Gálatas 2 – O apóstolo Pedro é repreendido

A dissimulação do apóstolo Pedro contagiou outros cristãos de origem judaica, de forma que até Barnabé se deixou levar e se afastou dos cristãos convertidos dentre os gentios.


As Origens do Apóstolo

1 DEPOIS, passados catorze anos, subi outra vez a Jerusalém com Barnabé, levando também comigo Tito.

Somente após quatorze anos, o apóstolo Paulo deliberou ir a Jerusalém para novamente falar com os apóstolos que conviveram com Cristo.

Paulo foi a Jerusalém acompanhado de Barnabé e Tito.

 

2 E subi por uma revelação, e lhes expus o evangelho, que prego entre os gentios, e particularmente aos que estavam em estima; para que de maneira alguma não corresse ou não tivesse corrido em vão.

Paulo deixa claro que ‘subiu’ a Jerusalém motivado por uma revelação.

O apóstolo Paulo aproveitou a oportunidade, e fez uma exposição do evangelho que pregava aos gentios. A exposição foi direcionada àqueles que eram estimados pela igreja de Jerusalém.

Ele expôs o evangelho que estava sendo pregado aos gentios com o intuito de verificar se não havia nenhuma discrepância entre o evangelho que estava anunciando, comparando com o evangelho exposto pelos outros discípulos.

Paulo não queria correr em vão, e estava disposto até mesmo a corrigir qualquer desvio ou discrepância quanto ao que ele estava apregoando aos gentios. Esta exposição, ou verificação, foi realizada durante o concílio em Jerusalém.

A exposição de Paulo foi diante de alguns irmãos que ‘pareciam’ ter um maior destaque. Ele demonstra que ‘pareciam’ ser, porque diante do evangelho de Cristo, a aparência do homem não é levada em conta. O que tem valor diante de Deus, é a fé que opera pelo amor (v. 6).

 

3 Mas nem ainda Tito, que estava comigo, sendo grego, foi constrangido a circuncidar-se;

A atitude daqueles que ouviram a exposição do evangelho apregoado aos gentios, demonstrou que o anunciado por Paulo estava em conformidade com o evangelho apregoado pelos outros apóstolos de Cristo.

Aceitaram o apóstolo Paulo de bom grado, e nem mesmo recriminaram a Tito, seu companheiro grego a circuncidar-se. A atitude deles demonstrou de maneira clara que o evangelho proclamado por Paulo estava em conformidade com o evangelho anunciado pelos outros apóstolos e por Cristo.

A expressão ‘nem mesmo’ demonstra que, se algum cristão precisava cumprir com alguma determinação decorrente da lei, este alguém deveria ser Tito: ele era grego e incircunciso. Caso os apóstolos de Jerusalém estivessem apregoando a circuncisão, o primeiro a ser recriminado seria Tito, pois ele era grego e incircunciso.

 

4 E isto por causa dos falsos irmãos que se intrometeram, e secretamente entraram a espiar a nossa liberdade, que temos em Cristo Jesus, para nos porem em servidão;

A exposição do evangelho que Paulo pregava entre os gentios se fez necessário porque havia em Jerusalém falsos irmãos.

Os ‘falsos irmãos’ são caracterizados por tentarem levar os servos de Cristo à servidão da lei. Eles observavam a liberdade dos cristãos concedida por Cristo (não observância da lei mosaica), para tentarem levar cativo os cristãos incautos.

O objetivo de Paulo ao demonstrar que expôs o evangelho de Cristo aos outros apóstolos, e que em nada foi contestado, era dirimir qualquer dúvida dos cristãos quanto as falsas doutrinas dos judaizantes, e defender o seu apostolado.

 

5 Aos quais nem ainda por uma hora cedemos com sujeição, para que a verdade do evangelho permanecesse entre vós.

Paulo não se submeteu as determinações judaizantes, nem mesmo por um instantes, por ser aquele um momento estratégico e decisivo para a continuidade da verdade do evangelho ( At 15:2 -5).

Estrategicamente, para a propagação do evangelho entre os judeus, Paulo fez com que Timóteo fosse submetido à circuncisão. Não foi circuncidado para salvação, e sim para que eles obtivessem uma melhor abertura quanto à proclamação do evangelho ( At 16:3 ). Porém, quanto da visita a Jerusalém, Paulo demonstra que não devemos nos curvar, nem por uma hora, a ensinamentos errôneos.

Não podemos ser condescendestes a erros que comprometam a verdade do Evangelho.

 

6 E, quanto àqueles que pareciam ser alguma coisa (quais tenham sido noutro tempo, não se me dá; Deus não aceita a aparência do homem), esses, digo, que pareciam ser alguma coisa, nada me comunicaram;

Ao interpretar as cartas de Paulo, o leitor deve ter em mente que várias vezes ele quebra a seqüência da narração principal, faz uma pequena abordagem em um aspecto secundário a esclarecer, e em seguida, volta a discorrer sobre o tema central.

Exemplos típicos de quebra na narração encontra-se neste capítulo: o verso dois deste capítulo é uma continuação da narração histórica das viagens que Paulo realizou, sendo que o verso três foi inserido somente para demonstrar que o evangelho por ele anunciado, foi confirmado pelos outros apóstolos.

O verso três aparece isolado no texto, e somente torna-se compreensível por causa do contexto geral da carta. Já o verso quatro explica o porquê dele ter exposto o evangelho anunciado aos gentios, aos cristãos de Jerusalém.

O verso cinco demonstra qual a atitude e posicionamento de Paulo frente aos judaizantes, e neste verso, ele volta a explicar porque classificou algumas pessoas da igreja de ‘parecer ser alguma coisa’.

Paulo procurou, dentre os cristãos de Jerusalém, aqueles que aparentemente detinham maior destaque, e expôs o evangelho (v. 2). Porém, a aparência que era tida em destaque no seio da igreja de Jerusalém, nada acrescentou a Paulo (v. 6).

A aparência destes cristãos, que eram tidos em destaque, teve o seu valor a seu devido tempo. Paulo refere-se a este ‘outro’ tempo como se dele nem se lembrasse mais.

Noutro tempo refere-se ao tempo em que os cristãos ainda eram trevas, ao tempo em que os cristãos eram considerados incircuncisos pelos da circuncisão. Noutro tempo refere-se ao passado dos cristãos, quando andavam segundo o curso deste mundo ( Ef 2:11 ; Ef 5:8 e Cl 1:21 ).

Aqueles que pareciam ter destaque na igreja através da aparência que detinham (aparência do homem), não tiveram nada a acrescentar à pregação de Paulo.

 

7 Antes, pelo contrário, quando viram que o evangelho da incircuncisão me estava confiado, como a Pedro o da circuncisão

A mesma autoridade que Pedro teve entre os judeus ao pregar o evangelho, os cristãos em Jerusalém reconheceram que Paulo detinha ao comunicar a graça de Deus entre os gentios.

A autoridade de Paulo tornou-se evidente aos irmãos de Jerusalém através da exposição.

 

8 (Porque aquele que operou eficazmente em Pedro para o apostolado da circuncisão, esse operou também em mim com eficácia para com os gentios),

Os irmãos reconheceram o apostolado de Paulo, e que Deus operava por intermédio de Paulo da mesma forma que operava com Pedro.

O serviço de Paulo e Pedro em prol do evangelho não se apoiou em homens, mais em Deus.

Deus operou eficazmente tanto com Paulo quanto com Pedro. A intrepidez de Pedro ao falar do evangelho aos da circuncisão foi semelhante à de Paulo quando anunciava a mensagem do evangelho aos gentios.

 

9 E conhecendo Tiago, Cefas e João, que eram considerados como as colunas, a graça que me havia sido dada, deram-nos as destras, em comunhão comigo e com Barnabé, para que nós fôssemos aos gentios, e eles à circuncisão;

O relato de Paulo aos cristãos da Galácia demonstra que o evangelho que ele anunciava nunca esteve divorciado do que era apregoado pelos outros apóstolos.

Pedro, João e Tiago eram considerados como colunas da igreja, e quando se inteiraram do serviço desenvolvido por Paulo entre os gentios, não o recriminaram. Antes, estenderam-lhe a mão demonstrando que estavam e plena comunhão.

Com isso, estava claro que Tiago, Pedro e João também aceitaram o serviço de Barnabé, que trouxe o apóstolo Paulo aos outros apóstolos ( At 9:27 ). A comunhão foi estabelecida e definiram duas frentes de evangelismo: os de Jerusalém iriam aos judeus e Paulo e Barnabé aos gentios.

 

10 Recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também procurei fazer com diligência.

A única recomendação a Paulo não se referia ao conteúdo do evangelho, mas a administração de alguns bens direcionados aos pobres. Com isso fica demonstrado que nenhum apóstolo de Jerusalém contestou o evangelho anunciado por Paulo.

Após receber a determinação dos pais da igreja com referência ao cuidado com os pobres, Paulo passou a cumpri-la a risca. Este cuidado fica demonstrado nas cartas aos Corintos, em que ele busca incessantemente a ‘sinceridade do amor’ dos irmãos ( 2Co 8:8 ).

Todas as vezes que Paulo vai tratar do cuidado que se deve ter com os pobres, ele interrompe a seqüência da narração e introduz o tema desta forma: “Ora, quanto a coleta para os santos…” ( 1Co 16:1 );“E agora, irmãos…” ( 2Co 8:1 ); “Ora, quanto a assistência…” ( 2Co 9:1 ).

Isto demonstra que as verdades do evangelho já havia sido anunciado pessoalmente, porém, havia a necessidade de se enfatizar em suas cartas a necessidade da contribuição para sustento dos pobres, conforme a recomendação que recebera.

 

11 E, chegando Pedro à Antioquia, lhe resisti na cara, porque era repreensível.

A chegada de Pedro a Antioquia deveria confirmar o evangelho pregado por Paulo, entretanto, o comportamento dele não condizia com a verdade do evangelho.

Como o comportamento de Pedro poderia influenciar o evangelho de Cristo, por ele ser uma das colunas da igreja, Paulo não se conteve, e o resistiu, ou seja, repreendeu.

Paulo levantou-se contra a atitude de Pedro, mesmo ele sendo uma das colunas da igreja. Aquele comportamento de Pedro, embora fosse normal para ele, poderia por em risco a essência do evangelho.

Paulo se posicionou contra a atitude que poderia trazer um entrave ao evangelho, e não contra a pessoa de Pedro. Em momento algum houve uma disputa por posição.

 

12 Porque, antes que alguns tivessem chegado da parte de Tiago, comia com os gentios; mas, depois que chegaram, se foi retirando, e se apartou deles, temendo os que eram da circuncisão.

Aqui está o motivo da repreensão de Paulo a Pedro.

Pedro estava comendo com os gentios, e quando percebeu que Tiago estava chegando com outros irmãos, e que estes irmãos eram da circuncisão, um sentimento de temor tomou o coração de Pedro, que o fez se apartar dos gentios, para se acomodar junto aos da circuncisão.

De maneira explicita, Pedro se retirou do meio dos cristãos ‘gentios’ por temer os da circuncisão.

 

 

13 E os outros judeus também dissimulavam com ele, de maneira que até Barnabé se deixou levar pela sua dissimulação.

A dissimulação de Pedro contagiou outros cristãos de origem judaica, de forma que até Barnabé se deixou levar.

Paulo toca em um assunto muito interessante: a questão comportamental. Não podemos assumir uma postura que vá contra os princípios bíblicos. Se Deus não faz acepção de pessoas, nós, como cristãos, devemos ter uma postura conforme os princípios da escritura.

Nada faz os homens diferentes diante de Deus, a não ser o novo nascimento.

 

14 Mas, quando vi que não andavam bem e direitamente conforme a verdade do evangelho, disse a Pedro na presença de todos: Se tu, sendo judeu, vives como os gentios, e não como judeu, por que obrigas os gentios a viverem como judeus?

Aqui há vários exemplos a se seguir. Exemplos da parte de Paulo e da parte de Pedro:

  • Paulo saiu em defesa do evangelho, sem buscar uma posição ‘melhor’, ou de destaque na igreja;
  • A repreensão foi na frente de todos. Paulo não fez um comentário de cunho faccioso. Ele não queria um ambiente de fofocas;
  • A repreensão foi na presença de todos, para que nenhum dos cristãos que presenciaram a dissimulação saíssem com a idéia de que havia um distinção entre judeus e gentios após a conversão;
  • A palavra foi dirigida a Pedro, o responsável por aquele clima de dissimulação;
  • Pedro, um dos principais da igreja, foi bastante humilde para aceitar a correção;
  • Pedro não utilizou o seu prestígio para desculpar-se ou agir arrogantemente;
  • O erro de Pedro fixa-se em uma pequena questão comportamental, porém, se não fosse repreendida a tempo, tornar-se-ia um problema que acabaria por afetar a sua vida espiritual.

Há várias lições nestes versículos, mas a abordagem do apóstolo dos gentios demonstra que jamais um cristãos deve aceitar passivamente pensamentos e comportamentos de outros cristãos que não condizem com o a verdade do evangelho.

Os líderes precisam aprender com o apóstolo Pedro humildade, como servos de Cristo, e não serem senhores de si mesmso.

O apóstolo Paulo argumenta: O que motiva alguém que vive como gentil, exigir que os gentios vivessem como judeus?

 

A fé em Cristo

15 Nós somos judeus por natureza, e não pecadores dentre os gentios.

Paulo construiu aqui, uma frase que demonstra a falsa superioridade dos judeus.

Por natureza os da circuncisão eram judeus e pecadores. Sem contradição alguma, pois todos os homens pecaram em Adão.

A condição de judeu é determinada pela filiação em Abraão (natural), e não por Deus. Da mesma forma que a condição de pecadores não decorre de Deus, mas da natureza decaída herdada de Adão.

 

16 Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé em Cristo, e não pelas obras da lei; porquanto pelas obras da lei nenhuma carne será justificada.

Paulo enfatiza um saber comum a todos cristãos: o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Cristo!

Todos os cristãos creram em Cristo para serem justificados, uma vez que era de conhecimento que pelas obras da lei ninguém é justificado.

Como a lei não pôde justificar, é Cristo quem justifica.

 

 

17 Pois, se nós, que procuramos ser justificados em Cristo, nós mesmos também somos achados pecadores, é porventura Cristo ministro do pecado? De maneira nenhuma.

Todos os cristãos professavam que eram salvos (justificados) pela fé em Cristo (v. 16), o que leva a concluir que todos buscaram a Cristo para serem justificados.

Os cristãos estavam professando uma verdade, mas demonstravam que não entendiam o que era ser justificado em Cristo.

Como os cristãos haviam procurado justificação em Cristo por meio da fé, e não por intermédio das obras da lei, é certo que eles haviam deixado de ser pecadores. Não é razoável ser justificado em Cristo, e ao mesmo tempo permanecer sendo pecador.

Um judeu por natureza é pecador, e se permanecer separado da vida que há em Deus, será achado pecador. Mas, qualquer homem que se refugiar em Cristo, for ainda achado pecador, é o mesmo que dizer que Cristo está sendo ministro do pecado. Que contradição!

O apóstolo não está falando de comportamento, de condutas errôneas, mas da cadeia, ou da natureza que prende todos os homens que não tem a Cristo como Senhor.

Paulo é bem claro: Se após estar em Cristo, o cristão ainda permanecer sendo pecador, ou seja, de posse da velha natureza herdada em Adão, Cristo haveria de ser ministro do pecado.

Só em expor este raciocínio, Paulo interpõe uma ressalva: De maneira nenhuma! Ou seja, o cristão deixa de ser pecador.

Este fato é atestado também pelo apóstolo João: “Qualquer que é nascido de Deus não comete pecado. Porque a sua semente permanece nele; e não pode pecar, porque é nascido de Deus” ( 1Jo 3:9 ). Por que o cristão não peca? Porque o homem que creu em Cristo compartilha da natureza divina ( 2Pe 1:4 ).

Se qualquer que é nascido de Deus não comete pecado, todos quantos não são nascidos de Deus cometem pecado.

Para ser nascido de Deus é preciso ter a semente de Deus, isto demonstra que aqueles que não tem a semente de Deus (a palavra do evangelho), são nascidos da vontade da carne, da vontade do varão e do sangue ( Jo 1:13 ).

Paulo queria que os cristãos compreendessem que, se mesmo após serem justificados em Cristo, ainda estivessem necessitados da lei para serem justificados, ainda estavam em pecado, e Cristo estaria assumindo o papel de ministro do pecado.

É certo que Cristo morreu pelos cristãos, sendo eles (nós) ainda pecadores. Quando o homem aceita a Cristo, ainda está na condição de pecador. Depois de aceitá-lo, porém, vive um novo tempo de paz, amor e justiça, pois é uma nova criatura em Cristo Jesus.

‘Noutro tempo’ éramos pecadores, hoje, estamos assentados nas regiões celestiais em Cristo. A condição do Cristão hoje difere totalmente em essência, da condição de outrora.

 

18 Porque, se torno a edificar aquilo que destruí, constituo-me a mim mesmo transgressor.

Este versículo é significativo para a compreensão da salvação.

Paulo estava alertando que, caso os cristãos voltassem a seguir a lei, estariam se constituindo transgressores.

Não era Cristo que estava lançando fora os cristãos, antes, eles mesmos estavam lançando mão de conceitos errôneos, que os levaria de volta a perdição.

O versículo evidencia que em momento algum a salvação de Deus deixa de ser efetiva na vida do crente. A salvação em Cristo é poderosa e eterna, e desde que permaneça em Cristo, o homem jamais se perderá. Porém, se este mesmo homem voltar a edificar o que antes havia destruído, voltará a ser transgressor diante de Deus.

O homem deve crer em Deus para ser salvo, porém, a fé tem uma obra: a perseverança, conforme disse Tiago.

Aqueles que estão perante o Pai, jamais serão lançados fora, mas se o homem recuar, há de trazer sobre si perdição.

Se a salvação fosse segundo a idéia da ‘predestinação’ anunciada pelos reformadores, ou decorresse de um destino previamente traçado, conforme a mentalidade humana atina, não haveria a necessidade de alertar os cristãos quanto aos possíveis desvios. Paulo não precisaria falar em perseverança na fé proposta, e nem mesmo haveria a necessidade de defender o evangelho.

O que foi destruído por meio da fé em Cristo, e que Paulo fala de sua reedificação? A carne do pecado por meio do corpo de Cristo. Como e quando ocorre a destruição da carne? Quando se morre com Cristo, conformando-se com o seu sofrimento, morte e sepultamento. Em outro lugar Paulo fala da circuncisão de Cristo, que é o despojar do corpo da carne. Que é o desfazer-se por completo da carne, e não só do prepúcio ( Cl 2:11 -13).

Paulo argumentou que, se torno a edificar o que destruí, acabo por tornar transgressor, ou seja, o homem volta a condição de antes, pecador e sob o domínio do pecado.

Quando se morre com Cristo e ressurge com ele, a inimizade com Deus é desfeita através da carne do seu corpo, isto é, pelo novo e vivo caminho ( Hb 10:20 ).

