O Livro de Jó – A cilada de Satanás

Fazer um paralelo entre a história de Jó e as literaturas antigas produzidas na Grécia, com base nas queixas dos personagens, em decorrência do sofrimento, é temerário, pois, a dor, o sofrimento e a angústia são sensações físicas ou psíquicas iguais em todos os homens, portanto, quando descritas, as perspectivas são equivalentes.


 

Considerações sobre o sofrimento de Jó

Parte III

As riquezas, a família e a saúde foram arrancadas abruptamente de Jó sem um motivo aparente. E o que relata a Bíblia? Em tudo isso Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma.

O sofrimento afetou o equilíbrio emocional de Jó, mas não tirou a sua confiança em Deus.

A compreensão que Jó tinha a respeito da existência do homem neste mundo e das dádivas que Deus concede pelo fruto do trabalho, era firme. Para Jó, tudo pertence a Deus e, se alguém tem alguma coisa, é porque recebeu de Deus.

“O Senhor o deu e o Senhor o tomou, bendito seja o nome do Senhor!” (Jó 1. 21).

Jó se posiciona como servo diante do senhorio de Deus, quando diz que o Senhor deu e o Senhor tomou, e o louva por tudo.

O sofrimento e a perda de bens materiais não afetou a confiança de Jó em Deus, porém, o mal que sobreveio sobre ele, afetou sobremaneira os seus amigos. Quando avistaram a condição de Jó, lamentaram e choraram, em alta voz, e permaneceram sete dias, sem dizer uma palavra sequer, sentados em cinzas e com os mantos rasgados (Jó 2:12). Era evidente a má sorte de Jó, entretanto, os consoladores não conseguiram segurar a emoção que a tristeza provocou.

Satanás vive observando, diuturnamente, os homens e identificou o bem mais precioso na vida de Jó. O sofrimento foi somente uma distração, enquanto o ponto principal seria atacado com todas as forças pelo adversário.

O sofrimento impressionou muito mais os amigos de Jó, do que o próprio Jó. Por quê? Porque o sofrimento de Jó foi um quadro meticulosamente arranjado por Satanás, para a contemplação e a estupefação dos amigos de Jó. Eles avistaram Jó, de longe, e não o reconheceram. Eles viram que a dor de Jó era muito grande e isso os tocou, profundamente.

O quadro aflitivo de Jó foi delineado para estabelecer uma cilada, que tragou primeiro os amigos de Jó pela estupefação e, posteriormente, se voltaram contra Jó para justificar a Deus. O sofrimento foi uma cilada que enlaçou, sentimentalmente, os amigos de Jó e, assim, guiados pelos sentimentos e emoções, foram conduzidos a fazer julgamentos segundo padrões humanos.

Satanás já aguardava um julgamento precipitado dos três amigos, ao exibir um justo sofrendo. Diante daquele quadro aflitivo, os amigos de Jó só tinham duas opções viáveis a considerar:

a) Deus é justo e Jó está em pecado;

b) Jó não está em pecado e Deus não estava sendo justo.

Ora, sem mais delongas, os amigos de Jó se posicionaram em defesa de Deus e emitiram um juízo, segundo o que era aparente. Eles julgaram, precipitadamente, a condição de Jó e foram unânimes ao concluir que Jó estava em pecado.

A conclusão equivocada dos amigos de Jó era o elemento que Satanás precisava para iniciar um ataque à integridade de Jó. Após Jó manifestar a intensidade da sua dor, o primeiro amigo dele deixa de considerar a aflição de Jó e passa a fazer considerações acerca da justiça de Deus.

É admirável como a grande maioria dos leitores do Livro de Jó se identifica com os sofrimentos desse homem, mesmo não tendo passado por nada parecido. Muitos questionam: – Como um homem pode suportar tanto sofrimento e continuar integro diante de seu Deus?

É próprio dos homens se identificarem com os problemas alheios, principalmente diante de alguém que mantém um comportamento altruísta. O sentimento de empatia leva os homens a analisarem e se compararem com o outro, imaginando qual seria o seu comportamento, frente aos mesmos sofrimentos.

O sofrimento toca profundamente os homens e causa uma espécie de fixação. O homem se detém, geralmente, no que pode ver, ouvir e sentir pela empatia e deixa de considerar a questão segundo a revelação das Escrituras.

O sofrimento de Cristo na cruz comove multidões, entretanto, as pessoas, na sua grande maioria, não conseguem visualizar o amor de Deus e a justiça que Deus proporcionou para a humanidade.

O elemento mais importante para a humanidade na cruz é a obediência de Cristo e o sofrimento, a maior provação para o Cristo, que teve que desprezar a afronta, pelo prémio que lhe estava proposto.

A visão humana só alcança o que é temporal, passageiro e efêmero, e o sofrimento é uma das principais impressões que fixa, privilegiadamente, uma ideia na mente do homem. Uma má leitura do livro de Jó deixa a impressão de que o livro trata do sofrimento de um homem que, em última análise, não era merecedor.

Entretanto, no Livro de Jó Deus revela algo grandioso, que diz respeito às coisas eternas, às quais o pensamento do homem não poderia alcançar, se Deus não o revelasse, pela sua palavra. O sofrimento de Jó serve a um propósito infinitamente superior!

Por mais que o homem seja diligente em suas realizações, Deus nada deve ao homem. A única exigência de Deus para com o homem é que confie, ou seja, descanse n’Ele.

A exigência de Deus para se alcançar a sua justiça está bem ilustrada em Abraão, que creu em Deus e isso foi lhe imputado por justiça.

Vale destacar, aqui, algumas considerações acerca do sofrimento, em vista do que contém o livro ‘Jó: O Problema do Sofrimento do Justo e o seu Propósito’[1], do Pr. Claudionor de Andrade, que cita outros autores.

  1. O sofrimento que Satanás impingiu sobre Jó não pode ser considerado uma forma de Deus se ‘justificar’ frente às acuações de Satanás. Deus não se justifica com ninguém, pois todas as suas obras são, juntamente, justas e boas. Deus permitiu o sofrimento na vida de Jó para deixar uma lição valiosa para a humanidade, que é muito superior ao sofrimento de um homem. Jó estava à disposição de Deus na condição de servo.
  2. O sofrimento na vida de Jó é detalhe, portanto, jamais o leitor do Livro de Jó pode se deixar levar pelo pensamento de que o sofrimento serve para purificar o homem. É uma ideia equivocada entender que a mente humana finita, frente ao propósito de Deus, torna impossível saber o motivo de um justo sofrer. O sofrimento não transforma e nem aperfeiçoa ninguém. Não há poder transformador ou regenerador no sofrimento, como alguns alegam. A redenção e purificação do homem estão no evangelho de Cristo, que é poder para salvação do que crê.
  3. A grandeza do evangelho é infinitamente vasta, se comparado este com o sofrimento de um justo. Ora, se o homem está apto a compreender o evangelho, não estaria apto a entender o sofrimento de um justo? O sofrimento é plenamente compreensível!
  4. Há quem diga que Deus confiou em Jó e que, por isso, submeteu Jó a uma prova. Sabemos que Deus requer dos homens, que confiem em sua palavra, que é fiel e justa, jamais o contrário. Porém, como alguém onisciente pode confiar num homem, se é sabedor de todas as coisas?
  5. Deus não usou o sofrimento de Jó para derrotar Satanás, antes para deixar uma lição para a humanidade. O sofrimento que sobreveio sobre Jó não é resultado de um duelo entre Deus e Satanás. O Criador jamais se opõe às suas criaturas, mesmo contra Satanás. Em Cristo, a vitória da Igreja já estava estabelecida, pois Ele é o cordeiro de Deus morto, desde a fundação do mundo, antes da fundação do mundo.

 

A história de Jó e outros textos do Oriente Antigo

Para alguns estudiosos, o tema do Livro de Jó não é genuinamente israelita, mas uma reprodução de uma ideia comum a todo o Oriente.[2] [3] Esses eruditos partem da premissa de que outros textos antigos trabalharam, a seu modo, o problema do sofrimento humano, vez que Jó poderia ser um não israelita oriundo de Us.

Ora, Abrão não era israelita quando foi chamado por Deus, pois era um caldeu da cidade de Ur e tal fato não pode ser tomado como evidência de que as instruções que o gentio Abrão recebeu de Deus tem raízes ou paralelo com qualquer pensamento produzido na caldeia.

Atribuir ao Livro de Jó semelhanças, até mesmo com as tragédias gregas,[4] por entenderem que o tema do Livro de Jó é o sofrimento humano, só evidencia a gana dos estudiosos em estabelecer um paralelo entre o personagem bíblico Jó e alguns personagens das tragédias gregas, como exemplo: Prometeu, Ésquilo e Édipo rei, de Sófocles.

Considerando que as tragédias gregas não possuem finalidade didática e que, apesar de poder causar a ‘catarse’[5] das emoções dos espectadores, este não era o seu objetivo; portanto, já temos um contra ponto à tentativa de se estabelecer semelhanças entre a história de Jó e as tragédias gregas.

A história de Jó possui viés didático, ou seja, introduz questionamentos acerca da justiça de Deus, para apresentar ao leitor um conhecimento impar, que somente Deus pode revelar, pois, o conhecimento que há no Livro de Jó, não tem paralelo com qualquer elucubração da mente humana.

Analisando a história de Jó, apesar do caráter irretocável do personagem, a mensagem do livro não é de cunho moralizante ou prescritivo de comportamento, como se observa na arte renascentista, pela má leitura que fizeram das tragédias gregas, malogro que se repete nas ‘tragédias’ shakespearianas[6].

Enquanto os artistas literários[7] da Grécia produziam as suas obras trágicas centradas na imitação, ou mímēsis[8], séria, completa e de certa magnitude, tendo a forma da composição artística a ação e não a narração, de modo a evocar emoções, como a piedade e o terror dos espectadores, os artistas Renascentistas, com destaque para os trabalhos de Shakespeare, tinham o viés de apresentar o protagonista da estória, confrontado com sua própria culpa.

Colocar Jó e Édipo, lado a lado, é um despautério, pois, apesar de, nas tragédias gregas, os heróis serem homens de elevada reputação ou, posição social, Jó é descrito como inigualável, pelo testemunho dado por Deus:

“Porque ninguém há na terra semelhante a ele” (Jó 1:8).

Enquanto o personagem e a história de Édipo são fruto da imaginação do homem, Jó é um personagem histórico que habitou na terra de Uz. Este é um personagem histórico, aquele um personagem literário fictício que idealiza homens da vida real.

A prosa no Livro de Jó, que introduz o diálogo entre Jó e seus amigos, redigido em forma de poesia, não depõe contra a literalidade da história – embora há quem lance mão dessa peculiaridade, para dizer que sim – antes reveste de importância a história de Jó.

Os discursos em forma de poema são uma ferramenta de proteção e preservação das ideias que são apresentadas pois, as poesias hebraicas, através dos seus paralelismos, estabelecem travas lógicas que favorecem a preservação do texto.

O Livro de Jó tem, como pano de fundo, o sofrimento, assim como muitas outras estórias oriundas do imaginário humano. As estórias trazem no seu bojo o sofrimento, pelas emoções que evocam aos espectadores.

Já, o sofrimento de Jó, foi utilizado para fins didáticos e não para impingir o terror ou a piedade pois, tudo que as Escrituras contêm, para o nosso ensino foi escrito:

“Porque tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que, pela paciência e consolação das Escrituras, tenhamos esperança” (Romanos 15:4).

Estabelecer um paralelo entre a história de Jó e as literaturas antigas produzidas na Grécia, com base nas queixas dos personagens, em decorrência do sofrimento, é temerário, pois, a dor, o sofrimento e a angústia são sensações físicas ou psíquicas iguais em todos os homens, portanto, quando descritas, as perspectivas são equivalentes.

No entanto, diferente de Édipo, a história de Jó não foi engendrada, tendo as Moiras como pano de fundo, e nem evoca os meandros do fatalismo. O Deus do Livro de Jó não se sujeita ao Destino, um dos deuses da mitologia grega que sobrepuja todos os outros deuses e perante o qual os outros se curvam. Diferentemente, dos deuses da mitologia Grega, o Deus de Jó não se compraz em fazer a humanidade sofrer.

Édipo, ao descobrir a trama que estava envolto, rende-se[9] diante da sua impotência e miserabilidade traçada pelo Destino[10]. Diferentemente, ao contemplar a grandeza de Deus e ser instruído, Jó se arrepende de ter tecido comentário desairoso sem o conhecimento necessário (Jó 42:3-4).

Deus, no Livro de Jó, é o mesmo Deus que se revela por todas as Escrituras, e nada tem a ver com os deuses da mitologia grega e o fatalismo, concepção tão cara àquela sociedade.

O Livro de Jó deve ser visto a partir da seguinte premissa:

“Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam. Ninguém, sendo tentado, diga: de Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta. Mas, cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência” (Tiago 1:12-14).

 

Continua…


[1] “William W. Orr resume, assim, o assunto central de Jó: “Satanás acusou Deus de não ser correto na sua maneira de tratar o homem. Para justificar-se, Deus permitiu que Satanás afligisse esse abastado homem do Oriente”. Gleason L. Archer, Jr. faz uma interessante análise do tema de Jó: “Este livro trata com o problema teórico da dor na vida dos fiéis. Procura responder à pergunta: Por que os justos sofrem? Esta resposta chega de forma tríplice; I) Deus merece nosso amor à parte das bênçãos que concede; 2) Deus pode permitir o sofrimento como meio de purificar e fortalecer a alma em piedade; 3) os pensamentos e os caminhos de Deus são movidos por considerações vastas demais para a mente fraca do homem compreender, já que o homem não pode ver os grandes assuntos da vida com a mesma visão ampla do Onipotente. Mesmo assim, Deus realmente sabe o que é o melhor para sua própria glória e para nosso bem final. Esta resposta é dada em contraste aos conceitos limitados dos três consoladores de Jó: Elifaz, Bildade e Zofar”. Escreve Henry Hampton Hailey: “Ao lermos o livro de Jó, do começo ao fim, devemos nos lembrar de que Jó nunca soube por que sofria —nem qual seria o desfecho. Os dois primeiros capítulos de Jó nos explicam por que isso aconteceu e deixam claro que a causa de seus sofrimentos não era algum castigo por pecados, mas, sim, a provação de sua fé —Deus tinha plena confiança dê que Jó seria aprovado”. Andrade, Claudionor de, Jó: O Problema do Sofrimento do Justo e o seu Propósito, Rio de Janeiro, Editora CPAD, 2ª edição, 2003, pág. 14. (Grifo nosso).

[2] “De uma série de textos paralelos do antigo Oriente se depreende que o livro de Jó não trata de um tema genuinamente israelita, mas comum ao Oriente. Há, hoje documentos, textos do 3º milênio ao séc. V a. C. que abordam o ‘problema de Jó’, de formas diferentes e com ênfases temáticas distintas (…) De maneira similar ao procedimento dos trágicos gregos ou dos poetas modernos (p. ex., Goethe, Fausto), o autor da forma mais antiga da narrativa de Jó deve ter recolhido uma lenda popular para trabalhar seu tema”. Zenger, Erich e outros, Introdução ao Antigo Testamento, Edições Loyola, São Paulo, 2003, págs. 296 e 297.

[3] “O presente artigo analisa o Livro de Jó, enquanto expressão do conjunto maior da tradição sapiencial do antigo oriente próximo. Pretendemos demonstrar a sua intimidade com fontes literárias egípcias e mesopotâmicas”. Leite, Edgard, O silêncio de Jó: O Livro de Jó e a crítica sapiencial à teologia sacerdotal. Revista Brasileira de História das Religiões. ANPUH, Ano IV, n. 10, Maio 2011 – ISSN 1983-2850 < http://www.dhi.uem.br/gtreligiao /index.html >.

[4] “Se alguma novidade existe neste meu trabalho, é a tentativa de esboçar, na presente introdução, um pouco mais extensivamente, certa semelhança que existe entre o Livro de Jó e a Tragédia Grega, sublinhado, de modo especial, um impressionante paralelismo entre Jó e o Prometeu de Ésquilo, fazendo também algumas referências ao Édipo Rei de Sófocles (…) Não se trata de uma obra histórica: Jó é o nome fictício do personagem central de uma parábola, este gênero literário oriental tão ao gosto de Jesus, que o empregou no episódio do Filho Pródigo e em outras narrativas suas”. Lima, Héber S., Jó… quando o espinho floresce, Edições Loyola: São Paulo, 1995, pág. 10.

[5] “É fundamentalmente não-grego, atribuir qualquer impulso específico, didático ou terapêutico à criação artística, em geral ou, a algum artista em particular. A Poética pode falar da catarse de emoções, mas este é o (possível) efeito da tragédia e não seu propósito intrínseco” McLeish, Kenneth, Aristóteles: a Poética de Aristóteles, tradução de Raul Fiker. – São Paulo, Editora UNESP, 2000, pág. 12.

[6] “Os conceitos de Aristóteles de anagnorisis (‘reconhecimento’) e peripeteia (‘reversão’) foram tão mal compreendidos na época do Renascimento, quanto sua concepção de hamartia – de fato, numa sequência partindo e se desenvolvendo da má compreensão anterior”. McLeish, Kenneth, Aristóteles: a Poética de Aristóteles, tradução de Raul Fiker. – São Paulo: Editora UNESP, 2000, pág. 32.

[7] “A tragédia é a imitação de uma ação importante e completa, de certa extensão; deve ser composta num estilo tornado agradável pelo emprego separado de cada uma de suas formas; na tragédia, a ação é apresentada, não com a ajuda de uma narrativa, mas por atores. Suscitando a compaixão e o terror, a tragédia tem por efeito obter a purgação dessas emoções” Aristóteles, A arte Poética, capítulo VI.

[8] “A mimesis, o processo principal das artes, era uma questão menos de doutrinação moral que de imitação (seletiva) da realidade (…) As ‘lições’ de literatura, na época de Aristóteles, não menos do que hoje, são oblíquas em vez de diretas e não prescritivas; não há mais obrigação de alguém tentar, na vida diária, viver à altura das excelências ou, evitar os excessos ali descritos, do que há a emular as qualidades ‘ideais’ representadas por (digamos) escultores como Fídias ou Canova. Esta é a luz sob a qual todas as afirmações de Aristóteles, na Poética, devem ser tomadas. A tragédia não é dogmática; a saúde moral da audiência não é sua preocupação primeira”. McLeish, Kenneth, Aristóteles: a Poética de Aristóteles, tradução de Raul Fiker. – São Paulo, Editora UNESP, 2000, pág. 13.

[9] “A anagnorisis, na tragédia antiga, assume duas formas. A primeira é uma simples admissão de que os personagens na peça reconhecem a verdade quando ela lhes é mostrada, revelando uma compreensão do padrão universal que eles nunca tiveram antes. As peças são salpicadas com expressões como ‘Finalmente, compreendo’ ou ‘Eu que estava cego, agora vejo’ ou ‘Ouvimos e obedecemos’ …” McLeish, Kenneth, Aristóteles: a Poética de Aristóteles, tradução de Raul Fiker. – São Paulo, Editora UNESP, 2000, pág. 32.

[10] “Édipo, em Édipo, Rei de Sófocles, frequentemente tomando como o arquétipo de um herói, cuja hamartia moral deriva da hybris (‘ele deliberadamente zomba do Destino’) é, na verdade, inocente: ele é cego para quem ele é, e a harmonia pode ser restaurada, apenas quando ele finalmente compreende”, McLeish, Kenneth, Aristóteles: a Poética de Aristóteles, tradução de Raul Fiker. – São Paulo, Editora UNESP, 2000, pág. 30.

Ler mais

Três passos do verdadeiro arrependimento

A mudança de concepção anunciada só ocorre quando o homem tem contato com a verdade do evangelho. Quando o homem ouve a mensagem do evangelho e abandona sua antiga concepção acerca de como servir a Deus, ocorre o arrependimento. O arrependimento verdadeiro se dá quando o homem deixa de lado as suas crenças ao receber a luz do evangelho e crê que Jesus é o Filho de Deus, que veio em carne, morreu, ressurgiu e está assentado à destra de Deus nas alturas.


Analisando a definição de arrependimento de João Calvino

 

Introdução

João Calvino dá ao arrependimento os seguintes termos:

“… a penitência poderia ser, assim, definida: é a verdadeira conversão de nossa vida a Deus, a qual procede de um sincero e sério temor de Deus, que consiste na mortificação da nossa carne e do homem velho e na vivificação do Espírito”. [1] Calvino, João, 1509-1564, A Instituição da Religião Cristã – tomo 2, volume 2, tradutora Elaine C. Sartorelli, São Paulo – Editora UNESP, 2009, pág. 72.

Faz-se necessário analisar a definição de João Calvino, assim, como, de qualquer outro que se apresente como mestre, devido ao alerta do apóstolo João, que recomendou julgar as palavras dos homens, se é de Deus, ou não, visto a quantidade de falsos profetas que se levantam no mundo: “AMADOS, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo” (1 Jo 4:1).

