O justo viverá da fé

O justo viverá da ‘fé’ ou viverá de toda palavra que sai da boca de Deus? Ora, Cristo é a fé que havia de se manifestar ( Gl 3:24 ), o verbo encarnado, portanto, o justo viverá por Cristo ( Rm 10:8 ). Todos que ressurgiram com Cristo é porque vivem da fé, e o profeta Habacuque dá testemunho de que os que vivem pela fé são justos.


“Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça” ( Rm 4:5 )

 

É contundente a exposição do apóstolo Paulo quando afirma, contrariando o que expunha a lei, que “Deus justifica o ímpio” ( Rm 4:5 ). Baseado em quê Deus justifica o ímpios? Como é que Deus sendo justo pode declarar justo o injusto? Como fazê-lo sem comprometer a sua própria justiça?

A resposta é simples: Deus justifica gratuitamente os pecadores por sua maravilhosa graça! Apesar de a resposta ser simples, a pergunta persiste: como Ele faz isso? A resposta também é simples: pela fé “… para nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos justificados” ( Gl 3:24 ).

Além de Deus justificar o ímpio, certo é que o homem é justificado pela fé “Sendo, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus por nosso Senhor Jesus Cristo; pelo qual também temos entrada pela fé a esta graça na qual estamos firmes; e nos gloriamos na esperança da glória de Deus” ( Rm 5:1 -2).

Deus justifica por causa da confiança que o homem deposita n’Ele? Seria a crença do homem o ente justificador?

A resposta encontra-se em Romanos 1, versos 16 e 17: “Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego. Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá da fé” ( Rm 1:16 -17).

Embora no Antigo Testamento, repetidas vezes Deus diz aos juízes israelitas que eles deveriam justificar os íntegros e condenar os ímpios, e declara acerca de si mesmo: “… não justificarei o ímpio” ( Ex 23:7 ), o apóstolo Paulo se socorre de Habacuque que diz: ‘O justo viverá da fé’, para demonstrar que Deus justifica o ímpio!

Através da observação que o apóstolo Paulo faz de Habacuque, fica evidente que a fé não refere-se à confiança do homem, antes diz de Cristo, a fé que havia de se manifestar “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” ( Gl 3:23 ).

Qual a fé que haveria de se manifestar? O evangelho de Cristo, que é o poder de Deus, é a fé manifesta aos homens. O evangelho é a fé pela qual os cristãos devem batalhar ( Jd1:3 ). A mensagem do evangelho é a pregação da fé ( Gl 3:2 e 5). O evangelho é fé, por meio do qual a graça foi revelada “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus ( Ef 2:8 ). O evangelho não procedeu de homem algum, antes é dom de Deus “Se conheceras o dom de Deus e quem é o que te pede: dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva” ( Jo 4:10 ).

Cristo é o dom de Deus, o tema da pregação da fé, por quem o homem tem entrada a esta graça. Por isso, quando a bíblia diz que sem fé é impossível agradar a Deus, tem-se que, a fé que agrada a Deus é Cristo, a fé havia de ser revelada, e não, como muitos pensam, que é a confiança do homem ( Hb 11:6 ).

O escritor aos hebreus, no verso 26 do capítulo 10 demonstra que não há sacrifício após o recebimento do conhecimento da verdade (evangelho) e, que, portanto, os cristãos não podiam rejeitar a confiança que possuíam, que é produto da fé (evangelho) ( Hb 10:35 ), visto que, após fazerem a vontade de Deus (que é crer em Cristo), deviam ter paciência para alcançar a promessa ( Hb 10:36 ; 1Jo 3:24 ).

Após citar Habacuque, o escritor aos Hebreus passa a falar daqueles que viveram pela fé ( Hb 10:38 ), ou seja, homens como Abraão que foram justificados pela fé que havia de se manifestar Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti” ( Gl 3:8 ).

Abraão foi justificado porque creu que Deus haveria de prover-lhe o Descendente, algo impossível aos seus olhos, assim como o é aos olhos dos homens o fato de Deus justificar o ímpio “Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo” ( Gl 3:16 ).

Cristo é o firme fundamento das coisas que se esperam e prova das coisa que se não veem, sendo que por Ele os antigos alcançaram bom testemunho “Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não veem. Porque por ela os antigos alcançaram testemunho” ( Hb 11:1 -2), pois o justo vive e recebe testemunho de que agradara a Deus por intermédio de Cristo ( Tt 3:7 ).

A palavra que Abraão ouviu é o que produziu a crença do patriarca, pois “Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos…” ( Rm 10:8 ), visto que “De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” ( Rm 10:17 ). Sem ouvir a palavra que procede de Deus jamais haveria confiança do homem para com Deus.

O ente justificador é a palavra de Cristo, pois nela está contido o poder que torna possível Deus justificar o ímpio “A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação” ( Rm 10:9 -10).

Quando o homem ouve o evangelho e crê, recebe poder para salvação ( Rm 1:16 ; Jo 1:12 ), e descobre a justificação, pois passa da morte para a vida por que creu na fé ( Rm 1:17 ), É pelo evangelho que o homem torna-se filho de Deus “Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus” ( Gl 3:26 ; Jo 1:12 ).

Por que o apóstolo Paulo teve coragem de afirmar que Deus faz aquilo que Ele mesmo proibiu aos juízes de Israel fazerem? Porque eles não dispunham do poder necessário! Para fazer um injusto justo é necessário poder idêntico aquele que Jesus demonstrou ao curar um paralítico após perdoar-lhe os pecados “Ora, para que saibais que o Filho do homem tem sobre a terra poder de perdoar pecados (disse ao paralítico), a ti te digo: Levanta-te, toma a tua cama, e vai para tua casa” ( Lc 5:24 ).

A fé que justifica é poder de Deus “… para que pela fé fôssemos justificados” ( Gl 3:24 ), pois quando o homem crê é batizado na morte de Cristo ( Gl 3:27 ), ou seja, toma a sua própria cruz, morre e é sepultado “Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte?” ( Rm 6:3 ). Ora, aquele que está morto, justificado está do pecado! ( Rm 6:7 )

Mas, todos que creem e morrem com Cristo, também confessam a Cristo conforme o que ouviu e e aprendeu “Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação” ( Rm 10:9 -10).

Ora, aquele que confessa a Cristo é porque, além de ter sido batizado em Cristo, já se revestiu de Cristo. A confissão é o fruto dos lábios que só produz quem está ligado a Oliveira verdadeira “Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo” ( Gl 3:27 ); “Portanto, ofereçamos sempre por ele a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome” ( Hb 13:15 ); “Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer (…) Nisto é glorificado meu Pai, que deis muito fruto; e assim sereis meus discípulos” ( Jo 15:6 e 8).

O testemunho que Deus dá de que o homem é justo só recai sobre aqueles que, após serem sepultados, se revestem de Cristo, ou seja, somente os que já ressurgiram com Cristo são declarados justos diante de Deus. Somente aqueles que são gerados de novo, ou seja, que vivem por intermédio da fé (evangelho) são justos diante de Deus “O justo viverá da fé” ( Hc 2:4 ).

O justo viverá da fé, ou seja, a fé que havia de se manifestar e, que agora pregamos ( Rm 10:8 ). Todos que ressurgiram com Cristo é porque vivem da fé, e o profeta Habacuque dá testemunho de que os que vivem pela fé são justos.

Portanto, qualquer que não confia em suas próprias ações, antes descansa em Deus que justifica, a sua crença lhe é imputada como justiça “Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça” ( Rm 4:5 ); “E creu ele no SENHOR, e imputou-lhe isto por justiça” ( Gn 15:6 ), porque ao crer o homem se conforma com Cristo na sua morte e ressurge pelo poder de Deus, sendo que o novo homem é criado e declarado justo por Deus.

A palavra do Senhor é a fé manifesta, e todos que nele creem não serão confundidos “Como está escrito: Eis que eu ponho em Sião uma pedra de tropeço, e uma rocha de escândalo; E todo aquele que crer nela não será confundido” ( Rm 9:33 ), ou seja, no evangelho, que é poder de Deus se descobre a justiça de Deus, que é de fé (evangelho) em fé (crer) ( Rm 1:16 -17).

O justo viverá de Cristo, pois de toda a palavra que sai da boca de Deus viverá o homem, ou seja, sem Cristo, que é o pão vivo que desceu dos céus, o homem não tem vida em si mesmo ( Jo 3:36 ; Jo 5:24 ; Mt 4:4 ; Hb 2:4 ).

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O Livro de Jó – Transcendendo a problemática do sofrimento

O íntegro Jó serve para demonstrar a triste condição da humanidade, em sujeição ao pecado, pois, o mais justo dos homens, não consegue satisfazer os reclamos da justiça divina! Mesmo a justiça, a integridade e a retidão de Jó são apresentadas como aquém do padrão de justiça de Deus, tanto que Jó foi repreendido e se arrependeu no pó e na cinza.


A justiça dos escribas e fariseus

Parte II

Talvez você já tenha imaginado a quantidade de pessoas que compunham a grande multidão, ao pé do monte, quando Jesus se posicionou diante dos seus discípulos para ensiná-los (Mateus 5:1). É imprescindível imaginarmos a quantidade de pessoas que formavam aquela multidão e a infinidade de problemas, frustrações, alegrias, esperanças, dúvidas, religiosidades, temores, que atormentavam os componentes da plateia, para a qual Jesus fez o seu grandioso discurso.

Enquanto as bem-aventuranças estavam sendo anunciadas, vejo esperança nos olhos dos ouvintes de Jesus, mesmo naqueles que não compreendiam a mensagem (Mateus 5:3-12).

Mas, quando foi dito que a justiça deles teria de ser superior à dos seus líderes religiosos, para obterem direito ao reino dos céus, vejo os semblantes decaírem pelo espanto e estupefação! Vejo no rosto daquelas pessoas o mesmo espanto que tomou de sobressalto os discípulos, quando perguntaram: – “Quem poderá, pois, salvar-se?” (Mateus 19:25), quando informados de quão difícil é entrar um rico no reino dos céus (Mateus 19:23).

Ora, se é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino dos céus, lembrando que Jesus proferiu tal discurso, após um rico retirar-se triste, mesmo ele tendo dito que guardava a lei desde a sua mocidade, como é possível ao comum do povo entrar no reino dos céus? (Mateus 19:20 e 23).

O que fazer para alcançar justiça superior por alguém que não mata, não rouba, não comete adultério, não furta, não diz falso testemunho, dá o dizimo de tudo? O que fazer para sobrepujar a justiça dos escribas e fariseus, religiosos que, aos olhos dos homens, pareciam justos? (Lc 18:11)

“Assim, também, vós, exteriormente, pareceis justos aos homens, mas, interiormente, estais cheios de hipocrisia e de iniquidade”. (Mateus 23:28)

O que fazer para alcançar justiça, de modo a ter direito ao reino de Deus? As pessoas que compunham aquela multidão precisavam ter um caráter ou uma moral semelhante ao caráter e à moral de Jó?

 

O sofrimento de Jesus

A história de Jó e a história de Cristo têm como pano de fundo o sofrimento, daí a pergunta: Porque o Filho de Deus sofreu, apesar de justo?

Quando os artistas narram a história de Cristo, o sofrimento que envolve a cruz é indispensável. As agruras que se iniciaram no monte das Oliveiras e culminaram com a morte de Jesus na cruz, são exploradas em minúcias.

Quando se narra a história de Cristo, o beijo da traição não pode ser ignorado. O sofrimento impingido pela traição de um amigo é umas das dores de ordem psíquica das mais cruentas, portanto, em nenhuma narrativa que se preze, o beijo da traição fica sem ser destacado (Mateus 26:50).

A condenação perpetrada durante a noite com o uso de falsas testemunhas, por líderes dos concidadãos do Cristo, bem como a sessão de espancamento e os vitupérios que se seguiram à revelia da lei, são elementos imprescindíveis para retratar, sob diversos ângulos, o sofrimento de um homem que só fez o bem.

Um artista consegue retratar com maestria uma multidão enfurecida, após ser incitada por líderes religiosos invejosos, bem como o escárnio dos soldados romanos, quando despiram Jesus e colocaram uma coroa de espinhos sobre a sua cabeça!

Entretanto, habilidade e perícia com palavras, películas, encenação, figurino, efeitos especiais, etc., não habilitam ninguém a compreender que, pela cruz, passou a redenção da humanidade.

Somente conhecendo as Escrituras, é possível ver, através do sofrimento doloroso na cruz, a obediência de Cristo à vontade do Pai, que resultou na redenção da humanidade.

Mas, para um homem natural, na história de Cristo, somente salta aos olhos o sofrimento de um homem bom, injustiçado por seus compatriotas.

O sofrimento é elemento intrínseco nas histórias de Cristo e de Jó, mas, ambas, não têm o sofrimento como elemento central, antes, revelam aspectos relevantes, acerca da justiça de Deus. Em ambas as histórias, o sofrimento é pano de fundo, que emoldura os eventos, que revelam a justiça de Deus.

 

A justiça de Deus contrastada com a justiça dos homens

A história de Jó possui um ingrediente essencial que evidencia a justiça de Deus: a integridade de Jó.

O autor do Livro de Jó dá testemunho de que Jó era um homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do mal (Jó 1:1). Após inúmeras releituras do Livro de Jó, saltou-me aos olhos que o motivo de Jó figurar como protagonista da história estava, especificamente, relacionado à sua integridade e não ao seu sofrimento.

A integridade de Jó serve de contraste para evidenciar o quanto a justiça de Deus é superior à justiça do homem ou, o quanto a justiça do homem está aquém da justiça de Deus.

O íntegro Jó serve para demonstrar a triste condição da humanidade, em sujeição ao pecado, pois, o mais justo dos homens, não consegue satisfazer os reclamos da justiça divina!  Mesmo a justiça, a integridade e a retidão de Jó são apresentadas como aquém do padrão de justiça de Deus, tanto que Jó foi repreendido e se arrependeu no pó e na cinza.

O padrão moral e a retidão de Jó são evidenciados na história com o condão de facilitar a distinção entre a justiça de Deus e a justiça dos homens, esta designada pelo profeta Isaías como ‘trapo de imundície’ e aquela como ‘veste de louvor’ (Is 64:6).

O sofrimento é questão de somenos importância, diante da necessidade de salvação, pertinente a todos os homens. A integridade de Jó destaca que o homem só é aceito por Deus por sua maravilhosa graça e não por suas memoráveis virtudes e qualidades morais.

Se Jó tivesse sido aceito com base na sua integridade, restaria somente desesperança para o restante da humanidade, mas, como o Livro de Jó demonstra que é impossível ao homem justificar-se a si mesmo, através de sua conduta e moral ilibada, vislumbra-se um conhecimento que produz alívio e paz aos homens.