 

19 Porque eu, pela lei, estou morto para a lei, para viver para Deus.

Paulo demonstra que, perante a lei, ele estava morto, e que não possuía vínculo algum com ela, visto que o apóstolo já havia morrido com Cristo.

O objetivo de não mais cumprir a lei era o de viver para a Deus, e não para a lei.

Observe que a própria lei isentava o apóstolo quanto a sua submissão, visto que ele estava morto para a lei.

 

 

20 Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim.

Paulo se considerava morto, uma vez que foi crucificado com Cristo. Observe que a nossa crucificação é com Cristo, ou seja, juntamente com ele, e não a parte dele.

Mesmo que milhares de pessoas morreram crucificados, a nossa morte não tem relação alguns com elas. Há argumentações que tentam demonstrar que a nossa morte é lenta, conforme a morte de algumas pessoas que foram crucificadas à época de Cristo. Outros tentam demonstrar que alguns cristãos ainda não morreram, devido ao fato de que alguns condenados pelo governo Romano eram tirados da cruz pelos seus familiares, permanecendo vivos, mas tidos como mortos.

Seja anátema tal ensinamento! Cristo diz: “…se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmo” ( Jo 6:53 ; 2Tm 2:11 ; 2Co 5:14 ; 1Co 15:36 ). É preciso ser participante da carne e do sangue, ou seja, morrer com Cristo, e não ‘aparte’ d’Ele.

Todos aqueles que crêem que Cristo morreu em favor dos pecadores, tornam-se participantes da morte de Cristo e recebem poder para serem feitos filhos de Deus: nascidos não da vontade da carne, do sangue ou da vontade do varão, mas de Deus.

A ideia de que a morte do cristão se dá aos moldes da crucificação Romana não é consistente, visto que a nossa morte é conforme a morte do Santo Cristo: “Para conhecê-lo, e a virtude da sua ressurreição, e à comunicação de suas aflições, sendo feito conforme a sua morte” ( Fl 3:10 ).

 

“Pois, se nós, que procuramos ser justificados em Cristo, nós mesmos também somos achados pecadores, é por ventura Cristo ministro do pecado? De maneira alguma” v. 17.

 

“Se procuramos ser justificados por Cristo é para que não sejamos pecadores, mas se fomos achados pecadores mesmo após estarmos com Cristo, Ele tornar-se-ia ministro do pecado. Visto que Cristo não é ministro do pecado, nós não podemos ser mais tido por pecadores”

Se estamos em Cristo e ainda continuamos sendo pecadores e necessitados da lei, só resta desesperança.

O ‘Eu’ que Paulo utiliza nos versos 19 e 20 é figurativo, ou seja, representa o velho homem de Paulo. ‘Eu’ pela lei estou morto, ou, ‘eu’ estou crucificado com Cristo. Quando Paulo fala da sua pessoa, ele enfatiza com a palavra ‘mesmo’, ou seja: “Eu mesmo” ( 2Co 8:13 ; Rm 9:3 ).

Paulo (eu) estava morto, e não mais vivia, ou seja, agora, Cristo vivia nele. Por se uma nova criatura, o que é o mesmo que estar em Cristo, segue-se que Cristo vivia em Paulo.

A vida que Paulo passou a viver na carne, apoiava-se em Deus, diferente da vida de outrora, que se apoiava na lei e nas tradições de seus pais.

 

21 Não aniquilo a graça de Deus; porque, se a justiça provém da lei, segue-se que Cristo morreu debalde.

Deus é fiel e jamais retira a sua salvação de sobre os seus servos A graça de Deus, de maneira alguma será retirada, visto que ele é fiel e poderoso para suster os seus servos ( Rm 8:31 -39). Em Deus a salvação é eterna! Deus jamais encolherá a sua mão quanto ao propósito de salvar.

Mas esta passagem é peculiar: Deus é fiel e poderoso para cumpri o que prometeu, mas é possível ao homem aniquilar a graça de Deus?

Paulo argumenta que Ele não aniquilaria a graça recebida, visto que não mais se utilizava da lei para se justificar. Se Paulo não anula a graça, verifica-se que o homem pode rejeitar a graça de Deus quando lança mão da lei para se justificar “…da graça tendes caído” ( Gl 5:4 ).

Paulo vai além: se alguém considerar que a justiça vem da lei, está dizendo que a morte de Cristo foi em vão.

O verso 21 soma-se ao 18: Se torno a edificar aquilo que destruí, anulo a graça de Deus!

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1 Pedro 2 – Pedras vivas

Cristo, o Senhor bondoso, é a ‘pedra viva’ conforme indicou o salmista Davi: “A pedra que os edificadores rejeitaram tornou-se a pedra angular” ( Sl 118:22 ). Embora os homens tenham reprovado a Cristo, a pedra viva aprovada por Deus, para Deus Ele é a pedra eleita e preciosa.


241 DEIXANDO, pois, toda a malícia, e todo o engano, e fingimentos, e invejas, e todas as murmurações, 2 Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que por ele vades crescendo; 3 Se é que já provastes que o SENHOR é benigno; 4 E, chegando-vos para ele, pedra viva, reprovada, na verdade, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa,

Pedro retoma o tema que foi abordado no verso treze do capítulo anterior: “…cingindo os lombos do nosso entendimento, sede sóbrios…” ( 1Pe 1:13 ).

Os cristãos foram gerados de novo através da ressurreição de Cristo ( 1Pe 1:3 ), mas precisam ter o ‘lombos do entendimento’ ajustado ‘adequadamente’.

O que isso que dizer? Quer dizer que os cristãos não devem viver conforme os desejos mundanos que tinham antes de crerem em Cristo, ou seja, quando eram ignorantes ( 1Pe 1:14 ).

Como? Ora, os cristãos devem deixar toda a malícia, todo engano, todo fingimento, toda inveja e toda sorte de maledicências. Aceitar o convite para ajustar à compreensão é que fará com que os cristãos sejam transformados ( Rm 12:2 ).

Mas, como promover a renovação do entendimento? Desejando ardentemente o puro leite espiritual, ou seja, a palavra de Deus. O homem espiritual é perfeito diante de Deus, pois foi criado idôneo para participar da herança dos santos na luz ( Cl 1:12 ), porém, os neófitos (principiantes) no evangelho (fé) devem exercitar a compreensão na palavra da justiça (cingir o lombo do entendimento).

Paulo fala acerca dos cristãos da Igreja em Corinto que eles foram criados com leite (básico do evangelho), porque eles ainda não podiam suportar alimento sólido (avançado) ( 1Co 3:2 ).

O escritor aos Hebreus também escreveu acerca dos cristãos que, pelo tempo no evangelho, já eram para serem mestres, porém, precisavam compreender ainda os rudimentos do evangelho de Cristo.

Observe que Pedro não designa os cristãos de meninos, antes, eles deviam desejar COMO meninos o leite espiritual, para que eles pudessem crescer na compreensão “Porque qualquer que ainda se alimenta de leite não está experimentado na palavra da justiça, porque é menino” ( Hb 5:13 ); “Com leite vos criei, e não com carne, porque ainda não podíeis, nem tampouco ainda agora podeis” ( 1Co 3:2 ).

A recomendação do apóstolo é para aqueles que já provaram que o Senhor é benigno. Para quem provou e sabe que Deus é benigno, resta tão somente crescer na graça e no conhecimento de Deus ‘bebendo o leite espiritual’, abandonando tudo o que pertencia ao velho homem que foi morto e sepultado com Cristo.

‘Deixar’ as coisas pertinentes ao velho homem (v. 1) e ‘achegar-se’ de Deus (v. 4), é o mesmo que apresentar-se para obedecer àquele a quem se é servo “Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça?” ( Rm 6:16 ).

Ora, um cristão deve saber (ou não sabeis?) que os homens nascidos em Adão tornaram-se servos do pecado, pois foram vendidos como escravos ao pecado através da transgressão de Adão. Deve saber também que, para tornar-se servo da justiça é preciso morrer para o antigo senhor e nascer novamente, uma nova criatura, sob o jugo da justiça.

A única forma dos homens se apresentarem aos senhores (justiça e pecado) para servir-los é através do nascimento. Através do nascimento do primeiro Adão, tornam-se servos do pecado. Através do novo nascimento em Cristo, o último Adão, os homens tornam-se filhos de Deus, e os filhos de Deus jamais foram ou serão escravos de ninguém.

Mas, alguém pode questionar: os cristãos não eram pecadores, como nunca foram escravos de ninguém? Os cristãos eram escravos do pecado em outro tempo, quando não conheciam a Deus. Agora, após conhecerem a Deus, ou antes, serem conhecidos dele, tem-se um novo tempo de justiça e paz.

No ‘novo tempo’ que é pertinente aos criados segundo Deus em verdadeira justiça e santidade, os filhos de Deus foram criados livres e nunca se submeterão a servidão de ninguém. O tempo dos cristãos é diferente do tempo dos ímpios, como se lê: “Portanto, lembrai-vos de que vós outrora éreis (…) que naquele tempo estáveis sem Cristo…” ( Ef 2:11 -12).

Sobre o tempo dos cristãos, temos: “Mas, agora em Cristo…” ( Ef 2:13 ), ou melhor, agora uma nova criatura ( 2Co 5:17 ).

Pedro indica o Senhorio de Cristo e a sua virtude maravilhosa: bondade (vs. 3- 4). É assente que somente Deus é bom “E ele disse-lhe: Por que me chamas bom? Não há bom senão um só, que é Deus. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos” ( Mt 19:17 ), e Pedro, ao demonstrar o senhorio de Cristo, demonstra que o Pai e o Filho são um.

Cristo, o Senhor bondoso, é a ‘pedra viva’ conforme indicou o salmista Davi: “A pedra que os edificadores rejeitaram tornou-se a pedra angular” ( Sl 118:22 ). Embora os homens tenham reprovado a Cristo, a pedra viva aprovada por Deus, para Deus Ele é a pedra eleita e preciosa.

Cristo é a pedra eleita (escolhida) conforme o propósito eterno que é fazer convergir em Cristo todas às coisas. Cristo foi escolhido antes dos tempos eternos por ser o Cordeiro perfeito; por ser o Servo obediente; por ser o Filho amado; por ser o braço do Senhor; por ser o Verbo de Deus, etc.

 

5 Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo. 6 Por isso também na Escritura se contém: Eis que ponho em Sião a pedra principal da esquina, eleita e preciosa; E quem nela crer não será confundido. 7 E assim para vós, os que credes, é preciosa, mas, para os rebeldes, A pedra que os edificadores reprovaram, Essa foi a principal da esquina

Cristo, o Senhor bondoso, é a ‘pedra viva’ conforme indicou o salmista Davi: “A pedra que os edificadores rejeitaram tornou-se a pedra angular” ( Sl 118:22 ). Embora os homens tenham reprovado a Cristo, Ele é a pedra viva aprovada por Deus antes da fundação do mundo. Cristo é a pedra eleita e preciosa.

Cristo, a pedra eleita (escolhida) conforme o propósito eterno de Deus, que é fazer convergir em Cristo todas as coisas “De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra” ( Ef 1:10 ), foi escolhido antes dos tempos eternos para que em tudo seja preeminente “E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência” ( Cl 1:18 ).

Pedro procura conscientizar os cristãos do mesmo modo que o apóstolo Paulo. Compare:

a) Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pe 2:5 );
b) “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” ( Ef 1:13 ).

Paulo demonstrou que, após os cristão ouvirem a palavra do evangelho e crerem, passaram a ser participantes da natureza de Cristo ( Cl 2:10 ). Este não é um privilégio de alguns, antes é um privilégio de todos que ouviram a mensagem do evangelho e creram.

Do mesmo modo que Cristo é a Pedra Viva, os cristãos também são pedras vivas, uma vez que foram de novo criados participantes da natureza divina.

Observe a relação que Pedro estabelece entre a Pedra viva que é Cristo, e as pedras vivas, que são àqueles que creram e receberam poder para serem feitos filhos de Deus ( Jo 1:12 -13) “E, chegando-vos para ele, pedra viva, reprovada, na verdade, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pe 2:4 -5).

Cristo é a pedra viva eleita e preciosa, e os cristãos também, ou seja, são pedras vivas eleitas e preciosas, pois assim como Ele é são os cristãos aqui neste mundo “… porque, qual ele é, somos nós também neste mundo” ( 1Jo 4:17 ).

O homem antes de crer na mensagem do evangelho não é pedra viva. Ele não é eleito e nem precioso aos olhos de Deus. É um grande erro pertinente a doutrina dos reformadores considerar que dentre os homens nascidos em pecado Deus elegeu (escolheu) e predestinou alguns para a salvação, pois somente as pedras vivas são os eleitos de Deus.

Somente é eleito e precioso o novo homem gerado através da palavra da verdade, uma vez que se tornou pedra viva. Os que ouvem a palavra da verdade, e crêem, são os que seguem a retidão, são os que buscam ao Senhor ( Is 51:1 ).

Cada cristão em particular constitui-se casa espiritual e é sacerdote separado dos pecadores. Deus prometeu que habitaria com os contritos e abatidos de espírito ( Is 57:15 ), pois tais homens seriam templos santos do Senhor, casas do Altíssimo.

Sobre esta verdade, Davi pede (confiança) a Deus que crie um novo coração puro e lhe dê um novo espírito reto (regeneração), pois esta é a condição para que o espírito de Deus habite no salmista ( Sl 1:10 -11).

Qual sacrifício os sacerdotes santos oferecem a Deus por intermédio de Cristo? Por intermédio de Cristo os que creem sempre oferecem a Deus sacrifícios de louvor, que é o fruto dos lábios que confessam a Cristo como Senhor ( Hb 13:15 ).

O verdadeiro sacrifício parte dos lábios de quem adora em espírito e em verdade. É possível aos filhos da ira e da desobediência adorar a Deus em espírito e em verdade? Não! Primeiro, para adorá-Lo em espírito e em verdade é preciso nascer de novo, ser criado por Deus em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ).

Quem é nascido do Espírito é espiritual, condição essencial para adorar a Deus. O homem carnal nascido de Adão não pode adorar a Deus em espírito, pois é carnal. O sacrifício que os filhos de Deus oferecem a Deus são os frutos dos lábios, conforme predisse Oseias “Tomai convosco palavras, e voltai para o Senhor. Dizei-lhe: perdoa toda a iniquidade, e nos aceita graciosamente, para que ofereçamos como novilhos os sacrifícios dos nossos lábios” ( Os 14:2 ).

Jejuns, orações, rezas, promessas, votos, meditações, peregrinações, etc., não são sacrifícios aceitáveis diante de Deus, antes um coração contrito, e um espírito abatido constituem-se em sacrifícios aprazíveis a Deus “Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus” ( Sl 51:17 ), e somente aqueles que professam o nome de Cristo como Senhor, pois a boca fala o que procede do coração, constituem-se casa e templo do Altíssimo “Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade, e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e para vivificar o coração dos contritos” ( Is 57:15 ).

A consideração teológica de Pedro é conforme as Escrituras, conforme se lê: “Vede, ponho em Sião uma Pedra Angular, eleita e preciosa; e quem nela crer não será confundido” ( 1Pe 2:6 ). O que Deus estabeleceu é possível o homem constatar: “Vede”. Ele estabeleceu a Pedra Angular onde toda edificação de Deus será erguida.

A ‘confusão de rosto’ indica a perdição dos homens, mas todos quantos querem ser salvos, basta crer em Cristo, que não será confundido. Ora, por crerem em Cristo que é a Pedra de Esquina, para os cristãos ela é eleita e preciosa, mas para os que não creem, os rebeldes, a Pedra reprovada pelos edificados é pedra de tropeço, ou rocha de escândalo.

A Igreja Apostólica Romana ensina que Pedro era a pedra sobre quem a igreja de Deus seria construída por Cristo, isto para dar a entender que o papa constitui-se um dos sucessores do apóstolo Paulo.

Mas, o apóstolo Pedro demonstrou que:

  • Cristo é a pedra posta como a principal de esquina, ou seja, a ‘Pedra Viva’ ( 1Pe 2:4 );
  • e, que todos os cristãos são também (igualmente) pedras vivas, edificados como casa espiritual ( 1Pe 2:5 ).

Ora, se Cristo é a Pedra de Esquina sobre quem é construída a casa espiritual, jamais Pedro seria a pedra onde Cristo construiria a sua igreja. De modo que, quando Jesus diz: “Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, pois não foi carne e sangue quem to revelou, mas meu Pai que está nos céus, e também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” ( Mt 16:17 -18).

Pedro foi constituído pedra viva por crer que Jesus é o Filho de Deus, do mesmo modo que todos que creem são pedras vivas. Ou seja, Cristo demonstra que tanto Pedro quanto todos os que creem são pedras vivas, e que todos são edificados sobre Ele, a Pedra de Esquina, em casa espiritual a Deus.

 

 

8 E uma pedra de tropeço e rocha de escândalo, para aqueles que tropeçam na palavra, sendo desobedientes; para o que também foram destinados. 9 Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; 10 Vós, que em outro tempo não éreis povo, mas agora sois povo de Deus; que não tínheis alcançado misericórdia, mas agora alcançastes misericórdia.

Pedro classifica os homens em crentes e descrentes.

Para os que creem em Cristo, Ele é a pedra eleita e preciosa, para os descrentes Ele a pedra de tropeço, a rocha de escândalo ( 1Pe 2:7 ).

Ora, quem crer na Escritura que diz: “Vede, ponho em Sião uma pedra angular, eleita e preciosa; e quem nela crer não será confundida” ( 1Pe 2:6 ), é edificado casa espiritual, onde Deus faz morada eterna.

Quem não crê na palavra que diz: “Vede, ponho em Sião uma pedra angular”, tropeça na palavra, pois não a compreende. Quem tropeça na palavra é desobediente, pois não crê no enviado por Deus.

Ora, os homens ímpios foram destinados à impiedade, do mesmo modo que os justos são destinados à justiça. Como? Quem são os homens ímpios? Quando e como foram destinados à impiedade?

Os homens nascidos em Adão são pecadores, e, portanto, ímpios. Todos são destinados à impiedade, pois nasceram de Adão. São filhos da ira e da desobediência de Adão, que desobedeceu a palavra de Deus e comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e mal.

Em Cristo, o último Adão, os homens são criados filhos de Deus através da obediência de Cristo, que tudo suportou, e foi obediente até a morte, e morte de cruz.

Diferente dos ímpios que foram destituídos da glória de Deus, os cristãos são a geração eleita (escolhida), isto porque uma é a geração dos ímpios e outra a geração dos justos. Qual é a geração dos ímpios? É a geração de Adão. E qual é a geração dos justos? É a geração do último Adão, que é Cristo.

Diferente dos descrentes, os cristãos, por terem crido em Cristo receberam poder para serem feitos filhos de Deus. É por isso que Pedro demonstra que os cristãos são geração eleita “Mas vós sois a geração eleita…” (v. 9).