Analisaremos a definição de arrependimento, dada por Calvino, através de outra exposição dele, que consta no texto ‘Três Passos do Verdadeiro Arrependimento’, que pode ser visto no link: <http://www.ligacalvinista.com/2011/11/tres-passos-do-verdadeiro.html>, visto que, em nossos dias, há muitos que se dizem calvinistas, mas o que divulgam, às vezes, não reflete a ideia registrada por Calvino.

Penitência, arrependimento ou mudança de concepção?

Começaremos a análise da definição de arrependimento construída por João Calvino, primeiro analisando o termo grego traduzido por arrependimento.

Se analisarmos o termo grego ‘metanoia’, que comumente é traduzido por arrependimento, teremos o seguinte significado: mudança de pensamento, pensar diferente, reavaliar uma ideia, mudar de concepção, mudança de mentalidade, mudança de visão, mudança de opinião, mudança de propósito, etc.

Mas, quando o termo ‘metanoia’ foi traduzido para a vulgata latina, em lugar de mudança de pensamento, traduziram-na em latim por ‘paenitentia’. Onde deveria constar: ‘Mudem de concepção’, passou-se a ler: “Façam penitência” – ‘Pœnitentiam agite: appropinquavit enim regnum cælorum’.

Ora, verifica-se que o termo ‘paenitentia’ foi utilizado para refletir a concepção católica de que a salvação era obtida através de atos de caridade, doações, indulgências, etc.

Com o advento da reforma protestante, houve um interesse de se voltar à ideia bíblica, e alguns tradutores ingleses passaram a utilizar os verbos correspondentes ‘repent’ e o substantivo ‘repentance’, em lugar do ‘paenitentia’.

A tradução portuguesa da Bíblia de João Ferreira de Almeida, sob influência, passou a traduzir o termo ‘metanoia’ por ‘arrependimento’, porém, a concepção bíblica de arrependimento continua sendo conduzida ao bel sabor da religiosidade e deixa de refletir o ideário das Escrituras.

O que significa arrepender-se? Arrepender-se é lamento por erros cometidos? É tristeza profunda por causa do pecado? Um sentimento de remorso? Adotar uma religião? Deixar certas condutas? Adotar novas práticas?

Na exposição de Calvino, que data do século XV, a palavra que ele utilizou para tratar do tema arrependimento, era ‘penitência’, termo utilizado na vulgata latina para traduzir o termo grego ‘metanóia’, que, estritamente, significava mudar de pensamento, pensar diferente, reavaliar uma postura, mudar de ideia, o que implica em mudança de mentalidade, de visão, de opinião, de propósito.

Vê-se na exposição de João Calvino que ele conhecia o real significado do vocábulo grego ‘metanoia’, pois deixou registrado:

“O termo arrependimento foi, para os hebreus, derivado da palavra que significa expressamente conversão ou retorno; para os gregos, ele veio do vocábulo que quer dizer mudança da mente e de desígnio. À etimologia de um e outro desses dois termos não se enquadra mal o próprio fato, cuja síntese é que, emigrando de nós mesmos, nos voltemos para Deus; e, deposta a mente antiga, nos revistamos de uma nova.”  Idem, pág 74.

Agora, devemos analisar se ele compreendeu, de fato, o arrependimento bíblico ou, se reproduziu aspectos da ‘penitencia’, como se ‘penitencia’ fosse ‘arrependimento’.

“Por isso, usaram esses termos, indiscriminadamente, com o mesmo sentido: converter-se ou volver-se para o Senhor, arrepender-se e fazer penitência” Idem, pág. 74.

Jesus é o motivo da mudança de pensamento

Quando lemos: “Arrependi-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 3:2), o que João Batista proclamava era uma mudança de concepção. A mudança de concepção ocorreu em função da chegada do Cristo, não em função dos erros e das condutas dos ouvintes de João Batista.

Abandonar erros, atitudes, comportamentos, pensamentos, sentimentos, emoções, etc., não é o arrependimento proposto por João Batista. João Batista propõe mudança radical de concepção, à vista do reino dos céus, em meio aos homens, não em função da percepção de erros.

João Batista foi o precursor anunciado pelo profeta Isaias: “Porque este é o anunciado pelo profeta Isaías, que disse: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, Endireitai as suas veredas” (Mt 3:3), e a mensagem de João tinha o fito de preparar o coração do povo para a chegada do Messias.

Ora, a mudança de mentalidade não demandava remorso ou tristeza, por causa das ações de ordem moral e comportamental dos filhos de Israel. A mudança anunciada por João Batista, era em função da presença de Cristo, em meio aos homens.

A mudança de concepção anunciada só ocorre quando o homem tem contato com a verdade do evangelho. Quando o homem ouve a mensagem do evangelho e abandona sua antiga concepção acerca de como servir a Deus, ocorre o arrependimento. O arrependimento verdadeiro se dá quando o homem deixa de lado as suas crenças ao receber a luz do evangelho e crê que Jesus é o Filho de Deus, que veio em carne, morreu, ressurgiu e está assentado à destra de Deus nas alturas.

Se o homem mudar a sua concepção e abraçar qualquer outro evangelho que não for conforme o anunciado por Cristo e os apóstolos, não ocorreu o arrependimento de fato, pois o arrependimento para a salvação, é crer, especificamente, na doutrina de Cristo.

Ao ver que os escribas e fariseus vinham ao batismo e permaneciam de posse de suas convicções, acerca de como serem salvos (os escribas e fariseus após o batismo continuavam dizendo que tinham por pai Abraão), João Batista alertou, dizendo: “Não presumais de vós mesmos, dizendo: temos por pai a Abraão” (Mt 3:9).

O arrependimento não estava no batismo, mas na mudança de entendimento, diante da mensagem anunciada. A partir do momento em que os escribas e fariseus se dispuseram ao batismo, deviam deixar de considerar que eram salvos por serem descendentes da carne e do sangue de Abraão, vez que a salvação de Deus foi manifesta em Cristo.

Observe o que o profeta Ezequiel, ao tratar do tema, diz:

“Pois que reconsidera, e se converte de todas as suas transgressões que cometeu; certamente viverá, não morrerá. Contudo, diz a casa de Israel: O caminho do Senhor não é direito. Porventura não são direitos os meus caminhos, ó casa de Israel? E não são tortuosos os vossos caminhos? Portanto, eu vos julgarei, cada um conforme os seus caminhos, ó casa de Israel, diz o Senhor DEUS. Tornai-vos e convertei-vos de todas as vossas transgressões, e a iniquidade não vos servirá de tropeço. Lançai de vós todas as vossas transgressões com que transgredistes, e fazei-vos um coração novo e um espírito novo; pois, por que razão morreríeis, ó casa de Israel? Porque não tenho prazer na morte do que morre, diz o Senhor DEUS; convertei-vos, pois, e vivei” (Ez 18:28-32).

O arrependimento tem inicio quando o homem ouve a mensagem de Deus e reconsidera o seu caminho. Após considerar a mensagem divina e mudar de concepção, dá-se o arrependimento (metanóia). O que é necessário ao desenvolvimento da vida cristã, após a mudança de concepção, não pode ser mais chamado de arrependimento, pois a mudança de mente (pensamento/concepção) encerra em si o arrependimento.

O povo de Israel não obedecia à palavra de Deus, antes, seguia preceitos de homens: “Mas, em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens” (Mt 15:9). Por desobedecer a palavra de Deus, o povo de Israel estava dando a entender que os caminhos de Deus não são direitos e que os preceitos de homem que ele seguia, era o caminho direito.

O rei Saul encaixa-se nesse perfil, pois, quando lhe foi dito por Deus: “Eu me recordei do que fez Amaleque a Israel; como se lhe opôs no caminho, quando subia do Egito. Vai, pois, agora, e fere a Amaleque; destrói, totalmente, a tudo o que tiver e não lhe perdoes; porém, matarás desde o homem, até à mulher, desde os meninos, até aos de peito, desde os bois até às ovelhas e desde os camelos, até aos jumentos”. (1 Sm 15:2-3). Esse era o caminho direito.

Mas, quando Saul resolveu poupar a vida de Agague e o melhor do interdito, implicitamente, estava dizendo que o caminho do Senhor não era direito, mas que a sua própria decisão, era o caminho direito: “Antes, dei ouvidos à voz do SENHOR e caminhei no caminho pelo qual o SENHOR me enviou; e trouxe a Agague, rei de Amaleque, e os amalequitas destruí totalmente; Mas, o povo tomou do despojo, ovelhas e vacas, o melhor do interdito, para oferecer ao SENHOR, seu Deus, em Gilgal” (1 Sm 15:20-21).

Saul reconsiderou a sua atitude rebelde, displicente, idólatra e feiticeira? Não! Quem reconsiderou a atitude de Saul foi o profeta Samuel, que mandou trazer Agage e o despedaçou (2 Sm 15:33). Se Saul reconsiderasse a sua omissão, de pronto se arremeteria contra Agague, mas não o fez, pois visava somente o prestigio do povo (1 Sm 15:25).

Diferente de Saul, o rei Davi, quando viu que Uzias foi fulminado, de pronto reconsiderou a sua postura à luz das Escrituras. Qual foi o seu erro: “E temeu Davi ao SENHOR naquele dia; e disse: Como virá a mim a arca do SENHOR?” (2 Sm 6:9). Deus estava mais preocupado que se obedecesse à sua palavra, que, com a arca, em si.  Deus não estava em busca de sacrifícios, mas de servos que obedecessem aos seus mandamentos.

O equívoco, com relação ao arrependimento, é entendê-lo como produto de afeto, medo ou cuidado para com Deus, apegando-se à ideia de que Deus necessita ser agradado, segundo a perspectiva e sentimentos humanos: “Porque lhes dou testemunho de que têm zelo de Deus, mas não com entendimento” (Rm 10:2).

Pensamentos como: – ‘Há, se eu cuidar da arca de Deus, Ele se agradará de mim’!‘Há, se eu construir um templo para Deus, Ele se agradará de mim’! Grande engano, pois, Deus se agrada, única e exclusivamente, daquele que obedece à sua palavra.

Quando Moisés disse: “Ouve, Israel, o SENHOR nosso Deus é o único SENHOR. Amarás, pois, o SENHOR teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças e estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração” (Dt 6:4-6), o que está em voga não é um sentimento de afeto, devoção, medo ou cuidado, antes, que se ouça e se obedeça à palavra de Deus (Dt 6:5; 10:12; 30:2, 6 e 10).

Quem ama é o que obedece, ou seja, aquele que cumpre o mandamento, este é o que ama (Jo 14:21-24).

O que Deus pede ao homem é repetido, por diversas vezes, com as seguintes expressões: temor, andar, servir, guardar, obedecer, circuncidar, etc.: “Agora, pois, ó Israel, que é que o SENHOR teu Deus pede de ti, senão que temas ao SENHOR teu Deus, que andes em todos os seus caminhos, o ames e sirvas ao SENHOR teu Deus, com todo o teu coração e com toda a tua alma, que guardes os mandamentos do SENHOR e os seus estatutos, que hoje te ordeno, para o teu bem?” (Dt 30:16-17).

Quando o homem se converte ao Senhor, obedecendo ao seu mandamento, temos como consequência a “circuncisão do coração” (Dt 30:6). Quando o homem ouve a palavra de Deus e dá ouvido à sua voz, temos a obediência, que é o mesmo que conversão ou arrependimento, pois, antes de obedecer, teve de abandonar os seus conceitos (Dt 30:2 e 8).

O arrependimento é ordem mandamental: “Arrependei-vos!”. A mudança de concepção fica a cargo do homem, pois deve ouvir a verdade, considerar o seu caminho e mudar de concepção, crendo em Cristo.

Como consequência do amor, da obediência que o homem tem para com Deus, Deus circuncidará o coração do homem, para que viva (Dt 30:6). Se o objetivo da circuncisão é vida, isso significa que os filhos de Israel, assim como o restante da humanidade, estavam mortos em delitos e pecados, sendo necessário que Deus circuncidasse o coração deles, assim como um pai, quando circuncida o prepúcio de um filho, para que fosse participante da natureza divina, designados filhos e em comunhão com Deus.

Daí o clamor aos filhos de Jacó: “Inclinai os vossos ouvidos e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá” (Is 55:3). Deus sempre instou contra o povo de Israel de que estavam mortos e de que necessitavam da palavra de Deus para terem vida: “E te humilhou e te deixou ter fome e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” (Dt 8:3).

Para que o homem tenha vida, é necessário obedecer ao seu mandamento, pois Deus retirará (circuncisão) o coração de pedra herdado de Adão (velha natureza) e dará um novo coração de carne e um novo espírito (novo nascimento).

Quando o profeta Ezequiel ordena aos seus ouvintes para que façam para si um novo coração (Ez 18:31), significa que deveriam obedecer a palavra de Deus, pois é só Deus quem tem poder para dar um novo coração e um novo espírito: “E dar-vos-ei um coração novo, porei dentro de vós um espírito novo e tirarei da vossa carne o coração de pedra e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis” (Ez 36:26-27).

O profeta Jeremias também faz alusão ao arrependimento, quando diz: “SE voltares, ó Israel, diz o SENHOR, volta para mim” (Jr 4:1). Como voltar-se para o Senhor? Obedecendo-O! Quando o homem obedece à palavra do Senhor, está declarando que Deus é verdadeiro, como se lê: “E jurarás: Vive o SENHOR na verdade, no juízo e na justiça; nele se bendirão as nações e nele se gloriarão” (Jr 4:2).

Davi obedece à palavra de Deus quando diz: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova em mim um espírito reto” (Sl 51:10). Como? Não é este o mandamento de Deus: “E há de ser que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” (Jl 2:32).

Quando Davi clama a Deus por um novo coração e por um novo espírito, está reconhecendo a sua condição herdada de Adão: pecador (Sl 51:5), e que somente quando Deus cria (bara) um novo coração e dá um novo espírito é que passa a existir verdade no seu intimo.

No Novo Testamento, o mandamento de Deus é crer em Cristo, o filho de Deus. Se alguém possuía qualquer concepção de como ser salvo, a exemplo dos judeus, que pensavam que, para serem salvos, era necessário serem descendentes da carne de Abraão, deveria mudar o seu conceito (arrepender-se) e obedecer ao mandamento de Deus.

A mensagem de João Batista era: “Mudem a concepção de vocês, porque é chegado o reino dos céus!”; “Quem ensinou vocês a se livrarem da ira futura, pois não basta dizer temos por pai a Abraão”. A palavra que define a mudança de concepção: – “Creio em Cristo para ser salvo”, em substituição à ideia; : – “Tenho por pai a Abraão”, é o termo grego ‘metanoia’.

Cristo é a fé que se manifestou na plenitude dos tempos, para obediência de todos os povos: “PAULO, servo de Jesus Cristo, chamado para apóstolo, separado para o evangelho de Deus. O qual, antes prometeu, pelos seus profetas, nas santas escrituras, Acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi, segundo a carne, Declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor, Pelo qual recebemos a graça e o apostolado, para a obediência da fé entre todas as gentes pelo seu nome, Entre as quais sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo” (Rm 1:1-6; Gl 3:23).

Através da obediência da fé (evangelho), Deus opera naqueles que creem na circuncisão de Cristo, ou seja, o despojar de toda a carne, conforme o prometido nos profetas: “No qual também estais circuncidados com a circuncisão, não feita por mão, no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo; Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes, pela fé, no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos” (Cl 2:11-12).

Quando o homem crê, é crucificado com Cristo, morre e é sepultado. Entretanto, ressurge com Cristo, assim como Cristo ressurgiu dentre os mortos, pelo poder de Deus. Dessa forma, o crente passa a viver em verdadeira justiça e santidade, pois a impiedade que havia em seu coração, a que foi herdada de Adão, foi desarraigada (Sl 58:3).

 

O Fruto do arrependimento

O arrependido deixa de confessar o que professava, quando no pecado, como faziam os escribas e fariseus que, após serem batizados no batismo de João, continuavam dizendo que eram descendência de Abraão, ou que nunca foram escravos de ninguém (Mt 3:9; Jo 8:33).

O arrependido produz um novo fruto, o fruto dos lábios que confessam a Cristo (Hb 13:15). Um judeu arrependido produz uma nova confissão, um fruto diferente do fruto antigo que invocava Abraão por pai. O fruto digno de arrependimento é admitir que Cristo Jesus é o Verbo de Deus, que veio em carne como luz do mundo, viveu sem pecado, morreu por causa do pecado da humanidade e ressurgiu pelo poder de Deus, conforme as Escrituras.

O fruto digno de arrependimento é fruto dos lábios e não de ações. As ações e a aparência não são o ‘fruto’, que se identifica se a arvore é boa ou má, antes, o fruto é o dos lábios. Diz de um único fruto, pois há uma só fé, um só evangelho.

O fruto que a boca do arrependido produz demonstra que o seu coração não é dobre, maligno, mentiroso. Se o homem é gerado de novo em Cristo Jesus, nascido da semente incorruptível, que é o evangelho, o que sai da boca do arrependido será uma confissão segundo a mensagem do evangelho, pois a boca fala do que o coração está cheio.

Por exemplo: se alguém disser que é filho de Deus porque creu em Cristo, conforme a Escritura, confessa a verdade, não é maligno, mentiroso e dobre. Mas, se um judeu confessar que, por ser descendente de Abraão, é filho de Deus, é mentiroso, maligno e dobre (1 Jo 4:2).

É em função da falta do fruto dos lábios entre os judeus que o escritos aos Hebreus dizem que, sem fé, é impossível agradar a Deus, ou seja, sem a fé que se manifestou, que é Cristo, é impossível se aproximar ou agradar a Deus (Hb 11:6; Gl 3:23).

O fruto digno de mudança de concepção (fruto dos lábios), que o vinhateiro aguardou, por três anos, para que a figueira produzisse, mas não produziu, era crerem em Cristo e confessarem com a boca, que Ele é o Senhor: “E disse ao vinhateiro: Eis que há três anos venho procurar fruto nesta figueira, mas não o acho. Corta-a; por que ocupa ainda a terra inutilmente?” (Lc 13:7).

Nesses termos, Calvino tem razão, ao dizer que o arrependimento não precede a fé, antes, o arrependimento decorre da fé, porém, há um equivoco na ideia de que o homem precisa ‘aplicar-se retamente ao arrependimento’[2].

Quando entendemos ‘fé’, como a mensagem do evangelho, pela qual devemos batalhar (Jd 3), mas não como ‘acreditar’, verifica-se que a fé foi manifesta em Cristo e, ao crer em Cristo, o homem arrependeu-se, plenamente.

Um judeu que mudou a sua concepção, ou seja, que deixou de acreditar que era salvo por ser descendente da carne de Abraão, se arrependeu plenamente. Calvino faz  confusão entre arrependimento e penitência, pois a penitencia é doutrina católica e demanda do penitente uma vida de exercício de penitências. Percebe-se que a ideia de aplicar-se ao arrependimento decorre da ideia da penitencia, não da mudança de pensamento, que é próprio à ‘metanoia’.

Para Calvino, o arrependimento está mais para mudança comportamental e de caráter (se afaste dos erros da vida e tome a via reta), do que para a mudança de concepção frente à mensagem do evangelho. Para Ele, o arrependimento dá ‘frutos’ e não ‘fruto’, pois este diz da confissão de que Jesus é o Cristo, mas aquele, de ações comportamentais.

Observe:

“Quando até mesmo a História Sagrada diz que arrepender-se é ir após Deus, a saber, quando os homens, que não tinham a Deus em mínima conta, se esbaldavam em seus deleites, agora começam a obedecer-lhe à Palavra e se põem à disposição de seu Chefe para avançar, aonde quer que ele os haja de chamar. E João Batista e Paulo usaram da expressão produzir frutos dignos de arrependimento [Lc 3.8; At 26.20; Rm 6.4] em lugar de levar uma vida que demonstre e comprove, em todas as ações, arrependimento desta natureza”. Idem, pág. 74.

Enquanto Calvino entendeu que produzir ‘frutos’ dignos de arrependimento é levar uma vida que demonstre e comprove o arrependimento, o fruto do arrependimento proposto por João Batista e Cristo tinha em foco a confissão dos escribas e fariseus,  não as suas ações cotidianas.

Aos olhos dos homens, os escribas e fariseus pareciam justos, portanto, quem olhasse para eles tinha a impressão de que se arrependeram. Porém, quem olha para o fruto, o fruto dos lábios, não se deixa enganar pela aparência ou, pelo comportamento.

O fruto digno de arrependimento não provém dos homens, mas de Deus, que os criou:

“Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz, para o que está longe; e para o que está perto, diz o SENHOR, e eu o sararei” (Is 57:19).

A salvação em Cristo não é mudança de hábitos cotidianos ou, de comportamentos de cunho moral, pois se assim fosse, os fariseus teriam sido aprovados por Cristo, visto que aos olhos dos homens eles pareciam justos. Devotos à vida monástica ou clausural, também, estariam aptos a entrarem no reino dos céus, por adotarem um estilo de vida de resignação que os diferencia dos demais homens: “Assim também vós, exteriormente, pareceis justos aos homens, mas, interiormente, estais cheios de hipocrisia e de iniquidade” (Mt 23:28).

Não se deve conceber o arrependimento como prática cotidiana ou, como conduta, que o cristão deve se amoldar e seguir, metodicamente, pelo resto da sua existência neste mundo. O arrependimento não é prática diária, como ditava a concepção católica, ao traduzir o termo grego ‘metanoia’, pelo latim ‘paenitentia’, que é prática diária que se concretiza em rezas, indulgências e penitências.

