertas oferecerás sal” (Lv 2:13).

As ofertas de alimentos eram voluntárias, pois Deus nunca requereu holocaustos e sacrifícios dos filhos de Israel, porém, quando, voluntariamente, fossem oferecer algo a Deus, o sal era obrigatório. A oferta era voluntária, mas o sal era obrigatório! Por que? Porque é a obediência que torna o ofertante agradável e aceito por Deus, consequentemente, a oferta será aceita (Gn 4:4-5).

Acrescer sal à oferta demandava obediência por parte do ofertante, uma ordenança para que os filhos de Israel entendessem que Deus quer a obediência, mais que o sacrifício, assim como o fato de os filhos de Israel permaneceram 40 anos no deserto, sendo guiados por Deus, para que entendessem que o homem vive pela palavra de Deus “Assim diz o SENHOR dos Exércitos, o Deus de Israel: Ajuntai os vossos holocaustos aos vossos sacrifícios e comei carne. Porque nunca falei a vossos pais, no dia em que os tirei da terra do Egito, nem lhes ordenei coisa alguma acerca de holocaustos ou sacrifícios” (Jr 7:21 -22); “E te lembrarás de todo o caminho, pelo qual o SENHOR teu Deus te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar e te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias os seus mandamentos, ou não. E te humilhou,  te deixou ter fome e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” (Dt 8:2-3; Sl 50:9; Mq 6:6-7).

Vale destacar que Deus se agrada da obediência, pois obedecer é melhor que o sacrifício “Porém, Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” (1Sm 15:22).

A ordenança acerca do sal demonstra que a obediência é superior ao sacrifício, pois a aliança é selada pela obediência e o homem aceito por Deus, porém, através do sacrifício ninguém é aceito por Deus.

O profeta Miquéias ilustra essa questão:

“Com o que me apresentarei ao SENHOR e me inclinarei diante do Deus altíssimo? Apresentar-me-ei diante dele com holocaustos, com bezerros de um ano? Agradar-se-á o SENHOR de milhares de carneiros, ou de dez mil ribeiros de azeite? Darei o meu primogênito pela minha transgressão, o fruto do meu ventre pelo pecado da minha alma? Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o SENHOR pede de ti, senão que pratiques a justiça e ames a benignidade e andes humildemente com o teu Deus?” (Mq 6:6-8).

A determinação para acrescer sal ao alimento ofertado remetia o ofertante a não se esquecer de, diligentemente, guardar a aliança. Toda ação voluntariosa em apresentar a Deus oferta, holocausto, sacrifício, etc., no momento de adicionar sal, o ofertante estava sendo instruído sobre o que Deus realmente requer do homem: obediência: “Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos, porque toda a terra é minha” (Êx 19:5); “Disse, mais, o SENHOR a Moisés: Escreve estas palavras; porque conforme ao teor destas palavras tenho feito aliança contigo e com Israel” (Êx 34:27).

Assim como o sal era imprescindível à oferta de alimentos, a obediência é imprescindível ao homem, para estar sob a proteção da aliança. O que preserva o homem é a aliança estabelecida por Deus e não uma oferta, mesmo que temperada com sal.

O ‘sal’ que o ofertante não deveria deixar faltar ao sacrifício era a obediência à aliança estabelecida por Deus, o que refletiria no ato ímpar de não se esquecer de acrescentar sal à oferta.

Exemplo vivo de obediência encontramos nos patriarcas, pois foi a aliança de Deus que preservou Noé durante o dilúvio (Gn 6:18), que, sendo justo, sujeitou-se à ordem de Deus para construir uma arca e se abrigar nela. Quando entrou na arca que construíra sob ordem de Deus, Noé honrou a aliança, o que demonstra a sua plena confiança em Deus: “Portanto, diz o SENHOR Deus de Israel: Na verdade, tinha falado eu que a tua casa e a casa de teu pai andariam diante de mim, perpetuamente; porém, agora, diz o SENHOR: Longe de mim tal coisa, porque aos que me honram honrarei, porém os que me desprezam serão desprezados” (1Sm 2:30).

De nada serviria o trabalho árduo de construir a arca e aguentar a oposição dos pecadores, se no momento em que Deus ordenasse a Noé entrar na arca, ele deixasse de entrar sob o argumento de que Deus era poderoso para preservá-lo, mesmo fora da arca.

Deus ordenou a Abraão que saísse de sua parentela, sob a promessa de que seria grandemente recompensado. Abraão obedeceu ao Senhor (Gn 12:4) e Deus firmou uma aliança com juramento (Gn 26:4-5). Abraão foi escolhido para ordenar os seus filhos e a sua casa para obedecerem a Deus, pois só quando o homem honra a Deus como Senhor e Pai é que se alcança a bênção de Deus, contida na promessa (Gn 18:19).

Já os filhos de Israel desprezaram a aliança e foram levados cativos, ou seja, não foram ‘preservados’, porque não permaneceram sob a aliança (Ex 6:4: Jz 2:20-22; Sl 78:10; Jr 11:8; Jr 31:32).

O sacrifício do qual Deus se agrada, é um espírito quebrantado, ou seja, um coração contrito, obediente à palavra de Deus, portanto, o ofertante não poderia esquecer o sal da aliança, ou seja, de obedecer: “E todas as tuas ofertas dos teus alimentos temperarás com sal; e não deixarás faltar à tua oferta de alimentos o sal da aliança do teu Deus; em todas as tuas ofertas oferecerás sal” (Lv 2:13).

Quando foi dito: “Vós sois o sal da terra…”, Jesus estava apontando para os seus discípulos e dizendo: “Vocês são os que obedecem a Deus na terra”! “Vocês ouviram as minhas palavras e as praticam”! (Mt 7:24)

Quando foi dito: “e se o sal for insípido, com que se há de salgar?”, temos uma breve alusão aos desobedientes – à nação de Israel. Como não obedeceu à aliança, a nação de Israel foi rejeitada e lançada fora, uma alusão à dispersão de Israel, quando perdeu a proteção de Deus e passou a ser governada pelos gentios: “E persegui-los-ei com a espada, com a fome e com a peste; e dá-los-ei para deslocarem-se por todos os reinos da terra, para serem uma maldição, um espanto, um assobio e um opróbrio entre todas as nações para onde os tiver lançado” (Jr 29:18; Hb 4:6 e 11;1Pd 2:8).

Com relação aos sacerdotes, por estatuto Deus deu todas as ofertas dos filhos de Israel a eles, visto que não possuíam possessão de terra e nem herdade, a não ser o próprio Deus (Nm 17:20). Essa aliança estabelecida com os sacerdotes foi chamada de ‘aliança perpétua de sal’, ou seja, que Deus havia dado as coisas santas ofertadas pelos filhos de Israel para preservá-los: “Todas as ofertas alçadas das coisas santas, que os filhos de Israel oferecerem ao SENHOR, tenho dado a ti e a teus filhos e a tuas filhas contigo, por estatuto perpétuo; aliança perpétua de sal perante o SENHOR é, para ti e para a tua descendência contigo” (Nm 18:19).

Pelas Escrituras, verifica-se que as alianças que Deus fez com os homen, tinham o fito de preservá-los, dando mandamentos para que observassem cuidadosamente. Mas, o cuidado de Deus somente é efetivo sobre a vida dos homens que são obedientes, de modo que, através da obediência, o homem fica sob a aliança.

Deus disse: “Eu amo aos que me amam, e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17), e também: “…porém, agora, diz o SENHOR: Longe de mim tal coisa, porque aos que me honram honrarei, porém os que me desprezam serão desprezados” (1Sm 2:30), pois aquele que cumpre o mandamento de Deus – que na Nova Aliança é crer que Jesus é o Filho de Deus – em si mesmo tem sal, como foi dito: “Bom é o sal; mas, se o sal se tornar insípido, com que o temperareis? Tende sal em vós mesmos e paz uns com os outros” (Mc 9:50).

Na palavra de Deus está expresso o cuidado de Deus pelo homem e em obedecê-la, o homem se coloca debaixo da proteção de Deus. O sal representa tanto o cuidado de Deus quanto o dever de obediência, pois onde há mandamento tem que haver obediência.

O cuidado de Deus pela humanidade foi manifesto em Cristo e todo o que crê será salvo. Os apóstolos testemunharam a vinda do Filho de Deus ao mundo e eles testificaram acerca dessa verdade, de sorte que qualquer que também confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele, e ele em Deus: “Vimos e testificamos que o Pai enviou seu Filho para Salvador do mundo. Qualquer que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele e ele em Deus” (1Jo 4:14 -15).

Quem crê em Cristo, deve militar pelo evangelho, pois no evangelho se descobre a justiça de Deus – Cristo – ou seja, aquele que crê e anuncia ao mundo o evangelho de Cristo é sal da terra. Se o crente não desempenha a sua função de levar Cristo ao mundo, torna-se insípido e será lançado fora, assim como o sal, quando perde a sua propriedade: “Toda a vara em mim, que não dá fruto, a tira; e limpa toda aquela que dá fruto, para que dê mais fruto” (Jo 15:2; Lc 14:34-35).

A perseguição por causa do evangelho de Cristo, revela aqueles que são o sal do mundo e a luz do mundo. A perseguição por causa do evangelho vem somente sobre aqueles que levam a preciosa semente incorruptível: “Quão formosos são, sobre os montes, os pés do que anuncia as boas novas, que faz ouvir a paz, do que anuncia o bem, que faz ouvir a salvação, do que diz a Sião: O teu Deus reina!” (Is 52:7).

Os pacificadores são filhos de Deus e, como filhos da Luz, são luz no Senhor, portanto, luz do mundo: “Enquanto tendes luz, crede na luz, para que sejais filhos da luz. Estas coisas disse Jesus e, retirando-se, escondeu-se deles” (Jo 12:36); “Porque, noutro tempo, éreis trevas, mas agora sois luz no SENHOR; andai como filhos da luz” (Ef 5:8).

Assim como o sal tem a sua serventia, a luz também. Assim como é impossível esconder uma cidade quando edificada sobre um monte, também é impossível deixar um crente em Cristo camuflado aos olhos do mundo.

Da mesma forma que uma lamparina (candeia) não é colocada debaixo do alqueire (pote, vaso, vasilhame) ou debaixo da cama, mas no velador, assim é com os seguidores de Cristo: são luz que alumiam no mundo que está em densas trevas: “LEVANTA-TE, resplandece, porque vem a tua luz e a glória do SENHOR vai nascendo sobre ti; Porque eis que as trevas cobriram a terra e a escuridão os povos; mas sobre ti, o SENHOR virá surgindo e a sua glória se verá sobre ti. E os gentios caminharão à tua luz e os reis ao resplendor que te nasceu” (Is 60:1-3); “O povo que andava em trevas, viu uma grande luz e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz” (Is 9:2).

Todos os que creem em Cristo são feitos filhos da luz e, por conseguinte, despenseiros de Deus (1Co 4:1-2; 1Pe 4:10), portanto, quando abrem a boca para anunciar o evangelho, faz com que a sua luz brilhe diante dos homens: “E se abrires a tua alma ao faminto e fartares a alma aflita; então, a tua luz nascerá nas trevas e a tua escuridão será como o meio-dia” (Is 58:10); “Atendei-me, povo meu e nação minha, inclinai os ouvidos para mim; porque de mim sairá a lei e o meu juízo farei repousar para a luz dos povos” (Is 51:4).