Temos paz quando compreendermos que a justificação do homem independe de suas ações, pois Jó, mesmo inspirando o mais alto ideal de justiça humana, igualmente a todos os outros homens, teve que aguardar em Deus a sua salvação.

A temática do Livro de Jó tem relação direta com a pergunta que abriu o debate entre Jó e os seus amigos:

“Mas, como se justificaria o homem para com Deus?” (Jó 9:2b).

A resposta de Deus contida no Livro de Jó é objetiva e contém todos os elementos pertinentes à justificação do homem.

Somente uma má leitura conduz alguém a considerar que no Livro de Jó Deus mais pergunta que responde, ou que Jó esperou por uma resposta, onde sobrevieram somente perguntas.

 

Por que tinha que ser Jó?

– “Por que eu”?

Está é a primeira pergunta que formulamos quando ocorre um infortúnio em nossas vidas!

Embora o Pregador assevere que ‘tudo acontece igualmente ao justo e ao injusto’, qualquer adversidade é motivo para questionarmos: – “Mas, como pode ter ocorrido isso comigo, que sou dizimista fiel”? – “Eu não entendo como Deus permitiu esta mazela, se eu busco a Deus nas madrugadas”?

Quando atingidos por infortúnios, de pronto subimos em uma balança em que o ponteiro está atrelado aos nossos méritos, reputação, religiosidade, sentimentos, amarguras e questionamos a Deus sobre o motivo daquela adversidade!

Esse tipo de questionamento, quando parte de um não cristão é até compreensível. Se um não cristão vocifera e esbraveja contra os céus, não podemos censurá-lo. Mas, quando ouvimos tais queixas de um cristão, temos de nos perguntar, se alguma vez leu a seguinte passagem bíblica:

“Tudo sucede, igualmente, a todos; o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao puro, como ao impuro; assim, ao que sacrifica, como ao que não sacrifica; assim, ao bom, como ao pecador; ao que jura, como ao que teme o juramento. Este é o mal que há entre tudo quanto se faz debaixo do sol; a todos sucede o mesmo” (Eclesiastes 9:2-3)

Infortúnios ocorrem igualmente a todos! E sabe o porquê é exatamente assim? Porque Deus é justo!

Mas, se nós, mesmos carregados de tantos tropeços[1], como assevera Tiago, em sua epístola, questionamos o porquê passamos por reveses, que se dirá de alguém como Jó: “… homem íntegro, reto e temente a Deus que desviava-se do mal” (Jó 1:1)?

Com o seu currículo irrepreensível, mais que qualquer um, Jó poderia questionar: – “Por que eu”?

Na verdade, pela sua sujeição a Deus, Jó acabou declarando a mesma verdade que o Pregador, quando reconheceu que Deus dá e tira:

“Nu saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; o SENHOR o deu e o SENHOR o tomou: bendito seja o nome do SENHOR” (Jó 1:21).

“Como saiu do ventre de sua mãe, assim nu tornará, indo-se como veio; e nada tomará do seu trabalho, que possa levar na sua mão” (Eclesiastes 5:15)

O senso de justiça social e a conduta irrepreensível de Jó para com os seus semelhantes deveria fazê-lo questionar, de pronto, o motivo de tantas mazelas, no entanto, ele nos surpreende quando bendiz a Deus: – “Bendito seja o nome do Senhor”! (Jó 1:21)

Jó surpreende quando bendiz a Deus, após os infortúnios que lhe sobrevieram, o que nos faz perceber que, dentre tantos personagens bíblicos, o patriarca se destaca pela sua integridade e firmeza moral. Analisando, panoramicamente, as Escrituras, verifica-se que os demais personagens, geralmente, eram insignificantes (o menor), repreensíveis do ponto de vista moral e cometeram alguns desvios comportamentais.

O elemento a ser considerado no Livro de Jó é a sua integridade e retidão, pois não é possível apontarmos falhas de cunho moral nesse herói da fé, diferentemente de outros personagens como Abraão, Isaque, Jacó, Moisés, Davi, Jonas, Gideão, etc.

As histórias dos personagens bíblicos nos faz contemplar a graça e a misericórdia de Deus e nos identificamos com eles, pois, fica patente que somos sujeitos às mesmas paixões que eles, de modo que a graça de Deus foi superabundante sobre eles, da mesma forma que é sobre nós: “Elias era homem sujeito às mesmas paixões que nós e, orando, pediu que não chovesse e, por três anos e seis meses, não choveu sobre a terra” (Tiago 5:17).

Quando o rei Davi se deitou com Bate-Seba, mulher de Urias, e mandou matá-lo (2 Sm 11:4), vemos, de imediato, a misericórdia de Deus ao perdoá-lo, entretanto, quando analisamos a vida de Jó, o que nos salta aos olhos é o testemunho de Deus:

“Observaste a meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele; homem íntegro, reto e temente a Deus, e que se desvia do mal” (Jó 1:8).

Considerando que tudo o que foi escrito nas Escrituras tem o condão de ensinar (Romanos 15:4), e que foi Deus que apontou a integridade de Jó, resta concluir que Jó foi escolhido por Deus para figurar como personagem de uma das mais belas histórias da Bíblia, única e exclusivamente, pela sua integridade.

A lição que Deus ensina no Livro de Jó não dá para ser transmitida através da vida de heroínas da fé como Raabe e Tamar. Através da vida de homens como Gideão, Sansão, Jefté, Salomão, etc., não é possível transmitir com tamanha propriedade um conhecimento impar acerca da justiça de Deus e, por isso mesmo, o Livro evidencia a integridade de Jó e o torna personagem principal dessa trama maravilhosa.

Que conhecimento ou, que lição é esta? Evidenciar a justiça de Deus, contrastando com a justiça do homem mais justo e integro que já existiu! Através do melhor homem, somos convidados a considerar o quão impossível é ao homem justificar-se a si mesmo.

A integridade de Jó funciona como contraste[2], evidenciando o quão discrepante é a natureza da justiça humana, quando comparada à natureza da justiça de Deus.

As Escrituras dão conta de que não há homem que seja justo, nem sequer um (Eclesiastes 7:20; Salmos 53:3; Miqueias 7:2) e por não existir homem justo sobre a terra, Deus escolheu alguém inigualável entre os homens: Jó, para evidenciar a Sua justiça.

“E disse o SENHOR a Satanás: Observaste tu a meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desvia do mal” (Jó 1:8).

O termo hebraico traduzido por semelhante é כָּמֹ֙הוּ֙, transliterado kêmow ou kamow, segundo o Dicionário Strong, que significa: ‘como, assim como, semelhante a, quando, de acordo com, segundo’.

Não havia quem fosse semelhante a Jó no quesito integridade, retidão e temor a Deus, e esse foi o motivo de Jó ter sido selecionado por Deus para figurar como protagonista desse livro singular.

Diante da pergunta: – “Por que Jó”? A resposta é inequívoca: Jó foi escolhido por Deus por ser um homem de índole e comportamento ímpar.

 

O sofrimento de Noemi

A história de Noemi, assim como a história de Jó é dramática, no entanto, o questionamento acerca do sofrimento não ocorre. Por quê?

Embora o narrador do Livro de Rute não dê um testemunho direto acerca da índole e do caráter de Noemi, percebe-se nuances que apontam o quão virtuosa era essa mulher.

O Livro de Rute é do gênero narrativo e conta a história de uma moça moabita que se casou com um israelita, filho de Noemi. Para muitos, a história é um ‘ode’ à lealdade de Rute, uma mulher de grande caráter, para com sua sogra, Noemi.

Mas, o leitor deve atentar para o fato de que a história de Rute teve início com Elimeleque, um efrateu de Belém de Judá, à época em que os juízes julgavam.

O drama teve início com uma grande fome na terra de Israel, de modo que Elimeleque, juntamente com sua esposa, Noemi, e seus dois filhos, Malom e Quiliom, saíram a peregrinar nos campos de Moabe.

Durante a peregrinação, Elimeleque faleceu e Noemi ficou só, em terras estrangeiras, com os seus dois filhos. Com o passar do tempo, os filhos de Noemi se casaram com mulheres moabitas: Orfa e Rute. Em um período de dez anos, os dois filhos de Noemi faleceram, restando as três mulheres viúvas: Noemi, Orfa e Rute.

Noemi soube que, em Israel, havia pão e resolveu sair de Moabe e voltar a Belém. Porém, antes de retornar, resolveu despedir as suas noras, cada qual para os seus familiares. Orfa resolveu voltar para a casa de sua mãe, mas Rute resolveu seguir a Noemi.

Quando Noemi e Rute adentraram a cidade de Belém, os moradores se comoveram com o infortúnio que abatera sobre Noemi. Os habitantes de Belém ainda guardavam na lembrança Noemi, quando casada e com os seus dois filhos. Como os moradores de Belém ainda continuavam chamando Noemi pelo seu nome, que evocava um tempo de bonança e esperança, Noemi, em função da grande amargura e dor que sentia, pediu para que a chamassem de Mara.

Estas são as palavras do lamento de Noemi:

“Cheia parti, porém vazia o Senhor me fez tornar; porque, pois, me chamareis Noemi? Pois o Senhor testifica contra mim e o Todo-poderoso me tem afligido muito” (Rute 1:21).

Além da dor e da aflição pela perda do marido, Noemi, também, perdeu o bom nome que possuía, quando perdeu os seus dois filhos. O bom nome de Noemi estava vinculado ao fato dela ter dado dois filhos ao seu marido Elimeleque, pois, em Israel, todos tinham por bem-aventurada a casa que tivesse filhos, pela esperança da vinda do Messias.

Ora, mesmo em dor e aflição, assim como Jó, Noemi não infamou ao Senhor. Ela demonstrou ter consciência de que as aflições que lhe sobrevieram eram decorrentes da mão do Senhor, assim como Jó (Rute 1:13).

Jó perdeu os filhos, a saúde e foi acusado de pecado e Noemi perdeu a família, o bom nome, pois estava velha e não tinha condições de cumprir o seu papel: dar descendência ao seu marido.

Assim como Jó teve sete filhos e três filhas, quando recompensado por Deus, Noemi foi recompensada com o nascimento de Obede, filho de Boaz, com Rute. Através de Rute, Noemi ganhou boa fama entre os seus compatriotas e tornou-se bendita, como se a sua nora valesse por sete filhos (Rute 4:14-15).

Comparando a história de Jó com a história de Noemi, percebe-se que ambos sofreram um intenso revés na vida, no entanto, a história desta sofrida velha senhora não desperta questionamentos acerca da justiça de Deus frente às mazelas e tragédias[3] que acometem os justos.

Diferentemente da história de Noemi, que evidencia o cuidado de Deus para com a sua serva, a história de Jó foi redigida com o propósito de estimular o leitor a uma mudança de entendimento acerca da justificação do homem.

O essencial para compreender a justiça de Deus não é o sofrimento do personagem Jó, mas, os seus predicativos.  Já o sofrimento de Noemi evidencia o cuidado de Deus para com os que confiam, sem questionamentos, acerca da justiça de Deus.

 

Continua…


[1] “Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça em palavra, o tal é perfeito e poderoso para também refrear todo o corpo”. (Tiago 3:2)

[2] Para a nossa análise, adotaremos o conceito de contraste, como algo ou, alguém, diferente, único, que se distingue pelo valor maior, porque a oposição ou, a discrepância, nos permite distinguir um do outro.

[3] “O livro explora o velho, eterno e insolúvel problema da presença do mal no mundo, sobretudo na vida dos inocentes, dos que parecem sofrer sem razão alguma”. Lima, Héber S., Jó… Quando o Espinho Floresce, Edições Loyola, São Paulo, 1995, pág. 10.

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O Livro de Jó – Prefácio

Em função da verdade incrustada nas páginas desse livro tão magnifico, esta é a minha oração: que o Senhor continue a se revelar, através da pessoa bendita do seu Filho Jesus Cristo, e que possamos compreender plenamente o seu propósito e graça, pois, o que de Deus se pode conhecer, já foi revelado em graça e bondade, através da manifestação em carne de Cristo Jesus, nosso Senhor. Amém!


Livro de Jó: Objetivo

Parte I

Prefácio

O Livro de Jó compõe o Cânon sagrado, juntamente com os Livros de Provérbios e de Eclesiastes, conjunto que se nomeia Livros de Sabedoria.

Do ponto de vista literário muitos autores classificam o Livro de Jó como drama e, em função dos diálogos, monólogos, provérbios e ditados que contém, interpretam o livro do ponto de vista das experiências humanas.

Não se pode negar que o Livro de Jó é de riqueza incalculável do ponto de vista literário, mas, também, pelo seu valor como poesia, sem falar do seu conteúdo histórico. Entretanto, o tesouro que há no Livro de Jó não é de ordem literária, filosófica, histórica, sociológica e nem psicológica.

A finalidade deste ensaio é trazer a lume uma questão que passa despercebida por muitos leitores do Livro de Jó:

– “Como o pecador pode ser justo diante de Deus?”

Na sua grande maioria, os livros e estudos acerca do Livro de Jó, destaca o sofrimento do patriarca, o que fomenta inúmeras discussões de viés filosófico, antropológico e, até mesmo, ontológico.

Poucos se apercebem de que a temática do Livro de Jó não é o sofrimento. Poucos conseguem visualizar, que o conteúdo do Livro de Jó dá corpo a uma parábola, através de uma história enigmática e que demanda interpretação.

O Livro de Jó funciona como um espelho, ao refletir que a justiça do homem mais íntegro que já viveu, está aquém da justiça de Deus. A integridade de Jó estabelece um contraste que evidencia a justiça de Deus, de modo que o sofrimento torna-se mero pano de fundo para revelar uma verdade imprescindível ao homem.

A finalidade deste ensaio, não necessariamente nesta ordem, é:

  • Evidenciar a justiça de Deus, em contraste com as qualidades de Jó;
  • Identificar o motivo pelo qual Jó foi escolhido como protagonista dessa história;
  • Trazer a lume o papel desempenhado pelos amigos de Jó e a visão superficial que tinham da justiça de Deus;
  • Extrair alguns elementos pertinentes à atuação de Satanás e como se dá a sua investida contra os servos de Deus;
  • Demonstrar a superioridade do conhecimento de Eliú, em relação aos outros amigos de Jó;
  • Explicar a diferença entre a Justiça Divina e a “justiça” humana;
  • Esclarecer os motivos pelos quais Jó foi repreendido por Deus e qual a lição que precisamos aprender, através da vida do seu servo!

