Deus endurece a quem quer?

Deus não fica impassível diante de um coração contrito (Sl 51:17; Sl 34:18; Is 57:15), de modo que Ele demonstra misericórdia aos que O obedecem. Deus ama os que O amam (Dt 30:20; Pv 8:17), pois, guardar o mandamento, é o amor de Deus.


Deus endurece a quem quer?

“Logo, pois, compadece-se de quem quer e endurece a quem quer.” (Rm 9:18)

Como compreender a conclusão do apóstolo Paulo: “Logo, pois, compadece-se de quem quer e endurece a quem quer”, que teve por base a passagem do Êxodo, em referência à palavra de Deus, anunciada a Faraó? (Rm 9:18)

“Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra.” (Rm 9:17)

Unilateralmente, Deus salva a quem quer e condena a quem quer? O apóstolo Paulo estava tratando da salvação da humanidade, ao concluir que Deus endurece a quem quer?

Esse exercício é necessário por causa de ‘como lemos’ as Escrituras! Certa vez, um doutor da lei questionou Jesus, acerca do direito à vida eterna e Jesus respondeu:

“E ele lhe disse: Que está escrito na lei? Como lês?” (Lc 10:26)

Há uma grande diferença entre o que está escrito e como se interpreta. O doutor da lei sabia o que estava escrito, porém, ao tentar justificar a si mesmo, demonstrou que desconhecia quem era o seu próximo. (Lc 10:29).

Como esse doutor da lei poderia ler, compreender e ensinar acerca da lei, se desconhecia quem era o seu próximo? Como alcançar a justiça da lei, sem saber quem é o próximo?

 

A chave

“Com o benigno te mostrarás benigno; e com o homem sincero te mostrarás sincero; com o puro te mostrarás puro; e com o perverso te mostrarás indomável.” (Sl 18:25)

O rei Davi, no Salmo 18, demonstra que Deus se mostra misericordioso com quem é misericordioso. Davi utilizou o adjetivo [1]חָסִיד (chaciyd), para descrever o homem que se sujeita a Deus como servo, obedecendo aos seus mandamentos e o verbo [2]חסד(chacad), para fazer referência a Deus, que demonstra misericórdia.

O profeta Davi bem sabia a quem Deus demonstra misericórdia, assim como o exposto no Deuteronômio:

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos.” (Dt 5:10)

Semelhantemente, com o homem perfeito,[3] Deus se mostra perfeito[4]. Como é possível ao homem ser perfeito? Ao falar com Abraão, Deus instruiu o patriarca a andar na Sua presença para alcançar tal posição:

“SENDO, pois, Abrão da idade de noventa e nove anos, apareceu o SENHOR a Abrão e disse-lhe: Eu sou o Deus Todo-Poderoso, anda em minha presença e sê perfeito.” (Gn 17:1; Dt 18:13).

Abraão tinha consciência de sua perfeição, pois, ele mesmo declara que andava na presença de Deus. (Gn 24:40).

“Porquanto, Abraão obedeceu à minha voz e guardou o meu mandado, os meus preceitos, os meus estatutos e as minhas leis.” (Gn 26:5)

Basta sujeitar-se a Deus, obedecendo ao que Ele já declarou na Sua palavra, que o homem é perfeito: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o SENHOR pede de ti, senão que pratiques a justiça, ames a benignidade e andes, humildemente, com o teu Deus?” (Mq 6:8)

“Sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso.” (Lc 6:36);

“Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus.” (Mt 5:48);

“Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; vem e segue-me.” (Mt 19:21)

Tiago declara que todos os cristãos tropeçam em muitas coisas, mas aquele que não tropeça na palavra da verdade é perfeito. (Tg 3:2)

Deus se evidencia justo, verdadeiro, sem mistura, ou seja, perfeito, para o homem que anda em sua presença, ou seja, que é perfeito. Com relação ao puro, Deus, também, se evidencia puro[5], ou seja, justo, bondoso.

No entanto, Deus se revela impossível[6], indomável, no sentido de não demonstrar a sua misericórdia, benignidade, ao homem que não se sujeita a Ele (perverso)[7].

Essa abordagem do Salmista é semelhante ao exposto pelo apóstolo Paulo:

“Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também, com ele viveremos; Se sofrermos, também, com ele reinaremos; se o negarmos, também, ele nos negará; Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo. (2 Tm 2:11)

Deus não fica impassível diante de um coração contrito (Sl 51:17; Sl 34:18; Is 57:15), de modo que Ele demonstra misericórdia aos que O obedecem. Deus ama os que O amam (Dt 30:20; Pv 8:17), pois, guardar o mandamento, é o amor de Deus.

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados.” (1 Jo 5:3).

O apóstolo João, ao dar essa declaração, interpreta Deuteronômio 30, verso 11:

“Porque este mandamento, que hoje te ordeno, não te é difícil de mais e, tampouco, está longe de ti.” (Dt 30:11)

Dependendo de como o homem se posiciona diante do mandamento de Deus, há promessa de vida ou, de expectação de morte:

“Vês aqui, hoje te tenho proposto a vida e o bem, a morte e o mal; Porquanto, te ordeno hoje que ames ao SENHOR teu Deus, que andes nos seus caminhos, e que guardes os seus mandamentos, os seus estatutos e os seus juízos, para que vivas, e te multipliques e o SENHOR teu Deus te abençoe na terra, a qual entras a possuir. Porém, se o teu coração se desviar e não quiseres dar ouvidos e fores seduzido para te inclinares a outros deuses e os servires, Então, eu vos declaro hoje que, certamente, perecereis; não prolongareis os dias na terra a que vais, passando o Jordão, para que, entrando nela, a possuas.” (Dt 30:15-18)

A palavra do evangelho tem essa mesma característica:

“E em nada vos espanteis dos que resistem, o que para eles, na verdade, é indício de perdição, mas, para vós, de salvação e isto, de Deus.” (Fl 1:28)

Isso porque aprouve a Deus salvar os que creem em Sua palavra, pois, Ele demonstra misericórdia aos que O amam, ou seja, lhe obedecem, no entanto, Deus, também, se revela zeloso, inflexível, ante os que não aquiescem à sua palavra:

“Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia, até mil gerações, aos que o amam e guardam os seus mandamentos. E retribui no rosto a qualquer dos que o odeiam, fazendo-o perecer; não será tardio ao que o odeia; em seu rosto, lhe pagará.” (Dt 7:9-10);

“Não te encurvarás a elas, nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até à terceira e à quarta geração daqueles que me odeiam. E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos.” (Dt 5:9-10);

“Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não conheceu a Deus, pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes, pela loucura da pregação.” (1 Co 1:21).

Deus é zeloso, ao retribuir a iniquidade sobre o ímpio e fiel, ao demonstrar a sua salvação aos que O amam.

Por causa dessa verdade exarada na lei, o Salmista, poeticamente, utilizando-se de paralelismos e figuras, faz uma descrição profética de como Deus age para com os homens: Ele é fiel, benigno e justo com os que lhe obedecem, porém, zeloso, ou seja, indomável, inflexível com aqueles que rejeitam a sua palavra.

“Com o benigno, te mostrarás benigno; e com o homem sincero, te mostrarás sincero; Com o puro, te mostrarás puro; e com o perverso, te mostrarás indomável.” (Sl 18:25).

Daí a máxima:

“Porém, ele disse: Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti e proclamarei o nome do SENHOR diante de ti; e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer.” (Êx 33:19).

De quem Deus tem misericórdia e se compadece? Do benigno, do sincero, do puro!

Qualquer pedido do homem, semelhante ao feito por Moisés, que tente mudar a fidelidade (amor) e o zelo (retribuição) de Deus, será inócuo (Dt32:32), pois Ele terá misericórdia de quem lhe apraz, ou seja, dos que O amam e se compadece de quem lhe apraz, dos que guardam o seu mandamento!

 

Endurece a quem quer

Todos os versos que analisamos, até agora, demonstram a natureza de Deus e como Ele age para com os homens: misericórdia aos que O amam e retribuição aos que O odeiam.

É, através da análise desses textos, que o apóstolo Paulo chega à conclusão de que Deus se compadece de quem quer, logo, após, fazer alusão a Faraó:

“Logo, pois, compadece-se de quem quer e endurece a quem quer.” (Rm 9:18)

Após afirmar que não há injustiça em Deus, apontando para Esaú e Jacó, o apóstolo cita o que foi dito a Moisés: compadecer-me-ei de quem me compadecer (Rm 9:13), porque Deus se compadeceu de Jacó, que havia adquirido o direito de primogenitura e rejeitou a Esaú como primogênito, visto ter desprezado o direito de primogenitura, vendendo-o, por um prato de lentilhas. (Gn 25:34)

De nada adiantou Esaú correr atrás da caça e querer a bênção, rogando a José, seu pai, se a benção estava atrelada à primogenitura e ao primogênito. Deus exerce a sua misericórdia (Rm 9:16). Em Esaú e Jacó evidencia-se que o propósito de Deus, segundo a eleição, fica firme, não por causa das obras, mas pelo que chama.

Deus chamou o primogênito para o seu propósito e a bênção estava reservada para o primogênito. Embora as obras de Esaú, ao sair à caça de um animal cevado, tinha o viés de alcançar a benção, o direito à benção já havia sido decidido quando ele desprezou a primogenitura por um prato de lentilhas.

“Mas, ao filho da desprezada, reconhecerá por primogênito, dando-lhe dobrada porção de tudo quanto tiver; porquanto, aquele é o princípio da sua força, o direito da primogenitura é dele.” (Dt 21:17).

Torna-se evidente o motivo pelo qual a eleição de Deus repousou sobre Jacó: o direto de primogenitura, porém, muitos alegam que não há como saber, como Deus elege alguém para o seu propósito. Esses alegam que o propósito de Deus se dá pela sua soberania, ou que a mente humana é pequena demais para compreendê-lo.

“Ora, todos sabem que o amor e a ira de Deus não se assemelham às paixões humanas; porém, a questão com que ora nos defrontamos não requer que perguntemos como Deus ama ou odeia, mas, por que Deus ama ou odeia (…) O amor e a ira de Deus não estão sujeitos a alterações, conforme ocorre conosco. Em Deus, ambos são eternos e imutáveis. Foram fixados muito antes que o “livre-arbítrio” fosse possível. Vemos nisso, que nem o amor nem a ira de Deus esperam pela reação humana, mas antecedem à mesma. […] O que poderia ter feito Deus amar a Jacó ou odiar a Esaú? Certamente, não por qualquer coisa que eles tivessem feito, pois a atitude de Deus para com eles foi estabelecida e declarada, antes mesmo de terem nascido e não havia muita atuação do “livre-arbítrio” naquela ocasião!” Martinho Lutero, Nascido Escravo, pág. 81.

A Bíblia apresenta resposta às duas perguntas: a) como Deus ama e odeia, e; b) por que Deus ama e odeia. O amor de Deus se evidencia em conceder o que é de direito ao homem e o seu ódio, em negar o que não é de direito ao homem. No caso de Jacó, Deus o amou, porque ele buscou para si o direito de primogenitura e odiou a Esaú, ou seja, não lhe concedeu o que não lhe era de direito.

Quando Deus tirou os filhos de Israel do Egito, não o fez por que eram melhores e mais justos que os povos que habitavam a terra prometida (Dt 9:4-6), antes, porque Deus os amava, ou seja, para guardar o juramento que fizera a Abraão, Isaque e Jacó.

“O SENHOR não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos, em número, do que eles; Mas, porque o SENHOR vos amava, e para guardar o juramento que fizera a vossos pais, o SENHOR vos tirou com mão forte e vos resgatou da casa da servidão, da mão de Faraó, rei do Egito. Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos. E retribui no rosto qualquer dos que o odeiam, fazendo-o perecer; não será tardio ao que o odeia; em seu rosto lho pagará.” (Dt 7:7-10)

O termo ‘amor’ denota ‘honra’, não sentimento, de modo que Deus ama o que O honra e odeia aos que O desprezam.

“Portanto, diz o SENHOR Deus de Israel: Na verdade, tinha falado eu que a tua casa e a casa de teu pai andariam diante de mim, perpetuamente; porém, agora, diz o SENHOR: Longe de mim tal coisa, porque, aos que me honram honrarei, porém, aos que me desprezam, serão desprezados. (1 Sm 2:30)

No caso de Esaú e de Jacó, pelo amor de Deus, já estava estabelecido para quem seria a bênção, antes mesmo que as crianças tivessem nascido ou, feito bem ou, mal: a bênção era para o primogênito. Esaú, de livre-vontade, desprezou o direito e Jacó, de livre vontade, buscou o direito para si, de modo que o amor de Deus não está atrelado ao arbítrio do homem, mas à sua palavra, que estabeleceu o direito do primogênito.

Deus se compadeceu de Jacó, porque ele buscou para si o direto de primogênito e Deus, sendo zeloso, não deu o que não era de direito a Esaú, rejeitando-o, por não ser o primogênito. A bênção da primogenitura não se dá por misericórdia, mas, por eleição, pois, na eleição, o propósito de Deus fica firme, não por causa das obras, mas pelo que chama.

O apóstolo cita as Escrituras, especificamente, com relação ao que foi dito a Faraó:

“Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra.” (Rm 9:17).

Ora, faraó[8] foi levantado para Deus mostrar o Seu poder e o seu Nome ser anunciado sobre a face da terra. O propósito de Deus era anunciar o seu nome e declarar o seu poder e escolheu um dos reis do Egito para isso. Como o propósito de Deus é firme e imutável, não importava o posicionamento de Faraó: Deus anunciaria o seu nome e declararia o seu poder.

Deus não elegeu uma pessoa especifica, mas, um faraó, ou seja, o escolhido poderia ser qualquer rei do Egito. É significativo o fato de a Bíblia não trazer o nome do faraó à época do êxodo, o que demonstra que Deus não elegeu uma pessoa, mas, um rei.

Isso não significa que Deus havia rejeitado faraó, ao levantá-lo. Pelo contrário, se faraó se inclinasse em terra e reconhecesse que Deus é Deus, deixando o povo ir, o poder de Deus seria revelado e anunciado o seu nome em toda a terra. Do mesmo modo, como o propósito é firme, quando faraó não aquiesceu à ordem de Deus, Deus mostrou o seu poder e anunciou o seu nome sobre a face da terra, arrancando o povo com mão forte.

O que o apóstolo Paulo evidencia, ao citar a Faraó, não é a pessoa do rei do Egito, mas, a eleição de Deus, que é firme, por causa do propósito de Deus. Faraó, deixando ou não o povo ir, o propósito de Deus se efetivaria. Observe que o que está em análise não é o coração de Faraó, mas, o fato de Deus se compadecer de quem lhe apraz.

A longanimidade de Deus vem expressa em sua palavra, de modo que falou a faraó por dez vezes, sendo Deus longânime, como o foi nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca. A mesma água do mar vermelho que se abriu para os filhos de Israel, significando salvação, fechou-se sobre Faraó, significando, perdição, assim como nos dias de Noé, em que o mundo inteiro pereceu pela água e somente oito almas se salvaram pela água.

“…quando a longanimidade de Deus esperava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca; na qual poucas (isto é, oito) almas se salvaram pela água; Que, também, como uma verdadeira figura, agora vos salva, o batismo, não do despojamento da imundícia da carne, mas, da indagação de uma boa consciência para com Deus, pela ressurreição de Jesus Cristo.” (1 Pe 3:20-21).

Quando o apóstolo Paulo conclui, com base na palavra dita a faraó, que Deus se compadece de quem quer, evidencia que Deus exerce misericórdia àqueles que Lhe obedecem. O verso trata de como Deus se porta, não do homem.

“Logo, pois, Ele se compadece de quem quer…” (Rm 9:18)

Deus se compadece dos que O obedecem, ou seja, dos que O amam e para Deus exercer a sua misericórdia, Ele não faz acepção de pessoas.

Mas, com relação ao propósito de Deus, opera a eleição, pois o propósito de Deus permanece firme, independentemente, das pessoas envolvidas. Não importava se Esaú ou, Jacó, seriam abençoados, mas, sim, o propósito de Deus, segundo a eleição, que estabeleceu a primogenitura, como critério para conceder a bênção, tendo em vista a linhagem do descendente prometido a Abraão.

Semelhantemente, não importava quem era o faraó à época ou, se ele iria obedecer ou, não, o propósito pelo qual o faraó foi levantado, foi levado a efeito: Deus anunciou o seu nome ao mundo e mostrou o poder de Deus.

Isso significa que Deus ‘endureceu’[9] a faraó?

“Logo, pois Ele se compadece de quem quer e endurece a quem quer. (Rm 9:18).

Definitivamente não! Deus não agiu sobre a vontade, influenciando a decisão de faraó, de modo a torná-lo recalcitrante. O verso não aponta uma pessoa que era o faraó, à época, e nem para os homens, mas, sim, para Deus, descrevendo-O como zeloso (indomável, impossível), quando o homem é perverso, desobediente.

Do mesmo modo que Deus é compassivo com quem quer, Deus é indomável com quem quer:

“ἄρα οὖνὃνθέλειἐλεεῖὃνδὲθέλεισκληρύνει” Westcott/HortwithDiacritics.

“Assim, pois (de) quem (ele) quer tem misericórdia, (a) quem [2] mas[1] quer endurece”. Novo Testamento Interlinear Grego-Português (SBB).

Os termos gregos ἐλεεῖ e σκληρύνει estão na terceira pessoa do singular, do tempo presente, modo indicativo e voz ativa. Os verbos na frase não contém outro sujeito além de Deus. É Deus que tem misericórdia de quem quer, e é Ele que é inflexível, ou seja, zeloso, com quem quer.

Através da língua grega, o apóstolo Paulo reproduz uma premissa imortalizada no Livro do Êxodo, através de um paralelismo, que, em essência, é a repetição de uma ideia, recurso essencial às poesias hebraicas. Fazendo uma releitura do exposto no Êxodo a Moisés, Deus evidencia a verdade da sua misericórdia, através de um paralelismo sinômico:

“Porém, ele disse: Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti e proclamarei o nome do SENHOR diante de ti; e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer.” (Êx 33:19)

Se Deus tem misericórdia de quem lhe apraz, segue-se que Ele não se compadece de quem não lhe apraz, ou seja, Deus se endurece. Deus é fiel, ao ter misericórdia dos que O amam e guardam o seu mandamento (Dt 7:9-10) e Deus é zeloso, inflexível, se endurece, com aqueles que O odeiam (Dt 5:9-10). Essa ideia vem sendo desenvolvida nos versos 15 e 16, do capítulo 9 de Romanos e conclui-se no verso 18:

“Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece (…) Logo, pois, compadece-se de quem quer e endurece quem quer.” (Rm 9:15-16 e 18).

