Duas portas, dois caminhos

A Bíblia ensina que todos os homens entram pela porta larga, quando vem ao mundo, e estão em um caminho largo, que os conduzirá à perdição.

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O Livro de Jó – Um homem sincero, reto, temente e que se desviava do mal

O caráter e o comportamento de Jó eram superiores ao dos seus semelhantes, mas não foi este quesito que o fez aceitável diante de Deus. Com efeito, sem fé é impossível agradar a Deus (Hebreus 11:6), de modo que, mesmo na aflição, Jó mantinha a sua esperança firme: que o seu Redentor vivia e que haveria de estar sobre a terra!


Quem conduz a trama no Livro de Jó?

Parte IV

Para compreendermos o Livro de Jó é imprescindível responder, com segurança, à pergunta: É Deus ou, Satanás, quem conduz a trama do Livro de Jó?

Várias releituras da história de Jó têm início, descrevendo-o como um próspero fazendeiro, possuidor de diversos rebanhos, de variados animais, com muitos escravos e uma grande família. Em seguida, em algumas dessas releituras, o termo ‘repentinamente’[1] surge focando Satanás, um inimigo que, sem ser convidado, comparece diante de Deus acusando Jó de ser submisso a Deus, somente por estar cercado de bens.

Não foi obra do acaso[2] ou, em decorrência de uma intromissão do acusador, que Jó passou à condição de protagonista da história, cujo livro leva o seu nome.

Quem estabelece Jó como protagonista é o próprio Criador que introduz Jó no drama, ao notificar o acusador de que não havia ninguém sobre a terra que fosse semelhante a ele, quanto à sinceridade, à retidão e ao temor a Deus.

Como personagem da história, Deus está presente, muito antes, da narrativa do escritor. Deus se faz presente na narrativa, muito antes dos filhos de Deus se apresentarem perante Ele (Jó 1:8).

O leitor deve visualizar que Deus permeia o enredo da história de Jó, antes mesmo da fundação do mundo (Jó 38:4) ou, até mesmo, antes da criação dos anjos (Jó 38:7), sendo certo que todas as coisas estão nuas e patentes aos Seus olhos (Hebreus 4:13).

Deus é o primeiro personagem em cena, quando questiona uma de suas criaturas: – “De onde vens?” Diante d’Aquele que todas as coisas estão nuas e patentes, Satanás respondeu: – “De rodear a terra e passear por ela”.

De tudo o que Satanás observou ao rodear e passear pela terra, Deus destaca um homem ímpar: Jó.  Deus convocou o seu servo Jó para evidenciar a sua Justiça, quando perguntou: – “Viste o meu servo Jó?”. Quando Deus introduziu o nome de Jó na conversa, o Seu servo foi escolhido para evidenciar uma verdade que não se compara com o seu sofrimento.

“Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada”. (Romanos 8:18)

A resposta evasiva dada pelo inimigo à pergunta ‘De onde vens’, complementada pela pergunta: ‘Observaste a meu servo Jó?’, revela o quanto Satanás estava à espreita de Jó. Deus, que tudo sabe, demonstrou, através da segunda pergunta, que Satanás estava observando os passos de Jó.

Quando Deus faz uma pergunta às suas criaturas, não é porque desconhece algo, antes a pergunta tem por objetivo evidenciar as intenções do coração. Satanás estava ao derredor de Jó, mas a pergunta de Deus deixa claro que nada escapa aos seus olhos e que estava velando pelo seu servo: “Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar” (I Pedro 5:8).

Os eventos na narrativa do Livro de Jó são conduzidos com maestria por Deus e, em momento algum, Satanás tem o controle. O propósito de Deus em conduzir todos os eventos que afetaram a vida e trouxe sofrimento ao patriarca Jó, teve o condão de deixar uma lição para que a humanidade compreendesse a Sua justiça.

Um homem sincero e reto

Quem era Jó, o personagem principal dessa história maravilhosa?

Geralmente, os estudiosos definem Jó com duas palavras: rico e justo e enfatizam o fato de ele ter perdido tudo, repentinamente. A preocupação maior de muitos eruditos se fixa em estabelecer a localização da cidade de Uz, onde Jó viveu e, em seguida, mensurar sua riqueza.[3]

Mas, se considerarmos a exortação de Cristo, de que a vida do homem não consiste na abundância de bens que ele possui (Lucas 12:15), percebe-se que a sinceridade, retidão, integridade e temor a Deus era a verdadeira riqueza de Jó.

Deus deu testemunho de Jó:

  1. Sincero e reto: os termos hebraicos רשיו םת traduzidos por ‘sincero’ e ‘reto’ identificam Jó como ‘perfeitamente correto’, ou seja, reto, honesto, direito;
  2. Temente: o termo hebraico ארֵיָ , transliterado ‘yare’, significa reverente, respeitoso, obediente;
  3. Desvia-se do mal: o termo hebraico רסוּ, transliterado ‘sur’ é o mesmo que afastar e, nesse caso especifico, do mal.

Deus deu testemunho do caráter de Jó, o que envolve a condição moral, comportamento correto para com os seus semelhantes, ou seja, reto e sincero.

O quesito ‘temente’, refere-se à submissão de Jó a Deus, na qualidade de servo e no que implica ser temente a Deus? Implica na imputação da justiça divina sobre Jó, ou seja, Jó era justo diante de Deus!

Jó era um homem perfeitamente correto nas relações com os seus semelhantes e justo diante de Deus. A condição ‘justo’, pertinente a Jó, depreende-se de outras passagens bíblicas. Por exemplo, os Salmos:

“O SENHOR se agrada dos que o temem e

dos que esperam na sua misericórdia”.  (Salmos 147:11)

O homem que teme ao Senhor lhe é agradável, ou seja, é aceito por Deus. Através do paralelismo ‘sintético’, no qual o verso do Salmo em comento foi construído, verifica-se que ‘temer’ ao Senhor é o mesmo que aguardar pela Sua misericórdia.

“Eis que os olhos do SENHOR estão sobre os que o temem,

sobre os que esperam na sua misericórdia”. (Salmos 33:18)

‘Temer’ a Deus é o mesmo que ‘esperar’ n’Ele. ‘Temor’ a Deus não é sentimento, é ensinamento, doutrina que demanda obediência. É equivoco entender que ‘temer’ a Deus é decorrente de ‘medo santo’ e ‘respeitoso’. Entender o termo ‘temor’, tradução do termo hebraico yará, como medo é má leitura de uma composição literária repleta de figuras, paralelismos e metáforas.

“Vinde, filhos, e escutai-me;

eu vos ensinarei o temor do Senhor”. (Salmos 34:11)

“Companheiro sou de todos os que te temem e

dos que guardam os teus preceitos”. (Salmos 119:63);

“BEM-AVENTURADO aquele que teme ao SENHOR e

anda nos seus caminhos” (Salmos 128:1).

Deus deve ser temido (obedecido) porque, com Ele, está o perdão, não porque devemos ficar aterrorizados com a Sua majestade e infinito poder:

“Mas, contigo está o perdão, para que sejas temido” (Salmos 130:4);

“Por isso, o SENHOR esperará, para ter misericórdia de vós; e por isso se levantará, para se compadecer de vós, porque o SENHOR é um Deus de equidade; bem-aventurados todos os que nele esperam” (Isaías 30:18);

“Seja a tua misericórdia, SENHOR, sobre nós, como em ti esperamos” (Salmos 33:22).

Através dessa análise, podemos afirmar, categoricamente, que Jó era justo diante de Deus, mas não pelo seu correto e perfeito comportamento para com os seus semelhantes, mas, porque esperava em Deus.

Jó era justo porque confiava em Deus, assim como Abraão confiava, não porque o seu comportamento era irrepreensível. Foi através de ‘esperar’ em Deus, o mesmo que ‘temer’, que a justiça de Deus foi atribuída a Jó (Romanos 4:2-3), não por causa de suas ações ‘irrepreensíveis’.

Sabemos que Deus ‘justifica’, tanto o que trabalha, quanto o que não trabalha ou, que Deus justifica tanto a judeus, quanto a gregos, pois, a justiça de Deus é creditada a qualquer que crê em Deus, já que Ele justifica a todo e qualquer que O obedece (Romanos 4:5).

Abraão creu em Deus quando lhe foi anunciado o evangelho, que diz: “Em ti serão benditas todas as nações” (Gálatas 3:8) e Jó demonstrou crer em Deus, quando confessou:

“Porque eu sei que o meu Redentor vive e que por fim se levantará sobre a terra. E depois de consumida a minha pele, contudo, ainda, em minha carne verei a Deus” (Jó 19:25-26).

Jó possuía um comportamento inigualável perante os homens, mas o bom testemunho que ele alcançou é decorrente da confiança que nutria em Deus, assim como muitos outros antigos alcançaram bom testemunho (Hebreus 11:2).

Apesar de o comportamento de Jó ser superior até mesmo às exigências que constam da lei de Moisés, o testemunho que Deus lhe dera não tinha por base o seu comportamento, mas, a promessa de Deus.

Percebe-se que a promessa de que Jó tinha conhecimento é anterior aos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó. A promessa que Jó conhecia não foi posterior ao reinado de Davi, se não a confissão dele seria: – “Eu sei que o meu redentor vive e que por fim se levantará na casa de Davi”.

A confiança que Jó nutria em Deus, decorre de uma promessa, antiquíssima, feita lá no Éden, quando Deus deu um veredicto à serpente: – “E porei inimizade entre ti e a mulher e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gênesis 3:15).

Abraão creu em Deus que teria um filho de suas entranhas e isso lhe foi justo (Gênesis 15:6) e quando Deus pediu Isaque, em holocausto, Deus reitera a promessa a Abraão, por ele ter obedecido ao mandado de Deus (Gênesis 22:18). De modo que as Escrituras dão testemunho de que Abraão obedeceu às leis de Deus, muito antes de ter sido dada a lei de Moisés (Gênesis 26:5).

O caráter e o comportamento de Jó eram superiores ao dos seus semelhantes, mas não foi este quesito que o fez aceitável diante de Deus. Com efeito, sem fé é impossível agradar a Deus (Hebreus 11:6), de modo que, mesmo na aflição, Jó mantinha a sua esperança firme: que o seu Redentor vivia e que haveria de estar sobre a terra!

Quando Jó expressa a sua confiança em Deus, temos reunido os elementos pelo qual Deus declara Jó justo: “Ainda que estivessem no meio dela estes três homens, Noé, Daniel e Jó, eles, pela sua justiça, livrariam apenas as suas almas, diz o Senhor DEUS” (Ezequiel 14:14).

O termo justo aplicado a Jó não se refere ao seu comportamento ou, ao seu caráter, antes remete a sua condição diante de Deus. E essa condição não se alcança por meio de boas ações ou, por bom comportamento, mas, somente sendo obediente a Deus.

A obediência a Deus dava a condição de justo, mas a palavra do Senhor era a causa de Jó desviar-se do mal. Diante de Deus, Jó era inculpável. Nenhuma condenação pesava sobre Jó, porque Deus é misericórdia e verdade, de modo que Jó teve expiado o seu pecado: “Pela misericórdia e pela verdade se expia a culpa e pelo temor do SENHOR os homens evitam o mal” (Provérbios 16:6).

‘Desviar-se do mal’ era o objetivo de Jó, visto que Ele era obediente. Mas, como ser temente, se não haver o mando de Deus? Sem o temor do Senhor, é impossível ao homem desviar-se do mal, pois a palavra de Deus é água que lava o pecador e o orienta na difícil tarefa de rejeitar o mal e apegar-se ao bem.

 

Satanás é posto em cena

A narrativa introduz Satanás na história de Jó como um ente pessoal, que se apresenta diante de Deus, quando os ‘filhos de Deus’ vieram adorá-Lo. Satanás é, assim, chamado, não por ser um título ou um nome específico, mas, pela função que desempenha na história: adversário.

Satanás é um ente pessoal que, ao comparecer, juntamente, com os filhos de Deus, é interpelado, diretamente, por Deus: – “De onde vens?” A resposta do adversário não é fruto de uma composição folclórica de um personagem irreal, inventada pelo narrador.

Quando o Livro de Jó introduz a figura do ‘acusador’, não estamos falando de um emissário de Satanás como o foi Hamã, em que as Escrituras nomeiam como ‘adversário’ (Ester 7:4). O adversário de Jó não é um homem, pois, além de estar à espreita de Jó, era capaz de mensurar e comparar a integridade de Jó com a dos demais homens.

O adversário de Jó não pertence à corte de Deus, como o anjo da matança dos primogênitos do Egito.

Enquanto os anjos são mensageiros que cumprem o mando de Deus, o acusador do Livro de Jó se insurge contra Jó, o que demonstra claramente que se trata de um ser que se opõe aos homens: “Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar” (I Pedro 5:8).

O diálogo entre Deus e Satanás tem, de um lado, o Criador e, do outro, uma criatura, ou seja, não há que se dar vazão à ideia de que Satanás é o arqui-inimigo de Deus ou, ao pensamento dualista, do bem versus o mal, pois a criatura jamais pode se igualar ao Criador, para que possa fazer frente a Ele, como seu arqui-inimigo.

Mas, onde e quando Satanás apresentou-se diante de Deus?

A Bíblia é clara ao nos informar que Deus habita a eternidade, ou seja, diz de uma singularidade que não se mensura, através de unidades de medida como tempo e espaço.

Deus é o ‘Já’, o ‘agora’, pois todas as coisas que hão de ser, são como se já fossem: “O que é, já foi; e o que há de ser, também já foi; e Deus pede conta do que passou” (Eclesiastes 3:15); “Porque mil anos são aos teus olhos como o dia de ontem, que passou, e como a vigília da noite” (Salmos 90:4).

Satanás apresentou-se diante de Deus um em certo dia, especificamente, quando os ‘filhos de Deus’ vieram apresentar-se diante d’Ele, ou seja, ‘certo dia’ não diz da eternidade, o que se conclui que tal evento não se deu nos céus, pois os céus são o trono de Deus e Deus abriga a própria eternidade. Nos céus não há elementos como dia e noite, pois, lá o que está estabelecido é a própria eternidade: “Porque, assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como, também, com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e para vivificar o coração dos contritos” (Isaías 57:15).

O evento descrito no Livro de Jó foi plotado no espaço/tempo, através de um evento que é próprio ao nosso espaço/tempo: certo dia. O local foi, especificamente, a cidade de Uz, cidade próxima o bastante dos povos caldeus e sabeus, pois, foi gente desses povos vizinhos, os que atacaram os filhos de Jó. O tempo aponta para um dia em que os filhos de Deus apresentaram-se diante de Deus.

Ir à presença do Senhor não significa que Satanás subiu aos céus, mas, que ele estava no evento em que os ‘filhos de Deus’ compareceram diante de um representante de Deus. Sabemos que os sacerdotes são representantes de Deus e que as Escrituras fazem referência a quem se apresenta diante do sacerdote, como se apresentado diante do Senhor (Deuteronômio 19:17).

Caim, também, foi descrito como alguém que esteve em contato com Deus, mas, que fugiu de diante do Senhor, ou seja, Caim não subiu aos céus para Deus conversar ou estar perante Ele (Gênesis 4:16).

Quem eram os ‘filhos de Deus’, que vieram perante Deus?

Os ‘filhos de Deus’, que vieram perante o Senhor, faziam tal prática com regularidade, ou seja, de tempos em tempos, compareciam, em determinado lugar, em função de um representante de Deus, o que indica uma cerimônia, algo que é próprio aos homens,  não aos seres celestes.

Um ser celestial sabe que não há lugar de adoração e nem tempo propício à adoração, antes, que Deus é adorado em espírito e, nem mesmo, estão sujeitos à limitação humana de espaço/tempo.

Quando Satanás se apresenta em meio aos filhos de Deus, homens que foram prestar o seu culto, foi interpelado: – “Donde vens?”

Do diálogo entre Deus e Satanás, é possível extrairmos alguns elementos que nos permitem uma melhor compreensão, de como o adversário é ardiloso, como tem as suas artimanhas e como ele constrói as suas ciladas.

Jesus afirmou que Satanás nunca se firmou na verdade e que, quando fala, fala do que lhe é próprio, proferindo mentiras, pois é mentiroso e pai da mentira. Esta é a natureza do adversário (João 8:44).

Deus não precisava perguntar a Satanás e nem de sua resposta, pois todas as coisas estão nuas e patentes aos seus olhos. Não podemos ignorar a onipresença e a onisciência de Deus nessa passagem bíblica, o que nos leva a concluir que Deus não estava interessado em nos revelar onde o opositor estava, mas, sim, a natureza de Satanás: astuto e mentiroso.

Satanás mentiu: “De rodear a terra e passear por ela”! Para quem o tempo urge, a resposta foi evasiva, pois rodear e passear pela terra não são atribuições de Satanás. Na verdade Satanás observava os filhos de Deus e respondeu de forma evasiva. O inimigo sempre está atento aos filhos dos homens, porém, espreita os fiéis para tentar dissuadi-los de sua fé.

Para quem somente passeava e rodeava a terra, não sendo onisciente ou, onipresente, Satanás sabia de tudo, a respeito de Jó. Satanás sabia que Jó era temente, protegido de Deus por todos os lados, abençoado e os seus bens se multiplicavam sobremaneira na face da terra.

É evidente que Satanás tinha interesse na vida de Jó, vez que, sempre espera um momento oportuno para atacar. Satanás sabia de tudo a respeito de Jó: medos, fé, conhecimento, comportamento, moral, integridade, etc.

Satanás só não tinha acesso aos pensamentos de Jó, pois os pensamentos só são conhecidos por Deus, mas, através do seu comportamento e integridade, o maligno fazia uma leitura do que ocupava a mente de Jó.

Somente Deus conhece o pensamento de suas criaturas, muito antes de pronunciarem qualquer palavra.