Em função da verdade incrustrada nas páginas desse livro tão magnifico, esta é a minha oração: que o Senhor continue a se revelar, através da pessoa bendita do seu Filho Jesus Cristo, e que possamos compreender plenamente o seu propósito e graça, pois, o que de Deus se pode conhecer, já foi revelado em graça e bondade, através da manifestação em carne de Cristo Jesus, nosso Senhor. Amém!

 

Notas do autor.

 

Qual o objetivo do livro de Jó?

 

O livro

O Livro de Jó é classificado como poético, assim como, os cinco Livros dos Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cantares de Salomão e Lamentações. Os eruditos classificam, também, o Livro de Jó como Livro de Sabedoria, assim como o Livro de Provérbios e de Eclesiastes.

Por que classificam o Livro de Jó como poético e de sabedoria? Por causa da estrutura dos diálogos entre Jó e seus amigos, construída através de muitos ‘paralelismos’.

Por paralelismo, o que dá sustentabilidade à poesia hebraica, temos a valoração do pensamento, através da ênfase, da repetição, do contraste e da elaboração de ideias, sem levar em conta elementos como ritmos, rimas e métricas, elementos essenciais às poesias ocidentais.

Como a estrutura da poesia hebraica repousa no desenvolvimento de ideias, a tradução do texto para outras línguas permite que se tenha maior precisão e preservação da ideia do texto, o que não ocorre nas poesias ocidentais pela impossibilidade de se transpor ritmo, rima e métrica para qualquer tradução.

O poema ‘Canção do exílio’, de Gonçalves Dias, por exemplo, é primoroso pelo ritmo, rima e métrica, de modo que a melodia, pelo encadeamento do ritmo, como a rima, permite descrever a beleza da terra do autor com leveza ímpar, do ponto de vista patriótico e nacionalista.

Observe:

“Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá”.

Dias, Gonçalves, Canção do exílio, De Primeiros cantos (1847).

A versão em Inglês, fica assim:

“My land has palm trees
Where the thrush sings.
The birds that sing here
Do not sing as they do there”

O ritmo e a rima que dá graciosidade ao texto se perdem na tradução e somente as expressões figurativas permanecem intocadas.

Já, o paralelismo, a base da poesia hebraica, trabalha analogias através de comparações, de modo a fazer com que o leitor conclua uma ideia por deduções simples, induzidas por figuras de linguagem, como personificações, hipérboles, metáforas, símiles e aliterações.

Destacamos alguns tipos de paralelismos importantes para exemplificar:

O paralelismo sintético (ou, formal, construtivo) trabalha um pensamento na primeira linha do poema e a segunda linha desenvolve e enriquece a ideia que está na primeira linha, que compõe a estrofe, através de uma relação de causa e efeito. Observe:

“Os céus declaram a glória de Deus e

o firmamento anuncia a obra das suas mãos”  (Salmo 19:1)

O paralelismo sintético divide-se em outros três, a saber:

  1. Conclusão: “Eu, porém, ungi o meu Rei sobre o meu santo monte de Sião” (Salmos 2:6);
  2. Comparação: “É melhor confiar no SENHOR, do que confiar nos príncipes” (Salmos 118:9) e;
  3. Razão: “Beijai o Filho, para que se não ire, e pereçais no caminho, quando em breve se acender a sua ira; bem-aventurados todos aqueles que nele confiam” (Salmos 2:12).

Por outro lado, o paralelismo antitético trabalha um pensamento em duas linhas, através da oposição de ideias, onde a segunda linha do poema expressa uma ideia oposta à ideia da primeira linha:

“Porque o SENHOR conhece o caminho dos justos;

porém o caminho dos ímpios perecerá” (Salmos 1:6)

Já, o paralelismo sinonímico trabalha uma ideia expressa duas vezes, com termos diferentes, em duas linhas:

“Levanta o pobre do pó e

do monturo levanta o necessitado” (Salmos 113:7)

Ter domínio das peculiaridades do paralelismo, na composição da poesia hebraica, muito auxilia na leitura e na análise do Livro de Jó.

O Livro de Jó, também, é classificado como Livro de Sabedoria, porque os eruditos entendem que o livro trata de questões práticas, pertinentes à existência humana, tais como fatalismo, materialismo, espiritualidade, sofrimento, moralidade, etc.

Outra questão acadêmica que orbita o Livro de Jó, é acerca da sua autoria e possível data em que foi escrito. Não há uma resposta segura para ambos e quando se parte para o campo das especulações, sobram opiniões! Aqui não opinaremos.

O significado do nome ‘Jó’, do hebraico בוֹיּאּ, transliterado “Iyyõb”, provavelmente, deriva de uma raiz que significa ‘voltar’ ou, ‘arrepender-se’ ou, o ‘perseguido’, do hebraico ‘ãyeb’.

Podemos traçar o seguinte esboço do Livro de Jó:

  1. Jó é provado e o sofrimento passa a ser o pano de fundo da história: (Jó 1:1 a 2:13);
  2. Três amigos de Jó procuram confortá-lo, porém, diante da reclamação de Jó, inicia-se um ciclo de discursos, em defesa de Deus, apontando a condição de Jó como resultado dos seus erros (Jó 3:1 a 31:40);
    1. Lamentação de Jó (Jó 3:1-26);
    2. Posicionamento de Elifaz (Jó 4:1 a 5:27) e réplica de Jó (Jó 6:1 a 7:21);
    3. Posicionamento de Bildade (Jó 8:1-22) e réplica de Jó (Jó 9:1 a 10:22);
    4. Posicionamento de Zofar (Jó 11:1-20) e réplica de Jó (Jó 12:1 a 14:22).
    5. Posicionamento de Elifaz (Jó 15:1-35) e réplica de Jó (Jó 16:1 a 17:16);
    6. Posicionamento de Bildade (Jó 18:1-21) e réplica de Jó (Jó 19:1-29);
    7. Posicionamento de Zofar (Jó 20:1-29) e réplica de Jó (Jó 21:1-34).
    8. Posicionamento de Elifaz (Jó 22:1-30)  e  réplica de Jó (Jó 23:1 a 24:25);
    9. Posicionamento de Bildade (Jó 25:1-6) e réplica de Jó (Jó 26:1 a 31:40).
  3. Exposição de Eliú (Jó 32:1 a 37:24);
  4. Perguntas de Deus (Jó 38:1 a 42:6);
  5. Epílogo (Jó 42:7-17).

Por que o justo sofre?

Ao pesquisar vários livros e comentários sobre o livro de Jó, as considerações sempre orbitam o sofrimento e, quase unanimemente, dão como tema do livro o sofrimento do justo[1].

Os comentaristas, geralmente, destacam, em letras garrafais, a seguinte pergunta:

“Por que o justo sofre?”

As considerações dos eruditos, que giram sobre o sofrimento, são diversas e, dentre elas, destacamos as principais:

  • Deus permitiu o sofrimento de Jó para justificar-se diante da acusação de Satanás;
  • A providência e o governo ético de Deus frente ao problema do sofrimento de um homem justo;
  • Deus permite o sofrimento do justo como meio de purifica-lo[2];
  • A mente do homem é muito ínfima, para que possa entender os motivos de Deus no sofrimento do justo;
  • Deus tinha plena confiança de que Jó sairia da provação, plenamente aprovado;
  • Deus derrotou Satanás, através do sofrimento de Jó;
  • Jó foi o homem mais integro que atendeu aos altos reclames da justiça divina, etc.

Se o tema do Livro de Jó é o sofrimento do justo[3], por inferência, se faz necessário concluir que o sofrimento do ímpio é plenamente aceitável. Através da leitura do Livro de Jó, somos levados a entender que o ímpio deve sofrer?

Ao estudar o Livro de Jó, desconsiderei as abordagens teóricas que constam das Bíblias de Estudos e dos livros de teologia. Li e reli diversas vezes o Livro de Jó, para chegar à seguinte conclusão: é impossível achar no Livro de Jó uma resposta para o sofrimento do justo, vez que o sofrimento ou, a problemática dos infortúnios que acometem o justo, não é o tema do livro.

Apesar do consenso de que o sofrimento do justo é o tema do Livro de Jó, não há entre os acadêmicos, uma resposta plausível que apresente um motivo[4], que dê resposta à pergunta: – ‘Por que o justo sofre?’[5].

Na verdade, o Livro de Jó não busca dar uma resposta à questão do sofrimento dos justos e nem foi escrito com o fito de apresentar uma teoria geral do sofrimento da humanidade[6].

O mote do Livro de Jó é pedagógico e o sofrimento é somente o pano de fundo, pois o tema do livro decorre de uma verdade imprescindível ao homem: a justiça do homem está aquém da justiça de Deus.

O propósito do livro é revelar uma verdade superior à ideia da problemática do sofrimento: como se dá a justificação do homem. O sofrimento é um dos elementos que fomentou os questionamentos, acerca da justiça de Deus e de que modo o homem poderia ser justo diante d’Ele.

Caro leitor, não quero desestimular a leitura do Livro de Jó, como um geólogo que desencoraja um visionário a não procurar petróleo em um terreno onde se suspeita que não haja o precioso ouro negro, mas deixa de avisar que há diamantes de grande valor naquela terra.

O nosso objetivo é que o leitor encontre a essência do Livro de Jó e, para isso, é necessário que o objeto seja substituído, para que o leitor tenha como encontrar o grande tesouro incrustado nessa história.

O leitor da Bíblia já observou que a história de Jó descreve alguém que sobrepuja qualquer ideário humano de justiça? Que a conduta, o caráter, a honradez e as práticas de Jó, estão muito além das nossas práticas cotidianas de justiça?

Ora, se Jó, de posse de um caráter que, a nosso ver, beira a perfeição; se as ações cotidianas do patriarca testemunhavam a favor da sua retidão e integridade[7] e; se Jó, ao ver o Criador, sentiu-se abominável e arrependido, imagine se eu ou você contemplássemos a Deus?

“Com os ouvidos eu ouvira falar de ti, mas agora te veem os meus olhos. Por isso me abomino e me arrependo no pó e na cinza” (Jó 42:5-6).

Após abrir mão de considerar o sofrimento dos justos como tema do Livro de Jó, fiquei sem um norte. Fez-se necessário fincar uma estaca, marcando um ponto ‘zero’, e voltar às minhas considerações e à releitura do livro, considerando os demais livros da Bíblia. Foi quando me deparei com o seguinte verso:

“Porque tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que, pela paciência e consolação das Escrituras, tenhamos esperança”. (Romanos 15:4)

Se tudo o que foi escrito, anteriormente, tem o objetivo de nos ensinar, o que Deus quer ensinar, através do Livro de Jó? O que há no livro de Jó, que nos concede esperança? Há ‘paciência’ e ‘consolação’ na história de Jó?

Tive que retornar aos evangelhos, às epístolas, aos profetas e à lei e, se o leitor deseja desvendar o objetivo do Livro de Jó, venha comigo. É essencial uma digressão[8] para compreender o ensinamento que está incrustado na trama de Jó, da mesma forma que é necessário garimpar o ouro oculto nas rochas, no seio da terra.

 

O mal debaixo do Sol

Não encontraremos, na Bíblia, uma resposta à pergunta: – ‘Porque o justo sofre?’, no entanto, ela nos informa que há um mal, em relação a tudo o que se faz debaixo do sol: tudo sucede, de igual forma, a todos!

“Tudo sucede, igualmente, a todos; o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao puro, como ao impuro; assim ao que sacrifica, como ao que não sacrifica; assim, ao bom, como ao pecador; ao que jura, como ao que teme o juramento. Este é o mal que há entre tudo quanto se faz debaixo do sol; a todos sucede o mesmo (Eclesiastes 9:2-3).

O Pregador aponta que há um mal em tudo o que se faz neste mundo: tudo sucede, igualmente, a todos. Os eventos neste mundo, quer sejam bons, quer sejam maus, não tem preferência em atingir a justos ou ímpios!

Se, somente, os justos sofressem, haveria motivo para indagar acerca do sofrimento dos justos. Semelhantemente, se tão somente os ímpios sofressem[9], poderíamos dissertar a respeito. Mas, como tudo sucede, igualmente, a todos, um mal que há entre tudo quanto se faz debaixo do sol, torna-se evidente que não há motivo para questionar o sofrimento, quando acomete os justos.

Mesmo os justos, tropeçam em muitas coisas (Tg 3:2) e se queixam dos seus próprios erros (Lm 3:39). O trabalho e a dor são pertinentes ao mundo dos homens, para exercitá-los, portanto, não há motivo para questionar acerca do sofrimento dos justos. “Tenho visto o trabalho que Deus deu aos filhos dos homens, para com ele os exercitar” (Ec 3:10;  Gn 3:17).

O Pregador dá um conselho aos homens, quer sejam justos, quer ímpios, e apresenta o motivo pelo qual há o dia da adversidade: para que o homem nada descubra do que há de vir depois dele.

“No dia da prosperidade goza do bem, mas, no dia da adversidade, considera; porque, também, Deus fez a este, em oposição àquele, para que o homem nada descubra do que há de vir depois dele” (Ec 7:14).

Continua…

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1] “Este livro trata com o problema teórico da dor na vida dos fiéis. Procura responder à pergunta: Por que os justos sofrem? Essa resposta chega de forma tríplice: Deus merece nosso amor à parte das bênçãos que concede; 2) Deus pode permitir o sofrimento como meio de purificar e fortalecer a alma em piedade; 3) os pensamentos e os caminhos de Deus são movidos por considerações vastas demais para a mente fraca do homem compreender, já que o homem não pode ver os grandes assuntos da vida com a mesma visão ampla do onipotente”. Archer, Gleason L., Merece confiança o Antigo Testamento? Traduzido por Gordon Chown. – São Paulo: Edições Vida Nova, Reimpressões 1998. Pág. 407.

[2] “Deus, por meio do sofrimento, pode levar o pecador à conversão e à salvação”. Bíblia de Estudo Almeida. Barueri – SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2000. Pág. 549.

[3] “O livro de Jó é uma obra-prima da literatura sapiencial. É uma dramática ficção histórica sobre o homem justo, sempre fiel às leis e tradições. O autor ou, autores, entrelaçam prosas e poemas, com os mais variados temas teológicos e sociais, como o sofrimento humano, a transformação  humana e social, o  bem e  o mal, a doutrina da retribuição, entre outros”. Nova Bíblia Pastoral, Editora Paulus, 2014 (Nota de rodapé), pg. 628.

[4] “O assunto do livro tem sido dado como ‘O problema do sofrimento, A relação entre o sofrimento e o pecado, ou Quais são as leis governo moral de Deus no mundo?’ Tudo isso é discutido de vários pontos de vista; e, mediante a discussão, somos levados a uma compreensão mais sábia destes perpétuos mistérios; mas, o livro termina sem que o problema tenha sido resolvido”. McNair, S. E. A Bíblia explicada, 4ª Edição, RJ: CPAD, 1983. Pág. 167 (Citação de Scroggie).

