Tiago 1 – Perseverança

A determinação é específica aos cristãos (meus amados irmãos). O apóstolo solicita aos cristãos que não errassem demonstrando que, mesmo os cristãos são passíveis de erros. Qual o erro que o apóstolo Tiago repreende? Erros comportamentais ou conceituais? O apóstolo faz uma repreensão acerca de erros conceituais, visto que alguns destes erros já havia se instalado na compreensão de alguns. Pensar que as tentações são provenientes de Deus é um erro conceitual, porém, a verdadeira concepção acerca de Deus é que Ele concede boas dádivas e todo dom perfeito.

Introdução

O apóstolo Tiago utiliza uma linguagem própria aos evangelistas. Ele não se fixa nos pormenores e nas argumentações teológicas.

A linguagem utilizada por Tiago é bem próxima a do apóstolo João, e faz uma abordagem prática do evangelho.

A abordagem de Tiago difere um pouco da abordagem de Paulo, porém, não há discrepância alguma entre os escritos deles.

Analisaremos os escrito de Tiago, comparando-os com as argumentações de Paulo, quando possível.

A Obra Perfeita da Fé

 

1 Tiago, servo de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, às doze tribos que andam dispersas, saúde.

O apóstolo Tiago dá inicio a sua carta com as mesmas considerações de Paulo. Eles se consideravam servo de Deus e do Senhor Jesus.

A apresentação de Tiago é sucinta, isto porque ele não enfrentava os mesmos problemas que o apóstolo Paulo, Paulo tinha o seu apostolado contestado por grupos judaizantes.

Os destinatários da carta são identificados como sendo as doze tribos da dispersão. O apóstolo Pedro também nomeia os destinatários de sua carta de forma semelhante.

Tal nomeação não se refere ao povo de Israel, antes aos cristãos, sejam eles judeus ou gentios que estavam ‘dispersos’ pelo mundo de então.

Quando Tiago identifica os destinatários como sendo os cristãos, isto nos dá um parâmetro quanto à interpretação: mesmo utilizando uma linguagem própria aos evangelistas, ele escreve a pessoas que já eram crentes e que conheciam o evangelho.

 

2 Meus irmãos, tende grande gozo quando cairdes em várias tentações;

O apóstolo conclama os irmãos a alegria quando estivessem sendo provados. Neste versículo tentação é prova, e não uma oferta para a pratica de uma conduta pecaminosa.

As argumentações deste capítulo iniciam-se neste versículo e caminha para um clímax no capítulo dois.

O apóstolo centra a sua argumentação na tentação, e o tema segue por toda a carta.

 

3 Sabendo que a prova da vossa fé opera a paciência.

A alegria é certa quando aquele que é provado conhece precisamente que a fé provada gera a paciência ( Rm 5:3 ).

A tentação é uma maneira de se por a fé em prova.

 

4 Tenha, porém, a paciência a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, sem faltar em coisa alguma.

O apóstolo Tiago solicita aos cristãos que sejam pacientes, visto que a obra perfeita da fé é a perseverança ( Hb 10:36 ; Tg 5:7 ). Quando o cristão é provado, ele possui elementos para examinar a si mesmo ( 2Co 13:5 ).

A paciência se evidencia com a prova da fé.

 

5 E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada.

A sabedoria que Tiago faz alusão neste versículo está interligada a paciência do versículo anterior. Se o cristão tem paciência, ele é perfeito e completo, visto que nada lhe falta, aguardando a manifestação em glória de Cristo Jesus.

Se um cristão tem falta de sabedoria, deve pedir a Deus que a dará liberalmente. Mas, qual a sabedoria que os cristãos receberão de Deus? A resposta é dada pelo próprio apóstolo: “Mas a sabedoria que do alto vem é, primeiramente pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia” ( Tg 3:17 ). Ou seja, a sabedoria que será concedida possui vínculo com a paciência, a obra perfeita da fé.

Observe que o versículo anterior ressalta que devemos ser perfeitos sem ter falta de coisa alguma, mas que se tivéssemos falta da sabedoria que é pura, pacifica e moderada, era só pedir que será concedido liberalmente.

 

6 Peça-a, porém, com fé, em nada duvidando; porque o que duvida é semelhante à onda do mar, que é levada pelo vento, e lançada de uma para outra parte.

O cristão deve pedir a sabedoria de Deus com fé, ou seja, sem dúvida alguma quanto àquele que concede liberalmente.

O apóstolo faz a primeira comparação em sua carta: aquele que duvida é semelhante à onda do mar, que é levada pelo vento, e é lançada de uma a outra parte.

Aquele que duvida é inconstante em todos os seus caminhos, e não só quanto ao que pede a Deus. A comparação do apóstolo com a onda do mar está para o homem que é dobre de coração, e não para o que se pede a Deus.

O apóstolo deixa de enfatizar a provação e passa a concitar a fé dos ouvintes.

 

7 Não pense tal homem que receberá do Senhor alguma coisa.

Por que aquele que duvida não receberá de Deus coisa alguma? Deus estaria punindo o reticente? Não!

O homem sem fé não receberá de Deus coisa alguma, pois dele temos a promessa, e para alcançarmos o prometido devemos ser pacientes “Porque necessitais de paciência, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” ( Hb 10:36 ).

 

8 O homem de coração dobre é inconstante em todos os seus caminhos.

Como o apóstolo está aconselhando os cristão à pratica do evangelho, ele aponta os vários aspectos pertinentes a vida do homem. Pela fé alcançamos a salvação de Deus, mas isto não confere ao salvo tranqüilidade em todas as áreas de sua vida. O homem pela fé alcança salvação, mas tal salvação não confere riqueza, felicidade no casamento ou a mudança instantânea de comportamento.