Além de ser a geração eleita, os cristãos também é sacerdócio real, é nação santa, é povo adquirido. Mas, para que? Para que proclamem as virtudes de Deus, que chamou homens que viviam em trevas, para viverem sob a sua maravilhosa luz.

A geração de Adão não é a escolhida por Deus, pois ao pecar, Adão e toda a sua geração foi destituída de Deus. A geração do último Adão é a escolhida (eleita), pois ao obedecer, Jesus conduziu muitos filhos à glória de Deus.

Observe que as considerações monergistas não comportam a doutrina de Cristo. Dizer que a regeneração precede a fé é contrário à doutrina bíblica, pois primeiro é concedido a esperança proposta (fé), e os homens precisam descansar nesta esperança (fé), que também é designada fé “Para que por duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, tenhamos a firme consolação, nós, os que pomos o nosso refúgio em reter a esperança proposta” ( Hb 6:18 ).

Quem são os cristãos? São aqueles homens que se refugiem em reter a esperança proposta. A proposta de salvação é de Deus, e é pertinente ao homem refugiar-se em aguardar na esperança proposta.

As questões sinergista ou monergista não são bíblicas, pois a fé e a esperança são provenientes da fidelidade de Deus “E por ele credes em Deus, que o ressuscitou dentre os mortos, e lhe deu glória, para que a vossa fé e esperança estivessem em Deus” ( 1Pe 1:21 ).

Por que Deus daria o seu Filho como testemunha ao ressuscitá-lo dentre os mortos, se a regeneração precede a fé? Por que a fé e a esperança estão em Deus, se o homem coopera com Deus?

Perceba que é impossível o homem cooperar na regeneração simplesmente por aguardar em Deus, pois é impossível a quem está sendo gerado de novo segundo a palavra de Deus participe desta nova criação. É impossível o homem cooperar com Deus, pois só Ele ‘bara’ (cria) com base na sua palavra.

Pedro utiliza a mesma fala do apóstolo Paulo:

“Vós, que em outro tempo não éreis povo, mas agora sois povo de Deus; que não tínheis alcançado misericórdia, mas agora alcançastes misericórdia” ( 1Pe 2:10 );
“Pois outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor” ( Ef 5:8 ).

Pedro fez referência aos judeus ou aos gentios? Os judeus não eram o povo de Deus? Ao serem escolhidos como povo, os judeus não alcançaram misericórdia? Por certo que não! Tanto judeus quanto gregos, antes de crerem em Cristo não eram o povo eleito de Deus e nem a geração eleita.

Tanto judeus, quanto gregos, servos, livres, pobres, ricos, todos os cristãos em outro tempo não eram povo de Deus. Mas, agora, ao nascerem de novo segundo a palavra de Deus, aqueles que não eram povo passaram a ser povo, uma vez que pela fé proposta (evangelho) alcançaram fé e descansaram em Deus.

Crer em Deus é alcançar misericórdia. Crer em Deus é atender o chamado. Crer em Deus é ser eleito, pois Deus chamou os homens nascidos de Adão para serem criados de novo, participantes de sua natureza.

 

 

11 Amados, peço-vos, como a peregrinos e forasteiros, que vos abstenhais das concupiscências carnais que combatem contra a alma; 12 Tendo o vosso viver honesto entre os gentios; para que, naquilo em que falam mal de vós, como de malfeitores, glorifiquem a Deus no dia da visitação, pelas boas obras que em vós observem. 13 Sujeitai-vos, pois, a toda a ordenação humana por amor do Senhor; quer ao rei, como superior; 14 Quer aos governadores, como por ele enviados para castigo dos malfeitores, e para louvor dos que fazem o bem. 15 Porque assim é a vontade de Deus, que, fazendo bem, tapeis a boca à ignorância dos homens insensatos; 16 Como livres, e não tendo a liberdade por cobertura da malícia, mas como servos de Deus. 17 Honrai a todos. Amai a fraternidade. Temei a Deus. Honrai ao rei.

Pedro pede aos cristãos que se abstenham dos desejos da carne. Ora, Pedro não utiliza-se da sua autoridade de apóstolo para estabelecer um mandamento, pois somente Deus é legislador, e a sua ordem é clara: creiam naquele que Deus enviou ( 1Jo 3:23 ).

Do mesmo modo é o tratamento dispensado por Paulo aos cristãos: “Portanto, como prisioneiro do Senhor, rogo-vos…” ( Ef 4:1 ). Enquanto Paulo aponta a sua condição de prisioneiro para dar consistência ao seu pedido, Pedro aponta a condição dos cristãos: peregrinos e forasteiros.

Ora, que desejo tem um peregrino e um forasteiro em uma cidade que não lhe pertence? Um peregrino ou forasteiro pensa nas coisas pertinentes a sua cidade, e almeja as coisas que são pertinentes a ela.

Neste mesmo diapasão disse Paulo: “Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra” ( Cl 3:2 ). Como um forasteiro pode ater-se em coisas de uma terra que não lhe pertence?

Os apóstolos recomendam os cristãos a não fixarem os seus desejos e interesses nas coisas deste mundo, uma vez que não pertencem a este mundo “Eles não são do mundo, como eu do mundo não sou” ( Jo 17:18 ).

Pedro pede aos cristãos que se abstenham das concupiscências carnais, pois elas combatem contra a alma. Por que abster-se das concupiscências carnais?

  • Porque as concupiscências da carne são anteriores ao pecado, ou seja, é algo pertinente à natureza humana (humanidade) “E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela” ( Gn 3:6 );
  • A concupiscência não é pecado, porém, ela pode afastar o homem de Deus ( Tg 1:15 ).

É necessário fazer a distinção entre pecado e concupiscência, pois o pecado é proveniente da semente corruptível de Adão. Ora, o pecado foi introduzido no mundo através da desobediência de Adão, e não é dado a nenhum outro homem pecar a semelhança da condenação de Adão ( Rma 5:14 ).

Por que é impossível aos homens nascidos de Adão pecar à semelhança de Adão? Pois todos estão sobre o jugo de Adão, e as suas condutas, por mais perniciosas que sejam não pode melhorar ou piorar as suas condições diante de Deus: estão destituídos da glória de Deus.

A concupiscência é pertinente a humanidade, independentemente se é homem natural ou espiritual. Adão foi criado santo e irrepreensível, e os desejos da carne estavam presentes: ele observava as coisas e as desejava ( Gn 3:6 ).

Os desejos dos homens sem Cristo são variáveis, podendo ser perniciosos ou não. Mas, do mesmo modo, todos quantos nasceram de novo também têm desejos, porém, não podem deixar serem dominados por nenhum deles “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma” ( 1Co 6:12 ).

Ora, os desejos da carne combatem contra a alma, e procuram dominá-la. A coisa desejada pode até ser lícita, porém, mesmo sendo lícito, o cristão não pode deixar as concupiscências da carne (desejos) dominar a alma.

Sobre a concupiscência Jesus disse: “E a que caiu entre espinhos, esses são os que ouviram e, indo por diante, são sufocados com os cuidados e riquezas e deleites da vida, e não dão fruto com perfeição” ( Lc 8:14 ). Cuidar das coisas da vida e buscar uma melhora financeira não é ilícito, mas qualquer um que for vencido pela concupiscência, e for dominado por ela, acabará trocando a promessa de vida eterna por um prato de lentilhas.

Pedro não impôs nenhuma ordenança aos cristãos, antes pediu aos seus leitores que vivessem de modo honesto entre os gentios. Observe que os cristãos têm um viver pertinente a este mundo, porém, por serem nascidos de novo, a vida que adquiriram pertence única e exclusivamente a Deus.

Por que um viver honesto? Para alcançar salvação? Não! Antes, o viver honesto é para que os ímpios possam ver as boas ações dos cristãos e glorifiquem a Deus, embora agora falem dos cristãos como sendo malfeitores.

Em que aspecto Pedro solicita um bom comportamento? Nas questões relativo as ordens do rei ou dos governantes. É por amor do Senhor que os cristãos deviam sujeitar-se aos reis.

Pedro evidência que os governos humanos foram estabelecidos por Deus quando solicita que se sujeitem as leis dos homes por amor a Cristo. Ora, os governos humanos são instituídos sobre a premissa de que eles castigam os malfeitores e premiam os que fazem boas ações.

Pedro responde uma colocação de Paulo: “E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus” ( Rm 12:2 ). Qual a vontade de Deus que o cristão deve experimentar? Fazer o bem, para que os ignorantes não tenham o que falar (v. 15).

Os cristãos vivem como livres, visto que é servo da justiça. Ora, quem é livre no Senhor, não deve ter a sua liberdade por cobertura da malícia, pois é servo do Senhor.

A exortação é clara para que é livre no Senhor: Honrar a todos. Amar fraternalmente. Temor a Deus, o Senhor. Honra a autoridade constituída (v. 17).

 

 

18 Vós, servos, sujeitai-vos com todo o temor aos Senhores, não somente aos bons e humanos, mas também aos maus. 19 Porque é coisa agradável, que alguém, por causa da consciência para com Deus, sofra agravos, padecendo injustamente. 20 Porque, que glória será essa, se, pecando, sois esbofeteados e sofreis? Mas se, fazendo o bem, sois afligidos e o sofreis, isso é agradável a Deus. 21 Porque para isto sois chamados; pois também Cristo padeceu por nós, deixando-nos o exemplo, para que sigais as suas pisadas. 22 O qual não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano. 23 O qual, quando o injuriavam, não injuriava, e quando padecia não ameaçava, mas entregava-se àquele que julga justamente;

Aos cristãos que eram escravos (servos), Pedro recomenda sujeitarem-se aos seus senhores. A sujeição dos cristãos ‘escravos’ deveria ser com todo temor.

A sujeição recomendada aos senhores é proveniente do temor a Cristo, o Senhor, e não por medo dos seus senhores, pois Cristo declarou o seu cuidado pelos seus seguidores: “E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo (…) Não temais, pois; mais valeis vós do que muitos passarinhos” ( Mt 10:28 ).

Os cristãos, escravos ou não, devem temer a Deus, Aquele que tem poder para lançar os homens no inferno. Ora, o amor a Deus lança fora o medo, pois quem O teme está livre do inferno. A paz proveniente dos ensinos de Jesus é que motivaria os cristãos escravos a serem obedientes aos seus senhores na carne “Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” ( Jo 16:33 ).

Sobre este aspecto do evangelho, Paulo também disse: “Vós, servos, obedecei em tudo a vossos senhores segundo a carne, não servindo só na aparência, como para agradar aos homens, mas em simplicidade de coração, temendo a Deus, e tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens” ( Cl 3:22 -23).

Por que ‘temer’ os homens se eles não têm poder sobre a alma? Para que os cristãos tivessem uma vida quieta e sossegada ( 1Tm 2:2 ). A temática do evangelho não é incitar as pessoas a pegar em espadas e saírem em defesa de questões humanitárias, ou de algum regime político, como ocorre em algumas concepções religiosas.

Ora, a sujeição aos homens em eminência é produto do temor a Deus, Àquele que tem poder para lançar o corpo e a alma no inferno.

Observe que as colocações de Jesus, Pedro e Paulo não se contradizem. Isto demonstra que todos tinham um mesmo parecer acerca das questões socioculturais.

A sujeição dos cristãos escravos deveria estender-se também aos senhores maus, ou seja, eram para sujeitarem-se não somente aos senhores bons (v. 18).

Alguém pode questionar: Por que o evangelho não apregoou a insurreição dos escravos contra os seus senhores? Jesus não veio salvar os pobres e os oprimidos?

Não! Jesus não veio mudar os reinos e a concepção de sociedade dos homens. Jesus não veio mudar as relações humanas e implantar uma doutrina com bandeira semelhante à concepção marxista. A temática: liberdade, igualdade e fraternidade não foram instituídas através do evangelho de Cristo. Tal concepção de sociedade é produto da concepção de alguns homens, embora influenciados pelo cristianismo, mas que não lhes deu o direito a salvação em Cristo.

Jesus veio ao mundo salva-lo de condenação anterior, a condenação em Adão, e não readequar ou resgatá-lo de regimes como o autoritarismo, monarquismo, ditadura, comunismo, socialismo, capitalismo, etc. Ora, todos os regimes políticos foram impostos através de uma luta constante dos homens pelo poder, sendo que alguns regimes políticos foram mais e outros menos agressivos.

Mas, por que o apóstolo Pedro recomenda a sujeição dos cristãos escravos aos seus senhores? Ele responde: “Porque é coisa agradável, que alguém, por causa da consciência para com Deus, sofra agravos, padecendo injustamente” (v. 19).

Observe que Pedro aponta a consciência do cristão para com o seu Deus como motivo suficiente para sofrer agravos até de um senhor mau. É agradável a Deus que alguém se sujeite a sofrer afrontas injustamente por causa da compreensão (consciência) do evangelho.

Deus agrada-se da consciência dos que crêem, e não da consciência social, política, moral, etc. Não é de valor para a salvação o sofrimento por causa de questões sociais, políticas, econômicas, morais, etc., pois a salvação encontra-se única e exclusivamente em Cristo.

Que glória resultará a Deus se os cristãos escravos sofressem por estarem comportando-se de modo desordeiro? De igual modo, que glória resultará a Deus se os cristãos livres não se submeterem as leis da sociedade?

A palavra pecado do verso 20 não se refere ao pecado herdado de Adão, antes a palavra grega traduzida por pecado equivale a idéia do que é mau. Ora, se é agradável os cristãos fazerem o bem e mesmo assim serem afligidos, não é agradável quando sofrem por fazerem o mau (pecado) (v. 20).

Para que os cristãos foram chamados? Para padecerem? Não! Para darem glória a Deus, fazendo o que lhe é agradável (v. 19- 20).

Pedro demonstra que Cristo sofreu por todos os cristãos para que seguissem o seu exemplo: não injuriar quando injuriado; não ameaçar quando padecer, antes é preciso entregar-se a Deus, Àquele que julga com justiça (v. 23).

O exemplo dado por Cristo é significativo, pois ele nunca cometeu pecado, e nem em sua boca houve engano, porém, foi perseguido, injuriado, maltratado, etc.

Pedro para de falar de questões comportamentais e volta a abordar uma questão doutrinária sobre modo importante: a morte para o pecado e a vida para justiça (v. 24- 25).

O cristão não deve prender-se em questões socioculturais, porém, deve agir conforme disse o apóstolo Paulo: “Foste chamado sendo servo? não te dê cuidado; e, se ainda podes ser livre, aproveita a ocasião” ( 1Co 7:21 ).

 

 

24 Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados. 25 Porque éreis como ovelhas desgarradas; mas agora tendes voltado ao Pastor e Bispo das vossas almas.

Pedro continua as suas considerações apontando o servo por excelência: Cristo ( Is 52:13 ).

Cristo, o servo escolhido e obediente, levou em seu corpo os pecados dos cristãos, e por que não dizer, do mundo inteiro?

Pedro faz referência a um trecho do livro do profeta Isaias, sem especificamente citá-lo. Ovelhas desgarradas pelas suas feridas foram sarados, e levando ele mesmo os nossos pecados refere-se ao trecho de Isaias 53, e Pedro faz uma releitura do texto, parafraseando-o: “Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si (…) Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas (…) como cordeiro foi levado ao matadouro…” ( Is 53:4 -7).

Como Cristo levou os pecados da humanidade sobre si, se Deus não toma o culpado por inocente, não trata o justo como injusto e a alma que pecar essa morrerá?

Primeiro é preciso considerar o tipo de linguagem utilizada, pois a linguagem teológica difere da linguagem evangelística. Na linguagem evangelística é válido dizer que Deus salva o pecador, porém, na linguagem teológica é salvo somente quem nascer de novo, ou seja, somente o novo homem em Cristo, que outrora era pecador, é salvo por Deus.

Segundo, a oferta do corpo de Cristo é segundo a vontade de Deus ( Hb 10:10 ).

Ora, Cristo morreu pelos pecadores, e todos os que crêem na mensagem do evangelho tornam-se participantes da sua morte, quebrando o vínculo do homem com o seu antigo senhor, o pecado.

Os homens nascidos em Adão que não morrerem com Cristo, não têm como ressurgir com Cristo. Só é possível ressurgir uma nova criatura quando o homem torna-se participante da morte de Cristo.

Mas, como o homem torna-se participante da morte de Cristo? Quando come da sua carne e bebe do seu sangue, ou seja, quando crê na sua palavra, pois ela é espírito e vida, da qual o homem deve ser participante pela fé “O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são espírito e vida” ( Jo 6:63 ).

Como as palavras de Cristo são espírito e vida e só é possível ter vida quando se come a carne e bebe o sangue de Cristo, a fé na promessa contida no evangelho é o único meio do homem comer do pão vivo enviado do céu ( Jo 6:35 e 53).

É preciso morrer para depois ressurgir uma nova criatura, quando passa a existir um novo tempo de justiça e paz. Antes, os cristãos eram como ovelhas quando desgarradas, agora, em Cristo, voltaram ao Pastor e Bispo das suas vidas (v. 25).

É impossível viver para a justiça quando se está longe do Pastor e Bispo das almas regeneradas. Estar longe de Deus é o mesmo que estar vivo para o pecado, e morto para a justiça.

Quando o homem desgarrado como ovelha sem pastor crê em Cristo, efetivamente morre com Cristo, e ressurge um novo homem participante da natureza divina.

Observe que Jesus convidou os seus ouvintes a seguirem-no até a cruz, pois qualquer que quisesse preservar a sua vida haveria de perdê-la “Quem ama a sua vida perdê-la-á, e quem neste mundo odeia a sua vida, guardá-la-á para a vida eterna” ( Jo 12:25 ).

Paulo também reafirma a doutrina de Cristo: “Pois morrestes, e a vossa vida está oculta com Cristo em Deus” ( Cl 3:3 ).

Pedro não é diferente: “… mortos para os pecados…” (v. 24), ou seja, quando os cristãos morreram, morreram para o pecado, e passaram a viver para Deus através da ressurreição de Cristo.

Ambos, Pedro e Paulo falam acerca de um tempo passado: “Porque éreis como ovelhas desgarradas” (v. 25); “Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no SENHOR; andai como filhos da luz” ( Ef 5:8 ). Agora, Em Cristo, os cristãos estão livres de pecado, pois para isto Cristo veio, morreu, ressurgiu e assentou-se à destra de Deus nas alturas: “De outra maneira, necessário lhe fora padecer muitas vezes desde a fundação do mundo. Mas agora na consumação dos séculos uma vez se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo” ( Hb 9:26 ).

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1 Pedro – Regenerados pela palavra da verdade

A perseverança fará com que os cristãos alcance o objetivo fim proposto no evangelho: a salvação da perdição do pecado. Ora, os cristãos já haviam feito a vontade Deus quando creram na mensagem do evangelho, mas precisavam perseveram na fé que professaram para colocarem as mãos na herança prometida “Porque necessitais de perseverança, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” ( Hb 10:36 ).


1 PEDRO, apóstolo de Jesus Cristo, aos estrangeiros dispersos no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia; 2 Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas.