[5] “Existe apenas uma questão que realmente importa: Por que coisas ruins acontecem a pessoas boas? (…) Trata-se de um livro de difícil compreensão, um livro profundo e belo sobre o mais profundo dos temas, o problema do sofrimento dos bons”. Kushner, Harold S. “Quando coisas ruins acontecem às pessoas boas”, tradução Francisco de Castro Azevedo. – São Paulo: Nobel, 1988.  Págs. 15 e 38.

[6] “O assunto do livro é a providência e o governo ético de Deus à luz do muito antigo problema do sofrimento de um homem justo. Para esse problema, nem Jó se justificando, nem os seus três amigos acusando-o de pecado, encontraram a solução”. Scofield, C. I., Bíblia de Scofield, com referências (Nota de rodapé).

[7] Integridade – significa que Jó era honrado; integro no sentido de ‘completo’, resignado a não violar o que era de direito do outro.

[8] Em Literatura, digressão é um recurso utilizado pelo narrador, a fim de afastar a atenção sobre alguma ação da história principal. Dessa forma, o narrador pode iniciar um tema secundário pouco importante para a trama ou, refletir sobre um assunto que foge da narrativa principal.

[9] “Transcendendo o drama humano, centra-se o Livro de Jó nesta pergunta: ‘Por que sofre o justo?’ Que o pecador sofra, todos entendemos! Mas o justo? Aquele que tudo faz por agradar a Deus?” Andrade, Claudionor de, Jó: O Problema do Sofrimento do Justo e o seu Propósito., Rio de Janeiro: Editora CPAD, 2ª Edição, 2003, pág. 14.

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A palavra ‘Justificação’

28Em Romanos 3, verso 7, o apóstolo Paulo estabelece uma relação entre as palavras ‘morto’ e ‘justificado’: “aquele que está morto” também “está justificado” do pecado! Ou seja, a primeira condição (morto) implica na segunda (justificado). Satisfeita a primeira condição a segunda é estabelecida.

A palavra justificação é de origem latina composta de ‘justus’ e ‘facere’ e significa ‘fazer justo’ em português.

As palavras ‘justificado’ e ‘justiça’ são traduções de palavras gregas semelhantes. Temos o verbo dikaiôun que é ‘declarar justo’, ‘justificar’. O substantivo dikaíosis que é ‘justificação’, ‘justiça’, e o adjetivo dikaios, que qualifica que é ‘justo’.

Uma tradução precisa dos termos que fazem referência à justificação auxilia em muito a interpretação dos escritos de Paulo, porém, só os termos tomados de maneira isolada não revelam a grandeza das idéias centrais que compõe a doutrina da justificação.

Para entendermos a extensão das expressões supracitadas devemos atentar mais para o contexto nas quais elas foram citadas, do que para o significado denotativo da palavra.

Este estudo não se limita a apresentar um trabalho de conclusões. Antes, procuramos apresentar ao leitor o raciocínio que se deve percorrer para chegar às conclusões que apontaremos no decorrer deste estudo.

 

Aquele que está morto

Em Romanos 3, verso 7, o apóstolo Paulo estabelece uma relação entre as palavras ‘morto’ e ‘justificado’: “aquele que está morto” também “está justificado” do pecado! Ou seja, a primeira condição (morto) implica na segunda (justificado). Satisfeita a primeira condição a segunda é estabelecida.

Antes de ser feita a declaração “… porque aquele que está morto está justificado do pecado”, o apóstolo Paulo enfatiza de maneira contundente a ‘morte’ daqueles que creem em Cristo (estão) conforme diz a escritura ( Rm 6:1 -6).

Para entendermos precisamente a declaração paulina devemos ter a resposta da seguinte pergunta: Quem está morto?

A resposta está no versículo dois do capítulo seis da carta aos Romanos: Nós, ou seja, Paulo e os cristãos!

Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?”
( Rm 6:2 )

No versículo acima o apóstolo esclarece aos leitores da carta aos Romanos que todos eles estão mortos para o pecado, ou seja, nenhum crente em Cristo ‘vive’ para o pecado. Isto significa que efetivamente os cristãos estão mortos para o pecado.

Caso alguém argumentasse contra esta realidade (mortos para o pecado), o apóstolo Paulo contra argumenta de quatro maneiras diferentes para se fazer compreensível.

a) Os que foram batizados foram batizados na morte de Cristo ( Rm 6:3 );

b) Pelo batismo na morte todos foram sepultados com Cristo ( Rm 6:4 );

c) Todos foram plantados juntamente com Cristo, e ( Rm 6:5 );

d) Uma vez que, todos sabiam que haviam sido crucificados com Cristo.

 

“Pois sabemos isto, que o nosso velho homem foi com ele crucificado…”
( Rm 6:6 )

 

Diante dos elementos que foram apresentados restam as seguintes conclusões: vocês estão mortos! “Pois morrestes, e a vossa vida está oculta com Cristo em Deus” ( Cl 3:3 ).

“Ora, se já morremos com Cristo…” ( Rm 6:8 ).

“Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado…” ( Rm 6:11 ).

 

Quando o apóstolo Paulo diz: ‘considerai-vos’, não significa simplesmente imaginar como se estivessem mortos para o pecado, antes os cristãos deviam estar cônscios, vivendo esta nova realidade. Paulo não apregoou um ‘faz de conta’, antes ele anunciou verdades eternas.

Aquele que crê em Cristo vive esta nova realidade em verdade: após encontrar a cruz de Cristo, morreu para o pecado e está efetivamente justificado do pecado.

Observe que a palavra ‘considerai’ do versículo onze significa ‘contar com’, ‘descansar em’. Aliado ao significado da palavra, está o contexto, que demonstra que os cristãos efetivamente estão mortos para o pecado.

 

Está Justificado do Pecado

Já que os cristãos efetivamente morreram para o pecado como foi observado em ( Rm 6:2 ), conclui-se que quem está justificado perante Deus necessariamente já morreu para o pecado.

De outro modo: aquele que está vivo para o pecado não está justificado do pecado. Portanto, só é possível ser justificado do pecado quando se está morto para ele.

A condição ‘justificado do pecado’ é real e efetiva, pois decorre da primeira, que é estar morto para o pecado “… porque aquele que está morto está justificado do pecado”.

Dentro deste contexto de ‘morte para o pecado’ e ‘justificado do pecado’ torna-se possível determinarmos qual o real significado das palavras ‘justificação’ e ‘justificar’.

Qual a melhor tradução para as palavras dikaíôun e dikaíosis? Seria ‘fazer justo’? ‘criar justo’? Ou ‘declarar justo’?

O parágrafo seguinte nos auxiliará na escolha da tradução que melhor transmite à ideia apresentada pelo contexto.

 

Para que sejas justificado

Quando Paulo faz a citação de um versículo do salmista Davi, nos auxilia em muito na compreensão da extensão do significado da palavra justificado.

Neste salmo Davi demonstrou que reconhecer os próprios erros é a melhor maneira de declarar sem palavras que Deus é justo “Contra ti, contra ti somente pequei, e fiz o que é mal à tua vista, para que sejas justificado quando falares, e puro quando julgares” ( Sl 51:4 ).

Ele assume os seus erros para que Deus seja justificado ao falar.

O que o contexto nos apresenta?

  • Davi assumiu os seus erros para ‘fazer’ Deus justo?
  • Davi assumiu os seus erros para ‘criar’ Deus justo?
  • Ou Davi assumiu os seus erros para ‘declarar’ que Deus é justo?

O contexto nos aponta a terceira opção. O homem declara a justiça de Deus quando reconhece os seus próprios erros.

O salmista reconhece sua condição em decorrência do seu pecado: “…contra ti, contra ti somente pequei…”, com um objetivo bem definido: declarar a justiça de Deus “… para que sejas justificado quando falares…”.

O apóstolo cita este salmo para declarar que Deus é verdadeiro, ou seja, ao citar este salmo, Paulo tem a intenção nítida de fazer uma declaração sobre um dos atributos de Deus: Deus é verdadeiro, ou: sempre seja Deus verdadeiro!

 

“De maneira nenhuma. Sempre seja Deus verdadeiro, e todo o homem mentiroso como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras, e venças quando fores julgado”
( Rm 3:4 )

 

O apóstolo Paulo ao declarar que Deus é verdadeiro cita o salmista para dar sustentabilidade à sua declaração. Paulo demonstra que a sua declaração é conforme as Escrituras.

Temos dois elementos no texto, que se somados, evidenciam a ideia que a palavra ‘justificado’ procura transmitir:

  • Davi reconhece os seus erros como forma de evidenciar que Deus é justo;
  • Paulo utiliza o salmo para dar peso a sua declaração: Deus é verdadeiro e todo homem mentiroso.

Desta forma temos que, a palavra ‘justificado’ se traduz por ‘declarar’ justo.

Declarar: Dar a conhecer; expor; proclamar publicamente, anunciar solenemente; revelar, julgar, considerar, nomear, etc.

O apóstolo Paulo fez a citação de um salmo onde a palavra justificado engloba a mesma ideia que ele procura transmitir com os termos dikaíôun e dikaíosis.

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Gálatas 3 – Os filhos de Abraão

É Deus quem concede do Seu Espírito e faz maravilhas. É certo que na lei o homem somente encontra obrigações, mas, através da pregação, ou do que é anunciado acerca do evangelho (fé), a ação fica a cargo de Deus, que é poderoso para fazer abundar no homem a sua graça “E Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que tendo sempre, em tudo, toda a suficiência, abundeis em toda a boa obra” ( 2Co 9:8 ). Perceba que na lei o homem encontra uma determinação: “Portanto os meus estatutos e os meus juízos guardareis, pois o homem que os cumprir, por eles viverá” ( Lv 18:5 ).


A Inconstância dos Gálatas

1 Ó INSENSATOS gálatas! quem vos fascinou para não obedecerdes à verdade, a vós, perante os olhos de quem Jesus Cristo foi evidenciado, crucificado, entre vós?

O outro evangelho apresentado aos Gálatas é classificado pelo apóstolo Paulo como sendo obra de um fascínio. A insensatez de alguns cristãos os deixou subjugados. Eles foram alvos de um ‘encantamento’, subjugados pelos olhos, visto que, apoiaram-se na ‘boa aparência’ daqueles que transtornavam o evangelho de Cristo ( Gl 5:12 ).

A inconstância dos Gálatas era proveniente de uma insensatez.

Paulo estava perplexo, e quis saber quem havia fascinado os cristãos a desviarem da verdade do evangelho, principalmente porque Cristo foi apresentado a eles como crucificado: o poder de Deus ( 1Co 1:18 ).

Cristo crucificado é motivo suficiente para que ninguém se estribe na ‘aparência’ de outrem. O poder de Deus encontra-se no Cristo crucificado, onde o crente deve fixar a atenção. Esta deve ser a fixação do cristão, e não a aparência, que perante Deus nada é ( Jo 12:32 ). Por isso, o apóstolo Paulo chamou-os de insensatos.

 

2 Só quisera saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé?

Paulo questiona: De que maneira eles haviam recebido o Espírito de Deus? Seria por acaso por meio da lei? Ou seria por meio da fé? Paulo anseia por uma resposta de seus leitores.

A resposta à pergunta de Paulo seria suficiente para elucidar o quanto os Gálatas estavam equivocados (Só quisera saber isso).

 

3 Sois vós tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, acabeis agora pela carne?

Paulo demonstra que, por causa da insensatez, os gálatas haviam regredido. Estavam perdendo aquilo que já haviam alcançado: começaram pelo Espírito e acabariam na carne.

Eles haviam sido agraciados com uma nova vida por meio do Espírito de Deus, e agora, estavam submetendo-se à escravidão da carne.

Observe que é factível o cristãos desviar-se da palavra da verdade quando dá ouvidos a palavra de engano ( Hb 2:1 )

 

4 Será em vão que tenhais padecido tanto? Se é que isso também foi em vão.

O apóstolo Paulo procura envolve-los sentimentalmente. Ele traz a lembrança dos cristãos o quanto haviam sofrido por causa do evangelho.

O sofrimento também foi em vão?

 

5 Aquele, pois, que vos dá o Espírito, e que opera maravilhas entre vós, fá-lo pelas obras da lei, ou pela pregação da fé?

Aquele que concede o Espírito é Deus. Tal dádiva é concedida por meio da verdade do evangelho (fé), e não da lei.

É Deus quem concede do Seu Espírito e faz maravilhas. É certo que na lei o homem somente encontra obrigações, mas, através da pregação, ou do que é anunciado acerca do evangelho (fé), a ação fica a cargo de Deus, que é poderoso para fazer abundar no homem a sua graça “E Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que tendo sempre, em tudo, toda a suficiência, abundeis em toda a boa obra” ( 2Co 9:8 ).

Perceba que na lei o homem encontra uma determinação: “Portanto os meus estatutos e os meus juízos guardareis, pois o homem que os cumprir, por eles viverá” ( Lv 18:5 ).

Na pregação da fé o homem depara-se com a promessa daquele que é fiel e poderoso em realizar. Enquanto o homem não consegue viver a altura da lei, através da oferta da graça, consegue abundar em toda a boa obra.

 

6 Assim como Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça.

Paulo evoca a autoridade da Escritura. Se não davam ouvido ao apóstolo dos gentios, que pelo menos considerassem a Escritura.

Abraão foi justificado por meio da fé porque creu na promessa d’Aquele que é poderoso para cumprir.

 

7 Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão.

Os leitores das cartas de Paulo citavam a Escritura de cor (A. T.), mas precisavam saber que, somente os que creem são feitos filhos de Deus.

Somente os que crêem conforme o Pai Abraão é que recebem a filiação divina, ou seja, são contados como filhos de Abraão ( Jo 1:12 ).

Não podemos esquecer que, ser filho de Abraão, para os seguidores da lei, era o mesmo que ser filho de Deus ( Jo 8:39 -41).

João Batista ao verificar que os escribas e fariseus, que vinham ao batismo, continuavam se arrogando na condição de filho de Deus pelo fato de serem descendentes de Abraão, alertou: “E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por Pai a Abraão; porque eu digo que mesmo destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão” ( Mt 3:9 ).

Sobre este aspecto Jesus declarou que os fariseus eram filhos do diabo, visto que presumiam ser filhos de Deus em decorrência de serem descendente de Abraão (para eles a filiação decorre do sangue) ( Jo 8:44 ).

