Tiago 2 – Fé e obras

De nada aproveita ao homem dizer que tem fé (que crê em Deus) e não ter obras (obedecer). Só é plenamente aceitável e aproveitável se ele tiver fé (crer) e as obras (obedecer).


Introdução

O comentário ao capítulo Um da Carta do apóstolo Tiago contém os elementos necessários à interpretação do capítulo dois.

Declarações do apóstolo como: “Assim também a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma”, ou “assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta”, tem suas bases no capítulo um.

Antes de continuarmos na explicação versículo a versículo, já é possível determinarmos o tema central da carta: a perseverança.

A prova da fé produz a perseverança ( Tg 1:2 ). Ele destaca que o homem que suporta a provação é bem-aventurado (v. 12). A perseverança é condição essencial para se alcançar à bem-aventurança prometida por Deus aos que o amam (v. 25).

Nesta linha de raciocínio o apóstolo Paulo também destacou que a perseverança é produzida na tribulação Rm 5. 3. O escritor aos Hebreus também demonstrou que é necessária a perseverança depois que se crê em Cristo “Porque necessitais de perseverança, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” ( Hb 10:36 ).

Perseverança: Obra completa da fé posta à prova ( Tg 1:3 -4);

A vontade de Deus: “Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

Apesar de a carta estar endereçada ‘às doze tribos da dispersão’ Tg 1. 1, o se conteúdo não contempla somente os judeus que se tornaram cristãos.

O apóstolo Tiago demonstra que a fé do cristão ao ser provada desenvolve a perseverança. Esta idéia é confirmada pelo apóstolo Paulo: “E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a paciência…” ( Rm 5:3 ).

A prova da fé produz a perseverança, e a perseverança é a obra completa da fé, como se lê abaixo:

“Sabendo que a prova de voffa fé obra a paciencia. Tenha porém a paciencia a obra perfeita, peraque perfeitos e totalmente finseros fejaes, em nada faltando”

Novo Testamento – 2ª impressão – Data da edição: 1693, com introduções e resumos da edição de 1681 de Amsterdam, além de Notas de Rodapé dos revisores – Impresso na Batávia (Ilha de Java). SBB.

Tiago insta os leitores a entenderem que a prova da fé produz a perseverança. Após a provação restava a eles estarem de posse da perseverança, que é a obra completa (perfeita) da fé.

Este aspecto da fé é retratado por Paulo aos cristãos de Tessalonicenses ao citar a perseverança de Cristo: “Ora o Senhor encaminhe os vossos corações no amor de Deus, e na paciência de Cristo” ( 2Ts 3:5 ).

Tanto Paulo quanto Tiago concordam que a perseverança é a obra perfeita da fé “Bem-aventurado o homem que suporta com perseverança a provação…” ( Tg 1:12 ; Rm 5:3 ).

O homem será bem-aventurado no que realizar quando suporta a provação, visto que atenta para a lei perfeita, a da liberdade. Esta é a obra a se executar: a perseverança ( Tg 1:25 ).

A fé que Tiago faz referência é a fé salvadora. Ele diz da fé que uma vez foi dada aos santos Jd 3. Esta fé quando provada ‘obra’ (produz) a perseverança.

Em resumo, o capítulo um demonstra a obra da fé quando provada: a perseverança.

A perseverança é algo próprio da fé. Da mesma forma que a fé não vem do cristão, mas de Deus, a perseverança é proveniente da fé e não do cristão. A perseverança é característica de quem possui a fé (evangelho).

 

 

Alerta Segundo a Lei Real

1 Meus irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas.

Novamente o apóstolo Tiago demonstra a fraternidade em Cristo: meus irmãos.

A fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória é coletiva. Pertence ao senhor da glória e foi dada aos cristãos ( Jd 1:3 ; Ef 2:8 ; Tg 1:3 ).

A fé foi dada aos santos, mas estes não deviam tê-la em acepção de pessoas.

Este versículo é um aconselhamento seguido de um exemplo.

 

2 Porque, se no vosso ajuntamento entrar algum homem com anel de ouro no dedo, com trajes preciosos, e entrar também algum pobre com sórdido traje,

 

Observe que a entra de pessoas nas reuniões dos cristãos era livre, diferente das reuniões dos judeus.

3 E atentardes para o que traz o traje precioso, e lhe disserdes: Assenta-te tu aqui num lugar de honra, e disserdes ao pobre: Tu, fica aí em pé, ou assenta-te abaixo do meu estrado,

O exemplo de acepção de pessoas recai nas diferenças socioeconômicas.

 

4 Porventura não fizestes distinção entre vós mesmos, e não vos fizestes juízes de maus pensamentos?

Em um primeiro momento o exemplo parece hipotético, porém a exortação torna-se incisiva. Fizeram distinção entre eles mesmos e se tornaram juízes movidos por maus pensamentos.

 

5 Ouvi, meus amados irmãos: Porventura não escolheu Deus aos pobres deste mundo para serem ricos na fé, e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam?

O agora é o momento para qual os cristãos foram preparados: “Ouvi, meus amados irmãos…” ( Tg 1:19 ).

A linguagem é exclusivamente evangelística: Deus escolheu os pobres aos olhos do mundo para serem ricos na fé.

Não há qualquer promessa ou previsão de mudança na condição financeira dos cristãos. Qualquer tipo de promessa de melhora na condição financeira dos cristãos após terem aceitado a Cristo não é bíblica.

Observe que a promessa confere direito aos cristãos, porém a herança está atrelada ao reino prometido, que não é deste mundo.

 

6 Mas vós desonrastes o pobre. Porventura não vos oprimem os ricos, e não vos arrastam aos tribunais?

Tiago é incisivo e expõe um problema no seio da igreja: “Mas vós desonrastes o pobre”. Aqueles que precisavam ouvir tal queixa do apóstolo estavam preparados – sejam prontos a ouvir.

Aqueles que sofreram a afronta também estavam preparados: sejam tardios em falar, e tardios em irar.

O tema da carta é perseverança, porém o capítulo um reuniu elementos que preparou o ânimo dos ouvintes, tanto dos ricos como os de condição humilde ( Tg 1:9 -10).

 

 

Recomendações

7 Porventura não blasfemam eles o bom nome que sobre vós foi invocado?

Os ricos segundo os parâmetros deste mundo, além da opressão que impunham aos cristãos, acabavam por levá-los aos tribunais.

 

8 Todavia, se cumprirdes, conforme a Escritura, a lei real: Amarás a teu próximo como a ti mesmo, bem fazeis.

Se os leitores da carta de Tiago andassem conforme as Escritura (A. T.), estariam realizando o bem “E vós, irmãos, não vos canseis de fazer o bem” ( 2Ts 3:13 ).

Observe a distinção que Tiago faz dos elementos da lei ao citar um único trecho de Levítico (a Escritura): deveriam cumprir a lei real, ou o que foi instituído por Cristo “Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o SENHOR” ( Lv 19:18 ; Mc 12:31 ).

 

9 Mas, se fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado, e sois redarguidos pela lei como transgressores.

O apóstolo Tiago faz esta declaração com base neste versículo: “Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado” ( Tg 4:17 ).

Aquele que não anda conforme a lei real, este é transgressor e comente pecado, pois tal pessoa ainda não teve um encontro real com Cristo “Aquele que diz que está na luz, e odeia a seu irmão, até agora está nas trevas” ( 1Jo 2:9 ).

 

10 Porque qualquer que guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos.

Este é um parâmetro da lei: um ‘simples’ tropeço em qualquer ponto leva a pessoa subordinada a ela a derrocada total.

 

11 Porque aquele que disse: Não cometerás adultério, também disse: Não matarás. Se tu, pois não cometeres adultério, mas matares, estás feito transgressor da lei.

Este versículo é um exemplo aplicado dos parâmetros da lei que foi apresentado no versículo anterior.

 

12 Assim falai, e assim procedei, como devendo ser julgados pela lei da liberdade.

Este versículo contempla o argumento do apóstolo João: “Aquele que diz que está na luz, e odeia a seu irmão, até agora está nas trevas” ( 1Jo 2:9 ). O procedimento do cristão deve estar em conformidade como que ele professa.

Ao falar: “Amarás o teu próximo, como a ti mesmo”, deveriam proceder conforme o que diziam. Deveriam falar conforme a lei régia e proceder conforme ela estipula.

Aquele que procede conforme o que fala, age assim por saber que será julgado pela lei da liberdade. Tal julgamento é de obras e se dará no Tribunal de Cristo “Mas tu, por que julgas teu irmão? Ou tu, também, por que desprezas teu irmão? Pois todos havemos de comparecer ante o tribunal de Cristo” ( Rm 14:10 ); “Porque todos devemos comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o que tiver feito por meio do corpo, ou bem, ou mal” ( 2Co 5:10 ).

A lei da liberdade nos remete ao versículo vinte e cinco do capítulo um: “Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito” ( Tg 1:25 ).

Aquele que não é relapso, ou seja, que atenta bem para a lei da liberdade, cumpre com o determinado e é bem-aventurado no seu feito.

Ele é bem-aventurado por suportar com perseverança a tentação. A fé que ele recebeu deve se desenvolver, tornando-se perseverante.

 

13 Porque o juízo será sem misericórdia sobre aquele que não fez misericórdia; e a misericórdia triunfa do juízo.

A misericórdia divina só é demonstrada aos homens em particular quando este tem um encontro com Ele.

Sabemos que Deus amou o mundo de tal maneira, e que deu o seu Filho unigênito. Está é a misericórdia de Deus demonstrada ao mundo, em que seu Filho morreu, sendo nós ainda pecadores.

Mas, para que o homem seja participante desta misericórdia deve crer em Cristo para ser participante da luz.

Todos aqueles que crêem em Cristo são participante de sua natureza e devem andar como ele andou. Contudo, devemos observar o que diz o apóstolo João: “Outra vez vos escrevo um mandamento novo, que é verdadeiro nele e em vós; porque vão passando as trevas, e já a verdadeira luz ilumina. Aquele que diz que está na luz, e odeia a seu irmão, até agora está em trevas. Aquele que ama a seu irmão está na luz, e nele não há escândalo. Mas aquele que odeia a seu irmão está em trevas, e anda em trevas, e não sabe para onde deva ir; porque as trevas lhe cegaram os olhos” ( 1Jo 2:8 -11).

Aquele que não faz misericórdia é porque está em trevas e anda nas trevas. Não conhece a Deus, ou antes, não é conhecido por Ele. Tal homem, por não ser perseverante, ou seja, não continuou na fé que professava, uma vez viu, mas agora não sabe para onde deva ir, pois as trevas cegaram os seus olhos.

Estes são aqueles que não fazem misericórdia e terão o juízo de Deus.

O apóstolo João é bem claro com relação ao amor: “Ora, o seu mandamento é este, que creiamos no nome do seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o mandamento que nos ordenou” ( 1Jo 3:23 ).

O mandamento de Deus é claro: “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ). Somente após crer no enviado do Pai, é que o amor ao semelhante passa a ter valor diante de Deus. Devemos nos amar segundo o mandamento que foi ordenado: que creiais naquele que Ele enviou.

 

Porventura a Fé pode Salvá-los?

14 Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo?

O apóstolo Tiago continua a exposição do versículo doze: “Assim falai, e assim procedei…”. Qual o proveito se alguém disser que tem fé e não tiver as obras? Esta pergunta encontra resposta nos versículos seguintes.

“Meus irmaõs, que aproveita, fe alguem differ que a fé tem, e as obras não tiver? por ventura pode o a [tal] fé falvar?

Novo Testamento – 2ª impressão – Data da edição: 1693, com introduções e resumos da edição de 1681 de Amsterdam, além de Notas de Rodapé dos revisores – Impresso na Batávia (Ilha de Java). SBB.

O leitor deve observar atentamente a construção do versículo 14: alguém diz que tem fé, porém ele não tem as obras.

De nada aproveita ao homem ter fé e não ter obras. Só é plenamente aceitável e aproveitável se ele tiver a fé e as obras.

Certa feita algumas pessoas se achegaram a Cristo e perguntaram: “Que faremos para executarmos as obras de Deus?” ( Jo 6:28 ). Jesus respondeu: A obra de Deus é esta: “Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

O que esta passagem nos ensina? Que as pessoas geralmente estão em busca de algo material, e não de Deus. A multidão estava a procura de Jesus por causa do pão que comeram (v. 26), porém a mensagem e os sinais demonstrados não os havia sensibilizado (v. 27).

Quando Jesus demonstra que eles o buscavam de maneira enfatuada, interpelaram: “Que faremos para executar a obra de Deus?”.

Geralmente os homens que ainda não tiveram um encontro com Cristo, entendem que para se aproximar de Deus, ou que para agradá-lo, é necessário fazer alguma coisa. Observe que a multidão queria fazer a obra de Deus.

Quando Jesus revela a obra a ser realizada (que creiais naquele que ele enviou), estes apresentam empecilhos: “Que sinal, pois, fazes tu, para que o vejamos, e creiamos em ti? Que operas tu?” ( Jo 6:30 ).

A humanidade é voluntariosa quando se proclama afazeres. Constroem grandes templos, fazem grandes sacrifícios, são generosos nas esmolas, porém, quando tomam ciência do que devem fazer, que é crer em Cristo, estes pedem um sinal.

O jovem rico ao se aproximar de Jesus fez a mesma pergunta: “Bom Mestre, que bem farei para conseguir a vida eterna?” ( Mt 19:16 ). Jesus enumerou algumas coisas pertinentes à lei, e o jovem rico demonstrou que aquela era sua prática de vida, mas ele queria fazer algo mais para ter garantia da vida eterna “Tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade; que me falta ainda?” ( Mt 19:20 ).

Jesus aponta o essencial para que ele alcançasse a perfeição: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me” ( Mt 19:21 ).

A condição para alcançar a perfeição não estava no disponibilizar das riquezas, antes na crença na palavra de Cristo. Quando Jesus lhe apresentou a obra a ser realizada (crer naquele que Deus enviou), o Jovem rico recuou.

Nestas passagens Cristo confirma as palavras do apóstolo Paulo ao dizer que a salvação é por meio da fé “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” ( Ef 2:8 ). Ou seja, que “…sem fé é impossível agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam” ( Hb 11:6 ).

Também somos informados que as boas obras Deus preparou de ante mão para que andássemos nela “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” ( Ef 2:10 ). Ou melhor, que as boas obras são feitas, realizáveis em Deus “Mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus” ( Jo 3:21 ).

Reiterando: a salvação é por meio da fé e as boas obras foram preparadas por Deus e são feitas Nele.

Através desta análise podemos demonstrar que há uma grande diferença entre ‘obras da fé’ e o que chamamos de ‘boas ações’.

‘Boas ações’ são pertinentes e possíveis de serem realizadas por todos os homens e independe da fé. Tanto o crente quanto o incrédulo podem e devem realizar boas ações aos seus semelhantes. Mesmo aqueles que não creem em Cristo realizam boas ações, e nem por isso serão salvos.

Desta maneira é possível verificar que ‘boas obras’ não está vinculado a procedimentos humanos, já que as boas obras só são realizáveis quando o homem está em Deus por meio de Cristo.

Verifica-se que boas obras e más obras são termos utilizados que fazem referência tanto ao comportamento humano, quanto ao que é realizável em Deus “Porque os magistrados não são terror para as boas obras, mas para as más. Queres tu, pois, não temer a potestade? Faze o bem, e terás louvor dela” ( Rm 13:3 ).

O que define quando o texto faz referência a ‘boas ações’ e a ‘boas obras’? O contexto geralmente aponta qual a idéia a se considerar. Na citação acima, temos que ‘boas obras’ é o fazer ‘boas ações’, ou seja, o bem.

Este versículo contém elementos para nortear o entendimento do leitor, porém, há vários versículos que não dispõe do contexto para uma boa interpretação. Nestes versículos o que vale é o posicionamento doutrinário adotado pelos apóstolos.

Um exemplo claro de que devemos nos valer do posicionamento doutrinário adotado pelos apóstolos está neste versículo que estamos analisando.