A boa obra que Jesus ordena ao cristão, para que deixe os homens verem, não se refere ao comportamento do cristão – embora um despenseiro da glória de Deus deva ter um bom comportamento diante dos homens – mas, sim, manifestar ao mundo a boa nova que o Senhor realizou ao manifestar Cristo ao mundo: “O SENHOR trouxe a nossa justiça à luz; vinde e contemos em Sião a obra do SENHOR, nosso Deus” (Jr 51:10); “SENHOR, tu nos darás a paz, porque tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras” (Is 26:12).

O bom porte do crente não se refere ao bom perfume de Cristo, que é o mesmo que a boa obra, que se refere ao que Deus realizou: “Jesus respondeu e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” (Jo 6:29); “E graças a Deus, que sempre nos faz triunfar em Cristo, e por meio de nós manifesta em todo o lugar a fragrância do seu conhecimento. Porque para Deus somos o bom perfume de Cristo, nos que se salvam e nos que se perdem” (2Co 2:14-15).

É Deus que deu Cristo – a paz – portanto, Ele realizou no crente todas as obras, de modo que, a obra que o mundo vê no crente refere-se ao testemunho que Deus deu acerca do seu Filho Jesus Cristo. Só é luz do mundo aquele que fala segundo a palavra de Deus, ou seja, aquele que anuncia as virtudes daquele que nos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz: “À lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, é porque não há luz neles” (Is 8:20).

A leitura do verso: “Assim, resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus” (Mt 5:16), demanda uma compreensão da linguagem judaica, pois ‘obra’ refere-se ao resultado do cumprimento de um mandamento, de modo que crer em Cristo é uma obra.

Jesus mesmo disse: “A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” (Jo 6:29). Qualquer que atenta para o evangelho, a lei perfeita da liberdade, e persevera, ou seja, crê que Jesus é o Filho de Deus, é bem-aventurado, pois executou a obra: “Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito” (Tg 1:25).

A obra está ligada às palavras que os homens proferem: “Por isso, se eu for, trarei à memória as obras que ele faz, proferindo contra nós palavras maliciosas” (3 Jo 1:10). Portanto, a boa obra que os homens devem ver naqueles que são luz é o anúncio desta verdade:

“Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. E a condenação é esta: Que a luz veio ao mundo e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más. Porque, todo aquele que faz o mal odeia a luz, e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus” (Jo 3:17:21).

Continua: As bem-aventuranças e o ministério de Jesus Cristo


[1] “Todos iam a Ele para ouvir sobre o Reino; Jesus, em vez disso, falava sobre o estilo de vida daqueles que queriam viver no Reino. 0 Sermão do Monte contém a essência do ensinamento moral e ético de Jesus” O novo comentário bíblico NT, com recursos adicionais — A Palavra de Deus ao alcance de todos. Editores: Earl Radmacher, Ronald B. Allen e H.Wayne House, Editora Central Gospel, Rio de Janeiro: 2010, Pág. 27.

[2] Os judeus utilizavam as letras PE e SAMECH para apontar os parágrafos há muito tempo. Já na era cristã, primeiro foi introduzida uma divisão por capítulos pelo Arcebispo Estêvão Langton e outra pelo Cardeal Hugo de Sancto Caro, ambas realizadas no século XIII, porém, a divisão do Arcebisbo Langton, realizada em 1205 acabou prevalecendo. Somente 300 anos mais trade foi introduzida a divisão em versículos pelo italiano Santi Pagnini (1470-1541), e em 1551, Roberto Estienne propôs uma divisão diferente que acabou prevalecendo, sendo aplicada na sua edição grega do Novo Testamento e depois na versão em francês de 1553, e é utilizada até hoje.

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A maravilhosa graça

As riquezas da graça são concedidas aos membros do corpo de Cristo segundo o beneplácito que Deus propusera em Si mesmo de fazer convergir todas as coisas em Cristo ( Ef 1:10 ; Ef 3:11 ). Ao estabelecer Cristo como a cabeça do corpo, que é a igreja, todas as coisas convergem para Cristo, pois entre os filhos de Deus semelhantes a Ele, Cristo é proeminente: a cabeça.

 


“Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens” ( Tt 2:11 )

Quando entendemos o real significado e todos as nuances que há na redenção do homem, constatamos que definir a graça de Deus somente como ‘favor imerecido’ constitui-se um reducionismo . Somente enfatizar que a salvação é favor imerecido não evidencia os elementos que compõe a maravilhosa graça de Deus que se revela em Cristo.

O reducionismo ocorre quando nos socorremos somente ao significado do vocábulo grego ‘charis’, o que por si só não evidencia a grandeza da salvação em Cristo. Há certa importância no fato de se verificar que, à época de Homero, o termo ‘charis’ significava ‘doçura’ ou ‘atrativo’, e com o passar do tempo, o termo evoluiu para ‘favor’, ‘boa vontade’, ’bondade’, mas isto não é tudo.

Somente enumerar a quantidade de vezes que o termo ‘charis’ consta do Novo Testamento também não evidencia a ideia do tema, antes o primordial é considerar o termo no seu contexto, principalmente quando utilizado em conexão com a ideia da redenção.

É assente que o termo graça é utilizado para descrever a disposição de Deus em ser favorável aos homens, apesar de não serem merecedores, como se lê: “Não nos tratou segundo os nossos pecados, nem nos recompensou segundo as nossas iniquidades” ( Sl 103:10 ), entretanto, como a graça de Deus é concedida sem macular a justiça de Deus, poucos conhecem como esta ‘transação’ ocorre.

Como Deus demonstrou favor aos pecadores sem comprometer a juízo e a justiça? Como é possível Ele ser justo e justificador?

 

“Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” ( Rm 3:26 )

 

Queda

Para mensurar como se dá a maravilhosa graça de Deus se faz necessário lembrar que todos os homens caíram em desgraça por causa de um só homem que pecou – Adão. Por causa da ofensa de Adão todos os seus descendentes foram feitos pecadores, ou seja, nasceram alienados de Deus, distanciados de Deus, impróprios para Sua glória ( Rm 5:12 e 19; 1Co 15:21 ).

A desgraça que se abateu sobre a humanidade não se deu por questões de ordem moral, antes pela ofensa de um só homem que pecou. Isto significa que os homens tornaram-se pecadores (em outras palavras: filhos da ira, filhos da desobediência) por serem descendentes da carne de Adão, e não por suas condutas inconvenientes nas relações sociais cotidianas.

Por causa da filiação adâmica, todos os homens são formados em pecado e concebidos em iniquidade ( Sl 51:5 ), de modo que, desde o ventre materno estão separados de Deus, dai a designação ‘ímpios’.

Quando a bíblia diz que os homens são ‘pecadores’ evidencia que todos os filhos de Adão são ‘errantes’ desde que nascem ( Sl 58:3 ).

Em um único evento (a ofensa de Adão), toda a humanidade juntamente se desviou e se fez imunda “Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um” ( Sl 53:3 ). Ora, o interprete deve divisar bem, ter bem nítido que os homens não se ‘fazem’ imundos porque são roubadores, homicidas, detratores, homossexuais, mentirosos, invejosos, etc., antes porque todos ‘juntamente’ são herdeiros da penalidade imposta a Adão.

do que acabamos de evidenciar acima através da seguinte assertiva: “Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece” ( Jo 3:36 ). Ora, a ira de Deus permanece sobre os homens em função de não crerem em Cristo, e não em função de se portarem de modo inconveniente.

 

A ira

A ira de Deus permanece sobre aquele que não crê, porque quem não crê que Jesus é o Filho de Deus permanece filho de Adão, portanto herdeiro da ira, consequência da desobediência ( Ef 2:2 -3).

O termo ‘ira’ não deve ser entendido como uma emoção ou sentimento colérico da parte de Deus. Da mesma forma que os descendentes de Adão são designados ‘filhos da ira’ para apontar-lhes a condição de sujeição ao pecado, o que não significa que são filhos de um sentimento colérico ou de uma emoção, a ira de Deus não se refere a um sentimento, antes à justa retribuição estabelecida para os filhos da desobediência de Adão.

É significativo o fato de que, na bíblia, os homens não são designados ‘filhos do pecado’, antes são designados ‘filhos da desobediência’ ou ‘filhos da ira’. Isto porque a ‘filiação’ envolve duas questões: a) natureza, e; b) herança. Os filhos são participantes da natureza e da condição dos seus genitores e, consequentemente, tem direito a uma herança.

Quando a bíblia diz que os homens são ‘escravos do pecado’, e não ‘filhos do pecado’, significa que, apesar de estarem ‘presos’ ao senhorio do pecado, há a possibilidade de serem livres. Mas, se a bíblia dissesse que os homens são ‘filhos do pecado’, significaria que não haveria a possibilidade de livramento da condição de filhos e, concomitantemente, não haveria como não receber a ‘herança’ desta filiação: ira.

Dai a máxima: ‘O filho permanece para sempre em casa, o escravo não’ que abstraímos da resposta que Jesus deu aos seus interlocutores: “Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado. Ora o servo não fica para sempre em casa; o Filho fica para sempre” ( Jo 8:34 -35), e da fala de Sara: “E disse a Abraão: Ponha fora esta serva e o seu filho; porque o filho desta serva não herdará com Isaque, meu filho” ( Gn 21:10 ).

Esta é uma triste descrição de como era os sistemas escravagistas, visto que aos escravos não era atribuído nenhum bem ou herdade, antes o que era liquido e certo aos escravos era a morte. Somente a morte livrava os escravos dos seus senhores, assim como a morte do marido torna livre a mulher ( Rm 6:7 ; Rm 7:2 ).

Quando é dito que os homens são ‘filhos da ira’, significa que não há como escaparem da condição que lhe é pertinente e nem da ‘herança’ funesta que receberá. Quando é dito que os homens são ‘escravos do pecado’, a história muda, porque significa que ainda há esperança: a possibilidade de se verem livres da condição de escravos.

Adão não foi gerado do pecado, antes criado por Deus. Quando pecou, Adão deixou de ser livre e passou à condição de escravo do pecado. Não se pode dizer que Adão é filho do pecado porque, na verdade, ele foi criado por Deus livre. A condição de servo só veio quando da ofensa, e em consequência, a morte.

Com relação à existência, Adão era criatura de Deus. Com relação ao pecado Adão tornou-se servo. Com relação à ira tornou-se filho, pois em função da ofensa não passaria dele a penalidade estabelecida: a morte. Como a morte é certa, o homem é tido por filho da ira, pois não pode livrar-se da penalidade estabelecida em decorrência da desobediência.

 

A possibilidade

Mas, como é possível o homem deixar de ser ‘pecador’?

Como a escravidão é uma figura da sujeição do homem ao senhorio do pecado, a resposta para o homem deixar o jugo do pecado é morrendo!