Eles eram descendentes de Abraão ( Jo 8:37 ), mas não eram filhos de Deus, visto que, ainda continuavam vendidos como escravos ao pecado por serem descendentes de Adão ( Jo 8:34 ). Sendo escravos do pecado, em decorrência da filiação em Adão, os fariseus eram de fato, filhos do diabo, e não de Deus ( Jo 8:44 ).

 

A Primeira Pregação da Fé

8 Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti.

Paulo refere-se ao Antigo Testamento como sendo a Escritura.

Neste versículo ele faz referência ao livro de Gênesis, quando Deus diz: “…e em ti serão benditas todas as famílias da terra” ( Gn 12:3 ). A promessa de Deus registrada no livro do Gênesis é uma profecia acerca da justificação pela fé que seria concedida aos gentios, e que agora, através da igreja estava se cumprindo.

Quem haveria de bendizer as ‘nações’ em Abraão? Deus prometeu que, através de Abraão, haveria de dar ‘bom’ testemunho aos homens provenientes de vários povos. Homens de todos os povos haveriam de ser declarados justos por Deus do mesmo modo que Abraão.

Por meio da fé, as famílias da terra haveriam de ser benditas do mesmo modo que os antigos alcançaram bom testemunho ( Hb 11:2 ).

O evangelho é:

a) Promessa de Deus;

b) Independe da circuncisão na carne;

c) Alcançada a promessa pela fé;

d) Todos morrem (despojar do corpo da carne) na fé, e passam a viver para Deus;

e) Decorre do poder e da fidelidade de Deus;

f) Abraão julgou que Deus era poderoso para, até dentre os mortos, trazer o seu descendente a vida.

O evangelho é promessa de Deus a todos que creem, sem distinção alguma de origem e condições sociais. Por meio da fé todos morrem com Cristo e ressurgem com base no poder e na fidelidade de Deus. O poder de Deus fez Cristo ressurgir dentre os mortos, e este mesmo poder opera nos cristãos ( Ef 2:19 -20).

Todas as nações são benditas em Abraão por causa do descendente, que é Cristo ( Gn 3:15 ), pois através de Cristo alcançam bom testemunho de que são agradáveis a Deus.

Se os judaizantes entendessem a ‘linguagem’ de Jesus e cressem somente no descendente, ai sim, seriam de fato livres e filhos de Abraão (filhos de Deus) ( Jo 8:43 ).

 

9 De sorte que os que são da fé são benditos com o crente Abraão.

Deus não faz acepção de pessoas: se Abraão foi justificado por meio da fé em Deus, todos aqueles que crerem na promessa divina, estarão debaixo da mesma bem-aventurança: serão benditos conforme o pai Abraão, ou seja, são igualmente justificados.

Ora, a justificação de Abraão foi posicional ou objetiva? Deus tratou Abraão como justo, mas não tornou Abraão justo? Como é possível? Observe a seguinte declaração de Scofield: “A justificação é um ato de reconhecimento divino e não significa tornar uma pessoa justa (…) Ele declara justamente e trata como justo…” Bíblia Scofield de referências, Romanos 3:28, pág 1147.

Entendemos pelas Escrituras que Abraão foi efetivamente justificado por Deus, pois a palavra traduzida por ‘justificar’ e ‘justificação’ significa ‘tornar justo’, ‘declarar justo’, ‘declarar reto’, ou ‘declarar livre de culpa e de merecimento de castigo’.

Alguns teólogos entendem que Deus ‘não torna’ o homem justo, porém, sabemos que todos quantos creem em Cristo são de novo criados em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ). Por meio da fé em Cristo o homem recebe de Deus poder para ser feito (criado) filho de Deus ( Jo 1:12 ).

 

10 Todos aqueles, pois, que são das obras da lei estão debaixo da maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las.

Aqueles que se diziam cristãos, mas que estavam querendo transtornar o evangelho de Cristo ao buscarem elementos da lei como meio de se alcançar a salvação, permaneciam sob maldição.

Estes não atinavam que a natureza da lei é diversa da natureza humana sem Deus: a lei é espiritual e o homem sem Deus carnal. Esqueciam que é impossível cumprir a lei, uma vez que o não cumprimento de um único quesito da lei torna o homem culpado de toda a lei.

Para ser justificado por meio da lei, o homem necessariamente deveria cumprir todas as coisas estipuladas na lei. Os judaizantes esqueciam que na lei não há promessas de bênçãos, antes, faz referência à maldição para quem não cumpri-la.

Como já demonstramos anteriormente, na lei é necessário ao homem realizar. Na fé (promessa) é Deus que se propõe realizar, recomendando ao homem descansar n’Ele.

 

11 E é evidente que pela lei ninguém será justificado diante de Deus, porque o justo viverá da fé.

Por que o apóstolo Paulo alega que é evidente que ninguém pode ser justificado pela lei? Por que o apóstolo cita uma declaração do profeta Habacuque?

“O justo viverá da fé” ( Hb 2:4 )

O verso retirado do Livro de Habacuque demonstra que é impossível ao homem ser justo à parte da vida que se alcança por meio da promessa de Deus (fé). A condição de justo é proveniente da nova natureza em comunhão com Deus.

O justo vive por meio da fé, ou seja, a existência de um justo só é possível através da fé. O homem natural existe por intermédio do nascimento natural, e o justo vem a existência por intermédio da palavra de Deus, que é esperança proposta (fé).

Observe que a condição de justo é invariável, conforme se lê: “Mas a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito” ( Pr 4:18 ). O que sofre transformação é a vereda do justo, e não a sua condição. O que se compara à luz da aurora é o caminho do justo, e não a sua justiça (condição).

Segue-se que, para ser justo necessariamente o homem precisa nascer de novo. Por quê? Porque todos que creem na palavra do evangelho recebem de Deus poder para ser de novo criado ( Jo 1:12 ).

Após o novo nascimento (regeneração) o novo homem que surge em Cristo é justo e declarado justo por Deus, ou seja, é justificado!

A justificação fala da declaração que o homem recebe de Deus. Tal declaração só é concedida após a regeneração, sendo que, só o novo homem criado em Cristo recebe tal declaração (bom testemunho) ( Hb 11:2 ).

A justiça de Deus se alcança pela esperança proposta (fé), visto que, para ser justo, há a necessidade do novo nascimento, e a partir do novo nascimento o justo passa a viver para Deus ( Hb 6:18 ).

 

12 Ora, a lei não é da fé; mas o homem, que fizer estas coisas, por elas viverá.

A lei impõe obrigações, a fé promessa. Esta é só esperar que se alcança de Deus o prometido, enquanto aquela depende do homem cumprir todas as determinações prescritas na lei. Se o homem fizer o que a lei diz, pela lei terá vida – o que é impossível, visto que a carne tornou a lei enferma ( Rm 8:3 ).

Se o homem crer em Deus, que ressuscitou a Cristo dentre os mortos, passará a ter vida, ou seja, viverá por confiar (fé) n’Aquele que prometeu (fé).

 

13 Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro;

Ao morrer na cruz (pendurado no madeiro) o Senhor Jesus Cristo tomou sobre si a maldição que pesava sobre a humanidade, e se fez maldição.

O resgate da humanidade da lei, do pecado e da morte se deu através da entrega de Cristo.

Aquele que foi e é sem pecado cumpriu as exigências da lei e ao assumir a condição de maldito, estabeleceu um novo e vivo caminho de acesso dos homens a Deus: adquirimos em Cristo a bem-aventurança prometida a Abraão.

Qual a exigência da lei? Assim como o juízo e a ofensa veio de um homem, somente por outro homem perfeito e obediente veio a vida e justificação ( Rm 5:16 ). Assim como Adão morreu e toda a humanidade morreu, segue-se que, quando Cristo morreu, todos que creem também morrem com Ele para que possam ressurgir dentre os mortos ( 2Co 5:14 ).

Cristo nos resgatou com um único objetivo:

 

14 Para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios por Jesus Cristo, e para que pela fé nós recebamos a promessa do Espírito.

A entrega de Cristo foi necessária para que a bênção de Deus prometida a Abraão pudesse chegar aos gentios. Da mesma forma que Abraão recebeu a promessa (fé) e descansou na esperança proposta (fé) recebendo a justificação, pela fé (mensagem do evangelho) o cristãos recebem a promessa do Espírito, que Deus prometeu a Abraão acerca do descendente.

Argumentos Fraternos

 

15 Irmãos, como homem falo; se a aliança de um homem for confirmada, ninguém a anula nem a acrescenta.

Paulo demonstra que, segundo as leis humanas, não há como anular ou acrescentar o que foi estabelecido em um testamento. Paulo deixa a argumentação bíblica e passa a argumentar segundo o conhecimento que lhes era próprio (como homem falo): a aliança, o trato, o testamento.

O apóstolo Paulo deixa bem claro que a argumentação que estava apresentando tinha por base questões humanas, e não as Escrituras.

A aliança que um homem confirmou não pode ser anulada ou acrescentada, que se dirá da aliança estabelecida por Deus?

 

16 Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo.

O apóstolo procura evidenciar qual a leitura correta a se fazer da Escritura, ou seja, quando se lê que a promessa foi feita a Abraão e à sua descendência, isto não quer dizer que todos os seus descendentes seriam benditos em Abraão ( Rm 9:7 ).

Eles precisavam observar que a Escritura não fala da descendência de Abraão como sendo muitos, mas de um descendente, alguém em específico “A tua descendência tomará posse das cidades dos teus inimigos, e em tua descendência serão benditas todas as nações…” ( Gn 22:17 -18).

A promessa de Deus a Abraão refere-se ao descendente, que é Cristo.

Para que o homem possa ser participante das bênçãos de Abraão é necessário ter a mesma fé que teve Abraão, pois através da fé, os que creem, passam a ser participantes de Cristo, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo “E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados” ( Rm 8:17 ).

Como ter a mesma fé de Abraão? Ora, Abraão creu na palavra de Deus acerca do Descendente e isto lhe foi imputado por justiça. Qualquer que queira ter a mesma fé do crente Abraão deve crer na mensagem do evangelho, que é a mensagem do Descendente.

Qualquer que crê em Cristo possui a mesma fé do crente Abraão.

O cristão é descendente de Abraão segundo a promessa porque está em Cristo, ou seja, porque é nova criatura. Ao crer no evangelho, o homem recebe de Deus poder para ser feito, criado filho de Deus ( Jo 1:12 ), recebendo de Deus através de Cristo a natureza divina ( Cl 2:10 ; 2Pe 1:4 ).

 

17 Mas digo isto: Que tendo sido a aliança anteriormente confirmada por Deus em Cristo, a lei, que veio quatrocentos e trinta anos depois, não a invalida, de forma a abolir a promessa.

O apóstolo Paulo demonstra que a aliança de Deus com os homens foi confirmada por Deus em Cristo (ou seja, no Descendente). Nem mesmo a lei, que foi concedida por Deus ao povo, teve força para abolir ou invalidar a aliança estabelecida por Deus com Abraão.

Todo evento posterior a aliança não pode invalidá-la, ou seja, sendo a lei posterior a promessa, de maneira alguma ela poderia invalidá-la.

Por que a lei não pode invalidar a promessa? Porque a promessa de Deus é irrevogável. Não depende do homem para ser levada a efeito, antes tem por base o poder e a imutabilidade de Deus.

 

18 Porque, se a herança provém da lei, já não provém da promessa; mas Deus pela promessa a deu gratuitamente a Abraão.

O raciocínio é simples! A lei e a promessa são excludentes: se a herança provém da lei, automaticamente a outra é excluída.

Todos deviam saber que a herança foi dada a Abraão gratuitamente, sem qualquer vinculo com a lei, por causa da promessa. A bênção deriva da promessa, e não da pessoa de Abraão.

 

19 Logo, para que é a lei? Foi ordenada por causa das transgressões, até que viesse a posteridade a quem a promessa tinha sido feita; e foi posta pelos anjos na mão de um medianeiro.

Em ultima instância: qual a razão de ser da lei?

A lei foi estabelecida até que Cristo viesse ao mundo, por quem a herança é concedida. Ele é o herdeiro da promessa.

Porém, a lei foi estabelecida para:

a) evidenciar a natureza de Deus;

b) servir de ‘aio’ para conduzir os homens a Cristo;

c) tornar evidente a na natureza pecaminosa do homem;

d) faz o homem perceber que é impossível salvar-se a si mesmo.

Através da lei o homem se dá conta que é pecador e da sua impossibilidade de escapar da condenação estabelecida em Adão. Somente por intermédio da cruz de Cristo o pecador passa a ter acesso a Deus por um novo e vivo caminho, que é o corpo de Cristo.

Através do corpo de Cristo que foi sepultado o homem sepulta a carne proveniente de Adão, e através do corpo de Cristo, a igreja, o homem passa a estar em comunhão com Deus.

Houve um evento na história do povo de Israel, logo após terem sido resgatados do Egito, que esclarece o motivo da lei.

Deus determinou a Moisés que o povo fosse reunido para que Ele falasse diretamente com o povo ( Ex 19:9 ). Quando o povo viu os trovões e os relâmpagos, e o barulho das buzinas, e o monte fumegando, temeram, e se afastaram. Pediram a Moisés que ouvisse a voz de Deus e que repassasse a eles ( Ex 20:19 -20).

O povo não confiou em Deus, antes temeram, pensando que seriam mortos. Moisés, por sua vez, seguiu e adentrou nas densas trevas, onde Deus estava. Mesmo após serem salvos do Egito, ainda não confiavam em Deus. Que Deus seria este, que após resgatá-los da escravidão, os mataria em seguida?

A lei foi concedida ao povo para que aprendessem mais sobre a natureza divina. Elem precisavam aprender a confiar, e não temer. O temor (palavra) do Senhor é o principio da sabedoria, mas ter medo, demonstra falta de confiança n’Aquele que é amor eterno ( Ex 21:1 ).

O povo não confiava em Deus que lhes resgatara do Egito. Eles solicitaram a Moisés que intermediasse a conversa entre eles e Deus, e, por isso, pereceram, visto que não confiaram em Deus.

Solicitaram a Moisés que falasse com eles, e proibiram que Deus lhes falasse, com medo da morte. Moises demonstra que Deus veio ao povo não para matá-los, mas para prová-los. Se eles ouvissem a voz de Deus, viveriam ( Ex 20:19 ; Is 55:2 ).

Com medo dos raios e trovões, o povo se afastou de Deus e se puseram ao longe, demonstrando que não confiavam na palavra de Deus que anteriormente foi anunciada: “Faço misericórdia…” ( Ex 20:6 ), e nem mesmo consideram que, se Deus os havia resgatado do Egito, era para preservá-los em vida, e não para matá-los ( Hb 12:18 -28).