Conhecer a vida e os sentimentos de um oponente em uma guerra, é poder e Satanás se vale desse conhecimento, através da observação constante da vida do homem. É, a partir do conhecimento que o homem detém sobre a natureza de Deus, que o nosso inimigo, ardilosamente, monta as suas ciladas.

Satanás monta as suas teias com astúcia e Ele é conhecedor desta verdade: qualquer ser que lutar contra Deus sairá derrotado, pois Deus é todo poder e conhecimento.

Conhecedor dessa verdade, Satanás sabia que era impossível lutar e vencer Jó, pois era Deus quem o justificava e pelejava por Jó. Lutar contra Deus, diretamente, ou lutar contra os seus servos é perder.

“Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica (…) Mas, em todas estas coisas, somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou. Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor” (Rm 8:33 e 37-39).

Como é impossível Satanás vencer aqueles que são declarados justos por Deus, a tática ardilosa dele, é tentar jogar o próprio homem contra Deus, pois, somente o homem, pode se lançar da presença de Deus.

Satanás possui pleno conhecimento sobre a natureza de Deus e seus atributos. Ele também conhece a natureza humana e os seus sentimentos. Satanás também conhece a verdade de Deus contida nas Escrituras.

Deus interpela o acusador se este havia observado Jó durante as suas andanças pela terra, se havia constatado a integridade de Jó. Satanás não contesta o fato de que Jó era temente a Deus, pois como poderia acusá-lo, se o próprio Deus é quem deu testemunho de Jó?[4]

Satanás se mostra habilidoso no seu argumento, quando responde: – “Teme Jó a Deus em vão?”. Satanás não acusa Jó de pecado e a pergunta sugere, ainda, que Jó é verdadeiramente temente, porém, o acusador aponta o cuidado de Deus, como motivo da sujeição de Jó a Deus.

O acusador pode constatar durante as suas andanças que Jó estava sob a proteção de Deus, assim como, os seus descendentes e os seus bens materiais. Para alguém que desconhece a promessa de Deus para os que O temem, talvez pareça que Deus favorecia Jó, no entanto, a promessa de Deus é especifica e imutável para os que obedecem a Deus:

“O anjo do SENHOR acampa-se ao redor dos que o temem e os livra.

Provai e vede que o SENHOR é bom;

Bem-aventurado o homem que nele confia. 

Temei ao SENHOR, vós, os seus santos, pois nada falta aos que o temem”. (Salmos 34:7-9)

Depreende-se da fala do acusador, que Jó era trabalhador, visto que, o que as mãos de Jó produziam, Deus abençoava, de modo que os seus bens se multiplicavam.

“Então, respondeu Satanás ao SENHOR, e disse: Porventura teme Jó a Deus debalde? Porventura tu não cercaste de sebe, a ele, à sua casa e a tudo quanto tem? A obra de suas mãos abençoaste e o seu gado se tem aumentado na terra”. (Jó 1:9-10)

Satanás sugere, em sua argumentação, que, caso Deus retirasse todos os bens de Jó, seria o suficiente para Jó blasfemar. Mas, seria este o principal objetivo de Satanás? A adversidade seria capaz de afastar Jó de Deus?

Segundo o exposto pelo apóstolo Paulo, ao propor aos cristãos de Corinto que perdoassem um dos irmãos em Cristo, nós, como imitadores do apóstolo Paulo, não podemos ignorar os ardis de Satanás.

O que é um ardil? Respondo: uma estratégia, meticulosamente elaborada, para se atingir um objetivo.

Trazer adversidade faria com que Jó se demovesse do seu temor a Deus? Não! A adversidade não possui força suficiente sobre um servo de Deus, principalmente, com as qualidades de Jó, para demovê-lo da sua fé, porém, a adversidade fazia parte da estratégia elaborada por Satanás. Como?

A ação de Satanás foi, estrategicamente, coordenada para dar a entender, a qualquer que conhecesse a vida de Jó, que todos os eventos adversos que sobre ele se abateram, foram impingidos por Deus.

Os ataques dos sabeus e dos caldeus, cada qual, por sua vez, ao matarem os escravos de Jó e saquearem os camelos, os bois e as jumentas, dá a entender que os bens de Jó estavam desamparados.

Somente um ataque poderia dar a entender ser obra do acaso, mas, dois eventos semelhantes, em locais distintos, no mesmo dia, deixam de ser acaso e passam a ser coincidentes, portanto, o evento, em si, evoca que se considere a causa.

As mortes dos servos de Jó e o saque dos bens, foram decorrentes da ação humana, o que poderia levar quem investigasse os eventos à conclusão de que não houve nada de sobrenatural. Entretanto, outros mensageiros, no mesmo dia, trouxeram notícia de que fogo caiu do céu e consumiu parte do rebanho e os escravos e que, um vento vindo da banda do deserto, derrubou a casa do filho primogênito de Jó e matou a todos os filhos do patriarca, que ali estavam reunidos.

Quando as péssimas notícias terminaram, Jó levantou-se, rasgou o seu manto, raspou a cabeça, jogou na terra e adorou a Deus!

Satanás ficou surpreso com a atitude de Jó? Não! Tal atitude já era esperada, porém, o ardil de Satanás, ainda estava em curso.

Após o inimigo tirar todos os bens e exterminar todos os filhos de Jó, em outra ocasião, novamente, o diabo se fez presente, no meio dos filhos de Deus. Ao ser interpelado, como da primeira vez, deu prosseguimento na sua estratégia.

O adversário argumenta que a atitude de Jó, ao adorar a Deus, era uma questão de troca (pele por pele), sobre o pretexto de que o homem abre mão de tudo o que possui para preservar a sua própria vida (Jo 2:5).

A argumentação sugere que Jó não havia sido demovido das suas convicções pelo medo de, ao blasfemar, ser punido com a perda da própria vida.

Vale destacar que, apesar de Deus conhecer o ardil de Satanás, tal empreitada estava dentro do propósito de Deus. Como era necessário à humanidade compreender a justiça de Deus, o Senhor chamou a Jó, segundo o seu propósito, e permitiu que Satanás tirasse todos os bens do patriarca, para que, hoje, pudéssemos aprender, além da lição da perseverança e consolação, como se dá a justificação do homem (Romanos 15:4).

Em função do propósito de evidenciar como se dá a justificação, é que Deus permite que Satanás toque em Jó. Imediatamente, Satanás saiu da presença de Deus e feriu o corpo de Jó com chagas malignas, o que obrigava Jó a raspar as feridas com cacos de telhas, enquanto que, o único tratamento medicinal, era permanecer assentado nas cinzas.

Diante do quadro aflitivo, a mulher de Jó esbravejou: – “Ainda retém a tua sinceridade? Amaldiçoe a Deus e morra”.  Argumento que acrescentou dor ao coração aflito do servo de Deus.

Jó contra argumenta com sua mulher e deixa claro que a fala dela equipara-se a de qualquer desvairada. Perseverante, Jó não transgrediu com os seus lábios!

Depois dessas investidas ardilosas, os elementos necessários para o ataque principal do maligno estavam prontos. O quadro necessário para a investida de Satanás estava emoldurado, bastando ao acusador permanecer, aguardando, até que a notícia, sobre as adversidades que se abateram sobre Jó, se espalhasse pelo oriente.

Após Satanás tocar na pele de Jó, a ideia que se tem, é que o acusador sai de cena, porém, mesmo não atuando, diretamente, a visita dos amigos de Jó era o evento, meticulosamente preparado, para o verdadeiro embate entre Jó e o acusador.

A cilada preparada para fazer com que Jó se insurgisse contra o Seu Criador é o elemento principal das batalhas que Satanás trava com os homens.

Tirar os bens, a família e a saúde de Jó não era o principal objetivo de Satanás. O diabo sabia que a ação de retirar tudo, até mesmo a saúde de Jó, não faria com que ele pecasse contra Deus. Tirar tudo o que Jó possuía, era somente uma estratégia, para,  com astucia, fazer com que Jó se insurgisse contra Deus.

Continua…


[1] “Jó era um próspero fazendeiro, que vivia na terra de Uz. Possuía milhares de ovelhas, camelos e outros rebanhos, uma grande família e muitos servos. De repente, Satanás, o acusador, compareceu diante de Deus alegando que Jó só confiava nEle porque era rico e tudo lhe corria bem. E, assim, teve início o teste de fé daquele homem”. Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal, versão Almeida Revista e Corrigida, Edição de 1995 – Ed. CPAD, pág. 699; “Como se sabe, é ele (Satanás) o mentor da trama que conduz Jó ao encontro com Deus. A partir da proposta do “adversário”, Jó tem sua estabilidade de vida destruída e, na sua desgraça, dialoga com amigos que buscam explicar as razões da tragédia da condição humana”. Leite, Edgard, O silêncio de Jó: O Livro de Jó e a crítica sapiencial à teologia sacerdotal. Revista Brasileira de História das Religiões. ANPUH, ano IV, n. 10, maio 2011 – ISSN 1983-2850 < http://www.dhi.uem.br/gtreligiao /index.html >.

[2] Acaso (do latim a casu, sem causa) é algo que surge ou acontece a esmo, sem motivo ou, sem explicação aparente. Wikipédia < http://pt.wikipedia.org/wiki/Acaso > Consulta realizada em 06/06/15.

[3] Riqueza e posição social jamais podem ser vistas como sinal de aprovação divina. Não podemos consentir com pensamentos que seguem essa linha de raciocínio: “Se levarmos em conta a sua riqueza; se lhe considerarmos a posição social; e se lhe pesarmos a influência política, concluiremos ter sido Jó um perfeito reflexo da santidade de Deus”. Andrade, Claudionor de, Jó: O Problema do Sofrimento do Justo e o seu Propósito., Rio de Janeiro, Editora CPAD, 2ª Edição, 2003, pág. 32.

[4] O testemunho de Deus isentou Jó de qualquer injustiça, de modo que se Deus declarou Jó integro, reto e temente a Deus, o acusador jamais poderia intentar acusá-lo.

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O livro do Cordeiro do Apocalipse

A supressão da figura do proprietário do livro da vida no capítulo 17 do Livro do Apocalipse foi suficiente para que algumas pessoas se utilizassem do texto para introduzirem encobertamente a sua doutrina, enfatizando que, ‘desde a fundação do mundo’ há um livro que contém registrado o nome dos salvos, sugerindo a doutrina calvinista da eleição e predestinação.

 

“… cujos nomes não estão escritos no livro da vida, desde a fundação do mundo” ( Ap 17:8 )

Introdução

A abordagem de Apocalipse 17, verso 8 não se centra em um livro, antes na figura do Cordeiro de Deus. Cristo, o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo é o tema central do verso ( Jo 1:29 ; Ap 21:27 ).

A leitura do verso 8 do capítulo 17 de Apocalipse é simples: Ora, a bíblia só faz referência a um livro da vida, e este livro, por sua vez, pertence ao Cordeiro de Deus. É o ‘Cordeiro de Deus’ que foi morto desde a fundação do mundo, e não o ‘livro da vida’ que foi escrito desde a fundação do mundo.

Quando lemos: “… cujos nomes não estão escritos no livro da vida, desde a fundação do mundo” ( Ap 17:8 ), basta incluir no versículo a figura do proprietário do livro para desfazer a confusão que produz muitas interpretações equivocadas e falaciosas: o livro da vida do (pertence ao) Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo.

Observe: “… cujos nomes não estão escritos no livro da vida (do cordeiro que foi morto), desde a fundação do mundo” ( Ap 17:8 ). Este verso faz a mesma abordagem do verso 8 do capítulo 13: “E adoraram-na todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo”.

Na língua grega, aquilo que é evidente no texto, ou o que já foi abordado anteriormente, ou, o que é facilmente subtendido, por uma questão de estilo de redação, geralmente é suprimido. No verso 8 do capítulo 17 houve uma supressão da figura do proprietário do livro (cordeiro), o que é facilmente deduzido, pois o livro pertence ao cordeiro “E não entrará nela coisa alguma que contamine, e cometa abominação e mentira; mas só os que estão inscritos no livro da vida do Cordeiro” ( Ap 21:27 ).

Mas, a supressão da figura do proprietário do livro foi suficiente para que algumas pessoas se utilizassem do texto para introduzirem encobertamente a sua doutrina, enfatizando que, ‘desde a fundação do mundo’ há um livro que contém registrado o nome dos salvos, sugerindo a doutrina calvinista da eleição e predestinação.

Através desta passagem bíblica, há quem procure dar sustentação à doutrina calvinista da predestinação e eleição sob o argumento de que Deus registrou os nomes dos salvos em um livro ‘desde a fundação do mundo’, determinando quem são os salvos, mas se esquecem de considerar que o próprio Deus assevera que apagará o nome daqueles que pecarem, apesar de já estarem inscritos no seu livro, o que depõe contra tal concepção doutrinária fatalista, determinista e mecanicista “Então disse o SENHOR a Moisés: Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro ( Êx 32:33 ).

 

Aplicando princípios de interpretação

A primeira questão a se considerar ao interpretar Apocalipse 17 verso 8 é que se está analisando figuras. No aprendizado de uma nova matéria, a cognição do homem se dá por associação e acomodação, de modo que, Deus, ao transmitir uma ideia espiritual – que é completamente nova para o homem – utiliza figuradamente coisas pertinentes a este mundo dos para apresentar.

Ao observar o versículo 8 do capítulo 17 de Apocalipse, verifica-se que ele faz referência à ‘besta’, uma figura que representa o oitavo rei que pertence ao conjunto de sete reis e que vai a perdição ( Ap 17:11 ), de modo que a figura apresentada é para trazer à compreensão um mistério ( Ap 17:7 ).

Como a besta deste contexto é uma figura para fazer referencia a um rei, o livro que consta do mesmo verso também é uma figura, visto que é improvável que Deus possua ou necessite de um livro para conferir de nomes. Deus não precisa de livros ou de caneta para anotar informações.

Deus é onisciente, ou seja, todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos d’Ele. Todas as coisas Ele conhece igualmente bem, quer seja no passado, no presente ou no futuro, tanto as que consideramos simples quanto as que consideramos complexas.

Ora, a visão de um livro remete o vidente à ideia de que todas as coisas são conhecidas por Deus, de modo que é impossível aos homens, ou a qualquer outro ser criado escapar da percepção dos ‘olhos’ de Deus.

Na bíblia não há em outras passagens bíblicas que faça referencia a um livro redigido antes da fundação do mundo. O que encontramos é referencias a Cristo, apresentado como o cordeiro de Deus, e que ele foi morto desde a fundação do mundo ( Ap 13:8 ).

As verdades bíblicas permeiam e ecoam por todas as Escrituras, de modo que as verdades bíblicas são repetidas de diversas maneiras em seus vários livros. Ora. Não há em outros livros qualquer alusão a um livro escrito na fundação do mundo, mas com relação ao Cordeiro foi anunciado por Moisés (Lei), pelos profetas, confirmado pelos apóstolos que Ele foi morto desde a fundação do mundo.

Embora a bíblia faça menção de um livro como figura, não há menção de um tempo ou de uma época em que tenha sido escrito, antes a referência é quanto à natureza do livro: livro da vida.

Para analisar o verso 8 de Apocalipse 17, o interprete tem que evitar certas ‘armadilhas’ na construção de um argumento dedutivo para não compor uma falácia.

Quando da análise de uma frase é imprescindível considerar:

a) denotação: sentido real, literal da frase, ou o estado de coisas que a frase afirma ser o caso;

b) conotação: a associação subjetiva, cultural e/ou emocional, que está para além do significado estrito ou literal de uma palavra, frase ou conceito, ou seja, diz dos sentimentos, ideias ou emoções provocadas pela frase no auditor, e;

c) ênfase: refere-se ao grau de importância que o autor atribui aos diferentes elementos constitutivos da frase.

Ora, se o interprete desloca o grau de importância que o autor atribuiu a um elemento da frase, no caso em comento o cordeiro, para outro elemento constitutivo da frase que o interprete quer estabelecer, produzirá uma falácia.

Quando lemos: “A besta que viste era e já não é, e subirá do abismo, e irá à sua destruição. Os que habitam na terra (cujos nomes não estão escritos no livro da vida desde a fundação do mundo) se admirarão, vendo a besta que era e já não é, mas que virá”,  duas figuras se destacam: a besta e o livro.

Apesar do verso 8 apontar estas duas figuras, vale destacar que o tema central do livro do Apocalipse é o Cordeiro de Deus, Jesus Cristo-homem. A besta possui no texto uma importância relativa que contrasta com a importância maior, a do Cordeiro, por se opor a Ele ( Ap 17:14 ).

Se não fosse a figura central do Cordeiro, não haveria a necessidade de se fazer referencia a besta. De igual modo, se não fosse o Cordeiro de Deus, a quem pertence o livro da vida, não haveria razão de se fazer menção do livro.

O que o verso apresenta:

  • Um estado de coisas que o versículo afirma ser o caso – o versículo afirma tão somente que o livro da vida pertence ao Cordeiro – denotação. Qualquer suposição que vá além desta ideia é espúria;
  • Os sentimentos, ideias ou emoções provocadas pelo versículo – somente informa que os que não fazem parte do livro do Cordeiro são os que se admirarão ao verem a besta – conotação. Qualquer suposição que vá além deste núcleo de informação é espúria, e;
  • A importância que o autor atribui aos diferentes elementos da frase – o evangelista João enfatiza o Cordeiro de Deus, e não da besta ou do livro, que dirá do tempo em que o livro foi escrito – ênfase.

Após as figuras e a ênfase, há um terceiro ponto a se destacar quando da interpretação deste versículo: na língua grega, aquilo que é evidente, ou o que já foi abordado no texto, o que é facilmente subtendido, por uma questão de estilo de redação, geralmente é suprimido.

A leitura do verso 8 do capítulo 17 de Apocalipse é simples, pois basta incluir no versículo a figura do proprietário do livro – o cordeiro de Deus – para desfazer a confusão que produz muitas interpretações equivocadas e as falácias.