O apóstolo Tiago precisava tratar de um assunto complexo entre os cristãos, e para isto ele utiliza o capítulo um de sua carta preparando os corações dos ouvintes para o tema principal: a acepção de pessoas!

Do versículo dois até aqui, o apóstolo Tiago está estruturando o irmão de condição humilde. Nos versículos dez e onze o apóstolo alerta os cristãos de boa condição financeira.

Observe que não há mudança na ideia no contexto geral tratado no primeiro capítulo. Compare o versículo dois com o doze.

O capítulo um da carta de Tiago é um exemplo claro de psicologia aplicada. Ele não apresenta o problema a ser tratado de inicio. Ele primeiro trata de estruturar os ouvintes evidenciando as provações, a fé, a condição pessoal, a conciliação, para depois trazer o problema à tona.

 

Posições: Alta e Insignificante

9 Mas glorie-se o irmão abatido na sua exaltação,

O irmão de condição financeira humilde deveria gloriar-se na sua exaltação, ou seja, ter grande alegria, visto que, a sua condição humilde lhe concedia muitas provações, muitos motivos para se refugiar em Deus, desenvolvendo a perseverança, que resultará na exaltação futura ( Hb 10:36 ).

O irmão de condição humilde tem maior motivo para exercitar a sua fé em perseverança, isto é, para gloriar-se.

Sobre este aspecto Paulo demonstra que, caso fosse gloriar-se, gloriaria em suas fraquezas ( 2Co 12:5 ).

 

10 E o rico em seu abatimento; porque ele passará como a flor da erva.

O rico deveria ANALISAR a sua condição de maneira diferente. Deveria ter em mente a sua fragilidade, visto que o homem nada é.

O homem tem grande tendência a confiar naquilo que pode ver, o que pode lhe ofuscar a visão de que ele é sustentado por Deus e para ilustra a condição dos homens, principalmente os ricos, Tiago lembra a fragilidade da flor.

 

11 Porque sai o sol com ardor, e a erva seca, e a sua flor cai, e a formosa aparência do seu aspecto perece; assim se murchará também o rico em seus caminhos.

Tudo que é exterior ao homem perece com o tempo. Os caminhos que os homens trilham neste mundo têm um fim, e para o rico não é diferente “Não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas” ( 2Co 4:18 ).

 

12 Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam.

Esta é uma declaração prática de elementos pertinentes ao evangelho de Cristo. Esta declaração é igual a do escritor aos Hebreus:

“Porque necessitais de paciência, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” ( Hb 10:36 ).

Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam.

Aquele que suporta a provação demonstra que é paciente, e que receberá de Deus a vida eterna prometida a todos quantos creram em seu Filho.

A vontade de Deus é que todos os homens creiam naquele que ele enviou. A promessa é de vida, e vida eterna. Mas, para alcançá-la o homem precisa de perseverança na fé dada aos santos.

As discrepâncias de ordem socioeconômica no seio da igreja local estavam causando alguns problemas que será tratado no capítulo dois. Porém, Tiago estrutura os seus leitores a serem pacientes, suportando as tentações e provações.

 

13 Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta.

O apóstolo passa a demonstrar que as provações da vida não são provenientes de Deus. Alguém pode considerar que Deus para aperfeiçoar a fé de seus filhos acaba por submetê-los a inúmeras provações. Mas, não é assim! Deus a ninguém tenta.

A fé não precisa ser aperfeiçoada. O que é passível de aperfeiçoamento é o comportamento humano e a sua compreensão da realidade a sua volta. A fé é dom de Deus, que é perfeita como perfeito é o Pai celeste que nos dá todas as garantias necessárias que estruturarmos a nossa crença.

Por isso o apóstolo Paulo diz: “Eu sei em quem tenho crido” ( 2Tm 1:12 ).

 

 

14 Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência.

Após descartar que as tentações são provenientes de Deus, Tiago demonstra onde as tentações têm origem.

Neste versículo ele não aponta a origem do pecado, visto que o pecado teve origem em Adão, lá no jardim do Éden. Observe que ninguém tem a possibilidade de pecar a semelhança da transgressão de Adão. Não há como os descendentes de Adão dar origem ao pecado “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” ( Rm 5:14 ).

Cada ser humano possui um desejo em particular. Cada pessoa vê as coisas com valores diferenciados. Uns dão maior valor a bens materiais, outros a conduta, outros a dignidade, etc.

O apóstolo Tiago demonstra que o homem é tentado pelo seu próprio desejo. Ele cobiça, é atraído e seduzido pelos seus interesses.

Este desejo após tomar corpo, se for levado a efeito, resulta em uma conduta pecaminosa. Se o desejo for vetado pela consciência do homem, por leis, ou regras éticas, mas este homem leva a efeito este desejo, acaba por gerar a morte.

Por que o apóstolo toca neste assunto? Por causa de elementos apontados no versículo dezenove e vinte deste mesmo capítulo.

Note que Tiago está escrevendo a cristãos, pessoas que não estavam mais sujeitas ao pecado. Da mesma forma estavam livres do pecado de Adão, uma vez que já criam em Cristo. Como um desejo não contido poderia levar a morte?

Caso os ouvintes não suportassem a tentação; caso não fossem perseverantes na fé que receberam, e lançassem mão da ira, deixariam de se sujeitar a justiça de Deus que é pela fé, e estabeleceriam uma própria com base na vingança. Tal inversão, adotar uma justiça própria em lugar da divina, leva a morte espiritual.

 

15 Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte.

O apóstolo está tratando de questões práticas. O irmão de condição humilde deveria ter em conta a sua dignidade. Já o de condição abastada, em quanto era insignificante a existência dos homens sobre a face da terra.