A análise que fizemos acima aponta os seguintes posicionamentos doutrinários:

  • Sabemos que a salvação é por meio da fé;
  • Que a salvação é dom de Deus;
  • Que a salvação não é por obras, para que ninguém se glorie;
  • Que as boas obras são feitas em Deus;
  • Que não é possível ao homem realizar a obra de Deus;
  • Basta ao homem crer no enviado de Deus para se alcançar a salvação.

O versículo que estamos analisando apresenta os elementos seguintes:

“Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo?”

O versículo aponta que é necessário ter fé e ter as obras. Em momento algum o apóstolo Tiago alude que a prática de boas obras é o meio pelo qual se alcança a salvação. Em momento algum ele afirma que boas obras auxilia a fé.

Observe que as obras pertencem à fé (obras da fé). As obras da fé que Tiago faz alusão não podem ser confundidas com ‘boas ações’.

Neste versículo o apóstolo não fala de prática de boas obras, ou prática de boas ações. Ele fala de posse da fé e posse das obras da fé.

É totalmente pertinente o que Tiago escreveu e o que os outros apóstolos escreveram.

Primeiro porque a bíblia demonstra que a fé é proveniente de Deus “E pela fé no seu nome fez o seu nome fortalecer a este que vedes e conheceis; sim, a fé que vem por ele, deu a este, na presença de todos vós, esta perfeita saúde” ( At 3:16 ; Rm 12:3 ; 1Co 12:9 ).

Qualquer tipo de prática não torna o homem agradável a Deus “Ora, a lei não é da fé; mas o homem, que fizer estas coisas, por elas viverá” ( Gl 3:12 ).

Novamente o apóstolo Paulo excluiu qualquer prática: “Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça” ( Rm 4:5 ).

Não existe contradição alguma entre Paulo e Tiago, pois Tiago não fala em pratica de obras, mas sim da posse da posse das obras da fé.

Para ilustrar a idéia, Tiago estabelece um exemplo:

 

 

Fé e Obras

15 E, se o irmão ou a irmã estiverem nus, e tiverem falta de mantimento quotidiano, 16 E algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos, e fartai-vos; e não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito virá daí?

Estes dois versículos são bases para um comparativo.

Perceba que os dois versículos não constituem uma exortação à prática destas ações, pois a questão de alimentar o faminto era algo já resolvido entre os cristãos, tão resolvido que o apóstolo utiliza como exemplo para mostrar a inutilidade da fé sem as obras.

É uma constante em nossos dias utilizar este comparativo como base para instar as pessoas a serem praticantes de boas ações. Para isso utilizam o jargão: ‘Está escrito’! Está escrito que de nada adianta visitar o irmão necessitado sem dar-lhe o necessário ao sustento.

Estes dois versículos são duas perguntas com respostas prontas. O apóstolo já sabia da resposta dos leitores.

‘Meus irmãos, qual é o proveito…?’ (v. 14)

‘Se (…) qual o proveito disso?’ (v. 15- 16).

A resposta do versículo quatorze é negativa, e a dos versículos quinze e dezesseis era de se esperar negativa.

É necessário dar alimento e roupa a quem tem necessidade? Sim! Mas, a idéia em discussão vem do versículo seguinte:

17 Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma.

Novo Testamento – 2ª impressão – Data da edição: 1693, com introduções e resumos da edição de 1681 de Amsterdam, além de Notas de Rodapé dos revisores – Impresso na Batávia (Ilha de Java). SBB.

O versículo inicia-se através de uma comparação com o exemplo do versículo anterior. A leitura da idéia do versículo anterior é de que nada adianta falar ao necessitado que se satisfaça sem prover-lhe os meios para tanto. Assim também, ou seja, da mesma forma a fé.

Assim também a fé é sem efeito, ou seja, em si mesma está morta, pois não tem o que lhe é próprio: as obras. As obras são concernentes a fé, de sorte que se ela não tiver as obras, a morte também lhe será própria.

Quais são as obras da fé?

A paciência é a obra perfeita da fé e nela estão contidas todas as outras obras. Observe:

“Sabendo que a prova da vossa fé opera a paciência. Tenha, porém, a paciência a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, sem faltar em coisa alguma” ( Tg 1:3 -4).

Os cristãos deveriam ter a paciência, a obra perfeita da fé!

O apóstolo não faz referência à prática de obras, mas a posse da obra perfeita da fé.

É certo que a perseverança termina a obra que teve início através da fé, e que nela estão inclusas todas as outras obras.

O texto é claro: a fé quando provada produz a paciência, a obra perfeita da fé.

A obra em discussão é a da fé, e não a obra do homem que pratica boas ou más ações.

Sobre as questões comportamentais da nova criatura (as boas obras), o apóstolo Paulo recomenda aos cristãos agirem em conformidade ao ‘fruto do Espírito’ “Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança. Contra estas coisas não há lei. E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências. Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito” ( Gl 5:22 -25).

O apóstolo Tiago ao falar das obras da fé retrata as mesmas questões do apóstolo Paulo quando fala do fruto do Espírito. As obras da fé e o fruto do Espírito são questões pertinentes ao homem interior, que devem influenciar o comportamento deste mesmo homem nas suas relações com o mundo “Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito. Não sejamos cobiçosos de vanglórias, irritando-nos uns aos outros, invejando-nos uns aos outros” ( Gl 5:25 -26).

Observe que o fruto é do Espírito da mesma forma que as obras são da fé. Se tal fé não possuiu as obras que dela decorrem, é morta em si mesmo. Aquele que possui a fé deve também estar de posse das obras que a fé produz “Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo?” (v. 14).

As obras que o crente deve ter posse são as da fé, e difere das boas ações que os cristãos devem efetivamente praticar (diferente de ter).

É fácil visualizarmos que as obras da fé não dizem respeito às questões comportamentais (obras do homem) quando compreendemos que todos os homens, sejam salvos ou não, podem praticar boas ações.

De outra forma, é fácil verificarmos que as boas obras dizem respeito àqueles que vêm para Cristo por meio da fé, e que tais obras somente se realizam em Deus ( Jo 3:21 ; Is 26:12 ; Ef 2:10 ). Ou seja, não é possível àqueles que não aceitaram a Cristo como salvador terem boas obras ou o fruto do Espírito. Primeiro porque não são nascidos do Espírito; Segundo porque as boas obras são feitas em Deus.

Porém, há um outro aspecto a se considerar com relação àqueles que estão em Cristo: o homem regenerado realiza as boas obras por estarem em Deus por meio de Jesus, conforme lemos em Isaias “SENHOR, tu nos darás a paz, porque tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras” ( Is 26:12 ); porém, este mesmo homem realiza boas e más ações, e estas serão provadas como pelo fogo quando do Tribunal de Cristo ( 2Co 5:10 ) “E, se alguém sobre este fundamento formar um edifício de ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, A obra de cada um se manifestará; na verdade o dia a declarará, porque pelo fogo será descoberta; e o fogo provará qual seja a obra de cada um. Se a obra que alguém edificou nessa parte permanecer, esse receberá galardão. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá detrimento; mas o tal será salvo, todavia como pelo fogo” ( 1Co 3:12 -15).

 

 

A Nova Criatura:

  • É nascida de Deus “O que é nascido do Espírito é espírito” ( Jo 3:6 );
  • As boas obras são feitas em Deus “… a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus” ( Jo 3:21 );
  • As boas obras foram preparadas por Deus “…criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” ( Ef 2:10 );
  • Porém, a nova criatura pode praticar boas e más ações “… cada um receberá segundo o que tiver feito por meio do corpo, ou bem, ou mal” ( 2Co 5:10 );
  • E será salvo “…mas o tal será salvo, todavia como pelo fogo” ( 1Co 3:12 -15);
  • Ele é salvo por meio da fé e deve estar de posse das obras da fé. É espiritual e deve andar (comportar) segundo o Espírito ( Gl 5:25 ).

 

 

A Velha Criatura

  • É nascida da semente de Adão “Necessário vos é nascer de novo” ( Jo 3:7 ), e precisa nascer novamente, da semente incorruptível, a palavra de Deus;
  • As suas obras são más “…os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más” ( Jo 3:19 );
  • Fazer o mal está ligado à natureza, e não as ações do homem não regenerado “Porventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Tampouco podeis vós fazer o bem, acostumados que estais a fazer o mal” ( Jr 13:23 );
  • A velha criatura pode fazer boas e más ações, porém não pode realizar o bem “Não há quem faça o bem, não há nem um só” ( Rm 3:12 );
  • Como a velha natureza está vendida ao pecado como escrava, por mais que se tenha vontade, não realizará o bem “…com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem” ( Rm 7:18 ); Por mais que se queira fazer o bem é uma impossibilidade que reside na natureza decaída, que é escrava do pecado;
  • Por mais que pratiquem boas ações, jamais a velha criatura verá o reino dos céus, pois sobre ela pesa uma condenação “…quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” ( Jo 3:18 );
  • Por mais que pratiquem boas ações, a velha criatura não possui a fé e as obras da fé. Ela não vive no Espírito e não pode andar em Espírito ( Gl 5:25 ).

 

 

A Perseverança

A carta de Tiago não foge do tema que está na introdução. Na introdução fica claro que o tema da carta é: “perseverança, obra perfeita da fé” ( Tg 1:2 -4).

Os outros escritores também fizeram referência à perseverança, e eles têm a mesma idéia sobre o seu valor.

Paulo disserta sobre o amor em I Co 13, e de maneira semelhante Tiago disserta quase que exclusivamente sobre a perseverança em sua carta.

Sobre a fé sabemos que ela foi implantada no cristão através da palavra da verdade, que é poderosa para salvar as nossas almas ( Tg 1:21 ). O apóstolo Pedro nos informa que o objetivo fim da nossa fé é salvação das nossas almas ( 1Pe 1:9 ).

Assim como Pedro, Tiago também nos informa que a fé é provada ( 1Pe 1:7 ; Tg 1:3 ).

Veja nas referências abaixo a harmonia de idéia entre Pedro e Tiago:

Aquele que é perseverante em observar a lei perfeita, a da liberdade, receberá a coroa da vida ( 1Pe 1:22 -23; Tg 1:21 e 25). Compare os textos.

A segunda carta de Pedro tem início semelhante à carta de Tiago. Pedro cumprimenta com graça e paz todos aqueles que receberam a fé por meio do conhecimento de Deus, que deu tudo que diz respeito a vida e a piedade. A essa fé alcançada deveriam diligentemente acrescentar as obras da fé.

O apóstolo Pedro enumera as obras da fé: “E vós também, pondo nisto mesmo toda a diligência, acrescentai à vossa fé a virtude, e à virtude a ciência, E à ciência a temperança, e à temperança a paciência, e à paciência a piedade, E à piedade o amor fraternal, e ao amor fraternal a caridade. Porque, se em vós houver e abundarem estas coisas, não vos deixarão ociosos nem estéreis no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo. Pois aquele em quem não há estas coisas é cego, nada vendo ao longe, havendo-se esquecido da purificação dos seus antigos pecados. Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição; porque, fazendo isto, nunca jamais tropeçareis. Porque assim vos será amplamente concedida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” ( 2Pe 1:5 -11; Gl 5:22 -23 ; Tg 3:17 ).

Observe que os elementos que se deve ter acrescido à fé não diz de afazeres (prática de ações ou obras). Não são os afazeres que se deve acrescentar a fé, antes os cristãos deve ter a posse da fé, e somado a ela estas outras virtudes, produzidas por meio da fé (bondade, conhecimento, domínio próprio, perseverança, piedade, fraternidade e amor). Se a fé produz (obra) a paciência, da mesma forma ela produz as virtudes enumeradas acima.

Aquele que está de posse das virtudes que decorrem da fé não estará ocioso, mas se aplicará em produzir boas ações no conhecimento de Cristo Jesus.

Da mesma forma, Tiago receita aqueles que sentissem falta de alguma coisa, que pedissem a Deus sabedoria ( Tg 1:5 ), que a todos concederia do alto ( Tg 1:17 ), a sabedoria que é pura, pacífica, moderada, tratável, misericordiosa e de bons frutos, imparcial e honesta ( Tg 3:17 ).

Novo Testamento – 2ª impressão – Data da edição: 1693, com introduções e resumos da edição de 1681 de Amsterdam, além de Notas de Rodapé dos revisores – Impresso na Batávia (Ilha de Java). SBB.

Tendo posse desta sabedoria, o cristão tem os meios para mostrar através do seu bom comportamento em mansidão de sabedoria as suas obras. Se o cristão é completo, tem fé e obras, deve por meio do seu bom procedimento mostrar as suas obras em mansidão.

  • É a perseverança que termina a obra que teve início na fé ( Tg 1:3 ) – “Porque necessitais de paciência, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” ( Hb 10:36 ). É preciso considerar que a vontade de Deus é que se creia naquele que Ele enviou. Ou seja, primeiro se crê na mensagem do evangelho e para que se possa alcançar a promessa precisa ter a perseverança, a obra perfeita da fé.
  • Não há como dissociar perseverança e fé ( Tg 1:12 ) – “Para que vos não façais negligentes, mas sejais imitadores dos que pela fé e paciência herdam as promessas” ( Hb 6:12 ). A carta de Tiago trabalha esta idéia desde o início ( 2Ts 1:4 ).
  • A carta de Tiago trata do que se deve ter e acrescentar à fé – “E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a paciência, E a paciência a experiência, e a experiência a esperança. Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o esperamos” ( Rm 5:3 -4; Rm 8:25 ). Tiago trata do comportamento do cristão enquanto com perseverança se aguarda a promessa.
  • A salvação se opera através da obra perfeita de fé – “Mas, se somos atribulados, é para vossa consolação e salvação; se somos consolados, para vossa consolação é, a qual se opera suportando com paciência as mesmas aflições que nós também padecemos” ( 2Co 1:6 ). A salvação se opera suportando com paciência as mesmas aflições que sobrevieram aos apóstolos.

A obra que a fé opera (produz) está relacionada ao homem interior, e o capítulo um bem demonstra esta verdade.

 

18 Mas dirá alguém: Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras.

Novo Testamento – 2ª impressão – Data da edição: 1693, com introduções e resumos da edição de 1681 de Amsterdam, além de Notas de Rodapé dos revisores – Impresso na Batávia (Ilha de Java). SBB.

Diante da afirmação anterior, alguém poderia contradizer o apóstolo dizendo: Tu tens a fé, ou seja, a afirmação é o mesmo que por em descrédito o argumento do apóstolo que acabou de dizer que a fé sem as obras é morta.

A resposta do apóstolo é: “…e eu tenho as obras:”, ou seja, ‘… e eu (que ou digo) tenho as obras’. Este alguém que diz: “Tu tens fé”, estaria querendo apontar um possível erro conceitual do apóstolo, porém, Tiago reafirma o seu posicionamento: “E eu tenho obras”.

O apóstolo Tiago põe a prova o que estava afirmando: “mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras”.

O apóstolo não descarta a fé, pois o seu discurso é para que se tenha ‘as obras’ da fé. Observe que as obras é o elemento essencial da fé, pois como alguém sem as obras da fé poderia demonstrar a fé? “Mostre-me a tua fé sem as tuas obras”.

Tiago se propõe a demonstra a sua fé por intermédio de suas obras. Como a paciência é a obra perfeita da fé, é facilmente demonstrável a fé por meio do que ela produz.

 

 

A Fé Morta

19 Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o creem, e estremecem.

A crença em um só Deus é importante, porém pode ser inócua tal crença se não se fizer acompanhar as obras.

De nada adianta dizer crer em Deus se o indivíduo não crê no testemunho que Ele deu acerca do seu Filho. As Escrituras é um testemunho vivo que Deus deu do seu Filho, e aqueles que creem em Cristo realizam a ‘obra’ exigida por Deus, pois Cristo mesmo disse: – ‘A obra de Deus é está: que creiais naquele que ele enviou!’