Pedro não teve o mesmo problema que o apóstolo Paulo quanto a ter que defender o seu apostolado. Por ter sido escolhido por Cristo para ser discípulo, e visto o Mestre ainda em carne, não teve dificuldades no exercício do seu ministério.

Paulo demonstra em suas cartas que Pedro possuía uma posição de destaque entre os primeiros cristãos, tanto que foi significativo para Paulo passar quinze dias com Pedro e ser recebido entre os discípulos pelo evangelho que anunciava aos gentios ( Gl 1:18 ; Gl 2:9 ).

No decorrer da carta Pedro também se apresenta como o ‘Ancião’ ( 1Pe 5:1 ), e que Silvano foi quem escreveu (escriba) a carta, e que eles estavam na companhia de Marcos ( 1Pe 5:12 -13). A maestria na escrita da carta deve-se a Silvano, mas o conteúdo da carta ao apóstolo Pedro.

Muitos questionam a autoria da carta de Pedro por ele ter sido um simples pescador da Galileia e ter escrito uma carta tão bela em grego semelhante à literatura ática. Estudiosos questionam a autoria da carta por ele citar a Septuaginta, por usar o ‘artigo’ de modo elegante como nenhuma outra carta do Novo Testamento e por ter um vocabulário próprio e numeroso.

Ora, Pedro mesmo demonstra que não foi ele quem escreveu a carta, e sim Silvano. Percebe-se que Pedro apresentou os argumentos e Silvano, na condição de hábil escriba usou o seu conhecimento para imprimir à carta o estilo próprio as frases da literatura ática.

Quando escreveu, Pedro estava em uma cidade que ele nomeou de Babilônia ( 1Pe 5:13 ). Os destinatários da carta estavam em cinco províncias Romanas: Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia.

Após identificar-se, o apóstolo aponta quem são os destinatários da sua epístola: os estrangeiros dispersos. ‘Estrangeiros dispersos’ diz dos cristãos que foram perseguidos por causa da mensagem do evangelho ( At 8:1 ; At 11:19 ). Ora, é certo que os dispersos eram na maioria judeus, porém, ao escrever, Pedro tem como foco os cristãos, sem qualquer referência a origem carnal dos cristãos.

Pedro escreveu aos eleitos, ou seja, aos santos e irrepreensíveis em Cristo ( Ef 1:4 ). Os arminianista utilizam-se deste verso para afirmar que a eleição é segundo a presciência de Deus, porém, é necessária uma análise mais rigorosa.

Uma tradução bíblica datada de 1681 diz o seguinte:

Pedro Apoftolo de Jefu Chirifto a os eftrangeiros efpalhados em Ponto, em Galacia, em Cappadocia, em Afia, e em Bythynia. Elegidos fegundo a providencia de Deus Pae, em fanctificaçaõ de Efpirito…”

Novo testamento, Companhia das Indias Oriental, cidade de Amsterdam, Bartholomeus Heynen e Joannes de Vooght, 1681.

Observe o verso em questão: “Elegidos fegundo a providencia de Deus Pae…” (v. I). Ora, a eleição é segundo a presciência ou providência?

Como já demonstramos no artigo O Evangelho Anunciado, a eleição não é o modo pelo qual Deus salva o homem. Deus não escolheu antes dos tempos eternos quem seria salvo ou não, com base na sua presciência ou na sua soberania. As concepções calvinista e arminianistas não são bíblicas.

Para compreender a ideia que o apóstolo Pedro procurou evidenciar, não se pode interpretar um verso fora do contexto, ou isolá-lo do restante da bíblia.

A estrutura da primeira carta de Pedro comparada à carta de Paulo aos Efésios é equivalente na estrutura do texto e na ideia que procuraram demonstrar. Observe:

“Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos estrangeiros da dispersão, no Ponto, na Galácia, na Capadócia, na Ásia e na Bitínia, eleitos segundo a presciência de Deus Pai, na santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas” ( 1Pe 1:1 -2).

“Paulo, apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus, aos santos que estão em Éfeso, e fiéis em Cristo Jesus: a vós outros graça, e paz da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo” ( Ef 1:1 -2).

Tanto Pedro quanto Paulo se apresentam, identificam os destinatários, saúdam com graça e paz, apresentam o local onde os cristãos se reuniam, porém, enquanto Pedro fala da nova condição pertinente aos salvos, ‘eleitos’ (presente), Paulo faz referência ao evento da eleição (passado).

Ora, Deus elegeu os cristãos em Cristo ( Ef 1:3 ), e os cristãos são eleitos (condição atual) por estarem em Cristo ( 1Pe 1:2 ).

Para os arminianistas a eleição é segundo a presciência de Deus, e os calvinistas apontam a soberania de Deus. Como a maioria dos tradutores segue uma tendência teológica, não sabemos o quanto estes posicionamentos doutrinários influenciam os tradutores.

Porém, é possível extrair do texto uma resposta: a eleição não é segundo a presciência e nem segundo a providência de Deus Pai, antes é na (em, ou através) Santificação do Espírito. Observe:

segundo a presciência de Deus Pai

Eleitos (condição atual) na santificação do Espírito

para a obediência e aspersão do sangue

Se considerarmos que a frase ‘segundo a presciência de Deus Pai’ é um aposto explicativo, veremos que não imposta à posição que ela é inserida no texto. Ora, têm-se várias cominações possíveis:

“… segundo a presciência de Deus Pai, eleitos na santificação do Espírito para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo…”, ou;

“… eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, na santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo…”, ou;

“… eleitos na santificação do Espírito, segundo a presciência de Deus Pai, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo…”, ou;

“… eleitos na santificação do Espírito para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo, segundo a presciência de Deus Pai…”.

Alguém que segue uma visão arminianista prefere agrupar as várias frases que compõe o versículo segundo a sua concepção: eleitos segundo a presciência. Outro, que não prefere a concepção arminianista, mas a calvinista, preferem a providência divina.

Porém, de acordo com o restante das escrituras, a eleição não é segundo a presciência, antes a eleição é segundo o propósito eterno de Deus. Ora, se é segundo o propósito eterno não pode ser segundo a presciência!

Por tanto, para interpretar ( 1Pe 1:2 ), é necessário considerar que:

  • Nenhum ponto das Escrituras deve ser considerado isoladamente do restante das escrituras “Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação” ( 2Pe 1:20 );
  • Algumas frases contidas nos textos são um tipo de aposto explicativo;
  • É necessário observar a forma do discurso do interlocutor, que neste caso específico é o apóstolo Pedro;
  • Não deixar ser influenciado por tendências doutrinárias, que são muitas;
  • Comparar o versículo com o texto de outros escritores da bíblia;
  • Por ser um versículo complexo deve ser analisado segundo a ideia geral da bíblia.

Segundo o que Paulo demonstra, os cristãos foram eleitos em Cristo “Pois nos elegeu nele…” ( Ef 1:4 ), e Pedro do mesmo modo demonstra que os eleitos alcançaram está condição ‘… em santificação do Espírito…’ ( 1Pe 1:2 ).

Perceba que tanto Pedro quanto Paulo utiliza o dativo de forma especial (en Cristo = em Cristo) ao escreverem acerca da eleição. É um uso específico do dativo preposicionado, característica própria à sintaxe cristã ao utilizarem o grego.

Ora, Paulo disse que os cristãos foram eleitos em Cristo, portanto, não podemos interpretar que a eleição é segundo a presciência, e sim, em santificação do Espírito.

Como? Ora, as palavras de Cristo são Espírito e vida “O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são espírito e vida” ( Jo 6:63 ). É através da Palavra que Cristo santificou a sua igreja “Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra” ( Ef 5:26 ).

A santificação do Espírito é pela palavra do evangelho e a eleição se deu em Cristo, ou seja, ‘em santificação do Espírito’ (santificação pela palavra), pois Cristo é o Verbo de Deus, a palavra da vida encarnada.

Ora, dizer que os cristãos foram eleitos ‘em Cristo’, ou que são eleitos ‘em santificação do Espírito’ evidencia a mesma ideia: a nova criatura (os cristãos) é eleita por estar em Cristo ( 2Co 5:17 ).

Segundo Paulo, os cristãos foram eleitos para serem santos e irrepreensíveis, ou seja, é para santificação que os cristãos foram eleitos em Cristo antes da fundação do mundo. Temos aqui dois eventos distintos:

  • antes dos tempos eternos, segundo o seu propósito eterno, Deus escolheu a Cristo para ser preeminente sobre todas as coisas;
  • para que Cristo fosse preeminente em tudo, Deus o constituiu como cabeça da igreja, que são os santificados pela palavra, as novas criaturas, homens nascidos segundo Deus em verdadeira justiça e santidade.

Em Cristo Deus escolheu os cristãos para que hoje sejam santos e irrepreensíveis. Paulo apresentou o tempo da eleição para demonstrar que os cristãos agora estavam em Cristo na condição de eleitos de Deus ( Ef 1:13 ), e Pedro apresenta a condição dos cristãos hoje (eleitos), e como alcançaram tal condição: em santificação pelo Espírito.

Percebe-se que através da santificação se dá a eleição dos homens, pois para a santificação é necessário ser anunciada a palavra aos homens, estes por sua vez creiam na pregação, e Deus opera a sua maravilhosa obra: a regeneração. Através da regeneração ocorre a justificação e santificação simultaneamente.

Paulo demonstra que os cristãos foram eleitos para santificação (objetivo), e Pedro demonstra que pela santificação do Espírito os Cristãos são eleitos (condição). A condição de eleitos decorre da santificação, mas quando Deus escolheu antes dos tempos eternos aqueles que estariam em Cristo, foi para serem santos e irreprimíveis.

Cristo demonstrou que a santificação é proveniente da sua palavra, que é espírito e vida para todos os que creem. A regeneração só é operada através da semente incorruptível, que é a palavra de Deus. Compare: “Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas” ( 1Pe 1:2 ), e “Tendo purificado as vossas almas na obediência a verdade…” ( 1Pe 1:22 ).

A ‘santificação’ ou ‘purificação’ só ocorre através da obediência.

Mas, o que é obediência? Obediência é crer na mensagem do evangelho do mesmo modo que cumprir os mandamentos de Deus é crer em Cristo ( 1Jo 3:23 ). Qual a verdade que os cristãos da Galácia não estavam obedecendo? À verdade do evangelho “Ó INSENSATOS gálatas! quem vos fascinou para não obedecerdes à verdade, a vós, perante os olhos de quem Jesus Cristo foi evidenciado, crucificado, entre vós?” ( Gl 3:1 ).

Como se obedece a verdade do evangelho? Crendo, como está escrito: “Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido” ( Rm 10:11 ).

Pedro procurou demonstra em sua saudação inicial que os cristãos são os eleitos de Deus, pois todos são santos por estarem em Cristo ( Ef 1:2 ). Eles tornaram-se santos (separados) após serem lavados pela palavra da verdade, a palavra do evangelho que obedeceram.

É através da obediência ao evangelho e aspersão do sangue de Jesus que os cristãos foram purificados, tornaram-se eleitos.

Tudo o que ocorreu com os cristãos após ouvirem e obedecerem à palavra do evangelho (aspersão do sangue, santificação e eleição) já era de conhecido de Deus (onisciência) antes dos tempos eternos “Pois os que dantes conheceu…” ( Rm 8:29 ).

Quando os apóstolos falaram da eleição, eles tinham em mente a geração que foi escolhida por Deus e a condição dessa geração. A geração dos eleitos ocorre em Cristo, e a geração dos não eleitos, em Adão ( 1Pe 2:9 ). A geração dos eleitos (justos) se dá em Cristo e a geração dos não eleitos (ímpios) em Adão porque uma é a geração dos justos e outra é a geração dos ímpios.

Nenhum descendente da carne de Adão foi eleito por Deus para ser santo e irrepreensível, antes só os homens que creem em Cristo, ou seja, que obedeceram a verdade do evangelho e são de novo gerados segundo Deus, são eleitos para serem santos (separados). É por isso que apóstolo Pedro fala que é por meio da santificação do Espírito que os cristãos são conhecidos d’Ele.

A ideia que Pedro procurou evidenciar é a mesma que Paulo demonstrou no verso seguinte: “Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” ( Gl 4:9 ).

Através da onisciência Deus é conhecedor de todas as coisas, ou seja, nada se exclui do seu saber, conhecimento. Porém, quando os cristãos eram incrédulos, eles não eram conhecidos de Deus. O que isto quer dizer, que Deus não é conhecedor de todas as coisas? ( Gl 4:8 ).

Não! Quando os cristãos não conheciam a Deus, Deus também não os conhecia. Porém, agora que conheceram a Deus, ou antes, tornaram-se um com Ele, conhecidos por Ele através da aspersão do sangue de Cristo que se da através da obediência à sua palavra, tornaram se filhos, eleitos (escolhidos) conforme o propósito eterno, que é a preeminência de Cristo como cabeça da igreja.

Conhecer a Deus vai além de um simples saber. Fala de união, ou seja, de tornar-se um só corpo com Cristo, conhecendo um ao outro em amor. Quando o cristão torna-se um só corpo com Cristo é o mesmo que Deus ter conhecido os cristãos, tornam-se um só corpo, pois o homem passa a compartilhar da natureza divina ( 2Pe 1:4 ).

A palavra ‘presciência’ não deve ser utilizada para fazer referência a ideia de que Deus antevê eventos futuros, pois Deus sabe de todas as coisas e eventos através dos séculos igualmente bem, o que se dá o nome de onisciência. O termo ‘presciência’, ou melhor, pré-conhecimento ou pré-ciência refere-se á mensagem acerca do Cristo que os profetas anunciaram de antemão (previamente). Que por intermédio do conhecimento de Deus em Cristo os homens tornar-se-iam um com Deus, conhecendo-O ( Dt 9:24 ; Am 3:2 ; Mt 7:23 ; Jo 10:14 -15).

Ora, o sangue da aspersão foi conhecido ainda antes da fundação do mundo do mesmo modo que os eleitos são conhecidos d’Ele através da aspersão deste mesmo sangue ( 1Pe 2:20 ).

Isto não coaduna com a ideia arminianista de que Deus determinou quem seria salvo através da ‘presciência’. O que Pedro demonstra não é o atributo da onisciência, antes que Deus determinou tudo o que é relativo à salvação do homem: o cordeiro, a palavra e a fé.

 

3 Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos,4 Para uma herança incorruptível, incontaminável, e que não se pode murchar, guardada nos céus para vós, 5 Que mediante a fé estais guardados na virtude de Deus para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo

Após o prefácio e a saudação, Pedro passou a bendizer a Deus pela sua misericórdia.

A estrutura inicial desta carta é similar a carta de Paulo aos Efésios e aos Salmos 103 e 104.

Pedro passa a bendizer, ou seja, a adorar a Deus reconhecendo os atributos de Deus (Salmos 104) e os benefícios concedidos aos homens (Salmos 103).

O fato de Pedro bendizer ou adorar a Deus nada acrescenta ao Criador, pois Deus não depende da adoração de suas criaturas para existir. Diferente são as imagens esculpidas, que são ícones idolatrados que surgem e são mantidos somente por serem venerados pelos homens, e que dependem desta veneração para continuarem sendo ídolos.

No entanto, os ídolos nada são ( 1Co 8:4 ), pois mesmo quando venerados, a adoração dos seus adeptos nada acrescenta ou omite as imagens de escultura. Somente são ídolos por causa de seus veneradores, mas afastando os seus adeptos, nada representam.

Como o homem adora a Deus?

Em primeiro lugar, só é possível adorar a Deus em espírito e em verdade, ou seja, somente aqueles que creram em Cristo e foram de novo criados é que o adoram segundo o que Ele estipulou: em espírito e em verdade;

Após o novo nascimento, cabe ao cristão reconhecer a grandeza de Deus e todos os seus atributos, e cantar todos os benefícios concedidos.

Pedro bendiz a Deus pela sua misericórdia, do mesmo modo que Davi e Paulo bendisseram ( Ef 1:3 ; Sl 103:10 ).

Ele aponta a misericórdia de Deus como sendo a causa de uma nova esperança, ou seja, em primeira instância a fé e a esperança do crente estão em Deus ( 1Pe 1:21 ).

Pedro é bem claro ao falar da regeneração em Cristo: gerar de novo. Ora, nascer de novo é o mesmo que ser participante de uma nova geração. Em Adão os homens são gerados segundo a carne, em Cristo, o último Adão, os homens são gerados de novo. Esta é a geração dos justos e aquela é a geração dos ímpios.

Mas, como ocorre o novo nascimento?

O ‘gerar de novo’ é um ato criativo de Deus (bara), onde Ele concede um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ). Deus não reformula ou melhora o velho homem gerado em Adão, antes, Ele faz tudo novo.

Quando Pedro falou ‘nos gerou de novo’, ele se incluiu na narrativa para demonstrar que, tanto ele quanto os cristãos foram de novo gerados. Este não é um privilégio restrito, antes todos os que creem são novamente criados.

É através da ressurreição de Cristo que Deus concede nova vida aos que crêem. Pela ressurreição de Cristo, o primogênito dentre os mortos, os homens nascidos sob a condenação de Adão também ressurgem para a glória de Deus e passam a condição de filhos de Deus, e Cristo assume a posição sublime de primogênito entre muitos irmãos.

Assim como Cristo ressurgiu dentre os mortos e ascendeu aos céus, os cristãos ressurgem com Cristo e assentam se nas regiões celestiais em Cristo. O mesmo poder que agiu em Cristo ressuscitando-O dentre os mortos é que opera a ressurreição dos que são alcançados pela misericórdia de Deus ( Ef 1:19 -20).

A viva esperança do crente é uma herança incorruptível e incontaminável, que não está guardada neste mundo, antes está guardada nos céus. A herança diz de bênçãos, do mesmo modo que Paulo agradece a Deus por todas as bênçãos concedidas por Deus ( 1Pe 3:9 ; Ef 1:3 ).

Ora, o que guarda o cristão para salvação é o poder de Deus, da qual o homem torna-se participante pela fé. Não é a confiança do homem que o salva ou que o sustem (guarda), antes é o poder de Deus que preserva o homem na salvação recebida.

Qual a virtude ou, qual o poder de Deus para salvação?

O poder de Deus para salvação é o evangelho de Cristo, como lemos em Romanos “Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego” ( Rm 1:16 ; Jo 1:12 ; 1Co 1:18 ).

Basta descansar (crer) em Deus que os cristãos são escondidos (guardado) através do seu poder para salvação que será manifesta muito em breve a todos. Revelar, tornar conhecido a todos os homens o retorno de Cristo (V. 5).

O poder de Deus que preserva os que creem da contaminação deste mundo é o evangelho da graça.

 

6 Em que vós grandemente vos alegrais, ainda que agora importa, sendo necessário, que estejais por um pouco contristados com várias tentações, 7 Para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece e é provado pelo fogo, se ache em louvor, e honra, e glória, na revelação de Jesus Cristo; 8 Ao qual, não o havendo visto, amais; no qual, não o vendo agora, mas crendo, vos alegrais com gozo inefável e glorioso; 9 Alcançando o fim da vossa fé, a salvação das vossas almas.

