O Sermão do monte e o adultério

A ênfase do discurso do Sermão da Montanha não é moralizante, antes uma repreensão aos filhos de Israel por entenderem que eram melhores que os gentios por descenderem de Abraão, e que não precisavam de arrependimento (metanoia). A ênfase do discurso é sublinhada pelo público alvo da mensagem, que no caso do Sermão da Montanha eram os filhos de Israel, e não os membros do Corpo de Cristo, a Igreja, ou os gentios não convertidos.


Introdução

Sabemos que Jesus não veio ao mundo para revogar a lei, mas, sim, para cumpri-la. Nesse sentido, é inadmissível a ideia de acrescer ou diminuir qualquer mandamento à lei:

“Não acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do SENHOR vosso Deus, que eu vos mando” (Dt 4:2);

“Nada acrescentes às suas palavras, para que não te repreenda e sejas achado mentiroso” (Pv 30:6).

Se a multidão entendesse que, no Sermão do Monte, Jesus estivesse acrescentando à lei um novo mandamento, por menor que fosse o mandamento ou, proposta de alteração, não sofreriam o discurso passivamente.

Por que a multidão não se enfureceu e se arremeteu contra Cristo, ao ouvir o Sermão da Montanha? Jesus estava apresentando ao povo um novo código moral e de condutas, em substituição à lei?

Que ênfase considerar, ao ler o discurso de Jesus?

 

Adultério

“Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério. Eu, porém, vos digo, que qualquer que atentar numa mulher para cobiçá-la, já, em seu coração, cometeu adultério com ela” (Mateus 5:27-28)

Jesus aponta outro ponto da lei: “Ouvistes o que foi dito: Não adulterarás” (Mt 5:27), em seguida, alerta que não bastava aos seus ouvintes absterem-se das relações sexuais ilícitas, pois, qualquer que atentar para uma mulher para cobiçá-la, em seu coração já adulterou!

“Eu, porém, vos digo, que qualquer que atentar numa mulher para cobiçá-la, já, em seu coração, cometeu adultério com ela” (Mt 5:28).

Por que Jesus cita a lei e, em seguida, apresenta regras próprias mais rígidas que a lei?

“Eu, porém, vos digo…”

O ensinamento de Jesus era totalmente diferente dos seus antecessores. Os escribas e fariseus enfatizavam a lei, Cristo enfatiza os seus ouvintes, perante a lei.

Para compreender a proposta de Jesus, em relação ao adultério, temos de considerar o seu alerta, no início do discurso à multidão, que eles precisavam de justiça superior à dos escribas e fariseus, a fim de terem direito a entrar no reino dos céus.

“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder à dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” (Mt 5:20).

Como alcançar justiça superior à dos escribas e fariseus, se tudo o que faziam, segundo a lei, os publicanos faziam exatamente o mesmo?

“Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos, também, o mesmo? E se saudardes, unicamente, os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos, também, assim?” (Mt 5:46-47).

O motivo de Jesus ter apresentado a lei e, em seguida, apresentado a sua determinação, visava alcançar a compreensão dos seus ouvintes, que se achavam  justos, por ouvirem a lei, porém, os publicanos que eles consideram pecadores faziam exatamente o mesmo!

Os judeus amavam aqueles que os amavam, saudavam aqueles que os saudavam, e se achavam justos diante de Deus, por causa da lei. O que os ouvintes de Jesus faziam a mais que os seus concidadãos cobradores de impostos?

O pensamento do fariseu – da parábola – que foi ao templo orar e deu graças por não ser como os demais homens: roubadores, injustos e adúlteros e nem mesmo como o publicano, além de jejuar duas vezes na semana e dar os dízimos de tudo quanto possuía (Lc 18:11-12), era a tônica dos ouvintes de Jesus.

O fariseu da parábola não roubava, não era ‘injusto’ e não adulterava, etc., e mesmo assim, não voltou para casa justificado. Por quê? Porque o fariseu não tinha a justiça superior que o permitiria entrar no reino dos céus (Lc 18:11).

Se os ouvintes de Jesus desejavam justiça superior à dos escribas e fariseus, não deveriam fazer tão somente o que os fariseus faziam: não adulterar. Em face da necessidade dos seus ouvintes, é que entra a proposta de Jesus: nem mesmo poderiam atentar para uma mulher para a cobiçar, pois já teriam cometido adultério no coração (Mt 5:28).

Se fossem capazes de fazer o que Jesus estava ordenando, adotando uma regra de conduta superior à dos escribas, fariseus e publicanos, em relação ao adultério, quiçá alcançassem a justiça superior à dos seus líderes religiosos, que os permitisse entrar no reino dos céus.

 

Arranque o olho que escandaliza

“Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros, do que seja todo o teu corpo lançado no inferno. E, se a tua mão direita te escandalizar, corta-a e atira-a para longe de ti, porque te é melhor que um dos teus membros se perca, do que seja todo o teu corpo lançado no inferno” (Mt 5:29-30).

Jesus apresenta uma solução aos que se deixassem levar pela concupiscência dos olhos:

“Arranca-o e atira-o para longe de ti”!

Se o olho dos ouvintes de Jesus os fizesse tropeçar, de modo que atentassem para uma mulher e a cobiçasse, a proposta de Jesus é: arranca-o e atira-o para longe de ti! Quem dentre os ouvintes de Jesus, a pretexto de não ir para o inferno, teria coragem de arrancar um dos seus olhos?

Arrancar o olho, após incorrer no erro de atentar para uma mulher, para cobiçá-la, é uma proposta diferente à prática proposta pelos escribas e fariseus! Para alguém que necessita de justiça superior à dos escribas e fariseus, a fim de ter direito a entrar no reino dos céus, é melhor que se perca um dos seus membros, do que ser lançado todo o corpo no inferno.

Satisfazer qualquer exigência necessária, para se alcançar justiça superior à dos escribas e fariseus, a fim de entrar nos céus, deve ser a meta do homem e se alguma coisa o faz tropeçar (escandalizar), que seja removido. Se a mão direita é causa de tropeço, que seja cortada e lançada para longe! É melhor perder um membro, do que ter o corpo inteiro lançado no inferno.

“Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti” (Mt 5:29).

A proposta de Jesus é prescritiva de comportamento, visando estabelecer uma moral superior à dos escribas e fariseus ou, visa provocar nos seus ouvintes uma mudança de pensamento (arrependimento/metanoia)?

 

O divorcio

“Também foi dito: Qualquer que deixar sua mulher dê-lhe carta de divórcio. Eu, porém, vos digo que qualquer que repudiar sua mulher, a não ser por causa de prostituição, faz que ela cometa adultério e qualquer que casar com a repudiada, comete adultério” (Mateus 5:31 -32).

Os judeus tinham ouvido que, aquele que deixasse a sua esposa, que lhe desse carta de divórcio. Mas, para produzir uma mudança de concepção nos seus ouvintes, acerca da justiça de Deus, Jesus alerta que, qualquer que se divorcia de sua mulher, a não ser por imoralidade, por parte dela, faria com que tanto a mulher repudiada, quanto quem se casasse com ela, cometessem adultério.

Jesus estava ab-rogando a lei dada por Moisés? O que Jesus intentava, ao anunciar que, o que estava estabelecido na lei, era pouco? Sabemos que qualquer alteração em uma lei estabelece uma nova, revogando a antiga, mas esse não era o objetivo de Jesus, pois Ele mesmo disse:

“Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir” (Mt 5:17).

Considerando que Jesus estava falando ao povo e que ele nunca falava ao povo sem parábolas (Mc 4:34), certo é que a proposta de Jesus não era impor novas regras sociais acerca da união conjugal aos seus ouvintes, antes, a proposta é apresentar uma grande parábola, que conduzisse os seus ouvintes a compreenderem a necessidade de se buscar o reino de Deus e a sua justiça (Mt 6:33), pois, somente a justiça de Cristo, o reino de Deus, é superior à justiça dos escribas e fariseus.

Devemos considerar que Jesus não veio anular, omitir ou acrescentar o estabelecido pelos profetas, portanto, é contra senso entender o anunciado no Sermão da Montanha, como sendo uma ‘nova moral’, pertinente ao reino de Deus.

“Não acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do SENHOR vosso Deus, que eu vos mando” (Dt 4:2).

Embora o Senhor Jesus fosse o Verbo eterno encarnado, na condição de Filho, não tinha autonomia para alterar o estabelecido por Deus pois, na sua primeira vinda, se fez servo.

 

Juramentos

“Outrossim, ouvistes o que foi dito aos antigos: Não perjurarás, mas cumprirás os teus juramentos ao SENHOR. Eu, porém, vos digo que, de maneira nenhuma, jureis; nem pelo céu, porque é o trono de Deus; Nem pela terra, porque é o escabelo de seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei; Nem jurarás pela tua cabeça, porque não podes tornar um cabelo branco ou preto. Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque, o que passa disso, é de procedência maligna” (Mateus 5:33– 37).

Em seguida, Jesus aborda a questão dos juramentos, destacando o que dizia a lei: “Outrossim, ouvistes o que foi dito aos antigos: Não perjurarás, mas cumprirás os teus juramentos ao SENHOR” (Mt 5:33) para, em seguida, proibi-los de jurar, visto que não pertenciam aos ouvintes de Jesus as coisas sagradas que eles evocavam nos juramentos.

Como jurar por algo que não lhe pertence, como os céus, o trono de Deus? Como jurar pela terra, se ela pertence a Deus? Como jurar pela cidade santa, se ela pertence ao Messias? Como jurar por algo que o homem tem por seu, que é o cabelo da sua cabeça, se nem poder tem para mudar a cor do seu cabelo?

Deus já havia salientado na lei que a terra lhe pertencia e o povo havia votado que fariam o que Deus ordenara:

“Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos, porque toda a terra é minha. E vós me sereis um reino sacerdotal e o povo santo. Estas são as palavras que falarás aos filhos de Israel. E veio Moisés, chamou os anciãos do povo, e expôs diante deles todas estas palavras, que o SENHOR lhe tinha ordenado. Então todo o povo respondeu a uma só voz e disse: Tudo o que o SENHOR tem falado, faremos. E relatou Moisés ao SENHOR as palavras do povo” (Ex 19:5-8).

Deus não está interessado em que o homem faça votos, mas,  que cumpra o que já havia votado, que é obedecer à Sua palavra.

“Assim falai, e assim procedei, como devendo ser julgados pela lei da liberdade” (Tg 2:12).

Jesus orienta os seus ouvintes a terem uma palavra firme e segura, pois os profetas já haviam alertado que a palavra deles era ‘sim’, mas que não punham por obra o que diziam.

“Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” (Is 29:13).

Quem honra com a boca, mas não obedece a Deus, é de procedência maligna: “Ai, nação pecadora, povo carregado de iniquidade, descendência de malfeitores, filhos corruptores; deixaram ao SENHOR, blasfemaram o Santo de Israel, voltaram para trás”  (Is 1:4).

 

Talião

“Ouvistes que foi dito: Olho por olho e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra; E, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; E, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas. Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes” (Mt 5:38-42).

Jesus continua o seu discurso, evidenciando um princípio da lei: “Olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé…” (Ex 21:24) e ordena aos seus ouvintes que não resistam aos homens violentos. Que, caso fossem agredidos em uma das faces, que oferecessem a outra.

Nesse mesmo diapasão, se alguém reclamasse aos ouvintes de Jesus a túnica (vestido) litigiosamente, que deixassem o adversário levar a capa também. Ou, se alguém exigisse dos ouvintes de Jesus que se andasse uma milha, que se dispusessem a acompanhá-lo, também, por duas. Ou, se alguém pedisse algo, que dessem o que foi pedido e, jamais deixassem de emprestar a qualquer que lhe pedisse.

O que Jesus pretendia com esse discurso? Mudar as regras que disciplinavam as relações sociais? Dar a outra face ou, entregar a capa a quem quer a túnica, para obter salvação? Dar a quem pede e não negar a quem pede emprestado, para obter direito à salvação? É certo que não!

Jesus pretendia mudar a lei de Moisés, que é prescritiva de comportamento e disciplina as relações sociais em seus vários aspectos: casamento, divórcio, empréstimo, penhor, guerra, etc.? (Ex 24:1-22) O que foi estabelecido por Deus como preceito em Israel não era justo? A lei não disciplinava o princípio expresso na máxima da lei do talião: paridade entre ofensa e retribuição? É certo que sim!

No seu discurso Jesus busca provocar no povo uma mudança de concepção, pois, ao apresentar a necessidade de uma justiça maior que a dos escribas e fariseus, deixa claro que é impossível alcançar tal justiça através da total abnegação.

Se os fariseus e os escribas, pelas obras da lei não tinham direito a ver o reino dos céus, que ações meritórias o povo deveria praticar, de modo que fosse possível suplantar a justiça dos seus líderes religiosos?

“Mas Israel, que buscava a lei da justiça, não chegou à lei da justiça” (Rm 9:31).

Muitos veem na sugestão de ‘dar a outra face a quem ferir’, o pináculo da sabedoria contida na doutrina de Jesus. No entanto, Jesus estava somente apresentando várias situações que colocam em xeque a religião judaica, visto que os publicanos e os gentios tinham o mesmo comportamento que os escribas e fariseus e eram tidos por pecadores.

A sabedoria de Jesus está, não em dar a outra face a quem agredir mas,  na pergunta que produz a metanoia (arrependimento):

“Que fazeis demais?”

 

O amor ao próximo

“Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus; Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons e a chuva desça sobre justos e injustos. Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos, também, o mesmo? E, se saudardes, unicamente, os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos, também, assim? Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus” (Mateus 5:43-48).

É cediço que o amor ao próximo é o cumprimento da lei:

“A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor, com que vos ameis uns aos outros; porque, quem ama aos outros, cumpriu a lei. Com efeito: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não darás falso testemunho, não cobiçarás; e se há algum outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. O amor não faz mal ao próximo. De sorte que o cumprimento da lei é o amor” (Rm 13:8-10).

Mas, qual o objetivo de Jesus em lembrar ao povo o que constava na lei?

“Amará o teu próximo e odiarás o teu inimigo” (Mt 5:43).

Por que Ele dá a ordem:

“Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5:44)?

Basta alguém amar o seu inimigo, que alcançará a filiação divina? Uma oração em favor dos que perseguem, é suficiente para a pessoa ser declarada um dos filhos de Deus? Absolutamente, não!

As ações que Jesus recomenda à multidão tinham por objetivo mudar a concepção dos seus ouvintes, não impor-lhe, novas regras sociais. Para os ouvintes de Jesus entrarem no reino dos céus, o exigido por Deus era justiça superior à dos escribas e fariseus e, por isso, Ele ordena a amar os inimigos, pois, só amando ao próximo, a justiça alcançada não suplantaria a dos escribas e fariseus.

Somente praticando ações superiores às praticadas pelos escribas e fariseus, é que os ouvintes de Jesus seriam tidos por filhos de Deus, visto que a lei deixa claro que os filhos de Israel não eram filhos, mas, uma mancha.

“Corromperam-se contra ele; não são seus filhos, mas a sua mancha; geração perversa e distorcida é” (Dt 32:5; Is 30:9).

Se os ouvintes de Jesus queriam alcançar a filiação divina, ou seja, terem justiça maior que a dos escribas e fariseus, as suas ações deveriam ser da mesma natureza do Pai celeste, que não faz acepção de pessoas: faz nascer o sol sobre grandes e pequenos e faz vir chuva sobre justos e injustos.

Partindo do pressuposto de que quem faz somente o que é ordenado não passa de servo inútil, que recompensa alguém teria ao fazer somente o estabelecido na lei?

“Assim, também, vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer” (Lc 17:10).

Tudo o que foi exposto por Jesus, desde o verso 21, deve ser considerado segundo o prisma dessa pergunta fundamental:

“Pois, se amais os que amam a vós, que recompensa tendes? Não é assim que os publicanos também fazem?”, ou:

“E se saudais apenas os seus irmãos, o que a mais fazeis? Não é assim que os gentios também fazem?” (Mt 5:47).

Conforme apontado pelo apóstolo Paulo, os filhos de Israel se achavam melhores que os gentios (Rm 3:9), e Jesus apresenta várias ações ao povo que, caso quisessem ser diferentes dos publicanos e gentios, deveriam considerar praticar.

Os filhos de Israel queriam ser recompensados com o reino dos céus somente amando àqueles que os amavam, dai a sugestão: amai os vossos inimigos! A proposta de Jesus ante a má compreensão dos judeus, acerca das coisas de Deus, foi apresentar um comportamento diferente da dos publicanos e gentios: dê a outra face, a qualquer que ferir a sua face!

Ir à sinagoga com os concidadãos e saudá-los nas praças não era algo que pudesse diferenciá-los dos gentios, pois os gentios também se portavam dessa forma. Através dessa abordagem, Jesus queria que considerassem que, somente ouvir a lei, não torna ninguém justo (Rm 2:13) e que os gentios, apesar de não terem a lei de Moisés, naturalmente, faziam as mesmas coisas que constavam da lei (Rm 2:14).

Ora, só é justificado quem pratica a lei (Rm 2:13) e como nenhum dos ouvintes de Jesus cumpriam, totalmente, a lei (Jo 7:19), nenhum deles era melhor que os gentios, portanto, também, não podiam herdar o reino dos céus. Devemos considerar que, se o homem tropeça em um só quesito da lei, é transgressor de toda a lei.

“Porque qualquer que guardar toda a lei e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos” (Tg 2:10).

Para os ouvintes de Jesus alcançar justiça superior à dos escribas e fariseus, precisavam ser perfeitos, como o pai Abraão:

“Sede vós, pois, perfeitos, como perfeito é o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5:48).

Como ser perfeito diante de Deus? Basta andar na presença de Deus, assim como Deus ordenou a Abraão:

“Eu sou o Deus Todo-Poderoso, anda em minha presença e sê perfeito” (Gn 17:1; Dt 18:13).

O homem jamais será perfeito, de modo a ser possível andar com Deus, antes, por andar com Deus é que o homem alcança a perfeição, assim como aconteceu com Enoque, Noé e Abraão (Gn 5:24; Gn 6:9).

A mensagem de Jesus no Sermão da Montanha estava preparando o povo para a seguinte ordem:

“Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; e vem e segue-me” (Mt 19:21).

Só os que estão em Cristo são perfeitos, verdadeiros filhos do crente Abraão:

“E estais perfeitos nele, que é a cabeça de todo o principado e potestade” (Cl 2:10; Gl 3:7).

Através dessa releitura do Sermão da Montanha, percebe-se que a proposta de Jesus visava causar nos seus ouvintes uma mudança de concepção, o tão apregoado ‘arrependimento’!

A mensagem de Jesus não visava mudança de comportamento, mas, uma mudança de compreensão à vista do Cristo, o reino de Deus.

“Desde então, começou Jesus a pregar e a dizer: Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus” (Mt 4:17).

A ênfase do discurso do Sermão da Montanha não é moralizante, antes uma repreensão aos filhos de Israel por entenderem que eram melhores que os gentios por descenderem de Abraão, e que não precisavam de arrependimento (metanoia). A ênfase do discurso é sublinhada pelo publico alvo da mensagem, que no caso do Sermão da Montanha tinha por alvo os filhos de Israel, e não os membros do Corpo de Cristo, a Igreja ou os gentios não convertidos.