Em relação a Esaú e Jacó, Deus amou Jacó e odiou a Esaú. O termo ‘amor’ foi empregado no sentido de compadecer e o termo ‘ódio’, no sentido de endurecer, ou seja, com o perverso Deus se mostra indomável, duro, inflexível, o que se deu com Faraó.

“Eu vos tenho amado, diz o SENHOR. Mas vós dizeis: Em que nos tem amado? Não era Esaú irmão de Jacó? disse o SENHOR; todavia amei a Jacó e odiei a Esaú; fiz dos seus montes uma desolação e dei a sua herança aos chacais do deserto.” (Ml 1:2-3)

Devemos considerar que Faraó se mostrou perverso ante a palavra de Deus, ou seja, endureceu[10] o seu coração. A Bíblia demonstra que “o coração de Faraó se endureceu.” (Êx.7:13-14 e Êx 8:19) e que Faraó “continuou de coração endurecido” (Êx 8:15). Quando Faraó se propunha a deixar o povo ir, Deus desviava a praga, mas, quando ele se endurecia, novamente, Deus enviava nova praga.

“E Faraó chamou a Moisés e a Arão e disse: Rogai ao SENHOR, que tire as rãs de mim e do meu povo; depois, deixarei ir o povo, para que sacrifiquem ao SENHOR (…) Vendo, porém, Faraó que havia alívio, continuou de coração endurecido e não os ouviu, como o Senhor tinha dito.” (Êx 8:8 e 15)

O termo hebraico קשה (qashah), traduzido por ‘endurecer’, em Êxodo 7, verso 3, não diz de uma ação sobrenatural de Deus, influenciando as decisões de Faraó, antes, a palavra que foi dita a Faraó: ‘Deixa ir o meu povo, para que me celebre uma festa no deserto” (Êx 5:1), fez de Faraó um obstinado.

Ao dar ordem a Faraó, por intermédio de um mensageiro: ‘Deixa ir o meu povo…’, Deus endureceu o coração de Faraó e como Faraó não aquiesceu, Deus se mostrou zeloso, indomável, impossível.

Antes da palavra de Deus, o coração de Faraó não tinha disposição alguma, em relação a deixar ou, não, o povo de Israel ir a qualquer lugar que seja, mas quando ouviu que era necessário deixar ir o povo que pertencia a Deus, Faraó se endureceu pela proposta.

Onde está o espírito de Deus, ai há liberdade! (2 Co 3:17) Para o propósito que Faraó foi levantado, não era necessário Deus endurecer o coração de Faraó, pois o propósito de Deus seria levado a efeito se Faraó obedecesse, ou não. Desse modo, se Deus ‘endureceu’ o coração de Faraó para ser glorificado, de certo seria melhor ‘amolecer’ o coração de Faraó, pois assim também seria glorificado.

Mas, Deus não faz nenhuma ou, nem outra coisa, antes, dá liberdade ao homem e, por isso, Deus é longânime e espera que Israel se converta, quando o véu será tirado (2 Co 3:16). Deus apresenta ao homem a sua palavra e Deus agirá conforme a resposta que o homem der a ela.

Muitos, por não compreenderem a eleição de faraó, para explicá-la, se focam na ideia de que faraó não é uma pessoa boa e nem temente a Deus; que a sociedade egípcia era comandada por faraós que se achavam deuses, que escravizaram os filhos de Israel, que foram responsáveis por inúmeras mortes de criancinhas, etc.

“A minha resposta é que, à parte da graça da eleição, Deus trata com os homens em consonância com a natureza deles. Visto que a natureza deles é maligna e pervertida, quando Deus os impulsiona para que entrem em ação, seus atos são malignos e pervertidos.” Martinho Lutero, Nascido Escravo, pág. 73.

“Deus não cria uma nova maldade no coração dos homens. Antes, Ele se utiliza do mal que já se encontra no coração deles, visando aos seus próprios, bons e sábios desígnios.” Martinho Lutero, Nascido Escravo, pág. 74.

Deus não trata o homem em consonância com a índole ou moral, antes trata com os homens, através do estabelecido na sua palavra. A palavra de Deus é a medida e a ferramenta de Deus, de modo que Ele zela da sua palavra para cumpri-la. (Jr 1:12) É um equívoco achar que Deus utiliza o mal que há no coração do homem, para levar a efeito o Seu propósito.

Ora, a eleição de Deus é firme e não tem em vista se a pessoa fez bem ou mal, mas tem em vista a glória de Deus. O mesmo critério utilizado na eleição de Esaú e Jacó, quando Raquel concebeu de Isaque, sendo que as criancinhas nem tinham nascido e nem feito bem ou, mal, é o mesmo critério estabelecido sobre faraó, portanto, não tem em vista se ele era bom ou mal, ou se fez algum bem ou muitos males.

Pelo fato de desconhecerem que Deus tem misericórdia daqueles que O obedecem, ao lerem em Romanos 9, verso 18, que Deus “tem misericórdia de quem ele quer e endurece a quem ele quer”, muitos argumentam que faraó não tinha desculpa e era responsável por seu próprio pecado, quando Deus o ‘endureceu’.

Pelo fato de não compreenderem que Deus se apraz em exercer misericórdia aos que O amam, e que Deus disse que ‘tem misericórdia de quem quer’, para evidenciarem a Moisés o que já havia sido apregoado, anteriormente (Êx 33:19), compare-se com (Êx 20:6), em que não conseguem aceitar o que foi dito, acerca de faraó.

“Por que Deus não altera a vontade perversa de pessoas como Faraó? Essa questão toca na vontade secreta de Deus, cujos caminhos são inescrutáveis. (Rm 11:33) Se alguém, que é orientado por sua razão humana, fica ofendido por causa disso, que assim seja. As queixas nada mudarão e os eleitos de Deus permanecerão inabaláveis. Poderíamos, também, perguntar por que Deus deixou que Adão caísse! Não devemos tentar estabelecer regras para Deus. Aquilo que Deus faz, não é correto porque o aprovamos, mas porque Deus assim o desejou”. Idem.

Por que Deus deixou que Adão caísse? Resposta: – Porque Deus o orientou e lhe deu plena liberdade! Foi uma escolha deliberada de Adão, por ser livre. E, por que Deus não altera a vontade (perversa ou não) das pessoas? Por que os dons de Deus são irrevogáveis! Como Deus lida com a liberdade do homem não é segredo, ou, algo que as suas criaturas não possam compreender.

Com relação a Deus, o homem sempre é livre, sendo servo de Deus ou, não! Isso não significa que o homem não esteja livre de um senhor, pois, os que não estão sujeitos a Deus, estão sujeitos ao pecado.

A abordagem do capítulo 9 de Romanos, não tem em vista a salvação ou, a condenação do homem, mas, sim, a demonstração de que palavra de Deus não havia falhado (Rm 9:6). Agostinho, Lutero, Calvino, e muitos outros, com base em Romanos 9, debatem, acerca da salvação e da condenação, porém, o apóstolo Paulo estava demonstrando que, apesar de haverem muitas pessoas pertencentes a Israel, de fato elas não eram israelitas.

O fato de serem descendentes de Abraão não significava que eram filhos de Abraão (Rm 9:7), pois, em Isaque a descendência de Abraão AINDA seria chamada. Mas, se os filhos de Isaque fossem descendência de Abraão, não seria necessária a palavra de Deus a Rebeca: ‘o maior servirá o menor’, o que significa que Jacó e Esaú ainda não eram a descendência de Abraão, antes, que em Jacó seria chamada a descendência de Abraão (Rm9:12).

“Porém, Deus disse a Abraão: Não te pareça mal aos teus olhos acerca do moço e acerca da tua serva; em tudo o que Sara te diz, ouve a sua voz; porque, em Isaque será chamada a tua descendência.” (Gn21:12)

Há uma grande diferença, entre interpretar que Isaque era a descendência de Abraão e, assim, todos os seus filhos seriam bem-aventurados, entre interpretar que, em Isaque a descendência de Abraão seria chamada.

“Nem por serem descendência de Abraão, são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência.” (Rm 9:7)

O apóstolo Paulo não estava dizendo que Deus, unilateralmente, salva quem quer e condena quem quer, por ser soberano, antes, que a palavra de Deus, com relação à descendência prometida a Abraão, não havia falhado. Deus prometeu um descendente a Abraão, que viria por Isaque, o Cristo, e cumpriu a sua palavra a Abraão, quando disse: ‘Por esse tempo virei e Sara terá um filho’. (Rm 9:9)

Mas, de Isaque nasceram dois filhos: Esaú e Jacó e, de ambos, não seria chamada a descendência de Abraão, pelo que foi dito a Rebeca: ‘o maior servirá o menor’, pois havia dois povos no ventre de Rebeca. Neste caso, Deus elegeu a casa de Jacó e rejeitou a casa de Esaú, para chamar a descendência prometida a Abraão.

E qual o critério que Deus utilizou para escolher entre Esaú e Jacó? O direito de primogenitura, estabelecido conforme a sua soberania. Conclui-se que não há injustiça da parte de Deus (Rm 9:14) e que a palavra de Deus não havia falhado (Rm 9:6).

Há injustiça da parte de Deus, por ter amado a Jacó e aborrecido Esaú? De modo nenhum! Primeiro, Deus deu o que era de direito a Jacó, e, segundo, Deus manteve a sua palavra dada a Abraão, acerca do descendente!

Em momento algum, no capítulo 9 da carta aos Romanos, o apóstolo Paulo tratou de salvação ou, de perdição, antes destacou: a) como veio ao mundo o Salvador e; b) como Deus cumpriu a palavra anunciada a Abraão, acerca da descendência, que seria chamada em Isaque e que passou por Jacó.

A palavra de Deus não falhou para com Israel, visto que, no tempo presente, há um remanescente, mas segundo a eleição da graça:

“Assim, pois, também, agora, neste tempo, ficou um remanescente, segundo a eleição da graça” (Rm 11:5)

“Também, Isaías clama acerca de Israel: Ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, o remanescente é que será salvo. Porque ele completará a obra e abreviá-la-á em justiça; porque o Senhor fará breve a obra sobre a terra.” (Rm 9:27 -28).

Deus salva o homem por intermédio da mensagem do evangelho (loucura da pregação, fé), e não através da eleição, predestinação ou presciência. Os que creem (crentes) na mensagem do evangelho (loucura da pregação) são salvos, pois o evangelho é o poder de Deus para salvação dos que creem (Rm 1:16).

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1] “02623  חסיד  (chaciyd) procedente de 2616; DITAT – 698b; adj 1) fiel, bondoso, piedoso, santo 1a) bondoso 1b) piedoso, devoto 1c) os fiéis (substantivo)”, Dicionário Bíblico Strong.

[2] 02616″ חסד (chacaduma) raiz primitiva; DITAT – 698, 699; v1) ser bom, ser gentil 2a) (Hitpael), mostrar bondade para 2) ser reprovado, ser envergonhado 1a) (Piel) ser envergonhado, ser reprovado”, Dicionário Bíblico Strong.

[3] תמים 08549 (tamiym) procedente de 8552; DITAT – 2522d; adj. 1) completo, total, inteiro, são 1a) completo, total, inteiro 1b) total, são, saudável 1c) completo, integral (referindo-se ao tempo) 1d) são, saudável, sem defeito, inocente, íntegro fig. Figuradamente 1e) que está completa ou inteiramente de acordo com a verdade e os fatos (adj./subst. neutro)”, Dicionário Bíblico Strong.

[4]תמם 08552 (tamam) uma raiz primitiva; DITAT – 2522; v. 1) ser completo, estar terminado, acabar 1a) (Qal), 1a1) estar terminado, estar completo, 1a1a) completamente, totalmente, inteiramente (como auxiliar de outro verbo), 1a2) estar terminado, acabar, cessar, 1a3) estar completo (referindo-se a número), 1a4) ser consumido, estar exausto, estar esgotado, 1a5) estar terminado, ser consumido, ser destruído, 1a6) ser íntegro, ser idôneo, ser sem defeito, ser justo (eticamente), 1a7) completar, terminar 1a8) ser atravessado, completamente, 1b) (Nifal) ser consumido, 1c) (Hifil)”, Dicionário Bíblico Strong.

[5] ברר 01305 (barar) uma raiz primitiva; DITAT – 288; v 1) purificar, selecionar, polir, escolher, depurar, limpar ou, tornar brilhante, testar ou, provar, 1a) (Qal), 1a1) depurar, purificar, 1a2) escolher, selecionar, 1a3) limpar, deixar brilhante, polir, 1a4) testar, provar, 1b) (Nifal) purifi/car-se, 1c) (Piel) purificar, 1d) (Hifil), 1d1) purificar, 1d2) polir flechas, 1e) (Hitpael), 1e1) purificar-se, 1e2) mostrar-se puro, justo, bondoso”, Dicionário Bíblico Strong.

[6] פתל 06617 (pathal) uma raiz primitiva; DITAT – 1857; v. 1) torcer, 1a) (Nifal), 1a1) ser torcido, 1a2) lutar, 1b) (Hitpael), ser torcido”, Dicionário Bíblico Strong.

[7] עקש 06141 (iqqesh) procedente de 6140; DITAT – 1684a; adj. 1) torcido, deformado, torto, perverso, pervertido”, Dicionário Bíblico Strong.

[8]Faraó é a designação (título) que se atribuí aos reis (com estatuto de deuses) no Antigo Egito, porém, à época o povo os chamava por nesu (“rei”) ou neb (“senhor”). Faraó decorre da tradução grega da Bíblia, que deriva da expressão egípcia per-aá, “a grande casa”, que a tradição entende como sendo referência ao palácio real, à sede do poder, mas a expressão pode fazer referência à linhagem dos faraós.

[9] “4645 σκληρυνωs (kleruno) de 4642; TDNT – 5:1030, 816; v 1) tornar duro, endurecer 2) metáf. 2a) tornar obstinado, teimoso, 2b) ser endurecido, 2c) tornar-se obstinado ou, teimoso”, Dicionário Bíblico Strong.

[10] “07185 קשה (qashah uma raiz primitiva; DITAT – 2085; v. 1) ser duro, ser severo, ser feroz, ser cruel 1a) (Qal), 1a1) ser duro, ser difícil, 1a2) ser rude, ser severo, 1b) (Nifal), 1b1) ser maltratado 1b2) ser oprimido 1c) (Piel), ter grandes dores de parto (referindo-se a mulheres), 1d) (Hifil), 1d1) tornar difícil, criar dificuldade, 1d2) tornar rigoroso, tornar fatigante, 1d3) endurecer, tornar obstinado, tornar teimoso, 1d3a) referindo-se a obstinação (fig.), 1d4) demonstrar teimosia”, Dicionário Bíblico Strong.

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Ficarão de fora os feiticeiros

Os ‘cães’ que ficarão de fora é uma figura para fazer referência aos maus obreiros, àqueles que andam segundo a circuncisão (Fl 3:2), os ‘feiticeiros’ também é uma figura para compor uma alegoria.

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Eleição e Predestinação

Pela onisciência Deus conhece (saber) todos os salvos e todos os perdidos em todos os tempos. Entretanto, há aqueles que Deus nunca conheceu (nunca foram um com Ele) e estes irão para o fogo eterno (Mt 7:23) e há aqueles que conhecem a Deus, ou antes, são conhecidos d’Ele, ou seja, são um com Ele e são salvos (Gl 4:9).


“Porquanto, aos que de antemão conheceu, também, os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Romanos 8:29 -30)

Os fins da predestinação

É consenso entre os estudiosos pensar a predestinação tendo o homem como fim imediato, isso porque, na sua grande maioria, entendem que, através da predestinação, Deus concede salvação aos homens.

Apesar de inúmeros textos bíblicos rezarem que Deus salva o homem por meio  do evangelho, que é poder de Deus para salvação de todo que crê (Rm 1:16), simplesmente, ignoram a verdade e se agarram a algumas teorias teológicas.

Sem embargo, os apóstolos afirmam, com todas as letras, que Deus, segundo a sua misericórdia, salva o homem pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo, ou seja, pela semente incorruptível, que é a palavra de Deus (Tt 3:5).

Mesmo diante de declarações contundentes, de que Cristo Jesus aboliu a morte e trouxe à luz a vida e a incorrupção, pelo evangelho, (2 Tm 1:10; Ef 1:13; 1 Co 1:21), muitos insistem em afirmar que a salvação se dá através da predestinação.

 

O fim imediato da predestinação está vinculado a Cristo

Na Antiga Aliança, os primogênitos tinham direito a vários privilégios, em relação aos demais irmãos, pois, a eles, pertencia a bênção, o principado, o sacerdócio, porção dobrada da herança, etc. Em virtude de ter nascido primeiro, em relação aos demais irmãos, o primogênito detinha a preeminência em tudo.

Semelhantemente, Cristo é o primeiro a ressurgir dentre os mortos e, por isso, foi declarado primogênito dentre os mortos (Cl 1:18; Ap 1:5). Ao ressurgir dentre os mortos, Cristo conduziu muitos filhos à glória de Deus (Hb 2:10), de modo que Aquele que foi introduzido no mundo, na condição de Unigênito, agora é primogênito entre muitos irmãos.

Mas, para Cristo ser primogênito entre muitos irmãos, cada irmão, necessariamente, deve ser semelhante a Ele, pois, só é irmão aquele que participa das mesmas coisas (Hb 2:14). Cristo, para chamar os homens de irmãos, teve de participar da carne e do sangue (Hb 2:11-14), semelhantemente, os homens, para chamarem o Cristo glorificado de irmão, necessitam ser participantes de Sua glória.

A solução dessa equação está na predestinação! Na eternidade, antes de haver mundo, Deus estabeleceu que todos os homens salvos por intermédio do evangelho estão predestinados a serem conforme a imagem de Cristo, com o único objetivo de Ele ser o primogênito entre muitos irmãos.