A alegria do cristão é proveniente das coisas pertinentes à salvação. Este deve ser o contentamento e a exultação do cristão, a salvação.

Há quem exulte por expulsar demônios ou quando opera algum milagre, porém, o alerta solene de Jesus é: “Mas, não vos alegreis porque se vos sujeitem os espíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus” ( Lc 10:20 ).

Esta recomendação de Jesus e do apóstolo Pedro é para que os cristãos não caiam no engodo do diabo e sejam levados pelos falsos profetas que fazem inúmeros milagres ( Mt 7:22 ).

A alegria pela salvação também se faz acompanhar de aflições. As aflições e as tentações contristam os seguidores de Cristo, mas estas coisas não são para comparar com a glória futura “Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós” ( Mt 5:12 ).

No verso sete, Pedro aborda a questão da perseverança e compara a fé com o processo de purificação do ouro.

A fé comparada com o ouro é muito mais preciosa. O ouro que segundo a concepção dos homens é um material nobre e que resiste ao tempo, porém, mesmo após ter sido provado pelo fogo continua sendo perecível.

A fé dos cristãos, quanto mais provada, redundará em louvor, honra e glória quando da volta de Cristo. Quanto maior as provações, ficará demonstrado quão grande é o valor da nossa fé, a fé que uma vez foi entregue aos santos (Judas 3).

Pedro demonstra quão maravilhoso é o evangelho, visto que ele apresenta aos cristãos Cristo crucificado, mas, mesmo não tendo visto a Cristo em carne, ou ressurreto, foram conquistados pelo seu amor.

Embora os cristãos não vejam a Cristo agora, o amam crendo, e sentem as suas vidas inundadas por uma alegria inefável e gloriosa. A alegria de Deus é proveniente da paz estabelecida entre Deus e os homens.

A perseverança fará com que os cristãos alcance o objetivo fim proposto no evangelho, a fé que foi entregue aos cristãos. Ora, os cristãos já haviam feito a vontade Deus quando creram na mensagem do evangelho, mas precisavam perseveram na fé que professaram para colocarem as mãos na herança prometida “Porque necessitais de perseverança, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” ( Hb 10:36 ).

 

10 Da qual salvação inquiriram e trataram diligentemente os profetas que profetizaram da graça que vos foi dada, 11 Indagando que tempo ou que ocasião de tempo o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava, anteriormente testificando os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir. 12 Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar. 13 Portanto, cingindo os lombos do vosso entendimento, sede sóbrios, e esperai inteiramente na graça que se vos ofereceu na revelação de Jesus Cristo;

Pedro apresenta um fato curioso acerca dos profetas do Antigo Testamento. Eles inquiriram diligentemente acerca de Cristo, a salvação que seria manifesta aos homens.

Os profetas perguntavam sobre a salvação que haveria de ser relevada, e eram diligentes quando profetizavam acerca de Cristo. Eles queriam saber os tempos que Deus estabeleceu pelo seu poder.

O Espírito de Cristo concediam aos profetas mensagens acerca da vinda do Messias e dos seus sofrimentos, porém, a época em que estes eventos se dariam não lhes era revelado.

Ora, segundo a onisciência de Deus Pai os eventos futuros eram revelados aos profetas, mas o fato de Deus conceder de antemão a revelação de eventos futuros (pré-conhecimento/πρόγνωσις/prognósis) não interfere nas decisões dos homens (v. 11). Cristo foi preso, crucificado e morto porque aprouve a Deus enfermá-lo, mas tudo ocorreu segundo o que foi vaticinado pelos santos profetas  “A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência (προγνώσει) de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos” ( At 2:23 ).

É pela onisciência que Deus antecipou aos seus profetas os eventos futuros, porém, a salvação não é determinada com base na ideia equivocada de ‘presciência’ como ‘saber de antemão’, antes a salvação é na santificação através da obediência ao evangelho, que é a fé entregue aos santos ( Jd 1:3).

Os profetas tinham conhecimento que falavam de coisas grandiosas para outros, e que as suas mensagens não diziam respeito a eles. Pedro quer que os cristãos tenham na memória que os profetas não profetizam acerca de bens para eles mesmos, antes, que eles (profetas) conheciam plenamente que outros seriam favorecidos pela graça de Deus.

Os profetas testificavam acerca de Cristo, e os apóstolos agora, pelo Espírito Santo anunciavam o evangelho. Ou seja, a mensagem anunciada aos cristãos era a mesma anunciada pelos profetas e que lhes aguçava a curiosidade para saber a respeito da salvação que hoje é revelada.

Muitos entendem que os anjos desejaram pregar o evangelho aos homens, porém, Pedro estava demonstrando que a mesma curiosidade pertinente aos profetas, também era pertinente aos cristãos. Do mesmo modo que os profetas inquiriram diligentemente, os anjos também desejaram compreender (v. 12b).

As coisas que os anjos desejaram atentar não foi desejo de anunciar as boas novas do evangelho, antes desejaram compreender a multiforme sabedoria de Deus, que até antes do advento da igreja era um mistério aos principados e potestades celestiais ( Ef 3:10 ).

Ora, se os anjos desejaram compreender as grandezas do evangelho, e os profetas inquirira diligentemente acerca da salvação, coisa que não estava reservada a eles, chega-se a seguinte conclusão: “Portanto,…” ( 1Pe 1:13 ).

Se os anjos desejaram compreender e os profetas inquiriram acerca dos tempos, o que resta aos que estão sendo beneficiados pela salvação revelada é cingir os lombos do entendimento. A recomendação de Pedro é para que os cristãos tenham uma compreensão apurada acerca das riquezas de Deus apresentada no evangelho.

Quando os cristãos ajustam bem a sua compreensão acerca do evangelho, deixando de lado as dúvidas e especulações, ele passa a esperar inteiramente na graça oferecida. Sobre a compreensão dos cristãos o apóstolo Paulo orou a Deus pelos cristãos em Éfeso: “Oro para que, estando arraigados e fundados em amor, possais perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade” ( Ef 3:18 ).

A compreensão acerca das verdades eternas deve ser a temática da vida cristã, pois o cristão só consegue crescer na graça e conhecimento de Cristo. Não há crescimento espiritual, pois o homem espiritual é perfeito diante de Deus. Muitos apregoam crescimento espiritual, mas os cristãos já são criados idôneos, ou seja, já pode participar da herança dos santos em Deus ( Cl 1:12 ).

O que é preciso àqueles que creram na mensagem do evangelho? Falta somente transformarem-se através da renovação do entendimento. O que era pertinente a velha natureza, o cristãos deve lançar fora, para viver segundo o conhecimento de Cristo ( Rm 12:2 ).

Do mesmo modo que Paulo agradece a Deus pelas bênçãos alcançadas do verso 3 ao 14 da carta aos Efésios, e ora a Deus para conceder aos cristãos o que lhes faltava (conhecimento) ( Ef 1:18 ), Pedro recomenda os cristãos a ajustar a compreensão acerca do conhecimento revelado.

Jesus alertou na parábola da semente que a compreensão é essencial a salvação, pois a ação nefasta do inimigo do homem é arrancar a semente dos corações que não compreendem “Ouvindo alguém a palavra do reino, e não entendendo, vem o maligno e arrebata o que foi semeado no coração” ( Mt 13:19 ).

É por isso que o escritor aos Hebreus recomenda os cristãos atentarem diligentemente para as coisas que já ouviram, para que em tempo algum (bonança ou perseguição) se desviem ( Hb 2:1 ).

Pedro recomenda a sobriedade, pois ela é essencial à vigilância, principalmente àqueles que aguardam a revelação de Cristo Jesus, o Senhor ( 1Ts 5:6 ).

 

14 Como filhos obedientes, não vos conformando com as concupiscências que antes havia em vossa ignorância; 15 Mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver; 16 Porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo. 17 E, se invocais por Pai aquele que, sem acepção de pessoas, julga segundo a obra de cada um, andai em temor, durante o tempo da vossa peregrinação, 18 Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que por tradição recebestes dos vossos pais, 19 Mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado,

O comportamento dos cristãos deve ser conforme o comportamento de filhos obedientes. Quando obedeceram a fora de doutrina que foi entregue no evangelho, crendo, os cristãos receberam poder para serem feitos (criados) filhos de Deus ( Jo 1:12 ).

Agora, de posse desta nova condição: filhos do Deus vivo, também devem viver como filhos obedientes. Ora, não é o comportamento dos cristãos que os faz filhos de Deus, e nem o comportamento diário que os mantém na condição de filhos.

Antes, os cristãos são filhos porque obedeceram ao mandamento que diz: “Ora, o seu mandamento é este, que creiamos no nome do eu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 2:23 ). Crer é o mesmo que obedecer a Deus!

Porém, apesar de não ser o comportamento que faz o homem filho de Deus, antes o ser de novo gerado segundo o poder do evangelho, agora que se é filho, os cristãos não devem se conformar com as concupiscências que antes tinham na ignorância.

Os desejos são pertinentes ao homem. Desde o Éden a concupiscência acompanhava o homem ( Gn 3:6 ). Percebe-se que a concupiscência não é o pecado, porém, os desejos do novo homem não devem ser conforme os desejos dos homens que ainda vivem na ignorância.

Se o homem foi alcançado pelo conhecimento do evangelho, que o liberta das trevas da ignorância, deve agora pensar nas coisas que são de cima, onde Cristo está assentado a destra de Deus. Deve aguardar inteiramente na graça que a revelação de Cristo oferece (v. 13).

Os desejos são pertinentes a esta vida, e todos que se deixam levar pelas concupiscências da carne, dos olhos e pela soberba da vida é por que não são sóbrios (vigilantes). Pedro quer demonstrar que a concupiscência gera tentação “Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência, depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte” ( Tg 1:14 -15).

Os cristãos devem pautar os seus desejos segundo o amor não fingido, pois os desejos segundo a concupiscência dos homens não é pertinente àqueles que foram iluminados pela luz do evangelho “Para que, no tempo que vos resta na carne, não vivais mais segundo as concupiscências dos homens, mas segundo a vontade de Deus” ( 1Pe 4:2 ).

Mas, como é Santo Àquele que chamou os cristãos à sua misericórdia, os cristãos também deveriam ser santos em todo o procedimento.

Observe que o comportamento dos cristãos é uma recomendação do apóstolo, e não uma imposição de Deus. Deus é santo porque a ninguém oprime, ou seja, ele não obriga nenhuma de suas criaturas a servi-lo “Ao Todo-Poderoso não podemos alcançar; grande é em poder; porém a ninguém oprime em juízo e grandeza de justiça” ( Jó 37:23 ).

Ele é santo e por isso chama, convida, oferece aos homens salvação. A santidade de Deus não impõe aos homens a sua vontade. Ele não predestina ninguém à salvação ou à perdição.

O cristão é santo porque foi criado de novo participante da natureza de Deus. Não é o comportamento do cristão que o mantém separado dos pecadores, pois há muitos pecadores que tem uma vida regrada, e não são santos (separado para uso exclusivo de Deus).

Mas, como Deus é santo e chamou o homem à santidade, é de bom alvitre que os cristãos mantenham-se separados também do comportamento dos ímpios pecadores ( 1Pe 1:15 ).

Ora, Pedro não faz esta recomendação por acaso, visto que está escrito: “Sede santos, porque eu sou santo” ( 1Pe 1:16 ). Ora, o versículo não recomenda aos homens que se santifiquem, pois isto é impossível aos homens. Antes o versículo expressa a vontade de Deus, pois é através da oferta do corpo de Cristo que o homem é santificado ( Hb 10:10 ).

Ora, quando Deus diz: ‘Sede santo’, temos a sua vontade (querer), e o seu efetuar através da sua palavra (Sede) “Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade” ( Fl 2:13 ). ‘Sede’ não é uma ordem, antes expressa a vontade de um Deus que trabalha para aqueles que nele esperam.

Este verso apresenta a mesma vontade de Deus a Abraão, ‘anda na minha presença e sê perfeito’ ( Gn 17:1 ). Ora, ser perfeito não é a condição para se andar na presença de Deus, mas ao andar na presença de Deus, o homem é perfeito, visto que ele justifica todos os que nele esperam como foi justificado Abraão pela fé.

Deus não exige perfeição do homem, antes é na sua vontade que o homem é aperfeiçoado “Perfeito serás, como o SENHOR teu Deus” ( Dt 18:13 ). O homem só é santo porque Deus o separou dos demais para ser santos ( Lv 20:26 ).

Pedro chama os seus interlocutores ao raciocínio. Se os cristãos invocam por Pai um Deus que não faz acepção de pessoas, ou seja, um Deus que julgará e retribuirá a cada um segundo as suas obras, deve entender que, se Deus punirá os ímpios pelas suas más ações, também será censurando pelo mal ou bem que houver feito ( 2Co 5:10 ).

Ora, os seus filhos precisam compreender que, o comportamento não é para salvação, visto que a salvação é em Cristo, porém, assim como os ímpios serão julgados segundo as suas obras, os justos também serão.

Quem cinge os lombos do entendimento compreendem que Deus não faz acepção de pessoas; que não foi com coisas corruptíveis que foram salvos; que o sangue de Cristo é precioso, o cordeiro de Deus sem mácula.

Pedro convoca os cristãos à sobriedade, para que não andassem segundo a vaidade dos pensamentos, entenebrecidos no entendimento ( Ef 4:17 -18), mas que servissem ao Senhor não fazendo uso do que é pertinente ao velho homem, que já foi crucificado e sepultado co Cristo ( Cl 3:8 -10).

 

20 O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós; 21 E por ele credes em Deus, que o ressuscitou dentre os mortos, e lhe deu glória, para que a vossa fé e esperança estivessem em Deus;

Pedro compara o sangue de Cristo como sendo o de um cordeiro sem mancha ou mácula, ou seja, perfeito ( 1Pe 1:19 ).

Ora, Cristo foi ‘conhecido’ do Pai antes da fundação do mundo (na eternidade). Em ‘outro tempo’, ou seja, um tempo específico que não é conforme o tempo dos homens.

Mas, o que é ter sido ‘conhecido’ antes da fundação do mundo? Que tipo de ‘conhecer’ é este apontado pelo apóstolo Pedro?

É ‘conhecido’ de Deus aquele que o ama “Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido dele” ( 1Co 8:3 ). Jesus também falou acerca de ter sido conhecido do Pai, pois o Pai O amou: “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me amaste antes da fundação do mundo” ( Jo 17:24 ).

Compare:

a) “… porque tu me amaste antes da fundação do mundo” ( Jo 17:24 );
b) “O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo…” ( 1Pe 1:20 ).

Antes de haver mundo, Cristo e o Pai estavam unidos em amor, que é o vínculo da perfeição, ou seja, Cristo é conhecido do Pai antes mesmo de ser introduzido no mundo como Filho amado.

Ser conhecido de Deus é estar em Deus e Deus em nós. O homem em Deus é surpreendente, porém, Deus nos homens é maravilhoso!

Ser ‘conhecido’ de Deus é uma forma específica de fazer referência a divindade de Cristo. É fazer dos homens e as pessoas da divindade um só “Eu e o Pai somos um” ( Jo 10:30 ), e “Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti. Que eles também sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes dei a glória que tu me deste, para que sejam um, como nós somos um: Eu neles, e tu em mim, para que sejam perfeitos em unidade…” ( Jo 17:21 -23).

Ora, o mundo não conheceu a Cristo porque não amou a Deus, mas Cristo conheceu a Deus, pois sempre estiveram unidos em amor. O ‘conhecer’ de Deus é compartilhar da mesma natureza, e os anjos, apesar de maior em poder e glória, jamais serão conhecidos do mesmo modo que os que creem conhecem a Deus, ou antes, são conhecidos dele ( Gl 4:8 -9).

Observe que Cristo foi conhecido de Deus e revelado aos homens. Os anjos não conheceram a Cristo como o Verbo encarnado na eternidade, mas viram o Unigênito de Deus que foi revelado aos homens “E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória” ( 1Tm 3:16 ).

Os anjos ficaram maravilhados quando viram que Deus se manifestou aos homens em carne, o Verbo Eterno encarnado. Foi lhes revelado a multiforme sabedoria quando viram que todos que creem tornam-se semelhantes a Cristo, pois são novamente criados em verdadeira justiça e santidade segundo o poder contido no evangelho.

A palavra grega ‘proginosko’ (conhecer) usada em At 26:5 ; Rm 8:29 ; Rm 11:2 ; 1Pe 1:20 e 2Pe 3:17 não é idêntica à palavra grega ‘prognosis’, usada em At 2:23 e 1Pe 1:2 , mesmo sendo correlatas. ‘Presciência’ não é um dos aspectos da ‘onisciência’, atributo de Deus relacionado ao conhecimento que ele tem de todas as coisas em todos os tempos (eternidade e o tempo dos homens: passado, presente e futuro).

Ao unirem-se (conhecer) o homem e a mulher, tornam-se uma só carne, mas o mistério eterno revela-se na igreja, quando o cristãos torna-se membro do corpo de Cristo ( Ef 5:30 -32).

Cristo foi manifesto aos homens para que eles pudessem crer em Deus. Como? Ora, a mensagem do evangelho demonstra que Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pelo poder de Deus, e que ele recebeu glória e poder, fato que dá garantias, àqueles que com medo da morte eram servos do pecado, de que basta confiar em Deus que será livre do medo e da servidão “E livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão” ( Hb 2:15 ).

Cristo foi manifesto porque Deus amou o mundo de tal maneira (v. 20), e deu o seu Filho (que foi morto e ressurgiu), para que, por intermédio de Cristo, exemplo de fé (autor e consumador), os homens também passem a crer em Deus (v. 21).

Ora, a fé está em Deus, que zela pela sua palavra para cumpri-la, e a esperança do homem também, pois espera inteiramente na salvação que a revelação de Cristo oferece gratuitamente.

Ora, mediante a fé os cristãos estão guardados na virtude (fidelidade) de Deus. A palavra do evangelho é a fé que um dia foi dada aos santos (Judas 3), e por meio dela o cristãos é preservado, esperando inteiramente na graça oferecida.

Esperar em Deus é fé, porém, a palavra do evangelho também é designada fé. A fé que o homem deposita em Deus equivale a esperança, e a fé que foi entregue aos santos (evangelho) é o mesmo que ‘esperança proposta’ ( 1Pe 1:5 ; 13 e 21). Deste modo temos uma esperança proposta, que é designada evangelho ou fé, e quem tem esta esperança em Deus, exerce ‘fé’ (esperança) em Deus.

Os calvinistas e arminisnistas causam um grande prejuízo à compreensão da verdade do evangelho porque não conseguem distinguir que o evangelho é o mesmo que a esperança proposta. Que o evangelho é a fé que uma vez foi dada aos santos.

Caso conseguissem distinguir que o evangelho, a esperança proposta e a fé dada aos santos são coisas provenientes de Deus, veriam também que crer na mensagem do evangelho, ter fé em Deus é o mesmo que esperar inteiramente na esperança proposta.