Quando critica os anabatistas, João Calvino sinaliza que a sua concepção de arrependimento, também, dizia de uma prática que deveria ser adotada e desenvolvida durante toda a existência do crente, posicionamento este, semelhante ao dos católicos, que, com relação ao arrependimento, cunharam o termo ‘paenitentia’.

Muitos equívocos de Calvino decorrem da má leitura de uma passagem bíblica, mesmo em tratados que ele repreende outros pela má leitura. Por exemplo: ao citar o que foi registrado pelo médico Amado: “testificando tanto a judeus como a gregos o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo” [At 20.21; cf. At 10.42][3], Calvino conclui que a fé é distinta do arrependimento e recrimina aqueles que entendem que arrependimento e fé são a mesma coisa.

Se entendermos a fé (substantivo) como mensagem do evangelho, claro está que se distingue do arrependimento, pois, este é consequência daquele. Porém, se entendermos ‘fé’ como ‘crer’ em Cristo, certo é que crer resulta da fé, portanto, crer e arrepender-se são a mesma coisa.

Calvino não está errado ao distinguir ‘arrependimento’ de ‘fé’, porém, equivoca-se  quanto à leitura do versículo, pois o apóstolo Paulo estava evidenciando o conteúdo do que era anunciado aos judeus e aos gentios. Enquanto aos judeus era anunciado o arrependimento para com Deus, aos gentios era anunciada somente a fé em Cristo Jesus.

Os judeus, por acreditarem que eram salvos, por serem descendentes de Abraão, precisavam mudar de concepção para crer em Cristo: “Arrependei-vos (mudem de concepção), pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados…” (At 3:19); “E dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos (mudem de concepção) e crede no evangelho” (Mc 1:15). Já, os gentios, precisavam ter contato com o evangelho, para exercer fé em Cristo. Quando Filipe pregou ao eunuco, nada disse acerca do arrependimento, pois através das Escrituras expôs quem era o Cristo (At 8:35). O apóstolo Pedro, na casa de Cornélio, não anunciou o arrependimento, antes expôs quem era o Cristo (At 10:42).

O apóstolo Paulo, por sua vez, ao discursar no Areópago, após observar o quanto eram idólatras, enfatizou que Deus não leva em conta o tempo da ignorância e, que, portanto, agora era anunciado o arrependimento (At 17:30). Ora, os atenienses precisavam abandonar as suas crenças e crerem em Cristo, por isso concitou-os ao arrependimento.

 

A definição de arrependimento de João Calvino

João Calvino, ao esclarecer a sua definição de arrependimento, apresentou três pontos e no, segundo, declara que o verdadeiro arrependimento decorre de um ‘real temor’ de Deus e por ‘real temor’, ele entendia um ‘despertamento’, que seria uma inclinação ao arrependimento, provocada pelo ‘senso do juízo divino’, que seria medo ante a possibilidade de comparecer diante do tribunal de Deus para ser julgado. Observe:

“O segundo ponto era que ensinamos que o arrependimento procede do real temor de Deus. Pois, antes que a mente do pecador se incline ao arrependimento, importa seja ela despertada pelo senso do juízo divino. Quando, porém, este senso se tenha fixado, profundamente, de que Deus um dia haverá de subir ao seu tribunal, a fim de exigir a razão de todas as palavras e feitos, não permitirá que o mísero ser humano descanse, nem que respire um instante, sem que o aguilhoe constantemente a meditar em outro modo de vida, em que possa postar-se em segurança diante desse Juízo (…) Por vezes a Escritura declara que Deus é Juiz mediante castigos já infligidos, para que os pecadores ponderem consigo mesmos que, a menos que se arrependam em tempo, coisas piores os ameaçam. Os capítulos 20 e 29 de Deuteronômio são ricos em exemplos”. Idem, pág. 75.

Ora, o ‘temor do Senhor’ não se constitui ‘medo’ do juízo ou do fogo do inferno. O temor que promove o arrependimento diz da palavra de Deus, o conhecimento que é o princípio da sabedoria. Apesar de Deus ser Todo-poderoso, a ninguém oprime: “Ao Todo-Poderoso, não podemos alcançar; grande é em poder; porém a ninguém oprime em juízo e grandeza de justiça” (Jó 37:23).

A palavra ‘temor’, quando empregada nas Escrituras, na maioria das vezes, refere-se ao mandamento de Deus, que, quando obedecido, é o mesmo que ‘temer’. Deus deve ser honrado, obedecido, temido, porque Ele é perdão, e não porque Ele se impõe através do medo ou do castigo: “Mas contigo está o perdão, para que sejas temido (obedecido)” (Sl 130:4).

É em função da palavra de Deus que Moisés disse ao povo:

“Não temais (não tenham medo), Deus veio para vos provar e para que o seu temor (mandamento, sabedoria, instrução) esteja diante de vós, afim de que não pequeis” (Êx 20:20).

Não era para o povo de Israel ter tido medo e se afastar de Deus quando viram os relâmpagos e ouviram os trovões no monte Sinai, pois o objetivo de Deus era que o seu temor (palavra) estivesse com o povo.

Quando Deus se apresentou ao povo de Israel no monte Sinai foi para que ouvissem a palavra de Deus, enquanto Ele falava com Moisés. Os raios e os trovões eram somente uma prova, testando a confiança do povo em Deus, e, em seguida, Deus haveria de anunciar a sua palavra, o seu ensinamento, o seu temor.

Somente a palavra de Deus, escondida no coração, evita que o homem não peque contra Deus: “Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti” (Sl 119:11) e, por isso mesmo, Deus se apresentou aos filhos de Israel, para que o Seu temor, ou seja, as Suas palavras, estivessem perante eles, para que não pecassem.

O convite expresso pelo Salmista não é para impor ao aprendiz medo, antes, a palavra de Deus: “Vinde, meninos, ouvi-me; eu vos ensinarei o temor do SENHOR” (Sl 34:11). Cristo veio ao mundo ensinar aos homens o temor do Senhor, de modo que, quem se posta a ouvi-lo, aprende o temor do Senhor, não a ter medo do juízo ou da condenação ao inferno: “Em verdade vos digo que, qualquer que não receber o reino de Deus como menino, não entrará nele” (Lc 18:17); “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” (Mt 11:28-29).

Cristo é o Verbo de Deus, o temor que permanece para sempre: “O temor do SENHOR é limpo e permanece eternamente; os juízos do SENHOR são verdadeiros e justos juntamente” (Sl 19:9); “Porquanto, odiaram o conhecimento; e não preferiram o temor do SENHOR:” (Pv 1:29); “Então, entenderás o temor do SENHOR e acharás o conhecimento de Deus” (Pv 2:5).

Percebe-se que a compreensão de Calvino foi prejudicada por não saber distinguir o verdadeiro significado do termo ‘temor’, quando empregado em algumas passagens bíblicas da conotação que, comumente, é atribuído ao termo: medo.

O temor do Senhor não consiste em ameaças de que ‘coisas piores acontecerão com o pecador’[4]. A conversão não tem início com o ‘horror’ ou  o ‘ódio’ ao pecado, como pensam mas, através da pregação do evangelho. Ora, o pecador é nascido em pecado, ou seja, é escravo do pecado, de modo que ‘odiar’ o pecado é impossível ao pecador.

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Mt 6:24).

Na Bíblia, os termos ‘amor’ e ‘ódio’, não possuem conotação sentimental, antes, amor se refere a serviço, dedicação, obediência e ódio significa desprezo, desobediência, desserviço. O pecador pode sentir ‘raiva’ do seu senhor, o pecado, porém, a única coisa que o livra do seu senhor é a morte.

Como pecador, o homem ama (serve) ao pecado, independentemente das condutas diárias. O pecador é gerado segundo a desobediência, por isso é filho da ira, desagradável, reprovável e alienado de Deus.

Sob a alegação de ódio ao pecado, muitos levantaram a flâmula do puritanismo e execraram muitas pessoas que tinham uma conduta inconveniente na sociedade. Julgaram os outros segundo a aparência e se carregam de ordenanças segundo os preceitos e doutrinas dos homens (Cl 2:20-22).

Em razão da visão distorcida do que é o evangelho, nem de longe tais pseudo seguidores de Cristo lembram o Mestre, pois Cristo foi claro: “Vós julgais segundo a carne; eu a ninguém julgo” (Jo 8:15); “Vós julgais segundo a carne; eu a ninguém julgo” (Jo 8:15).

A ideia de que o arrependimento demanda a ‘mortificação da carne’ e ‘a vivificação do Espírito’, não é verdadeira. Observe:

“Em terceiro lugar, resta explicar o que significa dizermos que o arrependimento consta de duas partes, a saber: da mortificação da carne e da vivificação do Espírito (…) Pois, quando mandam o homem retroceder da maldade, em seguida exigem a mortificação de toda a carne, a qual está saturada de maldade e de perversidade. Coisa mui difícil e árdua é despir-nos de nós mesmos e apartar-nos de nossa disposição natural. Ora, não se deve julgar que a carne já foi bem mortificada, a não ser que tenha sido abolido tudo quanto temos de nós próprios. Como, porém, todo afeto da carne é inimizade contra Deus [Rm 8.7], o primeiro passo para a obediência de sua lei é essa renúncia de nossa natureza”. Idem.

Na verdade, o arrependimento demanda, por parte do homem, tão somente a mudança de concepção, acerca de como ser salvo, ou seja, o ouvinte abandona os seus conceitos antigos e abraça um novo. Já a ‘mortificação da carne’ e a ‘vivificação do Espírito’ são obras exclusivas de Deus.

Há uma má leitura no artigo de João Calvino, com relação ao verso: “Desiste do mal e faz o bem” (Sl 34:14; Sl 37:27). O desistir do mal e fazer o bem diz do arrependimento em si. O verso não trata de boas ações ou de comportamento, mas do que aprenderam: “Porventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Então podereis vós fazer o bem, sendo ensinados a fazer o mal?” (Jr 13:23).

Desistir do mal é deixar de fazer o mal que foi instruído a fazer, o mesmo mal expresso pelo profeta Isaías: “Deixe o ímpio o seu caminho e o homem maligno os seus pensamentos e se converta ao SENHOR, que se compadecerá dele; torne para o nosso Deus, porque grandioso é em perdoar” (Is 55:7).

Como é possível ao homem guardar a língua do mal? Como guardar os lábios de não falar engano?

Falar engano é um problema de nascimento, pois desde que nascem os ímpios falam engano (Sl 58:3). Para resolvê-lo, é necessário fazer como o salmista Davi, que suplica a Deus um coração e um espírito novo. Quando a Bíblia apresenta um problema afeto aos lábios, a raiz do problema está no coração, não nas ações ou na moral humana: “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” (Mt 12:34); “Mas, o que sai da boca, procede do coração e isso contamina o homem” (Mt 15:18).

Para reconhecer-se pecador, um judeu tinha que mudar a sua concepção de que era justo, por ter por pai a Abraão. Como enxergar que eram oprimidos e cansados e que necessitavam aprender de Jesus, se tinham em Abraão a ideia de salvação? “E ele, respondendo, disse-lhes: Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, Mas o seu coração está longe de mim” (Mc 7:6 ); “Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus” (Mt 5:8).

O Pregador apresenta como o homem se aparta do mal:

“Filho meu, atenta para as minhas palavras; às minhas razões inclina o teu ouvido. Não as deixes apartar-se dos teus olhos; guarda-as no íntimo do teu coração. Porque são vida para os que as acham, e saúde para todo o seu corpo. Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida. Desvia de ti a falsidade da boca, e afasta de ti a perversidade dos lábios” (Pv 4:20-24).

Quando lemos: “Lavai-vos, sede limpos, removei de meus olhos o mal de vossas obras. Cessai de agir perversamente, aprendei a fazer o bem, buscai o juízo, vinde em socorro do oprimido” ( Is 1:16 -17), não podemos esquecer que os profetas falavam ao povo por parábola e que se utilizavam de enigmas, símiles, adágios (Os 12:10).

Uma única ordem está embutida nos verbos: ‘lavai-vos’, ‘sede’, ‘removei’, ‘cessai’, ‘aprendei’, ‘buscai’, ‘vinde’. Todos são paradigmáticos de Isaías 1, verso10:

“Ouvi a palavra do SENHOR, vós poderosos de Sodoma; dai ouvidos à lei do nosso Deus, ó povo de Gomorra” (Is 1:10).

Se dessem ouvidos à palavra do Senhor, os filhos de Jacó seriam lavados e limpos, tornando-se brancos como a neve. Removeriam o mal de suas obras de diante do Senhor. Deixariam de fazer o mal, etc. Jesus mesmo disse: “Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado” (Jo 15:3). Como resultado, disse o apóstolo Paulo: “E estais perfeitos nele, que é a cabeça de todo o principado e potestade” (Cl 2:10).

Para deixar de fazer o mal, é necessário aprender o bem, mas o povo de Israel estava acostumado a fazer o mal, como foram ensinados (Jr 13:23).

Quando o homem crê em Cristo, livra-se da maldade. A ação seguinte é pertinente a Deus, que circuncida o crente com a circuncisão de Cristo. Na circuncisão, é despojado todo o corpo do pecado da carne (Cl 2:11), de modo que, os que creem, não estão mais na carne (Rm 8:9); “E os que são de Cristo, crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” (Gl 5:24).

Só há duas posições em que o homem pode estar:

a) em Cristo, uma nova criatura, ou;

b) na carne, uma velha criatura.

Através da fé (evangelho), o crente tornou-se agradável a Deus, de modo que a carne foi extinta através da cruz de Cristo pois, se o homem estiver na carne, está em inimizade com Deus. Já que o crente foi crucificado com Cristo, sepultado e ressurgiu com Ele, isso significa que a carne já foi abolida.

A renovação do Espírito decorre da semente incorruptível, que é a palavra de Deus: “Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo” (Tt 3:5; 1 Pe 1:3 e 23). A semente incorruptível, que é a palavra de Deus, é o que promove o novo nascimento, não o fruto:

“Em seguida, os profetas assinalam a renovação do Espírito em termos dos frutos que daí se produz, a saber: da justiça, do juízo e da misericórdia”. Idem, pág. 77.

O fruto do Espírito é proveniente do Espírito, de modo que, basta estar ligado à videira verdadeira, que é Cristo, para produzi-lo (Jo 15:4-5).

Calvino fez confusão entre ‘fruto do Espírito’ e a ‘ação do Espírito’. A ação do Espírito Santo é convencer o homem de que todos pecaram, por terem sidos gerados de Adão. Só pelo espírito, a mensagem de Cristo, o homem é inteirado de que a humanidade foi julgada e está condenada à morte em Adão e, que o juízo de Deus já foi estabelecido lá no Éden: “E, quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo” (Jo 16:8); “Pois assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação…” (Rm 5:18).

O fruto do Espírito é produzido pelas varas que estão em Cristo e possui as seguintes características: “Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança” (Gl 5:22); “Porque o fruto do Espírito está em toda a bondade, justiça e verdade” (Ef 5:9).

O homem, por si só, não se despe do velho homem, pois o velho homem refere-se à sua condição herdada de Adão. Sem morrer com Cristo, quando o velho homem é crucificado, é impossível ao homem livrar-se do velho homem. O homem não se despe do velho homem, antes, o velho é crucificado e sepultado quando se crê em Cristo.

Quando a Bíblia faz referência ao despir, diz do que era pertinente ao velho homem e apresenta tal evento concluso (e no passado), como se lê: “Não mintais uns aos outros, pois que já vos despistes do velho homem com os seus feitos e vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Cl 3:9-10). Ora, os despidos do velho homem, já se revestiram de Cristo (Gl 3:27), de modo que o velho homem não mais vive, antes Cristo vive nos de novo gerados.

A ordem na Bíblia para que os crentes se desfaçam do que é pertinente ao velho homem, ou seja, despojar-se, é o despojar-se dos feitos, das ações, dos pensamentos, das emoções, etc., não do que foi realizado por Cristo nos que creem.

Ora, o velho homem morreu, porém, é necessário lançar fora as coisas que eram pertencentes ao velho homem e, dentre elas, o apóstolo Paulo destaca: “da ira, da cólera, da malícia, da maledicência, das palavras torpes da vossa boca” (Cl 3:8).

Há uma grande confusão entre ‘despir’ e ‘despojar’, visto que este verbo diz do comportamento do velho homem e aquele, da velha natureza herdada de Adão. Enquanto o ‘despir’ ocorre quando se crê em Cristo, o ‘despojar’ é gradual, contínuo, pois demanda a renovação do entendimento, quando o cristão vai aprendendo a se portar como filho de Deus (Rm 12:2).

Calvino, no terceiro ponto, confunde arrependimento, que é mudança de concepção, com a ação sobrenatural que Deus (regeneração) opera naqueles que mudaram a sua concepção (arrependeram), crendo em Cristo:

“Em terceiro lugar, resta explicar o que significa dizermos que o arrependimento consta de duas partes, a saber: da mortificação da carne e da vivificação do Espírito. (…) Ora, não se deve julgar que a carne já foi bem mortificada, a não ser que tenha sido abolido tudo quanto temos de nós próprios. Como, porém, todo afeto da carne é inimizade contra Deus [Rm 8.7], o primeiro passo para a obediência de sua lei é essa renúncia de nossa natureza”. Idem, pág. 76.

“Portanto, interpreto o arrependimento com uma palavra: regeneração, cujo objetivo não é outro, senão que, em nós, seja restaurada a imagem de Deus, a qual fora empanada e quase apagada pela transgressão de Adão” Idem, pág. 77. Griffo nosso.

De tudo o que analisamos até agora, foi verificado que, primeiro é anunciado aos pecadores a fé, o dom de Deus, o evangelho de Cristo (Ef 2:8). Em seguida, os que creem na mensagem do evangelho, concomitantemente, mudaram de concepção, ou seja, se arrependeram. É através da mensagem do evangelho que o Espírito Santo convence o mundo do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16:8).

Depois que ouviu a palavra da verdade (fé), o evangelho que é o poder de Deus, para salvação, e crê (mudou de concepção e creu), o crente é selado com o Espírito Santo da promessa: “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa”. (Ef 1:13, Rm 1:16-17, Mc 1:15).

No instante em que se muda de concepção (arrepende), crendo em Cristo, o homem é crucificado e morto com Cristo, ou seja, conforma-se na morte com Cristo (Rm 6:5, Fl 3:10). Em seguida, é sepultado com Cristo na sua morte e ressurge uma nova criatura, criada, segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade (Ef 4:24). Ao crer em Cristo, o arrependido conformou-se com Cristo na sua morte, e por isso, é participante da sua ressurreição.

Todos esses eventos ocorrem com o arrependido, sem que ele perceba, pois, se trata de ação sobrenatural de Deus.  O apóstolo Pedro fala desse evento, utilizando a palavra αναγενναω[5] (anagenao, corolário de gene, com o prefixo ana, que significa de novo, novamente, outra vez), que significa, especificamente, regenerar, nascer de novo, renascer (1 Pd 1:3). O apóstolo Paulo, ao escrever a Tito, utilizou o termo παλιγγενεσία[6] (paliguenesia), para descrever o mesmo evento.

Os termos referem-se a um novo gerar, remetem a uma nova semente e apontam para a vontade de Deus: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus”. (Jo 1:12-13).

Os que mudam de concepção, crendo em Cristo, recebem poder de serem feitos filhos de Deus, nascidos da vontade de Deus,  não da vontade da carne, da vontade do varão ou do sangue. Não diz de uma vida implantada, que habilite ao arrependimento e à fé, antes, diz de uma nova vida, por ter se extinguido a antiga, decorrente da fé (evangelho), que leva o homem à mudança de concepção (arrependimento).

Na regeneração, não há transformação do coração, antes ocorre uma incisão: a circuncisão de Cristo, quando o coração de pedra é arrancado e lançado fora. Não somente o coração herdado de Adão é arrancado e lançado fora, como também todo o corpo do pecado (Cl 2:11). É um equivoco conceber que Deus transforma coração, antes, Ele dá um novo (Sl 51:10).

A circuncisão no prepúcio da carne era feita por mãos de homens, por pais segundo a carne. A circuncisão de Cristo é operada por Deus, o Pai espiritual, que arranca o coração enganoso, lança fora e dá um novo coração: “E lhes darei um só coração e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o coração de pedra e lhes darei um coração de carne” (Ez 11:19).

O homem no pecado não está morto, inerte, insensível, etc., antes está morto para Deus e vivo para o pecado. Quando morre com Cristo, o homem morre para o pecado e passa a viver para Deus. É equivoco inominável achar que o homem no pecado está espiritualmente morto, antes ele vive no pecado, portanto, está separado (morto) de Deus.

Quando o apóstolo Paulo faz referência ao passado dos cristãos e diz que todos estavam mortos em delitos e pecados (Ef 2:1 e 2:5), ele estava evidenciando que estávamos todos vivos (unidos) para o pecado e separados (mortos) para Deus.

