O reino dos céus, os ricos e os pobres

Devido às diversas leituras acerca do tema ‘riqueza’ versus ‘reinos dos céus’ surgiram propostas teológicas como o ‘evangelho social’ e a ‘teologia da libertação’…

 


“Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?”  ( Lc 12:20 )

 

Como interpretar a parábola do rico insensato?

“E propôs-lhe uma parábola, dizendo: A herdade de um homem rico tinha produzido com abundância; E ele arrazoava consigo mesmo, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos. E disse: Farei isto: Derrubarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens; E direi a minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus” ( Lc 12:16 -21).

Após a leitura da parábola, podemos perguntar: o evangelho de Cristo é avesso aos ricos? Ser abastado financeiramente e ser salvo é impossível? Para ser um discípulo de Cristo é necessário ser desprovido de bens materiais? Deus não aceita os abastados de bens materiais? Ao homem que faz planos de angariar fortuna com o fito de viver abastado é negado acesso a graça de Deus?

Devido às diversas leituras acerca do tema ‘riqueza’ versus ‘reinos dos céus’ surgiram propostas teológicas como o ‘evangelho social’ – movimento protestante norte-americano (1880-1930) sob influência do liberalismo teológico que pretendia apresentar uma resposta ‘cristã’ à situação de miserabilidade dos trabalhadores e imigrantes – e a ‘teologia da libertação’ – movimento que surgiu na América Latina em meados do século 20, articulado por teólogos católicos e protestantes, que diante das injustiças e exclusão social fomentado por um quadro de grandes tensões políticas, econômicas e sociais, levantaram uma bandeira centrada na ideia de um Deus ‘libertador’.

Mas, qual é a proposta de Jesus ao propor a parábola do rico louco? Ele buscava uma transformação econômica e social das sociedades à época, ou uma revolução na mentalidade (metanoia) de seus ouvintes acerca de questões relativas ao reino dos céus?

 

A parábola

O primeiro passo para compreender a parábola do rico insensato é entender porque Jesus utilizava parábolas para falar ao povo de Israel. A resposta para esta pergunta é objetiva e foi apresentado pelo próprio Cristo: “Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não veem; e, ouvindo, não ouvem nem compreendem” ( Mt 13:13 ; Is 6:9 ).

Ora, Jesus falava à multidão por parábola porque estava previsto que o Messias proporia aos seus ouvintes enigmas antigos “Abrirei a minha boca numa parábola; falarei enigmas da antiguidade” ( Sl 78:2 ; Mt 13:35 ). Enquanto Jesus cumpria as Escrituras falando ao povo por parábolas, o povo, por ser de dura servis, viam, ouviam e não compreendiam.

O povo de Israel devia saber que Deus não falava abertamente (sem enigmas) com eles porque foi justamente isto que pediram quando não confiaram em Deus “E disseram a Moisés: Fala tu conosco, e ouviremos: e não fale Deus conosco, para que não morramos” ( Êx 20:19 ); “Filho do homem, propõe um enigma, e profere uma parábola para com a casa de Israel” ( Ez 17:2 ). Ouvir a voz de Deus sem enigmas era um privilegio de Moisés “Boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas; pois ele vê a semelhança do SENHOR; por que, pois, não tivestes temor de falar contra o meu servo, contra Moisés?” ( Nm 12:8 ).

Uma característica fundamental da palavra de Deus são as parábolas e os seus enigmas. O fato de Jesus falar por parábolas era um sinal de que Jesus era o Cristo e que falava as palavras de Deus “Porque eu não tenho falado de mim mesmo; mas o Pai, que me enviou, ele me deu mandamento sobre o que hei de dizer e sobre o que hei de falar” ( Jo 12:49 ).

Como o povo de Israel não prestou atenção na mensagem de Jesus como o enviado de Deus, antes se escandalizaram por pensarem que Ele era filho de José e Maria ( Mt 13:54 -57), a profecia de Isaias cumpriu-se neles: “E neles se cumpre a profecia de Isaías, que diz: Ouvindo, ouvireis, mas não compreendereis, e, vendo, vereis, mas não percebereis” ( Mt 13:14 ).

A exposição das parábolas ao povo era segundo a medida que podiam compreender, porém, os enigmas escapavam até mesmo aos discípulos, que em particular eram instruídos “E com muitas parábolas tais lhes dirigia a palavra, segundo o que podiam compreender. E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” ( Mc 4:33 -34); “E disse-lhes: Não percebeis esta parábola? Como, pois, entendereis todas as parábolas?” ( Mc 4:13 ).

Os filhos de Jacó não ouviam, não compreendiam e não percebiam, não em função de Deus querer turvar-lhes o entendimento, antes não ouviam, não compreendiam e não percebiam porque eram de dura servis, ou seja, não se sujeitavam a Deus para obedecê-Lo “Porque o coração deste povo está endurecido, E ouviram de mau grado com seus ouvidos, E fecharam seus olhos; Para que não vejam com os olhos, E ouçam com os ouvidos, E compreendam com o coração, E se convertam, E eu os cure” ( Mt 13:15 ).

Quando Jesus contava uma parábola utilizava relações humanas, eventos do dia a dia, questões materiais, etc., porém, o foco era apresentar ao povo questões espirituais e que já foram abordadas nas Escrituras “Ele, respondendo, disse-lhes: Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhes é dado” ( Mt 13:11 ).

Por exemplo: quando Jesus conversou com Nicodemos e lhe disse que o vento sopra onde quer e ouve-se a sua voz, aparentemente foi utilizado eventos do cotidiano para explicar o novo nascimento, porém, Jesus citava as Escrituras “Se vos falei de coisas terrestres, e não crestes, como crereis, se vos falar das celestiais?” ( Jo 3:12 ; Ec 11:5 ).

O leitor das Escrituras precisa estar alerta, pois todas as parábolas contêm enigmas a serem desvendados. Interpretar uma parábola sem considerar os enigmas contidos nela é má conclusão na certa. Geralmente as parábolas apresentadas no Novo Testamento foram contadas para expor uma verdade defendida pelos profetas, salmos, provérbios e a lei.

 

Sombra, mentira, vaidade

“Na verdade, todo homem anda numa vã aparência; na verdade, em vão se inquietam; amontoam riquezas, e não sabem quem as levará” ( Sl 39:6 )

A parábola do rico ‘louco’ foi contada para evidenciar ao povo de Israel uma verdade contida no salmo 39, verso 6: ‘todo homem anda numa vã aparência’, ou seja, é como uma ‘sombra’, alienado de Deus que é a verdade o homem é ‘mentira’.

O salmo não exclui os judeus desta condição quando diz: todo homem anda numa vã aparência!

O verso 6 do Salmo 39 é inclusivo como o Salmo 53: “Deus olhou desde os céus para os filhos dos homens, para ver se havia algum que tivesse entendimento e buscasse a Deus. Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um” ( Sl 53:2 -3).

Todos os homens se desviaram e juntamente se fizeram imundo, quer sejam gentios quer judeus. Todos juntamente se desviaram, e andam numa ‘vã aparência’. Por causa da separação decorrente da ofensa no Éden, todos os homens são comparáveis a uma sombra.

O salmo 58 enfatiza a mesma ideia: “Desviam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nascem, proferindo mentiras” ( Sl 58:3 ). Todos os homens se desviaram de Deus, de modo que todos os que nascem da madre são ímpios, ou seja, proferem mentiras, quer sejam gentios ou judeus.

Como todos os homens vêm ao mundo proveniente da madre e os ímpios desviam-se na madre, certo é que todos os homens por serem gerados segundo a semente corruptível de Adão são ímpios.

Diante desta verdade evidenciada nas Escrituras, os judeus equivocadamente julgavam que a lei, os profetas e os salmos protestavam exclusivamente contra os gentios, e que somente os gentios se desviaram de Deus por não serem descendentes da carne de Abraão.

Por serem descendentes da carne de Abraão, quando os judeus liam que ‘todos se desviaram de Deus’, prevaricavam quanto à interpretação, pois entendiam que as Escrituras protestavam somente contra os gentios, uma vez que os judeus entendiam que estava em uma condição diferenciada frente aos gentios por ter recebido a lei por intermédio de Moisés.

Ao falar do tema, o apóstolo Paulo demonstrou que tudo o que a lei diz, dizia aos que estavam debaixo da lei, ou seja, aos judeus, de modo que, apesar de serem descendentes da carne de Abraão, os judeus também eram ímpios assim como os gentios, uma vez que todos se desviaram de Deus desde o ventre por serem filhos de Adão ( Rm 3:19 ).

Diante das Escrituras fica claro que os judeus não são melhores que os gentios, pois ambos estão debaixo do pecado ( Rm 3:9 ), como se lê: ‘todo homem anda numa vã aparência’, ou seja, são mentirosos “De maneira nenhuma; sempre seja Deus verdadeiro, e todo o homem mentiroso; como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras, E venças quando fores julgado” ( Rm 3:4 ).

Como o salmista sabia que Deus não fazia distinção alguma entre judeus e gentios, Davi admite (confessa) a sua condição quando clama: “Contra ti, contra ti somente pequei, e fiz o que é mal à tua vista, para que sejas justificado quando falares, e puro quando julgares” ( Sl 51:4 ). Por que o salmista tinha certeza de que era pecador? Porque judeus e gentios igualmente são formados e concebidos em pecado “Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe” ( Rm 51:4 -5).

O salmista Davi sabia que há somente duas gerações: uma é a geração dos ímpios e outra é a geração dos justos. Era de conhecimento do salmista que, não importam as ações dos homens, a recompensa deles é conforme a geração dos seus pais ( Sl 49:19 ). Temos duas sementes e duas gerações, sendo que a semente que permanecerá para sempre diz da semente do último Adão, e a semente que perece, a semente do primeiro pai da humanidade, Adão ( Sl 112:2 ; Sl 89:4 ; Sl 24:6 ; Sl 22:30 ).

É em função desta realidade que Davi roga a Deus para ser gerado de novo segundo a sua palavra (semente incorruptível), que cria um novo coração e concede ao homem um novo espírito ( Sl 51:10 ; Ez 36:26 ).