Se estas pessoas considerassem estes elementos, não seriam tentados a fazer acepção de pessoas ( Tg 2:2 ). Da mesma forma caso alguém fosse discriminado, sofreria a provação e não lançaria mão da ira, pois tal ação substitui a justiça de Deus que é pela fé, e se estabelece uma outra, a justiça própria.

Através da fé recebemos a justiça de Deus, pois é Deus quem nos justifica. Quando queremos embasar as nossas ações em um sentimento próprio de justiça e de vingança, estaremos vestidos de trapos de imundície. Só resta a morte diante de Deus.

A morte não é resultado da conduta errônea, e sim da falta de fé. Se não há fé, não se consegue sofrer as tentações com paciência. Se não há fé, o homem não espera na providência divina e passa a agir por conta própria.

 

16 Não erreis, meus amados irmãos.

A determinação é específica aos cristãos (meus amados irmãos). O apóstolo solicita aos cristãos que não errassem demonstrando que, mesmo os cristãos são passíveis de erros.

Qual o erro que o apóstolo faz referência? Erros comportamentais ou erros conceituais?

O apóstolo faz uma repreensão acerca do erro conceitual que havia se instalado em alguns. Alguns pensavam que a tentação era proveniente de Deus, porém, a verdadeira concepção acerca de Deus é que Ele concede boa dádiva e todo dom perfeito. Compare: ( Gl 6:7 e 1Co 6:10 ).

 

Erros Conceituais

17 Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação.

 

Os leitores não deviam cometer o erro de considerar que as tentações eram provenientes de Deus. Antes deveriam considerar que de Deus é proveniente toda a boa dádiva e todo o dom perfeito.

As bênçãos são provenientes de Deus, que desce de Deus, ou antes, vem do alto.

Não é próprio de Deus a mudança e nem mesmo a ‘sombra’ de variação, fato que por si só demonstra que não deveriam errar quanto ao conceito de que Deus tenta alguém com o mal e que concede todo o dom perfeito.

 

18 Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fossemos como primícias das suas criaturas.

 

Esta carta utiliza uma linguagem eminentemente evangelística, porém, neste versículo fica demonstrado que o apóstolo possuía perfeita compreensão das nuances teológicas da mesma forma que Paulo e Pedro.

O apóstolo Tiago não se utilizou de conceitos teológicos ao escrever por questões próprias ao público alvo da carta. Não se deve considerar que o apóstolo Tiago não comungava ou que não possuía a mesma compreensão que o apóstolo Paulo demonstra em suas cartas.

Toda: Deus concedeu aos cristãos toda boa dádiva e todo o dom perfeito, de maneira que nada falta àqueles que aguardam a Jesus “De maneira que nenhum dom vos falta, esperando a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo” ( 1Co 1:7 );

Boa dádiva: Presente de Deus aos homens.

Dom perfeito: A graça de Deus por meio do evangelho “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” ( Ef 2:8 );

Pai das luzes:“Deus é luz, e nele não há trevas alguma” ( 1Jo 1:5 ); “Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor; andai como filhos da luz” ( Ef 5:8 ); “Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus” ( Gl 3:26 );

Em quem não há mudança e nem sobra de variação: A imutabilidade de Deus é base para a nossa fé “Por isso, querendo Deus mostrar mais abundantemente a imutabilidade do seu conselho aos herdeiros da promessa, se interpôs com juramento” ( Hb 6:17 ), pois só pela fé em Deus somos filhos da Luz;

Segundo a sua vontade: Segundo o consentimento (beneplácito) de Deus que, por meio da fé, adquiríssemos a filiação divina “E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade” ( Ef 1:5 );

Ele nos gerou de novo: Aqueles que creem em Cristo são novamente criados segundo Deus em verdadeira justiça e santidade. Não é uma reformulação ou uma melhoria na velha natureza. Antes recebemos poder para sermos feitos (criados novamente) filhos de Deus “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” ( Jo 1:12 );

Palavra da verdade: A palavra da verdade é a mensagem do evangelho, pois o apóstolo Paulo demonstra que o evangelho é poder de Deus para todos quanto crerem ( Rm 1:16 );

Para que fossemos como primícias das suas criaturas: Aqueles que creem são gerados de novo e passam a ser uma nova criatura “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ). Dentre todas as criaturas de Deus somos considerados como sendo as primícias, visto que ressurgimos com Cristo dentre os mortos “Mas de fato Cristo ressuscitou dentre os mortos, e foi feito as primícias dos que dormem” ( 2Co 5:17 );

Com base neste versículo podemos verificar que não há divergência alguma entre o que Tiago e Paulo escreveram em suas cartas.

É característica própria a carta de Tiago utilizar uma linguagem evangelista, já que o público alvo da carta se constitui de leigos. Eram carentes de conhecimento ( Tg 1:3 ; 5; 16; 19), e uma linguagem teológica não seria de todo compreendida.

Por isso o apóstolo Tiago apresenta um evangelho aplicado e menos conceitual.

E Tiago prossegue: “Sabei isto, meus amados irmãos…” (v. 19).

 

19 Portanto, meus amados irmãos, todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar.

O apóstolo reitera pela terceira vez: meus amados irmãos!

Ele não exclui quem quer que fosse da exortação: Todo o homem:

1º Deveriam ser prontos a ouvir;

2º Tardios a falar, e;

3º Tardios a irarem-se.

O apóstolo reitera alguns cuidados que os irmãos deveriam ter quanto a paciência. O homem paciente está pronto a ouvir! Esta recomendação tem dois aspectos dentro do contexto que Tiago procurou transmitir:

a) Eles ouviriam prontamente a mensagem que estava sendo transmitida por meio da carta, e;

b) Quanto fossem inteirados dos problemas existentes no seio da igreja ( Tg 2:1 -4), não partiriam para julgamentos precipitados, antes estariam prontos a ouvirem um pouco mais. Seriam pacientes.