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto

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O Livro de Jó – Prefácio

Em função da verdade incrustada nas páginas desse livro tão magnifico, esta é a minha oração: que o Senhor continue a se revelar, através da pessoa bendita do seu Filho Jesus Cristo, e que possamos compreender plenamente o seu propósito e graça, pois, o que de Deus se pode conhecer, já foi revelado em graça e bondade, através da manifestação em carne de Cristo Jesus, nosso Senhor. Amém!


Livro de Jó: Objetivo

Parte I

Prefácio

O Livro de Jó compõe o Cânon sagrado, juntamente com os Livros de Provérbios e de Eclesiastes, conjunto que se nomeia Livros de Sabedoria.

Do ponto de vista literário muitos autores classificam o Livro de Jó como drama e, em função dos diálogos, monólogos, provérbios e ditados que contém, interpretam o livro do ponto de vista das experiências humanas.

Não se pode negar que o Livro de Jó é de riqueza incalculável do ponto de vista literário, mas, também, pelo seu valor como poesia, sem falar do seu conteúdo histórico. Entretanto, o tesouro que há no Livro de Jó não é de ordem literária, filosófica, histórica, sociológica e nem psicológica.

A finalidade deste ensaio é trazer a lume uma questão que passa despercebida por muitos leitores do Livro de Jó:

– “Como o pecador pode ser justo diante de Deus?”

Na sua grande maioria, os livros e estudos acerca do Livro de Jó, destaca o sofrimento do patriarca, o que fomenta inúmeras discussões de viés filosófico, antropológico e, até mesmo, ontológico.

Poucos se apercebem de que a temática do Livro de Jó não é o sofrimento. Poucos conseguem visualizar, que o conteúdo do Livro de Jó dá corpo a uma parábola, através de uma história enigmática e que demanda interpretação.

O Livro de Jó funciona como um espelho, ao refletir que a justiça do homem mais íntegro que já viveu, está aquém da justiça de Deus. A integridade de Jó estabelece um contraste que evidencia a justiça de Deus, de modo que o sofrimento torna-se mero pano de fundo para revelar uma verdade imprescindível ao homem.

A finalidade deste ensaio, não necessariamente nesta ordem, é:

  • Evidenciar a justiça de Deus, em contraste com as qualidades de Jó;
  • Identificar o motivo pelo qual Jó foi escolhido como protagonista dessa história;
  • Trazer a lume o papel desempenhado pelos amigos de Jó e a visão superficial que tinham da justiça de Deus;
  • Extrair alguns elementos pertinentes à atuação de Satanás e como se dá a sua investida contra os servos de Deus;
  • Demonstrar a superioridade do conhecimento de Eliú, em relação aos outros amigos de Jó;
  • Explicar a diferença entre a Justiça Divina e a “justiça” humana;
  • Esclarecer os motivos pelos quais Jó foi repreendido por Deus e qual a lição que precisamos aprender, através da vida do seu servo!

Em função da verdade incrustrada nas páginas desse livro tão magnifico, esta é a minha oração: que o Senhor continue a se revelar, através da pessoa bendita do seu Filho Jesus Cristo, e que possamos compreender plenamente o seu propósito e graça, pois, o que de Deus se pode conhecer, já foi revelado em graça e bondade, através da manifestação em carne de Cristo Jesus, nosso Senhor. Amém!

 

Notas do autor.

 

Qual o objetivo do livro de Jó?

 

O livro

O Livro de Jó é classificado como poético, assim como, os cinco Livros dos Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cantares de Salomão e Lamentações. Os eruditos classificam, também, o Livro de Jó como Livro de Sabedoria, assim como o Livro de Provérbios e de Eclesiastes.

Por que classificam o Livro de Jó como poético e de sabedoria? Por causa da estrutura dos diálogos entre Jó e seus amigos, construída através de muitos ‘paralelismos’.

Por paralelismo, o que dá sustentabilidade à poesia hebraica, temos a valoração do pensamento, através da ênfase, da repetição, do contraste e da elaboração de ideias, sem levar em conta elementos como ritmos, rimas e métricas, elementos essenciais às poesias ocidentais.

Como a estrutura da poesia hebraica repousa no desenvolvimento de ideias, a tradução do texto para outras línguas permite que se tenha maior precisão e preservação da ideia do texto, o que não ocorre nas poesias ocidentais pela impossibilidade de se transpor ritmo, rima e métrica para qualquer tradução.

O poema ‘Canção do exílio’, de Gonçalves Dias, por exemplo, é primoroso pelo ritmo, rima e métrica, de modo que a melodia, pelo encadeamento do ritmo, como a rima, permite descrever a beleza da terra do autor com leveza ímpar, do ponto de vista patriótico e nacionalista.

Observe:

“Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá”.

Dias, Gonçalves, Canção do exílio, De Primeiros cantos (1847).

A versão em Inglês, fica assim:

“My land has palm trees
Where the thrush sings.
The birds that sing here
Do not sing as they do there”

O ritmo e a rima que dá graciosidade ao texto se perdem na tradução e somente as expressões figurativas permanecem intocadas.

Já, o paralelismo, a base da poesia hebraica, trabalha analogias através de comparações, de modo a fazer com que o leitor conclua uma ideia por deduções simples, induzidas por figuras de linguagem, como personificações, hipérboles, metáforas, símiles e aliterações.

Destacamos alguns tipos de paralelismos importantes para exemplificar:

O paralelismo sintético (ou, formal, construtivo) trabalha um pensamento na primeira linha do poema e a segunda linha desenvolve e enriquece a ideia que está na primeira linha, que compõe a estrofe, através de uma relação de causa e efeito. Observe:

“Os céus declaram a glória de Deus e

o firmamento anuncia a obra das suas mãos”  (Salmo 19:1)

O paralelismo sintético divide-se em outros três, a saber:

  1. Conclusão: “Eu, porém, ungi o meu Rei sobre o meu santo monte de Sião” (Salmos 2:6);
  2. Comparação: “É melhor confiar no SENHOR, do que confiar nos príncipes” (Salmos 118:9) e;
  3. Razão: “Beijai o Filho, para que se não ire, e pereçais no caminho, quando em breve se acender a sua ira; bem-aventurados todos aqueles que nele confiam” (Salmos 2:12).

Por outro lado, o paralelismo antitético trabalha um pensamento em duas linhas, através da oposição de ideias, onde a segunda linha do poema expressa uma ideia oposta à ideia da primeira linha:

“Porque o SENHOR conhece o caminho dos justos;

porém o caminho dos ímpios perecerá” (Salmos 1:6)

Já, o paralelismo sinonímico trabalha uma ideia expressa duas vezes, com termos diferentes, em duas linhas:

“Levanta o pobre do pó e

do monturo levanta o necessitado” (Salmos 113:7)

Ter domínio das peculiaridades do paralelismo, na composição da poesia hebraica, muito auxilia na leitura e na análise do Livro de Jó.

O Livro de Jó, também, é classificado como Livro de Sabedoria, porque os eruditos entendem que o livro trata de questões práticas, pertinentes à existência humana, tais como fatalismo, materialismo, espiritualidade, sofrimento, moralidade, etc.

Outra questão acadêmica que orbita o Livro de Jó, é acerca da sua autoria e possível data em que foi escrito. Não há uma resposta segura para ambos e quando se parte para o campo das especulações, sobram opiniões! Aqui não opinaremos.

O significado do nome ‘Jó’, do hebraico בוֹיּאּ, transliterado “Iyyõb”, provavelmente, deriva de uma raiz que significa ‘voltar’ ou, ‘arrepender-se’ ou, o ‘perseguido’, do hebraico ‘ãyeb’.

Podemos traçar o seguinte esboço do Livro de Jó:

  1. Jó é provado e o sofrimento passa a ser o pano de fundo da história: (Jó 1:1 a 2:13);
  2. Três amigos de Jó procuram confortá-lo, porém, diante da reclamação de Jó, inicia-se um ciclo de discursos, em defesa de Deus, apontando a condição de Jó como resultado dos seus erros (Jó 3:1 a 31:40);
    1. Lamentação de Jó (Jó 3:1-26);
    2. Posicionamento de Elifaz (Jó 4:1 a 5:27) e réplica de Jó (Jó 6:1 a 7:21);
    3. Posicionamento de Bildade (Jó 8:1-22) e réplica de Jó (Jó 9:1 a 10:22);
    4. Posicionamento de Zofar (Jó 11:1-20) e réplica de Jó (Jó 12:1 a 14:22).
    5. Posicionamento de Elifaz (Jó 15:1-35) e réplica de Jó (Jó 16:1 a 17:16);
    6. Posicionamento de Bildade (Jó 18:1-21) e réplica de Jó (Jó 19:1-29);
    7. Posicionamento de Zofar (Jó 20:1-29) e réplica de Jó (Jó 21:1-34).
    8. Posicionamento de Elifaz (Jó 22:1-30)  e  réplica de Jó (Jó 23:1 a 24:25);
    9. Posicionamento de Bildade (Jó 25:1-6) e réplica de Jó (Jó 26:1 a 31:40).
  3. Exposição de Eliú (Jó 32:1 a 37:24);
  4. Perguntas de Deus (Jó 38:1 a 42:6);
  5. Epílogo (Jó 42:7-17).

Por que o justo sofre?

Ao pesquisar vários livros e comentários sobre o livro de Jó, as considerações sempre orbitam o sofrimento e, quase unanimemente, dão como tema do livro o sofrimento do justo[1].

Os comentaristas, geralmente, destacam, em letras garrafais, a seguinte pergunta:

“Por que o justo sofre?”

As considerações dos eruditos, que giram sobre o sofrimento, são diversas e, dentre elas, destacamos as principais:

  • Deus permitiu o sofrimento de Jó para justificar-se diante da acusação de Satanás;
  • A providência e o governo ético de Deus frente ao problema do sofrimento de um homem justo;
  • Deus permite o sofrimento do justo como meio de purifica-lo[2];
  • A mente do homem é muito ínfima, para que possa entender os motivos de Deus no sofrimento do justo;
  • Deus tinha plena confiança de que Jó sairia da provação, plenamente aprovado;
  • Deus derrotou Satanás, através do sofrimento de Jó;
  • Jó foi o homem mais integro que atendeu aos altos reclames da justiça divina, etc.

Se o tema do Livro de Jó é o sofrimento do justo[3], por inferência, se faz necessário concluir que o sofrimento do ímpio é plenamente aceitável. Através da leitura do Livro de Jó, somos levados a entender que o ímpio deve sofrer?

Ao estudar o Livro de Jó, desconsiderei as abordagens teóricas que constam das Bíblias de Estudos e dos livros de teologia. Li e reli diversas vezes o Livro de Jó, para chegar à seguinte conclusão: é impossível achar no Livro de Jó uma resposta para o sofrimento do justo, vez que o sofrimento ou, a problemática dos infortúnios que acometem o justo, não é o tema do livro.

Apesar do consenso de que o sofrimento do justo é o tema do Livro de Jó, não há entre os acadêmicos, uma resposta plausível que apresente um motivo[4], que dê resposta à pergunta: – ‘Por que o justo sofre?’[5].

Na verdade, o Livro de Jó não busca dar uma resposta à questão do sofrimento dos justos e nem foi escrito com o fito de apresentar uma teoria geral do sofrimento da humanidade[6].

O mote do Livro de Jó é pedagógico e o sofrimento é somente o pano de fundo, pois o tema do livro decorre de uma verdade imprescindível ao homem: a justiça do homem está aquém da justiça de Deus.

O propósito do livro é revelar uma verdade superior à ideia da problemática do sofrimento: como se dá a justificação do homem. O sofrimento é um dos elementos que fomentou os questionamentos, acerca da justiça de Deus e de que modo o homem poderia ser justo diante d’Ele.

Caro leitor, não quero desestimular a leitura do Livro de Jó, como um geólogo que desencoraja um visionário a não procurar petróleo em um terreno onde se suspeita que não haja o precioso ouro negro, mas deixa de avisar que há diamantes de grande valor naquela terra.

O nosso objetivo é que o leitor encontre a essência do Livro de Jó e, para isso, é necessário que o objeto seja substituído, para que o leitor tenha como encontrar o grande tesouro incrustado nessa história.

O leitor da Bíblia já observou que a história de Jó descreve alguém que sobrepuja qualquer ideário humano de justiça? Que a conduta, o caráter, a honradez e as práticas de Jó, estão muito além das nossas práticas cotidianas de justiça?

Ora, se Jó, de posse de um caráter que, a nosso ver, beira a perfeição; se as ações cotidianas do patriarca testemunhavam a favor da sua retidão e integridade[7] e; se Jó, ao ver o Criador, sentiu-se abominável e arrependido, imagine se eu ou você contemplássemos a Deus?

“Com os ouvidos eu ouvira falar de ti, mas agora te veem os meus olhos. Por isso me abomino e me arrependo no pó e na cinza” (Jó 42:5-6).

Após abrir mão de considerar o sofrimento dos justos como tema do Livro de Jó, fiquei sem um norte. Fez-se necessário fincar uma estaca, marcando um ponto ‘zero’, e voltar às minhas considerações e à releitura do livro, considerando os demais livros da Bíblia. Foi quando me deparei com o seguinte verso:

“Porque tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que, pela paciência e consolação das Escrituras, tenhamos esperança”. (Romanos 15:4)

Se tudo o que foi escrito, anteriormente, tem o objetivo de nos ensinar, o que Deus quer ensinar, através do Livro de Jó? O que há no livro de Jó, que nos concede esperança? Há ‘paciência’ e ‘consolação’ na história de Jó?

Tive que retornar aos evangelhos, às epístolas, aos profetas e à lei e, se o leitor deseja desvendar o objetivo do Livro de Jó, venha comigo. É essencial uma digressão[8] para compreender o ensinamento que está incrustado na trama de Jó, da mesma forma que é necessário garimpar o ouro oculto nas rochas, no seio da terra.

 

O mal debaixo do Sol

Não encontraremos, na Bíblia, uma resposta à pergunta: – ‘Porque o justo sofre?’, no entanto, ela nos informa que há um mal, em relação a tudo o que se faz debaixo do sol: tudo sucede, de igual forma, a todos!

“Tudo sucede, igualmente, a todos; o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao puro, como ao impuro; assim ao que sacrifica, como ao que não sacrifica; assim, ao bom, como ao pecador; ao que jura, como ao que teme o juramento. Este é o mal que há entre tudo quanto se faz debaixo do sol; a todos sucede o mesmo (Eclesiastes 9:2-3).

O Pregador aponta que há um mal em tudo o que se faz neste mundo: tudo sucede, igualmente, a todos. Os eventos neste mundo, quer sejam bons, quer sejam maus, não tem preferência em atingir a justos ou ímpios!

Se, somente, os justos sofressem, haveria motivo para indagar acerca do sofrimento dos justos. Semelhantemente, se tão somente os ímpios sofressem[9], poderíamos dissertar a respeito. Mas, como tudo sucede, igualmente, a todos, um mal que há entre tudo quanto se faz debaixo do sol, torna-se evidente que não há motivo para questionar o sofrimento, quando acomete os justos.

Mesmo os justos, tropeçam em muitas coisas (Tg 3:2) e se queixam dos seus próprios erros (Lm 3:39). O trabalho e a dor são pertinentes ao mundo dos homens, para exercitá-los, portanto, não há motivo para questionar acerca do sofrimento dos justos. “Tenho visto o trabalho que Deus deu aos filhos dos homens, para com ele os exercitar” (Ec 3:10;  Gn 3:17).

O Pregador dá um conselho aos homens, quer sejam justos, quer ímpios, e apresenta o motivo pelo qual há o dia da adversidade: para que o homem nada descubra do que há de vir depois dele.

“No dia da prosperidade goza do bem, mas, no dia da adversidade, considera; porque, também, Deus fez a este, em oposição àquele, para que o homem nada descubra do que há de vir depois dele” (Ec 7:14).

Continua…

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1] “Este livro trata com o problema teórico da dor na vida dos fiéis. Procura responder à pergunta: Por que os justos sofrem? Essa resposta chega de forma tríplice: Deus merece nosso amor à parte das bênçãos que concede; 2) Deus pode permitir o sofrimento como meio de purificar e fortalecer a alma em piedade; 3) os pensamentos e os caminhos de Deus são movidos por considerações vastas demais para a mente fraca do homem compreender, já que o homem não pode ver os grandes assuntos da vida com a mesma visão ampla do onipotente”. Archer, Gleason L., Merece confiança o Antigo Testamento? Traduzido por Gordon Chown. – São Paulo: Edições Vida Nova, Reimpressões 1998. Pág. 407.

[2] “Deus, por meio do sofrimento, pode levar o pecador à conversão e à salvação”. Bíblia de Estudo Almeida. Barueri – SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2000. Pág. 549.

[3] “O livro de Jó é uma obra-prima da literatura sapiencial. É uma dramática ficção histórica sobre o homem justo, sempre fiel às leis e tradições. O autor ou, autores, entrelaçam prosas e poemas, com os mais variados temas teológicos e sociais, como o sofrimento humano, a transformação  humana e social, o  bem e  o mal, a doutrina da retribuição, entre outros”. Nova Bíblia Pastoral, Editora Paulus, 2014 (Nota de rodapé), pg. 628.

[4] “O assunto do livro tem sido dado como ‘O problema do sofrimento, A relação entre o sofrimento e o pecado, ou Quais são as leis governo moral de Deus no mundo?’ Tudo isso é discutido de vários pontos de vista; e, mediante a discussão, somos levados a uma compreensão mais sábia destes perpétuos mistérios; mas, o livro termina sem que o problema tenha sido resolvido”. McNair, S. E. A Bíblia explicada, 4ª Edição, RJ: CPAD, 1983. Pág. 167 (Citação de Scroggie).

[5] “Existe apenas uma questão que realmente importa: Por que coisas ruins acontecem a pessoas boas? (…) Trata-se de um livro de difícil compreensão, um livro profundo e belo sobre o mais profundo dos temas, o problema do sofrimento dos bons”. Kushner, Harold S. “Quando coisas ruins acontecem às pessoas boas”, tradução Francisco de Castro Azevedo. – São Paulo: Nobel, 1988.  Págs. 15 e 38.

[6] “O assunto do livro é a providência e o governo ético de Deus à luz do muito antigo problema do sofrimento de um homem justo. Para esse problema, nem Jó se justificando, nem os seus três amigos acusando-o de pecado, encontraram a solução”. Scofield, C. I., Bíblia de Scofield, com referências (Nota de rodapé).

[7] Integridade – significa que Jó era honrado; integro no sentido de ‘completo’, resignado a não violar o que era de direito do outro.

[8] Em Literatura, digressão é um recurso utilizado pelo narrador, a fim de afastar a atenção sobre alguma ação da história principal. Dessa forma, o narrador pode iniciar um tema secundário pouco importante para a trama ou, refletir sobre um assunto que foge da narrativa principal.

[9] “Transcendendo o drama humano, centra-se o Livro de Jó nesta pergunta: ‘Por que sofre o justo?’ Que o pecador sofra, todos entendemos! Mas o justo? Aquele que tudo faz por agradar a Deus?” Andrade, Claudionor de, Jó: O Problema do Sofrimento do Justo e o seu Propósito., Rio de Janeiro: Editora CPAD, 2ª Edição, 2003, pág. 14.

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Com quem Caim se casou?