Os termos riqueza e pobreza são utilizados nas Escrituras para esclarecer a situação do pecador diante de Deus e é justamente fazendo alusão ao pecado que o termo riqueza é citado nas Escrituras, e a análise dos termos ‘riqueza’ e ‘pobreza’ é imprescindível para responder às questões.

Como é possível ‘todo homem’ amontoar riquezas e não saber quem as levará, se na sua maioria os homens são desprovidos de bens materiais? Os bens de um homem, quer pobres ou ricos, não ficam sob o cuidado de seus herdeiros? Quando analisamos o verso 6 do Salmo 39, temos que nos perguntar: estamos diante de uma parábola e seus enigmas, ou há um equivoco na abordagem do salmista? Como é possível haver tantos homens desprovidos de bens materiais no mundo se o salmo diz que ‘todo’ homem amontoam riquezas? “Na verdade, todo homem anda numa vã aparência; na verdade, em vão se inquietam; amontoam riquezas, e não sabem quem as levará” ( Sl 39:6 ).

Os judeus deviam ter o cuidado de, ao ler as Escrituras, se perguntarem por que elas dizem que ‘todos’ os homens ‘andam em vã aparência’, e porque elas não contem uma ressalva quanto aos judeus dizendo: todo homem, exceto os descendentes da carne de Abraão, andam numa vã aparência. Se tivessem o cuidado de observar que as Escrituras protestavam que todo homem amontoam riquezas e não sabem quem as levará, deveriam inquirir por que existiam tantos pobres.

O mesmo entrave ocorre com os termos ‘louco’, ‘néscio’ que consta na parábola em comento e em outras partes das Escrituras, termos que são utilizados depois da acusação feita por Moisés ao povo de Israel: “Recompensais assim ao SENHOR, povo louco e ignorante? Não é ele teu pai que te adquiriu, te fez e te estabeleceu?” ( Dt 32:6 ).

Após a abordagem de Moisés os termos ‘louco’, ‘néscio’, ‘ignorante’ tornaram-se uma ‘figura’ específica empregada ao longo das Escrituras para fazer referencia ao povo de Israel que eram de dura servil (rebeldes).

O salmo 53 é um exemplo: “DISSE o néscio no seu coração: Não há Deus. Têm-se corrompido, e cometido abominável iniquidade; não há ninguém que faça o bem. Deus olhou desde os céus para os filhos dos homens, para ver se havia algum que tivesse entendimento e buscasse a Deus. Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um. Acaso não têm conhecimento os que praticam a iniquidade, os quais comem o meu povo como se comessem pão? Eles não invocaram a Deus” ( Sl 53:1 -4).

O ‘néscio’ que se comporta como se Deus não existisse diz dos lideres de Israel, homens que se alimentavam do povo de Deus como se comessem pão (compare verso 1 com o 4). Esta figura é utilizada diversas vezes pelos profetas: “Chegarão os dias da punição, chegarão os dias da retribuição; Israel o saberá; o profeta é um insensato, o homem de espírito é um louco; por causa da abundância da tua iniquidade também haverá grande ódio” ( Os 9:7 ); “Assim diz o Senhor DEUS: Ai dos profetas loucos, que seguem o seu próprio espírito e que nada viram!” ( Ez 13:3 ); “Deveras o meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios, e não entendidos; são sábios para fazer mal, mas não sabem fazer o bem” ( Jr 4:22 ); “Atendei, ó brutais dentre o povo; e vós, loucos, quando sereis sábios?” ( Sl 94:8 ).

Observa-se nas Escrituras que o termo ‘louco’ não é utilizado para fazer alusão aos gentios, antes somente é empregado para censurar os filhos de Israel. Esta figura também foi utilizada por Cristo e os apóstolos: “Loucos! Quem fez o exterior não fez também o interior?” ( Lc 11:40 ); “E ele lhes disse: Ó néscios, e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram!” ( Lc 24:25 ); “Instrutor dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei” ( Rm 2:20 ).

Quando lemos na parábola: “Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?”, verifica-se que a reprimenda de Jesus tem por alvo os judeus, pois este era o público a quem foi anunciado a parábola do rico.

Outro elemento a se considerar na parábola é a condição financeira do ‘louco’ e o que ela representa. Devemos considerar a riqueza do homem louco como perniciosa, ou a riqueza é uma figura enigmática que demanda ser estudada e desvendada?

No sermão da montanha registrado por Lucas, temos o seguinte discurso: “E, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis fartos. Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir. Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem e quando vos separarem, e vos injuriarem, e rejeitarem o vosso nome como mau, por causa do Filho do homem. Folgai nesse dia, exultai; porque eis que é grande o vosso galardão no céu, pois assim faziam os seus pais aos profetas. Mas ai de vós, ricos! porque já tendes a vossa consolação. Ai de vós, os que estais fartos, porque tereis fome. Ai de vós, os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis. Ai de vós quando todos os homens de vós disserem bem, porque assim faziam seus pais aos falsos profetas” ( Lc 6:20 -26).

É significativo o fato de que os que creem em Cristo são descritos como pobres, e os que rejeitam a Cristo são designados ‘ricos’. Considerando o fato de que Jesus só falava ao povo utilizando parábolas, significa que Jesus não estava fazendo distinção entre os seus ouvintes quanto às questões de ordem financeira e sim quanto aqueles que realizavam a vontade de Deus “Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” ( Jo 6:40 ).

Significa que qualquer que confiar em Cristo, quer seja rico quer seja pobre financeiramente é bem-aventurado, portanto, pobre, manso, triste, etc. Qualquer que não confia em Cristo, quer seja rico ou pobre financeiramente é descrito como farto, rico, etc.

Quando Tiago diz: “EIA, pois, agora vós, ricos, chorai e pranteai, por vossas misérias, que sobre vós hão de vir. As vossas riquezas estão apodrecidas, e as vossas vestes estão comidas de traça. O vosso ouro e a vossa prata se enferrujaram; e a sua ferrugem dará testemunho contra vós, e comerá como fogo a vossa carne. Entesourastes para os últimos dias. Eis que o jornal dos trabalhadores que ceifaram as vossas terras, e que por vós foi diminuído, clama; e os clamores dos que ceifaram entraram nos ouvidos do Senhor dos exércitos. Deliciosamente vivestes sobre a terra, e vos deleitastes; cevastes os vossos corações, como num dia de matança. Condenastes e matastes o justo; ele não vos resistiu” ( Tg 5:1 -6), os ‘ricos’ referem-se aos judeus (ricos) que não creram, condenaram e mataram o Cristo, de modo que, por rejeitarem a Cristo, o único que tem ouro e prata aprovados ( Ap 3:18 ), a riquezas deles estavam apodrecidas, as vestes destruídas e entesouraram ira para o dia do juízo.

Daí a palavra de ordem: “Senti as vossas misérias, e lamentai e chorai; converta-se o vosso riso em pranto, e o vosso gozo em tristeza” ( Tg 4:9 ), que é o mesmo que ‘arrependei-vos’ ( At 2:38 ). Por que deveriam sentir as suas misérias e lamentarem? Porque os judeus rejeitaram a Cristo por entenderem que possuíam recursos necessários para serem salvos, mas na verdade eram pobres, cegos e nus “Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu” ( Ap 3:17 ). ‘Sentir a miséria’ e ‘lamentar’ são figuras que rementem às pessoas que mudam de concepção (arrependimento) dando ouvidos ao anunciador de boas novas, que é Cristo. Se o contrito de espírito, o manso, o pobre, etc., ouve a mensagem do evangelho e crê, recebe de Deus glória, gozo, louvor, etc. ( Sl 61:1 -3).

Daí é possível entender a seguinte fala de Jesus: “Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas!” ( Mc 10:23 ). Os discípulos ficaram perplexos quando Jesus disse que os que ‘têm riquezas’ dificilmente entrarão no reino dos céus, pois pensaram que Jesus falava dos abastados financeiramente.

Porém, diante da admiração dos seus discípulos, Jesus explica: “Filhos, quão difícil é, para os que confiam nas riquezas, entrar no reino de Deus!” ( Mc 10:24 ). Quando Jesus disse ser ‘difícil’ os que têm ‘riquezas’, ou seja, que cofiam ‘nas riquezas’ entrar no reino dos céus é porque os que ‘confiam nas riquezas’ não nasceram de novo e nem possuem obras maiores que a dos escribas e fariseus ( Jo 3:3 ; Mt 5:20 ).

A vontade de Deus é que o homem creia em Cristo, porém, os judeus preferiam confiar em sua origem segundo a carne e nas prescrições da lei. Por serem recalcitrantes, de dura servis, confiavam em suas ‘riquezas’ e deixavam de confiar em Deus.

Se ‘nascer de novo’ e ter ‘obra superior a dos escribas e fariseus’ é condição essencial para entrar no reino dos céus, qual riqueza é empecilho à entrada no reino dos céus?

A ‘riqueza’ em tela não diz de questões materiais, antes é uma figura que remete aos que fazem da carne (descendência de Abraão) a sua força (salvação). Em lugar de confiarem em Deus para serem bem-aventurados ( Jr 17:7 ), os descendentes da carne de Abraão confiavam em si mesmos, pois constituíam a sua carne o seu próprio braço (salvação)( Jr 17:5 ).

Sobre os que confiavam na força do seu braço escreveu o apóstolo Paulo: “Nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência. Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência” ( Rm 9:7 -8).

A leitura da parábola do rico ‘louco’ deve ser compreendida em função do reino dos céus e não em vista das riquezas deste mundo. A percepção do leitor da parábola deve transcender o senso comum, haja vista que em uma parábola há enigmas a serem desvendados “E disse-lhes: Não percebeis esta parábola? Como, pois, entendereis todas as parábolas?” ( Mc 4:13 ).

Quando lemos: “Certamente que os homens de classe baixa são vaidade, e os homens de ordem elevada são mentira; pesados em balanças, eles juntos são mais leves do que a vaidade. Não confieis na opressão, nem vos ensoberbeçais na rapina; se as vossas riquezas aumentam, não ponhais nelas o coração” ( Sl 62:9 -10), Diante de Deus tanto ricos quanto pobres são vaidade. Deus não tem em preferência os desprovidos de bens materiais e nem pretere os nobres da face da terra.

