Tiago 2 – Fé e obras

De nada aproveita ao homem dizer que tem fé (que crê em Deus) e não ter obras (obedecer). Só é plenamente aceitável e aproveitável se ele tiver fé (crer) e as obras (obedecer).


Introdução

O comentário ao capítulo Um da Carta do apóstolo Tiago contém os elementos necessários à interpretação do capítulo dois.

Declarações do apóstolo como: “Assim também a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma”, ou “assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta”, tem suas bases no capítulo um.

Antes de continuarmos na explicação versículo a versículo, já é possível determinarmos o tema central da carta: a perseverança.

A prova da fé produz a perseverança ( Tg 1:2 ). Ele destaca que o homem que suporta a provação é bem-aventurado (v. 12). A perseverança é condição essencial para se alcançar à bem-aventurança prometida por Deus aos que o amam (v. 25).

Nesta linha de raciocínio o apóstolo Paulo também destacou que a perseverança é produzida na tribulação Rm 5. 3. O escritor aos Hebreus também demonstrou que é necessária a perseverança depois que se crê em Cristo “Porque necessitais de perseverança, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” ( Hb 10:36 ).

Perseverança: Obra completa da fé posta à prova ( Tg 1:3 -4);

A vontade de Deus: “Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

Apesar de a carta estar endereçada ‘às doze tribos da dispersão’ Tg 1. 1, o se conteúdo não contempla somente os judeus que se tornaram cristãos.

O apóstolo Tiago demonstra que a fé do cristão ao ser provada desenvolve a perseverança. Esta idéia é confirmada pelo apóstolo Paulo: “E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a paciência…” ( Rm 5:3 ).

A prova da fé produz a perseverança, e a perseverança é a obra completa da fé, como se lê abaixo:

“Sabendo que a prova de voffa fé obra a paciencia. Tenha porém a paciencia a obra perfeita, peraque perfeitos e totalmente finseros fejaes, em nada faltando”

Novo Testamento – 2ª impressão – Data da edição: 1693, com introduções e resumos da edição de 1681 de Amsterdam, além de Notas de Rodapé dos revisores – Impresso na Batávia (Ilha de Java). SBB.

Tiago insta os leitores a entenderem que a prova da fé produz a perseverança. Após a provação restava a eles estarem de posse da perseverança, que é a obra completa (perfeita) da fé.

Este aspecto da fé é retratado por Paulo aos cristãos de Tessalonicenses ao citar a perseverança de Cristo: “Ora o Senhor encaminhe os vossos corações no amor de Deus, e na paciência de Cristo” ( 2Ts 3:5 ).

Tanto Paulo quanto Tiago concordam que a perseverança é a obra perfeita da fé “Bem-aventurado o homem que suporta com perseverança a provação…” ( Tg 1:12 ; Rm 5:3 ).

O homem será bem-aventurado no que realizar quando suporta a provação, visto que atenta para a lei perfeita, a da liberdade. Esta é a obra a se executar: a perseverança ( Tg 1:25 ).

A fé que Tiago faz referência é a fé salvadora. Ele diz da fé que uma vez foi dada aos santos Jd 3. Esta fé quando provada ‘obra’ (produz) a perseverança.

Em resumo, o capítulo um demonstra a obra da fé quando provada: a perseverança.

A perseverança é algo próprio da fé. Da mesma forma que a fé não vem do cristão, mas de Deus, a perseverança é proveniente da fé e não do cristão. A perseverança é característica de quem possui a fé (evangelho).

 

 

Alerta Segundo a Lei Real

1 Meus irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas.

Novamente o apóstolo Tiago demonstra a fraternidade em Cristo: meus irmãos.

A fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória é coletiva. Pertence ao senhor da glória e foi dada aos cristãos ( Jd 1:3 ; Ef 2:8 ; Tg 1:3 ).

A fé foi dada aos santos, mas estes não deviam tê-la em acepção de pessoas.

Este versículo é um aconselhamento seguido de um exemplo.

 

2 Porque, se no vosso ajuntamento entrar algum homem com anel de ouro no dedo, com trajes preciosos, e entrar também algum pobre com sórdido traje,

 

Observe que a entra de pessoas nas reuniões dos cristãos era livre, diferente das reuniões dos judeus.

3 E atentardes para o que traz o traje precioso, e lhe disserdes: Assenta-te tu aqui num lugar de honra, e disserdes ao pobre: Tu, fica aí em pé, ou assenta-te abaixo do meu estrado,

O exemplo de acepção de pessoas recai nas diferenças socioeconômicas.

 

4 Porventura não fizestes distinção entre vós mesmos, e não vos fizestes juízes de maus pensamentos?

Em um primeiro momento o exemplo parece hipotético, porém a exortação torna-se incisiva. Fizeram distinção entre eles mesmos e se tornaram juízes movidos por maus pensamentos.

 

5 Ouvi, meus amados irmãos: Porventura não escolheu Deus aos pobres deste mundo para serem ricos na fé, e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam?

O agora é o momento para qual os cristãos foram preparados: “Ouvi, meus amados irmãos…” ( Tg 1:19 ).

A linguagem é exclusivamente evangelística: Deus escolheu os pobres aos olhos do mundo para serem ricos na fé.

Não há qualquer promessa ou previsão de mudança na condição financeira dos cristãos. Qualquer tipo de promessa de melhora na condição financeira dos cristãos após terem aceitado a Cristo não é bíblica.

Observe que a promessa confere direito aos cristãos, porém a herança está atrelada ao reino prometido, que não é deste mundo.

 

6 Mas vós desonrastes o pobre. Porventura não vos oprimem os ricos, e não vos arrastam aos tribunais?

Tiago é incisivo e expõe um problema no seio da igreja: “Mas vós desonrastes o pobre”. Aqueles que precisavam ouvir tal queixa do apóstolo estavam preparados – sejam prontos a ouvir.

Aqueles que sofreram a afronta também estavam preparados: sejam tardios em falar, e tardios em irar.

O tema da carta é perseverança, porém o capítulo um reuniu elementos que preparou o ânimo dos ouvintes, tanto dos ricos como os de condição humilde ( Tg 1:9 -10).

 

 

Recomendações

7 Porventura não blasfemam eles o bom nome que sobre vós foi invocado?

Os ricos segundo os parâmetros deste mundo, além da opressão que impunham aos cristãos, acabavam por levá-los aos tribunais.

 

8 Todavia, se cumprirdes, conforme a Escritura, a lei real: Amarás a teu próximo como a ti mesmo, bem fazeis.

Se os leitores da carta de Tiago andassem conforme as Escritura (A. T.), estariam realizando o bem “E vós, irmãos, não vos canseis de fazer o bem” ( 2Ts 3:13 ).

Observe a distinção que Tiago faz dos elementos da lei ao citar um único trecho de Levítico (a Escritura): deveriam cumprir a lei real, ou o que foi instituído por Cristo “Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o SENHOR” ( Lv 19:18 ; Mc 12:31 ).

 

9 Mas, se fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado, e sois redarguidos pela lei como transgressores.

O apóstolo Tiago faz esta declaração com base neste versículo: “Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado” ( Tg 4:17 ).

Aquele que não anda conforme a lei real, este é transgressor e comente pecado, pois tal pessoa ainda não teve um encontro real com Cristo “Aquele que diz que está na luz, e odeia a seu irmão, até agora está nas trevas” ( 1Jo 2:9 ).

 

10 Porque qualquer que guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos.

Este é um parâmetro da lei: um ‘simples’ tropeço em qualquer ponto leva a pessoa subordinada a ela a derrocada total.

 

11 Porque aquele que disse: Não cometerás adultério, também disse: Não matarás. Se tu, pois não cometeres adultério, mas matares, estás feito transgressor da lei.

Este versículo é um exemplo aplicado dos parâmetros da lei que foi apresentado no versículo anterior.

 

12 Assim falai, e assim procedei, como devendo ser julgados pela lei da liberdade.

Este versículo contempla o argumento do apóstolo João: “Aquele que diz que está na luz, e odeia a seu irmão, até agora está nas trevas” ( 1Jo 2:9 ). O procedimento do cristão deve estar em conformidade como que ele professa.

Ao falar: “Amarás o teu próximo, como a ti mesmo”, deveriam proceder conforme o que diziam. Deveriam falar conforme a lei régia e proceder conforme ela estipula.

Aquele que procede conforme o que fala, age assim por saber que será julgado pela lei da liberdade. Tal julgamento é de obras e se dará no Tribunal de Cristo “Mas tu, por que julgas teu irmão? Ou tu, também, por que desprezas teu irmão? Pois todos havemos de comparecer ante o tribunal de Cristo” ( Rm 14:10 ); “Porque todos devemos comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o que tiver feito por meio do corpo, ou bem, ou mal” ( 2Co 5:10 ).

A lei da liberdade nos remete ao versículo vinte e cinco do capítulo um: “Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito” ( Tg 1:25 ).

Aquele que não é relapso, ou seja, que atenta bem para a lei da liberdade, cumpre com o determinado e é bem-aventurado no seu feito.

Ele é bem-aventurado por suportar com perseverança a tentação. A fé que ele recebeu deve se desenvolver, tornando-se perseverante.

 

13 Porque o juízo será sem misericórdia sobre aquele que não fez misericórdia; e a misericórdia triunfa do juízo.

A misericórdia divina só é demonstrada aos homens em particular quando este tem um encontro com Ele.

Sabemos que Deus amou o mundo de tal maneira, e que deu o seu Filho unigênito. Está é a misericórdia de Deus demonstrada ao mundo, em que seu Filho morreu, sendo nós ainda pecadores.