Na antiguidade, os escravos que não alcançavam a liberdade durante o curso de sua existência somente seriam livres do jugo da servidão quando morressem, visto que estavam presos por toda a vida aos seus donos por causa da lei. Somente a morte do escravo cortava o vínculo de servidão estabelecido pela lei, assim como somente a morte de um dos cônjuges interrompe o vinculo do casamento “NÃO sabeis vós, irmãos (pois que falo aos que sabem a lei), que a lei tem domínio sobre o homem por todo o tempo que vive?” ( Rm 7:1 ).

O medo da morte era o que mantinha os escravos sujeitos a servidão por toda vida, visto que o instinto de preservação da própria existência falava mais alto. Bastava dar cabo da própria vida para se verem livres da servidão, no entanto, o medo da morte o que impedia “E livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão” ( Hb 2:15 ).

 

A morte é diferente de descer ao pó

O homem está morto por ter desobedecido ao que foi estabelecido no Éden: “E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:16 -17).

Quando Adão comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal de imediato morreu, ou seja, a comunhão com Deus foi cortada e passou a estar sujeito a um novo senhor: o pecado. O homem (macho e fêmea) morreu para Deus, a única pessoa com que tinha comunhão.

Após o homem ter morrido para Deus, Deus estabeleceu a dor na concepção da mulher e que o homem comeria do suor do seu rosto até que voltasse ao pó da terra, ficando estabelecida a morte física, quando os homens perdem a comunhão com seus entes queridos.

Enquanto estava no Éden antes da ofensa, Adão estava vivo para Deus e o pecado ainda não havia entrado no mundo. Após pecar, Adão morreu para Deus, e passou a viver no pecado. Aqueles que vivem para o pecado estão mortos para Deus, e vice-versa. Se o homem descer ao pó da terra sem Cristo, para sempre estará separado de Deus.

 

Justo

Quando a bíblia diz que Deus é justo, significa dizer que Deus é a medida absoluta de retidão e equidade. Este atributo se observa por diversos fatores tais como:

a) Deus não mente;

b) Deus não muda;

c) O culpado não é tido por inocente;

d) A pena não passa da pessoa do transgressor;

d) Não aceita suborno;

e) Suas leis são expressões da Sua natureza;

f) A ninguém oprime.

 

A retidão e a justiça de Deus verificam-se no Éden quando Deus dá o seguinte mandamento ao primeiro homem em um lugar perfeito: “De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 1:16 -17).

O mandamento dado no Éden é santo justo e bom porque nele estava implícito a liberdade do homem (De toda a árvore do jardim comerás livremente…), e o cuidado de Deus (… mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás).

A ordem veta ao homem o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal pelas consequências (certamente morrerás), e não por opressão. O mandamento visava preservar a liberdade e a comunhão entre o Criador e a criatura, concedo a informação necessária para que o homem pudesse se guiar.

A palavra de Deus é expressão da verdade (do que é real, do que é efetivo), de modo que, quando o homem exerceu a sua liberdade e comeu do fruto da árvore do conhecimento, as consequências se efetivaram: o homem passou a estar alienado de Deus (morto) e, em função do que era intrínseco ao fruto do conhecimento do bem e do mal o homem tornou-se como Deus (conhecimento do bem e do mal).

Deus é imutável, não pode mentir e a sua palavra não volta vazia “Em esperança da vida eterna, a qual Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos dos séculos” ( Tt 1:2 );  “Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo” ( 2Tm 2:13 ).

Se Deus voltasse atrás na sua palavra permanecendo em comunhão com o homem após a ofensa, Deus não seria firme, fiel, justo e imutável. Primeiro por não ter cumprido com Sua palavra sendo firme e fiel. Em segundo lugar, decorrente do primeiro, estaria oprimindo o homem que, ao comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, claramente demonstrou que não confiava em Deus e que não queria permanecer em comunhão com ele.

Manter o homem em comunhão após a ofensa seria arbitrário e opressivo da parte de Deus. Se a pena não fosse aplicada a palavra de Deus deixaria de ser verdadeira, consequentemente, não seria digno de confiança. Como confiar em quem não hora a sua palavra?

 

Justiça

Como o homem desobedeceu, a pena não poderia passar do homem, pois se outro sofresse a pena em lugar do transgressor não haveria justiça, pois o correto é a alma que pecar sofra as consequências “Então disse o SENHOR a Moisés: Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro” ( Ez 32:33 ); “A alma que pecar, essa morrerá” ( Ez 18:20 ).

É por isso mesmo que Deus diz: “De palavras de falsidade te afastarás, e não matarás o inocente e o justo; porque não justificarei o ímpio ( Êx 23:7 ). Se Deus declarasse o ímpio justo, jamais seria justo.

Observe que jamais Deus exterminaria o justo com o ímpio quando executa juízo: “Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra?” ( Gn 18:25 ).

Ora, antes de abordar a solução dada para a condição do homem em sujeição ao pecado de modo gracioso, primeiro se faz necessário compreender como foi solucionado o problema de Deus declarar justo o ímpio “Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça” ( Rm 4:5 ).

Antes de Deus justificar o homem, primeiro satisfez a Sua justiça “Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” ( Rm 3:26 ). Qual justiça foi satisfeita? A estabelecida na lei outorgada no Éden que é santa, justa e boa, pois dela decorre que a alma que pecar morrerá. Daí a máxima: o salário do pecado é a morte ( Rm 6:23 ), e como todos pecaram por estarem na coxa de Adão, todos estavam sujeitos ao pecado por causa da morte “Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei” ( 1Co 15:56 ).

Desde que Adão pecou e o pecado entrou no mundo, todos estão mortos em delitos e pecados, pois todos pecaram. Todos os homens estão alienados de Deus e, se descerem ao pó da terra, seguem ao juízo do grande Trono Branco perdidos para toda a eternidade ( Ef 2:1 ; Rm 3:23 ; Rm 5:12 ).

Esta realidade foi descrita por João Batista desta forma: “E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo” ( Mt 3:10 ), uma releitura das palavras anunciadas pelo profeta Isaias: “Uma voz diz: Clama; e alguém disse: Que hei de clamar? Toda a carne é erva e toda a sua beleza como a flor do campo. Seca-se a erva, e cai a flor, soprando nela o Espírito do SENHOR. Na verdade o povo é erva. Seca-se a erva, e cai a flor, porém a palavra de nosso Deus subsiste eternamente” ( Is 40:6 – 8).

Sem exceção, todos os descendentes de Adão estão sujeitos à penalidade estabelecida no Éden: alienados de Deus, por isso são arrancados: “Ele, porém, respondendo, disse: Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” ( Mt 15:13 ).

A primeira ação de Deus justo para redimir o homem foi substituir a desobediência de Adão pela obediência do último Adão (Cristo). Sem a substituição de ato: obediência pela desobediência, jamais haveria justiça e redenção, pois se um desobedeceu e muitos pecaram, segue-se que se um obedecesse, muitos seriam justificados ( Rm 5:15 ). Se um trouxe a morte, somente por um seria possível abolir a morte estabelecendo a vida “E que é manifesta agora pela aparição de nosso Salvador Jesus Cristo, o qual aboliu a morte, e trouxe à luz a vida e a incorrupção pelo evangelho” ( 2Tm 1:10 ).

Sem a substituição de ato, obediência pela desobediência, jamais haveria meio de salvação que não contrariasse a natureza justa de Deus “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” ( Rm 5:19 ).

Esta substituição de ato, obediência pela desobediência, só poderia ser feita por alguém livre de pecado, assim como esteve livre o primeiro homem. Para haver a substituição de ato, o Verbo Eterno que estava com Deus e que a tudo criara se fez carne e habitou entre os homens. Em tudo se fez semelhante aos homens, sujeitos as mesmas aflições e fraquezas ( Hb 2:18 ).

Adão desobedeceu em um ambiente perfeito contrariando uma única ordem: ‘… dela não comerás’. O Verbo eterno quando em carne, apesar das aflições, fraquezas e tentações cumpriu toda a justiça, ou seja, nada ab-rogou da lei ou dos profetas ( Mt 5:17 ). A obediência de Cristo é demonstrada no fato de que Ele morreu segundo a ordem do Pai e morte de cruz “E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz” ( Fl 2:8 ; Hb 5:8 ).

Ao resolver o problema da justiça através da obediência de Cristo ( Hb 10:9 -10), visto que Jesus foi obediente em tudo, através da carne do Cristo, Deus abriu um novo e vivo caminho pelo qual o homem passou a ter acesso a Ele “Pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne” ( Hb 10:20 ).

O caminho foi aberto através da obediência, e não em razão de um sacrifício, pois de Cristo disse Deus: “Por isso, entrando no mundo, diz: Sacrifício e oferta não quiseste, Mas corpo me preparaste” ( Hb 10:5 ). É um equivoco entender que a salvação se deu em razão de Cristo voluntariar-se para oferecer o seu corpo em sacrifício, pois a oferta do corpo de Cristo, na verdade, se deu em obediência ao mando do Pai. A salvação se deu pela obediência de Cristo que, segundo a vontade do Pai derramou a sua alma na morte “Ninguém ma tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou; tenho poder para a dar, e poder para tornar a tomá-la. Este mandamento recebi de meu Pai” ( Jo 10:18 ).

Quando ouve as boas novas de salvação e crê que Jesus é o Cristo, o pecador morre com Cristo e é sepultado. A pena estabelecida não passa da pessoa do transgressor, visto que ao crer tomou sobre si a sua própria cruz e seguiu após Cristo. Ao crer no evangelho o pecador torna-se participante da carne e do sangue de Cristo, de modo que se conforma como Cristo na sua morte.

Ora, a obediência de Cristo substitui a desobediência de Adão, e a carne de Cristo tornou-se um novo e vivo caminho de livre acesso a Deus, através da morte e ressureição de Cristo. O que falta ainda para a redenção do homem?

Falta ao homem no pecado morrer satisfazendo o estabelecido na lei outorgada no Éden.

Se o homem desce ao pó da terra sem crer em Cristo, segue para eternidade perdido, mas se o homem crê que Cristo é o Filho de Deus segundo as Escrituras, morre com Cristo e é sepultado com Ele ( Rm 6:3 -8).

Na morte do pecador com Cristo a justiça do mandamento dado no Éden é satisfeita, pois a morte de Cristo só é substitutiva em relação à cruz do calvário, no entanto, todos os que creem tornam-se participantes da carne e do sangue de Cristo, ou seja, efetivamente crucificam o corpo do pecado e as suas concupiscências, morrem e são sepultados.

Mas, como está estabelecido que o homem deve morrer, para que Deus seja justo e a sua palavra permaneça firme, quando o homem crê em Cristo morre, sendo sepultado com Cristo.

O homem que estava vivo para o pecado e morto em delitos e pecados para Deus, após morrer com Cristo, passa a viver para Deus. O crente em Cristo morre para o pecado, portanto, a justiça de Deus é estabelecida e o homem fica livre do seu antigo senhor, o pecado.

 

A maravilhosa graça

“Para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça pela sua benignidade para conosco em Cristo Jesus” ( Ef 2:7 )

O cristão precisa compreender o quão significativo é não ter contradição entre a graça e a justiça de Deus. Em nossos dias são poucos os cristãos que conseguem divisar bem que não há contradição alguma em Deus justo declarar justo o ímpio.