Como Deus não faz acepção de pessoas, a mensagem: ‘Não confieis na opressão, no roubo, na violência’ abarca tanto ricos quanto pobres financeiramente.

Para entrar no reino dos céus o homem não deve se utilizar da força ou da violência, antes é pela palavra de Deus ( Zc 4:6 ). A força, a violência, a opressão, o roubo, etc., são figuras que ilustram aqueles que querem se salvar por intermédio das suas obras “As suas teias não prestam para vestes nem se poderão cobrir com as suas obras; as suas obras são obras de iniquidade, e obra de violência há nas suas mãos” ( Is 59:6 ).

O profeta Isaias estava anunciado a palavra do Senhor ao povo utilizando-se de parábolas e enigmas, de modo que, ao falar da justiça que decorre da lei, comparou-a a teias de aranha. A justiça decorrente das suas obras não servia para cobrir-se diante de Deus. As obras são comparáveis à iniquidade, o mesmo que obra de violência. Apesar do sacrifício continuo e das orações prolongadas, tudo era reprovado diante de Deus “Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e as luas novas, e os sábados, e a convocação das assembleias; não posso suportar iniquidade, nem mesmo a reunião solene. As vossas luas novas, e as vossas solenidades, a minha alma as odeia; já me são pesadas; já estou cansado de as sofrer. Por isso, quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos; e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer mal” ( Is 1:13 -16).

Se há uma obra, a recompensa, o salário, o ganho é certo, de modo que as ‘obras de iniquidade’ são descritas como ganho de opressão, ganho de violência, atos de maldade. Qualquer que se lança às ofertas vãs, às orações prolongadas, aos sábados, as reuniões solenes, etc., multiplica suas obras de violência e entesoura para si o seu ganho. O ‘tesouro’, a ‘riqueza’ amealhada em função destas práticas é produto de opressão, porém, o povo de Israel aumentava as suas obras acreditando que as suas riquezas seriam suficientes para alcançar salvação, posto que o coração deles estavam fiados em suas obras ( Sl 62:9 -10).

Quando Jesus diz: “É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus” ( Mc 10:25 ), interpôs uma impossibilidade natural (passar um camelo pelo fundo de uma agulha) para demonstrar que a impossibilidade de alguém que ‘confia’ nas ‘riquezas’ entrar no reino de Deus é maior.

O texto deve ser compreendido a partir do seguinte princípio: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” ( Mt 6:24 ). Ora, o tesouro prende o coração do homem, o que o impede de amar (servir) a Deus de todo o seu coração “Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” ( Mt 6:21 ).

Tudo o que o homem adquire de Deus deve ser sem dinheiro e sem preço. Quando o homem adquire uma riqueza por meio da força do seu braço (obras da lei), passa a possuir um tesouro que assume a condição de um ídolo (Mamom), pois o homem deixa de confiar na graça de Deus para confiar na sua riqueza ( Sl 62:9 -10).

O homem passa a servir a Mamom quando não ouve a palavra do Senhor e, ao porfiar confiando na sua riqueza, torna a sua própria vontade um ídolo “Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniquidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei” ( 1Sm 15:23 ).

Ora, o maior tesouro do povo de Israel estava na sua origem e na lei, ou seja, no crente Abraão e em Moisés. Diante do evangelho e da pessoa de Cristo os filhos de Jacó relutavam em mudarem de concepção apontando para ambos: Moisés e Abraão “Então o injuriaram, e disseram: Discípulo dele sejas tu; nós, porém, somos discípulos de Moisés” ( Jo 9:28 ); “Responderam, e disseram-lhe: Nosso pai é Abraão” ( Jo 8:39 ).

O apóstolo Paulo elenca quais os entes que compõe a riqueza dos judeus: a nacionalidade (israelitas), adoção de filhos por serem descendentes de Abraão, a glória, as alianças, a lei, o culto, as promessas, os pais e Cristo segundo a carne.

Ora, se um judeu que recebeu todos os itens elencados acima não pode salvar-se, surge a pergunta: “Quem poderá, pois, salvar-se?” ( Mc 10:26 ). A resposta de Cristo demonstra que confiar na carne de Abraão é uma ‘riqueza’ que não conduz a Deus ( Mt 10:37 ), para alcançar a Cristo, pois com relação a salvação: “Para os homens é impossível, mas não para Deus, porque para Deus todas as coisas são possíveis” ( Mc 10:27 ).

O salmista Davi apresentou profeticamente o enigma do homem rico no salmo 49 anunciado tanto aos ricos quanto aos pobres financeiramente que, quando viesse o dia em que ‘os homens que confiam em suas riquezas’ cercariam o Messias, o Cristo de Deus não temeria ( Sl 49:5 -6). Por quê? Porque confiar em suas riquezas era a loucura dos homens que estavam em honra em Israel, uma vez que rejeitaram a Cristo, a pedra eleita e preciosa ( Sl 49:13 ).

 

A parábola do homem rico

“E propôs-lhe uma parábola, dizendo: A herdade de um homem rico tinha produzido com abundância; E ele arrazoava consigo mesmo, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos. E disse: Farei isto: Derrubarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens; E direi a minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus” ( Lc 12:16 -21).

 

É seguro dizer que a parábola do rico louco não visava uma transformação socioeconômica, antes foi contada visando uma revolução na mentalidade (metanoia) do povo de Israel acerca de como alcançar a salvação.

A parábola do homem rico ilustra o pensamento do povo de Israel que, por ser descendente da carne de Abraão, entendiam que haviam herdado a bem-aventurança prometida por Deus a Abraão.

Quando liam nas Escrituras: “E a tua descendência será como o pó da terra, e estender-se-á ao ocidente, e ao oriente, e ao norte, e ao sul, e em ti e na tua descendência serão benditas todas as famílias da terra” ( Gn 28:14 ), os filhos da carne de Abraão, Isaque e Jacó interpretavam que eram benditos por serem descendentes dos patriarcas e, qualquer que se tornasse prosélito seria bem-aventurado.

Mas, os lideres de Israel estavam equivocados, pois não são os filhos de Abraão que são salvos, antes os salvos são os filhos da promessa, que diz: “Todas as nações serão benditas em ti” ( Gl 3:8 ). Para ser filho segundo a promessa era necessário crer como o crente Abraão, pois este é o único meio de ser declarado justo diante de Deus, porém, os filhos de Jacó repousavam na filiação segundo a carne. Quando Abraão ouviu a promessa, passou a crer no descendente prometido, de modo que viu o seu dia e alegrou-se na salvação de Deus “Abraão, vosso pai, exultou por ver o meu dia, e viu-o, e alegrou-se” ( Jo 8:56 ).

Sobre este posicionamento disse o apostolo Paulo: “Assim como Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça. Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão. Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti. De sorte que os que são da fé são benditos com o crente Abraão” ( Gl 3:6 -9).

A leitura correta da promessa segue o seguinte termo: “Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo” ( Gl 3:16 ). Mas, como os filhos de Israel não atinaram para o fato de que as Escrituras encerrou todos os homens sob o pecado, de modo que a promessa é dada aos crentes e não aos filhos da carne de Abraão “Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos crentes” ( Gl 3:22 ).

Porém, antes que Cristo viesse ao mundo conforme a promessa feita a Abraão, Deus entregou a lei para fazer com que os descendentes da carne de Abraão vissem a sua real condição, deixassem de crer em sua origem e passassem a esperar n’Aquele que havia de se manifestar assim como fez o crente Abraão “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar.  De maneira que a lei nos serviu de aio, para nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos justificados” ( Gl 3:23 -24).

Quando o descendente prometido a Abraão veio, os filhos da carne de Abraão se apegaram à lei de Moisés e continuaram alegando que eram salvos por serem descendentes de Abraão, e rejeitaram a bem-aventurança.

Ora, se tudo o que a lei diz, diz aos que estão sob a lei, isto significa que o que os salmos também dizem (referem-se) dos filhos de Jacó (observe que o apóstolo Paulo citou diversos versículos dos salmos), de modo que a parábola do rico louco é uma releitura do Salmo 49, que diz “Aqueles que confiam na sua fazenda, e se gloriam na multidão das suas riquezas, Nenhum deles de modo algum pode remir a seu irmão, ou dar a Deus o resgate dele (Pois a redenção da sua alma é caríssima, e cessará para sempre), Para que viva para sempre, e não veja corrupção. Porque ele vê que os sábios morrem; perecem igualmente tanto o louco como o brutal, e deixam a outros os seus bens. O seu pensamento interior é que as suas casas serão perpétuas e as suas habitações de geração em geração; dão às suas terras os seus próprios nomes. Todavia o homem que está em honra não permanece; antes é como os animais, que perecem. Este caminho deles é a sua loucura; contudo a sua posteridade aprova as suas palavras. (Selá.) Como ovelhas são postos na sepultura; a morte se alimentará deles e os retos terão domínio sobre eles na manhã, e a sua formosura se consumirá na sepultura, a habitação deles. Mas Deus remirá a minha alma do poder da sepultura, pois me receberá. (Selá.) Não temas, quando alguém se enriquece, quando a glória da sua casa se engrandece. Porque, quando morrer, nada levará consigo, nem a sua glória o acompanhará” ( Sl 49:6 -17).

O homem rico cuja herdade produziu com abundância representa o povo de Israel, pois pensavam (arrazoavam) consigo mesmo que eram salvos, porém, o que pensavam não era condizente com a palavra de Deus.

O que pensa uma pessoa abastada com bens deste mundo? Diante de uma herdade que produz com abundancia resta edificar outros maiores em substituição ao que anteriormente possuía para recolher o que for produzido. Por fim, dirá: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga!

Assim era o pensamento dos filhos de Israel, pois arrazoavam consigo mesmo dizendo: Temos por pai Abraão, de modo que nunca fomos escravos de ninguém! “E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão” ( Mt 3:9 ); “Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão, e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres?” ( Jo 8:33 ).