A lei foi dada até que viesse o Descendente (Cristo), a quem foi feita a promessa. Ela foi promulgada por causa das transgressões do povo, e entregue a Moisés por intermédio das mãos do mensageiro de Deus ( At 7:38 ).

A lei não foi entregue por anjos, antes, Moisés a recebeu do Anjo do Senhor, que falava com ele no monte Sinai e com os pais de Israel.

Não foram os anjos que entregaram a lei a Moisés, e sim, o Anjo do Senhor, que é Cristo. Somente o Anjo do Senhor tem a semelhança divina “Boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas; pois ele vê a semelhança do SENHOR; por que, pois, não tivestes temor de falar contra o meu servo, contra Moisés?” ( Nm 12:8 ). Somente o Anjo do Senhor é onipresente, e acampa ao redor dos que o temem e o livra “O anjo do SENHOR acampa-se ao redor dos que o temem, e os livra” ( Sl 34:7 ).

A função de entrega da lei a Moisés coube ao Anjo do Senhor, e não aos seus santos anjos, que são ministros de Deus e não possuem a onipresença. É o Anjo do Senhor que se acampa ao redor dos que o temem. Somente Ele deve ser temido, e não os anjos, que são ministros de Deus.

Moisés foi constituído como Mediador no processo de entrega da lei ao povo, visto que o povo não confiou em Deus para ouvi-Lo ( Ex 19:9 ).

 

20 Ora, o medianeiro não o é de um só, mas Deus é um.

O medianeiro não foi estabelecido a favor de uma só pessoa, antes de muitos, no entanto Deus é um só, tanto na Antiga como na Nova aliança.

Com a vinda de Cristo, mudou-se o mediador ( Hb 12:24 ). Enquanto Moisés “…foi fiel em toda a casa de Deus, como servo, para testemunho das coisas que se haviam de anunciar” ( Hb 3:5 ), (o que se havia de anunciar é o evangelho de Cristo), ele entregou ao povo a lei (aio), que teve a função de conduzir o povo a Cristo, porém, o povo estava assombrado com a visão do monte Sinai ardente, com as tempestades, com as trevas e o ressoar das buzinas ( Hb 12:18 -21).

Cristo é mediador entre Deus e os homens, e dá acesso ao Pai. Por meio d’Ele os homens chegam-se a Deus e tem entrada na Jerusalém Celestial com os seus milhares de anjos. O homem passa a fazer parte da universal assembléia e igreja dos primogênitos que ressurgiram com Cristo dentre os mortos e estão inscritos nos céus ( Hb 12:22 -28).

 

21 Logo, a lei é contra as promessas de Deus? De nenhuma sorte; porque, se fosse dada uma lei que pudesse vivificar, a justiça, na verdade, teria sido pela lei.

O apóstolo Paulo espera que os leitores da sua carta respondam que a lei não invalida a promessa de Deus, visto que, a lei veio depois da promessa. A promessa é firme em Deus, e não depende do homem. A lei, sendo posterior a promessa, apenas evidencia que o homem não possui a natureza divina. Tudo o que a lei determina depende do homem realizar.

Observe que o objetivo da promessa está intimamente ligado à justiça e à vivificação em Deus ( Is 57:15 ). A lei nada pode fazer pelo homem, visto que o homem é quem precisava guardá-la.

De Deus os cristãos têm a promessa de que, por meio da fé (evangelho) Ele vivifica e justifica, pois o justo viverá da fé. Primeiro o homem alcança a vida que Deus lhe concede, e, em seguida, é declarado justo. O que remete à doutrina da justificação.

 

A Escritura, a Lei e a Fé

22 Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos crentes.

A escritura aqui se refere ao Antigo Testamento, visto que, quando o apóstolo Paulo escreveu esta carta, os evangelhos e as cartas dos apóstolos ainda não pertenciam a Escritura, como hoje se vê.

Observe que não foi a lei que encerrou a humanidade debaixo do pecado, e sim, a Escritura. A lei somente evidencia qual é a natureza do homem.

Onde está escrito que a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado? Através da palavra que diz: “Em ti serão benditas todas as famílias da terra” ( Gn 12:3 ), ou seja, se as ‘famílias’ seriam benditas, segue-se que a condição delas era de maldição diante de Deus.

Quando a Escritura diz que na descendência de Abraão as nações haveriam de ser benditas, demonstra que, antes do Descendente, todos eram malditos por causa do pecado.

Há vários versículos no Antigo Testamento que demonstram que todos os homens estão debaixo do pecado, como o apóstolo Paulo demonstra aos cristãos em Roma ( Rm 3:11 -18).

A promessa acerca do descendente, feita a Abraão, é concedida àqueles que crêem. Todos os homens estavam presos ao pecado, e por isso, malditos. Os que têm fé em Cristo livram-se da maldição, tornando-se benditos como o crente Abraão, pois a promessa diz: “…em tua descendência serão benditas todas as nações da terra…” ( Gn 22:18 ).

 

23 Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar.

Antes que Cristo se manifestasse, os homens de Israel estavam guardados pelo curador, ou tutor, que é a lei. Mas, não deviam confiar no tutor (lei), como se ele pudesse dar a herança (justificar), antes, deveriam crer, como o crente Abraão, e esperar o tempo determinado pelo Pai, confiando em Deus que prometeu o Descendente.

A promessa somente cumprir-se-ia, na plenitude dos tempos, com a vinda do Descendente, que é Cristo.

Agora que Cristo foi manifesto aos homens, a graça de Deus por intermédio do evangelho, o homem não pode permanecer debaixo da lei, antes deve tomar posse do que foi proposto pela fé (evangelho).

Observe a relação entre a fé que havia de vir e a fé que havia de se manifestar. A fé que se manifestou é Cristo, o Descendente, em quem Abraão creu, e a fé que havia de vir, diz da verdade do evangelho ( Gl 3:23 ).

 

24 De maneira que a lei nos serviu de aio, para nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos justificados.

O apóstolo Paulo demonstra a utilidade da lei: levar, conduzir os homens a Jesus, aquele que tem poder para justificar o homem.

Pela fé o homem é justificado, e a função da lei deixou de existir. Não é mais necessário guia-se pelo ‘aio’, uma vez que já alcançou pela fé o Descendente.

Através da lei que diz: ‘certamente morrerás’ o homem conheceu o pecado, ou seja, ‘conhecer’ diz de estar intimamente ligado a, e o homem ao pecar passou a estar ligado (unido) ao pecado ( Rm 3:23 ). Através da lei de Moisés o homem conheceu (ciência) a sua condição diante de Deus, pois ela encerrou todos debaixo do pecado ( Gl 3:22 ).

 

25 Mas, depois que veio a fé, já não estamos debaixo de aio.

Após a chegada da fé (evangelho de Cristo), não há lugar para a lei, visto que a fé (evangelho) promove a promessa, que é anterior à lei.

Observe que o evangelho foi anunciado primeiramente a Abraão ( Gl 3:8 ), e ao vir Cristo, o autor e consumador da fé, a graça de Deus se manifestou a todos os homens. Cristo se manifestou a todas as nações para obediência do evangelho (fé) “Mas que se manifestou agora, e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações para obediência da fé” ( Rm 16:26 ).

O apóstolo Paulo passa a tratar da nova condição dos cristãos, ao dizer: “… já não estamos debaixo de aio”. Tanto o apóstolo Paulo quanto os cristãos da Galácia não precisavam da lei.

 

26 Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus.

Este verso complementa o anterior: “Mas, depois que veio a fé, já não estamos debaixo de aio, porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo” (v. 25). O verso 26 apresenta o motivo pelo qual os cristãos não mais estavam debaixo da lei.

Os judaizantes acreditavam ter alcançado a filiação divina por serem descendentes de Abraão, e que a entrega da lei tornava eles diferentes diante de Deus, ou que Deus tinha eles em preferência, em detrimento dos gentios.

O apóstolo Paulo enfatiza que a lei não tinha razão de ser na vida dos cristãos, uma vez que todos eram filhos de Deus, por estarem unidos ao Descendente (Cristo) de Abraão. Em Cristo os cristãos são idôneos para participar da herança dos santos, e não necessita de curador: a lei ( Cl 1:12 ).

Mesmo após Abraão ser justificado por Deus por intermédio da fé, os seus filhos segundo a carne não eram provenientes de Deus. Eles continuaram a ser gerados segundo a carne, da vontade do varão e da vontade da carne ( Jo 1:13 ), e, portanto, os descendentes de Abraão não eram e não são filhos de Deus.

A promessa de se tornar filho de Deus somente tornou-se possível através do Descendente, que é Cristo. Somente Ele pode levar muitos filhos a Deus. Por meio da fé o homem alcança a filiação divina.

 

 

27 Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo.

O apóstolo Paulo demonstra que o batismo em Cristo é o mesmo que se revestir d’Ele.

Todos os cristãos já haviam sido batizados na morte de Cristo, e o apóstolo dos gentios faz com que eles lembrassem o significado do batismo ( Rm 6:3 ).

Como os cristãos batizado? Porque creu em Cristo, o cristão conforma-se com Cristo na sua morte, ou seja, é sepultado com Cristo. Por se tornar participante da carne e do sangue, o cristão ressurge com Cristo, para a gloria de Deus Pai.

Primeiro é necessário ao homem ser sepultado com Cristo (o batismo em águas representa esta verdade), para depois se revestir d’Ele, ou seja, adquirir a plenitude n’Ele ao ressurgir dentre os mortos ( Cl 2:10 ; Jo 1:16 ).

Como se alcança a filiação? Por meio da morte e ressurreição com Cristo. O cristão morre e ressurge com Cristo para a glória de Deus Pai.

Se o cristão foi batizado, é porque morreu para aquilo que estava retido: a lei. Ao morrer, o cristão não está mais preso ao que o retinha: o pecado ( Rm 7:6 ).

A força do pecado é a lei que diz: ‘certamente morrerás’ ( Gn 2:17 ), e por isso o homem precisa morrer com Cristo, porque aquele que está morto está justificado do pecado ( Rm 6:7 ). O pecado é o aguilhão da morte e, ao morrer com Cristo, o homem adquire nova vida, livrando se da condição do velho homem “Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei” ( 1Co 15:56 ).

Ao se revestir de Cristo, o cristão não mais pertence ao pecado, agora pertence ao Senhor!

 

28 Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.

Quando se reveste de Cristo, o homem passa a fazer parte do corpo de Cristo, que é a igreja. Há um só corpo e um só Espírito ( Ef 4:4 ).

As distinções criadas na lei não se estabelecem diante da promessa, que é anterior a lei. Segue-se que, em Cristo, não há qualquer distinção entre macho e fêmea; escravo ou livre, judeu ou gentil, etc. Isto porque todos os cristãos são um corpo em Cristo.

Os Cristãos são:

  • Templo e morada do Espírito;
  • Um corpo;
  • Um só pão;
  • Filhos de Deus;
  • Herdeiros da Promessa;
  • Idôneos a participar da herança;
  • Luz;
  • Sacerdócio Real;
  • Pedras vivas;
  • Etc.

 

29 E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa.

Enquanto os judeus pensavam ter alcançado a filiação divina por meio da carne e do sangue, por serem descendentes de Abraão, os cristãos alcançaram a filiação divina por meio da união com Cristo ( Rm 9:8 ; Gl 3:26 ).

Conforme a promessa, os cristãos são herdeiros de Deus. Por serem propriedade do Descendente, os cristãos passaram a ser filhos de Abraão (filhos de Deus), e conforme a promessa, herdeiros. O cristão é herança e possui uma herança ( Ef 1:11 e 14).

Observe estes três aspectos pertinentes aos Cristãos:

a) Pertencem a Cristo por serem propriedade exclusiva de Deus ( 1Pe 2:9 );

b) Cristo é o Descendente e os cristãos ao serem gerados de novo descendem de Abraão, ou seja, não são filhos segundo a carne e o sangue, mas da promessa, segundo a vontade de Deus, que os gerou para uma nova e viva esperança ( Jo 1:12 -13);

c) Em Cristo o cristão obteve herança (herdeiros) ( Cl 1:12 ).

Quando a bíblia demonstra que os cristãos obtiveram herança, diz das garantias que Deus a todos aqueles que crêem em Cristo.

O direito que o cristão obtém refere-se à herança dos santos na luz ( Cl 1:12 ), e não a bens materiais. As bênçãos que os cristão receberam estão enumeradas em Efésios capítulo um ( Ef 1:3 ).

O apóstolo Paulo disse que os cristãos receberam ‘todas’ as bênçãos espirituais. Da mesma forma, Pedro reiterou: “O seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito a vida e à piedade” ( 2Pe 1:3 ).

Não é correta a idéia de que os cristãos podem e devem exigir bens materiais de Deus por serem filhos. As promessas de Deus referem-se a bênçãos eternas, sem vínculo com bens terrenos.

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Como Deus sendo justo justifica o ímpio?

Todos os questionamentos surgem porque falta a compreensão de como se dá a justiça de Deus. Como Deus justifica o ímpio ( Rm 3:26 ), se Ele mesmo afirmou que jamais justifica o ímpio ( Ex 23:7 ). Se é reto que a justiça condene o culpado, um juiz que absolve ou justifique o injusto não age injustamente?


Uma das inestimáveis doutrinas do Cristianismo é a justificação. Tal doutrina foi abordada pelo apóstolo Paulo quando escreveu aos cristãos em Roma, porém, é mal compreendida por muitos cristãos.

A incompreensão da doutrina da justificação é nítida desde os primeiros pais da igreja e, assim continuou no período da Idade Média.

Com o advento da reforma, muitos pensam que houve um retorno aos princípios do evangelho e, que daí por diante o conceito de justificação é o mesmo exposto pelos apóstolos. Grande equivoco!

Quanto ao sentido do termo traduzido por ‘justificar’ no Antigo Testamento, na sua maioria o erro decorre da conotação moral e ética que atribuem ao termo. Porém, a vertente mais perniciosa é aquela que vê no termo aspectos forense, como quando uma pessoa comparece perante um tribunal e é declarada judicialmente justa por ter uma vida coerente com as exigências legais, pois o sentido neotestamentário do termo “justificar” não guarda relação com a justiça dos tribunais, pois a justiça de Deus se dá através do seu poder.

O apóstolo Paulo é claro ao dizer que o evangelho de Cristo é poder de Deus para salvação de todo o que crê, pois no poder de Deus se descobre a justiça de Deus ( Rm 1:16 -17). Jesus ao curar um paralítico disse: “Ora, para que saibais que o Filho do homem tem sobre a terra poder de perdoar pecados (disse ao paralítico), a ti te digo: Levanta-te, toma a tua cama, e vai para tua casa” ( Lc 5:24 ). Ou seja, a justificação se dá pelo poder de Deus, sem qualquer referencia a um tribunal.