As recomendações deste versículo soam como um freio à concupiscência de alguns, que eram atraídos a falarem precipitadamente ( Tg 1:13 -14).

Tiago utiliza o mesmo principio que Paulo ao exortar o homem a examinar a si mesmo. Este com poucas palavras, de maneira direita e incisiva, aquele utiliza o texto para evidenciar a cada indivíduo o seu erro, fazendo com que se esquecessem dos erros do próximo.

 

20 Porque a ira do homem não opera a justiça de Deus.

Este versículo esclarece o versículo 15.

A abordagem de Tiago tem inicio com a declaração: “Bem-aventurado aquele que suporta a provação” (v. 12). Este homem receberá de Deus o prometido, a coroa da vida, o que é pertinente ao homem livre do pecado.

 

Os que amam a Deus são aqueles que foram chamados segundo o seu propósito de fazer convergir em Cristo todas as coisas; estes não estão sujeitos ao pecado e têm direito à coroa da vida; antes eram sujeitos ao pecado, e, portanto, alijados da vida que há quando se está em Deus”

Nestes versículos podemos observar que dois temas são desenvolvidos paralelamente:

a) Não deveriam errar nas questões conceituais. Se Deus não muda, como conciliar ‘boa dádiva’ com ‘o tentar com o mal’?

b) A maldição do pecado só recai sobre aqueles que não perseveram, e, portanto, não são bem-aventurados.

As questões relativas ao parágrafo (a) já foram comentadas anteriormente.

Sobre o parágrafo (b) resta descobrir qual o tipo de ‘pecado’ que leva o cristão a morte.

O cristão que for atraído e engodado pela sua própria concupiscência (um exemplo prático que o apóstolo Tiago utiliza é a precipitação em falar (v. 19), não suportando a tentação, teria em si mesmo os elementos necessários a concepção da concupiscência.

É questão de tempo para a concupiscência tomar corpo e dar à luz o pecado e do pecado advém à morte!

O pecado que dá luz à morte é o lançar mão da ira.

Deus diz: “Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira, porque está escrito: Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor” ( Rm 12:19 ); “Porque bem conhecemos aquele que disse: Minha é a vingança, eu darei a recompensa, diz o Senhor. E outra vez: O Senhor julgará o seu povo” ( Hb 10:30 ).

Quando Paulo diz: “…dai lugar a Ira…”, é uma referência clara ao Senhor! É o mesmo que dizer, daí lugar a Deus, pois a Ele pertence a Ira “Pelas quais coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência” ( Cl 3:6 ).

Aquele que não suporta a tentação, que advém de uma cobiça e se põe a falar incontidamente, acabará se inflamando em sua própria ira. Este morrerá, visto que deixou de se sujeitar a justiça de Deus, que é pela fé.

Aquele que sai a vingar-se a si próprio está trilhando o mesmo caminho de Davi quando induzido por Nabal “Agora, pois, meu senhor, vive o SENHOR, e vive a tua alma, que o SENHOR te impediu de vires com sangue, e de que a tua mão te salvasse; e, agora, tais quais Nabal sejam os teus inimigos e os que procuram mal contra o meu senhor” ( 1Sm 25.26 ).

O apóstolo Tiago prevendo que alguém poderia ficar indignado frente aos problemas que seriam relacionados nos versículo 1 a 5 do capítulo 2, antecipa-se e demonstra que, se alguém não adotasse o comportamento do versículo 19, incorreria em não estar sujeito a justiça de Deus, que é por meio da fé em Cristo.

Quem se deixar levar pela própria cobiça não suporta a provação, e passa a agir por conta própria alimentando sentimentos facciosos e soberbos, ações pertinentes a ira do homem.

 

 

Recomendações

21 Por isso, rejeitando toda a imundícia e superfluidade de malícia, recebei com mansidão a palavra em vós enxertada, a qual pode salvar as vossas almas.

 

Já que a justiça de Deus não coaduna com a ira do homem, o apóstolo concita os ouvintes a lançarem fora toda impureza e todo vestígio do mal. A imundície e superfluidade de malícia são descritas em Tiago três, treze a dezesseis.

A amarga inveja e o sentimento faccioso geralmente advêm da incontinência em falar e da pressa em vingar uma causa própria.

A prontidão em falar acintosamente e a ira não é próprio daqueles que são mansos, ou seja, a palavra do evangelho deve ser recebida em mansidão.

A palavra de Deus é poder de Deus para todo aquele que crê, ou seja, poder de Deus para salvação das vossas almas.

 

22 E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos.

Tiago solicita um compromisso com a palavra do evangelho. O compromisso com a palavra se estabelece quando o ouvinte resiste as tentações, é paciente, e manso. Este não esta se enganado a si mesmo.

 

23 Porque, se alguém é ouvinte da palavra, e não cumpridor, é semelhante ao homem que contempla ao espelho o seu rosto natural;

Esta é a segunda comparação que Tiago faz.

Ele estabelece uma hipótese: “Se…”. Aquele que duvida é comparado à onda do mar, e o ouvinte que não pratica é semelhante a quem contempla o próprio rosto através de um espelho. A comparação se firma no versículo seguinte:

 

24 Porque se contempla a si mesmo, e vai-se, e logo se esquece de como era.

Através das comparações Tiago demonstra dois perigos:

a) O ouvinte esquecido ou relapso, e;

b) Ouvinte sem fé, que é levado de uma a outra parte “…porque o que duvida é semelhante à onda do mar, que é levada pelo vento, e lançada de uma para outra parte” (v. 6).