As seguintes declarações resultam de má leitura e má interpretação bíblica:

“Ora, não se deve julgar que a carne já foi bem mortificada, a não ser que tenha sido abolido tudo quanto temos de nós próprios. Como, porém, todo afeto da carne é inimizade contra Deus [Rm 8.7], o primeiro passo para a obediência de sua lei é essa renúncia de nossa natureza”. Idem, pág. 76.

Como não se deve aceitar (julgar) que a carne está mortificada, quando se crê em Cristo? Se o velho homem foi com Cristo crucificado, como entender que a carne não foi mortificada?

“Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado” (Rm 6:6).

O apóstolo Paulo, também, diz:

“Porque já estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo, em Deus” (Cl 3:3).

E mais:

“E os que são de Cristo, crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências” (Gl 5:24).

Quem creu em Cristo, crucificou o velho homem que vivia segundo a carne e, ao crucificar o velho homem, a carne, as paixões e as concupiscências, também, foram crucificadas para o indivíduo que creu.

Como principio norteador da existência dos descrentes, a carne continua a subsistir, mas, para aquele que creu em Cristo, liberto está da lei do pecado e da morte (Rm 8:2). Livres da lei e do pecado, por ter morrido com Cristo (Rm 7:6), agora os cristãos servem a Deus, em novidade de espírito, ou seja, segundo o evangelho, o conhecimento de Deus manifesto em Cristo. Após arrepender-se, o cristão serve a Deus com o conhecimento revelado em Cristo, diferente dos judeus que tinham zelo de Deus, mas sem entendimento (Rm 10:2).

Qualquer que quiser servir a Deus com a carne, estará sujeito à lei do pecado (Rm 7:25) pois, não está debaixo da graça, mas debaixo da lei. O apóstolo Paulo, após declarar que o seu ‘eu’ reconheceu a sua miserabilidade e questionou quem poderia livrá-lo do corpo da morte, decorrente da lei do pecado, deu graças a Deus, por Cristo Jesus, que, em seu conhecimento, livrou o apóstolo da lei do pecado e da morte (Rm 8:2).

Mas, o seu “eu”, quando na carne, por ter sido vendido como escravo ao pecado, pela ofensa de Adão (Rm 7:14), apesar de ter prazer na lei de Deus, conforme profetizado por Isaias (Rm 7:22), está preso à lei do pecado, pelo corpo herdado de Adão, segundo a carne: “CLAMA em alta voz, não te detenhas, levanta a tua voz como a trombeta e anuncia ao meu povo a sua transgressão e à casa de Jacó, os seus pecados. Todavia me procuram cada dia, tomam prazer em saber os meus caminhos, como um povo que pratica justiça e não deixa o direito do seu Deus; perguntam-me pelos direitos da justiça e têm prazer em se chegarem a Deus” (Is 58:1 -2).

Não adianta buscar servir à lei de Deus, se a carne é escrava do pecado, pois esse era o entendimento dos judeus, que serviam a Deus por intermédio da lei, mas que estavam servindo à lei do pecado, por causa da carne herdada de seus pais: “Assim que eu mesmo, com o entendimento, sirvo à lei de Deus, mas com a carne [sirvo] à lei do pecado” (Rm 7:25).

Quem creu em Cristo, além de ter sido com Ele crucificado, já ressurgiu com Cristo e está assentado com Ele nas regiões celestiais. Tanto a carne quanto as paixões e concupiscências foram crucificadas (Cl 3:1, Ef 1:3, Cl 2:12). A má leitura de Romano 8, verso 7, encobre o fato de que nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus (Rm 8:1), ou seja, que são novas criaturas (2 Co 5:17).

Tudo do passado foi abolido, visto que nova se fizeram todas as coisas (2 Co 5:17). O escrito de dívida foi cravado na cruz: “Levando ele mesmo, em seu corpo, os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados” (1 Pe 2:24; Cl 2:13-14).

Além de afirmar que a carne foi cravada na cruz e morta, o apóstolo Paulo enfatiza que, quem está em Cristo (nova criatura), não está mais na carne e nem anda segundo a carne: “Para que a justiça da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito (…) Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8:9).

‘Os que estão na carne’, refere-se aos que querem servir a Deus segundo a lei e, ‘os que estão no Espírito’, refere-se aos que estão em Cristo, por intermédio do evangelho. “Só quisera saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé? Sois vós tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, acabeis agora pela carne?” (Gl 3:2-3). Não podemos esquecer que os cristãos são’ ministros do espírito’, ou seja, do evangelho (2Co 3:6).

‘Receber o Espírito’, é estar de posse da promessa e, pela promessa, poder dizer: – “Aba, Pai”! Os da carne foram gerados conforme Ismael, já os do Espirito, gerados segundo a promessa semelhante a Isaque, ou seja, segundo a palavra de Deus: “E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai” (Gl 4:6, Gl 5:28-29); “Porque derramarei água sobre o sedento e rios sobre a terra seca, derramarei o meu Espírito sobre a tua posteridade e a minha bênção sobre os teus descendentes” (Is 44:3); “E lhes darei um só coração e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o coração de pedra e lhes darei um coração de carne” (Ez 11:19).

A natureza pecaminosa é renunciada quando o homem crê em Cristo e não mais é achado pecador, pois Cristo é ministro da justiça (1 Jo 3:8, Gl 2:17, Rm 6:14, 1 Jo 3:6, 9 e 5:18 e 1 Jo 4:17).

Quem busca preservar a sua própria concepção, por entender que nisto está a vida, perdê-la-á, mas quem se arrepende e crê no evangelho, salvar-se-á, pois ninguém pode servir (amar) a Deus e a si mesmo: “Nenhum servo pode servir a dois senhores; porque, ou há de odiar a um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Lc 16:13); “Porque qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas, qualquer que perder a sua vida por amor de mim e do evangelho, esse a salvará” (Mc 8:35); “Quem ama a sua vida perdê-la-á e quem neste mundo odeia a sua vida, guardá-la-á para a vida eterna” (Jo 12:25).

Assim como Ismael se opunha a Isaque, a carne se opõe ao Espírito. O apóstolo Paulo fala de dois senhores que querem ter o domínio sobre os homens, para que o homem não faça o que o seu próprio eu quer, antes se sujeite a eles: “Porque a carne cobiça contra o Espírito e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis” (Gl 5:17).

Se o homem se lançar às obras da lei, apresentou-se como servo para obedecer à carne, mas se o homem permanecer no evangelho, na liberdade em que Cristo o libertou, apresenta-se como servo obediente à justiça: “Não sabeis vós que, a quem vos apresentardes por servos, para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça?” (Rm 6:16).

Calvino equivoca-se ao ‘interpretar o arrependimento com uma palavra: regeneração’. A imagem que Deus concedeu a Adão, no Éden, não foi empanada e nem ‘quase’ apagada pois, quando Cristo veio ao mundo, veio, segundo a imagem que Ele mesmo havia dado a Adão, pois este foi criado à imagem daquele que havia de vir (Cristo), não pela expressa imagem do Deus invisível “… Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” (Rm 5:14).

No Éden, Adão perdeu a comunhão com Deus e, pela condenação decorrente da sua ofensa (morte), vendeu todos os seus descendentes como escravos ao pecado. Mas, a imagem que recebeu, não perdeu e nem precisou ser restaurada, pois todos os seus descendentes, segundo a carne, se tornaram almas viventes e trouxeram a imagem do homem terreno, que era a figura dada a Adão, que o Cristo assumiria ao se fazer carne (1 Co 15:47-49).

Ao ser introduzido no mundo, em tudo, Cristo foi semelhante aos homens: carne, sangue e fraquezas (Hb 2:14 e 17) pois, como homem, herdou a imagem terrena que deu a Adão, mas através da pessoa de Maria, a semente da mulher.

Cristo, ao ser morto possuía a imagem da qual Adão foi feito figura mas, quando ressurgiu dentre os mortos, tornou-se a expressa imagem do Deus invisível. O projeto anunciado por Deus, na primeira criação: – “Façamos o homem, conforme a nossa imagem e conforme a nossa semelhança”, foi levado a efeito quando Cristo ressurgiu dentre os mortos, quando herdou a semelhança do Deus invisível: “Quanto a mim, contemplarei a tua face na justiça; eu me satisfarei da tua semelhança quando acordar” (Sl 17:15).

A semelhança do Altíssimo foi um projeto que Deus estabeleceu em Si mesmo, na pessoa de Cristo (Ef 3:11), projeto esse que Satanás tentou usurpar, ao querer estar acima das estrelas de Deus, sendo semelhante ao Altíssimo: “Subirei sobre as alturas das nuvens e serei semelhante ao Altíssimo” (Is 14:14).

Ninguém, nascido segundo a carne de Adão, será restaurado à expressa imagem de Deus, antes, somente os que creem, após mortos com Cristo, ressurgem uma nova criatura que, desde a eternidade, foram predestinados a serem conforme a imagem de Cristo, para que Cristo seja alçado à posição de primogênito, entre muitos irmãos.

Se entendermos a fé (πίστις = pistis), como mensagem do evangelho, certo é que o arrependimento nasce da fé, no entanto, os que se arrependeram, seguem de posse da fé, o que é diferente da ideia de que o arrependimento segue em continuidade à fé.

“Entretanto, deve estar fora de controvérsia que o arrependimento não apenas segue, de contínuo, a fé, mas, inclusive, nasce dela”. Idem, pág 70.

O crente mudou de concepção, ao aceitar a fé, ou seja, arrependeu-se, portanto, abandonou sua crença e abraçou a fé. O apóstolo Paulo declarou que guardou a fé, sem fazer referência ao arrependimento (2 Tm 4:7). O apóstolo não guardou uma crença (πιστεύω), antes, guardou, inconspurcado, a mensagem do evangelho, a fé. Somente três coisas permanecem e dentre elas não está o arrependimento: a fé, a esperança e o amor (1 Co 13:13).

A ideia que Calvino teve, acerca da ‘metanoia’, não é a mudança de mente, mas, a ‘paenitentia’, da igreja católica. Observe:

“… para que se exercitem no arrependimento toda a sua vida e saibam que não há nenhum fim para esta luta, senão na morte (…) Para que os fiéis cheguem a este ponto, Deus lhes assinala o caminho do arrependimento, pelo qual percorram, pela vida inteira” Idem, pág. 78.

“O termo e o próprio conceito de penitência são bastante complexos. Se a relacionarmos com a metánoia, a que se referem os Sinópticos, a penitência significa, então, a íntima mudança do coração, sob o influxo da Palavra de Deus e na perspectiva do Reino. Mas, penitência quer dizer, também, mudar de vida, em coerência com a mudança do coração; e, neste sentido, o fazer penitência completa-se com o produzir frutos condignos de arrependimento: é a existência toda que se torna penitencial, aplicada numa contínua caminhada, em tensão para o que é melhor. Fazer penitência, no entanto, só será algo de autêntico e eficaz se se traduzir em actos e gestos de penitência. Neste sentido, penitência significa, no vocabulário cristão teológico e espiritual, a ascese, isto é, o esforço concreto e quotidiano do homem, amparado pela graça de Deus, por perder a própria vida, por Cristo, como único modo de a ganhar:  esforço por se despojar do homem velho e revestir-se do novo; por superar, em si mesmo, o que é carnal, para que prevaleça o que é espiritual; e esforço por se elevar continuamente das coisas de cá de baixo para as lá do alto, onde está Cristo. A penitência, portanto, é a conversão que passa do coração às obras e, por conseguinte, à vida toda do cristão” Paulo II, João. Exortação apostólica pós-sinodal – Reconciliatio et paenitentia – Sobre a reconciliação e a penitência na missão da igreja hoje.

Se ‘metanoia’ é mudança de concepção, por que na definição de arrependimento de João Calvino, ele diz que é ‘conversão de vida’? “… o arrependimento é a verdadeira conversão de nossa vida a Deus” Idem, pág. 74. Nisto, concorda João Paulo II, com João Calvino: “Mas, penitência, quer dizer, também, mudar de vida”.

É desses pensamentos que surge a primeira colocação de Calvino, acerca do arrependimento:

“Primeiro, quando o chamamos a volta da vida para Deus, requeremos uma transformação, não apenas nas obras exteriores, mas, inclusive, na própria alma, a qual, quando é despojada de sua velha natureza, então, afinal, em si, produz os frutos de obras que correspondam à sua renovação” Idem, pág. 74.

É certo que, após se arrepender, crendo em Cristo, o cristão precisa ter um bom porte na sociedade que está inserido, ou seja, precisa portar-se de modo digno, não dando escândalo a judeus, gregos e nem à igreja de Deus (1 Pe 3:16; 1 Co 10:32).

Entretanto, o arrependimento não diz do bom porte do cristão em Cristo, mas da sua mudança de concepção, ao aceitar a mensagem da cruz. O bom porte em Cristo se adquire com a renovação do entendimento, que resulta em transformação comportamental, de modo que os que se alimentam de mantimento sólido, em razão do costume, exercitaram os sentidos, estando aptos para discernir o bem e o mal, não se conformando com o mundo: “Mas, o mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal” (Hb 5:14, Rm 12:2).

É o mesmo que ‘cingir os lombos do entendimento’, quando o crente são se conforma com as concupiscências que antes tinha quando na ignorância (1 Pe 1:13-14).

O crente precisa se renovar quanto ao espirito do seu entendimento, despojando-se (lançando fora) do que era pertinente ao velho homem (mentira, ira, roubo, furto, palavras torpes, etc.), e revestindo-se do que é pertinente ao novo homem (benigno, compassivo, etc.).

Arrepender-se não é o mesmo que ‘fazer um coração novo’, pois só Deus pode dar um coração novo. Calvino fez má leitura de Ezequiel 18, verso 31:

“Lançai de vós todas as vossas transgressões com que transgredistes, e fazei-vos um coração novo e um espírito novo; pois, por que razão morreríeis, ó casa de Israel?” (Ez 18:31).

O lançar de si as transgressões é o mesmo que arrepender-se, mas fazer um coração novo e um espírito novo é ação sobrenatural de Deus que, assim, faz naqueles que se arrependem.

Ao arrepender-se, o homem se socorre de Deus que faz o que prometeu, portanto, ao se arrepender, considera-se que está fazendo um coração puro e um espírito novo:

“E lhes darei um só coração e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o coração de pedra e lhes darei um coração de carne” (Ez 11:19, Ez 36:25-27).

Quando Deus ordena aos homens que circuncidem o coração, na verdade espera que os homens se socorram d’Ele, pois aos homens é impossível circuncidarem o coração, assim como é impossível salvarem-se a si mesmos.

“E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração e o coração de tua descendência, para amares ao SENHOR teu Deus com todo o coração e com toda a tua alma, para que vivas” (Dt 30:6).

Como o homem circuncida o seu coração? Fazendo o que Deus requer:

“Agora, pois, ó Israel, que é que o SENHOR teu Deus pede de ti, senão que temas ao SENHOR teu Deus, que andes em todos os seus caminhos e o ames,  sirvas ao SENHOR teu Deus, com todo o teu coração e com toda a tua alma, que guardes os mandamentos do SENHOR e os seus estatutos, que hoje te ordeno, para o teu bem?” (Dt 10:12 -13).

Se o homem temer a Deus, andar em seus caminhos, amar, servir, guardar os mandamentos e os estatutos, circuncidará o coração, pois Deus haverá de fazê-Lo.

Por fim, vale destacar que o apóstolo Paulo não trata dos frutos do arrependimento, quando escreve a sua segunda carta aos Coríntios.

“O Apóstolo, porém, na descrição do arrependimento [2 Co 7.11], enumera sete causas ou, efeitos ou, partes; isso ele o faz com mui excelente razão. Ora, são elas: diligência ou solicitude, exame, indignação, temor, anelo, zelo, vindicação” Idem, pág. 83.

Ao escrever a sua segunda carta aos Corintos, o apóstolo Paulo evidencia que eles estavam estreitados em seus próprios afetos, ou seja, não correspondiam ao afeto que o apóstolo lhes demonstrava (2 Co 6:11-12). Daí a recomendação: – “Recebei-nos em vossos corações”.

Após destacar que os cristãos de Corinto estavam presentes no coração do apóstolo para, juntamente, viverem ou morrerem (2 Co 7:3), deixou claro que não sentia remorso (μεταμέλομαι = metamelomai)[7] de tê-los contristados em outra carta (2 Co 7:8). Mas, mesmo que houvesse sentido remorso por um período de tempo, pela carta ter entristecido os cristãos de Corinto, agora, contudo, estava alegre.

Ele deixa claro que não estava alegre por tê-los deixado tristes, mas, porque foram contristados para arrependimento (μετάνοια = metanóia). Ora, o arrependimento da qual o apóstolo Paulo trata aqui, não se refere à mudança de mente (arrependimento) com relação ao evangelho, pois os cristãos eram a igreja de Deus em Corinto (2 Co 1:1, 2 Co 5:17), portanto, plenamente arrependidos por serem crentes em Cristo para a salvação.

Os cristãos foram contristados, para que alguns mudassem a concepção que tinham acerca do apóstolo Paulo, para que, em nada, sofressem dano, por causa do que pensavam acerca do apóstolo: “Esta é minha defesa para com os que me condenam” (1 Co 9:3).

O fato de terem sido contristados, segundo Deus, produziu nos cristãos solicitude (afã, diligência), mas, não somente isso, produziu, também, defesa, indignação, temor, saudade, zelo, vindita, em favor do apóstolo Paulo. Com isso, demonstraram que nada deviam quanto ao assunto em pauta, na carta anterior (2 Co 7:11).

O apóstolo Paulo demonstra que escreveu a carta anterior, não por ter sido ofendido e nem por causa de quem o ofendera, mas, antes, para tornar manifesta a solicitude dos cristãos de Corinto. (2 Co 7:12).

O arrependimento tratado no capítulo 7, da segunda epístola aos Coríntios, não diz do arrependimento anunciado por João Batista. O arrependimento de João Batista não decorre do sofrimento; mas, o arrependimento de que o apóstolo Paulo estava tratando, tinha em vista o sofrimento, decorrente dos abundantes sofrimentos de Cristo, para com os cristãos (2 Co 1:5).

O apóstolo tinha plena certeza de que, se era afligido, era para a consolação e salvação dos cristãos (2 Co 1:6), de modo que, a tristeza, segundo Deus, produz mudança de concepção, sem remorso (pesar) para a salvação. O apóstolo Paulo não sentia remorso por sofrer aflições, para que os cristãos fossem consolados, e os cristãos ao serem contristados, tampouco, ficaram com pesar, antes, saíram em defesa do apóstolo, o que produziu consolação e salvação.

As sete causas ou, efeitos ou, partes, que Calvino atribuiu ao arrependimento anunciado por João Batista e o Senhor Jesus Cristo: ‘diligência ou solicitude, exame, indignação, temor, anelo, zelo, vindicação’, na verdade se referem à resposta que os cristãos deram, em defesa do apóstolo Paulo, quando foram contristados com a carta que receberam.

Se há inúmeros equívocos e má interpretação de textos bíblicos na exposição de Calvino (alguém que se posicionou como mestre e crítico ferrenho de outras concepções), em um tema de relativa facilidade, que se dirá da exposição que Calvino fez de outras doutrinas bíblicas mais complexas e dos pontos de difícil interpretação, como asseverou o apóstolo Pedro?

 


[1] “Isto posto, pelo menos, em meu modo de julgar, não se poderá, assim, definir mal o arrependimento: é a verdadeira conversão de nossa vida a Deus, procedente de um sincero e real terror de Deus, que consiste da mortificação de nossa carne e do velho homem e da vivificação do Espírito”. Calvino, João. As Institutas ou, Tratado da Religião Cristã, vol. 3, edição clássica (latim), pág 74.

[2] “Mas, os que pensam que o arrependimento precede à fé e não é produzida por ela, como o fruto de sua árvore, estes jamais souberam no que consiste sua propriedade e natureza, e, ao pensar assim, se apoiam num fundamento sem consistência”. Idem, pág. 70 “… por certo que ninguém pode abraçar a graça do evangelho a não ser que se afaste dos erros da vida e tome a via reta, e aplique todo seu esforço à prática do arrependimento”. Idem, pág 70. “… ao contrário, queremos pôr à mostra que o homem não pode aplicar-se seriamente ao arrependimento, a não ser que reconheça ser de Deus”. Idem, pág 71. “Mas, carece de toda evidência de razão o desvario daqueles que, para começar do arrependimento, prescrevem a seus neófitos, certos dias, durante os quais se exercitem em penitência; passados, afinal, os quais os admitem à comunhão da graça do evangelho. Falo da maior parte dos anabatistas, especialmente daqueles que exultam, sobremaneira, em ser tidos como os espirituais, e de seus confrades, os jesuítas, e gentalha afim. Tais frutos, evidentemente, são produzidos por esse espírito de torvelinho que limita, a uns poucos dias, a penitência que, ao homem cristão, deve prorrogar-se por toda a vida”. Idem, pág 72.