É a palavra de Deus que garante justificação aos que creem em Cristo, no entanto, não haveria injustiça alguma em Deus se não houvesse resgate para o homem. Semelhantemente, quando o homem morre com Cristo, a justiça de Deus é satisfeita, pois se cumpre a palavra que foi estabelecida: “… certamente morrerás”, e não haveria injustiça alguma se só a comunhão fosse estabelecida na eternidade e o homem não ressurgisse com Cristo.

É neste ponto que a graça de Deus se evidencia maravilhosa, pois ao crer em Cristo o homem alienado depois da morte merecida torna a ter comunhão com o Criador, ou seja, é vivificado e ressurge uma nova criatura por estar em Cristo “Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus” ( Ef 2:5 -6).

Quando o crente morre com Cristo, o corpo está morto, visto que o vínculo com o pecado só é desfeito com a morte de quem servia o pecado, entretanto, apesar de o corpo ter sido crucificado, é vivificado pelo Espírito de Deus “E, se Cristo está em vós, o corpo, na verdade, está morto por causa do pecado, mas o espírito vive por causa da justiça. E, se o Espírito daquele que dentre os mortos ressuscitou a Jesus habita em vós, aquele que dentre os mortos ressuscitou a Cristo também vivificará os vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que em vós habita” ( Rm 8:10 -11).

Daí as considerações paulinas: “Porque o amor de Cristo nos constrange, julgando nós assim: que, se um morreu por todos, logo todos morreram” ( 2Co 5:14 ). O corpo que pertencia ao pecado por ter sido gerado da semente corruptível de Adão ao ser crucificado (pela fé em Cristo) é causa de extinção do velho homem e da quebra de vínculo com o pecado ( Rm 6:6 ). Todos os que creem efetivamente morrem com Cristo, de modo que a ninguém devemos fazer referência segundo questões pertinentes à carne do pecado ( 2Co 5:16 ).

Era comum os cristãos lembrarem do Cristo homem, porém, não compreendiam que aquele homem que foi crucificado, Deus o exaltou soberanamente, lhe conferiu um nome que está acima de todos os nomes, sujeitando a Ele toda as coisas ( Hb 2:8 ).

Era comum aos cristãos primitivos fazerem referencia às questões da carne, como: – “Eu sou hebreu de hebreu”; Outros: -“Eu sou Romano de sangue, e não porque comprei cidadania romana”; E ainda aqueles: -“Eu tenho ciência, pois a filosofia tem o seu berço na Grécia”, etc.

Dai o imperativo: a ninguém mais conhecemos segundo a carne, pois todos são filhos de Deus pela fé em Cristo: um novo tempo e uma nova vida, portanto, não havia mais judeus, grego, servo, livre, macho, fêmea, etc. ( Gl 3:26 -29).

O corpo que pertencia ao pecado também é denominado de vaso para desonra, vaso da ira, preparado para a perdição ( Rm 9:21 -22). Ora, todos os homens que vem ao mundo entram por Adão, a porta larga, criados a partir do barro pelo poder de Deus, porém, por causa da semente de Adão, o produto final do barro (vaso) é a desonra, pois em Adão os vasos são para ira, preparados para perdição.

Observe que o apóstolo quando fala do poder criativo de Deus de trazer o homem à existência enfatiza que Deus tem poder sobre o barro, e não sobre o vaso. Sobre o barro Deus tem poder, e faz vasos para honra e desonra, mas o que determina a honra e a desonra dos vasos criados são: o primeiro e o ultimo Adão – Adão e Cristo.

A maravilhosa graça está em que Deus, por ter poder sobre o barro, utiliza a mesma massa que foram criados os vasos para desonra para fazer vasos para honra. O corpo do pecado que era para ser descartado, pelo espírito de Deus que nele habita, torna-se vaso de misericórdia, criado para honra “Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra? E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição; Para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou” ( Rm 9:21 -23).

Ao ressuscitar aqueles que creem com Cristo Deus cria (bara) justos, e em seguida declara qual é a condição do novo nascido: justo. Aí está a essência da justificação: Deus só declara o homem justo quando o homem é criado de novo em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ).

O velho homem jamais é justificado (declarado justo), pois Deus jamais justifica o ímpio. No entanto, quando o homem morre com Cristo a justiça de Deus é satisfeita, e pelo poder da sua palavra, que é semente incorruptível, Deus faz a sua plantação que jamais será arrancada, pois a palavra de Deus permanece para sempre, assim como os que da palavra são gerados ( Mt 15:13 ; 1Pe 1:25 ; 1Jo 2:17 ).

 

As riquezas da graça

“Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens…” ( Tt 1:11 )

 

Após enfatizar a necessidade de os cristãos terem um comportamento aceitável em sociedade, ou seja, portando-se de modo a não dar escândalo a judeus, gregos e nem a igreja de Deus, o apóstolo Paulo apresenta a razão: a graça de Deus em Cristo trouxe salvação a todos os homens!

Os cristãos não devem ser causa de escândalo (vergonha) e nem deve se envergonhar do evangelho, o testemunho de Cristo ( 2Tm 1:8 ), pois é através do evangelho, que é poder de Deus e palavra de reconciliação, que o homem é salvo “… segundo o poder de Deus que nos salvou…” ( 2Tm 1:9 ); “Não me envergonho do evangelho, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê…” ( Rm 1:16 ); “Isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação” ( 2Co 5:19 ).

Quando falamos de redenção, salvação, justificação, santificação, perdão, nova vida, regeneração, abordamos a maravilhosa graça de Deus demonstrada em Cristo Jesus, pois graciosamente o homem é chamado (καλέσαντος/kaleō) das trevas para a maravilhosa luz de Deus, e os que creem são transportados das trevas para o reino do Filho “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” ( 1Pe 2:9 ); “O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” ( Cl 1:13 ).

Muitos são chamados (κλητοί=termo cognato derivado de kaleō) e poucos os escolhidos, ou seja, muitos ouvem o convite do evangelho, mas poucos são os que ouvem e creem. Muitos são convidados a entrar pela porta estreita, mas são poucos os que atendem o chamado ( Mt 7:13 ).

Tudo o que abordamos até aqui refere-se à maravilhosa graça de Deus, anunciada desde o Antigo Testamento, da qual é participante todos os homens que em todos os tempos creem em Deus que anunciou redenção “Bem-aventurados aqueles cujas maldades são perdoadas, e cujos pecados são cobertos” ( Rm 4:7 ).

Mas aos que creem durante o tempo denominado plenitude dos gentios ( Rm 11:25 ), ou plenitude dos tempos ( Gl 4:4 ; Ef 1:10 ), além da maravilhosa graça, há as riquezas da graça, pois é conferido aos crentes uma herança. Além dos crentes em Cristo serem salvos pela misericórdia de Deus mediante a lavagem da regeneração e renovação afim de que fossem declarados justos, também fomos feitos herdeiros de Deus, coerdeiros com Cristo ( Tt 3:7 ; Rm 8:17 ; Rm 8:32 ).

O chamado (κλητοί=termo cognato derivado de kaleō) pelo evangelho é um convite à salvação, e os salvos em Cristo segundo o poder de Deus (evangelho) são ‘chamados com uma santa vocação’ (καλέσαντος κλήσει). O chamado através do evangelho se deu na plenitude dos tempos, já o chamado com uma santa vocação se deu na eternidade (antes dos tempos eternos).

Enquanto o chamado pelo evangelho visa a salvação do homem, a santa vocação tem em vista o próprio propósito que Deus estabeleceu em Cristo.

A riqueza da graça é que todos os que creem em Cristo, além de serem transportados para o reino do Filho, já não possuem outro destino a não ser serem filhos de Deus para que Cristo seja o primogênito entre muitos irmãos ( Rm 8:29 ).

Segundo o propósito eterno que Deus estabeleceu em Cristo de fazê-Lo primogênito entre muitos irmãos é que Deus estabeleceu antes dos tempos eternos (predestinou) que todos os que fossem participantes da carne e do sangue de Cristo através da igreja, seriam conforme a imagem de Jesus, ou seja, semelhantes a Ele ( 1Jo 3:1 -2).

Deus não somente predestinou os membros do corpo de Cristo, a igreja, como também os elegeu antes dos tempos eternos para serem santos e irrepreensíveis diante de Deus ( Ef 1:3 ). De condenação alguma os filhos de Deus são passíveis, pois são participantes da natureza divina ( 1Pe 1:4 ).

Ora, as riquezas da graça são concedidas aos membros do corpo de Cristo segundo o beneplácito que Deus propusera em Si mesmo de fazer convergir todas as coisas em Cristo ( Ef 1:10 ; Ef 3:11 ). Ao estabelecer Cristo como a cabeça do corpo, que é a igreja, todas as coisas se convergem para Cristo, pois entre os filhos de Deus que são semelhantes a Ele, Ele é proeminente: a cabeça.

Foi estabelecido que em Cristo a igreja é herança, predestinação que visa especificamente o louvor da glória de Deus!

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O que é Justificação?

A justificação não é forense e nem um ato judicial de Deus pelo qual Ele perdoa, isenta e trata o homem que não é justo como se justo fosse. Ora, se Deus tratasse um injusto como se justo fosse, na verdade estaria cometendo injustiça. Caso Deus declarasse um pecador como sendo justo, teríamos uma declaração fictícia, imaginária, pois Deus estaria declarando algo inverídico acerca do homem.


 

“Porque aquele que está morto está justificado do pecado” ( Rm 6:7 )

É comum à teologia tratar da doutrina da justificação como uma questão de ordem forense, daí as expressões ‘ato judicial de Deus’, ‘ato de reconhecimento divino’, ‘anunciar a justiça’, etc., nas definições acerca do tema justificação.

Para Scofield, embora justificado, o crente ainda é pecador. Deus reconhece e trata o crente como sendo justo, porém, isto não significa que Deus torne alguém justo.

“O pecador crente é justificado, isto é, tratado como justo (…) A justificação é um ato de reconhecimento divino e não significa tornar uma pessoa justa…” Bíblia de Scofield com Referências, Rm 3:28.

Para Charles C. Ryrie justificar significa:

“declarar que alguém é justo. Ambas as palavras em hebraico (sadaq) e em grego (dikaioõ) significam ‘anunciar’ ou ‘pronunciar’ um veredicto favorável, declarar alguém justo. Esse conceito não implica fazer que alguém seja justo, mas sim apenas anunciar a justiça”  Ryrie, Charles Caldwel, Teologia Básica – Ao alcance de todos, traduzido por Jarbas Aragão – São Paulo: Mundo cristão, 2004, pág. 345.

George Eldon Ladd entende a justificação a partir do termo grego dikaioõ, como sendo:

“‘declarar justo’, não transformar em justo’. Como veremos, a ideia principal, em justificação, é a declaração de Deus, o juiz justo, de que o homem que crê em Cristo, embora possa ser pecador, é justo – é visto como sendo justo, porque, em Cristo, ele chegou a um relacionamento justo com Deus”  Ladd, George Eldon, Teologia do Novo Testamento, tradução de Darci Dusilek e Jussara M. Pinto, 1. Ed – São Paulo: Exodus, 97, pág. 409.

A justificação não é forense e nem um ato judicial de Deus pelo qual Ele perdoa, isenta e trata o homem que não é justo como se justo fosse. Ora, se Deus tratasse um injusto como se justo fosse, na verdade estaria cometendo injustiça. Caso Deus declarasse um pecador como sendo justo, teríamos uma declaração fictícia, imaginária, pois Deus estaria declarando algo inverídico acerca do homem.

