Eleição e Predestinação

Pela onisciência Deus conhece (saber) todos os salvos e todos os perdidos em todos os tempos. Entretanto, há aqueles que Deus nunca conheceu (nunca foram um com Ele) e estes irão para o fogo eterno (Mt 7:23) e há aqueles que conhecem a Deus, ou antes, são conhecidos d’Ele, ou seja, são um com Ele e são salvos (Gl 4:9).


“Porquanto, aos que de antemão conheceu, também, os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Romanos 8:29 -30)

Os fins da predestinação

É consenso entre os estudiosos pensar a predestinação tendo o homem como fim imediato, isso porque, na sua grande maioria, entendem que, através da predestinação, Deus concede salvação aos homens.

Apesar de inúmeros textos bíblicos rezarem que Deus salva o homem por meio  do evangelho, que é poder de Deus para salvação de todo que crê (Rm 1:16), simplesmente, ignoram a verdade e se agarram a algumas teorias teológicas.

Sem embargo, os apóstolos afirmam, com todas as letras, que Deus, segundo a sua misericórdia, salva o homem pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo, ou seja, pela semente incorruptível, que é a palavra de Deus (Tt 3:5).

Mesmo diante de declarações contundentes, de que Cristo Jesus aboliu a morte e trouxe à luz a vida e a incorrupção, pelo evangelho, (2 Tm 1:10; Ef 1:13; 1 Co 1:21), muitos insistem em afirmar que a salvação se dá através da predestinação.

 

O fim imediato da predestinação está vinculado a Cristo

Na Antiga Aliança, os primogênitos tinham direito a vários privilégios, em relação aos demais irmãos, pois, a eles, pertencia a bênção, o principado, o sacerdócio, porção dobrada da herança, etc. Em virtude de ter nascido primeiro, em relação aos demais irmãos, o primogênito detinha a preeminência em tudo.

Semelhantemente, Cristo é o primeiro a ressurgir dentre os mortos e, por isso, foi declarado primogênito dentre os mortos (Cl 1:18; Ap 1:5). Ao ressurgir dentre os mortos, Cristo conduziu muitos filhos à glória de Deus (Hb 2:10), de modo que Aquele que foi introduzido no mundo, na condição de Unigênito, agora é primogênito entre muitos irmãos.

Mas, para Cristo ser primogênito entre muitos irmãos, cada irmão, necessariamente, deve ser semelhante a Ele, pois, só é irmão aquele que participa das mesmas coisas (Hb 2:14). Cristo, para chamar os homens de irmãos, teve de participar da carne e do sangue (Hb 2:11-14), semelhantemente, os homens, para chamarem o Cristo glorificado de irmão, necessitam ser participantes de Sua glória.

A solução dessa equação está na predestinação! Na eternidade, antes de haver mundo, Deus estabeleceu que todos os homens salvos por intermédio do evangelho estão predestinados a serem conforme a imagem de Cristo, com o único objetivo de Ele ser o primogênito entre muitos irmãos.

Ao ser gerado de novo, através da semente incorruptível, o novo homem em Cristo faz parte da geração eleita, ou seja, eleito antes da fundação do mundo, para ser santo e irrepreensível diante de Deus (Ef 1:3).

Isso significa que Deus não elegeu indivíduos para serem santos e irrepreensíveis, mas, elegeu a geração de Cristo. Se Deus tivesse elegido indivíduos a escolher, a escolha recairia sobre os descendentes da geração imunda e culpável, segundo a semente corruptível de Adão. Entretanto, Deus elegeu a descendência de Cristo, o último Adão, pois os homens gerados segundo Cristo, são criados em verdadeira justiça e santidade, ou seja, santos e irrepreensíveis.

Como a geração de Cristo é eleita, significa que todos os que são gerados de novo, pela verdade do evangelho, sem exceção, também são predestinados a serem semelhantes a Cristo (1 Jo 3:1-2). Através da predestinação, todos os salvos pela misericórdia de Deus, demonstrada por intermédio do evangelho, terão a mesma imagem do homem celestial: Cristo (1 Co 15:49).

O evangelho foi anunciado para a salvação e a predestinação estabelecida para a imagem. O evangelho é semente incorruptível que trás à existência novas criaturas e são eleitos por terem sido de novo gerados segundo o último Adão, o eleito de Deus.

A eleição e a predestinação estão em conexão com a aprovação régia que Deus propusera em Si mesmo na pessoa de Cristo de, na plenitude dos tempos, tornar a congregar em Cristo todas as coisas, tanto as do céu quanto as da terra (Ef 2:9-10).

Nos céus, Cristo foi elevado à posição de cabeça da Igreja (Ef 1:22), e na terra à posição de mais sublime (Sl 89:27). Ao eleger Abraão, Deus congregou as coisas da terra em Cristo, e no Descendente prometido a Abraão, Cristo, Deus congregou as coisas dos céus.

“E sujeitou todas as coisas a seus pés e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja” (Ef 1:22);

“Também o farei meu primogênito mais elevado do que os reis da terra” (Sl 89:27)

Segundo o conselho da Sua vontade, o propósito de Deus estabelecido em Cristo foi levado a efeito quando Ele se assentou à destra da Majestade nas Alturas, na posição de cabeça da Igreja, Primogênito entre muitos irmãos.

Agora, Cristo está aguardando que todos os seus inimigos sejam postos por escabelo dos seus pés (Sl 110:1), quando Ele se levantará para reger as nações da terra, assentado sobre o trono de Davi, seu pai, como o mais elevado do que os reis da terra.

Mas, como é ser semelhante a Cristo? Segundo o apóstolo João, ainda não é manifesto como haveremos de ser, mas uma coisa é certa: quando Cristo se manifestar seremos semelhantes a Ele! (1 Jo 3:2)

 

O fim mediato da predestinação em relação aos homens

Na eternidade, Deus decretou que a geração de Cristo, além de ser santa e irrepreensível, visto que nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, todos os gerados d’Ele serão conformes à imagem de seu Filho.

É impossível Deus escolher os descendentes da carne de Adão, pois todos, juntamente, se desviaram e se fizeram imundos. Mas, por intermédio de Cristo, o homem, segundo Adão, que ouve a mensagem do evangelho e crê, morre e é sepultado com Cristo e, em seguida, ressurge uma nova criatura, santa e inculpável, predestinada a ser conforme a imagem de Cristo.

Tanto a eleição quanto a predestinação, estão relacionados à nova criatura, ou seja, àquele que está em Cristo. Por conseguinte, aquele que está em Cristo conhece a Deus e é conhecido d’Ele. É ‘conhecido’ de Deus, por estar intimamente ligado a Ele, ou seja, se fez um só corpo com Ele.

O fim imediato da eleição e da predestinação é a preeminência de Cristo, sendo que, na eternidade, a geração de Cristo foi eleita e predestinada a ser conforme a imagem de Cristo, segundo a vontade de Deus. Tanto a eleição, quanto a predestinação, foram levadas a efeito, quando da vinda da existência ao mundo das novas criaturas, que são criadas segundo o mesmo poder de Deus, manifesto em Cristo.

As benesses da eleição e da predestinação são herdadas no nascimento do cristão, de modo que, ser santo e irrepreensível  conforme a imagem de Cristo, não resulta de obras realizadas pelo crente, antes, tais benesses foram concedidas em Cristo, antes dos tempos dos séculos, segundo o próprio propósito de Deus: fazer Cristo preeminente em todas as coisas.

“Que nos salvou e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça, que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos dos séculos” (2 Tm 1:9).

Quanto à salvação, a eleição e a predestinação não têm um fim, e sim, a misericórdia e a graça de Deus, concedidas pelo evangelho.

A misericórdia de Deus é manifesta à humanidade na encarnação de Cristo, que concede salvação a todos que n’Ele creem. O evangelho que concede salvação aos que creem foi anunciado, primeiramente, a Abraão (Gl 3:8) e hoje o evangelho é anunciado como o mandamento de Deus.

“Mas a seu tempo manifestou a sua palavra pela pregação que me foi confiada, segundo o mandamento de Deus, nosso Salvador” (Tt 1:3);

“Mas que se manifestou agora e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações, para obediência da fé” (Rm 16:26).

O mandamento de Deus é dado a todas as nações, para que obedeçam ao evangelho, a fé que uma vez foi dada aos santos (Jd 1:3).

“Mas nem todos têm obedecido ao evangelho; pois Isaías diz: SENHOR, quem creu na nossa pregação?” (Rm 10:16);

“Porque já é tempo que comece o julgamento pela casa de Deus; e, se primeiro começa por nós, qual será o fim daqueles que são desobedientes ao evangelho de Deus?” (1 Pd 4:17).

“Como labareda de fogo, tomando vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo” (2 Ts 1:8).

O mandamento do evangelho é crer em Cristo (1 Jo 3:23), a obra que o homem precisa realizar para se tornar servo de Deus (Jo 6:29). Só ama a Deus quem cumpre o seu mandamento, de modo que quem crê em Cristo, verdadeiramente amou a Deus.

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai,  eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21);

“Pois o mesmo Pai vos ama, visto como vós me amastes e crestes que saí de Deus (Jo 16:27).

O evangelho é mandamento de Deus que demanda obediência. Quem obedece ao evangelho de Cristo não tem medo, pois o medo decorre da penalidade imposta ao desobediente (1 Jo 4:18).

Diante do evangelho de Cristo, o homem não pode ficar passivo. A ordem é: – “Entrai pela porta estreita” (Lc 13:24); “Operai a vossa salvação com temor e tremor” (Fl 2:12).

Com o homem efetua a própria salvação? O homem é salvador de si mesmo? É claro que não! Deus providenciou salvação poderosa a todos os homens na casa de Davi quando enviou Cristo ao mundo.

Quem obedece a Cristo ‘salvar-se-á’, pois o ‘temor’ diz do mandamento de Deus e o ‘tremor’ da obediência à sua palavra.

“Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á,  entrará, sairá e achará pastagens” (Jo 10:9).

O fim da fé, ou seja, o objetivo do evangelho é a salvação do homem:

“Alcançando o fim da vossa fé, a salvação das vossas almas” (1 Pd 1:9).

O fim da predestinação é a primogenitura de Cristo, pois, por ela, os homens são constituídos conforme a imagem de Cristo, portanto, o fim da predestinação não é a salvação.

O termo grego τελος, transliterado telos e traduzido por ‘fim’, no contexto, tem o sentido de propósito, objetivo. O termo πιστις, transliterado pistis e traduzido por ‘fé’, no contexto significa ‘verdade’, ‘fidelidade’, ‘lealdade’, em substituição ao termo ‘evangelho’, que é a ‘fé’ anunciada em todo o mundo (Rm 1:8).

A ‘fé’ deve ser anunciada a todas as gentes e obedecida (Rm 1:5), pois ela é o dom de Deus, por meio da qual o homem é salvo.

“Porque, pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Ef 2:8);

“Pelo qual, recebemos a graça e o apostolado, para a obediência da entre todas as gentes pelo seu nome (…) Primeiramente, dou graças ao meu Deus por Jesus Cristo, acerca de vós todos, porque, em todo o mundo, é anunciada a vossa (Rm 1:5 e 8).

É por meio do evangelho de Cristo que o homem é salvo, de modo que, aos não crentes não se prega eleição ou predestinação mas, sim, o evangelho, a palavra da redenção, que é poder de Deus para salvação.

“E nos impedem de pregar aos gentios as palavras da salvação, a fim de encherem sempre a medida de seus pecados; mas a ira de Deus caiu sobre eles até ao fim” (1 Ts 2:16).

“E os que estão junto do caminho, estes são os que ouvem; depois vem o diabo e tira-lhes do coração a palavra, para que não se salvem, crendo (Lc 8:12).

Deus não escolheu e nem predestinou indivíduos para a salvação, pois é contraditória a concepção de que Deus deseja que todos se salvem e, no entanto, escolhe e predestina somente alguns para a salvação. Salvar a humanidade é desejo de Deus por sua graça e misericórdia, tanto que deu o Seu Filho Unigênito, no entanto, para ser salvo o homem precisa se tornar um com a verdade, crendo.

“Que quer que todos os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade” (1 Tm 2:4);

“Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que o Filho e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6:40).

É imprescindível ao homem ‘conhecer’ a verdade, por dois motivos:

  1. Primeiro, para ser salvo, e;
  2. Em segundo lugar, para ser eleito e predestinado.

Pois só é predestinado a ‘serem conformes à imagem’ de Cristo, para que Ele seja o Primogênito entre muitos irmãos, aqueles que O conheceram, ou seja, que se fizeram um corpo com Cristo, a verdade que liberta (Jo 8:32). Mesmo Deus querendo salvar todos os homens, o meio de salvá-los não é através da Sua soberania, e sim, através da palavra da verdade!

Há um equívoco que perdura entre os teólogos, de que o termo grego προγινοσκω (proginosko), traduzido por ‘dantes conheceu’ significa ‘ter conhecimento de antemão’, ‘prever’, ‘predestinar’.

Entretanto, o termo, no contexto, foi utilizado como expressão idiomática judaica, indicando comunhão intima, quando o homem e a mulher se tornam uma só carne. São predestinados somente os que se tornaram um com o Pai e o Filho, ou seja, que ‘conhecem’ a Deus (Jo 17:21).

Somente os que se tornam uma só carne com Cristo, ou seja, os que amam a Deus, crendo que Jesus é o Cristo, também foram predestinados para serem conformes à imagem de seu Filho (Rm 8:29).

Deus é onisciente, ou seja, igualmente conhecedor de todas as coisas, quer seja do passado, quer do presente ou, do futuro. Ao dizermos que Deus é presciente, estabelecemos uma subdivisão da onisciência, que tolhe a compreensão acerca desse atributo de Deus. Deus anuncia de antemão, por intermédio dos seus profetas, eventos futuros, o que se dá pela sua onisciência e não pela sua presciência.

Pela onisciência Deus conhece (saber) todos os salvos e todos os perdidos em todos os tempos. Entretanto, há aqueles que Deus nunca conheceu (nunca foram um com Ele) e estes irão para o fogo eterno (Mt 7:23) e há aqueles que conhecem a Deus, ou antes, são conhecidos d’Ele, ou seja, são um com Ele e são salvos (Gl 4:9).

A má leitura de alguns versos impera, quando homens torcem a verdade exposta pelos apóstolos, com o objetivo de exporem uma doutrina contrária ao evangelho.

Por exemplo, leem 1 Pedro 1, verso 2 (“Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas.”), como se Deus elegeu alguns segundo a sua ‘presciência’. No entanto, o apóstolo Pedro estava enfatizando que os cristãos são eleitos segundo o anunciado de antemão pelos profetas (presciência), conforme expresso nos versos 10 a 12 do mesmo capítulo (1Pe 1:10 -12).

Os cristãos são designados ‘eleitos’, segundo o anunciado de antemão pelos profetas, santificados pela palavra de Cristo, vez que as palavras de Cristo são espírito e vida, sendo necessária aos cristãos a obediência, para serem purificados:

“… eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo” (1 Pe 1:2).

Ao escrever aos Tessalonicensses, o apóstolo Paulo expressa a mesma verdade:

“… porque Deus vos escolheu[1], desde o princípio, para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade” (2 Ts 2:13).

O verso não trata de uma ‘escolha’ para ser salvo, antes pela santificação do evangelho (vez que o crente é ministro do espírito) e pela crença (fé) na verdade, os cristãos foram tomados como propriedade (herança) de Deus, desde o princípio, para a salvação (Ef 1:11 e 14), pois a salvação é o fim da fé (verdade).

O objetivo fim da predestinação é a preeminência de Cristo, mas, só os que se fizeram um corpo com Cristo (conheceram), são predestinados (Rm 8:29). Porém, os predestinados também foram eleitos, ou seja, foram feitos santos e irrepreensíveis (Ef 1:3).

Contudo, para ser predestinado e eleito, primeiro Deus declara justo o novo homem que ressurge com Cristo, porque, para ser justificado, é necessário ao homem morrer com Cristo, quando por intermédio do evangelho, o homem torna-se participante da carne e do sangue de Cristo (Rm 4:25; Rm 6:7; Jo 6:55).

Mas, para o crente ser justificado, eleito e predestinado, primeiro teve que ser glorificado, tornando-se um só corpo com Cristo, ou seja, conhecendo a Cristo. O crente é glorificado quando ressurge dentre os mortos com Cristo, pois, sofreu com Cristo, para ser participante da glória da sua ressurreição (Rm 8:17; Cl 2:12; Cl 3:1).

Os que estão em Cristo são templos de Deus, ou seja, conhecidos de Deus, membros do Seu corpo, concomitantemente, também, estão destinados a serem conforme a imagem de Cristo, quando se revelarem os filhos de Deus (Rm 8:19).

Mas, para fazerem parte do propósito eterno que Deus estabeleceu em Cristo, de fazê-Lo preeminente em todas as coisas, através do poder que há no evangelho, para salvação do que crê, Deus glorificou os que creram, ressuscitando-os com Cristo e os declarou justos, livres de condenação!

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1] “138 αιρεομαι haireomai provavelmente semelhante a 142; TDNT – 1:180,27; v 1) tomar para si, preferir, escolher 2) escolher pelo voto, eleger para governar um cargo público”, cf. Dicionário Bíblico Strong.

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Isaías 56 – A bem-aventurança prometida a Abraão chega aos gentios

As Escrituras depõem contra todos os homens, classificando-os de ‘mentirosos’( Sl 116:11; Rm 3:4). Por que todos são mentirosos? Todos os homens são mentirosos, porque todos os homens, juntamente, se desviaram desde a madre (Sl 53:3) e falam mentiras. desde que nascem (Sl 58:3). Isso não quer dizer que todos os homens faltam com a verdade, ou que são infiéis nos negócios, etc.


Isaias 56 – A bem-aventurança prometida a Abraão chega aos gentios

Introdução

É através da seguinte ótica que se deve compreender o capítulo 56 de Isaias: Deus estava prestes a cumprir a promessa feita a Abraão!

Qual a promessa de Deus feita a Abraão? Que, na descendência de Abraão, seriam benditas todas as famílias da terra, apesar de que, à época da promessa, Abraão ainda não tinha filhos.

“… em ti e na tua descendência serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 28:14).

Considerando que Deus notificou a Abraão que, em seu Descendente seriam benditas todas as famílias da terra, os filhos de Israel, equivocadamente, passaram a considerar que eram herdeiros da bem-aventurança prometida por causa da carne e do sangue de Abrão que corria em suas veias (Gl 3:8; Gn 28:14).

O apóstolo Paulo nos esclarece que a bem-aventurança não foi dada aos descendentes segundo a carne de Abraão, antes, a bem-aventurança estava vinculada ao Descendente de Abraão que seria chamado em Isaque  (Rm 9:7).

Como a descendência de Abraão seria chamada em Isaque, isso significava que a promessa não tinha por base a carne de Abraão, portanto, os descendentes de Abraão não haviam sido agraciados com a bem-aventurança.

Ora, todos os israelitas se gloriavam no fato de serem descendência de Abraão e, por confiarem na carne, se afastavam de Deus. Em vez de bem-aventurados, eram malditos, segundo a palavra do Senhor, anunciada por intermédio de Jeremias, por fazerem da carne o seu braço (força, salvação):

“Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, faz da carne o seu braço e aparta o seu coração do SENHOR!” (Jr 17:5).

Essa profecia de Jeremias demonstra que o homem que confia em si mesmo é maldito! O homem que confia em si mesmo é aquele que faz da sua carne a sua salvação, porque ‘braço’ é figura de força, o que remete à salvação.