Ao ser gerado de novo, através da semente incorruptível, o novo homem em Cristo faz parte da geração eleita, ou seja, eleito antes da fundação do mundo, para ser santo e irrepreensível diante de Deus (Ef 1:3).

Isso significa que Deus não elegeu indivíduos para serem santos e irrepreensíveis, mas, elegeu a geração de Cristo. Se Deus tivesse elegido indivíduos a escolher, a escolha recairia sobre os descendentes da geração imunda e culpável, segundo a semente corruptível de Adão. Entretanto, Deus elegeu a descendência de Cristo, o último Adão, pois os homens gerados segundo Cristo, são criados em verdadeira justiça e santidade, ou seja, santos e irrepreensíveis.

Como a geração de Cristo é eleita, significa que todos os que são gerados de novo, pela verdade do evangelho, sem exceção, também são predestinados a serem semelhantes a Cristo (1 Jo 3:1-2). Através da predestinação, todos os salvos pela misericórdia de Deus, demonstrada por intermédio do evangelho, terão a mesma imagem do homem celestial: Cristo (1 Co 15:49).

O evangelho foi anunciado para a salvação e a predestinação estabelecida para a imagem. O evangelho é semente incorruptível que trás à existência novas criaturas e são eleitos por terem sido de novo gerados segundo o último Adão, o eleito de Deus.

A eleição e a predestinação estão em conexão com a aprovação régia que Deus propusera em Si mesmo na pessoa de Cristo de, na plenitude dos tempos, tornar a congregar em Cristo todas as coisas, tanto as do céu quanto as da terra (Ef 2:9-10).

Nos céus, Cristo foi elevado à posição de cabeça da Igreja (Ef 1:22), e na terra à posição de mais sublime (Sl 89:27). Ao eleger Abraão, Deus congregou as coisas da terra em Cristo, e no Descendente prometido a Abraão, Cristo, Deus congregou as coisas dos céus.

“E sujeitou todas as coisas a seus pés e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja” (Ef 1:22);

“Também o farei meu primogênito mais elevado do que os reis da terra” (Sl 89:27)

Segundo o conselho da Sua vontade, o propósito de Deus estabelecido em Cristo foi levado a efeito quando Ele se assentou à destra da Majestade nas Alturas, na posição de cabeça da Igreja, Primogênito entre muitos irmãos.

Agora, Cristo está aguardando que todos os seus inimigos sejam postos por escabelo dos seus pés (Sl 110:1), quando Ele se levantará para reger as nações da terra, assentado sobre o trono de Davi, seu pai, como o mais elevado do que os reis da terra.

Mas, como é ser semelhante a Cristo? Segundo o apóstolo João, ainda não é manifesto como haveremos de ser, mas uma coisa é certa: quando Cristo se manifestar seremos semelhantes a Ele! (1 Jo 3:2)

 

O fim mediato da predestinação em relação aos homens

Na eternidade, Deus decretou que a geração de Cristo, além de ser santa e irrepreensível, visto que nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, todos os gerados d’Ele serão conformes à imagem de seu Filho.

É impossível Deus escolher os descendentes da carne de Adão, pois todos, juntamente, se desviaram e se fizeram imundos. Mas, por intermédio de Cristo, o homem, segundo Adão, que ouve a mensagem do evangelho e crê, morre e é sepultado com Cristo e, em seguida, ressurge uma nova criatura, santa e inculpável, predestinada a ser conforme a imagem de Cristo.

Tanto a eleição quanto a predestinação, estão relacionados à nova criatura, ou seja, àquele que está em Cristo. Por conseguinte, aquele que está em Cristo conhece a Deus e é conhecido d’Ele. É ‘conhecido’ de Deus, por estar intimamente ligado a Ele, ou seja, se fez um só corpo com Ele.

O fim imediato da eleição e da predestinação é a preeminência de Cristo, sendo que, na eternidade, a geração de Cristo foi eleita e predestinada a ser conforme a imagem de Cristo, segundo a vontade de Deus. Tanto a eleição, quanto a predestinação, foram levadas a efeito, quando da vinda da existência ao mundo das novas criaturas, que são criadas segundo o mesmo poder de Deus, manifesto em Cristo.

As benesses da eleição e da predestinação são herdadas no nascimento do cristão, de modo que, ser santo e irrepreensível  conforme a imagem de Cristo, não resulta de obras realizadas pelo crente, antes, tais benesses foram concedidas em Cristo, antes dos tempos dos séculos, segundo o próprio propósito de Deus: fazer Cristo preeminente em todas as coisas.

“Que nos salvou e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça, que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos dos séculos” (2 Tm 1:9).

Quanto à salvação, a eleição e a predestinação não têm um fim, e sim, a misericórdia e a graça de Deus, concedidas pelo evangelho.

A misericórdia de Deus é manifesta à humanidade na encarnação de Cristo, que concede salvação a todos que n’Ele creem. O evangelho que concede salvação aos que creem foi anunciado, primeiramente, a Abraão (Gl 3:8) e hoje o evangelho é anunciado como o mandamento de Deus.

“Mas a seu tempo manifestou a sua palavra pela pregação que me foi confiada, segundo o mandamento de Deus, nosso Salvador” (Tt 1:3);

“Mas que se manifestou agora e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações, para obediência da fé” (Rm 16:26).

O mandamento de Deus é dado a todas as nações, para que obedeçam ao evangelho, a fé que uma vez foi dada aos santos (Jd 1:3).

“Mas nem todos têm obedecido ao evangelho; pois Isaías diz: SENHOR, quem creu na nossa pregação?” (Rm 10:16);

“Porque já é tempo que comece o julgamento pela casa de Deus; e, se primeiro começa por nós, qual será o fim daqueles que são desobedientes ao evangelho de Deus?” (1 Pd 4:17).

“Como labareda de fogo, tomando vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo” (2 Ts 1:8).

O mandamento do evangelho é crer em Cristo (1 Jo 3:23), a obra que o homem precisa realizar para se tornar servo de Deus (Jo 6:29). Só ama a Deus quem cumpre o seu mandamento, de modo que quem crê em Cristo, verdadeiramente amou a Deus.

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai,  eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21);

“Pois o mesmo Pai vos ama, visto como vós me amastes e crestes que saí de Deus (Jo 16:27).

O evangelho é mandamento de Deus que demanda obediência. Quem obedece ao evangelho de Cristo não tem medo, pois o medo decorre da penalidade imposta ao desobediente (1 Jo 4:18).

Diante do evangelho de Cristo, o homem não pode ficar passivo. A ordem é: – “Entrai pela porta estreita” (Lc 13:24); “Operai a vossa salvação com temor e tremor” (Fl 2:12).

Com o homem efetua a própria salvação? O homem é salvador de si mesmo? É claro que não! Deus providenciou salvação poderosa a todos os homens na casa de Davi quando enviou Cristo ao mundo.

Quem obedece a Cristo ‘salvar-se-á’, pois o ‘temor’ diz do mandamento de Deus e o ‘tremor’ da obediência à sua palavra.

“Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á,  entrará, sairá e achará pastagens” (Jo 10:9).

O fim da fé, ou seja, o objetivo do evangelho é a salvação do homem:

“Alcançando o fim da vossa fé, a salvação das vossas almas” (1 Pd 1:9).

O fim da predestinação é a primogenitura de Cristo, pois, por ela, os homens são constituídos conforme a imagem de Cristo, portanto, o fim da predestinação não é a salvação.

O termo grego τελος, transliterado telos e traduzido por ‘fim’, no contexto, tem o sentido de propósito, objetivo. O termo πιστις, transliterado pistis e traduzido por ‘fé’, no contexto significa ‘verdade’, ‘fidelidade’, ‘lealdade’, em substituição ao termo ‘evangelho’, que é a ‘fé’ anunciada em todo o mundo (Rm 1:8).

A ‘fé’ deve ser anunciada a todas as gentes e obedecida (Rm 1:5), pois ela é o dom de Deus, por meio da qual o homem é salvo.

“Porque, pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Ef 2:8);

“Pelo qual, recebemos a graça e o apostolado, para a obediência da entre todas as gentes pelo seu nome (…) Primeiramente, dou graças ao meu Deus por Jesus Cristo, acerca de vós todos, porque, em todo o mundo, é anunciada a vossa (Rm 1:5 e 8).

É por meio do evangelho de Cristo que o homem é salvo, de modo que, aos não crentes não se prega eleição ou predestinação mas, sim, o evangelho, a palavra da redenção, que é poder de Deus para salvação.

“E nos impedem de pregar aos gentios as palavras da salvação, a fim de encherem sempre a medida de seus pecados; mas a ira de Deus caiu sobre eles até ao fim” (1 Ts 2:16).

“E os que estão junto do caminho, estes são os que ouvem; depois vem o diabo e tira-lhes do coração a palavra, para que não se salvem, crendo (Lc 8:12).

Deus não escolheu e nem predestinou indivíduos para a salvação, pois é contraditória a concepção de que Deus deseja que todos se salvem e, no entanto, escolhe e predestina somente alguns para a salvação. Salvar a humanidade é desejo de Deus por sua graça e misericórdia, tanto que deu o Seu Filho Unigênito, no entanto, para ser salvo o homem precisa se tornar um com a verdade, crendo.

“Que quer que todos os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade” (1 Tm 2:4);

“Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que o Filho e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6:40).

É imprescindível ao homem ‘conhecer’ a verdade, por dois motivos:

  1. Primeiro, para ser salvo, e;
  2. Em segundo lugar, para ser eleito e predestinado.

Pois só é predestinado a ‘serem conformes à imagem’ de Cristo, para que Ele seja o Primogênito entre muitos irmãos, aqueles que O conheceram, ou seja, que se fizeram um corpo com Cristo, a verdade que liberta (Jo 8:32). Mesmo Deus querendo salvar todos os homens, o meio de salvá-los não é através da Sua soberania, e sim, através da palavra da verdade!

Há um equívoco que perdura entre os teólogos, de que o termo grego προγινοσκω (proginosko), traduzido por ‘dantes conheceu’ significa ‘ter conhecimento de antemão’, ‘prever’, ‘predestinar’.

Entretanto, o termo, no contexto, foi utilizado como expressão idiomática judaica, indicando comunhão intima, quando o homem e a mulher se tornam uma só carne. São predestinados somente os que se tornaram um com o Pai e o Filho, ou seja, que ‘conhecem’ a Deus (Jo 17:21).

Somente os que se tornam uma só carne com Cristo, ou seja, os que amam a Deus, crendo que Jesus é o Cristo, também foram predestinados para serem conformes à imagem de seu Filho (Rm 8:29).

Deus é onisciente, ou seja, igualmente conhecedor de todas as coisas, quer seja do passado, quer do presente ou, do futuro. Ao dizermos que Deus é presciente, estabelecemos uma subdivisão da onisciência, que tolhe a compreensão acerca desse atributo de Deus. Deus anuncia de antemão, por intermédio dos seus profetas, eventos futuros, o que se dá pela sua onisciência e não pela sua presciência.

Pela onisciência Deus conhece (saber) todos os salvos e todos os perdidos em todos os tempos. Entretanto, há aqueles que Deus nunca conheceu (nunca foram um com Ele) e estes irão para o fogo eterno (Mt 7:23) e há aqueles que conhecem a Deus, ou antes, são conhecidos d’Ele, ou seja, são um com Ele e são salvos (Gl 4:9).

A má leitura de alguns versos impera, quando homens torcem a verdade exposta pelos apóstolos, com o objetivo de exporem uma doutrina contrária ao evangelho.

Por exemplo, leem 1 Pedro 1, verso 2 (“Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas.”), como se Deus elegeu alguns segundo a sua ‘presciência’. No entanto, o apóstolo Pedro estava enfatizando que os cristãos são eleitos segundo o anunciado de antemão pelos profetas (presciência), conforme expresso nos versos 10 a 12 do mesmo capítulo (1Pe 1:10 -12).

Os cristãos são designados ‘eleitos’, segundo o anunciado de antemão pelos profetas, santificados pela palavra de Cristo, vez que as palavras de Cristo são espírito e vida, sendo necessária aos cristãos a obediência, para serem purificados:

“… eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo” (1 Pe 1:2).

Ao escrever aos Tessalonicensses, o apóstolo Paulo expressa a mesma verdade:

“… porque Deus vos escolheu[1], desde o princípio, para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade” (2 Ts 2:13).

O verso não trata de uma ‘escolha’ para ser salvo, antes pela santificação do evangelho (vez que o crente é ministro do espírito) e pela crença (fé) na verdade, os cristãos foram tomados como propriedade (herança) de Deus, desde o princípio, para a salvação (Ef 1:11 e 14), pois a salvação é o fim da fé (verdade).

O objetivo fim da predestinação é a preeminência de Cristo, mas, só os que se fizeram um corpo com Cristo (conheceram), são predestinados (Rm 8:29). Porém, os predestinados também foram eleitos, ou seja, foram feitos santos e irrepreensíveis (Ef 1:3).

Contudo, para ser predestinado e eleito, primeiro Deus declara justo o novo homem que ressurge com Cristo, porque, para ser justificado, é necessário ao homem morrer com Cristo, quando por intermédio do evangelho, o homem torna-se participante da carne e do sangue de Cristo (Rm 4:25; Rm 6:7; Jo 6:55).

Mas, para o crente ser justificado, eleito e predestinado, primeiro teve que ser glorificado, tornando-se um só corpo com Cristo, ou seja, conhecendo a Cristo. O crente é glorificado quando ressurge dentre os mortos com Cristo, pois, sofreu com Cristo, para ser participante da glória da sua ressurreição (Rm 8:17; Cl 2:12; Cl 3:1).

Os que estão em Cristo são templos de Deus, ou seja, conhecidos de Deus, membros do Seu corpo, concomitantemente, também, estão destinados a serem conforme a imagem de Cristo, quando se revelarem os filhos de Deus (Rm 8:19).

Mas, para fazerem parte do propósito eterno que Deus estabeleceu em Cristo, de fazê-Lo preeminente em todas as coisas, através do poder que há no evangelho, para salvação do que crê, Deus glorificou os que creram, ressuscitando-os com Cristo e os declarou justos, livres de condenação!

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1] “138 αιρεομαι haireomai provavelmente semelhante a 142; TDNT – 1:180,27; v 1) tomar para si, preferir, escolher 2) escolher pelo voto, eleger para governar um cargo público”, cf. Dicionário Bíblico Strong.

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É possível um crente carnal?

O que define o homem carnal é estar vendido ao pecado. O crente em Cristo é liberto do pecado e servo de Deus, portanto, é impossível ser servo da justiça e ser carnal.

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Abraão foi salvo pela fé ou pelas obras?

Se Abraão tivesse saído do meio de sua parentela e fosse habitar as regiões de Canaã sem que Deus lhe ordenasse, a sua decisão não seria por fé. Se Abraão tivesse decidido, de moto próprio, oferecer Isaque em holocausto a Deus, sem que Deus houvesse ordenado, o seu sacrifício não seria por fé e sua atitude não seria em função de uma provação (Hb 11:17).


Introdução

Na maioria dos comentários bíblicos, em que os termos ‘fé’ e ‘obras’ aparecem, a palavra ‘paradoxo’ acaba sendo utilizada. Há até quem afirme que no Novo Testamento há inúmeros “paradoxos aparentes”.

O que é um paradoxo?

Segundo definição que consta na Wikipédia:

“Paradoxo é uma declaração, aparentemente, verdadeira, que leva a uma contradição lógica, ou, a uma situação que contradiz a intuição comum. Em termos simples, um paradoxo é “o oposto do que alguém pensa ser a verdade”. A identificação de um paradoxo, baseado em conceitos aparentemente simples e racionais tem, por vezes, auxiliado, significativamente, o progresso da ciência, filosofia e matemática”. Wikipédia.

Diante dessa definição de paradoxo: ‘declaração aparentemente verdadeira’, é correto entender que as asserções[1] bíblicas são ‘aparentemente’ verdadeiras? Os dois versículos abaixo, são a exata expressão da verdade ou, ‘aparentemente’ verdadeiros?

“Assim como Abraão creu em Deus, isso lhe foi imputado como justiça” (Gl 3:6);

“Porventura, o nosso pai Abraão não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque?” (Tg 2:21).

Os versos acima são paradoxais? Há contradição entre o ensinamento do apóstolo Paulo e do irmão Tiago? A doutrina de Cristo possui pontos aparentemente discordantes? São ensinos aparentemente verdadeiros?

A palavra de Deus não é uma declaração aparentemente verdadeira, antes, é a verdade “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17:17), portanto, os ensinamentos bíblicos, não comportam essa definição de ‘paradoxo’.

Na comunicação falada ou escrita há ‘paradoxos’, porém, tais paradoxos são figuras de pensamento, um dos recursos linguísticos (figuras de linguagem) que tornam uma mensagem mais expressiva, que nada mais é do que uma proposição construída, através da união de ideias contraditórias.

Quando Jesus propôs a Nicodemos que era necessário nascer de novo, o alerta de Jesus era verdadeiro, entretanto, por desconhecer a natureza daquilo que Jesus propôs, surgiu na cabeça de Nicodemos um paradoxo: Como é possível um homem nascer, sendo velho? (Jo 3:4)

A mensagem de Jesus não era contraditória e nem aparentemente verdadeira, mas a limitação de Nicodemos que, sendo mestre, não compreendeu a mensagem, é que levou a questionar, sobre como seria possível um homem velho, nascer de novo.

Abraão foi salvo pela ‘fé’ ou, por ‘obras’? Há contradição entre a ‘fé’ e as ‘obras’, ou, a contradição decorre da má compreensão?

 

Abraão creu em Deus

“Assim como Abraão creu em Deus, isso lhe foi imputado como justiça” (Gl 3:6).

Como ler esse versículo? A ‘confiança’ de Abraão é o que o justificou? O que dizer do versículo: ‘O justo viverá da fé?’

Quando o apóstolo Paulo escreveu, repreendendo os cristãos da Galácia, sobre o fascínio que os levou a se desviarem da verdade do evangelho, lembrou que anunciou aos Gálatas o Cristo crucificado (Gl 3:1; 1Co 1:23), e que não receberam o espírito pelas ‘obras da lei’, antes pela ‘pregação da fé’ (Gl 3:2 e 5).