A essência da doutrina da justificação está no fato de que Deus cria um novo homem em verdadeira justiça e santidade e o declara justo porque efetivamente esse novo homem é justo. Deus não trabalha com uma justiça fictícia, imaginária, a ponto de tratar como justo aquele que de fato não é justo.

Para os teólogos da reforma a justificação é um ato judicial de Deus sem qualquer mudança em sua vida, ou seja, Deus não muda a condição do homem. Aí está o engano, pois Deus só justifica aqueles que nascem de novo ( Jo 3:3 ). Ora, se o homem é de novo gerado segundo Deus, isto significa que Deus mudou a condição do homem ( 1Pe 1:3 e 23).

A condição do crente é completamente distinta de quando não cria em Cristo. Antes de crer o homem esta sujeito à potestade das trevas e, após crer é transportado para o reino do Filho do seu amor “O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” ( Cl 1:13 ). Quando na potestade das trevas o homem estava vivo para o pecado, portanto, jamais será declarado justo, mas os mortos para o pecado estão justificados do pecado.

Ora, os ordenamentos jurídicos que encontramos nos tribunais tratam de questões e relações que possuem materialidade entre vivos, já a doutrina da justificação não envolve princípios forenses, pois só quem está morto para o pecado está justificado do pecado!

A bíblia demonstra que tanto judeus quanto gentios são salvos pela graça de Deus revelada em Cristo Jesus. Ser salvo pela graça de Deus é o mesmo que ser salvo mediante a fé, pois Jesus é a fé manifesta ( Gl 3:23 ). Jesus é o firme fundamento pelo qual o homem tem plena confiança em Deus e é justificado ( Hb 11:1 ; 2 Co 3:4 ; Cl 1:22 ).

Daniel B. Pecota afirmou que:

“A fé nunca é o fundamento da justificação. O Novo Testamento jamais afirma que a justificação é dia pistin (“em troca da fé”), mas sempre dia pisteos, (“mediante a fé”)”.

Ora, se entendermos que Cristo é a fé que havia de se manifestar, segue-se que Cristo (fé) foi, é e sempre será o fundamento da justificação. A confusão entre ‘dia pistin’ (confiança na verdade) e ‘dia pisteos’ (a própria verdade) se dá por má leitura das passagens bíblicas, visto que Cristo é o firme fundamento pelo qual os homens que creem tornam-se agradáveis a Deus, pois a justificação é mediante Cristo (dia pisteos).

O maior problema quanto à doutrina da justificação dos reformadores está em tentar dissociar a doutrina da justificação da doutrina da regeneração. Sem regeneração não há justificação e não há justificação à parte da regeneração. Quando o homem é gerado segundo a carne e o sangue tem-se o veredicto de Deus: culpado, pois esta é a condição do homem gerado segundo a carne ( Jo 1:12 ). Mas, quando o homem é gerado de novo (regenerado), o veredicto que Deus dá é: justificado, pois a pessoa efetivamente é justa.

O primeiro passo para compreender a doutrina da justificação é entender que todos os homens pecaram e destituídos foram da glória de Deus ( Rm 3:23 ). Isto quer dizer que, por causa da ofensa de Adão, todos os homens juntamente, quando na ‘coxa’ de Adão, se fizeram imundos e mortos para Deus ( Sl 53:3 ; Sl 14:3 ). Após a ofensa de Adão todos os seus descendentes passaram a viver para o pecado e estavam mortos (alienados, separados) para Deus.

Ao falar desta condição herdada de Adão, o apóstolo Paulo disse que todos os homens (judeus e gentios) eram por natureza filhos da ira ( Ef 2:3 ). Por que filhos da ira? Porque eram filhos da desobediência de Adão “Ninguém vos engane com palavras vãs; porque por estas coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência” ( Ef 5:6 ).

Por causa da ofensa de Adão o pecado entrou no mundo, e em função da desobediência dele todos os homens são pecadores “Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram” ( Rm 5:12 ). Todos os homens nascidos segundo a carne são pecadores porque a condenação de Adão (morte) passou a todos os seus descendentes.

Muitos desconhecem que os homens são pecadores por causa da condenação herdada de Adão, e consideram que os homens são pecadores por causa de questões comportamentais oriundas do conhecimento do bem e do mal.

É necessário divisar bem a ofensa de Adão do conhecimento adquirido do fruto do conhecimento do bem e do mal. Enquanto o conhecimento do bem e do mal não foi o que separou o homem de Deus (pecado), pois Deus é conhecedor do bem e do mal ( Gn 3:22 ), a desobediência trouxe o pecado (divisão, separação, alienação) por causa da lei que disse: certamente morrerás ( Gn 2:17 ).

O pecado mostrou-se excessivamente maligno porque através da lei santa, justa e boa o pecado dominou e matou o homem ( Rm 7:13 ). Sem a penalidade da lei: ‘certamente morrerás’, o pecado não teria poder de dominar o homem, mas através do poder da lei (certamente morrerás) o pecado achou ocasião e matou o homem ( Rm 7:11 ). A lei dada no Éden era santa, justa e boa porque alertava o homem acerca das consequências da desobediência (dela não comerás, pois no dia que dela comeres, certamente morrerás).

Por causa da ofensa os homens são formados em iniquidade e concebidos em pecado ( Sl 51:5 ). Desde a madre (desde a origem) os homens desviam-se de Deus ( Sl 58:3 ), o melhor dos homens é comparável a um espinho, e o mais reto a uma cerca feita de espinhos ( Mq 7:4 ). É por causa da ofensa de Adão que se ouviu o veredicto: culpados! ( Rm 3:23 )

Dai a pergunta de Jó: “Quem do imundo tirará o puro? Ninguém” ( Jó 14:4 ). Mas, aquilo que é impossível aos homens é possível a Deus, pois Ele tem o poder de fazer tudo novo:  “Jesus, porém, olhando para eles, disse: Para os homens é impossível, mas não para Deus, porque para Deus todas as coisas são possíveis” ( Mc 10:27 ).

A justificação é a resposta de Deus a mais importante de todas as questões humanas: Como uma pessoa pode se tornar aceitável diante de Deus? A resposta está clara no Novo Testamento, especialmente na seguinte ordem de Jesus Cristo: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” ( Jo 3:3 ). É necessário nascer da água e do Espírito, pois o que é nascido da carne é carnal, mas os nascidos do Espírito, são espirituais ( Rm 8:1 ).

O problema da separação entre Deus e os homens (pecado) decorre do nascimento natural ( 1Co 15:22 ), e não do comportamento dos homens. O pecado está relacionado com a natureza decaída do homem, e não com o seu comportamento em sociedade.

A solução para a condenação que o homem alcança na justificação em Cristo é proveniente do poder de Deus, e não em um ato judicial. Primeiro, porque bastou o homem desobedecer ao Criador para que fosse estabelecido o juízo de condenação: a morte (separação) de todos os homens ( Rm 5:18 ). Segundo, porque quando Jesus convoca os homens a tomar a sua própria cruz, deixa claro que para haver conciliação entre Deus e os homens é necessário sofrer a pena imposta: morte. Na morte com Cristo a justiça é satisfeita, pois a pena não passa da pessoa do transgressor ( Mt 10:38 ; 1Co 15:36 ; 2Co 4:14 ).

Quando foi posto um homem paraplégico na frente de Jesus, Ele disse: “Ora, para que saibais que o Filho do homem tem na terra poder para perdoar pecados (disse ao paralítico), A ti te digo: Levanta-te, toma o teu leito, e vai para tua casa” ( Mc 2:10 -11). Esta fala de Jesus demonstra que a passagem clássica de Romanos 3, versos 21 à 25 sobre a justificação não envolve conceitos forenses.

Perdoar pecados não é demanda jurídica, é questão de poder! Só perdoa pecados aquele que tem poder sobre o barro para de uma mesma massa fazer vasos para honra ( Rm 9:21 ). É por isso que o apóstolo Paulo não se envergonhava do evangelho, pois o evangelho é o poder de Deus para salvação de todo que crê ( Rm 1:16 ).

Ao falar desta questão com Jó, Deus deixa claro que, para que o homem possa declarar a si mesmo justo, seria necessário ter braços como o de Deus e trovejar como o Altíssimo. Seria necessário enfeitar-se de glória e de esplendor e vestir-se de honra e majestade. Deveria ser capaz de derramar a sua ira esmagando o ímpio em seu lugar. Somente suprindo todos os requisito enumerados anteriormente seria possível ao homem salvar-se a si mesmo ( Jó 40:8 -14).

Mas, como o homem não tem esse poder descrito por Deus, jamais poderá declarar-se justo ou salvar a si mesmo. Já o Filho do homem, Jesus Cristo, Ele pode declarar o homem justo, porque Ele mesmo revestiu-se de glória e majestade ao tornar à glória junto ao Pai “E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse” ( Jo 17:5 ); “Cinge a tua espada à coxa, ó valente, com a tua glória e a tua majestade” ( Sl 45:3 ).

O segundo passo para compreender a doutrina da justificação é entender que não há como Deus declarar livre de culpa aqueles que estão condenados. Deus justo não pode deixar que a pena imposta aos transgressores não lhes seja aplicada.

Deus jamais declara (justifica) justo aquele que é ímpio “De palavras de falsidade te afastarás, e não matarás o inocente e o justo; porque não justificarei o ímpio ( Êx 23:7 ).  Deus jamais trata o ímpio como se justo fosse “Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra?” ( Gn 18:25). Deus jamais fará com que a pena imposta ao transgressor seja dada a outrem, como se lê: “A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai levará a iniquidade do filho. A justiça do justo ficará sobre ele e a impiedade do ímpio cairá sobre ele” ( Ez 18:20 ).

Quando Jesus disse a Nicodemos que é necessário ao homem nascer de novo, todas as questões acima foram consideradas, pois Jesus bem sabia que Deus jamais declara os nascidos segundo a carne de Adão livres de culpa.

Quando do nascimento natural o homem foi feito pecador, um vaso para desora, portanto, filho da ira e da desobediência. Para declarar o homem livre de pecado, primeiro é necessário que ele morra, pois se não morrer jamais poderá viver para Deus “Porque aquele que está morto está justificado
do pecado” ( Rm 6:7 );
 “Insensato! o que tu semeias não é vivificado, se primeiro não morrer” ( 1Co 15:36 ).

Cristo morreu pelos pecadores – o justo pelos injustos – mas qualquer que não comer a carne e beber o sangue de Cristo não terá vida em si mesmo, ou seja, é imprescindível ao homem ser participante da morte de Cristo “Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; mortificado, na verdade, na carne, mas vivificado pelo Espírito” ( 1Pe 3:18 ); “Jesus, pois, lhes disse: Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos” ( Jo 6:53 ).

Comer a carne e beber o sangue de Cristo é o mesmo que crer n’Ele ( Jo 6:35 e 47 ). Crer em Cristo é o mesmo que ser crucificado com Ele. Qualquer que crê é sepultado com Ele e deixa de viver para o pecado e passa a viver para Deus “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” ( Gl 2:20 ; Rm 6:4 ).