“O SENHOR é a minha força e o meu cântico; Ele me foi por salvação; este é o meu Deus, portanto, lhe farei uma habitação; ele é o Deus de meu pai, por isso o exaltarei” (Êx 15:2);

“Eis que Deus é a minha salvação; nele confiarei e não temerei, porque o SENHOR DEUS é a minha força e o meu cântico e se tornou a minha salvação” (Is 12:2).

Considerando a argumentação do apóstolo Paulo, de que tudo o que a lei diz, diz aos que estão debaixo da lei, isso significa que a reprimenda de Jeremias tinha por alvo o homem judeu, pois eles, sabidamente, se gloriavam pelo fato de serem descendentes da carne de Abraão.

“Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus em espírito, nos gloriamos em Jesus Cristo e não confiamos na carne” (Fl 3:3);

“Mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me entender e em me conhecer, que eu sou o SENHOR, que faço beneficência, juízo e justiça na terra; porque, destas coisas me agrado, diz o SENHOR” (Jr 9:24; Tg 1:9; 1 Co 1:31).

 

Salvação para todos os povos

“ASSIM diz o SENHOR: Guardai o juízo e fazei justiça, porque a minha salvação está prestes a vir e a minha justiça, para se manifestar” (Is 56:1)

Através do profeta Isaias, Deus ordenou aos filhos de Israel que ‘guardem o juízo’ e ‘façam justiça’, ou seja, eles deviam obedecer à palavra de Deus. A palavra do Senhor, por intermédio de Isaias, remete ao exarado em Deuteronômio:

“E será para nós justiça, quando tivermos cuidado de cumprir todos estes mandamentos perante o SENHOR nosso Deus, como nos tem ordenado” (Dt 6:25).

O que Deus exigiu dos filhos de Israel não é justiça social e nem a justiça que é administrada em tribunais humanos. Esse é um equivoco que afeta a compreensão de muitos, pois interpretam o ‘guardar o juízo’ e ‘fazei justiça’ como um apelo divino para que os filhos de Israel se ocupassem de questões sociais.

Na verdade, quando é dito ‘guardai o juízo’ e ‘fazei justiça’, Deus estava conclamando os filhos de Israel para observarem o Seu mandamento. Uma pequena análise de dois versículos, levando-se em conta a estrutura do texto – paralelismo – verifica-se que obedecer à voz de Deus é o mesmo que ‘fazer justiça’ e ‘guardar o juízo’:

“E será para nós justiça, quando tivermos cuidado de cumprir todos estes mandamentos perante o SENHOR nosso Deus, como nos tem ordenado” (Dt 6:25);

“AMARÁS, pois, ao SENHOR teu Deus e guardarás as suas ordenanças, os seus estatutos, os seus juízos e os seus mandamentos, todos os dias” (Dt 11:1).

Na verdade, o verso 1: “Amarás, pois, ao Senhor teu Deus…” é uma ordem aos filhos de Israel, para que obedecessem a Deus!

“Que te farei, ó Efraim? Que te farei, ó Judá? Porque a vossa benignidade é como a nuvem da manhã e como o orvalho da madrugada, que cedo passa. Por isso os abati pelos profetas; pelas palavras da minha boca os matei; e os teus juízos sairão como a luz, porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos” (Os 6:4 -6);

“Porém, Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” (1 Sm 15:22).

Mas, por que Deus concita o povo a obedecê-Lo? O motivo é patente: – “… porque a minha salvação está prestes a vir e a minha justiça prestes a manifestar-se”. O motivo apresentado por Deus não diz de um conceito ou, de uma ideia filosófica, acerca da salvação e da justiça.

Através dessa profecia, Deus notifica os seus interlocutores que a Sua salvação e a Sua justiça estavam prestes a virem personificadas! Ora, o apóstolo Paulo deixa claro que, antes que Cristo viesse, as Escrituras encerrou todos os homens debaixo do pecado e os judeus, por sua vez, estavam sob o cuidado da lei, uma espécie de curador (aio), que os conduzia a Cristo, a salvação e a justiça de Deus (Gl 3:24).

A lei é apontada como ‘aio’, que conduz o homem a Cristo: a salvação de Deus e a justiça de Deus manifesta (Gl 3:24). Ao guardar as ordenanças de Deus, o homem descobriria que a justiça de Deus não é segundo a lei, antes, Deus encerrou todos debaixo do pecado (judeus e gregos), para que soubessem que a promessa da fé é dada aos crentes (Gl 3:21-22).

A justiça de Deus é segundo a promessa estabelecida no Descendente de Abraão, que é Cristo, a justiça de Deus.

 

“Bem-aventurado o homem que fizer isto e o filho do homem que lançar mão disto; que se guarda de profanar o sábado e guarda a sua mão de fazer algum mal” (Is 56:2)

Deus enfatiza que é bem-aventurado qualquer que O obedecesse, ou seja, que faz justiça e guarda o juízo. O profeta dá um exemplo de como guardar o juízo e fazer justiça à época (Zc 8:16), guardando os sábados e não realizarem mal algum.

Para compreender todas as nuances deste verso, o leitor deve considerar que Deus falava ao povo de Israel por enigmas, pois somente com Moisés Deus falava cara a cara e sem utilizar enigmas: “Boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas; pois ele vê a semelhança do SENHOR; por que, pois, não tivestes temor de falar contra o meu servo, contra Moisés?” (Nm 12:8).

Os enigmas contidos nas Escrituras faziam com que as visões do livro estivessem como que seladas, de modo que os interpretes de Israel não pudessem compreender: “Por isso toda a visão vos é como as palavras de um livro selado que se dá ao que sabe ler, dizendo: Lê isto, peço-te; e ele dirá: Não posso, porque está selado” (Is 29:11).

Se o interprete não desvendar os significados dos enigmas, qualquer interpretação das escrituras será equivocada.

O primeiro enigma a ser desvendado está em com o homem se guardar de fazer o mal. Como é possível ao homem deixar de fazer o mal, se a própria escritura diz que ‘não há quem faça o bem’? “Desviaram-se todos e, juntamente, se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um” (Sl 53:1).

Ao falar com os fariseus, Jesus deu uma pista para elucidar o enigma acerca do ‘mal’, pois Ele disse que, apesar de os fariseus darem boas dádivas aos seus semelhantes (filhos), na essência eram ‘maus’. Até dizer boas coisas os fariseus estavam impedidos, pela condição deles: “Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem?” (Mt 7:11); “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” (Mt 12:34).

Os fariseus não eram maus porque faziam maldades, mas, sim, maus, porque, diante de Deus, eram vis, inferiores, da ralé, portanto, maus. Jesus não estava apontando para o comportamento dos fariseus, pois Ele a ninguém julgava, mas, apontou para a condição de alguém que é escravo do pecado: vil, mal.

Ora, os fariseus podiam falar acerca de temas nobres, princípios comportamentais, questões religiosas e questões de ordem filosófica, porém, tais temas tão caros aos homens, não são ‘boas coisas’ diante de Deus. Por que não? Porque tais questões não desfazem a barreira de inimizade que há entre Deus e os homens.

Os fariseus não podiam fazer o bem e nem dizer boas coisas, por causa dos seus corações enganosos. Fazer o bem e dizer boas coisas só é possível através da revelação de Deus em Cristo, o nobre tema que o salmista Davi anunciou no Salmo 45. Se a revelação de Deus, o mistério revelado em Cristo, o homem não consegue decifrar o enigma anunciado por Deus (Sl 49:4; Sl 45:1).

As Escrituras depõem contra todos os homens, classificando-os de ‘mentirosos’( Sl 116:11; Rm 3:4). Por que todos são mentirosos? Todos os homens são mentirosos, porque todos os homens, juntamente, se desviaram desde a madre (Sl 53:3) e falam mentiras. desde que nascem (Sl 58:3). Isso não quer dizer que todos os homens faltam com a verdade, ou que são infiéis nos negócios, etc.

Quando é dito que todos os homens são mentirosos é o mesmo que dizer que todos pecaram. Assim como Deus é luz, verdade e vida, o homem alienado de Deus está em trevas, é mentira e está morto.

Os judeus se esforçavam para não faltar com a verdade com os seus semelhantes, porém, não é acerca dessa questão que Deus conclama aos filhos de Israel para que fale cada um a verdade com o seu companheiro.

“Estas são as coisas que deveis fazer: Falai a verdade cada um com o seu próximo; executai juízo de verdade e de paz nas vossas portas” (Zc  8:16).

Considerando que ‘a boca fala do que está cheio o coração’, quem fala o mal, fala segundo o seu coração mau. Qualquer descendente da carne de Adão é mau, porque herdou tal condição de Adão, herdou um coração enganoso e fala segundo o seu coração: engano contínuo.           

Para falar boas coisas é necessário um novo coração, por isso Deus anunciou, através de Moisés, a necessidade de circuncidarem o coração pois, com a circuncisão do coração, o homem morre e recebe de Deus um novo coração e um novo espírito (Sl 51:10; Is 57:15; Ez 18:31 ).

Ora, os filhos de Israel achavam que guardavam o sábado, porém, Deus continuamente protestava contra eles, demonstrando que eles eram homens de dura cerviz e que não circuncidavam o coração: “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração e não mais endureçais a vossa cerviz” (Dt 10:16).

No oitavo dia, após o nascimento de uma criança, os filhos de Israel circuncidavam os seus filhos no prepúcio da carne, porém, não se deixavam circuncidar pelo Pai celeste. Sem a circuncisão do coração, que significa morte para o pecado, jamais os filhos de Jacó seriam judeus de fato, e todas as obras deles continuavam sendo más, continuadamente.  

“Circuncidai-vos ao SENHOR e tirai os prepúcios do vosso coração, ó homens de Judá e habitantes de Jerusalém, para que o meu furor não venha a sair como fogo e arda, de modo que não haja quem o apague, por causa da malícia das vossas obras” (Jr 4:4);

“Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente, na carne. Mas, é judeu o que o é no interior e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus” (Rm 2:28-29).

Os judeus se consideravam os ‘bons’, e consideram os gentios ‘ruins’. Entenda ‘bons’, no sentido de bem nascidos, nobres, filhos de Abraão, consequentemente, filhos de Deus. Por isso, sempre argumentavam, dizendo: ‘Temos por Pai a Abraão’.

De igual modo, entenda ‘ruins’ como baixos, plebes, sem levar em conta conotação moral. Enquanto se achavam filhos de Abraão, Deus protestava contra os filhos de Israel, declarando-os filhos da agoureira, da adúltera.

“Mas, chegai-vos aqui, vós os filhos da agoureira, descendência adulterina e de prostituição” (Is 57:3).

O erro dos judeus era considerar que eram bem nascidos, portanto, bons, e que os estrangeiros eram mal nascidos, consequentemente ‘ruins’. Igualmente, judeus e gentios são ruins (Rm 3:4), portanto, mentirosos, pois todos, juntamente, alienaram-se de Deus em Adão (Rm 3:9).

“Deveras o meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios e não entendidos; são sábios para fazer mal, mas não sabem fazer o bem (Jr 4:22).

Apesar dos judeus guardarem os sábados, as festas, as assembleias, etc., nenhum deles observava a lei.

“Não vos deu Moisés a lei? E nenhum de vós observa a lei. Por que procurais matar-me?” (Jo 7:19).

Na verdade, as Escrituras depunham contra os judeus como blasfemos:

“E agora, que tenho eu que fazer aqui, diz o SENHOR, pois o meu povo foi tomado sem nenhuma razão? Os que dominam sobre ele dão uivos, diz o SENHOR; e o meu nome é blasfemado, incessantemente, o dia todo” (Is 52:5; Rm 2:24).

A circuncisão na carne era uma marca dada aos descendentes da carne de Abraão para identificá-los como nação e não como filhos de Deus. Tal marca só seria proveitosa se os judeus obedecessem a Deus, assim como o crente Abraão (Gn 17:10-11; Gn 26:5). É nesse quesito que o apóstolo Paulo repreende os cristãos convertidos, dentre os judeus, que estavam em Roma:

“Porque a circuncisão é, na verdade, proveitosa, se tu guardares a lei; mas, se tu és transgressor da lei, a tua circuncisão se torna em incircuncisão” (Rm 2:25).

O profeta Isaias estava conclamando os seus ouvintes a obedecerem a Deus (mantende o juízo e fazei justiça), através de alguns preceitos da lei (utilizados como figuras): guardar o sábado e guardar a mão de fazer o mal, pois qualquer que, como Abraão, obedecesse ao mandamento de Deus, seria bem-aventurado.

“Bem-aventurado o homem que fizer isto e o filho do homem que lançar mão disto; que se guarda de profanar o sábado e guarda a sua mão de fazer algum mal” (Is 56:2); “Porquanto, Abraão obedeceu à minha voz e guardou o meu mandado, os meus preceitos, os meus estatutos e as minhas leis” (Rm 26:5);

“De sorte que os que são da fé são benditos com o crente Abraão” (Gl 3:9).

Através do profeta Isaias, Deus deixa claro que os sábados dos filhos de Israel eram equivalentes à abominação!

“Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, as luas novas, os sábados e a convocação das assembleias; não posso suportar iniquidade, nem mesmo a reunião solene” (Is 1:13; Is 58:13).

Por quê? Porque andavam após os seus ídolos! ‘Ídolos’, quando utilizado, nas profecias, acerca do povo de Israel, tem relação com riquezas (Mamom), uma figura para demonstrar que os filhos de Israel estavam a serviço de si mesmos: “Porque rejeitaram os meus juízos, não andaram nos meus estatutos e profanaram os meus sábados; porque o seu coração andava após os seus ídolos” (Ez 20:16).

Quando os filhos de Israel jejuavam, achavam que estavam realizando um trabalho para Deus, porém, equivocadamente, trabalhavam para satisfazerem a si mesmos.

“Dizendo: Por que jejuamos nós e tu não atentas para isso? Por que afligimos as nossas almas e tu não o sabes? Eis que, no dia em que jejuais, achais o vosso próprio contentamento e requereis todo o vosso trabalho(Is 58:3).

 

“E não fale o filho do estrangeiro que, se houver unido ao SENHOR, dizendo: Certamente o SENHOR me separará do seu povo; nem, tampouco, diga o eunuco: Eis que sou uma árvore seca. Porque assim diz o SENHOR a respeito dos eunucos, que guardam os meus sábados e escolhem aquilo em que eu me agrado e abraçam a minha aliança: Também lhes darei na minha casa e dentro dos meus muros um lugar e um nome, melhor do que o de filhos e filhas; um nome eterno darei a cada um deles, que nunca se apagará” (Is 56:3-5)

Em seguida, Deus dirige a palavra aos estrangeiros e aos eunucos, para que não pensassem que haviam sido rejeitados (Is 56:3), antes, se eles também guardassem o mandamento de Deus, teriam lugar na casa de Deus e dentro dos muros da cidade e um nome superior a de filhos e filhas (Is 56:5).

Os estrangeiros e os eunucos seriam aceitos por causa da seguinte promessa: – “A minha casa será chamada casa de oração para todos os povos” (Is 56:7). Ora, essa promessa Deus fez a Abraão: – “… em ti e na tua descendência serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 28:14).

Através de Isaias, Deus estava demonstrando que a promessa feita a Abraão estava prestes a ser manifesta, pois, sem distinção alguma, todos os homens teriam lugar na casa de Deus. Estava sendo enfatizado que os homens seriam aceitos no Descendente prometido a Abraão e a Davi, pois Cristo é a casa (descendente) que Deus prometeu a Davi.

“… também o SENHOR te faz saber que te fará casa” (2 Sm 7:11).

A ‘casa’ prometida a Davi diz do renovo justo – Cristo – da raiz de Jessé(Jr 33:15), que através do seu corpo, que é a Igreja, está a edificar um templo ,que abriga todos os povos. O corpo de Cristo é a casa de oração para todos os povos, o templo edificado sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas e santuário (Ef 2:20; Is 8:14). Em Cristo, cumpre-se a promessa de se ajuntar os dispersos de Israel e os outros, aos que já se lhe ajuntaram (Is 56:8).

É em função dessa verdade que Jesus expulsou os que vendiam no templo e os cambistas, dizendo: “Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; mas vós a tendes convertido em covil de ladrões” (Mt 21:13), e, como Pastor enfatizou que agregaria ao seu aprisco outras ovelhas: “Ainda tenho outras ovelhas, que não são deste aprisco; também, me convém agregar estas, elas ouvirão a minha voz e haverá um rebanho e um Pastor” (Jo 10:16).

Em linhas gerais, a profecia de Isaias, registrada no capítulo 56, refere-se a Cristo e ao seu corpo, a Igreja. Através do corpo de Cristo, estrangeiros e eunucos (homens considerados imundos para os judeus), poderiam oferecer os seus holocaustos e os seus sacrifícios e serem aceitos por Deus.

“Eis que chamarás a uma nação que não conheces e uma nação que nunca te conheceu correrá para ti, por amor do SENHOR teu Deus e do Santo de Israel; porque ele te glorificou” (Is 55:5)

Apesar de serem discriminados pelos filhos de Israel, Deus dá aviso aos forasteiros (gentios) que não digam que Deus não os aceitará; ou aviso aos eunucos, de que não devem se considerar como uma árvore cortada. Por que não deveriam pensar que eram inúteis? Porque qualquer que guarda o mandamento de Deus (mesmo os estrangeiros e os eunucos) tem um lugar e um nome na casa de Deus.

Qualquer que guarda a aliança de Deus terá um nome superior ao de filhos e filhas. Um nome eterno, que jamais será esquecido.

“Também lhes darei na minha casa e dentro dos meus muros um lugar e um nome, melhor do que o de filhos e filhas; um nome eterno darei a cada um deles, que nunca se apagará” (Is 56:5).

“E aos filhos dos estrangeiros, que se unirem ao SENHOR, para o servirem, e para amarem o nome do SENHOR, para serem seus servos, todos os que guardarem o sábado, não o profanando, e os que abraçarem a minha aliança, Também os levarei ao meu santo monte, e os alegrarei na minha casa de oração; os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceitos no meu altar; porque a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos. Assim diz o Senhor DEUS, que congrega os dispersos de Israel: Ainda ajuntarei outros aos que já se lhe ajuntaram” (Isaias 56:6-8)

A promessa de Deus se estende aos filhos dos estrangeiros que obedecerem à Sua aliança, o que dá elementos para compreender a seguinte promessa:

“E há de ser que, todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo; porque no monte Sião e, em Jerusalém, haverá livramento, assim como disse o SENHOR, e entre os sobreviventes, aqueles que o SENHOR chamar” (Jl 2:32; Rm 10:13)

Como os estrangeiros e seus filhos seriam conduzidos ao monte do Senhor e como os seus holocaustos e sacrifícios aceitos por Deus? O apóstolo Paulo dá a resposta:

“Que seja ministro de Jesus Cristo para os gentios, ministrando o evangelho de Deus, para que seja agradável a oferta dos gentios, santificada pelo Espírito Santo” (Rm 15:16).

Através do evangelho de Cristo a ‘oferta’ dos gentios se torna agradável a Deus, pois é santificada pelo Espírito Santo. A aliança, da qual o profeta Isaias faz referência, diz do Novo Testamento no sangue de Cristo (1 Co 11:25), e não no Testamento da velhice da letra que foi gravada em pedras (2 Co 3:6).

Em Cristo, o homem é verdadeiro adorador, pois adora a Deus, em espirito e em verdade. Cristo é a pedra assentada no santo monte Sião, o verdadeiro santuário, casa de oração para todos os povos. Apesar de ser o santuário estabelecido por Deus, as duas casas de Israel rejeitaram o Cristo (Is 8:14). Para os que crêem, Jesus é santuário, mas para os incrédulos pedra de tropeço.