Ou seja, diante da pedra eleita e preciosa, os filhos de Israel resolveram seguir os seus próprios pensamentos e coração, tendo por real valor a filiação de Abraão e a lei mosaica, desprezando a benção que enriquece ( Pv 10:22 ; Ml 2:2 ; Jo 5:23 ).

Ao compreender a verdade do evangelho, o apóstolo Paulo abriu mão do que ele entendia de real valor para poder alcançar a Cristo “Ainda que também podia confiar na carne; se algum outro cuida que pode confiar na carne, ainda mais eu: Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu; Segundo o zelo, perseguidor da igreja, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível. Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo, E seja achado nele, não tendo a minha justiça que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé” ( Fl 3:4 -9).

O apóstolo elenca os motivos pelos quais poderia confiar na carne: ‘Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu; Segundo o zelo, perseguidor da igreja, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível’. Porém, o que para ele era ganho (de valor), por Cristo reputou como perda todas os elementos elencados anteriormente.

O homem que possuía por sobrenome a alcunha de judeu sentia-se abastado, enriquecido por confiar na lei (repousas na lei), pois entendiam que se gloriavam em Deus, que sabiam a vontade de Deus e que consentiam com o que é excelente em virtude da instrução que detinham segundo a lei ( Rm 2:17 -20). A confiança do povo judeu era a de que guiavam os cegos e que eram luz para os povos em trevas, instrutores dos néscios e das crianças, mas desconheciam que o verdadeiro judeu é o que recebe a circuncisão no coração e não na carne ( Rm 2:29 ).

Daí a parábola de Cristo, demonstrando que o povo judeu se sentia rico ( Ap 3:17 ). Sentiam-se tão abastados que arrazoavam onde armazenariam o produto do seu trabalho ( Lc 12:17 ). Daí a reprimenda de Jesus segundo o que as Escrituras de longa data protestavam: “Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?” ( Lc 12:20 ); “Eis aqui o homem que não pôs em Deus a sua fortaleza, antes confiou na abundância das suas riquezas, e se fortaleceu na sua maldade” ( Sl 52:7 ); “Aquele que confia nas suas riquezas cairá, mas os justos reverdecerão como a folhagem” ( Pv 11:28 ); “Há alguns que se fazem de ricos, e não têm coisa nenhuma, e outros que se fazem de pobres e têm muitas riquezas” ( Pv 13:7 ).

O povo judeu era o homem que não pôs em Deus a sua confiança, antes confiou na sua riqueza, fortalecendo-se na suas obras más. Eles mesmos se fizeram ricos gloriando-se na carne, mas a verdadeira riqueza, que é o louvor de Deus, não possuíam.

Mas, qualquer que ajunta tesouros para si é comparável ao rico louco, que possuindo muito não era rico para com Deus, certo que a vida de um homem não consiste nos bens que possui ( Lc 12:15 ).

Para ser rico para com Deus é necessário buscar a Cristo, a justiça segundo a fé, pois Ele é de cima ( Mt 6:33 ; Jo 8:23 ). Somente Jesus possui ouro aprovado, riqueza impar não sujeita a ferrugens, a traça ou ao roubo ( Mt 6:20 ; Ap 3:18 ). Mas, para adquirir ouro aprovado é necessário o homem reconhecer a sua miserabilidade ( Mt 5:3 ), que é um errado de espírito, quando Deus dará o conhecimento que satisfaz a alma faminta “E os errados de espírito virão a ter entendimento, e os murmuradores aprenderão doutrina” ( Is 29:24 ; Is 61:1 -3; Is 55:1 -3).

Quando aparece nas Escrituras a figura do pobre, como no verso que se segue: “Compadecer-se-á do pobre e do aflito, e salvará as almas dos necessitados” ( Sl 72:13 ), o profeta Davi não tem em vista os desprovidos de bens materiais, antes diz daqueles que creem em Deus, quer seja pobre ou rico financeiramente.

Outra figura é a do órfão e a da viúva: “Pai de órfãos e juiz de viúvas é Deus, no seu lugar santo” ( Sl 68:5 ), pessoas que na antiguidade eram o símbolo, a figura dos necessitados e pobres. Quando o salmista diz que Deus é pai de órfãos, significa que, quem tem por pai Abraão por ser descendente da carne do patriarca não tem Deus por Pai. Mas, aquele que vê que o seu verdadeiro pai segundo a carne é Adão, e este vendeu todos os seus filhos ao pecado quando da ofensa no Éden, é órfão e reconhece que necessita de um justo juiz. Se o homem deixar pai e mãe, ou seja, deixar de confiar na sua origem segundo a carne dos patriarcas, tornar-se-á pobre e alvo da bem-aventurança divina pela fé em Cristo ( Mt 5:3 ).

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O Temor do Senhor e a loucura dos ímpios

O termo ‘louco’ nas Escrituras é utilizado para fazer referência ao povo de Israel que não acatavam o ‘conhecimento de Deus’. Quando Jesus nomeou os escribas e fariseus de ‘loucos’, assim o fez porque seus interlocutores não sabiam o caminho e o juízo de Deus, a quem diziam que serviam “Loucos! Quem fez o exterior não fez também o interior?” ( Lc 11:40 ); “E ele lhes disse: Ó néscios, e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram!” ( Lc 24:25 ).


 

“O temor do SENHOR é o princípio do conhecimento; os loucos desprezam a sabedoria e a instrução” ( Pv 1:7 )

Os seis primeiros versículos do livro de Provérbios deixam claro qual é o objetivo do livro: conceder aos seus leitores o conhecimento necessário para que se possa entender os adágios, as parábolas, os enigmas e as proposições que são empregadas nos livros da bíblia.

O verso sete do capítulo um contém a primeira proposição do pregador, que demanda uma análise detalhada.

O que significa ‘o temor do Senhor’? Deus quer que os homens tenham medo d’Ele? Quem são os loucos?

Para interpretar este provérbio, se faz necessário analisar os versos seguintes:

“Para fazeres o teu ouvido atento à sabedoria (…) se como a prata a buscares e como a tesouros escondidos a procurares, então entenderás o temor do SENHOR, e acharás o conhecimento de Deus” ( Pv 2:2 -5).

Com base no verso 5 do capítulo 2, verifica-se que o ‘temor’ não é um sentimento de inquietação, pavor, receio, antes refere-se a um conhecimento, um saber revelado por Deus que demanda compreensão (ouvido atento) por parte do homem.

Observe o seguinte verso: “E disse Moisés ao povo: Não temais, Deus veio para vos provar, e para que o seu temor esteja diante de vós, afim de que não pequeis” ( Ex 20:20 ). Não ter medo de Deus é uma ordem: não temais! Essa ordem deixa claro que ‘o temor do Senhor’ não é ter medo (receio), visto que Ele ordena a não ter medo d’Ele.

Qual o temor que deveria estar diante do povo de Israel? Qual temor é o princípio da sabedoria? Ora, o ‘temor’ é um modo enigmático de se fazer referência à palavra de Deus, pois esta é a ideia que se depreende dos versos seguintes:

  • “No temor do SENHOR há firme confiança e ele será um refúgio para seus filhos” ( Pv 14:26 );
  • “Vinde, meninos, ouvi-me; eu vos ensinarei o temor do SENHOR” ( Sl 34:11 );
  • “… pelo temor do SENHOR os homens se desviam do pecado” ( Pv 16:6 ).

Estabelecer tais relações e comparações é essencial para que se possa compreender o provérbio. Comparando os dois versos a seguir, é fácil distinguir o significado dos termos e a relação entre eles:

“Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti” ( Sl 119:11 );

“… e para que o seu temor esteja diante de vós, afim de que não pequeis” ( Ex 20:20 ).

O salmista deixa claro que, para não pecar contra Deus é necessário que se esteja de posse da palavra de Deus no coração e, esta mesma palavra que se estabelecerá no coração através da compreensão também é designada temor.

A introdução ao livro de Provérbios ( Pv 1:1 -6) é melhor compreendido a luz dos versos abaixo:

“Então entenderás o temor do SENHOR, e acharás o conhecimento de Deus. Porque o SENHOR dá a sabedoria; da sua boca é que vem o conhecimento e o entendimento. Ele reserva a verdadeira sabedoria para os retos. Escudo é para os que caminham na sinceridade…” ( Pv 2:5 -7).

Quem ouve a palavra de Deus (faz atento o ouvido) entenderá e achará o conhecimento, pois da boca de Deus procede o conhecimento e o entendimento.

O provérbio “O temor do SENHOR é o princípio do conhecimento…” ( Pv 1:6 ), é uma chave mestra que desvenda o mistério que havia em torno da pessoa do Filho de Deus. É uma referência implícita à pessoa de Cristo, pois em Cristo está escondido todos os tesouros da sabedoria e da ciência “Porque em tudo fostes enriquecidos nele, em toda a palavra e em todo o conhecimento” ( 1Co 1:5 ).

Se o temor do Senhor procede da boca de Deus ( Pv 2:6 ), claro está que o temor do Senhor é uma referência implícita a pessoa de Cristo, pois ele é a Palavra, o Verbo de Deus encarnado “Para que os seus corações sejam consolados, e estejam unidos em amor, e enriquecidos da plenitude da inteligência, para conhecimento do mistério de Deus e Pai, e de Cristo, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência” ( Cl 2:2 -3).

Cristo é o Temor do Senhor, pois Ele mesmo disse: “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam” ( Jo 5:39 ).

Inequivocamente podemos considerar que Cristo é o ‘Temor de Deus’ pois ele é a sabedoria de Deus “Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção” ( 1Co 1:30 ).

A Sabedoria referenciada em Provérbios 8, verso 22 foi revelada no Novo Testamento, como se lê em João 1, versos 2 a 3. No princípio era o Verbo, o Verbo estava com Deus e era Deus, ou seja, os livros Provérbios e João utilizam terminologias diferentes para fazer referência a Cristo: verbo=palavra=sabedoria.

Todas as coisas foram feitas por Cristo ( Jo 1:2 -3), conclui-se que a Sabedoria personificada em Provérbios refere-se a Cristo “O SENHOR me possuiu no princípio de seus caminhos, desde então, e antes de suas obras. Desde a eternidade fui ungida, desde o princípio, antes do começo da terra” ( Pv 8:22 -23).