Que ‘espírito’ eles receberam pela ‘pregação da fé’? O espírito que o apóstolo Paulo faz referência, diz do evangelho, a palavra de Deus, vez que os cristãos são ministros do espírito, ou seja, ministros da justiça, ministros da nova aliança: “O qual, nos fez, também, capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica (…) Como não será de maior glória o ministério do Espírito? Porque, se o ministério da condenação foi glorioso, muito mais excederá em glória o ministério da justiça” (1Co 3:6 e 8-9).

Jesus afirmou que as palavras d’Ele são espírito e vida: “O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são espírito e vida” (Jo 6:63).

A mensagem do evangelho é cumprimento do anunciado pelos profetas: água sobre o sedento, espírito derramado. É por isso que o homem nasce de novo, somente pela água e pelo espírito: “Porque derramarei água sobre o sedento e rios sobre a terra seca; derramarei o meu Espírito sobre a tua posteridade e a minha bênção sobre os teus descendentes” (Is 44:3). “E há de ser que, depois derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos, os vossos jovens terão visões” (Jl 2:28; Jo 3:5).

Como Deus dá do seu espírito? Como Deus opera milagres? O apóstolo Paulo afirma que Deus deu o seu espírito e opera milagres pela ‘pregação da fé’, ou seja, através do evangelho (Gl 3:5). Cristo foi ungido para evangelizar, ou seja, o espírito de Deus estava sobre Ele, o mesmo espírito foi dado aos cristãos pela pregação da fé. “Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos” (Jd 1:3; Is 11:1-3; Is 61:1-3).

O evangelho foi anunciado pelo apóstolo Paulo aos gentios, de modo que ele era ministro do evangelho, anunciando a ‘fé’ (evangelho) entre os gentios. “Se, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé e não vos moverdes da esperança do evangelho que tendes ouvido, o qual foi pregado a toda criatura que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, estou feito ministro” (Cl 1:23; Rm 1:8).

A ‘fé’ se refere à mensagem das boas novas, o espírito derramado sobre toda carne, o mesmo espírito do qual o apóstolo Paulo foi constituído ministro. A ‘fé’ diz do evangelho anunciado a toda criatura, que há debaixo do sol (judeus e gentios), esperança anunciada para que os homens creiam e sejam salvos: “Porque, se alguém for pregar-vos outro Jesus que nós não temos pregado, ou se recebeis outro espírito que não recebestes, ou outro evangelho que não abraçastes, com razão o sofrereis” (2Co 11:4).

O crente é salvo ao crer na ‘loucura da pregação’, mas a salvação decorre especificamente da ‘loucura da pregação’, que é Cristo crucificado, que para os judeus era escândalo e para os gregos, loucura “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação” (1Co 1:21-23).

O poder para a salvação não está na capacidade do homem de acreditar, mas, sim, na mensagem pregada. Para aqueles que são salvos, a palavra da cruz é o poder de Deus: “Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu e também do grego” (Rm 1:16; 1Co 1:18).

Deus salva pela ‘loucura da pregação’, ou seja, pela fé. Para ser salvo, é imprescindível ouvir a palavra da verdade, pois, no evangelho, está o poder para que o homem seja feito filho de Deus (Jo 1:12; Ef 1:13). O homem é justificado pela fé, ou seja, por Cristo, pelo evangelho. “E de tudo o que, pela lei de Moisés, não pudestes ser justificados, por ele é justificado todo aquele que crê” (At 13:39).

Acerca da salvação em Cristo, foi predito a Abraão: ‘Todas as nações serão benditas em ti’ (Gl 3:8). O apóstolo Paulo, ao ler Gênesis 12, verso 3, interpretou essa passagem bíblica como uma profecia, acerca de como Deus haveria de justificar os gentios: pela fé, ou seja, por meio de Cristo – a fé que havia de se manifestar: “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar, pela fé, os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti” (Gl 3:8 compare com Gl 3:23).

Por que os gentios seriam benditos em Abraão? Por causa do descendente prometido a Abraão: Cristo. O descendente prometido a Abraão foi estabelecido como luz para todos os povos, não o patriarca (Is 42:6; Is 49:6). Cristo é a fé manifesta, na plenitude dos tempos, por quem os homens são justificados e não o patriarca (Gl 3:23-25).

O apóstolo Paulo apresenta Abraão como exemplo de alguém que foi justificado, ao crer em Deus (Gl 3:6). Mas, como Abraão confiou em Deus? Deus ordenou a Abraão que deixasse a sua parentela e partisse para uma terra que seria revelada e lhe fez uma promessa: Abraão seria uma grande nação e os seus descendentes seriam inumeráveis, assim como as estrelas do céu, apesar de Abraão não ter descendente, na época (Gn 15:4-5).

Abraão demonstrou que confiou em Deus, quando saiu do meio da sua parentela, porém, a bênção de Abraão não decorre do fato de ele ter saído do meio da sua parentela (confiança), antes, Abraão foi abençoado porque foi estabelecido que, se ele saísse do meio da sua parentela, Deus haveria de abençoá-lo grandemente. A bênção está na palavra que diz: ‘E far-te-ei uma grande nação e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção’ (Gn 12:2).

A força da salvação está na promessa de que Deus haveria de abençoar os gentios, através do descendente de Abraão e não em Abraão ter saído do meio da sua parentela. Semelhantemente, a força do pecado está na lei que estabelece: ‘certamente morrerás’, não nas ações dos pecadores: “Ora, o aguilhão da morte é o pecado e a força do pecado é a lei” (1Co 15:56).

Quando Ló se apartou de Abraão, Deus indicou ao patriarca qual a terra que os seus descendentes haveriam de herdar, em função do que lhe foi prometido, caso saísse do meio dos seus parentes. (Gn 13:15-16)

Por isso, é dito pelo escritor aos Hebreus que, pela fé, ou seja, pela palavra de Deus, Abraão, sendo chamado para um lugar que havia de receber por herança, obedeceu e saiu (Hb 11:8). O fato de Abraão ter saído, indica que ele creu na palavra de Deus. Pela fé, ou seja, por causa da palavra de Deus, Abraão peregrinou na terra da promessa, como que em terra alheia (Hb 11:9).

Se Abraão tivesse saído do meio de sua parentela e fosse habitar as regiões de Canaã sem que Deus lhe ordenasse, a sua decisão não seria por fé. Se Abraão tivesse decidido, de moto próprio, oferecer Isaque em holocausto a Deus, sem que Deus houvesse ordenado, o seu sacrifício não seria por fé e sua atitude não seria em função de uma provação (Hb 11:17).

Quando lemos que Abraão foi justificado pela fé, significa que Abraão foi justificado pela palavra de Deus. É por isso que é dito que a fé foi imputada[2] a Abraão (Rm 4:9). O que foi conferido a Abraão? Uma capacidade de crer? Não! O que foi imputado a Abraão foi a fé, a palavra de Deus, que é fato, prova,  sem tergiversações.

A capacidade de crer é pertinente a todos os homens. É um atributo natural do ser humano, acreditar no que é real, verdadeiro, firme, palpável, etc. O que foi dado a Abraão foi a fé, ou seja, uma promessa graciosa e firme (Rm 4:16). Abraão acreditou em Deus, por não atentar para a condição do seu corpo amortecido ou, para o amortecimento do ventre de Sara, e sim, se deixou fortificar pela palavra que lhe foi anunciada: fé! (Hb 11:19-21)

A certeza de Abraão não surgiu de suas próprias convicções, antes pela palavra da fé que lhe disse que haveria de ser abençoado, caso obedecesse. De posse da palavra de Deus, teve certeza que Aquele que prometeu, era poderoso para cumprir (Rm 4:21). Ao sair do meio de sua parentela, Abraão estava admitindo, através da sua ação, que Deus é fiel e poderoso para cumprir o que prometeu, pelo que ‘… isso lhe foi imputado para justiça’ (Rm 4:22); “Assim como Abraão creu em Deus, isso lhe foi imputado como justiça” (Gl 3:6).

Ao sair do meio da sua parentela, Abraão estava admitindo, por meio de sua ação, que Deus é fidedigno[3], ou seja, digno de ‘fé’ (πιστευω – pisteuo), digno de ‘confiança’, pela sua própria glória e virtude (2Pe 1:3).

É na fé (πιστις – pistis), ou seja, na palavra de Deus que há poder. Foi pela palavra de Deus que Sara recebeu poder de conceber um filho, mesmo sendo estéril e de avançada idade. Quando é dito que ‘… pela fé, a própria Sara recebeu poder…’, o termo ‘fé’ não diz das convicções de Sara, antes aponta para a fidelidade, a lealdade, o caráter de alguém em quem se pode confiar. A crença de Sara resume-se em ‘ter por fiel’ aquele que havia feito a promessa (Hb 11:11).

Foi pela palavra de Deus que os antigos alcançaram bom testemunho, pois sem a palavra de Deus, nada podiam esperar ou acreditar (Hb 11:1). A Bíblia diz que Abraão é o Pai da fé, pois o evangelho foi primeiramente anunciado a Ele: a vinda do Cristo em quem todas as famílias da terra seriam bem-aventuradas, e não porque Ele creu, até porque existiram heróis da fé antes do patriarca Abraão.

Abraão foi salvo pela ‘fé’, porque ‘creu’ em Deus, por causa do que lhe foi dito (fé):

“(Como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí) perante aquele no qual creu, a saber, Deus, o qual vivifica os mortos e chama as coisas que não são como se já fossem. O qual, em esperança, creu contra a esperança, tanto que ele tornou-se pai de muitas nações, conforme o que lhe fora dito: Assim será a tua descendência” (Rm 4:17-18).

Deus deu a sua palavra e Abraão creu em Deus, que vivifica os mortos e chama as coisas que não são, como se já fossem, ou seja, Deus é poderoso para realizar o que prometeu, portanto, digno de confiança. Ao crer, Abraão tornou-se pai de muitas nações, isto conforme a palavra de Deus que diz: Assim será a tua descendência!

 

‘Fé’ e ‘crer’

Durante a leitura das cartas paulinas, verifica-se que o substantivo fé (πιστις – pistis) e o verbo crer (πιστευω – pisteuo) são empregados, quase que o mesmo número de vezes, por volta de 244 ocorrências e aquele, por volta de 243 vezes, sem falar no termo fé como adjetivo (πιστός – pistos), que ocorre 67 vezes.

Apesar de ser equivalente, o número de vezes que os termos πιστις e πιστός são empregados, vale destacar que o substantivo πιστις (pistis), quando empregado pelo apóstolo Paulo, em várias ocasiões, assume uma conotação especifica.

Geralmente, a definição de πιστις[4] nos dicionários, aponta para as disposições internas do indivíduo, ou seja, para questões de cunho subjetivo: convicção. Porém, ao fazer uso do termo, o apóstolo Paulo, na maioria das vezes, o faz como figura de linguagem, uma metonímia[5].

Como Cristo é o autor e consumador da fé (Hb 12:2), o substantivo fé é utilizado para fazer referência à pessoa de Cristo e à sua doutrina, havendo substituição do autor (Cristo) pela sua obra (fé).

Quando é dito pelo apóstolo Paulo que, ‘em todo o mundo é anunciada a vossa fé’ (Rm 1:8), o termo foi utilizado para fazer referência à doutrina de Cristo, ou seja, o evangelho. Quando é dito que ‘antes que a fé viesse’, ou ‘aquela fé que havia de se manifestar’ (Gl 3:23), o substantivo fé foi empregado para fazer referência à pessoa de Cristo.

Quando é dito que o homem é justificado pela fé, na verdade, o apóstolo está declarando que o homem é justificado por Cristo. Quando é dito que o homem é salvo pela graça de Deus, por meio da fé, na verdade, o apóstolo está esclarecendo que Cristo é o dom inefável de Deus, e que, através d’Ele, o homem é salvo (Ef 2:8).

Por que devemos fazer essa análise? Porque, quando emprega o substantivo ‘fé’, em sua epístola, o irmão Tiago o faz, somente com um único significado: crer, portanto, apontando, apenas, para as disposições internas do indivíduo, diferentemente do apóstolo Paulo, que emprega o termo, tanto no sentido de ‘doutrina’, quanto no sentido de ‘crer’.

Observe essa definição:

“A fé é mais do que uma crença intelectual em Deus. Se essa crença não nos leva a uma santa vida de justiça e misericórdia, ela não é a fé salvadora (Mt 7.21-23)” Radmacher, Earl; Allen, Ronald B.; House, H. Wayne, O novo comentário bíblico NT, com recursos adicionais – A Palavra de Deus ao alcance de todos. Rio de Janeiro, 2010, pág. 675.

De que ‘fé’ o autor está falando? De um corpo doutrinário, ou de crer?

Se a ‘fé’, em análise pelos editores do ‘O novo comentário bíblico do NT’, refere-se ao evangelho, efetivamente, por meio do evangelho (fé), o homem recebe poder de ser feito filho de Deus, portanto, é de novo criado, em verdadeira justiça e santidade (Ef 3:23). Está acima de uma crença intelectual em Deus, antes é a palavra de Deus pela qual o homem é santificado: “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17:17).

Se eles abordaram a ‘fé’, no sentido de ‘crer’, ‘acreditar’, tal fé não pode ser nada, além de uma crença intelectual na palavra de Deus. Quando o homem crê em Cristo, na verdade, exerce uma crença intelectual em Deus, conforme o Seu testemunho, exarado nas Escrituras. Deus deu testemunho do seu Filho nas Escrituras e crer nas Escrituras é exercer um culto racional.

Não é o crer, que leva o homem a uma ‘santa vida de justiça’, antes é a fé manifesta – Cristo – que santifica os que creem, concedendo-lhes uma nova vida: santa e justa. É a verdade, a ‘fé’ que santifica, e não o crer: “E por eles me santifico a mim mesmo, para que também eles sejam santificados na verdade” (Jo 17:19). Os equívocos quanto ao significado do termo ‘fé’, leva ao entendimento errôneo de que o dever de andar como filhos da luz (comportamento), diz de uma fé que ‘… é mais do que uma crença intelectual’.

 

A obra de Abraão

“Porventura o nosso pai Abraão não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque?” (Tg 2:21)

Comparando a escrita do apóstolo Paulo com a do irmão Tiago, percebe-se que, por causa do público alvo da carta, há uma mudança gritante no emprego de alguns termos, sem falar que o apóstolo Paulo, ao escrever, utiliza diversos recursos linguísticos de estilo, enquanto Tiago, pela graciosidade poética da sua epístola, fez uso somente de figuras e parábolas.

Quando Tiago diz ‘a prova da vossa fé’, diz da confiança do homem que é posta à prova, e não da palavra de Deus, que é simultaneamente fundamento e prova. Se o homem é provado e permanece confiante, a confiança transforma-se em ‘perseverança’. “Todo aquele que prevarica e não persevera na doutrina de Cristo, não tem a Deus. Quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem, tanto o Pai, como o Filho” (2 Jo 1:9; Tg 1:3).

O não crente precisa crer para ser salvo e o salvo precisa portar-se de modo digno do evangelho e perseverar na fé, combatendo o bom combate: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo, como aos que te ouvem” (2Tm 4:16); “Somente deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho de Cristo, para que, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de vós, que estais num mesmo espírito, combatendo, juntamente, com o mesmo ânimo, pela fé do evangelho” (Fl 1:27).

Se alguém vai pedir algo a Deus, deve pedir com fé, ou seja, acreditando, crendo (Tg 1:6). O termo ‘fé’, foi empregado por Tiago, no sentido de ‘crer’, diferentemente do apóstolo Paulo que, muitas vezes, emprega o termo, no sentido de evangelho, doutrina.

Mas, por questões de estilo e escrita, há divergências entre o exposto pelo apóstolo Paulo e Tiago? Não! A má compreensão da exposição é que leva as divergências, não o conteúdo doutrinário exposto por eles.

O apóstolo Paulo afirma que o evangelho é poder de Deus para salvação (Rm 1:16), enquanto que Tiago, por sua vez, afirma que a palavra implantada nos cristãos é poderosa para salvar (Tg 1:21). Sem contradição alguma a exposição de ambos!

Entretanto, a linguagem utilizada por eles é diferente, em alguns aspectos, apesar de a doutrina não ser divergente, e, isto se dá em função do público alvo da mensagem.  Observe que o apóstolo Paulo diz que o evangelho é poder de Deus para a salvação ‘de todo aquele que crê’ e o irmão Tiago, em vez de dizer que é necessário crer, aponta a necessidade de cumprir a palavra, ou seja, de ‘ser executor da obra’ (Tg 1:25).

‘Acreditar’ e ‘crer’ são verbos que melhor se adequam à realidade dos gentios, enquanto a linguagem dos judeus traduz a ideia de que, quem crê em Deus, é executor de um ‘trabalho’, de uma ‘obra’.

A linguagem do Antigo Testamento aponta o obediente, como aquele que crê, acredita, daí a linguagem dos judeus em identificar ao que obedece, ou seja, quem é executor do que é ordenado por Deus, como quem crê. A linguagem do irmão Tiago evidencia a sujeição do crente e o senhorio de Deus, e a linguagem do apóstolo Paulo evidencia a condição de quem é livre no Senhor.

Entretanto, é imprescindível ao leitor notar a diferença da abordagem paulina da do irmão Tiago. Abordagem do apóstolo Paulo no verso 16 de Romanos 1 possui viés evangelístico, e a abordagem no verso 21 do capítulo 1 de Tiago possui viés exortativo. Este aborda a necessidade de os cristãos perseverarem firmes na palavra neles implantada, enquanto que, aquele, enfatiza a universalidade do evangelho: todo aquele que crê, tanto judeus quanto gentios.

A linguagem de Tiago é a mesma de Cristo, pois é própria aos judeus. Quando a multidão perguntou a Jesus qual era a obra de Deus para realizarem, Jesus respondeu que a obra de Deus é crer naquele que Ele enviou (Jo 6:28-29). O executor da obra, que é bem-aventurado em seu feito, diz de quem crê em Cristo, pois a lei perfeita, a da liberdade, diz do evangelho, a palavra poderosa para salvar: “Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito” (Tg 1:25).

Tiago escreveu aos servos de Cristo das doze tribos da dispersão, ou seja, aos cristãos convertidos do judaísmo (Tg 1:1). Mas, entre esses cristãos, havia aqueles que diziam crer em Deus e cuidavam ser religiosos e não se sujeitavam a Cristo, consequentemente, a mensagem de Tiago enfatiza o que foi dito por Jesus aos seus discípulos: “… credes em Deus, crede também em mim” (Jo 14:1).