“Portanto, assim diz o Senhor DEUS: Eis que eu assentei em Sião uma pedra, uma pedra já provada, pedra preciosa de esquina, que está bem firme e fundada; aquele que crer não se apresse” (Is 28:16)

A promessa para os estrangeiros e seus filhos está condicionada a guardarem o ‘sábado’, ou seja, o descanso verdadeiro, que é Cristo. Como? Abraçando a aliança do Senhor expressa no Seu evangelho, crendo que Jesus é o Cristo.

Os filhos de Israel deveriam guardar o sábado como memorial de que foram resgatados do Egito (Dt 5:15), de que Deus é quem os santifica (Ex 31:13). Como a Aliança do Novo Testamento foi feita no sangue de Cristo, o memorial estabelecido é a ceia do Senhor, para que os cristãos se lembrem da sua morte e anunciem o seu nome até que Ele venha (1 Co 11:25-26).

E o que os gentios oferecem como sacrifício na Nova Aliança? O fruto dos lábios que confessam a Cristo, ou seja, a beneficência e a comunicação! (Hb13:15-16) Os seus corpos em sacrifício vivo, que é o culto racional (Rm 12:1)

Para compreendermos a figura dos sábados, se faz necessário compreender que os sacerdotes da Antiga Aliança eram inculpáveis, por trabalharem no templo aos sábados (Mt 12:5). Como Cristo é superior ao templo e os estrangeiros e eunucos são aceitos no Santuário estabelecido por Deus, os que estão em Cristo não necessitam guardar sábados e luas novas (Cl 2:16).

“Ou não tendes lido na lei que, aos sábados, os sacerdotes no templo violam o sábado, e ficam sem culpa? Pois, eu vos digo que está aqui quem é maior do que o templo. Mas, se vós soubésseis o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício, não condenaríeis os inocentes. Porque o Filho do homem até do sábado é Senhor” (Mt 12:5-8).

Cristo é o descanso prometido, o refrigério, mas não quiseram ouvi-Lo:

“Ao qual disse: Este é o descanso, dai descanso ao cansado; e este é o refrigério; porém não quiseram ouvir” (Is 28:12).

Deus exige obediência (misericórdia), e não sacrifícios, como guarda de dias, luas, festas, etc. Para encontrar descanso para a alma é necessário andar por bom caminho, ou seja, em obediência: crendo em Cristo, pois, Deus faz misericórdia aos que O obedecem.

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” (Êx 20:6);

“Assim diz o SENHOR: Ponde-vos nos caminhos, e vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas; mas eles dizem: Não andaremos nele” (Jr 6:16).

Cristo, como santuário para todos os povos, é superior ao templo, onde os sacerdotes violavam o sábado. Semelhantemente, em Cristo os crentes são sacerdotes que oferecem, continuamente, sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o culto racional, portanto, não estão sujeitos aos ritos da Antiga Aliança.

Na Antiga Aliança era Deus que santificava o povo e, por isso, deveriam santificar o sábado. Na Nova Aliança é Deus quem santifica o crente, por meio da palavra do evangelho, portanto, devem santificar a Cristo em seus corações, ou seja, guardar o descanso verdadeiro (1 Pe 3:15).

O sábado é sombra de uma realidade que o homem experimenta em Cristo: o descanso verdadeiro (Hb 10:1).

O Senhor que promete reunir os dispersos de Israel, é o mesmo Deus que reunirá outros aos que já se ajuntaram. O que isso quer dizer? Que esse é um oráculo do Senhor, acerca da união entre judeus e gentios, do qual resultaria um corpo: a igreja (Ef 2:13-14).

O oráculo aos filhos de Israel, por intermédio do profeta Isaias, foi feito por parábola, o que o apóstolo Paulo fala, abertamente. Cristo é a paz, tanto para aqueles que estão perto(judeus) quanto para os que estão longe (gentios): “Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz, para o que está longe; e para o que está perto, diz o SENHOR e eu o sararei” (Is 57:19).

Deus, que reúne os dispersos de Israel aos gentios que se achegam a Cristo, por meio do evangelho. Jesus Cristo falou, por parábola, que haveria de reunir outras ovelhas que não do aprisco de Israel: “Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também, me convém agregar estas e elas ouvirão a minha voz e haverá um rebanho e um Pastor” (Jo 10:16).

Desde Moisés, Deus já havia alertado ao povo de Israel que haveria de o por em ciúmes com os gentios:

“Mas, digo: Porventura Israel não o soube? Primeiramente diz Moisés: Eu vos porei em ciúmes com aqueles que não são povo, Com gente insensata vos provocarei à ira” (Rm 10:19).

 

Punição

“Vós, todos os animais do campo, todos os animais dos bosques, vinde comer” (Is 56:9).

Deus faz um convite a todos os animais do campo e das florestas, para reunirem-se para comer. Que animais são estes? O que será oferecido como alimento?

Está é mais uma profecia que se utiliza de uma parábola, para falar da punição que Deus dará a Israel, por desviarem-se da aliança com Deus.

Os animais do campo e do bosque são figuras que remetem às nações vizinhas, que são convidadas por Deus, para invadirem Israel. Esses animais são apresentados em outras passagens bíblicas como bestas do campo.

“Arvorai a bandeira rumo a Sião, fugi, não vos detenhais; porque eu trago do norte um mal, e uma grande destruição. Já um leão subiu da sua ramada, e um destruidor dos gentios; ele já partiu, e saiu do seu lugar para fazer da tua terra uma desolação, a fim de que as tuas cidades sejam destruídas, e ninguém habite nelas” (Jr 4:6-7);

“Irei aos grandes e falarei com eles; porque eles sabem o caminho do SENHOR, o juízo do seu Deus; mas estes, juntamente, quebraram o jugo e romperam as ataduras.Por isso um leão do bosque os feriu, um lobo dos desertos os assolará; um leopardo vigia contra as suas cidades; qualquer que sair delas será despedaçado; porque as suas transgressões se avolumam, multiplicaram-se as suas apostasias” (Jr 5:5-6);

“Depois eles se fartaram em proporção do seu pasto; estando fartos, ensoberbeceu-se o seu coração, por isso se esqueceram de mim. Serei, pois, para eles como leão; como leopardo espiarei no caminho. Como ursa roubada dos seus filhos, os encontrarei, e lhes romperei as teias do seu coração, e como leão ali os devorarei; as feras do campo os despedaçarão. Para a tua perda, ó Israel, te rebelaste contra mim, a saber, contra o teu ajudador” (Os 13:6-9).

Deus coloca a nação de Israel como banquete às nações vizinhas e faz o convite: vinde comer!

Deus já havia predito, por intermédio do profeta Moisés que, caso o povo de Israel se desviasse da Aliança com Deus, seria perseguido pelos inimigos, o que seria um sinal da parte de Deus, para que se arrependessem (Dt 28:45-46; Jr 18:11), uma prova de que Deus repreende e castiga a todos os que ama (Hb 12:6; Is 1:5):

“O SENHOR levantará contra ti uma nação de longe, da extremidade da terra, que voa como a águia, nação cuja língua não entenderás; Nação feroz de rosto, que não respeitará o rosto do velho, nem se apiedará do moço” (Dt 28:49-50).

“Todos os seus atalaias são cegos, nada sabem; todos são cães mudos, não podem ladrar; andam adormecidos, estão deitados e gostam do sono. E estes cães são gulosos, não se podem fartar; e eles são pastores que nada compreendem; todos eles se tornam para o seu caminho, cada um para a sua ganância, cada um por sua parte. Vinde, dizem, trarei vinho, e beberemos bebida forte; e o dia de amanhã será como este, ainda muito mais abundante” (Is 56:10-12).

Apesar do convite de Deus às nações inimigas (bestas) para virem sobre o seu povo, os profetas (atalaias) de Israel estavam como que cegos, pois desconheciam os desígnios do Senhor (Ez 33:7).

Uma atalaia exerce a função de segurança, vigilante, porém, como é possível um cego exercer tal função? Por não estarem aptos a desempenhar a função, os atalaias de Israel estava mais para um laço de caçador de aves: “Efraim era o vigia com o meu Deus, mas o profeta é como um laço de caçador de aves em todos os seus caminhos e ódio na casa do seu Deus” (Os 9:8).

Outra descrição dos profetas de Israel é a de cães mudos, ou seja, cães que não podem dar o aviso (ladrar). Estão como que adormecidos, deitados e se deleitam em dormir. São cães gulosos, que não se fartam da gordura do povo, mas que não desempenham o seu papel de proteção (Sl 53:4).

Os líderes de Israel são descritos como pastores, mas que nada compreendem: “Eu, porém, disse: Deveras estes são pobres; são loucos, pois não sabem o caminho do SENHOR, nem o juízo do seu Deus” (Jr 5:4; Mt 13:13; Jr 10:21; Jr 50:6; Ez 34:10). Cada pastor desviava para o seu próprio caminho, ou seja, após o seu coração enganoso: “Estendi as minhas mãos o dia todo a um povo rebelde, que anda por caminho, que não é bom, após os seus pensamentos” (Is 65:2).

“O Senhor enviou uma palavra a Jacó e ela caiu em Israel.E todo este povo o saberá, Efraim e os moradores de Samaria, que em soberba e altivez de coração, dizem:Os tijolos caíram, mas, com cantaria tornaremos a edificar; cortaram-se os sicômoros, mas, em cedros as mudaremos.Portanto, o SENHOR suscitará, contra ele, os adversários de Rezim, e juntará os seus inimigos. Pela frente virão os sírios e por detrás os filisteus, e devorarão a Israel à boca escancarada; e nem, com tudo isso, cessou a sua ira, mas, ainda, está estendida a sua mão.Todavia este povo não se voltou para quem o feria, nem buscou ao SENHOR dos Exércitos. Assim o SENHOR cortará de Israel a cabeça e a cauda, o ramo e o junco, num mesmo dia (O ancião e o homem de respeito é a cabeça; e o profeta que ensina a falsidade é a cauda).Porque os guias deste povo são enganadores e os que por eles são guiados são destruídos” (Is 9:8-16).

Enquanto Deus está convidando as ‘bestas’ do campo e das florestas para atacar o povo de Israel, os líderes de Israel somente convidavam o povo para se embriagarem no vinho colhido dos campos de Sodoma e Gomorra.

“Ouvi a palavra do SENHOR, vós poderosos de Sodoma; dai ouvidos à lei do nosso Deus, ó povo de Gomorra” (Is 1:10);

“E toda a sua terra abrasada com enxofre e sal, de sorte que não será semeada, nada produzirá, nem nela crescerá erva alguma; assim como foi a destruição de Sodoma e de Gomorra, de Admá e de Zeboim, que o SENHOR destruiu na sua ira e no seu furor.E todas as nações dirão: Por que fez o SENHOR assim com esta terra? Qual foi a causa do furor desta tão grande ira? Então se dirá: Porquanto deixaram a aliança do SENHOR Deus de seus pais, que com eles tinha feito, quando os tirou do Egito” (Dt 29:23-25);

“Porque a sua vinha é a vinha de Sodoma e dos campos de Gomorra; as suas uvas são uvas venenosas, cachos amargos têm” (Dt 32:32).

A doutrina dos lideres de Israel se assemelha ao vinho que entorpece os sentidos, de modo que, quem é participante da doutrina deles, sempre está confiante em um futuro melhor, embora a palavra de Deus não seja para paz.

 

Correção ortográfica: Carlos Gasparotto

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Abraão foi salvo pela fé ou pelas obras?

Se Abraão tivesse saído do meio de sua parentela e fosse habitar as regiões de Canaã sem que Deus lhe ordenasse, a sua decisão não seria por fé. Se Abraão tivesse decidido, de moto próprio, oferecer Isaque em holocausto a Deus, sem que Deus houvesse ordenado, o seu sacrifício não seria por fé e sua atitude não seria em função de uma provação (Hb 11:17).


Introdução

Na maioria dos comentários bíblicos, em que os termos ‘fé’ e ‘obras’ aparecem, a palavra ‘paradoxo’ acaba sendo utilizada. Há até quem afirme que no Novo Testamento há inúmeros “paradoxos aparentes”.

O que é um paradoxo?

Segundo definição que consta na Wikipédia:

“Paradoxo é uma declaração, aparentemente, verdadeira, que leva a uma contradição lógica, ou, a uma situação que contradiz a intuição comum. Em termos simples, um paradoxo é “o oposto do que alguém pensa ser a verdade”. A identificação de um paradoxo, baseado em conceitos aparentemente simples e racionais tem, por vezes, auxiliado, significativamente, o progresso da ciência, filosofia e matemática”. Wikipédia.

Diante dessa definição de paradoxo: ‘declaração aparentemente verdadeira’, é correto entender que as asserções[1] bíblicas são ‘aparentemente’ verdadeiras? Os dois versículos abaixo, são a exata expressão da verdade ou, ‘aparentemente’ verdadeiros?

“Assim como Abraão creu em Deus, isso lhe foi imputado como justiça” (Gl 3:6);

“Porventura, o nosso pai Abraão não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque?” (Tg 2:21).

Os versos acima são paradoxais? Há contradição entre o ensinamento do apóstolo Paulo e do irmão Tiago? A doutrina de Cristo possui pontos aparentemente discordantes? São ensinos aparentemente verdadeiros?

A palavra de Deus não é uma declaração aparentemente verdadeira, antes, é a verdade “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17:17), portanto, os ensinamentos bíblicos, não comportam essa definição de ‘paradoxo’.

Na comunicação falada ou escrita há ‘paradoxos’, porém, tais paradoxos são figuras de pensamento, um dos recursos linguísticos (figuras de linguagem) que tornam uma mensagem mais expressiva, que nada mais é do que uma proposição construída, através da união de ideias contraditórias.

Quando Jesus propôs a Nicodemos que era necessário nascer de novo, o alerta de Jesus era verdadeiro, entretanto, por desconhecer a natureza daquilo que Jesus propôs, surgiu na cabeça de Nicodemos um paradoxo: Como é possível um homem nascer, sendo velho? (Jo 3:4)

A mensagem de Jesus não era contraditória e nem aparentemente verdadeira, mas a limitação de Nicodemos que, sendo mestre, não compreendeu a mensagem, é que levou a questionar, sobre como seria possível um homem velho, nascer de novo.

Abraão foi salvo pela ‘fé’ ou, por ‘obras’? Há contradição entre a ‘fé’ e as ‘obras’, ou, a contradição decorre da má compreensão?

 

Abraão creu em Deus

“Assim como Abraão creu em Deus, isso lhe foi imputado como justiça” (Gl 3:6).

Como ler esse versículo? A ‘confiança’ de Abraão é o que o justificou? O que dizer do versículo: ‘O justo viverá da fé?’

Quando o apóstolo Paulo escreveu, repreendendo os cristãos da Galácia, sobre o fascínio que os levou a se desviarem da verdade do evangelho, lembrou que anunciou aos Gálatas o Cristo crucificado (Gl 3:1; 1Co 1:23), e que não receberam o espírito pelas ‘obras da lei’, antes pela ‘pregação da fé’ (Gl 3:2 e 5).

Que ‘espírito’ eles receberam pela ‘pregação da fé’? O espírito que o apóstolo Paulo faz referência, diz do evangelho, a palavra de Deus, vez que os cristãos são ministros do espírito, ou seja, ministros da justiça, ministros da nova aliança: “O qual, nos fez, também, capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica (…) Como não será de maior glória o ministério do Espírito? Porque, se o ministério da condenação foi glorioso, muito mais excederá em glória o ministério da justiça” (1Co 3:6 e 8-9).

Jesus afirmou que as palavras d’Ele são espírito e vida: “O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são espírito e vida” (Jo 6:63).

A mensagem do evangelho é cumprimento do anunciado pelos profetas: água sobre o sedento, espírito derramado. É por isso que o homem nasce de novo, somente pela água e pelo espírito: “Porque derramarei água sobre o sedento e rios sobre a terra seca; derramarei o meu Espírito sobre a tua posteridade e a minha bênção sobre os teus descendentes” (Is 44:3). “E há de ser que, depois derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos, os vossos jovens terão visões” (Jl 2:28; Jo 3:5).

Como Deus dá do seu espírito? Como Deus opera milagres? O apóstolo Paulo afirma que Deus deu o seu espírito e opera milagres pela ‘pregação da fé’, ou seja, através do evangelho (Gl 3:5). Cristo foi ungido para evangelizar, ou seja, o espírito de Deus estava sobre Ele, o mesmo espírito foi dado aos cristãos pela pregação da fé. “Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos” (Jd 1:3; Is 11:1-3; Is 61:1-3).

O evangelho foi anunciado pelo apóstolo Paulo aos gentios, de modo que ele era ministro do evangelho, anunciando a ‘fé’ (evangelho) entre os gentios. “Se, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé e não vos moverdes da esperança do evangelho que tendes ouvido, o qual foi pregado a toda criatura que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, estou feito ministro” (Cl 1:23; Rm 1:8).

A ‘fé’ se refere à mensagem das boas novas, o espírito derramado sobre toda carne, o mesmo espírito do qual o apóstolo Paulo foi constituído ministro. A ‘fé’ diz do evangelho anunciado a toda criatura, que há debaixo do sol (judeus e gentios), esperança anunciada para que os homens creiam e sejam salvos: “Porque, se alguém for pregar-vos outro Jesus que nós não temos pregado, ou se recebeis outro espírito que não recebestes, ou outro evangelho que não abraçastes, com razão o sofrereis” (2Co 11:4).

O crente é salvo ao crer na ‘loucura da pregação’, mas a salvação decorre especificamente da ‘loucura da pregação’, que é Cristo crucificado, que para os judeus era escândalo e para os gregos, loucura “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação” (1Co 1:21-23).

O poder para a salvação não está na capacidade do homem de acreditar, mas, sim, na mensagem pregada. Para aqueles que são salvos, a palavra da cruz é o poder de Deus: “Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu e também do grego” (Rm 1:16; 1Co 1:18).

Deus salva pela ‘loucura da pregação’, ou seja, pela fé. Para ser salvo, é imprescindível ouvir a palavra da verdade, pois, no evangelho, está o poder para que o homem seja feito filho de Deus (Jo 1:12; Ef 1:13). O homem é justificado pela fé, ou seja, por Cristo, pelo evangelho. “E de tudo o que, pela lei de Moisés, não pudestes ser justificados, por ele é justificado todo aquele que crê” (At 13:39).

Acerca da salvação em Cristo, foi predito a Abraão: ‘Todas as nações serão benditas em ti’ (Gl 3:8). O apóstolo Paulo, ao ler Gênesis 12, verso 3, interpretou essa passagem bíblica como uma profecia, acerca de como Deus haveria de justificar os gentios: pela fé, ou seja, por meio de Cristo – a fé que havia de se manifestar: “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar, pela fé, os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti” (Gl 3:8 compare com Gl 3:23).

Por que os gentios seriam benditos em Abraão? Por causa do descendente prometido a Abraão: Cristo. O descendente prometido a Abraão foi estabelecido como luz para todos os povos, não o patriarca (Is 42:6; Is 49:6). Cristo é a fé manifesta, na plenitude dos tempos, por quem os homens são justificados e não o patriarca (Gl 3:23-25).

O apóstolo Paulo apresenta Abraão como exemplo de alguém que foi justificado, ao crer em Deus (Gl 3:6). Mas, como Abraão confiou em Deus? Deus ordenou a Abraão que deixasse a sua parentela e partisse para uma terra que seria revelada e lhe fez uma promessa: Abraão seria uma grande nação e os seus descendentes seriam inumeráveis, assim como as estrelas do céu, apesar de Abraão não ter descendente, na época (Gn 15:4-5).

Abraão demonstrou que confiou em Deus, quando saiu do meio da sua parentela, porém, a bênção de Abraão não decorre do fato de ele ter saído do meio da sua parentela (confiança), antes, Abraão foi abençoado porque foi estabelecido que, se ele saísse do meio da sua parentela, Deus haveria de abençoá-lo grandemente. A bênção está na palavra que diz: ‘E far-te-ei uma grande nação e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção’ (Gn 12:2).