 

20 Mas, ó homem vão, queres tu saber que a fé sem as obras é morta?

A insensatez de alguns em compreender a mensagem do apóstolo sobre as obras da fé, leva o apóstolo a dar exemplos:

 

21 Porventura o nosso pai Abraão não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque?

A fé de Abraão foi demonstrada na perseverança em levar o seu único filho até o altar de sacrifício. Sobre este aspecto o escritor aos Hebreus assim escreveu: “Pela fé ofereceu Abraão a Isaque, quando foi provado; sim, aquele que recebera as promessas ofereceu o seu unigênito” ( Hb 11:17 ).

Abraão não se fez de rogado quando lhe sobreveio a provação, permanecendo firme.

Abraão foi justificado quando creu em Deus, porém a sua fé provada se demonstrou mais preciosa que o ouro, e as suas obras testemunharam acerca de sua fé “Para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece e é provado pelo fogo, se ache em louvor, e honra, e glória, na revelação de Jesus Cristo” ( 1Pe 1:7 ).

 

Em Gn 15:6 a fé de Abraão foi lhe imputada para justiça, ou seja, Deus justificou a Abraão, e sobre este aspecto Paulo afirma: “Pois, que diz a Escritura? Creu Abraão em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça. Ora, àquele que faz qualquer obra não lhe é imputado o galardão segundo a graça, mas segundo a dívida. Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça” ( Rm 4:3 -5).

O aspecto que Paulo comenta é o da declaração divina acerca do homem: aquele que crê que Deus justifica o ímpio, esta fé é imputada como justiça. Abraão não tinha praticado nenhuma obra, mas creu. Ele estava de posse da fé que veio por meio da palavra de Deus, que lhe fez a promessa.

Tiago comenta Gn 22, onde a ação de Abraão confirma a sua fé em Deus. Neste ponto é as obras de Abraão que o justifica, ou seja, são as obras que dizem algo à respeito do pai Abraão. Em Gênesis quinze, Deus declara algo sobre Abraão, e em Gênesis vinte e dois, as obras dizem algo acerca do patriarca “…pelas obras justificado…” (v. 21).

 

22 Bem vês que a fé cooperou com as suas obras, e que pelas obras a fé foi aperfeiçoada.

Através do exemplo anterior o apóstolo espera que o leitor insensato possa ver que a fé coopera com as obras, e que pelas obras a fé é aperfeiçoada. Ou seja, a prova da fé leva ao aperfeiçoamento da fé, resultando em obras pertinente à fé.

 

23 E cumpriu-se a Escritura, que diz: E creu Abraão em Deus, e foi-lhe isso imputado como justiça, e foi chamado o amigo de Deus.

Tiago citou dois pontos distintos da Escritura: Gn 15:6 , da justificação pela fé, e 2Cr 20:7 , onde Jeosafá em pé na congregação nomeia Abraão de “amigo de Deus”.

A escritura cumpriu-se na seqüência exata e em dois pontos distintos: Deus justificou a Abraão ( Gn 15:6 ), e a sua perseverança na fé, apesar da prova, concedeu-lhe a dádiva de ser chamado de amigo de Deus “Porventura, ó nosso Deus, não lançaste fora os moradores desta terra de diante do teu povo Israel, e não a deste para sempre à descendência de Abraão, teu amigo?” ( 2Cr 20:7 ).

O cumprimento da Escritura se dá em dois momentos: Quando Deus justifica o crente Abraão e ele persevera mesmo quando a sua fé foi provada, o que lhe deu o título de amigo de Deus posteriormente. Se Abraão não estivesse de posse da obra perfeita da fé,a perseverança, jamais teria recebido o título de amigo de Deus.

 

24 Vedes então que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé.

Este versículo demonstra que o homem é justificado pelas obras da fé. Ou seja, o homem não é justificado somente pela fé, mas pela fé e pelas obras que esta fé produz ( Tg 1:4 ).

 

25 E de igual modo Raabe, a meretriz, não foi também justificada pelas obras, quando recolheu os emissários, e os despediu por outro caminho?

A ação de Raabe em esconder os espias de Israel demonstra de maneira clara que ela havia crido em Deus. O que ela ouviu acerca do Deus de Israel foi o bastante para que ela alcançasse a fé, que logo em seguida foi posta à prova ( Js 2:1 -24).

 

 

26 Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta.

Tiago conclui o pensamento com uma comparação. Assim como o corpo sem o espírito está morto, a fé sem obras é morta.

A fé sem as suas obras é morta. Não há referência as obras ou ações humanas como meio para se alcançar o favor de Deus.

O favor de Deus foi demonstrado, sendo que Cristo foi morto, e éramos ainda pecadores. Ele morreu isto porque não havia como o homem realizar algo que pudesse mudar sua realidade.

Agora que já fomos reconciliados com Deus através da morte de Cristo, haveria algo ainda a ser feito para permanecer com tal dádiva? Não!

O que o apóstolo demonstra é que devemos ter a fé e estar de posse das obras da fé.

“Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno” ( Hb 4:16 ).

Após cremos em Deus, devemos nos achegar ao trono da graça com confiança, certos de que em tempo oportuno acharemos graça e misericórdia.

O aproximar do trono da graça com confiança é uma das obras da fé, da mesma forma que o é reter firmemente a nossa confissão ( Hb 4:14 ).

As obras da fé são aspectos que se manifestam no homem interior, onde ele lança mão da esperança proposta. Ele possui essa consolação como ancora firme e segura da alma.

Por várias vezes Tiago chama os cristãos de irmãos.

Quando ele chama o lugar de reunião dos cristãos de ‘sinagoga’ (com base no texto grego Tg 2:2 ), é porque o conceito de igreja não se estendia ao templo, como o é em nossos dias.

As várias referências que a bíblia registra acerca da igreja descrevem mais um reunião de pessoas do que o templo onde estavam se reunindo. Para Paulo a igreja era a união de gentios e judeus em torno do nome de Cristo ( Ef 3:10 ).

O ajuntamento dos cristãos constitui a igreja, porém o local pode ser denominado de templo, igreja ou sinagoga. À época de Tiago o termo mais preciso para o local de ajuntamento era ‘sinagoga’.

Neste aspecto o apóstolo João escreveu no Apocalipse desta maneira: “Conheço as tuas obras, e tribulação, e pobreza (mas tu és rico), e a blasfêmia dos que se dizem judeus, e não o são, mas são a sinagoga de Satanás” ( Ap 2:9 ); “Eis que eu farei aos da sinagoga de Satanás, aos que se dizem judeus, e não são, mas mentem: eis que eu farei que venham, e adorem prostrados a teus pés, e saibam que eu te amo” ( Ap 3:9 ). O apóstolo escreve ao anjo das igrejas da Ásia, porém havia algumas pessoas que se diziam judias, mas na verdade eram sinagoga de Satanás. Ou seja, aqueles que se arrogavam no direito de se dizerem judeus queriam avocar para si a filiação divina, mas não passavam de sinagoga (templo) de Satanás.

As expressões judaicas que a carta apresenta decorrem de uma vida inteira voltada para o judaísmo. Tal característica não determina precisamente que os destinatários da carta também devam ser todos judeus convertidos ao cristianismo.

O tema da carta não é uma questão própria e exclusiva dos judeus convertidos, mas de todos quantos creem em Cristo: perseverança!

A carta não apresenta temas como idolatria e escravidão pelo simples fato de os destinatários serem cristãos. Com relação a idolatria já havia recomendações proveniente do concílio de Jerusalém ( At 15:20 ).

Não entraremos nas questões pertinentes às hipóteses das datas em que foi escrita a epístola, porém a carta não faz menção a cristãos gentios ou judeus por ser unânime entre os apóstolos desde o concílio em Jerusalém que os judeus e gentios constituem a igreja de Cristo ( At 15:14 ).

Qualquer desvio deveria ser prontamente reprimido ( Gl 2:14 ). Quem presenciou a repreensão de Paulo ou que ouviu falar de tal acontecimento, já estava mais do que alertado quanto a qualquer tipo de dissensão entre povos no seio da igreja.

As argumentações teológicas em Tiago são as mesmas que permeiam as cartas de Paulo, como já vimos em ( Tg 1:17 -18).

Aliado a está característica, não dá para afirmar que a carta de Tiago foi escrita antes dos evangelhos. A linguagem dos evangelhos é voltada para fatos históricos, com exceções ao evangelho de João.

Tiago não faz alusão ao concílio de Jerusalém, porém tal fato não pode ser utilizado para tentar precisar a data da carta, visto que tal fato não é pertinente ao tema em questão.

Há quatro indivíduos identificados como Tiago no novo testamento. Podemos sugerir qual deles seria o autor da carta, porém não é possível afirmar categoricamente.

O que é plenamente observável a respeito do escritor da carta é que ele não precisar defender a sua posição no seio da igreja à maneira de Paulo. Bastou a simples identificação: “Tiago, servo de Deus, e do Senhor Jesus Cristo…” ( Tg 1:1 ).

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Terei misericórdia de quem me aprouver!

Perdoar o pecado do povo já era um pedido descabido por parte de Moisés, quanto mais a condição que estabeleceu: “…se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito” (Êx 32:32). Ao fazer essa oração, Moisés desconsiderou completamente o que foi dito por Deus aos filhos de Israel, quando estavam acampados ao pé do monte Sinai.


“Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e terei compaixão de quem me aprouver ter compaixão. Assim, pois, não depende de quem quer, nem do que corre, mas de Deus, que usa de misericórdia” (Romanos 9:15-16)

 

Para compreender a palavra de Deus: “… terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer” (Êx 33:19), quando revelou a Sua glória a Moisés, temos de voltar alguns dias no tempo, no dia em que Deus anunciou a Lei aos filhos de Israel.

Três meses, após saírem do Egito, os filhos de Israel chegaram ao deserto do Sinai e acamparam diante do monte (Êx 19:1). No terceiro dia, após o povo se santificar, Moisés subiu ao cume do monte, quando Deus lhe disse, abertamente:

“Não te encurvarás a elas, nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” (Êx 20:6).

Deus deixou muito claro ao povo de Israel que é Deus zeloso, ou seja, que vela sobre a sua palavra para cumpri-la (Jr 1:12). Isto posto, Deus dá a sua palavra de que não justifica o pecado daqueles que O odeiam, mas, que faz misericórdia aos que O amam, ou seja, aos que guardam os seus mandamentos.

Tomando por base a palavra de Deus dita a Moisés, no capítulo 20, verso 6, pergunta-se: – de quem Deus tem misericórdia? Deus tem misericórdia, única e exclusivamente, daqueles que O amam!

Essa verdade é inconspurcável e enfatizada repetidas vezes:

“Mas a misericórdia do SENHOR é desde a eternidade e até a eternidade sobre aqueles que o temem e a sua justiça sobre os filhos dos filhos; Sobre aqueles que guardam a sua aliança e sobre os que se lembram dos seus mandamentos, para os cumprir” (Sl 103:17-18);

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos” (Dt 5:10);

“Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia, até mil gerações, aos que o amam e guardam os seus mandamentos” (Dt 7:9);

“E orei ao SENHOR meu Deus, confessei e disse: Ah! Senhor! Deus grande e tremendo, que guardas a aliança e a misericórdia para com os que te amam e guardam os teus mandamentos” (Dn 9:4).

Deus deixou estabelecido nas Escrituras que somente demonstra misericórdia aos que obedecem ao Seu mandamento, pois a misericórdia (amor) de Deus é que guardemos os seus mandamentos.

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” (1 Jo 5:3).

Após Moisés anunciar estas palavras ao ouvido dos filhos de Israel e eles votarem a uma só voz que obedeceriam tudo o que o Senhor ordenou (Êx 24:7), bastou Moisés se ausentar por quarenta dias e quarenta noites para os filhos de Israel transgredirem o mandamento, adorando um bezerro de ouro (Êx 32:1).

“Então disse o SENHOR a Moisés: Vai, desce; porque o teu povo, que fizeste subir do Egito, se tem corrompido e depressa se tem desviado do caminho que eu lhe tinha ordenado; eles fizeram para si um bezerro de fundição e perante ele se inclinaram, ofereceram-lhe sacrifícios e disseram: Este é o teu deus, ó Israel, que te tirou da terra do Egito” (Êx 32:7-8).

No dia seguinte, após destruir o bezerro de ouro, Moisés subiu ao Senhor para rogar pelo povo e disse:

“Ora, este povo cometeu grande pecado fazendo para si deuses de ouro. Agora, pois, perdoa o seu pecado, se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito” (Êx 32:31-32).

Ora, segundo o que Deus já havia estabelecido: a) Deus visita a iniquidade dos que O odeiam, e; b) faz misericórdia aos que O amam, portanto, por esses dois motivos, a oração de Moisés, para perdoar o povo, não tinha como prosperar.

Em primeiro lugar Deus é Deus zeloso e a sua palavra não volta vazia. Em segundo lugar, Deus é justo, portanto, Ele não pode justificar o ímpio (Êx 23:7; Êx 34:7). Em terceiro lugar, a alma que pecar, essa mesma morrerá (Êx 32:33).

Perdoar o pecado do povo já era um pedido descabido por parte de Moisés, quanto mais a condição que estabeleceu: “…se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito” (Êx 32:32). Ao fazer essa oração, Moisés desconsiderou completamente o que foi dito por Deus aos filhos de Israel, quando estavam acampados ao pé do monte Sinai.

Como os filhos de Israel pecaram contra o Senhor odiando-O, Deus determinou a Moisés que conduzisse o povo como o ordenado, porém, ficou estabelecido que, no dia da visitação, Deus haveria de dar aos filhos de Israel a paga pela ofensa no deserto (Êx 32:34-35).

Em seguida, Moisés roga a Deus que ande com os filhos de Israel (Êx 33:15), ao que Deus aquiesceu (Êx 33:17). Moisés roga a Deus que mostre a Sua gloria, Deus atende ao pedido e avisa:

“Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti e proclamarei o nome do SENHOR diante de ti; terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer” (Êx 33:19).

Embora Deus tenha concedido a Moisés ver a Sua glória, Moisés precisava compreender que Deus teria misericórdia de quem Lhe aprouvesse! Para Moisés não se esquecer da palavra que havia sido anunciada ao povo, quando acampado ao pé do monte Sinai, evidenciar a Sua vontade e evitar equívocos, Deus utiliza um espécie de trocadilho.

De quem Deus tem misericórdia? Daqueles que O amam! Deus tem misericórdia dos que O obedecem! Aprouve a Deus ter misericórdia dos que O amam! Quando é dito: ‘Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia’, Deus está trazendo à memoria a sua vontade expressa: aprouve-me ter misericórdia dos que me amam!

De quem aprouve a Deus ter compaixão? Dos que O amam, ou seja, daqueles que Lhe obedecem! Lembrando que, nas Escrituras, os termos amor e ódio, dependendo do contexto, estão respectivamente para obediência e desobediência, dedicação e desprezo.

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar a um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Mt 6:24).

Com base na ideia de que Deus tem misericórdia de quem ele quer, e de que Ele tem misericórdia dos que O amam, o apóstolo Paulo citou essa passagem, para enfatizar que Deus cumpriu a sua palavra anunciada a Abraão, mesmo que nem todos os pertencentes à nação de Israel sejam, de fato, israelitas (Rm 9:6-8).

“Não que a palavra de Deus haja faltado, porque nem todos os que são de Israel são israelitas; Nem por serem descendência de Abraão, são todos filhos” (Rm 9:6-7).

O apóstolo destaca, desde o verso 7, que a palavra de Deus é firme e que, portanto, deve ser interpretada corretamente.

Por que é necessária a interpretação? Porque, não basta ser descendente da carne de Abraão, para ser considerado filho de Abraão, pois, a palavra de Deus indicava que, em Isaque, seria chamada a descendência de Abraão, não, propriamente, em Abraão.

O apóstolo cita as Escrituras: ‘mas: em Isaque será chamada a tua descendência’ e, em seguida, dá a interpretação: ‘Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas, os filhos da promessa é que são contados como descendência’. Deus não afirmou que Isaque seria a descendência de Abraão, mas, que, em Isaque, a descendência seria chamada!