  • “Vigiai justamente e não pequeis; porque alguns ainda não têm o conhecimento de Deus; digo-o para vergonha vossa” ( 1Co 15:34 ) – Qual é o conhecimento de Deus? Cristo ( 2Co 4:6 );
  • “Destruindo os conselhos, e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo” ( 2Co 10:5 ) – Cristo é a verdade, o conhecimento de Deus “Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” ( 1Tm 2:4 );
  • “Agora, pois, seja o temor do SENHOR convosco; guardai-o, e fazei-o; porque não há no SENHOR nosso Deus iniquidade nem acepção de pessoas, nem aceitação de suborno” ( 2Cr 19:7 ) – Este verso equipara o Temor do Senhor ao Senhor Deus, ou seja, o Temor é uma pessoa – “Se o Deus de meu pai, o Deus de Abraão e o temor de Isaque não fora comigo, por certo me despedirias agora vazio. Deus atendeu à minha aflição, e ao trabalho das minhas mãos, e repreendeu-te ontem à noite” ( Gn 31:42 );
  • “E disse ao homem: Eis que o temor do Senhor é a sabedoria, e apartar-se do mal é a inteligência” ( Jó 28:28 ) – Cristo é a sabedoria de Deus, portanto, o Temor do Senhor e, somente através d’Ele o homem aparta-se do mal estabelecido em Adão;
  • “Servi ao SENHOR com temor, e alegrai-vos com tremor” ( Sl 2:11 ) – Quando se lê que se serve ao Senhor com temor, isto implica servi-lo por intermédio de Cristo, o que os judeus não compreendiam ( Rm 9:2 );
  • “O temor do SENHOR é limpo, e permanece eternamente; os juízos do SENHOR são verdadeiros e justos juntamente” ( Sl 19:9 ) – Sabemos que a palavra do Senhor permanece para sempre “Mas a palavra do SENHOR permanece para sempre. E esta é a palavra que entre vós foi evangelizada” ( 1Pe 1:25 ).

Sendo Cristo a sabedoria de Deus, certo é que Ele é o ‘temor do Senhor’, porém, resta verificar quem são os ‘loucos’ que o verso 7 faz referência “O temor do SENHOR é o princípio do conhecimento; os loucos desprezam a sabedoria e a instrução” ( Pv 1:7 ).

Quando lemos que: ‘… tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz…’ ( Rm 3:19 ), certo é que a lei, os salmos, os provérbios e os profetas tem por público alvo os judeus, portanto, os que desprezavam a sabedoria e a instrução são os que viviam sob a lei “Eu, porém, disse: Deveras estes são pobres; são loucos, pois não sabem o caminho do SENHOR, nem o juízo do seu Deus” ( Jr 5:4 ).

Ou seja, o termo ‘louco’ nas Escrituras é utilizado para fazer referência ao povo de Israel que não acatavam o ‘conhecimento de Deus’. Quando Jesus nomeou os escribas e fariseus de ‘loucos’, assim o fez porque seus interlocutores não sabiam o caminho e o juízo de Deus, a quem diziam que serviam “Loucos! Quem fez o exterior não fez também o interior?” ( Lc 11:40 ); “E ele lhes disse: Ó néscios, e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram!” ( Lc 24:25 ).

Esta abordagem: “loucos”, se dava em função do desvio do povo de Israel, um vocábulo comum aos profetas de Deus “Assim diz o Senhor DEUS: Ai dos profetas loucos, que seguem o seu próprio espírito e que nada viram!” ( Ez 13:3 ).

O profeta Jeremias ao falar em nome do Senhor, acrescentou “Deveras o meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios, e não entendidos; são sábios para fazer mal, mas não sabem fazer o bem” ( Jr 4:22 ). Por desprezarem a palavra de Deus, o conhecimento e a instrução, o povo de Israel estava desvairado. Não conhecer o seu próprio Deus é loucura.

Ser néscio é antônimo de ser entendido. Qualquer que despreza o temor do Senhor despreza o conhecimento “O temor do SENHOR é o princípio do conhecimento; os loucos desprezam a sabedoria e a instrução” ( Pv 1:7 ).

O apóstolo Paulo ao fazer menção dos instrutores em Israel, assim os nomeou: instrutores dos néscios! De igual modo podiam ser considerados ‘mestres de crianças’, ou seja, de pessoas que não possuem uma mentalidade desenvolvida Instrutor dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei” ( Rm 2:20 ).

A conclusão paulina: “Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, mas como sábios…” ( Ef 5:15 ), é um alerta para que seus leitores não sejam faltos de entendimento, insensatos, ou seja, que compreendam a vontade de Deus. Portanto, os cristãos por terem aceitado a Cristo, a Sabedoria de Deus, são sábios, o que se contrapõe a figura dos judeus, que são néscios, pois ‘serviam’ a Deus sem entendimento ( Rm 9:2 ).

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Salmo 49 – Resolva o Enigma do Oráculo

A mensagem do salmista não se ocupa das mazelas socioculturais da humanidade. Não tem em vista a sabedoria ou o conhecimento de cunho filosófico, sociológico ou científico. Por quê? Porque as Escrituras demonstram que tal sabedoria diante da mensagem divina é destruída, aniquilada ( 1Co 1:19 ). Que tipo de sabedoria e entendimento o salmista propõe revelar então? A sabedoria deste mundo? Ele produziria conhecimento científico? Que tipo de entendimento? A resposta encontra-se no verso seguinte: “Ouvirei o oráculo, e revelarei o meu enigma ao som da harpa”, ou seja, uma profecia ( 1Cr 25:1 ).


Salmo 49 – Enigmas do Oráculo

1 OUVI isto, vós todos os povos; inclinai os ouvidos, todos os moradores do mundo,
2 Tanto baixos como altos, tanto ricos como pobres.
3 A minha boca falará de sabedoria, e a meditação do meu coração será de entendimento.
4 Inclinarei os meus ouvidos a uma parábola; declararei o meu enigma na harpa.
5 Por que temerei eu nos dias maus, quando me cercar a iniquidade dos que me armam ciladas?
6 Aqueles que confiam na sua fazenda, e se gloriam na multidão das suas riquezas,
7 Nenhum deles de modo algum pode remir a seu irmão, ou dar a Deus o resgate dele
8 (Pois a redenção da sua alma é caríssima, e cessará para sempre),
9 Para que viva para sempre, e não veja corrupção.
10 Porque ele vê que os sábios morrem; perecem igualmente tanto o louco como o brutal, e deixam a outros os seus bens.
11 O seu pensamento interior é que as suas casas serão perpétuas e as suas habitações de geração em geração; dão às suas terras os seus próprios nomes.
12 Todavia o homem que está em honra não permanece; antes é como os animais, que perecem.
13 Este caminho deles é a sua loucura; contudo a sua posteridade aprova as suas palavras. (Selá.)
14 Como ovelhas são postos na sepultura; a morte se alimentará deles e os retos terão domínio sobre eles na manhã, e a sua formosura se consumirá na sepultura, a habitação deles.
15 Mas Deus remirá a minha alma do poder da sepultura, pois me receberá. (Selá.)
16 Não temas, quando alguém se enriquece, quando a glória da sua casa se engrandece.
17 Porque, quando morrer, nada levará consigo, nem a sua glória o acompanhará.
18 Ainda que na sua vida ele bendisse a sua alma; e os homens te louvarão, quando fizeres bem a ti mesmo,
19 Irá para a geração de seus pais; eles nunca verão a luz.
20 O homem que está em honra, e não tem entendimento, é semelhante aos animais, que perecem.

 

“OUVI isto, vós todos os povos; inclinai os ouvidos, todos os moradores do mundo”

A mensagem que um dos filhos de Coré deixou registrado neste salmo é inclusiva. Todos os habitantes da terra em todos os tempos necessitam ouvi-la.

Aparentemente o salmista compôs somente um cântico, porém, podemos ouvi-lo anunciando aos brados uma mensagem importantíssima à humanidade.

Mas, como fazê-la ecoar ao longo dos anos? Que recurso o salmista poderia utilizar à época para que toda a humanidade fosse informada da mensagem? A poesia aliada ao canto era o melhor recurso disponível na antiguidade para se propagar uma mensagem através dos tempos.

O salmista clama a todos os povos, ou seja, tanto judeus quanto gentios. Não há acepção de pessoas: os destinatários da mensagem são todos os moradores do mundo! ( Sl 49:1 ).

 

“Tanto baixos como altos, tanto ricos como pobres”

Para não restar dúvidas, o salmista deixa claro que a mensagem abrange tanto as pessoas proeminentes, quanto as sem expressão social. A condição financeira não é causa excludente: tanto ricos quanto os pobres devem ouvir e atender a mensagem ( Sl 49:2 ).

 

“A minha boca falará de sabedoria, e a meditação do meu coração será de entendimento”

O motivo da poesia e canto não é um ode ao moralismo, ao legalismo, à consciência ou ao bom caráter, antes, o salmista se propõe a falar de uma sabedoria e de um entendimento específico ( Sl 49:3 ).

A mensagem do salmista também não se ocupa das mazelas socioculturais da humanidade. Não tem em vista a sabedoria ou o conhecimento de cunho filosófico, sociológico ou científico. Por quê? Porque as Escrituras demonstram que tal sabedoria diante da mensagem divina é destruída, aniquilada “Porque está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, e aniquilarei a inteligência dos inteligentes” ( 1Co 1:19 ).

Que tipo de sabedoria e entendimento o salmista propõe revelar então? A sabedoria deste mundo? Ele produziria conhecimento científico? Que tipo de entendimento? A resposta encontra-se no verso seguinte: “Ouvirei o oráculo, e revelarei o meu enigma ao som da harpa”, ou seja, uma profecia (1Cr 25:1 ).

 

“Inclinarei os meus ouvidos a uma parábola; declararei o meu enigma na harpa”

O salmista daria ouvidos à ‘palavra da profecia’ e haveria de revelá-la aos seus interlocutores ao som da harpa (v. 5), tudo isto conforme o que foi estipulado para o seu ministério “E DAVI, juntamente com os capitães do exército, separou para o ministério os filhos de Asafe, e de Hemã, e de Jedutum, para profetizarem com harpas, com címbalos, e com saltérios; e este foi o número dos homens aptos para a obra do seu ministério:” ( 1Cr 25:1 ).