A força da salvação está na promessa de que Deus haveria de abençoar os gentios, através do descendente de Abraão e não em Abraão ter saído do meio da sua parentela. Semelhantemente, a força do pecado está na lei que estabelece: ‘certamente morrerás’, não nas ações dos pecadores: “Ora, o aguilhão da morte é o pecado e a força do pecado é a lei” (1Co 15:56).

Quando Ló se apartou de Abraão, Deus indicou ao patriarca qual a terra que os seus descendentes haveriam de herdar, em função do que lhe foi prometido, caso saísse do meio dos seus parentes. (Gn 13:15-16)

Por isso, é dito pelo escritor aos Hebreus que, pela fé, ou seja, pela palavra de Deus, Abraão, sendo chamado para um lugar que havia de receber por herança, obedeceu e saiu (Hb 11:8). O fato de Abraão ter saído, indica que ele creu na palavra de Deus. Pela fé, ou seja, por causa da palavra de Deus, Abraão peregrinou na terra da promessa, como que em terra alheia (Hb 11:9).

Se Abraão tivesse saído do meio de sua parentela e fosse habitar as regiões de Canaã sem que Deus lhe ordenasse, a sua decisão não seria por fé. Se Abraão tivesse decidido, de moto próprio, oferecer Isaque em holocausto a Deus, sem que Deus houvesse ordenado, o seu sacrifício não seria por fé e sua atitude não seria em função de uma provação (Hb 11:17).

Quando lemos que Abraão foi justificado pela fé, significa que Abraão foi justificado pela palavra de Deus. É por isso que é dito que a fé foi imputada[2] a Abraão (Rm 4:9). O que foi conferido a Abraão? Uma capacidade de crer? Não! O que foi imputado a Abraão foi a fé, a palavra de Deus, que é fato, prova,  sem tergiversações.

A capacidade de crer é pertinente a todos os homens. É um atributo natural do ser humano, acreditar no que é real, verdadeiro, firme, palpável, etc. O que foi dado a Abraão foi a fé, ou seja, uma promessa graciosa e firme (Rm 4:16). Abraão acreditou em Deus, por não atentar para a condição do seu corpo amortecido ou, para o amortecimento do ventre de Sara, e sim, se deixou fortificar pela palavra que lhe foi anunciada: fé! (Hb 11:19-21)

A certeza de Abraão não surgiu de suas próprias convicções, antes pela palavra da fé que lhe disse que haveria de ser abençoado, caso obedecesse. De posse da palavra de Deus, teve certeza que Aquele que prometeu, era poderoso para cumprir (Rm 4:21). Ao sair do meio de sua parentela, Abraão estava admitindo, através da sua ação, que Deus é fiel e poderoso para cumprir o que prometeu, pelo que ‘… isso lhe foi imputado para justiça’ (Rm 4:22); “Assim como Abraão creu em Deus, isso lhe foi imputado como justiça” (Gl 3:6).

Ao sair do meio da sua parentela, Abraão estava admitindo, por meio de sua ação, que Deus é fidedigno[3], ou seja, digno de ‘fé’ (πιστευω – pisteuo), digno de ‘confiança’, pela sua própria glória e virtude (2Pe 1:3).

É na fé (πιστις – pistis), ou seja, na palavra de Deus que há poder. Foi pela palavra de Deus que Sara recebeu poder de conceber um filho, mesmo sendo estéril e de avançada idade. Quando é dito que ‘… pela fé, a própria Sara recebeu poder…’, o termo ‘fé’ não diz das convicções de Sara, antes aponta para a fidelidade, a lealdade, o caráter de alguém em quem se pode confiar. A crença de Sara resume-se em ‘ter por fiel’ aquele que havia feito a promessa (Hb 11:11).

Foi pela palavra de Deus que os antigos alcançaram bom testemunho, pois sem a palavra de Deus, nada podiam esperar ou acreditar (Hb 11:1). A Bíblia diz que Abraão é o Pai da fé, pois o evangelho foi primeiramente anunciado a Ele: a vinda do Cristo em quem todas as famílias da terra seriam bem-aventuradas, e não porque Ele creu, até porque existiram heróis da fé antes do patriarca Abraão.

Abraão foi salvo pela ‘fé’, porque ‘creu’ em Deus, por causa do que lhe foi dito (fé):

“(Como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí) perante aquele no qual creu, a saber, Deus, o qual vivifica os mortos e chama as coisas que não são como se já fossem. O qual, em esperança, creu contra a esperança, tanto que ele tornou-se pai de muitas nações, conforme o que lhe fora dito: Assim será a tua descendência” (Rm 4:17-18).

Deus deu a sua palavra e Abraão creu em Deus, que vivifica os mortos e chama as coisas que não são, como se já fossem, ou seja, Deus é poderoso para realizar o que prometeu, portanto, digno de confiança. Ao crer, Abraão tornou-se pai de muitas nações, isto conforme a palavra de Deus que diz: Assim será a tua descendência!

 

‘Fé’ e ‘crer’

Durante a leitura das cartas paulinas, verifica-se que o substantivo fé (πιστις – pistis) e o verbo crer (πιστευω – pisteuo) são empregados, quase que o mesmo número de vezes, por volta de 244 ocorrências e aquele, por volta de 243 vezes, sem falar no termo fé como adjetivo (πιστός – pistos), que ocorre 67 vezes.

Apesar de ser equivalente, o número de vezes que os termos πιστις e πιστός são empregados, vale destacar que o substantivo πιστις (pistis), quando empregado pelo apóstolo Paulo, em várias ocasiões, assume uma conotação especifica.

Geralmente, a definição de πιστις[4] nos dicionários, aponta para as disposições internas do indivíduo, ou seja, para questões de cunho subjetivo: convicção. Porém, ao fazer uso do termo, o apóstolo Paulo, na maioria das vezes, o faz como figura de linguagem, uma metonímia[5].

Como Cristo é o autor e consumador da fé (Hb 12:2), o substantivo fé é utilizado para fazer referência à pessoa de Cristo e à sua doutrina, havendo substituição do autor (Cristo) pela sua obra (fé).

Quando é dito pelo apóstolo Paulo que, ‘em todo o mundo é anunciada a vossa fé’ (Rm 1:8), o termo foi utilizado para fazer referência à doutrina de Cristo, ou seja, o evangelho. Quando é dito que ‘antes que a fé viesse’, ou ‘aquela fé que havia de se manifestar’ (Gl 3:23), o substantivo fé foi empregado para fazer referência à pessoa de Cristo.

Quando é dito que o homem é justificado pela fé, na verdade, o apóstolo está declarando que o homem é justificado por Cristo. Quando é dito que o homem é salvo pela graça de Deus, por meio da fé, na verdade, o apóstolo está esclarecendo que Cristo é o dom inefável de Deus, e que, através d’Ele, o homem é salvo (Ef 2:8).

Por que devemos fazer essa análise? Porque, quando emprega o substantivo ‘fé’, em sua epístola, o irmão Tiago o faz, somente com um único significado: crer, portanto, apontando, apenas, para as disposições internas do indivíduo, diferentemente do apóstolo Paulo, que emprega o termo, tanto no sentido de ‘doutrina’, quanto no sentido de ‘crer’.

Observe essa definição:

“A fé é mais do que uma crença intelectual em Deus. Se essa crença não nos leva a uma santa vida de justiça e misericórdia, ela não é a fé salvadora (Mt 7.21-23)” Radmacher, Earl; Allen, Ronald B.; House, H. Wayne, O novo comentário bíblico NT, com recursos adicionais – A Palavra de Deus ao alcance de todos. Rio de Janeiro, 2010, pág. 675.

De que ‘fé’ o autor está falando? De um corpo doutrinário, ou de crer?

Se a ‘fé’, em análise pelos editores do ‘O novo comentário bíblico do NT’, refere-se ao evangelho, efetivamente, por meio do evangelho (fé), o homem recebe poder de ser feito filho de Deus, portanto, é de novo criado, em verdadeira justiça e santidade (Ef 3:23). Está acima de uma crença intelectual em Deus, antes é a palavra de Deus pela qual o homem é santificado: “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17:17).

Se eles abordaram a ‘fé’, no sentido de ‘crer’, ‘acreditar’, tal fé não pode ser nada, além de uma crença intelectual na palavra de Deus. Quando o homem crê em Cristo, na verdade, exerce uma crença intelectual em Deus, conforme o Seu testemunho, exarado nas Escrituras. Deus deu testemunho do seu Filho nas Escrituras e crer nas Escrituras é exercer um culto racional.

Não é o crer, que leva o homem a uma ‘santa vida de justiça’, antes é a fé manifesta – Cristo – que santifica os que creem, concedendo-lhes uma nova vida: santa e justa. É a verdade, a ‘fé’ que santifica, e não o crer: “E por eles me santifico a mim mesmo, para que também eles sejam santificados na verdade” (Jo 17:19). Os equívocos quanto ao significado do termo ‘fé’, leva ao entendimento errôneo de que o dever de andar como filhos da luz (comportamento), diz de uma fé que ‘… é mais do que uma crença intelectual’.

 

A obra de Abraão

“Porventura o nosso pai Abraão não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque?” (Tg 2:21)

Comparando a escrita do apóstolo Paulo com a do irmão Tiago, percebe-se que, por causa do público alvo da carta, há uma mudança gritante no emprego de alguns termos, sem falar que o apóstolo Paulo, ao escrever, utiliza diversos recursos linguísticos de estilo, enquanto Tiago, pela graciosidade poética da sua epístola, fez uso somente de figuras e parábolas.

Quando Tiago diz ‘a prova da vossa fé’, diz da confiança do homem que é posta à prova, e não da palavra de Deus, que é simultaneamente fundamento e prova. Se o homem é provado e permanece confiante, a confiança transforma-se em ‘perseverança’. “Todo aquele que prevarica e não persevera na doutrina de Cristo, não tem a Deus. Quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem, tanto o Pai, como o Filho” (2 Jo 1:9; Tg 1:3).

O não crente precisa crer para ser salvo e o salvo precisa portar-se de modo digno do evangelho e perseverar na fé, combatendo o bom combate: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo, como aos que te ouvem” (2Tm 4:16); “Somente deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho de Cristo, para que, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de vós, que estais num mesmo espírito, combatendo, juntamente, com o mesmo ânimo, pela fé do evangelho” (Fl 1:27).

Se alguém vai pedir algo a Deus, deve pedir com fé, ou seja, acreditando, crendo (Tg 1:6). O termo ‘fé’, foi empregado por Tiago, no sentido de ‘crer’, diferentemente do apóstolo Paulo que, muitas vezes, emprega o termo, no sentido de evangelho, doutrina.

Mas, por questões de estilo e escrita, há divergências entre o exposto pelo apóstolo Paulo e Tiago? Não! A má compreensão da exposição é que leva as divergências, não o conteúdo doutrinário exposto por eles.

O apóstolo Paulo afirma que o evangelho é poder de Deus para salvação (Rm 1:16), enquanto que Tiago, por sua vez, afirma que a palavra implantada nos cristãos é poderosa para salvar (Tg 1:21). Sem contradição alguma a exposição de ambos!

Entretanto, a linguagem utilizada por eles é diferente, em alguns aspectos, apesar de a doutrina não ser divergente, e, isto se dá em função do público alvo da mensagem.  Observe que o apóstolo Paulo diz que o evangelho é poder de Deus para a salvação ‘de todo aquele que crê’ e o irmão Tiago, em vez de dizer que é necessário crer, aponta a necessidade de cumprir a palavra, ou seja, de ‘ser executor da obra’ (Tg 1:25).

‘Acreditar’ e ‘crer’ são verbos que melhor se adequam à realidade dos gentios, enquanto a linguagem dos judeus traduz a ideia de que, quem crê em Deus, é executor de um ‘trabalho’, de uma ‘obra’.

A linguagem do Antigo Testamento aponta o obediente, como aquele que crê, acredita, daí a linguagem dos judeus em identificar ao que obedece, ou seja, quem é executor do que é ordenado por Deus, como quem crê. A linguagem do irmão Tiago evidencia a sujeição do crente e o senhorio de Deus, e a linguagem do apóstolo Paulo evidencia a condição de quem é livre no Senhor.

Entretanto, é imprescindível ao leitor notar a diferença da abordagem paulina da do irmão Tiago. Abordagem do apóstolo Paulo no verso 16 de Romanos 1 possui viés evangelístico, e a abordagem no verso 21 do capítulo 1 de Tiago possui viés exortativo. Este aborda a necessidade de os cristãos perseverarem firmes na palavra neles implantada, enquanto que, aquele, enfatiza a universalidade do evangelho: todo aquele que crê, tanto judeus quanto gentios.

A linguagem de Tiago é a mesma de Cristo, pois é própria aos judeus. Quando a multidão perguntou a Jesus qual era a obra de Deus para realizarem, Jesus respondeu que a obra de Deus é crer naquele que Ele enviou (Jo 6:28-29). O executor da obra, que é bem-aventurado em seu feito, diz de quem crê em Cristo, pois a lei perfeita, a da liberdade, diz do evangelho, a palavra poderosa para salvar: “Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito” (Tg 1:25).

Tiago escreveu aos servos de Cristo das doze tribos da dispersão, ou seja, aos cristãos convertidos do judaísmo (Tg 1:1). Mas, entre esses cristãos, havia aqueles que diziam crer em Deus e cuidavam ser religiosos e não se sujeitavam a Cristo, consequentemente, a mensagem de Tiago enfatiza o que foi dito por Jesus aos seus discípulos: “… credes em Deus, crede também em mim” (Jo 14:1).

Daí o questionamento de Tiago nos versos 14 a 26, do capítulo 2, da sua epístola: “Que aproveito há se alguém disser que tem fé e não tiver obras?” (Tg 2:14). O termo ‘fé’ foi utilizado no sentido de ‘crer’, conforme o verso 19: “Crês tu que Deus é um só?”, e não no sentido de ‘evangelho’, ‘doutrina’, como quando o apóstolo Paulo diz que acabou a carreira e guardou a ‘fé’ (2 Tm 4:7).

Que proveito teriam os discípulos ao ‘crerem em Deus’ e não crerem em Cristo? Poderia tal fé salvar os discípulos? Não! Pois qualquer que diz crer em Deus, deve crer naquele que Ele enviou: “E Jesus clamou e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas naquele que me enviou” (Jo 12:44).

O termo ‘fé’, utilizado por Tiago, não faz referência ao evangelho e nem a Cristo, bem como o termo ‘obras’ no contexto, não faz referência à lei de Moisés. O termo ‘fé’ foi utilizado para fazer referência a uma crença em uma doutrina ou pensamento diverso da doutrina do evangelho de Cristo (Tg 3:19), e o termo ‘obras’ foi utilizado para fazer referência à lei perfeita, a da liberdade, e não às obras da lei de Moisés (Tg 1:22 e 25).

Acreditar que Deus é um só não salva, da mesma forma que não salva acreditar que o homem pode ser salvo por ser descendente da carne de Abraão ou, pela circuncisão. Os judeus acreditavam que nunca foram escravos de ninguém, mas tal ‘fé’ não os tornava livres do pecado (Jo 8:33). Há quem creia em Cristo, como alguns judeus, mas segundo a concepção do seu coração enganoso. Embora esta pessoa tenha ‘fé’ (creia), tal fé é sem proveito para a salvação, ou seja, não os faz livres do pecado: “Jesus dizia, pois, aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos” (Jo 8:31).

Muitos judeus criam em Cristo, mas quando arguidos, continuavam confiados que eram livres por serem descendentes de Abraão (Jo 8:31 e 39). Poderia tal ‘fé’ salvá-los? Pode alguém ser salvo, por crer na existência de Deus? Não!

Neste sentido, que proveito há, se alguém diz que tem fé, mas não crê em Jesus? Que proveito há em dizer que conhece a Deus, se não guardar o Seu mandamento? Tal pessoa é mentirosa e nela não está a verdade (1 Jo 2:3-5). Que proveio há em dizer: ‘nunca fomos escravos de ninguém’, se não é liberto pela verdade? (Jo 8:31-32)

O irmão Tiago não estava questionando se há proveito em ter fé em Cristo, ou seja, se quem crê em Cristo não será salvo, pois é evidente que quem crê em Cristo será salvo (1 Jo 5:13). A fé em Cristo pode salvar o crente, pois, acerca de Cristo, testemunharam todos os profetas, de que recebem o perdão dos pecados, todos os que creem n’Ele (At 10:43). Por Cristo é justificado todo aquele que crê, ou seja, qualquer que tem fé n’Ele (At 13:39).

A abordagem de Tiago, em relação àqueles que diziam que tinham fé, é a mesma que fez o apóstolo Paulo, ao escrever a Tito, quando disse: “Professam conhecer a Deus, mas o negam pelas suas obras…” (Tt 1:16). É sem proveito dizer que se conhece a Deus, ou dizer que se tem ‘fé’, se esse alguém não guarda o seu mandamento (1 Jo 2:4). E qual é o mandamento a cumprir, para que o homem passe a conhecer a Deus? Que creia em Cristo, no nome do Filho de Deus (1 Jo 3:23), pois, o que guarda esse mandamento, permanece em Deus e Deus nele (1 Jo 3:24; Gl 4:9).

Qual a obra que o homem deve realizar? Crer em Cristo! (Jo 6:28-29). É sem valor algum, professar que se conhece a Deus, mas não se crê em Cristo, ou seja, se o nega pelas obras. Cristo é salvação para todos quantos O obedecem, portanto, Ele salva quem realiza a sua obra: “E, sendo ele consumado, veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem” (Hb 5:9).

O questionamento de Tiago só é compreendido quando o leitor perceber que a obra a qual ele fez referência diz da obra de Deus, que é crer em Cristo e não das obras decorrentes da lei: guardar os sábados, a circuncisão, dias, luas, etc. Aquele que diz que crê em Deus, se não crê em Cristo, a obra exigida por Deus, tal ‘fé’ é morta em si mesma (Tg 2:17).

Ao ler esta passagem de Tiago, tem que se ter em mente que, quem crê em Cristo, não crê somente em Cristo, mas também em Deus e vice-versa: “E Jesus clamou e disse: ‘Quem crê em mim, crê, não somente em mim, mas também naquele que me enviou’” (Jo 12:44). Ora, quem diz ter fé, tem que ter a obra, ou seja, crer em Cristo. Quem crê em Cristo crê no testemunho que Deus deu acerca do seu Filho Jesus Cristo (1 Jo 5:10).

Muitos judeus diziam que criam que Deus é um só, mas, apesar de ser bom crer na existência de Deus, não consideravam que os demônios também criam e estremeciam, mas, tal fé não salva os demônios.

O que salva o homem é o mandamento de Deus, contido no evangelho: realizar a obra de Deus, ou seja, crer em Cristo, não a disposição do homem em crer na existência de Deus, ou em milagres, ou em anjos, ou no sobrenatural, ou na circuncisão, ou na carne de Abraão, etc.

Quando Tiago utiliza o termo ‘louco’, ‘insensato’, deixa evidente que estava tratando com cristãos convertidos dentre os judeus. Os profetas utilizavam o termo ‘louco’, ‘ignorante’ para fazer referência aos filhos de Israel, e, Tiago ao escrever às doze tribos da dispersão, escreveu a cristãos convertidos, dentre os judeus (Dt 32:6; Jr 4:22).

Tiago destaca que, somente dizer acreditar (fé) em Deus, sem obedecê-Lo (obras) é inútil e utiliza a pessoa do patriarca Abraão como exemplo, que, ao oferecer o seu único filho em holocausto, demonstrou confiar em Deus (Tg 2:20).