A palavra da promessa era: ‘Por este tempo virei e Sara terá um filho’, no entanto, essa não era a única palavra, pois, também, foi dito a Rebeca: ‘O maior servirá o menor’.  E por que Deus disse a Rebeca que o maior serviria o menor? Resposta: – Porque Deus amou a Jacó e odiou a Esaú!

Dai a pergunta: há injustiça da parte de Deus, por que Ele disse que amou a Jacó e que odiou a Esaú? Ou, porque o maior servirá o menor? Ou, porque nem todos os que são de Israel são israelitas? Ou, porque, mesmo sendo descendência de Abraão, não eram todos seus filhos?

Para demonstrar que não há injustiça em Deus, nas perguntas formuladas acima (Rm 9:14), antes, que a palavra de Deus não falhou, o apóstolo Paulo cita a palavra de Deus a Moisés, demonstrando que Deus é Deus zeloso:

“Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” (Rm 9:15).

Deus tem misericórdia, especificamente, dos que O amam, pois Ele teve misericórdia de Abraão, porque cumpriu todos os Seus mandamentos e, por isso, foi chamado de amigo de Deus.

“Porquanto, Abraão obedeceu à minha voz e guardou o meu mandado, os meus preceitos, os meus estatutos e as minhas leis” (Gn 26:5; Is 41:8).

Deus elegeu Abraão para ordenar a sua descendência (casa), a fim de que os seus descendentes guardem os mandamentos do Senhor e, em contra partida, o Senhor faria vir sobre Abraão, o que acerca dele havia falado, demonstrando, assim, que Deus tem misericórdia dos que obedecem à sua palavra.

“E disse o SENHOR: Ocultarei eu a Abraão o que faço, visto que Abraão, certamente, virá a ser uma grande e poderosa nação, e nele serão benditas todas as nações da terra? Porque eu o tenho conhecido e sei que ele há de ordenar a seus filhos e à sua casa depois dele, para que guardem o caminho do SENHOR, para agir com justiça e juízo; para que o SENHOR faça vir sobre Abraão o que acerca dele tem falado” (Gn 18:17-19).

Se a promessa de Deus, dada a Abraão, tivesse se cumprido na palavra: “Por este tempo virei e Sara terá um filho”, seria desnecessária a palavra de Deus anunciada a Rebeca: “O maior servirá o menor”, que concebeu de Isaque, também, pai dos judeus (Rm 9:10).

O apóstolo Paulo também demonstra que a perspicácia de Rebeca em obedecer a Deus é semelhante à de Abraão e, por isso, foi dada a palavra a Rebeca: “O maior servirá ao menor”.

Ora, quando foi dito que o maior servirá ao menor, Deus não estava escolhendo entre indivíduos: Esaú e Jacó, mas, sim, entre dois povos, o que contraria o pensamento calvinista e arminianista da eleição e da predestinação. Deus não estava escolhendo Jacó para a salvação, mas, determinando que o Cristo viria da sua descendência.

“E o SENHOR lhe disse: Duas nações há no teu ventre e dois povos se dividirão das tuas entranhas e um povo será mais forte do que o outro povo, e o maior servirá ao menor (Gn 25:23).

Pela palavra que ouviu, Rebeca não ficou passiva, mas, abordou o seu filho Jacó e o orientou a enganar seu próprio pai e, diante do medo que Jacó teve de uma possível maldição, ela se interpôs: “Meu filho, sobre mim seja a tua maldição; somente obedece à minha voz, vá e traze-os” (Gn 27:13) e, assim, garantiu que a bênção prometida a Abraão ficasse na casa de Jacó e não na casa de Esaú (Ml 1:1-3).

Haveria injustiça em Deus, ao amar a Jacó e,  em aborrecer a Esaú? Não! Pelo fato de Esaú ter desprezado o direito de primogenitura, ele não alcançou misericórdia, pois a misericórdia é para os que obedecem. Diferentemente, de Esaú, Jacó alcançou misericórdia, porque buscou para si o direito de primogenitura. Esaú não achou lugar de arrependimento porque só existe um primogênito, direito que ele vendeu a Jacó.

“E ninguém seja devasso ou, profano, como Esaú, que, por uma refeição, vendeu o seu direito de primogenitura. Porque bem sabeis que, querendo ele, ainda, depois de herdar a bênção, foi rejeitado, porque não achou lugar de arrependimento, ainda que, com lágrimas o buscasse” (Hb 12:16-17).

Deus não teve misericórdia de Esaú porque ele foi devasso, vez que profanou o estabelecido por Deus, quanto ao direito de primogenitura. Jacó, por sua vez, amou o estabelecido por Deus no direito de primogenitura e buscou o direito para si, comprando-o. E, por isso, foi recompensado pela sua diligência!

O apóstolo Paulo disse que desejava ser separado de Cristo, por amor aos seus irmãos, mas, o desejo do apóstolo não muda a palavra de Deus, de que Ele tem misericórdia dos que O amam (Rm 9:3). Esaú desejou herdar a bênção e, com lágrimas a buscou, mas, não achou lugar de arrependimento. Moisés queria que Deus exercesse misericórdia sobre os filhos de Israel, mas, o exercício da misericórdia de Deus, não dependia de Moises querer ou correr, mas de Deus, que usa de misericórdia para os que O amam, ou, seja, aos que guardam o seu mandamento.

“Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e terei compaixão de quem me aprouver ter compaixão. Assim, pois, não depende de quem quer, nem do que corre, mas de Deus, que usa de misericórdia” (Rm 9:15-16).

Da mesma forma que Deus tem misericórdia de quem Ele aprouver, aprouve a Deus salvar os crentes, pela loucura da pregação:

“Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve, a Deus, salvar os crentes, pela loucura da pregação (1 Co 1:21).

Não aprouve a Deus salvar a quem Ele quisesse, pelo fato de ser soberano, antes, soberanamente, aprouve a Ele salvar os crentes, por meio do evangelho. O evangelho é a graça de Deus, segundo a sua misericórdia, e para o homem ser salvo, é necessário amar a Deus, crendo em Cristo.

Ao crer em Cristo, o homem ama a Deus, portanto, Deus terá misericórdia deste, pois, ele obedeceu ao mandamento de Deus:

“Pois o mesmo Pai vos ama, visto como vós me amastes e crestes que saí de Deus” (Jo 16:27).

A misericórdia de Deus é manifesta no seu mandamento, possibilitando ao homem obedecer e ser salvo. Obediência ao mandamento resulta na perfeita obra de Deus.

“Jesus respondeu e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” (Jo 6:29);

“Sê tu a minha habitação forte, à qual possa recorrer continuamente. Deste um mandamento que me salva, pois tu és a minha rocha e a minha fortaleza” (Sl 71:3).

Quando Deus disse a Faraó: “Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra” (Rm 9:18; Êx 9:16). Assim, Deus já tinha demonstrado a sua misericórdia, ao ordenar: – “Deixa o meu povo ir”, mas, Faraó se recusou a obedecer.

Através da palavra do Senhor dada a Faraó, conclui-se que Ele compadece de quem quer, ou seja, dos que obedecem à sua palavra. Logo, Ele endurece, ou, resiste a quem quer, ou seja, aos soberbos, aos desobedientes, etc.

“Logo, pois, compadece-se de quem quer (quem lhe apraz) e endurece a quem quer (quem não lhe apraz)” (Rm 9:18);

“Antes, ele dá maior graça. Portanto diz: Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes” (Tg 4:6; 1 Pe 5:5).

A palavra de Deus, para alguns, é salvação e para outros, perdição:

“E, em nada vos espanteis dos que resistem, o que para eles, na verdade, é indício de perdição, mas, para vós, de salvação, e isto de Deus” (Fl 1:28).

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto

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Trocadilhos, enigmas e parábolas

Moisés correu em favor dos filhos de Israel porque queria que Deus perdoasse o pecado deles. Porém, a misericórdia de Deus não dependia da correria de Moisés e nem da sua vontade. O ponto nevrálgico da correria e da vontade de Moisés é verificável na sua oração: “Assim tornou-se Moisés ao SENHOR, e disse: Ora, este povo cometeu grande pecado fazendo para si deuses de ouro. Agora, pois, perdoa o seu pecado, se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito” ( Ex 32:31 -32).


Para interpretar um texto é essencial uma boa leitura. Com relação à Bíblia não é diferente, pois uma interpretação segura e fiel só é possível através de uma boa análise, e para isso é necessário observar algumas regras.

Para uma boa leitura da Bíblia é essencial analisar qual o público alvo dos ensinamentos de Cristo. Por exemplo: alguns ensinamentos de Jesus foram feitos em particular, com os seus discípulos, porém, em alguns momentos, o ensinamento tinha por publico os escribas e fariseus, e em outros momentos a multidão.

Após se inteirar qual é o publico alvo da mensagem, não podemos esquecer um alerta de Marcos: “E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” ( Mc 4:34 ). Quando Jesus falava aos discípulos em particular, geralmente explicava o sentido das parábolas e dos enigmas propostos à multidão, porém, é imprescindível considerar que, à multidão Jesus só falava utilizando parábolas.

Além das parábolas, também é necessário considerar os enigmas. Cada parábola possui um enigma específico, que antes de ser interpretada, primeiro é necessário desvendar o enigma. Lembrando que os enigmas propostos nas parábolas, essencialmente, referem-se a algo já abordado pelos profetas, salmos e a lei “Abrirei a minha boca numa parábola; falarei enigmas da antiguidade” ( Sl 78:2 ).

Observe que falar por enigmas ao povo já era uma prática antiga “Boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas; pois ele vê a semelhança do SENHOR; por que, pois, não tivestes temor de falar contra o meu servo, contra Moisés?” ( Nm 12:8 ).

Mas, além de observar o público alvo da mensagem, a parábola e os enigmas, a Bíblia também contém algumas frases construídas que remetem a uma verdade, porém, é um trocadilho.

O exemplo de um ‘trocadilho’ bíblico conhecido é: “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” ( Mt 16:18 ). O fato que deu origem a esta asserção de Jesus foi o evento em que o apóstolo Pedro fez uma confissão que é o cerne do cristianismo: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” ( Mt 16:16 ).

Em seguida Jesus demonstra que aquele conhecimento que o apóstolo Pedro expôs, não lhe fora revelado por ser descendente da carne de Abraão, antes porque o Pai, através da pessoa de Cristo é quem anunciou e tornou compreensível aquela verdade ( Jo 1:18 ).

Em seguida vem a declaração maravilhosa de Cristo: “Pois também eu te digo que tu és Pedro…” ( Mt 16:16 ), ou seja, da mesma forma que Pedro admitiu (confessou) algo que era verdadeiro: Cristo é o Filho do Deus vivo, Jesus fez uma confissão segundo a verdade acerca do seu discípulo: – ‘Admito que você é Pedro’. Cristo fez uma confissão acerca de Pedro com base no mesmo princípio da confissão de ‘Pedro’: verdadeira.

Por admitir que Cristo é o Filho do Deus vivo, Pedro tornou-se uma pedra sobre a rocha, pois a igreja é edificada sobre esta verdade: Jesus é o Cristo, Filho do Deus vivo “Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” ( Rm 10:13 ).

Em seguida fez a seguinte declaração: “…, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja…”. Com este trocadilho surgiu um dos maiores celeumas: a igreja de Cristo é edificada sobre Jesus, o Filho do Deus vivo, ou é edificada sobre o apóstolo Pedro, como afirma a Igreja Apostólica Romana?

Para uma desambiguação, é necessário recorrer a outros textos bíblicos que demonstram que Cristo é a pedra eleita, a pedra angular de esquina e é sobre Cristo que é erguida a sua igreja “Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina; No qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor. No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito” ( Ef 2:20 -22).

Através de outros textos, fica demonstrado que o apóstolo Pedro é somente uma pedra como todos os outros cristãos que Deus utiliza para edificar o seu templo “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pd 2:5 ).

Mas, o correto quanto ao texto é considerar que Cristo é a pedra e sobre Ele é edificado a igreja, de modo que a confissão de Pedro é o cerne da admissão cristã, a admissão segura, firme, que tem fundamento, verdadeira, que torna os homens que creem verdadeiras ‘pedras vivas’ que promove a edificação da igreja.

Para compreender as Escrituras é essencial socorrer-nos do mesmo princípio utilizado por Jesus: “Disse-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus” ( Mt 4:7 ). Em nenhuma passagem do Antigo Testamento foi predito que um dos discípulos de Cristo seria a pedra, antes foi dito que a pedra angular seria o Messias ( Jó 38:6 ; Sl 118:22 ; Sl 144:12 ; Is 28:16 ; Zc 10:4 ; Lc 20:17 ; At 4:11 ).

A Bíblia apresenta outros trocadilhos, como: “AI de Ariel, Ariel, a cidade onde Davi acampou! Acrescentai ano a ano, e sucedam-se as festas” ( Is 29:1 ), ou “Ai da lareira de Deus…”. A palavra hebraica traduzida por lareira às vezes também era transliterada por Ariel. Tal trocadinho foi estabelecido para demonstrar que, a cidade de Jerusalém onde ocorria o sacrifício sacerdotal, por causa da infidelidade do povo, haveria de se tornar o próprio altar de sacrifício onde os habitantes de Jerusalém seriam mortos.

O verso primeiro do Salmo 23 é um trocadilho, porém, perceptível somente na língua original do texto, porque em decorrência dos radicais das palavras hebraicas traduzidas por ‘meu pastor’ e ‘pastagem’, tem-se a ideia: ‘O Senhor é meu Pastor’ que pode ser compreendido como: “O Senhor é o meu alimento”.

Há trocadilhos com a construção de provérbios, como: “Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do SENHOR!” ( Jr 17:5 ). Ou seja, o verso não semeia discórdia entre irmãos, visto que não está dizendo para que os homens não confiem em seus semelhantes nos relacionamentos diários, antes a lição dada anteriormente: “Dize-lhes, pois: Assim diz o SENHOR Deus de Israel: Maldito o homem que não escutar as palavras desta aliança” ( Jr 11:3 ), é reeditada: a pessoa que não obedece as palavras da aliança divina é aquele que, para alcançar a salvação eterna, confiam em si mesmo, o mesmo que fazer da sua força o seu braço.

Há outros trocadilhos que complementa a ideia acima: “Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos” ( Zc 4:6 ). A ‘força’ e a ‘violência’ são figuras que representam a ‘carne’ e o ‘braço’ do homem que confia em si mesmo, e se esquece da palavra de Deus, que é espírito ( Jo 6:63 ).

A Bíblia contém construções mais complexas, como a que se segue: “Porque na lei de Moisés está escrito: Não atarás a boca ao boi que trilha o grão. Porventura tem Deus cuidado dos bois?” ( 1Co 9:9 ). Nesta construção não há um trocadilho, antes temos uma citação de um provérbio.

É um equivoco considerar que através desta citação o apóstolo Paulo estava pleiteando benefícios para receber uma contribuição da igreja de corinto, isto porque o contexto da sua carta demonstra que o apóstolo não buscava salário, antes anunciou aos cristãos de corinto o evangelho de graça para cortar ocasião aos obreiros fraudulentos ( 2Co 11:7 -12).

O texto de Deuteronômio não possui relação direta com salário ou prestigio, antes invoca a ideia do direito. Se alguém fosse condenado, devia pagar a pena, porém, não poderia ter o seu direito violado. Com base na ideia de direito contido no provérbio, o apóstolo Paulo cita a lei para defender o seu apostolado.

O apóstolo Paulo não estava pleiteando prestígio social através dos cristãos, ou um salário, antes que reconhecessem a sua autoridade como ministro de Cristo, pois sem ser reconhecido como autoridade apostólica, os cristãos ficariam vulneráveis as doutrinas dos falsos apóstolos. É por isso que na carta aos corintos o apóstolo cita o termo direito por três vezes ( 1Co 9:4 -6).