A mensagem anunciada ao som da harpa, além de profética, é um grande enigma. Para compreender a grandeza da mensagem anunciada pelo salmista é necessário descobrir o significado dos seus enigmas.

Qual a natureza do enigma, da parábola, ou do oráculo? A palavra da profecia diz da sabedoria do alto, e não do conhecimento terreno “Mas a sabedoria que do alto vem é, primeiramente pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia” ( Tg 3:17 ). O salmista declarou a sabedoria que faz o homem perfeito em Deus “A quem anunciamos, admoestando a todo o homem, e ensinando a todo o homem em toda a sabedoria; para que apresentemos todo o homem perfeito em Jesus Cristo” ( Cl 1:28 ).

Diante do enigma do evangelho o conhecimento humano torna-se loucura “Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o inquiridor deste século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo?” ( 1Co 1:20 ), pois a parábola anunciada ao som da harpa do salmista é Espírito e poder “A minha palavra, e a minha pregação, não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de poder” ( 1Co 2:4 ); “Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus” ( 1Co 1:18 ).

O que a humanidade pede ou busca não se encontra nas Escrituras “Porque os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria. Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos” ( 1Co 1:22 – 23 ); “Visto que rejeitaram a palavra do Senhor, que sabedoria teriam?” ( Jr 8:8 -9).

Haveria algum motivo específico para que o salmista profetizasse acerca de si mesmo? A vida de um dos filhos de Coré seria de importância mundial? Ao menos o filho de Coré, que redigiu este salmo, fazia parte da linhagem de Cristo? O que havia neste filho de Coré que serviria de instrução para Israel e o mundo? Nada! A importância reside única e exclusivamente na profecia que o salmista anunciou ao som da harpa.

De quem fala o oráculo? Qual o evento posterior à profecia que é de interesse mundial? (v. 1 e 2) Por acaso não seria o advento do Messias?

A vida do salmista não é de interesse da humanidade, tanto que nada sabemos acerca do filho de Coré, mas o que foi profetizado por ele nos conduz a uma pessoa que é de interesse de toda a humanidade: Jesus, o Cristo de Deus.

Esta profecia redigida por um dos filhos de Coré e cantada ao som da harpa compõe o Livro dos Salmos, o que a torna parte das Escrituras. Portanto, ao examinar o Salmo 49, examinamos as Escrituras, e este salmo testifica do Cristo “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam” ( Jo 5:39 ).

O salmo 49 não versa sobre a vida de um dos filhos de Coré, antes a mensagem enigmática, de importância mundial, diz de Cristo, que é sabedoria de Deus. Diz do Verbo de Deus encarnado, que todos os moradores do mundo necessitam conhecer.

Observe a seguinte relação: Jesus nomeou as Escrituras de sabedoria de Deus “Por isso diz também a sabedoria de Deus: Profetas e apóstolos lhes mandarei; e eles matarão uns, e perseguirão outros” ( Lc 11:49 ), e, por sua vez, Cristo foi ‘feito’ por Deus sabedoria “Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção” ( 1Co 1:30 ).

 

“Por que temerei eu nos dias maus, quando me cercar a iniquidade dos que me armam ciladas?”

Inúmeras ciladas e armadilhas ao longo dos séculos foram implementadas pelos servos da iniquidade, porém, que interesse haveria para o mundo as ciladas anunciadas por um dos filhos de Coré? De que tipo de cilada o salmista faz referência?

As palavras dos ímpios são ciladas As palavras dos ímpios são ciladas para derramar sangue…” ( Pv 12:6 ), e os lideres religiosos de Israel se encaixam na descrição do salmista, pois suas palavras eram verdadeiras ciladas. As características dos iníquos que a profecia apresenta remontam o caráter, a conduta e a intenção dos lideres da religião à época de Cristo “Se o deixamos assim, todos crerão nele, e virão os romanos, e tirar-nos-ão o nosso lugar e a nação” ( Jo 11:48 ); “Depois os príncipes dos sacerdotes, e os escribas, e os anciãos do povo reuniram-se na sala do sumo sacerdote, o qual se chamava Caifás. E consultaram-se mutuamente para prenderem Jesus com dolo e o matarem” ( Mt 26:3 -4).

Os lideres de Israel eram os interpretes das Escrituras e prezavam o cumprimento da lei, porém, no afã de preservarem seus lugares ( Jo 11:48 ), violaram a própria lei: emboscaram e derramaram sangue do Inocente ( Mt 26:4 ).

Além de prevaricarem em relação as suas atribuições ( Is 43:27 ), tornaram-se os agentes que implementaram o que fora predito por um dos filhos de Coré. Não observaram as Escrituras e com palavras armaram uma cilada para o Inocente: “Se disserem: Vem conosco a tocaias de sangue; embosquemos o inocente sem motivo” ( Pv 1:11 ).

Os lideres religiosos que tinham o dever de interpretar as Escrituras prevaricaram quanto às suas atribuições ( Pv 6:17 ; Is 59:7 ; Mt 27:4 ; Mt 27:24 ). As palavras deles eram verdadeiras ciladas para derramar sangue do Inocente, que por sua vez não temeu os dias maus “Uma flecha mortífera é a língua deles; fala engano; com a sua boca fala cada um de paz com o seu próximo mas no seu coração arma-lhe ciladas ( Jr 9:8 ; Mt 12:34 ; Lc 6:45 ).

O filho de Coré profetizou acerca de um tempo específico: os ‘dias maus’, ou seja, os dias em que os lideres judeus armariam ciladas contra o Inocente para matá-Lo.

Os ‘dias maus’ não apontam para os tempos em que o povo de Israel estivesse em guerra com os povos vizinhos. Não! O salmista deixa especificado que os dias maus ocorreriam quando homens iníquos armassem ciladas com palavras contra Àquele que não temeria.

O salmista anuncia palavras que demonstram total confiança em Deus, ou seja, total confiança no Autor do oráculo.

O versículo 5 do salmo 49 é ilustrado pelo salmo 59: “LIVRA-ME, meu Deus, dos meus inimigos, defende-me daqueles que se levantam contra mim. Livra-me dos que praticam a iniquidade, e salva-me dos homens sanguinários. Pois eis que põem ciladas à minha alma; os fortes se ajuntam contra mim, não por transgressão minha ou por pecado meu, ó SENHOR” ( Sl 59:1 -3).

O Senhor Jesus não temeu os dias maus, pois ele deu ouvidos aos oráculos de Deus “E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz” ( Fl 2:8 ), pois convinha que ele padecesse pelo povo “Nem considerais que nos convém que um homem morra pelo povo, e que não pereça toda a nação” ( Jo 11:50 ; Is 53:4 ).

Porém, os filhos do povo (os judeus) permaneciam fiados na própria sabedoria, e não deram ouvidos à palavra do Senhor expressa nos seus oráculos “Pelo pecado da sua boca e pelas palavras dos seus lábios, fiquem presos na sua soberba, e pelas maldições e pelas mentiras que falam” ( Sl 59:12 ).

 

“Aqueles que confiam na sua fazenda, e se gloriam na multidão das suas riquezas”

Descobrimos até aqui dois enigmas:

  • Que o oráculo do salmista refere-se ao Messias;
  • Que as ciladas utilizadas pelos iníquos seriam ‘ciladas com palavras’.

O significado do terceiro enigma deve ser depreendido do verso 6.

Que relação há entre a ‘iniquidade’ e as ‘riquezas’ dos iníquos que armariam ciladas contra o Cristo? Podemos considerar que os desprovidos de bens materiais são justos diante de Deus? Podemos considerar que possuir bens e herdades é causa de eterna perdição? Não! Se riquezas materiais fossem causa da perdição dos ricos e dos nobres, o salmista não direcionaria sua mensagem também aos pobres ( Sl 49:2 ).

Ora, o salmista estende o seu convite a ricos e pobres, isto porque tanto ricos quanto pobres podem ser iníquos. Tanto plebeus quanto nobres podem ser iníquos. Tanto judeus quanto gregos podem ser iníquos, pois não há sobre a face da terra homem que seja justo (pobres ou ricos, judeus ou gregos, etc.) ( Sl 14:3 ).

Iniquidade refere-se especificamente à condição do homem divorciado do Criador, sem qualquer relação com a sua posição sócio-econômica ou cultural. O homem é gerado em iniquidade e concebido em pecado ( Sl 51:5 ).

No que consiste confiar nas riquezas? Por que o salmista protesta contra os que se gloriam nas suas posses? Quais são as riquezas e bens que o salmista faz referência?

Ora, este é mais um enigma declarado pelo salmista ao som da sua harpa!

Para decifrá-lo, analisemos esta passagem bíblica: “Dois homens subiram ao templo, para orar; um, fariseu, e o outro, publicano. O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo. O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!” ( Lc 18:10 -12).

O cobrador de impostos é alguém necessitado (pobre) que espera ser agraciado (misericórdia) por Deus. Já o fariseu é um homem abastado (rico), ou seja, um religioso, que apesar de agradecer a Deus, confia em seus méritos, na sua moral e no seu comportamento ilibado quando se dirige a Deus em oração.

A atitude do publicano de ficar em pé ao longe, sem ao menos levantar os olhos ao céu batendo no peito, demonstra que ele reconhecia a sua miserável condição diante de Deus: pecador. Um pecador é alguém que carece da graça de Deus. É alguém necessitado, pobre, miserável.

A atitude do fariseu é de alguém abastado (rico). Ele considerava estar em uma condição privilegiada, se comparado a outros homens. Para ele os homens eram pecadores por serem roubadores, injustos e adúlteros. Ora, como o fariseu não roubava, era fiel no trato, não adulterava, não era como o publicano, jejuava e dizimava, considerava ser alguém abastado e rico.