Ora, a bíblia faz referencia a um único livro da vida, e este livro, por sua vez, pertence ao Cordeiro de Deus, de modo que o que ocorreu desde a fundação do mundo foi a morte do proprietário do livro, e não a escrita dos nomes no livro.

Quando lemos: “… cujos nomes não estão escritos no livro da vida, desde a fundação do mundo” ( Ap 17:8 ), temos que considerar que, as pessoas que habitam sobre a terra e que se admirarão vendo a besta são aquelas que não possuem o nome no livro da vida que pertence ao Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo.

O evangelista estava destacando as mesmas coisas abordadas anteriormente:

a) que os que habitam sobre a terra se admirarão vendo a besta;

b) que os que admiram a besta não estão inscrito no livro da vida, e;

c) que o livro da vida pertence ao Cordeiro morto desde a fundação do mundo “E adoraram-na todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” ( Ap 13:8 ).

Enquanto o vidente estava demonstrando que os que não estão escritos no Livro do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo se admirarão ao ver a besta, há quem considere que é o livro da vida que foi escrito desde a fundação do mundo.

 

Como um falácia é construída

Após ler o verso 8 do capítulo 17 do Livro das Revelações, que diz: “cujos nomes não estão escritos no livro da vida, desde a fundação do mundo” ( Ap 17:8 ), o Sr. Clóvis Gonçalves concluiu no artigo intitulado ‘Quando o livro da vida foi escrito?’ disponível na web, que “a expressão desde a fundação do mundo não significa ‘começando lá e continuando até o último convertido’. Mas se refere a algo que estava concluindo quando Deus lançou os fundamentos da terra, antes de criar o primeiro homem” Gonçalves, Clovis, Quando o Livro da vida foi escrito?, Artigo disponível na web.

Através deste artigo do Sr. Clóvis, demonstraremos como é pernicioso, alguém, com uma opinião formada, se achegar ao texto bíblico somente para afirmá-la. É um empenho sem valor ler e analisar um texto bíblico na língua grega somente com foco na gramatica, sem que o estudioso esteja disposto a abrir mão dos seus conceitos para absorver a ideia que o texto transmite.

Quando inicia a análise do versículo, o autor, de pronto estabeleceu que só existem duas possibilidades de se interpretar a passagem bíblica: “Há duas possibilidades aqui, interpretar a expressão como significando que os nomes de todos os salvos estavam registrados no Livro da Vida desde a fundação do mundo ou que o nome de cada pessoa é escrito quando o evangelista ora pelo decidido, pedindo a Deus que escreva o seu nome no livro da vida” Idem.

Por que ele vê somente estas duas possibilidades? Porque a visão dele é de que a doutrina calvinista e arminianista encerram qualquer discussão sobre o tema. Vale salientar que o autor do artigo citado é calvinista.

O Sr. Clovis inicia a sua argumentação, em prol do seu ponto de vista, dizendo que é significativo o fato do verso em comento abordar a questão dos que não tiveram os seus nomes registrados no livro da vida, contrastando com aqueles que possuem esse privilégio.

Em seguida, fez uma análise gramatical da frase em grego: “apo kataboles kosmou”, que significa “desde a fundação do mundo”, subdividindo os elementos do aposto, em preposição (desde), seguido de um substantivo (fundação) e o seu complemento (do mundo). Esta informação é verdadeira, porém, não é esta informação que torna válida a conclusão que ele fez no final do artigo.

Não é o fato de conhecer a língua grega e a hebraica que torna uma pessoa autoridade na interpretação das Escrituras, pois os escribas e fariseus conheciam as duas línguas e, mesmo inseridos no contexto cultural da época, foram inquiridos por Cristo por não entenderem a linguagem d’Ele “Por que não entendeis a minha linguagem? Por não poderdes ouvir a minha palavra” ( Jo 8:43 ).

Ser versado na língua grega ou hebraica não torna ninguém mestre e nem confere autoridade para expor a verdade do evangelho.

Embora a expressão ἀπὸ καταβολῆς κόσμου (apo kataboles kosmou – desde a fundação do mundo) seja comum no Novo Testamento e ocorre exatamente como em Apocalipse 17, verso 8 em outras seis passagens bíblicas, ela pode assumir valor distinto em função do contexto no qual ela foi inserida ( Mt 13:35 ; Mt 25:34 ; Lc 11:50 ; Hb 4:3 ; Hb 9:26 ; Ap 13:8 ).

A expressão ἀπὸ καταβολῆς κόσμου indica que algo está consumado, estabelecido, desde a fundação do mundo, mas, também pode, como em Lucas 11, verso 50, ser lida como uma realização gradual, sucessiva, progressiva, continua “Para que desta geração seja requerido o sangue de todos os profetas que, desde a fundação do mundo, foi derramado” ( Lc 11:50 ). A frase é inclusiva, demonstrando que será requerido o sangue de todos os profetas das mãos de uma geração específica: a geração má.

Vale salientar que, quando Jesus especifica: ‘desta geração’, a primeira ideia que vem a mente do interprete é de que Jesus estava fazendo referência ao espaço de tempo que separa cada grau de filiação, por causa do entendimento de que cada século compreende cerca de três gerações, porém, seria sem propósito Deus requerer o sangue dos profetas que fora derramados pelos pais das mãos dos filhos, sendo que o sangue dos profetas foi derramado sucessivamente desde os pais até os dias de Cristo.

Carece verificar que, quando Jesus diz ‘desta geração’, ele diz de uma ‘geração má’, ‘geração perversa’, ‘geração de Adão’, que contrasta com a geração dos filhos de Deus, com a geração dos que nasceram de novo, provenientes de uma semente incorruptível, que é a palavra de Deus, geração de Cristo.

A fala de Jesus era para tornar evidente que os filhos de Israel eram geração contumaz, rebelde, geração de Adão, contrastando com a semente que foi vaticinada pelos profetas que serviria a Deus, a geração proveniente da palavra de Deus “Uma semente o servirá; será declarada ao Senhor a cada geração” ( Sl 22:30 ); “Esta é a geração daqueles que buscam, daqueles que buscam a tua face, ó Deus de Jacó. (Selá.)” ( Sl 24:6 ).

A argumentação com relação às outras passagens bíblicas quanto ao uso da frase ἀπὸ καταβολῆς κόσμου são pertinentes e encera a ideia de algo concluso, porém, não é causa determinante do significado da passagem de Apocalipse 17, verso 8.

O contraponto que o Sr. Clovis faz ao Pr. Ciro é pertinente, quando diz: “O pastor Ciro faz a sua tese depender da preposição ‘apo’ e não da expressão completa. Porém, a classe de palavra que tem tempo e modo é o verbo, e é para ele que devemos nos voltar se quisermos saber quando e de que forma algo ocorre. Devemos perguntar ao texto ‘o que [não] ocorreu antes da fundação do mundo?’ e a resposta é ‘nomes [não] foram escritos’” Idem.

Embora a leitura do Sr. Clovis tenha por base um dicionário de um lexicógrafo famosíssimo como o é o do Dr. Strong, não significa que a interpretação do contexto do capítulo 17 de Apocalipse seja a correta “O verbo ‘gegraptai’ está no tempo Perfeito e no modo Indicativo. O modo Indicativo, nos informa o Léxico Grego de Strong ‘é uma simples afirmação de fato. Se uma ação realmente ocorre, ocorreu ou ocorrerá, será expressa no modo indicativo’. Já o ‘Perfeito grego corresponde ao Perfeito na língua portuguesa, e descreve uma ação que é vista como tendo sido completada no passado, uma vez por todas, não necessitando ser repetida’” Idem.

Mas, como ler e interpretar Apocalipse 17, verso 8?

“A besta que viste era e já não é, e subirá do abismo, e irá à sua destruição. Os que habitam na terra (cujos nomes não estão escritos no livro da vida desde a fundação do mundo) se admirarão, vendo a besta que era e já não é, mas que virá” ( Ap 17:8 ).

Para compreender Apocalipse 17 é necessário conhecer todo o livro das Revelações. O evangelista João não escreveu o livro de Apocalipse fracionado, pois o livro foi fracionado em capítulos e versículo muito tempo depois. Com isso quero enfatizar que o capítulo 17 deve ser interpretado dentro do contexto do livro, pois se a interpretação for feita a partir da análise de um único verso, resultará em erros.

Ao ler o livro de Apocalipse, verifica-se que os eventos narrados no capítulo 17 de Apocalipse, remetem a ideia que consta em Apocalipse 13, porém, o capítulo 17 sobressai em detalhes, nuances, sendo que o capítulo 13 é resumido, enxuto.

Outro ponto a destacar é que o evangelista viu uma visão. Ora, uma visão trabalha com figuras que podem ser interpretadas e descritas segundo a compreensão humana. Portanto, quando lemos que João viu o Livro da vida, não significa que nos céus há um livro de registro semelhante aos que há nos hotéis, ou semelhante a um livro de contabilidade de uma empresa.

A visão de um livro com nomes inscritos é um modo de o vidente ter acesso à ideia do que é a onisciência de Deus, pois não há outro modo cognoscível de se fazer referencia ao conhecimento de Deus. Se a visão fosse dada em nossos dias, possivelmente o vidente veria um computador, e não um livro. Por meio da visão do livro o apóstolo João demonstra que os que ficaram admirados ao ver a besta possuem um destino diferente dos que creem no Cordeiro de Deus.

A visão do Livro da vida foi um modo de o homem tomar conhecimento de algo que vai além da compreensão humana, permitindo ao homem um meio de considerar a onisciência de Deus, pois Deus não depende de livros, ou de consultar manuscritos para inteirar-se de algo.

Se o leitor atentar para o verso 8 de Apocalipse 13, verá que a frase ἀπὸ καταβολῆς κόσμου (desde a fundação do mundo) é idêntica:

“E todos os que habitam sobre a terra adorarão, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” ( Ap 13:8 )

“A besta que viste era e já não é, e subirá do abismo, e irá à sua destruição. Os que habitam na terra (cujos nomes não estão escritos no livro da vida desde a fundação do mundo) se admirarão, vendo a besta que era e já não é, mas que virá” ( Ap 17:8 )

Sabemos também que o Cordeiro de Deus, que é Cristo, foi conhecido antes da fundação do mundo e manifesto aos homens na plenitude dos tempos “O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós” ( 1Pe 1:20 ).

Sabemos que o dia de salvação sobremodo oportuno é ‘hoje’, de modo que a salvação do indivíduo ocorre “hoje”, ou seja, no tempo dos homens, e não na eternidade, quando o Cordeiro foi conhecido ( 1Pe 1:20 ; Hb 9:26 ; Jo 17:24 ). A exortação deve ocorrer durante o tempo que se chama ‘hoje’ ( Hb 3:13 ), e é isto que o apóstolo Paulo fazia: “E NÓS, cooperando também com ele, vos exortamos a que não recebais a graça de Deus em vão  (Porque diz: Ouvi-te em tempo aceitável E socorri-te no dia da salvação; Eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação)” ( 2Co 6:1 -2). Os termos ‘aqui’, ‘agora’ é o mesmo que ‘hoje’, ou seja, a salvação não se deu ou foi determinada na eternidade, pois se assim não fosse, não seria necessário à exortação.

O Cordeiro de Deus é uma figura que remete a pessoa do ‘Eu Sou’ quando encarnado. Cristo, o Verbo encarnado, é preexistente, de modo que, Ele foi anunciado de antemão (verbo: προγινώσκω – proginóskó: pré-conhecimento, pré-ciência), porque é antes da fundação do mundo “Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou” ( Jo 8:58 ).

Cristo foi ‘pré-conhecido’ não no sentido de ‘saber acerca de’, e sim no sentido de ter sido anunciado de antemão pelos santos profetas “Em esperança da vida eterna, a qual Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos dos séculos” ( Tt 1:2 ) compare com: “O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós” ( 1Pe 1:20 ).

A ‘promessa’ que o apóstolo Paulo faz alusão a Tito diz do ‘conhecimento’ que o apóstolo Pedro anunciou aos cristãos da dispersão. O que foi anunciado de antemão pelos profetas acerca do Filho de Deus, que nasceu na casa de Davi, diz da ‘promessa’, do ‘conhecimento’ de Deus enquanto doutrina, e não da sua onisciência, que é saber plenamente bem acerca de todas as coisas “O qual antes prometeu pelos seus profetas nas santas escrituras, acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne” ( Rm 1:2 -3).

No verso 8 de Apocalipse 13, o evangelista João especifica que o Livro da Vida pertence ao Cordeiro “… no livro da vida do Cordeiro que foi morto…” ( Ap 13:8 ). Ele não trata de outro livro a não ser o Livro que pertence ao Cordeiro, Cordeiro este que foi morto desde a fundação do mundo.

Quando o mundo foi fundado por Deus, pelos eventos que haviam de suceder (queda da humanidade e redenção), a morte de Cristo foi estabelecida, daí a exposição de que o cordeiro foi morto na fundação do mundo, porém, Cristo foi manifesto na plenitude dos tempos.

A construção do texto de Apocalipse 17, verso 8 é semelhante a de Apocalipse 13, verso 8, porém, é mais rica em detalhes. No capítulo 13 o vidente aponta a admiração dos que residem na terra, já no capítulo 17 ele aponta a adoração destas mesmas pessoas. No capítulo 17 fica delineado que a destruição da besta está estabelecida, porém, apesar de prevista, a besta ainda não existia (não é), mas está para subir do abismo e será destruída.

Como o apóstolo escreveu anteriormente que o livro pertence ao Cordeiro de Deus e que Ele foi morto desde a fundação do mundo ( Ap 13:8 ), ao escrever no verso 8 do capítulo 17, ele deixou de mencionar expressamente o nome do Cordeiro de Deus, a quem o Livro da Vida pertence.

A visão doutrinária determinista, fatalista e mecanicista que o Sr. Clovis possui transtornou lhe a leitura, pois é comum na escrita grega a supressão de palavras e frases quando à lógica ou estrutura da frase permite.

Por exemplo: “ἐν τούτῳ γινώσκετε τὸ πνεῦμα τοῦ θεοῦ· πᾶν πνεῦμα ὁ ὁμολογεῖ Ἰησοῦν Χριστὸν ἐν σαρκὶ ἐληλυθότα ἐκ τοῦ θεοῦ ἐστιν, καὶ πᾶν πνεῦμα ὁ μὴ ὁμολογεῖ τὸν Ἰησοῦν ἐκ τοῦ θεοῦ οὐκ ἐστιν· καὶ τοῦτο ἐστιν τὸ τοῦ ἀντίχριστου, ὃ ἀκηκόατε ὅτι ἔρχεται, καὶ νῦν ἐν τῷ κόσμῳ ἐστὶν ἤδη – Nisto conhecereis o Espírito de Deus: Todo o espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; E todo o espírito que não confessa que Jesus (Cristo veio em carne – suprimido) não é de Deus; mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e eis que já está no mundo” ( 1Jo 4:2 -3).

No texto em grego o evangelista e apóstolo João demonstra que todo aquele que confessar que Jesus ‘o Cristo veio em carne’, pertence a Deus, mas, ao fazer referência àqueles que não professam a verdade demonstrada anteriormente, que o ‘Cristo veio em carne’, no grego ficam suprimidos o nome ‘Cristo’ e a frase ‘veio em carne’ (Χριστὸν ἐν σαρκὶ). A supressão de uma frase que ocorreu em Apocalipse 13, verso 8 é uma figura de construção por omissão (zeugma: consiste na omissão de um ou mais elementos de uma oração, já expressos anteriormente. A zeugma é uma forma de elipse), o mesmo tipo de supressão que ocorreu em 1João 4, verso 3.

A construção do Sr. Clovis é descabida por não ter considerado as nuances que envolvem as figuras de linguagem, construção e estilo que é próprio a todos os idiomas e as normas de interpretação que a própria bíblia apresenta.

Ao dizer que só há a possibilidade de duas interpretações de Apocalipse 17, verso 8, sendo a possibilidade que ele apoia a de ‘interpretar a expressão como significando que os nomes de todos os salvos estavam registrados no Livro da Vida desde a fundação do mundo’, ele desconsidera o que Deus diz:  “E, se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte do livro da vida, e da cidade santa, e das coisas que estão escritas neste livro” ( Ap 22:19 ).

Se ele observasse as Escrituras, veria que afirmar a doutrina calvinista da predestinação e eleição através da figura apocalíptica do livro que pertence ao cordeiro é descabido, visto que outras passagens bíblicas deixam claro que Deus altera o conteúdo do livro conforme a resposta que o homens dá a sua palavra “MAS o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios” ( 1Tm 4:1 ).

O profeta Moises rogou a Deus que riscasse o seu nome do Livro da Vida, ou usasse de misericórdia para com o povo de Israel ( Ex 32:33 ), porém Deus instruiu Moisés dizendo que não riscaria o nome de Moisés e nem favoreceria os pecadores dentre o povo, pois Deus jamais transtornaria a sua natureza, santidade, justiça, equidade, para satisfazer o pedido de quem quer que fosse.

Todos os homens são pecadores, ímpios, por terem sido gerados segundo a semente corruptível de Adão ( Sl 58:3 ), o nome deles não se misturam com o daqueles que nasceram de novo ( Rm 5:18 ). Todos os homens quando abrem a madre, entram por uma porta larga (Adão), que dá para o caminho largo que os conduzirá a perdição, o que significa que ninguém que entra no mundo está predestinado ou foi eleito para salvação. Todos os homens se desviam de Deus desde a madre, e falam mentira desde que nascem, pois foram julgados e condenados em Adão, apenados com alienação de Deus e herdaram um coração mentiroso segundo o coração de Adão ( Rm 3:4 ).

Daí a acusação do apóstolo Paulo de que todos os homens são mentirosos, pois a boca dos homens fala segundo o coração que herdaram de Adão. Somente quando o homem nasce de novo é que há alegria nos céus por um pecador que se arrepende ( Ap 20:12 ).

Mas, com relação aos descrentes, a leitura correta da bíblia é que todos morreram porque pecaram, e pecaram porque um só pecou, portanto, são gerados e concebidos em pecado, iniquidade, sendo certo que ninguém nasce predestinado à salvação.