O objetivo do escritor do Gênesis é destacar quais foram os homens que, na história da humanidade, buscaram a Deus. Caim só entrou na narrativa, diferentemente dos outros filhos e filhas de Adão que não foram mencionados, porque Caim matou Abel, evidenciando que aqueles que são do maligno perseguem os justos desde os primórdios da humanidade.


Esta é uma pergunta que importuna muitos cristãos, fomenta muitas explicações e desagua em inúmeras especulações.

É primordial seguirmos a recomendação do apóstolo Paulo diante de qualquer questão semelhante: não fazer inferência daquilo que não está registrado nas Escrituras

“… para que em nós aprendais a não ir além do que está escrito…” ( 1Co 4:6 ).

Ler e compreender as Escrituras demanda atentar somente para o que nela está escrito.

Descobrir o nome dos proprietários do jumentinho que Jesus utilizou ao entrar em Jerusalém não acrescenta e nem diminui nada à essência do evangelho ( Lc 19:33 ). Ficar preocupado em saber qual a aparência física de Jesus não promove edificação da igreja.

Evocando o mesmo princípio, o interprete deve considerar que desconhecer nomes de alguns personagens bíblicos, relações de parentescos entre eles, datas, localizações geográficas, etc., não depõe contra a veracidade do evento narrado e nem deve ser considerado imprescindível à interpretação do texto.

Pela narrativa percebe-se que o escritor do Gênesis após discorrer sobre a criação centra-se em eventos que possibilitem ao leitor acompanhar o desenvolvimento da linhagem escolhida por Deus para a vinda do Messias ao mundo, permitindo estruturar a árvore genealógica de Adão até Cristo ( Lc 3:38 ).

O autor primeiro descreve a criação e deixa claro que o homem no projeto da criação foi concebido macho e fêmea. Em seguida o autor narra como Deus formou o homem: Adão do pó da terra e Eva foi tirada da costela de Adão. Deus plantou um jardim e colocou o homem no jardim para guarda-lo. Por último está registrado os eventos da tentação, a queda e a expulsão do casal do jardim.

Após o casal ser expulso do paraíso ( Gn 3:24 ), Adão gerou filhos e filhas, conforme se lê:

“E foram os dias de Adão, depois que gerou a Sete, oitocentos anos, e gerou filhos e filhas” ( Gn 5:4 ).

O casal expulso do Éden era fecundo conforme a expressa bênção de Deus ( Gn 1:22 e 28), e os métodos contraceptivos eram desconhecidos. Pela quantidade de anos que Adão viveu, certamente o casal teve muitos filhos e filhas.

O registro de que Adão gerou filhos e filhas encontra-se no capítulo seguinte ao evento envolvendo Caim e Abel. Embora este registro só apareça após a morte de Abel, não significa que só existiam Caim e Abel quando os dois irmãos resolveram apresentar uma oferta a Deus ( Gn 4:1 ).

A narrativa do capítulo 1 de Gênesis é genérica quando descreve a criação do homem (macho e fêmea) e a bênção de serem fecundos de modo a frutificarem e multiplicarem para povoar a terra ( Gn 1:27 -28). Vale destacar que, apesar do registro da bênção de frutificar e multiplicar constar no capítulo 1, Adão só conheceu a sua mulher após a queda, quando expulsos do Éden ( Gn 4:1 ).

Por que é necessário afirmarmos que Adão teve relação sexual com Eva somente após a queda? Porque há quem especule que durante o tempo em que estiveram no jardim do Éden, Adão e Eva poderiam ter tido filhos e filhas em função da seguinte declaração divina:

“E à mulher disse: multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido” ( Gn 3:16 ).

Há quem diga que, se Deus multiplicou grandemente a dor da mulher, isto dá a entender que, antes da queda, Eva já havia sentido dores de parto.

Para desfazer o equívoco que há por trás deste entendimento, vale destacar que a tradução para o português do texto hebraico deixa a desejar quanto à exposição da ideia do escritor do Gênesis, pois a dor que Deus multiplicou com relação à mulher é diferente da dor da concepção. Durante a gravidez a mulher geraria filhos com dores ( Gn 3:16 ), porém, foi acrescido à mulher dor de ordem emocional.

O texto no Hebraico não deixa aberta a possibilidade de considerar que o casal teve filhos antes da ofensa, visto que somente duas pessoas foram expulsas do Éden.

O apóstolo Paulo enfatiza que por uma só ofensa todos pecaram, portanto, o casal só teve filhos após a queda, isto porque todos os homens foram afetados pelo pecado quando ainda estavam na coxa de Adão (assim como o escritor aos Hebreus afirmou que Levi deu dízimo a Melquisedeque ainda na coxa de Abraão). Se antes da ofensa Adão tivesse filhos no Éden, o pecado não teria atingido todos os homens.

Percebe-se na narrativa que o evento que chamou a atenção do escritor após a expulsão do casal do Éden foi a interrupção prematura da existência de um homem justo, por isso a narrativa do homicídio.

O escritor aos hebreus deixou registrado que pela fé Abel ofereceu melhor sacrifício que Caim ( Hb 11:4 ), portanto, Abel poderia ser alguém que ordenassem bem a sua casa (linhagem) e que ensinasse os seus descendentes a buscarem a Deus. Ordenar a casa é o mesmo que ter cuidado com a linguagem, assim como ocorreu com Sete e Abraão ( Gn 18:19 ; Dt 25:9 ).

É importante notar que a genealogia de Caim foi registrada até nascer Lameque, homem sanguinário que além de matar dois homens, gabava-se do seu feio junto as suas duas mulheres, o que indica que Caim não ‘ordenou’ a sua casa ( Gn 4:23 ).

Caim foi um dos filhos de Adão e Eva após o casal ser expulso do Éden, o que significa dizer que não há como precisar se Caim era ou não o primogênito do casal. Se fosse, provavelmente o narrador teria declinado este fato. Também não consta a idade de Caim e Abel quando resolveram apresentar uma oferta a Deus.

A única informação que consta é que Caim era lavrador da terra ( Gn 4:2 ) e, após ser rejeitado pelo Senhor, bem como a sua oferta, matou o seu irmão Abel e foi habitar na terra de Node, que significa ‘nômade’ ou ‘errante’.

Logo após a narrativa da expulsão do casal do Éden, o escritor foca a narrativa em dois filhos do casal: Caim e Abel. Primeiro é narrado o evento da rejeição de Caim e da sua oferta e em segundo lugar o evento do homicídio de Abel.

Quando é narrada a história de Caim e Abel, o escritor centra-se nos eventos que envolveram os dois irmãos, mais isto não significa que Adão e Eva ainda não tivessem outros filhos e filhas antes ou até mesmo durante os eventos narrados acerca de Caim e Abel.

Se não houvesse a morte de Abel, certo é que o escritor apresentaria a árvore genealógica de Abel, pois dele é dito que buscou a Deus e foi aceito. Mas, com a morte prematura de Abel, pois ele não teve filhos, o escritor centrou-se em descrever a linhagem de Caim, e depois a linhagem de Sete.

O objetivo do escritor do Genesis é destacar quais foram os homens que, na história da humanidade, buscaram a Deus. Caim só entrou na narrativa, diferentemente dos outros filhos e filhas de Adão que não foram mencionados, porque Caim matou Abel, evidenciando que aqueles que são do maligno perseguem os justos desde os primórdios da humanidade.

“Não como Caim, que era do maligno, e matou a seu irmão. E por que causa o matou? Porque as suas obras eram más e as de seu irmão justas” ( 1Jo 3:12 ).

Adão e Eva tiveram muitos filhos e filhas além de Caim e Abel, mas nenhum outro ganhou notoriedade a não ser Sete. Por quê? Porque com o nascimento de Enos, filho de Sete, os homens começaram a buscar a Deus ( Gn 4:26 ).

A narrativa do Genesis não especifica o tempo transcorrido entre o momento em que Caim saiu da presença de Deus e ficou habitando em Node.

É impossível precisar se Caim casou-se na cidade de Node, ou se já convivia com sua mulher quando matou Abel. É impossível precisar se Caim já era casado quando saiu presença de Deus e levou consigo uma mulher, ou se somente quando chegou em Node casou-se.  Só temos a informação de que na terra de Node Caim ‘conheceu’ (teve relação sexual) a sua mulher e ela concebeu e deu a luz Enoque ( Gn 4:17 ).

A Bíblia não apresenta o nome da mulher de Caim, portanto, não há como saber com quem casou Caim. O escritor também não descreve o gral de parentesco entre Caim e sua mulher, ou seja, a única coisa certa é que a mulher de Caim também era descendente de Adão e Eva. Portanto, é impossível encontrar ou dar uma resposta à pergunta: – ‘Com quem Caim casou-se’?

Quando matou Abel, Caim ficou com medo de que qualquer que o encontrasse daquele momento em diante o matasse, o que indica que à época do homicídio já havia sobre a terra muitas pessoas. A narrativa nos dá a entender que à época já havia pequenas aldeias e cidades organizadas, e todos eram descendentes de Adão e Eva.

“Então disse Caim ao SENHOR: É maior a minha maldade que a que possa ser perdoada. Eis que hoje me lanças da face da terra, e da tua face me esconderei; e serei fugitivo e vagabundo na terra, e será que todo aquele que me achar, me matará” ( Gn 4:13 )

Qual era a idade de Caim quando matou Abel? Vinte anos? Cem? Não temos como precisar, mas uma coisa é certa: a terra já estava povoada, tanto que Caim habitou em uma cidade de nome Node.

Caim teve relação sexual com sua mulher e, com a concepção e nascimento do seu filho, Caim edificou uma cidade e deu o nome do seu filho à cidade: Enoque.

Por causa de evidencias no texto é possível afirmar que outros filhos e filhas de Adão e Eva já estavam se reproduzindo e ocupando a terra quando Caim matou Abel.

Caim e Abel eram adultos quando resolveram apresentar a Deus uma oferta, sendo que Abel cuidava de ovelhas e Caim cuidava a terra. Por ter matado Abel, a pena de Caim foi não ter forças para desempenhar o seu oficio de lavrador da terra, de modo que se tornou um fugitivo na face da terra ( Gn 5:12 ).

Dentre as variáveis possíveis, Caim conviveu maritalmente com uma das filhas de Adão e Eva ou com uma das filhas ou netas dos seus irmãos.

Quando se pergunta: – “Com quem Caim casou-se”, na verdade as pessoas querem saber se Caim casou com uma de suas irmãs (filhas de Adão e Eva). Ora, ele pode ter coabitado com uma de suas irmãs ou com uma neta, bisneta, tataraneta de Adão.

A pergunta: – “Com quem casou-se Caim” também pode ser formulada acerca de Sete, e dos outros filhos e filhas de Adão e Eva. O objetivo da pergunta é fomentar especulações acerca da origem da humanidade e lançar descredito a narrativa bíblica.

A pergunta ganha ‘notoriedade’ pelo fato de ter havido relações entre irmãos no início da história da humanidade, o que mais tarde foi proibido e damos o nome de incesto a tais relacionamentos.

Ora, o que permitiu que a humanidade se multiplicasse sobre a face da terra decorre das famílias que surgiram da convivência marital entre os filhos de Adão e Eva. Quando apresentamos uma resposta positiva para as relações entre irmãos nos primórdios da humanidade, os críticos da Bíblia acreditam que colocam em xeque os ensinamentos das Escrituras.

Vale destacar que, quando analisamos a história de Adão e Eva, não estamos trabalhando com símbolos ou mitos. Na verdade, o início da raça humana deu-se precisamente através de um casal: Adão e Eva.

No início Deus não criou um clã, ou uma comunidade ou uma população de indivíduos compostos por homens e mulheres simplesmente para evitar relações incestuosas. Adão e Eva não tiveram filhos antes de serem expulsos do Éden e nem havia certa população de indivíduos fora do jardim que viviam distantes do casal.

Destaco que não houve evolução e nem colonização da terra por extraterrestres, o que muitos cristãos especulam após assistirem documentários com base na falsa ciência.

Para entendermos a Bíblia precisamos considerar o que está registrado, e não fazer meras especulações.  Adão e Eva, além de Caim e Sete, tiveram filhos e filhas, porém, a Bíblia não diz quantos, mas o número foi suficiente para ocorrerem casamentos entre eles e formar uma população que povoou a terra “E foram os dias de Adão, depois que gerou a Sete, oitocentos anos; e gerou filhos e filhas” ( Gn 5:4 ).

A origem das famílias na terra se deu através de relações incestuosas: irmãos casaram com irmãs, tios casaram com sobrinhas, etc. À época tais relações não eram socialmente recriminadas ou vetadas. O casamento e as relações sexuais eram vistos do ponto de vista funcional, diferente do que hoje vemos na nossa sociedade, que se fundamenta em viés emocional.

O incesto era errado à época? Não! Nem a ideia por trás do termo ‘incesto’ era cogitado à época. Da mesma forma que o conceito ‘nu’ não existia antes da queda e andar nu não foi o que separou o homem de Deus. Conceitos e condutas foram surgindo e alguns foram vetados através das relações e interações socioculturais.

A história da humanidade iniciou-se com um casal, que evoluiu para uma família e, daí por diante, formaram-se tribos, cidades, comunidades, etc. As regras sociais, morais e, até mesmo as leis foram surgindo das relações sociais, ou seja, Deus não impôs regra alguma aos homens, antes os homens estabeleceram leis para si guiando-se pelo que entendiam ser certo e errado. Naturalmente a humanidade se guia-se através do certo e errado, mesmo não tendo leis.

“Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei; Os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os” ( Rm 2:14 -15).

O apóstolo Paulo ao tecer crítica aos religiosos judeus deixa claro que os gentios não possuem lei, pois Deus não deu leis a eles. Porém, naturalmente os gentios praticam as condutas descritas na lei, pois mesmo não tendo uma lei como a lei de Moisés, para si mesmos criam leis.

Andar nu antes da ofensa de Adão não era pecado, e após a queda também não é pecado. Porém, do ponto de vista social é errado andar nu entre os nossos semelhantes, mas não é o andar nu que separou ou separa o homem de Deus.

Se o homem anda nu está separado de Deus e descumpre regras sociais e será julgado pelos homens, mas se o homem anda vestido descentemente, igualmente separado está de Deus tanto quanto aquele que anda nu. O único diferencial entre qualquer que anda nu e qualquer que cobre a sua nudez é que este não será julgado e apenado pelos homens como aquele.

O que separou o homem de Deus e que a Bíblia nomeia pecado foi a ofensa de Adão que trouxe condenação sobre todos os homens: tanto os que obedecem regra sociais, quanto sobre aqueles que não obedecem. O pecado entrou no mundo pela desobediência de um homem: Adão, e todos os seus descendentes se tornaram pecadores porque a condenação à morte passou a todos os homens.

Quando o casal no Éden percebeu que estava nu, coseu folhas para cobrir a nudez, mas Deus nada havia ordenado acerca da necessidade de cobrir a nudez ( Gn 3:7 ). Ora, estar nu não era pecado e nem tem conexão com o pecado. O pecado decorreu da ofensa de um só homem que desobedeceu ( Rm 5:19 ; 1Co 15:21 -22), e a descoberta de que estavam nus foi proveniente do conhecimento do bem e do mal que a árvore proporcionou ( Gn 3:4 ).

Com o passar do tempo e com o surgimento de organizações sociais mais complexas que as famílias e os clãs, regras sociais foram surgindo e norteando o comportamento dos indivíduos e as relações entre eles, assim como surgiu a regra de cobrir a nudez quando Adão e Eva perceberam que estavam nus.

Quando Adão ouviu soar a voz de Deus no jardim do Éden, como era de costume na viração do dia, Adão teve medo, não por sua desobediência a Deus, mas por estar nu ( Gn 3:10 ; Gn 2:16 -17). Todos os dias o casal se apresentava diante de Deus nu, mas o pecado que os condenou à morte teve menos importância para eles que o fato de estar nu.

Hoje a sociedade ocupa-se das mesmas questões que Adão e Eva: da conduta diária, porém, não se apercebe que o problema que afetou a humanidade no Éden decorre da ofensa de um só homem que pecou.

Daí a importância da Bíblia, pois ela traz à memória dos homens que se deixam instruir acerca da necessidade de um mediador entre Deus e os homens. Que era necessário alguém que, diferentemente de Adão, obedecesse a Deus em tudo, e por meio dele – Cristo – o homem é livre da condenação de Adão.

No início da história da humanidade não havia leis escritas, e as regras sociais surgiram das relações e interações entre os homens ao longo do tempo. Muitas regras sociais convencionadas pelos homens foram validadas por Deus, como foi o fato de Deus prover para o casal túnicas de peles ( Gn 3:21 ).

Em suma, a lei dada por Deus por intermédio de Moisés caracteriza o cuidado de Deus para com o seu povo e, ao mesmo tempo é uma espécie de validação de diversos costumes próprios às nações à época, o que evidencia que naturalmente a obra da lei está no coração do homem, corroborando o testemunho da consciência ( Rm 2:14 -15).

A regra à época era que cada qual tivesse a sua própria mulher, mas quando um homem casado morria e não deixava descendência, o seu irmão ou parente próximo deveria suscitar descendência ao falecido, costume que virou lei em Israel: a ‘Lei do Levirato’ ( Dt 25:5 -10), assim como a proibição de relações sexuais entre diversos parentes próximos ( Lv 18:6 -18).

Caim era pecador pelo fato de ter sido gerado de Adão, e não pelo homicídio do seu irmão. Antes mesmo de praticar o homicídio, Caim não foi aceito por Deus e nem a sua oferta. Este evento evidencia que Caim era pecador antes do homicídio, pois quando tentou aproximar-se de Deus confiado que a sua oferta o tornaria agradável a Deus, não foi aceito. Abel aproximou-se de Deus confiado que Ele é galardoador dos que O buscam, pois em todos os tempos qualquer que invocar o nome do Senhor será salvo ( Hb 11:4 ).

É um equívoco entender que quem contraiu matrimônio com um membro da família antes da lei de Moisés não estava em pecado porque a lei só veio muitos anos depois. O apóstolo Paulo demonstra que, mesmo antes da lei os homens já eram pecadores, pois o pecado reinou desde Adão até Moisés, visto que, por causa da ofensa de Adão todos estavam separados de Deus ( Rm 5:12 -14).

Deus alerta Caim acerca das suas intenções quando questiona: – “Por que te iraste? E por que descaiu o seu semblante?” ( Gn 4:6 ). Em seguida vem uma importante lição para a humanidade em um verso de difícil interpretação: se Caim fizesse o bem ou o mal não era aceito por Deus, pois estava sob domínio do pecado, porém, a despeito do pecado estar à porta (exercendo domínio sobre Caim), mesmo sob domínio do pecado era possível ele controlar o seu desejo ( Gn 4:7 ).

O maior problema de Caim foi herdado do seu pai: a separação de Deus (morte). O maior problema de Adão era a morte, entretanto, ambos, Adão e Caim estavam preocupados com uma questão menor: esse com as consequências de ter matado o seu irmão e aquele com a vergonha decorrente da nudez.

Desde então a humanidade está preocupada com regras que regem as relações sociais, e se esquecem do problema maior: condenação à morte eterna.

A pergunta: – ‘Quem foi a mulher de Caim’ não visa o problema da condenação, e sim através de questões pertinentes as regras sociais colocar em xeque a veracidade da Bíblia. Muitos ligados à teoria da evolução querem colocar em dúvida o fato de Adão ser o primeiro homem do qual originou toda a humanidade.