Através do alerta: ‘Deus não tem cuidado de bois’, o apóstolo Paulo destaca o objetivo da lei: cuidado para com os homens, e o provérbio foi utilizado porque ele encerrava uma ideia: direito. Por que o boi como figura? Porque na antiguidade o boi era como o escravo do pobre, e para ser efetivo no trabalho, precisava comer. O boi como figura, também transmite a ideia de impessoalidade, o que faria com que o verdugo deixasse suas emoções de lado no momento de aplicar a pena.

Era direito dos condenados serem chicoteados com, no máximo 40 açoites. O direito dos condenados vetava aos juízes aplicarem um número acima do estabelecido pela lei “E será que, se o injusto merecer açoites, o juiz o fará deitar-se, para que seja açoitado diante de si; segundo a sua culpa, será o número de açoites. Quarenta açoites lhe fará dar, não mais; para que, porventura, se lhe fizer dar mais açoites do que estes, teu irmão não fique envilecido aos teus olhos” ( Dt 25:2 -3).

Quando foi estabelecido este direito, o provérbio serviu para consolidar a ideia e o entendimento dos juízes do porquê não deveriam exceder o número de açoites estabelecido em lei: “Não atarás a boca ao boi, quando trilhar” ( Dt 25:4 ).

Mas, por que o apóstolo citou a lei? Ora, ele cita a lei com um objetivo específico: demonstrar aos seus opositores conhecimento da lei, o que reforçaria o seu pleito de ser reconhecido como apóstolo.

Por que pleitear o direito de apóstolo? O apóstolo Paulo havia posto como sábio construtor Cristo como fundamento da igreja, mas havia alguns homens que se intrometiam em meio aos cristãos se dizendo sábios, apóstolos, mestres, etc., porém, queriam substituir o fundamento “Não sou eu apóstolo? Não sou livre? Não vi eu a Jesus Cristo SENHOR nosso? Não sois vós a minha obra no Senhor? Se eu não sou apóstolo para os outros, ao menos o sou para vós; porque vós sois o selo do meu apostolado no Senhor” ( 1Co 9:1 -9; 1Co 3:11 ).

Havia alguns homens que se diziam apóstolos e que até faziam uso de direitos próprio aos apóstolos ( 1Co 9:12 ), o que é mais evidente na segunda carta aos corintos ( 2Co 11:13 ), enquanto o apóstolo Paulo tinha o cuidado de não se impor para não causar embaraço ao evangelho de Cristo.

O apóstolo dos gentios não estava buscando ser servido pelos cristãos ( 2Co 12:14 ), antes desejava servi-los, pois sabia qual era a condição de um apóstolo de Cristo ( 1Co 4:9 -12).

Enquanto a declaração de Pedro foi enfatizada através de um trocadilho de Jesus, mas ao distorcerem a ideia, perpetua-se um erro na Igreja Católica Apostólica Romana até hoje, semelhantemente o trocadilho que o apóstolo Paulo fez, em função de uma má leitura dos Reformadores, em especial João Calvino, fomentaram outro erro que igualmente perpetua-se: “Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” ( Rm 9:15 ).

No afã de evidenciar a soberania de Deus e a incapacidade do homem salvar-se por seus próprios meios, lançou mão de um trocadilho, e o erro decorrente desta má leitura tem persistido ao longo dos tempos.

Através deste trocadilho Calvino concluiu que Deus exerce a sua misericórdia com base na sua soberania, e que Ele determinou previamente quais seriam as pessoas a serem salvas através da sua misericórdia.

Mas, quando Deus disse a Moises que teria misericórdia de quem Ele tivesse misericórdia, estava falando de sua soberania? O que Deus estava tratando com Moisés?

Devemos voltar no tempo, e ver o povo de Isael transgredindo o mandamento de Deus quando fizeram um bezerro de ouro no deserto ( Ex 32:8 ). Deus havia concedido os dez mandamentos, e entre os primeiros temos: “Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam” ( Ex 32:3 -5).

Após determinar que não tivessem outro deus, e que não fizessem imagens de esculturas, Deus enfatizou que vingaria (visito) aqueles que não o obedecessem (odeiam), porém, aqueles que obedecessem (amasse), Deus teria misericórdia “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” ( Ex 32:6 ).

Os termos ‘amor’ e ‘ódio’ nos versos 5 e 6 de Êxodo 32 não se refere a sentimento, antes a ideia de obediência, serviço “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” ( Mt 6:24 ); “Nenhum servo pode servir dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” ( Lc 16:13 ).

Quando Deus falou que ia destruir o povo de Israel, Moisés intercedeu e Deus o atendeu ( Êx 32:11 -14). Ele desceu do monte, e ao ver o povo adorando o ídolo, arremessou a tábua que recebera das mãos de Deus e quebrou as tábuas escritas por Deus ( Ex 32:19 ). Por zelo, Moisés manda exterminar os idólatras e, em seguida, subiu ao monte para interceder pelo povo para que Deus fosse propício.

É importante observar que após interceder pelo povo, Moisés desceu o monte, quebrou a tábua dos dez mandamentos, destruiu o ídolo, destruiu os idólatras, e correu novamente ao Senhor para interceder. Em seguida expor o que queria: “Assim tornou-se Moisés ao SENHOR, e disse: Ora, este povo cometeu grande pecado fazendo para si deuses de ouro. Agora, pois, perdoa o seu pecado, se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito” ( Ex 32:31 -32).

Moisés correu em favor dos filhos de Israel porque queria que Deus perdoasse o pecado deles. Porém, a misericórdia de Deus não dependia da correria de Moises e nem da sua vontade. O ponto nevrálgico da correria e da vontade de Moisés é verificável na sua oração: – “Agora, pois, perdoa o seu pecado, se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito”!

Um pedido descabido que não ficou sem resposta. Deus disse: – ‘Não’! Deus não é o homem para voltar a sua palavra atrás. A palavra de Deus é irrevogável. Deus não pratica injustiça. Deus jamais condenaria um justo como Moisés, em lugar dos pecadores. Daí a resposta divina: – “Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro”.

Observe o que Deus disse a Ezequiel: “Ainda que estivessem no meio dela estes três homens, Noé, Daniel e Jó, eles pela sua justiça livrariam apenas as suas almas, diz o Senhor DEUS” ( Ez 14:14 ). Observe que Moisés não livrou os idolatras com a sua justiça.

Quando Moisés foi comissionado para continuar guiando o povo em meio ao deserto, Moisés roga a presença de Deus ( Ex 33:12 -13). Moisés sabia que aquele povo receberia a justa retribuição pelo seu pecado, foi quando Deus lhe garantiu que iria em meio ao povo, para que Moisés ficasse em paz.

Foi quando Moisés rogou para ver a glória de Deus, e recebeu a seguinte resposta: “Então ele disse: Rogo-te que me mostres a tua glória. Porém ele disse: Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti, e proclamarei o nome do SENHOR diante de ti; e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer” ( Ex 33:18 -19).

Deus demonstra que faria passar a sua bondade diante de Moisés, porém, o que estava estabelecido jamais seria mudado: “… e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer” ( Ex 33:19 ). O que Deus estava dizendo a Moisés? – Moisés, não adianta ‘correr’ ou ‘querer’, pois sou Deus zeloso (velo sobre a minha palavra para cumprir), que visito a iniquidade dos que me odeiam e faço misericórdia aos que me amam.

A oração de um justo pode muito em seus efeitos, até parar o sistema solar, mas não pode mudar o que Deus estabeleceu com a sua palavra. Moisés pediu para ver a ‘gloria de Deus’ e Deus atendeu, mas o pedido de perdão para aqueles incrédulos e desobedientes jamais seria atendido.

Com base na pró-atividade de Moisés em correr e querer que Deus demonstrasse favor para com o povo de Israel é que o apóstolo Paulo construiu a seguinte asserção: a misericórdia não é de quem quer ou de quem corre.

Semelhantemente, é com base no estabelecido nos dez mandamentos: “Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos ( Ex 32:3 -6), que Deus estabeleceu o seguinte trocadilho: “… e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer” ( Ex 33:19 ).

Para compreendê-lo, é essencial que o leitor conheça a lei mosaica e o que Deus havia estabelecido. Diante do trocadilho, basta se perguntar: de quem Deus terá misericórdia? A resposta advém da lei: dos que me amam, aos que guardam os meus mandamentos.

De quem Deus quer ter misericórdia? A vontade de Deus é demonstrar misericórdia aos que o amam! Desde a eternidade Deus quis e estabeleceu que a sua misericórdia está reservada para os que o amam, segundo o seu mandamento.

É neste ponto que vemos a soberania e a justiça de Deus em harmonia.

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Não depende de quem quer ou quem corre

Moisés havia intercedido pelo povo e Deus o atendeu ( Êx 32:11 -14), porém, quando intercedeu pela segunda vez, sentiu-se seguro para propôs que Deus riscasse o seu nome do livro da vida ( Ex 32:30 ). Foi quando Deus demonstrou que a sua misericórdia não estava atrelada ao esforço e disposição de Moisés em resignar-se ser punido no lugar do povo (Não depende de quem quer ou quem corre), antes a misericórdia de Deus é demonstrada unica e exclusivamente aos que amam a Deus.

Como compreender a seguinte frase: ‘não depende de quem quer ou quem corre’? Este verso enfatiza a predestinação absoluta?

 

A Misericórdia de Deus

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos” ( Ex 20:6 ; Dt 5:10 ; Dt 7:9 )

Após três meses que saíram do Egito, Deus apresentou ao povo um princípio relacionado à Sua misericórdia: ‘… faço misericórdia a milhares dos que me amam…’ ( Ex 20:6 ).

Na declaração divina expressa no Êxodo há uma promessa, e qualquer homem pode alcançar o ‘prêmio’ proposto: a misericórdia de Deus. Basta obedecer ao que Deus estabeleceu nesta Escritura: “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos” ( Ex 20:6 ; Dt 5:10 ; Dt 7:9 ). Deus estabeleceu que a sua misericórdia é demonstrada somente aos que O amam, guardando os Seus mandamento ( Jo 14:23 -24).

O modo como Deus concede a sua misericórdia também é descrita pelo salmista: “Com o benigno te mostrarás benigno; e com o homem sincero te mostrarás sincero; Com o puro te mostrarás puro; e com o perverso te mostrarás indomável” ( Sl 18:25 -26); “Mas a misericórdia do SENHOR é desde a eternidade e até a eternidade sobre aqueles que o temem, e a sua justiça sobre os filhos dos filhos sobre aqueles que guardam a sua aliança, e sobre os que se lembram dos seus mandamentos para os cumprir” ( Sl 103:17 -18).

Na eternidade Deus não estava obrigado a demonstrar misericórdia a ninguém, mas após empenhar a sua palavra, sujeitou-se a ela para a cumprir ( Jr 1:12 ). Para ilustrar esta verdade, lembremo-nos da seguinte sombra: Deus orientou os filhos de Israel de que não eram obrigados a votar, mas se votassem, estavam obrigados a cumprir.

Em outras palavras: ninguém é obrigado a fazer um voto a Deus, mas se votar, é devedor “Porém, abstendo-te de votar, não haverá pecado em ti. O que saiu dos teus lábios guardarás, e cumprirás, tal como voluntariamente votaste ao SENHOR teu Deus, declarando-o pela tua boca” ( Dt 23:22 -23).

Após ter pronunciado a promessa, Deus não invalida a Sua palavra, antes Ele vela sobre a sua palavra para cumprir e ela não voltará vazia ( Is 55:11 ). Deus é fiel e jamais faltará com sua palavra: se alguém O amar, d’Ele receberá misericórdia. Isto significa que a misericórdia de Deus estende-se a todos quantos O amarem, não importando tribo, nação, língua ou povo.

A misericórdia de Deus é manifesta vinculada a Sua justiça e retidão. Como a justiça e a retidão de Deus vem expressa em sua palavra, para alcançar a misericórdia de Deus o homem tem que submeter-se à Sua palavra ( Ml 3:6 ; 1Pe 1:25 ).

Quando o salmista Davi diz: “Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece dos que o temem” ( Sl 103:13 ), temos a justiça de Deus estabelecida. Um pai se compadece de seus filhos, portanto, Deus se compadece daqueles que recebe por filhos. Deus não é misericordioso com os bastardos, antes os trata com indignação e ira.

O que o salmista expôs reafirma o que Deus proferiu na lei, que a misericórdia é concedida aos que O temem, ou seja, aos que amam a sua palavra. Na bíblia o termo ‘temor’ refere-se à palavra de Deus: “Vinde, meninos, ouvi-me; eu vos ensinarei o temor do SENHOR” ( Sl 34:11 ).

O único meio de o homem alcançar a misericórdia divina é guardando o seu mandamento. Esta verdade ecoa por toda as Escrituras: “Todas as veredas do SENHOR são misericórdia e verdade para aqueles que guardam a sua aliança e os seus testemunhos” ( Sl 25:10 ); “O ímpio tem muitas dores, mas aquele que confia no SENHOR a misericórdia o cercará” ( Sl 32:10 ); “Eis que os olhos do SENHOR estão sobre os que o temem, sobre os que esperam na sua misericórdia” ( Sl 33:18 ).

É com base no exercício da misericórdia de Deus que decorre o seguinte mandamento: “Amarás, pois, o SENHOR teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças” ( Dt 6:5 ). Moisés determinou ao povo que amasse a Deus porque este era o único modo de alcançar a misericórdia divina.

A misericórdia de Deus foi estabelecida nos termos elencados acima porque Deus não quer se revelar às suas criaturas somente como o Onipotente, antes quer ser conhecido por sua benignidade e verdade, de modo que engrandeceu a sua palavra cima do Seu nome “Inclinar-me-ei para o teu santo templo, e louvarei o teu nome pela tua benignidade, e pela tua verdade; pois engrandeceste a tua palavra acima de todo o teu nome” ( Sl 138:2 ).

O salmo 138 é messiânico e apresenta o Verbo da vida, pois somente Cristo esteve na angustia e ressurgiu dentre os mortos e ficou estabelecido que Deus tornaria perfeito aqueles que tocassem a Palavra da vida “Andando eu no meio da angústia, tu me reviverás; estenderás a tua mão contra a ira dos meus inimigos, e a tua destra me salvará. O SENHOR aperfeiçoará o que me toca; a tua benignidade, ó SENHOR, dura para sempre; não desampares as obras das tuas mãos” ( Sl 138:7 -8).

O Verbo encarnado foi engrandecido acima de todo o nome da divindade, visto que não há outro nome pelo qual os homens devam ser salvos ( At 4:12 ). A palavra foi enaltecida, visto que Deus exaltou soberanamente o Verbo encarnado e lhe deu um nome que é sobre todo o nome ( Fl 2:9 ; Ef 1:21 ; Fl 2:9 ; Rm 10:13 ).

Deus quer ser conhecido pela imutabilidade do seu conselho e da sua palavra, ou seja, por ser verdadeiro. Quando Deus disse: “De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:17 ), não estava impondo somente uma restrição. No mandamento estava expresso: plena liberdade, o cuidado de Deus e o conhecimento necessário para que o homem pudesse tomar uma decisão.

Quando ofendeu ao Criador, o homem separou-se de Deus (morreu) por força da lei que diz: certamente morrerás. O pecado achou ocasião na lei que foi estabelecida para preservar o homem em comunhão com o Criador (a lei santa, justa e boa expressa no Éden), e por ela separou (matou) o homem de Deus. Se Deus simplesmente invalidasse a sua palavra que diz: ‘certamente morrerás’ para reatar a comunhão com o homem, negaria a sua essência.

É neste ponto que Deus apresenta a sua misericórdia: como um homem ofendeu e todos morreram, Ele providenciou outro homem, Jesus Cristo. Se o homem que ofendeu trouxe morte, o que obedecesse traria vida. Este último Adão foi incumbido de conquistar o direito à vida para todos os seus descendentes, ou seja, aqueles que igualmente a Ele obedecessem a Deus “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” ( Rm 5:19 ). Justiça e misericórdia se entrelaçam “A misericórdia e a verdade se encontraram; a justiça e a paz se beijaram” ( Sl 85:10 ).