O homem que crê em Cristo admite que é réu de morte por causa da ofensa de Adão. Implicitamente admite que Deus é justo quando fala e é puro quando julga os descendentes de Adão como culpados ( Sl 51:4 ). Admite que somente Cristo tem o poder de criar um novo homem pela ressurreição dentre os mortos, de modo que aquele que é sepultado com Ele ressurge uma nova criatura.

O último passo para compreender a justificação é entender que do novo nascimento surge uma nova criatura criada em verdadeira justiça e santidade “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ; Ef 4:24 ). Esta nova criatura é declarada justa porque efetivamente Deus a criou de novo justa e irrepreensível diante d’Ele.

O homem que crê em Cristo é criado de novo participante da natureza divina ( 2Pe 1:4 ), pois o velho homem foi crucificado e o corpo que pertencia ao pecado desfeito. Após ter sido sepultado com Cristo na semelhança da sua morte, o homem ressurge uma nova criatura “Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado” ( Rm 6:6 ).

Através do evangelho, Deus não somente declara o homem justo, como também cria o novo homem essencialmente justo. Diferente do que o Dr. Scofield afirma, que Deus somente declara o pecador como sendo justo, mas não o torna justo.

A bíblia afirma que Deus cria o novo homem em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ), portanto, a Justificação é proveniente de um ato criativo de Deus, mediante o qual o novo homem é criado participante da natureza divina. A justificação bíblica refere-se à condição daqueles que são gerados de novo mediante a verdade do evangelho (fé): livres de culpa ou de condenação.

Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo. Porque não há nenhuma condenação?  A resposta está no fato de o homem ‘estar em Cristo’, pois os que estão em Cristo são novas criaturas “PORTANTO, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito” ( Rm 8:1 ); “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ).

A justificação decorre da nova condição daqueles que estão em Cristo, pois estar em Cristo é ser uma nova criatura “E, se Cristo está em vós, o corpo, na verdade, está morto por causa do pecado, mas o espírito vive por causa da justiça. E, se o Espírito daquele que dentre os mortos ressuscitou a Jesus habita em vós, aquele que dentre os mortos ressuscitou a Cristo também vivificará os vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que em vós habita” ( Rm 8:10 -11).

Dai a pergunta do apóstolo Paulo: “Pois, se nós, que procuramos ser justificados em Cristo, nós mesmos também somos achados pecadores, é porventura Cristo ministro do pecado? De maneira nenhuma” ( Gl  2:17 ). Ora, Cristo é ministro da justiça, e de nenhum modo ministro do pecado, portanto, aquele que é justificado por Cristo não é achado pecador, pois está morto para o pecado “Porque aquele que está morto está justificado do pecado” ( Rm 6:7 ).

Quando o apóstolo Paulo afirma: é Deus quem os justifica! “Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica” ( Rm 8:33 ), ele tinha plena certeza de que não era uma questão forense, pois num tribunal só declara o que é, visto que não possuem poder para mudarem a condição daqueles que comparecem perante os juízes.

Quando é dito que ‘é Deus quem justifica’, o apóstolo Paulo aponta o poder de Deus que cria um novo homem. Deus declara o homem justo porque não há condenação para aqueles que são novas criaturas. Deus não transferiu a condição do velho homem para Cristo, antes o velho homem foi crucificado e desfeito, de modo que, dentre os mortos ressurgiram novas criaturas que estão assentadas com Cristo para a glória de Deus Pai, e sobre elas não pesa condenação alguma.

Os cristãos são declarados justos porque foram transformados em justos (dikaioõ) pelo poder que há no evangelho, pelo qual o homem é participante do corpo de Cristo, pois morreu e ressurgiu juntamente com Cristo na condição de santo, irrepreensível e inculpável “No corpo da sua carne, pela morte, para perante ele vos apresentar santos, e irrepreensíveis, e inculpáveis” ( Cl 1:22 ; Ef 2:6 ; Cl 3:1 ).

Quando Paulo afirma: “Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” ( Cl 3:3 ), significa que o cristão está justificado do pecado, ou seja, morto para o pecado ( Rm 6:1 -11), e vivo para Deus “De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida” ( Rm 6:4 ).

Jesus foi entregue por Deus para morrer por causa do pecado da humanidade, pois é necessário aos homens morrerem para o pecado para que possam viver para Deus. É por isso que Cristo Jesus ressurgiu, para que os que ressurgem com Ele sejam declarados justos. Sem morrer não há ressurreição, sem ressurreição não há justificação “O qual por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação” ( Rm 4:25 ).

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Trocadilhos, enigmas e parábolas

Moisés correu em favor dos filhos de Israel porque queria que Deus perdoasse o pecado deles. Porém, a misericórdia de Deus não dependia da correria de Moisés e nem da sua vontade. O ponto nevrálgico da correria e da vontade de Moisés é verificável na sua oração: “Assim tornou-se Moisés ao SENHOR, e disse: Ora, este povo cometeu grande pecado fazendo para si deuses de ouro. Agora, pois, perdoa o seu pecado, se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito” ( Ex 32:31 -32).


Para interpretar um texto é essencial uma boa leitura. Com relação à Bíblia não é diferente, pois uma interpretação segura e fiel só é possível através de uma boa análise, e para isso é necessário observar algumas regras.

Para uma boa leitura da Bíblia é essencial analisar qual o público alvo dos ensinamentos de Cristo. Por exemplo: alguns ensinamentos de Jesus foram feitos em particular, com os seus discípulos, porém, em alguns momentos, o ensinamento tinha por publico os escribas e fariseus, e em outros momentos a multidão.

Após se inteirar qual é o publico alvo da mensagem, não podemos esquecer um alerta de Marcos: “E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” ( Mc 4:34 ). Quando Jesus falava aos discípulos em particular, geralmente explicava o sentido das parábolas e dos enigmas propostos à multidão, porém, é imprescindível considerar que, à multidão Jesus só falava utilizando parábolas.

Além das parábolas, também é necessário considerar os enigmas. Cada parábola possui um enigma específico, que antes de ser interpretada, primeiro é necessário desvendar o enigma. Lembrando que os enigmas propostos nas parábolas, essencialmente, referem-se a algo já abordado pelos profetas, salmos e a lei “Abrirei a minha boca numa parábola; falarei enigmas da antiguidade” ( Sl 78:2 ).

Observe que falar por enigmas ao povo já era uma prática antiga “Boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas; pois ele vê a semelhança do SENHOR; por que, pois, não tivestes temor de falar contra o meu servo, contra Moisés?” ( Nm 12:8 ).

Mas, além de observar o público alvo da mensagem, a parábola e os enigmas, a Bíblia também contém algumas frases construídas que remetem a uma verdade, porém, é um trocadilho.

O exemplo de um ‘trocadilho’ bíblico conhecido é: “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” ( Mt 16:18 ). O fato que deu origem a esta asserção de Jesus foi o evento em que o apóstolo Pedro fez uma confissão que é o cerne do cristianismo: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” ( Mt 16:16 ).

Em seguida Jesus demonstra que aquele conhecimento que o apóstolo Pedro expôs, não lhe fora revelado por ser descendente da carne de Abraão, antes porque o Pai, através da pessoa de Cristo é quem anunciou e tornou compreensível aquela verdade ( Jo 1:18 ).

Em seguida vem a declaração maravilhosa de Cristo: “Pois também eu te digo que tu és Pedro…” ( Mt 16:16 ), ou seja, da mesma forma que Pedro admitiu (confessou) algo que era verdadeiro: Cristo é o Filho do Deus vivo, Jesus fez uma confissão segundo a verdade acerca do seu discípulo: – ‘Admito que você é Pedro’. Cristo fez uma confissão acerca de Pedro com base no mesmo princípio da confissão de ‘Pedro’: verdadeira.

Por admitir que Cristo é o Filho do Deus vivo, Pedro tornou-se uma pedra sobre a rocha, pois a igreja é edificada sobre esta verdade: Jesus é o Cristo, Filho do Deus vivo “Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” ( Rm 10:13 ).

Em seguida fez a seguinte declaração: “…, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja…”. Com este trocadilho surgiu um dos maiores celeumas: a igreja de Cristo é edificada sobre Jesus, o Filho do Deus vivo, ou é edificada sobre o apóstolo Pedro, como afirma a Igreja Apostólica Romana?

Para uma desambiguação, é necessário recorrer a outros textos bíblicos que demonstram que Cristo é a pedra eleita, a pedra angular de esquina e é sobre Cristo que é erguida a sua igreja “Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina; No qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor. No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito” ( Ef 2:20 -22).

Através de outros textos, fica demonstrado que o apóstolo Pedro é somente uma pedra como todos os outros cristãos que Deus utiliza para edificar o seu templo “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pd 2:5 ).

Mas, o correto quanto ao texto é considerar que Cristo é a pedra e sobre Ele é edificado a igreja, de modo que a confissão de Pedro é o cerne da admissão cristã, a admissão segura, firme, que tem fundamento, verdadeira, que torna os homens que creem verdadeiras ‘pedras vivas’ que promove a edificação da igreja.

Para compreender as Escrituras é essencial socorrer-nos do mesmo princípio utilizado por Jesus: “Disse-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus” ( Mt 4:7 ). Em nenhuma passagem do Antigo Testamento foi predito que um dos discípulos de Cristo seria a pedra, antes foi dito que a pedra angular seria o Messias ( Jó 38:6 ; Sl 118:22 ; Sl 144:12 ; Is 28:16 ; Zc 10:4 ; Lc 20:17 ; At 4:11 ).

A Bíblia apresenta outros trocadilhos, como: “AI de Ariel, Ariel, a cidade onde Davi acampou! Acrescentai ano a ano, e sucedam-se as festas” ( Is 29:1 ), ou “Ai da lareira de Deus…”. A palavra hebraica traduzida por lareira às vezes também era transliterada por Ariel. Tal trocadinho foi estabelecido para demonstrar que, a cidade de Jerusalém onde ocorria o sacrifício sacerdotal, por causa da infidelidade do povo, haveria de se tornar o próprio altar de sacrifício onde os habitantes de Jerusalém seriam mortos.

O verso primeiro do Salmo 23 é um trocadilho, porém, perceptível somente na língua original do texto, porque em decorrência dos radicais das palavras hebraicas traduzidas por ‘meu pastor’ e ‘pastagem’, tem-se a ideia: ‘O Senhor é meu Pastor’ que pode ser compreendido como: “O Senhor é o meu alimento”.

Há trocadilhos com a construção de provérbios, como: “Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do SENHOR!” ( Jr 17:5 ). Ou seja, o verso não semeia discórdia entre irmãos, visto que não está dizendo para que os homens não confiem em seus semelhantes nos relacionamentos diários, antes a lição dada anteriormente: “Dize-lhes, pois: Assim diz o SENHOR Deus de Israel: Maldito o homem que não escutar as palavras desta aliança” ( Jr 11:3 ), é reeditada: a pessoa que não obedece as palavras da aliança divina é aquele que, para alcançar a salvação eterna, confiam em si mesmo, o mesmo que fazer da sua força o seu braço.