Mas, para que o homem seja participante desta misericórdia deve crer em Cristo para ser participante da luz.

Todos aqueles que crêem em Cristo são participante de sua natureza e devem andar como ele andou. Contudo, devemos observar o que diz o apóstolo João: “Outra vez vos escrevo um mandamento novo, que é verdadeiro nele e em vós; porque vão passando as trevas, e já a verdadeira luz ilumina. Aquele que diz que está na luz, e odeia a seu irmão, até agora está em trevas. Aquele que ama a seu irmão está na luz, e nele não há escândalo. Mas aquele que odeia a seu irmão está em trevas, e anda em trevas, e não sabe para onde deva ir; porque as trevas lhe cegaram os olhos” ( 1Jo 2:8 -11).

Aquele que não faz misericórdia é porque está em trevas e anda nas trevas. Não conhece a Deus, ou antes, não é conhecido por Ele. Tal homem, por não ser perseverante, ou seja, não continuou na fé que professava, uma vez viu, mas agora não sabe para onde deva ir, pois as trevas cegaram os seus olhos.

Estes são aqueles que não fazem misericórdia e terão o juízo de Deus.

O apóstolo João é bem claro com relação ao amor: “Ora, o seu mandamento é este, que creiamos no nome do seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o mandamento que nos ordenou” ( 1Jo 3:23 ).

O mandamento de Deus é claro: “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ). Somente após crer no enviado do Pai, é que o amor ao semelhante passa a ter valor diante de Deus. Devemos nos amar segundo o mandamento que foi ordenado: que creiais naquele que Ele enviou.

 

Porventura a Fé pode Salvá-los?

14 Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo?

O apóstolo Tiago continua a exposição do versículo doze: “Assim falai, e assim procedei…”. Qual o proveito se alguém disser que tem fé e não tiver as obras? Esta pergunta encontra resposta nos versículos seguintes.

“Meus irmaõs, que aproveita, fe alguem differ que a fé tem, e as obras não tiver? por ventura pode o a [tal] fé falvar?

Novo Testamento – 2ª impressão – Data da edição: 1693, com introduções e resumos da edição de 1681 de Amsterdam, além de Notas de Rodapé dos revisores – Impresso na Batávia (Ilha de Java). SBB.

O leitor deve observar atentamente a construção do versículo 14: alguém diz que tem fé, porém ele não tem as obras.

De nada aproveita ao homem ter fé e não ter obras. Só é plenamente aceitável e aproveitável se ele tiver a fé e as obras.

Certa feita algumas pessoas se achegaram a Cristo e perguntaram: “Que faremos para executarmos as obras de Deus?” ( Jo 6:28 ). Jesus respondeu: A obra de Deus é esta: “Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

O que esta passagem nos ensina? Que as pessoas geralmente estão em busca de algo material, e não de Deus. A multidão estava a procura de Jesus por causa do pão que comeram (v. 26), porém a mensagem e os sinais demonstrados não os havia sensibilizado (v. 27).

Quando Jesus demonstra que eles o buscavam de maneira enfatuada, interpelaram: “Que faremos para executar a obra de Deus?”.

Geralmente os homens que ainda não tiveram um encontro com Cristo, entendem que para se aproximar de Deus, ou que para agradá-lo, é necessário fazer alguma coisa. Observe que a multidão queria fazer a obra de Deus.

Quando Jesus revela a obra a ser realizada (que creiais naquele que ele enviou), estes apresentam empecilhos: “Que sinal, pois, fazes tu, para que o vejamos, e creiamos em ti? Que operas tu?” ( Jo 6:30 ).

A humanidade é voluntariosa quando se proclama afazeres. Constroem grandes templos, fazem grandes sacrifícios, são generosos nas esmolas, porém, quando tomam ciência do que devem fazer, que é crer em Cristo, estes pedem um sinal.

O jovem rico ao se aproximar de Jesus fez a mesma pergunta: “Bom Mestre, que bem farei para conseguir a vida eterna?” ( Mt 19:16 ). Jesus enumerou algumas coisas pertinentes à lei, e o jovem rico demonstrou que aquela era sua prática de vida, mas ele queria fazer algo mais para ter garantia da vida eterna “Tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade; que me falta ainda?” ( Mt 19:20 ).

Jesus aponta o essencial para que ele alcançasse a perfeição: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me” ( Mt 19:21 ).

A condição para alcançar a perfeição não estava no disponibilizar das riquezas, antes na crença na palavra de Cristo. Quando Jesus lhe apresentou a obra a ser realizada (crer naquele que Deus enviou), o Jovem rico recuou.

Nestas passagens Cristo confirma as palavras do apóstolo Paulo ao dizer que a salvação é por meio da fé “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” ( Ef 2:8 ). Ou seja, que “…sem fé é impossível agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam” ( Hb 11:6 ).

Também somos informados que as boas obras Deus preparou de ante mão para que andássemos nela “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” ( Ef 2:10 ). Ou melhor, que as boas obras são feitas, realizáveis em Deus “Mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus” ( Jo 3:21 ).

Reiterando: a salvação é por meio da fé e as boas obras foram preparadas por Deus e são feitas Nele.

Através desta análise podemos demonstrar que há uma grande diferença entre ‘obras da fé’ e o que chamamos de ‘boas ações’.

‘Boas ações’ são pertinentes e possíveis de serem realizadas por todos os homens e independe da fé. Tanto o crente quanto o incrédulo podem e devem realizar boas ações aos seus semelhantes. Mesmo aqueles que não creem em Cristo realizam boas ações, e nem por isso serão salvos.

Desta maneira é possível verificar que ‘boas obras’ não está vinculado a procedimentos humanos, já que as boas obras só são realizáveis quando o homem está em Deus por meio de Cristo.

Verifica-se que boas obras e más obras são termos utilizados que fazem referência tanto ao comportamento humano, quanto ao que é realizável em Deus “Porque os magistrados não são terror para as boas obras, mas para as más. Queres tu, pois, não temer a potestade? Faze o bem, e terás louvor dela” ( Rm 13:3 ).

O que define quando o texto faz referência a ‘boas ações’ e a ‘boas obras’? O contexto geralmente aponta qual a idéia a se considerar. Na citação acima, temos que ‘boas obras’ é o fazer ‘boas ações’, ou seja, o bem.

Este versículo contém elementos para nortear o entendimento do leitor, porém, há vários versículos que não dispõe do contexto para uma boa interpretação. Nestes versículos o que vale é o posicionamento doutrinário adotado pelos apóstolos.

Um exemplo claro de que devemos nos valer do posicionamento doutrinário adotado pelos apóstolos está neste versículo que estamos analisando.

A análise que fizemos acima aponta os seguintes posicionamentos doutrinários:

  • Sabemos que a salvação é por meio da fé;
  • Que a salvação é dom de Deus;
  • Que a salvação não é por obras, para que ninguém se glorie;
  • Que as boas obras são feitas em Deus;
  • Que não é possível ao homem realizar a obra de Deus;
  • Basta ao homem crer no enviado de Deus para se alcançar a salvação.

O versículo que estamos analisando apresenta os elementos seguintes:

“Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo?”

O versículo aponta que é necessário ter fé e ter as obras. Em momento algum o apóstolo Tiago alude que a prática de boas obras é o meio pelo qual se alcança a salvação. Em momento algum ele afirma que boas obras auxilia a fé.

Observe que as obras pertencem à fé (obras da fé). As obras da fé que Tiago faz alusão não podem ser confundidas com ‘boas ações’.

Neste versículo o apóstolo não fala de prática de boas obras, ou prática de boas ações. Ele fala de posse da fé e posse das obras da fé.

É totalmente pertinente o que Tiago escreveu e o que os outros apóstolos escreveram.

Primeiro porque a bíblia demonstra que a fé é proveniente de Deus “E pela fé no seu nome fez o seu nome fortalecer a este que vedes e conheceis; sim, a fé que vem por ele, deu a este, na presença de todos vós, esta perfeita saúde” ( At 3:16 ; Rm 12:3 ; 1Co 12:9 ).

Qualquer tipo de prática não torna o homem agradável a Deus “Ora, a lei não é da fé; mas o homem, que fizer estas coisas, por elas viverá” ( Gl 3:12 ).

Novamente o apóstolo Paulo excluiu qualquer prática: “Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça” ( Rm 4:5 ).

Não existe contradição alguma entre Paulo e Tiago, pois Tiago não fala em pratica de obras, mas sim da posse da posse das obras da fé.

Para ilustrar a idéia, Tiago estabelece um exemplo:

 

 

Fé e Obras

15 E, se o irmão ou a irmã estiverem nus, e tiverem falta de mantimento quotidiano, 16 E algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos, e fartai-vos; e não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito virá daí?

Estes dois versículos são bases para um comparativo.

Perceba que os dois versículos não constituem uma exortação à prática destas ações, pois a questão de alimentar o faminto era algo já resolvido entre os cristãos, tão resolvido que o apóstolo utiliza como exemplo para mostrar a inutilidade da fé sem as obras.

É uma constante em nossos dias utilizar este comparativo como base para instar as pessoas a serem praticantes de boas ações. Para isso utilizam o jargão: ‘Está escrito’! Está escrito que de nada adianta visitar o irmão necessitado sem dar-lhe o necessário ao sustento.

Estes dois versículos são duas perguntas com respostas prontas. O apóstolo já sabia da resposta dos leitores.

‘Meus irmãos, qual é o proveito…?’ (v. 14)

‘Se (…) qual o proveito disso?’ (v. 15- 16).