[3] “Se bem que estas coisas todas são verdadeiras, contudo o termo arrependimento, em si, até onde posso alcançar das Escrituras, deve ser tomado em acepção diferente. Visto que querem confundir a fé com arrependimento, se põem em conflito com o que Paulo diz em Atos [20.21]: “Testificando a judeus e gentios o arrependimento para com Deus e a fé em Jesus Cristo”, onde enumera arrependimento e fé como duas coisas diversas. E então? Porventura pode o verdadeiro arrependimento subsistir à parte da fé? Absolutamente, não. Mas, embora não possam ser separados, devem, no entanto, ser distinguidos entre si. Da mesma forma que a fé não subsiste sem a esperança e, todavia, fé e esperança são coisas diferentes, assim o arrependimento e a fé, embora sejam entre si ligados por um vínculo perpétuo, no entanto, demandam que permaneçam unidos, mas não confundidos.” Idem, pág. 73.

[4] “Não obstante, uma vez que a conversão começa do horror e ódio ao pecado, por isso o Apóstolo faz a “tristeza que é segundo Deus” [2Co 7.10] a causa do arrependimento” Idem, Pág. 76.

[5] “313 αναγενναω (anagennao), de 303 e 1080; TDNT – 1:673,114; v 1) regenerar, renascer, nascer de novo 2) metáfora – ter passado por uma transformação da mente, que leva a uma nova vida, que procura conformar-se à vontade de Deus”. Dicionário Bíblico Strong.

[6] “3824 παλιγγενεσια (paliggenesia), de 3825 e 1078; TDNT – 1:686,117; n f 1) novo nascimento, reprodução, renovação, recreação, regeneração 1a) por isso, renovação, regeneração, produção de uma nova vida consagrada a Deus, mudança radical de mente para melhor. A palavra é frequentemente usada para denotar a restauração de algo ao seu estado primitivo, sua renovação, como a renovação ou restauração da vida depois da morte 1b) a renovação da terra após o dilúvio 1c) renovação do mundo que terá lugar após sua destruição pelo fogo, como os estoicos ensinavam 1d) o sinal e gloriosa mudança de todas as coisas (no céu e na terra) para melhor, aquela restauração da condição primitiva e perfeita das coisas que existiam, antes da queda de nossos primeiros pais, que os judeus esperavam em conexão com o advento do Messias e que os cristãos esperam, em conexão com a volta visível de Jesus do céu. 1e) outros usos 1e1) da restauração, de Cícero, à sua posição e fortuna na sua volta do exílio 1e2) da restauração da nação judaica, após o exílio 1e3) da recuperação do conhecimento pela recordação”. Dicionário Bíblico Strong.

[7] “3338 μεταμελομαι (metamelomai) de 3326 e a voz média de 3199; TDNT – 4:626,589; v 1) estar, posteriormente, preocupado com alguém ou, algo 1a) estar arrependido, arrepender-se. Sinônimos, ver verbete 5862”. Dicionário Bíblico Strong.

Ler mais

Oração: confiança em Deus expressa em palavras

A mulher cananeia expressou a sua confiança em Cristo com as seguintes palavras: – “Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim, que minha filha está miseravelmente endemoninhada” (Mt 15:22). O rogo por misericórdia do Filho de Davi constitui oração, súplica, entretanto, pela natureza do pedido, esta mesma súplica constitui-se adoração, pois o teor do pedido só pode ser realizado por Deus.


Como confiar

É comum ouvirmos que Deus atende à oração daqueles que confiam n’Ele. Isso é verdade, porém, você sabe como confiar em Deus?

Confiar, do ponto de vista de cada indivíduo, é algo subjetivo, pois cada um pode confiar em Deus à sua própria maneira.

Entretanto, confiar em Deus, do ponto de vista bíblico, é algo objetivo e ao alcance de todos os homens.

Quando alguém se socorre de um médico, assim o faz porque confia que o seu problema vai ser diagnosticado e sanado. Mas, após o término da consulta, a prova de que realmente confia em seu profissional da área médica, se dá quando essa pessoa se submete às prescrições contidas na receita médica.

De nada adianta dizer: ‘confio no meu médico’, se não acatar as prescrições. Nesse sentido, de nada adianta dizer: – ‘Eu confio em Deus’ e não obedecer ao que Ele ordena.

A Bíblia nos apresenta um mandamento específico, que é prova de que realmente confiamos em Deus:

“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1Jo 3:23).

Não basta crer na existência de Deus, ou crer na possibilidade de um milagre. Um verdadeiro crente crê em Cristo como o Filho de Deus, pois é este o testemunho que Deus deu acerca de seu Filho nas Escrituras (Jo 7:38), a obra que o homem deve realizar (Jo 6:29; Tg 1:25).

A Bíblia é um testemunho vivo que Deus deu acerca do seu Filho, Jesus Cristo, portanto, qualquer que crê que Jesus é o Filho de Deus, realmente confia em Deus: “Quem crê no Filho de Deus, em si mesmo tem o testemunho; quem a Deus não crê mentiroso o fez, porquanto não creu no testemunho que Deus de seu Filho deu (1Jo 5:10).

Jesus mesmo disse que as Escrituras testificavam acerca d’Ele, pois o que foi registrado na Lei, nos Profetas e nos Salmos é o testemunho que Deus deu do seu Filho Jesus Cristo: “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna e são elas que de mim testificam” (Jo 5:39).

O apóstolo Paulo deixou registrado que Deus não faz acepção de pessoas, pois é Senhor de todos e generoso para com todos os que o invocam e para dar sustentação ao que afirmou, citou as Escrituras: “Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido” (Rm 10:11; Rm 9:33; Is 28:16).

Crer é algo de foro íntimo, portanto, impossível de ser mensurável por terceiros. Mas, para que o homem seja declarado justo, é necessário que creia, no coração, que Jesus é o Filho de Deus e que Ele ressurgiu dentre os mortos (Rm 10:9-10).

Aquele que crê com o coração que Deus ressuscitou a Cristo dentre os mortos, está apto a confessar (admitir) com a boca que Jesus é o Senhor. Através dessa confissão, que é o fruto dos lábios, fica evidenciado o que há no coração, pois a boca fala do que há em abundância no coração (Mt 12:34).

Só é possível identificar se uma pessoa realmente confia em Deus, quando ela confessa que Jesus é o Filho de Deus, da mesma forma que Simão Pedro confessou: “E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16:16; 1Jo 4:15). Quem assim confessa é porque crê nas Escrituras, ou seja, no testemunho que Deus deu acerca do seu Filho.

Muitos alegam que Deus só ouve (atende) às orações daqueles que possuem uma relação intima com Ele, ou que a oração agrega em si todas as formas de comunhão com Deus[1]. Mas, no que consiste tal relação ‘intima’? Jejuns, sacrifícios, votos, flagelo, penitência, etc.?

Ora, aquele que crê que Jesus é o Cristo e cuida do próximo, segundo o mandamento de Deus, é que ama a Deus, ou seja, que guarda os seus mandamentos (1Jo 3:22). Ora, quem crê em Cristo já possui uma relação intima com Deus, pois o apóstolo João mesmo diz que aquele que crê, Deus está nele e ele em Deus: “E aquele que guarda os seus mandamentos nele está, e ele nele. E nisto conhecemos que ele está em nós, pelo Espírito que nos tem dado” (1Jo 3:24).

‘Confiar’ em Deus transcende as palavras, pois só confia em Deus aquele que põe por obra o testemunho de Deus: crendo em Cristo (1Jo 3:18; Jo 6:29). Quem crê em Cristo faz o que é agradável a Deus, pois guardou o Seu mandamento (1Jo 3:22).

 

As beneficências prometidas a Davi

Quando alguém crê em Cristo alcança a maior riqueza que uma pessoa poderia adquirir: a salvação. A salvação em Cristo possui valor acima de todas as riquezas que há no mundo inteiro: “Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma? Ou que dará o homem em recompensa da sua alma?” (Mt 16:26).

O que era impossível alguém conquistar por si só, Deus conquistou para os que creem em Cristo: a salvação: “Os seus discípulos, ouvindo isto, admiraram-se muito, dizendo: Quem poderá pois salvar-se? E Jesus, olhando para eles, disse-lhes: Aos homens é isso impossível, mas a Deus tudo é possível” (Mt 19:25-26).

Ora, se alguém crê em Jesus Cristo como o Filho de Deus, é porque crê que Deus é poderoso para cumprir a Sua promessa, pois a prova de que a palavra de Deus é firme e imutável está em que Cristo ressuscitou dentre os mortos.

A promessa que Deus fez aos patriarcas, Deus cumpriu a nós, ressuscitando a Cristo (At 13:32), pois de Cristo decorre as firmes beneficências prometidas a Davi (At 13:34; Is 55:3).

Da mesma forma que Deus cumpriu a sua palavra, não deixando na sepultura o Seu Filho, todos os que creem ressurgem com Cristo (Rm 6:8), pois a promessa que Ele fez é a vida eterna (1Jo 2:25; 1Jo 5:13).

Além da salvação, o crente é herdeiro de Deus e coerdeiro com Cristo de todas as coisas: “Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas? (Rm 8:32; Rm 8:17).

Qualquer que confia e obedece a Deus já recebeu o maior dos milagres: a redenção da sua alma.

 

Confiando

A maior expressão de nossa confiança em Deus não se resume em uma súplica emitida através dos lábios, e sim na paz de espírito que experimentamos diante das vicissitudes da vida.

Quando o crente não se inquieta por coisa alguma, nisto está a sua oração. Não se abalar por questão alguma é a máxima expressão de confiança em Deus. Ficar inquieto, preocupado, ansioso, etc., não traz solução. Melhor é rogar a Deus confiando em seu favor (misericórdia), sendo grato em tudo: “Não estejais inquietos por coisa alguma; antes as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração e súplica, com ação de graças” (Fp 4:6).

Um exemplo de confiança, encontramos em Habacuque que, após Deus revelar que haveria de punir Israel através de homens ímpios, expressou a sua gratidão dizendo:

“Porque ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; ainda que decepcione o produto da oliveira e os campos não produzam mantimento; ainda que as ovelhas da malhada sejam arrebatadas e nos currais não haja gado; Todavia eu me alegrarei no SENHOR; exultarei no Deus da minha salvação(Hc 3:17-18).

‘Oração e súplica’ significa ‘confiança na misericórdia’, como lemos:

“ORAÇÃO do profeta Habacuque sobre Sigionote. Ouvi, SENHOR, a tua palavra, e temi; aviva, ó SENHOR, a tua obra no meio dos anos, no meio dos anos faze-a conhecida; na tua ira lembra-te da misericórdia (Hc 3:1-2).

Habacuque expressou a sua confiança em Deus (oração) confiado na misericórdia (súplica).

Quando é dito:Perseverai em oração, velando nela com ação de graças (Cl 4:2), o apóstolo Paulo está recomendando permanecer confiando, ou seja, não se demovendo da confiança em Deus: “Alegrai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, perseverai na oração” (Rm 12:12).

Muitos interpretam oração como sacrifício, penitência, no entanto, o termo oração não deve ser visto como entendem os gentios: vãs repetições, rezas, etc.

Observe este verso no grego quando transliterado:

“διὰ πάσης προσευχῆς καὶ δεήσεως προσευχόμενοι ἐν παντὶ καιρῷ ἐν

Por toda oração e petição orando em todo tempo em

πνεύματι, καὶ εἰς αὐτὸ ἀγρυπνοῦντες ἐν πάσῃ προσκαρτερήσει καὶ δεήσει περὶ

(o) espirito, e para isso vigiando em toda perseverança e petição por

πάντων τῶν ἁγίων”

todos os santos

‘προσευχῆς’ (oração) não é o mesmo que ‘δεήσεως’ (petição)? Porque o apóstolo Paulo faz referência duas vezes aos termos oração e petição em um mesmo verso?

Os termos gregos traduzidos por oração[2] são προσευχη (proseuche) e προσευχομαι (proseuchomai). O termo pode ser utilizado para denotar uma petição a Deus ou fazer referencia ao lugar em que se faz tais petições. Entretanto, os apóstolos fazem uso do termo sob um outro prisma: confiança, devoção.

Quando a mulher cananéia rogou por misericórdia e foi provada por Cristo, persistiu com toda devoção (oração) e súplica, dizendo: – “Senhor, socorre-me!” (Mt 15:25). Ela assumiu a sua penúria diante daquele que podia socorrê-la.

Do ponto de vista bíblico, quem faz um rogo a Deus, é por que confia em Deus, de modo que, através de um recurso linguístico[3], a metonímia, o termo oração passa a denotar confiança.

A mulher cananeia expressou a sua confiança em Cristo com as seguintes palavras: – “Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim, que minha filha está miseravelmente endemoninhada” (Mt 15:22). O rogo por misericórdia do Filho de Davi constitui oração, súplica, entretanto, pela natureza do pedido, esta mesma súplica constitui-se adoração, pois o teor do pedido só pode ser realizado por Deus.

Quando lemos: ‘orando em todo o tempo’, o sentido é: ‘confiar sempre, continuamente’, com plena confiança (προσευχη-oração). O termo δέησις[4] traduzido por súplica remete à misericórdia divina, pois quem assume a condição de necessitado (δέησις) é porque espera por misericórdia. Em outras palavras, o apóstolo Paulo está recomendando aos cristãos que façam imprecações (προσευχομαι) com plena confiança (προσευχη) na misericórdia (δέησις) de Deus.

A oração do ponto de vista bíblico pode assumir o valor de devoção. Mas, vale destacar que há devoção e devoções. A devoção de um indivíduo pode ser real, entretanto, se o objeto de devoção é falso, temos a idolatria, que resulta em nada. Mas aquele que nutre devoção em Deus, temos a oração bíblica.

Enquanto no verso ‘προσευχῆς καὶ δεήσεως’ significa ‘confiança em Deus aguardando por Sua misericórdia’, ‘προσκαρτερήσει καὶ δεήσει’ significa ‘permanecer rogando’ a Deus em favor dos santos: “Orando em todo o tempo com toda a oração e súplica no Espírito e vigiando nisto, com toda a perseverança e súplica por todos os santos” (Ef 6:18).

Quando Tiago afirmou de Elias que προσευχῇ προσηύξατο (com oração orou), o sentido é: com confiança rogou (Tg 5:17), de modo que o termo oração assumiu o sentido de ‘confiança’, ‘devoção’.

 

Então, por que Deus nem sempre responde as petições de todos?

Fica a pergunta: você tem certeza de que Deus te ouve, se pedir alguma coisa, segundo a sua vontade? O verbo ‘ouvir’ na frase significa atender.

Esta deve ser a crença do cristão: antes de abrirmos a boca, Deus já sabe o que havemos de pedir (Mt 6:8), portanto, não é necessário repetir diversas vezes o que se quer para ser atendido (Mt 6:7).

“Esta é a confiança que temos ao nos aproximarmos de Deus: se pedirmos alguma coisa de acordo com a sua vontade, ele nos ouve” (1Jo 5:14).

O que o evangelista João expressou neste verso? Se o crente pedir a Deus para ganhar na loteria Deus há de conceder? Alguém pode argumentar que não, pois este não é um pedido legitimo. E se o crente pedir uma casa? Alguém pode objetar dizendo: Mais tal pedido é para deleite próprio.

Qual pedido Deus ouve? Qual pedido é de acordo com sua vontade?

O evangelista João estava demonstrando que todo aquele que crê em Cristo é nascido de Deus (1Jo 5:1), ou seja, é filho (1Jo 3:1). Em seguida, enfatiza o seu objetivo: “Estas coisas vos escrevi a vós, os que credes, no nome do Filho de Deus, para que saibais que tendes a vida eterna e para que creiais no nome do Filho de Deus” (1Jo 5:13).

Ou seja, tudo o que o evangelista estava demonstrando, era que os cristãos já estavam de posse da vida eterna, pois haviam crido no nome de Jesus. Pois Deus deu a vida eterna: o seu Filho Jesus Cristo (1Jo 5:11), de modo que quem tem a Cristo, tem a vida eterna (1Jo 5:12).

Se confiamos em Deus, que se pedirmos algo segundo a sua vontade, Ele concede (ouve) (1Jo 5:14), e que a vontade d’Ele é que todos se salvem e venham ao conhecimento da verdade (1Tm 2:4), certo é que se pedimos vida eterna (1Jo 5:15), já alcançamos, visto que sabemos que nos ouve e temos os pedidos atendidos: temos a vida eterna.

A exposição joanina tem o condão de demonstrar que o crente já alcançou o que pediu: salvação, portanto, Deus responde igualmente o pedido de todos que O invocam: “Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” (Rm 10:13); “E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (At 2:21); “E há de ser que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo; porque no monte Sião e em Jerusalém haverá livramento, assim como disse o SENHOR, e entre os sobreviventes, aqueles que o SENHOR chamar” (Jo 2:32).

Com relação à salvação Deus responde a todos igualmente, portanto, com relação à vida eterna a pergunta ‘por que Deus não responde a petição de todos’ é sem fundamento e descabida.

Para salvar, as mãos de Deus sempre estão estendidas e os seus ouvidos abertos à petição dos homens, entretanto, Deus não ouve aqueles que em lugar de invocar o nome do Senhor, procuram alcançar o seu favor através de sacrifícios, penitências, rezas, rogos, orações, votos, etc. “Certamente, o braço do Senhor não está encolhido para salvar, nem seu ouvido fechado para ouvir. Mas suas iniquidades separaram vocês de Deus. Seus pecados esconderam a face dele de vocês, então ele não os irá ouvir” (Is 59:12).

 

Tudo o que for pedido será concedido?

O verdadeiro crente sabe que é salvo porque neste quesito Deus o atendeu, porém, quando diante de uma vicissitude ou calamidade, deve proceder como Marta, que apesar de seu irmão ter morrido e estar sepultado há quatro dias, permaneceu crendo que Jesus era o Filho de Deus.

Embora Lázaro estivesse na sepultura, a confiança de Marta em Jesus não se extinguiu e nem ficou abalada, conforme se lê: “Mas também agora sei que tudo quanto pedires a Deus, Deus to concederá” (Jo 11:22). A morte de Lázaro não trouxe inquietação sobre Marta, que naquele momento difícil confessou: – “Sim, Senhor, creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo” (Jo 11:27).

Os discípulos nutriam a sua confiança em Deus, porém, da mesma forma que confiavam no Pai, Jesus orienta os seus seguidores a confiarem n’Ele (Jo 14:1).

Enquanto Jesus estava no mundo, tudo o que os discípulos rogavam, rogavam ao Pai e tudo que era concedido era concedido pelo Pai, pois tudo era realizado por Deus: “Mas Jesus respondeu e disse-lhes: Na verdade, na verdade, vos digo que o Filho por si mesmo não pode fazer coisa alguma, se o não vir fazer o Pai; porque tudo quanto ele faz, o Filho o faz igualmente” (Jo 5:19).

Porém, próximo da sua partida, Jesus procura demonstrar aos seus discípulos que, da mesma forma que pediam ao Pai, agora podiam pedir ao Filho, pois se pedissem alguma coisa em nome de Cristo, Ele mesmo haveria de realizar, pois tudo o que o Pai realiza, o Filho realiza igualmente.

Agora que Cristo estava retornando à sua glória, tudo que fosse pedido, o Filho haveria de realizar, para que o Pai fosse glorificado através de Cristo. A ideia contida no verso 13 de João 14 é que Jesus e não Deus, que haveria de realizar tudo o que fosse pedido. Antes era o Pai que realizava, mas para que o Pai fosse glorificado, o Filho passaria a realizar tudo.

A ênfase do texto não está em que Cristo há de realizar tudo o que for pedido, mas o que for concedido é Cristo que haverá de realizar: “E tudo quanto pedirdes em meu nome eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho. Se pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei” (Jo 14:13-14).

Os discípulos ainda não pediam a Cristo, somente ao Pai, de modo que Ele alerta que podiam pedir diretamente a Ele, e Ele haveria de atender: “E naquele dia nada me perguntareis. Na verdade, na verdade vos digo que tudo quanto pedirdes a meu Pai, em meu nome, ele vo-lo há de dar. Até agora nada pedistes em meu nome; pedi e recebereis, para que o vosso gozo se cumpra. Disse-vos isto por parábolas; chega, porém, a hora em que não vos falarei mais por parábolas, mas abertamente vos falarei acerca do Pai. Naquele dia pedireis em meu nome e não vos digo que eu rogarei por vós ao Pai” (Jo 16:23-26).

Jesus estava demonstrando que não mais rogaria ao Pai pelos discípulos, antes Ele mesmo atenderia às petições. E, caso alguém não soubesse o que pedir, que o Espírito Santo haveria de interceder com gemidos inexprimíveis: “E da mesma maneira também o Espírito ajuda as nossas fraquezas; porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis (Rm 8:26).

Quando Jesus disse: “Se vós estiverdes em mim e as minhas palavras estiverem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e vos será feito” (Jo 15:7), estava enfatizando a sua capacidade de realizar igualmente tudo o que o Pai realizava, e não que haveria de atender todo e qualquer pedido.

 

O que dizer das orações “não respondidas”?

O crente deve estar consciente que tudo acontece igualmente aos justos e injustos (Ec 9:2), que o tempo e a sorte ocorre a todos (Ec 9:11), e que há um tempo determinado para todas as coisas (Ec 3:2). É imprescindível considerar que Deus fez o dia da adversidade em oposição ao dia da bonança (Ec 7:14), e que o dever de todo homem é obedecer a Deus (Ec 11:13).