O irmão Tiago evidencia que Abraão foi justificado pelas obras, quando ofereceu o seu filho Isaque sobre o altar (Tg 2:21). Como? Ao dizer que Abraão foi justificado pelas obras, isto não significa que Abraão foi justificado pelas obras da lei, visto que à época do patriarca ainda não havia sido entregue a lei aos filhos de Israel (Rm 4:13). O apóstolo Paulo é específico: ninguém é justificado ‘pelas obras da lei’, na verdade o homem é justificado pelas obras, em função da lei (mandamento) da fé.

As ‘obras da lei’ referem-se à lei de Moisés, que é antagônica à ‘lei da fé’, ou seja, ao mandamento do evangelho: crer em Jesus Cristo: “Onde está logo a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé” (Rm 3:27). “Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé em Cristo, não pelas obras da lei; porquanto pelas obras da lei, nenhuma carne será justificada” (Gl 2:16).

Se Abraão tivesse proposto de si mesmo fazer um sacrifício, oferecendo o seu filho em holocausto, a sua ação não o justificaria. Mas, como Deus ordenou a Abraão que oferecesse o seu único filho em holocausto (Gn 22:2) e ele obedeceu ao mando do Senhor, foi justificado por sua obra: a palavra de Deus operou nele: “Por isso, também, damos, sem cessar, graças a Deus, pois, havendo recebido de nós a palavra da pregação de Deus, a recebestes, não como palavra de homens, mas (segundo é, na verdade), como palavra de Deus, a qual também opera em vós, os que crestes” (1 Ts 2:13).

Tudo o que não é ordenado por Deus, é pecado e oferecer um filho em holocausto, sem Deus ter ordenado, é pecado “… e tudo o que não é de fé é pecado” (Rm 14:23), pois o justo viverá da palavra de Deus, ou seja, da fé (Dt 8:3; Hc 2:4).

Abraão foi justificado por ter colocado o seu único filho sobre o altar? Não! Foi justificado por Deus, porque confiou que Deus era poderoso para ressuscitar o seu filho, quando iria imolá-lo sobre o altar (Hb 11:19).

Ao falar com Saul, Deus deixa claro que importa ao homem obedecer, não sacrificar. (1 Sm 15:22). Abraão demonstrou confiança em Deus, quando colocou o seu filho sobre o altar para imolá-lo, o que demonstra que, quem confia, obedece. É dito que Abraão foi justificado pelas obras, porque não se resignou em acreditar na existência de Deus, antes realizou o que Deus ordenou.

Com relação ao evangelho, o homem é salvo pela obra e não porque acredita que Deus é um só. Qual a obra em questão? Crer que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, pois este é o mandamento de Deus, para todos os homens durante o tempo sobre modo oportuno de salvação – hoje – (2 Co 6:2).

Enquanto de Abraão Deus exigiu o seu único filho, hoje, Deus exige de todos os homens que creiam em seu Filho, Jesus Cristo. Abraão acreditava na existência de Deus, e quando foi realizar a obra exigida por Deus, ficou claro que a sua crença na existência e poder de Deus, cooperou com a sua obra, e assim, pela obra, a confiança foi ‘aperfeiçoada’ (Tg 2:22).

A confiança do homem em Cristo é designada ‘perfeita’ (τελειόω – teleioó) quando o crente realiza o que lhe foi determinado. O termo grego traduzido por ‘aperfeiçoada’ é τελειόω, e não tem o sentido de melhorar a confiança, antes aponta para um quesito funcional: cumpre o propósito para o qual foi estabelecida.

Enquanto Tiago utilizou o termo ‘obra’, para fazer referência ao imperativo de obedecer ao mandamento de Deus, o apóstolo João faz uso do termo ‘amor’ (ágape), para fazer referência a esse mesmo imperativo.

“Bem vês que a fé cooperou com as suas obras e que pelas obras, a fé foi aperfeiçoada” (Tg 2:22);

“No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena e o que teme não é perfeito em amor” (1 Jo 4:18).

Considerando que, quem ama a Deus, cumpre o seu mandamento (Jo 14:15 e 23 e 24), segue-se que quem ama (obedece), não tem medo (temor), pois a obediência perfeita lança fora o medo. O medo decorre da pena, de modo que, quem tem medo é porque não obedeceu, de fato.

Pela palavra de Deus que disse: “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei” (Gn 12:1), ou seja, pela fé (a palavra de Deus é firme fundamento, prova do que não se vê), Abraão obedeceu e saiu, mesmo não sabendo para onde ia (Hb 11:8). A confiança só é perfeita quando cumpre, exatamente, a finalidade: a obediência.

Quando diz que o homem é justificado pela ‘fé’, o apóstolo Paulo está apontando para a verdade do evangelho, que evidencia Cristo como o salvador do mundo. Quando diz que Abraão foi justificado pelas obras, o irmão Tiago está apontando para o mandamento de Deus, que diz: “Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá e oferece-o ali em holocausto, sobre uma das montanhas, que eu te direi” (Gn 22:2).

Sem o mandamento para imolar o filho, Abraão poderia crer na existência de Deus, mas não seria aprovado. Sem o mandamento de Deus, para sair do meio da sua parentela, Abraão poderia deixar pai e mãe, mas não seria herdeiro da promessa. Abraão podia gerar um filho de suas entranhas, o que ocorreu com Hagar e Quetura (Gn 16:4; Gn 25:1-2), porém, tal capacidade não o tornaria pai de muitas nações.

É significativo que, diante da promessa de que a sua descendência seria como as estrelas do céu, Abraão nada fez, antes confiou em Deus, ao que isto lhe foi imputado por justiça. Diante da palavra da promessa, que disse que Abraão teria um filho com Sara (Gn 17:19), a jactância foi excluída, pois não havia nada que Abraão pudesse fazer para que Sara concebesse um filho.

Apesar do questionamento de Abraão, de que era impossível a um homem com mais de cem anos gerar filhos (Gn 17:17), posteriormente, Abraão teve filhos com Quetura (Gn 25:1). Dos filhos que teve com Quetura, Abraão podia jactar-se da sua carne, porém, do filho que teve com Sara, a promessa excluiu qualquer possibilidade de jactância, pela impossibilidade inerente ao homem, e ao oferecer sobre o altar o seu único filho, Abraão teve que, em figura, recobrá-lo dentre os mortos (Rm 3:27; Hb 11:19).

Sair do meio da parentela era algo que Abraão podia fazer, mas, ao fazê-lo, indica que ele se sujeitou, como servo, ao mandamento do Senhor. Oferecer Isaque sobre o altar era algo que Abraão podia fazer, e o fez, demonstrando total submissão à ordem de Deus. Agora, o nascimento de Isaque e a vinda do descendente, foram estabelecido pela palavra de Deus, ao que Abraão resignou-se a crer, pois, com relação à promessa, nada podia fazer a não ser crer naquele que é fiel e não pode mentir.

 

Fé com obras

Por má compreensão da exposição de Tiago, Martinho Lutero[6] chegou a classificar a epístola de Tiago como ‘insossa’, ou ‘cheia de palha’.

Se não compreender que o evangelho constitui um mandamento de Deus e que crer em Cristo é realizar a Sua obra, dificilmente o leitor compreenderá a epístola de Tiago: “Mas, nem todos têm obedecido ao evangelho; pois Isaías diz: SENHOR, quem creu na nossa pregação?” (Rm 10:16).

O apóstolo Paulo, ao escrever a Tito, utiliza a mesma linguagem do apóstolo João e Tiago:

“Confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras, sendo abomináveis, desobedientes e reprovados para toda a boa obra” (Tt 1:16);

“E nisto sabemos que o conhecemos: se guardarmos os seus mandamentos. Aquele que diz: Eu o conheço, mas não guarda os seus mandamentos, é mentiroso e nele não está a verdade” (1 Jo 2:3-4).

Dizer que ‘conhece a Deus’ e ‘negar com as obras’, tem o sentido de honrar a Deus somente com a boca e com os lábios, vez que tal pessoa não guarda o mandamento de Deus (temor). É crer (ter fé) sem as obras (obediência, honra). Os filhos de Israel se aplicavam a um temor que não era o princípio da sabedoria, antes era mandamento de homens: “Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, com a sua boca e  com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo, consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” (Is 29:13).

Primeiro, é dada a palavra da fé, ou seja, o evangelho (Rm 10:8). A palavra da fé é condicionada, vez que ‘se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres, que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo’ (Rm 10:9).

A palavra implantada é fé e a condição estabelecida é crer, de modo que possibilita ao homem crer para a justiça e confessar para ser salvo (Rm 10:10). A confissão é o fruto dos lábios de um coração que recebeu a semente incorruptível, a palavra da fé (Hb 13:15; 1Pd 1:23).

A obra exigida de Deus, dos homens, é crer no coração (intelectualmente), que Deus ressuscitou a Jesus dentre os mortos e, com a boca, confessá-lo como Senhor e Cristo. Essa obra decorre da palavra da fé apregoada: “Porque esta palavra está mui perto de ti, na tua boca, e no teu coração, para a cumprires” (Dt 30:14). Por isso é dito: Cri, por isso falei (Sl 116:10), pois com a boca se confessa e com o coração (mente) se crê.

O exemplo que Tiago apresenta, através de Raabe, se dá da mesma forma que com o cristão, pois ela ouviu que Deus havia dado a Israel a terra onde estava a cidade de Jericó, bem como ouviu que Deus secou as águas do Mar Vermelho e o que foi feito dos povos que se opuseram aos filhos de Israel, após a travessia do Jordão, de modo que Raabe concluiu que Deus é Deus em cima nos céus e embaixo na terra (Js 2:11).

Raabe ouviu e creu em Deus, a ponto de confessar aos espias os seus temores e pedir por misericórdia (Js 2:11-13). Por crer que Deus é Deus encima nos céus e embaixo na terra, pelo que ouviu acerca dos feitos dos filhos de Israel, Raabe acolheu os espias no eirado da sua casa e os despediu por outro caminho (Tg 2:25).

A informação que Raabe ouviu, acerca dos filhos de Israel, era firme e verdadeira, pelo que é dito: “Pela fé Raabe, a meretriz, não pereceu com os incrédulos, acolhendo em paz os espias” (Hb 11:31). Pela informação que recebeu, acerca do povo de Israel e do Deus que tirou o povo da terra do Egito, ou seja, pela fé (πίστις-pistis), Raabe tomou a iniciativa de acolher em paz os espias (obra).

Seria sem proveito, Raabe dizer que acreditava no evento histórico em que Deus secou as águas do Mar Vermelho, se não tivesse rogado por misericórdia aos espias. Seria sem proveito Raabe confessar que Deus é Deus nos céus e na terra sem se sujeitar a Ele, servindo aos espias.

Se entender o termo ‘fé’, segundo o que é usual em nossos dias, Raabe seria uma mulher de fé, se ela acreditasse que não seria atingida pela guerra, ou em algum absurdo ou em algum evento mágico. Nesse diapasão, a fé de Raabe deveria se opor à razão, ou como propuseram: ‘credo quia absurdum’ (creio, porque é absurdo).

Semelhantemente, Abraão foi justificado quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque. Ora, oferecer um filho em holocausto é um absurdo, porém, Abraão o fez pela fé, ou seja, apoiado na palavra de Deus, que disse: “Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre uma das montanhas, que eu te direi” (Gn 22:2). Ele ofereceu o seu único filho, porque era a palavra de Deus e não porque era absurdo.

Embora Deus tenha ordenado a Abraão que oferecesse o seu único filho em holocausto, Abraão considerou a palavra que diz: “Em Isaque será chamada a tua descendência” (Hb 11:18). Sem Isaque não havia descendência, e nem viria o Descendente, pelo que se entende que ele considerou que “Deus era poderoso para, até dentre os mortos, ressuscitar a seu filho e daí, também, em figura ele o recobrou” (Hb 11:18-19).

É pela fé, ou seja, pela palavra de Deus, que diz: ‘Em Isaque seria chamada a sua descendência’, que Abraão foi aprovado por Deus. Por causa dessa promessa: “Como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí” (Rm 4:17), Abraão creu que Deus vivifica os mortos e que chama à existência as coisas que não são, como se já fossem, vez que Deus teria que cumprir a Sua palavra (Rm 4:21).

Sem a palavra de Deus (fé), seria impossível Abraão ter a esperança de que o seu descendente (Cristo), viria ao mundo, quando colocou o seu único filho sobre o altar (creu contra a esperança).

“Pela fé, ofereceu Abraão a Isaque, quando foi provado; sim, aquele que recebera as promessas ofereceu o seu unigênito. Sendo-lhe dito: Em Isaque será chamada a tua descendência, considerou que Deus era poderoso para, até dentre os mortos, ressuscitá-lo; E daí também, em figura, ele o recobrou” (Hb 11:17-19)

Abraão tinha fé em Deus (cria na existência de Deus) e executou a obra que Deus mandou realizar, ou seja, a fé (crer) cooperou com as obras, de modo que, pelas obras de Abraão a fé (crer) foi aperfeiçoada, ou seja, cumpriu o seu propósito.

 

Identificando um erro na pergunta: “A salvação é somente pela fé ou pela fé, mais as obras?”

Há quem acredite que essa é a pergunta mais importante, em toda a Teologia Cristã. Outros, que essa pergunta motivou a Reforma: a separação entre a igreja Protestante e a igreja Católica, entretanto, não atentam para o fato de que há um erro na pergunta, que leva a um entendimento equivocado, acerca da fé e das obras.

Quando é perguntado: ‘A salvação é somente pela fé…?’, é essencial que se dê o significado do termo ‘fé’ na frase. Se o significado de fé for ‘crer’, jamais a salvação é somente pelo ‘crer’.

Quando a Bíblia apresenta a salvação somente pela fé, na verdade está dizendo que a salvação é somente por Cristo, ou seja, pelo evangelho. Não existe outra alternativa que não seja o evangelho (fé). A alternativa “… ou pela fé mais as obras?”, inexiste!

Quando questionam: “A salvação é pela fé mais as obras?”, geralmente, os termos ‘fé’ e ‘obras’ não possuem o mesmo significado que o empregado pelo irmão Tiago no verso: “Vedes então que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé” (Tg 2:24). Tiago diz que ‘o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé’, o que é completamente diferente da ideia que a pergunta sugere: ‘Salvação é pela fé, mais as obras’.

Para quem construiu a pergunta, obras possui o significado de ‘boas ações’, ‘bom comportamento’ e até de ‘frutos’, questões que o irmão Tiago não aborda neste verso em comento. O homem é salvo ‘apenas’ quando crê em Cristo, pois crer em Cristo é o suficiente para ser salvo, vez que quem salva é Cristo.

Quem crê em Cristo, produziu a obra exigida por Deus, de modo que Tiago não está dizendo que, para ser salvo, é necessário ter fé (crer) e fazer boas ações (obras). É um equivoco entender que Tiago enfatizou o fato de que a fé em Cristo produz boas obras’[7].

Tiago não faz referência à fé em Cristo, antes à ‘justificação pelas obras’, que na verdade, é crer em Cristo. Quando ele diz: ‘não somente pela fé’, Tiago não se refere à fé, como a verdade do evangelho, mas, sim, a alguém dizer que crê em Deus, mas que não realiza a sua obra (mandamento).

Realizar boas ações (boas obras) não é prova de que o homem foi verdadeiramente justificado, antes o justificado já produziu a obra exigida por Deus, e Deus, por sua vez, gerou um novo homem, através da semente incorruptível, criado em verdadeira justiça e santidade. O bom porte, o bom comportamento, as boas ações, etc., não decorrem da fé (crer) em Cristo, antes, o bom comportamento se dá quando o homem é admoestado e redarguido, e muda o seu comportamento, pelo transformar do entendimento (Rm 12:2; 1Pd 1:13-14).

A segunda parte da pergunta é equivocada e também induz ao erro, pois Tiago diz que o homem é justificado pelas obras (crer em Cristo),  não pela fé (crer em Deus). Em momento algum Tiago aponta para uma salvação pela ‘fé mais as obras’, antes ele apresenta a salvação pelas obras (obediência ao mandamento de Deus) que decorrem da fé (crer) em Cristo.

 


[1] “Proposição que se assume como verdadeira, independentemente de seu conteúdo”;

[2] “3049 λογιζομαι logizomai voz média de 3056; TDNT – 4:284,536; v 1) recontar, contar, computar, calcular, conferir 1a) levar em conta, fazer um cálculo 1a1) metáf. passar para a conta de alguém, imputar 1a2) algo que é considerado como ou é alguma coisa, i.e., como benefício para ou equivalente a algo, como ter a força e o peso semelhante 1b) constar entre, considerar 1c) considerar ou contar 2) avaliar, somar ou pesar as razões, deliberar 3) de considerar todas as razões, para concluir ou inferir 3a) considerar, levar em conta, pesar, meditar sobre 3b) supor, julgar, crer 3c) determinar, propor-se, decidir Esta palavra lida com a realidade. Se eu “logizomai” ou considero que minha conta bancária tem R$ 25,00, ela tem R$ 25,00. Do contrário eu estaria me enganando. Esta palavra refere-se a fatos e não a suposições” Dicionário Bíblico Strong.

[3] “Fidedigno – adj. Merecedor de crédito (confiança); que é real e verdadeiro; autêntico: realizou um fidedigno levantamento das dívidas da empresa. P.ext. Figurado. Caracterizado por ser real e verdadeiro; autêntico.  (Etm. do latim: fide dignus)”. Dicionário Online de Português.

[4] “4102 πιστις pistis de 3982; TDNT – 6:174,849; n f 1) convicção da verdade de algo, fé; no NT, de uma convicção ou crença que diz respeito ao relacionamento do homem com Deus e com as coisas divinas, geralmente com a ideia inclusa de confiança e fervor santo nascido da fé e unido com ela 1a) relativo a Deus 1a1) a convicção de que Deus existe e é o criador e governador de todas as coisas, o provedor e doador da salvação eterna em Cristo 1b) relativo a Cristo 1b1) convicção ou fé forte e benvinda de que Jesus é o Messias, através do qual nós obtemos a salvação eterna no reino de Deus 1c) a fé religiosa dos cristãos 1d) fé com a ideia predominante de confiança (ou confidência) seja em Deus ou em Cristo, surgindo da fé no mesmo 2) fidelidade, lealdade 2a) o caráter de alguém em quem se pode confiar” Dicionário Bíblico Strong.

[5] “A metonímia consiste em empregar um termo no lugar de outro, havendo entre ambos estreita afinidade ou relação de sentido. Observe os exemplos abaixo: 1 – Autor pela obra: Gosto de ler Machado de Assis. (= Gosto de ler a obra literária de Machado de Assis.) 2 – Inventor pelo invento: Édson ilumina o mundo. (= As lâmpadas iluminam o mundo.) 3 – Símbolo pelo objeto simbolizado: Não te afastes da cruz. (= Não te afastes da religião.) 4 – Lugar pelo produto do lugar: Fumei um saboroso havana. (= Fumei um saboroso charuto.) 5 – Efeito pela causa: Sócrates bebeu a  morte. (= Sócrates tomou veneno.)” Só Português < http://www.soportugues.com.br/secoes/estil/estil3.php > Consulta realizada em 06/05/2016.