O fariseu é um dos que confiavam em suas ‘fazendas’, que se gloriava das suas ‘riquezas’ e que não foi declarado justo por Deus. Quais riquezas ele possuía? Não roubar, não adulterar, não matar, dar o dízimo, não ser como os outros homens, etc. Não vemos na oração do fariseu ele declarando que possuía herdades e bens.

Apesar de se aplicar as boas ações, a Jesus declarou que ele não foi justificado. Por que ele não foi justificado? Porque confiava em suas virtudes, em seus méritos e na sua origem. Ele deixou de confiar em Deus, passando a considerar as suas virtudes, méritos e origem como requisitos para salvação.

Mais um enigma é decifrado: ‘riquezas’ e ‘fazendas’ referem-se aos méritos e obras dos homens. As riquezas e herdades referem-se a tudo que o homem executa e se estriba na intenção de alcançar a salvação. A salvação só é possível àqueles que confiam em Deus, do modo que fez o publicano ( Sl 62:7 ).

Após resolver o enigma seria possível prever as virtudes e os méritos daqueles que haveriam de armar ciladas com palavras contra o primogênito de Deus. Quem seriam os iníquos que armariam ciladas contra o primogênito de Deus? Homens que ‘confiam em suas posses, que se gloriam em suas riquezas’, ou seja, homens que eram justos aos seus próprios olhos, pois estavam fiados em suas origens, religiosidade, méritos e virtudes “Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e de iniqüidade” ( Mt 23:28 ).

 

“Nenhum deles de modo algum pode remir a seu irmão, ou dar a Deus o resgate dele (Pois a redenção da sua alma é caríssima, e cessará para sempre), Para que viva para sempre, e não veja corrupção”

Nenhum dos religiosos à época de Cristo, de modo algum, poderia remir seu irmão. Nenhum dos lideres possuía ‘fazenda’ ou ‘riquezas’ que pudesse dar a Deus o resgate por seus irmãos. Por que não? Porque a redenção da alma de um único homem é caríssima, ou seja, as possessões (riquezas) que os homens angariam com a força de seus braços não é suficiente para pagar o valor do resgate de uma única alma.

Deus conhece as obras dos homens iníquos, pois elas não são feitas n’Ele ( Is 55:2 ; Ap 3:16 ; Jo 3:20 ). Deus em todos os tempos aconselha: “Aconselho-te que de mim compres ouro provado no fogo, para que te enriqueças; e roupas brancas, para que te vistas, e não apareça a vergonha da tua nudez; e que unjas os teus olhos com colírio, para que vejas” ( Ap 3:18 ).

Embora os lideres judaicos falassem cada um com o seu companheiro de paz, justiça e equidade social, eram iníquos, pois não confiavam em Deus, antes confiavam em suas boas ações, no produto de suas próprias realizações (trabalho).

Eles pensavam ter ‘posses’, que eram ‘ricos’ segundo as suas realizações, que eram abastados o suficiente para adquirir salvação ( Is 55:2 ), porém, esqueceram que Deus olha o coração e vê quem são os homens que ajuntam riquezas com violência ( Jr 17:10 -11 ; Is 59:6 ; Jr 17:11 ), sem acatar a recomendação de Deus: que comprem ouro provado no fogo ( Ap 3:18 ).

Nenhum dos iníquos tinha condição de dar o resgate pelos seus entes, para que eles vivessem eternamente, e não mais vissem a corrupção ( Sl 49:9 ).

 

“Porque ele vê que os sábios morrem; perecem igualmente tanto o louco como o brutal, e deixam a outros os seus bens. O seu pensamento interior é que as suas casas serão perpétuas e as suas habitações de geração em geração; dão às suas terras os seus próprios nomes. Todavia o homem que está em honra não permanece; antes é como os animais, que perecem”

O salmista lembra que todos os homens podem ver que os sábios morrem (v. 10), o que confirma que ninguém pode remir o seu irmão (v. 7), para que eles não vejam a corrupção (v. 9).

Do ponto de vista dos homens, todos podem constatar que os sábios morrem. Do ‘ponto de vista’ divino, perecem igualmente o louco (os homens que são sábios aos seus próprios olhos e o homem ignorante (bruto). Os homens sem entendimento, simples, brutos são iguais aos ‘sábios’ que rejeitam a palavra de Deus: igualmente perecem “Os sábios são envergonhados, espantados e presos; eis que rejeitaram a palavra do SENHOR; que sabedoria, pois, têm eles?” ( Jr 8:9 ; Is 8:15 ).

No verso 10 há uma figura de linguagem (antítese) entre as palavras ‘sábios’ e ‘loucos’, pois ambas refere-se às mesmas pessoas: “Vê-se os sábios morrer, perecer o louco e o bruto, deixando seus bens a outros” (v. 10). Os homens ‘sábios’ aos seus próprios olhos são ‘loucos’, pois a sabedoria dos homens é loucura diante de Deus. Diante desta relação entre as palavras ‘sábios’ e ‘loucos’ é que se estabelece o mesmo fim para ‘loucos’ e ‘brutos’ “Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus; pois está escrito: Ele apanha os sábios na sua própria astúcia” ( 1Co 3:19 ).

Tanto os ‘loucos’, quanto os ‘brutos’ deixam aos seus semelhantes os seus bens, ou seja, um legado.

Após apresentar a real condição dos homens iníquos (v. 5) , o salmista traz a lume o pensamento deles. Eles acreditavam “…que suas casas” seriam “perpétuas” e suas “habitações de geração em geração”, ou seja, pensavam que haviam alcançado eterna salvação.

Casa fala de segurança: outro enigma! Pensavam que habitariam seguros perpetuamente. Consideram que herdaram (terra) o direito à salvação pelo nome (judeus) que possuem: descendentes de Abraão, Isaque e Jacó! Qual o motivo de se dar às terras os seus nomes? Para que os seus filhos fossem herdeiros. Terras falam de herdades, e nome refere-se a direito. Pelo nome que possuíam, pensavam ter direito a salvação ( Sl 49:11 ).

Porém, a realidade é totalmente diferente da concepção que os iníquos nutrem “Todavia…” ( Sl 49:12 ). Apesar da ‘riquezas’ que possuem (v. 6), inexoravelmente perecerão ( Sl 1:5 ). Na bíblia a palavra ‘perecer’ refere-se a existência alienada de Deus.

Eterna perdição é o destino do caminho daqueles que confiam em si mesmos, ou seja, que confiam em suas riquezas, que confiam na força do seu próprio braço, assim como Cristo demonstrou na parábola do publicano e do fariseu que subiram ao templo para adorar “Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do SENHOR!” ( Jr 17:5 ). Resumindo: “Como a perdiz, que choca ovos que não pôs, assim é aquele que ajunta riquezas, mas não retamente; no meio de seus dias as deixará, e no seu fim será um insensato” ( Jr 17:11 ; Is 59:6 ).

O homem que está em honra e não permanece (v. 12), além de se referir aos iníquos que armaram ciladas com palavras, também se refere àqueles líderes religiosos, que apesar do dever de proclamar a palavra da verdade, cerceiam aos seus seguidores o reino dos céus, pois utilizam palavras de engano ( Mt 23:13 ).

Tais líderes promovem a confiança em riquezas mal adquiridas, pois não orientam que se compre ouro provado ( Ap 3:18 ; Sl 49:6 ).

 

“Este caminho deles é a sua loucura; contudo a sua posteridade aprova as suas palavras” (Selá)

O caminho deles é único e específico: “Este caminho…” (v. 13).

A ‘loucura’ dos ‘sábios’ não é a ciência, a filosofia, a sociologia, a moral, e nem mesmo a religiosidade. Antes, a ‘loucura’ dos que ‘confiam em si mesmos’ é o caminho deles! Como pode ser isso? O caminho é a loucura? Temos aqui um novo enigma!

O salmista no salmo primeiro anunciou: “Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores (…) Pois o Senhor conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpio perecerá” ( Sl 1:1 e 6).

É anunciado de modo ‘velado’ (implícito) neste salmo dois caminhos:

a) um caminho dos justos, e;
b) um caminho dos ímpios.

Não podemos deixar de considerar que existem inúmeros ímpios, porém, há um único conselho para eles; muitos pecadores, só um caminho para eles; muitos escarnecedores, e uma só roda (v. 1). Por fim, conclui-se que existem somente dois caminhos!

Neste diapasão, Cristo anunciou haver dois caminhos:

  • Um caminho largo que conduz à perdição, e;
  • Um caminho estreito, que conduz à vida eterna ( Mt 7:13 -14).

Diante de uma platéia perplexa, Jesus fez um convite a todos como a mesma abrangência que fez o salmista ( Sl 49:1 -2), para que entrassem pela porta estreita ( Mt 7:13 ). Em seguida Jesus apresentou o motivo do convite: “Porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz a perdição” ( Mt 7:13 ).

Ora, para entender a relação que há entre o salmo 1, o salmo 49 e a parábola dos dois caminhos ( Mt 7:13 ), é necessário ser ‘sábio’, instruído pela palavra da profecia, ou seja, deixar de ser sábio aos seus próprios olhos “Quem é sábio, para que entenda estas coisas, e prudente, para que as saiba? Os caminhos do Senhor são retos; os justos andam neles, mas os transgressores neles tropeçam” ( Os 14:9 ; Sl 49:3 ).

Os ‘sábios’ aos próprios olhos não sabem que ao nascer entraram por uma porta larga (Adão), e que seguem por um caminho espaçoso que os conduz a perdição. Os tolos não entendem que o nascimento natural é a porta larga por onde todos os homens entram e passam a trilhar o caminho largo, que por sua vez os conduz à perdição.

O caminho dos que confiam em si mesmo é caminho de perdição (v. 12 e 13). E o caminho dos seus seguidores, ou seja, daqueles que ‘aprovam’ as suas palavras também e de perdição “Todavia, o homem, apesar das suas riquezas, não permanecem (…) este é o caminho daqueles que confiam em si mesmos, e dos seus seguidores, que aprovam as suas palavras” ( Sl 49:12 -13).