25 Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito.

O apóstolo faz uma ressalva: “Aquele, porém…”.

O ouvinte que recebe a palavra com fé e a pratica, este é o que atenta bem para a mensagem do evangelho, a lei perfeita.

A lei que não deixa alternativa de escolha não é perfeita. A lei perfeita deixa alternativa entre cumprir e o não cumprir.

Tiago alerta novamente o ouvinte relapso e o sem fé:

a) e nisso persevera – a perseverança é resultado da fé em prática. A fé posta em prova produz a paciência, e o exercício da fé à perseverança “Sabendo que a prova da vossa fé opera a paciência” (v. 3); “Todo aquele que prevarica, e não persevera na doutrina de Cristo, não tem a Deus. Quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem tanto ao Pai como ao Filho” II Jo 1. 9.

b) não sendo ouvinte esquecido – o ouvinte esquecidiço é aquele que não cumpre a palavra. Ele não é fazedor da obra e nem bem-aventurado.

Só é bem-aventurado o ouvinte que atenta para o evangelho com fé. Este será perfeito e sem falta de coisa alguma, visto que é paciente.

O que suporta a tentação é aquele que cumpre com a palavra, ou, aquele que faz a obra, sendo o resultado disso a paciência, a obra perfeita “Tenha, porém, a paciência a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, sem faltar em coisa alguma” (v. 4).

 

26 Se alguém entre vós cuida ser religioso, e não refreia a sua língua, antes engana o seu coração, a religião desse é vã.

 

O apóstolo Tiago chega ao momento da prática. Ou seja, se o cristão não suportar a provação, não terá a obra perfeita, que é a paciência. Este passará a agir, não refreando a língua. Descumprirá cabalmente a determinação: “…todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar…” (v. 19), enganando a si mesmo (v. 22). Tal homem se apoiará na religiosidade, onde a justiça de Deus não opera.

Tal homem está enfatuado, pois se apóia em um discurso falso: sou religioso! “E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos” (v. 22).

 

27 A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo.

Uma demonstração clara de que alguns estavam apoiados em falsos discursos é que a verdadeira religião se resume em assistencialismo aos órfãos e viúvas, sem se contaminar com a corrupção do mundo.

As recomendações aos gentios no concílio de Jerusalém são claras: “Na verdade pareceu bem ao Espírito Santo e a nós, não vos impor mais encargo algum, senão estas coisas necessárias: Que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da prostituição, das quais coisas bem fazeis se vos guardardes. Bem vos vá” ( At 15:28 -29).

Sobre este mister o apóstolo Paulo foi alertado: “Recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também procurei fazer com diligência” ( Gl 2:10 ).

Tais determinações foram necessárias, visto que alguns não estavam atentando para a perfeita lei da liberdade: “E isto por causa dos falsos irmãos que se intrometeram, e secretamente entraram a espiar a nossa liberdade, que temos em Cristo Jesus, para nos porem em servidão” ( Gl 2:4 ).

A recomendação de Tiago era tão somente para que observasem o que era pertinente ao evangelho de Cristo “E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes…”, porém, alguns estavam presos à religiosidade, que se firma em questões tais como o legalismo, o formalismo e a moralidade. Estes estavam se enganando quando se firmavam nos discursos da religiosidade: “…enganando-vos com falsos discursos”.

Vale salientar que o capítulo um da carta de Tiago visa preparar os cristãos para a exposição de questões que são abordadas no capítulo Dois.

O leitor desta carta deve ter o cuidado de observar e analisar o seu conteúdo sobre o prisma de um único contexto.

A carta de Tiago desenvolve uma idéia principal, porém, antes de especificá-la, ele teve o cuidado de preparar os seus destinatários diretos, os cristãos de sua época, com várias exortações, exemplos e comparações.

Não devemos nos ater as exortações, exemplos e comparações sem o prisma da idéia principal.

A linguagem que Tiago utiliza é evangelística, pois não se estrutura em citações do antigo testamento. A linguagem é baseada em comparações e exemplos pertinentes ao dia-a-dia dos leitores ( Tg 1:10 -11, e 23).

Quando se faz necessário a exposição de alguns conceitos de cunho teológico, o apóstolo Tiago se socorre de conceitos incontestes ( Tg 1:17 ), sem o auxílio da citação de trechos do antigo testamento.

A carta de Paulo aos Efésios segue quase a mesma estrutura de linguagem de Tiago por não utilizar citações do antigo testamento.

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Salmo 40 – Deus se inclina para atender o seu Servo

E, por que o deleite (comida) do Messias seria fazer a vontade do Pai? Porque Ele voluntariamente buscou a verdade e a fez estar unida ao seu coração! Cristo é a verdade, o Verbo de Deus encarnado, a luz dos homens, o homem humilde e manso de coração, pois não buscou fazer a sua própria vontade “Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma. Como ouço, assim julgo; e o meu juízo é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou” ( Jo 5:30 ; Sl 38:13 -14 ; Mt 11:29 ).