[6] “Em suma: o evangelho, segundo João e sua primeira epístola, as epístolas de Paulo, particularmente, as dirigidas aos romanos, gálatas, efésios, e a primeira epístola de Pedro, estes são os livros que lhe apresentam Cristo e lhe ensinam tudo que é necessário e bom saber, ainda que jamais visse ou ouvisse qualquer outro livro ou doutrina. alquer forma, não tem natureza evangélica. Mas disso ainda falaremos em outros prefácios” Lutero, Martinho. Pelo Evangelho de Cristo: Obras selecionadas de momentos decisivos da Reforma. Trad. Walter O. Schlupp. Porto Alegre: Concórdia & São Leopoldo: Sinodal, 1984. pp. 171-177; “Embora esta epístola de São Tiago fosse rejeitada pelos anciãos, eu elogio-a e considero-a um bom livro, porque estabelece não doutrinas de homens, mas vigorosamente promulga a lei de Deus. No entanto, afirmo a minha própria opinião sobre isso, embora sem prejuízo para ninguém, eu não considero como uma escrita de um apóstolo, e as minhas razões seguem. Em primeiro lugar, é terminantemente contra São Paulo e todo o resto da Escritura em atribuir a justificação às obras. Ela diz que Abraão foi justificado por suas obras, quando ofereceu seu filho Isaac, embora em Romanos, São Paulo ensine o contrário, que Abraão foi justificado sem as obras, por sua fé, antes que ele tivesse oferecido seu filho, e prova isso por Moisés em Gênesis 15. Agora, embora esta epístola pode ser ajudada e uma interpretação concebida para essa justificação pelas obras, não pode ser defendida em sua aplicação às obras da declaração de Moisés em Gênesis 15. Pois, Moisés está falando aqui apenas da fé de Abraão, e não de suas obras, como São Paulo demonstra em Romanos. Esta falha, portanto, prova que esta epístola não é o trabalho de qualquer apóstolo” Lutero, Martinho. Prefácio à tradução alemã das Epístolas de S. Tiago e S. Judas, em 1522.

[7] “Tiago e Paulo não discordam em seus ensinamentos sobre a salvação. Eles abordam o mesmo assunto, sob diferentes prismas. Paulo, simplesmente, enfatizou que a justificação vem somente pela fé, enquanto Tiago enfatizou o fato de que a fé em Cristo produz boas obras”. A salvação é somente pela fé ou pela fé mais as obras? Got Questions < http://www.gotquestions.org/Portugues/somente-a-fe.html > Consulta realizada em 19/05/16.

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O que é Justificação?

A justificação não é forense e nem um ato judicial de Deus pelo qual Ele perdoa, isenta e trata o homem que não é justo como se justo fosse. Ora, se Deus tratasse um injusto como se justo fosse, na verdade estaria cometendo injustiça. Caso Deus declarasse um pecador como sendo justo, teríamos uma declaração fictícia, imaginária, pois Deus estaria declarando algo inverídico acerca do homem.


 

“Porque aquele que está morto está justificado do pecado” ( Rm 6:7 )

É comum à teologia tratar da doutrina da justificação como uma questão de ordem forense, daí as expressões ‘ato judicial de Deus’, ‘ato de reconhecimento divino’, ‘anunciar a justiça’, etc., nas definições acerca do tema justificação.

Para Scofield, embora justificado, o crente ainda é pecador. Deus reconhece e trata o crente como sendo justo, porém, isto não significa que Deus torne alguém justo.

“O pecador crente é justificado, isto é, tratado como justo (…) A justificação é um ato de reconhecimento divino e não significa tornar uma pessoa justa…” Bíblia de Scofield com Referências, Rm 3:28.

Para Charles C. Ryrie justificar significa:

“declarar que alguém é justo. Ambas as palavras em hebraico (sadaq) e em grego (dikaioõ) significam ‘anunciar’ ou ‘pronunciar’ um veredicto favorável, declarar alguém justo. Esse conceito não implica fazer que alguém seja justo, mas sim apenas anunciar a justiça”  Ryrie, Charles Caldwel, Teologia Básica – Ao alcance de todos, traduzido por Jarbas Aragão – São Paulo: Mundo cristão, 2004, pág. 345.

George Eldon Ladd entende a justificação a partir do termo grego dikaioõ, como sendo:

“‘declarar justo’, não transformar em justo’. Como veremos, a ideia principal, em justificação, é a declaração de Deus, o juiz justo, de que o homem que crê em Cristo, embora possa ser pecador, é justo – é visto como sendo justo, porque, em Cristo, ele chegou a um relacionamento justo com Deus”  Ladd, George Eldon, Teologia do Novo Testamento, tradução de Darci Dusilek e Jussara M. Pinto, 1. Ed – São Paulo: Exodus, 97, pág. 409.

A justificação não é forense e nem um ato judicial de Deus pelo qual Ele perdoa, isenta e trata o homem que não é justo como se justo fosse. Ora, se Deus tratasse um injusto como se justo fosse, na verdade estaria cometendo injustiça. Caso Deus declarasse um pecador como sendo justo, teríamos uma declaração fictícia, imaginária, pois Deus estaria declarando algo inverídico acerca do homem.

A essência da doutrina da justificação está no fato de que Deus cria um novo homem em verdadeira justiça e santidade e o declara justo porque efetivamente esse novo homem é justo. Deus não trabalha com uma justiça fictícia, imaginária, a ponto de tratar como justo aquele que de fato não é justo.

Para os teólogos da reforma a justificação é um ato judicial de Deus sem qualquer mudança em sua vida, ou seja, Deus não muda a condição do homem. Aí está o engano, pois Deus só justifica aqueles que nascem de novo ( Jo 3:3 ). Ora, se o homem é de novo gerado segundo Deus, isto significa que Deus mudou a condição do homem ( 1Pe 1:3 e 23).

A condição do crente é completamente distinta de quando não cria em Cristo. Antes de crer o homem esta sujeito à potestade das trevas e, após crer é transportado para o reino do Filho do seu amor “O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” ( Cl 1:13 ). Quando na potestade das trevas o homem estava vivo para o pecado, portanto, jamais será declarado justo, mas os mortos para o pecado estão justificados do pecado.

Ora, os ordenamentos jurídicos que encontramos nos tribunais tratam de questões e relações que possuem materialidade entre vivos, já a doutrina da justificação não envolve princípios forenses, pois só quem está morto para o pecado está justificado do pecado!

A bíblia demonstra que tanto judeus quanto gentios são salvos pela graça de Deus revelada em Cristo Jesus. Ser salvo pela graça de Deus é o mesmo que ser salvo mediante a fé, pois Jesus é a fé manifesta ( Gl 3:23 ). Jesus é o firme fundamento pelo qual o homem tem plena confiança em Deus e é justificado ( Hb 11:1 ; 2 Co 3:4 ; Cl 1:22 ).

Daniel B. Pecota afirmou que:

“A fé nunca é o fundamento da justificação. O Novo Testamento jamais afirma que a justificação é dia pistin (“em troca da fé”), mas sempre dia pisteos, (“mediante a fé”)”.

Ora, se entendermos que Cristo é a fé que havia de se manifestar, segue-se que Cristo (fé) foi, é e sempre será o fundamento da justificação. A confusão entre ‘dia pistin’ (confiança na verdade) e ‘dia pisteos’ (a própria verdade) se dá por má leitura das passagens bíblicas, visto que Cristo é o firme fundamento pelo qual os homens que creem tornam-se agradáveis a Deus, pois a justificação é mediante Cristo (dia pisteos).

O maior problema quanto à doutrina da justificação dos reformadores está em tentar dissociar a doutrina da justificação da doutrina da regeneração. Sem regeneração não há justificação e não há justificação à parte da regeneração. Quando o homem é gerado segundo a carne e o sangue tem-se o veredicto de Deus: culpado, pois esta é a condição do homem gerado segundo a carne ( Jo 1:12 ). Mas, quando o homem é gerado de novo (regenerado), o veredicto que Deus dá é: justificado, pois a pessoa efetivamente é justa.

O primeiro passo para compreender a doutrina da justificação é entender que todos os homens pecaram e destituídos foram da glória de Deus ( Rm 3:23 ). Isto quer dizer que, por causa da ofensa de Adão, todos os homens juntamente, quando na ‘coxa’ de Adão, se fizeram imundos e mortos para Deus ( Sl 53:3 ; Sl 14:3 ). Após a ofensa de Adão todos os seus descendentes passaram a viver para o pecado e estavam mortos (alienados, separados) para Deus.

Ao falar desta condição herdada de Adão, o apóstolo Paulo disse que todos os homens (judeus e gentios) eram por natureza filhos da ira ( Ef 2:3 ). Por que filhos da ira? Porque eram filhos da desobediência de Adão “Ninguém vos engane com palavras vãs; porque por estas coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência” ( Ef 5:6 ).

Por causa da ofensa de Adão o pecado entrou no mundo, e em função da desobediência dele todos os homens são pecadores “Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram” ( Rm 5:12 ). Todos os homens nascidos segundo a carne são pecadores porque a condenação de Adão (morte) passou a todos os seus descendentes.

Muitos desconhecem que os homens são pecadores por causa da condenação herdada de Adão, e consideram que os homens são pecadores por causa de questões comportamentais oriundas do conhecimento do bem e do mal.

É necessário divisar bem a ofensa de Adão do conhecimento adquirido do fruto do conhecimento do bem e do mal. Enquanto o conhecimento do bem e do mal não foi o que separou o homem de Deus (pecado), pois Deus é conhecedor do bem e do mal ( Gn 3:22 ), a desobediência trouxe o pecado (divisão, separação, alienação) por causa da lei que disse: certamente morrerás ( Gn 2:17 ).

O pecado mostrou-se excessivamente maligno porque através da lei santa, justa e boa o pecado dominou e matou o homem ( Rm 7:13 ). Sem a penalidade da lei: ‘certamente morrerás’, o pecado não teria poder de dominar o homem, mas através do poder da lei (certamente morrerás) o pecado achou ocasião e matou o homem ( Rm 7:11 ). A lei dada no Éden era santa, justa e boa porque alertava o homem acerca das consequências da desobediência (dela não comerás, pois no dia que dela comeres, certamente morrerás).

Por causa da ofensa os homens são formados em iniquidade e concebidos em pecado ( Sl 51:5 ). Desde a madre (desde a origem) os homens desviam-se de Deus ( Sl 58:3 ), o melhor dos homens é comparável a um espinho, e o mais reto a uma cerca feita de espinhos ( Mq 7:4 ). É por causa da ofensa de Adão que se ouviu o veredicto: culpados! ( Rm 3:23 )

Dai a pergunta de Jó: “Quem do imundo tirará o puro? Ninguém” ( Jó 14:4 ). Mas, aquilo que é impossível aos homens é possível a Deus, pois Ele tem o poder de fazer tudo novo:  “Jesus, porém, olhando para eles, disse: Para os homens é impossível, mas não para Deus, porque para Deus todas as coisas são possíveis” ( Mc 10:27 ).

A justificação é a resposta de Deus a mais importante de todas as questões humanas: Como uma pessoa pode se tornar aceitável diante de Deus? A resposta está clara no Novo Testamento, especialmente na seguinte ordem de Jesus Cristo: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” ( Jo 3:3 ). É necessário nascer da água e do Espírito, pois o que é nascido da carne é carnal, mas os nascidos do Espírito, são espirituais ( Rm 8:1 ).

O problema da separação entre Deus e os homens (pecado) decorre do nascimento natural ( 1Co 15:22 ), e não do comportamento dos homens. O pecado está relacionado com a natureza decaída do homem, e não com o seu comportamento em sociedade.

A solução para a condenação que o homem alcança na justificação em Cristo é proveniente do poder de Deus, e não em um ato judicial. Primeiro, porque bastou o homem desobedecer ao Criador para que fosse estabelecido o juízo de condenação: a morte (separação) de todos os homens ( Rm 5:18 ). Segundo, porque quando Jesus convoca os homens a tomar a sua própria cruz, deixa claro que para haver conciliação entre Deus e os homens é necessário sofrer a pena imposta: morte. Na morte com Cristo a justiça é satisfeita, pois a pena não passa da pessoa do transgressor ( Mt 10:38 ; 1Co 15:36 ; 2Co 4:14 ).

Quando foi posto um homem paraplégico na frente de Jesus, Ele disse: “Ora, para que saibais que o Filho do homem tem na terra poder para perdoar pecados (disse ao paralítico), A ti te digo: Levanta-te, toma o teu leito, e vai para tua casa” ( Mc 2:10 -11). Esta fala de Jesus demonstra que a passagem clássica de Romanos 3, versos 21 à 25 sobre a justificação não envolve conceitos forenses.

Perdoar pecados não é demanda jurídica, é questão de poder! Só perdoa pecados aquele que tem poder sobre o barro para de uma mesma massa fazer vasos para honra ( Rm 9:21 ). É por isso que o apóstolo Paulo não se envergonhava do evangelho, pois o evangelho é o poder de Deus para salvação de todo que crê ( Rm 1:16 ).

Ao falar desta questão com Jó, Deus deixa claro que, para que o homem possa declarar a si mesmo justo, seria necessário ter braços como o de Deus e trovejar como o Altíssimo. Seria necessário enfeitar-se de glória e de esplendor e vestir-se de honra e majestade. Deveria ser capaz de derramar a sua ira esmagando o ímpio em seu lugar. Somente suprindo todos os requisito enumerados anteriormente seria possível ao homem salvar-se a si mesmo ( Jó 40:8 -14).

Mas, como o homem não tem esse poder descrito por Deus, jamais poderá declarar-se justo ou salvar a si mesmo. Já o Filho do homem, Jesus Cristo, Ele pode declarar o homem justo, porque Ele mesmo revestiu-se de glória e majestade ao tornar à glória junto ao Pai “E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse” ( Jo 17:5 ); “Cinge a tua espada à coxa, ó valente, com a tua glória e a tua majestade” ( Sl 45:3 ).

O segundo passo para compreender a doutrina da justificação é entender que não há como Deus declarar livre de culpa aqueles que estão condenados. Deus justo não pode deixar que a pena imposta aos transgressores não lhes seja aplicada.

Deus jamais declara (justifica) justo aquele que é ímpio “De palavras de falsidade te afastarás, e não matarás o inocente e o justo; porque não justificarei o ímpio ( Êx 23:7 ).  Deus jamais trata o ímpio como se justo fosse “Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra?” ( Gn 18:25). Deus jamais fará com que a pena imposta ao transgressor seja dada a outrem, como se lê: “A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai levará a iniquidade do filho. A justiça do justo ficará sobre ele e a impiedade do ímpio cairá sobre ele” ( Ez 18:20 ).

Quando Jesus disse a Nicodemos que é necessário ao homem nascer de novo, todas as questões acima foram consideradas, pois Jesus bem sabia que Deus jamais declara os nascidos segundo a carne de Adão livres de culpa.

Quando do nascimento natural o homem foi feito pecador, um vaso para desora, portanto, filho da ira e da desobediência. Para declarar o homem livre de pecado, primeiro é necessário que ele morra, pois se não morrer jamais poderá viver para Deus “Porque aquele que está morto está justificado
do pecado” ( Rm 6:7 );
 “Insensato! o que tu semeias não é vivificado, se primeiro não morrer” ( 1Co 15:36 ).

Cristo morreu pelos pecadores – o justo pelos injustos – mas qualquer que não comer a carne e beber o sangue de Cristo não terá vida em si mesmo, ou seja, é imprescindível ao homem ser participante da morte de Cristo “Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; mortificado, na verdade, na carne, mas vivificado pelo Espírito” ( 1Pe 3:18 ); “Jesus, pois, lhes disse: Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos” ( Jo 6:53 ).

Comer a carne e beber o sangue de Cristo é o mesmo que crer n’Ele ( Jo 6:35 e 47 ). Crer em Cristo é o mesmo que ser crucificado com Ele. Qualquer que crê é sepultado com Ele e deixa de viver para o pecado e passa a viver para Deus “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” ( Gl 2:20 ; Rm 6:4 ).

O homem que crê em Cristo admite que é réu de morte por causa da ofensa de Adão. Implicitamente admite que Deus é justo quando fala e é puro quando julga os descendentes de Adão como culpados ( Sl 51:4 ). Admite que somente Cristo tem o poder de criar um novo homem pela ressurreição dentre os mortos, de modo que aquele que é sepultado com Ele ressurge uma nova criatura.

O último passo para compreender a justificação é entender que do novo nascimento surge uma nova criatura criada em verdadeira justiça e santidade “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ; Ef 4:24 ). Esta nova criatura é declarada justa porque efetivamente Deus a criou de novo justa e irrepreensível diante d’Ele.

O homem que crê em Cristo é criado de novo participante da natureza divina ( 2Pe 1:4 ), pois o velho homem foi crucificado e o corpo que pertencia ao pecado desfeito. Após ter sido sepultado com Cristo na semelhança da sua morte, o homem ressurge uma nova criatura “Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado” ( Rm 6:6 ).

Através do evangelho, Deus não somente declara o homem justo, como também cria o novo homem essencialmente justo. Diferente do que o Dr. Scofield afirma, que Deus somente declara o pecador como sendo justo, mas não o torna justo.

A bíblia afirma que Deus cria o novo homem em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ), portanto, a Justificação é proveniente de um ato criativo de Deus, mediante o qual o novo homem é criado participante da natureza divina. A justificação bíblica refere-se à condição daqueles que são gerados de novo mediante a verdade do evangelho (fé): livres de culpa ou de condenação.

Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo. Porque não há nenhuma condenação?  A resposta está no fato de o homem ‘estar em Cristo’, pois os que estão em Cristo são novas criaturas “PORTANTO, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito” ( Rm 8:1 ); “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ).

A justificação decorre da nova condição daqueles que estão em Cristo, pois estar em Cristo é ser uma nova criatura “E, se Cristo está em vós, o corpo, na verdade, está morto por causa do pecado, mas o espírito vive por causa da justiça. E, se o Espírito daquele que dentre os mortos ressuscitou a Jesus habita em vós, aquele que dentre os mortos ressuscitou a Cristo também vivificará os vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que em vós habita” ( Rm 8:10 -11).

Dai a pergunta do apóstolo Paulo: “Pois, se nós, que procuramos ser justificados em Cristo, nós mesmos também somos achados pecadores, é porventura Cristo ministro do pecado? De maneira nenhuma” ( Gl  2:17 ). Ora, Cristo é ministro da justiça, e de nenhum modo ministro do pecado, portanto, aquele que é justificado por Cristo não é achado pecador, pois está morto para o pecado “Porque aquele que está morto está justificado do pecado” ( Rm 6:7 ).

Quando o apóstolo Paulo afirma: é Deus quem os justifica! “Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica” ( Rm 8:33 ), ele tinha plena certeza de que não era uma questão forense, pois num tribunal só declara o que é, visto que não possuem poder para mudarem a condição daqueles que comparecem perante os juízes.

Quando é dito que ‘é Deus quem justifica’, o apóstolo Paulo aponta o poder de Deus que cria um novo homem. Deus declara o homem justo porque não há condenação para aqueles que são novas criaturas. Deus não transferiu a condição do velho homem para Cristo, antes o velho homem foi crucificado e desfeito, de modo que, dentre os mortos ressurgiram novas criaturas que estão assentadas com Cristo para a glória de Deus Pai, e sobre elas não pesa condenação alguma.

Os cristãos são declarados justos porque foram transformados em justos (dikaioõ) pelo poder que há no evangelho, pelo qual o homem é participante do corpo de Cristo, pois morreu e ressurgiu juntamente com Cristo na condição de santo, irrepreensível e inculpável “No corpo da sua carne, pela morte, para perante ele vos apresentar santos, e irrepreensíveis, e inculpáveis” ( Cl 1:22 ; Ef 2:6 ; Cl 3:1 ).

Quando Paulo afirma: “Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” ( Cl 3:3 ), significa que o cristão está justificado do pecado, ou seja, morto para o pecado ( Rm 6:1 -11), e vivo para Deus “De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida” ( Rm 6:4 ).