Há outros trocadilhos que complementa a ideia acima: “Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos” ( Zc 4:6 ). A ‘força’ e a ‘violência’ são figuras que representam a ‘carne’ e o ‘braço’ do homem que confia em si mesmo, e se esquece da palavra de Deus, que é espírito ( Jo 6:63 ).

A Bíblia contém construções mais complexas, como a que se segue: “Porque na lei de Moisés está escrito: Não atarás a boca ao boi que trilha o grão. Porventura tem Deus cuidado dos bois?” ( 1Co 9:9 ). Nesta construção não há um trocadilho, antes temos uma citação de um provérbio.

É um equivoco considerar que através desta citação o apóstolo Paulo estava pleiteando benefícios para receber uma contribuição da igreja de corinto, isto porque o contexto da sua carta demonstra que o apóstolo não buscava salário, antes anunciou aos cristãos de corinto o evangelho de graça para cortar ocasião aos obreiros fraudulentos ( 2Co 11:7 -12).

O texto de Deuteronômio não possui relação direta com salário ou prestigio, antes invoca a ideia do direito. Se alguém fosse condenado, devia pagar a pena, porém, não poderia ter o seu direito violado. Com base na ideia de direito contido no provérbio, o apóstolo Paulo cita a lei para defender o seu apostolado.

O apóstolo Paulo não estava pleiteando prestígio social através dos cristãos, ou um salário, antes que reconhecessem a sua autoridade como ministro de Cristo, pois sem ser reconhecido como autoridade apostólica, os cristãos ficariam vulneráveis as doutrinas dos falsos apóstolos. É por isso que na carta aos corintos o apóstolo cita o termo direito por três vezes ( 1Co 9:4 -6).

Através do alerta: ‘Deus não tem cuidado de bois’, o apóstolo Paulo destaca o objetivo da lei: cuidado para com os homens, e o provérbio foi utilizado porque ele encerrava uma ideia: direito. Por que o boi como figura? Porque na antiguidade o boi era como o escravo do pobre, e para ser efetivo no trabalho, precisava comer. O boi como figura, também transmite a ideia de impessoalidade, o que faria com que o verdugo deixasse suas emoções de lado no momento de aplicar a pena.

Era direito dos condenados serem chicoteados com, no máximo 40 açoites. O direito dos condenados vetava aos juízes aplicarem um número acima do estabelecido pela lei “E será que, se o injusto merecer açoites, o juiz o fará deitar-se, para que seja açoitado diante de si; segundo a sua culpa, será o número de açoites. Quarenta açoites lhe fará dar, não mais; para que, porventura, se lhe fizer dar mais açoites do que estes, teu irmão não fique envilecido aos teus olhos” ( Dt 25:2 -3).

Quando foi estabelecido este direito, o provérbio serviu para consolidar a ideia e o entendimento dos juízes do porquê não deveriam exceder o número de açoites estabelecido em lei: “Não atarás a boca ao boi, quando trilhar” ( Dt 25:4 ).

Mas, por que o apóstolo citou a lei? Ora, ele cita a lei com um objetivo específico: demonstrar aos seus opositores conhecimento da lei, o que reforçaria o seu pleito de ser reconhecido como apóstolo.

Por que pleitear o direito de apóstolo? O apóstolo Paulo havia posto como sábio construtor Cristo como fundamento da igreja, mas havia alguns homens que se intrometiam em meio aos cristãos se dizendo sábios, apóstolos, mestres, etc., porém, queriam substituir o fundamento “Não sou eu apóstolo? Não sou livre? Não vi eu a Jesus Cristo SENHOR nosso? Não sois vós a minha obra no Senhor? Se eu não sou apóstolo para os outros, ao menos o sou para vós; porque vós sois o selo do meu apostolado no Senhor” ( 1Co 9:1 -9; 1Co 3:11 ).

Havia alguns homens que se diziam apóstolos e que até faziam uso de direitos próprio aos apóstolos ( 1Co 9:12 ), o que é mais evidente na segunda carta aos corintos ( 2Co 11:13 ), enquanto o apóstolo Paulo tinha o cuidado de não se impor para não causar embaraço ao evangelho de Cristo.

O apóstolo dos gentios não estava buscando ser servido pelos cristãos ( 2Co 12:14 ), antes desejava servi-los, pois sabia qual era a condição de um apóstolo de Cristo ( 1Co 4:9 -12).

Enquanto a declaração de Pedro foi enfatizada através de um trocadilho de Jesus, mas ao distorcerem a ideia, perpetua-se um erro na Igreja Católica Apostólica Romana até hoje, semelhantemente o trocadilho que o apóstolo Paulo fez, em função de uma má leitura dos Reformadores, em especial João Calvino, fomentaram outro erro que igualmente perpetua-se: “Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” ( Rm 9:15 ).

No afã de evidenciar a soberania de Deus e a incapacidade do homem salvar-se por seus próprios meios, lançou mão de um trocadilho, e o erro decorrente desta má leitura tem persistido ao longo dos tempos.

Através deste trocadilho Calvino concluiu que Deus exerce a sua misericórdia com base na sua soberania, e que Ele determinou previamente quais seriam as pessoas a serem salvas através da sua misericórdia.

Mas, quando Deus disse a Moises que teria misericórdia de quem Ele tivesse misericórdia, estava falando de sua soberania? O que Deus estava tratando com Moisés?

Devemos voltar no tempo, e ver o povo de Isael transgredindo o mandamento de Deus quando fizeram um bezerro de ouro no deserto ( Ex 32:8 ). Deus havia concedido os dez mandamentos, e entre os primeiros temos: “Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam” ( Ex 32:3 -5).

Após determinar que não tivessem outro deus, e que não fizessem imagens de esculturas, Deus enfatizou que vingaria (visito) aqueles que não o obedecessem (odeiam), porém, aqueles que obedecessem (amasse), Deus teria misericórdia “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” ( Ex 32:6 ).

Os termos ‘amor’ e ‘ódio’ nos versos 5 e 6 de Êxodo 32 não se refere a sentimento, antes a ideia de obediência, serviço “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” ( Mt 6:24 ); “Nenhum servo pode servir dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” ( Lc 16:13 ).

Quando Deus falou que ia destruir o povo de Israel, Moisés intercedeu e Deus o atendeu ( Êx 32:11 -14). Ele desceu do monte, e ao ver o povo adorando o ídolo, arremessou a tábua que recebera das mãos de Deus e quebrou as tábuas escritas por Deus ( Ex 32:19 ). Por zelo, Moisés manda exterminar os idólatras e, em seguida, subiu ao monte para interceder pelo povo para que Deus fosse propício.

É importante observar que após interceder pelo povo, Moisés desceu o monte, quebrou a tábua dos dez mandamentos, destruiu o ídolo, destruiu os idólatras, e correu novamente ao Senhor para interceder. Em seguida expor o que queria: “Assim tornou-se Moisés ao SENHOR, e disse: Ora, este povo cometeu grande pecado fazendo para si deuses de ouro. Agora, pois, perdoa o seu pecado, se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito” ( Ex 32:31 -32).

Moisés correu em favor dos filhos de Israel porque queria que Deus perdoasse o pecado deles. Porém, a misericórdia de Deus não dependia da correria de Moises e nem da sua vontade. O ponto nevrálgico da correria e da vontade de Moisés é verificável na sua oração: – “Agora, pois, perdoa o seu pecado, se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito”!

Um pedido descabido que não ficou sem resposta. Deus disse: – ‘Não’! Deus não é o homem para voltar a sua palavra atrás. A palavra de Deus é irrevogável. Deus não pratica injustiça. Deus jamais condenaria um justo como Moisés, em lugar dos pecadores. Daí a resposta divina: – “Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro”.

Observe o que Deus disse a Ezequiel: “Ainda que estivessem no meio dela estes três homens, Noé, Daniel e Jó, eles pela sua justiça livrariam apenas as suas almas, diz o Senhor DEUS” ( Ez 14:14 ). Observe que Moisés não livrou os idolatras com a sua justiça.

Quando Moisés foi comissionado para continuar guiando o povo em meio ao deserto, Moisés roga a presença de Deus ( Ex 33:12 -13). Moisés sabia que aquele povo receberia a justa retribuição pelo seu pecado, foi quando Deus lhe garantiu que iria em meio ao povo, para que Moisés ficasse em paz.

Foi quando Moisés rogou para ver a glória de Deus, e recebeu a seguinte resposta: “Então ele disse: Rogo-te que me mostres a tua glória. Porém ele disse: Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti, e proclamarei o nome do SENHOR diante de ti; e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer” ( Ex 33:18 -19).

Deus demonstra que faria passar a sua bondade diante de Moisés, porém, o que estava estabelecido jamais seria mudado: “… e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer” ( Ex 33:19 ). O que Deus estava dizendo a Moisés? – Moisés, não adianta ‘correr’ ou ‘querer’, pois sou Deus zeloso (velo sobre a minha palavra para cumprir), que visito a iniquidade dos que me odeiam e faço misericórdia aos que me amam.

A oração de um justo pode muito em seus efeitos, até parar o sistema solar, mas não pode mudar o que Deus estabeleceu com a sua palavra. Moisés pediu para ver a ‘gloria de Deus’ e Deus atendeu, mas o pedido de perdão para aqueles incrédulos e desobedientes jamais seria atendido.

Com base na pró-atividade de Moisés em correr e querer que Deus demonstrasse favor para com o povo de Israel é que o apóstolo Paulo construiu a seguinte asserção: a misericórdia não é de quem quer ou de quem corre.

Semelhantemente, é com base no estabelecido nos dez mandamentos: “Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos ( Ex 32:3 -6), que Deus estabeleceu o seguinte trocadilho: “… e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer” ( Ex 33:19 ).

Para compreendê-lo, é essencial que o leitor conheça a lei mosaica e o que Deus havia estabelecido. Diante do trocadilho, basta se perguntar: de quem Deus terá misericórdia? A resposta advém da lei: dos que me amam, aos que guardam os meus mandamentos.

De quem Deus quer ter misericórdia? A vontade de Deus é demonstrar misericórdia aos que o amam! Desde a eternidade Deus quis e estabeleceu que a sua misericórdia está reservada para os que o amam, segundo o seu mandamento.

É neste ponto que vemos a soberania e a justiça de Deus em harmonia.

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Como ultrapassar a justiça dos fariseus

Como o povo obteria justiça superior a dos fariseus, se os fariseus pautavam as suas práticas no que a religião judaica apresentava como melhor? Como alguém do povo, que era rotulado como multidão maldita pelos lideres da religião judaica, seria capaz de obter justiça superior a de um fariseu semelhante a Saulo, que vivia conforme os preceitos da mais severa seita do judaísmo “Sabendo de mim desde o princípio (se o quiserem testificar), que, conforme a mais severa seita da nossa religião, vivi fariseu” ( At 26:5 ); “Mas esta multidão, que não sabe a lei, é maldita” ( Jo 7:49 ).


“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” ( Mt 5:20 )

Introdução

Como exceder a justiça dos escribas e fariseus, se os escribas e fariseus eram religiosos considerados justos aos olhos do povo? ( At 26:5 ) Como o povo à época de Cristo haveria de adquirir uma justiça superior a dos escribas e fariseus, se eles eram referência moral, religiosa e de serviço a Deus?

Observe o que um fariseu disse enquanto orava: “Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo” ( Lc 18:11 -12 ).