A justiça forense não justifica os réus, somente emitem uma sentença de que aquela pessoa é inocente ou culpada, o que é diferente de declarar alguém justo. Num tribunal verifica-se somente uma conduta isolada, ou seja, não se analisa a vida de quem é julgado, o que inviabiliza declarar alguém justo ou injusto.

Ao pensarmos em um tribunal divino, temos que considerar que tal tribunal foi estabelecido no Éden, quando Adão pecou. Naquele momento ele foi julgado e apenado com a morte, separação, alienação de Deus “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida” ( Rm 5:18 ).

Naquele evento todos os homens pecaram. Naquele ‘tribunal’ toda a humanidade tornou-se destituída da glória de Deus ( Rm 3:23 ; 1Co 15:22 ). Como a pena emitida no ‘tribunal’ do Éden poderia ser aplicada a Cristo se a pena não pode passar da pessoa do transgressor? Como a justiça de Cristo pode ser atribuída por Deus aos culpados?

Naquele tribunal houve uma única sentença: condenação!

E como uma pessoa condenada pode ser declarada justa por Deus se a justificação bíblica não é forense?

Por causa destas indagações, muitos teólogos, ao especular sobre a natureza da justificação consideram que o homem justificado não se torna justo, antes só é declarado justo. Ou seja, embora não seja justo, Deus faz uma declaração e trata tal homem como se fosse justo, mas que na realidade não é justo. Está é a teoria predominante nos meios acadêmicos que se firmou desde a reforma com Lutero.

Para os acadêmicos, tornar justo e declarar justo são afirmações distintas, ao afirmar que Deus declara o homem justo sem torná-lo justo.

É possível Deus verdadeiro declarar uma mentira? Não é injusto tratar o injusto como se fosse justo?

Mesmo que se considere que ser declarado justo não possui relação direta com ser justo, não se pode ignorar que a declaração procede de Deus que, além de ser justo, vela sobre a sua palavra para cumprir e, a sua palavra jamais volta vazia. Se Deus declarar justo o homem que não é justo comete injustiça, assim como também se mostra impotente para cumprir sua palavra, que seria inócua.

Portanto, em conformidade com Antigo Testamento, justificar implica na certeza de que a pessoa é inocente e, depois, declarar o que de fato é a verdade: que a pessoa é isenta de culpa, justa, que se porta conforme a lei. Se isto era exigido dos tribunais humanos que se dirá de Deus? ( Dt 25:1 )

Na Reforma protestante, Lutero procurou reafirmar um sentido forense para o termo ‘justificação’, considerando que a ‘justificação’ seria um ‘direito legal’ de se ter comunhão com Deus. Ele apresentou esta proposta para fugir da afirmação de que a justificação seria uma justiça infundida no homem. Mas, de onde tal direito ‘legal’ surgiu para que o homem lançasse mão dele?

Todos os questionamentos surgem porque falta a compreensão de como se dá a justiça de Deus. Como Deus justifica o ímpio ( Rm 3:26 ), se Ele mesmo afirmou que jamais justifica o ímpio ( Ex 23:7 ). Se é reto que a justiça condene o culpado, um juiz que absolve ou justifique o injusto não age injustamente?

Millard J. Erickson, em sua Introdução à Teologia sistemática, define que a justificação é um ato forense de imputação da justiça de Cristo ao crente’, mas que não é de fato uma infusão de santidade no indivíduo. Ele arremata dizendo que não é uma questão de tornar a pessoa justa ou de alterar a sua condição espiritual Erickson, Introdução a Teologia Sistemática, p. 409.

Neste mesmo sentido Scofield diz que o pecador crente é justificado, isto é, tratado como justo (…) A justificação é um ato de reconhecimento divino e não significa tornar uma pessoa justa… Scofield, Bíblia de Scofield com referencias, Rm 3:28, p. 1147.

O Dr. Emery H. Bancroft diz que o método da justificação é divino e não humano, visto que o homem só pode justificar o inocente e Deus justifica o culpado, sendo que ‘Deus justifica à base da misericórdia’ e o ‘homem justifica a base do mérito’. Por fim, ele alega que o homem precisa ser salvo do seu caráter, esquecendo-se que não foi o caráter que estabeleceu a alienação de Deus, mas o pecado. Bancroft, Teologia Elementar, p. 256.

Certo é que, quanto ao fundamento, a justificação tem por base a justiça de Cristo, pois o homem é incapaz de promover a sua justificação. Embora seja verdadeira a premissa de que Cristo se fez justiça para a humanidade, persiste a pergunta: como se processa a justiça de Deus ao justificar o injusto, sendo Ele absolutamente justo?

A resposta encontra-se no evangelho, ou seja, no poder de Deus.

A necessidade de justificação se deu a partir da queda de Adão. Com a desobediência de Adão o pecado entrou no mundo e a humanidade herdou uma natureza alienada de Deus, uma natureza separada e, consequentemente, toda a humanidade é injusta desde seu nascimento ( Sl 51:5 ; Sl 58:3 ; Gn 8:21 ).

A justiça é reta: a alma que pecar esta mesma morrerá ( Ez 18:20 ). De igual modo, a bíblia deixa claro que todos pecaram e foram destituídos de compartilhar da comunhão com Deus ( Rm 3:23 ). Neste sentido, todos devem ser assalariados com a morte, pois a pena não pode passar da pessoa do transgressor e Deus jamais declara o ímpio justo.

Embora Deus seja misericordioso, a sua justiça não tem por base a misericórdia, e sim o seu poder. Como a todos os homens está determinado morrerem uma só vez, vindo após isto o juízo de obras que se realizará diante do grande trono branco, juízo onde ninguém será justificado tendo em vista a condenação do Éden “E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo…” ( Hb 9:27 ; Ap 20:12 -13 ), o evangelho é a providencia divina para que o homem seja apenado com Cristo, e não com o mundo.

Quando o homem crê em Cristo conforme o que as Escrituras dizem, naquele instante toma sobre si a própria cruz e segue após Cristo “E quem não toma a sua cruz, e não segue após mim, não é digno de mim” ( Mt 10:38 ). Ao crer, o homem torna-se participante da carne e do sangue de Cristo, momento que lhe é comunicado as aflições, vitupérios e a morte de Cristo “Para conhecê-lo, e à virtude da sua ressurreição, e à comunicação de suas aflições, sendo feito conforme à sua morte ( Fl 3:10 ).

Quem crê sai juntamente com Cristo ao arraial e leva sobre si o vitupério de Cristo, pois é crucificado e morto juntamente com Cristo “Saiamos, pois, a ele fora do arraial, levando o seu vitupério ( Hb 13:13 ). Quando o homem é morto com Cristo, Deus executa justiça e, consequentemente a sua palavra, pois a alma que pecar esta mesma morrerá, ou seja, a penalidade não passa da pessoa do transgressor, pois quem está morto está justificado do pecado.

Quando o homem crê em Cristo, ou seja, admite (confissão) que Ele é o Filho do Deus vivo, é porque também admitiu (confissão) que é pecador. Neste instante o homem é crucificado, morre e é sepultado com Cristo “Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte? De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte ( Rm 6:3 – 4).

Ou seja, a justiça exigida por Deus é estabelecida, pois a pena prevista não passa da pessoa do transgressor. Embora a morte física de Cristo tenha sido substitutiva, contudo a cruz, a morte e o sepultamento não o são, pois os que creem são participantes da circuncisão de Cristo, que é o despojar de toda a carne ( Cl 2:11 ).

Através da morte de Cristo, o homem culpado que surgiu através da semente de Adão é apenado com a morte, de sorte que Deus jamais justifica o ímpio. A alma que pecar, esta mesma morrerá e, através da morte com Cristo a determinação divina se concretiza. A ira divina requer juízo e a sua misericórdia não impede que esse juízo seja executado: o homem precisa morrer com Cristo.

É por isso que o apóstolo Paulo diz: “Porque aquele que está morto está justificado do pecado” ( Rm 6:7 ), pois o velho homem foi crucificado, morto e sepultado conforme merecia. O homem gerado segundo a semente corruptível de Adão jamais receberá de Deus a declaração de justo. Deus jamais justifica o ímpio, pois ao ímpio não há paz, antes espada, morte.

Demonstramos que Deus é justo, agora falta demonstrar como Ele é justificador dos que creem em Cristo “Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” ( Rm 3:26 ).

Quando o pecador morre com Cristo Deus é justo, quando ressurge um novo homem dentre os mortos com Cristo pelo poder de Deus, Deus é justificador! Sem contradição alguma! Justo e justificador é o Senhor!

No momento que é criado um novo homem, Deus o declara justo, livre de culpa, pois o novo homem é criado em perfeita justiça e santidade ( Ef 4:24 ). A velha criatura jamais é declarada justa, mas aqueles que recebem poder para serem feitos filhos, estes Deus os declara justos.

Quando Deus olha o homem ressurreto com Cristo, não precisa olhar para Cristo para declará-lo justo, visto que ao olhar para o cristão Deus vê um dos seus filhos, gerado segundo a palavra da verdade. Deus só declara justos os nascidos de novo e, para os de novo nascidos, eis que tudo se fez novo.

Quando Deus anuncia que jamais justifica o ímpio, temos que considerar que Ele se refere ao homem gerado de Adão. Quando lemos o apóstolo Paulo afirmando que Deus justifica o ímpio temos um novo contexto, pois ele faz referencia a fé que o ímpio professa “Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça” ( Rm 4:5 ).

A bíblia demonstra que Jesus ressurgiu para a nossa justificação “O qual por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação ( Rm 4:25 ), pois ao ressurgir com Cristo, o homem é criado justo e declarado justo, pois tal declaração implica em uma atestado divino de que a nova criatura em Cristo de fato foi criada em verdade e justiça , portanto, é justa.

Assim como o pecado de Adão foi imputado à humanidade por causa da semente corruptível, assim também a justiça de Cristo é imputada ao homem em decorrência da semente incorruptível, pois na regeneração os homens passam a ser participantes da natureza divina, sendo justos e perfeitos como o é o Pai celeste quando ressurgem dentre os mortos com Cristo ( Rm 1:4 ).

O meio pelo qual o homem se apropria da justificação é somente pela fé. Quando dizemos que é pela fé, não quero dizer com isso que é a crença do homem que opera tal obra, antes é a fé que havia de se manifestar, Cristo, o poder de Deus, o evangelho. Como já mencionamos. A justificação se dá em decorrência do poder de Deus, ou seja, basta confiar no poder de Deus contido no evangelho “Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos” ( Cl 2:12 ).

É por isso que Jesus perdoou os pecados do paralitico com base no seu poder, visto que a justificação se dá através do poder que trás à luz o novo homem, e não conforme muitos apregoam, de que a justificação se dá através de princípios forenses “Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” ( Rm 9:21 ).

O mesmo poder que foi manifesto em Cristo ressuscitando-o dentre os mortos é o poder que opera naqueles que creem na força do poder de Deus, que é o evangelho. Todos quantos já ressurgiram são de fato justificados, pois além de serem declarados justos, também foram feitos justos “E qual a sobre-excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder, que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus” ( Ef 1:19 -20 ; 1Co 1:18 e 24).

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Deus é justo e justificador

É assente entre alguns teólogos que Deus declara o homem ‘como se fosse’ justo por meio da fé em Cristo, ou seja, estabeleceram uma ressalva. Para alguns, e dentre eles destacamos o Dr. Scofield, ‘Deus declara o pecador como sendo justo’, ou seja, ele afirma que Deus ‘não torna o homem justo’.


A palavra ‘justificação’ (Dikaiosis) quando empregada pelo apóstolo Paulo refere-se ao que é verdadeiro, da mesma forma que o salmista Davi utiliza a palavra ‘justificação’ (hitsdik) para fazer referência a Deus porque Ele é verdadeiramente Justo.

O apóstolo Paulo utiliza uma palavra grega que tem o mesmo sentido da palavra hebraica ‘justificação’ para fazer referência aos cristãos porque eles são verdadeiramente justos “…de modo que és justificado quando falas…” ( Rm 3:4 ; Sl 51:4 ). Os que creem são de novo criados em uma condição nova e específica: em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ).

Os termos usados no Novo Testamento para justificação, no grego, são: Dikaios (justo); Dikaiosis (justificação, defesa, reclamação de um direito), e; Dikaioo (ter ou reconhecer como justo). No Velho Testamento o termo é hitsdik, que significa declarar judicialmente que alguém está em conformidade com a lei ( Ex 23:7 ; Dt 25:1 ; Pv 17:15 ; Is 5:23 ).

Quando Deus declara que o homem é justo, ou seja, justifica, declara o que é verdadeiro, pois Deus não pode mentir.

Por que a afirmação acima? Porque é assente entre alguns teólogos que Deus declara o homem ‘como se fosse’ justo por meio da fé em Cristo, ou seja, faz uma ressalva. Para alguns, e dentre eles destacamos o Dr. Scofield, ‘Deus declara o pecador como sendo justo’, ou seja, ele afirma categoricamente que Deus ‘não torna o homem justo’.

“O pecador crente é justificado, isto é, tratado como justo (…) A justificação é um ato de reconhecimento divino e não significa tornar uma pessoa justa…” Bíblia de Scofield com Referências, Rm 3:28 , pág. 1147.

Ora, Deus jamais declararia que o homem é justo, sendo que efetivamente não está na condição de justo. É inconcebível Deus declarar e tratar como justo aquele que Ele não torna justo. Como Deus poderia reconhecer algo que não é como se fosse?

Sabemos que Deus tem poder de chamar a existência as coisas que não são como se elas já fossem ( Rm 4:16 ), porém, jamais declararia como sendo justo o pecador “De palavras de falsidade te afastarás, e não matarás o inocente e o justo; porque não justificarei o ímpio( Ex 23:7 ).

Se Deus não justifica o ímpio, como é possível que o pecador seja declarado justo?

Bem afirmou o apóstolo Paulo, que ‘o justificado do pecado está morto’ ( Rm 6:2 -7). Se a primeira proposição é verdadeira, a segunda também o é, visto que a segunda depende da primeira.

Desta forma a palavra ‘justificado’ traduz uma ideia verdadeira, visto que, todos que creram morreram com Cristo.

Quando o apóstolo Paulo utiliza a palavra ‘justificação’, tem em mente algo que é verdadeiro, ou seja, aquele que está morto está plenamente justificado do pecado!

Se o velho homem foi crucificado com Cristo, quem é justificado (declarado justo) por Deus?