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Trocadilhos, enigmas e parábolas

Moisés correu em favor dos filhos de Israel porque queria que Deus perdoasse o pecado deles. Porém, a misericórdia de Deus não dependia da correria de Moisés e nem da sua vontade. O ponto nevrálgico da correria e da vontade de Moisés é verificável na sua oração: “Assim tornou-se Moisés ao SENHOR, e disse: Ora, este povo cometeu grande pecado fazendo para si deuses de ouro. Agora, pois, perdoa o seu pecado, se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito” ( Ex 32:31 -32).


Para interpretar um texto é essencial uma boa leitura. Com relação à Bíblia não é diferente, pois uma interpretação segura e fiel só é possível através de uma boa análise, e para isso é necessário observar algumas regras.

Para uma boa leitura da Bíblia é essencial analisar qual o público alvo dos ensinamentos de Cristo. Por exemplo: alguns ensinamentos de Jesus foram feitos em particular, com os seus discípulos, porém, em alguns momentos, o ensinamento tinha por publico os escribas e fariseus, e em outros momentos a multidão.

Após se inteirar qual é o publico alvo da mensagem, não podemos esquecer um alerta de Marcos: “E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” ( Mc 4:34 ). Quando Jesus falava aos discípulos em particular, geralmente explicava o sentido das parábolas e dos enigmas propostos à multidão, porém, é imprescindível considerar que, à multidão Jesus só falava utilizando parábolas.

Além das parábolas, também é necessário considerar os enigmas. Cada parábola possui um enigma específico, que antes de ser interpretada, primeiro é necessário desvendar o enigma. Lembrando que os enigmas propostos nas parábolas, essencialmente, referem-se a algo já abordado pelos profetas, salmos e a lei “Abrirei a minha boca numa parábola; falarei enigmas da antiguidade” ( Sl 78:2 ).

Observe que falar por enigmas ao povo já era uma prática antiga “Boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas; pois ele vê a semelhança do SENHOR; por que, pois, não tivestes temor de falar contra o meu servo, contra Moisés?” ( Nm 12:8 ).

Mas, além de observar o público alvo da mensagem, a parábola e os enigmas, a Bíblia também contém algumas frases construídas que remetem a uma verdade, porém, é um trocadilho.

O exemplo de um ‘trocadilho’ bíblico conhecido é: “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” ( Mt 16:18 ). O fato que deu origem a esta asserção de Jesus foi o evento em que o apóstolo Pedro fez uma confissão que é o cerne do cristianismo: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” ( Mt 16:16 ).

Em seguida Jesus demonstra que aquele conhecimento que o apóstolo Pedro expôs, não lhe fora revelado por ser descendente da carne de Abraão, antes porque o Pai, através da pessoa de Cristo é quem anunciou e tornou compreensível aquela verdade ( Jo 1:18 ).

Em seguida vem a declaração maravilhosa de Cristo: “Pois também eu te digo que tu és Pedro…” ( Mt 16:16 ), ou seja, da mesma forma que Pedro admitiu (confessou) algo que era verdadeiro: Cristo é o Filho do Deus vivo, Jesus fez uma confissão segundo a verdade acerca do seu discípulo: – ‘Admito que você é Pedro’. Cristo fez uma confissão acerca de Pedro com base no mesmo princípio da confissão de ‘Pedro’: verdadeira.

Por admitir que Cristo é o Filho do Deus vivo, Pedro tornou-se uma pedra sobre a rocha, pois a igreja é edificada sobre esta verdade: Jesus é o Cristo, Filho do Deus vivo “Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” ( Rm 10:13 ).

Em seguida fez a seguinte declaração: “…, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja…”. Com este trocadilho surgiu um dos maiores celeumas: a igreja de Cristo é edificada sobre Jesus, o Filho do Deus vivo, ou é edificada sobre o apóstolo Pedro, como afirma a Igreja Apostólica Romana?

Para uma desambiguação, é necessário recorrer a outros textos bíblicos que demonstram que Cristo é a pedra eleita, a pedra angular de esquina e é sobre Cristo que é erguida a sua igreja “Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina; No qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor. No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito” ( Ef 2:20 -22).

Através de outros textos, fica demonstrado que o apóstolo Pedro é somente uma pedra como todos os outros cristãos que Deus utiliza para edificar o seu templo “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pd 2:5 ).

Mas, o correto quanto ao texto é considerar que Cristo é a pedra e sobre Ele é edificado a igreja, de modo que a confissão de Pedro é o cerne da admissão cristã, a admissão segura, firme, que tem fundamento, verdadeira, que torna os homens que creem verdadeiras ‘pedras vivas’ que promove a edificação da igreja.

Para compreender as Escrituras é essencial socorrer-nos do mesmo princípio utilizado por Jesus: “Disse-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus” ( Mt 4:7 ). Em nenhuma passagem do Antigo Testamento foi predito que um dos discípulos de Cristo seria a pedra, antes foi dito que a pedra angular seria o Messias ( Jó 38:6 ; Sl 118:22 ; Sl 144:12 ; Is 28:16 ; Zc 10:4 ; Lc 20:17 ; At 4:11 ).

A Bíblia apresenta outros trocadilhos, como: “AI de Ariel, Ariel, a cidade onde Davi acampou! Acrescentai ano a ano, e sucedam-se as festas” ( Is 29:1 ), ou “Ai da lareira de Deus…”. A palavra hebraica traduzida por lareira às vezes também era transliterada por Ariel. Tal trocadinho foi estabelecido para demonstrar que, a cidade de Jerusalém onde ocorria o sacrifício sacerdotal, por causa da infidelidade do povo, haveria de se tornar o próprio altar de sacrifício onde os habitantes de Jerusalém seriam mortos.

O verso primeiro do Salmo 23 é um trocadilho, porém, perceptível somente na língua original do texto, porque em decorrência dos radicais das palavras hebraicas traduzidas por ‘meu pastor’ e ‘pastagem’, tem-se a ideia: ‘O Senhor é meu Pastor’ que pode ser compreendido como: “O Senhor é o meu alimento”.

Há trocadilhos com a construção de provérbios, como: “Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do SENHOR!” ( Jr 17:5 ). Ou seja, o verso não semeia discórdia entre irmãos, visto que não está dizendo para que os homens não confiem em seus semelhantes nos relacionamentos diários, antes a lição dada anteriormente: “Dize-lhes, pois: Assim diz o SENHOR Deus de Israel: Maldito o homem que não escutar as palavras desta aliança” ( Jr 11:3 ), é reeditada: a pessoa que não obedece as palavras da aliança divina é aquele que, para alcançar a salvação eterna, confiam em si mesmo, o mesmo que fazer da sua força o seu braço.

Há outros trocadilhos que complementa a ideia acima: “Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos” ( Zc 4:6 ). A ‘força’ e a ‘violência’ são figuras que representam a ‘carne’ e o ‘braço’ do homem que confia em si mesmo, e se esquece da palavra de Deus, que é espírito ( Jo 6:63 ).

A Bíblia contém construções mais complexas, como a que se segue: “Porque na lei de Moisés está escrito: Não atarás a boca ao boi que trilha o grão. Porventura tem Deus cuidado dos bois?” ( 1Co 9:9 ). Nesta construção não há um trocadilho, antes temos uma citação de um provérbio.

É um equivoco considerar que através desta citação o apóstolo Paulo estava pleiteando benefícios para receber uma contribuição da igreja de corinto, isto porque o contexto da sua carta demonstra que o apóstolo não buscava salário, antes anunciou aos cristãos de corinto o evangelho de graça para cortar ocasião aos obreiros fraudulentos ( 2Co 11:7 -12).

O texto de Deuteronômio não possui relação direta com salário ou prestigio, antes invoca a ideia do direito. Se alguém fosse condenado, devia pagar a pena, porém, não poderia ter o seu direito violado. Com base na ideia de direito contido no provérbio, o apóstolo Paulo cita a lei para defender o seu apostolado.

O apóstolo Paulo não estava pleiteando prestígio social através dos cristãos, ou um salário, antes que reconhecessem a sua autoridade como ministro de Cristo, pois sem ser reconhecido como autoridade apostólica, os cristãos ficariam vulneráveis as doutrinas dos falsos apóstolos. É por isso que na carta aos corintos o apóstolo cita o termo direito por três vezes ( 1Co 9:4 -6).

Através do alerta: ‘Deus não tem cuidado de bois’, o apóstolo Paulo destaca o objetivo da lei: cuidado para com os homens, e o provérbio foi utilizado porque ele encerrava uma ideia: direito. Por que o boi como figura? Porque na antiguidade o boi era como o escravo do pobre, e para ser efetivo no trabalho, precisava comer. O boi como figura, também transmite a ideia de impessoalidade, o que faria com que o verdugo deixasse suas emoções de lado no momento de aplicar a pena.

Era direito dos condenados serem chicoteados com, no máximo 40 açoites. O direito dos condenados vetava aos juízes aplicarem um número acima do estabelecido pela lei “E será que, se o injusto merecer açoites, o juiz o fará deitar-se, para que seja açoitado diante de si; segundo a sua culpa, será o número de açoites. Quarenta açoites lhe fará dar, não mais; para que, porventura, se lhe fizer dar mais açoites do que estes, teu irmão não fique envilecido aos teus olhos” ( Dt 25:2 -3).

Quando foi estabelecido este direito, o provérbio serviu para consolidar a ideia e o entendimento dos juízes do porquê não deveriam exceder o número de açoites estabelecido em lei: “Não atarás a boca ao boi, quando trilhar” ( Dt 25:4 ).

Mas, por que o apóstolo citou a lei? Ora, ele cita a lei com um objetivo específico: demonstrar aos seus opositores conhecimento da lei, o que reforçaria o seu pleito de ser reconhecido como apóstolo.

Por que pleitear o direito de apóstolo? O apóstolo Paulo havia posto como sábio construtor Cristo como fundamento da igreja, mas havia alguns homens que se intrometiam em meio aos cristãos se dizendo sábios, apóstolos, mestres, etc., porém, queriam substituir o fundamento “Não sou eu apóstolo? Não sou livre? Não vi eu a Jesus Cristo SENHOR nosso? Não sois vós a minha obra no Senhor? Se eu não sou apóstolo para os outros, ao menos o sou para vós; porque vós sois o selo do meu apostolado no Senhor” ( 1Co 9:1 -9; 1Co 3:11 ).

Havia alguns homens que se diziam apóstolos e que até faziam uso de direitos próprio aos apóstolos ( 1Co 9:12 ), o que é mais evidente na segunda carta aos corintos ( 2Co 11:13 ), enquanto o apóstolo Paulo tinha o cuidado de não se impor para não causar embaraço ao evangelho de Cristo.

O apóstolo dos gentios não estava buscando ser servido pelos cristãos ( 2Co 12:14 ), antes desejava servi-los, pois sabia qual era a condição de um apóstolo de Cristo ( 1Co 4:9 -12).

Enquanto a declaração de Pedro foi enfatizada através de um trocadilho de Jesus, mas ao distorcerem a ideia, perpetua-se um erro na Igreja Católica Apostólica Romana até hoje, semelhantemente o trocadilho que o apóstolo Paulo fez, em função de uma má leitura dos Reformadores, em especial João Calvino, fomentaram outro erro que igualmente perpetua-se: “Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” ( Rm 9:15 ).

No afã de evidenciar a soberania de Deus e a incapacidade do homem salvar-se por seus próprios meios, lançou mão de um trocadilho, e o erro decorrente desta má leitura tem persistido ao longo dos tempos.

Através deste trocadilho Calvino concluiu que Deus exerce a sua misericórdia com base na sua soberania, e que Ele determinou previamente quais seriam as pessoas a serem salvas através da sua misericórdia.

Mas, quando Deus disse a Moises que teria misericórdia de quem Ele tivesse misericórdia, estava falando de sua soberania? O que Deus estava tratando com Moisés?

Devemos voltar no tempo, e ver o povo de Isael transgredindo o mandamento de Deus quando fizeram um bezerro de ouro no deserto ( Ex 32:8 ). Deus havia concedido os dez mandamentos, e entre os primeiros temos: “Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam” ( Ex 32:3 -5).

Após determinar que não tivessem outro deus, e que não fizessem imagens de esculturas, Deus enfatizou que vingaria (visito) aqueles que não o obedecessem (odeiam), porém, aqueles que obedecessem (amasse), Deus teria misericórdia “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” ( Ex 32:6 ).

Os termos ‘amor’ e ‘ódio’ nos versos 5 e 6 de Êxodo 32 não se refere a sentimento, antes a ideia de obediência, serviço “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” ( Mt 6:24 ); “Nenhum servo pode servir dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” ( Lc 16:13 ).

Quando Deus falou que ia destruir o povo de Israel, Moisés intercedeu e Deus o atendeu ( Êx 32:11 -14). Ele desceu do monte, e ao ver o povo adorando o ídolo, arremessou a tábua que recebera das mãos de Deus e quebrou as tábuas escritas por Deus ( Ex 32:19 ). Por zelo, Moisés manda exterminar os idólatras e, em seguida, subiu ao monte para interceder pelo povo para que Deus fosse propício.

É importante observar que após interceder pelo povo, Moisés desceu o monte, quebrou a tábua dos dez mandamentos, destruiu o ídolo, destruiu os idólatras, e correu novamente ao Senhor para interceder. Em seguida expor o que queria: “Assim tornou-se Moisés ao SENHOR, e disse: Ora, este povo cometeu grande pecado fazendo para si deuses de ouro. Agora, pois, perdoa o seu pecado, se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito” ( Ex 32:31 -32).

Moisés correu em favor dos filhos de Israel porque queria que Deus perdoasse o pecado deles. Porém, a misericórdia de Deus não dependia da correria de Moises e nem da sua vontade. O ponto nevrálgico da correria e da vontade de Moisés é verificável na sua oração: – “Agora, pois, perdoa o seu pecado, se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito”!

Um pedido descabido que não ficou sem resposta. Deus disse: – ‘Não’! Deus não é o homem para voltar a sua palavra atrás. A palavra de Deus é irrevogável. Deus não pratica injustiça. Deus jamais condenaria um justo como Moisés, em lugar dos pecadores. Daí a resposta divina: – “Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro”.

Observe o que Deus disse a Ezequiel: “Ainda que estivessem no meio dela estes três homens, Noé, Daniel e Jó, eles pela sua justiça livrariam apenas as suas almas, diz o Senhor DEUS” ( Ez 14:14 ). Observe que Moisés não livrou os idolatras com a sua justiça.

Quando Moisés foi comissionado para continuar guiando o povo em meio ao deserto, Moisés roga a presença de Deus ( Ex 33:12 -13). Moisés sabia que aquele povo receberia a justa retribuição pelo seu pecado, foi quando Deus lhe garantiu que iria em meio ao povo, para que Moisés ficasse em paz.

Foi quando Moisés rogou para ver a glória de Deus, e recebeu a seguinte resposta: “Então ele disse: Rogo-te que me mostres a tua glória. Porém ele disse: Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti, e proclamarei o nome do SENHOR diante de ti; e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer” ( Ex 33:18 -19).

Deus demonstra que faria passar a sua bondade diante de Moisés, porém, o que estava estabelecido jamais seria mudado: “… e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer” ( Ex 33:19 ). O que Deus estava dizendo a Moisés? – Moisés, não adianta ‘correr’ ou ‘querer’, pois sou Deus zeloso (velo sobre a minha palavra para cumprir), que visito a iniquidade dos que me odeiam e faço misericórdia aos que me amam.

A oração de um justo pode muito em seus efeitos, até parar o sistema solar, mas não pode mudar o que Deus estabeleceu com a sua palavra. Moisés pediu para ver a ‘gloria de Deus’ e Deus atendeu, mas o pedido de perdão para aqueles incrédulos e desobedientes jamais seria atendido.

Com base na pró-atividade de Moisés em correr e querer que Deus demonstrasse favor para com o povo de Israel é que o apóstolo Paulo construiu a seguinte asserção: a misericórdia não é de quem quer ou de quem corre.

Semelhantemente, é com base no estabelecido nos dez mandamentos: “Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos ( Ex 32:3 -6), que Deus estabeleceu o seguinte trocadilho: “… e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer” ( Ex 33:19 ).

Para compreendê-lo, é essencial que o leitor conheça a lei mosaica e o que Deus havia estabelecido. Diante do trocadilho, basta se perguntar: de quem Deus terá misericórdia? A resposta advém da lei: dos que me amam, aos que guardam os meus mandamentos.

De quem Deus quer ter misericórdia? A vontade de Deus é demonstrar misericórdia aos que o amam! Desde a eternidade Deus quis e estabeleceu que a sua misericórdia está reservada para os que o amam, segundo o seu mandamento.

É neste ponto que vemos a soberania e a justiça de Deus em harmonia.

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A Fé, o sobrenatural e muitos erros…

Se o homem acreditar num futuro, seja ele terrível ou promissor, não é fé. A Fé diz de o homem crer na verdade, acreditar no nome de Jesus, pois os que creem na pessoa de Jesus recebem poder para serem criados de novo na condição de filhos de Deus ( Jo 1:12 ). Crer no futuro não é fé, não há poder e nem algo de sobrenatural no futuro. Em Cristo há poder, pois Ele é a Fé que havia de se manifestar e que se manifestou trazendo salvação a todos os homens.


A Fé, o sobrenatural e muitos erros…

O titulo deste artigo decorre do título do livro ‘O poder sobrenatural da fé’, do Bispo Edir Macedo. Ele lançou em 2011 o livro pela editora Unipro, e utilizaremos algumas citações do livro para abordarmos algumas questões sobre a fé.