Por quê? Porque tanto os que confiam em si mesmos, quanto os seus seguidores, igualmente entraram pela porta larga ao nascerem. Igualmente passaram a andar por um caminho que os levará a perdição. Quem é sábio compreende que os ímpios desviam-se desde a madre. Os que aprendem com os oráculos de Deus e entende os seus enigmas compreende que os ímpios andam errados desde que nascem, pois ao nascer entram por uma porta larga, passando a trilhar um caminho que conduz à perdição ( Sl 58:3 ).

Andam errados desde que nascem, proferindo mentiras! Por conseguinte, os seus seguidores, aqueles que aprovam suas palavras, não se desviam do caminho de perdição ( Sl 49:13 ). A posteridade dos ímpios não se desvia do caminho de perdição, que é a loucura de toda a posteridade de Adão.

“Como ovelhas são postos na sepultura; a morte se alimentará deles e os retos terão domínio sobre eles na manhã, e a sua formosura se consumirá na sepultura, a habitação deles”

O salmista compara a impotência dos ímpios à das reses quando a caminho do abatedouro. Como as ‘ovelhas’ estão destinados ao abate, eles estão destinados à sepultura, aos cuidados da morte!

A morte não significa aniquilação dos ímpios, como alguns apregoam, visto que, para Deus todos os homens vivem. Além do mais, como será possível os retos terem domínio sobre os ímpios, se ao romper da manhã eles não mais existirem?

Enquanto a formosura dos ímpios que armam ciladas se consome na sepultura, vislumbremos porque o Messias confia inteiramente em Deus ( Sl 49:5).

 

“Mas Deus remirá a minha alma do poder da sepultura, pois me receberá” (Selá)

O Messias tinha consciência que passaria pelos dias maus, quando homens iníquos o cercariam com ciladas de palavras para o matarem ( At 2:29 -31). Ele estava ciente que desceria a sepultura, porém, era certo que Deus haveria de remir a sua alma do poder da morte, e que O receberia ( Sl 49:15 ).

Os ímpios perecerão e a morte se alimentará deles, ou seja, a morte ‘existe’ por causa da existência dos ímpios. Em função da transgressão de Adão a morte passou a se alimentar dele e de todos os seus descendentes, porém, a morte não tem tal poder sobre o Cristo e os muitos filhos de Deus que são conduzidos à glória ( Hb 2:10 ).

Cristo, o último Adão, foi feito por Deus espírito vivificante. Ele é a porta estreita. Os muitos filhos que são conduzidos por Cristo à glória foram gerados por Deus por intermédio de Cristo. Todos os homens que crêem nascem de novo, ou seja, entram pela porta estreita, e passam a percorrer um novo e vivo caminho que os conduz à vida eterna.

Com base no livramento que Cristo recebeu do Pai, seguem-se uma alerta solene:

 

“Não temas, quando alguém se enriquece, quando a glória da sua casa se engrandece. Porque, quando morrer, nada levará consigo, nem a sua glória o acompanhará. Ainda que na sua vida ele bendisse a sua alma; e os homens te louvarão, quando fizeres bem a ti mesmo, irá para a geração de seus pais; eles nunca verão a luz. O homem que está em honra, e não tem entendimento, é semelhante aos animais, que perecem”

Após desvendar os enigmas do salmo, é possível compreender o alerta solene: “Não temas!”. O cristão não deve temer homens como o fariseu que subiu ao templo para adorar, e que, por ser religioso e seguidor da lei, recriminou o publicano.

Até em nossos dias muitos se consideram afortunados por serem regrados e possuírem uma religião. Gloriam-se no fato de não serem iguais aos homens comuns, porém, rejeitam o que a palavra de Deus preceitua. Para ele os homens são pecadores por serem roubadores e adúlteros, porém, esquecem que desde a madre a humanidade segue um caminho que conduz à perdição.

Alguns religiosos consideram que, para alcançar a graça de Deus é necessário um ascetismo pessoal rígido, e chegam a proibir o casamento. A doutrina que anunciam apóia-se nas tradições dos homens, conforme suas filosofias.

Os servos de Cristo não podem se submeter àqueles que querem fazê-los presas suas. Muitos líderes religiosos procuram submeter os seus seguidores através de filosofias, vãs sutilezas, que são conforme a tradição dos homens.

Os seguidores de cristo não devem temer o julgamento que os homens fazem por causa do comer, do beber, de festas, ou por causa de dias das semanas. O temor a estas pessoas fará com que o cristão se prive do prêmio da salvação, isto porque tais homens se apresentam com uma pseudo-humildade, baseiam-se em visões e seguem o erro de suas mentes carnais.

O que muitos religiosos fazem tem apenas aparência de sabedoria, de voluntariedade, humildade, ascetismo pessoal, pois se baseiam em preceitos humanos, mas não podem aniquilar a carne ( Cl 2:23 ), o que é possível somente em Cristo ( Cl 2:11 ).

O Cristão deve identificar esses homens que, dissimuladamente, se introduziram entre os cristãos e querem converter em dissolução a graça de Deus ( Jd 1:4 ). São falsos mestres, difamam o que não compreendem ( Jd 1:10 ), e o que se deve compreender de modo natural, como animais irracionais, até nisto se corrompem.

Aparentemente estes homens são ricos e cheios de glória pela vida de austeridade que se propuseram seguir. Suas riquezas e glória firmam-se em práticas virtuosas.

Porém, tais homens nada levam consigo quando morrem, nem a glória de suas práticas os seguirá ( Sl 49:17 ). O fato de ser feliz nesta vida não é sinal de bem-aventurança eterna. Ainda que os ímpios se considerem felizes e sejam louvados por suas realizações, irá ter com a geração dos seus pais: jamais verão a luz da vida! ( Sl 49:19 )

Uma é a geração dos ímpios e outra é a geração dos justos. A geração dos ímpios se perpetua através da descendência de Adão ( Jo 1:12 ), e a geração dos justo só e possível através do novo nascimento, quando Deus concede aos homens um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ; Jo 1:13 ; Ez 36:25 – 27).

 

“O homem que está em honra, e não tem entendimento, é semelhante aos animais, que perecem”

O último verso do salmo encerra a moral do enigma desvendado. O homem que está em uma posição privilegiada diante dos seus, como era o caso dos lideres religiosos à época de Cristo, e não compreende a parábola exposta ao som da harpa (oráculo), é semelhante às reses que são abatidas, seguem por um caminho que os conduz à perdição.

Ter zelo de Deus sem entendimento é permanecer no caminho de perdição, visto que, ao estabelecer a sua própria justiça (confiar em suas riquezas), o homem não se sujeita a justiça que vem de Deus ( Rm 10:1 -4).

A Editora Abril Cultural publicou uma Bíblia sob a coordenação do Pe. Antônio Charbel e do Pe. Joaquim Salvador, tendo o Pe. Ernesto Vogt como tradutor e comentarista do Livro dos Salmos. Temos o seguinte comentário ao Salmo 49 sob o título ‘A futilidade das riquezas’:

“Um sábio, de cítara na mão, convida os peregrinos reunidos no Templo a ouvirem a solução do grande problema, provocado pela riqueza dos maus, o que parece desmentir a justiça divina. Mas a providência serve-se precisamente deste enigma e da inabalável fé na justiça divina, para fazer raiar na mente do salmista a certeza de que, depois da morte, será feita a justiça. Esta é a solução que ele achou, ou antes, que o oráculo divino lhe manifestou (v. 8). Os piedosos pobres e aflitos nada tem que invejar aos ricos ímpios, porque estes, apesar de todas suas riquezas, não se poderão resgatar da morte, abandonando o que possuíam e descendo às trevas para nunca mais ver a luz. Quanto aos fiéis, porém, Deus os livrará da morte acolhendo-os junto de Si (v. 16)” A Bíblia, Vol. 4, Os Livros Sapienciais, Editora Abril Cultural, 2° Edição, 1976, Pag. 112.

No comentário do Pe. Ernesto há uma certa influência da teologia da libertação, que se baseia na opção pelos pobres contra a miséria, através de um engajamento político da cristandade na construção de uma sociedade mais justa e solidária, denunciando a pobreza como um pecado estrutural das sociedades modernas.

Porém, não é esta a temática do Salmo 49. Em primeiro lugar a mensagem do salmista não se restringe aos freqüentadores do templo em Jerusalém, antes tem como alvo a humanidade. Em segundo lugar, o grande problema da humanidade não é a pobreza ou a riqueza dos homens. Em terceiro lugar, não é depois da morte que a justiça de Deus se estabelece, antes ela se deu no princípio, visto que a humanidade foi julgada e condenada em Adão. Em quarto lugar, o Salmo não trata das mazelas socioculturais da humanidade, ou das estruturas econômicas e sociais dos reinos deste mundo.

O fato de alguém ser rico não o torna ímpio, e a pobreza não torna ninguém piedoso. Todos os homens gerados segundo a carne e o sangue (pobres ou ricos, judeus ou gentios, nobres ou escravos, religiosos ou ateus), são ímpios por terem entrado pela porta larga (Adão) que os conduz à perdição ( Sl 62:9 ).

Não obstante, temos o seguinte comentário extraído de uma bíblia comentada evangélica:

“Devemo-nos lembrar, contudo, de que o ponto de vista é o de Israel, e que nem uma ressurreição nem um quinhão celestial aparece no salmo (…) Embora este salmo, naturalmente, nada revele do Evangelho da graça de Deus, encontramos nele algumas palavras que no N.T. têm um sentido abundante e precioso” McNair S.E, A Bíblia Explicada, 4ª Ed, Rio de Janeiro, Editora CPAD, 1983, Pág. 184.

Ora, o ponto de vista do salmo não se restringe ao povo de Israel, visto que trata de uma problemática pertinente a todos os moradores do mundo ( Sl 49:1 ). No salmo não aparece nem um quinhão celestial, ou nada acerca da ressurreição? O que dizer do verso 15? Como os retos terão domínio sobre os ímpios, se o salmo nada diz acerca da ressurreição? ( Sl 49:14 ) O salmo nada revela acerca do Evangelho da graça de Deus? Ora, assim como o evangelho é para todos os povos, para todos os moradores do mundo, tanto pobres quanto ricos, percebe-se que o salmo tem muita coisa em comum com a graça de Deus revelada através do Evangelho “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam” ( Jo 5:39 ).

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