A resposta do versículo quatorze é negativa, e a dos versículos quinze e dezesseis era de se esperar negativa.

É necessário dar alimento e roupa a quem tem necessidade? Sim! Mas, a idéia em discussão vem do versículo seguinte:

17 Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma.

Novo Testamento – 2ª impressão – Data da edição: 1693, com introduções e resumos da edição de 1681 de Amsterdam, além de Notas de Rodapé dos revisores – Impresso na Batávia (Ilha de Java). SBB.

O versículo inicia-se através de uma comparação com o exemplo do versículo anterior. A leitura da idéia do versículo anterior é de que nada adianta falar ao necessitado que se satisfaça sem prover-lhe os meios para tanto. Assim também, ou seja, da mesma forma a fé.

Assim também a fé é sem efeito, ou seja, em si mesma está morta, pois não tem o que lhe é próprio: as obras. As obras são concernentes a fé, de sorte que se ela não tiver as obras, a morte também lhe será própria.

Quais são as obras da fé?

A paciência é a obra perfeita da fé e nela estão contidas todas as outras obras. Observe:

“Sabendo que a prova da vossa fé opera a paciência. Tenha, porém, a paciência a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, sem faltar em coisa alguma” ( Tg 1:3 -4).

Os cristãos deveriam ter a paciência, a obra perfeita da fé!

O apóstolo não faz referência à prática de obras, mas a posse da obra perfeita da fé.

É certo que a perseverança termina a obra que teve início através da fé, e que nela estão inclusas todas as outras obras.

O texto é claro: a fé quando provada produz a paciência, a obra perfeita da fé.

A obra em discussão é a da fé, e não a obra do homem que pratica boas ou más ações.

Sobre as questões comportamentais da nova criatura (as boas obras), o apóstolo Paulo recomenda aos cristãos agirem em conformidade ao ‘fruto do Espírito’ “Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança. Contra estas coisas não há lei. E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências. Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito” ( Gl 5:22 -25).

O apóstolo Tiago ao falar das obras da fé retrata as mesmas questões do apóstolo Paulo quando fala do fruto do Espírito. As obras da fé e o fruto do Espírito são questões pertinentes ao homem interior, que devem influenciar o comportamento deste mesmo homem nas suas relações com o mundo “Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito. Não sejamos cobiçosos de vanglórias, irritando-nos uns aos outros, invejando-nos uns aos outros” ( Gl 5:25 -26).

Observe que o fruto é do Espírito da mesma forma que as obras são da fé. Se tal fé não possuiu as obras que dela decorrem, é morta em si mesmo. Aquele que possui a fé deve também estar de posse das obras que a fé produz “Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo?” (v. 14).

As obras que o crente deve ter posse são as da fé, e difere das boas ações que os cristãos devem efetivamente praticar (diferente de ter).

É fácil visualizarmos que as obras da fé não dizem respeito às questões comportamentais (obras do homem) quando compreendemos que todos os homens, sejam salvos ou não, podem praticar boas ações.

De outra forma, é fácil verificarmos que as boas obras dizem respeito àqueles que vêm para Cristo por meio da fé, e que tais obras somente se realizam em Deus ( Jo 3:21 ; Is 26:12 ; Ef 2:10 ). Ou seja, não é possível àqueles que não aceitaram a Cristo como salvador terem boas obras ou o fruto do Espírito. Primeiro porque não são nascidos do Espírito; Segundo porque as boas obras são feitas em Deus.

Porém, há um outro aspecto a se considerar com relação àqueles que estão em Cristo: o homem regenerado realiza as boas obras por estarem em Deus por meio de Jesus, conforme lemos em Isaias “SENHOR, tu nos darás a paz, porque tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras” ( Is 26:12 ); porém, este mesmo homem realiza boas e más ações, e estas serão provadas como pelo fogo quando do Tribunal de Cristo ( 2Co 5:10 ) “E, se alguém sobre este fundamento formar um edifício de ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, A obra de cada um se manifestará; na verdade o dia a declarará, porque pelo fogo será descoberta; e o fogo provará qual seja a obra de cada um. Se a obra que alguém edificou nessa parte permanecer, esse receberá galardão. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá detrimento; mas o tal será salvo, todavia como pelo fogo” ( 1Co 3:12 -15).

 

 

A Nova Criatura:

  • É nascida de Deus “O que é nascido do Espírito é espírito” ( Jo 3:6 );
  • As boas obras são feitas em Deus “… a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus” ( Jo 3:21 );
  • As boas obras foram preparadas por Deus “…criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” ( Ef 2:10 );
  • Porém, a nova criatura pode praticar boas e más ações “… cada um receberá segundo o que tiver feito por meio do corpo, ou bem, ou mal” ( 2Co 5:10 );
  • E será salvo “…mas o tal será salvo, todavia como pelo fogo” ( 1Co 3:12 -15);
  • Ele é salvo por meio da fé e deve estar de posse das obras da fé. É espiritual e deve andar (comportar) segundo o Espírito ( Gl 5:25 ).

 

 

A Velha Criatura

  • É nascida da semente de Adão “Necessário vos é nascer de novo” ( Jo 3:7 ), e precisa nascer novamente, da semente incorruptível, a palavra de Deus;
  • As suas obras são más “…os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más” ( Jo 3:19 );
  • Fazer o mal está ligado à natureza, e não as ações do homem não regenerado “Porventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Tampouco podeis vós fazer o bem, acostumados que estais a fazer o mal” ( Jr 13:23 );
  • A velha criatura pode fazer boas e más ações, porém não pode realizar o bem “Não há quem faça o bem, não há nem um só” ( Rm 3:12 );
  • Como a velha natureza está vendida ao pecado como escrava, por mais que se tenha vontade, não realizará o bem “…com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem” ( Rm 7:18 ); Por mais que se queira fazer o bem é uma impossibilidade que reside na natureza decaída, que é escrava do pecado;
  • Por mais que pratiquem boas ações, jamais a velha criatura verá o reino dos céus, pois sobre ela pesa uma condenação “…quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” ( Jo 3:18 );
  • Por mais que pratiquem boas ações, a velha criatura não possui a fé e as obras da fé. Ela não vive no Espírito e não pode andar em Espírito ( Gl 5:25 ).

 

 

A Perseverança

A carta de Tiago não foge do tema que está na introdução. Na introdução fica claro que o tema da carta é: “perseverança, obra perfeita da fé” ( Tg 1:2 -4).

Os outros escritores também fizeram referência à perseverança, e eles têm a mesma idéia sobre o seu valor.

Paulo disserta sobre o amor em I Co 13, e de maneira semelhante Tiago disserta quase que exclusivamente sobre a perseverança em sua carta.

Sobre a fé sabemos que ela foi implantada no cristão através da palavra da verdade, que é poderosa para salvar as nossas almas ( Tg 1:21 ). O apóstolo Pedro nos informa que o objetivo fim da nossa fé é salvação das nossas almas ( 1Pe 1:9 ).

Assim como Pedro, Tiago também nos informa que a fé é provada ( 1Pe 1:7 ; Tg 1:3 ).

Veja nas referências abaixo a harmonia de idéia entre Pedro e Tiago:

Aquele que é perseverante em observar a lei perfeita, a da liberdade, receberá a coroa da vida ( 1Pe 1:22 -23; Tg 1:21 e 25). Compare os textos.

A segunda carta de Pedro tem início semelhante à carta de Tiago. Pedro cumprimenta com graça e paz todos aqueles que receberam a fé por meio do conhecimento de Deus, que deu tudo que diz respeito a vida e a piedade. A essa fé alcançada deveriam diligentemente acrescentar as obras da fé.

O apóstolo Pedro enumera as obras da fé: “E vós também, pondo nisto mesmo toda a diligência, acrescentai à vossa fé a virtude, e à virtude a ciência, E à ciência a temperança, e à temperança a paciência, e à paciência a piedade, E à piedade o amor fraternal, e ao amor fraternal a caridade. Porque, se em vós houver e abundarem estas coisas, não vos deixarão ociosos nem estéreis no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo. Pois aquele em quem não há estas coisas é cego, nada vendo ao longe, havendo-se esquecido da purificação dos seus antigos pecados. Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição; porque, fazendo isto, nunca jamais tropeçareis. Porque assim vos será amplamente concedida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” ( 2Pe 1:5 -11; Gl 5:22 -23 ; Tg 3:17 ).

Observe que os elementos que se deve ter acrescido à fé não diz de afazeres (prática de ações ou obras). Não são os afazeres que se deve acrescentar a fé, antes os cristãos deve ter a posse da fé, e somado a ela estas outras virtudes, produzidas por meio da fé (bondade, conhecimento, domínio próprio, perseverança, piedade, fraternidade e amor). Se a fé produz (obra) a paciência, da mesma forma ela produz as virtudes enumeradas acima.

Aquele que está de posse das virtudes que decorrem da fé não estará ocioso, mas se aplicará em produzir boas ações no conhecimento de Cristo Jesus.

Da mesma forma, Tiago receita aqueles que sentissem falta de alguma coisa, que pedissem a Deus sabedoria ( Tg 1:5 ), que a todos concederia do alto ( Tg 1:17 ), a sabedoria que é pura, pacífica, moderada, tratável, misericordiosa e de bons frutos, imparcial e honesta ( Tg 3:17 ).

Novo Testamento – 2ª impressão – Data da edição: 1693, com introduções e resumos da edição de 1681 de Amsterdam, além de Notas de Rodapé dos revisores – Impresso na Batávia (Ilha de Java). SBB.