Se o crente orar a Deus considerando as questões acima, ou seja, se não pedir que Deus transtorne a Sua palavra em alguns dos quesitos acima, certamente receberá o que pedir.

Oração do tipo: – ‘Senhor, eu te obedeço, portanto, responda a minha oração’, é sem efeito, pois obedecer a Deus é dever de todo homem. Rogar a Deus: – ‘Senhor, mude a minha sorte, certamente não será atendido, pois a sorte ocorre a todos’.

É comum vermos jogadores de futebol que se dizem cristãos fazendo preces quando entram em campo para que Deus lhes seja favorável. Este tipo de ‘oração’ Deus não atende, pois Ele jamais favorecerá alguém em uma demanda em função de uma oração ou de uma promessa. Se nem o pobre Deus favorece em demandas, que se dirá em questões de probabilidades (Ex 23:3).

Oração que visa transtornar qualquer elemento das questões enumeradas acima não será atendida, pois Deus não favorece ninguém em detrimento do próximo. Quando lemos: “E tudo o que pedirdes em oração, crendo, o recebereis” (Mt 21:22), devemos considerar que os pedidos que se enquadram nas questões acima não serão concedidos.

Quando é dito: – ‘Se tiveres fé (πίστις-pistis)…’ ( Mt 21:21), expressa a mesma verdade registrada por Marcos: ‘Tende fé em Deus’ (Mc 11:22), o termo grego traduzido por ‘fé’ é um substantivo e, em Mateus, tem o significado de verdade, fidelidade, ou seja, diz do dom de Deus. Se o homem está de posse da verdade do evangelho e não duvida, fará o impossível, daí a alusão ao transportar os montes para o meio do mar. Que impossível será feito? A salvação do homem, milagre muito superior a uma figueira que murchou imediatamente (Mt 19:26).

Certamente, as pessoas justas e injustas ficam doentes e morrem. Problemas financeiros advêm sobre todos e toda sorte de vicissitudes são passíveis de acontecer na vida de qualquer um.

 

O que fazer então?

Perseverar com alegria, confiando em Deus!

Aquele que confia plenamente em Deus aprende a contentar-se com o que tem. Não ambiciona coisas altas, antes se acomoda às humildes. Saberá ser servo ou príncipe; ter falta ou abundância, pois sabe que pode suportar todas as coisas em Cristo.

Em Cristo, o crente está apto a confessar com segurança, como Sadraque, Mesaque e Abedenego:

“Responderam Sadraque, Mesaque e Abedenego e disseram ao rei Nabucodonosor: Não necessitamos de te responder sobre este negócio. Eis que o nosso Deus, a quem nós servimos, é que nos pode livrar; ele nos livrará da fornalha de fogo ardente e da tua mão, ó rei. E, se não, fica sabendo ó rei, que não serviremos a teus deuses, nem adoraremos a estátua de ouro que levantaste” (Dn 3:16-18).

Quando fazemos um pedido a Deus, temos que considerar que Ele pode nos livrar ou conceder o que pedimos, mas se não formos atendidos, que o nosso dever é permanecer firme, crendo que Jesus é o Filho de Deus.

Se as nossas petições não forem respondidas, temos que considerar que tudo concorre para o bem daqueles que obedecem a Deus (Rm 8:28). Se não alcançamos o que pedimos, é porque o que pedimos visava a um deleite humano: “Pedis e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites” (Tg 4:3).

Antes de pedirmos algo em oração, devemos ter em mente que Deus jamais concederá o que pedirmos se for contrário à Sua justiça. Moisés fez um pedido mal, quando rogou que Deus perdoasse o povo, se não, que apagasse o nome dele do livro da vida: “Agora, pois, perdoa o seu pecado, se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito” (Êx 32:32).

Geralmente, quando o homem fica ansioso, é por questões desta vida, como casa, carro, casamento, família, emprego, etc. Nada nos impede de rogarmos a Deus e apresentarmos os nossos anseios, porém, sempre que rogarmos, que seja sempre com ação de graças: “Seja a amabilidade de vocês conhecida por todos. Perto está o Senhor. Não andem ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e súplicas e com ação de graças, apresentem seus pedidos a Deus. E a paz de Deus, que excede todo entendimento, guardará os seus corações e as suas mentes em Cristo Jesus” (Fp 4:5-7).

“Senhor, me conceda …, mas se o Senhor não me atender, contudo me alegrarei em Ti, o Deus da minha salvação”.

“Senhor, eu rogo a ti…, pois sei que me ouves, mas se não for do teu agrado conceder, sei que o Senhor tem cuidado de mim”.

“Lancem sobre ele toda ansiedade, porque ele tem cuidado de vocês” (1Pd 5:7).

Os heróis listados na galeria da fé praticaram coisas incríveis e outros sofreram coisas terríveis, mas todos permaneceram fiados em Deus:

“Os quais pela fé venceram reinos, praticaram a justiça, alcançaram promessas, fecharam as bocas dos leões, apagaram a força do fogo, escaparam do fio da espada, da fraqueza tiraram forças, na batalha se esforçaram, puseram em fuga os exércitos dos estranhos. As mulheres receberam pela ressurreição os seus mortos; uns foram torturados, não aceitando o seu livramento, para alcançarem uma melhor ressurreição; E outros experimentaram escárnios e açoites e até cadeias e prisões. Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada; andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, desamparados, aflitos e maltratados (Dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos e montes e pelas covas e cavernas da terra. E todos estes, tendo tido testemunho pela fé, não alcançaram a promessa, Provendo Deus alguma coisa melhor a nosso respeito, para que eles sem nós não fossem aperfeiçoados” (Hb 11:33-40).

Este foi o lema destes homens postos por exemplo:

“Confie nele todo o tempo, ó povo. Coloque diante dele o coração, pois ele é o nosso refúgio” (Sl 62:8).

Embora Deus tenha dado testemunho destes homens, conforme consta nas Escrituras, eles não alcançaram a promessa, mas, nós que cremos em Cristo, apesar das aflições deste tempo presente, temos alcançado coisa melhor, a ponto de o apóstolo Paulo dizer que as aflições não são para se comprar com a glória que em nos será revelada (Rm 8:18).

Esta é a confiança daqueles que estão em Cristo, ou seja, que são uma nova criatura: “Se vocês permanecerem em mim e as minhas palavras permanecerem em vocês, pedirão o que quiserem, e lhes será concedido” (João 15:7 e 17).

O que devemos pedir? Jesus está demonstrando que temos plena liberdade para pedir e não que tudo será concedido. Mas, se o crente pedir a Cristo para produzir fruto, certamente Deus concederá, pois o fruto que o crente produz redunda em glória a Deus (Jo 15:8), pois para isso o crente é escolhido e comissionado: produzir frutos (Jo 15:16), ou seja, o fruto é anunciar as virtudes de Cristo: “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1Pe 2:9).

Qualquer que confessa a Cristo, glorifica a Deus, ou seja, oferece sacrifício de louvor: “Portanto, ofereçamos sempre por ele a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome” (Hb 13:15); “Aquele que oferece o sacrifício de louvor me glorificará; e àquele que bem ordena o seu caminho, eu mostrarei a salvação de Deus” (Sl 50:23).

 


[1] “O termo oração, em sentido mais lato, inclui todas as formas de comunhão com Deus. Abrange a adoração, o louvor, o agradecimento, a súplica e a intercessão” Bancroft. E. H., Teologia Elementar, Editora EBR – Editora Batista Regular, 3º Edição, 2001, pág. 365.

[2] “4335 προσευχη proseuche de 4336; TDNT – 2:807,279; n f 1) oração dirigida a Deus 2) lugar separado ou apropriado para oração 2a) sinagoga 2b) lugar ao ar livre onde os judeus costumavam orar, fora das cidades, nos lugares onde não tinham sinagoga 2b1) tais lugares estavam situados às margens de um rio ou no litoral de um mar, onde havia um suprimento de água para lavar as mãos antes da oração Sinônimos ver verbete 5828 e 5883”; “4336 προσευχομαι proseuchomai de 4314 e 2172; TDNT – 2:807,279; v 1) oferecer orações, orar” Dicionário Bíblico Strong; “ORAR A. Verbos. 1. euchomai (ευχομαι), “orar (a Deus)”, é usado com este significado em 2 Co 13.7 (“rogo”); 2Co 13.9 (“desejamos”); Tg 5.16; 3 Jo 2. Às vezes os verbos “prover” (At 26.29), “desejar” (At 27.29), “poder desejar” (Rm 9.3), indicam que a “oração” está envolvida.1 2. proseuchomai (προσευχομαι). “orar”, sempre é usado acerca da “oração” feita a Deus, e é a palavra mais frequente a este respeito, sobretudo nos Evangelhos Sinóticos e em Atos, uma vez em Romanos (Rm 8.26); em Efésios (E f 6.18); em Filipenses (Fp 1.9); em I Timóteo (1 Tm 2.8); em Hebreus (Hb 13.18); cm Judas (Jd 20). Quanto à injunção em 1 Ts 5.17. veja CESSAR. C. 3. erõtaõ (ερωταω), “pedir”, tem o sentido do verbo “rogar” em Lc 14.18.19; 16.27; Jo 4.31; 14.16; 16.26; 17.9; 17.15 (“peço”); Jo 17.20; At 23.18; 1 Jo 5.16 (“orará” ). Veja PEDIR. A, r\° 2. B. Substantivos. 1. euche (ευχη), cognato de A, n° 1. denota “oração” (Tg 5.15); “voto” (At 18.18 e 21.23). veja VOTO. 2. proseuche (προσευχη), cognato de A. n° 2, denota: (a) “oração” (a Deus), o termo mais freqüente, ocorre, por exemplo, em Mt 21.22: Lc 6.12 (onde a frase não deve ser considerada literalmente como se significasse, “a oração de Deus” [genitivo subjetivo], mas no caso acusativo, “oração a Deus”). Em Tg 5.17, “orando, pediu”, é, literalmente, “ele orou com oração” (forma hebraística); nos seguintes textos, a palavra é usada com o n° 3: Ef 6.18: Fp 4.6; 1 Tm 2.1: 5.5; (b) “um lugar de oração” (At 16.13.16). um lugar fora dos muros da cidade. 3. deesis (δεησις), primariamente “desejo, necessidade” (cognato dc A, n° 4), então, “pedido, solicitação, súplica”, no Novo Testamento sempre é dirigido a Deus, sendo traduzido ou por “súplica” ou por “oração” (e seus respectivos plurais), em Lc 1.13; 2.37; 5.33; Rm 10.1; 2 Co 1.11:9.14; Fp 1.4: Fp 1.19: 2 Tm 1 .3 ;H b 5 .7 ;T g 5.16: 1 Pe3.12” Dicionário Bíblico VINI.

[3] “Metonímia ou Transnominação – É a figura de linguagem que consiste no emprego de um termo por outro, dada a relação de semelhança ou a possibilidade de associação entre eles. Definição básica: Figura retórica que consiste no emprego de uma palavra por outra que a recorda” Wikipedia

[4] “1162 δεησις deesis de 1189; TDNT – 2:40,144; n f 1) necessidade, indigência, falta, privação penúria 2) o ato de pedir, petição, súplica, pedido a Deus ou a um ser humano Sinônimos ver verbete 5828 e 5883” Dicionário Bíblico Strong.

Ler mais

A doutrina do arrependimento

Os escribas e fariseus pensavam (acreditavam) que bastava ser descendente de Abraão para o homem ter acesso livre ao reino dos céus. Pensavam que eram salvos por executarem as obras da lei; sentiam-se em uma posição privilegiada, se comparado aos gentios, por terem recebido a circuncisão da lei. Eles sentiam que não necessitavam de arrependimento (mudança de concepção) de como alcançar a salvação.


“Eu não vim chamar os justos, mas, sim, os pecadores, ao arrependimento” ( Lc 5:32 ).

O erro é um fato na vida de todos. Não há um ser humano que não tenha cometido um erro no decorrer de sua vida. Quando nos damos conta dos nossos erros, logo vem o arrependimento. Não há um ser humano que nunca tenha se arrependido no decorrer de sua vida.

O homem se arrepende de atos já realizados ou daqueles que não conseguiu realizar. A consciência diante dos erros tem uma variação de pesos. Se tomarmos uma decisão errada na vida, a consciência nos acusa de certa maneira. Se cometermos um crime perante a sociedade, a consciência nos acusará com um peso muito maior.

Quando a consciência nos intima, resta-nos a pergunta: “Como reparar o meu erro?”. O arrependimento apregoado por João Batista refere-se à conduta, a moral ou a comportamento? Reparar o erro é o bastante?

 

“Porque todos tropeçamos em muitas coisas” ( Tg 3:2 ).

 

João Batista

“E, naqueles dias, apareceu João o Batista pregando no deserto da Judeia, e dizendo: Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus” ( Mt 3:1 -2).

Estas foram as palavras de João Batista que ecoaram no deserto: Arrependei-vos! Em seguida, João Batista apresenta o motivo pelo qual os seus ouvintes deveriam arrepender-se: “…porque é chegado o reino dos céus”.

O motivo da mensagem de João Batista é específico, a proximidade do reino dos céus, e nada, além disso.

A palavra ‘arrependimento’ é tradução de um verbo grego ‘metanoeõ’, e significa mudança de concepção, ou seja, mudança de ponto de vista referente à uma determinada matéria.

Qual a matéria que os escribas e fariseus deveriam mudar de ponto de vista? Devido a proximidade do reino dos céus, que é Cristo entre os homens, que mudança se tornou necessária à concepção dos religiosos à época?

Este estudo tem o objetivo de tornar compreensíveis as concepções dos escribas e fariseus e porque precisavam arrependerem-se.

Jesus foi morar em uma cidade chamada Nazaré para que se cumprisse a profecia que diz: “Ele será chamado Nazareno ( Mt 2:23 ; Is 11:1 ).

Por aqueles dias apareceu João Batista pregando no deserto, e a mensagem apregoada era: “Arrependei-vos…”, e ele deu o motivo pelo qual estava anunciando a mensagem “…porque está próximo o reino dos céus”.

A proximidade do reino dos céus é demonstrada através da urgência em chamar as pessoas ao arrependimento. João Batista estava conclamando os seus ouvintes a mudarem os seus pontos de vista, visto que, o Senhor estava próximo.

Observe que esta mensagem era direcionada a todos os ouvintes de João Batista, sem qualquer distinção.

João Batista é o personagem que Isaías anunciou que haveria de vir na condição de arauto do Messias, e Mateus dá testemunho do cumprimento da profecia: “Porque este é o anunciado pelo profeta Isaías, que disse: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, Endireitai as suas veredas” ( Mt 3:3 ).

A missão de João Batista foi predita muito antes de ele vir a existência, e a mensagem que ele apregoou, objetivava preparar o caminho de Cristo, e que os homens endireitassem as suas veredas ( Is 40:3 ).

A proximidade ou a urgência da manifestação do reino dos céus era motivo, tanto para a mensagem de João Batista, quanto para a mudança de concepção dos ouvintes.

Entre os visitantes das cidades de Jerusalém, Judeia e toda região circunvizinha ao Jordão, muitos religiosos vinham ao batismo. Enquanto executava a sua missão, João Batista percebeu que, entre os que vinham ao batismo, haviam muitos fariseus e escribas.

A mensagem de João era idêntica a todos os seus ouvintes: “Arrependei-vos, pois está próximo o reino dos céus” ( Mt 3:2 ), porém, ao ver os saduceus e fariseus entre os que se batizavam, João Batista disse-lhes: “Raça de víboras…”.

“E, vendo ele muitos fariseus e dos saduceus, que vinham ao seu batismo, dizia-lhes: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento. E não presumais, de vos mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão…” ( Mt 3:7 -9).

João Batista é contundente na sua mensagem: “Raça de víboras…”. Foi por raiva que João Batista nomeou os fariseus e saduceus de víboras? Foi por acaso que João Batista gritou aos saduceus e fariseus que eles eram uma espécie de víboras? Não!

Não é sem motivo que João Batista assim os nomeia. João, o Batista, durante o seu ministério fez várias citações de Isaías aos seus ouvintes, e o capitulo 59 do livro de Isaías é esclarecedor sobre o porquê João chamou-os de ‘raça de víboras’.

1. “Eis que a mão do SENHOR não está encolhida, para que não possa salvar; nem agravado o seu ouvido, para não poder ouvir” ( Is 59:1 ) – Sobre o nosso Deus, sabemos que Ele é salvador. Acerca do homem, sabemos que ele precisa de salvação, visto que em Adão o homem foi julgado e condenado. O pecado em Adão afetou a natureza do homem, deixando de ser santo e justo para ser condenável diante de Deus;

2. “As suas teias não prestam para vestes nem se poderão cobrir com as suas obras; as suas obras são obras de iniqüidade, e obra de violência há em suas mãos” – Os homens foram declarados culpados e condenados em Adão. Quanto às obras dos homens, elas serão julgadas no futuro, quando todos comparecerão ante o grande Trono Branco. As suas obras serão reprovadas, visto que, aqueles que a produziram, não estavam em Deus;

3. “Chocam ovos de basilisco, e tecem teias de aranha; o que comer dos ovos deles, morrerá; e, quebrando-os, sairá uma víbora (…) Conforme forem as obras deles, assim será a sua retribuição, furor aos seus adversários, e recompensa aos seus inimigos; às ilhas dará ele a sua recompensa” ( Is 59:5 e 18). – Ao chamá-los de raça de víboras João Batista fez referência a doutrina dos escribas e fariseus. Eles eram filhos do diabo, a antiga serpente ( Jo 8:44 ). Eles eram filhos do diabo, e ‘chocavam’ ovos de serpentes através de suas doutrinas. Quem se alimentasse da doutrina dos escribas e fariseus haveria de perecer. Quando alguém entrasse pelos seus caminhos tortuosos (quebrando-os, sairá uma víbora), haveria de propagar o mesmo veneno dos seus mestres. Conforme a obra deles, Deus dará a recompensa! Não há como fugir da ira de Deus, pois ela é a recompensa de suas obras reprováveis. A condenação dos homens se deu em Adão (sem qualquer referência à ira);

4. “Não conhecem o caminho da paz, nem há justiça nos seus passos; fizeram para si veredas tortuosas” ( Is 5:8 ). A missão de João era conscientizar os ouvintes a que endireitassem as suas veredas. Porém, primeiro precisavam reconhecer que ‘fizeram’ para si veredas tortuosas conforme se verifica nos versículos 9 e 10 de Isaías 59, e segundo, que eles estavam em inimizade com Deus. A doutrina que apregoavam não estabelecia a paz com Deus e nem eram seus caminhos conhecidos pelo Senhor.

Obs.: Leia Mt 12: 1 -37, principalmente quando Jesus também chama os fariseus de ‘raça de víboras’.

Os saduceus e fariseus viam ao batismo, porém a condição deles permanecia: eram raça de víboras. Filhos da serpente que se apresentou no Éden.

Eles seguiam uma vereda tortuosa, e por isso João Batista os questiona: “Quem vos ensinou a fugir da ira futura?”. Qual foi o ensinamento que os saduceus e fariseus obtiveram no decorrer de suas vidas? Que caminho eles trilhavam com o intuito de ter acesso a Deus?

Eles pensavam (acreditavam) que bastava ser descendente de Abraão para ter acesso livre ao reino dos céus. Pensavam que eram salvos por executarem as obras da lei; sentiam-se em uma posição privilegiada por terem recebido a circuncisão; a ponto de sentirem que não necessitavam de arrependimento (mudança de concepção).

Muitos vieram ao batismo de João Batista, entretanto a disposição inicial do coração permanecia. Por quê? Porque continuavam a pensar que bastava dizer que tinham por pai a Abraão. A concepção deles permanecia. Aquele não era e não é o caminho pelo qual o homem foge da ira futura! Quem os ensinou estava enfatuado em sua mente carnal.

A concepção errônea deles fez com que criassem uma vereda tortuosa que não conduz a Deus. Eles estavam tão apegados àquela concepção, que aceitavam a conformidade externa decorrente do batismo diante dos homens, porém, não abandonavam as suas crenças.

A mensagem de João demonstra que todos os homens precisam deixar de lado as suas concepções acerca de como se livrar da ira futura: “Arrependei-vos!”.

Nesta passagem, o ‘Arrependei-vos’ está mais para a idéia geral da mensagem, que é mudança de ponto de vista, do que uma nova doutrina, a do arrependimento, como muitos entendem.

Os religiosos vinham ao batismo, mas continuavam pensando que, por serem descendentes de Abraão, já eram filhos de Deus.

A ideia geral que o texto nos apresenta decorre de dois princípios que permeia todo o evangelho:

a) Não basta pensar ou dizer sou filho de Deus com base em elementos como: nacionalidade, religiosidade ou descendência “E não penseis que basta dizer: Temos por pai Abraão…”, pois a filiação divina só é alcançada por meio da regeneração, através do poder de Deus; a regeneração decorre do poder de Deus, como se observa em ( Jo 1:12 ).

b) Quando João batista diz: “Produzi, pois fruto digno de arrependimento…”, ele não está falando do comportamento dos ouvintes, antes ele faz referência a um princípio que Jesus demonstrou mais tarde: “Ou fazei a árvore boa, e o seu fruto bom, ou fazei a árvore má, e o seu fruto mau; porque pelo fruto se conhece a árvore” ( Mt 12:33 ). João Batista aponta a natureza corrompida pelo pecado de Adão, que impossibilita aos homens sem Deus produzirem frutos dignos da nova concepção.