Como a ofensa de um homem fez com que todos morressem, só a obediência de um homem satisfaria a justiça de Deus. Como pela ofensa de um homem sem pecado veio a morte sobre a humanidade, somente um homem sem pecado e obediente em tudo traria a ressurreição dentre os mortos.

É notável que, apesar de ser onipotente, Deus não pode passar por cima da sua palavra: “… a alma que pecar, essa mesma morrerá” ( Ez 18:4 ; Nm 15:31 ). Deus não invalida a sua palavra simplesmente escolhendo dentre os descendentes de Adão aqueles que seriam salvos, pois todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus, portanto, encerrados na penalidade: morte.

Para o homem gerado segundo a carne de Adão ser salvo é necessário se socorrer de Cristo, que é a misericórdia de Deus demonstrada ao mundo, de modo que no mandamento: “… que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo…” ( 1Jo 3:23 ), há liberdade e vida para todos quantos obedecem.

Deus estabeleceu, segundo a sua misericórdia e graça, que faz misericórdia a milhares dos que O amam ( Ex 20:6 ), daí veio o mandamento: “Amarás, pois, o SENHOR teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças” ( Dt 6:5 ). De outro modo, caso o homem não ame Deus, ama a morte, pois ninguém pode servir a dois senhores “… todos os que me odeiam amam a morte” ( Pv 8:36 ).

Observe que os versos em comento não tratam de um sentimento amoroso, antes trata de serviço, obediência, sujeição “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” ( Mt 6:24 ).

Como amar a Deus? Obedecendo-O. Jesus mesmo disse: “Se me amais, guardai os meus mandamentos” ( Jo 14:15 ); “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” ( Jo 14:21 ).

E qual é o mandamento de Deus? “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ). Ora, quem cumpre este mandamento é alvo da misericórdia de Deus.

Esta verdade é apresentada pelo escritor aos Hebreus: “E, sendo ele consumado, veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem” ( Hb 5:9 ). A misericórdia de Deus revela-se em salvação a todos quantos lhe obedecem.

Mas, se alguém não obedece a Cristo, de Deus terá a Sua ira “Como labareda de fogo, tomando vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo” ( 2Ts 1:8 ).

É fato: “Eu amo aos que me amam, e os que cedo me buscarem, me acharão” ( Pv 8:17 ). Deus tem misericórdia dos que O amam, ou seja, Ele ama (cuida) os que O amam (obedecem). Quem buscar ao Senhor certamente O achará!

Os escribas e fariseus não compreendiam a misericórdia de Deus, pois Jesus ordenou: “Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício. Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento” ( Mt 9:13 ).

Os escribas e fariseus pensavam que, quando o Messias viesse, viria em busca dos filhos de Jacó. Na verdade Jesus veio para os seus, mas, como eles eram justos aos próprios olhos, não foram humildes para receber o Cristo, e para recebê-lo era imprescindível uma mudança radical na concepção deles ( Jo 1:11 ). A ideia de que bastava ter por pai a Abraão e já eram salvos deveria ser abandonada para que pudessem alcançar a Cristo ( Mt 3:9 ).

A ideia de que o Messias viria somente em busca dos filhos de Israel, é traduzida na parábola de Cristo: “Os sãos não necessitam de médico, mas, sim, os que estão doentes; eu não vim chamar os justos, mas, sim, os pecadores ao arrependimento” ( Mc 2:17 ). Os judeus pensavam que eram ‘justos’ por serem descendentes da carne de Abraão e porque a eles pertencia a lei e os profetas.

Jesus, por sua vez, demonstra que veio em busca da humanidade, e começou o seu ministério com os filhos do seu povo, e como não o receberam (não foram humildes a ponto de abandonarem o que entendiam por salvação), prosseguiu o seu ministério para além da Galileia, ou seja, à humanidade. A missão de Jesus era chamar os pecadores a uma mudança de entendimento (metanoia=arrependimento).

Na fala: “Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento” ( Mt 9:13 ), confronta o conhecimento dos escribas e fariseus. As Escrituras demonstravam que todos os homens juntamente se desviaram, de modo que não havia um justo se quer ( Sl 53:3 ; Rm 3:10 ; Mq 7:2 ). Seria um contra senso o Messias vir em busca de ‘justos’, se as Escrituras protestavam que não havia um justo se quer. Como não havia um justo se quer, é plausível o Messias vir atrás dos pecadores. Mas, o que Jesus quis dizer com “Ide e aprendei: Misericórdia quero”?

Ele estava orientando os seus interlocutores que Deus não se agradava de sacrifícios, pois os escribas e fariseus se aplicavam somente aos sacrifícios, como: sábados, orações, dízimos, leis, etc. ( Sl 51:16 ), e se esqueciam do principal: a misericórdia.

O que Deus quer é obediência à sua palavra, ou seja, misericórdia, e era exatamente o que Jesus estava fazendo: obedeceu a ordem do Pai. Enquanto comia com os publicanos e pecadores, Jesus estava realizando a vontade de Deus, diferente dos escribas e fariseus que se mantinham separados dos ‘pecadores’.

Há outra consideração acerca da misericórdia de Deus apresentada a Moisés: “Porém ele disse: Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti, e proclamarei o nome do SENHOR diante de ti; e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer” ( Êx 33:19 ).

Esta declaração de Deus foi dada em virtude de um evento anterior: “Agora, pois, perdoa o seu pecado, se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito. Então disse o SENHOR a Moisés: Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro. Vai, pois, agora, conduze este povo para onde te tenho dito; eis que o meu anjo irá adiante de ti; porém no dia da minha visitação visitarei neles o seu pecado” ( Ex 32:32 -34).

No dia seguinte após o povo de Israel ter feito o bezerro de ouro, Moisés subiu ao monte para interceder pelo povo. Foi quando Moisés fez a seguinte proposta: “Agora, pois, perdoa o seu pecado, se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito”. O pedido de Moisés jamais poderia ser atendido, pois Deus teria de contrariar a sua própria natureza. Para atender ao pedido de Moisés, Deus teria de contrariar o que havia estabelecido, cometer injustiça.

Como perdoar aquele povo se não guardaram o mandamento de Deus? “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos” ( Ex 20:6 ).

Daí a resposta divina: “Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro”. Deus não disse: Aquele que Eu rejeitar. Deus havia estabelecido que a rejeição recai sobre aqueles que não obedecem a sua palavra. Esta fala de Deus é suficiente para desconstruir a ideia da predestinação absoluta, ou da eleição incondicional  para a salvação ou para a danação eterna.

Quando Deus disse a Moisés: “… e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer” ( Êx 33:19 ), estava enfatizado que, para satisfazer a sua justiça e retidão aprove a Deus salvar o crentes pela loucura da pregação. Estava em seu poder demonstrar misericórdia àqueles que obedecessem ao Seu mandamento: que creiais naquele que Ele enviou. É antibíblica a ideia de que Deus escolheu quem salvar simplesmente porque é soberano. A salvação dos homens envolveu a sabedoria e a prudência de Deus, pois a sua soberania não podia invalidar a sua justiça “Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça, que ele fez abundar para conosco em toda a sabedoria e prudência” ( Ef 1:7 -8).

O apóstolo Paulo é enfático: Deus salva os crentes pela loucura da pregação, e não por ser soberano “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação” ( 1Co 1:21 ).

Deus já havia apresentado a Moisés qual era o parâmetro estabelecido para demonstrar a sua misericórdia aos homens. No entanto, Moisés fez uma proposta que contrariava completamente a orientação divina, o que fez com que Deus relembrasse o que estava estabelecido.

Deus estava declarando a Moisés que aquela proposta era impossível de ser atendida, pois riscar o nome de Moisés do livro da vida sem ele ter pecado, seria injustiça da parte de Deus. Com a fala: ‘terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia’, Deus estava relembrando a instrução dada anteriormente junto com os dez mandamentos ( Dt 5:10 ; Dt 7:9 ; Ex 20:6  ).

Foi o mesmo que dizer: – Moisés, de quem eu tenho misericórdia? Já não foi ensinado que terei misericórdia daqueles que me obedecem? Moisés, é impossível eu ter misericórdia dos que me odeiam, antes só posso exercer misericórdia aos que me obedecem. Dai a fala: terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia! E de quem Deus tem misericórdia? A resposta vem dos versos analisados anteriormente: dos que me amam ( Dt 5:10 ; Dt 7:9 ; Ex 20:6  ).

A má leitura do trocadilho: ‘eu terei misericórdia daquele que eu tiver misericórdia’, conduz muitos ao entendimento equivocado da predestinação absoluta. Ou pior, surge a seguinte fala: Deus não é obrigado a ter misericórdia. Ledo engano. Deus não é o homem para que minta, e quando Ele empenhou a sua palavra, sujeitou-se a Ela para cumpri-la.

Sabemos que Deus é livre na essência, mas apesar da liberdade infinita que possui, Deus não volta atrás com a sua palavra. Ele não pode negar-se a si mesmo. Ele não pode fazer injustiça ou negar o que é de direito. É impossível Deus não amar os que O amam, pois Ele empenhou a sua palavra. É impossível Deus deixar de ter misericórdia dos que são misericordiosos.

Aos hipócritas e fariseus Jesus foi claro: “Ide e aprendei: Misericórdia quero, e não sacrifício..”. Qual é a misericórdia que Deus exige? A mesma misericórdia que Deus esperava que Saul tivesse: que obedecesse a sua palavra “Porém Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” ( 1Sm 15:22 ).

É de difícil compreensão, mas o rei Saul enquanto estava derramando o sangue dos amalequitas segundo a ordem do Senhor, estava sendo ‘misericordioso’ “E enviou-te o SENHOR a este caminho, e disse: Vai, e destrói totalmente a estes pecadores, os amalequitas, e peleja contra eles, até que os aniquiles” ( 1Sm 15:18 ). Mas, quando Saul resolveu preservar a vida do rei Agague, rei de Amaleque, e dos bois, abandonou a misericórdia e passou à condição de rebelde, feiticeiro, iníquo ( 1Sm 15:23 ).

A obediência que Deus exigiu de Saul é o mesmo amor que Deus exigiu do povo de Israel através de Oséias: “Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos” ( Os 6:6 ).

Quando Jesus anuncia no sermão do monte: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia” ( Mt 5:7 ), temos outro trocadilho. Bem-aventurados os que obedecem a Deus (misericordiosos), pois só os que obedecem é que alcançam misericórdia. É o mesmo que dizer: Terei misericórdia daquele que eu tiver misericórdia, ou amo aos que me amam.

É impossível enumerar o número de teólogos adeptos da doutrina da eleição incondicional, e isto se deve à má leitura que fizeram de um verso construído com ‘trocadilhos’. A leitura que fazem tem por base somente uma passagem bíblica, e se esquecem que, para compreender qualquer passagem bíblia é necessário fazer uso do princípio utilizado por Cristo: ‘mas, também está escrito’.

Está escrito: ‘terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia’, mas também está escrito: ‘terei misericórdia dos que me amam’, de modo que a leitura correta é: ‘Daqueles que me amam eu tenho misericórdia’.

 

A desobediência

 “Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia” ( Rm 11:32 )

O apóstolo Paulo demonstra que Deus encerrou todos os homens debaixo da desobediência e usa de misericórdia para com todos.

Quando todos os homens foram encerrados debaixo da desobediência? Qual a desobediência a que todos foram sujeitos?

A desobediência que o apóstolo refere-se é a ofensa de Adão. Adão ofendeu a Deus e todos os seus descendentes tornaram-se pecadores ( Rm 5:15 ). Por causa da desobediência de Adão todos juntamente alienaram-se de Deus ( Rm 5:19 ).

A humanidade foi encerrada debaixo da consequência da ofensa de Adão. Isto significa que a humanidade não se tornou desobediente em função de erros cometidos no dia a dia, antes todos são gerados na condição de filhos da desobediência, e já trazem sobre sí a penalidade estabelecida por Deus por causa da ofensa: a morte ( 1Co 15:22 ).

É em função desta verdade que o apóstolo Paulo demonstrou que todos foram encerrados debaixo da desobediência.

Como os judeus consideravam que, por serem descendentes da carne de Abraão, não estavam debaixo da condenação proveniente da ofensa de Adão, o apóstolo demonstra que, com relação à ofensa, todos os descendentes de Adão, inclusive os judeus, eram filhos da desobediência e estavam alienados da glória de Deus ( Rm 3:19 ).

Quando o apóstolo diz que ‘Deus encerrou a todos debaixo da desobediência’, demonstrou que todos estão sob a penalidade imposta à ofensa de Adão. A asserção paulina não diz que Deus obrigou o homem pecar, ou que Ele tenha criado o pecado, antes que todos sofrem a penalidade imposta a Adão.

Para evitar divisões na igreja local estabelecia em Roma, o apóstolo Paulo estava demonstrando que os judeus eram inimigos da igreja de Cristo ( Rm 11:28 ; Gl 4:29 ), porém, apesar de serem inimigos do evangelho, por causa da eleição (trazer e abrigar o Cristo segundo a carne), receberam o cuidado de Deus.

O cuidado, o amor que Deus dispensou ao povo de Israel era devido ao que Deus prometera aos patriarcas. Deus tinha o propósito de trazer Jesus Cristo ao mundo e prometera aos pais que da linhagem deles haveria de vir o Cristo. Foi em virtude do propósito e da promessa feita aos pais que o povo de Israel foi escolhido para proporcionar a vinda do Cristo ao mundo.

Observe o que Deus disse por intermédio de Moises: “O SENHOR não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos em número do que todos os povos; Mas, porque o SENHOR vos amava, e para guardar o juramento que fizera a vossos pais, o SENHOR vos tirou com mão forte e vos resgatou da casa da servidão, da mão de Faraó, rei do Egito” ( Dt 7:7 -8).

O povo de Israel pensava que era melhor que os gentios por ter sido escolhido por Deus, porém, Deus já havia alertado que o povo não foi escolhido por ser povo mais numeroso ou melhor que os outros povos, antes a escolha estava firmada na promessa feita aos patriarcas ( Rm 3:9 ).

O povo de Israel em nada era diferente dos outros povos, porém, eles foram ‘escolhidos’ por serem descendentes da carne dos patriarcas. Eles não foram eleitos para serem salvos, antes para uma missão, assim como Ciro, o rei dos Persas e o rei do Egito ( Is 45:1 ; Rm 9:17 ).

Recapitulando: Deus prometeu a Abraão, Isaque e Jacó que através da linhagem deles haveria de vir o Cristo, sendo que o povo de israel foi escolhido para esta missão especifica: abrigar a linhagem do Messias, ou seja, nenhum dos membros de Israel foram escolhidos para serem salvos. Deus tinha o proposito de trazer o Messias ao mundo, e o povo de Israel foi eleito para este propósito por causa da promessa que Deus fez aos pais. Deus prometeu a Abraão, Isaque e Jacó que traria o Cristo através da linhagem deles, e cuidou (amou) do povo de Israel para que a promessa fosse cumprida “Não é por causa da tua justiça, nem pela retidão do teu coração que entras a possuir a sua terra, mas pela impiedade destas nações o SENHOR teu Deus as lança fora, de diante de ti, e para confirmar a palavra que o SENHOR jurou a teus pais, Abraão, Isaque e Jacó ( Dt 9:5 ).

Por que Deus não rejeitou o povo de Israel para trazer o Cristo? Dai a resposta: Por que o que Deus dá (dons) e a missão estabelecida (vocação) são irrevogáveis. Apesar de serem incrédulos, a promessa de Deus não falhou ( Rm 9:6 ). A eleição deles tinha em vista a missão, e mesmo pertencendo a eles a adoção de filho, a glória, as alianças, as leis, o culto e as promessa, não eram filhos de Abraão ( Rm 9:7 -8).