Salmo 40Esperei com paciência no Senhor

  1. ESPEREI com paciência no SENHOR, e ele se inclinou para mim, e ouviu o meu clamor.
  2. Tirou-me dum lago horrível, dum charco de lodo, pôs os meus pés sobre uma rocha, firmou os meus passos.
  3. E pôs um novo cântico na minha boca, um hino ao nosso Deus; muitos o verão, e temerão, e confiarão no SENHOR.
  4. Bem-aventurado o homem que põe no SENHOR a sua confiança, e que não respeita os soberbos nem os que se desviam para a mentira. 
  5. Muitas são, SENHOR meu Deus, as maravilhas que tens operado para conosco, e os teus pensamentos não se podem contar diante de ti; se eu os quisera anunciar, e deles falar, são mais do que se podem contar.
  6. Sacrifício e oferta não quiseste; os meus ouvidos abriste; holocausto e expiação pelo pecado não reclamaste.
  7. Então disse: Eis aqui venho; no rolo do livro de mim está escrito.
  8. Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu; sim, a tua lei está dentro do meu coração.
  9. Preguei a justiça na grande congregação; eis que não retive os meus lábios, SENHOR, tu o sabes.
  10. Não escondi a tua justiça dentro do meu coração; apregoei a tua fidelidade e a tua salvação. Não escondi da grande congregação a tua benignidade e a tua verdade.
  11. Não retires de mim, SENHOR, as tuas misericórdias; guardem-me continuamente a tua benignidade e a tua verdade.
  12. Porque males sem número me têm rodeado; as minhas iniquidades me prenderam de modo que não posso olhar para cima. São mais numerosas do que os cabelos da minha cabeça; assim desfalece o meu coração.
  13. Digna-te, SENHOR, livrar-me: SENHOR, apressa-te em meu auxílio.
  14. Sejam à uma confundidos e envergonhados os que buscam a minha vida para destruí-la; tornem atrás e confundam-se os que me querem mal.
  15. Desolados sejam em pago da sua afronta os que me dizem: Ah! Ah!
  16. Folguem e alegrem-se em ti os que te buscam; digam constantemente os que amam a tua salvação: Magnificado seja o SENHOR.
  17. Mas eu sou pobre e necessitado; contudo o Senhor cuida de mim. Tu és o meu auxílio e o meu libertador; não te detenhas, ó meu Deus.

O escritor aos Hebreus dá um parâmetro seguro a seguir quando demonstra que o Salmo 40 faz referência a Cristo, que se despiu da sua glória e foi introduzido no mundo:

“Por isso, entrando no mundo, diz: Sacrifício e oferta não quiseste, mas corpo me preparaste; Holocaustos e oblações pelo pecado não te agradaram. Então disse: Eis aqui venho (No princípio do livro está escrito de mim), Para fazer, ó Deus, a tua vontade” ( Hb 10:5 -7 ; Sl 40:6 -8).

Quem entrou no mundo? Certamente não foi o salmista e rei Davi, porque para entrar no mundo é necessário ser pré-existente e o único pré-existente foi o Verbo de Deus – Cristo.

Sabendo que os salmos são profecias ( 1Cr 25:1 ), e que eles fazem referência a pessoa de Cristo ( Lc 24:44 ), deve-se analisar todo o texto do Salmo 40 comparando com a pessoa e vida de Cristo ( Jo 5:39 ; Sl 40:7 ), pois os profetas não profetizam acerca de si mesmo, antes apontavam para o Messias “E, respondendo o eunuco a Filipe, disse: Rogo-te, de quem diz isto o profeta? De si mesmo, ou de algum outro?” ( At 8:34 ).

O período das previsões dos salmistas varia muito, pois os salmos foram escritos em um lapso temporal de aproximadamente um milênio, desde a data aproximada de 1440 a.C., quando houve o êxodo dos Israelitas do Egito até o cativeiro babilônico. Através das profecias têm-se uma visão do que significa a onisciência de Deus, porém, os salmos fixam-se na pessoa do Cristo, o Filho de Davi.

 

1 ESPEREI com paciência no SENHOR, e ele se inclinou para mim, e ouviu o meu clamor. 2 Tirou-me dum lago horrível, dum charco de lodo, pôs os meus pés sobre uma rocha, firmou os meus passos. 3 E pôs um novo cântico na minha boca, um hino ao nosso Deus; muitos o verão, e temerão, e confiarão no SENHOR. 4 Bem-aventurado o homem que põe no SENHOR a sua confiança, e que não respeita os soberbos nem os que se desviam para a mentira. 5 Muitas são, SENHOR meu Deus, as maravilhas que tens operado para conosco, e os teus pensamentos não se podem contar diante de ti; se eu os quisera anunciar, e deles falar, são mais do que se podem contar.

Quem esperou pacientemente no Senhor? O salmista Davi nesta previsão aponta para o Messias, o Servo do Senhor, que confiante esperou no Deus da sua salvação!

‘Esperar pacientemente’ é o mesmo que confiar, descansar, e Cristo sabia que seria ouvido pelo Pai prontamente, mesmo diante das agruras que antecedia a Sua morte “Ou pensas tu que eu não poderia agora orar a meu Pai, e que ele não me daria mais de doze legiões de anjos?” ( Mt 26:53 ). Apesar de estar à mão a possibilidade de rogar ao Pai que o livrasse do cálice, Cristo foi obediente até a morte, e morte de cruz. Na obediência de Cristo vê-se que ele foi perseverante, e o pai fiel a sua palavra.

O pedido de Cristo sempre foi segundo a vontade do Pai, pois Ele não rogou que o livrasse da morte física, antes que, mesmo na morte guardasse sua alma em segurança. Neste sentido Deus inclinou-se e ouviu o clamor do seu Filho “Guarda a minha alma, pois sou santo: ó Deus meu, salva o teu servo, que em ti confia” ( Sl 86:2 ).

Deus inclinou-se e ouviu o clamor do seu Filho! O profeta narra a ação de Deus em favor de Cristo na perspectiva do próprio Cristo, pois tudo é descrito na primeira pessoa: – ‘Ele inclinou-se para mim’! Temos neste verso estampado a perspectiva de Cristo que percebeu que o Pai inclinou-se para atendê-lo.