No prefácio do livro, os editores chamam a atenção dos leitores destacando que através do poder sobrenatural da fé é possível aos olhos da alma o ‘inimaginável’ passar a existir; que para o homem achegar-se a Deus há uma ‘série de procedimentos’, e; que Deus existirá sempre para os que O buscam. À primeira vista tais argumentos parecem válidos, mas ao verifica-los através das Escrituras fica claro que os editores olvidaram, porque independentemente de alguém buscar a Deus ou não, Deus é o ‘Eu Sou’ por toda a eternidade. A assertiva ‘Deus existirá sempre para os que O buscam’ deriva do pensamento ateísta de que Deus é fruto da imaginação do homem, ou produto de uma crendice.

“A ideia de Deus (…) nasce da reflexão sobre as operações do nosso próprio espírito…” Hume – Vida e Obra, Coleção Os pensadores, 1999, pág. 37.

Ademais, aqueles que buscaram a Deus em espírito e em verdade, já não necessitam buscar a Deus, antes foram encontrados por Ele “Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem” ( Jo 4:23 ).

E também, para o homem aproximar-se de Deus não há uma série de procedimentos, antes é essencial a Fé, a palavra da Verdade, ou seja, a Fé que foi dada aos santos, a Fé que foi manifesta, a Fé que habita os que creem ( Jd 3 ; Gl 3:23 ; 2Tm 1:4 ).

E ainda, a fé não faz o inimaginável existir, antes a fé é a base do que se espera e prova do que não se vê ( Hb 11:1 ), ou seja, a fé é Cristo, esperança da glória, pois apesar dos que creem não verem, são bem-aventurados. Somente Deus é sujeito do verbo ‘bara’ (criar no hebraico), ou seja, somente Ele traz a existência por meio da sua palavra o que não existe. A confiança do homem não tem esta capacidade ( Jo 20:29 ; Rm 5:2 ; Tt 2:13 ).

Na introdução do livro, o Bispo diz que o objetivo do livro é:

‘… trazer às pessoas sinceras, uma base de fé simples, capaz de torna-las independentes da fé alheia e totalmente preparadas, a fim de obterem suas vitórias particulares…’ Macedo, Edir. O poder sobrenatural da fé. 1º Ed. Atualizada. Rio de janeiro: Unipro Editora, 2011, pág. 10.

Ora, quando o cristão está fundado em Cristo, a Fé que havia de se manifestar e que foi manifesta, o cristão é constituído ‘mais que vencedor’. Tal vitória não é uma vitória particular, pois, ser mais que vencedor por Cristo diz de uma vitória pertinente a um corpo, uma coletividade, que é a Igreja. Deus não prometeu vitórias subjetivas, individual, antes vitória sobre o mundo, o pecado e a morte! “Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou” ( Rm 8:37 ).

De igual modo, a fé não é uma questão do indivíduo, subjetiva, antes os que creem compartilham de uma mesma Fé “Isto é, para que juntamente convosco eu seja consolado pela fé mútua, assim vossa como minha” ( Rm 1:12 ). A fé cristã não pertence ao alheio e nem ao indivíduo. Ela é comum, mútua, pois foi entregue aos santos ( Jd 3 ).

Foi feita uma citação de João 10, verso 10: “O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir…”, e o Bispo interpreta-o dizendo que ‘O diabo tem roubado, matado e destruído vidas’ pág. 10 (Idem). Se analisado o verso dentro do contexto e com acuidade, vemos que o verso não diz do diabo, antes se refere aos lideres de Israel que, por prevaricarem na atribuição deles, não entraram pela porta no curral das ovelhas ( Jo 10:1 e 8). Ademais, o pecado entrou no mundo por um homem e através da ofensa dele a morte passou a todos os homens, e não através do diabo ( Rm 5:12 e 17; 1Co 15:21 ). Como o diabo poderia matar os que jazem mortos nas trevas? ( Ef 2:1 e 5).

Em seguida, o Bispo diz que o seu livro indicará o antídoto para vencer o ataque satânico e, acima de tudo, para se ‘manter um padrão de vida cristã para glorificar a Deus’. Ora, a Bíblia nada diz de um padrão de vida cristã para glorificar a Deus, antes Jesus deixa claro que, para glorifica-Lo, a única condição exigida é estar ligado a Cristo, a Videira verdadeira, pois ligado à Videira, o cristão produzirá muito fruto ( Jo 15:5 ). Glorificar a Deus é proveniente de algo específico: produzir muito fruto! “Nisto é glorificado meu Pai, que deis muito fruto” ( Jo 15:8 ).

No Capitulo 1 do livro ‘O poder sobrenatural da fé’, o Bispo faz uma assertiva de que não há limites para a fé, e arremata:

“Se acreditarmos num futuro terrível, isso com certeza nos sobrevirá; da mesma forma acontecerá com a crença em um porvir promissor. Aquilo em que acreditamos nos sobrevirá; aí reside o poder sobrenatural da fé pág. 11 (Idem).

Enquanto a Bíblia demonstra que o evangelho é a fé ( Rm 1:8 ), o poder de Deus ( Rm 1:16 -17), o Bispo desloca o poder que há no evangelho para a crença do homem. Contraditório, pois ao falar à multidão no Sermão do Monte, Jesus deixa claro que o homem não tem poder algum, pois não pode tornar o seu cabelo branco ou preto ( Mt 5:36 ). Se aquilo em que acreditamos nos sobrevém, com certeza Jesus incentivaria o ‘poder latente’ que, segundo o Bispo, havia em seus ouvintes. Jesus, aos moldes do Bispo teria dito à multidão no Sermão da Montanha que bastava acreditarem que mudariam a cor de seus cabelos.

Se o homem acreditar num futuro, seja ele terrível ou promissor, não é fé. A Fé diz de o homem crer na verdade, acreditar no nome de Jesus, pois os que creem na pessoa de Jesus recebem poder para serem criados de novo na condição de filhos de Deus ( Jo 1:12 ). Crer no futuro não é fé, não há poder e nem algo de sobrenatural no futuro. Em Cristo há poder, pois Ele é a Fé que havia de se manifestar e que se manifestou trazendo salvação a todos os homens.

Sem base bíblica, o Bispo advinha os pensamentos do diabo em épocas remotas, quando na página 12 do livro ‘O poder sobrenatural da fé’ diz :

“Ele (o diabo) deve ter pensado: ‘Se eu tivesse esse poder, usaria a minha palavra para destruir tudo o que Deus construiu e, então, eu seria realmente igual a Ele'” Grifo nosso.

O pensamento que nunca ocorreu não passa de uma suposição descabida, pois o diabo nunca quis ou intentou ser igual a Deus. Não é factível a qualquer criatura ser igual a Deus. O intento de satanás foi o de ser semelhante a Deus, o que é totalmente diverso de ser igual a Deus “Subirei sobre as alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo” ( Is 14:14 ).

Satanás intentou alcançar o que Deus daria aos homens, pois Deus diz: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” ( Gn 1:26 ). Ao usurpar o que seria dado aos homens, Satanás não guardou a sua posição ( Ez 28:15 ).

Após fazer diversas críticas à sociedade e as religiões, na página 17 do citado livro, o Bispo argumenta que:

‘… o ambiente da campanha de fé (…) desperta a fé das pessoas que, naturalmente, alcançam o milagre…’  pág. 17 (idem), mas que às vezes, algumas voltam a se queixar da moléstia que fora curadas, e arremata que ‘Tais pessoas, deixando de andar na fé, começaram a dar ouvidos a palavras sem fundamento…’  pág. 19 (idem).

Da abordagem, entende-se que a fé é algo inerente ao homem e, que o ambiente de fé, as campanhas, despertam tal ‘capacidade’ nas pessoas, momento em que passam a andar na fé. Porém, a Bíblia é clara que a Fé é dom de Deus, ou seja, não tem com ser ‘despertada’, pois não é inerente ao homem. Cristo é a Fé manifesta, o Dom de Deus, portanto, a Fé foi revelada aos homens que, por sua vez, precisam crer ( Jo 4:10 ; Ef 2:8 ).

Já na página 21, tem-se o argumento de que “(o homem) a partir da fé cristã (…) passa a ter mais capacidade, força e poder que o diabo; daí, é fácil subjugá-lo, em nome do Senhor Jesus…” pág. 21 (Idem). Ora, a Fé cristã é o evangelho, portanto, poder de Deus para os que creem para salvação. O poder é para salvação, daí o alerta de Cristo: “Mas, não vos alegreis porque se vos sujeitem os espíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus” ( Mt 10:20 ).

O fato de o cristão possuir poder para pisar serpentes e escorpiões é secundário, pois o diabo é astuto, e pode fingir submeter-se a quem não é salvo para que o faça acreditar que Deus é com ele. A Bíblia ordena ao homem sujeitar-se a Deus, o que faz com que o diabo fuja, ou seja, não é o poder de submeter o diabo que deve ser considerado, antes o poder de ser feito filho de Deus ( Jo 1:12 ). Foi Jesus que subjugou o diabo debaixo dos seus pés, pois Ele é o Valente ( Lc 11:22 ), resta ao cristão crer em Cristo, o salvador de nossas almas.

Mas, após dizer que o cristão luta contra a carne (pág. 23), ( Ef 6:12 ); apresentar um princípio platônico de que os espinhos quando mais alimentados esmagam a semente (pág. 25) – metáfora de Platão da carruagem puxada por dois cavalos, um branco e outro negro em O Fedro -; que o diabo passa aos descendentes dos que foram usados por ele (pág. 28), e; que é possível a um líder religioso ‘fazer’ pessoas sinceras ‘nascerem da carne’  (pág. 32) – nascer da carne na Bíblia diz do nascimento natural, diz do resultado da concepção de um homem quando vem ao mundo ( Jo 1:13 ) – abordagem do Bispo agrava-se em equívocos nas páginas 36 e 37, contraponto ‘fé’ versus ‘medo’.

‘O medo é uma forte manifestação de fé negativa…’  pág. 34 (Idem), e que ‘pensar positivamente’ é a definição de fé em Deus.

“Em vez de pensar positivamente, que e a definição de fé em Deus, alimentam a fé negativa…”  pág. 37 (Idem).

Ele argumenta que é necessário vetar o conhecimento bíblico às pessoas oprimidas pelo medo, pois a palavra de Deus não é suficiente para obter sucesso nestes casos.

“É preciso, contudo, tomar cuidado para não permitir que pessoas oprimidas pelo medo venha a ficar bem informadas a respeito da bíblia…” pág. 37 (Idem) Grifo nosso.

Embora o apóstolo Pedro tenha determinado aos cristãos que desejassem a palavra de Deus como recém nascido deseja o leite “Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que por ele vades crescendo” ( 1Pe 2:2 ), sob o pretexto de que ‘o diabo tem usado muito a bíblia’  (pág. 37), para confundir os que tem tal desejo ardente.

“Esse tipo de ataque tem acontecido com muita frequência exatamente entre os que têm um desejo insaciável de saber as respostas para todas as perguntas”  pág. 38 (Idem).

A gravidade do que é dito fica estampado na assertiva seguinte:

“O bom pastor (…) foi chamado para transmitir a vida que se encontra na Palavra de Deus, e não para transmitir a letra”  pág. 39 (Idem).

Com base no que o Bispo entendeu a partir de 2 Coríntios 3, verso 6: “Porque a letra mata, mas o espírito vivifica”. Ora, o espirito a que o apóstolo Paulo refere-se diz de Cristo, o espírito vivificante ( 1Co 15:45 ). Cristo mesmo afirmou que as suas palavras são espirito e vida, ou seja, o apóstolo estava demonstrando que o Novo Testamento é o espírito (palavra) que vivifica, diferente da lei de Moisés, que mata, pois foi incrustada em pedras e entregue no monte Sinai, diferente do evangelho que é escrita no coração dos que creem “Porque já é manifesto que vós sois a carta de Cristo, ministrada por nós, e escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas nas tábuas de carne do coração” ( 2Co 2:3 ).

No capítulo 2 não há nada aproveitável, o que demandaria um estudo frase a frase para expor os erros. Porém há três pontos a serem destacados pelas aberrações teológicas que apresentam.

O Bispo Edir Macedo afirma na página 48 que ‘… a fé é a certeza de coisas que se esperam; não a certeza de algo que é verdade’. Ora, o fundamento da fé do cristão é a palavra de Deus, e Jesus é enfático: “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” ( Jo 17:17 ). Ele demonstra desconhecer que a Fé que o escritor aos Hebreus evidencia no capítulo 11, verso primeiro diz de Cristo – O Caminho, a Verdade e a Vida, pois Ele é o fundamento do que se espera, quando diz: Creia em mim ( Jo 14:1 ). Ou seja, a fé evidencia o fundamento, portanto, a certeza não produz verdade, mas a verdade é o fundamento da certeza!

“… a fé (..) é a certeza de coisas que se esperam, e mais nada” pág. 134 (Idem)

“ORA, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não veem” ( Hb 11:1 ).

Outra asserção terrível é a exposta na página 60:

“A única diferença está no fato de que a semente da terra é visível, palpável e concreta, enquanto a semente da fé sobrenatural e, consequentemente do milagre, é a Palavra de Deus: invisível, impalpável e abstrata”.

O testemunho do evangelista João é claro acerca da Palavra de Deus: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” ( Jo 1:14 ), de modo que a Palavra de Deus não é invisível, impalpável ( 1Jo 1:1 -3) e nem abstrata (que só existe no domínio das ideias), pois a Palavra de Deus concretizou-se na pessoa do Verbo que se fez carne.

Os erros nas abordagens são constantes, pois enquanto a Bíblia diz que Moisés ficou firme após sair do Egito como se estivesse vendo o invisível ( Hb 11:27 ), o Bispo afirma que Ele viu o invisível. Enquanto a Bíblia afirma que os heróis da fé creram em Deus, ele afirma que creram no impossível “Para que por duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, tenhamos a firme consolação, nós, os que pomos o nosso refúgio em reter a esperança proposta” ( Hb 6:18 ).

“… permaneceram firmes (…) porque viram o invisível e creram no impossível” pág. 60 (idem).

Mas, das aberrações proposta pelo Bispo Edir Macedo, nenhuma supera a que se segue:

“Quem teve a capacidade de determinar alguma coisa e, ao mesmo tempo, não duvidar? Bem, o único que fez isso foi o próprio Deus. Ele disse: “Haja luz”; e houve luz! (Gn 1.3). A luz que não existia veio à existência. E por quê? Porque quando Ele determinou a luz, creu que a luz haveria de existir, pois não havia dúvidas em Seu coração pág. 80 (idem) Grifo Nosso, o que me leva a questionar os diplomas das faculdades de Teologia que ele diz ter cursado.

Como é possível Deus ter fé, ou crer, se todas as coisas estão nuas e patentes aos seus olhos? Afirmar que Deus tem fé é negar as Escrituras: “E não há criatura alguma encoberta diante dele; antes todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar” ( Hb 4:13 ), pois a fé constitui-se prova do que não se vê “Disse-lhe Jesus: Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram” ( Jo 20:29 ); “Porque em esperança fomos salvos. Ora a esperança que se vê não é esperança; porque o que alguém vê como o esperará?” ( Rm 8:24 ).

Acerca da salvação, o líder da Igreja Universal do Reino de Deus diz:

“Podemos sentir no próprio espírito que desta qualidade de caráter depende até mesmo a nossa própria salvação eterna. Sim, porque não basta apenas confessar com a boca que Jesus Cristo é o Senhor para que sejamos salvos, porque isso qualquer um pode fazer” pág. 120 (Idem) Grifo nosso.

Que diremos da declaração do apóstolo Paulo: “A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” ( Rm 10:9 )? Ora, crer e confessar que Jesus é o Cristo de Deus só é possível através da revelação do Pai, e não do caráter do homem “E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus” ( Mt 16:17 ).

Qual era o caráter do ladrão na cruz quando rogou a Cristo que não se esquecesse d’Ele ao entrar no paraíso?

Só posso concluir que o Bispo Edir Macedo está em igual condição a dos lideres de Israel: “Querendo ser mestres da lei, e não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam” ( 1Tm 1:7 ), pois enganam e estão enganados “Mas os homens maus e enganadores irão de mal para pior, enganando e sendo enganados” ( 2Tm 3:13 ).

É por isso que a Bíblia diz para provarmos os espíritos: “AMADOS, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo” ( 1Jo 4:1 ).

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Apocalipse 21 – Ao que Vencer…

A Igreja de Cristo já está de posse das promessas contidas no capítulo 21 do Livro das Revelações, embora elas ainda estejam por ser cumpridas aos salvos que não fazem parte da igreja. Os cristãos estão de posse das bênçãos prometidas porque fazem parte do corpo de Cristo, portanto, primícias das criaturas de Deus “Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas” ( Tg 1:18 ).

 


Este capítulo contém duas promessas muito utilizadas como tema em festividades e congressos:

a) Quem vencer herdará todas as coisas, e;

b) Deus limpará de seus olhos toda a lágrima;

Porém, ambas não se refere à igreja, que é o corpo de Cristo. A igreja de Cristo já está de posse das promessas contidas no capítulo 21 do Livro das Revelações, embora elas ainda estejam por ser cumpridas aos salvos que não fazem parte da igreja. Os cristãos estão de posse das bênçãos prometidas porque fazem parte do corpo de Cristo, portanto, primícias das criaturas de Deus “Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas” ( Tg 1:18 ).

 

1 E VI um novo céu, e uma nova terra. Porque já o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe.

O apóstolo João foi agraciado com mais uma visão maravilhosa. Ele viu um novo céu e uma nova terra, como ha muito foi anunciado pelos profetas “Porque, eis que eu crio novos céus e nova terra; e não haverá mais lembrança das coisas passadas, nem mais se recordarão” ( Is 65:17 ).

O que Deus anunciou por intermédio do profeta Isaías, o apóstolo João viu: um novo céu e uma nova terra. E por que ele viu? Porque na sua visão o primeiro céu e a primeira terra já haviam passado, e o mar deixou de existir.

 

 

2 E eu, João, vi a santa cidade, a nova Jerusalém, que de Deus descia do céu, adereçada como uma esposa ataviada para o seu marido.