As regras sociais, a moral e o caráter possuem a sua importância, porém, devemos atentar para o que é essencial e que afeta o homem pela eternidade “Não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas” ( 2Co 4:18 ).

Quando Cristo veio ao mundo não criou novas regras sociais para os seus seguidores, antes evidenciou que, para serem salvos era necessário crer no testemunho que as Escrituras davam acerca d’Ele: “Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre” ( Jo 7:38 ). Cristo anunciou que, quem n’Ele cresse, na verdade crê no Pai que O enviou ( Jo 12:44 ; 1Jo 5:9 -10).

O juízo de Deus já foi estabelecido, e todos julgados e condenado à morte pela ofensa (desobediência) de Adão ( Rm 5:18 ). A justiça de Deus foi manifesta em Cristo, pois Ele obedeceu ao Pai em tudo, de modo que por Ele muitos são feitos justos ( Rm 5:19 ). Basta crer que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo que o homem é salvo da condenação e volta à comunhão com Deus.

Mas, além da condenação à morte, também haverá um julgamento de obras no final dos tempos, quando todos os homens perdidos comparecerão ante o Tribunal do Grande Trono Branco. Lá serão julgados quanto as suas ações e intenções dos seus corações.

Caim foi condenado à morte pela desobediência de Adão, e só será julgado com relação ao homicídio de Abel quando diante do Tribunal do Trono Branco ( Ec 12:14 ; Ec 3:15 ). O homem só não comparece ante o Tribunal do Trono Branco se for salvo hoje da condenação de Adão por meio do evangelho.

O problema de Caim diante de Deus não decorre das questões relativas ao homicídio ou do incesto, e nem são estes problemas que afetam a humanidade na sua relação com Deus hoje. Tais questões, na verdade, são evidências de que os homens estão entregues a si mesmos e são guiados pelos seus corações enganosos “Por isso também Deus os entregou às concupiscências de seus corações, à imundícia, para desonrarem seus corpos entre si (…) E, como eles não se importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convêm” ( Rm 1:24 e 28).

Após o homicídio de Abel é dito que tornou Adão a conhecer Eva e ela concebeu e teve um filho, e colocou o nome de Sete. Apesar de Sete ser o terceiro nome conhecido dos filhos de Adão, não significa que ele foi o terceiro. O nome de Sete foi dado em razão de Eva considerar que Deus dera outro descendente homem em lugar de Abel que fora assassinado por Caim ( Gn 4:25 ).

Sete nasceu quando Adão completou cento e trinta anos ( Gn 5:3 ), mas tal data não dá para precisar a idade de Eva e nem a idade de Caim, ou quanto tempo após a morte de Abel, Eva deu à luz Sete. Cento e trinta anos referem-se à totalidade de anos desde a criação de Adão até o nascimento de Sete, e não se refere ao período entre a morte de Abel e o nascimento de Sete.

Após uma breve narrativa da história de Caim, o escritor se concentra no capítulo 5 do Gênesis em apresentar a linhagem de Sete, pois esta linhagem é relevante para demonstrar a descendência do Messias.  Gênesis destaca a geração de Caim, o rejeitado por Deus, e uma geração escolhida para a vinda do Cristo.

As genealogias da Bíblia geralmente seguem a seguinte forma: nome do primogênito, idade do pai quando gerou o primeiro filho e, por fim, arremata que gerou filhos e filhas. Com Adão esta forma é quebrada, pois apesar de gerar filhos e filhas, pela importância da linhagem de Sete, fica evidenciado Sete como o “primogênito”, sem enfatizar os demais filhos.

É comum se omitir o nome das filhas nas genealogias, pois quem gerava filhos eram os homens, e não as mulheres ( Gn 5:3 e 7 e 9). Com a morte de Abel, a Bíblia destaca as linhagens de Caim e de Sete.

É dito de Caim que ele conheceu a sua mulher, portanto ele gerou a Enoque e, que após Caim construiu uma cidade e a nomeou Enoque, o nome do seu filho. Não podemos afirmar que Enoque foi a primeira cidade fundada pelo homem, porém, é certo que Caim fundou uma cidade, o que sugere que existiam pessoas suficiente à época para tal empreitada.

Em seguida o escritor se resigna a registrar que Enoque gerou Irade, e Irade gerou a Meujael, e Meujael gerou a Metusael, e Metusael gerou a Lameque.

Ao falar de Lameque, o escritor apresenta o nome de duas mulheres: Ada e Zilá.  Por que o escritor quis evidenciar o primeiro caso de poligamia? De maneira alguma. A poligamia de Lameque, neto de Caim, só foi destacada para demonstrar que Jabal, nascido de Ada habitava em tendas e possuía gado e o seu irmão Jubal era instrumentista musical, pois tocava harpa e órgão.

Já os bisnetos de Caim nascidos de Zilá foi Tubalcaim, mestre em toda obra com cobre e ferro, e a sua irmã, Naamá.

O escritor do Gênesis destaca que Lameque matou dois homens e gabava-se do seu feito com suas duas mulheres.

Nada mais é dito de Caim no Livro do Gênesis, e o escritor se volta para genealogia de Sete, desde o seu nascimento até destacar a pessoa de Noé. Um fato importante que o escritor do Gênesis destaca é que, após Sete gerar Enos é que se começou a invocar o nome do Senhor ( Gn 4:26 ).

Hoje sentimos total aversão à ideia que o termo incesto encerra, porém, no início da humanidade não era assim e nem podia ser assim, pois seria impossível a multiplicação da humanidade.

Para um cristão, é errado ter um comportamento fornicário como alguém que conviva maritalmente com sua madrasta, como foi dito pelo apóstolo Paulo aos cristãos de Corintos. Ele lembra que, nem mesmo entre os gentios havia tal comportamento ( 1Co 5:1 -2), quiçá no seio da igreja.

Mas, à época de Abraão, vemos que o patriarca convivia maritalmente com sua meia irmã:

“E, na verdade, é ela também minha irmã, filha de meu pai, mas não filha da minha mãe; e veio a ser minha mulher; E aconteceu que, fazendo-me Deus sair errante da casa de meu pai, eu lhe disse: Seja esta a graça que me farás em todo o lugar aonde chegarmos, dize de mim: É meu irmão” ( Gn 20:12 -13).

Depreende-se do texto que, à época, já havia se convencionado que irmãos e irmãs de mesmos pais não deviam coabitar, porém, como Sarai era filha somente de Tera, pai de Abraão, mas não era filha da mãe de Abraão, que está condição de meio-irmão permitiu que casassem.

Com o advento da lei mosaica, uniões como a de Abrão e Sarai, ou união como a de Jacó com duas irmãs, Lia e Raquel, foram terminantemente proibidas.

As pessoas se organizaram em clãs, tribos, etc., e casavam-se entre si sem qualquer distinção. Mas, quando alguém da linguem escolhida para vir o Messias ia casar, geralmente procuravam alguém de sua própria parentela “Mas que irás à minha terra e à minha parentela, e dali tomarás mulher para meu filho Isaque” ( Gn 24:4 ).

Embora não seja possível sabermos o nome da mulher de Caim, assim como é impossível saber o nome da mãe de Davi, a pergunta subjacente foi respondida: os filhos e as filhas de Adão e Eva coabitaram e formaram as primeiras famílias da face da terra.

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Iniquidade é transgressão de qual lei?

Havia alguma lei a ser guarda pelo gentio Abrão? Não, pois nada havia sido ordenado aos homens! Mas, quando foi dito a Abraão que ele teria uma descendência numerosa sobre a face da terra, mesmo não tendo filhos, Abraão creu, e isto lhe foi imputado por justiça. Observe que não havia lei e nem mesmo a circuncisão.


A primeira atitude de muitos quando procuram definir o que é ‘iniquidade’ centra-se em buscar o significado do termo na língua grega. Primeiro demonstram que o termo vem do Grego ‘ανομια’ [anomia] (Substantivo feminino), e que, dependendo da frase, assume a conotação de ‘negação da lei’, ‘ilegalidade’, ‘falta de conformidade com a lei’, ‘violação da lei’, ‘desacato à lei’, ‘iniquidade’, ‘impiedade’, ‘pecado’, etc.

O termo ανομος [anomos] traduzido por iniquidade é composto por um prefixo ‘α’ [a] que desempenha a ideia de ausência, falta, exclusão e o termo νομος [nomos] “lei”. Dai a construção “sem lei”, “ausência de lei”.

O próximo passo restringe-se a determinar quantas vezes o termo é utilizado no Novo Testamento. Contabilizando, chega-se ao consenso de que a palavra ανομια [anomia] aparece 15 vezes no Novo Testamento.

Tudo o que foi visto acima é verdadeiro, mas, a análise não dá base para afirmar que a lei de Moisés, como faziam os judaizantes, é o meio pelo qual o homem alcança a salvação, é recalcitrar contra a verdade do evangelho.

Pelo fato de ‘iniquidade’ ser o mesmo que ‘negação da lei’, interpretar o versículo que diz: “E, por se multiplicar a iniquidade, o amor de quase todos se esfriará” ( Mt 24:12 ), como sendo ‘negação da lei’ (iniquidade) o não guardar a lei mosaica é desconsiderar o contexto do versículo.

No verso anterior Jesus alerta que surgiriam muitos falsos profetas, e que enganariam a muitos ( Mt 24:11 ). Qual a ação dos falsos profetas? Trazer uma mensagem adversa da ordenada por Deus, ou seja, uma mensagem que transtorna o mandamento de Deus. No contexto do Novo Testamento qual é o mandamento de Deus? A resposta é: crer no enviado de Deus! “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo…” ( 1Jo 3:23 ).

Com a vinda do Messias, o mandamento de Deus resume-se na seguinte ‘obra’: “Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ). Quem faz a obra determinada por Deus, que é crer em Cristo, se fez servo, portanto, cumpriu o mandamento de Deus como o fez Abraão que, mesmo antes de ser dada a lei de Moisés cumpriu todos os preceitos de Deus “Porquanto Abraão obedeceu à minha voz, e guardou o meu mandado, os meus preceitos, os meus estatutos, e as minhas leis” ( Gn 26:5 ).

A lei mosaica só foi dada 430 anos após Abraão ter obedecido à voz de Deus, e Deus deu testemunho de Abraão, um gentios da cidade de Ur dos Caldeus, de que guardou todas as suas leis.

Havia alguma lei a ser guarda pelo gentio Abrão? Não, pois nada havia sido ordenado aos homens! Mas, quando foi dito a Abraão que ele teria uma descendência numerosa sobre a face da terra, mesmo não tendo filhos, Abraão creu, e isto lhe foi imputado por justiça. Observe que não havia lei e nem mesmo a circuncisão.

Somente após Abraão crer é que Deus instituiu a circuncisão do prepúcio da carne, como símbolo da aliança firmada entre Deus e Abraão, e que os descendentes da carne de Abraão deveriam guardar ( Gn 17:9 ). A circuncisão não era a aliança, antes a circuncisão era símbolo da aliança estabelecida entre Deus e Abraão.

Quando Abraão fez a circuncisão do prepúcio da carne era gentio e justo diante de Deus. Dai a pergunta do apóstolo Paulo: “Vem, pois, esta bem-aventurança sobre a circuncisão somente, ou também sobre a incircuncisão?” ( Rm 4:9 ).

Para um judaizante, a bem-aventurança prometida Abraão só é possível quando o homem circuncida o prepúcio da carne, mas se observarmos Abraão, verifica-se que o selo da circuncisão só foi determinado após Abraão ter tido o testemunho das Escrituras de que era justo diante de Deus ( Gn 15:6 ; Gn 17:24 ; “ENTÃO alguns que tinham descido da Judéia ensinavam assim os irmãos: Se não vos circuncidardes conforme o uso de Moisés, não podeis salvar-vos” At 15:1 ).

Deus não fez promessa a Abraão por intermédio da lei de Moisés, antes por meio da palavra da fé, ou seja, da promessa ( Rm 4:13 ). Abraão vivia sem lei quando lhe foi feita a seguinte promessa: “E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra” ( Gn 12:3 ).

Se observarmos a mensagem dos judaizantes: – ‘Se não vos circuncidardes conforme o uso de Moisés, não podeis salvar-vos’, tem-se nesta determinação a fala de um falso profeta, pois diz algo que Deus não falou. Daí a necessidade de observarmos oque disse o apóstolo Paulo: “Eis que eu, Paulo, vos digo que, se vos deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará. E de novo protesto a todo o homem, que se deixa circuncidar, que está obrigado a guardar toda a lei. Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído” ( Gl 5:2 -4).

Quando Jesus disse que surgiriam muitos falsos profetas, Ele tinha em vista as inúmeras pessoas que surgiriam anunciando mensagens utilizando o nome de Deus, porém, negando obra realizada por Cristo. Sobre este assunto asseverou o apóstolo Paulo: “Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te” ( 2Tm 3:5 ).

Qual o significado de piedade neste verso? Seria: “amor e respeito às coisas religiosas; religiosidade; devoção; Pena dos males alheios; compaixão, dó, comiseração”? Não! Piedade neste verso é o mesmo que ‘evangelho’. Tem aparência de evangelho, porém, negam a eficácia.

Tal sentido do termo piedade depreende-se da seguinte passagem bíblica: “E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória” ( 1Tm 3:16 ). O mistério da piedade diz do evangelho de Cristo ( ), portanto, todos quantos quiserem viver segundo a palavra do evangelho, sofrerão perseguições ( 2Tm 3:12 ).

Mensagens como: É necessário circuncidar-se; É necessário guardar os sábados; É necessário abster-se de alimentos; É necessário abster-se de casar-se, são todas falsas profecias. Qualquer que dar ouvidos a tais mensagens, da graça de Cristo caiu.

Ora, tais mensagens são negações do mandamento de Deus (iniquidade), pois o seu mandamento é: “Quem crer e for batizado será salvo…” ( Mc 16:16 ). Foi Deus que estabeleceu uma Pedra preciosa em Jerusalém, Jesus, o Cristo “Por isso também na Escritura se contém: Eis que ponho em Sião a pedra principal da esquina, eleita e preciosa; E quem nela crer não será confundido” ( 1Pd 2:6 ).

Ora, por se multiplicar as mensagens de engano, as mensagens dos falsos profetas, a obediência de muitos seria anulada. Ora, o verso: “E, por se multiplicar a iniquidade, o amor se esfriará de quase todos” ( Mt 24:12 ), foi dito por enigmas, portanto, é uma parábola.

Como é possível aumentar a iniquidade? O que se multiplica é a mensagem de engano, pois surgiriam muitos falsos profetas e anticristos “AMADOS, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo” ( 1Jo 4:1 ). Com o surgimento de muitos falsos profetas a mensagem de engano aumenta, consequentemente, o mandamento contido no evangelho de Cristo deixa de ser anunciado.

Se a necessidade de crer em Cristo não é anunciada, antes outra mensagem é divulgada, tem-se a iniquidade, ou seja, ausência da lei, do mandamento. Sem o mandamento não há amor, pois ama aquele que cumpre o mandamento “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” ( Jo 14:21 ).

Ou seja, quando Jesus aponta que o amor se esfriará, Ele estava demonstrando que, em virtude da ausência do mandamento verdadeiro (iniquidade), a obediência (amor) diminui, esfria.

É neste sentido que Jesus pergunta: Quando, porém vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra? O termo fé deve ser compreendido como a mensagem do Filho do homem. Cristo é a Fé, a fé que havia de se manifestar, portanto, sem a sua mensagem não há fé, pois a Fé que a bíblia faz alusão tem a capacidade de residir nos homens ( Gl 3:23 ; 2Tm 1:5 ). A Fé que Jesus faz menção refere-se ao fundamento de Deus, que é firme e faz o homem agradável a Deus ( 2Tm 2:19 : Hb 11:1 ).

Ao escrever a Timóteo, o apóstolo Paulo alerta quanto às falsas doutrinas “Como te roguei, quando parti para a Macedônia, que ficasses em Éfeso, para advertires a alguns, que não ensinem outra doutrina, nem se deem a fábulas ou a genealogias intermináveis, que mais produzem questões do que edificação de Deus, que consiste na fé; assim o faço agora” ( 1Tm 1:3 -4 ).

Quando se ensina outra doutrina, instala-se a iniquidade, pois transtorna o mandamento de Deus. A edificação em Deus consiste na fé, no firme fundamento estabelecido por Ele, que é firme e permanente.

Ora, sabemos que hoje estamos mais próximo do fim ( Rm 13:11 ), porém, o que se observa é que as pessoas tem-se tornado mais crédulas, visto que muitos dizem acreditar em Deus, no impossível, em milagres, no impossível, etc. Mas, a questão é: quando o Filho do homem voltar, a sua mensagem, a palavra da fé estará sendo anunciada ao mundo?

O que foi manifesto aos homens? Cristo foi manifesto, portanto, foi manifesto a palavra, ou seja, a fé: “Mas a seu tempo manifestou a sua palavra pela pregação que me foi confiada segundo o mandamento de Deus, nosso Salvador” ( Tt 1:3 ); “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” ( Gl 3:23 ).

Dai a explicação: “Ora, o fim do mandamento é o amor de um coração puro, e de uma boa consciência, e de uma fé não fingida. Do que, desviando-se alguns, se entregaram a vãs contendas; Querendo ser mestres da lei, e não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam” ( 1Tm 1:5 -7).

Neste verso o apóstolo aponta qual é o objetivo do mandamento de Deus: a obediência de um coração puro que abraça uma fé genuína. O mandamento neste verso diz do evangelho de Cristo, e não da lei mosaica. Quando se ensina a doutrina de Cristo, temos um mandamento que demanda obediência, ou seja, é preciso crer no enviado de Deus.

O objetivo, a finalidade do mandamento de Cristo é a obediência de coração, o que trás uma boa consciência e uma crença genuína. Mas, quando há a distorção, o desvio da verdade, surge a ‘contenda’. É o que o apóstolo Paulo nomeia de ‘vinho da contenda’, do qual o cristão deve se abster, ou seja, do ensinamento dos judaizantes “Mas não entres em questões loucas, genealogias e contendas, e nos debates acerca da lei; porque são coisas inúteis e vãs” ( Tt 3:9 ).

Perceba que ‘contenda’ é uma FIGURA utilizada para fazer referência à doutrina dos judaizantes “Do que, desviando-se alguns, se entregaram a vãs contendas” ( 1Tm 1:6 ). A doutrina dos judaizantes é o ardente vinho de serpentes “O seu vinho é ardente veneno de serpentes, e peçonha cruel de víboras” ( Dt 32:33 ; Ef 5:18 ).

O mandamento de Deus é: creiam no nome do meu Filho ( 1Jo 3:23 ). Qualquer que não crê nunca conheceu o Pai e nem o Filho, de modo que naquele dia ouvirá: “Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade” ( Mt 7:23 ). Ora, estes confessam com a boca que amam a Deus, porém, negam-No com as suas obras. Estes verdadeiramente negam a lei de Deus! “Quem não me ama não guarda as minhas palavras; ora, a palavra que ouvistes não é minha, mas do Pai que me enviou” ( Jo 14:24 ).