Sabemos que Cristo foi entregue por causa dos pecados da humanidade, e que, quando creem n’Ele, morrem e são sepultados.

Sabemos que Jesus ressurgiu dentre os mortos, e, que, com Ele os que creram ressurgiram “Portanto, se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus” ( Cl 3:1 ).

A ‘justificação’ (declaração de justo) recai sobre o novo homem que ressurge com Cristo dentre os mortos. Somente a nova criatura é declarada justa perante Deus, pois foi de novo criada em verdadeira justiça e santidade.

O pecador jamais será declarado justo, pois o velho homem, que é o pecador, será crucificado com Cristo “Pois sabemos isto, que o nosso velho homem foi com ele crucificado…” ( Rm 6:6 ). O pecador nunca será justificado perante Deus, antes morre através da cruz de Cristo.

O pecador que aceita o sacrifício de Cristo por meio da fé (evangelho) morre juntamente com Ele, e quando ressurge, ressurge uma nova criatura (criada) segundo Deus em verdadeira justiça e santidade. Este novo homem é declarado justo diante de Deus.

As palavras traduzidas por ‘justificar’ e ‘justificação’ significa ‘tornar justo’, ‘fazer justo’, ‘declarar justo’, ‘declarar reto’ ou ‘declarar livre de culpa e de merecimento de castigo’. Quando Deus cria o novo homem em verdadeira justiça e santidade, executa todas as ações descritas nos verbos acima.

Somente aquele que é criado justo pode receber esta declaração da parte de Deus, ou seja, só o novo homem, criado segundo Deus pode receber de Deus a declaração: este é justo.

“E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade…” ( Ef 4:24 ).

O novo homem criado por Deus, por meio de Cristo Jesus, ou seja, que ressurgiu dentre os mortos, é criado em verdadeira justiça e santidade, portanto, quando Deus o declara justo, fala do que é verdadeiro, de uma condição plena e efetiva hoje.

“Ele foi entregue por nossos pecados, e ressuscitou para a nossa justificação” ( Rm 4:25 )

“… porque aquele que está morto está justificado do pecado” ( Rm 6:7 )

Ao observar estes dois versículos, percebe-se que Jesus foi entregue por causa do pecado dos pecadores (se a humanidade não houvesse pecado, não haveria a necessidade de Cristo morrer), e ao morrerem com Ele, cumpre-se a justiça de Deus, visto que o pecador recebe o que está determinado pela justiça de Deus: a morte.

Em seguida, aquele que está morto é gerado de Deus e ressurge para a glória de Deus Pai, uma vez que, os que creem ressurgem com Cristo. Desta forma é justificado, ou declarado justo, pois para esse fim Cristo ressurgiu dentre os mortos: ‘ressurgiu para a nossa justificação’ ( Rm 4:25 ).

Se alguém não aceitar a argumentação de que os cristãos são de fato justos, deve concluir também que Cristo não ressurgiu. Se Cristo ressurgiu, é fato que os cristãos ressurgiram com Ele, e são declarados justos.

Quando o velho homem morre com Cristo, Deus é justo. Quando Deus cria o novo homem Ele é justificador. Sem contradição alguma: Ele é justo e justificador.

A bíblia diz que todos quantos creem em Jesus recebem poder para serem feitos (criados), filhos de Deus. O velho homem foi crucificado, morto, sepultado e dentre os mortos ressurge um novo homem. Este novo homem é declarado justo.

Paulo expressou que ‘aquele que está morto para o pecado é justo diante de Deus’ porque a condição de morto para o pecado é o mesmo que estar ‘vivo’ para Deus. Aquele que é criado de novo por meio do evangelho, que é poder de Deus para todo aquele que crê, é justificado (declarado justo), pois é uma nova criatura criada em verdadeira justiça e santidade.

Pois isso mesmo Paulo declara: “O qual por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação” ( Rm 4:25 ).

O homem que é declarado justo diante de Deus não é aquele que morreu, antes o que ressurgiu dentre os mortos, ou seja, a nova criatura gerada de novo em Cristo.

Quando o apóstolo Paulo fala que aquele que está morto está justificado do pecado, tem em mente a ideia do versículo seguinte: “Pois é Cristo quem morreu, ou antes, quem ressuscitou dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós” ( Rm 8:34 ).

Quem está morto para o pecado, (ou antes) aquele que ressurgiu com Cristo foi justificado, ou seja, declarado justo perante Deus.

Alguns pensam que a declaração de justiça por parte de Deus há de se efetivar no futuro, e que, no presente, o homem só possui uma declaração do que posteriormente se dará. Não é assim a justificação.

“A justificação é uma declaração de Deus a respeito da condição da nova criatura perante Ele”

Todos quantos crerem recebem poder para serem feitos filhos de Deus, filhos nascidos não da vontade da carne, nem da vontade do varão ou do sangue. Estes são nascidos do Espírito, criados segundo Deus em verdadeira Justiça e Santidade ( Jo 1:12 -13).

Visto que, somente aqueles que nascem em justiça e santidade são verdadeiros, são declarados justos diante de Deus ( Ef 4:24 ). Deus é justificador daqueles que creem em Cristo.

O salmista só podia reconhecer os seus erros como forma de declarar a justiça de Deus. Qualquer homem não pode ir além do que fez o salmista.

Deus, porém, antes de declarar o homem justo faz algo extraordinário: a pena predeterminada é aplicada sobre os culpados (morte), gera uma nova criatura por meio do seu poder (o evangelho), e declara o novo homem justo diante d’Ele.

Através da justificação a multiforme sabedoria de Deus torna-se conhecida entre os principados e potestades!

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Aquele que está ‘morto’ está Justificado

A pena não pode passar da pessoa do transgressor, ou seja, outra pessoa não pode ser punida em lugar do transgressor. A determinação divina é contundente: a alma que pecar, esta deve morrer! O que fazer da realidade seguinte: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” ( Rm 3:23 ). Como todos pecaram, é certo que todos devem morrer.


Aquele que está ‘morto’ está Justificado

Já vimos quem são os justificados (nós) ( Rm 6:2 ).

Também vimos qual a melhor idéia a se traduzir por justificação. Agora veremos qual o ‘objetivo’ de estarmos mortos em Cristo e ‘porquê’ os mortos para o pecado são justificados.

Este versículo contém três afirmações a respeito de nosso Deus: “Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” ( Rm 3:26 ).

Jesus é a justiça de Deus dada aos homens com o evidente propósito de que Deus seja justo e justificador daqueles que crêem em Cristo.

O versículo 26 de Romanos 3 aponta os motivos pelos quais Deus revelou Cristo aos homens:

a) Para demonstrar a sua justiça de Deus neste tempo presente;

b) Para Ele ser justo, e;

c) Para Ele ser justificador.

A primeira afirmação demonstra que Cristo é a Justiça de Deus neste tempo presente! Sem contradição alguma.

“Mas agora se manifestou sem a lei a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas” ( Rm 3:21 ).

Neste tempo presente, ou seja, o agora, Cristo se manifestou aos homens, conforme o que foi dito pelos profetas e pela lei. Ele é a justiça de Deus concedida ou manifesta aos homens.

Para tomar posse desta justiça, todos os homens devem crer em Cristo, sem exceção (judeus e gentios) ( Rm 3:22 ).

Porém, surge um entrave: como Deus sendo Justo e Verdadeiro justifica o pecador?

De acordo com a lei, a justiça e a retidão temos:

  • Deus não justifica o ímpio ( Ex 23:7 );
  • A alma que pecar está morrerá ( Ez 18:20 );
  • Deus não tem o culpado por inocente ( Na 1:3 );

A pena não pode passar da pessoa do transgressor, ou seja, outra pessoa não pode ser punida em lugar do transgressor.

A determinação divina é contundente: a alma que pecar, esta deve morrer! O que fazer da realidade seguinte: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” ( Rm 3:23 ). Como todos pecaram, é certo que todos devem morrer.

Deus não tem o culpado por inocente, e de que maneira ele justifica o homem sem ferir a sua própria palavra?

Se a pena não pode passar do transgressor, como Jesus morreu no lugar do pecador?

Se considerarmos as quatro premissas acima, só é possível declarar alguém justo, quando este alguém nunca tenha cometido pecado.

Quem cometeu pecado deve ter certa a sua morte. Quem cometeu pecado não será tido por inocente. A quem cometeu pecado só resta a punição, pois outrem não pode sofrer a pena em seu lugar.

Como declarar justo o pecador sem ferir as premissas acima?

“A alma que pecar, essa morrerá. O filho não levará a iniqüidade do pai, nem o pai levará a iniqüidade do filho. A justiça do justo ficará sobre ele e a impiedade do ímpio cairá sobre ele” ( Ez 18:20 );

“O SENHOR é tardio em irar-se, mas grande em poder, e ao culpado não tem por inocente…” ( Na 1:3 ).

Como a justiça de Deus é imputada ao homem, se a justiça do justo ficará sobre o justo e a impiedade do ímpio sobre o ímpio? Como Cristo levou sobre si os pecados da humanidade, se o filho não pode levar a iniqüidade do Pai, e nem o Pai a iniqüidade do filho?

Esta pergunta somente será respondida quando entendermos plenamente a doutrina da justificação em Cristo.

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Como Davi utilizou a palavra ‘justificação’

Através da citação do salmista Davi é possível dimensionar a extensão das expressões ‘justificar’ e ‘justificação’, resta que os cristãos deveriam considerar como sendo certa a morte deles com Cristo ( Rm 6:2 -3 e 7 e 11), e que, da mesma maneira é certa a justificação deles, visto que, aquele que está morto também está justificado.


Aplicação prática da palavra ‘Justificação’

A palavra ‘justificado’ é empregada pelo salmista Davi para dar a conhecer aos seus leitores que Deus é justo (justificado). Como o salmista sabe que Deus é justo, isto motiva o salmista a admitir a sua condição. Desta forma, verifica-se que a palavra ‘justificado’ (declarar justo) somente se aplica ao que é verdadeiro em essência.

Parece ser redundante, porém não é: Davi declara que Deus é justo porque Ele é verdadeiramente justo, e não por simplesmente o salmista entender que é deste modo.

O apóstolo Paulo ao declarar que ‘Deus é verdadeiro’ se fundamenta na declaração do rei Davi, ou seja, ao declararmos algo que diz respeito ao nosso Deus, temos plena consciência de que é a verdade, pois é o que a Escritura nos diz.

“Aquele que aceitou o seu testemunho, esse confirmou que Deus é verdadeiro” ( Jo 3:33 )

Chegamos a um ponto crucial: se o apóstolo Paulo utiliza a palavra ‘justificado’ (declarar justo) para expressar algo a respeito dos cristãos, tal declaração também tem que ser verdadeira, ou seja, espelhar a realidade pertinente aos cristãos.

Não há como declarar que alguém está justificado sem que esta pessoa não é efetivamente justa, ou seja, os cristãos efetivamente morreram “Nós, que estamos mortos para o pecado…”, e foram declarados justos “… porque aquele que está morto está justificado do pecado”.

Quando o apóstolo Paulo escreve que os cristãos foram declarados justos, ele não faz referência a uma anistia, ou a uma absolvição, ou a uma concessão, ou a ter em conta ou a um faz de conta. Paulo faz referência a algo que é pleno de todo: aquele que está morto está justificado.

Quem não é cristão não faz jus a tal declaração, pois é certo que este não morreu para o pecado. É possível que alguma pessoa que não esteja inclusa no pronome da primeira pessoa do plural de Romanos seis, verso dois ‘Nós…’ ( Rm 6:2 ), receba a declaração de que é justa? Não! Por quê? Porque esta pessoa não esta morta para o pecado!

Quem não está morto para o pecado não pode ser justificado (declarado justo), pois tal afirmação não seria verdadeira.

Não há como aplicar a palavra ‘justificado’ a quem não morreu, visto que todo aquele que é nascido da carne, não é verdadeiro “… e todo o homem mentiroso como está escrito” ( Rm 3:4 ).

Todos os homens nascidos de Adão não são verdadeiros, porém Deus é verdadeiro.

A condição daquele que não esta em Cristo é mentira, em contrate com Deus, que é verdadeiro “Mas, se por causa da minha mentira sobressai a verdade de Deus para a sua glória…” ( Rm 3:7 ).

Ao citar o salmo 51, verso 4, o apóstolo Paulo estabelece o parâmetro necessário para compreendermos a extensão da palavra ‘justificar’ quando ela é empregada por ele.

O apóstolo Paulo só utiliza a palavra ‘justificar’ para algo que é categoricamente verdadeiro. Se houvesse uma sombra de dúvida, ou uma possibilidade daquele que está morto não estar justificado perante Deus, então Paulo não utilizaria a palavra ‘justificar’.

É certo que ‘justificar’ não se refere a uma conduta divina condescendente em declarar um injusto como sendo alguém justo.

É possível a Deus, que é verdadeiro, declarar justa uma pessoa não justa? Concluiremos de outro modo: Deus não justifica aquele que está vivo para o pecado.

Já que, através da citação do salmista Davi é possível dimensionar a extensão das expressões ‘justificar’ e ‘justificação’, resta que os cristãos deveriam considerar como sendo certa a morte deles com Cristo ( Rm 6:2 -3 e 7 e 11), e que, da mesma maneira é certa a justificação deles, visto que, aquele que está morto também está justificado.

Se Paulo recomenda aos cristãos que assumam efetivamente a condição de mortos para o pecado ( Rm 6:11 ), é porque precisavam estar cônscios de que estavam plenamente justificados perante Deus “Sendo, pois, justificados pela fé…” ( Rm 5:1 ).

Os cristãos são justos perante Deus pelos seguintes motivos:

a) É Deus quem nos justifica “É Deus quem os justifica” ( Rm 8:32 );

b) Temos paz com Deus, evidência real de que fomos justificados pela fé “Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo” ( Rm 5:1 ), e;

c) Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, pois fomos plenamente justificados “Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus…” ( Rm 8:1 ).

Não está justificado aquele que pesa sobre ele condenação. Não está justificado aquele que ainda está em inimizade com Deus. Não está justificado aquele que não confia em Deus, que pode justificá-lo.

Se uma pessoa não crê no que Deus já lhe providenciou salvação gratuita, resta que esta pessoa não crê em Cristo Jesus, pois todas estas bênçãos foram providenciadas na cruz.

O apóstolo demonstra que só é justificado aquele que está efetivamente morto para o pecado, e recomenda aos cristãos que se conscientizassem de tal condição ( Rm 6:11 ).

Só aqueles que foram crucificados com Cristo, plantados com Ele, sepultados pelo batismo na morte e que ressurgiram com Ele, é que são justificados.

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