O apóstolo João também viu a cidade santa, a nova Jerusalém. Contemplou-a no momento que descia do céu, e descreveu-a como uma esposa enfeitada para o seu marido.

 

3 E ouvi uma grande voz do céu, que dizia: Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens, pois com eles habitará, e eles serão o seu povo, e o mesmo Deus estará com eles, e será o seu Deus.

No instante que a nova Jerusalém descia do céu, o apóstolo ouviu uma grande voz anunciando a sua utilidade. A Jerusalém que descia do céu é o tabernáculo de Deus com os homens, sendo certo que Ele habitará com os homens.

Deus estará com os homens. Eles serão o seu povo, e Ele o seu Deus.

Esta promessa é para a humanidade que habitará a terra após o grande julgamento de obras que se estabelecerá no Grande Trono Branco ( Ap 20:12 ), ou seja, não tem relação com a igreja de Cristo.

Esta promessa, hoje, se cumpre na igreja, pois cada cristão é templo e morada de Deus ( 1Co 3:16 ). Tanto o Pai quanto o Filho fazem dos cristãos ‘morada’. Enquanto a promessa que o apóstolo João ouviu na visão refere-se à cidade que desceu dos céus, algo para o futuro, para a igreja já é realidade. Deus habita no crente.

O Espírito Eterno habita os cristãos, diferente do que ocorrerá no advento do novo céu e da nova terra, em que Deus habitará na cidade santa que desceu dos céus, o tabernáculo de Deus com os homens.

Com relação a igreja, todos os cristãos individualmente são templos, tabernáculos de Deus ( 1Co 6:19 ; 2Co 6:16 ).

 

4 E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas.

Pelo fato de Deus passar a habitar com os homens, haverá somente alegria, pois a alegria do Senhor é a força do seu povo ( Ne 8:10 ). Deus enxugará toda lágrima dos olhos dos que habitarem a nova terra, pois não mais haverá morte, pranto, dor ou clamor, isso porque as primeiras coisas concernentes à primeira criação são passadas.

A presença de Deus entre os homens é vida. A comunhão com o Senhor produzirá alegres cânticos entre o seu povo, pois não mais haverá separação entre Deus e os homens (morte) quando houver novo céu e nova terra ( Is 25:8 ).

A igreja de Cristo já é participante desta promessa, pois possui comunhão plena com Deus. Deus é vida, e ao habitar os cristãos, produz vida em abundância. A igreja não produz lágrima, pois ela é fruto da obra de Cristo, que veio consolar todos os tristes ( Is 61:2 ).

Ao ascender aos céus, Cristo enviou o Consolador, o que significa que a igreja já teve os seus olhos enxugados. A dor, o pranto, o clamor por estar cansado e oprimido já foi aliviada, uma vez que em Cristo a igreja já alcançou descanso.

Como pode os convidados do noivo estar tristes, uma vez que ele está com os seus para sempre? ( Mt 9:15 ; Mt 28:20 ).

 

5 E o que estava assentado sobre o trono disse: Eis que faço novas todas as coisas. E disse-me: Escreve; porque estas palavras são verdadeiras e fiéis.

O apóstolo João em visão ouve o que estava assentado sobre o trono dizer: “Eis que faço nova todas as coisas” ( v. 5). Cristo, em poder e glória dá por conclusa a obra da nova criação.

Cristo ordena que o apóstolo João escreva o que ouviu, pois a palavra de Cristo é fiel e verdadeira, pois quem as diz é fiel e verdadeiro ( Ap 19:11 ).

Com relação a igreja esta promessa cumpre-se no momento em que a pessoa crê em Cristo e torna-se nova criatura, sendo que todas as coisas velhas são passadas e tudo é novo ( 2Co 5:17 ).

 

6 E disse-me mais: Está cumprido. Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim. A quem quer que tiver sede, de graça lhe darei da fonte da água da vida.

Cristo, o Alfa e Ômega dá por concluso todas as coisas ( Ap 1:8 ).

Naquele dia, a quem tiver sede, será saciado de graça com a fonte da água da vida.

Esta promessa já foi cumprida com relação a igreja, pois Cristo mesmo disse: “Mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna” ( Jo 4:14 ; Jo 7:38 ).

Qualquer que come da carne e bebe do sangue de Cristo, tem a vida eterna “Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim tem a vida eterna” ( Jo 6:47 ).

 

7 Quem vencer, herdará todas as coisas; e eu serei seu Deus, e ele será meu filho.

A mensagem que o apóstolo João ouviu de Cristo após ser instalado o Grande tribunal do trono Branco definitivamente não diz da igreja, pois a igreja é mais que vencedora ( Rm 8:37 ).

A igreja não há de vencer, já está de posse da vitória por Aquele que nos amou ( 1Jo 5:4 ; 1Co 15:57 ).

A igreja não herdará, já é co-herdeira de Cristo ( Rm 8:17 ; Gl 3:29 ; Tt 3:7 ).

Aqueles que vencerem herdarão todas as coisas concernentes à nova terra, e terão Cristo por pai, e Ele será o seu Deus.

Com relação à igreja, Cristo é o verdadeiro Deus e a vida eterna. Através de Cristo todos os cristãos são filhos de Deus já no presente momento, e co-herdeiro com Cristo ( Gl 3:26 ; 1Jo 3:1 ).

A igreja possui posição privilegiada desde a ascensão de Cristo, pois todos que creem em Cristo segundo o evangelho são mais que vencedores por aquele que os amou. São herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo: possuidores de todas as coisas “Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas?” ( Rm 8:32 ).

Deus habita os que receberam poder para serem feitos filhos de Deus ( Jo 1:12 ), sendo portanto Filhos, o Espírito do Senhor clama em seus corações “Aba, Pai”, pois tal Cristo é são os que creram aqui neste mundo “E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai” ( Gl 4:6 ; 1Jo 4:17 ). Os cristãos são filhos de Deus, pois foram gerados de novo, mesmo estando em meio a uma geração perversa.

A cidade santa que desceu do novo céu ataviada como uma esposa para o marido e que servirá de tabernáculo para Deus que habitará com os homens não se compara a glória dos filhos de Deus, pois assim como Cristo é: mais sublime que os céus, serão semelhantes a Ele ( 1Jo 3:2 compare com Hb 7:27 ).

Não perca de vista as bênçãos concedidas por Deus através de Cristo por causa da presente aflição, pois ela não pode ser comparada com as riquezas da glória ( Rm 8:18 ), antes considera a Cristo que desprezou a afronta e venceu todas “Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus” ( Hb 12:2 ).

 

Este é um alerta àqueles que gostam de pregar a palavra da verdade:

Ao utilizar estes sete versos do capítulo 21 do livro das Revelações como tema de preleções em eventos e festividades, não se deve tirar o texto do seu contexto para não dar margem, ou que possibilite, anunciar promessas que não se referem a igreja de Cristo.

Cristo já abençoou a sua igreja com todas as bênçãos espirituais ( Ef 1:3 ), e concedeu tudo que diz respeito a vida e a piedade ( 1Pe 1:3 ), ou seja, não há nada que o crente ainda não esteja de posse.

Não devemos privar os cristãos do premio que Deus concedeu ( Cl 2:18 ), pois todos, neófitos ou não, já foram criados idôneos para participar da herança dos santos na luz ( Cl 1:12 ).

Quando pregar, não prometa aos cristãos o que já foi concedido por Deus, antes os conscientize do que já possuem, de que eles são idôneos, vitoriosos, consolados, filhos, templo, tabernáculo, em fim, possuidores de todas as bênçãos espirituais em Cristo Jesus.

Faça como o apóstolo Paulo, conscientize os cristãos do que possuem aos tornarem-se participantes de Cristo “É também nele que vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação” ( Ef 1:12 ). Não prometa coisas vãs, pertinentes a esta vida, pois Cristo mesmo orientou: “Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” ( Mt 6:33 ).

Em lugar de promessas, ore a Deus que conceda aos seus ouvintes que sejam iluminados os olhos do entendimento, para que possam mensurar todas as benesses concedidas por Cristo ( Ef 1:18 com Ef 3:18 -19).

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Como Interpretar as Epístolas do Novo Testamento

Em livros didático, histórico, científico ou literário não temos a figura do destinatário, antes o público alvo do livro é determinado pelo tema que aborda. Uma carta, porém, possui um publico alvo específico e restrito, que é previamente delimitado pelo próprio remetente. Por isso, é de suma importância identificar o destinatário de uma carta. Quando o destinatário de uma carta é identificado, as pesquisas históricas, socioeconômica, políticas e sociológicas na qual o emissor e o receptor da mensagem estão inseridos tornam-se fácil identificar.

 


Como Interpretar uma Carta

“Porque nenhumas outras coisas vos escrevemos, senão as que já sabeis ou também reconheceis; e espero que até o fim as reconhecereis…” ( 2Co 1:13 )

 

Destacaremos neste estudo alguns parâmetros essenciais para uma boa interpretação das cartas bíblicas que compõem o Novo Testamento.

O estudo é progressivo quanto ao desenvolvimento do raciocínio para que o leitor possa acompanhar passo a passo as lições, e, ao final, obtenha o conhecimento necessário para desenvolver uma leitura proveitosa das cartas neotestamentária.

Os parâmetros que serão apresentados diferem em muito daqueles utilizados na interpretação de textos históricos, literários, científicos, etc.

Destacaremos os pontos principais a serem observados quando da leitura de uma carta, principalmente porque o Novo Testamento é composto, na sua maioria, por cartas endereçadas aos cristãos.

 

Os Destinatários

O primeiro quesito a se identificar em uma carta é o destinatário, ou seja, aquele a quem a informação da carta interessa. A interpretação de uma carta depende muito desta informação preliminar.

Em livros didático, histórico, científico ou literário não temos a figura do destinatário, antes o público alvo do livro é determinado pelo tema que aborda. Uma carta, porém, possui um publico alvo específico e restrito, que é previamente delimitado pelo próprio remetente. Por isso, é de suma importância identificar o destinatário de uma carta.

Quando o destinatário de uma carta é identificado, as pesquisas históricas, socioeconômica, políticas e sociológicas na qual o emissor e o receptor da mensagem estão inseridos tornam-se fácil identificar.

Todas as cartas do Novo Testamento possuem características comuns:

  • Os destinatários das cartas eram cristãos;
  • Os escritores eram cristãos;
  • A doutrina de Cristo é o ponto central;
  • Viveram em uma mesma época.

Uma vez que foram destinadas a um público específico (cristãos), as cartas do Novo Testamento não apresentam uma mensagem evangelística de ‘per si’, antes, foram escritas para trazer à lembrança dos destinatários alguns aspectos da doutrina de Cristo, e em alguns casos, defende-la do ataque de pseudos cristãos.

Isto porque os destinatários das cartas do Novo Testamento eram conhecedores do evangelho, e a função precípua das cartas era trazer à lembrança dos cristãos o que conheciam “Porque nenhumas outras coisas vos escrevemos, senão as que já sabeis ou também reconheceis; e espero que até o fim as reconhecereis…” ( 2Co 1:13 ).

Através deste verso fica claro que o objetivo do apóstolo Paulo era fazer com que os cristãos de Corintos não esquecessem o que aprenderam, ou seja, as cartas do N. T. não são evangelísticas, antes foram escritas com o fito de relembrar a doutrina que haviam aprendido.

Tudo que o apóstolo Paulo escreveu aos cristãos eles já sabiam. Em suas cartas o apóstolo não se ocupou de abordar nenhum outro tema, a não ser o evangelho. Porém, as cartas não foram escritas com o objetivo de ensinar sistematicamente o evangelho.

Uma carta possui um ou mais destinatários. O público alvo das cartas bíblicas é pré-definido, e estes, por sua vez, cristãos.

A carta aos Romanos foi direcionada a uma coletividade de cristãos “Paulo, servo (…) a todos que estais em Roma, amados de Deus…” ( Rm 1:1 -7), da mesma forma que a carta aos Coríntios “Paulo, (…) à igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo…” ( 1Co 1:1 -2).

Já a carta de Timóteo é pessoal e direcionada a uma única pessoa: Timóteo “Paulo (…) a Timóteo meu verdadeiro filho…” ( 1Tm 1:2 ).

A mensagem contida nas cartas tinha o objetivo de convencer e influenciar os cristãos, porém, os problemas pertinentes a cada grupo de cristãos influenciavam diretamente os escritores das cartas.

As cartas foram direcionadas a vários grupos distintos:

  • Uma carta destinada à igreja, ou, a uma coletividade – Ex: Carta aos Romanos e carta aos Efésios;
  • Uma carta destinada a um irmão, ou, a um indivíduo – Ex: Carta a Filemom e carta a Timóteo;
  • Carta destinada a quem tinha o dever de cuidar de uma coletividade – Ex: As cartas a Timóteo e Tito;
  • Nas cartas destinadas à igreja ou a coletividade observa-se o cuidado do escritor em demonstrar que todo e qualquer homem, independente de raça, condição social ou sexo torna-se um só povo em Cristo “Desta forma não há judeu nem grego, não há servo nem livre, não há macho nem fêmea, pois todos vos sois um em Cristo” ( Gl 3:29 );

Porém, os problemas das comunidades cristãs tornaram-se agentes influenciadores dos remetentes das cartas. Dentre estes agentes influenciadores destacam-se os seguintes:

  • As heresias dos judaizantes ( Gl 2:21 );
  • Defesa do apostolado ( 1Co 9:2 );
  • Defesa do evangelho ( Jd 1:3 );
  • Dissensões no seio da comunidade ( Rm 16:17 ), etc.

Os problemas semelhantes aos elencados acima acabavam por influenciar os escritores a abordarem temas específicos conforme a necessidade de algumas comunidades, porém, em todas as cartas não há um ensino sistematizado do evangelho porque este não era o objetivo das cartas.

Diante destes aspectos iniciais, faz-se necessário olhar para as cartas como um tipo especifico de comunicação de idéias, onde o público alvo da missiva torna-se o agente motivador das idéias pertinente ao remetente da carta.

As cartas do Novo Testamento foram endereçadas a pessoas ou coletividade específica.

As cartas bíblicas foram direcionadas aos cristãos, o que nos leva a concluir que eles já conheciam o conteúdo do evangelho “Pois nenhuma outra coisa vos escrevemos, senão as que já sabeis ou reconheceis” ( 2Co 1:13 ); “Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema” ( Gl 1:8 ).

Estes versículos estabelecem uma ideia geral de como se deve olhar para as cartas do Novo Testamento. Tudo que foi escrito nas cartas já era de conhecimento e compreensão dos cristãos.

Por saberem que os destinatários conheciam o evangelho, na maioria das vezes os remetentes das cartas têm um tom de defesa do evangelho, trazendo à lembrança alguns aspectos específicos de uma doutrina do evangelho.

O que os cristãos já conheciam ou tiveram contato através da pregação pessoal do apóstolo Paulo, ou de seus filhos na fé, era defendido tenazmente contra os falsos doutores, falsos religiosos e falsos cristãos “Não vos lembrais de que estas coisas vos dizia quando ainda estava convosco?” ( 2Ts 2:5 ).

A maioria dos cristãos conheceu o evangelho por intermédio de Paulo e Pedro, o que nos conduz a seguinte conclusão: o remetente e os destinatários possuíam um conhecimento que lhes era comum. Através deste conhecimento comum foi estabelecida uma relação interpessoal entre remetente e destinatários.

Quem escreve uma carta, redige-a a quem, no mínimo, conhece, e/ou que tenha alguma relação ou afinidade pessoal. Ou, escreve àqueles que no mínimo detém os mesmos conhecimentos ou interesses. Esta peculiaridade de uma carta traz algumas implicações diferentes da interpretação de um texto, artigo ou livro.

A linguagem de quem escreve uma carta é peculiar, pois não envolve somente signos linguísticos, antes há uma linguagem própria a quem escreve e a quem recebe a informação (há uma linguagem própria entre pessoas que se conhecem e que acaba por influenciar o modo como se estabelece a comunicação).

Esta linguagem própria ao destinatário e ao remetente transcende os signos linguísticos, que acaba por evitar interpretações dúbias.

Na comunicação, tanto pela fala quanto pela escrita, busca-se transmitir uma ideia, e não somente palavras soltas. Um dos erros mais freqüentes em se interpretar uma escrita está em só buscar a significação das palavras, deixando que estes “signos linguísticos” falem por si só, sem levar em consideração a ideia geral que surge da combinação dos significados das palavras com a sua estruturação linguística.

Isto porque a comunicação, tanto escrita ou falada, possui uma linguagem tanto mais significativa e importante do que os signos linguísticos, que transcende e envolve questões culturais, sem esquecer a linguagem que é própria ao grupo.

Como exemplo há a linguagem própria e restrita aos médicos. Os médicos possuem uma linguagem própria concernente à profissão que exercem.

Os profissionais do direito, por sua vez, desenvolveram uma linguagem própria. Os policiais, dentro de suas atribuições, também possuem uma linguagem própria.

Qualquer seguimento profissional ou não da sociedade tem a sua própria linguagem, que é restrita, com uma significação própria, que é melhor compreendida dentro de um grupo em especial.

Na comunicação entre pais e filhos há uma importância maior na autoridade dos pais do que na própria linguagem utilizada. Um olhar diz muito mais que um ríspido “_ Quieto menino!”.

Dentro deste aspecto, os cuidados ao interpretar as cartas paulinas devem ser redobrados, porque a união entre os primórdios cristãos era tão grande que eles já possuíam características próprias a de uma família. Eles já haviam desenvolvido uma linguagem própria e restrita ao grupo.

Observe a diferença de apresentação entre os apóstolos Paulo e Pedro. Ambos eram apóstolos de Cristo, porém, o apóstolo Paulo necessitava fazer uma defesa do seu apostolado, o que não era necessário ao apóstolo Pedro.

Para fazer esta defesa, o apóstolo Paulo era sutil em suas argumentações, para não deixar transparecer certa arrogância, ou que ele necessitava de tal reconhecimento.

Uma carta geralmente é recheada de fragmentos de idéias e lembranças.