 

“E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo” ( Mt 3:10 ).

“Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus” ( Mt 7:17 ).

“Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons” ( Mt 7:18 ).

“Toda a árvore que não dá bom fruto corta-se e lança-se no fogo” ( Mt 7:19 ).

“Ou fazei a árvore boa, e o seu fruto bom, ou fazei a árvore má, e o seu fruto mau; porque pelo fruto se conhece a árvore” ( Mt 12:33 ).

Resumo: os versículos 1 a 7 de Mateus 3 apresenta um mensageiro de Deus com uma missão específica (v. 1- 3), preparar o coração do povo para a chegada do Messias prometido nas Escrituras. Para isso, era necessário demonstrar que o caminho em que estavam não conduzia a Deus (aplainar). O povo precisava mudar de concepção acerca de como alcançar a salvação. Deveriam mudar de conceitos e deixar de trilhar o caminho tortuoso que estavam a percorrer.

Enquanto permanecessem seguros na concepção herdade de seus pais, permaneceriam na condição de filhos da ira e da desobediência. Enquanto permanecessem divulgando suas concepções, permaneceriam na condição de ‘raça de víboras’, executando as obras daquele que é o pai da mentira, e permanecendo na ira divina.

A natureza herdada em Adão é que determina a condição dos homens: pecadores, filhos da desobediência e da ira. As suas ações são segundo a natureza herdada de Adão: obras mortas. Essas obras são designadas teias de aranha, que não servem para vestes, e serão postas a julgamento no futuro, quando Deus retribuirá os homens segundo as suas obras.

O que João Batista quis dizer com “Produzi frutos digno de arrependimento” ( Mt 3:8 )?

Ele quis dizer que o comportamento dos fariseus e saduceus estavam aquém do exigido por Deus? Que precisavam se esforçar mais para agradar a Deus? Não! Observe que, diante dos homens, eles eram tidos por justos ( Mt 23:28 ), pelo caráter, pela moral e comportamento.

Aqueles que acreditam que Deus os terá em condição melhor que os seus semelhantes, simplesmente por não cometerem os mesmos pecados que eles, Jesus responde: “Pensais vós que esses galileus foram mais pecadores do que todos os galileus (…) Não, vos digo; antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis” ( Lc 13:2 e 3).

Tantos os galileus quanto os ouvintes de Jesus necessitavam de arrependimento. A conduta dos galileus podia ser pior que as dos ouvintes de Jesus, porém, todos eles precisavam abandonar os seus conceitos, se não, todos haveriam de perecer de igual modo.

Os ouvintes de Jesus odiavam as condutas em desacordo com a lei, ficavam entristecidos por casa de seus erros e sempre faziam propósitos para não pecarem mais. Porém, eles de igual modo que os pecadores galileus haveriam de perecer, caso não se arrependessem. Isto demonstra que ‘arrependimento’ não tem relação com ódio ao pecado, tristeza por causa do pecado, propósito em não pecar.

Muitos dos ouvintes de Jesus, por serem religiosos e descendentes de Abraão, circuncidados, pertencentes a Israel como nação, pertencentes ao ciclo do ‘melhor’ da religião (saduceus e fariseus), achavam que produziam frutos da melhor qualidade. No entanto, quando convidados, eles não vieram a Cristo para que as suas obras não se manifestassem e fossem reprovadas, porque elas não eram feitas em Deus.

Jesus demonstrou através da conversa com Nicodemos que ‘todo aquele que faz o mal odeia a luz, e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas’, ou seja, é o mesmo que dizer que aqueles que são árvores más não podem produzir fruto bom.

Segue-se que ‘quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus’, isto porque aqueles que são gerados de Deus são árvores boas, e estes podem produzir frutos bons, pois os seus frutos são produzidos em Deus.

Os frutos dignos de arrependimento só surgem quando Deus cria um novo homem, onde habita a justiça!

Para aqueles que produzem maus frutos resta a horrível expectação de estar prestes a ser cortado e lançado no fogo, pois já está posto o machado à raiz das árvores ( Mt 3:10 ).

E João Batista enfatiza: “Eu vos batizo com água, para arrependimento…” ( Mt 3:11 ).

O arrependimento proclamado por João era uma mensagem que convidava o povo à uma mudança radical e profunda em suas concepções.

Para que os ouvintes de João Batista produzissem frutos dignos de arrependimento, havia a necessidade primaria de mudarem os seus conceitos e aceitassem a Cristo, o Messias (o reino de Deus próximo), e seria operada uma obra na própria natureza do ouvinte, visto que o fruto é determinado pela árvore que o produz, e não o contrário.

O fruto digno de arrependimento não vem enquanto não nascer a árvore que possa produzir-lo, isto porque, é a árvore que produz frutos conforme a sua espécie.

João Batista com esta mensagem evidencia um princípio que só é notado se observarmos o versículo dez, e que mais tarde Jesus faz referência: “Necessário vos é nascer de novo” ( Jo 3:7 ).

O fruto digno de arrependimento só é possível após o nascer da semente incorruptível que é a palavra de Deus. Sem antes nascer de Deus, jamais o homem produzirá o fruto do arrependimento.

A bíblia diz que o povo de Jerusalém saía da Judeia e de toda a circunvizinhança do Jordão para serem batizados no rio Jordão, e estes confessavam os seus pecados.

Vendo João Batista que muitos religiosos (fariseus e saduceus) vinham ao batismo, ele protestou. Não bastava batizar-se e continuar a dizer: sou filho de Abraão “E não penseis que basta dizer: temos por pai a Abraão” ( Mt 3:9 ).

Ser fariseu, saduceu, judeu, religioso, praticante de boas maneiras, batizado, etc, não é o que produz fruto de arrependimento.

João Batista estava protestando àqueles que representavam o melhor da nação e da religião a que se arrependessem.

Os saduceus e os fariseus produziam as melhores obras, pois eram caridosos, dizimistas e zelosos da lei. Jesus nos dá um parâmetro para medirmos as obras realizadas pelos fariseus ao dizer: “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” ( Mt 5:20 ). Ou seja, o povo já tinha em conta que os fariseus eram justos, e Jesus demonstra que deveriam ter uma justiça superior a dos fariseus, o que demonstra a impossibilidade do homem salvar-se por meio de comportamento, moral, religião, guarda de dias, etc.

A conduta do homem não contém os elementos que produzem frutos dignos de arrependimento. Se não mudar a árvore o fruto também não muda. O maior problema dos religiosos à época de João Batista era acreditarem que por serem descendentes de Abraão, já eram filhos de Deus.

Aqueles que recebem a palavra e a aceitam pela fé nascem da vontade de Deus, e passam a produzir frutos segundo a sua espécie (natureza), frutos bons, ou seja, frutos dignos de arrependimento.

Desta forma segue-se que toda árvore má produz maus frutos, e toda árvore boa produz bons frutos; isto porque não pode a árvore boa dar fruto mau, nem a árvore má dar bom fruto.

Àqueles que são nascidas de Deus são participantes da sua natureza. Como Deus é luz, os nascidos dele são luz. Como Deus é bom, os nascidos dele são bons. Quando a semente incorruptível germina no coração do homem, ela produz uma nova criatura (novo homem ou árvore) e os seus frutos são bons.

Quando Jesus disse: “Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus” ( Mt 4:17 ), sobre qual arrependimento ele estava falando?

A primeira idéia que vem à mente é a de alguém arrependido, com as mãos sobre a cabeça, dizendo: “Estou arrependido do que fiz. Que peso na consciência! Que farei para reparar o meu erro?”.

Será que Jesus estava anunciando arrependimento com base nestes parâmetros? O arrependimento anunciado por João Batista se apóia na consciência e nos padrões éticos dos ouvintes? O que a bíblia diz?

“Quando ouviram isto, redargüidos da consciência, saíram um a um, a começar pelos mais velhos até aos últimos; ficou só Jesus e a mulher que estava no meio” ( Jo 8:9 ).

Este trecho bíblico é significativo para o estudo em questão.

O erro é um fato na vida de todos. Não há um ser humano que não tenha cometido um erro no decorrer de sua vida. Quando nos damos conta de nossos erros, logo após, vem o arrependimento. Não há um ser humano que nunca tenha se arrependido no decorrer de sua vida.

O homem se arrepende de atos já realizados ou daqueles que não conseguiu realizar. A consciência diante dos erros tem uma variação de pesos. Se tomarmos uma decisão errada na vida, a consciência nos acusa de certa maneira. Se cometermos um crime perante a sociedade, a consciência nos acusa com um peso muito maior.

Quando a consciência nos intima, resta-nos a pergunta: “Como reparar o meu erro?”. Esta análise é comum no dia-a-dia da humanidade.

Porém, voltemos à pregação de João Batista: “Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus” ( Mt 3:2 ).

João Batista conclamava aos seus ouvintes que se arrependessem, porém não se deteve em lhes apontar os erros. Por quê?

João não recomendou o arrependimento por causa das intrigas que muitos estavam envolvidos. O arrependimento não era por terem deixado de pagar os impostos. O arrependimento proclamado pelo profeta não era por causa de desavenças nas famílias, mentiras, invejas, porfias, inimizades, etc.

João dá o motivo pelo qual eles deveriam arrepender-se: porque é chegado o reino dos céus! A mensagem do profeta João em momento algum aponta a conduta dos ouvintes, mas a proximidade do reino dos céus.

O arrependimento era proveniente da proximidade do reino dos céus, e não dos erros que os ouvintes haviam cometido no decorrer de suas vidas.

Isaias e Mateus deixam exclaressem claro qual foi à missão de João Batista: “Porque este é o anunciado pelo profeta Isaías, que disse: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, Endireitai as suas veredas” ( Mt 3:3 ).

Através da mensagem de João Batista muitos vinham ao Jordão, confessavam os seus pecados e eram batizados para arrependimento.

Porém, o profeta observou que muitos dos fariseus e dos saduceus também vinham ao batismo, e ele logo protestou: “Raça de víboras!” ( Mt 3:7 ). Após nomear os fariseus e saduceus, João Batista pergunta: “Quem vos ensinou a fugir da ira futura?”.

Quem havia ensinado os fariseus e saduceus estava no mínimo equivocado. João Batista demonstrou que só é possível ser livre da ira futura quando o homem produz os frutos decorrentes do arrependimento “Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento” ( Mt 3:8 ).

Os fariseus e saduceus estavam apegados ao entendimento de que estavam livres da condenação eterna pelo simples fato de serem descendente de Abraão. Eles foram ensinados que bastavam terem Abraão por pai que estavam livres da condenação eterna, porém João Batista deixou-lhes o alerta: “E, não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão” ( Mt 3:9 ).

A mensagem do profeta era clara: “Arrependei-vos…”, e os fariseus e saduceus vinham ao batismo arrependidos do que? Se eles estavam vindo ao batismo, era porque estavam arrependidos de alguma coisa.

A maneira que João Batista chama os fariseus e saduceus (raça de víboras) nos faz compreender do que eles estavam arrependidos.

Muitos vinham ao batismo de João por não conseguirem mover os fardos pesados e difíceis que a religião os impunha. O que eles diziam para os homens fazerem acabava por não fazer. Mesmo tendo a aparência de justos diante dos homens, vinham ao batismo de João para se livrarem do peso na consciência, visto que eram hipócritas e cheios de iniqüidades. Compare com ( Mt 23:1 -5 e 33).

Mas, não era este o arrependimento que João estava apregoando. Eles deveriam se arrepender por estar próximo o reino dos céus, ou seja, da mesma forma que é possível reconhecer a árvore pelos seus frutos, o arrependimento exigido é reconhecido pelos frutos que produz.

Como João reconheceu que eles não produziam frutos digno de arrependimento? Por ainda professarem serem salvos em Abraão. O fruto da qual o apóstolo faz referência é o frutos dos lábios. Continuar a dizer que eram filhos de Abraão era a evidência de que os escribas e fariseus não haviam se arrependido.

O pensamento de que tinham a Abraão por pai era um fruto claro de que não tinham se arrependido. Esta era uma evidência clara de que o caminho do Senhor naqueles que estavam se batizando não estava preparado. Compare ( Mt 7:20 – 21 com 1Jo 4:1 -3).

O que o homem professa é um fruto palpável do que ocorrem em seu coração. Se este homem professa a Cristo como Senhor e segundo as Escrituras, ele estará produzindo o fruto de uma nova concepção, e nela está a semente incorruptível do qual todos quantos participarem nascerão de novo.

Mas, se continuar a professar segundo a sua mente enfatuada, o seu fruto conterá o veneno da serpente. Ele anunciará um caminho tortuoso que não conduz a Deus.

Por isso o profeta João disse: “E eu, em verdade, vos batizo com água, para o arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu; cujas alparcas não sou digno de levar; ele vos batizará com o Espírito Santo, e com fogo” ( Mt 3:11 ). O batismo de João era para o arrependimento, visto que ele estava preparando ‘… no ermo vereda a nosso Deus’ ( Is 40:3 ).

Os fariseus e saduceus, ao persistirem alegando ter por pai a Abraão, não conseguiram aceitar a mensagem de Jesus predita por Isaias: “Aqui está o vosso Deus” ( Is 40:9 ).

O arrepender-se dos erros cometidos confere vida eterna? É esta a mensagem de Jesus e João Batista? Ou a proximidade do reino dos céus é o motivo pela qual os homens devem arrepender-se?

“Responderam, e disseram-lhe: Nosso pai é Abraão. Jesus disse-lhes: Se fósseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão” ( Jo 8:37 ).

Se os fariseus e os saduceus tivessem se arrependido conforme o alerta de João Batista, não teriam chegado ao ponto de pegarem em pedras para atirar em Jesus.

Buscaram o Batismo de João, não pela proximidade do reino dos céus, mas para se verem livres da consciência e dos seus erros do passado.

O erro é um fato na vida de todos os homens. Não há um ser humano que não tenha cometido um erro no decorrer de sua vida. Erramos em nossas tomadas de decisões. Erramos em conceitos. Erramos em fazer e ao deixar de fazer.

Quando nos damos conta de nossos erros, logo vem o arrependimento. É impossível ao homem evitar o arrependimento, visto que ela é fruto da consciência que está sempre pronta a julgar nossas ações. Não há um ser humano que nunca tenha se arrependido no decorrer de sua vida.

Observe que, mesmo os escribas e os fariseus ao serem redargüidos pela consciência se arrependeram do mal que iriam praticar: não apedrejaram a pecadora que trouxeram a Jesus.

O homem se arrepende de atos já realizados ou daqueles que não conseguiu realizar. A consciência diante dos erros tem uma variação de pesos e não é este o arrependimento que João Batista propôs aos seus ouvintes.

Quando a consciência nos intima, resta-nos reparar os nossos erros.

Quando a bíblia nos alerta, ela aponta a nossa condição herdada em Adão: condenados e destituídos da glória de Deus, e demonstra que é impossível restaurarmos a nossa natureza.

Somente após desvencilhamos dos nossos conceitos (arrependimento) será possível alcançarmos a Cristo, o verdadeiro caminho que dá acesso a Deus.

 

O arrependimento dos fariseus e saduceus

“Quando ouviram isto, redargüidos da consciência, saíram um a um, a começar pelos mais velhos até aos últimos; ficou só Jesus e a mulher que estava no meio” ( Jo 8:9 ).

Escribas e fariseus apanharam uma mulher em adultério e trouxeram-na até Jesus para verem se o apanhavam nalgum deslize. Eles estavam procurando algum motivo para acusar Jesus.

Qual foi a surpresa dos escribas e fariseus diante da sugestão de Jesus: “Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela” ( Jo 8:7 ).

Todos eles sentiram o julgamento da consciência e se retiraram! Que repreensão esplendida a de Jesus! Aqueles que tentaram Jesus não agüentaram a própria consciência e se retiraram sem contra-argumentar.

A ação da consciência foi tão efetiva diante da sugestão de Cristo que todos se retiraram, a começar pelos mais velhos.

Resta uma pergunta: Eles se arrependeram? O comportamento do povo ao se retirar demonstra que eles produziram frutos dignos de arrependimento?

Os escribas e fariseus retiraram-se e ninguém lançou pedra alguma sobre a pecadora. Por não executarem o que intentavam isto significa que se arrependeram? Este é o arrependimento exigido por Deus para que os homens possam ver o reino dos céus? Veremos!

Paulo ao escrever aos cristãos em Roma demonstra que a moralidade do homem não o torna melhor que o seu próximo mesmo que se leve em conta quem ele é (judeu ou gentil).

Paulo demonstra que, por semelhança aos judeus, os gentios também possuíam uma norma legal, mas esta estava escrita em seus corações, sendo que a Lei judaica se verificava em um código.

Na essência, a consciência dos gentios desempenha o mesmo papel que o sistema de códigos que a lei mosaica apresentava, pois os gentios, mesmo não tendo um código específico à maneira dos judeus, faziam naturalmente a as coisas da lei.

Isto demonstra que há uma lei presente no íntimo dos gentios. É a consciência e os pensamentos dos gentios que trabalham como se fosse um juiz, quer acusando, quer defendendo.

“Os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os” ( Rm 2:15 ).

Que tipo de arrependimento é este que os gentios apresentam através da ação da consciência e dos pensamentos? Este é o arrependimento que dá direito a vida eterna? Não!

Sobre este assunto o escritor aos hebreus nos esclarece:

“Quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus, purificará as vossas consciências das obras mortas, para servirdes ao Deus vivo?” ( Hb 9:14 ).

A consciência do homem carnal só pode produzir obras mortas. Não há como ser diferente!

Quando os fariseus e saduceus perceberam que não podiam surpreender Jesus nalguma ofensa, para acusá-lo, e, que a condição de pecadores não os permitia serem juízes dos seus semelhantes, a consciência e os seus pensamentos emitiram um julgamento que os impediu de prosseguirem em seus intentos.

Alguns por princípios de família, outros por princípios religiosos e outros por questões filosóficas não conseguiram se permitir impor o julgamento estipulado pela lei mosaica. Pensaram duas vezes, visto que também eram pecadores.

O fato de não lançarem pedras sobre aquela mulher demonstra que eles tinham consciência de que também eram pecadores. Mas, o simples fato de reconhecer os nossos pecados (erros do dia-a-dia) já nos torna alguém que produz frutos dignos de arrependimento? Não!

É preciso reconhecer que se é pecador por causa da queda em Adão, e que, por mais que o homem se esforce para desvencilhar de tal condenação, sem Cristo, haverá de permanecer escravo do pecado.

Observe que há homens que se lançam ao roubo, à prostituição, ao homicídio, e a todo tipo de devassidão, e quando argüidos pela consciência se arrependem. Estes são salvos pelo fato de arrependerem-se dos seus feitos? Não!

Há outros que procuram viver uma vida honesta e se utilizam da consciência para guiá-los de maneira ética e moral perante a sociedade. Estes serão salvos? Também não! Como? Por quê?

A resposta é simples! Toda e qualquer ação que o homem realizar ou deixar de realizar com base em sua consciência e pensamentos, não o habilita ao reino dos céus.

O que realmente habilita alguém a ver o reino dos céus? O arrependimento em conseqüência da proximidade do reino dos céus.

Só o sangue de Cristo purifica a consciência do homem das obras mortas! Só o sangue de Cristo é capaz de livrá-lo da condenação em Adão e purificá-lo das acusações da consciência, deixando-o livre do pecado “Doutra maneira, teriam deixado de se oferecer, porque, purificados uma vez os ministrantes, nunca mais teriam consciência de pecado” ( Hb 10:2 ).

Visto que era impossível a sangue de touros e bodes tirarem pecados, Deus providenciou salvação poderosa, segundo a sua própria vontade, e todos os que creram foram santificados pela oblação do corpo de Cristo.

O que era impossível tornou-se plenamente possível, visto que Cristo ascendeu à destra de Deus nas alturas, e assentou-se, dando por concluída a redenção eterna “Porque com uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que são santificados” ( Hb 10:14 ).

Com base nestes argumentos Paulo concita os leitores da carta aos Gálatas: “Pois, se nós, que procuramos ser justificados em Cristo, nós mesmos também somos achados pecadores, é porventura Cristo ministro do pecado? De maneira nenhuma” ( Gl 2:17 ). Se estamos em Cristo, não somos mais pecadores. Se já somos justificados não há como continuarmos com consciência de pecado.

 

É possível produzir boas obras com o auxílio da consciência?

O homem pode ‘querer’ fazer o bem, mais isto é impossível realizar à parte de Cristo. O homem pode realizar boas ações, mas tais ações diante de Deus não podem livrá-lo da condição herdada em Adão.

É impossível ao velho homem produzir o bem diante de Deus, visto que todos se desviaram! Todos juntamente se desviaram e se tornaram inúteis diante de Deus; não há quem faça o bem!

“Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só” ( Rm 3:12 ).