Tendo posse desta sabedoria, o cristão tem os meios para mostrar através do seu bom comportamento em mansidão de sabedoria as suas obras. Se o cristão é completo, tem fé e obras, deve por meio do seu bom procedimento mostrar as suas obras em mansidão.

  • É a perseverança que termina a obra que teve início na fé ( Tg 1:3 ) – “Porque necessitais de paciência, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” ( Hb 10:36 ). É preciso considerar que a vontade de Deus é que se creia naquele que Ele enviou. Ou seja, primeiro se crê na mensagem do evangelho e para que se possa alcançar a promessa precisa ter a perseverança, a obra perfeita da fé.
  • Não há como dissociar perseverança e fé ( Tg 1:12 ) – “Para que vos não façais negligentes, mas sejais imitadores dos que pela fé e paciência herdam as promessas” ( Hb 6:12 ). A carta de Tiago trabalha esta idéia desde o início ( 2Ts 1:4 ).
  • A carta de Tiago trata do que se deve ter e acrescentar à fé – “E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a paciência, E a paciência a experiência, e a experiência a esperança. Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o esperamos” ( Rm 5:3 -4; Rm 8:25 ). Tiago trata do comportamento do cristão enquanto com perseverança se aguarda a promessa.
  • A salvação se opera através da obra perfeita de fé – “Mas, se somos atribulados, é para vossa consolação e salvação; se somos consolados, para vossa consolação é, a qual se opera suportando com paciência as mesmas aflições que nós também padecemos” ( 2Co 1:6 ). A salvação se opera suportando com paciência as mesmas aflições que sobrevieram aos apóstolos.

A obra que a fé opera (produz) está relacionada ao homem interior, e o capítulo um bem demonstra esta verdade.

 

18 Mas dirá alguém: Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras.

Novo Testamento – 2ª impressão – Data da edição: 1693, com introduções e resumos da edição de 1681 de Amsterdam, além de Notas de Rodapé dos revisores – Impresso na Batávia (Ilha de Java). SBB.

Diante da afirmação anterior, alguém poderia contradizer o apóstolo dizendo: Tu tens a fé, ou seja, a afirmação é o mesmo que por em descrédito o argumento do apóstolo que acabou de dizer que a fé sem as obras é morta.

A resposta do apóstolo é: “…e eu tenho as obras:”, ou seja, ‘… e eu (que ou digo) tenho as obras’. Este alguém que diz: “Tu tens fé”, estaria querendo apontar um possível erro conceitual do apóstolo, porém, Tiago reafirma o seu posicionamento: “E eu tenho obras”.

O apóstolo Tiago põe a prova o que estava afirmando: “mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras”.

O apóstolo não descarta a fé, pois o seu discurso é para que se tenha ‘as obras’ da fé. Observe que as obras é o elemento essencial da fé, pois como alguém sem as obras da fé poderia demonstrar a fé? “Mostre-me a tua fé sem as tuas obras”.

Tiago se propõe a demonstra a sua fé por intermédio de suas obras. Como a paciência é a obra perfeita da fé, é facilmente demonstrável a fé por meio do que ela produz.

 

 

A Fé Morta

19 Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o creem, e estremecem.

A crença em um só Deus é importante, porém pode ser inócua tal crença se não se fizer acompanhar as obras.

De nada adianta dizer crer em Deus se o indivíduo não crê no testemunho que Ele deu acerca do seu Filho. As Escrituras é um testemunho vivo que Deus deu do seu Filho, e aqueles que creem em Cristo realizam a ‘obra’ exigida por Deus, pois Cristo mesmo disse: – ‘A obra de Deus é está: que creiais naquele que ele enviou!’

 

20 Mas, ó homem vão, queres tu saber que a fé sem as obras é morta?

A insensatez de alguns em compreender a mensagem do apóstolo sobre as obras da fé, leva o apóstolo a dar exemplos:

 

21 Porventura o nosso pai Abraão não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque?

A fé de Abraão foi demonstrada na perseverança em levar o seu único filho até o altar de sacrifício. Sobre este aspecto o escritor aos Hebreus assim escreveu: “Pela fé ofereceu Abraão a Isaque, quando foi provado; sim, aquele que recebera as promessas ofereceu o seu unigênito” ( Hb 11:17 ).

Abraão não se fez de rogado quando lhe sobreveio a provação, permanecendo firme.

Abraão foi justificado quando creu em Deus, porém a sua fé provada se demonstrou mais preciosa que o ouro, e as suas obras testemunharam acerca de sua fé “Para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece e é provado pelo fogo, se ache em louvor, e honra, e glória, na revelação de Jesus Cristo” ( 1Pe 1:7 ).

 

Em Gn 15:6 a fé de Abraão foi lhe imputada para justiça, ou seja, Deus justificou a Abraão, e sobre este aspecto Paulo afirma: “Pois, que diz a Escritura? Creu Abraão em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça. Ora, àquele que faz qualquer obra não lhe é imputado o galardão segundo a graça, mas segundo a dívida. Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça” ( Rm 4:3 -5).

O aspecto que Paulo comenta é o da declaração divina acerca do homem: aquele que crê que Deus justifica o ímpio, esta fé é imputada como justiça. Abraão não tinha praticado nenhuma obra, mas creu. Ele estava de posse da fé que veio por meio da palavra de Deus, que lhe fez a promessa.

Tiago comenta Gn 22, onde a ação de Abraão confirma a sua fé em Deus. Neste ponto é as obras de Abraão que o justifica, ou seja, são as obras que dizem algo à respeito do pai Abraão. Em Gênesis quinze, Deus declara algo sobre Abraão, e em Gênesis vinte e dois, as obras dizem algo acerca do patriarca “…pelas obras justificado…” (v. 21).

 

22 Bem vês que a fé cooperou com as suas obras, e que pelas obras a fé foi aperfeiçoada.

Através do exemplo anterior o apóstolo espera que o leitor insensato possa ver que a fé coopera com as obras, e que pelas obras a fé é aperfeiçoada. Ou seja, a prova da fé leva ao aperfeiçoamento da fé, resultando em obras pertinente à fé.

 

23 E cumpriu-se a Escritura, que diz: E creu Abraão em Deus, e foi-lhe isso imputado como justiça, e foi chamado o amigo de Deus.

Tiago citou dois pontos distintos da Escritura: Gn 15:6 , da justificação pela fé, e 2Cr 20:7 , onde Jeosafá em pé na congregação nomeia Abraão de “amigo de Deus”.

A escritura cumpriu-se na seqüência exata e em dois pontos distintos: Deus justificou a Abraão ( Gn 15:6 ), e a sua perseverança na fé, apesar da prova, concedeu-lhe a dádiva de ser chamado de amigo de Deus “Porventura, ó nosso Deus, não lançaste fora os moradores desta terra de diante do teu povo Israel, e não a deste para sempre à descendência de Abraão, teu amigo?” ( 2Cr 20:7 ).

O cumprimento da Escritura se dá em dois momentos: Quando Deus justifica o crente Abraão e ele persevera mesmo quando a sua fé foi provada, o que lhe deu o título de amigo de Deus posteriormente. Se Abraão não estivesse de posse da obra perfeita da fé,a perseverança, jamais teria recebido o título de amigo de Deus.

 

24 Vedes então que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé.

Este versículo demonstra que o homem é justificado pelas obras da fé. Ou seja, o homem não é justificado somente pela fé, mas pela fé e pelas obras que esta fé produz ( Tg 1:4 ).

 

25 E de igual modo Raabe, a meretriz, não foi também justificada pelas obras, quando recolheu os emissários, e os despediu por outro caminho?

A ação de Raabe em esconder os espias de Israel demonstra de maneira clara que ela havia crido em Deus. O que ela ouviu acerca do Deus de Israel foi o bastante para que ela alcançasse a fé, que logo em seguida foi posta à prova ( Js 2:1 -24).

 

 

26 Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta.

Tiago conclui o pensamento com uma comparação. Assim como o corpo sem o espírito está morto, a fé sem obras é morta.

A fé sem as suas obras é morta. Não há referência as obras ou ações humanas como meio para se alcançar o favor de Deus.

O favor de Deus foi demonstrado, sendo que Cristo foi morto, e éramos ainda pecadores. Ele morreu isto porque não havia como o homem realizar algo que pudesse mudar sua realidade.

Agora que já fomos reconciliados com Deus através da morte de Cristo, haveria algo ainda a ser feito para permanecer com tal dádiva? Não!

O que o apóstolo demonstra é que devemos ter a fé e estar de posse das obras da fé.

“Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno” ( Hb 4:16 ).

Após cremos em Deus, devemos nos achegar ao trono da graça com confiança, certos de que em tempo oportuno acharemos graça e misericórdia.

O aproximar do trono da graça com confiança é uma das obras da fé, da mesma forma que o é reter firmemente a nossa confissão ( Hb 4:14 ).

As obras da fé são aspectos que se manifestam no homem interior, onde ele lança mão da esperança proposta. Ele possui essa consolação como ancora firme e segura da alma.

Por várias vezes Tiago chama os cristãos de irmãos.

Quando ele chama o lugar de reunião dos cristãos de ‘sinagoga’ (com base no texto grego Tg 2:2 ), é porque o conceito de igreja não se estendia ao templo, como o é em nossos dias.

As várias referências que a bíblia registra acerca da igreja descrevem mais um reunião de pessoas do que o templo onde estavam se reunindo. Para Paulo a igreja era a união de gentios e judeus em torno do nome de Cristo ( Ef 3:10 ).