Jesus foi entregue por Deus para morrer por causa do pecado da humanidade, pois é necessário aos homens morrerem para o pecado para que possam viver para Deus. É por isso que Cristo Jesus ressurgiu, para que os que ressurgem com Ele sejam declarados justos. Sem morrer não há ressurreição, sem ressurreição não há justificação “O qual por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação” ( Rm 4:25 ).

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A palavra ‘Justificação’

28Em Romanos 3, verso 7, o apóstolo Paulo estabelece uma relação entre as palavras ‘morto’ e ‘justificado’: “aquele que está morto” também “está justificado” do pecado! Ou seja, a primeira condição (morto) implica na segunda (justificado). Satisfeita a primeira condição a segunda é estabelecida.

A palavra justificação é de origem latina composta de ‘justus’ e ‘facere’ e significa ‘fazer justo’ em português.

As palavras ‘justificado’ e ‘justiça’ são traduções de palavras gregas semelhantes. Temos o verbo dikaiôun que é ‘declarar justo’, ‘justificar’. O substantivo dikaíosis que é ‘justificação’, ‘justiça’, e o adjetivo dikaios, que qualifica que é ‘justo’.

Uma tradução precisa dos termos que fazem referência à justificação auxilia em muito a interpretação dos escritos de Paulo, porém, só os termos tomados de maneira isolada não revelam a grandeza das idéias centrais que compõe a doutrina da justificação.

Para entendermos a extensão das expressões supracitadas devemos atentar mais para o contexto nas quais elas foram citadas, do que para o significado denotativo da palavra.

Este estudo não se limita a apresentar um trabalho de conclusões. Antes, procuramos apresentar ao leitor o raciocínio que se deve percorrer para chegar às conclusões que apontaremos no decorrer deste estudo.

 

Aquele que está morto

Em Romanos 3, verso 7, o apóstolo Paulo estabelece uma relação entre as palavras ‘morto’ e ‘justificado’: “aquele que está morto” também “está justificado” do pecado! Ou seja, a primeira condição (morto) implica na segunda (justificado). Satisfeita a primeira condição a segunda é estabelecida.

Antes de ser feita a declaração “… porque aquele que está morto está justificado do pecado”, o apóstolo Paulo enfatiza de maneira contundente a ‘morte’ daqueles que creem em Cristo (estão) conforme diz a escritura ( Rm 6:1 -6).

Para entendermos precisamente a declaração paulina devemos ter a resposta da seguinte pergunta: Quem está morto?

A resposta está no versículo dois do capítulo seis da carta aos Romanos: Nós, ou seja, Paulo e os cristãos!

Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?”
( Rm 6:2 )

No versículo acima o apóstolo esclarece aos leitores da carta aos Romanos que todos eles estão mortos para o pecado, ou seja, nenhum crente em Cristo ‘vive’ para o pecado. Isto significa que efetivamente os cristãos estão mortos para o pecado.

Caso alguém argumentasse contra esta realidade (mortos para o pecado), o apóstolo Paulo contra argumenta de quatro maneiras diferentes para se fazer compreensível.

a) Os que foram batizados foram batizados na morte de Cristo ( Rm 6:3 );

b) Pelo batismo na morte todos foram sepultados com Cristo ( Rm 6:4 );

c) Todos foram plantados juntamente com Cristo, e ( Rm 6:5 );

d) Uma vez que, todos sabiam que haviam sido crucificados com Cristo.

 

“Pois sabemos isto, que o nosso velho homem foi com ele crucificado…”
( Rm 6:6 )

 

Diante dos elementos que foram apresentados restam as seguintes conclusões: vocês estão mortos! “Pois morrestes, e a vossa vida está oculta com Cristo em Deus” ( Cl 3:3 ).

“Ora, se já morremos com Cristo…” ( Rm 6:8 ).

“Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado…” ( Rm 6:11 ).

 

Quando o apóstolo Paulo diz: ‘considerai-vos’, não significa simplesmente imaginar como se estivessem mortos para o pecado, antes os cristãos deviam estar cônscios, vivendo esta nova realidade. Paulo não apregoou um ‘faz de conta’, antes ele anunciou verdades eternas.

Aquele que crê em Cristo vive esta nova realidade em verdade: após encontrar a cruz de Cristo, morreu para o pecado e está efetivamente justificado do pecado.

Observe que a palavra ‘considerai’ do versículo onze significa ‘contar com’, ‘descansar em’. Aliado ao significado da palavra, está o contexto, que demonstra que os cristãos efetivamente estão mortos para o pecado.

 

Está Justificado do Pecado

Já que os cristãos efetivamente morreram para o pecado como foi observado em ( Rm 6:2 ), conclui-se que quem está justificado perante Deus necessariamente já morreu para o pecado.

De outro modo: aquele que está vivo para o pecado não está justificado do pecado. Portanto, só é possível ser justificado do pecado quando se está morto para ele.

A condição ‘justificado do pecado’ é real e efetiva, pois decorre da primeira, que é estar morto para o pecado “… porque aquele que está morto está justificado do pecado”.

Dentro deste contexto de ‘morte para o pecado’ e ‘justificado do pecado’ torna-se possível determinarmos qual o real significado das palavras ‘justificação’ e ‘justificar’.

Qual a melhor tradução para as palavras dikaíôun e dikaíosis? Seria ‘fazer justo’? ‘criar justo’? Ou ‘declarar justo’?

O parágrafo seguinte nos auxiliará na escolha da tradução que melhor transmite à ideia apresentada pelo contexto.

 

Para que sejas justificado

Quando Paulo faz a citação de um versículo do salmista Davi, nos auxilia em muito na compreensão da extensão do significado da palavra justificado.

Neste salmo Davi demonstrou que reconhecer os próprios erros é a melhor maneira de declarar sem palavras que Deus é justo “Contra ti, contra ti somente pequei, e fiz o que é mal à tua vista, para que sejas justificado quando falares, e puro quando julgares” ( Sl 51:4 ).

Ele assume os seus erros para que Deus seja justificado ao falar.

O que o contexto nos apresenta?

  • Davi assumiu os seus erros para ‘fazer’ Deus justo?
  • Davi assumiu os seus erros para ‘criar’ Deus justo?
  • Ou Davi assumiu os seus erros para ‘declarar’ que Deus é justo?

O contexto nos aponta a terceira opção. O homem declara a justiça de Deus quando reconhece os seus próprios erros.

O salmista reconhece sua condição em decorrência do seu pecado: “…contra ti, contra ti somente pequei…”, com um objetivo bem definido: declarar a justiça de Deus “… para que sejas justificado quando falares…”.

O apóstolo cita este salmo para declarar que Deus é verdadeiro, ou seja, ao citar este salmo, Paulo tem a intenção nítida de fazer uma declaração sobre um dos atributos de Deus: Deus é verdadeiro, ou: sempre seja Deus verdadeiro!

 

“De maneira nenhuma. Sempre seja Deus verdadeiro, e todo o homem mentiroso como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras, e venças quando fores julgado”
( Rm 3:4 )

 

O apóstolo Paulo ao declarar que Deus é verdadeiro cita o salmista para dar sustentabilidade à sua declaração. Paulo demonstra que a sua declaração é conforme as Escrituras.

Temos dois elementos no texto, que se somados, evidenciam a ideia que a palavra ‘justificado’ procura transmitir:

  • Davi reconhece os seus erros como forma de evidenciar que Deus é justo;
  • Paulo utiliza o salmo para dar peso a sua declaração: Deus é verdadeiro e todo homem mentiroso.

Desta forma temos que, a palavra ‘justificado’ se traduz por ‘declarar’ justo.

Declarar: Dar a conhecer; expor; proclamar publicamente, anunciar solenemente; revelar, julgar, considerar, nomear, etc.

O apóstolo Paulo fez a citação de um salmo onde a palavra justificado engloba a mesma ideia que ele procura transmitir com os termos dikaíôun e dikaíosis.

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Por teus pecados

Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos com o objetivo de conduzir os homens a Deus ( 1Pe 3:18 ). Ele é a propiciação pelos pecados do mundo todo ( 1Jo 2:2 ), desfazendo a barreira de inimizade que havia entre Deus e os homens. Uma vez liberto da condenação de Adão o homem está apto a produzir boas obras, pois elas são feitas somente quando se está em Deus ( Is 26:12 ; Jo 3:21 ).

 


Li um trecho do Sermão nº 350, do Dr. Charles Haddon Spurgeon, sob o título “Um tiro certeiro na justiça própria”, e não consegui deixar de tecer um comentário acerca de uma afirmação contida no sermão.

Chamou-me a atenção a última frase do sermão, que diz:

“Cristo foi castigado por teus pecados antes que fossem cometidos” Charles Haddon Spurgeon, trecho do sermão nº 350 “Um tiro certeiro na justiça própria”, extraído da web.

Ora, se o Dr. Spurgeon considerou o texto bíblico que diz que Jesus é ‘o cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo’, na verdade ele devwria destacar que Cristo morreu antes que o pecado fosse introduzido no mundo ( Ap 13:8 ; Rm 5:12 ). Porém, como ele afirma que Jesus foi castigado antes que cada pecado dos cristãos fossem cometidos individualmente, entendo que o Dr. Spurgeon não fez referência ao verso 8, capítulo 13 do Livro de Apocalipse.

Cristo foi castigado pelo pecado de toda a humanidade, porém, quem cometeu a ofensa que levou toda a humanidade a estar debaixo do pecado? Ora, pelas Escrituras entendemos que o pecado é proveniente da ofensa (desobediência) de Adão, e não pelos erros de condutas que os homens cometem.

O castigo que trouxe a paz não se deu por causa de erros de conduta cometidos individualmente’, visto que todos os homens são gerados na condição de alienados de Deus (pecadores). Cristo é cordeiro de Deus morto antes da fundação do mundo, ou seja, o cordeiro foi ofertado antes que a ofensa de Adão ocorresse.

O castigo que recaiu sobre Cristo não decorre da conduta dos homens (pecados cometidos), antes decorre da ofensa de Adão. Em Adão os homens foram feitos pecadores, visto que, por uma ofensa veio o juízo e a condenação sobre todos os homens, sem exceção ( Rm 5:18 ).

Se o pecado (condição do homem sem Deus) decorre da conduta dos homens, para que a justiça fosse estabelecida, necessariamente a salvação somente seria possível através da conduta dos homens. Seria exigível que os homens praticassem algo bom para amenizar a sua conduta ruim, porém, jamais seria ‘justificado’.

Mas, a mensagem do evangelho demonstra que pela ofensa de um homem (Adão) todos foram condenados à morte, e somente por um homem (Cristo, o último Adão) o dom da graça de Deus abundou sobre muitos ( Rm 5:15 ). Quando Jesus morreu pelos nossos pecados, ocorreu uma substituição de ato: como Adão desobedeceu, o último Adão foi obediente até o calvário.

A última frase do trecho do sermão do Dr. Spurgeon demonstra que não foi considerado que:

  • Todos os homens são pecadores porque o primeiro pai da humanidade (Adão) pecou ( Is 43:27 );
  • Que todos os homens são formados em iniquidade e concebidos em pecado ( Sl 51:5 );
  • Que toda a humanidade desviou-se de Deus desde a madre ( Sl 58:3 );
  • Que todos os homens andam errados desde que nascem ( Sl 58:3 ), porque entraram por uma porta larga que dá acesso a um caminho largo que conduz à perdição ( Mt 7:13 -14);
  • Que por terem sido vendidos como escravo ao pecado, ninguém transgride conforme a transgressão de Adão ( Rm 5:14 );
  • Que o melhor dos homens é comparável a um espinho, e o mais reto pior que uma sebe de espinhos ( Mq 7:4 );
  • Que todos os homens pecaram e destituídos estão da glória de Deus por causa da condenação estabelecida em Adão;
  • Que não há nenhum justo, nenhum sequer, entre os descendentes de Adão ( Rm 3:10 ), etc.

Que bem ou mal comete uma criança no ventre materno para ser concebido em pecado? Que pecado uma criança comete para andar ‘errada’ desde que nasce? Quando e onde todos os homens desviaram e juntamente se fizeram imundos? ( Rm 3:12 ) Acaso o extravio da humanidade não se deu através da ofensa de Adão?

Em Adão todos os homens juntamente se fizeram imundos ( Sl 53:3 ), isto porque Adão é a porta larga por onde todos os homens entram ao nascer. O nascimento segundo a carne, o sangue e a vontade do varão é a porta larga por onde todos os homens entram, se desviam e juntamente se fazem imundos ( Jo 1:13 ).

Que evento fez com que todos os homens ‘juntamente’ se tornassem imundos? Somente a ofensa de Adão explica o fato de todos os homens, em um mesmo evento, tornarem-se imundos (juntamente), visto que é impossível a todos homens de inúmeras épocas praticarem um mesmo ato juntos.

Considere: Cristo morreu porque Caim matou Abel, ou Cristo morreu por causa da ofensa de Adão? Qual dos eventos comprometeu a natureza de toda humanidade? O ato de Caim ou a ofensa de Adão?

Observe que a condenação de Caim não é proveniente do seu ato criminoso, antes decorre da condenação em Adão. Jesus demonstrou que não veio condenar o mundo, antes salvá-lo, pois seria contraproducente julgar o que já está condenado ( Jo 3:18 ).

Cristo foi castigado por causa do pecado da humanidade, porém, o pecado não se refere àquilo que os homens cometem, antes diz da ofensa que trouxe juízo e condenação sobre todos os homens, sem distinção.

As ações dos homens sob o jugo do pecado também é denominado pecado, visto que, qualquer que peca, peca porque é escravo do pecado. A barreira de separação entre Deus e os homens se deu através da ofensa de Adão, e por causa da ofensa no Éden não há entre os filhos dos homens quem faça o bem. Por que não há quem faça o bem? Porque se extraviaram todos e juntamente se fizeram imundos. Portanto, por causa da ofensa de Adão, tudo que o homem sem Cristo faz é imundo.

Quem do imundo tirará o que é puro? Ninguém! ( Jó 14:4 ) Ou seja, não há quem faça o bem porque todos são escravos do pecado.

Ora, o escravo do pecado comete pecado, visto que, tudo que realiza pertence por direito ao seu senhor. As ações dos servos do pecado são pecaminosas porque são feitas por escravos do pecado. É por isso que Deus libertou os que creem para que sejam servos da justiça ( Rm 6:18 ).

Já os filhos de Deus não podem pecar porque são nascidos de Deus e a semente de Deus permanece neles ( 1Jo 3:6 e 1Jo 3:9 ). Qualquer que comente pecado é do diabo, mas os que creem em Cristo pertencem a Deus ( 1Co 1:30 ; 1Jo 3:24 ; 1Jo 4:13 ), visto que são templo e morada do Espírito ( 1Jo 3:8 ).

Cristo se manifestou para destruir as obras do diabo ( 1Jo 3:5 e 1Jo 3:8 ), e todos que são gerados de Deus permanecem n’Ele ( 1Jo 3:24 ) e em Deus não há pecado ( 1Jo 3:5 ). Ora se em Deus não há pecado, segue-se que todos que estão em Deus não pecam, visto que foram gerados de Deus e a semente de Deus permanece neles.

Uma árvore não pode dar dois tipos de frutos. Assim, aqueles que são nascidos da semente de Deus não podem produzir frutos para Deus e para o diabo, da mesma forma que é impossível um servo servir dois senhores ( Lc 16:13 ). Toda planta plantada pelo Pai dá muito fruto, porém, frutifica somente para Deus ( Is 61:3 ; Jo 15:5 ).

Após morrer para o pecado, o antigo senhor, resta ao homem ressurreto apresentar-se a Deus como vivo dentre os mortos, e os membros do seu corpo como instrumento de justiça ( Rm 6:13 ). A condição ‘vivo’ dentre os mortos é adquirida pela fé em Cristo, através da regeneração (novo nascimento). Através do novo nascimento o homem torna-se vivo dentre os mortos, e resta, portanto, voluntariamente apresentar a Deus os membros do seu corpo como instrumento de justiça.

O pecado não mais reina, pois não tem mais domínio sobre os que creem ( Rm 6:14 ). O cristão deve oferecer os seus membros para servirem a justiça, ou seja, para servirem Aquele que os santificou, visto que Cristo é a justificação e a santificação dos cristãos ( Rm 6:19 ; 1Co 1:30 ).

Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos com o objetivo de conduzir os homens a Deus ( 1Pe 3:18 ). Ele é a propiciação pelos pecados do mundo todo ( 1Jo 2:2 ), desfazendo a barreira de inimizade que havia entre Deus e os homens. Uma vez liberto da condenação de Adão o homem está apto a produzir boas obras, pois elas são feitas somente quando se está em Deus ( Is 26:12 ; Jo 3:21 ).

Os homens sem Deus, por sua vez, existem sem esperança neste mundo, pois são como o imundo e tudo que produzem, é imundo. Não há como o homem sem Deus fazer o bem, pois a natureza má só produz o mau “Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia; e todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniquidades como um vento nos arrebatam” ( Is 64:6 ).

O profeta Isaias ao descrever a condição do seu povo, comparou-os com:

  • O imundo – Quando o povo de Israel tornou-se imundo? Quando todos se desviaram e juntamente se tornaram imundos, ou seja, em Adão, o primeiro Pai da humanidade ( Sl 14:3 ; Is 43:27 );
  • Justiça como trapos de imundície – Todas as obras de justiça dos imundos são comparáveis a trapos de imundície, que não servem para vestes. Embora fossem religiosos, as obras do povo de Israel eram obras de iniquidade, obras de violência ( Is 59:6 );
  • Murcham como a folha – Não havia esperança para o povo de Israel, visto que como a folha estavam mortos ( Is 59:10 );
  • As iniquidades são como vento – Nada que Israel fazia podia livrá-los desta horrenda condição, visto que a iniquidade é comparável ao vento que arrebata a folha, ou seja, o homem não pode livrar-se do senhoril do pecado.

Cristo, a seu tempo, morreu pelos ímpios. O Cordeiro de Deus foi imolado desde a fundação do mundo pelos pecadores “Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios” ( Rm 5:6 ); “Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” ( Rm 5:8 ).

Ora, Cristo morreu pelos escravos do pecado, e não pelos ‘pecados’ que os escravos do pecado praticam, como entendeu o Dr. Spurgeon.

Cristo morreu pelos pecadores, logo os que creem morrem juntamente com Ele. Cristo morreu por todos para que os que são vivificados não mais vivam para si, antes vivam para Aquele que morreu e ressurgiu ( 2Co 5:14 ).

Os que ressurgiram com cristo estão em segurança, visto que:

  • Estão em Cristo;
  • São novas Criaturas;
  • As coisas velhas passaram;
  • Tudo se fez novo ( 2Co 5:17 ).

Deus reconciliou consigo mesmo os que creem por intermédio de Cristo e deu aos vivos dentre os mortos o ministério da reconciliação ( 2Co 15:18 ).

Aos vivos dentre os mortos resta a exortação: não recebais a graça de Deus em vão ( 2Co 6:1 ). Deus te ouviu em tempo aceitável, por tanto, como instrumento de justiça os cristãos são recomendados a:

  • Não dar escândalo em coisa alguma – Por que os cristãos não devem dar escândalos? Para serem salvos? Não! Para que o ministério da reconciliação não seja censurado;
  • Sendo recomendáveis em tudo – Na muita paciência, nas aflições, nas necessidades, nas angústias, nos açoites, nas prisões, nos tumultos, nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns, na pureza, na ciência, na longanimidade, na benignidade, no Espírito Santo, no amor não fingido, etc ( 2Co 6:3 -6).

Cristo foi morto desde a fundação do mundo, antes mesmo que toda a humanidade se tornar-se escrava da injustiça em função da desobediência de um só homem que pecou: Adão.

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Por que Deus exigiu de Abraão o sacrifício de Isaque?