Mas, por que Cristo teve que esperar? Por que não foi atendido de pronto? Por causa do tempo estabelecido pelo Pai, conforme se lê:

“Assim diz o SENHOR: No tempo aceitável te ouvi e no dia da salvação te ajudei, e te guardarei, e te darei por aliança do povo, para restaurares a terra, e dar-lhes em herança as herdades assolada” ( Is 49:8 ).

O Salmo 22, no verso 24, temos o salmista apresentado o motivo pelo qual o Filho clamaria ao Pai: o momento de aflição:

“Porque não desprezou nem abominou a aflição do aflito, nem escondeu dele o seu rosto; antes, quando ele clamou, o ouviu” ( Sl 22:24 ; Mc 14:32 -36).

A situação do Messias no momento de angustia e pavor, é descrito como quando alguém está em uma fossa mortal, um buraco repleto de lama, porém, a ação salvadora do Pai o transfere para uma condição descrita como uma rocha onde os passos não vacilam, são firmes (v. 2 ; Sl 56:13 ).

O fato de o Pai ter socorrido o Filho serviu de louvor à glória do Pai, ou seja, um cântico foi posto na boca do Filho quando o Pai veio em seu auxílio ( Jo 17:4 ; v. 3).

Até a parte ‘a’ do verso 3 o salmista utiliza a primeira pessoa do discurso e, nesta perspectiva temos o Verbo de Deus descrevendo qual seria a sua situação e estado emocional, já na parte ‘b’, ele passa para a terceira pessoa do plural e demonstra que muitos haveriam de contemplá-lo: “muitos o verão, e temerão, e confiarão no SENHOR” (v. 3), ou seja, muitos veriam e confiariam naquele que esperou e foi ouvido “O SENHOR desnudou o seu santo braço perante os olhos de todas as nações; e todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus” ( Is 52:10 ).

O Senhor que muitos confiarão ao vê-lo é o Senhor que escondeu o seu rosto da casa de Israel, que haveria de resplandecer o seu rosto para iluminar os que jaziam em trevas “E esperarei ao SENHOR, que esconde o seu rosto da casa de Jacó, e a ele aguardarei” ( Is 8:17 ; Sl 80:3 ; Sl 110:10 ).

O verso 4 disserta sobre a condição do Messias perante Deus: o homem bem-aventurado. Na posição de homem Cristo não se associou aos soberbos nem aos mentirosos, não se conformou com os injustos chefes da religião, ao contrário, resistiu-lhes ( Sl 56:1 -2; Sl 52:1 -6).

Como Deus, Ele não somente os resistirá com palavras, mas também abaterá todo soberbo e os que se desviaram para a mentira “Exalta-te, tu, que és juiz da terra; dá a paga aos soberbos” ( Sl 94:2 ). Só o juiz de toda a terra pode identificar os soberbo e os mentirosos e abatê-los na sua ira “Derrama os furores da tua ira, e atenta para todo o soberbo, e abate-o” ( Jó 40:11 ).

Quando Deus ordenou que abatesse todos os soberbos, Jó levou a sua mão à boca, pois para fazê-lo seria necessário ter braços como Deus ( Jô 40:9 ).

No verso 5 tem-se um devocional do servo do Senhor no qual se faz referencia às ações maravilhosas de Deus em prol dos homens, pois o Servo paciente conquistou um nome superior a todo nome, poder e glória. Somente o Servo do Senhor pode mensurar o premio que lhe estava proposto, mas não era possível anunciá-las devido ao montante incalculável (v. 5).

 

6 Sacrifício e oferta não quiseste; os meus ouvidos abriste; holocausto e expiação pelo pecado não reclamaste. 7 Então disse: Eis aqui venho; no rolo do livro de mim está escrito. 8 Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu; sim, a tua lei está dentro do meu coração.

Para levar a efeito os seus desígnios Deus não exigiu sacrifico e oferta ( Sl 51:16 ), pois os sacrifícios para Deus são espírito quebrantado e coração quebrantado ( Sl 51:17 ). Sabedor desta verdade, Cristo se postou como servo voluntário e foi obediente em tudo, pois importava obedecer ao Pai em tudo “Então seu SENHOR o levará aos juízes, e o fará chegar à porta, ou ao umbral da porta, e seu senhor lhe furará a orelha com uma sovela; e ele o servirá para sempre ( Ex 21:6 ).

Algumas versões rezam acertadamente ‘minha orelha furastes’ em lugar de ‘os meus ouvidos abristes’, ou ‘corpo me preparaste’, o que confirmaria, segundo o previsto na lei mosaica, a voluntariedade do Servo do Senhor que se prontificou e disse: Eis aqui venho!

As ofertas e holocausto que eram oferecidos segundo a lei não foram exigidos por Deus, pois o sangue das vítimas utilizadas para a expiação não podiam tirar pecado, mas o povo em vez de obedecê-Lo era voluntarioso em sacrificar ( Hb 10:4 ; 1Sm 15:22 ).

O homem é voluntarioso em buscar para si uma vítima para colocar sobre o altar do sacrifício, porém, se esquece de confiar no Deus da providência, que já proveu para si o cordeiro, e este foi morto desde a fundação do mundo ( Gn 22:8 ; Ap 13:8 ).

Diante da triste realidade dos homens insubordinados, o servo do Senhor voluntariou-se: “Eis aqui venho!” (v. 7), e assim Cristo veio, conforme estava predito no livro: na condição de servo do Senhor “Disse mais: Pouco é que sejas o meu servo, para restaurares as tribos de Jacó, e tornares a trazer os preservados de Israel; também te dei para luz dos gentios, para seres a minha salvação até à extremidade da terra” ( Is 49:6 ).