O ajuntamento dos cristãos constitui a igreja, porém o local pode ser denominado de templo, igreja ou sinagoga. À época de Tiago o termo mais preciso para o local de ajuntamento era ‘sinagoga’.

Neste aspecto o apóstolo João escreveu no Apocalipse desta maneira: “Conheço as tuas obras, e tribulação, e pobreza (mas tu és rico), e a blasfêmia dos que se dizem judeus, e não o são, mas são a sinagoga de Satanás” ( Ap 2:9 ); “Eis que eu farei aos da sinagoga de Satanás, aos que se dizem judeus, e não são, mas mentem: eis que eu farei que venham, e adorem prostrados a teus pés, e saibam que eu te amo” ( Ap 3:9 ). O apóstolo escreve ao anjo das igrejas da Ásia, porém havia algumas pessoas que se diziam judias, mas na verdade eram sinagoga de Satanás. Ou seja, aqueles que se arrogavam no direito de se dizerem judeus queriam avocar para si a filiação divina, mas não passavam de sinagoga (templo) de Satanás.

As expressões judaicas que a carta apresenta decorrem de uma vida inteira voltada para o judaísmo. Tal característica não determina precisamente que os destinatários da carta também devam ser todos judeus convertidos ao cristianismo.

O tema da carta não é uma questão própria e exclusiva dos judeus convertidos, mas de todos quantos creem em Cristo: perseverança!

A carta não apresenta temas como idolatria e escravidão pelo simples fato de os destinatários serem cristãos. Com relação a idolatria já havia recomendações proveniente do concílio de Jerusalém ( At 15:20 ).

Não entraremos nas questões pertinentes às hipóteses das datas em que foi escrita a epístola, porém a carta não faz menção a cristãos gentios ou judeus por ser unânime entre os apóstolos desde o concílio em Jerusalém que os judeus e gentios constituem a igreja de Cristo ( At 15:14 ).

Qualquer desvio deveria ser prontamente reprimido ( Gl 2:14 ). Quem presenciou a repreensão de Paulo ou que ouviu falar de tal acontecimento, já estava mais do que alertado quanto a qualquer tipo de dissensão entre povos no seio da igreja.

As argumentações teológicas em Tiago são as mesmas que permeiam as cartas de Paulo, como já vimos em ( Tg 1:17 -18).

Aliado a está característica, não dá para afirmar que a carta de Tiago foi escrita antes dos evangelhos. A linguagem dos evangelhos é voltada para fatos históricos, com exceções ao evangelho de João.

Tiago não faz alusão ao concílio de Jerusalém, porém tal fato não pode ser utilizado para tentar precisar a data da carta, visto que tal fato não é pertinente ao tema em questão.

Há quatro indivíduos identificados como Tiago no novo testamento. Podemos sugerir qual deles seria o autor da carta, porém não é possível afirmar categoricamente.

O que é plenamente observável a respeito do escritor da carta é que ele não precisar defender a sua posição no seio da igreja à maneira de Paulo. Bastou a simples identificação: “Tiago, servo de Deus, e do Senhor Jesus Cristo…” ( Tg 1:1 ).

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A figura da adúltera no Livro de Provérbios

A sedução da mulher adúltera está em se apresentar como alguém que serve ao Senhor (Is 58:1-3), pois, trás consigo, sacrifícios pacíficos e faz votos, porém, não se sujeita ao seu Senhor, e nem possui o conhecimento de Deus (Pv 9:13; Dt 32:28).


Introdução

O Livro de Provérbios, embora, seja, comumente, interpretado, através de um prisma moral, é, na realidade, uma alegoria, um conjunto de figuras, que exprimem uma ideia.[1]

Este artigo destacará, resumidamente, a figura da mulher adúltera e o que ela, de fato, representa.

 

Instrução para o Messias

As instruções do Livro dos Provérbios são proferidas por meio  da figura de um Pai que tem um cuidado singular pelo seu Filho.

“Filho meu, ouve a instrução de teu pai…” (Pv 1:8).

É significativo o fato de os provérbios serem endereçados a um filho e não a todos os filhos de Israel, como se falasse de muitos. Isto, também, nos remete ao que foi anunciado por Moisés, de que os filhos de Israel já não eram filhos de Deus, mas, uma mancha (Dt 32:5).

Quando Provérbios diz: ‘Filho meu’, evoca a questão da descendência, da filiação, o que nos remete à seguinte lição, do apóstolo Paulo:

“Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo” (Gl 3:16).

A proposta do Livro dos Provérbios é fornecer o conhecimento necessário para o Descendente, segundo a promessa feita a Abraão, de se proteger dos seus irmãos, pois os inimigos d’Ele seriam os seus próprios familiares (Mt 10:36; Mq 7:6; Jr 6:21; Jr 12:6; Jr 9:4).

O Descendente, segundo a promessa anunciada a Abraão, é Cristo, o Filho de Deus, que, na plenitude dos tempos, despiu-se da sua glória, se fez carne e habitou entre os homens.

Através do conteúdo do Livro dos Provérbios, o Messias é alertado de que o ‘conhecimento’ de Deus O manteria afastado da mulher adúltera:

Para te afastar da mulher estranha, sim da estranha que lisonjeia com suas palavras (Pv 2:16).

A mulher adúltera

Os versos que retratam a mulher adúltera, não evocam questões vinculadas à luxúria, volúpia ou sensualidade, antes, destacam as palavras que procedem dos seus lábios. O cuidado que consta da orientação do Pai ao Filho, visa protegê-lo das palavras suaves que a mulher adúltera profere. Palavras comparáveis ao mel e ao azeite (Pv 5:3).

Estas são as características da mulher adúltera:

  • Deixou o companheiro da sua mocidade e esqueceu-se da aliança com o seu Deus (Pv 2:17);
  • Os seus lábios destilam favos de mel e as suas palavras são suaves como o azeite (Pv 5:3);
  • A sedução esta na língua (Pv 6:24; Pv 7:21);
  • Seduz, argumentando, que já ofereceu sacrifícios pacíficos e pagou os seus votos (Pv 7:14);
  • É indisciplinada e não possui conhecimento (Pv 9:13).

Considerando as características acima, certo é que o Pregador não está tratando das questões próprias a uma mulher de vida fácil. A mulher em questão é uma alegoria que retrata a apostasia do povo de Israel no deserto, que fez uma aliança com Deus e O deixou.

“Como se fez prostituta a cidade fiel! Ela que estava cheia de retidão! A justiça habitava nela, mas, agora, homicidas” (Is 1:21).

“Vai e clama aos ouvidos de Jerusalém, dizendo: Assim diz o SENHOR: Lembro-me de ti, da piedade da tua mocidade, e do amor do teu noivado, quando me seguias no deserto, numa terra que não se semeava. Por isso, foram retiradas as chuvas, e não houve chuva serôdia; mas tu tens a fronte de uma prostituta e não queres ter vergonha” (Jr 2:2-3);

“E, engordando-se Jesurum, deu coices (engordaste-te, engrossaste-te e de gordura te cobriste) deixou a Deus, que o fez, e desprezou a Rocha da sua salvação” (Dt 32:15);

“Como, vendo isto, te perdoaria? Teus filhos me deixam a mim e juram pelos que não são deuses; quando os fartei, então adulteraram, e em casa de meretrizes se ajuntaram em bandos” (Jr 5:7);

“Portanto, ó meretriz, ouve a palavra do SENHOR” (Ez 16:35).

Alegoria semelhante à feita pelo Pregador, encontramos no Livro do profeta Ezequiel, que destaca o cuidado de Deus por Jerusalém, ao estabelecer uma aliança, bem como, os desvarios das suas prostituições:

“E, passando eu junto de ti, vi-te, e eis que o teu tempo era tempo de amores; e estendi sobre ti a aba do meu manto, cobri a tua nudez; e dei-te juramento, entrei em aliança contigo, diz o Senhor DEUS, e tu ficaste sendo minha” (Ez 16:8);

“Mas confiaste na tua formosura, te corrompeste por causa da tua fama e prostituías-te a todo o que passava, para seres dele” (Ez 16:15).

Com base no alerta contido no Livro dos Provérbios, a mulher adúltera representa as cidades em que habitavam os filhos de Israel, que deixaram a Deus e se esqueceram da aliança (Pv 2:17; Dt 32:5).

A sedução da mulher adúltera está em se apresentar como alguém que serve ao Senhor (Is 58:1-3), pois, trás consigo, sacrifícios pacíficos e faz votos, porém, não se sujeita ao seu Senhor, e nem possui o conhecimento de Deus (Pv 9:13; Dt 32:28).

O profeta Davi faz uso da figura da cidade, em vez da mulher prostituta, para demonstrar a apostasia de Israel:

“Despedaça Senhor e divide as suas línguas, pois tenho visto violência e contenda na cidade. De dia e de noite a cercam sobre os seus muros; iniquidade e malícia estão no meio dela. Maldade há dentro dela; astúcia e engano não se apartam das suas ruas. Pois, não era um inimigo que me afrontava; então, eu o teria suportado; nem era o que me odiava, que se engrandecia contra mim, porque dele me teria escondido. Mas eras tu, homem, meu igual, meu guia e meu íntimo amigo” (Sl 55:9-13).

 

Os moradores da cidade

Ao introduzir a alegoria da mulher adúltera no Livro dos Provérbios, o Pregador evidencia a gravidade da apostasia dos filhos de Israel.