Está voltada para contemporâneos de quem a escreveu “Rogo-vos que, quando estiver presente, não me veja obrigado a usar com confiança da ousadia que espero ter com alguns que nos julgam” ( 2Co 10:2 ). Nós, nunca teremos esta possibilidade de encontrar Paulo segundo estes aspectos humanos.

É impossível escrever uma carta para alguém no passado ou para alguém no futuro, visto que uma carta é algo pessoal.

Um livro geralmente visa alcançar um público contemporâneo ou futuro, sendo totalmente impessoal.

 

O(s) Remetente (s)

Diferente dos livros, uma carta trás muita informação acerca de seu autor.

Por exemplo, uma carta geralmente contém uma apresentação pessoal, a motivação do escritor, trás implícito uma relação de confiabilidade entre escrito e leitor e contem muito da natureza do escritor.

A escrita de uma carta não é impessoal como os livros em geral.

Através desse diferencial é possível destacar:

  • A motivação de quem escreve uma carta;
  • O que se pretendia com a carta? Trazer uma lembrança? Dar uma notícia? Aplacar saudades?;
  • A disponibilidade de tempo e meios para se implementar a escrita da carta “Vede com que grandes letras vos escrevi de meu próprio punho” ( Gl 6:11 ).

Ao lermos as cartas paulinas, conseguimos sentir que a pessoa de Cristo era o motivo central da vida do apóstolo. O amor de Deus conquistou este homem de tal forma que motivou o seu ministério evangelístico e de defesa do evangelho.

É possível observar nas cartas uma intensa luta do apóstolo para se fazer compreendido. Desfazer qualquer tipo de interpretação errônea acerca do evangelho era o objetivo da árdua luta do apóstolo dos gentios.

Em sua maioria, as cartas do apóstolo Paulo foram endereçadas às igrejas que ele já havia visitado. As outras igrejas que ele ainda não havia visitado e acabou por escrever-lhes, estava sob cuidado de irmãos que eram filhos seus na fé, e por isso mesmo, já estavam familiarizados com a linguagem do apóstolo.

As cartas de Paulo sempre foram voltadas para o coletivo. Mesmo quando direcionada a uma pessoa em particular, como é o caso das epístolas a Timóteo e a Tito (epístola pastorais), geralmente estava tratando dos problemas relacionados à coletividade.

Ao escrever, o apóstolo estava consciente de que os leitores tinham conhecimento da matéria que ele estava tratando, pois estes leitores tinham aprendido diretamente do apóstolo ou de um de seus filhos na fé.

Um leitor que não teve um contato direto com os apóstolos, contato este que proporcionaria um conhecimento completo de expressões restritas ao grupo de cristãos primitivos, poderia formular uma interpretação dúbia, como bem demonstra o apóstolo Pedro: “Falando disto, como em todas as suas epístolas, entre as quais há pontos difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem, e igualmente as outras Escrituras, para sua própria perdição” ( 2Pe 3:16 ).

Observe nestes versículos seguintes a luta do apóstolo Paulo como remetente de uma carta:

(1) Muito trabalho e cansaço, com a finalidade de não viver à custa daqueles que estavam sendo evangelizados ( 1Ts 2:9 );

(2) O ministério de evangelismo era cumulativo, junto com o trabalho secular ( 1Ts 2:2 );

(3) Ele tinha autoridade para evocar estas lembranças, pois;

(4) Foi comissionado por Deus, sendo que, o evangelho que apregoava não era de engano, impuro ou com dolo ( 1Ts 2:2 –10).

O objetivo de uma carta pode ser variado:

  • Enviar noticias;
  • Receber notícias;
  • Amenizar saudades;
  • Orientar, ou;
  • Outras finalidades.

Ciente desta peculiaridade, para que o interprete abstraia a ideia principal do escritor é necessário saber qual a pretensão do remetente da carta. Por exemplo: qual a diferença entre a Primeira e a Segunda carta escrita aos Tessalonicenses?

Só é possível ver alguma diferença entre estas duas cartas ao descobrir qual a pretensão do escritor.

Por exemplo, na primeira carta aos Tessalonicenses, o apóstolo Paulo tem um tom saudosista sem aplicar-se à defesa do evangelho ( 1Ts 2:17 ). Ele se ocupa em demonstrar que não se esqueceu dos irmãos ( 1Ts 1:3 ), e que a esperança de todos os cristãos são idênticas: aguardar a volta de Cristo ( 1Ts 1:10 ).

Paulo lembra qual foi a missão que Timóteo recebeu e desenvolveu entre eles ( 1Ts 3:2 ), e a única questão doutrinaria abordada foi só uma lembrança do que foi instituído no Concílio de Jerusalém ( 1Ts 4:3 -4 ; At 15:28 -29).

Paulo dá a entender que os irmãos desconheciam alguns pontos acerca da esperança futura, ou seja, a esperança de quem partiu para estar com o Senhor ( 1Ts 4:13 ).

Na II carta aos Tessalonicenses o apóstolo Paulo procura desfazer um engano que surgiu em decorrência da primeira carta. Quando ele tratou sobre a esperança de quem parte com Cristo, exortou aos irmãos que consolassem um aos outros falando acerca da esperança futura “Dizemos vos isto pela palavra do Senhor” ( 1Ts 4:14 -17).

Esta nova carta tinha o objetivo de desfazer o engano causado por alguém que utilizou e distorceu a Primeira carta de Paulo “Ninguém de maneira alguma vos engane” ( 2Ts 2:3 a). Paulo demonstra que o evangelho anunciado não era para ser esquecido ou substituindo quando da chegada de uma nova carta.

Quando analisamos a primeira carta aos tessalonicenses, encontramos um tom saudosista, visto que o ministério de do apóstolo Paulo foi bem sucedido em Tessalônica. Já a segunda carta tem um tom de defesa do evangelho, fazendo com que os cristãos lembrem o que lhes fora anunciado “Não vos lembrais de que estas coisas vos dizia quando ainda estava conosco?” ( 2Ts 2:5 ).

Por mais que se pretenda expor uma ideia de maneira completa através de uma carta, o remetente acaba por utilizar fragmentos de idéias. Estes fragmentos de idéias por si só trazem a tona algumas lembranças especificas do leitor carta, visto que, já tivera um contato pleno com a idéia em questão.

Qual a pretensão do apóstolo Paulo ao escrever as cartas que hoje compõe o Novo Testamento? Evangelizar? Sistematizar o ensino do evangelho? Não!

Quem lê as cartas de Paulo deve ter em mente que ele não estava evangelizando por carta, pois isso ele já tinha feito pessoalmente “… para vos falar o evangelho de Deus, no meio de grande combate (…) enquanto vos pregamos o evangelho” ( 1Ts 2:2 e 9).

As cartas contêm o evangelho fragmentado em seus vários aspectos, ou seja, não encontramos nelas todas as doutrinas abordadas sistematicamente.

O evangelho em sua plenitude somente é possível alcançar se o leitor da bíblia analisá-la como um todo. É preciso ler o Antigo Testamento, os evangelhos e as cartas do Novo Testamento para se chegar à doutrina do evangelho que foi anunciado os cristãos primitivos.

Embora as exposições do apóstolo Paulo fossem sistematizadas por temas, como se observa em Atos dos Apóstolos, tal método não é utilizado em suas cartas “E, tratando ele da justiça, e da temperança, e do juízo vindouro, Félix, espavorido, respondeu: Por agora vai-te, e em tendo oportunidade te chamarei” ( At 24:25 ).

Quem escreve uma carta, como foi o caso do apóstolo Paulo, tem o objetivo de alcançar contemporâneos, e não pessoas além de sua época, e, por isso, ele não viu a necessidade de explicar nas cartas o sentido exato das palavras que foram utilizadas.

Aliado a isto, temos que o evangelho era um tema de conhecimento comum entre os cristãos instruídos pelos apóstolos.

Também não podemos esquecer que na antiguidade não havia as facilidades e meios para a escrita como possuímos hoje. Como conseqüência direta a escassez de meios, os apóstolos utilizaram uma linguagem sintética, sem ser prolixo, rica em figuras e exemplos e de poucas palavras. Era necessário aos apóstolos escrever pouco e dizer muito.

Com estas idéias básicas, podemos, com a ajuda do Espírito Santo de Deus, buscar os sentidos mais profundos que as escrituras sagradas contêm.

Aplicação Prática

As idéias evidenciadas neste texto são essenciais quando se interpreta uma carta. Agora, demonstraremos como observar estas regras aos ler as epístolas do Novo Testamento, e como tirar melhor proveito da leitura bíblica.

Dentre as cartas do Novo Testamento analisaremos a carta aos Colossenses, e tudo que já estudamos será levado em conta.

A epístola do apóstolo Paulo aos Colossenses foi escrita em um momento crucial para o evangelho. O ‘momento’ é caracterizado pela rápida expansão do evangelho no mundo à época e pelo surgimento de heresias e conceitos errôneos nas igrejas.

Com a rápida expansão do evangelho não havia como o apóstolo visitar e supervisionar todas as comunidades cristãs. Em várias regiões muitos cristãos nem mesmo haviam visto o apóstolo Paulo. Dentre estas igrejas temos a igreja de Colossos.

Por não conhecerem pessoalmente o apóstolo Paulo, muitos cristãos não sabiam da intensa luta do apóstolo em propagar e defender o evangelho, e na carta aos Colossenses o apóstolo Paulo destaca o seu cuidado em preservar a fé (evangelho) dos cristãos devido aos vários ‘ventos’ de doutrinas.

Em outras comunidades que o apóstolo Paulo fundou ou visitou, ele lançou mão da sua autoridade de pai na fé ao exortar e lembrar os cristãos através de suas epístolas. Entretanto, por não ter esta autoridade pessoal diante dos cristãos de Colossos, ele lembra aos irmãos que o evangelho chegou até eles através de Epafras, um dos filhos de Paulo na fé ( Cl 1:7 ).

O apóstolo Paulo, no início da carta, demonstra que o evangelho que ele estava defendendo havia sido ensinado por Epafras. Mas, quem era Epafras? Segundo Paulo, Epafras é descrito como:

  • Conservo: Paulo demonstra que Epafras tinha os mesmos encargos que ele e Timóteo. Todos eles eram servos de Cristo. Tanto Paulo quanto Epafras estavam sujeitos a um mesmo Senhor.
  • Fiel ministro: Paulo reconhece que em favor dos Colossenses, Epafras executava o seu trabalho fidedignamente.

O evangelho havia sido levado aos Colossenses por intermédio de Epafras. O evangelho que o apóstolo Paulo anunciou, e que estava se expandindo pelo mundo de então, era o mesmo evangelho que Epafras tinha ensinado àquela igreja.

Ao escrever, Paulo tinha plena certeza de que:

  • Epafras tinha feito um bom trabalho “…fiel ministro…” ( Cl 1:7 b);
  • Que os Colossenses conheciam o evangelho “…antes ouvistes pela palavra…” ( Cl 1:5 b);
  • Que somente estaria lembrando aquilo que os irmãos já conheciam “…aprendestes isto com Epafras…” ( Cl 1:7 a);

O que podemos concluir com a introdução desta epístola?

Que a carta do apóstolo Paulo aos cristãos de Colossos contém uma alerta, trazendo à lembrança dos leitores a essência daquilo que foi ensinado por Epafras. O apóstolo Paulo desejava aumentar o cuidado daqueles irmãos para que não fossem enganados.

Ao fazermos uma interpretação dos argumentos apresentados na epístola aos Colossenses, devemos ter em mente que:

  • O apóstolo Paulo não estava ensinando os conceitos rudimentares do evangelho;
  • Que a carta contém uma defesa do evangelho, ou seja, daquilo que eles já conheciam através de Epafras;
  • Que não há nada de novo concernente ao evangelho. Paulo não acrescentou nada novo à doutrina de Cristo;
  • Nesta epístola o apóstolo Paulo utiliza uma linguagem peculiar, que somente os cristãos que haviam aprendido o evangelho de uma fonte sadia, como Epafras, teriam maior facilidade de em compreender.

Mesmo não conhecendo os irmãos da igreja em Colossos, Paulo tinha recebido notícias a respeito da atitude deles com relação ao evangelho (fé) “…desde que ouvimos falar da vossa fé em Cristo Jesus, e do amor que tendes para com todos os santos…”; “… e que também nos declarou o vosso amor no Espírito” ( Cl 1:4 e 8).

Por conhecer Epafras, ele sabia o grau de conhecimento acerca do evangelho que os cristãos de Colossos adquiriam, ou melhor, o apóstolo Paulo sabia que o conhecimento que Epafras passou aos cristãos era consistente.

A carta é direcionada à igreja, e, portanto, a uma coletividade. Ela apresenta argumentos que são pertinentes às igrejas em qualquer lugar do mundo, tanto que a carta deveria ser lida também entre os irmãos da igreja em Laodicéia ( Cl 4:16 ).

Como perceber que nas cartas de Paulo temos fragmentos do evangelho, e não um evangelho sistematizado como encontramos nos livros de teologia?

Em várias passagens das cartas paulinas o apóstolo somente fez referência a doutrina do evangelho na sua totalidade. Ex: “.. da qual antes ouvistes pela palavra da verdade do evangelho…” ( Cl 1:5 ); “ em todo mundo este evangelho vai frutificando” ( Cl 1:6 ); “…do evangelho que ouvistes..” ( Cl 1:23 ).

Entretanto, em suas cartas só foi possível demonstrar alguns pontos específicos do evangelho, ou os pontos de maior relevância, trazendo à lembrança dos leitores toda uma verdade anunciada anteriormente, como bem fica descrito na carta aos Corintos “Ora, irmãos, desejo lembrar-vos o evangelho que já vos tenho anunciado…” ( 1Co 15:1 ).

Certa feita o apóstolo Paulo teve a oportunidade de falar do evangelho ao governador Félix e a sua mulher, Drusila. Naquela oportunidade o apóstolo Paulo só conseguiu falar sobre três pontos específicos do evangelho: a justiça, o domínio próprio e o juízo vindouro ( At 24:25 ), e em certo ponto da exposição o governador Félix o interrompeu.

Daí, conclui-se que em suas cartas o apóstolo Paulo não faz uma exposição completa do evangelho, antes trás à lume temas de maior relevância que deveria ser preservado na memória dos leitores. Eles não podiam esquecer o que haviam ouvido e aprendido por intermédio dos apóstolos ( 1Co 1:23 ).

 

O Ensino

O ministério do apóstolo Paulo sempre se apoiou no ensino. Ele buscava “apresentar todo homem perfeito em Cristo” ( Cl 1:28 ), e uma de suas ferramentas era o ensino sistemático do evangelho “A ele ‘Cristo’ anunciamos, admoestando a todo homem, e ensinando a todo homem em toda sabedoria…” ( Cl 1:28 ).

A disciplina ensinada pelo apóstolo dos gentios era o evangelho de Cristo. Quando chegava a uma cidade, de imediato procurava uma sinagoga onde pudesse expor o evangelho ( At 17:1 -2). A discussão em torno do evangelho estendia-se pelo tempo necessário ou enquanto aceitassem que ele falasse.

Era costume do apóstolo discutir, expor e demonstrar os pontos principais do evangelho.

Expor uma matéria é explicar, narrar, contar, revelar, tornando evidente o que se quer demonstrar.

Demonstrar é provar mediante raciocínio conclusivo, provando, evidenciando, dando a conhecer o que se quer revelar.

O apóstolo discutia, principalmente diante de pessoas avessas às suas idéias. Ele debatia sobre o evangelho contrastando-o com a lei. Esta era a forma de consolidar os seus conhecimentos e transmitir a mensagem do evangelho entre os inimigos declarados de Cristo.

Além de expor o evangelho através de tópicos, como vimos o apóstolo ensinando Félix e Drusila, ele também possuía a experiência de expor o evangelho em uma escola por dois anos. A escola de Tirano, através da pessoa do apóstolo Paulo, foi um centro de exposição do evangelho, que acabou por levar o evangelho aos habitantes da Ásia ( At 19:9 ).

Da mesma forma que o apóstolo Paulo, o escritor aos hebreus demonstrou que o evangelho era exposto através de tópicos relevantes como: O arrependimento de obras mortas, a fé em Deus, o ensino sobre o batismo, imposição de mãos, ressurreição dos mortos e o juízo eterno ( Hb 6:1 -2).

 

Uma Linguagem Prórpia

Toda matéria secular precisa de uma linguagem própria para se firmar como ciência. Uma linguagem bem construída dá consistência à idéia que se quer transmitir.

A linguagem pertinente a uma matéria tem como objetivo o seguinte:

  • Facilitar a compreensão;
  • Facilitar a transmissão do conhecimento;
  • Criar uma identidade à matéria;
  • Não dar margem à interpretação dúbia.

O apóstolo Paulo foi eclético na apresentação do evangelho por ter a sua frente dois públicos alvo: precisava convencer os judeus, e ao mesmo tempo tornar conhecida à mensagem do evangelho entre os gentios.

Para conseguir este feito foi desenvolvida uma linguagem peculiar que tornava compreensível a mensagem do evangelho entre judeus e cristãos.

Em uma igreja com um grande numero de gentios, vemos o apóstolo Paulo socorrendo-se de figuras como a família, o corpo, as relações sociais da época (livre, escravo) para conseguir expor a verdade do evangelho. Neste diapasão temos a carta aos cristãos em Efesos, sendo que a carta somente faz referência direta a dois textos do Antigo Testamento.

Ao citar na carta aos Efésios o versículo 18, do Salmo 68, Paulo o faz acompanhado de uma explicação. Ao citar Isaias 60, versículo 1, Paulo o faz acompanhado de uma advertência ( Sl 68:18 e Ef 4:8 ; Is 60:1 e Ef 5:14 ).

Outras citações do Antigo Testamento são feitas de forma velada, isto é, a citação já vem incorporada à linguagem corrente do apóstolo Paulo. Observe: “Pois somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas ( Ef 2:10 ). Compare: “Senhor, tu nos dará a paz; Tu fizeste para nós toda a nossa obras ( Is 26:12 ).