Daí o questionamento de Tiago nos versos 14 a 26, do capítulo 2, da sua epístola: “Que aproveito há se alguém disser que tem fé e não tiver obras?” (Tg 2:14). O termo ‘fé’ foi utilizado no sentido de ‘crer’, conforme o verso 19: “Crês tu que Deus é um só?”, e não no sentido de ‘evangelho’, ‘doutrina’, como quando o apóstolo Paulo diz que acabou a carreira e guardou a ‘fé’ (2 Tm 4:7).

Que proveito teriam os discípulos ao ‘crerem em Deus’ e não crerem em Cristo? Poderia tal fé salvar os discípulos? Não! Pois qualquer que diz crer em Deus, deve crer naquele que Ele enviou: “E Jesus clamou e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas naquele que me enviou” (Jo 12:44).

O termo ‘fé’, utilizado por Tiago, não faz referência ao evangelho e nem a Cristo, bem como o termo ‘obras’ no contexto, não faz referência à lei de Moisés. O termo ‘fé’ foi utilizado para fazer referência a uma crença em uma doutrina ou pensamento diverso da doutrina do evangelho de Cristo (Tg 3:19), e o termo ‘obras’ foi utilizado para fazer referência à lei perfeita, a da liberdade, e não às obras da lei de Moisés (Tg 1:22 e 25).

Acreditar que Deus é um só não salva, da mesma forma que não salva acreditar que o homem pode ser salvo por ser descendente da carne de Abraão ou, pela circuncisão. Os judeus acreditavam que nunca foram escravos de ninguém, mas tal ‘fé’ não os tornava livres do pecado (Jo 8:33). Há quem creia em Cristo, como alguns judeus, mas segundo a concepção do seu coração enganoso. Embora esta pessoa tenha ‘fé’ (creia), tal fé é sem proveito para a salvação, ou seja, não os faz livres do pecado: “Jesus dizia, pois, aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos” (Jo 8:31).

Muitos judeus criam em Cristo, mas quando arguidos, continuavam confiados que eram livres por serem descendentes de Abraão (Jo 8:31 e 39). Poderia tal ‘fé’ salvá-los? Pode alguém ser salvo, por crer na existência de Deus? Não!

Neste sentido, que proveito há, se alguém diz que tem fé, mas não crê em Jesus? Que proveito há em dizer que conhece a Deus, se não guardar o Seu mandamento? Tal pessoa é mentirosa e nela não está a verdade (1 Jo 2:3-5). Que proveio há em dizer: ‘nunca fomos escravos de ninguém’, se não é liberto pela verdade? (Jo 8:31-32)

O irmão Tiago não estava questionando se há proveito em ter fé em Cristo, ou seja, se quem crê em Cristo não será salvo, pois é evidente que quem crê em Cristo será salvo (1 Jo 5:13). A fé em Cristo pode salvar o crente, pois, acerca de Cristo, testemunharam todos os profetas, de que recebem o perdão dos pecados, todos os que creem n’Ele (At 10:43). Por Cristo é justificado todo aquele que crê, ou seja, qualquer que tem fé n’Ele (At 13:39).

A abordagem de Tiago, em relação àqueles que diziam que tinham fé, é a mesma que fez o apóstolo Paulo, ao escrever a Tito, quando disse: “Professam conhecer a Deus, mas o negam pelas suas obras…” (Tt 1:16). É sem proveito dizer que se conhece a Deus, ou dizer que se tem ‘fé’, se esse alguém não guarda o seu mandamento (1 Jo 2:4). E qual é o mandamento a cumprir, para que o homem passe a conhecer a Deus? Que creia em Cristo, no nome do Filho de Deus (1 Jo 3:23), pois, o que guarda esse mandamento, permanece em Deus e Deus nele (1 Jo 3:24; Gl 4:9).

Qual a obra que o homem deve realizar? Crer em Cristo! (Jo 6:28-29). É sem valor algum, professar que se conhece a Deus, mas não se crê em Cristo, ou seja, se o nega pelas obras. Cristo é salvação para todos quantos O obedecem, portanto, Ele salva quem realiza a sua obra: “E, sendo ele consumado, veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem” (Hb 5:9).

O questionamento de Tiago só é compreendido quando o leitor perceber que a obra a qual ele fez referência diz da obra de Deus, que é crer em Cristo e não das obras decorrentes da lei: guardar os sábados, a circuncisão, dias, luas, etc. Aquele que diz que crê em Deus, se não crê em Cristo, a obra exigida por Deus, tal ‘fé’ é morta em si mesma (Tg 2:17).

Ao ler esta passagem de Tiago, tem que se ter em mente que, quem crê em Cristo, não crê somente em Cristo, mas também em Deus e vice-versa: “E Jesus clamou e disse: ‘Quem crê em mim, crê, não somente em mim, mas também naquele que me enviou’” (Jo 12:44). Ora, quem diz ter fé, tem que ter a obra, ou seja, crer em Cristo. Quem crê em Cristo crê no testemunho que Deus deu acerca do seu Filho Jesus Cristo (1 Jo 5:10).

Muitos judeus diziam que criam que Deus é um só, mas, apesar de ser bom crer na existência de Deus, não consideravam que os demônios também criam e estremeciam, mas, tal fé não salva os demônios.

O que salva o homem é o mandamento de Deus, contido no evangelho: realizar a obra de Deus, ou seja, crer em Cristo, não a disposição do homem em crer na existência de Deus, ou em milagres, ou em anjos, ou no sobrenatural, ou na circuncisão, ou na carne de Abraão, etc.

Quando Tiago utiliza o termo ‘louco’, ‘insensato’, deixa evidente que estava tratando com cristãos convertidos dentre os judeus. Os profetas utilizavam o termo ‘louco’, ‘ignorante’ para fazer referência aos filhos de Israel, e, Tiago ao escrever às doze tribos da dispersão, escreveu a cristãos convertidos, dentre os judeus (Dt 32:6; Jr 4:22).

Tiago destaca que, somente dizer acreditar (fé) em Deus, sem obedecê-Lo (obras) é inútil e utiliza a pessoa do patriarca Abraão como exemplo, que, ao oferecer o seu único filho em holocausto, demonstrou confiar em Deus (Tg 2:20).

O irmão Tiago evidencia que Abraão foi justificado pelas obras, quando ofereceu o seu filho Isaque sobre o altar (Tg 2:21). Como? Ao dizer que Abraão foi justificado pelas obras, isto não significa que Abraão foi justificado pelas obras da lei, visto que à época do patriarca ainda não havia sido entregue a lei aos filhos de Israel (Rm 4:13). O apóstolo Paulo é específico: ninguém é justificado ‘pelas obras da lei’, na verdade o homem é justificado pelas obras, em função da lei (mandamento) da fé.

As ‘obras da lei’ referem-se à lei de Moisés, que é antagônica à ‘lei da fé’, ou seja, ao mandamento do evangelho: crer em Jesus Cristo: “Onde está logo a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé” (Rm 3:27). “Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé em Cristo, não pelas obras da lei; porquanto pelas obras da lei, nenhuma carne será justificada” (Gl 2:16).

Se Abraão tivesse proposto de si mesmo fazer um sacrifício, oferecendo o seu filho em holocausto, a sua ação não o justificaria. Mas, como Deus ordenou a Abraão que oferecesse o seu único filho em holocausto (Gn 22:2) e ele obedeceu ao mando do Senhor, foi justificado por sua obra: a palavra de Deus operou nele: “Por isso, também, damos, sem cessar, graças a Deus, pois, havendo recebido de nós a palavra da pregação de Deus, a recebestes, não como palavra de homens, mas (segundo é, na verdade), como palavra de Deus, a qual também opera em vós, os que crestes” (1 Ts 2:13).

Tudo o que não é ordenado por Deus, é pecado e oferecer um filho em holocausto, sem Deus ter ordenado, é pecado “… e tudo o que não é de fé é pecado” (Rm 14:23), pois o justo viverá da palavra de Deus, ou seja, da fé (Dt 8:3; Hc 2:4).

Abraão foi justificado por ter colocado o seu único filho sobre o altar? Não! Foi justificado por Deus, porque confiou que Deus era poderoso para ressuscitar o seu filho, quando iria imolá-lo sobre o altar (Hb 11:19).

Ao falar com Saul, Deus deixa claro que importa ao homem obedecer, não sacrificar. (1 Sm 15:22). Abraão demonstrou confiança em Deus, quando colocou o seu filho sobre o altar para imolá-lo, o que demonstra que, quem confia, obedece. É dito que Abraão foi justificado pelas obras, porque não se resignou em acreditar na existência de Deus, antes realizou o que Deus ordenou.

Com relação ao evangelho, o homem é salvo pela obra e não porque acredita que Deus é um só. Qual a obra em questão? Crer que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, pois este é o mandamento de Deus, para todos os homens durante o tempo sobre modo oportuno de salvação – hoje – (2 Co 6:2).

Enquanto de Abraão Deus exigiu o seu único filho, hoje, Deus exige de todos os homens que creiam em seu Filho, Jesus Cristo. Abraão acreditava na existência de Deus, e quando foi realizar a obra exigida por Deus, ficou claro que a sua crença na existência e poder de Deus, cooperou com a sua obra, e assim, pela obra, a confiança foi ‘aperfeiçoada’ (Tg 2:22).

A confiança do homem em Cristo é designada ‘perfeita’ (τελειόω – teleioó) quando o crente realiza o que lhe foi determinado. O termo grego traduzido por ‘aperfeiçoada’ é τελειόω, e não tem o sentido de melhorar a confiança, antes aponta para um quesito funcional: cumpre o propósito para o qual foi estabelecida.

Enquanto Tiago utilizou o termo ‘obra’, para fazer referência ao imperativo de obedecer ao mandamento de Deus, o apóstolo João faz uso do termo ‘amor’ (ágape), para fazer referência a esse mesmo imperativo.

“Bem vês que a fé cooperou com as suas obras e que pelas obras, a fé foi aperfeiçoada” (Tg 2:22);

“No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena e o que teme não é perfeito em amor” (1 Jo 4:18).

Considerando que, quem ama a Deus, cumpre o seu mandamento (Jo 14:15 e 23 e 24), segue-se que quem ama (obedece), não tem medo (temor), pois a obediência perfeita lança fora o medo. O medo decorre da pena, de modo que, quem tem medo é porque não obedeceu, de fato.

Pela palavra de Deus que disse: “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei” (Gn 12:1), ou seja, pela fé (a palavra de Deus é firme fundamento, prova do que não se vê), Abraão obedeceu e saiu, mesmo não sabendo para onde ia (Hb 11:8). A confiança só é perfeita quando cumpre, exatamente, a finalidade: a obediência.

Quando diz que o homem é justificado pela ‘fé’, o apóstolo Paulo está apontando para a verdade do evangelho, que evidencia Cristo como o salvador do mundo. Quando diz que Abraão foi justificado pelas obras, o irmão Tiago está apontando para o mandamento de Deus, que diz: “Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá e oferece-o ali em holocausto, sobre uma das montanhas, que eu te direi” (Gn 22:2).

Sem o mandamento para imolar o filho, Abraão poderia crer na existência de Deus, mas não seria aprovado. Sem o mandamento de Deus, para sair do meio da sua parentela, Abraão poderia deixar pai e mãe, mas não seria herdeiro da promessa. Abraão podia gerar um filho de suas entranhas, o que ocorreu com Hagar e Quetura (Gn 16:4; Gn 25:1-2), porém, tal capacidade não o tornaria pai de muitas nações.

É significativo que, diante da promessa de que a sua descendência seria como as estrelas do céu, Abraão nada fez, antes confiou em Deus, ao que isto lhe foi imputado por justiça. Diante da palavra da promessa, que disse que Abraão teria um filho com Sara (Gn 17:19), a jactância foi excluída, pois não havia nada que Abraão pudesse fazer para que Sara concebesse um filho.

Apesar do questionamento de Abraão, de que era impossível a um homem com mais de cem anos gerar filhos (Gn 17:17), posteriormente, Abraão teve filhos com Quetura (Gn 25:1). Dos filhos que teve com Quetura, Abraão podia jactar-se da sua carne, porém, do filho que teve com Sara, a promessa excluiu qualquer possibilidade de jactância, pela impossibilidade inerente ao homem, e ao oferecer sobre o altar o seu único filho, Abraão teve que, em figura, recobrá-lo dentre os mortos (Rm 3:27; Hb 11:19).

Sair do meio da parentela era algo que Abraão podia fazer, mas, ao fazê-lo, indica que ele se sujeitou, como servo, ao mandamento do Senhor. Oferecer Isaque sobre o altar era algo que Abraão podia fazer, e o fez, demonstrando total submissão à ordem de Deus. Agora, o nascimento de Isaque e a vinda do descendente, foram estabelecido pela palavra de Deus, ao que Abraão resignou-se a crer, pois, com relação à promessa, nada podia fazer a não ser crer naquele que é fiel e não pode mentir.

 

Fé com obras

Por má compreensão da exposição de Tiago, Martinho Lutero[6] chegou a classificar a epístola de Tiago como ‘insossa’, ou ‘cheia de palha’.

Se não compreender que o evangelho constitui um mandamento de Deus e que crer em Cristo é realizar a Sua obra, dificilmente o leitor compreenderá a epístola de Tiago: “Mas, nem todos têm obedecido ao evangelho; pois Isaías diz: SENHOR, quem creu na nossa pregação?” (Rm 10:16).

O apóstolo Paulo, ao escrever a Tito, utiliza a mesma linguagem do apóstolo João e Tiago:

“Confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras, sendo abomináveis, desobedientes e reprovados para toda a boa obra” (Tt 1:16);

“E nisto sabemos que o conhecemos: se guardarmos os seus mandamentos. Aquele que diz: Eu o conheço, mas não guarda os seus mandamentos, é mentiroso e nele não está a verdade” (1 Jo 2:3-4).

Dizer que ‘conhece a Deus’ e ‘negar com as obras’, tem o sentido de honrar a Deus somente com a boca e com os lábios, vez que tal pessoa não guarda o mandamento de Deus (temor). É crer (ter fé) sem as obras (obediência, honra). Os filhos de Israel se aplicavam a um temor que não era o princípio da sabedoria, antes era mandamento de homens: “Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, com a sua boca e  com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo, consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” (Is 29:13).

Primeiro, é dada a palavra da fé, ou seja, o evangelho (Rm 10:8). A palavra da fé é condicionada, vez que ‘se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres, que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo’ (Rm 10:9).

A palavra implantada é fé e a condição estabelecida é crer, de modo que possibilita ao homem crer para a justiça e confessar para ser salvo (Rm 10:10). A confissão é o fruto dos lábios de um coração que recebeu a semente incorruptível, a palavra da fé (Hb 13:15; 1Pd 1:23).

A obra exigida de Deus, dos homens, é crer no coração (intelectualmente), que Deus ressuscitou a Jesus dentre os mortos e, com a boca, confessá-lo como Senhor e Cristo. Essa obra decorre da palavra da fé apregoada: “Porque esta palavra está mui perto de ti, na tua boca, e no teu coração, para a cumprires” (Dt 30:14). Por isso é dito: Cri, por isso falei (Sl 116:10), pois com a boca se confessa e com o coração (mente) se crê.

O exemplo que Tiago apresenta, através de Raabe, se dá da mesma forma que com o cristão, pois ela ouviu que Deus havia dado a Israel a terra onde estava a cidade de Jericó, bem como ouviu que Deus secou as águas do Mar Vermelho e o que foi feito dos povos que se opuseram aos filhos de Israel, após a travessia do Jordão, de modo que Raabe concluiu que Deus é Deus em cima nos céus e embaixo na terra (Js 2:11).

Raabe ouviu e creu em Deus, a ponto de confessar aos espias os seus temores e pedir por misericórdia (Js 2:11-13). Por crer que Deus é Deus encima nos céus e embaixo na terra, pelo que ouviu acerca dos feitos dos filhos de Israel, Raabe acolheu os espias no eirado da sua casa e os despediu por outro caminho (Tg 2:25).

A informação que Raabe ouviu, acerca dos filhos de Israel, era firme e verdadeira, pelo que é dito: “Pela fé Raabe, a meretriz, não pereceu com os incrédulos, acolhendo em paz os espias” (Hb 11:31). Pela informação que recebeu, acerca do povo de Israel e do Deus que tirou o povo da terra do Egito, ou seja, pela fé (πίστις-pistis), Raabe tomou a iniciativa de acolher em paz os espias (obra).

Seria sem proveito, Raabe dizer que acreditava no evento histórico em que Deus secou as águas do Mar Vermelho, se não tivesse rogado por misericórdia aos espias. Seria sem proveito Raabe confessar que Deus é Deus nos céus e na terra sem se sujeitar a Ele, servindo aos espias.

Se entender o termo ‘fé’, segundo o que é usual em nossos dias, Raabe seria uma mulher de fé, se ela acreditasse que não seria atingida pela guerra, ou em algum absurdo ou em algum evento mágico. Nesse diapasão, a fé de Raabe deveria se opor à razão, ou como propuseram: ‘credo quia absurdum’ (creio, porque é absurdo).

Semelhantemente, Abraão foi justificado quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque. Ora, oferecer um filho em holocausto é um absurdo, porém, Abraão o fez pela fé, ou seja, apoiado na palavra de Deus, que disse: “Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre uma das montanhas, que eu te direi” (Gn 22:2). Ele ofereceu o seu único filho, porque era a palavra de Deus e não porque era absurdo.

Embora Deus tenha ordenado a Abraão que oferecesse o seu único filho em holocausto, Abraão considerou a palavra que diz: “Em Isaque será chamada a tua descendência” (Hb 11:18). Sem Isaque não havia descendência, e nem viria o Descendente, pelo que se entende que ele considerou que “Deus era poderoso para, até dentre os mortos, ressuscitar a seu filho e daí, também, em figura ele o recobrou” (Hb 11:18-19).

É pela fé, ou seja, pela palavra de Deus, que diz: ‘Em Isaque seria chamada a sua descendência’, que Abraão foi aprovado por Deus. Por causa dessa promessa: “Como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí” (Rm 4:17), Abraão creu que Deus vivifica os mortos e que chama à existência as coisas que não são, como se já fossem, vez que Deus teria que cumprir a Sua palavra (Rm 4:21).