O Pregador apresenta a palavra de Deus como a suprema sabedoria, dirigindo um apelo aos habitantes da cidade:

“Até quando, ó simples, amareis a simplicidade? E vós, escarnecedores, desejareis o escárnio? E vós insensatos, odiareis o conhecimento? Atentai para a minha repreensão; pois eis que vos derramarei, abundantemente, do meu espírito e vos farei saber as minhas palavras. Entretanto, porque eu clamei e recusastes; estendi a minha mão e não houve quem desse atenção, antes, rejeitastes todo o meu conselho e não quisestes a minha repreensão, também, de minha parte, eu me rirei na vossa perdição e zombarei, em vindo o vosso temor” (Pv 1:22-26).

A mensagem de Deus visa alcançar o povo e os seus líderes e, para isso, o Pregador faz uso de várias figuras, como a do ‘louco’ e a do ‘escarnecedor’.

“Até quando, ó néscios, amareis a necedade? E vós, escarnecedores, desejareis o escárnio? E vós, insensatos, odiareis o conhecimento?” (Pv 1:22);

“Ouvi, pois, a palavra do SENHOR, homens escarnecedores, que dominais este povo que está em Jerusalém” (Is 28:14);

O clamor da Sabedoria indica que Deus estende a Sua mão para conceder do Seu espírito (Pv 1:24), no entanto, o povo se mostra rebelde, seguindo os seus próprios conselhos:

“AI dos filhos rebeldes, diz o SENHOR, que tomam conselho, mas não de mim; e que se cobrem com uma cobertura, mas não do meu espírito, para acrescentarem pecado sobre pecado” (Is 30:1);

Estendi as minhas mãos o dia todo a um povo rebelde, que anda por caminho, que não é bom, após os seus pensamentos” (Is 65:2);

“Entretanto, porque eu clamei e recusastes; estendi a minha mão e não houve quem desse atenção. Antes, rejeitastes todo o meu conselho e não quisestes a minha repreensão” (Pv 1:24-25);

“Mas, não ouviram, nem inclinaram os seus ouvidos, andaram nos seus próprios conselhos, no propósito do seu coração malvado; e andaram para trás e não para diante” (Jr 7:24).

A palavra do Senhor é a essência da sabedoria, mas como os filhos de Israel rejeitaram a palavra de Deus e como rejeitaram ao Senhor, não havia em Israel conhecimento de Deus.

“Os sábios foram envergonhados, foram espantados e presos, eis que rejeitaram as palavras do Senhor; que sabedoria, pois, teriam?” (Jr 8:9);

“O temor do Senhor é o princípio da sabedoria; os loucos desprezam a sabedoria e a instrução” (Pv 1:7).

O Salmista Davi destaca o comportamento dos filhos de Israel, em rejeitar o conhecimento de Deus: “Diz o louco no seu coração: – ‘Não há Deus’” (Sl 53:1), pois se corromperam e cometeram iniquidade. Os líderes de Israel são classificados como obreiros da iniquidade, pois, não tem conhecimento de Deus e devoram o povo, como se fosse pão (Sl 53:4).

Os filhos de Israel são tidos por néscios, loucos, visto que rejeitaram a palavra de Deus, de modo que já não invocavam a Deus, o que nos remete à reprimenda que Moisés fez aos filhos de Israel:

“Recompensais, assim, ao SENHOR, povo louco e ignorante? Não é ele teu pai, que te adquiriu, que te fez e que te estabeleceu? (…) O meu povo é gente falta de conselhos e neles não há entendimento” (Dt 32:6 e 28).

Por rejeitarem o conhecimento de Deus, os filhos de Israel são classificados como altivos, ímpios, vis, perversos, maus, filhos de Belial, opressores, mentirosos, violentos, homicidas, adúlteros, etc.

Os filhos de Israel recusavam o conhecimento do Senhor e preferiram os seus próprios conselhos (Jr 9:6; Jr 7:24; Jr 9:13; Pv 3:5), daí a designação adúlteros, ajuntamento de infiéis (Jr 9:2).

Como rejeitaram o conselho de Deus, que é firme e verdadeiro (Is 25:1), os lábios dos filhos de Israel destilavam mentiras, engano:

“Porque este é um povo rebelde, filhos mentirosos, filhos que não querem ouvir a lei do SENHOR” (Is 30:9);

“E encurvam a língua como se fosse o seu arco, para a mentira; fortalecem-se na terra, mas não para a verdade; porque avançam, de malícia em malícia, e a mim não me conhecem, diz o SENHOR” (Jr 9:3);

“Como o prevaricar e mentir contra o SENHOR e o desviarmo-nos do nosso Deus, o falar de opressão e rebelião, o conceber e proferir do coração palavras de falsidade” (Is 59:13).

Ao transtornarem a palavra do Senhor, os filhos de Israel fizeram violência. As imposições dos líderes de Israel sobre o povo é classificada como violência, daí o alerta:

“E respondeu-me, dizendo: Esta é a palavra do SENHOR a Zorobabel, dizendo: Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos” (Zc 4:6);

“Porque, desde que falo, grito, clamo: Violência e destruição; porque se tornou a palavra do SENHOR um opróbrio e ludíbrio todo o dia” (Jr 20:8);

“Assim, diz o Senhor DEUS: Basta já, ó príncipes de Israel; afastai a violência e a assolação e praticai juízo e justiça; tirai as vossas imposições do meu povo, diz o Senhor DEUS” (Ez 45:9).

 

Equívocos quanto à leitura das figuras do Livro dos Provérbios

O Livro dos Provérbios vai além da temática do uso de sentenças poéticas, antes o Pregador é um formulador de parábolas. Através de alegorias, o Pregador apresenta a realidade espiritual dos filhos de Israel, por meio de enunciados, formulados como comparações.

Observe a análise de um teólogo, acerca do Livro dos Provérbios:

“A sabedoria de Provérbios se centra acima de tudo nos âmbitos da vida que não são regulados por ordenanças cúlticas ou, por mandamentos expressos pelo Senhor. Por essa razão, a maior parte do livro não se refere a temas propriamente religiosos. Refere-se, muito mais, aos temas que são específicos da existência humana, seja, na sua dimensão pessoal (o indivíduo) ou, coletiva (a família e a sociedade em geral)” Nota de introdução ao Livro dos Provérbios de Salomão, Bíblia de Estudo Almeida, Barueri–SP, SBB, 2000, p. 659.

Observe a nota da Bíblia de Scofield, com Referências, acerca do Livro dos Provérbios:

“Provérbios é uma coleção de ditados substanciais, nos quais, através de comparação ou contraste, algumas verdades importantes são expostas. Provérbios são ditados comuns a todas as nações do mundo antigo. Essa coleção, em particular, foi compilada, principalmente, por Salomão que, em 1 Rs 4:32, diz-se ter enunciado três mil provérbios”. Bíblia de Scofield, com referências, p. 636.

É imperioso observar que o Livro de Provérbios não guarda qualquer paralelo com os provérbios das nações do mundo antigo e nem se centra em reger as relações humanas. A sabedoria dos Provérbios de Salomão foca-se, especificamente, na Palavra de Deus, de modo a demonstrar a condição dos filhos de Israel, após deixarem o mandamento do Senhor.

Apesar de recitarem os estatutos e fazerem menção da aliança de Deus, os filhos de Israel odiavam a correção e rejeitavam a Palavra de Deus.

“Mas, ao ímpio, diz Deus: Que fazes tu em recitar os meus estatutos e, em tomar a minha aliança, na tua boca? Visto que odeias a correção e lanças as minhas palavras para detrás de ti. Quando vês o ladrão, consentes com ele e tens a tua parte com adúlteros. Soltas a tua boca para o mal e a tua língua compõe o engano. Assentas-te a falar contra teu irmão; falas mal contra o filho de tua mãe” (Sl 50:16-20).

Embora jurassem e fizessem menção ao nome de Deus, contudo, não o faziam segundo a verdade e a justiça, ou seja, segundo a palavra do Senhor.

“OUVI isto, casa de Jacó, que vos chamais do nome de Israel e saístes das águas de Judá, que jurais pelo nome do SENHOR e fazeis menção do Deus de Israel, mas não em verdade, nem em justiça” (Is 48:1).

Tinham a palavra de Deus chegada aos lábios, mas longe do coração e o que diziam era somente o que memorizaram, mas não punham em prática.

“Plantaste-os e eles se arraigaram; crescem, dão também fruto; chegado estás à sua boca, porém, longe dos seus rins” (Jr 12:2);

“Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” (Is 29:13).

As blandícies[2] dos filhos de Israel tinham por base a sua religiosidade (Pv 1:10), o que nos remete à essência da sedução da mulher adúltera, cujas palavras são doces como o mel e suaves como o azeite, alegoria que destaca a apostasia dos filhos de Israel, pois é o que a religião faz: seduzir!

Apesar do alto grau moral dos filhos de Israel, se comparado ao comportamento moral dos gentios, vez que os líderes de Israel eram tidos por justos, aos olhos dos homens, Deus acusa os hebreus de serem aleivosos (Jr 9:2). Dai a recomendação paulina:

“Não dando ouvidos às fábulas judaicas, nem aos mandamentos de homens, que se desviam da verdade” (Tt 1:14).

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1] “Alegoria – modo de expressão ou, interpretação que consiste em representar pensamentos, ideias, qualidades, sob forma figurada”.

[2] “Comportamento ou, palavra carinhosa, afetuosa; recomendação. [Por Extensão] Expressão meiga; comportamento de quem é terno; meiguice. [Figurado] Modo de agir de quem agrada muito a alguém, tentando obter algo dessa pessoa; adulação: usava de blandícia para conseguir vantagens na empresa” Dicionário Online de Português.