Algumas citações do Antigo Testamento quando inseridas no Novo Testamento são incorporadas ao texto das carta com uma gama de conhecimento que, só terá total compreensão àqueles que conhecem as passagem do Antigo Testamento.

Os cristãos em Éfeso talvez não tivessem este problema, pois é provável que já tinham estavas verdades impressas em suas memórias.

Ao construir a linguagem empregada nas cartas, o apóstolo Paulo teve como elemento principal os livros dos Salmos e os profetas para tratar com os judeus, e a figura da família e do corpo humano para lembrar pontos específicos do evangelho aos gentios.

A construção de uma linguagem própria ao evangelho torna acessível à compreensão dos neófitos, e facilita a transmissão do conhecimento àqueles que já possuíam conhecimento de algumas passagens bíblicas.

A linguagem utilizada por Paulo é restrita aos primeiros cristãos, criando através dela uma identidade à matéria que a compõe, que é o evangelho. O que seria esta LINGUAGEM em si?

Por exemplo: para tratar de temas específicos como a ressurreição, o velho homem e o novo nascimento, o termo “morte” torna-se indispensável. Para demonstrar a ressurreição, o novo nascimento e o que ocorre com o ‘velho homem’ ao ter um encontro com Cristo, o apóstolo Paulo sempre utiliza a palavra ‘morte’.

Todas as vezes que o apóstolo Paulo faz um comentário sobre a morte de Cristo ele frisa de maneira bem nítida que Cristo morreu, descendo a sepultura, para posteriormente ressurgir dentre os mortos. Observe que o apóstolo Paulo nunca fez referência à morte de Cristo com o termo “dormir”.

Cristo morreu, ou seja, nunca o apóstolo emprega a palavra ‘dormir’. Porém, mesmo com este cuidado algumas seitas surgiram dizendo que Cristo não havia morrido.

Mesmo com uma linguagem própria surgiram distorções em certos grupos a respeito da pessoa de Cristo e do evangelho. Diante disto, imagine se o apóstolo tivesse uma só vez utilizado o termo ‘dormir’ ao fazer referencia a morte de Cristo no calvário. Haveria grande confusão, visto que oportunistas, que não crêem na morte de Cristo, utilizariam a linguagem do apóstolo Paulo de forma deturpada!

O uso de uma linguagem ou termo específico a uma determinada lição auxilia entender a matéria, reduz as interpretações distorcidas e ajuda a identificar quem realmente conhece a bíblia e faz parte de um grupo Cristão.

Outra forma de expor certo tema é a forma com que o apóstolo se inclui na narrativa ao tratar de um assunto específico. Todas as vezes que o apóstolo Paulo trata do tema que aponta o homem sem Cristo como pecador, ou de julgamento, ele se inclui ou utiliza a primeira pessoa para tratar do assunto.

Exemplificando: “Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” ( 1Tm 1:15 ); “Mas se nós julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados ( 1Co 11:31 ); “Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” ( Rm 5:8 ); “Nós somos judeus por natureza, e não pecadores dentre os gentios” ( Gl 2:15 ), etc.

Em alguns temas abordados em suas cartas, o apóstolo Paulo procurou não expor as pessoas envolvidas naquela determinada situação. Ex: “Ora, irmãos, apliquei estas coisas figuradamente a mim e a Apolo, por amor de vós…” ( 1Co 4:6 ).

O apóstolo Paulo ao ser informado da dissensão que havia na igreja de Corinto, acabou por utilizar o seu nome, o de Apolo e o de Pedro para não dar ênfase ao nome dos partidários. Esta atitude do apóstolo deriva do amor que ele sentia pelos irmãos, que ainda estavam se desenvolvendo, mas que a soberba estava a rondar-lhes os seus corações, acabando por criar partidarismo entorno de certas pessoas.

Existiam alguns partidários dentro da igreja de Corinto, mas ao compreendermos a linguagem do apóstolo Paulo, fica esclarecido que este partidarismo não envolvia a pessoa de Paulo, ou de Cristo, ou de Pedro ou de Apolo, e, sim, de alguns que queriam ter preeminência na igreja.

Após verificar a linguagem utilizada pelo apóstolo Paulo, é possível verificar algumas diferenças incrustadas em suas epístolas. Por exemplo: a carta aos Filipenses difere da carta aos Colossenses porque o apóstolo já tinha visitado os cristãos de Filipos, e não havia visitado os de Colossos.

Observe que a carta aos Filipenses não apresentam frases explicativas como as que aparecem na carta aos Colossenses, como a seguinte: “Em quem temos a redenção pelo seu sangue”, a saber, “a remissão dos pecados” ( Cl 1:14 ).

O apóstolo Paulo explicação o significado do que é redenção e como os cristãos foram reconciliados com Deus “vos reconciliou no corpo da sua carne, pela morte…” ( Cl 1:22 ).

Ao falar da circuncisão com Cristo, o apóstolo Paulo demonstra que a circuncisão de Cristo não se consegue utilizando mãos humanas, contrastando a circuncisão de Cristo com a circuncisão da lei. A circuncisão do novo testamento diz do despojar do corpo da carne, visto que é necessário lançar fora toda a carne, ou seja, o corpo do pecado.

 

Comparando algumas Cartas do Novo Testamento

Ao analisar as cartas do apóstolo Paulo e do apóstolo Pedro é possível perceber uma forma especifica e semelhante quanto a composição das cartas. Observe:

 

Apresentação Pessoal

“Paulo, apóstolo de Cristo Jesus…” ( Ef 1:1 );

“Paulo e Timóteo, servo de Cristo…” ( Fl 1:1 );

“Paulo, apóstolo de Cristo…” ( Cl 1:1 );

“Pedro, apóstolo de Jesus Cristo…” ( 1Pe 1:1 ).

 

Agradecimento

“Bendito seja o Deus e Pai…” ( Ef 1:3 -16);

“Dou graças ao meu Deus…” ( Fl 1:3 );

“Graças damos a Deus, Pai…” ( Cl 1:3 );

“Bendito seja o Deus e Pai…” ( 1Pe 1:3 ).

 

Motivo de Louvor

“…todas as bênçãos espirituais” ( Ef 1:3 -16);

“…todas as vezes que me lembro de vós…” ( Fl 1:3 );

“…por causa da esperança que vós está reservada (…) que nos fez idôneos para participar…” ( Cl 1:5 e 12 -14);

“…nos gerou de novo…” ( 1Pe 1:3 ).

 

Pedido em oração

“…lembrando de vos nas minhas orações…” ( Ef 1:16 -18);

“…em todas as minhas orações, súplicas…” ( Fl 1:4 -11);

“…não cessamos de orar por vós e pedir…” ( Cl 1:9 );

“Portanto, sede sóbrios, e vigiai em oração” ( 1Pe 4:7 ).

 

O pedido

“…para que sejam iluminados os olhos do vosso entendimento” ( Ef 1:17 -19);

“…que o vosso amor aumente mais e mais em pleno conhecimento e toda percepção…” ( Fl 1:9 -10);

“…cheios do pleno conhecimento da sua vontade (…) crescendo no conhecimento de Deus” ( Cl 1:9 -11 );

“Portanto, cingindo os lombos do vosso entendimento..” ( 1Pe 1:13 );

 

A pessoa de Cristo

“…que manifestou em Cristo, ressuscitando…” ( Ef 1:20 -23);

“…de sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus” ( Fl 2:5 -11);

“Ele é a imagem do Deus invisível…” ( Cl 1:15 -20);

“Chegando-vos para ele, pedra viva, rejeitada, na verdade, pelos homens…” ( 1Pe 2:4 );

 

A salvação, ou o que foi realizado em Cristo

“Ele vos vivificou, estando vós mortos…” ( Ef 2:1 -10);

“…para que sejais irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis…” ( Fl 2:15 );

“…vós reconciliou no corpo da sua carne (…) E recebestes a plenitude em Cristo…” ( Co 1:21 -22 e 2:10 -15);

“…nos gerou de novo para uma viva esperança” ( 1Pe 1:3 ) “Tendo purificado as vossas almas na obediência à verdade (…) tendo sido regenerados” ( 1Pe 1:22 -23).

 

Um Pedido sobre a Nova Maneira de Viver

“…rogo-vos que andeis como é digno da vocação…” ( Ef 4 a 6 );

“O que é mais importante, deveis portar-vos dignamente…” ( Fl 1 a 4);

“Portanto, assim como recebestes a Cristo Jesus, o Senhor, andai nele…” ( Cl 2:6 -8 e 3 a 4);

“Como filhos obedientes, não vos conformeis com as concupiscências…” ( 1Pe 1:14 ); “Deixando, pois, toda a malicia, todo engano…” ( 1Pe 2:1 ).

Observe que a maior diferença na composição das cartas de Paulo e de Pedro está no elemento oração, visto que a oração é algo pessoal e intimo.

O apóstolo Paulo era focado na deficiência dos cristãos quanto ao que compreendiam do evangelho, e orava a Deus pedindo que lhes fossem abertos os olhos do entendimento.

Pedro, da mesma forma, solicita aos irmãos que cingissem os lombos do entendimento. Era necessário que eles adquirissem um novo conhecimento, contrastando com o velho conhecimento, denominado de ignorância.

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Objetivo do Livro de Provérbios

O livro de provérbio constitui uma espécie de chave que permite interpretar os outros livros que compõe as Escrituras. Através dos provérbios é possível encontrar a ideia base de alguns termos que permitirá compreender uma verdade contida em outros livros. Em outras palavras, o livro de provérbios é um ‘catalisador’ que permite a compreensão de enigmas e parábolas que são apresentados em outros livros. Constitui-se uma chave mestra.


 

“1 PROVÉRBIOS de Salomão, filho de Davi, rei de Israel; 2 Para se conhecer a sabedoria e a instrução; para se entenderem, as palavras da prudência. 3 Para se receber a instrução do entendimento, a justiça, o juízo e a equidade; 4 Para dar aos simples, prudência, e aos moços, conhecimento e bom siso; 5 O sábio ouvirá e crescerá em conhecimento, e o entendido adquirirá sábios conselhos; 6 Para entender os provérbios e sua interpretação; as palavras dos sábios e as suas proposições” ( Pv 1:1 -6)

 

O livro de Provérbios é classificado como um dos livros sapienciais do Antigo Testamento, e está inserido entre o Livro de Salmos e Eclesiastes na Bíblia.

Mas, qual o objetivo dos muitos provérbios elencados neste maravilhoso livro?

Seria um convite aos judeus para aguçar, manter e valorizar a cultura popular e religiosa do povo? Seria ensino de cunho moral e ético?

Segundo o que se abstrai da introdução do livro, o seu objetivo é muito maior que estabelecer uma cultura, fortalecer a religiosidade e difundir ensinamentos éticos e morais. Vejamos!

PROVÉRBIOS de Salomão, filho de Davi, rei de Israel

Na sua maioria os provérbios contidos no livro são atribuídos ao rei Salomão, filho de Davi, que foi um dos reis em Israel. Porém, no livro também há provérbios de outros autores.

Para se conhecer a sabedoria e a instrução;

para se entenderem, as palavras da prudência.

Para se receber a instrução do entendimento, a justiça, o juízo e a equidade;

Para dar aos simples, prudência, e aos moços, conhecimento e bom siso;

 

À semelhança da poesia hebraica, os provérbios possuem um quê poético, um ritmo forte de ideias, porém, difere dos salmos, que na sua maioria são cânticos proféticos compostos para serem entoados com instrumentos musicais de corda (Mizmor) ou sem instrumento (Shir).

A semelhança fica somente por conta do valor das ideias, como se dava com o cântico satírico (Mashal – termo derivado de uma raiz que significa “ser como”), que geralmente se dá por estabelecer comparações e equivalências entre as ideias.

A poesia hebraica valoriza a ideia em detrimento do ritmo e da rima, diferença significativa com relação à poesia ocidental.

A poesia hebraica é composta na essência de paralelismo, que é uma espécie de rima e ritmo de pensamentos, o que, consequentemente, estabelece um tipo de trava lógica entre a ideia antecedente e a consequente.

Há vários tipos de paralelismo na poesia hebraica e, construção similar ocorre nos provérbios, o que permite analisar as proposições através da lógica.

Qual a natureza dos provérbios de Salomão? É sabedoria humana ou sabedoria espiritual?

É sabedoria espiritual! Apresenta aos homens a sabedoria que é de cima ( Tg 3:17 ), visto que o ‘temor’ do SENHOR é o princípio da sabedoria.

O livro de provérbio constitui uma espécie de chave que permite interpretar os outros livros que compõe as Escrituras. Através dos provérbios é possível encontrar a ideia base de alguns termos que permitirá compreender uma verdade contida em outros livros.

Em outras palavras, o livro de provérbios é um catalisador que permite a compreensão de enigmas e parábolas que são apresentados em outros livros. Constitui-se uma chave mestra que permite abrir outros livros à compreensão.

Na introdução do livro tem-se o seu objetivo: “Para se conhecer a sabedoria e a instrução”, ou seja, o livro foi escrito com o propósito de tornar ‘conhecida’ a sabedoria e a instrução. Ele permite ao homem ‘entender’ as palavras da prudência ( Lc 11:31 ).

Quais são as palavras da ‘prudência’? Refere-se à palavra de Deus, que é Cristo, o Verbo encarnado.

O livro tem por objetivo capacitar o leitor a ‘entender’ os provérbios e sua interpretação. Por que é necessário entender os provérbios? Por que é necessário interpretá-los se eles são construídos com proposições simples?

É importante notar que o livro de provérbios tem o objetivo de dar entendimento ao ‘sábio’, e não ao tolo, o que parece ser um contra senso (v. 5). É o sábio que precisa de entendimento? Não seria o tolo? Ora, com relação às escrituras, sábio é aquele que se aplica ao temor do Senhor, ou seja, ao conhecimento da palavra de Deus. ‘Sábio’ não tem relação a quem é letrado ou versado no conhecimento humano.

Observe: “Naquele tempo, respondendo Jesus, disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos” ( Mt 11:25 ). O Senhor Jesus demonstrou que há um conhecimento que não é próprio aos sábios e entendidos deste mundo, e nesta descrição encaixa-se os religiosos judeus e as várias correntes filosóficas. A Sabedoria que vem de Deus consiste em ‘revelação’ reservada aos seus ‘pequeninos’, que é descrição própria de todos que O aceitam pela fé, não importando se rico ou pobre, leigo ou sábio.

Ou seja, o livro de provérbio tem o objetivo de ensinar a alcançar a sabedoria que vem do alto, diferente de outras disciplinas humanas que visa uma vida prudente baseada em fazer o que é correto, justo e digno segundo a moral e a ética.

Por ser uma frase curta, bem construída, que expressa uma ideia simples vincada na experiência humana, muitos só conseguem visualizar que os provérbios consistem em ensinamentos deduzidos da experiência que o povo tem da vida com o fito de orientá-los com relação às coisas deste mudo. É daí que surge o equívoco.

Não consegue ver a importância do livro no contexto geral das Escrituras. O livro de provérbios foi escrito especificamente para se compreender os provérbios, os adágios, os enigmas e as parábolas, pois esta seria a forma que Cristo utilizaria para falar com o povo de Israel ( Pv 1:6 ).

Para entender os provérbios e parábolas; os adágios e os enigmas dos sábios

O que entender com o seguinte provérbio:

“Livrar-te-á também da mulher adultera e da estrangeira, que lisonjeia com suas palavras, a qual deixou o companheiro da sua mocidade e se esqueceu da aliança do seu Deus” ( Pv 2:16 -17)

Um leitor culto ou leigo, somente verá neste provérbio um alerta de cunho moral, para que o homem não se deixe enlaçar por uma mulher adultera e, para os judeus, que não se envolvessem com mulheres estrangeiras.

Mas, quem tem o ‘conhecimento’ do Santo, vai olhar o provérbio e observar que o problema da ‘mulher adultera’ está na sua palavra, e não no apelo de ordem sexual, assim como o mau caminho dos versos anteriores está relacionado com as palavras de perversidade proferidas pelos judeus ( Pv 2:12 ). Observará que o provérbio faz referência a uma ‘mulher adultera’ específica, a que deixou a aliança com o seu Deus: Israel ( Pv 2:17 ).

Ou seja, a ‘mulher adultera’ é uma figura para falar da condição de Israel, que deixou a aliança com Deus, ou seja, representa a nação (homens) que segue após os seus caminhos e proferem palavras perversas, palavras estas que se equiparam com as ‘lisonjas’ de uma mulher adultera.

Se observarmos os profetas, verificamos a verdade real que há no provérbio:

“Foste como a mulher adúltera que, em lugar de seu marido, recebe os estranhos” ( Ez 16:32 ; Jr 3:20 ).

Jesus nada falava ao povo a não ser por parábolas, ou seja, quando Ele disse: “Mas ele lhes respondeu, e disse: Uma geração má e adúltera pede um sinal, porém, não se lhe dará outro sinal senão o do profeta Jonas” ( Mt 12:39 ), não estava acusando os fariseus de serem promíscuos, antes de terem deixado a aliança de Deus ( Mc 4:34 ).

Se os judeus soubessem interpretar os provérbios, saberiam que Cristo haveria em ensiná-los utilizando adágios da antiguidade, como profetizou o salmista Davi ( Sl 78:2 ).

Prova de que o provérbio não faz referência ao comportamento reprovável de uma mulher adultera reside no fato de Jesus oferecer a mulher samaritana água viva, embora ela estivesse com um marido que não lhe pertencia, sendo que já tivera cinco maridos ( Jo 4:18 ).

Com o auxilio dos provérbios é possível compreender porque Tiago chama alguns dos seus leitores, que estavam distorcendo a verdade bíblica de adúlteros “Adúlteros e adúlteras, não sabeis vós que a amizade do mundo é inimizade contra Deus? Portanto, qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” ( Tg 4:4 ).

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