No verso 29 de Romanos 11, o apóstolo Paulo demonstra que os cristãos convertidos dentre os gentios outrora eram desobedientes a Deus, mas que agora haviam alcançado misericórdia porque o povo de Isael foi desobediente, pois rejeitaram o Cristo ( Rm 11:25 ).

Mas, apesar dos judeus terem sido rebeldes, eles podem alcançar a mesma misericórdia que foi dada aos cristãos (v. 32). Não há outra misericórdia a ser demonstrada aos judeus durante a plenitude dos gentios, a não ser a demonstrada à igreja de Cristo. Todos os homens, quer sejam judeus ou gentios, estão sob a desobediência de Adão, de modo que com todos Deus usa da mesma misericórdia.

O princípio para o exercício da misericórdia de Deus não muda: “Com o benigno te mostrarás benigno; e com o homem sincero te mostrarás sincero; Com o puro te mostrarás puro; e com o perverso te mostrarás indomável” ( Sl 18:25 -26).

 

Não depende de quem quer ou quem corre

“Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece” ( Rm 9:16 )

No capítulo 9 de Romanos o apóstolo Paulo expressa a sua dor por ver a condição dos seus irmãos segundo a carne ( Rm 9:2 ). Neste capítulo ele continua a exposição de uma pergunta feita no capítulo 3: “Pois quê? Se alguns foram incrédulos, a sua incredulidade aniquilará a fidelidade de Deus?” ( Rm 3:3 ).

A palavra de Deus não falhou ( Rm 9:6 ), pois a incredulidade do homem jamais anula a fidelidade de Deus “Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também com ele viveremos; Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará; Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo” ( 2Tm 2:11 -13).

No verso 7, o apóstolo Paulo explica que, o fato de os seus irmãos segundo a carne serem descendência de Abraão, não os tornava filhos de Abraão. Ele demonstra que os judeus se equivocaram quanto ao pensarem que, por terem por pai Abraão, eram de fato os seus filhos.

Equivocaram-se por fazerem uma má leitura da promessa: “Em Isaque será chamada a tua descendência” (v. 7). Quando leram as Escrituras, pensaram que falava de muitos, porém, a promessa falava de um “Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo” ( Gl 3:16 ).

A explicação é clara: “Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência” (v. 8). O povo de Israel pensava que foram eleitos e predestinados para serem filhos de Abraão por serem descendentes da carne de Abraão. Prevaricaram com relação à interpretação das Escrituras, pois eram filhos de Adão “Mas eles transgrediram a aliança, como Adão; eles se portaram aleivosamente contra mim” ( Os 6:7 ); “Teu primeiro pai pecou, e os teus intérpretes prevaricaram contra mim” ( Is 43:27 ).

A palavra de Deus foi dada a Sara e também a Rebeca. À Sara foi dito: “Por este tempo virei, e Sara terá um filho”, mas a Rebeca foi dito “O maior servirá o menor”. Por que Deus não disse à Rebeca o mesmo que disse a Sara?

Temos dois eventos a analisar. Quando foi dito a Sara que ela teria um filho, ela era estéril. Com relação à criança herdar a benção de Abraão, bastou Sara despedir Agar dizendo: “Mas que diz a Escritura? Lança fora a escrava e seu filho, porque de modo algum o filho da escrava herdará com o filho da livre” ( Gl 4:30 ).

Quem foi escolhido: Ismael ou Isaque? A resposta é Isaque! E qual foi o parâmetro utilizado para a eleição de Isaque? O parâmetro utilizado para a eleição de Isaque foi o princípio lembrado por Sara: “E disse a Abraão: Ponha fora esta serva e o seu filho; porque o filho desta serva não herdará com Isaque, meu filho” ( Gn 21:10 ). Apesar de Abraão ficar triste com a proposta de Sara, foi Deus que confirmou a escolha, quando disse: “Não te pareça mal aos teus olhos acerca do moço e acerca da tua serva; em tudo o que Sara te diz, ouve a sua voz; porque em Isaque será chamada a tua descendência” ( Gn 21:12 ).

O que estas passagens demonstram? Que Deus não elegeu Isaque através da sua soberania, antes a escolha possui parâmetro especifico, pois Deus não nega o que é de direito aos filhos dos homens: o filho da escrava não herda com o filho da livre.

Mas, com relação a Esaú e Jacó há um entrave. Qual o parâmetro da eleição entre dois irmãos? A soberania de Deus? Não! A Primogenitura. Entre dois irmãos o primogênito é o eleito para receber a bênção, e a primogenitura é o parâmetro para a escolha. É em função desta peculiaridade que Deus disse a Rebeca: “O maior servirá o menor” (v. 12 ).

Sara e Rebeca eram estéreis. Para Sara foi dito que “Por este tempo virei, e Sara terá um filho”, mas a Rebeca, quando os filhos já estavam para nascer, foi dito “O maior servirá o menor” ( Gn 25:21 -23). Se Esaú não houvesse vendido o direito de primogenitura, Ele seria o eleito. Porém, como vendeu o seu direito de primogenitura, Jacó foi eleito. A escolha de Jacó se deu em função do direito de primogenitura, e não em virtude da soberania de Deus.

Eleito para que? Jacó foi eleito para que da sua linhagem descendesse o Cristo. Para confirmar que Israel foi eleito para trazer a descendência de Cristo, o apóstolo Paulo cita Malaquias: “Como está escrito: Amei a Jacó, e odiei a Esaú” ( Ml 1:2 ).

Daí a pergunta: “Que diremos pois? que há injustiça da parte de Deus? De maneira nenhuma” (v. 14). Em ambas as escolhas de Deus não houve injustiça, pois Isaque foi escolhido por ser filho da livre, e Jacó por ter adquirido o direito de primogenitura.

O que isto demonstra? Que Deus elege com base no direito estabelecido, o que diverge do pensamento de muitos: que Deus elege e predestina com base na sua soberania.

Para enfatizar esta verdade, o apóstolo Paulo cita o que Deus disse a Moisés: “Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” (v. 15). De quem Deus se compadece? Como já vimos, Deus se compadece daqueles que O amam, um parâmetro firme, pois a sua palavra é fiel “Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também com ele viveremos; Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará; Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo” ( 2Tm 2:11 -13).

Neste ponto o apóstolo Paulo conclui: “Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece” (v. 16). O que Moisés queria? Que Deus riscasse o seu nome do livro da vida caso não demonstrasse misericórdia ao povo. A misericórdia de Deus dependia do querer de Moises? Adiantava Moisés correr em favor do povo? Não!

Tudo depende de Deus, pois é Ele que se compadece. E como Ele demonstra a sua misericórdia? Ele demonstra a sua misericórdia aos que O amam, obedecendo ao seu mandamento.

A má leitura deste versículo é o que dá sustentáculo a doutrina calvinista da eleição absoluta. Enquanto o apóstolo Paulo estava enfatizando que não adiantou Moisés ‘querer’ ou ‘correr’ para que Deus tivesse misericórdia do povo, Calvino equivocadamente utiliza o texto para falar de virtude e mérito quanto à eleição para salvação “Vai, pois, agora, conduze este povo para onde te tenho dito; eis que o meu anjo irá adiante de ti; porém no dia da minha visitação visitarei neles o seu pecado. Assim feriu o SENHOR o povo, por ter sido feito o bezerro que Arão tinha formado” ( Êx 32:34 -35).

Ao ler esta passagem, não se pode perder de vista o aviso de Tiago: “Porque o juízo será sem misericórdia sobre aquele que não fez misericórdia; e a misericórdia triunfa do juízo” ( Tg 2:13 ). Este é mais um trocadilho! O que os homens entendem por misericórdia? Definem misericórdia como a virtude que leva um homem a compadecer da miséria alheia.

Seria desta misericórdia que Tiago escreveu? Não! Ele fala da mesma misericórdia que Jesus apresentou aos seus ouvintes no sermão do monte e a misericórdia que os fariseus ainda não haviam aprendido: o juízo de Deus é sem misericórdia sobre os que não O obedecem. A obediência é vitória sobre o juízo.

Esta mesma abordagem é feita por João: “No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena, e o que teme não é perfeito em amor” ( 1Jo 4:18 ). O termo ‘amor’ deve ser lido como ‘obediência’. Na obediência não há temor, antes a obediência perfeita lança fora o medo. É da natureza do temor a pena, de modo que quem teme é porque não obedeceu.

 

Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!

“O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!” ( Lc 18:13 ).

É bom revermos a passagem do fariseu e do publicano.

Ao contar a parábola do fariseu e do publicano, Jesus não fez referência à ideia da eleição ou da predestinação calvinista, e nem da arminianista.

Por que o fariseu não foi justificado? Porque Deus não o elegeu e nem predestinou?

A parábola é clara: o fariseu não foi justificado porque confiavam em si mesmos. Ele não alcançou misericórdia porque acreditava que era justo simplesmente por não roubar, não adulterar, dar o dízimo e jejuar, e por isso veio a desprezar os outros homens.

Com base em que o fariseu confiava em si mesmo? O fariseu confiava na sua carne, que por ser descendente da carne de Abraão fora predestinado por Deus para ser salvo ( Lc 18:9 ).

Já o publicano, ao chegar no templo, bateu no peito, dizendo: – ‘Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!’. O que justificou o publicano? Como o publicano alcançou misericórdia?

Observe que Jesus não fez alusão à ideia de predestinação absoluta, antes faz alusão à outra questão: ‘qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado’ (v. 14).

Deus tem misericórdia dos que se humilham, ou seja, dos que obedecem a sua palavra, visto que só obedecendo é possível se oferecer por servos “Eu amo aos que me amam, e os que cedo me buscarem, me acharão” ( Pr 8:17 ; Jl 2:32 ). A obediência é o principio da auto humilhação: “Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça?” ( Rm 6:16 ).

É Deus quem se compadece do homem, portanto, não há mérito algum em obedecer a Deus, pois é neste quesito que o homem se humilha, pois se fez servo. Qual é o mérito de alguém que se faz servo? É possível gloriar-se quando um servo se sujeita ao seu Senhor? Há alguma jactância?

Se Deus deu um mandamento, e o homem obedeceu, ofereceu-se por servo. Está é a humilhação que Deus exige: rendição completa à vontade de seu Senhor.

O salmista bendisse a Deus da seguinte forma: “Sê tu a minha habitação forte, à qual possa recorrer continuamente. Deste um mandamento que me salva, pois tu és a minha rocha e a minha fortaleza” ( Sl 71:3 ).

Deus salva os homens através de um mandamento, e não por intermédio de um fado, de uma sina, ou por predestinação. E qual é o mandamento de Deus que salva? “Mas que se manifestou agora, e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações para obediência da fé” ( Rm 16:26 ).

Cristo é a rocha da nossa salvação, e crer n’Ele é o mandamento que salva: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ).

 

Endurece a quem quer

Para compreender a fala do verso 17 de Romanos 9: “Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra”, temos que entender que é Deus que se compadece.

E como Deus se compadece? Ele se compadece tendo misericórdia dos que obedecem.

Ora, Deus deu a oportunidade de Faraó ouvir a palavra, considerar e tomar uma decisão, mas Faraó não deu crédito “Porém o coração de Faraó se endureceu, e não os ouviu, como o SENHOR tinha falado” ( Ex 7:13 ). O endurecimento de Faraó é notório porque foi mantido vivo apesar de resistido a ordem de Deus por várias vezes.

Em seguida é emitido um protesto de Deus contra Faraó: “Porque agora tenho estendido minha mão, para te ferir a ti e ao teu povo com pestilência, e para que sejas destruído da terra; Mas, deveras, para isto te mantive, para mostrar meu poder em ti, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra. Tu ainda te exaltas contra o meu povo, para não o deixar ir?” ( Ex 9:16 ).

Faraó foi escolhido para desempenhar uma missão, assim como o foi Ciro, e da mesma forma que o foi Israel. A missão de Faraó era tornar conhecido o nome de Deus em toda a terra. Porém, ele ouviu a palavra de Deus e poderia aquiescê-la, mas o fato de ser recalcitrante, afastou a misericórdia de Deus.

É neste ponto que o apóstolo Paulo chega a seguinte conclusão: “Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer” ( Rm 9:18 ). Eis o porquê da leitura feita anteriormente: Deus se compadece de quem quer, e Ele quer compadecer-se dos que O obedecem segundo o seu mandamento. Por outro lado, aos que rejeitam o mandamento de Deus, Deus não exerce misericórdia, pois Ele não pode se compadecer dos que rejeitam a sua palavra.

Como Deus quer demonstrar misericórdia aos que O amam, e não quer demonstrar misericórdia aos que rejeitam, certo é que Ele se ‘compadece’ de quem quer e não se ‘compadece’ de quem quer. Novamente temos um trocadilho! Como o rei do Egito tornou-se símbolo de obstinação, de endurecimento e de rejeição à misericórdia de Deus demonstrada, o apóstolo substitui a frase ‘não se compadece’ por ‘endurece’.

A frase: “Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer” ( Rm 9:18 ), pode ser escrita da seguinte forma: “Logo, pois, ‘compadece-se de quem quer’, e ‘não se compadece de quem quer’” ( Rm 9:18 ).

Daí a replica dos interlocutores recalcitrantes: Por que Deus se queixa ainda, visto que não temos resistido a sua vontade “Dir-me-ás então: Por que se queixa ele ainda? Porquanto, quem tem resistido à sua vontade?” (v. 19 ). Observe que o que o apóstolo Paulo apresenta neste verso não é o que dizem alguns calvinistas, de que o homem não pode resistir à vontade de Deus. O verso demonstra que os homens argumentavam que de modo algum resistiram à vontade de Deus, porém, estabelecer uma justiça própria é resistir a vontade de Deus ( Rm 10:3 ).

Embora argumentassem que não resistiam à vontade de Deus, na verdade tropeçaram na pedra de tropeço “Que diremos pois? Que os gentios, que não buscavam a justiça, alcançaram a justiça? Sim, mas a justiça que é pela fé. Mas Israel, que buscava a lei da justiça, não chegou à lei da justiça. Por quê? Porque não foi pela fé, mas como que pelas obras da lei; tropeçaram na pedra de tropeço; Como está escrito: Eis que eu ponho em Sião uma pedra de tropeço, e uma rocha de escândalo; E todo aquele que crer nela não será confundido” ( Rm 9:30 -33).

Qualquer que não obedece a Deus, antes busca servi-Lo pelas obras da lei, não alcança misericórdia. Está resistindo à vontade de Deus, que estabeleceu que a sua misericórdia decorre da justiça da fé ( Rm 10:6 ).

Moisés havia intercedido pelo povo e Deus o atendeu ( Êx 32:11 -14), porém, quando propôs que Deus riscasse o seu nome do livro da vida, Deus demonstrou que a sua misericórdia não estava atrelada ao esforço e disposição de Moisés, antes a misericórdia é de exclusividade dos que amam a Deus. Portanto, o verso em comento não possui relação alguma com a doutrina da predestinação absoluta.

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A eleição e a predestinação segundo o eterno propósito de Deus

Enquanto a graça é favor imerecido demonstrado individualmente em todos os tempos a todos os homens salvando-os da condenação em Adão, a eleição é bênção especifica para uma geração especifica.

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Intercessões e tragédias

A Bíblia revela que Deus é Deus de amor, misericórdia, bondade, compaixão, paz, etc., atributos que não depende do reconhecimento do homem. Ele é o que é! Por Ele ser o que é, misericordiosamente manifestou aos homens Cristo ( Gl 3:23 ), e por Ele estabeleceu a paz, a que excede todo entendimento, desfazendo a barreira de inimizade que havia entre Deus e os homens.


Já não me incomodam os pseudos evangelhos que surgiram ao longo dos tempos, porém, não posso me calar diante de um velho movimento doutrinário que tenta novamente se impor, sendo que hoje se apresenta com uma nova roupagem, denominada de ‘nova espiritualidade’.

Há algum tempo li com pesar o artigo “Súplicas pelos que choram”, do conferencista e pastor Ed René Kivitz, publicado no Blog ‘Outra Espiritualidade’, com data de 31 de julho de 2007, mas agora não posso me furtar a não tecer um comentário.