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Introdução

Sabemos que Jesus não veio ao mundo para revogar a lei, mas, sim, para cumpri-la. Nesse sentido, é inadmissível a ideia de acrescer ou diminuir qualquer mandamento à lei:

“Não acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do SENHOR vosso Deus, que eu vos mando” (Dt 4:2);

“Nada acrescentes às suas palavras, para que não te repreenda e sejas achado mentiroso” (Pv 30:6).

Se a multidão entendesse que, no Sermão do Monte, Jesus estivesse acrescentando à lei um novo mandamento, por menor que fosse o mandamento ou, proposta de alteração, não sofreriam o discurso passivamente.

Por que a multidão não se enfureceu e se arremeteu contra Cristo, ao ouvir o Sermão da Montanha? Jesus estava apresentando ao povo um novo código moral e de condutas, em substituição à lei?

Que ênfase considerar, ao ler o discurso de Jesus?

 

Adultério

“Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério. Eu, porém, vos digo, que qualquer que atentar numa mulher para cobiçá-la, já, em seu coração, cometeu adultério com ela” (Mateus 5:27-28)

Jesus aponta outro ponto da lei: “Ouvistes o que foi dito: Não adulterarás” (Mt 5:27), em seguida, alerta que não bastava aos seus ouvintes absterem-se das relações sexuais ilícitas, pois, qualquer que atentar para uma mulher para cobiçá-la, em seu coração já adulterou!

“Eu, porém, vos digo, que qualquer que atentar numa mulher para cobiçá-la, já, em seu coração, cometeu adultério com ela” (Mt 5:28).

Por que Jesus cita a lei e, em seguida, apresenta regras próprias mais rígidas que a lei?

“Eu, porém, vos digo…”

O ensinamento de Jesus era totalmente diferente dos seus antecessores. Os escribas e fariseus enfatizavam a lei, Cristo enfatiza os seus ouvintes, perante a lei.

Para compreender a proposta de Jesus, em relação ao adultério, temos de considerar o seu alerta, no início do discurso à multidão, que eles precisavam de justiça superior à dos escribas e fariseus, a fim de terem direito a entrar no reino dos céus.

“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder à dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” (Mt 5:20).

Como alcançar justiça superior à dos escribas e fariseus, se tudo o que faziam, segundo a lei, os publicanos faziam exatamente o mesmo?

“Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos, também, o mesmo? E se saudardes, unicamente, os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos, também, assim?” (Mt 5:46-47).

O motivo de Jesus ter apresentado a lei e, em seguida, apresentado a sua determinação, visava alcançar a compreensão dos seus ouvintes, que se achavam  justos, por ouvirem a lei, porém, os publicanos que eles consideram pecadores faziam exatamente o mesmo!

Os judeus amavam aqueles que os amavam, saudavam aqueles que os saudavam, e se achavam justos diante de Deus, por causa da lei. O que os ouvintes de Jesus faziam a mais que os seus concidadãos cobradores de impostos?

O pensamento do fariseu – da parábola – que foi ao templo orar e deu graças por não ser como os demais homens: roubadores, injustos e adúlteros e nem mesmo como o publicano, além de jejuar duas vezes na semana e dar os dízimos de tudo quanto possuía (Lc 18:11-12), era a tônica dos ouvintes de Jesus.

O fariseu da parábola não roubava, não era ‘injusto’ e não adulterava, etc., e mesmo assim, não voltou para casa justificado. Por quê? Porque o fariseu não tinha a justiça superior que o permitiria entrar no reino dos céus (Lc 18:11).

Se os ouvintes de Jesus desejavam justiça superior à dos escribas e fariseus, não deveriam fazer tão somente o que os fariseus faziam: não adulterar. Em face da necessidade dos seus ouvintes, é que entra a proposta de Jesus: nem mesmo poderiam atentar para uma mulher para a cobiçar, pois já teriam cometido adultério no coração (Mt 5:28).

Se fossem capazes de fazer o que Jesus estava ordenando, adotando uma regra de conduta superior à dos escribas, fariseus e publicanos, em relação ao adultério, quiçá alcançassem a justiça superior à dos seus líderes religiosos, que os permitisse entrar no reino dos céus.

 

Arranque o olho que escandaliza

“Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros, do que seja todo o teu corpo lançado no inferno. E, se a tua mão direita te escandalizar, corta-a e atira-a para longe de ti, porque te é melhor que um dos teus membros se perca, do que seja todo o teu corpo lançado no inferno” (Mt 5:29-30).

Jesus apresenta uma solução aos que se deixassem levar pela concupiscência dos olhos:

“Arranca-o e atira-o para longe de ti”!

Se o olho dos ouvintes de Jesus os fizesse tropeçar, de modo que atentassem para uma mulher e a cobiçasse, a proposta de Jesus é: arranca-o e atira-o para longe de ti! Quem dentre os ouvintes de Jesus, a pretexto de não ir para o inferno, teria coragem de arrancar um dos seus olhos?

Arrancar o olho, após incorrer no erro de atentar para uma mulher, para cobiçá-la, é uma proposta diferente à prática proposta pelos escribas e fariseus! Para alguém que necessita de justiça superior à dos escribas e fariseus, a fim de ter direito a entrar no reino dos céus, é melhor que se perca um dos seus membros, do que ser lançado todo o corpo no inferno.

Satisfazer qualquer exigência necessária, para se alcançar justiça superior à dos escribas e fariseus, a fim de entrar nos céus, deve ser a meta do homem e se alguma coisa o faz tropeçar (escandalizar), que seja removido. Se a mão direita é causa de tropeço, que seja cortada e lançada para longe! É melhor perder um membro, do que ter o corpo inteiro lançado no inferno.

“Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti” (Mt 5:29).

A proposta de Jesus é prescritiva de comportamento, visando estabelecer uma moral superior à dos escribas e fariseus ou, visa provocar nos seus ouvintes uma mudança de pensamento (arrependimento/metanoia)?

 

O divorcio

“Também foi dito: Qualquer que deixar sua mulher dê-lhe carta de divórcio. Eu, porém, vos digo que qualquer que repudiar sua mulher, a não ser por causa de prostituição, faz que ela cometa adultério e qualquer que casar com a repudiada, comete adultério” (Mateus 5:31 -32).

Os judeus tinham ouvido que, aquele que deixasse a sua esposa, que lhe desse carta de divórcio. Mas, para produzir uma mudança de concepção nos seus ouvintes, acerca da justiça de Deus, Jesus alerta que, qualquer que se divorcia de sua mulher, a não ser por imoralidade, por parte dela, faria com que tanto a mulher repudiada, quanto quem se casasse com ela, cometessem adultério.

Jesus estava ab-rogando a lei dada por Moisés? O que Jesus intentava, ao anunciar que, o que estava estabelecido na lei, era pouco? Sabemos que qualquer alteração em uma lei estabelece uma nova, revogando a antiga, mas esse não era o objetivo de Jesus, pois Ele mesmo disse:

“Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir” (Mt 5:17).

Considerando que Jesus estava falando ao povo e que ele nunca falava ao povo sem parábolas (Mc 4:34), certo é que a proposta de Jesus não era impor novas regras sociais acerca da união conjugal aos seus ouvintes, antes, a proposta é apresentar uma grande parábola, que conduzisse os seus ouvintes a compreenderem a necessidade de se buscar o reino de Deus e a sua justiça (Mt 6:33), pois, somente a justiça de Cristo, o reino de Deus, é superior à justiça dos escribas e fariseus.

Devemos considerar que Jesus não veio anular, omitir ou acrescentar o estabelecido pelos profetas, portanto, é contra senso entender o anunciado no Sermão da Montanha, como sendo uma ‘nova moral’, pertinente ao reino de Deus.

“Não acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do SENHOR vosso Deus, que eu vos mando” (Dt 4:2).

Embora o Senhor Jesus fosse o Verbo eterno encarnado, na condição de Filho, não tinha autonomia para alterar o estabelecido por Deus pois, na sua primeira vinda, se fez servo.

 

Juramentos

“Outrossim, ouvistes o que foi dito aos antigos: Não perjurarás, mas cumprirás os teus juramentos ao SENHOR. Eu, porém, vos digo que, de maneira nenhuma, jureis; nem pelo céu, porque é o trono de Deus; Nem pela terra, porque é o escabelo de seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei; Nem jurarás pela tua cabeça, porque não podes tornar um cabelo branco ou preto. Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque, o que passa disso, é de procedência maligna” (Mateus 5:33– 37).

Em seguida, Jesus aborda a questão dos juramentos, destacando o que dizia a lei: “Outrossim, ouvistes o que foi dito aos antigos: Não perjurarás, mas cumprirás os teus juramentos ao SENHOR” (Mt 5:33) para, em seguida, proibi-los de jurar, visto que não pertenciam aos ouvintes de Jesus as coisas sagradas que eles evocavam nos juramentos.

Como jurar por algo que não lhe pertence, como os céus, o trono de Deus? Como jurar pela terra, se ela pertence a Deus? Como jurar pela cidade santa, se ela pertence ao Messias? Como jurar por algo que o homem tem por seu, que é o cabelo da sua cabeça, se nem poder tem para mudar a cor do seu cabelo?

Deus já havia salientado na lei que a terra lhe pertencia e o povo havia votado que fariam o que Deus ordenara:

“Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos, porque toda a terra é minha. E vós me sereis um reino sacerdotal e o povo santo. Estas são as palavras que falarás aos filhos de Israel. E veio Moisés, chamou os anciãos do povo, e expôs diante deles todas estas palavras, que o SENHOR lhe tinha ordenado. Então todo o povo respondeu a uma só voz e disse: Tudo o que o SENHOR tem falado, faremos. E relatou Moisés ao SENHOR as palavras do povo” (Ex 19:5-8).