Sem a palavra de Deus (fé), seria impossível Abraão ter a esperança de que o seu descendente (Cristo), viria ao mundo, quando colocou o seu único filho sobre o altar (creu contra a esperança).

“Pela fé, ofereceu Abraão a Isaque, quando foi provado; sim, aquele que recebera as promessas ofereceu o seu unigênito. Sendo-lhe dito: Em Isaque será chamada a tua descendência, considerou que Deus era poderoso para, até dentre os mortos, ressuscitá-lo; E daí também, em figura, ele o recobrou” (Hb 11:17-19)

Abraão tinha fé em Deus (cria na existência de Deus) e executou a obra que Deus mandou realizar, ou seja, a fé (crer) cooperou com as obras, de modo que, pelas obras de Abraão a fé (crer) foi aperfeiçoada, ou seja, cumpriu o seu propósito.

 

Identificando um erro na pergunta: “A salvação é somente pela fé ou pela fé, mais as obras?”

Há quem acredite que essa é a pergunta mais importante, em toda a Teologia Cristã. Outros, que essa pergunta motivou a Reforma: a separação entre a igreja Protestante e a igreja Católica, entretanto, não atentam para o fato de que há um erro na pergunta, que leva a um entendimento equivocado, acerca da fé e das obras.

Quando é perguntado: ‘A salvação é somente pela fé…?’, é essencial que se dê o significado do termo ‘fé’ na frase. Se o significado de fé for ‘crer’, jamais a salvação é somente pelo ‘crer’.

Quando a Bíblia apresenta a salvação somente pela fé, na verdade está dizendo que a salvação é somente por Cristo, ou seja, pelo evangelho. Não existe outra alternativa que não seja o evangelho (fé). A alternativa “… ou pela fé mais as obras?”, inexiste!

Quando questionam: “A salvação é pela fé mais as obras?”, geralmente, os termos ‘fé’ e ‘obras’ não possuem o mesmo significado que o empregado pelo irmão Tiago no verso: “Vedes então que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé” (Tg 2:24). Tiago diz que ‘o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé’, o que é completamente diferente da ideia que a pergunta sugere: ‘Salvação é pela fé, mais as obras’.

Para quem construiu a pergunta, obras possui o significado de ‘boas ações’, ‘bom comportamento’ e até de ‘frutos’, questões que o irmão Tiago não aborda neste verso em comento. O homem é salvo ‘apenas’ quando crê em Cristo, pois crer em Cristo é o suficiente para ser salvo, vez que quem salva é Cristo.

Quem crê em Cristo, produziu a obra exigida por Deus, de modo que Tiago não está dizendo que, para ser salvo, é necessário ter fé (crer) e fazer boas ações (obras). É um equivoco entender que Tiago enfatizou o fato de que a fé em Cristo produz boas obras’[7].

Tiago não faz referência à fé em Cristo, antes à ‘justificação pelas obras’, que na verdade, é crer em Cristo. Quando ele diz: ‘não somente pela fé’, Tiago não se refere à fé, como a verdade do evangelho, mas, sim, a alguém dizer que crê em Deus, mas que não realiza a sua obra (mandamento).

Realizar boas ações (boas obras) não é prova de que o homem foi verdadeiramente justificado, antes o justificado já produziu a obra exigida por Deus, e Deus, por sua vez, gerou um novo homem, através da semente incorruptível, criado em verdadeira justiça e santidade. O bom porte, o bom comportamento, as boas ações, etc., não decorrem da fé (crer) em Cristo, antes, o bom comportamento se dá quando o homem é admoestado e redarguido, e muda o seu comportamento, pelo transformar do entendimento (Rm 12:2; 1Pd 1:13-14).

A segunda parte da pergunta é equivocada e também induz ao erro, pois Tiago diz que o homem é justificado pelas obras (crer em Cristo),  não pela fé (crer em Deus). Em momento algum Tiago aponta para uma salvação pela ‘fé mais as obras’, antes ele apresenta a salvação pelas obras (obediência ao mandamento de Deus) que decorrem da fé (crer) em Cristo.

 


[1] “Proposição que se assume como verdadeira, independentemente de seu conteúdo”;

[2] “3049 λογιζομαι logizomai voz média de 3056; TDNT – 4:284,536; v 1) recontar, contar, computar, calcular, conferir 1a) levar em conta, fazer um cálculo 1a1) metáf. passar para a conta de alguém, imputar 1a2) algo que é considerado como ou é alguma coisa, i.e., como benefício para ou equivalente a algo, como ter a força e o peso semelhante 1b) constar entre, considerar 1c) considerar ou contar 2) avaliar, somar ou pesar as razões, deliberar 3) de considerar todas as razões, para concluir ou inferir 3a) considerar, levar em conta, pesar, meditar sobre 3b) supor, julgar, crer 3c) determinar, propor-se, decidir Esta palavra lida com a realidade. Se eu “logizomai” ou considero que minha conta bancária tem R$ 25,00, ela tem R$ 25,00. Do contrário eu estaria me enganando. Esta palavra refere-se a fatos e não a suposições” Dicionário Bíblico Strong.

[3] “Fidedigno – adj. Merecedor de crédito (confiança); que é real e verdadeiro; autêntico: realizou um fidedigno levantamento das dívidas da empresa. P.ext. Figurado. Caracterizado por ser real e verdadeiro; autêntico.  (Etm. do latim: fide dignus)”. Dicionário Online de Português.

[4] “4102 πιστις pistis de 3982; TDNT – 6:174,849; n f 1) convicção da verdade de algo, fé; no NT, de uma convicção ou crença que diz respeito ao relacionamento do homem com Deus e com as coisas divinas, geralmente com a ideia inclusa de confiança e fervor santo nascido da fé e unido com ela 1a) relativo a Deus 1a1) a convicção de que Deus existe e é o criador e governador de todas as coisas, o provedor e doador da salvação eterna em Cristo 1b) relativo a Cristo 1b1) convicção ou fé forte e benvinda de que Jesus é o Messias, através do qual nós obtemos a salvação eterna no reino de Deus 1c) a fé religiosa dos cristãos 1d) fé com a ideia predominante de confiança (ou confidência) seja em Deus ou em Cristo, surgindo da fé no mesmo 2) fidelidade, lealdade 2a) o caráter de alguém em quem se pode confiar” Dicionário Bíblico Strong.

[5] “A metonímia consiste em empregar um termo no lugar de outro, havendo entre ambos estreita afinidade ou relação de sentido. Observe os exemplos abaixo: 1 – Autor pela obra: Gosto de ler Machado de Assis. (= Gosto de ler a obra literária de Machado de Assis.) 2 – Inventor pelo invento: Édson ilumina o mundo. (= As lâmpadas iluminam o mundo.) 3 – Símbolo pelo objeto simbolizado: Não te afastes da cruz. (= Não te afastes da religião.) 4 – Lugar pelo produto do lugar: Fumei um saboroso havana. (= Fumei um saboroso charuto.) 5 – Efeito pela causa: Sócrates bebeu a  morte. (= Sócrates tomou veneno.)” Só Português < http://www.soportugues.com.br/secoes/estil/estil3.php > Consulta realizada em 06/05/2016.

[6] “Em suma: o evangelho, segundo João e sua primeira epístola, as epístolas de Paulo, particularmente, as dirigidas aos romanos, gálatas, efésios, e a primeira epístola de Pedro, estes são os livros que lhe apresentam Cristo e lhe ensinam tudo que é necessário e bom saber, ainda que jamais visse ou ouvisse qualquer outro livro ou doutrina. alquer forma, não tem natureza evangélica. Mas disso ainda falaremos em outros prefácios” Lutero, Martinho. Pelo Evangelho de Cristo: Obras selecionadas de momentos decisivos da Reforma. Trad. Walter O. Schlupp. Porto Alegre: Concórdia & São Leopoldo: Sinodal, 1984. pp. 171-177; “Embora esta epístola de São Tiago fosse rejeitada pelos anciãos, eu elogio-a e considero-a um bom livro, porque estabelece não doutrinas de homens, mas vigorosamente promulga a lei de Deus. No entanto, afirmo a minha própria opinião sobre isso, embora sem prejuízo para ninguém, eu não considero como uma escrita de um apóstolo, e as minhas razões seguem. Em primeiro lugar, é terminantemente contra São Paulo e todo o resto da Escritura em atribuir a justificação às obras. Ela diz que Abraão foi justificado por suas obras, quando ofereceu seu filho Isaac, embora em Romanos, São Paulo ensine o contrário, que Abraão foi justificado sem as obras, por sua fé, antes que ele tivesse oferecido seu filho, e prova isso por Moisés em Gênesis 15. Agora, embora esta epístola pode ser ajudada e uma interpretação concebida para essa justificação pelas obras, não pode ser defendida em sua aplicação às obras da declaração de Moisés em Gênesis 15. Pois, Moisés está falando aqui apenas da fé de Abraão, e não de suas obras, como São Paulo demonstra em Romanos. Esta falha, portanto, prova que esta epístola não é o trabalho de qualquer apóstolo” Lutero, Martinho. Prefácio à tradução alemã das Epístolas de S. Tiago e S. Judas, em 1522.

[7] “Tiago e Paulo não discordam em seus ensinamentos sobre a salvação. Eles abordam o mesmo assunto, sob diferentes prismas. Paulo, simplesmente, enfatizou que a justificação vem somente pela fé, enquanto Tiago enfatizou o fato de que a fé em Cristo produz boas obras”. A salvação é somente pela fé ou pela fé mais as obras? Got Questions < http://www.gotquestions.org/Portugues/somente-a-fe.html > Consulta realizada em 19/05/16.

Ler mais

Há mérito em crer em Cristo?

‘Crer’ decorre da ‘fé’, não o contrario. Arrependimento decorre da ‘fé’ (evangelho) e nunca a ‘fé’ do arrependimento. Sem a fé manifesta, que é Cristo, é impossível o homem arrepender-se e crer para a salvação. Sem o conhecimento de Deus, a mensagem do evangelho, não há no que o homem possa crer, que o livre da condenação. O homem pode crer em Deus, crer em anjos, crer em milagres, crer no impossível, etc., mas se não crer em Cristo, o dom de Deus, não será salvo (Jo 14:1).


“E seja achado nele, não tendo a minha justiça, que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus, pela fé” (Fl 3:9)

A fé

Após ler o livro ‘Tudo de Graça’, do pregador Charles H. Spurgeon, no capítulo ‘Pela graça, mediante a fé’, deparei-me com o seguinte posicionamento:

“Que imensa é a graça de Deus! Quem poderá medir sua extensão? Quem poderá imaginar sua profundidade? Como os demais atributos divinos, ela é infinita. Deus é cheio de amor, pois “Deus é amor”! [1João 4.8]. Bondade e amor fazem parte da real essência do Deus triuno. Ele é todo bondade. Exatamente, porque Deus é misericordioso, que não somos todos destruídos. Lembre-se disso, ou você poderá cair em erro, fixando tanto a sua mente na fé, que é o meio da salvação e esquecendo-se da graça, fonte da própria fé.  Fé é obra da graça de Deus, em nós. Ninguém poderá dizer que Jesus é o Cristo, senão por obra do Espírito Santo. “Ninguém poderá vir a mim,” disse Jesus, “se, pelo Pai, não lhe for concedido” [João 6.65]. De maneira que a fé, que é o ato de ir a Cristo e concessão divina da graça. A graça é a primeira e última causa movedora da salvação; e a fé, por mais essencial que seja, é apenas parte importante do mecanismo utilizado pela graça. Somos salvos “mediante a fé”, mas “pela graça”. Soam essas palavras como que, proferidas pela voz do arcanjo: “Pela graça sois salvos”. Que boas novas para quem não merece (…) Ainda assim, quero lembrar que a fé é apenas um canal ou aqueduto, não a própria fonte. Não deveríamos considerá-la, além da fonte de todas as bênçãos, a graça de Deus. Jamais figure Cristo, a partir de sua fé, nem pense nela como fonte independente para a sua salvação. Nossa vida é achada quando olhamos para Jesus, não quando olhamos para a nossa fé” Spurgeon, C. H. Tudo de Graça, Titulo Original, All of Grace (1894), Tradução Wadislau Martins Gomes, 2010, pág. 25.

De que ‘fé’ Spurgeon está tratando?

Como no início do capítulo 7, do livreto ‘Tudo de graça’, Spurgeon cita o versículo: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé” (Ef 2:8). Eu esperava que ele fizesse referência à ‘fé’ como ‘evangelho’, por meio da qual o homem é salvo, mas fui frustrado.

Apesar de ter dito boas coisas, acerca da graça de Deus, o texto de Spurgeon não passa de tergiversações, acerca da graça e da fé, pois, a sua exposição, decorre de má leitura do texto bíblico, o que o tornou doutrinariamente tendencioso.

Quando o apóstolo Paulo diz: “Porque, pela graça sois salvos, por meio da fé” (Ef 2:8), acerca de qual ‘fé’ o apóstolo está escrevendo? Da ‘fé’ que é anunciada aos gentios e que deve ser obedecida (Rm 1:5 e 8), ou, da que significa ‘crer’, ‘acreditar’ em Cristo, disposição decorrente da verdade do evangelho que, também, é nomeada ‘fé’ (Rm 4:3)? Spurgeon fez a sua exposição, apontando para a ‘fé’ que é anunciada (pregada) ou, para a necessidade de ‘crer’ no evangelho? Neste sentido, a ‘fé’ é objetiva (doutrina, crença) ou, diz de uma ‘fé’ subjetiva (acreditar, crer, questão de foro íntimo)?

Ora, o apóstolo Paulo, ao afirmar que os cristãos de Éfeso eram salvos, por meio da fé, na verdade, estava abordando a própria fonte da salvação: Cristo. Cristo Jesus é a ‘fé’ que se manifestou na plenitude dos tempos e que faz os homens agradáveis a Deus:

“Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” (Gl 3:23).

“Ora, sem fé é impossível agradar-lhe, porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que é galardoador dos que o buscam” (Hb 11:6).

Enquanto, o que está sendo apresentado pelo apóstolo dos gentios aos cristãos de Éfeso, diz da fé[1] como verdade, fidelidade, etc., Spurgeon leu o termo ‘fé’, no sentido de crer[2], de acreditar. Spurgeon fez má leitura do termo ‘fé’, tradução do termo grego πίστις (pistis), conforme empregado no versículo: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé” (Ef 2:8), o que afetou a sua compreensão.

Enquanto o apóstolo Paulo apresenta a ‘fé’ que salva e é ‘firme fundamento’ (Hb 11:1), Spurgeon faz referência à disposição do indivíduo de ‘crer’, ‘acreditar’. Enquanto o apóstolo Paulo trata da fé, como o dom de Deus – Cristo – Spurgeon faz elucubrações equivocadas, tanto da fé, como  doutrina (πίστις), quanto do ato de crer, acreditar (πιστεύω).

Por definição, a ‘fé’, da qual o escritor aos Hebreus faz referência, diz do ‘firme fundamento’, que é Cristo, o fundamento dos apóstolos e dos profetas (Ef 2:20; 1Co 3:11). O escritor aos Hebreus não fez referência à certeza de alguém que espera um evento, pois, o homem, mesmo equivocado, pode nutrir uma certeza e esperança que jamais se concretizarão. O escritor aos Hebreus fez referência ao firme fundamento, à prova, que, apesar de não estar ao alcance dos olhos, torna o que se espera confiável.

O termo hebraico אֱמוּנָה (emunáh), traduzido por ‘fé’, decorre, etimologicamente, de diversos significados, quais sejam: veracidade, sinceridade, honradez, retidão, fidelidade, lealdade, seguridade, crédito, firmeza e verdade. A ‘fé’, como ‘firme fundamento’ e ‘prova’, diz da palavra de Deus, que é fiel e digna de toda aceitação: “Esta é uma palavra fiel e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus, veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” (1Tm 1:15).

O apóstolo Paulo, no capítulo 2 de Efésios, verso 8, disse que o homem é salvo, gratuitamente, pela misericórdia de Deus (graça), por meio de Cristo (fé), pois Cristo é o dom de Deus (Jo 4:10). Equivocadamente, Spurgeon trata a fé (πίστις), que o apóstolo Paulo aborda no verso 8 de Efésios 2, como crença (πιστεύω). Ele não considerou que o termo grego πίστις, transliterado pistis, comumente, traduzido por ‘fé’, na verdade, foi empregado pelo apóstolo Paulo, na qualidade de figura de linguagem: metonímia ou transnominação[3].

Metonímia é recurso de estilo linguístico e um desses recursos, consiste em substituir o autor, pela obra. Assim, como é possível dizer: gosto de ler Jorge Amado, em lugar de dizer: gosto de ler os livros de Jorge Amado, sabendo que Cristo é o autor e consumador da ‘fé’, é possível dizer: guardei a fé (πίστις), em vez de dizer: guardei o mandamento ou, o evangelho (1Tm 3:9; 1Tm 6:14; 2Tm 4:7; 1Jo 2:4 -5).

“Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus” (Hb 12:2).

Sabemos que o homem é salvo por intermédio do evangelho (Ef 1:13), que é o poder de Deus (Rm 1:16). Sabemos, também, que, por diversas vezes, o termo εὐαγγέλιον (evangelho) é substituído pelo termo πίστις (fé). É possível dizer: ‘batalhar pelo evangelho’, ou: ‘batalhar pela fé’ (Jd 3).  Neste sentido, desviar-se da ‘fé’, é o mesmo que desviar-se de Cristo, um exemplo de metonímia “A qual, professando-a alguns, se desviaram da fé. A graça seja contigo. Amém” (1Tm 6:21). Esse mesmo recurso permite dizer: ‘mistério da fé’, ‘mistério do evangelho’, ‘mistério da piedade’, ‘mistério de Cristo’, etc. (1Tm 3:9 e 16; Cl 4:3; Ef 6:19).

Quando nos deparamos com o seguinte verso: “Se, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé e não vos moverdes da esperança do evangelho que tendes ouvido, o qual foi pregado a toda criatura que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, estou feito ministro” (Cl 1:23), devemos considerar que ‘permanecer fundado e firme na fé’, é o mesmo que permanecer em Cristo, o fundamento dos apóstolos e profetas (Ef 2:20).