Um jovem príncipe, quando interpelado acerca dos mandamentos, disse: “Tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade; que me falta ainda?” ( Mt 19:20 ).

Acerca dos fariseus, Jesus disse: “Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens…” ( Mt 23:28 ).

Daí a pergunta: como o povo obteria justiça superior a dos fariseus, se os fariseus pautavam as suas práticas no que a religião judaica apresentava como melhor? Como alguém do povo, que era rotulado como multidão maldita pelos lideres da religião judaica, seria capaz de obter justiça superior a de um fariseu semelhante a Saulo, que vivia conforme os preceitos da mais severa seita do judaísmo “Sabendo de mim desde o princípio (se o quiserem testificar), que, conforme a mais severa seita da nossa religião, vivi fariseu” ( At 26:5 ); “Mas esta multidão, que não sabe a lei, é maldita” ( Jo 7:49 ).

Como adquirir justiça maior que a dos fariseus, se as suas práticas como jejuns, orações, sacrifícios, dízimos, moral, comportamento, religiosidade, nacionalidade, etc., não lhes concedeu o direito de entrarem no reino dos céus?

Para alcançar justiça superior, seria o bastante redobrar as práticas dos escribas e fariseus? Redobrar os jejuns, as orações, os sacrifícios, os dízimos, etc., concederia justiça superior?

 

O povo e os fariseus

Aos olhos do povo, os escribas e fariseus eram tidos por justos “Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e de iniquidade” ( Mt 23:28 ), entretanto, apesar da conduta social ilibada, Jesus vetou o reino dos céus aos fariseus e escribas “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” ( Mt 5:20 ).

Ao demonstrar que o reino dos céus estava vetado aos escribas e fariseus e exigir do povo uma justiça superior aos mestres em Israel, Jesus, de modo polido, estava dando a entender aos seus ouvintes que, tanto eles quanto os escribas e fariseus estavam destituídos do reino dos céus.

Se os fariseus não podiam entrar no céu, o que seria do povo? E o pior: como e onde obteriam uma justiça superior? O que era necessário fazer para ter direito a entrar no reino dos céus? Ser descendente da carne de Abraão não bastava? Ser israelita, prosélito, circuncidado, dizimista, guardar o sábado, ir ao templo, sacrificar, etc., não era suficiente?

 

O que fazer?

Para compreendermos o que Jesus exigiu do povo no Sermão da Montanha, é de grande ajuda comparar Mateus 5, verso 20 com João 3, verso 3:

“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” ( Mt 5:20 ), e;

“Jesus respondeu, e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” ( Jo 3:3 ).

Escolhemos João 3, verso 3, para compararmos com Mateus 5, verso 20 por causa da parte ‘b’ dos dois versículos:

 “… de modo nenhum entrareis no reino dos céus” ( Mt 5:20 );

“… não pode ver o reino de Deus” ( Jo 3:3 ).

Através dos dois versos, verifica-se que, para entrar no reino dos céus é necessário: a) nascer de novo, e/ou; b) obter justiça que exceda a dos escribas e fariseus.

 

Como nascer de novo?

O apóstolo João deixa claro que, todos os que creem em Cristo recebem poder para serem feitos (criados) filhos de Deus ( Jo 1:12 ). Ora, para receber poder é imprescindível crer que o Filho do homem, o Jesus de Nazaré, desceu do céu ( Jo 3:13 ).

Crer em Cristo como o Verbo que se fez carne é o mesmo que recebê-Lo “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” ( Jo 1:12 ). Que ‘poder’ é concedido aos que creem? Ora, o poder é o evangelho, como diz o apóstolo Paulo: “Não me envergonho do evangelho, que é poder de Deus” ( Rm 1:16 ).

Recebe a Cristo quem crê que o Filho do homem tinha que ser crucificado ( Jo 3:14 ); recebe quem crer nas palavras proferidas pelo Filho do homem ( Jo 3:15 ); recebe quem crer que Deus entregou o seu Filho Unigênito ( Jo 3:16 ); recebe quem crer que o Filho do homem foi entregue para salvar o mundo, e não para condená-lo ( Jo 3:17 ); recebe a Cristo quem crer que a condenação é rejeitar Cristo ( Jo 3:18 ), e; recebe a Cristo quem crer que praticar a verdade é o mesmo que estar em Cristo ( Jo 3:19 ).

Sobre esta verdade disse o apóstolo Paulo: “Mas, depois que veio a fé, já não estamos debaixo de aio. Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo” ( Gl 3:25 -27).

Uma análise apurada demonstra que, para nascer de novo é necessário crer na mensagem do evangelho, as boas novas anunciadas por Cristo, que é semente incorruptível e poder de Deus ( 1Pe 1:3 e 23 ). Não basta crer em milagres, no impossível, em Deus, antes é necessário crer em Cristo como o enviado de Deus que tira o pecado do mundo ( Jo 14:1 e 11; Tg 2:19 ).

 

Como alcançar justiça superior a dos escribas e fariseus?

Jesus orientou aos seus ouvintes a buscarem o reino de Deus e a justiça proveniente do reino “Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” ( Mt 6:33 ). Ora, sabemos que Cristo é o reino de Deus entre os homens ( Lc 11:9 -10; 11 e 20-21 ).

Certa feita a multidão perguntou acerca da obra de Deus, e Jesus respondeu: “A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ). Qualquer que crê no enviado de Deus, realiza a obra de Deus, de modo que excede a justiça dos escribas e fariseus “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” ( Mt 5:20 ).

Diante da pergunta: “Creu nele porventura algum dos principais ou dos fariseus?” ( Jo 7:48 ), tem-se a resposta: não! Ora, se não creram no enviado de Deus, certamente não executaram a obra exigida; se não ‘buscaram’ o reino de Deus, consequentemente não alcançaram a justiça que vem do alto.

Com base na obra exigida por Deus, que é crer em Cristo, verifica-se que ser justo não decorre de ações tais como não roubar, furtar, adulterar, injustiçar, etc., antes diz da condição própria aos filhos de Deus “O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano” ( Lc 18:11 ); “Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo” ( Tt 3:5 ).

A obra exigida por Deus não se refere às obras da lei, antes se refere à obra da fé: crer no enviado de Deus ( Gl 3:2 ). As obras que os fariseus realizavam baseavam-se em preceitos de homens, portanto, jamais entrariam no reino dos céus “Este povo se aproxima de mim com a sua boca e me honra com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim” ( Mt 15:8 ).

Com base nos versos que analisamos, verifica-se que:

  • para nascer de novo é necessário crer em Cristo;
  • que crer em Cristo é a obra exigida por Deus;
  • quem crer executa obra maior que a dos escribas e fariseus, de modo que alcança justiça superior.

O advento do novo nascimento é o que estabelece justiça superior à justiça dos escribas e fariseus e, que ter justiça superior a dos escribas e fariseus só é possível a quem nascer de novo. Todos os que são de novo gerados pela fé em Cristo são criados em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ).

Quem crê em Cristo possui a mesma fé que o crente Abraão que, após ouvir a promessa, creu que em seu Descendente todas as famílias da terra seriam benditas ( Gl 3:8 ). Quem crê em Cristo está de posse da mesma ‘fé’ que Abraão, portanto, é recebido por filho de Abraão por crer em Cristo “E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa” ( Gl 3:29 ).

Crer em Cristo é alcançar o reino dos céus e a sua justiça. A justiça do reino de Deus é superior, pois é de cima ( Mt 7:33 ).

 

A justiça nos Salmos

Onde o homem buscará justiça?

Segundo o salmista, a mão direita de Deus está plena de justiça ( Sl 48:10 ). Tudo o que fora dito pelos profetas acerca de Deus, o homem encontra em Cristo “Como o ouvimos, assim o vimos na cidade do SENHOR dos Exércitos, na cidade do nosso Deus. Deus a confirmará para sempre” ( Sl 48:8 ).

O salmista profetizou dizendo que, tudo o que ouviram, assim viram na cidade de Jerusalém. O evangelista João confirma esta palavra, quando diz: “O QUE era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida” ( 1Jo 1:1 ).

Cristo apresentou-se diante da multidão com as mãos plenas de justiça, pois veio e cumpriu o que fora ordenado pelo Pai ( Sl 48:11 ). Ele mesmo enfatizou ser o cumprimento cabal do que fora predito, portanto, era o cumprimento da lei ( Mt 5:17 -18).

Há uma má leitura da fala de Jesus quando disse que ‘veio cumprir a lei’. Muitos entendem que Jesus veio cumprir o sábado, a circuncisão, os jejuns, as luas novas, as festas, etc., porém, a leitura correta é que Ele é o cumprimento cabal da lei e dos profetas. Em Cristo tudo foi cumprido, quer seja um til ou um jota. Embora Jesus se assentasse com os pecadores e cobradores de impostos, não jejuasse aos moldes dos fariseus, não guardasse o sábado como os seus compatriotas, Ele era a encarnação da lei e dos profetas ( Mt 9:14 ; Jo 9:16 ).

Por fim, o salmista profetiza que Cristo há de ser o guia daqueles que nele confiam até a morte “Porque este Deus é o nosso Deus para sempre; ele será nosso guia até à morte” ( Sl 48:14 ). Como? Jesus não veio para livrar o homem da morte? O correto não seria um guia que livrasse o homem da morte?

Não! Na verdade, para que a justiça de Deus fosse estabelecida, necessário é que o devedor recebesse o seu prêmio: a morte. Deus estabeleceu: a alma que pecar, essa mesma morrerá, de modo que a pena não passa da pessoa do transgressor ( Ez 18:4 ).

Por causa deste entrave é que Jesus convida os homens a tomarem sobre si a sua própria cruz e segui-lo. Qualquer que crê em Cristo toma a sua cruz; quem crê segue após Cristo, é crucificado e morto. Cristo morreu a morte física como cordeiro de Deus, em lugar de todos os pecadores. Porém, todos os que creem morrem com Ele para que a justiça de Deus seja estabelecida, e só então, é criado um novo homem, ressurreto em uma nova criatura “Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados” ( 1Pe 2:24 ).

Quando o homem morre com Cristo, Deus é justo. Quando o homem ressurge dentre os mortos, Deus é justificador, pois declara o ressurreto com Cristo justo. O homem de novo gerado é declarado justo porque foi de novo criado participante da natureza divina: justo ( 1Pe 1:4 ). Somente os nascidos de Deus são justos e praticam justiça. Praticar justiça é próprio aos nascidos d’Ele, assim como pecar é próprio aos escravos do pecado “Se sabeis que ele é justo, sabeis que todo aquele que pratica a justiça é nascido dele” ( 1Jo 2:29 ).

Somente àqueles que se achegam a Cristo (luz) praticam a verdade. Como a obra de Deus é que o homem creia em Cristo, a obra de quem crê é realizada em Deus. Quem crê professa a verdade do evangelho, de modo que as suas obras são manifestas “Mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus” ( Jo 3:21 ).

Confessar que Jesus de Nazaré é o Cristo de Deus, certo de que Deus o ressuscitou dentre os mortos é o artigo de fé pelo qual o homem é salvo.

Quem crê nesta verdade, alcança justiça e a boca manifesta a obra realizada por Deus “A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido” ( Rm 10:9 -11).

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