Deus não está interessado em que o homem faça votos, mas,  que cumpra o que já havia votado, que é obedecer à Sua palavra.

“Assim falai, e assim procedei, como devendo ser julgados pela lei da liberdade” (Tg 2:12).

Jesus orienta os seus ouvintes a terem uma palavra firme e segura, pois os profetas já haviam alertado que a palavra deles era ‘sim’, mas que não punham por obra o que diziam.

“Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” (Is 29:13).

Quem honra com a boca, mas não obedece a Deus, é de procedência maligna: “Ai, nação pecadora, povo carregado de iniquidade, descendência de malfeitores, filhos corruptores; deixaram ao SENHOR, blasfemaram o Santo de Israel, voltaram para trás”  (Is 1:4).

 

Talião

“Ouvistes que foi dito: Olho por olho e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra; E, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; E, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas. Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes” (Mt 5:38-42).

Jesus continua o seu discurso, evidenciando um princípio da lei: “Olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé…” (Ex 21:24) e ordena aos seus ouvintes que não resistam aos homens violentos. Que, caso fossem agredidos em uma das faces, que oferecessem a outra.

Nesse mesmo diapasão, se alguém reclamasse aos ouvintes de Jesus a túnica (vestido) litigiosamente, que deixassem o adversário levar a capa também. Ou, se alguém exigisse dos ouvintes de Jesus que se andasse uma milha, que se dispusessem a acompanhá-lo, também, por duas. Ou, se alguém pedisse algo, que dessem o que foi pedido e, jamais deixassem de emprestar a qualquer que lhe pedisse.

O que Jesus pretendia com esse discurso? Mudar as regras que disciplinavam as relações sociais? Dar a outra face ou, entregar a capa a quem quer a túnica, para obter salvação? Dar a quem pede e não negar a quem pede emprestado, para obter direito à salvação? É certo que não!

Jesus pretendia mudar a lei de Moisés, que é prescritiva de comportamento e disciplina as relações sociais em seus vários aspectos: casamento, divórcio, empréstimo, penhor, guerra, etc.? (Ex 24:1-22) O que foi estabelecido por Deus como preceito em Israel não era justo? A lei não disciplinava o princípio expresso na máxima da lei do talião: paridade entre ofensa e retribuição? É certo que sim!

No seu discurso Jesus busca provocar no povo uma mudança de concepção, pois, ao apresentar a necessidade de uma justiça maior que a dos escribas e fariseus, deixa claro que é impossível alcançar tal justiça através da total abnegação.

Se os fariseus e os escribas, pelas obras da lei não tinham direito a ver o reino dos céus, que ações meritórias o povo deveria praticar, de modo que fosse possível suplantar a justiça dos seus líderes religiosos?

“Mas Israel, que buscava a lei da justiça, não chegou à lei da justiça” (Rm 9:31).

Muitos veem na sugestão de ‘dar a outra face a quem ferir’, o pináculo da sabedoria contida na doutrina de Jesus. No entanto, Jesus estava somente apresentando várias situações que colocam em xeque a religião judaica, visto que os publicanos e os gentios tinham o mesmo comportamento que os escribas e fariseus e eram tidos por pecadores.

A sabedoria de Jesus está, não em dar a outra face a quem agredir mas,  na pergunta que produz a metanoia (arrependimento):

“Que fazeis demais?”

 

O amor ao próximo

“Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus; Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons e a chuva desça sobre justos e injustos. Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos, também, o mesmo? E, se saudardes, unicamente, os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos, também, assim? Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus” (Mateus 5:43-48).

É cediço que o amor ao próximo é o cumprimento da lei:

“A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor, com que vos ameis uns aos outros; porque, quem ama aos outros, cumpriu a lei. Com efeito: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não darás falso testemunho, não cobiçarás; e se há algum outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. O amor não faz mal ao próximo. De sorte que o cumprimento da lei é o amor” (Rm 13:8-10).

Mas, qual o objetivo de Jesus em lembrar ao povo o que constava na lei?

“Amará o teu próximo e odiarás o teu inimigo” (Mt 5:43).

Por que Ele dá a ordem:

“Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5:44)?

Basta alguém amar o seu inimigo, que alcançará a filiação divina? Uma oração em favor dos que perseguem, é suficiente para a pessoa ser declarada um dos filhos de Deus? Absolutamente, não!

As ações que Jesus recomenda à multidão tinham por objetivo mudar a concepção dos seus ouvintes, não impor-lhe, novas regras sociais. Para os ouvintes de Jesus entrarem no reino dos céus, o exigido por Deus era justiça superior à dos escribas e fariseus e, por isso, Ele ordena a amar os inimigos, pois, só amando ao próximo, a justiça alcançada não suplantaria a dos escribas e fariseus.

Somente praticando ações superiores às praticadas pelos escribas e fariseus, é que os ouvintes de Jesus seriam tidos por filhos de Deus, visto que a lei deixa claro que os filhos de Israel não eram filhos, mas, uma mancha.

“Corromperam-se contra ele; não são seus filhos, mas a sua mancha; geração perversa e distorcida é” (Dt 32:5; Is 30:9).

Se os ouvintes de Jesus queriam alcançar a filiação divina, ou seja, terem justiça maior que a dos escribas e fariseus, as suas ações deveriam ser da mesma natureza do Pai celeste, que não faz acepção de pessoas: faz nascer o sol sobre grandes e pequenos e faz vir chuva sobre justos e injustos.

Partindo do pressuposto de que quem faz somente o que é ordenado não passa de servo inútil, que recompensa alguém teria ao fazer somente o estabelecido na lei?

“Assim, também, vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer” (Lc 17:10).

Tudo o que foi exposto por Jesus, desde o verso 21, deve ser considerado segundo o prisma dessa pergunta fundamental:

“Pois, se amais os que amam a vós, que recompensa tendes? Não é assim que os publicanos também fazem?”, ou:

“E se saudais apenas os seus irmãos, o que a mais fazeis? Não é assim que os gentios também fazem?” (Mt 5:47).

Conforme apontado pelo apóstolo Paulo, os filhos de Israel se achavam melhores que os gentios (Rm 3:9), e Jesus apresenta várias ações ao povo que, caso quisessem ser diferentes dos publicanos e gentios, deveriam considerar praticar.

Os filhos de Israel queriam ser recompensados com o reino dos céus somente amando àqueles que os amavam, dai a sugestão: amai os vossos inimigos! A proposta de Jesus ante a má compreensão dos judeus, acerca das coisas de Deus, foi apresentar um comportamento diferente da dos publicanos e gentios: dê a outra face, a qualquer que ferir a sua face!

Ir à sinagoga com os concidadãos e saudá-los nas praças não era algo que pudesse diferenciá-los dos gentios, pois os gentios também se portavam dessa forma. Através dessa abordagem, Jesus queria que considerassem que, somente ouvir a lei, não torna ninguém justo (Rm 2:13) e que os gentios, apesar de não terem a lei de Moisés, naturalmente, faziam as mesmas coisas que constavam da lei (Rm 2:14).

Ora, só é justificado quem pratica a lei (Rm 2:13) e como nenhum dos ouvintes de Jesus cumpriam, totalmente, a lei (Jo 7:19), nenhum deles era melhor que os gentios, portanto, também, não podiam herdar o reino dos céus. Devemos considerar que, se o homem tropeça em um só quesito da lei, é transgressor de toda a lei.

“Porque qualquer que guardar toda a lei e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos” (Tg 2:10).

Para os ouvintes de Jesus alcançar justiça superior à dos escribas e fariseus, precisavam ser perfeitos, como o pai Abraão:

“Sede vós, pois, perfeitos, como perfeito é o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5:48).

Como ser perfeito diante de Deus? Basta andar na presença de Deus, assim como Deus ordenou a Abraão:

“Eu sou o Deus Todo-Poderoso, anda em minha presença e sê perfeito” (Gn 17:1; Dt 18:13).

O homem jamais será perfeito, de modo a ser possível andar com Deus, antes, por andar com Deus é que o homem alcança a perfeição, assim como aconteceu com Enoque, Noé e Abraão (Gn 5:24; Gn 6:9).

A mensagem de Jesus no Sermão da Montanha estava preparando o povo para a seguinte ordem:

“Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; e vem e segue-me” (Mt 19:21).

Só os que estão em Cristo são perfeitos, verdadeiros filhos do crente Abraão:

“E estais perfeitos nele, que é a cabeça de todo o principado e potestade” (Cl 2:10; Gl 3:7).

Através dessa releitura do Sermão da Montanha, percebe-se que a proposta de Jesus visava causar nos seus ouvintes uma mudança de concepção, o tão apregoado ‘arrependimento’!

A mensagem de Jesus não visava mudança de comportamento, mas, uma mudança de compreensão à vista do Cristo, o reino de Deus.

“Desde então, começou Jesus a pregar e a dizer: Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus” (Mt 4:17).

A ênfase do discurso do Sermão da Montanha não é moralizante, antes uma repreensão aos filhos de Israel por entenderem que eram melhores que os gentios por descenderem de Abraão, e que não precisavam de arrependimento (metanoia). A ênfase do discurso é sublinhada pelo publico alvo da mensagem, que no caso do Sermão da Montanha tinha por alvo os filhos de Israel, e não os membros do Corpo de Cristo, a Igreja ou os gentios não convertidos.

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto

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