Quando a bíblia diz que ‘não há quem faça o bem’, ela quer dizer que nunca houve sobre a face da terra quem desse um prato de sopa aos pobres? Que nunca houve quem prestasse socorro a um ‘semelhante’ caído na sarjeta? Que nunca existiu um homem, nenhum se quer, que tenha auxiliado o seu próprio pai ou mãe nalguma dificuldade?

Todos os homens que vêm ao mundo possuem um senso crítico interno que julga os seus atos praticados, o que chamamos de consciência. Mesmo de posse deste juiz natural, a bíblia afirma que todos os homens se fizeram inúteis, o que demonstra que a consciência não torna o homem melhor ou pior diante de Deus.

Através da consciência o homem pratica o bem aos seus semelhantes (boas ações), porém, tais ações não o tornam aceitável diante de Deus.

Quando a bíblia diz que não há quem faça o bem, ela não está se referindo as boas ações que o homem pode realizar aos seus semelhantes. Não é sobre este ‘bem’ (boas ações) que a bíblia trata. Como ela trata de questões eternas, a bíblia demonstra que perante Deus as ações dos homens é um produto das suas naturezas decaídas.

O bem que a bíblia faz referência só é possível realizar quando se está em Cristo, ou seja, é possível realizá-lo quando se é nascido de Deus por meio de Cristo.

O ‘bem’ (boas ações) que os homens fazem ao seu próximo decorre do conhecimento que adquiriram da árvore do bem e do mal, fato que se deu em Adão, lá no jardim do Éden. Observe que a árvore era uma só: a árvore é do conhecimento do bem e do mal!

Se o homem faz o bem segundo a sua consciência, faz segundo a árvore do conhecimento do bem e do mal!

Se o homem ignora a sua consciência e pratica o mal, faz aquilo que é pertinente ao conhecimento adquirido da mesma árvore: a árvore do conhecimento do bem e do mal!

Diante do exposto até aqui, verifica-se que o arrependimento dos fariseus e saduceus diante da pergunta de Cristo sobre a mulher surpreendida em ato de adultério não correspondem ao verdadeiro arrependimento exigido por Cristo.

A pergunta seguinte ilustra bem as diferenças entre ‘uma boa ação’ e o ‘bem’, que só é possível realizar em Deus.

Há alguma diferença entre a água que um ímpio e um justo oferecem ao seu semelhante?

Por exemplo: um ímpio oferece um copo de água a um necessitado. Ele está fazendo o bem? Por outro lado, um justo oferece um copo de água ao mesmo necessitado. Ele está fazendo o bem?

Tanto o ímpio quanto o justo fizeram uma boa ação (o bem)! Deram um copo de água a quem precisava.

Agora, quem realizou uma boa obra? A boa ação em dar um copo de água é uma boa obra? A resposta é complexa.

O ímpio não realizou uma boa obra e sim uma boa ação. O justo, por sua vez, além de realizar uma boa ação, também realiza uma boa obra.

A boa obra não está relacionada às ações dos homens porque elas são realizadas em Deus ( Jo 3:21 ).

O ímpio não faz uma boa obra por não estar em Deus por meio de Cristo. Por outro lado, aquele que crê em Cristo, este realiza uma boa obra, visto que Ele está em Deus e Deus nele.

O que diferencia a ação do justo e a do ímpio? A água? O necessitado? Nenhum destes elementos! O que diferencia o justo e o ímpio é a união com Cristo.

As ações dos ímpios podem ser boas ou más. Mesmo que um ímpio pratique boas ações, as suas obras são más.

As ações daqueles que creem em Cristo também são boas ou más diante da sociedade. Porém, mesmo que pratique uma má ação, perante Deus ele possui boas obras.

Quando um descrente faz uma boa ação, não facilita a salvação dele. Da mesma forma, quando um crente faz uma má ação, ele não perde a salvação em Deus.

Haverá tribunal específico para julgamento de obras, tanto para crentes como para descrentes. Estes receberão a recompensa segundo as suas obras no Tribunal do Trono Branco, e permanecerão condenados, porém, àqueles serão julgados quanto as obras no Tribunal de Cristo, e permanecerão salvos.

Por que esta diferença? Ora, a bíblia demonstra que as boas obras só são possíveis quando feitas em Deus ( Jo 3:21 )!

“Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” ( Ef 2:10 ).

Sabemos que a nova criatura é feitura de Deus; ou seja, a regeneração é resultado de uma nova criação de Deus por meio de Cristo Jesus, o que possibilita o novo homem praticar boas obras. Tais obras foram preparadas por Deus de antemão para que andássemos nelas.

As ações dos homens nem sempre são classificadas como sendo más. Muitos homens procuram viver pia e justamente sobre a face da terra, e para isso adotam filosofias de vida, são regrados, religiosos, prestativos, seguem a consciência, mas não praticam boas obras.

É diferente uma boa ação das boas obras. A última só é realizável em Deus, já a primeira é pertinente à filosofia, a religião, a consciência, etc.

Jesus ao falar a Nicodemos foi bem específico:

“E a condenação é esta: Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más. Porque todo aquele que faz o mal odeia a luz, e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus” ( Jo 3:19 -21).

Jesus demonstrou que a condenação dos homens decorre do fato de Ele ter vindo ao mundo para salvá-los, e eles amaram mais as trevas do que a luz. Ou seja, os homens estavam mais apegados à condição que estavam (trevas), do que a oferta de salvação em Cristo (luz).

Os fariseus e os escribas por praticarem algumas boas ações achavam que praticavam boas obras, mas na verdade as suas obras eram essencialmente más. Por que as obras deles eram más? Porquê elas não eram feitas em Deus! Para executarem boas obras os fariseus e os escribas precisavam nascer de novo, e só então, produziriam boas obras.

Se as obras deles fossem feitas em Deus, não realizariam as obras do diabo, antes creriam em Cristo, que foi enviado para desfazer as obras do diabo ( Jo 8:44 ).

Sabemos que aquele que faz o mal odeia a Cristo e não vem para Ele (não aceita o convite de salvação), pois sabem que as suas obras não são aceitas por Cristo.

Quem faz o mal? Todos aqueles que nascem segundo a carne, da vontade do homem e da vontade do sangue, ou seja, os que descendem de Adão ( Jo 1:12 -13). Em decorrência desta realidade o apóstolo Paulo cita alguns salmos: “Desviaram-se todos e juntamente se fizeram imundos: não há quem faça o bem, não há sequer um” ( Sl 14:3 ); “Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um” ( Sl 53:3 ; Rm 3:12 ).

Diante destes versículos não podemos confundir o não fazer o ‘bem’ com boas ações. Os escribas e os fariseus procuravam cumprir a lei em seus vários aspectos, mas nunca realizaram o bem.

O jovem rico cumpria a lei em todos os aspectos, mas não fazia o bem “Jesus lhe disse: Por que me chamas bom? Ninguém há bom, senão um, que é Deus. Sabes os mandamentos: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não dirás falso testemunho, honra a teu pai e a tua mãe. E disse ele: Todas essas coisas tenho observado desde a minha mocidade” ( Lc 18:19 -21).

De igual modo os fariseus procuravam cumprir a lei, e chegavam ao cumulo de dizimarem a hortelã, o endro e o cominho. As ações que os escribas e fariseus apresentavam perante os homens faziam com que considerassem eles ‘justos’ “Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e de iniquidade” ( Mt 23:28 ).

Eles lavavam o exterior do copo e do prato “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que limpais o exterior do copo e do prato, mas o interior está cheio de rapina e de iniquidade” ( Mt 23:24 ). A aparência exterior de um escriba ou de um fariseu impressionava os homens, pois as suas ações eram impecáveis, mas estes também não faziam o bem. Todos! Todos de igual modo se desviaram e se tornaram inúteis.

Desta maneira podemos compreender as figuras e as parábolas utilizadas por Jesus!

“Todas as coisas, pois, que vos disserem que observeis, observai-as e fazei-as; mas não procedais em conformidade com as suas obras, porque dizem e não fazem” ( Mt 23:3 ).

Por que Jesus disse aos seus ouvintes que podiam fazer o que os fariseus lhes diziam?

Porque quando falavam da lei e dos profetas, os fariseus estavam fazendo referencia a Cristo. Mas, quanto a crerem em Cristo, a obra de Deus por excelência, eles não realizavam “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

Os aspectos externos da lei eram rigorosamente observados, mas quanto à justiça, à misericórdia e à fé, eram negligentes. Negligenciavam a fé, meio pelo qual o homem agrada a Deus; negligenciavam a misericórdia, visto que Deus enviou o seu Filho ao mundo; negligenciavam a justiça, pois Cristo é a Justiça Nossa, e estabeleceram uma justiça própria, segundo a concepção humana.

Por valorizarem os aspectos externos da religião (lavar o exterior do copo e do prato), os fariseus e escribas acabaram rejeitando a Cristo, aquele que tem poder para lavar o interior do homem.

As obras que os fariseus e escribas produziam não podiam cobrir-lhes a nudez, e por isso Cristo os chama de serpentes e raça de víboras!

O profeta Isaías também faz referência à ‘víboras’ e ‘obras’:

“Chocam ovos de basilisco, e tecem teias de aranha; o que comer dos ovos deles, morrerá; e, quebrando-os, sairá uma víbora. As suas teias não prestam para vestes nem se poderão cobrir com as suas obras; as suas obras são obras de iniquidade, e obra de violência há nas suas mãos” ( Is 59:5 -6).

O profeta Isaías há muito apontou a condição de pecado do povo de Israel comparando-os a víboras; o alimento que produzem traz morte (ovos) e as suas obras não podiam cobrir a nudez (justificar o homem perante Deus), pois eram verdadeiros trapos de imundície.

O profeta João Batista alardeou: “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura?” ( Mt 3:7 ); Jesus complementou: “Serpentes, raça de víboras! como escapareis da condenação do inferno?” ( Mt 23:33 ).

É certo que as mãos de Deus estão estendidas para salvar o homem Is 59. 1, mas os fariseus e escribas queriam se cobrir com as suas obras (obras de iniquidade), e rejeitaram a justiça de Deus, que é Cristo “Eu publicarei a tua justiça, e as tuas obras, que não te aproveitarão” ( Is 57:12 ).

Mas Jesus dá a receita para que os fariseus e os escribas produzissem frutos dignos de arrependimento: “Fariseu cego! Limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que também o exterior fique limpo” ( Mt 23:26 ).

Só através do lavar regenerador da palavra de Deus, o evangelho de Cristo, que é poder de Deus para todo aquele que crê, é que se tornou possível limpar o interior do homem!

Não é a religião, não é a filosofia, não é a ciência, não é o conhecimento, não é a moral, não é o caráter que limpa o interior do homem. Só o sangue de Jesus é que purifica o homem de todo o pecado!

Após o lavar regenerador da palavra o homem é de todo limpo. É limpo no interior e no exterior. “Disse-lhe Jesus: Aquele que está lavado não necessita de lavar senão os pés, pois no mais todo está limpo, mas não todos” ( Jo 13:10 ).

Ou seja, quando o homem é limpo no seu interior através da lavagem regeneradora da palavra de Deus, tudo se torna limpo. Ele deixa de praticar ‘más’ obras e passa a produzir ‘boas’ obras em Deus.

“Ora vós Purificando as vossas almas pelo Espírito na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingido; amai-vos ardentemente uns aos outros com um coração puro; Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre” ( 1Pe 1:22 -23).

João Batista ao escutar que os seus batizados permaneciam atrelados à concepção errônea de que eram salvos por serem descendentes de Abraão, protesta-lhe dizendo: “E não penseis que basta dizer: Temos por pai a Abraão”.

O Povo de Israel evocavam a paternidade divina por meio da descendência de Abraão. No conceito dos fariseus e saduceus, ser filho de Abraão era o mesmo que ser filho de Deus ( Jo 8:33 e 41).

João Batista demonstra que os filhos de Deus são gerados em poder, e não por meio da descendência humana: “Eu vos digo que destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão”, ou seja, por intermédio de seu poder, Deus detém as condições (poder) de fazer surgir filhos para si.

O apóstolo João demonstrou que os filhos de Deus são criados em poder: “Mas a todos os que o receberam, àqueles que creem em seu nome, deu-lhes PODER de serem FEITOS filhos de Deus”. Os verdadeiros filhos de Abraão são aqueles que tiveram a mesma fé que o crente Abraão, e não o mesmo sangue.

Deste modo podemos fazer uma releitura do ministério de João Batista e sobre o arrependimento.

Muitos que vinham ao batismo de João estavam conscientes de que eram pecadores, e eram por ele batizados.

Mas, quando ele viu os escribas e os fariseus vindo ao batismo e que não haviam mudado as suas concepções acerca de suas condições e da necessidade de salvação, João Batista faz um protesto, desmascarando a intenção e a condição dos fariseus e escribas.

A doutrina deles continha do veneno da serpente do Éden, e, por isso, eram raça de víboras. Eles seguiam uma doutrina enfatuada, produto de uma mente carnal.

Eles deviam deixar o conceito de que eram salvos por serem descendentes de Abraão. Deveriam deixar de confiar na carne e na lei. Deveriam esvaziar-se da idéia de que a circuncisão os tornava melhores e aceitáveis a Deus.

Precisavam reconhecer que eram pecadores da mesma maneira que todos os outros homens são. Deveriam aceitar aquele que viria após João Batista.

Se os ouvintes de João Batista não sentissem as suas misérias, e continuassem em seus caminhos, eles haveriam de ser cortados por não produzirem bons frutos.

Aquele era o momento dos ouvintes de João Batista mudar as suas concepções e passarem a produzir os frutos do arrependimento.

Quando Jesus ouviu que João estava preso, ele deixou a cidade de Nazaré e foi morar em Cafarnaum, e passou a pregar: “Arrependei-vos, pois está próximo o reino dos céus” ( Mt 4:17 ).

Porque Jesus continua a apregoar que é necessário o arrependimento? Por que os gentios também precisavam ter o caminho aplainado.

Quando Jesus passou a anunciar o evangelho aos gentios, ele estava cumprindo o que foi predito por Isaías: Cristo, a luz de Deus enviada ao mundo, tem o fito de dar vida àqueles que estão mortos.

Uma evidência clara de que o homem esta na luz, e quando este passa a professar segundo as Escrituras “à lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, nunca verão a alva (é porque não há luz neles)” ( Is 8:20 ).

Cristo é o reino dos céus entre os homens “Mas, se eu expulso os demônios pelo Espírito de Deus, logo é chegado a vós o reino de Deus” ( Mt 12:28 ). Somente após o arrependimento o homem consegue entender que Cristo é a única maneira do homem se achegar a Deus. A concepção antiga de salvação é descartada e o homem aceita a Cristo como seu único e suficiente salvador.

Enquanto os judeus consideravam que eram filhos de Deus por serem descendentes de Abraão, os gentios andavam na vaidade de seus pensamentos, entenebrecidos no entendimento e separados da vida que há em Deus por ignorância ( Ef 4:17 -18).

Tanto os judeus quanto os gentios foram condenados em Adão e destituídos da glória de Deus. Enquanto os judeus se apegavam à descendência e a circuncisão, os gentios se apegavam a sua consciência e a uma lei interna na tentativa de achegarem a Deus.

Todos (judeus e gentios) precisam deixar de lado os seus conceitos e concepções, e aceitarem a doutrina de Cristo ( Mc 1:15 ).

Àqueles que se arrependem, precisam crer no evangelho. Observamos que o arrependimento não diz de um posicionamento doutrinário como a justificação.

O apóstolo Paulo ao falar do arrependimento disse: “Mas anunciei primeiramente aos de Damasco e em Jerusalém, por toda a região da Judeia, e aos gentios, que se arrependessem e se convertessem a Deus, praticando obras dignas de arrependimento” ( At 26:20 ). Ele a mensagem do evangelho aos gentios demonstrando que era necessário abandonarem os seus conceitos, convertendo-se a Deus. Perceba que o comportamento dos gentios era aquém dos judeus. Em decorrência desta peculiaridade, Paulo insta a que pratique obras, ou que tenham um comportamento digno, visto que passaram a professar que se arrependeram de seus conceitos.

Em Atos, Paulo utiliza a palavra arrependimento em lugar da palavra mensagem. Pedro faz uso da palavra arrependimento no intuito de demonstrar o que haveriam de alcançar: remissão dos pecados ( At 2:38 ).

Cristo comissionou os seus discípulos a que apregoassem mudança de concepção para que os homens pudessem receber remissão dos pecados ( Lc 24:47 ).

Mas, em momento algum o arrependimento faz referência ao comportamento, a moral, e a ética. Em momento algum o arrependimento vem atrelado a religiosidade, a legalidade, o formalismo, o sacrifício, a oração, rezas, etc. Por quê? Porque são estes conceitos que o arrependimento visa combater.

Àqueles que acreditam que sábados, dias, comidas, comunidades, igrejas, meditações, etc, podem aproximá-lo de Deus, estes precisam abandonar os seus conceitos (arrependimento).

Estes conceitos muitas das vezes perseguem aqueles que já se achegaram a Deus, e sobre estas considerações o escritor aos Hebreus se expressa da seguinte forma:

“Cheguemos-nos com verdadeiro coração, em inteira certeza de fé, tendo os corações purificados da má consciência, e o corpo lavado com água limpa” ( Hb 10:22 ).

O escritor aos hebreus concita os leitores a se achegarem a Deus, ou seja, não deveriam temer estar na presença de Deus, visto que já possuíam um coração verdadeiro. Somente pode se achegar a Deus aqueles que estão de posse de um verdadeiro coração adquirido na regeneração ( Sl 51:10 ). O verdadeiro coração é adquirido quando do encontro com Cristo e decorre da nova natureza.

Devemos crer na promessa que Deus fez àqueles que se tornaram filhos. A certeza de fé faz o crente comparecer perante o trono da graça de posse de um coração purificado.

A ideia que antes tínhamos no pecado, a de não poder adentrar o Santo dos Santos, já não existe diante da certeza de fé. Temos esta ousadia porque o sangue de Jesus já nos purificou de todo pecado.

Não podemos permitir que a má consciência nos afaste do Deus vivo. Devemos estar na presença de Deus de posse de um coração livre da má consciência, certos que já fomos limpos pela palavra de Deus.

As concepções oriundas do pecado devem ser desconsideradas, visto que aqueles que creem são de novo nascidos, e as coisas velhas já passaram.

Na antiga aliança, as pessoas jamais seriam purificadas dos seus pecados, visto que é impossível o sangue de touros removerem pecados. Se o escritor aos hebreus alerta os judaizantes da impossibilidade da lei é porque a graça em Cristo supre o que a lei não podia suprir.

Hoje, em Cristo, os ministrantes são purificados uma só vez e não possuem mais consciência de pecado. O cristão pode dizer como o apóstolo Paulo: “Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” ( 1Tm 1:15 ). Dentre os pecadores salvos Paulo é o principal, ou seja, ele era pecador, hoje, assumiu a condição de salvo.

“Doutra maneira, teriam deixado de se oferecer, porque, purificados uma vez os ministrantes, nunca mais teriam consciência de pecado” ( Hb 10:2 ).

Quando o escritor aos hebreus afirma que Cristo, ao oferecer um único sacrifício pelos pecados, acabou por se assentar a destra de Deus, isto quer dizer que o sacrifício de Cristo removeu todo o pecado, o que era impossível à lei ( Hb 10:11 -12).

Desta maneira, o cristão não é mais pecador (servo do pecado) e deve estar livre também da má consciência que antes o acusava de pecado.

Sabemos que Deus jamais se lembrará dos nossos pecados, e como somos redimidos, resta que não somos mais pecadores. Se, mesmo após cremos em Cristo, ainda permanecêssemos sendo pecadores, Cristo haveria de ser ministro do pecado e não mais haveria como oferecer sacrifícios pelos pecados ( Gl 2:17 ; Hb 10:12 ; 1Jo 3:5 -6).

Diante desta verdade, o escritor aos hebreus solicita aos irmãos que orassem por ele, visto que ele próprio confiava ter uma boa consciência, e que em tudo queria porta-se de modo honesto.

Não é o portar-se honestamente que conduz o homem a Deus, antes ele se achega a Deus por intermédio de Cristo, e procura portar-se de modo a que não cause escândalo a ninguém.

“Orai por nós, porque confiamos que temos boa consciência, como aqueles que em tudo querem portar-se honestamente” ( Hb 13:18 ).

O arrependimento apregoado por João Batista e por Cristo não é com base no comportamento das pessoas. João não estava repreendendo os fariseus por aquilo que fizeram ou deixaram de fazer, antes a repreensão tem por base a proximidade do reino dos céus, que é Cristo entre os homens.

Jesus prosseguiu anunciado que se arrependessem, mas em momento algum o arrependimento tem relação com a conduta dos homens. A mensagem de Jesus é demonstrada de maneira completa através do evangelista Marcos:

“O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos, e crede no evangelho” ( Mc 1:15 ).

Os ouvintes deveriam arrepender-se, visto que Cristo estava em meio aos homens. Deveriam deixar os seus conceitos de lado e crer no evangelho. Não basta dizer temos Abraão por pai, antes deveriam crer em Cristo para receberem o poder de serem feitos filhos legítimos Mt 12:28.

“Mas, se eu expulso os demônios pelo Espírito de Deus, logo é chegado a vós o reino de Deus” ( Mt 12:28 ).

Ler mais