Mas, qual foi o propósito daquele que se voluntariou diante de Deus? Oferecer ofertas e sacrifícios? Não! Ele se ofereceu para fazer a vontade do Pai! (v. 9 ; Jo 4:34 e Jo 6:38 ).

E, por que o deleite (comida) do Messias seria fazer a vontade do Pai? Porque Ele voluntariamente buscou a verdade e a fez estar unida ao seu coração! Cristo é a verdade, o Verbo de Deus encarnado, a luz dos homens, o homem humilde e manso de coração, pois não buscou fazer a sua própria vontade “Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma. Como ouço, assim julgo; e o meu juízo é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou” ( Jo 5:30 ; Sl 38:13 -14 ; Mt 11:29 ).

Sacrifícios são da vontade do homem “E, quando oferecerdes sacrifício pacífico ao SENHOR, da vossa própria vontade o oferecereis ( Lv 19:5 ; Lv 22:29 ), que difere da vontade de Deus, que ordenou misericórdia “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” ( Ex 20:6 ; Mt 12:7 ; Os 6:6 ).

Por que Moisés foi considerado o homem mais manso da terra? ( Nm 12:13 ), porque ele foi fiel em toda a casa do Senhor como servo para testemunho das coisas que se haviam de anunciar ( Hb 3:6 ), mais Cristo como Filho sobre a sua própria casa, por ser servo obediente em tudo e o anunciador de boas novas é superior a Moisés: humilde e manso de coração ( Hb 3:7 e Fl 2:8 ).

A humildade e mansidão decorre da obediência à vontade de Deus ( Hb 3:2 ). Confiar na salvação de Deus é o mesmo que ser humilde e manso, pois Deus salva os humildes, ou seja, que confiam na sua palavra, mas resiste aos soberbos ( Tg 4:6 ; 1Pe 5:5 ).

 

 9 Preguei a justiça na grande congregação; eis que não retive os meus lábios, SENHOR, tu o sabes. 10 Não escondi a tua justiça dentro do meu coração; apregoei a tua fidelidade e a tua salvação. Não escondi da grande congregação a tua benignidade e a tua verdade.

Assim como o profeta Moisés anunciava a congregação de Israel a vontade de Deus, o Filho anunciou à grande congregação que abarca todos os povos qual é a justiça do Senhor. Enquanto esteve na terra, Jesus não reteve os seus lábios de anunciar a verdade aos homens.

A lei, a retidão que estava unida ao coração do Messias (v. 8), não foi escondida, antes o Cristo apregoou que Deus é fiel à sua palavra (Verbo que se fez carne) e que, Cristo homem é a salvação de Deus ( Jo 17:3 ), ou seja, Cristo revelou o Pai ao mundo quando demonstrou ser a benignidade (graça) e a verdade de Deus ( Jo 1:14 e 18 ; Hb 2:12 ).

 

11 Não retires de mim, SENHOR, as tuas misericórdias; guardem-me continuamente a tua benignidade e a tua verdade. 12 Porque males sem número me têm rodeado; as minhas iniquidades me prenderam de modo que não posso olhar para cima. São mais numerosas do que os cabelos da minha cabeça; assim desfalece o meu coração. 13 Digna-te, SENHOR, livrar-me: SENHOR, apressa-te em meu auxílio. 14 Sejam à uma confundidos e envergonhados os que buscam a minha vida para destruí-la; tornem atrás e confundam-se os que me querem mal. 15 Desolados sejam em pago da sua afronta os que me dizem: Ah! Ah!

O Servo do Senhor apresenta suas petições ao Pai, fiado na benignidade e fidelidade do Pai ( Sl 91:1 ; Sl 17:8 ). Por que o Servo do Senhor precisaria de proteção? A resposta decorre dos versos 12 ao 15: inúmeros males haveriam de cercar o Messias deixando-o em pavor ( Sl 69:9 ).

O Messias tomou sobre si a culpa da humanidade e levou sobre si “Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho; mas o SENHOR fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos” ( Is 53:6 ; Mt 26:60 ; Is 53:4 ; Sl 71:7 ; Sl 89:38 ; Sl 91:15 ).

O Servo do Senhor clama por auxílio a quem pode livrá-lo (v. 13), para que os que buscavam tirar-lhe a vida fossem confundidos e os que o afrontaram fossem retribuídos segundo as suas obras ( Sl 62:12 ); “E, respondendo todo o povo, disse: O seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos” ( Mt 27:25 ).

A confusão dos que buscavam tirar a vida de Cristo é patente quando o Senhor no Jardim respondeu “Sou eu!” ( Jo 18:6 ), e todos retrocederam e caíram, conforme o predito no Salmo 56: “Quando eu a ti clamar, os meus inimigos retrocederão. Por meio disto saberei que Deus está comigo” ( Sl 56:9 ).

 

16 Folguem e alegrem-se em ti os que te buscam; digam constantemente os que amam a tua salvação: Magnificado seja o SENHOR. 17 Mas eu sou pobre e necessitado; contudo o Senhor cuida de mim. Tu és o meu auxílio e o meu libertador; não te detenhas, ó meu Deus.

Todos quantos buscam a Deus, segundo a poderosa salvação que foi levantada na casa de Davi ( Lc 1:69 ), devem regozijar-se. Pelo fato de ter sido salvo pelo Senhor, continuamente dirá, mesmo sem palavras, Magnífico é o Senhor!

Após fazer alusão a alegria daqueles que confiarem em seu nome, pelo espírito de profecia, o Servo do Senhor usa o salmista para relatar a sua condição de servo: “Mas eu sou pobre e necessitado; contudo o Senhor cuida de mim. Tu és o meu auxílio e o meu libertador; não te detenhas, ó meu Deus” (v. 17 ; Ap 19:10 ).

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