Ora, as provações não são instrumentos de medida para se mensurar a fé daqueles que professam a Cristo, antes tem o fito de ‘redundar’ em louvor, glória e honra na revelação de Cristo “Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam” ( Tg 1:12 ). Ou seja, a provação é conforme o propósito e segundo o conselho da vontade de Deus, ‘afim de sermos para louvor da sua glória’ ( Ef 1:11 -12). Abraão foi chamado por Deus para louvor de sua glória!

 


A ordem direta de Deus a Abraão para imolar Isaque fomenta várias discussões, distorções e interpretações errôneas acerca do objetivo de tal ordem.

A despeito da onisciência de Deus, muitos questionam qual o propósito de Deus em mandar Abraão imolar o seu filho. Deus queria saber até onde Abraão era obediente? Deus queria mensurar a fé de Abraão?

A resposta é simples, porém, demanda conhecimento bíblico e raciocínio. Para responder tal indagação é necessário relembrar alguns eventos específicos concernentes a vida de Abraão. Analisemos estes três pontos principais:

 

  • O chamado de Abraão

Abraão era gentil, morava na cidade de Ur, terra dos Caldeus. Seu pai saiu da cidade de Ur com destino a terra de Canaã, porém, quando chegou a Harã, passou a habitar naquele lugar.

Abraão foi orientado por Deus a sair do meio de seus parentes seguindo para uma terra que ainda seria mostrada. Abraão saiu confiado em Deus tendo em vista uma promessa ( Gn 12:2 ). Obedeceu à voz divina, porém, levou consigo o seu sobrinho Ló até a terra de Canaã ( Gn 12:5 ).

Após passar pela terra de Canaã, novamente Deus apareceu a Abraão e prometeu aquela terra à sua descendência. Abraão, que à época chamava-se Abrão, ali edificou um altar ao Senhor, e seguiu em direção ao sul.

Abraão desceu ao Egito por causa da escassez de alimento e quando se estabeleceu no Egito adquirindo riquezas. Após ter alcançado bens o patriarca foi compelido a deixar o Egito, pois Deus feriu o rei do Egito por causa de Sara, mulher de Abraão. Em seguida, Abraão subiu do Egito para as regiões do Nequebe juntamente com Ló.

Perceba que Abraão poderia continuar morando no Egito, porém, a grande praga que sobreveio ao rei do Egito fez com que Abraão saísse de lá.

Abraão seguiu do Egito para a região do Neguebe e retornou ao local que fez o primeiro altar ao Senhor, Betel, ou seja, voltou ao ponto inicial de sua peregrinação. Após uma contenda entre os servos de Ló e os servos de Abraão, eles se separaram. Ló foi levado cativo e Abraão teve que lutar contra quatro reis para libertá-lo.

Após a guerra, saiu ao encontro de Abraão o rei de Sodoma e o rei de Salém. O rei de Salém abençoou Abraão, e o rei de Sodoma fez uma proposta a Abraão, que foi rejeitada de pronto: “Levantei a minha mão ao Senhor, o Deus Altíssimo, o Criador dos céus e da terra, jurando que não tomarei coisa alguma de tudo o que é teu, nem um fio nem uma correia de sapato, para que não digas: eu enriqueci a Abrão” ( Gn 14:22 -23).

De tudo que relembramos até aqui, surgem algumas considerações: Por que Abraão precisou sair do Egito, se ele não alcançou a promessa e viveu como peregrino na terra? Por que Abraão não aceitou a proposta do rei de Sodoma se era legitimo ele aceitar tal prêmio?

Diante da proposta do rei de Sodoma Abraão entendeu que, caso aceitasse, no futuro alguém poderia interpretar que Abraão foi enriquecido através dos bens da cidade que foi subvertida por Deus. Se Abraão ficasse com os bens do rei de Sodoma, ficaria ‘constado na história’ que, o rei de Sodoma, e não Deus havia abençoado Abraão.

Abraão foi tentado a lançar mão de bens, que no futuro poderia dar a entender a Abraão que a promessa de Deus efetivou-se por uma conquista própria. Como bem sabemos posteriormente a cidade de Sodoma foi subvertida devido a sua promiscuidade excessiva.

Porém, fica uma questão sem resposta: onde e quando Abraão alcançou o discernimento para não fazer aliança com o rei de Sodoma, rejeitando o que lhe era de direito? A saída do Egito motivada pela praga na casa do rei proporcionou a Abraão uma lição de vida que o capacitou a rejeitar a aliança com o rei de Sodoma.

Com relação às questões materiais Abraão estava consciente de que deveria esperar em Deus.

 

  • A promessa de um descendente

Deus prometeu a Abraão que a sua descendência herdaria a terra que os seus olhos estavam enxergando no momento da reiteração da promessa ( Gn 13:14 ), porém, Deus ainda não havia prometido um filho a Abraão gerado por Sara.

Em face da promessa à sua ‘descendência’ ( Gn 15:1 ), Abraão ficou incomodado por não ter filho, e pretendia fazer o damasceno Elieser, o seu servo, o seu herdeiro.

Foi quando Deus prometeu a Abraão um filho de suas entranhas, sem qualquer referência a Sara, e creu Abraão e isto lhe foi imputado por justiça ( Gn 15:4 ).

Para Abraão Deus prometeu o impossível, visto que a época da promessa era de conhecimento que Sara era estéril, porém ele creu firmado no poder e na fidelidade de Deus, sendo declarado justo diante de Deus.

Apesar de Abraão crer em Deus e ser justificado, o tempo passava e ele continuava sem filho. Diante deste quadro, a mulher de Abraão resolveu providenciar filho a Abraão, e ele aceitou dar a Sara um filho através da escrava ( Gn 16:2 ).

É bem provável que Abraão tenha interpretado a atitude de sua mulher como sendo a providência divina: 1) Ismael foi gerado segundo a carne de Abraão, e; 2) o nascimento de Ismael encaixou ‘perfeitamente’ no que Deus lhe falara (um filho de suas entranhas).

Este entendimento decorre do fato de Abraão ter feito menção do nome de Ismael quando Deus reiterou a promessa: “Oxalá viva Ismael diante de ti!” ( Gn 17:18 ). Abraão já estava compreendendo que Ismael era o filho da promessa, o seu ‘primogênito’ e herdeiro.

Algum tempo depois, Abraão foi interpelado por sua mulher, que exigiu que Ismael não herdasse juntamente com Isaque. Abraão ficou temeroso, visto que Ismael seria o seu ‘primogênito’, porém, descansou em Deus quando foi orientado a esperar na providência divina e que ele não estaria fazendo nenhum mal ( Gn 21:12 ).

 

  • O milagre

A despeito do riso de Abraão no coração, a promessa de Deus continuou de pé ( Gn 17:17 ), e no tempo determinado nasceu Isaque.

Isto demonstra que a fidelidade de Deus é a causa de Abraão ter sido justificado e abençoado segundo a promessa, visto que Abraão riu da promessa.

Em nossos dias a fé é tida como agente catalisador que desencadeia milagres, porém, o que a palavra de Deus demonstra é que a fidelidade e o poder de Deus devem ser à base da fé cristã.

Mesmo após Abraão apresentar seu servo damasceno e seu filho Ismael como opção diante de Deus, mesmo após rir da promessa, Deus permaneceu fiel à sua palavra.

Sara era estéril, de avançada idade (mais de 90 anos) e segundo a promessa de Deus concebeu Isaque. A bíblia demonstra que Abraão estava ciente das impossibilidades para se alcançar um filho com Sara:

  • Um homem de cem anos;
  • Sará com noventa anos;
  • Sará estéril ( Gn 17:17 ).

Diante das impossibilidades, o homem ri, pois não tem ideia da dimensão do poder de Deus. Diante do mar vermelho o homem fica temeroso, pois a impossibilidade do homem fica em evidência. Diante da necessidade de salvação o homem descobre que está à mercê do pecado e da morte, porém, o que é impossível aos homens, para Deus é possível.

 

Por que Deus exigiu o sacrifício de Isaque?

Através da análise anterior, fica demonstrado que certos eventos relatados na história de Abraão são difíceis de captar. O relato da história do patriarca Abraão não se prende a explicar certos porquês, antes se fixa somente nos fatos.

Como é possível a bíblia apontar Abraão como sendo um exemplo de fé, sendo que em determinado momento da sua vida ele riu da promessa, e apresentou uma alternativa diante de Deus? Não era para ele ter perdido a bênção neste evento?

Por que Abraão tentou ‘ajudar’ Deus cumprir a promessa através de Ismael? Uma leitura superficial da história de Abraão faz com que o leitor não perceba este detalhes de suma importância ao contexto geral das escrituras.

Outro ponto a se destacar é concernente a aliança proposta pelo rei de Sodoma. Abraão foi tentado a ajudar Deus com riquezas provenientes do fruto de suas conquistas pessoais, porém, rejeitou-a, pois entendeu que a sua prosperidade deveria ser fruto da promessa divina.

Isto é maravilhoso, porém, onde Abraão aprendeu esta lição? Se levarmos em conta o fato de Abraão ter sido expulso do Egito por causa de uma praga que sobreveio ao Faraó, veremos que neste evento ele aprendeu que rei algum seria o pivô da riqueza pertinente a sua descendência.

Se Abraão não aprendesse a lição no Egito, certamente sucumbiria diante da aliança e oferta do rei de Sodoma. Observe que o perigo rondava Abraão de perto. Se Abraão fizesse uma aliança com Sodoma, certamente diriam que:

  • Sodoma foi responsável pela prosperidade de Abraão, ou;
  • Abraão poderia reputar que as suas riquezas era fruto de suas conquistas pessoais.

Surge outra pergunta: havia algum risco para Abraão acerca do nascimento de Isaque, caso Deus não tivesse posto Abraão a prova. Como? Isto mesmo! Analisemos se havia algum risco para Abraão, caso ele não fosse submetido à provação.

Observe como é fácil o homem confundir-se:

É notório para nós que Isaque foi quem nasceu segundo a promessa de Deus, porém, Abraão fez menção de Ismael perante Deus, pois estava esperançoso que o filho da escrava fosse o seu herdeiro;

Embora Isaque tenha nascido segundo a promessa, Abraão ainda podia e continuou a gerar filhos, mesmo após os cem anos ( Gn 25:1 -2).

Neste ponto em específico (b) havia um grande perigo rondando o patriarca. Havia um risco para Abraão decorrente do fato de ele gerar filhos segundo a sua carne, mesmo em avançada idade. Havia o risco de Abraão se gloria da sua carne, pois mesmo em avançada idade ainda gerava filhos.

Hoje seria tema de discussão cientifica se Isaque era mesmo filho segundo a promessa, ou se Sara nunca foi estéril de fato. O cuidado que Abraão teve com relação ao rei de Sodoma, para que ninguém dissesse no futuro: “O rei de Sodoma foi quem enriqueceu a Abraão”, seria sem valia, visto que questionariam se Isaque foi realmente fruto da providência divina.

Quando nasceu Isaque, Abraão reputava com base na fé, que a promessa estava sendo cumprida. Mas, após Sara morrer e Abraão casar-se com Quetura, obtendo outros filhos, havia o risco de Abraão ser dissuadido da fé, e voltar a rir da promessa, visto que ele ainda podia gerar filhos, mesmo após considerar impossível obtê-los por causa da idade avançada ( Gn 17:17 ).

Quando Deus mandou Abraão imolar Isaque, Isaque era o seu ‘único’ filho, e não era cogitado Abraão ter mais filhos ( Gn 17:17 ). O evento demonstra que Deus não estava ‘testando’ e nem ‘mensurando’ a fé de Abrão. Deus não estava pondo à fé de Abraão a prova, uma vez que ele já havia sido justificado por Deus.

Deus não estava em dúvidas quanto à fé de Abraão quando o submeteu a prova!

O que Deus pretendia com a ‘provação’?

Com a provação Deus estava cuidando de Abraão! Como?

Pedro nos diz: “Essas provações são para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece, embora provado pelo fogo, redunde para louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo” ( 1Pe 1:7 e 1Pe 4:12 -14).

Ora, as provações não são instrumentos de medida para se mensurar a fé daqueles que professam a Cristo, antes tem o fito de ‘redundar’ em louvor, glória e honra na revelação de Cristo “Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam” ( Tg 1:12 ).

Ou seja, a provação é conforme o propósito e segundo o conselho da vontade de Deus, ‘afim de sermos para louvor da sua glória’ ( Ef 1:11 -12). Abraão foi chamado por Deus para louvor de sua glória!

Como Abraão riu-se da promessa quando vislumbrou as impossibilidades ( Gn 17:17 ), ele poderia novamente rir-se da providência divina após gerar filhos de Quetura ( Gn 25:1 -52).

As seguintes questões poderiam sobressaltar Abraão: Será que Sara era estéril mesmo? Ismael, Isaque, Zinrá, Jocsã, Medã, Midiã, Jisbaque e Sua não foram filhos da minha carne? Será que a falta do “costume das mulheres” em Sara era mesmo uma impossibilidade de ter filhos? A idade de Sara era um real impedimento para ela conceber? Visto que pude ter filhos com mais de cem anos com Quetura, o filho de Sara não poderia ser produto da minha ‘virilidade’?

Todas estas questões não poderiam levar Abraão a gloriar-se da sua carne?

Ao ser exigido o sacrifício de Isaque, Abraão teve que recobrar o seu filho dentre os mortos, confiado no poder de Deus “Abraão julgou que Deus era poderoso para até dentre os mortos o ressuscitar, e daí também em figura o recobrou” ( Hb 11:19 ).

Ou seja, quando Abraão se predispôs obedecer à ordem divina para oferecem em holocausto o seu filho, ele deixou de ter um filho segundo a sua carne (embora o filho segundo a promessa de Deus fosse proveniente das ‘entranhas’ de Abraão e Sara), para receber o seu filho dentre os mortos.

Daquele momento em diante, Abraão estava desprovido de qualquer elemento que o levasse a considerar posteriormente que Isaque era fruto de sua carne, ou que a sua própria carne havia lhe concedido Isaque. Após o evento da oferta de Isaque, Abraão, segundo a providencia divina, teve a confirmação de que nada alcançou segundo a carne “Que diremos, pois, ter alcançado Abraão, nosso pai segundo a carne?” ( Rm 4: 1).

Ao recobrar o seu filho dentre os mortos, o que Deus proporcionou a Abraão além do seu filho Isaque? Uma âncora que penetrou até o interior do que estava oculto. Ele foi ensinado a lançar mão da esperança proposta, e não do que era aparente e que desvanece ( Hb 6:18 -19).

Isaque não era a segurança de Abraão, antes a segurança estava na esperança proposta. A consolação esta em Deus que não mente e é imutável, o que faz o homem peregrinar em busca da pátria celestial! ( Hb 6:14 -18).

Para alcançar Isaque, Abraão teve que recobrá-lo dentre os mortos, agindo de modo a dar cabo da própria promessa. Naquele momento em que Abraão ofereceu o seu único filho, a palavra de Deus foi posta acima de evidências físicas da promessa.

Abraão descansou na providência divina, pois o descendente sobre quem a promessa repousaria ainda estava por vir!

Abraão alcançou esta graça em Deus, porém, o povo de Israel, os seus descendentes não compreenderam e nem fizeram como o crente Abraão. Apesar do exemplo concedido por Abraão, o povo não foi aprovado na prova do maná concedido no deserto. As pessoas estavam confiadas no maná que aparecia no deserto, porém, não confiavam na palavra de Deus, que deu origem ao maná. Não consideravam que ‘nem só de pão viverá o homem’ ( Dt 8:3 ).

A prova da fé do homem não é porque Deus quer saber ou mensurar algo a respeito do homem. Antes, a prova da fé tem em vista a preservação da confiança do homem, o que redunda em louvor, glória e honra a Deus ( 1Pe 1:7 ).

 

Outra questão

Com relação ao versículo que diz: “Agora sei que temes a Deus, pois não me negaste o teu filho, o teu único filho” ( Gn 22:12 ), temos uma caso típico de antropomorfismo, ou melhor, é um dos ‘modos’ de Deus se manifestar ou comunicar-se utilizando a forma, o modo, a características ou a linguagem humana.

O homem geralmente compara o desconhecido ou compreende algo desconhecido através de elementos e fatos conhecido. Por exemplo, ao descrever algum animal desconhecido, o homem utiliza-se do que conhece para descrevê-lo: tinha pés como o de homem; cabeça como a de cavalo, rabo como o de peru, etc ( Ez 1:10 ).

Do mesmo modo, ao fazer referência a Deus, diz-se que Deus descansou, uma vez que o homem descansa. Porém, surgem as questões: sendo Deus onisciente, onipresente e onipotente Ele pensa? Faz considerações? Chega a conclusões? Precisa descansar segundo a concepção humana? ( Is 40:8 -31).

Por certo que os ‘caminhos de Deus’ são muito elevados, e os seus ‘pensamentos’ inatingíveis! “Mas não sabem os pensamentos do SENHOR, nem entendem o seu conselho; porque as ajuntou como gavelas numa eira” ( Mq 4:12 ). Como expressar o que nunca se viu ou ouviu? O que nunca subiu ao pensamento do homem? “Mas, como está escrito: As coisas que os olhos não viram, e os ouvidos não ouviram, e não subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam” ( 1Co 2:9 ).

Além das questões antropomorfista, é preciso considerar que a linguagem humana é dinâmica e transforma-se constantemente. Como alcançar o pensamento original de uma única palavra ou de uma frase escrita a milhares de anos? Por mais que muitos escribas procuraram ser fiéis à transcrição de textos, impressões pessoais podem afetar a idéia do texto.

É por isso que o estudo da bíblia deve ser sistemático, seguindo regras e princípios pertinentes a hermenêutica e a exegese. Não é o que um texto expressa que fará surgir ou que extirpará uma doutrina bíblica, antes o contexto geral das escrituras é observado para fazermos um juízo de valores e idéias.

Hoje já é difícil para um interprete ou tradutor secular transmitir a idéia contida em uma expressão idiomática, porém, esta é uma limitação humana.

A bíblia diz que Deus descansou no sétimo dia, porém, através da carta aos Hebreus fica demonstrado que a idéia de descanso que a bíblia imprime não tem relação com a necessidade de repouso. Através da palavra ‘descansar’ a bíblia quer evidenciar que não mais havia obras a serem realizadas.

Após o dia sexto nenhuma outra obra concernente a criação do universo foi realizada, pois tudo foi criado e estabelecido com perfeição.

‘Descansar’ no Gênesis significa não ter obrar a realizar, diferente da idéia que muitos querem dar: repouso por causa de cansaço “Porque aquele que entrou no seu repouso, ele próprio repousou de suas obras, como Deus das suas” ( Hb 4:10 ). Ora, quando a bíblia diz que Cristo entrou no seu repouso, ela quer dar a entender que a obra de Cristo é perfeita como a do Pai.

Com relação ao registro: ‘agora sei que temes a Deus’, verifica-se que o temor (confiança) de Abraão foi levado em conta quanto da justificação por Deus ( Gn 15:6 ), ou seja, ao provar Abraão, Deus não tinha como objetivo mensurar a fé do patriarca.

Se considerarmos um dos recursos lingüístico próprio à retórica, percebe-se que o texto tem por objetivo transmitir (noticiar) a Abraão que ele foi provado e aprovado para louvor e glória de Deus, segundo a fé. Este verso não enfatiza falta de conhecimento em Deus, antes, a ênfase da frase está em tornar Abraão ciente de que estava aprovado.

Quando o Anjo do Senhor disse: ‘agora sei que temes a Deus’, o objetivo era louvar o homem que foi provado e aprovado com base na fé “Porque não é aprovado quem a si mesmo se louva, mas, sim, aquele a quem o Senhor louva” ( 2Co 10:18 ).

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