 

22 Purificando as vossas almas pelo Espírito na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingido; amai-vos ardentemente uns aos outros com um coração puro; 23 Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre. 24 Porque Toda a carne é como a erva, E toda a glória do homem como a flor da erva. Secou-se a erva, e caiu a sua flor; 25 Mas a palavra do SENHOR permanece para sempre. E esta é a palavra que entre vós foi evangelizada.

Os versos 22 e 23 são equivalentes, ou seja, expressam dois eventos provenientes da mensagem do evangelho.

Somente Deus gera de novo e purifica o homem. Somente Deus podia realizar o pedido do salmista Davi: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto” ( Sl 51:10 ). Somente Deus (Espírito) pode espargir água limpa (palavra) sobre os homens, concedendo-lhes um novo coração e um novo espírito ( Ez 36:25 -27). O novo Nascimento somente ocorre por intermédio da água (semente incorruptível) e do Espírito (Deus) ( Jo 3:5 ).

Pedro demonstra que efetivamente os cristãos foram purificados quando creram na mensagem do evangelho (v. 22). ‘Obedecer à verdade’ é o mesmo que ‘cumprir o mandamento de Deus’ que é: “… que creiamos no nome do seu Filho…” ( 1Jo 3:23 ).

Somente quando se crê (obedece) na mensagem do evangelho o Espírito Eterno digna-se em realizar a sua obra “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

Deus purifica o homem completamente (livra do jugo) e o fardo que agora deve carregar por estar em Cristo é amar uns aos outros, segundo o seu mandamento ( 1Jo 3:23 ).

Antes, por ser descendente de Adão, o coração do homem era ‘enganoso’ e ‘incorrigível’, agora, por estar em Cristo, foi concedido um novo coração puro, sendo possível amar uns aos outros ardentemente com um coração puro ( Jr 17:9 ; Sl 51:10 ; 1Pe 1:22 ).

Observe a semelhança entre o verso 22 e o verso 2:

“…eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, na santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus …” (v. 1);
“Tendo purificado as vossas almas na obediência à verdade…” (v. 22).

Pedro apresenta a doutrina da regeneração ou do novo nascimento.

Por que os cristãos foram de novo gerados? Porque todos os homens são gerados em Adão, de uma semente corruptível ( Jo 1:13 ). Após crer na mensagem do evangelho, os homens que foram gerados em Adão, agora são de novo gerados pela palavra de Deus.

A palavra de Deus é viva e permanece para sempre, e todos que são de novo gerados passam a viver para sempre com Deus.

Para demonstrar que todos os homens nascidos em Adão são perecíveis, Pedro cita uma passagem de Isaias: “Diz uma vos: Clama. E eu disse: Que hei de clamar? Todos os homens são como a erva, e toda a sua beleza como as flores co campo. Seca-se a erva, e caem as flores, soprando nelas o hálito do Senhor. Na verdade o povo é erva. Seca-se a erva, e caem as flores, mas a palavra do nosso Deus subsiste eternamente” ( Is 40:6 -8).

Observe que a citação de Pedro não é “ips literis”. Ele somente evidência a ideia do texto de Isaias, demonstrando que todos os homens nascidos da carne (toda carne) são comparados a erva. Toda a glória que o homem possui é comparável a flor da erva.

Para demonstra quão fugaz é a existência dos homens, Pedro somente arremata: “Secou-se a erva, e caiu a sua flor”. Ele não se ateve ao processo de degradação pertinente a existência do homem que culmina com os eu retorno ao pó da terra.

Já a palavra de Deus é completamente diferente: ela permanece para sempre, e os que por ela são de novo gerados subsistem eternamente.

Sobre esta verdade Jesus disse: “Ele, porém, respondendo, disse: Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” ( Mt 15:13 ).

Ora, a planta que o Pai não plantou são os homens nascido em Adão e todos serão arrancados. Porém, aqueles que nascem da palavra de Deus, são plantação do Senhor, árvores de justiça “A ordenar acerca dos tristes de Sião que se lhes dê glória em vez de cinza, óleo de gozo em vez de tristeza, vestes de louvor em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem árvores de justiça, plantações do SENHOR, para que ele seja glorificado” ( Is 61:3 ).

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Tiago 1 – Perseverança

A determinação é específica aos cristãos (meus amados irmãos). O apóstolo solicita aos cristãos que não errassem demonstrando que, mesmo os cristãos são passíveis de erros. Qual o erro que o apóstolo Tiago repreende? Erros comportamentais ou conceituais? O apóstolo faz uma repreensão acerca de erros conceituais, visto que alguns destes erros já havia se instalado na compreensão de alguns. Pensar que as tentações são provenientes de Deus é um erro conceitual, porém, a verdadeira concepção acerca de Deus é que Ele concede boas dádivas e todo dom perfeito.

Introdução

O apóstolo Tiago utiliza uma linguagem própria aos evangelistas. Ele não se fixa nos pormenores e nas argumentações teológicas.

A linguagem utilizada por Tiago é bem próxima a do apóstolo João, e faz uma abordagem prática do evangelho.

A abordagem de Tiago difere um pouco da abordagem de Paulo, porém, não há discrepância alguma entre os escritos deles.

Analisaremos os escrito de Tiago, comparando-os com as argumentações de Paulo, quando possível.

A Obra Perfeita da Fé

 

1 Tiago, servo de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, às doze tribos que andam dispersas, saúde.

O apóstolo Tiago dá inicio a sua carta com as mesmas considerações de Paulo. Eles se consideravam servo de Deus e do Senhor Jesus.

A apresentação de Tiago é sucinta, isto porque ele não enfrentava os mesmos problemas que o apóstolo Paulo, Paulo tinha o seu apostolado contestado por grupos judaizantes.

Os destinatários da carta são identificados como sendo as doze tribos da dispersão. O apóstolo Pedro também nomeia os destinatários de sua carta de forma semelhante.

Tal nomeação não se refere ao povo de Israel, antes aos cristãos, sejam eles judeus ou gentios que estavam ‘dispersos’ pelo mundo de então.

Quando Tiago identifica os destinatários como sendo os cristãos, isto nos dá um parâmetro quanto à interpretação: mesmo utilizando uma linguagem própria aos evangelistas, ele escreve a pessoas que já eram crentes e que conheciam o evangelho.

 

2 Meus irmãos, tende grande gozo quando cairdes em várias tentações;

O apóstolo conclama os irmãos a alegria quando estivessem sendo provados. Neste versículo tentação é prova, e não uma oferta para a pratica de uma conduta pecaminosa.

As argumentações deste capítulo iniciam-se neste versículo e caminha para um clímax no capítulo dois.

O apóstolo centra a sua argumentação na tentação, e o tema segue por toda a carta.

 

3 Sabendo que a prova da vossa fé opera a paciência.

A alegria é certa quando aquele que é provado conhece precisamente que a fé provada gera a paciência ( Rm 5:3 ).

A tentação é uma maneira de se por a fé em prova.

 

4 Tenha, porém, a paciência a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, sem faltar em coisa alguma.

O apóstolo Tiago solicita aos cristãos que sejam pacientes, visto que a obra perfeita da fé é a perseverança ( Hb 10:36 ; Tg 5:7 ). Quando o cristão é provado, ele possui elementos para examinar a si mesmo ( 2Co 13:5 ).

A paciência se evidencia com a prova da fé.

 

5 E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada.

A sabedoria que Tiago faz alusão neste versículo está interligada a paciência do versículo anterior. Se o cristão tem paciência, ele é perfeito e completo, visto que nada lhe falta, aguardando a manifestação em glória de Cristo Jesus.

Se um cristão tem falta de sabedoria, deve pedir a Deus que a dará liberalmente. Mas, qual a sabedoria que os cristãos receberão de Deus? A resposta é dada pelo próprio apóstolo: “Mas a sabedoria que do alto vem é, primeiramente pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia” ( Tg 3:17 ). Ou seja, a sabedoria que será concedida possui vínculo com a paciência, a obra perfeita da fé.

Observe que o versículo anterior ressalta que devemos ser perfeitos sem ter falta de coisa alguma, mas que se tivéssemos falta da sabedoria que é pura, pacifica e moderada, era só pedir que será concedido liberalmente.

 

6 Peça-a, porém, com fé, em nada duvidando; porque o que duvida é semelhante à onda do mar, que é levada pelo vento, e lançada de uma para outra parte.

O cristão deve pedir a sabedoria de Deus com fé, ou seja, sem dúvida alguma quanto àquele que concede liberalmente.

O apóstolo faz a primeira comparação em sua carta: aquele que duvida é semelhante à onda do mar, que é levada pelo vento, e é lançada de uma a outra parte.

Aquele que duvida é inconstante em todos os seus caminhos, e não só quanto ao que pede a Deus. A comparação do apóstolo com a onda do mar está para o homem que é dobre de coração, e não para o que se pede a Deus.

O apóstolo deixa de enfatizar a provação e passa a concitar a fé dos ouvintes.

 

7 Não pense tal homem que receberá do Senhor alguma coisa.

Por que aquele que duvida não receberá de Deus coisa alguma? Deus estaria punindo o reticente? Não!

O homem sem fé não receberá de Deus coisa alguma, pois dele temos a promessa, e para alcançarmos o prometido devemos ser pacientes “Porque necessitais de paciência, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” ( Hb 10:36 ).

 

8 O homem de coração dobre é inconstante em todos os seus caminhos.

Como o apóstolo está aconselhando os cristão à pratica do evangelho, ele aponta os vários aspectos pertinentes a vida do homem. Pela fé alcançamos a salvação de Deus, mas isto não confere ao salvo tranqüilidade em todas as áreas de sua vida. O homem pela fé alcança salvação, mas tal salvação não confere riqueza, felicidade no casamento ou a mudança instantânea de comportamento.

O apóstolo Tiago precisava tratar de um assunto complexo entre os cristãos, e para isto ele utiliza o capítulo um de sua carta preparando os corações dos ouvintes para o tema principal: a acepção de pessoas!

Do versículo dois até aqui, o apóstolo Tiago está estruturando o irmão de condição humilde. Nos versículos dez e onze o apóstolo alerta os cristãos de boa condição financeira.

Observe que não há mudança na ideia no contexto geral tratado no primeiro capítulo. Compare o versículo dois com o doze.

O capítulo um da carta de Tiago é um exemplo claro de psicologia aplicada. Ele não apresenta o problema a ser tratado de inicio. Ele primeiro trata de estruturar os ouvintes evidenciando as provações, a fé, a condição pessoal, a conciliação, para depois trazer o problema à tona.

 

Posições: Alta e Insignificante

9 Mas glorie-se o irmão abatido na sua exaltação,

O irmão de condição financeira humilde deveria gloriar-se na sua exaltação, ou seja, ter grande alegria, visto que, a sua condição humilde lhe concedia muitas provações, muitos motivos para se refugiar em Deus, desenvolvendo a perseverança, que resultará na exaltação futura ( Hb 10:36 ).

O irmão de condição humilde tem maior motivo para exercitar a sua fé em perseverança, isto é, para gloriar-se.

Sobre este aspecto Paulo demonstra que, caso fosse gloriar-se, gloriaria em suas fraquezas ( 2Co 12:5 ).

 

10 E o rico em seu abatimento; porque ele passará como a flor da erva.

O rico deveria ANALISAR a sua condição de maneira diferente. Deveria ter em mente a sua fragilidade, visto que o homem nada é.

O homem tem grande tendência a confiar naquilo que pode ver, o que pode lhe ofuscar a visão de que ele é sustentado por Deus e para ilustra a condição dos homens, principalmente os ricos, Tiago lembra a fragilidade da flor.

 

11 Porque sai o sol com ardor, e a erva seca, e a sua flor cai, e a formosa aparência do seu aspecto perece; assim se murchará também o rico em seus caminhos.

Tudo que é exterior ao homem perece com o tempo. Os caminhos que os homens trilham neste mundo têm um fim, e para o rico não é diferente “Não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas” ( 2Co 4:18 ).

 

12 Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam.

Esta é uma declaração prática de elementos pertinentes ao evangelho de Cristo. Esta declaração é igual a do escritor aos Hebreus:

“Porque necessitais de paciência, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” ( Hb 10:36 ).

Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam.

Aquele que suporta a provação demonstra que é paciente, e que receberá de Deus a vida eterna prometida a todos quantos creram em seu Filho.

A vontade de Deus é que todos os homens creiam naquele que ele enviou. A promessa é de vida, e vida eterna. Mas, para alcançá-la o homem precisa de perseverança na fé dada aos santos.

As discrepâncias de ordem socioeconômica no seio da igreja local estavam causando alguns problemas que será tratado no capítulo dois. Porém, Tiago estrutura os seus leitores a serem pacientes, suportando as tentações e provações.

 

13 Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta.

O apóstolo passa a demonstrar que as provações da vida não são provenientes de Deus. Alguém pode considerar que Deus para aperfeiçoar a fé de seus filhos acaba por submetê-los a inúmeras provações. Mas, não é assim! Deus a ninguém tenta.

A fé não precisa ser aperfeiçoada. O que é passível de aperfeiçoamento é o comportamento humano e a sua compreensão da realidade a sua volta. A fé é dom de Deus, que é perfeita como perfeito é o Pai celeste que nos dá todas as garantias necessárias que estruturarmos a nossa crença.

Por isso o apóstolo Paulo diz: “Eu sei em quem tenho crido” ( 2Tm 1:12 ).

 

 

14 Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência.

Após descartar que as tentações são provenientes de Deus, Tiago demonstra onde as tentações têm origem.

Neste versículo ele não aponta a origem do pecado, visto que o pecado teve origem em Adão, lá no jardim do Éden. Observe que ninguém tem a possibilidade de pecar a semelhança da transgressão de Adão. Não há como os descendentes de Adão dar origem ao pecado “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” ( Rm 5:14 ).

Cada ser humano possui um desejo em particular. Cada pessoa vê as coisas com valores diferenciados. Uns dão maior valor a bens materiais, outros a conduta, outros a dignidade, etc.

O apóstolo Tiago demonstra que o homem é tentado pelo seu próprio desejo. Ele cobiça, é atraído e seduzido pelos seus interesses.

Este desejo após tomar corpo, se for levado a efeito, resulta em uma conduta pecaminosa. Se o desejo for vetado pela consciência do homem, por leis, ou regras éticas, mas este homem leva a efeito este desejo, acaba por gerar a morte.

Por que o apóstolo toca neste assunto? Por causa de elementos apontados no versículo dezenove e vinte deste mesmo capítulo.

Note que Tiago está escrevendo a cristãos, pessoas que não estavam mais sujeitas ao pecado. Da mesma forma estavam livres do pecado de Adão, uma vez que já criam em Cristo. Como um desejo não contido poderia levar a morte?

Caso os ouvintes não suportassem a tentação; caso não fossem perseverantes na fé que receberam, e lançassem mão da ira, deixariam de se sujeitar a justiça de Deus que é pela fé, e estabeleceriam uma própria com base na vingança. Tal inversão, adotar uma justiça própria em lugar da divina, leva a morte espiritual.

 

15 Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte.

O apóstolo está tratando de questões práticas. O irmão de condição humilde deveria ter em conta a sua dignidade. Já o de condição abastada, em quanto era insignificante a existência dos homens sobre a face da terra.

Se estas pessoas considerassem estes elementos, não seriam tentados a fazer acepção de pessoas ( Tg 2:2 ). Da mesma forma caso alguém fosse discriminado, sofreria a provação e não lançaria mão da ira, pois tal ação substitui a justiça de Deus que é pela fé, e se estabelece uma outra, a justiça própria.

Através da fé recebemos a justiça de Deus, pois é Deus quem nos justifica. Quando queremos embasar as nossas ações em um sentimento próprio de justiça e de vingança, estaremos vestidos de trapos de imundície. Só resta a morte diante de Deus.

A morte não é resultado da conduta errônea, e sim da falta de fé. Se não há fé, não se consegue sofrer as tentações com paciência. Se não há fé, o homem não espera na providência divina e passa a agir por conta própria.

 

16 Não erreis, meus amados irmãos.

A determinação é específica aos cristãos (meus amados irmãos). O apóstolo solicita aos cristãos que não errassem demonstrando que, mesmo os cristãos são passíveis de erros.

Qual o erro que o apóstolo faz referência? Erros comportamentais ou erros conceituais?

O apóstolo faz uma repreensão acerca do erro conceitual que havia se instalado em alguns. Alguns pensavam que a tentação era proveniente de Deus, porém, a verdadeira concepção acerca de Deus é que Ele concede boa dádiva e todo dom perfeito. Compare: ( Gl 6:7 e 1Co 6:10 ).

 

Erros Conceituais

17 Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação.

 

Os leitores não deviam cometer o erro de considerar que as tentações eram provenientes de Deus. Antes deveriam considerar que de Deus é proveniente toda a boa dádiva e todo o dom perfeito.

As bênçãos são provenientes de Deus, que desce de Deus, ou antes, vem do alto.

Não é próprio de Deus a mudança e nem mesmo a ‘sombra’ de variação, fato que por si só demonstra que não deveriam errar quanto ao conceito de que Deus tenta alguém com o mal e que concede todo o dom perfeito.

 

18 Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fossemos como primícias das suas criaturas.

 

Esta carta utiliza uma linguagem eminentemente evangelística, porém, neste versículo fica demonstrado que o apóstolo possuía perfeita compreensão das nuances teológicas da mesma forma que Paulo e Pedro.

O apóstolo Tiago não se utilizou de conceitos teológicos ao escrever por questões próprias ao público alvo da carta. Não se deve considerar que o apóstolo Tiago não comungava ou que não possuía a mesma compreensão que o apóstolo Paulo demonstra em suas cartas.

Toda: Deus concedeu aos cristãos toda boa dádiva e todo o dom perfeito, de maneira que nada falta àqueles que aguardam a Jesus “De maneira que nenhum dom vos falta, esperando a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo” ( 1Co 1:7 );

Boa dádiva: Presente de Deus aos homens.

Dom perfeito: A graça de Deus por meio do evangelho “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” ( Ef 2:8 );

Pai das luzes:“Deus é luz, e nele não há trevas alguma” ( 1Jo 1:5 ); “Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor; andai como filhos da luz” ( Ef 5:8 ); “Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus” ( Gl 3:26 );

Em quem não há mudança e nem sobra de variação: A imutabilidade de Deus é base para a nossa fé “Por isso, querendo Deus mostrar mais abundantemente a imutabilidade do seu conselho aos herdeiros da promessa, se interpôs com juramento” ( Hb 6:17 ), pois só pela fé em Deus somos filhos da Luz;

Segundo a sua vontade: Segundo o consentimento (beneplácito) de Deus que, por meio da fé, adquiríssemos a filiação divina “E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade” ( Ef 1:5 );

Ele nos gerou de novo: Aqueles que creem em Cristo são novamente criados segundo Deus em verdadeira justiça e santidade. Não é uma reformulação ou uma melhoria na velha natureza. Antes recebemos poder para sermos feitos (criados novamente) filhos de Deus “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” ( Jo 1:12 );

Palavra da verdade: A palavra da verdade é a mensagem do evangelho, pois o apóstolo Paulo demonstra que o evangelho é poder de Deus para todos quanto crerem ( Rm 1:16 );

Para que fossemos como primícias das suas criaturas: Aqueles que creem são gerados de novo e passam a ser uma nova criatura “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ). Dentre todas as criaturas de Deus somos considerados como sendo as primícias, visto que ressurgimos com Cristo dentre os mortos “Mas de fato Cristo ressuscitou dentre os mortos, e foi feito as primícias dos que dormem” ( 2Co 5:17 );

Com base neste versículo podemos verificar que não há divergência alguma entre o que Tiago e Paulo escreveram em suas cartas.