Estão em iniquidade porque negam obedecer ao mandamento de Deus, que é crer em Cristo. Ora, quem confessa que Jesus é o Cristo, está em Deus e Deus nele ( 1Jo 4:15 ), de modo que conheceu a Deus ( 1Jo 4:7 ), pois para ser nascido de Deus é necessário receber poder ( Jo 1:12 ), o que é concedido aos que creem em Cristo.

Mas, a qualquer que conhece a Deus, ou seja, que creu em Cristo, jamais deve voltar aos argumentos fracos da lei que tem por base questões de ordem moral e severidade com o corpo “Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” ( Gl 4:9 ).

Os judaizantes dos nossos dias geralmente lançam mão do seguinte verso para expor a ideia de que é necessário guardar a lei: “Qualquer que comete pecado transgride a lei, pois o pecado é a transgressão da lei” ( 1Jo 3:4 ).

O termo ‘mandamento’ é utilizado por diversas vezes na epístola joanina, porém, somente neste verso o tradutor sentiu-se à vontade para traduzir o mesmo termo por ‘lei’, o que constrói a ideia de que se trata de um código escrito.

No inicio da carta o apóstolo diz: “E nisto sabemos que o conhecemos: se guardarmos o seu mandamento” ( 1Jo 2:3 ). Já no verso 23 de 1João 3, temos: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo …”. O correto é traduzir o verso 4 do capítulo 3 da epístola utilizando o termo mandamento: “Qualquer que comente pecado transgride o mandamento, pois o pecado é a transgressão do mandamento” ( 1Jo 3:4 ).

Dai a pergunta: que ‘mandamento’ quando transgredido, ou ‘lei’ quando transgredida é pecado? Seria a lei de Moisés? É certo que não, pois antes de ser entregue a lei mosaica já havia pecadores no mundo “Porque até à lei estava o pecado no mundo…” ( Rm 5:13 ).

Ora, os fariseus cumpriam o que entendiam da lei, porém, Jesus Lhes disse: “Por isso vos disse que morrereis em vossos pecados, porque se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados” ( Jo 8:24 ). Os fariseus achavam que cumpriam a lei, porém, Jesus lhes disse: “Não vos deu Moisés a lei? e nenhum de vós observa a lei. Por que procurais matar-me?” ( Jo 7:19 ).

Ora, crer em Cristo é a lei da liberdade. Crer em Cristo é o mandamento, e qualquer que n’Ele não crê, transgrede a lei. A lei que transgredida é pecado e que o evangelista João faz referência não tem por base regras tais como: “Não toques, não proves, não manuseies?” ( Cl 2:21 ).

Entender que a lei de Moisés é eterna e perfeita é desconsiderar o que disse o escritor aos Hebreus: “Dizendo Nova aliança, envelheceu a primeira. Ora, o que foi tornado velho, e se envelhece, perto está de acabar” ( Hb 8:13 ).

A lei foi dada para conduzir os descendentes de Jacó a Cristo, demonstrando que eles eram pecadores, apesar de serem descendentes da carne de Abraão. A lei foi dada aos descendentes da carne de Abraão para demonstrar que todos os homens estavam em igual condição diante de Deus “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus. Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado” ( Rm 3:19 -20 ).

Antes de chegar a esta conclusão, o apóstolo cita várias passagens da lei e dos salmos que protestavam contras os judeus “Deus olhou desde os céus para os filhos dos homens, para ver se havia algum que tivesse entendimento e buscasse a Deus. Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um. Acaso não têm conhecimento os que praticam a iniquidade, os quais comem o meu povo como se comessem pão? Eles não invocaram a Deus” ( Sl 53:2 -4).

Observe que o salmista aponta que não há um justo se quer, e que ninguém buscava a Deus, embora houvesse o povo de Israel na terra. Em um dos salmos citados pelo apóstolo, o salmista faz um protesto contra os obreiros fraudulentos, que se alimentavam de Israel como se fosse pão, porém, não lhes dava a palavra que alimenta “Pois quê? Somos nós mais excelentes? De maneira nenhuma, pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado” ( Rm 3:9 ).

Tais obreiros eram obreiros da iniquidade, ou seja, obreiros que violavam a lei. Eram semelhantes ao juiz iníquo, que apesar de existir um código de leis a serem seguidas, era avesso ao seu dever. Por que ele era um juiz iníquo? Porque não existia lei? Não! Antes, o iníquo é aquele que não observa o prescrito.

Outro equivoco dos judaizantes está em considerar que Cristo veio cumprir a lei aos moldes daquilo que os judeus executavam, e isto pela seguinte passagem: “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir” ( Mt 5:17 ).

A multidão enquanto ouvia o discurso de Jesus poderia pensar que Ele estava destruindo o que constava na lei e nos profetas. Antes que chegassem a tal entendimento, Jesus se antecipa e afirma categoricamente que não veio anular o que estava posto, antes que Ele era o próprio cumprimento do que os profetas anunciaram. Em outras palavras, Cristo estava demonstrando que tudo o que estava previsto na lei e nos profetas estava cumprindo-se n’Ele.

Enquanto a lei era sombra, Cristo é a realidade, de modo que Ele não viveu segundo os rudimentos frágeis e pobres dos filhos de Jacó. Tudo o que foi predito acerca de Cristo foi cumprido, de modo que não foi omitido ‘nem um jota ou um til’, pois Cristo é o cumprimento da lei.

Diferente dos demais, Jesus entrava na casa dos pecadores e dos cobradores de impostos para comer ( Lc 5:30 ). Não jejuava aos moldes dos fariseus e escribas, antes praticava o verdadeiro jejum apregoado por Isaias ( Is 58:6 ; Mt 9:14 ). Jesus não guardava o sábado aos moldes dos seus acusadores “E alguns dos fariseus lhes disseram: Por que fazeis o que não é lícito fazer nos sábados?” ( Lc 6:2 ). Foi tido por comilão e beberão “Veio o Filho do homem, comendo e bebendo, e dizem: Eis aí um homem comilão e beberrão, amigo dos publicanos e pecadores. Mas a sabedoria é justificada por seus filhos” ( Mt 11:19 ).

Quando lemos que o apóstolo Paulo utilizava a lei e os profetas para persuadir os seus ouvintes ao evangelho, isto não quer dizer que ele estava impondo aos seus ouvintes os preceitos da lei mosaica. Ele se utilizava da lei e dos profetas para demonstrar que, o Jesus de Nazaré que crucificaram a pretexto de um a lei, na verdade era o Cristo de Deus “…procurava persuadi-los à fé em Jesus, tanto pela lei de Moisés como pelos profetas, desde a manhã até à tarde” ( At 28:23 ); “Porventura o trono de iniquidade te acompanha, o qual forja o mal por uma lei?” ( Sl 94:20 ).

Esta também foi a tônica da mensagem do apóstolo Pedro, que lanço mão dos salmos para demonstrar que seus compatriotas haviam crucificado o Autor da vida ( At 2:36 ). O apóstolo Pedro não expôs aos seus irmãos segundo a carne a lei mosaica, antes apresentou-lhes o Cristo, que é a justiça eterna, ou seja, o caminho, a verdade e a vida “A tua justiça é uma justiça eterna, e a tua lei é a verdade” ( Sl 119:142 ).

É temerário utilizar um termo e o seu significado isolado para emitir opinião acerca de uma verdade. Lançar mão do termo ανομος [anomos] para argumentar que a não observância da lei mosaica é iniquidade é argumento frágil, pois ler Moisés não é cumprir a lei “E até hoje, quando é lido Moisés, o véu está posto sobre o coração deles. Mas, quando se converterem ao Senhor, então o véu se tirará” ( 2Co 3:15 -16).

Semelhantemente, cumprir um quesito da lei, não é guardar a lei mosaica, pois qualquer que guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, é culpado “E de novo protesto a todo o homem, que se deixa circuncidar, que está obrigado a guardar toda a lei” ( Gl 5:3 ); “Todos os que querem mostrar boa aparência na carne, esses vos obrigam a circuncidar-vos, somente para não serem perseguidos por causa da cruz de Cristo” ( Gl 6:12 ).

Portanto, quando lemos que: “A circuncisão é nada e a incircuncisão nada é, mas, sim, a observância dos mandamentos de Deus” ( 1Co 7:19 ), não podemos concluir que os mandamentos de Deus refere-se a lei de Moisés, antes se faz necessário comparar a passagem com outros versos, e aí teremos o seguinte quadro: “Porque em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão tem valor algum; mas sim a fé que opera pelo amor” ( Gl 5:6 ).

A fé que opera pelo amor é o mesmo que observância dos mandamentos, de modo que ‘fé’ diz do mandamento em Cristo: crer naquele que Deus enviou, e o ‘amor’ diz da obediência exigida. Em outras palavras, o mandamento de Deus é a obediência da fé “Mas que se manifestou agora, e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações para obediência da fé” ( Rm 16:26 ; Rm 1:5 ).

Daí a advertência: “Porque há muitos desordenados, faladores, vãos e enganadores, principalmente os da circuncisão” ( Tt 1:10 ).

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Por que Deus é bom?

Se o homem for infiel, Deus permanece fiel. Se o homem não o invocar, não será perdoado, porém, Deus permanece bom. Deus não pode negar-se a si mesmo, Ele é imutável. Como pode ser isto? Deus permanece ‘bom’ mesmo quando castiga os transgressores? Sim! A bíblia é categórica: “Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação” ( Tg 1:17 ); “Porque eu, o SENHOR, não mudo; por isso vós, ó filhos de Jacó, não sois consumidos” ( Ml 3:6 ).


“LOUVAI ao SENHOR, porque ele é bom; porque a sua benignidade dura para sempre” ( Sl 136:1 )

Introdução

Deus é bom! Este é o posicionamento das Escrituras.

Além do predicativo ‘bom’, Deus é descrito como aquele que é detentor do perdão e pleno de bondade para com todos os que O invocam “Pois tu, Senhor, és bom, e pronto a perdoar, e abundante em benignidade para todos os que te invocam” ( Sl 86:5 ).

E quanto aos que não invocam a Deus? Deus é bom? Sim, Deus é bom! A Bíblia demonstra que se o homem for infiel, Ele permanece fiel, portanto, Deus é bom, mesmo quando o homem não O invoca “Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo” ( 2Tm 2:13 ).

Se o homem for infiel, Deus permanece fiel. Se o homem não o invocar, não será perdoado, porém, Deus permanece bom. Deus não pode negar-se a si mesmo, Ele é imutável. Como pode ser isto? Deus permanece ‘bom’ mesmo quando castiga os transgressores? Sim! A bíblia é categórica: “Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação” ( Tg 1:17 ); “Porque eu, o SENHOR, não mudo; por isso vós, ó filhos de Jacó, não sois consumidos” ( Ml 3:6 ).

Deus permanecerá ‘bom’ mesmo quando derramar o seu furor sobre os impenitentes? Como é possível haver tanto sofrimento na humanidade e Deus permanecer bom? É possível conciliar Deus ‘onipotente’ e ‘bom’ com o problema apresentado pela filosofia acerca da existência do mal?

Há quem considere estas questões como um problema teológico de grande magnitude, porém, o problema não está em Deus, e sim, quanto à compreensão de muitos que tentaram amalgamar filosofia com teologia.

 

Deus é bom

Deus é Deus, ou seja, onipotente, onisciente e onipresente. Também somos informados pela Bíblia que Deus é Senhor, Soberano, Pai, Rei, etc.

Mas, o que entender por ‘bom’ quando lemos: ‘Deus é bom’?

A primeira reação do leitor interessado em saber o significado verdadeiro do termo é buscar um dicionário e fazer a seguinte leitura:

“bom – adj. – 1. Que é como deve ser ou como convém que seja; 2. Que tem bondade; 3. Hábil, destro; 4. Trabalhador; 5. Favorável; 6. Lucrativo; 7. Espirituoso, engraçado; 8. Cumpridor dos seus deveres; 9. Seguro, sólido; 10. Regular, normal; 11. Adequado. – s. m. – 12. Homem bom”

Quais destes predicativos aplicam-se a Deus quando lemos ‘Deus é bom’? Os adjetivos elencados acima são todos pertinentes à visão de mundo do homem do nosso tempo, a visão do homem moderno. Para o homem moderno ‘bom’ refere-se a uma virtude pessoal, disposição permanente de uma pessoa em não fazer maldade, benevolente.

Mas, era esta a visão de mundo do salmista Davi quando afirmou: “Deus é bom”?

Embora o reinado de Davi seja classificado como teocrático, à sua época as sociedades se estruturavam e cultivavam uma cultura com princípio aristocrático, pois havia uma enorme distancia entre o rei e seus súditos. Nas relações sociais, havia uma distância enorme entre senhor e servo, fenômeno próprio às sociedades aristocráticas.

Em termos gerais aristocracia do grego αριστοκρατία, de άριστος (aristos), melhores; e κράτος (kratos), poder, Estado, se lê ‘poder dos melhores’, ou seja, diz de uma forma de governo em que um grupo elitista controla o poder político, sendo as cidades-estados dos Espartanos exemplo de estado governado por uma aristocracia.

Tal designação “poder dos melhores” nos faz recordar que, na antiguidade, os aristocratas eram designados ‘melhores’, ‘bons’, ‘senhores’, ‘distintos’, ‘escolhidos’.

Bons? Sim! O termo grego traduzido por ‘bom’ é ἀγαθούς (agathos), com origem em outra raiz correspondente ao substantivo Arete.

“… continha em si a conjugação de nobreza e bravura militar (…) quase nunca tem o sentido posterior de ‘bom’, como arete não tem o de virtude moral”  Jaeger, Werner, Paidéia, A Formação do homem Grego, tradução Artur M. Parreira, São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2003. Pág. 27; “Senhorio e arete estavam inseparavelmente unidos. A raiz da palavra é a mesma: άριστος, superlativo de distinto e escolhido…” Idem, Pág. 26.

A condição de senhorio era perfeita do ponto de vista funcional, ou seja, ausente a nuance moral que a nossa sociedade está acostumada e louva, de modo que a condição senhor guardava relação intrínseca à ideia de bom.

Friedrich Nietzche em sua obra ‘A genealogia da moral’, fez a seguinte observação:

“… que significam exatamente, do ponto de vista etimológico, as designações para ‘bom’ cunhadas pelas diversas línguas? Descobri então que todas elas remetem à mesma transformação conceitual – que, em toda parte, ‘nobre’, ‘aristocrático’, no sentido social, é o conceito básico a partir do qual necessariamente se desenvolveu ‘bom’, no sentido de ‘espiritualmente nobre’, ‘aristocrático’, de ‘espiritualmente bem-nascido’, ‘espiritualmente privilegiado’: um desenvolvimento que sempre corre paralelo àquele outro que faz ‘plebeu’, ‘comum’, ‘baixo’ transmutar-se finalmente em ‘ruim’” Nietzche, Friedrich, Genealogia da moral – Uma polêmica, Tradução Paulo César de Souza, São Paulo: Companhia das Letras, 2009. Pág. 18.

Traduzir o termo grego agathos por ‘bom’ em virtude da transformação do significado ao longo dos séculos transtorna a ideia que a bíblia apresenta, pois a palavra grega ‘agathos’, em virtude do contexto bíblico onde está inserida, deveria ser traduzida por ‘nobre’, pois a raiz etimológica da palavra ‘agathos significa ‘alguém que é, que tem realidade, que é real, verdadeiro’. Com relação ao termo, Nietzche assevera que, mesmo com relação a uma mudança subjetiva, o termo significa ‘o verdadeiro enquanto veraz’. O termo era empregado para levar adiante o lema da nobreza, de modo a distinguir o nobre do homem comum, mentiroso (Jaeger, Paidéia, Pág. 19).

Qual o sentido de ‘verdadeiro’, quando se lê: “De maneira nenhuma; sempre seja Deus verdadeiro, e todo o homem mentiroso; como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras, e venças quando fores julgado” ( Rm 3:4 ). Ou, qual o sentido de ‘mentiroso’? Neste verso, o significado de ‘verdadeiro’ e ‘mentiroso’ possui conotação moral? Refere-se ao caráter do indivíduo? Observe:

“E os servos, saindo pelos caminhos, ajuntaram todos quantos encontraram, tanto maus como bons; e a festa nupcial foi cheia de convidados” ( Mt 22:10 );

Como interpretar a parábola? Os maus e os bons que os escravos trouxeram a mando do seu senhor possui conotação moral? Não! No texto, maus e bons tem o sentido de ‘vis’ e ‘nobres’, ‘pequenos’ e ‘grandes’, pois o Senhor da parábola não faz acepção de pessoas.

“Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos” ( Mt 5:45 ).

No sermão da montanha, qual o sentido de maus e bons? Ora, sabemos que Deus não faz acepção de pessoas, e que o sol nasce sobre nobres e comuns, justos e injustos, portanto, o sentido das palavras ‘maus’ e ‘bons’ não podem ser interpretadas em sua acepção moral.

“A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz; Se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso” ( Mt 6:22 -23).

Os olhos podem ser moralmente maus ou bons? Ou o sentido de ‘mau’ e ‘bom’ refere-se à ideia de simples, comum, contrastando com a ideia de bom, são, nobre? O comentarista Barclay recomenda traduzir ‘bom’ por generoso, porém, não é a tradução correta, pois a ideia de generoso refere-se à liberalidade dos nobres em fazerem o que quisessem com o que lhes pertencia.

“Para obter um texto mais fiel ao original devemos traduzir aqui generoso em lugar de bom ou simples. Jesus elogia o olho generoso” Barclay, Willian, Comentário do Novo Testamento. Pág. 264.

Daí, a seguinte passagem:

“Ou não me é lícito fazer o que quiser do que é meu? Ou é mau o teu olho porque eu sou bom?” ( Mt 20:15 )

Diante da liberalidade que era próprio aos ‘bons’ fazerem o quem bem entendessem com o que lhes pertencia, o nobre em questão repreende os trabalhadores que censuraram o seu ato. Segundo a visão do homem do nosso tempo, a conduta do empregador é um despautério, pois ele iguala os trabalhadores ao conceder o mesmo salário a todos sem considerar o tempo de trabalho de cada um, porém, segundo a visão do homem à época de Cristo, o despautério surge quando o homem comum contesta a liberalidade do nobre “Por três coisas se alvoroça a terra; e por quatro que não pode suportar: Pelo servo, quando reina; e pelo tolo, quando vive na fartura; Pela mulher odiosa, quando é casada; e pela serva, quando fica herdeira da sua senhora” ( Pv 30:21 -23).

Jaeger analisando os poemas de Teógnis, registrou:

“O poeta aconselha a que se evite o trato com os maus (kakoi), em que o poeta engloba todos os que não pertencem a uma estirpe nobre; por outro lado, também, nobres (agathos) só se acham entre seus iguais” (Jaeger, Paidéia, 244).

Quando se faz análise dos textos bíblicos, não se deve limitar a fazer uso somente do significado que os termos possuem em nossos dias, fruto da concepção que a nossa sociedade imprimiu a certos termos.

Além disso, quando lemos certos termos nas Escrituras, devemos compreendê-los com os olhos da sociedade à época, e fugir da visão de mundo trabalhada pelos princípios filosóficos da época, pois a matéria que os filósofos da época especulavam não era afeta, nem mesmo ao homem daquela sociedade, antes era matéria de ordem ontológica, portanto, distante da concepção sociocultural dos escritores da bíblia.