Cristo, a nossa ‘fé’, também é nomeado ‘conhecimento’ e ‘sabedoria’: “Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus” (1Co 1:24); “Destruindo os conselhos e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo” (2 Co 10:5); “E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo” (Fl 3:8); “E isto digo, conhecendo o tempo, que já é hora de despertarmos do sono, porque a nossa salvação está agora mais perto de nós do que quando aceitamos a fé” (Rm 13:11).

Ao iniciar o capítulo 7 do seu livreto, sob o título “Pela graça mediante a Fé”, Spurgeon cita Efésios 2, verso 8: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé”. Em seguida, Spurgeon fez algumas considerações acerca da extensão da misericórdia de Deus, onde afirma que: ‘… você poderá cair em erro, fixando tanto a sua mente na fé…’, e conclui: ‘… que é o meio da salvação e esquecendo-se da graça, fonte da própria fé’.

Ora, o homem é salvo pela misericórdia de Deus, demonstrada em Cristo, ou seja, por meio da fé (verdade, evangelho). Por isso, é dito pelo apóstolo Paulo a Tito que ‘a graça de Deus se manifestou, trazendo salvação a todos os homens’ (Tt 2:11), assim como foi dito aos cristãos da Galácia que, quando estavam debaixo da lei, estavam encerrados para ‘aquela fé que se havia de manifestar’ (Gl 3:23). A graça de Deus se manifesta em Cristo e Cristo manifesta a graça de Deus. Quando Cristo foi manifesto em carne, manifestou-se a graça de Deus a todos os homens, ou seja, manifestou-se a fé, manifestou-se a palavra: “TU, pois, meu filho, fortifica-te na graça que há em Cristo Jesus” (2Tm 2:1).

No que consiste o argumento de Spurgeon: ‘fixando tanto a sua mente na fé’? Ora, se a fé da qual Spurgeon está tratando, diz de crer, com relação a quem crê em Cristo, não se pode dizer que está fixando a sua mente no ‘crer’. Mas, se ele estivesse falando da ‘fé manifesta’, que é Cristo, não há erro em fixar a mente na ‘fé’, pois o apóstolo Paulo afirma que é necessário ao cristão ter firmeza na fé (Cl 2:5; 2Pd 3:17).

É necessário ‘reter a palavra da vida’, ou seja, ‘guardar a fé’ (Fl 2:16). E como fazê-lo, sem fixar a mente na ‘fé’? Fixar a mente no ‘evangelho’, na ‘fé’ é segurança, tanto que o apóstolo Paulo não se cansava de escrever acerca das mesmas coisas (Fl 3:1). Reter a palavra da vida é a obra perfeita da fé: perseverança (Tg 1:2). Aquele que persevera na doutrina, não se deixa envolver por doutrinas várias e estranhas, vez que se fortificou na graça, ou seja, na fé. “Não vos deixeis levar em redor por doutrinas várias e estranhas, porque bom é que o coração se fortifique com graça e não com alimentos que de nada aproveitaram aos que a eles se entregaram” (Hb 13:9).

Os termos ‘fé’, ‘graça’ e ‘evangelho’, são intercambiáveis, por causa da pessoa de Cristo, de modo que podemos dizer que o homem é justificado pela fé, ou pelo evangelho, ou pela graça, ou por Cristo: “Para que, sendo justificados pela sua graça, sejamos feitos herdeiros, segundo a esperança da vida eterna” (Tt 3:7); “Porque se introduziram alguns, que já, antes, estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo” (Jd 1:4); “Da qual salvação inquiriram e trataram diligentemente os profetas que profetizaram da graça que vos foi dada(1Pd 1:10); “Por isso, tendo recebido um reino que não pode ser abalado, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus agradavelmente, com reverência e piedade” (Hb 12:28).

Infelizmente, Spurgeon não soube ler a mensagem que o apóstolo Paulo escreveu aos cristãos de Éfeso, concernente à ‘fé’ e a ‘graça’, vez que o apóstolo, ao escrever, trouxe à memória dos cristãos que, antes de crerem em Cristo (Ef 1:13), todos eram por natureza filhos da ira (Ef 2:3). Em seguida, o apóstolo aponta para a infinita misericórdia de Deus, pois, apesar da condição deles no passado (mortos em delitos e pecados), Deus os vivificou juntamente com Cristo.

Nos versos que se seguem (vv. 5 à 10), o apóstolo continua a descrever o que Deus fez pelos cristãos, sem abordar nenhuma questão pertinente aos homens, nem mesmo a necessidade de crer. Tudo o que o apóstolo aborda, restringe-se ao que Deus faz pelo homem (Ef 2:10; Is 26:12).

Quando o homem morre com Cristo, Deus é justo, pois ‘a alma que pecar essa mesma morrerá’ (Ez  18:4). Mas, apesar de não ter dívida alguma para com aqueles que morrem com Cristo, ao satisfazer o que a lei exige, pela sua misericórdia e graça, Deus faz ressurgir um novo homem, uma nova criatura, criada em verdadeira justiça e santidade (somos feitura Sua).

Deus é misericordioso por salvar o homem, porém, jamais poderia passar por sobre a sua justiça, por isso, a sua misericórdia é demonstrada em Cristo, para que Ele seja justo e justificador “… pela sua benignidade para conosco em Cristo” (Ef 2:7). A misericórdia de Deus é demonstrada em Cristo, porque é necessário aos descendentes de Adão serem participantes da morte de Cristo, para serem justificados do pecado (Rm 6:7), e, em seguida, Deus age, poderosamente, ressuscitando-os, segundo a sua maravilhosa graça (Ef 1:19; Cl 3:1).

É Deus justo e justificador, que salva segundo a Sua misericórdia e graça, mas, por meio da fé, ou seja, por meio do evangelho, que é poder de Deus para todo aquele que crê (Rm 1:16 -17).

 

Crer

Spurgeon dá testemunho de que ficou confuso, diante dos diversos conceitos de ‘fé’:

“Que fé é essa da qual é dito: “Pela graça sois salvos, mediante a fé”? Certamente, há muitas descrições de fé, mas quase todas as definições que tenho encontrado, levam-me a entender menos do que entendia antes. É possível que, ao tentar explicar muito alguma coisa, ela se torne ainda mais confusa. Podemos explicá-la tanto, até que ninguém mais entenda. Espero não ser culpado dessa falta. A fé é a mais simples de todas as coisas e, talvez, por causa de tal simplicidade, ela seja de mais difícil explicação”. Spurgeon, C. H. Tudo de Graça, Titulo Original, All of Grace (1894), Tradução Wadislau Martins Gomes, 2010, pág. 27.

Parece que Spurgeon se deixou levar pelas definições que encontrou, pela má leitura que fez de Efésios 2, verso 8 (“Pela graça sois salvos, mediante a fé”), demonstrando que ele nada entendeu acerca do assunto ‘fé’ e ‘graça’, e que o medo que nutria da possibilidade de se fazer culpado, ao abordar o tema, se concretizou.

Vamos à definição de ‘fé’, apresentada por Spurgeon:

“O que é fé? Resumidamente, a fé é feita de três coisas: conhecimento, crença e confiança. Conhecimento vem primeiro. “como crerão naquele de quem nada ouviram?”. É preciso que eu seja informado de um fato antes que possa crer nele (…) A confiança é a corrente sanguínea da fé; sem ela, não haverá fé salvadora. Os puritanos estavam acostumados a explicar a fé, utilizando o termo recumbência (do verbo recumbir). A palavra significa recostar, inclinar; repousar em Jesus Cristo. Haveria melhor ilustração do que dizer: Lance todo o seu peso sobre a Rocha eterna? Entregue-se a Jesus; descanse nele; confie nele” Idem, págs. 27 e 28.

No grego, temos o substantivo πιστις (pistis), comumente traduzido por ‘fé’ e o verbo πιστευω (pisteuo), traduzido por ‘crer’. Nas línguas de origem latina o radical do substantivo ‘fé’ não se flexiona para traduzir a ideia do verbo grego πιστευω (pisteuo – crer), o que obrigou os tradutores a utilizarem o radical da palavra “credere”, vertendo o verbo πιστευω (pisteuo) para ‘crer’.

Crer em Cristo é, simplesmente, acreditar no que as Escrituras dizem acerca d’Ele: “Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre” (Jo 7:38). Não há qualquer outra exigência nas Escrituras, além de crer, para ser salvo (Is 28:16). O poder para a salvação não está no ato de crer, mas no poder da ‘fé’, ou seja, no poder do evangelho (Jo 1:12; Rm 1:16; 1Co 1:18 e 24).

É pelo poder contido no evangelho que o homem é concitado a crer, acreditar, confiar, descansar, repousar, etc. A segurança está na pedra bem fundada e firme, provada e preciosa que Deus assentou em Sião, de modo que quem crer não perece (Is 28:16).

A fé salvadora é Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus. A fé, que é poder de Deus, não possui ‘corrente sanguínea’ e nem depende da confiança do homem. O homem, confiando[4] ou não, a fé (evangelho) é salvadora, pois se o homem for infiel, Ele permanece fiel: “Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo” (2Tm 2:13).

“A confiança é a corrente sanguínea da fé; sem ela, não haverá fé salvadora” Idem.

A fada Sininho, da estória do Peter Pan, necessita de crianças que acreditem que fadas existem para sobreviver. Não é assim o evangelho de Cristo, pois Ele é salvador, quer o homem creia ou não. A ‘fé’ é firme, indissolúvel, fidedigna, portanto, não depende da confiança do homem, antes, a confiança e a esperança decorrem da ‘fé’. A confiança do homem não salva e nem garante a salvação, antes, é Deus que se interpôs como garantia: “Retenhamos firmes a confissão da nossa esperança; porque fiel é o que prometeu” (Hb 10:23; Tt 1:2; Rm 1:2; Hb 10:23). A segurança de quem crê, está em Deus, que é poderoso e fiel.

Antes que o homem fosse criado, já na fundação do mundo, Deus providenciou salvação a todos os homens, pois o cordeiro de Deus foi morto desde a fundação o mundo (1Pd 1:20; Ap 13:8). Não é a confiança do homem que estabeleceu a salvação em Cristo, mas a verdade de que Cristo foi morto, desde a fundação do mundo, que promove a confiança do homem.

Crer em Cristo é suficiente para ser salvo da condenação, portanto, a ideia de que, além de crer, é necessário se entregar, totalmente, à misericórdia de Deus, é redundância. Crer em Cristo é o mesmo que se entregar à misericórdia de Deus. Considerar que crer é distinto de se entregar à misericórdia de Deus, é uma brecha criada pelos enganadores que, privarão os incautos de desfrutarem da graça de Deus. Quando alguém crê, na verdade, entregou-se ‘completamente’ à misericórdia de Deus.

Outra aberração, é desvincular o ‘arrependimento’, do ato de ‘crer’ e de ‘arrepender-se’. Crer é consequência do arrependimento. Só se arrepende de fato quem, após ouvir o evangelho, crê em Cristo. Quem crê que Jesus é o Cristo de fato mudou de concepção (metanoia), acerca de como ser salvo. Primeiro é anunciada a fé, em seguida o homem se arrepende (metanoia), e, por fim, crê.

‘Crer’ decorre da ‘fé’, não o contrario. Arrependimento decorre da ‘fé’ (evangelho) e nunca a ‘fé’ do arrependimento. Sem a fé manifesta, que é Cristo, é impossível o homem arrepender-se e crer para a salvação. Sem o conhecimento de Deus, a mensagem do evangelho, não há no que o homem possa crer, que o livre da condenação. O homem pode crer em Deus, crer em anjos, crer em milagres, crer no impossível, etc., mas se não crer em Cristo, o dom de Deus, não será salvo (Jo 14:1).

A palavra ‘fé’, quando é empregada nas Escrituras, no sentido de ‘crer’, não é ‘conhecimento’ e nem ‘crença’. Spurgeon equivocou-se ao conceituar quea fé é feita de três coisas: conhecimento, crença e confiança’. ‘Crer’ em Cristo é somente confiança n’Ele, por causa do testemunho que o Pai deu acerca do Filho nas Escrituras. A ‘fé’ (evangelho) é conhecimento, doutrina, crença e a ‘fé’ (crer) é somente confiança. Para que o homem possa crer, primeiro é necessário o ‘conhecimento’, que, em relação ao evangelho, é informação, mensagem, doutrina, espírito, etc., revelado por Deus em Cristo, assim com profetizado pelo profeta Isaias:

“Ele verá o fruto do trabalho da sua alma e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles levará sobre si” (Is 53:11)

É impossível a quem crê em Cristo, se gloriar de ter crido. É impossível reputar que há mérito em confiar em Cristo. Quem crê em Cristo, conforme as Escrituras, na verdade gloria-se em Cristo (Fl 3:3). Quem crê em Cristo, na verdade rendeu-se diante da fidelidade de Deus, expressa na sua palavra. O mérito, a glória e a virtude estão no evangelho, mensagem de boas novas de que Cristo veio ao mundo salvar os pecadores: “Esta é uma palavra fiel e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” (1Tm 1:15).

Aquele que crê no evangelho, não necessita preocupar-se com o erro de se gloriar diante de Deus, pois o próprio evangelho exclui a jactância: “Onde está logo a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé” (Rm 3:27).

Não há como alguém se gloriar de ter amado a Cristo, pois quem ama, não se envaidece e não se vangloria (1Co 13:4). Quem crê, não tem como se vangloriar de ter crido, pois crer em Cristo é obra de Deus (Jo 6:29), que Ele opera, por meio do evangelho. Crer em Cristo é o mandamento de Deus, e quem crê se fez servo. Como gloriar-se de tomar sobre si o jugo de Jesus? Onde está a jactância, no ato de levar sobre si o fardo de Jesus?

Quando Jesus concitou os seus interlocutores, cansados e sobrecarregados, a tomarem sobre si o seu jugo, na verdade, estava requerendo que eles se sujeitassem como servos (Mt 11:28-30).

Por não se sujeitarem a esse ‘conhecimento’ especifico, é que os judeus, sem entendimento, procuraram estabelecer uma justiça própria, não se sujeita à justiça que vem de Deus – Cristo (Rm 10:1-3). Se compreendessem que o justo vive da fé, ou seja, que o homem só vive através da palavra que sai da boca de Deus (Dt 8:3; Hc 2:4), os judeus saberiam que o homem só é justificado pela pregação da fé (Gl 3:2 e 5).

A lei exige realizações (Rm 10:5), a fé (evangelho) exige que se creia (Rm 9:33). A justiça, que vem por intermédio da ‘fé’, se dá quando o homem morre e ressurge com Cristo e o que permite ao homem morrer e ressurgir, é crer na palavra da fé, que foi anunciada pelos apóstolos e profetas (Rm 10:8). Os judeus ouviam e acreditavam que seriam justificados pela lei, mas como a lei estava enferma pela carne, ela era inócua para o que os judeus pretendiam alcançar (Rm 2:17; Gl 3:11).

A fé (crer) que os judeus depositavam na lei, é a mesma fé (crer) que o arrependido deposita no evangelho. O diferencial está em que, a lei não tem o poder que o evangelho possui. O propósito da lei é conduzir o homem a Cristo e o propósito do evangelho. é conduzir o homem a Deus. por intermédio de Cristo.

Spurgeon parece exalar sabedoria e humidade nas palavras:

De maneira que a fé, que é o ato de ir a Cristo é concessão divina, da graça. A graça é a primeira e última causa movedora da salvação; e a fé, por mais essencial que seja, é apenas parte importante do mecanismo utilizado pela graça” Idem.

Mas, quando se questiona: que ‘fé’ é essa que é o ato de ir a Cristo? A concessão divina da graça está em que, Deus deu o Seu Filho, como mediador entre Deus e os homens. A fé, como concessão divina, não diz do ato do homem ir a Cristo, mas do ato de Deus vir até os homens. Em Deus revelar-se aos homens na pessoa de Cristo, está a primeira e última causa movedora da salvação (Jo 1:18).

A graça de Deus veio sobre todos os homens, através de um ato de justiça, realizado por Cristo Jesus (Rm 5:18). Como Cristo foi entregue pelos pecados da humanidade e ressuscitou para a justificação dos que creem (Rm 4:25), os crentes são justificados por Cristo, ou seja, pela fé (Rm 5:1). É por Cristo que o homem alcança a graça de ter paz com Deus, mediante o evangelho (fé) (Rm 5:2). É no evangelho (fé) que o cristão permanece firme e gloria-se na esperança da gloria de Deus (Rm 5:2).

Crer é o ato de receber a Cristo, para ir a Deus (Jo 1:12). Portanto, crer, não é o ato de ir a Cristo, mas de receber a Cristo. Não há como o homem ir a Deus, por isso Deus veio aos homens, concedendo Cristo como mediador (graça), para que os homens pudessem ir a Deus (Jo 14:6). A ‘fé’ não é o ato de o homem ir a Cristo, antes, a ‘fé’ está no ato de Deus conceder Cristo aos homens (Gl 3:23).

Observe:

“Fé é uma palavra muito significativa. Implica fidelidade a Deus (Mt 24:45) e confiança absoluta n’Ele, como aquela demonstrada pelas pessoas que iam a Jesus à procura de cura (Lc 7:2-10). Fé pode ser definida, positivamente, como uma esperança segura, inabalável (Hb 11:1), ou, negativamente, como uma crença infecunda que não redunda em boas obras (Tg 2:14-26). Mas o que Paulo quis dizer, quando falou de ‘fé salvadora’,em Romanos? O apóstolo relacionou a fé à salvação. Não é necessário praticar boas obras para alcançar a salvação; se fosse, esta seria mais um feito humano, e Paulo deixou bem claro que as obras não nos podem salvar (Gl 2:16). Embora, a fé seja uma dádiva concedida por Deus, porque Ele deseja nos salvar (Ef 2:8), é a graça de Deus e não a nossa fé, que nos salva. Em sua misericórdia, ao nos salvar, Deus nos concede a fé, a fim de que tenhamos um relacionamento com o seu Filho, que nos ajuda a ser como ele. Por meio dessa fé, que recebemos do próprio Deus, passamos da morte para a vida (Jo 5:24 ) (…) Como seria trágico se transformássemos a fé em uma obra e tentássemos desenvolvê-la por nossa conta! Nunca poderíamos chegar a Deus por meio de uma fé humana, assim como o povo do Antigo Testamento não o poderia,, por meio dos seus sacrifícios. Assim, devemos aceitar a bondosa oferta de Deus com ações de graça e permitir que Ele plante a semente da fé dentro de nós” Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal, Versão Almeida Revista e Corrigida Edição 1995, pág. 1552.