Eu não consigo entender o que motiva a intercessão contida no artigo, pois enquanto Jesus determina aos seus seguidores que deixem os mortos enterrar os seus mortos ( Lc 9:30 ), a intercessão do Pr. Kivitz parece demonstrar que os discípulos precisam demonstrar uma compaixão maior que a do Mestre “O discípulo não é superior a seu mestre, mas todo o que for perfeito será como o seu mestre” ( Lc 6:40 )

“Pai Celestial, hoje erguemos nossas vozes em intercessão pelos que choram seus mortos” ‘Súplicas pelos que choram”, artigo do conferencista e pastor Ed René Kivitz, publicado no Blog ‘Outra Espiritualidade’, com data de 31 de julho de 2007.

Quando um discípulo demonstra possuir uma compaixão maior que a do seu mestre, claro está que ainda não compreende as coisas que são de Deus, mas só as que são dos homens “E Pedro, tomando-o de parte, começou a repreendê-lo, dizendo: Senhor, tem compaixão de ti; de modo nenhum te acontecerá isso. Ele, porém, voltando-se, disse a Pedro: Para trás de mim, Satanás, que me serves de escândalo; porque não compreendes as coisas que são de Deus, mas só as que são dos homens” ( Mt 16:22 -23). Geralmente os discípulos que não compreendem as coisas do Mestre, questionam as ações e a doutrina transmitida “Aproximou-se, pois, de Simão Pedro, que lhe disse: Senhor, tu lavas-me os pés a mim? Respondeu Jesus, e disse-lhe: O que eu faço não o sabes tu agora, mas tu o saberás depois. Disse-lhe Pedro: Nunca me lavarás os pés. Respondeu-lhe Jesus: Se eu te não lavar, não tens parte comigo” ( Jo 13:6 -8), relutam, e, tornam-se exagerados em suas conclusões, como se verifica no caso do apóstolo Pedro em relação à ordem direta de Jesus “Disse-lhe Simão Pedro: Senhor, não só os meus pés, mas também as mãos e a cabeça” ( Jo 13:9 ).

A bíblia revela que Deus é Deus de amor, misericórdia, bondade, compaixão, paz, etc., atributos que não depende do reconhecimento do homem. Ele é o que é! Por Ele ser o que é, misericordiosamente manifestou aos homens Cristo ( Gl 3:23 ), e por Ele estabeleceu a paz, a que excede todo entendimento, desfazendo a barreira de inimizade que havia entre Deus e os homens.

Cristo é a nossa paz e, se quisermos que esta paz seja derramada sobre os corações dos homens, devemos proclamar o evangelho de Cristo, pois somente por intermédio do evangelho a barreira da inimizade, a ignorância, é desfeita ( Ef 4:18 ), e os homens que crerem serão reconciliados com Deus ( Rm 5:10 ).

O cristão deve interceder pelos pecadores para que tenham paz, ou anunciar as boas novas do reino? “Quão formosos são, sobre os montes, os pés do que anuncia as boas novas, que faz ouvir a paz, do que anuncia o bem, que faz ouvir a salvação, do que diz a Sião: O teu Deus reina!” ( Is 52:7 ). Deus não enviou ao mundo os seus discípulos para serem ‘intercessores’ “E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” ( Mc 16:15 ), pois só há um mediador e intercessor: Jesus Cristo homem ( Hb 7:25 ; Rm 8:34 ; ).

Qual intercessão é válida em prol dos pecadores? – Senhor, seja misericordioso? Devemos clamar: – Senhor, seja bonzinho e benevolente com os pecadores..?!’

Ora, Deus é misericórdia e a misericórdia de Deus foi manifesta em Cristo, portanto, toda e qualquer intercessão em prol dos pecadores deve focar aqueles que anunciam as boas novas, como rogou o apóstolo Paulo que orassem em seu favor, para que ele tivesse intrepidez ao anunciar o evangelho e que lhe fosse concedido liberdade para exercer o seu ministério evangelístico ( Ef 6:18 -19).

Deus somente tomará pela mão os perdidos que ouvirem e crerem no evangelho de Cristo. Somente a luz do evangelho pode conduzir os homens a Deus. Somente no evangelho há esperança de uma eternidade com Deus. Só a palavra da cruz possui o poder para que as forças do homem sejam renovadas como a da águia.

Acaso não faz justiça o Juiz de toda a terra? ( Gn 18:25 ).

Enquanto o Pr. Kivitz roga que Deus tome pela mão os perdidos que estão em trevas parafraseando as Escrituras (sem levar em conta o contexto e o seu significado), o profeta Isaias há muito profetizou que os que jaziam em trevas viram uma grande luz “O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz” ( Is 9:2 ).

Não há mais que se clamar a Deus pelos que habitam na região da sombra da morte, pois Cristo, a luz que ilumina o mundo já raiou e, agora resta aos que creram anunciar aos que estão em trevas que as mãos de Deus não estão encolhidas para que não possa salvar.

Clamar a Deus que resgate os perdidos não é a missão da igreja de Cristo, visto que Deus já proveu salvação, segundo a sua misericórdia, suficiente para salvar a todos que ouvirem e aceitarem a mensagem do evangelho. A missão da igreja não é interceder pelos pecadores, antes é semear a semente, pois Deus já providenciou salvação aos perdidos ( Mc 16:15 ).

O que preocupa ainda mais com relação a oração em análise (apesar de bonita e comovente), é que ela não coaduna em parágrafo algum com a mensagem de Cristo “Jesus, porém, disse-lhe: Segue-me, e deixa os mortos sepultar os seus mortos” ( Mt 8:22 ).

Como a intercessão em comento aborda a tristeza daquelas pessoas que passaram por uma tragédia familiar ou nacional (devemos as nossas condolências a estas pessoas), percebe-se que, na intercessão o intercessor se afastou do que foi anunciado por Cristo Jesus e, também, do que anunciou o profeta Isaias.

Certa feita alguns religiosos comentam com Cristo uma tragédia que havia ocorrido naqueles dias com alguns Galileus, e estes pensavam que Jesus havia de apontar o pecado daqueles que pereceram em consequência de terem sucumbido àquela tragédia. Jesus, porém, contrariou a todos, demonstrando que, caso eles não mudassem (arrependessem) os seus conceitos, de igual modo pereceriam ( Lc 13:3 ).

Para demonstrar que eles não eram diferentes dos outros povos, Jesus lembrou-lhes de uma tragédia ocorrida em Jerusalém, na torre de Siloé, quando dezoito pessoas (possivelmente judeus) morreram. Ou seja, a tragédia pode abater-se sobre todos os homens, porém, caso não se arrependessem (mudança a concepção de salvação), de igual modo todos pereceriam.

Por que Jesus não orientou os judeus a orarem pelos familiares dos mortos? Porque a dor da perda é um sentimento natural e, após algum tempo, a energia para lançarem-se às questões desta vida naturalmente voltará. O homem pode enfrentar estas questões, isto não lhe é impossível, mas, com relação à vida eterna, a salvação da alma, somente Jesus pode salvar, porque isto ao homem é impossível.

Por mais que alguém interceda ao Pai que venha consolar a tristeza daqueles que perderam seus entes queridos em uma tragédia, não será atendido, pois a bíblia demonstra que há hora para tudo embaixo do sol ( Ec 3:1 -8).

Deixou-me perplexo a seguinte frase da oração:

“Rogamos que enxugues cada lágrima, recebendo-as como a mais pura oração, acolhendo-as como tributos aos que se foram, dando-lhes sentido e significado, transformando-as em memórias felizes e lembranças de amor e saudade que produzam frutos de vida” Idem.

O que isto significa e representa? A tristeza, o choro e as lágrimas decorrentes de uma perda ou de males oriundos de uma tragédia são recebidos por Deus? Qual a base bíblica para está colocação?

Sabemos que a dor da alma humana, por mais que seja sincera, não é elemento que torna o homem ou a sua oferta agradável a Deus.

Do ponto de vista humano estes pedidos são salutares, porque compete ao homem decidir o que vai fazer com sua dor, sucumbir ou superar, mas mesclar versos bíblicos fora do contexto como base para fazer intercessões e imprecações não move as mãos de Deus.

Observe o seguinte parágrafo extraído do artigo:

“Pai Celestial, em nome de teu Filho Jesus, que venceu a morte e trouxe à luz a vida e a imortalidade, rogamos que envies teu Espírito Santo a consolar todos os que choram, a cuidar dos que estão com o coração quebrantado e a por, sobre os que de luto estão, uma coroa em vez de cinzas, vestes de alegria ao invés de pranto, manto de louvor ao invés de espírito angustiado, afim de que se levantem como carvalhos de justiça, para a tua glória. Amém” Idem.

Cristo é a luz, a vida e a imortalidade. Ele venceu a morte, e todos que estão unidos a ele por intermédio da fé (CRENÇA) na mensagem do evangelho (fé) também venceram o mundo, a morte e o pecado.

Quando o profeta Isaias disse: “O ESPÍRITO do Senhor DEUS está sobre mim; porque o SENHOR me ungiu, para pregar boas novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos; A apregoar o ano aceitável do SENHOR e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes; A ordenar acerca dos tristes de Sião que se lhes dê glória em vez de cinza, óleo de gozo em vez de tristeza, vestes de louvor em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem árvores de justiça, plantações do SENHOR, para que ele seja glorificado” ( Is 61:1 -3), ele anunciou de ante mão aos homens qual a obra e o ministério do Cristo. Com isto, ele não estava dando a entender que Cristo haveria de vir ao mundo para consolar os homens tristes em decorrência das perdas e das tragédias humanas, antes o consolo prometido só recebe quem tem fome e sede de salvação.

Jesus veio para dar vida e vida em abundância. Ele veio vivificar o espírito dos abatidos pelo pecado, e dar vida aos corações contristados em decorrência da sua condição de alienado de Deus “Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade, e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e para vivificar o coração dos contritos” (Isaías 57:15 ).

Após Jesus nascer, sua mãe e José tiveram que fugir para o Egito, tendo em vista que todas as crianças abaixo de dois anos, que habitavam em Belém e seus arredores, foram mortas por Herodes. E o que houve? Muito choro e tristeza, evento que propiciou o cumprimento das Escrituras, que foi anunciado por intermédio do profeta Jeremias: “Em Ramá se ouviu uma voz, Lamentação, choro e grande pranto: Raquel chorando os seus filhos, E não querendo ser consolada, porque já não existem” ( Mt 2:18 ).

Jesus nasceu e, houve uma grande tragédia! A seguinte oração poderia evitar tal tragédia?

“Rogamos que com tua presença amorosa preenchas o vazio deixado pelas ausências, suprindo as faltas, recolhendo em teu colo de Pai cada um dos que hoje choram e dando-lhes a provisão em resposta às suas aflições, angústias e medos, mostrando-te companheiro e parceiro para a vida que segue. Rogamos que consoles as mães e pais que perderam seus filhos e filhas…”  Idem.

Quando li: “Rogamos a ti, que és o Senhor da vida, que detenhas o poder da morte…”  Idem, pensei: Acaso Cristo não venceu a morte? De que morte estamos falando?

Se ‘deter o poder da morte’ refere-se à realidade de que todos os homens devem voltar ao pó da terra, temos que o pedido é totalmente descabido, pois contraria a vontade e a lei de Deus que diz: “No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” ( Gn 3:19 ). Por outro lado, se entendermos que ‘o poder da morte’ refere-se à separação que há entre Deus e os homens em decorrência do pecado de Adão, não é necessário que se rogue a Deus neste sentido, pois a bíblia é clara: Jesus já venceu a morte!

Este pedido é semelhante ao pedido que Moisés fez a Deus em prol do povo de Israel: “Agora, pois, perdoa o seu pecado, se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito” ( Ex 32:32 ). Caso Deus atendesse a loucura de Moisés, Deus deixaria de se Deus, pois contrariaria a sua própria justiça “Então disse o SENHOR a Moisés: Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro. Vai, pois, agora, conduze este povo para onde te tenho dito; eis que o meu anjo irá adiante de ti; porém no dia da minha visitação visitarei neles o seu pecado. Assim feriu o SENHOR o povo, por ter sido feito o bezerro que Arão tinha formado” ( Ex 32:33 -35).

Foi em decorrência deste pedido que Deus posteriormente alertou Moisés dizendo: “Porém ele disse: Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti, e proclamarei o nome do SENHOR diante de ti; e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer” ( Ex 33:19 ).

Deus demonstra a Moisés que, até conceder que se visse a sua glória era possível, porém, com relação a sua misericórdia, Ele teria misericórdia de quem ele tivesse, e compadeceria de quem Ele se compadecesse, ou seja, fazer uma intercessão para que Deus deixe de fazer justiça é descabido.

E de quem Deus terá misericórdia? A resposta é simples: “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” ( Ex 20:6 ). Ou seja, Deus terá misericórdia dos que são misericordiosos, ou seja, daqueles que O amam ( Os 6:4 -6). Só será amado de Deus quem cumprir o seu mandamento: creiam naquele que Ele enviou ( 1Jo 3:23 ).

A teologia liberal e a neoliberal só produzem este tipo de arremedo de evangelho: “Rogamos, nosso Pai, que fortaleças aqueles que perderam seus amados para que ergam memoriais de honra aos que se foram, para que vençam a morte com a insistência em viver, o medo com fé, a desesperança com a insistência em semear a terra regada pelo sangue dos inocentes” Idem.

Como alguém pode vencer a morte com insistência, se a bíblia demonstra que só vence a morte aqueles que estão em Cristo? Como é possível vencer o medo com a fé, se o medo só é lançado fora com o amor? Como conciliar a oração com o provérbio que diz: “O avisado vê o mal e esconde-se; mas os simples passam e sofrem a pena” ( Pr 27:12 )? O sangue do inocente (simples) não será derramado por ser inocente?

Por fim, as promessas registradas em Isaias 61, versos 1 a 3 não possuem qualquer relação com os que estão enlutados por causa da perda de seus entes queridos. O coração quebrantado e o espírito angustiado não é proveniente do luto, antes se refere à condição miserável do homem por estar alienado de Deus.

“Pai Celestial, em nome de teu Filho Jesus, que venceu a morte e trouxe à luz a vida e a imortalidade, rogamos que envies teu Espírito Santo a consolar todos os que choram, a cuidar dos que estão com o coração quebrantado e a por, sobre os que de luto estão, uma coroa em vez de cinzas, vestes de alegria ao invés de pranto, manto de louvor ao invés de espírito angustiado, afim de que se levantem como carvalhos de justiça, para a tua glória”  Idem.

Para ser consolado, aliviado, é imprescindível que o homem tome o jugo de Cristo e com Ele aprenda, pois Ele que é humilde e manso de coração “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” ( Mt 11:29 ).

Quem aceita a Cristo encontra refrigério e descanso, pois é árvore de justiça, plantado por Deus. Recebe o Espírito Santo no coração, pois é criado em verdadeira justiça e santidade, obras da mão de Deus em louvor da sua glória e graça, pois esperou em Cristo ( Is 60:21 ; Ef 1:12 ).

Quanto à dor da perda, ela é sentida tanto pelos santos quanto pelos ímpios, pois Jesus avisou: “No mundo tereis aflições” ( Jo 16:36 ). Se os filhos da luz são passíveis de aflições, todos no mundo o são, pois tudo sucede igualmente a todos “Tudo sucede igualmente a todos; o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao puro, como ao impuro; assim ao que sacrifica como ao que não sacrifica; assim ao bom como ao pecador; ao que jura como ao que teme o juramento” ( Ec 9:2 ).

Nestes momentos de tristeza é válida a orientação paulina: “… chorai com os que choram” ( Rm 12:15 ), porém, é temerário achar que, por meio da oração, Deus impedirá que as vicissitudes da vida ocorram e, muito menos, que Deus terá misericórdia e salvará da condenação do pecado os ímpios simplesmente porque fizemos uma oração “Não há paz para os ímpios, diz o meu Deus” ( Is 57:21 ).

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