Enquanto a sociedade definia as coisas de modo funcional, filósofos como Platão, passaram a formular questões acerca da natureza do ser, da realidade, da existência dos entes e das questões metafísicas, e o conhecimento que estavam produzindo à época, possuía uma carga moral e ética, o que ainda não era vivenciada pela sociedade.

Jaeger assevera que os termos ‘arete’ e ‘bom’, na Grécia antiga, não tinham conotação de virtude moral, daí a pergunta: quando estes termos passaram a ser utilizados com conotação moral? Quando filósofos como Sócrates e Platão, através da especulação do conhecimento e da ciência, concederam à filosofia um fim moral pelo fato de ser uma ciência que especula aspectos e problemas de ordem ontológica.

Enquanto em Sócrates a especulação limitava-se às questões ontológicas e moral, Platão enveredou-se pela estrada da metafísica e da cosmologia. Em Platão floresceu uma filosofia humanista, religiosa e moralista. Tem-se nas obras de Platão muito do que é anunciado pelos espíritas e pelos católicos, como a ideia da reencarnação e do purgatório.

O ‘bom’ que designava os nobres, passou a designar o bem, o mundo ideal, o mundo das ideias. A matéria de Platão trouxe uma revolução de conceitos, porém, o povo de sua época e as gerações seguintes, não mudou de imediato a sua práxis. Quando Jesus veio, tal concepção filosófica ainda não fazia parte do povo, principalmente daqueles que se utilizavam do grego Koine.

O maior problema surgiu com a filosofia elaborada pelos primeiros padres, a Patrística. Quando criaram liturgias, disciplinas, costumes, etc., amalgamando conceitos platônicos e socráticos à doutrina dita cristã. Já no primeiro século, vê-se na Didaquê forte tendência moralista e dogmática, influencia clara dos costumes ascéticos.

É possível piorar? Sim! Erasmo de Roterdam incluiu Sócrates como mártir pré-cristão, de modo que rogava: “Sancte Socrates, ora pro nobis!”  (Jaeger, Paidéia, 493). Jaeger aponta que, até o pietismo abrigou-se nos braços de Sócrates, pois viam nele certa afinidade espiritual (Idem, pág. 494). O que dizer de Agostinho, que se baseou no pensamento de Platão?

Enquanto Jesus ensinou ser Ele mesmo o caminho que conduz o homem a Deus, a cristandade viu na filosofia platônica a necessidade de refrearem os prazeres mundanos, propondo a pratica de um estilo de vida austero, perseguindo praticas tidas por virtuosas, afim de adquirir uma espiritualidade maior. Dai, que muitos padres aderiram ao ideal ascetico, acreditando que a purificação do corpo ajudaria na purificação da alma.

Daí por diante, todas as vezes que se faz referência a Deus como ‘bom’, o texto é impregnado com a ideia de perfeição moral, desprezando o fato de que Ele é Senhor. É neste ponto que, diversas questões surgem: se Deus é bom, por que existe o mal?

Tais questões tem o objetivo de cegar o homem para que não veja a verdade. Assim como a pergunta de Satanás no Éden enfatizou uma proibição exacerbada em detrimento da liberdade concedida ( Gn 3:1 ), a pergunta: ‘se Deus é bom, por que existe o mal?’, faz surgir paradoxos, que na realidade, não passam de pretensas contradições fruto de uma má leitura da bíblia e do seu contexto histórico.

O objetivo deste artigo é demonstrar que Deus é bom, independente do fato de ter polpado os homens de Nínive ou feito sucumbir Sodoma e Gomorra com milhares de crianças inocentes ( Gn 19:25 ; Jn 4:11 ). Tais eventos não descaracterizam e nem caracterizam o Deus da bíblia como ‘bom’ ou ‘mal’.

 

Ninguém há bom, senão um, que é Deus

“Jesus lhe disse: Por que me chamas bom? Ninguém há bom, senão um, que é Deus” ( Lc 18:19 )

Quando Jesus afirma categoricamente: “Ninguém há bom, senão um, que é Deus”, estava focado em apresentar uma resposta ontológica ao problema do mal? A asserção “Ninguém, há bom, senão um, que é Deus” refere-se a alguma questão de ordem filosófica?

Digo que não! Jesus não estava tratando de questões filosóficas como a natureza do ser, a realidade, a existência dos entes e nem de questões metafísicas.

Porém, quando dizemos: “Deus é bom!”, a primeira questão levantada pelos acadêmicos é: ‘Se Deus é ‘onipotente’ e ‘bom’, por que permite a existência do mal e do sofrimento?’, e colocam tal questão em um pedestal como sendo a pergunta mais difícil da história da teologia cristã.

É aceitável que um não cristão apresente um paradoxo, como é o caso do paradoxo de Epicuro. Por que aceitável? Porque quem formulou o paradoxo desconhece a natureza de Deus!  Epicuro afirmou que Deus e o mal não podem coexistir caso Deus seja onisciente, onipotente e benevolente, porém, Deus mesmo afirma que é conhecedor do bem e do mal “Então disse o SENHOR Deus: Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal” ( Gn 3:22 ).

Deus é Senhor, nobre, ou seja, bom e, conhecedor do bem e do mal, pois Ele como Senhor recompensará todos os homens e, dará o bem a uns e o mal a outros, tudo em função do que procuraram “O qual recompensará cada um segundo as suas obras; a saber: A vida eterna aos que, com perseverança em fazer bem, procuram glória, honra e incorrupção; Mas a indignação e a ira aos que são contenciosos, desobedientes à verdade e obedientes à iniquidade; Tribulação e angústia sobre toda a alma do homem que faz o mal; primeiramente do judeu e também do grego; Glória, porém, e honra e paz a qualquer que pratica o bem; primeiramente ao judeu e também ao grego; Porque, para com Deus, não há acepção de pessoas” ( Rm 2:6 -11).

Deus é Senhor, Deus é bom e, ao mesmo tempo, Ele é benigno e severo “Considera, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas para contigo, benignidade, se permaneceres na sua benignidade; de outra maneira também tu serás cortado” ( Rm 11:22 ), ou seja, é Deus que instituiu o castigo para os transgressores, de modo que se diz: “Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas” ( Is 45:7 ).

Em que sentido Deus cria o mal? No sentido de retribuição, justiça, de modo que, retribui com benignidade os puros e com rigidez os perversos “E me retribuiu o SENHOR conforme a minha justiça, conforme a minha pureza diante dos seus olhos. Com o benigno, te mostras benigno; com o homem íntegro te mostras perfeito. Com o puro te mostras puro; mas com o perverso te mostras rígido” ( 2Sm 22:25 -27); “Com o benigno te mostrarás benigno; e com o homem sincero te mostrarás sincero” ( Sl 18:25 ).

Este era o posicionamento de um senhor: “Respondendo, porém, o seu senhor, disse-lhe: Mau e negligente servo; sabias que ceifo onde não semeei e ajunto onde não espalhei? Devias então ter dado o meu dinheiro aos banqueiros e, quando eu viesse, receberia o meu com os juros” ( Mt 25:26 -27). Para com os servos bons, benevolência, para os maus, as trevas exteriores.

Este é o posicionamento de Cristo: “E quando o Filho do homem vier em sua glória, e todos os santos anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória; E todas as nações serão reunidas diante dele, e apartará uns dos outros, como o pastor aparta dos bodes as ovelhas (…) E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna” ( Mt 31-32 e 46).

Quando Jesus convida: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” ( Mt 11:28 -30), o leitor com a visão ampliada verá Cristo como ‘bom’, ‘senhor’, ‘nobre’ e, ao mesmo tempo, benevolente, pois aos que se sujeitam a Ele lhes é dado uma fardo leve.

No alerta: “Eu crio o mal”, temos referencia ao fato de Deus ter suscitado algumas nações visinhas como vara de correção, de modo a dar a entender ao povo de Israel a necessidade de se converterem ( Is 1:5 ), porém, a despeito do castigo aplicado ao povo de Israel, Deus é justo, e conforme alertou, aplicou o castigo antes da ira.

Em outra instância, além da salvação e da perdição, Deus retribuirá a cada um segundo as suas obras.

Quando Deus criou o homem deu-lhe o poder de decisão. Como os dons de Deus são irrevogáveis, mesmo após o pecado, o homem continuou de posse da sua liberdade de decidir, pois o domínio sobre a terra foi dado aos homens. Ora, quando Deus se fez homem e retornou vitorioso aos céus, conclamou: é me dado todo poder, nos céus e na terra!

Como os homens são livres e exercem domínio sobre a terra, podem fazer o quem bem entenderem. Há outro ponto, como o homem tornou-se como Deus, sabedor do bem e do mal, também tem a capacidade de analisar as ações dos seus semelhantes e comunicar o bem e o mal.

O problema do mal surge quando o homem deixa de lado o senso de justiça, e passa a praticar o mal por prazer. A ideia de retribuição é posta de lado, e o indivíduo por ser entenebrecido no entendimento se lança na pratica de maldades. Embora conheça as ações de tais indivíduos, Deus não intervém, pois todos os homens quando introduzidos no mundo estão sob condenação e como Deus, conhecedores do bem e do mal.

Ora, o bem e o mal foram apresentados no Éden através de um fruto, de modo que o bem e o mal são inseparáveis. O bem e o mal são composições que dá sabor ao fruto. São faces de uma mesma moeda.

Como compreender tal realidade? Quando um pai educa um filho e o corrige, a correção em certo aspecto tem aparência de mal, porém, o pai busca o bem. Já alguém que dá esmola parece estar fazendo o bem, porém, tal ato perpetua a miserabilidade de quem vive de esmolas, o que na realidade é um mal. Tais exemplos mostram que o bem e o mal são inseparáveis.

Segundo a bíblia, a justiça de Deus não tarda e nem falha, pois a justiça de Deus foi exercida na primeira transgressão e, de modo que todos os homens foram condenados, independente de suas ações. Porém, com relação às ações cotidianas, Deus há de pedir conta a cada homem, quer sejam justos ou injustos, e com relação a isto não haverá acepção de pessoas. Para os justos tal conta será acertada no Tribunal de Cristo, e para com os injustos, no Grande Trono Branco.

O apóstolo Paulo alertou os cristãos a que não se deixassem prender por questões de ordem filosóficas, porém, o que mais encontramos na teologia, seja contemporânea ou clássica, são questões segundo os rudimentos do mundo “Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo” ( Cl 2:8 ).

Por imiscuir-se na filosofia, muitos cristãos afirmam que estas questões são afetas a quem crê em Deus onipotente e amoroso.

“A rigor, a desgraça humana, ou o mal em todas as suas formas, é um problema somente para a pessoa que crê num Deus único, onipotente e todo amoroso” Anderson, Francis I. apud Luiz Sayão em ‘Se Deus é bom, por que existe o mal?’, artigo disponível na web.

O que se percebe é que há muitos teólogos que são defensores de Deus, mas desconhecem a sua palavra. E pior, enquanto as armas do cristão deve restringir-se a palavra de Deus, porque ela é poderosa para destruir fortalezas, tais estudiosos estão de posse das armas ofertadas pelo mundo “Porque as armas da nossa milícia não são carnais, mas sim poderosas em Deus para destruição das fortalezas” ( 2Co 10:4 ; 2Co 6:7 ; Rm 13:12 ).

Com a visão turvada em função de impressões modernas, alguns tradutores foram compelidos a utilizar o termo ‘bom’ em lugar de ‘nobre’. Trocar ‘nobre’ por ‘bom’ transtornou a ideia do texto. Desprezar a raiz etimológica do termo ‘agathos’, que significa ‘alguém que é, que tem realidade, que é real, verdadeiro’, trouxe prejuízo a compreensão do texto.

Quando dizemos que Deus é Nobre, Senhor, Bom, estamos expressando o senhorio de Deus e a nossa submissão a Ele. Deus é o Eu sou, aquele que é, que tem realidade, que é real, verdadeiro, conceito superior ao que encontramos em nossos dicionários. Através deste conceito próprio ao termo ‘agathos’, a concepção, a ideia, proveniente da frase ‘Deus é bom’ transmuta-se e transmite um significado singular.

Quando consideramos que Deus é bom, nobre, distinto, Senhor, Pai, não há contradição alguma entre severidade e bondade “Considera, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas para contigo, benignidade, se permaneceres na sua benignidade; de outra maneira também tu serás cortado” ( Rm 11:22 ).

Deus é severo e benigno em razão de ser nobre, superior, ou seja, bom, o que exclui qualquer tipo de paradoxo entre Deus ser bom e haver sofrimento no mundo.

Se os teólogos ao longo dos séculos vêm ignorando a raiz etimológica do termo ‘agathos’, resta-nos a seguinte pergunta: o que fizeram com o termo ‘agape’, palavra grega traduzida por amor?

 Claudio Crispim

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O que vem primeiro: o arrependimento ou a fé?

O dom de Deus foi manifesto e anunciado a todos os homens e é esta mensagem (fé) que concede poder a todos que nela confiam ( Jo 1:12 ). A palavra é viva e eficaz! Ela não volta vazia! Faz tudo que lhe apraz! Ou seja, o homem só passa a ‘ouvir’ quando dá credito a fé que lhe foi anunciado. É por isso que o ‘ouvir’ vem pela palavra de Deus, pois só dá credito (ouvem) a palavra de Deus aqueles que são de Deus ” Quem é de Deus escuta as palavras de Deus; por isso vós não as escutais, porque não sois de Deus” ( Jo 8:47 ).


O que vem primeiro: a fé ou o arrependimento? A resposta a esta pergunta não afeta a doutrina do arrependimento e nem a verdade sobre a fé, porém, é imperioso afirmar que a ‘fé’ vem primeiro que o arrependimento e, após o arrependimento tem-se novamente a ‘fé’, pois o apóstolo Paulo deixa claro que a justiça de Deus é de ‘fé’ em ‘fé’ ( Rm 1:17 ).

A concepção de que não há anterioridade entre fé e arrependimento é errônea e decorre da não compreensão do que é ‘fé’.

Se o interprete se socorrer somente de um dicionário para abstrair o conceito de fé existente nas Escrituras, jamais fará uma boa leitura da Bíblia. Embora muitos afirmem que ‘fé’, do Latim ‘fides’ (fidelidade) e do grego ‘pistia’ significa firme opinião de que algo é verdade, sem a necessidade de qualquer tipo de prova ou critério objetivo de verificação, apoiado em uma absoluta confiança que se deposita em uma ideia, tal definição não reflete a verdade bíblica.

Portanto, se o leitor da Bíblia verificar que Cristo é a fé que havia de se manifestar ( Gl 3:23 ), e que Ele é preexistente ( Cl 1:17 ), temos que a ‘fé’ é a mesma ontem, hoje e será (é) eternamente, o que não podemos dizer do arrependimento ( Hb 13:8 ).

Na sua grande maioria os interpretes das Escrituras não se dão conta que a palavra ‘fé’ quando empregada nas escrituras (em muitos dos casos) é uma figura de linguagem denominada ‘metonímia’ ou ‘transnominação’, que consiste no emprego de um termo por outro, dada a relação de semelhança ou a possibilidade de associação entre eles.

Quando Judas diz que o cristão deve batalhar pela ‘fé’ que uma vez foi dada aos santos, o termo ‘fé’ substituiu a ideia pertinente ao termo ‘evangelho’, dada a possibilidade de associação entre os termos, tendo em vista que o evangelho é a causa da crença (fé), e a fé (crença) consequência do evangelho ( Jd 1:3 ).

De modo similar, Cristo é a ‘fé’ que havia de se manifestar, visto que Cristo é o tema central da mensagem do evangelho e, concomitantemente, o autor e consumador da ‘fé’ (evangelho), ou seja, o recurso de estilo acaba substituindo a obra (fé) pelo autor (Cristo).

A ‘obediência da fé’ que consta em Romanos 1, verso 5 é um modo utilizado pelo apóstolo Paulo substituir o termo ‘evangelho’ pelo termo ‘fé’, ou seja, substitui-se a causa pelo efeito.

No verso 8 do mesmo capítulo, o apóstolo Paulo dá graças a Deus porque em todo o mundo é ‘anunciado o evangelho’, porém, ele substitui o termo ‘evangelho’ pelo termo ‘fé’, ou seja, em todo o mundo é anunciado a vossa fé ( Rm 1:8 ).

Estabelecendo a relação entre ‘fé’ e ‘mensagem do evangelho’, e ‘evangelho’ igual a ‘Cristo’, temos que Cristo é a palavra encarnada e, como o Verbo encarnado é pré-existente, temos que a ‘fé mutua’ (evangelho) é anterior ao arrependimento.

Porém, como a mensagem do evangelho (a ‘fé’ que foi dada aos santos), produz naqueles que ouvem ‘confiança’, o que comumente também denomina-se ‘fé’, neste sentido o termo ‘fé’ assume o valor de descansar (confiar) na esperança proposta (evangelho), ou seja, é o mesmo que crer ( Rm 10 : Hb 11:6 ).

Mesmo o apóstolo Paulo deixando claro que a justiça de Deus é de fé (evangelho) em fé (crer), poucos fazem distinção entre causa e efeito, ou entre o que é eterno (evangelho, Verbo que se fez carne) e o que um dia será tirado (fé como crer, acreditar, descansar, esperança) ( 1Co 13:13 ).

Deste modo é possível definir que ‘fé’ para a salvação é o mesmo que evangelho, pois assim o apóstolo Paulo define: “Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação…” ( Rm 1:16 ).

Neste sentido temos que, pelo evangelho (fé) os homens são salvos, ou seja, o evangelho é dom de Deus “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” ( Ef 2:8 ). Cristo se identificou como o dom de Deus à samaritana, ou seja, a fé que havia de se manifestar ( Jo 4:10 ).

O dom de Deus foi manifesto e anunciado a todos os homens e é esta mensagem (fé) que concede poder a todos que nela confiam ( Jo 1:12 ). A palavra é viva e eficaz! Ela não volta vazia! Faz tudo que lhe apraz! Ou seja, o homem só passa a ‘ouvir’ quando dá credito a fé que lhe foi anunciado. É por isso que o ‘ouvir’ vem pela palavra de Deus, pois só dá credito (ouvem) a palavra de Deus aqueles que são de Deus ” Quem é de Deus escuta as palavras de Deus; por isso vós não as escutais, porque não sois de Deus” ( Jo 8:47 ).

Crer só é possível através do ‘ouvir’ ( Rm 10:14 ; Mt 13:23 ), e o ‘ouvir’ (dar crédito, crer, ter fé) só é possível pela palavra de Deus, portanto, a justificação é de fé em fé. O verbo ‘ouvir’ deve ser compreendido como ‘dar crédito’, ‘descansar’, ‘crer’.

Quando se ‘ouve’ a palavra de Deus (fé) o homem tem elementos suficientes para ter uma mudança de mente, uma mudança de compreensão (metanóia). O arrependimento é mudança de compreensão “Mas, o que foi semeado em boa terra é o que ouve e compreende a palavra; e dá fruto, e um produz cem, outro sessenta, e outro trinta” ( Mt 13:23 ).

Quando se ouve (evangelho) e compreende, a nova compreensão é o resultado do arrependimento (metanóia), que faz com que o homem descanse na promessa estabelecida em Cristo (crer).

Quando o homem crê em Cristo, tendo em vista a mudança de concepção (metanóia) operada pelo evangelho, que é poder de Deus e semente incorruptível, o homem é de novo gerado, segundo Deus em verdadeira justiça e santidade.