Percebe-se que os editores da Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal compartilham da mesma concepção de Spurgeon, de que é a graça de Deus e não a fé, que salva. A Bíblia afirma que quem crer será salvo e os editores da Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal afirmam que, ao salvar o homem, Deus concede fé para que possa relacionar-se com Cristo. É esse o posicionamento das Escrituras?

Na verdade, os que creem em Cristo recebem de Deus poder para serem feitos filhos de Deus e não fé. Na verdade, Deus concedeu o seu Filho, Jesus Cristo, para que, por Ele, o homem tenha comunhão com Deus. Cristo é mediador entre Deus e os homens, portanto, a ideia de que a fé é para ter um relacionamento com o Filho é descabida, qualquer que seja a ideia que nutrem acerca do termo ‘fé’.

A ‘fé’ (crer) do homem não é uma semente que Deus planta em seu coração, antes a fé, no sentido de crer, surge da fidelidade de Deus, expressa em sua palavra. A palavra de Deus é fiel, verdadeira, firme, imutável, etc., portanto, digna de ser aceita (1Tm 1:15). A palavra de Deus que é descrita como ‘semente incorruptível’, porque o homem é gerado de novo, por meio dela (1Pd 1:23). Essa semente é a palavra da fé, a boa doutrina (1Tm 4:6), que, quando aceita pelo homem (crê), Deus faz surgir a nova criatura.

Somente a palavra de Deus é descrita como semente (Lc 8:11), pois, dela resulta a nova criatura (1Jo 3:9). ‘Crer’ na palavra de Deus, nunca é descrito como semente, pois o poder de conceder nova vida está na palavra de Deus e não na crença do homem. Deus salva o homem por meio da fé (evangelho), o que é diferente da ideia de que Deus salva e concede a fé (crer).

Se o leitor não souber diferenciar os versos que utilizam o termo ‘fé’ no sentido de ‘evangelho’, ‘verdade’, ‘Cristo’, etc., dos textos que utilizam o termo ‘fé’ no sentido de ‘crer’, ‘acreditar’, etc., chegará à mesma conclusão equivocada a seguir:

“Fé é obra da graça de Deus em nós. Ninguém poderá dizer que Jesus é o Cristo, senão por obra do Espírito Santo. “Ninguém poderá vir a mim,” disse Jesus, “se, pelo Pai, não lhe for concedido” [João 6.65]” Idem.

Cristo é a graça de Deus manifesta, que trouxe salvação a todos os homens (Tt 2:11), portanto, a ‘fé’ é a própria graça de Deus manifesta: “Porque a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1:17; Gl 3:23). Deus deu o Cristo para realizar a sua obra: crede naquele que Ele enviou (Jo 6:29).

A ‘fé’, a ‘verdade’, é o testemunho que Deus deu acerca do seu Filho Jesus Cristo, para que todos honrem o Filho, da mesma forma que honram o Pai. Aquele que ouve as palavras de Cristo e crê, na verdade, crê em Deus, pois crê no testemunho de Deus, ou seja, nas Escrituras (Jo 5:23-24; Jo 5:39; 1Jo 5:10). O ensino de Jesus não era d’Ele, mas, de Deus, de modo que, quem crê em Cristo, faz a vontade de Deus (Jo 7:16-17).

Jesus disse: “… ninguém pode vir a mim, se pelo Pai não lhe for concedido” (Jo 6:65), porque alguns dos seus discípulos não criam em suas palavras, que eram espirito e vida (Jo 6:63-64). Embora Jesus anunciasse: – “Eu sou o pão da vida”, contudo não criam (Jo 6:35-36). Embora anunciasse: – “Eu sou o pão que desceu do céu” (Jo 6:41), murmuravam (Jo 6:42-43).

Foi predito pelos profetas que ‘todos seriam ensinados por Deus’ (Jo 6:45; Is 54:13), de modo que ‘todo aquele que o Pai me dá virá a mim’, ou ‘ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer’, ou ‘ninguém pode vir a mim, se pelo Pai não lhe for concedido’, são modos distintos de dizer que as Escrituras dão testemunho de Cristo, de modo que todos os que se ouvem o Pai e se deixam instruir (aprende dele), creem em Cristo (Jo 6:45).

Quem o Pai deu a Cristo? Conforme o previsto nas Escrituras, aqueles que esperam no Senhor, que escondeu o seu roso da casa de Israel, ou seja, Cristo, que apesar de ser santuário, tornou-se pedra de tropeço para Israel (Is 8:17-18). Quando é dito: – “Eis-me aqui, com os filhos que me deu o Senhor” (Is 8:18), é porque ‘todos os teus filhos serão ensinados do Senhor’ (IS 54:13), de modo que, aquele que ouve o ensino de Cristo, aprende de Deus, que O enviou (Jo 7:16).

 

Salvação

“E seja achado nele, não tendo a minha justiça, que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé” (Fl 3:9)

O que é ser ‘achado n’Ele’? É estar em Cristo, ou seja, ser uma nova criatura (2Co 5:17). Por definição, quem ‘está em Cristo’ é ‘nova criatura’! A nova criatura alcança a justiça que vem de Deus, por intermédio de Cristo, que é sabedoria, justiça, santificação e redenção (1Co 1:30).

Nestas duas orações: “… mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus, pela fé”, o termo ‘fé’ foi empregado com dois significados distintos, a saber:

a) ‘mas a que vem pela fé em Cristo’ – nesta oração o termo ‘fé’ foi empregado no sentido de ‘crer’, ‘acreditar’. O apóstolo está enfatizando que a justiça de Deus é concedida aos que creem em Cristo;

b) ‘a justiça que vem de Deus pela fé’ – nesta oração, o termo ‘fé’ foi empregado no sentido de ‘evangelho’, ‘Cristo’.

Como a justiça de Deus é imputada ao homem?

Quando discursou aos cristãos de Antioquia da Pisídia, o apóstolo Paulo deixou claro que o homem é justificado por Cristo ao crer n’Ele. O homem precisa crer em Cristo, não porque a sua crença será causa de justificação, antes, porque, por Cristo, o homem é justificado: “E de tudo o que, pela lei de Moisés, não pudestes ser justificados, por Ele é justificado todo aquele que crê” (At 13:39).

Os profetas deram testemunho de que, por Jesus Cristo, os que creem, recebem o perdão dos pecados (At 10:43). Há alguma virtude em acreditar em Cristo? Não! Na crença do indivíduo não há poder, antes, a virtude está em Cristo, pois, por Ele, é que o homem confia em Deus (2 Co 3:4). Sem Cristo, por quem vem a fé (crer), não há justificação (At 3:16).

Pelo fato de Cristo ter morrido por todos os homens, e todos os que creem morrem com Ele, o crente desfruta de uma nova vida (At 5:20), pois, vivem para Aquele que morreu e ressurgiu dentre os mortos (2 Co 5:14-15). Ser uma nova criatura provém de Deus, que reconciliou os que creem consigo mesmo  por Jesus Cristo (2 Co 5:18), ou seja, a reconciliação por meio da fé não vem dos homens (Ef 2:8).

Não é a crença do homem que promove a reconciliação com Deus, antes, a fé (Cristo) é o meio pelo qual o homem tem acesso a Deus. Cristo veio ao mundo sem pecado, mas por Deus foi feito pecado, para quem estiver n’Ele (os que creem), sejam declarados justos (2 Co 5:21). Agora, sendo justificados por sua graça, os cristãos são embaixadores da parte de Deus anunciando a graça de Deus aos homens, em tempo oportuno (2 Co 6:1).

O ato de crer resulta em confissão (admitir o que é), conforme dispõe o salmista: ‘Cri, por isso falei’ (2 Co 4:13; Sl 116:10). A evidência exterior de quem crê em Cristo está na doutrina que professa, ou seja, na confissão, que o escritor aos Hebreus denomina ‘fruto dos lábios’ (Hb 13:15). Confissão que João Batista observou que faltava aos escribas e fariseus: ‘frutos dignos de arrependimento’ (Mt 3:8).

Ao acreditar que Cristo ressurgiu dentre os mortos (Rm 10:9-10), isto conforme a palavra da fé, apregoada pelos apóstolos e profetas, o homem é salvo. É salvo todo aquele que confessa a Jesus como Senhor e crê que Deus O ressuscitou dos mortos, pois, com a boca se faz confissão para a salvação[5] e com o coração, se crê para justiça. Ao crente é imprescindível o mesmo espírito de fé anunciado pelo salmista: crer e professar, pois a boca fala do que o coração está pleno (Mt 12:34).

Por meio do evangelho, a graça de Deus é derramada, pois Cristo trouxe salvação sobre todos os homens. A graça (bondade e benignidade de Deus para com os homens) e o evangelho (verdade) decorrem de Cristo, pois por Ele é concedido aos homens redenção e remissão dos pecados: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Ef 2:8); “Porque a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1:17).

Deus criou a humanidade em função do beneplácito que propusera em Cristo, de fazer convergir n’Ele todas as coisas, para que em tudo Ele fosse preeminente (Ef 1:9-10). Mas, para fazer parte deste propósito, a humanidade teria que ser participante da glória de Deus, semelhante a Ele, pois só entre semelhantes é possível ser preeminente. Cristo é espírito vivificante, o último Adão, pois por Ele muitos são conduzidos à glória de Deus e feitos semelhantes a Ele (1Jo 3:2; 1Co 15:48 -49).

Como é impossível aos homens serem semelhantes a Deus, em poder e glória, o Verbo se fez carne e em tudo se fez semelhante aos homens (Hb 2:14 e 17), para fazer propiciação pelos pecados do povo. Os que ressurgissem dentre os mortos com Cristo são santos, irrepreensíveis e semelhantes a Ele. Como Cristo se fez servo em tudo, Deus o exaltou soberanamente, constituindo-o como a cabeça da igreja, que é o seu corpo, posição de primogênito entre muitos irmãos, o que lhe confere a preeminência em tudo.

Jesus despiu-se da sua glória e se fez homem, porém, sem pecado. Em tudo foi provado como homem, tendo que confiar nas Escrituras e ser obediente ao Pai. A missão de Jesus era reparar a ofensa de Adão: obediência pela desobediência, para estabelecer a justiça: “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim, pela obediência de um, muitos serão feitos justos” (Rm 5:19).

A humanidade entrou em condenação eterna pela ofensa de Adão (desobediência). Os homens entram na vida eterna pela obediência de Cristo (justiça). Quando o homem crê que Jesus de Nazaré é o Filho de Deus, morreu pelas ofensas e pecados da humanidade e, que ressuscitou dentre os mortos será salvo, conforme as profecias. A encarnação, morte e ressureição do Filho de Davi são eventos históricos que tornam os homens justos aos olhos de Deus, isso, porque, esses eventos se deram, segundo a palavra de Deus.

Ao crer nos eventos históricos do nascimento, morte e ressurreição e, na doutrina de Cristo, efetivamente, o crente está crendo na palavra de Deus: a verdade (Sl 119:160; Sl 138:2). Os apóstolos viram e testificaram que Deus enviou o seu Filho como salvador do mundo, pois, crer nesta verdade, para salvação, é imprescindível: “E aquele que o viu, testificou e o seu testemunho é verdadeiro; e sabe que é verdade o que diz, para que também vós o creiais” (Jo 19:35; 1 Jo 4:13-15; At 10:39-43). Ao crer nessa verdade, o homem confirma que Deus é verdadeiro: “De maneira nenhuma; sempre seja Deus verdadeiro e todo o homem mentiroso; como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras e venças quando fores julgado” (Rm 3:4).

Crer em Cristo é crer em Deus, declarando-O verdadeiro, fiel e justo. “Quem crê no Filho de Deus, em si mesmo tem o testemunho; quem a Deus não crê, mentiroso o fez, porquanto, não creu no testemunho que Deus de seu Filho deu. E o testemunho é este: que Deus nos deu a vida eterna; e esta vida está em seu Filho” (1Jo 5:10-11); “Na verdade, na verdade, vos digo que, quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida” (Jo 5:24); “Porque, aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus; pois não lhe dá Deus o Espírito por medida” (Jo 3:34); “Porque lhes dei as palavras que tu me deste; e eles as receberam e têm verdadeiramente conhecido que saí de ti, e creram que me enviaste” (Jo 17:8); “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17:17).

Ao escrever ao irmão Tito, o apóstolo Paulo faz alusão a três aspectos do evangelho: a) manifestou a sua palavra; b) pela pregação confiada; e, c) segundo o mandamento de Deus: “Mas, a seu tempo, manifestou a sua palavra, pela pregação que me foi confiada, segundo o mandamento de Deus, nosso Salvador” (Tt 1:3). O primeiro aspecto diz da palavra de Deus manifesta, que se refere a Cristo, o Verbo que se fez carne, na plenitude dos tempos e, por quem o homem é justificado. O segundo aspecto refere-se à pregação, que tem por tema Cristo e deve ser anunciado a todos os povos, pois, ‘como crerão naquele de quem não ouviram’? (Rm 10:4) O terceiro aspecto do evangelho é o mandamento: crer (1 Jo 3:24).

Um erro do calvinismo, está em reputar que, no ato de crer, alguém possa jactar-se de se salvar por seus próprios méritos, pois, com relação ao evangelho, ter mérito por crer é impossível. Crer é mandamento, de modo que, quem crê, se faz servo, sujeitando-se ao senhorio de Cristo. Crer é obedecer ao evangelho, de modo que o crente não tem como se vangloriar e nem como se ensoberbecer.

Com relação ao evangelho, não podemos pecar pelo preciosismo ou pela omissão, pois, em ambos os casos, é prevaricar contra o evangelho. Há quem contrarie as Escrituras, ao dizer que ‘não basta apenas confessar com a boca que Jesus Cristo é o Senhor para ser salvo’, para encontrar ocasião de impor obrigações sobre os incautos e há quem diga que ‘a fé é apenas um canal ou aqueduto e não a própria fonte da salvação’, invocando o medo de um risco de o crente gloriar-se de ter crido em Cristo, pervertendo a fé de alguns.

O crente não pode perder de vista, que a salvação que alcançou em Cristo é graça de Deus; que é graça ter recebido poder de ser feito filho de Deus; que ter uma herança no céu é graça de Deus; desfrutar do cuidado de Deus, no dia a dia, é graça; que ser coerdeiro de Cristo e reinar com Ele é graça. A obra de Cristo nos homens é graça de Deus, de modo que se pode afirmar, categoricamente, que Cristo é a graça de Deus, pois todas essas benesses decorrem de Cristo (2 Co 1:20).

O ápice da graça se encontra na ressurreição que Deus concede aos homens, pois o salário do pecado é a morte. Como todos pecaram, todos são merecedores de morte. Quem morre sem Cristo segue-se ao juízo, sob condenação, mas quem crê em Cristo, passou da morte para a vida, pois de fato morre para o pecado, conformando-se com Cristo, na sua morte e através da ressurreição de Jesus Cristo, ressurge para a vida eterna: maravilhosa graça!

O crente não pode demover-se da fé, ou seja, da graça de Deus. Estar firme na graça (1 Pe 5:12), é estar firme na fé (1Pe 5:9). A graça de Deus tornou-se notória a todos os homens, pelo fato de Cristo Jesus, sendo rico (Tt 2:11; Tt 3:7), por amor dos que creem, se fez pobre, para que, pela sua pobreza fossem, feitos ricos (2 Co 8:9).

 


[1] “4102 πιστις (pistis) de 3982; TDNT – 6:174,849; n f 1) convicção da verdade de algo, fé; no NT, de uma convicção ou crença, que diz respeito ao relacionamento do homem com Deus e com as coisas divinas, geralmente com a ideia inclusa de confiança e fervor santo, nascido da fé e unido com ela 1a) relativo a Deus 1a1) a convicção de que Deus existe e é o criador e governador de todas as coisas, o provedor e doador da salvação eterna em Cristo 1b) relativo a Cristo 1b1) convicção ou fé forte e benvinda de que Jesus é o Messias, através do qual nós obtemos a salvação eterna no reino de Deus 1c) a fé religiosa dos cristãos 1d) fé com a ideia predominante de confiança (ou confidência) seja em Deus ou em Cristo, surgindo da fé no mesmo 2) fidelidade, lealdade 2a) o caráter de alguém em quem se pode confiar” Dicionário Bíblico Strong.

[2] “4100 πιστευω (pisteuo) de 4102; TDNT – 6:174, 849; v 1) pensar que é verdade, estar persuadido de, acreditar, depositar confiança em 1a) de algo que se crê 1a1) acreditar, ter confiança 1b) numa relação moral ou religiosa 1b1), usado no NT para convicção e verdade, para a qual um homem é impelido por uma certa prerrogativa interna e superior e lei da alma 1b2) confiar em Jesus ou Deus, como capaz de ajudar, seja para obter ou para fazer algo: fé Salvadora 1bc) mero conhecimento de algum fato ou evento: fé intelectual 2) confiar algo a alguém, i.e., sua fidelidade 2a) ser incumbido com algo” Dicionário Bíblico Strong.

[3] “Metonímia ou transnominação é uma figura de linguagem que consiste no emprego de um termo por outro, dada a relação de semelhança entre o segundo e o termo entre as orações ou a possibilidade de associação entre cinco ou mais figuras de linguagem destes. Por exemplo: “Palácio do Planalto” é usado como um metônimo (uma instância de metonímia) para representar a presidência do Brasil, por ser esse o nome do edifício do governo federal”, Wikipédia.

[4] “A ideia de Deus (…) nasce da reflexão sobre as operações do nosso próprio espírito…” Hume – Vida e Obra, Coleção Os pensadores, 1999, pág. 37.

[5] “Podemos sentir no próprio espírito que desta qualidade de caráter depende até mesmo a nossa própria salvação eterna. Sim, porque não basta apenas confessar com a boca que Jesus Cristo é o Senhor para que sejamos salvos, porque isso qualquer um pode fazer”. Macedo, Edir. O poder sobrenatural da fé. 1º Ed. Atualizada. Rio de janeiro: Unipro Editora, 2011 pág. 120. Grifo nosso.

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