É característica própria a carta de Tiago utilizar uma linguagem evangelista, já que o público alvo da carta se constitui de leigos. Eram carentes de conhecimento ( Tg 1:3 ; 5; 16; 19), e uma linguagem teológica não seria de todo compreendida.

Por isso o apóstolo Tiago apresenta um evangelho aplicado e menos conceitual.

E Tiago prossegue: “Sabei isto, meus amados irmãos…” (v. 19).

 

19 Portanto, meus amados irmãos, todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar.

O apóstolo reitera pela terceira vez: meus amados irmãos!

Ele não exclui quem quer que fosse da exortação: Todo o homem:

1º Deveriam ser prontos a ouvir;

2º Tardios a falar, e;

3º Tardios a irarem-se.

O apóstolo reitera alguns cuidados que os irmãos deveriam ter quanto a paciência. O homem paciente está pronto a ouvir! Esta recomendação tem dois aspectos dentro do contexto que Tiago procurou transmitir:

a) Eles ouviriam prontamente a mensagem que estava sendo transmitida por meio da carta, e;

b) Quanto fossem inteirados dos problemas existentes no seio da igreja ( Tg 2:1 -4), não partiriam para julgamentos precipitados, antes estariam prontos a ouvirem um pouco mais. Seriam pacientes.

As recomendações deste versículo soam como um freio à concupiscência de alguns, que eram atraídos a falarem precipitadamente ( Tg 1:13 -14).

Tiago utiliza o mesmo principio que Paulo ao exortar o homem a examinar a si mesmo. Este com poucas palavras, de maneira direita e incisiva, aquele utiliza o texto para evidenciar a cada indivíduo o seu erro, fazendo com que se esquecessem dos erros do próximo.

 

20 Porque a ira do homem não opera a justiça de Deus.

Este versículo esclarece o versículo 15.

A abordagem de Tiago tem inicio com a declaração: “Bem-aventurado aquele que suporta a provação” (v. 12). Este homem receberá de Deus o prometido, a coroa da vida, o que é pertinente ao homem livre do pecado.

 

Os que amam a Deus são aqueles que foram chamados segundo o seu propósito de fazer convergir em Cristo todas as coisas; estes não estão sujeitos ao pecado e têm direito à coroa da vida; antes eram sujeitos ao pecado, e, portanto, alijados da vida que há quando se está em Deus”

Nestes versículos podemos observar que dois temas são desenvolvidos paralelamente:

a) Não deveriam errar nas questões conceituais. Se Deus não muda, como conciliar ‘boa dádiva’ com ‘o tentar com o mal’?

b) A maldição do pecado só recai sobre aqueles que não perseveram, e, portanto, não são bem-aventurados.

As questões relativas ao parágrafo (a) já foram comentadas anteriormente.

Sobre o parágrafo (b) resta descobrir qual o tipo de ‘pecado’ que leva o cristão a morte.

O cristão que for atraído e engodado pela sua própria concupiscência (um exemplo prático que o apóstolo Tiago utiliza é a precipitação em falar (v. 19), não suportando a tentação, teria em si mesmo os elementos necessários a concepção da concupiscência.

É questão de tempo para a concupiscência tomar corpo e dar à luz o pecado e do pecado advém à morte!

O pecado que dá luz à morte é o lançar mão da ira.

Deus diz: “Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira, porque está escrito: Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor” ( Rm 12:19 ); “Porque bem conhecemos aquele que disse: Minha é a vingança, eu darei a recompensa, diz o Senhor. E outra vez: O Senhor julgará o seu povo” ( Hb 10:30 ).

Quando Paulo diz: “…dai lugar a Ira…”, é uma referência clara ao Senhor! É o mesmo que dizer, daí lugar a Deus, pois a Ele pertence a Ira “Pelas quais coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência” ( Cl 3:6 ).

Aquele que não suporta a tentação, que advém de uma cobiça e se põe a falar incontidamente, acabará se inflamando em sua própria ira. Este morrerá, visto que deixou de se sujeitar a justiça de Deus, que é pela fé.

Aquele que sai a vingar-se a si próprio está trilhando o mesmo caminho de Davi quando induzido por Nabal “Agora, pois, meu senhor, vive o SENHOR, e vive a tua alma, que o SENHOR te impediu de vires com sangue, e de que a tua mão te salvasse; e, agora, tais quais Nabal sejam os teus inimigos e os que procuram mal contra o meu senhor” ( 1Sm 25.26 ).

O apóstolo Tiago prevendo que alguém poderia ficar indignado frente aos problemas que seriam relacionados nos versículo 1 a 5 do capítulo 2, antecipa-se e demonstra que, se alguém não adotasse o comportamento do versículo 19, incorreria em não estar sujeito a justiça de Deus, que é por meio da fé em Cristo.

Quem se deixar levar pela própria cobiça não suporta a provação, e passa a agir por conta própria alimentando sentimentos facciosos e soberbos, ações pertinentes a ira do homem.

 

 

Recomendações

21 Por isso, rejeitando toda a imundícia e superfluidade de malícia, recebei com mansidão a palavra em vós enxertada, a qual pode salvar as vossas almas.

 

Já que a justiça de Deus não coaduna com a ira do homem, o apóstolo concita os ouvintes a lançarem fora toda impureza e todo vestígio do mal. A imundície e superfluidade de malícia são descritas em Tiago três, treze a dezesseis.

A amarga inveja e o sentimento faccioso geralmente advêm da incontinência em falar e da pressa em vingar uma causa própria.

A prontidão em falar acintosamente e a ira não é próprio daqueles que são mansos, ou seja, a palavra do evangelho deve ser recebida em mansidão.

A palavra de Deus é poder de Deus para todo aquele que crê, ou seja, poder de Deus para salvação das vossas almas.

 

22 E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos.

Tiago solicita um compromisso com a palavra do evangelho. O compromisso com a palavra se estabelece quando o ouvinte resiste as tentações, é paciente, e manso. Este não esta se enganado a si mesmo.

 

23 Porque, se alguém é ouvinte da palavra, e não cumpridor, é semelhante ao homem que contempla ao espelho o seu rosto natural;

Esta é a segunda comparação que Tiago faz.

Ele estabelece uma hipótese: “Se…”. Aquele que duvida é comparado à onda do mar, e o ouvinte que não pratica é semelhante a quem contempla o próprio rosto através de um espelho. A comparação se firma no versículo seguinte:

 

24 Porque se contempla a si mesmo, e vai-se, e logo se esquece de como era.

Através das comparações Tiago demonstra dois perigos:

a) O ouvinte esquecido ou relapso, e;

b) Ouvinte sem fé, que é levado de uma a outra parte “…porque o que duvida é semelhante à onda do mar, que é levada pelo vento, e lançada de uma para outra parte” (v. 6).

25 Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito.

O apóstolo faz uma ressalva: “Aquele, porém…”.

O ouvinte que recebe a palavra com fé e a pratica, este é o que atenta bem para a mensagem do evangelho, a lei perfeita.

A lei que não deixa alternativa de escolha não é perfeita. A lei perfeita deixa alternativa entre cumprir e o não cumprir.

Tiago alerta novamente o ouvinte relapso e o sem fé:

a) e nisso persevera – a perseverança é resultado da fé em prática. A fé posta em prova produz a paciência, e o exercício da fé à perseverança “Sabendo que a prova da vossa fé opera a paciência” (v. 3); “Todo aquele que prevarica, e não persevera na doutrina de Cristo, não tem a Deus. Quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem tanto ao Pai como ao Filho” II Jo 1. 9.

b) não sendo ouvinte esquecido – o ouvinte esquecidiço é aquele que não cumpre a palavra. Ele não é fazedor da obra e nem bem-aventurado.

Só é bem-aventurado o ouvinte que atenta para o evangelho com fé. Este será perfeito e sem falta de coisa alguma, visto que é paciente.

O que suporta a tentação é aquele que cumpre com a palavra, ou, aquele que faz a obra, sendo o resultado disso a paciência, a obra perfeita “Tenha, porém, a paciência a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, sem faltar em coisa alguma” (v. 4).

 

26 Se alguém entre vós cuida ser religioso, e não refreia a sua língua, antes engana o seu coração, a religião desse é vã.

 

O apóstolo Tiago chega ao momento da prática. Ou seja, se o cristão não suportar a provação, não terá a obra perfeita, que é a paciência. Este passará a agir, não refreando a língua. Descumprirá cabalmente a determinação: “…todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar…” (v. 19), enganando a si mesmo (v. 22). Tal homem se apoiará na religiosidade, onde a justiça de Deus não opera.

Tal homem está enfatuado, pois se apóia em um discurso falso: sou religioso! “E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos” (v. 22).

 

27 A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo.

Uma demonstração clara de que alguns estavam apoiados em falsos discursos é que a verdadeira religião se resume em assistencialismo aos órfãos e viúvas, sem se contaminar com a corrupção do mundo.

As recomendações aos gentios no concílio de Jerusalém são claras: “Na verdade pareceu bem ao Espírito Santo e a nós, não vos impor mais encargo algum, senão estas coisas necessárias: Que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da prostituição, das quais coisas bem fazeis se vos guardardes. Bem vos vá” ( At 15:28 -29).

Sobre este mister o apóstolo Paulo foi alertado: “Recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também procurei fazer com diligência” ( Gl 2:10 ).

Tais determinações foram necessárias, visto que alguns não estavam atentando para a perfeita lei da liberdade: “E isto por causa dos falsos irmãos que se intrometeram, e secretamente entraram a espiar a nossa liberdade, que temos em Cristo Jesus, para nos porem em servidão” ( Gl 2:4 ).

A recomendação de Tiago era tão somente para que observasem o que era pertinente ao evangelho de Cristo “E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes…”, porém, alguns estavam presos à religiosidade, que se firma em questões tais como o legalismo, o formalismo e a moralidade. Estes estavam se enganando quando se firmavam nos discursos da religiosidade: “…enganando-vos com falsos discursos”.

Vale salientar que o capítulo um da carta de Tiago visa preparar os cristãos para a exposição de questões que são abordadas no capítulo Dois.

O leitor desta carta deve ter o cuidado de observar e analisar o seu conteúdo sobre o prisma de um único contexto.

A carta de Tiago desenvolve uma idéia principal, porém, antes de especificá-la, ele teve o cuidado de preparar os seus destinatários diretos, os cristãos de sua época, com várias exortações, exemplos e comparações.

Não devemos nos ater as exortações, exemplos e comparações sem o prisma da idéia principal.

A linguagem que Tiago utiliza é evangelística, pois não se estrutura em citações do antigo testamento. A linguagem é baseada em comparações e exemplos pertinentes ao dia-a-dia dos leitores ( Tg 1:10 -11, e 23).

Quando se faz necessário a exposição de alguns conceitos de cunho teológico, o apóstolo Tiago se socorre de conceitos incontestes ( Tg 1:17 ), sem o auxílio da citação de trechos do antigo testamento.

A carta de Paulo aos Efésios segue quase a mesma estrutura de linguagem de Tiago por não utilizar citações do antigo testamento.

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Os anjos desejaram pregar o evangelho?

Qual o significado de ‘atentar’ neste verso? Seria pregar, anunciar o evangelho? Não! O significado é compreender, entender, perscrutar, olhar para dentro, examinar, etc. O apóstolo Pedro estava demonstrando aos cristãos que a graça que lhes foi concedida é tão grandiosa que os profetas queriam saber o que seria tal graça. Que este mistério era tão grandioso que até os anjos desconheciam e desejaram compreender (atentar).


É quase um consenso a ideia que se propaga no meio evangélico, de que os anjos desejaram pregar o evangelho.

Tal ideia deriva de uma má leitura do verso 12, do capítulo 1 da primeira epístola do apóstolo Pedro que, por sua vez, induz a uma má interpretação. Observe:

“Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar ( 1Pd 1:12 ).

Para compreender este verso se faz necessário formular algumas perguntas ao texto e contexto do versículo, para depois analisar a questão concernente aos anjos e o evangelho.

Em primeiro lugar, é necessário saber o que foi revelado e a quem foi revelado? O que foi revelado refere-se à graça que foi concedida aos cristãos por estarem em Cristo e, a quem foi revelado, refere-se aos profetas do Antigo Testamento.

A graça que os profetas anunciaram não fora dada a eles, antes aos cristãos, e os profetas queriam saber qual seria o tempo, ou ocasião de tempo em que tais eventos aconteceriam.

E que evento seria este que os profetas anteviram e anunciaram de antemão (pré-ciência) pelo Espírito de Deus? Os sofrimentos de Cristo e a glória que se estabeleceria.

O que os profetas ministravam não pertencia a eles e, a mensagem que anunciaram é a mesma que os apóstolos de Cristo estavam anunciando aos homens: o evangelho, as boas novas do reino.

Os apóstolos são descritos como mensageiros de Deus que apregoavam o evangelho comissionados pelo Espírito de Deus.

E o que os apóstolos anunciavam? A mesma mensagem (coisas) que foram anunciadas pelos profetas.

  • Aos quais – profetas ( 1Pd 1:10 );
  • Foi revelado que – Sofrimento de Cristo e a glória que havia de seguir;
  • Não para si mesmos – A mensagem da profecia não era para os profetas e nem para o povo de Israel;
  • Mas para nós – A mensagem tinha em vista os cristãos;
  • Eles ministravam – Os profetas;
  • Estas coisas que agora vos foram anunciadas – A mensagem dos profetas e apóstolos;
  • Por aqueles que – Diz dos apóstolos;
  • Pelo Espírito Santo enviado do céu – O autor da mensagem;
  • Vos pregaram o evangelho – Os apóstolos
  • Para as quais coisas – Que coisas?
  • Os anjos desejam bem atentar – O que os anjos desejaram?

 

“Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar” ( 1Pd 1:12 ).

Lendo o versículo novamente, o erro ocorre quando se relaciona as coisas que os anjos desejaram com a palavra evangelho, devido à proximidade entre as frases no versículo.

Porém, se o leitor for atento, perceberá que ‘as quais coisas’ que os anjos desejaram refere-se as coisas que os profetas indagavam ao ministrar.

“Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar” ( 1Pd 1:12 ).

Os anjos estavam interessados nas mesmas coisas que os profetas, ou seja, como seria a salvação dos homens, nos tempos, no sofrimento predito e na glória que haveria de seguir tais eventos.

Qual o significado de ‘atentar’ neste verso? Seria pregar, anunciar o evangelho? Não! O significado é compreender, entender, perscrutar, olhar para dentro, examinar, etc.

O apóstolo Pedro estava demonstrando aos cristãos que a graça que lhes foi concedida é tão grandiosa que os profetas queriam saber o que seria tal graça. Que este mistério era tão grandioso que até os anjos desconheciam e desejaram compreender (atentar).

O apóstolo Pedro não prossegue a carta destacando o anseio dos anjos, porém, o apóstolo Paulo esclarece os cristãos em Êfeso:

“A mim, o mínimo de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar entre os gentios, por meio do evangelho, as riquezas incompreensíveis de Cristo, e demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou por meio de Jesus Cristo; Para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus, segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor, no qual temos ousadia e acesso com confiança, pela nossa fé nele” ( Ef 3:8 -12).

Do mesmo modo que o apóstolo Pedro, Paulo demonstra que a graça de anunciar o evangelho foi conferida a ele, um dos apóstolos.

E o que seria anunciar o evangelho? É o mesmo que divulgar as riquezas incompreensíveis de Cristo. É o mesmo que tornar compreensível o que era incompreensível. É demonstrar a quem quer que seja o conteúdo do mistério que estava oculto em Deus, que a tudo criou por intermédio de Cristo.

Como o segredo estava oculto em Deus, nem mesmo os seres angelicais tinham conhecimento do que Deus propusera em si mesmo (eterno propósito que fez em Cristo que a tudo criou).

O apóstolo Paulo estava radiante, visto que, agora, pela igreja, o mistério que encobria a multiforme sabedoria de Deus tornou-se conhecida pelos principados e potestades nos céus. O que eles desejaram atentar (compreender), somente através da igreja puderam compreender.

As coisas que os profetas anunciaram e, que agora estão sendo anunciadas a todos os homens, é o que produz fé nos homens, que após crerem tornam-se um com aquele que criou todas as coisas ( Ef 3:17 ).

Quando os cristãos se tornaram membros do corpo de Cristo, ou seja, a igreja do Deus vivo “Porque somos membros do seu corpo, da sua carne, e dos seus ossos” ( Ef 5:30 ), o mistério foi revelado e puderam compreender (atentar) o que Deus propôs em Cristo: a preeminência d’Ele em todas as coisas.

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Lendo a Bíblia

O leite RACIONAL é administrado aos salvos (idôneo), ou seja, não é dado aos cristãos para que possam ser salvos, antes é dado aos salvos para que compreendam a dimensão do amor de Deus. Quem não é experimentado na palavra da justiça, devem se alimentar do leite racional, para que possa ‘crescer’ na compreensão.

 


Você é um dos filhos de Deus, logo, membro da família “E eu serei para vós Pai, E vós sereis para mim filhos e filhas, Diz o Senhor Todo-Poderoso” ( 2Co 6:18 ).

Você aprendeu também que a palavra de Deus é semente incorruptível, semente que concede vida ao homem gerado segundo Adão, que passa a ser um novo homem gerado pelo Pai Celeste (Espírito). Do mesmo modo que, para nascer neste mundo você precisou ser participante da semente corruptível de Adão, agora em Cristo, participante do evangelho (semente incorruptível), você adquiriu a natureza divina. És filho da Luz, pois você deixou de ser homem carnal para ser homem espiritual ( 1Pe 1:23 ).

Assim como todos os homens morreram diante de Deus por causa de Adão, basta crer na mensagem do evangelho que passarão a ter vida, participantes de Cristo, o último Adão. Quem é gerado de novo segundo o Espírito Eterno passou da morte (alienação de Deus) para a vida, ‘conhece’ a Deus, ou antes, foi conhecido d’Ele (conhecer = união íntima).

“Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” ( Gl 4:9 )

Para aqueles que tem fome e sede de justiça Cristo é o pão e a água que faz jorrar uma fonte de água que salta para a vida eterna. Quem crê em Cristo como diz a bíblia, nunca mais voltará a ter sede e nunca mais terá fome. Basta crer (descansar) na esperança que Deus propôs aos homens por intermédio do evangelho que jamais terá fome e sede (fome e sede = alienação de Deus).