Através do evangelho é enxertada no homem a semente de Deus. Através do evangelho ocorre o lavar regenerador do Espírito, momento em que Deus concede ao homem um novo coração e um novo espírito ( Ez 36:25 ; Sl 51:10 ).

A regeneração não é algo que Deus realiza na mente do homem, antes a regeneração diz da criação do novo homem, pois após a velha criatura ser morta e sepultada com Cristo, Deus faz tudo novo, momento que passa a existir uma nova criatura.

O arrependimento não é mudança de coração e vontade. A mudança de coração só Deus pode operar e se dá na regeneração através da circuncisão de Cristo, pois é através do espargir de água pura (evangelho) que Ele concede novo coração e novo espírito.

Já com relação à vontade, é algo pertinente ao cristão, tendo em vista que o apóstolo Paulo deixa bem claro: “Transformai-vos pela renovação do vosso entendimento…” ( Rm 12:2 ).

A regeneração não muda a mente, antes só muda o coração e o espírito, pois após regenerado o homem permanece de posse da sua memória. Embora o apóstolo Pedro já estivesse limpo pela palavra de Cristo, contudo a sua mente continuava embotada, ou seja, demandava por parte do apóstolo transformar o seu entendimento.

A mudança radical que ocorre no homem é pertinente à sua natureza, que antes era carnal e, agora, em Cristo, é participante da natureza divina. Antes estava em trevas e, agora, foi transportado para o reino da luz. Antes filhos da desobediência e da ira e, agora, filhos de Deus pela fé (crença) em Cristo (tema do evangelho).

Não se deve pensar o arrependimento como mudança da mente em referência a pecados de cunho moral, pois se assim fosse, a ideia que estabelecia ‘paenitentia’ como arrependimento (o que é completamente diverso de ‘metanóia’), seria plenamente válida, e os posicionamentos dela decorrente como os pecados veniais e capitais somados às indulgências.

Arrepender-se é mudar de concepção de como o homem se salva, o que o leva a crer na esperança proposta em Cristo.

Aliado ao tema arrependimento tem-se a ‘confissão’, que é ‘reconhecimento’ da condição sob o pecado: alienado de Deus.

A palavra traduzida do grego por ‘confessar’ significa ‘admitir’, ‘assumir’, ‘reconhecer’. Quando se confessa pecado é o mesmo que admitir a sua real condição sob domínio do pecado. De igual modo, quando se ‘confessa’ a Cristo é reconhecê-Lo, admitir que Cristo é o Filho de Deus e salvador do mundo.

Quando há o arrependimento (metanóia), o homem admite (confessa) que Cristo é salvador.

Portanto, o evangelho é a mensagem de que, pela graça o homem é salvo, o que opera a mudança de concepção (metanóia). Após ter contato com a mensagem do evangelho o homem admite (confessa) que é pecador e, em decorrência da mudança de pensamento acerca de como ser salvo, repousa em Cristo.

Quando Jesus, após a ressurreição, abriu o entendimento dos discípulos, para que entendessem as Escrituras, Ele lhes disse: “Assim está escrito que o Cristo havia de padecer e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações, começando de Jerusalém” ( Lc 24:46 -47).

Jesus não exigiu ‘penitencia’ e nem ‘confissão’ de pecados de cunho moral junto a sacerdotes, antes ele ordena que se pregue a mudança de concepção (arrependimento), pois só em seu nome há a remissão de pecados.

Quando Pedro pregou à multidão, no Dia de Pentecostes, os ouvintes foram constrangidos a perguntar: “Que faremos, irmãos?”. Pedro respondeu: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados” ( At 2:37 -38). A mensagem era simples: mudem de concepção (metanóia) e, sejam batizados em Cristo para remissão de pecado.

O apóstolo Paulo testificou que “… tanto a judeus como a gregos o arrependimento para com Deus é a fé em nosso Senhor Jesus” ( At 20:21 ), ou seja, tanto judeus quanto gentios precisam mudar de concepção, ou seja, devem aceitar a mensagem do evangelho crendo em Cristo.

O cristão deve permanecer firme na fé (evangelho) ( 1Co 16:13 ), enquanto o não crente precisa abandonar a sua própria concepção e crer na esperança proposta, o que se denomina arrependimento (metanoia), que é mudança especifica de pensamento para que o homem aceite a Cristo como salvador ( Rm 21:2 ).

O evangelho (fé) vem primeiro que o arrependimento, pois a mudança de pensamento (metanóia) resulta do evangelho.

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A figueira estéril na vinha

Jesus demonstrou que todos os homens, não importando se judeus ou gentios, estavam em igual condição diante de Deus. Deste modo, caso os judeus, que se consideravam privilegiados diante de Deus por serem descendentes da carne de Abraão não mudassem de conceito, de igual modo pereceriam, passariam para a eternidade sem Deus e sem salvação.


“Um certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha, e foi procurar nela fruto, não o achando. E disse ao vinhateiro: Eis que há três anos venho procurar fruto nesta figueira, e não o acho; corta-a; por que ocupa ainda a terra inutilmente? E, respondendo ele, disse-lhe: Senhor, deixa-a a este ano, até que eu a escave e a esterque; E, se der fruto, ficará, e, se não, depois a mandarás cortar” ( Lc 13:6 -9)

O homem que procurou fruto na figueira plantada em sua vinha e não achou, representa o Senhor Deus, o vinhateiro representa a pessoa de Cristo e a figueira o povo judeu. Então, como interpretar as relações que envolvem as figuras desta parábola? Por que a figueira não produzia fruto? Por que a figueira deveria ser cortada?

Para compreender todas as nuances que a parábola apresenta, faz-se necessário socorrer-nos do contexto em que ela foi citada e construir um paralelismo com outro texto bíblico.

 

Galileus e Judeus

O Senhor Jesus estava anunciando as boas novas do reino aos homens ( Lc 12:1 -59), e, naquele ínterim, percebeu a conversa de algumas pessoas, que pelo contexto, entende-se tratar de judeus “E, NAQUELE mesmo tempo, estavam presentes ali alguns que lhe falavam dos galileus, cujo sangue Pilatos misturara com os seus sacrifícios” ( Lc 13:1 ).

O texto enfatiza que estes judeus queriam demonstrar quão condenáveis eram os galileus que foram mortos por Pilatos. – Que sacrilégio! Estavam sacrificando aos ídolos. Argumentavam eles.

Porém, Jesus lhes responde: “Cuidais vós que esses galileus foram mais pecadores do que todos os galileus, por terem padecido tais coisas?” ( Lc 13:2 ). Ou seja, Jesus questiona o entendimento dos judeus.

O fato de aqueles judeus apresentarem a calamidade envolvendo galileus como sendo uma prova da punição de Deus em decorrência de serem pecadores, demonstra que estavam esquecidos da calamidade que ocorreu em Jerusalém, precisamente com a torre de Siloé, e Jesus os faz recordar o ocorrido.

O entendimento deles estava embotado, visto que Jesus demonstrou-lhes que os galileus que foram mortos não eram mais culpáveis que o restante, e que os judeus que lhe apresentaram aquela calamidade não estavam em melhor condição, pois, se não mudassem de entendimento, de igual modo pereceriam “Não, vos digo; antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis” ( Lc 13:3 ).

Ora, a queda da torre de Siloé possivelmente vitimou alguns judeus, e Jesus demonstra que as calamidades não escolhem entre galileus ou judeus, o que não prova a culpabilidade de ninguém, porém, se os judeus que ali estavam não mudassem de conceito, de igual modo pereceriam “E aqueles dezoito, sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou, cuidais que foram mais culpados do que todos quantos homens habitam em Jerusalém? Não, vos digo; antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis” ( Lc 13:4 -5).

A morte da qual o Senhor Jesus apresenta como ‘de igual modo’ não diz da finalização das funções vitais por meios trágicos, antes diz da condição de perdido, que era comum tanto aos galileus quanto aos judeus.

Jesus demonstrou que todos os homens, não importando se judeus ou gentios, estavam em igual condição diante de Deus. Deste modo, caso os judeus, que se consideravam privilegiados diante de Deus por serem descendentes da carne de Abraão não mudassem de conceito, de igual modo pereceriam, passariam para a eternidade sem Deus e sem salvação.

 

Arrependimento

Outra passagem bíblica que fala de arrependimento e também faz referência à árvore, é a passagem de João Batista: “E dizendo: Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus (…) E, vendo ele muitos dos fariseus e dos saduceus, que vinham ao seu batismo, dizia-lhes: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento; E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão. E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo” ( Mt 3:2 e 7-10).

Entre a passagem de João Batista e o contexto que foi proferida a parábola da figueira estéril, existe um paralelismo sem igual:

  • Em ambos, os judeus presumiam de si mesmo que eram filhos de Deus por serem descendentes da carne de Abraão, mesmo após o batismo de João, e na parábola da figueira, presumiam que os galileus que foram mortos por Pilatos eram mais pecadores que todos os outros galileus;
  • Em ambos, os judeus foram repreendidos quanto ao que pensavam de si mesmos.
  • Em ambos, os judeus são apontados como infrutíferos, não produz o fruto requerido por Deus;
  • Em ambos, a árvore está prestes a ser cortada.

Qual é o fruto digno do arrependimento? Qual o fruto que certo homem foi procurar na figueira e não encontrou? Porque o machado está posto a raiz das árvores?

Jesus demonstrou certa feita que os escribas e fariseus pareciam justos aos olhos dos homens, tendo em vista o regramento e a moral deles, porém, eram hipócritas, visto que, no interior estavam plenos de iniquidade “Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e de iniquidade” ( Mt 23:28 ).

Como a figueira produziria fruto? Ele dá a resposta: “… de mim é achado o teu fruto” ( Os 14:8 ).

Que fruto Deus esperava encontrar na figueira? Ele dá a resposta: É o fruto dos lábios que Deus cria “Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz, para o que está longe; e para o que está perto, diz o SENHOR, e eu o sararei” ( Is 57:19 ).

Mas, para a ‘figueira’ produzir fruto, necessariamente os israelitas teriam que estar ligados à videira verdadeira, pois Cristo mesmo diz: “Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” ( Jo 15:5 ).

O vinhateiro estava cuidando da figueira há três anos, porém, quando o dono da vinha veio verificar se havia fruto na figueira, não encontrou. Por que não produziam fruto? Porque rejeitaram a Cristo, o fruto dos lábios, que é boas novas de paz aos que estão longe (gentios) e aos que estão perto (judeus).

O fruto proveniente de Deus, os judeus rejeitaram. Não quiseram estar ligados a Oliveira verdadeira ( Ef 2:17 ).

O fruto dos lábios que os judeus produziam era: ‘para que o homem possa ser salvo é necessário tornar-se um prosélito, circuncidar-se, cumprir a lei e seguir os ritos’. Na condição de prosélito (convertido ao judaísmo), o homem passava a declarar que era salvo por ser um dos descendentes de Abraão “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós” ( Mt 23:15 ; Ex12:48 ).

Ao aceitarem o ensinamento judaico, os prosélitos eram circuncidados e faziam a oferta de sacrifício segundo a lei, rito importante para os judeus, considerado como um novo nascimento, o início de uma nova vida, que ali estava mais um filho de Abraão. Porém, este era o maior erro deles, pois não eram filhos de Abraão e induziam as pessoas a erro, tornando-as duas vezes mais, filhas do inferno. Por quê? Porque, além de serem descendentes da carne de Adão e, portanto, filhos da desobediência e da ira, agora acreditavam que eram filhos de Abraão.

O fruto que deviam produzir era confessar e professar o nome de Cristo do mesmo modo que o apóstolo Pedro professou diante da multidão: “E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” ( At 4:12 ).

Os escribas e fariseus professavam que eram filhos de Deus por serem descendentes da carne de Abraão, e diante da mensagem: Arrependei-vos, por que é chegado o Cristo, não mudaram a concepção ( Mt 3:9 ). Os judeus permaneceram apresentando uma religião enraizada na lei mosaica, elevada moral e comportamento ascético, o que atraía muitas pessoas.

Se houvessem verdadeiramente ‘arrependido’ (metanoia), teriam mudado de concepção e aceitariam o Cristo ( Jo 8:33 ). Não seriam cortados, porque se professassem o nome de Jesus como salvador, seriam plantação de justiça “A ordenar acerca dos tristes de Sião que se lhes dê glória em vez de cinza, óleo de gozo em vez de tristeza, vestes de louvor em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem árvores de justiça, plantações do SENHOR, para que ele seja glorificado” ( Is 61:3 ), pois somente seria cortada a planta que o Pai não plantou: “Ele, porém, respondendo, disse: Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” ( Mt 15:13 ).

A figueira, que representa o povo cujo machado já estava posto à raiz, foi cortada, pois não produziu o fruto digno de arrependimento. Apesar de o vinhateiro ter cuidado da figueira, a mesma não produziu o fruto esperado: os filhos de Jacó deveriam anunciar ao mundo que Cristo é a paz com Deus, tanto para judeus quanto para gentios, ou seja, não mudaram de concepção.

 

O Fruto esperado

O povo de Israel não se arrependeu e crucificou o Messias, e continuaram com a Torá e obrigados a seguir as mais variadas formas de moral e ética dogmáticas.

Entendo a moral como sendo um fenômeno sociocultural, surge a pergunta: o evangelho de Cristo é moralista? Jesus veio trazer uma nova moral, ou boas novas de salvação a humanidade? Porque os judeus foram rejeitados, se moralmente eram superiores aos povos circunvizinhos?

Certo é que Cristo não veio resgatar o homem de uma vida moralmente desamparada e carente de parâmetros morais convenientes, antes veio livrá-lo da servidão do pecado, que é uma condição imposta pela ofensa de Adão à lei de Deus no Éden. Por causa da desobediência todos pecaram e destituídos foram da glória de Deus, e a missão de Cristo é conduzir muitos filhos a glória de Deus.

As leis, a consciência, a sociedade, as religiões e a filosofia já desempenham papel relevante no campo moral, porém, nada podem fazer quanto à salvação da condenação eterna.

Não são estes frutos (no plural), que Deus quer que o homem produza ao estar ligado na Oliveira verdadeira. Deus busca um único fruto, e é o fruto que provem d’Ele, pois Ele diz: de mim vem o seu fruto! E qual é o fruto? É a mensagem de paz para os que estão longe e os que estão perto.

O fruto que o crente produz é o fruto dos lábios que professam a Cristo. Este fruto (singular) que somente o crente produz, possui no seu interior a semente incorruptível, que é a palavra de Deus. O fruto que o crente produz é vida, pois através dele é que se ganha almas para o reino de Deus “O fruto do justo é árvore de vida, e o que ganha almas é sábio” ( Pr 11:30 ).

Boas ações todos os homens podem produzir, pois Jesus demonstrou que, até mesmo os fariseus sendo maus sabiam dar boas dádivas aos seus semelhantes. Porém, o fruto dos lábios que professam a Cristo, somente os que creem segundo as escrituras podem produzir por estarem ligados a Oliveira verdadeira.

Quando professa a mensagem da cruz, a língua do justo é como prata escolhida, que servirá o fruto precioso, que é salvação em tempo oportuno “Prata escolhida é a língua do justo; o coração dos perversos é de nenhum valor” ( Pr 10:20 ); “Como maçãs de ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita a seu tempo” ( Pr 25:11 ).

O bom comportamento tem o seu campo de aplicação na vida do cristão, visto que através de um bom comportamento evita-se o escândalo, como bem alertou o apóstolo Paulo “Portai-vos de modo que não deis escândalo nem aos judeus, nem aos gregos, nem à igreja de Deus” ( 1Co 10:32 ).

Porém, não é o bom comportamento que produz vida, pois o homem só viverá através de toda palavra que sai da boca de Deus. É Cristo que concede vida, e não a moral e o comportamento humano.

Jesus disse: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo” ( Jo 6:51 ), ou seja, o que dá vida é a palavra de Deus, e todos que estão ligados n’Ele produzem muito fruto: “Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto em meu nome pedirdes ao Pai ele vo-lo conceda” ( Jo 15:16 ).

O fruto é uma determinação de Cristo: vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça! Qual o fruto que permanece? A palavra de Deus que o cristão anuncia é o fruto que permanece para sempre “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, e hoje, e eternamente” ( Hb 13:8 ); “Portanto, ofereçamos sempre por ele a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome” ( Hb 13:15 ), pois Cristo é a semente incorruptível que permanece para sempre.

 

Os frutos do Platonismo e Aristotelismo

A palavra grega traduzida por arrependimento é ‘metanoia’, que significa especificamente ‘mudança de pensamento’, ‘mudança de entendimento’, ‘mudança de compreensão acerca de uma matéria’. Tal palavra era usada pelos gregos, muito antes de constar dos evangelhos.

Porém, já no fim do IV século a palavra grega ‘metanoia’ foi traduzida para o latim como sendo ‘paenitentia’, imprimindo ao termo certo dogmatismo: ‘façam penitencia’.

Tal tratamento à palavra ‘metanoia’ deriva de influências proveniente do neoplatonismo de Plotino, que em seguida foi reafirmado com forte influência pelo aristotelismo, posicionamento filosóficos que infundiram uma forte carga moral no cristianismo.

E na reforma, quando se acredita que houve uma mudança radical na forma de pensar o cristianismo, ou seja, um retorno ao evangelho primitivo, os reformadores, fortemente influenciados pelo Humanismo, visto que voltaram a se socorrer da dita ‘pureza da antiguidade Clássica’, foram remetidos à cultura helenística, o que paralelamente ocorreu com o movimento cultural Renascentista.

O pensamento socrático ‘conheça a ti mesmo’ passou a estar relacionado com o conhecimento de Deus no período medieval, porém, o humanismo renascentista impôs o duplo-conhecimento, como se vê refletido nas Institutas da Religião Cristã do reformador protestante João Calvino, onde o conhecimento de Deus e o conhecimento de si mesmo necessariamente estão conectados.

Durante a reforma, o termo ‘metanoia’ e outros, como ‘anagnorisis’ (reconhecimento) e ‘peripeteia’ (reversão), que foram empregados por Aristóteles na obra ‘A Poetica’, foram mal compreendidos em decorrência de paradigmas firmados no platonismo. A má interpretação não atingiu somente a reforma, mas afetou também a produção artística do movimento cultural renascentista.

Alguns pensamentos distorcidos, já nos primeiros séculos, tornaram-se paradigmas, principalmente o sacramento da confissão, o que remete à ‘penitencia’, o que traduziram por arrependimento.

No pensamento Renascentista, que fez uma releitura da ‘anagnorisis’, o reconhecimento que envolve o herói das tragédias gregas clássicas, entenderam que o herói trágico quando confrontado com a culpa da sua conduta imoral, acabava aceitando a culpa e curvando-se às suas consequências. Nesta releitura renascentista, quando o herói trágico aceita a culpa é levado a ‘peripeteia’ (reversão – o que denominaram de a volta de 180 graus na condição do herói), que externamente se dava pelo sofrimento e internamente pela graça.