A humanidade morreu diante de Deus porque Adão desobedeceu (uma vez), comendo do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Por outro lado, para ter vida proveniente de Deus basta ao homem crer na mensagem do evangelho (uma vez) que será participante da obediência de Cristo, que morreu uma única vez pelo pecado da humanidade ( Rm 6:10 ).

Quando você aceitou a Cristo como salvador, crendo na Sua pessoa através da mensagem do evangelho, bebeu da água que faz jorrar uma fonte para a vida eterna, a palavra de Deus, e é certo que você nunca mais voltará a ter sede.

Jesus disse: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo” ( Jo 6:51 ). Ser participante de Cristo, ou seja, comer (união) do pão vivo que desceu do céu é o mesmo que crer na mensagem do evangelho, e você, ao crer n’Ele, passou a ser participante da vida que é proveniente de Deus.

Jesus disse à mulher samaritana que quem bebesse da água que ele desse, nunca mais voltaria a ter sede. Ora, isto por sí só demonstra que você não tem mais sede ou fome, pois já tem a vida eterna. Você já passou da morte para a vida. Deixou a condenação de Adão e se uniu a Cristo, o último Adão.

Você adquiriu uma nova vida por intermédio da fé na palavra de Deus tornando-se homem espiritual (o que é nascido do Espírito é espírito). Isto significa que você foi criado idôneo (apto) para participar da herança dos santos na luz, ou seja, você é um dos filhos com pleno direito a herança prometida, sendo co-herdeiros com Cristo “E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados” ( Rm 8:17 ).

Como filho, pleno (cheio) do Espírito de Deus, herdeiro de Deus e idôneo a participar da herança de Deus, segue-se que, espiritualmente, você não necessita de desenvolvimento ou crescimento. Você não mais precisa de aio (tutor), pois já é idôneo ( Cl 1:12 ). A semente que te deu vida (evangelho), o pão da qual você é participante, a fonte da qual você bebeu, concedeu a posição de ‘pronto’, pois agora, em Cristo, você é homem espiritual, nascido (do) da água (palavra) e do Espírito (de Deus). Você alcançou de Deus um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ).

Agora, após ser inteirado da sua nova condição em Cristo (aquele que está em Cristo nova criatura é), por que é preciso ler a bíblia? Ainda falta algum coisa, se você já é participante da natureza de Deus e herdeiro de Deus?

Paulo ao perceber que ainda faltava alguma coisa aos cristãos orou a Deus dizendo: “… o Pai da glória vos dê em seu conhecimento o espírito de sabedoria e de revelação. Oro também para que sejam iluminados os olhos do vosso entendimento…” ( Ef 1:16 -17).

Ora, depreende-se do versículo acima que, o ‘iluminar dos olhos’ não é o mesmo que ‘conhecimento de Deus’. Conhecer a Deus, ou antes ser conhecido d’Ele é o mesmo que união intima, conforme empregou-se a palavra ‘conhecer’ para designar a união conjugal. O conhecer a Deus é proveniente da mensagem do evangelho, que também é designado de fé. Já os ‘olhos do entendimento’ (saber, conhecimento) é proveniente da sabedoria e revelação de Deus, que Ele concede àqueles que estão unidos a Cristo, por intermédio da sua palavra.

Sabemos que a graça de Deus foi revelada aos homens através do evangelho de Cristo (A fé que foi dada aos santos) “Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens” ( Tt 2:11 ), e quando o apóstolo Pedro Pedro disse: “Antes crescei na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo. A ele seja dada a glória, assim agora, como no dia da eternidade. Amém” ( 2Pe 3:18 ). estava recomendando aos cristãos ‘crescerem’ em ‘entendimento’ (conhecer, saber) aquele que lhes trouxe salvação.

O ‘conhecer’ (estar unido a, intima comunhão) a Deus é que traz graça (salvação) e paz (justificação e santificação), a paz que excede todo entendimento “Graça e paz vos sejam multiplicadas, pelo conhecimento de Deus, e de Jesus nosso Senhor” ( 2Pe 1:2 ); “E conhecer o amor de Cristo, que excede todo o entendimento, para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus” ( Ef 3:19 ).

Ora, só pode ser cheio de toda plenitude de Deus aqueles que conhecem (uniram-se) a Deus, ou antes, foram conhecido por Ele. Por isso o ‘conhecer’ a Deus não pode ser confundido com ‘entendimento’, ‘compreensão’, ‘saber’.

Quanto mais o cristão conhece (compreende) o amor de Deus (Cristo), maior o entendimento, e a paz que ele alcançou lhe é multiplicada ( Rm 5:8 -9). O amor lança fora o medo! Somente através das Escrituras (bíblia) é possível ao cristão compreender qual é a largura, o comprimento, a altura e a profundidade (dimensão) do amor de Cristo em conceder a plenitude de Deus aos homens.

Ler a bíblia não faz o cristão crescer ou desenvolver a ‘espiritualidade’, como muitos afirmam. O evangelho de Cristo nem de longe se compara a concepção mundana de que o homem desenvolve a sua espiritualidade através de meditações, orações, leituras, isolamento, sacrifícios. Um cristão não pode confundir a idéia de ‘espiritualidade’ com ser ‘espiritual’ em Cristo. Enquanto este só é possível alcançar quando o homem nasce de novo, aquele posicionamento aponta para o homem como sendo o agente que dá impulso a sua espiritualidade.

O alimento de Deus é que dá vida ao homem (pão e água viva), e o homem passa a ser participante da vida eterna quando crê em Cristo (come do pão e bebe da água), idôneo a participar da herança dos santos na luz. Porém, o que faz o homem crescer no ‘entendimento’ (conhecimento) é o leite racional, proveniente da leitura e analise da bíblia. Observe:

“Com leite vos criei, e não com carne, porque ainda não podíeis, nem tampouco ainda agora podeis” ( 1Co 3:2 );

“Porque, devendo já ser mestres pelo tempo, ainda necessitais de que se vos torne a ensinar quais sejam os primeiros rudimentos das palavras de Deus; e vos haveis feito tais que necessitais de leite, e não de sólido mantimento” ( Hb 5:12 );

“Porque qualquer que ainda se alimenta de leite não está experimentado na palavra da justiça, porque é menino” ( Hb 5:13 ).

Após provar que o Senhor é bom, ou seja, após provar da salvação, é de bom alvitre que o cristão anele ‘entendimento’ (conhecimento) de Deus, que somente é possível através da leitura e estudo da palavra de Deus “Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para por ele crescerdes para a salvação” ( 1Pe 2:2 ).

O leite RACIONAL é administrado aos salvos (idôneo), ou seja, não é dado aos cristãos para que possam ser salvos, antes é dado aos salvos para que compreendam a dimensão do amor de Deus. Quem não é experimentado na palavra da justiça, devem se alimentar do leite racional, para que possa ‘crescer’ na compreensão, quando passará a ser alimentado com alimento sólido.

Observe que não são as ações do cristão que promove o ‘entendimento’ (conhecimento): “Para que possais andar dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda a boa obra, e crescendo no conhecimento de Deus” ( Cl 1:10 ). Só é possível andar, agradar, frutificar e compreender (crescendo no conhecimento) a Deus após ter sido gerado d’Ele por meio do evangelho.

O crescimento no ‘conhecimento’ (entendimento), segundo o profeta Oseias é o mesmo que ‘prosseguir em conhecer ao Senhor’. Porém, para ‘prosseguir em conhecer’, primeiramente é necessário ‘conhecer’ a Deus (ser participante da sua natureza), ou antes, ser conhecido d’Ele “Então conheçamos, e prossigamos em conhecer ao SENHOR; a sua saída, como a alva, é certa; e ele a nós virá como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra” ( Os 6:3 ).

A ordem ‘conheçamos’ fala de união intima com o Criador, e ‘prosseguir em conhecer’ fala de entendimento, compreensão da sua palavra, para que se evite que o maligno venha e arrebate a semente que da vida “Mas, o que foi semeado em boa terra é o que ouve e compreende a palavra; e dá fruto, e um produz cem, outro sessenta, e outro trinta” ( Mt 13:23 ; Lc 8:12 ).

O novo nascimento é ato criativo de Deus, mas o conhecimento (saber) é gradativo “E vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Colossenses 3: 10). Deus criou o novo homem segundo a sua imagem, participante da sua natureza, e o cristão se veste do que é pertinente ao novo homem, despindo-se do que era próprio ao velho homem (más ações). Por meio da fé (descansar) no evangelho (fé) Deus criou (fez) o novo homem segundo o poder que operou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos ( Jo 1:12 ; 1Jo 4:17 ).

O que se renova no novo homem é o conhecimento (compreensão), pois o aumento da compreensão se dá de acordo com a medida da renovação do entendimento (despir-se do que é pertinente ao velho homem). Por conseguinte, o modo de agir do cristão será transformado perante a sociedade. A renovação no entendimento faz com que o cristão não ande conforme o mundo ( Rm 12:2 ), mas segundo Cristo.

 

Perguntas e respostas:

1) Após aceitar a Cristo como Senhor e salvador é possível ter sede novamente? Jo 4:14

R. Não! Você nunca mais terá sede.

2) Quantas vezes é preciso comer do pão para ter vida eterna? Jo 6:51

R. Uma única vez!

3) A graça de Deus se manifestou trazendo _salvação_ a todos os homens.

4) Por que é preciso crescer na graça e no conhecimento? O que é crescer na graça? O que é crescer no conhecimento?

R. O cristão precisa crescer em conhecer aquele que lhe trouxe salvação, pois aquele que não tem o caminho conhecido pelo Senhor perecerá. Ler a bíblia não faz o cristão ‘crescer’ espiritualmente, antes faz o homem espiritual crescer no conhecimento. O que faz o homem crescer no conhecimento é o leite racional, proveniente do conhecimento da bíblia.

5) Ler a bíblia trás crescimento espiritual?

R. Não! Pois o novo homem (espiritual) é criado perfeito. Não existe crescimento espiritual, antes crescimento no conhecimento (entendimento).

6) O que o cristão ganha através da leitura e estudo da bíblica?

R. Crescimento no conhecimento. A palavra é o leite racional.

7) Quais as dimensões do amor de Deus que o cristão precisa conhecer?

R. Largura, comprimento, profundidade, altura, etc ( Ef 3:18 ).

8) Assistir televisão trás estagnação espiritual?

R. Não! Quem bebeu da água que faz jorrar uma fonte para a vida eterna nunca mais terá sede, pois todas estas coisas perecem pelo uso.

9) A leitura da bíblia e o seu estudo trás conhecimento que renova o entendimento do cristão. Esta transformação no entendimento faz com que o cristão não se __conforme _ com o mundo.

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O Arrependimento

O arrependimento bíblico não se constitui em uma mudança de atitude promovida pela consciência humana. Uma vida integra diante dos homens diz de outro aspecto da vida cristã, e não do arrependimento promovido pelo evangelho. O verdadeiro arrependimento diz de uma mudança na concepção (metanóia), ou seja, uma mudança na maneira de pensar sobre como o homem alcança a salvação de Deus.


“E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão…” ( Mt 3:9 )

Para alcançar a salvação em Cristo foi necessário uma grande mudança (radical) na sua maneira de pensar e, essa mudança se deu quando você ouviu a mensagem do evangelho e creu em Cristo. O evangelho é boas novas que produz uma transformação radical na maneira de compreender a salvação. Essa mudança radical na maneira de pensar que o evangelho estabelece no homem que estava sem Deus é nomeada na bíblia de ARREPENDIMENTO. Arrependimento é mudança de concepção, de conceito, acerca de como o homem alcança a salvação de Deus.

Muitos escribas e fariseus vinham ao batismo de João Batista, porém, mesmo após serem batizados, continuavam declarando que eram filhos de Deus por serem descendentes de Abraão. João Batista observou por meio daquilo que professavam que eles não tiveram um arrependimento genuíno “E não penseis que basta dizer: temos por pai a Abraão” ( Mt 3:9 ). Era preciso aos escribas e fariseus arrependerem-se de seus conceitos errôneos acerca de como ser salvo, ou seja, de como ser filho de Deus. João Batista é enfático, pois até mesmo das pedras Deus tem poder para fazer filhos a Abraão, ou seja, de fazer (criar) filhos para Si.

Qual é a sua concepção acerca da salvação? Você já se arrependeu de fato? Você está produzindo frutos dignos de Arrependimento?

Para você responder e verificar se já alcançou o arrependimento genuíno, note o seguinte:

a) Todos os homens já se arrependeram de algo errado que fizeram no decurso de sua vida. Arrependem-se de seus erros, atitudes, decisões, etc. Porém, é este tipo de arrependimento que concede Salvação?

b) Uma pessoa que vivia uma vida dissoluta, de crimes, promiscuidades e mentiras, mas que, ao arrepender-se dos erros cometidos (atitudes) e passa a morar em um mosteiro, alcançou o arrependimento genuíno?

c) Um cidadão que se dedica a viver uma vida regrada na sociedade, religioso, e que ao cometer um ato ilícito ou errôneo, e sente profunda tristeza pelo seu ato, alcançou o verdadeiro arrependimento?

Não! Não são estes tipos de arrependimentos que descrevemos acima que João Batista recomendou! Este arrependimento promovido pela consciência humana é o que a bíblia denomina de arrependimentos de obras mortas.

O arrependimento bíblico não se constitui em uma mudança de atitude promovida pela consciência humana. A vida de integridade diante dos homens diz de outro aspecto da vida cristã.

O verdadeiro arrependimento diz de uma mudança na concepção, ou seja, na maneira de pensar sobre como alcançar a salvação de Deus.

Para os fariseus e escribas não bastava presumir que eram filhos de Deus por serem descendentes de Abraão “E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão” Mt 3: 9. Para o Jovem Rico não bastava cumprir a lei ou fazer algo pela salvação “Bom Mestre, que bem farei para conseguir a vida eterna?” (Mateus 19: 16). Para Nicodemos não bastava ser juiz, mestre, fariseus, judeu, etc. “Havia entre os fariseus um homem chamado Nicodemos, um dos principais dos judeus ” ( Jo 3:1 ).

Pedro, ao falar do arrependimento, exortou aos judeus a mudarem de pensamento e de ponto de vista a respeito do Cristo que crucificaram. Somente após os judeus crerem em Cristo como Senhor estariam de fato arrependidos ( At 2:38 ).

Observe que João Batista não repreendeu aos fariseus e escribas sobre erros que eles houvessem cometido. Antes, deveriam se arrepender porque, ou seja, por causa da proximidade do Reino de Deus, que é Cristo entre os homens “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” ( Mt 3:1 -2).

A missão de João Batista era essa: a de preparar o caminho do Senhor, ou seja, apregoar aos homens que eles precisavam abandonar a concepção deles de como ser salvo, e receber a Cristo.

Certa feita Jesus repreendeu alguns discípulos que não tiveram o arrependimento genuíno. Observe que estes discípulos criam em Cristo, porém, estavam confiados que eram salvos por serem descendentes de Abraão. Eles ainda não haviam tido um arrependimento genuíno, uma vez que continuavam presos à antiga concepção de como alcançar a salvação de Deus.

“Disse Jesus aos judeus que criam nele: Se permanecerdes no meu ensino, verdadeiramente sereis o meus discípulos. Então conhecereis a verdade e a verdade vos libertará. Responderam eles: somos descendentes de Abraão, e jamais fomos escravos de ninguém” ( Jo 8:11 -34).

Aqueles judeus não haviam se arrependido. Eles eram simples seguidores de Cristo, por causa de pão, milagres, de um rei, etc. Mas, ao serem arguidos que, para serem verdadeiros discípulos era preciso conhecer a verdade, ou seja, abandonar a ignorância do pecado (arrependimento), evidenciaram qual era a concepção deles acerca da salvação: estavam confiados em uma presunção própria, a de que eram descendentes de Abraão.

Os seguidores de Cristo (os judeus que criam n’Ele) estavam na mesma condição dos escribas e fariseus que foram ao batismo de João Batista: estavam confiados que a salvação era proveniente da geração (descendência) de Abraão ( Mt 3:9 ) compare com ( Jo 8:33 ).

Portanto, se você creu em Cristo como o seu único e suficiente salvador, e abandonou a concepção antiga de que era preciso sacrifícios, orações, castigos, origens, esmolas, religião, etc, para ser salvo, você alcançou o arrependimento genuíno. Você se arrependeu de fato, houve uma mudança de pensamento decorrente do conhecimento do evangelho que o libertou da ignorância do pecado.

Por você ter se arrependido genuinamente, agora, ao professar o nome de Cristo como único salvador, estais produzindo o fruto digno do arrependimento, ou seja, o fruto dos lábios que professam a Cristo como Senhor ( At 4:12 ; Hb 13:15 ).

Um erro sobre o arrependimento surge da má interpretação do versículo: “Produzi frutos dignos de Arrependimento” ( Jo 3:8 ), quando inferem que ‘frutos dignos de arrependimento’ refere-se ao comportamento humano. Perceba que o fruto a que João Batista referiu diz daquilo que o homem professa acerca de como se alcança a salvação, uma vez que, em seguida ele trata da presunção dos fariseus e escribas.

Por que aquilo que uma pessoa professa (fruto) evidência se ela se arrependeu ou não? Porque o comportamento é algo externo, que não evidência o que está no coração do homem. Observe que os falsos profetas vêm disfarçados de ovelhas (comportamento), mas interiormente são lobos devoradores, e somente pelos seus frutos (o que professam) é possível conhecê-los ( Mt 7:15 -16).

Perguntas e Respostas:

1) Qual o pensamento dos escribas e fariseus sobre como alcançar a salvação? ( Mt 3:9 )
R. Pensavam que bastava ser descendente de Abraão (filho na carne) para alcançar a filiação divina.

2) Cite quatro exemplos de ‘arrependimento’ que não promove salvação:
R. Arrepender-se de uma briga com o esposo; arrepender-se de comportar-se mal na escola; arrepender-se de não tomar uma decisão importante na vida; arrepender-se por ter omitido ajuda a alguém.

3) O que é arrependimento para salvação?
R. Abandonar os conceitos antigos sobre como alcançar a salvação e aceitar a doutrina de Cristo.

4) O que o jovem rico pensava ser necessário para ser salvo?
R. Fazer algum ‘bem’ para Deus.

5) Qual o conselho de Pedro para os judeus que crucificaram o Senhor Jesus?
R. Arrependei-vos, ou seja, abandonem os conceitos concernentes a filiação segundo a carne de Abraão e a lei de Moisés, e sejam batizados em nome de Jesus ( At 2:38 ).

6) Qual o conselho que João Batista deu aos escribas e fariseus para serem salvos?
R. Não penseis que basta dizer: temos por Pai Abraão. Arrependei-vos, ou seja, abandonem este conceito!

7) Como o crente genuíno produz fruto digno de arrependimento?
Professando Jesus como Senhor de sua vida conforme a verdade contida na Bíblia.

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