Porém, nas tragédias gregas, a ‘anagnorisis’ representa uma simples admissão do herói trágico reconhecendo a verdade que lhe era apresentada, ou seja, o herói toma posse de uma compreensão dos eventos que o cercava como nunca tivera antes. O herói acabava se expressando da seguinte forma após a ‘anagnorisis’: “Finalmente compreendo” ou “Eu que estava cego agora vejo”, o que não coaduna com o pensamento divulgado pela cristandade e pelo movimento cultural renascentista, que acabou mesclando ‘peripeteia’ com questões de cunho moral e modos de penitencia.

Diferente das peças teatrais gregas (tragédias), só a ‘anagnorísis’ cristã/renascentista tornaram-se carregadas com imperativos morais.

No período da reforma surgiram correntes teológicas como o puritanismo (moralista, austera, rigidez nos costumes, especialmente quanto ao comportamento sexual) e o pietismo (ênfase na necessidade de conversão individual acompanhada do nascer de uma nova conduta no crente, desapegada do mundo material e firmada no apoio mútuo da comunidade, tendo por base uma moralidade ascética, especialmente no que tange à alimentação, vestimenta e lazer).

Seria este o arrependimento exigido? No arrependimento bíblico há a volta de 180 graus, conforme a leitura dos Renascentistas? Qual o objetivo de terem mesclado o significado do termo ‘metanoia’ com o termo ‘peripeteia’?

‘Anagnorisis’ é uma mudança de ignorância para conhecimento, e vincula-se ao enredo e a ação trágica, o que causa a ‘peripeteia’ (reversão) nas circunstâncias do herói, que passa da fortuna para o infortúnio, da felicidade para a infelicidade, o que não implica e não há relação com ‘metanoia’ (arrependimento).

Jesus e os discípulos apregoaram o arrependimento (metanoia), sem referência a qualquer ‘peripeteia’, ou seja, a volta de 180 graus, algo que só aparece nas tragédias gregas e, que não se vincula a ‘metanoia’ apregoada nos evangelhos.

Debaixo da bandeira católica romana, alguns teólogos filósofos passaram a considerar a relação liberdade ‘versus’ mal, principalmente com relação à origem e natureza do mal. Santo Agostinho (354-430 d. C.), já influenciado pelo maniqueísmo na sua juventude, cujo postulado é a existência de dois princípios ativos, o bem e o mal, segue o postulado de Plotino, de que o mal é a ausência de bem, uma privação, uma carência, o que influenciou sobremaneira a cristandade nos séculos seguintes.

Em ‘A Cidade de Deus’, Santo Agostinho adota a postura de um filósofo da história universal e a sua atitude é, sobretudo moralista, indicando que há dois tipos de homens: os que se amam a si mesmos até ao desprezo de Deus (estes são a cidade dos homens) e os que amam a Deus até ao desprezo de si mesmos (estes são a cidade de Deus).

Neste sentido, Santo Agostinho vê a impossibilidade de o Estado chegar a uma autêntica justiça se não primar pelos princípios ‘morais’ do cristianismo, o que leva a Igreja ter primazia em relação ao Estado, o que debilita o Estado perante a Igreja.

Quase um milenio após, São Tomás de Aquino (1225-1274 a. C.) também se envereda pelo campo da moral, porém, distingue-se do agostinianismo, e estabelece a moral tomista, que é essencialmente intelectualista, ao passo que a moral agostiniana é voluntarista. Deste modo, agir moralmente segundo o tomismo é agir racionalmente, em harmonia com a natureza racional do homem.

A despeito de vários movimentos pré-reforma que datam desde o século XII, a reforma só veio no século XVI, porém, foi agregada a reforma forte carga moral, pois mais uma vez foi redefinido os padrões da moral e ética cristã, o que culminou em movimentos de cunho moral como pietismo e puritanismo.

Segundo o idealismo platônico, a ascese servia para aproximar a pessoa (o asceta) da verdadeira realidade espiritual e ideal, desligando o homem da imperfeição e materialidade do corpo. A religiosidade dita cristã vinculou os desejos corporais à ideia de pecado, o que deveria ser refreado a todo o custo, caso se pretendesse atingir a santidade, algo semelhante ao imposto ao asceta.

O cristão seria um asceta? O pecado é alienação de Deus e tem relação com os sete vícios capitais?

O asceticismo é um fruto proveniente do platonismo e do aristotelismo, e o apóstolo Paulo deixa claro que este não é o fruto que as varas ligadas a videira verdadeira produz “Se, pois, estais mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos carregam ainda de ordenanças, como se vivêsseis no mundo, tais como: Não toques, não proves, não manuseies? As quais coisas todas perecem pelo uso, segundo os preceitos e doutrinas dos homens; As quais têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade, e em disciplina do corpo, mas não são de valor algum senão para a satisfação da carne” ( Cl 2:23 ).

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A salvação em Cristo

Que mudança será operada por Deus na vida de quem crê?

  • Será filho de Deus“Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” ( Jo 1:12 ; Gl 3:26 );
  • Gerado de Novo“Segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição dos mortos…” ( 1Pd 1:3 ).

A Bíblia apresenta à humanidade uma oferta de salvação. Ora, se há uma oferta de salvação é porque a humanidade está perdida.

Antes de entender como o homem é salvo por Deus, é necessário compreender do que o homem é salvo e como a humanidade se perdeu.

 

Adão – A Porta Larga

O homem é salvo por intermédio do evangelho de uma condição herdada do primeiro Pai da humanidade. Foi Adão quem pecou, e por causa da ofensa dele, todos os homens pecaram ( Rm 5:19 ).

Através da ofensa de Adão todos os homens tornaram-se pecadores, ou seja, separados de Deus, alienados da vida que há em Deus, destituídos da glória de Deus.

Não importa a posição social, a religiosidade, a moral, o comportamento, a nacionalidade, o cargo, etc., todos os homens gerados segundo a carne e do sangue de Adão são pecadores. Ora, são pecadores em conseqüência da condição herdada de Adão, e não por causa do comportamento ou moral que adotaram.

A Bíblia compara a condição do pecador como sendo semelhante à condição de um escravo.

Na antiguidade havia homens ‘livres’ e ‘escravos’. A diferença entre livres e servos não estava na constituição física, mental ou comportamental do homem, antes a diferença era produto de uma condição social.

O homem livre era submetido a servidão quando não saldava suas dívidas, por ser despojo de guerra ou quando gerado de pais escravos!

Assim como os filhos de escravos também eram escravos, todos os homens tornaram-se servos do pecado por serem filhos de Adão. Adão vendeu-se ao pecado tornando-se escravo do pecado, e todos os seus descendentes vêem ao mundo em igual condição ao pai ( Is 43:27 ).

Não são as ações dos homens que determina se ele é ou não pecador, antes é da sua origem que decorre a condição de sujeição ao pecado.

Jesus demonstrou que todo aquele que comente pecado é escravo do pecado, ou seja, por ser escravo do pecado é que o homem peca. A condição de sujeição ao pecado é que determina a condição do homem: pecador. Na condição de pecador todas as suas ações são reputadas como sendo pecado.

O apóstolo Paulo demonstra que todos os homens pecaram e destituídos estão da glória de Deus ( Rm 3:23 ). A doutrina anunciada pelo apóstolo Paulo também foi anunciada pelos profetas, visto que Davi declarou ter sido formado em iniqüidade e concebido em pecado ( Sl 51:5 ).

Davi demonstrou que todos os homens se desviaram e num mesmo evento (juntamente) se tornaram imundos ( Sl 14:3 ). A queda de Adão foi o único evento que comprometeu toda a humanidade, e após a queda, todos os homens tornaram-se abomináveis em suas obras: não há quem faça o bem ( Sl 14:1 ).

A condição do homem é miserável, visto que o melhor dentre os homens é comparável a um espinho, e o mais justo a uma sebe de espinhos. Desde que Adão pecou (pereceu), não há entre os filhos dos homens um que seja reto ( Mq 7:2 e Mq 7:4 ).

Desde o ventre materno os homens estão desviados, pois entraram por um caminho que os conduz a perdição, em decorrência da desobediência, julgamento e condenação de Adão ( Sl 58:3 e Sl 53:2- 3).

Não importa condição social, religiosa, boas ações, comportamento, moral, sacrifícios, votos, etc., a condição herdada de Adão tornou todos os homens pecadores, ou seja, homens a serviço do pecado. Pecam por que são pecadores! Não fazem o bem porque são maus.

 

O Evangelho

Por intermédio do evangelho, os homens são informados que Deus é rico para com todos que o invocam. Não importa a condição social, moral ou comportamental, Deus é generoso para com todos os homens ( Rm 10:12 ).

O evangelho de Cristo alcança tanto Nicodemos que era mestre, juiz e religioso, quanto a samaritana, que teve cinco maridos e o que agora tinha, não lhe pertencia.

Através da fé que se manifestou, o homem reconhece a sua condição de pecador que decorre da condenação em Adão, e compreende o quanto necessita de salvação ( Gl 3:23 ; Rm 5:18 ).

Nos dias atuais as pessoas procuram as igrejas em busca de um milagre, de um emprego, de um casamento, porém, a graça de Deus se revelou salvadora, ou seja, o evangelho destina-se tão somente a salvar os pecadores da condenação herdada de Adão.

Caso o homem não aceite a Cristo como Senhor, o seu destino é o inferno de fogo e enxofre, pois entrou por um porta larga (Adão) que o faz andar por um caminho largo que conduz à perdição ( Mt 7:13 ).

Qualquer que não aceitar a mensagem que concede nova vida não pode entrar no reino dos céus ( Jo 3:3 ). Basta ao homem ouvir e crer que será salvo da condição que o leva para um tormento eterno.

A Bíblia demonstra que o evangelho foi anunciado primeiramente a Abraão. Abraão creu na promessa e isto lhe foi imputado por justiça ( Gl 3:8 ). Do mesmo modo, todo aquele que crê na mensagem do evangelho, será justificado.

Para ser salvo, basta crer na mensagem do evangelho, ou seja, conforme diz as Escrituras ( Jo 7:38 ).

Crer em Cristo não tem relação com um sentimento de medo, tremor, terror do inferno, antes decorre da mensagem anunciada, a fé que uma vez foi dada aos santos ( Jd 1:3 ).

O evangelho é poder de Deus para todo que crê. Por intermédio do evangelho o homem ganha nova vida, uma vez que Deus concede ao que crê um novo coração e um novo espírito ( Is 57:15 ).

Observe que o evangelho de Cristo, a fé que foi manifesta aos homens, também é nomeado de: poder de Deus, fé, esperança, promessa, etc. Observe o emprego da palavra fé e crer em um mesmo verso:

  • “…sabemos que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, também temos crido em Jesus Cristo…” ( Gl 2:16 );
  • “Pois nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé ( Rm 1:17 ).

Nestes versos o apóstolo Paulo faz referência à fé contrastando-a com a lei, ou seja, ele fez referência à mensagem do evangelho quando utilizou o substantivo ‘fé’. Em seguida, ele demonstra que, por meio da fé, os cristãos têm crido, ou seja, no evangelho se descobre que a justiça de Deus se dá por intermédio da mensagem do evangelho (fé), quando o homem descansa (fé) na esperança proposta.

 

A Salvação

Jesus demonstrou que quem ouve a sua palavra e crê em Deus, tem a vida eterna, ou seja, não entrará na condenação, pois passou da morte para a vida ( Jo 5:24 ).

A condição do pecador é morte, o mesmo que escravo do pecado, destituído da glória de Deus, filho da desobediência, filho da ira, etc. Quem crê deixa a condição de morto e passa a condição de vida. Quem crê em Cristo não é condenado, mas quem não crê já está condenado, pois permanece sob a condenação imputada a Adão e todos os seus descendentes ( Jo 3:18 ).

A condenação e a ira de Deus veio sobre todos os homens por causa da ofensa de Adão. Através da ofensa de Adão todos pecaram e morreram, ou seja, foram separados d’Aquele que é a vida. Qualquer que crê em Cristo possui vida eterna e não mais será alvo da ira de Deus ( Jo 3:36 ).

A todos que ouvirem a mensagem do evangelho e confessar a Cristo, o sumo sacerdote da nossa confissão, crendo que Cristo foi ressuscitado dentre os mortos para a glória de Deus Pai, serão salvos ( Rm 10:9 -10 ).

Serão salvos de que? Da atual condição financeira? Da família problemática? Dos problemas socioeconômicos? Etc. Não! Jesus alertou que os que n’Ele crê serão salvos da condenação estabelecida em Adão, porém, não seriam tirados do mundo e continuariam tendo aflições ( Jo 16:33 ).

Qualquer que crer em um pseudo-evangelho que anuncia que Deus mudará a condição social do homem, ou que haverá uma mudança financeira radical daquele que segue a Cristo, não será salvo, nem da ira vindoura, nem das questões relativo a este mundo, pois o evangelho de Deus é segundo as escrituras e não se constitui programa social.

A Bíblia é clara: “Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” ( Rm 10:13 ), porém, a promessa de Deus diz da esperança futura, e não das coisas deste mundo.

Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna, ou seja, o evangelho não veio promover riquezas deste mundo ( Jo 3:16 ). Por que é necessário ao homem crer em Cristo? Para justificação de todo que crê ( Rm 10:4 ).

Qual a preocupação do carcereiro que guardava Paulo e Silas? Aumento de salário? Mudança na sua posição social? Comandar uma empresa? Ser um magistrado? Não! A pergunta dele é clara: “E, tirando-os para fora, disse: Senhores, que é necessário que eu faça para me salvar?” ( At 16:30 ).

 

O Novo Nascimento – Cristo: a Porta Estreita

Quando o pecador crê em Cristo, ao mesmo tempo está recebendo a Cristo. Crer e receber refere-se ao mesmo evento “Mas, a todos quantos o receberam, aos que creem no seu nome, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus” ( Jo 1:12 ).

Há quem diga que é necessário crer e depois receber, porém, o apóstolo João demonstra que, crer é o mesmo que receber.

Que mudança será operada por Deus na vida de quem crê?

  • Será filho de Deus“Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” ( Jo 1:12 ; Gl 3:26 );
  • Gerado de Novo“Segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição dos mortos…” ( 1Pd 1:3 );
  • Nova Criação“Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 );
  • Nova condição“Portanto, agora, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus…” ( Rm 8:1 );
  • Nova Natureza“Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo” ( 2Pe 1:4 ).

 

Assim como a morte (condenação) veio por um homem, assim também a salvação, pois assim como todos morrem em Adão, somente em Cristo serão vivificados ( 1Co 15:21 –22).

A relação que o apóstolo Paulo estabelece entre Cristo e Adão demonstra que Adão é a porta larga por onde a humanidade entrou e segue para perdição. E que Cristo é a porta estreita, por onde todos que entram são salvos.

Em Cristo e em Adão temos o espiritual e o carnal. Os nascidos de Adão são carnais, e os nascidos do último Adão, espirituais. Primeiro veio o homem carnal, para depois vir a existência os homens espirituais ( 1Co 15:46 ).

Adão, o primeiro homem, por ser da terra era terreno, feito por Deus alma vivente ( 1Co 15:47 ). Mas Cristo, o último Adão, pertence ao céu.

Ambos, Cristo e Adão, concedem as suas imagens aos seus descendentes: Do mesmo modo que os homens terrenos têm a imagem de Adão, os homens espirituais possuem a imagem de Cristo, visto que, assim como o terreno, assim também são os terrenos, e ‘qual o celestial, tais também os celestiais’ ( 1Co 15:48 ).

Através do novo nascimento (regeneração) o homem de novo gerado passa a ser participante da natureza divina ( Jo 1:16 ; Cl 2:10 ). A nova condição da nova criatura se efetiva ainda neste mundo “Nisto é perfeito o amor para conosco, para que no dia do juízo tenhamos confiança; porque, qual ele é, somos nós também neste mundo” ( 1Jo 4:17 ).

Por ter sido gerado de uma semente incorruptível, que é a palavra de Deus, os cristãos tem uma viva esperança ( 1Pe 1:23 e 1Pe 1:3 ). Foi de novo criado na condição de idôneo para participar da herança dos santos ( Cl 1:12 ). É herdeiro de Deus ( Gl 4:7 ), e co-herdeiro com Cristo ( Rm 8:17 ). É templo e morada do Espírito ( 1Co 3:16 ), pois tem em si mesmo o penhor da herança ( Ef 1:13 ).

Qualquer que crê em Cristo é testemunha fiel, pois de Deus vem o fruto dos lábios, que confessam a Cristo ( Os 14:8 ; Hb 13:15 ).

 

 

Eterna Redenção

Sabemos que Cristo efetuou eterna redenção “Nem por sangue de bodes e bezerros, mas por seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário, havendo efetuado uma eterna redenção” ( Hb 9:12 ).

Que, além da salvação os cristãos foram agraciados com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestiais, visto que estão assentados em Cristo ( Ef 1:3 ). Tudo que diz respeito a vida e a piedade foi concedido aos que creem no seu divino poder (evangelho) ( 2Pe 1:3 ; 1Co 1:18 ).

Além de ser salvo da condenação estabelecida em Adão, não há outro destino para os que são salvos pela fé em Cristo: são filhos de Deus, ou seja, predestinados a serem filhos por Adoção, ou seja, condição diferente da dos salvos em outras dispensações.

As novas criaturas geradas segundo Deus em Cristo foram predestinadas a serem filhos. A predestinação não diz da velha criatura, antes se refere ao destino da nova criatura. Como sabemos, aquele que está ‘em Cristo’ nova criatura é, e foi ‘em amor’, ou seja, ‘em Cristo’ que a nova criatura foi predestinada a ser filho por Adoção, visto que somente por intermédio de Cristo são conduzidos muitos filhos à glória de Deus “Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas, e mediante quem tudo existe, trazendo muitos filhos à glória, consagrasse pelas aflições o príncipe da salvação deles” ( Hb 2:10 ).

A salvação de Deus se dá por meio da fé em todas as dispensações, porém, a filiação divina é concedida especificamente a igreja de Cristo, pois toda a criação geme na expectativa da revelação dos filhos de Deus “Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos” ( 1Jo 3:2 ; Rm 8:21 ).

Os que creem em Cristo foram escolhidos para serem santos e irrepreensíveis, visto que, ‘em Cristo’ foram criados em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ).

Antes da fundação do mundo Deus elegeu os cristãos para serem santos e irrepreensíveis porque em Cristo seriam criados nesta condição. Aquele que fez dos cristãos herança em Cristo ( Ef 1:11 ), também é o que operou a nova criação, concedendo poder aos que creem para que fossem feitos filhos de Deus, santos e irrepreensíveis.

Porém, há um adendo do apóstolo Paulo: “TAMBÉM vos notifico, irmãos, o evangelho que já vos tenho anunciado; o qual também recebestes, e no qual também permaneceis. Pelo qual também sois salvos se o retiverdes tal como vo-lo tenho anunciado; se não é que crestes em vão” ( 1Co 15:2 ).

O apóstolo procura relembrar aos cristãos o evangelho anunciado, o mesmo que receberam e permaneciam nele. Os cristãos foram salvos por que creram na mensagem do evangelho, porém, se não o retiver o evangelho tal qual ele foi anunciado, ou seja, se abraçar um outro evangelho, terão crido em vão ( 1Co 15:2 ).

Qualquer que se distanciar da verdade do evangelho sofrerá as conseqüências de ter caído da graça: separado está de Cristo “Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído” ( Gl 5:4 ).

Qualquer que está separado de Cristo continua sob condenação, pois a salvação pertence somente aos que conhecem a Deus, ou antes, são conhecidos d’Ele.

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